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Teatro Completo

Governador do Estado
Antonio Britto

Secretário da Cultura
Carlos Jorge Appel

Diretora do Instituto Estadual do Livro
Tania Franco Carvalhal

Conselho Editorial do IEL
Donaldo Schüler, Henry Saatkamp, La Masina, Luiz Antonio de Assis Brasil, Rita T. Schmidt, Sergio da Costa Franco, Sergio Faraco, Tania Franco Carvalhal (presidente, Secretária: Agata Pamplona

DEDALUS - Acervo - FFLCH-LE 21300123222

Outras obras do autor pela Editora Sulina Ovelhas Negras (1995) Inventário do Ir-remediável (1995) Pequenas Epifanias (1996)

Caio Fernando Abreu

Teatro Completo
Organização e prefácio: Luiz Arthur Nunes

Editora Sulina
Porto Alegre

1997

© 1997 by Abreu, Caio Fernando Capa: concepção e produção de Paria Comunicação Projeto gráfico: Bentancur Artes Gráficas Assessoramento de edição e revisão: Paulo Bentancur e Raimundo Fonteneie Editor: Luis Gomes CIP - BRASIL CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Bibliotecária responsável: Rosemarie Bianchessi dos Santos — CRB 10/797

C719a Abreu, Caio Fernando Teatro Completo / Abreu, Caio Fernando Porto Alegre : Sulina / IEL — Instituto Estadual do Livro, 1997. 224 p. : ±1. ISBN 85 205 0132—x CDU 070

Índices alfabéticos para catálogo sistemático 1. Teatro completo. Título Todosos direitos desta edição reservados a,,, ORGANIZAÇAO SULINA DE REPRESENTAÇOES S. A. Editora Sulina Rua Riachuelo, 1218 — 2° andar — 90010-273 Fone: (051) 228-1249 Fax: (051) 228-0734 E-mail: sulina@sulina.com.br Home Page: http://www.sulina.com.br Distribuidora Sulina Rua Cel. Genuíno, 290 — 90010-350 Fones: (051) 226-3866 — 226-3786 Fax: (051) 228-9146 Porto Alegre — RS

IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

ÍNDICE PREFÁCIO .................................................................. .7 PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA ............. 11 A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS ................................. 41 ZONA CONTAMINADA ............................................... 61 O HOMEM E A MANCHA ........................................... 95 CENAS AVULSAS ........................................................ 129 DIÁLOGO 1 ................................................................ 131 DIÁLOGO 2 ................................................................ 133 DIÁLOGO 3 ................................................................ 133 DIÁLOGO 4(0 Aborto) ................................................ 134 DIÁLOGO 5 ............................................................... 135 SARAUDAS9ÀS11 ....................................................... 137 1° QUADRO (Overture) .............................................. 139 2° QUADRO (Como Era Verde o Meu Vale) ................ 142 3° QUADRO (Bonecos Chineses) ................................ 144 4° QUADRO (Eles) ...................................................... 151 A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO .................................. 153 REUNIÃO DE FAMÍLIA ................................................ 181

assim como também não concluiu o curso de Letras. que se iniciava — assim como ele na literatura — na descoberta apaixonada de uma forma de expressão. fazendo o papel de um vovó com uma barba branca de algodão. preferia passar pelas coisas como num vôo. épica: contos. No entanto. foi mais do que um espectador aficionado: tornou-se um homem de teatro. conhecia todo mundo da classe teatral. o palco que ele tanto amava. mas nem por isso menos alto e profundo. Naquela época. Caio também cultivou a literatura dramática. Caio era dos que estavam sempre junto.PREFÁCIO Caio Fernando Abreu é reconhecido como um dos ficcionistas mais brilhantes da literatura brasileira contemporânea. porém. Não me refiro aqui às várias adaptações feitas para a cena a partir de suas histórias. via tudo. cursávamos o CAD. Caio sempre adorou teatro. Aliás. porém. Não demorou muito e Caio tornou-se nosso colega. num mergulho sem método. mas sim às peças de teatro. Não de imediato. as que ele compôs diretamente para o palco. Avesso à rigidez de programas.. é interessante a significação que teve o teatro infantil para este solteirão empedernido que detestava crianças (a quem costumava . nas salas de ensaio.. mas não menos importante. Lembro-me dele numa peça infantil da escola. Poucos sabem. a sua geração. o Curso de Arte Dramática da Faculdade de Filosofia da UFRGS. teatro. Nos fins da década de 60 era apenas o amigo querido da nova geração de atores e diretores de Porto Alegre. que a ficção que escreveu não foi apenas narrativa. prazos e currículos. nas salas de espetáculo. nas mesas de bar onde o assunto era teatro. teatro. novelas e romances. O significado e a repercussão da parte conhecida de sua obra eclipsou essa segunda vertente. Não concluiria o curso. menor.

no apartamento de Caio na Haddock Lobo em São Paulo.. principalmente quando sua algazarra atrapalhava seus preciosos momentos de criação). realização do Grupo de Teatro Província. voltara a morar em Porto Alegre. e Caio fazia justamente o papel do. Então fomos parceiros não só ―nas tábuas‖. uma deliciosa e tocante performance de comicidade e lirismo. E muito café e os milhares de cigarros que ele fumava. junto de Suzana Saldanha. ele foi autor de verdade de um texto para ―crionças‖. O último deles. Fabricar uma obra de arte a dois é em princípio algo dificílimo. Como vêem. Tinha sido fácil nos esquetes do Sarau e continuou sendo na segunda versão da Maldição. foi feita novamente em colaboração. Caio foi autor. fiquei sabendo. Mas não para nós.. Essa leitura ficou-me na memória como uma. e com enorme sucesso.. como também ―de pena‖. Ele excursionou vários meses pelo Rio Grande do Sul atuando na montagem do Serafimfim-fim de Carlos Meceni. redigíamos juntos: a frase que um inventava puxava a frase do outro. estreada em Porto Alegre sob a direção de Suzana Saldanha. repetiu publicamente em duas ocasiões. para quem a escrevera de encomenda. Caio e eu pisamos juntos o mesmo palco em 1976. A Comunidade do Arco-Iris. Algum tempo depois. E bom ator. durante os feriados de carnaval. A última vez que comprovei esse fato foi quando da leitura que ele fez de sua peça recém-concluída: O Homem e a Mancha. embora bissexto.chamar de ―crionças‖. e nós os escrevemos a quatro mãos. foi retomado e ampliado dez anos depois para ser montado como um espetáculo completo. na casa do ator Carlos Moreno. Via de regra. quando. no espetáculo Sarau das 9 às 11. Mas podia acontecer . O Sarau era uma peça de esquetes. A peça era uma recriação do Chapeuzinho Vermelho. Performance que. A Maldição do Vale Negro. Nara Keiserman e José de Abreu. Essa recriação. Foram quatro dias de gargalhadas. latinhas de cerveja e pizzas por telefone.. autor da história recontada. uma encomenda do Teatro Vivo de Irene Brietzke. conheceu o palco por dentro. dirigida por mim. já doente.

montagem de 81. O Aborto. acabou fundindo-se à peça de minha autoria. que ele o dedicou a mim na abertura de seu livro de contos Morangos Mofados. o Diálogo do Companheiro. Love. não fôssemos nós dramaturgos siameses. que ele fez do romance Reunião de Família. e a admirável adaptação para a cena. Uma outra vez em que brincamos de teatro foi quando precisei de textos para um novo espetáculo de esquetes: deColagem. Love. Love.também de um escrever uma cena e do outro retocá-la. Interferíamos reciprocamente em nossas invenções sem nenhum constrangimento. Caio produziu cinco diálogos curtos. Seguramente logo após os anos que ele viveu em Londres. Tamanha a minha ―obsessão‖ por esse texto. montada pela primeira vez no Rio de Janeiro por Gilberto Gavronski. A de Porto Alegre. Só sei que a obra foi premiada num concurso do então SNT (Serviço Nacional de Teatro) e selecionada para leituras públicas em todo o Brasil. nos inícios dos 70. experiência que aparece transfigurada na peça. dividimos o Prêmio Moliére de melhor autor de 1988. de Lya Luft. eu refiz repetidas vezes e de variadas formas em outros espetáculoscolagem. A primeira investida independente de Caio na dramaturgia foi com Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. uma pequena obra-prima. foi dirigida por mim e musicada pelo também saudoso Carlinhos Hartlieb. Pouco tempo depois. Todos esses diálogos de uma página ou menos. ―Fundiu-se‖ é a palavra. Que sintonia era essa? Era como brincar juntos. As obras teatrais de Caio Abreu s quais o meu nome não esteve de nenhuma forma associado (fora o caso de seus contos e novelas teatralizados) são a já citada Comunidade do Arco-Iris. a Censura Federal a interditou em todo o território nacional. Uma outra dessas cenas avulsas. Zona Contaminada. Não saberia precisar a data em que foi escrita. Graças à montagem carioca de A Maldição do Vale Negro. O primeiro deles. 1977. que Luciano Alabarse teve o privilégio . no Teatro de Arena. serviram-me também de excelente material de exercício em minhas aulas de teatro.

o Garoto Bombril não quis realizá-la. o contar vira representar. Afinal. e ela terminou nas minhas mãos e nas do ator Marcos Breda. Certamente ele não vai perder.de encenar em Porto Alegre. Por impedimentos normais. No momento em que ponho ponto final neste prefácio. outro amigo seu do coração. Será no Theatro São Pedro. 14 de novembro de 1996. a narrativa vira cena. Esse trabalho é a melhor comprovação de que Caio foi dramaturgo de fato e não um narrador por diletantismo pondo em diálogo suas histórias. Minha analista com certeza detectará algum ciúme meu vendo Caio fazer teatro com ―outros‖. Sua última peça. Curiosamente. na maior parte da sua produção teatral eu estive presente. A parceria interrompida por um tempo já foi retomada. Não faz um ano que Caio nos deixou. O Homem e a Mancha. Não há motivo para ciúmes. mesmo inconfessados. Porto Alegre. Na operação por que passou em suas mãos o livro de Lya Luft. Ele sabia e dominava a diferença de gêneros. Quando a recebemos de um Caio já debilitado. coisas da vida. Luiz Arthur Nunes . estamos a uma semana da estréia de O Homem e a Mancha. não assisti nenhuma dessas montagens. ele nos disse: ―Façam logo para dar tempo de eu assistir‖. o épico vira dramático.

PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA Peça em 1 Ato Prêmio Serviço Nacional do Teatro Texto selecionado para leitura .

espelhos quebrados. Na verdade. Entre 20/30 anos. enfim. lixo. . parece mais um quarto de despejo. CENÁRIO Sala de uma casa abandonada.PERSONAGENS JOÃO • LEO • BABY • MONA (CARLINHA BAIXO-ASTRAL) • ROSINHA • ALICE COOPER • ANGEL São todos muito jovens. guarda-roupas. e até mesmo objetos absurdos que ficam ao gosto do diretor. cadeiras rasgadas. atulhado de objetos fora de uso: colchões furados.

cara? Que barulho é esse? Tem alguém aí? JOÃO — Não.) Merda! LEO — Que foi. por exemplo. irmãos. (Tira uma vela do bolso. (Esbarra num móvel. Ei.CENA 1 Quando a ação começa. Acende e deposita em cima de um móvel...) — Mania de falar inglês.. A lanterna pertence a João. se tiver alguém morando a gente fica logo sabendo. Yeah! Everybody now: tinha uma porra no meio do caminho. cara. JOÃO — Cala boca.Anybody here? LEO (Baixo. BABY . a cena está completamente às escuras.. Tem uma porrada de coisas.Tinha uma porra no meio do caminho. BABY . A luz aumenta. Quando você está no mundo.Língua internacional.. LEO — João.) Aqui. onde é que você está? JOÃO — Aqui. No meio do caminho tinha uma porra. Só uma porra no meio do caminho. LEO — Fala baixo.. tem alguém aí? BABY . falando inglês as possibilidades de comunicação são muito maiores. A luz de uma lanterna vai revelando alguns objetos. Tão lentamente que chegue a ficar monótono e angustiante. JOÃO — Melhor. podemos colocar uma cortina de veludo cor de vinho. Com . Acho que podemos instalar aqui os nossos domínios. Pode ter gente aí. vem cá. Baby! BABY — Do fundo das trevas só o silêncio nos responde. meu santo.

muito vulgar. tenho que chamar as outras pessoas. Até nem tá muito estragado. Depois. cara.) — Olha. Ou papoulas. Fico preocupado com a Rosinha naquela chuva. LEO — E ainda por cima tem aquela chuva lá fora. I like so much. igual àquela que tinha na casa da tia Nenê. Assim poderemos fabricar nosso próprio ópio. Rosas. What you think about.franjas douradas. rosas não. A gente pode dar um jeito. vizinho. Sempre acontece alguma coisa. banheiro. Qualquer jeito não temos mesmo para onde ir. A gente ficar aqui. Estético. JOÃO (Acende outra vela e deposita sobre outro móvel. cozinha com fogão. my fellow? LEO . Acho sonoro. BABY — Basta chamar Mona e sua varinha de condão. Importadas diretamente dos Países Baixos. eu acho que gente pode ficar pelo menos até amanhecer. Tulipas da Antuérpia.. polícia. João — Falar nisso. Aqui no canto acho que ficará de extremo bom-gosto um aparador com tampo de mármore. o dono da casa. LEO — Por que dez pras sete e não vinte pras oito? BABY — Porque eu gosto. de manhã sempre acontece alguma coisa. Não. um monte de coisas. E claro que teremos sempre flores. As dez pras sete. é claro. JOÃO . BABY — Eu por mim fico aqui mesmo. Já viu lá em cima? Tem três quartos. Hmmmm.E também pode não acontecer nada.. essas coisas. Sei lá. Por mim fico morando aqui o resto da vida.Você acha que não vai ter problema? BABY — O que? Importar tulipas ou plantar papoulas? LEO — Não. igual àquele que tinha na casa da vó Manca. Que é que vocês acham? . Melhor tulipas. As coisas mais importantes da minha vida sempre aconteceram às dez pras sete.

Parece que nada mais vai ser bonito outra vez. Leo.. JOÃO — Deixa de ser besta. Pode ser que voltam daqui a pouco. JOÃO . Afinal. acende. parece que tudo vai terminar bem. coloca ao lado das outras duas e senta num canto. tão rebentado. Tudo tão velho. Fica com medo não. Amanhã a gente arruma umas vassouras e. eu vou lá fora chamar os outros. Leo rói as unhas e olha em volta lentamente. Você acha que alguém pode viver no meio deste lixo todo? BABY — Ué. cara se você der uma voltinha na cidade ou olhar pela janela vai ver que o depósito de lixo lá de fora é muito maior! . LEO — Não sei.. tão sujo. dá um jeito.LEO . tira uma vela do bolso. não é assim? Pelo menos a gente já tem onde dormir esta noite. Parece um depósito de lixo. e nós não vamos viver? JOÃO — Sim. Não vai acontecer nada.. as pessoas tenham saído. a gente chamou e ninguém se manifestou. LEO — Mas pode ser que. BABY — Olha.Eu não sei. Leo concorda em silêncio. mas é diferente. não é? Tudo está bem quando termina bem. No máximo.. Sabe. Não gosto nada disso..) CENA 2 Silêncio.Bem. sei lá. não. E se tiver alguém morando? BABY — Ué. Leo. Não tenha medo. (Sai. amanhã pinta a polícia e manda a gente embora. eu me sinto como se tivesse acabado.. sei lá. Baby começa a dedilhar o violão... volto já. um pouco assustado.

meu santo. Um vintém. como é que se diz isso em inglês? LEO . Talvez eu seja muito louco mas basta um canto e um teto . Eu sei de agora. quer saber duma coisa? E . Olha. Um canto e um papo furado. é melhor do que ficar naquela chuva.mesmo furado. Thing like that.. Não tem importância. aí você vai ver que não está tão mal assim.. LEO — Me diz uma coisa: você acredita nisso? Você tem certeza absoluta que acredita mesmo nisso? BABY . Baby. RRRaimundo.. Sem saber inglês você nunca vai subir na vida.. certeza eu não tenho mesmo de nada. If I Called Myself Raimundo.. Ninguém entende nada de nada e enquanto tudo cai eu canto por quase nada.Nisso o quê? LEO — Nisso que você acaba de cantar. Que sarro esta pronúncia. me entende? Agora basta um teto. um pobre cego mas com o olho bem aberto: uma canoa furada um barco sem fundo tudo é mundo e o céu é perto tudo é mundo e eu navego tudo é mundo e eu navego tudo é mundo. BABY — Pois devia. Assim. também. quer ver? Eu quero mesmo muito pouco eu quase não quero nada de tão pouco que eu quero. você acha que basta mesmo um papo furado. A gente dá o tal look-around e canta. um tostão faz de conta...Eu não entendo nada de inglês.Que música mais doida. Sei lá. De onde foi que você tirou esse negócio? BABY — Da minha cuca. Nem sequer de que estou realmente vivo. ué. vasto mundo e eu nem me chamo Raimundo. fria lá de fora....dar o tal de look-around -. Acabei de compor. Deixe ver. um teto furado? BABY — Olha. quero dizer. Amanhã não sei. Ladies and gentlemen. LEO ... my last song: Se Eu Me Chamasse Raimundo. Pode ser que..Quando a gente está se sentindo assim é só olhar em volta .. Ei.

