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Violência Contra Crianças e Adolescentes

Laura Maria Ferreira Bueno

O Brasil, na procura de melhores condições de vida para sua população infanto-juvenil,

adotou a doutrina da proteção integral em substituição a doutrina da situação irregular; com a edição do Estatuto da Criança e do adolescente. Buscava-se a garantia do direito à vida, à educação, à saúde, à convivência família etc, através de uma concepção extremamente coerente que busca na formação do homem desde sua infância a certeza de uma vida digna a todos e de um maior crescimento da nação. Neste sentido, muito trabalho estava pela frente para a perfeita implementação do ECA, com a elaboração de políticas públicas para esta parcela da população, criação dos conselhos de direitos e tutelares, efetivação de programas de atendimento (protetivos e sócio-educativos) etc. Hoje, após quase oito anos de aplicação do ECA, temos a certeza de que estamos no caminho certo. Apesar do muito ainda a se fazer, já colhemos frutos por reconhecer na criança e no adolescente um sujeito de direitos em condição peculiar de desenvolvimento. Porém, a tarefa não é em momento algum fácil e grandes são os entraves encontrados por aqueles que fazem do seu dia a dia uma busca constante de proteção às crianças e adolescentes. O desconhecimento da lei por parte da grande maioria da população brasileira, e a não compreensão de seus princípios básicos, podem em parte justificar muitas das dificuldades. Entretanto, os verdadeiros obstáculos nos parecem mais complexos e comprometedores. Tomou-se comum para todos notícias em jornais ou na televisão de casos de extrema violência praticada contra crianças e adolescentes. Todos os dias, e isso é quase regra, os meios de comunicação informam sobre maus tratos, violência sexual, exploração do trabalho, dentre tantos outros abusos. São fatos estarrecedores com os quais parecemos estar acostumados. A violência aumenta a cada dia mais e o resultado que menos se poderia esperar de tal fato é uma população alheia a seus resultados, procurando justificativas ao invés de medidas preventivas e protetivas. Vários exemplos podem ser apontados. Quando da apuração de denúncia de violência sexual a primeira grande dificuldade encontrada é o comportamento da própria família que se nega a acreditar no fato, na palavra da criança e a querer sua apuração e a responsabilização do agressor Tudo se justifica na conduta indevida da própria criança que

se "insinua exibindo um corpo precocemente maduro; na acomodação da mãe ao saber que

é traída pelo companheiro, mas dentro de casa e com uma "rival" conhecida; na dificuldade

de manutenção da família sem a ajuda do abusador; na preocupação em não levar o fato ao

conhecimento de outras pessoas, especialmente quando se trata de famílias de classe econômica média e alta, dentre tantas outras afirmações. A posição da família em preferir ignorar o fato dificulta a colheita de provas, chegando ao ponto da própria vítima já não mais saber discernir se a agressão aconteceu realmente ou se foi um sonho, "coisas de criança", como todos querem que ela pense. Fatos como esses são freqüentemente relatados por profissionais da área de psicologia. O segundo momento de grande dificuldade encontrado é o da atuação policial. As condutas que envolvem a exploração sexual de crianças e adolescentes não mais causam repúdio. A autoridade policial, na maioria da vezes, assim como grande parcela da população, também justifica a conduta e não vê expectativa de resultado positivo algum com a sua apuração . A não manifestação da

família da vítima na busca da apuração do caso, quando a ação penal é de natureza privada, impede a ação policial, deixando a vitima na certeza de que o fato acontecido não é entendido como violência a sua pessoa. Some-se a isso a nossa legislação penal que presume a violência contra menor de 14 anos, mas se vê interpretada por alguns de nossos Tribunais como de forma relativa: dependendo da circunstância não se poderia exigir do abusador outra conduta que não a do ato praticado. Outros dispositivos como o que prevê como crime a corrupção de pessoa maior de 14 anos e menor de 18 através da prática com ela de atos libidinosos, são também interpretados de forma a exigir que só se caracteriza o delito se em decorrência da agressão a vítima foi efetivamente corrompida, transviando sua conduta moral. Assim, caso não compreendida de outra forma a lei, poderemos chegar a esdrúxula interpretação de que não merece repreensão a exploração sexual através da prostituição de uma adolescente com 14 anos de idade. Desnecessário comentar a tolerância sobre as casas de prostituição onde corriqueiramente encontram-se adolescentes e mesmo crianças sendo exploradas sexualmente por quantias irrisórias. Como um terceiro fator a servir como entrave na nossa atuação, pode-se apontar a falta de interesse na elaboração de uma política pública para prevenir a violência ou remediá-la através de programas de atendimento para as crianças e adolescentes explorados sexualmente. A via judicial talvez venha a ser o único caminho para atingirmos o ideal necessário. Hoje, em Goiânia, por exemplo, busca-se a instalação de uma delegacia de polícia especializada na apuração de crimes contra crianças e adolescentes. Trata-se de proposta já a muito levantada sob o argumento de que um estabelecimento policial próprio com profissionais devidamente capacitados, facilitará a apuração dos casos, bem como centralizará o encaminhamento e acompanhamento das denúncias. A população, através de seus representantes, se mostra muito mais preocupada com a proteção ao seu patrimônio

