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Teatro Completo

Governador do Estado
Antonio Britto

Secretário da Cultura
Carlos Jorge Appel

Diretora do Instituto Estadual do Livro
Tania Franco Carvalhal

Conselho Editorial do IEL
Donaldo Schüler, Henry Saatkamp, La Masina, Luiz Antonio de Assis Brasil, Rita T. Schmidt, Sergio da Costa Franco, Sergio Faraco, Tania Franco Carvalhal (presidente, Secretária: Agata Pamplona

DEDALUS - Acervo - FFLCH-LE 21300123222

Outras obras do autor pela Editora Sulina Ovelhas Negras (1995) Inventário do Ir-remediável (1995) Pequenas Epifanias (1996)

Caio Fernando Abreu

Teatro Completo
Organização e prefácio: Luiz Arthur Nunes

Editora Sulina
Porto Alegre

1997

© 1997 by Abreu, Caio Fernando Capa: concepção e produção de Paria Comunicação Projeto gráfico: Bentancur Artes Gráficas Assessoramento de edição e revisão: Paulo Bentancur e Raimundo Fonteneie Editor: Luis Gomes CIP - BRASIL CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Bibliotecária responsável: Rosemarie Bianchessi dos Santos — CRB 10/797

C719a Abreu, Caio Fernando Teatro Completo / Abreu, Caio Fernando Porto Alegre : Sulina / IEL — Instituto Estadual do Livro, 1997. 224 p. : ±1. ISBN 85 205 0132—x CDU 070

Índices alfabéticos para catálogo sistemático 1. Teatro completo. Título Todosos direitos desta edição reservados a,,, ORGANIZAÇAO SULINA DE REPRESENTAÇOES S. A. Editora Sulina Rua Riachuelo, 1218 — 2° andar — 90010-273 Fone: (051) 228-1249 Fax: (051) 228-0734 E-mail: sulina@sulina.com.br Home Page: http://www.sulina.com.br Distribuidora Sulina Rua Cel. Genuíno, 290 — 90010-350 Fones: (051) 226-3866 — 226-3786 Fax: (051) 228-9146 Porto Alegre — RS

IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

ÍNDICE PREFÁCIO .................................................................. .7 PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA ............. 11 A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS ................................. 41 ZONA CONTAMINADA ............................................... 61 O HOMEM E A MANCHA ........................................... 95 CENAS AVULSAS ........................................................ 129 DIÁLOGO 1 ................................................................ 131 DIÁLOGO 2 ................................................................ 133 DIÁLOGO 3 ................................................................ 133 DIÁLOGO 4(0 Aborto) ................................................ 134 DIÁLOGO 5 ............................................................... 135 SARAUDAS9ÀS11 ....................................................... 137 1° QUADRO (Overture) .............................................. 139 2° QUADRO (Como Era Verde o Meu Vale) ................ 142 3° QUADRO (Bonecos Chineses) ................................ 144 4° QUADRO (Eles) ...................................................... 151 A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO .................................. 153 REUNIÃO DE FAMÍLIA ................................................ 181

Caio também cultivou a literatura dramática. Não concluiria o curso. teatro.. que a ficção que escreveu não foi apenas narrativa.PREFÁCIO Caio Fernando Abreu é reconhecido como um dos ficcionistas mais brilhantes da literatura brasileira contemporânea. é interessante a significação que teve o teatro infantil para este solteirão empedernido que detestava crianças (a quem costumava . prazos e currículos. Avesso à rigidez de programas. O significado e a repercussão da parte conhecida de sua obra eclipsou essa segunda vertente. nas salas de espetáculo. conhecia todo mundo da classe teatral. mas não menos importante. via tudo. Poucos sabem. cursávamos o CAD. épica: contos. foi mais do que um espectador aficionado: tornou-se um homem de teatro. que se iniciava — assim como ele na literatura — na descoberta apaixonada de uma forma de expressão. as que ele compôs diretamente para o palco. Caio era dos que estavam sempre junto. novelas e romances. nas salas de ensaio. mas sim às peças de teatro.. nas mesas de bar onde o assunto era teatro. teatro. o palco que ele tanto amava. Não de imediato. Naquela época. Não me refiro aqui às várias adaptações feitas para a cena a partir de suas histórias. a sua geração. mas nem por isso menos alto e profundo. Aliás. porém. assim como também não concluiu o curso de Letras. fazendo o papel de um vovó com uma barba branca de algodão. Nos fins da década de 60 era apenas o amigo querido da nova geração de atores e diretores de Porto Alegre. Lembro-me dele numa peça infantil da escola. Não demorou muito e Caio tornou-se nosso colega. Caio sempre adorou teatro. porém. No entanto. num mergulho sem método. preferia passar pelas coisas como num vôo. menor. o Curso de Arte Dramática da Faculdade de Filosofia da UFRGS.

conheceu o palco por dentro. uma deliciosa e tocante performance de comicidade e lirismo. Mas podia acontecer . foi retomado e ampliado dez anos depois para ser montado como um espetáculo completo. Caio e eu pisamos juntos o mesmo palco em 1976. quando. Ele excursionou vários meses pelo Rio Grande do Sul atuando na montagem do Serafimfim-fim de Carlos Meceni. e Caio fazia justamente o papel do. E muito café e os milhares de cigarros que ele fumava. Fabricar uma obra de arte a dois é em princípio algo dificílimo. O último deles. A Maldição do Vale Negro. Como vêem.. estreada em Porto Alegre sob a direção de Suzana Saldanha. Essa recriação. foi feita novamente em colaboração. repetiu publicamente em duas ocasiões.chamar de ―crionças‖. fiquei sabendo. e nós os escrevemos a quatro mãos. ele foi autor de verdade de um texto para ―crionças‖. embora bissexto. dirigida por mim. na casa do ator Carlos Moreno. Via de regra. Algum tempo depois. autor da história recontada. Essa leitura ficou-me na memória como uma. O Sarau era uma peça de esquetes. E bom ator. A última vez que comprovei esse fato foi quando da leitura que ele fez de sua peça recém-concluída: O Homem e a Mancha. A peça era uma recriação do Chapeuzinho Vermelho. Nara Keiserman e José de Abreu.. uma encomenda do Teatro Vivo de Irene Brietzke. no espetáculo Sarau das 9 às 11. A Comunidade do Arco-Iris. latinhas de cerveja e pizzas por telefone. já doente. realização do Grupo de Teatro Província. redigíamos juntos: a frase que um inventava puxava a frase do outro. voltara a morar em Porto Alegre. Tinha sido fácil nos esquetes do Sarau e continuou sendo na segunda versão da Maldição. Caio foi autor. Mas não para nós. no apartamento de Caio na Haddock Lobo em São Paulo. para quem a escrevera de encomenda. Performance que. principalmente quando sua algazarra atrapalhava seus preciosos momentos de criação). junto de Suzana Saldanha. durante os feriados de carnaval. Foram quatro dias de gargalhadas. como também ―de pena‖... Então fomos parceiros não só ―nas tábuas‖. e com enorme sucesso.

A de Porto Alegre. de Lya Luft. não fôssemos nós dramaturgos siameses. eu refiz repetidas vezes e de variadas formas em outros espetáculoscolagem. foi dirigida por mim e musicada pelo também saudoso Carlinhos Hartlieb. que Luciano Alabarse teve o privilégio . Love. A primeira investida independente de Caio na dramaturgia foi com Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. e a admirável adaptação para a cena. o Diálogo do Companheiro. a Censura Federal a interditou em todo o território nacional. ―Fundiu-se‖ é a palavra. Caio produziu cinco diálogos curtos. que ele fez do romance Reunião de Família. Graças à montagem carioca de A Maldição do Vale Negro. dividimos o Prêmio Moliére de melhor autor de 1988. Só sei que a obra foi premiada num concurso do então SNT (Serviço Nacional de Teatro) e selecionada para leituras públicas em todo o Brasil. O Aborto. acabou fundindo-se à peça de minha autoria. Seguramente logo após os anos que ele viveu em Londres. Zona Contaminada. montagem de 81. serviram-me também de excelente material de exercício em minhas aulas de teatro. Todos esses diálogos de uma página ou menos. As obras teatrais de Caio Abreu s quais o meu nome não esteve de nenhuma forma associado (fora o caso de seus contos e novelas teatralizados) são a já citada Comunidade do Arco-Iris. que ele o dedicou a mim na abertura de seu livro de contos Morangos Mofados. O primeiro deles. montada pela primeira vez no Rio de Janeiro por Gilberto Gavronski. Love.também de um escrever uma cena e do outro retocá-la. 1977. experiência que aparece transfigurada na peça. Pouco tempo depois. no Teatro de Arena. Interferíamos reciprocamente em nossas invenções sem nenhum constrangimento. uma pequena obra-prima. Que sintonia era essa? Era como brincar juntos. Uma outra dessas cenas avulsas. Uma outra vez em que brincamos de teatro foi quando precisei de textos para um novo espetáculo de esquetes: deColagem. Love. nos inícios dos 70. Não saberia precisar a data em que foi escrita. Tamanha a minha ―obsessão‖ por esse texto.

mesmo inconfessados. o contar vira representar. e ela terminou nas minhas mãos e nas do ator Marcos Breda. estamos a uma semana da estréia de O Homem e a Mancha.de encenar em Porto Alegre. o Garoto Bombril não quis realizá-la. Esse trabalho é a melhor comprovação de que Caio foi dramaturgo de fato e não um narrador por diletantismo pondo em diálogo suas histórias. Quando a recebemos de um Caio já debilitado. Na operação por que passou em suas mãos o livro de Lya Luft. Luiz Arthur Nunes . outro amigo seu do coração. ele nos disse: ―Façam logo para dar tempo de eu assistir‖. Não há motivo para ciúmes. Certamente ele não vai perder. Afinal. na maior parte da sua produção teatral eu estive presente. Porto Alegre. No momento em que ponho ponto final neste prefácio. 14 de novembro de 1996. Por impedimentos normais. Ele sabia e dominava a diferença de gêneros. A parceria interrompida por um tempo já foi retomada. Não faz um ano que Caio nos deixou. a narrativa vira cena. coisas da vida. Sua última peça. não assisti nenhuma dessas montagens. Curiosamente. Minha analista com certeza detectará algum ciúme meu vendo Caio fazer teatro com ―outros‖. Será no Theatro São Pedro. o épico vira dramático. O Homem e a Mancha.

PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA Peça em 1 Ato Prêmio Serviço Nacional do Teatro Texto selecionado para leitura .

guarda-roupas. lixo. cadeiras rasgadas. CENÁRIO Sala de uma casa abandonada. Na verdade. e até mesmo objetos absurdos que ficam ao gosto do diretor. parece mais um quarto de despejo.PERSONAGENS JOÃO • LEO • BABY • MONA (CARLINHA BAIXO-ASTRAL) • ROSINHA • ALICE COOPER • ANGEL São todos muito jovens. . enfim. espelhos quebrados. atulhado de objetos fora de uso: colchões furados. Entre 20/30 anos.

CENA 1 Quando a ação começa. Acende e deposita em cima de um móvel. falando inglês as possibilidades de comunicação são muito maiores.. Ei. BABY . A luz de uma lanterna vai revelando alguns objetos. meu santo. cara. Baby! BABY — Do fundo das trevas só o silêncio nos responde. irmãos.) — Mania de falar inglês.) Merda! LEO — Que foi. A lanterna pertence a João.. (Esbarra num móvel. (Tira uma vela do bolso.. No meio do caminho tinha uma porra. JOÃO — Cala boca. Yeah! Everybody now: tinha uma porra no meio do caminho.. LEO — João. se tiver alguém morando a gente fica logo sabendo. Tão lentamente que chegue a ficar monótono e angustiante.Tinha uma porra no meio do caminho. LEO — Fala baixo.. por exemplo. a cena está completamente às escuras. cara? Que barulho é esse? Tem alguém aí? JOÃO — Não. JOÃO — Melhor. A luz aumenta. vem cá. Quando você está no mundo. onde é que você está? JOÃO — Aqui. Tem uma porrada de coisas.Anybody here? LEO (Baixo.Língua internacional. tem alguém aí? BABY . Pode ter gente aí.) Aqui. Com . BABY . podemos colocar uma cortina de veludo cor de vinho.. Só uma porra no meio do caminho. Acho que podemos instalar aqui os nossos domínios.

rosas não. E claro que teremos sempre flores. João — Falar nisso. cozinha com fogão. Acho sonoro. de manhã sempre acontece alguma coisa. vizinho. Tulipas da Antuérpia. What you think about. my fellow? LEO . BABY — Eu por mim fico aqui mesmo.franjas douradas.E também pode não acontecer nada. Ou papoulas. BABY — Basta chamar Mona e sua varinha de condão. A gente ficar aqui. Fico preocupado com a Rosinha naquela chuva. é claro.Você acha que não vai ter problema? BABY — O que? Importar tulipas ou plantar papoulas? LEO — Não.) — Olha. Hmmmm. igual àquele que tinha na casa da vó Manca. LEO — Por que dez pras sete e não vinte pras oito? BABY — Porque eu gosto. Sei lá. muito vulgar. JOÃO . Estético. I like so much. essas coisas. Aqui no canto acho que ficará de extremo bom-gosto um aparador com tampo de mármore. cara. igual àquela que tinha na casa da tia Nenê. o dono da casa. As coisas mais importantes da minha vida sempre aconteceram às dez pras sete.. eu acho que gente pode ficar pelo menos até amanhecer.. As dez pras sete. LEO — E ainda por cima tem aquela chuva lá fora. Até nem tá muito estragado. polícia. Por mim fico morando aqui o resto da vida. Rosas. Depois. Não. Qualquer jeito não temos mesmo para onde ir. um monte de coisas. Assim poderemos fabricar nosso próprio ópio. JOÃO (Acende outra vela e deposita sobre outro móvel. Que é que vocês acham? . A gente pode dar um jeito. Importadas diretamente dos Países Baixos. banheiro. Melhor tulipas. Sempre acontece alguma coisa. tenho que chamar as outras pessoas. Já viu lá em cima? Tem três quartos.

não é? Tudo está bem quando termina bem. eu me sinto como se tivesse acabado.. Fica com medo não.Bem. Leo.) CENA 2 Silêncio. LEO — Não sei.. BABY — Olha. JOÃO — Deixa de ser besta. Leo concorda em silêncio.. LEO — Mas pode ser que. volto já. Sabe. Parece um depósito de lixo. sei lá. tão sujo. Não vai acontecer nada. e nós não vamos viver? JOÃO — Sim. a gente chamou e ninguém se manifestou. tira uma vela do bolso... Pode ser que voltam daqui a pouco.Eu não sei. Não gosto nada disso. No máximo. parece que tudo vai terminar bem. eu vou lá fora chamar os outros. Não tenha medo. Leo. Afinal. cara se você der uma voltinha na cidade ou olhar pela janela vai ver que o depósito de lixo lá de fora é muito maior! . as pessoas tenham saído. Leo rói as unhas e olha em volta lentamente. Baby começa a dedilhar o violão. Parece que nada mais vai ser bonito outra vez. não é assim? Pelo menos a gente já tem onde dormir esta noite. tão rebentado. acende. Você acha que alguém pode viver no meio deste lixo todo? BABY — Ué. sei lá.. amanhã pinta a polícia e manda a gente embora. (Sai. um pouco assustado. dá um jeito... Tudo tão velho. mas é diferente. não.LEO . coloca ao lado das outras duas e senta num canto. Amanhã a gente arruma umas vassouras e. E se tiver alguém morando? BABY — Ué. JOÃO .

LEO ..Nisso o quê? LEO — Nisso que você acaba de cantar... Assim.. vasto mundo e eu nem me chamo Raimundo. Thing like that.mesmo furado. If I Called Myself Raimundo.Que música mais doida. Um canto e um papo furado... meu santo.Quando a gente está se sentindo assim é só olhar em volta . Eu sei de agora.. RRRaimundo. Acabei de compor. Nem sequer de que estou realmente vivo. BABY — Pois devia. A gente dá o tal look-around e canta. Deixe ver. um pobre cego mas com o olho bem aberto: uma canoa furada um barco sem fundo tudo é mundo e o céu é perto tudo é mundo e eu navego tudo é mundo e eu navego tudo é mundo..dar o tal de look-around -. um tostão faz de conta. De onde foi que você tirou esse negócio? BABY — Da minha cuca. certeza eu não tenho mesmo de nada. Sem saber inglês você nunca vai subir na vida. ué.. fria lá de fora. Um vintém. Ladies and gentlemen. um teto furado? BABY — Olha.. você acha que basta mesmo um papo furado. my last song: Se Eu Me Chamasse Raimundo. LEO — Me diz uma coisa: você acredita nisso? Você tem certeza absoluta que acredita mesmo nisso? BABY ... também.. Não tem importância. quer ver? Eu quero mesmo muito pouco eu quase não quero nada de tão pouco que eu quero. Talvez eu seja muito louco mas basta um canto e um teto . me entende? Agora basta um teto. quero dizer. Ninguém entende nada de nada e enquanto tudo cai eu canto por quase nada. Ei.Eu não entendo nada de inglês. Pode ser que.. Olha. Amanhã não sei. aí você vai ver que não está tão mal assim. Que sarro esta pronúncia. como é que se diz isso em inglês? LEO . Sei lá. Baby. é melhor do que ficar naquela chuva. quer saber duma coisa? E .

Não tá com nada. / Chegou Mona. você está com uma cara péssima! O que foi agora? Não está gostando do nosso novo lar? BABY — Não é nada. inimiga do mal. Não aprofunda não.. vê. Rainha do Alto-Astral. Nossa. Pensar acabou. go home! / Más vibrações. LEO . Hare Rama / Hare Rama. Baby? Abaixo a razão e o pensamento! O negócio é só sentir. Quando a gente aprofunda demais acaba caindo sabe onde? No inconsciente coletivo. Os arquétipos. Já não falei pra você que intelectualismo não é comigo. Vê.. / Chegou Mona. depois entrega uma varinha para cada um. Leo. O tal de inconsciente coletivo. Hare Rama.) Pra espantar os maus fluídos. Hare Rama / Rama Rama. não. Hare krishna / Krishna Krishna.melhor não aprofundar muito.. CENA 3 Entra Mona. Já ouviu falar num cara chamado Jung? Mais ou menos isso. MONA — Sabe com eu era antes? Um monstrinho de óculos cheio de problemas gênero ―será que vale a pena viver? — ninguém me . BABY — Imagine como você não era antes. / Forças do Baixo-Astral / fora daqui. não se usa mais. MONA — Hare krishna..O quê? BABY — In-cons-ci-en-te co-le-ti-vo. Desde que parei de ler fiquei muito menos neurótica. Me dá um cigarro.. distribuindo beijinhos. MONA — Corta! Lá vem você de novo com esse papo xaropento. sacou? Papo furado. go home! (Incensa um pouco a sala. só sentir. Traz uma bolsa enorme. Pensar já era. uma vela acesa e duas varinhas de incenso na mão. / Más vibrações.. não. meu irmão. vê.

Sou Mona. corta! (Acende mais uma varinha de incenso. Não necessariamente morte física ou espiritual mas. eu sei. sabe duma coisa que eu aprendi? O segredo do belo está aqui. Deve ter um . para fechar o triangulo. (Dá umas voltas enquanto Baby dedilha no violão.ama. quanto dá? BABY — Dá treze. não quero nem saber. Cinco mais oito. E se você está querendo saber qual é a carta do Tarot que tem o número treze. Mas Morte pode ter muitos sentidos.. Já vi coisa pior. Corta essa. sei lá. Mas o que tem isso? MONA — Como o que tem isso? Esotericamente é um dado importantíssimo. não.Ei. É cinqüenta e oito. Agora chega. Olha. (Depositando a vela ao lado das outras. transmutação.Quer dizer então que a sua bed-trip continua a mesma? Puxa. oh.. fim de um ciclo. é a morte. MONA — Corta..) Mas deixa eu dar uma olhada no nosso novo lar.. Ninguém me ama ou qualquer coisa do gênero. O número sempre diz como vai ser toda a transação da coisa. começo de outro. renovação. no seu olho que realmente vê. você sempre acha tudo um lixo.) Três. Se você souber olhar as coisas dum jeito mágico. LEO — Onde? Na lata de lixo? MONA .. me diz uma coisa: você olhou o número da casa? LEO — Eu olhei. Além disso. Baby. Ah. renascimento. Treze é morte mesmo. Na sua cuca. que papo é esse? MONA — É. ninguém me quer — o que vou fazer do meu futuro?‖ essas porcarias. tem também o cinqüenta e oito. corta. tudo fica mais bonito.. Cinqüenta e oito? Cinqüenta e oito. deixa ver.) Não tá mau. LEO — Mágico? Nem que eu fosse o Merlin conseguiria achar bonita essa merda toda. a Rainha do Alto-Astral. LEO . dentro de você.

. Deixa ver (Abre a bolsa e tira um livro enorme. Gêmeos ou Sagitário? MONA . consulta-o.significado positivo.. pode ser Libra. a transmutação.. MONA — Acredito.. O seu olho tem qualquer coisa de. Cinqüenta e oito. Mas até onde não me enche a cuca de grilos idiotas.. Escorpião. a trans. Mudanças desfav.. muito irônico para Libra. BABY — Qual é Mona? Escondendo a jogada? (Tomando-lhe o livro.. mas não sei não. E essa transação do inconsciente coletivo.) — ―Sofrimentos morais.Ah. Você é sarcástico demais para ser Libra. sim. meu Deus. o centauro com os pés na terra. Querendo voar junto ao o satã.. mas deve ser qualquer coisa bodiante. muito doce para Escorpião. Arrependimentos estéreis e acerbos‖. . quer dizer que é um dos quatro... não diga. Claro... BABY ... qual é o seu signo? Não. Remorsos.. de Sagitário..‖ MONA — Chega. Talvez Gêmeos. O que é acerbos? MONA — Não sei. BABY — Libra. não tanto quanto um Escorpião.) Ah.) Aqui.O que foi? MONA (Tentando disfarçar... muito calmo para Gêmeos. BABY (Continua lendo.) Essa transação de música pode ser.. E por falar nisso. não você não é tão inteligente assim. é? Deixa ver. Perigo por todas as partes. Decepções n& projetos.. deve ser Sagitário. melhor esquecer essas coisas. (Observa Baby atentamente.. Ações repreensíveis. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah. BABY — Ué.) — Nada não. Não vale a pena ficar se grilando à toa. Pode deixar que eu adivinho.. você é que acredita nisso. Pois é. esse fogo. quatro de espadas: ―Perigo eminente. Só pode ser Sagitário.

A-do-ro! MONA — Então é Sagitário mesmo! BABY . Afinal. Meu ascendente é Touro. ainda não. De vez em quando até solto umas fumacinhas pelo nariz. Daqui a pouco vem o fim dos tempos e quem não for mágico não vai escapar. não. MONA — Mas é fogo. claro. LEO . o quanto antes — eu sei o que digo. hein? Vocês precisam despertar o quanto antes o ser aquariano que dorme no fundo de vocês. sabia? Está na cara que você é fogo. não pode ser.Não. terremotos. os seus poderes ocultos. Foi por isso que eu me confundi um pouco. . minha reputação está em jogo. Mas você deve pelo menos ter um ascendente em Sagitário. a quem não for mágico. meus irmãos. BABY — Pode ser. maremotos. Tenho direito a uma pergunta? BABY .BABY .Vai firme. MONA — O quê? Leão? Ah. Tanto Leão como Sagitário são signos do fogo. fogo caindo dos céus — tudo de bodiento que você possa imaginar. MONA — Você gosta de vermelho? BABY . Sou Leão. O quanto antes. baixo-astral? Tomem muito cuidado vocês dois.Errou. Vão acontecer coisas medonhas a quem não estiver desperto. é a primeira vez em toda a minha vida que erro. MONA .O que é que você está rindo. você não tem? BABY . meu Deus? MONA — Das inundações.Tem certeza? MONA — Não.Mas escapar do quê.

. MONA — Baby.. 3 sacerdotisa oriental.Mas você não tem cara de mágico. quando chegar o Apocalipse é que a gente vai ver. eu sou eu sou amor da cabeça aos pés.. parece que a tua vibração não está harmonizando com a minha. Para dizer a verdade.) — Chutando. Papo furado. BABY — Apocalipse.) — Vade-retro. chutando. Sei porque sou um espírito muito velho.) Ser eu sou.. eu sou. BABY — Passado. LEO — Ei. Nem de fogo. meu irmão. Vai ser difícil: tenho Vênus na décima primeira casa astral. Eles foram comprar alguma coisa para comer. presente e futuro. MONA (Incensando a cara de Baby. tive três encarnações no Tibet. já abri as sete portas. Baixo-Astral. Você está a fim de me irritar. não.O que é que tem a Rosinha? .) MONA — A Rosinha não está nada bem. recolha-se s suas trevas sagitarianas. sete moradas da minha mente e a minha Kundalini já subiu no mínimo até o quinto chakra. por apenas dez cruzeiros. duas no Egito e uma em Atlantida — para falar só neste planeta. Por que é que você não corta esse papo furado e vem me dar uma força aqui? (Leo e Mona começam a ajudar. em Libra. Onde é que estão as pessoas? Alice. Vinte com mais detalhes. Cada consulta dá direito a um brinde: uma bola de cristal inteiramente grátis. (Canta. Tudo com Madame Mona Yoiara. João. com essa cara você deve ser mesmo é Peixes: um bode só. LEO . meu amor. Estou em contato direto com forças paranormais. como é que você sabe que eu sou Peixes? BABY (E começando a empurrar alguns objetos. Apocalipse é esse lixo todo aqui. Pode agredir. Rosinha.

Olhe só em volta: já temos uma casa. MONA — No escuro ninguém nota. BABY — Claro que você prefere a segunda hipótese. meus guias do Oriente. Baby. não é. tudo historinha. (Arrumam alguns colchões como sofas. Mona remexe no meio de algumas coisas e encontra um vaso com flores.. Devem ser só as pessoas chegando. Se caprichar nesta.) Você acha que aqui fica bem? LEO — Silêncio! Vocês também ouviram? Tem alguém lá fora.) (Entra Rosinha. tenho certeza que é a polícia! BABY — Historinha. Você sabe muito bem que eu sou andrógina.) Olhem só que bom presságio: flores! LEO .. menina? Está tudo bem agora. Você não gosta? . Acho que estou pagando todo o meu Karma nesta encarnação. (Ajeita o vaso num canto. amparada por Baby e João. MONA — Sem essa. é você? JOÃO (0ff) . João. Pode desamarrar o bode. cara? Mulher é isso aí. Mutante da Era de Aquário. Será que é fantasma? Essa casa é tão velha. ) MONA — Que é isso. Ou então venho homem. Inconsciente coletivo outra vez. Me ajuda aqui. desencarno de vez. LEO — É a polícia. (Baby sai para ajudar João.MONA — Gravidez. na próxima vou para o espaço.Sou eu. historinha. Um bode. A Rosinha está passando mal. deve estar cheia de más vibrações.De plástico. Mona corre a acender mais ama varinha de incenso. Ela geme sempre. Não tem mais essa de se sentir mal. MONA — Ai.

(Começam a cobrir tudo com panos. Nós até tentamos arrumar um pouco isso aqui. Mas não tem nada. não sei. tive uma idéia maravilhosa. Puxa. Na minha bolsa tenho batom. JOÃO — Ficou bonito.. fica aqui comigo. Tenho certeza que vou encontrar coisas ainda mais maravilhosas. claro. Já vai passar. (Vai retirando coisas de dentro de um baú).. Vamos transformar isso aqui num castelo.) Olha. LEO . vejam só o que eu achei: um monte de roupas. Já está quase parecendo uma casa. sombra. Lá fora estava chovendo. JOÃO — Alice foi batalhar pão. Daqui a pouco eu fico boa. não consigo nem olhar para fora de mim. podemos fazer uma coisa ótimo uma festa à fantasia! O que é que vocês acham? (Ninguém parece muito entusiasmado . MONA — Baixo-astral. parece que tem coisas incríveis. sem dizer nada? Eu me renego a curtir bode. Me dá tua mão. Tem até flores.exceto Baby. Vamos fazer uma festa enquanto o dia não . Baby. JOÃO . Sinto uma dor horrível aqui. não apareceu ninguém? LEO . LEO — De plástico.Você demorou tanto. qual é a de vocês.Foi a Rosinha. hein? Vão ficar a noite toda com essas caras de velório. ROSINHA — João. purpurina. MONA — Ei. pessoal. Já que a gente vai ficar aqui a noite toda e ninguém vai dormir..ROSINHA — Ah. fazia frio. Como é. BABY — Não apareceu nem vai aparecer. tá sabendo? Me re-ne-go. quentinho. também.. me ajuda a cobrir esses colchões.) Meu Deus.. Eu. MONA — Está maravilhoso. Aqui está bom.Ainda não. Mona..

. Uma pirata bom. Agora você.. Um pirata.) Levante um pouco a cabeça.) Um ser todo feito de luz entrou no seu corpo e plantou essa semente em seu ventre.. João? Você distribuía todo o ouro roubado entre os pretos de uma aldeia na costa de Madagascar.) Pronto: aqui está a manjedoura. Assim. (Começa a vesti-lo. quando Alice chegar. Ela adora visual. eu não sei.. MONA — Pois eu sei. de absoluta pureza. (Coloca um cesto de palha aos pés de Rosinha. Eles adoravam você. encontrar todo mundo colorido. Olhe por cima de todo mundo. Você foi tocada por forças mágicas enquanto dormia.. oferecendo o maior visual.. incendiava.. das máquinas. mas sempre acho que você grávida assim parece a Virgem Maria.chega? Já pensou.. todo esse amor. roubava todo o ouro e depois . Pode ser loucura minha. A cada dia você sente que chega mais perto o momento em que o seu ventre explodirá.) — Tem sim. você está muito pálida.. senhora. do desamor. Agora faça um ar de.sabe o que você fazia... do medo. Batom.. ROSINHA — Ah. numa boa. Um pouco de ruge. Sabe que é assim que eu vejo você? às vezes até penso que você deve mesmo ter sido um pirata numa outra encarnação. Já pensou? O seu filho pode ser até o próprio Cristo da Era de Aquário? Você precisa corresponder à nobreza do seu futuro filho.. Pode crer. matava aqueles fidalgos gordos cobertos de seda. Você.. para bem longe. uma vez o feiticeiro da tribo fez uma tatuagem no seu . Isso aqui é o seu manto virginal. jogando para fora toda essa luz.) Você assaltava navios armados até os dentes. violava todas as mulheres. (Acende uma varinha de incenso e vai incensando Rosinha enquanto fala. MONA (Começando a vestir Rosinha. menina. da sujeira. da violência. eu não tenho jeito pra essas coisas. João.. Rosinha tenta sorrir. deixa ver. da hipocrisia. Mona. o que é que você quer ser? JOÃO — Ser? Eu. Deste então você sabe que no seu interior está crescendo a única coisa capaz de salvar o mundo da loucura. (Afasta-se para olhar. Então nós todos estaremos salvos.

LEO — Mona inventa estórias. Só nesse dia você mostrará o seu verdadeiro rosto dourado e tocará seu alaúde para que todos fiquem contentes e sintam amor.) Você vive num castelo sobre a montanha mais alta e mais escarpada. e você está esperando esse reino. Eu sou Leo. MONA — Eu sei.peito. você ainda está vivo.Eu sou Leo.) Um círculo mágico fechou todo o seu corpo. um reino de paz e amor. Mas um príncipe solitário. Você só poderia ser morto no dia em que esse pedacinho do seu peito fosse atingido. LEO . porque você não pode se mostrar como realmente é. .Eu quero ser um príncipe. só nesse dia todos vão saber que você sempre foi um príncipe. o ritual durou sete luas novas. ROSINHA — Mas por quê.. Mas você se sente sozinho no meio deles. que ninguém o entende. você atravessou os séculos e continua sendo aquele mesmo pirata. esse. Leo. quando o encantamento quebrar e o seu reino for revelado. sempre com vontade de voltar para o mar. isso é tudo. E você. elas não sabem que você é um príncipe. menos esse círculo. de paz e amor. um pirata um pouco perdido no meio das cidades. MONA — Você é um príncipe. Então você tem sempre a sensação que ninguém o conhece. (Começa a vesti-lo. BABY . Eu não quero ouvir estórias.. signo Peixes. Alguém lhe prometeu um reino certa vez.. Você anda sempre disfarçado.. (Vai desenhando com batom no peito de João. Leo? Mona inventa estórias tão bonitas. Do que é que você quer se fantasiar? LEO — Eu não quero me fantasiar. E assim ainda não aconteceu. As vezes você desce a montanha e vai até a vila e tenta conversar com as pessoas. Você está sempre esperando o reino que prometeram. Só nesse dia.

. Tudo isso está dentro de você. Baby não é um príncipe. esse que o seu olho sujo vê.Mas eu não posso fingir que não estou com fome. procure sentir amor. suja e doente. O seu olho daqui é que transforma tudo. uma árvore. meu irmão. A sua cuca é que é feia. a mente pode te alimentar com flores. Voe. Eu não posso fingir que viver é uma coisa boa. Rosinha não é a Virgem Maria. Sei lá. Isso aqui é uma casa abandonada. na sua mente. Porque você não consegue ver além do chão. LEO — Eu não consigo. que nós somos mágicos e encantados. Eu não posso fingir que isso aqui é um castelo. Só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas. Eu não estou fazendo nada de errado. cheia de lixo. o feio e o doente das coisas. Olhe pra mim: faz mais de uma semana que não tomo banho . tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto. Eu não posso fingir que este lugar é bonito. Invente. nada é maravilhoso. E vou lhe dizer porque. MONA — Faz de conta.. na sua cuca. um pássaro. O que é que você quer que eu faça? MONA (Mansa.) — Tente. Pelo menos sorria. A gente só consegue ver o que está dentro da gente. Aqui. Sonhe. meio loucos e sem ter sequer onde dormir. E você só consegue ver o sujo. O seu jeito de olhar. Você é exatamente igual a esses cinzentos todos que estão lá fora. não é um castelo: nós somos uns coitados mortos de fome. O que acontece é que você ainda não aprendeu a olhar. não somos mágicos nem encantados. Imagine. uma nuvem. Você acha que isso é mau? LEO . porque você acha que as coisas só tem um lado. Se a realidade te alimenta com merda. MONA . um rio. Eu não quero fingir.João não é um pirata. Nada é horrível. LEO — Eu já não tenho mais idade para fazer de conta. Olho em volta e acho tudo nojento.Você não é.

não é? Pois para mim baixo-astral é o banheiro imundo. porque ficaria muito feio para você não me beijar agora. Faz dois meses que quebrei um dente e não tenho dinheiro para ir ao dentista. Elas já estão pegajosas.) Se você vem e me diz: agora nós vamos viver juntos e ser felizes para sempre. Amor para mim inclui lençóis limpos. vinhos e queijos todas as noites. passarinhos na varanda.. não ter casa. Eu não posso sorrir mais. Vamos ter girassóis no terraço. o mundo é uma grande lata de lixo e nós somos apenas as moscas esvoaçando sobre essa merda toda. você vai me amar muito. Para mim. Tudo bem. banho tomado e barriga cheia. Eu estou cansado desse seu esoterismo de bolso. beija-o. baixo-astral é o lixo. Mona hesita um pouco. quem vai limpar a privada? Quem vai batalhar a maldita grana? Ou vamos estar tão ocupados em nos amar profundamente que não teremos de pensar nessas coisas? Não. quem vai varrer o chão. Eu vou te amar muito. Não suporto mais o meu próprio cheiro. Não suporto mais não ter banheiro.. não ter nada. Faz quinze dias que uso mesmas meias. Nenhum de nós tem. Eu não acredito em você. .. (Irônico. Mas eu pergunto: e quem é que vai lavar os pratos. almofadas macias.. grudadas nos meus pés. a fome. dessas suas normas de bem viver à la Seleções do Reader‘s Digest. depois. Olhe a minha boca: um lixo. com esta boca podre? Você. a pobreza. E isso eu não tenho. você mesma que fala de espírito. Olhe bem pra mim e me diga: você acha que alguém seria capaz de me amar com esta roupa imunda... paz.nem faço a barba. amor e o caralho: você seria capaz de esquecer toda a sujeira do meu corpo e me dar um beijo? Silêncio. porque você acha que isso é bonito. meu anjo. não diga nada. paz e amor não são coisa nenhuma quando o que cerca você é lixo. Paz e amor. Eu já sei: é baixo-astral pensar nessas coisas. LEO — É mentira! Você me beija porque os outros estão olhando.

ALICE . Vejam só: (abre a bolsa e joga vários pães para cima. minha bruxinha tropical? MONA — Só combina. é? Se estiverem digam logo: quero participar. E se ela falou. . chá. estoy veniendo de la Argentina para el Peru. purpurina e tafetá brocado. chá. Leo apanha um e começa a comer vorazmente. você nunca foi tão bem-vindo em toda a sua vida! Imagine que estas pessoas ainda estão discutindo o tal de Inconsciente Coletivo. BABY. Capricórnio combina com Escorpião. (Entra Angel com uma mochila nas costas. tá falado. E um rapaz muito maquiado e vestido de maneira ostensivamente andrógina.talvez Killer . Yo soy Angel. Falou a Rainha do Alto Astral.CENA 4 (Um rock pesadíssimo de Alice Cooper . ALICE — Viu só. Estoy encantado en conocerlos.Não é umas gracinha? Tem vinte aninhos e é Capricórnio. Chá. miçangas — ah! meu negócio é ofuscar meu negócio é rebrilhar meu negócio é cintilar.) ANGEL — Buenas noches para todos. Água e terra sempre se completam. Angelito? Nós nos complementamos. que loucura é essa people? Quem é que estava berrando feito louco aqui dentro? Estão currando alguém. chá eu sou Alice dos mil plás eu sou Alice dos boás eu sou Alice superstar! Cruz credo. chá.Alice Cooper.irrompe logo após as últimas palavras de Leo e serve como música a entrar de Alice Cooper. chá.) — Cetim.) E trouxe também um hóspede. lules.) ALICE (Cantando. Pois enquanto vocês ficam aqui de bobeira eu descolo coisas incríveis. muita seda e muito strass veludo. ALICE — Inconsciente coletivo — eu hein? Pra mim é piraçâo.

. a barra mais bissexual da paróquia. la misma. carifio.Como sabés que Carlinha vivia en Cochabamba? ALICE — Ah. seforita. Bien. pero creo que te conozco de otro sítio. no conozco Cochabamba. como é que era essa tal Carlinha Baixo-Astral? ANGEL .) . ANGEL (Intrigado. ei mismo pelo.ANGEL (Prestando atenção em Mona. muy fatigado. Está se vendo que ele não me conhece. Anjo. siempre de la color negra. esta chica no puede ser Carlinha es demasiado simpática. Além disso. Tenia exactamente mismo tipo físico desta otra.Bueno. minha fadinha underground? A sua face oculta.. He viajado mucho todo ei dia. una barra un poquito pesada demás.. No. minha pitonisa dos pampas? MONA — Nem morta.. ALICE — Espera aí.. ALICE — Será que ele descobriu sua identidade secreta. muy extravagante. MONA — Gracias. detesto a cor negra e tenho horror de violência. sabés? Estoy muy. era una chica muy.. como decir? muy peligrosa. . Tenía trajes de chico. sí puede ser que yo estea equivocado. sem essa. pero era. No eres Carlinha Bajo-Astral? MONA — Quem? Carlinha Baixo-Astral? Muito antes pelo contrário. A ia noche todos nosotros temíamos encontraria por las calies. vai ficar obsessivo agora. Angelito.) — Perdón. Ei mismo tipo físico.. y le gustaba la violencia.. é? Forças! Esta daqui é Mona a Rainha do Alto-Astral. MONA — Pois eu me visto de mulher. ANGEL — Encantado en conocerlos. e eu sou Alice Cooper. chiquito eu sou Mona. altíssimo Astral! ANGEL — Pero yo podria jurar por mi perra madre que eres Carlinha BajoAstral. bien.

não é? ALICE — Pode crer. Mona. se masturba. é? Chocante.) Você também tá uma gracinha. faz o que você quiser. dança rumba. tango. quer dizer que você continua curtindo essa de meninos de Deus. Dou a maior força. Rosinha. De feia basta aquela cidade lá fora. Todo mundo colorido.... o que e que você acha da gente fazer um som na praça. Depois a gente passa o chapéu e levanta a grana. Descaralhar.. Meu som vai ser é no Carnegie Hail. achei que era melhor fazer uma festa à fantasia.Mona me diz que sou a Virgem da Era de Aquário. tira a roupa. você sabe que sempre tive uma tesão secreta por você? Que pena você ser tão limitado sexualmente. creo que tengo la fantasia ideal para usted. ALICE — Cruzes. (Para Rosinha. Você tá uma verdadeira glória. meu santo. que coisa mais macha! João. Inconsciente Coletivo. parece uma festa. maquiado. Já que a gente vai mesmo ficar aqui a noite toda. você tem sorte honey. domingo? Eu toco e você canta. mas se você rastejar a meus pés sou até capaz de cantar uma dessas suas musiquinhas subdesenvolvidas.ALICE — Mas que loucura é essa? Agora que estou reparando. não encontrei nenhuma farmácia aberta. Misticismo não tá com nada.Eu bem? Tá pensando que eu sou o que? Muito vulgar. O negócio é pesar a barra. ALICE (Superior. muito proleta pro meu gabarito. minha nega. meu amor. bem? Ei. . MONA — Carifio. tá sabendo? Meu Deus. aplaudindo e dando força. João. A gente podia escandalizar o mundo com nossas lascívias. BABY (Fingindo afetação) — Você acha mesmo. Alice. Fique sabendo que sou gente fina demais pra cantar numa mísera praça. Inconsciente Coletivo. chocante. ROSINHA . Quem foi que teve essa idéia maravilhosa? MONA — Fui eu.) . com Mick Jagger no coro e Ney Matogrosso no platéia.) Little Rose. (Para Baby. um milhão de sorrys mas acho que você nem precisa mais de remédio.

um momento! Adoro você. yo entiendo todo. botar as asinhas a camisolinha e tudo.Acho bom. meu bem.) . (Conciliadora. ALICE (Seco. BABY (Tirando um acorde do violão.) Eu sou assexuada. suas piranhas enrustidas. meu espanhol é um lixo. Espera aí que eu ajudo.Que hermoso! Pero puedes hablar portugues.Que ótimo..) Isso vale para todos vocês também. ALICE (Entediado. pra cuca. Jogue a sua energia sexual pra onde você quiser — desde que não seja pra cima do meu angelito.) — Qual é. tá legal. respeito toda essa sua transação de astral e tudo — acho que não tá com nada. Quero voar. ALICE (Interferindo e arrancando-lhe a mochila. MONA — Além do mais. Não sei se fui suficientemente explícito.. Então vamos deixar algumas coisas bem claras. Leo. tá? Primeiro: esse menino que aqui vês foi caçado por mim e vai ficar é comigo. Você não quer tirar essa mochila? Senão vai ficar um anjo meio corcunda de Notre Dame. dou a maior força. mas respeito. você sabe. entendeu bem? (Para os outros.) — Tá legal. não vai jogar uns panos por cima dessa caretice horrorosa? .) — Cris-ta-li-no como sempre. você sabe muitíssimo bem que mando todas as minhas energias sexuais pra cima. tá legal? Segundo: você pode fantasiar ele à vontade. E você. Só quero que você me respeite também. MONA . MONA (Ofendida.) — Queridíssima.ANGEL . Alice? Botando o escorpião pra funcionar é? Até parece que você não me conhece. Além disso. tirar a mochilinha. Mas não se esqueça que ele vai ficar é comigo. só estou fantasiando o menino.

na maior perplexidade. Uma vez um careta. Tenho certeza que ele ficou encucado uns três dias. pra mim a vida é um punhado de lantejoulas e purpurina que o vento sopra. um certo visual. jeans manchados de graxa. Existe coisa melhor do que você curtir seu próprio material? Eu me curto adoidado. ALICE (Espantado. Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo . Blusão de couro. veio me perguntar se eu era homem ou mulher. curta adoidado! Sabe. Sou uma força para todos esses urbanóides. meu filho. olhando pra mim. Quando entro num lugar.LEO (Seco. Como é mesmo aquela frase do seu Tarot? Mona? . no mínimo. se aproxima um pouco mais de meu ideal.deixe o vento soprar. fique pelo menos com o gostinho de ter brilhado um pouco. MONA . fica todo mundo em silêncio. Você não acha que tudo ficaria mais bonito se as pessoas jogassem uns panos e umas cores por cima? LEO — Eu acho que tem coisa mais importante que isso. Pra falar a verdade meu gênero mesmo são aqueles motoqueiros da pesada.) Forças! Prefiro ele de mochila e calça Lee mesmo.Não sei. muita corrente. depois de me olhar milênios. Ora vê se pode. se faz muito meu gênero. Curte.rude. viril e agreste (Suspirando. Eu respondi: — Sei lá queridinho.) — E por que não. Angelical demais pro meu gosto. cara. senão ninguém vai te olhar nunca. Mas que se há de fazer? Deus também não é perfeito. Tratamento de choque. acho que sou apenas um fenômeno contemporâneo. meu amor.) — Não. let it be. filhinho. mãos cheias de calos . Olha. cara? Forças! Colorido fica tudo muito mais bonito! Sabe uma coisa que eu descobri depois de muita porrada? As pessoas têm a obrigação de oferecer.Tem nada. Pelo menos faço eles pensar um pouco. te dou um conselho Alice Cooper sabe o que diz: você tem que ser maravilhoso. ALICE . botas. meu amor.

. Mona? MONA (Misteriosa. que deve passar de mão em mão como na cerimônia japonesa do chá. (Zé Rodrix: Som imaginário. É isso aí. Estou cansada.) E eu.) — Pensando bem.. enquanto ela serve. Me encantam todas estas cosas celestiales. Mona canta. Mona.) – Adivinhe. Falou. MONA (Pensativa. si.Qual? ALICE — ―El contentamento nel poco abre las puertas de lo mucho. (Para Angel.) Pero si te gusta.) — É. tira o que precisa quem não precisa bota lá de novo.Chá de quê.) ―No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato No Nepal existe uma praça bem redonda e cheia de dinheiro. Existe apenas um copo . todos sentam em semicírculo. (Remexe na bolsa. Nós já oferecemos visual sem necessidade de panos. Vocês querem um chá? (Exclamações entusiásticas. Chá de ervas orientais. ROSINHA . (Para Mona. Quem precisa. ALICE (Olhando bem para Mona.) — É.a tampa da garrafa térmica.MONA . Nós não precisamos.. Todo dia sete de cada mês uma fadinha boa traz um pacotinho do Nepal. Enquanto dura a ação. a mi me gusta mucho.) Tenho uma garrafa térmica na minha bolsa. para mi está muy bien. você não vai me vestir? MONA (Depois de olhar bem para Alice. Primeiro nosso hóspede: Angel. ANGEL — Si. ALICE — Coisas celestiais eu vou te mostrar daqui a pouco. Você também não precisa. tira uma garrafa térmica.) ALICE — Ei. acabo de ter uma idéia sensacional: cada um que beber faz um pedido em voz alta. Angelito. No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato‖. eu acho que você não precisa de fantasia nenhuma. Custa muito barato lá.

) — Eu agora quero ver as coisas mais bonitas que o meu olho nem sempre quer ver As coisas mais bonitas e mais incríveis que o meu olho nem sempre quer ver.. Na beira do mar.) CENA 5 BABY (Cantando.) — ―Eu quero uma casa no campo‖. pescando e plantando. BABY — Eu? Eu quero um canto pra mim..) — Eu.) — Bonitas? LEO (Com um suspiro. ROSINHA (Gemendo. ROSINHA — Mas é só o que eu quero agora Alice. virar o maior mito pop do século e morrer no auge da fama da juventude e da beleza nos braços de um motoqueiro..ANGEL (Bebendo. ALICE .. Onde eu possa tocar minha viola e ter minhas coisas. longe desta civilização. João? JOÃO (Cantarola.Eu quero ir para Nova Jorque. eu acho que eu queria conseguir ver as coisas um pouco mais. ALICE — Que desejo mais besta. Bonitas. LEO (Hesitando. Little Rose.) — Eu só queria parar de sentir esta dor.. las yerbas mágicas y las vibraciones de Macchu-Picchu. (Bebe. Las llamas blanquitas. construir uma casinha de madeira branca e ficar morando lá. MONA (Tentando ajudar... Y quiero tanbién que sea todo muy hermoso.) — É. no campo não. Não.) — Yo quiero solo llegar a Peru.. E você. MONA — Eu só quero uma coisa: que baixe um disco-voador e me leve para longe desta mesma ci-vi-li-za-çâo de pessoas cinzentas. .

João? JOÃO (Lentamente. (Voltam todos a seus lugares — o autor acha importante esclarecer que. agora eu não posso. Rosinha. Tem essa dor cravada aqui.TODOS — Colorido-colorido atrás da vidraça colorido-colorido no fio da fumaça colorido-colorido no fundo da taça. senhor e senhora se você não decolou talvez seja melhor que vá embora. essa ansiedade nas pessoas. Quem nunca voou além do cascalho quando olha no espelho só vê um espantalho. João? JOÃO (Sorrindo. nada mais tem explicação. longe da cidade. ROSINHA — Eu vou com você. Mas agora.. onde a gente possa ser inteiro. Rosinha? ROSINHA — Pra onde. eu fico imaginando você fazendo pão. Eu não suporto mais a cidade.Quem nunca andou no fio da navalha não sabe o que é rasgar a própria mortalha. assistir televisão. Você gosta tanto de gerânios. TODOS — Talvez seja melhor que vá embora talvez seja melhor que vá embora no seu fuscão. assistir televisão no seu fuscão. BABY . a partir de agora. Nunca te vi tão bonita como agora. um lugar perto domar.. menina? Você está tão bonita. a terra. Sabe.) .) JOÃO — Você vem comigo. Lamento dizer. claro que vou. sonhador. com essa roupa de . As vezes eu acho que vou enlouquecer no meio de toda essa correria. Será que eu vou morrer. João.) — Morrer? Que idéia é essa. dentro de mim. dos gerânios. TODOS — Colorido-colorido no banco da praça colorido-colorido não transo cachaça.O campo. tirando leite. de todo esse barulho. cuidando dos jardins. BABY — Quem nunca dançou não vai poder dançar agora.

vinte e sete — não importa. mais envolvido com a cidade. tudo vai ser verdade. Quanto mais você ficar aqui. Cada vez é mais difícil você se libertar.) -Já ouvi esse papo antes. Rosinha e o que é verdade sempre é bonito. O campo. Angelito? . o campo. Faz cinco anos que eu conheço você. Um só basta. mais poluído você fica. O que a gente faz. você já não acredita tanto nas pessoas. Não güento mais a caretice desse cara. os seus dentes estão ficando estragados. a volta à natureza. João. O seu corpo vai-se decompor lentamente e você vai criar barriga e acreditar cada vez menos em todas as coisas. Não falta muito pra você ter trinta anos. em você mesmo. inútil. O seu cabelo já começou a cair. até mesmo o que a gente sente — é tudo mentira. Lá. LEO (Irônico. sendo verdadeira. a terra. Fico te vendo exatamente assim como você está agora na beira do mar caminhando na grama cuidando dos gerânios. Eu já não sou tão jovem. Porque é que você não vai de uma vez? O que é que você está esperando? O que é que você está fazendo para realizar o seu sonho? ALICE (Interrompendo. Faz cinco anos que você fala a mesma coisa. o que a gente diz. Na cidade as coisas são feias porque é tudo mentira. ROSINHA . ALICE — Uau! Que exagero. Vamos.Pega na minha mão. Um dia você vai lembrar de tudo e pensar com tristeza: ―loucuras da juventude‖. E um dia tudo não vai ter passado de um sonho. a natureza — vão ficar cada vez mais distantes. vinte e seis. João. Ornar. Sempre. jogado fora. As coisas vão ficar cada vez mais duras. interrompe.Virgem Maria.) — Pois eu vou realizar o meu sonho agora mesmo. Você já não é tão jovem. A mesma coisa. Tem outra peça lá em cima? JOÃO — Tem três quartos. Que idade você tem? Eu sei: vinte e cinco. E todo esse tempo dç agora não será mais que um longo tempo perdido. o mar.

....ANGEL . volar... enquanto este repete que quer voar. (Alice sai empurrando Angel em direção à porta.Por que mi nombre es Angel? Hay un oscuro sentido por detrás de mi nombre.. Eu não sou só eu.Eu tenho medo. BABY — Você não me entende porquê você nos divide em dois: eu e você. por entre las nubes. . ANGEL . A gente só consegue conhecer alguém ou alguma coisa quando olha para ela bem de frente.Eu não te entendo... Me diz o que é que você está vendo no fundo das minhas pupilas? LEO .. Olhe firme no meu olho e me responda: você tem medo de mim? LEO ..) — O ofício dos anjos é voar... Eu sou também você e todos os outros.. Não existe divisão..Voar. yo nunca seré un angel.. volar. Você não me entende porque você nunca me olhou. sabes? Yo quiero volar hasta los sitios encantados. BABY — Eu poderia te ajudar. e todas as coisas que eu vejo.. ) CENA 6 BABY — Será que você não entende que as coisas mudaram? LEO . cara a cara... Yo tendria que volar para que fuera un angel..No fundo das tuas pupilas eu vejo meu próprio rosto. Que hacen los angeles? MONA (Imóvel. me encara fundo. yo quiero ser como un pájaro. volar.. se você não tivesse medo de mim. perderme nel cielo.. Olhe firme no meu olho. Me gustaria tanto. hasta los sítios encantados.

Eu não podia pedir socorro. O fim do mundo estava dentro de mim. Eu precisava dar um passo além do fim do mundo.. Naquele dia. Para eles podia ser uma praia. Eu sabia que se contasse aos outros do que estava vendo. outra vez: você tem medo de mim? LEO . Quando eu olho no seu olho eu sou você e você é eu. Leo? (Apanha um vidrinho de purpurina e começa a salpicar o rosto de Leo. E sabe como era o fim do mundo? Ele era branco e liso. grades na janela. com todo aquele branco-liso dentro de mim. ninguém entenderia. Era a solidão absoluta. Mas para mim.BABY . para mim era o fim do mundo. Que aquela mancha branca era a velhice. eu acho que eu não tenho medo de você. Leo. Se você tiver medo de mim é porque você tem medo de você.Não.. cada vez que eu volto lá eu canto essa musiquinha. e eu cantei: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim. Canta comigo.) E tão fácil. eu dei aquele passo eu venci o fim do mundo. Você não quer cantar comigo. E eu venci. Eu não queria ficar lá. E nunca mais ninguém me entenderia.E no fundo das suas pupilas eu vejo o meu próprio rosto. Foi então que eu descobri o jeito de dar esse passo. eu não queria ficar sozinho. Me diga agora. Diriam talvez que eu estava louco. Nenhuma cor. No dia em que visitei o fim do mundo nasceu uma mancha branca dentro da minha cabeça. Depois eu fui saber que eu tinha envelhecido. eu não estava preparado. choques elétricos.. nenhuma forma. A maneira de vencer o fim do mundo era enchê-lo de sons e de cores. Não tinha nada lá. Leo. Então uma canção brotou do fim de mim. BABY — Então vou te contar uma estória que é o meu segredo. . Basta cantar: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim. Eu estava sozinho no fim do mundo e não podia ter medo. havia várias pessoas à minha volta. Se eu tivesse medo ficaria lá para sempre. O fim do mundo era o silêncio e o vazio.. E tomariam as providências que se costuma tomar com os loucos: clínicas. Agora. um apartamento ou uma rua qualquer.

ele está querendo sair de dentro de mim. Seria simples. ROSINHA — João... não. Leo. Baby. João.) — Eu estou cheia de luz. MONA (Imóvel. E muito cedo. Não pare de cantar. ele não vai conseguir. MONA (Sorrindo..) — Não tenho medo. Ele está querendo ir embora. (Rosinha geme..) Vocês. Eu reconheço esse barulho de máquina sobrevoando a casa. Se eu pudesse catar junto com você. Se eu pudesse sentir bonito. Quando você canta. são eles. está ficando escuro dentro de mim. (Olha em volta.. para mim é tão desconhecido e tão estranho como um sonho que ainda não tive. canta mais.. canta para embalar o menino. Tudo acontece no momento certo.) .) Silencio! Vocês não estão ouvindo? (Todos escutam.. Baby canta — até ser interrompido por um grito de Rosinha.Eu estou cheia de dor.O que foi? ROSINHA — É ele.) — Eu não posso. Seria fácil. JOÃO — Do que é que você está falando Mona? ROSINHA (Sempre gemendo. mas eu tenho medo. só sorrir. passar a mão no teu cabelo e te chamar de amigo.. Todos se aproximam.... MONA ... JOÃO . Quem sabe daqui a pouco eu consigo cantar junto também.. exceto Mona.. Talvez bastasse qualquer coisa como chegar muito perto de você. me dá tua mão. fica tudo lindo e eu não tenho medo. Qualquer coisa assim.) — É a polícia! Eu sei que é a polícia! ROSINHA — Não. não posso.LEO (Recuando.) LEO (Estremecendo e afastando-se de Baby.... tudo isso aqui. eu sei. que continua imóvel..Não tenham medo.. Canta... Ou sorrir. Eu tenho medo. Baby.. muito serena. . é ele querendo sair de dentro de mim.

sai de cima do telhado deixa meu menino dormir sossegado. JOÃO — Do que você está falando. Eu não tenho mau cheiro. Eles vieram me buscar porque eu estou preparada. você não ia me levar para o mar? Será que é muito longe. o poço fundo. louros. O único jeito de vencer a cuca é pingar uma gota d‘água na testa dela até furar. João? Você deixou o menino sozinho? Eu te disse para não deixar o menino sozinho. Eles são altos. boi da cara preta leva esse menino que tem medo de careta. e não pode fugir do bicho-papão.) — João. João? Nós não íamos para o campo. Dos extraterrestres. E uma nave enorme. Boi..) — Bicho papão. João. Eu estou preparada para entrar na nave. Exatamente sobre minha cabeça.BABY (Cantando. Leo. MONA (No meio da cena. ROSINHA (Enquanto ela fala.. Ele é muito pequeno. manda a cuca sair de cima do telhado.. Não se deve deixar os meninos pequenos como ele perto do poço. Leo. Nós precisamos chegar a tempo. do boi da cara preta. Ele é tão pequeno que ainda não tem pernas como os outros meninos. João. Estão bem aqui em cima agora. mamãe em Belém. Ele não pode correr.. A minha mãe me avisou. Dizem que eles não se aproximam de quem come carne e de quem fuma. é feia. A cuca é má. João? Por onde eu tenho andado. olhando para cima — como se acompanhasse rumores e movimentos no andar superior. eu não sou suja. dizem que essas pessoas exalam mau cheiro.. Dos discos voadores. da cuca. boi. você está ouvindo. exatamente sobre o meu sétimo chakra. até furar. eu não sou feia. Baby.. João? Eu não podia deixar o menino assim sozinho perto daquele poço. Dorme neném que a cuca já lá vem papai tá na roça. O menino vai cair lá dentro. Aonde eu fui. dourada.) — Agora eles estão bem em cima do telhado. sobre o lótus de mil . boi. Tem o poço.. Mona levanta-se e começa a andar lentamente pela sala. Faz três anos que eu não fumo nem como carne. é suja.. Mona? MONA — Deles. cheios de luz. escuro.

Deixa ela ir. Rosinha está deitada. tanto. Vocês não estão sentindo a vibração? Essa luz dourada baixando devagar sobre as coisas.Mona. a Rainha do Alto Astral. etc. Quando você canta é como se parasse de doer.) Foi Baby quem me ensinou: quando tudo fica difícil a gente canta e toca. Esperei tanto tempo. estou indo. Agora eu entendo. Esperei tanto tempo. Me ajuda. para o alto astral. nesta noite? Tudo faz sentido. bongo. João. onde tudo é dourado. JOÃO . Canta mais. Vocês ouvem como eles me chamam? Parece o vento. justamente agora aqui. os braços estendidos acima da cabeça. Não se esqueçam disso. Antes de ir embora vou deixar uma lembrança. eu sei. Como é que eu podia saber que aconteceria agora. Baby continua cantando canções de Ninar. a chuva mas eu consigo ouvir mudamente a voz deles chamando pelo meu nome. Black-out. misturado a rumor de máquina — qualquer coisa como um automóvel em alta velocidade. Mona. Leo e Baby. Nada é gratuito. Quando a luz volta.. para depois do sol. imóvel. Ao mesmo tempo: Ouve-se um grito de Rosinha. Já cumpri minha missão aqui. João está em pé. Não deixa ele ir embora. D6i tanto. nesta casa. Seu manto branco está manchado de sangue. Muito pálida. há um silêncio. o último presente de Mona. João. Eles vão me levar para lá. volte aqui. volte aqui! ROSINHA . Eu .pétalas. para o outro lado. E o único jeito de vencer o fim do mundo. disco-voador não existe! Você está louca. João. pandeiro. Se ele for embora o mundo acaba. Baby. MONA — Eu disse que ele era a única coisa capaz de salvar o mundo. Eu preciso deixar vocês. estão ajoelhados em atitude de adoração.. Eu preciso ir. São eles. . (Apanha a bolsa e vai tirando se dentro alguns instrumentos musicais: flauta. um som eletrônico ou uma explosão. Um vidro nas mãos.

baixa os braços lentamente e deposita o vidro sobre a manjedoura. Tengo que exterminar te. príncipe de las tinieblas? No te ocultes de mi. com uma estaca de madeira e um martelo nas maos..) — Finalmente te encuentro. tive que fazer uma força incrível para botar ele noutra.) Ei. Quase que se jogou pela janela. mas o que foi que aconteceu aqui? Little-Rose.) — Ela foi raptada por um disco-voador..) — Forças gente. eu. CENA 7 ALICE (Muito agitado.. Quando pensei que ele estava numa boa.. onde é que você tá? JOÃO (Muito calmo. meu Deus. ANGEL (0ff) — Donde estás.Dentro do vidro uma matéria sangrenta. maldito! Ahora te voy a matar con mis próprias manos! . A cena permanece estática até o momento em que Alice entra correndo. eu preciso de forças! O anjinho pirou completamente! JOÃO (Muito calmo. (Detém se e observa os outros. será que todo mundo enlouqueceu aqui dentro desta casa? Isso aqui está parecendo um filme de terror. Mona. começou a correr atrás de mim com uma estaca e um martelo.. Primeiro entrou numa que queria voar. você está toda suja de sangue! Esse vidro.. dizendo coisas. avança para Alice. ALICE — Tão ouvindo? Tá completamente pirado.) Mona. ALICE — O que? ANGEL (Entrando.) — O que foi que aconteceu? ALICE — O angelito portenho. entrou numa que eu era um vampiro. Onde é que está Mona? (Chama.

Traz um charuto aceso na mão.. entra um rock pesado. Você ficou influenciado. / abiertos en la plaza con fiebre de abanico / o emboscados en yertos paisajes de cicuta. vulgo Alice Cooper. Forças. asesinos de palomas / Esclavos de la mujer. e acende um spot sobre Carlinha Baixo-Astral. Nesse momento.) ANGEL — Carlinha Bajo-Astral! .Basta de comedias. o nome com que me batizaram? E Jaime Roberto. convidei você pra dormir aqui. sabe o que há de errado com você? E que você viu muito filme de horror. Angelito! ANGEL (Gritando. eu fui legal. calças compridas. meu Deus! Que coisa mais bagaceira.) . talvez Lou Reed. cabron! Perro de los infiernos! No quiero escuchar tus sucias palavras! ALICE . ANGEL — Callate. já estou vendo as manchetes no jornal amanhã: Jaime Roberto.ALICE — Segurem esse tarado! Ele quer me cravar esse negócio no coração! (Ninguém se move. parada na porta está toda vestida de negro. Olha vou te contar um segredo que nunca contei para ninguém: sabe qual é o meu nome. encontrei você na praça. Anjinho.. Calma. demônio! Es demasiado tarde! (Encosta a ponta da estaca no peito de Alice e ergue o martelo como se fosse desferir um golpe. Olhe para mim. não é nada disso. assassinado por mochileiro argentino.. o meu nome verdadeiro mesmo.) — ―Maricas de todo el mundo. só isso.‖ Muerte a todos los vampiros maricones! ALICE — Espera aí.) ANGEL (Declama García Lorca. Olha.Espera aí. você está entrando numa errada comigo. Eis o meu segredo mais vergonhoso. você é a primeira pessoas que eu conto isso. Sou Alice Cooper. perros de sus tocadores.. botas. Você não tinha onde dormir. Anjinho.

TODOS — Mona! CENA 8 CARLINHA . sei lá porque. de Carnaby Street. boneca.) Há alguém aqui que duvide disso? ALICE . ROSINHA — Do que é que você está falando? .CARLINHA — Em carne e osso. entendem? Só sobrou esta casa aqui. essa camiseta é maravilhosa. Ou foi você mesma que bordou? CARLINHA (Agressiva. Eu ia passando bem na hora da explosão.) O que é andou acontecendo por aqui? Por que é que vocês estão vestidos desse jeito? Por que é que está garota está toda manchada do sangue? LEO .) — Polícia? Que polícia. sorte. Deve ser importada. Tive sorte. Talvez fosse melhor ter morrido também.) — Tira essas mãos nojentas de cima de mim. não existe mais nada. Vocês não ouviram a explosão? Explodiu tudo. não é? Tem um cheiro de King‘s Road. Não gosto que me toquem. bem? Você é da polícia... Agora vou ter que passar o resto da minha vida aqui com este bando de cretinos.. de Bibao. Muito Obrigado. seja você quem for.Mona é a puta que os pariu.Bem. acaba de salvar a minha vida. Eu sou Carlinha Baixo-Astral.. Fica muito bem em você. (Joga o charuto no chão e apaga com o pé. Mantenha distância.E por que você faz tantas perguntas. (Puxa a navalha. (Caminha olhando em volta. meu santo? Não existe mais polícia. Hmmmm. por acaso? CARLINHA (Rindo debochada. não existem mais edifícios. já não existe mais cidade. acabou tudo.) Acabou.

transo qualquer barra . quero dizer..Yo no entiendo lo que dice. Gente morta. Mas não aconselho. Eu vejo e até curto em cima porque sou Carlinha Baixo-Astral. Alice. vísceras por toda parte. (Para Alice. foi. lembra? Além disso. CARLINHA-Pois se você não acredita. sangue. Mona. está horrível lá fora. boneca.. LEO — Quer dizer que aquela explosão foi.) Por qué estan todos así? Que pasó? . que o mundo terminou? ALICE — Terminou mesmo? Acabou? ANGEL . é muita loucura.... JOÃO — Não é possível. Forever. JOÃO — Deixa de ser besta. BABY — Eu não posso acreditar.. LEO — Mas nós vamos morrer de fome. Tem as tais radiações atômicas.. Virou cinza. Puf! Acabou. tão sensíveis.BABY — Espere aí. Vocês me parecem todos tão débeis. tendo nervos de aço. Vão fazer a sua carne descolar dos ossos e cair todinha em feridas punilantes. ANGEL . como se dizia no meu tempo. desculpe. Alguém finalmente apertou o botão.. Me dá um cigarro. CARLINHA — Para sempríssimo. saia e veja com seus próprios olhos.de preferência as mais pesadas. não sei não. Aquele pão não dá nem pra um dia. ROSINHA — Quer dizer que nós vamos ficar aqui para sempre.. Mas vocês. CARLINHA — Uma explosão atômica. ALICE — Tem aquele pão que eu trouxe. tudo rebentado. Já era. Carlinha Baixo-Astral: você está querendo dizer que.. Você está gozando com a nossa cara. Tão paz e amor.Que pasa? No estoy entendiendo nada. Como em Hiroshima.

Yo sé que tu especialidad es pirar la cuca de la gente...E você. No lo puedo creer.Não. El Peru también se ha acabado? CARLINHA . es que ei mundo se ha terminado. ALICE — Na verdade eu não me impressiono com mais nada. una bombita.Eu concordo com você. Pode ser que desta vez dê certo. No es verdad. Acho maravilhoso ter acabado. a Nova Guiné e o Piauí.Se ha acabado todo. ALICE — Es lo que dice la chica. te conozco hace mucho tiempo. O Peru.Quer dizer que vocês não estão apavorados? JOÃO . decepcionada. desde Cochabamba. ALICE ... CARLINHA . desde muy lejos.) .ALiCE — Lo que pasó.. CARLINHA .Nem você? BABY .Eu acho que agora a gente pode começar tudo de novo. CARLINHA (Mais decepcionada. Angelito. no más. Una bombita. ANGEL — No es possible.. o Nepal.Eu tinha certeza que um dia você ia acabar concordando comigo. (Olhando em volta.) Mas vocês não parecem muito impressionados. LEO . gaveta? . Do jeito que estava só podia mesmo era acabar. Nós não tínhamos mesmo nada a perder. E falando bem claro: na minha opinião foi um asseio. ANGEL — No creo en esta chica. E quer saber duma coisa? Se acabou mesmo dou a maior força. Yo necessito yirme hasta ei Peru. El mundo no puede terse acabado. Carlinha Bajo-Astral.

ROSINHA . Ou para morrer. Nós não somos uma comunidade. pelo menos vamos comer uma laranja‖. As nuvens de radioatividade são tão densas que não vão deixar passar os raios de soi por um bom tempo. já que vamos ter que ficar aqui a vida toda.Mas não vai amanhecer mais.) — O que é isso aí? ROSINHA — É o Cristo da Era de Aquário.Eu. CARLINHA (Apontando a manjedoura. esta é a quarta comunidade onde moro.. sei lá. E na terceira: ―Já que estamos na merda. Cristo morreu. Será que a Era de Aquário começa agora? CARLINHA . E o primeiro da Era de Aquário. nas outras comunidades onde morei.O que? Nunca mais? CARLINHA (Lentamente.Nós não temos lema nenhum. Era meu filho. Nós só estamos aqui porque a casa estava abandonada. Se Mona estivesse aqui..Nunca mais. CARLINHA . viva Cristo! Sabem. . Na segunda era: ―Quem pariu Mateus.) . Parece também que é a última. Nós só estamos esperando o amanhecer. sempre tinha um lema. BABY — Ele nasceu morto. Na primeira era: ―Passarinho que come pedrinha sabe o cu que tem‖. ROSINHA (Assustada. gavetinha. LEO — Ele foi assassinado pela bomba. Sabem. diria que ele foi o último representante da Era de Peixes. JOÃO — Ele nasceu no momento da explosão. chovia muito e ninguém tinha para onde ir. No mínimo uns dez anos. Qual é o lema desta comunidade? JOÃO .Esse pelo menos escolheu o momento certo para nascer. que o embale‖.) .

um presente. Ela disse assim: ―Quando tudo fica difícil. Nosotros no podemos hacer nada.) CARLINHA — Para mim não. tudo bem.Esperem.) — Ela está mentindo.Mas o que é que a gente pode fazer? ANGEL — Nada. ALICE — Bem. daqui a pouco amanhece e acontece alguma coisa. E a única maneira de vencer o fim do Mundo. Ficar desesperado e arrancar os cabelos não resolve nada. Não gosto dela. Chame Mona. Como é que eu posso tocar e cantar se o mundo acabou? LEO — E o que é que você vai fazer? Não há mais nada a ser feito. E se não acabou. Eu estou lembrando duma coisa. (Apanha os instrumentos musicais e começa a distribuí-los entre as pessoas. Antes de ir embora. CARLINHA . a gente canta e toca‖. JOÃO — Mona foi embora com o disco-voador. faz vinte e três anos que estou no escuro. Mona deixou uma lembrança. Solo esperar. Todos se entreolham. ROSINHA . LEO . Mas ficar dez anos no escuro? Ah.. Se o mundo acabou mesmo nós somos o novo mundo. De qualquer maneira nós temos que ficar aqui esperando. CARLINHA — Ela sempre sabe o que fazer pra gente ficar contente. Nós estamos tranqüilos.. Para falar a verdade. João! Eu não quero ficar no escuro! Mande ela embora. Silêncio. confusos.ROSINHA (Gritando. que o mundo tenha acabado.Mas esperando o quê? . vamos convir que é chó-cante! O que é que eu vou fazer sem um spot em cima de mim? BABY — Pra mim não faz diferença.

Eles vão parando de tocar.LEO — Sei lá. ALICE — Mas isso já faz muito tempo. Sentam-se todos lentamente em semicírculo em tomo da manjedoura.) . eu sei. JOÃO — Então era mentira dela. Ainda pouco havia nuvens. CARLINHA — Não. O mundo não acabou. LEO — (Como se despertasse de repente. Não é difícil. Quando eu cheguei aqui.) CENA 9 ROSINHA — (Sem emoção. faz pouco. Que o dia amanhece. CARLINHA — Eu não menti. Você inventa. Aparecem todos muito cansados.) — O que aconteceu? ROSINHA — (Sem emoção. Eu nunca fiz isso. Carlinha Bajo-Astral. Não há nuvens de radioatividade tapando o sol. O meu negócio sempre foi só pesar a barra. ANGEL — Se han pasado siglos y siglos. Que tudo isso termine.) — Amanheceu. BABY— Ainda pouco? CARLINHA — É. Que a noite acabe. CARLINHA — (Começando a ceder.Amanheceu.) — Mas eu não sei tocar nem cantar. Foi agorinha mesmo. (Carlinha hesita mas acaba aceitando o instrumento. Qualquer coisa. Tocam alguns momentos. LEO — Eu também não sei. Começam a tocar. . Ninguém sabe. Só isso. até que vários spots começam a acender e fica tudo muito claro. não.

LEO — Você tem certeza que são mesmo dez pras sete? (Nesse momento ouvem-se batidas muito fortes na porta. Ninguém se move. Um pequeno intervalo e as batidas se repetem, cada vez mais fortes.) JOÃO — (Sem emoção.) — Estão batendo na porta. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino, trazendo ouro, incenso e mirra. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. BABY — Ou Mona. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vem nos buscar também. LEO — É a polícia. Tenho certeza que é a polícia. ANGEL — Puede ser algun vecino. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. Os monstros, com aquela pele toda verde, apodrecendo e caindo... Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. ALICE — Piração, piração, tudo piraçâo: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. (Silêncio. As batidas aumentam. Ninguém se move.) JOÃO — Seja quem for, continua batendo. CARLINHA — Alguém precisa abrir logo essa maldita porta. LEO — Eu tenho medo. ALICE — Quem abrir a porta precisa dizer alguma coisa. ROSINHA — Eu não sei o que dizer. ANGEL — Bueno, hay que abrir la puerta e decir algo, no?

(As batidas aumentam, a luz também. O ideal seria uma lâmpada de mercúrio.) BABY — (Lentamente.) — Eu acho... eu acho que a gente só pode dizer uma coisa. (As batidas aumentam mais.) BABY — Eu acho que a gente só pode dizer que nós não temos culpa. Que nenhum de nós tem culpa de nada. A única coisa que nós estamos tentando fazer é encontrar o jeito de dar um passo além do fim do mundo. (Baby começa a tocar. As batidas aumentam cada vez mais. Os outros hesitam, mas aos poucos, um por um, começam também a tocar e a cantar. O som e as palavras — o autor sugere — deveriam ser totalmente improvisados pelos atores. As batidas só cessam quando o som estiver mais ou menos definido. E a peça só termina quando os atores e/ou a platéia estiverem cansados. Ou quando alguém bater na porta avisando que amanheceu e o teatro precisa ser fechado — Por que não?)

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Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-lo em nosso grupo.

A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS

Peça em 1 ato

PERSONAGENS

SEREIA • BRUXA DE PANO • MÁGICO • ROQUE • SOLDADINHO • BAILARINA • TIÃO •SIMÃO •BASTIÃO 3 MACACOS

CENÁRIO

Um grande arco-íris ao fundo e um lago; um cartaz com letras coloridas com os dizeres: Comunidade do Arco-Íris. A cena está toda enfeitada de balões e bandeirinhas de papel como para uma festa. A Sereia está dormindo, recostada em uma das pedras do lago.

CENA 1

SEREIA — (Despertando e espreguiçando-se lentamente.) — Hmmmmmm, que sono gostoso! Sonhei umas coisas tão bonitas... (Apanha um espelho e um pente.) Meu Deus, mas estou horrorosa, toda descabelada. Daqui a pouco a festa vai começar e eu ainda nem estou pronta. (Penteia-se, muito vaidosa.) As crianças já devem estar chegando por aí. (Olha para o público.) Mas vocês já estão todas aqui dentro. (Para o público.) Desculpem, eu não tinha me dado conta, pensei que era bem mais cedo. Boa tarde, como vão vocês? Sabem, é que a gente trabalhou tanto para deixar tudo bonito que eu fiquei muito cansada e acabei pegando no sono sem querer. Já vou chamar os outros. (Para dentro.) Máááááááágico! As crianças já chegaram, está na hora de começar a festa!

CENA 2

BRUXA — (Entra correndo, muito estabanada.) — Tá na hora de começar a festa, é? (Olha em volta.) Ei, mas onde é que estão os doces e o guaraná? Ah, já sei, comeram tudo, não é? Comeram tudo e nem me avisaram... Só lembraram de me chamar depois que a festa tinha acabado. Eu sei, conheço vocês, é preconceito racial, só porque eu sou de pano e vocês de carne e osso. (Para a Sereia.) Racista! SEREIA — (Muito envergonhada por causa das crianças.) — Calma, Bruxa, não é nada disso... eu...

pra mim você não passa mesmo é duma sardinha enlatada. fique sabendo que ela era uma saia de veludo muito fina. ouviu bem? E não fale mal da minha avó...) Por que você não disse logo.BRUXA — Como que não é? Você sabe que eu adoro guaraná. SEREIA — Acabado? Mas a festa ainda nem começou. (Vai começar a discutir novamente. vá se enfeitar enquanto eu converso um pouco com as crianças.. E pare de me ofender.. (Para as crianças. quer que todo mundo me ache horrorosa. . Onde é que estão todas aquelas garrafas? Foi você que tomou tudo. vai ficar gorda como uma baleia e o Roque não vai querer mais namorar você! SEREIA — (Ofendida..) Desculpem.. BRUXA — Atacada.) Imagine eu. BRUXA — Inveja. às vezes ela fica um pouco atacada.) — Olhe..Gorda vai ficar a sua avó. hein? Já sei. SEREIA — (Conciliadora. é? Bem feito. SEREIA — Você quer parar de dar vexame? Pelo menos respeite os nossos convidados.. Você está é com inveja dos meus cabelos verdes. eeeeeeu? Mas logo eu? Pois olhe. Que desaforo! (Olhando-se no espelho. pareço mesmo uma bruxa. E quer saber duma coisa? Não me importo nem um pouco que a tal festa tenha acabado. gorda. As crianças devem estar pensando que você é completamente louca. não é de hoje que você. já sei. (Para a Sereia.. BRUXA — Vexame. sua baleia. as crianças já chegaram e eu estou toda desarrumada.. não é? Conheço todos os seus truques. eeeeeu? Ora. eeeeeu? Escuta aqui.) Meu Deus.) . mas de repente olha para o público e muda de atitude.

me chamando de baleia. Antes era tão minha amiga. Bruxinha. Posso até sair numa lista de 10 mais . Sereia.. eu cheguei a pensar que.) . Você está dizendo isso só pra me irritar. E anda tão agressiva comigo.. BRUXA — Controle-se. SEREIA — (Aliviada. ele é meu namorado. vocês gostam da roupa que mandei fazer especialmente para hoje? SEREIA — Eu acho horrorosa.) — Apaixonada pelo Roque. Você está é com ciúmes.BRUXA — Tá bem..) — Mentira. Será que. querida.. BRUXA — Pois eu não acredito. um horror. ouviu? (Sai. (Pensa um pouco... claro que nâo. foi depois que ele começou a me namorar que ela ficou assim agressiva.. BRUXA — (Maliciosa. Eu acho que estou maravilhosa. tá bem (saindo).) Vai ver que.. Acho que ela está apaixonada pelo Roque! Afinal. zangada.) SEREIA — Que coisa mais louca. você está apaixonada pelo Roque? CENA 3 BRUXA — (Entrando toda faceira.. só pode ser isso.) — Ele é que está apaixonado por mim.. de sardinha enlatada..) Então.. parece um furacão. olhe as crianças! O que não vão pensar de você? (A Sereia cruza os braços. eeeeeu? Imagina.) Bruxa.Que bom. SEREIA — (Furiosa. Mas não tome todo o guaraná. (Para dentro. enquanto a Bruxa dá voltas pelo palco como um manequim. Melhor perguntar a ela.. com um enorme chapéu de flor e um xale coloridíssimo.. claro.

. como diz mesmo? Finesse. Me dá um sono.) . da sua elegância.) — Você disse que o Roque está apaixonado por você.) Ai. Está apaixonadíssimo. muito nervoso. sua boba? Não vê que é só pra implicar com você? Acha que o Roque vai olhar pra mim. mas eu tinha uma tia de tafetá francês que vivia repetindo que a tal de finesse era tudo na vida. SEREIA — (Mais animada. Ele só quer contar para as crianças como nós viemos morar aqui. menina? Por que está com essa cara de bacalhau em dia de Sexta-Feira Santa? SEREIA — (Chorosa.Quem me chamou? O que é? (Olhando o público. Acho que até sonetos anda escrevendo. E você. BRUXA E SEREIA (juntas. as crianças já .) — Mágico! Máááááááááágico! (Esperam. meu Deus. uma bruxa de pano. Não pensa noutra coisa. Vocês gostam de discurso? Pois eu não.) CENA 4 MÁGICO — (Entrando. Cadê o Mágico? BRUXA (Para as crianças. é isso aí. Acho chatíssimo.. Não sei bem o que é isso. SEREIA — Mas o discurso do Mágico não é assim. da sua. não agüento aquelas coisas de ―neste momento solene e tal‖. Bruxa. Ou virar estrela de cinema.elegantes..) — Você acha então que ele gosta de mim? BRUXA — Ele adora você. a cartola na mão. tornam a chamar.) — Deve estar terminando o tal discurso! Imaginem que ele inventou de fazer um discurso para vocês. sem a metade da sua finesse. BRUXA — E você acreditou.. sem a metade da sua classe. sempre durmo na metade.

estão todas aqui dentro. é? SEREIA — Achou o discurso? MÁGICO .) Está aqui dentro..‖ BRUXA — ―. (Para a Sereia e a Bruxa. Nunca ninguém começou um discurso assim. (Começa a puxar outro lenço. que não para de sair.E é mesmo. já sei.Como é que você sabe? BRUXA — (Irônica.) BRUXA — Escute. que coisa mais atrapalhada. BRUXA — Escuta. . (Remexendo na cartola. SEREIA — As crianças já estão caindo de sono. como é que começa esse discurso? MÁGICO — Bem. que vergonha. Quer ver? É assim: ―Neste momento solene.Ainda não. com a voz embargada de emoção. As crianças já estão quase todas dormindo.) ..) SEREIA — Puxa. começa de uma maneira muito bonita. (Começa a tirar um lenço enorme. Será que perdi? Ah. me diga uma coisa. BRUXA — (Ajudando o Mágico a puxar o lenço.) — Porque é muito original. alguém precisa fazer alguma coisa. você não quer falar de improviso? Acho que é muito melhor...) .) — Nossa.. Acho que está embaixo do segundo lenço. paradas como duas patetas.) E vocês aí.) Passei a noite inteira escrevendo.. entre as radiosas flores deste dia primaveril.. Onde é que está o meu discurso? (Revirando todos os bolsos. MÁGICO — (Voltando a remexer na cartola.. Esse lenço não tem fim..‖ MÁGICO — (Espantado. Originalíssimo..

Eu vivia suja de óleo. Algumas crianças não sabem. (Puxando mais um pedaço do lenço.) Uma pena. SEREIA — (Para as crianças..MÁGICO — Vocês acham. Faz exatamente um ano que nós cansamos de morar no Reino dos Homens e resolvemos mudar para cá. Vocês sabem. o Roque. o que o Mágico queria dizer é que hoje está fazendo justamente um ano que estamos morando aqui na Comunidade do Arco-Íris.. essas indústrias e fábricas que vivem derramando porcarias nos rios e nos mares.) . mas as bonecas também sentem igualzinho a elas. MÁGICO — É. Até o meu cabelo verde já estava ficando meio preto de tanta sujeira. e a Bailarina. o Soldadinho e a Bailarina. Os meus primos peixes. moro numa lagoa limpinha e sem polui nenhuma. com a música de caixinha.) CENA 5 SEREIA — Eu estava cansada da poluição. que morava na mesma casa.Bem. é? Mas um discurso tão bonito.. não foi. coitados. Agora. o Soldadinho. a Bruxa de Pano. BRUXA — Eu estava cansada de ser mandada.. com sua guitarra elétrica. (A medida que vai falando. Até que um dia a minha paciência esgotou. as outras personagens vão entrando: Roque. a Sereia. Então eu convidei a Bailarina. Eu. que toca sempre que ela se move ou fala. Bailarina? . Depois a minha dona ganhou de Natal um video game e me deixaram atirada num canto. aqui. estavam morrendo todos. com seu regador. para fugirmos para cá. A minha dona vivia me dando comidinha e me mandando dormir numas horas completamente loucas. impaciente. Os três carregam uma faixa onde está escrito: Feliz aniversário.

BAILARINA — Foi sim. Nossa história até é meio parecida. No começo, eu morava em cima duma caixinha de música. Toda a vez que abriam a caixinha eu dançava, O que mais gosto é de dançar. Parece que estou voando quando danço. Quando a caixinha era nova, abriam toda a hora, e eu dançava sempre. Depois a minha dona comprou uma vitrola eletrônica com dez caixas de som e uma TV colorida. Ninguém ligava mais pra mim. Fiquei jogada num canto, embolorando. Nunca mais dancei. Até que a Bruxa de Pano me convidou para mudar para cá. Eu estou muito feliz por ter vindo. Aqui posso dançar à vontade. MÁGICO—- Eu nunca fui um mágico muito bom. Nunca consegui parar de tirar coisas da cartola. (Puxando mais um pedaço do lenço.) Vocês vêem, até hoje não aprendi direito. No circo onde eu trabalhava, às vezes até jogavam tomates, couve-flor, cenoura... BRUXA — Ué, você podia montar uma tendinha... MÁGICO — Poder, podia, não é? Mas é que a minha vocação é mesmo pra mágico. E aqui ninguém se importa se os meus lenços não acabam nunca. SEREIA — (Para Roque.) — E você, querido, por que você veio pra cá? ROQUE — Porque aqui tem natureza, não é, bicho? Tem árvore, lago, tem pedra, passarinho. Não tem a poluição que você falou. No mundo dos homens tem muito edifício, cimento, túnel, viaduto. As pessoas moram numas caixinhas apertadas chamadas apartamentos. Eu nem podia tocar minha guitarra em paz. Logo vinham uns trezentos vizinhos reclamar do barulho. Aqui não (tira um acorde bem estridente), posso tocar à vontade que ninguém reclama. SEREIA — E eu acho que você toca muito bem. BRUXA — Eu acho um barato. ROQUE — Podes crer.

SEREIA — (Para o Soldadinho.) — E você, por que você abandonou o Reino dos Homens? SOLDADINHO — Porque eu não tinha vocação nenhuma pra guerra. E lá tem guerra o tempo todo. Bombas, tanques, as pessoas se matando, um horror. O meu sonho era ser jardineiro. Aqui eu posso ter o meu regador e molhar as flores todos os dias. Melhor do que ficar matando gente por aí, não é? ROQUE — Pode crer. MÁGICO — Muito bem, muito bem. Agora vamos cantar o nosso hino. TODOS — (Cantam e dançam.) Passarinho, flor do campo, borboleta nuvem clara, céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. Se você quer conhecer a felicidade venha morar na nossa comunidade venha, venha, venha logo, não duvides venha morar na A Comunidade do Arco-Íris. BRUXA — (Interrompendo.) — Ai, uma coisa peluda tocou no meu braço! MÁGICO — Psssssiu, que falta de respeito com o nosso hino. BRUXA — Mas estou dizendo que uma coisa peluda tocou no meu braço!

SEREIA — (Para Roque.) — Isso é só pra prestarem atenção nela. Não liga não. BRUXA — De novo! E foi daqui de trás dessa pedra, agora eu vi. (Vai espiar atrás de uma pedra. Solta um grito.) TODOS — (Agitados.) — Que foi? BRUXA — (Gritando.) — Tem três coisas peludas aí atrás dessa pedra!

CENA 6

TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — (Pulando de trá da pedra e fazendo muita bagunça. Os três carregam gravadores, máquinas fotográficas, um estetoscópio, e o tempo todo gravam, fotografam e auscultam as pedras e as árvores enquanto tomam anotações.) MÁGICO — Esperem aí, silêncio! Vamos parar com essa bagunça. Quem são vocês? TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — Nós somos Tião, Simão e Bastião! Queremos entrar nesta curtição! TIÁO (Pegando no cabelo da Sereia.) — Seu cabelo é natural ou é peruca? SIMÃO (Para Roque.) — Você sabe tocar Quero que Vá Tudo Pro Inferno? BRUXA — Meu Deus, que coisa mais antiga! BASTIÃO (Para o Mágico.) — Você não quer tirar um cacho de bananas dessa cartola? MÁGICO — Silêncio, silêncio! Que é que vocês querem aqui?

OS TRÊS — Queremos ficar morando com vocês. Estamos cansados daquele horrível Reino dos Homens. TIÃO — Lá só tem poluição. SIMÃO — E apartamentos. BASTIÃO — E filas. TIÃO — E automóveis. SIMÃO — Engarrafamentos. BASTIÃO — E guerras. TIÃO — E novelas de televisão. SIMÃO — E gente apressada. BASTIÃO — E acidentes. TIÃO — É horrível. SIMÃO — É terrível. BASTIÃO - É medonho. TIÃO — É tétrico. SIMÃO — É pavoroso. BASTIÃO - É assustador. OS TRÊS — É catastrófico! (Ajoelham-se, muito dramáticos.) — Pelo amor de Deus, não nos obriguem a voltar para lá! Nós não resistiríamos muito tempo! TIÃO — Eu teria que consultar um psiquiatra. SIMÃO — Eu tentaria o suicídio. BASTIÃO — Eu ia virar um criminoso. OS TRÊS — Nós enlouqueceríamos! Tenham piedade de nós!

TIÃO — Eu sei cozinhar feijão, arroz e guisadinho. SIMÃO — Eu sei varrer, lavar prato e pôr a mesa. BASTIÃO — Eu sei costurar, pintar e bordar. OS TRÊS — Nós sabemos fazer muitíssimas coisas. Por favor, deixem-nos ficar! TIÃO — Aqui é tudo tão bonito. Eu fico doente só de pensar em ver um edifício de novo na minha frente. (Atira-se ao chão, gemendo escandalosamente.) Não me obriguem a voltar! SIMÃO — Bastião, traga os sais do Tião! Meu Deus, está tendo outra crise! Bem que o médico avisou que ele não podia ser contrariado. (Bastião traz os sais. Tião aspira e melhora um pouco.) SIMÃO confusos.) BRUXA (Muito agressiva.) — Olhem, por mim vocês podem pegar todas as suas trouxas e ir já embora. Não acredito numa única palavra de toda essa macaquice. (Tião começa a ter outro ataque. Grande agitação.) MÁGICO — Que crueldade, Bruxa. Você não tem o direito de não acreditar neles. BASTIÃO — É isso mesmo. Ela não tem o direito. BRUXA — Tenho, sim senhor. E não acredito mesmo. Vocês não me enganam com toda essa choradeira. Sinto de longe quando há malandragem. Vocês vão indo e eu já venho voltando. Por mim vocês podem dar o fora agora mesmo. SEREIA — Você não é prefeita daqui para dar ordens assim. (Para os outros personagens, que estão muito

espantados.) — Por favor, digam alguma coisa. (Todos se entreolham,

por favor. Quem é de carne e osso como vocês não entende nada disso. levante a mão. Eu não sou amiga de macaco nenhum. mas devia ser.BRUXA — Não sou. Todo mundo tem o direito de dar sua opinião. que é peixe. bicho. claro que sou. (Todos se entreolham. Depois de algum tempo. BRUXA — Demo o quê? SOLDADINHO — De-mo-crá-ti-ca. E uma coisa que só as bruxas de pano têm. E eu me baseio sabe em quê? No meu sétimo sentido. fique sabendo.) — Que horror. MÁGICO (Muito polido. você está muito louca. Então vocês não estão vendo que essa macacada aí está é fazendo fita? ROQUE — Calma. BRUXA — Pois eu me recuso. A maioria vence. SOLDADINHO democrática. BRUXA . Vocês é que são loucos se deixarem essas coisas ficarem aqui. quem achar que eles podem ficar vivendo entre nós. SEREIA (Escandalizada. a Sereia bota a língua para a — Desculpe. MÁGICO — Então. E não estou louca coisíssima nenhuma.Bicho é a sua namorada. Os macacos estão muito tensos. Mas não com essa macacada. mas eu tenho uma solução . queremos a democracia! MÁGICO — Acho que é a solução mais honesta.) — Mas em que é que você se baseia para ter essas suspeitas todas sobre a honra dos nossos amigos? BRUXA — Amigos seus. Bruxa! Então você não é democrática? BRUXA — Sou. Vamos votar? OS TRÊS — Isso mesmo! Democracia.

gritam e beijam todo mundo. tão finos. SEREIA — Eu não posso... Você está belíssima.) MÁGICO — Muito bem. Um deles até me chamou de gentil donzela. furiosa.) — Não se esqueçam de que eu avisei. (Sai. Não sei o que a Bruxa foi achar neles para implicar tanto. (Apanha o pente e o espelho. disseram que eu estava belíssima. BASTIÃO — Deslumbrante... Menos a Bruxa.) — Você acha mesmo? Eu estava me achando tão horrorosa.) OS TRÊS — Então quer dizer que podemos ficar? TODOS — Podem! (Os macacos pulam. dançam. Agora vamos todos lá para dentro. fazem uma grande algazarra.) BRUXA (Saindo.. tiram fotos.. As vezes ela parece meia louca. SEREIA (Muito faceira. TIÃO (Para a Sereia. (Para o espelho..) — Mas está tão lindo assim.) CENA 7 SEREIA (Escovando o cabelo..Bruxa e levanta a mão.) Gentil donzela.. O meu sétimo sentido nunca me enganou. Um a um os outros levantam a mão. Essa macacada não vale nada. decidida. que lindo! . Preciso dar um jeito no meu cabelo. Vocês vão se arrepender amargamente. (Saem todos.) SIMÃO — Horrorosa é aquela bruxa de pano. Preciso dar algumas instruções a vocês antes da festa começar. deslumbrante.. tão bem-educados. Os macacos vão fazendo grandes reverências à Sereia.) — Uns rapazes tão gentis. gentil donzela. .

Já procurei por tudo e não consigo encontrar. CENA 9 MÁGICO (Entra correndo. A Sereia adormeceu...O Roque nunca me disse nada assim. aconteceu uma coisa muito estranha. Música suave. Gentil donzela. Será que foi a Bruxa que pegou? Ela vive pegando as minhas coisas..) Será que alguém pegou? Vocês não viram nada? (Nervosíssima.) CENA 8 SEREIA (Despertando. Um pente de ouro e um espelho com moldura também de ouro.. Não posso perder aquele espelho. até apagar completamente. Estavam bem aqui.) — Sereia. vou dar um jeitinho no meu cabelo. muito agitado. a Fada dos Sete Mares. (Para a platéia. tinha certeza que estavam aqui. Daqui a pouco começa a festa e o que o meu namorado Roque vai dizer? Que coisa mais estranha. . (Procura mais. Sumiu a minha cartola. Depois volta o silêncio. (A luz vai enfraquecendo aos poucos...) Ué. No escuro ouvem-se alguns ruídos abafados. como se alguém estivesse lutando. E o único pente no mundo capaz de pentear cabelos verdes como os meus.) Com licença.... onde estão o meu espelho e o meu pente? Gozado.) Será que alguém pegou? Não posso ficar assim descabelada. no dia em que fiz quinze anos. foram presentes de minha madrinha. que lindo. (Procura o espelho e o pente.) — Parece que todo mundo enlouqueceu por aqui. em cima desta pedra..

. bicho.) — Pois é. que vem entrando. acho que já está ficando.) Nossos objetos não podem desaparecer assim. dormi um pouquinho e agora fui procurar e não achei.) — Que estranho. Pior é uma sereia sem pente nem espelho.) . Você por acaso não a viu por aí? Que grilo! Logo agora. ROQUE (Procurando. Roque. (Os três podem improvisar.SEREIA — Sua cartola. Não tô sacando qual é. Logo a minha cartola.. Sabe o que a Fada dos Sete Mares me disse no dia em que me deu o presente? Que quando eu perdesse o pente e o espelho o meu cabelo ia começar a ficar preto.. (Vai andando de costas e dá um encontrão em Roque...) MÁGICO (Desanimado. Sinto qualquer coisa preta na minha . A guitarra tá sempre comigo. Tinha deixado aqui em cima desta pedra. na hora da festa. Vocês já viram um mágico sem cartola? SEREIA — Isso não é nada. Mágico. você não viu minha cartola por aí? ROQUE (Ao mesmo tempo. apavorada. procurar pela platéia. Eu estou justamente procurando o meu pente e o meu espelho de ouro. não me diga que a sua guitarra também desapareceu. também procurando alguma coisa.. (Leva as mãos à cabeça. mas que coisa triste. MÁGICO (Procurando pelo palco. CENA 10 MÁGICO — Ei. chamar as crianças para ajudar.Essa não...) Ah.) — E você não viu minha guitarra por aí? SEREIA — Roque.

. que faz gestos como se tentasse expressar-se por mímica. SEREIA (Consolando a Bailarina.. SOLDADINHO — O meu regador também! (Todos olham para ele e a Bailarina. bicho! SEREIA — E a Bruxa de Pano! Aposto como ela está metida nisso.) .) ROQUE (Consolando-a.) Em vista da gravidade dos últimos acontecimentos.cabeça.Não chore. fica decretado o estado de sítio na Comunidade do Arco-Íris: ninguém entra. um soldadinho sem regador.) Ela não vai mais poder dançar nem falar. meu bem.) E desapareceu também a chave de dar corda na Bailarina.. Daqui a pouco pinta o pente e o teu espelho. Ela só fala quando aquela musiquinha toca. Ai. Vamos fazer uma reunião geral imediatamente.) Gente. Agora ficou muda. vocês não sabem o que aconteceu! MÁGICO — Claro que sei: nossos objetos de estimação desapareceram. soluçando. Que bela comunidade vai ficar a nossa: uma sereia morena.. SOLDADINHO (Entra correndo com a Bailarina pela mão.) . Está todo mundo aqui? ROQUE — Faltam os macacos.. ninguém sai.Calma. (A Bailarina corre a abraçar-se à Sereia. MÁGICO — (Subindo numa pedra. que horror! Vou ser a única sereia do mundo com o cabelo preto! (Começa a chorar. calma.. bicho. SOLDADINHO — Mas isso não é possível! Precisamos fazer alguma coisa. uma bailarina muda que não pode dançar. . um mágico sem cartola e um roqueiro sem guitarra.

bicho.) Tião.) — Eu não. nem do abacaxi. horripilante e inconcebível. SEREIA — Estavam.MÁGICO — Onde é que andam aqueles macacos? (Chamando.Roubo? BASTIÃO . Não consigo imaginar nada mais terrível. TIÃO — Bem. SIMÃO — Já sei! Subiu o preço da banana! (Os três têm uma crise histérica e se jogam ao chão. MÁGICO — Calma. Uma coisa terrível. vocês estavam comendo os doces antes da festa! TIÃO (Disfarçando.. calma.Furto? SIMÃO — Afanação? . então se não foi isso.Roubo! TIÃO ..) Senhores macacos: aconteceu urna coisa muito séria. Não subiu o preço nem da banana. SOLDADINHO (Com voz cavernosa. gritando. (Em tom discursivo. sim. bicho. MÁGICO — É. isso agora não tem importância. Uma coisa que nunca havia acontecido antes na nossa comunidade.) . Bastião. inconcebível. Simão! TIÃO — Aconteceu alguma coisa? SEREIA — Ei... Eu vi. ROQUE — Deixa pra lá. que nos desgosta pro-fun-da-mente.) BASTIÃO — Que desgraça! Vamos morrer de fome ROQUE — Não é nada disso. horrível. nem do abacate.

. um pouco atacada de vez em quando. A Bruxa sempre foi uma criatura de bons sentimentos. SEREIA — E o meu pente e o meu espelho de ouro. senhores.. E a chave de dar corda à Bailarina. TIÃO — Com um chapéu de flores..MÁGICO — Sim. TIÃO — Vil.. mas jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas. Agora ela não pode mais falar nem dançar.) TIÃO — Um momento. bem. Enquanto nós nos preparávamos para a festa. Nós sabemos quem foi. vil e infame cometeu um nefasto crime: roubou a minha cartola. . SEREIA — A Bruxa de Pano? MACACOS — Ela mesma! Ela mesma! MÁGICO — Não acredito. Os macacos cochicham entre si por um instante. TIÃO — Então por que é que ela não está aqui. Um pouco. ROQUE — E a minha guitarra. agora? ROQUE — Ela saiu daqui trigrilada! SIMÃO — E antes de sair disse que vocês todos iam se arrepender amargamente. BASTIÃO — Uma criatura desnaturada. BASTIÃO — Uma criatura de pano.. SOLDADINHO — E o meu regador.. bicho. SIMÃO — Foi uma pessoa que não está presente. (Todos se lamentam. uma criatura desnaturada. SIMÃO — E um xale muito colorido. SIMÃO — E infame.

muito nervosos. MÁGICO — Isso é muito grave.) . TIÃO — Eu. MACACOS — Está na cara que foi ela. MÁGICO — Não posso acreditar.Está bem.BASTIÃO — Está tudo muito claro: ela ficou zangada porque não queria que nós ficássemos aqui e resolveu se vingar.) — Não! Isso não! SIMÃO e BASTIÃO (Em coro. MACACOS (Cochichando. não! MÁGICO — Mas por que não? Acho que é o único jeito de encontrarmos as nossas coisas. Eu.Não. Todos se consultam e falam ao mesmo tempo. SEREIA — E nós? . (Grande agitação. SEREIA — Uma o que? SOLDADINHO — Uma expedição de busca: dividimos as pessoas em dois grupos e saímos a procurar a Bruxa. o Soldadinho e o Roque vamos pela direita. SEREIA — Mas todas as provas são contra ela.) .) SOLDADINHO — Tenho uma idéia: acho que a gente deve fazer uma expedição de busca. SEREIA — Também acho. TIÃO (Muito nervoso. Não entendo por que é que vocês não querem. Simão e Bastião vamos aqui pela esquerda. já que vocês insistem. MÁGICO — Está certo. Eu não sei o que fazer.

. uma ladra.) SOLDADINHO . (Saem. SEREIA — Você? Como é que você tem coragem de voltar aqui depois do que fez? (Gritando.Cuide bem da bailarina. Bailarina. dona Sereia.) — Ladra? Ladra é a excelentíssima senhora sua avó.. dona Bailarina. BRUXA (Aparecendo de repente com uma bolsa cheia de coisas.) — Eu sabia.) CENA 11 SEREIA — E agora. eu sabia que você não faria uma coisa dessas.) Veja só. BAILARINA (Dançando. meu Deus? Às vezes me dá uma raiva de ser mulher. muito contente. e aqui estão o seu pente e o seu espelho de ouro. (Saem. .) — As damas ficam esperando. choramingando e torcendo as mãos. com uma clave de sol como fivela. Segure ela. Ambas choram e torcem as mãos..) Bailarina. Nos momentos difíceis os homens é que saem por aí. como as pessoas podem nos enganar. Bruxinha. que parecia tão nossa amiga. fique sabendo. E logo no dia de nosso aniversário.TIÃO (Com uma reverencia.) Aqui está a chave de sua musiquinha.. (Olha para a Bailarina..) BRUXA — Então vocês estão pensando que fui eu quem roubou todos aqueles cacarecos? Deixem de frescura. (Abrindo a bolsa .a musiquinha da Bailarina pode ser um cinto em forma de pauta musical.. Quem diria. faça alguma coisa. a Bruxa de Pano. As mulheres sempre ficam em casa esperando.. não está vendo que eu não posso sair do lago? (Bailarina corre e segura a Bruxa. Que papelão! Uma ladra.. suas bobalhonas.

Não conseguimos encontrar a criminosa. Vocês façam de conta que não sabem de nada.SEREIA (Penteando-se... E melhor eu me esconder no meio das crianças. Mas acho que vem gente por aí. BASTIÃO — A essa hora ela deve andar longe. O meu sétimo sentido nunca me enganou..Mas. . BAILARINA — Mas não entendo por que eles fariam uma coisa dessas. BRUXA — Pois eu vou contar direitinho pra vocês. felicíssima.) CENA 12 TIÃO (Entrando.. suas tontas. nem o Roque. então quem foi? BRUXA — Adivinhe.....) — Foi inútil..) . SEREIA — Nem o Mágico. SIMÃO — Deve ter tomado o primeiro trem para bem longe daqui. nem o Soldadinho. nem eu. Não sei como não perceberam desde o início. Foi assim (barulho fora de cena).. BAILARINA — Se não foi você. então. Vamos desmascarar aqueles três. nem a Sereia. Bem que eu avisei. BRUXA — Então? SEREIA e BAILARINA — Os macacos! BRUXA — Claro.. (Desce para a platéia. mas se não foi você..

com um ar tão satisfeito O que foi que houve com a Bailarina? Nem parece uma Bailarina sem música.) — A Sereia está penteando o cabelo! BASTIÃO — Companheiros. sua fera peluda! BASTIÃO — Fera peluda é a sua avó. BRUXA — Vocês vão ficar aí parados enquanto esse monstro me ofende? Crianças. Se ela está dançando de novo é porque.) . dona Bailarina. acho que está na hora de darmos o fora.... colcha de retalhos.Sim.) — Segura a macacada! Ladrões. (Pode improvisar uma correria com as crianças atrás dos três macacos.) — Ladra. até apanhá-los. a Bruxa de Pano tinha roubado a musiquinha dela. SIMÃO (Gritando. veja. lentamente.TIÃO (Fazendo uma reverência para a Bailarina. volver (Preparam-se para fugir. eeeeu? Ladrão é você.) — Mas a senhorita. Meia-volta... sua..) BASTIÃO (Cutucando Simão. quero dizer. (A Bailairina começa a dançar. sua.) BRUXA (Da platéia.) CENA 13 .. mas nós.. mentirosos! TIÃO — A ladra voltou! Segurem a Bruxa! BRUXA (Subindo ao palco.. vamos pegar a macacada.. ela está dançando novamente! SIMÃO — E o que tem isso? Ela não é uma bailarina? TIÃO (Muito nervoso.) — Simão.

MÁGICO (Para Tião. com a tal de democracia. E os outros dois também. Você quer fazer o favor de explicar? BRUXA — É muito simples. E tenho uma surpresa para vocês. senhoras e senhores. Roque.MÁGICO (Entrando. Eu fiquei tão nervosa que escorreguei da árvore e caí bem em cima de um deles. eu resolvi ir atrás deles para ver se descobria alguma coisa. . tiraram os disfarces de macacos e começaram a planejar o roubo das coisas de vocês. sim. Surge um homem de terno e gravata. ninguém está entendendo nada.) — Mas o que é que está acontecendo por aqui? BRUXA — O que está acontecendo. E sabem quem eles são? São espiões! Isso mesmo: três espiões do Reino dos Homens! Foram enviados para acabar com a nossa comunidade. com Soldadinho e Roque. querem ter a honra de desmascarar esses malandros? (Elas puxam os fechos e aparecem mais dois homens. que resiste até que a Bruxa consiga abrir um zíper na roupa de macaco. é que nós acabamos de prender os ladrões. eles estão fugindo! (Roque e Soldadinho conseguem apanhar Bastião e Simão. para a Bailarina:) Senhoritas. ainda por cima. Para a Sereia. amarrada.É. Aí eles me deixaram lá. Bastião e Simão se esgueiram de mansinho. MÁGICO — Bruxa. é um homem! BRUXA — É.) Fiquem sabendo que com a Bruxa de Pano ninguém brinca. Mas estavam com tanta pressa que não amarraram direito. E um homem mau-caráter.) — Isso é verdade TIÃO (Muito humilde. Eles foram para a beira do rio.) SEREIA — Meu Deus. eu consegui me desamarrar e vim correndo para cá.) . (Avança para Tião. Depois que vocês decidiram que eles podiam ficar morando aqui. Fiquei em cima duma árvore espiando.

BASTIÃO — Os automóveis. até todo mundo voltar para a cidade. Nos deram ordem de fotografar e gravar tudo. comem o que plantam. SIMÃO — Mas agora nós gostamos daqui. TIÃO — A televisão. BASTIÃO — Nós queríamos que vocês começassem a brigar entre vocês mesmos. Tem gente com medo de que esse modo de vida chegue a cidade. SIMÃO — As ruas cheias de gente. SIMÃO — O custo de vida. TIÃO — Os apartamentos. BASTIÃO — O barulho da televisão. todos constroem as suas casas. BASTIÃO — As guerras. Por favor. fazem as suas roupas. SIMÃO — O barulho dos automóveis. deixem-nos ficar! .MÁGICO — Mas por que os homens querem acabar com a nossa comunidade? Nós não estamos fazendo mal para ninguém. BASTIÃO — Que aqui o trabalho é dividido entre todos. TIÃO — Fomos enviados para impedir que isso aconteça. OS TRÊS — Por favor. TIÃO — É que todo mundo anda falando que vocês vivem de um modo diferente. SIMÃO — E as pessoas vivem bem e são felizes. TIÃO — Para os ônibus. não nos obriguem a voltar para lá.

OS TRÊS — Por favor. É horrível lá na cidade.) — Quem sabe a gente usa outra vez a . Quem acha que eles devem ficar levanta a mão. Nós estamos batalhando e mesmo assim pintam grilos! BAILARINA — Afinal. Parecem mesmo arrependidos. que decide se os macacos ficam ou não. BASTIÃO — Eu quero tomar banho de rio. (Aqui os atores improvisam uma pequena votação com a platéia. por favor! MÁGICO — Mas o que vocês fizeram não foi legal! O que é que você acha. Lá os passarinhos estão quase todos engaiolados. nós estamos arrependidos. TIÃO — Eu quero pisar descalço na grama. Bruxa? TIÃO — Bruxinha. Lá todos os rios estão poluídos. por favor. SEREIA — Coitados.. mas não pensem que aqui tudo é fácil. estamos buscando.) — Não sei. SOLDADINHO democracia? BAILARINA — Como assim? SOLDADINHO — Vamos fazer uma votação com as crianças. Acho que o melhor seria mandálos de volta para lá.SIMÃO — Eu quero ouvir os passarinhos cantarem livremente. procurando juntos um modo de viver melhor. Lá é proibido pisar na grama. ROQUE — É. E perdoar é uma coisa muito bonita. MÁGICO — Eu acho que eles devem ser perdoados. A maioria vence. BRUXA (Indecisa.

) SEREIA — Bruxa. céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. flor do campo. venha.) . não duvides. basta a canção para finalizar A Comunidade do Arco-Íris. Não falei que tinha um sétimo sentido? SOLDADINHO — Viva a Comunidade do Arco-Íris! TODOS (Cantam. BRUXA — É pra você ver. balões. a cartola e o regador. com as crianças subindo ao palco e os atores oferecendo doces. Na impossibilidade disso. morar na Comunidade do Arco-Íris.) — Acho que agora podemos começar a festa. bebidas.) Passarinho. Se você quer conhecer a felicidade venha. (Vai entregando a guitarra. venha morar na nossa comunidade venha. borboleta nuvem clara. (O final deveria ser uma festa. venha logo. querida. quero lhe pedir desculpas por ter pensado tão mal de você.BRUXA (Abrindo a bolsa.

. com gratidão e amizade. que me fez escrever e me ajuda a viver.ZONA CONTAMINADA Comédia negra em 1 Ato Para Scarlet Moon de Chevalier.

cravo vermelho na lapela. entre 25/35 anos. CARMEM. cabelos muito curtos. mais ou menos da mesma idade. Imagino-a com roupas de guerrilheira. Oxum de frente. MR. Mas também a imagino toda de couro negro. homem de idade indefinida. NOSTÁLGIO. Roupas leves. esvoaçantes — tule. rude. musselina. cartucheiras tramadas no peito. irmã de Vera. seda. . descoloridos. decidida. Forte. quase um clown. seu visual deve dar a idéia exata do que ela fundamentalmente é: uma guerreira. Anda descalça. luvas brancas. talvez chapéu estilo cowboy. Talvez use coroas de flores. um tanto gótica (meio morta-viva). Visual um tanto pré-rafaelita. um fuzil. cantil. De qualquer forma. cabelos que imagino longos sempre soltos. pulseiras. mas o oposto dela. Iansâ de frente.PERSONAGENS VERA. Maquiagem muito branca. enriçados.

mas também podem participar de outras ações. ex-votos. dança e se agita muito. mas castigado. sempre coreografados. HOMEM DE CALMARITÁ. multo agitado. pelos.smoking impecável. limita-se ao refrão das Litânias de Satã. Imagino alguns bailarinos — uns cinco ou mais. quanto fantasias tipo Chacrinha. Está coberto de trapos que deixam entrever nesgas de carne. como um coral. Seu texto. quem sabe também muitos bottons. mas acho que seria ótimo. Também pode ser feito por uma atriz. é um D. J. tralhas do gênero. por volta de 30 anos. Pode também usar roupas no estilo grunge (boné virado. homens e mulheres — cobertos de farrapos e chagas. portanto. o interior de uma loja funerária que sofreu um incêndio. de qualquer idade. E da maior importância que passe uma impressão de irresistível sensualidade. como um rapper —. talvez polainas e uma bengala. bem animal. Enquanto fala — talvez ritmadamente. Compadecei-vos de nossas feridas!‖. Forte e musculoso. camisetona). bermudão. desta longa miséria!‖. há coroas de flores metálicas. CENÁRIO Basicamente. gostosíssimo. Fica a critério do diretor. Imagino que fala às vezes com sotaque lusitano. CORO DOS CONTAMINADOS. mas o diretor é livre para criar outras e também para eliminá-las. mas é fundamental pelo menos um caixão à vista (a cama de Carmem). caixões. músculos. Tudo pode ser apenas sugerido. Entre escombros. atotô! (―Livrai-nos de nossas chagas!.) ou eventualmente algum mote tipo: Atotô. . Satã. Talvez tenha um auto-falante e um walk-man. fica a critério do diretor incluí-lo ou não. de Baudelaire (―Tem piedade. Eles geralmente acompanham as emissões de Nostradamus. NOSTRADAMUS PEREIRA.) Algumas de suas intervenções estão sugeridas no texto. Obalua.

esse plano pode ser um praticável levadiço ou nem sequer existir. 2. ou num canto do palco (penso nele um pouco mais alto. de cor contrastante com Plano anterior. flores carnívoras. é nele que acontece a maior parte da ação. No Plano Mídia pode haver um telão.). o espectador ficaria cercado pelo espetáculo. explosões nucleares (um bom cogumelo atômico). muito chique.Esse espaço pode ser chamado Plano Real. mais alto. Também quero deixar bem claro que o texto está aberto às improvisações dos atores. fica o Plano da Nostalgia. da mesma maneira que o anterior. montanhas de lixos. . Dependendo do tipo de teatro. vírus (dá-lhe HIV!) ampliados. ou um espetáculo alucinado. passando pela Talidomida. Penso em sépia ou bege. fica o Plano Alfa. invade todos os espaços. Depende do diretor. 3. os vários Planos podem ficar fora do palco. Há ainda um quarto espaço — o Plano Mídia — onde fica Nostradamus Pereira. Mr. da produção. Nesse caso. exibindo eventualmente cenas de Grande Catástrofe ou ruas desertas. Em nível diferente. *•* Outras indicações/sugestões: 1. Imagino-o completamente branco. Nostradamus Pereira intercala música em seu texto. ou um biombo recoberto de papel de parede estilo inglês. ou preto. que faz backing-vocal e repete como um eco coisas que ele diz. ou violeta — mas de qualquer forma. uma cadeira de balanço ou recamier. As citadas são apenas sugestões do autor. Há nele uma poltrona bergère. sempre seguidos pelo Coro dos Contaminados (se houver. Dependendo das possibilidades do palco e do diretor. dos horrores dos campos de concentração nazistas. modesta. Noutro canto. com várias cenas acontecendo simultânea e vertiginosamente. Pode ser tanto uma comédia de humor negro.). Nostálgio é muito. Zona Contaminada em nenhum momento se pretende um texto pronto. Enfim. O diretor fica livre para pirar. etc. sobretudo o de Nostradamus Pereira. do espaço disponível. se o diretor quiser também uma mesinha com abajur art-nouveau em cima. Nesse caso. Nostradamus move-se por todo o palco.

a luz vai crescendo lentíssimamente. Eu quero ficar todo melado dentro de ti. No Plano Real. Nada se vê. me arranha. sentado em sua bergère.) . No Plano Mídia.Ah vem. me morde. ou abanando-se suavemente com um leque. Aqui. Bem fundo.) Maldição. Em voz baixa. (Procura com os olhos.CENA 1 Palco totalmente escuro. como se ouvisse ruídos.) Quem está aí? Tem alguém aí? (A parte. Ele acaricia sensualmente o próprio corpo. No Plano Alfa. Como antes da Grande Peste. por favor. geme. com os dedos. Por piedade. me rasga. continua a treva. estilo nostálgico. mata a minha sede que já dura há tantos anos. (Subitamente para. passa a mão entre as coxas. Aos poucos. dobra-se todo de cócoras. como se dormisse. magnífico e seminu esta o Homem de Calmaritá. Preciso me esconder. E me toca. deve ser algum contaminado. cujo som a platéia não ouve. Com os dedos. num canto. mata a minha sede.) . Mais para a esquerda. exatamente como se amanhecesse. apalpa os mamilos como numa masturbação não exclusivamente genital. No Plano da Nostalgia. põe a tua língua aqui. e fica imóvel. como antigamente. CENA 2 HOMEM DE CALMARITÁ (Continuando a acariciar-se. Assim. Nostradamus Pereira dança loucamente com um walk-man.

) — Amanheceu outra vez. Preciso matá-lo.Aqui. Deixa ver essa carinha.) Sai daí. É um estupro.) . que continua a gritar e a debater-se. outra vez aquele sonho.. eu não quero.) . . Bom.) Maldição. A Peste deve estar em seus estágios iniciais. Deixa ver esses peitos.Todos dizem a mesma coisa. então. aumenta no Plano Real. me deixa. Nossa. Vera debate-se como pode. HOMEM — Sinto muito. deve ser algum contaminado.. Ah.VERA (Entrando. isso não prova nada. (Vera continua a gritar. eu não estou contaminada! Não me toca.. contaminada dos infernos. veste-as e começa a lubrificá-las lentamente. domina-a. O Homem então tira um par de luvas de borracha de algum lugar. verme do Apocalipse! HOMEM DE CALMARITÁ (Saltando sobre Vera. (Rasga a roupa de Vera.) CENA 3 VERA (Espreguiçando-se. é verdade. Vai ter que ser do jeito mais prudente. Tão bom. Aqui esta minha cara.. amordaça-a — tudo com trapos que arranca da própria roupa. besta imunda! Mostra tua cara purulenta. O Homem a amarra pelos pulsos e tornozelos. HOMEM (Joga-a no chão. não me passa a tua peste. VERA (Debatendo-se.. meu bem.) — Me larga. Hum. A medida então que a luz diminui no Plano Alfa. Ergue as mãos para o alto. não tem nenhuma mancha... falando alto.. tempo suficiente para que Vera saia debaixo dele e desça para o Plano Real. o fuzil nas mãos. parece perfeita. No começo não se nota nada. Nenhuma ferida. VERA — Eu estou perfeita! Me larga.) — Quem está aí? Tem alguém aí? (Procura. (Aos gritos. deitada num sleeping-bag.) Essa barriguinha. Não acredito em você Preciso salvar a minha pele. Droga. olha bem. Luz somente nas mãos enluvadas do Homem. ameaçadora.

. sei. Depois arde. Nunca sei qual o mais forte. (Acaricia os seios.) — Imagina. eu odeio estar viva aqui e agora. de pedra. deve continuar existindo aquele mesmo sol.) Amolece.. Tão duro. sul! Bom dia. Você continua a mesma. rijos. amarelo.. Nunca sei o que acontece primeiro. sei. como você é idiotinha. Ainda bem que estou acostumada. VERA — Tão quente que faz a pele da gente ficar cheia de feridas que não cicatrizam nunca. todo dia a mesma coisa. como arde. sal! Bom dia.) Faz uma volta redonda. E vai subindo. subindo devagar. CARMEM — Sei. De alguma forma. bem nos bicos dos meus seios. Verinha. Depois aperta a garganta e seca na boca. dia! Bom dia. .) — Bom dia. Como areia. Tesão e fome. Fome e tesão. CARMEM (Abrindo a tampa de um caixão de defunto. Então arde.. meu bem. Tão forte.que homem. Imenso. CARMEM — Era uma vez uma irmãzinha que acordava todo dia num mau-humor horroroso. arde tanto. até deixá-los duros. Mas depois de um bom café qualquer um muda de idéia. Que tal um cafezinho bem quentinho e uma geleiazinha de moranguinhos num pãozinho bem fresquinho para adoçar o nosso diazinho que começa a tão azedinho? VERA — Ai Carmenzinha. entorpece e vai subindo também. umedece. As nuvens radioativas cobriram tudo. subindo. por trás das nuvens. em algum lugar do infinito. CARMEM (Saindo do caixão. VERA — Aqui e agora. A fome começa aqui (apalpa o estômago). como arde. devagarinho. alegria! Bom dia. desde criança. sol! VERA — Não existe mais sol. quente. cantarola. Verinha. arde tanto. redondo. O tesão começa aqui. parece um buraco fundo. Dois pregos fincados no espaço. (Apalpa o sexo.

) Tudo bem. caviar.I beg your pardon? VERA (Soletrando. Kapput. VERA (Cortando. s‘il vous plat! Merci o beaucoup. e que logo viriam me pegar também. VERA — Não ficou picas. CARMEM — Mas a semana passada você trouxe tanta coisa. você sabe perfeitamente que se eles me pegarem eu não vou dizer nada. mas eu não digo nada. Já olhou a sua bunda? (Pega o fuzil. anchovas daquele supermercado chiquérrimo. e que. O que aconteceu? VERA — Você come demais. Podem me matar. VERA — Então vem comigo. Afinal. CARMEM — Você vai me deixar outra vez sozinha aqui? Ah. a última vez foi horrível. CARMEM — Deus me livre. CARMEM — Não é possível. Supermercado abandonado é o que não falta. querida.) — Então. CARMEM (Bem british. vou sair pra buscar mais. o que é pior. CARMEM — Não quero ficar sozinha aqui. cheguei até a pensar que eles tinham apanhado você. Vera. e que nós estávamos perdidas. ou me contaminar.) . Você demorou horas. Necas de pitibiriba. . Nem um grão-de-bico.) — A-ca-ba-ram. belle journée! VERA — Nem baguete nem salete: os víveres acabaram. madame! Une baguette de campagne. o que é que temos para o nosso petit dejéneur? Bon jour.) — Você pensa muita bobagem. O rango c‘est fini. Salmão.CARMEM (Fingindo não ouvir.

VERA — Por que? Vamos nós duas juntas. laboratório. devem sofrer tanto. penetrante. enrolados nuns trapos. Vamos ver a cidade. Ou do que sobrou dela. A idéia da morte. Não dói. Ou o que restou da cidade. E além disso você sabe muito bem que só estou tentando me acostumar com a idéia da morte. você sabe. Pois eu estou tentando me acostumar com a idéia da vida. As ruas. você sabe. Empesta tudo. cheios de pus. só uma vez. Um cheiro nojento. Aquele cheiro fura qualquer pano. VERA — Os contaminados. Um cheiro adocicado de lixo. VERA — O horror nunca é suficiente. CARMEM — Para mim é. as ruas estão cheias daquelas pessoas. Não existe nada mais morto do que as coisas lá do lado de fora. como você é tola. Não adianta nada tapar o nariz. aquelas pessoas. para mim já bastou.. Você só sente o cheiro. delirando dentro desse caixão medonho? CARMEM — Não fale assim do meu caixão. CARMEM — Pobrezinhos. enquanto você fica aí no bem bom. Ninguém resiste muito tempo. Amontoados no chão. E assim uma espécie de. CARMEM — Pois é. Não quero nem dizer o nome. podridão: foi isso o que sobrou. Vem comigo. Pareciam uns cães sarnentos.. VERA — Mas não tem quase mais nenhum deles vivos. . CARMEM — Eu já vi o suficiente.. atravessa qualquer parede. Da última vez só vi uns dois ou três escondidos num beco. Ruína. fedendo. Por que é que tem que ser sempre eu. VERA — Laboratório? Só se for de cientista louca. só da gente ver? VERA — Mas você não v quase nada. Ele é todo acetinado. meu bem.. eu não quero ver. aquele cheiro podre perdido no meio dos destroços. Carmem. Eu tenho medo...

Um figo seco. um biscoito.Que lindo! Uma côdea.) . seco. eu tenho fé que Ele não vai nos abandonar. Na verdade.) — Tem esse resto de pão.) . CARMEM — Não fale assim do corpo de Cristo. VERA — Já abandonou. duas ratazanas famintas enfiadas nesta toca imunda. que rói a pele da gente. irmã! VERA — Sol? Tem razão. Não ficou mesmo nada por aí? VERA (Tirando um pão do bolso. A luz diabólica que mata todas as malditas criaturas que insistem em continuar vivas. qualquer coisa. CARMEM — Não fale assim do nosso lar. Quanto mais cedo. Eu e você.CARMEM (Fingindo não ouvir. Estou com tanta fome. Esse mormaço branco. (Atira-o para Carmem. VERA — É melhor eu ir andando. Foi só o que sobrou. VERA — Como se a gente fosse rato. .) CARMEM (Apanhando o pão. inclusive nós. mais nados têm horror à luz do sol. É sacrilégio. CARMEM — Quer um pedacinho? VERA — Pão velho. quando digo ―sol‖. CARMEM — Mas você mesma disse que não tem mais sol. viscoso. honey. duro. não era assim que se dizia nos livros? Graças a Deus. É pecado. eu quero dizer o sapo do inferno que ainda conseguem furar as nuvens de chumbo.

queridos sobreviventes da Grande Catástrofe! Aqui quem fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. da nossa Zona Contaminada. as fugitivas estariam ocultas num porão ao sul do Boulevard Césio 90. no meio daquela pilha de Vanity Fair que você trouxe outro dia. muita atenção! Durante a madrugada passada o sobrevivente identificado pelo número 200 1-KBeta-S-B-03 procurou o Centro de Denúncias da minha. Carmem e Vera estatizam. (Encontra uma garrafa térmica. Batalhões armados até os dentes cercaram a área. que simulacro. serve Vera. um brinco. querida? .) Acho que aqui ainda deve ter um pouco daquele café de ontem. NOSTRADAMUS — E é cinco. Sempre a mesma história. em sua primeira transmissão de hoje. CARMEM — Se Deus quiser. lá vem os bois. É quatro. ação! VERA — Saco. garantindo ter informaçoes fresquinhas sobre o paradeiro das Sisters Salvadoras. mas as duas Sisters não foram localizadas. Mais tarde constatou-se — ouça! ouça! — estar o Sobrevivente 2001 de tal sofrendo das terríveis alucinações características do Estágio D da contaminação. é zero. Eles não vão nos encontrar nunca. ao alvorecer da manhã do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste. Onde foi que eu deixei? Estava aqui. Carmem com o pedaço de pão estendido para Vera. da sua. E dois. Segundo ele. (Tentando mudar de assunto. Vera com o fuzil. Luz sobre o Plano Mídia. virou freguês. atenção. é lero: Bom dia. porta-voz oficial do Comissariado do Poder Central. irmãzinha. Conte à mina. É três. E um. E atenção. um bum. onde está Nostradamus Pereira.CENA 4 Nesse momento entra um ruído eletrônico fortíssimo.) Está muito frio.

após a Grande Catástrofe. e portanto as únicas mulheres vivas capazes de evitar.) — Corpo de Cristo. do Filho. Eu disse regiamente. E agora fiquem com outro hit dos velhos bons tempos anteriores à Grande Catástrofe. Vocês ouviram o seu repórter Nostradamus Pereira. mente. NOSTRADAMUS — Como todos vocês estão cansados de saber. As duas ficam bebendo café em silêncio. maravilhosamente.) CENA 5 CARMEM (Erguendo o pão seco em direção ao alto. todas as ruas vigiadas. (Volta o ruído eletrônico enquanto a voz de Nostradamus vai desaparecendo. Like a Virgin ou algo assim. generosamente.. Mas tudo bem. as Sisters Salvadoras. Toda a cidade está cercada.) Qualquer informação sobre Carmem e Vera. do Esp. mente. a completa extinção da humanidade. Com vocês. vacona! (Entra Material Girl. . fraco e fedorento.VERA — Frio. por um fenomenal fenômeno fescenino as irmãs Carmem e Vera são as únicas mulheres sobreviventes ainda com seus úteros em perfeitas condições de funcionamento. abundantemente. resultante do cruzamento de uma ou ambas as fugitivas Sisters com algum contaminado.) Em nome do Pai. Além disso. através da procriação. Dá-lhe. oh doce e sagrado Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. enquanto prossegue a transmissão de Nostradamus. a deusa do fin-de-siécle passado: Ma-don-na. The Big Bitch. cientistas especulam da possibilidade da criação de uma nova espécie de mutantes. será regiamente recompensada pelo Poder Central. litúrgica. derramai sobre nós Vossas sagradas bençãos. (Benze-se com o pão. todas as saídas controladas.. em sua primeira transmissão diária.

Foda-se a raça humana. e esmalte. Entregue-se você. viro tia de um monstrinho bem nojentinho. a humanidade acabou. CARMEM — Os desígnios de Deus são insondáveis.VERA (Cortando. Aproveita. querida. querida.) — Caralho! Não me pegarão com vida. Eu também vou aproveitar.) Coitadinha.) CARMEM — Não esquece de trazer a gasolina! E vê se encontra aquela biografia da Lady Di! (A parte. Ah.. VERA — Pare de me chamar de querida. (Vai saindo. Não me deixe sozinha pelo amor de Deus! VERA (Vestindo as luvas. E batom. dizem que foi das primeiras a ser contaminada. Prefiro morrer de fome. CARMEM — Às vezes acho que seria mais fácil se a gente se entregasse logo. . lentamente. VERA — Para fazer um filho com um desses monstros sobreviventes? Um filho monstro. pode ter certeza. queri. (Sai. se quiser. eu também queria uns bombons. No que depender de mim. Na melhor das hipóteses. decidida.. Fala baixo. Eu me recuso.) — Calma.) Chega de bobagem. eu esqueci do esmalte. ouviu? Eu me recuso a entregar meu corpo para esses monstros.) CARMEM — Vera. também? Pois eu não. fica calma. querida. volte aqui. você quer que eles nos encontrem? Fica em paz. Eu volto logo. Dorme. Meu Deus. sonha. Pára e apanha um par de luvas de borracha. (Pega o fuzil. CARMEM — Que amor! VERA — Às vezes eu acho que você ficou completamente louca.

oh vale lamacento do Estige. por ti imploramos neste vale de lágrimas amargas de Petra von Kant. enumerando futilidades. Em vossas divinas mãos entrego meu destino.. Imploro-vos de rastros que perdoe minha irmã Vera — ela não sabe o que faz e sem sua força e proteção. dá voltas pelo palco. Orai. e em nome do Senhor proclamaram aos sete ventos.CENA 6 Enquanto Carmem fala sozinha. mãe de misericórdia — eparrêi. aroboboi! Ave Maria. Mr. CARMEM (Chorosa. Senta-se no centro do palco com o pedaço de pão nas mãos. que se fizesse silencio por todos os cantos crestados desta terra calcinada por sete carcinomas cancerígenos. Ondas do Danóbio. sete moradas. se eu gritasse. Senhor.) — Bendita seja a sagrada refeição que me dais hoje. lansã! — o fruto de vosso ventre Jesus. NOSTÁLGIO (Curvando-se. quem na legião dos anjos escutaria meu grito? Vida. cheia de graça.. seja ele qual for. Enquanto Carmem reza (a atriz pode improvisar à vontade). Aroboboi. muito formal) — A senhorita dar-meia a honra desta contradança? CARMEM — Falou comigo. Ao fundo. CARMEM — E no sétimo dia sete anjos desceram de suas sete casas. com uma rosa vermelha nas mãos estendidas para Carmem. Mr. Nostálgio aproxima-se cada vez mais. Nostálgio está: parado. com suas sete espadas de fogo. Desde L‘Alma ou algo assim. minha mãe Oxum! Por ti rogamos. doçura e esperança nossa. ainda que tivesse todo o ouro do mundo eu nada seria. sobem os acordes de alguma valsa bem conhecida. acende-se a luz no Plano da Nostalgia. Salve Rainha. fecha a tampa e coloca uma coroa de flores em cima. cavalheiro? . Oxumaré. sete moradas. Pega um espanador de penas. espana o caixão.

sou e sempre serei a mais sincera dentre todas as donzelas. NOSTÁLGIO (Enlaçando-a.) Mas aceito vossa prenda. (Coloca a rosa nos cabelos. Ao contrário. CARMEM (Muito coquete. NOSTÁLGIO — Ah. NOSTÁLGIO — Nome de cigana. Mas prefiro Mr. E vossa merca. fui. e não volta... ilustre mancebo. além da passagem vertiginosa e implacável do Tempo. CARMEM — Que romântico! . Tudo aquilo que persiste no coração dos mortais.Nostálgio. outros apenas Gio. apesar das guerras.) — Cigana eu..) — Aceite. Sou o que resta na memória. nobre senhor? Nada tenho de cruéis dissímulos. Nostálgio. começam a dançar. CARMEM — Mas deixemos de lisonjas. Quem é mesmo o senhor? NOSTÁLGIO — Sou aquilo que foi. garboso jovem. NOSTÁLGIO (Oferecendo a rosa. Dar-me-ia a honra da contradança.) . doce e fatal veneno que a um só tempo mata e embriaga: teu nome sempre será Mulher. cavalheiro. gentil donzela? CARMEM — A honra é toda minha. Duas sílabas crocantes: Car e Mem. CARMEM — Que exagero. a senhorita pode chamar-me assim. se indiscrição não o fora? CARMEM — Apenas Carmem. das pestes. embora ainda não saiba sua graça.. obrigado. como singela prenda de minha ardente admiração e afeto. Uma modesta rosa para enfeitar a suprema rainha de todas as flores. dissimulada. Alguns preferem Nos. Um criado seu. podeis crer. Tout-court.NOSTÁLGIO — Pois evidente que sim. Oblíqua.

. enlevados.‖ Não consigo esquecer aquele dia. CARMEM — Sois tantas coisas belas... seu idiota.. senhorita! Vosso ânimo arrefeceu tão súbito. CARMEM . quem sou eu? Não sou nada. o sândalo.. mon bijou? CARMEM (Em transe.) E eu. Por mais que o tempo passe..‖ NOSTÁLGIO — Sou o perfume no vale entre os seios da bemamada. o arquipélago. Vêde-o. até que ela o empurra bruscamente.) Mas venha. Vêde. Qu‘est que se passe. CARMEM — Ai! NOSTÁLGIO — A pérola. o sândalo. Maria bonita. Não passo de uma desgraçada que nada tem de seu além de um sonho falso. NOSTÁLGIO — A orquídea.. Maria del alma. senhor.. de aquellas noches. eu não consigo. NOSTÁLGIO — Sou o bolero eternamente vivo na lembrança dos velhos enamorados. ali fora. o arquipélago.NOSTÁLGIO — Sou o jardim de um sobrado de subúrbio. Não . venha. (A valsa pára bruscamente. (Noutro tom.Poison! Eternity! And last but not least: Chanel número 5! NOSTÁLGIO — Sou o suspiro. Fazei tudo por reparardes só no dia.) NOSTÁLGIO — Calma.―É o dia. no dia real.. CARMEM — Autentica.. é dia já. (Valsam. CARMEM — A ametista. vêde. coberto por todas as cores de todas as flores recém desabrochadas.) — ―Acuerdáte en Acapulco. a ametista... CARMEM (Cantarolando. recitando Fernando Pessoa. vêde-o.) . Sou a praia deserta varrida pelo vento nas noites de lua cheia.

) . A valsa continua. (Cautelosa. Dançando sobre as cinzas de tudo. enlace-me como antes.. HOMEM DE CALMARITÁ (Aparece subitamente.) Vamos. enquanto puxa um relutante Nostálgio. Venha. Eu sei que tem alguém aí. patéticos. meu amor. CENA 7 Grotescos. Você gosta...) E você? Responde logo. Não sentiu o meu cheiro? VERA — Não me toque. HOMEM (Tirando o fuzil das mãos dela. acende-se a luz no Plano Alfa. descontrolada. Carmem e Nostálgio ficam estáticos VERA — Quem está aí? Responde. Nostálgio tentam dançar sem música. aponta. senão atiro (Engatilha o fuzil. deixa disso. onde pode-se ver Vera com o fuzil na mão. porque a vida é nada!‖ (Tenta cantarolar. Vamos continuar dançando.O que? Você quer acabar com a única coisa que nós temos? Ora. HOMEM — Que é isso? Por que não? É tão bom sempre.) — Claro que sou eu.) Música. eu gosto. Carmem esbarra em coisas. maestro! ―Dai-me mais vinho. Carmem e Mr. é melhor acabar logo com tudo. vamos valsar entre as ruínas. senão atiro. nós não temos . Ah.. ri muito. VERA — Estive pensando.podemos perder tempo. a valsa não pode parar! (Ri como se estivesse bêbada. voe comigo! Tam-tara-ram-tararam-ra-ram. garota. Vem cá. responde logo. Enquanto isso. segura-a por trás.) Tamtara-ram-tara-ram. Dance comigo.

. (Começa a vestir as luvas de borracha. Nós não estamos contaminados.. Estamos em extinção..nada. ela começa a ceder. VERA — Não! Hoje é a última vez que nos encontramos. Existem poucos iguais a nós... VERA (Louca de tesão.Não diga isso. Tesão e fome. (Cheira-o por todo o corpo. . The horror.. (Afastao. embaixo do braço. tão forte. você e eu.) Aqui.. nas virilhas. meu Deus. como uma certeza.) Bem na ponta dos meus dedos. HOMEM (Acariciando-a. ao mesmo tempo.) Vai embora. três dias. continua aqui. ele fica lá. deixa eu comer você. Temos que aproveitar. VERA — Você é tão belo.. além de nós mesmos. Dois. Nós só temos hoje e medo. eu não posso confiar em você..) . Deita aqui comigo. Teu cheiro fica grudado na minha pele quando a gente se separa. eu tinha quase esquecido do teu cheiro. Deixa eu matar minha fome. você sabe. uma certeza absurda que você vai me trair.. que loucura. E mesmo depois. Vem cá.) — Maldito macho. (Agarra-se nele. HOMEM — The horror. como você. Vem cá. Só eu posso sentir. Foi um verdadeiro milagre a gente ter se encontrado. HOMEM — Não há perigo nenhum. vem.. quando parece que passa. Na curva do pescoço. VERA — Agora e terror.. Sou um sobrevivente sadio.) O teu cheiro. porque não passa. VERA — Tesão e fome.. nenhum futuro. secreto. Você não tem o direito de jogar isso fora. Nenhuma esperança. E maldita a fenda entre minhas coxas que precisa do teu falo. HOMEM — Isso. E muito perigoso. guardado nas minhas dobras. Não sei o que seria de mim se você não tivesse aparecido.. garota. Mas eu tenho uma intuição estranha.

VERA — Claro que não é verdade. VERA — Repete. Devagar. A luz diminui um pouco no Plano Alfa. Vamos ficar assim para sempre. VERA — Quero sentir o teu peso. não esqueço nada. repete comigo: para sempre. nada. HOMEM — Deixa eu entrar em você VERA — Não esquece as luvas. Melhor que a prime. me morde. sim. enquanto Vera e o Homem se abraçam com muitos gemidos. HOMEM — Nada nunca será a última vez entre nós. HOMEM (Começa a vestir as luvas de borracha. não se pode viver sem amor. Ao mesmo tempo. a luz vai aumentando no Plano Real. Mais fundo que todas. Me machuca. HOMEM — Nunca. Vem. Nostálgio tentam valsar sem música. VERA — A última. . Me lambe.) — Não. Claro que tudo é mentira. Não é verdade que você não me quer. meu amor. CARMEM — Os cristais retinindo! NOSTÁLGIO — O champanhe derramado sobre as rendas! CARMEM — Çá vá! Ça vá! No Plano Alfa: HOMEM — Como você é gostosa. Vem. onde Carmem e Mr. VERA — Pela última vez.HOMEM — Eu sabia.

. CARMEM (Aos gritos. NOSTÁLGIO — Valsemos. a rodopiar vertiginosamente no ritmo da fantasia. CARMEM (Agressiva. As valsas não morrem nunca.) .Um manequim.) — Pára com isso! Chega. Os dois voltam à obscuridade enquanto Carmem e Nostálgio continuam a rodopiar no Plano Real. CARMEM — Você é um robô ridículo. minha musa.Sou o ramo de miosótis esquecido entre as páginas amareladas de um livro de sonetos antigos. Valsemos. cada vez mais longe.) — O suavíssimo pulsar da andorinha peregrina. Fora daqui! NOSTÁLGIO — O verso póstumo na algibeira do poeta suicida.HOMEM (Erguendo as mãos com as luvas de borracha. minha bela. NOSTÁLGIO — Sou os pares enlaçados no centro do salão. ainda morno de seu coração. depois o empurra. isso é o que você é! Um manequim de gesso pintado! NOSTÁLGIO (Afastando-se. ferida em pleno vôo. CARMEM (Deixa-se levar um pouco.) . me deixa em paz.) — Você não é nada. tentando desvencilhar-se.) — Para sempre. mas sem música. CENA 8 Os gemidos de Vera e do Homem — obscenos como os de um vídeo pornô — vão diminuindo de intensidade. você não passa de um boneco de cera com voz de fita cassete! NOSTÁLGIO (Soltando-a e falando mecanicamente.

Só o silencio e a luz. Faz muito tempo. VERA — Mais fundo. absolutamente nada. Estou indo. meu amor.) — Havia uma festa. o brilho dos cristais. Nenhum barulho. HOMEM — Junto comigo. Nós estávamos no porão da casa. Eu não gostava de ir a festas. nenhuma explosão. assim. VERA — Aqui. Era uma vez. Devagar. Assim. Onde você gosta. E devia ser abril. Tinha que ser em abril. NOSTÁLGIO (Ao longe. VERA — Agora mais forte. Vem que eu te espero. HOMEM — Vem comigo. mais longe. devagar. Agora. Nada. Eu olhava fotografias de um álbum antigo. por favor. CARMEM — Então veio a luz. Em algum lugar. . minha irmã Vera preparava um vestido novo para a festa daquela noite. Não pára. acho que era de tarde. Ah. No Plano Real: CARMEM — Era de tarde. meu amor. nunca ninguém me tirava pra dançar. Havia sempre naqueles dias. cintilando. De repente. Naquela tarde. VERA — Estou indo. Sei que era abril porque as folhas começavam a amarelar nos plátanos da rua. o mais cruel dos meses. agora. as luzes todas acesas. O diálogo de Vera e do Homem entremeia o de Carmem e Nostálgio no Plano Real. tenho quase certeza. HOMEM — Como você gosta. naquele tempo.CENA 9 Volta luz tênue no Plano Alfa.

Eu vi o reflexo dela no rosto de Carmem e deixei a tesoura cair no chão. Uma iuz que cortava a retina da gente. Só aquela luz clareando tudo longe. e fiquei quieta quando o vento começou a soprar. tapei meus olhos com uma das mãos. CARMEM — Plác! fez. no mesmo momento em que tesoura caiu no chão. CARMEM — A tesoura de Vera caiu no chão e eu. eu não lembro. sem querer. Os corpos. esverdeada. Plác! VERA — Era uma foto de nós duas em Paris. Vários dias depois. VERA — Uma luz insuportável. rasguei a fotografia que tinha nas mãos. VERA — Só muito depois encontramos os corpos de papai e mamãe. a luz fica mais forte. De olhos fechados. No Plano Alfa. VERA — Carmem rasgou sem querer a fotografia. Talvez já tivessem morrido. Parecia de vidro. Vera faz contraponto a Carmem. CARMEM — Papai e mamãe estavam fora. Dentro só tinha cinza. as roupas. Pelas janelinhas do porão dava pra ver o vento de fogo queimando tudo. de aço. bem em frente a Notre-Dame. CARMEM — Primeiro veio o vento. Para não ficar cega. O Homem continua deitado. CARMEM — Eu comecei a gritar. um barulho seco.. Mas não fiz nenhum ruído. Em pé. para não ficar cega. Eu quero dizer.. .Uma luz cegante. VERA — Eu podia imaginar que tudo mudaria tão completamente e para sempre depois daquela luz. dentro e fora do porão onde eu estava com Vera. nem os ossos ficaram. eu gritei e gritei até perder a voz.

já está passando. Pó. CARMEM — Eu tenho tanto medo. A pele da senhorita acordará louçã como uma porcelana chinesa. Como se o grito pudesse me salvar. vosmecê nem necessita. não me deixe só. Já vai passar. gritava. NOSTÁLGIO — Apenas para o sono da beleza. Pronto. pronto. Que diga-se de passagem. Não me obrigue a entrar no caixão. no Plano Alfa. De que adianta lembrar? As coisas não mudaram entre nós. está prestes a fechá-la. NOSTÁLGIO (Acomodando-a no caixão. Agora parece que está sempre anoitecendo. (Ergue a tampa do caixão. CARMEM — Era de tarde. tudo pó. NOSTÁLGIO — Acalme-se. só mais uma. A senhorita está demasiado atacada dos nervos. vem. Desde aquele dia. senhorita. (Toma-a pelo braço e começa conduzi-la em direção ao caixão.) — Repousa.Esquece. por favor. Outra vez. que a vida é apenas e nada mais que sonho.) Convém deveras repousar um poucochito. Dorme e sonha. E para sempre. Quinze. sempre era de tarde ou de manhã naquele tempo. adormece. Eu não conseguia parar de gritar. vinte minutos no máximo. A luz apaga no Plano Alfa. ilusão. quimeras. (Muito frágil. VERA — Completamente. Já passou. Tudo mudou completamente.) Por favor. vem cá. fantasia.) .HOMEM (Para Vera. minha bela.) Memória. com Carmem dentro. Deita aqui comigo. CENA 10 . Como se estivesse louca. CARMEM — Eu gritava. senhor Nostálgio.

ão: atenção. VERA . E conta. HOMEM — Sempre a mesma bobagem. o porta-voz do Apocalipse. à venda em qualquer Posto de Insalubridade bem perto da sua toca. A voz de Vera aos poucos sobrepõe-se música. Na voz tropical de Ney Matogrosso. VERA (Para o Homem. . E agora fiquemos com mais outro hit do século passado. para lembrar os velhos bons tempos do libido. é nada.) — Você ouviu? É a segunda transmissão de hoje. depois diminui ao mesmo tempo em que volta a luz no Plano Alfa. é mina. à procura das Irmãs Sisters. Carmem permanece estática dentro do caixão e Mr. Nostálgio começa a voltar ao Plano da Nostalgia. desventurados sobreviventes deste mundo cão. eu tenho que ir. em mais uma de suas transmissões diárias diretamente do centro da minha. da nossa Zona Contaminada. muita atenção. porrada. vamos ouvir Trepa no Coqueiro. gemada. únicos seres capazes de salvar a humanidade da completa extinção — oh não. Aqui fala o seu repórter Nostradamus Pereira. que escuridão! Batalhões patrulham incessantemente os escombros das ruas da cidade.É muito tarde. Enquanto Nostradamus fala. Luz no Plano Mídia. Cinza Angra 2. Tudo está sob absoluto controle.NOSTÁLGIO (Está por fechar a tampa do caixão quando entra novamente aquele ruído eletrônico das transmissões de Nostradamus.) NOSTRADAMUS — E ão. moçada! Esta é pra quebrar o gesso! A música toca um pouco (esta ou qualquer outra). oh não. da sua. Não deixe o sol queimar as suas pústulas: passe cinza nelas. E continuam as frenéticas buscas das Sisters Salvadoras Carmem e Vera. Que nada. ão. Sacudam suas muletas.

até Vera. destino. mortal e desvairada! (Procura algo dentro do caixão. A noite é tão linda e a chuva é tão boa. (Começa a espalhar pelo palco uma fileira de bandeirinhas de São João. sempre aqui.) — Não havia uma festa? Onde foi todo mundo? Todos sempre me deixam só. Carmem está sozinha no palco.) O que é que vocês esperam de mim? Eu não tenho nenhuma sugestão a fazer para melhorar a vida de vocês. Volta no Plano Real. E eu não sei nada sobre eles. bem coloridas. minha gente. uma canção esquecida. ) CARMEM (Saindo do caixão. essa é a única maneira de vencer o fim do mundo. Mr. (Para a platéia. Estou trancada dentro desta caixa preta. No livro original não consta a Cena 11 . Cantar e dançar. Eles sabem tudo sobre mim. (Olhando o próprio palco. Qualquer canção. Nem mesmo esta existência de merda. (Canta. fado. Uma canção antiga. Não conheço suas caras. os spots. esqueci tudo. Mas o melhor a fazer é cantar. vai caindo a garoa. Sei apenas que seus olhos estão sempre lá. (Noutro tom. vigiam todos os meus passos. cercada por olhos fosforecentes que observam cada um dos meus movimentos do fundo da escuridão. Sina. Eu não tenho nada. Karma. à minha volta. Eu não tenho nada.) Só esta caixa preta. enquanto o tempo não passa. já esqueci. Ai de mim. São João. Observam e julgam.) Não havia uma festa por aqui? Então vamos cantar.) ―E o balão vai subindo. acende a fogueira no meu coração. Nostálgio está no seu Plano da Nostalgia. Dessas que ninguém lembra mais. Quem foi mesmo que disse isso? Ah não importa. E esperam.) Talvez sem eles eu nem existisse. Ela tem uma vida fora daqui. ela vê as coisas da rua. sentado na bergère ou numa cadeira de balanço. dentro do caixão. nunca vi seus corpos. criticam.(Apaga-se a luz no Plano Alfa.‖ Obs. a platéia. São João.) Não é justo.

) HOMEM (Segurando-a pelo braço. VERA — Não. olham-se em silêncio por algum tempo até que ela se volta para sair. VERA — E você acha que vou dizer onde moro? HOMEM — Você não confia em mim? VERA — Confio. (Acaricia o Homem. faz tempo. VERA (Irônica.) — Que que foi? Vai me pedir em casamento? . sete dias. HOMEM — Mais um pouco. pode colaborar com ela. VERA (Rindo. cento e sessenta e oito horas. Mr. é muito arriscado. Mas não a esse ponto. HOMEM — Não é isso.CENA 12 CARMEM (Canta. Tenho que ir. já disse. Se houver o Coro dos Contaminados.) Vou levando o seu cheiro junto comigo.) VERA (Tirando as luvas.) — Deve passar do meio-dia. Uma semana. Fica mais um pouco. VERA — Não posso ficar mais.) Semana que vem eu volto. sobre Vera e o Homem. Nostálgio também sai de seu Plano para ajudá-la. Todos brincam enquanto a luz diminui para voltar no Plano Alfa.) — Espera. Tem uma coisa que eu quero te dizer. acho que sim. HOMEM — Eu levo você em casa. Sei lá.) — Dez mil e oitenta minutos. (Procura o fuzil. (Abraçam-se. dança e espalha bandeirinhas pelo Plano Real. Mas juro que eu volto. HOMEM — É muito tempo. é isso? Nunca fui muito boa em contas.

) — Calma. . S6 ficaram ruínas. Finalmente apertaram o botão: bum! acabou. VERA (Sem prestar atenção.) — A luta é aqui. Estou farta de sonhos idiotas e escapistas. porque não interessa ao Poder Central que todos vão embora à procura de outra coisa.HOMEM — Foge comigo. acontece e acaba aqui. Um lugar paradisíaco onde a gente pudesse tomar banho de mar e fazer amor o tempo todo. Só aqui. VERA — Fugir? Mas fugir pra onde. VERA (Sarcástica. detritos. muito atenta. VERA (Voltando.. Eu tenho que comer. escombros. hein? Coqueirais e areia branca. (Vira as costas e vai saindo. ―Santo‖ é maneira de dizer. HOMEM — Existe outro lugar. sei. (Pausa. Bem que eu gostaria. Dizem até que tivemos sorte de sobreviver. onde.) HOMEM — Eu disse Calmaritá.) Mas eu conheço outro lugar.) — Calmaritá.. claro. O que eles querem que a gente acredite. Mas. Arembepe? HOMEM (Lentamente.. no planeta inteiro. E legiões de contaminados pelas ruas. eu tenho que trepar — eu tenho que sobreviver todo santo dia. O que existe é isto. VERA — Que lugar? Foi tudo destruído.. o que? O que foi que você disse? Eu já ouvi esse nome em algum lugar. eu tenho que dormir. Teu amor e uma cabana. meu bem? Você sabe perfeitamente que não existe mais nada além da Zona Contaminada. como nos velhos tempos. dentro da Zona Contaminada. sílaba por sílaba.) — Não me diga.. meu bem? Capri. drinques tropicais de abacaxi com camarão.. HOMEM — Isso é o que eles dizem. Eles querem que todos pensem que tudo começa. Goa.

Carmem e Mr. Agora é a sua vez.‖ Acende. Mas ele existe. dois e. Pronto.. Xangô menino..) . Um..) CARMEM (Batendo palmas. CARMEM — ―São João. São João.) CENA 13 No Plano Real. dois. .. eu já vou. mija na casa... (A luz apaga subitamente no Plano Alfa.. VERA — Calma. quase cai. num sussurro.. (Pula e tropeça. mija de bobo. NOSTÁLGIO — Não precisa empurrar. bem quente. Eu disse Calmaritá. Quem pisa na lama. São João. São João — acende a fogueira no meu coração.HOMEM — Claro que você ouviu.. E proibido falar desse lugar. implicante.. e. (pulando uma fogueira imaginária) três. NOSTÁLGIO — Será que eu consigo? CARMEM — Claro que sim. Vamos pular a fogueira? NOSTÁLGIO — Primeiro você. Nostálgio brincam feito duas crianças — ou dois retardados mentais — no palco enfeitado de bandeirinhas. CARMEM — Então lá vou. São João. Todos falam em voz baixa.. mija na cama. como é mesmo? HOMEM — Calmaritá.. Um. pulei.Quem pisa na brasa. Ai. Acende. Acende uma fogueira bem grande. O fogo purifica. Vai logo. Quem pisa no fogo. é proibido dizer essa palavra. Em algum beco escuro.

Acho que é um navio. NOSTÁLGIO — Quer. CARMEM — Ah. Não sei se eu quero. pega. isso é meio chato.) — Um. E muito importante acender a vela. quatro. E aqui tem tudo que a gente precisa. Treze gotas. NOSTÁLGIO (Trombudo. dois. A cinza é a única redenção da matéria vil. com um toque de maldade. três. CARMEM . não. CARMEM (Em transe. sim. . Você vai adorar. bem devagar.) — Não quero mais brincar disso? CARMEM — Você quer brincar do quê. você mija de bobo.) — Agora você vira a vela assim. treze vezes..) Primeiro a gente acende a vela.Eu não sei como é esse brinquedo.NOSTÁLGIO . bem devagarinho também. Toma. (Conta até treze. Só o fogo purifica..) NOSTÁLGIO — Se o desenho formar um coração é um novo amor.. E vai pingando. um navio. (Acende a vela lentamente. É superdivertido. CARMEM (Pingando a vela na água e contando. Parece mais um. O que será isso? Um triangulo? Não.Não pisei nada. orienta. E não é chato nada. Vamos brincar de ver a sorte. NOSTÁLGIO (Pega na mão dela. olha só.) CARMEM . vem cá que eu te ensino. CARMEM — Você mija na casa. (Pega uma vela e uma bacia cheia d’água. NOSTÁLGIO — É fácil. então? NOSTÁLGIO — De sorte. Só escorreguei um pouco.) — O fogo purifica..Acho que não está formando nenhum coração. você mija na cama.

parece que tem alguém aí. cruz quer dizer o quê? NOSTÁLGIO (Cruel. outro assim. E cruz é morte certa. Fica quieto.) — Treze gotas na bacia. Não pára de mudar. é você? VERA (Em off) . Tudo bem aí? . Eu já morri. Deve ser outra coisa... NOSTÁLGIO — Já parou. cruz não. CARMEM (Aos gritos. faz tempo. todo mundo sabe.) — Você mexeu a bacia. Agora parece uma. (Nostálgio estatiza. CARMEM — Espera. fui eu que inventei você. Cruzérrima. batendo palmas e cantando. Eu estou mandando.) Estou ouvindo um barulho. NOSTÁLGIO — Uma cruz. Um risco assim. está mudando. Carmem olha em volta.) — Não. Evidente que é uma cruz. É morte certa. Vera. E é pra logo. Para bem longe. A vida está deserta.) Eu não vou morrer. Claro que sou eu. fica quieto.NOSTÁLGIO — Navio é viagem. é a Stephanie de Mônaco. horizontal. a alma está vazia. Espera até a água parar de se mexer. CARMEM (Aterrorizada. vertical.) — Cruz é morte certa. NOSTÁLGIO — Não mexi nada. Você não sabe nada.. E é uma cruz. CARMEM — Mentira! (Agitada.. Você está mentindo! NOSTÁLGIO — Cruz é morte. Você está pirada. sim. Vera. CARMEM — Cala a boca. CARMEM — E cruz. assim não vale. pulando em volta dela. bem infernal.Não. CARMEM — Pára com isso! NOSTÁLGIO (Implicante.

Cruz eu não gosto. tudo bem.E atenção. O seu repórter Nostradamus Pereira informa que movimentos inusitados foram observados durante a manhã de hoje num supermercado abandonado — ado. CENA 14 VERA (Entrando. hein? Era aquele seu amiguinho invisível outra vez? CARMEM — Vera. não. sabe o que? CARMEM (Infantil.CARMEM — Tudo. ado . da minha. bem no coração da sua. Para bem longe. (Empurra Nostálgio.) NOSTRADAMUS . E você lembra o que significa navio? CARMEM — Uma viagem. vai? VERA — Cruz? Bom. VERA — Cruz coisa nenhuma. é. sai daí. Ela não pode ver você. me explica uma coisa: se eu pingar treze gotas de uma vela numa bacia cheia d‘água. ela não acreditaria. Anda logo. meu povão. entregando-lhe a vela acesa e empurrando-o para que Vera não o encontre. não vai formar o desenho de uma cruz. Mas acho que vai formar coisa bem diferente. VERA — Pois. olha só. O desenho vai ser de um navio. Ambas se imobilizam. que vai voltando para seu Plano com a vela acesa nas mãos. da nossa .) Anda.) — Pelo visto você andou se divertindo.) E mesmo que visse.Cruz. vamos. bota atenção nisso. (Para Nostálgio.próximo ao cruzamento das avenidas Chernobil com Nagasaki. dá o fora. A gente só vê mesmo aquilo que acredita. até pode. então.) . (Entra o ruído da transmissão de Nostradamus.

Rárárá. E por falar em ária. CARMEM — Já sei: você encontrou rosas brancas. E as revistas. tudo está rigorosamente sob controle. biscoito. escuta. bombons. Escuta: nós vamos fazer uma viagem. muito mais. quero dizer. VERA — Não existem mais flores. fiquem agora com a ária do suicídio de Madame Butterfly. quero dizer Con-ta-mi-nada. esmalte. tudo que você pediu e muito. Nada de novo.) VERA — Saco. você trouxe? VERA (Mostra um galão. japona! O gringo bunda-mole te chifrou mesmo! Arrive derci cornutta! (Nostradamus dubla Maria Callas no Plano Mídia.) Carmem. Tem café. já? Agora não.) Te mata. olé.) — Trouxe. Olé. Eles nunca vão nos encontrar. VERA (Abrindo a bolsa e jogando latas e pacotes. (Pega nas mãos de Carmem. e é possível que novas buscas levem finalmente ao covil onde escondem-se The Irmãs Sisters Carmem e Vera. nozes. CARMEM (Mastigando algum coisa. não é nada disso. CARMEM — Embora? Mas agora. então coma primeiro. sempre a mesma história. na voz lendária de Maria Callas. quero dizer. Nós vamos embora daqui.Zona Vitaminada.) — Está bem. (Entra Callas cantando. enquanto voltam Carmem e Vera no Plano Real. extraordinária. salsicha. CARMEM — Você está tão estranha.) E a gasolina. trouxe. com coreografia do Coro dos Contaminados (se houver). Come à vontade. agora eu estou com fome. sardinha. Voltaremos a informar nos horários habituais ou a qualquer momento em edição imaginária. alimária. Eu preciso te dizer uma coisa importante. Até parece feliz. . Nós somos mais espertas que o Poder Central. quero dizer. Minacontada. batom.

) . CARMEM — Não existem mais homens bons. feliz talvez ainda não. CARMEM — Você encontrou a biografia da Lady Di? VERA — Ainda não.. E o homem também é outro. Eu encontrei um homem. aquela coisa. Não é um contaminado. meu bem. E que equipamento.. Mas tenho assim. hospitais...Um contaminado? Vera.... museus. eu. Um homem bom.De verdade? VERA (Maliciosa... que fazia a gente esperar que tudo desse certo. sabe qual? CARMEM — Esperança? Não me diga que você está com esperança! VERA — Estou. CARMEM (Assustada.. para onde a gente vai agora? Já estou cansada de andar me escondendo por igrejas. Eles precisam de nós. bares. Não é nada disso. Meu Deus... casas de cultura. livrarias — livrarias até que eu gostava —. você ficou louca. CARMEM (Muito surpresa.Claro. Você contou a ele aonde nós estamos e agora temos que fugir. VERA (Cortando a enumeração interminável.VERA — E estou. mas vou encontrar. Senta aqui.) . E um homem como nós. Com todo o equipamento.. meu bem.) — Calma.. como era mesmo o nome? Aquela coisa antiga. cemitérios. Por onde eu vou começar? Bom. estou. irmãzinha! Eles estão atrás de nós. O que aconteceu foi que.) . era essa a viagem que você falou. Agora eles vem nos pegar. sabe.) — Feliz? VERA — Bom. teatros. Sei. A viagem que eu falei é outra. . CARMEM (Incrédula. eu preciso te contar.

CARMEM — De lá. Ele conhece bem esse lugar. E um vale à beira do último rio de águas limpas. Fica meio escondido. irmãzinha. Um mundo novo. não muito longe. Não tem muita gente lá. Nós precisamos nos reunir. mas só hoje ele me contou de um outro lugar que existe perto daqui. Já faz tempo que a gente se encontra. Venha. não são. Só um buraco escuro. Eu tenho certeza. além de vocês. Quem não sabe. além de mim. parado no Plano Alfa.) HOMEM — Calmaritá. Um mundo muito melhor que aquele que nós conheciamos antes da Grande Catástrofe. gente que por alguma razão conseguiu escapar das mutações. Ele me ama. Carmem e Vera paralizam-se.VERA — Esse é. Luz sobre o Homem de Calmaritá. Gente como você. como eu. Vera. ele veio de lá. E se perde no meio do caminho. as planta canibais. só quem sabe que ele existe consegue encontrar. Umas trinta pessoas. Traga sua irmã. Se nós sairmos logo . Ele não estava mentindo. Ou você acha que você e sua irmã são as únicas sobreviventes da Grande Catástrofe? Não. devorado pelos animais mutantes. nas terras altas. Fica ao norte daqui. Existem outros. mesmo chegando perto não vê coisa nenhuma. é destruído pelos contaminados. nós precisamos nos reproduzir e nos fortalecer para o futuro que virá. Vera? CENA 15 (Luz no Plano Alfa. mas quase todo dia chega gente nova. De onde veio esse homem. venha comigo para as Terras de Calmaritá. de longe ninguém vê. de onde? Não existe lugar nenhum fora daqui. trazida por um de nós. esse lugar chama-se Calmaritá.

e é bela. VERA — E lar. por volta da meia-noite estaremos chegando lá. aquela com a estátua de Prometeu bem no meio. agora revele o seu. CARMEM — E tia. CARMEM — E mar.) — Antes do entardecer eu passarei para apanhar vocês.) — Saindo daqui. tem lá. tem maria lá. CARMEM — Parece bonito. VERA — Tem calma dentro dela. Fica do outro lado. também tem. HOMEM (No Plano Alfa. voilá. . VERA — Tem alma. CARMEM — E Clara.depois do par-do-sol. Arrumem suas coisas e venham comigo. suba quatro quarteirões em direção ao Comissariado Leste do Poder Central. CARMEM — E ama. Onde vocês moram. CENA 16 Apaga-se a iuz no Plano Alfa. Eu revelei meu segredo. que é tão bonito. na loja funerária com a fachada incendiada.fica apenas no Plano Real. você e sua irmã? VERA (No Plano Real. VERA — Tem maria. parece gostoso lá: Cal-ma-ri-tá. Vamos todos embora para as Terras de Calmaritá. bem em frente. Atravesse em diagonal a Praça Hiroshima. meu bem.

(Noutro tom. (Acariciando o ventre. tem lama lá. Uma terceira coisa. Itacuruçu.. Você sabia que na língua dos índios ita significava pedra? CARMEM — Ita.. insaciável. furioso.... isso não é motivo.. fez amor com ele. Não sei explicar.) Será que nós podemos confiar nesse homem. petininga. eles não são todos iguais? VERA — Esse é diferente. não significa que. Ita. poâ.. E não foi você mesma quem disse que. não foi isso? Pois eu mudei de idéia.... Vera! Além do mais. CARMEM — Um filho dele? Meu Deus. CARMEM — Como você sabe? VERA — Eu trepei com ele. Essa coisa nova dentro de mim me dá assim como uma espécie de. irmãzinha? Afinal. VERA — Itaqui. a humanidade pode acabar. Ita. CARMEM — E se ele nos denunciar ao Poder Central? VERA — Ele não faria isso. naquele mesmo lugar onde antes só existiam tesão e fome. CARMEM — Como é que eu posso ter certeza? VERA — Eu vou ter um filho dele.) Desde que comecei a sentir a presença de uma outra coisa aqui.VERA — Tem ita. Agora não é mais apenas um buraco voraz. VERA — Eu sei o que eu disse: no que depender de mim. CARMEM — Mas tem. como .. CARMEM — Que vulgar. Só porque você tre.. diferente das outras duas.. que tragédia! Eu vou mesmo ficar pra titia.. VERA — Ele é um homem bom. maracá.

Rafael. CARMEM — E se ele não aparecer? VERA — Ele me deu o mapa de lá. abre.) . debruçadas sobre o mapa. CARMEM — E ele sabe? VERA — Ainda não. tão irracional na sua fantasia desenfreada que chega a inventar nomes próprios e lugares geográficos imaginários . Nostálgio. Vera. E eu vou ser tia. Gabriel. Luz no Plano da Nostalgia. (Tira um rolo de papel. eu gosto muito desses nomes de anjo.Tem um rio. Humano? Quero dizer.) — Depois que o sol se for. Vou contar hoje à noite. VERA (Sem ouvir.) Quando chegarmos a Calmaritá. Daniel. Se for menino. Ah. e que só por falta de outra palavra ainda insistimos em chamar de ―humano‖. Arjel. esse escombro que restou. Que nome você vai dar pra ele? Precisamos fazer uma lista. Enquanto fala.era mesmo aquela coisa antiga que a gente sentia quando acreditava em alguma coisa? CARMEM — Fé? Meu Deus. (Sonhadora. CENA 17 (No Plano Real. fazendo planos. Carmem e Vera falam baixinho. Tão insensato. isso é tudo que o ser humano necessita.) CARMEM (Encantada. Para continuar existindo. basta atravessarmos a praça e seguir por aquele caminho que vai para o norte. Fé. que bom vai ser passear com o meu sobrinho na beira do rio. ele desce e vai recolhendo as bandeiras de São João. E isso ai. sobre Mr. se por acaso ele não vier.) NOSTÁLGIO — Ilusão. você está sentindo fé? VERA — Pode ser.

Shangri-Lá. Me empresta a sua bolsa. Nossa vida vai mudar. Getsemâni.) — Pode pegar. VERA (Estendendo a bolsa. cheios de sugestões que incendeiam a mente dos pobres coitados. Eu acredito. Ah.) — Pois eu preciso de muita coisa. É tudo. mesmo que apenas na fantasia. CARMEM — Calmaritá.para a própria ilusão. Atlântida. Tudo que preciso está comigo. Eldorado. Mu. úteros perdidos a serem recuperados de alguma forma.‖ Utopias. (Sai. o Jardim das Hespérides. ilusão é tudo que o humano — esse escombro patético — necessita para continuar existindo. Eu não vou levar nada. continentes perdidos. Ao norte. então preciso arrumar as minhas coisas.) VERA — É verdade. Parece um sonho. sonoros. no sonho. meu corpo. VERA — Meu filho. Tudo que é necessário para começar um mundo novo. nas terras altas. Calmaritá. Paraísos obsessivos. CARMEM (Remexendo dentro do caixão.) CARMEM — Parece verdade. Nomes mágicos. terras do eterno prazer. Pasárgada. (Recitando Manuel Bandeira. CENA 18 (Carmem e Vera no Plano Real. eu acredito.) ―E quando estiver cansado / Mando chamar a mãe d‘água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar. eu já dizia cá com os meus botões. Ilusão. Lemúria. . Essas coisas em que não se pode jamais tocar. Carmem. Na mente. E se é verdade. e que tm apenas um nome. Rosebud.

cada aquela coleção de Manequim? Eu é que não quero andar mal vestida no meio de uma terra e de uma gente que nem conheço direito. com trejeitos de Carmem Miranda. CARMEM — E boitatá. A Priscilla. . CARMEM — Pois é. VERA — Mais uma meia-hora e ele deve estar chegando por aí. mar e ita. tem mungunzá.) — Tem tudo lá. CARMEM — E vatapá. Não tem aqui. Me diga só o que não tem em Calmaritá? Axé. minha primeira boneca. Agulha e linha também. Não posso parecer uma mendiga. eu quero ir já. né. AS DUAS (Improvisam fantasias com as tralhas de Carmem e cantam. meu bem. meu bem? Acho que vou levar uns moldes também. vamos embora daqui. eu quero ir já pra Calmaritá. Vera? VERA — Calmaritá. sei lá. De repente.Deve ter.. Ah me leva daqui. Eu não tenho filho. Como é mesmo. CARMEM — Doce de abóbora. me diga só o que não tem em Calmaritá? Tem sapoti. calma.CARMEM — Mas eu não. pois só tem lá. Como vai.. Carmem. meu pai Oxalá. VERA — O que? CARMEM — Será que tem lá? VERA (Rindo e dando inicio a um jogo meio infantil) . é o que eu digo. Alguns botões. eu preciso de uma porção de coisas. não tem ali. por exemplo (tira uma boneca do caixão). Tem tudo lá. oba lá-lá. Babá. pourquoi pas? Nunca se sabe o que as pessoas usam nessas tais Terras de Cal. sempre é bom. Tem juriti e abará. me leva pra lá. é um lugar chiquérrimo. VERA — E caruru. eu não tenho homem. Uma tesoura. Priscilia querida? Vamos embora.

mucha atenção. desventuradíssimos — íssimos. De número não identificado. com coreograJlas e muito tchurutchuru e oh yeah! De repente o zumbido de Nostradamus no Plano Mídia interrompe tudo.) VERA (Para o Homem. as únicas fêmeas capazes de salvar a humanidade da mais negra e completa extinção. (Luz no Plano Alfa. atención. . com gestos de Carmem Miranda. please! — o paradeiro das Irmãs Sisters Carmem e Vera. procuradíssimos — íssimos. aparentando por volta de 30 anos. caríssimos. ira. raríssimos. onde está parado o Homem de Calmaritá. ira: Jacira! — . ado. sexo masculino — e bota masculino nisso! é um bofe máravilhoso! até eu que nem sou chegado fiquei balançado como um veado — ado. Há poucos instantes foi capturado mais um dos raros. amadíssimos. íssimos — sobreviventes da enorme. a esperança voltou! Em edição extraordinária aqui quem vos fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. sem mais frescuras e submetido à confissão obrigatória o charmoso sobrevivoso má-ravilhoso revelou saber — atenção. da Grandissíssima Catástrofe. VERA — Você devia ter resistido. porta-voz oficial do Poder Central. NOSTRADAMUS — E atenção. íssimos — sobreviventes da Grande Catástrofe. eles me torturaram. ado. atention. bem no ponto! Enfim. da imensa. pouco mais ou menos. As duas congelam como quem brinca de estátua.CENA 19 Carmem e Vera brincam como duas meninas. caros. ira. Se houver. o arauto do fim dos tempos. sofridíssimos.) — Você nos denunciou! HOMEM — Me perdoa. sem qualquer sinais exteriores de contaminação. o Coro dos Contaminados faz backing-vocal.

Queriam saber meu número. Vera. o sobrevivente. vão coçando aí suas feridas. as gatinhas Carmem e Vera estão descaradamente escondidas numa loja funerária semidestruída em pleno centro da minha. não haverá fuga possível para as Irmãs Sisters. Se for verdadeiro o que afirma o garanhão.) CENA 20 CARMEM — Você ouviu? . da nossa Zona Contaminada.HOMEM — Eu não tive culpa. eu não tinha. ninguém resistiria. Batalhões armados até os dentes que sobraram já cercam o local. (Sempre com os Rollings Stones ao fundo. como se eu fosse um bicho. muito animado. eu fui fraco. Fui obrigado a contar. no mais expressivo hit do século passado: Sa-tis-fa-ti-on! Hoje mais do que nunca. morta na Grande Catástrofe. que continuam estatizadas no Plano Real. Mais pra zona do que pra nada. Queriam saber de você. da sua. O Homem tem uma das mãos estendidas em direção a Carmem e Vera. Eles me pegaram. quero dizer. E se não for. eu nunca tive. a tia tinha razão: ninguém consegue ter satis-fa-ção! (Entra a voz de Mick Jagger. mais pra mina do que pra conta. Eu não sou um número. fiquem com a voz de titia Jagger. Eu traí você. a luz permanece acesa no Plano Alfa. o Coro de Contaminados acompanha. Ao mesmo tempo. Me perdoa. que um dia será. embora morta. Nostradamus e o Coro dos Contaminados cantam e dançam loucamente. NOSTRADAMUS — Segundo revelou a lasanha. com redes.) HOMEM — Foi quando eu atravessava a praça. Enquanto a funerária é cercada. eles estavam escondidos atrás da estátua de Prometeu.

(Nostradamus e o Coro dos Contaminados dançam ao som das Frenéticas. alô. moçada contaminada. cada vez mais alto com Dudu. Tia Rege. Todo mundo ouviu. ele tenta. informa que as Irmãs Salvadoras Carmem e Vera — alô. que tesão! — estão totalmente cercadas pelos batalhões do Poder Central. CARMEM — Como ―bom‖? Ele nos denunciou! Nós estamos perdidas. Existe um auto-falante em cada esquina da cidade.) . amadas! Em edição extraordinária o seu repórter Nostradamus Pereira. o Nostradamus. A prisão é questão de minutos. numa homenagem às Irmãs Sisters. para felicidade de todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. CARMEM — Ele falou de nós. Meio sem graça. VERA — Ele sempre fala de nós. CARMEM — E do homem. o que é que nós vamos fazer? Estamos perdidas. bailem comigo ao som de As Frenéti-cas. Do seu homem. Desta vez ele falou também do homem. NOSTRADAMUS — Completamente cercadas. Lidoka. gatinhas. ai. Eu tenho o mapa. Soltem todos suas frangas (vai entrando aquele tema de Dancing Days. CARMEM — Mas não adianta mapa.VERA — Claro.) E agora. vão preparando suas xoxotinhas para reprodução. VERA — Eu não estou perdida. e daqui a pouco a humanidade estará salva! Enquanto o cerco se fecha irreversivelmente. Redes. (Sacudindo Vera. tiram Nostálgio para dançar. Aos poucos vão saindo de seu Plano. gás lacrimogêneo. Sandrão e Leiloca). algemas e mordaças serão utilizadas para prender as feras. Vamos lá. Nós estamos cercadas. fiquem com Outro hit da etapa anterior à Grande Catástrofe. VERA — Ele é um homem bom. Edir.

sirenes. se você estiver só. cacos de vidro partidos —. eu não quero. lembra? Faz tanto tempo. Vem comigo. Eu quero o que se perdeu. num vale escondido nas terras altas. Eles vão nos pegar. CARMEM — Isso é loucura. mesmo que não exista mais. . O clima é atordoante. misturados aos fundos musicais anunciados por Nostradamus e a sons eletrônicos. Ou então um mapa. Existem mais alguns. além de vocês. Eu desisto. chegaremos lá por volta da meia-noite. para sempre eu desisto. E se você tiver o mapa. onde esta o Homem. (Luz no Plano Alfa. Eu quero aquilo que conheço. Venham comigo para as Terras de Calmaritá. CARMEM — Eu não posso. Ele me deu o mapa. Se sairmos ao entardecer. VERA — Eu tenho o mapa. além de mim. CARMEM — É impossível. Você tem que tentar também. Tudo acontece ao mesmo tempo. Ruídos violentos começam a ser ouvidos — explosões. CENA 21 (A partir de agora a ação acelera loucamente. não fica muito longe. VERA — Eu vou tentar.) VERA — Eu tenho o mapa. CARMEM — Como os bonzos budistas. eu fico aqui.) HOMEM — Ao norte daqui.VERA— Eu vou fugir. Eu não vou. amém. E preciso um companheiro para chegar. e que nem sei se existe. Não quero esse lugar para onde você vai.

existe outro. Finalmente as buscas tiveram seu fim.) NOSTRADAMUS — E em vez de música. na voz . aventurados idolatrados adorados ados. pouco importa: agora é definitivo. Sempre existe algum lugar. Neste momento. Não há como fugir.) — Já disse que eu desisto. VERA — Eu vou embora. CARMEM (Pega o galão de gasolina e começa a derramar por tudo.Loucura. hoje vamos brindá-los com um magnífico soneto de Luiz de Camões. informou e continuará informando o seu repórter Nostradamus Pereira neste glorioso entardecer do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste. ados. Onde estará aquela vela? (No Plano da Nostalgia. Venha comigo. as famigeradas Irmãs Sisters Salvadoras. E é cá. Carmem! Você não é idiota a esse ponto. Renuncio. seus tempo bemmovimentos dentro por permaneceram escondidas. O fogo purifica. ivo. Carmem e Vera estão totalmente cercadas. venha comigo. Eu tenho uma cruz marcada no meu destino. ilusão ou realidade. Nostálgio vai caminhando com a vela acesa em direção a Carmem. ivo. Carmem e Vera. claro.VERA — Existe. Ou achadas. CARMEM — Onde está a gasolina? VERA — Para quê? Você não pode fazer isso. E se não existe esse. sobreviventes da Grande Catástrofe. estão completamente perdidas. e é fé: ca-tás--tro-fe. Nostradamus acende a vela que Nostálgio tem nas mãos. O homem não mentiu. minha gente. Eu vou para Calmaritá. Daqui de onde do estamos tenebroso Aleluia! já conseguimos antro onde e senhoras visualizar tanto senhores. NOSTRADAMUS (Abraçado a Nostálgio. o meu gesto mais nobre é desistir de tudo agora. caros ouvintes. e é tas. e é tro. CARMEM — Eu fico por aqui.) .

Existe outro lugar. com Nostálgio e o Coro dos Contaminados.) ―São João. mas quem se importa com isso? Aliás. Os batalhões armados do Poder Central já estão invadindo o local. Mas agora está tudo terminado. o Sol padeça. mais desgraçada que jamais se viu. não tome mais ao mundo. O gente temerosa. Nostálgio. furibundos e não esqueçam. No meio do fogo.―O dia em que nasci morra e pereça. e se tornar. Dá-lhe. a mãe ao próprio filho não conheça. acende a fogueira no meu coração.) — A porta já foi arrombada.) VERA — Não faça isso. e volta para junto de Nostradamus. (Canta. a cor perdida. as lágrimas no rosto. bundo é o masculino de bunda. da sua. Este. nasçam-lhe monstros. cuidem que o mundo já se destruiu. eclipse nesse passo. Pela última vez. da nossa Zona Contaminada. o meu lugar é aqui. Nostálgio! (A parte. quiçá segundos vagabundos. inacreditável minha gente adorável : durante dois anos. não o queria jamais o tempo dar. CARMEM — Só existe um lugar. A luz lhe falte. de ignorantes. o Sol lhes escureça. venha comigo. Aleluia.) Dizem que ele não é real. sangue chova o ar. mostre ao mundo sinais de se acabar. As pessoas pasmadas. sus! Começa aqui uma nova era para todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. em pleno centro da minha. sem que ninguém soubesse. Que melodia pode servir de fundo musical a um momento tão . O fogo purifica. E é inenarrável. eia.do querido companheiro Mr. não te espantes. as irmãs Carmem e Vera conseguiram manter em segredo seu sórdido esconderijo.‖ NOSTRADAMUS (Invadindo o Plano Real. por assim dizer bem nas nossas barbas. que está parada no meio de um charco de gasolina.‖ (Com uma reverência. São João. quem se importa com qualquer coisa? Quem se importa? NOSTÁLGIO . caros ouvintes. Nostálgio entrega a vela a Carmem. A captura das Irmãs Sisters é questão de minutos. que este dia deitou o mundo a vida.

Basta levantar a mão assim. A saída. desvairada. Eu tenho que chegar lá. Eu vou ficar muito bem. O Coro dos Contaminados cerca Carmem em semicírculo. com Nostradamus e Nostálgio atrás. minha louca irmã. agora. onde fica a saída? Me diga onde fica a saída! NOSTRADAMUS — Atrás dela! Pega! Não deixa escapar! Queremos ela com vida! Pega! Pega! (Vera some. Vai com Deus. CARMEM — Eu vou ficar bem. O meu lugar é aqui. Eu sei que existe outro lugar. Preciso ir. Vera. para mim. Nostradamus dança com Nostálgio. devagarinho. aos poucos. Espero que você encontre o seu lugar. para nós todos. (Começa a tocar La Cumparsita. E que seja lindo lá.) Adeus. De alguma forma.) CARMEM (Segurando a vela acesa com as duas mãos acima da cabeça. Eu vou ficar bem. (Pega o fuzil. (Luz no Plano Alfa. Permanece uma luz suave sobre o Homem de Calmaritá crucificado. meu Deus. basta um gesto.) — Adeus. nu. sai gritando pela platéia. não muito alto. já que não quiseste iluminar o meu. eu sei que existe uma saída! Ele me deu o mapa. O Homem de Calmaritá está crucificado. aos berros. de frente para a . irmãzinha.emocionante? A única saída para Carmem e Vera agora é cantar um tango argentino. se sabias que eu era nada? Por que permitiste que eu traísse e enganasse.) — A saída. eu tenho o mapa. VERA (Enquanto Carmem fala. agora. A beira da minha morte.) VERA — É tarde demais. Preciso salvar meu filho. eu espero que tudo dê certo para você.) HOMEM — Meu Pai. (Beija Carmem. por que me abandonaste se sabias que eu era fraco. com uma coroa de espinhos na cabeça. quando tudo que eu queria era fazer o bem? Ilumina o caminho da mulher que amei. sacudindo os espectadores. e depois. meu Pai. assim. eu te abençôo.

entra música bem alto. Ouvem-se ao longe os gritos de Vera e de Nostradamus. Então os ruídos cessam completamente e todas as luzes se apagam. Ela está sentada em postura de lótus.) (O autor sugere a Bachiana nº 5. com a vela acesa. de Vila-Lobos. Os Contaminados entoam o mantra Om.) . cada vez mais remotos. ou outra à escolha do diretor — quem sabe Let it Be. com Tina Turner?) A vela apaga. Em completa escuridão. dos Beatles.platéia. à exceção da vela de Carmem. junto com Carmem.

em 1605. de Miguel de Cervantes) À memória de Clarice Lispector. que tanto me chamava de Quixote. Deus te dê saúde. “E.” (Miguel de Cervantes.) . e se não esqueça de mim.O HOMEM E A MANCHA Peça teatral em 1 Ato (Livre releitura do Dom Quixote. com isto.

três telões pintados e independentes. A direita. um manequim de costureira. pernas nem braços. Sentado no .PERSONAGENS (Todos feitos por um único ator) ATOR • MIGUEL QUESADA . sustentado por um cabo de madeira. uma voz em off.nova‖. apenas de malha preta. Quando o público entra. esses telões sobem ou descem. o Ator já se encontra no palco. meio na penumbra. ao lado. Dependendo da ação.HOMEM DA MANCHA • DOM QUIXOTE . CENÁRIO No centro e ao fundo do palco. sem cabeça. Sobre ele há um globo terrestre relativamente grande e. de Rodin.) (Telões levantados. Apenas o busto. Também pode ser um divã ou um récamier. A esquerda. os outros dois um de cada lado. Além disso. uma cadeira espreguiçadeira de lona listrada. Um ao fundo. Talvez na posição do Pensador. um pequeno praticável. todos pintados como se fossem prateleiras de uma biblioteca atulhada de livros.CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA e mais: GUILHERME. PRÓLOGO (Que trata da condição do ator e sua procura pelo geral até chegar ao particular. um banquinho tipo ―cantor de bossa. sobre o pequeno praticável.

meu Deus? Era uma vez quem? E quando.. Alguma coisa devo conhecer. e bebe avidamente. Nem um pouco dramático. as luzes da platéia apagam. Lentamente. Nossa. muita luz. etc. Com o indicador apontado faz com que pare ao acaso. Eu. Dá uma giradinha de desprezo no globo. o Saara.. etc. muita platéia — graças a Deus! —. Muita areia. (O Ator pega um copo ou garrafa d’Água ao lado. para baixo. era uma vez. cabisbaixo ele contempla um globo terrestre com muita atenção. catastrófica.. muita coxia. a Groenlândia. Depois fica olhando o vidro. muito chato. muito sol. Depois levanta-se e.banquinho. era uma vez.. Está nervoso. então. tem que ser alguma coisa que eu conheça bem. muito calor.. muito pingüim. Sim. muito bastidor. Acende luz sobre o Ator. muito esquimó. lírica. Para alertá-lo. eu. era uma vez. era uma vez. Levanta a cabeça. Era uma vez o que. (Gira o globo terrestre. muito frio. Toca o terceiro sinal.) vai repetindo: ) ATOR — Era uma vez. Mas como se não percebesse. direita. Retoma o autocontrole... muito camelo. Deixa eu ver. era uma vez. com movimentos muito definidos da cabeça — esquerda... (Torna a girar o globo. muita seca. Faz o sinal da cruz.. Para cada uma dessas direções. começa a olhar em sete direções. com entonações diferentes (infantil.. quem sabe aqui tem alguma idéia. toca um quarto ou quinto sinal. Toca o próprio rosto.. Deixa eu tentar outra vez.. ele continua a contemplar o globo sem se mover. é isso mesmo.) Era uma vez.. Muito palco. Ah. como se o estivesse vendo refletido. então... e onde era uma vez? E tão difícil escolher.. muito ensaio. muito branco. Eu.. Muito gelo.) ATOR — Era uma vez. (O Ator larga o copo/garrafa. para cima. Claro.. assustado. Por que não? Afinal. é tão difícil começar. no chão. Faz quase quarenta anos que convivo comigo mesmo. encara a platéia decidido. em pé. muito iglu.) ATOR — Era uma vez um ator. ..) Era uma vez. que sede me deu. era uma vez. eu me acho bem interessantezinho. O Ator estremece.

(Música circense feérica. O Ator desce do praticável e vai caminhando para a boca de cena. Muito ―Era uma vez‖. muito sonho.) ... muita ilusão. de braços abertos. Muito.muita emoção.

mas acho que sou. As últimas falas sao dadas em off. (Pausa. Eu conheço bem meu corpo. eu continuo sendo eu. meu Deus? Será que estou muito chato? Será que estou pirando? Onde está o personagem? (O Ator vai ficando cada vez mais frenético. assustadores. O personagem. Simpático.) ATOR (Mais sério.CENA 1 (De como o Ator sofre um pequeno surto narcisista mas acaba por reconhecer a necessidade do Outro para ser. (Faz vários gestos. que eu incorporo.) Bom. ao mesmo tempo. mas sei principalmente representar. eu sou um ator.) — Quando represento. Falo principalmente daquele outro em que eu me torno. Eu não seria um ator se não conseguisse ser também esse outro. Meu nome é Carlos. Não tenho miitos cabelos nem muitos músculos. cantarola alguma coisa). depois sai de cena. meio magro. estranhos.) Eu também sei cantar (improvisa. O importante é que seja alguma coisa bem conhecida do público.. fazer gestos dramáticos. engraçado. Caminha pelo palco procurando. embora eu também seja esse. passo a ser um outro. ilustrando o que diz. posa.Ladies and gentiemen. tragédia grega. Um ator não é uma ator sem um personagem. um pouco tímido. (O Ator recita qualquer coisa breve — Shakespeare. flainenco seria o ideal).) ATOR . sei me movimentar. será que eu não sou um ator? Será que eu não sou eu? Será que eu não sou nada. divertidos. E não estou falando do outro que me assiste. ou cada noite um texto diferente. porque ele sempre se vê em mim. sei dançar (dança um pouco. mas também. aqui.. Molière. mesmo quando não gosta do que vê. confuso.. que eu me transformo quando estou sendo um ator. é dele que eu falo. então. Como vocês podem ver. eu sou mais ou menos alto. agora.) ..

britadeiras. muito embrulhos e pacotes. susta! Eu quero porque quero o personagem! Me chama a produção! Cada meu celular? CENA 2 (Na qual se introduz afigura do personagem de Miguel Quesada. etc. entra Miguel.) Querem acabar comigo! Isto é um complô! (Em off cada vez mais longe. O barulho diminui. como se ficasse lá fora. ambulâncias. o personagem. Miguel usa paletó. claro. sei lá.) Eu processo! Eu mando sustar o cheque! Susta. telefones. sirenes de polícia e bombeiros. Ouve-se um intenso ruído urbano. Por sobre a malha o Ator. verdadeiro inferno sonoro. talvez chapéu. Eu até desisti de contar. buzinas. gritos.) MIGUEL — Enfim só. Fora a morte. Longe de toda essa loucura. Parecia que o tempo não passava nunca. Intermináveis anos. faz o gesto de fechar a porta. vendedores ambulantes.) Mas passou. trinta e muitos. Hoje foi definitivamente o último desses.. Alarmes de automóveis. freadas. (Animado. a luz permanec e apenas sobre o globo terrestre. sons de metrô. Essa é a única certeza que a gente tem.) Mas hoje não quero pensar na morte. Traz uma maleta de executivo tipo 007 e várias sacolas de supermercado. livre desse pesadelo que parecia sem fim.. Deposita as coisas em qualquer lugar. máquinas de escrever. Quero pensar é na vida. . o Desventurado Trabalhador Anônimo. No palco vazio. Quantos anos mesmo? Trinta. uma vassoura. gravata. (Noutro tom. O tempo sempre passa. trinta e tantos.ATOR — Onde está o outro? Ele é essencial para a minha sobrevivência! Onde está o personagem? Eu não tenho sentido sem o personagem! Eu vou enlouquecer sem o personagem! Eu preciso do outro! (Vai saindo. Na minha nova vida. Abrindo uma porta imaginária. Está um tanto excitado.

lógico.. Dá pulinhos de dança. Nem às filas. Arrivederci.. No mais perfeito e absoluto silêncio. bloody heil! Goodbye. claro.) CENA 3 (Onde se revela a radical decisão de Miguel de desligar-se do defora e as providências tomadas para tanto.o desventurado trabalhador anônimo. sentado. amigos que me traíram. vilie méchante da minha solidão sem remédio! Adiós.. Aposentado.) A-po-senta-do.) MIGUEL (Aos berros. Não me refiro ao salário. evidente. o zé-ninguém que nunca teve nada nesta vida além de seus loucos sonhos impossíveis —. de estar sentado. insuportável. um tanto ridículo. Miguel Quesada . Depois.. (Poético. que bela palavra! Deve ser uma das mais lindas da língua portuguesa. o silencio. Uma palavra tão rica em melodia. Uma questão estética.. o chapéu. Miguel Quesada está livre. meio pedante.) (Subitamente Miguel abre a porta imaginária. Nem a toda essa miséria. Ah essa coisa sagrada. Após. cidade infernal do meu calvário de cada dia! Sayonara. Quanta tranqüilidade.(Miguel arranca o paletó. em seus após. Sentado. neuróticos urbanos. em seus aposentos. (Pausa breve e silenciosíssima. inferno! So long. o solitário depressivo. fica só com a gravata sobre a malha. locura! Não preciso mais de vocês. cantarola Singing in the rain ou qualquer coisa assim.Finalmente chegou o grande dia. Onde habitam os anjos. tão cheia de significados. gente que nunca me quis! Au revoir.) MIGUEL . não econômica. .. o mal.. para estremecer a platéia. O ruído some. o neurastênico insuportável. sapateia.. gentalha! (Bate a porta. (Deslumbrado. Começa a rodar pelo palco. mulheres que não me amaram. O ruído urbano volta.) Falo da sonoridade.) — Adeus. quanto silencio. Decibéis altíssimos.amado.

Descem lentamente. Um homem desses pode apenas ficar lembrando.) Porque tem o tempo. De certa forma. Afinal.) Comida. como Juan Carlos Onetti. Tenho absolutamente tudo que preciso para viver sem sair nunca mais daqui. preciso tomar nota. não oferecem mais perigo algum. todas as coisas que acontecem a um homem vivo são insuportavelmente reais. Elas já foram vividas. bebida. tudo nesta vida começa sempre com ―era uma vez‖. Ametistas. víveres para muitos e muitos anos. rubis.. mastigando..) Desde bem moço. (Os telões já desceram completamente. até os sonhos. e até o dia da minha morte-amém.) MIGUEL . os telões. Por um segundo volta a ser o Ator.. consciente das três paredes teatrais. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah. Como Marcel Proust. Tenho estas quatro. Não preciso de nada lá de fora. Miguel sobe no praticável. quero dizer.. embora colorido. tudo nesta vicia são histórias. começam a descer os três telões pintados como se fossem uma enorme biblioteca. Como se na mente deles existisse um. remexendo na memória. (A parte. minhas memórias.. um baú transbordante de memórias cintilantes como jóias preciosas. falando franco. Nada de ―real‖. (Vai tirando coisas das sacolas e espalhando pelo palco.. E além do mais. Olha a platéia. remédios. nunca mais vou sair de casa.Enquanto Miguel vai falando...) bem. por mais chata que tenha sido a sua vidoca — e a minha.) Nenhum mérito pessoal nisso. E também tenho minhas lembranças.. esmeraldas. qualquer homem assim pode se dar ao luxo de passar o resto da vida sem viver mais nada. (Pensativo. eu sempre tive inveja dos velhos. (Melancólico.) Bom isso. (Hesita. que não precisam mais fazer coisa alguma a não ser lembrar. (Irônico. qualquer homem de quase 50 anos que trabalhou sem parar desde os 15.A partir de hoje. Miguel está cercado de livros.. que modéstia à parte são muitas. E não importa que sejam coisas más ou tristes ou miseráveis ou cruéis. foi chatérrima -. O tempo burilao tosco. estas três paredes do meu apartamento.) . O efeito é uma tanto claustrofóbico.

. qualquer problema. Melhorou.MIGUEL . Nome .) E quando eu estiver cansado de pensar no que vivi. moderno. Nunca mais pessoas. a ligação tá péssima. sempre existe o velho e bom telefone. eficiente. da pizzaria. (Poético. Enterrado vivo. Até da delegacia. sei. Tinha suas próprias histórias para lembrar. diziam. a gente nunca sabe.. violência. quem tá falando? Quem? Tia Flora? Tia de quem? Ah. Sei. Nunca mais desejo. E só pegar e ligar. o essencial. ainda me restarão os livros. Miguel de quê mesmo? Que nada? Queijada? Ah. Demente.Era uma vez Miguel Quesada. ansiedade. e acaba atendendo de uns três ou quatro toques. CENA 4 (Da primeira invasao inevitável do chamado Real Insuportável e a maneira como Miguel lidou com isso. Faz um gesto de arrancar o fio da parede. o homem que cansou de tudo e nunca mais saiu de casa. o estritamente necessário. da locadora de vídeo. Quesada. Só o indispensável. se for preciso.) Depois.) MIGUEL (Disfarçando a voz. espanhol. Que maravilha Nenhum contato com o mundo lá de fora. querida. Rápido. Até sexo. nunca mais sinais fechados.) . Mas ele não se importava. nunca mais ninguém. tenho os números da farmácia. Quer falar com quem? Miguel de que? Fala mais alto. que foram sempre o que mais amei. nunca mais correrias. Nunca mais filas nos bancos. O telefone toca. esse maldito mundo que chamam de ―real‖. Todas as histórias do mundo. Miguel assusta-se. (Vai-se aproximando do telefone. do pronto-socorro. do supermercado. muito alto. e que guardam outras histórias dentro deles.) Deixa ver. (Confere numa agenda. maníaco. depois hesita sem saber se atende. sei.Alô. Mas reflete melhor enquanto o telefone continua tocando. Hoje em dia tudo tem entrega a domicílio. desde menino.

nenhuma mãe.) MIGUEL— Paciência.) Mas a Carolina acho que nem tem meu número. (Espreguiça-se. Como é mesmo que minha mão dizia? Quem não é visto não é lembrado.) Depois.) Mas não tem pressa.) E tem também a Carolina. Aperta botões e grava uma mensagem com voz disfarçada. mas não tem mais.) Não. meu bem. Talvez nunca. claro. insistir. (Pausa. Nem conheço ele. (Sinal eletrônico.) — ―Isto é uma gravação. (Fatigado. nem credor. ter. tinha.. Não disse quando volta. Foi uma luta. mas tudo bem. Inútil deixar recado depois do sinal‖.. Saco.) Nenhum pai. nem vizinho. Hã-hã. caminha pelo palco refletindo e tentando relaxar. E. Ah. (Miguel pega uma secretária eletrônica. Viajou. longe do coração. Todo o tempo do mundo pra não fazer mais nada. Nunca pediu. (Suspira. nenhum irmão ou filho. Sinto muito. Preocupado. Mas a coitada está tão velha e surda. Algumas pessoas vão ligar. não tem ninguém aqui com esse nome não. Venci. (Irônico.) As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade. Tanto. Nem sei bem por onde começar. (Melancólico. viu. perguntar. O Zeca da livraria. nem namorada. . paciência. Afinal.) MIGUEL (Gravando. (Com pressa... Não. esse tal de Miguel viajou. Mas talvez seja melhor tomar algumas providências. Não sei de nada. A partir de hoje tenho todo o tempo do mundo. Longe dos olhos. Eu só fiquei com o apartamento. a Silvana lá do banco. Quem mais? Ah. Pois é. nunca ofereci. a tia Flora.) Esperei tanto por este dia. tão esclerosada que nem vai achar estranho. Tchau. Em seguida todo mundo se acostuma.. tanto. Quer dizer. é tão pouca gente. Estou cansado. Liga pra informações. não sei pra onde. No começo vai ser assim mesmo. nunca contei a ninguém desse meu plano. coração. minha filha. Sem trégua. O Guilherme do Almoxarifado. (Miguel bate o telefone com força.. amor.mais esquisito. Miguel viajou. Miguel continua seu monólogo.

Entram acordes de uma melodia espanhola.. Não pode ter sumido assim.) HOMEM (Acorda de repente. agora mesmo. Só um soninho. Mas a transformação é sutil. como era mesmo? Tão. gradativa.. baixinho. (Dorme. Imenso. Era clara. Azul celeste. (Procura no chão. pelo amor de Deus. Onde foi parar a mancha? Estava aqui. Que cansaço enorme. sonhar. Bem clarinha. Ritmo de flamenco. Silêncio e paz. ao mesmo tempo em que também começa a emergir o Quixote. ela estava bem aqui.) . (Luz sobre o globo terrestre.. fala sozinho. Ah. De outra cor. isso eu me lembro. e em determinado lugar dessa superfície de repente lá estivesse ela. violeta. entende? Parada.) MIGUEL — Dormir. roxa. Miguel está adormecido.. bem como sua estranha obsessâo. Era só.) CENA 5 (Na qual se introduz um novo e inquietante personagem. Baixou o Quixote. roxa não! (O Homem levanta-se da espreguiçadeira. só de outra cor. A luz vai diminuindo enquanto ele se encolhe.. (Meio alterado.) . se enrosca como um bebê. Só um pouquinho. Boceja. Não era uma mancha suja.) Do tamanho do mundo. já está’ transformado no Homem da Mancha. Roxa não. talvez só castanholas ou bater de saltos.. tão cansado. Assim. Lilás. meu Deus.) Bem aqui.) Não. Luz suave sobre o globo terrestre.(Miguel deita-se na espreguiçadeira. quieta. Quando Miguel desperta. De vez em quando voltam nesse Homem as suas porções Miguel e Ator. que sono meu Deus. nâo era uma mancha feia. a mancha. como se tudo fosse branco ou preto ou cinza. isso não. acomoda-se.. Quase no escuro.A mancha. Amarelo água.. ardente mas suavíssimo.

Em cima. araras. Se ela não está aqui. aqui deveria estar localizada Pasárgada. E onde estarão as Terras de Calmaritá? Gozado. Um ganglio. uma jaula? Não lembro. não era assim. Mas também não está. Ou era mesmo uma rede. quem sabe. eu também não. não lembro. Sobe no praticável. Não sei. eu estava dentro dela.. Pode ser então que cerca de Barcelos. dramático. não pulsa.. Mais ao norte. Esquisito. não importa. Etiópia. um aneurisma. e começa a girar o globo. feito uma rede. Vai caminhando em direção ao praticável enquanto fala.) Ela tem que estar aqui. no caminho de Santiago de Compostella. dentro não.) HOMEM — Não sei.. Ela não estava em volta de mim. hibiscos. E o Novo Mundo. uma bolha. Como numa poça de água da chuva.) . (Noutro tom. uma teia. um derrame. Tão clara. Não era exatamente dentro. talvez. Era isso. em baixo. Uma mancha no meio dos meus miolos.. apalpa-se. Eu estava parado no meio dela. .. Dizem que existe um novo mundo do outro lado do mar sem fim. Mas não dói. Mas Trebizonda também não existe neste globo. noroeste ou sudoeste. senta no banquinho na mesma posição do Ator durante o Prólogo.) Mas onde estará a mancha? Talvez aqui. em algum lugar. Nem a leste. maldição! Certamente este deve ser mais um dos imundos encantamentos dos nigromantes do mal que tanto me atormentam! (Homem sai procurando a mancha pelo palco. não lembro. um pouco ao sul de Trebizonda. ela não existe.) A não ser que existisse apenas dentro do meu próprio cérebro. Madagascar. Que estranho. E.. Dentro. Pérsia. (O Homem pára em frente ao globo terrestre.QUIXOTE (Em pé. não sangra. Acho que eu estava dentro dela.. Não.Ah. (Agitado.) HOMEM — As Índias. nem a oeste. (Leva as mãos à cabeça.. não sei. o caminho das Índias. eu estava. se ela não existe. Em algum lugar ela deve estar. Ou mais acima. meu Deus. Como será por lá? Como será o perfume das manhãs do Novo Mundo? Especiarias.

): ―Vinde.) ATOR (Lendo. no livro.‖ Está aqui. Era lá que estava a mancha.) QUIXOTE .(Passando a mão no corpo. Eram sete os povoados que compunham a região da Mancha. Já disse que não sinto nada. urdiduras. (Começa a pular num pé só. Este livro não mente. uma labirintite. Foi lá que aconteceu.) ―Miguel Esteban. Quintanar de la Orden. antigo e lê com todo cuidado. como se fosse novamente o Ator. O Homem permanece parado. tramas vis! Novamente a negra falange dos devotos de Lúcifer intenta confundir-me com sua astúcia maligna! Pois saibam que não os temo. como uma tatuagem. Nem mesmo um zumbido.) Nem sequer aquela sensação de quando entra água nos ouvidos. Villaverde. uma queimadura.Ah aleives. mas é definitivamente tomado pela figura quixotesca. Esquivias. Argamasilla de Calatrava e Argamasilla de Alba. batendo com a mão aberta no ouvido. o Homem joga longe o globo. Mas eu não sinto nada. já totalmente transformado em Quixote. corvos. . Tisteafuera. Depois acalma-se e começa a descer do praticável. Na minha pele. Então. um pouco mais forte. chacais. Não! Nada! (Violentamente.) No meu corpo. Volta a melodia espanhola. a mão direita cri spada e erguida dramaticamente no ar. ele pega um livro pesado. Faz tempo que eu não sinto nada. ladrões de estrada! Da minha mão avaramente adunca! Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!‖ CENA 6 (De como por momentos o Ator retoma sua voz. uma vertigem. demônios! (Caminha hierático para a boca de cena e declama Mano Quintana.

) E ainda que não. como dizem — e talvez tenham razão — certamente as idéias deste autor não o estavam quando. Rede ou ferida. vivia. para iniciar sua obra imortal. escolheu justamente a expressão ―num lugar da Mancha‖. E eu preciso enfrentá-la. não me deixarei abater por patranhas vulgares. de cujo nome não quero lembrar-me.) Ah.‖ (O Ator fecha o livro. que importa? Em mim. fado meu. Vírus ou alucinação. E volta a ser o Homem da Mancha. Começou a transmutar-se novamente em Dom Quixote.) Lança em riste para defender-me dos vilões. Nigromantes. Portanto. professoral. Mas como fidalgo que sou. reles tramóia. Caminha nervosamente. de Cervantes.) HOMEM . rocim fraco e galgo corredor. um fidalgo dos de lança em cabide. se escreveu ―num lugar‖ isso obviamente indica que a referida mancha ocupava — ou ocupa — lugar no espaço.) VOZ GRAVADA . adarga antiga. (Animado. acautelai-vos! Vossos dias estão contados. Geográfica ou psicologica. Pois convenhamos. A mancha existe. tenho provas de que existe. O Homem deixa o livro de lado. Maracutaia. .. Sinto que é chegada outra vez a hora de partir à cata de aventuras.(O Ator pára. (Noutro tom. ou até mesmo em volta.. real. com o livro erguido na mão. Espaço físico. Entra uma voz gravada lendo a primei ra frase do Dom Quixote. por mais que minhas idéias andem perturbadas. QUIXOTE — Parece mais do que evidente que toda esta burla não passa disso mesmo. dentro ou fora. embora não consiga encontrá-la em lugar algum. Fala em tom pedante. Mero engodo. Devaneio e perdição. mouros encantados.―Num lugar de La Mancha. Apanha uma espada de plástico ou madeira. não há muito.Senhores. opressores de toda a aldeia global. dos corruptos. (Suspiroso.

mesmo com toda a vulgaridade e preconceito que grassa pelos quatro cantos do mundo — a profissão de cavaleiro andante deve ser preservada a qualquer custo. quero louvar bem alto a outros cavaleiros que. Música espanhola caliente. que jamais gastou pólvora em chimango! Salve o nunca assaz louvado Tirante. amparador das viúvas e socorredor dos órfãos e desvalidos da sorte! (Para a platéia. (Altivo.Embora temporariamente fora de combate. Enquanto fala.) QUIXOTE — Salve o valente Amadis de Gaula. o Branco. muito bizarro. jamais deixarei de pertencer nobre ordem dos cavaleiros andantes. Pode até pedir palmas da platéia. geme) que quase me arrancou a vida. que nunca abaixou a crista! Salve o valoroso Felismarte de Mircnia. Quixote vai-se vestindo. eternamente enfrentativo! E salve também Dom Belianis da . mas com certeza aflige também.) Mesmo que Idade do Ouro tenha passado e de seu antigo esplendor não restem mais que cinzas. (Dom Quixote já está totalmente paramentado e. por conta de um mal nos rins (apalpa as cadeiras. mais objetos que já estão no palco. mesmo que todos nós hoje nos sintamos a ponto de sucumbir sob a pata imunda desta Idade do Chumbo que a mim maltrata os rins. e a vós não sei que partes do corpo ou da mente. Quixote ergue a espada e saúda em tom vibrante. tm mantido acesa e ardente a chama da dignidade e da ética. que briosamente resisto a todos os embates do destino. além de mim. Por isso.CENA 7 (Onde o fidalgo sonhador paramenta a si mesmo de cavaleiro andante e pede a bênção aos cavaleiros que o antecederam na lida.) QUIXOTE . naturalmente.) Defensor das donzelas. Roupas e armadura são improvisadas com material retirado da maleta de executivo e/ou das sacolas que Miguel trouxe. a duras penas.

um só ser seremos. para render homenagem à célebre montaria de Alexandre. e esse nome desde já imortal precisa ser alto. como se fossem arreios. resplandecente.) . com as palhas em frente ao próprio rosto. enfeita-a com esmero. Digno de ti e também de mim. para que não nos oiçam os intrigantes: no meu conceito pertences a uma estirpe ainda superior à daqueles dois. o Grande. mas por ser urgente a minha partida e curta a vossa paciência! CENA 8 (Na qual se narra com graça e nobreza o batismo do matungo finalmente conhecido como o Veloz Rocim Rocinante. como se fosse a crina. Num ritual coreográfico. Pois embora não tenhas asas nem mítico nascimento. sonoro. séculos amém. Quixote apanha a vassoura que Miguel trouxe com as compras. não por desprezo. improvisa uma sela com uma almofada. Mas digo-te em segredo e cá entre nós. um bod de plumas. te batizo Rocinante em nome do Pai. como um centauro. nascido da garganta decepada da medonha Górgona. como o corcel alado do herói Belerofonte. Fomos feitos um para o outro e. Depois monta ao contrário — isto é. do Filho e do Espírito Santo amém again. meu rocim banhado pelo rocio.Grécia e todos os outros que porventura olvidei. como se fossem a cabeça do cavalo — e começa a trotar lentamente. Tudo enquanto fala. (Quixote faz uma cerimoniosa curvatura para a vassoura enfeitada. que sobre teu dorso percorrerei uma a uma as páginas das estradas e dos séculos. és valente e veloz como o vento que desgrenha a copa dos olivais. Ou talvez Bucéfalo. Pendura fitas. sem sair do lugar. amigo. Pelo sangue derramado das veias dos bravos tombados em batalha.) — Poderia chamar-te Pégaso. Teu nome entrará para a História.) QUIXOTE (Para a vassoura.

Em frente. que a vida é curta para tanta estrada! CENA 9 (De como se introduz na narrativa a idolatrada figura de Dulcinéia del Toboso. arrancar odientos tiranos de seus sórdidos tronos de sangue. Durante a cavalgada derruba alguns objetos. em louca disparada. Quixote cavalga doidamente pelo palco. a bem-amada de nosso fogoso personagem. Frente a esta divina aparição. Rocinante. enfrentar gigantes tenebrosos e feiticeiros malévolos. Não é de minha têmpera partir sem antes despedir-me. amigo Rocinante. Detém-te pois. alimária. e com esmero.) E agora basta de cortesias. A música só diminui quando ele pára subitamente em frente a um manequim. pocotó. daquela que determina a mais funda razão de meus atos. Rocinante. Vê como soa magnífico? Vê como se parece contigo? (Noutro tom. Montado na vassoura-Rocinante. bravo Rocinante. pocotó. aos gritos. Eia! O mundo nos aguarda. com intensa emoção. Vamos lá. que aqui estremeça! (Para o manequim. desencantar brancas donzelas cativas. meu impetuoso corcel. a acenar-me — vês? — como se humana fora.QUIXOTE — Pocotó. senhora minha! CENA 10 .) QUIXOTE — Detém teu galope. berrando com a espada erguida.) Dulicinéia! Dulcinéia del Toboso. a cambraia do branco lencinho marejado de lágrimas. mais vibrante. A melodia espanhola fica mais alta. Vamos lá. seria profano dirigir-me a Ela montado sobre teu dorso. Vamos lá. Certa confusão.

sociáveis: dispensáveis.. põe uma rosa vermelha. Pega uma mantilha espanhola. Beija-a. à tua vida banal e limpa de senhora honesta.. nos adereços. e sem nenhuma graça. Carolina.) Ai de mim. (Trágico. por instantes volta a ser Miguel. já um tanto influenciado pela linguagem de Quixote.) — Tu foste a única pessoa que poderia ter emprestado alguma cor à minha em sépia. e leva um tombo grosseiro.): ―Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta.. aperta-a contra o coração.) Colegas de trabalho. Miguel coloca a mantilha sobre os ombros do manequim. .. a teus filhos. com leve sotaque lusitano. tão fiel a teu marido. como um corvo triste repito em despedida: nunca mais. Quixote enreda-se nas fitas.) MIGUEL — Adorno teus ombros nus. e ouviu a voz de Deus num poço tapado.‖ (Subitamente Miguel recompõe-se. (Com amarga ironia. ainda no chão. Bom-dia-boa-tarde-como-foi-o-fim-de-semanaquer-um-cafezinho-parabéns-por-favor-muito-obrigado. E porque sei que é inútil. platônico e patético! (Sofrendo muito. geme uns versos de Fernando Pessoa/Alvaro de Campos. nunca mais. No lugar da cabeça. Ao apear de Rocinante. Jamais ousaria pensar em mim como um amante.. Que horror. o homem invisível.) MIGUEL (Para o manequim. nunca mais.. muito colorida. o personagem. para que não te cause dano o sereno da noite. Perturbado. Amáveis. que lindo encontrar contigo todas as manhãs de todos estes dias de todos estes anos. e cantou a cantiga do Infinito numa capoeira. o que não nasceu para isso. Eu. Carolina.. Eras tão distante.. Nunca me atrevi a dizer nada.(Que trata da súbita e inesperada vinda à tona do desventurado Miguel Quesada para revelar seus frustrados amores. Carolina.

muito amável e simpático. esforçados aldeões.) QUIXOTE — Prometo que voltarei.(Miguel vai repetindo “nunca mais” enquanto torna a montar em Rocinante. QUIXOTE — Buenos dias. Cumpri menta a todos. Em sua imaginação. como no. outra sobre a espreguiçadeira. Sempre a trote.) Perdoai-me importuná-lo. entre coxins. caro mancebo. anjo das minhas negras vigílias. Pelos quatro cantos desta vasta Espanha juro glorificar vosso nome. damas e cavalheiros deste encantador pueblito. está entrando no pátio de um castelo. E como se chama? Dom Giraldo de Villacafias. cercado pelas cortesãs? . que guapo! O que? Estalagem Ao Rendez-Vous dos Javalis? Mas deve haver algum equívoco.) CENA 11 (Dos sucessos de Dom Quixote em busca de quem o sagre cavaleiro e outras acolitecências mundanas. Bálsamo de minh‘alma. hermosas sefioritas. Ergue-se um dos telões laterais. Resta uma luz sobre o globo terrestre. senhora minha. mas saberíeis vós dizer-me donde puedo encontrar o castelão deste aprazível sítio? Si. outra . solene e amorosa reverência para o manequim/Dulcinéia. Dom Giraldo não passa o tempo na maciota.irreal . Faz uma profunda. Dulcinéia del Toboso! (Música espanhola ardente Quixote esporeia Rocinante e sai de cena no galope Por momentos o palco fica vazio. asa de pássaro no meu ferido coração de guerrilheira. às vezes com algumas expressões em espanhol). Saludos. entra Quixote por esse espaço aberto. Mis cumprimentos. (Detém-se parafalar com alguém. Volta a transformar-se em Quixote.sobre o manequim coberto pelo xale espanhol.

Nada mais louvável. E certo encontrálo na estalagem. O Homem da Mancha voltou ao ser pronunciada apalavra “Mancha”.) Y todavia si.No. está certo. Senior Bigas Luna! (A parte. tinir de copos. Sou o futuramente lendário Dom Quixote de La Mancha.. Lejos de mi duvidar de vossas palavras. gargalhadas. Quixote vai pedindo licença.. Voilá.) . Ao fundo. claro.) . Dofia Rosita? Sempre solteira? (A parte.Nobre castelão Dom Giraldo de Viliacafias.) Buenos dias. sempre cumprimentando. em 0ff ruídos de risadas.) Como diz o vulgo. Vale! (Quixote despede-se. (Noutro tom.) Depravado! (Reflexivo. apeia e faz uma mímica para entrar na estalagem Ao Rendez. morocho muchacho. muito educado. Dá voltas pelo palco. Muchas gracias. como bom administrado que parece ser.) E além do mais.) QUIXOTE . feliz.) QUIXOTE (Com um salamaleque. Dom Giraldo deve apreciar beber umas e outras. (Quixote “estaciona” Rocinante.Vous dos Javalis. permiti que me apresente. (Esporeia Rocinante. Vai rindo sozinho. nada mais político. deve apreciar o contato mais íntimo com o povo. no. como assegurou el pibe.) Como está. O referido Dom Giraldo deve ter afinal suas fraquezas. nada mais humano. sempre com sua obsessão. e sai trotando. O Homem começa a procurar. CENA 12 (Que trata da inesperada e inoportuna vinda à tona do perturbado Homem da Mancha. (Noutro tom. Os ruídos gravados cessam por completo. fragmentos de conversas.) Perna! (Reflexivo. música alta. enquanto reflete.Pensando bem.

eu. Rocinante de Tal. que lá fora encontra-se em merecido repouso. mas como eu ia dizendo. da minha.. Clarinha. pois bem.. Dom Quixote.) Porra. Por alguns instantes. ela não tem preço. sem mais delongas. Não teria o senhor por acaso visto por aí uma mancha assim. Ela é barata.o que estou dizendo.) . pousada e mais importante que tudo. o Homem transforma-se no Ator.. Homeless? Não. eu não sou ninguém. não. me entende? (Agitado. nem muito escura também. ela deve estar por aqui? Pode levantar seu pé. Não. isso não interessa —.. e da pesada. por favor? Obrigado. Uma mancha clarinha. E como se tivesse um branco e esquecesse o texto.. não. da nossa — digamos — saga imortal Ousei adentrar vossos domínios com meu brioso corcel. moça. eu disse. O que? (Mais alto. eu tenho que achar a bosta dessa mancha! Você entende o que estou dizendo? (O Homem pára e olha em volta.) QUIXOTE (Muito inseguro. Quer dizer.HOMEM — Dá licença? A mancha. pelo amor de Deus! CENA 13 (Na qual o Ator recupera seu autocontrole e garbosamente volta a ser Dom Quixote para espanto de todos. olha a platéia. no aguardo de vossa atenção.. (Mais alto.. à parte) A de caralho! A deixa. Estou dizen-do. Dom Giraldo de Villacaíias desejo solicitar-vos —ufa! — alimento. por este — digamos — pequeno surto..) ATOR . Silêncio absoluto. (Disfarça.Perdão.) Não..) Dizendo. E o Ator. Não muito grande. não moro em lugar nenhum. Eu fico solto no espaço. Dom Giraldo.. não sei o que é isso. em pânico. encontro-me ainda nas primícias da sua. visto que — não. quer dizer. assim. estala os dedos.. E só uma mancha. . como cavaleiro andante que sou. Cainha.. Faz favor? E que sem ela..

Señor Dom Giraldo! (A parte. Pode até ficar nu. atentado pelos nigromantes. com cuidado. . Buenas noches. E ao romper da aurora.) Biscate! (Para Dom Giraldo. Vossa Esplendidez finalizará o milenar ritual da sagrada salerosa. mas também remoto. ou só de cuecas. ou ao contrário.) QUIXOTE — Então. com vossas nobres mãos.como eu ia dizendo..) Devo dizer-vos que em futuro não só próximo. Sefiorita Santa. evidente. (Noutro tom. sobre praticável. enquanto fala. of course..enfim e ao cabo: poderíeis.) Buenas tardes.) Gracias. E como está o Sefior Montiel? (A parte. (Aperta uma mão imaginária.. vossa concordancia resultará em vosso próprio louvor. gracias. A luz baixa. como o crepúsculo já acaricia com seus róseos dedinhos o alto das cumeeiras. usando também Rocinante. Arruma as roupas ao lado das armas. deverei — ufa! — honrar e defender até a morte e tudo e tal. Dom Quixote tira a roupa. Arma uma espécie de escultura. Até o alvorecer permanecerei vigilante.) Corrupto! CENA 14 (Dos sucessos e também insucessos de nosso herói no ato de velar suas armas. posto que. bem como. como determinam os manuais de cavalaria (à parte. ponho-me pois de imediato a velar minhas armas.. (Quixote sai caminhando. à musa Dulcinéia dei Toboso. corno se estivesse de braço dado com Dom Giraldo.) .) — dez por cento vos parece justo? — ao sagrador Dom Giraldo de Villacafias. sagrar-me cavaleiro? (Aliciante. junto ao globo terrestre. encantado.

Sabedores que aqui vela em solidão um cavaleiro inimigo do mal. silfos.) Guardai distância de mim. se tendes amor a vossas peles fétidas lavradas de cascas purulentas! (Com um movimento brusco.) Pois então toma e toma esta em teu tentáculo nojento e outra mais em tua pata disforme e toma mais esta na tua carantonha medonha.Dez. Aquela em que feiticeiros e nigromantes escolheram para seus nauseabundos batuques. até o primeiro raio de soi da aurora! Nada de mau há de me suceder durante esta vigília! Ninfas. como se lutasse. acorda súbito. Insone e temerosa por meu fado.Depois senta em postura de lótus. como uma fortaleza inóspita cravada no centro do meu coração. por supuesto hão de vir importunar-me com suas perfídias. Quixote derruba alguma coisa na escultura.) . com uma vela de sete dias numa das mãos.) QUIXOTE — Porventura sois surdos? A cera em vossos ouvidos será mais espessa que as muralhas de Jericó? Atrevei-vos a fazer barulho. duendes.) Deixai-me em paz com meus pensamentos. (Grita para a escuridão. Meia-noite. cheia de crocotós. (A parte. Doze. que exigem a mais funda concentração e a mais alta filosofia. uma serpente.) E sobretudo..) Gentalha das trevas. (Mais calmo.) I hope so! (Para a escuridão. Ela me protege com suas orações a La Virgen de Macarefta. Ao longe.. salamandras. encontra-se também minha bem-amada senhora Dulcinéia del Toboso. unicórnios. abortos langanhentos? (Toma a espada.. um relógio bate lento 12 badaladas. arcanjos. Imediatamente salta. um LEO — pardo. que cochila. furioso.. orixás e fadas: todas forças do bem estão do meu lado! além dos espíritos daqueles cavaleiros já tombados em batalha. Como um raio. Quixote. ogros e abantesmas: não ouseis vos aproximar de moi! Hei de resistir até o primeiro canto do gelo branco. Onze. Preciso estar alerta. hoje cavalgando as pradarias do infinito! (Luz sobre o manequim! Dulcinéia. . Esta é a mais perigosa de todas as horas.) QUIXOTE (Contando as badaladas finais.

(Escuta. Oh. lacraias e morcegos.) — Ah. idiota! Manda matar! Jacira! Tá muito louco! Vai-te catar! Tá pensando que é o que? Fora. pega a vela e tenta retomar a posição em lótus. verte em minhas veias o líquido sagrado de tua ânfora dourada para purificar meu sangue! (Subitamente um raio de luz incide sobre o rosto do Homem. Dai-me forças e dai-me fé. meu Deus. Senhor. já se foram todos. não. Eu tenho que resistir. Já se foram tantos.. não. Um tomate de pano ou plástico atinge Quixote na cabeça.. Ao mesmo tempo.) Ah. curador divino das feridas humanas.) . horrorizado. galo preto da encruzilhada! (Para a luz. O perigo passou. tomates.) Vinde. (Benzendo-se..) Oh puríssimo anjo Rafael.Hein? O que? (Toma a espada. O Homem cede lugar outra vez a Quixote. Mas de repente começam a jogar pedras. E torna a vir à tona O Homem da Mancha. Por piedade. um galo canta ao longe.) Amanheceu. junto com apupos. poupai-me. najas emboscadas! Vinde todos a mim. Ele desmaia. Eu devo ser um dos últimos. que tifego! (Brinca um pouco com a luz. Que .. eis o galo que cocorica três vezes.) VOZES EM 0FF — Cai fora. Na minha própria pele. eis o primeiro raio de sol.) Pero. que pássa? Ah.) QUIXOTE (Recuperando-se.) HOMEM (Olhando a própria pele.(Quixote arruma a escultura. ufa. ovos de todas as direções. babaca! Quero meu dinheiro de volta! CENA 15 (Onde continua a narrativa da conturbada vigília até o raiar da manhã radiosa. Os objetos vêem de fora de cena.

) .. ele anda com dificuldade. Abaixa a cabeça.) Tivera eu comigo o poderoso bálsamo de Ferrabrás. Depois levanta-se — é o Ator que assume o papel de Dom Giraldo —.) QUIXOTE — Buenos dias. todo ritual foi cumprido a bom cabo e a contento. Com as mãos nas cadeiras.) — Ai que já no tenho mais fresca idade. (Suspirando. (A parte. (Quixote apóia um dos joelhos no chão.. Música sacra mais alta.) So! (Começa a entrar música sacra ao fundo. pega aquele mesmo livro da Cena 6 e lê num latim errado. venci a primeira prova iniciática.) Eu sou maravilhoso! (Sério. CENA 16 (Do ritual da sagrada sagração e toda a sua magnifica magnitude. Ai que estou a adernar feito uma caravela em plena borrasca sem ao menos ter descoberto o Brasil. improvisado e monótono.) Bueno. Permanece um momento assim. (Aliviado.. Como vades. Quixote recupera-se com toda a dignidade... Ao perceber que o imagindrio Dom Giraldo entrou.canoro Chanceler.. para que me façais por fim cavaleiro andante a vosso serviço.. e o passar inclemente dos anos instalou-se-me direto nas cadeiras. Quixote tenta levantarse.. majestosíssimo senhor doutor Dom Giraldo de Viliacafías. mas os rins doem muito. com uma das mãos erguidas sobre a cabeça de Quixote.) QUIXOTE (Com forte sotaque lusitano. (A parte. Estou pronto para o ritual de sagração.) Deponho pois minha depauperada porém altiva carcaça a vossos mitológicos pés.

Hã-hã. Tem dificuldade. doem-lhe os rins. suspira. E sai trotando pelo palco.ATOR — ―Per saeculum saeculorum dominus vobiscum peter filiis et espirictus sanctuslesbia pulchra est vanitas vanitatis summa cum laudae saculus plenus vaticanum voitilum positivus este terrae terrarum terris sumus est sun ad infmitum daementia precox amem.) — Adiós. pelo lado do telão levantado. prometo colaborar com vossa campanha. Et voilá! (O Ator retoma a posição de Quixote. bate três vezes em cada ombro da imaginária figura ajoelhada. nobre Dom Giraldo de Villacafias! (Sacode um saco de moedas. Aumento de imposto. satisfeito. (A parte. Quixote benze-se.) CENA 17 (Onde são narradas inevitáveis indecisões no início do caminho e também as curiosidades turísticas de Rocinante.) Marajá! (Trotando.) Obrigado pela verba! Claro. acabou. bate a cabeça no chão três vezes — como num terreno de candomblé — talvez coloque uma guia — e torna a vestir-se. monta novamente em Rocinante. (Talvez Bach. Pode usar uma varinha de incenso. Sinos. Mercado aberto às importações. acabou. Todo paramentado.) A luz dá a ilusão de vitrais. Enfim consegue. Música sacra. (Bate na barriga. Haendel.) ATOR — Pronto: acabou. com a mão livre.‖ (O Ator benze o lugar onde deve estar Quixote. claro. Quixote ergue as mãos unidas para o alto. Geme.) QUIXOTE (Mastigando alguma coisa. sei. adiós.) . como se orasse. Apanha a espada e.) Pocotó-pocotó-pocotó. Deus faça a vossa merca muito bom cavaleiro e tudo e tal e lhe dê toda a ventura na lida desta vida fodida.

(Rocinante empina.. Almodóvar del Pilar. Só vejo poeira e horizonte sem fim. deixa ver. mas deixo-te escolher.. que me renderia boas aventuras. (à parte) — a sinalização é péssima — indicando. por certo gente há de ser. Tudo vai bem. (Animado.. o mais repelente feiticeiro dos últimos sete últimos sete séculos.. claro — dá meia-volta e toma outra direção. (Gemendo. Alarcón... Com sorte há de rastejar por lá algum mouro encantado em lagartixa. tudo que vejo é poeira. Deus. Se pelo menos cruzasse meu caminho algum peregrino capaz de dizer-me onde encontrar algumas gotas do miraculoso Bálsamo de Ferrabrás para mitigar minhas dores. Rocinante — comandado por Dom Quixote. onde estão as limusines? — quero dizer. ao norte. as aventuras. Mas.) Lá naquela curva ergue-se um redemoinho de pó. a pança está cheia. Abandono as rédeas: em tuas patas entrego meu destino. Alcázar de San Juan e ao sul. pelo visto preferes Alarcón. latejam-se-me os quartos como se alguna morocha tuviera sapateado o flamenco sobre eles.. Terra mais seca esta minha. Eu não disse? (Apontando. Eu preferiria toujours Almodóvar.) Eis aqui uma placa....) E pode ser que deparemos até mesmo com o trevoso Marques de Villene.) Ai. não? Pois cedo a teu desejo. cavalar amigo. que embora o ar esteja seco farejo na brisa o cheiro da aventura.) Dize-me lá. que se não for o demo nem anhangá ou saci.. Nem sombra de gente.) Eia. Jóia. Cafiaveras. Dize-me então num relincho: o que aconselha tua soberba intuição eqüina? (Pára. Videiras e olivais a perder de vista. mais depressa. Queres ver o famoso castelo. Relincho gravado. a oeste.) QUIXOTE — Ah.) A leste. (Para Rocinante. (Pode colocar óculos para ler melhor. . Tédio. a tal ponto que terra e céu parecem um só. para onde queres ir tu? Para mim tanto se me dá.Bueno.. (Esporeia Rocinante.

. a estonteante Dulcinéia del Toboso! (Quixote curva-se para o moço supostamente amarrado. (Recompondo-se.) Para trás. Quixote cavalga rápido. Tudo é um tanto erótico.) — Está livre.. lasanha. isso. o malfeitor mais pareceis vós.CENA 18 (Em que o herói se toma de simpatias por um mancebo. Fala como se fosse com um mercador chicoteando seu criado. o eleito da mais formosa dama do universo. recém sagrado cavaleiro andante com o aval de Dom Giraldo de Viliacafias.. sacripanta! Sou Dom Quixote de La Man. correi desembestado campo afora. podes partir. Escuta. ao mesmo tempo em que fustiga seu cruel feitor.. fracote. (Desmonta apressado. ambíguo. Assim. que mal vos fez este infeliz mancebo descamisado e com o lombo em carne viva? Ladrão? Malfeitor? (Furioso.) Sou Dom Quixote e pronto. Devo dizer-vos que. Dá algumas voltas e pára.. mercenário! E corre que te arranco as calças! (Debochado.) QUIXOTE . e a quem encontrardes pelos cariinhos dizei bem alto que quem vos enfrentou foi Dom Quixote. poltrão. lembrando das inoportunas aparições do Homem da Mancha. sebo nas canelas. (Interrompe-se. E que peito mais cabeludo. a meus olhos experimentados. (Subitamente Quixote cai por terra. Age como se o ajudasse a levantar-se.) QUIXOTE (Para o moço. Deixa-me desembaraçar-te das amarras.) .) Bem. que com tanto açodamento açoitais um jovem de tão puro semblante e nobre porte. Pode haver fumaça com efeito de poeira levantada. Nossa que músculos duros tens..) Isso... antes que eu faça um puchero de vossas frouxas carnes! Correi. E não te olvides: a quem encontrares pelo caminho repete bem alto que. O moço imaginário deu-lhe um soco na cara e saiu correndo.) Não creio em vós.Alto lá.

com sotaque lusitano. (A parte.) Bueno. pivete! Michê! (Quixote tenta correr atrás do moço.. que certamente acederá a meu convite. velhaco. Ainda ressoam em meus ouvidos os sinos do palácio onde fui sagrado cavaleiro. mas doem-lhe os rins. (Esporeia Rocinante. (Para Rocinante. Tivera ao menos um outro ser humano para. Eis que de súbito lembrei-me de um homem muy leal e valoroso.) Meia-volta. Sinto muito frustrar tua turística tournée. Desiste e torna a montar em Rocinante. E o que dizer ouro bizantino dos candelabros? (Suspira.. a textura luxuriosa do veludo adamascado na capa ritual sobre meus ombros. (Gritando.) — Volta cá. mais se exalta.. Ninguém está livre de aconchegar uma víbora em seu regaço. Tem paciência. claro. Ah.) Saco! (Mais conformado. cafajeste! Ingrato. sempre trotando. como se meus quartos fossem a boca de um bacalhau pescado pelo anzol.) QUIXOTE (Gemendo.) Mas é claro! Tudo que preciso é de um fiel escudeiro para aliviar-me não só do peso abstrato da solidão.) — Ai que sinto cá uma fisgada. diz que quem mais se humiha.) Cofio! Ainda por cima o bofe levou-me os últimos tostões.) Mas para um cavaleiro. Porém. me sinto deveras solitário. Há também momentos de humildade. solidão e modéstia. (Apalpa os bolsos. mas principalmente do peso bem mais concreto de toda esta traquitana. um tanto deprimido. cavalgadura. mas olhai a quem‖. ainda sinto na pele a carícia macia das sedas nos trajes das donzelas.) Eia! Avante! Ai-pi-ai-ô.. mal-agradecido! Trombadinha! Ah.. nem tudo é luxo e ostentação.QUIXOTE (Levanta. (Pensativo. Tem seus momentos de glória..) Volta aqui. (Detém-se: insight. espanando-se.) Triste sina a de um cavaleiro andante.. Silver! CENA 19 (Em que finalmente se introduz a fundamental figura do fiel escudeiro Sancho Pança. . bem me diziam ―fazei o bem..

puxa um pequeno barril com rodas embaixo — ou sobre um carrinho. Sossega pois a tua periquita. hein? (Quixote detém-se de repente. não te apoquentes. ou mesmo sobre um skate.) é Sancho Pança. Essas coisas. . só resta um telão. Até o final da temporada a prometida ilha será toda tua. Logo. Prometo. prometo. panelas. It‘s my business. Como é possível rememorar os doces aromas de alfazema da perfumada Dulcinéia se teu fartum me faz cair na real? E bem sabes o quanto detesto essa tal real. Afinal. desencantaremos alguma bela princesa cativa.) — Esporeia teu asno..Raios se me partam los cuemos se aquilo que avisto não é o Elmo de Mambrino! (Para Sancho. dear. por uma cordinha.) QUIXOTE . que disso entendo eu. quando falares não o faças a favor do vento.. Sua Excelência. O barril. mula. caso contrário bate-se-me nas fuças esse teu bafo entranhado de cebola e alho e vinho vagabundo e sei lá mais que. Portanto. etc. Vês como brilha e rebrilha um adereço metálico na cabeça do cujo? Pois te juro trata-se do famigerado Elmo de Mambrino... que toma invisível a quem o possui.) Como não vês nada? Será que além de sonso és cego? Presta atenção. logo destronaremos algum tirano. com correntes tramadas e tralhas penduradas (canecas. Continua montado em Rocinante e.) E por caridade. machado.Ergue-se o outro telão lateral. caso contrário estarias farto de saber que a fortuna custa a surgir. o Governador Sancho Pança. (Irritado. mas contra. que já não é pouco. Estica-se e aponta para longe.) Não. e não te metas em assuntos de cavalaria. por supuesto. já assinei tua carteira. E seremos regiamente recompensados. arrancaremos a máscara da face de alguma medonha megera. Quixote sai de cena por um lado e volta imediatamente pelo outro.. Digo e redigo que aquela ilha em Angra será tua assim que tivermos alguma aventura — digamos — mais substancial..) QUIXOTE (Para Sancho. (Mais paciente. Sancho Pança. Por sob aquele 1amo altaneiro vem vindo um cavaleiro a trote manso. Nada mau. calma. Hein? Já te disse que nada entendes de cavalaria andante. ao fundo... Limita-te a teu ofício de escudeiro.

evoé! Mais uma conquista do invencível Dom Quixote! (Acaricia o Elmo/penico. Gira-o como um periscópio até focalizar um ponto.Três vezes vitória. Lá. pois tomba lânguido o crepúsculo e o fatigado cavaleiro tem precisão de um sítio ameno para repousar seus ossos. deixando Sancho parado.) Como? Um cura com uma bacia na cabeça para proteger-se do sal? Por certo perdeste o senso. estrupício. Quixote volta muito orgulhoso. Sai gritando com a espada.quer dizer.) QUIXOTE (Para Sancho. (Devolve Sancho ao carrinho. CENA 20 (De como se faz noite e nosso herói arma o camping para o repouso enquanto lembra a bem-amada em suas orações. (Quixote torna a montar. mais abaixo. Pega Sancho e ergue-o acima da própria cabeça.as portas da glória se arreganham para nós. Entrevero em off. oh torvo escudeiro! Botaste reparo na desabalada carreira em que escafedeu-se o bandoleiro transmutado em cura? Ave.) Então não percebes que os malditos nigromantes transformaram o cavaleiro num gordo cura de aldeia? E não percebes também que transformaram o próprio Elmo numa reles bacia? Pois te afirmo que esses grosseiros encantamentos não deterão meu ímpeto. homem de Deus! Põe-te em pé sobre teu asno e verás que verias o que vejo eu. ouvem-se apenas os gritos. Quixote dá voltas por fora do palco. feito chapéu. Viste? (Irritadíssimo. minha cabeça . Na ribanceira. tapume. ave. Nem azinheira nem pitangueira.) QUIXOTE Que azinheira. com um penico na cabeça. (Quixote apeia. Sigamos portanto nosso rumo.) Com o poderoso Elmo de Mambrino em minhas mãos . . Eu falei á-la-mo.Deixa-te de preguiça. companheiro.) .

Dorme em paz.. as mãos unidas.) — Convenhamos.) As últimas QUIXOTE — ―Ah! senhora das minhas ações.. não abuses dos torresmos que não estou disposto a estremecer de susto com teus traques durante a madrugada. Quixote reza. por tua inaudita beleza te peço que os escute. Noite. E quanto a ti. Quixote apeia. Tira o Elmo/penico. (Deitado. Alimenta Rocinante com uma cenoura.) Perdão: a cada dia o seu quinhão.A luz diminui. diminuindo lentissimamente junto com a voz de Quixote. agora que tanto deles preciso antes de embrenhar-me pela ignota região dos sonhos. Se Sancho for mesmo um barrilzinho. caríssima e incomparável Dulcinéia del Toboso. Quixote estende um sleeping-bag. apeia Sancho. Pode-se também forjar um fogo com papel celofane vermelho. (Arrota. Suavíssima melodia espanhola.. Mastiga um pão. amanhã teremos faisão. Luz A sobre luz vai Dulcinéia/manequim.me-á o escorbuto tanto pão seco no bucho? Além do mais. palavras são um sussurro na escuridão. compadre Sancho.‖ CENA 21 .) QUIXOTE (Prepara-se para dormir. que não olvidarei as minhas. certamente opíparo não é o adjetivo mais adequado para este frugal repasto.. Sonha com tua ilha. pois cifram-se apenas em implorar que te não recuses a dar-me o teu favor e amparo. tem uma torneira de onde Quixote tira vinho e bebe numa caneca de lata. se é possível que cheguem aos teus ouvidos as preces e rogos deste teu venturoso amante. tuas cebolas provocaram-me horrendos borborigmos. Causar. E não olvides tuas orações.

Alô. Atende uma secretária eletrônica. Miguel? Tá me ouvindo? Tá bom. hein? Mal se aposentou e já viajou. Eu só queria convidar você prumas cervejas. Tchau. Olha. Luz sobre a espreguiçadeira. décimo terceiro. porra. CENA 22 .(Em que o chamado Real-Insuportável desta vez mais suportável novamente interrompe o fluxo e o devaneio. Mas você nunca me convidou pra nada. Miguel viajou. dissídio. Quando o bip da máquina desliga. A secretária se cala. Alô. Agora é tarde.) . (Ruído eletrônico. Talvez nunca. (Vide Cena 6. Miguel? Recado esquisito. aqui é o Guilherme do Almoxarifado. Escuta.) . Me esquece. Coisa fina. Eu cansei. meu. Quixote acorda bruscamente. tem umas gatas aí super-afins. viu. Eu pago. Luz súbita sobre o telefone. Deita-se.) VOZ MASCULINA .Cerveja. Quem me dera. faço questão.‖ (Ouve-se um irritante bip eletrônico. uisquinho. Eu fui-me embora daqui.) MIGUEL (Amargo. demissão. Toca três vezes. Olhe.―Isto é uma gravação. Mais de 30 anos. Está transformado em Miguel Quesada. logo após. oleriti. Quixote levanta-se e vai caminhando até a espreguiçadeira.)) VOZ DE MIGUEL (Na secretária. No disse quando volta. o personagem. Guilherme. a voz de Guilherme na secretária. Quem sabe um uisquinho. E vida boa. fundo de garantia. deixa pra lá. uns tira-gostos pra gente comemorar a tua liberdade. com aquele recado de Miguel. Guilherme. Enquanto dura o bip e. Circular. se você estiver por aí atende. Inútil deixar recado depois do sinal. Durante pelo menos 30 anos você só me ligou pra falar de coisas de trabalho. tira-gosto.

) QUIXOTE (Dando um pulo. Bochecha. rosée.. sei. lingüiças. Branco ou tinto? Sei.) Covardes. vai puxando Sancho pela cordinha. premonitório....) Vislumbrei maquinarias tão intrigantes.) Que pobreza. Tosse.. Sei. (Vai ficando entendido. bebe café. cospe. à remota Quintanópolis. não no chão aonde adormecera ao lado de Sancho..Maldição! Se sonâmbulo não o sou. antes que rompa a manhã. com engenhos a tal ponto indescritíveis.. vejo que os magos da treva andaram a mangar comigo durante o sono. quanto a mim creio que tive um sonho. Te crês que ainda está caliente e a dar-se vueltas y más vueltas cá pelos cornos? (Visionário.. (Reflexivo.. Dona Sancha e as cinco Sanchinhas? Sei. Depois faz como se lavasse as mãos e o rosto. Tudo isso enquanto desfaz o acampamento e recoloca Sancho sobre o carrinho. moleque da alta magia! Dessa maneira envergonhais a memória de vosso ancestral Merlin. meu compadre. incompetentes! Tivésseis reais poderes ter-me-íeis levado até as lonjuras da Beldregúndia. cospe.Vite. aos confins da Longelândia. seguido do despertar. vite! Apura que se faz hora. (A parte. de vossa amada Morgana. De ouro? Veja só. Onde pensas que estás? Refestelado numa hospedaria cinco estrelas? Toma aí teu petit-dejeuner e avia-te presto. bundone.) Hã-hã. Depois vai resmungando até Sancho. Faltam-se-me as palavras — o que é raro — para . Que truquezinho mais chinfrim. como é possível dormir lá e acordar cá? Ah. (Discretamente Quixote faz xixi num cantinho. fala-me de teus sonhos.) Então. Subitamente Miguel volta a ser Quixote...) . bufa. Sacode-o. para seu espanto. abre a torneira. oh nigromantes nigrinhas. Interessante. Trotear é preciso.) Oquei. (Montado.(Do que aprontaram os nigromantes incompetentes com nosso herói durante a noite. Devem estar todos rindo à socapa de vossa idiotia. que desperta na espreguiçadeira e.. Odres de vinho.) QUIXOTE . companheiro Sancho.. (Para o nada..

eletrônicos. (Enquanto Quixote e Sancho trotam. frases e trechos de música em vários idiomas. amigo Sancho. papiermachê ou qualquer outro material Seria sensacional se pudesse girar. cada um sintonizado num canal diferente). Que também pode ser real ou de arame. lá no alto. Sobre esse pedestal. Será quiçá o gigante Briaréu? Será a temível sábia Mentironiana? Será o monstro do Lago Ness? (Esporeia Rocinante. enquanto fala com Sancho. E formado por um pedestal de aparelhos de TV(reais ou de papelão. emitindo raios e sons estranhos.descrevê-los. Esse é o Moinho de Vento. no lo creo em meus bugalhos! Estás a ver como eu todos esses anões amontoados uns sobre os . microfones e fios colados. O cenógrafo é livre para escolher vários símbolos da Mídia. Atrás do telão há um bizarro totem em forma de escultura.) Vai afiando teus gumes.Uau! Me cago en la concha de Maria Santíssima! U-lá-lá. mais jornais. vê-se uma enorme antena parabólica. Mas logo ao despertar tive a segura intuição que. antes que o sol alcance o meio do céu.Sancho de Deus. além de fragmentos de jingles. Tão lentamente que Quixote só o percebe quando está totalmente levantado. meu amigo. descargas estáticas de rádio.) QUIXOTE (Percebendo o totem-Moinho. vejo que aqui temos aventura da grossa! Arrete. A chave confirma: é hoje! CENA 23 (Onde se narra o extraordinário acontecimento com a mutação eletrônica do gigante Briaréu e seus asseclas.) .) QUIXOTE . depararemos com uma extraordinária aventura. começa a subir o telão do fundo. revistas. mas se reais. Vai-se aproximando do totem com muita prudência e alguns sustos. (Quixote apeia de Rocinante. plimplim da Globo.

quando eu já saboreava o gosto da vitória. fascinado e aterrorizado. um pouco. geme e apalpa os rins. Talvez até consiga. as TVs nesse momento saem do ar. que neste embate aposto minha honra.) Valeime. Moinhos de vento? Capaz! Não percebeste.) Mas é sobretudo um estorvo! Não fujais. fãs e etc. Quanta arrogância! Que enfrentativo ele é! Ah. Se forem reais. mas acaba levando um grande tombo. Dependendo das imagens . reconhecendo conhecidos. Hei de decepar esse teu braço repugnante para jogá -o aos cães danados! Hei de cravar uma estaca de madeira santa no teu podre coração. .) QUIXOTE — Já dobrei meio século de Karma e nunca jamais en toda mi perra vida tropecei em tamanha trola.) . vampiro imundo! (Benze-se. E chegado o vosso fim. fiisteus! (Quixote tenta escalar o totem. E estarrecedor! E estupefaciente! (Gritando. minha doce Dulcinéia. Esta côsa lôca nada mais é que o monstruoso Briaréu em carne e osso.) Felizmente meus futuros cronistas. etc. fecha tua matraca e me deixa em paz. trolha. que no último instante. companheiro Sancho. que me cago hasta en la leche de mi puta madra! (Quixote examina as TVs.ombros dos outros com aquele gigantão estalado lá em riba? Por Picasso! Olha só o monstro lá do alto girando seu único braço em direção ao céu.Caluda.Chegou tua hora.) . que o nefasto mago Freston transformou anões e gigantes nessas máquinas dementes? (Levanta. finalmente. biógrafos.se forem reais — o Ator pode improvisar alguns comentários. bem que meu sonho me avisou. altivo. exegetas. Por El Greco. zumbindo. estúrdias criaturas do fundo do íntimo do âmago do mais longínquo Hades! O bravo cavaleiro desafia a própria morte e contra vós investe! (Espada em riste.) QUIXOTE (Por terra. horrendo Briaréu! Vai encomendando tua alma a Leviathan. Quixote joga-se furiosamente contra o totem.) QUIXOTE (Aos berros. Ficam nas telas apenas aqueles riscos verticais.

(Esporeando Rocinante.) QUIXOTE — Valha-me Lope de Vega. Em vão.) Haveria por acaso algum biógrafo entre vós? Um escritor. (Para Sancho. Como quem teme. e o futuro me absolve! . well.) Afinal. ao menos? Algum fotógrafo.) Anota em tua agenda.) Well. que se me esnoba a mídia estou fodido. Ponto. well. (Quixote galopa a todo vapor para o lado oposto. Mas não temer jamais. E outra vez Quixote dá de cara no telão. e sim buscar discreto pelo atalho menos evidente e mais propício. vírgula. Enquanto ele trota. De repente cai também o outro telâo. escudeiro: nesta vida às vezes é preciso saber recuar..) Ai. lesado: pro-pí-ci-o. quem sabe? Um video maker que seja? Mas nem sequer um mísero cineasta? (A parte.. que nada nem ninguém nos deterá.) Em frente. Sai a trote. Ponto final. despenca violentamente um telão lateral.. o boca-a-boca sempre funciona. patetas! Não fora eu quem a História confirmará que fui e continuo sendo. que os caminhos se me ajustam qual saia sem fenda em nesga! (Para Sancho. aos sete — ventos que teu amo e senhor Dom Quixote teve a audácia de enfrentar Briaréu. O que? Precipício não. quiçá? Um jornalista. Quixote torna a montar. não esqueça de espalhar aos quatro — aos quatro não.) E tu atoleimado. fogoso corcel. (Para a platéia. Quixote dá de cara no telão. (A parte. Ponto. Parece que os corruptos nigromantes donos do poder querem mesmo me enlouquecer. puxando Sancho em direção a um dos lados do palco.. CENA 24 (De como a saia se ajusta pouco a pouco e todos os caminhos começam a parecer sem saída.haverão de fazer justiça.) QUIXOTE (Filosófico.

que se há de fazer? (Avança. Augusto dos Anjos! (Quixote abandona Rocinante e Sancho. já que prudência e covardia sinônimo não são. meus caros amigos.(Quixote olha para o fundo. .) QUIXOTE — Bueno. Um mísero e único caminho.) Mas o coração — ah. Abutres. talvez seja melhor investigar bem esta vereda que se me afigura sem salvação. Começa a caminhar para lá. assustado. (Equilibra-se. parece mesmo o único. Cabeça fresca. Pela primeira vez parece frágil. mas recupera-se e bate no peito. quase cai.) Valei-me. O mais estreito. equilibrando-se como numa corda bamba. o mais melancólico de todos. tapando o nariz.) Por Antonio Banderas. que medonha fedentina! Dir-se-ia que este sítio está juncado de cadáveres em franco estado de putrefação. o coração eternamente enfrentativo! (Erguendo um braço com os dedos em figa.Vejo que ainda resta um caminho. meu nome em boca de sapo: definitivamente xô! CENA 25 (Na qual todas as porções anteriores vêm subitamente à tona numa verdadeira apoteose esquizofrênica & pós-moderna. puxando Rocinante por uma das mãos e Sancho pela outra. Tira o Elmo/penico e pendura-o num dos ganchinhos de Sancho. inseguro. Mas cuernos. Anda pé ante pé. (Para os céus. onde ainda está o totem já apagado. vudu bestial! Falange de eguns. respiração ritmada. O mais perigoso. Oxalá os pestilentos miasmas da sórdida matéria viva em decomposição não arruínem ainda mais minha depauperada saúde. Exu caveira. o mais solitário.) Vade retro. Juro que nunca pensei.) QUIXOTE . Ah quanta miséria. hienas. passo comedido. Olha em volta.

Esquecimento... Senhor. milímetro por milímetro.. (Olhando as mãos.) QUIXOTE — Triste. Desaparecer. tão seco de carnes. Também começa a emergir em Quixote o último personagem — o Cavaleiro da Triste Figura. (Tosse. O telão à frente do totem também começa a descer. A pele é intransponível como uma malha. As coisas se me encurvam de fadiga.) E tem manchas tristes. limite que nos separa dos outros e das coisas. (Para o céu. fugir. Fronteira. os personagens anteriores — Ator. Senhor Meu. triste figura a minha.Quixote está em frente ao impassível totem-Moinho. Já quase nem tenho dentes.. E me fugiram os fios de cabelo. por que me abandonaste? Oh Saturno. já caíram os dois telões.) Esta rede de rugas no meu rosto. Não fazer. Dos lados. o peito se me encava de desgosto. Cair no esquecimento. Tão magro sou. permitiste que eu tentasse fugir da minha pequenez? Por que me deste todos esses sonhos. que o mundo era tão vasto e doloroso. mas lentamente. senhor da guerra.) Meu regente Marte. É impossível recuar. Sem controle algum. Ficar parado seria fatal. e as mãos me tremem como de ressaca. meio grego. que forem-se-me os molares. Por que. MIGUEL — Eu não sabia. Então acontece a Grande Divisão Esquizofrênica. como espantados por meus loucos sonhos. Ah. Ogunh. Cada um quer tomar o poder e falar. implacável Senhor do Tempo. de que? Não consigo lembrar. não agir. tristes. E que desejando a vastidão do mundo meu coração conheceria também a vastidão da dor. Merda de memória! HOMEM — A coisa mais triste do mundo é a pele. muito maiores di que eu? . o Homem da Mancha — começam a emergir caoticamente. Miguel Quesada. tristes. impiedoso Cronos: poupai-me do envilecer da carne viva! ATOR — Não se pode ir em frente.

eu estarei entre eles. aqui quem te fala é uma morta!‖ HOMEM — Além da lágrima. Mesmo em cem batalhas. a prece. Ou o cinismo. às vezes perde. Ponham-me grades.QUIXOTE . (Recita Manuel Bandeira.‖ MIGUEL (Citando Machado de Assis. Aquele que não conhece o inimigo. ao pé do leito derradeiro!‖ QUIXOTE — Soltem os leões! HOMEM — Como as atrizes e cantoras que desaparecem para sempre. Meu Deus. ATOR — Astaroth. Belfégor! MIGUEL — Fechar as portas. Dêem-me o claustro que não suporto o outro. Asmodeu! Belial. mas conhece a si mesmo.) — Ay que me muero! HOMEM — O vômito.) — Carolina! ―Querida. ATOR (Citando Nelson Rodrigues.) — ―Sempre quando tiveres mais de três pessoas reunidas e for falado o nome de Deus. QUIXOTE (Citando Sun-Tzu. eu também quero outra coisa. que não agüento o vivo! QUIXOTE (Bem espanhol. a lágrima. cadeados. Aquele que não conhece nem o inimigo nem a si mesmo. e sente o ritmo.Dulcinéia. As vezes ganha. Mas sempre com um decote bem profundo. “A arte da Guerra”. correntes. bater as portas. Em todas as batalhas será vencido. Além do vômito.‖ (Noutro tom. nunca correrá perigo. trancar as portas.) ―Pura ou degradada até a última baixeza eu quero a estrela da manhã!‖ ATOR (Citando Vicente Pereira.) — ―Herculano.) — ―Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo. minha estrela da manhã.‖ .) ―Segura o turbante. Tragam-me chaves. meu bem.

O riso a que não me atrevo. escondendo por completo o totem-Moinho. HOMEM — Além da prece. feérica.) — Respeitável público! Senhores e senhoras. Efeitos feéricos de luz. A luz fica mais clara. está transformado no Ator. o riso. Quem me dera o humor dos anjos. Ah..) — ―Ah o amor. ATOR (Citando Oswald de Andrade. tipo tirar infinitos de dentro do Elmo/penico. Suspensa por um fio de nylon. o amor: eu quero porque quero da vida!‖ HOMEM — Socorram-me que me afogo em meu próprio sangue. rapazes e senhoritas: boa-noite! (Música circense bem animada.) ATOR (Braços abertos. bem circense. despenca do alto do palco uma enorme lua . e tu para viver comendo. o humor dos palhaços. dos que fumam maconha para falar bobagens. Quando Quixote volta-se para o público.‖ MIGUEL — A saída. em minha própria mancha! QUIXOTE — Ay ay ay que me muero! (Na cara de Quixote cai finalmente o terceiro telão. O Ator pode fazer mágicas.ATOR (Citando Clarice Lispector.) — ―Ter nascido me estragou a saúde. o amor..) CENA 26 (Onde um alegre circo subitamente dá lugar ao deprimido e deprimente Cavaleiro da Triste Figura. das crianças. onde fica a saída? Eu preciso encontrar a saída! QUIXOTE — Nasci para viver morrendo.

lhe bosta. Estou exausto desta farsa. branca lua: a teus pés de prata deponho meus arroubos. Escarrem-lhe na cara.. O Ator transformou-se novamente em Quixote que... que nunca foi nada! EPÍLOGO (Onde se encerra a narrativa falando da morte. (A parte. que ensandeceu. vencido estou. Oh Lua. Lancem-lhe apupos. Retira apenas a rosa vermelha que mantém nas mãos Enfia na cabeça o Elmo/penico e começa a caminhar em direção à espreguiçadeira. por sua vez. já se transformou no Cavaleiro da Triste Figura. Farrapo humano. (Para Rocinante. soçobro de si mesmo. (Mais alto. que endoideceu. Adeus. esqueceme. do amor e do azul. que já no valho um furo sequer da sola das tuas negras botas. tornei-me agora exato e justo a alcunha que um dia me deste: Cavaleiro da Triste Figura. (Para Sancho. Começa a colocar suas próprias roupas sobre o xale do manequim. companheiro Sancho.) Esquece-me incluso tu. que desatinou e nunca mais voltou. Tamanha surra me deste.) Esquece-me também tu. tomates murchos e ratos morto. TRISTE (Cada vez mais curvado. Branca. que aprimorou meu porte e suportou meus ossos. Esqueçam-me todos. sombra de gente. o mais amoroso e leal de todos os escudeiros de toda a história de toda a cavalaria andante. desalmada e feiticeira. Joguem-lhe ovos podres.) TRISTE (Para a lua.) Que vexame. da vida. destroço. acabado. com fúria.) — Cavaleiro da Branca Lua.em purpurina prateada. indomável Rocinante. . Ao ver a lua o Ator pára. (Caidaço. (Amargo.) — Lá vai ele. Triste caminha até o manequim/Dulcinéia..) Joguem. acariciando o barrilzinho.) Ah. dias de vinho e rosas. Cavaleiro da Branca Lua.) Mais do que nunca. A música também pára. da saúde.

como o Ator no Prólogo. Ah. por longo tempo. a tua vida.) Ay que me muero! (Cai deitado na espreguiçadeira. Você melhor do que ninguém sabe disso. e só me torna agora. (Desinteressado. E muito caro pra não dizer nada. Eu penso nela o tempo todo. já cansei dessa história.) // El segador siega el trigo. Dentro ou fora de mim. Aqui.) Ela tem que estar aqui. Está vestido apenas com a malha. Fala com um psicanalista imaginário. imóvel. Quer saber do que mais? Caguei: K-Gay! . deixa pra lá. / dejad el balcón abierto!‖ (Com um esforço derradeiro. geme. Que louco sonho ou pesadelo foi a minha vida. espanando os confetes. / (Desde mi balcón lo veo. dizem.) //Si muero.Triste pára junto à espreguiçadeira. E eu de nada me arrependo. (Recita García Lorca. a rosa vermelha sempre nas mãos. cuíca geme ao fundo. Triste vai falando enquanto deita. É que fugiu-seme a razão. Não pode desaparecer assim. as nossas vidas. // (Desde mi balcón lo siento.) TRISTE . você nunca diz nada. A lua batucada. Começam a subir ao HOMEM (Levanta. ali. Tarde demais. (Procura pelo chão. Triste joga a rosa para a platéia. / dejad el balcón abierto. consultando o relógio. pois a morte já anunciou sua chegada.) Do teto começa a cair uma chuva de confetes coloridos sobre Triste morto. somos todos inocentes nesta barca da Medusa a navegar insânias. Uma permanece.Perdoai-me todos.) AH. num último alento:) ―Si muero. ou remotíssima mesmo tempo os três telões. // El nino come naranjas. Nem você. se a alguns fiz mal. ao longe. Tira o penico da cabeça e coloca-o embaixo.) — Já? Mas hoje eu quase nem disse nada. é claro. No que é que eu estou pensando agora? Na mancha. Aliás. Leva a mão ao peito. Assim não é possível.

Que bom. Deve ser mesmo. Muita falta. Os três telões terminaram de subir. Bem aqui. Quem gostaria? (Sorrindo.) Carolina? Nossa..) . eu também. vamos nos ver. Mas a secretária eletrônica é mais rápida. Carnaval de 1994) vezes enquanto o Ator volta a sentar no . vigorosa. sim. vital. pode falar. Música espanhola vibrante. sim. A gente sempre esquece. enquanto a luz diminui em resistência. eu nunca pensei que. (São Paulo. repete sete vezes cada vez mais baixo. então você recebeu a minha carta? (Confiante. animado. Miguel deposita suavemente o telefone. Atende sôfrego.. Claro. Como? Ah. procura e aponta.) Ah. Já transformado em Miguel o Homem precipita-se para atender. MIGUEL (Ao telefone.) — Hã? Hein? O que? Quem? (Gira lentamente o globo.) Aqui. Miguel. três banquinho do início.. O sinal repete duas. Os telões sumiram. eu de longe lá do alto — diz que a Terra é azul. surpreso e feliz. Resta o palco e poucos elementos espalhados. Exatamente aqui. E a lua.Alô. é verdade. Hoje mesmo? Miguel estaca sorrindo ao telefone.) Eu também. claro.O telefone começa a tocar. caminha até o praticável . sim.) Sim. como despojos de uma batalha. sim. Já transformado em Ator. Quem vê lá do espaço. (Pára o globo. com o indicador apontado. Toca um sinal de início de espetáculo. lá no alto. Senta no banquinho em frente ao globo terrestre. como no Prólogo. sim. (Olhando em direções diferentes. ATOR (Estremecendo.. VOZ GRAVADA — ―Isto é uma gravação..‖ Miguel aperta um botão e desliga a secretária. O Ator não se move. vamos sim. sim.. quer falar com quem? Miguel? Sou eu mesmo.

Hein? A — Você é meu companheiro. A — Você também sente? B .Eu disse que você é meu companheiro. Que eu sou teu companheiro. eu disse. B — Não é disso que estou falando.O quê? . B . B — Tem alguma coisa atrás.CENAS AVULSAS DIÁLOGO 1 A — Você é meu companheiro. S6 isso. A — Não. B — Não. sei. A — Você está falando do quê. A — Ah. Não tem nada. B — O que é que você quer dizer com isso? A — Eu quero dizer que você é meu companheiro. eu sinto. Deixa de ser paranóico. então? B — Eu estou falando disso que você falou agora. B .O quê? A . não foi assim: que eu sou teu companheiro.

O quê? A .A — Que você é meu companheiro? B — Não me confunda. não me confunda. A — Atrás do companheiro? B . por favor.Não.Ser teu companheiro? A. No começo era claro. não me confunda. sim. . A — Não me confunda. Não é isso.Eu não sei.Ser meu companheiro. B — Você não sente? A — Que você é meu companheiro? Sinto. A. Tem alguma coisa atrás. B — Agora não? A — Agora sim. Por favor. A — Você não quer que seja isso assim? B . não? B — Não.Companheiro? A.Eu vejo.É. eu sei.É B . Tem alguma coisa atrás. Claro que eu sinto. Não é assim. B . B . Você quer? B . Eu quero.Sim. você não vê? A .Não é que eu não queira: é que não é. No começo era claro. E você.

Você é meu companheiro.O quê? B .Eu quero que você seja meu companheiro. B — A ração básica custa setenta por cento do salário mínimo.Eu disse? B . eu disse. O que definitiva e realmente sou ameaça rebentar as janelas. B . . B .Hein? A .B . não é assim? Pronto para ser colhido. B — Você disse? A . B — O índice de mortalidade infantil aumentou em trinta por cento. A . para longe.Maduro como um fruto.O quê? A — Que você seja meu companheiro. A . A — Broto para fora.Hein? (Ad infinitum) DIÁLOGO 2 A — Sinto-me tão nítido que quase posso tocar em mim.O quê? A — Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.Não. Sazonando. Não foi assim: eu disse. A .

Como assim? B — Quero dizer: Você quer uma resposta alegórica ou realista? A — Realista?! Como? B — Realista no sentido de não ter subtexto. eu. mon coéur vomitte‖.B — A temperatura ambiente é de vinte graus centígrados e dois décimos. bem no meio da ponte do Guaíba. você falou que a gente podia alugar um apartamento em Moinhos de Vento. Eu e você B — Ah.É. você acha? B — Isso é uma questão real ou simbólica? A .. Mas já faz tempo. E a partir disso. Nós dois.Suponhamos que sim. B — A gente? A .O que? B — Quero dizer que. A (Cortando. A . DIÁLOGO 3 A — Uma vez.. suponhamos..) — Mas você lembra? B .. . um mas. A — Esse ―suponhamos‖ é real ou (irônico) alegórico? B — ―Entre les deux. A — Muito tempo. entende? Quero dizer: eu dizer que acho que faz muito tempo porque se passou.

) — Você acha que um mês é um tempo significativo? B — Significativo em que termos? A . A — Mas eu podia acreditar? Menos de um dia.A (Cortando.. É completamente impossível alguém saber tão rápido. Nem que fosse a Mulher Maravilha.. porra. cinqüenta por cento da cria era minha. B — Não fica agressivo comigo.. porra. Afinal de contas. A — Agressivo? Ah. nem que você tivesse superpoderes..Me passa o vinho.. DIÁLOGO 4 O Aborto A — Mas afinal.. E humanamente impossível qualquer pessoa saber. por que é que você não me disse que estava grávida? B .. . meu bem. A ... Nem que fosse médium.Eu tentei. porra. A — Tentou! Tentou como? Aquela vez que você me disse que tava grávida menos de um dia depois que a gente tinha trepado? B .Você não acreditou.. não era? B — Mas eu já disse que tentei te dizer. cara.Acontece que você não tinha o direito de fazer este maldito aborto sem me consultar antes..

Absolutamente.. B — Como. meu querido. Eu acho que. tem uma pergunta que há horas eu tou querendo te fazer. isso te dói? A ..Porque é o único jeito de imaginar que eu tou fodendo com um homem. B — Sabe na hora.) — Você quer saber? Você quer saber mesmo? B .) — E. A — Não força. Pausa longa B (Acendendo um cigarro. lentíssimamente. Me responde uma coisa: por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento.B — Uma mulher sempre sabe.. Não me venha com esses superpoderes feminóides.. A Sabe merda nenhuma. No segundo em que eu botei o olho em ti.) . Sabe sempre. cara. tá sabendo? Na hora de baixar a calcinha.Quero saber tudo. cara.) Por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento. Sabe o tempo todo. . (Articulando as palavras. No minuto exato em que você põe o pau lá dentro. não força? E já que a gente tá falando nessas coisas tão Íntimas.

Eliot) A — Eu não consigo.. aquele menino.) — Estou tentando... estou torvelinhando. .... ele continuará sendo — sempre — aquele menino recém-chegado de Florença. para mim. B — ―Somenthing between Macondo and venice‖.estou tentando.. . eu não consigo.. Time for visions and VER. não sei. estou tonteando.. mas não consigo...) ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖. (Shakespeare.) A — Não consigo.) ―Amor de mis entrafias: viva.. Para mim. para mim. essa mudança.‖ (García Lorca) A (Cortando.... Your body hurst me as the world hurst me as the world hurst god‖.. estou atordoando. para mim. estou turvando. essa... ele continuará sendo aquele menino recém chegado de Florença. (Sylvia Plath) A — Estou tentando..S. Para mim.―There will be time... Time for one hundred of decisions and undecisions‖.. eu não consigo. There will be time.. B — ―Life is a tale told by an idiot fuli of sound and fury‖. (T.... B — ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖ (Pausa.. estou tateando. Florença. B . (Pausa. ele continuará sendo sempre aquele menino recém-chegado de Florença...DIÁLOGO 5 A — Não consigo aceitar essa mudança. mudança.. Para mim. não sei...... Time for me and time for you. não consigo — não consigo aceitar essa... B — ―1 am too pure for you or anyone......... Aceitar essa mudança.

2 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. será um prazer recebê-lo em nosso grupo.com/group/Viciados_em_Livros.) enquanto B repete sempre a última frase.Nota — A continua fazendo variações (que podem ser improvisadas ao infinito em torno de tentar-tatear-tontear-etc. .Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.

SARAU DAS 9 ÀS 11* * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

PERSONAGENS MADAME DE ALENCASTRO • MONGE DO RESTELO • BABY • DEBORAH • BÓRIS. um homem-tronco • EGO .

sex. Nesse ambiente eu me criei. uma figura de altura desmesurada. As falas dos personagens repercutem umas nas outras sem que haja qualquer diálogo ou contracenação entre eles. Isolados da turbulência do mundo.1º. ocuparam . Bóris. E o Ego. bosques e fontes. Éramos servidos por exércitos de empregados que nos amavam e respeitavam. Madame de Alencastro. drugs & rock‘ n roll. MADAME - Suavemente plantada entre os rochedos da harmoniosa Costa do Sol. Baby e Deborah são representantes da juventude. QUADRO Overture Este é um quadro de monólogos entrecruzados. Habitam áreas estanques do palco. envelhecidas estrelas de cinema conviviam com magnatas do jet-set internacional e com a antiqüíssima aristocracia local. traz numa coleira um homem-tronco. ditadores depostos. a imprecar vaticínios apocalípticos. Hoje tudo mudou. Ele. mas só se manifesta no final como um oráculo de nonsense. Reis destronados. partidas de criquet. O Monge de Restelo é uma figura visionária de capa vermelha. tomaram conta. bailes de máscara. jantares. jeans e discurso de protestos. Os rebeldes venceram. e eram capazes de dar a vida por nós. Recepções. vivíamos em mansões cercadas de jardins. era uma festa sem fim. picnics no campo. que geme sons inarticulados. velha dama de negro e sotaque português. festas à beira da piscina. que a tudo preside. vestindo um manto negro que só deixa de fora o rosto de alvaiade. Ao fundo. Taormina foi o cenário onde transcorreu aprazível a minha infância. por onde ninfas e sátiros se perseguiam amorosamente. Ela.

não posso evitar de pensar que o homem é apenas um animal que não deu muito certo. ex-rei da Savóia. quando olho para mim. nas esquinas. Quando olho para você. MONGE (Para Baby. e que explodiu.tudo e tivemos todos que fugir às pressas.) — Tu continuas fazendo parte daquele balão colorido que subiu embalado por música. Éramos visitados pelo rei de Roma. gosto muito menos. drogas. BABY . Tudo grita na sua cara que você não vale absolutamente nada. a nossa graça e o nosso charme a beira-mar.E pensar que eu passei todo esse tempo investindo no meu know-how. DEBORAH . Eu. passeávamos pela alameda da quinta de Don Juan do Franco Condado. pelo ex-ditador Simeon da Cituânia e pelo regente Von Koseritz. E em noites de lua cheia desfilávamos todos a nossa beleza. não. política. far-se-á silêncio no céu..Quando olho para mim mesmo. ou tomávamos chá sob o caramanchão nos jardins de Humberto de Bourbon. Mas naquele tempo nâo havia rebeldes... O mundo te machuca. . de Saravejo. pelo Arcebispo de Cantuária. Então os anjos com suas trombetas preparar-se-ão para tocar. MONGE — Ao romper do sétimo selo.E pensar que eu quase me danei apostando no meu back-ground.. cruamente. dentro dos ônibus. quando fazia calor. Mas quando olho para você. MADAME — À tardinha. BABY — Quem é você para colocar um epitáfio sobre mim? Quem é você para dizer que não dei certo? Por acaso você deu? Olhe dentro do meu olho e me responda: você se sente feliz? Você tem esperança? Eu não. DEBORAH . As pessoas te empurram nas filas. não gosto do que vejo. Os amigos desaparecem no momento exato em que você precisa deles.

Não suportaria ver aquelas casas vazias. MONGE — O primeiro anjo tocará a trombeta — e cairá uma saraivada de fogo misturada com sangue. desde que os rebeldes venceram. DEBORAH . no palacete de Otto Marino. a terça parte das arvores. tem agora que cozinhar a sua própria comida. em que a princesa do Shirar representou o nascimento de Vênus.Quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu. que será atirada sobre a terra. e toda a grama verde perecerá no fogo. Não quero ver as paredes brancas de suas casas cobertas de inscrições em vermelho e negro: ―Abaixo a tirania‖. nunca mais voltei a Taormina. Nunca mais retornarei a Taormina. e a terça parte do mar mudar-se-á em sangue. fechadas. . MADAME — Fiquei sabendo outro dia que minha madrinha. a poetisa Florbela Ortigão. ou então transformadas em casernas ou hospitais. Não. MONGE — O segundo anjo tocará a trombeta — e como um monte de fogo lançar-se-á ao mar.MADAME — Lembro-me ainda de uma grande festa a que fui aos 15 anos de idade. silenciosas. e perecerá um terço das criaturas que vivem no mar. estenderá a mão para passar no meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia? DEBORAH . I know not what to do. Não. eu não suportaria presenciar uma coisa dessas. e um terço dos navios ira a pique. o rei do manganês. emergindo de uma fonte de champanha coberta apenas por um manto de asas de borboleta. Queimar-se-á a terça parte da terra. ―Morram os opressores‖. entre todos vocês. BABY — Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de desencanto? Quem.Ando jururu. Acabou tudo.

nossos iates e palacetes. Quando se pára de pedir.DEBORAH . Acredito no vento que sopra da banda do rio quando o sol acaba de se pôr. mas pouco importa onde terminará a minha queda. Não lhe peço que acredite em mim. BABY — Quanto a mim. O futuro é um abismo escuro. Os industriais de Santa Lúcia tiveram todos os seus bens confiscados e contas bancárias bloqueadas pelo Governo rebelde. Acredito nos astros. nos animais. acredito nas plantas. um irmão entrevado. uma tia louca. meu coração bate ainda mais forte. nas águas. porque se tornarão amargas. e virá tombar sobre a terça parte dos rios e das fontes d‘água. BABY — Não espero nenhum olhar. e nosso porto é desconhecido. talvez também não acredite nos meus próprios. na pressa. De qualquer forma. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado. Você tem seus jeitos de tentar. não espero nenhuma cantiga de ninar. Tivemos que vender nossos automóveis de luxo.E descansar os meus olhos no pasto. Muitos. luminoso como um archote. . Não acredito nos seus. Eu tenho os meus. cuja mais famosa especialidade eram os docinhos conhecidos como ―ossinhos de Santa Catarina‖ — a confeitaria. um dia seremos poeira. e muitos homens morrerão dessas águas. na areia seca. especializada na crônica da vida mundana. não espero nenhum gesto. só se tem a ganhar. Chamar-se-á ―absinto‖ esse astro. Por isso estou vivo. dizia. Converterá em absinto a terça parte das águas. Quando não se tem mais nada a perder.Tivemos todos que fugir em debandada. a gente está pronto para começar a receber. Pela minha absoluta desesperança. MONGE — O terceiro anjo tocará a trombeta — e cairá do céu um grande astro. MADAME . teve as suas instalações transformadas num depósito de armamentos. E a famosa confeitaria Garcez & Bernard. descarregar esse mundo das costas. Soube também que faliu a revista Gran-Monde. Acredito na pedra bruta. deixaram para trás uma avozinha cega.

MONGE . MONGE — Quem ferir pela espada.Tomou dois cálices de vinho do Porto e encomendou o jantar: ―Yo quiero un poco de caviar. outrora um dos mais luxuosos da cidade. e deixará de resplandecer a terça parte do dia e da noite. MONGE — Quem reduzir outro ao cativeiro. un bon tinto y nada más‖ . MADAME . ouça. Ainda hoje tive a compreensão final. ninguém mais o viu. un paté trufado de Estrasburgo. MADAME . Não me iludo.DEBORAH — Eu só quero fazer parte do backing vocal. MADAME — Li no jornal que os imortais da Academia de Letras. shoobedoo-down-down.Quem tiver ouvidos. MONGE — O quarto anjo tocará a trombeta.Fuzilados. a terça parte da Lua e a terça parte das estrelas. . MONGE — E será ferida a terça parte do sol. MONGE — De maneira que se lhes escurecerá a terça parte.disse.Ainda na semana passada a única figura daqueles tempos que se mantinha em pé era o velho Cônsul de Pasca. será cativo ele mesmo. Tudo acabou. MADAME . e cantar o tempo todo: shoobedoo-down-down. MADAME — E o que foi não voltará mais a ser. Ciências e Artes foram todos mortos. hoje submetido ao regime de autogestão. MADAME — Terminada a refeição. que foi visto sexta-feira no restaurante La Tour d‘Ivoire.Tudo mudou. MADAME . pela espada morrerá.

) — Quando será finalmente aberto o último seio? EGO — Bevete più latte. 2° QUADRO: Como Era Verde o Meu Vale Monólogo auto-explanatório.) — Como posso acreditar outra vez no humano? EGO — Muitas gerações passaram. CENA Um hospital para doentes mentais. Ask for interchange. Demandez de l‘interchange. A gente sentava embaixo da figueira e ficava vendo o sol se pôr atrás dos morros. DEBORAH (Para Ego. E muitas passarão.Where‘s my band? EGO — Solicite intercâmbio. MADAME (Para Ego. A gente via mesmo só à . A gente via o rio dum lado e os morros do outro. Trás de ahora viene lo que fue antes. y antes fue lo que será ahora.BABY (Para Ego.) — Onde estão meus andores? Onde estão meus ouropéis? Onde estão meus cristais? EGO — Mantenha seu equilíbrio sobre o fio da navalha. A casa era branca e fresca. Como era bonito lá. MONGE (Para Ego.) .

carregados de trilhos e umas máquinas que eu não conhecia. Foi numa dessas tardes que a gente viu o trem. eu tenho cinco filhos e os cinco tavam casados e precisavam de dinheiro. De repente ela parou e apontou pro lado do morro. resolveu vender tudo e mudar pra Canoas. Então as cercas das outras casas começaram a se aproximar e a gente foi ficando espremido ali. A terra tava no nome deles. os peixes do rio foram morrendo todos. mesmo assim. E mesmo quando tinha muito trabalho — tirar leite das vacas. arar a terra. as árvores perdiam as folhas e a terra não dava mais nada. Mas a fábrica largava uma fumaça branca que caía em cima das árvores e das verduras. que ele não queria que eles crescessem uns ignorantes que nem eu. que era o progresso que tava chegando e agora todo mundo ia ter trabalho e ganhar bastante dinheiro. recolher os ovos no galinheiro. Um tempo depois vieram as casas. Depois dum tempo as plantas começavam a murchar. Ficou apontando e olhando. era sempre bonito lá. Fazia tempo que uns homens do governo trabalhavam na estrada de ferro. que não sei ler nem escrever. em cima daquela colina onde ficava a nossa casa. colher o milho. semear o trigo —. meu filho mais velho. Todo dia a gente podia ver os caminhões passando lá embaixo. na estrada. O Clodomiro falou que as crianças precisavam de escola. A gente pensou que ela tivesse se queimado. E o sol se pondo por trás. De longe parecia pequenininho. quase como uma centopéia na encosta daquele morro grande. A Zefa ficou tão nervosa que derrubou a cuja no chão e virou a água quente da chaleira. Mas ela riu e disse que não era nada. Aí a gente parou de conversar e ficou todo mundo olhando o trem. A minha propriedade não era muito grande.tardinha. A terra foi ficando tão imprestável e as cercas se aproximaram tanto que o Clodomiro. Veio também a fábrica de cimento. O povo da vila dizia que era bom. Lembro que a Zefa vinha descendo os degraus da casa com o mate numa das mãos e a chaleira na outra. porque de dia era tanto trabalho que a gente nem tinha tempo de olhar pros lados. .

Ele tinha dito que a gente ia morar numa casinha que nem a outra. Então o Clodomiro vendeu a terra e a gente se mudou pra Canoas. não queria lavar as minhas camisas. quando entesava de querer uma coisa não tinha ninguém no mundo capaz de fazer ela mudar de idéia. 3° QUADRO Bonecos Chineses . como era bonito lá‖. me botaram numa camisa de força e me trouxeram pro hospício. dizia que não era bom pras crianças. A minha nora reclamava cada vez mais. choravam e tinham medo de mim. Eu fui ficando cada vez mais triste. Eu já não conseguia nem comer nem dormir direito. Eu fui ficando triste. por causa do barulho dos caminhões na feira perto de casa. e eu não podia fazer nada. como era bonito lá‖. Mas ela tinha morrido já faz muito tempo. Eu sempre repetia assim: «Como era bonito lá. do banheiro pro quarto. Eu só suspirava e repetia: ―Como era bonito lá. A minha nora reclamava todo dia. Eu não brigava. dizia que eu parecia um bicho numa jaula. Eu não conseguia mais dormir e de noite ficava andando pela casa. Os vizinhos cochichavam quando eu saía no portão. Ela era uma mulher mais braba. pensando na figueira e nas coisas que a gente conversava embaixo dela.Eu não queria vender. quem sabe se a velha ainda tivesse viva o Clodomiro não tivesse vendido. Mas era um pátio tão cheio de pedra que nem urtiga nascia lá. Quando a gente fica velho os filhos não ligam mais pros palpites da gente. Aí um dia eles disseram que eu tava louco. eu achava muito bonito lá. falando comigo mesmo. As crianças acordavam com os meus passos. E ficava andando da cozinha pra sala. e que eu podia plantar no pátio. da sala pro banheiro. Eu tinha um pouco de medo de sair além do portão.

B — Sabe. você acordou hoje com o quê. você vai se visitar. estou aqui. B — E você? Não vai fazer o mesmo? A — Fazer o que? B — Simplesmente agradecer. eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo essas besteiras. A (Ri. escute aqui. . então agradeça. hoje. E tome o seu café de uma vez. se não você vai terminar chegando atrasado no seu emprego. A . A — Eu tenho mais coisas a pensar do que na luz do sol.) — Você acha que eu tenho tempo pra essas bobagens? B — Você já fez sua saudação ao dia? A — Ora.Com a luz do sol. B — Os pássaros são livres. A — Escute.E o que é que me importa isso? B — É preciso agradecer.O que é que você falou? B — Eu disse que os pássaros são livres. B — Sim. A . A — Ah. você está aí.PERSONAGENS A (uma dona de casa) e B (seu cunhado). A — Muito bom. com a minha ajuda. hein? B .

E onde está o seu outro lado? A — O que é que você está dizendo? B — Aquele lado que não lhe faz escrava. eu não tenho esses problemas de tempo.B .Não há tempo a perder. Não é assim que você pensa? A — Claro. Você acha pouco tudo isso? B — Acho que falta mais alguma coisa. há muito que já devia ter ido trabalhar. E mesmo que você perca o emprego de tanto chegar atrasado e não contribua com dinheiro algum pra casa. meu querido cunhado. B — Não se preocupe. É assim que eu penso. . arrumar as camas. A — O que eu sei é que eu sou senhora do teu irmão. mas senhora de si mesma. Tenho que limpar a casa. sabia? E você também está perdendo tempo. E pra isso eu preciso de tempo.Por exemplo. Você tem casa.Por exemplo? Eu já vou lhe dizer. E você está fazendo eu perder tempo. Tenho que lavar a sua roupa e a de seu irmão. comida. B . Vá trabalhar logo e me deixe trabalhar também. A — Eu sei que eu tenho muitas outras coisas a fazer. O salário que traz pra casa não paga nem o papel higiênico que você gasta. Não é você quem paga o aluguel. Eu já estou é farta de você! B . tem aí o trouxa do teu irmão que te sustenta. A . o tempo não existe pra mim. fazer comida pra vocês. A — É claro que você não tem esses problemas. roupa lavada.

faz coisas demais. se mexe demais. A — Você está é louco. ouviu! Não admito essas brincadeiras de mau gosto! Seu vagabundo! parasita! explorador! B .E o que é que você está pretendendo? B — Cale-se. Se dependesse de mim. Pare. Isto é uma falta de respeito! Onde já se viu uma coisa dessas? Debochar de mim na minha cara! Eu não admito. Experimente parar um pouco. A — Muito bem.) A — O que é isso? 8 — Cale-se. Escute. De qualquer jeito você vai morrer um dia. vou lhe revelar um segredo. Quer? A — Bom. eu posso ajudá-la a mudar a situação agora. revele esse segredo logo e vá andando. tudo demais! A — Pare com isso! Pare com isso! B — Pare você. . se você quiser. B — Depende de você. A minha paciência tem limites.Sabe de uma coisa? Você fala demais. a situação seria bem diferente. (Cala a boca. Chegue um pouco mais perto. Escute o silencio. pelo menos você parece disposto a colaborar. A — Escute uma coisa. e isso é tudo pra você? A — Eu não me casei com ele? Se eu fosse senhora de mim. eu não estaria aturando você todo esse tempo aqui dentro da minha casa. A . B — Eu quero brincar com a sua cabeça.B — Ah. B — Estou mais disposto a colaborar do que você pensa.

A — O que está acontecendo? O que foi que deu em você? B . A . simplesmente. Você não passa de uma poeira. o universo. Vamos conversar com calma. o planeta. A — Vá. Deixa eu buscar uma cadeira. Cansado da sua infinita burrice. Este não é o único planeta. a cama. Você deve ter varizes. não desta maneira.Estou cansado. Adeus.Ah. me chamou? Você não queria que eu fosse embora? A — Não. B — Você não estava cansada de mim? A — Estou cansada. você é tudo também.O quê? .. pelo menos. Esta não é a única casa.. Desculpe. Nem o único sistema solar. B — Bunda mole. vá! É melhor mesmo que você vá de uma vez.. não é? A ..O que você quer dizer com tudo isso? Eu acho melhor você ir embora da minha casa já e já! B .B .Escute.Eu é que estou cansada de você! B — E do seu medo. Eu vou.Está bem. Cansado da sua mesquinharia! A .Escutar? Mas eu não estou ouvindo nada. o sistema solar. da sua falta de sentido! A . B — Você não é a única pessoa do mundo. uma pessoa. o país. (Pausa. da sua mediocridade. Mas sendo uma poeira. Este não é o único país do mundo.) Espera! B .

E pára de andar ao meu redor que eu fico tonta. A .Tenho. A — Eu acho melhor você acabar com essas agressões. B — Você está aqui dentro. querido cunhado. A — Claro! Você é um deles! B — São típicos.B .Também! B — Conheço todos os seus males. B — Você não chega a ser uma individualidade. que eu não vou agüentar. desça.E hemorróidas. No rabo. está fora da realidade! Desça. B — E problemas digestivos! A .Você é mais um conjunto de reações do que propriamente um ser humano. A — A nossa.Também! B — E caspa! A . Tudo em você é típico. A minha é outra. Característico. Eu não. é aqui a realidade! B — Esta é a sua realidade. coisa nenhuma! O que é isso.O que é isso? Eu não entendo essa conversa! Você está me deixando louca! B . A — Que conjunto de reações. Você está aqui dentro comigo. A . A — E onde é que você está? . meu Deus? Pare com isso! Pare de falar difícil! Você está louco.

é preciso começar pensando. A .. B — Você se engana. A. me diga concretamente em quê? Na minha vida? Mas a minha vida é tão feia. no supermercado. no éter. Pra você se achar. Você não se acha nunca..B — Eu? Eu estou no ar... está ouvindo? Eu não admito isso na minha casa! Pare com isso imediatamente! B — Parei. na cozinha.. me irritar.. . A — Mas concretamente.. e dentro de você. isto está cheirando a bruxaria! umbanda! espiritismo! Eu sou católica praticante. A — Meu Deus. Eu não gosto de pensar nela.Encontrar o quê? B — Você mesma. você se perdeu a si mesma. A — Não acredito em você. Você só sabe me explorar.. Eu estou sempre me achando. no fogo.Eu? B — Sim. humilhada. me torturar. B — Pense em você mesma. na terra. A — Mas como me perdi? Eu me acho todos os dias.Em quê? B — Pense. A . na água. Me ajudar! Tem graça! Em que você poderia me ajudar? B — Eu podia ajudá-la a encontrar. dentro de mim. B — Mas eu já disse que posso ajudá-la. No tanque.Eu me sinto insultada. A .

O que é que eu faço com ela? B .Quando foi que você se esqueceu de si mesma? . B — Na sua cabeça. Penso no banho das crianças. A .Eu já disse.A — Em que parte de mim? Eu sou composta de muitas partes: cabeça. pelo amor de Deus! B . em que? Me explique. Acho até que me esqueci de mim. meu Deus. Pense! A — Na pilha de roupas pra passar. B — No seu interior. eu tenho coração! útero. eu tenho pulmões.Na minha cabeça? A minha cabeça dói.Há muito tempo que eu não penso em mim.Pense. Em buscar as crianças do colégio. tronco e membros. B — Insignificâncias! Continue pensando! A — Mas em quê. B . A — Mas eu penso. A — No meu interior? No meu interior eu tenho vísceras. B — Frescura! Pense! A — Em levar as crianças pro colégio. B — Detalhes! A — Nas cortinas que eu tenho que mandar lavar! B — Detalhes. A . Em você Em você. já disse.

E estou cansada. Eu não quero pensar mais nisso. E além disso. tão tranqüila. eu sou a vergamoteira. sim. ela não existe mais. Eu não via nada de errado nisso. o corpo doído. Acho que você pode voltar a falar com a sua vergamoteira. Você acha ridículo tudo o que eu contei? B . A — Você acha que vai dar certo? B . frondosa. Faz tanto tempo isso. Venha. E só fica o cansaço.A — Não sei. vontade de me atirar na cama e chorar. Diga alguma coisa. Eu conversava com ela. A . debaixo de uma vergamoteira. colorida. Eu gostava de brincar no jardim. isso não é coisa pra uma mulher da minha idade.Eu tenho vergonha. A — Ora. Eu já nem me lembro direito.Não. Faz de conta que eu não estou aqui. Tão bonito. aproximese. As mãos ficavam coloridas e os joelhos também.A última coisa que eu me lembro de mim é quando eu tinha sete anos. Olhe. E digo mais. E tão difícil pensar. As coisas fogem da minha cabeça quando eu me esforço. O vento soprava e ela abanava as folhinhas pra mim como se me respondesse. Mas aí tudo desaparece. Eu acho que não consigo mais nem pensar. só sei que faz muito tempo. Fale comigo. Eu gostava de ficar olhando para ela. que até adormecia ao pé da árvore. não acho. como se fosse uma máscara pintada. Era até bonito. A .Tenta. e acordava com os gritos da minha mãe mandando eu tomar banho. Eu vou virar de costas. cheia de vergamotas. lavar as mãos e os joelhos que estavam pretos. . ás vezes eu penso nisso tudo e chego a sentir um pouquinho daquela alegria. B — Tente se lembrar. B — Existe. Eu ficava tão calma.

B — Eu já estava com saudades de você. Esta outra aqui também. A . aproxima-se lentamente. Se eu comer as sete vergamotinhas eu encontro. de bruxaria. encontro. A — Acho que entendi. A — Esta vergamoteira é nova.. você tem uma chave em suas mãos. B — Sete é número cabalístico. coragem. A . ele representa força.. Mamãe não deixou eu vir ao jardim ontem.) — Eu não posso.Oi.E daí? B .Não.B — Vem cá. o que é que eu encontro? B — Não sei. . B — Não. B . B — Que pena. B — Já pensou no que isto significa? A. E aquela ali.) Oi. Eu tinha sabatina e tive que ficar no meu quarto estudando. B — Quantas vergamotas eu tenho hoje? A (Conta.Eu sei. A .. Mas esta aqui é nova.E daí.Desde anteontem. Isso só você é que vai saber.. Há quanto tempo você não vinha aqui.) — Sete. A — Eu também estava. A (Ri envergonhada. Eu não conhecia ela. vem falar comigo. (Hesita. Esta eu já tinha visto.

A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO * Peça em 1 Ato * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

uma velha governanta • CONDE MAURÍCIO DE BELMONT. uma cigana . MARQUES RAFAEL D‘ALLENÇON. muito doente • ROSALINDA. um jovem mancebo. CONDESSA URSULA DE BELMONT. VASSILI. irmã do conde e louca • JEZEBEL. uma donzela de 19 anos .PERSONAGENS NARRADOR • AGHATA. um cigano cego . um velho nobre.

conhecido pelo nome de Vale Negro. último descendente da estirpe e que outrora.) Talvez mais uma ou duas.. dorme um sono entrecortado de gemidos e sobressaltos. No topo de uma das montanhas que dominam o vale. . A governanta Agatha.Na província de Castelfranc. o castelo dos condes de Belmont. Numa sala do castelo. saberá por certo apiedar-se de vossa desdita.. Não vais dar-me a tisana? AGATHA — Estava justamente a prepará-la para vós. governara seus domínios com a mão de ferro. (pinga mais) ou três. (Observa Maurício. Uma chuva miúda e fria cai sobre a terra. A nossa história tem início na tarde de 15 de abril do ano da graça de 1834.. duas.. imponente. ao contrário.. que já por toda a parte começava a ostentar os dons fecundos do seu rico e poético reino. três. sinto-me dolorosamente mal. que há muitos anos serve a família. deveis beber a tisana toda.Aghata. Agatha.. Agatha. AGATHA — Uma. sete. na sua infinita bondade de misericórdia.. estende-se um vale coberto por densa floresta de pinheiros e ciprestes... Aqui está (serve-lhe).. o velho conde Maurício... MAURÍCIO (Gemendo.. Senhor.. de antiqüíssima linhagem e senhores daquela região. senhor conde. que estou cada vez pior.. MAURÍCIO — Arre.. Oh. ergue-se.CENA 1 NARRADOR . Assim. senhor conde. Mais um gole. quatro. Deus. que sabor repugnante! E se ao menos adiantasse de alguma cousa! Parece-me....) .. Vamos. cinco. Acho que é o suficiente por hoje.. pinga lentamente algumas gotas de uma tisana escura num cálice de cristal... seis.. paralisando a formosa primavera. que cruéis provações ainda me reservará o destino? AGATHA — Não vos preocupeis demasiado.

Ela jamais saberá. A luz me molesta. CENA 2 ROSALINDA (Entrando com um cesto de palha carregado de flores e frutos. juras que.Ainda não a vi hoje.) — Quiçá eu mereça todos estes abomináveis tormentos. senhor. padrinho.) — Quem jamais saberá o que? AGATHA (Friamente. senhor.. MAURÍCIO .A chuva parou já faz mais de hora. Então. O senhor conde quer que eu descerre os reposteiros? MAURÍCIO — Não. meu amado bem feitor! MAURÍCIO (Amargo.. Que trafega estás. Oh. andavas pelos bosques? ROSALINDA — Sim. jamais revelarás a verdade a Rosalinda? AGATHA — Tranqüilizai-vos. Como deveis padecer. e pensava em vós. Deve andar pelos bosques colhendo frutos e flores silvestres. a natureza toda parecia explodir em cores inefáveis e perfumes inebriantes. Caminhava pelos montes. entre as cabras.MAURÍCIO — Agatha. se eu morrer. abandonado aqui neste leito. (Suspira. como é de seu feitio. Rosalinda. meu primaveril crisântemo. onde está Rosalinda? AGATHA . Temos sol de novo.Com este tempo chuvoso? AGATHA .) Pobre Rosalinda! Deus permita que não descubra jamais o hediondo segredo que envolve as suas origens. por favor. . quando raiou o sol. Agatha. MAURÍCIO — Aproxima-te.) — Falávamos sobre os males que afligem vosso padrinho.

padrinho. (Indo à janela. inexplicável pela ciência dos homens.) — Deus sabe o que faz. Agatha. AGATHA (Cortando. padrinho. AGATHA (Anunciando. AGATHA — Caluda! (Escutando. E apenas um fenômeno natural. Astaroth. Belzebu.) MAURÍCIO — Atende.. minha rósea tulipa.Os gritos novamente. Esta é a maldição do Vale Negro. Ouvem-se batidas de aldrava.) . quietos! (Cessam os latidos.) ROSALINDA . .) — Os cães estão latindo. ROSALINDA — O que dizeis..) E quanto aos gritos.) — A cascata costuma parar quando algo terrível está para acontecer. De que sofrida garganta brotam esses brados inumanos? E por que a cascata pára? AGATHA (Lúgubre.) Ouvis? A cascata parou. (Agatha sai. Não atemorize nossa linda pequena. mais justo e magnânimo que meu amado padrinho..) Cérbero.Tenho tanto medo.) Não! (Ouvem-se gritos ao longe.) Não te assustes. MAURÍCIO — (Agitado. Belfegor. (Ouvem-se latidos. MAURÍCIO — Cala-te. Agatha? Todos os camponeses e mineiros do Vale Negro sabem que não existe fidalgo mais nobre.O marques Rafael d‘Allençon. o conde Maurício de Belmont.AGATHA (Seca. Deve ter chegado alguém. Asmodeu. (A Rosalinda. sinto um aperto no coração. Lúcifer.Quem poderá ser? Oh. Agatha. ROSALINDA . Tenho um pressentimento.) AGATHA ..

) — Brrrrrrr! Que conversa desagradável! MAURÍCIO (Secamente. que os alimento. O que dificilmente aconteceria. São animais ferocíssimos.) Bálsamo de minh‘alma. durante o dia.Vós ordenais. RAFAEL — Folgo em sabê-lo. caro marques..) — Maldição! Esses cães são verdadeiros demônios! (A Maurício.) . caríssimo conde. Seriam capazes de trucidar qualquer um de nós. (Olhando de soslaio a Rosalinda.) — Seria um erro fatal. Com vossa licença.) Por que razão viveis cercado de feras? (Melífluo. necessito estar a sós com o marques.Abreviamo-la. o velho feitor Bonifácio. (Sai com Agatha. Inclusive eu . Só são soltos ao anoitecer. Mas não precisais temer.CENA 3 RAFAEL (Entrando.) Acaso tendes medo que alguém vos roube esta gentil donzela? MAURÍCIO — A maldade no coração dos homens é incalculável.) . Para não incorrer no erro de vir visitar-vos à noite. retira-te.) . permanecem acorrentados. AGATHA (Levemente irônica. senhor marques. pois..) A não ser que. Os cães. A mim cabe obedecer. que só obedecem ao seu tratador. ROSALINDA (De olhos baixos. (A Rosalinda. MAURÍCIO — Agatha. senhor marques. RAFAEL (Estremecendo. meu padrinho. A que devo a honra de vossa presença aqui em meu tugúrio? RAFAEL — Assunto particular.

Ao fim e ao cabo.. Isso é um engodo. coincidentemente.) Parece-me que vossa senil memória anda já a pregar-vos peça.. Por certo adulterastes os papéis.A hipoteca vence hoje. quero crer que já não vos resta muito.. Devo confessar que pareceis já um cadáver. MAURÍCIO . biltre dos infernos.CENA 4 RAFAEL — Não desejo roubar vosso precioso tempo. conheço bastante bem vosso passado. RAFAEL — Ora..A hipoteca vence hoje. a virgem e o Espírito Santo são testemunhas de minha desventura. MAURÍCIO (Examinando os papéis.) — Tendes razão. MAURÍCIO (Agitado.. Outrossim. E em adiantado estado de putrefação. (Entrega-os. sois vós o único responsável por vossas próprias desditas. Não tolero vossa presença maligna. senhor! Inesgotável é a taça de infortúnios que me fazeis sorver neste vale de lágrimas! RAFAEL — Sois injusto com o bom Deus... apesar de possuir a metade de vossa idade. senhor conde.Não é possível. RAFAEL (Lentamente. estimado conde. o meu finado pai? (Compungido.) Que Deus o tenha! .Que dizeis? RAFAEL . MAURÍCIO — Deus.. RAFAEL — Os papéis cá estão em minha algibeira. Podeis verificar.) .) . caro senhor. Não há sombra de fraude neles. Ide logo ao cerne da questão. Oh. MAURÍCIO — Que quereis dizer com isso. Acaso esqueceste que vosso companheiro preferido das noitadas de esbórnia e deboche era. Apenas isso. Conheço vossas diabólicas tramas.

.) . . que acerbas recordações vindes me despertar! RAFAEL — A concupiscência. Todos os bens do ilustre clã dos Belmont hipotecados à não menos ilustre casa d‘Aliençon! . senhor Conde Maurício de Belmont. não basta! Já fui assaz insultado por vós. as mulheres. herdei muitas ―virtudes‖. não conseguia parar! Era mais forte do que eu! RAFAEL (Continuando... aquela noute nefasta.. como gosto pelos ―prazeres‖ da vida: a boa mesa. de quem.Aquela noute. Sim. RAFAEL — Ah. o vinho. Ou porventura olvidais que foi sobre o pano verde que empenhaste toda vossa fortuna? MAURÍCIO (Num arranque. .. RAFAEL — Sim. vejo que vossa memória começa a reavivar-se..) ...já embotado pelos vapores etílicos.Não. no auge do desespero. há mais de dez anos que. a devassidão e o vício que levaram o meu progenitor à loucura e à morte são agora a causa de vossa ruína financeira. foi numa ―noute nefasta‖. basta de ressuscitar esses horrendos fantasmas do passado! RAFAEL (Implacável.. MAURÍCiO (Cortando. aliás. após já haver perdido vultosíssima quantia e já embotado pelos vapores etílicos.) . com meu pai.Vosso pai.) — Basta.MAURÍCIO (Amargo.. MAURÍCIO — Ah.) — Eu não podia. implacável. como dizeis.. os títulos de suas propriedades. Vossa Senhoria ofereceu como garantia de sua derradeira aposta. sentado a uma mesa de truco. senhor conde. e não vou perder a oportunidade de vos dar o merecido troco! Não. o velho marques d‘Allençon. as canções. não podeis negar que estais colhendo hoje o amargo fruto de vossa desenfreada paixão pelo jogo! MAURÍCIO .

canalha! O que mais ainda quereis deste lamentável destroço humano? RAFAEL (Direto. arrogante mancebo? CENA 5 . MAURÍCIO (Tossindo muito agitadamente.) — Infâmia! Gozasse eu de alguma saúde e vos expulsaria daqui a chicotadas.. mais atilada. (Agatha sai conduzindo Maurício.) ROSALINDA (A RafaeL) . Mas.Ajuda-me. poderíeis fazer bem mais do que imaginais em vosso próprio benefício. Mil vezes a mais negra miséria! RAFAEL (Sem se abalar. digamos. MAURÍCiO (Tomado de cólera.) — Então estais completamente arruinado. jamais a vós.Não sou homem de meias palavras. A escolha é vossa. Deus de minh‘alma! O que me resta fazer agora? RAFAEL — Se vós tivésseis uma mente. que tendes? MAURÍCIO .Senhor.O que fizeste a meu padrinho. para vos retirardes do castelo. MAURÍCIO — Falai logo. ao meio-dia.) .. Quero vossa afilhada..) .MAURÍCIO — Ah.) O mais ignóbil dos répteis é mais nobre do que vós. vil cobarde! ROSALINDA (Entrando com Agatha. Cederia a mão de Rosalinda ao mais imundo dos mineiros do Vale Negro.. Agatha.. preciso repousar.. (Tossindo violentamente. tendes até amanhã. como sou um homem magnânimo.) — Como vos atreveis? Ficai sabendo que não sois digno de lamber o chão onde roça a fímbria da saia de Rosalinda.

Nem vós. RAFAEL (Interrompendo. Mas isso não é crime. Oh. os ágapes desenfreados. ROSALINDA — De mim? Sabei que tudo faria para amenizar as derradeiras horas de meu benfeitor. minha pequena. os muitos crimes que cometeu o corroem por dentro. ...Que não tendes mais teto que vos abrigue. A hipoteca vence justamente hoje. O senhor conde está gravemente enfermo.Vamos. As propriedades pertencem a ele.. ROSALINDA — Mas então por que está ele neste deplorável estado? RAFAEL . minha pombinha. apiedai-vos de nossa desgraça! Que tendes vós em lugar de coração? Uma taça de veneno? RAFAEL . ROSALINDA — Mas não podeis cometer essa vileza.. que.RAFAEL . como pudeste observar.. RAFAEL — Basta que sejais. senhor marquês.A vida desregrada que levou.Sei-o.) . complacente com este vosso admirador... minha flor das montanhas. nem a bruxa governanta. RAFAEL Como não? Então não sabeis que hipotecou todas as suas propriedades à casa d‘Aliençon? ROSALINDA . menina.Tudo depende de vós. Nada fiz a vosso padrinho. Sua morte é questão de meses. nem aqueles cães demoníacos. ROSALINDA — Crimes? De que falais? Meu padrinho nunca cometeu crime algum. RAFAEL — Crime é deixar ao desabrigo uma donzela como vós. ROSALINDA — Isso quer dizer que. nem vosso padrinho..

) RAFAEL (Abraçando-a.Oh.ROSALINDA — Complacente? Que insinuais? Não vos entendo. sim. participava das tertúlias e saraus familiares. Rafael passou a visitar mais amiúde o castelo e. Agora compreendo o que desejais. crisântemos. ele e Rosalinda passavam as calorosas tardes estivais a percorrer os bosques e pradarias.Sois mais ladina do que aparentais. a situação modificou-se sensivelmente no castelo dos Belmont. desistindo de protestar os títulos da hipoteca. RAFAEL (Incisivo. carregando braçadas de antúrios. hortências.) Não haverá lugar em vosso coração para um pouco de ternura? ROSALINDA (Percebendo). Se isso pode salvar meu benfeitor da ruína. begônias e miosótis. magnólias. A atitude do marques.) Está bem. podeis dispor de meu corpo e de minh‘alma como quiserdes. Nos menores frascos repousam as mais puras essências. por misericórdia. .Alguns meses depois daquele dia em que Rosalinda levou a cabo o seu gesto de desprendimento e afeto filial. sofrera uma profunda transformação.) — Sobre esse assunto não há necessidade de falar claramente. Entrementes. persignando-se. Voltavam ao por-do-sol. petúnias. para a satisfação de vossos brutais prazeres. inclusive. CENA 6 NARRADOR . gerânios.) . fatos mui estranhos continuavam a ocorrer nos sombrios aposentos da mansão dos Belmont. cederam lugar a uma solicitude. aliás. Falai claramente. a ameaça da ruína deixara de pender sobre a família. pequena. Freqüentemente. (Resoluta. como num passe de mágica. (Abre os braços resolutamente. (Insinuante. O marquês d‘Allençon. Seu habitual cinismo e arrogância.

Em semi-obscuridade, o Conde Maurício está dormindo, recostado no sofá quando entra Ursula. Roupas rasgadas, desgrenhada, inteiramente louca. Traz uma boneca nos braços.

ÚRSULA (Fala para as paredes, às vezes para si mesma ou para a boneca.) — Como sói ser verde o campo quando o astro-rei principia a tombar no horizonte! Por um segundo, a natureza inteira se veste de dourado... Vês, filhinha? O verde dos campos sendo mansamente invadido por todo esse esplendor dourado que brota do arrebol. Que espetáculo redentor para a torturada visão dos homens! O ouro derramando-se sobre o verde, tingindo o azul do firmamento. (Estremecendo.) Até... até que os besouros começam a cair. Lentamente, despencam dos céus feito gotas negras de chuva. Vindos do infinito, qual aranhas viscosas e peçonhentas... E quando caem de costas — ah, quando um besouro cai de costas, não se levanta nunca mais. (Quase gritando.) Nunca, nunca mais! (Com o grito, Maurício agita-se e geme dormindo. Ùrsula volta-se para ele.) Vês, filhinha? E assim que são os poderosos. confortáveis Desalmados, como se impiedosos. Dormem um profundamente, campo de ouro. repousassem sobre

Indiferentes à queda lenta dos besouros negros sobre o charco de sua alma manchada pelo sangue dos inocentes. Alheios à desventura dos oprimidos camponeses que labutam no fundo lamacento das minas para cobrir de ouro seu medonho latifúndio. (Vai-se aproximando de Maurício.) Mas se todos — ah, se todos unidos erguessem atrevidos suas sofridas cabeças para gritar não! ao opressor... Ah, filhinha: como tudo poderia ser diverso desta iniqüidade. Quão ditosa seria novamente a pobre corça dos pés quebrados! (Gritando.) Companheiros, uni-vos! Uni- vos para destroçar o maligno! (Segura Maurício e começa a sacudilo violentamente.) Este, que se traveste de benfeitor dos pobres e dos oprimidos! Uni-vos como 1ob famintos de justiça para destroçá-lo em pedaços sangrentos!

MAURÍCIO (Despertando, estonteado.) — Rosalinda, Rosalinda, que aconteceu, minha cornucópia de água-régia? ÚRSULA (Possessa, aos uivos, tentando estrangular Maurício.) — Somente a morte do maldito poderá redimir o sangue dos oprimidos! MAURÍCIO (Num espasmo.) — Úrsula, que fazes aqui? ÚRSULA — Sim, assassino! Apesar dos pés quebrados, a corça ainda pode fugir. MAURÍCIO (Tenta levantar-se, Úrsula o empurra. Ele está apavorado. Grita.) — Agatha! Agatha, tira esta louca daqui! ÚRSULA — Tarde demais, corrupto! Como a ave peregrina que mais dia, menos dia, torna ao ninho — a justiça sempre chega. AGATHA (Entrando, com um chicote.) - Para trás, animal! (Estalando o chicote.) Afasta- te, fera repelente! Ou te reduzirei a pó num estalar de dedos. ÚRSULA (Encolhe-se, a boneca cai ao chão, ela tenta inutilmente apanhar.) — Por piedade, não! Minha filhinha! Mata-me, se quiseres. Mas por tudo que há de mais sagrado, peço-te: poupa o mais puro fruto de meu ventre! AGATHA Besta imunda! (Vai chicoteando Úrsula para fora da sala.) Retira-te para teu infecto covil! Foste feita para o aconchego dos ratos, das lacraias e dos escorpiões — não para o convívio dos seres humanos. (Para Maurício, antes de sair.) Serenai-vos, senhor Conde. O velho Bonifácio saberá tratar desta lepra em forma de gente. (Vai saindo, chicoteando Ursula. Os cães latem furiosamente lá fora. Grande alarido. Depois, volta o silêncio. A boneca ficou caída ao chão, aos pés de Maurício.) MAURÍCIO (Após demorado silêncio, apanha a boneca e começa a acariciá-la dorida mente.) — Haverá de ser tão inesgotável a bondade de Deus a ponto de, um dia, ser capaz de perdoar-me? Merecerei a

graça suprema de sua doce mão pousada sobre este fervilhar de vermes no caldeirão de minha alma pútrida? (Grita, como numa tragédia grega.) Infeliz de mim! (Num frenesi, beija a boneca. Depois joga-a longe.) Agatha, Agatha! Tira este aborto daqui! Socorre-me que morro... (O Conde Maurício soluça, arquejante. Foco em Maurício e na boneca calva. A luz vai diminuindo em resistência, enquanto ele geme. Em off sobrepondo-se aos gemidos, vão crescendo a gargalhada de Agatha, os uivos de Ursula e os latidos dos cães enfurecidos.)

CENA 7

NARRADOR — Transcorridos mais alguns meses, a situação no castelo de Belmont em nada se modificara. Rafael d‘Allençon soubera perfidamente ganhar a confiança de Rosalinda com juras de eterno amor e promessas de matrimônio. Pouco a pouco, as fibras do coração da donzela, passaram a vibrar no compasso da mais pura e devotada paixão. Porém, horas mais negras estavam por vir. Um dia, Rosalinda descobriu que ia ser mãe. Sem coragem de contar a Rafael, durante vários dias, amargou sozinha seu terrível segredo. Por casualidade, iniciara-se a temporada da caça à raposa, e Rafael passara uma semana sem visitá-la. Uma manhã, munindo-se de coragem, Rosalinda tomou da pena e verteu seu coração, transbordante de receios, numa longa missiva endereçada ao marquês. Rafael aproxima-se por trás de Rosalinda, que não percebe sua presença, e atira-lhe a carta a seus pés. RAFAEL (Agressivo.) - Qual a razão disto? ROSALINDA — Ah, meu amado, és tu. Que susto me causaste! RAFAEL (Seco.) — E então?

ROSALINDA — E então o que? Não te entendo. O que se passa contigo? Por que chegas assim, tão agastado, sem uma saudação sequer... nem ao menos um ósculo... um amplexo? RAFAEL — Ora, Rosalinda, não me venhas de borzeguins ao leito! Quero saber o que significam as aleivosas insinuações contidas nessa missiva. ROSALINDA (Ressentida.) - Amor meu, que duras palavras! Tu, que sempre me demonstraste tanto carinho, tanta afeição, tanto... ardor... RAFAEL — Tratava-te assim porque eras dócil e cordata comigo. Porque te curvavas a todos os meus caprichos. Mas agora... ROSALINDA — Mas eu não mudei! Eu continuo sendo tua escrava fiel e obediente! Sabes bem que meu antigo asco por ti transmutou-se na mais excelsa paixão! RAFAEL — Chega de tergiversações! Exijo que me esclareças imediatamente o significado dessa carta! ROSALINDA - Peço-te perdão, meu querido amigo. Foi quiçá por excesso de pundonor que não fiz mais cristalinas as minhas palavras. Mas como transmitir à fria brancura impassível do papel o turbilhão que me devasta o peito, desde que fui abençoada por este milagre... este augusto milagre... RAFAEL — Que história é essa de milagre? Vamos, fala! ROSALINDA (Em êxtase.) — O milagre da maternidade! RAFAEL - O que? Um filho?! ROSALINDA — Sim, um filho! Sublime fruto a coroar o nosso amor! RAFAEL (Agarrando-a brutalmente.) — O que estás a dizer? Ficaste louca?

ROSALINDA — Rafael, Rafael, foste tu quem perdeu a razão! Não te reconheço. Julgava que rebentarias de alegria ao saber... RAFAEL (Cortando-a, possesso, e sacudindo-a pelos braços.) — Alegria? Alegria?!!! ROSALINDA — Sim, amado. Agora só nos resta finalmente desvelar aos olhos do mundo a nossa união, realizar o nosso sonho dourado... Ah, meu príncipe, toda noite, em meu leito, contemplo-me, núbil, galgando ao lado teu o mármore dos degraus do altar... RAFAEL (Empurrando-a.) - Casar contigo? Quem te pôs esta idéia ridícula na cabeça? ROSALINDA (Chocada.) - Tu mesmo, Rafael! Tu mesmo quantas vezes juraste que um dia... que só precisávamos um pouco de paciência e ocultar por algum tempo o nosso amor, até conseguires convencer tua família... RAFAEL (Cortando, irônico.) — ...que eu desposaria uma enjeitada? Uma bastarda? Uma criatura sem nome, sem posição e sem fortuna? Porventura chegaste a acreditar um segundo que eu, um nobre, um aristocrata, um d‘Allençon uniria meus destinos a uma qualquer? Alguém que não sabe sequer de onde veio nem quem são seus pais? ROSALINDA (Com dolorosa compreensão.) — Então isto significa que estiveste a mentir-me esse tempo todo... RAFAEL (Rindo a bandeiras despregadas.) — Que esperta és! Só agora percebes que eu estava tão somente... ROSALINDA (Cortando.) — . ..brincando comigo, iludindo meu pobre coração, fazendo-me crer que me querias, apenas para me

ouviste bem? Nunca mais pretendo voltar a ver-te! ROSALINDA (Reagindo como uma loba ferida. não tens mais nada a esperar. meu anjo e meu algoz! Que palavra é essa? RAFAEL (Cuspindo a palavra.) — Rafael. é monstruoso demais! O que será de minha honra ultrajada? RAFAEL (Irônico.) . insensata. com renovada esperança..) — E tu caíste na esparrela. qual uma gata no cio. não pensavas em tua honra. que doravante não há mais nada entre nós! Nada! ROSALINDA (Numa última e desesperada tentativa. Porque se não a entregasses a mim..Rafael. meu dilacerado amor! RAFAEL(Desvencilhando-se. não tens o direito de fazer isso comigo! E cruel. Porque de mim. desfrutar-me como mero objeto de tua lascívia. é realmente .) (Às gargalhadas. em meus braços. Senhora protetora dos aflitos! Valei.) .) — Naquelas noites ardentes. Virgem Santíssima! Oh. reza.Marafona! (Sai a passos largos.) . menina. me conquistar.seduzir. minha cara. pois vais precisar muito da misericórdia divina. Rafael.) — Dize. deleitada.me nesta sombria encruzilhada do destino! RAFAEL — Isso! Reza. Apaga meu nome de tua memória! Esquece para sempre que eu existo! Nunca mais. franguinha! E com que facilidade! A tua estultícia. agarrandose a ele. quando gemias. de teus instintos libidinosos. te-la-ias entregue ao primeiro que passasse! Pois fica tu sabendo. RAFAEL espantosa! ROSALINDA — Oh.Basta! Só tenho uma única e derradeira palavra a dizer-te! ROSALINDA (Abrindo os braços.

. muitas horas depois. conseguiu conquistar a confiança da rapariga..) Mas por que estás assim. ROSALINDA (Hesitante.) ... eu. dias inteiros. a perversa Agatha aconselhou que revelasse toda a verdade ao conde. até ser despertada.. despedaça-a com fúria e esfrega freneticamente os pedaços pelo rosto e pelo corpo.. MAURÍCIO — Sim.Padrinho querido. MAURÍCIO — Vamos. . lárimas grossas como punhos. Só deixava a solidão dos seus aposentos para ir à capela atirar-se aos pés da Virgem.Padrinho. Teu semblante. onde sempre luziam os arrebóis da alegria. cabisbaixa e meditabunda? Pareces infeliz. MAURÍCIO — Bons dias.) CENA 8 NARRADOR — Depois desse trágico desfecho. Rosalinda chorou. dize.ROSALINDA — Ah.. em seu desespero. por piedade! (Rosalinda.Padrinho. agora está turvo de uma névoa de tristeza. ROSALINDA . quando Rosalinda não podia mais esconder o seu estado.. Fundas olheiras ensombreceram seu semblante angelical. a pérfida serviçal terminou descobrindo o segredo que torturava o coração de Rosalinda. Finalmente. Insidiosamente. dizendo-se sua amiga e protetora. (Observando-a. Não confias em teu velho amigo? ROSALINDA . Deste modo. apodera-se da carta esquecida.. Com freqüência. Conta-me a razão de tuas penas. há mais um anjinho aos pés da Virgem Maria. fala. pela mão da governanta Agatha. soluçando. deixava-se adormecer sobre as frias lajes do oratório...... minha querida.

padrinho. uma nova flor começa a desabrochar para a vida. Rosalinda? Não me atormentes com enigmas e despautérios! Recuso-me a aceitar a terrível verdade que se esconde por detrás de tuas palavras! ROSALINDA — Está bem. E meu ventre..) — Vamos.. MAURÍCIO (Reagindo com violência.) Desgraçada.Não entendo o sentido de tuas palavras. padrinho.Padrinho.. vamos! Enxovalhaste o nome do conde Maurício de Belmont! ROSALINDA .) — O marquês Rafael d‘Aliençon é o culpado da minha desventura.me. surge inesperadamente a lâmina que me estraçalha o peito. MAURÍCIO — Ah.. perdão! Eu juro que. Rosalinda. Podes ser mais precisa? ROSALINDA . que floresce em tempo de inverno? Onde está ela? ROSALINDA (Baixando os olhos.) ..) Todos..Um rebento? Um bastardo? Mas quem te desonrou? (Esbofeteando-a. (Agatha acorre e o ampara. todos me atraiçoaram. Retirate daqui. . Sei que haveis de compreender e perdoar.Que flor tão rara é essa.) . MAURÍCIO (Cortando.. (Pausa. não vês que apressas a minha morte? Atraiçoaste toda a cega confiança que durante esses 19 anos depositei em ti.MAURÍCIO . Pobre idiota! De onde supunha que só pudessem vir flores e sorrisos. maldita! ROSALINDA (A os prantos. MAURÍCIO .) Agatha.) — Perjura! Jamais te perdoarei! (Chamando. MAURÍCIO (Surpresíssimo.) Vou ter um filho. agitado.Perdão. socorre-me que morro.Aqui. fala. padrinho.) — Que dizes.. aquele réptil nauseabundo! (Tossindo.

Mas.) Velhos papéis. Sei que não devo abri-lo mas a curiosidade me espicaça. Sinto os dedos a queimar.) Ah. Hás de rolar na lama e te arrastar no vício. o que será desta pobre órfã com um filho a germinarlhe no seio? Abandonada por todos. Aqui passei os melhores anos de minha desditosa existência. criatura ingrata e sem pudor! O demônio tomou conta de tua alma.. (Neste instante entra Agatha. comovida. como o foi tua mãe...) Jamais olvidarei estes salões... estas paredes. noite após noite.. Jamais pensei que minh‘alma pudesse abrigar tamanha dor! O fel da desilusão inunda-me o peito! (Recobrando-se. não tens esse direito! E retira. Nunca me foi permitido abri-lo. ébria e solitária. estes móveis... (Abre o cofre. o velho cofre de charão.. oh! um daguerreótipo! Que belo! (Examina o medalhão enquanto fecha a tampa do cofre. Senhor.)Tenho de ir-me.) Hás de pagar amargamente. Não passas de uma reles meretriz. (Agatha vai conduzindo-o para fora.... minha.. Rosalinda esconde o daguerreótipo no seio.... (Olhando ao redor.) . Agora nada mais me resta a fazer aqui...) — Infeliz de mim! Deus é testemunha de que agi com a melhor das intenções. clamando inutilmente por misericórdia! CENA 9 ROSALINDA (Sozinha. oh. padrinho. segurando uma capa. Num ato reflexo. e..te imediatamente daqui! Não pertences mais a este lar.) Quem será esta dama de melancólico semblante? Que formosa! Mas. ou minha. que vejo? Alguém haverá esquecido a chave na fechadura.. MAURÍCIO — Não me chames mais de padrinho... Oh. à margem de qualquer dignidade. (Detendo-se diante de um objeto.ROSALINDA — Foi para salvar vossos bens que cometi essa iniqüidade. Senhor! Como se parece comigo! Dir-se-ia minha irmã. Deve conter antigos segredos de família. por todos desprezada.

AGATHA .. minha pequena? Tão assustadiça. rubicunda e capitosa (largando-a) Mas entendereis com o tempo minhas palavras. E não será difícil para uma rapariga encantadora como vós.Que dizeis? AGATHA .. pequena. Lembro-me dela.) ROSALINDA — Como sois bondosa. O mundo é vasto. Agatha... E por que me tocais com tal ardor? AGATHA — Porque sois tenra como um faisão natalino... (tocando-a) com esse porte de amazona. (Voltando-se à jovem.. .Tendes razão... Pareceis uma lebre surpreendida pelo caçador.Que a vida pode ser vivida de muitas maneiras. Enfrentarei com bravura a escuridão dos meus caminhos.) E cheio de prazeres inauditos.Não deveis ter medo. Algumas. esses cachos de Pandora.. Agatha. Agora ide sem mais delongas.) Essa velha capa.. AGATHA — Levai isto para proteger-vos da intempérie. ROSALINDA (Sem compreender...) Deveis procurar um velho cavalheiro que compreenda a vossa desventura.Estava apenas a despedir-me do cenário que emoldurou minha juventude. Opípara. bem divertidas. Se vosso padrinho vos surpreender. ROSALINDA .) . (Para si. ROSALINDA . Agatha! (Vestindo a capa e acariciando-a.. Já estou a ir-me. ROSALINDA — Não vos entendo..AGATHA — Ainda estais aí? Que fazeis aí parada. Meu padrinho me contou que pertencera a minha mãe.. (Dá-lhe o manto.

) Uma.Pobre genitora! Como há de ter padecido! Devo partir agora..AGATHA . embrenhou-se na floresta e caminhou durante três dias e três noites. Serei a mulher mais poderosa de todo o Vale Negro. a bruxa intratável. a desgraçada Rosalinda. onde vivera os anos mais floridos da sua existência.. os camponeses pagarão caro o seu desprezo.) AGATHA . Enquanto isso. com as roupas estraçalhadas pelas urzes e espinhos e os pés ensangüentados pelas pedras do caminho. torno-me a única herdeira do conde Maurício de Belmont.. a corcunda repugnante. duas.) Algumas gotas a mais hoje. e eu em breve estarei completamente sozinha no castelo. (Apanha a tisana. CENA 10 NARRADOR . a harpia selvagem! Ah. numa . só parando para repousar num monte de feno quando lhe faltavam totalmente as forças. Rosalinda sai. a sua maledicência. escutando ao longe os uivos ameaçadores dos lobos e as lúgubres vozes das aves noturnas. Adeus. deixava o castelo de Belmont.Vossa mãe vos trazia envolvida nela quando veio estrebuchar nas escadarias do castelo numa gélida noite de inverno há 19 anos atrás. quatro. outras amanhã. a reles governanta. com o peito dilacerado pela dor... ROSALINDA . (Conta as gotas. Resta apressar a morte do conde. minha boa Agatha. E em meio à tempestade que rugia com fúria.Enquanto a pérfida governanta regozijava-se com o golpe do destino que viera ajudar seus planos diabólicos. perto dali. Agatha... adormecia exausta. (Abraçam-se.Finalmente os fados estão a meu favor! Com o afastamento da pequena. Deixavase então cair ao pé de uma árvore e. três..

El sonido de tu violín tiene la virtud de acalentar mi alma como el más dulce de los vinos.Si.. VASSILI (Toca mais um pouco. alguna serpiente. Confio en tu oído. Muchos conflict. pero no confio en tus temores. Vamos. y una mujer muy mala. Son muy distintos. JEZEBEL — No hay nadie. toca. (Ruido.. enquanto Vassili toca seu violino. por favor.. Pero. orientad mis manos para desvendar el secreto. VASSILI — No. JEZEBEL . JEZEBEL ..) — Jezebel. claro. si. aqui.. Jezebel.Hay algo que vuelve del pasado.. y que hermosa es! Un viejo senõr. Jezebel? JEZEBEL — Nada. carajo! Por piedad. Devo estar loca. (Invocando. mi audición se ha aguzado mucho.. uma tribo de ciganos havia montado acampamento e dedicava-se a seus afazeres habituais. Algun conejito perdido. Son los Arcanos del Tarot de los Bohemios que hoy solo me dicen incongruencias.. la Muerte.clareira da floresta. por la derecha. Yo conozco muy bien los sonidos de los animales y de las personas. que es esto? Hay 1guien aqui? VASSILI — Te lo dije.) Pero. al final.. Jezebel. Jezebel põe as cartas do Tarot.. dejame ver la suerte en paz... . Vassili. carajo! Pero toca. la Justicia vencerá VASSILI — Que cosas estás a refunfufiar.. carifio. Cofio.. toca más. Mira.. depois para abruptamente. Rosalinda entra e coloca-se atrás de uma árvore. no consigo ver claramente! El pasado se pone otra vez como presente y también como futuro Una muchacha.. Tu sabes que desde que he perdido la visión.. hay álguien entre los árboles.) Fuerzas ocultas dei más alto Astral...

.) .. VASSILI (Caminhando para Rosalinda. carifio. no es possible... senhora. La muchacha está assustada. dame tu mantilla.. Todo.JEZEBEL (Erguendo-se. nina? ROSALINDA — Não tenho para onde ir... Está toda mojada. nina? ROSALINDA .) Si. todo es igual. no lo puedo creer. que quereis vós de mim? VASSILI . si. la nariz. carino? ROSALINDA (Hesitando.) Que raro trabajo..) Tenías razón. los párpados.) Con mil demonios.Es que me acuerdo de..) Vamos.Quién está ay? (Saca do punhal. Perdi-me pela floresta e cheguei até aqui orientada pelo som mavioso de um violino. Mas por que ele está tão agitado? JEZEBEL — Es su imaginación muy exacerbada.) — Não sei. toma un poco de vino. JEZEBEL — Acercate. Que pasó. esta voz. Donde encontraste este manto.Agatha me lo deu.. JEZEBEL — Acalmate. Apenas uma pobre órfâ. senhora. es una pobre muchacha perdida en la tempestad. por Diós.. JEZEBEL — Es el violín de Vassili. Se cree que te pareces a alguien que conoció. Vamos. por Dios.Sou eu. Acercate hasta el fuego. una muchacha! Y toda mojada.. Vassili. (Passando os dedos no rosto de Rosalinda. de una mujer que he conocido en tiempos más dichosos. los ojos. hace mucho tiempo. coso.) . (Examina-a. es lo mismo. Estrano! Pareceme que ya he visto algo semejante. que no estoy para chistes! ROSALINDA (Aparecendo.. Puedo tocar en tu rostro.. exactamente lo mismo.. Como te llamas? ROSALINDA — Rosalinda. las cejas.) . . no es verdad la piel. (Para Vassili.. (Rosalinda aproxima-se..Esta voz..

JEZEBEL — Maurício de Belmont! Maldición! Quieres decir que este perro todavia vive? . JEZEBEL — Pero ia semejanza es imprensionante! VASSILI — (Agitadíssimo.Minha mãe.) — Que está acontecendo? Não sou vossa filha.) — Hija mia.) ...Quien? ROSALINDA .. mira el daguerreótipo y habla toda ia verdad. Encontrei-o por acaso. es Ursula? JEZEBEL . que tortuosos caminos fue necessario cruzar hasta encontrarte.Si. o daguerreótipo fica visível. ROSALINDA (Assustada. VASSILI (Muito emocionado. como posso saber? Mas imagino que seja..) — Tu madre? Jezebel. hermosura.Pero que es esto? Eres tu? ROSALINDA — Não....... es. (Entrega o manto a Jezebel ... VASSILI (Abraça Rosalinda.) JEZEBEL ...) Pertenceu a minha mãe.. (Nova reação dos ciganos.. chorando.. a governanta do castelo do Vale Negro. es.. que eu não conheci. sou apenas uma pobre órfã recolhida pela bondade do Senhor Conde Maurício de Belmont.JEZEBEL E VASSILI (Muito espantados.. JEZEBEL E VASSILI . Gostai? Tomai..Agatha! ROSALINDA — Sim. miei de mi corazón. É um velho daguerreótipo.) Quien es la mujer del retrato? ROSALINDA — Não sei. es Úrsula.

ROSALINDA — Sim. mas por pouco tempo. aconselhava-a a obedecer ao espírito forte e decidido da cigana Jezebel e a confiar na doçura do rosto e da voz de Vassili. JEZEBEL — El gitano Vassili y Úrsula. ainda incrédula.) CENA 11 NARRADOR — Um turbilhão agitava a mente de Rosalinda. A astuta cigana havia preparado um narcótico para os cães que guardavam os portões. la hermana del conde Maurício de Belmont. Nel camino te explicaremos todo. Sem perda de tempo. Ahora vamonos. Porque quereis matar meu padrinho? JEZEBEL — No hay tiempo a perder. ROSALINDA — Quer dizer que meus verdadeiros pais são... VASSILI — Perro de los infiernos! Voy a matarlo con mis propias manos. hace anos. Los dos se enamoraram locamente.. Tenemos que ir imediatamente al castillo. Padece de grave enfermidade. Sua intuição. . lançando-me os mais terríveis vitupérios.).) Expulsou-me do castelo. Jezebel preparou uma carroça e os três puseram-se a caminho.Não entendo o que dizeis. já era noite fechada. (Saem. porém. (Chorando.y fue eso lo que sucedió. A lua escondera-se atrás de plúmbeas nuvens prenunciadoras de tempestade. que calava fundo em sua alma de órfâ desamparada. JEZEBEL (Entrando com Vassili e Rosalinda. Quando chegaram ao castelo. diante de tão inesperadas revelações. ROSALINDA . e assim eles puderam penetrar na propriedade..

(Toca-o com ternura. Ursula entonces abondonó el castilio y ocultóse com los gitanos em la montanas. Allá se celebró el casamiento.. . Que quereis dizer com isso? Não tendes direito algum.por supuesto. que se hacia pasar por confidente de Úrsula. contando toda la verdad a Maurício.) VASSILI . VASSILI — Agatha. Meu tio mandou seus esbirros invadirem o acampamento cigano.. eu? Como.... (Vassili e Jezebel escondem-se. atrás deste reposteiro. Y con su propria mano cegó a Vassili con una chibatada..Angel mio. Estava tan poseso que queria mandar matar a toda la tribu. ROSALINDA — Posso imaginar o resto.. não passais de uma pobre enjeitada.Mas meu padrinho. JEZEBEL . querido papai.Não vos entendo. ROSALINDA — Enjeitada. ROSALINDA — Pobre. (Subitamente.El mismo comando el ataque. ROSALINDA ..) .) Oigo un ruído. ROSALINDA — Aqui.) AGATHA (Entrando.Vós por aqui novamente? Não bastaram as maldições que vosso padrinho vos lançou? Que quereis? Uma esmola? Uma côdea de pão? ROSALINDA — Quero apenas o que me é de direito. Não preciso de vossa piedade! AGATHA . la atraicionó. Maurício no podia admitir que una Belmont desposara un gitano. meu tio descobriu tudo. Vamos escondemos. surpresa. se meu pai está aqui próximo? AGATHA .Vosso pai? Porventura delirais? Vosso pai há muito não pertence ao reino dos vivos.

ROSALINDA (Puxando o reposteiro.) — Como não? AGATHA (Recuando.) — O cigano Vassili! Jezebel! Que desejais? VASSILI — Solo la verdad, Agatha. Nada más que la verdad. JEZEBEL (Ameaçando-a com o punhal.) — Vamos, mujer. Donde está Úrsula? AGATHA - Não sei, não sei... VASSILI (Torcendo-lhe o braço.) — Vamos, confiesa antes que te mate como a un perro. AGATHA — Por piedade, eu conto. (Recompõe-se.) Úrsula foi encarcerada na cripta subterrânea embaixo da cascata. ROSALINDA — A cascata... Quer dizer que aqueles uivos dilacerados que se ouvem quando cascata para pertencem à... à minha mãe? AGATHA —, Sim. Ela perdeu a razão quando vós nascestes. Vosso tio então encerrou-a lá. VASSILI — Mi pobre Úrsula. JEZEBEL — Y donde están las llaves de la cripta? AGATHA — Aqui. (Estendendo-lhe um molho de chaves.) VASSILI — Precisamos libertar mi amada Úrsula. Vamonos todos a la cripta. Y tu, Agatha, vienes con nosotros para mostramos el camino. JEZEBEL - Vamos. AGATHA — A cascata parou novamente. (Ouvem-se gritos ao longe.)

CENA 12

NARRADOR — Desse modo, através de uma passagem secreta, conhecida somente por Agatha, os quatro penetraram nos subterrâneos do castelo de Belmont. Desceram por uma íngreme escada em caracol e embrenharam-se num labirinto de lúgubres corredores e estreitas galerias escavadas na rocha. Os gritos misteriosos haviam cessado, e o sepulcral silêncio era apenas perturbado pelo eco surdo dos seus passos e peio ocasional bater de asas de um morcego. Finalmente, desembocaram numa cripta úmida e infecta, que dir-se-ia habitada apenas por ratazanas e aranhas, não fosse aquela estranha voz entoando uma canção que parecia vir de além-túmulo. ROSALINDA — Por Deus! Está tão escuro aqui. Não consigo ver nada. JEZEBEL (Tomando a vela das mãos de Agatha.) - Pronto. Asi es mejor. (Olhando em volta.) Pero que sitio sucio... Es una pocilga, carajo. (Para Agatha.) Vamos, desalmada. Donde está Ursula? AGATHA (Apontando para um ponto, que Jezebel ilumina.) — Ali. (Aparece Úrsula, completamente louca, suja e desgrenhada. Canta, enquanto embala uma boneca nos braços.) VASSILI — Mi querida, luz de mis ojos... Úrsula, bien amada! ROSALINDA(Avançando para Úrsula.)- Mamãe! Oh, mamãe, julgava que estáveis morta! ÚRSULA (Para a boneca.) - Filha, filhinha querida Não deves ter medo, não deixarei que te façam mal. (Para Vassili.) Afasta-te, Maurício! Não permitirei que destruas o fruto do meu amor! (Mudando o tom.) Besouro que cai de cosas não levanta nunca mais. JEZEBEL - Está completamente loca! Maurício de Belmont ha de

Pagar muy caro todas las atrocidades que ha cometido! URSULA (Chorando.) — A corça corria celeremente sobre o ouro dos campos. Como se fora uma seta voando sobre o verde. Até... até que numa curva mais abrupta do escarpado caminho, numa curva ignominiosa seus pés quebraram. ROSALINDA (Num gemido.) - Desditosa genitora! ÚRSULA (Em pleno delírio.) — E ela não pode correr mais. As corças de pés quebrados não podem correr. Apenas rastejam. Como os besouros caídos de costas... que não se levantam nunca mais. VASSILI (Para Ursula.) — Carinio, no me reconoces? Soy yo, tu Vassili. Tu amor, el gitano... ÚRSULA — Vassili? Não, não: Vassili foi assassinado por Maurício. Seu sangue cigano cobriu o verde dos campos como o sangue inocente dos pés quebrados da corça... O vermelho da violência derramado impunemente sobre o verde da humildade... VASSILI (Insistindo.) — Y esta chica, ves? Esta chica es Rosalinda, nuestra hija querida. Mira que hermosa es! ÚRSULA (Para a boneca.) — Tanto tempo. Tudo faz tanto, tanto tempo. Hoje é como se fora outrora. E nunca mais outra vez. ROSALINDA — Mamãe, mamãe, sou eu, Rosalinda, tua filha, a flor de teu ventre puro. ÚRSULA (Para a boneca.) — Minha filha? Minha filha é esta aqui. Filhinha, filhinha... (Para a boneca.) — Sossega, ninguém te fará mal. AGATHA (Mordaz.) - E definitivamente inútil. Esta parva jamais recuperará a razão.

JEZEBEL (Torcendo-lhe o braço.) - Callate, conchuda! Tus palabras son mas monstruosas que tu joroba! (Como se orasse.) Nel amor, hay fuerzas increíbles... capazes de cambiar el universo... VASSILI (Pegando Úrsula pelos ombros e sacudindo-a.) — Úrsula. Te digo que soy Vassili! Muchos anios se han pasado. Pero estoy vivo. Y estoy acá para vingar nuestro amor. Soy Vassili! Vassili! ÚRSULA (Com um lampejo de lucidez.) — Vassili? VASSILI Si, mi amada, no reconoces mi rosto? ÚRSULA — Esse rosto... essa pele morena... esse corpo delgado... (Detem-se.)Não, não! Não acredito! Vai-te daqui! Es um impostor! Um sicário a mando de Maurício para me torturar ainda mais! (Em delírio.) Bezouro que cai de costas... JEZEBEL (Um tanto irritada.) — Ay, cono! Va a empezar de nuevo! VASSILI (Transtornado, agarrando-a com mais força.) — Úrsula, mirame bien en la cara, en los ojos, en estes ojos ciegos... ÚRSULA (Tocando-o.) — Meu Deus, o manso veludo dessa tez... a suavidade desses lábios carmesim... Vassili, serás mesmo tu? O brinco em tua orelha esquerda... VASSILI — Úrsula, vida mia... ÚRSULA — O frescor de hortelã de teu hálito cálido, tuas mãos nodosas e fortes. A carícia áspera de tua barba dura que me lanhava o colo nas noites de indizível prazer. Não, não pode ser verdade, seria bom demais. Será que estou ficando louca, Virgem Santíssima? VASSILI — Es verdad, carinio, soy yo! Y acá está también Jezebel, nuestra querida amiga y protectora.

ÚRSULA — Vassili, meu Vassili... Ai, Jesus, parece um sonho... (Delírio.) Ou quem sabe Deus teve pena de mim e me chamou para sentar ao lado seu no empíreo celestial? JEZEBEL (Disfarçando.) - Ay, carajo! VASSILI — No, no, estás viva! Acabaranse tus penas! ÚRSULA (Reconhecendo-o finalmente.) - Sim, agora eu tenho certeza! És tu, Vassili! Meu adorado! Mas de que desvão esquecido da memória me surgiste? VASSILI — Úrsula! (Abraçam-se e beijam-se ardentemente.) Vamos ahora empezar vida nueva, tu, yo y Rosalinda... ÚRSULA — Rosalinda?... (Olha para a boneca. Olha para Rosalinda. Deixa cair a boneca.) Meu Deus... não pode ser... seria demasiada ventura para meu coração se essa donzela fosse... fosse... ROSALINDA (Abrindo os braços.) — Vossa filha! ÚRSULA (Abraçando-a.) - Filha querida! Oh, fruto mais puro que o meu ventre jamais gerou! Enfim posso abraçar-te! ROSALINDA - Mamãe, querida! Que felicidade encontrar-vos! ÚRSULA — Minha boa Jezebel... Mas... que aconteceu? Por que estão todos aqui? Por que estou vestida assim? Que tenebrosa masmorra é essa? (Começando a delirar de novo.) Há como um poço escuro em minha memória... Um poço escuro onde flutuam corças de pés quebrados... negros besouros caídos de costas... (Vê Agatha e recua espavorida.) O que ela está fazendo aqui? JEZEBEL (Agarrando-a por um braço, impaciente.) - No hay tiempo para explicar, Ursula. Ni para locuras otra vez. Más tarde te esclareceremos todo. Tememos ahora que desmascarar Maurício.

Não há lugar para meretrizes no castelo do Conde Maurício de Belmont. certamente fariam petrificar a própria Górgona. A pobre rapariga pensava no fruto de seu desgraçado amor. Os sofrimentos que já causaste. E tu. E quanto a tua ingrata filha. que crescia em seu seio como uma erva daninha e em breve viria ao mundo sem a proteção de um pai. sabes muito bem disso.. ÚRSULA (Muito segura. MAURÍCIO (Está adormecido. . fica tu sabendo que há muitos anos eu mesmo o ceguei com uma chicotada.. Deve andar esmolando pelas sarjetas.) — Tua maldade não tem limites. meu caro irmão.) — Quem me tocou? Úrsula? Fugiste novamente? Agatha. eu a expulsei de meus domínios. (Saem todos) CENA 13 NARRADOR — Celeremente voltaram todos ao castelo.) — Já não estou louca. Meu bem-amado e minha querida filha me devolveram a razão. a felicidade parecia prestes a sorrir aos nossos heróis. Depois de tão cruéis sofrimentos. quando Úrsula entra lentamente e toca em seus cabelos. Maurício. tira esta louca daqui! ÚRSULA (Perfeitamente lúcida. ainda estava velado por uma nuvem de inquietação. mais do que ninguém. MAURÍCIO — Teu bem-amado? Tua querida filha? Se te referes àquele cigano imundo. Quando chegaram ao castelo. o relógio soava as doze badaladas. O coração de Rosalinda. do malgrado a alegria do seu reencontro com os pais.Vamonos deste infecto covil. Solamente un monstruo sin entranas podria encarcelar su propia hermana. as vidas que destruíste.

inermes.) — Caridade? Chamas de caridade a teu gesto de incitamento à rebelião contra a autoridade? ÚRSULA — Aproximei-me dos mineiros. em senhores e escravos. uma condessa de Belmont.. Contra mim. Queria levar-lhes comida e agasalho.Sim. ciganos e negros do outro.Ou não te recordas? Queres que te refresque a memória? Mesmo antes de te amancebares com aquele cigano asqueroso. escravizados por ti. inicialmente.. MAURÍCIO (Interrompendo-a.Sim. as criancinhas e os anciãos inocentes morriam à míngua em suas fétidas choupanas. minha cara irmã. Foi a caridade que me levou. Mas o verdadeiro espírito de solidariedade humana. uma condessa do clã dos Belmont! ÚRSULA . E uma mulher com coração! Não podia assistir indiferente aos tormentos dos desventurados mineiros e de suas miseráveis famílias. És tu. já me desafiavas. insuflando os mineiros do Vale Negro contra mim. eu o aprendi com aquele que consideras um pária: Vassili! MAURÍCiO — Maldito seja! ÚRSULA . uma mulher. de um lado.) . uma aristocrata. Foi Vassili quem me ensinou que o mundo não precisa necessariamente ser dividido entre pobres e ricos. . teu próprio irmão! Tu. e em mineiros. Retorna a teu repulsivo subterrâneo. movida por um sentimento cristão de amor ao próximo.MAURÍCIO (Interrompendo-a.Ousas acusar-me? Foste tu . Queria somente mitigar as duras penas impostas por ti àqueles infelizes. uma aristocrata.tu. Mas antes de tudo.quem iniciou este rosário de desgraças. ele mesmo. Explorados. em miseráveis e poderosos. meu irmão! Os camponeses entregando suas lamentáveis vidas às profundezas da terra de teu porco latifúndio.e apenas tu.a cu1pada de tudo. MAURÍCIO — Basta! Já foste longe demais. enquanto as mulheres. Em nobres. ensinar àquelas pobres criancinhas a cartilha e o catecismo. insensata! Vejo que estás mais demente do que nunca.

) Pronto.Veneno! Oh. (Afasta o reposteiro e aparecem Vassili. minha tisana! AGATHA (Libertando-se de Jezebel. apanha o vidro.) CENA 14 MAURÍCIO — Jezebel! Vassili! Rosalinda! Não é possível! (Tosse. quando acabo de reencontrar meu marido e minha filha. Neste exato momento. velhaco! Eu sempre quis apenas tua fortuna! ÚRSULA . Agatha. tratase apenas de una tisana medicinal. ingrata Agatha! E eu que te supunha a única criatura no mundo a manter-me alguma fidelidade! (Tosse e entra em violenta crise.) — No se escapará.Nada tens a fazer aqui.Não a deixem fugir! VASSILI (Segurando Agatha.) . espectro de gente! ÚRSULA (Muito calma. Após tantos anos obnubilada. senhor conde. (Arranca-o das mãos de Agatha. maldita! . a vida recomeça para mim. Jezebel e Agatha. AGATHA (Tentando escondê-lo.) Agatha.) AGATHA . JEZEBEL — Dejame ver este frasco.) E contudo teu coração ainda pulse.) Tisana medicinal! Esto es un fuerte veneno: arsénico! La joroba está asesinando lentamente el Conde! MAURÍCIO .Pois te enganaste.) . mui prezado irmão. Teu sonho libertário acabou! (Irônico.Y por que no? Por lo que dicen.Não! JEZEBEL (Matreira. na casa que desonraste. a própria vida acabou para ti. muito sôfrega. Aqui está.) — Enganas-te. Rosalinda.

meu sonho mais acalentado sempre foi beijar vossos lábios de carmim. Está bien. Mas sempre me desprezaste.. ah Jezebel.. (Tosse) Jezebel. sobrinha querida. JEZEBEL — Se finó. um derradeiro beijo e morrerei feliz. Pero la muerte es poderosa.Rosalinda. quiçá o destino não me houvera transformado neste sórdido algoz que ora agoniza.. JEZEBEL — Un secreto? Por mi no escucharia tus sucias palabras. (Rosalinda e Ursula choram) AGATHA (Aproveitando-se da emoção de Vassili. eternamente a vagar pelas sombras. idiotas! Não me pegarão com vida. Um único beijo. Está muerto.. Sinto que morro. (Fecha os olhos dele com delicadeza e melancolia) Acabó. MAURÍCIO . Acaba curvando-se e beijando-o) .. Todos vítimas de minha cega cupidez! Por tudo que há de mais sagrado..Mi corazón siempre pertenecerá a Vassili. JEZEBEL (Hesita. Leva uma pancada na cabeça e cai desfalecido. apanha a bengala que Maurício deixou cair) — Adeus. Tivesse tido eu tal privilégio. sempre vos amei. minha devotada irmã. Habla.. não negueis o derradeiro pedido de um moribundo.MAURÍCIO (Tossindo muito) — Ledo engano! Meu esfalfado coração já não resiste a esses golpes cruéis. Todos olham. aunque el no me quiera. perdoai-me! Deixo para vós toda a minha fortuna (morre). Dai-me um beijo. deixai-me repetir vosso nome como se música fora para meus fatigados ouvidos. antes de morrer quero revelar-vos um segredo.. Que los dioses se apiaden de tu espíritu. Jezebel. Jezebel. (Vassili tenta apanhá-la. Que trevosa sina a minha! Ajudem-me que morro! (Para Jezebel. Jezebel. Desventurado cigano Vassili. MAURÍCIO — Jezebel... Ursula..) Cigana Jezebel.. Agatha foge rindo às gargalhadas) .

Rosalinda. ..) — Que oigo? Mi hija. TODOS — Vassili! Papai! Ele está vivo! VASSILI (Ainda tonto. Y saca de una escopeta apunta a los perros.Rosalinda. Y quiero saber. ÚRSULA — Teve o fim que merecia. Estoy más vivo do que nunca. VASSILI (Despertando. CENA 15 RAFAEL (Entrando com o corpo de Agatha. Jezebel corre à janela.) — Si. ahora? Hay un caballero que llega.) — Os cães a destroçaram. de que hombre estás hablando.. só pode ser ele! JEZEBEL .. (Ouvem-se vários estampidos.) Los perros se despertaron y van a atacarla! Que escena horrible! Diós mio.) . Do biltre infame a quem — ah.) ROSALINDA (Correndo à janela.. meu Deus..Pobre joroba! RAFAEL . eu.. JEZEBEL .Papai.ÚRSULA — Vassili! Oh. papai! Fale comigo! JEZEBEL — Maldición! (Ouvem-se os cães latindo.Quien es esse hombre? ROSALINDA (Baixando os olhos. tola donzela. ela o matou! ROSALINDA ..) — Rafael. la estan destrozando! Tanta sangre! (Pausa) Que es esto.Do homem por quem me apaixonei.) — O pai de meu filho. ROSALINDA (Dolorosa. Pero demasiado tarde. iludida por perfídias! — entreguei minha pureza e que me desgraçou.

(Interrompendo-se. Desde que vos desonrei.Tarde demais. Ele está morto. (olhando olhando para qualquer coisa vermelha que há em cena. vossa imagem não me sai do pensamento.. Estou amargamente arrependido.. no! Quiero quedarme en pie. una luminosidad en las solombras. Quero reparar meu erro. sientate un poco. Que luz cegante es esa? Que claridad espantosa hay en el mundo! ROSALINDA — Papai. olhando em volta.. Por Dios. que pasa? Siento como un vértigo.No. ÚRSULA — Vassili. com vosso falso amor.... querido.. la escarlata! JEZEBEL — Es una alucinación. Si.) Pero. Atraiçoaste-me com vossas juras inconseqüentes.Venha. VASSILI (Levantando-se. el verde. VASSILI .... julgo enlouquecer sem vosso amor..) — Que mais ainda quereis de mim... VASSILI — No compreendo. Hace quanto tiempo no la veía... Estás fatigado de tantas emociones. porque no hay negror en la ceguera. Solo una luminosidad. RAFAEL (Contrito. Vassili. ÚRSULA .) — Pero yo la concedo. o que tens? O sangue fugiu de tuas faces. el azul. Mis ojos.) — Vim justamente pedir-vos perdão por todo o mal que involuntariamente vos causei.ROSALINDA (Cortando. papai! . no compreendo.. Yo soy su verdadero padre.. cruel mancebo? Ide-vos daqui.. Yo podia anteriormente decifrar algunos cobres. Si es seguro que usted quiere a mi hija de verdad.) pero la escarlata. Vim pedir vossa mão ao Conde Maurício.. por piedade.. ROSALINDA .... Doce Rosalinda. Mis ojos.. Perdoai-me.

no lo puedo crer. meu amado. por los dioses. Jesú.. como agradecer-vos tanta felicidade? JEZEBEL — Las cartas no mienten jamás...) VASSILI — Ahora seremos todos felizes. Ursula. si.. ver. e terminados os infortúnios daquelas almas abnegadas. punidos os culpados. un milagro divino! (Olhando uma a uma..) Jezebel. a paz e a justiça reinarão para sempre no castelo de Belmont..A pancada que Agatha te deu. un verdadero milagro. VASSILI — Si. no es verdad! Es un milagro. yo he recuperado la visión! JEZEBEL — Alabado sea Dios! TODOS . si! Jesú.VASSILI — Quiero ver.. Nos es posibie.. ROSALINDA — Sim... quereis contrair matrimonio comigo? ROSALINDA — Minha resposta só poderia ser afirmativa. RAFAEL — Agora.fez com que vossa visão voltasse!. cerremos docemente as cortinas ... incrédulo...E assim. ROSALINDA — Oh.Alabado sea! RAFAEL (Para Rosalinda. os sofrimentos tiveram seu fim. Rosalinda: impiezo a ver claramente vuestros rostros queridos! ÚRSULA . NARRADOR .. Não conseguiria ocultar por mais tempo que meu coração vos pertence desde o primeiro momento que vos vi! (Beijam-se apaixonadamente. meu Deus. ÚRSULA — Amanhã mesmo triplicarei o salário dos mineiros. ROSALINDA .) — Então...

da ventura e da paz. enquanto as auras da noite. . cantam o hino misterioso do amor.sobre este quadro familiar. acariciando o seio das flores.

REUNIÃO DE FAMÍLIA* Peça em 2 Atos *Adaptação do romance de Lya Luft .

onde acontecem certas alucinações ou lembranças do passado.) . o dia todo de domingo e a manhã de segunda-feira —. para as mesmas personagens. Na casa da família. sendo a mudança indicada pela luz e a troca de planos. o Professor e Berta serão sempre representados pelos mesmos atores — eles sempre foram velhos —. As figuras do Padre e do Enfermeiro podem ser vividas pelos mesmos atores que fazem o Marido e o Filho de Alice. outras atrizes.). quando Alice vai visitar a família. A idéia é de que uma cena interpenetre a outra — isto é. Para as rápidas aparições de Corália e da Mãe de Alice. talvez com pequenas mudanças de postura. e assim por diante. podem ou não ser usados atores. é indispensável uma grande mesa onde são feitas as refeições.PERSONAGENS ALICE • ARETUSA • EVELYN • RENATO • BRUNO. sem pausa. Deve haver também um outro Plano — que chamaremos de Inconsciente/Memória —. caracterizados por um ou outro elemento — como uma poltrona antiga (no quarto do Professor).) CENÁRIO (Tudo se passa durante um fim de semana — tarde e noite de sábado. no presente ou no passado. quando uma termina. bem caracterizadas. O resto se passa em vários planos. uma penteadeira (no quarto de Evelyn. De qualquer maneira. PROFESSOR • BERTA • ALICE MENINA • ARETUSA MENINA • EVELYN MENINA • RENATO MENINO• MARIDO DE ALICE • FILHO DE ALICE • PADRE • ENFERMEIRO DE CORÁLIA • MÃE DE ALICE • CORÁLIA (Nos flash-backs. mais jovens. podem ser usados bonecos ou. a próxima já começou —.

é só esquentar. MARIDO . Sanduíche. onde anda? FILHO — Está no clube. Tudo é muito arrumado e limpo. não sei bem. É sábado. Para o marido.) — Aretusa... Acho que daria menos trabalho se vocês comessem num restaurante... sacudindo a cabeça.) . Essa sua cunhada.Evelyn com um problema mental? Sua irmã é a mulher mais sensata que conheço..) . essas porcarias que vocês comem por aí. . MARIDO (Com ironia. com certo carinho coquete. terminando. E agora apareceu esse problema com Evelyn. ALICE (Reprovadora e maternal. ALICE (Ignorando. MARIDO e FILHO Na casa de Alice. É sábado. FILHO .) — Faz tantos meses que não vejo meu pai.) E o seu irmão.) — Tenho. (Para o filho.. Só vem de tardezinha. A mesa está posta. não é? Sanduíche não alimenta. Parece que é.I ATO CENA 1 ALICE... MARIDO (Interrompendo.O que é que há com tia Evelyn? ALICE (Preocupada.) — Ela está doente. por volta do meio-dia.Você tem mesmo que ir? ALICE (Um pouco brusca. refrigerante.) Mas você só gosta da comida que eu faço. Muito doente. (Dá de ombros.E claro que só vai comer um sanduíche. Está na geladeira. qualquer coisa mental. ALICE— Deixei pronto o almoço de amanhã. O almoço. Aretusa insistiu tanto..

) — Passa a água? FILHO (Levantando-se.) — O que será que ele quis dizer com isso? MARIDO (Distraído. conferindo o dinheiro e a passagem de ônibus. (beija Alice distraidamente. Será que não seria pior para ela enfrentar a realidade de Cristiano ter morrido? MARIDO (Ignorando o espanto de Alice.) ALICE (Pensativa.) Você não acha que um dia a gente podia mandar colocar um espelho grande aqui na sala? MARIDO (Baixa o jornal e olha-a por cima dos óculos admirado. velha. meio confusa.) . MARIDO — Pode deixar. sem sair da mesa.Espelho grande? Para que? ..) . Eu dou um jeito.) .) Boa viagem..O que? ALICE — Que. eu já vou indo. mãe.. ALICE (Apanha a bolsa e uma sacola de viagem a um canto. Mas depois que Cristiano morreu. E melhor eu ir indo também. que a realidade pode não ser o melhor? Pode não ser preferível à normalidade? MARIDO . FILHO — Mas será que nós temos o direito de querer que ela se cure? ALICE (Sem compreender. sem afeto. Remexe na bolsa.) Não vai dar nem tempo de lavar os pratos.ALICE .) . como se refletisse.) — Será que não esqueci nada? (Olha em volta devagar.Eu sei. Ela não se conforma. eu sei. (Olha o relógio.É. Alice fica em silêncio por um momento.Não está na hora do seu ônibus? ALICE (Levantando-se. (Sai. Dá um beijo em todos lá.Bom..O que? FILHO — Isso mesmo. O Marido apanha os óculos e.) . começa a ler o jornal.

estou de volta. (Encaminhando-se para aporta. MARIDO (Sem levantar os olhos do jornal. Cuide-se direito.. É bobagem minha. ALICE (Dirige-se ao público. E eu prefiro vê-lo ao meu lado. ALICE (Curvando-separa beijar o marido. dentro de um caixão de defunto uma figura de rosto disforme e barriga enorme. depois dá de ombros e tira da bolsa um pequeno espelho. (Levando a mão aos cabelos. MARIDO (Voltando a ler.) Meu marido. A sala é pequena.) Esqueci de colocar o meu perfume.. (Olha o relógio. CENA 2 ALICE.ALICE (Arrependida de ter falado. dizendo e fazendo coisas desajeitadas e brutais. calvo. Agora me procura raramente e sem emoção. então.) Segunda. Você tem razão. Você não está acostumada a viajar sozinha. Enquanto isso.) — Claro. claro. Desde o começo a gente se acostumou a não ter grandes ardores. acende-se a luz no plano do Inconsciente/Memória. enquanto acende um foco no marido que lê o jornal. sem imaginar sequer quem é a sua verdadeira mulher.) — A sala é ótima assim.Nada. A sala é ótima. A MÃE e ALICE MENINA Alice está parada num ponto que deve ser a parada de ônibus. onde estão Alice Menina. que pode ser uma atriz ou uma boneca).) .) — Boa viagem. de chinelo. Berta e. Eu li numa revista que dá a impressão de mais espaço. Achava meio esquisito aquele homem um pouco gordo. lendo jornal. BERTA. . Começa a examinar o rosto com ar crítico. eu preferia assim.

Por isso está sempre de castigo. ALICE MENINA e RENATO MENINO . Ela não pode falar. Alice. talvez pulando corda. Fala comigo. Sou eu. Alice você é má. Alice. (Começa a sorrir como uma mulher adulta e repete.) . Você não vê como ela está inchada? Olha só a barriga dela.) Mãezinha. (Para o caixão. Berta! Você está mentindo! BERTA — Não estou mentindo. Você é muito má.Ela não vai responder. Você mente.) Mamãe. CENA 3 ALICE. (Acende-se a luz sobre o caixão. mãezinha! BERTA (imóvel. fala comigo. Ela recua. Alice.) — Alice.) Ninguém gosta de você.) . cantarolando. Fala para si mesma. onde é que você está? Mamãe.Não é verdade.ALICE MENINA (Aproxima-se do caixão. BERTA — Todos os dias vem um médico e tira água da barriga dela com uma agulha enorme. Apanha um espelho pequeno. ALICE MENINA (Gritando. ALICE MENINA — Eu não quero olhar. o que é que você tem? Você está doente? Pode deixar que eu cuido de você. Depois torna a se aproximar e tenta colocar a figura no colo. Você é louca. ALICE MENINA ( Vai-se afastando enquanto Berta repete as mesmas coisas. como se estivesse hipnotizada. Alice. assustada.) — Mamãe? Mamãe. é suja. De repente para e chama. Por isso leva esses tapas. Uma agulha deste tamanho. distraída. igual ao de Alice adulta e olha-se. Ela só pode chorar. Por isso ninguém gosta de você. não se esconda de mim.

O que é que você está fazendo? RENATO MENINO (Com ódio. Ele é o Professor.Para matar ele. ALICE MENINA . ALICE MENINA .Uma arma? Pra que? RENATO MENINO (Hesitando.Não chama ele assim.Agora não posso. (A gravação de uma gargalhada infantil. A luz acende-se sobre o tronco.) . A luz apaga sobre Alice Menina e Renato Menino para acender-se novamente sobre Alice Adulta. corta a cena. ALICE MENINA .Ele é seu pai também.Renato. Ela está parada.É uma arma secreta. Estou ocupado.Ele quem? RENATO MENINO .) — Você vai preso. barbantes. ALICE MENINA (Assustada. RENATO MENINO (Obstinado. perto do qual brincam Alice Menina e Renato Menino. vem brincar comigo.) . (Decidido. Você não pode matar seu pai. Alice Adulta mergulha nas sombras. Ele é seu pai. Renato mexe com pedaços de madeira. facas. latas velhas. ALICE MENINA .No jardim de entrada da casa da família. Alice Adulta aproximase do lugar onde resta o tronco de uma grande árvore cortada.) Eu vou matar o Professor com minha arma secreta.) . a bolsa nas mãos.O Professor.) .Que me importa. estridente. olhando para cima. ALICE MENINA . RENATO MENINO . Mas ele não é meu pai. Renato! RENATO MENINO .

ALICE (Triste. Berta é passa o dia todo arrancando os brotinhos. ARETUSA — Qualquer dia acaba rachando as paredes da casa.CENA 4 ALICE e ARETUSA (Na entrada da casa da família.. Mas não é por trabalhar demais. De cigarro e de jasmim. você sabe.) Meu marido não pode vir.) ARETUSA (Entrando. que bom que você veio! Há quanto tempo.Aretusa. tem alguém dormindo no quarto do. como se estivesse se justificando. ele trabalha demais. junto ao tronco cortado da árvore.. ARETUSA (Sem dar importância. abraça Alice. hein? ALICE — (Sem se ofender. saí tão apressada que esqueci meu perfume. você sabe. tentando ser natural. Coitado. ninguém aqui tem cabeça para pensar nesse problema.) E você continua com cheiro de cigarro. com certo carinho.) . Era um álamo tão bonito. Alice. ARETUSA (Displicente.) — Alice. Com uma ponta de ironia. Imagine que para arrancar o tronco teriam que tirar todas as lajes e abrir um buraco enorme.) — Ele estava cheio de raízes.. não? (Afasta-se para vê-la melhor.. ALICE (Preocupada.) Ah. E o seu irmão me saiu um grande folgado! ALICE (Olhando com tristeza o tronco da árvore. tão trabalhadeira.) — Ele está cheio de brotos. você é tão eficiente. do menino? .) — Acho uma pena Bruno ter mandado cortar esta árvore. (Muda de tom.) Mas você engordou. com um cigarro aceso. (Rindo.) — Renato também não vem. E eu. Mas por enquanto. Chega a trazer serviço para casa no fim de semana.

como se fosse Cristiano.) Alice. (Após a fala. ALICE (Intrigada. Não tem ninguém. uma criança. E me CENA 5 No quarto de Evelyn. leva o boneco. Viveu ainda algumas semanas. Não sei. com o boneco nos braços. Depois de alguns dias precisaram amputá-las. Ela está parada. corta temos que conseguir que ela ponha essa coisa no lixo. a atriz. lembra? Aquele palhaço que o Cristiano não largava nunca.Só pode ter sido aquele boneco horroroso. já como a personagem. logo abaixo do quadril. Chovia muito. talvez tenham derrapado o carro bateu num poste e ficou destruído. não. mas Cristiano teve as duas pernas esmagadas. diz que ele fica espiando a rua e conta tudo o que acontece por lá. Evelyn conserva tudo como quando ele estava vivo. Sua irmã agora vive agarrada com ele. Depois guarda. EVELYN (Dirigindo-se para o público.Não. uma depois da outra.) — Mas tinha uma pessoa lá quando eu cheguei. ARETUSA (Um pouco irritada. mais tarde tira outra vez. enquanto Aretusa ainda fala. As vezes senta o palhaço na janela. Ainda bem que na hora de encomendar o caixão calcularam o tamanho dele como se as pernas ainda existissem.) — Evelyn levava Cristiano de carro para a escola quando o acidente aconteceu. Evelyn não se machucou muito. sozinha. (Preocupada.) . eu vi. apanha o Palhaço e começa a niná-lo. Todo dia arruma as roupinhas dele sobre a cama. Restou apenas um pedaço de menino. tinha um rosto pequeno. A luz sobre ela acendeu-se lentamente. mas não resistiu. Aonde vai.ARETUSA . Parecia examinava. tudo aqui ficou esquisito demais desde que o menino morreu.) .

Alice. Insistiu tanto no telefone para que eu viesse. ALICE (Arrumando uma das camas. Evelyn era tão caprichosa. etc. Dá até pena de ver.) Casa só é bom quando tem criança.) — Está vendo isso aqui? De manhã. Tropecei num . ARETUSA (Mostrando uma mancha na perna..) — Isso não é nada saudável..) — E que ela anda doente. ALICE (Meio distraída. É muito mais grave.) — É. mofo.) Sabe. na verdade acho que sua irmã ainda não percebeu que o menino está morto. tudo escuro. Ainda mais morte de criança. deixa que ela fale cada bobagem. (Suspirando. ALICE (Abatida. Agora tem cheiro de umidade. Bruno não ajuda muito. Ela não percebe.) Até o cheiro da casa mudou.CENA 6 ALICE e ARETUSA No quarto que pertencia a Cristiano. uma bicicleta. Alguns elementos — talvez um móbile bem colorido.) — Morte é uma coisa muito triste. quando cheguei. francamente. — que caracterizem bem um quarto de criança. mais prático. ARETUSA — Saudável? Isso não é normal. ARETUSA (Dura. mais seguro. (Cansada. O aluguel seria o mesmo. (Como se revelasse algo importante. com papai e Berta. Alice! ALICE (Angustiada. ARETUSA (Penalizada. Dá muito menos trabalho. Bem doente.Eles deviam mudar para um apartamento. Ela não aceita. E menor. levei um tombo.) — Não é que ela não aceite. E agora. Ele é tão apaixonado pela mulher que só pensa num jeito dela não sofrer mais ainda.) . mudando de assunto. É diferente. Tudo fechado.

Não quer mais descer. ela estava com aquele boneco no colo.) O que é que nós vamos fazer agora.Você já viu meu pai? ARETUSA (Seca. Agora ele deu para pedir comida no quarto. numa espécie de censura.O pior não é isso.) — Não sei. mas ele continua com essa história? ARETUSA . o tempo todo.) — Que coisa. como se falasse para si mesma.. Aretusa. Não pode ser. E ele fica lá. só atrapalho.) . Não sei lidar direito com as pessoas. ALICE (Sonolenta. Quando fui ver Evelyn hoje de manhã. não podia parar de pensar nisso.) Logo os pés. ARETUSA (Um pouco cruel. Cortaram os pés dele. Nunca sei ajudar. . se queixa. aquele boneco que Cristiano adorava. junto com as pernas. Eu fiquei tão impressionada. Mas ainda bem que no caixão não se notava nada. Aretusa? ARETUSA (Dolorida.) Bruno me contou que às vezes ela diz que Cristiano passou a noite com os pés gelados. querendo mudar de assunto. ALICE (Abalada. mas acaba levando.) Você sabe muito bem disso.. E cada vez pior. de manhã. Sozinho com seus bichos. (Cúmplice.carrinho de plástico na sala.Continua. E você sabe que venho vê-los seguidamente. Com aquele monte de flores.) .) — Os pés? (Meio sem sentido.Claro. (Noutro tom. ALICE (Impressionada. ALICE — Meu Deus. Logo que cheguei. Berta reclama. nem se notava que o corpo terminava tão depressa. Sabe qual é? O Palhaço. ALICE — Mas o médico disse que poderia ser um problema de circulação.) . Faz meses que o menino morreu e as coisas dele continuam aparecendo em todos os cantos da casa. (Em voz mais baixa. Parece que nunca se separa dele.

O Professor diz que não. Envelheceu tanto. Feito um passarinho.E Evelyn. (Começa a cantar uma cantiga de ninar enquanto embala Evelyn. Ele é menino. ALICE .Alice. Mas não se assuste: Evelyn mudou muito.) Era tão bem disposta. vamos brincar de mãe e filha? ALICE MENINA — Vamos.. Um ninho de insetos.se. Menino não pode ser mãe. Por que é que você não pede para ele? ALICE MENINA .O que é que você está olhando? ARETUSA. Pelo menos. Alice. Nem parece a mesma. ALICE (Ainda tentando mudar de assunto.) E eu? Quem é que vai ser a minha mãe? EVELYN MENINA . (Caminha até a janela e espia para fora. Que tem insetos no ouvido.Berta. CENA 7 ALICE MENINA e EVELYN MENINA No Plano do Inconsciente/Memória.) Aquela árvore também não quer morrer.Pode ser Renato. come direito? ARETUSA .) . . Logo ela vai acordar e você fala com ela. Vem que eu embalo você. Interrompe-se de repente.Renato não.. brusca. Crescem por toda a parte.) .Quase nada.ARETUSA . (Voltando-se. EVELYN MENINA (Aproximando. Berta não pára de arrancar os brotos do álamo.

. O que é que você quer? RENATO MENINO (Indeciso.Então posso ser eu.Você.. posso entrar? BERTA (Guardando apressada a tesoura.) .) . Pode ser Berta. À medida em que a luz apaga sobre a cena anterior. acende-se sobre Berta. menino? Será que não tenho um segundo de paz nesta casa? RENATO MENINO (Entrando. encabulado. Você quer brincar comigo? . Não estava fazendo nada. Nada que te interesse.O que é que você estava fazendo? BERTA (Brusca. os recortes e as revistas.) . recortando figuras.EVELYN MENINA .) — Alice é filha de Berta-tá-tá! Berta tem cheiro de cebola-lá-lá! Alice também tem! Cheiro de cebola-lá-lá! CENA 8 BERTA e RENATO MENINO No quarto de Berta. Ela está sentada na cama. Ela tem cheiro de cebola! EVELYN MENINA (Começa a girar em torno de Alice. cercada de revistas coloridas.) — Nada. RENATO MENINO (Na porta.) — O que é.Berta não quero.Você também não.) .) .) Berta. ora! ALICE MENINA (Chorando. Você é muito pequena EVELYN MENINA (Com certa crueldade.Então já sei. ALICE MENINA (Começa a chorar. cantarolando e batendo palmas.

você deixa? (Aproxima-se. Pode dormir sem medo. Eu te mostro como é. Renato ajeita-se no colo dela. BERTA. Renato. ALICE MENINA. Pode dormir. MENINO. . Como se você fosse minha mãe. diz.) Posso deitar a cabeça no seu colo? (Berta não responde.) Agora você passa a mão na minha cabeça. Berta abandona o menino dormindo e caminha em direção ao Professor. Você é minha mãe. RENATO MENINO (Persuasivo. o Renato urinou outra vez fora do vaso e sujou todo o banheiro. CENA 9 PROFESSOR. EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA Na seqüência da cena anterior.Mas é só um pouquinho. Berta? Diz que é. Ele está parado ao lado de um vaso sanitário. filhinho. a sua mãe está aqui. Dorme. Enquanto Renato adormece. comovida. Isso. BERTA (Apontando o vaso.BERTA (Ríspida. BERTA (Depois de hesitar. Ninguém vai bater em você enquanto eu estiver aqui.) — E eu lá tenho tempo para brincadeiras? Vai procurar alguém da sua idade. RENATO MENINO (Quase dormindo.) . Sou sua mãe. RENATO. mas acaba fazendo o que ele pede. Ela hesita.) — Professor.) — Você não vai deixar o Professor me bater? BERTA (Continua a niná-lo. (Pega a mão de Berta e coloca sobre sua própria cabeça. acende-se a luz sobre o Professor. bem devagarinho.Sou.) Faz eu dormir.) . Berta. Assim.) .Claro que não.

abraçado ao vaso. RENATO MENINO (Debatendo-se. (Dá-lhe um tapa e sai.) . seu porco sujo. seu animal? Você sujou todo o banheiro de novo. Sujou? Pois agora vai limpar tudo com a língua. EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA (Entram em fila indiana e circulam.Como o que foi? Ainda pergunta? Se fazendo de inocente.) — Renato. PROFESSOR (Empurrando-o para o vaso. pai. . Não quero saber de promessas. andando de lado. Renato! Onde é que se meteu esse diabo de menino? RENATO MENINO (Entrando.) — Te ajoelha.) — Renato é um porcalhão! Renato é um porcalhão! Renato lambe o mijo! Renato lambe o mijo! CENA 10 ALICE e ARETUSA No ex-quarto de Cristiano. saltitantes.) .) — Por que é que o pai tem tanta raiva da gente? ALICE MENINA.) RENATO MENINO (Soluçando.) — O que foi.Foi sem querer. em torno de Renato. RENATO MENINO (Com medo.PROFESSOR (Chamando.) — Tudo. Alice está sentada na cama quando Aretusa entra. cantarolando. não. papai! Eu não faço nunca mais! PROFESSOR (Empurrando a cabeça do menino contra o vaso.Não. Você é um porcalhão.) . você vai limpar tudo com a língua. cabisbaixo. papai? PROFESSOR (Segura-o pela gola da camisa. Eu juro que não faço de novo.

Alice se assusta. CENA 11 ALICE e PROFESSOR . Aqueles olhos que furavam a alma da gente. Você o conhece desde criança e sabe muito bem como ele era tímido e infeliz. ALICE (Em tom de recriminação. Aretusa. Eu também achei. Uma vez viu uma figura num livro e achou muito parecido com papai. Aretusa e Alice ficam imóveis.) — Não fale assim do seu marido. Cansei de telefonar. como se fosse chorar.. a culpa não é sua. As pancadas tornam a soar. Papai era muito severo. enquanto acende a luz sobre o Professor. Eu não quis.) O que é isso? ARETUSA (Cansada. mas ouvem-se três batidas fortes — uma bengala batendo na madeira. ARETUSA . ALiCE (Quase sorrindo. (Aretusa vai responder. ninguém atende. Mas você só humilha ele o tempo todo. As vezes eu apanhava até por coisas que nem me lembrava mais que tinha feito. Quando ele quer alguma coisa. Você sabe.) Desculpe. Cobre o rosto com as mãos. Alice aproxima-se. Seu irmão não deve estar em casa. (Aretusa parece magoada. três vezes.) . Uma pessoa como Renato precisa de carinho.ARETUSA (Irritada.) — Não adianta. Aretusa.. Era assim que Renato chamava ele.É o seu pai.O quê? ALICE — Rasputin. Pareciam uma faca.O velho Rasputin.) . Ele foi quem mais apanhou de papai. De estímulo. O idiota não vem mesmo. desculpe. o velho Rasputin. bate com a bengala no assoalho e Berta tem que atender. Tão frios.

Eu mesma não podia vir. Muito pior. pai.) .) — Evelyn? Ela não vai nem ao cemitério.) . Estava tão ocupada. PROFESSOR (Cortando.) — Bem. Só nos fins de semana têm algum tempo para descansar. Uma das mãos segura a bengala. (Entorta um pouco a cabeça. um cobertor sobre os joelhos. De vez em quando. Não foi nem uma vez.. bem.) Mas você sabe como ele é condescendente. como se .) — Mas.) — Dá licença.. Alice? ALICE (Em tom de justificativa. curva a cabeça sobre o ombro e a move devagar. PROFESSOR (Obstinado. retirar. Insetos daninhos. papai? O senhor está bem? PROFESSOR (Sacudindo afirmativamente a cabeça e fazendo um gesto para que Alice se aproxime. pai. Não melhorei nada. desde que o menino morreu.Quarto do Professor.Não.) — Não puderam vir. ALICE — Ela está doente. E não fica nada bem uma mãe não cuidar da sepultura do filho. (Em tom de desprezo. se fossem insetos o médico conseguiria vê-los. A roupa está muito desalinhada.) . PROFESSOR (Sem ouvir.. Ando até pior. abrir.. E um zumbido de insetos.O senhor melhorou daquele barulho no ouvido? PROFESSOR (Seco. E aí poderia. ALICE (Tentando ser gentil. fiquei muito preocupada com Evelyn. se divertir um pouco. E não é um barulho. E os filhos. Ele está sentado. brusco. ALICE (Entrando devagar. Eu tenho certeza.) — Bruno bem que podia obrigá-la a ir.São insetos. não sei. Presta atenção. trabalham. Mas fiquei. pai.. O senhor sabe como é. Eles estudam. São insetos. ALICE (Paciente.

não é.pudesse ouvir alguma coisa. ALICE MENINA. Alice. Perto da árvore ficava a gaiola grande com os dois porquinhos-da-índia que lhe dei. Mas essa velhice me deprime.) — Uma velha casa. Enquanto ela fala. menina? Mas o que é que eu vou fazer com um porquinho-da-índia? ALICE MENINA . sem paz. violentamente. Você tem nojo dele? . no Plano do Inconsciente/Memória acendeuse a luz sobre Alice Menina e Berta. Alice estremece. E se a gente mentisse que ele é seu? BERTA . sempre franzindo o focinho. dentro da qual está o porquinho-da-índia. o foco de luz apenas sobre ela. ALICE MENINA . O velho choraminga.Nada. Outro dia ele até bateu a janela quando o canário da vizinha começou a cantar. ALICE (Insistindo.. Iguais ao que eu tive na infância e que tratei com carinho de mãe. CENA 12 ALICE. sem sabedoria. BERTA e ARETUSA ALICE (Sozinha.) — Mas ele é tão bonitinho. Alice Menina tem uma caixa de sapatos nas mãos. Berta? Olha a carinha dele. Será que o pai deixa eu ficar com ele? BERTA —Você sabe muito bem que seu pai detesta bichos.Ele é tão bonzinho. ué. Bateu com força. (Bate com a bengala no chão.. vá chamar Berta. E por todos os cantos a lembrança de Cristiano. três vezes.Meu.) Você não ouve? Agora eles estão começando a se mexer. Chegou a quebrar um vidro. PROFESSOR.) Berta. um velho pai. uma velha empregada: que tem isso demais? E só uma velha casa.

) . (Choramingando. já está acesa a luz sobre o Professor. Furioso.) — Não. PROFESSOR (Apanha um jornal dobrado do chão. abre-o e examina. BERTA (Saindo. deixa. mas meio brusca. comovida.) Primeiro vou contar uma história para você dormir. BERTA (Relutante.) . Eu garanto que ele não vai dar trabalho nenhum. Alice continua brincando.) — Obrigado. não é. Berta. Só falta os óculos. (Para a caixa. Ele não vai entrar nunca dentro de casa (para a caixa). É de mentirinha. Rói tudo que encontra pela frente. Era uma vez um porquinho-da-índia que um dia foi bater numa casa bem igual a esta. com dois olhinhos vermelhos arregalados de medo porque ele achava que não tinha casa. Até gosto. (Vai saindo. ALICE MENINA (Insistindo. (Senta no chão. encaminha-se para Alice e joga-lhe .BERTA (Curva-se para olhar o porquinho.Ah.) — O Professor tem verdadeiro horror de bicho.) — Mas e se ele fugir? Se entrar dentro de casa? Esse bicho é que nem rato. Pura. assim que nem você. Eu digo que é meu.) Eu nunca tive um bichinho. Tem uma cara de Horácio. Que coisa. tá bem. Estd todo furado.) . BERTA (Cedendo.) Mas se der algum problema depois. porquinho? E só vai comer restos de verduras velhas.) Acho que vou chamar ele de Horácio. ALICE MENINA (Animada. Assim ele fica no seu quarto. Não precisa chorar. Berta. ALICE MENINA (Muito feliz.Pois então? Você diz que ele é seu. menina. Nojo não. Berta. Horácio. Não suporta nem passarinho. não diga que eu não avisei.Tá bem. Era um porquinho todo quentinho e fofinho. Enquanto Berta sai.

) E isso é para você aprender a me respeitar. PROFESSOR (Avançando alguma coisa dentro dela. Arranca-lhe a caixa das mãos. Alice.) .) Alice Menina fica sozinha com os pedaços da caixa.) — Me dá ele. ALICE (Tentando escondera caixa.Roído. Alice grita.) — Animal nojento.Me dá esse bicho imundo.) — Uma barata. Quantas vezes tenho de repetir que não quero nenhum bicho dentro desta casa? ALICE (Gritando.o jornal na cara. pai? Deve ter sido algum rato. PROFESSOR — E desde quando tem rato nesta casa? ALICE (Assustada. Alice tenta alcançá-la. pai! Eu prometo que nunca mais ele vai roer o seu jornal. Outro dia vi uma barata na cozinha. ALICE (Apavorado. eu prometo! PROFESSOR . Me dá essa caixa. violentamente. a caixa não! PROFESSOR (Fora de si. Acende-se a luz sobre Aretusa Adulta. ALICE ADULTA .) — Alice. volta a luz sobre Alice Adulta. menina. Eu ainda nem tinha lido. (Começa a pisotear a caixa. este jornal está todo roído. chorando. para Alice. sozinha em outro plano.) . Enquanto isso. Ele sai.Não.Como é que um corpo tão pequeno pode espirrar tanto sangue? Até hoje o guincho do animalzinho perfura meu cérebro quando penso nisso. Um único guincho. sem conseguir. Um jornal novo.) .Além de tudo é mentirosa. (Joga a caixa no chão. Faz dias que você anda escondendo .Cala a boca. (Começa a puxá-la pelos cabelos. que morreu gorgolejante enquanto o Professor torcia o pé para esmagar melhor. então.) .

fingindo ignorar o boneco e procurando ser natural. Evelyn está sentada com o boneco no colo. E uns chinelos. Aretusa está ao lado dela.) — Estou. num tom monótono e automático. agora ficou tudo mais rápido.) . Quando Alice entra. mas acabei deixando.) — No mundo da lua.fumando. Estou muito bem. depois de olhar um momento para Aretusa. ALICE (Beija Evelyn. eu ia comprar uns chinelos novos. esqueci até o perfume. Com esses ônibus modernos. como se tivesse acabado de penteá-la e arrumá-la. Estou bem. como se recitasse algo decorado. Eu até ia trazer um bolo. Alice? Evelyn acordou e quer ver você. Evelyn. (Volta-se e fica olhando pela janela.) — Olha. ALICE (Nervosa. Estou. (Ri. Não puderam vir. que fuma em silêncio. Suba! CENA 13 ALICE. sempre tão ocupados. sim. Aretusa? ARETUSA — Nem prestei atenção. Você sabe.ARETUSA (Irônica e divertida. Mesmo assim me cansei um pouco. Você vai bem? EVELYN (Sacudindo a cabeça.) — Fiz uma viagem tão boa. você reparou.) Saí correndo. muito composta. meu marido e os rapazes mandaram lembranças. insegura. O meu está tão velho. ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn.

(Vai saindo. Eu como tudo e limpo o prato.) Não é.) — Seu cabelo continua tão bonito.Então eu vou lá embaixo receber o seu marido. ARETUSA (Da janela. Faz muito tempo que não vejo o Bruno.) . . E você? (Examinando-o. E mais magro. Já que Evelyn tem companhia. tensa.) . ALICE (Maternal. Quando der. que continua imóvel.) — Parece cansado. Garanto que você faz muita falta no escritório. (Aproxima-se e coloca a mão no ombro de Evelyn.) CENA 14 ALICE. da casa para o trabalho.ALICE (Pega uma escova e começa a escovar o cabelo de Evelyn.Bruno está chegando. volta-se e sorri para Evelyn. graças a Deus. depois cai de novo no sofá. querida? (Evelyn não parece ouvir.Como vai. Faz séculos que ele anda só do trabalho para casa. Na porta.) ALICE (Um tanto apressada e aliviada. RENATO MENINO e BERTA Sala da casa. Evelyn.) — Sim. Um dia. eu volto. Bruno está jogado no sofá quando Alice entra. BRUNO .Quando der. Tive que insistir para que saísse hoje e se distraísse um pouco. querida? EVELYN (Falando como uma criança. BRUNO. curva-se para beijar Evelyn. Alice? ALICE — Bem.) . Tão louro. querida. Bruno. Quando é que você volta? EVELYN (Remota. Levanta-se para beijá-la. não sei. Seus colegas devem estar com saudades.) .Você tem comido direitinho. Alice.

O filme era bom. Ela segura o boneco e fala como se.) — Ela não quer mais falar com o médico.) — Engraçado.Uma.) — Acabei de ver Evelyn. Bruno! E aquele boneco. bom. Faz tempo que não me peso. sentando-se no sofá. acendendo um cigarro.BRUNO (Indiferente. Que coisa mais macabra! BRUNO (Paciente.. (Amargo.. ALICE (Tentando parecer animada. Ela não parece nada bem. E quase não come.) — Pode ser. tentei fazer com que aceitasse a realidade. ALICE (Horrorizada.) Mas realidade é uma coisa que ela não agüenta mais. ALICE — E gostou do filme? BRUNO (Distante. BRUNO (Desinteressado. em voz baixa. ALICE (Depois de uma pausa em que não sabe o que dizer...) — O filme? ALICE . BRUNO — Eu sei.) — Mas é só assim que ela fica mais calma... BRUNO (Como se não ouvisse.) .) — Descobri que Evelyn anda com uma gilete em baixo do travesseiro. Concordei com Aretusa em chamar você porque não sabia mais o que fazer. uma o que? .É. ALICE — Mas isso é perigoso. BRUNO (Interrompendo. Não quis ir no psiquiatra.. Fui ao cinema. passeando um pouco? BRUNO — Aretusa insistiu tanto. como se o menino estivesse vivo. o Palhaço? Você tem que tirar aquilo dela.) — Então... O filme que você viu.. ALICE — Aretusa me disse que Evelyn parece não aceitar a morte de Cristiano. No começo. ALICE (Meio distraída. meu filho disse que.) — Era.

depois de pensar um momento. Ninguém pode forçar. tem outra lá. cansada. fica quase normal. Já botei fora duas ou três. ela tem de querer também. Uma noite ele não parava de chorar. Nós não temos dinheiro para uma boa clínica particular. só desesperada. Fazia meses que você não o via. Fazia tempo. BRUNO — Então deve ter-se assustado. BRUNO — Péssimo. BRUNO (Intrigado.) — Deus que me perdoe..) — Não sei. Renato sofria de infecções nos ouvidos. BRUNO (Angustiado.) . Quando esquece. Depois começa tudo outra vez. o que é que você acha que devemos fazer? ALICE (Recostando. ALICE Que horror. Será que ela.Alice. Mas até parece castigo. BRUNO (Interrompendo. Bem.Uma gilete. E o médico. E ele agora deu para se queixar a toda hora dos tais bichos.se para trás. ALICE (Para mudar de assunto. Precisamos ter paciência..) . ALICE (Pensativa.) — Meu pai também está tão esquisito. Bruno. não? ALICE — Fazia.BRUNO (Em voz muito baixa. ALICE . Mas sempre quando vou ver.Que coisa horrível.. Devia doer . mas não adiantava. num hospício. E psiquiatra.) — Castigo por que? ALICE — É uma história antiga. Essas coisas. o que diz? BRUNO (Batendo de leve com o indicador na testa. Não consigo raciocinar direito. sim. no sofá..) — Não quero que ela seja internada num. Ela não está louca. Berta pingava azeite morno..) — Que é a idade.. Quando a gente era criança.

BERTA e RENATO . BRUNO. Na terceira vez. para Alice.) — Louça toda velha. CENA 15 ALICE. Uma arma secreta. ARETUSA. Ele prepara a arma. Que não fizesse fita. abriu a porta com um empurrão e deu um tapa na cabeça de Renato. ALICE (Distraída.) — O Professor também vai descer hoje. com toda a força. o boneco fica no meio dos dois? BERTA (Como se não tivesse escutado. tinha um líquido grosso.) — Uma arma. Berta levou ele ao médico. Porque você está aqui. Era pus.muito. como na Cena 3. ALICE (Como se não ouvisse. RENATO MENINO (No outro Plano.) BERTA (Entra. O bofetão de papai tinha feito rebentar um abscesso no ouvido dele. no Plano do Inconsciente/Memória.) — Vou ver se Evelyn quer descer.Quando entramos no quarto. (Enquanto Alice fala.) . Para matar o Professor. (Sai. quando eles dormem. Tantos pratos rachados.O Professor sempre foi muito violento. BRUNO (Levantando-se. A luz se apaga no Plano do Inconsciente/Memória. amarelo. meio para si mesma.) — Está na hora de servir o jantar. PROFESSOR. Papai levantou umas duas vezes e mandou que ele calasse a boca. escorrendo do ouvido de Renato.) — Será que na cama. No dia seguinte. acende-se a luz sobre Renato Menino. EVELYN.) BRUNO .) BERTA (Pondo a mesa. (Ouvem-se as três bengaladas do Professor. acende a luz.

Estão todos sentados à mesa do jantar. Berta tira e coloca coisas na mesa. Evelyn? ALICE . BRUNO (Para Evelyn) . ARETUSA — Pois eu não. que serve a mesa. O médico proibiu. que estende o copo. BRUNO (Para Evelyn. PROFESSOR (Com desprezo. me abre o apetite. Até pelo contrário. Quando mudo de ambiente. que cruzou os talheres.) — Quer mais vinho. o barulho da campainha.) —A carne está ótima.Eu não quero. .Na sala.) .Deixa. depois de encontrar um vermezinho na salada.. A cena é lenta e difícil. ALICE (Conciliadora. entremeada de silêncios longos. (Dando-lhe comida na boca. Assim. paciente. ARETUSA (Mentindo.Ela não comeu quase nada. Por que você quer me obrigar a comer? BRUNO — Para ficar forte.) — Você está com frio..) . Você não almoçou hoje. Agora.O médico.) — Só um pouquinho.) . EVELYN (Como criança.) Passa o arroz? Silêncio espesso. não vai comer mais nada? Está de regime? Olha.Vamos. Evelyn tem o boneco no colo. De repente. Estamos todos juntos. (Para Alice. e de Berta. Evelyn. que ainda não chegou. Tem que comer mais um pouquinho. repugnada. À exceção de Renato.) E você. Bruno. ALICE (Para o Professor. Constrangimento. pai? BRUNO (interrompendo o Professor. mais um pouquinho. hein? ALICE — Estou sem fome. O médico não sabe nada. (Para Bruno.Ele não pode. Hoje é um dia especial. querida.) . bem que você precisa. Acho que foi a viagem.

ALICE (Para o Professor. Não tenho fome.) . RENATO Como vai.) ALICE (Para Renato.) — Ué.) .Boa-noite. (Pega o bule e serve. (Berta sai e volta acompanhada de Renato. Quando você telefonou. Até telefonei hoje à tarde. Liguei acho que umas dez vezes.) . Ele aperta a mão de Bruno.PROFESSOR .) . ALICE (Maternal.) Eu mudei de idéia.faz um carinho na cabeça de Evelyn e senta-se ao lado dela.) Olha só quem chegou. provavelmente eu já tinha saído.Então. olhos baixos. RENATO (Beija Alice.Quem pode ser numa hora dessas? BRUNO — Visita é coisa rara por aqui.) — Você já jantou? RENATO . muito formal. Alice? Tudo bem? (Ela sorri.) — Boa-noite para todos.) ARETUSA (Agressiva.Não. ARETUSA — Pelo menos tome um café. RENATO (Contrafeito.) — Quer que eu veja quem é? BERTA (Para Alice.) — Pode deixar que eu mesma vejo. A cidade está cheia deles. (Beija Aretusa no rosto. PROFESSOR — Deve ser algum mendigo. papai? PROFESSOR (Seco.Eu sempre digo que sanduíche não alimenta. com uma bolsa de viagem. Comi no caminho. Um sanduíche. (Aperta a mão do pai. Renato bebe e fica remexendo na xícara com a colherinha. Tocou. tocou e ninguém atendeu. achei que você não vinha.

Não. Depois recomeça os movimentos com a cabeça. Olha para todos. um por um. não. Está tão abafado. como se escutasse. No escuro. com desprezo. brinda distraidamente com bolinhas de pão.) Fiquei preocupa com você aqui em baixo.) . ouve-se a gravação de uma gargalhada estridente de criança. ALICE — Tem razão.Bom-dia. Renato.RENATO e BRUNO Na sala de refeições. . A luz apaga.É possível. RENATO .) — Vocês não acham que ele se parece com o Palhaço? (Ninguém ri. Berta me trouxe um cobertor Mas nem era preciso. O Professor começa a mexer lentamente a cabeça. para alguém invisível. Esse calor não é normal de manhã cedo. que já está sentado. ALICE (Entrando. sem ninguém esperar. Silêncio constrangido.) Eles estão se mexendo agora. Tudo bem.) — Que foi. Não passou frio durante a noite? RENATO (Distraído.EVELYN (De repente. Renato. Tudo bem? (Senta-se à mesa. olhando Renato e o boneco.) ALICE (Para o Professor.) . Estava quente. A mesa está posta para o café quando Alice entra. Parece que vai chover. (Pára por um instante. Alice. pai? O senhor está sentindo alguma coisa? PROFESSOR — São os insetos. de manhã cedo. II ATO CENA 1 ALICE.

com essa casa toda fechada. Acordou várias vezes. Você não ouviu nada.) .) E além do mais.Riu. E Evelyn. ALICE — Acho que ela nem enxerga mais direito. Bruno.) — O café.. ALICE (Intrigada.Faz muito tempo que Evelyn não ri. Berta devia ventilar mais a casa. .) . passou bem à noite? BRUNO (Abatido.) .Não.) RENATO . Devem ter sido os gatos.) .Berta está muito velha.Não. Eles fazem muito barulho nos telhados.) ALICE .o que? ALICE (Meio envergonhada.) . (Prova o café e faz uma careta.ALICE — Me passa o café? (Renato passa e ela se serve. ALICE (Meio atrapalhada. Ela dormiu muito mal. (Toma mais um gole.) RENATO . O calor fica pior. RENATO (Desinteressado. (Renato não responde.) Péssimo. Acho uma coisa indecente. ela riu durante a noite? RENATO .) .. (Afasta a xícara.. BRUNO (Entrando. Não tenho vontade. Continua a fazer bolinhas de pão. BRUNO (Cortando. Renato? Eu tive a impressão de ter ouvido alguém rindo. por acaso ela. Está quase frio.) — Claro..O que foi? ALICE (Meio repugnada.Bom-dia. E muito fraco.Bom-dia.) — Bruno.Eu não ouvi nada.Você não vai tomar café? ALICE (Suspirando. claro. RENATO (Dando de ombros.) .

) — E Aretusa? Não vai descer? CENA 2 ARETUSA.Ou algum babado na rua. RENATO (Para Alice.RENATO . ouve-se apenas a voz de Aretusa. Tinha um jeito de menina.Ela era linda.tem os cabelos todos brancos e a cabeça caída sobre o peito.) — Me passa o pão? ALICE (De repente. BRUNO (Para Renato. empurrada por um Enfermeiro. CORÁLIA e ENFERMEIRO Quando Renato fala. Noite de sábado. CORÁLIA e ENFERMEIRO . ARETUSA . Cruzam a cena Corália. numa cadeira de rodas. fumando. Enquanto eles passam. Ela está na cama. ARETUSA. pondo a mão na testa. ALICE (Nervosa. CENA 3 ALICE.) — Acho que estou pegando uma gripe daquelas. deitada.) — Pode ser. Corália — uma atriz ou uma boneca . tentando rir. A luz acende-se também no Plano do Inconsciente/Memória. Uns olhos tão grandes e inocentes. apaga-se a luz sobre a cena anterior e acende-se sobre Aretusa.

) — Linda. Aretusa. Depois não diga que eu não avisei. você é uma mulher adulta. ARETUSA (Sonhadora. A cena pode ser feita pelas atrizes que fazem Alice e Aretusa Adultas ou por Alice e Aretusa Meninas. na casa de Alice.) — Será que eu entendi direito. Alice.Ah. ARETUSA (Sem ouvir.É um flash-back. casada. Alice. Só acho um pouco estranho. debochada.) Não faz mal nenhum assim. ALICE — Escuta.Uma menina tão linda. ALICE (Preocupada. Tão terna.) Prometa. ALICE — Você tem que me prometer que vai tomar cuidado. E não sou atrasada.) — No mesmo que você. . o escândalo que vai ser. (Para Alice. só de longe. Você nem imagina como ela é linda. Ela me ama. ARETUSA .) E ela me ama. indisfarçável. minha querida moralista.) . Aretusa? Ela é sua aluna. Aretusa. inocentes. Eu finjo que não percebo. (Segurando Aretusa pelos ombros. no colégio. ARETUSA — Não tem nada de estranho. Imagina se alguém descobrir. minha santinha. a filha do Bicho-Papão não sabe em que mundo vive? ALICE (Meio irritada. Enormes. Atrasada. Lá no fundo.) — Claro que entendeu. E tem uns olhos. sim. mas continua a virgenzinha de sempre.) Ah. não se preocupe. mas vejo bem nos olhos dela. ingênua. Ela me ama. Sem maldade nenhuma. tão linda. ALICE (Espantada. Aretusa. Eu apenas me deixo amar. você vai acabar se metendo em complicações. mas paciente. (Implicante. (Para si mesma. recém-casada. o que mais me impressiona nela são os olhos. Prometa que não vai se meter em nenhuma complicação com essa menina. Aretusa? ARETUSA (Rindo. Meu Deus.) — Como não faz mal.

acende-se novamente a luz no plano do Inconsciente/Memória.) CENA 4 ALICE e ARETUSA Passaram-se alguns meses. .. em desespero.Está bem. Que vai se ver livre dela. Nome engraçado..) — Ela tentou se matar. acende-se novamente sobre Alice e A retusa. Se você fica mais tranqüila assim. criatura? ALICE — Que não vai se meter em nenhuma complicação.Corália. Parece nome de flor.ARETUSA (Desvencilhando. grita. Quando apaga-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória.) . ARETUSA (Dando de ombros. Corália (Tapa a boca com a mão. (Fingindo solenidade.) Prometo solenemente me ver livre dela. Aretusa.) .) — Prometa. mas a cena vem imediatamente na seqüência da anterior.se. e o Enfermeiro torna a passar com Corália na cadeira de rodas. sem pausa.) — Assim é que se fala.Pára com isso. Que coisa mais antiga! ALICE (Insistente. Aretusa. está bem. (Noutro tom. Alice. (Num crescente. ARETUSA — Mas prometer o que. ALICE — Fale mais devagar.) Corália. ARETUSA (Que ainda estava de costas. ALICE (Aliviada. Não entendo nada. Corália-Rosália.) Como é mesmo o nome dela? ARETUSA (De costas para Alice Enquanto ela fala. séria.) . voltando-se. Magnólia.

Fique calma e me conte tudo. a boca toda queimada de veneno. Que ela era meio louca. Eu comecei a fugir. Aretusa. olhares. Eu fiz tudo errado. despeito. Não adiantou nada.O que? O que foi que você fez. Pare de me acusar.) . Você não sabe de nada. Não tive coragem de desiludi-la. inveja.) Hoje de manhã encontraram ela na cama. A idiota da amiga contou tudo para os pais de Corália.) — Nada. não aconteceu nada. aquelas coisas. Foi só então que eu descobri o quanto gostava dela.) — Você agiu direito. ALICE (Tentando acalmá-la. (Envergonhada. que Corália não regulava bem. Ela era tão bonita. Alice. ARETUSA (Culpada. (Baixando a voz. O que fiz foi só para o bem dela. Aretusa? ARETUSA (Muito agitada.. . Ela ficou me procurando por toda parte. ARETUSA — Eu sei que você me entende. meu Deus? ARETUSA (Quase gritando.. mandava cartas. ALICE (Chocada. Eu fiquei com medo e disse que se ela não se afastasse eu contaria aos pais dela e ao diretor. ALICE (Colocando a mão na cabeça dela. Telefonava. você me entende? Que era imaginação dela. não. Corália tentou se matar. Só.Não. Alice. Alice. O que foi que aconteceu? ARETUSA (Acendendo um cigarro. O diretor da escola nos chamou para tentar evitar o escândalo. ALICE — Não estou acusando ninguém..ALICE . Falei em calúnia. a tratá-la mal.Ela? Ela quem. Não fiz nada. Eu não queria complicações. Queria que nós fôssemos embora juntas.) Cheguei a insinuar que.) — Corália.) . promessas. Eu ainda consegui consertar a história.) — Não fique assim. Eu não tive culpa.. Aretusa. Ambigüidades.) — Nada. Foi ela quem contou para uma amiga.

Não quero comer. Faz mal. ARETUSA . . ALICE — Ela não vai morrer. ARETUSA (Irônica. Aretusa está de camisola.. Nunca mais. quando Alice entra. ALICE — Ainda está aí? Você nem se vestiu. CENA 5 ALICE e ARETUSA Volta ao presente.. ARETUSA — Se ela morrer. fumando. Não vai acontecer nada.Não queria que depois ela sofresse ainda mais. não vou agüentar sozinha.) -Juro que nunca mais vou amar ninguém. (Agressiva. fique calma. Estava fraco e frio. No quarto.) Esta semana fui ver Corália. às vezes as pessoas progridem. de repente.Estou com preguiça. Eu acabo destruindo tudo que toco. Você não vai tomar café? ARETUSA . não? ALICE (Sem se ofender. (Depois de uma pausa. ALICE — E fumando em jejum. Nunca mais vou me ligar a ninguém.) E você bem que podia cuidar um pouco da forma. ARETUSA .) — Bem. ARETUSA (Lentamente.) — Nem tomei café. ALICE — Fique calma.Quer um cigarro? ALICE .Você sabe que não fumo.

não vai melhorar nunca. eu sei. Não é bom desejar a morte de ninguém. (Ouvem-se as batidas do Professor..) — Corália? Você foi ver Corália? ARETUSA . Faz anos que ela está assim. Ainda é muito cedo.) . Parece uma velha. Todo mundo acha isso mesmo. mas. ALICE . (Melancólica. não pode mais falar. ALICE — Não fale assim.) .) . ALICE — Eu sei. As duas se sobressaltam.ALICE (Assustada. Mas eu sou a única que tem coragem de dizer. Você sabe muito bem: Corália não pode mais andar. Ela não vai ficar boa. Ou um bicho. acho que a morte seria melhor para ela. ALICE (Agoniada..E como ela está? ARETUSA (Amarga. Alice. (Num sussurro. Já está na hora do almoço? ARETUSA (Remota. Acho que é só por isso que os pais dela permitem que eu a veja. ARETUSA (Irônica. não é bom. Alice. Mal sustenta a cabeça.Pode ser. Ele deve estar chamando Berta.) Sabe? O cabelo dela agora está branco como a neve.) — E como é que você queria que ela estivesse? Ah. ALICE (Confusa. Quarenta anos.Quantos anos ela tem? ARETUSA — Quarenta.) . Não tem esperança nenhuma. Sempre que eu venho aqui dou uma chegada lá.) — Não.) É estranho. Ela não pode mesmo ficar boa? ARETUSA (Cansada. Mas as coisas às vezes mudam. Ninguém sabe o que ela sente.Eu já disse mil vezes.) — Neste caso. ARETUSA (Dura. . não mudam nunca.Fui.E por que não? É a verdade.) ALICE — É o papai. Não sei. mas parece contente quando me vê.

Falam sem entonação infantil.) Que engraçado. levemente maldosa. (Antes que Aretusa retruque.) Se a gente não soubesse ARETUSA . como folhas de que cortaram a árvore. torna a encarar Aretusa. acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória.) . Aretusa olha bem para as pernas dela. de repente.) — Aretusa-Medusa. Vou ver se precisa de ajuda. Da porta.É só o vento. parece que o menino ainda está se embalando naquele galho. Ele gostava tanto do balanço.ALICE — Coitada. Acho que não comentou com ninguém além de mim. As duas ficam atentas. me procurava para desabafar. ia dizer que está farfalhando. Mas você tem razão. (Alice volta-se novamente para sair.. à escuta. dando o texto como um coro de tragédia grega. Você ouviu? arvore farfalhando. (Volta-se para sair. CENA 6 ALICE MENINA.. Agora. lembrei como a gente chamava você quando era criança. estáticos. Como era? ALICE (Bem devagar. de repente.. quase . Assim ela nem pode mais trabalhar direito. ALICE — Há mais de vinte anos Aretusa carrega esse segredo sombrio.Não. ARETUSA MENINA.) Você devia tratar dessas varizes. No começo. Tempos depois.. Lá estão parados Alice. Às vezes. Aretusa. ouve-se o barulho do vento. EVELYN MENINA e RENATO MENINO Durante as últimas falas da cena anterior. Você lembra? ARETUSA (Desinteressada.. Evelyn e Renato meninos.. agressiva.

RENATO — Talvez Renato a amasse. que lhe cobra uma pequena indenização.repentinamente. da voz sensual. Bruno está ao lado. EVELYN — Mal Aretusa cochilava. talvez enxergue por trás da imagem familiar aquele rosto inapagável. Como se ela se punisse fazendo-o sofrer. Debate. como às vezes amamos o que é mais oposto. Ela insistia. na cena anterior. porque Aretusa nunca escapará de Corália. BRUNO . E não conseguem viver em paz. foi cortada pela gravação de uma risada infantil. está tudo bem. CENA 7 BRUNO e EVELYN A última fala de Aretusa. usava da sedução do seu olhar dourado. das maneiras desinibidas. o pé da cama. A luz acendeu-se sobre o quarto de Evelyn. mas de longe. a aranha cinzenta começava a arranhar a porta.Você também ouviu? . Ela está dormindo. EVELYN (Assustada. Evelyn? Calma. a parede. Eu estou aqui. com uma bandeja nas mãos. com o Palhaço nos braços. A cama está cheia de brinquedos espalhados. Assim. mais diferente de nós.) .se entre o amor e a repulsa. O som da risadinha faz com que Evelyn acorde sobressaltada.O que foi. Duas pessoas que nada tinham em comum. casou-se com Renato. mostra a si mesma que é louca e má. ARETUSA — Sempre que Aretusa se mira num espelho. e a culpa não a deixa dormir. não saía de perto dele.

Eu não quero.Não quero.Não..Eu não quero comer. Tenho nojo de leite. até Bruno desistir. (Ele abraça e fica embalando-a durante algum tempo. está bem.BRUNO — O quê? As batidas? Deve ser o Professor chamando Berta. Não eram batidas. BRUNO (Cortando. . Todo mundo quer que você desça. EVELYN (Com raiva. EVELYN . eu trouxe café e pão para você.) — Só um pouco de leite.) Você não quer descer um pouco? Toda a família está aí. como uma. larga a bandeja em cima da mesa e tenta devagarinho tirar o Palhaço de Evelyn. reunida. Não era nada. EVELYN — Não. EVELYN (Jogando a xícara ao chão e gritando. Só um sonho. então. você precisa ficar forte de novo.. Vinha de longe. Era outra coisa. sem dizer nada. até que ela se acalme. BRUNO . Como. BRUNO (Falando como quem se dirige a uma criança.) — O Palhaço não! Me deixa ficar com ele! Me deixa! BRUNO (Senta-se ao lado dela e tenta fazê-la beber da xícara.) Tome pelo menos um pouquinho de café. não.) — Não quero. se você não quer.) .Só um gole. Vai fazer bem. EVELYN (Resistindo.) . BRUNO — Mas não precisa comer.) — Só um pouco.Você sonhou. paciente. já disse! BRUNO (Enquanto ela abraça o Palhaço.. (Passa a mão no cabelo dela..) .. EVELYN (Infantil. mas era muito claro. não. Até Renato veio. Olha..) — Está bem.

embala. você nunca casou? BERTA ..) . timidamente. Está um dia bonito. beija-o. Se Berta vier me buscar. EVELYN — Como é que você sabe? Você nunca experimentou pra saber. ALICE — Berta. EVELYN (Feliz. tem sol. Pra uns. BRUNO (Fingindo não ouvir. (Embala o Palhaço enquanto Bruno olha. enquanto Evelyn cuida do Palhaço como se fosse um bebê. etc.) — Você não quer descer um pouco e conversar com eles? EVELYN — Eu quero ficar aqui. Quero ficar cuidando dele. ..) — Então eu vou abrir a janela. Mas fique calma..) . Mais tarde eu desço um pouco.. Pra mim.. pode ser. CENA 8 ALICE MENINA.) — Está bem.) Por enquanto. afasta-se da janela.Você é tão bom comigo. se você não quer eu não abro. Graças a Deus.. EVELYN — Mas casamento não é bom? BERTA .Eu não quero comer. desanimado.o.EVELYN (Infantil. BRUNO (Levanta-se e vai até a janela. EVELYN MENINA e BERTA Luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória.Depende. só quero ficar aqui com ele. BRUNO (Um pouco assustado. Sempre faz tudo que eu quero.Nunca. não.

à porta do qual esta’ Alice adulta. Alice? ALICE (Embaraçada.. eu bati. parada.) — Sim. ouve passos que se aproximam. Berta.) Berta.ALICE — Berta. BERTA (Entrando. Aí entrei.) — Não tem importância. ALICE — Eu queria conversar um pouco sobre. ALICE (Chamando. No final da cena anterior. Ninguém responde Alice entra.. com fotografias de mulheres nuas. Alice. fecha aporta do guarda-roupa e a gaveta. você está aí? (Bate à porta do quarto e torna a chamar. . homem pra mim é peste! CENA 9 ALICE e BERTA No quarto de Berta. ninguém respondeu. A luz revela um quarto muito pobre. Alice começa a remexer e fica muito espantada: são recortes de revistas.Menina. Alice abre a porta de um guarda-roupa e encontra uma colagem de mulheres nuas. não muito alto. por que você não se casa? BERTA .. acendeu-se a luz no quarto de Berta. Há também algumas revistas empilhadas sob a cama e também uma tesoura grande. Berta! Sou eu. dessas que se encontram em pensões de rapazes.) — Berta. bem vulgares. levemente irônica. BERTA (Dando de ombros. A gaveta da mesinha de cabeceira está aberta e atulhada de papéis recortadas. Alice estd muito chocada. Rapidamente. De repente..) — Procurando por mim. eu. Você não estava. desculpe. mas fingindo naturalidade. sobre a saúde de meu pai.

(Com nojo. Ele é que devia ter pena de mim. um velho nojento. BERTA .) ALICE — Estou com pena de papai. BERTA (Rancorosa..) E um inferno.. BERTA (Dando uma risadinha maldosa. como se procurasse a palavra exata) . Batendo. ALICE — Mas ele não é mau... Eu é que sei. se faz de desentendido e diz que não me chamou. Alice? . Há pouco ele tornou a bater. (Suspirando.) As vezes. Será que tem consciência do que faz? BERTA (Desinteressada. ALICE (Penalizada.) — Você sabe por que é mesmo que eu continuo aqui. (Com ódio. Mas que nada. (Dura. coitado. quando vai deitar.Ele fica batendo no chão.) — Mas Berta. Desde que eu era criança.) Mas eu não tenho pena.) — Mas está pior. (hesitando. Vamos conversar.E não está mesmo..BERTA — Então sente. diz que fui eu que fiz a sujeira toda.) — Metade do tempo acho que não sabe. batendo como um desesperado. E a bengala.só infeliz. que trabalhei a vida toda. (Ambas sentam na cama. ele está tão velho. Só. pede a comida no quarto e depois despeja tudo no meio dos lençóis. ALICE — Ele sempre foi exigente. Ele está ficando caduco. De noite. Quanto mais velho fica mais exigente. então? Você não ouviu as batidas da bengala? ALICE — Ouvi. Ele não me parece nada bem. Ele nem quer mais tomar banho. BERTA . E suja toda a cama..) Um velho caduco. Quando eu subo as escadas.

você quer ir embora daqui? BERTA . Você nos conhece tão bem.) — Não. A luz acende-se sobre ele. BERTA (Em voz baixa. BRUNO. há tanto tempo. ARETUSA. ALICE — Não é verdade. e sempre fomos muito retraídos.) CENA 10 ALICE. Renato. PROFESSOR.. RENATO e BERTA .Vingança? A sua vingança. meu Deus? BERTA (Com ódio e mágoa. agora que estou velha e imprestável? (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor. sim. Tenho pena.. você: tenho pena de vocês todos. mas firme. em voz muito baixa.) . Não fale assim. com ódio..) .Sempre fui como um cachorro nesta família. Até parece que. desde crianças.) — A morte dele? Mas para que.ALICE (Sacudindo a cabeça.Embora? Eu não! E para onde iria? Quem vai me querer. esse vai me pagar! ALICE (Colocando com cuidado a mão no braço dela.) — Berta. ALICE (Chocada. Berta? BERTA (Triunfante. Evelyn. BERTA (Calma. Mas o velho. Todos nós tivemos uma vida difícil. Você tem raiva de nós? BERTA — Raiva? Raiva.) — Vai ser a minha vingança. o velho. ALICE (Sem entender. ah. ALICE — Não é bem assim. parado na escada.) .Sempre fui como um cachorro. Berta? Mas vingança de quê.Estou aqui para apreciar a morte dele.. não.) .

BRUNO — Uma clínica particular é cara demais. Bruno é o último. Talvez consiga convencê-la. que ela age como se o menino estivesse vivo. Não foi minha.) — A idéia foi sua. me disseram. BRUNO (Sentando-se. não acha? Afinal Evelyn é sua irmã. Aretusa. Conversamos um pouco hoje de manhã.. Alice. o Professor caminhou até sentar-se na cabeceira da mesa. RENATO (Irritado. só.) — Evelyn não vai descer para o almoço. Ficar aí parado não adianta nada. ela não está louca. não é? (Para Renato. ALICE — Melhor? Mas Bruno.. A os poucos.) .A partir da cena anterior. mas a responsabilidade é de todos. agora quer descansar. Além disso.O que é que você quer que eu faça? Eu pelo menos estou aqui. . também podia se interessar um pouco. Ela já comeu. ARETUSA . Berta fica parada atrás.) — Será que Evelyn não gostaria de descer e almoçar com a gente? Se você quiser eu subo. para Bruno. e eu também notei. ALICE (Cortando. ARETUSA (Agressiva. Até comeu melhor. só desesperada. não estou? E eu nem podia vir.Antes não tivesse vindo.) E você. que está desinteressado.) — Se ninguém vai fazer nada. achei que estava mais disposta. Mas não se preocupem. PROFESSOR . não minha. BRUNO — Não precisa. ARETUSA (Impaciente. os outros vão chegando. então por que esse teatro de a gente se reunir aqui um fim de semana inteiro? BRUNO (Seco. Ela está melhor.) — Bem.Evelyn precisa ser internada.

) — A única pessoa de quem o senhor gostou um pouco na vida foi Cristiano. como vão? RENATO (Mexendo a mão no ar. (Alice serve a si mesma e a Aretusa. Ele é um frouxo. sarcasticamente.) — Bondoso? Bondoso coisa nenhuma.) PROFESSOR . me passa a água? Está tão quente.PROFESSOR (De repente. será que não se pode ter pelo menos uma refeição tranqüila nesta casa? BERTA (Irônica e imóvel. para Renato. ALICE (Ainda tentando aliviar o clima.) — Você nem sequer tem inteligência para inventar uma desculpa melhor.E os negócios. Não sei como isso é possível.) — E você já viu uma refeição calma por aqui? RENATO (Pouco a pouco mais exaltado.) RENATO (Em voz baixa e clara. Pior para o senhor que ele .) RENATO (De repente. mas encolhe a cabeça sobre os ombros. honesto demais para ser bom comerciante. PROFESSOR (Por um momento parece que vai reagir. mas é verdade. (O Professor ri.) . (Quase gritando.) — O senhor quer saber o que eu acho mesmo? Acho que o senhor nos odeia.) .) — Aretusa. ARETUSA (Agressiva. seu fracassado? ALICE (Tentando desviar o assunto.) — Renato tem um problema: ele é bondoso demais. (Todos param de comer e voltam-separa ele. Comerciante tem que ser mais safado.) — Pelo amor de Deus.) — Um pai como o senhor acaba com a vida de qualquer um.) O senhor nunca foi pai: é um carrasco. isso sim.O que é que você quer dizer com isso. BRUNO (Procurando aliviar o ambiente.Mais ou menos. Odeia seus próprios filhos. depois de remexer no prato com o garfo por alguns instantes.

pare! RENATO (Levantando-se da cadeira.) Nem de nossa mãe o senhor gostava. Renato sai.) . para torná-lo ainda mais indistinto. ARETUSA (Gritando. foi ela quem lavou meu rosto depois. na janela. (Aretusa deixa cair o copo d‘dgua. Junto com o grito. cheio de ódio. Aretusa estende a mão como se fosse tocar no braço do marido. lembra? Não. Naquela vez. Foi só isso. acho que esqueceu. Então os vermes estão comendo o senhor antes da morte? Que coisa mais bem feita! (Gritando. Foi o que ela falou: ―O pai deles não tem coração‖. Ele está doente.Lembra o dia quando o senhor esfregou minha cara no mijo do chão. ALICE — Renato. ouviu? Que apodreça! Aretusa começa a chorar. Bruno levanta-se e coloca a mão no ombro do Professor. porque o senhor não tinha coração. e o senhor nunca lhe deu amor nem atenção. não? Pois eu me lembro. Para ela.) RENATO (Sarcástico.Renato.) Que maravilha! O senhor ainda nem morreu e já está cheio de bichos? Quero que apodreça. Berta me contou que nossa mãe morreu de desgosto. agora chega. solta um grito incompreensível. pode soar a gravação da risadinha infantil.) . Bruno olha com mágoa e surpresa para Renato. (O Professor começa a balançar a cabeça. mas permanece sentada. de solidão. ARETUSA — Ele bebeu demais. o senhor também foi um carrasco. mas desiste. Aretusa faz menção de levantar-se. (O Professor derruba o copo de vinho na toalha. Ela preferiu morrer... Era quase uma menina. essa é a verdade. ele bebeu demais.morreu. Ruídos de bichos dentro dos seus ouvidos. o senhor sabe esquecer. .) — Me contaram que o senhor anda escutando ruídos. Alice também estava lá. Que confortável. Berta lembra. Renato caminha pela sala e. Muitas pessoas comentavam isso. Ela morreu de tristeza.) Berta me disse também que logo antes de morrer nossa mãe pediu que ela tomasse sempre conta de nós.

ARETUSA (Maliciosa. Na vida real é de verdade. Você nunca viu no cinema? ALICE .) .. claro. amparando o Professor.Sim. ALICE (Curiosa. Enquanto isso.) . mas vai.BRUNO — Berta. acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória.) — E tem. bem devagarinho. que permanece sentada. Venha. tem gosto? .) — Na boca. Lá deve ter café quente. Que é que tem? Depois põe a língua lá dentro.) CENA 11 ALICE e ARETUSA MENINAS (As duas brincam. E ótimo..) ALICE (Para Aretusa. (Alice vai-se curvando para ela.) — No cinema é fingido.Você não quer um café. É muito melhor.) ALICE (Espantada. (Berta resmunga.Nojento nada.Café? ALICE — Então vamos até a cozinha. me ajude a levar o Professor para cima. sensuais e inocentes.) .. mas no cinema é outra coisa. Aretusa? ARETUSA — Na boca. Os dois sobem lentamente a escada. ALICE — A língua? Não é meio nojento? ARETUSA (Rindo. Aretusa? ARETUSA (Remota. esfregando os braços como se tivesse frio. como se fosse abraçá-la.

ARETUSA (Divertida. Se eu contar. assim. A cena se passa no presente.. . deixa eu te mostrar.) .) — Engraçado? Engraçado é o que vou te mostrar agora..Como se beija. Alice. ALICE .) — Gosto? Você quer saber se tem gosto? Ah. É engraçado. fumando e olhando para fora. gostou? ALICE (Confusa..) Feche os olhos. ARETUSA . Alice afasta-se.. você pintou de louro! CENA 12 ALICE e ARETUSA No quarto.) — Não sei. mas sem brusquidão. solta o corpo. ARETUSA (Aproximando-se. ARETUSA — Não seja boba.) — Não sei bem. (Alice aproxima-se. ora.Mas posso ter.Quer que eu te mostre? ALICE (Meio assustada. enquanto Aretusa acaricia os seios de Alice.) ALICE — Aretusa.. (Beijam-se longamente. isso. um dia.) Então. como você é inocente.Saber pra que? Você nem tem namorado.. ARETUSA (Rindo muito.) . você é louca! Você. Acho que não é direito. quer ver? (Levanta a saia. Vem cá. meio tonta. de costas para a platéia.) . Aretusa está na janela.Mostrar o que? ARETUSA (Muito perto. Uma santinha! ALICE . Alice. ninguém acredita. Aretusa abraça-a.Eu queria saber como é. ALICE (Indecisa. ora.

ARETUSA .) — Não diga bobagens. ARETUSA . ALICE — Que dia mais triste.) Vou me deitar um pouco. ALICE (Divertida. Pelo menos é assim que estou me sentindo agora. ARETUSA — Pois para mim domingo sempre é triste. ALICE (Impressionada. E aquela cena com Renato.Pensando bem.) . é tão estranho: ela não diz que Cristiano está vivo. Faz apenas alguns meses que o menino morreu. mas age como se estivesse.Você entendeu o que ele gritou naquela hora? . Você está falando como uma velha. a formiguinha laboriosa. ela se recupera. ALICE . ALICE . Acho que vai chover. ALICE . ARETUSA (De repente.) — Eu estou velha.Não sei. quem sabe. ARETUSA (Irônica.. como Bruno disse? ARETUSA (Suspirando. Não sei.O céu está ficando cheio de nuvens escuras. (Cansada.É que eu gosto de estar ocupada. fiquei abalada.Coitado dele. não é? O tempo é remédio para tudo. Depois. Deixei ela quase dormindo. (Intrigada. Fico meio ansiosa quando não tem nada para fazer. para mim também. Alice. Nem parece domingo. ALICE — Pode ser.) Sabe.O quê? ARETUSA — Nada. Acho que tomei vinho demais na hora do almoço. Vinho me dá um sono. mas disfarçando.Ou quase tudo. Aretusa.) — Alice.. ALICE . Você acha que ela está melhorando. ARETUSA (Ambígua.) — Estive com Evelyn há pouco. Até tenho medo de começar a escutar o menino correndo por aí.) . O tempo.

Ele chamou Deus. ARETUSA . Acho estranho.) — Não. CENA 13 PROFESSOR. . Por causa do velho. não devia? Mas não lembro. E nós não vimos nada. mas tive a impressão que ele chamou nossa mãe. Na janela. uma coisa assim.) — Mas o que foi que ele gritou? Pode parecer esquisito. estão o Professor e o Padre. fora isso não lembro nada daquele tempo. Seu irmão é cheio de complexos.Ele quem? ALICE . porque já tinha uns cinco ou seis anos. é esquisito.) — Deus? Por que Renato se lembraria de chamar logo por Ele? ARETUSA (Vaga. Aliás. não sei de nada.) . tanta coisa. Eu lembro que levaram nós três para a casa de um vizinho. Tem bebido muito.Renato. (Noutro tom.) Você sabia da história do enterro da sua mãe? ALICE — Não.) — Ah. Escondido. Renato observa tudo.Renato viu. Fugiu da casa do vizinho. aliás. ARETUSA — Ele bebeu demais. Ouvi muito bem. de problemas. PADRE e RENA TO MENINO Nas últimas falas da cena anterior acendeu-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória Ao lado de um caixão de defunto. Você sabe melhor do que eu. Ele gritou: ―Deus!‖ ALICE (Intrigada. ALICE (Insistente. Você acha que ele chamou nossa mãe? ARETUSA (Segura. ficou escondido e viu tudo.ARETUSA (Distraída. Devia lembrar. sei lá.

PROFESSOR ...Mas Professor.O senhor não tem dever de nada .) . (O Padre queria insistir mais.) Deus.Preciso encomendar a Deus a alma desta nossa irmã. PADRE .) .. Deus nunca entrou dentro desta casa! (Cobre o rosto com as mãos.) . PROFESSOR (Sarcástico. só isso. Saia já. PROFESSOR . que só .A fé é problema de cada um. PADRE (Aponta o caixão.Ela está morta. O Professor fala sozinho..Mas a sua esposa. o senhor disse alma? Encomendar a Deus? Deus? (Ri. PADRE (Brando. Não aqui. não precisa chamar nenhum padre. PADRE .) — Nessa hora. mas severo. PROFESSOR. A luz diminui sobre ele enquanto incide. Ele chora baixinho. eu tenho o dever de. PROFESSOR (Cortando. O Professor faz um gesto ameaçador e ele sai. Eu é que tenho o dever de expu1sá-lo daqui . O nosso lugar é perto dos que sofrem. No fundo de seu coração. Deus nunca teve nada a ver comigo.) Não acredito nessa fantasia.. E o senhor. para si mesmo.No fundo de meu coração não existe fé nenhuma. PROFESSOR O seu lugar é junto dos que acredita na religião.) Alma. por favor. PADRE (Paciente. saia daqui. Professor.. Acabou.O que é que o senhor está fazendo aqui? Não mandei chamar padre nenhum. mais forte sobre Renato escondido.) serve para consolar os fracos. A gargalhada infantil corta a cena enquanto a luz acende sobre a próxima.

Tão inseguro. Pois agora está ficando lindo.) E Renato. tudo. ALICE — Sabe. ALICE — Mas que tanto ela guarda lá dentro? ARETUSA — Ah.) Olha só as minhas mãos como estão ásperas de tanto lidar na terra. ALICE . (Suspirando. sei lá.A gente tem que se manter ocupada. vejo outras pessoas. acho que enlouqueceria. lembro sim.) — A sua mãe? Lembro. ARETUSA — E não perdeu a mania. Plantei umas roseiras. lembra dele? Era tão sem graça. (Mostra as mãos. ARETUSA — Mamãe? Coitada. Evelyn mantém os olhos fixos e o boneco nos braços. Carregava sempre um saco abarrotado de coisas. ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn. umas margaridas. Ela não joga fora nada. de tanto fazer força. Lembra dela. Alice e Aretusa procuram distraí-la. Já está com um ombro mais baixo que o outro. Renato é aquilo que vocês sabem.CENA 14 ALICE. ALICE — Ela era cheia de manias. (Rindo. está tão velha. andei reformando aquele jardinzinho na frente de casa. Vai tudo para dentro daquele saco. Acho até bom dar aulas. E completamente caduca. Evelyn? EVELYN (Embalando o Palhaço. Pelo menos assim saio um pouco. bem.) Sem falar na cozinha. . ARETUSA — Se eu ficasse o dia todo em casa. Aretusa.

) — Posso te ensinar como se faz. Talvez essa cena possa ser feita também junto ao tronco decepado da árvore.) — Aretusa. EVELYN . A parte. Renato observa disfarçadamente. na cena anterior.Mas o que é isso. Hes. Já tenho alguma prática. EVELYN (Distraída. plantar algumas flores. Jardim das Hespérides. As três estão sentadas. Você planta num dia e no dia seguinte já tem um verdinho brotando. para Evelyn. um ioiô ou um carrinho.. Depois ver as plantinhas crescerem. Quando arrancarem o toco. brincando.ARETUSA . você lembra do Jardim das Hespérides? ARETUSA . ARETUSA (Sonhadora. ALICE — É tão bom mexer na terra.Adoro jardins. enquanto finge estar absorvido com outro brinquedo — por exemplo... Como é mesmo? . EVELYN e RENATO MENINOS Enquanto elas falam. ARETUSA . acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/ Memória. ALICE (De repente.) Quando arrancarem aquele toco de álamo no pátio.Você vai gostar. ALICE — Das Hespérides. Tem umas que crescem tão depressa..Jardim de que? CENA 15 ALICE. Jardim é uma coisa tão linda. você bem que podia fazer uns canteiros. ARETUSA.) — Está bem.A vida brotando. ALICE (Animada.) . (Para Evelyn.

essa era outra. princesas. EVELYN — E que árvore era essa? Árvore do Paraíso? ARETUSA (Maliciosa.) — Então tá.) EVELYN (Impaciente.) — Hes-pé-ri-des. . Assim que nem maçã. Evelyn sem entender muito bem.E uma fruta. ficar o dia inteiro cuidando duma árvore. laranja. E uma delas tinha o seu nome. ALICE (Meio irritada. No colégio todo mundo me chama de Aretusa-Medusa..Deus me livre! Eu tenho horror desse nome. Era muito má.) — Não. EVELYN — Medusa não era aquela que tinha cabelo de cobrinha e matava as pessoas só de olhar para elas? ALICE (Exibida. Vamos brincar logo. Eram umas bruxas. Ah: tinha também um dragão de cem cabeças. Aretusa. cantavam. aquela da cobra. Mais ou menos isso. era a Árvore do Pecado. unindo as cabeças.Nada. ARETUSA (Querendo mudar de assunto. ARETUSA . Só diz que elas cuidavam dum jardim onde tinha uma árvore com pomos de ouro. Ela olhava as pessoas e daí as pessoas se transformavam em pedra. não sei bem. EVELYN — Mas então devia ser muito chato. No livro não explica direito. ARETUSA .De dançar eu gosto. Ainda mais com um dragão do lado.ALICE (Paciente e um pouco exibida.) — Ela não matava as pessoas.) — Bom. Vai ver. cuidavam do jardim com a árvore.. (As três dão risadinhas e cochicham. Imagine.) – Mas o que mais essas Hespérides aí faziam? ALICE . Decerto bordavam também. ARETUSA . fadas.Como? O que é isso? ALICE . Alice e Aretusa muito cúmplices. acho que elas não faziam só isso. dançavam.

) .) . Esta brincadeira é só de meninas.Eu? EVELYN (Agressiva.Então está bem.Um guarda do castelo? Um pomo de ouro? ARETUSA (Rindo. ARETUSA . Juro. E o álamo pode ser a árvore dos pomos de ouro.) .) — Não. ALICE — Mas por quê. O que eu não quero é me chamar Aretusa. Você tem que ser Aretusa.Eu quero brincar também.Por esta luz que me alumia.Você o quê? RENATO .) .Você jura que não chama? EVELYN (Beijando os dedos em cruz. Senão me chamam de Aretusa-Medusa. O dragão de cem cabeças.Não pode.) CENA 16 ALICE e ARETUSA . O que é que eu sou? ALICE . RENATO (Aproximando-se.) . Aretusa? Você não gostou da história? ARETUSA — Da história.Mas eu acho que não quero brincar disso.) — Deixa ele brincar. ARETUSA (Para Evelyn. gostei.ARETUSA . Eu sei o que ele pode ser. ARETUSA (Maliciosa. (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor. RENATO (Animado. ALICE — Ninguém chama.

ALICE (De repente.) — Aretusa.. por que é que você ainda usa esse penteado? Envelhece uns dez anos. um pouco nervosa.No quarto.. Só pode ter sido ela. se quer parecer mais velha ainda. ARETUSA (Dando de ombros. almoçando.) — Claro. Você ainda não tem cinqüenta anos e já vai começar a caducar? (Ambas já estão completamente vestidas. As duas estão se preparando para o jantar.. ALICE — Acho que estou pronta.Pareciam uns.) ALICE (Misteriosa. não vai se vestir? ARETUSA — Calma.Não ouvi nada. ARETUSA . calma. uns passos. O resto da família estava lá em baixo. ALICE .) Estou pronta.) Alice. de combinação. o problema é seu. já vou. Alice? (Não parece impressionada e começa a vestir-se. cuidado.Que passos. sabia? ALICE (Dando de ombros.) — Cuidado. (Crítica. Alice. Alice já está vestida e arruma os cabelos. ARETUSA — Bem.) — E o que tem isso? Eu não me importo. leves. E você. Pareciam passos de criança. ARETUSA (Implicante. rápidos.. Só pode ter sido Evelyn.) — Deve ter sido sua irmã.. fuma preguiçosamente. você não ouviu alguém correndo aqui em cima. mas Aretusa. Alice ri. logo depois que Renato deu aquele grito? ARETUSA .. . em tom misterioso. ALICE (Disfarçando a perturbação.) — Uns passinhos.

passando-se os pratos em silêncio e. tudo bem.) CENA 17 TODOS PRESENTES No final da cena anterior. ao menos vamos comer em paz. Berta ajuda o Professor a sentar-se.) .) — Não se meta. você não pode parar com isso? Já tem tanto problema aqui. Pena que é por tão pouco tempo. Amanhã a gente vai.Tudo bem. ARETUSA (Irônica.) — Tudo bem. vamos descer? (‗A risadinha gravada finaliza a cena. Claro. em pé Tudo é lento. Alice. ALICE (Irritada. a princípio. . Enquanto Alice e Aretusa descem.Então. imitando. Mas se não fosse eu. quando vamos? RENATO (Distraído. RENATO (Imperturbável.) — Que bom que estamos todos juntos. não sei..) — Acho que amanhã também.) — E nós. queria só ver se ficava tudo bem. Para você está sempre tudo bem.) — Aretusa.) . ARETUSA (Agressiva. Bruno. Berta coloca-se à parte. ALICE (Sorridente. Amanhã de manhã já tenho que voltar. não é você quem se mexe. Evelyn tem o Palhaço no colo. Talvez meio ritualístico. em paz. ARETUSA (Para Renato. Renato e Evelyn também sentam.Como não sabe? Eu tenho que dar aula amanhã à tarde. a luz acendeu-se sobre a sala de jantar. ARETUSA (Irritada. mas com certa delicadeza. Comem devagar..

Quantas vezes você o visitou nesses anos todos. parando de comer. Você tem a obsessão de julgar os outros. desde . Faz tudo por eles. apenas porque tem medo da solidão.) O que? Você está contra mim? Mas Renato. banca a escrava deles. E seu pai aqui. ARETUSA (Lenta e cruel. acho bom você não se intrometer.) Sua irmã meio louca de dor e você por pouco nem vinha. esquecendo a aparência. não venha se fazer de santa. Alice. apodrecendo! Onde foi que você andou esse tempo todo.) — Ora.ALICE (Agressiva. hein? (Cada vez mais alto. Ele conhece a família que tem.) .) — Alice. A galinha choca dos filhos... ALICE (Chocada. Nem o seu marido e os seus filhos você ama de verdade.) .) Isso mesmo: feliz..Nem ama ninguém. ALICE (Indignada.) — Você não desconfia que sempre estraga os encontros da família? Não desconfia que está destruindo a vida de meu irmão? RENATO (De repente.Você não sabe o que está falando. eu estou tentando defender você! ARETUSA (Cortante. esfolando as mãos. que tenho dedicado aos outros a minha vida toda. não tinha vontade de vir.) Você não ama ninguém. já notou? ALICE . Pegava mal você se desinteressar completamente.Eu não julgo ninguém.. (Desafiadora. Nunca amou.) — Eu? Logo eu. Apenas aceitou porque pegava mal. Alice. ALICE (Espantada. Como pode falar assim diante de papai? ARETUSA . ARETUSA (Debochada.Seu pai conhece você há muito tempo. Você. levantando cedo todos os dias — e apesar de tudo me sentindo feliz com essa vida. Senti na sua voz. sempre cheirando a fritura. não venha. Alice. (Mais alto.) Não queira ser a palmatória do mundo.

quinze noites. esqueceu? Quando a gente ficava sozinha? A santinha esqueceu. Pois eu fiquei cinco. decente? Decente. quantas vezes ficou à noite com ele. não deixa aquilo. (Lenta e cruel. é melhor do que eu? Você uma vez me disse que destrói as coisas ao seu redor. como se fosse chorar.. Tem inveja porque levo uma vida decente.. antigamente. dez.) Você acabou também com aquela menina.) — E você. Alice. Corália. ARETUSA (Irônica.) . ALICE (Levantando-se e derrubando a cadeira. logo você? Como é hipócrita! Já esqueceu o que você fazia comigo no quarto.. E não foi só isso. Agora quer outra vítima. quem é você? Pensa que só porque teve outra educação.. que se transformou numa morta-viva por sua culpa. hein? ALICE — Fiquei.. Inveja. Você estragou a vida de Renato. com essa história de que só faço que ele quer. Que ridículo! ALICE — Você tem inveja de mim. a patetinha.. Alice? A doméstica. Ah. como gostava! . Ele só come a comida que eu mesma faço. é isso. ARETUSA (Vulgar... Você não tem direito! ALICE (Fora de si. porque é independente e trabalha fora.) O maridinho não quer isso. sim. Enganou a todos. Mas recompõe-se.) — Não diga esse nome. até o marido. Até perdi a conta. mas bem que gostava. Fiquei duas noites inteiras. (Imitando.. Aretusa? Não basta Corália? ARETUSA (Gritando.que se casou? E quando Cristiano estava no hospital.) — Digo e repito quantas vezes eu quiser: Corália! Corália! ARETUSA (Cobre o rosto com as mãos.Pare de me acusar! Afinal.) — Duas noites? Duas noites inteiras? Mas que sacrificada. e é verdade..) — Você.

parada. Sei a história de Matias. começa a chorar.Cale-se! ARETUSA . (Evelyn recua.Pare com isso.É a história mais ridícula do mundo. Está vendo. Bruno a abraça protetoramente. Não foi por mal. Evelyn. Convença-se: ele está morto. Alice. a boazinha. (Evelyn encolhe-se.Evelyn. atemorizada. EVELYN (Afastando Bruno. a dona-de-casa . Todos olham para Alice que.) EVELYN . Alice. quer saber de uma coisa? Estou farta do seu teatro. porque não éramos mais crianças! (Aretusa levanta-se e sai de repente. você não está segura. você mesma me contou. Evelyn aperta-o mais nos braços.) Acha que é a única mulher do mundo a perder um filho? Cristiano está morto. Sei de tudo. agora tudo acabou.Alice.) EVELYN (Passando a mão no braço de Alice. Vocês não sabiam. Você pensava que estaria segura na sua vidinha confortável enquanto os outro iam se desgraçando? Não. Ninguém está.ALICE . um por um. é uma ordinária. assustada. tenha cuidado com o que fala.) BRUNO .Sei a história de Matias. (Olhando em volta.) .) — Não chore. Alice.) — Tirem ela daqui! Ela está louca! (Ninguém se move. ALICE (Afastando brusca a mão de Evelyn) .) — Acabou.) Mas o que é que todos somos? (Lentamente. sim. (Aponta para o Palhaço.. Alice? Até o nome dele guardei. ALICE (Gritando. ALICE . como se fosse tomá-lo. mas eu sabia. Evelyn! EVELYN (Para os outros.) E esse boneco nojento não vai substituí-lo. Alice.O que a gente fazia. hein? Não vá me dizer agora que era brincadeirinha de criança. Pensa que Aretusa já revelou tudo? Ela é louca..) Sei de tudo.

Ela tem um amante! Isso mesmo: um amante.) -Mas o mais engraçado vocês ainda não sabem.) RENATO (Levanta-se inibido. como era doce com ele. Mas contém-se. essa traição. o que sente. Apanha . mas foge de casa e vai trepar com outro homem! BRUNO (Tentando abraçá-la.) — Você teve mesmo um amante. Alice? Você rolou com ele em leitos escusos. Matias. fique calma. esse amante. Uma vergonha! (Gritando. Renato bate ritmada e irritantemente com a faca no copo. Matias só existe na cabeça dela.) . sim.se e ajuda-o nas escadas. onde há um caixão de defunto e.) — Berta. está na hora de subir. Bruno sai atrás chamando.Evelyn. é verdade. Alice? Ou foi tudo invenção da sua cabeça? Faz diferença saber? (Levanta-se. Saem. E invenção dela.) Cadela! (Sai correndo. depois senta-se. foi inventado. Alice.honesta.. e por um momento é como se fosse fazer um gesto em direção à Alice.. essa sujeira. em lençóis alheios? Ah. Tudo isso. Aretusa Menina. ALICE (Em voz baixa. Um amante que se chama Matias. Você teve um amante. O que faz com ele. (Levanta-se e joga o Palhaço na cara de Alice..) RENATO — Evelyn está doente. Boa-noite. EVELYN (Desvencilhando-se.) — Eu vou dar uma volta. Pensam que não é possível. Ela tem que se tratar. Vocês nem adivinham. parados nos quatro cantos do palco.) Ela tem um amante. mas é possível. O Professor continua a comer como se nada tivesse acontecido.. (Berta aproxima. Acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. (Sai. Matias. Alice Menina. Evelyn Menina e Renato Menino. PROFESSOR (Batendo a bengala. a cada momento. Finge de santa. Alice hesita por uns momentos.) Sozinha na sala. Berta parada. ela me contou. por favor.

mas acabei sendo Alice.) CENA 18 ALICE MENINA. a coitada.o Palhaço e senta-o no centro da mesa. ARETUSA — Como feras. E na hora do perigo correm cada um para o seu lado. mas não deu certo. como se ocultasse no fundo coisas muito mais terríveis. Feras encurraladas nesta sala. ALICE — Eu tinha outros planos para minha vida. mas logo são capazes de se dilacerar por um naco de carne. Uma gargalhada infantil corta a cena. o que eu fiz com a minha vida? O quê? . sem olhar para trás. Somos bichos de focinho sujo. no centro da mesa. RENATO — Fomos uma ninhada de cachorrinhos que brincam juntos. num terreno baldio. fui para um proprietário menos exigente. Sai. E a minha vida. EVELYN MENINA e RENATO MENINO A luz mantém-se ainda sobre o Palhaço. sem se importar se o outro conseguiu escapar. animais. escorraçadas. Troquei de dono quando me casei. enquanto eles falam. na moldura do espelho rachado que aceita essas imagens tão placidamente. a de mãos ásperas e coração agoniado. EVELYN — Crias sem mãe. E falam sem as características das suas personagens: são como fantasmas. Berta tentou nos acolher no seu avental fedorento. Umas crianças solitárias. menos violento — mas meu dono. ARETUSA MENINA. esquisitas.

com cara de sono. Tudo bem. RENATO . (Uma pausa. feliz por voltar para casa? ALICE (Tranqüila. para Alice. (Berta apanha uma bandeja com café e sai.) — Pelo contrário.) .Feliz. Chove muito.CENA 19 ALICE. Há uma toalha limpa sobre a mesa onde estão Alice. BERTA. Passa a mão no cabelo de Renato. de robe. Aretusa. tudo bem. Todos sorriem e tomam seu café. afetuosa. Aretusa desce a escada. ARETUSA.) Sabe.) — Você não ficou dolorido? Duas noites seguidas naquele sofá acabam com as costas de qualquer um. numa hora em que meu marido estiver de bom-humor. A chuva forte dá vontade de dormir.Não. está ótima. RENATO. (Noutro tom. ALICE (Para Renato.) Você me alcança o açúcar? Alice alcança.) . Ela não vai descer.) — Então. que sorri sem levantar o rosto.) — Berta. Alice olha devagar em volta. Renato e Bruno. vou pedir para colocarmos um .Evelyn não está bem? BRUNO (Sorridente. pode levar a bandeja para Evelyn. MARIDO e FILHO Na sala. tomando café. Alice. BRUNO. Manhã de segunda feira. BRUNO (Para Berta. Todos estão calmos e compostos. ARETUSA (Acendendo um cigarro. Ela dormiu melhor essa noite. Berta está parada atrás.) ALICE (Para Bruno. Só precisa de repouso agora.

google. A luz apaga lentamente. São como quadros vivos.) -.) http://groups.com/group/digitalsource http://groups. o Professor no quarto. O Marido e o Filho estão à mesa.google.Corália na cadeira de rodas. Nos outros planos. Passa o leite? Alice estende-lhe o bule de leite. O que é que você acha? ARETUSA (Sorridente. Em outro plano. As duas se olham longamente. em resistência. exatamente como na primeira cena do primeiro ato. calor de 40º. tornando café. etc. Berta recortando revistas. Ou fantasmas do passado que continuam a habitar a casa. se acariciando.com/group/Viciados_em_Livros . acende-se a luz sobre a sala da casa de Alice. Evelyn embalando o Palhaço. (Em fevereiro de 1984. Alice e Aretusa adolescentes.talvez com a gargalhada infantil. Renato Menino preparando a arma. num soco . Dizem que dá impressão de mais espaço.espelho grande na sala lá de casa. Ninguém diz nada. Porto Alegre. Ou de brusco. acendem-se luzes e sobre algumas das cenas já’ vistas .

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