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Teatro Completo

Governador do Estado
Antonio Britto

Secretário da Cultura
Carlos Jorge Appel

Diretora do Instituto Estadual do Livro
Tania Franco Carvalhal

Conselho Editorial do IEL
Donaldo Schüler, Henry Saatkamp, La Masina, Luiz Antonio de Assis Brasil, Rita T. Schmidt, Sergio da Costa Franco, Sergio Faraco, Tania Franco Carvalhal (presidente, Secretária: Agata Pamplona

DEDALUS - Acervo - FFLCH-LE 21300123222

Outras obras do autor pela Editora Sulina Ovelhas Negras (1995) Inventário do Ir-remediável (1995) Pequenas Epifanias (1996)

Caio Fernando Abreu

Teatro Completo
Organização e prefácio: Luiz Arthur Nunes

Editora Sulina
Porto Alegre

1997

© 1997 by Abreu, Caio Fernando Capa: concepção e produção de Paria Comunicação Projeto gráfico: Bentancur Artes Gráficas Assessoramento de edição e revisão: Paulo Bentancur e Raimundo Fonteneie Editor: Luis Gomes CIP - BRASIL CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Bibliotecária responsável: Rosemarie Bianchessi dos Santos — CRB 10/797

C719a Abreu, Caio Fernando Teatro Completo / Abreu, Caio Fernando Porto Alegre : Sulina / IEL — Instituto Estadual do Livro, 1997. 224 p. : ±1. ISBN 85 205 0132—x CDU 070

Índices alfabéticos para catálogo sistemático 1. Teatro completo. Título Todosos direitos desta edição reservados a,,, ORGANIZAÇAO SULINA DE REPRESENTAÇOES S. A. Editora Sulina Rua Riachuelo, 1218 — 2° andar — 90010-273 Fone: (051) 228-1249 Fax: (051) 228-0734 E-mail: sulina@sulina.com.br Home Page: http://www.sulina.com.br Distribuidora Sulina Rua Cel. Genuíno, 290 — 90010-350 Fones: (051) 226-3866 — 226-3786 Fax: (051) 228-9146 Porto Alegre — RS

IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

ÍNDICE PREFÁCIO .................................................................. .7 PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA ............. 11 A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS ................................. 41 ZONA CONTAMINADA ............................................... 61 O HOMEM E A MANCHA ........................................... 95 CENAS AVULSAS ........................................................ 129 DIÁLOGO 1 ................................................................ 131 DIÁLOGO 2 ................................................................ 133 DIÁLOGO 3 ................................................................ 133 DIÁLOGO 4(0 Aborto) ................................................ 134 DIÁLOGO 5 ............................................................... 135 SARAUDAS9ÀS11 ....................................................... 137 1° QUADRO (Overture) .............................................. 139 2° QUADRO (Como Era Verde o Meu Vale) ................ 142 3° QUADRO (Bonecos Chineses) ................................ 144 4° QUADRO (Eles) ...................................................... 151 A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO .................................. 153 REUNIÃO DE FAMÍLIA ................................................ 181

. O significado e a repercussão da parte conhecida de sua obra eclipsou essa segunda vertente. porém.. foi mais do que um espectador aficionado: tornou-se um homem de teatro. o palco que ele tanto amava. Não concluiria o curso. Caio sempre adorou teatro. assim como também não concluiu o curso de Letras. nas salas de espetáculo. as que ele compôs diretamente para o palco. a sua geração. num mergulho sem método. conhecia todo mundo da classe teatral. teatro. No entanto. Avesso à rigidez de programas. Naquela época. nas salas de ensaio. cursávamos o CAD. Caio era dos que estavam sempre junto. Caio também cultivou a literatura dramática. Lembro-me dele numa peça infantil da escola. fazendo o papel de um vovó com uma barba branca de algodão. preferia passar pelas coisas como num vôo. teatro. Não demorou muito e Caio tornou-se nosso colega. mas sim às peças de teatro. mas não menos importante. menor.PREFÁCIO Caio Fernando Abreu é reconhecido como um dos ficcionistas mais brilhantes da literatura brasileira contemporânea. que a ficção que escreveu não foi apenas narrativa. novelas e romances. que se iniciava — assim como ele na literatura — na descoberta apaixonada de uma forma de expressão. via tudo. Poucos sabem. nas mesas de bar onde o assunto era teatro. épica: contos. Não de imediato. é interessante a significação que teve o teatro infantil para este solteirão empedernido que detestava crianças (a quem costumava . Aliás. mas nem por isso menos alto e profundo. o Curso de Arte Dramática da Faculdade de Filosofia da UFRGS. porém. Nos fins da década de 60 era apenas o amigo querido da nova geração de atores e diretores de Porto Alegre. Não me refiro aqui às várias adaptações feitas para a cena a partir de suas histórias. prazos e currículos.

Fabricar uma obra de arte a dois é em princípio algo dificílimo. uma deliciosa e tocante performance de comicidade e lirismo. A Maldição do Vale Negro. Caio e eu pisamos juntos o mesmo palco em 1976. e Caio fazia justamente o papel do. Performance que.. no espetáculo Sarau das 9 às 11.. Então fomos parceiros não só ―nas tábuas‖. voltara a morar em Porto Alegre. uma encomenda do Teatro Vivo de Irene Brietzke. realização do Grupo de Teatro Província. A última vez que comprovei esse fato foi quando da leitura que ele fez de sua peça recém-concluída: O Homem e a Mancha. A Comunidade do Arco-Iris. Mas podia acontecer . Tinha sido fácil nos esquetes do Sarau e continuou sendo na segunda versão da Maldição. junto de Suzana Saldanha. já doente. durante os feriados de carnaval.. e com enorme sucesso. na casa do ator Carlos Moreno. autor da história recontada.chamar de ―crionças‖. como também ―de pena‖. Mas não para nós. no apartamento de Caio na Haddock Lobo em São Paulo. repetiu publicamente em duas ocasiões. principalmente quando sua algazarra atrapalhava seus preciosos momentos de criação). A peça era uma recriação do Chapeuzinho Vermelho. estreada em Porto Alegre sob a direção de Suzana Saldanha. foi retomado e ampliado dez anos depois para ser montado como um espetáculo completo. conheceu o palco por dentro. latinhas de cerveja e pizzas por telefone. redigíamos juntos: a frase que um inventava puxava a frase do outro. para quem a escrevera de encomenda.. quando. Foram quatro dias de gargalhadas. Essa recriação. Nara Keiserman e José de Abreu. Via de regra. Como vêem. O Sarau era uma peça de esquetes. Algum tempo depois. O último deles. Caio foi autor. fiquei sabendo. dirigida por mim. foi feita novamente em colaboração. ele foi autor de verdade de um texto para ―crionças‖. Essa leitura ficou-me na memória como uma. E bom ator. Ele excursionou vários meses pelo Rio Grande do Sul atuando na montagem do Serafimfim-fim de Carlos Meceni. e nós os escrevemos a quatro mãos. E muito café e os milhares de cigarros que ele fumava. embora bissexto.

O primeiro deles. Interferíamos reciprocamente em nossas invenções sem nenhum constrangimento. montagem de 81.também de um escrever uma cena e do outro retocá-la. ―Fundiu-se‖ é a palavra. Uma outra dessas cenas avulsas. não fôssemos nós dramaturgos siameses. que ele o dedicou a mim na abertura de seu livro de contos Morangos Mofados. que Luciano Alabarse teve o privilégio . Zona Contaminada. Pouco tempo depois. 1977. Graças à montagem carioca de A Maldição do Vale Negro. Caio produziu cinco diálogos curtos. o Diálogo do Companheiro. A primeira investida independente de Caio na dramaturgia foi com Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. a Censura Federal a interditou em todo o território nacional. acabou fundindo-se à peça de minha autoria. Todos esses diálogos de uma página ou menos. no Teatro de Arena. serviram-me também de excelente material de exercício em minhas aulas de teatro. eu refiz repetidas vezes e de variadas formas em outros espetáculoscolagem. Não saberia precisar a data em que foi escrita. As obras teatrais de Caio Abreu s quais o meu nome não esteve de nenhuma forma associado (fora o caso de seus contos e novelas teatralizados) são a já citada Comunidade do Arco-Iris. Que sintonia era essa? Era como brincar juntos. Uma outra vez em que brincamos de teatro foi quando precisei de textos para um novo espetáculo de esquetes: deColagem. uma pequena obra-prima. Seguramente logo após os anos que ele viveu em Londres. Love. e a admirável adaptação para a cena. nos inícios dos 70. foi dirigida por mim e musicada pelo também saudoso Carlinhos Hartlieb. de Lya Luft. A de Porto Alegre. Só sei que a obra foi premiada num concurso do então SNT (Serviço Nacional de Teatro) e selecionada para leituras públicas em todo o Brasil. montada pela primeira vez no Rio de Janeiro por Gilberto Gavronski. dividimos o Prêmio Moliére de melhor autor de 1988. Tamanha a minha ―obsessão‖ por esse texto. que ele fez do romance Reunião de Família. O Aborto. experiência que aparece transfigurada na peça. Love. Love.

No momento em que ponho ponto final neste prefácio. o Garoto Bombril não quis realizá-la. ele nos disse: ―Façam logo para dar tempo de eu assistir‖. outro amigo seu do coração. Será no Theatro São Pedro.de encenar em Porto Alegre. o épico vira dramático. Afinal. A parceria interrompida por um tempo já foi retomada. mesmo inconfessados. Não faz um ano que Caio nos deixou. estamos a uma semana da estréia de O Homem e a Mancha. na maior parte da sua produção teatral eu estive presente. Não há motivo para ciúmes. Quando a recebemos de um Caio já debilitado. Por impedimentos normais. Esse trabalho é a melhor comprovação de que Caio foi dramaturgo de fato e não um narrador por diletantismo pondo em diálogo suas histórias. Ele sabia e dominava a diferença de gêneros. a narrativa vira cena. Curiosamente. não assisti nenhuma dessas montagens. o contar vira representar. Porto Alegre. e ela terminou nas minhas mãos e nas do ator Marcos Breda. O Homem e a Mancha. Certamente ele não vai perder. Sua última peça. Minha analista com certeza detectará algum ciúme meu vendo Caio fazer teatro com ―outros‖. Na operação por que passou em suas mãos o livro de Lya Luft. 14 de novembro de 1996. coisas da vida. Luiz Arthur Nunes .

PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA Peça em 1 Ato Prêmio Serviço Nacional do Teatro Texto selecionado para leitura .

CENÁRIO Sala de uma casa abandonada. cadeiras rasgadas.PERSONAGENS JOÃO • LEO • BABY • MONA (CARLINHA BAIXO-ASTRAL) • ROSINHA • ALICE COOPER • ANGEL São todos muito jovens. parece mais um quarto de despejo. atulhado de objetos fora de uso: colchões furados. Entre 20/30 anos. e até mesmo objetos absurdos que ficam ao gosto do diretor. . guarda-roupas. espelhos quebrados. Na verdade. enfim. lixo.

Acho que podemos instalar aqui os nossos domínios. Yeah! Everybody now: tinha uma porra no meio do caminho. tem alguém aí? BABY .Língua internacional. Baby! BABY — Do fundo das trevas só o silêncio nos responde. LEO — Fala baixo. BABY . Acende e deposita em cima de um móvel.Anybody here? LEO (Baixo. Pode ter gente aí. cara? Que barulho é esse? Tem alguém aí? JOÃO — Não. No meio do caminho tinha uma porra. Ei. BABY . LEO — João. A luz de uma lanterna vai revelando alguns objetos. cara. meu santo. onde é que você está? JOÃO — Aqui.Tinha uma porra no meio do caminho..) Aqui.CENA 1 Quando a ação começa. (Tira uma vela do bolso. falando inglês as possibilidades de comunicação são muito maiores. podemos colocar uma cortina de veludo cor de vinho. A lanterna pertence a João. por exemplo.. Tem uma porrada de coisas. Só uma porra no meio do caminho.) Merda! LEO — Que foi.. Com .. JOÃO — Cala boca. A luz aumenta.. irmãos.) — Mania de falar inglês. a cena está completamente às escuras. Quando você está no mundo. JOÃO — Melhor.. Tão lentamente que chegue a ficar monótono e angustiante. se tiver alguém morando a gente fica logo sabendo. (Esbarra num móvel. vem cá.

é claro. LEO — Por que dez pras sete e não vinte pras oito? BABY — Porque eu gosto. Qualquer jeito não temos mesmo para onde ir. BABY — Eu por mim fico aqui mesmo. As dez pras sete.) — Olha. Ou papoulas. muito vulgar. my fellow? LEO . A gente ficar aqui. banheiro. Que é que vocês acham? . igual àquele que tinha na casa da vó Manca. Acho sonoro. de manhã sempre acontece alguma coisa. Depois. I like so much.Você acha que não vai ter problema? BABY — O que? Importar tulipas ou plantar papoulas? LEO — Não. João — Falar nisso. Até nem tá muito estragado. igual àquela que tinha na casa da tia Nenê. rosas não. cara..E também pode não acontecer nada. Sei lá. E claro que teremos sempre flores. JOÃO (Acende outra vela e deposita sobre outro móvel. A gente pode dar um jeito. o dono da casa. Estético. eu acho que gente pode ficar pelo menos até amanhecer. Importadas diretamente dos Países Baixos. BABY — Basta chamar Mona e sua varinha de condão. Assim poderemos fabricar nosso próprio ópio. vizinho. Hmmmm. As coisas mais importantes da minha vida sempre aconteceram às dez pras sete. LEO — E ainda por cima tem aquela chuva lá fora. What you think about. Não. essas coisas. Fico preocupado com a Rosinha naquela chuva. um monte de coisas. Rosas. polícia. Melhor tulipas. Sempre acontece alguma coisa. cozinha com fogão. JOÃO .franjas douradas. Por mim fico morando aqui o resto da vida.. Aqui no canto acho que ficará de extremo bom-gosto um aparador com tampo de mármore. Tulipas da Antuérpia. tenho que chamar as outras pessoas. Já viu lá em cima? Tem três quartos.

JOÃO . acende. LEO — Mas pode ser que.) CENA 2 Silêncio. Pode ser que voltam daqui a pouco. cara se você der uma voltinha na cidade ou olhar pela janela vai ver que o depósito de lixo lá de fora é muito maior! . volto já. Leo.. Não vai acontecer nada. Leo rói as unhas e olha em volta lentamente. Parece que nada mais vai ser bonito outra vez. tira uma vela do bolso.Eu não sei. Fica com medo não. amanhã pinta a polícia e manda a gente embora. a gente chamou e ninguém se manifestou. sei lá. BABY — Olha. coloca ao lado das outras duas e senta num canto.Bem.LEO . um pouco assustado. Parece um depósito de lixo. as pessoas tenham saído. tão rebentado. não é? Tudo está bem quando termina bem. eu me sinto como se tivesse acabado. não é assim? Pelo menos a gente já tem onde dormir esta noite. Afinal. eu vou lá fora chamar os outros. Amanhã a gente arruma umas vassouras e. dá um jeito.. Baby começa a dedilhar o violão. parece que tudo vai terminar bem.. LEO — Não sei. sei lá. não. Tudo tão velho. JOÃO — Deixa de ser besta.. Leo concorda em silêncio. (Sai.. Leo. No máximo. Sabe. tão sujo. Não tenha medo. mas é diferente.. e nós não vamos viver? JOÃO — Sim. Você acha que alguém pode viver no meio deste lixo todo? BABY — Ué. Não gosto nada disso. E se tiver alguém morando? BABY — Ué...

quer ver? Eu quero mesmo muito pouco eu quase não quero nada de tão pouco que eu quero. ué. Um canto e um papo furado. Acabei de compor. Ladies and gentlemen. RRRaimundo. aí você vai ver que não está tão mal assim.Nisso o quê? LEO — Nisso que você acaba de cantar. quer saber duma coisa? E .Eu não entendo nada de inglês. um tostão faz de conta. If I Called Myself Raimundo. Ninguém entende nada de nada e enquanto tudo cai eu canto por quase nada.. Thing like that. como é que se diz isso em inglês? LEO .. um teto furado? BABY — Olha. Nem sequer de que estou realmente vivo. Eu sei de agora. fria lá de fora. BABY — Pois devia.mesmo furado.. Sei lá.Que música mais doida. meu santo. também. é melhor do que ficar naquela chuva.. Deixe ver. certeza eu não tenho mesmo de nada. um pobre cego mas com o olho bem aberto: uma canoa furada um barco sem fundo tudo é mundo e o céu é perto tudo é mundo e eu navego tudo é mundo e eu navego tudo é mundo. vasto mundo e eu nem me chamo Raimundo. Pode ser que. Olha.. LEO — Me diz uma coisa: você acredita nisso? Você tem certeza absoluta que acredita mesmo nisso? BABY .. Que sarro esta pronúncia. Talvez eu seja muito louco mas basta um canto e um teto . Amanhã não sei. De onde foi que você tirou esse negócio? BABY — Da minha cuca.. me entende? Agora basta um teto.Quando a gente está se sentindo assim é só olhar em volta . LEO ..dar o tal de look-around -. quero dizer. Baby. Ei. A gente dá o tal look-around e canta. Sem saber inglês você nunca vai subir na vida.. Não tem importância... my last song: Se Eu Me Chamasse Raimundo... Um vintém. você acha que basta mesmo um papo furado.. Assim.

Desde que parei de ler fiquei muito menos neurótica. O tal de inconsciente coletivo.) Pra espantar os maus fluídos. Não aprofunda não. só sentir. Traz uma bolsa enorme. MONA — Corta! Lá vem você de novo com esse papo xaropento. meu irmão. não. / Chegou Mona. LEO . Já não falei pra você que intelectualismo não é comigo. MONA — Hare krishna.. Quando a gente aprofunda demais acaba caindo sabe onde? No inconsciente coletivo. BABY — Imagine como você não era antes. MONA — Sabe com eu era antes? Um monstrinho de óculos cheio de problemas gênero ―será que vale a pena viver? — ninguém me . Baby? Abaixo a razão e o pensamento! O negócio é só sentir..melhor não aprofundar muito. depois entrega uma varinha para cada um. Os arquétipos. distribuindo beijinhos. Já ouviu falar num cara chamado Jung? Mais ou menos isso. go home! (Incensa um pouco a sala. Não tá com nada. sacou? Papo furado. Hare Rama / Hare Rama. Vê... vê. Leo. vê. Nossa. inimiga do mal. não.O quê? BABY — In-cons-ci-en-te co-le-ti-vo. você está com uma cara péssima! O que foi agora? Não está gostando do nosso novo lar? BABY — Não é nada. Hare Rama / Rama Rama. / Más vibrações. / Forças do Baixo-Astral / fora daqui. Hare Rama. Pensar acabou. / Chegou Mona.. não se usa mais. uma vela acesa e duas varinhas de incenso na mão. Rainha do Alto-Astral. go home! / Más vibrações.. Me dá um cigarro. Pensar já era. Hare krishna / Krishna Krishna. CENA 3 Entra Mona.

. Baby. MONA — Corta.. Mas o que tem isso? MONA — Como o que tem isso? Esotericamente é um dado importantíssimo. eu sei. Corta essa. não. É cinqüenta e oito. me diz uma coisa: você olhou o número da casa? LEO — Eu olhei.. não quero nem saber.. LEO . LEO — Onde? Na lata de lixo? MONA . Olha. transmutação.ama. ninguém me quer — o que vou fazer do meu futuro?‖ essas porcarias. (Depositando a vela ao lado das outras. Se você souber olhar as coisas dum jeito mágico. O número sempre diz como vai ser toda a transação da coisa. no seu olho que realmente vê. corta. que papo é esse? MONA — É. dentro de você.Quer dizer então que a sua bed-trip continua a mesma? Puxa. Ninguém me ama ou qualquer coisa do gênero. para fechar o triangulo. oh. sei lá. LEO — Mágico? Nem que eu fosse o Merlin conseguiria achar bonita essa merda toda. Já vi coisa pior. é a morte. Deve ter um . Na sua cuca... fim de um ciclo. Além disso. sabe duma coisa que eu aprendi? O segredo do belo está aqui. Mas Morte pode ter muitos sentidos. renascimento. tem também o cinqüenta e oito. Ah. corta! (Acende mais uma varinha de incenso. Cinqüenta e oito? Cinqüenta e oito. quanto dá? BABY — Dá treze.Ei. Não necessariamente morte física ou espiritual mas. E se você está querendo saber qual é a carta do Tarot que tem o número treze. (Dá umas voltas enquanto Baby dedilha no violão. Cinco mais oito. tudo fica mais bonito.) Três. renovação. Sou Mona.) Não tá mau. Treze é morte mesmo. Agora chega. começo de outro. a Rainha do Alto-Astral. deixa ver. você sempre acha tudo um lixo.) Mas deixa eu dar uma olhada no nosso novo lar.

não você não é tão inteligente assim.. a transmutação.. Não vale a pena ficar se grilando à toa... Pois é.) — Nada não. quer dizer que é um dos quatro. muito irônico para Libra... .. O que é acerbos? MONA — Não sei. o centauro com os pés na terra. muito calmo para Gêmeos.O que foi? MONA (Tentando disfarçar..Ah. quatro de espadas: ―Perigo eminente. Você é sarcástico demais para ser Libra. consulta-o.) Aqui.. Ações repreensíveis. mas não sei não. mas deve ser qualquer coisa bodiante..significado positivo. não tanto quanto um Escorpião.. não diga... meu Deus.) — ―Sofrimentos morais. de Sagitário.) Essa transação de música pode ser. você é que acredita nisso. melhor esquecer essas coisas. qual é o seu signo? Não. Só pode ser Sagitário. Claro. muito doce para Escorpião.. Pode deixar que eu adivinho. BABY .. Cinqüenta e oito. Querendo voar junto ao o satã.. Decepções n& projetos. Perigo por todas as partes. BABY — Qual é Mona? Escondendo a jogada? (Tomando-lhe o livro. Gêmeos ou Sagitário? MONA ... Mudanças desfav..‖ MONA — Chega.. esse fogo. BABY — Ué. Mas até onde não me enche a cuca de grilos idiotas. BABY (Continua lendo. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah. pode ser Libra. Talvez Gêmeos. MONA — Acredito. E essa transação do inconsciente coletivo. deve ser Sagitário. Remorsos. BABY — Libra. é? Deixa ver. a trans. Arrependimentos estéreis e acerbos‖..) Ah. Escorpião. Deixa ver (Abre a bolsa e tira um livro enorme. sim.. E por falar nisso. O seu olho tem qualquer coisa de. (Observa Baby atentamente.

De vez em quando até solto umas fumacinhas pelo nariz. sabia? Está na cara que você é fogo. BABY — Pode ser. não pode ser. MONA — Você gosta de vermelho? BABY .Mas escapar do quê. Meu ascendente é Touro. Foi por isso que eu me confundi um pouco. meus irmãos. a quem não for mágico. fogo caindo dos céus — tudo de bodiento que você possa imaginar. ainda não. . os seus poderes ocultos. MONA . claro. o quanto antes — eu sei o que digo. Afinal.Tem certeza? MONA — Não. é a primeira vez em toda a minha vida que erro. Tanto Leão como Sagitário são signos do fogo. você não tem? BABY . LEO .A-do-ro! MONA — Então é Sagitário mesmo! BABY . Tenho direito a uma pergunta? BABY . Vão acontecer coisas medonhas a quem não estiver desperto.Vai firme. minha reputação está em jogo. MONA — O quê? Leão? Ah. maremotos. O quanto antes. MONA — Mas é fogo. não.Não. hein? Vocês precisam despertar o quanto antes o ser aquariano que dorme no fundo de vocês. Mas você deve pelo menos ter um ascendente em Sagitário. terremotos. Daqui a pouco vem o fim dos tempos e quem não for mágico não vai escapar. baixo-astral? Tomem muito cuidado vocês dois.Errou.O que é que você está rindo. meu Deus? MONA — Das inundações. Sou Leão.BABY .

como é que você sabe que eu sou Peixes? BABY (E começando a empurrar alguns objetos. por apenas dez cruzeiros.) — Chutando. quando chegar o Apocalipse é que a gente vai ver. Cada consulta dá direito a um brinde: uma bola de cristal inteiramente grátis. LEO . (Canta. eu sou eu sou amor da cabeça aos pés. BABY — Passado. MONA (Incensando a cara de Baby. João. Nem de fogo.) MONA — A Rosinha não está nada bem... Por que é que você não corta esse papo furado e vem me dar uma força aqui? (Leo e Mona começam a ajudar. recolha-se s suas trevas sagitarianas.Mas você não tem cara de mágico. Estou em contato direto com forças paranormais.) Ser eu sou. meu amor. LEO — Ei. Baixo-Astral. Vai ser difícil: tenho Vênus na décima primeira casa astral. Eles foram comprar alguma coisa para comer.) — Vade-retro. Você está a fim de me irritar. parece que a tua vibração não está harmonizando com a minha. Onde é que estão as pessoas? Alice. Papo furado. tive três encarnações no Tibet. sete moradas da minha mente e a minha Kundalini já subiu no mínimo até o quinto chakra. duas no Egito e uma em Atlantida — para falar só neste planeta. chutando. Sei porque sou um espírito muito velho. já abri as sete portas. Pode agredir. BABY — Apocalipse. presente e futuro. meu irmão. em Libra. 3 sacerdotisa oriental. Para dizer a verdade. Tudo com Madame Mona Yoiara.. Vinte com mais detalhes. MONA — Baby. com essa cara você deve ser mesmo é Peixes: um bode só. não. Rosinha. Apocalipse é esse lixo todo aqui. eu sou..O que é que tem a Rosinha? .

é você? JOÃO (0ff) . LEO — É a polícia. cara? Mulher é isso aí. na próxima vou para o espaço. Mona corre a acender mais ama varinha de incenso. Será que é fantasma? Essa casa é tão velha. Mona remexe no meio de algumas coisas e encontra um vaso com flores. (Arrumam alguns colchões como sofas.Sou eu. tudo historinha. Me ajuda aqui. historinha. Pode desamarrar o bode. Se caprichar nesta.) Você acha que aqui fica bem? LEO — Silêncio! Vocês também ouviram? Tem alguém lá fora.MONA — Gravidez. deve estar cheia de más vibrações. Um bode. João. (Baby sai para ajudar João. MONA — Ai. MONA — No escuro ninguém nota.) (Entra Rosinha. BABY — Claro que você prefere a segunda hipótese. Olhe só em volta: já temos uma casa. Mutante da Era de Aquário. A Rosinha está passando mal. amparada por Baby e João. Baby. MONA — Sem essa. Devem ser só as pessoas chegando. ) MONA — Que é isso. Ela geme sempre. não é. Você sabe muito bem que eu sou andrógina. Ou então venho homem.De plástico.. menina? Está tudo bem agora. Não tem mais essa de se sentir mal. Acho que estou pagando todo o meu Karma nesta encarnação. meus guias do Oriente.) Olhem só que bom presságio: flores! LEO . (Ajeita o vaso num canto. Inconsciente coletivo outra vez. tenho certeza que é a polícia! BABY — Historinha.. Você não gosta? . desencarno de vez.

. Já que a gente vai ficar aqui a noite toda e ninguém vai dormir. claro. Tem até flores..exceto Baby. Eu. vejam só o que eu achei: um monte de roupas. (Vai retirando coisas de dentro de um baú). pessoal. Sinto uma dor horrível aqui.Ainda não. Vamos transformar isso aqui num castelo.Você demorou tanto. qual é a de vocês. tá sabendo? Me re-ne-go. Lá fora estava chovendo. MONA — Ei. Tenho certeza que vou encontrar coisas ainda mais maravilhosas.Foi a Rosinha. Como é. (Começam a cobrir tudo com panos. Puxa. Já está quase parecendo uma casa. não sei. me ajuda a cobrir esses colchões.. Nós até tentamos arrumar um pouco isso aqui. podemos fazer uma coisa ótimo uma festa à fantasia! O que é que vocês acham? (Ninguém parece muito entusiasmado . Já vai passar. Baby.) Olha. hein? Vão ficar a noite toda com essas caras de velório. não consigo nem olhar para fora de mim. também. sombra.) Meu Deus. JOÃO .. Mona. Mas não tem nada. não apareceu ninguém? LEO . quentinho. MONA — Está maravilhoso. Vamos fazer uma festa enquanto o dia não . LEO — De plástico. Na minha bolsa tenho batom. LEO . parece que tem coisas incríveis.ROSINHA — Ah. ROSINHA — João. Me dá tua mão. tive uma idéia maravilhosa. sem dizer nada? Eu me renego a curtir bode. Daqui a pouco eu fico boa. purpurina. fazia frio... fica aqui comigo. Aqui está bom. JOÃO — Ficou bonito. MONA — Baixo-astral. JOÃO — Alice foi batalhar pão. BABY — Não apareceu nem vai aparecer.

deixa ver. violava todas as mulheres. Agora faça um ar de.) Você assaltava navios armados até os dentes. quando Alice chegar. uma vez o feiticeiro da tribo fez uma tatuagem no seu . eu não sei. ROSINHA — Ah. jogando para fora toda essa luz. o que é que você quer ser? JOÃO — Ser? Eu. para bem longe. (Afasta-se para olhar. Sabe que é assim que eu vejo você? às vezes até penso que você deve mesmo ter sido um pirata numa outra encarnação. senhora.... Eles adoravam você..) Levante um pouco a cabeça. (Começa a vesti-lo. da hipocrisia. matava aqueles fidalgos gordos cobertos de seda.) Pronto: aqui está a manjedoura. Ela adora visual.) Um ser todo feito de luz entrou no seu corpo e plantou essa semente em seu ventre. Então nós todos estaremos salvos. Pode ser loucura minha. Isso aqui é o seu manto virginal. você está muito pálida. menina. Batom..sabe o que você fazia. mas sempre acho que você grávida assim parece a Virgem Maria.... eu não tenho jeito pra essas coisas. Pode crer.. Uma pirata bom. Você foi tocada por forças mágicas enquanto dormia. Assim.. do medo. das máquinas. Mona. oferecendo o maior visual. numa boa. A cada dia você sente que chega mais perto o momento em que o seu ventre explodirá. do desamor. MONA (Começando a vestir Rosinha. (Acende uma varinha de incenso e vai incensando Rosinha enquanto fala.) — Tem sim. MONA — Pois eu sei. João. da violência. da sujeira. Um pouco de ruge. Olhe por cima de todo mundo.. Deste então você sabe que no seu interior está crescendo a única coisa capaz de salvar o mundo da loucura.chega? Já pensou.. incendiava. de absoluta pureza. todo esse amor.. João? Você distribuía todo o ouro roubado entre os pretos de uma aldeia na costa de Madagascar. roubava todo o ouro e depois . Já pensou? O seu filho pode ser até o próprio Cristo da Era de Aquário? Você precisa corresponder à nobreza do seu futuro filho.. Você. (Coloca um cesto de palha aos pés de Rosinha. Um pirata. encontrar todo mundo colorido. Rosinha tenta sorrir.. Agora você.

Do que é que você quer se fantasiar? LEO — Eu não quero me fantasiar. Leo.) Você vive num castelo sobre a montanha mais alta e mais escarpada. Eu não quero ouvir estórias. Você anda sempre disfarçado. MONA — Você é um príncipe. só nesse dia todos vão saber que você sempre foi um príncipe. isso é tudo. Você está sempre esperando o reino que prometeram. esse. Então você tem sempre a sensação que ninguém o conhece. ROSINHA — Mas por quê. Só nesse dia você mostrará o seu verdadeiro rosto dourado e tocará seu alaúde para que todos fiquem contentes e sintam amor. Eu sou Leo. Você só poderia ser morto no dia em que esse pedacinho do seu peito fosse atingido.Eu sou Leo. E você.peito. As vezes você desce a montanha e vai até a vila e tenta conversar com as pessoas. . signo Peixes. MONA — Eu sei. Mas você se sente sozinho no meio deles.. você ainda está vivo. Mas um príncipe solitário. um pirata um pouco perdido no meio das cidades. você atravessou os séculos e continua sendo aquele mesmo pirata. porque você não pode se mostrar como realmente é. o ritual durou sete luas novas.. E assim ainda não aconteceu. (Começa a vesti-lo. sempre com vontade de voltar para o mar. LEO .Eu quero ser um príncipe. LEO — Mona inventa estórias. menos esse círculo. BABY . e você está esperando esse reino. quando o encantamento quebrar e o seu reino for revelado. (Vai desenhando com batom no peito de João. elas não sabem que você é um príncipe. de paz e amor.) Um círculo mágico fechou todo o seu corpo.. um reino de paz e amor.. Leo? Mona inventa estórias tão bonitas. Alguém lhe prometeu um reino certa vez. que ninguém o entende. Só nesse dia.

LEO — Eu não consigo. A gente só consegue ver o que está dentro da gente. Olho em volta e acho tudo nojento. Aqui. MONA .. Porque você não consegue ver além do chão. Isso aqui é uma casa abandonada. Eu não posso fingir que isso aqui é um castelo. uma árvore. um rio. O seu olho daqui é que transforma tudo.) — Tente. E você só consegue ver o sujo. O que é que você quer que eu faça? MONA (Mansa. não é um castelo: nós somos uns coitados mortos de fome. uma nuvem. procure sentir amor.Você não é. LEO — Eu já não tenho mais idade para fazer de conta. Olhe pra mim: faz mais de uma semana que não tomo banho . Eu não estou fazendo nada de errado. A sua cuca é que é feia. Rosinha não é a Virgem Maria. O que acontece é que você ainda não aprendeu a olhar. não somos mágicos nem encantados. Sei lá. Sonhe.. Só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas. a mente pode te alimentar com flores. o feio e o doente das coisas. um pássaro. Voe. E vou lhe dizer porque. nada é maravilhoso. Eu não posso fingir que viver é uma coisa boa. O seu jeito de olhar. porque você acha que as coisas só tem um lado. Tudo isso está dentro de você. meio loucos e sem ter sequer onde dormir. Imagine. Nada é horrível. MONA — Faz de conta.João não é um pirata. na sua cuca. Pelo menos sorria. meu irmão. na sua mente. Invente. Você é exatamente igual a esses cinzentos todos que estão lá fora. esse que o seu olho sujo vê. Eu não posso fingir que este lugar é bonito. que nós somos mágicos e encantados. suja e doente. tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto. Se a realidade te alimenta com merda. Eu não quero fingir.Mas eu não posso fingir que não estou com fome. Você acha que isso é mau? LEO . cheia de lixo. Baby não é um príncipe.

Mona hesita um pouco. Não suporto mais não ter banheiro. Amor para mim inclui lençóis limpos. Não suporto mais o meu próprio cheiro. porque ficaria muito feio para você não me beijar agora. LEO — É mentira! Você me beija porque os outros estão olhando. Faz dois meses que quebrei um dente e não tenho dinheiro para ir ao dentista. almofadas macias. Olhe a minha boca: um lixo. beija-o. passarinhos na varanda. Vamos ter girassóis no terraço. Eu já sei: é baixo-astral pensar nessas coisas. Para mim. Eu vou te amar muito. Nenhum de nós tem..) Se você vem e me diz: agora nós vamos viver juntos e ser felizes para sempre. não ter nada. Tudo bem. paz e amor não são coisa nenhuma quando o que cerca você é lixo. Elas já estão pegajosas. o mundo é uma grande lata de lixo e nós somos apenas as moscas esvoaçando sobre essa merda toda. não diga nada. não ter casa. amor e o caralho: você seria capaz de esquecer toda a sujeira do meu corpo e me dar um beijo? Silêncio. porque você acha que isso é bonito. depois. . a fome.. Mas eu pergunto: e quem é que vai lavar os pratos. a pobreza. não é? Pois para mim baixo-astral é o banheiro imundo. Olhe bem pra mim e me diga: você acha que alguém seria capaz de me amar com esta roupa imunda. Faz quinze dias que uso mesmas meias. dessas suas normas de bem viver à la Seleções do Reader‘s Digest. Eu estou cansado desse seu esoterismo de bolso. com esta boca podre? Você.. (Irônico. você mesma que fala de espírito. banho tomado e barriga cheia. Paz e amor. Eu não posso sorrir mais. grudadas nos meus pés.. baixo-astral é o lixo. E isso eu não tenho.. paz. Eu não acredito em você.. quem vai varrer o chão. você vai me amar muito.nem faço a barba. vinhos e queijos todas as noites. meu anjo. quem vai limpar a privada? Quem vai batalhar a maldita grana? Ou vamos estar tão ocupados em nos amar profundamente que não teremos de pensar nessas coisas? Não.

irrompe logo após as últimas palavras de Leo e serve como música a entrar de Alice Cooper. Vejam só: (abre a bolsa e joga vários pães para cima. minha bruxinha tropical? MONA — Só combina. chá. Angelito? Nós nos complementamos.) ANGEL — Buenas noches para todos. (Entra Angel com uma mochila nas costas. estoy veniendo de la Argentina para el Peru.) E trouxe também um hóspede. ALICE . você nunca foi tão bem-vindo em toda a sua vida! Imagine que estas pessoas ainda estão discutindo o tal de Inconsciente Coletivo. Água e terra sempre se completam.Alice Cooper. BABY.CENA 4 (Um rock pesadíssimo de Alice Cooper . é? Se estiverem digam logo: quero participar. tá falado. chá. Chá. chá. que loucura é essa people? Quem é que estava berrando feito louco aqui dentro? Estão currando alguém.Não é umas gracinha? Tem vinte aninhos e é Capricórnio. E um rapaz muito maquiado e vestido de maneira ostensivamente andrógina. Pois enquanto vocês ficam aqui de bobeira eu descolo coisas incríveis.) — Cetim. E se ela falou. Estoy encantado en conocerlos. Leo apanha um e começa a comer vorazmente. purpurina e tafetá brocado. chá. ALICE — Inconsciente coletivo — eu hein? Pra mim é piraçâo. Capricórnio combina com Escorpião. miçangas — ah! meu negócio é ofuscar meu negócio é rebrilhar meu negócio é cintilar. muita seda e muito strass veludo. Yo soy Angel. ALICE — Viu só.) ALICE (Cantando. . Falou a Rainha do Alto Astral.talvez Killer . chá eu sou Alice dos mil plás eu sou Alice dos boás eu sou Alice superstar! Cruz credo. lules.

He viajado mucho todo ei dia. altíssimo Astral! ANGEL — Pero yo podria jurar por mi perra madre que eres Carlinha BajoAstral. ANGEL — Encantado en conocerlos..Como sabés que Carlinha vivia en Cochabamba? ALICE — Ah. pero creo que te conozco de otro sítio. no conozco Cochabamba.. Bien. seforita. la misma.. ANGEL (Intrigado. Tenia exactamente mismo tipo físico desta otra. a barra mais bissexual da paróquia. MONA — Pois eu me visto de mulher. Anjo. una barra un poquito pesada demás. Tenía trajes de chico. vai ficar obsessivo agora.) . pero era. ei mismo pelo... era una chica muy. carifio. Está se vendo que ele não me conhece. muy fatigado. sem essa.) — Perdón. No eres Carlinha Bajo-Astral? MONA — Quem? Carlinha Baixo-Astral? Muito antes pelo contrário. No. como decir? muy peligrosa. e eu sou Alice Cooper. muy extravagante. A ia noche todos nosotros temíamos encontraria por las calies. chiquito eu sou Mona. sí puede ser que yo estea equivocado. ALICE — Espera aí. Além disso. Ei mismo tipo físico. minha pitonisa dos pampas? MONA — Nem morta.ANGEL (Prestando atenção em Mona. sabés? Estoy muy. detesto a cor negra e tenho horror de violência. é? Forças! Esta daqui é Mona a Rainha do Alto-Astral. como é que era essa tal Carlinha Baixo-Astral? ANGEL . ALICE — Será que ele descobriu sua identidade secreta. bien. y le gustaba la violencia. Angelito. esta chica no puede ser Carlinha es demasiado simpática. . MONA — Gracias.Bueno.... minha fadinha underground? A sua face oculta. siempre de la color negra.

o que e que você acha da gente fazer um som na praça. Meu som vai ser é no Carnegie Hail. chocante. A gente podia escandalizar o mundo com nossas lascívias. parece uma festa..) . maquiado. aplaudindo e dando força. você sabe que sempre tive uma tesão secreta por você? Que pena você ser tão limitado sexualmente. minha nega. Quem foi que teve essa idéia maravilhosa? MONA — Fui eu. Já que a gente vai mesmo ficar aqui a noite toda. bem? Ei. Mona. O negócio é pesar a barra. Alice. De feia basta aquela cidade lá fora. Misticismo não tá com nada.ALICE — Mas que loucura é essa? Agora que estou reparando. Dou a maior força.. tá sabendo? Meu Deus. se masturba. João. Depois a gente passa o chapéu e levanta a grana. que coisa mais macha! João.) Little Rose. não encontrei nenhuma farmácia aberta. Inconsciente Coletivo. com Mick Jagger no coro e Ney Matogrosso no platéia.. (Para Baby. BABY (Fingindo afetação) — Você acha mesmo. não é? ALICE — Pode crer. dança rumba. tira a roupa. muito proleta pro meu gabarito. Você tá uma verdadeira glória. Inconsciente Coletivo. achei que era melhor fazer uma festa à fantasia. MONA — Carifio. é? Chocante. mas se você rastejar a meus pés sou até capaz de cantar uma dessas suas musiquinhas subdesenvolvidas. Fique sabendo que sou gente fina demais pra cantar numa mísera praça. Rosinha. .) Você também tá uma gracinha. meu amor. (Para Rosinha. ALICE (Superior. faz o que você quiser. um milhão de sorrys mas acho que você nem precisa mais de remédio.Mona me diz que sou a Virgem da Era de Aquário. Todo mundo colorido. você tem sorte honey.Eu bem? Tá pensando que eu sou o que? Muito vulgar.. meu santo. domingo? Eu toco e você canta. Descaralhar. creo que tengo la fantasia ideal para usted. quer dizer que você continua curtindo essa de meninos de Deus. tango. ROSINHA . ALICE — Cruzes.

Jogue a sua energia sexual pra onde você quiser — desde que não seja pra cima do meu angelito. ALICE (Interferindo e arrancando-lhe a mochila.) — Queridíssima. tá legal. só estou fantasiando o menino. Você não quer tirar essa mochila? Senão vai ficar um anjo meio corcunda de Notre Dame. suas piranhas enrustidas. MONA (Ofendida. ALICE (Entediado.ANGEL . mas respeito. MONA — Além do mais. pra cuca. Mas não se esqueça que ele vai ficar é comigo. meu bem. E você.) — Tá legal. meu espanhol é um lixo. (Conciliadora..) Eu sou assexuada. tá? Primeiro: esse menino que aqui vês foi caçado por mim e vai ficar é comigo. botar as asinhas a camisolinha e tudo.) . respeito toda essa sua transação de astral e tudo — acho que não tá com nada.) — Qual é. Leo. BABY (Tirando um acorde do violão. tirar a mochilinha. tá legal? Segundo: você pode fantasiar ele à vontade. um momento! Adoro você. Só quero que você me respeite também. entendeu bem? (Para os outros. Alice? Botando o escorpião pra funcionar é? Até parece que você não me conhece. não vai jogar uns panos por cima dessa caretice horrorosa? . Não sei se fui suficientemente explícito. você sabe muitíssimo bem que mando todas as minhas energias sexuais pra cima. Quero voar.) Isso vale para todos vocês também. Espera aí que eu ajudo. Além disso. dou a maior força..Que ótimo.Que hermoso! Pero puedes hablar portugues. ALICE (Seco.) — Cris-ta-li-no como sempre. yo entiendo todo. você sabe. Então vamos deixar algumas coisas bem claras.Acho bom. MONA .

meu amor. veio me perguntar se eu era homem ou mulher. Olha. te dou um conselho Alice Cooper sabe o que diz: você tem que ser maravilhoso. fique pelo menos com o gostinho de ter brilhado um pouco. cara. Blusão de couro. Pelo menos faço eles pensar um pouco.deixe o vento soprar.) Forças! Prefiro ele de mochila e calça Lee mesmo. botas.) — Não. se aproxima um pouco mais de meu ideal. Pra falar a verdade meu gênero mesmo são aqueles motoqueiros da pesada. Você não acha que tudo ficaria mais bonito se as pessoas jogassem uns panos e umas cores por cima? LEO — Eu acho que tem coisa mais importante que isso. na maior perplexidade. Quando entro num lugar. let it be.Tem nada. Mas que se há de fazer? Deus também não é perfeito. Existe coisa melhor do que você curtir seu próprio material? Eu me curto adoidado. Tenho certeza que ele ficou encucado uns três dias. Uma vez um careta. fica todo mundo em silêncio. MONA . Eu respondi: — Sei lá queridinho. curta adoidado! Sabe. jeans manchados de graxa. meu filho. olhando pra mim. muita corrente. no mínimo. Ora vê se pode. um certo visual. depois de me olhar milênios. Curte.) — E por que não. senão ninguém vai te olhar nunca. Como é mesmo aquela frase do seu Tarot? Mona? . ALICE .LEO (Seco.Não sei. cara? Forças! Colorido fica tudo muito mais bonito! Sabe uma coisa que eu descobri depois de muita porrada? As pessoas têm a obrigação de oferecer. Tratamento de choque. mãos cheias de calos . meu amor. pra mim a vida é um punhado de lantejoulas e purpurina que o vento sopra. Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo . Angelical demais pro meu gosto. Sou uma força para todos esses urbanóides. ALICE (Espantado. viril e agreste (Suspirando. filhinho.rude. acho que sou apenas um fenômeno contemporâneo. se faz muito meu gênero.

) — É. tira o que precisa quem não precisa bota lá de novo. (Para Mona. Custa muito barato lá. Mona? MONA (Misteriosa. Falou. ANGEL — Si. você não vai me vestir? MONA (Depois de olhar bem para Alice. (Zé Rodrix: Som imaginário. Quem precisa. É isso aí. Angelito.) E eu. Estou cansada. ALICE (Olhando bem para Mona. si. Existe apenas um copo . Você também não precisa. enquanto ela serve. para mi está muy bien.Chá de quê. tira uma garrafa térmica. Mona.) Pero si te gusta. Nós já oferecemos visual sem necessidade de panos. ROSINHA . MONA (Pensativa. ALICE — Coisas celestiais eu vou te mostrar daqui a pouco. Me encantam todas estas cosas celestiales. (Remexe na bolsa. .. (Para Angel. a mi me gusta mucho. que deve passar de mão em mão como na cerimônia japonesa do chá. Mona canta.MONA .Qual? ALICE — ―El contentamento nel poco abre las puertas de lo mucho. acabo de ter uma idéia sensacional: cada um que beber faz um pedido em voz alta.) ALICE — Ei. todos sentam em semicírculo. Nós não precisamos.a tampa da garrafa térmica.) — Pensando bem..) – Adivinhe. Todo dia sete de cada mês uma fadinha boa traz um pacotinho do Nepal. Chá de ervas orientais.) ―No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato No Nepal existe uma praça bem redonda e cheia de dinheiro. eu acho que você não precisa de fantasia nenhuma. Vocês querem um chá? (Exclamações entusiásticas.) — É. Enquanto dura a ação. Primeiro nosso hóspede: Angel. No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato‖.) Tenho uma garrafa térmica na minha bolsa.

pescando e plantando. Bonitas. virar o maior mito pop do século e morrer no auge da fama da juventude e da beleza nos braços de um motoqueiro.ANGEL (Bebendo. . (Bebe. ROSINHA (Gemendo. Y quiero tanbién que sea todo muy hermoso. Não. las yerbas mágicas y las vibraciones de Macchu-Picchu. ALICE — Que desejo mais besta. Na beira do mar. E você. Onde eu possa tocar minha viola e ter minhas coisas..) — Eu.. ALICE .Eu quero ir para Nova Jorque.) — Eu agora quero ver as coisas mais bonitas que o meu olho nem sempre quer ver As coisas mais bonitas e mais incríveis que o meu olho nem sempre quer ver.... BABY — Eu? Eu quero um canto pra mim.) — Eu só queria parar de sentir esta dor. João? JOÃO (Cantarola.. Las llamas blanquitas.) — ―Eu quero uma casa no campo‖. MONA — Eu só quero uma coisa: que baixe um disco-voador e me leve para longe desta mesma ci-vi-li-za-çâo de pessoas cinzentas. Little Rose. MONA (Tentando ajudar. longe desta civilização.) — É.. LEO (Hesitando. eu acho que eu queria conseguir ver as coisas um pouco mais.) — Yo quiero solo llegar a Peru. ROSINHA — Mas é só o que eu quero agora Alice.) CENA 5 BABY (Cantando. construir uma casinha de madeira branca e ficar morando lá. no campo não.) — Bonitas? LEO (Com um suspiro..

. com essa roupa de . João. assistir televisão no seu fuscão. onde a gente possa ser inteiro. BABY — Quem nunca dançou não vai poder dançar agora.) JOÃO — Você vem comigo.Quem nunca andou no fio da navalha não sabe o que é rasgar a própria mortalha. cuidando dos jardins. Tem essa dor cravada aqui. de todo esse barulho. tirando leite. João? JOÃO (Lentamente. Quem nunca voou além do cascalho quando olha no espelho só vê um espantalho. menina? Você está tão bonita. um lugar perto domar. Eu não suporto mais a cidade. senhor e senhora se você não decolou talvez seja melhor que vá embora. nada mais tem explicação. longe da cidade. Rosinha.. Sabe.) . TODOS — Talvez seja melhor que vá embora talvez seja melhor que vá embora no seu fuscão. Nunca te vi tão bonita como agora. dos gerânios. assistir televisão. dentro de mim. Rosinha? ROSINHA — Pra onde. a terra. TODOS — Colorido-colorido no banco da praça colorido-colorido não transo cachaça. Lamento dizer.) — Morrer? Que idéia é essa. eu fico imaginando você fazendo pão. (Voltam todos a seus lugares — o autor acha importante esclarecer que. claro que vou.O campo. sonhador. As vezes eu acho que vou enlouquecer no meio de toda essa correria. ROSINHA — Eu vou com você. Você gosta tanto de gerânios. Será que eu vou morrer. agora eu não posso. BABY .TODOS — Colorido-colorido atrás da vidraça colorido-colorido no fio da fumaça colorido-colorido no fundo da taça. essa ansiedade nas pessoas. a partir de agora. João? JOÃO (Sorrindo. Mas agora.

interrompe. a natureza — vão ficar cada vez mais distantes. vinte e sete — não importa. Faz cinco anos que você fala a mesma coisa. As coisas vão ficar cada vez mais duras. mais poluído você fica. Você já não é tão jovem.Pega na minha mão. a volta à natureza. o campo. a terra. você já não acredita tanto nas pessoas. Fico te vendo exatamente assim como você está agora na beira do mar caminhando na grama cuidando dos gerânios. Não güento mais a caretice desse cara. E um dia tudo não vai ter passado de um sonho. Vamos. Na cidade as coisas são feias porque é tudo mentira. Eu já não sou tão jovem. Um só basta. LEO (Irônico. A mesma coisa.) -Já ouvi esse papo antes. Lá. o mar. Porque é que você não vai de uma vez? O que é que você está esperando? O que é que você está fazendo para realizar o seu sonho? ALICE (Interrompendo. Rosinha e o que é verdade sempre é bonito. sendo verdadeira. inútil. Faz cinco anos que eu conheço você. ROSINHA . Que idade você tem? Eu sei: vinte e cinco. Ornar. O seu corpo vai-se decompor lentamente e você vai criar barriga e acreditar cada vez menos em todas as coisas. Angelito? . João. Quanto mais você ficar aqui. E todo esse tempo dç agora não será mais que um longo tempo perdido. Não falta muito pra você ter trinta anos. os seus dentes estão ficando estragados. tudo vai ser verdade. vinte e seis. jogado fora. em você mesmo.) — Pois eu vou realizar o meu sonho agora mesmo. João. Sempre. O seu cabelo já começou a cair. o que a gente diz. O campo. Cada vez é mais difícil você se libertar. ALICE — Uau! Que exagero. O que a gente faz. até mesmo o que a gente sente — é tudo mentira. mais envolvido com a cidade.Virgem Maria. Um dia você vai lembrar de tudo e pensar com tristeza: ―loucuras da juventude‖. Tem outra peça lá em cima? JOÃO — Tem três quartos.

(Alice sai empurrando Angel em direção à porta.Por que mi nombre es Angel? Hay un oscuro sentido por detrás de mi nombre.) — O ofício dos anjos é voar. volar. enquanto este repete que quer voar.. Eu não sou só eu.. sabes? Yo quiero volar hasta los sitios encantados..... perderme nel cielo.Voar. A gente só consegue conhecer alguém ou alguma coisa quando olha para ela bem de frente.. ANGEL . hasta los sítios encantados.. Olhe firme no meu olho. Olhe firme no meu olho e me responda: você tem medo de mim? LEO .. me encara fundo. Não existe divisão. por entre las nubes. Que hacen los angeles? MONA (Imóvel. ) CENA 6 BABY — Será que você não entende que as coisas mudaram? LEO ...... Me gustaria tanto. yo nunca seré un angel. e todas as coisas que eu vejo.Eu tenho medo.ANGEL .. Me diz o que é que você está vendo no fundo das minhas pupilas? LEO . se você não tivesse medo de mim... BABY — Você não me entende porquê você nos divide em dois: eu e você. volar. yo quiero ser como un pájaro. volar. . Eu sou também você e todos os outros. Yo tendria que volar para que fuera un angel. BABY — Eu poderia te ajudar.No fundo das tuas pupilas eu vejo meu próprio rosto... cara a cara.Eu não te entendo.. Você não me entende porque você nunca me olhou...

. eu dei aquele passo eu venci o fim do mundo. Que aquela mancha branca era a velhice. Se você tiver medo de mim é porque você tem medo de você. Eu precisava dar um passo além do fim do mundo. nenhuma forma. O fim do mundo era o silêncio e o vazio. E eu venci.BABY . No dia em que visitei o fim do mundo nasceu uma mancha branca dentro da minha cabeça. Eu não queria ficar lá. para mim era o fim do mundo. um apartamento ou uma rua qualquer. Eu não podia pedir socorro. com todo aquele branco-liso dentro de mim. e eu cantei: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim. Foi então que eu descobri o jeito de dar esse passo. Diriam talvez que eu estava louco. BABY — Então vou te contar uma estória que é o meu segredo.E no fundo das suas pupilas eu vejo o meu próprio rosto. choques elétricos. E sabe como era o fim do mundo? Ele era branco e liso. eu acho que eu não tenho medo de você. A maneira de vencer o fim do mundo era enchê-lo de sons e de cores. Não tinha nada lá. havia várias pessoas à minha volta... Leo. Eu estava sozinho no fim do mundo e não podia ter medo. E nunca mais ninguém me entenderia. Agora. eu não estava preparado. Mas para mim. eu não queria ficar sozinho. grades na janela. Para eles podia ser uma praia. cada vez que eu volto lá eu canto essa musiquinha. Se eu tivesse medo ficaria lá para sempre. Era a solidão absoluta. Então uma canção brotou do fim de mim. Naquele dia. Quando eu olho no seu olho eu sou você e você é eu.) E tão fácil. Eu sabia que se contasse aos outros do que estava vendo. . Leo. Me diga agora. ninguém entenderia. Basta cantar: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim. Canta comigo. Depois eu fui saber que eu tinha envelhecido. Leo? (Apanha um vidrinho de purpurina e começa a salpicar o rosto de Leo. outra vez: você tem medo de mim? LEO .. Nenhuma cor. E tomariam as providências que se costuma tomar com os loucos: clínicas. Você não quer cantar comigo. O fim do mundo estava dentro de mim.Não.

