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REFLEXOS DO SEIS SIGMA EM INDICADORES FINANCEIROS


DE 2002 A 2005. Maurício Bonatto Machado de Castilhos, Adriana Barbosa Santos
– Gerência de Produção – Engenharia de Alimentos – Departamento de Ciências de
Computação e Estatística – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas – Campus
São José do Rio Preto.

Os relatos de sucesso e aumento da lucratividade pelas organizações que implementam


o Seis Sigma vêm incitando o crescimento das pesquisas acadêmicas, motivados pelos casos
bem sucedidos relatados na literatura nos diversos setores industriais (CORONADO;
ANTONY; SCHROEDER et al., 2002). O fato de possibilitar não apenas a melhoria da
qualidade de produtos, serviços e processos, como também por possibilitar um incremento
significativo no desempenho organizacional, na mudança de cultura e no aumento do capital
humano são alguns dos diferenciais de maior atratividade.
A consolidação do programa Seis Sigma vem sendo sustentada por resultados eficientes
de grandes empresas mundiais como a Motorola que, a partir da década e 90, posicionou-se
entre as empresas líderes no mercado mundial. Tal fato foi possível devido à ação do programa
Seis Sigma frente ao desenvolvimento tanto operacional quanto gerencial, com o objetivo final
focado na busca da eficiência e da eficácia. Esse programa é caracterizado pelo direcionamento
pontual ao consumidor, pelo método de adotar decisões com o suporte de dados quantitativos e
pela conseqüência de obter lucros. A interação desses fatores promove a eficácia empresarial
frente ao mercado de concorrência empresarial (De MAST; 2004).
A partir da consolidação do programa Seis Sigma, várias empresas iniciaram a sua
implementação. Primeiro, direcionando não somente para o enfoque conceitual, ou seja,
objetivando a redução da variabilidade e de unidades não conformes na linha de produção (os
3,4 defeitos por milhão); em seguida, reforçando o enfoque gerencial e metodológico; e mais
recentemente, proporcionando uma visão mais ampla ao programa como um todo (HARRY;
SCHROEDER, 2000; ECKES, 2001; PANDE et al., 2001; KWAK; ANBARI, 2006; SANTOS,
2006). Esses três enfoques vêm sendo desenvolvidos de forma conjunta, propiciando resultados
que aumentaram a competitividade no mercado mundial. Em termos conceituais, a contribuição
do Seis Sigma considera a qualidade como a agregação de valor ao produto quando a mesma é
percebida pelo cliente e pelo fornecedor em cada aspecto da relação de negócio (HARRY;
SCHROEDER, 2000).
No enfoque metodológico, a eficiência das ferramentas estatísticas é utilizada na
implementação dos projetos Seis Sigma através do DMAIC (ciclo de melhoria de cinco fases -
Definir, Medir, Analisar, Incrementar e Controlar). Na abordagem gerencial, destaca-se o Seis
Sigma como o programa que direciona ao desdobramento estratégico, voltado mais para o
direcionamento do modo de obter resultados em vez de somente aplicar o conceito e as
ferramentas para obtê-los (SCHROEDER et al., 2002).
Neste contexto, a essência deste trabalho está em apresentar um estudo comparativo
sobre resultados decorrentes de demonstrações financeiras apresentadas em balanços
patrimoniais e relatórios anuais de empresas. O estudo confronta empresas que implementam o
programa Seis Sigma (grupo Seis Sigma) com outras que não investem neste tipo de iniciativa
de melhoria (grupo Controle). No bojo, pretende-se examinar indicadores financeiros (receita
bruta, patrimônio líquido, lucro líquido e rentabilidade patrimonial) que são discutidos e
publicados periodicamente pela revista Valor Econômico para estabelecerem o ranking das
1000 maiores organizações que atuam no Brasil (VALOR, 2004; VALOR, 2006). A escolha dos
indicadores financeiros está centrada na hipótese da explicitação da relação custo/lucro a fim de
comparar os grupos empresariais.
O processo metodológico para a obtenção desses indicadores consistiu de uma etapa
inicial composta pelo levantamento preliminar de empresas que aplicam o Seis Sigma, seguida
de uma fase de síntese de uma amostra representativa dessas empresas, bem como de um grupo
Controle, provenientes tanto de capital nacional como estrangeiro. Os dados referentes a esses
grupos foram coletados nos relatórios online, disponibilizados pelos respectivos sites das
empresas, e por meio da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
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O plano de amostragem empregado baseou-se no método snowball (COLEMAN, 1958)


