Racialização da cultura e interculturalidade

Dowglasz Abhorsky Nramachandra

Por que diferentes culturas?
Através do conceito de raça, entende-se que as diferentes culturas existem porque foram isoladas por tempo suficientemente longo para que o patrimônio genético (figurativo) dessas culturas se diferenciasse. Na prática observa-se que isto de fato aconteceu. Mais próximo de nós, vemos a filosofia latino-americana ser negligenciada nos meios acadêmicos locais e totalmente ignorada no eurocentrismo. Dessa forma, através do eurocentrismo, a cultura europeia torna-se, de alguma forma, a cultura mundial - mesmo que ela continue sendo diferente das culturas eurocêntricas, que são suas derivadas. E a cultura latino-americana fica limitada aos próprios povos latino-americanos - e por eles sendo negligenciada. No Brasil isto é ainda mais grave porque o país não dialoga com outros territórios latino-americanos, muitas vezes nem se identificando com o termo. Isto o isola ainda mais mas, não sendo o bastante, sua própria cultura é, não só negligenciada, mas apagada. Onde, nos anos 1990, dizia-se que o Brasil era um país de todos os povos, de todas as raças, de todas as cores - querendo-se dizer que era miscigenado -, hoje procura-se identificar, definir e separar esses grupos, decantando o Brasil. Na Bahia isto é o mais visível: desde que as estatísticas começaram a dizer - e não se calam mais! - que a Bahia tem maioria esmagadora de negros, decidiu-se que este seria um território negro. Quando o racialismo definiu que negro é sinônimo de "afrodescendente" indicando, assim, que à Africa pertence a expressão da melanina, este território passou então a não mais ser território brasileiro, mas território AFROBRASILEIRO. E com toda essa africanidade da Bahia e dos baianos, e toda essa melanina africana, e toda essa falta de identificação e de cultura e de tudo o mais, o negro-afrodescendente decidiu que não seria mais explorado pelo colonizador europeu e rompeu com esse ciclo de miscigenação que o excluía da sociedade. A decantação da Bahia tornou afrodescendente mesmo aquele que não conheceu nenhum estrangeiro em sua árvore genealógica - tão fragmentada para os brasileiros. O baiano negro-afrodescendente recusou-se a continuar submetendo-se à cultura eurocentrista que o Brasil impunha. A cultura brasileira é extremamente eurocentrista por carência de elementos autorais para formar sua própria cultura e porque muitos povos europeus o formaram com as migrações. O povo negro-afrodescendente, identificado como afro-brasileiro, não compartilha da cultura brasileira. A cultura afrobrasileira, como o próprio nome já diz, não é brasileira. Também como o nome diz: não é africana. Dentro de grupos de pessoas facilmente identificáveis como brasileiras, melhor ainda entre adolescentes, comumente encontra-se um gosto forte pelo Pump (dançokê) - talvez alguns mais nostálgicos também apreciem um karaokê -, por revistas em quadrinhos de trás pra frente (mangá) ou animações baseadas nelas (anime) e por outras expressões da cultura japonesa, sem que eles se identifiquem como "nipo-brasileiros". Entre os afro-brasileiros isto não ocorre. Eles rejeitam tudo que não possam identificar como "afro" e admitem tais elementos apenas quando não puderem ser substituídos (por outros elementos identificáveis como "afro") e houver aquele sentimento

de "eu não sei viver sem isso". Na prática, muitos afro-brasileiros "não sabem viver" sem as roupas "brancas", por causa do clima da Bahia que pede uma camisa regata, por exemplo. Mas há outros afro-brasileiros que fazem questão de usar um abadá todos os dias ou um vestido com "estampa afro". O primeiro passo - identificar e classificar os grupos - já foi dado. O seguinte o isolamento desses grupos - também já está sendo dado, mais eficientemente na Bahia. Como provocação para reanalisar os conceitos e conceituações, a distinção das culturas está acontecendo espantosamente rápido, seguindo todos os critérios necessários para tal inclusive o do isolamento territorial. Talvez a distinção efetiva de raças humanas (hoje ela é apenas nominal) não ocorra tão distante quanto se poderia imaginar. Em vez de muitos séculos e, talvez até milênios, talvez já possamos distinguir biologicamente (entenda-se como “de forma oficial e incontestável”) as raças humanas em 50 anos. Afinal os estudos (leia-se "experimentos") genéticos, e outros fatores como poluição e radioatividade, estão muito avançados. Finalmente poder-se-á encontrar a tão desejada raça pura e superior. Dwsz.

Palavras-chave: raça, racismo, racismo científico, racialismo, cultura, cultura afro, interculturalidade, filosofia, latino-americanos, brasileiros, afro-brasileiros, nipo-brasileiros, segregação racial, etnocentrismo, eurocentrismo, miscigenação, decantação, negro, afrodescendente, mangá, anime, karaokê, dançokê, nazismo.