/ Chegou Mona.) Pra espantar os maus fluídos. / Forças do Baixo-Astral / fora daqui. Rainha do Alto-Astral. uma vela acesa e duas varinhas de incenso na mão. Não tá com nada. Quando a gente aprofunda demais acaba caindo sabe onde? No inconsciente coletivo. depois entrega uma varinha para cada um.melhor não aprofundar muito. vê. Pensar acabou.. BABY — Imagine como você não era antes. não. Desde que parei de ler fiquei muito menos neurótica. / Más vibrações. Hare Rama / Hare Rama. go home! (Incensa um pouco a sala. só sentir. Já não falei pra você que intelectualismo não é comigo. Os arquétipos.. Nossa. Baby? Abaixo a razão e o pensamento! O negócio é só sentir. Hare Rama / Rama Rama. Já ouviu falar num cara chamado Jung? Mais ou menos isso. MONA — Hare krishna. Leo.O quê? BABY — In-cons-ci-en-te co-le-ti-vo. não. go home! / Más vibrações. CENA 3 Entra Mona. Não aprofunda não. Traz uma bolsa enorme. Hare Rama. não se usa mais. Vê.. sacou? Papo furado. inimiga do mal. Me dá um cigarro. você está com uma cara péssima! O que foi agora? Não está gostando do nosso novo lar? BABY — Não é nada. vê. O tal de inconsciente coletivo. distribuindo beijinhos. / Chegou Mona. LEO . meu irmão.. Hare krishna / Krishna Krishna... Pensar já era. MONA — Corta! Lá vem você de novo com esse papo xaropento. MONA — Sabe com eu era antes? Um monstrinho de óculos cheio de problemas gênero ―será que vale a pena viver? — ninguém me .

quanto dá? BABY — Dá treze. (Depositando a vela ao lado das outras. LEO . Ninguém me ama ou qualquer coisa do gênero. no seu olho que realmente vê.Quer dizer então que a sua bed-trip continua a mesma? Puxa. eu sei. Cinco mais oito. você sempre acha tudo um lixo. fim de um ciclo. Além disso.) Não tá mau. Mas Morte pode ter muitos sentidos. corta. renascimento.ama. Agora chega. Treze é morte mesmo. transmutação.. Baby. não quero nem saber. para fechar o triangulo. Deve ter um .. é a morte. não. Sou Mona. tudo fica mais bonito. LEO — Mágico? Nem que eu fosse o Merlin conseguiria achar bonita essa merda toda. tem também o cinqüenta e oito. LEO — Onde? Na lata de lixo? MONA . que papo é esse? MONA — É.. Se você souber olhar as coisas dum jeito mágico. Ah.) Mas deixa eu dar uma olhada no nosso novo lar.Ei. Na sua cuca. deixa ver. corta! (Acende mais uma varinha de incenso. dentro de você. sabe duma coisa que eu aprendi? O segredo do belo está aqui. ninguém me quer — o que vou fazer do meu futuro?‖ essas porcarias. Cinqüenta e oito? Cinqüenta e oito. renovação. me diz uma coisa: você olhou o número da casa? LEO — Eu olhei. sei lá.. O número sempre diz como vai ser toda a transação da coisa.. começo de outro.. Mas o que tem isso? MONA — Como o que tem isso? Esotericamente é um dado importantíssimo. a Rainha do Alto-Astral. MONA — Corta. oh. Olha. Não necessariamente morte física ou espiritual mas. Corta essa. (Dá umas voltas enquanto Baby dedilha no violão. É cinqüenta e oito.) Três. E se você está querendo saber qual é a carta do Tarot que tem o número treze. Já vi coisa pior.

. é? Deixa ver. Perigo por todas as partes. Não vale a pena ficar se grilando à toa.. BABY — Libra. mas deve ser qualquer coisa bodiante. E essa transação do inconsciente coletivo.) — Nada não. E por falar nisso. sim. Mas até onde não me enche a cuca de grilos idiotas.... meu Deus. BABY — Qual é Mona? Escondendo a jogada? (Tomando-lhe o livro. muito calmo para Gêmeos. Pois é. muito irônico para Libra. Ações repreensíveis.. consulta-o. a trans. mas não sei não. Gêmeos ou Sagitário? MONA . o centauro com os pés na terra.. Só pode ser Sagitário..O que foi? MONA (Tentando disfarçar.. quer dizer que é um dos quatro.) Aqui. BABY — Ué. Decepções n& projetos. quatro de espadas: ―Perigo eminente. Pode deixar que eu adivinho.‖ MONA — Chega.. não você não é tão inteligente assim. Escorpião.Ah... Claro. Talvez Gêmeos.. não diga.. O seu olho tem qualquer coisa de..) — ―Sofrimentos morais. . não tanto quanto um Escorpião... Cinqüenta e oito. Arrependimentos estéreis e acerbos‖.. a transmutação. Remorsos. de Sagitário. Você é sarcástico demais para ser Libra. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah. BABY .. melhor esquecer essas coisas.. qual é o seu signo? Não. muito doce para Escorpião. O que é acerbos? MONA — Não sei. você é que acredita nisso.significado positivo.. Mudanças desfav.. deve ser Sagitário. Deixa ver (Abre a bolsa e tira um livro enorme. (Observa Baby atentamente.) Essa transação de música pode ser. MONA — Acredito. pode ser Libra.) Ah. BABY (Continua lendo. Querendo voar junto ao o satã. esse fogo.

. a quem não for mágico. Meu ascendente é Touro. não pode ser.Tem certeza? MONA — Não. LEO . De vez em quando até solto umas fumacinhas pelo nariz. MONA — Mas é fogo. MONA . os seus poderes ocultos. fogo caindo dos céus — tudo de bodiento que você possa imaginar.Vai firme.O que é que você está rindo.BABY . MONA — O quê? Leão? Ah. não. meu Deus? MONA — Das inundações. maremotos.Não. Sou Leão. Tanto Leão como Sagitário são signos do fogo. Daqui a pouco vem o fim dos tempos e quem não for mágico não vai escapar. BABY — Pode ser. Tenho direito a uma pergunta? BABY . Vão acontecer coisas medonhas a quem não estiver desperto. é a primeira vez em toda a minha vida que erro.A-do-ro! MONA — Então é Sagitário mesmo! BABY . você não tem? BABY .Errou. O quanto antes. hein? Vocês precisam despertar o quanto antes o ser aquariano que dorme no fundo de vocês. claro. Afinal. ainda não. o quanto antes — eu sei o que digo. baixo-astral? Tomem muito cuidado vocês dois. terremotos. meus irmãos. sabia? Está na cara que você é fogo. MONA — Você gosta de vermelho? BABY . Foi por isso que eu me confundi um pouco.Mas escapar do quê. minha reputação está em jogo. Mas você deve pelo menos ter um ascendente em Sagitário.

Vai ser difícil: tenho Vênus na décima primeira casa astral. Nem de fogo. já abri as sete portas. Cada consulta dá direito a um brinde: uma bola de cristal inteiramente grátis.. LEO — Ei. presente e futuro.. sete moradas da minha mente e a minha Kundalini já subiu no mínimo até o quinto chakra. Sei porque sou um espírito muito velho. por apenas dez cruzeiros. Apocalipse é esse lixo todo aqui. Pode agredir. tive três encarnações no Tibet. LEO .) MONA — A Rosinha não está nada bem. eu sou. Eles foram comprar alguma coisa para comer. recolha-se s suas trevas sagitarianas.) Ser eu sou. BABY — Passado. Vinte com mais detalhes. Você está a fim de me irritar.O que é que tem a Rosinha? . MONA — Baby. meu irmão.) — Vade-retro. quando chegar o Apocalipse é que a gente vai ver. como é que você sabe que eu sou Peixes? BABY (E começando a empurrar alguns objetos... Papo furado. meu amor. Onde é que estão as pessoas? Alice. chutando. João. parece que a tua vibração não está harmonizando com a minha. 3 sacerdotisa oriental. Baixo-Astral. duas no Egito e uma em Atlantida — para falar só neste planeta. eu sou eu sou amor da cabeça aos pés. Para dizer a verdade. Por que é que você não corta esse papo furado e vem me dar uma força aqui? (Leo e Mona começam a ajudar. BABY — Apocalipse. não. Tudo com Madame Mona Yoiara.Mas você não tem cara de mágico. com essa cara você deve ser mesmo é Peixes: um bode só. Rosinha. (Canta. em Libra.) — Chutando. MONA (Incensando a cara de Baby. Estou em contato direto com forças paranormais.

Ela geme sempre. tudo historinha. Não tem mais essa de se sentir mal. (Arrumam alguns colchões como sofas. amparada por Baby e João. cara? Mulher é isso aí.) Olhem só que bom presságio: flores! LEO . ) MONA — Que é isso.Sou eu. desencarno de vez. (Baby sai para ajudar João. Você não gosta? . (Ajeita o vaso num canto. A Rosinha está passando mal. Olhe só em volta: já temos uma casa. Acho que estou pagando todo o meu Karma nesta encarnação. Se caprichar nesta. LEO — É a polícia.MONA — Gravidez. não é. deve estar cheia de más vibrações. Devem ser só as pessoas chegando. Pode desamarrar o bode. menina? Está tudo bem agora. Será que é fantasma? Essa casa é tão velha. MONA — Ai. é você? JOÃO (0ff) . BABY — Claro que você prefere a segunda hipótese.. na próxima vou para o espaço. Mutante da Era de Aquário. tenho certeza que é a polícia! BABY — Historinha. Baby. historinha. Me ajuda aqui. Um bode.) (Entra Rosinha.) Você acha que aqui fica bem? LEO — Silêncio! Vocês também ouviram? Tem alguém lá fora. Mona corre a acender mais ama varinha de incenso. meus guias do Oriente. Ou então venho homem. MONA — No escuro ninguém nota.De plástico. Você sabe muito bem que eu sou andrógina. MONA — Sem essa. Mona remexe no meio de algumas coisas e encontra um vaso com flores. Inconsciente coletivo outra vez.. João.

Na minha bolsa tenho batom. LEO — De plástico. Vamos fazer uma festa enquanto o dia não . (Começam a cobrir tudo com panos. (Vai retirando coisas de dentro de um baú). Tenho certeza que vou encontrar coisas ainda mais maravilhosas. Tem até flores. JOÃO — Alice foi batalhar pão. não consigo nem olhar para fora de mim. Puxa. Lá fora estava chovendo. Mona. fazia frio. Como é. JOÃO — Ficou bonito.exceto Baby.Você demorou tanto. sombra. Vamos transformar isso aqui num castelo. me ajuda a cobrir esses colchões. Me dá tua mão. Baby.Foi a Rosinha. Aqui está bom. Já vai passar. não apareceu ninguém? LEO . quentinho. sem dizer nada? Eu me renego a curtir bode. Já que a gente vai ficar aqui a noite toda e ninguém vai dormir... LEO . ROSINHA — João. não sei. tá sabendo? Me re-ne-go.) Olha. tive uma idéia maravilhosa. qual é a de vocês. Já está quase parecendo uma casa. Eu. também.Ainda não. MONA — Está maravilhoso. podemos fazer uma coisa ótimo uma festa à fantasia! O que é que vocês acham? (Ninguém parece muito entusiasmado . MONA — Ei. MONA — Baixo-astral. purpurina. hein? Vão ficar a noite toda com essas caras de velório. fica aqui comigo. Mas não tem nada. JOÃO . vejam só o que eu achei: um monte de roupas... Daqui a pouco eu fico boa... parece que tem coisas incríveis. Sinto uma dor horrível aqui. Nós até tentamos arrumar um pouco isso aqui. pessoal. BABY — Não apareceu nem vai aparecer. claro.) Meu Deus.ROSINHA — Ah.

Mona. Deste então você sabe que no seu interior está crescendo a única coisa capaz de salvar o mundo da loucura. deixa ver.) Você assaltava navios armados até os dentes.. matava aqueles fidalgos gordos cobertos de seda. jogando para fora toda essa luz.) Levante um pouco a cabeça. Um pouco de ruge.. do desamor. (Acende uma varinha de incenso e vai incensando Rosinha enquanto fala. Já pensou? O seu filho pode ser até o próprio Cristo da Era de Aquário? Você precisa corresponder à nobreza do seu futuro filho. das máquinas. (Começa a vesti-lo. da hipocrisia. João? Você distribuía todo o ouro roubado entre os pretos de uma aldeia na costa de Madagascar. uma vez o feiticeiro da tribo fez uma tatuagem no seu . você está muito pálida. Pode crer. roubava todo o ouro e depois .. MONA (Começando a vestir Rosinha.) — Tem sim. Ela adora visual. Rosinha tenta sorrir. o que é que você quer ser? JOÃO — Ser? Eu.. incendiava. MONA — Pois eu sei.. (Coloca um cesto de palha aos pés de Rosinha. Você.sabe o que você fazia. Isso aqui é o seu manto virginal.. encontrar todo mundo colorido.. Eles adoravam você. Pode ser loucura minha. Assim. eu não sei.. Agora você. da sujeira. Agora faça um ar de. (Afasta-se para olhar. quando Alice chegar.chega? Já pensou. da violência. Então nós todos estaremos salvos. Uma pirata bom.) Um ser todo feito de luz entrou no seu corpo e plantou essa semente em seu ventre. Batom. para bem longe. ROSINHA — Ah. numa boa. Olhe por cima de todo mundo. eu não tenho jeito pra essas coisas. mas sempre acho que você grávida assim parece a Virgem Maria.. violava todas as mulheres. do medo.. João.. de absoluta pureza. Um pirata. Você foi tocada por forças mágicas enquanto dormia. Sabe que é assim que eu vejo você? às vezes até penso que você deve mesmo ter sido um pirata numa outra encarnação.. senhora.. A cada dia você sente que chega mais perto o momento em que o seu ventre explodirá. menina. oferecendo o maior visual. todo esse amor.) Pronto: aqui está a manjedoura...

Eu sou Leo. . porque você não pode se mostrar como realmente é. de paz e amor. E você. Então você tem sempre a sensação que ninguém o conhece... MONA — Você é um príncipe. LEO . E assim ainda não aconteceu. Eu não quero ouvir estórias.) Você vive num castelo sobre a montanha mais alta e mais escarpada. Mas um príncipe solitário. Alguém lhe prometeu um reino certa vez. esse. Você só poderia ser morto no dia em que esse pedacinho do seu peito fosse atingido.) Um círculo mágico fechou todo o seu corpo. (Vai desenhando com batom no peito de João. BABY . você atravessou os séculos e continua sendo aquele mesmo pirata. Leo. um pirata um pouco perdido no meio das cidades.Eu quero ser um príncipe. Você está sempre esperando o reino que prometeram. Você anda sempre disfarçado. isso é tudo. signo Peixes. Só nesse dia. Mas você se sente sozinho no meio deles. menos esse círculo. ROSINHA — Mas por quê. Só nesse dia você mostrará o seu verdadeiro rosto dourado e tocará seu alaúde para que todos fiquem contentes e sintam amor. e você está esperando esse reino. sempre com vontade de voltar para o mar..peito. o ritual durou sete luas novas. Do que é que você quer se fantasiar? LEO — Eu não quero me fantasiar. (Começa a vesti-lo. um reino de paz e amor. você ainda está vivo. LEO — Mona inventa estórias. quando o encantamento quebrar e o seu reino for revelado. só nesse dia todos vão saber que você sempre foi um príncipe. MONA — Eu sei. Leo? Mona inventa estórias tão bonitas.. elas não sabem que você é um príncipe. As vezes você desce a montanha e vai até a vila e tenta conversar com as pessoas.Eu sou Leo. que ninguém o entende.

um pássaro. Eu não posso fingir que isso aqui é um castelo.. um rio. O que acontece é que você ainda não aprendeu a olhar. Voe. cheia de lixo. MONA . não somos mágicos nem encantados. O que é que você quer que eu faça? MONA (Mansa. Pelo menos sorria. nada é maravilhoso. não é um castelo: nós somos uns coitados mortos de fome. O seu jeito de olhar. procure sentir amor.) — Tente. tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto. Se a realidade te alimenta com merda. Invente. Nada é horrível. LEO — Eu não consigo. na sua cuca. porque você acha que as coisas só tem um lado. A gente só consegue ver o que está dentro da gente. Eu não posso fingir que viver é uma coisa boa. Olho em volta e acho tudo nojento.João não é um pirata. Porque você não consegue ver além do chão. o feio e o doente das coisas.Mas eu não posso fingir que não estou com fome. Imagine. Olhe pra mim: faz mais de uma semana que não tomo banho . MONA — Faz de conta. Rosinha não é a Virgem Maria. meu irmão. Tudo isso está dentro de você.. Sonhe. LEO — Eu já não tenho mais idade para fazer de conta. Sei lá. E vou lhe dizer porque. A sua cuca é que é feia. Você é exatamente igual a esses cinzentos todos que estão lá fora. suja e doente. Você acha que isso é mau? LEO . uma nuvem. Eu não estou fazendo nada de errado. E você só consegue ver o sujo. Só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas. O seu olho daqui é que transforma tudo. Baby não é um príncipe. Isso aqui é uma casa abandonada. meio loucos e sem ter sequer onde dormir. que nós somos mágicos e encantados. esse que o seu olho sujo vê. uma árvore. na sua mente. Aqui.Você não é. Eu não quero fingir. a mente pode te alimentar com flores. Eu não posso fingir que este lugar é bonito.