Ele está querendo ir embora. Seria simples.O que foi? ROSINHA — É ele.... não. E muito cedo.. mas eu tenho medo. Baby. Talvez bastasse qualquer coisa como chegar muito perto de você. fica tudo lindo e eu não tenho medo. tudo isso aqui. Se eu pudesse catar junto com você.. canta mais.. JOÃO ... ... Não pare de cantar. só sorrir.) LEO (Estremecendo e afastando-se de Baby.) . MONA (Sorrindo.) — Eu não posso. (Rosinha geme. (Olha em volta..LEO (Recuando. me dá tua mão.. não posso. Leo... ROSINHA — João.) Silencio! Vocês não estão ouvindo? (Todos escutam.. que continua imóvel. Tudo acontece no momento certo...Não tenham medo. Eu tenho medo.. para mim é tão desconhecido e tão estranho como um sonho que ainda não tive. Canta. MONA (Imóvel.Eu estou cheia de dor. Quem sabe daqui a pouco eu consigo cantar junto também. eu sei.) — Eu estou cheia de luz. Eu reconheço esse barulho de máquina sobrevoando a casa. ele não vai conseguir. JOÃO — Do que é que você está falando Mona? ROSINHA (Sempre gemendo.) — Não tenho medo. Quando você canta.. Ou sorrir. exceto Mona. canta para embalar o menino.) Vocês. ele está querendo sair de dentro de mim. Seria fácil. João. Baby. Baby canta — até ser interrompido por um grito de Rosinha. Todos se aproximam.. Qualquer coisa assim.. muito serena. Se eu pudesse sentir bonito.. está ficando escuro dentro de mim.) — É a polícia! Eu sei que é a polícia! ROSINHA — Não.. são eles. MONA . é ele querendo sair de dentro de mim. passar a mão no teu cabelo e te chamar de amigo.

Dos discos voadores. dizem que essas pessoas exalam mau cheiro. Leo. você não ia me levar para o mar? Será que é muito longe. louros. escuro. Eles são altos. João? Nós não íamos para o campo. Exatamente sobre minha cabeça. Estão bem aqui em cima agora. A minha mãe me avisou. E uma nave enorme.) — Bicho papão. boi. sobre o lótus de mil . dourada. João. manda a cuca sair de cima do telhado. cheios de luz. e não pode fugir do bicho-papão. Eu estou preparada para entrar na nave.. boi.. mamãe em Belém. João? Você deixou o menino sozinho? Eu te disse para não deixar o menino sozinho. MONA (No meio da cena.) — Agora eles estão bem em cima do telhado. Mona? MONA — Deles. Leo. exatamente sobre o meu sétimo chakra. Baby.BABY (Cantando. Boi. Dos extraterrestres. Eu não tenho mau cheiro. eu não sou feia. Não se deve deixar os meninos pequenos como ele perto do poço. é feia. Dorme neném que a cuca já lá vem papai tá na roça.. João? Por onde eu tenho andado. O único jeito de vencer a cuca é pingar uma gota d‘água na testa dela até furar. até furar. Nós precisamos chegar a tempo. Faz três anos que eu não fumo nem como carne. Ele não pode correr. Dizem que eles não se aproximam de quem come carne e de quem fuma. do boi da cara preta.. Aonde eu fui. Tem o poço. João. Ele é muito pequeno. eu não sou suja. sai de cima do telhado deixa meu menino dormir sossegado. Ele é tão pequeno que ainda não tem pernas como os outros meninos. Mona levanta-se e começa a andar lentamente pela sala. olhando para cima — como se acompanhasse rumores e movimentos no andar superior. você está ouvindo. da cuca.. o poço fundo. João? Eu não podia deixar o menino assim sozinho perto daquele poço. O menino vai cair lá dentro. é suja. A cuca é má. JOÃO — Do que você está falando.) — João.. Eles vieram me buscar porque eu estou preparada. ROSINHA (Enquanto ela fala.. boi da cara preta leva esse menino que tem medo de careta..

Me ajuda. Um vidro nas mãos. (Apanha a bolsa e vai tirando se dentro alguns instrumentos musicais: flauta. pandeiro. D6i tanto. volte aqui! ROSINHA . Seu manto branco está manchado de sangue. misturado a rumor de máquina — qualquer coisa como um automóvel em alta velocidade. Muito pálida. Eu preciso deixar vocês. há um silêncio. Quando a luz volta. Já cumpri minha missão aqui. Baby continua cantando canções de Ninar. Não se esqueçam disso. Rosinha está deitada. João está em pé. etc. Vocês não estão sentindo a vibração? Essa luz dourada baixando devagar sobre as coisas. E o único jeito de vencer o fim do mundo.. João.) Foi Baby quem me ensinou: quando tudo fica difícil a gente canta e toca. Agora eu entendo. João. justamente agora aqui. nesta noite? Tudo faz sentido. eu sei. . Esperei tanto tempo. João. a Rainha do Alto Astral. Esperei tanto tempo. a chuva mas eu consigo ouvir mudamente a voz deles chamando pelo meu nome. nesta casa. São eles. Vocês ouvem como eles me chamam? Parece o vento. estou indo. Ao mesmo tempo: Ouve-se um grito de Rosinha. Black-out.Mona. onde tudo é dourado. Canta mais. Baby. Leo e Baby. imóvel. volte aqui.Deixa ela ir. para o alto astral. para o outro lado.. tanto. JOÃO . Não deixa ele ir embora. Antes de ir embora vou deixar uma lembrança. MONA — Eu disse que ele era a única coisa capaz de salvar o mundo. o último presente de Mona. Se ele for embora o mundo acaba. para depois do sol. disco-voador não existe! Você está louca. Nada é gratuito. Quando você canta é como se parasse de doer. Como é que eu podia saber que aconteceria agora. estão ajoelhados em atitude de adoração. um som eletrônico ou uma explosão. bongo. Eu preciso ir.pétalas. os braços estendidos acima da cabeça. Eles vão me levar para lá. Eu . Mona.

baixa os braços lentamente e deposita o vidro sobre a manjedoura.Dentro do vidro uma matéria sangrenta. maldito! Ahora te voy a matar con mis próprias manos! .) — Forças gente. ALICE — Tão ouvindo? Tá completamente pirado. onde é que você tá? JOÃO (Muito calmo.. mas o que foi que aconteceu aqui? Little-Rose. Quando pensei que ele estava numa boa.. eu. ALICE — O que? ANGEL (Entrando.. entrou numa que eu era um vampiro. ANGEL (0ff) — Donde estás. A cena permanece estática até o momento em que Alice entra correndo. eu preciso de forças! O anjinho pirou completamente! JOÃO (Muito calmo. Onde é que está Mona? (Chama. CENA 7 ALICE (Muito agitado. avança para Alice.. tive que fazer uma força incrível para botar ele noutra. príncipe de las tinieblas? No te ocultes de mi. com uma estaca de madeira e um martelo nas maos.) — Finalmente te encuentro. você está toda suja de sangue! Esse vidro.. Tengo que exterminar te. (Detém se e observa os outros. Quase que se jogou pela janela.) Ei. será que todo mundo enlouqueceu aqui dentro desta casa? Isso aqui está parecendo um filme de terror.) — O que foi que aconteceu? ALICE — O angelito portenho.) Mona. começou a correr atrás de mim com uma estaca e um martelo. Primeiro entrou numa que queria voar.) — Ela foi raptada por um disco-voador.. dizendo coisas. meu Deus. Mona.

/ abiertos en la plaza con fiebre de abanico / o emboscados en yertos paisajes de cicuta. cabron! Perro de los infiernos! No quiero escuchar tus sucias palavras! ALICE . Forças. o nome com que me batizaram? E Jaime Roberto. Você ficou influenciado.) — ―Maricas de todo el mundo. você está entrando numa errada comigo. Você não tinha onde dormir. calças compridas. convidei você pra dormir aqui. você é a primeira pessoas que eu conto isso. Calma. Olha. asesinos de palomas / Esclavos de la mujer. ANGEL — Callate. Nesse momento. perros de sus tocadores.Basta de comedias.. só isso. parada na porta está toda vestida de negro. assassinado por mochileiro argentino. Eis o meu segredo mais vergonhoso. não é nada disso.Espera aí. Anjinho.) ANGEL — Carlinha Bajo-Astral! . Traz um charuto aceso na mão. botas. vulgo Alice Cooper.) . entra um rock pesado. já estou vendo as manchetes no jornal amanhã: Jaime Roberto. Olha vou te contar um segredo que nunca contei para ninguém: sabe qual é o meu nome. Angelito! ANGEL (Gritando..) ANGEL (Declama García Lorca. Olhe para mim. talvez Lou Reed. meu Deus! Que coisa mais bagaceira.ALICE — Segurem esse tarado! Ele quer me cravar esse negócio no coração! (Ninguém se move.. eu fui legal. e acende um spot sobre Carlinha Baixo-Astral.. o meu nome verdadeiro mesmo. encontrei você na praça. Anjinho.‖ Muerte a todos los vampiros maricones! ALICE — Espera aí. Sou Alice Cooper. demônio! Es demasiado tarde! (Encosta a ponta da estaca no peito de Alice e ergue o martelo como se fosse desferir um golpe. sabe o que há de errado com você? E que você viu muito filme de horror.

) O que é andou acontecendo por aqui? Por que é que vocês estão vestidos desse jeito? Por que é que está garota está toda manchada do sangue? LEO . (Joga o charuto no chão e apaga com o pé. Deve ser importada. Fica muito bem em você. Tive sorte. bem? Você é da polícia.. Talvez fosse melhor ter morrido também.) Acabou. de Carnaby Street. não existem mais edifícios.Mona é a puta que os pariu. TODOS — Mona! CENA 8 CARLINHA . entendem? Só sobrou esta casa aqui. não existe mais nada. Muito Obrigado.CARLINHA — Em carne e osso.. boneca. (Puxa a navalha.. (Caminha olhando em volta.E por que você faz tantas perguntas. Agora vou ter que passar o resto da minha vida aqui com este bando de cretinos. não é? Tem um cheiro de King‘s Road. Ou foi você mesma que bordou? CARLINHA (Agressiva. Não gosto que me toquem. ROSINHA — Do que é que você está falando? . Vocês não ouviram a explosão? Explodiu tudo. acabou tudo. de Bibao.) — Polícia? Que polícia. Eu ia passando bem na hora da explosão.. sei lá porque. Hmmmm. sorte. Mantenha distância. por acaso? CARLINHA (Rindo debochada.) Há alguém aqui que duvide disso? ALICE . essa camiseta é maravilhosa. meu santo? Não existe mais polícia. já não existe mais cidade.) — Tira essas mãos nojentas de cima de mim. seja você quem for. Eu sou Carlinha Baixo-Astral.Bem. acaba de salvar a minha vida.

tendo nervos de aço. Virou cinza. Carlinha Baixo-Astral: você está querendo dizer que. Eu vejo e até curto em cima porque sou Carlinha Baixo-Astral. Já era.. Mas vocês. que o mundo terminou? ALICE — Terminou mesmo? Acabou? ANGEL . Aquele pão não dá nem pra um dia. como se dizia no meu tempo.. Alice... (Para Alice. boneca.. vísceras por toda parte.. CARLINHA — Para sempríssimo. lembra? Além disso. Tem as tais radiações atômicas. JOÃO — Deixa de ser besta. Mas não aconselho. Puf! Acabou. está horrível lá fora. Você está gozando com a nossa cara. ROSINHA — Quer dizer que nós vamos ficar aqui para sempre. sangue. é muita loucura. transo qualquer barra .. desculpe..Que pasa? No estoy entendiendo nada.de preferência as mais pesadas..Yo no entiendo lo que dice. quero dizer. Vão fazer a sua carne descolar dos ossos e cair todinha em feridas punilantes. Me dá um cigarro. LEO — Mas nós vamos morrer de fome. Tão paz e amor. Forever. tudo rebentado. não sei não. Como em Hiroshima. saia e veja com seus próprios olhos. CARLINHA — Uma explosão atômica. tão sensíveis. Gente morta. Vocês me parecem todos tão débeis. foi. Mona..) Por qué estan todos así? Que pasó? . ANGEL . ALICE — Tem aquele pão que eu trouxe.BABY — Espere aí. JOÃO — Não é possível. LEO — Quer dizer que aquela explosão foi. CARLINHA-Pois se você não acredita. BABY — Eu não posso acreditar. Alguém finalmente apertou o botão.

) .Se ha acabado todo.Eu tinha certeza que um dia você ia acabar concordando comigo.. No lo puedo creer.Quer dizer que vocês não estão apavorados? JOÃO . O Peru. no más. LEO . Nós não tínhamos mesmo nada a perder. ALICE — Na verdade eu não me impressiono com mais nada. decepcionada. E quer saber duma coisa? Se acabou mesmo dou a maior força. El mundo no puede terse acabado. E falando bem claro: na minha opinião foi um asseio. No es verdad.Eu acho que agora a gente pode começar tudo de novo. a Nova Guiné e o Piauí.E você... te conozco hace mucho tiempo.ALiCE — Lo que pasó. ANGEL — No es possible. Angelito. Una bombita. Pode ser que desta vez dê certo. gaveta? ..Eu concordo com você. Carlinha Bajo-Astral. CARLINHA (Mais decepcionada.. o Nepal. CARLINHA . Do jeito que estava só podia mesmo era acabar.Nem você? BABY . ALICE . CARLINHA . Yo sé que tu especialidad es pirar la cuca de la gente. ANGEL — No creo en esta chica.. ALICE — Es lo que dice la chica. Yo necessito yirme hasta ei Peru. (Olhando em volta. El Peru también se ha acabado? CARLINHA . una bombita.) Mas vocês não parecem muito impressionados. desde muy lejos. es que ei mundo se ha terminado. desde Cochabamba. Acho maravilhoso ter acabado.Não.

Parece também que é a última.) — O que é isso aí? ROSINHA — É o Cristo da Era de Aquário. Nós só estamos esperando o amanhecer.) . Cristo morreu. Nós não somos uma comunidade. Qual é o lema desta comunidade? JOÃO . JOÃO — Ele nasceu no momento da explosão. As nuvens de radioatividade são tão densas que não vão deixar passar os raios de soi por um bom tempo. CARLINHA (Apontando a manjedoura. CARLINHA .) . E na terceira: ―Já que estamos na merda. Será que a Era de Aquário começa agora? CARLINHA . BABY — Ele nasceu morto. . LEO — Ele foi assassinado pela bomba..Mas não vai amanhecer mais.Nós não temos lema nenhum. Ou para morrer. E o primeiro da Era de Aquário. gavetinha. nas outras comunidades onde morei. já que vamos ter que ficar aqui a vida toda. Sabem. sempre tinha um lema.O que? Nunca mais? CARLINHA (Lentamente. ROSINHA (Assustada. Na primeira era: ―Passarinho que come pedrinha sabe o cu que tem‖.ROSINHA . Na segunda era: ―Quem pariu Mateus. esta é a quarta comunidade onde moro.. diria que ele foi o último representante da Era de Peixes. chovia muito e ninguém tinha para onde ir. viva Cristo! Sabem. No mínimo uns dez anos. Se Mona estivesse aqui.Esse pelo menos escolheu o momento certo para nascer. pelo menos vamos comer uma laranja‖. Nós só estamos aqui porque a casa estava abandonada.Eu. que o embale‖.Nunca mais. Era meu filho. sei lá.

Mas esperando o quê? .ROSINHA (Gritando. Chame Mona. Ficar desesperado e arrancar os cabelos não resolve nada. LEO .) CARLINHA — Para mim não. Eu estou lembrando duma coisa. CARLINHA . a gente canta e toca‖. Silêncio. tudo bem. CARLINHA — Ela sempre sabe o que fazer pra gente ficar contente. De qualquer maneira nós temos que ficar aqui esperando. confusos. que o mundo tenha acabado. faz vinte e três anos que estou no escuro. Todos se entreolham.Mas o que é que a gente pode fazer? ANGEL — Nada. (Apanha os instrumentos musicais e começa a distribuí-los entre as pessoas.) — Ela está mentindo. Como é que eu posso tocar e cantar se o mundo acabou? LEO — E o que é que você vai fazer? Não há mais nada a ser feito. Antes de ir embora.Esperem. um presente. João! Eu não quero ficar no escuro! Mande ela embora.. ALICE — Bem. JOÃO — Mona foi embora com o disco-voador. Se o mundo acabou mesmo nós somos o novo mundo. Mas ficar dez anos no escuro? Ah. Solo esperar. ROSINHA . daqui a pouco amanhece e acontece alguma coisa. Ela disse assim: ―Quando tudo fica difícil.. Para falar a verdade. E a única maneira de vencer o fim do Mundo. Nosotros no podemos hacer nada. Nós estamos tranqüilos. E se não acabou. Mona deixou uma lembrança. vamos convir que é chó-cante! O que é que eu vou fazer sem um spot em cima de mim? BABY — Pra mim não faz diferença. Não gosto dela.

eu sei. Eu nunca fiz isso.) — O que aconteceu? ROSINHA — (Sem emoção. ALICE — Mas isso já faz muito tempo.) — Mas eu não sei tocar nem cantar. JOÃO — Então era mentira dela. não. Aparecem todos muito cansados. LEO — Eu também não sei. Só isso. Foi agorinha mesmo. LEO — (Como se despertasse de repente.LEO — Sei lá. CARLINHA — (Começando a ceder. Eles vão parando de tocar.) — Amanheceu. Não é difícil. até que vários spots começam a acender e fica tudo muito claro. Quando eu cheguei aqui. BABY— Ainda pouco? CARLINHA — É.) CENA 9 ROSINHA — (Sem emoção. faz pouco. Carlinha Bajo-Astral. Que tudo isso termine. (Carlinha hesita mas acaba aceitando o instrumento.Amanheceu. .) . O mundo não acabou. Você inventa. O meu negócio sempre foi só pesar a barra. Ninguém sabe. CARLINHA — Eu não menti. Não há nuvens de radioatividade tapando o sol. Sentam-se todos lentamente em semicírculo em tomo da manjedoura. ANGEL — Se han pasado siglos y siglos. Ainda pouco havia nuvens. Que a noite acabe. Qualquer coisa. CARLINHA — Não. Começam a tocar. Que o dia amanhece. Tocam alguns momentos.

LEO — Você tem certeza que são mesmo dez pras sete? (Nesse momento ouvem-se batidas muito fortes na porta. Ninguém se move. Um pequeno intervalo e as batidas se repetem, cada vez mais fortes.) JOÃO — (Sem emoção.) — Estão batendo na porta. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino, trazendo ouro, incenso e mirra. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. BABY — Ou Mona. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vem nos buscar também. LEO — É a polícia. Tenho certeza que é a polícia. ANGEL — Puede ser algun vecino. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. Os monstros, com aquela pele toda verde, apodrecendo e caindo... Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. ALICE — Piração, piração, tudo piraçâo: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. (Silêncio. As batidas aumentam. Ninguém se move.) JOÃO — Seja quem for, continua batendo. CARLINHA — Alguém precisa abrir logo essa maldita porta. LEO — Eu tenho medo. ALICE — Quem abrir a porta precisa dizer alguma coisa. ROSINHA — Eu não sei o que dizer. ANGEL — Bueno, hay que abrir la puerta e decir algo, no?

(As batidas aumentam, a luz também. O ideal seria uma lâmpada de mercúrio.) BABY — (Lentamente.) — Eu acho... eu acho que a gente só pode dizer uma coisa. (As batidas aumentam mais.) BABY — Eu acho que a gente só pode dizer que nós não temos culpa. Que nenhum de nós tem culpa de nada. A única coisa que nós estamos tentando fazer é encontrar o jeito de dar um passo além do fim do mundo. (Baby começa a tocar. As batidas aumentam cada vez mais. Os outros hesitam, mas aos poucos, um por um, começam também a tocar e a cantar. O som e as palavras — o autor sugere — deveriam ser totalmente improvisados pelos atores. As batidas só cessam quando o som estiver mais ou menos definido. E a peça só termina quando os atores e/ou a platéia estiverem cansados. Ou quando alguém bater na porta avisando que amanheceu e o teatro precisa ser fechado — Por que não?)

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Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-lo em nosso grupo.

A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS

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PERSONAGENS

SEREIA • BRUXA DE PANO • MÁGICO • ROQUE • SOLDADINHO • BAILARINA • TIÃO •SIMÃO •BASTIÃO 3 MACACOS

CENÁRIO

Um grande arco-íris ao fundo e um lago; um cartaz com letras coloridas com os dizeres: Comunidade do Arco-Íris. A cena está toda enfeitada de balões e bandeirinhas de papel como para uma festa. A Sereia está dormindo, recostada em uma das pedras do lago.

CENA 1

SEREIA — (Despertando e espreguiçando-se lentamente.) — Hmmmmmm, que sono gostoso! Sonhei umas coisas tão bonitas... (Apanha um espelho e um pente.) Meu Deus, mas estou horrorosa, toda descabelada. Daqui a pouco a festa vai começar e eu ainda nem estou pronta. (Penteia-se, muito vaidosa.) As crianças já devem estar chegando por aí. (Olha para o público.) Mas vocês já estão todas aqui dentro. (Para o público.) Desculpem, eu não tinha me dado conta, pensei que era bem mais cedo. Boa tarde, como vão vocês? Sabem, é que a gente trabalhou tanto para deixar tudo bonito que eu fiquei muito cansada e acabei pegando no sono sem querer. Já vou chamar os outros. (Para dentro.) Máááááááágico! As crianças já chegaram, está na hora de começar a festa!

CENA 2

BRUXA — (Entra correndo, muito estabanada.) — Tá na hora de começar a festa, é? (Olha em volta.) Ei, mas onde é que estão os doces e o guaraná? Ah, já sei, comeram tudo, não é? Comeram tudo e nem me avisaram... Só lembraram de me chamar depois que a festa tinha acabado. Eu sei, conheço vocês, é preconceito racial, só porque eu sou de pano e vocês de carne e osso. (Para a Sereia.) Racista! SEREIA — (Muito envergonhada por causa das crianças.) — Calma, Bruxa, não é nada disso... eu...

) .. SEREIA — (Conciliadora. às vezes ela fica um pouco atacada.) Por que você não disse logo. eeeeeeu? Mas logo eu? Pois olhe.. BRUXA — Vexame. fique sabendo que ela era uma saia de veludo muito fina.. (Para a Sereia. ouviu bem? E não fale mal da minha avó. já sei. gorda.Gorda vai ficar a sua avó. é? Bem feito. BRUXA — Atacada.BRUXA — Como que não é? Você sabe que eu adoro guaraná.. Onde é que estão todas aquelas garrafas? Foi você que tomou tudo. pra mim você não passa mesmo é duma sardinha enlatada. as crianças já chegaram e eu estou toda desarrumada.) Imagine eu.. quer que todo mundo me ache horrorosa.. As crianças devem estar pensando que você é completamente louca. E pare de me ofender..) Desculpem. não é? Conheço todos os seus truques.) — Olhe. (Para as crianças. Que desaforo! (Olhando-se no espelho. SEREIA — Você quer parar de dar vexame? Pelo menos respeite os nossos convidados. vá se enfeitar enquanto eu converso um pouco com as crianças. E quer saber duma coisa? Não me importo nem um pouco que a tal festa tenha acabado. BRUXA — Inveja. . eeeeeu? Ora. eeeeeu? Escuta aqui.) Meu Deus.. não é de hoje que você. sua baleia. pareço mesmo uma bruxa.. Você está é com inveja dos meus cabelos verdes. vai ficar gorda como uma baleia e o Roque não vai querer mais namorar você! SEREIA — (Ofendida. SEREIA — Acabado? Mas a festa ainda nem começou. hein? Já sei. mas de repente olha para o público e muda de atitude.. (Vai começar a discutir novamente.

BRUXA — Controle-se. parece um furacão. zangada.. ele é meu namorado. eu cheguei a pensar que.) — Ele é que está apaixonado por mim. foi depois que ele começou a me namorar que ela ficou assim agressiva. vocês gostam da roupa que mandei fazer especialmente para hoje? SEREIA — Eu acho horrorosa.) Então..) — Mentira. tá bem (saindo). com um enorme chapéu de flor e um xale coloridíssimo.. Eu acho que estou maravilhosa. SEREIA — (Aliviada... de sardinha enlatada.. ouviu? (Sai..BRUXA — Tá bem. Sereia.. um horror. querida. BRUXA — Pois eu não acredito. olhe as crianças! O que não vão pensar de você? (A Sereia cruza os braços. enquanto a Bruxa dá voltas pelo palco como um manequim.. me chamando de baleia.) SEREIA — Que coisa mais louca. Você está é com ciúmes. Bruxinha.) . Melhor perguntar a ela. Acho que ela está apaixonada pelo Roque! Afinal. (Para dentro... Mas não tome todo o guaraná. Você está dizendo isso só pra me irritar. Antes era tão minha amiga.) — Apaixonada pelo Roque. Posso até sair numa lista de 10 mais .) Vai ver que..Que bom. Será que.. você está apaixonada pelo Roque? CENA 3 BRUXA — (Entrando toda faceira. claro que nâo. só pode ser isso. claro. (Pensa um pouco. E anda tão agressiva comigo.. BRUXA — (Maliciosa. eeeeeu? Imagina.) Bruxa. SEREIA — (Furiosa.

da sua.Quem me chamou? O que é? (Olhando o público. Não pensa noutra coisa. BRUXA E SEREIA (juntas. Vocês gostam de discurso? Pois eu não. Está apaixonadíssimo.) Ai. uma bruxa de pano. sua boba? Não vê que é só pra implicar com você? Acha que o Roque vai olhar pra mim. não agüento aquelas coisas de ―neste momento solene e tal‖.. Acho chatíssimo.) — Você disse que o Roque está apaixonado por você. muito nervoso. menina? Por que está com essa cara de bacalhau em dia de Sexta-Feira Santa? SEREIA — (Chorosa.. as crianças já .. sem a metade da sua classe. como diz mesmo? Finesse. Acho que até sonetos anda escrevendo.) CENA 4 MÁGICO — (Entrando. é isso aí. Ou virar estrela de cinema. Cadê o Mágico? BRUXA (Para as crianças. da sua elegância. SEREIA — (Mais animada. E você. Me dá um sono. Não sei bem o que é isso. Ele só quer contar para as crianças como nós viemos morar aqui. tornam a chamar.) . sempre durmo na metade. a cartola na mão. mas eu tinha uma tia de tafetá francês que vivia repetindo que a tal de finesse era tudo na vida. sem a metade da sua finesse. Bruxa.. SEREIA — Mas o discurso do Mágico não é assim.) — Deve estar terminando o tal discurso! Imaginem que ele inventou de fazer um discurso para vocês.) — Mágico! Máááááááááágico! (Esperam. meu Deus.elegantes. BRUXA — E você acreditou.) — Você acha então que ele gosta de mim? BRUXA — Ele adora você.

entre as radiosas flores deste dia primaveril... me diga uma coisa. que coisa mais atrapalhada.‖ BRUXA — ―. já sei. . (Remexendo na cartola. você não quer falar de improviso? Acho que é muito melhor. As crianças já estão quase todas dormindo. Onde é que está o meu discurso? (Revirando todos os bolsos. Originalíssimo. que não para de sair..E é mesmo.estão todas aqui dentro.. Acho que está embaixo do segundo lenço. com a voz embargada de emoção. BRUXA — Escuta.. Quer ver? É assim: ―Neste momento solene.) — Nossa. é? SEREIA — Achou o discurso? MÁGICO . começa de uma maneira muito bonita. (Para a Sereia e a Bruxa. MÁGICO — (Voltando a remexer na cartola.) — Porque é muito original.Ainda não. que vergonha. Esse lenço não tem fim.Como é que você sabe? BRUXA — (Irônica.) SEREIA — Puxa. (Começa a tirar um lenço enorme.) BRUXA — Escute.. Será que perdi? Ah. como é que começa esse discurso? MÁGICO — Bem.‖ MÁGICO — (Espantado. Nunca ninguém começou um discurso assim.) E vocês aí..) .) Passei a noite inteira escrevendo. (Começa a puxar outro lenço... SEREIA — As crianças já estão caindo de sono. BRUXA — (Ajudando o Mágico a puxar o lenço.) ..) Está aqui dentro. paradas como duas patetas. alguém precisa fazer alguma coisa.

com seu regador. Então eu convidei a Bailarina. Algumas crianças não sabem. o que o Mágico queria dizer é que hoje está fazendo justamente um ano que estamos morando aqui na Comunidade do Arco-Íris. mas as bonecas também sentem igualzinho a elas. o Soldadinho e a Bailarina. Bailarina? . BRUXA — Eu estava cansada de ser mandada. com sua guitarra elétrica. (Puxando mais um pedaço do lenço.. Eu vivia suja de óleo. MÁGICO — É. aqui. Até o meu cabelo verde já estava ficando meio preto de tanta sujeira. Eu. Faz exatamente um ano que nós cansamos de morar no Reino dos Homens e resolvemos mudar para cá. Os meus primos peixes. o Soldadinho. impaciente. a Sereia. estavam morrendo todos. para fugirmos para cá. (A medida que vai falando. que toca sempre que ela se move ou fala. não foi. as outras personagens vão entrando: Roque.) .. moro numa lagoa limpinha e sem polui nenhuma.) Uma pena. SEREIA — (Para as crianças..Bem. a Bruxa de Pano. Até que um dia a minha paciência esgotou. Depois a minha dona ganhou de Natal um video game e me deixaram atirada num canto. com a música de caixinha. Agora. essas indústrias e fábricas que vivem derramando porcarias nos rios e nos mares. o Roque. é? Mas um discurso tão bonito. coitados. Vocês sabem..MÁGICO — Vocês acham.) CENA 5 SEREIA — Eu estava cansada da poluição. e a Bailarina. A minha dona vivia me dando comidinha e me mandando dormir numas horas completamente loucas. Os três carregam uma faixa onde está escrito: Feliz aniversário. que morava na mesma casa.

BAILARINA — Foi sim. Nossa história até é meio parecida. No começo, eu morava em cima duma caixinha de música. Toda a vez que abriam a caixinha eu dançava, O que mais gosto é de dançar. Parece que estou voando quando danço. Quando a caixinha era nova, abriam toda a hora, e eu dançava sempre. Depois a minha dona comprou uma vitrola eletrônica com dez caixas de som e uma TV colorida. Ninguém ligava mais pra mim. Fiquei jogada num canto, embolorando. Nunca mais dancei. Até que a Bruxa de Pano me convidou para mudar para cá. Eu estou muito feliz por ter vindo. Aqui posso dançar à vontade. MÁGICO—- Eu nunca fui um mágico muito bom. Nunca consegui parar de tirar coisas da cartola. (Puxando mais um pedaço do lenço.) Vocês vêem, até hoje não aprendi direito. No circo onde eu trabalhava, às vezes até jogavam tomates, couve-flor, cenoura... BRUXA — Ué, você podia montar uma tendinha... MÁGICO — Poder, podia, não é? Mas é que a minha vocação é mesmo pra mágico. E aqui ninguém se importa se os meus lenços não acabam nunca. SEREIA — (Para Roque.) — E você, querido, por que você veio pra cá? ROQUE — Porque aqui tem natureza, não é, bicho? Tem árvore, lago, tem pedra, passarinho. Não tem a poluição que você falou. No mundo dos homens tem muito edifício, cimento, túnel, viaduto. As pessoas moram numas caixinhas apertadas chamadas apartamentos. Eu nem podia tocar minha guitarra em paz. Logo vinham uns trezentos vizinhos reclamar do barulho. Aqui não (tira um acorde bem estridente), posso tocar à vontade que ninguém reclama. SEREIA — E eu acho que você toca muito bem. BRUXA — Eu acho um barato. ROQUE — Podes crer.

SEREIA — (Para o Soldadinho.) — E você, por que você abandonou o Reino dos Homens? SOLDADINHO — Porque eu não tinha vocação nenhuma pra guerra. E lá tem guerra o tempo todo. Bombas, tanques, as pessoas se matando, um horror. O meu sonho era ser jardineiro. Aqui eu posso ter o meu regador e molhar as flores todos os dias. Melhor do que ficar matando gente por aí, não é? ROQUE — Pode crer. MÁGICO — Muito bem, muito bem. Agora vamos cantar o nosso hino. TODOS — (Cantam e dançam.) Passarinho, flor do campo, borboleta nuvem clara, céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. Se você quer conhecer a felicidade venha morar na nossa comunidade venha, venha, venha logo, não duvides venha morar na A Comunidade do Arco-Íris. BRUXA — (Interrompendo.) — Ai, uma coisa peluda tocou no meu braço! MÁGICO — Psssssiu, que falta de respeito com o nosso hino. BRUXA — Mas estou dizendo que uma coisa peluda tocou no meu braço!

SEREIA — (Para Roque.) — Isso é só pra prestarem atenção nela. Não liga não. BRUXA — De novo! E foi daqui de trás dessa pedra, agora eu vi. (Vai espiar atrás de uma pedra. Solta um grito.) TODOS — (Agitados.) — Que foi? BRUXA — (Gritando.) — Tem três coisas peludas aí atrás dessa pedra!

CENA 6

TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — (Pulando de trá da pedra e fazendo muita bagunça. Os três carregam gravadores, máquinas fotográficas, um estetoscópio, e o tempo todo gravam, fotografam e auscultam as pedras e as árvores enquanto tomam anotações.) MÁGICO — Esperem aí, silêncio! Vamos parar com essa bagunça. Quem são vocês? TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — Nós somos Tião, Simão e Bastião! Queremos entrar nesta curtição! TIÁO (Pegando no cabelo da Sereia.) — Seu cabelo é natural ou é peruca? SIMÃO (Para Roque.) — Você sabe tocar Quero que Vá Tudo Pro Inferno? BRUXA — Meu Deus, que coisa mais antiga! BASTIÃO (Para o Mágico.) — Você não quer tirar um cacho de bananas dessa cartola? MÁGICO — Silêncio, silêncio! Que é que vocês querem aqui?

OS TRÊS — Queremos ficar morando com vocês. Estamos cansados daquele horrível Reino dos Homens. TIÃO — Lá só tem poluição. SIMÃO — E apartamentos. BASTIÃO — E filas. TIÃO — E automóveis. SIMÃO — Engarrafamentos. BASTIÃO — E guerras. TIÃO — E novelas de televisão. SIMÃO — E gente apressada. BASTIÃO — E acidentes. TIÃO — É horrível. SIMÃO — É terrível. BASTIÃO - É medonho. TIÃO — É tétrico. SIMÃO — É pavoroso. BASTIÃO - É assustador. OS TRÊS — É catastrófico! (Ajoelham-se, muito dramáticos.) — Pelo amor de Deus, não nos obriguem a voltar para lá! Nós não resistiríamos muito tempo! TIÃO — Eu teria que consultar um psiquiatra. SIMÃO — Eu tentaria o suicídio. BASTIÃO — Eu ia virar um criminoso. OS TRÊS — Nós enlouqueceríamos! Tenham piedade de nós!

TIÃO — Eu sei cozinhar feijão, arroz e guisadinho. SIMÃO — Eu sei varrer, lavar prato e pôr a mesa. BASTIÃO — Eu sei costurar, pintar e bordar. OS TRÊS — Nós sabemos fazer muitíssimas coisas. Por favor, deixem-nos ficar! TIÃO — Aqui é tudo tão bonito. Eu fico doente só de pensar em ver um edifício de novo na minha frente. (Atira-se ao chão, gemendo escandalosamente.) Não me obriguem a voltar! SIMÃO — Bastião, traga os sais do Tião! Meu Deus, está tendo outra crise! Bem que o médico avisou que ele não podia ser contrariado. (Bastião traz os sais. Tião aspira e melhora um pouco.) SIMÃO confusos.) BRUXA (Muito agressiva.) — Olhem, por mim vocês podem pegar todas as suas trouxas e ir já embora. Não acredito numa única palavra de toda essa macaquice. (Tião começa a ter outro ataque. Grande agitação.) MÁGICO — Que crueldade, Bruxa. Você não tem o direito de não acreditar neles. BASTIÃO — É isso mesmo. Ela não tem o direito. BRUXA — Tenho, sim senhor. E não acredito mesmo. Vocês não me enganam com toda essa choradeira. Sinto de longe quando há malandragem. Vocês vão indo e eu já venho voltando. Por mim vocês podem dar o fora agora mesmo. SEREIA — Você não é prefeita daqui para dar ordens assim. (Para os outros personagens, que estão muito

espantados.) — Por favor, digam alguma coisa. (Todos se entreolham,

Mas não com essa macacada. BRUXA . BRUXA — Demo o quê? SOLDADINHO — De-mo-crá-ti-ca. quem achar que eles podem ficar vivendo entre nós. a Sereia bota a língua para a — Desculpe.Bicho é a sua namorada. Vocês é que são loucos se deixarem essas coisas ficarem aqui. Os macacos estão muito tensos. MÁGICO — Então. Bruxa! Então você não é democrática? BRUXA — Sou. BRUXA — Pois eu me recuso. E eu me baseio sabe em quê? No meu sétimo sentido. que é peixe. (Todos se entreolham. você está muito louca. A maioria vence. Quem é de carne e osso como vocês não entende nada disso. mas eu tenho uma solução . MÁGICO (Muito polido. queremos a democracia! MÁGICO — Acho que é a solução mais honesta. bicho.BRUXA — Não sou.) — Que horror. E uma coisa que só as bruxas de pano têm. SOLDADINHO democrática. claro que sou. Eu não sou amiga de macaco nenhum. E não estou louca coisíssima nenhuma. por favor. Todo mundo tem o direito de dar sua opinião. fique sabendo. mas devia ser. levante a mão. Vamos votar? OS TRÊS — Isso mesmo! Democracia. SEREIA (Escandalizada.) — Mas em que é que você se baseia para ter essas suspeitas todas sobre a honra dos nossos amigos? BRUXA — Amigos seus. Então vocês não estão vendo que essa macacada aí está é fazendo fita? ROQUE — Calma. Depois de algum tempo.

dançam. Vocês vão se arrepender amargamente. Preciso dar algumas instruções a vocês antes da festa começar.) MÁGICO — Muito bem. (Sai.. gentil donzela. Preciso dar um jeito no meu cabelo. SEREIA (Muito faceira.) — Não se esqueçam de que eu avisei. (Para o espelho. Os macacos vão fazendo grandes reverências à Sereia. Não sei o que a Bruxa foi achar neles para implicar tanto. (Saem todos..) SIMÃO — Horrorosa é aquela bruxa de pano. tão finos.) Gentil donzela. Essa macacada não vale nada.Bruxa e levanta a mão. .) BRUXA (Saindo.) — Uns rapazes tão gentis... O meu sétimo sentido nunca me enganou.. Um a um os outros levantam a mão.. Agora vamos todos lá para dentro. BASTIÃO — Deslumbrante. TIÃO (Para a Sereia. gritam e beijam todo mundo. Você está belíssima.) — Você acha mesmo? Eu estava me achando tão horrorosa. tiram fotos. decidida. disseram que eu estava belíssima.. furiosa.) — Mas está tão lindo assim. SEREIA — Eu não posso. Menos a Bruxa. tão bem-educados.) CENA 7 SEREIA (Escovando o cabelo.) OS TRÊS — Então quer dizer que podemos ficar? TODOS — Podem! (Os macacos pulam. Um deles até me chamou de gentil donzela. As vezes ela parece meia louca. que lindo! .... (Apanha o pente e o espelho. fazem uma grande algazarra. deslumbrante.

No escuro ouvem-se alguns ruídos abafados. Não posso perder aquele espelho.O Roque nunca me disse nada assim. no dia em que fiz quinze anos. vou dar um jeitinho no meu cabelo. Será que foi a Bruxa que pegou? Ela vive pegando as minhas coisas. Estavam bem aqui. Daqui a pouco começa a festa e o que o meu namorado Roque vai dizer? Que coisa mais estranha.. tinha certeza que estavam aqui.) Será que alguém pegou? Não posso ficar assim descabelada.) CENA 8 SEREIA (Despertando. que lindo.. Gentil donzela. em cima desta pedra. (Procura o espelho e o pente..) Ué. (Para a platéia. a Fada dos Sete Mares. (A luz vai enfraquecendo aos poucos.. Um pente de ouro e um espelho com moldura também de ouro. (Procura mais. até apagar completamente.) — Parece que todo mundo enlouqueceu por aqui. Música suave.) Será que alguém pegou? Vocês não viram nada? (Nervosíssima. aconteceu uma coisa muito estranha. foram presentes de minha madrinha..) — Sereia. onde estão o meu espelho e o meu pente? Gozado.. Depois volta o silêncio. E o único pente no mundo capaz de pentear cabelos verdes como os meus. como se alguém estivesse lutando. Já procurei por tudo e não consigo encontrar..) Com licença.. A Sereia adormeceu. Sumiu a minha cartola. . CENA 9 MÁGICO (Entra correndo... muito agitado.

SEREIA — Sua cartola. Logo a minha cartola. bicho...) — Pois é.) — E você não viu minha guitarra por aí? SEREIA — Roque.. ROQUE (Procurando.. dormi um pouquinho e agora fui procurar e não achei.. (Leva as mãos à cabeça. Pior é uma sereia sem pente nem espelho. Eu estou justamente procurando o meu pente e o meu espelho de ouro. Sabe o que a Fada dos Sete Mares me disse no dia em que me deu o presente? Que quando eu perdesse o pente e o espelho o meu cabelo ia começar a ficar preto.Essa não. A guitarra tá sempre comigo. CENA 10 MÁGICO — Ei. (Vai andando de costas e dá um encontrão em Roque. Não tô sacando qual é. não me diga que a sua guitarra também desapareceu. chamar as crianças para ajudar.) Nossos objetos não podem desaparecer assim. mas que coisa triste. Sinto qualquer coisa preta na minha . MÁGICO (Procurando pelo palco. Mágico. também procurando alguma coisa. Tinha deixado aqui em cima desta pedra.) . apavorada. Roque.) — Que estranho.. Vocês já viram um mágico sem cartola? SEREIA — Isso não é nada. (Os três podem improvisar.) Ah. acho que já está ficando. na hora da festa..) MÁGICO (Desanimado. você não viu minha cartola por aí? ROQUE (Ao mesmo tempo. que vem entrando. procurar pela platéia. Você por acaso não a viu por aí? Que grilo! Logo agora..

(A Bailarina corre a abraçar-se à Sereia... bicho.. SEREIA (Consolando a Bailarina. um soldadinho sem regador. Está todo mundo aqui? ROQUE — Faltam os macacos. uma bailarina muda que não pode dançar. SOLDADINHO — Mas isso não é possível! Precisamos fazer alguma coisa. Agora ficou muda.) .) Ela não vai mais poder dançar nem falar. SOLDADINHO (Entra correndo com a Bailarina pela mão. Ela só fala quando aquela musiquinha toca. soluçando. um mágico sem cartola e um roqueiro sem guitarra.cabeça. SOLDADINHO — O meu regador também! (Todos olham para ele e a Bailarina.) Em vista da gravidade dos últimos acontecimentos.. MÁGICO — (Subindo numa pedra. ninguém sai.Não chore. que horror! Vou ser a única sereia do mundo com o cabelo preto! (Começa a chorar. Que bela comunidade vai ficar a nossa: uma sereia morena. meu bem. bicho! SEREIA — E a Bruxa de Pano! Aposto como ela está metida nisso.. fica decretado o estado de sítio na Comunidade do Arco-Íris: ninguém entra. . Vamos fazer uma reunião geral imediatamente.Calma.) E desapareceu também a chave de dar corda na Bailarina. que faz gestos como se tentasse expressar-se por mímica.) ROQUE (Consolando-a.) . Ai. calma..) Gente. vocês não sabem o que aconteceu! MÁGICO — Claro que sei: nossos objetos de estimação desapareceram. Daqui a pouco pinta o pente e o teu espelho.

(Em tom discursivo. bicho. nem do abacaxi. Bastião. nem do abacate. MÁGICO — Calma. Não subiu o preço nem da banana.) Senhores macacos: aconteceu urna coisa muito séria.) . MÁGICO — É. Eu vi.. SEREIA — Estavam. horripilante e inconcebível.) Tião.. Uma coisa que nunca havia acontecido antes na nossa comunidade. isso agora não tem importância.) — Eu não. Não consigo imaginar nada mais terrível. SOLDADINHO (Com voz cavernosa.) BASTIÃO — Que desgraça! Vamos morrer de fome ROQUE — Não é nada disso. ROQUE — Deixa pra lá. Uma coisa terrível. inconcebível.MÁGICO — Onde é que andam aqueles macacos? (Chamando. que nos desgosta pro-fun-da-mente. SIMÃO — Já sei! Subiu o preço da banana! (Os três têm uma crise histérica e se jogam ao chão..Roubo? BASTIÃO . TIÃO — Bem.Roubo! TIÃO ..Furto? SIMÃO — Afanação? . vocês estavam comendo os doces antes da festa! TIÃO (Disfarçando. horrível. gritando. bicho. Simão! TIÃO — Aconteceu alguma coisa? SEREIA — Ei. sim. calma. então se não foi isso.

TIÃO — Com um chapéu de flores. SIMÃO — E um xale muito colorido. SEREIA — E o meu pente e o meu espelho de ouro. Agora ela não pode mais falar nem dançar. TIÃO — Então por que é que ela não está aqui... . agora? ROQUE — Ela saiu daqui trigrilada! SIMÃO — E antes de sair disse que vocês todos iam se arrepender amargamente.. um pouco atacada de vez em quando. Os macacos cochicham entre si por um instante. Um pouco. vil e infame cometeu um nefasto crime: roubou a minha cartola. Enquanto nós nos preparávamos para a festa. mas jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas. senhores. Nós sabemos quem foi.MÁGICO — Sim. TIÃO — Vil. BASTIÃO — Uma criatura desnaturada. SIMÃO — Foi uma pessoa que não está presente. ROQUE — E a minha guitarra. (Todos se lamentam. E a chave de dar corda à Bailarina. BASTIÃO — Uma criatura de pano.) TIÃO — Um momento. bem. SIMÃO — E infame.. uma criatura desnaturada. bicho.. SOLDADINHO — E o meu regador. SEREIA — A Bruxa de Pano? MACACOS — Ela mesma! Ela mesma! MÁGICO — Não acredito. A Bruxa sempre foi uma criatura de bons sentimentos..

já que vocês insistem. o Soldadinho e o Roque vamos pela direita. muito nervosos. Eu.) SOLDADINHO — Tenho uma idéia: acho que a gente deve fazer uma expedição de busca. Não entendo por que é que vocês não querem. MÁGICO — Não posso acreditar. SEREIA — E nós? . TIÃO (Muito nervoso. SEREIA — Mas todas as provas são contra ela. MACACOS — Está na cara que foi ela. SEREIA — Uma o que? SOLDADINHO — Uma expedição de busca: dividimos as pessoas em dois grupos e saímos a procurar a Bruxa. SEREIA — Também acho. MACACOS (Cochichando.Está bem. MÁGICO — Está certo.) . TIÃO — Eu. Eu não sei o que fazer.BASTIÃO — Está tudo muito claro: ela ficou zangada porque não queria que nós ficássemos aqui e resolveu se vingar. MÁGICO — Isso é muito grave. Simão e Bastião vamos aqui pela esquerda.) . (Grande agitação.) — Não! Isso não! SIMÃO e BASTIÃO (Em coro. não! MÁGICO — Mas por que não? Acho que é o único jeito de encontrarmos as nossas coisas.Não. Todos se consultam e falam ao mesmo tempo.

) — As damas ficam esperando.. a Bruxa de Pano. eu sabia que você não faria uma coisa dessas. como as pessoas podem nos enganar. (Abrindo a bolsa . Bailarina. Quem diria. dona Bailarina. meu Deus? Às vezes me dá uma raiva de ser mulher. muito contente. que parecia tão nossa amiga... fique sabendo. e aqui estão o seu pente e o seu espelho de ouro. (Saem. . Que papelão! Uma ladra. Segure ela.) — Eu sabia.Cuide bem da bailarina. dona Sereia.. BAILARINA (Dançando.) SOLDADINHO ..a musiquinha da Bailarina pode ser um cinto em forma de pauta musical. com uma clave de sol como fivela. BRUXA (Aparecendo de repente com uma bolsa cheia de coisas. Ambas choram e torcem as mãos.) Aqui está a chave de sua musiquinha. E logo no dia de nosso aniversário.. As mulheres sempre ficam em casa esperando. (Saem. uma ladra.) BRUXA — Então vocês estão pensando que fui eu quem roubou todos aqueles cacarecos? Deixem de frescura.) — Ladra? Ladra é a excelentíssima senhora sua avó..) CENA 11 SEREIA — E agora.) Bailarina. (Olha para a Bailarina. não está vendo que eu não posso sair do lago? (Bailarina corre e segura a Bruxa. choramingando e torcendo as mãos.) Veja só. Nos momentos difíceis os homens é que saem por aí.. SEREIA — Você? Como é que você tem coragem de voltar aqui depois do que fez? (Gritando. suas bobalhonas. Bruxinha. faça alguma coisa.TIÃO (Com uma reverencia.

Não conseguimos encontrar a criminosa. Vocês façam de conta que não sabem de nada.SEREIA (Penteando-se. BAILARINA — Mas não entendo por que eles fariam uma coisa dessas.) . mas se não foi você... nem o Roque. BRUXA — Então? SEREIA e BAILARINA — Os macacos! BRUXA — Claro.) — Foi inútil. BAILARINA — Se não foi você. nem eu.. SEREIA — Nem o Mágico. Não sei como não perceberam desde o início. BRUXA — Pois eu vou contar direitinho pra vocês. O meu sétimo sentido nunca me enganou. SIMÃO — Deve ter tomado o primeiro trem para bem longe daqui. .Mas.. Bem que eu avisei. Vamos desmascarar aqueles três.. BASTIÃO — A essa hora ela deve andar longe.. então quem foi? BRUXA — Adivinhe.. E melhor eu me esconder no meio das crianças.) CENA 12 TIÃO (Entrando.. nem o Soldadinho. Foi assim (barulho fora de cena). (Desce para a platéia.. nem a Sereia.. Mas acho que vem gente por aí... felicíssima. então. suas tontas.

até apanhá-los.) BASTIÃO (Cutucando Simão. sua. lentamente. Se ela está dançando de novo é porque.. quero dizer.) — A Sereia está penteando o cabelo! BASTIÃO — Companheiros. com um ar tão satisfeito O que foi que houve com a Bailarina? Nem parece uma Bailarina sem música.. sua... SIMÃO (Gritando. Meia-volta.Sim.. veja.TIÃO (Fazendo uma reverência para a Bailarina. mentirosos! TIÃO — A ladra voltou! Segurem a Bruxa! BRUXA (Subindo ao palco.) . sua fera peluda! BASTIÃO — Fera peluda é a sua avó.) BRUXA (Da platéia. dona Bailarina. volver (Preparam-se para fugir. colcha de retalhos. (A Bailairina começa a dançar.. mas nós.) — Segura a macacada! Ladrões. BRUXA — Vocês vão ficar aí parados enquanto esse monstro me ofende? Crianças.) CENA 13 .. eeeeu? Ladrão é você. a Bruxa de Pano tinha roubado a musiquinha dela. (Pode improvisar uma correria com as crianças atrás dos três macacos.) — Ladra.) — Simão... vamos pegar a macacada. ela está dançando novamente! SIMÃO — E o que tem isso? Ela não é uma bailarina? TIÃO (Muito nervoso.. acho que está na hora de darmos o fora.) — Mas a senhorita.

MÁGICO — Bruxa.MÁGICO (Entrando.É.) . Surge um homem de terno e gravata. Bastião e Simão se esgueiram de mansinho. senhoras e senhores. eles estão fugindo! (Roque e Soldadinho conseguem apanhar Bastião e Simão.) Fiquem sabendo que com a Bruxa de Pano ninguém brinca. Mas estavam com tanta pressa que não amarraram direito. Para a Sereia.) SEREIA — Meu Deus. E sabem quem eles são? São espiões! Isso mesmo: três espiões do Reino dos Homens! Foram enviados para acabar com a nossa comunidade. ninguém está entendendo nada. Eles foram para a beira do rio. sim. com Soldadinho e Roque. E um homem mau-caráter. E tenho uma surpresa para vocês. E os outros dois também. eu consegui me desamarrar e vim correndo para cá. para a Bailarina:) Senhoritas. Depois que vocês decidiram que eles podiam ficar morando aqui. querem ter a honra de desmascarar esses malandros? (Elas puxam os fechos e aparecem mais dois homens. tiraram os disfarces de macacos e começaram a planejar o roubo das coisas de vocês. MÁGICO (Para Tião. (Avança para Tião. Eu fiquei tão nervosa que escorreguei da árvore e caí bem em cima de um deles. Fiquei em cima duma árvore espiando. com a tal de democracia. Você quer fazer o favor de explicar? BRUXA — É muito simples. eu resolvi ir atrás deles para ver se descobria alguma coisa.) — Isso é verdade TIÃO (Muito humilde. Roque. . que resiste até que a Bruxa consiga abrir um zíper na roupa de macaco. ainda por cima. Aí eles me deixaram lá. é que nós acabamos de prender os ladrões.) — Mas o que é que está acontecendo por aqui? BRUXA — O que está acontecendo. é um homem! BRUXA — É. amarrada.

TIÃO — Fomos enviados para impedir que isso aconteça. Nos deram ordem de fotografar e gravar tudo. OS TRÊS — Por favor. SIMÃO — Mas agora nós gostamos daqui. não nos obriguem a voltar para lá. TIÃO — A televisão. SIMÃO — As ruas cheias de gente. fazem as suas roupas. BASTIÃO — Nós queríamos que vocês começassem a brigar entre vocês mesmos. até todo mundo voltar para a cidade. BASTIÃO — O barulho da televisão. TIÃO — É que todo mundo anda falando que vocês vivem de um modo diferente. SIMÃO — O barulho dos automóveis. BASTIÃO — Os automóveis. Tem gente com medo de que esse modo de vida chegue a cidade. Por favor. SIMÃO — E as pessoas vivem bem e são felizes. BASTIÃO — Que aqui o trabalho é dividido entre todos.MÁGICO — Mas por que os homens querem acabar com a nossa comunidade? Nós não estamos fazendo mal para ninguém. comem o que plantam. TIÃO — Para os ônibus. SIMÃO — O custo de vida. deixem-nos ficar! . todos constroem as suas casas. BASTIÃO — As guerras. TIÃO — Os apartamentos.

Parecem mesmo arrependidos. Lá é proibido pisar na grama. Bruxa? TIÃO — Bruxinha. (Aqui os atores improvisam uma pequena votação com a platéia. procurando juntos um modo de viver melhor. É horrível lá na cidade. Acho que o melhor seria mandálos de volta para lá. por favor. Nós estamos batalhando e mesmo assim pintam grilos! BAILARINA — Afinal.. estamos buscando. Lá os passarinhos estão quase todos engaiolados. nós estamos arrependidos. SEREIA — Coitados. BRUXA (Indecisa. que decide se os macacos ficam ou não. OS TRÊS — Por favor.) — Quem sabe a gente usa outra vez a . Quem acha que eles devem ficar levanta a mão.SIMÃO — Eu quero ouvir os passarinhos cantarem livremente. por favor! MÁGICO — Mas o que vocês fizeram não foi legal! O que é que você acha. SOLDADINHO democracia? BAILARINA — Como assim? SOLDADINHO — Vamos fazer uma votação com as crianças. E perdoar é uma coisa muito bonita. A maioria vence. Lá todos os rios estão poluídos. BASTIÃO — Eu quero tomar banho de rio. MÁGICO — Eu acho que eles devem ser perdoados. TIÃO — Eu quero pisar descalço na grama. mas não pensem que aqui tudo é fácil.) — Não sei. ROQUE — É.

basta a canção para finalizar A Comunidade do Arco-Íris. Não falei que tinha um sétimo sentido? SOLDADINHO — Viva a Comunidade do Arco-Íris! TODOS (Cantam. com as crianças subindo ao palco e os atores oferecendo doces. venha logo. Se você quer conhecer a felicidade venha. (O final deveria ser uma festa. (Vai entregando a guitarra.) Passarinho. venha. a cartola e o regador. balões. venha morar na nossa comunidade venha.) .) SEREIA — Bruxa.) — Acho que agora podemos começar a festa. quero lhe pedir desculpas por ter pensado tão mal de você. não duvides.BRUXA (Abrindo a bolsa. morar na Comunidade do Arco-Íris. querida. flor do campo. borboleta nuvem clara. céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. Na impossibilidade disso. BRUXA — É pra você ver. bebidas.

que me fez escrever e me ajuda a viver.ZONA CONTAMINADA Comédia negra em 1 Ato Para Scarlet Moon de Chevalier. . com gratidão e amizade.

luvas brancas. homem de idade indefinida. cabelos muito curtos. Visual um tanto pré-rafaelita. Imagino-a com roupas de guerrilheira. cabelos que imagino longos sempre soltos. Roupas leves. NOSTÁLGIO. irmã de Vera. cantil. Maquiagem muito branca. . rude. Iansâ de frente. Mas também a imagino toda de couro negro. mais ou menos da mesma idade. entre 25/35 anos. seda. Oxum de frente. De qualquer forma. MR. cartucheiras tramadas no peito. decidida. um fuzil. cravo vermelho na lapela. musselina. enriçados. CARMEM. descoloridos. Talvez use coroas de flores. talvez chapéu estilo cowboy.PERSONAGENS VERA. Anda descalça. Forte. mas o oposto dela. esvoaçantes — tule. quase um clown. pulseiras. um tanto gótica (meio morta-viva). seu visual deve dar a idéia exata do que ela fundamentalmente é: uma guerreira.

Talvez tenha um auto-falante e um walk-man. mas castigado. CENÁRIO Basicamente. Imagino que fala às vezes com sotaque lusitano. gostosíssimo. Pode também usar roupas no estilo grunge (boné virado. bermudão. desta longa miséria!‖. mas é fundamental pelo menos um caixão à vista (a cama de Carmem). homens e mulheres — cobertos de farrapos e chagas. como um coral. dança e se agita muito. camisetona). Compadecei-vos de nossas feridas!‖. E da maior importância que passe uma impressão de irresistível sensualidade. quem sabe também muitos bottons. tralhas do gênero. mas também podem participar de outras ações. CORO DOS CONTAMINADOS. Entre escombros. Seu texto. Também pode ser feito por uma atriz. Satã. é um D. ex-votos. Enquanto fala — talvez ritmadamente. músculos. de qualquer idade. NOSTRADAMUS PEREIRA. Tudo pode ser apenas sugerido. caixões. Obalua. bem animal. limita-se ao refrão das Litânias de Satã. mas o diretor é livre para criar outras e também para eliminá-las. pelos. o interior de uma loja funerária que sofreu um incêndio. quanto fantasias tipo Chacrinha. Eles geralmente acompanham as emissões de Nostradamus.) ou eventualmente algum mote tipo: Atotô. . HOMEM DE CALMARITÁ. sempre coreografados. multo agitado. de Baudelaire (―Tem piedade. Imagino alguns bailarinos — uns cinco ou mais. J. Forte e musculoso. Está coberto de trapos que deixam entrever nesgas de carne. mas acho que seria ótimo. por volta de 30 anos. fica a critério do diretor incluí-lo ou não. Fica a critério do diretor. há coroas de flores metálicas.smoking impecável.) Algumas de suas intervenções estão sugeridas no texto. portanto. atotô! (―Livrai-nos de nossas chagas!. como um rapper —. talvez polainas e uma bengala.

invade todos os espaços. com várias cenas acontecendo simultânea e vertiginosamente. modesta. . que faz backing-vocal e repete como um eco coisas que ele diz. é nele que acontece a maior parte da ação. exibindo eventualmente cenas de Grande Catástrofe ou ruas desertas. Nostálgio é muito. No Plano Mídia pode haver um telão. Há nele uma poltrona bergère. Noutro canto. de cor contrastante com Plano anterior. ou num canto do palco (penso nele um pouco mais alto. Depende do diretor. Nesse caso. ou um biombo recoberto de papel de parede estilo inglês. fica o Plano Alfa. Mr. Também quero deixar bem claro que o texto está aberto às improvisações dos atores. 3. ou violeta — mas de qualquer forma. etc. ou um espetáculo alucinado. Nostradamus move-se por todo o palco. Pode ser tanto uma comédia de humor negro. mais alto. se o diretor quiser também uma mesinha com abajur art-nouveau em cima. explosões nucleares (um bom cogumelo atômico). vírus (dá-lhe HIV!) ampliados. Penso em sépia ou bege. Imagino-o completamente branco. 2. ou preto. Há ainda um quarto espaço — o Plano Mídia — onde fica Nostradamus Pereira. os vários Planos podem ficar fora do palco. esse plano pode ser um praticável levadiço ou nem sequer existir. As citadas são apenas sugestões do autor.). Dependendo do tipo de teatro. fica o Plano da Nostalgia.). Em nível diferente. uma cadeira de balanço ou recamier. flores carnívoras. Enfim. *•* Outras indicações/sugestões: 1. montanhas de lixos.Esse espaço pode ser chamado Plano Real. do espaço disponível. sobretudo o de Nostradamus Pereira. da mesma maneira que o anterior. passando pela Talidomida. sempre seguidos pelo Coro dos Contaminados (se houver. Dependendo das possibilidades do palco e do diretor. Nostradamus Pereira intercala música em seu texto. o espectador ficaria cercado pelo espetáculo. da produção. Nesse caso. Zona Contaminada em nenhum momento se pretende um texto pronto. dos horrores dos campos de concentração nazistas. muito chique. O diretor fica livre para pirar.

) Quem está aí? Tem alguém aí? (A parte. No Plano Mídia. dobra-se todo de cócoras. e fica imóvel.) . como se dormisse. No Plano da Nostalgia.CENA 1 Palco totalmente escuro. põe a tua língua aqui.) Maldição. como antigamente. Nostradamus Pereira dança loucamente com um walk-man. a luz vai crescendo lentíssimamente. Aqui. exatamente como se amanhecesse. sentado em sua bergère. me rasga. Como antes da Grande Peste. Com os dedos. Em voz baixa. Por piedade. me morde. Assim. mata a minha sede. No Plano Real. ou abanando-se suavemente com um leque. Nada se vê. deve ser algum contaminado. mata a minha sede que já dura há tantos anos. cujo som a platéia não ouve. Bem fundo. Aos poucos. No Plano Alfa. passa a mão entre as coxas. com os dedos. E me toca. continua a treva. estilo nostálgico. me arranha. apalpa os mamilos como numa masturbação não exclusivamente genital. magnífico e seminu esta o Homem de Calmaritá. Ele acaricia sensualmente o próprio corpo. como se ouvisse ruídos. Preciso me esconder. Eu quero ficar todo melado dentro de ti. (Subitamente para.) . por favor. num canto. Mais para a esquerda. geme.Ah vem. CENA 2 HOMEM DE CALMARITÁ (Continuando a acariciar-se. (Procura com os olhos.

Tão bom.. Preciso matá-lo. Droga. A Peste deve estar em seus estágios iniciais.) Essa barriguinha.VERA (Entrando. veste-as e começa a lubrificá-las lentamente.) .) — Amanheceu outra vez.) ... Ergue as mãos para o alto. me deixa. Nenhuma ferida.) CENA 3 VERA (Espreguiçando-se. eu não estou contaminada! Não me toca. Aqui esta minha cara. aumenta no Plano Real. besta imunda! Mostra tua cara purulenta. não tem nenhuma mancha. O Homem a amarra pelos pulsos e tornozelos. Vera debate-se como pode. amordaça-a — tudo com trapos que arranca da própria roupa. que continua a gritar e a debater-se. falando alto. HOMEM (Joga-a no chão. (Vera continua a gritar. Luz somente nas mãos enluvadas do Homem.. VERA (Debatendo-se.. é verdade. Hum.. domina-a. não me passa a tua peste.. deve ser algum contaminado. tempo suficiente para que Vera saia debaixo dele e desça para o Plano Real. Nossa.) — Quem está aí? Tem alguém aí? (Procura. A medida então que a luz diminui no Plano Alfa. o fuzil nas mãos. Vai ter que ser do jeito mais prudente. Ah.) Sai daí.Todos dizem a mesma coisa. então. Deixa ver essa carinha. HOMEM — Sinto muito. meu bem. outra vez aquele sonho. (Aos gritos.) — Me larga. Deixa ver esses peitos. parece perfeita. VERA — Eu estou perfeita! Me larga.. ameaçadora.Aqui. O Homem então tira um par de luvas de borracha de algum lugar. É um estupro. eu não quero. No começo não se nota nada. olha bem. deitada num sleeping-bag. verme do Apocalipse! HOMEM DE CALMARITÁ (Saltando sobre Vera. contaminada dos infernos. Bom. (Rasga a roupa de Vera. isso não prova nada. Não acredito em você Preciso salvar a minha pele.) Maldição. .

subindo. de pedra. sol! VERA — Não existe mais sol. Tão forte. todo dia a mesma coisa. devagarinho. Depois aperta a garganta e seca na boca. quente. sal! Bom dia. Verinha.) Amolece. por trás das nuvens. rijos. arde tanto. Nunca sei o que acontece primeiro.. Tão duro. Tesão e fome. Imenso. meu bem. amarelo. As nuvens radioativas cobriram tudo..) — Bom dia.. Você continua a mesma. VERA — Aqui e agora. (Apalpa o sexo. sei. parece um buraco fundo. em algum lugar do infinito. entorpece e vai subindo também. De alguma forma. A fome começa aqui (apalpa o estômago). como arde. alegria! Bom dia. como arde. CARMEM (Abrindo a tampa de um caixão de defunto. arde tanto. umedece. cantarola. Depois arde. Mas depois de um bom café qualquer um muda de idéia. subindo devagar.) — Imagina. CARMEM — Era uma vez uma irmãzinha que acordava todo dia num mau-humor horroroso. até deixá-los duros.que homem. . eu odeio estar viva aqui e agora. (Acaricia os seios. redondo.) Faz uma volta redonda. como você é idiotinha. O tesão começa aqui. VERA — Tão quente que faz a pele da gente ficar cheia de feridas que não cicatrizam nunca. Que tal um cafezinho bem quentinho e uma geleiazinha de moranguinhos num pãozinho bem fresquinho para adoçar o nosso diazinho que começa a tão azedinho? VERA — Ai Carmenzinha. Ainda bem que estou acostumada. Dois pregos fincados no espaço. bem nos bicos dos meus seios. dia! Bom dia. Então arde. sul! Bom dia. Nunca sei qual o mais forte. CARMEM (Saindo do caixão.. Verinha. sei. Fome e tesão. Como areia. desde criança. E vai subindo. CARMEM — Sei. deve continuar existindo aquele mesmo sol.

Supermercado abandonado é o que não falta. Você demorou horas. Já olhou a sua bunda? (Pega o fuzil. CARMEM — Deus me livre. e que. Kapput. o que é pior. CARMEM — Mas a semana passada você trouxe tanta coisa.I beg your pardon? VERA (Soletrando. O rango c‘est fini. Podem me matar. você sabe perfeitamente que se eles me pegarem eu não vou dizer nada.) — A-ca-ba-ram. cheguei até a pensar que eles tinham apanhado você. O que aconteceu? VERA — Você come demais. s‘il vous plat! Merci o beaucoup. e que logo viriam me pegar também. Nem um grão-de-bico. CARMEM — Você vai me deixar outra vez sozinha aqui? Ah. VERA (Cortando. Afinal. belle journée! VERA — Nem baguete nem salete: os víveres acabaram.) — Você pensa muita bobagem. anchovas daquele supermercado chiquérrimo.) . e que nós estávamos perdidas. mas eu não digo nada. VERA — Então vem comigo. Salmão. CARMEM — Não quero ficar sozinha aqui. caviar. a última vez foi horrível. VERA — Não ficou picas.) — Então. ou me contaminar. CARMEM (Bem british. CARMEM — Não é possível. querida. o que é que temos para o nosso petit dejéneur? Bon jour. Vera. Necas de pitibiriba. . madame! Une baguette de campagne. vou sair pra buscar mais.) Tudo bem.CARMEM (Fingindo não ouvir.

. E além disso você sabe muito bem que só estou tentando me acostumar com a idéia da morte.. CARMEM — Para mim é. devem sofrer tanto. penetrante. CARMEM — Pobrezinhos. VERA — Laboratório? Só se for de cientista louca.. eu não quero ver. Vem comigo. Empesta tudo. Ou o que restou da cidade. Um cheiro nojento. como você é tola. enrolados nuns trapos. Ninguém resiste muito tempo. atravessa qualquer parede. podridão: foi isso o que sobrou. Amontoados no chão. Eu tenho medo. Você só sente o cheiro.. Não dói. enquanto você fica aí no bem bom. você sabe.. aquelas pessoas. VERA — O horror nunca é suficiente. CARMEM — Pois é. CARMEM — Eu já vi o suficiente. Não adianta nada tapar o nariz. só uma vez. A idéia da morte. Carmem. Ou do que sobrou dela. Pois eu estou tentando me acostumar com a idéia da vida. VERA — Mas não tem quase mais nenhum deles vivos. Não quero nem dizer o nome. Não existe nada mais morto do que as coisas lá do lado de fora. Por que é que tem que ser sempre eu. só da gente ver? VERA — Mas você não v quase nada. VERA — Os contaminados. você sabe. As ruas. delirando dentro desse caixão medonho? CARMEM — Não fale assim do meu caixão. Ele é todo acetinado. cheios de pus. laboratório. aquele cheiro podre perdido no meio dos destroços. para mim já bastou. Pareciam uns cães sarnentos. Ruína. E assim uma espécie de. meu bem. Vamos ver a cidade.. fedendo.VERA — Por que? Vamos nós duas juntas. as ruas estão cheias daquelas pessoas. Um cheiro adocicado de lixo. Aquele cheiro fura qualquer pano. Da última vez só vi uns dois ou três escondidos num beco..

CARMEM — Quer um pedacinho? VERA — Pão velho. não era assim que se dizia nos livros? Graças a Deus.CARMEM (Fingindo não ouvir. CARMEM — Não fale assim do corpo de Cristo. Não ficou mesmo nada por aí? VERA (Tirando um pão do bolso. VERA — É melhor eu ir andando.) CARMEM (Apanhando o pão. viscoso. Estou com tanta fome. .) .Um figo seco. que rói a pele da gente. eu quero dizer o sapo do inferno que ainda conseguem furar as nuvens de chumbo. É sacrilégio. irmã! VERA — Sol? Tem razão. quando digo ―sol‖. eu tenho fé que Ele não vai nos abandonar. seco. um biscoito. VERA — Como se a gente fosse rato. mais nados têm horror à luz do sol. honey. Foi só o que sobrou.Que lindo! Uma côdea. A luz diabólica que mata todas as malditas criaturas que insistem em continuar vivas. É pecado. Quanto mais cedo. Esse mormaço branco. CARMEM — Não fale assim do nosso lar. VERA — Já abandonou. duro. inclusive nós.) .) — Tem esse resto de pão. Na verdade. qualquer coisa. CARMEM — Mas você mesma disse que não tem mais sol. Eu e você. duas ratazanas famintas enfiadas nesta toca imunda. (Atira-o para Carmem.

serve Vera. garantindo ter informaçoes fresquinhas sobre o paradeiro das Sisters Salvadoras. Onde foi que eu deixei? Estava aqui. Mais tarde constatou-se — ouça! ouça! — estar o Sobrevivente 2001 de tal sofrendo das terríveis alucinações características do Estágio D da contaminação. lá vem os bois. ação! VERA — Saco. É quatro.) Acho que aqui ainda deve ter um pouco daquele café de ontem. irmãzinha. Eles não vão nos encontrar nunca. onde está Nostradamus Pereira. Carmem e Vera estatizam. as fugitivas estariam ocultas num porão ao sul do Boulevard Césio 90.CENA 4 Nesse momento entra um ruído eletrônico fortíssimo. Luz sobre o Plano Mídia. um brinco. (Tentando mudar de assunto. NOSTRADAMUS — E é cinco. da sua. muita atenção! Durante a madrugada passada o sobrevivente identificado pelo número 200 1-KBeta-S-B-03 procurou o Centro de Denúncias da minha. E atenção. Segundo ele. é lero: Bom dia. querida? . E um. CARMEM — Se Deus quiser.) Está muito frio. atenção. E dois. Batalhões armados até os dentes cercaram a área. porta-voz oficial do Comissariado do Poder Central. queridos sobreviventes da Grande Catástrofe! Aqui quem fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. (Encontra uma garrafa térmica. que simulacro. mas as duas Sisters não foram localizadas. Conte à mina. Sempre a mesma história. ao alvorecer da manhã do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste. é zero. Carmem com o pedaço de pão estendido para Vera. em sua primeira transmissão de hoje. um bum. no meio daquela pilha de Vanity Fair que você trouxe outro dia. da nossa Zona Contaminada. É três. virou freguês. Vera com o fuzil.

mente.) CENA 5 CARMEM (Erguendo o pão seco em direção ao alto. The Big Bitch. Com vocês. as Sisters Salvadoras. NOSTRADAMUS — Como todos vocês estão cansados de saber. generosamente..VERA — Frio. através da procriação.) — Corpo de Cristo. (Volta o ruído eletrônico enquanto a voz de Nostradamus vai desaparecendo. Vocês ouviram o seu repórter Nostradamus Pereira. Toda a cidade está cercada. litúrgica. a deusa do fin-de-siécle passado: Ma-don-na. Dá-lhe. do Esp. abundantemente. vacona! (Entra Material Girl. oh doce e sagrado Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo.) Qualquer informação sobre Carmem e Vera. a completa extinção da humanidade. As duas ficam bebendo café em silêncio. derramai sobre nós Vossas sagradas bençãos.) Em nome do Pai. cientistas especulam da possibilidade da criação de uma nova espécie de mutantes. todas as saídas controladas. em sua primeira transmissão diária. fraco e fedorento. resultante do cruzamento de uma ou ambas as fugitivas Sisters com algum contaminado. mente.. E agora fiquem com outro hit dos velhos bons tempos anteriores à Grande Catástrofe. após a Grande Catástrofe. será regiamente recompensada pelo Poder Central. por um fenomenal fenômeno fescenino as irmãs Carmem e Vera são as únicas mulheres sobreviventes ainda com seus úteros em perfeitas condições de funcionamento. (Benze-se com o pão. do Filho. Like a Virgin ou algo assim. Mas tudo bem. . todas as ruas vigiadas. enquanto prossegue a transmissão de Nostradamus. Além disso. Eu disse regiamente. e portanto as únicas mulheres vivas capazes de evitar. maravilhosamente.

eu esqueci do esmalte. lentamente. VERA — Para fazer um filho com um desses monstros sobreviventes? Um filho monstro. Eu volto logo. E batom.) CARMEM — Não esquece de trazer a gasolina! E vê se encontra aquela biografia da Lady Di! (A parte. volte aqui. Foda-se a raça humana. .) — Caralho! Não me pegarão com vida. Entregue-se você.. (Vai saindo.) Coitadinha. CARMEM — Às vezes acho que seria mais fácil se a gente se entregasse logo. também? Pois eu não. Na melhor das hipóteses. (Pega o fuzil. VERA — Pare de me chamar de querida. Não me deixe sozinha pelo amor de Deus! VERA (Vestindo as luvas. (Sai. pode ter certeza. eu também queria uns bombons. fica calma. Meu Deus. Dorme. e esmalte. Aproveita. você quer que eles nos encontrem? Fica em paz. decidida. querida. viro tia de um monstrinho bem nojentinho.. querida.) — Calma. Eu também vou aproveitar. queri. Fala baixo. dizem que foi das primeiras a ser contaminada. CARMEM — Os desígnios de Deus são insondáveis. se quiser.) Chega de bobagem. CARMEM — Que amor! VERA — Às vezes eu acho que você ficou completamente louca. Eu me recuso. Ah.VERA (Cortando. ouviu? Eu me recuso a entregar meu corpo para esses monstros. sonha. a humanidade acabou. querida. No que depender de mim.) CARMEM — Vera. Prefiro morrer de fome. Pára e apanha um par de luvas de borracha.

Mr. Imploro-vos de rastros que perdoe minha irmã Vera — ela não sabe o que faz e sem sua força e proteção. cheia de graça. oh vale lamacento do Estige. Desde L‘Alma ou algo assim. cavalheiro? . aroboboi! Ave Maria. lansã! — o fruto de vosso ventre Jesus. Senhor. por ti imploramos neste vale de lágrimas amargas de Petra von Kant. Orai. CARMEM — E no sétimo dia sete anjos desceram de suas sete casas. Nostálgio está: parado. Ao fundo. Enquanto Carmem reza (a atriz pode improvisar à vontade). sete moradas. NOSTÁLGIO (Curvando-se.. sobem os acordes de alguma valsa bem conhecida. com uma rosa vermelha nas mãos estendidas para Carmem. e em nome do Senhor proclamaram aos sete ventos. mãe de misericórdia — eparrêi. Ondas do Danóbio. Oxumaré. ainda que tivesse todo o ouro do mundo eu nada seria. Nostálgio aproxima-se cada vez mais. dá voltas pelo palco. Salve Rainha. espana o caixão. doçura e esperança nossa. enumerando futilidades.CENA 6 Enquanto Carmem fala sozinha. quem na legião dos anjos escutaria meu grito? Vida. muito formal) — A senhorita dar-meia a honra desta contradança? CARMEM — Falou comigo. acende-se a luz no Plano da Nostalgia. Aroboboi. sete moradas.) — Bendita seja a sagrada refeição que me dais hoje. fecha a tampa e coloca uma coroa de flores em cima. minha mãe Oxum! Por ti rogamos. Senta-se no centro do palco com o pedaço de pão nas mãos. CARMEM (Chorosa.. Mr. Pega um espanador de penas. com suas sete espadas de fogo. Em vossas divinas mãos entrego meu destino. que se fizesse silencio por todos os cantos crestados desta terra calcinada por sete carcinomas cancerígenos. seja ele qual for. se eu gritasse.

Ao contrário. E vossa merca. NOSTÁLGIO — Ah. CARMEM — Mas deixemos de lisonjas. a senhorita pode chamar-me assim.) — Cigana eu. Quem é mesmo o senhor? NOSTÁLGIO — Sou aquilo que foi. cavalheiro. se indiscrição não o fora? CARMEM — Apenas Carmem.) Mas aceito vossa prenda..NOSTÁLGIO — Pois evidente que sim. Dar-me-ia a honra da contradança. CARMEM — Que exagero. gentil donzela? CARMEM — A honra é toda minha. Nostálgio.. apesar das guerras. Tout-court. Oblíqua. Alguns preferem Nos. (Coloca a rosa nos cabelos.Nostálgio. começam a dançar. dissimulada. NOSTÁLGIO (Enlaçando-a. Tudo aquilo que persiste no coração dos mortais.) — Aceite. fui. Mas prefiro Mr. CARMEM — Que romântico! . Um criado seu. garboso jovem.. como singela prenda de minha ardente admiração e afeto. Sou o que resta na memória. e não volta. podeis crer. obrigado.. CARMEM (Muito coquete.) . nobre senhor? Nada tenho de cruéis dissímulos. ilustre mancebo. embora ainda não saiba sua graça. doce e fatal veneno que a um só tempo mata e embriaga: teu nome sempre será Mulher. NOSTÁLGIO — Nome de cigana. Duas sílabas crocantes: Car e Mem. das pestes. outros apenas Gio. Uma modesta rosa para enfeitar a suprema rainha de todas as flores. NOSTÁLGIO (Oferecendo a rosa. sou e sempre serei a mais sincera dentre todas as donzelas. além da passagem vertiginosa e implacável do Tempo.

. CARMEM (Cantarolando. CARMEM — Autentica. Não . CARMEM .. Sou a praia deserta varrida pelo vento nas noites de lua cheia. (A valsa pára bruscamente..‖ NOSTÁLGIO — Sou o perfume no vale entre os seios da bemamada. o sândalo. recitando Fernando Pessoa.. a ametista.) . CARMEM — Sois tantas coisas belas. Qu‘est que se passe. Vêde-o.‖ Não consigo esquecer aquele dia.. senhor. no dia real. (Noutro tom. Não passo de uma desgraçada que nada tem de seu além de um sonho falso.―É o dia. (Valsam. o arquipélago. NOSTÁLGIO — Sou o bolero eternamente vivo na lembrança dos velhos enamorados.) — ―Acuerdáte en Acapulco. NOSTÁLGIO — A orquídea. vêde-o.. CARMEM — Ai! NOSTÁLGIO — A pérola. mon bijou? CARMEM (Em transe.. CARMEM — A ametista. senhorita! Vosso ânimo arrefeceu tão súbito. Por mais que o tempo passe.Poison! Eternity! And last but not least: Chanel número 5! NOSTÁLGIO — Sou o suspiro. vêde. Vêde. seu idiota. venha. o sândalo.) NOSTÁLGIO — Calma. é dia já. até que ela o empurra bruscamente. coberto por todas as cores de todas as flores recém desabrochadas. ali fora. Fazei tudo por reparardes só no dia. de aquellas noches..) E eu.) Mas venha.... enlevados. o arquipélago. eu não consigo. quem sou eu? Não sou nada. Maria bonita. Maria del alma..NOSTÁLGIO — Sou o jardim de um sobrado de subúrbio.

HOMEM (Tirando o fuzil das mãos dela. voe comigo! Tam-tara-ram-tararam-ra-ram. Venha.O que? Você quer acabar com a única coisa que nós temos? Ora. Carmem e Mr. Vamos continuar dançando. enquanto puxa um relutante Nostálgio. onde pode-se ver Vera com o fuzil na mão. Não sentiu o meu cheiro? VERA — Não me toque. nós não temos . patéticos.) Tamtara-ram-tara-ram. responde logo. ri muito. HOMEM DE CALMARITÁ (Aparece subitamente.. Dance comigo.) . garota. meu amor. Ah. Carmem esbarra em coisas. Vem cá. Eu sei que tem alguém aí.podemos perder tempo.) Vamos. descontrolada. eu gosto. senão atiro. CENA 7 Grotescos. Você gosta.. Carmem e Nostálgio ficam estáticos VERA — Quem está aí? Responde. segura-a por trás.) — Claro que sou eu. Nostálgio tentam dançar sem música. aponta. HOMEM — Que é isso? Por que não? É tão bom sempre.. porque a vida é nada!‖ (Tenta cantarolar.. deixa disso. enlace-me como antes. A valsa continua. vamos valsar entre as ruínas. a valsa não pode parar! (Ri como se estivesse bêbada. é melhor acabar logo com tudo.) E você? Responde logo. VERA — Estive pensando. acende-se a luz no Plano Alfa. maestro! ―Dai-me mais vinho. Dançando sobre as cinzas de tudo. Enquanto isso. (Cautelosa. senão atiro (Engatilha o fuzil.) Música.

. Nós só temos hoje e medo. como você.) Aqui. nas virilhas. (Começa a vestir as luvas de borracha. você e eu. três dias. . como uma certeza. guardado nas minhas dobras. garota. Temos que aproveitar. meu Deus.. Dois.. Vem cá. (Cheira-o por todo o corpo. HOMEM — Isso..) — Maldito macho. HOMEM — The horror. VERA — Você é tão belo. Não sei o que seria de mim se você não tivesse aparecido. E muito perigoso. VERA (Louca de tesão..Não diga isso. The horror. quando parece que passa.. Na curva do pescoço. tão forte. você sabe.. embaixo do braço.) Vai embora. Só eu posso sentir.. (Agarra-se nele.. eu não posso confiar em você. Tesão e fome. secreto. Mas eu tenho uma intuição estranha. Deixa eu matar minha fome. continua aqui. Nenhuma esperança. Teu cheiro fica grudado na minha pele quando a gente se separa. porque não passa.) Bem na ponta dos meus dedos... Estamos em extinção. uma certeza absurda que você vai me trair. VERA — Agora e terror. E maldita a fenda entre minhas coxas que precisa do teu falo. além de nós mesmos.nada. deixa eu comer você. ele fica lá. VERA — Não! Hoje é a última vez que nos encontramos. eu tinha quase esquecido do teu cheiro.) O teu cheiro. HOMEM — Não há perigo nenhum. Sou um sobrevivente sadio.) . Nós não estamos contaminados. nenhum futuro. Vem cá. Foi um verdadeiro milagre a gente ter se encontrado. HOMEM (Acariciando-a.. que loucura. ao mesmo tempo. Existem poucos iguais a nós. E mesmo depois. ela começa a ceder. Você não tem o direito de jogar isso fora. VERA — Tesão e fome. Deita aqui comigo. vem. (Afastao...

Nostálgio tentam valsar sem música. HOMEM — Nunca. CARMEM — Os cristais retinindo! NOSTÁLGIO — O champanhe derramado sobre as rendas! CARMEM — Çá vá! Ça vá! No Plano Alfa: HOMEM — Como você é gostosa. VERA — Quero sentir o teu peso. A luz diminui um pouco no Plano Alfa. nada.) — Não. Vem. Ao mesmo tempo. me morde. Me lambe. HOMEM — Nada nunca será a última vez entre nós. a luz vai aumentando no Plano Real. Claro que tudo é mentira. meu amor. sim. Me machuca. repete comigo: para sempre.HOMEM — Eu sabia. enquanto Vera e o Homem se abraçam com muitos gemidos. Não é verdade que você não me quer. HOMEM (Começa a vestir as luvas de borracha. VERA — A última. Vamos ficar assim para sempre. não se pode viver sem amor. VERA — Pela última vez. HOMEM — Deixa eu entrar em você VERA — Não esquece as luvas. Devagar. Mais fundo que todas. VERA — Repete. Melhor que a prime. VERA — Claro que não é verdade. onde Carmem e Mr. não esqueço nada. Vem. .

me deixa em paz. NOSTÁLGIO — Valsemos.) — Para sempre.) — Você não é nada. ferida em pleno vôo. Fora daqui! NOSTÁLGIO — O verso póstumo na algibeira do poeta suicida. CARMEM — Você é um robô ridículo. Valsemos.HOMEM (Erguendo as mãos com as luvas de borracha.) . depois o empurra. a rodopiar vertiginosamente no ritmo da fantasia. minha bela.Sou o ramo de miosótis esquecido entre as páginas amareladas de um livro de sonetos antigos. Os dois voltam à obscuridade enquanto Carmem e Nostálgio continuam a rodopiar no Plano Real. CARMEM (Agressiva. . CARMEM (Aos gritos.Um manequim.) — Pára com isso! Chega. tentando desvencilhar-se. CENA 8 Os gemidos de Vera e do Homem — obscenos como os de um vídeo pornô — vão diminuindo de intensidade. mas sem música. As valsas não morrem nunca. CARMEM (Deixa-se levar um pouco. você não passa de um boneco de cera com voz de fita cassete! NOSTÁLGIO (Soltando-a e falando mecanicamente.) — O suavíssimo pulsar da andorinha peregrina. ainda morno de seu coração.) . cada vez mais longe. minha musa. isso é o que você é! Um manequim de gesso pintado! NOSTÁLGIO (Afastando-se. NOSTÁLGIO — Sou os pares enlaçados no centro do salão.

Havia sempre naqueles dias. HOMEM — Junto comigo. CARMEM — Então veio a luz. nunca ninguém me tirava pra dançar. HOMEM — Como você gosta. Ah. Não pára.CENA 9 Volta luz tênue no Plano Alfa. minha irmã Vera preparava um vestido novo para a festa daquela noite. Estou indo.) — Havia uma festa. as luzes todas acesas. assim. . Assim. VERA — Aqui. absolutamente nada. mais longe. Nada. devagar. Naquela tarde. Nós estávamos no porão da casa. Sei que era abril porque as folhas começavam a amarelar nos plátanos da rua. E devia ser abril. Onde você gosta. VERA — Agora mais forte. O diálogo de Vera e do Homem entremeia o de Carmem e Nostálgio no Plano Real. De repente. HOMEM — Vem comigo. Em algum lugar. o mais cruel dos meses. meu amor. Nenhum barulho. nenhuma explosão. VERA — Estou indo. Só o silencio e a luz. Devagar. o brilho dos cristais. acho que era de tarde. tenho quase certeza. agora. Faz muito tempo. No Plano Real: CARMEM — Era de tarde. meu amor. Agora. Vem que eu te espero. naquele tempo. Eu não gostava de ir a festas. cintilando. por favor. Era uma vez. NOSTÁLGIO (Ao longe. Eu olhava fotografias de um álbum antigo. VERA — Mais fundo. Tinha que ser em abril.

e fiquei quieta quando o vento começou a soprar. CARMEM — Primeiro veio o vento. eu não lembro. Uma iuz que cortava a retina da gente. Em pé. sem querer. VERA — Só muito depois encontramos os corpos de papai e mamãe. Só aquela luz clareando tudo longe. Mas não fiz nenhum ruído. Vera faz contraponto a Carmem. Eu quero dizer. Os corpos.Uma luz cegante. CARMEM — Eu comecei a gritar. VERA — Carmem rasgou sem querer a fotografia. Parecia de vidro. nem os ossos ficaram. Plác! VERA — Era uma foto de nós duas em Paris. dentro e fora do porão onde eu estava com Vera. De olhos fechados. no mesmo momento em que tesoura caiu no chão. eu gritei e gritei até perder a voz. Vários dias depois. bem em frente a Notre-Dame.. VERA — Uma luz insuportável. CARMEM — Plác! fez. esverdeada. O Homem continua deitado. tapei meus olhos com uma das mãos. Dentro só tinha cinza. . de aço. Para não ficar cega. No Plano Alfa. Talvez já tivessem morrido. CARMEM — Papai e mamãe estavam fora. a luz fica mais forte.. as roupas. Eu vi o reflexo dela no rosto de Carmem e deixei a tesoura cair no chão. rasguei a fotografia que tinha nas mãos. Pelas janelinhas do porão dava pra ver o vento de fogo queimando tudo. VERA — Eu podia imaginar que tudo mudaria tão completamente e para sempre depois daquela luz. CARMEM — A tesoura de Vera caiu no chão e eu. um barulho seco. para não ficar cega.

vinte minutos no máximo. CARMEM — Era de tarde.) — Repousa. Que diga-se de passagem. vem. De que adianta lembrar? As coisas não mudaram entre nós. não me deixe só. que a vida é apenas e nada mais que sonho.) Por favor. Como se o grito pudesse me salvar. CENA 10 . está prestes a fechá-la. gritava. E para sempre. Dorme e sonha. Agora parece que está sempre anoitecendo. minha bela. (Toma-a pelo braço e começa conduzi-la em direção ao caixão. Já passou. senhorita. senhor Nostálgio. por favor. Desde aquele dia. CARMEM — Eu tenho tanto medo.) Memória. Deita aqui comigo. já está passando. Eu não conseguia parar de gritar. A pele da senhorita acordará louçã como uma porcelana chinesa. A senhorita está demasiado atacada dos nervos. A luz apaga no Plano Alfa.HOMEM (Para Vera. Pó. NOSTÁLGIO (Acomodando-a no caixão. no Plano Alfa. só mais uma. Quinze. Já vai passar. NOSTÁLGIO — Apenas para o sono da beleza. VERA — Completamente. (Muito frágil. Não me obrigue a entrar no caixão. Como se estivesse louca. pronto. Outra vez.) Convém deveras repousar um poucochito.Esquece. (Ergue a tampa do caixão.) . tudo pó. vosmecê nem necessita. com Carmem dentro. Pronto. fantasia. CARMEM — Eu gritava. sempre era de tarde ou de manhã naquele tempo. Tudo mudou completamente. adormece. ilusão. quimeras. vem cá. NOSTÁLGIO — Acalme-se.

únicos seres capazes de salvar a humanidade da completa extinção — oh não. da nossa Zona Contaminada.) NOSTRADAMUS — E ão.) — Você ouviu? É a segunda transmissão de hoje. Não deixe o sol queimar as suas pústulas: passe cinza nelas. Nostálgio começa a voltar ao Plano da Nostalgia. Na voz tropical de Ney Matogrosso. o porta-voz do Apocalipse.NOSTÁLGIO (Está por fechar a tampa do caixão quando entra novamente aquele ruído eletrônico das transmissões de Nostradamus. VERA . desventurados sobreviventes deste mundo cão. vamos ouvir Trepa no Coqueiro. para lembrar os velhos bons tempos do libido. Luz no Plano Mídia. E agora fiquemos com mais outro hit do século passado. depois diminui ao mesmo tempo em que volta a luz no Plano Alfa. que escuridão! Batalhões patrulham incessantemente os escombros das ruas da cidade. Cinza Angra 2. é mina.É muito tarde. ão: atenção. Que nada. da sua. E continuam as frenéticas buscas das Sisters Salvadoras Carmem e Vera. A voz de Vera aos poucos sobrepõe-se música. eu tenho que ir. HOMEM — Sempre a mesma bobagem. Tudo está sob absoluto controle. Carmem permanece estática dentro do caixão e Mr. gemada. porrada. é nada. em mais uma de suas transmissões diárias diretamente do centro da minha. ão. VERA (Para o Homem. . à venda em qualquer Posto de Insalubridade bem perto da sua toca. à procura das Irmãs Sisters. Aqui fala o seu repórter Nostradamus Pereira. Enquanto Nostradamus fala. muita atenção. E conta. Sacudam suas muletas. oh não. moçada! Esta é pra quebrar o gesso! A música toca um pouco (esta ou qualquer outra).

fado. criticam. sempre aqui.) ―E o balão vai subindo. Eu não tenho nada.) Talvez sem eles eu nem existisse. cercada por olhos fosforecentes que observam cada um dos meus movimentos do fundo da escuridão.) Não é justo. São João. nunca vi seus corpos. Nostálgio está no seu Plano da Nostalgia.) O que é que vocês esperam de mim? Eu não tenho nenhuma sugestão a fazer para melhorar a vida de vocês. mortal e desvairada! (Procura algo dentro do caixão. Não conheço suas caras. E esperam. uma canção esquecida.) — Não havia uma festa? Onde foi todo mundo? Todos sempre me deixam só. vai caindo a garoa. Ai de mim. Dessas que ninguém lembra mais. bem coloridas. Ela tem uma vida fora daqui. Volta no Plano Real. até Vera. Qualquer canção. Estou trancada dentro desta caixa preta. A noite é tão linda e a chuva é tão boa. E eu não sei nada sobre eles.(Apaga-se a luz no Plano Alfa. (Começa a espalhar pelo palco uma fileira de bandeirinhas de São João. a platéia. Karma. esqueci tudo.) Só esta caixa preta. Observam e julgam. (Canta. dentro do caixão. vigiam todos os meus passos.‖ Obs. enquanto o tempo não passa. acende a fogueira no meu coração. Uma canção antiga. Sina. ela vê as coisas da rua. sentado na bergère ou numa cadeira de balanço. (Olhando o próprio palco. Cantar e dançar. à minha volta. ) CARMEM (Saindo do caixão. Mr. (Para a platéia.) Não havia uma festa por aqui? Então vamos cantar. Mas o melhor a fazer é cantar. minha gente. São João. Nem mesmo esta existência de merda. No livro original não consta a Cena 11 . Sei apenas que seus olhos estão sempre lá. Quem foi mesmo que disse isso? Ah não importa. essa é a única maneira de vencer o fim do mundo. Eu não tenho nada. (Noutro tom. já esqueci. Carmem está sozinha no palco. destino. os spots. Eles sabem tudo sobre mim.

Tem uma coisa que eu quero te dizer. HOMEM — Eu levo você em casa. Sei lá.) — Dez mil e oitenta minutos.) HOMEM (Segurando-a pelo braço. Nostálgio também sai de seu Plano para ajudá-la. Mr.) Vou levando o seu cheiro junto comigo.) — Que que foi? Vai me pedir em casamento? . é isso? Nunca fui muito boa em contas. sobre Vera e o Homem. acho que sim. Uma semana. VERA — E você acha que vou dizer onde moro? HOMEM — Você não confia em mim? VERA — Confio. VERA — Não posso ficar mais. VERA (Rindo. Tenho que ir. (Procura o fuzil. é muito arriscado. VERA (Irônica. Mas não a esse ponto. Mas juro que eu volto. já disse.) — Deve passar do meio-dia.) — Espera. (Acaricia o Homem. VERA — Não. HOMEM — Mais um pouco.) Semana que vem eu volto.CENA 12 CARMEM (Canta. Se houver o Coro dos Contaminados. pode colaborar com ela. HOMEM — É muito tempo. (Abraçam-se. HOMEM — Não é isso. sete dias. Todos brincam enquanto a luz diminui para voltar no Plano Alfa. faz tempo.) VERA (Tirando as luvas. olham-se em silêncio por algum tempo até que ela se volta para sair. dança e espalha bandeirinhas pelo Plano Real. Fica mais um pouco. cento e sessenta e oito horas.

sílaba por sílaba. ... VERA (Voltando. E legiões de contaminados pelas ruas. O que eles querem que a gente acredite. detritos. eu tenho que trepar — eu tenho que sobreviver todo santo dia. VERA — Que lugar? Foi tudo destruído. VERA — Fugir? Mas fugir pra onde. sei. O que existe é isto. ―Santo‖ é maneira de dizer.) HOMEM — Eu disse Calmaritá. muito atenta. S6 ficaram ruínas. meu bem? Você sabe perfeitamente que não existe mais nada além da Zona Contaminada. Goa..) — Calmaritá. hein? Coqueirais e areia branca. acontece e acaba aqui. drinques tropicais de abacaxi com camarão. eu tenho que dormir.) — Não me diga. Mas. Eles querem que todos pensem que tudo começa.HOMEM — Foge comigo. Finalmente apertaram o botão: bum! acabou. o que? O que foi que você disse? Eu já ouvi esse nome em algum lugar. Dizem até que tivemos sorte de sobreviver. Bem que eu gostaria.) Mas eu conheço outro lugar.. dentro da Zona Contaminada. claro. HOMEM — Existe outro lugar.. no planeta inteiro. Estou farta de sonhos idiotas e escapistas. VERA (Sem prestar atenção.) — Calma.) — A luta é aqui. escombros. Um lugar paradisíaco onde a gente pudesse tomar banho de mar e fazer amor o tempo todo. como nos velhos tempos. Arembepe? HOMEM (Lentamente. (Pausa. meu bem? Capri. (Vira as costas e vai saindo. onde. porque não interessa ao Poder Central que todos vão embora à procura de outra coisa. Teu amor e uma cabana. Eu tenho que comer. HOMEM — Isso é o que eles dizem. Só aqui.. VERA (Sarcástica.

O fogo purifica..) . Quem pisa na lama.. bem quente. dois. Carmem e Mr. Quem pisa no fogo. São João. (Pula e tropeça. quase cai. CARMEM — ―São João.) CENA 13 No Plano Real. E proibido falar desse lugar. Nostálgio brincam feito duas crianças — ou dois retardados mentais — no palco enfeitado de bandeirinhas.. pulei. NOSTÁLGIO — Será que eu consigo? CARMEM — Claro que sim. CARMEM — Então lá vou... Vamos pular a fogueira? NOSTÁLGIO — Primeiro você. Eu disse Calmaritá. como é mesmo? HOMEM — Calmaritá.HOMEM — Claro que você ouviu. Em algum beco escuro. Um. eu já vou. NOSTÁLGIO — Não precisa empurrar... Acende. Ai. São João. Agora é a sua vez. .Quem pisa na brasa. São João — acende a fogueira no meu coração. Xangô menino. Pronto.. num sussurro.‖ Acende. mija na cama. Mas ele existe. dois e. é proibido dizer essa palavra. Vai logo. (pulando uma fogueira imaginária) três. mija de bobo.. São João. (A luz apaga subitamente no Plano Alfa. Todos falam em voz baixa.. mija na casa. e. implicante. VERA — Calma.) CARMEM (Batendo palmas. Acende uma fogueira bem grande.. Um..

E muito importante acender a vela. três. isso é meio chato. (Pega uma vela e uma bacia cheia d’água. CARMEM — Você mija na casa. Você vai adorar. você mija de bobo. Treze gotas. bem devagar.NOSTÁLGIO .. NOSTÁLGIO (Trombudo.Eu não sei como é esse brinquedo.) — O fogo purifica.) — Não quero mais brincar disso? CARMEM — Você quer brincar do quê. . bem devagarinho também. sim. NOSTÁLGIO (Pega na mão dela.) CARMEM . com um toque de maldade. O que será isso? Um triangulo? Não. CARMEM . dois. pega. Não sei se eu quero. E vai pingando. treze vezes. CARMEM — Ah. A cinza é a única redenção da matéria vil. orienta. CARMEM (Em transe.) — Agora você vira a vela assim. NOSTÁLGIO — É fácil. Toma. Só escorreguei um pouco.) — Um. vem cá que eu te ensino.) NOSTÁLGIO — Se o desenho formar um coração é um novo amor. CARMEM (Pingando a vela na água e contando. Acho que é um navio. não. quatro.) Primeiro a gente acende a vela.. (Conta até treze. então? NOSTÁLGIO — De sorte. olha só. Vamos brincar de ver a sorte. Só o fogo purifica. um navio.Acho que não está formando nenhum coração.Não pisei nada. você mija na cama. (Acende a vela lentamente. NOSTÁLGIO — Quer. E não é chato nada.. É superdivertido. E aqui tem tudo que a gente precisa. Parece mais um..

. bem infernal. Espera até a água parar de se mexer.) Eu não vou morrer. é a Stephanie de Mônaco. CARMEM — Mentira! (Agitada. vertical. A vida está deserta. está mudando. todo mundo sabe. horizontal. Vera.. é você? VERA (Em off) . sim. CARMEM — E cruz.) — Você mexeu a bacia. NOSTÁLGIO — Não mexi nada. NOSTÁLGIO — Já parou. assim não vale.) — Não.Não. Deve ser outra coisa. Tudo bem aí? . Você não sabe nada. Eu estou mandando. NOSTÁLGIO — Uma cruz. Vera. fica quieto. CARMEM — Cala a boca. Evidente que é uma cruz..) — Treze gotas na bacia. cruz não. faz tempo. Para bem longe. E cruz é morte certa. CARMEM — Pára com isso! NOSTÁLGIO (Implicante. a alma está vazia. parece que tem alguém aí.) — Cruz é morte certa. Fica quieto. Você está mentindo! NOSTÁLGIO — Cruz é morte.NOSTÁLGIO — Navio é viagem. Cruzérrima. Eu já morri. CARMEM (Aterrorizada. batendo palmas e cantando. CARMEM (Aos gritos.. Você está pirada. outro assim. CARMEM — Espera. Um risco assim. fui eu que inventei você. Não pára de mudar.) Estou ouvindo um barulho. É morte certa. Agora parece uma. Claro que sou eu. cruz quer dizer o quê? NOSTÁLGIO (Cruel. pulando em volta dela. E é uma cruz. (Nostálgio estatiza. Carmem olha em volta. E é pra logo.

Para bem longe. ado . Anda logo. A gente só vê mesmo aquilo que acredita. hein? Era aquele seu amiguinho invisível outra vez? CARMEM — Vera. então. da minha. tudo bem. da nossa . Ela não pode ver você. Cruz eu não gosto. vai? VERA — Cruz? Bom. (Entra o ruído da transmissão de Nostradamus. Ambas se imobilizam. O seu repórter Nostradamus Pereira informa que movimentos inusitados foram observados durante a manhã de hoje num supermercado abandonado — ado. sai daí. não. até pode. me explica uma coisa: se eu pingar treze gotas de uma vela numa bacia cheia d‘água. (Para Nostálgio.CARMEM — Tudo. vamos.) NOSTRADAMUS .Cruz. VERA — Pois.E atenção.) . dá o fora. O desenho vai ser de um navio. olha só. bem no coração da sua. é. (Empurra Nostálgio. CENA 14 VERA (Entrando. meu povão.) E mesmo que visse. bota atenção nisso. sabe o que? CARMEM (Infantil.próximo ao cruzamento das avenidas Chernobil com Nagasaki. ela não acreditaria. VERA — Cruz coisa nenhuma. entregando-lhe a vela acesa e empurrando-o para que Vera não o encontre.) — Pelo visto você andou se divertindo. E você lembra o que significa navio? CARMEM — Uma viagem. Mas acho que vai formar coisa bem diferente. que vai voltando para seu Plano com a vela acesa nas mãos.) Anda. não vai formar o desenho de uma cruz.

CARMEM (Mastigando algum coisa. muito mais. fiquem agora com a ária do suicídio de Madame Butterfly. trouxe. então coma primeiro. VERA (Abrindo a bolsa e jogando latas e pacotes. salsicha. enquanto voltam Carmem e Vera no Plano Real. escuta. esmalte. Nós vamos embora daqui. você trouxe? VERA (Mostra um galão. batom. Tem café. Até parece feliz. tudo que você pediu e muito. (Entra Callas cantando. Olé. nozes.) E a gasolina. japona! O gringo bunda-mole te chifrou mesmo! Arrive derci cornutta! (Nostradamus dubla Maria Callas no Plano Mídia. Voltaremos a informar nos horários habituais ou a qualquer momento em edição imaginária. quero dizer. E as revistas. alimária. sardinha. quero dizer. CARMEM — Você está tão estranha. E por falar em ária. quero dizer. e é possível que novas buscas levem finalmente ao covil onde escondem-se The Irmãs Sisters Carmem e Vera. não é nada disso. olé. extraordinária. com coreografia do Coro dos Contaminados (se houver).) — Está bem. Rárárá. Eu preciso te dizer uma coisa importante. Escuta: nós vamos fazer uma viagem. biscoito. Nada de novo.Zona Vitaminada. sempre a mesma história. agora eu estou com fome. bombons. Come à vontade. Nós somos mais espertas que o Poder Central.) Carmem. (Pega nas mãos de Carmem. CARMEM — Já sei: você encontrou rosas brancas. já? Agora não.) VERA — Saco. Eles nunca vão nos encontrar. tudo está rigorosamente sob controle. .) — Trouxe. na voz lendária de Maria Callas. CARMEM — Embora? Mas agora.) Te mata. quero dizer Con-ta-mi-nada. VERA — Não existem mais flores. Minacontada.

E o homem também é outro. E que equipamento. como era mesmo o nome? Aquela coisa antiga. sabe qual? CARMEM — Esperança? Não me diga que você está com esperança! VERA — Estou. Eu encontrei um homem.. A viagem que eu falei é outra.. Não é nada disso. sabe. aquela coisa. era essa a viagem que você falou. Agora eles vem nos pegar. cemitérios.Claro..... Você contou a ele aonde nós estamos e agora temos que fugir.) — Calma. Sei. eu. Por onde eu vou começar? Bom.) — Feliz? VERA — Bom. VERA (Cortando a enumeração interminável. Senta aqui. estou. E um homem como nós. que fazia a gente esperar que tudo desse certo. Mas tenho assim.Um contaminado? Vera. CARMEM (Assustada. para onde a gente vai agora? Já estou cansada de andar me escondendo por igrejas. Eles precisam de nós.. CARMEM (Muito surpresa. CARMEM — Você encontrou a biografia da Lady Di? VERA — Ainda não. Um homem bom. bares. CARMEM (Incrédula. você ficou louca. livrarias — livrarias até que eu gostava —. Meu Deus. irmãzinha! Eles estão atrás de nós.VERA — E estou. Com todo o equipamento. . museus. eu preciso te contar.. Não é um contaminado.) ... O que aconteceu foi que. meu bem. teatros.De verdade? VERA (Maliciosa. meu bem.. hospitais.. CARMEM — Não existem mais homens bons. casas de cultura.) . mas vou encontrar.) ... feliz talvez ainda não.

de longe ninguém vê. esse lugar chama-se Calmaritá. De onde veio esse homem. Fica ao norte daqui. Quem não sabe. não são. as planta canibais. Ele me ama. Gente como você. Só um buraco escuro. além de vocês. Luz sobre o Homem de Calmaritá. como eu. Vera. E se perde no meio do caminho. não muito longe. Se nós sairmos logo . nós precisamos nos reproduzir e nos fortalecer para o futuro que virá. Traga sua irmã.) HOMEM — Calmaritá. Já faz tempo que a gente se encontra. Carmem e Vera paralizam-se. Umas trinta pessoas. Não tem muita gente lá.VERA — Esse é. mas só hoje ele me contou de um outro lugar que existe perto daqui. só quem sabe que ele existe consegue encontrar. Um mundo novo. de onde? Não existe lugar nenhum fora daqui. Existem outros. irmãzinha. Um mundo muito melhor que aquele que nós conheciamos antes da Grande Catástrofe. gente que por alguma razão conseguiu escapar das mutações. Nós precisamos nos reunir. Ele não estava mentindo. nas terras altas. Eu tenho certeza. mas quase todo dia chega gente nova. E um vale à beira do último rio de águas limpas. Vera? CENA 15 (Luz no Plano Alfa. além de mim. devorado pelos animais mutantes. CARMEM — De lá. venha comigo para as Terras de Calmaritá. é destruído pelos contaminados. Venha. mesmo chegando perto não vê coisa nenhuma. Fica meio escondido. ele veio de lá. Ele conhece bem esse lugar. trazida por um de nós. Ou você acha que você e sua irmã são as únicas sobreviventes da Grande Catástrofe? Não. parado no Plano Alfa.

bem em frente. agora revele o seu. parece gostoso lá: Cal-ma-ri-tá. Arrumem suas coisas e venham comigo. por volta da meia-noite estaremos chegando lá. CARMEM — E Clara. meu bem. VERA — Tem alma. você e sua irmã? VERA (No Plano Real. CARMEM — Parece bonito. Vamos todos embora para as Terras de Calmaritá. CARMEM — E ama. VERA — Tem calma dentro dela. tem lá. CENA 16 Apaga-se a iuz no Plano Alfa. suba quatro quarteirões em direção ao Comissariado Leste do Poder Central. Eu revelei meu segredo. CARMEM — E tia.) — Antes do entardecer eu passarei para apanhar vocês. aquela com a estátua de Prometeu bem no meio. na loja funerária com a fachada incendiada. HOMEM (No Plano Alfa. . Onde vocês moram. que é tão bonito. Atravesse em diagonal a Praça Hiroshima. também tem. e é bela.fica apenas no Plano Real. Fica do outro lado.) — Saindo daqui. VERA — E lar. tem maria lá. voilá.depois do par-do-sol. CARMEM — E mar. VERA — Tem maria.

Vera! Além do mais..) Será que nós podemos confiar nesse homem. diferente das outras duas. tem lama lá. Essa coisa nova dentro de mim me dá assim como uma espécie de.. CARMEM — Como é que eu posso ter certeza? VERA — Eu vou ter um filho dele. CARMEM — Como você sabe? VERA — Eu trepei com ele. a humanidade pode acabar. eles não são todos iguais? VERA — Esse é diferente. CARMEM — Um filho dele? Meu Deus. Uma terceira coisa.... CARMEM — E se ele nos denunciar ao Poder Central? VERA — Ele não faria isso. Agora não é mais apenas um buraco voraz. (Acariciando o ventre..) Desde que comecei a sentir a presença de uma outra coisa aqui. VERA — Ele é um homem bom. Ita. não foi isso? Pois eu mudei de idéia... fez amor com ele. VERA — Itaqui. furioso... VERA — Eu sei o que eu disse: no que depender de mim. não significa que. isso não é motivo. CARMEM — Que vulgar. (Noutro tom. irmãzinha? Afinal.. Ita. insaciável. Não sei explicar. Itacuruçu..VERA — Tem ita. que tragédia! Eu vou mesmo ficar pra titia. CARMEM — Mas tem. poâ. naquele mesmo lugar onde antes só existiam tesão e fome. Você sabia que na língua dos índios ita significava pedra? CARMEM — Ita.. maracá.. petininga. E não foi você mesma quem disse que. como . Só porque você tre.

Tem um rio. Enquanto fala. Fé. Que nome você vai dar pra ele? Precisamos fazer uma lista. você está sentindo fé? VERA — Pode ser.) NOSTÁLGIO — Ilusão. fazendo planos. eu gosto muito desses nomes de anjo. Vou contar hoje à noite. sobre Mr. Gabriel. ele desce e vai recolhendo as bandeiras de São João. Daniel.) CARMEM (Encantada. CARMEM — E se ele não aparecer? VERA — Ele me deu o mapa de lá. CARMEM — E ele sabe? VERA — Ainda não. Rafael. (Sonhadora. Luz no Plano da Nostalgia. Se for menino. abre. (Tira um rolo de papel.) Quando chegarmos a Calmaritá. Humano? Quero dizer. tão irracional na sua fantasia desenfreada que chega a inventar nomes próprios e lugares geográficos imaginários .) — Depois que o sol se for. Vera. esse escombro que restou. isso é tudo que o ser humano necessita. Nostálgio.era mesmo aquela coisa antiga que a gente sentia quando acreditava em alguma coisa? CARMEM — Fé? Meu Deus. basta atravessarmos a praça e seguir por aquele caminho que vai para o norte. VERA (Sem ouvir. E eu vou ser tia. E isso ai. Carmem e Vera falam baixinho. Ah. CENA 17 (No Plano Real. se por acaso ele não vier. e que só por falta de outra palavra ainda insistimos em chamar de ―humano‖.) . debruçadas sobre o mapa. Arjel. Para continuar existindo. que bom vai ser passear com o meu sobrinho na beira do rio. Tão insensato.

Me empresta a sua bolsa. Eu acredito. Na mente. Ilusão. eu já dizia cá com os meus botões. eu acredito. continentes perdidos. CARMEM — Calmaritá. e que tm apenas um nome. Eu não vou levar nada. (Recitando Manuel Bandeira. Eldorado. Nossa vida vai mudar. Calmaritá.) — Pode pegar. ilusão é tudo que o humano — esse escombro patético — necessita para continuar existindo. Parece um sonho. então preciso arrumar as minhas coisas. E se é verdade. . sonoros. Rosebud. mesmo que apenas na fantasia. VERA — Meu filho. terras do eterno prazer. Pasárgada.) — Pois eu preciso de muita coisa. VERA (Estendendo a bolsa. o Jardim das Hespérides. Ah. Carmem. Shangri-Lá.‖ Utopias. (Sai. Ao norte. Paraísos obsessivos. cheios de sugestões que incendeiam a mente dos pobres coitados. nas terras altas. Lemúria. úteros perdidos a serem recuperados de alguma forma. Atlântida. CARMEM (Remexendo dentro do caixão. Essas coisas em que não se pode jamais tocar.para a própria ilusão. É tudo.) CARMEM — Parece verdade.) VERA — É verdade.) ―E quando estiver cansado / Mando chamar a mãe d‘água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar. CENA 18 (Carmem e Vera no Plano Real. no sonho. Tudo que é necessário para começar um mundo novo. Mu. Getsemâni. meu corpo. Tudo que preciso está comigo. Nomes mágicos.

por exemplo (tira uma boneca do caixão). Priscilia querida? Vamos embora. pois só tem lá. né. é um lugar chiquérrimo. sei lá. Me diga só o que não tem em Calmaritá? Axé. meu pai Oxalá. CARMEM — Doce de abóbora. eu quero ir já. VERA — O que? CARMEM — Será que tem lá? VERA (Rindo e dando inicio a um jogo meio infantil) . me leva pra lá. A Priscilla. minha primeira boneca. meu bem. Eu não tenho filho. VERA — E caruru. CARMEM — E boitatá. Uma tesoura. vamos embora daqui. Vera? VERA — Calmaritá. meu bem? Acho que vou levar uns moldes também. calma.CARMEM — Mas eu não. . Ah me leva daqui. Tem juriti e abará. AS DUAS (Improvisam fantasias com as tralhas de Carmem e cantam. Babá. CARMEM — E vatapá. Alguns botões. eu não tenho homem. pourquoi pas? Nunca se sabe o que as pessoas usam nessas tais Terras de Cal. eu quero ir já pra Calmaritá. Tem tudo lá. CARMEM — Pois é. Como é mesmo. me diga só o que não tem em Calmaritá? Tem sapoti. oba lá-lá. eu preciso de uma porção de coisas. VERA — Mais uma meia-hora e ele deve estar chegando por aí.. tem mungunzá.) — Tem tudo lá. é o que eu digo. Não posso parecer uma mendiga. Carmem.. Agulha e linha também. Não tem aqui. mar e ita. De repente. com trejeitos de Carmem Miranda. não tem ali.Deve ter. sempre é bom. cada aquela coleção de Manequim? Eu é que não quero andar mal vestida no meio de uma terra e de uma gente que nem conheço direito. Como vai.

desventuradíssimos — íssimos. íssimos — sobreviventes da enorme. sofridíssimos. ira.) — Você nos denunciou! HOMEM — Me perdoa. com coreograJlas e muito tchurutchuru e oh yeah! De repente o zumbido de Nostradamus no Plano Mídia interrompe tudo. sem mais frescuras e submetido à confissão obrigatória o charmoso sobrevivoso má-ravilhoso revelou saber — atenção. As duas congelam como quem brinca de estátua. o arauto do fim dos tempos. ado. mucha atenção. sem qualquer sinais exteriores de contaminação. a esperança voltou! Em edição extraordinária aqui quem vos fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. aparentando por volta de 30 anos. amadíssimos. da Grandissíssima Catástrofe. NOSTRADAMUS — E atenção. íssimos — sobreviventes da Grande Catástrofe. as únicas fêmeas capazes de salvar a humanidade da mais negra e completa extinção. .CENA 19 Carmem e Vera brincam como duas meninas. onde está parado o Homem de Calmaritá. VERA — Você devia ter resistido. o Coro dos Contaminados faz backing-vocal. com gestos de Carmem Miranda. caros. Se houver. eles me torturaram. raríssimos. porta-voz oficial do Poder Central. De número não identificado. ira: Jacira! — . Há poucos instantes foi capturado mais um dos raros. procuradíssimos — íssimos. atención. da imensa.) VERA (Para o Homem. pouco mais ou menos. caríssimos. sexo masculino — e bota masculino nisso! é um bofe máravilhoso! até eu que nem sou chegado fiquei balançado como um veado — ado. ira. (Luz no Plano Alfa. atention. ado. bem no ponto! Enfim. please! — o paradeiro das Irmãs Sisters Carmem e Vera.

Eles me pegaram. da sua. Se for verdadeiro o que afirma o garanhão. O Homem tem uma das mãos estendidas em direção a Carmem e Vera. que um dia será. mais pra mina do que pra conta. no mais expressivo hit do século passado: Sa-tis-fa-ti-on! Hoje mais do que nunca. com redes. muito animado. quero dizer. Ao mesmo tempo. NOSTRADAMUS — Segundo revelou a lasanha. eu nunca tive. embora morta. Batalhões armados até os dentes que sobraram já cercam o local. o sobrevivente. Fui obrigado a contar. eu fui fraco. o Coro de Contaminados acompanha.HOMEM — Eu não tive culpa. (Sempre com os Rollings Stones ao fundo. Queriam saber de você. Me perdoa. Eu traí você. a luz permanece acesa no Plano Alfa. fiquem com a voz de titia Jagger. eles estavam escondidos atrás da estátua de Prometeu.) HOMEM — Foi quando eu atravessava a praça. eu não tinha. E se não for. Eu não sou um número. a tia tinha razão: ninguém consegue ter satis-fa-ção! (Entra a voz de Mick Jagger. Queriam saber meu número. ninguém resistiria. como se eu fosse um bicho. que continuam estatizadas no Plano Real. Mais pra zona do que pra nada. não haverá fuga possível para as Irmãs Sisters. as gatinhas Carmem e Vera estão descaradamente escondidas numa loja funerária semidestruída em pleno centro da minha. Nostradamus e o Coro dos Contaminados cantam e dançam loucamente. morta na Grande Catástrofe. Vera. da nossa Zona Contaminada. Enquanto a funerária é cercada. vão coçando aí suas feridas.) CENA 20 CARMEM — Você ouviu? .

(Sacudindo Vera. vão preparando suas xoxotinhas para reprodução. Sandrão e Leiloca). alô. moçada contaminada. bailem comigo ao som de As Frenéti-cas. Redes. Lidoka.) . Soltem todos suas frangas (vai entrando aquele tema de Dancing Days. Aos poucos vão saindo de seu Plano. VERA — Eu não estou perdida. NOSTRADAMUS — Completamente cercadas. ai. CARMEM — E do homem. Todo mundo ouviu.VERA — Claro. Meio sem graça. que tesão! — estão totalmente cercadas pelos batalhões do Poder Central. Tia Rege. fiquem com Outro hit da etapa anterior à Grande Catástrofe. CARMEM — Como ―bom‖? Ele nos denunciou! Nós estamos perdidas. numa homenagem às Irmãs Sisters. e daqui a pouco a humanidade estará salva! Enquanto o cerco se fecha irreversivelmente. algemas e mordaças serão utilizadas para prender as feras. VERA — Ele é um homem bom. cada vez mais alto com Dudu. informa que as Irmãs Salvadoras Carmem e Vera — alô. tiram Nostálgio para dançar. ele tenta. VERA — Ele sempre fala de nós. Existe um auto-falante em cada esquina da cidade. gás lacrimogêneo. Nós estamos cercadas. A prisão é questão de minutos. Desta vez ele falou também do homem. Vamos lá. amadas! Em edição extraordinária o seu repórter Nostradamus Pereira. Edir. gatinhas. para felicidade de todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. Do seu homem.) E agora. Eu tenho o mapa. CARMEM — Ele falou de nós. (Nostradamus e o Coro dos Contaminados dançam ao som das Frenéticas. CARMEM — Mas não adianta mapa. o Nostradamus. o que é que nós vamos fazer? Estamos perdidas.

Ruídos violentos começam a ser ouvidos — explosões. CENA 21 (A partir de agora a ação acelera loucamente. eu não quero. e que nem sei se existe. Eles vão nos pegar. Tudo acontece ao mesmo tempo. Eu não vou. Existem mais alguns. Venham comigo para as Terras de Calmaritá. cacos de vidro partidos —. misturados aos fundos musicais anunciados por Nostradamus e a sons eletrônicos. CARMEM — Eu não posso. O clima é atordoante. sirenes. Eu quero o que se perdeu. eu fico aqui. E preciso um companheiro para chegar. VERA — Eu tenho o mapa. Eu desisto. para sempre eu desisto. E se você tiver o mapa. CARMEM — É impossível. Ele me deu o mapa. Ou então um mapa. além de vocês. além de mim. . Eu quero aquilo que conheço.) HOMEM — Ao norte daqui. num vale escondido nas terras altas. CARMEM — Isso é loucura.VERA— Eu vou fugir. chegaremos lá por volta da meia-noite. lembra? Faz tanto tempo.) VERA — Eu tenho o mapa. Você tem que tentar também. amém. Vem comigo. Não quero esse lugar para onde você vai. Se sairmos ao entardecer. se você estiver só. (Luz no Plano Alfa. VERA — Eu vou tentar. mesmo que não exista mais. não fica muito longe. CARMEM — Como os bonzos budistas. onde esta o Homem.

Renuncio. e é fé: ca-tás--tro-fe. sobreviventes da Grande Catástrofe. as famigeradas Irmãs Sisters Salvadoras. estão completamente perdidas. Nostálgio vai caminhando com a vela acesa em direção a Carmem. Onde estará aquela vela? (No Plano da Nostalgia. seus tempo bemmovimentos dentro por permaneceram escondidas. CARMEM (Pega o galão de gasolina e começa a derramar por tudo. na voz . ivo. O homem não mentiu. caros ouvintes.) .Loucura. Carmem! Você não é idiota a esse ponto. ados. Daqui de onde do estamos tenebroso Aleluia! já conseguimos antro onde e senhoras visualizar tanto senhores. claro. pouco importa: agora é definitivo. Nostradamus acende a vela que Nostálgio tem nas mãos. minha gente. E é cá. Carmem e Vera. Sempre existe algum lugar. hoje vamos brindá-los com um magnífico soneto de Luiz de Camões. NOSTRADAMUS (Abraçado a Nostálgio. o meu gesto mais nobre é desistir de tudo agora. existe outro. O fogo purifica. ivo.) — Já disse que eu desisto. E se não existe esse.) NOSTRADAMUS — E em vez de música. VERA — Eu vou embora. Carmem e Vera estão totalmente cercadas. aventurados idolatrados adorados ados. Eu tenho uma cruz marcada no meu destino.VERA — Existe. venha comigo. Finalmente as buscas tiveram seu fim. Venha comigo. ilusão ou realidade. Não há como fugir. Eu vou para Calmaritá. Ou achadas. Neste momento. informou e continuará informando o seu repórter Nostradamus Pereira neste glorioso entardecer do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste. CARMEM — Eu fico por aqui. e é tas. e é tro. CARMEM — Onde está a gasolina? VERA — Para quê? Você não pode fazer isso.

e se tornar. da nossa Zona Contaminada. o Sol padeça. Nostálgio. Que melodia pode servir de fundo musical a um momento tão . cuidem que o mundo já se destruiu. (Canta. não tome mais ao mundo. A captura das Irmãs Sisters é questão de minutos. No meio do fogo.) VERA — Não faça isso. São João. Pela última vez. as irmãs Carmem e Vera conseguiram manter em segredo seu sórdido esconderijo. sus! Começa aqui uma nova era para todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. a mãe ao próprio filho não conheça. Os batalhões armados do Poder Central já estão invadindo o local. com Nostálgio e o Coro dos Contaminados. em pleno centro da minha. Nostálgio entrega a vela a Carmem. CARMEM — Só existe um lugar. caros ouvintes. as lágrimas no rosto. Este. eclipse nesse passo.‖ NOSTRADAMUS (Invadindo o Plano Real. que está parada no meio de um charco de gasolina.) — A porta já foi arrombada. o Sol lhes escureça. mostre ao mundo sinais de se acabar. Aleluia. furibundos e não esqueçam. da sua.‖ (Com uma reverência.) ―São João. mais desgraçada que jamais se viu. quiçá segundos vagabundos. o meu lugar é aqui. A luz lhe falte. não te espantes. acende a fogueira no meu coração. e volta para junto de Nostradamus. quem se importa com qualquer coisa? Quem se importa? NOSTÁLGIO . nasçam-lhe monstros. sem que ninguém soubesse. inacreditável minha gente adorável : durante dois anos. por assim dizer bem nas nossas barbas. bundo é o masculino de bunda. O gente temerosa. Existe outro lugar. E é inenarrável. Nostálgio! (A parte. que este dia deitou o mundo a vida.do querido companheiro Mr.) Dizem que ele não é real. sangue chova o ar. a cor perdida. mas quem se importa com isso? Aliás. O fogo purifica. venha comigo. não o queria jamais o tempo dar. As pessoas pasmadas. Mas agora está tudo terminado. de ignorantes. eia.―O dia em que nasci morra e pereça. Dá-lhe.

e depois. sacudindo os espectadores.) VERA — É tarde demais. O Coro dos Contaminados cerca Carmem em semicírculo. VERA (Enquanto Carmem fala. por que me abandonaste se sabias que eu era fraco. E que seja lindo lá. Preciso ir. Nostradamus dança com Nostálgio.) HOMEM — Meu Pai. de frente para a . De alguma forma. aos berros. Eu vou ficar muito bem. A beira da minha morte. meu Pai. Eu vou ficar bem. basta um gesto.) — Adeus. eu te abençôo. desvairada. quando tudo que eu queria era fazer o bem? Ilumina o caminho da mulher que amei. (Beija Carmem. com uma coroa de espinhos na cabeça. CARMEM — Eu vou ficar bem. minha louca irmã. A saída. onde fica a saída? Me diga onde fica a saída! NOSTRADAMUS — Atrás dela! Pega! Não deixa escapar! Queremos ela com vida! Pega! Pega! (Vera some.) CARMEM (Segurando a vela acesa com as duas mãos acima da cabeça. para nós todos. para mim. Vai com Deus.) Adeus. devagarinho. Permanece uma luz suave sobre o Homem de Calmaritá crucificado. nu. Eu tenho que chegar lá. meu Deus. com Nostradamus e Nostálgio atrás. Basta levantar a mão assim. (Pega o fuzil. aos poucos. se sabias que eu era nada? Por que permitiste que eu traísse e enganasse. Espero que você encontre o seu lugar.emocionante? A única saída para Carmem e Vera agora é cantar um tango argentino. (Luz no Plano Alfa. Eu sei que existe outro lugar. irmãzinha. agora. eu espero que tudo dê certo para você.) — A saída. já que não quiseste iluminar o meu. agora. (Começa a tocar La Cumparsita. Preciso salvar meu filho. sai gritando pela platéia. O Homem de Calmaritá está crucificado. eu tenho o mapa. eu sei que existe uma saída! Ele me deu o mapa. assim. não muito alto. O meu lugar é aqui. Vera.

) (O autor sugere a Bachiana nº 5. à exceção da vela de Carmem. Ela está sentada em postura de lótus. Ouvem-se ao longe os gritos de Vera e de Nostradamus.platéia. dos Beatles. Os Contaminados entoam o mantra Om. entra música bem alto. Então os ruídos cessam completamente e todas as luzes se apagam. cada vez mais remotos. junto com Carmem. de Vila-Lobos. Em completa escuridão. com Tina Turner?) A vela apaga.) . com a vela acesa. ou outra à escolha do diretor — quem sabe Let it Be.

com isto. que tanto me chamava de Quixote. de Miguel de Cervantes) À memória de Clarice Lispector. e se não esqueça de mim.O HOMEM E A MANCHA Peça teatral em 1 Ato (Livre releitura do Dom Quixote. em 1605.) .” (Miguel de Cervantes. Deus te dê saúde. “E.

todos pintados como se fossem prateleiras de uma biblioteca atulhada de livros. os outros dois um de cada lado. CENÁRIO No centro e ao fundo do palco. sustentado por um cabo de madeira. o Ator já se encontra no palco. ao lado. três telões pintados e independentes. Sobre ele há um globo terrestre relativamente grande e. Também pode ser um divã ou um récamier.HOMEM DA MANCHA • DOM QUIXOTE .nova‖. pernas nem braços. de Rodin. Talvez na posição do Pensador. sobre o pequeno praticável. Quando o público entra.PERSONAGENS (Todos feitos por um único ator) ATOR • MIGUEL QUESADA . um pequeno praticável. sem cabeça. A esquerda. uma voz em off. Um ao fundo. uma cadeira espreguiçadeira de lona listrada. Apenas o busto. meio na penumbra. PRÓLOGO (Que trata da condição do ator e sua procura pelo geral até chegar ao particular.) (Telões levantados. Sentado no . apenas de malha preta. esses telões sobem ou descem. A direita. Dependendo da ação.CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA e mais: GUILHERME. Além disso. um manequim de costureira. um banquinho tipo ―cantor de bossa.

.banquinho. era uma vez.. como se o estivesse vendo refletido. era uma vez. Depois fica olhando o vidro. Sim. Claro. quem sabe aqui tem alguma idéia. (Torna a girar o globo.. etc. Por que não? Afinal. então. com entonações diferentes (infantil. Deixa eu ver. eu me acho bem interessantezinho.. muito iglu. para cima. Muito palco. encara a platéia decidido. Toca o terceiro sinal. lírica. Para alertá-lo. é isso mesmo. Deixa eu tentar outra vez. Acende luz sobre o Ator. o Saara. as luzes da platéia apagam.. Muito gelo.) vai repetindo: ) ATOR — Era uma vez. eu. meu Deus? Era uma vez quem? E quando... Retoma o autocontrole. muito camelo. direita. então. ele continua a contemplar o globo sem se mover. muito calor. cabisbaixo ele contempla um globo terrestre com muita atenção.. era uma vez. Mas como se não percebesse.. e onde era uma vez? E tão difícil escolher. muito sol. com movimentos muito definidos da cabeça — esquerda.) Era uma vez.. toca um quarto ou quinto sinal.) ATOR — Era uma vez.. era uma vez. (O Ator pega um copo ou garrafa d’Água ao lado. Para cada uma dessas direções. Faz o sinal da cruz. Depois levanta-se e.. Muita areia... Era uma vez o que. muita seca. é tão difícil começar. etc.. era uma vez. muita platéia — graças a Deus! —.. Com o indicador apontado faz com que pare ao acaso. Levanta a cabeça. muito branco. Dá uma giradinha de desprezo no globo. ... muito bastidor. no chão.) Era uma vez. O Ator estremece. muita coxia. Toca o próprio rosto.) ATOR — Era uma vez um ator. muito esquimó. Nossa. que sede me deu. assustado. Alguma coisa devo conhecer. Nem um pouco dramático. Lentamente. Eu. muito chato. tem que ser alguma coisa que eu conheça bem. (O Ator larga o copo/garrafa. muito pingüim. Ah. começa a olhar em sete direções. Está nervoso. muita luz. era uma vez. muito frio. a Groenlândia. em pé. muito ensaio. catastrófica. para baixo... (Gira o globo terrestre. e bebe avidamente. Faz quase quarenta anos que convivo comigo mesmo. Eu.

muita emoção. O Ator desce do praticável e vai caminhando para a boca de cena.) . de braços abertos... (Música circense feérica. Muito. muito sonho. muita ilusão. Muito ―Era uma vez‖.

cantarola alguma coisa). meio magro. Eu conheço bem meu corpo. posa. E não estou falando do outro que me assiste. (O Ator recita qualquer coisa breve — Shakespeare. mas também. ao mesmo tempo. mas acho que sou. agora. Um ator não é uma ator sem um personagem. Eu não seria um ator se não conseguisse ser também esse outro.. sei me movimentar. ou cada noite um texto diferente. mas sei principalmente representar. O importante é que seja alguma coisa bem conhecida do público. Meu nome é Carlos. eu continuo sendo eu. flainenco seria o ideal).. As últimas falas sao dadas em off. (Pausa. Não tenho miitos cabelos nem muitos músculos. depois sai de cena. estranhos. ilustrando o que diz.. fazer gestos dramáticos. meu Deus? Será que estou muito chato? Será que estou pirando? Onde está o personagem? (O Ator vai ficando cada vez mais frenético. O personagem. Falo principalmente daquele outro em que eu me torno. Molière.) — Quando represento. eu sou um ator. será que eu não sou um ator? Será que eu não sou eu? Será que eu não sou nada.CENA 1 (De como o Ator sofre um pequeno surto narcisista mas acaba por reconhecer a necessidade do Outro para ser.) ATOR (Mais sério. passo a ser um outro. Caminha pelo palco procurando. mesmo quando não gosta do que vê.) Bom. (Faz vários gestos. embora eu também seja esse. assustadores. engraçado. eu sou mais ou menos alto. Como vocês podem ver. é dele que eu falo. porque ele sempre se vê em mim.Ladies and gentiemen. aqui. Simpático. divertidos. confuso.. um pouco tímido.) ATOR .) Eu também sei cantar (improvisa. tragédia grega.) . então. que eu me transformo quando estou sendo um ator. que eu incorporo. sei dançar (dança um pouco.

máquinas de escrever. britadeiras.) Querem acabar comigo! Isto é um complô! (Em off cada vez mais longe. Fora a morte.) Eu processo! Eu mando sustar o cheque! Susta.. o Desventurado Trabalhador Anônimo. gritos. vendedores ambulantes. No palco vazio. Alarmes de automóveis. Miguel usa paletó. freadas. buzinas. entra Miguel. trinta e tantos. uma vassoura. livre desse pesadelo que parecia sem fim. . O barulho diminui.. Na minha nova vida. como se ficasse lá fora. Intermináveis anos. sons de metrô. telefones. trinta e muitos. Ouve-se um intenso ruído urbano. muito embrulhos e pacotes. etc.ATOR — Onde está o outro? Ele é essencial para a minha sobrevivência! Onde está o personagem? Eu não tenho sentido sem o personagem! Eu vou enlouquecer sem o personagem! Eu preciso do outro! (Vai saindo.) Mas passou. o personagem. Deposita as coisas em qualquer lugar.) Mas hoje não quero pensar na morte. Está um tanto excitado. sei lá. Traz uma maleta de executivo tipo 007 e várias sacolas de supermercado. a luz permanec e apenas sobre o globo terrestre.) MIGUEL — Enfim só. (Noutro tom. Por sobre a malha o Ator. Eu até desisti de contar. susta! Eu quero porque quero o personagem! Me chama a produção! Cada meu celular? CENA 2 (Na qual se introduz afigura do personagem de Miguel Quesada. Hoje foi definitivamente o último desses. (Animado. O tempo sempre passa. claro. Quero pensar é na vida. faz o gesto de fechar a porta. Parecia que o tempo não passava nunca. sirenes de polícia e bombeiros. ambulâncias. Quantos anos mesmo? Trinta. Essa é a única certeza que a gente tem. verdadeiro inferno sonoro. Longe de toda essa loucura. gravata. talvez chapéu. Abrindo uma porta imaginária.

gentalha! (Bate a porta.. Não me refiro ao salário. Depois. não econômica. o mal. claro. Nem às filas. Começa a rodar pelo palco. Nem a toda essa miséria. cidade infernal do meu calvário de cada dia! Sayonara.) — Adeus. quanto silencio. (Deslumbrado. Miguel Quesada .) (Subitamente Miguel abre a porta imaginária. sapateia.o desventurado trabalhador anônimo. No mais perfeito e absoluto silêncio. vilie méchante da minha solidão sem remédio! Adiós. locura! Não preciso mais de vocês.) MIGUEL (Aos berros.amado. neuróticos urbanos. Dá pulinhos de dança. Decibéis altíssimos.(Miguel arranca o paletó. Quanta tranqüilidade. Uma palavra tão rica em melodia. para estremecer a platéia. O ruído urbano volta. o solitário depressivo. tão cheia de significados. lógico.) MIGUEL . Uma questão estética. evidente. Miguel Quesada está livre. Sentado. fica só com a gravata sobre a malha. um tanto ridículo. em seus aposentos. inferno! So long. Aposentado. Ah essa coisa sagrada. O ruído some. .) Falo da sonoridade.. de estar sentado..) A-po-senta-do. insuportável.. Após.. amigos que me traíram.) CENA 3 (Onde se revela a radical decisão de Miguel de desligar-se do defora e as providências tomadas para tanto... sentado.. o neurastênico insuportável. mulheres que não me amaram. o silencio.Finalmente chegou o grande dia. (Pausa breve e silenciosíssima. que bela palavra! Deve ser uma das mais lindas da língua portuguesa. em seus após. gente que nunca me quis! Au revoir. Arrivederci. meio pedante. bloody heil! Goodbye. cantarola Singing in the rain ou qualquer coisa assim. Onde habitam os anjos. o chapéu. o zé-ninguém que nunca teve nada nesta vida além de seus loucos sonhos impossíveis —. (Poético.

De certa forma. consciente das três paredes teatrais. Afinal. tudo nesta vida começa sempre com ―era uma vez‖. (A parte. E não importa que sejam coisas más ou tristes ou miseráveis ou cruéis. Como Marcel Proust..) Nenhum mérito pessoal nisso.) Porque tem o tempo. Tenho absolutamente tudo que preciso para viver sem sair nunca mais daqui. Por um segundo volta a ser o Ator.Enquanto Miguel vai falando. tudo nesta vicia são histórias. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah.) Desde bem moço.. todas as coisas que acontecem a um homem vivo são insuportavelmente reais. não oferecem mais perigo algum. e até o dia da minha morte-amém. estas três paredes do meu apartamento.. mastigando. preciso tomar nota. Como se na mente deles existisse um.. quero dizer. esmeraldas..) MIGUEL .) bem.. Um homem desses pode apenas ficar lembrando. Nada de ―real‖. (Irônico. rubis. Miguel está cercado de livros. Miguel sobe no praticável. eu sempre tive inveja dos velhos. (Hesita. Tenho estas quatro. Descem lentamente. (Os telões já desceram completamente. Não preciso de nada lá de fora. que não precisam mais fazer coisa alguma a não ser lembrar. até os sonhos. (Pensativo.A partir de hoje. Elas já foram vividas. O efeito é uma tanto claustrofóbico. qualquer homem de quase 50 anos que trabalhou sem parar desde os 15. foi chatérrima -.. remexendo na memória. O tempo burilao tosco. por mais chata que tenha sido a sua vidoca — e a minha. Olha a platéia.) . que modéstia à parte são muitas. como Juan Carlos Onetti. começam a descer os três telões pintados como se fossem uma enorme biblioteca. E também tenho minhas lembranças. bebida.. embora colorido. os telões. (Vai tirando coisas das sacolas e espalhando pelo palco. (Melancólico. falando franco. víveres para muitos e muitos anos. remédios.. nunca mais vou sair de casa. qualquer homem assim pode se dar ao luxo de passar o resto da vida sem viver mais nada.) Comida. um baú transbordante de memórias cintilantes como jóias preciosas. minhas memórias.. Ametistas.) Bom isso. E além do mais.

Nunca mais filas nos bancos. Até da delegacia. Melhorou. maníaco. nunca mais sinais fechados. Só o indispensável. a ligação tá péssima. desde menino. se for preciso. que foram sempre o que mais amei. Mas ele não se importava. Enterrado vivo. querida.Era uma vez Miguel Quesada.MIGUEL . quem tá falando? Quem? Tia Flora? Tia de quem? Ah. sei. nunca mais ninguém. do supermercado. Nunca mais pessoas. Todas as histórias do mundo.Alô. qualquer problema.) E quando eu estiver cansado de pensar no que vivi. e que guardam outras histórias dentro deles. Nunca mais desejo. E só pegar e ligar. Até sexo. Miguel assusta-se.. depois hesita sem saber se atende. ansiedade. e acaba atendendo de uns três ou quatro toques. sei. Que maravilha Nenhum contato com o mundo lá de fora. Demente. o essencial. violência.) Deixa ver. moderno. (Vai-se aproximando do telefone. tenho os números da farmácia. o estritamente necessário. Faz um gesto de arrancar o fio da parede. CENA 4 (Da primeira invasao inevitável do chamado Real Insuportável e a maneira como Miguel lidou com isso. ainda me restarão os livros. (Confere numa agenda. da locadora de vídeo. sempre existe o velho e bom telefone. espanhol. Hoje em dia tudo tem entrega a domicílio. esse maldito mundo que chamam de ―real‖. Rápido.) . Quesada. do pronto-socorro. o homem que cansou de tudo e nunca mais saiu de casa. a gente nunca sabe. eficiente. da pizzaria. Tinha suas próprias histórias para lembrar. Nome . muito alto. nunca mais correrias. O telefone toca. (Poético. Miguel de quê mesmo? Que nada? Queijada? Ah.) MIGUEL (Disfarçando a voz. Sei.) Depois. Quer falar com quem? Miguel de que? Fala mais alto.. Mas reflete melhor enquanto o telefone continua tocando. diziam.

nenhuma mãe. perguntar. claro. Saco. Mas a coitada está tão velha e surda. nunca ofereci. Estou cansado. meu bem. (Pausa. Tanto. tão esclerosada que nem vai achar estranho. Pois é.) Nenhum pai. (Com pressa. Hã-hã. Quem mais? Ah. A partir de hoje tenho todo o tempo do mundo. nem vizinho.) MIGUEL— Paciência. (Espreguiça-se. Em seguida todo mundo se acostuma. Venci. Miguel continua seu monólogo. Algumas pessoas vão ligar. caminha pelo palco refletindo e tentando relaxar. mas tudo bem. O Guilherme do Almoxarifado.. é tão pouca gente.. ter. mas não tem mais.. coração.. Todo o tempo do mundo pra não fazer mais nada. tinha. a tia Flora. No começo vai ser assim mesmo. (Miguel pega uma secretária eletrônica. Aperta botões e grava uma mensagem com voz disfarçada. Quer dizer. Tchau. Nem sei bem por onde começar.) Depois. minha filha. . viu. Nem conheço ele. (Suspira. Inútil deixar recado depois do sinal‖. esse tal de Miguel viajou.. não sei pra onde. (Miguel bate o telefone com força.) Mas não tem pressa. (Sinal eletrônico. insistir. (Melancólico. Não sei de nada. Liga pra informações. Miguel viajou.) E tem também a Carolina. Sem trégua. nem namorada. Não.) Esperei tanto por este dia.) As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade. Sinto muito. Eu só fiquei com o apartamento. Ah. Foi uma luta.mais esquisito.) MIGUEL (Gravando. Afinal. Talvez nunca. (Irônico. não tem ninguém aqui com esse nome não. nenhum irmão ou filho. Como é mesmo que minha mão dizia? Quem não é visto não é lembrado. Não disse quando volta. nunca contei a ninguém desse meu plano. E.) — ―Isto é uma gravação. Nunca pediu. Mas talvez seja melhor tomar algumas providências. amor. O Zeca da livraria. paciência.) Não. a Silvana lá do banco. Longe dos olhos.) Mas a Carolina acho que nem tem meu número. Viajou. longe do coração. nem credor. Preocupado. tanto.. (Fatigado.

. roxa não! (O Homem levanta-se da espreguiçadeira. Silêncio e paz.) Bem aqui.) HOMEM (Acorda de repente. se enrosca como um bebê. (Procura no chão.. Miguel está adormecido. Ah. Não era uma mancha suja.) Não. como se tudo fosse branco ou preto ou cinza. Quase no escuro.) CENA 5 (Na qual se introduz um novo e inquietante personagem. Só um soninho.. baixinho. Lilás. Imenso. Amarelo água. só de outra cor.. Não pode ter sumido assim. Azul celeste.) . Bem clarinha.) Do tamanho do mundo. roxa. (Dorme. Só um pouquinho. (Luz sobre o globo terrestre. isso eu me lembro. Luz suave sobre o globo terrestre. a mancha. Entram acordes de uma melodia espanhola. De vez em quando voltam nesse Homem as suas porções Miguel e Ator. violeta. (Meio alterado. ela estava bem aqui. Onde foi parar a mancha? Estava aqui. De outra cor. Mas a transformação é sutil. acomoda-se. pelo amor de Deus. que sono meu Deus. fala sozinho.(Miguel deita-se na espreguiçadeira.. Baixou o Quixote.. Assim. Quando Miguel desperta. quieta. já está’ transformado no Homem da Mancha. Roxa não. ao mesmo tempo em que também começa a emergir o Quixote. A luz vai diminuindo enquanto ele se encolhe.A mancha. sonhar. Boceja. como era mesmo? Tão. nâo era uma mancha feia. tão cansado. ardente mas suavíssimo. isso não. gradativa.) . Que cansaço enorme. bem como sua estranha obsessâo. e em determinado lugar dessa superfície de repente lá estivesse ela. agora mesmo. entende? Parada. Era só. Era clara..) MIGUEL — Dormir.. Ritmo de flamenco. meu Deus. talvez só castanholas ou bater de saltos.

não sangra. Sobe no praticável... noroeste ou sudoeste. Madagascar. Mas não dói. (Leva as mãos à cabeça. não pulsa.QUIXOTE (Em pé..) A não ser que existisse apenas dentro do meu próprio cérebro. Não. dramático. não era assim. se ela não existe. no caminho de Santiago de Compostella. Não era exatamente dentro.) . Pérsia. . Mais ao norte. araras. Mas Trebizonda também não existe neste globo. ela não existe. (O Homem pára em frente ao globo terrestre. em baixo. maldição! Certamente este deve ser mais um dos imundos encantamentos dos nigromantes do mal que tanto me atormentam! (Homem sai procurando a mancha pelo palco. não lembro. hibiscos. senta no banquinho na mesma posição do Ator durante o Prólogo.) Ela tem que estar aqui. Esquisito. Nem a leste.) HOMEM — Não sei. Acho que eu estava dentro dela. um pouco ao sul de Trebizonda..) Mas onde estará a mancha? Talvez aqui. Se ela não está aqui. feito uma rede. (Noutro tom. Mas também não está. Como numa poça de água da chuva. eu estava. Em cima.Ah. E onde estarão as Terras de Calmaritá? Gozado. Um ganglio. Eu estava parado no meio dela. o caminho das Índias. um derrame. eu estava dentro dela. Etiópia. não sei. Não sei. apalpa-se. dentro não. E o Novo Mundo. nem a oeste. Ou era mesmo uma rede. Era isso.. eu também não. uma teia. Tão clara. uma bolha... Ou mais acima. e começa a girar o globo. Dentro. aqui deveria estar localizada Pasárgada. quem sabe. Dizem que existe um novo mundo do outro lado do mar sem fim. um aneurisma. talvez. Vai caminhando em direção ao praticável enquanto fala. não importa. (Agitado.) HOMEM — As Índias. Ela não estava em volta de mim. meu Deus. Pode ser então que cerca de Barcelos. não lembro.. em algum lugar. Em algum lugar ela deve estar. Que estranho. E. Uma mancha no meio dos meus miolos. uma jaula? Não lembro. Como será por lá? Como será o perfume das manhãs do Novo Mundo? Especiarias.

Este livro não mente. O Homem permanece parado. um pouco mais forte. Mas eu não sinto nada. o Homem joga longe o globo.Ah aleives. Depois acalma-se e começa a descer do praticável. a mão direita cri spada e erguida dramaticamente no ar.(Passando a mão no corpo. Já disse que não sinto nada. Não! Nada! (Violentamente. demônios! (Caminha hierático para a boca de cena e declama Mano Quintana. uma labirintite. batendo com a mão aberta no ouvido. .) Nem sequer aquela sensação de quando entra água nos ouvidos.) QUIXOTE . corvos.‖ Está aqui.) ―Miguel Esteban.) No meu corpo. Então. mas é definitivamente tomado pela figura quixotesca.): ―Vinde. Quintanar de la Orden. Nem mesmo um zumbido. uma vertigem. Eram sete os povoados que compunham a região da Mancha. tramas vis! Novamente a negra falange dos devotos de Lúcifer intenta confundir-me com sua astúcia maligna! Pois saibam que não os temo.) ATOR (Lendo. Volta a melodia espanhola. urdiduras. ladrões de estrada! Da minha mão avaramente adunca! Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!‖ CENA 6 (De como por momentos o Ator retoma sua voz. Na minha pele. Foi lá que aconteceu. Villaverde. Tisteafuera. uma queimadura. Faz tempo que eu não sinto nada. Era lá que estava a mancha. no livro. antigo e lê com todo cuidado. Esquivias. (Começa a pular num pé só. Argamasilla de Calatrava e Argamasilla de Alba. como se fosse novamente o Ator. ele pega um livro pesado. já totalmente transformado em Quixote. como uma tatuagem. chacais.

) E ainda que não. real. Mero engodo. Geográfica ou psicologica. QUIXOTE — Parece mais do que evidente que toda esta burla não passa disso mesmo. Caminha nervosamente. (Animado. tenho provas de que existe. (Suspiroso. se escreveu ―num lugar‖ isso obviamente indica que a referida mancha ocupava — ou ocupa — lugar no espaço. de cujo nome não quero lembrar-me. Sinto que é chegada outra vez a hora de partir à cata de aventuras. opressores de toda a aldeia global. reles tramóia. fado meu.(O Ator pára. não há muito. E volta a ser o Homem da Mancha. como dizem — e talvez tenham razão — certamente as idéias deste autor não o estavam quando. acautelai-vos! Vossos dias estão contados. Começou a transmutar-se novamente em Dom Quixote. para iniciar sua obra imortal. Nigromantes. Maracutaia. não me deixarei abater por patranhas vulgares.‖ (O Ator fecha o livro. que importa? Em mim. com o livro erguido na mão.) Ah. um fidalgo dos de lança em cabide. ou até mesmo em volta.) VOZ GRAVADA ..) Lança em riste para defender-me dos vilões. Mas como fidalgo que sou. embora não consiga encontrá-la em lugar algum. Portanto. . de Cervantes. rocim fraco e galgo corredor. dentro ou fora. Espaço físico.―Num lugar de La Mancha. escolheu justamente a expressão ―num lugar da Mancha‖. dos corruptos. (Noutro tom. professoral. Entra uma voz gravada lendo a primei ra frase do Dom Quixote. Vírus ou alucinação. mouros encantados. adarga antiga.Senhores. Devaneio e perdição. A mancha existe. O Homem deixa o livro de lado. vivia..) HOMEM . Apanha uma espada de plástico ou madeira. Fala em tom pedante. Rede ou ferida. E eu preciso enfrentá-la. Pois convenhamos. por mais que minhas idéias andem perturbadas.

(Dom Quixote já está totalmente paramentado e. tm mantido acesa e ardente a chama da dignidade e da ética.CENA 7 (Onde o fidalgo sonhador paramenta a si mesmo de cavaleiro andante e pede a bênção aos cavaleiros que o antecederam na lida. (Altivo.) QUIXOTE — Salve o valente Amadis de Gaula. Por isso. mesmo com toda a vulgaridade e preconceito que grassa pelos quatro cantos do mundo — a profissão de cavaleiro andante deve ser preservada a qualquer custo. o Branco. que jamais gastou pólvora em chimango! Salve o nunca assaz louvado Tirante. eternamente enfrentativo! E salve também Dom Belianis da . Enquanto fala. amparador das viúvas e socorredor dos órfãos e desvalidos da sorte! (Para a platéia. e a vós não sei que partes do corpo ou da mente.) Defensor das donzelas. geme) que quase me arrancou a vida. Quixote vai-se vestindo. quero louvar bem alto a outros cavaleiros que. muito bizarro. Música espanhola caliente. que nunca abaixou a crista! Salve o valoroso Felismarte de Mircnia. mas com certeza aflige também. por conta de um mal nos rins (apalpa as cadeiras.) Mesmo que Idade do Ouro tenha passado e de seu antigo esplendor não restem mais que cinzas. Pode até pedir palmas da platéia. mesmo que todos nós hoje nos sintamos a ponto de sucumbir sob a pata imunda desta Idade do Chumbo que a mim maltrata os rins. Roupas e armadura são improvisadas com material retirado da maleta de executivo e/ou das sacolas que Miguel trouxe. além de mim. que briosamente resisto a todos os embates do destino. mais objetos que já estão no palco.Embora temporariamente fora de combate.) QUIXOTE . a duras penas. jamais deixarei de pertencer nobre ordem dos cavaleiros andantes. Quixote ergue a espada e saúda em tom vibrante. naturalmente.

Teu nome entrará para a História. para que não nos oiçam os intrigantes: no meu conceito pertences a uma estirpe ainda superior à daqueles dois. um bod de plumas. meu rocim banhado pelo rocio. Quixote apanha a vassoura que Miguel trouxe com as compras. para render homenagem à célebre montaria de Alexandre. como se fossem a cabeça do cavalo — e começa a trotar lentamente. Pois embora não tenhas asas nem mítico nascimento. séculos amém. amigo. com as palhas em frente ao próprio rosto. o Grande. Fomos feitos um para o outro e. Digno de ti e também de mim. que sobre teu dorso percorrerei uma a uma as páginas das estradas e dos séculos. como se fosse a crina. mas por ser urgente a minha partida e curta a vossa paciência! CENA 8 (Na qual se narra com graça e nobreza o batismo do matungo finalmente conhecido como o Veloz Rocim Rocinante. Mas digo-te em segredo e cá entre nós. como se fossem arreios. um só ser seremos. do Filho e do Espírito Santo amém again. Pendura fitas. como o corcel alado do herói Belerofonte. como um centauro. improvisa uma sela com uma almofada. resplandecente. Pelo sangue derramado das veias dos bravos tombados em batalha.) .Grécia e todos os outros que porventura olvidei. Tudo enquanto fala. sem sair do lugar. nascido da garganta decepada da medonha Górgona. Depois monta ao contrário — isto é.) — Poderia chamar-te Pégaso. enfeita-a com esmero. Ou talvez Bucéfalo. és valente e veloz como o vento que desgrenha a copa dos olivais. não por desprezo. e esse nome desde já imortal precisa ser alto. Num ritual coreográfico.) QUIXOTE (Para a vassoura. te batizo Rocinante em nome do Pai. sonoro. (Quixote faz uma cerimoniosa curvatura para a vassoura enfeitada.

alimária. pocotó. Certa confusão. Vê como soa magnífico? Vê como se parece contigo? (Noutro tom. Rocinante. Rocinante. Em frente. Vamos lá. berrando com a espada erguida. Durante a cavalgada derruba alguns objetos. que a vida é curta para tanta estrada! CENA 9 (De como se introduz na narrativa a idolatrada figura de Dulcinéia del Toboso. Detém-te pois. e com esmero.) QUIXOTE — Detém teu galope. enfrentar gigantes tenebrosos e feiticeiros malévolos. desencantar brancas donzelas cativas. aos gritos. seria profano dirigir-me a Ela montado sobre teu dorso.) Dulicinéia! Dulcinéia del Toboso. mais vibrante. Eia! O mundo nos aguarda. arrancar odientos tiranos de seus sórdidos tronos de sangue. com intensa emoção. a cambraia do branco lencinho marejado de lágrimas. Não é de minha têmpera partir sem antes despedir-me.) E agora basta de cortesias. senhora minha! CENA 10 . A música só diminui quando ele pára subitamente em frente a um manequim. amigo Rocinante. Quixote cavalga doidamente pelo palco. meu impetuoso corcel. Frente a esta divina aparição. bravo Rocinante. Vamos lá. a bem-amada de nosso fogoso personagem. a acenar-me — vês? — como se humana fora. daquela que determina a mais funda razão de meus atos. Montado na vassoura-Rocinante. pocotó.QUIXOTE — Pocotó. Vamos lá. em louca disparada. que aqui estremeça! (Para o manequim. A melodia espanhola fica mais alta.

nos adereços. Amáveis.. e sem nenhuma graça.. (Com amarga ironia. No lugar da cabeça. nunca mais. Quixote enreda-se nas fitas. por instantes volta a ser Miguel. a teus filhos. e leva um tombo grosseiro. Perturbado. Nunca me atrevi a dizer nada. sociáveis: dispensáveis. Ao apear de Rocinante.. o homem invisível. para que não te cause dano o sereno da noite.) Ai de mim.‖ (Subitamente Miguel recompõe-se. Carolina. Bom-dia-boa-tarde-como-foi-o-fim-de-semanaquer-um-cafezinho-parabéns-por-favor-muito-obrigado. Miguel coloca a mantilha sobre os ombros do manequim. ainda no chão.. o personagem...(Que trata da súbita e inesperada vinda à tona do desventurado Miguel Quesada para revelar seus frustrados amores. Jamais ousaria pensar em mim como um amante. Carolina. Beija-a.. nunca mais.. já um tanto influenciado pela linguagem de Quixote. geme uns versos de Fernando Pessoa/Alvaro de Campos.) MIGUEL (Para o manequim. Que horror. tão fiel a teu marido. à tua vida banal e limpa de senhora honesta. (Trágico. Eu. muito colorida.): ―Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta.) Colegas de trabalho.) MIGUEL — Adorno teus ombros nus. E porque sei que é inútil.) — Tu foste a única pessoa que poderia ter emprestado alguma cor à minha em sépia. platônico e patético! (Sofrendo muito. que lindo encontrar contigo todas as manhãs de todos estes dias de todos estes anos. como um corvo triste repito em despedida: nunca mais. Carolina. Eras tão distante. o que não nasceu para isso. . aperta-a contra o coração. Pega uma mantilha espanhola. põe uma rosa vermelha. com leve sotaque lusitano. e cantou a cantiga do Infinito numa capoeira. e ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Resta uma luz sobre o globo terrestre. que guapo! O que? Estalagem Ao Rendez-Vous dos Javalis? Mas deve haver algum equívoco. senhora minha. como no. às vezes com algumas expressões em espanhol). Bálsamo de minh‘alma. damas e cavalheiros deste encantador pueblito. Dulcinéia del Toboso! (Música espanhola ardente Quixote esporeia Rocinante e sai de cena no galope Por momentos o palco fica vazio. Em sua imaginação.(Miguel vai repetindo “nunca mais” enquanto torna a montar em Rocinante. está entrando no pátio de um castelo.irreal . Volta a transformar-se em Quixote.) CENA 11 (Dos sucessos de Dom Quixote em busca de quem o sagre cavaleiro e outras acolitecências mundanas. Faz uma profunda. cercado pelas cortesãs? . outra sobre a espreguiçadeira. Pelos quatro cantos desta vasta Espanha juro glorificar vosso nome. asa de pássaro no meu ferido coração de guerrilheira. muito amável e simpático. Sempre a trote. E como se chama? Dom Giraldo de Villacafias. outra . Saludos.sobre o manequim coberto pelo xale espanhol. Dom Giraldo não passa o tempo na maciota. entra Quixote por esse espaço aberto. entre coxins. Cumpri menta a todos. solene e amorosa reverência para o manequim/Dulcinéia. (Detém-se parafalar com alguém. esforçados aldeões.) Perdoai-me importuná-lo. anjo das minhas negras vigílias. hermosas sefioritas. QUIXOTE — Buenos dias. mas saberíeis vós dizer-me donde puedo encontrar o castelão deste aprazível sítio? Si. Ergue-se um dos telões laterais. Mis cumprimentos.) QUIXOTE — Prometo que voltarei. caro mancebo.

como assegurou el pibe. enquanto reflete. Senior Bigas Luna! (A parte. Lejos de mi duvidar de vossas palavras. morocho muchacho.) Depravado! (Reflexivo. (Noutro tom. no. (Noutro tom.) Y todavia si. Dofia Rosita? Sempre solteira? (A parte. Dá voltas pelo palco. Nada mais louvável. Dom Giraldo deve apreciar beber umas e outras. como bom administrado que parece ser. muito educado.. está certo. tinir de copos. E certo encontrálo na estalagem. permiti que me apresente.) QUIXOTE . nada mais político.Nobre castelão Dom Giraldo de Viliacafias. feliz.Vous dos Javalis.) Como está. claro. em 0ff ruídos de risadas. Sou o futuramente lendário Dom Quixote de La Mancha.) .No. O Homem da Mancha voltou ao ser pronunciada apalavra “Mancha”.) . gargalhadas. Quixote vai pedindo licença. Os ruídos gravados cessam por completo.) Como diz o vulgo. e sai trotando. Muchas gracias. sempre cumprimentando. O Homem começa a procurar.) E além do mais. deve apreciar o contato mais íntimo com o povo. CENA 12 (Que trata da inesperada e inoportuna vinda à tona do perturbado Homem da Mancha.) Buenos dias. Vale! (Quixote despede-se.) QUIXOTE (Com um salamaleque.. Voilá. (Quixote “estaciona” Rocinante. (Esporeia Rocinante.) Perna! (Reflexivo. fragmentos de conversas. apeia e faz uma mímica para entrar na estalagem Ao Rendez. Vai rindo sozinho. música alta. Ao fundo. O referido Dom Giraldo deve ter afinal suas fraquezas. nada mais humano. sempre com sua obsessão.Pensando bem.

) ATOR . por favor? Obrigado. Não. assim. da nossa — digamos — saga imortal Ousei adentrar vossos domínios com meu brioso corcel.HOMEM — Dá licença? A mancha. visto que — não. que lá fora encontra-se em merecido repouso. pois bem. . Não muito grande. Dom Quixote. e da pesada. Uma mancha clarinha. Dom Giraldo de Villacaíias desejo solicitar-vos —ufa! — alimento.. me entende? (Agitado. isso não interessa —. por este — digamos — pequeno surto. Estou dizen-do. encontro-me ainda nas primícias da sua. à parte) A de caralho! A deixa. no aguardo de vossa atenção. não moro em lugar nenhum. pousada e mais importante que tudo. Ela é barata. E como se tivesse um branco e esquecesse o texto.) QUIXOTE (Muito inseguro. Eu fico solto no espaço. não sei o que é isso. o Homem transforma-se no Ator. (Mais alto. nem muito escura também.Perdão. Por alguns instantes. Faz favor? E que sem ela. Homeless? Não. quer dizer. O que? (Mais alto.. ela não tem preço.. em pânico. Clarinha. Rocinante de Tal.. ela deve estar por aqui? Pode levantar seu pé. E só uma mancha. Cainha. (Disfarça.. da minha.. Não teria o senhor por acaso visto por aí uma mancha assim.) Não.. pelo amor de Deus! CENA 13 (Na qual o Ator recupera seu autocontrole e garbosamente volta a ser Dom Quixote para espanto de todos.. Silêncio absoluto. estala os dedos.. moça.) . eu tenho que achar a bosta dessa mancha! Você entende o que estou dizendo? (O Homem pára e olha em volta.o que estou dizendo. olha a platéia. eu não sou ninguém. não.) Porra... Dom Giraldo. eu. não. como cavaleiro andante que sou. eu disse.) Dizendo. sem mais delongas. E o Ator. Quer dizer. mas como eu ia dizendo...

(Quixote sai caminhando. vossa concordancia resultará em vosso próprio louvor..) . Até o alvorecer permanecerei vigilante. Dom Quixote tira a roupa. ou só de cuecas. junto ao globo terrestre. atentado pelos nigromantes. com cuidado. (Noutro tom.como eu ia dizendo.enfim e ao cabo: poderíeis. usando também Rocinante. como determinam os manuais de cavalaria (à parte.. com vossas nobres mãos. of course. Señor Dom Giraldo! (A parte.) — dez por cento vos parece justo? — ao sagrador Dom Giraldo de Villacafias.) Buenas tardes. (Aperta uma mão imaginária.. E como está o Sefior Montiel? (A parte. ou ao contrário. A luz baixa. Buenas noches. ponho-me pois de imediato a velar minhas armas. mas também remoto. E ao romper da aurora.) Gracias. corno se estivesse de braço dado com Dom Giraldo. sobre praticável. . evidente. gracias..) Corrupto! CENA 14 (Dos sucessos e também insucessos de nosso herói no ato de velar suas armas. deverei — ufa! — honrar e defender até a morte e tudo e tal. posto que. Arruma as roupas ao lado das armas. Sefiorita Santa. como o crepúsculo já acaricia com seus róseos dedinhos o alto das cumeeiras.) Biscate! (Para Dom Giraldo. Arma uma espécie de escultura. à musa Dulcinéia dei Toboso. bem como. sagrar-me cavaleiro? (Aliciante. enquanto fala. Pode até ficar nu.) Devo dizer-vos que em futuro não só próximo. encantado.) QUIXOTE — Então. Vossa Esplendidez finalizará o milenar ritual da sagrada salerosa.

Onze.) E sobretudo. uma serpente. Sabedores que aqui vela em solidão um cavaleiro inimigo do mal. abortos langanhentos? (Toma a espada. hoje cavalgando as pradarias do infinito! (Luz sobre o manequim! Dulcinéia. Insone e temerosa por meu fado. Imediatamente salta. Como um raio.) QUIXOTE (Contando as badaladas finais. arcanjos. Esta é a mais perigosa de todas as horas. acorda súbito. duendes.. Preciso estar alerta. Doze. (Mais calmo. com uma vela de sete dias numa das mãos. um LEO — pardo. furioso. salamandras.. como uma fortaleza inóspita cravada no centro do meu coração. Quixote derruba alguma coisa na escultura. orixás e fadas: todas forças do bem estão do meu lado! além dos espíritos daqueles cavaleiros já tombados em batalha. que cochila.) Guardai distância de mim.) Pois então toma e toma esta em teu tentáculo nojento e outra mais em tua pata disforme e toma mais esta na tua carantonha medonha. encontra-se também minha bem-amada senhora Dulcinéia del Toboso.) Gentalha das trevas. ogros e abantesmas: não ouseis vos aproximar de moi! Hei de resistir até o primeiro canto do gelo branco. (A parte. cheia de crocotós.Depois senta em postura de lótus. Ao longe. se tendes amor a vossas peles fétidas lavradas de cascas purulentas! (Com um movimento brusco. Aquela em que feiticeiros e nigromantes escolheram para seus nauseabundos batuques. Meia-noite. um relógio bate lento 12 badaladas.) I hope so! (Para a escuridão. por supuesto hão de vir importunar-me com suas perfídias. Quixote.. . como se lutasse. até o primeiro raio de soi da aurora! Nada de mau há de me suceder durante esta vigília! Ninfas. que exigem a mais funda concentração e a mais alta filosofia.. silfos.) Deixai-me em paz com meus pensamentos. unicórnios. Ela me protege com suas orações a La Virgen de Macarefta.Dez. (Grita para a escuridão.) .) QUIXOTE — Porventura sois surdos? A cera em vossos ouvidos será mais espessa que as muralhas de Jericó? Atrevei-vos a fazer barulho.

meu Deus. verte em minhas veias o líquido sagrado de tua ânfora dourada para purificar meu sangue! (Subitamente um raio de luz incide sobre o rosto do Homem. (Escuta. tomates. pega a vela e tenta retomar a posição em lótus.) Oh puríssimo anjo Rafael. que pássa? Ah.) Vinde. eis o primeiro raio de sol.) Ah. junto com apupos.Hein? O que? (Toma a espada. Oh. Na minha própria pele. E torna a vir à tona O Homem da Mancha..) — Ah.) VOZES EM 0FF — Cai fora. já se foram todos. babaca! Quero meu dinheiro de volta! CENA 15 (Onde continua a narrativa da conturbada vigília até o raiar da manhã radiosa. O perigo passou. um galo canta ao longe. curador divino das feridas humanas. Dai-me forças e dai-me fé. poupai-me.(Quixote arruma a escultura. horrorizado. não. Mas de repente começam a jogar pedras. Ao mesmo tempo.) HOMEM (Olhando a própria pele. ufa.. Que . najas emboscadas! Vinde todos a mim. que tifego! (Brinca um pouco com a luz..) Amanheceu.) Pero. (Benzendo-se. idiota! Manda matar! Jacira! Tá muito louco! Vai-te catar! Tá pensando que é o que? Fora. eis o galo que cocorica três vezes. Já se foram tantos. Por piedade. galo preto da encruzilhada! (Para a luz.) QUIXOTE (Recuperando-se. Os objetos vêem de fora de cena. lacraias e morcegos. ovos de todas as direções. Eu devo ser um dos últimos. O Homem cede lugar outra vez a Quixote. Um tomate de pano ou plástico atinge Quixote na cabeça. Ele desmaia. Eu tenho que resistir.) . não.. Senhor.

Com as mãos nas cadeiras. Abaixa a cabeça. pega aquele mesmo livro da Cena 6 e lê num latim errado. Como vades.) QUIXOTE — Buenos dias. improvisado e monótono.... (A parte.. venci a primeira prova iniciática. Ao perceber que o imagindrio Dom Giraldo entrou. Permanece um momento assim. para que me façais por fim cavaleiro andante a vosso serviço.canoro Chanceler.. (Aliviado. Música sacra mais alta.) Bueno.) — Ai que já no tenho mais fresca idade. CENA 16 (Do ritual da sagrada sagração e toda a sua magnifica magnitude. (Quixote apóia um dos joelhos no chão. majestosíssimo senhor doutor Dom Giraldo de Viliacafías. ele anda com dificuldade. Ai que estou a adernar feito uma caravela em plena borrasca sem ao menos ter descoberto o Brasil.) So! (Começa a entrar música sacra ao fundo.) Eu sou maravilhoso! (Sério.. mas os rins doem muito.) Tivera eu comigo o poderoso bálsamo de Ferrabrás...) QUIXOTE (Com forte sotaque lusitano. com uma das mãos erguidas sobre a cabeça de Quixote. todo ritual foi cumprido a bom cabo e a contento. (Suspirando.) .) Deponho pois minha depauperada porém altiva carcaça a vossos mitológicos pés. Depois levanta-se — é o Ator que assume o papel de Dom Giraldo —. Estou pronto para o ritual de sagração. e o passar inclemente dos anos instalou-se-me direto nas cadeiras. Quixote recupera-se com toda a dignidade. (A parte. Quixote tenta levantarse.

) CENA 17 (Onde são narradas inevitáveis indecisões no início do caminho e também as curiosidades turísticas de Rocinante. prometo colaborar com vossa campanha. adiós. Et voilá! (O Ator retoma a posição de Quixote. Haendel. E sai trotando pelo palco. (Bate na barriga. como se orasse.ATOR — ―Per saeculum saeculorum dominus vobiscum peter filiis et espirictus sanctuslesbia pulchra est vanitas vanitatis summa cum laudae saculus plenus vaticanum voitilum positivus este terrae terrarum terris sumus est sun ad infmitum daementia precox amem. Apanha a espada e. doem-lhe os rins. claro.) — Adiós. sei. nobre Dom Giraldo de Villacafias! (Sacode um saco de moedas.) QUIXOTE (Mastigando alguma coisa. bate a cabeça no chão três vezes — como num terreno de candomblé — talvez coloque uma guia — e torna a vestir-se. Música sacra. Sinos. acabou.) ATOR — Pronto: acabou. pelo lado do telão levantado. Todo paramentado.) Obrigado pela verba! Claro. Quixote benze-se. Enfim consegue. Deus faça a vossa merca muito bom cavaleiro e tudo e tal e lhe dê toda a ventura na lida desta vida fodida. bate três vezes em cada ombro da imaginária figura ajoelhada. (A parte. (Talvez Bach. Aumento de imposto. Mercado aberto às importações.) Marajá! (Trotando. suspira.‖ (O Ator benze o lugar onde deve estar Quixote. Hã-hã. acabou. Geme.) A luz dá a ilusão de vitrais. com a mão livre.) Pocotó-pocotó-pocotó. Pode usar uma varinha de incenso. Quixote ergue as mãos unidas para o alto. monta novamente em Rocinante. Tem dificuldade. satisfeito.) .

. pelo visto preferes Alarcón. (à parte) — a sinalização é péssima — indicando.) Dize-me lá. (Pode colocar óculos para ler melhor.. Tudo vai bem. Com sorte há de rastejar por lá algum mouro encantado em lagartixa. deixa ver. cavalar amigo.) Eia. mas deixo-te escolher. Abandono as rédeas: em tuas patas entrego meu destino. Videiras e olivais a perder de vista...) E pode ser que deparemos até mesmo com o trevoso Marques de Villene.. para onde queres ir tu? Para mim tanto se me dá. a pança está cheia. Se pelo menos cruzasse meu caminho algum peregrino capaz de dizer-me onde encontrar algumas gotas do miraculoso Bálsamo de Ferrabrás para mitigar minhas dores. que se não for o demo nem anhangá ou saci.) A leste. mais depressa. Relincho gravado. onde estão as limusines? — quero dizer. Rocinante — comandado por Dom Quixote. (Para Rocinante. Queres ver o famoso castelo. Deus.. Tédio. latejam-se-me os quartos como se alguna morocha tuviera sapateado o flamenco sobre eles.) Lá naquela curva ergue-se um redemoinho de pó.) QUIXOTE — Ah.Bueno. (Esporeia Rocinante. Almodóvar del Pilar.. o mais repelente feiticeiro dos últimos sete últimos sete séculos. que me renderia boas aventuras. claro — dá meia-volta e toma outra direção. Mas.) Ai. . Cafiaveras. a tal ponto que terra e céu parecem um só. Nem sombra de gente. Jóia. por certo gente há de ser.. Só vejo poeira e horizonte sem fim. Terra mais seca esta minha. Dize-me então num relincho: o que aconselha tua soberba intuição eqüina? (Pára.. ao norte. que embora o ar esteja seco farejo na brisa o cheiro da aventura. não? Pois cedo a teu desejo. Eu não disse? (Apontando. (Animado..) Eis aqui uma placa. tudo que vejo é poeira. Eu preferiria toujours Almodóvar... (Rocinante empina. Alarcón. as aventuras. Alcázar de San Juan e ao sul. a oeste. (Gemendo.

que com tanto açodamento açoitais um jovem de tão puro semblante e nobre porte.) Bem. poltrão.) Para trás.) QUIXOTE . ambíguo.. E não te olvides: a quem encontrares pelo caminho repete bem alto que.Alto lá. e a quem encontrardes pelos cariinhos dizei bem alto que quem vos enfrentou foi Dom Quixote. Dá algumas voltas e pára.) Sou Dom Quixote e pronto. Assim. fracote.. podes partir. o eleito da mais formosa dama do universo. O moço imaginário deu-lhe um soco na cara e saiu correndo. isso.... Deixa-me desembaraçar-te das amarras. lasanha. correi desembestado campo afora.) — Está livre. a meus olhos experimentados.) Não creio em vós.. Nossa que músculos duros tens. sebo nas canelas. Pode haver fumaça com efeito de poeira levantada. a estonteante Dulcinéia del Toboso! (Quixote curva-se para o moço supostamente amarrado. que mal vos fez este infeliz mancebo descamisado e com o lombo em carne viva? Ladrão? Malfeitor? (Furioso. (Desmonta apressado. recém sagrado cavaleiro andante com o aval de Dom Giraldo de Viliacafias. Tudo é um tanto erótico. Quixote cavalga rápido. Age como se o ajudasse a levantar-se. sacripanta! Sou Dom Quixote de La Man. (Subitamente Quixote cai por terra.) .) Isso. lembrando das inoportunas aparições do Homem da Mancha. ao mesmo tempo em que fustiga seu cruel feitor.) QUIXOTE (Para o moço.. (Recompondo-se. Fala como se fosse com um mercador chicoteando seu criado. E que peito mais cabeludo. o malfeitor mais pareceis vós. Devo dizer-vos que. (Interrompe-se.CENA 18 (Em que o herói se toma de simpatias por um mancebo. Escuta. mercenário! E corre que te arranco as calças! (Debochado.. antes que eu faça um puchero de vossas frouxas carnes! Correi.

Tivera ao menos um outro ser humano para. (Gritando. cafajeste! Ingrato. (Detém-se: insight. cavalgadura. Tem paciência. diz que quem mais se humiha. mas principalmente do peso bem mais concreto de toda esta traquitana. pivete! Michê! (Quixote tenta correr atrás do moço. Sinto muito frustrar tua turística tournée.) QUIXOTE (Gemendo. .) Cofio! Ainda por cima o bofe levou-me os últimos tostões..) Meia-volta. com sotaque lusitano. que certamente acederá a meu convite.. Ninguém está livre de aconchegar uma víbora em seu regaço.) Bueno. Desiste e torna a montar em Rocinante. E o que dizer ouro bizantino dos candelabros? (Suspira. ainda sinto na pele a carícia macia das sedas nos trajes das donzelas.. (Apalpa os bolsos.) — Volta cá.) Volta aqui. bem me diziam ―fazei o bem. claro.QUIXOTE (Levanta..) Mas para um cavaleiro.) Mas é claro! Tudo que preciso é de um fiel escudeiro para aliviar-me não só do peso abstrato da solidão.. mas olhai a quem‖. sempre trotando. nem tudo é luxo e ostentação. um tanto deprimido. me sinto deveras solitário. Há também momentos de humildade. mais se exalta. mal-agradecido! Trombadinha! Ah. (Para Rocinante. Silver! CENA 19 (Em que finalmente se introduz a fundamental figura do fiel escudeiro Sancho Pança. velhaco. Porém. Eis que de súbito lembrei-me de um homem muy leal e valoroso. (Esporeia Rocinante. mas doem-lhe os rins. como se meus quartos fossem a boca de um bacalhau pescado pelo anzol. Ah. (A parte. (Pensativo.) Triste sina a de um cavaleiro andante.. solidão e modéstia.) — Ai que sinto cá uma fisgada.) Saco! (Mais conformado. Ainda ressoam em meus ouvidos os sinos do palácio onde fui sagrado cavaleiro.) Eia! Avante! Ai-pi-ai-ô. a textura luxuriosa do veludo adamascado na capa ritual sobre meus ombros... espanando-se. Tem seus momentos de glória.

que disso entendo eu. por uma cordinha. por supuesto.Raios se me partam los cuemos se aquilo que avisto não é o Elmo de Mambrino! (Para Sancho. que já não é pouco. ao fundo. Essas coisas. (Irritado. logo destronaremos algum tirano.) — Esporeia teu asno. (Mais paciente. Sossega pois a tua periquita. que toma invisível a quem o possui. Continua montado em Rocinante e. mula.) QUIXOTE (Para Sancho. panelas. Logo. o Governador Sancho Pança. Nada mau. Sancho Pança. com correntes tramadas e tralhas penduradas (canecas.) Não. .. dear. calma.. não te apoquentes.) E por caridade. O barril. Hein? Já te disse que nada entendes de cavalaria andante. ou mesmo sobre um skate.. já assinei tua carteira. desencantaremos alguma bela princesa cativa. Como é possível rememorar os doces aromas de alfazema da perfumada Dulcinéia se teu fartum me faz cair na real? E bem sabes o quanto detesto essa tal real. Quixote sai de cena por um lado e volta imediatamente pelo outro. caso contrário bate-se-me nas fuças esse teu bafo entranhado de cebola e alho e vinho vagabundo e sei lá mais que. e não te metas em assuntos de cavalaria. prometo.) Como não vês nada? Será que além de sonso és cego? Presta atenção... etc. E seremos regiamente recompensados.) QUIXOTE . Portanto. arrancaremos a máscara da face de alguma medonha megera. Prometo. mas contra. puxa um pequeno barril com rodas embaixo — ou sobre um carrinho.. Por sob aquele 1amo altaneiro vem vindo um cavaleiro a trote manso. It‘s my business. Sua Excelência. Vês como brilha e rebrilha um adereço metálico na cabeça do cujo? Pois te juro trata-se do famigerado Elmo de Mambrino. Até o final da temporada a prometida ilha será toda tua. Limita-te a teu ofício de escudeiro.Ergue-se o outro telão lateral. Estica-se e aponta para longe. só resta um telão.) é Sancho Pança. machado.. hein? (Quixote detém-se de repente. Digo e redigo que aquela ilha em Angra será tua assim que tivermos alguma aventura — digamos — mais substancial. quando falares não o faças a favor do vento.. caso contrário estarias farto de saber que a fortuna custa a surgir. Afinal.

com um penico na cabeça.) Então não percebes que os malditos nigromantes transformaram o cavaleiro num gordo cura de aldeia? E não percebes também que transformaram o próprio Elmo numa reles bacia? Pois te afirmo que esses grosseiros encantamentos não deterão meu ímpeto. oh torvo escudeiro! Botaste reparo na desabalada carreira em que escafedeu-se o bandoleiro transmutado em cura? Ave.) QUIXOTE (Para Sancho. minha cabeça . companheiro.) . Entrevero em off. CENA 20 (De como se faz noite e nosso herói arma o camping para o repouso enquanto lembra a bem-amada em suas orações. Sigamos portanto nosso rumo. Na ribanceira. feito chapéu. Viste? (Irritadíssimo. (Devolve Sancho ao carrinho. Pega Sancho e ergue-o acima da própria cabeça. Quixote dá voltas por fora do palco. tapume. pois tomba lânguido o crepúsculo e o fatigado cavaleiro tem precisão de um sítio ameno para repousar seus ossos. (Quixote apeia.Três vezes vitória. mais abaixo. Eu falei á-la-mo. estrupício. deixando Sancho parado. .quer dizer. homem de Deus! Põe-te em pé sobre teu asno e verás que verias o que vejo eu. Sai gritando com a espada. (Quixote torna a montar.) Como? Um cura com uma bacia na cabeça para proteger-se do sal? Por certo perdeste o senso. ave.) QUIXOTE Que azinheira.) Com o poderoso Elmo de Mambrino em minhas mãos . Gira-o como um periscópio até focalizar um ponto. Quixote volta muito orgulhoso. Nem azinheira nem pitangueira.as portas da glória se arreganham para nós. Lá.Deixa-te de preguiça. evoé! Mais uma conquista do invencível Dom Quixote! (Acaricia o Elmo/penico. ouvem-se apenas os gritos.

Dorme em paz. Mastiga um pão.me-á o escorbuto tanto pão seco no bucho? Além do mais..) As últimas QUIXOTE — ―Ah! senhora das minhas ações. Quixote apeia. palavras são um sussurro na escuridão. certamente opíparo não é o adjetivo mais adequado para este frugal repasto.. E quanto a ti. as mãos unidas. que não olvidarei as minhas. tem uma torneira de onde Quixote tira vinho e bebe numa caneca de lata. (Arrota. compadre Sancho. Noite. Alimenta Rocinante com uma cenoura. não abuses dos torresmos que não estou disposto a estremecer de susto com teus traques durante a madrugada.A luz diminui. Tira o Elmo/penico. tuas cebolas provocaram-me horrendos borborigmos. Luz A sobre luz vai Dulcinéia/manequim.. Pode-se também forjar um fogo com papel celofane vermelho.) Perdão: a cada dia o seu quinhão. caríssima e incomparável Dulcinéia del Toboso.) QUIXOTE (Prepara-se para dormir. Suavíssima melodia espanhola. agora que tanto deles preciso antes de embrenhar-me pela ignota região dos sonhos. Causar. diminuindo lentissimamente junto com a voz de Quixote.‖ CENA 21 . pois cifram-se apenas em implorar que te não recuses a dar-me o teu favor e amparo. se é possível que cheguem aos teus ouvidos as preces e rogos deste teu venturoso amante. Quixote estende um sleeping-bag. Se Sancho for mesmo um barrilzinho. (Deitado. E não olvides tuas orações. amanhã teremos faisão. Quixote reza. apeia Sancho.) — Convenhamos. Sonha com tua ilha.. por tua inaudita beleza te peço que os escute.

Miguel? Recado esquisito. fundo de garantia. a voz de Guilherme na secretária. Quixote levanta-se e vai caminhando até a espreguiçadeira. hein? Mal se aposentou e já viajou. Circular. No disse quando volta. Alô. Inútil deixar recado depois do sinal. Agora é tarde. dissídio.) . Talvez nunca. Eu pago. A secretária se cala. E vida boa.) . Coisa fina. Quem sabe um uisquinho. Está transformado em Miguel Quesada. Quixote acorda bruscamente. Enquanto dura o bip e. Mas você nunca me convidou pra nada. tira-gosto. Eu só queria convidar você prumas cervejas. Miguel viajou. faço questão. Olhe. Tchau. Escuta.Cerveja. Deita-se. Mais de 30 anos. uisquinho. Eu cansei. décimo terceiro. Atende uma secretária eletrônica. (Ruído eletrônico. se você estiver por aí atende. Eu fui-me embora daqui. Quem me dera.‖ (Ouve-se um irritante bip eletrônico. deixa pra lá. com aquele recado de Miguel. o personagem. aqui é o Guilherme do Almoxarifado. Me esquece. porra. Olha. Quando o bip da máquina desliga. Guilherme.) MIGUEL (Amargo. Luz sobre a espreguiçadeira. logo após. Miguel? Tá me ouvindo? Tá bom. tem umas gatas aí super-afins. viu.) VOZ MASCULINA . oleriti.)) VOZ DE MIGUEL (Na secretária. Toca três vezes. (Vide Cena 6. Guilherme.(Em que o chamado Real-Insuportável desta vez mais suportável novamente interrompe o fluxo e o devaneio. demissão. uns tira-gostos pra gente comemorar a tua liberdade.Alô. Durante pelo menos 30 anos você só me ligou pra falar de coisas de trabalho. Luz súbita sobre o telefone. CENA 22 . meu.―Isto é uma gravação.

(A parte.Maldição! Se sonâmbulo não o sou. como é possível dormir lá e acordar cá? Ah. quanto a mim creio que tive um sonho. Trotear é preciso. Interessante. Sacode-o. cospe.. vite! Apura que se faz hora. não no chão aonde adormecera ao lado de Sancho.) QUIXOTE (Dando um pulo. De ouro? Veja só. bufa. premonitório.. antes que rompa a manhã.Vite. aos confins da Longelândia. seguido do despertar. bebe café.) Vislumbrei maquinarias tão intrigantes. moleque da alta magia! Dessa maneira envergonhais a memória de vosso ancestral Merlin. (Reflexivo.) . Dona Sancha e as cinco Sanchinhas? Sei.) QUIXOTE . vejo que os magos da treva andaram a mangar comigo durante o sono. Devem estar todos rindo à socapa de vossa idiotia. Bochecha. companheiro Sancho.. meu compadre.. (Discretamente Quixote faz xixi num cantinho. (Vai ficando entendido.) Oquei. fala-me de teus sonhos... oh nigromantes nigrinhas. lingüiças. abre a torneira.. Tudo isso enquanto desfaz o acampamento e recoloca Sancho sobre o carrinho..) Que pobreza..) Covardes. Te crês que ainda está caliente e a dar-se vueltas y más vueltas cá pelos cornos? (Visionário.. Faltam-se-me as palavras — o que é raro — para . Branco ou tinto? Sei. para seu espanto.. Tosse. à remota Quintanópolis.(Do que aprontaram os nigromantes incompetentes com nosso herói durante a noite. Sei.) Hã-hã. de vossa amada Morgana. cospe. Onde pensas que estás? Refestelado numa hospedaria cinco estrelas? Toma aí teu petit-dejeuner e avia-te presto. com engenhos a tal ponto indescritíveis.) Então. bundone. (Montado.. rosée.. Depois vai resmungando até Sancho. sei. vai puxando Sancho pela cordinha. Depois faz como se lavasse as mãos e o rosto. Odres de vinho. (Para o nada. Subitamente Miguel volta a ser Quixote.. que desperta na espreguiçadeira e. Que truquezinho mais chinfrim. incompetentes! Tivésseis reais poderes ter-me-íeis levado até as lonjuras da Beldregúndia.

Que também pode ser real ou de arame. vejo que aqui temos aventura da grossa! Arrete. O cenógrafo é livre para escolher vários símbolos da Mídia. emitindo raios e sons estranhos. cada um sintonizado num canal diferente). vê-se uma enorme antena parabólica. papiermachê ou qualquer outro material Seria sensacional se pudesse girar. frases e trechos de música em vários idiomas. no lo creo em meus bugalhos! Estás a ver como eu todos esses anões amontoados uns sobre os . Atrás do telão há um bizarro totem em forma de escultura. Esse é o Moinho de Vento.) Vai afiando teus gumes. descargas estáticas de rádio.) QUIXOTE (Percebendo o totem-Moinho. Será quiçá o gigante Briaréu? Será a temível sábia Mentironiana? Será o monstro do Lago Ness? (Esporeia Rocinante. Mas logo ao despertar tive a segura intuição que.Uau! Me cago en la concha de Maria Santíssima! U-lá-lá. (Quixote apeia de Rocinante. depararemos com uma extraordinária aventura.) . microfones e fios colados.) QUIXOTE . antes que o sol alcance o meio do céu. Sobre esse pedestal. E formado por um pedestal de aparelhos de TV(reais ou de papelão. revistas. enquanto fala com Sancho. mais jornais. mas se reais. (Enquanto Quixote e Sancho trotam.Sancho de Deus. eletrônicos. meu amigo. plimplim da Globo. além de fragmentos de jingles. lá no alto. Tão lentamente que Quixote só o percebe quando está totalmente levantado. começa a subir o telão do fundo. amigo Sancho. A chave confirma: é hoje! CENA 23 (Onde se narra o extraordinário acontecimento com a mutação eletrônica do gigante Briaréu e seus asseclas. Vai-se aproximando do totem com muita prudência e alguns sustos.descrevê-los.

Moinhos de vento? Capaz! Não percebeste. fecha tua matraca e me deixa em paz. fiisteus! (Quixote tenta escalar o totem.) Mas é sobretudo um estorvo! Não fujais.) QUIXOTE (Aos berros.Caluda. as TVs nesse momento saem do ar. altivo. mas acaba levando um grande tombo. Ficam nas telas apenas aqueles riscos verticais.) Valeime. um pouco. finalmente. geme e apalpa os rins. fãs e etc. Por El Greco. bem que meu sonho me avisou. zumbindo.ombros dos outros com aquele gigantão estalado lá em riba? Por Picasso! Olha só o monstro lá do alto girando seu único braço em direção ao céu. Talvez até consiga.) QUIXOTE — Já dobrei meio século de Karma e nunca jamais en toda mi perra vida tropecei em tamanha trola. exegetas. quando eu já saboreava o gosto da vitória. trolha. vampiro imundo! (Benze-se. que no último instante. Quixote joga-se furiosamente contra o totem. reconhecendo conhecidos.) QUIXOTE (Por terra. que o nefasto mago Freston transformou anões e gigantes nessas máquinas dementes? (Levanta. fascinado e aterrorizado.) Felizmente meus futuros cronistas. Quanta arrogância! Que enfrentativo ele é! Ah. Hei de decepar esse teu braço repugnante para jogá -o aos cães danados! Hei de cravar uma estaca de madeira santa no teu podre coração. biógrafos. . que me cago hasta en la leche de mi puta madra! (Quixote examina as TVs. Se forem reais. Dependendo das imagens .se forem reais — o Ator pode improvisar alguns comentários. E chegado o vosso fim. etc. que neste embate aposto minha honra.) .) . horrendo Briaréu! Vai encomendando tua alma a Leviathan. estúrdias criaturas do fundo do íntimo do âmago do mais longínquo Hades! O bravo cavaleiro desafia a própria morte e contra vós investe! (Espada em riste. E estarrecedor! E estupefaciente! (Gritando.Chegou tua hora. companheiro Sancho. Esta côsa lôca nada mais é que o monstruoso Briaréu em carne e osso. minha doce Dulcinéia.

Enquanto ele trota. E outra vez Quixote dá de cara no telão. quem sabe? Um video maker que seja? Mas nem sequer um mísero cineasta? (A parte. O que? Precipício não. lesado: pro-pí-ci-o. vírgula.. fogoso corcel. CENA 24 (De como a saia se ajusta pouco a pouco e todos os caminhos começam a parecer sem saída. patetas! Não fora eu quem a História confirmará que fui e continuo sendo. escudeiro: nesta vida às vezes é preciso saber recuar. Mas não temer jamais. Como quem teme. despenca violentamente um telão lateral. Quixote dá de cara no telão.) Ai. que se me esnoba a mídia estou fodido.) E tu atoleimado.) QUIXOTE — Valha-me Lope de Vega.) Em frente. e sim buscar discreto pelo atalho menos evidente e mais propício.) QUIXOTE (Filosófico. Parece que os corruptos nigromantes donos do poder querem mesmo me enlouquecer. aos sete — ventos que teu amo e senhor Dom Quixote teve a audácia de enfrentar Briaréu.) Well. que nada nem ninguém nos deterá. e o futuro me absolve! .haverão de fazer justiça. Ponto final.) Afinal. Sai a trote. que os caminhos se me ajustam qual saia sem fenda em nesga! (Para Sancho.. puxando Sancho em direção a um dos lados do palco.. De repente cai também o outro telâo. não esqueça de espalhar aos quatro — aos quatro não. (Para Sancho.. (Quixote galopa a todo vapor para o lado oposto.) Anota em tua agenda. (A parte. Ponto. Em vão. well. Ponto. Quixote torna a montar. (Esporeando Rocinante. quiçá? Um jornalista.) Haveria por acaso algum biógrafo entre vós? Um escritor. ao menos? Algum fotógrafo. o boca-a-boca sempre funciona. (Para a platéia. well.

) QUIXOTE — Bueno.) Mas o coração — ah. Anda pé ante pé. o mais melancólico de todos. Ah quanta miséria. onde ainda está o totem já apagado.) Por Antonio Banderas. Começa a caminhar para lá. O mais estreito. O mais perigoso. já que prudência e covardia sinônimo não são. Augusto dos Anjos! (Quixote abandona Rocinante e Sancho. Olha em volta. Tira o Elmo/penico e pendura-o num dos ganchinhos de Sancho.Vejo que ainda resta um caminho. meu nome em boca de sapo: definitivamente xô! CENA 25 (Na qual todas as porções anteriores vêm subitamente à tona numa verdadeira apoteose esquizofrênica & pós-moderna. Exu caveira. equilibrando-se como numa corda bamba. Pela primeira vez parece frágil. assustado. puxando Rocinante por uma das mãos e Sancho pela outra. vudu bestial! Falange de eguns. talvez seja melhor investigar bem esta vereda que se me afigura sem salvação. meus caros amigos. hienas. que medonha fedentina! Dir-se-ia que este sítio está juncado de cadáveres em franco estado de putrefação. inseguro. Um mísero e único caminho. o mais solitário. (Para os céus. Cabeça fresca.) Vade retro.) Valei-me. . quase cai.) QUIXOTE . que se há de fazer? (Avança. Oxalá os pestilentos miasmas da sórdida matéria viva em decomposição não arruínem ainda mais minha depauperada saúde. o coração eternamente enfrentativo! (Erguendo um braço com os dedos em figa. mas recupera-se e bate no peito. (Equilibra-se.(Quixote olha para o fundo. passo comedido. respiração ritmada. tapando o nariz. Mas cuernos. Abutres. parece mesmo o único. Juro que nunca pensei.

como espantados por meus loucos sonhos. O telão à frente do totem também começa a descer. A pele é intransponível como uma malha. Senhor Meu. Cair no esquecimento. não agir.. por que me abandonaste? Oh Saturno. Senhor. tristes. e as mãos me tremem como de ressaca. Sem controle algum. o Homem da Mancha — começam a emergir caoticamente. Cada um quer tomar o poder e falar. os personagens anteriores — Ator.) Esta rede de rugas no meu rosto. tão seco de carnes.. tristes. impiedoso Cronos: poupai-me do envilecer da carne viva! ATOR — Não se pode ir em frente. mas lentamente. Por que. que o mundo era tão vasto e doloroso. Merda de memória! HOMEM — A coisa mais triste do mundo é a pele. já caíram os dois telões. (Para o céu. MIGUEL — Eu não sabia. que forem-se-me os molares. Também começa a emergir em Quixote o último personagem — o Cavaleiro da Triste Figura. (Olhando as mãos. muito maiores di que eu? . de que? Não consigo lembrar. E que desejando a vastidão do mundo meu coração conheceria também a vastidão da dor. Dos lados.) QUIXOTE — Triste. milímetro por milímetro. senhor da guerra.Quixote está em frente ao impassível totem-Moinho. Tão magro sou. Não fazer. Ficar parado seria fatal. permitiste que eu tentasse fugir da minha pequenez? Por que me deste todos esses sonhos. Ogunh.. implacável Senhor do Tempo. meio grego. As coisas se me encurvam de fadiga.) E tem manchas tristes.. Miguel Quesada. E me fugiram os fios de cabelo. É impossível recuar. Fronteira.) Meu regente Marte. o peito se me encava de desgosto. Então acontece a Grande Divisão Esquizofrênica. fugir. Já quase nem tenho dentes. Desaparecer. Esquecimento. Ah. limite que nos separa dos outros e das coisas. (Tosse. triste figura a minha.

QUIXOTE .‖ MIGUEL (Citando Machado de Assis. ATOR (Citando Nelson Rodrigues. ATOR — Astaroth.) — Ay que me muero! HOMEM — O vômito. correntes. As vezes ganha. eu também quero outra coisa. a lágrima. eu estarei entre eles. Asmodeu! Belial. mas conhece a si mesmo.‖ .) — Carolina! ―Querida. Ou o cinismo. “A arte da Guerra”. trancar as portas. Mas sempre com um decote bem profundo. Ponham-me grades. Além do vômito. meu bem. Meu Deus. aqui quem te fala é uma morta!‖ HOMEM — Além da lágrima.) — ―Herculano. e sente o ritmo. Dêem-me o claustro que não suporto o outro. QUIXOTE (Citando Sun-Tzu. Aquele que não conhece nem o inimigo nem a si mesmo. Belfégor! MIGUEL — Fechar as portas. ao pé do leito derradeiro!‖ QUIXOTE — Soltem os leões! HOMEM — Como as atrizes e cantoras que desaparecem para sempre.) — ―Sempre quando tiveres mais de três pessoas reunidas e for falado o nome de Deus. Tragam-me chaves. Em todas as batalhas será vencido. cadeados.) ―Segura o turbante.Dulcinéia.) — ―Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo. Mesmo em cem batalhas.‖ (Noutro tom. minha estrela da manhã. bater as portas. Aquele que não conhece o inimigo. (Recita Manuel Bandeira. a prece. nunca correrá perigo. que não agüento o vivo! QUIXOTE (Bem espanhol.) ―Pura ou degradada até a última baixeza eu quero a estrela da manhã!‖ ATOR (Citando Vicente Pereira. às vezes perde.

‖ MIGUEL — A saída. Quem me dera o humor dos anjos. dos que fumam maconha para falar bobagens. Suspensa por um fio de nylon. o amor. o humor dos palhaços. ATOR (Citando Oswald de Andrade.) — ―Ter nascido me estragou a saúde. HOMEM — Além da prece. das crianças. bem circense. e tu para viver comendo. o amor: eu quero porque quero da vida!‖ HOMEM — Socorram-me que me afogo em meu próprio sangue.) — ―Ah o amor. escondendo por completo o totem-Moinho. despenca do alto do palco uma enorme lua . feérica. O riso a que não me atrevo.ATOR (Citando Clarice Lispector. rapazes e senhoritas: boa-noite! (Música circense bem animada. Efeitos feéricos de luz. em minha própria mancha! QUIXOTE — Ay ay ay que me muero! (Na cara de Quixote cai finalmente o terceiro telão. Ah. O Ator pode fazer mágicas.. Quando Quixote volta-se para o público. está transformado no Ator.. o riso.) — Respeitável público! Senhores e senhoras. onde fica a saída? Eu preciso encontrar a saída! QUIXOTE — Nasci para viver morrendo.) CENA 26 (Onde um alegre circo subitamente dá lugar ao deprimido e deprimente Cavaleiro da Triste Figura. tipo tirar infinitos de dentro do Elmo/penico. A luz fica mais clara.) ATOR (Braços abertos.

que já no valho um furo sequer da sola das tuas negras botas... Estou exausto desta farsa. (Para Sancho. (Amargo. companheiro Sancho. (Para Rocinante. Triste caminha até o manequim/Dulcinéia. Esqueçam-me todos. Oh Lua. acariciando o barrilzinho.em purpurina prateada. esqueceme. Começa a colocar suas próprias roupas sobre o xale do manequim.) Joguem. Escarrem-lhe na cara. Retira apenas a rosa vermelha que mantém nas mãos Enfia na cabeça o Elmo/penico e começa a caminhar em direção à espreguiçadeira. por sua vez. dias de vinho e rosas. acabado. (Mais alto. tornei-me agora exato e justo a alcunha que um dia me deste: Cavaleiro da Triste Figura. Ao ver a lua o Ator pára. do amor e do azul. que aprimorou meu porte e suportou meus ossos. já se transformou no Cavaleiro da Triste Figura. A música também pára.) — Cavaleiro da Branca Lua. da vida.) Ah.) — Lá vai ele. com fúria. Adeus.lhe bosta. que endoideceu. desalmada e feiticeira. . Branca. indomável Rocinante.) Que vexame. (Caidaço.. vencido estou. Farrapo humano. Joguem-lhe ovos podres. da saúde. Cavaleiro da Branca Lua. sombra de gente.) Mais do que nunca. destroço. (A parte. branca lua: a teus pés de prata deponho meus arroubos. que ensandeceu. que nunca foi nada! EPÍLOGO (Onde se encerra a narrativa falando da morte. Lancem-lhe apupos. soçobro de si mesmo. que desatinou e nunca mais voltou.) Esquece-me incluso tu. TRISTE (Cada vez mais curvado.) TRISTE (Para a lua. o mais amoroso e leal de todos os escudeiros de toda a história de toda a cavalaria andante.. Tamanha surra me deste. O Ator transformou-se novamente em Quixote que.) Esquece-me também tu. tomates murchos e ratos morto.

/ dejad el balcón abierto!‖ (Com um esforço derradeiro. pois a morte já anunciou sua chegada. Não pode desaparecer assim. geme. Uma permanece. / dejad el balcón abierto. Você melhor do que ninguém sabe disso. se a alguns fiz mal. E eu de nada me arrependo. / (Desde mi balcón lo veo.) Ela tem que estar aqui. Tarde demais. você nunca diz nada. espanando os confetes. ou remotíssima mesmo tempo os três telões. E muito caro pra não dizer nada.Perdoai-me todos. É que fugiu-seme a razão. a rosa vermelha sempre nas mãos. Quer saber do que mais? Caguei: K-Gay! .) //Si muero.) Ay que me muero! (Cai deitado na espreguiçadeira. (Recita García Lorca. Tira o penico da cabeça e coloca-o embaixo. num último alento:) ―Si muero. A lua batucada. a tua vida. (Procura pelo chão. já cansei dessa história. cuíca geme ao fundo.) TRISTE . Aliás. as nossas vidas. Nem você.) — Já? Mas hoje eu quase nem disse nada. Eu penso nela o tempo todo. // (Desde mi balcón lo siento. Aqui.) Do teto começa a cair uma chuva de confetes coloridos sobre Triste morto. ali. Leva a mão ao peito. é claro. dizem. (Desinteressado. // El nino come naranjas. Triste vai falando enquanto deita. Está vestido apenas com a malha. Triste joga a rosa para a platéia. ao longe. Que louco sonho ou pesadelo foi a minha vida.) // El segador siega el trigo. somos todos inocentes nesta barca da Medusa a navegar insânias. por longo tempo. Começam a subir ao HOMEM (Levanta.Triste pára junto à espreguiçadeira. Assim não é possível. Dentro ou fora de mim. deixa pra lá. imóvel. No que é que eu estou pensando agora? Na mancha. como o Ator no Prólogo. consultando o relógio.) AH. Fala com um psicanalista imaginário. Ah. e só me torna agora.

com o indicador apontado. Mas a secretária eletrônica é mais rápida. Que bom. sim. então você recebeu a minha carta? (Confiante. Os três telões terminaram de subir. enquanto a luz diminui em resistência. O Ator não se move. eu nunca pensei que.) — Hã? Hein? O que? Quem? (Gira lentamente o globo. três banquinho do início. como no Prólogo. (Olhando em direções diferentes. Exatamente aqui. Música espanhola vibrante. eu também.. repete sete vezes cada vez mais baixo.) Ah.O telefone começa a tocar. procura e aponta. Atende sôfrego. Como? Ah.) Sim. lá no alto.) Aqui.. O sinal repete duas. vigorosa. pode falar. Quem vê lá do espaço. Senta no banquinho em frente ao globo terrestre. sim. animado. Bem aqui. vital. (Pára o globo. caminha até o praticável .) Carolina? Nossa. Muita falta. (São Paulo. Deve ser mesmo. Miguel deposita suavemente o telefone. surpreso e feliz. ATOR (Estremecendo. vamos nos ver. Miguel. Já transformado em Miguel o Homem precipita-se para atender.‖ Miguel aperta um botão e desliga a secretária. é verdade. eu de longe lá do alto — diz que a Terra é azul.Alô. Claro. sim. MIGUEL (Ao telefone.) . sim. Já transformado em Ator. E a lua.. Quem gostaria? (Sorrindo. sim. vamos sim. Hoje mesmo? Miguel estaca sorrindo ao telefone. A gente sempre esquece.. claro. Os telões sumiram.. quer falar com quem? Miguel? Sou eu mesmo. VOZ GRAVADA — ―Isto é uma gravação. como despojos de uma batalha. Toca um sinal de início de espetáculo.) Eu também. sim.. Resta o palco e poucos elementos espalhados. Carnaval de 1994) vezes enquanto o Ator volta a sentar no .

A — Você também sente? B . eu sinto. Deixa de ser paranóico. B . eu disse. B — O que é que você quer dizer com isso? A — Eu quero dizer que você é meu companheiro.O quê? A . Que eu sou teu companheiro. não foi assim: que eu sou teu companheiro. B — Não é disso que estou falando.CENAS AVULSAS DIÁLOGO 1 A — Você é meu companheiro. A — Você está falando do quê. S6 isso. B . sei.Eu disse que você é meu companheiro. A — Não.Hein? A — Você é meu companheiro. Não tem nada. A — Ah. B — Tem alguma coisa atrás. B — Não.O quê? . então? B — Eu estou falando disso que você falou agora.

Ser teu companheiro? A.Sim. .Não é que eu não queira: é que não é.O quê? A . por favor. A. Você quer? B . Tem alguma coisa atrás. A — Não me confunda. você não vê? A . A — Você não quer que seja isso assim? B . E você. não me confunda. B — Você não sente? A — Que você é meu companheiro? Sinto. sim. Por favor. No começo era claro. eu sei.É.Não.Companheiro? A. A — Atrás do companheiro? B . não? B — Não. Eu quero. B . No começo era claro. Não é isso.Ser meu companheiro.É B . Tem alguma coisa atrás.Eu não sei.Eu vejo.A — Que você é meu companheiro? B — Não me confunda. B . B — Agora não? A — Agora sim. Claro que eu sinto. Não é assim. não me confunda.

A . .Você é meu companheiro. A .Eu disse? B .O quê? A — Que você seja meu companheiro.Eu quero que você seja meu companheiro. B . para longe.Não. não é assim? Pronto para ser colhido.O quê? A — Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro. A . B — O índice de mortalidade infantil aumentou em trinta por cento. B — A ração básica custa setenta por cento do salário mínimo.Maduro como um fruto. B — Você disse? A . Sazonando.B .Hein? A . O que definitiva e realmente sou ameaça rebentar as janelas. eu disse.O quê? B .Hein? (Ad infinitum) DIÁLOGO 2 A — Sinto-me tão nítido que quase posso tocar em mim. Não foi assim: eu disse. A — Broto para fora. B .

A (Cortando. E a partir disso. você acha? B — Isso é uma questão real ou simbólica? A . .Como assim? B — Quero dizer: Você quer uma resposta alegórica ou realista? A — Realista?! Como? B — Realista no sentido de não ter subtexto.É. Nós dois.) — Mas você lembra? B .B — A temperatura ambiente é de vinte graus centígrados e dois décimos. entende? Quero dizer: eu dizer que acho que faz muito tempo porque se passou. mon coéur vomitte‖. A . eu... DIÁLOGO 3 A — Uma vez.. bem no meio da ponte do Guaíba. Mas já faz tempo. você falou que a gente podia alugar um apartamento em Moinhos de Vento. Eu e você B — Ah.Suponhamos que sim. A — Esse ―suponhamos‖ é real ou (irônico) alegórico? B — ―Entre les deux. um mas.O que? B — Quero dizer que.. A — Muito tempo. suponhamos. B — A gente? A .

porra. A — Tentou! Tentou como? Aquela vez que você me disse que tava grávida menos de um dia depois que a gente tinha trepado? B . A — Mas eu podia acreditar? Menos de um dia. cara. A ..Eu tentei.. cinqüenta por cento da cria era minha. E humanamente impossível qualquer pessoa saber. A — Agressivo? Ah... porra. Afinal de contas.Acontece que você não tinha o direito de fazer este maldito aborto sem me consultar antes. por que é que você não me disse que estava grávida? B .Você não acreditou. DIÁLOGO 4 O Aborto A — Mas afinal... nem que você tivesse superpoderes. Nem que fosse médium.) — Você acha que um mês é um tempo significativo? B — Significativo em que termos? A . Nem que fosse a Mulher Maravilha.... meu bem. É completamente impossível alguém saber tão rápido. não era? B — Mas eu já disse que tentei te dizer. B — Não fica agressivo comigo. .A (Cortando...Me passa o vinho. porra.

Me responde uma coisa: por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento. No segundo em que eu botei o olho em ti.B — Uma mulher sempre sabe. Sabe sempre. (Articulando as palavras. A — Não força.. tá sabendo? Na hora de baixar a calcinha. cara. lentíssimamente. B — Sabe na hora.) — Você quer saber? Você quer saber mesmo? B .) — E. Sabe o tempo todo... Pausa longa B (Acendendo um cigarro.) . tem uma pergunta que há horas eu tou querendo te fazer. . Eu acho que.Porque é o único jeito de imaginar que eu tou fodendo com um homem. meu querido. cara. No minuto exato em que você põe o pau lá dentro. B — Como. Não me venha com esses superpoderes feminóides.Quero saber tudo.) Por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento. isso te dói? A .. A Sabe merda nenhuma. não força? E já que a gente tá falando nessas coisas tão Íntimas.Absolutamente.

.. (Pausa.... para mim.. estou atordoando.....) A — Não consigo...―There will be time.. Time for me and time for you.. Para mim..) ―Amor de mis entrafias: viva.... Your body hurst me as the world hurst me as the world hurst god‖. eu não consigo.estou tentando.... Florença.. estou tonteando.S. estou turvando.. essa. Aceitar essa mudança.. essa mudança. B — ―Life is a tale told by an idiot fuli of sound and fury‖.. Para mim. B — ―1 am too pure for you or anyone.... Eliot) A — Eu não consigo...DIÁLOGO 5 A — Não consigo aceitar essa mudança. eu não consigo.... não consigo — não consigo aceitar essa. estou tateando.. não sei.) — Estou tentando. ele continuará sendo sempre aquele menino recém-chegado de Florença. aquele menino.. para mim. (Shakespeare.‖ (García Lorca) A (Cortando. (T. Para mim. Time for visions and VER. mudança. B . There will be time.. Time for one hundred of decisions and undecisions‖. estou torvelinhando.) ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖.. B — ―Somenthing between Macondo and venice‖. B — ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖ (Pausa... ele continuará sendo — sempre — aquele menino recém-chegado de Florença. não sei. (Sylvia Plath) A — Estou tentando.. mas não consigo. ... para mim... . ele continuará sendo aquele menino recém chegado de Florença..

Nota — A continua fazendo variações (que podem ser improvisadas ao infinito em torno de tentar-tatear-tontear-etc.) enquanto B repete sempre a última frase. 2 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. será um prazer recebê-lo em nosso grupo.google.com/group/Viciados_em_Livros.Se quiser outros títulos nos procure http://groups. .

SARAU DAS 9 ÀS 11* * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

um homem-tronco • EGO .PERSONAGENS MADAME DE ALENCASTRO • MONGE DO RESTELO • BABY • DEBORAH • BÓRIS.

festas à beira da piscina. velha dama de negro e sotaque português. por onde ninfas e sátiros se perseguiam amorosamente. picnics no campo. tomaram conta. jantares. Reis destronados.1º. MADAME - Suavemente plantada entre os rochedos da harmoniosa Costa do Sol. era uma festa sem fim. que a tudo preside. Éramos servidos por exércitos de empregados que nos amavam e respeitavam. sex. envelhecidas estrelas de cinema conviviam com magnatas do jet-set internacional e com a antiqüíssima aristocracia local. que geme sons inarticulados. a imprecar vaticínios apocalípticos. E o Ego. QUADRO Overture Este é um quadro de monólogos entrecruzados. Ele. drugs & rock‘ n roll. jeans e discurso de protestos. Ao fundo. vivíamos em mansões cercadas de jardins. ocuparam . Ela. ditadores depostos. Bóris. Baby e Deborah são representantes da juventude. Habitam áreas estanques do palco. O Monge de Restelo é uma figura visionária de capa vermelha. Nesse ambiente eu me criei. uma figura de altura desmesurada. partidas de criquet. bosques e fontes. e eram capazes de dar a vida por nós. Recepções. mas só se manifesta no final como um oráculo de nonsense. bailes de máscara. Hoje tudo mudou. vestindo um manto negro que só deixa de fora o rosto de alvaiade. traz numa coleira um homem-tronco. Os rebeldes venceram. Madame de Alencastro. Isolados da turbulência do mundo. Taormina foi o cenário onde transcorreu aprazível a minha infância. As falas dos personagens repercutem umas nas outras sem que haja qualquer diálogo ou contracenação entre eles.

. E em noites de lua cheia desfilávamos todos a nossa beleza. MONGE (Para Baby. Tudo grita na sua cara que você não vale absolutamente nada.Quando olho para mim mesmo. passeávamos pela alameda da quinta de Don Juan do Franco Condado. de Saravejo.tudo e tivemos todos que fugir às pressas. DEBORAH . BABY — Quem é você para colocar um epitáfio sobre mim? Quem é você para dizer que não dei certo? Por acaso você deu? Olhe dentro do meu olho e me responda: você se sente feliz? Você tem esperança? Eu não.) — Tu continuas fazendo parte daquele balão colorido que subiu embalado por música. não posso evitar de pensar que o homem é apenas um animal que não deu muito certo. . política. cruamente. quando olho para mim. Os amigos desaparecem no momento exato em que você precisa deles. DEBORAH . não gosto do que vejo. e que explodiu. Eu. far-se-á silêncio no céu. MONGE — Ao romper do sétimo selo. não. O mundo te machuca.. Mas quando olho para você. Então os anjos com suas trombetas preparar-se-ão para tocar. nas esquinas. Quando olho para você.. ou tomávamos chá sob o caramanchão nos jardins de Humberto de Bourbon. Éramos visitados pelo rei de Roma. ex-rei da Savóia. pelo ex-ditador Simeon da Cituânia e pelo regente Von Koseritz. Mas naquele tempo nâo havia rebeldes. quando fazia calor.E pensar que eu quase me danei apostando no meu back-ground. pelo Arcebispo de Cantuária.. BABY . MADAME — À tardinha. As pessoas te empurram nas filas. a nossa graça e o nosso charme a beira-mar. gosto muito menos. drogas.E pensar que eu passei todo esse tempo investindo no meu know-how. dentro dos ônibus.

Não. I know not what to do. Não quero ver as paredes brancas de suas casas cobertas de inscrições em vermelho e negro: ―Abaixo a tirania‖. a terça parte das arvores. MADAME — Fiquei sabendo outro dia que minha madrinha. emergindo de uma fonte de champanha coberta apenas por um manto de asas de borboleta. no palacete de Otto Marino. e toda a grama verde perecerá no fogo. Acabou tudo. Não suportaria ver aquelas casas vazias. que será atirada sobre a terra. BABY — Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de desencanto? Quem. MONGE — O segundo anjo tocará a trombeta — e como um monte de fogo lançar-se-á ao mar.MADAME — Lembro-me ainda de uma grande festa a que fui aos 15 anos de idade.Quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu. ―Morram os opressores‖. silenciosas. . eu não suportaria presenciar uma coisa dessas. a poetisa Florbela Ortigão. MONGE — O primeiro anjo tocará a trombeta — e cairá uma saraivada de fogo misturada com sangue. e perecerá um terço das criaturas que vivem no mar. o rei do manganês. em que a princesa do Shirar representou o nascimento de Vênus. estenderá a mão para passar no meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia? DEBORAH . Queimar-se-á a terça parte da terra. e um terço dos navios ira a pique. DEBORAH . ou então transformadas em casernas ou hospitais.Ando jururu. Nunca mais retornarei a Taormina. entre todos vocês. desde que os rebeldes venceram. e a terça parte do mar mudar-se-á em sangue. tem agora que cozinhar a sua própria comida. nunca mais voltei a Taormina. fechadas. Não.

Os industriais de Santa Lúcia tiveram todos os seus bens confiscados e contas bancárias bloqueadas pelo Governo rebelde. Pela minha absoluta desesperança. meu coração bate ainda mais forte. Você tem seus jeitos de tentar. Não acredito nos seus. e nosso porto é desconhecido. deixaram para trás uma avozinha cega. não espero nenhuma cantiga de ninar. E a famosa confeitaria Garcez & Bernard. Converterá em absinto a terça parte das águas. O futuro é um abismo escuro. Chamar-se-á ―absinto‖ esse astro. .E descansar os meus olhos no pasto. nos animais. Acredito na pedra bruta. dizia. Não lhe peço que acredite em mim. mas pouco importa onde terminará a minha queda. MADAME . a gente está pronto para começar a receber. na pressa. um irmão entrevado. Soube também que faliu a revista Gran-Monde. MONGE — O terceiro anjo tocará a trombeta — e cairá do céu um grande astro. Quando se pára de pedir. não espero nenhum gesto. só se tem a ganhar. talvez também não acredite nos meus próprios. De qualquer forma.DEBORAH . especializada na crônica da vida mundana. Quando não se tem mais nada a perder. porque se tornarão amargas. luminoso como um archote. descarregar esse mundo das costas. uma tia louca. Eu tenho os meus. BABY — Quanto a mim. Acredito nos astros. um dia seremos poeira. Muitos. nas águas. e virá tombar sobre a terça parte dos rios e das fontes d‘água. cuja mais famosa especialidade eram os docinhos conhecidos como ―ossinhos de Santa Catarina‖ — a confeitaria. nossos iates e palacetes. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado. Acredito no vento que sopra da banda do rio quando o sol acaba de se pôr. Tivemos que vender nossos automóveis de luxo. Por isso estou vivo. acredito nas plantas. na areia seca. BABY — Não espero nenhum olhar. teve as suas instalações transformadas num depósito de armamentos. e muitos homens morrerão dessas águas.Tivemos todos que fugir em debandada.

MADAME .DEBORAH — Eu só quero fazer parte do backing vocal. . MONGE — Quem reduzir outro ao cativeiro. un paté trufado de Estrasburgo. shoobedoo-down-down. MONGE — De maneira que se lhes escurecerá a terça parte. e deixará de resplandecer a terça parte do dia e da noite. MADAME . MADAME .disse. MADAME — E o que foi não voltará mais a ser. un bon tinto y nada más‖ . a terça parte da Lua e a terça parte das estrelas. Ainda hoje tive a compreensão final. MONGE — O quarto anjo tocará a trombeta. pela espada morrerá. Tudo acabou. será cativo ele mesmo. que foi visto sexta-feira no restaurante La Tour d‘Ivoire. outrora um dos mais luxuosos da cidade. e cantar o tempo todo: shoobedoo-down-down. Não me iludo.Quem tiver ouvidos. MONGE — E será ferida a terça parte do sol.Tomou dois cálices de vinho do Porto e encomendou o jantar: ―Yo quiero un poco de caviar.Tudo mudou. MADAME . ouça. MADAME — Li no jornal que os imortais da Academia de Letras. Ciências e Artes foram todos mortos. MONGE . MADAME — Terminada a refeição.Fuzilados. MONGE — Quem ferir pela espada. ninguém mais o viu.Ainda na semana passada a única figura daqueles tempos que se mantinha em pé era o velho Cônsul de Pasca. hoje submetido ao regime de autogestão.

2° QUADRO: Como Era Verde o Meu Vale Monólogo auto-explanatório.) — Quando será finalmente aberto o último seio? EGO — Bevete più latte. CENA Um hospital para doentes mentais.) . DEBORAH (Para Ego. E muitas passarão. MONGE (Para Ego. Ask for interchange.) — Onde estão meus andores? Onde estão meus ouropéis? Onde estão meus cristais? EGO — Mantenha seu equilíbrio sobre o fio da navalha.) — Como posso acreditar outra vez no humano? EGO — Muitas gerações passaram. A casa era branca e fresca. MADAME (Para Ego.Where‘s my band? EGO — Solicite intercâmbio. Demandez de l‘interchange.BABY (Para Ego. A gente via o rio dum lado e os morros do outro. A gente sentava embaixo da figueira e ficava vendo o sol se pôr atrás dos morros. Como era bonito lá. Trás de ahora viene lo que fue antes. A gente via mesmo só à . y antes fue lo que será ahora.

quase como uma centopéia na encosta daquele morro grande. recolher os ovos no galinheiro.tardinha. mesmo assim. A terra foi ficando tão imprestável e as cercas se aproximaram tanto que o Clodomiro. Mas ela riu e disse que não era nada. De repente ela parou e apontou pro lado do morro. Então as cercas das outras casas começaram a se aproximar e a gente foi ficando espremido ali. Todo dia a gente podia ver os caminhões passando lá embaixo. Depois dum tempo as plantas começavam a murchar. E mesmo quando tinha muito trabalho — tirar leite das vacas. carregados de trilhos e umas máquinas que eu não conhecia. Lembro que a Zefa vinha descendo os degraus da casa com o mate numa das mãos e a chaleira na outra. eu tenho cinco filhos e os cinco tavam casados e precisavam de dinheiro. que não sei ler nem escrever. colher o milho. O povo da vila dizia que era bom. Aí a gente parou de conversar e ficou todo mundo olhando o trem. semear o trigo —. A terra tava no nome deles. as árvores perdiam as folhas e a terra não dava mais nada. que era o progresso que tava chegando e agora todo mundo ia ter trabalho e ganhar bastante dinheiro. era sempre bonito lá. A gente pensou que ela tivesse se queimado. Foi numa dessas tardes que a gente viu o trem. em cima daquela colina onde ficava a nossa casa. De longe parecia pequenininho. E o sol se pondo por trás. porque de dia era tanto trabalho que a gente nem tinha tempo de olhar pros lados. Veio também a fábrica de cimento. Mas a fábrica largava uma fumaça branca que caía em cima das árvores e das verduras. O Clodomiro falou que as crianças precisavam de escola. . resolveu vender tudo e mudar pra Canoas. A Zefa ficou tão nervosa que derrubou a cuja no chão e virou a água quente da chaleira. Um tempo depois vieram as casas. meu filho mais velho. Fazia tempo que uns homens do governo trabalhavam na estrada de ferro. na estrada. Ficou apontando e olhando. arar a terra. A minha propriedade não era muito grande. os peixes do rio foram morrendo todos. que ele não queria que eles crescessem uns ignorantes que nem eu.

Aí um dia eles disseram que eu tava louco. Eu só suspirava e repetia: ―Como era bonito lá. pensando na figueira e nas coisas que a gente conversava embaixo dela.Eu não queria vender. As crianças acordavam com os meus passos. 3° QUADRO Bonecos Chineses . E ficava andando da cozinha pra sala. Mas era um pátio tão cheio de pedra que nem urtiga nascia lá. Eu fui ficando cada vez mais triste. dizia que não era bom pras crianças. Ele tinha dito que a gente ia morar numa casinha que nem a outra. Eu fui ficando triste. eu achava muito bonito lá. Eu não conseguia mais dormir e de noite ficava andando pela casa. como era bonito lá‖. e que eu podia plantar no pátio. choravam e tinham medo de mim. como era bonito lá‖. do banheiro pro quarto. Eu já não conseguia nem comer nem dormir direito. dizia que eu parecia um bicho numa jaula. Eu não brigava. A minha nora reclamava cada vez mais. Ela era uma mulher mais braba. Os vizinhos cochichavam quando eu saía no portão. da sala pro banheiro. Quando a gente fica velho os filhos não ligam mais pros palpites da gente. A minha nora reclamava todo dia. quando entesava de querer uma coisa não tinha ninguém no mundo capaz de fazer ela mudar de idéia. e eu não podia fazer nada. quem sabe se a velha ainda tivesse viva o Clodomiro não tivesse vendido. Então o Clodomiro vendeu a terra e a gente se mudou pra Canoas. falando comigo mesmo. Eu sempre repetia assim: «Como era bonito lá. me botaram numa camisa de força e me trouxeram pro hospício. não queria lavar as minhas camisas. Eu tinha um pouco de medo de sair além do portão. Mas ela tinha morrido já faz muito tempo. por causa do barulho dos caminhões na feira perto de casa.

E tome o seu café de uma vez. hoje. A (Ri.O que é que você falou? B — Eu disse que os pássaros são livres. B — Sabe. A — Eu tenho mais coisas a pensar do que na luz do sol. escute aqui. A . eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo essas besteiras.) — Você acha que eu tenho tempo pra essas bobagens? B — Você já fez sua saudação ao dia? A — Ora. você acordou hoje com o quê. se não você vai terminar chegando atrasado no seu emprego. B — E você? Não vai fazer o mesmo? A — Fazer o que? B — Simplesmente agradecer. A . A — Escute. estou aqui.E o que é que me importa isso? B — É preciso agradecer. .Com a luz do sol. você está aí. A — Muito bom. B — Sim. então agradeça. com a minha ajuda. A — Ah. você vai se visitar. B — Os pássaros são livres. hein? B .PERSONAGENS A (uma dona de casa) e B (seu cunhado).

B . tem aí o trouxa do teu irmão que te sustenta. E pra isso eu preciso de tempo. Vá trabalhar logo e me deixe trabalhar também. há muito que já devia ter ido trabalhar. . Não é você quem paga o aluguel. E você está fazendo eu perder tempo. Você tem casa. A — O que eu sei é que eu sou senhora do teu irmão. E mesmo que você perca o emprego de tanto chegar atrasado e não contribua com dinheiro algum pra casa. Tenho que limpar a casa. arrumar as camas. A — É claro que você não tem esses problemas. sabia? E você também está perdendo tempo. roupa lavada. mas senhora de si mesma. Eu já estou é farta de você! B .Por exemplo. Tenho que lavar a sua roupa e a de seu irmão. A . eu não tenho esses problemas de tempo. A — Eu sei que eu tenho muitas outras coisas a fazer. comida.Não há tempo a perder.B . o tempo não existe pra mim. fazer comida pra vocês. Não é assim que você pensa? A — Claro. O salário que traz pra casa não paga nem o papel higiênico que você gasta. É assim que eu penso. Você acha pouco tudo isso? B — Acho que falta mais alguma coisa. meu querido cunhado. B — Não se preocupe.E onde está o seu outro lado? A — O que é que você está dizendo? B — Aquele lado que não lhe faz escrava.Por exemplo? Eu já vou lhe dizer.

Se dependesse de mim. De qualquer jeito você vai morrer um dia.Sabe de uma coisa? Você fala demais. se você quiser. B — Estou mais disposto a colaborar do que você pensa. Isto é uma falta de respeito! Onde já se viu uma coisa dessas? Debochar de mim na minha cara! Eu não admito. eu posso ajudá-la a mudar a situação agora. Quer? A — Bom. Chegue um pouco mais perto. Pare. faz coisas demais. A — Muito bem. Experimente parar um pouco. A minha paciência tem limites. pelo menos você parece disposto a colaborar.) A — O que é isso? 8 — Cale-se. se mexe demais.E o que é que você está pretendendo? B — Cale-se. revele esse segredo logo e vá andando. A — Escute uma coisa. . vou lhe revelar um segredo. (Cala a boca. a situação seria bem diferente. B — Eu quero brincar com a sua cabeça. e isso é tudo pra você? A — Eu não me casei com ele? Se eu fosse senhora de mim. A . ouviu! Não admito essas brincadeiras de mau gosto! Seu vagabundo! parasita! explorador! B . Escute o silencio. Escute. B — Depende de você. tudo demais! A — Pare com isso! Pare com isso! B — Pare você. eu não estaria aturando você todo esse tempo aqui dentro da minha casa.B — Ah. A — Você está é louco.

B — Você não estava cansada de mim? A — Estou cansada. pelo menos. simplesmente.Eu é que estou cansada de você! B — E do seu medo. o país.Ah. A — Vá. uma pessoa.O quê? . Adeus. me chamou? Você não queria que eu fosse embora? A — Não. A . Vamos conversar com calma. a cama.Escute.Escutar? Mas eu não estou ouvindo nada. o universo. Mas sendo uma poeira. B — Você não é a única pessoa do mundo.Estou cansado. Este não é o único país do mundo.. Cansado da sua infinita burrice. da sua mediocridade. Esta não é a única casa. não desta maneira. B — Bunda mole.O que você quer dizer com tudo isso? Eu acho melhor você ir embora da minha casa já e já! B . não é? A ..Está bem. Eu vou. o sistema solar. Desculpe. A — O que está acontecendo? O que foi que deu em você? B . Deixa eu buscar uma cadeira. o planeta.. Cansado da sua mesquinharia! A . vá! É melhor mesmo que você vá de uma vez.B . (Pausa. da sua falta de sentido! A . Você deve ter varizes. Nem o único sistema solar.) Espera! B . Você não passa de uma poeira. Este não é o único planeta. você é tudo também..

Eu não. A — A nossa. B — Você está aqui dentro. A — Que conjunto de reações.E hemorróidas. Tudo em você é típico. A .O que é isso? Eu não entendo essa conversa! Você está me deixando louca! B . que eu não vou agüentar.Também! B — E caspa! A . é aqui a realidade! B — Esta é a sua realidade. A — Claro! Você é um deles! B — São típicos. Você está aqui dentro comigo. meu Deus? Pare com isso! Pare de falar difícil! Você está louco.Também! B — Conheço todos os seus males.B . A — E onde é que você está? .Você é mais um conjunto de reações do que propriamente um ser humano. desça. B — E problemas digestivos! A . querido cunhado. A . A — Eu acho melhor você acabar com essas agressões.Tenho. Característico. No rabo. E pára de andar ao meu redor que eu fico tonta. A minha é outra. B — Você não chega a ser uma individualidade. coisa nenhuma! O que é isso. está fora da realidade! Desça.

B — Eu? Eu estou no ar. Me ajudar! Tem graça! Em que você poderia me ajudar? B — Eu podia ajudá-la a encontrar. Pra você se achar. me torturar. me diga concretamente em quê? Na minha vida? Mas a minha vida é tão feia.. isto está cheirando a bruxaria! umbanda! espiritismo! Eu sou católica praticante. na terra. A — Mas como me perdi? Eu me acho todos os dias. Você só sabe me explorar. dentro de mim. no fogo. você se perdeu a si mesma.. está ouvindo? Eu não admito isso na minha casa! Pare com isso imediatamente! B — Parei. A . No tanque. me irritar.Encontrar o quê? B — Você mesma. A — Meu Deus.Em quê? B — Pense. Eu estou sempre me achando.. B — Pense em você mesma.Eu? B — Sim. Eu não gosto de pensar nela. é preciso começar pensando. B — Você se engana. no supermercado.Eu me sinto insultada. A .. A — Não acredito em você. e dentro de você.. A. Você não se acha nunca. . no éter. humilhada. na água.. A — Mas concretamente. B — Mas eu já disse que posso ajudá-la. na cozinha. A ...

A . Acho até que me esqueci de mim. já disse.Eu já disse. A — No meu interior? No meu interior eu tenho vísceras.A — Em que parte de mim? Eu sou composta de muitas partes: cabeça. Em buscar as crianças do colégio. B .Há muito tempo que eu não penso em mim. A — Mas eu penso. B — Na sua cabeça. A . tronco e membros. B — Detalhes! A — Nas cortinas que eu tenho que mandar lavar! B — Detalhes. Em você Em você. Penso no banho das crianças. O que é que eu faço com ela? B .Na minha cabeça? A minha cabeça dói. B — Insignificâncias! Continue pensando! A — Mas em quê.Quando foi que você se esqueceu de si mesma? .Pense. B — Frescura! Pense! A — Em levar as crianças pro colégio. eu tenho coração! útero. Pense! A — Na pilha de roupas pra passar. pelo amor de Deus! B . B — No seu interior. meu Deus. em que? Me explique. eu tenho pulmões.

Eu gostava de brincar no jardim. debaixo de uma vergamoteira. o corpo doído. Fale comigo. A — Ora. que até adormecia ao pé da árvore. . O vento soprava e ela abanava as folhinhas pra mim como se me respondesse.Tenta. Você acha ridículo tudo o que eu contei? B . como se fosse uma máscara pintada. E tão difícil pensar. Eu não quero pensar mais nisso. frondosa.Não. As mãos ficavam coloridas e os joelhos também. aproximese. isso não é coisa pra uma mulher da minha idade.Eu tenho vergonha. Diga alguma coisa. Acho que você pode voltar a falar com a sua vergamoteira. A . E além disso.A — Não sei. Eu conversava com ela. Tão bonito. Eu já nem me lembro direito. só sei que faz muito tempo. E só fica o cansaço. Eu ficava tão calma. Eu acho que não consigo mais nem pensar. cheia de vergamotas. As coisas fogem da minha cabeça quando eu me esforço. B — Existe. A . Eu vou virar de costas. Faz tanto tempo isso.A última coisa que eu me lembro de mim é quando eu tinha sete anos. Faz de conta que eu não estou aqui. E digo mais. eu sou a vergamoteira. não acho. Eu gostava de ficar olhando para ela. sim. B — Tente se lembrar. lavar as mãos e os joelhos que estavam pretos. ela não existe mais. Venha. colorida. vontade de me atirar na cama e chorar. Olhe. Eu não via nada de errado nisso. Era até bonito. e acordava com os gritos da minha mãe mandando eu tomar banho. ás vezes eu penso nisso tudo e chego a sentir um pouquinho daquela alegria. A — Você acha que vai dar certo? B . E estou cansada. Mas aí tudo desaparece. tão tranqüila.

) Oi. A .. Se eu comer as sete vergamotinhas eu encontro. ele representa força. B .) — Sete. vem falar comigo. A (Ri envergonhada. B — Que pena.E daí? B . coragem. . B — Quantas vergamotas eu tenho hoje? A (Conta.Oi. B — Já pensou no que isto significa? A. B — Não. A . Eu não conhecia ela. A — Esta vergamoteira é nova.Não. Esta outra aqui também. Mas esta aqui é nova. encontro.B — Vem cá..E daí. B — Sete é número cabalístico.. Esta eu já tinha visto. Há quanto tempo você não vinha aqui. Eu tinha sabatina e tive que ficar no meu quarto estudando. de bruxaria. Mamãe não deixou eu vir ao jardim ontem. o que é que eu encontro? B — Não sei. E aquela ali. (Hesita.) — Eu não posso.Desde anteontem. A — Acho que entendi. aproxima-se lentamente.Eu sei.. você tem uma chave em suas mãos. Isso só você é que vai saber. A . B — Eu já estava com saudades de você. A — Eu também estava.

A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO * Peça em 1 Ato * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

uma donzela de 19 anos . VASSILI. MARQUES RAFAEL D‘ALLENÇON. muito doente • ROSALINDA. um velho nobre. uma cigana . um jovem mancebo. irmã do conde e louca • JEZEBEL.PERSONAGENS NARRADOR • AGHATA. uma velha governanta • CONDE MAURÍCIO DE BELMONT. um cigano cego . CONDESSA URSULA DE BELMONT.

(pinga mais) ou três. A nossa história tem início na tarde de 15 de abril do ano da graça de 1834. que estou cada vez pior. três. A governanta Agatha. seis. governara seus domínios com a mão de ferro.. Mais um gole... Senhor.. Uma chuva miúda e fria cai sobre a terra. duas. MAURÍCIO — Arre. Não vais dar-me a tisana? AGATHA — Estava justamente a prepará-la para vós. sinto-me dolorosamente mal... Agatha. dorme um sono entrecortado de gemidos e sobressaltos.. o velho conde Maurício..) Talvez mais uma ou duas. deveis beber a tisana toda. que já por toda a parte começava a ostentar os dons fecundos do seu rico e poético reino..Aghata.. AGATHA — Uma. de antiqüíssima linhagem e senhores daquela região. Assim. Acho que é o suficiente por hoje... saberá por certo apiedar-se de vossa desdita. que sabor repugnante! E se ao menos adiantasse de alguma cousa! Parece-me. conhecido pelo nome de Vale Negro. que há muitos anos serve a família. . imponente.. na sua infinita bondade de misericórdia. Aqui está (serve-lhe). Agatha. último descendente da estirpe e que outrora... (Observa Maurício. que cruéis provações ainda me reservará o destino? AGATHA — Não vos preocupeis demasiado. quatro. cinco..Na província de Castelfranc.CENA 1 NARRADOR . MAURÍCIO (Gemendo. Deus. Numa sala do castelo.) . ergue-se. pinga lentamente algumas gotas de uma tisana escura num cálice de cristal. estende-se um vale coberto por densa floresta de pinheiros e ciprestes. o castelo dos condes de Belmont. paralisando a formosa primavera. ao contrário.. Oh.. senhor conde. Vamos. sete. No topo de uma das montanhas que dominam o vale.... senhor conde....

e pensava em vós. quando raiou o sol. Rosalinda.. senhor. Caminhava pelos montes.) — Falávamos sobre os males que afligem vosso padrinho. meu amado bem feitor! MAURÍCIO (Amargo. se eu morrer. como é de seu feitio. meu primaveril crisântemo. entre as cabras. Como deveis padecer. Que trafega estás. O senhor conde quer que eu descerre os reposteiros? MAURÍCIO — Não.) — Quem jamais saberá o que? AGATHA (Friamente. MAURÍCIO . andavas pelos bosques? ROSALINDA — Sim. juras que. jamais revelarás a verdade a Rosalinda? AGATHA — Tranqüilizai-vos. por favor. a natureza toda parecia explodir em cores inefáveis e perfumes inebriantes.. padrinho.) — Quiçá eu mereça todos estes abomináveis tormentos.Ainda não a vi hoje. MAURÍCIO — Aproxima-te. Agatha. onde está Rosalinda? AGATHA . (Suspira. Temos sol de novo. A luz me molesta. Ela jamais saberá. CENA 2 ROSALINDA (Entrando com um cesto de palha carregado de flores e frutos. Então. Oh. senhor. Deve andar pelos bosques colhendo frutos e flores silvestres.MAURÍCIO — Agatha.Com este tempo chuvoso? AGATHA .A chuva parou já faz mais de hora. .) Pobre Rosalinda! Deus permita que não descubra jamais o hediondo segredo que envolve as suas origens. abandonado aqui neste leito.

Tenho um pressentimento.) MAURÍCIO — Atende. quietos! (Cessam os latidos.) E quanto aos gritos. inexplicável pela ciência dos homens. mais justo e magnânimo que meu amado padrinho.O marques Rafael d‘Allençon. Astaroth.) Não! (Ouvem-se gritos ao longe.Quem poderá ser? Oh. . Deve ter chegado alguém. Agatha.. ROSALINDA — O que dizeis. MAURÍCIO — (Agitado.Os gritos novamente. padrinho. (Agatha sai.) Cérbero. AGATHA — Caluda! (Escutando.) Ouvis? A cascata parou. sinto um aperto no coração.) . AGATHA (Anunciando. (A Rosalinda..) ROSALINDA . minha rósea tulipa.) — A cascata costuma parar quando algo terrível está para acontecer. ROSALINDA . Não atemorize nossa linda pequena. padrinho. o conde Maurício de Belmont.. Agatha. Ouvem-se batidas de aldrava..) — Os cães estão latindo.AGATHA (Seca.Tenho tanto medo. E apenas um fenômeno natural. Belzebu. AGATHA (Cortando. (Ouvem-se latidos. Lúcifer. Belfegor.) AGATHA . De que sofrida garganta brotam esses brados inumanos? E por que a cascata pára? AGATHA (Lúgubre. (Indo à janela. Esta é a maldição do Vale Negro. MAURÍCIO — Cala-te. Asmodeu.) — Deus sabe o que faz. Agatha? Todos os camponeses e mineiros do Vale Negro sabem que não existe fidalgo mais nobre.) Não te assustes.

caríssimo conde.) — Maldição! Esses cães são verdadeiros demônios! (A Maurício. Seriam capazes de trucidar qualquer um de nós. Com vossa licença.CENA 3 RAFAEL (Entrando. permanecem acorrentados. que os alimento. (A Rosalinda. senhor marques. retira-te. (Olhando de soslaio a Rosalinda. Para não incorrer no erro de vir visitar-vos à noite.Abreviamo-la. (Sai com Agatha. durante o dia. caro marques. necessito estar a sós com o marques. RAFAEL (Estremecendo. Inclusive eu . o velho feitor Bonifácio. RAFAEL — Folgo em sabê-lo.) Acaso tendes medo que alguém vos roube esta gentil donzela? MAURÍCIO — A maldade no coração dos homens é incalculável. meu padrinho. A que devo a honra de vossa presença aqui em meu tugúrio? RAFAEL — Assunto particular. que só obedecem ao seu tratador.) A não ser que.) — Brrrrrrr! Que conversa desagradável! MAURÍCIO (Secamente.. AGATHA (Levemente irônica. São animais ferocíssimos. Só são soltos ao anoitecer. Mas não precisais temer. ROSALINDA (De olhos baixos.) Bálsamo de minh‘alma.) — Seria um erro fatal. MAURÍCIO — Agatha. senhor marques. O que dificilmente aconteceria. Os cães.) . pois.) Por que razão viveis cercado de feras? (Melífluo.Vós ordenais..) .) . A mim cabe obedecer.

MAURÍCIO . quero crer que já não vos resta muito.) .. conheço bastante bem vosso passado. Conheço vossas diabólicas tramas. Por certo adulterastes os papéis.) . Oh. MAURÍCIO (Agitado. Isso é um engodo. Apenas isso. biltre dos infernos. RAFAEL — Os papéis cá estão em minha algibeira. coincidentemente. estimado conde. a virgem e o Espírito Santo são testemunhas de minha desventura. MAURÍCIO — Deus. Ao fim e ao cabo...) Que Deus o tenha! .. RAFAEL (Lentamente.. Acaso esqueceste que vosso companheiro preferido das noitadas de esbórnia e deboche era. Não tolero vossa presença maligna.. E em adiantado estado de putrefação. senhor conde. MAURÍCIO (Examinando os papéis. Podeis verificar.) — Tendes razão... Devo confessar que pareceis já um cadáver.A hipoteca vence hoje. apesar de possuir a metade de vossa idade.Que dizeis? RAFAEL . Outrossim. senhor! Inesgotável é a taça de infortúnios que me fazeis sorver neste vale de lágrimas! RAFAEL — Sois injusto com o bom Deus. Ide logo ao cerne da questão.CENA 4 RAFAEL — Não desejo roubar vosso precioso tempo. (Entrega-os. sois vós o único responsável por vossas próprias desditas. MAURÍCIO — Que quereis dizer com isso. caro senhor.) Parece-me que vossa senil memória anda já a pregar-vos peça.A hipoteca vence hoje. Não há sombra de fraude neles.Não é possível. RAFAEL — Ora. o meu finado pai? (Compungido.

de quem. senhor conde.Aquela noute. foi numa ―noute nefasta‖. vejo que vossa memória começa a reavivar-se.) — Basta..Vosso pai... as mulheres. RAFAEL — Ah.. e não vou perder a oportunidade de vos dar o merecido troco! Não. como dizeis. . os títulos de suas propriedades.) .) . aquela noute nefasta. implacável. que acerbas recordações vindes me despertar! RAFAEL — A concupiscência. há mais de dez anos que... MAURÍCIO — Ah.) — Eu não podia. no auge do desespero. basta de ressuscitar esses horrendos fantasmas do passado! RAFAEL (Implacável.. não podeis negar que estais colhendo hoje o amargo fruto de vossa desenfreada paixão pelo jogo! MAURÍCIO ..) . a devassidão e o vício que levaram o meu progenitor à loucura e à morte são agora a causa de vossa ruína financeira. sentado a uma mesa de truco. Vossa Senhoria ofereceu como garantia de sua derradeira aposta. o velho marques d‘Allençon.. Ou porventura olvidais que foi sobre o pano verde que empenhaste toda vossa fortuna? MAURÍCIO (Num arranque. . como gosto pelos ―prazeres‖ da vida: a boa mesa. as canções. RAFAEL — Sim. após já haver perdido vultosíssima quantia e já embotado pelos vapores etílicos. não basta! Já fui assaz insultado por vós.já embotado pelos vapores etílicos.. Sim. aliás. MAURÍCiO (Cortando. Todos os bens do ilustre clã dos Belmont hipotecados à não menos ilustre casa d‘Aliençon! .. não conseguia parar! Era mais forte do que eu! RAFAEL (Continuando. o vinho. senhor Conde Maurício de Belmont. herdei muitas ―virtudes‖.Não.MAURÍCIO (Amargo. com meu pai.

tendes até amanhã. A escolha é vossa. Deus de minh‘alma! O que me resta fazer agora? RAFAEL — Se vós tivésseis uma mente.Senhor. Agatha... canalha! O que mais ainda quereis deste lamentável destroço humano? RAFAEL (Direto..) . como sou um homem magnânimo. Quero vossa afilhada.) — Então estais completamente arruinado.) — Como vos atreveis? Ficai sabendo que não sois digno de lamber o chão onde roça a fímbria da saia de Rosalinda. MAURÍCIO — Falai logo. MAURÍCiO (Tomado de cólera. preciso repousar. para vos retirardes do castelo.O que fizeste a meu padrinho.. que tendes? MAURÍCIO .Ajuda-me.) O mais ignóbil dos répteis é mais nobre do que vós. poderíeis fazer bem mais do que imaginais em vosso próprio benefício.) ROSALINDA (A RafaeL) . jamais a vós. arrogante mancebo? CENA 5 .MAURÍCIO — Ah.. Cederia a mão de Rosalinda ao mais imundo dos mineiros do Vale Negro.. Mil vezes a mais negra miséria! RAFAEL (Sem se abalar. ao meio-dia.Não sou homem de meias palavras. (Agatha sai conduzindo Maurício.) . Mas. (Tossindo violentamente.) — Infâmia! Gozasse eu de alguma saúde e vos expulsaria daqui a chicotadas. MAURÍCIO (Tossindo muito agitadamente. vil cobarde! ROSALINDA (Entrando com Agatha. digamos. mais atilada.

O senhor conde está gravemente enfermo. como pudeste observar. ROSALINDA — De mim? Sabei que tudo faria para amenizar as derradeiras horas de meu benfeitor. apiedai-vos de nossa desgraça! Que tendes vós em lugar de coração? Uma taça de veneno? RAFAEL ... RAFAEL (Interrompendo. Oh. Nem vós.) . Sua morte é questão de meses. nem a bruxa governanta. ROSALINDA — Isso quer dizer que. menina. Nada fiz a vosso padrinho.. senhor marquês. nem vosso padrinho.. minha pequena..Sei-o..A vida desregrada que levou. que. As propriedades pertencem a ele. RAFAEL — Basta que sejais. complacente com este vosso admirador. RAFAEL — Crime é deixar ao desabrigo uma donzela como vós. . RAFAEL Como não? Então não sabeis que hipotecou todas as suas propriedades à casa d‘Aliençon? ROSALINDA .. ROSALINDA — Crimes? De que falais? Meu padrinho nunca cometeu crime algum. ROSALINDA — Mas então por que está ele neste deplorável estado? RAFAEL .Que não tendes mais teto que vos abrigue. os ágapes desenfreados. A hipoteca vence justamente hoje.. ROSALINDA — Mas não podeis cometer essa vileza.Tudo depende de vós. minha flor das montanhas.Vamos. os muitos crimes que cometeu o corroem por dentro. nem aqueles cães demoníacos. minha pombinha. Mas isso não é crime.RAFAEL .

inclusive.Oh. Freqüentemente. Nos menores frascos repousam as mais puras essências. a ameaça da ruína deixara de pender sobre a família. fatos mui estranhos continuavam a ocorrer nos sombrios aposentos da mansão dos Belmont.) RAFAEL (Abraçando-a.) Não haverá lugar em vosso coração para um pouco de ternura? ROSALINDA (Percebendo). Agora compreendo o que desejais. Voltavam ao por-do-sol. carregando braçadas de antúrios. RAFAEL (Incisivo. sofrera uma profunda transformação.Sois mais ladina do que aparentais. (Resoluta. magnólias. Falai claramente. ele e Rosalinda passavam as calorosas tardes estivais a percorrer os bosques e pradarias. CENA 6 NARRADOR . (Abre os braços resolutamente. participava das tertúlias e saraus familiares. a situação modificou-se sensivelmente no castelo dos Belmont. desistindo de protestar os títulos da hipoteca.) Está bem.ROSALINDA — Complacente? Que insinuais? Não vos entendo. podeis dispor de meu corpo e de minh‘alma como quiserdes. cederam lugar a uma solicitude. O marquês d‘Allençon. pequena. aliás. petúnias. por misericórdia. como num passe de mágica. A atitude do marques. sim. Se isso pode salvar meu benfeitor da ruína.Alguns meses depois daquele dia em que Rosalinda levou a cabo o seu gesto de desprendimento e afeto filial. persignando-se. gerânios.) — Sobre esse assunto não há necessidade de falar claramente. hortências. begônias e miosótis. Rafael passou a visitar mais amiúde o castelo e. . para a satisfação de vossos brutais prazeres. crisântemos. Entrementes.) . (Insinuante. Seu habitual cinismo e arrogância.

Em semi-obscuridade, o Conde Maurício está dormindo, recostado no sofá quando entra Ursula. Roupas rasgadas, desgrenhada, inteiramente louca. Traz uma boneca nos braços.

ÚRSULA (Fala para as paredes, às vezes para si mesma ou para a boneca.) — Como sói ser verde o campo quando o astro-rei principia a tombar no horizonte! Por um segundo, a natureza inteira se veste de dourado... Vês, filhinha? O verde dos campos sendo mansamente invadido por todo esse esplendor dourado que brota do arrebol. Que espetáculo redentor para a torturada visão dos homens! O ouro derramando-se sobre o verde, tingindo o azul do firmamento. (Estremecendo.) Até... até que os besouros começam a cair. Lentamente, despencam dos céus feito gotas negras de chuva. Vindos do infinito, qual aranhas viscosas e peçonhentas... E quando caem de costas — ah, quando um besouro cai de costas, não se levanta nunca mais. (Quase gritando.) Nunca, nunca mais! (Com o grito, Maurício agita-se e geme dormindo. Ùrsula volta-se para ele.) Vês, filhinha? E assim que são os poderosos. confortáveis Desalmados, como se impiedosos. Dormem um profundamente, campo de ouro. repousassem sobre

Indiferentes à queda lenta dos besouros negros sobre o charco de sua alma manchada pelo sangue dos inocentes. Alheios à desventura dos oprimidos camponeses que labutam no fundo lamacento das minas para cobrir de ouro seu medonho latifúndio. (Vai-se aproximando de Maurício.) Mas se todos — ah, se todos unidos erguessem atrevidos suas sofridas cabeças para gritar não! ao opressor... Ah, filhinha: como tudo poderia ser diverso desta iniqüidade. Quão ditosa seria novamente a pobre corça dos pés quebrados! (Gritando.) Companheiros, uni-vos! Uni- vos para destroçar o maligno! (Segura Maurício e começa a sacudilo violentamente.) Este, que se traveste de benfeitor dos pobres e dos oprimidos! Uni-vos como 1ob famintos de justiça para destroçá-lo em pedaços sangrentos!

MAURÍCIO (Despertando, estonteado.) — Rosalinda, Rosalinda, que aconteceu, minha cornucópia de água-régia? ÚRSULA (Possessa, aos uivos, tentando estrangular Maurício.) — Somente a morte do maldito poderá redimir o sangue dos oprimidos! MAURÍCIO (Num espasmo.) — Úrsula, que fazes aqui? ÚRSULA — Sim, assassino! Apesar dos pés quebrados, a corça ainda pode fugir. MAURÍCIO (Tenta levantar-se, Úrsula o empurra. Ele está apavorado. Grita.) — Agatha! Agatha, tira esta louca daqui! ÚRSULA — Tarde demais, corrupto! Como a ave peregrina que mais dia, menos dia, torna ao ninho — a justiça sempre chega. AGATHA (Entrando, com um chicote.) - Para trás, animal! (Estalando o chicote.) Afasta- te, fera repelente! Ou te reduzirei a pó num estalar de dedos. ÚRSULA (Encolhe-se, a boneca cai ao chão, ela tenta inutilmente apanhar.) — Por piedade, não! Minha filhinha! Mata-me, se quiseres. Mas por tudo que há de mais sagrado, peço-te: poupa o mais puro fruto de meu ventre! AGATHA Besta imunda! (Vai chicoteando Úrsula para fora da sala.) Retira-te para teu infecto covil! Foste feita para o aconchego dos ratos, das lacraias e dos escorpiões — não para o convívio dos seres humanos. (Para Maurício, antes de sair.) Serenai-vos, senhor Conde. O velho Bonifácio saberá tratar desta lepra em forma de gente. (Vai saindo, chicoteando Ursula. Os cães latem furiosamente lá fora. Grande alarido. Depois, volta o silêncio. A boneca ficou caída ao chão, aos pés de Maurício.) MAURÍCIO (Após demorado silêncio, apanha a boneca e começa a acariciá-la dorida mente.) — Haverá de ser tão inesgotável a bondade de Deus a ponto de, um dia, ser capaz de perdoar-me? Merecerei a

graça suprema de sua doce mão pousada sobre este fervilhar de vermes no caldeirão de minha alma pútrida? (Grita, como numa tragédia grega.) Infeliz de mim! (Num frenesi, beija a boneca. Depois joga-a longe.) Agatha, Agatha! Tira este aborto daqui! Socorre-me que morro... (O Conde Maurício soluça, arquejante. Foco em Maurício e na boneca calva. A luz vai diminuindo em resistência, enquanto ele geme. Em off sobrepondo-se aos gemidos, vão crescendo a gargalhada de Agatha, os uivos de Ursula e os latidos dos cães enfurecidos.)

CENA 7

NARRADOR — Transcorridos mais alguns meses, a situação no castelo de Belmont em nada se modificara. Rafael d‘Allençon soubera perfidamente ganhar a confiança de Rosalinda com juras de eterno amor e promessas de matrimônio. Pouco a pouco, as fibras do coração da donzela, passaram a vibrar no compasso da mais pura e devotada paixão. Porém, horas mais negras estavam por vir. Um dia, Rosalinda descobriu que ia ser mãe. Sem coragem de contar a Rafael, durante vários dias, amargou sozinha seu terrível segredo. Por casualidade, iniciara-se a temporada da caça à raposa, e Rafael passara uma semana sem visitá-la. Uma manhã, munindo-se de coragem, Rosalinda tomou da pena e verteu seu coração, transbordante de receios, numa longa missiva endereçada ao marquês. Rafael aproxima-se por trás de Rosalinda, que não percebe sua presença, e atira-lhe a carta a seus pés. RAFAEL (Agressivo.) - Qual a razão disto? ROSALINDA — Ah, meu amado, és tu. Que susto me causaste! RAFAEL (Seco.) — E então?

ROSALINDA — E então o que? Não te entendo. O que se passa contigo? Por que chegas assim, tão agastado, sem uma saudação sequer... nem ao menos um ósculo... um amplexo? RAFAEL — Ora, Rosalinda, não me venhas de borzeguins ao leito! Quero saber o que significam as aleivosas insinuações contidas nessa missiva. ROSALINDA (Ressentida.) - Amor meu, que duras palavras! Tu, que sempre me demonstraste tanto carinho, tanta afeição, tanto... ardor... RAFAEL — Tratava-te assim porque eras dócil e cordata comigo. Porque te curvavas a todos os meus caprichos. Mas agora... ROSALINDA — Mas eu não mudei! Eu continuo sendo tua escrava fiel e obediente! Sabes bem que meu antigo asco por ti transmutou-se na mais excelsa paixão! RAFAEL — Chega de tergiversações! Exijo que me esclareças imediatamente o significado dessa carta! ROSALINDA - Peço-te perdão, meu querido amigo. Foi quiçá por excesso de pundonor que não fiz mais cristalinas as minhas palavras. Mas como transmitir à fria brancura impassível do papel o turbilhão que me devasta o peito, desde que fui abençoada por este milagre... este augusto milagre... RAFAEL — Que história é essa de milagre? Vamos, fala! ROSALINDA (Em êxtase.) — O milagre da maternidade! RAFAEL - O que? Um filho?! ROSALINDA — Sim, um filho! Sublime fruto a coroar o nosso amor! RAFAEL (Agarrando-a brutalmente.) — O que estás a dizer? Ficaste louca?

ROSALINDA — Rafael, Rafael, foste tu quem perdeu a razão! Não te reconheço. Julgava que rebentarias de alegria ao saber... RAFAEL (Cortando-a, possesso, e sacudindo-a pelos braços.) — Alegria? Alegria?!!! ROSALINDA — Sim, amado. Agora só nos resta finalmente desvelar aos olhos do mundo a nossa união, realizar o nosso sonho dourado... Ah, meu príncipe, toda noite, em meu leito, contemplo-me, núbil, galgando ao lado teu o mármore dos degraus do altar... RAFAEL (Empurrando-a.) - Casar contigo? Quem te pôs esta idéia ridícula na cabeça? ROSALINDA (Chocada.) - Tu mesmo, Rafael! Tu mesmo quantas vezes juraste que um dia... que só precisávamos um pouco de paciência e ocultar por algum tempo o nosso amor, até conseguires convencer tua família... RAFAEL (Cortando, irônico.) — ...que eu desposaria uma enjeitada? Uma bastarda? Uma criatura sem nome, sem posição e sem fortuna? Porventura chegaste a acreditar um segundo que eu, um nobre, um aristocrata, um d‘Allençon uniria meus destinos a uma qualquer? Alguém que não sabe sequer de onde veio nem quem são seus pais? ROSALINDA (Com dolorosa compreensão.) — Então isto significa que estiveste a mentir-me esse tempo todo... RAFAEL (Rindo a bandeiras despregadas.) — Que esperta és! Só agora percebes que eu estava tão somente... ROSALINDA (Cortando.) — . ..brincando comigo, iludindo meu pobre coração, fazendo-me crer que me querias, apenas para me

) — Rafael.Basta! Só tenho uma única e derradeira palavra a dizer-te! ROSALINDA (Abrindo os braços. Apaga meu nome de tua memória! Esquece para sempre que eu existo! Nunca mais.) — E tu caíste na esparrela.) . ouviste bem? Nunca mais pretendo voltar a ver-te! ROSALINDA (Reagindo como uma loba ferida. Rafael. insensata. Porque se não a entregasses a mim. quando gemias. que doravante não há mais nada entre nós! Nada! ROSALINDA (Numa última e desesperada tentativa. menina.) . em meus braços. te-la-ias entregue ao primeiro que passasse! Pois fica tu sabendo. de teus instintos libidinosos.) — Naquelas noites ardentes. Porque de mim.) . é monstruoso demais! O que será de minha honra ultrajada? RAFAEL (Irônico. franguinha! E com que facilidade! A tua estultícia.Rafael.me nesta sombria encruzilhada do destino! RAFAEL — Isso! Reza. pois vais precisar muito da misericórdia divina. meu anjo e meu algoz! Que palavra é essa? RAFAEL (Cuspindo a palavra.) — Dize. com renovada esperança.) (Às gargalhadas.. qual uma gata no cio. me conquistar. Senhora protetora dos aflitos! Valei.Marafona! (Sai a passos largos.seduzir. é realmente . desfrutar-me como mero objeto de tua lascívia. não tens mais nada a esperar. meu dilacerado amor! RAFAEL(Desvencilhando-se. agarrandose a ele. reza. minha cara. deleitada. não pensavas em tua honra.. RAFAEL espantosa! ROSALINDA — Oh. Virgem Santíssima! Oh. não tens o direito de fazer isso comigo! E cruel.

. MAURÍCIO — Bons dias. Não confias em teu velho amigo? ROSALINDA .) CENA 8 NARRADOR — Depois desse trágico desfecho. Fundas olheiras ensombreceram seu semblante angelical... MAURÍCIO — Vamos.. eu. .. Só deixava a solidão dos seus aposentos para ir à capela atirar-se aos pés da Virgem. ROSALINDA (Hesitante. Finalmente. a perversa Agatha aconselhou que revelasse toda a verdade ao conde.... Insidiosamente.) .. fala. muitas horas depois.) Mas por que estás assim. soluçando. minha querida. conseguiu conquistar a confiança da rapariga. cabisbaixa e meditabunda? Pareces infeliz. em seu desespero. (Observando-a. despedaça-a com fúria e esfrega freneticamente os pedaços pelo rosto e pelo corpo. dize. dizendo-se sua amiga e protetora. por piedade! (Rosalinda. a pérfida serviçal terminou descobrindo o segredo que torturava o coração de Rosalinda.Padrinho. dias inteiros.. ROSALINDA .. Rosalinda chorou. lárimas grossas como punhos.Padrinho querido. agora está turvo de uma névoa de tristeza.. Deste modo. pela mão da governanta Agatha. Com freqüência.. há mais um anjinho aos pés da Virgem Maria. Conta-me a razão de tuas penas.. Teu semblante. quando Rosalinda não podia mais esconder o seu estado. até ser despertada.Padrinho. onde sempre luziam os arrebóis da alegria. apodera-se da carta esquecida. MAURÍCIO — Sim.ROSALINDA — Ah. deixava-se adormecer sobre as frias lajes do oratório.

(Agatha acorre e o ampara. surge inesperadamente a lâmina que me estraçalha o peito. que floresce em tempo de inverno? Onde está ela? ROSALINDA (Baixando os olhos. MAURÍCIO (Surpresíssimo. E meu ventre.) Vou ter um filho. Sei que haveis de compreender e perdoar. agitado. MAURÍCIO (Cortando. socorre-me que morro.) Desgraçada. fala.. aquele réptil nauseabundo! (Tossindo.Padrinho.) — Vamos.. não vês que apressas a minha morte? Atraiçoaste toda a cega confiança que durante esses 19 anos depositei em ti...Que flor tão rara é essa.Aqui. MAURÍCIO . MAURÍCIO — Ah.) — O marquês Rafael d‘Aliençon é o culpado da minha desventura. Pobre idiota! De onde supunha que só pudessem vir flores e sorrisos.Não entendo o sentido de tuas palavras..) — Que dizes. MAURÍCIO (Reagindo com violência. padrinho. Rosalinda? Não me atormentes com enigmas e despautérios! Recuso-me a aceitar a terrível verdade que se esconde por detrás de tuas palavras! ROSALINDA — Está bem. maldita! ROSALINDA (A os prantos. padrinho. Retirate daqui. (Pausa. padrinho.) .) . Podes ser mais precisa? ROSALINDA .) Todos..me. . Rosalinda..Perdão. todos me atraiçoaram. perdão! Eu juro que..MAURÍCIO .) — Perjura! Jamais te perdoarei! (Chamando. vamos! Enxovalhaste o nome do conde Maurício de Belmont! ROSALINDA . uma nova flor começa a desabrochar para a vida.) Agatha.Um rebento? Um bastardo? Mas quem te desonrou? (Esbofeteando-a.

. o que será desta pobre órfã com um filho a germinarlhe no seio? Abandonada por todos. à margem de qualquer dignidade. e. (Agatha vai conduzindo-o para fora.. (Olhando ao redor.. comovida. (Neste instante entra Agatha.. Agora nada mais me resta a fazer aqui. ébria e solitária.)Tenho de ir-me. noite após noite.) Ah. Senhor. que vejo? Alguém haverá esquecido a chave na fechadura.) — Infeliz de mim! Deus é testemunha de que agi com a melhor das intenções. Nunca me foi permitido abri-lo.) . Deve conter antigos segredos de família.. por todos desprezada. Sinto os dedos a queimar.. Sei que não devo abri-lo mas a curiosidade me espicaça..ROSALINDA — Foi para salvar vossos bens que cometi essa iniqüidade.. Não passas de uma reles meretriz. segurando uma capa.. Oh.) Velhos papéis... MAURÍCIO — Não me chames mais de padrinho. oh! um daguerreótipo! Que belo! (Examina o medalhão enquanto fecha a tampa do cofre. ou minha. o velho cofre de charão. como o foi tua mãe... oh. Hás de rolar na lama e te arrastar no vício.. não tens esse direito! E retira...) Hás de pagar amargamente. Aqui passei os melhores anos de minha desditosa existência. criatura ingrata e sem pudor! O demônio tomou conta de tua alma..) Quem será esta dama de melancólico semblante? Que formosa! Mas... (Abre o cofre.te imediatamente daqui! Não pertences mais a este lar. Rosalinda esconde o daguerreótipo no seio. padrinho. Jamais pensei que minh‘alma pudesse abrigar tamanha dor! O fel da desilusão inunda-me o peito! (Recobrando-se. minha. Mas.. clamando inutilmente por misericórdia! CENA 9 ROSALINDA (Sozinha... Senhor! Como se parece comigo! Dir-se-ia minha irmã. Num ato reflexo. estas paredes. (Detendo-se diante de um objeto.) Jamais olvidarei estes salões. estes móveis.

rubicunda e capitosa (largando-a) Mas entendereis com o tempo minhas palavras.Que a vida pode ser vivida de muitas maneiras. (tocando-a) com esse porte de amazona.) . (Dá-lhe o manto. O mundo é vasto. E não será difícil para uma rapariga encantadora como vós... Lembro-me dela. minha pequena? Tão assustadiça. Já estou a ir-me. Opípara. ROSALINDA .) Deveis procurar um velho cavalheiro que compreenda a vossa desventura..... . Pareceis uma lebre surpreendida pelo caçador.. AGATHA . (Para si. ROSALINDA — Não vos entendo. E por que me tocais com tal ardor? AGATHA — Porque sois tenra como um faisão natalino. Algumas.. Agatha. ROSALINDA ..Estava apenas a despedir-me do cenário que emoldurou minha juventude. Meu padrinho me contou que pertencera a minha mãe..Tendes razão. Se vosso padrinho vos surpreender. esses cachos de Pandora. ROSALINDA (Sem compreender.. Agora ide sem mais delongas.) E cheio de prazeres inauditos.AGATHA — Ainda estais aí? Que fazeis aí parada. Agatha! (Vestindo a capa e acariciando-a.Que dizeis? AGATHA .... Agatha. AGATHA — Levai isto para proteger-vos da intempérie. (Voltando-se à jovem.) ROSALINDA — Como sois bondosa. pequena. bem divertidas.) Essa velha capa.Não deveis ter medo... Enfrentarei com bravura a escuridão dos meus caminhos.

numa . os camponeses pagarão caro o seu desprezo. e eu em breve estarei completamente sozinha no castelo. Enquanto isso. (Conta as gotas. a reles governanta. Agatha.) AGATHA .Enquanto a pérfida governanta regozijava-se com o golpe do destino que viera ajudar seus planos diabólicos.Vossa mãe vos trazia envolvida nela quando veio estrebuchar nas escadarias do castelo numa gélida noite de inverno há 19 anos atrás. embrenhou-se na floresta e caminhou durante três dias e três noites. deixava o castelo de Belmont.. Serei a mulher mais poderosa de todo o Vale Negro. outras amanhã. escutando ao longe os uivos ameaçadores dos lobos e as lúgubres vozes das aves noturnas.. perto dali.) Uma. com as roupas estraçalhadas pelas urzes e espinhos e os pés ensangüentados pelas pedras do caminho. E em meio à tempestade que rugia com fúria..Pobre genitora! Como há de ter padecido! Devo partir agora. torno-me a única herdeira do conde Maurício de Belmont. Deixavase então cair ao pé de uma árvore e.. minha boa Agatha.) Algumas gotas a mais hoje. a bruxa intratável... ROSALINDA .Finalmente os fados estão a meu favor! Com o afastamento da pequena. duas. a corcunda repugnante. Rosalinda sai. a harpia selvagem! Ah. a desgraçada Rosalinda.. CENA 10 NARRADOR . só parando para repousar num monte de feno quando lhe faltavam totalmente as forças.. Adeus. (Abraçam-se. onde vivera os anos mais floridos da sua existência. a sua maledicência.AGATHA . (Apanha a tisana. quatro. com o peito dilacerado pela dor. Resta apressar a morte do conde. três. adormecia exausta.

Confio en tu oído. la Muerte. carajo! Pero toca. y que hermosa es! Un viejo senõr.clareira da floresta.. (Invocando. Yo conozco muy bien los sonidos de los animales y de las personas. Pero. JEZEBEL — No hay nadie. Tu sabes que desde que he perdido la visión. por la derecha. toca más. Mira. uma tribo de ciganos havia montado acampamento e dedicava-se a seus afazeres habituais. aqui.. Jezebel. Son muy distintos. alguna serpiente. Jezebel. Muchos conflict. VASSILI (Toca mais um pouco...) Pero. hay álguien entre los árboles.... Rosalinda entra e coloca-se atrás de uma árvore. carifio. VASSILI — No. enquanto Vassili toca seu violino.. que es esto? Hay 1guien aqui? VASSILI — Te lo dije.Si. claro. Devo estar loca. (Ruido. si. carajo! Por piedad. y una mujer muy mala... la Justicia vencerá VASSILI — Que cosas estás a refunfufiar. dejame ver la suerte en paz.. no consigo ver claramente! El pasado se pone otra vez como presente y también como futuro Una muchacha. depois para abruptamente. Vassili. al final.. JEZEBEL .) Fuerzas ocultas dei más alto Astral.. Vamos. Cofio. Son los Arcanos del Tarot de los Bohemios que hoy solo me dicen incongruencias. El sonido de tu violín tiene la virtud de acalentar mi alma como el más dulce de los vinos.... orientad mis manos para desvendar el secreto. Algun conejito perdido. JEZEBEL . toca.) — Jezebel. Jezebel põe as cartas do Tarot. Jezebel? JEZEBEL — Nada. pero no confio en tus temores... por favor.Hay algo que vuelve del pasado. mi audición se ha aguzado mucho. ..

. Mas por que ele está tão agitado? JEZEBEL — Es su imaginación muy exacerbada... VASSILI (Caminhando para Rosalinda.) — Não sei. coso. exactamente lo mismo.Quién está ay? (Saca do punhal.) Si. no lo puedo creer..) . toma un poco de vino.) . Apenas uma pobre órfâ. que quereis vós de mim? VASSILI . de una mujer que he conocido en tiempos más dichosos. por Dios. Vamos. (Examina-a.. Estrano! Pareceme que ya he visto algo semejante... no es verdad la piel.. una muchacha! Y toda mojada. JEZEBEL — Acercate.Sou eu.. Donde encontraste este manto. La muchacha está assustada. hace mucho tiempo. Como te llamas? ROSALINDA — Rosalinda.. Vassili. senhora.Es que me acuerdo de. Todo.) Vamos. es lo mismo. Está toda mojada. que no estoy para chistes! ROSALINDA (Aparecendo. JEZEBEL — Es el violín de Vassili... nina? ROSALINDA — Não tenho para onde ir.Agatha me lo deu. es una pobre muchacha perdida en la tempestad. los párpados. dame tu mantilla. (Para Vassili. si. ..) Que raro trabajo.) Con mil demonios. nina? ROSALINDA . todo es igual.Esta voz.. Que pasó. carifio.JEZEBEL (Erguendo-se.. senhora. por Diós. Acercate hasta el fuego.. la nariz. no es possible.) . Puedo tocar en tu rostro. las cejas. Se cree que te pareces a alguien que conoció... esta voz.) Tenías razón. carino? ROSALINDA (Hesitando. Perdi-me pela floresta e cheguei até aqui orientada pelo som mavioso de um violino. (Rosalinda aproxima-se. JEZEBEL — Acalmate. los ojos. (Passando os dedos no rosto de Rosalinda.

.) . que tortuosos caminos fue necessario cruzar hasta encontrarte.Quien? ROSALINDA .. VASSILI (Abraça Rosalinda. o daguerreótipo fica visível.Pero que es esto? Eres tu? ROSALINDA — Não..) Quien es la mujer del retrato? ROSALINDA — Não sei... sou apenas uma pobre órfã recolhida pela bondade do Senhor Conde Maurício de Belmont.. es Úrsula...JEZEBEL E VASSILI (Muito espantados. VASSILI (Muito emocionado.) Pertenceu a minha mãe... (Entrega o manto a Jezebel . que eu não conheci.... miei de mi corazón.Minha mãe. Encontrei-o por acaso.Si.) JEZEBEL .Agatha! ROSALINDA — Sim. como posso saber? Mas imagino que seja. JEZEBEL — Maurício de Belmont! Maldición! Quieres decir que este perro todavia vive? .) — Que está acontecendo? Não sou vossa filha. hermosura..... Gostai? Tomai. chorando.. ROSALINDA (Assustada. es. a governanta do castelo do Vale Negro. es. JEZEBEL E VASSILI . mira el daguerreótipo y habla toda ia verdad.) — Hija mia. es Ursula? JEZEBEL .. É um velho daguerreótipo. (Nova reação dos ciganos. JEZEBEL — Pero ia semejanza es imprensionante! VASSILI — (Agitadíssimo..) — Tu madre? Jezebel.

VASSILI — Perro de los infiernos! Voy a matarlo con mis propias manos.y fue eso lo que sucedió. aconselhava-a a obedecer ao espírito forte e decidido da cigana Jezebel e a confiar na doçura do rosto e da voz de Vassili. mas por pouco tempo.ROSALINDA — Sim. .. Tenemos que ir imediatamente al castillo. porém. Sua intuição. la hermana del conde Maurício de Belmont. Porque quereis matar meu padrinho? JEZEBEL — No hay tiempo a perder. Padece de grave enfermidade. já era noite fechada. lançando-me os mais terríveis vitupérios. JEZEBEL — El gitano Vassili y Úrsula. Nel camino te explicaremos todo.. Ahora vamonos.Não entendo o que dizeis.) Expulsou-me do castelo. A astuta cigana havia preparado um narcótico para os cães que guardavam os portões. Sem perda de tempo.) CENA 11 NARRADOR — Um turbilhão agitava a mente de Rosalinda. Quando chegaram ao castelo. ROSALINDA — Quer dizer que meus verdadeiros pais são. diante de tão inesperadas revelações. (Chorando. Jezebel preparou uma carroça e os três puseram-se a caminho. que calava fundo em sua alma de órfâ desamparada. Los dos se enamoraram locamente. A lua escondera-se atrás de plúmbeas nuvens prenunciadoras de tempestade.). (Saem... JEZEBEL (Entrando com Vassili e Rosalinda. e assim eles puderam penetrar na propriedade. ROSALINDA . hace anos. ainda incrédula.

) AGATHA (Entrando.. .. surpresa..por supuesto.) VASSILI . ROSALINDA — Aqui. (Toca-o com ternura. Allá se celebró el casamiento. Meu tio mandou seus esbirros invadirem o acampamento cigano.) Oigo un ruído.Não vos entendo. Vamos escondemos. se meu pai está aqui próximo? AGATHA . VASSILI — Agatha. querido papai..) . Ursula entonces abondonó el castilio y ocultóse com los gitanos em la montanas.Vós por aqui novamente? Não bastaram as maldições que vosso padrinho vos lançou? Que quereis? Uma esmola? Uma côdea de pão? ROSALINDA — Quero apenas o que me é de direito. ROSALINDA — Enjeitada.. Não preciso de vossa piedade! AGATHA . ROSALINDA . não passais de uma pobre enjeitada. Maurício no podia admitir que una Belmont desposara un gitano. JEZEBEL . ROSALINDA — Pobre. meu tio descobriu tudo. Y con su propria mano cegó a Vassili con una chibatada.Angel mio.. (Subitamente. contando toda la verdad a Maurício. la atraicionó. Que quereis dizer com isso? Não tendes direito algum... atrás deste reposteiro.Vosso pai? Porventura delirais? Vosso pai há muito não pertence ao reino dos vivos. eu? Como.Mas meu padrinho. ROSALINDA — Posso imaginar o resto. que se hacia pasar por confidente de Úrsula. Estava tan poseso que queria mandar matar a toda la tribu.El mismo comando el ataque. (Vassili e Jezebel escondem-se.

ROSALINDA (Puxando o reposteiro.) — Como não? AGATHA (Recuando.) — O cigano Vassili! Jezebel! Que desejais? VASSILI — Solo la verdad, Agatha. Nada más que la verdad. JEZEBEL (Ameaçando-a com o punhal.) — Vamos, mujer. Donde está Úrsula? AGATHA - Não sei, não sei... VASSILI (Torcendo-lhe o braço.) — Vamos, confiesa antes que te mate como a un perro. AGATHA — Por piedade, eu conto. (Recompõe-se.) Úrsula foi encarcerada na cripta subterrânea embaixo da cascata. ROSALINDA — A cascata... Quer dizer que aqueles uivos dilacerados que se ouvem quando cascata para pertencem à... à minha mãe? AGATHA —, Sim. Ela perdeu a razão quando vós nascestes. Vosso tio então encerrou-a lá. VASSILI — Mi pobre Úrsula. JEZEBEL — Y donde están las llaves de la cripta? AGATHA — Aqui. (Estendendo-lhe um molho de chaves.) VASSILI — Precisamos libertar mi amada Úrsula. Vamonos todos a la cripta. Y tu, Agatha, vienes con nosotros para mostramos el camino. JEZEBEL - Vamos. AGATHA — A cascata parou novamente. (Ouvem-se gritos ao longe.)

CENA 12

NARRADOR — Desse modo, através de uma passagem secreta, conhecida somente por Agatha, os quatro penetraram nos subterrâneos do castelo de Belmont. Desceram por uma íngreme escada em caracol e embrenharam-se num labirinto de lúgubres corredores e estreitas galerias escavadas na rocha. Os gritos misteriosos haviam cessado, e o sepulcral silêncio era apenas perturbado pelo eco surdo dos seus passos e peio ocasional bater de asas de um morcego. Finalmente, desembocaram numa cripta úmida e infecta, que dir-se-ia habitada apenas por ratazanas e aranhas, não fosse aquela estranha voz entoando uma canção que parecia vir de além-túmulo. ROSALINDA — Por Deus! Está tão escuro aqui. Não consigo ver nada. JEZEBEL (Tomando a vela das mãos de Agatha.) - Pronto. Asi es mejor. (Olhando em volta.) Pero que sitio sucio... Es una pocilga, carajo. (Para Agatha.) Vamos, desalmada. Donde está Ursula? AGATHA (Apontando para um ponto, que Jezebel ilumina.) — Ali. (Aparece Úrsula, completamente louca, suja e desgrenhada. Canta, enquanto embala uma boneca nos braços.) VASSILI — Mi querida, luz de mis ojos... Úrsula, bien amada! ROSALINDA(Avançando para Úrsula.)- Mamãe! Oh, mamãe, julgava que estáveis morta! ÚRSULA (Para a boneca.) - Filha, filhinha querida Não deves ter medo, não deixarei que te façam mal. (Para Vassili.) Afasta-te, Maurício! Não permitirei que destruas o fruto do meu amor! (Mudando o tom.) Besouro que cai de cosas não levanta nunca mais. JEZEBEL - Está completamente loca! Maurício de Belmont ha de

Pagar muy caro todas las atrocidades que ha cometido! URSULA (Chorando.) — A corça corria celeremente sobre o ouro dos campos. Como se fora uma seta voando sobre o verde. Até... até que numa curva mais abrupta do escarpado caminho, numa curva ignominiosa seus pés quebraram. ROSALINDA (Num gemido.) - Desditosa genitora! ÚRSULA (Em pleno delírio.) — E ela não pode correr mais. As corças de pés quebrados não podem correr. Apenas rastejam. Como os besouros caídos de costas... que não se levantam nunca mais. VASSILI (Para Ursula.) — Carinio, no me reconoces? Soy yo, tu Vassili. Tu amor, el gitano... ÚRSULA — Vassili? Não, não: Vassili foi assassinado por Maurício. Seu sangue cigano cobriu o verde dos campos como o sangue inocente dos pés quebrados da corça... O vermelho da violência derramado impunemente sobre o verde da humildade... VASSILI (Insistindo.) — Y esta chica, ves? Esta chica es Rosalinda, nuestra hija querida. Mira que hermosa es! ÚRSULA (Para a boneca.) — Tanto tempo. Tudo faz tanto, tanto tempo. Hoje é como se fora outrora. E nunca mais outra vez. ROSALINDA — Mamãe, mamãe, sou eu, Rosalinda, tua filha, a flor de teu ventre puro. ÚRSULA (Para a boneca.) — Minha filha? Minha filha é esta aqui. Filhinha, filhinha... (Para a boneca.) — Sossega, ninguém te fará mal. AGATHA (Mordaz.) - E definitivamente inútil. Esta parva jamais recuperará a razão.

JEZEBEL (Torcendo-lhe o braço.) - Callate, conchuda! Tus palabras son mas monstruosas que tu joroba! (Como se orasse.) Nel amor, hay fuerzas increíbles... capazes de cambiar el universo... VASSILI (Pegando Úrsula pelos ombros e sacudindo-a.) — Úrsula. Te digo que soy Vassili! Muchos anios se han pasado. Pero estoy vivo. Y estoy acá para vingar nuestro amor. Soy Vassili! Vassili! ÚRSULA (Com um lampejo de lucidez.) — Vassili? VASSILI Si, mi amada, no reconoces mi rosto? ÚRSULA — Esse rosto... essa pele morena... esse corpo delgado... (Detem-se.)Não, não! Não acredito! Vai-te daqui! Es um impostor! Um sicário a mando de Maurício para me torturar ainda mais! (Em delírio.) Bezouro que cai de costas... JEZEBEL (Um tanto irritada.) — Ay, cono! Va a empezar de nuevo! VASSILI (Transtornado, agarrando-a com mais força.) — Úrsula, mirame bien en la cara, en los ojos, en estes ojos ciegos... ÚRSULA (Tocando-o.) — Meu Deus, o manso veludo dessa tez... a suavidade desses lábios carmesim... Vassili, serás mesmo tu? O brinco em tua orelha esquerda... VASSILI — Úrsula, vida mia... ÚRSULA — O frescor de hortelã de teu hálito cálido, tuas mãos nodosas e fortes. A carícia áspera de tua barba dura que me lanhava o colo nas noites de indizível prazer. Não, não pode ser verdade, seria bom demais. Será que estou ficando louca, Virgem Santíssima? VASSILI — Es verdad, carinio, soy yo! Y acá está también Jezebel, nuestra querida amiga y protectora.

ÚRSULA — Vassili, meu Vassili... Ai, Jesus, parece um sonho... (Delírio.) Ou quem sabe Deus teve pena de mim e me chamou para sentar ao lado seu no empíreo celestial? JEZEBEL (Disfarçando.) - Ay, carajo! VASSILI — No, no, estás viva! Acabaranse tus penas! ÚRSULA (Reconhecendo-o finalmente.) - Sim, agora eu tenho certeza! És tu, Vassili! Meu adorado! Mas de que desvão esquecido da memória me surgiste? VASSILI — Úrsula! (Abraçam-se e beijam-se ardentemente.) Vamos ahora empezar vida nueva, tu, yo y Rosalinda... ÚRSULA — Rosalinda?... (Olha para a boneca. Olha para Rosalinda. Deixa cair a boneca.) Meu Deus... não pode ser... seria demasiada ventura para meu coração se essa donzela fosse... fosse... ROSALINDA (Abrindo os braços.) — Vossa filha! ÚRSULA (Abraçando-a.) - Filha querida! Oh, fruto mais puro que o meu ventre jamais gerou! Enfim posso abraçar-te! ROSALINDA - Mamãe, querida! Que felicidade encontrar-vos! ÚRSULA — Minha boa Jezebel... Mas... que aconteceu? Por que estão todos aqui? Por que estou vestida assim? Que tenebrosa masmorra é essa? (Começando a delirar de novo.) Há como um poço escuro em minha memória... Um poço escuro onde flutuam corças de pés quebrados... negros besouros caídos de costas... (Vê Agatha e recua espavorida.) O que ela está fazendo aqui? JEZEBEL (Agarrando-a por um braço, impaciente.) - No hay tiempo para explicar, Ursula. Ni para locuras otra vez. Más tarde te esclareceremos todo. Tememos ahora que desmascarar Maurício.

Não há lugar para meretrizes no castelo do Conde Maurício de Belmont. Deve andar esmolando pelas sarjetas. tira esta louca daqui! ÚRSULA (Perfeitamente lúcida. Meu bem-amado e minha querida filha me devolveram a razão. eu a expulsei de meus domínios. do malgrado a alegria do seu reencontro com os pais. as vidas que destruíste. meu caro irmão. fica tu sabendo que há muitos anos eu mesmo o ceguei com uma chicotada. ÚRSULA (Muito segura. quando Úrsula entra lentamente e toca em seus cabelos. ainda estava velado por uma nuvem de inquietação.) — Tua maldade não tem limites. Os sofrimentos que já causaste.) — Já não estou louca.. Solamente un monstruo sin entranas podria encarcelar su propia hermana. certamente fariam petrificar a própria Górgona.. Maurício.Vamonos deste infecto covil. a felicidade parecia prestes a sorrir aos nossos heróis. mais do que ninguém. E quanto a tua ingrata filha. MAURÍCIO — Teu bem-amado? Tua querida filha? Se te referes àquele cigano imundo. A pobre rapariga pensava no fruto de seu desgraçado amor. o relógio soava as doze badaladas. Quando chegaram ao castelo. (Saem todos) CENA 13 NARRADOR — Celeremente voltaram todos ao castelo. . O coração de Rosalinda. MAURÍCIO (Está adormecido. que crescia em seu seio como uma erva daninha e em breve viria ao mundo sem a proteção de um pai.) — Quem me tocou? Úrsula? Fugiste novamente? Agatha. sabes muito bem disso. E tu. Depois de tão cruéis sofrimentos.

Sim. e em mineiros. teu próprio irmão! Tu.e apenas tu. . escravizados por ti. eu o aprendi com aquele que consideras um pária: Vassili! MAURÍCiO — Maldito seja! ÚRSULA . minha cara irmã. Foi Vassili quem me ensinou que o mundo não precisa necessariamente ser dividido entre pobres e ricos.MAURÍCIO (Interrompendo-a. meu irmão! Os camponeses entregando suas lamentáveis vidas às profundezas da terra de teu porco latifúndio. Contra mim.quem iniciou este rosário de desgraças. MAURÍCIO (Interrompendo-a. MAURÍCIO — Basta! Já foste longe demais. já me desafiavas. em miseráveis e poderosos. Mas o verdadeiro espírito de solidariedade humana. inermes.) . em senhores e escravos. Queria somente mitigar as duras penas impostas por ti àqueles infelizes. E uma mulher com coração! Não podia assistir indiferente aos tormentos dos desventurados mineiros e de suas miseráveis famílias. Queria levar-lhes comida e agasalho. inicialmente. enquanto as mulheres. Foi a caridade que me levou. ele mesmo. uma aristocrata. ensinar àquelas pobres criancinhas a cartilha e o catecismo. És tu.a cu1pada de tudo. Retorna a teu repulsivo subterrâneo. movida por um sentimento cristão de amor ao próximo..Ousas acusar-me? Foste tu . Em nobres. insuflando os mineiros do Vale Negro contra mim. Explorados. uma aristocrata. uma condessa do clã dos Belmont! ÚRSULA . Mas antes de tudo.Ou não te recordas? Queres que te refresque a memória? Mesmo antes de te amancebares com aquele cigano asqueroso. as criancinhas e os anciãos inocentes morriam à míngua em suas fétidas choupanas. uma mulher.) — Caridade? Chamas de caridade a teu gesto de incitamento à rebelião contra a autoridade? ÚRSULA — Aproximei-me dos mineiros.Sim. ciganos e negros do outro.. insensata! Vejo que estás mais demente do que nunca. uma condessa de Belmont. de um lado.tu.

Agatha. JEZEBEL — Dejame ver este frasco. a própria vida acabou para ti.) .Y por que no? Por lo que dicen.) . Após tantos anos obnubilada. espectro de gente! ÚRSULA (Muito calma. (Arranca-o das mãos de Agatha. quando acabo de reencontrar meu marido e minha filha.) — Enganas-te.Não! JEZEBEL (Matreira. Rosalinda. na casa que desonraste. velhaco! Eu sempre quis apenas tua fortuna! ÚRSULA .) — No se escapará. ingrata Agatha! E eu que te supunha a única criatura no mundo a manter-me alguma fidelidade! (Tosse e entra em violenta crise. senhor conde.) E contudo teu coração ainda pulse. AGATHA (Tentando escondê-lo.) Tisana medicinal! Esto es un fuerte veneno: arsénico! La joroba está asesinando lentamente el Conde! MAURÍCIO .) AGATHA .) Agatha. Jezebel e Agatha. minha tisana! AGATHA (Libertando-se de Jezebel. (Afasta o reposteiro e aparecem Vassili. Teu sonho libertário acabou! (Irônico.Veneno! Oh. Neste exato momento.) Pronto. Aqui está.) CENA 14 MAURÍCIO — Jezebel! Vassili! Rosalinda! Não é possível! (Tosse. apanha o vidro. mui prezado irmão. muito sôfrega.Nada tens a fazer aqui. tratase apenas de una tisana medicinal.Não a deixem fugir! VASSILI (Segurando Agatha. maldita! . a vida recomeça para mim.Pois te enganaste.

(Rosalinda e Ursula choram) AGATHA (Aproveitando-se da emoção de Vassili. Desventurado cigano Vassili. Todos olham. Que trevosa sina a minha! Ajudem-me que morro! (Para Jezebel.. perdoai-me! Deixo para vós toda a minha fortuna (morre). apanha a bengala que Maurício deixou cair) — Adeus... Pero la muerte es poderosa.. eternamente a vagar pelas sombras. um derradeiro beijo e morrerei feliz. (Vassili tenta apanhá-la.. Sinto que morro. JEZEBEL — Se finó. Está bien. JEZEBEL (Hesita... sempre vos amei. MAURÍCIO . idiotas! Não me pegarão com vida. Acaba curvando-se e beijando-o) . (Tosse) Jezebel.. ah Jezebel. Está muerto. Jezebel. Tivesse tido eu tal privilégio.. Jezebel. Habla. quiçá o destino não me houvera transformado neste sórdido algoz que ora agoniza. deixai-me repetir vosso nome como se música fora para meus fatigados ouvidos. JEZEBEL — Un secreto? Por mi no escucharia tus sucias palabras..MAURÍCIO (Tossindo muito) — Ledo engano! Meu esfalfado coração já não resiste a esses golpes cruéis. Leva uma pancada na cabeça e cai desfalecido. Ursula. sobrinha querida. antes de morrer quero revelar-vos um segredo.. minha devotada irmã. Todos vítimas de minha cega cupidez! Por tudo que há de mais sagrado.. Dai-me um beijo. meu sonho mais acalentado sempre foi beijar vossos lábios de carmim. Mas sempre me desprezaste. Um único beijo. Agatha foge rindo às gargalhadas) . Que los dioses se apiaden de tu espíritu. não negueis o derradeiro pedido de um moribundo.Rosalinda. Jezebel.Mi corazón siempre pertenecerá a Vassili. aunque el no me quiera. MAURÍCIO — Jezebel.) Cigana Jezebel. (Fecha os olhos dele com delicadeza e melancolia) Acabó.

Y quiero saber.) ROSALINDA (Correndo à janela.) — Rafael.. só pode ser ele! JEZEBEL .Do homem por quem me apaixonei. eu.. Estoy más vivo do que nunca. iludida por perfídias! — entreguei minha pureza e que me desgraçou.. tola donzela. meu Deus. JEZEBEL . ela o matou! ROSALINDA .. VASSILI (Despertando.) — Os cães a destroçaram. ahora? Hay un caballero que llega. Pero demasiado tarde. TODOS — Vassili! Papai! Ele está vivo! VASSILI (Ainda tonto. Y saca de una escopeta apunta a los perros. Jezebel corre à janela. de que hombre estás hablando. CENA 15 RAFAEL (Entrando com o corpo de Agatha. (Ouvem-se vários estampidos.) — Si..Quien es esse hombre? ROSALINDA (Baixando os olhos.) — Que oigo? Mi hija. la estan destrozando! Tanta sangre! (Pausa) Que es esto. . Do biltre infame a quem — ah. ÚRSULA — Teve o fim que merecia.ÚRSULA — Vassili! Oh.) Los perros se despertaron y van a atacarla! Que escena horrible! Diós mio..Pobre joroba! RAFAEL .) .Papai.) — O pai de meu filho. Rosalinda.. ROSALINDA (Dolorosa. papai! Fale comigo! JEZEBEL — Maldición! (Ouvem-se os cães latindo.Rosalinda.

VASSILI (Levantando-se. olhando em volta.. ÚRSULA — Vassili. Estou amargamente arrependido... papai! . ÚRSULA . Yo podia anteriormente decifrar algunos cobres.Tarde demais. Desde que vos desonrei. ROSALINDA .. o que tens? O sangue fugiu de tuas faces.. Perdoai-me. querido.No.. Mis ojos..) Pero.... com vosso falso amor. no! Quiero quedarme en pie. Doce Rosalinda. Si es seguro que usted quiere a mi hija de verdad.. Que luz cegante es esa? Que claridad espantosa hay en el mundo! ROSALINDA — Papai. el azul. Estás fatigado de tantas emociones. RAFAEL (Contrito. no compreendo. (olhando olhando para qualquer coisa vermelha que há em cena... Por Dios.) — Vim justamente pedir-vos perdão por todo o mal que involuntariamente vos causei.. una luminosidad en las solombras.. la escarlata! JEZEBEL — Es una alucinación.ROSALINDA (Cortando... sientate un poco. cruel mancebo? Ide-vos daqui. Atraiçoaste-me com vossas juras inconseqüentes. por piedade. Quero reparar meu erro. julgo enlouquecer sem vosso amor.) — Pero yo la concedo.Venha. VASSILI ... Solo una luminosidad. Si. Ele está morto. Mis ojos. vossa imagem não me sai do pensamento. Hace quanto tiempo no la veía. que pasa? Siento como un vértigo.. (Interrompendo-se. el verde. Vim pedir vossa mão ao Conde Maurício.. Vassili.. porque no hay negror en la ceguera.. Yo soy su verdadero padre. VASSILI — No compreendo.) pero la escarlata..) — Que mais ainda quereis de mim.

.. como agradecer-vos tanta felicidade? JEZEBEL — Las cartas no mienten jamás..) VASSILI — Ahora seremos todos felizes. meu amado.Alabado sea! RAFAEL (Para Rosalinda.) Jezebel.VASSILI — Quiero ver. por los dioses. punidos os culpados.. VASSILI — Si. un verdadero milagro. yo he recuperado la visión! JEZEBEL — Alabado sea Dios! TODOS ... ROSALINDA — Oh. Ursula.A pancada que Agatha te deu.. no es verdad! Es un milagro.. ROSALINDA . ÚRSULA — Amanhã mesmo triplicarei o salário dos mineiros. si! Jesú. NARRADOR . Não conseguiria ocultar por mais tempo que meu coração vos pertence desde o primeiro momento que vos vi! (Beijam-se apaixonadamente. incrédulo.. Jesú. e terminados os infortúnios daquelas almas abnegadas. Nos es posibie. os sofrimentos tiveram seu fim. a paz e a justiça reinarão para sempre no castelo de Belmont.. ROSALINDA — Sim. si. quereis contrair matrimonio comigo? ROSALINDA — Minha resposta só poderia ser afirmativa. meu Deus.) — Então.. RAFAEL — Agora.E assim.. ver. no lo puedo crer..fez com que vossa visão voltasse!. Rosalinda: impiezo a ver claramente vuestros rostros queridos! ÚRSULA .... cerremos docemente as cortinas .. un milagro divino! (Olhando uma a uma.

. cantam o hino misterioso do amor.sobre este quadro familiar. da ventura e da paz. enquanto as auras da noite. acariciando o seio das flores.

REUNIÃO DE FAMÍLIA* Peça em 2 Atos *Adaptação do romance de Lya Luft .

Na casa da família. uma penteadeira (no quarto de Evelyn. PROFESSOR • BERTA • ALICE MENINA • ARETUSA MENINA • EVELYN MENINA • RENATO MENINO• MARIDO DE ALICE • FILHO DE ALICE • PADRE • ENFERMEIRO DE CORÁLIA • MÃE DE ALICE • CORÁLIA (Nos flash-backs. As figuras do Padre e do Enfermeiro podem ser vividas pelos mesmos atores que fazem o Marido e o Filho de Alice.) . o Professor e Berta serão sempre representados pelos mesmos atores — eles sempre foram velhos —. quando Alice vai visitar a família. onde acontecem certas alucinações ou lembranças do passado. Para as rápidas aparições de Corália e da Mãe de Alice. bem caracterizadas. sendo a mudança indicada pela luz e a troca de planos. caracterizados por um ou outro elemento — como uma poltrona antiga (no quarto do Professor). quando uma termina. no presente ou no passado. A idéia é de que uma cena interpenetre a outra — isto é. é indispensável uma grande mesa onde são feitas as refeições. O resto se passa em vários planos. o dia todo de domingo e a manhã de segunda-feira —. podem ser usados bonecos ou. para as mesmas personagens. e assim por diante.) CENÁRIO (Tudo se passa durante um fim de semana — tarde e noite de sábado.PERSONAGENS ALICE • ARETUSA • EVELYN • RENATO • BRUNO. De qualquer maneira. a próxima já começou —. talvez com pequenas mudanças de postura. outras atrizes. mais jovens. podem ou não ser usados atores.). sem pausa. Deve haver também um outro Plano — que chamaremos de Inconsciente/Memória —.

.O que é que há com tia Evelyn? ALICE (Preocupada. MARIDO e FILHO Na casa de Alice. Acho que daria menos trabalho se vocês comessem num restaurante. Essa sua cunhada. qualquer coisa mental. ALICE— Deixei pronto o almoço de amanhã.) .. Muito doente. Para o marido. E agora apareceu esse problema com Evelyn. MARIDO (Com ironia. MARIDO .) — Faz tantos meses que não vejo meu pai. FILHO .) E o seu irmão... Parece que é. A mesa está posta. refrigerante. Tudo é muito arrumado e limpo.Você tem mesmo que ir? ALICE (Um pouco brusca. MARIDO (Interrompendo. É sábado. (Para o filho.Evelyn com um problema mental? Sua irmã é a mulher mais sensata que conheço. Está na geladeira... É sábado.. por volta do meio-dia.E claro que só vai comer um sanduíche. não sei bem. Sanduíche. O almoço. Só vem de tardezinha. essas porcarias que vocês comem por aí. ALICE (Ignorando. (Dá de ombros.) — Ela está doente.. .) — Tenho.I ATO CENA 1 ALICE. não é? Sanduíche não alimenta.. Aretusa insistiu tanto. sacudindo a cabeça. com certo carinho coquete.) . é só esquentar. ALICE (Reprovadora e maternal. onde anda? FILHO — Está no clube.) — Aretusa. terminando.) Mas você só gosta da comida que eu faço.

O que? FILHO — Isso mesmo.) — O que será que ele quis dizer com isso? MARIDO (Distraído. MARIDO — Pode deixar.) . E melhor eu ir indo também. O Marido apanha os óculos e. ALICE (Apanha a bolsa e uma sacola de viagem a um canto.) — Será que não esqueci nada? (Olha em volta devagar. Dá um beijo em todos lá. meio confusa. (Sai.) ALICE (Pensativa. que a realidade pode não ser o melhor? Pode não ser preferível à normalidade? MARIDO . sem afeto.ALICE .Espelho grande? Para que? .) .) ..) Boa viagem.) . eu já vou indo. conferindo o dinheiro e a passagem de ônibus. Ela não se conforma.O que? ALICE — Que. mãe. sem sair da mesa. (Olha o relógio. (beija Alice distraidamente.) — Passa a água? FILHO (Levantando-se. Alice fica em silêncio por um momento. velha.Bom.) Não vai dar nem tempo de lavar os pratos..) Você não acha que um dia a gente podia mandar colocar um espelho grande aqui na sala? MARIDO (Baixa o jornal e olha-a por cima dos óculos admirado. FILHO — Mas será que nós temos o direito de querer que ela se cure? ALICE (Sem compreender...Eu sei.É. Será que não seria pior para ela enfrentar a realidade de Cristiano ter morrido? MARIDO (Ignorando o espanto de Alice. Mas depois que Cristiano morreu. Eu dou um jeito. eu sei. começa a ler o jornal.Não está na hora do seu ônibus? ALICE (Levantando-se. como se refletisse. Remexe na bolsa.) .

Achava meio esquisito aquele homem um pouco gordo.) Meu marido. que pode ser uma atriz ou uma boneca). estou de volta.) — Boa viagem. Berta e. . (Levando a mão aos cabelos. dentro de um caixão de defunto uma figura de rosto disforme e barriga enorme.ALICE (Arrependida de ter falado. Enquanto isso.) — A sala é ótima assim. MARIDO (Voltando a ler. Desde o começo a gente se acostumou a não ter grandes ardores. É bobagem minha. Eu li numa revista que dá a impressão de mais espaço..Nada. sem imaginar sequer quem é a sua verdadeira mulher. enquanto acende um foco no marido que lê o jornal. A sala é pequena. eu preferia assim. Cuide-se direito. de chinelo. MARIDO (Sem levantar os olhos do jornal. (Olha o relógio. BERTA. Agora me procura raramente e sem emoção.. CENA 2 ALICE. E eu prefiro vê-lo ao meu lado. onde estão Alice Menina. (Encaminhando-se para aporta. Você não está acostumada a viajar sozinha.) — Claro. depois dá de ombros e tira da bolsa um pequeno espelho.) Segunda. ALICE (Dirige-se ao público. A sala é ótima. Começa a examinar o rosto com ar crítico.) Esqueci de colocar o meu perfume.) . lendo jornal. dizendo e fazendo coisas desajeitadas e brutais. Você tem razão. ALICE (Curvando-separa beijar o marido. A MÃE e ALICE MENINA Alice está parada num ponto que deve ser a parada de ônibus. calvo. então. acende-se a luz no plano do Inconsciente/Memória. claro.

talvez pulando corda. ALICE MENINA (Gritando. igual ao de Alice adulta e olha-se. não se esconda de mim.) . assustada. onde é que você está? Mamãe. CENA 3 ALICE. cantarolando.) . ALICE MENINA e RENATO MENINO . Ela só pode chorar. ALICE MENINA — Eu não quero olhar.ALICE MENINA (Aproxima-se do caixão. é suja. Você mente. Você é louca.Ela não vai responder. De repente para e chama. Você não vê como ela está inchada? Olha só a barriga dela. Fala comigo.) Mamãe.) Mãezinha. Por isso ninguém gosta de você. Alice. Fala para si mesma. Depois torna a se aproximar e tenta colocar a figura no colo. mãezinha! BERTA (imóvel. Uma agulha deste tamanho. fala comigo. Por isso está sempre de castigo.) — Alice.Não é verdade. Alice você é má. Por isso leva esses tapas. como se estivesse hipnotizada. BERTA — Todos os dias vem um médico e tira água da barriga dela com uma agulha enorme. Sou eu. (Para o caixão. Ela recua. Berta! Você está mentindo! BERTA — Não estou mentindo. Você é muito má.) Ninguém gosta de você. Apanha um espelho pequeno. Alice.) — Mamãe? Mamãe. o que é que você tem? Você está doente? Pode deixar que eu cuido de você. ALICE MENINA ( Vai-se afastando enquanto Berta repete as mesmas coisas. Alice. (Acende-se a luz sobre o caixão. (Começa a sorrir como uma mulher adulta e repete. Alice. distraída. Ela não pode falar.

Ele quem? RENATO MENINO . Alice Adulta aproximase do lugar onde resta o tronco de uma grande árvore cortada.O Professor. estridente. RENATO MENINO .Renato. A luz acende-se sobre o tronco.Agora não posso. ALICE MENINA (Assustada.) Eu vou matar o Professor com minha arma secreta. ALICE MENINA . ALICE MENINA .Ele é seu pai também.) .) .O que é que você está fazendo? RENATO MENINO (Com ódio.Que me importa. Ela está parada.) . ALICE MENINA .) . facas. ALICE MENINA . a bolsa nas mãos. Renato mexe com pedaços de madeira.No jardim de entrada da casa da família. Ele é seu pai. barbantes.Não chama ele assim. perto do qual brincam Alice Menina e Renato Menino. vem brincar comigo.Para matar ele.É uma arma secreta. A luz apaga sobre Alice Menina e Renato Menino para acender-se novamente sobre Alice Adulta. ALICE MENINA .Uma arma? Pra que? RENATO MENINO (Hesitando. corta a cena. Alice Adulta mergulha nas sombras. Você não pode matar seu pai. latas velhas. Mas ele não é meu pai. Renato! RENATO MENINO .) — Você vai preso. RENATO MENINO (Obstinado. (A gravação de uma gargalhada infantil. Ele é o Professor. olhando para cima. Estou ocupado. (Decidido.

) — Ele está cheio de brotos. Alice.) ARETUSA (Entrando. junto ao tronco cortado da árvore. Chega a trazer serviço para casa no fim de semana. E eu..) Meu marido não pode vir. tão trabalhadeira. você sabe.) Ah.) .) E você continua com cheiro de cigarro. ele trabalha demais. você sabe. você é tão eficiente..) — Acho uma pena Bruno ter mandado cortar esta árvore.CENA 4 ALICE e ARETUSA (Na entrada da casa da família. E o seu irmão me saiu um grande folgado! ALICE (Olhando com tristeza o tronco da árvore. Berta é passa o dia todo arrancando os brotinhos.. com certo carinho. que bom que você veio! Há quanto tempo. Imagine que para arrancar o tronco teriam que tirar todas as lajes e abrir um buraco enorme. hein? ALICE — (Sem se ofender. Mas por enquanto. Coitado. (Muda de tom.) — Ele estava cheio de raízes.) — Alice. Com uma ponta de ironia. saí tão apressada que esqueci meu perfume. Era um álamo tão bonito. abraça Alice. ALICE (Preocupada.. com um cigarro aceso. De cigarro e de jasmim. ninguém aqui tem cabeça para pensar nesse problema. do menino? . ALICE (Triste. ARETUSA (Displicente.Aretusa.) Mas você engordou. como se estivesse se justificando. tentando ser natural. ARETUSA (Sem dar importância. Mas não é por trabalhar demais.) — Renato também não vem. não? (Afasta-se para vê-la melhor. ARETUSA — Qualquer dia acaba rachando as paredes da casa. (Rindo. tem alguém dormindo no quarto do.

talvez tenham derrapado o carro bateu num poste e ficou destruído. uma depois da outra. A luz sobre ela acendeu-se lentamente. não. (Após a fala. ARETUSA (Um pouco irritada.) — Evelyn levava Cristiano de carro para a escola quando o acidente aconteceu. corta temos que conseguir que ela ponha essa coisa no lixo. Parecia examinava. enquanto Aretusa ainda fala. eu vi. ALICE (Intrigada. sozinha. Chovia muito. diz que ele fica espiando a rua e conta tudo o que acontece por lá. EVELYN (Dirigindo-se para o público.) . apanha o Palhaço e começa a niná-lo. Sua irmã agora vive agarrada com ele. leva o boneco. Evelyn conserva tudo como quando ele estava vivo. Ela está parada. As vezes senta o palhaço na janela. Não sei. mais tarde tira outra vez.Só pode ter sido aquele boneco horroroso. já como a personagem.ARETUSA .Não. Aonde vai. uma criança. tinha um rosto pequeno. E me CENA 5 No quarto de Evelyn. Restou apenas um pedaço de menino. tudo aqui ficou esquisito demais desde que o menino morreu. (Preocupada. mas Cristiano teve as duas pernas esmagadas.) — Mas tinha uma pessoa lá quando eu cheguei. Depois de alguns dias precisaram amputá-las. Viveu ainda algumas semanas. lembra? Aquele palhaço que o Cristiano não largava nunca. com o boneco nos braços. Evelyn não se machucou muito.) Alice. Não tem ninguém. Depois guarda.) . mas não resistiu. a atriz. como se fosse Cristiano. Ainda bem que na hora de encomendar o caixão calcularam o tamanho dele como se as pernas ainda existissem. logo abaixo do quadril. Todo dia arruma as roupinhas dele sobre a cama.

. mais seguro.) Até o cheiro da casa mudou. etc. Tropecei num .) — Isso não é nada saudável. O aluguel seria o mesmo. ARETUSA — Saudável? Isso não é normal. É diferente. tudo escuro.) — E que ela anda doente. Ainda mais morte de criança. mofo. Dá muito menos trabalho.) — Está vendo isso aqui? De manhã. Tudo fechado. ALICE (Arrumando uma das camas. Ela não percebe. Evelyn era tão caprichosa. É muito mais grave.CENA 6 ALICE e ARETUSA No quarto que pertencia a Cristiano. E agora.Eles deviam mudar para um apartamento. na verdade acho que sua irmã ainda não percebeu que o menino está morto. com papai e Berta. Bruno não ajuda muito. ARETUSA (Penalizada. ARETUSA (Dura. ALICE (Meio distraída. (Suspirando. uma bicicleta.) . Ela não aceita. francamente.) Casa só é bom quando tem criança. Bem doente. Agora tem cheiro de umidade. Alice.. mais prático.) — É. Alice! ALICE (Angustiada. ARETUSA (Mostrando uma mancha na perna. levei um tombo. Ele é tão apaixonado pela mulher que só pensa num jeito dela não sofrer mais ainda. quando cheguei. Alguns elementos — talvez um móbile bem colorido.) — Morte é uma coisa muito triste. E menor. Dá até pena de ver.) — Não é que ela não aceite. — que caracterizem bem um quarto de criança.) Sabe. ALICE (Abatida. deixa que ela fale cada bobagem. mudando de assunto. (Cansada. Insistiu tanto no telefone para que eu viesse. (Como se revelasse algo importante.

ALICE (Abalada. não podia parar de pensar nisso. só atrapalho. ALICE (Impressionada.) Bruno me contou que às vezes ela diz que Cristiano passou a noite com os pés gelados. .Você já viu meu pai? ARETUSA (Seca. mas acaba levando.Claro. Parece que nunca se separa dele. aquele boneco que Cristiano adorava.) . Sabe qual é? O Palhaço.. Não quer mais descer. Com aquele monte de flores.) — Que coisa. (Cúmplice.) Você sabe muito bem disso. Agora ele deu para pedir comida no quarto. mas ele continua com essa história? ARETUSA . Berta reclama. ALICE — Meu Deus. Cortaram os pés dele. (Noutro tom. Eu fiquei tão impressionada. junto com as pernas. Aretusa.) O que é que nós vamos fazer agora.O pior não é isso. ela estava com aquele boneco no colo. Faz meses que o menino morreu e as coisas dele continuam aparecendo em todos os cantos da casa. Nunca sei ajudar. nem se notava que o corpo terminava tão depressa. se queixa.) — Os pés? (Meio sem sentido.Continua.) — Não sei. de manhã. como se falasse para si mesma.carrinho de plástico na sala. ARETUSA (Um pouco cruel. o tempo todo. (Em voz mais baixa.) . querendo mudar de assunto. E ele fica lá. E cada vez pior. ALICE — Mas o médico disse que poderia ser um problema de circulação. Aretusa? ARETUSA (Dolorida. Não sei lidar direito com as pessoas. ALICE (Sonolenta.) . Mas ainda bem que no caixão não se notava nada.) Logo os pés. Sozinho com seus bichos. numa espécie de censura.. Logo que cheguei. Quando fui ver Evelyn hoje de manhã. Não pode ser. E você sabe que venho vê-los seguidamente.

brusca. Um ninho de insetos.. (Caminha até a janela e espia para fora. (Começa a cantar uma cantiga de ninar enquanto embala Evelyn. Por que é que você não pede para ele? ALICE MENINA .Pode ser Renato.Quase nada. Pelo menos. Que tem insetos no ouvido. Alice.) Aquela árvore também não quer morrer.Alice. CENA 7 ALICE MENINA e EVELYN MENINA No Plano do Inconsciente/Memória. Nem parece a mesma. Envelheceu tanto. ALICE . Mas não se assuste: Evelyn mudou muito.O que é que você está olhando? ARETUSA. Vem que eu embalo você. ALICE (Ainda tentando mudar de assunto. come direito? ARETUSA . vamos brincar de mãe e filha? ALICE MENINA — Vamos.O Professor diz que não. Menino não pode ser mãe.se. EVELYN MENINA (Aproximando. Interrompe-se de repente.ARETUSA . (Voltando-se. Berta não pára de arrancar os brotos do álamo.) Era tão bem disposta. Logo ela vai acordar e você fala com ela.) .. Ele é menino.) E eu? Quem é que vai ser a minha mãe? EVELYN MENINA .Renato não. Crescem por toda a parte.) .Berta. Feito um passarinho.E Evelyn. .

Você também não. cantarolando e batendo palmas.) Berta. À medida em que a luz apaga sobre a cena anterior. Pode ser Berta. ALICE MENINA (Começa a chorar.O que é que você estava fazendo? BERTA (Brusca. acende-se sobre Berta. Ela está sentada na cama.EVELYN MENINA .. cercada de revistas coloridas.) .) . Você quer brincar comigo? .) . Nada que te interesse. ora! ALICE MENINA (Chorando. Você é muito pequena EVELYN MENINA (Com certa crueldade. Ela tem cheiro de cebola! EVELYN MENINA (Começa a girar em torno de Alice. posso entrar? BERTA (Guardando apressada a tesoura. encabulado.Você. menino? Será que não tenho um segundo de paz nesta casa? RENATO MENINO (Entrando.Então posso ser eu. os recortes e as revistas. recortando figuras. RENATO MENINO (Na porta. O que é que você quer? RENATO MENINO (Indeciso. Não estava fazendo nada.Berta não quero.) — Nada.) .) — O que é..) — Alice é filha de Berta-tá-tá! Berta tem cheiro de cebola-lá-lá! Alice também tem! Cheiro de cebola-lá-lá! CENA 8 BERTA e RENATO MENINO No quarto de Berta.Então já sei.) .

RENATO MENINO (Persuasivo.) Posso deitar a cabeça no seu colo? (Berta não responde. Renato ajeita-se no colo dela. BERTA. Você é minha mãe. acende-se a luz sobre o Professor.Mas é só um pouquinho. CENA 9 PROFESSOR. a sua mãe está aqui.) . Ele está parado ao lado de um vaso sanitário. BERTA (Apontando o vaso. (Pega a mão de Berta e coloca sobre sua própria cabeça. Renato.) Agora você passa a mão na minha cabeça. Isso. bem devagarinho.Claro que não. Sou sua mãe. Eu te mostro como é.) — Você não vai deixar o Professor me bater? BERTA (Continua a niná-lo.Sou. Berta. . Dorme. comovida. BERTA (Depois de hesitar.) Faz eu dormir. Berta abandona o menino dormindo e caminha em direção ao Professor. você deixa? (Aproxima-se. o Renato urinou outra vez fora do vaso e sujou todo o banheiro. Berta? Diz que é. ALICE MENINA. Pode dormir. Como se você fosse minha mãe. Enquanto Renato adormece. Assim. RENATO MENINO (Quase dormindo. Pode dormir sem medo.) — E eu lá tenho tempo para brincadeiras? Vai procurar alguém da sua idade.) . mas acaba fazendo o que ele pede. diz. Ninguém vai bater em você enquanto eu estiver aqui. RENATO. Ela hesita.BERTA (Ríspida. filhinho. EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA Na seqüência da cena anterior.) .) — Professor. MENINO.

não. EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA (Entram em fila indiana e circulam.) . (Dá-lhe um tapa e sai. Não quero saber de promessas. papai! Eu não faço nunca mais! PROFESSOR (Empurrando a cabeça do menino contra o vaso.) . Renato! Onde é que se meteu esse diabo de menino? RENATO MENINO (Entrando. PROFESSOR (Empurrando-o para o vaso. saltitantes.Foi sem querer. Eu juro que não faço de novo. pai.) — Renato é um porcalhão! Renato é um porcalhão! Renato lambe o mijo! Renato lambe o mijo! CENA 10 ALICE e ARETUSA No ex-quarto de Cristiano.) RENATO MENINO (Soluçando. cabisbaixo.Não. seu animal? Você sujou todo o banheiro de novo.) — Renato.) .PROFESSOR (Chamando. RENATO MENINO (Com medo.) — Te ajoelha. cantarolando. Sujou? Pois agora vai limpar tudo com a língua.) — O que foi. papai? PROFESSOR (Segura-o pela gola da camisa. RENATO MENINO (Debatendo-se. abraçado ao vaso. seu porco sujo. Alice está sentada na cama quando Aretusa entra.) — Tudo. Você é um porcalhão. andando de lado.Como o que foi? Ainda pergunta? Se fazendo de inocente.) — Por que é que o pai tem tanta raiva da gente? ALICE MENINA. em torno de Renato. você vai limpar tudo com a língua. .

Cobre o rosto com as mãos. (Aretusa parece magoada.) Desculpe. desculpe. As vezes eu apanhava até por coisas que nem me lembrava mais que tinha feito. o velho Rasputin. O idiota não vem mesmo. mas ouvem-se três batidas fortes — uma bengala batendo na madeira. Aretusa.) . Você o conhece desde criança e sabe muito bem como ele era tímido e infeliz.É o seu pai. ALICE (Em tom de recriminação. Eu também achei.ARETUSA (Irritada.O velho Rasputin. De estímulo.) — Não fale assim do seu marido. Alice aproxima-se. Aretusa e Alice ficam imóveis. Alice se assusta. Papai era muito severo. ARETUSA . (Aretusa vai responder. Uma vez viu uma figura num livro e achou muito parecido com papai. Uma pessoa como Renato precisa de carinho. CENA 11 ALICE e PROFESSOR . Cansei de telefonar.. Ele foi quem mais apanhou de papai. Tão frios. Eu não quis. como se fosse chorar. Era assim que Renato chamava ele.) O que é isso? ARETUSA (Cansada. bate com a bengala no assoalho e Berta tem que atender. Mas você só humilha ele o tempo todo. a culpa não é sua. Aqueles olhos que furavam a alma da gente..) — Não adianta. ninguém atende. Quando ele quer alguma coisa. Você sabe.) . Aretusa. enquanto acende a luz sobre o Professor. Pareciam uma faca.O quê? ALICE — Rasputin. ALiCE (Quase sorrindo. As pancadas tornam a soar. Seu irmão não deve estar em casa. três vezes.

como se . PROFESSOR (Sem ouvir.. E os filhos. brusco.. Muito pior. fiquei muito preocupada com Evelyn. não sei. se fossem insetos o médico conseguiria vê-los. E não fica nada bem uma mãe não cuidar da sepultura do filho. retirar. E não é um barulho. Não foi nem uma vez.) — Bem.. PROFESSOR (Obstinado. trabalham. (Entorta um pouco a cabeça. Mas fiquei. (Em tom de desprezo.São insetos. São insetos. abrir. Eu mesma não podia vir. pai. E um zumbido de insetos.. Alice? ALICE (Em tom de justificativa.) .) — Não puderam vir. E aí poderia. curva a cabeça sobre o ombro e a move devagar.Não. ALICE — Ela está doente. um cobertor sobre os joelhos. Ele está sentado..) — Bruno bem que podia obrigá-la a ir. Ando até pior. pai.) — Mas. ALICE (Paciente. De vez em quando.) . papai? O senhor está bem? PROFESSOR (Sacudindo afirmativamente a cabeça e fazendo um gesto para que Alice se aproxime. Uma das mãos segura a bengala. bem. A roupa está muito desalinhada.O senhor melhorou daquele barulho no ouvido? PROFESSOR (Seco. Presta atenção.) — Dá licença. ALICE (Tentando ser gentil. Eles estudam. ALICE (Entrando devagar.) — Evelyn? Ela não vai nem ao cemitério. Insetos daninhos. pai. se divertir um pouco. O senhor sabe como é. Estava tão ocupada.Quarto do Professor. Eu tenho certeza. Só nos fins de semana têm algum tempo para descansar.) . Não melhorei nada. desde que o menino morreu. PROFESSOR (Cortando.) Mas você sabe como ele é condescendente.

pudesse ouvir alguma coisa. Berta? Olha a carinha dele. Alice. não é. sempre franzindo o focinho.) Você não ouve? Agora eles estão começando a se mexer. E por todos os cantos a lembrança de Cristiano. Bateu com força. vá chamar Berta. ALICE MENINA . violentamente. ALICE MENINA. ué. no Plano do Inconsciente/Memória acendeuse a luz sobre Alice Menina e Berta. Iguais ao que eu tive na infância e que tratei com carinho de mãe.) — Mas ele é tão bonitinho. três vezes. BERTA e ARETUSA ALICE (Sozinha. Alice Menina tem uma caixa de sapatos nas mãos. Perto da árvore ficava a gaiola grande com os dois porquinhos-da-índia que lhe dei. sem sabedoria. sem paz.. ALICE (Insistindo.Nada. uma velha empregada: que tem isso demais? E só uma velha casa. um velho pai. menina? Mas o que é que eu vou fazer com um porquinho-da-índia? ALICE MENINA ..) Berta. Outro dia ele até bateu a janela quando o canário da vizinha começou a cantar. Enquanto ela fala. dentro da qual está o porquinho-da-índia. Mas essa velhice me deprime. O velho choraminga. (Bate com a bengala no chão. Chegou a quebrar um vidro.Ele é tão bonzinho. Será que o pai deixa eu ficar com ele? BERTA —Você sabe muito bem que seu pai detesta bichos.Meu.) — Uma velha casa. o foco de luz apenas sobre ela. Você tem nojo dele? . CENA 12 ALICE. PROFESSOR. E se a gente mentisse que ele é seu? BERTA . Alice estremece.

BERTA (Saindo.) .) — Não. Rói tudo que encontra pela frente. BERTA (Relutante.) Primeiro vou contar uma história para você dormir. Tem uma cara de Horácio. Berta. Berta. com dois olhinhos vermelhos arregalados de medo porque ele achava que não tinha casa.) Eu nunca tive um bichinho. (Senta no chão. deixa. Eu garanto que ele não vai dar trabalho nenhum. PROFESSOR (Apanha um jornal dobrado do chão. Até gosto. Que coisa. Não precisa chorar. já está acesa a luz sobre o Professor. Furioso. Berta. Estd todo furado. encaminha-se para Alice e joga-lhe . (Choramingando. Assim ele fica no seu quarto. (Vai saindo. porquinho? E só vai comer restos de verduras velhas. Alice continua brincando. não diga que eu não avisei.) . Pura.Ah. ALICE MENINA (Insistindo. Não suporta nem passarinho. É de mentirinha. comovida. Nojo não.Pois então? Você diz que ele é seu. Ele não vai entrar nunca dentro de casa (para a caixa). Era uma vez um porquinho-da-índia que um dia foi bater numa casa bem igual a esta.) — O Professor tem verdadeiro horror de bicho. tá bem. menina. BERTA (Cedendo. mas meio brusca. ALICE MENINA (Animada.) Mas se der algum problema depois.) .) — Mas e se ele fugir? Se entrar dentro de casa? Esse bicho é que nem rato. ALICE MENINA (Muito feliz. Enquanto Berta sai. (Para a caixa.BERTA (Curva-se para olhar o porquinho. abre-o e examina. Horácio. Era um porquinho todo quentinho e fofinho. Eu digo que é meu. não é. Só falta os óculos. assim que nem você.Tá bem.) Acho que vou chamar ele de Horácio.) — Obrigado.

chorando. ALICE (Apavorado.) .o jornal na cara. Um único guincho. para Alice. sem conseguir. (Começa a puxá-la pelos cabelos.) Alice Menina fica sozinha com os pedaços da caixa. (Joga a caixa no chão. Alice tenta alcançá-la.) . Enquanto isso. Outro dia vi uma barata na cozinha. a caixa não! PROFESSOR (Fora de si. que morreu gorgolejante enquanto o Professor torcia o pé para esmagar melhor.Não. PROFESSOR (Avançando alguma coisa dentro dela. este jornal está todo roído. Alice grita. Faz dias que você anda escondendo . Eu ainda nem tinha lido.Além de tudo é mentirosa. Quantas vezes tenho de repetir que não quero nenhum bicho dentro desta casa? ALICE (Gritando.) . Acende-se a luz sobre Aretusa Adulta. eu prometo! PROFESSOR .Cala a boca. então. volta a luz sobre Alice Adulta. ALICE (Tentando escondera caixa. (Começa a pisotear a caixa. PROFESSOR — E desde quando tem rato nesta casa? ALICE (Assustada. Ele sai. Um jornal novo.) — Me dá ele.) — Uma barata.) . sozinha em outro plano. violentamente.) — Alice. Me dá essa caixa.Como é que um corpo tão pequeno pode espirrar tanto sangue? Até hoje o guincho do animalzinho perfura meu cérebro quando penso nisso. pai? Deve ter sido algum rato. menina. pai! Eu prometo que nunca mais ele vai roer o seu jornal. ALICE ADULTA . Alice.Roído.) — Animal nojento. Arranca-lhe a caixa das mãos.Me dá esse bicho imundo.) E isso é para você aprender a me respeitar.

ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn. como se tivesse acabado de penteá-la e arrumá-la. Evelyn está sentada com o boneco no colo. Aretusa está ao lado dela. Quando Alice entra. esqueci até o perfume. Aretusa? ARETUSA — Nem prestei atenção. Não puderam vir. Alice? Evelyn acordou e quer ver você. como se recitasse algo decorado. eu ia comprar uns chinelos novos. insegura. Evelyn. num tom monótono e automático. depois de olhar um momento para Aretusa. Você vai bem? EVELYN (Sacudindo a cabeça.) — Fiz uma viagem tão boa.) — Olha. Eu até ia trazer um bolo. Mesmo assim me cansei um pouco. ALICE (Beija Evelyn.fumando. Estou bem.) — Estou. muito composta. agora ficou tudo mais rápido.) . mas acabei deixando. meu marido e os rapazes mandaram lembranças. fingindo ignorar o boneco e procurando ser natural. você reparou. E uns chinelos.) — No mundo da lua. Suba! CENA 13 ALICE. (Volta-se e fica olhando pela janela. Estou muito bem. ALICE (Nervosa. Com esses ônibus modernos. Estou. Você sabe. sempre tão ocupados.ARETUSA (Irônica e divertida. O meu está tão velho. sim. que fuma em silêncio. (Ri.) Saí correndo.

depois cai de novo no sofá. Um dia.) CENA 14 ALICE.) — Sim. BRUNO .) — Seu cabelo continua tão bonito. Na porta. Seus colegas devem estar com saudades. da casa para o trabalho. Quando der. querida? EVELYN (Falando como uma criança. .) — Parece cansado. Garanto que você faz muita falta no escritório.) .Bruno está chegando. (Vai saindo. eu volto. tensa. ALICE (Maternal. BRUNO. graças a Deus. E você? (Examinando-o.Quando der.Então eu vou lá embaixo receber o seu marido.) . Levanta-se para beijá-la.Você tem comido direitinho. ARETUSA (Da janela.) ALICE (Um tanto apressada e aliviada. Já que Evelyn tem companhia.ALICE (Pega uma escova e começa a escovar o cabelo de Evelyn. querida? (Evelyn não parece ouvir. Eu como tudo e limpo o prato. não sei. (Aproxima-se e coloca a mão no ombro de Evelyn. Bruno. Alice. volta-se e sorri para Evelyn.) . curva-se para beijar Evelyn. Tive que insistir para que saísse hoje e se distraísse um pouco. E mais magro. Alice? ALICE — Bem. Faz séculos que ele anda só do trabalho para casa. Evelyn. que continua imóvel.Como vai.) .) Não é. Tão louro. RENATO MENINO e BERTA Sala da casa. querida. Bruno está jogado no sofá quando Alice entra. Quando é que você volta? EVELYN (Remota. Faz muito tempo que não vejo o Bruno.

ALICE (Horrorizada.. acendendo um cigarro.) — Acabei de ver Evelyn. bom. tentei fazer com que aceitasse a realidade..Uma. BRUNO (Interrompendo.. meu filho disse que. Ela não parece nada bem. E quase não come. ALICE — E gostou do filme? BRUNO (Distante.BRUNO (Indiferente. uma o que? ..) Mas realidade é uma coisa que ela não agüenta mais.) — Engraçado. Ela segura o boneco e fala como se.É. Fui ao cinema. sentando-se no sofá. No começo. O filme era bom. Bruno! E aquele boneco. ALICE (Tentando parecer animada.) — Mas é só assim que ela fica mais calma. passeando um pouco? BRUNO — Aretusa insistiu tanto..) — Ela não quer mais falar com o médico. BRUNO (Como se não ouvisse..) — Então... em voz baixa.) — Descobri que Evelyn anda com uma gilete em baixo do travesseiro. Faz tempo que não me peso. Que coisa mais macabra! BRUNO (Paciente.) . ALICE (Depois de uma pausa em que não sabe o que dizer.) — Era. (Amargo. BRUNO — Eu sei. Não quis ir no psiquiatra. O filme que você viu. ALICE — Aretusa me disse que Evelyn parece não aceitar a morte de Cristiano. Concordei com Aretusa em chamar você porque não sabia mais o que fazer.) — O filme? ALICE .. BRUNO (Desinteressado. o Palhaço? Você tem que tirar aquilo dela.) — Pode ser.. como se o menino estivesse vivo. ALICE — Mas isso é perigoso. ALICE (Meio distraída.

Quando esquece. Nós não temos dinheiro para uma boa clínica particular. Depois começa tudo outra vez. ALICE (Pensativa. BRUNO (Interrompendo. ALICE Que horror. Não consigo raciocinar direito. E o médico. Bruno. Essas coisas. E psiquiatra. depois de pensar um momento. BRUNO — Então deve ter-se assustado.BRUNO (Em voz muito baixa. Renato sofria de infecções nos ouvidos.. Bem. Quando a gente era criança.) — Não sei. BRUNO (Angustiado.) — Castigo por que? ALICE — É uma história antiga.) . Fazia tempo.) — Que é a idade. no sofá. Devia doer . só desesperada.) — Deus que me perdoe. Mas até parece castigo. Ela não está louca. Fazia meses que você não o via. Berta pingava azeite morno. Uma noite ele não parava de chorar. Já botei fora duas ou três.) — Meu pai também está tão esquisito. mas não adiantava.. Ninguém pode forçar. Precisamos ter paciência. Será que ela. cansada.) — Não quero que ela seja internada num. ela tem de querer também. BRUNO (Intrigado. tem outra lá. E ele agora deu para se queixar a toda hora dos tais bichos. o que diz? BRUNO (Batendo de leve com o indicador na testa.Uma gilete. Mas sempre quando vou ver.se para trás.. ALICE (Para mudar de assunto.Alice.) ... ALICE . num hospício.. o que é que você acha que devemos fazer? ALICE (Recostando.Que coisa horrível. não? ALICE — Fazia. BRUNO — Péssimo. fica quase normal. sim.

) — Louça toda velha. CENA 15 ALICE.) — O Professor também vai descer hoje.) — Está na hora de servir o jantar.) — Será que na cama. Uma arma secreta. quando eles dormem. com toda a força. acende-se a luz sobre Renato Menino. (Ouvem-se as três bengaladas do Professor. BERTA e RENATO . acende a luz. Era pus. (Sai. tinha um líquido grosso. Papai levantou umas duas vezes e mandou que ele calasse a boca. como na Cena 3. amarelo. escorrendo do ouvido de Renato.) BERTA (Entra. RENATO MENINO (No outro Plano. abriu a porta com um empurrão e deu um tapa na cabeça de Renato. meio para si mesma.Quando entramos no quarto. No dia seguinte. Berta levou ele ao médico. BRUNO. para Alice. PROFESSOR. ALICE (Como se não ouvisse. (Enquanto Alice fala. BRUNO (Levantando-se. no Plano do Inconsciente/Memória.) BERTA (Pondo a mesa. A luz se apaga no Plano do Inconsciente/Memória. o boneco fica no meio dos dois? BERTA (Como se não tivesse escutado. Que não fizesse fita.muito. Na terceira vez.) — Vou ver se Evelyn quer descer. Ele prepara a arma. ALICE (Distraída. O bofetão de papai tinha feito rebentar um abscesso no ouvido dele. Para matar o Professor. EVELYN. Porque você está aqui. ARETUSA.) BRUNO . Tantos pratos rachados.O Professor sempre foi muito violento.) .) — Uma arma.

Quando mudo de ambiente. EVELYN (Como criança.) Passa o arroz? Silêncio espesso. ARETUSA — Pois eu não. que cruzou os talheres. Por que você quer me obrigar a comer? BRUNO — Para ficar forte. Agora.) . O médico proibiu. (Para Alice. À exceção de Renato. O médico não sabe nada.) E você. entremeada de silêncios longos. mais um pouquinho. (Dando-lhe comida na boca. repugnada. paciente.) . Até pelo contrário. Assim. De repente.O médico. Tem que comer mais um pouquinho.Vamos. Berta tira e coloca coisas na mesa.Ela não comeu quase nada.) . Bruno.) . Evelyn. querida. BRUNO (Para Evelyn. que serve a mesa. Constrangimento. o barulho da campainha. bem que você precisa.. PROFESSOR (Com desprezo. depois de encontrar um vermezinho na salada.) —A carne está ótima. que ainda não chegou. e de Berta. Estão todos sentados à mesa do jantar. Você não almoçou hoje. (Para Bruno. Evelyn? ALICE .) — Quer mais vinho.) — Só um pouquinho. . Estamos todos juntos. ALICE (Conciliadora.Eu não quero. hein? ALICE — Estou sem fome. BRUNO (Para Evelyn) . A cena é lenta e difícil.Deixa. Evelyn tem o boneco no colo. Acho que foi a viagem. ARETUSA (Mentindo. me abre o apetite. que estende o copo.Ele não pode. pai? BRUNO (interrompendo o Professor.. não vai comer mais nada? Está de regime? Olha. Hoje é um dia especial. ALICE (Para o Professor.) — Você está com frio.Na sala.

Quando você telefonou. com uma bolsa de viagem. Não tenho fome. provavelmente eu já tinha saído.) — Você já jantou? RENATO .) ALICE (Para Renato.) .) — Pode deixar que eu mesma vejo. muito formal. Renato bebe e fica remexendo na xícara com a colherinha. papai? PROFESSOR (Seco.) — Quer que eu veja quem é? BERTA (Para Alice. olhos baixos. RENATO Como vai. ALICE (Para o Professor.Eu sempre digo que sanduíche não alimenta.) Eu mudei de idéia. Alice? Tudo bem? (Ela sorri. Até telefonei hoje à tarde.faz um carinho na cabeça de Evelyn e senta-se ao lado dela.) . achei que você não vinha. Um sanduíche. ARETUSA — Pelo menos tome um café.) Olha só quem chegou. A cidade está cheia deles.) — Ué. RENATO (Beija Alice.Quem pode ser numa hora dessas? BRUNO — Visita é coisa rara por aqui.) ARETUSA (Agressiva. ALICE (Maternal. Tocou. Comi no caminho. RENATO (Contrafeito. (Berta sai e volta acompanhada de Renato.PROFESSOR . tocou e ninguém atendeu.Não.) — Boa-noite para todos. (Pega o bule e serve. (Aperta a mão do pai.Então. Liguei acho que umas dez vezes.) . (Beija Aretusa no rosto. Ele aperta a mão de Bruno. PROFESSOR — Deve ser algum mendigo.) .Boa-noite.

com desprezo. de manhã cedo. não. pai? O senhor está sentindo alguma coisa? PROFESSOR — São os insetos. olhando Renato e o boneco.) .Não. O Professor começa a mexer lentamente a cabeça.RENATO e BRUNO Na sala de refeições. A mesa está posta para o café quando Alice entra. para alguém invisível.EVELYN (De repente.Bom-dia.) ALICE (Para o Professor. A luz apaga. Tudo bem. (Pára por um instante.) — Que foi. Alice. Tudo bem? (Senta-se à mesa. Não passou frio durante a noite? RENATO (Distraído. Renato. RENATO . Está tão abafado. Olha para todos. Parece que vai chover.) Fiquei preocupa com você aqui em baixo. Esse calor não é normal de manhã cedo.) — Vocês não acham que ele se parece com o Palhaço? (Ninguém ri. Silêncio constrangido. sem ninguém esperar. um por um. . Estava quente.É possível. como se escutasse. Depois recomeça os movimentos com a cabeça. ouve-se a gravação de uma gargalhada estridente de criança.) Eles estão se mexendo agora. No escuro. brinda distraidamente com bolinhas de pão. que já está sentado.) . Berta me trouxe um cobertor Mas nem era preciso. Renato. ALICE — Tem razão. II ATO CENA 1 ALICE. ALICE (Entrando.

) — O café.) . por acaso ela. E muito fraco.) .Berta está muito velha. (Renato não responde.) RENATO . ALICE — Acho que ela nem enxerga mais direito.Faz muito tempo que Evelyn não ri. passou bem à noite? BRUNO (Abatido.) RENATO .) Péssimo.) E além do mais. ALICE (Intrigada.) — Bruno. (Prova o café e faz uma careta. Acordou várias vezes.Não.Eu não ouvi nada.O que foi? ALICE (Meio repugnada.) . RENATO (Desinteressado. Ela dormiu muito mal.Você não vai tomar café? ALICE (Suspirando. RENATO (Dando de ombros. ela riu durante a noite? RENATO . Você não ouviu nada.o que? ALICE (Meio envergonhada. Renato? Eu tive a impressão de ter ouvido alguém rindo.. (Afasta a xícara.Riu.Bom-dia..) — Claro. Está quase frio.) .) .) ALICE . Berta devia ventilar mais a casa.Bom-dia. Acho uma coisa indecente. Eles fazem muito barulho nos telhados.. Continua a fazer bolinhas de pão. . BRUNO (Entrando. BRUNO (Cortando.) .Não. O calor fica pior. (Toma mais um gole. com essa casa toda fechada. Devem ter sido os gatos. claro.) . Bruno. E Evelyn.ALICE — Me passa o café? (Renato passa e ela se serve. Não tenho vontade.. ALICE (Meio atrapalhada.

deitada.) — Me passa o pão? ALICE (De repente. ARETUSA. CORÁLIA e ENFERMEIRO .RENATO . CENA 3 ALICE.) — Acho que estou pegando uma gripe daquelas.Ou algum babado na rua. ARETUSA .tem os cabelos todos brancos e a cabeça caída sobre o peito. apaga-se a luz sobre a cena anterior e acende-se sobre Aretusa. numa cadeira de rodas. Noite de sábado. Corália — uma atriz ou uma boneca . empurrada por um Enfermeiro. pondo a mão na testa. Cruzam a cena Corália. fumando. Enquanto eles passam. Uns olhos tão grandes e inocentes. Ela está na cama. RENATO (Para Alice. CORÁLIA e ENFERMEIRO Quando Renato fala. ALICE (Nervosa.Ela era linda.) — E Aretusa? Não vai descer? CENA 2 ARETUSA. Tinha um jeito de menina. tentando rir. A luz acende-se também no Plano do Inconsciente/Memória. BRUNO (Para Renato. ouve-se apenas a voz de Aretusa.) — Pode ser.

ARETUSA — Não tem nada de estranho.) Não faz mal nenhum assim. Atrasada. Sem maldade nenhuma. a filha do Bicho-Papão não sabe em que mundo vive? ALICE (Meio irritada.) Ah. você vai acabar se metendo em complicações. mas paciente. não se preocupe. Eu apenas me deixo amar. Aretusa.) — Claro que entendeu. Eu finjo que não percebo. no colégio. E tem uns olhos. Alice. Você nem imagina como ela é linda. ARETUSA . (Implicante. E não sou atrasada. mas continua a virgenzinha de sempre.) Prometa. (Segurando Aretusa pelos ombros. Imagina se alguém descobrir. mas vejo bem nos olhos dela. casada.) — No mesmo que você. . Aretusa. Aretusa? Ela é sua aluna. ARETUSA (Sem ouvir.) — Linda. Alice. só de longe. na casa de Alice.) — Como não faz mal. ARETUSA (Sonhadora. debochada. (Para Alice. Ela me ama. tão linda.) — Será que eu entendi direito.É um flash-back. Enormes. minha querida moralista.Ah. inocentes. Tão terna. o que mais me impressiona nela são os olhos. ingênua.) E ela me ama. ALICE — Escuta. sim.) . ALICE (Preocupada. (Para si mesma. ALICE — Você tem que me prometer que vai tomar cuidado. Prometa que não vai se meter em nenhuma complicação com essa menina. minha santinha. o escândalo que vai ser. Aretusa? ARETUSA (Rindo. indisfarçável. Depois não diga que eu não avisei. Só acho um pouco estranho. você é uma mulher adulta. Meu Deus. recém-casada. ALICE (Espantada. Ela me ama. Aretusa. Lá no fundo.Uma menina tão linda. A cena pode ser feita pelas atrizes que fazem Alice e Aretusa Adultas ou por Alice e Aretusa Meninas.

Corália.) . Corália-Rosália. mas a cena vem imediatamente na seqüência da anterior. Quando apaga-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória. ARETUSA (Que ainda estava de costas.Está bem..) . Que vai se ver livre dela. e o Enfermeiro torna a passar com Corália na cadeira de rodas. Nome engraçado. ARETUSA — Mas prometer o que.se.) CENA 4 ALICE e ARETUSA Passaram-se alguns meses.) Como é mesmo o nome dela? ARETUSA (De costas para Alice Enquanto ela fala.ARETUSA (Desvencilhando.) — Prometa. Aretusa. criatura? ALICE — Que não vai se meter em nenhuma complicação. (Noutro tom. Que coisa mais antiga! ALICE (Insistente. grita. Magnólia. está bem. Se você fica mais tranqüila assim. Parece nome de flor.. acende-se novamente a luz no plano do Inconsciente/Memória. voltando-se.) . Corália (Tapa a boca com a mão. (Num crescente. acende-se novamente sobre Alice e A retusa. ALICE (Aliviada.) Corália. ALICE — Fale mais devagar. ARETUSA (Dando de ombros.) — Ela tentou se matar.) Prometo solenemente me ver livre dela. (Fingindo solenidade.) — Assim é que se fala. Aretusa.Pára com isso. Não entendo nada. . sem pausa. em desespero. séria. Alice.

Alice. ALICE (Chocada. (Baixando a voz.Não. Eu fiquei com medo e disse que se ela não se afastasse eu contaria aos pais dela e ao diretor. Eu não tive culpa. você me entende? Que era imaginação dela. Eu fiz tudo errado. Não adiantou nada. não aconteceu nada. Aretusa? ARETUSA (Muito agitada. Alice.. Queria que nós fôssemos embora juntas.) — Você agiu direito. Alice.O que? O que foi que você fez. Você não sabe de nada. aquelas coisas. inveja.) — Não fique assim. ALICE (Colocando a mão na cabeça dela. que Corália não regulava bem. Foi só então que eu descobri o quanto gostava dela. O diretor da escola nos chamou para tentar evitar o escândalo. (Envergonhada. Eu não queria complicações. Não fiz nada. Ela era tão bonita. Aretusa. A idiota da amiga contou tudo para os pais de Corália. ALICE — Não estou acusando ninguém.Ela? Ela quem. Ambigüidades. meu Deus? ARETUSA (Quase gritando. Pare de me acusar. . Que ela era meio louca. Não tive coragem de desiludi-la. promessas. Aretusa. a tratá-la mal. Ela ficou me procurando por toda parte.ALICE . a boca toda queimada de veneno..) . O que fiz foi só para o bem dela. Foi ela quem contou para uma amiga. Fique calma e me conte tudo. Telefonava. ALICE (Tentando acalmá-la. Falei em calúnia.) .. não. ARETUSA (Culpada. mandava cartas. olhares.) Cheguei a insinuar que. despeito. Eu ainda consegui consertar a história. Corália tentou se matar. O que foi que aconteceu? ARETUSA (Acendendo um cigarro.) Hoje de manhã encontraram ela na cama.) — Nada. Eu comecei a fugir.) — Corália. ARETUSA — Eu sei que você me entende. Só..) — Nada.

fumando. Não vai acontecer nada. ARETUSA (Irônica.Você sabe que não fumo.. de repente. ALICE — E fumando em jejum.. Faz mal.) — Bem.Estou com preguiça. Aretusa está de camisola. fique calma. não? ALICE (Sem se ofender.Não quero comer. quando Alice entra. (Agressiva.) -Juro que nunca mais vou amar ninguém. ARETUSA — Se ela morrer. Você não vai tomar café? ARETUSA . ARETUSA .) E você bem que podia cuidar um pouco da forma.) Esta semana fui ver Corália. CENA 5 ALICE e ARETUSA Volta ao presente. Estava fraco e frio. não vou agüentar sozinha. ALICE — Ela não vai morrer. Nunca mais vou me ligar a ninguém. No quarto. ARETUSA (Lentamente. às vezes as pessoas progridem. (Depois de uma pausa. ALICE — Ainda está aí? Você nem se vestiu. . ARETUSA . Nunca mais.Quer um cigarro? ALICE . Eu acabo destruindo tudo que toco. ALICE — Fique calma.) — Nem tomei café.Não queria que depois ela sofresse ainda mais.

) Sabe? O cabelo dela agora está branco como a neve. ARETUSA (Dura.Pode ser. Quarenta anos. mas parece contente quando me vê.) ALICE — É o papai. Não tem esperança nenhuma.Fui. não mudam nunca. Alice.) .) . ALICE — Eu sei. Ele deve estar chamando Berta.Eu já disse mil vezes. Você sabe muito bem: Corália não pode mais andar.ALICE (Assustada.) — Corália? Você foi ver Corália? ARETUSA . Parece uma velha. Já está na hora do almoço? ARETUSA (Remota. . eu sei. não pode mais falar..) — Não. Mal sustenta a cabeça. Mas eu sou a única que tem coragem de dizer. Ou um bicho. Ainda é muito cedo. Alice. Faz anos que ela está assim.) .Quantos anos ela tem? ARETUSA — Quarenta. acho que a morte seria melhor para ela. não é bom.) — Neste caso.. Ela não vai ficar boa. Não sei. Não é bom desejar a morte de ninguém. ARETUSA (Irônica. Mas as coisas às vezes mudam. (Ouvem-se as batidas do Professor. não vai melhorar nunca.) . ALICE (Agoniada. Ela não pode mesmo ficar boa? ARETUSA (Cansada. ALICE .) É estranho.E por que não? É a verdade. mas.E como ela está? ARETUSA (Amarga. As duas se sobressaltam. Todo mundo acha isso mesmo. (Melancólica. Acho que é só por isso que os pais dela permitem que eu a veja. Ninguém sabe o que ela sente. ALICE (Confusa. Sempre que eu venho aqui dou uma chegada lá. (Num sussurro.) — E como é que você queria que ela estivesse? Ah. ALICE — Não fale assim.

. me procurava para desabafar. EVELYN MENINA e RENATO MENINO Durante as últimas falas da cena anterior. Você ouviu? arvore farfalhando. CENA 6 ALICE MENINA.. como folhas de que cortaram a árvore. Aretusa. Você lembra? ARETUSA (Desinteressada.) — Aretusa-Medusa. Falam sem entonação infantil. torna a encarar Aretusa. ia dizer que está farfalhando. lembrei como a gente chamava você quando era criança. Evelyn e Renato meninos. ouve-se o barulho do vento. Acho que não comentou com ninguém além de mim. Mas você tem razão. No começo.) . Assim ela nem pode mais trabalhar direito. Como era? ALICE (Bem devagar. ARETUSA MENINA. Ele gostava tanto do balanço.. Tempos depois. agressiva. Da porta. Agora.É só o vento... Lá estão parados Alice.Não.. dando o texto como um coro de tragédia grega. à escuta. de repente. Aretusa olha bem para as pernas dela. Vou ver se precisa de ajuda. (Volta-se para sair. estáticos.) Você devia tratar dessas varizes.ALICE — Coitada. As duas ficam atentas. acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. (Antes que Aretusa retruque. de repente. (Alice volta-se novamente para sair.) Que engraçado.) Se a gente não soubesse ARETUSA . levemente maldosa. quase . parece que o menino ainda está se embalando naquele galho. ALICE — Há mais de vinte anos Aretusa carrega esse segredo sombrio. Às vezes.

porque Aretusa nunca escapará de Corália. e a culpa não a deixa dormir. Duas pessoas que nada tinham em comum.) . o pé da cama. da voz sensual. Ela está dormindo. EVELYN — Mal Aretusa cochilava. a aranha cinzenta começava a arranhar a porta. está tudo bem. E não conseguem viver em paz. com uma bandeja nas mãos. A cama está cheia de brinquedos espalhados.Você também ouviu? . foi cortada pela gravação de uma risada infantil. ARETUSA — Sempre que Aretusa se mira num espelho. Bruno está ao lado. a parede. O som da risadinha faz com que Evelyn acorde sobressaltada. não saía de perto dele.repentinamente. Eu estou aqui. usava da sedução do seu olhar dourado. BRUNO . A luz acendeu-se sobre o quarto de Evelyn. casou-se com Renato. Evelyn? Calma. Ela insistia.se entre o amor e a repulsa. Debate. Como se ela se punisse fazendo-o sofrer. CENA 7 BRUNO e EVELYN A última fala de Aretusa. mas de longe.O que foi. Assim. na cena anterior. mostra a si mesma que é louca e má. RENATO — Talvez Renato a amasse. que lhe cobra uma pequena indenização. EVELYN (Assustada. com o Palhaço nos braços. das maneiras desinibidas. como às vezes amamos o que é mais oposto. mais diferente de nós. talvez enxergue por trás da imagem familiar aquele rosto inapagável.

paciente. você precisa ficar forte de novo. (Passa a mão no cabelo dela. até que ela se acalme.) — O Palhaço não! Me deixa ficar com ele! Me deixa! BRUNO (Senta-se ao lado dela e tenta fazê-la beber da xícara. não. Era outra coisa. Como. Olha. . EVELYN (Infantil..) Você não quer descer um pouco? Toda a família está aí.Não quero. EVELYN (Com raiva. Não eram batidas. BRUNO (Cortando.) Tome pelo menos um pouquinho de café. então.Só um gole...) — Só um pouco de leite. EVELYN (Resistindo. BRUNO — Mas não precisa comer. não. mas era muito claro. Até Renato veio. eu trouxe café e pão para você.Você sonhou. sem dizer nada. reunida. até Bruno desistir. larga a bandeja em cima da mesa e tenta devagarinho tirar o Palhaço de Evelyn.) — Está bem. BRUNO . está bem. já disse! BRUNO (Enquanto ela abraça o Palhaço.) . EVELYN — Não. EVELYN (Jogando a xícara ao chão e gritando. EVELYN .) . Todo mundo quer que você desça. como uma. Tenho nojo de leite.. se você não quer. BRUNO (Falando como quem se dirige a uma criança. Não era nada.. Eu não quero. (Ele abraça e fica embalando-a durante algum tempo.. Vai fazer bem. Só um sonho.) . Vinha de longe.BRUNO — O quê? As batidas? Deve ser o Professor chamando Berta.) — Só um pouco.) — Não quero.Eu não quero comer.Não.

Mais tarde eu desço um pouco. enquanto Evelyn cuida do Palhaço como se fosse um bebê. EVELYN — Mas casamento não é bom? BERTA . timidamente. Sempre faz tudo que eu quero. embala. Mas fique calma.. BRUNO (Levanta-se e vai até a janela.. BRUNO (Um pouco assustado. .) . não.) — Você não quer descer um pouco e conversar com eles? EVELYN — Eu quero ficar aqui.) — Então eu vou abrir a janela. EVELYN (Feliz. Pra uns. Está um dia bonito..Nunca.. EVELYN MENINA e BERTA Luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória.Eu não quero comer. Pra mim. pode ser. só quero ficar aqui com ele. Graças a Deus. Quero ficar cuidando dele. BRUNO (Fingindo não ouvir... você nunca casou? BERTA . beija-o. EVELYN — Como é que você sabe? Você nunca experimentou pra saber. CENA 8 ALICE MENINA. Se Berta vier me buscar.) — Está bem. tem sol. afasta-se da janela.) Por enquanto. ALICE — Berta.EVELYN (Infantil. (Embala o Palhaço enquanto Bruno olha.o.) .Depende.Você é tão bom comigo. etc. se você não quer eu não abro. desanimado.

homem pra mim é peste! CENA 9 ALICE e BERTA No quarto de Berta. eu bati. por que você não se casa? BERTA . . Berta! Sou eu. acendeu-se a luz no quarto de Berta.) Berta. dessas que se encontram em pensões de rapazes. você está aí? (Bate à porta do quarto e torna a chamar. No final da cena anterior. De repente. Rapidamente.) — Berta. Há também algumas revistas empilhadas sob a cama e também uma tesoura grande. desculpe. Alice abre a porta de um guarda-roupa e encontra uma colagem de mulheres nuas.) — Não tem importância. Berta. fecha aporta do guarda-roupa e a gaveta. Alice? ALICE (Embaraçada. não muito alto.. A luz revela um quarto muito pobre. Você não estava. Alice estd muito chocada. Aí entrei. ALICE (Chamando. ALICE — Eu queria conversar um pouco sobre. ouve passos que se aproximam. eu. Alice começa a remexer e fica muito espantada: são recortes de revistas.. levemente irônica. à porta do qual esta’ Alice adulta. com fotografias de mulheres nuas. A gaveta da mesinha de cabeceira está aberta e atulhada de papéis recortadas. bem vulgares.. sobre a saúde de meu pai. Alice. BERTA (Entrando. mas fingindo naturalidade.ALICE — Berta. BERTA (Dando de ombros.) — Procurando por mim. ninguém respondeu. Ninguém responde Alice entra.. parada.) — Sim.Menina.

Ele está ficando caduco. Desde que eu era criança. batendo como um desesperado. (Com ódio.. Vamos conversar. pede a comida no quarto e depois despeja tudo no meio dos lençóis. (Suspirando. então? Você não ouviu as batidas da bengala? ALICE — Ouvi. Ele não me parece nada bem.Ele fica batendo no chão. Quanto mais velho fica mais exigente. (Dura. ele está tão velho.. E suja toda a cama.) Mas eu não tenho pena.) Um velho caduco.BERTA — Então sente. ALICE — Ele sempre foi exigente. Há pouco ele tornou a bater. que trabalhei a vida toda. (hesitando..) — Você sabe por que é mesmo que eu continuo aqui.) — Mas está pior. diz que fui eu que fiz a sujeira toda. BERTA (Dando uma risadinha maldosa. (Ambas sentam na cama. um velho nojento.. Mas que nada. BERTA . ALICE (Penalizada.só infeliz. Eu é que sei. BERTA . coitado.. Alice? . Ele nem quer mais tomar banho. Ele é que devia ter pena de mim. Quando eu subo as escadas.) As vezes. BERTA (Rancorosa. Só. ALICE — Mas ele não é mau. E a bengala.E não está mesmo. (Com nojo. Será que tem consciência do que faz? BERTA (Desinteressada. quando vai deitar.. como se procurasse a palavra exata) . Batendo. se faz de desentendido e diz que não me chamou.) — Metade do tempo acho que não sabe.) E um inferno. De noite.) — Mas Berta.) ALICE — Estou com pena de papai.

) CENA 10 ALICE.Sempre fui como um cachorro nesta família.. RENATO e BERTA . Tenho pena.) .Estou aqui para apreciar a morte dele. Berta? Mas vingança de quê.ALICE (Sacudindo a cabeça. você: tenho pena de vocês todos. o velho. BERTA (Calma.) . Todos nós tivemos uma vida difícil. ARETUSA.. Você tem raiva de nós? BERTA — Raiva? Raiva. BRUNO. há tanto tempo.Vingança? A sua vingança. A luz acende-se sobre ele.) — A morte dele? Mas para que. meu Deus? BERTA (Com ódio e mágoa. esse vai me pagar! ALICE (Colocando com cuidado a mão no braço dela. desde crianças. BERTA (Em voz baixa. Mas o velho. parado na escada. e sempre fomos muito retraídos. Evelyn.) . PROFESSOR.Embora? Eu não! E para onde iria? Quem vai me querer. você quer ir embora daqui? BERTA . ALICE — Não é bem assim. ALICE — Não é verdade. sim. ALICE (Chocada. Você nos conhece tão bem.) — Vai ser a minha vingança.Sempre fui como um cachorro. não. ALICE (Sem entender.) — Berta. Não fale assim.. Berta? BERTA (Triunfante. Até parece que. em voz muito baixa. Renato. com ódio. agora que estou velha e imprestável? (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor.) — Não. mas firme.) .. ah.

O que é que você quer que eu faça? Eu pelo menos estou aqui. ARETUSA . ARETUSA (Impaciente. Conversamos um pouco hoje de manhã.. BRUNO (Sentando-se. Berta fica parada atrás. e eu também notei. RENATO (Irritado. também podia se interessar um pouco.) — Será que Evelyn não gostaria de descer e almoçar com a gente? Se você quiser eu subo. não é? (Para Renato. que ela age como se o menino estivesse vivo.Antes não tivesse vindo. não acha? Afinal Evelyn é sua irmã. só. Ela já comeu.) — Bem. que está desinteressado. Aretusa. ela não está louca. Alice.) — Se ninguém vai fazer nada. ARETUSA (Agressiva.) — Evelyn não vai descer para o almoço. então por que esse teatro de a gente se reunir aqui um fim de semana inteiro? BRUNO (Seco. A os poucos. os outros vão chegando. achei que estava mais disposta. o Professor caminhou até sentar-se na cabeceira da mesa. Além disso.) E você. só desesperada. para Bruno. Talvez consiga convencê-la. ALICE — Melhor? Mas Bruno. agora quer descansar.Evelyn precisa ser internada. não estou? E eu nem podia vir. Bruno é o último. BRUNO — Uma clínica particular é cara demais. mas a responsabilidade é de todos. Mas não se preocupem. . não minha.A partir da cena anterior.) — A idéia foi sua. PROFESSOR . Ficar aí parado não adianta nada. Até comeu melhor. Não foi minha. Ela está melhor.. BRUNO — Não precisa. ALICE (Cortando.) . me disseram.

) O senhor nunca foi pai: é um carrasco. isso sim. (Todos param de comer e voltam-separa ele.) RENATO (De repente. seu fracassado? ALICE (Tentando desviar o assunto.) RENATO (Em voz baixa e clara.) — Bondoso? Bondoso coisa nenhuma.Mais ou menos. Ele é um frouxo.) — Um pai como o senhor acaba com a vida de qualquer um. será que não se pode ter pelo menos uma refeição tranqüila nesta casa? BERTA (Irônica e imóvel. Não sei como isso é possível. honesto demais para ser bom comerciante.) — A única pessoa de quem o senhor gostou um pouco na vida foi Cristiano. Pior para o senhor que ele .) — Renato tem um problema: ele é bondoso demais.PROFESSOR (De repente.) — Você nem sequer tem inteligência para inventar uma desculpa melhor. para Renato. ARETUSA (Agressiva. BRUNO (Procurando aliviar o ambiente.O que é que você quer dizer com isso. Comerciante tem que ser mais safado. mas encolhe a cabeça sobre os ombros. Odeia seus próprios filhos.) — E você já viu uma refeição calma por aqui? RENATO (Pouco a pouco mais exaltado.E os negócios. (Alice serve a si mesma e a Aretusa. depois de remexer no prato com o garfo por alguns instantes. mas é verdade.) — Pelo amor de Deus.) . como vão? RENATO (Mexendo a mão no ar.) PROFESSOR . sarcasticamente. PROFESSOR (Por um momento parece que vai reagir. ALICE (Ainda tentando aliviar o clima.) .) — O senhor quer saber o que eu acho mesmo? Acho que o senhor nos odeia. me passa a água? Está tão quente.) — Aretusa. (O Professor ri. (Quase gritando.

foi ela quem lavou meu rosto depois. essa é a verdade. acho que esqueceu. (Aretusa deixa cair o copo d‘dgua. agora chega.) Nem de nossa mãe o senhor gostava. ARETUSA — Ele bebeu demais. Alice também estava lá. não? Pois eu me lembro.Lembra o dia quando o senhor esfregou minha cara no mijo do chão.) Que maravilha! O senhor ainda nem morreu e já está cheio de bichos? Quero que apodreça.. lembra? Não. Aretusa estende a mão como se fosse tocar no braço do marido.) Berta me disse também que logo antes de morrer nossa mãe pediu que ela tomasse sempre conta de nós. mas permanece sentada.Renato. pode soar a gravação da risadinha infantil. Era quase uma menina. pare! RENATO (Levantando-se da cadeira.) . Bruno olha com mágoa e surpresa para Renato. ARETUSA (Gritando. Berta me contou que nossa mãe morreu de desgosto. Ela morreu de tristeza. Ruídos de bichos dentro dos seus ouvidos. Muitas pessoas comentavam isso.) RENATO (Sarcástico.) . ALICE — Renato. Foi o que ela falou: ―O pai deles não tem coração‖. Bruno levanta-se e coloca a mão no ombro do Professor. Então os vermes estão comendo o senhor antes da morte? Que coisa mais bem feita! (Gritando. Para ela. Que confortável. Foi só isso. na janela.morreu. de solidão.. ouviu? Que apodreça! Aretusa começa a chorar. (O Professor começa a balançar a cabeça. Ele está doente. e o senhor nunca lhe deu amor nem atenção. solta um grito incompreensível. o senhor sabe esquecer. Junto com o grito. porque o senhor não tinha coração. (O Professor derruba o copo de vinho na toalha. Berta lembra. .) — Me contaram que o senhor anda escutando ruídos. Renato sai. cheio de ódio. mas desiste. Aretusa faz menção de levantar-se. para torná-lo ainda mais indistinto. Naquela vez. Ela preferiu morrer. Renato caminha pela sala e. ele bebeu demais. o senhor também foi um carrasco.

) CENA 11 ALICE e ARETUSA MENINAS (As duas brincam.) ALICE (Para Aretusa. tem gosto? . (Berta resmunga. como se fosse abraçá-la. Lá deve ter café quente. mas vai.. Venha. Você nunca viu no cinema? ALICE . sensuais e inocentes.) . bem devagarinho. ALICE — A língua? Não é meio nojento? ARETUSA (Rindo. esfregando os braços como se tivesse frio.. Os dois sobem lentamente a escada. Na vida real é de verdade. amparando o Professor.) — No cinema é fingido.. Aretusa? ARETUSA (Remota.) — Na boca.Nojento nada. claro.) ALICE (Espantada.Você não quer um café.) .) — E tem. me ajude a levar o Professor para cima. acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. Que é que tem? Depois põe a língua lá dentro. É muito melhor. E ótimo. que permanece sentada.Café? ALICE — Então vamos até a cozinha. ARETUSA (Maliciosa. mas no cinema é outra coisa.Sim.) . Aretusa? ARETUSA — Na boca. ALICE (Curiosa. Enquanto isso. (Alice vai-se curvando para ela.BRUNO — Berta.

(Alice aproxima-se. É engraçado. solta o corpo. Alice. . Aretusa abraça-a. fumando e olhando para fora.) Feche os olhos.. quer ver? (Levanta a saia.. de costas para a platéia.) — Não sei bem.Eu queria saber como é.Saber pra que? Você nem tem namorado.Mas posso ter. ALICE (Indecisa. Alice afasta-se. Se eu contar.) — Engraçado? Engraçado é o que vou te mostrar agora.) — Gosto? Você quer saber se tem gosto? Ah.) Então.Quer que eu te mostre? ALICE (Meio assustada. ARETUSA (Aproximando-se. você é louca! Você. ninguém acredita.) . Aretusa está na janela. (Beijam-se longamente. Acho que não é direito.) — Não sei. ALICE . ARETUSA — Não seja boba.Mostrar o que? ARETUSA (Muito perto.) ALICE — Aretusa.) .. isso. Alice. A cena se passa no presente. ora. gostou? ALICE (Confusa. Uma santinha! ALICE .ARETUSA (Divertida. ARETUSA .) . meio tonta.. como você é inocente.. assim. um dia..Como se beija. enquanto Aretusa acaricia os seios de Alice. você pintou de louro! CENA 12 ALICE e ARETUSA No quarto. ora. Vem cá. mas sem brusquidão. deixa eu te mostrar. ARETUSA (Rindo muito.

É que eu gosto de estar ocupada. como Bruno disse? ARETUSA (Suspirando. para mim também.) . Até tenho medo de começar a escutar o menino correndo por aí. ALICE . ALICE — Pode ser. quem sabe. Vinho me dá um sono.Ou quase tudo. Pelo menos é assim que estou me sentindo agora. mas disfarçando.) Vou me deitar um pouco.ARETUSA .O céu está ficando cheio de nuvens escuras. ARETUSA (Ambígua. (Cansada.) — Estive com Evelyn há pouco..Pensando bem.. ARETUSA — Pois para mim domingo sempre é triste.) — Alice. Deixei ela quase dormindo. não é? O tempo é remédio para tudo. Depois. Você está falando como uma velha. é tão estranho: ela não diz que Cristiano está vivo. Nem parece domingo. Acho que tomei vinho demais na hora do almoço. O tempo.) . ALICE (Divertida. Alice. (Intrigada. E aquela cena com Renato. ALICE .) Sabe. Faz apenas alguns meses que o menino morreu.O quê? ARETUSA — Nada.Coitado dele. a formiguinha laboriosa. Acho que vai chover. Fico meio ansiosa quando não tem nada para fazer.) — Eu estou velha. Você acha que ela está melhorando.Você entendeu o que ele gritou naquela hora? . Não sei. ALICE . fiquei abalada.) — Não diga bobagens. ARETUSA . ALICE . ARETUSA (De repente. ela se recupera. ALICE — Que dia mais triste.Não sei. mas age como se estivesse. Aretusa. ALICE (Impressionada. ARETUSA (Irônica.

ALICE (Insistente. Seu irmão é cheio de complexos.) . de problemas.Ele quem? ALICE . Eu lembro que levaram nós três para a casa de um vizinho. estão o Professor e o Padre. ficou escondido e viu tudo. Devia lembrar. Ouvi muito bem. tanta coisa. Ele gritou: ―Deus!‖ ALICE (Intrigada. não sei de nada. Na janela. Tem bebido muito. Aliás. fora isso não lembro nada daquele tempo. . Você sabe melhor do que eu. Você acha que ele chamou nossa mãe? ARETUSA (Segura.) — Mas o que foi que ele gritou? Pode parecer esquisito. porque já tinha uns cinco ou seis anos. Escondido. aliás.ARETUSA (Distraída. Renato observa tudo. é esquisito. Ele chamou Deus. CENA 13 PROFESSOR. uma coisa assim. não devia? Mas não lembro. Acho estranho.) Você sabia da história do enterro da sua mãe? ALICE — Não. (Noutro tom.) — Deus? Por que Renato se lembraria de chamar logo por Ele? ARETUSA (Vaga.) — Não. ARETUSA . Por causa do velho.Renato. E nós não vimos nada. ARETUSA — Ele bebeu demais. mas tive a impressão que ele chamou nossa mãe.) — Ah.Renato viu. Fugiu da casa do vizinho. sei lá. PADRE e RENA TO MENINO Nas últimas falas da cena anterior acendeu-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória Ao lado de um caixão de defunto.

PROFESSOR .) .) Deus.) Alma.. PROFESSOR.) . não precisa chamar nenhum padre.Mas Professor. Deus nunca entrou dentro desta casa! (Cobre o rosto com as mãos. A gargalhada infantil corta a cena enquanto a luz acende sobre a próxima. (O Padre queria insistir mais. Não aqui.) Não acredito nessa fantasia. E o senhor. PROFESSOR (Cortando..) serve para consolar os fracos. PADRE .O senhor não tem dever de nada .Preciso encomendar a Deus a alma desta nossa irmã.A fé é problema de cada um. Eu é que tenho o dever de expu1sá-lo daqui .. O Professor fala sozinho. só isso. Acabou. PADRE (Aponta o caixão. saia daqui. O Professor faz um gesto ameaçador e ele sai. O nosso lugar é perto dos que sofrem.Ela está morta. Saia já. PADRE (Brando.No fundo de meu coração não existe fé nenhuma.O que é que o senhor está fazendo aqui? Não mandei chamar padre nenhum. para si mesmo.. PADRE (Paciente.) . mais forte sobre Renato escondido. Ele chora baixinho. eu tenho o dever de..Mas a sua esposa. por favor.) — Nessa hora.. Deus nunca teve nada a ver comigo. PROFESSOR O seu lugar é junto dos que acredita na religião. PROFESSOR (Sarcástico. A luz diminui sobre ele enquanto incide. mas severo. PADRE . que só . No fundo de seu coração. PROFESSOR . o senhor disse alma? Encomendar a Deus? Deus? (Ri. Professor.

lembro sim. (Mostra as mãos. umas margaridas. ALICE — Ela era cheia de manias.) Olha só as minhas mãos como estão ásperas de tanto lidar na terra. Carregava sempre um saco abarrotado de coisas. está tão velha. Aretusa. bem. andei reformando aquele jardinzinho na frente de casa.CENA 14 ALICE. Vai tudo para dentro daquele saco. de tanto fazer força.) E Renato. Pois agora está ficando lindo. ARETUSA — Se eu ficasse o dia todo em casa. Alice e Aretusa procuram distraí-la. Tão inseguro. Pelo menos assim saio um pouco.) — A sua mãe? Lembro. Renato é aquilo que vocês sabem. Já está com um ombro mais baixo que o outro. ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn.A gente tem que se manter ocupada. acho que enlouqueceria. tudo. ALICE . Lembra dela. Acho até bom dar aulas. (Rindo. sei lá. (Suspirando. E completamente caduca. Plantei umas roseiras. Ela não joga fora nada. ALICE — Mas que tanto ela guarda lá dentro? ARETUSA — Ah. . Evelyn mantém os olhos fixos e o boneco nos braços. ARETUSA — E não perdeu a mania. vejo outras pessoas. Evelyn? EVELYN (Embalando o Palhaço. lembra dele? Era tão sem graça. ARETUSA — Mamãe? Coitada.) Sem falar na cozinha. ALICE — Sabe.

ALICE — Das Hespérides. ARETUSA (Sonhadora. ALICE (Animada. Jardim é uma coisa tão linda. para Evelyn. ALICE — É tão bom mexer na terra. Renato observa disfarçadamente.) — Aretusa..Mas o que é isso. acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/ Memória. Depois ver as plantinhas crescerem. um ioiô ou um carrinho. EVELYN (Distraída. plantar algumas flores. Como é mesmo? . enquanto finge estar absorvido com outro brinquedo — por exemplo.Você vai gostar. EVELYN e RENATO MENINOS Enquanto elas falam.. Já tenho alguma prática.) — Posso te ensinar como se faz. ARETUSA .Adoro jardins. Quando arrancarem o toco.) . ARETUSA. A parte.A vida brotando.ARETUSA . ALICE (De repente.. você lembra do Jardim das Hespérides? ARETUSA . Talvez essa cena possa ser feita também junto ao tronco decepado da árvore. Jardim das Hespérides.) Quando arrancarem aquele toco de álamo no pátio. Você planta num dia e no dia seguinte já tem um verdinho brotando.) — Está bem. Hes. você bem que podia fazer uns canteiros. na cena anterior. brincando..Jardim de que? CENA 15 ALICE. (Para Evelyn. EVELYN . Tem umas que crescem tão depressa. As três estão sentadas.

No colégio todo mundo me chama de Aretusa-Medusa. Ainda mais com um dragão do lado. EVELYN — Medusa não era aquela que tinha cabelo de cobrinha e matava as pessoas só de olhar para elas? ALICE (Exibida. Ah: tinha também um dragão de cem cabeças. não sei bem. cuidavam do jardim com a árvore. dançavam. Vai ver.Deus me livre! Eu tenho horror desse nome. Decerto bordavam também. ARETUSA . aquela da cobra.) — Então tá. laranja. ficar o dia inteiro cuidando duma árvore.) — Ela não matava as pessoas.E uma fruta.) — Hes-pé-ri-des.. (As três dão risadinhas e cochicham. Alice e Aretusa muito cúmplices. Mais ou menos isso. Eram umas bruxas. Ela olhava as pessoas e daí as pessoas se transformavam em pedra. No livro não explica direito. acho que elas não faziam só isso. unindo as cabeças. EVELYN — E que árvore era essa? Árvore do Paraíso? ARETUSA (Maliciosa. era a Árvore do Pecado..De dançar eu gosto.) EVELYN (Impaciente. ALICE (Meio irritada. E uma delas tinha o seu nome. Aretusa. Evelyn sem entender muito bem. princesas. ARETUSA (Querendo mudar de assunto. Só diz que elas cuidavam dum jardim onde tinha uma árvore com pomos de ouro. Era muito má.Nada. Assim que nem maçã.) — Não.Como? O que é isso? ALICE . fadas. Imagine.ALICE (Paciente e um pouco exibida.) — Bom. ARETUSA . essa era outra. Vamos brincar logo. EVELYN — Mas então devia ser muito chato.) – Mas o que mais essas Hespérides aí faziam? ALICE . cantavam. ARETUSA . .

) .) CENA 16 ALICE e ARETUSA .) . Aretusa? Você não gostou da história? ARETUSA — Da história. ARETUSA (Para Evelyn. Você tem que ser Aretusa. ALICE — Mas por quê.ARETUSA . E o álamo pode ser a árvore dos pomos de ouro.) . (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor. O dragão de cem cabeças.Mas eu acho que não quero brincar disso. RENATO (Aproximando-se.Eu quero brincar também. O que é que eu sou? ALICE .Você o quê? RENATO . gostei. ARETUSA (Maliciosa. O que eu não quero é me chamar Aretusa.Então está bem. Juro. RENATO (Animado.) . Senão me chamam de Aretusa-Medusa.) — Deixa ele brincar.) .Não pode.Por esta luz que me alumia.Você jura que não chama? EVELYN (Beijando os dedos em cruz. ARETUSA .Um guarda do castelo? Um pomo de ouro? ARETUSA (Rindo. Esta brincadeira é só de meninas.) — Não. Eu sei o que ele pode ser.Eu? EVELYN (Agressiva. ALICE — Ninguém chama.

No quarto. ARETUSA (Implicante. Pareciam passos de criança. logo depois que Renato deu aquele grito? ARETUSA . Alice? (Não parece impressionada e começa a vestir-se. O resto da família estava lá em baixo. não vai se vestir? ARETUSA — Calma. ARETUSA (Dando de ombros.) — Deve ter sido sua irmã.) Estou pronta. Só pode ter sido Evelyn. de combinação. almoçando.) — Aretusa. rápidos.) ALICE (Misteriosa. .) — E o que tem isso? Eu não me importo. (Crítica.Pareciam uns. ARETUSA — Bem.) Alice. As duas estão se preparando para o jantar. uns passos.. mas Aretusa. leves. ALICE (De repente.. fuma preguiçosamente. você não ouviu alguém correndo aqui em cima. um pouco nervosa.Que passos. ALICE — Acho que estou pronta. já vou. ARETUSA . E você. Só pode ter sido ela.) — Claro. sabia? ALICE (Dando de ombros. Alice ri. calma.) — Uns passinhos. o problema é seu. cuidado. Você ainda não tem cinqüenta anos e já vai começar a caducar? (Ambas já estão completamente vestidas.Não ouvi nada. Alice já está vestida e arruma os cabelos. ALICE .... se quer parecer mais velha ainda. por que é que você ainda usa esse penteado? Envelhece uns dez anos. em tom misterioso..) — Cuidado. ALICE (Disfarçando a perturbação. Alice.

Pena que é por tão pouco tempo. não é você quem se mexe. vamos descer? (‗A risadinha gravada finaliza a cena. Para você está sempre tudo bem. Bruno. você não pode parar com isso? Já tem tanto problema aqui.) . ao menos vamos comer em paz. Comem devagar. Claro. Talvez meio ritualístico.) — Não se meta. Amanhã a gente vai.) — E nós.Como não sabe? Eu tenho que dar aula amanhã à tarde.) CENA 17 TODOS PRESENTES No final da cena anterior. mas com certa delicadeza.) — Aretusa. Berta ajuda o Professor a sentar-se. não sei. ARETUSA (Agressiva. quando vamos? RENATO (Distraído..Tudo bem.Então. em paz.) — Acho que amanhã também. Enquanto Alice e Aretusa descem. Renato e Evelyn também sentam. . ALICE (Sorridente. RENATO (Imperturbável.) — Que bom que estamos todos juntos. Amanhã de manhã já tenho que voltar.. imitando. ARETUSA (Irritada. ALICE (Irritada. Berta coloca-se à parte. em pé Tudo é lento. tudo bem. queria só ver se ficava tudo bem. passando-se os pratos em silêncio e. a luz acendeu-se sobre a sala de jantar. ARETUSA (Para Renato.) . Alice. a princípio. ARETUSA (Irônica. Mas se não fosse eu.) — Tudo bem. Evelyn tem o Palhaço no colo.

Alice. Alice. Pegava mal você se desinteressar completamente.) O que? Você está contra mim? Mas Renato. ALICE (Espantada.ALICE (Agressiva. Você. acho bom você não se intrometer.) Não queira ser a palmatória do mundo. Nem o seu marido e os seus filhos você ama de verdade.) — Alice.. banca a escrava deles.) .Seu pai conhece você há muito tempo. Apenas aceitou porque pegava mal. não venha. que tenho dedicado aos outros a minha vida toda... Senti na sua voz. A galinha choca dos filhos. Como pode falar assim diante de papai? ARETUSA . parando de comer.) — Você não desconfia que sempre estraga os encontros da família? Não desconfia que está destruindo a vida de meu irmão? RENATO (De repente. apodrecendo! Onde foi que você andou esse tempo todo.) Você não ama ninguém. Ele conhece a família que tem. eu estou tentando defender você! ARETUSA (Cortante. ARETUSA (Lenta e cruel. já notou? ALICE . E seu pai aqui.) Isso mesmo: feliz. (Mais alto.Você não sabe o que está falando. Quantas vezes você o visitou nesses anos todos. não venha se fazer de santa. hein? (Cada vez mais alto.Nem ama ninguém.) Sua irmã meio louca de dor e você por pouco nem vinha. não tinha vontade de vir. sempre cheirando a fritura. esquecendo a aparência. (Desafiadora. apenas porque tem medo da solidão. desde .) — Ora. esfolando as mãos. Alice.) . ALICE (Indignada. levantando cedo todos os dias — e apesar de tudo me sentindo feliz com essa vida. Nunca amou.Eu não julgo ninguém. ALICE (Chocada.) — Eu? Logo eu. ARETUSA (Debochada.. Você tem a obsessão de julgar os outros. Faz tudo por eles.

. decente? Decente.) — Digo e repito quantas vezes eu quiser: Corália! Corália! ARETUSA (Cobre o rosto com as mãos. antigamente. Aretusa? Não basta Corália? ARETUSA (Gritando.Pare de me acusar! Afinal. é isso. hein? ALICE — Fiquei.. (Lenta e cruel. quinze noites. logo você? Como é hipócrita! Já esqueceu o que você fazia comigo no quarto.) O maridinho não quer isso.. Inveja. (Imitando. dez. Agora quer outra vítima. porque é independente e trabalha fora. como se fosse chorar.) Você acabou também com aquela menina.) — Não diga esse nome. ARETUSA (Irônica. Mas recompõe-se. Que ridículo! ALICE — Você tem inveja de mim..) — Duas noites? Duas noites inteiras? Mas que sacrificada. que se transformou numa morta-viva por sua culpa. quantas vezes ficou à noite com ele. mas bem que gostava..) . até o marido. Enganou a todos. a patetinha. Você não tem direito! ALICE (Fora de si.que se casou? E quando Cristiano estava no hospital.. e é verdade. Fiquei duas noites inteiras. quem é você? Pensa que só porque teve outra educação. Até perdi a conta. é melhor do que eu? Você uma vez me disse que destrói as coisas ao seu redor. E não foi só isso. esqueceu? Quando a gente ficava sozinha? A santinha esqueceu. com essa história de que só faço que ele quer. como gostava! . Ele só come a comida que eu mesma faço....) — Você. sim. ARETUSA (Vulgar. Tem inveja porque levo uma vida decente. Corália. Ah. Você estragou a vida de Renato.. não deixa aquilo.) — E você. Alice. Alice? A doméstica. Pois eu fiquei cinco. ALICE (Levantando-se e derrubando a cadeira.

Evelyn. Alice? Até o nome dele guardei. Não foi por mal.) — Tirem ela daqui! Ela está louca! (Ninguém se move. Sei de tudo. ALICE (Gritando. (Evelyn recua. a boazinha. Pensa que Aretusa já revelou tudo? Ela é louca.Pare com isso. hein? Não vá me dizer agora que era brincadeirinha de criança.) EVELYN .) Sei de tudo. Alice.ALICE . quer saber de uma coisa? Estou farta do seu teatro.) Mas o que é que todos somos? (Lentamente.. tenha cuidado com o que fala. a dona-de-casa . ALICE . Ninguém está. assustada.Alice.) — Acabou. agora tudo acabou.. Alice. Bruno a abraça protetoramente. Alice.) Acha que é a única mulher do mundo a perder um filho? Cristiano está morto. Sei a história de Matias. começa a chorar. porque não éramos mais crianças! (Aretusa levanta-se e sai de repente. sim. Vocês não sabiam.) E esse boneco nojento não vai substituí-lo.Cale-se! ARETUSA . ALICE (Afastando brusca a mão de Evelyn) . EVELYN (Afastando Bruno. um por um. parada.Sei a história de Matias. mas eu sabia.) — Não chore.É a história mais ridícula do mundo. Todos olham para Alice que. é uma ordinária. (Evelyn encolhe-se. (Aponta para o Palhaço. como se fosse tomá-lo.) . você não está segura. Está vendo. atemorizada.) EVELYN (Passando a mão no braço de Alice. Você pensava que estaria segura na sua vidinha confortável enquanto os outro iam se desgraçando? Não. Evelyn aperta-o mais nos braços.) BRUNO .O que a gente fazia. Evelyn! EVELYN (Para os outros. você mesma me contou. Alice. Convença-se: ele está morto. Evelyn. (Olhando em volta.

Alice hesita por uns momentos.Evelyn. essa sujeira. Alice? Você rolou com ele em leitos escusos.se e ajuda-o nas escadas. Tudo isso.) Sozinha na sala. e por um momento é como se fosse fazer um gesto em direção à Alice.. a cada momento. (Levanta-se e joga o Palhaço na cara de Alice... ALICE (Em voz baixa. em lençóis alheios? Ah. O Professor continua a comer como se nada tivesse acontecido. Evelyn Menina e Renato Menino. onde há um caixão de defunto e. Ela tem que se tratar. ela me contou. Acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória.. está na hora de subir. parados nos quatro cantos do palco. Apanha . Alice Menina.honesta. Boa-noite. Uma vergonha! (Gritando. mas foge de casa e vai trepar com outro homem! BRUNO (Tentando abraçá-la. E invenção dela. (Berta aproxima. O que faz com ele.) — Eu vou dar uma volta.) RENATO — Evelyn está doente. Saem. Matias. fique calma. Berta parada. Matias. Aretusa Menina. Um amante que se chama Matias. depois senta-se.) RENATO (Levanta-se inibido. Finge de santa. Pensam que não é possível. Matias só existe na cabeça dela. Renato bate ritmada e irritantemente com a faca no copo. PROFESSOR (Batendo a bengala. por favor. Vocês nem adivinham. foi inventado. sim. Você teve um amante.) — Você teve mesmo um amante.) Ela tem um amante. esse amante.) . essa traição. o que sente. Mas contém-se. mas é possível. Alice? Ou foi tudo invenção da sua cabeça? Faz diferença saber? (Levanta-se. (Sai.) -Mas o mais engraçado vocês ainda não sabem.) — Berta. como era doce com ele. Ela tem um amante! Isso mesmo: um amante. Alice. EVELYN (Desvencilhando-se.) Cadela! (Sai correndo. Bruno sai atrás chamando. é verdade.

escorraçadas. sem olhar para trás. ARETUSA — Como feras. mas logo são capazes de se dilacerar por um naco de carne. RENATO — Fomos uma ninhada de cachorrinhos que brincam juntos. a coitada. EVELYN MENINA e RENATO MENINO A luz mantém-se ainda sobre o Palhaço. a de mãos ásperas e coração agoniado.o Palhaço e senta-o no centro da mesa. enquanto eles falam. Somos bichos de focinho sujo. Feras encurraladas nesta sala. Uma gargalhada infantil corta a cena. EVELYN — Crias sem mãe. como se ocultasse no fundo coisas muito mais terríveis. menos violento — mas meu dono. ALICE — Eu tinha outros planos para minha vida. num terreno baldio. E falam sem as características das suas personagens: são como fantasmas. mas acabei sendo Alice. no centro da mesa. na moldura do espelho rachado que aceita essas imagens tão placidamente.) CENA 18 ALICE MENINA. Berta tentou nos acolher no seu avental fedorento. sem se importar se o outro conseguiu escapar. E na hora do perigo correm cada um para o seu lado. o que eu fiz com a minha vida? O quê? . ARETUSA MENINA. E a minha vida. mas não deu certo. esquisitas. animais. fui para um proprietário menos exigente. Troquei de dono quando me casei. Umas crianças solitárias. Sai.

ARETUSA. Só precisa de repouso agora. tudo bem. Alice olha devagar em volta.) . Tudo bem. ARETUSA (Acendendo um cigarro.Evelyn não está bem? BRUNO (Sorridente. Manhã de segunda feira. Ela dormiu melhor essa noite. Aretusa desce a escada. Berta está parada atrás.) .) Você me alcança o açúcar? Alice alcança.Não.CENA 19 ALICE. afetuosa. BRUNO. tomando café. Alice. vou pedir para colocarmos um . pode levar a bandeja para Evelyn. BERTA. ALICE (Para Renato. (Uma pausa. que sorri sem levantar o rosto. Chove muito. feliz por voltar para casa? ALICE (Tranqüila. Todos sorriem e tomam seu café.) Sabe. está ótima. Todos estão calmos e compostos. RENATO. de robe.) ALICE (Para Bruno. (Noutro tom. Renato e Bruno. A chuva forte dá vontade de dormir. Ela não vai descer. com cara de sono. Passa a mão no cabelo de Renato.) — Então. BRUNO (Para Berta. (Berta apanha uma bandeja com café e sai.) — Pelo contrário. para Alice. MARIDO e FILHO Na sala. numa hora em que meu marido estiver de bom-humor. Há uma toalha limpa sobre a mesa onde estão Alice.) — Você não ficou dolorido? Duas noites seguidas naquele sofá acabam com as costas de qualquer um. Aretusa.Feliz. RENATO .) — Berta.

Em outro plano. Renato Menino preparando a arma.com/group/digitalsource http://groups. num soco . Ninguém diz nada. O Marido e o Filho estão à mesa. acendem-se luzes e sobre algumas das cenas já’ vistas . Ou de brusco. etc.com/group/Viciados_em_Livros . Evelyn embalando o Palhaço.talvez com a gargalhada infantil. em resistência. Nos outros planos. se acariciando. Dizem que dá impressão de mais espaço. São como quadros vivos. O que é que você acha? ARETUSA (Sorridente. tornando café. Berta recortando revistas. acende-se a luz sobre a sala da casa de Alice. exatamente como na primeira cena do primeiro ato. As duas se olham longamente.) -. Porto Alegre.google. calor de 40º. o Professor no quarto. (Em fevereiro de 1984.) http://groups. A luz apaga lentamente. Ou fantasmas do passado que continuam a habitar a casa.espelho grande na sala lá de casa.Corália na cadeira de rodas. Passa o leite? Alice estende-lhe o bule de leite.google. Alice e Aretusa adolescentes.

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