sendo feitas adaptações para coleta de dados por meio eletrônico. Após a coleta de dados, foi
feita a quantificação e a conversão dos dados empresarias para o dólar do respectivo período
analisado (2002 a 2005). Em seguida, a taxa de variação de cada indicador financeiro foi
definida com o objetivo de comparar os grupos empresariais. Essas taxas de variação serviram
de base para a sintetização das hipóteses a serem analisadas nos testes estatísticos.
Uma amostra de 187 empresas foi utilizada para fins analíticos, sendo 103 representadas
pelo grupo Seis Sigma e 84 provenientes do grupo Controle.
Métodos não paramétricos de análise foram utilizados: teste de Wilcoxon para amostras
emparelhadas e teste de Mann-Whitney. A escolha deste métodos possibilitou a utilização de
todos os dados coletados, pois vários deles eram atípicos (outliers) ou, em conjunto,
apresentaram forte assimetria, descaracterizando a análise paramétrica, bem como a consistência
amostral. O teste de Mann-Whitney foi aplicado com o intuito de verificar se as hipóteses das
diferenças entre os grupos empresariais analisados são estatisticamente significantes, ou seja,
diferentes de zero.
Quatro comparações foram realizadas: (1) grupo Seis Sigma frente ao grupo Controle;
(2) grupo Seis Sigma de empresas originárias de capital nacional frente às de capital estrangeiro;
(3) grupo Seis Sigma frente ao grupo Controle para empresas nacionais; e, finalmente, (4) grupo
Seis Sigma frente ao grupo Controle para empresas de capital estrangeiro. Para tal análise,
foram utilizadas planilhas do MS Excel 2007 e o suporte do software Minitab Release 14.13.
Em todos os testes foi adotado um nível de significância de 0,05.
Num total de 187 empresas, às quais apresentaram dados referentes aos indicadores
financeiros (receita bruta, patrimônio líquido, lucro líquido e rentabilidade patrimonial), 17
(16,5%) empresas pertencem ao grupo Seis Sigma de empresas de capital nacional e 86 (83,5%)
organizações englobam o grupo Seis Sigma de capital mundial. O grupo Controle é composto
de 57 (67,9%) empresas originárias de capital nacional, e 27 (32,1%) provenientes de capital
estrangeiro. Houve maior incidência de empresas do setor industrial, seguido do setor de
serviços. Várias empresas apresentam setores em comum, ou seja, seus negócios são
disponibilizados tanto às indústrias, quanto aos consumidores de serviços. Esse fato foi
contornado através da classificação do setor majoritário da empresa, ou seja, do setor que traz
maiores lucros para a organização.
Os testes não paramétricos tiveram como alvo a contestação da igualdade entre as
medianas das taxas de variação de cada indicador financeiro, relacionando comparativamente,
cada grupo empresarial. O teste de Wilcoxon foi aplicado para amostras emparelhadas ao longo
do período considerado. Ele alegou evidências de que houve variações significativas para todos
os indicadores financeiros em todos os grupos empresariais (P<0,05).
A Tabela 1 mostra as estatísticas descritivas para cada grupo comparativo. Já a Tabela 2
apresenta os resultados dos testes de Mann-Whitney em cada comparação para os indicadores
financeiros estudados.
Das Tabelas 1 e 2 resultaram as seguintes considerações:
1. A receita bruta foi o indicador financeiro que apresentou maior sensibilidade ao programa
Seis Sigma, pois os valores de P, para esse indicador, foram menores que o nível de
significância. Somente para a comparação 4 infere-se a igualdade das medianas dos grupos;
2. O patrimônio líquido apresentou comportamento diferente em relação ao grupo de empresas
de capital nacional, pressupondo a existência de igualdade entre as medianas dos grupos;
3. Os valores de P superiores a 0,05 são verificados nos indicadores lucro líquido e
rentabilidade patrimonial. Isso significa inferir que não há diferença estatisticamente
significativa quando todos os grupos são comparados.
4. Nas comparações 1 e 2, ressalta-se o comportamento idêntico dos indicadores financeiros
receita bruta e patrimônio líquido – que verificam a hipótese de rejeitar a igualdade entre as
medianas dos grupos empresariais. Por outro lado, para lucro líquido e rentabilidade
patrimonial, a situação converge para a igualdade entre as medianas, não havendo diferenças
estatísticas significativas. Para a comparação 2, sugere-se a origem do capital como
responsável pelas diferenças das receita bruta e do patrimônio líquido.
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5. Na comparação 3, verifica-se que somente a receita bruta apresenta diferenças significativas