. Eu vou te amar muito.. Faz dois meses que quebrei um dente e não tenho dinheiro para ir ao dentista. Nenhum de nós tem. Vamos ter girassóis no terraço.nem faço a barba. paz.. vinhos e queijos todas as noites. Eu já sei: é baixo-astral pensar nessas coisas. amor e o caralho: você seria capaz de esquecer toda a sujeira do meu corpo e me dar um beijo? Silêncio. Eu não acredito em você. com esta boca podre? Você. não é? Pois para mim baixo-astral é o banheiro imundo. paz e amor não são coisa nenhuma quando o que cerca você é lixo. não ter nada.. a fome. você vai me amar muito. Olhe a minha boca: um lixo. Não suporto mais o meu próprio cheiro. não ter casa. Elas já estão pegajosas. Faz quinze dias que uso mesmas meias. dessas suas normas de bem viver à la Seleções do Reader‘s Digest. baixo-astral é o lixo. Não suporto mais não ter banheiro. Paz e amor. LEO — É mentira! Você me beija porque os outros estão olhando. meu anjo. . você mesma que fala de espírito. grudadas nos meus pés. porque você acha que isso é bonito. depois. não diga nada. porque ficaria muito feio para você não me beijar agora. almofadas macias. Amor para mim inclui lençóis limpos. o mundo é uma grande lata de lixo e nós somos apenas as moscas esvoaçando sobre essa merda toda. Olhe bem pra mim e me diga: você acha que alguém seria capaz de me amar com esta roupa imunda... E isso eu não tenho. banho tomado e barriga cheia. quem vai varrer o chão. beija-o. Mas eu pergunto: e quem é que vai lavar os pratos. Para mim. (Irônico.) Se você vem e me diz: agora nós vamos viver juntos e ser felizes para sempre. Eu estou cansado desse seu esoterismo de bolso. passarinhos na varanda. Eu não posso sorrir mais. a pobreza. Mona hesita um pouco. Tudo bem. quem vai limpar a privada? Quem vai batalhar a maldita grana? Ou vamos estar tão ocupados em nos amar profundamente que não teremos de pensar nessas coisas? Não.

) — Cetim. (Entra Angel com uma mochila nas costas. chá eu sou Alice dos mil plás eu sou Alice dos boás eu sou Alice superstar! Cruz credo. Água e terra sempre se completam. E se ela falou. chá.) E trouxe também um hóspede.talvez Killer .CENA 4 (Um rock pesadíssimo de Alice Cooper . chá. Yo soy Angel. purpurina e tafetá brocado.) ANGEL — Buenas noches para todos. ALICE . que loucura é essa people? Quem é que estava berrando feito louco aqui dentro? Estão currando alguém. é? Se estiverem digam logo: quero participar. lules. minha bruxinha tropical? MONA — Só combina. Falou a Rainha do Alto Astral. Estoy encantado en conocerlos. estoy veniendo de la Argentina para el Peru. E um rapaz muito maquiado e vestido de maneira ostensivamente andrógina. tá falado. miçangas — ah! meu negócio é ofuscar meu negócio é rebrilhar meu negócio é cintilar. muita seda e muito strass veludo. chá. ALICE — Inconsciente coletivo — eu hein? Pra mim é piraçâo. você nunca foi tão bem-vindo em toda a sua vida! Imagine que estas pessoas ainda estão discutindo o tal de Inconsciente Coletivo. Leo apanha um e começa a comer vorazmente. Chá. Angelito? Nós nos complementamos. ALICE — Viu só. Vejam só: (abre a bolsa e joga vários pães para cima. .irrompe logo após as últimas palavras de Leo e serve como música a entrar de Alice Cooper. BABY. Pois enquanto vocês ficam aqui de bobeira eu descolo coisas incríveis.Não é umas gracinha? Tem vinte aninhos e é Capricórnio. chá.Alice Cooper. Capricórnio combina com Escorpião.) ALICE (Cantando.

esta chica no puede ser Carlinha es demasiado simpática. seforita. como é que era essa tal Carlinha Baixo-Astral? ANGEL .... vai ficar obsessivo agora.. altíssimo Astral! ANGEL — Pero yo podria jurar por mi perra madre que eres Carlinha BajoAstral. Está se vendo que ele não me conhece. ANGEL — Encantado en conocerlos. MONA — Pois eu me visto de mulher. Tenía trajes de chico. y le gustaba la violencia. siempre de la color negra. MONA — Gracias. Ei mismo tipo físico. e eu sou Alice Cooper. Tenia exactamente mismo tipo físico desta otra. muy extravagante. Angelito. No. carifio. . bien. era una chica muy. pero creo que te conozco de otro sítio. minha fadinha underground? A sua face oculta. He viajado mucho todo ei dia.) — Perdón. una barra un poquito pesada demás. como decir? muy peligrosa. ALICE — Espera aí. la misma. No eres Carlinha Bajo-Astral? MONA — Quem? Carlinha Baixo-Astral? Muito antes pelo contrário..Como sabés que Carlinha vivia en Cochabamba? ALICE — Ah. no conozco Cochabamba. ei mismo pelo. ALICE — Será que ele descobriu sua identidade secreta. Bien. é? Forças! Esta daqui é Mona a Rainha do Alto-Astral. detesto a cor negra e tenho horror de violência. muy fatigado. chiquito eu sou Mona. sem essa.Bueno. Além disso. Anjo. pero era. a barra mais bissexual da paróquia. A ia noche todos nosotros temíamos encontraria por las calies. sí puede ser que yo estea equivocado.) .. ANGEL (Intrigado..ANGEL (Prestando atenção em Mona.. sabés? Estoy muy. minha pitonisa dos pampas? MONA — Nem morta.

Inconsciente Coletivo. maquiado. Rosinha. ALICE (Superior. Mona. que coisa mais macha! João. ROSINHA . o que e que você acha da gente fazer um som na praça. faz o que você quiser. achei que era melhor fazer uma festa à fantasia. dança rumba. creo que tengo la fantasia ideal para usted.) Little Rose. não encontrei nenhuma farmácia aberta. De feia basta aquela cidade lá fora. não é? ALICE — Pode crer. A gente podia escandalizar o mundo com nossas lascívias. muito proleta pro meu gabarito.. aplaudindo e dando força. Quem foi que teve essa idéia maravilhosa? MONA — Fui eu. parece uma festa. Dou a maior força. tango. bem? Ei. você sabe que sempre tive uma tesão secreta por você? Que pena você ser tão limitado sexualmente.. um milhão de sorrys mas acho que você nem precisa mais de remédio.) .. com Mick Jagger no coro e Ney Matogrosso no platéia. mas se você rastejar a meus pés sou até capaz de cantar uma dessas suas musiquinhas subdesenvolvidas. O negócio é pesar a barra. Todo mundo colorido. domingo? Eu toco e você canta.Mona me diz que sou a Virgem da Era de Aquário. Você tá uma verdadeira glória. tira a roupa. Alice. MONA — Carifio. Meu som vai ser é no Carnegie Hail. é? Chocante. quer dizer que você continua curtindo essa de meninos de Deus. Descaralhar.. Inconsciente Coletivo. minha nega. Misticismo não tá com nada. meu santo. (Para Rosinha.) Você também tá uma gracinha.Eu bem? Tá pensando que eu sou o que? Muito vulgar.ALICE — Mas que loucura é essa? Agora que estou reparando. se masturba. Depois a gente passa o chapéu e levanta a grana. (Para Baby. BABY (Fingindo afetação) — Você acha mesmo. ALICE — Cruzes. você tem sorte honey. Já que a gente vai mesmo ficar aqui a noite toda. Fique sabendo que sou gente fina demais pra cantar numa mísera praça. meu amor. chocante. tá sabendo? Meu Deus. . João.

) .) — Cris-ta-li-no como sempre. meu bem. tá legal. Só quero que você me respeite também.) — Tá legal.Que hermoso! Pero puedes hablar portugues. ALICE (Seco. (Conciliadora. Você não quer tirar essa mochila? Senão vai ficar um anjo meio corcunda de Notre Dame. tirar a mochilinha.ANGEL .. não vai jogar uns panos por cima dessa caretice horrorosa? . yo entiendo todo. só estou fantasiando o menino. você sabe. um momento! Adoro você. BABY (Tirando um acorde do violão. Além disso. meu espanhol é um lixo.) — Queridíssima. Leo. tá legal? Segundo: você pode fantasiar ele à vontade. Não sei se fui suficientemente explícito. suas piranhas enrustidas.) Eu sou assexuada. Mas não se esqueça que ele vai ficar é comigo.) — Qual é. você sabe muitíssimo bem que mando todas as minhas energias sexuais pra cima. MONA — Além do mais. entendeu bem? (Para os outros. Espera aí que eu ajudo. Então vamos deixar algumas coisas bem claras.Que ótimo. Quero voar. respeito toda essa sua transação de astral e tudo — acho que não tá com nada. tá? Primeiro: esse menino que aqui vês foi caçado por mim e vai ficar é comigo. mas respeito.) Isso vale para todos vocês também. E você. Alice? Botando o escorpião pra funcionar é? Até parece que você não me conhece.Acho bom. botar as asinhas a camisolinha e tudo. ALICE (Entediado. ALICE (Interferindo e arrancando-lhe a mochila.. dou a maior força. pra cuca. MONA . MONA (Ofendida. Jogue a sua energia sexual pra onde você quiser — desde que não seja pra cima do meu angelito.

Blusão de couro.) Forças! Prefiro ele de mochila e calça Lee mesmo.deixe o vento soprar. Tenho certeza que ele ficou encucado uns três dias. Você não acha que tudo ficaria mais bonito se as pessoas jogassem uns panos e umas cores por cima? LEO — Eu acho que tem coisa mais importante que isso. jeans manchados de graxa. olhando pra mim. Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo . veio me perguntar se eu era homem ou mulher. meu amor.) — E por que não. Uma vez um careta. Tratamento de choque. let it be. curta adoidado! Sabe. viril e agreste (Suspirando. se aproxima um pouco mais de meu ideal. MONA . meu filho.Tem nada. um certo visual. fica todo mundo em silêncio. meu amor. depois de me olhar milênios. no mínimo. Pra falar a verdade meu gênero mesmo são aqueles motoqueiros da pesada. Como é mesmo aquela frase do seu Tarot? Mona? . Eu respondi: — Sei lá queridinho.Não sei. Curte. te dou um conselho Alice Cooper sabe o que diz: você tem que ser maravilhoso. Quando entro num lugar. ALICE .) — Não. botas. Angelical demais pro meu gosto. senão ninguém vai te olhar nunca. acho que sou apenas um fenômeno contemporâneo. cara? Forças! Colorido fica tudo muito mais bonito! Sabe uma coisa que eu descobri depois de muita porrada? As pessoas têm a obrigação de oferecer. filhinho. fique pelo menos com o gostinho de ter brilhado um pouco. Ora vê se pode. Existe coisa melhor do que você curtir seu próprio material? Eu me curto adoidado. Pelo menos faço eles pensar um pouco. pra mim a vida é um punhado de lantejoulas e purpurina que o vento sopra. ALICE (Espantado. Olha. muita corrente. cara. Mas que se há de fazer? Deus também não é perfeito.LEO (Seco. se faz muito meu gênero. na maior perplexidade.rude. mãos cheias de calos . Sou uma força para todos esses urbanóides.

todos sentam em semicírculo.) E eu. tira o que precisa quem não precisa bota lá de novo. Enquanto dura a ação. Angelito..) ―No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato No Nepal existe uma praça bem redonda e cheia de dinheiro. Nós já oferecemos visual sem necessidade de panos. Falou. Vocês querem um chá? (Exclamações entusiásticas.Chá de quê.) Tenho uma garrafa térmica na minha bolsa. Mona.a tampa da garrafa térmica.) — Pensando bem. ALICE — Coisas celestiais eu vou te mostrar daqui a pouco. ANGEL — Si. (Zé Rodrix: Som imaginário. É isso aí. eu acho que você não precisa de fantasia nenhuma. Quem precisa.) Pero si te gusta. (Para Angel. que deve passar de mão em mão como na cerimônia japonesa do chá. . si. a mi me gusta mucho.) — É. (Para Mona. para mi está muy bien. Nós não precisamos. Todo dia sete de cada mês uma fadinha boa traz um pacotinho do Nepal. MONA (Pensativa. Mona? MONA (Misteriosa.) — É. Primeiro nosso hóspede: Angel. acabo de ter uma idéia sensacional: cada um que beber faz um pedido em voz alta. (Remexe na bolsa. enquanto ela serve. Existe apenas um copo . ROSINHA . Custa muito barato lá. Mona canta.MONA . Você também não precisa. você não vai me vestir? MONA (Depois de olhar bem para Alice.. Chá de ervas orientais.Qual? ALICE — ―El contentamento nel poco abre las puertas de lo mucho. ALICE (Olhando bem para Mona. Me encantam todas estas cosas celestiales.) – Adivinhe. Estou cansada. No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato‖.) ALICE — Ei. tira uma garrafa térmica.

. no campo não. BABY — Eu? Eu quero um canto pra mim. Las llamas blanquitas. MONA — Eu só quero uma coisa: que baixe um disco-voador e me leve para longe desta mesma ci-vi-li-za-çâo de pessoas cinzentas.) — Yo quiero solo llegar a Peru.. Little Rose. ROSINHA — Mas é só o que eu quero agora Alice. longe desta civilização. ROSINHA (Gemendo..) — ―Eu quero uma casa no campo‖.. Onde eu possa tocar minha viola e ter minhas coisas.) CENA 5 BABY (Cantando. virar o maior mito pop do século e morrer no auge da fama da juventude e da beleza nos braços de um motoqueiro. ALICE .) — Eu.ANGEL (Bebendo.. Y quiero tanbién que sea todo muy hermoso. las yerbas mágicas y las vibraciones de Macchu-Picchu..) — É. Bonitas. . Na beira do mar.. Não. E você. (Bebe. eu acho que eu queria conseguir ver as coisas um pouco mais.Eu quero ir para Nova Jorque. pescando e plantando. construir uma casinha de madeira branca e ficar morando lá.) — Eu só queria parar de sentir esta dor.. ALICE — Que desejo mais besta. LEO (Hesitando. João? JOÃO (Cantarola. MONA (Tentando ajudar.) — Eu agora quero ver as coisas mais bonitas que o meu olho nem sempre quer ver As coisas mais bonitas e mais incríveis que o meu olho nem sempre quer ver.) — Bonitas? LEO (Com um suspiro.

João. (Voltam todos a seus lugares — o autor acha importante esclarecer que. cuidando dos jardins.) — Morrer? Que idéia é essa. senhor e senhora se você não decolou talvez seja melhor que vá embora. Lamento dizer.Quem nunca andou no fio da navalha não sabe o que é rasgar a própria mortalha. TODOS — Colorido-colorido no banco da praça colorido-colorido não transo cachaça. dos gerânios.. ROSINHA — Eu vou com você. BABY — Quem nunca dançou não vai poder dançar agora. Rosinha? ROSINHA — Pra onde. essa ansiedade nas pessoas. tirando leite. onde a gente possa ser inteiro. Mas agora.. assistir televisão. Você gosta tanto de gerânios. BABY . Rosinha. a partir de agora. As vezes eu acho que vou enlouquecer no meio de toda essa correria. longe da cidade. Será que eu vou morrer. agora eu não posso. Sabe. Quem nunca voou além do cascalho quando olha no espelho só vê um espantalho. a terra. assistir televisão no seu fuscão. claro que vou.O campo.) . Nunca te vi tão bonita como agora. sonhador. eu fico imaginando você fazendo pão. TODOS — Talvez seja melhor que vá embora talvez seja melhor que vá embora no seu fuscão. João? JOÃO (Sorrindo. de todo esse barulho. João? JOÃO (Lentamente.) JOÃO — Você vem comigo. Eu não suporto mais a cidade. menina? Você está tão bonita. com essa roupa de . dentro de mim.TODOS — Colorido-colorido atrás da vidraça colorido-colorido no fio da fumaça colorido-colorido no fundo da taça. nada mais tem explicação. Tem essa dor cravada aqui. um lugar perto domar.

) -Já ouvi esse papo antes. o que a gente diz. ALICE — Uau! Que exagero. Na cidade as coisas são feias porque é tudo mentira. em você mesmo. jogado fora. a natureza — vão ficar cada vez mais distantes. O campo. Não falta muito pra você ter trinta anos. Não güento mais a caretice desse cara. Eu já não sou tão jovem. Você já não é tão jovem. vinte e sete — não importa. você já não acredita tanto nas pessoas.) — Pois eu vou realizar o meu sonho agora mesmo. João. Lá. Vamos. vinte e seis. sendo verdadeira. os seus dentes estão ficando estragados.Virgem Maria. E um dia tudo não vai ter passado de um sonho. Rosinha e o que é verdade sempre é bonito. Um só basta. LEO (Irônico.Pega na minha mão. mais poluído você fica. O seu cabelo já começou a cair. Quanto mais você ficar aqui. A mesma coisa. Um dia você vai lembrar de tudo e pensar com tristeza: ―loucuras da juventude‖. O seu corpo vai-se decompor lentamente e você vai criar barriga e acreditar cada vez menos em todas as coisas. o campo. Angelito? . Fico te vendo exatamente assim como você está agora na beira do mar caminhando na grama cuidando dos gerânios. mais envolvido com a cidade. ROSINHA . Cada vez é mais difícil você se libertar. o mar. As coisas vão ficar cada vez mais duras. interrompe. Faz cinco anos que você fala a mesma coisa. tudo vai ser verdade. E todo esse tempo dç agora não será mais que um longo tempo perdido. João. Porque é que você não vai de uma vez? O que é que você está esperando? O que é que você está fazendo para realizar o seu sonho? ALICE (Interrompendo. Sempre. inútil. a volta à natureza. Faz cinco anos que eu conheço você. O que a gente faz. até mesmo o que a gente sente — é tudo mentira. a terra. Ornar. Que idade você tem? Eu sei: vinte e cinco. Tem outra peça lá em cima? JOÃO — Tem três quartos.

. Eu sou também você e todos os outros. Eu não sou só eu. Olhe firme no meu olho.. ) CENA 6 BABY — Será que você não entende que as coisas mudaram? LEO . volar.ANGEL .. Não existe divisão.. Olhe firme no meu olho e me responda: você tem medo de mim? LEO . Você não me entende porque você nunca me olhou.. .. por entre las nubes...Voar.. cara a cara.. A gente só consegue conhecer alguém ou alguma coisa quando olha para ela bem de frente.Por que mi nombre es Angel? Hay un oscuro sentido por detrás de mi nombre. BABY — Você não me entende porquê você nos divide em dois: eu e você. (Alice sai empurrando Angel em direção à porta. ANGEL . Me gustaria tanto. BABY — Eu poderia te ajudar.. enquanto este repete que quer voar. Yo tendria que volar para que fuera un angel. Me diz o que é que você está vendo no fundo das minhas pupilas? LEO . yo nunca seré un angel...Eu não te entendo.. sabes? Yo quiero volar hasta los sitios encantados..Eu tenho medo. e todas as coisas que eu vejo. volar. volar....No fundo das tuas pupilas eu vejo meu próprio rosto.) — O ofício dos anjos é voar. yo quiero ser como un pájaro.. perderme nel cielo. Que hacen los angeles? MONA (Imóvel.. se você não tivesse medo de mim.. hasta los sítios encantados.. me encara fundo.

Leo? (Apanha um vidrinho de purpurina e começa a salpicar o rosto de Leo. Se eu tivesse medo ficaria lá para sempre. BABY — Então vou te contar uma estória que é o meu segredo.. Se você tiver medo de mim é porque você tem medo de você.Não. Nenhuma cor. E nunca mais ninguém me entenderia.) E tão fácil. Diriam talvez que eu estava louco. cada vez que eu volto lá eu canto essa musiquinha. Basta cantar: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim. com todo aquele branco-liso dentro de mim. outra vez: você tem medo de mim? LEO . havia várias pessoas à minha volta. nenhuma forma. Eu sabia que se contasse aos outros do que estava vendo. No dia em que visitei o fim do mundo nasceu uma mancha branca dentro da minha cabeça. Foi então que eu descobri o jeito de dar esse passo. Agora.. Eu não queria ficar lá. . eu não queria ficar sozinho. Não tinha nada lá. A maneira de vencer o fim do mundo era enchê-lo de sons e de cores. eu acho que eu não tenho medo de você.. E tomariam as providências que se costuma tomar com os loucos: clínicas. O fim do mundo estava dentro de mim. choques elétricos. Canta comigo. ninguém entenderia. Leo. Para eles podia ser uma praia.E no fundo das suas pupilas eu vejo o meu próprio rosto. Quando eu olho no seu olho eu sou você e você é eu. um apartamento ou uma rua qualquer. e eu cantei: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim. Então uma canção brotou do fim de mim. Naquele dia.. eu não estava preparado. Mas para mim. Eu estava sozinho no fim do mundo e não podia ter medo. Leo. eu dei aquele passo eu venci o fim do mundo. Eu não podia pedir socorro.BABY . Você não quer cantar comigo. para mim era o fim do mundo. Que aquela mancha branca era a velhice. grades na janela. Me diga agora. E sabe como era o fim do mundo? Ele era branco e liso. Eu precisava dar um passo além do fim do mundo. E eu venci. Depois eu fui saber que eu tinha envelhecido. Era a solidão absoluta. O fim do mundo era o silêncio e o vazio.

E muito cedo..) — É a polícia! Eu sei que é a polícia! ROSINHA — Não. Quando você canta.) — Eu estou cheia de luz. está ficando escuro dentro de mim.. ele está querendo sair de dentro de mim.O que foi? ROSINHA — É ele.. tudo isso aqui.. não posso. Todos se aproximam.. mas eu tenho medo. fica tudo lindo e eu não tenho medo.. Seria simples. só sorrir.) — Eu não posso.. . canta mais.) — Não tenho medo. Canta.. Tudo acontece no momento certo. Ele está querendo ir embora. Seria fácil. Baby canta — até ser interrompido por um grito de Rosinha.) Silencio! Vocês não estão ouvindo? (Todos escutam. Ou sorrir. JOÃO — Do que é que você está falando Mona? ROSINHA (Sempre gemendo. eu sei. Se eu pudesse sentir bonito.. JOÃO .Não tenham medo. MONA (Sorrindo. Se eu pudesse catar junto com você. (Rosinha geme. é ele querendo sair de dentro de mim. MONA . me dá tua mão. canta para embalar o menino... ROSINHA — João. (Olha em volta.. muito serena.. Quem sabe daqui a pouco eu consigo cantar junto também. passar a mão no teu cabelo e te chamar de amigo. são eles. MONA (Imóvel.. Talvez bastasse qualquer coisa como chegar muito perto de você. não.) . João... Leo. Baby.) LEO (Estremecendo e afastando-se de Baby. Qualquer coisa assim.LEO (Recuando.. para mim é tão desconhecido e tão estranho como um sonho que ainda não tive... Não pare de cantar. exceto Mona. que continua imóvel. Baby. ele não vai conseguir. Eu tenho medo....Eu estou cheia de dor..) Vocês. Eu reconheço esse barulho de máquina sobrevoando a casa.

do boi da cara preta. exatamente sobre o meu sétimo chakra. da cuca. Dos discos voadores. cheios de luz. Dorme neném que a cuca já lá vem papai tá na roça. é suja. ROSINHA (Enquanto ela fala. Não se deve deixar os meninos pequenos como ele perto do poço. Ele é muito pequeno. Aonde eu fui. louros. você está ouvindo. E uma nave enorme. eu não sou suja. João? Nós não íamos para o campo. dizem que essas pessoas exalam mau cheiro. João.BABY (Cantando. e não pode fugir do bicho-papão. sobre o lótus de mil . A minha mãe me avisou. boi. Faz três anos que eu não fumo nem como carne. Dos extraterrestres. Estão bem aqui em cima agora. dourada. A cuca é má. boi da cara preta leva esse menino que tem medo de careta. Eu não tenho mau cheiro. você não ia me levar para o mar? Será que é muito longe. JOÃO — Do que você está falando. mamãe em Belém. olhando para cima — como se acompanhasse rumores e movimentos no andar superior. O menino vai cair lá dentro.. João. até furar.. João? Você deixou o menino sozinho? Eu te disse para não deixar o menino sozinho.) — Agora eles estão bem em cima do telhado. O único jeito de vencer a cuca é pingar uma gota d‘água na testa dela até furar. boi.) — Bicho papão. Mona levanta-se e começa a andar lentamente pela sala... Ele não pode correr. Exatamente sobre minha cabeça. manda a cuca sair de cima do telhado.. escuro. eu não sou feia.. é feia. Mona? MONA — Deles.. Baby. o poço fundo. João? Por onde eu tenho andado.. Ele é tão pequeno que ainda não tem pernas como os outros meninos. Eles são altos. Leo. Tem o poço.) — João. Boi. Leo. Nós precisamos chegar a tempo. João? Eu não podia deixar o menino assim sozinho perto daquele poço. Eles vieram me buscar porque eu estou preparada. Dizem que eles não se aproximam de quem come carne e de quem fuma. sai de cima do telhado deixa meu menino dormir sossegado. MONA (No meio da cena. Eu estou preparada para entrar na nave.

Como é que eu podia saber que aconteceria agora. Eu preciso ir. Nada é gratuito. disco-voador não existe! Você está louca. há um silêncio.. Um vidro nas mãos. Esperei tanto tempo. tanto. São eles. para depois do sol. Canta mais. justamente agora aqui. a chuva mas eu consigo ouvir mudamente a voz deles chamando pelo meu nome. João. misturado a rumor de máquina — qualquer coisa como um automóvel em alta velocidade. Eles vão me levar para lá. pandeiro. para o alto astral. volte aqui! ROSINHA . (Apanha a bolsa e vai tirando se dentro alguns instrumentos musicais: flauta. D6i tanto. nesta noite? Tudo faz sentido. . Mona. o último presente de Mona. Vocês não estão sentindo a vibração? Essa luz dourada baixando devagar sobre as coisas.pétalas. Baby. eu sei. Eu preciso deixar vocês. Não deixa ele ir embora. Não se esqueçam disso. estão ajoelhados em atitude de adoração. estou indo. Agora eu entendo.Mona. etc.) Foi Baby quem me ensinou: quando tudo fica difícil a gente canta e toca.Deixa ela ir. Já cumpri minha missão aqui. Rosinha está deitada. Me ajuda. Vocês ouvem como eles me chamam? Parece o vento. Black-out. Quando a luz volta. João. João está em pé. nesta casa. um som eletrônico ou uma explosão. Baby continua cantando canções de Ninar. imóvel. Antes de ir embora vou deixar uma lembrança. Quando você canta é como se parasse de doer. bongo. Muito pálida. volte aqui. JOÃO . João. os braços estendidos acima da cabeça. onde tudo é dourado. Eu . Se ele for embora o mundo acaba. para o outro lado. Leo e Baby. a Rainha do Alto Astral. Ao mesmo tempo: Ouve-se um grito de Rosinha.. E o único jeito de vencer o fim do mundo. MONA — Eu disse que ele era a única coisa capaz de salvar o mundo. Esperei tanto tempo. Seu manto branco está manchado de sangue.

) Ei. Primeiro entrou numa que queria voar.Dentro do vidro uma matéria sangrenta. tive que fazer uma força incrível para botar ele noutra. eu preciso de forças! O anjinho pirou completamente! JOÃO (Muito calmo. eu.. dizendo coisas.) — Finalmente te encuentro.. A cena permanece estática até o momento em que Alice entra correndo. mas o que foi que aconteceu aqui? Little-Rose.. (Detém se e observa os outros.. onde é que você tá? JOÃO (Muito calmo. Quando pensei que ele estava numa boa. CENA 7 ALICE (Muito agitado.) — O que foi que aconteceu? ALICE — O angelito portenho. Onde é que está Mona? (Chama. ALICE — Tão ouvindo? Tá completamente pirado. começou a correr atrás de mim com uma estaca e um martelo. Quase que se jogou pela janela.) Mona. maldito! Ahora te voy a matar con mis próprias manos! .. Mona. meu Deus.) — Forças gente. ALICE — O que? ANGEL (Entrando. será que todo mundo enlouqueceu aqui dentro desta casa? Isso aqui está parecendo um filme de terror. com uma estaca de madeira e um martelo nas maos. você está toda suja de sangue! Esse vidro. príncipe de las tinieblas? No te ocultes de mi. baixa os braços lentamente e deposita o vidro sobre a manjedoura. entrou numa que eu era um vampiro. ANGEL (0ff) — Donde estás. avança para Alice.) — Ela foi raptada por um disco-voador. Tengo que exterminar te..

o nome com que me batizaram? E Jaime Roberto. Você ficou influenciado.Espera aí. você está entrando numa errada comigo. cabron! Perro de los infiernos! No quiero escuchar tus sucias palavras! ALICE . demônio! Es demasiado tarde! (Encosta a ponta da estaca no peito de Alice e ergue o martelo como se fosse desferir um golpe.) ANGEL — Carlinha Bajo-Astral! . Forças. asesinos de palomas / Esclavos de la mujer. parada na porta está toda vestida de negro. Olhe para mim.. Traz um charuto aceso na mão. e acende um spot sobre Carlinha Baixo-Astral. entra um rock pesado. meu Deus! Que coisa mais bagaceira.ALICE — Segurem esse tarado! Ele quer me cravar esse negócio no coração! (Ninguém se move. perros de sus tocadores. Calma. / abiertos en la plaza con fiebre de abanico / o emboscados en yertos paisajes de cicuta. você é a primeira pessoas que eu conto isso. não é nada disso.. só isso.) — ―Maricas de todo el mundo.. assassinado por mochileiro argentino. Angelito! ANGEL (Gritando. Olha vou te contar um segredo que nunca contei para ninguém: sabe qual é o meu nome. Nesse momento. ANGEL — Callate. Sou Alice Cooper. já estou vendo as manchetes no jornal amanhã: Jaime Roberto. Olha. o meu nome verdadeiro mesmo.Basta de comedias. sabe o que há de errado com você? E que você viu muito filme de horror. Você não tinha onde dormir.) . talvez Lou Reed. Anjinho. vulgo Alice Cooper.‖ Muerte a todos los vampiros maricones! ALICE — Espera aí. convidei você pra dormir aqui. Eis o meu segredo mais vergonhoso. encontrei você na praça.) ANGEL (Declama García Lorca. botas.. Anjinho. eu fui legal. calças compridas.

não existe mais nada. sei lá porque.. sorte. de Carnaby Street. bem? Você é da polícia. Deve ser importada. de Bibao. acaba de salvar a minha vida.CARLINHA — Em carne e osso. Eu sou Carlinha Baixo-Astral. Agora vou ter que passar o resto da minha vida aqui com este bando de cretinos.E por que você faz tantas perguntas. boneca. já não existe mais cidade. Talvez fosse melhor ter morrido também. (Joga o charuto no chão e apaga com o pé.) Acabou.) — Polícia? Que polícia. Fica muito bem em você. Mantenha distância. Eu ia passando bem na hora da explosão.. Hmmmm. Vocês não ouviram a explosão? Explodiu tudo. (Puxa a navalha.Mona é a puta que os pariu. TODOS — Mona! CENA 8 CARLINHA . ROSINHA — Do que é que você está falando? . entendem? Só sobrou esta casa aqui.) Há alguém aqui que duvide disso? ALICE . acabou tudo. meu santo? Não existe mais polícia.) O que é andou acontecendo por aqui? Por que é que vocês estão vestidos desse jeito? Por que é que está garota está toda manchada do sangue? LEO .Bem. não é? Tem um cheiro de King‘s Road. Tive sorte. por acaso? CARLINHA (Rindo debochada.. seja você quem for. Não gosto que me toquem.) — Tira essas mãos nojentas de cima de mim. (Caminha olhando em volta. não existem mais edifícios. Ou foi você mesma que bordou? CARLINHA (Agressiva. Muito Obrigado.. essa camiseta é maravilhosa.

Mona. Mas vocês. Alice. Forever. é muita loucura. CARLINHA — Para sempríssimo. foi. Aquele pão não dá nem pra um dia. Mas não aconselho. não sei não... (Para Alice. ANGEL .. que o mundo terminou? ALICE — Terminou mesmo? Acabou? ANGEL . saia e veja com seus próprios olhos.) Por qué estan todos así? Que pasó? .Que pasa? No estoy entendiendo nada. LEO — Quer dizer que aquela explosão foi.. Tão paz e amor.. Como em Hiroshima. lembra? Além disso. tudo rebentado. Você está gozando com a nossa cara. Carlinha Baixo-Astral: você está querendo dizer que. BABY — Eu não posso acreditar. ALICE — Tem aquele pão que eu trouxe.. Me dá um cigarro. vísceras por toda parte. tão sensíveis. ROSINHA — Quer dizer que nós vamos ficar aqui para sempre. Vão fazer a sua carne descolar dos ossos e cair todinha em feridas punilantes.Yo no entiendo lo que dice. transo qualquer barra . desculpe. JOÃO — Não é possível.. JOÃO — Deixa de ser besta. CARLINHA — Uma explosão atômica. boneca. Vocês me parecem todos tão débeis. Já era. quero dizer. sangue. Tem as tais radiações atômicas. como se dizia no meu tempo. Gente morta. CARLINHA-Pois se você não acredita. Puf! Acabou. LEO — Mas nós vamos morrer de fome. Eu vejo e até curto em cima porque sou Carlinha Baixo-Astral.BABY — Espere aí... Alguém finalmente apertou o botão.de preferência as mais pesadas. Virou cinza. está horrível lá fora.. tendo nervos de aço.

ALICE — Na verdade eu não me impressiono com mais nada. ALICE — Es lo que dice la chica.E você.Não. No es verdad. ALICE .. Una bombita.. Yo necessito yirme hasta ei Peru. Yo sé que tu especialidad es pirar la cuca de la gente.Eu tinha certeza que um dia você ia acabar concordando comigo.. o Nepal.Se ha acabado todo.ALiCE — Lo que pasó. Pode ser que desta vez dê certo. Acho maravilhoso ter acabado.Quer dizer que vocês não estão apavorados? JOÃO .Eu concordo com você. desde Cochabamba. desde muy lejos. Carlinha Bajo-Astral. El mundo no puede terse acabado. O Peru.. te conozco hace mucho tiempo. ANGEL — No es possible. decepcionada. CARLINHA (Mais decepcionada. CARLINHA .) . a Nova Guiné e o Piauí. (Olhando em volta. es que ei mundo se ha terminado.. gaveta? . E quer saber duma coisa? Se acabou mesmo dou a maior força.) Mas vocês não parecem muito impressionados. CARLINHA . No lo puedo creer. una bombita. Nós não tínhamos mesmo nada a perder..Nem você? BABY . E falando bem claro: na minha opinião foi um asseio.Eu acho que agora a gente pode começar tudo de novo. no más. LEO . Do jeito que estava só podia mesmo era acabar. Angelito. ANGEL — No creo en esta chica. El Peru también se ha acabado? CARLINHA .

JOÃO — Ele nasceu no momento da explosão. E na terceira: ―Já que estamos na merda. gavetinha. já que vamos ter que ficar aqui a vida toda.Nunca mais..) . nas outras comunidades onde morei.ROSINHA . Era meu filho. pelo menos vamos comer uma laranja‖. Na primeira era: ―Passarinho que come pedrinha sabe o cu que tem‖. Será que a Era de Aquário começa agora? CARLINHA . Sabem. Ou para morrer. LEO — Ele foi assassinado pela bomba. diria que ele foi o último representante da Era de Peixes. sempre tinha um lema.Eu. Na segunda era: ―Quem pariu Mateus. CARLINHA . Cristo morreu. esta é a quarta comunidade onde moro.Nós não temos lema nenhum. CARLINHA (Apontando a manjedoura. E o primeiro da Era de Aquário. Qual é o lema desta comunidade? JOÃO . que o embale‖. Nós só estamos esperando o amanhecer. Nós só estamos aqui porque a casa estava abandonada.. Nós não somos uma comunidade. sei lá. .) — O que é isso aí? ROSINHA — É o Cristo da Era de Aquário.O que? Nunca mais? CARLINHA (Lentamente. Parece também que é a última. viva Cristo! Sabem. chovia muito e ninguém tinha para onde ir. As nuvens de radioatividade são tão densas que não vão deixar passar os raios de soi por um bom tempo. BABY — Ele nasceu morto.Esse pelo menos escolheu o momento certo para nascer. Se Mona estivesse aqui. No mínimo uns dez anos.) . ROSINHA (Assustada.Mas não vai amanhecer mais.

Todos se entreolham. E se não acabou.Esperem.) CARLINHA — Para mim não. um presente. João! Eu não quero ficar no escuro! Mande ela embora. confusos. (Apanha os instrumentos musicais e começa a distribuí-los entre as pessoas. JOÃO — Mona foi embora com o disco-voador. Se o mundo acabou mesmo nós somos o novo mundo.ROSINHA (Gritando. Ela disse assim: ―Quando tudo fica difícil. Mas ficar dez anos no escuro? Ah. Antes de ir embora.Mas o que é que a gente pode fazer? ANGEL — Nada. Solo esperar. que o mundo tenha acabado.. CARLINHA . CARLINHA — Ela sempre sabe o que fazer pra gente ficar contente. Nosotros no podemos hacer nada. LEO . Como é que eu posso tocar e cantar se o mundo acabou? LEO — E o que é que você vai fazer? Não há mais nada a ser feito. E a única maneira de vencer o fim do Mundo. Mona deixou uma lembrança. ALICE — Bem. Nós estamos tranqüilos. tudo bem. Chame Mona.) — Ela está mentindo. faz vinte e três anos que estou no escuro. Para falar a verdade.. Eu estou lembrando duma coisa.Mas esperando o quê? . ROSINHA . Não gosto dela. Silêncio. a gente canta e toca‖. De qualquer maneira nós temos que ficar aqui esperando. daqui a pouco amanhece e acontece alguma coisa. vamos convir que é chó-cante! O que é que eu vou fazer sem um spot em cima de mim? BABY — Pra mim não faz diferença. Ficar desesperado e arrancar os cabelos não resolve nada.

(Carlinha hesita mas acaba aceitando o instrumento. Ainda pouco havia nuvens. Começam a tocar. O meu negócio sempre foi só pesar a barra.) . JOÃO — Então era mentira dela. Carlinha Bajo-Astral. O mundo não acabou. faz pouco. BABY— Ainda pouco? CARLINHA — É. CARLINHA — Não. até que vários spots começam a acender e fica tudo muito claro. Não há nuvens de radioatividade tapando o sol. Que tudo isso termine. Ninguém sabe. Eles vão parando de tocar.LEO — Sei lá. eu sei. Eu nunca fiz isso. Foi agorinha mesmo. Que a noite acabe. Quando eu cheguei aqui.) CENA 9 ROSINHA — (Sem emoção. Sentam-se todos lentamente em semicírculo em tomo da manjedoura. LEO — (Como se despertasse de repente. CARLINHA — (Começando a ceder. Tocam alguns momentos.) — Amanheceu. Só isso.) — O que aconteceu? ROSINHA — (Sem emoção. CARLINHA — Eu não menti.) — Mas eu não sei tocar nem cantar. Que o dia amanhece. Aparecem todos muito cansados. ANGEL — Se han pasado siglos y siglos.Amanheceu. Qualquer coisa. . Você inventa. ALICE — Mas isso já faz muito tempo. Não é difícil. não. LEO — Eu também não sei.

LEO — Você tem certeza que são mesmo dez pras sete? (Nesse momento ouvem-se batidas muito fortes na porta. Ninguém se move. Um pequeno intervalo e as batidas se repetem, cada vez mais fortes.) JOÃO — (Sem emoção.) — Estão batendo na porta. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino, trazendo ouro, incenso e mirra. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. BABY — Ou Mona. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vem nos buscar também. LEO — É a polícia. Tenho certeza que é a polícia. ANGEL — Puede ser algun vecino. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. Os monstros, com aquela pele toda verde, apodrecendo e caindo... Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. ALICE — Piração, piração, tudo piraçâo: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. (Silêncio. As batidas aumentam. Ninguém se move.) JOÃO — Seja quem for, continua batendo. CARLINHA — Alguém precisa abrir logo essa maldita porta. LEO — Eu tenho medo. ALICE — Quem abrir a porta precisa dizer alguma coisa. ROSINHA — Eu não sei o que dizer. ANGEL — Bueno, hay que abrir la puerta e decir algo, no?

(As batidas aumentam, a luz também. O ideal seria uma lâmpada de mercúrio.) BABY — (Lentamente.) — Eu acho... eu acho que a gente só pode dizer uma coisa. (As batidas aumentam mais.) BABY — Eu acho que a gente só pode dizer que nós não temos culpa. Que nenhum de nós tem culpa de nada. A única coisa que nós estamos tentando fazer é encontrar o jeito de dar um passo além do fim do mundo. (Baby começa a tocar. As batidas aumentam cada vez mais. Os outros hesitam, mas aos poucos, um por um, começam também a tocar e a cantar. O som e as palavras — o autor sugere — deveriam ser totalmente improvisados pelos atores. As batidas só cessam quando o som estiver mais ou menos definido. E a peça só termina quando os atores e/ou a platéia estiverem cansados. Ou quando alguém bater na porta avisando que amanheceu e o teatro precisa ser fechado — Por que não?)

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Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-lo em nosso grupo.

A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS

Peça em 1 ato

PERSONAGENS

SEREIA • BRUXA DE PANO • MÁGICO • ROQUE • SOLDADINHO • BAILARINA • TIÃO •SIMÃO •BASTIÃO 3 MACACOS

CENÁRIO

Um grande arco-íris ao fundo e um lago; um cartaz com letras coloridas com os dizeres: Comunidade do Arco-Íris. A cena está toda enfeitada de balões e bandeirinhas de papel como para uma festa. A Sereia está dormindo, recostada em uma das pedras do lago.

CENA 1

SEREIA — (Despertando e espreguiçando-se lentamente.) — Hmmmmmm, que sono gostoso! Sonhei umas coisas tão bonitas... (Apanha um espelho e um pente.) Meu Deus, mas estou horrorosa, toda descabelada. Daqui a pouco a festa vai começar e eu ainda nem estou pronta. (Penteia-se, muito vaidosa.) As crianças já devem estar chegando por aí. (Olha para o público.) Mas vocês já estão todas aqui dentro. (Para o público.) Desculpem, eu não tinha me dado conta, pensei que era bem mais cedo. Boa tarde, como vão vocês? Sabem, é que a gente trabalhou tanto para deixar tudo bonito que eu fiquei muito cansada e acabei pegando no sono sem querer. Já vou chamar os outros. (Para dentro.) Máááááááágico! As crianças já chegaram, está na hora de começar a festa!

CENA 2

BRUXA — (Entra correndo, muito estabanada.) — Tá na hora de começar a festa, é? (Olha em volta.) Ei, mas onde é que estão os doces e o guaraná? Ah, já sei, comeram tudo, não é? Comeram tudo e nem me avisaram... Só lembraram de me chamar depois que a festa tinha acabado. Eu sei, conheço vocês, é preconceito racial, só porque eu sou de pano e vocês de carne e osso. (Para a Sereia.) Racista! SEREIA — (Muito envergonhada por causa das crianças.) — Calma, Bruxa, não é nada disso... eu...

E quer saber duma coisa? Não me importo nem um pouco que a tal festa tenha acabado. eeeeeu? Escuta aqui. eeeeeu? Ora. (Vai começar a discutir novamente. BRUXA — Atacada. vai ficar gorda como uma baleia e o Roque não vai querer mais namorar você! SEREIA — (Ofendida.BRUXA — Como que não é? Você sabe que eu adoro guaraná. (Para as crianças. já sei. (Para a Sereia. SEREIA — Acabado? Mas a festa ainda nem começou. E pare de me ofender. pareço mesmo uma bruxa.) — Olhe..) Desculpem... gorda. quer que todo mundo me ache horrorosa. não é? Conheço todos os seus truques.. às vezes ela fica um pouco atacada. SEREIA — (Conciliadora. BRUXA — Inveja.) Meu Deus. sua baleia. Que desaforo! (Olhando-se no espelho.. não é de hoje que você. Onde é que estão todas aquelas garrafas? Foi você que tomou tudo.) Imagine eu.) Por que você não disse logo. mas de repente olha para o público e muda de atitude. fique sabendo que ela era uma saia de veludo muito fina.Gorda vai ficar a sua avó. é? Bem feito. Você está é com inveja dos meus cabelos verdes. .) . BRUXA — Vexame. pra mim você não passa mesmo é duma sardinha enlatada. hein? Já sei. as crianças já chegaram e eu estou toda desarrumada.. SEREIA — Você quer parar de dar vexame? Pelo menos respeite os nossos convidados... As crianças devem estar pensando que você é completamente louca. ouviu bem? E não fale mal da minha avó. eeeeeeu? Mas logo eu? Pois olhe.. vá se enfeitar enquanto eu converso um pouco com as crianças..

Você está é com ciúmes. BRUXA — Controle-se. Bruxinha. Acho que ela está apaixonada pelo Roque! Afinal.. BRUXA — (Maliciosa....) SEREIA — Que coisa mais louca. (Para dentro. me chamando de baleia..Que bom. você está apaixonada pelo Roque? CENA 3 BRUXA — (Entrando toda faceira. um horror. SEREIA — (Aliviada.) Bruxa. parece um furacão. BRUXA — Pois eu não acredito.. Você está dizendo isso só pra me irritar. eu cheguei a pensar que. Sereia..) — Ele é que está apaixonado por mim. (Pensa um pouco. eeeeeu? Imagina. zangada. E anda tão agressiva comigo.. só pode ser isso.) . de sardinha enlatada. Será que. olhe as crianças! O que não vão pensar de você? (A Sereia cruza os braços.. Eu acho que estou maravilhosa. ele é meu namorado. com um enorme chapéu de flor e um xale coloridíssimo..) — Mentira.. Posso até sair numa lista de 10 mais . Antes era tão minha amiga.) Então.. claro que nâo. tá bem (saindo). foi depois que ele começou a me namorar que ela ficou assim agressiva. SEREIA — (Furiosa.) Vai ver que.BRUXA — Tá bem. vocês gostam da roupa que mandei fazer especialmente para hoje? SEREIA — Eu acho horrorosa.. Melhor perguntar a ela.) — Apaixonada pelo Roque. enquanto a Bruxa dá voltas pelo palco como um manequim.. querida. claro. ouviu? (Sai. Mas não tome todo o guaraná.

BRUXA — E você acreditou. Acho chatíssimo. mas eu tinha uma tia de tafetá francês que vivia repetindo que a tal de finesse era tudo na vida. menina? Por que está com essa cara de bacalhau em dia de Sexta-Feira Santa? SEREIA — (Chorosa.) — Deve estar terminando o tal discurso! Imaginem que ele inventou de fazer um discurso para vocês.. as crianças já . sem a metade da sua finesse.) — Mágico! Máááááááááágico! (Esperam. é isso aí. da sua. Não sei bem o que é isso. muito nervoso. a cartola na mão. sem a metade da sua classe. BRUXA E SEREIA (juntas. Bruxa. da sua elegância..) .) — Você disse que o Roque está apaixonado por você. meu Deus.) CENA 4 MÁGICO — (Entrando. Está apaixonadíssimo. Não pensa noutra coisa. tornam a chamar. sempre durmo na metade.) Ai. Ele só quer contar para as crianças como nós viemos morar aqui. SEREIA — Mas o discurso do Mágico não é assim. Me dá um sono. E você. não agüento aquelas coisas de ―neste momento solene e tal‖.Quem me chamou? O que é? (Olhando o público. sua boba? Não vê que é só pra implicar com você? Acha que o Roque vai olhar pra mim.elegantes. Cadê o Mágico? BRUXA (Para as crianças. Acho que até sonetos anda escrevendo.. SEREIA — (Mais animada.. como diz mesmo? Finesse. uma bruxa de pano.) — Você acha então que ele gosta de mim? BRUXA — Ele adora você. Ou virar estrela de cinema. Vocês gostam de discurso? Pois eu não.

) Está aqui dentro.. Acho que está embaixo do segundo lenço.) SEREIA — Puxa. que coisa mais atrapalhada. BRUXA — (Ajudando o Mágico a puxar o lenço.‖ BRUXA — ―.Ainda não.. já sei. Quer ver? É assim: ―Neste momento solene..) .Como é que você sabe? BRUXA — (Irônica. MÁGICO — (Voltando a remexer na cartola. que vergonha. As crianças já estão quase todas dormindo. BRUXA — Escuta. você não quer falar de improviso? Acho que é muito melhor.E é mesmo.) BRUXA — Escute. Esse lenço não tem fim.) Passei a noite inteira escrevendo. (Começa a tirar um lenço enorme.. Originalíssimo..estão todas aqui dentro.) . me diga uma coisa. começa de uma maneira muito bonita..‖ MÁGICO — (Espantado. alguém precisa fazer alguma coisa. SEREIA — As crianças já estão caindo de sono. Nunca ninguém começou um discurso assim. como é que começa esse discurso? MÁGICO — Bem. entre as radiosas flores deste dia primaveril.. que não para de sair. com a voz embargada de emoção. . paradas como duas patetas.. é? SEREIA — Achou o discurso? MÁGICO .. Será que perdi? Ah. (Remexendo na cartola. (Começa a puxar outro lenço. Onde é que está o meu discurso? (Revirando todos os bolsos.) — Porque é muito original.) — Nossa.. (Para a Sereia e a Bruxa.) E vocês aí.

) CENA 5 SEREIA — Eu estava cansada da poluição.. e a Bailarina. Até o meu cabelo verde já estava ficando meio preto de tanta sujeira. o Soldadinho. essas indústrias e fábricas que vivem derramando porcarias nos rios e nos mares. o Soldadinho e a Bailarina. Depois a minha dona ganhou de Natal um video game e me deixaram atirada num canto.MÁGICO — Vocês acham.) . A minha dona vivia me dando comidinha e me mandando dormir numas horas completamente loucas. com sua guitarra elétrica. que toca sempre que ela se move ou fala.Bem. Eu. as outras personagens vão entrando: Roque. BRUXA — Eu estava cansada de ser mandada. Algumas crianças não sabem.) Uma pena. que morava na mesma casa. para fugirmos para cá. não foi. com a música de caixinha. impaciente. Vocês sabem. SEREIA — (Para as crianças. MÁGICO — É. Bailarina? . com seu regador. mas as bonecas também sentem igualzinho a elas. (A medida que vai falando. o que o Mágico queria dizer é que hoje está fazendo justamente um ano que estamos morando aqui na Comunidade do Arco-Íris. (Puxando mais um pedaço do lenço. Agora. estavam morrendo todos. Eu vivia suja de óleo. Faz exatamente um ano que nós cansamos de morar no Reino dos Homens e resolvemos mudar para cá. Então eu convidei a Bailarina. Até que um dia a minha paciência esgotou. coitados.. é? Mas um discurso tão bonito. a Sereia.. o Roque. a Bruxa de Pano.. moro numa lagoa limpinha e sem polui nenhuma. aqui. Os meus primos peixes. Os três carregam uma faixa onde está escrito: Feliz aniversário.

BAILARINA — Foi sim. Nossa história até é meio parecida. No começo, eu morava em cima duma caixinha de música. Toda a vez que abriam a caixinha eu dançava, O que mais gosto é de dançar. Parece que estou voando quando danço. Quando a caixinha era nova, abriam toda a hora, e eu dançava sempre. Depois a minha dona comprou uma vitrola eletrônica com dez caixas de som e uma TV colorida. Ninguém ligava mais pra mim. Fiquei jogada num canto, embolorando. Nunca mais dancei. Até que a Bruxa de Pano me convidou para mudar para cá. Eu estou muito feliz por ter vindo. Aqui posso dançar à vontade. MÁGICO—- Eu nunca fui um mágico muito bom. Nunca consegui parar de tirar coisas da cartola. (Puxando mais um pedaço do lenço.) Vocês vêem, até hoje não aprendi direito. No circo onde eu trabalhava, às vezes até jogavam tomates, couve-flor, cenoura... BRUXA — Ué, você podia montar uma tendinha... MÁGICO — Poder, podia, não é? Mas é que a minha vocação é mesmo pra mágico. E aqui ninguém se importa se os meus lenços não acabam nunca. SEREIA — (Para Roque.) — E você, querido, por que você veio pra cá? ROQUE — Porque aqui tem natureza, não é, bicho? Tem árvore, lago, tem pedra, passarinho. Não tem a poluição que você falou. No mundo dos homens tem muito edifício, cimento, túnel, viaduto. As pessoas moram numas caixinhas apertadas chamadas apartamentos. Eu nem podia tocar minha guitarra em paz. Logo vinham uns trezentos vizinhos reclamar do barulho. Aqui não (tira um acorde bem estridente), posso tocar à vontade que ninguém reclama. SEREIA — E eu acho que você toca muito bem. BRUXA — Eu acho um barato. ROQUE — Podes crer.

SEREIA — (Para o Soldadinho.) — E você, por que você abandonou o Reino dos Homens? SOLDADINHO — Porque eu não tinha vocação nenhuma pra guerra. E lá tem guerra o tempo todo. Bombas, tanques, as pessoas se matando, um horror. O meu sonho era ser jardineiro. Aqui eu posso ter o meu regador e molhar as flores todos os dias. Melhor do que ficar matando gente por aí, não é? ROQUE — Pode crer. MÁGICO — Muito bem, muito bem. Agora vamos cantar o nosso hino. TODOS — (Cantam e dançam.) Passarinho, flor do campo, borboleta nuvem clara, céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. Se você quer conhecer a felicidade venha morar na nossa comunidade venha, venha, venha logo, não duvides venha morar na A Comunidade do Arco-Íris. BRUXA — (Interrompendo.) — Ai, uma coisa peluda tocou no meu braço! MÁGICO — Psssssiu, que falta de respeito com o nosso hino. BRUXA — Mas estou dizendo que uma coisa peluda tocou no meu braço!

SEREIA — (Para Roque.) — Isso é só pra prestarem atenção nela. Não liga não. BRUXA — De novo! E foi daqui de trás dessa pedra, agora eu vi. (Vai espiar atrás de uma pedra. Solta um grito.) TODOS — (Agitados.) — Que foi? BRUXA — (Gritando.) — Tem três coisas peludas aí atrás dessa pedra!

CENA 6

TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — (Pulando de trá da pedra e fazendo muita bagunça. Os três carregam gravadores, máquinas fotográficas, um estetoscópio, e o tempo todo gravam, fotografam e auscultam as pedras e as árvores enquanto tomam anotações.) MÁGICO — Esperem aí, silêncio! Vamos parar com essa bagunça. Quem são vocês? TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — Nós somos Tião, Simão e Bastião! Queremos entrar nesta curtição! TIÁO (Pegando no cabelo da Sereia.) — Seu cabelo é natural ou é peruca? SIMÃO (Para Roque.) — Você sabe tocar Quero que Vá Tudo Pro Inferno? BRUXA — Meu Deus, que coisa mais antiga! BASTIÃO (Para o Mágico.) — Você não quer tirar um cacho de bananas dessa cartola? MÁGICO — Silêncio, silêncio! Que é que vocês querem aqui?

OS TRÊS — Queremos ficar morando com vocês. Estamos cansados daquele horrível Reino dos Homens. TIÃO — Lá só tem poluição. SIMÃO — E apartamentos. BASTIÃO — E filas. TIÃO — E automóveis. SIMÃO — Engarrafamentos. BASTIÃO — E guerras. TIÃO — E novelas de televisão. SIMÃO — E gente apressada. BASTIÃO — E acidentes. TIÃO — É horrível. SIMÃO — É terrível. BASTIÃO - É medonho. TIÃO — É tétrico. SIMÃO — É pavoroso. BASTIÃO - É assustador. OS TRÊS — É catastrófico! (Ajoelham-se, muito dramáticos.) — Pelo amor de Deus, não nos obriguem a voltar para lá! Nós não resistiríamos muito tempo! TIÃO — Eu teria que consultar um psiquiatra. SIMÃO — Eu tentaria o suicídio. BASTIÃO — Eu ia virar um criminoso. OS TRÊS — Nós enlouqueceríamos! Tenham piedade de nós!

TIÃO — Eu sei cozinhar feijão, arroz e guisadinho. SIMÃO — Eu sei varrer, lavar prato e pôr a mesa. BASTIÃO — Eu sei costurar, pintar e bordar. OS TRÊS — Nós sabemos fazer muitíssimas coisas. Por favor, deixem-nos ficar! TIÃO — Aqui é tudo tão bonito. Eu fico doente só de pensar em ver um edifício de novo na minha frente. (Atira-se ao chão, gemendo escandalosamente.) Não me obriguem a voltar! SIMÃO — Bastião, traga os sais do Tião! Meu Deus, está tendo outra crise! Bem que o médico avisou que ele não podia ser contrariado. (Bastião traz os sais. Tião aspira e melhora um pouco.) SIMÃO confusos.) BRUXA (Muito agressiva.) — Olhem, por mim vocês podem pegar todas as suas trouxas e ir já embora. Não acredito numa única palavra de toda essa macaquice. (Tião começa a ter outro ataque. Grande agitação.) MÁGICO — Que crueldade, Bruxa. Você não tem o direito de não acreditar neles. BASTIÃO — É isso mesmo. Ela não tem o direito. BRUXA — Tenho, sim senhor. E não acredito mesmo. Vocês não me enganam com toda essa choradeira. Sinto de longe quando há malandragem. Vocês vão indo e eu já venho voltando. Por mim vocês podem dar o fora agora mesmo. SEREIA — Você não é prefeita daqui para dar ordens assim. (Para os outros personagens, que estão muito

espantados.) — Por favor, digam alguma coisa. (Todos se entreolham,

Depois de algum tempo. A maioria vence. Bruxa! Então você não é democrática? BRUXA — Sou. você está muito louca. Vamos votar? OS TRÊS — Isso mesmo! Democracia. MÁGICO (Muito polido. levante a mão. queremos a democracia! MÁGICO — Acho que é a solução mais honesta. MÁGICO — Então.Bicho é a sua namorada. fique sabendo. BRUXA — Pois eu me recuso. (Todos se entreolham. mas devia ser. por favor. a Sereia bota a língua para a — Desculpe. Os macacos estão muito tensos.BRUXA — Não sou. BRUXA — Demo o quê? SOLDADINHO — De-mo-crá-ti-ca. Todo mundo tem o direito de dar sua opinião. SOLDADINHO democrática. Vocês é que são loucos se deixarem essas coisas ficarem aqui. E uma coisa que só as bruxas de pano têm. Eu não sou amiga de macaco nenhum. claro que sou.) — Mas em que é que você se baseia para ter essas suspeitas todas sobre a honra dos nossos amigos? BRUXA — Amigos seus. quem achar que eles podem ficar vivendo entre nós.) — Que horror. E eu me baseio sabe em quê? No meu sétimo sentido. E não estou louca coisíssima nenhuma. Mas não com essa macacada. mas eu tenho uma solução . Então vocês não estão vendo que essa macacada aí está é fazendo fita? ROQUE — Calma. Quem é de carne e osso como vocês não entende nada disso. BRUXA . SEREIA (Escandalizada. bicho. que é peixe.

Um a um os outros levantam a mão. Não sei o que a Bruxa foi achar neles para implicar tanto. . dançam. fazem uma grande algazarra. (Apanha o pente e o espelho. (Sai.. tão bem-educados.. As vezes ela parece meia louca. deslumbrante. gritam e beijam todo mundo.. Um deles até me chamou de gentil donzela.. tiram fotos.) — Uns rapazes tão gentis. Preciso dar algumas instruções a vocês antes da festa começar.) Gentil donzela.) — Mas está tão lindo assim. Essa macacada não vale nada. SEREIA — Eu não posso. gentil donzela..) BRUXA (Saindo. disseram que eu estava belíssima.) SIMÃO — Horrorosa é aquela bruxa de pano.. Preciso dar um jeito no meu cabelo. BASTIÃO — Deslumbrante. SEREIA (Muito faceira. TIÃO (Para a Sereia. decidida..) MÁGICO — Muito bem. tão finos. Você está belíssima.Bruxa e levanta a mão. Os macacos vão fazendo grandes reverências à Sereia. Vocês vão se arrepender amargamente.) CENA 7 SEREIA (Escovando o cabelo. furiosa.) — Não se esqueçam de que eu avisei. Menos a Bruxa. Agora vamos todos lá para dentro... O meu sétimo sentido nunca me enganou.) OS TRÊS — Então quer dizer que podemos ficar? TODOS — Podem! (Os macacos pulam.) — Você acha mesmo? Eu estava me achando tão horrorosa. (Para o espelho. (Saem todos.. que lindo! .

) Com licença. Já procurei por tudo e não consigo encontrar. Gentil donzela. muito agitado. vou dar um jeitinho no meu cabelo. Será que foi a Bruxa que pegou? Ela vive pegando as minhas coisas. No escuro ouvem-se alguns ruídos abafados. Sumiu a minha cartola.. a Fada dos Sete Mares. onde estão o meu espelho e o meu pente? Gozado. em cima desta pedra. Daqui a pouco começa a festa e o que o meu namorado Roque vai dizer? Que coisa mais estranha. (Procura mais. (Para a platéia.. Música suave. CENA 9 MÁGICO (Entra correndo. tinha certeza que estavam aqui..) — Parece que todo mundo enlouqueceu por aqui.. E o único pente no mundo capaz de pentear cabelos verdes como os meus.) Ué..) — Sereia.. aconteceu uma coisa muito estranha. Não posso perder aquele espelho..) Será que alguém pegou? Não posso ficar assim descabelada.. . até apagar completamente. A Sereia adormeceu.) Será que alguém pegou? Vocês não viram nada? (Nervosíssima. Um pente de ouro e um espelho com moldura também de ouro.O Roque nunca me disse nada assim. como se alguém estivesse lutando. Estavam bem aqui.. que lindo. (A luz vai enfraquecendo aos poucos. Depois volta o silêncio. foram presentes de minha madrinha.) CENA 8 SEREIA (Despertando. no dia em que fiz quinze anos.. (Procura o espelho e o pente.

(Leva as mãos à cabeça..) . Roque..) MÁGICO (Desanimado. Não tô sacando qual é...) — E você não viu minha guitarra por aí? SEREIA — Roque. Sabe o que a Fada dos Sete Mares me disse no dia em que me deu o presente? Que quando eu perdesse o pente e o espelho o meu cabelo ia começar a ficar preto. não me diga que a sua guitarra também desapareceu. A guitarra tá sempre comigo. Sinto qualquer coisa preta na minha . bicho. MÁGICO (Procurando pelo palco. Pior é uma sereia sem pente nem espelho. apavorada. você não viu minha cartola por aí? ROQUE (Ao mesmo tempo. (Os três podem improvisar.SEREIA — Sua cartola. Você por acaso não a viu por aí? Que grilo! Logo agora. acho que já está ficando. que vem entrando. Mágico.) — Pois é. Vocês já viram um mágico sem cartola? SEREIA — Isso não é nada. Logo a minha cartola.Essa não. CENA 10 MÁGICO — Ei.. Eu estou justamente procurando o meu pente e o meu espelho de ouro.) — Que estranho. (Vai andando de costas e dá um encontrão em Roque. mas que coisa triste.) Ah. dormi um pouquinho e agora fui procurar e não achei. procurar pela platéia.) Nossos objetos não podem desaparecer assim... Tinha deixado aqui em cima desta pedra. também procurando alguma coisa. ROQUE (Procurando.. na hora da festa. chamar as crianças para ajudar.

. Ela só fala quando aquela musiquinha toca.Calma.. bicho! SEREIA — E a Bruxa de Pano! Aposto como ela está metida nisso. meu bem.) Ela não vai mais poder dançar nem falar.) Em vista da gravidade dos últimos acontecimentos. ninguém sai. Que bela comunidade vai ficar a nossa: uma sereia morena. SOLDADINHO — O meu regador também! (Todos olham para ele e a Bailarina.cabeça. um mágico sem cartola e um roqueiro sem guitarra. bicho.) Gente. SOLDADINHO (Entra correndo com a Bailarina pela mão. calma.Não chore. soluçando.) E desapareceu também a chave de dar corda na Bailarina. Está todo mundo aqui? ROQUE — Faltam os macacos. vocês não sabem o que aconteceu! MÁGICO — Claro que sei: nossos objetos de estimação desapareceram. MÁGICO — (Subindo numa pedra. que horror! Vou ser a única sereia do mundo com o cabelo preto! (Começa a chorar.. Agora ficou muda. SOLDADINHO — Mas isso não é possível! Precisamos fazer alguma coisa. que faz gestos como se tentasse expressar-se por mímica.) . Vamos fazer uma reunião geral imediatamente.. (A Bailarina corre a abraçar-se à Sereia. Ai. um soldadinho sem regador.. SEREIA (Consolando a Bailarina. uma bailarina muda que não pode dançar. . Daqui a pouco pinta o pente e o teu espelho.) ..) ROQUE (Consolando-a. fica decretado o estado de sítio na Comunidade do Arco-Íris: ninguém entra.

isso agora não tem importância.) Tião. horripilante e inconcebível.) BASTIÃO — Que desgraça! Vamos morrer de fome ROQUE — Não é nada disso. MÁGICO — É. calma.. nem do abacaxi.. (Em tom discursivo. SOLDADINHO (Com voz cavernosa. ROQUE — Deixa pra lá.) — Eu não. Uma coisa terrível. Bastião. bicho. Uma coisa que nunca havia acontecido antes na nossa comunidade. nem do abacate.Furto? SIMÃO — Afanação? .) Senhores macacos: aconteceu urna coisa muito séria. Eu vi. sim. vocês estavam comendo os doces antes da festa! TIÃO (Disfarçando. Não consigo imaginar nada mais terrível. bicho. inconcebível.Roubo? BASTIÃO .Roubo! TIÃO . MÁGICO — Calma..MÁGICO — Onde é que andam aqueles macacos? (Chamando. então se não foi isso. Não subiu o preço nem da banana.. SIMÃO — Já sei! Subiu o preço da banana! (Os três têm uma crise histérica e se jogam ao chão. horrível. gritando. TIÃO — Bem. que nos desgosta pro-fun-da-mente. Simão! TIÃO — Aconteceu alguma coisa? SEREIA — Ei.) . SEREIA — Estavam.

TIÃO — Então por que é que ela não está aqui. Os macacos cochicham entre si por um instante. SEREIA — E o meu pente e o meu espelho de ouro.) TIÃO — Um momento. BASTIÃO — Uma criatura de pano. SEREIA — A Bruxa de Pano? MACACOS — Ela mesma! Ela mesma! MÁGICO — Não acredito. (Todos se lamentam. Um pouco.. agora? ROQUE — Ela saiu daqui trigrilada! SIMÃO — E antes de sair disse que vocês todos iam se arrepender amargamente.. ROQUE — E a minha guitarra.. TIÃO — Com um chapéu de flores.. A Bruxa sempre foi uma criatura de bons sentimentos. uma criatura desnaturada. Nós sabemos quem foi.. senhores.. mas jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas. vil e infame cometeu um nefasto crime: roubou a minha cartola.MÁGICO — Sim. SIMÃO — E um xale muito colorido. SIMÃO — Foi uma pessoa que não está presente. SIMÃO — E infame. BASTIÃO — Uma criatura desnaturada. E a chave de dar corda à Bailarina. SOLDADINHO — E o meu regador. um pouco atacada de vez em quando. TIÃO — Vil. Agora ela não pode mais falar nem dançar. Enquanto nós nos preparávamos para a festa. . bicho. bem.

Eu não sei o que fazer.Está bem. Simão e Bastião vamos aqui pela esquerda.BASTIÃO — Está tudo muito claro: ela ficou zangada porque não queria que nós ficássemos aqui e resolveu se vingar.) SOLDADINHO — Tenho uma idéia: acho que a gente deve fazer uma expedição de busca. MÁGICO — Não posso acreditar. Não entendo por que é que vocês não querem. MACACOS (Cochichando. TIÃO (Muito nervoso. não! MÁGICO — Mas por que não? Acho que é o único jeito de encontrarmos as nossas coisas. o Soldadinho e o Roque vamos pela direita. Todos se consultam e falam ao mesmo tempo. SEREIA — Mas todas as provas são contra ela. (Grande agitação. SEREIA — E nós? .) . SEREIA — Também acho. MÁGICO — Está certo.) .Não. MÁGICO — Isso é muito grave. SEREIA — Uma o que? SOLDADINHO — Uma expedição de busca: dividimos as pessoas em dois grupos e saímos a procurar a Bruxa. MACACOS — Está na cara que foi ela. Eu. TIÃO — Eu. muito nervosos. já que vocês insistem.) — Não! Isso não! SIMÃO e BASTIÃO (Em coro.

) Aqui está a chave de sua musiquinha. não está vendo que eu não posso sair do lago? (Bailarina corre e segura a Bruxa. Segure ela.) SOLDADINHO . Bruxinha. dona Bailarina. SEREIA — Você? Como é que você tem coragem de voltar aqui depois do que fez? (Gritando. BAILARINA (Dançando.. e aqui estão o seu pente e o seu espelho de ouro. Que papelão! Uma ladra. (Saem. (Abrindo a bolsa . uma ladra. com uma clave de sol como fivela. muito contente.. dona Sereia. As mulheres sempre ficam em casa esperando.) Veja só. fique sabendo.) — Eu sabia. como as pessoas podem nos enganar.) — As damas ficam esperando. que parecia tão nossa amiga. eu sabia que você não faria uma coisa dessas. faça alguma coisa. Bailarina.) CENA 11 SEREIA — E agora..TIÃO (Com uma reverencia... Nos momentos difíceis os homens é que saem por aí. BRUXA (Aparecendo de repente com uma bolsa cheia de coisas.Cuide bem da bailarina. Ambas choram e torcem as mãos. a Bruxa de Pano. choramingando e torcendo as mãos.) BRUXA — Então vocês estão pensando que fui eu quem roubou todos aqueles cacarecos? Deixem de frescura. (Olha para a Bailarina.a musiquinha da Bailarina pode ser um cinto em forma de pauta musical. meu Deus? Às vezes me dá uma raiva de ser mulher. ..) Bailarina. suas bobalhonas. (Saem.) — Ladra? Ladra é a excelentíssima senhora sua avó. E logo no dia de nosso aniversário. Quem diria...

.) CENA 12 TIÃO (Entrando. SEREIA — Nem o Mágico. SIMÃO — Deve ter tomado o primeiro trem para bem longe daqui..Mas.. suas tontas. (Desce para a platéia. BASTIÃO — A essa hora ela deve andar longe. então quem foi? BRUXA — Adivinhe.SEREIA (Penteando-se. nem o Soldadinho.. Não sei como não perceberam desde o início. Não conseguimos encontrar a criminosa. Mas acho que vem gente por aí. BAILARINA — Se não foi você. mas se não foi você.. Vocês façam de conta que não sabem de nada. então. nem a Sereia... O meu sétimo sentido nunca me enganou...) .. Vamos desmascarar aqueles três. BRUXA — Pois eu vou contar direitinho pra vocês. .. BRUXA — Então? SEREIA e BAILARINA — Os macacos! BRUXA — Claro.) — Foi inútil. E melhor eu me esconder no meio das crianças. felicíssima. nem o Roque. Foi assim (barulho fora de cena). BAILARINA — Mas não entendo por que eles fariam uma coisa dessas.. Bem que eu avisei. nem eu.

. colcha de retalhos. até apanhá-los..) . BRUXA — Vocês vão ficar aí parados enquanto esse monstro me ofende? Crianças.) — Mas a senhorita. mas nós.) — Segura a macacada! Ladrões.....) BRUXA (Da platéia.. a Bruxa de Pano tinha roubado a musiquinha dela. veja.) CENA 13 . sua. volver (Preparam-se para fugir.) — Simão. Se ela está dançando de novo é porque. ela está dançando novamente! SIMÃO — E o que tem isso? Ela não é uma bailarina? TIÃO (Muito nervoso. SIMÃO (Gritando. lentamente. acho que está na hora de darmos o fora. dona Bailarina. (A Bailairina começa a dançar. mentirosos! TIÃO — A ladra voltou! Segurem a Bruxa! BRUXA (Subindo ao palco. vamos pegar a macacada.TIÃO (Fazendo uma reverência para a Bailarina.. quero dizer.Sim..) BASTIÃO (Cutucando Simão. eeeeu? Ladrão é você. com um ar tão satisfeito O que foi que houve com a Bailarina? Nem parece uma Bailarina sem música.) — A Sereia está penteando o cabelo! BASTIÃO — Companheiros. (Pode improvisar uma correria com as crianças atrás dos três macacos. Meia-volta. sua.) — Ladra.. sua fera peluda! BASTIÃO — Fera peluda é a sua avó.

ninguém está entendendo nada. é um homem! BRUXA — É. (Avança para Tião. amarrada. Roque. eles estão fugindo! (Roque e Soldadinho conseguem apanhar Bastião e Simão.) Fiquem sabendo que com a Bruxa de Pano ninguém brinca. sim.MÁGICO (Entrando. Bastião e Simão se esgueiram de mansinho. Eles foram para a beira do rio. Você quer fazer o favor de explicar? BRUXA — É muito simples. MÁGICO — Bruxa.É. que resiste até que a Bruxa consiga abrir um zíper na roupa de macaco. . Eu fiquei tão nervosa que escorreguei da árvore e caí bem em cima de um deles. Fiquei em cima duma árvore espiando. é que nós acabamos de prender os ladrões. eu resolvi ir atrás deles para ver se descobria alguma coisa. tiraram os disfarces de macacos e começaram a planejar o roubo das coisas de vocês. E sabem quem eles são? São espiões! Isso mesmo: três espiões do Reino dos Homens! Foram enviados para acabar com a nossa comunidade. para a Bailarina:) Senhoritas.) .) SEREIA — Meu Deus. E um homem mau-caráter. ainda por cima. E os outros dois também. senhoras e senhores. Surge um homem de terno e gravata. Aí eles me deixaram lá.) — Mas o que é que está acontecendo por aqui? BRUXA — O que está acontecendo. querem ter a honra de desmascarar esses malandros? (Elas puxam os fechos e aparecem mais dois homens. com a tal de democracia. Mas estavam com tanta pressa que não amarraram direito.) — Isso é verdade TIÃO (Muito humilde. com Soldadinho e Roque. E tenho uma surpresa para vocês. MÁGICO (Para Tião. Depois que vocês decidiram que eles podiam ficar morando aqui. Para a Sereia. eu consegui me desamarrar e vim correndo para cá.

SIMÃO — As ruas cheias de gente. BASTIÃO — As guerras. Por favor. SIMÃO — E as pessoas vivem bem e são felizes. BASTIÃO — Os automóveis. Tem gente com medo de que esse modo de vida chegue a cidade. TIÃO — Os apartamentos. não nos obriguem a voltar para lá. BASTIÃO — Nós queríamos que vocês começassem a brigar entre vocês mesmos.MÁGICO — Mas por que os homens querem acabar com a nossa comunidade? Nós não estamos fazendo mal para ninguém. TIÃO — É que todo mundo anda falando que vocês vivem de um modo diferente. TIÃO — A televisão. Nos deram ordem de fotografar e gravar tudo. todos constroem as suas casas. até todo mundo voltar para a cidade. comem o que plantam. fazem as suas roupas. BASTIÃO — Que aqui o trabalho é dividido entre todos. SIMÃO — O custo de vida. SIMÃO — Mas agora nós gostamos daqui. deixem-nos ficar! . OS TRÊS — Por favor. BASTIÃO — O barulho da televisão. TIÃO — Fomos enviados para impedir que isso aconteça. TIÃO — Para os ônibus. SIMÃO — O barulho dos automóveis.

(Aqui os atores improvisam uma pequena votação com a platéia. nós estamos arrependidos. E perdoar é uma coisa muito bonita. procurando juntos um modo de viver melhor. A maioria vence. MÁGICO — Eu acho que eles devem ser perdoados.SIMÃO — Eu quero ouvir os passarinhos cantarem livremente. estamos buscando. mas não pensem que aqui tudo é fácil. por favor. SOLDADINHO democracia? BAILARINA — Como assim? SOLDADINHO — Vamos fazer uma votação com as crianças. Nós estamos batalhando e mesmo assim pintam grilos! BAILARINA — Afinal. Lá todos os rios estão poluídos. que decide se os macacos ficam ou não. É horrível lá na cidade.. ROQUE — É. Lá é proibido pisar na grama. Parecem mesmo arrependidos. Quem acha que eles devem ficar levanta a mão. BASTIÃO — Eu quero tomar banho de rio. Bruxa? TIÃO — Bruxinha. por favor! MÁGICO — Mas o que vocês fizeram não foi legal! O que é que você acha. TIÃO — Eu quero pisar descalço na grama. OS TRÊS — Por favor. Lá os passarinhos estão quase todos engaiolados. SEREIA — Coitados.) — Não sei.) — Quem sabe a gente usa outra vez a . BRUXA (Indecisa. Acho que o melhor seria mandálos de volta para lá.

) SEREIA — Bruxa. basta a canção para finalizar A Comunidade do Arco-Íris. venha morar na nossa comunidade venha. (O final deveria ser uma festa. venha logo. balões. morar na Comunidade do Arco-Íris. Se você quer conhecer a felicidade venha. a cartola e o regador. com as crianças subindo ao palco e os atores oferecendo doces. flor do campo. Não falei que tinha um sétimo sentido? SOLDADINHO — Viva a Comunidade do Arco-Íris! TODOS (Cantam. venha.BRUXA (Abrindo a bolsa. borboleta nuvem clara. não duvides. Na impossibilidade disso.) . (Vai entregando a guitarra. bebidas. BRUXA — É pra você ver.) Passarinho.) — Acho que agora podemos começar a festa. quero lhe pedir desculpas por ter pensado tão mal de você. céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. querida.

que me fez escrever e me ajuda a viver. .ZONA CONTAMINADA Comédia negra em 1 Ato Para Scarlet Moon de Chevalier. com gratidão e amizade.

Iansâ de frente. cantil. NOSTÁLGIO. talvez chapéu estilo cowboy. seu visual deve dar a idéia exata do que ela fundamentalmente é: uma guerreira. Visual um tanto pré-rafaelita. seda. Roupas leves. esvoaçantes — tule. cravo vermelho na lapela. cartucheiras tramadas no peito. CARMEM. . luvas brancas. cabelos que imagino longos sempre soltos. Anda descalça. musselina. mais ou menos da mesma idade. Maquiagem muito branca. MR. um tanto gótica (meio morta-viva). De qualquer forma. pulseiras. cabelos muito curtos. homem de idade indefinida. rude. irmã de Vera. Oxum de frente. decidida. mas o oposto dela.PERSONAGENS VERA. Mas também a imagino toda de couro negro. um fuzil. Talvez use coroas de flores. Forte. quase um clown. Imagino-a com roupas de guerrilheira. descoloridos. entre 25/35 anos. enriçados.

CENÁRIO Basicamente. Está coberto de trapos que deixam entrever nesgas de carne. Entre escombros. de qualquer idade. bermudão. mas também podem participar de outras ações. fica a critério do diretor incluí-lo ou não. pelos. músculos. por volta de 30 anos. quanto fantasias tipo Chacrinha.smoking impecável. . camisetona). mas acho que seria ótimo. NOSTRADAMUS PEREIRA. E da maior importância que passe uma impressão de irresistível sensualidade. tralhas do gênero. bem animal. Também pode ser feito por uma atriz. Obalua. Tudo pode ser apenas sugerido. dança e se agita muito. HOMEM DE CALMARITÁ. Forte e musculoso. Imagino alguns bailarinos — uns cinco ou mais. gostosíssimo. limita-se ao refrão das Litânias de Satã. sempre coreografados. J. mas o diretor é livre para criar outras e também para eliminá-las. Enquanto fala — talvez ritmadamente. caixões. quem sabe também muitos bottons. Satã. mas castigado. Seu texto. é um D. Compadecei-vos de nossas feridas!‖. Pode também usar roupas no estilo grunge (boné virado.) Algumas de suas intervenções estão sugeridas no texto. atotô! (―Livrai-nos de nossas chagas!.) ou eventualmente algum mote tipo: Atotô. portanto. Talvez tenha um auto-falante e um walk-man. Fica a critério do diretor. como um rapper —. multo agitado. CORO DOS CONTAMINADOS. talvez polainas e uma bengala. homens e mulheres — cobertos de farrapos e chagas. como um coral. Imagino que fala às vezes com sotaque lusitano. há coroas de flores metálicas. de Baudelaire (―Tem piedade. Eles geralmente acompanham as emissões de Nostradamus. o interior de uma loja funerária que sofreu um incêndio. desta longa miséria!‖. mas é fundamental pelo menos um caixão à vista (a cama de Carmem). ex-votos.

Também quero deixar bem claro que o texto está aberto às improvisações dos atores.Esse espaço pode ser chamado Plano Real. Mr. etc. uma cadeira de balanço ou recamier. montanhas de lixos. Nesse caso. Noutro canto. ou violeta — mas de qualquer forma. sobretudo o de Nostradamus Pereira. de cor contrastante com Plano anterior. flores carnívoras. explosões nucleares (um bom cogumelo atômico). modesta. Penso em sépia ou bege. o espectador ficaria cercado pelo espetáculo.). da mesma maneira que o anterior. que faz backing-vocal e repete como um eco coisas que ele diz. Imagino-o completamente branco. muito chique. do espaço disponível. Há ainda um quarto espaço — o Plano Mídia — onde fica Nostradamus Pereira. Nesse caso. Enfim. 2. 3. ou num canto do palco (penso nele um pouco mais alto. No Plano Mídia pode haver um telão. Nostálgio é muito. . dos horrores dos campos de concentração nazistas. Depende do diretor. Dependendo das possibilidades do palco e do diretor. exibindo eventualmente cenas de Grande Catástrofe ou ruas desertas. *•* Outras indicações/sugestões: 1. Dependendo do tipo de teatro. é nele que acontece a maior parte da ação. vírus (dá-lhe HIV!) ampliados. da produção. Em nível diferente. Pode ser tanto uma comédia de humor negro. Nostradamus Pereira intercala música em seu texto. se o diretor quiser também uma mesinha com abajur art-nouveau em cima. mais alto. Nostradamus move-se por todo o palco. ou um espetáculo alucinado. passando pela Talidomida. invade todos os espaços. ou um biombo recoberto de papel de parede estilo inglês. Zona Contaminada em nenhum momento se pretende um texto pronto. fica o Plano Alfa.). fica o Plano da Nostalgia. com várias cenas acontecendo simultânea e vertiginosamente. As citadas são apenas sugestões do autor. O diretor fica livre para pirar. Há nele uma poltrona bergère. ou preto. esse plano pode ser um praticável levadiço ou nem sequer existir. os vários Planos podem ficar fora do palco. sempre seguidos pelo Coro dos Contaminados (se houver.

me arranha.) Maldição. geme. CENA 2 HOMEM DE CALMARITÁ (Continuando a acariciar-se. ou abanando-se suavemente com um leque. como se ouvisse ruídos. magnífico e seminu esta o Homem de Calmaritá. Preciso me esconder.) . continua a treva. mata a minha sede que já dura há tantos anos. No Plano Mídia. cujo som a platéia não ouve. exatamente como se amanhecesse. me morde. deve ser algum contaminado. como se dormisse. Eu quero ficar todo melado dentro de ti. E me toca.Ah vem. Assim. (Subitamente para. Nostradamus Pereira dança loucamente com um walk-man. No Plano Real. Mais para a esquerda. mata a minha sede. Por piedade. passa a mão entre as coxas. num canto. (Procura com os olhos. me rasga. Como antes da Grande Peste. Com os dedos. por favor. apalpa os mamilos como numa masturbação não exclusivamente genital. estilo nostálgico. Aos poucos. sentado em sua bergère. e fica imóvel. Nada se vê. põe a tua língua aqui. com os dedos. Aqui.CENA 1 Palco totalmente escuro. a luz vai crescendo lentíssimamente. Em voz baixa.) . No Plano da Nostalgia.) Quem está aí? Tem alguém aí? (A parte. como antigamente. No Plano Alfa. dobra-se todo de cócoras. Bem fundo. Ele acaricia sensualmente o próprio corpo.