através de delegacias de estelionato, furtos e roubos de veículos, e, em um passado recente, de proteção ao gado, do que com suas crianças e adolescentes. Não se diminui aqui a necessidade de tais estabelecimentos, mas ressalva-se o desprezo com uma parcela tão importante da população que quando violentada não tem um atendimento com a qualidade necessária vez que disperso em todos os distritos' da capital. Vê-se, portanto, tomando-se como exemplo a violência sexual, o quanto nossas crianças e adolescentes têm seus direitos devidamente garantidos na legislação, mas, quando explorados, por omissão da família e da própria sociedade, não recebem a proteção necessária. O fato se repete em outros casos de violência.

A violência contra crianças e adolescentes através do trabalho infantil também torna-se

tema polêmico diante de afirmações como: "melhor trabalhar do que estar na rua"; "antes trabalhar do que roubar"; "eu trabalho desde 10 anos e isso não me fez mal algum, ao contrário". Muitos consideram válido e até necessário o trabalho da criança, porém não se inteiram de que o trabalho infantil está diretamente ligado à evasão escolar e pode causar

deficiências físicas e orgânicas. As dificuldades Sociais de nosso pais não podem justificar

a exploração da mão-de-obra de nossas crianças, ao contrário, devem ensejar ações

concretas para protegê-las. Porém, e é isso que nos assusta, a cada dia vemos mais acomodação por pane da sociedade, que tem a certeza de que seus filhos nunca irão para um canavial, para uma cerâmica ou para uma carvoaria, e por isso não se incomoda com tais fatos. Aqueles que afirmam terem trabalhado desde crianças e tiveram êxito em sua vida profissional com certeza o faziam no reduto familiar, sob a proteção e vigilância necessária de seus pais ou responsável. Esse não é o que o destino reserva para uma criança que

trabalha de sol a sol, na cata do tomate, agachada, de pés descalços e que não freqüenta a escola. Merece ressalva que quando se fala em sociedade em geral não se está buscando o genérico

para excluir o específico, na verdade a postura ora indicada envolve autoridades públicas, empresários, detentores dos meios de comunicação, educadores e até mesmo a família. Dentro do mesmo contexto, pode ainda ser apontado casos de violência doméstica, quando

a família é a primeira a justificar lesões oriundas de agressões físicas como frutos de quedas

e escorregões e os hospitais, via de regra o primeiro local onde o fato é conhecido, não tem profissionais capacitados para a busca da verdade ou ainda os profissionais não se sentem comprometidos com a proteção daquela criança vítima de maus tratos. No mesmo sentido de difícil apuração os casos de violência psicológica, que não deixam lesões aparentes mas que comprometem todo o desenvolvimento da criança e do adolescente. Dentro da própria família são comuns, e em todas as classes sociais, casos de disputa de filhos por pais em fase de separação, onde a criança torna-se um objeto receptor de uma carga extremamente negativa, ç na maioria das vezes, mentirosa, levando-a a questionar seus sentimentos e por que não sua própria existência. De fato a proteção integral idealizada pelo legislador brasileiro não será atingida apenas com ações efetivas daqueles que de algum modo atuam na defesa dos direitos da criança e do adolescente. E necessário o comprometimento de toda a sociedade através de provas de sua indignação com a violência no momento oportuno, a cada dia, e não apenas após os escândalos, as chacinas. Não podemos repudiar a violência policial apenas porque a televisão a mostrou com requintes de crueldade, mas porque ela causa repulsa por si só. Do mesmo modo, não podemos aguardar imagens de crianças em uma cena televisiva de estupro, espancamento até a morte, perda de órgãos como mãos e braços em máquinas industriais, para que fiquemos indignados. A indignação tardia não traz de volta a vida, a saúde, o sorriso, a ingenuidade e a pureza de uma criança. Não podemos ainda, na condição de cidadãos, nos protegermos em nossos lares, alimentando nossos filhos, dando-lhes escola, cuidando de sua saúde, sem nos preocuparmos também com o que se passa do lado de fora de nossos muros ou ainda do outro lado da parede do nosso apartamento. A discussão sobre a redução da imputabilidade penal não pode ser um tema desconhecido para a grande maioria apenas porque sabemos que nossos filhos nunca irão para um sistema penitenciário, vez que, caso necessário, serão devidamente assistidos por advogados e usufruirão de todos os benefícios que a legislação processual lhes dará.

A proteção da criança e do adolescente contra qualquer forma de violência é um dever de

toda sociedade. Se não agirmos em sua defesa em decorrência de um espírito de amor e solidariedade, que o façamos pelo egoísmo de nos mantermos protegidos de suas ações futuras. A atuação daqueles que em sua vida profissional e pessoal optam por essa defesa se fortalecerá com o comprometimento de todos. *

* Laura Maria Ferreira Bueno é promotora de Justiça em Goiás - Coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude