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Teatro Completo

Governador do Estado
Antonio Britto

Secretário da Cultura
Carlos Jorge Appel

Diretora do Instituto Estadual do Livro
Tania Franco Carvalhal

Conselho Editorial do IEL
Donaldo Schüler, Henry Saatkamp, La Masina, Luiz Antonio de Assis Brasil, Rita T. Schmidt, Sergio da Costa Franco, Sergio Faraco, Tania Franco Carvalhal (presidente, Secretária: Agata Pamplona

DEDALUS - Acervo - FFLCH-LE 21300123222

Outras obras do autor pela Editora Sulina Ovelhas Negras (1995) Inventário do Ir-remediável (1995) Pequenas Epifanias (1996)

Caio Fernando Abreu

Teatro Completo
Organização e prefácio: Luiz Arthur Nunes

Editora Sulina
Porto Alegre

1997

© 1997 by Abreu, Caio Fernando Capa: concepção e produção de Paria Comunicação Projeto gráfico: Bentancur Artes Gráficas Assessoramento de edição e revisão: Paulo Bentancur e Raimundo Fonteneie Editor: Luis Gomes CIP - BRASIL CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Bibliotecária responsável: Rosemarie Bianchessi dos Santos — CRB 10/797

C719a Abreu, Caio Fernando Teatro Completo / Abreu, Caio Fernando Porto Alegre : Sulina / IEL — Instituto Estadual do Livro, 1997. 224 p. : ±1. ISBN 85 205 0132—x CDU 070

Índices alfabéticos para catálogo sistemático 1. Teatro completo. Título Todosos direitos desta edição reservados a,,, ORGANIZAÇAO SULINA DE REPRESENTAÇOES S. A. Editora Sulina Rua Riachuelo, 1218 — 2° andar — 90010-273 Fone: (051) 228-1249 Fax: (051) 228-0734 E-mail: sulina@sulina.com.br Home Page: http://www.sulina.com.br Distribuidora Sulina Rua Cel. Genuíno, 290 — 90010-350 Fones: (051) 226-3866 — 226-3786 Fax: (051) 228-9146 Porto Alegre — RS

IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

ÍNDICE PREFÁCIO .................................................................. .7 PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA ............. 11 A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS ................................. 41 ZONA CONTAMINADA ............................................... 61 O HOMEM E A MANCHA ........................................... 95 CENAS AVULSAS ........................................................ 129 DIÁLOGO 1 ................................................................ 131 DIÁLOGO 2 ................................................................ 133 DIÁLOGO 3 ................................................................ 133 DIÁLOGO 4(0 Aborto) ................................................ 134 DIÁLOGO 5 ............................................................... 135 SARAUDAS9ÀS11 ....................................................... 137 1° QUADRO (Overture) .............................................. 139 2° QUADRO (Como Era Verde o Meu Vale) ................ 142 3° QUADRO (Bonecos Chineses) ................................ 144 4° QUADRO (Eles) ...................................................... 151 A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO .................................. 153 REUNIÃO DE FAMÍLIA ................................................ 181

Não me refiro aqui às várias adaptações feitas para a cena a partir de suas histórias. as que ele compôs diretamente para o palco. Naquela época. num mergulho sem método. via tudo. No entanto. novelas e romances. é interessante a significação que teve o teatro infantil para este solteirão empedernido que detestava crianças (a quem costumava . Avesso à rigidez de programas. mas não menos importante. Caio era dos que estavam sempre junto.PREFÁCIO Caio Fernando Abreu é reconhecido como um dos ficcionistas mais brilhantes da literatura brasileira contemporânea. a sua geração. que se iniciava — assim como ele na literatura — na descoberta apaixonada de uma forma de expressão. fazendo o papel de um vovó com uma barba branca de algodão. mas sim às peças de teatro. menor. O significado e a repercussão da parte conhecida de sua obra eclipsou essa segunda vertente. o Curso de Arte Dramática da Faculdade de Filosofia da UFRGS. Não concluiria o curso. o palco que ele tanto amava. Aliás. cursávamos o CAD. assim como também não concluiu o curso de Letras. Não de imediato. prazos e currículos. Nos fins da década de 60 era apenas o amigo querido da nova geração de atores e diretores de Porto Alegre. nas mesas de bar onde o assunto era teatro. conhecia todo mundo da classe teatral. Caio sempre adorou teatro. preferia passar pelas coisas como num vôo. porém. Poucos sabem. porém. Não demorou muito e Caio tornou-se nosso colega. nas salas de ensaio. Caio também cultivou a literatura dramática. que a ficção que escreveu não foi apenas narrativa.. épica: contos. mas nem por isso menos alto e profundo. nas salas de espetáculo. Lembro-me dele numa peça infantil da escola. teatro. foi mais do que um espectador aficionado: tornou-se um homem de teatro.. teatro.

no apartamento de Caio na Haddock Lobo em São Paulo. Algum tempo depois. Foram quatro dias de gargalhadas. foi retomado e ampliado dez anos depois para ser montado como um espetáculo completo. dirigida por mim... Via de regra. durante os feriados de carnaval. Nara Keiserman e José de Abreu. Tinha sido fácil nos esquetes do Sarau e continuou sendo na segunda versão da Maldição. Como vêem. e nós os escrevemos a quatro mãos. como também ―de pena‖. junto de Suzana Saldanha. e com enorme sucesso. Caio foi autor. já doente. A Maldição do Vale Negro. e Caio fazia justamente o papel do. Fabricar uma obra de arte a dois é em princípio algo dificílimo. Ele excursionou vários meses pelo Rio Grande do Sul atuando na montagem do Serafimfim-fim de Carlos Meceni. E muito café e os milhares de cigarros que ele fumava. ele foi autor de verdade de um texto para ―crionças‖. principalmente quando sua algazarra atrapalhava seus preciosos momentos de criação).chamar de ―crionças‖. Mas não para nós.. Então fomos parceiros não só ―nas tábuas‖. uma encomenda do Teatro Vivo de Irene Brietzke. E bom ator. conheceu o palco por dentro. na casa do ator Carlos Moreno. foi feita novamente em colaboração. voltara a morar em Porto Alegre. O último deles. realização do Grupo de Teatro Província. Essa leitura ficou-me na memória como uma. quando. A peça era uma recriação do Chapeuzinho Vermelho. estreada em Porto Alegre sob a direção de Suzana Saldanha. para quem a escrevera de encomenda. Caio e eu pisamos juntos o mesmo palco em 1976. Mas podia acontecer . latinhas de cerveja e pizzas por telefone. A Comunidade do Arco-Iris. Performance que. O Sarau era uma peça de esquetes. autor da história recontada. Essa recriação. embora bissexto. repetiu publicamente em duas ocasiões. redigíamos juntos: a frase que um inventava puxava a frase do outro. fiquei sabendo. uma deliciosa e tocante performance de comicidade e lirismo. no espetáculo Sarau das 9 às 11.. A última vez que comprovei esse fato foi quando da leitura que ele fez de sua peça recém-concluída: O Homem e a Mancha.

nos inícios dos 70. O primeiro deles. montada pela primeira vez no Rio de Janeiro por Gilberto Gavronski. serviram-me também de excelente material de exercício em minhas aulas de teatro. O Aborto. a Censura Federal a interditou em todo o território nacional. Love. que ele fez do romance Reunião de Família. eu refiz repetidas vezes e de variadas formas em outros espetáculoscolagem. ―Fundiu-se‖ é a palavra. Love. Uma outra vez em que brincamos de teatro foi quando precisei de textos para um novo espetáculo de esquetes: deColagem. montagem de 81. Só sei que a obra foi premiada num concurso do então SNT (Serviço Nacional de Teatro) e selecionada para leituras públicas em todo o Brasil. Todos esses diálogos de uma página ou menos. A de Porto Alegre. Seguramente logo após os anos que ele viveu em Londres. dividimos o Prêmio Moliére de melhor autor de 1988. que Luciano Alabarse teve o privilégio . não fôssemos nós dramaturgos siameses. As obras teatrais de Caio Abreu s quais o meu nome não esteve de nenhuma forma associado (fora o caso de seus contos e novelas teatralizados) são a já citada Comunidade do Arco-Iris. Que sintonia era essa? Era como brincar juntos. foi dirigida por mim e musicada pelo também saudoso Carlinhos Hartlieb. Caio produziu cinco diálogos curtos. 1977. Uma outra dessas cenas avulsas. experiência que aparece transfigurada na peça. A primeira investida independente de Caio na dramaturgia foi com Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. de Lya Luft.também de um escrever uma cena e do outro retocá-la. Não saberia precisar a data em que foi escrita. uma pequena obra-prima. no Teatro de Arena. o Diálogo do Companheiro. Interferíamos reciprocamente em nossas invenções sem nenhum constrangimento. e a admirável adaptação para a cena. Zona Contaminada. Love. Tamanha a minha ―obsessão‖ por esse texto. Graças à montagem carioca de A Maldição do Vale Negro. que ele o dedicou a mim na abertura de seu livro de contos Morangos Mofados. acabou fundindo-se à peça de minha autoria. Pouco tempo depois.

o épico vira dramático. a narrativa vira cena. 14 de novembro de 1996. Na operação por que passou em suas mãos o livro de Lya Luft.de encenar em Porto Alegre. Certamente ele não vai perder. Curiosamente. outro amigo seu do coração. estamos a uma semana da estréia de O Homem e a Mancha. mesmo inconfessados. Porto Alegre. Por impedimentos normais. Será no Theatro São Pedro. o contar vira representar. e ela terminou nas minhas mãos e nas do ator Marcos Breda. A parceria interrompida por um tempo já foi retomada. na maior parte da sua produção teatral eu estive presente. coisas da vida. O Homem e a Mancha. Não há motivo para ciúmes. o Garoto Bombril não quis realizá-la. Afinal. Luiz Arthur Nunes . Ele sabia e dominava a diferença de gêneros. No momento em que ponho ponto final neste prefácio. Esse trabalho é a melhor comprovação de que Caio foi dramaturgo de fato e não um narrador por diletantismo pondo em diálogo suas histórias. Quando a recebemos de um Caio já debilitado. Minha analista com certeza detectará algum ciúme meu vendo Caio fazer teatro com ―outros‖. Sua última peça. não assisti nenhuma dessas montagens. ele nos disse: ―Façam logo para dar tempo de eu assistir‖. Não faz um ano que Caio nos deixou.

PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA Peça em 1 Ato Prêmio Serviço Nacional do Teatro Texto selecionado para leitura .

e até mesmo objetos absurdos que ficam ao gosto do diretor. guarda-roupas. Entre 20/30 anos. . enfim. lixo. cadeiras rasgadas.PERSONAGENS JOÃO • LEO • BABY • MONA (CARLINHA BAIXO-ASTRAL) • ROSINHA • ALICE COOPER • ANGEL São todos muito jovens. CENÁRIO Sala de uma casa abandonada. espelhos quebrados. Na verdade. parece mais um quarto de despejo. atulhado de objetos fora de uso: colchões furados.

A lanterna pertence a João. A luz de uma lanterna vai revelando alguns objetos. podemos colocar uma cortina de veludo cor de vinho. JOÃO — Cala boca. Acende e deposita em cima de um móvel. (Esbarra num móvel. Acho que podemos instalar aqui os nossos domínios. Ei. Yeah! Everybody now: tinha uma porra no meio do caminho. vem cá. por exemplo. (Tira uma vela do bolso. se tiver alguém morando a gente fica logo sabendo.) — Mania de falar inglês. A luz aumenta. meu santo.. irmãos. Só uma porra no meio do caminho.) Merda! LEO — Que foi. a cena está completamente às escuras..) Aqui.Tinha uma porra no meio do caminho.Língua internacional. Pode ter gente aí. cara? Que barulho é esse? Tem alguém aí? JOÃO — Não. cara. Tão lentamente que chegue a ficar monótono e angustiante. BABY .CENA 1 Quando a ação começa. falando inglês as possibilidades de comunicação são muito maiores. JOÃO — Melhor.. LEO — Fala baixo. tem alguém aí? BABY . BABY . onde é que você está? JOÃO — Aqui. Baby! BABY — Do fundo das trevas só o silêncio nos responde.Anybody here? LEO (Baixo. Quando você está no mundo. LEO — João... Com . No meio do caminho tinha uma porra. Tem uma porrada de coisas..

Hmmmm. polícia. Que é que vocês acham? . I like so much. What you think about.. cara. Importadas diretamente dos Países Baixos. Estético. BABY — Eu por mim fico aqui mesmo. LEO — E ainda por cima tem aquela chuva lá fora. Assim poderemos fabricar nosso próprio ópio. Depois. rosas não. igual àquele que tinha na casa da vó Manca. cozinha com fogão.Você acha que não vai ter problema? BABY — O que? Importar tulipas ou plantar papoulas? LEO — Não. Melhor tulipas. essas coisas. vizinho. o dono da casa. Qualquer jeito não temos mesmo para onde ir. igual àquela que tinha na casa da tia Nenê. Não.) — Olha. tenho que chamar as outras pessoas. A gente ficar aqui. muito vulgar. Rosas. BABY — Basta chamar Mona e sua varinha de condão. Fico preocupado com a Rosinha naquela chuva. A gente pode dar um jeito. JOÃO (Acende outra vela e deposita sobre outro móvel. de manhã sempre acontece alguma coisa. é claro. my fellow? LEO .. Até nem tá muito estragado.franjas douradas. E claro que teremos sempre flores. LEO — Por que dez pras sete e não vinte pras oito? BABY — Porque eu gosto. João — Falar nisso. um monte de coisas. Tulipas da Antuérpia.E também pode não acontecer nada. Por mim fico morando aqui o resto da vida. Sempre acontece alguma coisa. banheiro. Ou papoulas. Aqui no canto acho que ficará de extremo bom-gosto um aparador com tampo de mármore. eu acho que gente pode ficar pelo menos até amanhecer. Sei lá. JOÃO . Já viu lá em cima? Tem três quartos. Acho sonoro. As dez pras sete. As coisas mais importantes da minha vida sempre aconteceram às dez pras sete.

tira uma vela do bolso.. JOÃO ..Eu não sei. e nós não vamos viver? JOÃO — Sim. não é assim? Pelo menos a gente já tem onde dormir esta noite. as pessoas tenham saído. cara se você der uma voltinha na cidade ou olhar pela janela vai ver que o depósito de lixo lá de fora é muito maior! .LEO . Leo rói as unhas e olha em volta lentamente.Bem. parece que tudo vai terminar bem.) CENA 2 Silêncio. LEO — Mas pode ser que.. eu me sinto como se tivesse acabado. Você acha que alguém pode viver no meio deste lixo todo? BABY — Ué. não. Leo. um pouco assustado. sei lá. Não gosto nada disso. Sabe. BABY — Olha. mas é diferente. sei lá. tão rebentado. JOÃO — Deixa de ser besta. eu vou lá fora chamar os outros. amanhã pinta a polícia e manda a gente embora. tão sujo. Baby começa a dedilhar o violão.. Afinal. Parece um depósito de lixo. não é? Tudo está bem quando termina bem. Tudo tão velho. acende. volto já. Leo. No máximo.. Fica com medo não.. coloca ao lado das outras duas e senta num canto. Amanhã a gente arruma umas vassouras e. Não vai acontecer nada. LEO — Não sei. dá um jeito. (Sai. E se tiver alguém morando? BABY — Ué. Leo concorda em silêncio. Pode ser que voltam daqui a pouco. Parece que nada mais vai ser bonito outra vez. a gente chamou e ninguém se manifestou.. Não tenha medo..

meu santo. quero dizer. ué. fria lá de fora. Deixe ver. quer ver? Eu quero mesmo muito pouco eu quase não quero nada de tão pouco que eu quero. LEO — Me diz uma coisa: você acredita nisso? Você tem certeza absoluta que acredita mesmo nisso? BABY . é melhor do que ficar naquela chuva. vasto mundo e eu nem me chamo Raimundo. Pode ser que... Sem saber inglês você nunca vai subir na vida.. aí você vai ver que não está tão mal assim. RRRaimundo..Nisso o quê? LEO — Nisso que você acaba de cantar. também. Um vintém. Thing like that. um pobre cego mas com o olho bem aberto: uma canoa furada um barco sem fundo tudo é mundo e o céu é perto tudo é mundo e eu navego tudo é mundo e eu navego tudo é mundo. A gente dá o tal look-around e canta. Amanhã não sei... Olha. Um canto e um papo furado. quer saber duma coisa? E . Ei.Quando a gente está se sentindo assim é só olhar em volta . certeza eu não tenho mesmo de nada.. Não tem importância.. Ninguém entende nada de nada e enquanto tudo cai eu canto por quase nada. Nem sequer de que estou realmente vivo. If I Called Myself Raimundo. Acabei de compor..dar o tal de look-around -. De onde foi que você tirou esse negócio? BABY — Da minha cuca. Talvez eu seja muito louco mas basta um canto e um teto . my last song: Se Eu Me Chamasse Raimundo.Que música mais doida. Ladies and gentlemen. Eu sei de agora. me entende? Agora basta um teto.mesmo furado. Que sarro esta pronúncia.Eu não entendo nada de inglês. um tostão faz de conta.. LEO . Sei lá. Baby. BABY — Pois devia.. você acha que basta mesmo um papo furado. como é que se diz isso em inglês? LEO ... um teto furado? BABY — Olha. Assim..

Já ouviu falar num cara chamado Jung? Mais ou menos isso.. / Chegou Mona. não. Já não falei pra você que intelectualismo não é comigo. / Más vibrações. BABY — Imagine como você não era antes. sacou? Papo furado. Não tá com nada. só sentir. / Forças do Baixo-Astral / fora daqui. Desde que parei de ler fiquei muito menos neurótica. Hare Rama / Hare Rama. distribuindo beijinhos.melhor não aprofundar muito. Nossa.O quê? BABY — In-cons-ci-en-te co-le-ti-vo. Baby? Abaixo a razão e o pensamento! O negócio é só sentir. depois entrega uma varinha para cada um. Vê. Hare krishna / Krishna Krishna. Os arquétipos. MONA — Corta! Lá vem você de novo com esse papo xaropento. não. go home! / Más vibrações. uma vela acesa e duas varinhas de incenso na mão. Traz uma bolsa enorme. LEO . Pensar acabou. Me dá um cigarro. meu irmão. MONA — Sabe com eu era antes? Um monstrinho de óculos cheio de problemas gênero ―será que vale a pena viver? — ninguém me . Hare Rama / Rama Rama. / Chegou Mona. MONA — Hare krishna. Pensar já era. Quando a gente aprofunda demais acaba caindo sabe onde? No inconsciente coletivo. Rainha do Alto-Astral.. Não aprofunda não. você está com uma cara péssima! O que foi agora? Não está gostando do nosso novo lar? BABY — Não é nada.. Leo. go home! (Incensa um pouco a sala.) Pra espantar os maus fluídos. vê. inimiga do mal. Hare Rama. vê. CENA 3 Entra Mona. não se usa mais. O tal de inconsciente coletivo....

Ninguém me ama ou qualquer coisa do gênero. Mas o que tem isso? MONA — Como o que tem isso? Esotericamente é um dado importantíssimo. Ah. não. sei lá. corta! (Acende mais uma varinha de incenso.. eu sei.Ei. para fechar o triangulo. Já vi coisa pior. É cinqüenta e oito. LEO — Mágico? Nem que eu fosse o Merlin conseguiria achar bonita essa merda toda. Deve ter um . corta. ninguém me quer — o que vou fazer do meu futuro?‖ essas porcarias. Cinco mais oito. tem também o cinqüenta e oito. Mas Morte pode ter muitos sentidos. Corta essa. começo de outro. no seu olho que realmente vê.) Mas deixa eu dar uma olhada no nosso novo lar. O número sempre diz como vai ser toda a transação da coisa. Agora chega..) Três. renascimento. é a morte. Não necessariamente morte física ou espiritual mas.. LEO . deixa ver. Olha. quanto dá? BABY — Dá treze. (Depositando a vela ao lado das outras. Além disso.Quer dizer então que a sua bed-trip continua a mesma? Puxa. que papo é esse? MONA — É.ama. Treze é morte mesmo. E se você está querendo saber qual é a carta do Tarot que tem o número treze. renovação. oh. sabe duma coisa que eu aprendi? O segredo do belo está aqui.. me diz uma coisa: você olhou o número da casa? LEO — Eu olhei. fim de um ciclo. Se você souber olhar as coisas dum jeito mágico.. Cinqüenta e oito? Cinqüenta e oito. MONA — Corta. não quero nem saber. dentro de você. (Dá umas voltas enquanto Baby dedilha no violão.. a Rainha do Alto-Astral. LEO — Onde? Na lata de lixo? MONA . Na sua cuca. Sou Mona. tudo fica mais bonito. Baby. você sempre acha tudo um lixo. transmutação.) Não tá mau.

Só pode ser Sagitário... Remorsos.) — Nada não. Não vale a pena ficar se grilando à toa. . não diga. Cinqüenta e oito.. BABY — Libra. Decepções n& projetos. você é que acredita nisso. BABY . Talvez Gêmeos.. Querendo voar junto ao o satã. E essa transação do inconsciente coletivo. qual é o seu signo? Não. Você é sarcástico demais para ser Libra..Ah. melhor esquecer essas coisas.. sim.. BABY — Ué. Gêmeos ou Sagitário? MONA . MONA — Acredito. não você não é tão inteligente assim. quer dizer que é um dos quatro. Pois é. Ações repreensíveis.) — ―Sofrimentos morais. BABY — Qual é Mona? Escondendo a jogada? (Tomando-lhe o livro.. a trans. Perigo por todas as partes.. Escorpião... consulta-o.. O que é acerbos? MONA — Não sei. de Sagitário. o centauro com os pés na terra... E por falar nisso.) Ah. deve ser Sagitário.‖ MONA — Chega. (Observa Baby atentamente. mas não sei não.) Essa transação de música pode ser.O que foi? MONA (Tentando disfarçar. quatro de espadas: ―Perigo eminente. pode ser Libra.. Mas até onde não me enche a cuca de grilos idiotas. Mudanças desfav. esse fogo. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah... meu Deus..significado positivo. BABY (Continua lendo. mas deve ser qualquer coisa bodiante... O seu olho tem qualquer coisa de.. é? Deixa ver. muito doce para Escorpião. Arrependimentos estéreis e acerbos‖. não tanto quanto um Escorpião. muito calmo para Gêmeos. Deixa ver (Abre a bolsa e tira um livro enorme.) Aqui. muito irônico para Libra.. a transmutação. Claro. Pode deixar que eu adivinho.

Afinal.Tem certeza? MONA — Não. você não tem? BABY . claro. não. é a primeira vez em toda a minha vida que erro. Tenho direito a uma pergunta? BABY . os seus poderes ocultos. Vão acontecer coisas medonhas a quem não estiver desperto. . Tanto Leão como Sagitário são signos do fogo.Mas escapar do quê. Sou Leão. Daqui a pouco vem o fim dos tempos e quem não for mágico não vai escapar. BABY — Pode ser. Foi por isso que eu me confundi um pouco. O quanto antes.Errou. LEO . MONA . não pode ser. sabia? Está na cara que você é fogo. fogo caindo dos céus — tudo de bodiento que você possa imaginar. De vez em quando até solto umas fumacinhas pelo nariz. meus irmãos. MONA — Mas é fogo. o quanto antes — eu sei o que digo.A-do-ro! MONA — Então é Sagitário mesmo! BABY .Não. meu Deus? MONA — Das inundações. terremotos. baixo-astral? Tomem muito cuidado vocês dois.Vai firme. MONA — O quê? Leão? Ah. a quem não for mágico. minha reputação está em jogo. MONA — Você gosta de vermelho? BABY .BABY . ainda não. hein? Vocês precisam despertar o quanto antes o ser aquariano que dorme no fundo de vocês. Mas você deve pelo menos ter um ascendente em Sagitário. maremotos.O que é que você está rindo. Meu ascendente é Touro.

Por que é que você não corta esse papo furado e vem me dar uma força aqui? (Leo e Mona começam a ajudar. duas no Egito e uma em Atlantida — para falar só neste planeta. em Libra. Vai ser difícil: tenho Vênus na décima primeira casa astral. chutando. com essa cara você deve ser mesmo é Peixes: um bode só. (Canta.Mas você não tem cara de mágico. Apocalipse é esse lixo todo aqui. Eles foram comprar alguma coisa para comer. presente e futuro. Vinte com mais detalhes. parece que a tua vibração não está harmonizando com a minha. por apenas dez cruzeiros. Para dizer a verdade. Pode agredir. LEO . não. MONA (Incensando a cara de Baby. quando chegar o Apocalipse é que a gente vai ver. Nem de fogo.. Você está a fim de me irritar.. tive três encarnações no Tibet. eu sou eu sou amor da cabeça aos pés. como é que você sabe que eu sou Peixes? BABY (E começando a empurrar alguns objetos. Onde é que estão as pessoas? Alice. LEO — Ei. meu irmão. já abri as sete portas. sete moradas da minha mente e a minha Kundalini já subiu no mínimo até o quinto chakra. Estou em contato direto com forças paranormais. recolha-se s suas trevas sagitarianas.) — Vade-retro. meu amor. BABY — Apocalipse. João. 3 sacerdotisa oriental.) — Chutando.. MONA — Baby.) Ser eu sou.) MONA — A Rosinha não está nada bem.O que é que tem a Rosinha? .. BABY — Passado. Sei porque sou um espírito muito velho. Cada consulta dá direito a um brinde: uma bola de cristal inteiramente grátis. Rosinha. eu sou. Baixo-Astral. Tudo com Madame Mona Yoiara. Papo furado.

(Arrumam alguns colchões como sofas. Será que é fantasma? Essa casa é tão velha. ) MONA — Que é isso. Se caprichar nesta.. é você? JOÃO (0ff) .. Não tem mais essa de se sentir mal. na próxima vou para o espaço. (Ajeita o vaso num canto. tudo historinha.) Olhem só que bom presságio: flores! LEO . meus guias do Oriente. desencarno de vez.MONA — Gravidez. Um bode.Sou eu. Ela geme sempre. Você não gosta? . João. Olhe só em volta: já temos uma casa. Devem ser só as pessoas chegando. Acho que estou pagando todo o meu Karma nesta encarnação. Mona corre a acender mais ama varinha de incenso. Mona remexe no meio de algumas coisas e encontra um vaso com flores. menina? Está tudo bem agora. Baby. Inconsciente coletivo outra vez. Ou então venho homem. BABY — Claro que você prefere a segunda hipótese. historinha. MONA — Ai.De plástico. A Rosinha está passando mal. Me ajuda aqui. LEO — É a polícia. não é.) Você acha que aqui fica bem? LEO — Silêncio! Vocês também ouviram? Tem alguém lá fora. tenho certeza que é a polícia! BABY — Historinha. Mutante da Era de Aquário. (Baby sai para ajudar João. amparada por Baby e João. Você sabe muito bem que eu sou andrógina. cara? Mulher é isso aí. MONA — No escuro ninguém nota. Pode desamarrar o bode. deve estar cheia de más vibrações. MONA — Sem essa.) (Entra Rosinha.

purpurina. qual é a de vocês.. MONA — Baixo-astral. MONA — Ei.Ainda não. Vamos fazer uma festa enquanto o dia não . Lá fora estava chovendo. Sinto uma dor horrível aqui. quentinho. Mona.. tive uma idéia maravilhosa. Aqui está bom. Eu. me ajuda a cobrir esses colchões. Já que a gente vai ficar aqui a noite toda e ninguém vai dormir. parece que tem coisas incríveis. BABY — Não apareceu nem vai aparecer.. não sei. Baby.) Meu Deus.. hein? Vão ficar a noite toda com essas caras de velório. Como é.exceto Baby. claro.) Olha.. Tem até flores. pessoal. JOÃO — Ficou bonito. Me dá tua mão. Na minha bolsa tenho batom.. tá sabendo? Me re-ne-go. (Vai retirando coisas de dentro de um baú). Já está quase parecendo uma casa. Nós até tentamos arrumar um pouco isso aqui. LEO . Mas não tem nada. (Começam a cobrir tudo com panos. Já vai passar. sombra. não apareceu ninguém? LEO . Daqui a pouco eu fico boa.ROSINHA — Ah. JOÃO . MONA — Está maravilhoso. vejam só o que eu achei: um monte de roupas. Vamos transformar isso aqui num castelo. Puxa. não consigo nem olhar para fora de mim. fazia frio. podemos fazer uma coisa ótimo uma festa à fantasia! O que é que vocês acham? (Ninguém parece muito entusiasmado . Tenho certeza que vou encontrar coisas ainda mais maravilhosas. também. ROSINHA — João.Foi a Rosinha.Você demorou tanto. LEO — De plástico. sem dizer nada? Eu me renego a curtir bode. JOÃO — Alice foi batalhar pão. fica aqui comigo.

do desamor.. matava aqueles fidalgos gordos cobertos de seda. uma vez o feiticeiro da tribo fez uma tatuagem no seu . João? Você distribuía todo o ouro roubado entre os pretos de uma aldeia na costa de Madagascar.. da hipocrisia. Isso aqui é o seu manto virginal. da sujeira.) Você assaltava navios armados até os dentes.) Pronto: aqui está a manjedoura.. todo esse amor. deixa ver. Olhe por cima de todo mundo.sabe o que você fazia. eu não sei. Ela adora visual. Agora faça um ar de. encontrar todo mundo colorido. Você. Eles adoravam você. MONA (Começando a vestir Rosinha... quando Alice chegar. eu não tenho jeito pra essas coisas. senhora. Batom.. Já pensou? O seu filho pode ser até o próprio Cristo da Era de Aquário? Você precisa corresponder à nobreza do seu futuro filho. (Começa a vesti-lo. Um pouco de ruge. das máquinas.. para bem longe. oferecendo o maior visual. incendiava.. Deste então você sabe que no seu interior está crescendo a única coisa capaz de salvar o mundo da loucura. (Afasta-se para olhar. violava todas as mulheres. jogando para fora toda essa luz. Assim. Um pirata. (Acende uma varinha de incenso e vai incensando Rosinha enquanto fala. numa boa. João...) Um ser todo feito de luz entrou no seu corpo e plantou essa semente em seu ventre. o que é que você quer ser? JOÃO — Ser? Eu. mas sempre acho que você grávida assim parece a Virgem Maria. Agora você.. menina. de absoluta pureza. roubava todo o ouro e depois . ROSINHA — Ah. do medo. da violência. Sabe que é assim que eu vejo você? às vezes até penso que você deve mesmo ter sido um pirata numa outra encarnação. Você foi tocada por forças mágicas enquanto dormia..chega? Já pensou. (Coloca um cesto de palha aos pés de Rosinha. você está muito pálida.) — Tem sim.) Levante um pouco a cabeça. Rosinha tenta sorrir.. MONA — Pois eu sei. Uma pirata bom.. Pode ser loucura minha. Mona. A cada dia você sente que chega mais perto o momento em que o seu ventre explodirá.. Pode crer. Então nós todos estaremos salvos.

Você está sempre esperando o reino que prometeram. e você está esperando esse reino. Só nesse dia você mostrará o seu verdadeiro rosto dourado e tocará seu alaúde para que todos fiquem contentes e sintam amor. Só nesse dia. menos esse círculo. LEO .Eu sou Leo. Você só poderia ser morto no dia em que esse pedacinho do seu peito fosse atingido. elas não sabem que você é um príncipe.. Alguém lhe prometeu um reino certa vez. LEO — Mona inventa estórias. MONA — Você é um príncipe. Eu sou Leo. (Vai desenhando com batom no peito de João.) Um círculo mágico fechou todo o seu corpo.peito. quando o encantamento quebrar e o seu reino for revelado. MONA — Eu sei. um pirata um pouco perdido no meio das cidades. de paz e amor. o ritual durou sete luas novas. você ainda está vivo. .. Leo? Mona inventa estórias tão bonitas. ROSINHA — Mas por quê. Você anda sempre disfarçado. Eu não quero ouvir estórias. você atravessou os séculos e continua sendo aquele mesmo pirata. só nesse dia todos vão saber que você sempre foi um príncipe. Do que é que você quer se fantasiar? LEO — Eu não quero me fantasiar. isso é tudo...) Você vive num castelo sobre a montanha mais alta e mais escarpada. Então você tem sempre a sensação que ninguém o conhece. E assim ainda não aconteceu. um reino de paz e amor. Mas você se sente sozinho no meio deles. esse. porque você não pode se mostrar como realmente é. As vezes você desce a montanha e vai até a vila e tenta conversar com as pessoas. E você. Mas um príncipe solitário. sempre com vontade de voltar para o mar. signo Peixes. BABY . Leo.Eu quero ser um príncipe. (Começa a vesti-lo. que ninguém o entende.

cheia de lixo. porque você acha que as coisas só tem um lado. Só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas. Baby não é um príncipe. Nada é horrível. O que acontece é que você ainda não aprendeu a olhar. na sua cuca. Sei lá.Você não é. procure sentir amor.Mas eu não posso fingir que não estou com fome. MONA — Faz de conta.) — Tente. Imagine. Sonhe. Invente. Rosinha não é a Virgem Maria. Se a realidade te alimenta com merda. A gente só consegue ver o que está dentro da gente. O seu olho daqui é que transforma tudo. um pássaro. A sua cuca é que é feia. nada é maravilhoso. não é um castelo: nós somos uns coitados mortos de fome. esse que o seu olho sujo vê. uma nuvem. meio loucos e sem ter sequer onde dormir. E vou lhe dizer porque. Aqui. Eu não posso fingir que viver é uma coisa boa. Voe. a mente pode te alimentar com flores. meu irmão.João não é um pirata. Você é exatamente igual a esses cinzentos todos que estão lá fora. Você acha que isso é mau? LEO . E você só consegue ver o sujo. O seu jeito de olhar. Eu não posso fingir que este lugar é bonito. LEO — Eu já não tenho mais idade para fazer de conta. Eu não estou fazendo nada de errado.. não somos mágicos nem encantados. LEO — Eu não consigo. Tudo isso está dentro de você. na sua mente. MONA . Olho em volta e acho tudo nojento. suja e doente. Eu não posso fingir que isso aqui é um castelo. um rio. Porque você não consegue ver além do chão. Pelo menos sorria. Olhe pra mim: faz mais de uma semana que não tomo banho . O que é que você quer que eu faça? MONA (Mansa. Eu não quero fingir. tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto.. uma árvore. Isso aqui é uma casa abandonada. o feio e o doente das coisas. que nós somos mágicos e encantados.

Mona hesita um pouco. você vai me amar muito. Nenhum de nós tem. Eu estou cansado desse seu esoterismo de bolso. a fome. baixo-astral é o lixo..nem faço a barba. (Irônico.. Faz dois meses que quebrei um dente e não tenho dinheiro para ir ao dentista. porque você acha que isso é bonito.. a pobreza. não diga nada. Olhe a minha boca: um lixo. Faz quinze dias que uso mesmas meias. Elas já estão pegajosas.) Se você vem e me diz: agora nós vamos viver juntos e ser felizes para sempre. . porque ficaria muito feio para você não me beijar agora. LEO — É mentira! Você me beija porque os outros estão olhando. Eu não posso sorrir mais. beija-o. dessas suas normas de bem viver à la Seleções do Reader‘s Digest. vinhos e queijos todas as noites. o mundo é uma grande lata de lixo e nós somos apenas as moscas esvoaçando sobre essa merda toda. Não suporto mais não ter banheiro. almofadas macias. Vamos ter girassóis no terraço. você mesma que fala de espírito. banho tomado e barriga cheia. quem vai varrer o chão. com esta boca podre? Você. depois.. Para mim.. Amor para mim inclui lençóis limpos. amor e o caralho: você seria capaz de esquecer toda a sujeira do meu corpo e me dar um beijo? Silêncio. Eu vou te amar muito. paz. não é? Pois para mim baixo-astral é o banheiro imundo. não ter nada. passarinhos na varanda. Olhe bem pra mim e me diga: você acha que alguém seria capaz de me amar com esta roupa imunda. Mas eu pergunto: e quem é que vai lavar os pratos. Tudo bem. meu anjo. Paz e amor. grudadas nos meus pés. paz e amor não são coisa nenhuma quando o que cerca você é lixo. Não suporto mais o meu próprio cheiro. não ter casa. quem vai limpar a privada? Quem vai batalhar a maldita grana? Ou vamos estar tão ocupados em nos amar profundamente que não teremos de pensar nessas coisas? Não.. Eu já sei: é baixo-astral pensar nessas coisas. E isso eu não tenho. Eu não acredito em você.

minha bruxinha tropical? MONA — Só combina.Não é umas gracinha? Tem vinte aninhos e é Capricórnio. que loucura é essa people? Quem é que estava berrando feito louco aqui dentro? Estão currando alguém.talvez Killer . Vejam só: (abre a bolsa e joga vários pães para cima. tá falado.) — Cetim. chá. Falou a Rainha do Alto Astral. você nunca foi tão bem-vindo em toda a sua vida! Imagine que estas pessoas ainda estão discutindo o tal de Inconsciente Coletivo. ALICE — Inconsciente coletivo — eu hein? Pra mim é piraçâo.) ANGEL — Buenas noches para todos. Chá. purpurina e tafetá brocado. é? Se estiverem digam logo: quero participar. E um rapaz muito maquiado e vestido de maneira ostensivamente andrógina. lules.) E trouxe também um hóspede. muita seda e muito strass veludo. Estoy encantado en conocerlos. Angelito? Nós nos complementamos. Água e terra sempre se completam. chá. chá. Pois enquanto vocês ficam aqui de bobeira eu descolo coisas incríveis. ALICE — Viu só. (Entra Angel com uma mochila nas costas. estoy veniendo de la Argentina para el Peru. Capricórnio combina com Escorpião.) ALICE (Cantando. . E se ela falou.CENA 4 (Um rock pesadíssimo de Alice Cooper . chá eu sou Alice dos mil plás eu sou Alice dos boás eu sou Alice superstar! Cruz credo.Alice Cooper. Leo apanha um e começa a comer vorazmente. BABY. ALICE .irrompe logo após as últimas palavras de Leo e serve como música a entrar de Alice Cooper. chá. Yo soy Angel. miçangas — ah! meu negócio é ofuscar meu negócio é rebrilhar meu negócio é cintilar.

minha pitonisa dos pampas? MONA — Nem morta. Tenia exactamente mismo tipo físico desta otra. sí puede ser que yo estea equivocado. Além disso. He viajado mucho todo ei dia.. MONA — Pois eu me visto de mulher. una barra un poquito pesada demás. A ia noche todos nosotros temíamos encontraria por las calies. no conozco Cochabamba. Tenía trajes de chico. carifio. esta chica no puede ser Carlinha es demasiado simpática. . detesto a cor negra e tenho horror de violência..ANGEL (Prestando atenção em Mona.. ALICE — Espera aí.Bueno. la misma. seforita. Anjo. Angelito. minha fadinha underground? A sua face oculta. vai ficar obsessivo agora. Bien. pero era. No. pero creo que te conozco de otro sítio.Como sabés que Carlinha vivia en Cochabamba? ALICE — Ah.. ei mismo pelo... No eres Carlinha Bajo-Astral? MONA — Quem? Carlinha Baixo-Astral? Muito antes pelo contrário. sabés? Estoy muy. bien. era una chica muy. sem essa. altíssimo Astral! ANGEL — Pero yo podria jurar por mi perra madre que eres Carlinha BajoAstral. y le gustaba la violencia. é? Forças! Esta daqui é Mona a Rainha do Alto-Astral. Está se vendo que ele não me conhece. muy extravagante.. MONA — Gracias. muy fatigado. ALICE — Será que ele descobriu sua identidade secreta. como decir? muy peligrosa.) — Perdón. e eu sou Alice Cooper. Ei mismo tipo físico.) . como é que era essa tal Carlinha Baixo-Astral? ANGEL . ANGEL — Encantado en conocerlos. siempre de la color negra. a barra mais bissexual da paróquia. ANGEL (Intrigado. chiquito eu sou Mona..

Quem foi que teve essa idéia maravilhosa? MONA — Fui eu. Já que a gente vai mesmo ficar aqui a noite toda. um milhão de sorrys mas acho que você nem precisa mais de remédio. Inconsciente Coletivo. meu amor. você sabe que sempre tive uma tesão secreta por você? Que pena você ser tão limitado sexualmente. mas se você rastejar a meus pés sou até capaz de cantar uma dessas suas musiquinhas subdesenvolvidas. não encontrei nenhuma farmácia aberta..) Você também tá uma gracinha. (Para Rosinha. creo que tengo la fantasia ideal para usted. muito proleta pro meu gabarito. dança rumba. Meu som vai ser é no Carnegie Hail. MONA — Carifio.. se masturba. Descaralhar. aplaudindo e dando força. maquiado. Depois a gente passa o chapéu e levanta a grana. é? Chocante. tá sabendo? Meu Deus. bem? Ei. O negócio é pesar a barra. Mona. Alice. não é? ALICE — Pode crer. ALICE (Superior. você tem sorte honey. Fique sabendo que sou gente fina demais pra cantar numa mísera praça. domingo? Eu toco e você canta.ALICE — Mas que loucura é essa? Agora que estou reparando. . Inconsciente Coletivo. com Mick Jagger no coro e Ney Matogrosso no platéia. parece uma festa. faz o que você quiser. Dou a maior força. João. chocante. minha nega.. tango. Todo mundo colorido. meu santo. (Para Baby. quer dizer que você continua curtindo essa de meninos de Deus.Mona me diz que sou a Virgem da Era de Aquário.. o que e que você acha da gente fazer um som na praça. De feia basta aquela cidade lá fora. ROSINHA . ALICE — Cruzes. Rosinha.Eu bem? Tá pensando que eu sou o que? Muito vulgar. que coisa mais macha! João. A gente podia escandalizar o mundo com nossas lascívias. achei que era melhor fazer uma festa à fantasia. tira a roupa.) .) Little Rose. BABY (Fingindo afetação) — Você acha mesmo. Misticismo não tá com nada. Você tá uma verdadeira glória.

) — Cris-ta-li-no como sempre. meu espanhol é um lixo. Não sei se fui suficientemente explícito. você sabe. Além disso.) — Qual é. ALICE (Seco.) — Tá legal. Espera aí que eu ajudo. tá? Primeiro: esse menino que aqui vês foi caçado por mim e vai ficar é comigo. BABY (Tirando um acorde do violão. botar as asinhas a camisolinha e tudo. Então vamos deixar algumas coisas bem claras. Leo. Jogue a sua energia sexual pra onde você quiser — desde que não seja pra cima do meu angelito. suas piranhas enrustidas.ANGEL . ALICE (Interferindo e arrancando-lhe a mochila. mas respeito. dou a maior força. tá legal. Mas não se esqueça que ele vai ficar é comigo.Acho bom. Você não quer tirar essa mochila? Senão vai ficar um anjo meio corcunda de Notre Dame. não vai jogar uns panos por cima dessa caretice horrorosa? . tá legal? Segundo: você pode fantasiar ele à vontade. yo entiendo todo. ALICE (Entediado. Quero voar. você sabe muitíssimo bem que mando todas as minhas energias sexuais pra cima. MONA . MONA (Ofendida.) . meu bem. só estou fantasiando o menino. (Conciliadora.) Eu sou assexuada. E você. um momento! Adoro você. MONA — Além do mais. Alice? Botando o escorpião pra funcionar é? Até parece que você não me conhece...Que hermoso! Pero puedes hablar portugues. tirar a mochilinha. entendeu bem? (Para os outros. pra cuca.) — Queridíssima. Só quero que você me respeite também.Que ótimo. respeito toda essa sua transação de astral e tudo — acho que não tá com nada.) Isso vale para todos vocês também.

Pra falar a verdade meu gênero mesmo são aqueles motoqueiros da pesada. veio me perguntar se eu era homem ou mulher. olhando pra mim. te dou um conselho Alice Cooper sabe o que diz: você tem que ser maravilhoso. acho que sou apenas um fenômeno contemporâneo.deixe o vento soprar. let it be. fique pelo menos com o gostinho de ter brilhado um pouco. filhinho. Como é mesmo aquela frase do seu Tarot? Mona? . se faz muito meu gênero.rude. Existe coisa melhor do que você curtir seu próprio material? Eu me curto adoidado. fica todo mundo em silêncio. MONA . Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo . jeans manchados de graxa. cara. um certo visual. se aproxima um pouco mais de meu ideal. Você não acha que tudo ficaria mais bonito se as pessoas jogassem uns panos e umas cores por cima? LEO — Eu acho que tem coisa mais importante que isso. Tratamento de choque. Sou uma força para todos esses urbanóides. senão ninguém vai te olhar nunca.) — Não. na maior perplexidade. Mas que se há de fazer? Deus também não é perfeito. meu amor. depois de me olhar milênios. ALICE (Espantado. mãos cheias de calos . Quando entro num lugar. Uma vez um careta. pra mim a vida é um punhado de lantejoulas e purpurina que o vento sopra.LEO (Seco. Ora vê se pode. Tenho certeza que ele ficou encucado uns três dias. viril e agreste (Suspirando.) Forças! Prefiro ele de mochila e calça Lee mesmo. Eu respondi: — Sei lá queridinho.Não sei. muita corrente. curta adoidado! Sabe. meu amor. Curte. Olha. no mínimo.Tem nada. botas.) — E por que não. cara? Forças! Colorido fica tudo muito mais bonito! Sabe uma coisa que eu descobri depois de muita porrada? As pessoas têm a obrigação de oferecer. Blusão de couro. Angelical demais pro meu gosto. meu filho. Pelo menos faço eles pensar um pouco. ALICE .

acabo de ter uma idéia sensacional: cada um que beber faz um pedido em voz alta. Quem precisa.) — Pensando bem. Mona. É isso aí. . ROSINHA . tira uma garrafa térmica. Chá de ervas orientais. ALICE (Olhando bem para Mona. Estou cansada.) – Adivinhe. Mona? MONA (Misteriosa.) ―No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato No Nepal existe uma praça bem redonda e cheia de dinheiro. a mi me gusta mucho.) — É. Nós já oferecemos visual sem necessidade de panos.) ALICE — Ei. (Zé Rodrix: Som imaginário. Mona canta. enquanto ela serve.) — É. Falou. Todo dia sete de cada mês uma fadinha boa traz um pacotinho do Nepal. ALICE — Coisas celestiais eu vou te mostrar daqui a pouco.MONA . si. Me encantam todas estas cosas celestiales.) E eu. Nós não precisamos.) Pero si te gusta.) Tenho uma garrafa térmica na minha bolsa. (Para Mona. eu acho que você não precisa de fantasia nenhuma. todos sentam em semicírculo. Primeiro nosso hóspede: Angel. você não vai me vestir? MONA (Depois de olhar bem para Alice. (Remexe na bolsa. Você também não precisa. que deve passar de mão em mão como na cerimônia japonesa do chá. Angelito. tira o que precisa quem não precisa bota lá de novo. ANGEL — Si..a tampa da garrafa térmica. MONA (Pensativa. para mi está muy bien.Chá de quê. Custa muito barato lá.. No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato‖.Qual? ALICE — ―El contentamento nel poco abre las puertas de lo mucho. Enquanto dura a ação. (Para Angel. Existe apenas um copo . Vocês querem um chá? (Exclamações entusiásticas.

. no campo não.. Na beira do mar.) — Eu só queria parar de sentir esta dor. Onde eu possa tocar minha viola e ter minhas coisas. (Bebe. Bonitas. . ALICE — Que desejo mais besta..) — É. Não. longe desta civilização.) — Eu. virar o maior mito pop do século e morrer no auge da fama da juventude e da beleza nos braços de um motoqueiro. ROSINHA (Gemendo.) — Bonitas? LEO (Com um suspiro. MONA (Tentando ajudar.ANGEL (Bebendo.) CENA 5 BABY (Cantando. E você..) — Yo quiero solo llegar a Peru. las yerbas mágicas y las vibraciones de Macchu-Picchu. pescando e plantando. Little Rose. eu acho que eu queria conseguir ver as coisas um pouco mais. MONA — Eu só quero uma coisa: que baixe um disco-voador e me leve para longe desta mesma ci-vi-li-za-çâo de pessoas cinzentas. BABY — Eu? Eu quero um canto pra mim.) — Eu agora quero ver as coisas mais bonitas que o meu olho nem sempre quer ver As coisas mais bonitas e mais incríveis que o meu olho nem sempre quer ver. LEO (Hesitando. Las llamas blanquitas. João? JOÃO (Cantarola..) — ―Eu quero uma casa no campo‖. Y quiero tanbién que sea todo muy hermoso. construir uma casinha de madeira branca e ficar morando lá.Eu quero ir para Nova Jorque. ROSINHA — Mas é só o que eu quero agora Alice... ALICE ..

O campo. BABY — Quem nunca dançou não vai poder dançar agora. tirando leite. Eu não suporto mais a cidade. de todo esse barulho. a partir de agora. Mas agora. As vezes eu acho que vou enlouquecer no meio de toda essa correria. (Voltam todos a seus lugares — o autor acha importante esclarecer que.TODOS — Colorido-colorido atrás da vidraça colorido-colorido no fio da fumaça colorido-colorido no fundo da taça. onde a gente possa ser inteiro. nada mais tem explicação. claro que vou. dos gerânios. assistir televisão no seu fuscão.Quem nunca andou no fio da navalha não sabe o que é rasgar a própria mortalha. Tem essa dor cravada aqui. dentro de mim. João.. Lamento dizer. Nunca te vi tão bonita como agora. BABY . TODOS — Colorido-colorido no banco da praça colorido-colorido não transo cachaça. essa ansiedade nas pessoas. cuidando dos jardins. um lugar perto domar. Será que eu vou morrer. TODOS — Talvez seja melhor que vá embora talvez seja melhor que vá embora no seu fuscão. Rosinha? ROSINHA — Pra onde. ROSINHA — Eu vou com você. Rosinha.) . assistir televisão. agora eu não posso. eu fico imaginando você fazendo pão.) JOÃO — Você vem comigo. menina? Você está tão bonita. a terra. senhor e senhora se você não decolou talvez seja melhor que vá embora. com essa roupa de . sonhador. João? JOÃO (Sorrindo. Quem nunca voou além do cascalho quando olha no espelho só vê um espantalho. Sabe.. longe da cidade. Você gosta tanto de gerânios. João? JOÃO (Lentamente.) — Morrer? Que idéia é essa.

até mesmo o que a gente sente — é tudo mentira. Você já não é tão jovem. inútil. o campo. Sempre. Faz cinco anos que você fala a mesma coisa. Não güento mais a caretice desse cara. a terra. João. interrompe. mais poluído você fica. Rosinha e o que é verdade sempre é bonito. tudo vai ser verdade. Tem outra peça lá em cima? JOÃO — Tem três quartos. vinte e seis. Eu já não sou tão jovem.) -Já ouvi esse papo antes. Angelito? . sendo verdadeira. em você mesmo.Pega na minha mão. As coisas vão ficar cada vez mais duras. O seu cabelo já começou a cair. Na cidade as coisas são feias porque é tudo mentira. você já não acredita tanto nas pessoas. o que a gente diz. Que idade você tem? Eu sei: vinte e cinco.) — Pois eu vou realizar o meu sonho agora mesmo. Fico te vendo exatamente assim como você está agora na beira do mar caminhando na grama cuidando dos gerânios. O que a gente faz. os seus dentes estão ficando estragados. LEO (Irônico. Um dia você vai lembrar de tudo e pensar com tristeza: ―loucuras da juventude‖. Porque é que você não vai de uma vez? O que é que você está esperando? O que é que você está fazendo para realizar o seu sonho? ALICE (Interrompendo. Lá. Um só basta. O seu corpo vai-se decompor lentamente e você vai criar barriga e acreditar cada vez menos em todas as coisas. mais envolvido com a cidade. E um dia tudo não vai ter passado de um sonho. a volta à natureza. a natureza — vão ficar cada vez mais distantes. ALICE — Uau! Que exagero. o mar. Quanto mais você ficar aqui. João. Não falta muito pra você ter trinta anos. ROSINHA . Cada vez é mais difícil você se libertar. E todo esse tempo dç agora não será mais que um longo tempo perdido.Virgem Maria. O campo. jogado fora. Ornar. A mesma coisa. Faz cinco anos que eu conheço você. Vamos. vinte e sete — não importa.

Eu não sou só eu.No fundo das tuas pupilas eu vejo meu próprio rosto. enquanto este repete que quer voar. ... ANGEL ...Por que mi nombre es Angel? Hay un oscuro sentido por detrás de mi nombre.Eu não te entendo. yo nunca seré un angel. BABY — Você não me entende porquê você nos divide em dois: eu e você.. ) CENA 6 BABY — Será que você não entende que as coisas mudaram? LEO .. BABY — Eu poderia te ajudar. me encara fundo.Voar. (Alice sai empurrando Angel em direção à porta. Não existe divisão. Me diz o que é que você está vendo no fundo das minhas pupilas? LEO .... sabes? Yo quiero volar hasta los sitios encantados. Você não me entende porque você nunca me olhou... yo quiero ser como un pájaro. cara a cara. Me gustaria tanto. Olhe firme no meu olho e me responda: você tem medo de mim? LEO .ANGEL . perderme nel cielo.. e todas as coisas que eu vejo. Que hacen los angeles? MONA (Imóvel..) — O ofício dos anjos é voar.. Yo tendria que volar para que fuera un angel.. por entre las nubes. Olhe firme no meu olho.. volar. hasta los sítios encantados. se você não tivesse medo de mim.. volar..Eu tenho medo. volar. Eu sou também você e todos os outros.. A gente só consegue conhecer alguém ou alguma coisa quando olha para ela bem de frente....