nas medianas. Para os outros indicadores, não se verifica diferenças significantes.
6. Na comparação 4, infere-se a existência de igualdade entre as medianas dos grupos
empresariais, para todos os indicadores financeiros. Isso pode ser explicado pela fase de
superação de resultados em que tais empresas se encontram, diferentemente das empresas
originárias de capital nacional.
7. Em geral, os resultados reforçam que os indicadores financeiros atuam tanto de forma
independente como dependente, caracterizando-se de forma pontual ou influenciando nos
resultados dos outros indicadores. Os indicadores lucro líquido e rentabilidade patrimonial
atestam tal interdependência.

Tabela 1 - Estatísticas descritivas dos indicadores para cada comparação.


Receita Bruta Patrimônio Líquido Lucro Líquido Rentabilidade
Comparação /
Patrimonial
Grupos
Med Min; Max Med Min; Max Med Min; Max Med Min;Max
Grupo Seis
0,322 -0,637;6,143 0,426 -0,803;15,86 1,337 -26,52;26,81 0,426 -29,43;10,39
Sigma
(1)
Grupo
0,945 -0,202;5,365 0,915 -5,175;6,394 1,175 -0,878;19,34 0,157 -0,939;6,817
Controle
Seis Sigma
2,189 0,347;6,143 1,657 0,083;15,86 2,030 -2,770;26,81 0,426 -0,877;2,341
Nacional
(2)
Seis Sigma
0,278 -0,637;3,033 0,344 -0,803;6,815 1,183 -26,52;14,36 0,461 -29,43;10,39
Estrangeiro
Seis Sigma
2,189 0,347;6,143 1,657 0,083;15,86 2,030 -2,770;26,81 0,426 -0,877;2,341
Nacional
(3)
Controle
1,219 -0,202;5,362 1,163 -5,175;6,394 1,466 -0,878;19,34 0,272 -0,939;6,817
Nacional
Seis Sigma
0,278 -0,637;3,033 0,344 -0,803;6,815 1,183 -26,52;14,36 0,461 -29,43;10,39
Estrangeiro
(4)
Controle 0,288 -0,079;1,250 0,431 -2,494;1,871 0,806 -0,459;11,45 0,096 -0,503;5,280
Estrangeiro

Tabela 2 – Valores de P resultantes do Teste de Mann-Whitney para todos os grupos


empresariais analisados.
Comparação (Grupos) n n* Receita Patrimônio Lucro Rentabilidade
Bruta Líquido Líquido Patrimonial
(1) Seis Sigma 103 2
< 0,001 0,006 0,901 0,353
Controle 84 4
(2) Seis Sigma Nacional 17 0
< 0,001 < 0,001 0,062 0,960
Seis Sigma Estrangeiro 84 2
(3) Seis Sigma Nacional 17 0
0,003 0,109 0,310 0,612
Controle Nacional 57 4
(4) Seis Sigma Estrangeiro 84 2
0,485 0,682 0,652 0,502
Controle Estrangeiro 27 0
n*: Número de valores muito discrepantes na amostra (outliers)

Os resultados derivados deste estudo contrariam uma expectativa inicial em favor do


efeito positivo da relação de Seis Sigma e desempenho financeiro de grandes grupos industriais.
Entretanto, conforme aponta Antony (2007), deve-se considerar que empresas precursoras no
Seis Sigma se encontram atualmente em uma fase de superação de resultados, buscando
identificar outras variáveis alvo de obtenção de lucros, como ocorre em algumas das empresas
de capital estrangeiro do grupo SS. Empresas com investimentos recentes em Seis Sigma estão
vivenciando a melhor fase de obtenção de lucratividade, através da redução de desperdício,
retrabalho e pelo maior foco em projetos conceituais, ou seja, pela aplicação das ferramentas
estatísticas como o ciclo DMAIC.
Ademais, cabe uma reflexão sobre a efetividade desses indicadores financeiros para
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mensurar o efeito da implementação do Seis Sigma, uma vez que em algumas situações os
resultados sobre os investimentos no programa são “engolidos” pelo balanço financeiro.
Dependendo da estratégia de implementação adotada pela empresa, o retorno pode não ser
percebido de imediato.
Frente aos resultados positivos alcançados com o procedimento metodológico de coleta
de dados, outras análises estão sendo incorporadas para trabalhos futuros, como, por exemplo,
uma análise por estratos definidos segundo o setor econômico dos grupos empresariais
amostrados.

Referências Bibliográficas

ANTONY, J. Is six sigma a management fad or fact? Assembly Automation, Scotland, v. 27,
n. 1, p. 17-19, 2007.
COLEMAN, J.S. Relational analysis: the study of social organizations with survey methods.
Human Organization, v. 17, p. 28-36, 1958.
CORONADO, R. B.; ANTONY, J. Critical success factors for the successful
implementation of six sigma projects in organisations. The TQM Magazine, v. 14, n. 2,
p. 92-99, 2002.
De MAST, J. A methodological comparison of three strategies for quality improvement.
International Journal of Quality & Reliability Management, Amsterdam, v. 21, n. 2, p. 198-
213, 2004.
ECKES, G. A Revolução Seis Sigma. Rio de Janeiro: Campus, 2001. 272 p.
HARRY, M. J.; SCHROEDER, R. Six sigma: the breakthrough management strategy
revolutionizing the world’s top corporations. New York: Doubleday, 2000, 301 p.
KWAK, Y. H.; ANBARI, F. T. Benefits, obstacles, and future of six sigma approach.
Technovation, v. 16, n. 5-6, p. 708-15, 2006.
MINITAB, Inc. Minitab statistical software™, Release 14.13. Copyright©1972 – 2004.
PANDE, P.; NEUMAN, R. P.; CAVANAGH, R. R. Estratégia Seis Sigma. Rio de Janeiro:
Qualitymark, 2001. 442 p.
SANTOS, A. B. Modelo de referência para estruturar o programa de qualidade seis sigma:
proposta e avaliação. 2006. 312p. Tese ( Doutorado em Engenharia de Produção) –
Departamento de Engenharia de Produção, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos,
2006.
SCHROEDER, R. G. et al. Six sigma: old wine in new bottles? Working Paper. Carlson
School of Management, University of Minnesota, Dec. 2002.
VALOR 1000: 1000 Maiores Empresas. Valor Econômico, n. 4, ano 4, 2004. 322 p. Edição
Especial.
VALOR Grandes Grupos: 200 Maiores. Valor Econômico, n. 5, ano 5, 2006. 338 p. Edição
Especial.