Se você tiver medo de mim é porque você tem medo de você. Eu não podia pedir socorro. com todo aquele branco-liso dentro de mim. eu dei aquele passo eu venci o fim do mundo. eu acho que eu não tenho medo de você..BABY .. Naquele dia. Para eles podia ser uma praia. Eu estava sozinho no fim do mundo e não podia ter medo. Basta cantar: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim. Agora. Depois eu fui saber que eu tinha envelhecido. Leo. E tomariam as providências que se costuma tomar com os loucos: clínicas. choques elétricos. Eu sabia que se contasse aos outros do que estava vendo.) E tão fácil. O fim do mundo estava dentro de mim. Me diga agora. havia várias pessoas à minha volta. eu não estava preparado. Leo? (Apanha um vidrinho de purpurina e começa a salpicar o rosto de Leo. Então uma canção brotou do fim de mim. Quando eu olho no seu olho eu sou você e você é eu. um apartamento ou uma rua qualquer.. e eu cantei: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim. Canta comigo. eu não queria ficar sozinho. Era a solidão absoluta.Não. A maneira de vencer o fim do mundo era enchê-lo de sons e de cores.. Eu não queria ficar lá. E nunca mais ninguém me entenderia. Você não quer cantar comigo. Que aquela mancha branca era a velhice. Não tinha nada lá.E no fundo das suas pupilas eu vejo o meu próprio rosto. grades na janela. Leo. nenhuma forma. BABY — Então vou te contar uma estória que é o meu segredo. Eu precisava dar um passo além do fim do mundo. No dia em que visitei o fim do mundo nasceu uma mancha branca dentro da minha cabeça. para mim era o fim do mundo. Foi então que eu descobri o jeito de dar esse passo. Se eu tivesse medo ficaria lá para sempre. E eu venci. E sabe como era o fim do mundo? Ele era branco e liso. Mas para mim. ninguém entenderia. outra vez: você tem medo de mim? LEO . . O fim do mundo era o silêncio e o vazio. cada vez que eu volto lá eu canto essa musiquinha. Nenhuma cor. Diriam talvez que eu estava louco.

ele não vai conseguir.) — Não tenho medo. MONA (Imóvel.. Se eu pudesse catar junto com você... Baby. exceto Mona. está ficando escuro dentro de mim.. MONA (Sorrindo. JOÃO — Do que é que você está falando Mona? ROSINHA (Sempre gemendo. Leo. são eles. .) Silencio! Vocês não estão ouvindo? (Todos escutam. Quem sabe daqui a pouco eu consigo cantar junto também. Talvez bastasse qualquer coisa como chegar muito perto de você. só sorrir.... não posso. Ele está querendo ir embora... mas eu tenho medo. Se eu pudesse sentir bonito.. Seria simples. João. Canta. Eu reconheço esse barulho de máquina sobrevoando a casa. muito serena..) LEO (Estremecendo e afastando-se de Baby. Todos se aproximam. eu sei. Baby. que continua imóvel. fica tudo lindo e eu não tenho medo.) — Eu estou cheia de luz. tudo isso aqui..O que foi? ROSINHA — É ele. E muito cedo.. é ele querendo sair de dentro de mim. (Olha em volta. canta mais.LEO (Recuando. para mim é tão desconhecido e tão estranho como um sonho que ainda não tive. Ou sorrir. Qualquer coisa assim. JOÃO ... Quando você canta. ROSINHA — João.) ..... Eu tenho medo. Baby canta — até ser interrompido por um grito de Rosinha.) Vocês.. Não pare de cantar. ele está querendo sair de dentro de mim.Eu estou cheia de dor.Não tenham medo. canta para embalar o menino. MONA ..) — Eu não posso.. não. Tudo acontece no momento certo. passar a mão no teu cabelo e te chamar de amigo.. (Rosinha geme. Seria fácil. me dá tua mão.) — É a polícia! Eu sei que é a polícia! ROSINHA — Não.

você está ouvindo.) — João. Eu estou preparada para entrar na nave. manda a cuca sair de cima do telhado. é feia. Dos extraterrestres. dourada. cheios de luz... MONA (No meio da cena.BABY (Cantando. eu não sou feia. Mona? MONA — Deles. Boi. Dorme neném que a cuca já lá vem papai tá na roça. sai de cima do telhado deixa meu menino dormir sossegado. Estão bem aqui em cima agora. boi da cara preta leva esse menino que tem medo de careta. Ele não pode correr. é suja. Leo. Ele é tão pequeno que ainda não tem pernas como os outros meninos. você não ia me levar para o mar? Será que é muito longe. boi. Leo.. Eles vieram me buscar porque eu estou preparada. e não pode fugir do bicho-papão. João? Nós não íamos para o campo. E uma nave enorme. sobre o lótus de mil . João. João? Eu não podia deixar o menino assim sozinho perto daquele poço. João? Por onde eu tenho andado. João? Você deixou o menino sozinho? Eu te disse para não deixar o menino sozinho. JOÃO — Do que você está falando. Nós precisamos chegar a tempo. escuro. Eu não tenho mau cheiro. olhando para cima — como se acompanhasse rumores e movimentos no andar superior. Eles são altos. Dos discos voadores. louros. Mona levanta-se e começa a andar lentamente pela sala. Não se deve deixar os meninos pequenos como ele perto do poço.. ROSINHA (Enquanto ela fala. Aonde eu fui. Exatamente sobre minha cabeça. João. exatamente sobre o meu sétimo chakra. O único jeito de vencer a cuca é pingar uma gota d‘água na testa dela até furar. Faz três anos que eu não fumo nem como carne. o poço fundo. Ele é muito pequeno. boi. A cuca é má.) — Bicho papão... até furar. O menino vai cair lá dentro. do boi da cara preta.. mamãe em Belém. dizem que essas pessoas exalam mau cheiro. Tem o poço.. Baby.) — Agora eles estão bem em cima do telhado. Dizem que eles não se aproximam de quem come carne e de quem fuma. da cuca. A minha mãe me avisou. eu não sou suja.

onde tudo é dourado. . Me ajuda. João. Não se esqueçam disso. Esperei tanto tempo. Nada é gratuito. estou indo. Leo e Baby. Agora eu entendo. para o outro lado.. Quando você canta é como se parasse de doer. eu sei. para o alto astral. há um silêncio. justamente agora aqui. pandeiro. Baby. Baby continua cantando canções de Ninar. João está em pé. nesta noite? Tudo faz sentido. a chuva mas eu consigo ouvir mudamente a voz deles chamando pelo meu nome. São eles. a Rainha do Alto Astral. volte aqui. etc.Deixa ela ir. Ao mesmo tempo: Ouve-se um grito de Rosinha. volte aqui! ROSINHA . MONA — Eu disse que ele era a única coisa capaz de salvar o mundo. Eles vão me levar para lá. E o único jeito de vencer o fim do mundo. Um vidro nas mãos. Quando a luz volta. Eu preciso deixar vocês. JOÃO . Muito pálida. João. Eu preciso ir.. os braços estendidos acima da cabeça. tanto. imóvel.pétalas. Como é que eu podia saber que aconteceria agora. Vocês ouvem como eles me chamam? Parece o vento. Já cumpri minha missão aqui. disco-voador não existe! Você está louca. Seu manto branco está manchado de sangue. nesta casa. o último presente de Mona. Canta mais. estão ajoelhados em atitude de adoração. D6i tanto. misturado a rumor de máquina — qualquer coisa como um automóvel em alta velocidade. Não deixa ele ir embora. para depois do sol. João. (Apanha a bolsa e vai tirando se dentro alguns instrumentos musicais: flauta. Rosinha está deitada. bongo. Antes de ir embora vou deixar uma lembrança. Se ele for embora o mundo acaba. Vocês não estão sentindo a vibração? Essa luz dourada baixando devagar sobre as coisas.) Foi Baby quem me ensinou: quando tudo fica difícil a gente canta e toca.Mona. Eu . Mona. Esperei tanto tempo. um som eletrônico ou uma explosão. Black-out.

será que todo mundo enlouqueceu aqui dentro desta casa? Isso aqui está parecendo um filme de terror. ALICE — Tão ouvindo? Tá completamente pirado. meu Deus. maldito! Ahora te voy a matar con mis próprias manos! .) — Ela foi raptada por um disco-voador. tive que fazer uma força incrível para botar ele noutra.) — Finalmente te encuentro. mas o que foi que aconteceu aqui? Little-Rose. dizendo coisas.. Quando pensei que ele estava numa boa.) Mona. você está toda suja de sangue! Esse vidro. ALICE — O que? ANGEL (Entrando. (Detém se e observa os outros. avança para Alice.. Quase que se jogou pela janela. CENA 7 ALICE (Muito agitado. com uma estaca de madeira e um martelo nas maos. príncipe de las tinieblas? No te ocultes de mi. Tengo que exterminar te.Dentro do vidro uma matéria sangrenta. onde é que você tá? JOÃO (Muito calmo. Mona.. começou a correr atrás de mim com uma estaca e um martelo. Primeiro entrou numa que queria voar.) — Forças gente..) Ei. eu preciso de forças! O anjinho pirou completamente! JOÃO (Muito calmo.. A cena permanece estática até o momento em que Alice entra correndo. baixa os braços lentamente e deposita o vidro sobre a manjedoura. entrou numa que eu era um vampiro.. ANGEL (0ff) — Donde estás. Onde é que está Mona? (Chama. eu.) — O que foi que aconteceu? ALICE — O angelito portenho.

Sou Alice Cooper. Anjinho. calças compridas. sabe o que há de errado com você? E que você viu muito filme de horror. asesinos de palomas / Esclavos de la mujer. Angelito! ANGEL (Gritando. cabron! Perro de los infiernos! No quiero escuchar tus sucias palavras! ALICE . demônio! Es demasiado tarde! (Encosta a ponta da estaca no peito de Alice e ergue o martelo como se fosse desferir um golpe.) ANGEL (Declama García Lorca. vulgo Alice Cooper. Você não tinha onde dormir. não é nada disso.. Nesse momento. você é a primeira pessoas que eu conto isso.‖ Muerte a todos los vampiros maricones! ALICE — Espera aí. entra um rock pesado. assassinado por mochileiro argentino.ALICE — Segurem esse tarado! Ele quer me cravar esse negócio no coração! (Ninguém se move. eu fui legal. Forças.) .. Olha. Eis o meu segredo mais vergonhoso.. só isso. o nome com que me batizaram? E Jaime Roberto. você está entrando numa errada comigo. Você ficou influenciado.Basta de comedias. ANGEL — Callate.) — ―Maricas de todo el mundo. / abiertos en la plaza con fiebre de abanico / o emboscados en yertos paisajes de cicuta. encontrei você na praça. botas. e acende um spot sobre Carlinha Baixo-Astral.Espera aí. convidei você pra dormir aqui. perros de sus tocadores. talvez Lou Reed. Traz um charuto aceso na mão. meu Deus! Que coisa mais bagaceira. parada na porta está toda vestida de negro. Olha vou te contar um segredo que nunca contei para ninguém: sabe qual é o meu nome. o meu nome verdadeiro mesmo..) ANGEL — Carlinha Bajo-Astral! . Anjinho. já estou vendo as manchetes no jornal amanhã: Jaime Roberto. Calma. Olhe para mim.

. Hmmmm.) Acabou.Bem. (Caminha olhando em volta. acaba de salvar a minha vida. (Puxa a navalha. sei lá porque. acabou tudo.) O que é andou acontecendo por aqui? Por que é que vocês estão vestidos desse jeito? Por que é que está garota está toda manchada do sangue? LEO . Eu sou Carlinha Baixo-Astral.) — Polícia? Que polícia. não é? Tem um cheiro de King‘s Road. Mantenha distância.CARLINHA — Em carne e osso. seja você quem for.) — Tira essas mãos nojentas de cima de mim. Ou foi você mesma que bordou? CARLINHA (Agressiva.. ROSINHA — Do que é que você está falando? . Agora vou ter que passar o resto da minha vida aqui com este bando de cretinos. Talvez fosse melhor ter morrido também. já não existe mais cidade. por acaso? CARLINHA (Rindo debochada. (Joga o charuto no chão e apaga com o pé. Vocês não ouviram a explosão? Explodiu tudo. de Bibao.) Há alguém aqui que duvide disso? ALICE . Deve ser importada.Mona é a puta que os pariu.E por que você faz tantas perguntas. Não gosto que me toquem. meu santo? Não existe mais polícia. entendem? Só sobrou esta casa aqui. sorte. de Carnaby Street. TODOS — Mona! CENA 8 CARLINHA . Eu ia passando bem na hora da explosão. Tive sorte.. essa camiseta é maravilhosa. bem? Você é da polícia. não existe mais nada. boneca. Fica muito bem em você. não existem mais edifícios.. Muito Obrigado.

vísceras por toda parte. é muita loucura. está horrível lá fora. Alguém finalmente apertou o botão.. lembra? Além disso. LEO — Quer dizer que aquela explosão foi. tudo rebentado. Eu vejo e até curto em cima porque sou Carlinha Baixo-Astral.. CARLINHA — Uma explosão atômica. LEO — Mas nós vamos morrer de fome. JOÃO — Deixa de ser besta.. quero dizer. Mas não aconselho.Yo no entiendo lo que dice.) Por qué estan todos así? Que pasó? . (Para Alice. sangue.BABY — Espere aí. Gente morta. Virou cinza. como se dizia no meu tempo. transo qualquer barra . desculpe.... saia e veja com seus próprios olhos.de preferência as mais pesadas. Mas vocês. CARLINHA-Pois se você não acredita. foi. Carlinha Baixo-Astral: você está querendo dizer que. Forever. Já era.. Como em Hiroshima. tão sensíveis.. Vão fazer a sua carne descolar dos ossos e cair todinha em feridas punilantes. ROSINHA — Quer dizer que nós vamos ficar aqui para sempre. Alice. tendo nervos de aço. Aquele pão não dá nem pra um dia.. que o mundo terminou? ALICE — Terminou mesmo? Acabou? ANGEL . Vocês me parecem todos tão débeis. ALICE — Tem aquele pão que eu trouxe.. CARLINHA — Para sempríssimo. Tem as tais radiações atômicas. Mona. ANGEL . BABY — Eu não posso acreditar. Me dá um cigarro. não sei não. JOÃO — Não é possível. boneca. Você está gozando com a nossa cara. Tão paz e amor. Puf! Acabou.Que pasa? No estoy entendiendo nada.

te conozco hace mucho tiempo.Nem você? BABY . o Nepal. es que ei mundo se ha terminado. Una bombita.. Yo sé que tu especialidad es pirar la cuca de la gente. LEO . CARLINHA . ALICE — Na verdade eu não me impressiono com mais nada. ANGEL — No es possible. El Peru también se ha acabado? CARLINHA . CARLINHA . Carlinha Bajo-Astral. Yo necessito yirme hasta ei Peru.) . a Nova Guiné e o Piauí. El mundo no puede terse acabado.Eu concordo com você. ALICE . E quer saber duma coisa? Se acabou mesmo dou a maior força. desde Cochabamba.) Mas vocês não parecem muito impressionados. No lo puedo creer.. Angelito. Pode ser que desta vez dê certo. gaveta? . O Peru.. una bombita.. ALICE — Es lo que dice la chica. Nós não tínhamos mesmo nada a perder. (Olhando em volta.Quer dizer que vocês não estão apavorados? JOÃO .. Do jeito que estava só podia mesmo era acabar.Não. E falando bem claro: na minha opinião foi um asseio. Acho maravilhoso ter acabado. No es verdad.Eu tinha certeza que um dia você ia acabar concordando comigo. decepcionada. no más.. ANGEL — No creo en esta chica.Eu acho que agora a gente pode começar tudo de novo.E você.ALiCE — Lo que pasó. CARLINHA (Mais decepcionada.Se ha acabado todo. desde muy lejos.

E o primeiro da Era de Aquário. E na terceira: ―Já que estamos na merda. sei lá. que o embale‖. CARLINHA . No mínimo uns dez anos. Nós só estamos aqui porque a casa estava abandonada. . JOÃO — Ele nasceu no momento da explosão. diria que ele foi o último representante da Era de Peixes. pelo menos vamos comer uma laranja‖. esta é a quarta comunidade onde moro. Será que a Era de Aquário começa agora? CARLINHA . CARLINHA (Apontando a manjedoura.Mas não vai amanhecer mais. Parece também que é a última. Era meu filho.Nunca mais. LEO — Ele foi assassinado pela bomba.ROSINHA . Qual é o lema desta comunidade? JOÃO .. já que vamos ter que ficar aqui a vida toda. ROSINHA (Assustada. Nós só estamos esperando o amanhecer. As nuvens de radioatividade são tão densas que não vão deixar passar os raios de soi por um bom tempo. BABY — Ele nasceu morto.Eu. Se Mona estivesse aqui.O que? Nunca mais? CARLINHA (Lentamente. nas outras comunidades onde morei.) . Sabem.) . Na segunda era: ―Quem pariu Mateus. sempre tinha um lema.Nós não temos lema nenhum. Ou para morrer. chovia muito e ninguém tinha para onde ir. Nós não somos uma comunidade. Cristo morreu. gavetinha. Na primeira era: ―Passarinho que come pedrinha sabe o cu que tem‖. viva Cristo! Sabem.Esse pelo menos escolheu o momento certo para nascer.) — O que é isso aí? ROSINHA — É o Cristo da Era de Aquário..

E se não acabou. João! Eu não quero ficar no escuro! Mande ela embora. Nós estamos tranqüilos.Mas o que é que a gente pode fazer? ANGEL — Nada. Mona deixou uma lembrança. um presente. ROSINHA . ALICE — Bem. Antes de ir embora. (Apanha os instrumentos musicais e começa a distribuí-los entre as pessoas. CARLINHA . Chame Mona. Silêncio. Ela disse assim: ―Quando tudo fica difícil. De qualquer maneira nós temos que ficar aqui esperando. Eu estou lembrando duma coisa. faz vinte e três anos que estou no escuro. Ficar desesperado e arrancar os cabelos não resolve nada. que o mundo tenha acabado. Para falar a verdade.Mas esperando o quê? . confusos. LEO . Nosotros no podemos hacer nada. Não gosto dela. Solo esperar.Esperem.ROSINHA (Gritando. Se o mundo acabou mesmo nós somos o novo mundo. CARLINHA — Ela sempre sabe o que fazer pra gente ficar contente. Todos se entreolham. E a única maneira de vencer o fim do Mundo. Mas ficar dez anos no escuro? Ah.) — Ela está mentindo. tudo bem. Como é que eu posso tocar e cantar se o mundo acabou? LEO — E o que é que você vai fazer? Não há mais nada a ser feito.) CARLINHA — Para mim não. vamos convir que é chó-cante! O que é que eu vou fazer sem um spot em cima de mim? BABY — Pra mim não faz diferença.. a gente canta e toca‖.. daqui a pouco amanhece e acontece alguma coisa. JOÃO — Mona foi embora com o disco-voador.

Aparecem todos muito cansados. Que o dia amanhece. JOÃO — Então era mentira dela. Quando eu cheguei aqui. ANGEL — Se han pasado siglos y siglos. ALICE — Mas isso já faz muito tempo. até que vários spots começam a acender e fica tudo muito claro.) — Amanheceu. Foi agorinha mesmo.) . Eles vão parando de tocar. Sentam-se todos lentamente em semicírculo em tomo da manjedoura. Só isso. Não é difícil. Ninguém sabe. Começam a tocar. Ainda pouco havia nuvens. faz pouco. Tocam alguns momentos. Eu nunca fiz isso. (Carlinha hesita mas acaba aceitando o instrumento.) — Mas eu não sei tocar nem cantar. Carlinha Bajo-Astral.Amanheceu. . LEO — (Como se despertasse de repente.) — O que aconteceu? ROSINHA — (Sem emoção. Que a noite acabe. não. O mundo não acabou. CARLINHA — (Começando a ceder. Não há nuvens de radioatividade tapando o sol.) CENA 9 ROSINHA — (Sem emoção. Que tudo isso termine. O meu negócio sempre foi só pesar a barra.LEO — Sei lá. BABY— Ainda pouco? CARLINHA — É. CARLINHA — Não. Qualquer coisa. eu sei. Você inventa. CARLINHA — Eu não menti. LEO — Eu também não sei.

LEO — Você tem certeza que são mesmo dez pras sete? (Nesse momento ouvem-se batidas muito fortes na porta. Ninguém se move. Um pequeno intervalo e as batidas se repetem, cada vez mais fortes.) JOÃO — (Sem emoção.) — Estão batendo na porta. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino, trazendo ouro, incenso e mirra. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. BABY — Ou Mona. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vem nos buscar também. LEO — É a polícia. Tenho certeza que é a polícia. ANGEL — Puede ser algun vecino. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. Os monstros, com aquela pele toda verde, apodrecendo e caindo... Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. ALICE — Piração, piração, tudo piraçâo: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. (Silêncio. As batidas aumentam. Ninguém se move.) JOÃO — Seja quem for, continua batendo. CARLINHA — Alguém precisa abrir logo essa maldita porta. LEO — Eu tenho medo. ALICE — Quem abrir a porta precisa dizer alguma coisa. ROSINHA — Eu não sei o que dizer. ANGEL — Bueno, hay que abrir la puerta e decir algo, no?

(As batidas aumentam, a luz também. O ideal seria uma lâmpada de mercúrio.) BABY — (Lentamente.) — Eu acho... eu acho que a gente só pode dizer uma coisa. (As batidas aumentam mais.) BABY — Eu acho que a gente só pode dizer que nós não temos culpa. Que nenhum de nós tem culpa de nada. A única coisa que nós estamos tentando fazer é encontrar o jeito de dar um passo além do fim do mundo. (Baby começa a tocar. As batidas aumentam cada vez mais. Os outros hesitam, mas aos poucos, um por um, começam também a tocar e a cantar. O som e as palavras — o autor sugere — deveriam ser totalmente improvisados pelos atores. As batidas só cessam quando o som estiver mais ou menos definido. E a peça só termina quando os atores e/ou a platéia estiverem cansados. Ou quando alguém bater na porta avisando que amanheceu e o teatro precisa ser fechado — Por que não?)

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Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-lo em nosso grupo.

A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS

Peça em 1 ato

PERSONAGENS

SEREIA • BRUXA DE PANO • MÁGICO • ROQUE • SOLDADINHO • BAILARINA • TIÃO •SIMÃO •BASTIÃO 3 MACACOS

CENÁRIO

Um grande arco-íris ao fundo e um lago; um cartaz com letras coloridas com os dizeres: Comunidade do Arco-Íris. A cena está toda enfeitada de balões e bandeirinhas de papel como para uma festa. A Sereia está dormindo, recostada em uma das pedras do lago.

CENA 1

SEREIA — (Despertando e espreguiçando-se lentamente.) — Hmmmmmm, que sono gostoso! Sonhei umas coisas tão bonitas... (Apanha um espelho e um pente.) Meu Deus, mas estou horrorosa, toda descabelada. Daqui a pouco a festa vai começar e eu ainda nem estou pronta. (Penteia-se, muito vaidosa.) As crianças já devem estar chegando por aí. (Olha para o público.) Mas vocês já estão todas aqui dentro. (Para o público.) Desculpem, eu não tinha me dado conta, pensei que era bem mais cedo. Boa tarde, como vão vocês? Sabem, é que a gente trabalhou tanto para deixar tudo bonito que eu fiquei muito cansada e acabei pegando no sono sem querer. Já vou chamar os outros. (Para dentro.) Máááááááágico! As crianças já chegaram, está na hora de começar a festa!

CENA 2

BRUXA — (Entra correndo, muito estabanada.) — Tá na hora de começar a festa, é? (Olha em volta.) Ei, mas onde é que estão os doces e o guaraná? Ah, já sei, comeram tudo, não é? Comeram tudo e nem me avisaram... Só lembraram de me chamar depois que a festa tinha acabado. Eu sei, conheço vocês, é preconceito racial, só porque eu sou de pano e vocês de carne e osso. (Para a Sereia.) Racista! SEREIA — (Muito envergonhada por causa das crianças.) — Calma, Bruxa, não é nada disso... eu...

(Para as crianças. Você está é com inveja dos meus cabelos verdes.. as crianças já chegaram e eu estou toda desarrumada..) Meu Deus.. . não é? Conheço todos os seus truques. (Para a Sereia.. SEREIA — Você quer parar de dar vexame? Pelo menos respeite os nossos convidados. quer que todo mundo me ache horrorosa. hein? Já sei. eeeeeu? Ora. BRUXA — Vexame. SEREIA — (Conciliadora. Onde é que estão todas aquelas garrafas? Foi você que tomou tudo. já sei. BRUXA — Inveja. SEREIA — Acabado? Mas a festa ainda nem começou. às vezes ela fica um pouco atacada... é? Bem feito. pareço mesmo uma bruxa. E pare de me ofender. fique sabendo que ela era uma saia de veludo muito fina.. mas de repente olha para o público e muda de atitude... gorda.) — Olhe. vai ficar gorda como uma baleia e o Roque não vai querer mais namorar você! SEREIA — (Ofendida. sua baleia. pra mim você não passa mesmo é duma sardinha enlatada. não é de hoje que você. As crianças devem estar pensando que você é completamente louca. ouviu bem? E não fale mal da minha avó.BRUXA — Como que não é? Você sabe que eu adoro guaraná.) Por que você não disse logo. eeeeeeu? Mas logo eu? Pois olhe.) Desculpem.) . BRUXA — Atacada. Que desaforo! (Olhando-se no espelho. vá se enfeitar enquanto eu converso um pouco com as crianças.Gorda vai ficar a sua avó. (Vai começar a discutir novamente. eeeeeu? Escuta aqui.) Imagine eu. E quer saber duma coisa? Não me importo nem um pouco que a tal festa tenha acabado..

você está apaixonada pelo Roque? CENA 3 BRUXA — (Entrando toda faceira. zangada.. BRUXA — Controle-se. Posso até sair numa lista de 10 mais .) Então..... olhe as crianças! O que não vão pensar de você? (A Sereia cruza os braços. um horror. Será que. ele é meu namorado.) — Apaixonada pelo Roque..BRUXA — Tá bem. Acho que ela está apaixonada pelo Roque! Afinal..) Bruxa.) SEREIA — Que coisa mais louca. Eu acho que estou maravilhosa. (Pensa um pouco. eeeeeu? Imagina. SEREIA — (Furiosa.. eu cheguei a pensar que. Antes era tão minha amiga.. BRUXA — Pois eu não acredito. Sereia..Que bom. vocês gostam da roupa que mandei fazer especialmente para hoje? SEREIA — Eu acho horrorosa. só pode ser isso.) Vai ver que. foi depois que ele começou a me namorar que ela ficou assim agressiva.) — Ele é que está apaixonado por mim. ouviu? (Sai. Bruxinha. parece um furacão. Você está dizendo isso só pra me irritar. de sardinha enlatada. E anda tão agressiva comigo. Mas não tome todo o guaraná. Você está é com ciúmes.. me chamando de baleia. (Para dentro. com um enorme chapéu de flor e um xale coloridíssimo. claro que nâo. querida. enquanto a Bruxa dá voltas pelo palco como um manequim. BRUXA — (Maliciosa.) — Mentira..) . SEREIA — (Aliviada... claro. Melhor perguntar a ela. tá bem (saindo).

uma bruxa de pano.. Não sei bem o que é isso.) CENA 4 MÁGICO — (Entrando. menina? Por que está com essa cara de bacalhau em dia de Sexta-Feira Santa? SEREIA — (Chorosa. Acho chatíssimo. como diz mesmo? Finesse. sem a metade da sua classe. muito nervoso. é isso aí. da sua elegância. da sua. Não pensa noutra coisa. tornam a chamar.. Acho que até sonetos anda escrevendo..) Ai. Me dá um sono. sempre durmo na metade. Ou virar estrela de cinema. BRUXA — E você acreditou. BRUXA E SEREIA (juntas. meu Deus. não agüento aquelas coisas de ―neste momento solene e tal‖. a cartola na mão. Bruxa. Vocês gostam de discurso? Pois eu não. sua boba? Não vê que é só pra implicar com você? Acha que o Roque vai olhar pra mim. E você. SEREIA — Mas o discurso do Mágico não é assim.) . mas eu tinha uma tia de tafetá francês que vivia repetindo que a tal de finesse era tudo na vida. as crianças já .elegantes. SEREIA — (Mais animada.) — Mágico! Máááááááááágico! (Esperam.Quem me chamou? O que é? (Olhando o público. sem a metade da sua finesse. Ele só quer contar para as crianças como nós viemos morar aqui.) — Você acha então que ele gosta de mim? BRUXA — Ele adora você..) — Deve estar terminando o tal discurso! Imaginem que ele inventou de fazer um discurso para vocês. Está apaixonadíssimo.) — Você disse que o Roque está apaixonado por você. Cadê o Mágico? BRUXA (Para as crianças.

. começa de uma maneira muito bonita... Será que perdi? Ah. Onde é que está o meu discurso? (Revirando todos os bolsos. já sei. como é que começa esse discurso? MÁGICO — Bem. que vergonha.) Está aqui dentro. Nunca ninguém começou um discurso assim.) . MÁGICO — (Voltando a remexer na cartola.Ainda não.. As crianças já estão quase todas dormindo. (Começa a puxar outro lenço. BRUXA — Escuta.) — Nossa. SEREIA — As crianças já estão caindo de sono.E é mesmo. me diga uma coisa...‖ BRUXA — ―. alguém precisa fazer alguma coisa. com a voz embargada de emoção. que coisa mais atrapalhada.) BRUXA — Escute.) Passei a noite inteira escrevendo..) .‖ MÁGICO — (Espantado.) E vocês aí. paradas como duas patetas..Como é que você sabe? BRUXA — (Irônica.. é? SEREIA — Achou o discurso? MÁGICO . você não quer falar de improviso? Acho que é muito melhor. entre as radiosas flores deste dia primaveril. (Começa a tirar um lenço enorme. . (Remexendo na cartola. que não para de sair. Quer ver? É assim: ―Neste momento solene. Originalíssimo.estão todas aqui dentro.. BRUXA — (Ajudando o Mágico a puxar o lenço.) SEREIA — Puxa. (Para a Sereia e a Bruxa. Acho que está embaixo do segundo lenço.) — Porque é muito original. Esse lenço não tem fim.

Eu. Faz exatamente um ano que nós cansamos de morar no Reino dos Homens e resolvemos mudar para cá. o Soldadinho. Os meus primos peixes. a Sereia. Os três carregam uma faixa onde está escrito: Feliz aniversário. Agora. MÁGICO — É.. mas as bonecas também sentem igualzinho a elas. A minha dona vivia me dando comidinha e me mandando dormir numas horas completamente loucas.. e a Bailarina. (A medida que vai falando. Até que um dia a minha paciência esgotou. BRUXA — Eu estava cansada de ser mandada. com seu regador.) CENA 5 SEREIA — Eu estava cansada da poluição. impaciente. o Soldadinho e a Bailarina. coitados. aqui. estavam morrendo todos. com sua guitarra elétrica.) Uma pena. as outras personagens vão entrando: Roque. Bailarina? . é? Mas um discurso tão bonito. Vocês sabem. que toca sempre que ela se move ou fala. com a música de caixinha. moro numa lagoa limpinha e sem polui nenhuma.. essas indústrias e fábricas que vivem derramando porcarias nos rios e nos mares.MÁGICO — Vocês acham.) . que morava na mesma casa. Eu vivia suja de óleo. Algumas crianças não sabem.. para fugirmos para cá. Depois a minha dona ganhou de Natal um video game e me deixaram atirada num canto. o que o Mágico queria dizer é que hoje está fazendo justamente um ano que estamos morando aqui na Comunidade do Arco-Íris. SEREIA — (Para as crianças. Até o meu cabelo verde já estava ficando meio preto de tanta sujeira. não foi. (Puxando mais um pedaço do lenço. o Roque. Então eu convidei a Bailarina.Bem. a Bruxa de Pano.

BAILARINA — Foi sim. Nossa história até é meio parecida. No começo, eu morava em cima duma caixinha de música. Toda a vez que abriam a caixinha eu dançava, O que mais gosto é de dançar. Parece que estou voando quando danço. Quando a caixinha era nova, abriam toda a hora, e eu dançava sempre. Depois a minha dona comprou uma vitrola eletrônica com dez caixas de som e uma TV colorida. Ninguém ligava mais pra mim. Fiquei jogada num canto, embolorando. Nunca mais dancei. Até que a Bruxa de Pano me convidou para mudar para cá. Eu estou muito feliz por ter vindo. Aqui posso dançar à vontade. MÁGICO—- Eu nunca fui um mágico muito bom. Nunca consegui parar de tirar coisas da cartola. (Puxando mais um pedaço do lenço.) Vocês vêem, até hoje não aprendi direito. No circo onde eu trabalhava, às vezes até jogavam tomates, couve-flor, cenoura... BRUXA — Ué, você podia montar uma tendinha... MÁGICO — Poder, podia, não é? Mas é que a minha vocação é mesmo pra mágico. E aqui ninguém se importa se os meus lenços não acabam nunca. SEREIA — (Para Roque.) — E você, querido, por que você veio pra cá? ROQUE — Porque aqui tem natureza, não é, bicho? Tem árvore, lago, tem pedra, passarinho. Não tem a poluição que você falou. No mundo dos homens tem muito edifício, cimento, túnel, viaduto. As pessoas moram numas caixinhas apertadas chamadas apartamentos. Eu nem podia tocar minha guitarra em paz. Logo vinham uns trezentos vizinhos reclamar do barulho. Aqui não (tira um acorde bem estridente), posso tocar à vontade que ninguém reclama. SEREIA — E eu acho que você toca muito bem. BRUXA — Eu acho um barato. ROQUE — Podes crer.

SEREIA — (Para o Soldadinho.) — E você, por que você abandonou o Reino dos Homens? SOLDADINHO — Porque eu não tinha vocação nenhuma pra guerra. E lá tem guerra o tempo todo. Bombas, tanques, as pessoas se matando, um horror. O meu sonho era ser jardineiro. Aqui eu posso ter o meu regador e molhar as flores todos os dias. Melhor do que ficar matando gente por aí, não é? ROQUE — Pode crer. MÁGICO — Muito bem, muito bem. Agora vamos cantar o nosso hino. TODOS — (Cantam e dançam.) Passarinho, flor do campo, borboleta nuvem clara, céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. Se você quer conhecer a felicidade venha morar na nossa comunidade venha, venha, venha logo, não duvides venha morar na A Comunidade do Arco-Íris. BRUXA — (Interrompendo.) — Ai, uma coisa peluda tocou no meu braço! MÁGICO — Psssssiu, que falta de respeito com o nosso hino. BRUXA — Mas estou dizendo que uma coisa peluda tocou no meu braço!

SEREIA — (Para Roque.) — Isso é só pra prestarem atenção nela. Não liga não. BRUXA — De novo! E foi daqui de trás dessa pedra, agora eu vi. (Vai espiar atrás de uma pedra. Solta um grito.) TODOS — (Agitados.) — Que foi? BRUXA — (Gritando.) — Tem três coisas peludas aí atrás dessa pedra!

CENA 6

TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — (Pulando de trá da pedra e fazendo muita bagunça. Os três carregam gravadores, máquinas fotográficas, um estetoscópio, e o tempo todo gravam, fotografam e auscultam as pedras e as árvores enquanto tomam anotações.) MÁGICO — Esperem aí, silêncio! Vamos parar com essa bagunça. Quem são vocês? TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — Nós somos Tião, Simão e Bastião! Queremos entrar nesta curtição! TIÁO (Pegando no cabelo da Sereia.) — Seu cabelo é natural ou é peruca? SIMÃO (Para Roque.) — Você sabe tocar Quero que Vá Tudo Pro Inferno? BRUXA — Meu Deus, que coisa mais antiga! BASTIÃO (Para o Mágico.) — Você não quer tirar um cacho de bananas dessa cartola? MÁGICO — Silêncio, silêncio! Que é que vocês querem aqui?

OS TRÊS — Queremos ficar morando com vocês. Estamos cansados daquele horrível Reino dos Homens. TIÃO — Lá só tem poluição. SIMÃO — E apartamentos. BASTIÃO — E filas. TIÃO — E automóveis. SIMÃO — Engarrafamentos. BASTIÃO — E guerras. TIÃO — E novelas de televisão. SIMÃO — E gente apressada. BASTIÃO — E acidentes. TIÃO — É horrível. SIMÃO — É terrível. BASTIÃO - É medonho. TIÃO — É tétrico. SIMÃO — É pavoroso. BASTIÃO - É assustador. OS TRÊS — É catastrófico! (Ajoelham-se, muito dramáticos.) — Pelo amor de Deus, não nos obriguem a voltar para lá! Nós não resistiríamos muito tempo! TIÃO — Eu teria que consultar um psiquiatra. SIMÃO — Eu tentaria o suicídio. BASTIÃO — Eu ia virar um criminoso. OS TRÊS — Nós enlouqueceríamos! Tenham piedade de nós!

TIÃO — Eu sei cozinhar feijão, arroz e guisadinho. SIMÃO — Eu sei varrer, lavar prato e pôr a mesa. BASTIÃO — Eu sei costurar, pintar e bordar. OS TRÊS — Nós sabemos fazer muitíssimas coisas. Por favor, deixem-nos ficar! TIÃO — Aqui é tudo tão bonito. Eu fico doente só de pensar em ver um edifício de novo na minha frente. (Atira-se ao chão, gemendo escandalosamente.) Não me obriguem a voltar! SIMÃO — Bastião, traga os sais do Tião! Meu Deus, está tendo outra crise! Bem que o médico avisou que ele não podia ser contrariado. (Bastião traz os sais. Tião aspira e melhora um pouco.) SIMÃO confusos.) BRUXA (Muito agressiva.) — Olhem, por mim vocês podem pegar todas as suas trouxas e ir já embora. Não acredito numa única palavra de toda essa macaquice. (Tião começa a ter outro ataque. Grande agitação.) MÁGICO — Que crueldade, Bruxa. Você não tem o direito de não acreditar neles. BASTIÃO — É isso mesmo. Ela não tem o direito. BRUXA — Tenho, sim senhor. E não acredito mesmo. Vocês não me enganam com toda essa choradeira. Sinto de longe quando há malandragem. Vocês vão indo e eu já venho voltando. Por mim vocês podem dar o fora agora mesmo. SEREIA — Você não é prefeita daqui para dar ordens assim. (Para os outros personagens, que estão muito

espantados.) — Por favor, digam alguma coisa. (Todos se entreolham,

que é peixe. por favor. queremos a democracia! MÁGICO — Acho que é a solução mais honesta. BRUXA . Mas não com essa macacada. (Todos se entreolham.Bicho é a sua namorada. SOLDADINHO democrática. Vamos votar? OS TRÊS — Isso mesmo! Democracia. a Sereia bota a língua para a — Desculpe. fique sabendo. Bruxa! Então você não é democrática? BRUXA — Sou. bicho. mas eu tenho uma solução . quem achar que eles podem ficar vivendo entre nós. Vocês é que são loucos se deixarem essas coisas ficarem aqui. mas devia ser. MÁGICO — Então. E não estou louca coisíssima nenhuma. SEREIA (Escandalizada.) — Que horror. MÁGICO (Muito polido. BRUXA — Demo o quê? SOLDADINHO — De-mo-crá-ti-ca. claro que sou. Os macacos estão muito tensos. BRUXA — Pois eu me recuso. levante a mão.) — Mas em que é que você se baseia para ter essas suspeitas todas sobre a honra dos nossos amigos? BRUXA — Amigos seus. Todo mundo tem o direito de dar sua opinião. você está muito louca. Eu não sou amiga de macaco nenhum. Quem é de carne e osso como vocês não entende nada disso.BRUXA — Não sou. Então vocês não estão vendo que essa macacada aí está é fazendo fita? ROQUE — Calma. A maioria vence. E uma coisa que só as bruxas de pano têm. Depois de algum tempo. E eu me baseio sabe em quê? No meu sétimo sentido.

. gritam e beijam todo mundo. (Para o espelho. Essa macacada não vale nada. TIÃO (Para a Sereia.) OS TRÊS — Então quer dizer que podemos ficar? TODOS — Podem! (Os macacos pulam. decidida. SEREIA — Eu não posso. As vezes ela parece meia louca.) — Você acha mesmo? Eu estava me achando tão horrorosa. furiosa. (Apanha o pente e o espelho.... fazem uma grande algazarra. Um a um os outros levantam a mão..) SIMÃO — Horrorosa é aquela bruxa de pano.) MÁGICO — Muito bem.) BRUXA (Saindo. deslumbrante..) — Mas está tão lindo assim. SEREIA (Muito faceira.) CENA 7 SEREIA (Escovando o cabelo.. Preciso dar um jeito no meu cabelo.. gentil donzela. Agora vamos todos lá para dentro. Vocês vão se arrepender amargamente. tão finos.. tiram fotos. disseram que eu estava belíssima. dançam.) Gentil donzela. Não sei o que a Bruxa foi achar neles para implicar tanto. tão bem-educados. Os macacos vão fazendo grandes reverências à Sereia.) — Uns rapazes tão gentis. Preciso dar algumas instruções a vocês antes da festa começar. (Saem todos.) — Não se esqueçam de que eu avisei. BASTIÃO — Deslumbrante. Menos a Bruxa.Bruxa e levanta a mão. (Sai.. O meu sétimo sentido nunca me enganou. Você está belíssima. que lindo! . Um deles até me chamou de gentil donzela. .

muito agitado. a Fada dos Sete Mares.) Ué. Estavam bem aqui... até apagar completamente.. Já procurei por tudo e não consigo encontrar. vou dar um jeitinho no meu cabelo.) — Parece que todo mundo enlouqueceu por aqui. Não posso perder aquele espelho. Será que foi a Bruxa que pegou? Ela vive pegando as minhas coisas. CENA 9 MÁGICO (Entra correndo.. (Procura mais. Música suave.. (Para a platéia. em cima desta pedra.) Com licença. que lindo.. Depois volta o silêncio.. no dia em que fiz quinze anos. E o único pente no mundo capaz de pentear cabelos verdes como os meus. (A luz vai enfraquecendo aos poucos. Sumiu a minha cartola. Um pente de ouro e um espelho com moldura também de ouro. (Procura o espelho e o pente. Gentil donzela.) Será que alguém pegou? Vocês não viram nada? (Nervosíssima. tinha certeza que estavam aqui.) CENA 8 SEREIA (Despertando. A Sereia adormeceu. foram presentes de minha madrinha.O Roque nunca me disse nada assim.) — Sereia. onde estão o meu espelho e o meu pente? Gozado. aconteceu uma coisa muito estranha. Daqui a pouco começa a festa e o que o meu namorado Roque vai dizer? Que coisa mais estranha..) Será que alguém pegou? Não posso ficar assim descabelada. No escuro ouvem-se alguns ruídos abafados. como se alguém estivesse lutando. ...

que vem entrando. Tinha deixado aqui em cima desta pedra.) — Pois é. MÁGICO (Procurando pelo palco. Sabe o que a Fada dos Sete Mares me disse no dia em que me deu o presente? Que quando eu perdesse o pente e o espelho o meu cabelo ia começar a ficar preto.) . na hora da festa. Sinto qualquer coisa preta na minha . bicho.) — E você não viu minha guitarra por aí? SEREIA — Roque. chamar as crianças para ajudar. Vocês já viram um mágico sem cartola? SEREIA — Isso não é nada. mas que coisa triste. Pior é uma sereia sem pente nem espelho. também procurando alguma coisa. Não tô sacando qual é.) Nossos objetos não podem desaparecer assim. (Leva as mãos à cabeça. Você por acaso não a viu por aí? Que grilo! Logo agora. ROQUE (Procurando. você não viu minha cartola por aí? ROQUE (Ao mesmo tempo.SEREIA — Sua cartola. acho que já está ficando.. (Vai andando de costas e dá um encontrão em Roque.) — Que estranho.. A guitarra tá sempre comigo. Roque. não me diga que a sua guitarra também desapareceu. Mágico. dormi um pouquinho e agora fui procurar e não achei. (Os três podem improvisar. apavorada.... procurar pela platéia..Essa não.. Logo a minha cartola..) Ah.) MÁGICO (Desanimado. CENA 10 MÁGICO — Ei. Eu estou justamente procurando o meu pente e o meu espelho de ouro.

. Está todo mundo aqui? ROQUE — Faltam os macacos. Ai. Daqui a pouco pinta o pente e o teu espelho. meu bem. SOLDADINHO — O meu regador também! (Todos olham para ele e a Bailarina..) E desapareceu também a chave de dar corda na Bailarina. SOLDADINHO — Mas isso não é possível! Precisamos fazer alguma coisa. SOLDADINHO (Entra correndo com a Bailarina pela mão. Ela só fala quando aquela musiquinha toca. bicho! SEREIA — E a Bruxa de Pano! Aposto como ela está metida nisso.) Ela não vai mais poder dançar nem falar. (A Bailarina corre a abraçar-se à Sereia. que horror! Vou ser a única sereia do mundo com o cabelo preto! (Começa a chorar.) ROQUE (Consolando-a.) Gente.) . Vamos fazer uma reunião geral imediatamente..) . . Que bela comunidade vai ficar a nossa: uma sereia morena. calma.. SEREIA (Consolando a Bailarina.. ninguém sai. Agora ficou muda.Não chore.Calma.cabeça.) Em vista da gravidade dos últimos acontecimentos. vocês não sabem o que aconteceu! MÁGICO — Claro que sei: nossos objetos de estimação desapareceram. fica decretado o estado de sítio na Comunidade do Arco-Íris: ninguém entra. uma bailarina muda que não pode dançar. um soldadinho sem regador. um mágico sem cartola e um roqueiro sem guitarra. bicho. MÁGICO — (Subindo numa pedra. soluçando. que faz gestos como se tentasse expressar-se por mímica..

nem do abacate.Roubo? BASTIÃO . isso agora não tem importância. Uma coisa terrível. (Em tom discursivo. MÁGICO — Calma.) Tião. então se não foi isso. Simão! TIÃO — Aconteceu alguma coisa? SEREIA — Ei. SOLDADINHO (Com voz cavernosa.) . horripilante e inconcebível. bicho.. Não consigo imaginar nada mais terrível. Eu vi. nem do abacaxi. MÁGICO — É.) — Eu não. TIÃO — Bem....Furto? SIMÃO — Afanação? . SEREIA — Estavam. SIMÃO — Já sei! Subiu o preço da banana! (Os três têm uma crise histérica e se jogam ao chão. que nos desgosta pro-fun-da-mente. sim. calma. ROQUE — Deixa pra lá.) Senhores macacos: aconteceu urna coisa muito séria.Roubo! TIÃO . inconcebível. horrível.) BASTIÃO — Que desgraça! Vamos morrer de fome ROQUE — Não é nada disso.MÁGICO — Onde é que andam aqueles macacos? (Chamando. bicho. Não subiu o preço nem da banana. vocês estavam comendo os doces antes da festa! TIÃO (Disfarçando. gritando. Uma coisa que nunca havia acontecido antes na nossa comunidade. Bastião.

TIÃO — Então por que é que ela não está aqui. Um pouco. uma criatura desnaturada. Os macacos cochicham entre si por um instante... senhores. SEREIA — E o meu pente e o meu espelho de ouro. Nós sabemos quem foi.) TIÃO — Um momento. SIMÃO — Foi uma pessoa que não está presente.. TIÃO — Com um chapéu de flores. SOLDADINHO — E o meu regador. SIMÃO — E infame. bem. E a chave de dar corda à Bailarina. agora? ROQUE — Ela saiu daqui trigrilada! SIMÃO — E antes de sair disse que vocês todos iam se arrepender amargamente. mas jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas. bicho. A Bruxa sempre foi uma criatura de bons sentimentos. BASTIÃO — Uma criatura de pano.. um pouco atacada de vez em quando. BASTIÃO — Uma criatura desnaturada. ROQUE — E a minha guitarra. SIMÃO — E um xale muito colorido. Enquanto nós nos preparávamos para a festa. (Todos se lamentam. TIÃO — Vil.. vil e infame cometeu um nefasto crime: roubou a minha cartola. SEREIA — A Bruxa de Pano? MACACOS — Ela mesma! Ela mesma! MÁGICO — Não acredito.. Agora ela não pode mais falar nem dançar. .MÁGICO — Sim.

TIÃO — Eu. (Grande agitação. SEREIA — Mas todas as provas são contra ela. Simão e Bastião vamos aqui pela esquerda.) . MÁGICO — Está certo. Eu não sei o que fazer.BASTIÃO — Está tudo muito claro: ela ficou zangada porque não queria que nós ficássemos aqui e resolveu se vingar.Está bem. não! MÁGICO — Mas por que não? Acho que é o único jeito de encontrarmos as nossas coisas. já que vocês insistem. Não entendo por que é que vocês não querem. MACACOS — Está na cara que foi ela. MÁGICO — Isso é muito grave. SEREIA — E nós? . SEREIA — Também acho. TIÃO (Muito nervoso. SEREIA — Uma o que? SOLDADINHO — Uma expedição de busca: dividimos as pessoas em dois grupos e saímos a procurar a Bruxa. Eu. MÁGICO — Não posso acreditar.) — Não! Isso não! SIMÃO e BASTIÃO (Em coro.) SOLDADINHO — Tenho uma idéia: acho que a gente deve fazer uma expedição de busca. MACACOS (Cochichando.) .Não. muito nervosos. Todos se consultam e falam ao mesmo tempo. o Soldadinho e o Roque vamos pela direita.

Cuide bem da bailarina. (Olha para a Bailarina... BAILARINA (Dançando. Segure ela.) — Eu sabia. Que papelão! Uma ladra.) Aqui está a chave de sua musiquinha. . (Saem. (Saem. SEREIA — Você? Como é que você tem coragem de voltar aqui depois do que fez? (Gritando. com uma clave de sol como fivela. Bruxinha..) Bailarina.. Quem diria. (Abrindo a bolsa . que parecia tão nossa amiga. As mulheres sempre ficam em casa esperando. dona Bailarina. a Bruxa de Pano. como as pessoas podem nos enganar. Ambas choram e torcem as mãos. faça alguma coisa. suas bobalhonas.) CENA 11 SEREIA — E agora..) BRUXA — Então vocês estão pensando que fui eu quem roubou todos aqueles cacarecos? Deixem de frescura. Bailarina. muito contente. Nos momentos difíceis os homens é que saem por aí. choramingando e torcendo as mãos. meu Deus? Às vezes me dá uma raiva de ser mulher. dona Sereia.a musiquinha da Bailarina pode ser um cinto em forma de pauta musical. e aqui estão o seu pente e o seu espelho de ouro. não está vendo que eu não posso sair do lago? (Bailarina corre e segura a Bruxa. eu sabia que você não faria uma coisa dessas..) Veja só.) — Ladra? Ladra é a excelentíssima senhora sua avó.) SOLDADINHO . E logo no dia de nosso aniversário. uma ladra. fique sabendo.TIÃO (Com uma reverencia.. BRUXA (Aparecendo de repente com uma bolsa cheia de coisas..) — As damas ficam esperando.

. Mas acho que vem gente por aí. O meu sétimo sentido nunca me enganou. . BRUXA — Pois eu vou contar direitinho pra vocês. BAILARINA — Mas não entendo por que eles fariam uma coisa dessas. Vamos desmascarar aqueles três.. Não sei como não perceberam desde o início. Bem que eu avisei. nem o Soldadinho..) — Foi inútil. nem eu. (Desce para a platéia. suas tontas. BASTIÃO — A essa hora ela deve andar longe. nem a Sereia. E melhor eu me esconder no meio das crianças..SEREIA (Penteando-se...... Vocês façam de conta que não sabem de nada. felicíssima.) . Foi assim (barulho fora de cena). mas se não foi você.Mas. Não conseguimos encontrar a criminosa.) CENA 12 TIÃO (Entrando. BRUXA — Então? SEREIA e BAILARINA — Os macacos! BRUXA — Claro. nem o Roque. BAILARINA — Se não foi você. SIMÃO — Deve ter tomado o primeiro trem para bem longe daqui. então quem foi? BRUXA — Adivinhe... SEREIA — Nem o Mágico. então..

(A Bailairina começa a dançar. quero dizer.) BASTIÃO (Cutucando Simão..) — A Sereia está penteando o cabelo! BASTIÃO — Companheiros.) — Simão. Se ela está dançando de novo é porque..TIÃO (Fazendo uma reverência para a Bailarina. ela está dançando novamente! SIMÃO — E o que tem isso? Ela não é uma bailarina? TIÃO (Muito nervoso. SIMÃO (Gritando. (Pode improvisar uma correria com as crianças atrás dos três macacos. BRUXA — Vocês vão ficar aí parados enquanto esse monstro me ofende? Crianças. mas nós.) — Mas a senhorita. sua. dona Bailarina. a Bruxa de Pano tinha roubado a musiquinha dela.) . eeeeu? Ladrão é você... volver (Preparam-se para fugir.) — Segura a macacada! Ladrões.. sua. acho que está na hora de darmos o fora. com um ar tão satisfeito O que foi que houve com a Bailarina? Nem parece uma Bailarina sem música. sua fera peluda! BASTIÃO — Fera peluda é a sua avó.) — Ladra. até apanhá-los.. mentirosos! TIÃO — A ladra voltou! Segurem a Bruxa! BRUXA (Subindo ao palco... lentamente.) BRUXA (Da platéia. Meia-volta.Sim.. vamos pegar a macacada..) CENA 13 . veja. colcha de retalhos.

MÁGICO (Para Tião. tiraram os disfarces de macacos e começaram a planejar o roubo das coisas de vocês.) — Isso é verdade TIÃO (Muito humilde. Surge um homem de terno e gravata. E tenho uma surpresa para vocês. E um homem mau-caráter. Roque. Bastião e Simão se esgueiram de mansinho. Eu fiquei tão nervosa que escorreguei da árvore e caí bem em cima de um deles.É. com a tal de democracia. Para a Sereia. (Avança para Tião. é um homem! BRUXA — É. eles estão fugindo! (Roque e Soldadinho conseguem apanhar Bastião e Simão.) — Mas o que é que está acontecendo por aqui? BRUXA — O que está acontecendo. Aí eles me deixaram lá. Mas estavam com tanta pressa que não amarraram direito. com Soldadinho e Roque. Fiquei em cima duma árvore espiando. MÁGICO — Bruxa. senhoras e senhores. E sabem quem eles são? São espiões! Isso mesmo: três espiões do Reino dos Homens! Foram enviados para acabar com a nossa comunidade.) SEREIA — Meu Deus.MÁGICO (Entrando. ninguém está entendendo nada. Eles foram para a beira do rio. E os outros dois também. para a Bailarina:) Senhoritas. Você quer fazer o favor de explicar? BRUXA — É muito simples. eu resolvi ir atrás deles para ver se descobria alguma coisa. Depois que vocês decidiram que eles podiam ficar morando aqui. querem ter a honra de desmascarar esses malandros? (Elas puxam os fechos e aparecem mais dois homens.) . sim. . é que nós acabamos de prender os ladrões. ainda por cima. eu consegui me desamarrar e vim correndo para cá.) Fiquem sabendo que com a Bruxa de Pano ninguém brinca. amarrada. que resiste até que a Bruxa consiga abrir um zíper na roupa de macaco.

SIMÃO — Mas agora nós gostamos daqui. todos constroem as suas casas. TIÃO — Os apartamentos. BASTIÃO — As guerras. Tem gente com medo de que esse modo de vida chegue a cidade. TIÃO — Para os ônibus. até todo mundo voltar para a cidade. BASTIÃO — Nós queríamos que vocês começassem a brigar entre vocês mesmos. TIÃO — É que todo mundo anda falando que vocês vivem de um modo diferente. Por favor. SIMÃO — O custo de vida.MÁGICO — Mas por que os homens querem acabar com a nossa comunidade? Nós não estamos fazendo mal para ninguém. TIÃO — A televisão. fazem as suas roupas. Nos deram ordem de fotografar e gravar tudo. BASTIÃO — Os automóveis. deixem-nos ficar! . BASTIÃO — Que aqui o trabalho é dividido entre todos. comem o que plantam. não nos obriguem a voltar para lá. OS TRÊS — Por favor. SIMÃO — E as pessoas vivem bem e são felizes. SIMÃO — As ruas cheias de gente. TIÃO — Fomos enviados para impedir que isso aconteça. BASTIÃO — O barulho da televisão. SIMÃO — O barulho dos automóveis.

OS TRÊS — Por favor. Nós estamos batalhando e mesmo assim pintam grilos! BAILARINA — Afinal. Parecem mesmo arrependidos. SEREIA — Coitados. mas não pensem que aqui tudo é fácil. BASTIÃO — Eu quero tomar banho de rio.) — Quem sabe a gente usa outra vez a . Lá os passarinhos estão quase todos engaiolados. TIÃO — Eu quero pisar descalço na grama. BRUXA (Indecisa. procurando juntos um modo de viver melhor. E perdoar é uma coisa muito bonita. (Aqui os atores improvisam uma pequena votação com a platéia. Lá todos os rios estão poluídos. Bruxa? TIÃO — Bruxinha. MÁGICO — Eu acho que eles devem ser perdoados. É horrível lá na cidade. Quem acha que eles devem ficar levanta a mão. ROQUE — É. SOLDADINHO democracia? BAILARINA — Como assim? SOLDADINHO — Vamos fazer uma votação com as crianças. Lá é proibido pisar na grama.SIMÃO — Eu quero ouvir os passarinhos cantarem livremente. nós estamos arrependidos. A maioria vence. Acho que o melhor seria mandálos de volta para lá.. por favor! MÁGICO — Mas o que vocês fizeram não foi legal! O que é que você acha. estamos buscando.) — Não sei. que decide se os macacos ficam ou não. por favor.

basta a canção para finalizar A Comunidade do Arco-Íris. venha logo. (Vai entregando a guitarra. balões. céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. venha. Não falei que tinha um sétimo sentido? SOLDADINHO — Viva a Comunidade do Arco-Íris! TODOS (Cantam. querida.) SEREIA — Bruxa. com as crianças subindo ao palco e os atores oferecendo doces. Na impossibilidade disso. flor do campo.) — Acho que agora podemos começar a festa. morar na Comunidade do Arco-Íris.) .) Passarinho. BRUXA — É pra você ver. Se você quer conhecer a felicidade venha. não duvides. bebidas. quero lhe pedir desculpas por ter pensado tão mal de você.BRUXA (Abrindo a bolsa. (O final deveria ser uma festa. venha morar na nossa comunidade venha. borboleta nuvem clara. a cartola e o regador.

. que me fez escrever e me ajuda a viver.ZONA CONTAMINADA Comédia negra em 1 Ato Para Scarlet Moon de Chevalier. com gratidão e amizade.

homem de idade indefinida. mas o oposto dela. musselina. um tanto gótica (meio morta-viva). cravo vermelho na lapela. seda. luvas brancas. decidida. De qualquer forma. enriçados. talvez chapéu estilo cowboy. esvoaçantes — tule. rude. cartucheiras tramadas no peito. . cantil. quase um clown. seu visual deve dar a idéia exata do que ela fundamentalmente é: uma guerreira. Imagino-a com roupas de guerrilheira. MR. cabelos que imagino longos sempre soltos. irmã de Vera. Visual um tanto pré-rafaelita. Talvez use coroas de flores. Maquiagem muito branca. CARMEM. descoloridos. um fuzil. Roupas leves. NOSTÁLGIO. pulseiras. Oxum de frente. cabelos muito curtos. Mas também a imagino toda de couro negro. Anda descalça. Forte. mais ou menos da mesma idade. entre 25/35 anos.PERSONAGENS VERA. Iansâ de frente.

CENÁRIO Basicamente. há coroas de flores metálicas. Obalua. mas acho que seria ótimo. Entre escombros.) Algumas de suas intervenções estão sugeridas no texto. Imagino que fala às vezes com sotaque lusitano. bermudão. dança e se agita muito. J. Forte e musculoso. Pode também usar roupas no estilo grunge (boné virado. Também pode ser feito por uma atriz. atotô! (―Livrai-nos de nossas chagas!. CORO DOS CONTAMINADOS. Está coberto de trapos que deixam entrever nesgas de carne. ex-votos. bem animal. homens e mulheres — cobertos de farrapos e chagas. Satã. músculos. sempre coreografados. como um rapper —. de qualquer idade. quanto fantasias tipo Chacrinha. E da maior importância que passe uma impressão de irresistível sensualidade. Talvez tenha um auto-falante e um walk-man. Tudo pode ser apenas sugerido. é um D. desta longa miséria!‖. quem sabe também muitos bottons.) ou eventualmente algum mote tipo: Atotô. mas castigado. Eles geralmente acompanham as emissões de Nostradamus. Enquanto fala — talvez ritmadamente. mas também podem participar de outras ações. talvez polainas e uma bengala. gostosíssimo. NOSTRADAMUS PEREIRA. caixões. Fica a critério do diretor. tralhas do gênero. por volta de 30 anos. limita-se ao refrão das Litânias de Satã. HOMEM DE CALMARITÁ. mas o diretor é livre para criar outras e também para eliminá-las. o interior de uma loja funerária que sofreu um incêndio.smoking impecável. . fica a critério do diretor incluí-lo ou não. Compadecei-vos de nossas feridas!‖. Seu texto. pelos. como um coral. de Baudelaire (―Tem piedade. portanto. camisetona). Imagino alguns bailarinos — uns cinco ou mais. mas é fundamental pelo menos um caixão à vista (a cama de Carmem). multo agitado.

Há ainda um quarto espaço — o Plano Mídia — onde fica Nostradamus Pereira. Imagino-o completamente branco. sempre seguidos pelo Coro dos Contaminados (se houver. flores carnívoras. Noutro canto. Mr. ou violeta — mas de qualquer forma. Zona Contaminada em nenhum momento se pretende um texto pronto. fica o Plano da Nostalgia. Nostradamus move-se por todo o palco. Dependendo das possibilidades do palco e do diretor. Nesse caso. muito chique. 2. é nele que acontece a maior parte da ação.Esse espaço pode ser chamado Plano Real. de cor contrastante com Plano anterior. As citadas são apenas sugestões do autor. O diretor fica livre para pirar. com várias cenas acontecendo simultânea e vertiginosamente. ou preto. sobretudo o de Nostradamus Pereira. Nostálgio é muito. do espaço disponível. Nostradamus Pereira intercala música em seu texto.). ou um espetáculo alucinado. os vários Planos podem ficar fora do palco. Penso em sépia ou bege. Depende do diretor. ou um biombo recoberto de papel de parede estilo inglês. vírus (dá-lhe HIV!) ampliados. Em nível diferente. que faz backing-vocal e repete como um eco coisas que ele diz. Também quero deixar bem claro que o texto está aberto às improvisações dos atores. passando pela Talidomida. se o diretor quiser também uma mesinha com abajur art-nouveau em cima. *•* Outras indicações/sugestões: 1.). invade todos os espaços. ou num canto do palco (penso nele um pouco mais alto. da produção. 3. uma cadeira de balanço ou recamier. Enfim. Há nele uma poltrona bergère. montanhas de lixos. mais alto. . Pode ser tanto uma comédia de humor negro. explosões nucleares (um bom cogumelo atômico). modesta. etc. da mesma maneira que o anterior. No Plano Mídia pode haver um telão. esse plano pode ser um praticável levadiço ou nem sequer existir. fica o Plano Alfa. dos horrores dos campos de concentração nazistas. Nesse caso. exibindo eventualmente cenas de Grande Catástrofe ou ruas desertas. o espectador ficaria cercado pelo espetáculo. Dependendo do tipo de teatro.

(Subitamente para. exatamente como se amanhecesse. cujo som a platéia não ouve.) Quem está aí? Tem alguém aí? (A parte. apalpa os mamilos como numa masturbação não exclusivamente genital. Eu quero ficar todo melado dentro de ti. a luz vai crescendo lentíssimamente. Bem fundo. No Plano Alfa. Assim. Com os dedos. como antigamente.CENA 1 Palco totalmente escuro. Aos poucos. geme. Em voz baixa. mata a minha sede que já dura há tantos anos. Nada se vê. Mais para a esquerda. estilo nostálgico. me morde. Como antes da Grande Peste. e fica imóvel. me rasga. sentado em sua bergère. põe a tua língua aqui.Ah vem. com os dedos. mata a minha sede. CENA 2 HOMEM DE CALMARITÁ (Continuando a acariciar-se. Nostradamus Pereira dança loucamente com um walk-man. Aqui. por favor. Por piedade. como se ouvisse ruídos.) . num canto. Ele acaricia sensualmente o próprio corpo. No Plano da Nostalgia. deve ser algum contaminado. magnífico e seminu esta o Homem de Calmaritá. E me toca. (Procura com os olhos. passa a mão entre as coxas. me arranha. No Plano Mídia. Preciso me esconder. No Plano Real. dobra-se todo de cócoras. como se dormisse. continua a treva.) . ou abanando-se suavemente com um leque.) Maldição.

.. ameaçadora. contaminada dos infernos. Luz somente nas mãos enluvadas do Homem. O Homem a amarra pelos pulsos e tornozelos.) Sai daí. Deixa ver essa carinha.) — Me larga.. VERA (Debatendo-se. Tão bom. meu bem.) — Quem está aí? Tem alguém aí? (Procura. deitada num sleeping-bag. eu não estou contaminada! Não me toca. aumenta no Plano Real. verme do Apocalipse! HOMEM DE CALMARITÁ (Saltando sobre Vera.) . Não acredito em você Preciso salvar a minha pele.) Maldição. A medida então que a luz diminui no Plano Alfa.. Ergue as mãos para o alto. besta imunda! Mostra tua cara purulenta. que continua a gritar e a debater-se. É um estupro.) CENA 3 VERA (Espreguiçando-se. Aqui esta minha cara. Nossa..Todos dizem a mesma coisa. HOMEM — Sinto muito.) Essa barriguinha. outra vez aquele sonho. Droga. não tem nenhuma mancha. Vai ter que ser do jeito mais prudente. O Homem então tira um par de luvas de borracha de algum lugar..Aqui. falando alto.) .. (Aos gritos. isso não prova nada. No começo não se nota nada.. Vera debate-se como pode. não me passa a tua peste. tempo suficiente para que Vera saia debaixo dele e desça para o Plano Real.) — Amanheceu outra vez. A Peste deve estar em seus estágios iniciais.VERA (Entrando. veste-as e começa a lubrificá-las lentamente. Preciso matá-lo. domina-a. Deixa ver esses peitos. amordaça-a — tudo com trapos que arranca da própria roupa. é verdade. deve ser algum contaminado. me deixa. (Vera continua a gritar. Bom. Nenhuma ferida. parece perfeita. (Rasga a roupa de Vera. o fuzil nas mãos.. olha bem. HOMEM (Joga-a no chão. então. eu não quero. Hum. VERA — Eu estou perfeita! Me larga. Ah.

como arde. todo dia a mesma coisa. parece um buraco fundo. CARMEM — Era uma vez uma irmãzinha que acordava todo dia num mau-humor horroroso. Depois aperta a garganta e seca na boca. CARMEM — Sei.. sul! Bom dia. sei. por trás das nuvens. Nunca sei qual o mais forte.) Amolece. cantarola. Que tal um cafezinho bem quentinho e uma geleiazinha de moranguinhos num pãozinho bem fresquinho para adoçar o nosso diazinho que começa a tão azedinho? VERA — Ai Carmenzinha. arde tanto. Nunca sei o que acontece primeiro. arde tanto. deve continuar existindo aquele mesmo sol. De alguma forma. (Apalpa o sexo. Tão duro. Mas depois de um bom café qualquer um muda de idéia.que homem. CARMEM (Abrindo a tampa de um caixão de defunto. subindo. rijos.) Faz uma volta redonda. amarelo. Imenso. CARMEM (Saindo do caixão. subindo devagar. quente. Dois pregos fincados no espaço.. em algum lugar do infinito. eu odeio estar viva aqui e agora. Depois arde. sei. Como areia. Então arde. Tão forte. como você é idiotinha. sol! VERA — Não existe mais sol. Verinha. Ainda bem que estou acostumada. VERA — Aqui e agora.. VERA — Tão quente que faz a pele da gente ficar cheia de feridas que não cicatrizam nunca. As nuvens radioativas cobriram tudo..) — Imagina. A fome começa aqui (apalpa o estômago). até deixá-los duros. sal! Bom dia. . (Acaricia os seios. alegria! Bom dia. meu bem. Verinha. desde criança. E vai subindo. O tesão começa aqui. Você continua a mesma. redondo. de pedra. umedece. dia! Bom dia.) — Bom dia. bem nos bicos dos meus seios. Fome e tesão. como arde. devagarinho. entorpece e vai subindo também. Tesão e fome.

mas eu não digo nada. CARMEM (Bem british. querida.I beg your pardon? VERA (Soletrando. O que aconteceu? VERA — Você come demais. e que nós estávamos perdidas. madame! Une baguette de campagne. Supermercado abandonado é o que não falta.) — Você pensa muita bobagem. o que é pior. anchovas daquele supermercado chiquérrimo. Kapput. CARMEM — Não é possível.) Tudo bem. Você demorou horas. Já olhou a sua bunda? (Pega o fuzil. Podem me matar. ou me contaminar. a última vez foi horrível. s‘il vous plat! Merci o beaucoup. Necas de pitibiriba. vou sair pra buscar mais. Salmão.) — Então. VERA (Cortando. Nem um grão-de-bico. e que logo viriam me pegar também. CARMEM — Deus me livre. CARMEM — Não quero ficar sozinha aqui. belle journée! VERA — Nem baguete nem salete: os víveres acabaram. CARMEM — Mas a semana passada você trouxe tanta coisa. caviar. . VERA — Não ficou picas. e que. CARMEM — Você vai me deixar outra vez sozinha aqui? Ah.) .CARMEM (Fingindo não ouvir. o que é que temos para o nosso petit dejéneur? Bon jour. Afinal.) — A-ca-ba-ram. Vera. cheguei até a pensar que eles tinham apanhado você. VERA — Então vem comigo. você sabe perfeitamente que se eles me pegarem eu não vou dizer nada. O rango c‘est fini.

Você só sente o cheiro. VERA — Laboratório? Só se for de cientista louca. As ruas.. aquele cheiro podre perdido no meio dos destroços. como você é tola. você sabe. só da gente ver? VERA — Mas você não v quase nada. podridão: foi isso o que sobrou. cheios de pus. VERA — Os contaminados.. Eu tenho medo.. Pois eu estou tentando me acostumar com a idéia da vida.. Carmem. Um cheiro adocicado de lixo. A idéia da morte. Não adianta nada tapar o nariz. enquanto você fica aí no bem bom. fedendo. CARMEM — Pois é. para mim já bastou. Ninguém resiste muito tempo. Amontoados no chão. E assim uma espécie de. devem sofrer tanto. E além disso você sabe muito bem que só estou tentando me acostumar com a idéia da morte. Ele é todo acetinado. aquelas pessoas. CARMEM — Pobrezinhos.. só uma vez. Aquele cheiro fura qualquer pano.. Ruína. meu bem. Ou do que sobrou dela. Da última vez só vi uns dois ou três escondidos num beco. Um cheiro nojento. Não dói. as ruas estão cheias daquelas pessoas. delirando dentro desse caixão medonho? CARMEM — Não fale assim do meu caixão. Não quero nem dizer o nome. Não existe nada mais morto do que as coisas lá do lado de fora. Vem comigo. você sabe. VERA — Mas não tem quase mais nenhum deles vivos. enrolados nuns trapos. CARMEM — Eu já vi o suficiente. eu não quero ver. laboratório. Ou o que restou da cidade. Por que é que tem que ser sempre eu. CARMEM — Para mim é. . penetrante. Empesta tudo. Vamos ver a cidade. VERA — O horror nunca é suficiente. Pareciam uns cães sarnentos. atravessa qualquer parede.VERA — Por que? Vamos nós duas juntas.

mais nados têm horror à luz do sol. viscoso. É pecado. não era assim que se dizia nos livros? Graças a Deus.CARMEM (Fingindo não ouvir.) CARMEM (Apanhando o pão. eu tenho fé que Ele não vai nos abandonar.Que lindo! Uma côdea. duro. Na verdade. qualquer coisa. irmã! VERA — Sol? Tem razão.) . quando digo ―sol‖.Um figo seco. VERA — Como se a gente fosse rato.) . VERA — Já abandonou. . VERA — É melhor eu ir andando. inclusive nós. Esse mormaço branco. (Atira-o para Carmem.) — Tem esse resto de pão. CARMEM — Quer um pedacinho? VERA — Pão velho. A luz diabólica que mata todas as malditas criaturas que insistem em continuar vivas. Quanto mais cedo. seco. Estou com tanta fome. duas ratazanas famintas enfiadas nesta toca imunda. Não ficou mesmo nada por aí? VERA (Tirando um pão do bolso. honey. que rói a pele da gente. CARMEM — Não fale assim do corpo de Cristo. Eu e você. CARMEM — Mas você mesma disse que não tem mais sol. Foi só o que sobrou. um biscoito. CARMEM — Não fale assim do nosso lar. eu quero dizer o sapo do inferno que ainda conseguem furar as nuvens de chumbo. É sacrilégio.

garantindo ter informaçoes fresquinhas sobre o paradeiro das Sisters Salvadoras. CARMEM — Se Deus quiser. é lero: Bom dia. em sua primeira transmissão de hoje. as fugitivas estariam ocultas num porão ao sul do Boulevard Césio 90. Carmem com o pedaço de pão estendido para Vera. onde está Nostradamus Pereira. ação! VERA — Saco. E atenção. é zero. Batalhões armados até os dentes cercaram a área.CENA 4 Nesse momento entra um ruído eletrônico fortíssimo. serve Vera. Onde foi que eu deixei? Estava aqui. da sua. NOSTRADAMUS — E é cinco. E dois. É quatro. lá vem os bois.) Está muito frio. porta-voz oficial do Comissariado do Poder Central. querida? . É três. Carmem e Vera estatizam. (Encontra uma garrafa térmica. irmãzinha. no meio daquela pilha de Vanity Fair que você trouxe outro dia. Vera com o fuzil.) Acho que aqui ainda deve ter um pouco daquele café de ontem. Segundo ele. (Tentando mudar de assunto. um brinco. Eles não vão nos encontrar nunca. Mais tarde constatou-se — ouça! ouça! — estar o Sobrevivente 2001 de tal sofrendo das terríveis alucinações características do Estágio D da contaminação. muita atenção! Durante a madrugada passada o sobrevivente identificado pelo número 200 1-KBeta-S-B-03 procurou o Centro de Denúncias da minha. ao alvorecer da manhã do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste. mas as duas Sisters não foram localizadas. da nossa Zona Contaminada. Sempre a mesma história. queridos sobreviventes da Grande Catástrofe! Aqui quem fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. virou freguês. Luz sobre o Plano Mídia. Conte à mina. que simulacro. E um. atenção. um bum.

será regiamente recompensada pelo Poder Central. as Sisters Salvadoras. Toda a cidade está cercada.VERA — Frio. e portanto as únicas mulheres vivas capazes de evitar. (Volta o ruído eletrônico enquanto a voz de Nostradamus vai desaparecendo. E agora fiquem com outro hit dos velhos bons tempos anteriores à Grande Catástrofe. a completa extinção da humanidade. Vocês ouviram o seu repórter Nostradamus Pereira.) Qualquer informação sobre Carmem e Vera. fraco e fedorento. todas as saídas controladas. vacona! (Entra Material Girl. após a Grande Catástrofe. Mas tudo bem. NOSTRADAMUS — Como todos vocês estão cansados de saber. Com vocês. The Big Bitch.. derramai sobre nós Vossas sagradas bençãos. cientistas especulam da possibilidade da criação de uma nova espécie de mutantes. mente. As duas ficam bebendo café em silêncio. do Esp. litúrgica. através da procriação..) — Corpo de Cristo. oh doce e sagrado Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. (Benze-se com o pão. Dá-lhe. abundantemente. generosamente. em sua primeira transmissão diária. mente.) Em nome do Pai. enquanto prossegue a transmissão de Nostradamus. resultante do cruzamento de uma ou ambas as fugitivas Sisters com algum contaminado. Like a Virgin ou algo assim. a deusa do fin-de-siécle passado: Ma-don-na.) CENA 5 CARMEM (Erguendo o pão seco em direção ao alto. maravilhosamente. todas as ruas vigiadas. Eu disse regiamente. por um fenomenal fenômeno fescenino as irmãs Carmem e Vera são as únicas mulheres sobreviventes ainda com seus úteros em perfeitas condições de funcionamento. Além disso. . do Filho.

VERA — Para fazer um filho com um desses monstros sobreviventes? Um filho monstro. Entregue-se você. Aproveita. e esmalte. No que depender de mim.. . pode ter certeza. a humanidade acabou. sonha. Na melhor das hipóteses. também? Pois eu não. Eu volto logo. Não me deixe sozinha pelo amor de Deus! VERA (Vestindo as luvas. Eu também vou aproveitar. Prefiro morrer de fome. (Vai saindo. se quiser. querida. Fala baixo. Foda-se a raça humana. Dorme. Ah. Pára e apanha um par de luvas de borracha.) — Caralho! Não me pegarão com vida. eu também queria uns bombons. volte aqui. (Sai.) CARMEM — Vera. Eu me recuso. CARMEM — Que amor! VERA — Às vezes eu acho que você ficou completamente louca.) — Calma. CARMEM — Os desígnios de Deus são insondáveis. VERA — Pare de me chamar de querida.) Coitadinha. Meu Deus. dizem que foi das primeiras a ser contaminada. querida.VERA (Cortando. querida.) Chega de bobagem.. lentamente.) CARMEM — Não esquece de trazer a gasolina! E vê se encontra aquela biografia da Lady Di! (A parte. (Pega o fuzil. CARMEM — Às vezes acho que seria mais fácil se a gente se entregasse logo. E batom. viro tia de um monstrinho bem nojentinho. eu esqueci do esmalte. fica calma. queri. você quer que eles nos encontrem? Fica em paz. ouviu? Eu me recuso a entregar meu corpo para esses monstros. decidida.

acende-se a luz no Plano da Nostalgia. Desde L‘Alma ou algo assim. CARMEM — E no sétimo dia sete anjos desceram de suas sete casas. por ti imploramos neste vale de lágrimas amargas de Petra von Kant. seja ele qual for. Senhor. Pega um espanador de penas. sobem os acordes de alguma valsa bem conhecida. cavalheiro? . cheia de graça. dá voltas pelo palco. oh vale lamacento do Estige.. sete moradas. Senta-se no centro do palco com o pedaço de pão nas mãos.. CARMEM (Chorosa. Nostálgio está: parado. Em vossas divinas mãos entrego meu destino. minha mãe Oxum! Por ti rogamos. Ao fundo. e em nome do Senhor proclamaram aos sete ventos. se eu gritasse. muito formal) — A senhorita dar-meia a honra desta contradança? CARMEM — Falou comigo. Ondas do Danóbio. Oxumaré. Imploro-vos de rastros que perdoe minha irmã Vera — ela não sabe o que faz e sem sua força e proteção. NOSTÁLGIO (Curvando-se. enumerando futilidades. Mr. Enquanto Carmem reza (a atriz pode improvisar à vontade). com uma rosa vermelha nas mãos estendidas para Carmem. sete moradas. Aroboboi. aroboboi! Ave Maria. fecha a tampa e coloca uma coroa de flores em cima. doçura e esperança nossa. quem na legião dos anjos escutaria meu grito? Vida.) — Bendita seja a sagrada refeição que me dais hoje. mãe de misericórdia — eparrêi. com suas sete espadas de fogo. Orai. ainda que tivesse todo o ouro do mundo eu nada seria. lansã! — o fruto de vosso ventre Jesus. que se fizesse silencio por todos os cantos crestados desta terra calcinada por sete carcinomas cancerígenos. espana o caixão.CENA 6 Enquanto Carmem fala sozinha. Mr. Nostálgio aproxima-se cada vez mais. Salve Rainha.

Dar-me-ia a honra da contradança. CARMEM — Mas deixemos de lisonjas.NOSTÁLGIO — Pois evidente que sim.. Tudo aquilo que persiste no coração dos mortais. podeis crer. se indiscrição não o fora? CARMEM — Apenas Carmem. Duas sílabas crocantes: Car e Mem. NOSTÁLGIO — Ah. fui. CARMEM (Muito coquete. outros apenas Gio. como singela prenda de minha ardente admiração e afeto. CARMEM — Que exagero. e não volta. além da passagem vertiginosa e implacável do Tempo. ilustre mancebo. Alguns preferem Nos. dissimulada. NOSTÁLGIO — Nome de cigana. gentil donzela? CARMEM — A honra é toda minha. Tout-court. doce e fatal veneno que a um só tempo mata e embriaga: teu nome sempre será Mulher. Uma modesta rosa para enfeitar a suprema rainha de todas as flores..Nostálgio. a senhorita pode chamar-me assim. CARMEM — Que romântico! . garboso jovem.) — Cigana eu. das pestes. nobre senhor? Nada tenho de cruéis dissímulos. Ao contrário. Mas prefiro Mr. NOSTÁLGIO (Enlaçando-a. Oblíqua. Nostálgio. começam a dançar. NOSTÁLGIO (Oferecendo a rosa. apesar das guerras. embora ainda não saiba sua graça.. Sou o que resta na memória. obrigado. Quem é mesmo o senhor? NOSTÁLGIO — Sou aquilo que foi. sou e sempre serei a mais sincera dentre todas as donzelas. cavalheiro. E vossa merca.) Mas aceito vossa prenda.) — Aceite. Um criado seu.) .. (Coloca a rosa nos cabelos.

. (Valsam. o sândalo.. Qu‘est que se passe.―É o dia. CARMEM (Cantarolando. Maria del alma.‖ Não consigo esquecer aquele dia. mon bijou? CARMEM (Em transe.. senhorita! Vosso ânimo arrefeceu tão súbito. eu não consigo.. vêde-o.) .. (Noutro tom. seu idiota.. até que ela o empurra bruscamente.‖ NOSTÁLGIO — Sou o perfume no vale entre os seios da bemamada. NOSTÁLGIO — Sou o bolero eternamente vivo na lembrança dos velhos enamorados. CARMEM — Autentica. o sândalo.NOSTÁLGIO — Sou o jardim de um sobrado de subúrbio. Vêde. senhor.) NOSTÁLGIO — Calma. Fazei tudo por reparardes só no dia.) Mas venha. o arquipélago. CARMEM — A ametista. Vêde-o. CARMEM . o arquipélago. CARMEM — Ai! NOSTÁLGIO — A pérola. quem sou eu? Não sou nada. a ametista. enlevados.. (A valsa pára bruscamente. Maria bonita. coberto por todas as cores de todas as flores recém desabrochadas. no dia real.) — ―Acuerdáte en Acapulco.) E eu. vêde. Não passo de uma desgraçada que nada tem de seu além de um sonho falso. venha. CARMEM — Sois tantas coisas belas.Poison! Eternity! And last but not least: Chanel número 5! NOSTÁLGIO — Sou o suspiro.. NOSTÁLGIO — A orquídea.. de aquellas noches. ali fora. Não .. recitando Fernando Pessoa.. Por mais que o tempo passe. é dia já.. Sou a praia deserta varrida pelo vento nas noites de lua cheia.

descontrolada. Carmem esbarra em coisas.. HOMEM (Tirando o fuzil das mãos dela. HOMEM — Que é isso? Por que não? É tão bom sempre. Eu sei que tem alguém aí.) Vamos. Não sentiu o meu cheiro? VERA — Não me toque. senão atiro.) .) Música. onde pode-se ver Vera com o fuzil na mão. enlace-me como antes. Ah. ri muito. voe comigo! Tam-tara-ram-tararam-ra-ram. maestro! ―Dai-me mais vinho. deixa disso.. Vamos continuar dançando. Vem cá. patéticos.) Tamtara-ram-tara-ram.. Dançando sobre as cinzas de tudo. Nostálgio tentam dançar sem música. nós não temos . garota. Venha. eu gosto. é melhor acabar logo com tudo. Carmem e Mr. segura-a por trás. HOMEM DE CALMARITÁ (Aparece subitamente. Dance comigo. porque a vida é nada!‖ (Tenta cantarolar. (Cautelosa. CENA 7 Grotescos.) E você? Responde logo. acende-se a luz no Plano Alfa.podemos perder tempo. a valsa não pode parar! (Ri como se estivesse bêbada. meu amor.O que? Você quer acabar com a única coisa que nós temos? Ora. A valsa continua. senão atiro (Engatilha o fuzil.) — Claro que sou eu. VERA — Estive pensando. Você gosta. Carmem e Nostálgio ficam estáticos VERA — Quem está aí? Responde. enquanto puxa um relutante Nostálgio.. Enquanto isso. aponta. vamos valsar entre as ruínas. responde logo.

. Deita aqui comigo. Existem poucos iguais a nós. ele fica lá.. VERA — Tesão e fome. Na curva do pescoço. tão forte. você e eu. Tesão e fome.. Teu cheiro fica grudado na minha pele quando a gente se separa.) O teu cheiro. (Cheira-o por todo o corpo. ela começa a ceder. Nós só temos hoje e medo.. eu tinha quase esquecido do teu cheiro. Temos que aproveitar. Deixa eu matar minha fome. ao mesmo tempo. vem. como uma certeza. E muito perigoso. guardado nas minhas dobras. como você. HOMEM — Isso. Mas eu tenho uma intuição estranha. você sabe... Vem cá. HOMEM — Não há perigo nenhum. eu não posso confiar em você. VERA — Não! Hoje é a última vez que nos encontramos.. HOMEM (Acariciando-a. (Afastao.. Nós não estamos contaminados.) . (Começa a vestir as luvas de borracha. (Agarra-se nele. continua aqui. deixa eu comer você.. além de nós mesmos. VERA (Louca de tesão. E mesmo depois.. .. The horror.nada. secreto. E maldita a fenda entre minhas coxas que precisa do teu falo. nas virilhas. quando parece que passa. Estamos em extinção. Vem cá.Não diga isso. Você não tem o direito de jogar isso fora. Só eu posso sentir. nenhum futuro. Não sei o que seria de mim se você não tivesse aparecido. três dias. que loucura.) — Maldito macho.) Vai embora. Nenhuma esperança. VERA — Agora e terror. HOMEM — The horror. Sou um sobrevivente sadio.. Dois. uma certeza absurda que você vai me trair. porque não passa. Foi um verdadeiro milagre a gente ter se encontrado.. embaixo do braço.. garota.) Bem na ponta dos meus dedos.) Aqui. VERA — Você é tão belo. meu Deus.

nada. Vem. HOMEM (Começa a vestir as luvas de borracha. VERA — A última. me morde. Vamos ficar assim para sempre. Ao mesmo tempo. Devagar.) — Não. Nostálgio tentam valsar sem música. repete comigo: para sempre. Não é verdade que você não me quer. não esqueço nada. não se pode viver sem amor. onde Carmem e Mr. VERA — Claro que não é verdade. VERA — Repete. Me lambe. VERA — Pela última vez. VERA — Quero sentir o teu peso. enquanto Vera e o Homem se abraçam com muitos gemidos.HOMEM — Eu sabia. Melhor que a prime. A luz diminui um pouco no Plano Alfa. Claro que tudo é mentira. Mais fundo que todas. Vem. a luz vai aumentando no Plano Real. meu amor. CARMEM — Os cristais retinindo! NOSTÁLGIO — O champanhe derramado sobre as rendas! CARMEM — Çá vá! Ça vá! No Plano Alfa: HOMEM — Como você é gostosa. HOMEM — Nunca. sim. . HOMEM — Deixa eu entrar em você VERA — Não esquece as luvas. Me machuca. HOMEM — Nada nunca será a última vez entre nós.

a rodopiar vertiginosamente no ritmo da fantasia.Sou o ramo de miosótis esquecido entre as páginas amareladas de um livro de sonetos antigos. ferida em pleno vôo. CARMEM (Agressiva. isso é o que você é! Um manequim de gesso pintado! NOSTÁLGIO (Afastando-se. As valsas não morrem nunca. CARMEM — Você é um robô ridículo. minha musa. depois o empurra. CARMEM (Deixa-se levar um pouco. CENA 8 Os gemidos de Vera e do Homem — obscenos como os de um vídeo pornô — vão diminuindo de intensidade.) — Pára com isso! Chega. CARMEM (Aos gritos. Valsemos.) — Você não é nada. . NOSTÁLGIO — Valsemos.) .HOMEM (Erguendo as mãos com as luvas de borracha. você não passa de um boneco de cera com voz de fita cassete! NOSTÁLGIO (Soltando-a e falando mecanicamente.Um manequim. Fora daqui! NOSTÁLGIO — O verso póstumo na algibeira do poeta suicida.) — O suavíssimo pulsar da andorinha peregrina. me deixa em paz.) . ainda morno de seu coração.) — Para sempre. tentando desvencilhar-se. cada vez mais longe. Os dois voltam à obscuridade enquanto Carmem e Nostálgio continuam a rodopiar no Plano Real. NOSTÁLGIO — Sou os pares enlaçados no centro do salão. mas sem música. minha bela.

Agora. VERA — Agora mais forte. De repente. Em algum lugar. Havia sempre naqueles dias. meu amor. Nós estávamos no porão da casa. Nada. VERA — Aqui. assim. Onde você gosta. Estou indo. Tinha que ser em abril. Nenhum barulho.) — Havia uma festa. Ah. Devagar. o mais cruel dos meses. Era uma vez. por favor. tenho quase certeza. HOMEM — Vem comigo. Sei que era abril porque as folhas começavam a amarelar nos plátanos da rua. . Faz muito tempo. minha irmã Vera preparava um vestido novo para a festa daquela noite. Assim. acho que era de tarde. HOMEM — Junto comigo. nunca ninguém me tirava pra dançar. meu amor. O diálogo de Vera e do Homem entremeia o de Carmem e Nostálgio no Plano Real.CENA 9 Volta luz tênue no Plano Alfa. Vem que eu te espero. naquele tempo. VERA — Estou indo. agora. Só o silencio e a luz. Eu olhava fotografias de um álbum antigo. Eu não gostava de ir a festas. devagar. CARMEM — Então veio a luz. absolutamente nada. nenhuma explosão. NOSTÁLGIO (Ao longe. Não pára. No Plano Real: CARMEM — Era de tarde. E devia ser abril. Naquela tarde. VERA — Mais fundo. as luzes todas acesas. cintilando. mais longe. HOMEM — Como você gosta. o brilho dos cristais.

eu gritei e gritei até perder a voz. de aço. dentro e fora do porão onde eu estava com Vera.. um barulho seco. Pelas janelinhas do porão dava pra ver o vento de fogo queimando tudo. Para não ficar cega. VERA — Eu podia imaginar que tudo mudaria tão completamente e para sempre depois daquela luz. rasguei a fotografia que tinha nas mãos. nem os ossos ficaram. CARMEM — Papai e mamãe estavam fora. as roupas. Eu vi o reflexo dela no rosto de Carmem e deixei a tesoura cair no chão. Vários dias depois. VERA — Carmem rasgou sem querer a fotografia. eu não lembro. . Os corpos. tapei meus olhos com uma das mãos. Plác! VERA — Era uma foto de nós duas em Paris. Uma iuz que cortava a retina da gente. esverdeada. CARMEM — Primeiro veio o vento. Vera faz contraponto a Carmem. Mas não fiz nenhum ruído.Uma luz cegante. De olhos fechados. VERA — Uma luz insuportável. No Plano Alfa. a luz fica mais forte. CARMEM — A tesoura de Vera caiu no chão e eu. sem querer. para não ficar cega.. VERA — Só muito depois encontramos os corpos de papai e mamãe. CARMEM — Plác! fez. Em pé. Só aquela luz clareando tudo longe. Talvez já tivessem morrido. bem em frente a Notre-Dame. CARMEM — Eu comecei a gritar. no mesmo momento em que tesoura caiu no chão. Parecia de vidro. e fiquei quieta quando o vento começou a soprar. Eu quero dizer. O Homem continua deitado. Dentro só tinha cinza.

) Memória. (Toma-a pelo braço e começa conduzi-la em direção ao caixão. quimeras. E para sempre. vosmecê nem necessita. Agora parece que está sempre anoitecendo. no Plano Alfa.HOMEM (Para Vera. Já vai passar.) Por favor. tudo pó. CENA 10 . gritava. (Ergue a tampa do caixão. ilusão. com Carmem dentro. sempre era de tarde ou de manhã naquele tempo. A luz apaga no Plano Alfa. (Muito frágil. Pronto. minha bela. que a vida é apenas e nada mais que sonho. já está passando. Tudo mudou completamente. NOSTÁLGIO — Acalme-se. Deita aqui comigo. vem cá. Pó. Desde aquele dia.) . adormece. senhor Nostálgio. CARMEM — Eu gritava. Já passou.Esquece. Como se estivesse louca. NOSTÁLGIO (Acomodando-a no caixão. A pele da senhorita acordará louçã como uma porcelana chinesa. Quinze. vem. NOSTÁLGIO — Apenas para o sono da beleza. não me deixe só. A senhorita está demasiado atacada dos nervos. CARMEM — Era de tarde.) Convém deveras repousar um poucochito. pronto. VERA — Completamente. Não me obrigue a entrar no caixão. Como se o grito pudesse me salvar. por favor. vinte minutos no máximo. só mais uma. Outra vez. está prestes a fechá-la.) — Repousa. senhorita. De que adianta lembrar? As coisas não mudaram entre nós. fantasia. Dorme e sonha. CARMEM — Eu tenho tanto medo. Que diga-se de passagem. Eu não conseguia parar de gritar.

Cinza Angra 2. vamos ouvir Trepa no Coqueiro. moçada! Esta é pra quebrar o gesso! A música toca um pouco (esta ou qualquer outra). eu tenho que ir. HOMEM — Sempre a mesma bobagem. ão: atenção. Enquanto Nostradamus fala. únicos seres capazes de salvar a humanidade da completa extinção — oh não. Nostálgio começa a voltar ao Plano da Nostalgia. da nossa Zona Contaminada. muita atenção. o porta-voz do Apocalipse. Carmem permanece estática dentro do caixão e Mr. Que nada. E agora fiquemos com mais outro hit do século passado.) — Você ouviu? É a segunda transmissão de hoje. VERA .) NOSTRADAMUS — E ão. oh não. VERA (Para o Homem.NOSTÁLGIO (Está por fechar a tampa do caixão quando entra novamente aquele ruído eletrônico das transmissões de Nostradamus. Sacudam suas muletas. é mina. em mais uma de suas transmissões diárias diretamente do centro da minha. da sua. A voz de Vera aos poucos sobrepõe-se música. desventurados sobreviventes deste mundo cão. para lembrar os velhos bons tempos do libido. E continuam as frenéticas buscas das Sisters Salvadoras Carmem e Vera. Não deixe o sol queimar as suas pústulas: passe cinza nelas. Aqui fala o seu repórter Nostradamus Pereira. E conta. gemada. . depois diminui ao mesmo tempo em que volta a luz no Plano Alfa. à venda em qualquer Posto de Insalubridade bem perto da sua toca.É muito tarde. que escuridão! Batalhões patrulham incessantemente os escombros das ruas da cidade. Tudo está sob absoluto controle. Na voz tropical de Ney Matogrosso. porrada. Luz no Plano Mídia. é nada. à procura das Irmãs Sisters. ão.

(Apaga-se a luz no Plano Alfa.) O que é que vocês esperam de mim? Eu não tenho nenhuma sugestão a fazer para melhorar a vida de vocês. mortal e desvairada! (Procura algo dentro do caixão. acende a fogueira no meu coração. Nostálgio está no seu Plano da Nostalgia. E esperam. vai caindo a garoa. minha gente. Karma. Não conheço suas caras.‖ Obs.) Não é justo.) — Não havia uma festa? Onde foi todo mundo? Todos sempre me deixam só. ela vê as coisas da rua.) Não havia uma festa por aqui? Então vamos cantar. Carmem está sozinha no palco. Eu não tenho nada. Qualquer canção. já esqueci. enquanto o tempo não passa. destino. bem coloridas. Eu não tenho nada. esqueci tudo. Observam e julgam. Ela tem uma vida fora daqui. essa é a única maneira de vencer o fim do mundo. (Olhando o próprio palco. Mas o melhor a fazer é cantar. Volta no Plano Real. dentro do caixão. fado. Estou trancada dentro desta caixa preta. Quem foi mesmo que disse isso? Ah não importa.) Talvez sem eles eu nem existisse. Cantar e dançar. criticam. vigiam todos os meus passos. Dessas que ninguém lembra mais. Eles sabem tudo sobre mim. A noite é tão linda e a chuva é tão boa. a platéia. uma canção esquecida. E eu não sei nada sobre eles. Uma canção antiga. Sina. (Começa a espalhar pelo palco uma fileira de bandeirinhas de São João.) Só esta caixa preta. (Para a platéia. São João. São João. sempre aqui. (Noutro tom. os spots. até Vera. ) CARMEM (Saindo do caixão. Ai de mim.) ―E o balão vai subindo. cercada por olhos fosforecentes que observam cada um dos meus movimentos do fundo da escuridão. No livro original não consta a Cena 11 . nunca vi seus corpos. Sei apenas que seus olhos estão sempre lá. Mr. à minha volta. Nem mesmo esta existência de merda. sentado na bergère ou numa cadeira de balanço. (Canta.

cento e sessenta e oito horas. Tem uma coisa que eu quero te dizer. acho que sim.) — Dez mil e oitenta minutos. (Acaricia o Homem. Mas juro que eu volto.) VERA (Tirando as luvas. Se houver o Coro dos Contaminados. Tenho que ir. VERA — Não posso ficar mais. Uma semana. Nostálgio também sai de seu Plano para ajudá-la. VERA (Irônica. (Procura o fuzil. Fica mais um pouco.) — Que que foi? Vai me pedir em casamento? .) — Espera. VERA — Não. sobre Vera e o Homem. é isso? Nunca fui muito boa em contas. Todos brincam enquanto a luz diminui para voltar no Plano Alfa. faz tempo. dança e espalha bandeirinhas pelo Plano Real.) HOMEM (Segurando-a pelo braço.) — Deve passar do meio-dia. HOMEM — Eu levo você em casa. olham-se em silêncio por algum tempo até que ela se volta para sair. Mas não a esse ponto. já disse.) Semana que vem eu volto. (Abraçam-se.CENA 12 CARMEM (Canta. Sei lá. Mr. sete dias. VERA (Rindo. pode colaborar com ela. é muito arriscado. HOMEM — É muito tempo. HOMEM — Não é isso. VERA — E você acha que vou dizer onde moro? HOMEM — Você não confia em mim? VERA — Confio.) Vou levando o seu cheiro junto comigo. HOMEM — Mais um pouco.

detritos. onde. Teu amor e uma cabana. muito atenta. (Pausa. Arembepe? HOMEM (Lentamente. Finalmente apertaram o botão: bum! acabou. VERA (Sem prestar atenção.. o que? O que foi que você disse? Eu já ouvi esse nome em algum lugar. .. eu tenho que dormir. HOMEM — Isso é o que eles dizem. meu bem? Capri.HOMEM — Foge comigo. sílaba por sílaba.) — Não me diga. porque não interessa ao Poder Central que todos vão embora à procura de outra coisa. Um lugar paradisíaco onde a gente pudesse tomar banho de mar e fazer amor o tempo todo. Bem que eu gostaria.. Dizem até que tivemos sorte de sobreviver. VERA (Sarcástica.) — A luta é aqui. meu bem? Você sabe perfeitamente que não existe mais nada além da Zona Contaminada. sei. Eu tenho que comer. Mas.) — Calmaritá. claro. VERA — Que lugar? Foi tudo destruído. escombros. no planeta inteiro. ―Santo‖ é maneira de dizer.) Mas eu conheço outro lugar. acontece e acaba aqui.) — Calma. S6 ficaram ruínas. O que existe é isto. como nos velhos tempos.) HOMEM — Eu disse Calmaritá. Eles querem que todos pensem que tudo começa. hein? Coqueirais e areia branca. O que eles querem que a gente acredite. drinques tropicais de abacaxi com camarão. HOMEM — Existe outro lugar. VERA — Fugir? Mas fugir pra onde. eu tenho que trepar — eu tenho que sobreviver todo santo dia.. Estou farta de sonhos idiotas e escapistas. (Vira as costas e vai saindo. E legiões de contaminados pelas ruas. dentro da Zona Contaminada. Só aqui... Goa. VERA (Voltando.

. O fogo purifica.Quem pisa na brasa.. (A luz apaga subitamente no Plano Alfa. implicante. Mas ele existe. Quem pisa na lama. Xangô menino. quase cai. Quem pisa no fogo.. São João — acende a fogueira no meu coração.. Um. Em algum beco escuro. Um.. NOSTÁLGIO — Será que eu consigo? CARMEM — Claro que sim.HOMEM — Claro que você ouviu. Agora é a sua vez. dois e. mija de bobo.‖ Acende. São João. VERA — Calma. (pulando uma fogueira imaginária) três. pulei. Vai logo. dois.) CARMEM (Batendo palmas. mija na casa. Carmem e Mr. Pronto. num sussurro. . eu já vou. (Pula e tropeça. Eu disse Calmaritá.) .. Ai... São João. Nostálgio brincam feito duas crianças — ou dois retardados mentais — no palco enfeitado de bandeirinhas.. Todos falam em voz baixa... mija na cama. bem quente. e. Acende. Vamos pular a fogueira? NOSTÁLGIO — Primeiro você. CARMEM — Então lá vou. E proibido falar desse lugar. São João. é proibido dizer essa palavra. Acende uma fogueira bem grande. CARMEM — ―São João. NOSTÁLGIO — Não precisa empurrar. como é mesmo? HOMEM — Calmaritá.) CENA 13 No Plano Real..

Só o fogo purifica. bem devagarinho também. Toma. (Pega uma vela e uma bacia cheia d’água. você mija de bobo. Acho que é um navio. E muito importante acender a vela. (Conta até treze. um navio. você mija na cama. então? NOSTÁLGIO — De sorte. três..Não pisei nada. vem cá que eu te ensino. treze vezes. NOSTÁLGIO — É fácil. não. quatro.) — Não quero mais brincar disso? CARMEM — Você quer brincar do quê. (Acende a vela lentamente. orienta. O que será isso? Um triangulo? Não.NOSTÁLGIO ... NOSTÁLGIO (Trombudo. A cinza é a única redenção da matéria vil.) NOSTÁLGIO — Se o desenho formar um coração é um novo amor.) — O fogo purifica. NOSTÁLGIO — Quer. com um toque de maldade.Acho que não está formando nenhum coração. CARMEM (Pingando a vela na água e contando. E aqui tem tudo que a gente precisa. . CARMEM — Ah. E não é chato nada. Treze gotas.) — Agora você vira a vela assim. CARMEM (Em transe. bem devagar.) — Um.. sim.) Primeiro a gente acende a vela. É superdivertido. Parece mais um. Não sei se eu quero. E vai pingando.Eu não sei como é esse brinquedo. pega. CARMEM . Vamos brincar de ver a sorte. isso é meio chato. olha só. Você vai adorar. dois. Só escorreguei um pouco. CARMEM — Você mija na casa.) CARMEM . NOSTÁLGIO (Pega na mão dela.

todo mundo sabe. CARMEM — E cruz. Você está mentindo! NOSTÁLGIO — Cruz é morte. horizontal. bem infernal. cruz não. E cruz é morte certa. Vera.. Você não sabe nada.NOSTÁLGIO — Navio é viagem. Você está pirada. faz tempo.. Fica quieto. vertical. CARMEM (Aos gritos. Não pára de mudar. Claro que sou eu. é você? VERA (Em off) . batendo palmas e cantando. Deve ser outra coisa.) — Você mexeu a bacia. pulando em volta dela.) Eu não vou morrer. assim não vale. é a Stephanie de Mônaco. CARMEM — Mentira! (Agitada. Cruzérrima. CARMEM — Pára com isso! NOSTÁLGIO (Implicante. CARMEM (Aterrorizada. A vida está deserta. sim. está mudando. Evidente que é uma cruz. Agora parece uma.) Estou ouvindo um barulho.. É morte certa. (Nostálgio estatiza. CARMEM — Espera. Eu estou mandando. NOSTÁLGIO — Não mexi nada. Eu já morri. a alma está vazia. E é uma cruz.) — Treze gotas na bacia. Espera até a água parar de se mexer. CARMEM — Cala a boca. Tudo bem aí? . NOSTÁLGIO — Já parou. Carmem olha em volta. outro assim. Vera. fica quieto..) — Não.Não. Um risco assim. NOSTÁLGIO — Uma cruz. parece que tem alguém aí.) — Cruz é morte certa. fui eu que inventei você. cruz quer dizer o quê? NOSTÁLGIO (Cruel. Para bem longe. E é pra logo.

) . bota atenção nisso. ado . hein? Era aquele seu amiguinho invisível outra vez? CARMEM — Vera. (Entra o ruído da transmissão de Nostradamus. Para bem longe. Ela não pode ver você. O seu repórter Nostradamus Pereira informa que movimentos inusitados foram observados durante a manhã de hoje num supermercado abandonado — ado. dá o fora. bem no coração da sua. Mas acho que vai formar coisa bem diferente. ela não acreditaria. Cruz eu não gosto. sabe o que? CARMEM (Infantil.) E mesmo que visse.E atenção. (Empurra Nostálgio. que vai voltando para seu Plano com a vela acesa nas mãos. então. Anda logo. olha só. VERA — Pois. CENA 14 VERA (Entrando. da nossa .) — Pelo visto você andou se divertindo. E você lembra o que significa navio? CARMEM — Uma viagem.Cruz. meu povão. (Para Nostálgio. entregando-lhe a vela acesa e empurrando-o para que Vera não o encontre.próximo ao cruzamento das avenidas Chernobil com Nagasaki. sai daí. vai? VERA — Cruz? Bom. não.CARMEM — Tudo.) NOSTRADAMUS . Ambas se imobilizam. O desenho vai ser de um navio. tudo bem. A gente só vê mesmo aquilo que acredita. me explica uma coisa: se eu pingar treze gotas de uma vela numa bacia cheia d‘água.) Anda. não vai formar o desenho de uma cruz. até pode. é. vamos. da minha. VERA — Cruz coisa nenhuma.

nozes. Nós vamos embora daqui. E as revistas. e é possível que novas buscas levem finalmente ao covil onde escondem-se The Irmãs Sisters Carmem e Vera. trouxe. Até parece feliz. tudo que você pediu e muito. VERA (Abrindo a bolsa e jogando latas e pacotes.) — Está bem. extraordinária.Zona Vitaminada. alimária. escuta. Tem café. Nada de novo. quero dizer. muito mais. enquanto voltam Carmem e Vera no Plano Real. E por falar em ária. então coma primeiro. quero dizer. Voltaremos a informar nos horários habituais ou a qualquer momento em edição imaginária. Eu preciso te dizer uma coisa importante.) Te mata.) — Trouxe. quero dizer. (Entra Callas cantando. já? Agora não. não é nada disso. Escuta: nós vamos fazer uma viagem. olé. CARMEM (Mastigando algum coisa. . Nós somos mais espertas que o Poder Central. agora eu estou com fome. você trouxe? VERA (Mostra um galão. sempre a mesma história. Olé. CARMEM — Já sei: você encontrou rosas brancas. sardinha. na voz lendária de Maria Callas. com coreografia do Coro dos Contaminados (se houver). VERA — Não existem mais flores. CARMEM — Embora? Mas agora. fiquem agora com a ária do suicídio de Madame Butterfly. esmalte.) Carmem. Rárárá. Eles nunca vão nos encontrar.) VERA — Saco. biscoito. batom. Minacontada. salsicha. bombons. Come à vontade. quero dizer Con-ta-mi-nada. (Pega nas mãos de Carmem. tudo está rigorosamente sob controle. CARMEM — Você está tão estranha. japona! O gringo bunda-mole te chifrou mesmo! Arrive derci cornutta! (Nostradamus dubla Maria Callas no Plano Mídia.) E a gasolina.

. sabe qual? CARMEM — Esperança? Não me diga que você está com esperança! VERA — Estou.. era essa a viagem que você falou. eu. E que equipamento. Senta aqui. casas de cultura. meu bem.) .. Eles precisam de nós. CARMEM (Muito surpresa. VERA (Cortando a enumeração interminável.De verdade? VERA (Maliciosa.) — Feliz? VERA — Bom. Por onde eu vou começar? Bom. O que aconteceu foi que. Você contou a ele aonde nós estamos e agora temos que fugir. mas vou encontrar. para onde a gente vai agora? Já estou cansada de andar me escondendo por igrejas. hospitais..Um contaminado? Vera. CARMEM — Não existem mais homens bons. eu preciso te contar.. A viagem que eu falei é outra. E um homem como nós. meu bem. Meu Deus.. Mas tenho assim. . aquela coisa. Sei. teatros.. Não é nada disso. que fazia a gente esperar que tudo desse certo. CARMEM — Você encontrou a biografia da Lady Di? VERA — Ainda não. Eu encontrei um homem. cemitérios.) ... estou..Claro. museus.. feliz talvez ainda não.. Um homem bom.. CARMEM (Assustada. Agora eles vem nos pegar. bares. irmãzinha! Eles estão atrás de nós. Não é um contaminado. Com todo o equipamento. CARMEM (Incrédula. E o homem também é outro.) . como era mesmo o nome? Aquela coisa antiga..) — Calma. você ficou louca. sabe. livrarias — livrarias até que eu gostava —.VERA — E estou.

Já faz tempo que a gente se encontra. Gente como você. Ele me ama. é destruído pelos contaminados. Vera. parado no Plano Alfa. mas só hoje ele me contou de um outro lugar que existe perto daqui.VERA — Esse é. De onde veio esse homem. trazida por um de nós. nas terras altas. Traga sua irmã. Existem outros. Fica meio escondido. Umas trinta pessoas. as planta canibais. Só um buraco escuro. gente que por alguma razão conseguiu escapar das mutações. de onde? Não existe lugar nenhum fora daqui. ele veio de lá. esse lugar chama-se Calmaritá. Fica ao norte daqui. não são. mesmo chegando perto não vê coisa nenhuma. Ou você acha que você e sua irmã são as únicas sobreviventes da Grande Catástrofe? Não. devorado pelos animais mutantes. como eu. não muito longe.) HOMEM — Calmaritá. Quem não sabe. além de vocês. CARMEM — De lá. Venha. E um vale à beira do último rio de águas limpas. só quem sabe que ele existe consegue encontrar. venha comigo para as Terras de Calmaritá. mas quase todo dia chega gente nova. Não tem muita gente lá. Nós precisamos nos reunir. irmãzinha. Eu tenho certeza. Ele não estava mentindo. além de mim. Ele conhece bem esse lugar. Um mundo novo. Se nós sairmos logo . Carmem e Vera paralizam-se. E se perde no meio do caminho. Luz sobre o Homem de Calmaritá. Vera? CENA 15 (Luz no Plano Alfa. nós precisamos nos reproduzir e nos fortalecer para o futuro que virá. de longe ninguém vê. Um mundo muito melhor que aquele que nós conheciamos antes da Grande Catástrofe.

Arrumem suas coisas e venham comigo. que é tão bonito. por volta da meia-noite estaremos chegando lá. VERA — E lar. voilá. CARMEM — E Clara. CARMEM — E tia. CARMEM — Parece bonito. Vamos todos embora para as Terras de Calmaritá. agora revele o seu. . também tem. suba quatro quarteirões em direção ao Comissariado Leste do Poder Central.) — Saindo daqui. meu bem. parece gostoso lá: Cal-ma-ri-tá. CENA 16 Apaga-se a iuz no Plano Alfa. aquela com a estátua de Prometeu bem no meio. VERA — Tem calma dentro dela. bem em frente. Fica do outro lado.fica apenas no Plano Real. VERA — Tem alma. Atravesse em diagonal a Praça Hiroshima. tem lá. CARMEM — E mar. Eu revelei meu segredo.depois do par-do-sol. Onde vocês moram. VERA — Tem maria. HOMEM (No Plano Alfa. CARMEM — E ama. tem maria lá.) — Antes do entardecer eu passarei para apanhar vocês. na loja funerária com a fachada incendiada. e é bela. você e sua irmã? VERA (No Plano Real.

Vera! Além do mais... Ita. não foi isso? Pois eu mudei de idéia. VERA — Eu sei o que eu disse: no que depender de mim. Itacuruçu.. Só porque você tre. CARMEM — Como é que eu posso ter certeza? VERA — Eu vou ter um filho dele. CARMEM — Um filho dele? Meu Deus. a humanidade pode acabar. petininga.. CARMEM — Que vulgar. CARMEM — Mas tem. eles não são todos iguais? VERA — Esse é diferente. maracá. VERA — Itaqui. CARMEM — E se ele nos denunciar ao Poder Central? VERA — Ele não faria isso. Você sabia que na língua dos índios ita significava pedra? CARMEM — Ita..) Será que nós podemos confiar nesse homem. como . Uma terceira coisa. tem lama lá. furioso.VERA — Tem ita. naquele mesmo lugar onde antes só existiam tesão e fome.. Agora não é mais apenas um buraco voraz.) Desde que comecei a sentir a presença de uma outra coisa aqui.. diferente das outras duas. VERA — Ele é um homem bom. Ita... irmãzinha? Afinal. (Noutro tom. E não foi você mesma quem disse que. que tragédia! Eu vou mesmo ficar pra titia. Essa coisa nova dentro de mim me dá assim como uma espécie de.. (Acariciando o ventre. insaciável. isso não é motivo. CARMEM — Como você sabe? VERA — Eu trepei com ele. fez amor com ele.. não significa que... poâ.. Não sei explicar.

ele desce e vai recolhendo as bandeiras de São João.) NOSTÁLGIO — Ilusão. (Tira um rolo de papel. Nostálgio. Carmem e Vera falam baixinho. Vera. e que só por falta de outra palavra ainda insistimos em chamar de ―humano‖. CARMEM — E ele sabe? VERA — Ainda não. Humano? Quero dizer. CENA 17 (No Plano Real. abre.) CARMEM (Encantada. Se for menino. Tão insensato. esse escombro que restou. Fé. Rafael. sobre Mr. fazendo planos. E isso ai. Que nome você vai dar pra ele? Precisamos fazer uma lista. Arjel. Vou contar hoje à noite. basta atravessarmos a praça e seguir por aquele caminho que vai para o norte. CARMEM — E se ele não aparecer? VERA — Ele me deu o mapa de lá. que bom vai ser passear com o meu sobrinho na beira do rio. (Sonhadora. tão irracional na sua fantasia desenfreada que chega a inventar nomes próprios e lugares geográficos imaginários .) Quando chegarmos a Calmaritá. Para continuar existindo. E eu vou ser tia. VERA (Sem ouvir.Tem um rio. debruçadas sobre o mapa. Ah. Gabriel.) . Daniel. Luz no Plano da Nostalgia. você está sentindo fé? VERA — Pode ser. eu gosto muito desses nomes de anjo. se por acaso ele não vier. Enquanto fala.) — Depois que o sol se for. isso é tudo que o ser humano necessita.era mesmo aquela coisa antiga que a gente sentia quando acreditava em alguma coisa? CARMEM — Fé? Meu Deus.

Eu acredito. eu já dizia cá com os meus botões. VERA (Estendendo a bolsa. sonoros. Essas coisas em que não se pode jamais tocar. Na mente. Eldorado. Pasárgada.) ―E quando estiver cansado / Mando chamar a mãe d‘água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar. no sonho. Paraísos obsessivos.) — Pode pegar. mesmo que apenas na fantasia. CARMEM — Calmaritá.) CARMEM — Parece verdade. E se é verdade. meu corpo. cheios de sugestões que incendeiam a mente dos pobres coitados. ilusão é tudo que o humano — esse escombro patético — necessita para continuar existindo. Ilusão. Mu. terras do eterno prazer. Atlântida. e que tm apenas um nome. Nomes mágicos. Getsemâni. Me empresta a sua bolsa. continentes perdidos. então preciso arrumar as minhas coisas. Nossa vida vai mudar. Carmem.) VERA — É verdade. eu acredito.para a própria ilusão. CENA 18 (Carmem e Vera no Plano Real.) — Pois eu preciso de muita coisa. VERA — Meu filho. Lemúria.‖ Utopias. Tudo que é necessário para começar um mundo novo. (Sai. Ao norte. (Recitando Manuel Bandeira. Parece um sonho. Ah. nas terras altas. É tudo. úteros perdidos a serem recuperados de alguma forma. Shangri-Lá. . Eu não vou levar nada. CARMEM (Remexendo dentro do caixão. Rosebud. o Jardim das Hespérides. Calmaritá. Tudo que preciso está comigo.

Tem tudo lá. Babá. Tem juriti e abará.. Como é mesmo. me diga só o que não tem em Calmaritá? Tem sapoti. . CARMEM — E boitatá. CARMEM — E vatapá.) — Tem tudo lá.Deve ter.. cada aquela coleção de Manequim? Eu é que não quero andar mal vestida no meio de uma terra e de uma gente que nem conheço direito. sempre é bom. pois só tem lá. Não posso parecer uma mendiga. calma. com trejeitos de Carmem Miranda. por exemplo (tira uma boneca do caixão). sei lá. vamos embora daqui. eu quero ir já. Alguns botões. Ah me leva daqui. pourquoi pas? Nunca se sabe o que as pessoas usam nessas tais Terras de Cal. Vera? VERA — Calmaritá. meu bem? Acho que vou levar uns moldes também. né. A Priscilla.CARMEM — Mas eu não. oba lá-lá. não tem ali. Não tem aqui. Carmem. De repente. Agulha e linha também. VERA — O que? CARMEM — Será que tem lá? VERA (Rindo e dando inicio a um jogo meio infantil) . AS DUAS (Improvisam fantasias com as tralhas de Carmem e cantam. eu preciso de uma porção de coisas. é o que eu digo. eu quero ir já pra Calmaritá. Me diga só o que não tem em Calmaritá? Axé. VERA — E caruru. VERA — Mais uma meia-hora e ele deve estar chegando por aí. minha primeira boneca. Uma tesoura. eu não tenho homem. CARMEM — Doce de abóbora. é um lugar chiquérrimo. tem mungunzá. meu pai Oxalá. meu bem. mar e ita. me leva pra lá. Eu não tenho filho. Como vai. Priscilia querida? Vamos embora. CARMEM — Pois é.

ado. raríssimos. sexo masculino — e bota masculino nisso! é um bofe máravilhoso! até eu que nem sou chegado fiquei balançado como um veado — ado. da Grandissíssima Catástrofe.) VERA (Para o Homem. ado. . da imensa. sem mais frescuras e submetido à confissão obrigatória o charmoso sobrevivoso má-ravilhoso revelou saber — atenção. Se houver.) — Você nos denunciou! HOMEM — Me perdoa. porta-voz oficial do Poder Central. ira: Jacira! — . íssimos — sobreviventes da enorme. amadíssimos. caros. procuradíssimos — íssimos. atención. com coreograJlas e muito tchurutchuru e oh yeah! De repente o zumbido de Nostradamus no Plano Mídia interrompe tudo. caríssimos. pouco mais ou menos. as únicas fêmeas capazes de salvar a humanidade da mais negra e completa extinção. VERA — Você devia ter resistido. ira. o arauto do fim dos tempos. sofridíssimos.CENA 19 Carmem e Vera brincam como duas meninas. mucha atenção. atention. (Luz no Plano Alfa. please! — o paradeiro das Irmãs Sisters Carmem e Vera. sem qualquer sinais exteriores de contaminação. ira. NOSTRADAMUS — E atenção. onde está parado o Homem de Calmaritá. íssimos — sobreviventes da Grande Catástrofe. com gestos de Carmem Miranda. eles me torturaram. a esperança voltou! Em edição extraordinária aqui quem vos fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. o Coro dos Contaminados faz backing-vocal. As duas congelam como quem brinca de estátua. De número não identificado. Há poucos instantes foi capturado mais um dos raros. aparentando por volta de 30 anos. bem no ponto! Enfim. desventuradíssimos — íssimos.

muito animado. Eu não sou um número. Me perdoa. o sobrevivente. eles estavam escondidos atrás da estátua de Prometeu. eu não tinha. o Coro de Contaminados acompanha. que continuam estatizadas no Plano Real. Se for verdadeiro o que afirma o garanhão. E se não for. com redes.HOMEM — Eu não tive culpa. embora morta. (Sempre com os Rollings Stones ao fundo.) CENA 20 CARMEM — Você ouviu? . Queriam saber de você. da nossa Zona Contaminada. ninguém resistiria. no mais expressivo hit do século passado: Sa-tis-fa-ti-on! Hoje mais do que nunca. Mais pra zona do que pra nada. quero dizer. que um dia será. Eu traí você. a tia tinha razão: ninguém consegue ter satis-fa-ção! (Entra a voz de Mick Jagger. fiquem com a voz de titia Jagger. morta na Grande Catástrofe. Fui obrigado a contar. Nostradamus e o Coro dos Contaminados cantam e dançam loucamente. Batalhões armados até os dentes que sobraram já cercam o local. a luz permanece acesa no Plano Alfa. mais pra mina do que pra conta. eu fui fraco. como se eu fosse um bicho. Queriam saber meu número. não haverá fuga possível para as Irmãs Sisters. NOSTRADAMUS — Segundo revelou a lasanha. as gatinhas Carmem e Vera estão descaradamente escondidas numa loja funerária semidestruída em pleno centro da minha. Vera.) HOMEM — Foi quando eu atravessava a praça. eu nunca tive. Ao mesmo tempo. O Homem tem uma das mãos estendidas em direção a Carmem e Vera. da sua. Eles me pegaram. vão coçando aí suas feridas. Enquanto a funerária é cercada.

Todo mundo ouviu. Lidoka. CARMEM — Como ―bom‖? Ele nos denunciou! Nós estamos perdidas. o que é que nós vamos fazer? Estamos perdidas. CARMEM — E do homem. Existe um auto-falante em cada esquina da cidade. Vamos lá. (Nostradamus e o Coro dos Contaminados dançam ao som das Frenéticas. gás lacrimogêneo. Aos poucos vão saindo de seu Plano. algemas e mordaças serão utilizadas para prender as feras. NOSTRADAMUS — Completamente cercadas. tiram Nostálgio para dançar. alô. moçada contaminada. amadas! Em edição extraordinária o seu repórter Nostradamus Pereira. bailem comigo ao som de As Frenéti-cas. cada vez mais alto com Dudu. VERA — Ele é um homem bom. e daqui a pouco a humanidade estará salva! Enquanto o cerco se fecha irreversivelmente. Redes. Eu tenho o mapa.) E agora. informa que as Irmãs Salvadoras Carmem e Vera — alô. Do seu homem. Tia Rege. ai. gatinhas.VERA — Claro. Sandrão e Leiloca). CARMEM — Mas não adianta mapa. VERA — Eu não estou perdida. Soltem todos suas frangas (vai entrando aquele tema de Dancing Days. Nós estamos cercadas. Meio sem graça. para felicidade de todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. Edir. (Sacudindo Vera. o Nostradamus. fiquem com Outro hit da etapa anterior à Grande Catástrofe. VERA — Ele sempre fala de nós.) . que tesão! — estão totalmente cercadas pelos batalhões do Poder Central. numa homenagem às Irmãs Sisters. ele tenta. vão preparando suas xoxotinhas para reprodução. A prisão é questão de minutos. CARMEM — Ele falou de nós. Desta vez ele falou também do homem.

onde esta o Homem. amém. se você estiver só.) HOMEM — Ao norte daqui. cacos de vidro partidos —. e que nem sei se existe. mesmo que não exista mais. VERA — Eu vou tentar. Existem mais alguns. VERA — Eu tenho o mapa. eu fico aqui. CARMEM — Isso é loucura. Você tem que tentar também. Vem comigo. Tudo acontece ao mesmo tempo. Venham comigo para as Terras de Calmaritá. Eu desisto. CENA 21 (A partir de agora a ação acelera loucamente. Eles vão nos pegar. E preciso um companheiro para chegar. O clima é atordoante. Ou então um mapa. lembra? Faz tanto tempo. . E se você tiver o mapa.VERA— Eu vou fugir.) VERA — Eu tenho o mapa. Ruídos violentos começam a ser ouvidos — explosões. (Luz no Plano Alfa. eu não quero. CARMEM — Eu não posso. para sempre eu desisto. CARMEM — Como os bonzos budistas. Eu não vou. Não quero esse lugar para onde você vai. além de vocês. Ele me deu o mapa. CARMEM — É impossível. não fica muito longe. num vale escondido nas terras altas. além de mim. sirenes. Eu quero o que se perdeu. Se sairmos ao entardecer. misturados aos fundos musicais anunciados por Nostradamus e a sons eletrônicos. Eu quero aquilo que conheço. chegaremos lá por volta da meia-noite.

minha gente. Carmem! Você não é idiota a esse ponto. o meu gesto mais nobre é desistir de tudo agora.) — Já disse que eu desisto.) . Carmem e Vera. Neste momento. sobreviventes da Grande Catástrofe. Venha comigo. Nostradamus acende a vela que Nostálgio tem nas mãos. Renuncio. CARMEM — Eu fico por aqui. aventurados idolatrados adorados ados. O fogo purifica. ilusão ou realidade. Não há como fugir. O homem não mentiu. ados. e é fé: ca-tás--tro-fe. CARMEM — Onde está a gasolina? VERA — Para quê? Você não pode fazer isso. hoje vamos brindá-los com um magnífico soneto de Luiz de Camões. ivo. pouco importa: agora é definitivo. seus tempo bemmovimentos dentro por permaneceram escondidas. estão completamente perdidas. caros ouvintes. Daqui de onde do estamos tenebroso Aleluia! já conseguimos antro onde e senhoras visualizar tanto senhores. Eu vou para Calmaritá. E é cá.Loucura. VERA — Eu vou embora. e é tas. e é tro. as famigeradas Irmãs Sisters Salvadoras. claro. Carmem e Vera estão totalmente cercadas. CARMEM (Pega o galão de gasolina e começa a derramar por tudo. existe outro. venha comigo. Finalmente as buscas tiveram seu fim. Onde estará aquela vela? (No Plano da Nostalgia. Eu tenho uma cruz marcada no meu destino. Nostálgio vai caminhando com a vela acesa em direção a Carmem. E se não existe esse. ivo.VERA — Existe. informou e continuará informando o seu repórter Nostradamus Pereira neste glorioso entardecer do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste. Sempre existe algum lugar. NOSTRADAMUS (Abraçado a Nostálgio. Ou achadas.) NOSTRADAMUS — E em vez de música. na voz .

caros ouvintes. eia. em pleno centro da minha. No meio do fogo.) VERA — Não faça isso. não te espantes. eclipse nesse passo. o meu lugar é aqui. mais desgraçada que jamais se viu. as irmãs Carmem e Vera conseguiram manter em segredo seu sórdido esconderijo.) — A porta já foi arrombada. inacreditável minha gente adorável : durante dois anos. quiçá segundos vagabundos. Que melodia pode servir de fundo musical a um momento tão . nasçam-lhe monstros. O fogo purifica. furibundos e não esqueçam. sangue chova o ar.―O dia em que nasci morra e pereça. As pessoas pasmadas. Existe outro lugar. com Nostálgio e o Coro dos Contaminados. E é inenarrável. O gente temerosa.‖ NOSTRADAMUS (Invadindo o Plano Real.‖ (Com uma reverência. da sua.) Dizem que ele não é real. e se tornar. venha comigo. Aleluia. acende a fogueira no meu coração. sus! Começa aqui uma nova era para todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. o Sol padeça. Dá-lhe. a mãe ao próprio filho não conheça. não tome mais ao mundo. Este. cuidem que o mundo já se destruiu. e volta para junto de Nostradamus. por assim dizer bem nas nossas barbas. da nossa Zona Contaminada. de ignorantes. Pela última vez. Mas agora está tudo terminado. São João. mostre ao mundo sinais de se acabar. mas quem se importa com isso? Aliás.) ―São João. o Sol lhes escureça. quem se importa com qualquer coisa? Quem se importa? NOSTÁLGIO . (Canta. Nostálgio! (A parte. que está parada no meio de um charco de gasolina. A captura das Irmãs Sisters é questão de minutos. CARMEM — Só existe um lugar.do querido companheiro Mr. as lágrimas no rosto. sem que ninguém soubesse. a cor perdida. Nostálgio. Nostálgio entrega a vela a Carmem. não o queria jamais o tempo dar. bundo é o masculino de bunda. Os batalhões armados do Poder Central já estão invadindo o local. que este dia deitou o mundo a vida. A luz lhe falte.

Vai com Deus. para mim.) HOMEM — Meu Pai.) VERA — É tarde demais. agora. nu.emocionante? A única saída para Carmem e Vera agora é cantar um tango argentino. Eu sei que existe outro lugar. minha louca irmã. A saída. aos poucos. sacudindo os espectadores. agora. quando tudo que eu queria era fazer o bem? Ilumina o caminho da mulher que amei. eu espero que tudo dê certo para você. (Pega o fuzil. de frente para a . VERA (Enquanto Carmem fala. (Luz no Plano Alfa. Preciso ir. Eu vou ficar bem. O Coro dos Contaminados cerca Carmem em semicírculo. com uma coroa de espinhos na cabeça. Eu tenho que chegar lá. Nostradamus dança com Nostálgio. O Homem de Calmaritá está crucificado. devagarinho. eu te abençôo. e depois. eu sei que existe uma saída! Ele me deu o mapa. meu Pai. Vera. Eu vou ficar muito bem. com Nostradamus e Nostálgio atrás. Basta levantar a mão assim. (Começa a tocar La Cumparsita. A beira da minha morte. basta um gesto. E que seja lindo lá. sai gritando pela platéia.) — Adeus. onde fica a saída? Me diga onde fica a saída! NOSTRADAMUS — Atrás dela! Pega! Não deixa escapar! Queremos ela com vida! Pega! Pega! (Vera some. já que não quiseste iluminar o meu. Permanece uma luz suave sobre o Homem de Calmaritá crucificado.) CARMEM (Segurando a vela acesa com as duas mãos acima da cabeça. para nós todos. Espero que você encontre o seu lugar.) — A saída. Preciso salvar meu filho. O meu lugar é aqui. desvairada. eu tenho o mapa. meu Deus. irmãzinha. assim. CARMEM — Eu vou ficar bem.) Adeus. De alguma forma. (Beija Carmem. aos berros. se sabias que eu era nada? Por que permitiste que eu traísse e enganasse. não muito alto. por que me abandonaste se sabias que eu era fraco.

ou outra à escolha do diretor — quem sabe Let it Be. entra música bem alto. Os Contaminados entoam o mantra Om. Em completa escuridão. com a vela acesa. de Vila-Lobos. dos Beatles.platéia.) . junto com Carmem. Ouvem-se ao longe os gritos de Vera e de Nostradamus. Então os ruídos cessam completamente e todas as luzes se apagam. cada vez mais remotos. com Tina Turner?) A vela apaga. à exceção da vela de Carmem.) (O autor sugere a Bachiana nº 5. Ela está sentada em postura de lótus.

“E.” (Miguel de Cervantes. Deus te dê saúde. que tanto me chamava de Quixote. e se não esqueça de mim. de Miguel de Cervantes) À memória de Clarice Lispector. em 1605.O HOMEM E A MANCHA Peça teatral em 1 Ato (Livre releitura do Dom Quixote. com isto.) .

Sentado no . três telões pintados e independentes. uma cadeira espreguiçadeira de lona listrada. Dependendo da ação. Também pode ser um divã ou um récamier. os outros dois um de cada lado.PERSONAGENS (Todos feitos por um único ator) ATOR • MIGUEL QUESADA .nova‖. meio na penumbra. um pequeno praticável. sobre o pequeno praticável.CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA e mais: GUILHERME. ao lado. um manequim de costureira. apenas de malha preta. Talvez na posição do Pensador. Um ao fundo. Além disso. de Rodin. A direita. CENÁRIO No centro e ao fundo do palco. uma voz em off.) (Telões levantados. Quando o público entra. esses telões sobem ou descem. o Ator já se encontra no palco. Apenas o busto. todos pintados como se fossem prateleiras de uma biblioteca atulhada de livros. A esquerda. PRÓLOGO (Que trata da condição do ator e sua procura pelo geral até chegar ao particular. sustentado por um cabo de madeira. um banquinho tipo ―cantor de bossa. pernas nem braços.HOMEM DA MANCHA • DOM QUIXOTE . Sobre ele há um globo terrestre relativamente grande e. sem cabeça.

encara a platéia decidido. é tão difícil começar. começa a olhar em sete direções. Sim. Toca o próprio rosto. etc. muita seca. Para alertá-lo. com entonações diferentes (infantil. Toca o terceiro sinal. Deixa eu ver. O Ator estremece.. é isso mesmo.. quem sabe aqui tem alguma idéia. Mas como se não percebesse.. para baixo.. muita platéia — graças a Deus! —. muito sol. para cima.. Está nervoso.) Era uma vez. (Torna a girar o globo. a Groenlândia. Acende luz sobre o Ator..) ATOR — Era uma vez um ator.. Nossa. muito frio. Para cada uma dessas direções. catastrófica.) Era uma vez.. Claro. Muita areia.. Eu.. Dá uma giradinha de desprezo no globo. Nem um pouco dramático. Levanta a cabeça. e bebe avidamente. e onde era uma vez? E tão difícil escolher. meu Deus? Era uma vez quem? E quando... lírica. muito bastidor. (O Ator pega um copo ou garrafa d’Água ao lado. então. era uma vez. etc. era uma vez.. era uma vez. (O Ator larga o copo/garrafa.) vai repetindo: ) ATOR — Era uma vez. muito chato. direita. tem que ser alguma coisa que eu conheça bem. como se o estivesse vendo refletido. Lentamente. muito calor. Deixa eu tentar outra vez. as luzes da platéia apagam. muito branco. assustado.) ATOR — Era uma vez. Eu. muito camelo. Muito gelo. eu. Era uma vez o que.. muito iglu.. muita coxia. no chão. Depois levanta-se e...banquinho. era uma vez. muito pingüim... Faz o sinal da cruz. em pé. Por que não? Afinal. . Alguma coisa devo conhecer. era uma vez. era uma vez. Muito palco. ele continua a contemplar o globo sem se mover. cabisbaixo ele contempla um globo terrestre com muita atenção. muita luz. muito esquimó. muito ensaio.. Retoma o autocontrole. Faz quase quarenta anos que convivo comigo mesmo. o Saara. Ah. Depois fica olhando o vidro. eu me acho bem interessantezinho. toca um quarto ou quinto sinal. com movimentos muito definidos da cabeça — esquerda. que sede me deu. (Gira o globo terrestre. então. Com o indicador apontado faz com que pare ao acaso.

. muito sonho. de braços abertos. O Ator desce do praticável e vai caminhando para a boca de cena.muita emoção. Muito ―Era uma vez‖.) .. muita ilusão. (Música circense feérica. Muito.

) .) ATOR (Mais sério. As últimas falas sao dadas em off. que eu incorporo... cantarola alguma coisa). é dele que eu falo. Eu não seria um ator se não conseguisse ser também esse outro. posa. eu continuo sendo eu. agora. então. Como vocês podem ver.. mas também. divertidos. sei me movimentar.CENA 1 (De como o Ator sofre um pequeno surto narcisista mas acaba por reconhecer a necessidade do Outro para ser. eu sou mais ou menos alto. eu sou um ator. sei dançar (dança um pouco. tragédia grega. passo a ser um outro. Simpático. Meu nome é Carlos. Falo principalmente daquele outro em que eu me torno. ou cada noite um texto diferente. meu Deus? Será que estou muito chato? Será que estou pirando? Onde está o personagem? (O Ator vai ficando cada vez mais frenético. assustadores. Molière. engraçado.) Bom. Eu conheço bem meu corpo..) — Quando represento. O importante é que seja alguma coisa bem conhecida do público. estranhos. porque ele sempre se vê em mim. ao mesmo tempo. confuso. (Pausa.Ladies and gentiemen. mesmo quando não gosta do que vê. Não tenho miitos cabelos nem muitos músculos. Caminha pelo palco procurando. mas sei principalmente representar. será que eu não sou um ator? Será que eu não sou eu? Será que eu não sou nada. embora eu também seja esse. fazer gestos dramáticos. (Faz vários gestos. O personagem. ilustrando o que diz. depois sai de cena. aqui.) ATOR . E não estou falando do outro que me assiste. um pouco tímido. Um ator não é uma ator sem um personagem. (O Ator recita qualquer coisa breve — Shakespeare. flainenco seria o ideal). que eu me transformo quando estou sendo um ator. mas acho que sou.) Eu também sei cantar (improvisa. meio magro.

verdadeiro inferno sonoro. O barulho diminui. Está um tanto excitado. como se ficasse lá fora. Ouve-se um intenso ruído urbano. Alarmes de automóveis.) MIGUEL — Enfim só. o Desventurado Trabalhador Anônimo. livre desse pesadelo que parecia sem fim. britadeiras. Deposita as coisas em qualquer lugar. Quero pensar é na vida.) Mas passou. máquinas de escrever. uma vassoura. Abrindo uma porta imaginária. claro. Hoje foi definitivamente o último desses. buzinas.) Eu processo! Eu mando sustar o cheque! Susta. sirenes de polícia e bombeiros.. Longe de toda essa loucura. Essa é a única certeza que a gente tem. (Noutro tom. telefones. gritos. Parecia que o tempo não passava nunca. a luz permanec e apenas sobre o globo terrestre. freadas. faz o gesto de fechar a porta. Por sobre a malha o Ator. etc. entra Miguel. Intermináveis anos. Na minha nova vida. Fora a morte.. sei lá. O tempo sempre passa. trinta e muitos. Traz uma maleta de executivo tipo 007 e várias sacolas de supermercado.) Mas hoje não quero pensar na morte. talvez chapéu.) Querem acabar comigo! Isto é um complô! (Em off cada vez mais longe. sons de metrô. . Eu até desisti de contar. o personagem. No palco vazio. susta! Eu quero porque quero o personagem! Me chama a produção! Cada meu celular? CENA 2 (Na qual se introduz afigura do personagem de Miguel Quesada. Quantos anos mesmo? Trinta. ambulâncias. (Animado. trinta e tantos. Miguel usa paletó. vendedores ambulantes. muito embrulhos e pacotes. gravata.ATOR — Onde está o outro? Ele é essencial para a minha sobrevivência! Onde está o personagem? Eu não tenho sentido sem o personagem! Eu vou enlouquecer sem o personagem! Eu preciso do outro! (Vai saindo.

) Falo da sonoridade. neuróticos urbanos. meio pedante. Quanta tranqüilidade. em seus aposentos. Onde habitam os anjos. Após. o neurastênico insuportável.. para estremecer a platéia.o desventurado trabalhador anônimo. Decibéis altíssimos. o silencio. cidade infernal do meu calvário de cada dia! Sayonara.. não econômica. inferno! So long. Começa a rodar pelo palco. sapateia. gente que nunca me quis! Au revoir. o zé-ninguém que nunca teve nada nesta vida além de seus loucos sonhos impossíveis —. claro. vilie méchante da minha solidão sem remédio! Adiós.(Miguel arranca o paletó.Finalmente chegou o grande dia. Dá pulinhos de dança. O ruído urbano volta. Sentado. (Deslumbrado. locura! Não preciso mais de vocês.) CENA 3 (Onde se revela a radical decisão de Miguel de desligar-se do defora e as providências tomadas para tanto. No mais perfeito e absoluto silêncio. amigos que me traíram.. o chapéu. o solitário depressivo. Ah essa coisa sagrada. fica só com a gravata sobre a malha.) (Subitamente Miguel abre a porta imaginária. Uma questão estética.. (Pausa breve e silenciosíssima. um tanto ridículo. que bela palavra! Deve ser uma das mais lindas da língua portuguesa. Depois. evidente.) MIGUEL (Aos berros. quanto silencio. lógico. Miguel Quesada . . Arrivederci. Nem às filas. Uma palavra tão rica em melodia. insuportável. O ruído some.) MIGUEL . (Poético. mulheres que não me amaram. em seus após. de estar sentado.amado. Miguel Quesada está livre. o mal. gentalha! (Bate a porta.. bloody heil! Goodbye. Nem a toda essa miséria.) — Adeus. Aposentado.. sentado. tão cheia de significados. Não me refiro ao salário. cantarola Singing in the rain ou qualquer coisa assim...) A-po-senta-do.

(A parte.) MIGUEL . E também tenho minhas lembranças. e até o dia da minha morte-amém.. Nada de ―real‖. bebida. eu sempre tive inveja dos velhos. começam a descer os três telões pintados como se fossem uma enorme biblioteca. rubis. (Os telões já desceram completamente. Miguel sobe no praticável... (Vai tirando coisas das sacolas e espalhando pelo palco. E não importa que sejam coisas más ou tristes ou miseráveis ou cruéis. quero dizer.) Porque tem o tempo. E além do mais. Tenho absolutamente tudo que preciso para viver sem sair nunca mais daqui. remédios. um baú transbordante de memórias cintilantes como jóias preciosas. esmeraldas. (Pensativo. minhas memórias. nunca mais vou sair de casa.. que não precisam mais fazer coisa alguma a não ser lembrar. (Irônico.) Bom isso.. Tenho estas quatro. Como Marcel Proust.) Desde bem moço. remexendo na memória. (Melancólico. até os sonhos.. Um homem desses pode apenas ficar lembrando.A partir de hoje. mastigando.Enquanto Miguel vai falando. que modéstia à parte são muitas. consciente das três paredes teatrais. por mais chata que tenha sido a sua vidoca — e a minha..) . tudo nesta vicia são histórias.. Como se na mente deles existisse um. tudo nesta vida começa sempre com ―era uma vez‖. foi chatérrima -. víveres para muitos e muitos anos.. Miguel está cercado de livros. preciso tomar nota. Por um segundo volta a ser o Ator. como Juan Carlos Onetti. Ametistas. qualquer homem de quase 50 anos que trabalhou sem parar desde os 15. Elas já foram vividas. O tempo burilao tosco. todas as coisas que acontecem a um homem vivo são insuportavelmente reais. Não preciso de nada lá de fora. falando franco.) bem. os telões. embora colorido. qualquer homem assim pode se dar ao luxo de passar o resto da vida sem viver mais nada.) Nenhum mérito pessoal nisso. Olha a platéia. O efeito é uma tanto claustrofóbico. não oferecem mais perigo algum. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah. (Hesita. Descem lentamente. estas três paredes do meu apartamento.) Comida. Afinal.. De certa forma.

Melhorou. nunca mais ninguém.) Deixa ver. violência. ainda me restarão os livros. Quesada. o estritamente necessário. Hoje em dia tudo tem entrega a domicílio. Mas reflete melhor enquanto o telefone continua tocando. CENA 4 (Da primeira invasao inevitável do chamado Real Insuportável e a maneira como Miguel lidou com isso. Tinha suas próprias histórias para lembrar.MIGUEL . que foram sempre o que mais amei.) . Nome . maníaco. querida. Até sexo. Mas ele não se importava. quem tá falando? Quem? Tia Flora? Tia de quem? Ah.Alô. Todas as histórias do mundo. O telefone toca. depois hesita sem saber se atende. Miguel de quê mesmo? Que nada? Queijada? Ah. diziam. e que guardam outras histórias dentro deles. Enterrado vivo. sempre existe o velho e bom telefone. Nunca mais desejo. do supermercado. Rápido. desde menino. Sei. espanhol.. moderno. Nunca mais pessoas. (Confere numa agenda. sei. Faz um gesto de arrancar o fio da parede. (Vai-se aproximando do telefone. nunca mais correrias. esse maldito mundo que chamam de ―real‖. a gente nunca sabe. tenho os números da farmácia. sei. Nunca mais filas nos bancos. muito alto. Até da delegacia. e acaba atendendo de uns três ou quatro toques. qualquer problema. nunca mais sinais fechados. Miguel assusta-se. eficiente.. o essencial.) E quando eu estiver cansado de pensar no que vivi. (Poético.Era uma vez Miguel Quesada. do pronto-socorro. Demente. a ligação tá péssima. Que maravilha Nenhum contato com o mundo lá de fora. Quer falar com quem? Miguel de que? Fala mais alto. da pizzaria. E só pegar e ligar. se for preciso. Só o indispensável. ansiedade. o homem que cansou de tudo e nunca mais saiu de casa.) Depois.) MIGUEL (Disfarçando a voz. da locadora de vídeo.

ter. não sei pra onde. (Miguel pega uma secretária eletrônica.) Não.) E tem também a Carolina. Pois é. minha filha. (Sinal eletrônico. (Espreguiça-se.) Mas a Carolina acho que nem tem meu número. (Com pressa. tão esclerosada que nem vai achar estranho. Miguel viajou. mas não tem mais.) — ―Isto é uma gravação. tinha. Não. Aperta botões e grava uma mensagem com voz disfarçada. coração. Como é mesmo que minha mão dizia? Quem não é visto não é lembrado. Estou cansado.. .) MIGUEL (Gravando. A partir de hoje tenho todo o tempo do mundo. viu. nunca contei a ninguém desse meu plano. amor. Hã-hã.) Mas não tem pressa. a tia Flora. (Miguel bate o telefone com força. longe do coração. No começo vai ser assim mesmo.. insistir. Saco. é tão pouca gente. paciência. Mas talvez seja melhor tomar algumas providências. Sem trégua. (Melancólico. (Fatigado. Eu só fiquei com o apartamento. Todo o tempo do mundo pra não fazer mais nada. Ah. Inútil deixar recado depois do sinal‖. Nunca pediu. nunca ofereci. Não disse quando volta. Tchau. tanto. claro. Preocupado.) Depois.. Não sei de nada. Em seguida todo mundo se acostuma. Foi uma luta. meu bem. (Pausa. nem vizinho. (Suspira. a Silvana lá do banco. Sinto muito. E. perguntar. Afinal. Quem mais? Ah. caminha pelo palco refletindo e tentando relaxar. Nem sei bem por onde começar.) Esperei tanto por este dia. Viajou. Talvez nunca. Nem conheço ele.. Venci. Miguel continua seu monólogo.mais esquisito. mas tudo bem. Mas a coitada está tão velha e surda.. O Zeca da livraria.. (Irônico. Longe dos olhos. não tem ninguém aqui com esse nome não. nenhum irmão ou filho. Liga pra informações.) Nenhum pai. nem namorada. Algumas pessoas vão ligar. nem credor. O Guilherme do Almoxarifado. Tanto.) MIGUEL— Paciência. nenhuma mãe. Quer dizer.) As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade. esse tal de Miguel viajou.

) HOMEM (Acorda de repente..) Bem aqui. Quase no escuro. Roxa não. Entram acordes de uma melodia espanhola. violeta. (Luz sobre o globo terrestre. Assim. (Meio alterado. A luz vai diminuindo enquanto ele se encolhe. fala sozinho.) Não. Silêncio e paz. ao mesmo tempo em que também começa a emergir o Quixote. só de outra cor. agora mesmo. Não era uma mancha suja. ardente mas suavíssimo. isso eu me lembro.) MIGUEL — Dormir. sonhar. ela estava bem aqui. isso não. Miguel está adormecido. De outra cor. nâo era uma mancha feia. Baixou o Quixote. Ah. Só um pouquinho.) . que sono meu Deus..) .) Do tamanho do mundo.. roxa. Quando Miguel desperta. já está’ transformado no Homem da Mancha. roxa não! (O Homem levanta-se da espreguiçadeira. quieta... (Dorme.) CENA 5 (Na qual se introduz um novo e inquietante personagem. Azul celeste. Amarelo água.(Miguel deita-se na espreguiçadeira. De vez em quando voltam nesse Homem as suas porções Miguel e Ator.. tão cansado.. Boceja. como se tudo fosse branco ou preto ou cinza. (Procura no chão. baixinho. se enrosca como um bebê. Não pode ter sumido assim.A mancha. a mancha. como era mesmo? Tão. Era clara. Só um soninho. Mas a transformação é sutil. pelo amor de Deus.. entende? Parada. Onde foi parar a mancha? Estava aqui. talvez só castanholas ou bater de saltos. Luz suave sobre o globo terrestre. gradativa. e em determinado lugar dessa superfície de repente lá estivesse ela. Bem clarinha. Lilás. acomoda-se. bem como sua estranha obsessâo. Era só. Ritmo de flamenco. meu Deus. Imenso. Que cansaço enorme.

não lembro. feito uma rede. Ou mais acima. em baixo. no caminho de Santiago de Compostella. (Noutro tom. Não... Mais ao norte. Em algum lugar ela deve estar. não era assim. (O Homem pára em frente ao globo terrestre. não lembro. Se ela não está aqui. não sei. Uma mancha no meio dos meus miolos. e começa a girar o globo. Sobe no praticável.) A não ser que existisse apenas dentro do meu próprio cérebro. aqui deveria estar localizada Pasárgada. meu Deus.QUIXOTE (Em pé.. Era isso. apalpa-se.) . quem sabe. E o Novo Mundo. Eu estava parado no meio dela. Que estranho.) Ela tem que estar aqui. E onde estarão as Terras de Calmaritá? Gozado. Ou era mesmo uma rede. Madagascar. Nem a leste. Não era exatamente dentro. Pérsia. nem a oeste. eu estava. Esquisito.. maldição! Certamente este deve ser mais um dos imundos encantamentos dos nigromantes do mal que tanto me atormentam! (Homem sai procurando a mancha pelo palco. Ela não estava em volta de mim. um derrame.. Como numa poça de água da chuva.. Mas também não está. hibiscos. E. Tão clara.) HOMEM — Não sei.. eu também não. o caminho das Índias. não importa.) Mas onde estará a mancha? Talvez aqui. eu estava dentro dela. senta no banquinho na mesma posição do Ator durante o Prólogo. se ela não existe. uma teia. em algum lugar. Não sei. um pouco ao sul de Trebizonda.) HOMEM — As Índias. Acho que eu estava dentro dela. Mas não dói. um aneurisma. araras. uma bolha. Dentro. Pode ser então que cerca de Barcelos. dentro não. não pulsa. uma jaula? Não lembro. Um ganglio. Etiópia.. . Em cima. (Leva as mãos à cabeça. Como será por lá? Como será o perfume das manhãs do Novo Mundo? Especiarias. Dizem que existe um novo mundo do outro lado do mar sem fim. Mas Trebizonda também não existe neste globo. Vai caminhando em direção ao praticável enquanto fala. dramático. (Agitado. noroeste ou sudoeste. não sangra. ela não existe. talvez.Ah.

) No meu corpo. Na minha pele. antigo e lê com todo cuidado.‖ Está aqui. chacais. .) ―Miguel Esteban. Já disse que não sinto nada. Esquivias. como uma tatuagem. Então. Depois acalma-se e começa a descer do praticável. Foi lá que aconteceu. no livro. uma queimadura. tramas vis! Novamente a negra falange dos devotos de Lúcifer intenta confundir-me com sua astúcia maligna! Pois saibam que não os temo. uma labirintite. Faz tempo que eu não sinto nada. Nem mesmo um zumbido. Não! Nada! (Violentamente. já totalmente transformado em Quixote. (Começa a pular num pé só. Eram sete os povoados que compunham a região da Mancha. Argamasilla de Calatrava e Argamasilla de Alba.) QUIXOTE . demônios! (Caminha hierático para a boca de cena e declama Mano Quintana. Era lá que estava a mancha.) ATOR (Lendo. ele pega um livro pesado. O Homem permanece parado.(Passando a mão no corpo.Ah aleives. urdiduras. Tisteafuera. Mas eu não sinto nada. Este livro não mente. corvos. batendo com a mão aberta no ouvido. como se fosse novamente o Ator. Volta a melodia espanhola. Villaverde.) Nem sequer aquela sensação de quando entra água nos ouvidos. Quintanar de la Orden. ladrões de estrada! Da minha mão avaramente adunca! Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!‖ CENA 6 (De como por momentos o Ator retoma sua voz. uma vertigem. o Homem joga longe o globo. a mão direita cri spada e erguida dramaticamente no ar.): ―Vinde. mas é definitivamente tomado pela figura quixotesca. um pouco mais forte.

) Lança em riste para defender-me dos vilões. dos corruptos. Rede ou ferida. rocim fraco e galgo corredor. vivia. adarga antiga. Portanto. tenho provas de que existe. não há muito.) HOMEM . Espaço físico. .‖ (O Ator fecha o livro. Maracutaia. (Noutro tom..) VOZ GRAVADA . Começou a transmutar-se novamente em Dom Quixote. Vírus ou alucinação. com o livro erguido na mão. como dizem — e talvez tenham razão — certamente as idéias deste autor não o estavam quando. fado meu. não me deixarei abater por patranhas vulgares. mouros encantados. Mero engodo.) E ainda que não.) Ah. dentro ou fora. embora não consiga encontrá-la em lugar algum. Fala em tom pedante. um fidalgo dos de lança em cabide. que importa? Em mim. Caminha nervosamente. real. E volta a ser o Homem da Mancha. professoral. E eu preciso enfrentá-la. Pois convenhamos. opressores de toda a aldeia global. reles tramóia. QUIXOTE — Parece mais do que evidente que toda esta burla não passa disso mesmo.―Num lugar de La Mancha. acautelai-vos! Vossos dias estão contados. (Suspiroso. Devaneio e perdição. Sinto que é chegada outra vez a hora de partir à cata de aventuras. ou até mesmo em volta. Nigromantes. se escreveu ―num lugar‖ isso obviamente indica que a referida mancha ocupava — ou ocupa — lugar no espaço. O Homem deixa o livro de lado. Geográfica ou psicologica. (Animado. de cujo nome não quero lembrar-me. para iniciar sua obra imortal. Mas como fidalgo que sou.Senhores. A mancha existe. por mais que minhas idéias andem perturbadas. Apanha uma espada de plástico ou madeira. Entra uma voz gravada lendo a primei ra frase do Dom Quixote. de Cervantes.(O Ator pára. escolheu justamente a expressão ―num lugar da Mancha‖..

eternamente enfrentativo! E salve também Dom Belianis da . a duras penas. Música espanhola caliente. (Altivo. por conta de um mal nos rins (apalpa as cadeiras. que jamais gastou pólvora em chimango! Salve o nunca assaz louvado Tirante.) QUIXOTE .) Defensor das donzelas. que nunca abaixou a crista! Salve o valoroso Felismarte de Mircnia. além de mim. Quixote ergue a espada e saúda em tom vibrante. Quixote vai-se vestindo. (Dom Quixote já está totalmente paramentado e. mas com certeza aflige também. mesmo que todos nós hoje nos sintamos a ponto de sucumbir sob a pata imunda desta Idade do Chumbo que a mim maltrata os rins.) Mesmo que Idade do Ouro tenha passado e de seu antigo esplendor não restem mais que cinzas. e a vós não sei que partes do corpo ou da mente. Roupas e armadura são improvisadas com material retirado da maleta de executivo e/ou das sacolas que Miguel trouxe.) QUIXOTE — Salve o valente Amadis de Gaula. mesmo com toda a vulgaridade e preconceito que grassa pelos quatro cantos do mundo — a profissão de cavaleiro andante deve ser preservada a qualquer custo. muito bizarro. que briosamente resisto a todos os embates do destino. mais objetos que já estão no palco. Pode até pedir palmas da platéia. naturalmente. Por isso. o Branco. jamais deixarei de pertencer nobre ordem dos cavaleiros andantes. tm mantido acesa e ardente a chama da dignidade e da ética. geme) que quase me arrancou a vida. quero louvar bem alto a outros cavaleiros que.CENA 7 (Onde o fidalgo sonhador paramenta a si mesmo de cavaleiro andante e pede a bênção aos cavaleiros que o antecederam na lida. Enquanto fala. amparador das viúvas e socorredor dos órfãos e desvalidos da sorte! (Para a platéia.Embora temporariamente fora de combate.

Grécia e todos os outros que porventura olvidei. sem sair do lugar. Digno de ti e também de mim. amigo. Mas digo-te em segredo e cá entre nós. um bod de plumas. Tudo enquanto fala. para render homenagem à célebre montaria de Alexandre. sonoro. Teu nome entrará para a História.) QUIXOTE (Para a vassoura. mas por ser urgente a minha partida e curta a vossa paciência! CENA 8 (Na qual se narra com graça e nobreza o batismo do matungo finalmente conhecido como o Veloz Rocim Rocinante. nascido da garganta decepada da medonha Górgona. séculos amém. Pelo sangue derramado das veias dos bravos tombados em batalha. és valente e veloz como o vento que desgrenha a copa dos olivais. um só ser seremos. como se fossem a cabeça do cavalo — e começa a trotar lentamente. Pois embora não tenhas asas nem mítico nascimento. como se fossem arreios. Ou talvez Bucéfalo. Pendura fitas. como um centauro. que sobre teu dorso percorrerei uma a uma as páginas das estradas e dos séculos. resplandecente. e esse nome desde já imortal precisa ser alto. Depois monta ao contrário — isto é. do Filho e do Espírito Santo amém again. te batizo Rocinante em nome do Pai. meu rocim banhado pelo rocio. Fomos feitos um para o outro e. como se fosse a crina.) — Poderia chamar-te Pégaso. Num ritual coreográfico.) . como o corcel alado do herói Belerofonte. com as palhas em frente ao próprio rosto. enfeita-a com esmero. Quixote apanha a vassoura que Miguel trouxe com as compras. o Grande. não por desprezo. (Quixote faz uma cerimoniosa curvatura para a vassoura enfeitada. para que não nos oiçam os intrigantes: no meu conceito pertences a uma estirpe ainda superior à daqueles dois. improvisa uma sela com uma almofada.

Vamos lá. Em frente. Vamos lá. Rocinante. Não é de minha têmpera partir sem antes despedir-me. Certa confusão. a acenar-me — vês? — como se humana fora. aos gritos. Rocinante. senhora minha! CENA 10 .) QUIXOTE — Detém teu galope. Detém-te pois. seria profano dirigir-me a Ela montado sobre teu dorso. enfrentar gigantes tenebrosos e feiticeiros malévolos. Frente a esta divina aparição. desencantar brancas donzelas cativas. pocotó. mais vibrante. amigo Rocinante. Eia! O mundo nos aguarda. Montado na vassoura-Rocinante. a cambraia do branco lencinho marejado de lágrimas. Durante a cavalgada derruba alguns objetos. meu impetuoso corcel. que aqui estremeça! (Para o manequim.) E agora basta de cortesias.) Dulicinéia! Dulcinéia del Toboso. daquela que determina a mais funda razão de meus atos. e com esmero. Quixote cavalga doidamente pelo palco. com intensa emoção. A música só diminui quando ele pára subitamente em frente a um manequim.QUIXOTE — Pocotó. arrancar odientos tiranos de seus sórdidos tronos de sangue. Vê como soa magnífico? Vê como se parece contigo? (Noutro tom. Vamos lá. bravo Rocinante. alimária. A melodia espanhola fica mais alta. a bem-amada de nosso fogoso personagem. pocotó. em louca disparada. que a vida é curta para tanta estrada! CENA 9 (De como se introduz na narrativa a idolatrada figura de Dulcinéia del Toboso. berrando com a espada erguida.

Ao apear de Rocinante. com leve sotaque lusitano.. Jamais ousaria pensar em mim como um amante. o personagem.) MIGUEL (Para o manequim. Quixote enreda-se nas fitas.) Colegas de trabalho. que lindo encontrar contigo todas as manhãs de todos estes dias de todos estes anos. tão fiel a teu marido. o que não nasceu para isso. nunca mais.) — Tu foste a única pessoa que poderia ter emprestado alguma cor à minha em sépia.) Ai de mim. Eras tão distante.) MIGUEL — Adorno teus ombros nus. Perturbado. muito colorida. a teus filhos. nos adereços..): ―Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta. e sem nenhuma graça. .. Beija-a. (Trágico. para que não te cause dano o sereno da noite. No lugar da cabeça. Eu. sociáveis: dispensáveis. nunca mais... Pega uma mantilha espanhola.. e cantou a cantiga do Infinito numa capoeira. Carolina. Carolina. aperta-a contra o coração.(Que trata da súbita e inesperada vinda à tona do desventurado Miguel Quesada para revelar seus frustrados amores. e ouviu a voz de Deus num poço tapado. e leva um tombo grosseiro.. à tua vida banal e limpa de senhora honesta. Miguel coloca a mantilha sobre os ombros do manequim. põe uma rosa vermelha. geme uns versos de Fernando Pessoa/Alvaro de Campos. ainda no chão. como um corvo triste repito em despedida: nunca mais. Carolina. Amáveis. E porque sei que é inútil. Nunca me atrevi a dizer nada. Que horror. o homem invisível.‖ (Subitamente Miguel recompõe-se. já um tanto influenciado pela linguagem de Quixote. por instantes volta a ser Miguel.. (Com amarga ironia. platônico e patético! (Sofrendo muito. Bom-dia-boa-tarde-como-foi-o-fim-de-semanaquer-um-cafezinho-parabéns-por-favor-muito-obrigado.

) CENA 11 (Dos sucessos de Dom Quixote em busca de quem o sagre cavaleiro e outras acolitecências mundanas. E como se chama? Dom Giraldo de Villacafias. mas saberíeis vós dizer-me donde puedo encontrar o castelão deste aprazível sítio? Si. QUIXOTE — Buenos dias. está entrando no pátio de um castelo. que guapo! O que? Estalagem Ao Rendez-Vous dos Javalis? Mas deve haver algum equívoco. outra . entre coxins. Mis cumprimentos. asa de pássaro no meu ferido coração de guerrilheira. entra Quixote por esse espaço aberto. Pelos quatro cantos desta vasta Espanha juro glorificar vosso nome. hermosas sefioritas. Em sua imaginação. Saludos.) QUIXOTE — Prometo que voltarei. Bálsamo de minh‘alma. senhora minha. Dulcinéia del Toboso! (Música espanhola ardente Quixote esporeia Rocinante e sai de cena no galope Por momentos o palco fica vazio. Faz uma profunda. Resta uma luz sobre o globo terrestre.sobre o manequim coberto pelo xale espanhol. anjo das minhas negras vigílias. caro mancebo. damas e cavalheiros deste encantador pueblito. às vezes com algumas expressões em espanhol). solene e amorosa reverência para o manequim/Dulcinéia. (Detém-se parafalar com alguém. como no.) Perdoai-me importuná-lo.(Miguel vai repetindo “nunca mais” enquanto torna a montar em Rocinante. Dom Giraldo não passa o tempo na maciota. cercado pelas cortesãs? . Sempre a trote. muito amável e simpático.irreal . Cumpri menta a todos. Ergue-se um dos telões laterais. esforçados aldeões. outra sobre a espreguiçadeira. Volta a transformar-se em Quixote.

sempre cumprimentando. muito educado. E certo encontrálo na estalagem.) Como diz o vulgo.) QUIXOTE (Com um salamaleque. Muchas gracias. Vale! (Quixote despede-se. feliz. (Quixote “estaciona” Rocinante. música alta. como bom administrado que parece ser. O Homem da Mancha voltou ao ser pronunciada apalavra “Mancha”. enquanto reflete.) . CENA 12 (Que trata da inesperada e inoportuna vinda à tona do perturbado Homem da Mancha. Dofia Rosita? Sempre solteira? (A parte. nada mais político.. (Noutro tom. Lejos de mi duvidar de vossas palavras.) Buenos dias. sempre com sua obsessão.) E além do mais. Sou o futuramente lendário Dom Quixote de La Mancha.Pensando bem. Dom Giraldo deve apreciar beber umas e outras. nada mais humano. Dá voltas pelo palco.) Y todavia si. fragmentos de conversas. Quixote vai pedindo licença. Senior Bigas Luna! (A parte. Nada mais louvável. Ao fundo.Nobre castelão Dom Giraldo de Viliacafias. O referido Dom Giraldo deve ter afinal suas fraquezas. apeia e faz uma mímica para entrar na estalagem Ao Rendez. tinir de copos. (Esporeia Rocinante. está certo. Voilá. O Homem começa a procurar.No. em 0ff ruídos de risadas. como assegurou el pibe. no. permiti que me apresente. e sai trotando. (Noutro tom. gargalhadas. deve apreciar o contato mais íntimo com o povo. Vai rindo sozinho.) Depravado! (Reflexivo. claro.) . morocho muchacho.Vous dos Javalis.) QUIXOTE ..) Como está. Os ruídos gravados cessam por completo.) Perna! (Reflexivo.

O que? (Mais alto. não. Faz favor? E que sem ela.. assim. pousada e mais importante que tudo. não sei o que é isso. não..) .) ATOR .. Homeless? Não. o Homem transforma-se no Ator. Não teria o senhor por acaso visto por aí uma mancha assim. encontro-me ainda nas primícias da sua... como cavaleiro andante que sou. ela não tem preço. E como se tivesse um branco e esquecesse o texto.. ela deve estar por aqui? Pode levantar seu pé.. estala os dedos.o que estou dizendo. quer dizer. à parte) A de caralho! A deixa.. (Mais alto. eu. Dom Giraldo. nem muito escura também. isso não interessa —. e da pesada. da nossa — digamos — saga imortal Ousei adentrar vossos domínios com meu brioso corcel. sem mais delongas.. que lá fora encontra-se em merecido repouso. Estou dizen-do. (Disfarça. pelo amor de Deus! CENA 13 (Na qual o Ator recupera seu autocontrole e garbosamente volta a ser Dom Quixote para espanto de todos.) QUIXOTE (Muito inseguro. visto que — não.) Dizendo. por favor? Obrigado. moça.) Porra. Não. eu disse.. eu não sou ninguém. Silêncio absoluto.. em pânico. Por alguns instantes.. E só uma mancha. Cainha. . me entende? (Agitado. Dom Quixote. Quer dizer. não moro em lugar nenhum. eu tenho que achar a bosta dessa mancha! Você entende o que estou dizendo? (O Homem pára e olha em volta. no aguardo de vossa atenção.. pois bem. olha a platéia. Clarinha. da minha. E o Ator.Perdão. Rocinante de Tal. mas como eu ia dizendo. Ela é barata. Dom Giraldo de Villacaíias desejo solicitar-vos —ufa! — alimento. Eu fico solto no espaço. Uma mancha clarinha.HOMEM — Dá licença? A mancha.) Não. Não muito grande. por este — digamos — pequeno surto.

enquanto fala. (Aperta uma mão imaginária.) Biscate! (Para Dom Giraldo.) Devo dizer-vos que em futuro não só próximo. posto que. corno se estivesse de braço dado com Dom Giraldo. Arma uma espécie de escultura. E como está o Sefior Montiel? (A parte. Buenas noches. gracias.) .. mas também remoto. atentado pelos nigromantes.como eu ia dizendo.) — dez por cento vos parece justo? — ao sagrador Dom Giraldo de Villacafias.) QUIXOTE — Então. vossa concordancia resultará em vosso próprio louvor. sobre praticável. Arruma as roupas ao lado das armas. bem como.) Corrupto! CENA 14 (Dos sucessos e também insucessos de nosso herói no ato de velar suas armas. Até o alvorecer permanecerei vigilante. como determinam os manuais de cavalaria (à parte. Pode até ficar nu. ou só de cuecas. Dom Quixote tira a roupa. ponho-me pois de imediato a velar minhas armas. com cuidado. sagrar-me cavaleiro? (Aliciante.) Buenas tardes.. usando também Rocinante... Sefiorita Santa. encantado. evidente. com vossas nobres mãos. A luz baixa. junto ao globo terrestre. of course. à musa Dulcinéia dei Toboso. Vossa Esplendidez finalizará o milenar ritual da sagrada salerosa. ou ao contrário.) Gracias. (Noutro tom. deverei — ufa! — honrar e defender até a morte e tudo e tal.enfim e ao cabo: poderíeis. como o crepúsculo já acaricia com seus róseos dedinhos o alto das cumeeiras. E ao romper da aurora. . (Quixote sai caminhando. Señor Dom Giraldo! (A parte.

por supuesto hão de vir importunar-me com suas perfídias. Doze. se tendes amor a vossas peles fétidas lavradas de cascas purulentas! (Com um movimento brusco. Insone e temerosa por meu fado.. com uma vela de sete dias numa das mãos.Dez. uma serpente. Quixote derruba alguma coisa na escultura. Onze. como se lutasse. unicórnios. Quixote. que cochila. como uma fortaleza inóspita cravada no centro do meu coração.) . ogros e abantesmas: não ouseis vos aproximar de moi! Hei de resistir até o primeiro canto do gelo branco. silfos.) Guardai distância de mim. (A parte.. orixás e fadas: todas forças do bem estão do meu lado! além dos espíritos daqueles cavaleiros já tombados em batalha. Imediatamente salta. (Grita para a escuridão.) QUIXOTE (Contando as badaladas finais. Meia-noite. (Mais calmo. Ela me protege com suas orações a La Virgen de Macarefta. Preciso estar alerta. um relógio bate lento 12 badaladas.) E sobretudo.) QUIXOTE — Porventura sois surdos? A cera em vossos ouvidos será mais espessa que as muralhas de Jericó? Atrevei-vos a fazer barulho. . até o primeiro raio de soi da aurora! Nada de mau há de me suceder durante esta vigília! Ninfas. hoje cavalgando as pradarias do infinito! (Luz sobre o manequim! Dulcinéia. Esta é a mais perigosa de todas as horas.) Gentalha das trevas. Como um raio. Sabedores que aqui vela em solidão um cavaleiro inimigo do mal. arcanjos. Aquela em que feiticeiros e nigromantes escolheram para seus nauseabundos batuques. Ao longe.) I hope so! (Para a escuridão. cheia de crocotós. salamandras.Depois senta em postura de lótus.) Deixai-me em paz com meus pensamentos.) Pois então toma e toma esta em teu tentáculo nojento e outra mais em tua pata disforme e toma mais esta na tua carantonha medonha. duendes... abortos langanhentos? (Toma a espada. um LEO — pardo. encontra-se também minha bem-amada senhora Dulcinéia del Toboso. furioso. que exigem a mais funda concentração e a mais alta filosofia. acorda súbito.

Dai-me forças e dai-me fé. Que .) HOMEM (Olhando a própria pele. que tifego! (Brinca um pouco com a luz. pega a vela e tenta retomar a posição em lótus. eis o galo que cocorica três vezes.) Ah. O perigo passou. ufa.) QUIXOTE (Recuperando-se.(Quixote arruma a escultura. poupai-me. Mas de repente começam a jogar pedras. Os objetos vêem de fora de cena. ovos de todas as direções. Ao mesmo tempo. meu Deus. não.) Amanheceu. Senhor. Eu devo ser um dos últimos. (Escuta.) VOZES EM 0FF — Cai fora. (Benzendo-se.. que pássa? Ah.) Vinde. galo preto da encruzilhada! (Para a luz.) — Ah. curador divino das feridas humanas. não.) Oh puríssimo anjo Rafael. lacraias e morcegos. Um tomate de pano ou plástico atinge Quixote na cabeça.) Pero. idiota! Manda matar! Jacira! Tá muito louco! Vai-te catar! Tá pensando que é o que? Fora. Oh..) . Já se foram tantos. E torna a vir à tona O Homem da Mancha. Eu tenho que resistir. eis o primeiro raio de sol. babaca! Quero meu dinheiro de volta! CENA 15 (Onde continua a narrativa da conturbada vigília até o raiar da manhã radiosa. Por piedade. um galo canta ao longe. já se foram todos. junto com apupos.. verte em minhas veias o líquido sagrado de tua ânfora dourada para purificar meu sangue! (Subitamente um raio de luz incide sobre o rosto do Homem. najas emboscadas! Vinde todos a mim..Hein? O que? (Toma a espada. Ele desmaia. Na minha própria pele. horrorizado. tomates. O Homem cede lugar outra vez a Quixote.

Quixote recupera-se com toda a dignidade. venci a primeira prova iniciática. majestosíssimo senhor doutor Dom Giraldo de Viliacafías.) So! (Começa a entrar música sacra ao fundo. (A parte.canoro Chanceler. (Suspirando. Quixote tenta levantarse.) Tivera eu comigo o poderoso bálsamo de Ferrabrás. improvisado e monótono. Abaixa a cabeça.. Como vades.. todo ritual foi cumprido a bom cabo e a contento.) Bueno.) Deponho pois minha depauperada porém altiva carcaça a vossos mitológicos pés. (Aliviado.. Depois levanta-se — é o Ator que assume o papel de Dom Giraldo —. CENA 16 (Do ritual da sagrada sagração e toda a sua magnifica magnitude.. mas os rins doem muito. Ai que estou a adernar feito uma caravela em plena borrasca sem ao menos ter descoberto o Brasil. e o passar inclemente dos anos instalou-se-me direto nas cadeiras. Permanece um momento assim. Com as mãos nas cadeiras.) QUIXOTE — Buenos dias.. com uma das mãos erguidas sobre a cabeça de Quixote. Música sacra mais alta. (Quixote apóia um dos joelhos no chão.) QUIXOTE (Com forte sotaque lusitano. para que me façais por fim cavaleiro andante a vosso serviço..) Eu sou maravilhoso! (Sério. (A parte. ele anda com dificuldade.. Estou pronto para o ritual de sagração. Ao perceber que o imagindrio Dom Giraldo entrou.) — Ai que já no tenho mais fresca idade. pega aquele mesmo livro da Cena 6 e lê num latim errado..) .

pelo lado do telão levantado. (A parte. com a mão livre. acabou.) ATOR — Pronto: acabou. Et voilá! (O Ator retoma a posição de Quixote.) CENA 17 (Onde são narradas inevitáveis indecisões no início do caminho e também as curiosidades turísticas de Rocinante. satisfeito. Quixote ergue as mãos unidas para o alto.) Obrigado pela verba! Claro.) . Haendel. (Bate na barriga. Mercado aberto às importações.) QUIXOTE (Mastigando alguma coisa. E sai trotando pelo palco. (Talvez Bach.‖ (O Ator benze o lugar onde deve estar Quixote. sei. Geme. doem-lhe os rins. prometo colaborar com vossa campanha. Apanha a espada e. nobre Dom Giraldo de Villacafias! (Sacode um saco de moedas.) A luz dá a ilusão de vitrais.) Pocotó-pocotó-pocotó. bate três vezes em cada ombro da imaginária figura ajoelhada.) — Adiós. como se orasse. Tem dificuldade. Todo paramentado.) Marajá! (Trotando. Hã-hã. Aumento de imposto. Pode usar uma varinha de incenso. Deus faça a vossa merca muito bom cavaleiro e tudo e tal e lhe dê toda a ventura na lida desta vida fodida. bate a cabeça no chão três vezes — como num terreno de candomblé — talvez coloque uma guia — e torna a vestir-se.ATOR — ―Per saeculum saeculorum dominus vobiscum peter filiis et espirictus sanctuslesbia pulchra est vanitas vanitatis summa cum laudae saculus plenus vaticanum voitilum positivus este terrae terrarum terris sumus est sun ad infmitum daementia precox amem. Enfim consegue. acabou. Quixote benze-se. claro. Sinos. adiós. Música sacra. suspira. monta novamente em Rocinante.

Se pelo menos cruzasse meu caminho algum peregrino capaz de dizer-me onde encontrar algumas gotas do miraculoso Bálsamo de Ferrabrás para mitigar minhas dores.) Ai. Alcázar de San Juan e ao sul. Nem sombra de gente. Tudo vai bem. Abandono as rédeas: em tuas patas entrego meu destino. que embora o ar esteja seco farejo na brisa o cheiro da aventura. Só vejo poeira e horizonte sem fim. Deus. não? Pois cedo a teu desejo. mais depressa.) Dize-me lá. a pança está cheia. (Animado. Alarcón. (Esporeia Rocinante. tudo que vejo é poeira.. (Pode colocar óculos para ler melhor. Com sorte há de rastejar por lá algum mouro encantado em lagartixa. Eu não disse? (Apontando. onde estão as limusines? — quero dizer. Relincho gravado. ao norte. Terra mais seca esta minha... . Dize-me então num relincho: o que aconselha tua soberba intuição eqüina? (Pára. (Para Rocinante. o mais repelente feiticeiro dos últimos sete últimos sete séculos. Videiras e olivais a perder de vista.. para onde queres ir tu? Para mim tanto se me dá. Cafiaveras. latejam-se-me os quartos como se alguna morocha tuviera sapateado o flamenco sobre eles..Bueno. pelo visto preferes Alarcón. deixa ver.. Almodóvar del Pilar. Queres ver o famoso castelo.) Eia. mas deixo-te escolher.) Eis aqui uma placa. cavalar amigo.) A leste. por certo gente há de ser. que se não for o demo nem anhangá ou saci. que me renderia boas aventuras.) QUIXOTE — Ah... (à parte) — a sinalização é péssima — indicando.. Tédio.) Lá naquela curva ergue-se um redemoinho de pó.. Eu preferiria toujours Almodóvar. Jóia. claro — dá meia-volta e toma outra direção. a tal ponto que terra e céu parecem um só.. a oeste. Rocinante — comandado por Dom Quixote. (Gemendo.. (Rocinante empina. as aventuras.) E pode ser que deparemos até mesmo com o trevoso Marques de Villene. Mas.

) Isso. O moço imaginário deu-lhe um soco na cara e saiu correndo. (Recompondo-se. (Interrompe-se.. podes partir.) Não creio em vós. ambíguo. Tudo é um tanto erótico. recém sagrado cavaleiro andante com o aval de Dom Giraldo de Viliacafias.. mercenário! E corre que te arranco as calças! (Debochado.. (Desmonta apressado. sebo nas canelas. fracote. isso. Nossa que músculos duros tens. a estonteante Dulcinéia del Toboso! (Quixote curva-se para o moço supostamente amarrado. correi desembestado campo afora. E que peito mais cabeludo. lembrando das inoportunas aparições do Homem da Mancha. poltrão. Escuta..) Para trás. Assim. E não te olvides: a quem encontrares pelo caminho repete bem alto que. antes que eu faça um puchero de vossas frouxas carnes! Correi. Age como se o ajudasse a levantar-se. Pode haver fumaça com efeito de poeira levantada. o eleito da mais formosa dama do universo. que com tanto açodamento açoitais um jovem de tão puro semblante e nobre porte. ao mesmo tempo em que fustiga seu cruel feitor.Alto lá.... Fala como se fosse com um mercador chicoteando seu criado. que mal vos fez este infeliz mancebo descamisado e com o lombo em carne viva? Ladrão? Malfeitor? (Furioso. (Subitamente Quixote cai por terra.) Sou Dom Quixote e pronto. lasanha. sacripanta! Sou Dom Quixote de La Man. Deixa-me desembaraçar-te das amarras. a meus olhos experimentados.) — Está livre.) QUIXOTE . e a quem encontrardes pelos cariinhos dizei bem alto que quem vos enfrentou foi Dom Quixote.) . Quixote cavalga rápido..) QUIXOTE (Para o moço.) Bem. Devo dizer-vos que.CENA 18 (Em que o herói se toma de simpatias por um mancebo. Dá algumas voltas e pára. o malfeitor mais pareceis vós.

) Cofio! Ainda por cima o bofe levou-me os últimos tostões. Porém. (Esporeia Rocinante.. mal-agradecido! Trombadinha! Ah.) QUIXOTE (Gemendo.. Ainda ressoam em meus ouvidos os sinos do palácio onde fui sagrado cavaleiro. mas olhai a quem‖. claro.) Meia-volta. que certamente acederá a meu convite. Tem paciência.) — Ai que sinto cá uma fisgada. Ninguém está livre de aconchegar uma víbora em seu regaço. Tem seus momentos de glória.. . mas principalmente do peso bem mais concreto de toda esta traquitana. Eis que de súbito lembrei-me de um homem muy leal e valoroso. espanando-se. a textura luxuriosa do veludo adamascado na capa ritual sobre meus ombros. (A parte. (Pensativo.. como se meus quartos fossem a boca de um bacalhau pescado pelo anzol. pivete! Michê! (Quixote tenta correr atrás do moço.) Mas para um cavaleiro.. E o que dizer ouro bizantino dos candelabros? (Suspira. velhaco. (Detém-se: insight. diz que quem mais se humiha. mas doem-lhe os rins. Desiste e torna a montar em Rocinante. com sotaque lusitano. solidão e modéstia.) — Volta cá. um tanto deprimido.) Triste sina a de um cavaleiro andante..) Eia! Avante! Ai-pi-ai-ô. cavalgadura. Tivera ao menos um outro ser humano para.. ainda sinto na pele a carícia macia das sedas nos trajes das donzelas. Sinto muito frustrar tua turística tournée.) Bueno. (Apalpa os bolsos.) Mas é claro! Tudo que preciso é de um fiel escudeiro para aliviar-me não só do peso abstrato da solidão..QUIXOTE (Levanta. Silver! CENA 19 (Em que finalmente se introduz a fundamental figura do fiel escudeiro Sancho Pança. me sinto deveras solitário. Ah. nem tudo é luxo e ostentação. mais se exalta. bem me diziam ―fazei o bem. Há também momentos de humildade. sempre trotando. cafajeste! Ingrato.) Saco! (Mais conformado. (Gritando. (Para Rocinante.) Volta aqui.

Vês como brilha e rebrilha um adereço metálico na cabeça do cujo? Pois te juro trata-se do famigerado Elmo de Mambrino. quando falares não o faças a favor do vento. Estica-se e aponta para longe. que toma invisível a quem o possui. (Irritado. que já não é pouco. Hein? Já te disse que nada entendes de cavalaria andante. Sossega pois a tua periquita. que disso entendo eu.. Nada mau.) Não. e não te metas em assuntos de cavalaria. Logo. panelas. Como é possível rememorar os doces aromas de alfazema da perfumada Dulcinéia se teu fartum me faz cair na real? E bem sabes o quanto detesto essa tal real.. machado. não te apoquentes. o Governador Sancho Pança. . por supuesto.. já assinei tua carteira. caso contrário bate-se-me nas fuças esse teu bafo entranhado de cebola e alho e vinho vagabundo e sei lá mais que. mas contra. Limita-te a teu ofício de escudeiro. ao fundo. com correntes tramadas e tralhas penduradas (canecas. caso contrário estarias farto de saber que a fortuna custa a surgir.. Por sob aquele 1amo altaneiro vem vindo um cavaleiro a trote manso. ou mesmo sobre um skate. só resta um telão. Digo e redigo que aquela ilha em Angra será tua assim que tivermos alguma aventura — digamos — mais substancial. puxa um pequeno barril com rodas embaixo — ou sobre um carrinho. arrancaremos a máscara da face de alguma medonha megera. por uma cordinha. E seremos regiamente recompensados. Continua montado em Rocinante e. etc. O barril. (Mais paciente. Sancho Pança.Raios se me partam los cuemos se aquilo que avisto não é o Elmo de Mambrino! (Para Sancho...) QUIXOTE (Para Sancho. dear. Afinal. logo destronaremos algum tirano.) E por caridade.. mula.Ergue-se o outro telão lateral. Portanto. desencantaremos alguma bela princesa cativa. Quixote sai de cena por um lado e volta imediatamente pelo outro. calma.) QUIXOTE . Prometo.) — Esporeia teu asno. hein? (Quixote detém-se de repente.) Como não vês nada? Será que além de sonso és cego? Presta atenção. Essas coisas. It‘s my business..) é Sancho Pança. Sua Excelência. Até o final da temporada a prometida ilha será toda tua. prometo.

(Quixote apeia. Nem azinheira nem pitangueira. Sigamos portanto nosso rumo. minha cabeça . com um penico na cabeça. companheiro.quer dizer. estrupício. Eu falei á-la-mo. Quixote dá voltas por fora do palco. Quixote volta muito orgulhoso. Entrevero em off. ave. Pega Sancho e ergue-o acima da própria cabeça. . Na ribanceira. deixando Sancho parado.as portas da glória se arreganham para nós. homem de Deus! Põe-te em pé sobre teu asno e verás que verias o que vejo eu. (Devolve Sancho ao carrinho. Gira-o como um periscópio até focalizar um ponto.) Com o poderoso Elmo de Mambrino em minhas mãos .) . tapume. oh torvo escudeiro! Botaste reparo na desabalada carreira em que escafedeu-se o bandoleiro transmutado em cura? Ave. ouvem-se apenas os gritos.Deixa-te de preguiça.) QUIXOTE (Para Sancho. pois tomba lânguido o crepúsculo e o fatigado cavaleiro tem precisão de um sítio ameno para repousar seus ossos. feito chapéu. Viste? (Irritadíssimo. (Quixote torna a montar. mais abaixo.) QUIXOTE Que azinheira.) Então não percebes que os malditos nigromantes transformaram o cavaleiro num gordo cura de aldeia? E não percebes também que transformaram o próprio Elmo numa reles bacia? Pois te afirmo que esses grosseiros encantamentos não deterão meu ímpeto.) Como? Um cura com uma bacia na cabeça para proteger-se do sal? Por certo perdeste o senso. evoé! Mais uma conquista do invencível Dom Quixote! (Acaricia o Elmo/penico. CENA 20 (De como se faz noite e nosso herói arma o camping para o repouso enquanto lembra a bem-amada em suas orações.Três vezes vitória. Sai gritando com a espada. Lá.

agora que tanto deles preciso antes de embrenhar-me pela ignota região dos sonhos. (Deitado. Noite. tuas cebolas provocaram-me horrendos borborigmos.. E quanto a ti. por tua inaudita beleza te peço que os escute. pois cifram-se apenas em implorar que te não recuses a dar-me o teu favor e amparo. Quixote apeia. Dorme em paz. Alimenta Rocinante com uma cenoura. Quixote estende um sleeping-bag. Sonha com tua ilha. Quixote reza. compadre Sancho. se é possível que cheguem aos teus ouvidos as preces e rogos deste teu venturoso amante. (Arrota. palavras são um sussurro na escuridão. E não olvides tuas orações. Pode-se também forjar um fogo com papel celofane vermelho.) Perdão: a cada dia o seu quinhão. certamente opíparo não é o adjetivo mais adequado para este frugal repasto. as mãos unidas. Luz A sobre luz vai Dulcinéia/manequim. amanhã teremos faisão. que não olvidarei as minhas. Causar. Tira o Elmo/penico.. Mastiga um pão.) QUIXOTE (Prepara-se para dormir. caríssima e incomparável Dulcinéia del Toboso. apeia Sancho. tem uma torneira de onde Quixote tira vinho e bebe numa caneca de lata.) — Convenhamos.me-á o escorbuto tanto pão seco no bucho? Além do mais. Se Sancho for mesmo um barrilzinho.) As últimas QUIXOTE — ―Ah! senhora das minhas ações. não abuses dos torresmos que não estou disposto a estremecer de susto com teus traques durante a madrugada.. Suavíssima melodia espanhola.A luz diminui. diminuindo lentissimamente junto com a voz de Quixote.‖ CENA 21 ..

Olhe. demissão. CENA 22 . uisquinho. No disse quando volta. E vida boa. Mais de 30 anos. Quem sabe um uisquinho. logo após. Quem me dera. Miguel viajou. A secretária se cala. deixa pra lá.) . com aquele recado de Miguel. faço questão. o personagem. Miguel? Recado esquisito.) . Quando o bip da máquina desliga. aqui é o Guilherme do Almoxarifado. a voz de Guilherme na secretária. Quixote acorda bruscamente. (Vide Cena 6. meu. Luz súbita sobre o telefone.) MIGUEL (Amargo. hein? Mal se aposentou e já viajou.―Isto é uma gravação. Guilherme. Olha. Está transformado em Miguel Quesada. porra. tem umas gatas aí super-afins. Guilherme. oleriti. Eu só queria convidar você prumas cervejas. Miguel? Tá me ouvindo? Tá bom. Toca três vezes. Deita-se. dissídio. Inútil deixar recado depois do sinal. Mas você nunca me convidou pra nada. décimo terceiro.Alô. Durante pelo menos 30 anos você só me ligou pra falar de coisas de trabalho. Tchau. Atende uma secretária eletrônica. Eu pago. Coisa fina. uns tira-gostos pra gente comemorar a tua liberdade. Enquanto dura o bip e. Alô. viu. Eu fui-me embora daqui.)) VOZ DE MIGUEL (Na secretária. Luz sobre a espreguiçadeira. se você estiver por aí atende. (Ruído eletrônico. Agora é tarde. Circular.(Em que o chamado Real-Insuportável desta vez mais suportável novamente interrompe o fluxo e o devaneio. tira-gosto.) VOZ MASCULINA . Me esquece. Eu cansei. fundo de garantia. Talvez nunca.Cerveja. Escuta.‖ (Ouve-se um irritante bip eletrônico. Quixote levanta-se e vai caminhando até a espreguiçadeira.

Depois faz como se lavasse as mãos e o rosto. Trotear é preciso. de vossa amada Morgana. rosée. Tudo isso enquanto desfaz o acampamento e recoloca Sancho sobre o carrinho. bebe café.. lingüiças. moleque da alta magia! Dessa maneira envergonhais a memória de vosso ancestral Merlin. com engenhos a tal ponto indescritíveis. como é possível dormir lá e acordar cá? Ah. não no chão aonde adormecera ao lado de Sancho.) Então. companheiro Sancho. Interessante. vai puxando Sancho pela cordinha. (Para o nada. Odres de vinho. Branco ou tinto? Sei. De ouro? Veja só. Que truquezinho mais chinfrim. Bochecha. Dona Sancha e as cinco Sanchinhas? Sei.Maldição! Se sonâmbulo não o sou. quanto a mim creio que tive um sonho. Onde pensas que estás? Refestelado numa hospedaria cinco estrelas? Toma aí teu petit-dejeuner e avia-te presto..Vite. (Reflexivo. cospe. seguido do despertar. à remota Quintanópolis. (A parte. (Montado. bundone. abre a torneira. vite! Apura que se faz hora. Devem estar todos rindo à socapa de vossa idiotia.. aos confins da Longelândia. para seu espanto. (Vai ficando entendido. (Discretamente Quixote faz xixi num cantinho.) QUIXOTE (Dando um pulo.) Hã-hã.) Oquei. Subitamente Miguel volta a ser Quixote... vejo que os magos da treva andaram a mangar comigo durante o sono... sei..) . Faltam-se-me as palavras — o que é raro — para .. Depois vai resmungando até Sancho...) Covardes. cospe..) Que pobreza. oh nigromantes nigrinhas. Te crês que ainda está caliente e a dar-se vueltas y más vueltas cá pelos cornos? (Visionário. Sacode-o.) QUIXOTE . fala-me de teus sonhos.. incompetentes! Tivésseis reais poderes ter-me-íeis levado até as lonjuras da Beldregúndia.(Do que aprontaram os nigromantes incompetentes com nosso herói durante a noite.. antes que rompa a manhã. Tosse. que desperta na espreguiçadeira e.) Vislumbrei maquinarias tão intrigantes. meu compadre. premonitório. Sei. bufa.

lá no alto. Sobre esse pedestal. microfones e fios colados. Mas logo ao despertar tive a segura intuição que. (Quixote apeia de Rocinante. mas se reais. E formado por um pedestal de aparelhos de TV(reais ou de papelão.Uau! Me cago en la concha de Maria Santíssima! U-lá-lá. amigo Sancho. Esse é o Moinho de Vento. (Enquanto Quixote e Sancho trotam.descrevê-los. frases e trechos de música em vários idiomas. Que também pode ser real ou de arame. Será quiçá o gigante Briaréu? Será a temível sábia Mentironiana? Será o monstro do Lago Ness? (Esporeia Rocinante.) Vai afiando teus gumes. enquanto fala com Sancho. revistas. mais jornais. cada um sintonizado num canal diferente). além de fragmentos de jingles. A chave confirma: é hoje! CENA 23 (Onde se narra o extraordinário acontecimento com a mutação eletrônica do gigante Briaréu e seus asseclas. vejo que aqui temos aventura da grossa! Arrete. O cenógrafo é livre para escolher vários símbolos da Mídia.) QUIXOTE . antes que o sol alcance o meio do céu.) . eletrônicos. Atrás do telão há um bizarro totem em forma de escultura. no lo creo em meus bugalhos! Estás a ver como eu todos esses anões amontoados uns sobre os . meu amigo.Sancho de Deus. descargas estáticas de rádio. papiermachê ou qualquer outro material Seria sensacional se pudesse girar. vê-se uma enorme antena parabólica. Tão lentamente que Quixote só o percebe quando está totalmente levantado. emitindo raios e sons estranhos.) QUIXOTE (Percebendo o totem-Moinho. depararemos com uma extraordinária aventura. plimplim da Globo. Vai-se aproximando do totem com muita prudência e alguns sustos. começa a subir o telão do fundo.

Quanta arrogância! Que enfrentativo ele é! Ah. Dependendo das imagens .) .) QUIXOTE (Por terra. zumbindo. etc. E estarrecedor! E estupefaciente! (Gritando. fascinado e aterrorizado. estúrdias criaturas do fundo do íntimo do âmago do mais longínquo Hades! O bravo cavaleiro desafia a própria morte e contra vós investe! (Espada em riste.) QUIXOTE (Aos berros. minha doce Dulcinéia. bem que meu sonho me avisou. que no último instante.) Felizmente meus futuros cronistas. Moinhos de vento? Capaz! Não percebeste. as TVs nesse momento saem do ar. reconhecendo conhecidos. Hei de decepar esse teu braço repugnante para jogá -o aos cães danados! Hei de cravar uma estaca de madeira santa no teu podre coração. vampiro imundo! (Benze-se.) QUIXOTE — Já dobrei meio século de Karma e nunca jamais en toda mi perra vida tropecei em tamanha trola. Ficam nas telas apenas aqueles riscos verticais. mas acaba levando um grande tombo. quando eu já saboreava o gosto da vitória. um pouco. horrendo Briaréu! Vai encomendando tua alma a Leviathan. que neste embate aposto minha honra. trolha.) .Caluda. E chegado o vosso fim. exegetas. Talvez até consiga.Chegou tua hora. fiisteus! (Quixote tenta escalar o totem. biógrafos.) Mas é sobretudo um estorvo! Não fujais. altivo.se forem reais — o Ator pode improvisar alguns comentários. fecha tua matraca e me deixa em paz.) Valeime. fãs e etc. que o nefasto mago Freston transformou anões e gigantes nessas máquinas dementes? (Levanta.ombros dos outros com aquele gigantão estalado lá em riba? Por Picasso! Olha só o monstro lá do alto girando seu único braço em direção ao céu. companheiro Sancho. . Por El Greco. Se forem reais. Esta côsa lôca nada mais é que o monstruoso Briaréu em carne e osso. que me cago hasta en la leche de mi puta madra! (Quixote examina as TVs. geme e apalpa os rins. finalmente. Quixote joga-se furiosamente contra o totem.

) Em frente. puxando Sancho em direção a um dos lados do palco. De repente cai também o outro telâo. (Para Sancho. well. Mas não temer jamais. que os caminhos se me ajustam qual saia sem fenda em nesga! (Para Sancho. Em vão. Quixote dá de cara no telão.) QUIXOTE — Valha-me Lope de Vega. Como quem teme. well. Ponto final. o boca-a-boca sempre funciona. Parece que os corruptos nigromantes donos do poder querem mesmo me enlouquecer. e o futuro me absolve! . aos sete — ventos que teu amo e senhor Dom Quixote teve a audácia de enfrentar Briaréu. despenca violentamente um telão lateral. quiçá? Um jornalista.) Well. ao menos? Algum fotógrafo. patetas! Não fora eu quem a História confirmará que fui e continuo sendo.) QUIXOTE (Filosófico. fogoso corcel. (A parte.) Ai.) Afinal. escudeiro: nesta vida às vezes é preciso saber recuar. CENA 24 (De como a saia se ajusta pouco a pouco e todos os caminhos começam a parecer sem saída. quem sabe? Um video maker que seja? Mas nem sequer um mísero cineasta? (A parte.. Ponto. Quixote torna a montar. vírgula. que se me esnoba a mídia estou fodido. lesado: pro-pí-ci-o. O que? Precipício não. e sim buscar discreto pelo atalho menos evidente e mais propício. (Esporeando Rocinante. Sai a trote. que nada nem ninguém nos deterá..) Haveria por acaso algum biógrafo entre vós? Um escritor. (Para a platéia.. Enquanto ele trota.. Ponto.haverão de fazer justiça. não esqueça de espalhar aos quatro — aos quatro não. E outra vez Quixote dá de cara no telão.) E tu atoleimado.) Anota em tua agenda. (Quixote galopa a todo vapor para o lado oposto.

Ah quanta miséria.) QUIXOTE — Bueno. o coração eternamente enfrentativo! (Erguendo um braço com os dedos em figa. parece mesmo o único.) QUIXOTE . tapando o nariz. equilibrando-se como numa corda bamba. respiração ritmada. Um mísero e único caminho. que se há de fazer? (Avança. mas recupera-se e bate no peito. O mais perigoso. meus caros amigos. puxando Rocinante por uma das mãos e Sancho pela outra. Augusto dos Anjos! (Quixote abandona Rocinante e Sancho.) Por Antonio Banderas.) Vade retro. o mais melancólico de todos. o mais solitário. . Anda pé ante pé. Começa a caminhar para lá. Tira o Elmo/penico e pendura-o num dos ganchinhos de Sancho. Pela primeira vez parece frágil. onde ainda está o totem já apagado.) Mas o coração — ah. Abutres. passo comedido. (Equilibra-se. assustado. Olha em volta.) Valei-me. Mas cuernos. (Para os céus. meu nome em boca de sapo: definitivamente xô! CENA 25 (Na qual todas as porções anteriores vêm subitamente à tona numa verdadeira apoteose esquizofrênica & pós-moderna. quase cai. inseguro. vudu bestial! Falange de eguns. O mais estreito. talvez seja melhor investigar bem esta vereda que se me afigura sem salvação. Oxalá os pestilentos miasmas da sórdida matéria viva em decomposição não arruínem ainda mais minha depauperada saúde. que medonha fedentina! Dir-se-ia que este sítio está juncado de cadáveres em franco estado de putrefação. já que prudência e covardia sinônimo não são.(Quixote olha para o fundo. hienas. Juro que nunca pensei. Cabeça fresca.Vejo que ainda resta um caminho. Exu caveira.

tristes. implacável Senhor do Tempo. A pele é intransponível como uma malha. tão seco de carnes. permitiste que eu tentasse fugir da minha pequenez? Por que me deste todos esses sonhos. fugir. Também começa a emergir em Quixote o último personagem — o Cavaleiro da Triste Figura. Não fazer. Tão magro sou. milímetro por milímetro. meio grego. Por que. e as mãos me tremem como de ressaca.. Sem controle algum.) Meu regente Marte. É impossível recuar. As coisas se me encurvam de fadiga. Já quase nem tenho dentes. (Tosse. não agir. E que desejando a vastidão do mundo meu coração conheceria também a vastidão da dor. Então acontece a Grande Divisão Esquizofrênica. Senhor Meu. que o mundo era tão vasto e doloroso. Cair no esquecimento.Quixote está em frente ao impassível totem-Moinho. o Homem da Mancha — começam a emergir caoticamente. Cada um quer tomar o poder e falar. (Olhando as mãos.. senhor da guerra. muito maiores di que eu? . que forem-se-me os molares. MIGUEL — Eu não sabia. limite que nos separa dos outros e das coisas. já caíram os dois telões.) QUIXOTE — Triste. O telão à frente do totem também começa a descer. Miguel Quesada. Senhor. como espantados por meus loucos sonhos. Fronteira.. por que me abandonaste? Oh Saturno. triste figura a minha. Ah. Merda de memória! HOMEM — A coisa mais triste do mundo é a pele. Ficar parado seria fatal. impiedoso Cronos: poupai-me do envilecer da carne viva! ATOR — Não se pode ir em frente. Dos lados. Esquecimento.. Desaparecer.) Esta rede de rugas no meu rosto. (Para o céu. E me fugiram os fios de cabelo. mas lentamente. Ogunh. os personagens anteriores — Ator.) E tem manchas tristes. de que? Não consigo lembrar. o peito se me encava de desgosto. tristes.

) — Carolina! ―Querida. às vezes perde. e sente o ritmo. ao pé do leito derradeiro!‖ QUIXOTE — Soltem os leões! HOMEM — Como as atrizes e cantoras que desaparecem para sempre.Dulcinéia.) ―Segura o turbante.‖ MIGUEL (Citando Machado de Assis. Asmodeu! Belial. ATOR (Citando Nelson Rodrigues. cadeados.) — ―Herculano.) ―Pura ou degradada até a última baixeza eu quero a estrela da manhã!‖ ATOR (Citando Vicente Pereira. Tragam-me chaves.‖ (Noutro tom. bater as portas. “A arte da Guerra”.) — ―Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo. Mesmo em cem batalhas. Aquele que não conhece nem o inimigo nem a si mesmo. eu estarei entre eles. eu também quero outra coisa. Ou o cinismo. Dêem-me o claustro que não suporto o outro. Além do vômito. trancar as portas. nunca correrá perigo. minha estrela da manhã. a lágrima.) — Ay que me muero! HOMEM — O vômito.‖ . Meu Deus.) — ―Sempre quando tiveres mais de três pessoas reunidas e for falado o nome de Deus. QUIXOTE (Citando Sun-Tzu. ATOR — Astaroth. meu bem. aqui quem te fala é uma morta!‖ HOMEM — Além da lágrima.QUIXOTE . Mas sempre com um decote bem profundo. que não agüento o vivo! QUIXOTE (Bem espanhol. (Recita Manuel Bandeira. correntes. Belfégor! MIGUEL — Fechar as portas. Em todas as batalhas será vencido. mas conhece a si mesmo. As vezes ganha. Aquele que não conhece o inimigo. a prece. Ponham-me grades.

) — Respeitável público! Senhores e senhoras. onde fica a saída? Eu preciso encontrar a saída! QUIXOTE — Nasci para viver morrendo. Efeitos feéricos de luz. ATOR (Citando Oswald de Andrade. despenca do alto do palco uma enorme lua .) CENA 26 (Onde um alegre circo subitamente dá lugar ao deprimido e deprimente Cavaleiro da Triste Figura. HOMEM — Além da prece. rapazes e senhoritas: boa-noite! (Música circense bem animada. das crianças. dos que fumam maconha para falar bobagens. o amor: eu quero porque quero da vida!‖ HOMEM — Socorram-me que me afogo em meu próprio sangue.. Ah.) ATOR (Braços abertos. tipo tirar infinitos de dentro do Elmo/penico. A luz fica mais clara. e tu para viver comendo. escondendo por completo o totem-Moinho. o amor. Quem me dera o humor dos anjos. Quando Quixote volta-se para o público. feérica. o riso.ATOR (Citando Clarice Lispector. o humor dos palhaços. bem circense. O Ator pode fazer mágicas. em minha própria mancha! QUIXOTE — Ay ay ay que me muero! (Na cara de Quixote cai finalmente o terceiro telão. está transformado no Ator.‖ MIGUEL — A saída.) — ―Ter nascido me estragou a saúde. Suspensa por um fio de nylon.. O riso a que não me atrevo.) — ―Ah o amor.

do amor e do azul...) Joguem. que já no valho um furo sequer da sola das tuas negras botas. o mais amoroso e leal de todos os escudeiros de toda a história de toda a cavalaria andante.) Mais do que nunca. soçobro de si mesmo. . O Ator transformou-se novamente em Quixote que.) Que vexame.em purpurina prateada. já se transformou no Cavaleiro da Triste Figura. dias de vinho e rosas. esqueceme. acabado. Retira apenas a rosa vermelha que mantém nas mãos Enfia na cabeça o Elmo/penico e começa a caminhar em direção à espreguiçadeira. Adeus.lhe bosta.) TRISTE (Para a lua. (Para Rocinante. indomável Rocinante. branca lua: a teus pés de prata deponho meus arroubos. A música também pára.) — Lá vai ele. que aprimorou meu porte e suportou meus ossos. desalmada e feiticeira. Esqueçam-me todos. que nunca foi nada! EPÍLOGO (Onde se encerra a narrativa falando da morte. Lancem-lhe apupos. tornei-me agora exato e justo a alcunha que um dia me deste: Cavaleiro da Triste Figura.) — Cavaleiro da Branca Lua. (Amargo.. acariciando o barrilzinho.) Ah. sombra de gente. (A parte. com fúria. (Caidaço. Cavaleiro da Branca Lua. tomates murchos e ratos morto. companheiro Sancho. (Para Sancho. TRISTE (Cada vez mais curvado. Triste caminha até o manequim/Dulcinéia. Escarrem-lhe na cara. Ao ver a lua o Ator pára. (Mais alto. Branca. da saúde.) Esquece-me incluso tu. Oh Lua. Começa a colocar suas próprias roupas sobre o xale do manequim. da vida. Joguem-lhe ovos podres. Farrapo humano. que ensandeceu.) Esquece-me também tu. destroço. Tamanha surra me deste. Estou exausto desta farsa. que desatinou e nunca mais voltou.. vencido estou. por sua vez. que endoideceu.

Que louco sonho ou pesadelo foi a minha vida. deixa pra lá. Aliás. Tarde demais. A lua batucada. ali.) Do teto começa a cair uma chuva de confetes coloridos sobre Triste morto. Tira o penico da cabeça e coloca-o embaixo.) Ay que me muero! (Cai deitado na espreguiçadeira. É que fugiu-seme a razão. Fala com um psicanalista imaginário. Você melhor do que ninguém sabe disso. / dejad el balcón abierto. Não pode desaparecer assim. (Desinteressado.) — Já? Mas hoje eu quase nem disse nada. é claro. já cansei dessa história. // El nino come naranjas.) TRISTE . Uma permanece.) AH. Assim não é possível. Quer saber do que mais? Caguei: K-Gay! . Nem você. E eu de nada me arrependo. e só me torna agora. por longo tempo. espanando os confetes. a tua vida. Aqui. pois a morte já anunciou sua chegada.) Ela tem que estar aqui. (Recita García Lorca. imóvel. ao longe. como o Ator no Prólogo. num último alento:) ―Si muero. Leva a mão ao peito. somos todos inocentes nesta barca da Medusa a navegar insânias. cuíca geme ao fundo. Triste joga a rosa para a platéia.Perdoai-me todos. dizem. consultando o relógio. você nunca diz nada. se a alguns fiz mal. Eu penso nela o tempo todo.Triste pára junto à espreguiçadeira. Ah. geme.) // El segador siega el trigo. Está vestido apenas com a malha.) //Si muero. E muito caro pra não dizer nada. a rosa vermelha sempre nas mãos. ou remotíssima mesmo tempo os três telões. Triste vai falando enquanto deita. Começam a subir ao HOMEM (Levanta. as nossas vidas. // (Desde mi balcón lo siento. / dejad el balcón abierto!‖ (Com um esforço derradeiro. (Procura pelo chão. No que é que eu estou pensando agora? Na mancha. / (Desde mi balcón lo veo. Dentro ou fora de mim.

três banquinho do início. Miguel.. Hoje mesmo? Miguel estaca sorrindo ao telefone.) Aqui. vamos sim. Atende sôfrego. VOZ GRAVADA — ―Isto é uma gravação. com o indicador apontado. Exatamente aqui. ATOR (Estremecendo. lá no alto. Toca um sinal de início de espetáculo. pode falar. Como? Ah. sim. Quem vê lá do espaço. O Ator não se move. Claro.) Ah. Bem aqui. O sinal repete duas.) Sim. Senta no banquinho em frente ao globo terrestre.Alô..) — Hã? Hein? O que? Quem? (Gira lentamente o globo. quer falar com quem? Miguel? Sou eu mesmo. Já transformado em Ator.) Eu também. enquanto a luz diminui em resistência. Quem gostaria? (Sorrindo. Carnaval de 1994) vezes enquanto o Ator volta a sentar no .‖ Miguel aperta um botão e desliga a secretária. vital. Que bom. Música espanhola vibrante. vigorosa. (Olhando em direções diferentes. Deve ser mesmo. eu nunca pensei que.O telefone começa a tocar. Resta o palco e poucos elementos espalhados. A gente sempre esquece. Já transformado em Miguel o Homem precipita-se para atender. (São Paulo. animado. (Pára o globo... Os três telões terminaram de subir. sim.. procura e aponta.. como no Prólogo. Mas a secretária eletrônica é mais rápida. E a lua.) . é verdade. repete sete vezes cada vez mais baixo. sim. sim. caminha até o praticável . como despojos de uma batalha. sim.) Carolina? Nossa. Os telões sumiram. eu também. surpreso e feliz. Muita falta. então você recebeu a minha carta? (Confiante. eu de longe lá do alto — diz que a Terra é azul. claro. Miguel deposita suavemente o telefone. vamos nos ver. sim. MIGUEL (Ao telefone.

não foi assim: que eu sou teu companheiro. A — Ah.Eu disse que você é meu companheiro.O quê? A .CENAS AVULSAS DIÁLOGO 1 A — Você é meu companheiro. sei. A — Você está falando do quê. A — Você também sente? B . B . Que eu sou teu companheiro. B — Tem alguma coisa atrás. B . então? B — Eu estou falando disso que você falou agora. A — Não. eu sinto. Não tem nada. S6 isso. B — Não é disso que estou falando. B — Não.Hein? A — Você é meu companheiro. eu disse. Deixa de ser paranóico.O quê? . B — O que é que você quer dizer com isso? A — Eu quero dizer que você é meu companheiro.

Companheiro? A. . B — Agora não? A — Agora sim. Claro que eu sinto. não? B — Não. Não é isso. Não é assim.É B . A. Tem alguma coisa atrás. A — Atrás do companheiro? B . B .É. sim. No começo era claro. não me confunda. A — Não me confunda. você não vê? A .Ser meu companheiro.Sim. B . por favor.Eu vejo.Eu não sei.A — Que você é meu companheiro? B — Não me confunda.Não. eu sei. Por favor. Você quer? B .O quê? A .Ser teu companheiro? A. A — Você não quer que seja isso assim? B . E você. não me confunda. Eu quero. B — Você não sente? A — Que você é meu companheiro? Sinto. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás.Não é que eu não queira: é que não é.

B — O índice de mortalidade infantil aumentou em trinta por cento. A . para longe.Eu quero que você seja meu companheiro. Sazonando. Não foi assim: eu disse. B . eu disse. não é assim? Pronto para ser colhido. A — Broto para fora. A .Maduro como um fruto.O quê? B .Hein? A .Eu disse? B . B .O quê? A — Que você seja meu companheiro.O quê? A — Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.Você é meu companheiro. A . O que definitiva e realmente sou ameaça rebentar as janelas. B — A ração básica custa setenta por cento do salário mínimo.Não. .Hein? (Ad infinitum) DIÁLOGO 2 A — Sinto-me tão nítido que quase posso tocar em mim. B — Você disse? A .B .

) — Mas você lembra? B . A .. entende? Quero dizer: eu dizer que acho que faz muito tempo porque se passou.Suponhamos que sim. A — Muito tempo. DIÁLOGO 3 A — Uma vez. E a partir disso.. eu. bem no meio da ponte do Guaíba.B — A temperatura ambiente é de vinte graus centígrados e dois décimos.Como assim? B — Quero dizer: Você quer uma resposta alegórica ou realista? A — Realista?! Como? B — Realista no sentido de não ter subtexto. Eu e você B — Ah. . suponhamos. um mas. B — A gente? A . Nós dois. Mas já faz tempo..É. A — Esse ―suponhamos‖ é real ou (irônico) alegórico? B — ―Entre les deux. A (Cortando..O que? B — Quero dizer que. mon coéur vomitte‖. você falou que a gente podia alugar um apartamento em Moinhos de Vento. você acha? B — Isso é uma questão real ou simbólica? A .

por que é que você não me disse que estava grávida? B . porra. Nem que fosse médium. cara.. DIÁLOGO 4 O Aborto A — Mas afinal.Eu tentei. A . A — Agressivo? Ah. B — Não fica agressivo comigo.. É completamente impossível alguém saber tão rápido. Nem que fosse a Mulher Maravilha. porra.Você não acreditou.) — Você acha que um mês é um tempo significativo? B — Significativo em que termos? A . Afinal de contas. E humanamente impossível qualquer pessoa saber.Me passa o vinho. A — Mas eu podia acreditar? Menos de um dia. porra.A (Cortando.. .. cinqüenta por cento da cria era minha... nem que você tivesse superpoderes.Acontece que você não tinha o direito de fazer este maldito aborto sem me consultar antes. A — Tentou! Tentou como? Aquela vez que você me disse que tava grávida menos de um dia depois que a gente tinha trepado? B .... não era? B — Mas eu já disse que tentei te dizer. meu bem...

Não me venha com esses superpoderes feminóides. Me responde uma coisa: por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento.. tem uma pergunta que há horas eu tou querendo te fazer. Eu acho que... (Articulando as palavras. cara. Pausa longa B (Acendendo um cigarro. B — Como.) . lentíssimamente.) Por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento.Quero saber tudo. não força? E já que a gente tá falando nessas coisas tão Íntimas. No segundo em que eu botei o olho em ti.B — Uma mulher sempre sabe. A — Não força. meu querido. cara.) — Você quer saber? Você quer saber mesmo? B .) — E.Absolutamente. Sabe sempre. B — Sabe na hora.. Sabe o tempo todo. No minuto exato em que você põe o pau lá dentro. isso te dói? A .Porque é o único jeito de imaginar que eu tou fodendo com um homem. A Sabe merda nenhuma. tá sabendo? Na hora de baixar a calcinha. .

DIÁLOGO 5 A — Não consigo aceitar essa mudança. mas não consigo. Eliot) A — Eu não consigo. essa. ele continuará sendo — sempre — aquele menino recém-chegado de Florença.. não sei.. Your body hurst me as the world hurst me as the world hurst god‖. estou turvando.......‖ (García Lorca) A (Cortando. Time for one hundred of decisions and undecisions‖. eu não consigo...... para mim.. ele continuará sendo aquele menino recém chegado de Florença.... essa mudança. B — ―1 am too pure for you or anyone. There will be time. Para mim.estou tentando. Time for me and time for you.. (T.) ―Amor de mis entrafias: viva. estou tateando.. estou atordoando. Time for visions and VER.. B — ―Life is a tale told by an idiot fuli of sound and fury‖.) — Estou tentando.. B — ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖ (Pausa. não sei.. para mim... B .. Aceitar essa mudança. mudança.) A — Não consigo. (Shakespeare. estou torvelinhando..... não consigo — não consigo aceitar essa. B — ―Somenthing between Macondo and venice‖... para mim. aquele menino. Para mim. (Sylvia Plath) A — Estou tentando... . ele continuará sendo sempre aquele menino recém-chegado de Florença..... estou tonteando...) ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖.. . Florença. eu não consigo.. (Pausa..―There will be time.. Para mim.S...

Se quiser outros títulos nos procure http://groups. será um prazer recebê-lo em nosso grupo.com/group/Viciados_em_Livros.Nota — A continua fazendo variações (que podem ser improvisadas ao infinito em torno de tentar-tatear-tontear-etc. . 2 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.) enquanto B repete sempre a última frase.google.

SARAU DAS 9 ÀS 11* * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

um homem-tronco • EGO .PERSONAGENS MADAME DE ALENCASTRO • MONGE DO RESTELO • BABY • DEBORAH • BÓRIS.

que a tudo preside. As falas dos personagens repercutem umas nas outras sem que haja qualquer diálogo ou contracenação entre eles. O Monge de Restelo é uma figura visionária de capa vermelha. Ele. Reis destronados. Isolados da turbulência do mundo. Nesse ambiente eu me criei. Baby e Deborah são representantes da juventude. ditadores depostos. E o Ego. bailes de máscara.1º. festas à beira da piscina. vivíamos em mansões cercadas de jardins. por onde ninfas e sátiros se perseguiam amorosamente. era uma festa sem fim. Éramos servidos por exércitos de empregados que nos amavam e respeitavam. Hoje tudo mudou. Taormina foi o cenário onde transcorreu aprazível a minha infância. bosques e fontes. a imprecar vaticínios apocalípticos. que geme sons inarticulados. vestindo um manto negro que só deixa de fora o rosto de alvaiade. partidas de criquet. sex. Habitam áreas estanques do palco. mas só se manifesta no final como um oráculo de nonsense. drugs & rock‘ n roll. Ela. jeans e discurso de protestos. Ao fundo. tomaram conta. traz numa coleira um homem-tronco. Bóris. Madame de Alencastro. velha dama de negro e sotaque português. QUADRO Overture Este é um quadro de monólogos entrecruzados. e eram capazes de dar a vida por nós. MADAME - Suavemente plantada entre os rochedos da harmoniosa Costa do Sol. picnics no campo. Recepções. uma figura de altura desmesurada. ocuparam . jantares. Os rebeldes venceram. envelhecidas estrelas de cinema conviviam com magnatas do jet-set internacional e com a antiqüíssima aristocracia local.

Mas naquele tempo nâo havia rebeldes.tudo e tivemos todos que fugir às pressas. DEBORAH . MONGE — Ao romper do sétimo selo. BABY — Quem é você para colocar um epitáfio sobre mim? Quem é você para dizer que não dei certo? Por acaso você deu? Olhe dentro do meu olho e me responda: você se sente feliz? Você tem esperança? Eu não. não gosto do que vejo. não. far-se-á silêncio no céu. DEBORAH ... Tudo grita na sua cara que você não vale absolutamente nada. de Saravejo. pelo ex-ditador Simeon da Cituânia e pelo regente Von Koseritz. gosto muito menos. Mas quando olho para você. Eu. O mundo te machuca. drogas. Os amigos desaparecem no momento exato em que você precisa deles. Quando olho para você. ou tomávamos chá sob o caramanchão nos jardins de Humberto de Bourbon. ex-rei da Savóia. a nossa graça e o nosso charme a beira-mar. pelo Arcebispo de Cantuária. e que explodiu. As pessoas te empurram nas filas.. quando olho para mim. passeávamos pela alameda da quinta de Don Juan do Franco Condado. MONGE (Para Baby. cruamente.) — Tu continuas fazendo parte daquele balão colorido que subiu embalado por música. E em noites de lua cheia desfilávamos todos a nossa beleza.Quando olho para mim mesmo. BABY . nas esquinas. não posso evitar de pensar que o homem é apenas um animal que não deu muito certo. . Éramos visitados pelo rei de Roma.E pensar que eu passei todo esse tempo investindo no meu know-how.. Então os anjos com suas trombetas preparar-se-ão para tocar. política. quando fazia calor. MADAME — À tardinha. dentro dos ônibus.E pensar que eu quase me danei apostando no meu back-ground.

desde que os rebeldes venceram. Queimar-se-á a terça parte da terra. emergindo de uma fonte de champanha coberta apenas por um manto de asas de borboleta. nunca mais voltei a Taormina. Não suportaria ver aquelas casas vazias. em que a princesa do Shirar representou o nascimento de Vênus. MONGE — O segundo anjo tocará a trombeta — e como um monte de fogo lançar-se-á ao mar. MADAME — Fiquei sabendo outro dia que minha madrinha. entre todos vocês. no palacete de Otto Marino. I know not what to do. a poetisa Florbela Ortigão. tem agora que cozinhar a sua própria comida. estenderá a mão para passar no meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia? DEBORAH . Nunca mais retornarei a Taormina. e toda a grama verde perecerá no fogo.MADAME — Lembro-me ainda de uma grande festa a que fui aos 15 anos de idade. e a terça parte do mar mudar-se-á em sangue. Não quero ver as paredes brancas de suas casas cobertas de inscrições em vermelho e negro: ―Abaixo a tirania‖. e um terço dos navios ira a pique.Quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu. Não. Acabou tudo.Ando jururu. que será atirada sobre a terra. fechadas. eu não suportaria presenciar uma coisa dessas. o rei do manganês. MONGE — O primeiro anjo tocará a trombeta — e cairá uma saraivada de fogo misturada com sangue. a terça parte das arvores. . ―Morram os opressores‖. e perecerá um terço das criaturas que vivem no mar. ou então transformadas em casernas ou hospitais. silenciosas. DEBORAH . Não. BABY — Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de desencanto? Quem.

Quando não se tem mais nada a perder. acredito nas plantas. dizia. Soube também que faliu a revista Gran-Monde. Eu tenho os meus. deixaram para trás uma avozinha cega. luminoso como um archote. um irmão entrevado. MONGE — O terceiro anjo tocará a trombeta — e cairá do céu um grande astro. cuja mais famosa especialidade eram os docinhos conhecidos como ―ossinhos de Santa Catarina‖ — a confeitaria. De qualquer forma. Chamar-se-á ―absinto‖ esse astro. Tivemos que vender nossos automóveis de luxo. e muitos homens morrerão dessas águas. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado. não espero nenhuma cantiga de ninar. BABY — Quanto a mim. Você tem seus jeitos de tentar. e virá tombar sobre a terça parte dos rios e das fontes d‘água. teve as suas instalações transformadas num depósito de armamentos. descarregar esse mundo das costas. nos animais. na areia seca. e nosso porto é desconhecido. Converterá em absinto a terça parte das águas.Tivemos todos que fugir em debandada. Pela minha absoluta desesperança. porque se tornarão amargas. Quando se pára de pedir. só se tem a ganhar. meu coração bate ainda mais forte. um dia seremos poeira. O futuro é um abismo escuro. . na pressa. mas pouco importa onde terminará a minha queda. Os industriais de Santa Lúcia tiveram todos os seus bens confiscados e contas bancárias bloqueadas pelo Governo rebelde. especializada na crônica da vida mundana. a gente está pronto para começar a receber. Muitos. Acredito na pedra bruta. Acredito nos astros. não espero nenhum gesto. E a famosa confeitaria Garcez & Bernard. Acredito no vento que sopra da banda do rio quando o sol acaba de se pôr. MADAME .E descansar os meus olhos no pasto. uma tia louca. Não acredito nos seus. Não lhe peço que acredite em mim. nas águas. BABY — Não espero nenhum olhar. nossos iates e palacetes. Por isso estou vivo. talvez também não acredite nos meus próprios.DEBORAH .

hoje submetido ao regime de autogestão.Ainda na semana passada a única figura daqueles tempos que se mantinha em pé era o velho Cônsul de Pasca.Quem tiver ouvidos.Tudo mudou.Tomou dois cálices de vinho do Porto e encomendou o jantar: ―Yo quiero un poco de caviar. Não me iludo. outrora um dos mais luxuosos da cidade. MADAME . MADAME — Li no jornal que os imortais da Academia de Letras. MONGE — E será ferida a terça parte do sol.disse. ninguém mais o viu. ouça. MADAME — E o que foi não voltará mais a ser. MADAME . MONGE — O quarto anjo tocará a trombeta. shoobedoo-down-down. e deixará de resplandecer a terça parte do dia e da noite. .Fuzilados. MONGE — Quem ferir pela espada. Ainda hoje tive a compreensão final. MONGE . que foi visto sexta-feira no restaurante La Tour d‘Ivoire. MONGE — De maneira que se lhes escurecerá a terça parte. MADAME . MONGE — Quem reduzir outro ao cativeiro. pela espada morrerá. a terça parte da Lua e a terça parte das estrelas. Ciências e Artes foram todos mortos. un paté trufado de Estrasburgo. e cantar o tempo todo: shoobedoo-down-down. un bon tinto y nada más‖ . Tudo acabou. será cativo ele mesmo. MADAME — Terminada a refeição. MADAME .DEBORAH — Eu só quero fazer parte do backing vocal.

Ask for interchange.BABY (Para Ego. MONGE (Para Ego.Where‘s my band? EGO — Solicite intercâmbio.) — Quando será finalmente aberto o último seio? EGO — Bevete più latte. A casa era branca e fresca. E muitas passarão. Trás de ahora viene lo que fue antes. DEBORAH (Para Ego. Demandez de l‘interchange.) . A gente via mesmo só à .) — Como posso acreditar outra vez no humano? EGO — Muitas gerações passaram. 2° QUADRO: Como Era Verde o Meu Vale Monólogo auto-explanatório. A gente sentava embaixo da figueira e ficava vendo o sol se pôr atrás dos morros. y antes fue lo que será ahora.) — Onde estão meus andores? Onde estão meus ouropéis? Onde estão meus cristais? EGO — Mantenha seu equilíbrio sobre o fio da navalha. MADAME (Para Ego. A gente via o rio dum lado e os morros do outro. Como era bonito lá. CENA Um hospital para doentes mentais.

mesmo assim.tardinha. na estrada. Foi numa dessas tardes que a gente viu o trem. O Clodomiro falou que as crianças precisavam de escola. que era o progresso que tava chegando e agora todo mundo ia ter trabalho e ganhar bastante dinheiro. Depois dum tempo as plantas começavam a murchar. E o sol se pondo por trás. as árvores perdiam as folhas e a terra não dava mais nada. A gente pensou que ela tivesse se queimado. que ele não queria que eles crescessem uns ignorantes que nem eu. colher o milho. A Zefa ficou tão nervosa que derrubou a cuja no chão e virou a água quente da chaleira. Mas ela riu e disse que não era nada. Todo dia a gente podia ver os caminhões passando lá embaixo. porque de dia era tanto trabalho que a gente nem tinha tempo de olhar pros lados. Fazia tempo que uns homens do governo trabalhavam na estrada de ferro. quase como uma centopéia na encosta daquele morro grande. De repente ela parou e apontou pro lado do morro. recolher os ovos no galinheiro. carregados de trilhos e umas máquinas que eu não conhecia. arar a terra. resolveu vender tudo e mudar pra Canoas. que não sei ler nem escrever. Mas a fábrica largava uma fumaça branca que caía em cima das árvores e das verduras. E mesmo quando tinha muito trabalho — tirar leite das vacas. eu tenho cinco filhos e os cinco tavam casados e precisavam de dinheiro. A terra tava no nome deles. Veio também a fábrica de cimento. Um tempo depois vieram as casas. A minha propriedade não era muito grande. Então as cercas das outras casas começaram a se aproximar e a gente foi ficando espremido ali. os peixes do rio foram morrendo todos. em cima daquela colina onde ficava a nossa casa. era sempre bonito lá. Lembro que a Zefa vinha descendo os degraus da casa com o mate numa das mãos e a chaleira na outra. semear o trigo —. Aí a gente parou de conversar e ficou todo mundo olhando o trem. De longe parecia pequenininho. A terra foi ficando tão imprestável e as cercas se aproximaram tanto que o Clodomiro. Ficou apontando e olhando. O povo da vila dizia que era bom. meu filho mais velho. .

e que eu podia plantar no pátio. Ela era uma mulher mais braba. Quando a gente fica velho os filhos não ligam mais pros palpites da gente. dizia que não era bom pras crianças. Eu fui ficando triste. Então o Clodomiro vendeu a terra e a gente se mudou pra Canoas. do banheiro pro quarto. pensando na figueira e nas coisas que a gente conversava embaixo dela. A minha nora reclamava todo dia. Ele tinha dito que a gente ia morar numa casinha que nem a outra. não queria lavar as minhas camisas. E ficava andando da cozinha pra sala. quem sabe se a velha ainda tivesse viva o Clodomiro não tivesse vendido. como era bonito lá‖. Eu já não conseguia nem comer nem dormir direito. Eu não conseguia mais dormir e de noite ficava andando pela casa. Eu tinha um pouco de medo de sair além do portão. Aí um dia eles disseram que eu tava louco. quando entesava de querer uma coisa não tinha ninguém no mundo capaz de fazer ela mudar de idéia. Eu sempre repetia assim: «Como era bonito lá. Mas ela tinha morrido já faz muito tempo. Eu não brigava. 3° QUADRO Bonecos Chineses . Eu só suspirava e repetia: ―Como era bonito lá.Eu não queria vender. Os vizinhos cochichavam quando eu saía no portão. Mas era um pátio tão cheio de pedra que nem urtiga nascia lá. e eu não podia fazer nada. falando comigo mesmo. eu achava muito bonito lá. por causa do barulho dos caminhões na feira perto de casa. como era bonito lá‖. Eu fui ficando cada vez mais triste. A minha nora reclamava cada vez mais. me botaram numa camisa de força e me trouxeram pro hospício. da sala pro banheiro. As crianças acordavam com os meus passos. dizia que eu parecia um bicho numa jaula. choravam e tinham medo de mim.

E o que é que me importa isso? B — É preciso agradecer. A . hein? B . com a minha ajuda. E tome o seu café de uma vez. A — Muito bom. eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo essas besteiras. então agradeça. A — Ah. . B — E você? Não vai fazer o mesmo? A — Fazer o que? B — Simplesmente agradecer. se não você vai terminar chegando atrasado no seu emprego. escute aqui. estou aqui. hoje. B — Sim.O que é que você falou? B — Eu disse que os pássaros são livres. A — Escute. você acordou hoje com o quê.) — Você acha que eu tenho tempo pra essas bobagens? B — Você já fez sua saudação ao dia? A — Ora. você vai se visitar. A (Ri.Com a luz do sol. B — Os pássaros são livres. A .PERSONAGENS A (uma dona de casa) e B (seu cunhado). A — Eu tenho mais coisas a pensar do que na luz do sol. B — Sabe. você está aí.

arrumar as camas.E onde está o seu outro lado? A — O que é que você está dizendo? B — Aquele lado que não lhe faz escrava. eu não tenho esses problemas de tempo. A . Não é você quem paga o aluguel. mas senhora de si mesma. tem aí o trouxa do teu irmão que te sustenta. Você tem casa. fazer comida pra vocês. Você acha pouco tudo isso? B — Acho que falta mais alguma coisa.Não há tempo a perder. Tenho que limpar a casa. B — Não se preocupe. E pra isso eu preciso de tempo. Tenho que lavar a sua roupa e a de seu irmão. comida. A — O que eu sei é que eu sou senhora do teu irmão. É assim que eu penso. Eu já estou é farta de você! B . o tempo não existe pra mim. roupa lavada. Vá trabalhar logo e me deixe trabalhar também. há muito que já devia ter ido trabalhar. . O salário que traz pra casa não paga nem o papel higiênico que você gasta. E mesmo que você perca o emprego de tanto chegar atrasado e não contribua com dinheiro algum pra casa. Não é assim que você pensa? A — Claro.Por exemplo? Eu já vou lhe dizer. B .B . meu querido cunhado. A — Eu sei que eu tenho muitas outras coisas a fazer. E você está fazendo eu perder tempo. sabia? E você também está perdendo tempo.Por exemplo. A — É claro que você não tem esses problemas.

A — Muito bem. Chegue um pouco mais perto.B — Ah. . A — Você está é louco. Escute o silencio. ouviu! Não admito essas brincadeiras de mau gosto! Seu vagabundo! parasita! explorador! B . Pare. eu posso ajudá-la a mudar a situação agora.) A — O que é isso? 8 — Cale-se. faz coisas demais.Sabe de uma coisa? Você fala demais. se você quiser. A minha paciência tem limites. e isso é tudo pra você? A — Eu não me casei com ele? Se eu fosse senhora de mim. Experimente parar um pouco. B — Estou mais disposto a colaborar do que você pensa. vou lhe revelar um segredo. Quer? A — Bom. A . Isto é uma falta de respeito! Onde já se viu uma coisa dessas? Debochar de mim na minha cara! Eu não admito. revele esse segredo logo e vá andando. A — Escute uma coisa. De qualquer jeito você vai morrer um dia. pelo menos você parece disposto a colaborar.E o que é que você está pretendendo? B — Cale-se. a situação seria bem diferente. B — Depende de você. tudo demais! A — Pare com isso! Pare com isso! B — Pare você. Se dependesse de mim. se mexe demais. eu não estaria aturando você todo esse tempo aqui dentro da minha casa. Escute. (Cala a boca. B — Eu quero brincar com a sua cabeça.

não é? A . o sistema solar. me chamou? Você não queria que eu fosse embora? A — Não. vá! É melhor mesmo que você vá de uma vez. B — Bunda mole.Estou cansado.. Deixa eu buscar uma cadeira. você é tudo também.. da sua falta de sentido! A .) Espera! B ..Ah. Desculpe. o país. a cama. Nem o único sistema solar..Escute. pelo menos. (Pausa. A — O que está acontecendo? O que foi que deu em você? B . Este não é o único país do mundo.Está bem. Você não passa de uma poeira. o planeta.O que você quer dizer com tudo isso? Eu acho melhor você ir embora da minha casa já e já! B .B . Cansado da sua infinita burrice. uma pessoa. Adeus. simplesmente.Eu é que estou cansada de você! B — E do seu medo. Vamos conversar com calma. o universo. B — Você não estava cansada de mim? A — Estou cansada. Cansado da sua mesquinharia! A . Este não é o único planeta. da sua mediocridade.O quê? .Escutar? Mas eu não estou ouvindo nada. Eu vou. Você deve ter varizes. Mas sendo uma poeira. A . Esta não é a única casa. não desta maneira. B — Você não é a única pessoa do mundo. A — Vá.

querido cunhado. A — A nossa. A — E onde é que você está? . A minha é outra. A — Que conjunto de reações. coisa nenhuma! O que é isso. é aqui a realidade! B — Esta é a sua realidade.B . está fora da realidade! Desça. Tudo em você é típico. B — Você não chega a ser uma individualidade.Tenho. B — Você está aqui dentro. Eu não. A . Característico. A . A — Claro! Você é um deles! B — São típicos. E pára de andar ao meu redor que eu fico tonta.Você é mais um conjunto de reações do que propriamente um ser humano.Também! B — E caspa! A .O que é isso? Eu não entendo essa conversa! Você está me deixando louca! B . desça.E hemorróidas. Você está aqui dentro comigo. A — Eu acho melhor você acabar com essas agressões. No rabo.Também! B — Conheço todos os seus males. que eu não vou agüentar. meu Deus? Pare com isso! Pare de falar difícil! Você está louco. B — E problemas digestivos! A .

. humilhada.. B — Mas eu já disse que posso ajudá-la.. no éter.. na cozinha.. me irritar. B — Você se engana...Encontrar o quê? B — Você mesma. na terra. Eu não gosto de pensar nela. está ouvindo? Eu não admito isso na minha casa! Pare com isso imediatamente! B — Parei. no supermercado. isto está cheirando a bruxaria! umbanda! espiritismo! Eu sou católica praticante. A — Meu Deus. Eu estou sempre me achando. A. Pra você se achar. na água. dentro de mim. você se perdeu a si mesma. me diga concretamente em quê? Na minha vida? Mas a minha vida é tão feia. A — Mas como me perdi? Eu me acho todos os dias. é preciso começar pensando.B — Eu? Eu estou no ar. no fogo. A — Não acredito em você. A . No tanque. Você não se acha nunca. Me ajudar! Tem graça! Em que você poderia me ajudar? B — Eu podia ajudá-la a encontrar.Eu me sinto insultada.Em quê? B — Pense. Você só sabe me explorar. A .Eu? B — Sim. e dentro de você. me torturar.. A . A — Mas concretamente. . B — Pense em você mesma.

Na minha cabeça? A minha cabeça dói. A . B — Detalhes! A — Nas cortinas que eu tenho que mandar lavar! B — Detalhes. Acho até que me esqueci de mim. já disse.Eu já disse.Pense.A — Em que parte de mim? Eu sou composta de muitas partes: cabeça. em que? Me explique. A — No meu interior? No meu interior eu tenho vísceras. eu tenho pulmões. B — Insignificâncias! Continue pensando! A — Mas em quê. B — Na sua cabeça. Pense! A — Na pilha de roupas pra passar. eu tenho coração! útero. tronco e membros. B — No seu interior. A . A — Mas eu penso. pelo amor de Deus! B . B — Frescura! Pense! A — Em levar as crianças pro colégio. B .Quando foi que você se esqueceu de si mesma? . Penso no banho das crianças. meu Deus. O que é que eu faço com ela? B .Há muito tempo que eu não penso em mim. Em você Em você. Em buscar as crianças do colégio.

Eu conversava com ela. cheia de vergamotas. E estou cansada. Olhe. vontade de me atirar na cama e chorar. B — Existe. Tão bonito. Eu gostava de brincar no jardim. como se fosse uma máscara pintada. B — Tente se lembrar. o corpo doído. aproximese. Faz tanto tempo isso. Venha. lavar as mãos e os joelhos que estavam pretos. tão tranqüila. isso não é coisa pra uma mulher da minha idade.Eu tenho vergonha. Eu já nem me lembro direito. Mas aí tudo desaparece. O vento soprava e ela abanava as folhinhas pra mim como se me respondesse. A — Você acha que vai dar certo? B . Acho que você pode voltar a falar com a sua vergamoteira. Eu não via nada de errado nisso. Eu vou virar de costas. A — Ora. Faz de conta que eu não estou aqui. Fale comigo. sim. E só fica o cansaço.Tenta. Eu não quero pensar mais nisso. e acordava com os gritos da minha mãe mandando eu tomar banho.A — Não sei.A última coisa que eu me lembro de mim é quando eu tinha sete anos. Eu gostava de ficar olhando para ela. ás vezes eu penso nisso tudo e chego a sentir um pouquinho daquela alegria. ela não existe mais. frondosa. debaixo de uma vergamoteira. E além disso. As mãos ficavam coloridas e os joelhos também. não acho. Era até bonito. E tão difícil pensar. A . que até adormecia ao pé da árvore. colorida. A . Você acha ridículo tudo o que eu contei? B . Diga alguma coisa. Eu ficava tão calma. Eu acho que não consigo mais nem pensar. As coisas fogem da minha cabeça quando eu me esforço. só sei que faz muito tempo.Não. eu sou a vergamoteira. . E digo mais.

Há quanto tempo você não vinha aqui. A — Acho que entendi. B — Eu já estava com saudades de você. Mamãe não deixou eu vir ao jardim ontem..Desde anteontem.) — Eu não posso.. coragem. o que é que eu encontro? B — Não sei. B — Sete é número cabalístico. (Hesita.Oi.Eu sei. Se eu comer as sete vergamotinhas eu encontro. aproxima-se lentamente. A (Ri envergonhada. A . B — Quantas vergamotas eu tenho hoje? A (Conta. você tem uma chave em suas mãos. A .E daí? B . A — Eu também estava. B — Que pena. de bruxaria. vem falar comigo. ele representa força. A . E aquela ali.E daí. Eu não conhecia ela. Esta eu já tinha visto.. Mas esta aqui é nova. B .B — Vem cá. .Não. Eu tinha sabatina e tive que ficar no meu quarto estudando. Isso só você é que vai saber.) Oi. encontro. B — Não.. Esta outra aqui também.) — Sete. B — Já pensou no que isto significa? A. A — Esta vergamoteira é nova.

A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO * Peça em 1 Ato * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

muito doente • ROSALINDA. um jovem mancebo. VASSILI.PERSONAGENS NARRADOR • AGHATA. uma donzela de 19 anos . um velho nobre. MARQUES RAFAEL D‘ALLENÇON. CONDESSA URSULA DE BELMONT. um cigano cego . irmã do conde e louca • JEZEBEL. uma velha governanta • CONDE MAURÍCIO DE BELMONT. uma cigana .

AGATHA — Uma.. senhor conde.. paralisando a formosa primavera. Oh.. que há muitos anos serve a família.. o velho conde Maurício. conhecido pelo nome de Vale Negro. No topo de uma das montanhas que dominam o vale.. que já por toda a parte começava a ostentar os dons fecundos do seu rico e poético reino. que estou cada vez pior..... Senhor.) Talvez mais uma ou duas. dorme um sono entrecortado de gemidos e sobressaltos. quatro.. cinco.. estende-se um vale coberto por densa floresta de pinheiros e ciprestes. último descendente da estirpe e que outrora. saberá por certo apiedar-se de vossa desdita.) .. que cruéis provações ainda me reservará o destino? AGATHA — Não vos preocupeis demasiado. Numa sala do castelo. deveis beber a tisana toda. Mais um gole. seis. Aqui está (serve-lhe). pinga lentamente algumas gotas de uma tisana escura num cálice de cristal. governara seus domínios com a mão de ferro. na sua infinita bondade de misericórdia.CENA 1 NARRADOR .Na província de Castelfranc. sete.... A nossa história tem início na tarde de 15 de abril do ano da graça de 1834. Não vais dar-me a tisana? AGATHA — Estava justamente a prepará-la para vós. Agatha. sinto-me dolorosamente mal. Uma chuva miúda e fria cai sobre a terra. ao contrário.. imponente. Agatha. Assim. de antiqüíssima linhagem e senhores daquela região.Aghata. . Deus.... senhor conde.. A governanta Agatha. (pinga mais) ou três. MAURÍCIO (Gemendo. Acho que é o suficiente por hoje. que sabor repugnante! E se ao menos adiantasse de alguma cousa! Parece-me..... (Observa Maurício. ergue-se. Vamos. duas. três. MAURÍCIO — Arre. o castelo dos condes de Belmont.

como é de seu feitio. Oh. senhor.) — Falávamos sobre os males que afligem vosso padrinho.Ainda não a vi hoje. a natureza toda parecia explodir em cores inefáveis e perfumes inebriantes.) — Quem jamais saberá o que? AGATHA (Friamente. onde está Rosalinda? AGATHA . padrinho. abandonado aqui neste leito. se eu morrer. .. juras que. Agatha. Ela jamais saberá.A chuva parou já faz mais de hora. Temos sol de novo. MAURÍCIO .MAURÍCIO — Agatha. senhor. quando raiou o sol.) Pobre Rosalinda! Deus permita que não descubra jamais o hediondo segredo que envolve as suas origens. MAURÍCIO — Aproxima-te. (Suspira. O senhor conde quer que eu descerre os reposteiros? MAURÍCIO — Não. jamais revelarás a verdade a Rosalinda? AGATHA — Tranqüilizai-vos. por favor. Deve andar pelos bosques colhendo frutos e flores silvestres. andavas pelos bosques? ROSALINDA — Sim. e pensava em vós. entre as cabras. meu amado bem feitor! MAURÍCIO (Amargo. meu primaveril crisântemo.Com este tempo chuvoso? AGATHA . Que trafega estás. A luz me molesta. Caminhava pelos montes. Como deveis padecer. Então. CENA 2 ROSALINDA (Entrando com um cesto de palha carregado de flores e frutos.. Rosalinda.) — Quiçá eu mereça todos estes abomináveis tormentos.

AGATHA (Seca.) — Deus sabe o que faz.) .) Cérbero. Asmodeu. (A Rosalinda. AGATHA (Cortando. De que sofrida garganta brotam esses brados inumanos? E por que a cascata pára? AGATHA (Lúgubre. (Indo à janela..) MAURÍCIO — Atende.Tenho tanto medo..) ROSALINDA . Agatha. Belfegor. Agatha? Todos os camponeses e mineiros do Vale Negro sabem que não existe fidalgo mais nobre. MAURÍCIO — (Agitado. padrinho. E apenas um fenômeno natural.) Ouvis? A cascata parou. o conde Maurício de Belmont. Ouvem-se batidas de aldrava.) Não te assustes.Quem poderá ser? Oh. Lúcifer. AGATHA (Anunciando. .Os gritos novamente. (Ouvem-se latidos.. ROSALINDA — O que dizeis. (Agatha sai. MAURÍCIO — Cala-te.) — Os cães estão latindo. Astaroth. mais justo e magnânimo que meu amado padrinho. ROSALINDA .) AGATHA . inexplicável pela ciência dos homens. AGATHA — Caluda! (Escutando. quietos! (Cessam os latidos. Belzebu. padrinho. Esta é a maldição do Vale Negro.) — A cascata costuma parar quando algo terrível está para acontecer.) E quanto aos gritos. sinto um aperto no coração. Tenho um pressentimento.O marques Rafael d‘Allençon. Não atemorize nossa linda pequena. Deve ter chegado alguém..) Não! (Ouvem-se gritos ao longe. Agatha. minha rósea tulipa.

O que dificilmente aconteceria. senhor marques. o velho feitor Bonifácio. Só são soltos ao anoitecer. caríssimo conde. (Olhando de soslaio a Rosalinda. permanecem acorrentados. necessito estar a sós com o marques.) . A que devo a honra de vossa presença aqui em meu tugúrio? RAFAEL — Assunto particular. RAFAEL — Folgo em sabê-lo. A mim cabe obedecer. RAFAEL (Estremecendo. Com vossa licença.) Bálsamo de minh‘alma. MAURÍCIO — Agatha. senhor marques. ROSALINDA (De olhos baixos..) — Maldição! Esses cães são verdadeiros demônios! (A Maurício.) . São animais ferocíssimos. durante o dia.) Por que razão viveis cercado de feras? (Melífluo. que só obedecem ao seu tratador. Mas não precisais temer. retira-te. meu padrinho.CENA 3 RAFAEL (Entrando. que os alimento.Abreviamo-la.Vós ordenais.) — Brrrrrrr! Que conversa desagradável! MAURÍCIO (Secamente.) — Seria um erro fatal. caro marques.. Seriam capazes de trucidar qualquer um de nós. (A Rosalinda. Os cães. pois.) . Para não incorrer no erro de vir visitar-vos à noite. (Sai com Agatha. Inclusive eu . AGATHA (Levemente irônica.) A não ser que.) Acaso tendes medo que alguém vos roube esta gentil donzela? MAURÍCIO — A maldade no coração dos homens é incalculável.

. senhor conde... RAFAEL (Lentamente..Não é possível. Devo confessar que pareceis já um cadáver. caro senhor. MAURÍCIO (Examinando os papéis.A hipoteca vence hoje. Oh. MAURÍCIO — Deus.) Que Deus o tenha! . estimado conde. o meu finado pai? (Compungido.) — Tendes razão.) .. Isso é um engodo.) Parece-me que vossa senil memória anda já a pregar-vos peça. Não há sombra de fraude neles. E em adiantado estado de putrefação. Outrossim. biltre dos infernos..A hipoteca vence hoje.. Podeis verificar. (Entrega-os.CENA 4 RAFAEL — Não desejo roubar vosso precioso tempo. sois vós o único responsável por vossas próprias desditas. Ao fim e ao cabo. coincidentemente. Conheço vossas diabólicas tramas. Não tolero vossa presença maligna.) . Acaso esqueceste que vosso companheiro preferido das noitadas de esbórnia e deboche era. quero crer que já não vos resta muito. MAURÍCIO — Que quereis dizer com isso. Por certo adulterastes os papéis.Que dizeis? RAFAEL . a virgem e o Espírito Santo são testemunhas de minha desventura. senhor! Inesgotável é a taça de infortúnios que me fazeis sorver neste vale de lágrimas! RAFAEL — Sois injusto com o bom Deus. conheço bastante bem vosso passado. apesar de possuir a metade de vossa idade.. RAFAEL — Os papéis cá estão em minha algibeira. MAURÍCIO (Agitado. RAFAEL — Ora. Ide logo ao cerne da questão. MAURÍCIO . Apenas isso.

RAFAEL — Ah. o vinho... e não vou perder a oportunidade de vos dar o merecido troco! Não. o velho marques d‘Allençon. senhor Conde Maurício de Belmont. aliás. após já haver perdido vultosíssima quantia e já embotado pelos vapores etílicos. Todos os bens do ilustre clã dos Belmont hipotecados à não menos ilustre casa d‘Aliençon! . vejo que vossa memória começa a reavivar-se.) — Eu não podia. as canções. não basta! Já fui assaz insultado por vós. não podeis negar que estais colhendo hoje o amargo fruto de vossa desenfreada paixão pelo jogo! MAURÍCIO . de quem.MAURÍCIO (Amargo.. a devassidão e o vício que levaram o meu progenitor à loucura e à morte são agora a causa de vossa ruína financeira.Não.Aquela noute. senhor conde. Ou porventura olvidais que foi sobre o pano verde que empenhaste toda vossa fortuna? MAURÍCIO (Num arranque. sentado a uma mesa de truco... herdei muitas ―virtudes‖. foi numa ―noute nefasta‖. Vossa Senhoria ofereceu como garantia de sua derradeira aposta.Vosso pai. as mulheres. como dizeis. com meu pai. MAURÍCiO (Cortando. os títulos de suas propriedades. que acerbas recordações vindes me despertar! RAFAEL — A concupiscência. basta de ressuscitar esses horrendos fantasmas do passado! RAFAEL (Implacável..) . como gosto pelos ―prazeres‖ da vida: a boa mesa. há mais de dez anos que.. ..) — Basta.já embotado pelos vapores etílicos. aquela noute nefasta..) . MAURÍCIO — Ah. Sim... RAFAEL — Sim. não conseguia parar! Era mais forte do que eu! RAFAEL (Continuando. . no auge do desespero. implacável.) .

) — Como vos atreveis? Ficai sabendo que não sois digno de lamber o chão onde roça a fímbria da saia de Rosalinda.) .. arrogante mancebo? CENA 5 . Deus de minh‘alma! O que me resta fazer agora? RAFAEL — Se vós tivésseis uma mente. para vos retirardes do castelo..Senhor. Agatha.Ajuda-me..Não sou homem de meias palavras.O que fizeste a meu padrinho. MAURÍCiO (Tomado de cólera. Mil vezes a mais negra miséria! RAFAEL (Sem se abalar. Mas. A escolha é vossa. (Tossindo violentamente.MAURÍCIO — Ah. tendes até amanhã. que tendes? MAURÍCIO .. ao meio-dia.. mais atilada. jamais a vós. MAURÍCIO — Falai logo. vil cobarde! ROSALINDA (Entrando com Agatha. como sou um homem magnânimo. Cederia a mão de Rosalinda ao mais imundo dos mineiros do Vale Negro. (Agatha sai conduzindo Maurício.) — Então estais completamente arruinado.) O mais ignóbil dos répteis é mais nobre do que vós.) . preciso repousar. digamos. canalha! O que mais ainda quereis deste lamentável destroço humano? RAFAEL (Direto. Quero vossa afilhada. MAURÍCIO (Tossindo muito agitadamente.) — Infâmia! Gozasse eu de alguma saúde e vos expulsaria daqui a chicotadas.) ROSALINDA (A RafaeL) . poderíeis fazer bem mais do que imaginais em vosso próprio benefício..

Oh. RAFAEL — Crime é deixar ao desabrigo uma donzela como vós. O senhor conde está gravemente enfermo. minha flor das montanhas. nem a bruxa governanta. minha pombinha.. Nem vós. complacente com este vosso admirador..Vamos..Tudo depende de vós. RAFAEL — Basta que sejais. ROSALINDA — Mas não podeis cometer essa vileza. A hipoteca vence justamente hoje.A vida desregrada que levou. . Mas isso não é crime. menina. Nada fiz a vosso padrinho. Sua morte é questão de meses. senhor marquês. minha pequena. nem vosso padrinho. RAFAEL Como não? Então não sabeis que hipotecou todas as suas propriedades à casa d‘Aliençon? ROSALINDA . ROSALINDA — Mas então por que está ele neste deplorável estado? RAFAEL .. As propriedades pertencem a ele. nem aqueles cães demoníacos. como pudeste observar.. que. ROSALINDA — Crimes? De que falais? Meu padrinho nunca cometeu crime algum. os ágapes desenfreados. ROSALINDA — Isso quer dizer que. os muitos crimes que cometeu o corroem por dentro. apiedai-vos de nossa desgraça! Que tendes vós em lugar de coração? Uma taça de veneno? RAFAEL .. ROSALINDA — De mim? Sabei que tudo faria para amenizar as derradeiras horas de meu benfeitor.Que não tendes mais teto que vos abrigue. RAFAEL (Interrompendo...) .RAFAEL .Sei-o.

cederam lugar a uma solicitude. desistindo de protestar os títulos da hipoteca. . por misericórdia. Nos menores frascos repousam as mais puras essências. A atitude do marques. Rafael passou a visitar mais amiúde o castelo e. carregando braçadas de antúrios. para a satisfação de vossos brutais prazeres. a ameaça da ruína deixara de pender sobre a família. pequena.) RAFAEL (Abraçando-a. (Resoluta. sim. fatos mui estranhos continuavam a ocorrer nos sombrios aposentos da mansão dos Belmont.) . (Abre os braços resolutamente. persignando-se. Seu habitual cinismo e arrogância.) Está bem. podeis dispor de meu corpo e de minh‘alma como quiserdes. hortências.Oh.ROSALINDA — Complacente? Que insinuais? Não vos entendo. Falai claramente. Entrementes. ele e Rosalinda passavam as calorosas tardes estivais a percorrer os bosques e pradarias. a situação modificou-se sensivelmente no castelo dos Belmont. Freqüentemente. CENA 6 NARRADOR . crisântemos.) — Sobre esse assunto não há necessidade de falar claramente. gerânios. RAFAEL (Incisivo. (Insinuante. O marquês d‘Allençon. Voltavam ao por-do-sol. aliás. Agora compreendo o que desejais. Se isso pode salvar meu benfeitor da ruína. petúnias. begônias e miosótis. como num passe de mágica.Sois mais ladina do que aparentais.Alguns meses depois daquele dia em que Rosalinda levou a cabo o seu gesto de desprendimento e afeto filial. participava das tertúlias e saraus familiares.) Não haverá lugar em vosso coração para um pouco de ternura? ROSALINDA (Percebendo). sofrera uma profunda transformação. magnólias. inclusive.

Em semi-obscuridade, o Conde Maurício está dormindo, recostado no sofá quando entra Ursula. Roupas rasgadas, desgrenhada, inteiramente louca. Traz uma boneca nos braços.

ÚRSULA (Fala para as paredes, às vezes para si mesma ou para a boneca.) — Como sói ser verde o campo quando o astro-rei principia a tombar no horizonte! Por um segundo, a natureza inteira se veste de dourado... Vês, filhinha? O verde dos campos sendo mansamente invadido por todo esse esplendor dourado que brota do arrebol. Que espetáculo redentor para a torturada visão dos homens! O ouro derramando-se sobre o verde, tingindo o azul do firmamento. (Estremecendo.) Até... até que os besouros começam a cair. Lentamente, despencam dos céus feito gotas negras de chuva. Vindos do infinito, qual aranhas viscosas e peçonhentas... E quando caem de costas — ah, quando um besouro cai de costas, não se levanta nunca mais. (Quase gritando.) Nunca, nunca mais! (Com o grito, Maurício agita-se e geme dormindo. Ùrsula volta-se para ele.) Vês, filhinha? E assim que são os poderosos. confortáveis Desalmados, como se impiedosos. Dormem um profundamente, campo de ouro. repousassem sobre

Indiferentes à queda lenta dos besouros negros sobre o charco de sua alma manchada pelo sangue dos inocentes. Alheios à desventura dos oprimidos camponeses que labutam no fundo lamacento das minas para cobrir de ouro seu medonho latifúndio. (Vai-se aproximando de Maurício.) Mas se todos — ah, se todos unidos erguessem atrevidos suas sofridas cabeças para gritar não! ao opressor... Ah, filhinha: como tudo poderia ser diverso desta iniqüidade. Quão ditosa seria novamente a pobre corça dos pés quebrados! (Gritando.) Companheiros, uni-vos! Uni- vos para destroçar o maligno! (Segura Maurício e começa a sacudilo violentamente.) Este, que se traveste de benfeitor dos pobres e dos oprimidos! Uni-vos como 1ob famintos de justiça para destroçá-lo em pedaços sangrentos!

MAURÍCIO (Despertando, estonteado.) — Rosalinda, Rosalinda, que aconteceu, minha cornucópia de água-régia? ÚRSULA (Possessa, aos uivos, tentando estrangular Maurício.) — Somente a morte do maldito poderá redimir o sangue dos oprimidos! MAURÍCIO (Num espasmo.) — Úrsula, que fazes aqui? ÚRSULA — Sim, assassino! Apesar dos pés quebrados, a corça ainda pode fugir. MAURÍCIO (Tenta levantar-se, Úrsula o empurra. Ele está apavorado. Grita.) — Agatha! Agatha, tira esta louca daqui! ÚRSULA — Tarde demais, corrupto! Como a ave peregrina que mais dia, menos dia, torna ao ninho — a justiça sempre chega. AGATHA (Entrando, com um chicote.) - Para trás, animal! (Estalando o chicote.) Afasta- te, fera repelente! Ou te reduzirei a pó num estalar de dedos. ÚRSULA (Encolhe-se, a boneca cai ao chão, ela tenta inutilmente apanhar.) — Por piedade, não! Minha filhinha! Mata-me, se quiseres. Mas por tudo que há de mais sagrado, peço-te: poupa o mais puro fruto de meu ventre! AGATHA Besta imunda! (Vai chicoteando Úrsula para fora da sala.) Retira-te para teu infecto covil! Foste feita para o aconchego dos ratos, das lacraias e dos escorpiões — não para o convívio dos seres humanos. (Para Maurício, antes de sair.) Serenai-vos, senhor Conde. O velho Bonifácio saberá tratar desta lepra em forma de gente. (Vai saindo, chicoteando Ursula. Os cães latem furiosamente lá fora. Grande alarido. Depois, volta o silêncio. A boneca ficou caída ao chão, aos pés de Maurício.) MAURÍCIO (Após demorado silêncio, apanha a boneca e começa a acariciá-la dorida mente.) — Haverá de ser tão inesgotável a bondade de Deus a ponto de, um dia, ser capaz de perdoar-me? Merecerei a

graça suprema de sua doce mão pousada sobre este fervilhar de vermes no caldeirão de minha alma pútrida? (Grita, como numa tragédia grega.) Infeliz de mim! (Num frenesi, beija a boneca. Depois joga-a longe.) Agatha, Agatha! Tira este aborto daqui! Socorre-me que morro... (O Conde Maurício soluça, arquejante. Foco em Maurício e na boneca calva. A luz vai diminuindo em resistência, enquanto ele geme. Em off sobrepondo-se aos gemidos, vão crescendo a gargalhada de Agatha, os uivos de Ursula e os latidos dos cães enfurecidos.)

CENA 7

NARRADOR — Transcorridos mais alguns meses, a situação no castelo de Belmont em nada se modificara. Rafael d‘Allençon soubera perfidamente ganhar a confiança de Rosalinda com juras de eterno amor e promessas de matrimônio. Pouco a pouco, as fibras do coração da donzela, passaram a vibrar no compasso da mais pura e devotada paixão. Porém, horas mais negras estavam por vir. Um dia, Rosalinda descobriu que ia ser mãe. Sem coragem de contar a Rafael, durante vários dias, amargou sozinha seu terrível segredo. Por casualidade, iniciara-se a temporada da caça à raposa, e Rafael passara uma semana sem visitá-la. Uma manhã, munindo-se de coragem, Rosalinda tomou da pena e verteu seu coração, transbordante de receios, numa longa missiva endereçada ao marquês. Rafael aproxima-se por trás de Rosalinda, que não percebe sua presença, e atira-lhe a carta a seus pés. RAFAEL (Agressivo.) - Qual a razão disto? ROSALINDA — Ah, meu amado, és tu. Que susto me causaste! RAFAEL (Seco.) — E então?

ROSALINDA — E então o que? Não te entendo. O que se passa contigo? Por que chegas assim, tão agastado, sem uma saudação sequer... nem ao menos um ósculo... um amplexo? RAFAEL — Ora, Rosalinda, não me venhas de borzeguins ao leito! Quero saber o que significam as aleivosas insinuações contidas nessa missiva. ROSALINDA (Ressentida.) - Amor meu, que duras palavras! Tu, que sempre me demonstraste tanto carinho, tanta afeição, tanto... ardor... RAFAEL — Tratava-te assim porque eras dócil e cordata comigo. Porque te curvavas a todos os meus caprichos. Mas agora... ROSALINDA — Mas eu não mudei! Eu continuo sendo tua escrava fiel e obediente! Sabes bem que meu antigo asco por ti transmutou-se na mais excelsa paixão! RAFAEL — Chega de tergiversações! Exijo que me esclareças imediatamente o significado dessa carta! ROSALINDA - Peço-te perdão, meu querido amigo. Foi quiçá por excesso de pundonor que não fiz mais cristalinas as minhas palavras. Mas como transmitir à fria brancura impassível do papel o turbilhão que me devasta o peito, desde que fui abençoada por este milagre... este augusto milagre... RAFAEL — Que história é essa de milagre? Vamos, fala! ROSALINDA (Em êxtase.) — O milagre da maternidade! RAFAEL - O que? Um filho?! ROSALINDA — Sim, um filho! Sublime fruto a coroar o nosso amor! RAFAEL (Agarrando-a brutalmente.) — O que estás a dizer? Ficaste louca?

ROSALINDA — Rafael, Rafael, foste tu quem perdeu a razão! Não te reconheço. Julgava que rebentarias de alegria ao saber... RAFAEL (Cortando-a, possesso, e sacudindo-a pelos braços.) — Alegria? Alegria?!!! ROSALINDA — Sim, amado. Agora só nos resta finalmente desvelar aos olhos do mundo a nossa união, realizar o nosso sonho dourado... Ah, meu príncipe, toda noite, em meu leito, contemplo-me, núbil, galgando ao lado teu o mármore dos degraus do altar... RAFAEL (Empurrando-a.) - Casar contigo? Quem te pôs esta idéia ridícula na cabeça? ROSALINDA (Chocada.) - Tu mesmo, Rafael! Tu mesmo quantas vezes juraste que um dia... que só precisávamos um pouco de paciência e ocultar por algum tempo o nosso amor, até conseguires convencer tua família... RAFAEL (Cortando, irônico.) — ...que eu desposaria uma enjeitada? Uma bastarda? Uma criatura sem nome, sem posição e sem fortuna? Porventura chegaste a acreditar um segundo que eu, um nobre, um aristocrata, um d‘Allençon uniria meus destinos a uma qualquer? Alguém que não sabe sequer de onde veio nem quem são seus pais? ROSALINDA (Com dolorosa compreensão.) — Então isto significa que estiveste a mentir-me esse tempo todo... RAFAEL (Rindo a bandeiras despregadas.) — Que esperta és! Só agora percebes que eu estava tão somente... ROSALINDA (Cortando.) — . ..brincando comigo, iludindo meu pobre coração, fazendo-me crer que me querias, apenas para me

te-la-ias entregue ao primeiro que passasse! Pois fica tu sabendo. não pensavas em tua honra.) .) — Naquelas noites ardentes.) .) . Senhora protetora dos aflitos! Valei.. franguinha! E com que facilidade! A tua estultícia.Basta! Só tenho uma única e derradeira palavra a dizer-te! ROSALINDA (Abrindo os braços.. minha cara. Apaga meu nome de tua memória! Esquece para sempre que eu existo! Nunca mais. reza. não tens mais nada a esperar.) — Rafael. pois vais precisar muito da misericórdia divina.me nesta sombria encruzilhada do destino! RAFAEL — Isso! Reza. Porque se não a entregasses a mim.Marafona! (Sai a passos largos. que doravante não há mais nada entre nós! Nada! ROSALINDA (Numa última e desesperada tentativa. qual uma gata no cio. menina. Virgem Santíssima! Oh.) — E tu caíste na esparrela. de teus instintos libidinosos. quando gemias.) — Dize. em meus braços. ouviste bem? Nunca mais pretendo voltar a ver-te! ROSALINDA (Reagindo como uma loba ferida. é realmente . Rafael. me conquistar. Porque de mim. é monstruoso demais! O que será de minha honra ultrajada? RAFAEL (Irônico. RAFAEL espantosa! ROSALINDA — Oh.Rafael. não tens o direito de fazer isso comigo! E cruel. meu dilacerado amor! RAFAEL(Desvencilhando-se.seduzir. meu anjo e meu algoz! Que palavra é essa? RAFAEL (Cuspindo a palavra.) (Às gargalhadas. deleitada. insensata. agarrandose a ele. desfrutar-me como mero objeto de tua lascívia. com renovada esperança.

.. a pérfida serviçal terminou descobrindo o segredo que torturava o coração de Rosalinda. Rosalinda chorou.. Insidiosamente. onde sempre luziam os arrebóis da alegria. Fundas olheiras ensombreceram seu semblante angelical. dize..ROSALINDA — Ah.. em seu desespero...) . MAURÍCIO — Bons dias. ROSALINDA (Hesitante. (Observando-a. cabisbaixa e meditabunda? Pareces infeliz. Finalmente. Deste modo. deixava-se adormecer sobre as frias lajes do oratório. Só deixava a solidão dos seus aposentos para ir à capela atirar-se aos pés da Virgem. conseguiu conquistar a confiança da rapariga. agora está turvo de uma névoa de tristeza. minha querida. MAURÍCIO — Sim.. Não confias em teu velho amigo? ROSALINDA .. Teu semblante. quando Rosalinda não podia mais esconder o seu estado.Padrinho querido.. Com freqüência..) Mas por que estás assim. despedaça-a com fúria e esfrega freneticamente os pedaços pelo rosto e pelo corpo. MAURÍCIO — Vamos.. dizendo-se sua amiga e protetora. eu. soluçando. muitas horas depois.) CENA 8 NARRADOR — Depois desse trágico desfecho. até ser despertada. ROSALINDA .Padrinho.Padrinho. pela mão da governanta Agatha. dias inteiros. por piedade! (Rosalinda. a perversa Agatha aconselhou que revelasse toda a verdade ao conde.. fala. há mais um anjinho aos pés da Virgem Maria. lárimas grossas como punhos. Conta-me a razão de tuas penas... apodera-se da carta esquecida.

me. (Agatha acorre e o ampara. Sei que haveis de compreender e perdoar.) Vou ter um filho. uma nova flor começa a desabrochar para a vida. agitado. MAURÍCIO (Reagindo com violência. Podes ser mais precisa? ROSALINDA ... não vês que apressas a minha morte? Atraiçoaste toda a cega confiança que durante esses 19 anos depositei em ti. Rosalinda? Não me atormentes com enigmas e despautérios! Recuso-me a aceitar a terrível verdade que se esconde por detrás de tuas palavras! ROSALINDA — Está bem. E meu ventre. (Pausa.) — Perjura! Jamais te perdoarei! (Chamando. maldita! ROSALINDA (A os prantos.) — Vamos.Que flor tão rara é essa. MAURÍCIO (Cortando. socorre-me que morro. vamos! Enxovalhaste o nome do conde Maurício de Belmont! ROSALINDA . todos me atraiçoaram.) .) Todos..... aquele réptil nauseabundo! (Tossindo..) — Que dizes. Rosalinda.) . MAURÍCIO (Surpresíssimo.MAURÍCIO . . que floresce em tempo de inverno? Onde está ela? ROSALINDA (Baixando os olhos. fala.) — O marquês Rafael d‘Aliençon é o culpado da minha desventura.) Agatha.Um rebento? Um bastardo? Mas quem te desonrou? (Esbofeteando-a. padrinho. padrinho. MAURÍCIO .Não entendo o sentido de tuas palavras. surge inesperadamente a lâmina que me estraçalha o peito. Retirate daqui. padrinho.Aqui.Padrinho..) Desgraçada. MAURÍCIO — Ah. Pobre idiota! De onde supunha que só pudessem vir flores e sorrisos. perdão! Eu juro que.Perdão.

o que será desta pobre órfã com um filho a germinarlhe no seio? Abandonada por todos.ROSALINDA — Foi para salvar vossos bens que cometi essa iniqüidade. Deve conter antigos segredos de família. padrinho. (Detendo-se diante de um objeto. Mas. por todos desprezada. (Neste instante entra Agatha. à margem de qualquer dignidade...) Quem será esta dama de melancólico semblante? Que formosa! Mas. estes móveis. ébria e solitária. ou minha.... criatura ingrata e sem pudor! O demônio tomou conta de tua alma. minha. (Agatha vai conduzindo-o para fora. comovida.) — Infeliz de mim! Deus é testemunha de que agi com a melhor das intenções. e.. não tens esse direito! E retira.. segurando uma capa.) Hás de pagar amargamente.. (Abre o cofre. Sei que não devo abri-lo mas a curiosidade me espicaça. Hás de rolar na lama e te arrastar no vício.. Oh. Sinto os dedos a queimar. estas paredes. Nunca me foi permitido abri-lo. o velho cofre de charão. Aqui passei os melhores anos de minha desditosa existência. MAURÍCIO — Não me chames mais de padrinho. que vejo? Alguém haverá esquecido a chave na fechadura. noite após noite. Jamais pensei que minh‘alma pudesse abrigar tamanha dor! O fel da desilusão inunda-me o peito! (Recobrando-se.) Jamais olvidarei estes salões. Rosalinda esconde o daguerreótipo no seio. oh... Senhor.. clamando inutilmente por misericórdia! CENA 9 ROSALINDA (Sozinha.. como o foi tua mãe.) ..te imediatamente daqui! Não pertences mais a este lar. Num ato reflexo..) Ah.. (Olhando ao redor...)Tenho de ir-me. Senhor! Como se parece comigo! Dir-se-ia minha irmã..) Velhos papéis. oh! um daguerreótipo! Que belo! (Examina o medalhão enquanto fecha a tampa do cofre. Não passas de uma reles meretriz. Agora nada mais me resta a fazer aqui....

E não será difícil para uma rapariga encantadora como vós. (Voltando-se à jovem. Lembro-me dela..Estava apenas a despedir-me do cenário que emoldurou minha juventude. Já estou a ir-me... bem divertidas. Agatha. Meu padrinho me contou que pertencera a minha mãe.. Agatha.. Pareceis uma lebre surpreendida pelo caçador. (tocando-a) com esse porte de amazona. ROSALINDA . pequena. (Dá-lhe o manto. rubicunda e capitosa (largando-a) Mas entendereis com o tempo minhas palavras. O mundo é vasto.) ROSALINDA — Como sois bondosa..) E cheio de prazeres inauditos... . ROSALINDA ... (Para si. E por que me tocais com tal ardor? AGATHA — Porque sois tenra como um faisão natalino.Que a vida pode ser vivida de muitas maneiras.Tendes razão. minha pequena? Tão assustadiça. Agatha! (Vestindo a capa e acariciando-a.AGATHA — Ainda estais aí? Que fazeis aí parada. Se vosso padrinho vos surpreender.) . ROSALINDA (Sem compreender.. Agora ide sem mais delongas..Que dizeis? AGATHA .) Deveis procurar um velho cavalheiro que compreenda a vossa desventura. Algumas. Opípara. ROSALINDA — Não vos entendo. Enfrentarei com bravura a escuridão dos meus caminhos..Não deveis ter medo. AGATHA — Levai isto para proteger-vos da intempérie. AGATHA ..) Essa velha capa.. esses cachos de Pandora..

) AGATHA . escutando ao longe os uivos ameaçadores dos lobos e as lúgubres vozes das aves noturnas. E em meio à tempestade que rugia com fúria. ROSALINDA . duas. Rosalinda sai. a desgraçada Rosalinda. com o peito dilacerado pela dor. Enquanto isso. com as roupas estraçalhadas pelas urzes e espinhos e os pés ensangüentados pelas pedras do caminho. (Abraçam-se.. a corcunda repugnante. quatro.. CENA 10 NARRADOR .. os camponeses pagarão caro o seu desprezo. Agatha. Serei a mulher mais poderosa de todo o Vale Negro. três. a harpia selvagem! Ah.Vossa mãe vos trazia envolvida nela quando veio estrebuchar nas escadarias do castelo numa gélida noite de inverno há 19 anos atrás. embrenhou-se na floresta e caminhou durante três dias e três noites.Finalmente os fados estão a meu favor! Com o afastamento da pequena. adormecia exausta.AGATHA . a reles governanta. numa . Resta apressar a morte do conde. só parando para repousar num monte de feno quando lhe faltavam totalmente as forças. (Conta as gotas. (Apanha a tisana. onde vivera os anos mais floridos da sua existência. e eu em breve estarei completamente sozinha no castelo.) Algumas gotas a mais hoje. a sua maledicência. minha boa Agatha. deixava o castelo de Belmont.. Deixavase então cair ao pé de uma árvore e. outras amanhã.Enquanto a pérfida governanta regozijava-se com o golpe do destino que viera ajudar seus planos diabólicos. perto dali.. torno-me a única herdeira do conde Maurício de Belmont.. a bruxa intratável.) Uma. Adeus.Pobre genitora! Como há de ter padecido! Devo partir agora...

hay álguien entre los árboles. pero no confio en tus temores.clareira da floresta. Algun conejito perdido. carifio. toca más. (Ruido. JEZEBEL — No hay nadie. Son los Arcanos del Tarot de los Bohemios que hoy solo me dicen incongruencias... Devo estar loca. claro. El sonido de tu violín tiene la virtud de acalentar mi alma como el más dulce de los vinos. uma tribo de ciganos havia montado acampamento e dedicava-se a seus afazeres habituais. no consigo ver claramente! El pasado se pone otra vez como presente y también como futuro Una muchacha. .. Pero. y una mujer muy mala. JEZEBEL .. (Invocando. Vassili. Confio en tu oído. si. VASSILI — No.) — Jezebel. dejame ver la suerte en paz. Jezebel. Mira. Vamos.. alguna serpiente.) Fuerzas ocultas dei más alto Astral. Rosalinda entra e coloca-se atrás de uma árvore.Hay algo que vuelve del pasado. depois para abruptamente. la Justicia vencerá VASSILI — Que cosas estás a refunfufiar. y que hermosa es! Un viejo senõr. Jezebel põe as cartas do Tarot. Yo conozco muy bien los sonidos de los animales y de las personas. Cofio. mi audición se ha aguzado mucho.. Muchos conflict.... Jezebel. que es esto? Hay 1guien aqui? VASSILI — Te lo dije. toca.. aqui. la Muerte. por la derecha.....Si. Jezebel? JEZEBEL — Nada. enquanto Vassili toca seu violino. Tu sabes que desde que he perdido la visión. al final. por favor. orientad mis manos para desvendar el secreto... carajo! Pero toca.. Son muy distintos.. VASSILI (Toca mais um pouco. JEZEBEL . carajo! Por piedad.) Pero..

todo es igual. Como te llamas? ROSALINDA — Rosalinda.) Tenías razón... nina? ROSALINDA . Vassili... senhora. que quereis vós de mim? VASSILI . por Diós. coso.. Acercate hasta el fuego.) Si. senhora.. la nariz..) . Mas por que ele está tão agitado? JEZEBEL — Es su imaginación muy exacerbada.JEZEBEL (Erguendo-se. dame tu mantilla. Que pasó. las cejas. Perdi-me pela floresta e cheguei até aqui orientada pelo som mavioso de um violino.) Con mil demonios. (Passando os dedos no rosto de Rosalinda. (Rosalinda aproxima-se..) Que raro trabajo. si... nina? ROSALINDA — Não tenho para onde ir. Todo...) . no lo puedo creer. una muchacha! Y toda mojada.. toma un poco de vino. . Donde encontraste este manto..Quién está ay? (Saca do punhal.Es que me acuerdo de. JEZEBEL — Acercate. exactamente lo mismo.. Puedo tocar en tu rostro. (Para Vassili. esta voz.Agatha me lo deu.) — Não sei. carino? ROSALINDA (Hesitando. Está toda mojada. (Examina-a. Vamos.. JEZEBEL — Acalmate. no es possible. VASSILI (Caminhando para Rosalinda. los párpados..) . JEZEBEL — Es el violín de Vassili. por Dios. los ojos. que no estoy para chistes! ROSALINDA (Aparecendo. Se cree que te pareces a alguien que conoció. La muchacha está assustada. hace mucho tiempo.. no es verdad la piel.Esta voz.) Vamos. carifio. Apenas uma pobre órfâ.Sou eu. es lo mismo. es una pobre muchacha perdida en la tempestad. Estrano! Pareceme que ya he visto algo semejante. de una mujer que he conocido en tiempos más dichosos.

.) — Que está acontecendo? Não sou vossa filha. a governanta do castelo do Vale Negro.Agatha! ROSALINDA — Sim.. (Nova reação dos ciganos...Minha mãe.....) Quien es la mujer del retrato? ROSALINDA — Não sei.. (Entrega o manto a Jezebel .Si.Quien? ROSALINDA . que eu não conheci. es. es Úrsula. sou apenas uma pobre órfã recolhida pela bondade do Senhor Conde Maurício de Belmont. chorando.JEZEBEL E VASSILI (Muito espantados...) .. JEZEBEL — Pero ia semejanza es imprensionante! VASSILI — (Agitadíssimo... ROSALINDA (Assustada. É um velho daguerreótipo. Encontrei-o por acaso. miei de mi corazón.. que tortuosos caminos fue necessario cruzar hasta encontrarte. hermosura. es.. mira el daguerreótipo y habla toda ia verdad.) — Hija mia. JEZEBEL E VASSILI .... JEZEBEL — Maurício de Belmont! Maldición! Quieres decir que este perro todavia vive? . es Ursula? JEZEBEL . Gostai? Tomai.) — Tu madre? Jezebel. o daguerreótipo fica visível.Pero que es esto? Eres tu? ROSALINDA — Não.) Pertenceu a minha mãe.. como posso saber? Mas imagino que seja. VASSILI (Muito emocionado.) JEZEBEL . VASSILI (Abraça Rosalinda.

lançando-me os mais terríveis vitupérios. (Saem. já era noite fechada. Sua intuição. . Jezebel preparou uma carroça e os três puseram-se a caminho. mas por pouco tempo. Quando chegaram ao castelo.. diante de tão inesperadas revelações. Los dos se enamoraram locamente. que calava fundo em sua alma de órfâ desamparada. ROSALINDA — Quer dizer que meus verdadeiros pais são. Sem perda de tempo. la hermana del conde Maurício de Belmont. Padece de grave enfermidade. ainda incrédula. Nel camino te explicaremos todo. JEZEBEL — El gitano Vassili y Úrsula. e assim eles puderam penetrar na propriedade.. A lua escondera-se atrás de plúmbeas nuvens prenunciadoras de tempestade.) Expulsou-me do castelo. Porque quereis matar meu padrinho? JEZEBEL — No hay tiempo a perder.) CENA 11 NARRADOR — Um turbilhão agitava a mente de Rosalinda. Ahora vamonos. hace anos.ROSALINDA — Sim.. VASSILI — Perro de los infiernos! Voy a matarlo con mis propias manos.).y fue eso lo que sucedió..Não entendo o que dizeis. JEZEBEL (Entrando com Vassili e Rosalinda. Tenemos que ir imediatamente al castillo. porém. ROSALINDA . (Chorando. A astuta cigana havia preparado um narcótico para os cães que guardavam os portões. aconselhava-a a obedecer ao espírito forte e decidido da cigana Jezebel e a confiar na doçura do rosto e da voz de Vassili.

meu tio descobriu tudo.Vosso pai? Porventura delirais? Vosso pai há muito não pertence ao reino dos vivos.Vós por aqui novamente? Não bastaram as maldições que vosso padrinho vos lançou? Que quereis? Uma esmola? Uma côdea de pão? ROSALINDA — Quero apenas o que me é de direito. se meu pai está aqui próximo? AGATHA . Não preciso de vossa piedade! AGATHA . (Subitamente. ROSALINDA — Pobre. que se hacia pasar por confidente de Úrsula. la atraicionó.El mismo comando el ataque.. Y con su propria mano cegó a Vassili con una chibatada. VASSILI — Agatha. .. Ursula entonces abondonó el castilio y ocultóse com los gitanos em la montanas. ROSALINDA — Aqui. Estava tan poseso que queria mandar matar a toda la tribu. atrás deste reposteiro. ROSALINDA .. Vamos escondemos. Meu tio mandou seus esbirros invadirem o acampamento cigano.Não vos entendo. Allá se celebró el casamiento.Mas meu padrinho.. ROSALINDA — Posso imaginar o resto.. ROSALINDA — Enjeitada. Que quereis dizer com isso? Não tendes direito algum.) Oigo un ruído. JEZEBEL . (Toca-o com ternura.) VASSILI . Maurício no podia admitir que una Belmont desposara un gitano.) AGATHA (Entrando. surpresa.. não passais de uma pobre enjeitada...) . querido papai.por supuesto. (Vassili e Jezebel escondem-se.Angel mio. eu? Como. contando toda la verdad a Maurício.

ROSALINDA (Puxando o reposteiro.) — Como não? AGATHA (Recuando.) — O cigano Vassili! Jezebel! Que desejais? VASSILI — Solo la verdad, Agatha. Nada más que la verdad. JEZEBEL (Ameaçando-a com o punhal.) — Vamos, mujer. Donde está Úrsula? AGATHA - Não sei, não sei... VASSILI (Torcendo-lhe o braço.) — Vamos, confiesa antes que te mate como a un perro. AGATHA — Por piedade, eu conto. (Recompõe-se.) Úrsula foi encarcerada na cripta subterrânea embaixo da cascata. ROSALINDA — A cascata... Quer dizer que aqueles uivos dilacerados que se ouvem quando cascata para pertencem à... à minha mãe? AGATHA —, Sim. Ela perdeu a razão quando vós nascestes. Vosso tio então encerrou-a lá. VASSILI — Mi pobre Úrsula. JEZEBEL — Y donde están las llaves de la cripta? AGATHA — Aqui. (Estendendo-lhe um molho de chaves.) VASSILI — Precisamos libertar mi amada Úrsula. Vamonos todos a la cripta. Y tu, Agatha, vienes con nosotros para mostramos el camino. JEZEBEL - Vamos. AGATHA — A cascata parou novamente. (Ouvem-se gritos ao longe.)

CENA 12

NARRADOR — Desse modo, através de uma passagem secreta, conhecida somente por Agatha, os quatro penetraram nos subterrâneos do castelo de Belmont. Desceram por uma íngreme escada em caracol e embrenharam-se num labirinto de lúgubres corredores e estreitas galerias escavadas na rocha. Os gritos misteriosos haviam cessado, e o sepulcral silêncio era apenas perturbado pelo eco surdo dos seus passos e peio ocasional bater de asas de um morcego. Finalmente, desembocaram numa cripta úmida e infecta, que dir-se-ia habitada apenas por ratazanas e aranhas, não fosse aquela estranha voz entoando uma canção que parecia vir de além-túmulo. ROSALINDA — Por Deus! Está tão escuro aqui. Não consigo ver nada. JEZEBEL (Tomando a vela das mãos de Agatha.) - Pronto. Asi es mejor. (Olhando em volta.) Pero que sitio sucio... Es una pocilga, carajo. (Para Agatha.) Vamos, desalmada. Donde está Ursula? AGATHA (Apontando para um ponto, que Jezebel ilumina.) — Ali. (Aparece Úrsula, completamente louca, suja e desgrenhada. Canta, enquanto embala uma boneca nos braços.) VASSILI — Mi querida, luz de mis ojos... Úrsula, bien amada! ROSALINDA(Avançando para Úrsula.)- Mamãe! Oh, mamãe, julgava que estáveis morta! ÚRSULA (Para a boneca.) - Filha, filhinha querida Não deves ter medo, não deixarei que te façam mal. (Para Vassili.) Afasta-te, Maurício! Não permitirei que destruas o fruto do meu amor! (Mudando o tom.) Besouro que cai de cosas não levanta nunca mais. JEZEBEL - Está completamente loca! Maurício de Belmont ha de

Pagar muy caro todas las atrocidades que ha cometido! URSULA (Chorando.) — A corça corria celeremente sobre o ouro dos campos. Como se fora uma seta voando sobre o verde. Até... até que numa curva mais abrupta do escarpado caminho, numa curva ignominiosa seus pés quebraram. ROSALINDA (Num gemido.) - Desditosa genitora! ÚRSULA (Em pleno delírio.) — E ela não pode correr mais. As corças de pés quebrados não podem correr. Apenas rastejam. Como os besouros caídos de costas... que não se levantam nunca mais. VASSILI (Para Ursula.) — Carinio, no me reconoces? Soy yo, tu Vassili. Tu amor, el gitano... ÚRSULA — Vassili? Não, não: Vassili foi assassinado por Maurício. Seu sangue cigano cobriu o verde dos campos como o sangue inocente dos pés quebrados da corça... O vermelho da violência derramado impunemente sobre o verde da humildade... VASSILI (Insistindo.) — Y esta chica, ves? Esta chica es Rosalinda, nuestra hija querida. Mira que hermosa es! ÚRSULA (Para a boneca.) — Tanto tempo. Tudo faz tanto, tanto tempo. Hoje é como se fora outrora. E nunca mais outra vez. ROSALINDA — Mamãe, mamãe, sou eu, Rosalinda, tua filha, a flor de teu ventre puro. ÚRSULA (Para a boneca.) — Minha filha? Minha filha é esta aqui. Filhinha, filhinha... (Para a boneca.) — Sossega, ninguém te fará mal. AGATHA (Mordaz.) - E definitivamente inútil. Esta parva jamais recuperará a razão.

JEZEBEL (Torcendo-lhe o braço.) - Callate, conchuda! Tus palabras son mas monstruosas que tu joroba! (Como se orasse.) Nel amor, hay fuerzas increíbles... capazes de cambiar el universo... VASSILI (Pegando Úrsula pelos ombros e sacudindo-a.) — Úrsula. Te digo que soy Vassili! Muchos anios se han pasado. Pero estoy vivo. Y estoy acá para vingar nuestro amor. Soy Vassili! Vassili! ÚRSULA (Com um lampejo de lucidez.) — Vassili? VASSILI Si, mi amada, no reconoces mi rosto? ÚRSULA — Esse rosto... essa pele morena... esse corpo delgado... (Detem-se.)Não, não! Não acredito! Vai-te daqui! Es um impostor! Um sicário a mando de Maurício para me torturar ainda mais! (Em delírio.) Bezouro que cai de costas... JEZEBEL (Um tanto irritada.) — Ay, cono! Va a empezar de nuevo! VASSILI (Transtornado, agarrando-a com mais força.) — Úrsula, mirame bien en la cara, en los ojos, en estes ojos ciegos... ÚRSULA (Tocando-o.) — Meu Deus, o manso veludo dessa tez... a suavidade desses lábios carmesim... Vassili, serás mesmo tu? O brinco em tua orelha esquerda... VASSILI — Úrsula, vida mia... ÚRSULA — O frescor de hortelã de teu hálito cálido, tuas mãos nodosas e fortes. A carícia áspera de tua barba dura que me lanhava o colo nas noites de indizível prazer. Não, não pode ser verdade, seria bom demais. Será que estou ficando louca, Virgem Santíssima? VASSILI — Es verdad, carinio, soy yo! Y acá está también Jezebel, nuestra querida amiga y protectora.

ÚRSULA — Vassili, meu Vassili... Ai, Jesus, parece um sonho... (Delírio.) Ou quem sabe Deus teve pena de mim e me chamou para sentar ao lado seu no empíreo celestial? JEZEBEL (Disfarçando.) - Ay, carajo! VASSILI — No, no, estás viva! Acabaranse tus penas! ÚRSULA (Reconhecendo-o finalmente.) - Sim, agora eu tenho certeza! És tu, Vassili! Meu adorado! Mas de que desvão esquecido da memória me surgiste? VASSILI — Úrsula! (Abraçam-se e beijam-se ardentemente.) Vamos ahora empezar vida nueva, tu, yo y Rosalinda... ÚRSULA — Rosalinda?... (Olha para a boneca. Olha para Rosalinda. Deixa cair a boneca.) Meu Deus... não pode ser... seria demasiada ventura para meu coração se essa donzela fosse... fosse... ROSALINDA (Abrindo os braços.) — Vossa filha! ÚRSULA (Abraçando-a.) - Filha querida! Oh, fruto mais puro que o meu ventre jamais gerou! Enfim posso abraçar-te! ROSALINDA - Mamãe, querida! Que felicidade encontrar-vos! ÚRSULA — Minha boa Jezebel... Mas... que aconteceu? Por que estão todos aqui? Por que estou vestida assim? Que tenebrosa masmorra é essa? (Começando a delirar de novo.) Há como um poço escuro em minha memória... Um poço escuro onde flutuam corças de pés quebrados... negros besouros caídos de costas... (Vê Agatha e recua espavorida.) O que ela está fazendo aqui? JEZEBEL (Agarrando-a por um braço, impaciente.) - No hay tiempo para explicar, Ursula. Ni para locuras otra vez. Más tarde te esclareceremos todo. Tememos ahora que desmascarar Maurício.

(Saem todos) CENA 13 NARRADOR — Celeremente voltaram todos ao castelo. Os sofrimentos que já causaste. . eu a expulsei de meus domínios. O coração de Rosalinda.) — Já não estou louca. Solamente un monstruo sin entranas podria encarcelar su propia hermana. do malgrado a alegria do seu reencontro com os pais. fica tu sabendo que há muitos anos eu mesmo o ceguei com uma chicotada. sabes muito bem disso. Quando chegaram ao castelo. quando Úrsula entra lentamente e toca em seus cabelos. as vidas que destruíste. ainda estava velado por uma nuvem de inquietação. o relógio soava as doze badaladas. Maurício. Depois de tão cruéis sofrimentos.. MAURÍCIO (Está adormecido. certamente fariam petrificar a própria Górgona.Vamonos deste infecto covil. tira esta louca daqui! ÚRSULA (Perfeitamente lúcida.) — Quem me tocou? Úrsula? Fugiste novamente? Agatha. ÚRSULA (Muito segura.) — Tua maldade não tem limites. E tu. Não há lugar para meretrizes no castelo do Conde Maurício de Belmont. E quanto a tua ingrata filha. meu caro irmão. MAURÍCIO — Teu bem-amado? Tua querida filha? Se te referes àquele cigano imundo. Deve andar esmolando pelas sarjetas. mais do que ninguém. que crescia em seu seio como uma erva daninha e em breve viria ao mundo sem a proteção de um pai. A pobre rapariga pensava no fruto de seu desgraçado amor. a felicidade parecia prestes a sorrir aos nossos heróis. Meu bem-amado e minha querida filha me devolveram a razão..

) .quem iniciou este rosário de desgraças. teu próprio irmão! Tu..tu. já me desafiavas. inicialmente. . em miseráveis e poderosos. uma aristocrata. ele mesmo. movida por um sentimento cristão de amor ao próximo. MAURÍCIO — Basta! Já foste longe demais. Mas antes de tudo. Em nobres. E uma mulher com coração! Não podia assistir indiferente aos tormentos dos desventurados mineiros e de suas miseráveis famílias. uma mulher.a cu1pada de tudo. És tu. ciganos e negros do outro. enquanto as mulheres. uma aristocrata. ensinar àquelas pobres criancinhas a cartilha e o catecismo. Mas o verdadeiro espírito de solidariedade humana. insensata! Vejo que estás mais demente do que nunca. de um lado. meu irmão! Os camponeses entregando suas lamentáveis vidas às profundezas da terra de teu porco latifúndio. eu o aprendi com aquele que consideras um pária: Vassili! MAURÍCiO — Maldito seja! ÚRSULA .Sim. minha cara irmã.MAURÍCIO (Interrompendo-a. inermes. as criancinhas e os anciãos inocentes morriam à míngua em suas fétidas choupanas. MAURÍCIO (Interrompendo-a. e em mineiros. Foi a caridade que me levou. Retorna a teu repulsivo subterrâneo.Ou não te recordas? Queres que te refresque a memória? Mesmo antes de te amancebares com aquele cigano asqueroso.) — Caridade? Chamas de caridade a teu gesto de incitamento à rebelião contra a autoridade? ÚRSULA — Aproximei-me dos mineiros. escravizados por ti. Queria somente mitigar as duras penas impostas por ti àqueles infelizes.Ousas acusar-me? Foste tu .Sim.. em senhores e escravos. insuflando os mineiros do Vale Negro contra mim. Queria levar-lhes comida e agasalho. uma condessa do clã dos Belmont! ÚRSULA . Explorados. uma condessa de Belmont.e apenas tu. Contra mim. Foi Vassili quem me ensinou que o mundo não precisa necessariamente ser dividido entre pobres e ricos.

(Arranca-o das mãos de Agatha.) Tisana medicinal! Esto es un fuerte veneno: arsénico! La joroba está asesinando lentamente el Conde! MAURÍCIO . Agatha. Teu sonho libertário acabou! (Irônico. minha tisana! AGATHA (Libertando-se de Jezebel.Veneno! Oh. AGATHA (Tentando escondê-lo. Neste exato momento. tratase apenas de una tisana medicinal. a vida recomeça para mim.Pois te enganaste. Jezebel e Agatha.Y por que no? Por lo que dicen. mui prezado irmão.) — No se escapará. muito sôfrega.) AGATHA .) — Enganas-te. JEZEBEL — Dejame ver este frasco. senhor conde.) CENA 14 MAURÍCIO — Jezebel! Vassili! Rosalinda! Não é possível! (Tosse.) E contudo teu coração ainda pulse. (Afasta o reposteiro e aparecem Vassili.) Agatha. Rosalinda.) Pronto.Nada tens a fazer aqui. na casa que desonraste. apanha o vidro. quando acabo de reencontrar meu marido e minha filha.) .Não! JEZEBEL (Matreira. a própria vida acabou para ti. velhaco! Eu sempre quis apenas tua fortuna! ÚRSULA . ingrata Agatha! E eu que te supunha a única criatura no mundo a manter-me alguma fidelidade! (Tosse e entra em violenta crise. maldita! .Não a deixem fugir! VASSILI (Segurando Agatha. Após tantos anos obnubilada.) . Aqui está. espectro de gente! ÚRSULA (Muito calma.

Pero la muerte es poderosa. idiotas! Não me pegarão com vida. (Rosalinda e Ursula choram) AGATHA (Aproveitando-se da emoção de Vassili. (Vassili tenta apanhá-la...Rosalinda. sempre vos amei. Sinto que morro. (Fecha os olhos dele com delicadeza e melancolia) Acabó. MAURÍCIO — Jezebel. minha devotada irmã. Jezebel. antes de morrer quero revelar-vos um segredo. Dai-me um beijo... Ursula. Desventurado cigano Vassili.MAURÍCIO (Tossindo muito) — Ledo engano! Meu esfalfado coração já não resiste a esses golpes cruéis. Que trevosa sina a minha! Ajudem-me que morro! (Para Jezebel.. Leva uma pancada na cabeça e cai desfalecido. Agatha foge rindo às gargalhadas) . Jezebel. sobrinha querida..) Cigana Jezebel. Está muerto. ah Jezebel. eternamente a vagar pelas sombras. apanha a bengala que Maurício deixou cair) — Adeus.. Acaba curvando-se e beijando-o) . Todos olham. Todos vítimas de minha cega cupidez! Por tudo que há de mais sagrado. um derradeiro beijo e morrerei feliz. Está bien. (Tosse) Jezebel... Jezebel. Mas sempre me desprezaste. JEZEBEL — Se finó. JEZEBEL (Hesita.. MAURÍCIO . Tivesse tido eu tal privilégio. deixai-me repetir vosso nome como se música fora para meus fatigados ouvidos. aunque el no me quiera. Um único beijo.Mi corazón siempre pertenecerá a Vassili. quiçá o destino não me houvera transformado neste sórdido algoz que ora agoniza.. não negueis o derradeiro pedido de um moribundo.. meu sonho mais acalentado sempre foi beijar vossos lábios de carmim. Habla. perdoai-me! Deixo para vós toda a minha fortuna (morre). Que los dioses se apiaden de tu espíritu. JEZEBEL — Un secreto? Por mi no escucharia tus sucias palabras.

ahora? Hay un caballero que llega.) — Que oigo? Mi hija. VASSILI (Despertando. de que hombre estás hablando. Estoy más vivo do que nunca.Pobre joroba! RAFAEL . Jezebel corre à janela.) — Rafael. Y saca de una escopeta apunta a los perros.ÚRSULA — Vassili! Oh. tola donzela. ela o matou! ROSALINDA . TODOS — Vassili! Papai! Ele está vivo! VASSILI (Ainda tonto. Rosalinda.. Pero demasiado tarde..Do homem por quem me apaixonei. . meu Deus.) — O pai de meu filho. JEZEBEL . eu. iludida por perfídias! — entreguei minha pureza e que me desgraçou.Quien es esse hombre? ROSALINDA (Baixando os olhos. Do biltre infame a quem — ah.) — Si.) — Os cães a destroçaram.Rosalinda.. papai! Fale comigo! JEZEBEL — Maldición! (Ouvem-se os cães latindo.Papai.) ROSALINDA (Correndo à janela. ROSALINDA (Dolorosa. Y quiero saber. (Ouvem-se vários estampidos. ÚRSULA — Teve o fim que merecia. la estan destrozando! Tanta sangre! (Pausa) Que es esto. só pode ser ele! JEZEBEL .. CENA 15 RAFAEL (Entrando com o corpo de Agatha..) ...) Los perros se despertaron y van a atacarla! Que escena horrible! Diós mio.

. Vassili.. Si es seguro que usted quiere a mi hija de verdad. julgo enlouquecer sem vosso amor. no! Quiero quedarme en pie. RAFAEL (Contrito.. vossa imagem não me sai do pensamento. papai! .) Pero. ÚRSULA . VASSILI . Atraiçoaste-me com vossas juras inconseqüentes. ÚRSULA — Vassili. VASSILI — No compreendo.. Solo una luminosidad.Venha.ROSALINDA (Cortando. Estou amargamente arrependido.. Perdoai-me.. Estás fatigado de tantas emociones.) pero la escarlata.. Quero reparar meu erro. Yo soy su verdadero padre... Desde que vos desonrei. sientate un poco.. Hace quanto tiempo no la veía.) — Pero yo la concedo.. porque no hay negror en la ceguera. Que luz cegante es esa? Que claridad espantosa hay en el mundo! ROSALINDA — Papai.. el verde. la escarlata! JEZEBEL — Es una alucinación.) — Que mais ainda quereis de mim. querido.. el azul. Doce Rosalinda. (olhando olhando para qualquer coisa vermelha que há em cena.No.) — Vim justamente pedir-vos perdão por todo o mal que involuntariamente vos causei. olhando em volta. Vim pedir vossa mão ao Conde Maurício. ROSALINDA . cruel mancebo? Ide-vos daqui.. Ele está morto.... que pasa? Siento como un vértigo. Yo podia anteriormente decifrar algunos cobres. Mis ojos.. Si. una luminosidad en las solombras.. o que tens? O sangue fugiu de tuas faces. por piedade.. no compreendo..Tarde demais. com vosso falso amor.. (Interrompendo-se. VASSILI (Levantando-se.. Por Dios. Mis ojos..

ROSALINDA — Oh..) — Então. e terminados os infortúnios daquelas almas abnegadas. ver.. Ursula.E assim. meu amado. punidos os culpados.... incrédulo.. como agradecer-vos tanta felicidade? JEZEBEL — Las cartas no mienten jamás. yo he recuperado la visión! JEZEBEL — Alabado sea Dios! TODOS .. Rosalinda: impiezo a ver claramente vuestros rostros queridos! ÚRSULA .fez com que vossa visão voltasse!. RAFAEL — Agora. un verdadero milagro.. VASSILI — Si.Alabado sea! RAFAEL (Para Rosalinda... NARRADOR . cerremos docemente as cortinas . Jesú. por los dioses.. os sofrimentos tiveram seu fim.. Nos es posibie. ÚRSULA — Amanhã mesmo triplicarei o salário dos mineiros.A pancada que Agatha te deu..) VASSILI — Ahora seremos todos felizes....VASSILI — Quiero ver. no lo puedo crer. ROSALINDA — Sim.. a paz e a justiça reinarão para sempre no castelo de Belmont. Não conseguiria ocultar por mais tempo que meu coração vos pertence desde o primeiro momento que vos vi! (Beijam-se apaixonadamente. si. meu Deus.) Jezebel. si! Jesú. ROSALINDA . un milagro divino! (Olhando uma a uma. no es verdad! Es un milagro. quereis contrair matrimonio comigo? ROSALINDA — Minha resposta só poderia ser afirmativa.

cantam o hino misterioso do amor. enquanto as auras da noite. da ventura e da paz.sobre este quadro familiar. acariciando o seio das flores. .

REUNIÃO DE FAMÍLIA* Peça em 2 Atos *Adaptação do romance de Lya Luft .

e assim por diante. O resto se passa em vários planos. onde acontecem certas alucinações ou lembranças do passado. outras atrizes. Na casa da família. o dia todo de domingo e a manhã de segunda-feira —. podem ou não ser usados atores. quando uma termina.). é indispensável uma grande mesa onde são feitas as refeições.) . o Professor e Berta serão sempre representados pelos mesmos atores — eles sempre foram velhos —. podem ser usados bonecos ou. As figuras do Padre e do Enfermeiro podem ser vividas pelos mesmos atores que fazem o Marido e o Filho de Alice. a próxima já começou —. uma penteadeira (no quarto de Evelyn.PERSONAGENS ALICE • ARETUSA • EVELYN • RENATO • BRUNO. Deve haver também um outro Plano — que chamaremos de Inconsciente/Memória —. PROFESSOR • BERTA • ALICE MENINA • ARETUSA MENINA • EVELYN MENINA • RENATO MENINO• MARIDO DE ALICE • FILHO DE ALICE • PADRE • ENFERMEIRO DE CORÁLIA • MÃE DE ALICE • CORÁLIA (Nos flash-backs. talvez com pequenas mudanças de postura. quando Alice vai visitar a família.) CENÁRIO (Tudo se passa durante um fim de semana — tarde e noite de sábado. no presente ou no passado. sem pausa. mais jovens. para as mesmas personagens. De qualquer maneira. Para as rápidas aparições de Corália e da Mãe de Alice. caracterizados por um ou outro elemento — como uma poltrona antiga (no quarto do Professor). bem caracterizadas. A idéia é de que uma cena interpenetre a outra — isto é. sendo a mudança indicada pela luz e a troca de planos.

O que é que há com tia Evelyn? ALICE (Preocupada. É sábado. por volta do meio-dia.. Para o marido.) Mas você só gosta da comida que eu faço. FILHO .) . MARIDO (Com ironia.) — Tenho. Parece que é.) — Faz tantos meses que não vejo meu pai.) . ALICE (Reprovadora e maternal..) E o seu irmão. . onde anda? FILHO — Está no clube.. (Para o filho..) — Aretusa. É sábado. Essa sua cunhada. Só vem de tardezinha.. com certo carinho coquete. E agora apareceu esse problema com Evelyn.) — Ela está doente. sacudindo a cabeça.. MARIDO . Aretusa insistiu tanto. não é? Sanduíche não alimenta..Evelyn com um problema mental? Sua irmã é a mulher mais sensata que conheço. Acho que daria menos trabalho se vocês comessem num restaurante. Está na geladeira.I ATO CENA 1 ALICE.E claro que só vai comer um sanduíche. (Dá de ombros. ALICE (Ignorando. ALICE— Deixei pronto o almoço de amanhã. essas porcarias que vocês comem por aí. Tudo é muito arrumado e limpo. Muito doente. refrigerante.. não sei bem. qualquer coisa mental.Você tem mesmo que ir? ALICE (Um pouco brusca. MARIDO (Interrompendo. Sanduíche. terminando. é só esquentar. MARIDO e FILHO Na casa de Alice. O almoço.. A mesa está posta.

(beija Alice distraidamente. que a realidade pode não ser o melhor? Pode não ser preferível à normalidade? MARIDO .) ..ALICE . eu sei.) — Será que não esqueci nada? (Olha em volta devagar. Mas depois que Cristiano morreu.) .) — O que será que ele quis dizer com isso? MARIDO (Distraído.. começa a ler o jornal. Remexe na bolsa.) . (Sai. conferindo o dinheiro e a passagem de ônibus.Espelho grande? Para que? . MARIDO — Pode deixar. E melhor eu ir indo também.Não está na hora do seu ônibus? ALICE (Levantando-se. como se refletisse.) Boa viagem.O que? FILHO — Isso mesmo. mãe.) .) Não vai dar nem tempo de lavar os pratos.Bom.O que? ALICE — Que. Eu dou um jeito. Alice fica em silêncio por um momento. sem afeto.) Você não acha que um dia a gente podia mandar colocar um espelho grande aqui na sala? MARIDO (Baixa o jornal e olha-a por cima dos óculos admirado. O Marido apanha os óculos e.) — Passa a água? FILHO (Levantando-se. eu já vou indo.Eu sei. sem sair da mesa. velha..) ALICE (Pensativa. (Olha o relógio. meio confusa. Ela não se conforma. FILHO — Mas será que nós temos o direito de querer que ela se cure? ALICE (Sem compreender. Dá um beijo em todos lá.É.. Será que não seria pior para ela enfrentar a realidade de Cristiano ter morrido? MARIDO (Ignorando o espanto de Alice.) . ALICE (Apanha a bolsa e uma sacola de viagem a um canto.

E eu prefiro vê-lo ao meu lado. Começa a examinar o rosto com ar crítico. (Olha o relógio.) — Claro. É bobagem minha.) Meu marido. A sala é pequena. que pode ser uma atriz ou uma boneca).) . (Encaminhando-se para aporta.) Esqueci de colocar o meu perfume. lendo jornal. A sala é ótima.. Eu li numa revista que dá a impressão de mais espaço. enquanto acende um foco no marido que lê o jornal. .) — A sala é ótima assim. BERTA. (Levando a mão aos cabelos. Você tem razão. MARIDO (Voltando a ler.. depois dá de ombros e tira da bolsa um pequeno espelho. CENA 2 ALICE. Cuide-se direito. claro. A MÃE e ALICE MENINA Alice está parada num ponto que deve ser a parada de ônibus. de chinelo. onde estão Alice Menina. calvo. ALICE (Curvando-separa beijar o marido. eu preferia assim. sem imaginar sequer quem é a sua verdadeira mulher.) — Boa viagem. ALICE (Dirige-se ao público. MARIDO (Sem levantar os olhos do jornal.Nada. Achava meio esquisito aquele homem um pouco gordo. acende-se a luz no plano do Inconsciente/Memória. estou de volta. Desde o começo a gente se acostumou a não ter grandes ardores. Agora me procura raramente e sem emoção. dentro de um caixão de defunto uma figura de rosto disforme e barriga enorme. dizendo e fazendo coisas desajeitadas e brutais. Você não está acostumada a viajar sozinha. Berta e. então.ALICE (Arrependida de ter falado.) Segunda. Enquanto isso.

ALICE MENINA — Eu não quero olhar. ALICE MENINA (Gritando. Alice. ALICE MENINA ( Vai-se afastando enquanto Berta repete as mesmas coisas. Ela não pode falar. De repente para e chama. ALICE MENINA e RENATO MENINO . distraída. como se estivesse hipnotizada. Apanha um espelho pequeno. Berta! Você está mentindo! BERTA — Não estou mentindo.Não é verdade. Você mente. BERTA — Todos os dias vem um médico e tira água da barriga dela com uma agulha enorme. o que é que você tem? Você está doente? Pode deixar que eu cuido de você. não se esconda de mim. (Acende-se a luz sobre o caixão. (Para o caixão.) — Mamãe? Mamãe.) Ninguém gosta de você. Depois torna a se aproximar e tenta colocar a figura no colo. talvez pulando corda. Você não vê como ela está inchada? Olha só a barriga dela.) Mamãe. Ela recua.) — Alice. CENA 3 ALICE.) . fala comigo. Fala para si mesma. assustada. mãezinha! BERTA (imóvel. Uma agulha deste tamanho. Alice você é má. Você é muito má. é suja. (Começa a sorrir como uma mulher adulta e repete. Alice.) .ALICE MENINA (Aproxima-se do caixão. cantarolando. Por isso ninguém gosta de você. Ela só pode chorar. Alice.) Mãezinha. Alice. onde é que você está? Mamãe. Você é louca. Fala comigo.Ela não vai responder. Por isso leva esses tapas. Por isso está sempre de castigo. Sou eu. igual ao de Alice adulta e olha-se.

ALICE MENINA .Ele é seu pai também. vem brincar comigo. olhando para cima.Uma arma? Pra que? RENATO MENINO (Hesitando. (A gravação de uma gargalhada infantil. estridente. Mas ele não é meu pai.No jardim de entrada da casa da família.É uma arma secreta. (Decidido.) Eu vou matar o Professor com minha arma secreta. barbantes.) — Você vai preso.) . Ele é o Professor.) . Renato! RENATO MENINO .Não chama ele assim. Estou ocupado. A luz acende-se sobre o tronco. ALICE MENINA (Assustada. a bolsa nas mãos.O Professor. ALICE MENINA . perto do qual brincam Alice Menina e Renato Menino. facas. A luz apaga sobre Alice Menina e Renato Menino para acender-se novamente sobre Alice Adulta. Você não pode matar seu pai. RENATO MENINO .O que é que você está fazendo? RENATO MENINO (Com ódio. latas velhas.) .Renato. ALICE MENINA . Alice Adulta aproximase do lugar onde resta o tronco de uma grande árvore cortada.Que me importa. Renato mexe com pedaços de madeira. Ele é seu pai.Ele quem? RENATO MENINO . ALICE MENINA .Agora não posso.) . ALICE MENINA . RENATO MENINO (Obstinado. Ela está parada. Alice Adulta mergulha nas sombras. corta a cena.Para matar ele.

ARETUSA — Qualquer dia acaba rachando as paredes da casa. ALICE (Preocupada.CENA 4 ALICE e ARETUSA (Na entrada da casa da família.Aretusa. Mas não é por trabalhar demais. Mas por enquanto.) — Renato também não vem. saí tão apressada que esqueci meu perfume. (Muda de tom. com certo carinho. Chega a trazer serviço para casa no fim de semana. ninguém aqui tem cabeça para pensar nesse problema.) Mas você engordou. tão trabalhadeira.. hein? ALICE — (Sem se ofender.. ARETUSA (Sem dar importância. como se estivesse se justificando. você é tão eficiente.) Meu marido não pode vir. tem alguém dormindo no quarto do. você sabe.) — Ele estava cheio de raízes..) ARETUSA (Entrando. tentando ser natural. você sabe. abraça Alice. Alice. (Rindo.) E você continua com cheiro de cigarro.. ARETUSA (Displicente.) — Alice. Era um álamo tão bonito. E eu. ele trabalha demais. ALICE (Triste.) — Acho uma pena Bruno ter mandado cortar esta árvore. E o seu irmão me saiu um grande folgado! ALICE (Olhando com tristeza o tronco da árvore. Com uma ponta de ironia. junto ao tronco cortado da árvore. com um cigarro aceso. Berta é passa o dia todo arrancando os brotinhos. do menino? .) — Ele está cheio de brotos. Imagine que para arrancar o tronco teriam que tirar todas as lajes e abrir um buraco enorme. Coitado.) . que bom que você veio! Há quanto tempo. não? (Afasta-se para vê-la melhor.) Ah. De cigarro e de jasmim.

Não tem ninguém. A luz sobre ela acendeu-se lentamente. mais tarde tira outra vez. a atriz. ARETUSA (Um pouco irritada. como se fosse Cristiano. apanha o Palhaço e começa a niná-lo. Ainda bem que na hora de encomendar o caixão calcularam o tamanho dele como se as pernas ainda existissem. Depois de alguns dias precisaram amputá-las. Restou apenas um pedaço de menino. Sua irmã agora vive agarrada com ele.) — Mas tinha uma pessoa lá quando eu cheguei.) — Evelyn levava Cristiano de carro para a escola quando o acidente aconteceu. EVELYN (Dirigindo-se para o público. Todo dia arruma as roupinhas dele sobre a cama. lembra? Aquele palhaço que o Cristiano não largava nunca. corta temos que conseguir que ela ponha essa coisa no lixo. talvez tenham derrapado o carro bateu num poste e ficou destruído. E me CENA 5 No quarto de Evelyn.Só pode ter sido aquele boneco horroroso. com o boneco nos braços. Viveu ainda algumas semanas. (Preocupada.Não. Não sei. As vezes senta o palhaço na janela. uma depois da outra. diz que ele fica espiando a rua e conta tudo o que acontece por lá.) Alice. Parecia examinava. (Após a fala. já como a personagem. tudo aqui ficou esquisito demais desde que o menino morreu.) . Chovia muito. mas não resistiu.) . sozinha. enquanto Aretusa ainda fala. Ela está parada. Aonde vai. não. tinha um rosto pequeno. Evelyn conserva tudo como quando ele estava vivo. logo abaixo do quadril. ALICE (Intrigada. Evelyn não se machucou muito. uma criança. eu vi.ARETUSA . leva o boneco. Depois guarda. mas Cristiano teve as duas pernas esmagadas.

quando cheguei. Bruno não ajuda muito. deixa que ela fale cada bobagem.) Sabe. Agora tem cheiro de umidade. mais seguro. uma bicicleta.) — Isso não é nada saudável. Ela não percebe. Ainda mais morte de criança. tudo escuro. ARETUSA (Dura.) — É. E menor. mais prático. mudando de assunto. É diferente. E agora. ALICE (Meio distraída. Dá muito menos trabalho.) Casa só é bom quando tem criança.) — Está vendo isso aqui? De manhã. francamente. etc.) — Não é que ela não aceite. Bem doente. Alice! ALICE (Angustiada. Ela não aceita.) — E que ela anda doente. ARETUSA (Penalizada.) — Morte é uma coisa muito triste. — que caracterizem bem um quarto de criança.. ARETUSA (Mostrando uma mancha na perna. mofo. É muito mais grave. Insistiu tanto no telefone para que eu viesse. (Suspirando. (Como se revelasse algo importante. Alguns elementos — talvez um móbile bem colorido. ALICE (Abatida. Tudo fechado.) . Tropecei num .. O aluguel seria o mesmo. com papai e Berta. Evelyn era tão caprichosa.Eles deviam mudar para um apartamento. ALICE (Arrumando uma das camas.) Até o cheiro da casa mudou. na verdade acho que sua irmã ainda não percebeu que o menino está morto. Dá até pena de ver. ARETUSA — Saudável? Isso não é normal.CENA 6 ALICE e ARETUSA No quarto que pertencia a Cristiano. (Cansada. levei um tombo. Ele é tão apaixonado pela mulher que só pensa num jeito dela não sofrer mais ainda. Alice.

numa espécie de censura.) . Logo que cheguei. Aretusa? ARETUSA (Dolorida. ALICE (Abalada.) O que é que nós vamos fazer agora.. se queixa. E ele fica lá. de manhã. mas ele continua com essa história? ARETUSA .Claro.. ALICE — Mas o médico disse que poderia ser um problema de circulação.) Logo os pés.) — Não sei. como se falasse para si mesma.Você já viu meu pai? ARETUSA (Seca. ALICE (Impressionada. (Em voz mais baixa. Não quer mais descer.) — Os pés? (Meio sem sentido. Sabe qual é? O Palhaço. Berta reclama. Parece que nunca se separa dele.carrinho de plástico na sala. querendo mudar de assunto. Não sei lidar direito com as pessoas. mas acaba levando.) Bruno me contou que às vezes ela diz que Cristiano passou a noite com os pés gelados.) — Que coisa. . o tempo todo. não podia parar de pensar nisso. Sozinho com seus bichos. Cortaram os pés dele.) . E cada vez pior. aquele boneco que Cristiano adorava.Continua.) Você sabe muito bem disso. (Cúmplice. Aretusa. Faz meses que o menino morreu e as coisas dele continuam aparecendo em todos os cantos da casa.O pior não é isso. Com aquele monte de flores. junto com as pernas. ARETUSA (Um pouco cruel. Eu fiquei tão impressionada. Quando fui ver Evelyn hoje de manhã. ALICE (Sonolenta. E você sabe que venho vê-los seguidamente. só atrapalho. ALICE — Meu Deus. ela estava com aquele boneco no colo.) . Mas ainda bem que no caixão não se notava nada. Nunca sei ajudar. nem se notava que o corpo terminava tão depressa. Agora ele deu para pedir comida no quarto. (Noutro tom. Não pode ser.

.se. Envelheceu tanto.O Professor diz que não.) .) Aquela árvore também não quer morrer. ALICE .Quase nada. Logo ela vai acordar e você fala com ela. vamos brincar de mãe e filha? ALICE MENINA — Vamos.Pode ser Renato. Um ninho de insetos.Renato não. ALICE (Ainda tentando mudar de assunto. Ele é menino.Alice. Que tem insetos no ouvido. Menino não pode ser mãe. (Caminha até a janela e espia para fora. EVELYN MENINA (Aproximando. Crescem por toda a parte. . Mas não se assuste: Evelyn mudou muito. brusca.E Evelyn. (Começa a cantar uma cantiga de ninar enquanto embala Evelyn. CENA 7 ALICE MENINA e EVELYN MENINA No Plano do Inconsciente/Memória. Pelo menos..O que é que você está olhando? ARETUSA.ARETUSA . Vem que eu embalo você.Berta. come direito? ARETUSA . Berta não pára de arrancar os brotos do álamo. Nem parece a mesma. Por que é que você não pede para ele? ALICE MENINA . Feito um passarinho.) Era tão bem disposta. (Voltando-se. Alice.) E eu? Quem é que vai ser a minha mãe? EVELYN MENINA . Interrompe-se de repente.) .

Você quer brincar comigo? . cercada de revistas coloridas. Pode ser Berta.) — O que é.Então já sei.) . Não estava fazendo nada. acende-se sobre Berta. À medida em que a luz apaga sobre a cena anterior. posso entrar? BERTA (Guardando apressada a tesoura.) — Alice é filha de Berta-tá-tá! Berta tem cheiro de cebola-lá-lá! Alice também tem! Cheiro de cebola-lá-lá! CENA 8 BERTA e RENATO MENINO No quarto de Berta.Então posso ser eu. menino? Será que não tenho um segundo de paz nesta casa? RENATO MENINO (Entrando. RENATO MENINO (Na porta.) .) .) — Nada.) .) . encabulado. Ela está sentada na cama.O que é que você estava fazendo? BERTA (Brusca.Você também não.. O que é que você quer? RENATO MENINO (Indeciso.Berta não quero. Você é muito pequena EVELYN MENINA (Com certa crueldade. ora! ALICE MENINA (Chorando.EVELYN MENINA . ALICE MENINA (Começa a chorar.. cantarolando e batendo palmas. recortando figuras. Ela tem cheiro de cebola! EVELYN MENINA (Começa a girar em torno de Alice. Nada que te interesse.) Berta. os recortes e as revistas.Você.

Como se você fosse minha mãe. BERTA (Apontando o vaso. Eu te mostro como é. o Renato urinou outra vez fora do vaso e sujou todo o banheiro. comovida. Enquanto Renato adormece. Pode dormir.) Agora você passa a mão na minha cabeça. MENINO. acende-se a luz sobre o Professor. . Dorme. BERTA. mas acaba fazendo o que ele pede. a sua mãe está aqui. RENATO MENINO (Persuasivo.) — Você não vai deixar o Professor me bater? BERTA (Continua a niná-lo. Assim. Berta? Diz que é. Berta.) — E eu lá tenho tempo para brincadeiras? Vai procurar alguém da sua idade. diz. Berta abandona o menino dormindo e caminha em direção ao Professor. EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA Na seqüência da cena anterior.) Faz eu dormir. bem devagarinho. Ele está parado ao lado de um vaso sanitário.Claro que não. Você é minha mãe. BERTA (Depois de hesitar. Ninguém vai bater em você enquanto eu estiver aqui. ALICE MENINA.) .) . Renato. Sou sua mãe.) .) Posso deitar a cabeça no seu colo? (Berta não responde. CENA 9 PROFESSOR. filhinho.Sou. RENATO. Ela hesita. Isso.Mas é só um pouquinho. você deixa? (Aproxima-se.) — Professor. Pode dormir sem medo. RENATO MENINO (Quase dormindo. (Pega a mão de Berta e coloca sobre sua própria cabeça. Renato ajeita-se no colo dela.BERTA (Ríspida.

não.PROFESSOR (Chamando.) — Tudo. cabisbaixo.Não.) — Te ajoelha. Não quero saber de promessas. Sujou? Pois agora vai limpar tudo com a língua. em torno de Renato. cantarolando. andando de lado. EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA (Entram em fila indiana e circulam. Eu juro que não faço de novo.) .) — Renato.) . RENATO MENINO (Debatendo-se. RENATO MENINO (Com medo.) — Por que é que o pai tem tanta raiva da gente? ALICE MENINA. saltitantes. papai? PROFESSOR (Segura-o pela gola da camisa. Alice está sentada na cama quando Aretusa entra.) . papai! Eu não faço nunca mais! PROFESSOR (Empurrando a cabeça do menino contra o vaso.) — Renato é um porcalhão! Renato é um porcalhão! Renato lambe o mijo! Renato lambe o mijo! CENA 10 ALICE e ARETUSA No ex-quarto de Cristiano. você vai limpar tudo com a língua. seu animal? Você sujou todo o banheiro de novo. PROFESSOR (Empurrando-o para o vaso.Como o que foi? Ainda pergunta? Se fazendo de inocente. seu porco sujo.) — O que foi. Você é um porcalhão. Renato! Onde é que se meteu esse diabo de menino? RENATO MENINO (Entrando. pai. (Dá-lhe um tapa e sai. abraçado ao vaso.Foi sem querer. .) RENATO MENINO (Soluçando.

Papai era muito severo. Uma pessoa como Renato precisa de carinho. Mas você só humilha ele o tempo todo. Você o conhece desde criança e sabe muito bem como ele era tímido e infeliz. a culpa não é sua. Aretusa. Cansei de telefonar.) — Não fale assim do seu marido. Aqueles olhos que furavam a alma da gente.) — Não adianta.) Desculpe. CENA 11 ALICE e PROFESSOR . As vezes eu apanhava até por coisas que nem me lembrava mais que tinha feito. o velho Rasputin.. três vezes.ARETUSA (Irritada. Cobre o rosto com as mãos. Era assim que Renato chamava ele. enquanto acende a luz sobre o Professor. Eu não quis. As pancadas tornam a soar. Tão frios. desculpe..) . De estímulo. Pareciam uma faca. ALiCE (Quase sorrindo. ALICE (Em tom de recriminação. Ele foi quem mais apanhou de papai. como se fosse chorar.O quê? ALICE — Rasputin. Alice se assusta. bate com a bengala no assoalho e Berta tem que atender. ninguém atende. (Aretusa parece magoada. Eu também achei. Uma vez viu uma figura num livro e achou muito parecido com papai. (Aretusa vai responder. Você sabe.) . O idiota não vem mesmo. Alice aproxima-se. Quando ele quer alguma coisa.O velho Rasputin. Aretusa. Seu irmão não deve estar em casa.) O que é isso? ARETUSA (Cansada. Aretusa e Alice ficam imóveis.É o seu pai. ARETUSA . mas ouvem-se três batidas fortes — uma bengala batendo na madeira.

O senhor melhorou daquele barulho no ouvido? PROFESSOR (Seco. (Entorta um pouco a cabeça. E não fica nada bem uma mãe não cuidar da sepultura do filho.) — Evelyn? Ela não vai nem ao cemitério. Não melhorei nada. PROFESSOR (Obstinado. um cobertor sobre os joelhos. (Em tom de desprezo. Muito pior. E não é um barulho. Eles estudam.) — Não puderam vir. Eu tenho certeza.Quarto do Professor. Presta atenção. pai. E aí poderia. brusco. desde que o menino morreu.São insetos.) . Ando até pior. São insetos. Estava tão ocupada. pai. Eu mesma não podia vir.) — Dá licença.. ALICE (Paciente. Mas fiquei. De vez em quando. A roupa está muito desalinhada. não sei. Só nos fins de semana têm algum tempo para descansar.Não... E um zumbido de insetos.) . bem. trabalham. Uma das mãos segura a bengala. PROFESSOR (Cortando.) . O senhor sabe como é. E os filhos.. ALICE (Tentando ser gentil.) — Bem.) — Bruno bem que podia obrigá-la a ir. Não foi nem uma vez. pai. abrir.) — Mas. papai? O senhor está bem? PROFESSOR (Sacudindo afirmativamente a cabeça e fazendo um gesto para que Alice se aproxime. ALICE (Entrando devagar. retirar.) Mas você sabe como ele é condescendente. Ele está sentado. Insetos daninhos. como se . ALICE — Ela está doente. fiquei muito preocupada com Evelyn. se fossem insetos o médico conseguiria vê-los. Alice? ALICE (Em tom de justificativa.. curva a cabeça sobre o ombro e a move devagar. se divertir um pouco. PROFESSOR (Sem ouvir.

menina? Mas o que é que eu vou fazer com um porquinho-da-índia? ALICE MENINA . CENA 12 ALICE. um velho pai. BERTA e ARETUSA ALICE (Sozinha. uma velha empregada: que tem isso demais? E só uma velha casa.Meu. Chegou a quebrar um vidro. Enquanto ela fala. três vezes. violentamente. PROFESSOR. Alice Menina tem uma caixa de sapatos nas mãos. (Bate com a bengala no chão. dentro da qual está o porquinho-da-índia.) Você não ouve? Agora eles estão começando a se mexer..) — Uma velha casa. Outro dia ele até bateu a janela quando o canário da vizinha começou a cantar. Alice. O velho choraminga. Você tem nojo dele? . Mas essa velhice me deprime. não é. sem paz.pudesse ouvir alguma coisa. sem sabedoria. Berta? Olha a carinha dele. E se a gente mentisse que ele é seu? BERTA . ALICE MENINA .. sempre franzindo o focinho. no Plano do Inconsciente/Memória acendeuse a luz sobre Alice Menina e Berta. Iguais ao que eu tive na infância e que tratei com carinho de mãe. Perto da árvore ficava a gaiola grande com os dois porquinhos-da-índia que lhe dei.) — Mas ele é tão bonitinho. ALICE (Insistindo. vá chamar Berta. o foco de luz apenas sobre ela. Bateu com força. ué.) Berta.Ele é tão bonzinho. E por todos os cantos a lembrança de Cristiano. Alice estremece. ALICE MENINA. Será que o pai deixa eu ficar com ele? BERTA —Você sabe muito bem que seu pai detesta bichos.Nada.

Enquanto Berta sai. Até gosto. Rói tudo que encontra pela frente. Não precisa chorar. já está acesa a luz sobre o Professor. com dois olhinhos vermelhos arregalados de medo porque ele achava que não tinha casa. É de mentirinha. Estd todo furado. BERTA (Relutante. Que coisa. Era um porquinho todo quentinho e fofinho. mas meio brusca. Horácio. BERTA (Cedendo. assim que nem você.) — Obrigado.) . Furioso.) Primeiro vou contar uma história para você dormir. Ele não vai entrar nunca dentro de casa (para a caixa). Pura. Assim ele fica no seu quarto.) .) — O Professor tem verdadeiro horror de bicho.BERTA (Curva-se para olhar o porquinho. não diga que eu não avisei.) . Berta.) Mas se der algum problema depois. encaminha-se para Alice e joga-lhe . ALICE MENINA (Muito feliz. porquinho? E só vai comer restos de verduras velhas. comovida.) — Não.) — Mas e se ele fugir? Se entrar dentro de casa? Esse bicho é que nem rato. PROFESSOR (Apanha um jornal dobrado do chão. deixa. Eu garanto que ele não vai dar trabalho nenhum.Ah. Nojo não. Eu digo que é meu. Berta. Berta. BERTA (Saindo. (Senta no chão. abre-o e examina.) Eu nunca tive um bichinho. ALICE MENINA (Insistindo. Era uma vez um porquinho-da-índia que um dia foi bater numa casa bem igual a esta. Não suporta nem passarinho. Só falta os óculos. tá bem. (Choramingando.) Acho que vou chamar ele de Horácio.Tá bem. (Vai saindo. Alice continua brincando. menina. ALICE MENINA (Animada. não é. (Para a caixa. Tem uma cara de Horácio.Pois então? Você diz que ele é seu.

volta a luz sobre Alice Adulta. Outro dia vi uma barata na cozinha. para Alice. Um jornal novo. (Começa a puxá-la pelos cabelos. eu prometo! PROFESSOR . ALICE ADULTA . Alice grita. a caixa não! PROFESSOR (Fora de si. violentamente.) — Alice. chorando.) Alice Menina fica sozinha com os pedaços da caixa. PROFESSOR (Avançando alguma coisa dentro dela.) — Animal nojento.) . este jornal está todo roído.Não. ALICE (Tentando escondera caixa. sem conseguir. Faz dias que você anda escondendo .Cala a boca. Quantas vezes tenho de repetir que não quero nenhum bicho dentro desta casa? ALICE (Gritando.o jornal na cara. Ele sai.) — Uma barata. Acende-se a luz sobre Aretusa Adulta. ALICE (Apavorado. Enquanto isso.Roído.) . (Joga a caixa no chão.Como é que um corpo tão pequeno pode espirrar tanto sangue? Até hoje o guincho do animalzinho perfura meu cérebro quando penso nisso. Alice tenta alcançá-la. pai! Eu prometo que nunca mais ele vai roer o seu jornal.Além de tudo é mentirosa. Eu ainda nem tinha lido. então. PROFESSOR — E desde quando tem rato nesta casa? ALICE (Assustada.) — Me dá ele.) E isso é para você aprender a me respeitar. Arranca-lhe a caixa das mãos.Me dá esse bicho imundo. pai? Deve ter sido algum rato. (Começa a pisotear a caixa. menina.) . Me dá essa caixa. que morreu gorgolejante enquanto o Professor torcia o pé para esmagar melhor.) . sozinha em outro plano. Alice. Um único guincho.

ALICE (Nervosa. que fuma em silêncio. eu ia comprar uns chinelos novos. sempre tão ocupados. num tom monótono e automático.) — No mundo da lua. depois de olhar um momento para Aretusa. esqueci até o perfume.) — Olha. Aretusa? ARETUSA — Nem prestei atenção. como se recitasse algo decorado. O meu está tão velho. insegura. (Ri. sim. Alice? Evelyn acordou e quer ver você. Mesmo assim me cansei um pouco. mas acabei deixando. meu marido e os rapazes mandaram lembranças. Eu até ia trazer um bolo. fingindo ignorar o boneco e procurando ser natural. ALICE (Beija Evelyn. Evelyn está sentada com o boneco no colo.ARETUSA (Irônica e divertida. Você vai bem? EVELYN (Sacudindo a cabeça. E uns chinelos.fumando. Evelyn. Estou bem. Estou muito bem.) — Estou. você reparou. (Volta-se e fica olhando pela janela. Estou. Não puderam vir. como se tivesse acabado de penteá-la e arrumá-la. muito composta. Com esses ônibus modernos.) Saí correndo. agora ficou tudo mais rápido. Quando Alice entra. ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn.) — Fiz uma viagem tão boa. Você sabe.) . Aretusa está ao lado dela. Suba! CENA 13 ALICE.

volta-se e sorri para Evelyn.Quando der. RENATO MENINO e BERTA Sala da casa.) — Sim. Eu como tudo e limpo o prato. querida? (Evelyn não parece ouvir. Evelyn. que continua imóvel. E mais magro.) CENA 14 ALICE. Na porta.) . Um dia.) .) . Tive que insistir para que saísse hoje e se distraísse um pouco.) — Parece cansado. ALICE (Maternal. Faz muito tempo que não vejo o Bruno. Garanto que você faz muita falta no escritório.Bruno está chegando. querida. Já que Evelyn tem companhia. eu volto. Quando é que você volta? EVELYN (Remota. graças a Deus. depois cai de novo no sofá. da casa para o trabalho. Bruno. Bruno está jogado no sofá quando Alice entra. Levanta-se para beijá-la.) — Seu cabelo continua tão bonito.ALICE (Pega uma escova e começa a escovar o cabelo de Evelyn. . Faz séculos que ele anda só do trabalho para casa. não sei.Você tem comido direitinho.Como vai. BRUNO. Tão louro. Quando der. (Vai saindo. querida? EVELYN (Falando como uma criança. curva-se para beijar Evelyn. (Aproxima-se e coloca a mão no ombro de Evelyn. ARETUSA (Da janela. Alice.) . BRUNO . tensa. Alice? ALICE — Bem.Então eu vou lá embaixo receber o seu marido. E você? (Examinando-o. Seus colegas devem estar com saudades.) ALICE (Um tanto apressada e aliviada.) Não é.

BRUNO (Desinteressado. em voz baixa.) — Era. o Palhaço? Você tem que tirar aquilo dela. tentei fazer com que aceitasse a realidade.) — Mas é só assim que ela fica mais calma.. ALICE (Tentando parecer animada. O filme que você viu. Bruno! E aquele boneco.) — Engraçado. uma o que? .. ALICE (Depois de uma pausa em que não sabe o que dizer. como se o menino estivesse vivo. acendendo um cigarro. Ela não parece nada bem. O filme era bom. meu filho disse que. Ela segura o boneco e fala como se.) — Pode ser. Que coisa mais macabra! BRUNO (Paciente..) — O filme? ALICE .) — Então. Fui ao cinema. passeando um pouco? BRUNO — Aretusa insistiu tanto... Faz tempo que não me peso. ALICE — Mas isso é perigoso. bom.. sentando-se no sofá. ALICE — Aretusa me disse que Evelyn parece não aceitar a morte de Cristiano. ALICE — E gostou do filme? BRUNO (Distante.) — Acabei de ver Evelyn. BRUNO (Interrompendo. ALICE (Horrorizada. Concordei com Aretusa em chamar você porque não sabia mais o que fazer..) — Descobri que Evelyn anda com uma gilete em baixo do travesseiro.BRUNO (Indiferente.. E quase não come.) — Ela não quer mais falar com o médico. ALICE (Meio distraída.) . Não quis ir no psiquiatra.) Mas realidade é uma coisa que ela não agüenta mais. No começo.É... BRUNO (Como se não ouvisse.Uma. (Amargo. BRUNO — Eu sei.

Que coisa horrível.Uma gilete.. BRUNO — Péssimo. Já botei fora duas ou três. Será que ela. o que diz? BRUNO (Batendo de leve com o indicador na testa. num hospício. Ninguém pode forçar. Uma noite ele não parava de chorar. ALICE Que horror. BRUNO (Intrigado. sim.. depois de pensar um momento. Mas sempre quando vou ver. Fazia meses que você não o via. Quando a gente era criança. Fazia tempo.) — Deus que me perdoe. E o médico. Essas coisas.) .. fica quase normal. BRUNO — Então deve ter-se assustado. no sofá.. não? ALICE — Fazia. Não consigo raciocinar direito. Quando esquece.) — Que é a idade. tem outra lá.se para trás. Devia doer . ALICE (Pensativa.) — Não sei.) — Meu pai também está tão esquisito. BRUNO (Interrompendo. só desesperada. BRUNO (Angustiado.BRUNO (Em voz muito baixa. E psiquiatra. Berta pingava azeite morno. ela tem de querer também. Ela não está louca. E ele agora deu para se queixar a toda hora dos tais bichos. ALICE (Para mudar de assunto.) . mas não adiantava. Bruno. Nós não temos dinheiro para uma boa clínica particular. Depois começa tudo outra vez.) — Castigo por que? ALICE — É uma história antiga.Alice. Renato sofria de infecções nos ouvidos. Bem.. Mas até parece castigo. o que é que você acha que devemos fazer? ALICE (Recostando. Precisamos ter paciência. ALICE . cansada.) — Não quero que ela seja internada num..

A luz se apaga no Plano do Inconsciente/Memória.O Professor sempre foi muito violento. (Ouvem-se as três bengaladas do Professor. (Enquanto Alice fala. Para matar o Professor. amarelo. para Alice. Uma arma secreta.) — Uma arma. Ele prepara a arma. EVELYN. Berta levou ele ao médico. ARETUSA.Quando entramos no quarto.) BERTA (Entra. escorrendo do ouvido de Renato.muito. meio para si mesma.) — Louça toda velha. o boneco fica no meio dos dois? BERTA (Como se não tivesse escutado. BRUNO (Levantando-se. No dia seguinte. Papai levantou umas duas vezes e mandou que ele calasse a boca. acende-se a luz sobre Renato Menino. ALICE (Distraída. tinha um líquido grosso.) — Vou ver se Evelyn quer descer. RENATO MENINO (No outro Plano.) BRUNO . Na terceira vez. O bofetão de papai tinha feito rebentar um abscesso no ouvido dele.) — Será que na cama. BERTA e RENATO . quando eles dormem. Tantos pratos rachados.) .) — Está na hora de servir o jantar.) BERTA (Pondo a mesa. acende a luz. ALICE (Como se não ouvisse. no Plano do Inconsciente/Memória. (Sai. BRUNO.) — O Professor também vai descer hoje. Que não fizesse fita. abriu a porta com um empurrão e deu um tapa na cabeça de Renato. com toda a força. CENA 15 ALICE. Porque você está aqui. PROFESSOR. como na Cena 3. Era pus.

ARETUSA — Pois eu não.Na sala.Vamos. entremeada de silêncios longos. Tem que comer mais um pouquinho.) . bem que você precisa. repugnada. Você não almoçou hoje.Ela não comeu quase nada. Estamos todos juntos. O médico não sabe nada. Hoje é um dia especial. A cena é lenta e difícil. Estão todos sentados à mesa do jantar. À exceção de Renato.) . ALICE (Para o Professor. . querida. que cruzou os talheres.O médico. BRUNO (Para Evelyn. Bruno. Acho que foi a viagem. ARETUSA (Mentindo..Deixa. e de Berta.) —A carne está ótima. que serve a mesa. não vai comer mais nada? Está de regime? Olha. o barulho da campainha.) . depois de encontrar um vermezinho na salada. (Para Alice. me abre o apetite. ALICE (Conciliadora. paciente. mais um pouquinho. Agora. Por que você quer me obrigar a comer? BRUNO — Para ficar forte. Quando mudo de ambiente. BRUNO (Para Evelyn) . PROFESSOR (Com desprezo.) — Você está com frio.) — Só um pouquinho.) Passa o arroz? Silêncio espesso. Assim. O médico proibiu. Evelyn? ALICE . que estende o copo.. pai? BRUNO (interrompendo o Professor. Até pelo contrário. Berta tira e coloca coisas na mesa. (Dando-lhe comida na boca. Evelyn.Ele não pode. (Para Bruno.Eu não quero. Evelyn tem o boneco no colo.) . EVELYN (Como criança. De repente.) — Quer mais vinho. Constrangimento.) E você. que ainda não chegou. hein? ALICE — Estou sem fome.

) . (Pega o bule e serve. (Aperta a mão do pai. Alice? Tudo bem? (Ela sorri.) . Renato bebe e fica remexendo na xícara com a colherinha. Ele aperta a mão de Bruno. muito formal.Então. com uma bolsa de viagem.) — Quer que eu veja quem é? BERTA (Para Alice. Não tenho fome.) — Você já jantou? RENATO . A cidade está cheia deles. PROFESSOR — Deve ser algum mendigo.Eu sempre digo que sanduíche não alimenta. ALICE (Maternal. RENATO (Beija Alice. olhos baixos.faz um carinho na cabeça de Evelyn e senta-se ao lado dela. papai? PROFESSOR (Seco.) Eu mudei de idéia.) . Quando você telefonou.) — Pode deixar que eu mesma vejo. Comi no caminho. tocou e ninguém atendeu.Boa-noite. Até telefonei hoje à tarde.) ALICE (Para Renato. Um sanduíche. Liguei acho que umas dez vezes. provavelmente eu já tinha saído.) Olha só quem chegou.) .) ARETUSA (Agressiva. RENATO (Contrafeito.) — Boa-noite para todos. (Beija Aretusa no rosto.) — Ué. RENATO Como vai. Tocou. (Berta sai e volta acompanhada de Renato. ALICE (Para o Professor.Não. ARETUSA — Pelo menos tome um café.PROFESSOR .Quem pode ser numa hora dessas? BRUNO — Visita é coisa rara por aqui. achei que você não vinha.

Parece que vai chover.) .) — Vocês não acham que ele se parece com o Palhaço? (Ninguém ri. Renato. A luz apaga.Bom-dia. RENATO .) — Que foi. A mesa está posta para o café quando Alice entra. pai? O senhor está sentindo alguma coisa? PROFESSOR — São os insetos. Tudo bem. Berta me trouxe um cobertor Mas nem era preciso.RENATO e BRUNO Na sala de refeições. como se escutasse. Depois recomeça os movimentos com a cabeça. ALICE (Entrando. com desprezo. brinda distraidamente com bolinhas de pão. ouve-se a gravação de uma gargalhada estridente de criança.) . No escuro. Renato. O Professor começa a mexer lentamente a cabeça. Tudo bem? (Senta-se à mesa.EVELYN (De repente.) Eles estão se mexendo agora.Não.É possível. Olha para todos. .) Fiquei preocupa com você aqui em baixo. (Pára por um instante. de manhã cedo.) ALICE (Para o Professor. II ATO CENA 1 ALICE. sem ninguém esperar. Alice. olhando Renato e o boneco. Estava quente. ALICE — Tem razão. Não passou frio durante a noite? RENATO (Distraído. um por um. que já está sentado. para alguém invisível. não. Silêncio constrangido. Esse calor não é normal de manhã cedo. Está tão abafado.

) — O café. claro.) ALICE .) RENATO .) — Claro.) .. Ela dormiu muito mal.Eu não ouvi nada.) RENATO . com essa casa toda fechada. ALICE — Acho que ela nem enxerga mais direito. Acho uma coisa indecente.Bom-dia.Não. E muito fraco. por acaso ela. Acordou várias vezes. O calor fica pior. Bruno.) .. .) . (Toma mais um gole. BRUNO (Entrando.) .) — Bruno. Continua a fazer bolinhas de pão.ALICE — Me passa o café? (Renato passa e ela se serve. ela riu durante a noite? RENATO . ALICE (Intrigada. Berta devia ventilar mais a casa. E Evelyn. passou bem à noite? BRUNO (Abatido. RENATO (Dando de ombros. Eles fazem muito barulho nos telhados..) . RENATO (Desinteressado.) . ALICE (Meio atrapalhada. Você não ouviu nada. Devem ter sido os gatos..Você não vai tomar café? ALICE (Suspirando.Não.) .Faz muito tempo que Evelyn não ri. Não tenho vontade. Está quase frio. (Afasta a xícara. (Renato não responde. Renato? Eu tive a impressão de ter ouvido alguém rindo.Bom-dia. BRUNO (Cortando.Berta está muito velha.Riu.) Péssimo.O que foi? ALICE (Meio repugnada. (Prova o café e faz uma careta.o que? ALICE (Meio envergonhada.) E além do mais.

fumando. apaga-se a luz sobre a cena anterior e acende-se sobre Aretusa. pondo a mão na testa. ALICE (Nervosa.Ou algum babado na rua. CENA 3 ALICE. RENATO (Para Alice. Ela está na cama. ARETUSA. numa cadeira de rodas. Cruzam a cena Corália. CORÁLIA e ENFERMEIRO . A luz acende-se também no Plano do Inconsciente/Memória. deitada. BRUNO (Para Renato. tentando rir.tem os cabelos todos brancos e a cabeça caída sobre o peito. Enquanto eles passam. ouve-se apenas a voz de Aretusa. Corália — uma atriz ou uma boneca . ARETUSA .) — E Aretusa? Não vai descer? CENA 2 ARETUSA. empurrada por um Enfermeiro. CORÁLIA e ENFERMEIRO Quando Renato fala.RENATO . Noite de sábado.Ela era linda.) — Me passa o pão? ALICE (De repente. Tinha um jeito de menina.) — Pode ser.) — Acho que estou pegando uma gripe daquelas. Uns olhos tão grandes e inocentes.

) E ela me ama.) — No mesmo que você. o escândalo que vai ser.) — Será que eu entendi direito. ARETUSA . ALICE — Escuta. Alice. casada. Aretusa? Ela é sua aluna. Tão terna. Aretusa? ARETUSA (Rindo. indisfarçável. ALICE — Você tem que me prometer que vai tomar cuidado. A cena pode ser feita pelas atrizes que fazem Alice e Aretusa Adultas ou por Alice e Aretusa Meninas. Eu finjo que não percebo. mas vejo bem nos olhos dela. Ela me ama. (Implicante.Ah. Só acho um pouco estranho. não se preocupe. Alice. tão linda. E não sou atrasada. inocentes. ALICE (Espantada. no colégio. E tem uns olhos.) — Linda. (Para Alice. ARETUSA (Sem ouvir.) Não faz mal nenhum assim. mas paciente. Aretusa. só de longe. Sem maldade nenhuma.Uma menina tão linda. Ela me ama.) . o que mais me impressiona nela são os olhos. Você nem imagina como ela é linda. Aretusa. (Para si mesma. Aretusa. debochada. Eu apenas me deixo amar.) Ah.) Prometa. Enormes. você vai acabar se metendo em complicações. você é uma mulher adulta. ARETUSA — Não tem nada de estranho. recém-casada.) — Claro que entendeu. Prometa que não vai se meter em nenhuma complicação com essa menina. na casa de Alice. (Segurando Aretusa pelos ombros. Meu Deus. . a filha do Bicho-Papão não sabe em que mundo vive? ALICE (Meio irritada. minha querida moralista. Lá no fundo. minha santinha. mas continua a virgenzinha de sempre. Depois não diga que eu não avisei. sim.É um flash-back. ARETUSA (Sonhadora. Imagina se alguém descobrir.) — Como não faz mal. Atrasada. ingênua. ALICE (Preocupada.

Se você fica mais tranqüila assim. e o Enfermeiro torna a passar com Corália na cadeira de rodas. Nome engraçado. grita.Pára com isso. Que coisa mais antiga! ALICE (Insistente.) — Ela tentou se matar. ARETUSA (Dando de ombros.) . ARETUSA (Que ainda estava de costas. Parece nome de flor. Aretusa. voltando-se.Corália.) . séria. Corália (Tapa a boca com a mão.ARETUSA (Desvencilhando.) Corália. está bem... criatura? ALICE — Que não vai se meter em nenhuma complicação. ALICE (Aliviada. Alice.) — Assim é que se fala. Não entendo nada. ARETUSA — Mas prometer o que. mas a cena vem imediatamente na seqüência da anterior.) .) CENA 4 ALICE e ARETUSA Passaram-se alguns meses.) Como é mesmo o nome dela? ARETUSA (De costas para Alice Enquanto ela fala. Aretusa. Corália-Rosália. (Num crescente.se.) Prometo solenemente me ver livre dela. Magnólia.Está bem. (Noutro tom.) — Prometa. acende-se novamente a luz no plano do Inconsciente/Memória. ALICE — Fale mais devagar. (Fingindo solenidade. sem pausa. em desespero. . Que vai se ver livre dela. Quando apaga-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória. acende-se novamente sobre Alice e A retusa.

) — Não fique assim.) Hoje de manhã encontraram ela na cama. O que foi que aconteceu? ARETUSA (Acendendo um cigarro. meu Deus? ARETUSA (Quase gritando. Não tive coragem de desiludi-la... não aconteceu nada. Não fiz nada. Ela era tão bonita. Eu não tive culpa. . O que fiz foi só para o bem dela. ARETUSA (Culpada. Alice. Não adiantou nada. Aretusa? ARETUSA (Muito agitada. Fique calma e me conte tudo. A idiota da amiga contou tudo para os pais de Corália. Falei em calúnia. você me entende? Que era imaginação dela. Eu fiquei com medo e disse que se ela não se afastasse eu contaria aos pais dela e ao diretor.) . aquelas coisas.) — Nada. Alice. Eu fiz tudo errado.Ela? Ela quem. Só. Que ela era meio louca... Queria que nós fôssemos embora juntas.) Cheguei a insinuar que. despeito.) . Ela ficou me procurando por toda parte. Eu não queria complicações. ALICE (Colocando a mão na cabeça dela. Você não sabe de nada. ALICE — Não estou acusando ninguém. Alice. não. ALICE (Chocada. Eu comecei a fugir.) — Nada.) — Você agiu direito. Eu ainda consegui consertar a história. Foi ela quem contou para uma amiga. ALICE (Tentando acalmá-la.) — Corália. que Corália não regulava bem. Corália tentou se matar. olhares. Ambigüidades. Pare de me acusar. O diretor da escola nos chamou para tentar evitar o escândalo. a tratá-la mal. mandava cartas. Telefonava.Não. ARETUSA — Eu sei que você me entende. a boca toda queimada de veneno. (Envergonhada. (Baixando a voz. Aretusa. Aretusa. Foi só então que eu descobri o quanto gostava dela. inveja.ALICE . promessas.O que? O que foi que você fez.

fique calma.) Esta semana fui ver Corália. Nunca mais vou me ligar a ninguém.. não vou agüentar sozinha. No quarto. ARETUSA (Lentamente. de repente. ALICE — E fumando em jejum. ALICE — Fique calma. ALICE — Ainda está aí? Você nem se vestiu.Não queria que depois ela sofresse ainda mais. não? ALICE (Sem se ofender.) -Juro que nunca mais vou amar ninguém. . às vezes as pessoas progridem.Você sabe que não fumo.Estou com preguiça. ARETUSA .Quer um cigarro? ALICE . ARETUSA .) — Nem tomei café. Estava fraco e frio. fumando. quando Alice entra. CENA 5 ALICE e ARETUSA Volta ao presente. (Agressiva.) — Bem. Nunca mais. Você não vai tomar café? ARETUSA . Faz mal. ARETUSA (Irônica.Não quero comer. ALICE — Ela não vai morrer. (Depois de uma pausa. Não vai acontecer nada. Eu acabo destruindo tudo que toco.. Aretusa está de camisola.) E você bem que podia cuidar um pouco da forma. ARETUSA — Se ela morrer.

) .Fui. Ainda é muito cedo. ALICE — Eu sei. acho que a morte seria melhor para ela. Alice. Ninguém sabe o que ela sente. Ela não pode mesmo ficar boa? ARETUSA (Cansada.) Sabe? O cabelo dela agora está branco como a neve.) — E como é que você queria que ela estivesse? Ah. ARETUSA (Irônica. mas. não é bom. As duas se sobressaltam. Ele deve estar chamando Berta. Mas as coisas às vezes mudam.. Não tem esperança nenhuma. Quarenta anos. (Num sussurro.E como ela está? ARETUSA (Amarga.ALICE (Assustada. (Ouvem-se as batidas do Professor. Já está na hora do almoço? ARETUSA (Remota. Todo mundo acha isso mesmo. Mal sustenta a cabeça. Acho que é só por isso que os pais dela permitem que eu a veja. Ou um bicho.) . eu sei. . ALICE .) ALICE — É o papai.Eu já disse mil vezes. Você sabe muito bem: Corália não pode mais andar.) — Corália? Você foi ver Corália? ARETUSA . (Melancólica. Ela não vai ficar boa. ALICE — Não fale assim. ALICE (Agoniada..E por que não? É a verdade.Pode ser. Não sei. não mudam nunca. ARETUSA (Dura.) . não vai melhorar nunca.) É estranho.Quantos anos ela tem? ARETUSA — Quarenta.) — Não. ALICE (Confusa. mas parece contente quando me vê. Parece uma velha. Faz anos que ela está assim. não pode mais falar.) . Sempre que eu venho aqui dou uma chegada lá. Mas eu sou a única que tem coragem de dizer. Não é bom desejar a morte de ninguém.) — Neste caso. Alice.

Mas você tem razão. No começo. me procurava para desabafar.ALICE — Coitada. Vou ver se precisa de ajuda.. à escuta.) Que engraçado. Como era? ALICE (Bem devagar. Você lembra? ARETUSA (Desinteressada. de repente. Aretusa olha bem para as pernas dela.. quase . Acho que não comentou com ninguém além de mim. ouve-se o barulho do vento.. Você ouviu? arvore farfalhando..) . dando o texto como um coro de tragédia grega. agressiva. estáticos. Às vezes. Da porta. de repente. ia dizer que está farfalhando. EVELYN MENINA e RENATO MENINO Durante as últimas falas da cena anterior. Assim ela nem pode mais trabalhar direito. As duas ficam atentas. Ele gostava tanto do balanço.Não. (Alice volta-se novamente para sair. (Volta-se para sair. Agora.É só o vento. Lá estão parados Alice. (Antes que Aretusa retruque. ARETUSA MENINA. Falam sem entonação infantil. CENA 6 ALICE MENINA. ALICE — Há mais de vinte anos Aretusa carrega esse segredo sombrio. como folhas de que cortaram a árvore. parece que o menino ainda está se embalando naquele galho..) Você devia tratar dessas varizes.) Se a gente não soubesse ARETUSA . Tempos depois.. lembrei como a gente chamava você quando era criança. Evelyn e Renato meninos. torna a encarar Aretusa. Aretusa.) — Aretusa-Medusa. acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. levemente maldosa.

mostra a si mesma que é louca e má. como às vezes amamos o que é mais oposto. Como se ela se punisse fazendo-o sofrer. O som da risadinha faz com que Evelyn acorde sobressaltada. Evelyn? Calma.Você também ouviu? . Eu estou aqui. EVELYN (Assustada. e a culpa não a deixa dormir. BRUNO . a parede. não saía de perto dele.repentinamente. porque Aretusa nunca escapará de Corália. na cena anterior. EVELYN — Mal Aretusa cochilava. com o Palhaço nos braços. foi cortada pela gravação de uma risada infantil. o pé da cama. A luz acendeu-se sobre o quarto de Evelyn. a aranha cinzenta começava a arranhar a porta. Debate. Ela insistia. Duas pessoas que nada tinham em comum. A cama está cheia de brinquedos espalhados. que lhe cobra uma pequena indenização.) . casou-se com Renato. Ela está dormindo. das maneiras desinibidas. mas de longe. E não conseguem viver em paz. está tudo bem. da voz sensual. talvez enxergue por trás da imagem familiar aquele rosto inapagável. Assim. usava da sedução do seu olhar dourado.se entre o amor e a repulsa. ARETUSA — Sempre que Aretusa se mira num espelho.O que foi. mais diferente de nós. CENA 7 BRUNO e EVELYN A última fala de Aretusa. com uma bandeja nas mãos. Bruno está ao lado. RENATO — Talvez Renato a amasse.

eu trouxe café e pão para você. EVELYN (Resistindo. já disse! BRUNO (Enquanto ela abraça o Palhaço.Só um gole.) — Só um pouco. até Bruno desistir. Vai fazer bem. reunida. . EVELYN (Com raiva.Não quero.. se você não quer. Vinha de longe. (Ele abraça e fica embalando-a durante algum tempo. EVELYN — Não. Não eram batidas. EVELYN .) .) — Está bem. BRUNO — Mas não precisa comer.. não. Era outra coisa. Até Renato veio. EVELYN (Jogando a xícara ao chão e gritando.. está bem..BRUNO — O quê? As batidas? Deve ser o Professor chamando Berta. Todo mundo quer que você desça. EVELYN (Infantil. sem dizer nada..Não. Não era nada.Você sonhou. Eu não quero. não. Como. BRUNO (Cortando. Olha. (Passa a mão no cabelo dela.) . Só um sonho.. larga a bandeja em cima da mesa e tenta devagarinho tirar o Palhaço de Evelyn. até que ela se acalme. mas era muito claro. BRUNO .) — O Palhaço não! Me deixa ficar com ele! Me deixa! BRUNO (Senta-se ao lado dela e tenta fazê-la beber da xícara.) Você não quer descer um pouco? Toda a família está aí.) . você precisa ficar forte de novo.Eu não quero comer. como uma. então. BRUNO (Falando como quem se dirige a uma criança.) — Só um pouco de leite.) — Não quero. paciente. Tenho nojo de leite.) Tome pelo menos um pouquinho de café.

você nunca casou? BERTA . CENA 8 ALICE MENINA.) — Então eu vou abrir a janela. Pra uns.. embala. ALICE — Berta.) . EVELYN (Feliz.) Por enquanto. EVELYN — Mas casamento não é bom? BERTA . Se Berta vier me buscar. não. Quero ficar cuidando dele.) — Você não quer descer um pouco e conversar com eles? EVELYN — Eu quero ficar aqui. BRUNO (Um pouco assustado. timidamente. BRUNO (Fingindo não ouvir. Mais tarde eu desço um pouco.) . desanimado. Está um dia bonito.Nunca.Você é tão bom comigo..Eu não quero comer. etc...o. tem sol.Depende. Sempre faz tudo que eu quero. Graças a Deus.. EVELYN MENINA e BERTA Luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória. BRUNO (Levanta-se e vai até a janela.EVELYN (Infantil. se você não quer eu não abro. afasta-se da janela. EVELYN — Como é que você sabe? Você nunca experimentou pra saber.) — Está bem. Mas fique calma. beija-o. . enquanto Evelyn cuida do Palhaço como se fosse um bebê. (Embala o Palhaço enquanto Bruno olha. pode ser.. Pra mim. só quero ficar aqui com ele.

) — Procurando por mim. eu. parada. Ninguém responde Alice entra.. Alice. eu bati. mas fingindo naturalidade. ALICE (Chamando. Berta. Alice abre a porta de um guarda-roupa e encontra uma colagem de mulheres nuas. BERTA (Dando de ombros. A gaveta da mesinha de cabeceira está aberta e atulhada de papéis recortadas. No final da cena anterior..) — Sim. sobre a saúde de meu pai. Alice começa a remexer e fica muito espantada: são recortes de revistas. Você não estava. Alice estd muito chocada. De repente.ALICE — Berta. homem pra mim é peste! CENA 9 ALICE e BERTA No quarto de Berta. bem vulgares. ouve passos que se aproximam. à porta do qual esta’ Alice adulta. por que você não se casa? BERTA . desculpe. Berta! Sou eu. Aí entrei.) Berta. BERTA (Entrando. Rapidamente. levemente irônica. você está aí? (Bate à porta do quarto e torna a chamar...) — Não tem importância. A luz revela um quarto muito pobre. com fotografias de mulheres nuas. . fecha aporta do guarda-roupa e a gaveta.Menina. acendeu-se a luz no quarto de Berta. Alice? ALICE (Embaraçada. ninguém respondeu.) — Berta. não muito alto. ALICE — Eu queria conversar um pouco sobre. dessas que se encontram em pensões de rapazes. Há também algumas revistas empilhadas sob a cama e também uma tesoura grande.

Quanto mais velho fica mais exigente.) — Mas Berta.. Será que tem consciência do que faz? BERTA (Desinteressada.) — Metade do tempo acho que não sabe. (Ambas sentam na cama.E não está mesmo. um velho nojento..) — Você sabe por que é mesmo que eu continuo aqui. Batendo. Ele não me parece nada bem.Ele fica batendo no chão. como se procurasse a palavra exata) . batendo como um desesperado. BERTA . Desde que eu era criança.) Mas eu não tenho pena.só infeliz. que trabalhei a vida toda.. Ele é que devia ter pena de mim. coitado. (Dura. pede a comida no quarto e depois despeja tudo no meio dos lençóis. Mas que nada. Ele está ficando caduco. Quando eu subo as escadas.BERTA — Então sente. ALICE — Ele sempre foi exigente. BERTA . Só. Há pouco ele tornou a bater.) E um inferno. quando vai deitar. ALICE (Penalizada.) Um velho caduco.. E a bengala. Vamos conversar. Eu é que sei.. então? Você não ouviu as batidas da bengala? ALICE — Ouvi. ele está tão velho.. ALICE — Mas ele não é mau. Alice? . BERTA (Dando uma risadinha maldosa.) ALICE — Estou com pena de papai. (hesitando. (Suspirando. diz que fui eu que fiz a sujeira toda. (Com ódio. Ele nem quer mais tomar banho. De noite. se faz de desentendido e diz que não me chamou.) As vezes.) — Mas está pior. (Com nojo. E suja toda a cama. BERTA (Rancorosa.

) — Berta. com ódio..) .Vingança? A sua vingança.Sempre fui como um cachorro nesta família. Mas o velho. ALICE (Sem entender.Estou aqui para apreciar a morte dele. Todos nós tivemos uma vida difícil. parado na escada. mas firme.) — A morte dele? Mas para que.) . ALICE — Não é verdade. Não fale assim. RENATO e BERTA .) .. Berta? Mas vingança de quê. ARETUSA..Sempre fui como um cachorro. em voz muito baixa. BRUNO. BERTA (Calma. A luz acende-se sobre ele. Tenho pena. ALICE — Não é bem assim. sim. Você tem raiva de nós? BERTA — Raiva? Raiva. e sempre fomos muito retraídos..ALICE (Sacudindo a cabeça. você: tenho pena de vocês todos. não.Embora? Eu não! E para onde iria? Quem vai me querer. desde crianças. Evelyn. há tanto tempo. Até parece que. o velho. meu Deus? BERTA (Com ódio e mágoa. esse vai me pagar! ALICE (Colocando com cuidado a mão no braço dela.) . ah. agora que estou velha e imprestável? (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor.) CENA 10 ALICE.) — Não. Você nos conhece tão bem. ALICE (Chocada. Renato. Berta? BERTA (Triunfante. PROFESSOR. BERTA (Em voz baixa. você quer ir embora daqui? BERTA .) — Vai ser a minha vingança.

para Bruno. ALICE — Melhor? Mas Bruno.) — Se ninguém vai fazer nada.O que é que você quer que eu faça? Eu pelo menos estou aqui. ARETUSA (Impaciente.. agora quer descansar. ARETUSA (Agressiva. Mas não se preocupem. não é? (Para Renato. BRUNO — Uma clínica particular é cara demais. não acha? Afinal Evelyn é sua irmã.) — A idéia foi sua. A os poucos. ARETUSA . achei que estava mais disposta. Ela está melhor. Ficar aí parado não adianta nada. também podia se interessar um pouco. Berta fica parada atrás. Ela já comeu. PROFESSOR . que está desinteressado. o Professor caminhou até sentar-se na cabeceira da mesa. Até comeu melhor. só. Conversamos um pouco hoje de manhã. que ela age como se o menino estivesse vivo. Alice. RENATO (Irritado. . ela não está louca.Antes não tivesse vindo. não minha. Além disso. ALICE (Cortando.) — Bem. mas a responsabilidade é de todos.) . os outros vão chegando. BRUNO — Não precisa. não estou? E eu nem podia vir.) E você. Bruno é o último. Aretusa.Evelyn precisa ser internada.) — Evelyn não vai descer para o almoço.. Talvez consiga convencê-la.) — Será que Evelyn não gostaria de descer e almoçar com a gente? Se você quiser eu subo. Não foi minha. então por que esse teatro de a gente se reunir aqui um fim de semana inteiro? BRUNO (Seco.A partir da cena anterior. BRUNO (Sentando-se. só desesperada. e eu também notei. me disseram.

seu fracassado? ALICE (Tentando desviar o assunto. Odeia seus próprios filhos. mas é verdade.) O senhor nunca foi pai: é um carrasco. PROFESSOR (Por um momento parece que vai reagir. como vão? RENATO (Mexendo a mão no ar.) RENATO (De repente.) — Bondoso? Bondoso coisa nenhuma.) RENATO (Em voz baixa e clara. para Renato.) — E você já viu uma refeição calma por aqui? RENATO (Pouco a pouco mais exaltado.) . BRUNO (Procurando aliviar o ambiente.) . (Quase gritando.) — Renato tem um problema: ele é bondoso demais. sarcasticamente.) — Aretusa.Mais ou menos.) — O senhor quer saber o que eu acho mesmo? Acho que o senhor nos odeia. Pior para o senhor que ele . mas encolhe a cabeça sobre os ombros. (O Professor ri.O que é que você quer dizer com isso.) — Um pai como o senhor acaba com a vida de qualquer um. me passa a água? Está tão quente. honesto demais para ser bom comerciante. isso sim.) PROFESSOR . Ele é um frouxo.) — A única pessoa de quem o senhor gostou um pouco na vida foi Cristiano. será que não se pode ter pelo menos uma refeição tranqüila nesta casa? BERTA (Irônica e imóvel. ALICE (Ainda tentando aliviar o clima.E os negócios. (Alice serve a si mesma e a Aretusa. Comerciante tem que ser mais safado. Não sei como isso é possível.PROFESSOR (De repente. ARETUSA (Agressiva.) — Você nem sequer tem inteligência para inventar uma desculpa melhor. depois de remexer no prato com o garfo por alguns instantes. (Todos param de comer e voltam-separa ele.) — Pelo amor de Deus.

Que confortável. Foi o que ela falou: ―O pai deles não tem coração‖. Era quase uma menina. Ela preferiu morrer. (O Professor derruba o copo de vinho na toalha. Junto com o grito. Renato sai. mas permanece sentada..Renato. mas desiste. foi ela quem lavou meu rosto depois. acho que esqueceu.) . Bruno olha com mágoa e surpresa para Renato. ele bebeu demais. pare! RENATO (Levantando-se da cadeira.Lembra o dia quando o senhor esfregou minha cara no mijo do chão. na janela.. cheio de ódio. para torná-lo ainda mais indistinto.morreu. Então os vermes estão comendo o senhor antes da morte? Que coisa mais bem feita! (Gritando. Naquela vez. de solidão. .) RENATO (Sarcástico. Berta me contou que nossa mãe morreu de desgosto.) Berta me disse também que logo antes de morrer nossa mãe pediu que ela tomasse sempre conta de nós. (Aretusa deixa cair o copo d‘dgua. e o senhor nunca lhe deu amor nem atenção. Aretusa faz menção de levantar-se. lembra? Não. Muitas pessoas comentavam isso. porque o senhor não tinha coração.) .) — Me contaram que o senhor anda escutando ruídos. ARETUSA (Gritando. Ela morreu de tristeza. Alice também estava lá. solta um grito incompreensível. Foi só isso. ARETUSA — Ele bebeu demais. Renato caminha pela sala e. essa é a verdade. Ele está doente. (O Professor começa a balançar a cabeça. o senhor sabe esquecer. ALICE — Renato. Bruno levanta-se e coloca a mão no ombro do Professor. Berta lembra. o senhor também foi um carrasco. ouviu? Que apodreça! Aretusa começa a chorar.) Nem de nossa mãe o senhor gostava. agora chega. Aretusa estende a mão como se fosse tocar no braço do marido. Para ela.) Que maravilha! O senhor ainda nem morreu e já está cheio de bichos? Quero que apodreça. não? Pois eu me lembro. pode soar a gravação da risadinha infantil. Ruídos de bichos dentro dos seus ouvidos.

amparando o Professor. Enquanto isso. Venha.) CENA 11 ALICE e ARETUSA MENINAS (As duas brincam. me ajude a levar o Professor para cima. mas no cinema é outra coisa. esfregando os braços como se tivesse frio.Café? ALICE — Então vamos até a cozinha.) . ARETUSA (Maliciosa.) .. Você nunca viu no cinema? ALICE . Aretusa? ARETUSA — Na boca. ALICE (Curiosa. que permanece sentada. tem gosto? . Lá deve ter café quente.Você não quer um café.BRUNO — Berta.. mas vai. acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. sensuais e inocentes.) — E tem. Aretusa? ARETUSA (Remota.) . claro. (Alice vai-se curvando para ela. (Berta resmunga.Sim. bem devagarinho.) ALICE (Espantada. E ótimo. Que é que tem? Depois põe a língua lá dentro. Na vida real é de verdade. É muito melhor.. como se fosse abraçá-la. Os dois sobem lentamente a escada.) — No cinema é fingido.Nojento nada.) — Na boca. ALICE — A língua? Não é meio nojento? ARETUSA (Rindo.) ALICE (Para Aretusa.

Eu queria saber como é.) — Não sei bem. Vem cá. A cena se passa no presente. ARETUSA (Rindo muito.Saber pra que? Você nem tem namorado. Se eu contar. assim. ora. solta o corpo.. ARETUSA . ninguém acredita. Aretusa abraça-a. Aretusa está na janela. É engraçado..) Então. Alice. ora.. de costas para a platéia. ALICE (Indecisa. um dia.) ALICE — Aretusa.) . deixa eu te mostrar. enquanto Aretusa acaricia os seios de Alice.Mostrar o que? ARETUSA (Muito perto. Acho que não é direito.) — Gosto? Você quer saber se tem gosto? Ah. (Alice aproxima-se. Alice afasta-se. gostou? ALICE (Confusa.Como se beija. ARETUSA (Aproximando-se.. isso. . (Beijam-se longamente. mas sem brusquidão. como você é inocente.) . quer ver? (Levanta a saia.. fumando e olhando para fora. Uma santinha! ALICE .) . você pintou de louro! CENA 12 ALICE e ARETUSA No quarto. Alice.. ALICE .Quer que eu te mostre? ALICE (Meio assustada.) — Não sei. você é louca! Você.ARETUSA (Divertida. meio tonta. ARETUSA — Não seja boba.) Feche os olhos.Mas posso ter.) — Engraçado? Engraçado é o que vou te mostrar agora.

ARETUSA (Irônica.) Sabe. é tão estranho: ela não diz que Cristiano está vivo. Até tenho medo de começar a escutar o menino correndo por aí. para mim também. Não sei. ALICE . ela se recupera. ARETUSA . Acho que vai chover. O tempo. ALICE — Que dia mais triste. Você acha que ela está melhorando. ALICE . quem sabe. fiquei abalada. ALICE . Depois.) — Alice. (Cansada. ARETUSA — Pois para mim domingo sempre é triste. não é? O tempo é remédio para tudo. ALICE (Impressionada. ARETUSA (Ambígua. mas age como se estivesse. a formiguinha laboriosa. ALICE .) . Deixei ela quase dormindo..Você entendeu o que ele gritou naquela hora? . Faz apenas alguns meses que o menino morreu.) — Estive com Evelyn há pouco. Nem parece domingo. ALICE — Pode ser. Fico meio ansiosa quando não tem nada para fazer. E aquela cena com Renato.Coitado dele. ARETUSA (De repente.Não sei.Pensando bem.O quê? ARETUSA — Nada.) — Não diga bobagens.É que eu gosto de estar ocupada.O céu está ficando cheio de nuvens escuras. Acho que tomei vinho demais na hora do almoço.) Vou me deitar um pouco.) . (Intrigada. ALICE (Divertida. Pelo menos é assim que estou me sentindo agora. Vinho me dá um sono. Aretusa.. mas disfarçando. como Bruno disse? ARETUSA (Suspirando. Você está falando como uma velha.Ou quase tudo. Alice.ARETUSA .) — Eu estou velha.

sei lá.Ele quem? ALICE . aliás. Seu irmão é cheio de complexos.Renato viu.) — Mas o que foi que ele gritou? Pode parecer esquisito. porque já tinha uns cinco ou seis anos. Eu lembro que levaram nós três para a casa de um vizinho. não devia? Mas não lembro. Renato observa tudo. tanta coisa. .Renato. Ele chamou Deus. Por causa do velho. E nós não vimos nada. Ele gritou: ―Deus!‖ ALICE (Intrigada. é esquisito.) Você sabia da história do enterro da sua mãe? ALICE — Não. fora isso não lembro nada daquele tempo. Você sabe melhor do que eu. mas tive a impressão que ele chamou nossa mãe. Ouvi muito bem. Acho estranho. Na janela.) — Deus? Por que Renato se lembraria de chamar logo por Ele? ARETUSA (Vaga. CENA 13 PROFESSOR. ficou escondido e viu tudo. Tem bebido muito. não sei de nada. uma coisa assim. Escondido.) . ARETUSA — Ele bebeu demais.ARETUSA (Distraída. ARETUSA . Você acha que ele chamou nossa mãe? ARETUSA (Segura.) — Ah. PADRE e RENA TO MENINO Nas últimas falas da cena anterior acendeu-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória Ao lado de um caixão de defunto. ALICE (Insistente.) — Não. Aliás. Devia lembrar. estão o Professor e o Padre. Fugiu da casa do vizinho. (Noutro tom. de problemas.

Mas a sua esposa..Ela está morta. (O Padre queria insistir mais.) .. Não aqui. não precisa chamar nenhum padre.A fé é problema de cada um. PROFESSOR (Sarcástico. Professor. mais forte sobre Renato escondido. A luz diminui sobre ele enquanto incide. O nosso lugar é perto dos que sofrem. PADRE (Aponta o caixão..O senhor não tem dever de nada . por favor.O que é que o senhor está fazendo aqui? Não mandei chamar padre nenhum.. saia daqui. Ele chora baixinho. só isso. PADRE (Paciente. E o senhor. PADRE (Brando. Saia já. para si mesmo.. PADRE . mas severo. Deus nunca teve nada a ver comigo. Eu é que tenho o dever de expu1sá-lo daqui . PADRE . que só . PROFESSOR O seu lugar é junto dos que acredita na religião. No fundo de seu coração. A gargalhada infantil corta a cena enquanto a luz acende sobre a próxima. PROFESSOR. Deus nunca entrou dentro desta casa! (Cobre o rosto com as mãos. PROFESSOR .) Não acredito nessa fantasia.Preciso encomendar a Deus a alma desta nossa irmã. eu tenho o dever de.) Alma. O Professor faz um gesto ameaçador e ele sai.) serve para consolar os fracos. Acabou.) .) .Mas Professor.) — Nessa hora..PROFESSOR .No fundo de meu coração não existe fé nenhuma. o senhor disse alma? Encomendar a Deus? Deus? (Ri. PROFESSOR (Cortando.) Deus. O Professor fala sozinho.

sei lá. Plantei umas roseiras. acho que enlouqueceria. Lembra dela. tudo. Acho até bom dar aulas.) Olha só as minhas mãos como estão ásperas de tanto lidar na terra. umas margaridas. Renato é aquilo que vocês sabem. Evelyn mantém os olhos fixos e o boneco nos braços. Já está com um ombro mais baixo que o outro. Pois agora está ficando lindo. E completamente caduca. lembra dele? Era tão sem graça. ALICE — Mas que tanto ela guarda lá dentro? ARETUSA — Ah.CENA 14 ALICE. Alice e Aretusa procuram distraí-la. Tão inseguro. Ela não joga fora nada. ALICE — Ela era cheia de manias.A gente tem que se manter ocupada.) Sem falar na cozinha. Evelyn? EVELYN (Embalando o Palhaço. Carregava sempre um saco abarrotado de coisas. ARETUSA — E não perdeu a mania. ALICE — Sabe. Pelo menos assim saio um pouco.) E Renato. (Suspirando.) — A sua mãe? Lembro. vejo outras pessoas. ARETUSA — Mamãe? Coitada. (Rindo. ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn. bem. ARETUSA — Se eu ficasse o dia todo em casa. lembro sim. de tanto fazer força. Vai tudo para dentro daquele saco. Aretusa. . andei reformando aquele jardinzinho na frente de casa. (Mostra as mãos. ALICE . está tão velha.

para Evelyn. Jardim é uma coisa tão linda. um ioiô ou um carrinho. ARETUSA .Mas o que é isso. ARETUSA (Sonhadora. Como é mesmo? .. Já tenho alguma prática. ARETUSA. Você planta num dia e no dia seguinte já tem um verdinho brotando.A vida brotando. EVELYN e RENATO MENINOS Enquanto elas falam. brincando.) Quando arrancarem aquele toco de álamo no pátio. Jardim das Hespérides. Renato observa disfarçadamente. Talvez essa cena possa ser feita também junto ao tronco decepado da árvore..) .. ALICE (Animada. você lembra do Jardim das Hespérides? ARETUSA .Você vai gostar. plantar algumas flores.Jardim de que? CENA 15 ALICE. (Para Evelyn.ARETUSA . Hes. Tem umas que crescem tão depressa.Adoro jardins. Quando arrancarem o toco. ALICE — Das Hespérides. você bem que podia fazer uns canteiros.) — Está bem. ALICE (De repente. na cena anterior.) — Aretusa. EVELYN (Distraída. Depois ver as plantinhas crescerem. As três estão sentadas.. ALICE — É tão bom mexer na terra. A parte. acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/ Memória.) — Posso te ensinar como se faz. EVELYN . enquanto finge estar absorvido com outro brinquedo — por exemplo.

Mais ou menos isso.) — Hes-pé-ri-des.Como? O que é isso? ALICE . Aretusa. Alice e Aretusa muito cúmplices. Evelyn sem entender muito bem. laranja. ALICE (Meio irritada. Decerto bordavam também. (As três dão risadinhas e cochicham.) – Mas o que mais essas Hespérides aí faziam? ALICE .Nada.. aquela da cobra.) — Bom. . No livro não explica direito. EVELYN — E que árvore era essa? Árvore do Paraíso? ARETUSA (Maliciosa. No colégio todo mundo me chama de Aretusa-Medusa. Só diz que elas cuidavam dum jardim onde tinha uma árvore com pomos de ouro. não sei bem. princesas. Ela olhava as pessoas e daí as pessoas se transformavam em pedra. EVELYN — Mas então devia ser muito chato. Assim que nem maçã.) — Ela não matava as pessoas. Ainda mais com um dragão do lado.Deus me livre! Eu tenho horror desse nome.E uma fruta.) — Então tá. ficar o dia inteiro cuidando duma árvore. Imagine.) — Não. cuidavam do jardim com a árvore. E uma delas tinha o seu nome. ARETUSA . essa era outra. dançavam. fadas.) EVELYN (Impaciente. unindo as cabeças. ARETUSA (Querendo mudar de assunto.. ARETUSA . ARETUSA . cantavam.ALICE (Paciente e um pouco exibida. Eram umas bruxas. Vai ver. Era muito má.De dançar eu gosto. era a Árvore do Pecado. acho que elas não faziam só isso. Vamos brincar logo. Ah: tinha também um dragão de cem cabeças. EVELYN — Medusa não era aquela que tinha cabelo de cobrinha e matava as pessoas só de olhar para elas? ALICE (Exibida.

Então está bem.) — Deixa ele brincar. O dragão de cem cabeças. ALICE — Ninguém chama.Você jura que não chama? EVELYN (Beijando os dedos em cruz.) .) CENA 16 ALICE e ARETUSA . ARETUSA (Para Evelyn. Esta brincadeira é só de meninas. ALICE — Mas por quê.Você o quê? RENATO . gostei.) .) — Não.) . O que eu não quero é me chamar Aretusa.Um guarda do castelo? Um pomo de ouro? ARETUSA (Rindo. Você tem que ser Aretusa. Eu sei o que ele pode ser. ARETUSA (Maliciosa. RENATO (Aproximando-se. ARETUSA . O que é que eu sou? ALICE .Por esta luz que me alumia.Eu? EVELYN (Agressiva.) . Senão me chamam de Aretusa-Medusa. E o álamo pode ser a árvore dos pomos de ouro. RENATO (Animado.Mas eu acho que não quero brincar disso.ARETUSA .) .Não pode.Eu quero brincar também. Juro. Aretusa? Você não gostou da história? ARETUSA — Da história. (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor.

não vai se vestir? ARETUSA — Calma. o problema é seu.) — Aretusa. cuidado.No quarto. Alice.) Estou pronta. ARETUSA (Dando de ombros. Alice já está vestida e arruma os cabelos. você não ouviu alguém correndo aqui em cima. mas Aretusa. Pareciam passos de criança.) ALICE (Misteriosa.. Só pode ter sido ela.) — Deve ter sido sua irmã. As duas estão se preparando para o jantar. sabia? ALICE (Dando de ombros. por que é que você ainda usa esse penteado? Envelhece uns dez anos.. uns passos.Não ouvi nada.) Alice. logo depois que Renato deu aquele grito? ARETUSA . almoçando. de combinação. já vou. ALICE (Disfarçando a perturbação. Alice? (Não parece impressionada e começa a vestir-se. ARETUSA (Implicante.) — Claro.Pareciam uns. Só pode ter sido Evelyn.. um pouco nervosa.) — Cuidado. ARETUSA . Alice ri. ALICE — Acho que estou pronta. se quer parecer mais velha ainda. em tom misterioso.) — Uns passinhos.. calma...) — E o que tem isso? Eu não me importo. (Crítica. . ALICE . O resto da família estava lá em baixo. ALICE (De repente. leves. E você. Você ainda não tem cinqüenta anos e já vai começar a caducar? (Ambas já estão completamente vestidas.Que passos. fuma preguiçosamente. ARETUSA — Bem. rápidos.

RENATO (Imperturbável. Amanhã a gente vai.Então. ALICE (Sorridente. Talvez meio ritualístico. Berta coloca-se à parte.) — Aretusa. Para você está sempre tudo bem. Enquanto Alice e Aretusa descem. Evelyn tem o Palhaço no colo. ARETUSA (Irônica. em pé Tudo é lento. Mas se não fosse eu.) CENA 17 TODOS PRESENTES No final da cena anterior. Pena que é por tão pouco tempo. queria só ver se ficava tudo bem. . imitando. ARETUSA (Irritada. Claro. tudo bem.) . Alice. passando-se os pratos em silêncio e. ao menos vamos comer em paz. a princípio.) — E nós. você não pode parar com isso? Já tem tanto problema aqui.Como não sabe? Eu tenho que dar aula amanhã à tarde. quando vamos? RENATO (Distraído. Berta ajuda o Professor a sentar-se. não é você quem se mexe. ARETUSA (Para Renato. vamos descer? (‗A risadinha gravada finaliza a cena.) ..) — Que bom que estamos todos juntos. mas com certa delicadeza.) — Não se meta. ARETUSA (Agressiva.Tudo bem. ALICE (Irritada.) — Acho que amanhã também. Bruno. em paz. Comem devagar. Amanhã de manhã já tenho que voltar.) — Tudo bem. a luz acendeu-se sobre a sala de jantar.. não sei. Renato e Evelyn também sentam.

) — Ora.ALICE (Agressiva. não tinha vontade de vir. desde . ALICE (Indignada.. não venha. banca a escrava deles. ALICE (Espantada.. (Desafiadora..) . Como pode falar assim diante de papai? ARETUSA .) — Você não desconfia que sempre estraga os encontros da família? Não desconfia que está destruindo a vida de meu irmão? RENATO (De repente. ARETUSA (Debochada.Você não sabe o que está falando. já notou? ALICE .) Não queira ser a palmatória do mundo. Ele conhece a família que tem.) — Alice.Eu não julgo ninguém. sempre cheirando a fritura. (Mais alto.) Sua irmã meio louca de dor e você por pouco nem vinha. Você tem a obsessão de julgar os outros. A galinha choca dos filhos. apodrecendo! Onde foi que você andou esse tempo todo.) — Eu? Logo eu. ARETUSA (Lenta e cruel. Nunca amou. parando de comer.. apenas porque tem medo da solidão. levantando cedo todos os dias — e apesar de tudo me sentindo feliz com essa vida. Alice.) O que? Você está contra mim? Mas Renato. E seu pai aqui. acho bom você não se intrometer. Faz tudo por eles.) . Pegava mal você se desinteressar completamente. Apenas aceitou porque pegava mal. eu estou tentando defender você! ARETUSA (Cortante. Alice.) Você não ama ninguém. Quantas vezes você o visitou nesses anos todos.Nem ama ninguém. esfolando as mãos.) Isso mesmo: feliz. hein? (Cada vez mais alto. que tenho dedicado aos outros a minha vida toda.Seu pai conhece você há muito tempo. Alice. ALICE (Chocada. não venha se fazer de santa. Senti na sua voz. Nem o seu marido e os seus filhos você ama de verdade. Você. esquecendo a aparência.

Ah. como gostava! . Corália.) — E você. Tem inveja porque levo uma vida decente.. com essa história de que só faço que ele quer. antigamente. Ele só come a comida que eu mesma faço. ALICE (Levantando-se e derrubando a cadeira. que se transformou numa morta-viva por sua culpa. não deixa aquilo.que se casou? E quando Cristiano estava no hospital.. quem é você? Pensa que só porque teve outra educação. Que ridículo! ALICE — Você tem inveja de mim. e é verdade.) — Não diga esse nome. hein? ALICE — Fiquei. Agora quer outra vítima... logo você? Como é hipócrita! Já esqueceu o que você fazia comigo no quarto. a patetinha... quantas vezes ficou à noite com ele. é melhor do que eu? Você uma vez me disse que destrói as coisas ao seu redor. Mas recompõe-se. sim. Até perdi a conta.) O maridinho não quer isso.) . Fiquei duas noites inteiras. quinze noites.) — Digo e repito quantas vezes eu quiser: Corália! Corália! ARETUSA (Cobre o rosto com as mãos. Alice? A doméstica. Você não tem direito! ALICE (Fora de si..) Você acabou também com aquela menina. Enganou a todos. E não foi só isso. Inveja. esqueceu? Quando a gente ficava sozinha? A santinha esqueceu. porque é independente e trabalha fora. dez. é isso. como se fosse chorar. (Lenta e cruel. Alice.Pare de me acusar! Afinal. Pois eu fiquei cinco.. Aretusa? Não basta Corália? ARETUSA (Gritando. decente? Decente. ARETUSA (Irônica.. mas bem que gostava. ARETUSA (Vulgar. (Imitando.) — Duas noites? Duas noites inteiras? Mas que sacrificada. Você estragou a vida de Renato..) — Você. até o marido.

Sei de tudo. Alice.Pare com isso. Vocês não sabiam. (Olhando em volta.Sei a história de Matias. Evelyn aperta-o mais nos braços.Alice. você não está segura. Alice. Todos olham para Alice que. atemorizada.Cale-se! ARETUSA . como se fosse tomá-lo. Pensa que Aretusa já revelou tudo? Ela é louca. a dona-de-casa . sim.É a história mais ridícula do mundo. Bruno a abraça protetoramente.) EVELYN (Passando a mão no braço de Alice..) Acha que é a única mulher do mundo a perder um filho? Cristiano está morto. Alice. Você pensava que estaria segura na sua vidinha confortável enquanto os outro iam se desgraçando? Não. (Evelyn recua.) Mas o que é que todos somos? (Lentamente.) — Não chore. começa a chorar. ALICE (Afastando brusca a mão de Evelyn) .) E esse boneco nojento não vai substituí-lo. Convença-se: ele está morto. (Evelyn encolhe-se. Ninguém está. Alice? Até o nome dele guardei.) — Acabou. Alice. é uma ordinária. Evelyn! EVELYN (Para os outros.O que a gente fazia. quer saber de uma coisa? Estou farta do seu teatro. Evelyn. Está vendo.) . um por um. você mesma me contou. ALICE (Gritando. agora tudo acabou. assustada.) Sei de tudo. EVELYN (Afastando Bruno. tenha cuidado com o que fala. (Aponta para o Palhaço. Não foi por mal. hein? Não vá me dizer agora que era brincadeirinha de criança. ALICE .) — Tirem ela daqui! Ela está louca! (Ninguém se move.) BRUNO .) EVELYN ..Evelyn. parada. Sei a história de Matias. a boazinha.ALICE . mas eu sabia. porque não éramos mais crianças! (Aretusa levanta-se e sai de repente.

O Professor continua a comer como se nada tivesse acontecido.. Uma vergonha! (Gritando.Evelyn.. Tudo isso. Bruno sai atrás chamando. O que faz com ele. onde há um caixão de defunto e. Alice? Ou foi tudo invenção da sua cabeça? Faz diferença saber? (Levanta-se. (Sai. o que sente. a cada momento. EVELYN (Desvencilhando-se. Mas contém-se. depois senta-se. Alice Menina. e por um momento é como se fosse fazer um gesto em direção à Alice. (Levanta-se e joga o Palhaço na cara de Alice. Apanha .) -Mas o mais engraçado vocês ainda não sabem.) Ela tem um amante. Um amante que se chama Matias. por favor. foi inventado. Alice. PROFESSOR (Batendo a bengala. Berta parada. parados nos quatro cantos do palco. mas foge de casa e vai trepar com outro homem! BRUNO (Tentando abraçá-la.) Cadela! (Sai correndo.) RENATO — Evelyn está doente.) .) Sozinha na sala. Aretusa Menina. Finge de santa. Vocês nem adivinham..) RENATO (Levanta-se inibido. E invenção dela.) — Berta. Renato bate ritmada e irritantemente com a faca no copo. está na hora de subir. Boa-noite. Matias. ALICE (Em voz baixa. sim.) — Eu vou dar uma volta.) — Você teve mesmo um amante. Pensam que não é possível.. fique calma. em lençóis alheios? Ah.honesta. Matias só existe na cabeça dela. Matias. Ela tem que se tratar. mas é possível. Alice? Você rolou com ele em leitos escusos. esse amante. Você teve um amante. é verdade. Evelyn Menina e Renato Menino.se e ajuda-o nas escadas. Alice hesita por uns momentos. (Berta aproxima. essa traição. essa sujeira. Acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. Saem. Ela tem um amante! Isso mesmo: um amante. ela me contou. como era doce com ele.

Umas crianças solitárias. fui para um proprietário menos exigente. num terreno baldio. animais. ARETUSA MENINA. o que eu fiz com a minha vida? O quê? . Feras encurraladas nesta sala. enquanto eles falam. escorraçadas. E falam sem as características das suas personagens: são como fantasmas. Berta tentou nos acolher no seu avental fedorento. Uma gargalhada infantil corta a cena. no centro da mesa.) CENA 18 ALICE MENINA. EVELYN MENINA e RENATO MENINO A luz mantém-se ainda sobre o Palhaço. sem se importar se o outro conseguiu escapar. menos violento — mas meu dono. mas não deu certo. E a minha vida. esquisitas. na moldura do espelho rachado que aceita essas imagens tão placidamente. como se ocultasse no fundo coisas muito mais terríveis. E na hora do perigo correm cada um para o seu lado. Troquei de dono quando me casei. EVELYN — Crias sem mãe.o Palhaço e senta-o no centro da mesa. a de mãos ásperas e coração agoniado. ALICE — Eu tinha outros planos para minha vida. ARETUSA — Como feras. Somos bichos de focinho sujo. RENATO — Fomos uma ninhada de cachorrinhos que brincam juntos. mas logo são capazes de se dilacerar por um naco de carne. mas acabei sendo Alice. a coitada. Sai. sem olhar para trás.

Só precisa de repouso agora. de robe. BRUNO (Para Berta. Chove muito. Há uma toalha limpa sobre a mesa onde estão Alice.) Você me alcança o açúcar? Alice alcança.) — Pelo contrário. Aretusa. com cara de sono. feliz por voltar para casa? ALICE (Tranqüila.) — Berta. vou pedir para colocarmos um . afetuosa. Aretusa desce a escada. Todos sorriem e tomam seu café. está ótima. ALICE (Para Renato. Berta está parada atrás. RENATO. (Uma pausa. pode levar a bandeja para Evelyn. (Noutro tom. que sorri sem levantar o rosto. Tudo bem. Renato e Bruno. Ela dormiu melhor essa noite. para Alice. BRUNO. Passa a mão no cabelo de Renato.Não. ARETUSA.) — Então.) Sabe.CENA 19 ALICE.) ALICE (Para Bruno. Alice. MARIDO e FILHO Na sala. Manhã de segunda feira. RENATO . tudo bem.Feliz. tomando café. BERTA. A chuva forte dá vontade de dormir. numa hora em que meu marido estiver de bom-humor. Alice olha devagar em volta.) — Você não ficou dolorido? Duas noites seguidas naquele sofá acabam com as costas de qualquer um. Ela não vai descer.) . ARETUSA (Acendendo um cigarro.) . Todos estão calmos e compostos.Evelyn não está bem? BRUNO (Sorridente. (Berta apanha uma bandeja com café e sai.

Dizem que dá impressão de mais espaço. (Em fevereiro de 1984. calor de 40º.Corália na cadeira de rodas. Alice e Aretusa adolescentes. o Professor no quarto. Ninguém diz nada. acende-se a luz sobre a sala da casa de Alice.com/group/digitalsource http://groups. Berta recortando revistas. O Marido e o Filho estão à mesa. O que é que você acha? ARETUSA (Sorridente. São como quadros vivos. Ou fantasmas do passado que continuam a habitar a casa. etc.) http://groups. Ou de brusco.google. A luz apaga lentamente. tornando café. Renato Menino preparando a arma.google.) -. acendem-se luzes e sobre algumas das cenas já’ vistas . Passa o leite? Alice estende-lhe o bule de leite. Nos outros planos. em resistência. Em outro plano. num soco .talvez com a gargalhada infantil. se acariciando.espelho grande na sala lá de casa. Porto Alegre. exatamente como na primeira cena do primeiro ato. Evelyn embalando o Palhaço. As duas se olham longamente.com/group/Viciados_em_Livros .

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