(Aos gritos. verme do Apocalipse! HOMEM DE CALMARITÁ (Saltando sobre Vera.Todos dizem a mesma coisa.) — Amanheceu outra vez. .) . Ah.) — Me larga. eu não quero.. isso não prova nada..) Maldição.VERA (Entrando. Droga. deitada num sleeping-bag. A medida então que a luz diminui no Plano Alfa. A Peste deve estar em seus estágios iniciais.Aqui.. Bom.. tempo suficiente para que Vera saia debaixo dele e desça para o Plano Real.) CENA 3 VERA (Espreguiçando-se. Não acredito em você Preciso salvar a minha pele. contaminada dos infernos. que continua a gritar e a debater-se. Deixa ver esses peitos. outra vez aquele sonho. meu bem. HOMEM (Joga-a no chão. VERA (Debatendo-se.. Hum. Vai ter que ser do jeito mais prudente. Deixa ver essa carinha.) — Quem está aí? Tem alguém aí? (Procura.) Sai daí. besta imunda! Mostra tua cara purulenta. Ergue as mãos para o alto. É um estupro. (Rasga a roupa de Vera. não tem nenhuma mancha.. domina-a. O Homem então tira um par de luvas de borracha de algum lugar. (Vera continua a gritar. é verdade. ameaçadora. deve ser algum contaminado. Aqui esta minha cara.. veste-as e começa a lubrificá-las lentamente. eu não estou contaminada! Não me toca.) . me deixa. Nossa. Luz somente nas mãos enluvadas do Homem. HOMEM — Sinto muito. O Homem a amarra pelos pulsos e tornozelos. amordaça-a — tudo com trapos que arranca da própria roupa. No começo não se nota nada. o fuzil nas mãos. não me passa a tua peste. falando alto. olha bem. então. aumenta no Plano Real.. Nenhuma ferida. VERA — Eu estou perfeita! Me larga. parece perfeita.) Essa barriguinha. Preciso matá-lo. Vera debate-se como pode. Tão bom.

As nuvens radioativas cobriram tudo.. Então arde. dia! Bom dia.que homem. Verinha. redondo. O tesão começa aqui. Que tal um cafezinho bem quentinho e uma geleiazinha de moranguinhos num pãozinho bem fresquinho para adoçar o nosso diazinho que começa a tão azedinho? VERA — Ai Carmenzinha.) Faz uma volta redonda. Fome e tesão. CARMEM — Era uma vez uma irmãzinha que acordava todo dia num mau-humor horroroso. Como areia. em algum lugar do infinito. CARMEM (Saindo do caixão. sei. alegria! Bom dia.. arde tanto.. como você é idiotinha. Imenso. Tão forte. todo dia a mesma coisa. Depois aperta a garganta e seca na boca. meu bem. de pedra. rijos. devagarinho. (Acaricia os seios. amarelo.) Amolece. Depois arde. sal! Bom dia. entorpece e vai subindo também. E vai subindo. CARMEM — Sei. A fome começa aqui (apalpa o estômago). bem nos bicos dos meus seios. Verinha.) — Bom dia. cantarola. quente. subindo devagar. Ainda bem que estou acostumada. (Apalpa o sexo. sol! VERA — Não existe mais sol. Você continua a mesma. Dois pregos fincados no espaço. CARMEM (Abrindo a tampa de um caixão de defunto. sei. De alguma forma. VERA — Aqui e agora. umedece. Mas depois de um bom café qualquer um muda de idéia. . sul! Bom dia.) — Imagina. desde criança. Nunca sei o que acontece primeiro. eu odeio estar viva aqui e agora. como arde. VERA — Tão quente que faz a pele da gente ficar cheia de feridas que não cicatrizam nunca. por trás das nuvens. até deixá-los duros. Tão duro.. como arde. arde tanto. subindo. Tesão e fome. parece um buraco fundo. deve continuar existindo aquele mesmo sol. Nunca sei qual o mais forte.

Supermercado abandonado é o que não falta. CARMEM — Você vai me deixar outra vez sozinha aqui? Ah. Vera. CARMEM — Não é possível. VERA — Não ficou picas. O que aconteceu? VERA — Você come demais. vou sair pra buscar mais. CARMEM — Mas a semana passada você trouxe tanta coisa. madame! Une baguette de campagne. Já olhou a sua bunda? (Pega o fuzil. Kapput. CARMEM — Não quero ficar sozinha aqui.) — Então. o que é pior. cheguei até a pensar que eles tinham apanhado você.) .) Tudo bem. você sabe perfeitamente que se eles me pegarem eu não vou dizer nada. CARMEM (Bem british.) — A-ca-ba-ram. belle journée! VERA — Nem baguete nem salete: os víveres acabaram. VERA — Então vem comigo. Afinal. Salmão.CARMEM (Fingindo não ouvir. querida. VERA (Cortando. Você demorou horas. o que é que temos para o nosso petit dejéneur? Bon jour. O rango c‘est fini. mas eu não digo nada. ou me contaminar.) — Você pensa muita bobagem. e que logo viriam me pegar também. caviar. Necas de pitibiriba. CARMEM — Deus me livre. e que nós estávamos perdidas. anchovas daquele supermercado chiquérrimo. . e que. Nem um grão-de-bico.I beg your pardon? VERA (Soletrando. Podem me matar. s‘il vous plat! Merci o beaucoup. a última vez foi horrível.

Não dói.. Um cheiro adocicado de lixo.. Da última vez só vi uns dois ou três escondidos num beco. Não existe nada mais morto do que as coisas lá do lado de fora. VERA — Laboratório? Só se for de cientista louca. CARMEM — Pobrezinhos. fedendo. Não quero nem dizer o nome. E além disso você sabe muito bem que só estou tentando me acostumar com a idéia da morte. Carmem. VERA — Mas não tem quase mais nenhum deles vivos. Você só sente o cheiro. Pois eu estou tentando me acostumar com a idéia da vida. A idéia da morte. aquelas pessoas. Ele é todo acetinado. Vem comigo. só uma vez. E assim uma espécie de. Amontoados no chão. penetrante. Empesta tudo. delirando dentro desse caixão medonho? CARMEM — Não fale assim do meu caixão. você sabe. As ruas. meu bem. eu não quero ver.. laboratório. Não adianta nada tapar o nariz. as ruas estão cheias daquelas pessoas. Um cheiro nojento. CARMEM — Pois é. enquanto você fica aí no bem bom.. enrolados nuns trapos. Eu tenho medo. você sabe. cheios de pus. Aquele cheiro fura qualquer pano. . VERA — O horror nunca é suficiente.. como você é tola. Pareciam uns cães sarnentos. Ou do que sobrou dela. devem sofrer tanto.. Ou o que restou da cidade. CARMEM — Eu já vi o suficiente. CARMEM — Para mim é. VERA — Os contaminados. aquele cheiro podre perdido no meio dos destroços. atravessa qualquer parede. para mim já bastou. Por que é que tem que ser sempre eu. podridão: foi isso o que sobrou. só da gente ver? VERA — Mas você não v quase nada. Ruína. Ninguém resiste muito tempo. Vamos ver a cidade.VERA — Por que? Vamos nós duas juntas.

CARMEM — Mas você mesma disse que não tem mais sol. quando digo ―sol‖. mais nados têm horror à luz do sol. A luz diabólica que mata todas as malditas criaturas que insistem em continuar vivas. duro. Eu e você. . um biscoito.) . inclusive nós. CARMEM — Não fale assim do corpo de Cristo. eu tenho fé que Ele não vai nos abandonar. duas ratazanas famintas enfiadas nesta toca imunda. eu quero dizer o sapo do inferno que ainda conseguem furar as nuvens de chumbo. VERA — É melhor eu ir andando.) . VERA — Como se a gente fosse rato.) CARMEM (Apanhando o pão.Um figo seco. Foi só o que sobrou. CARMEM — Quer um pedacinho? VERA — Pão velho. (Atira-o para Carmem.Que lindo! Uma côdea. Esse mormaço branco.) — Tem esse resto de pão. Quanto mais cedo. viscoso. que rói a pele da gente. Estou com tanta fome. qualquer coisa.CARMEM (Fingindo não ouvir. VERA — Já abandonou. CARMEM — Não fale assim do nosso lar. não era assim que se dizia nos livros? Graças a Deus. irmã! VERA — Sol? Tem razão. É sacrilégio. Não ficou mesmo nada por aí? VERA (Tirando um pão do bolso. Na verdade. É pecado. seco. honey.

Segundo ele. NOSTRADAMUS — E é cinco. É quatro. E atenção. (Tentando mudar de assunto. da sua. onde está Nostradamus Pereira. mas as duas Sisters não foram localizadas. E um. ao alvorecer da manhã do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste. Sempre a mesma história. é zero.) Está muito frio. garantindo ter informaçoes fresquinhas sobre o paradeiro das Sisters Salvadoras. E dois. em sua primeira transmissão de hoje. um bum. É três.CENA 4 Nesse momento entra um ruído eletrônico fortíssimo. da nossa Zona Contaminada. Batalhões armados até os dentes cercaram a área. Conte à mina. ação! VERA — Saco. Luz sobre o Plano Mídia. Onde foi que eu deixei? Estava aqui. Mais tarde constatou-se — ouça! ouça! — estar o Sobrevivente 2001 de tal sofrendo das terríveis alucinações características do Estágio D da contaminação. (Encontra uma garrafa térmica. no meio daquela pilha de Vanity Fair que você trouxe outro dia. Eles não vão nos encontrar nunca.) Acho que aqui ainda deve ter um pouco daquele café de ontem. um brinco. queridos sobreviventes da Grande Catástrofe! Aqui quem fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. Vera com o fuzil. as fugitivas estariam ocultas num porão ao sul do Boulevard Césio 90. Carmem com o pedaço de pão estendido para Vera. CARMEM — Se Deus quiser. serve Vera. virou freguês. irmãzinha. é lero: Bom dia. atenção. lá vem os bois. porta-voz oficial do Comissariado do Poder Central. Carmem e Vera estatizam. querida? . que simulacro. muita atenção! Durante a madrugada passada o sobrevivente identificado pelo número 200 1-KBeta-S-B-03 procurou o Centro de Denúncias da minha.

generosamente. cientistas especulam da possibilidade da criação de uma nova espécie de mutantes..) Qualquer informação sobre Carmem e Vera. E agora fiquem com outro hit dos velhos bons tempos anteriores à Grande Catástrofe. Mas tudo bem. após a Grande Catástrofe. será regiamente recompensada pelo Poder Central.. Like a Virgin ou algo assim. The Big Bitch. em sua primeira transmissão diária. maravilhosamente. abundantemente. Toda a cidade está cercada. do Esp. a completa extinção da humanidade. resultante do cruzamento de uma ou ambas as fugitivas Sisters com algum contaminado. todas as saídas controladas. do Filho. litúrgica. vacona! (Entra Material Girl. mente. a deusa do fin-de-siécle passado: Ma-don-na. Eu disse regiamente. Vocês ouviram o seu repórter Nostradamus Pereira. enquanto prossegue a transmissão de Nostradamus. . NOSTRADAMUS — Como todos vocês estão cansados de saber. (Volta o ruído eletrônico enquanto a voz de Nostradamus vai desaparecendo.VERA — Frio. (Benze-se com o pão. por um fenomenal fenômeno fescenino as irmãs Carmem e Vera são as únicas mulheres sobreviventes ainda com seus úteros em perfeitas condições de funcionamento. Com vocês.) CENA 5 CARMEM (Erguendo o pão seco em direção ao alto. As duas ficam bebendo café em silêncio. derramai sobre nós Vossas sagradas bençãos. fraco e fedorento. as Sisters Salvadoras. oh doce e sagrado Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dá-lhe.) — Corpo de Cristo. e portanto as únicas mulheres vivas capazes de evitar. Além disso. mente.) Em nome do Pai. através da procriação. todas as ruas vigiadas.

eu esqueci do esmalte.) CARMEM — Vera. Na melhor das hipóteses.. VERA — Para fazer um filho com um desses monstros sobreviventes? Um filho monstro. Eu volto logo. queri.. Ah. CARMEM — Que amor! VERA — Às vezes eu acho que você ficou completamente louca.) — Caralho! Não me pegarão com vida. E batom. querida. eu também queria uns bombons. fica calma. Meu Deus. volte aqui. No que depender de mim. Fala baixo. VERA — Pare de me chamar de querida. (Sai. a humanidade acabou. sonha. Pára e apanha um par de luvas de borracha. CARMEM — Às vezes acho que seria mais fácil se a gente se entregasse logo. viro tia de um monstrinho bem nojentinho.) CARMEM — Não esquece de trazer a gasolina! E vê se encontra aquela biografia da Lady Di! (A parte. Prefiro morrer de fome. dizem que foi das primeiras a ser contaminada.) Chega de bobagem. Dorme. Eu também vou aproveitar. decidida. Entregue-se você.) — Calma. (Vai saindo. Eu me recuso. e esmalte.VERA (Cortando. lentamente. Aproveita. CARMEM — Os desígnios de Deus são insondáveis. Não me deixe sozinha pelo amor de Deus! VERA (Vestindo as luvas. também? Pois eu não. ouviu? Eu me recuso a entregar meu corpo para esses monstros. Foda-se a raça humana. . querida. querida. se quiser. (Pega o fuzil.) Coitadinha. você quer que eles nos encontrem? Fica em paz. pode ter certeza.

e em nome do Senhor proclamaram aos sete ventos. sobem os acordes de alguma valsa bem conhecida. Ao fundo. com uma rosa vermelha nas mãos estendidas para Carmem. fecha a tampa e coloca uma coroa de flores em cima. Senta-se no centro do palco com o pedaço de pão nas mãos. Salve Rainha. se eu gritasse. cheia de graça. Mr. minha mãe Oxum! Por ti rogamos. doçura e esperança nossa.. com suas sete espadas de fogo. aroboboi! Ave Maria. NOSTÁLGIO (Curvando-se. muito formal) — A senhorita dar-meia a honra desta contradança? CARMEM — Falou comigo. Oxumaré. que se fizesse silencio por todos os cantos crestados desta terra calcinada por sete carcinomas cancerígenos. Orai. Em vossas divinas mãos entrego meu destino. Nostálgio aproxima-se cada vez mais. sete moradas. cavalheiro? .) — Bendita seja a sagrada refeição que me dais hoje. Mr. seja ele qual for. ainda que tivesse todo o ouro do mundo eu nada seria. espana o caixão. CARMEM — E no sétimo dia sete anjos desceram de suas sete casas. enumerando futilidades. Imploro-vos de rastros que perdoe minha irmã Vera — ela não sabe o que faz e sem sua força e proteção. dá voltas pelo palco.CENA 6 Enquanto Carmem fala sozinha. Aroboboi. Ondas do Danóbio. CARMEM (Chorosa. lansã! — o fruto de vosso ventre Jesus. Pega um espanador de penas. Senhor.. quem na legião dos anjos escutaria meu grito? Vida. Enquanto Carmem reza (a atriz pode improvisar à vontade). sete moradas. acende-se a luz no Plano da Nostalgia. oh vale lamacento do Estige. por ti imploramos neste vale de lágrimas amargas de Petra von Kant. Nostálgio está: parado. Desde L‘Alma ou algo assim. mãe de misericórdia — eparrêi.

Sou o que resta na memória. NOSTÁLGIO (Enlaçando-a. e não volta. CARMEM — Que romântico! . CARMEM (Muito coquete.NOSTÁLGIO — Pois evidente que sim. Ao contrário.. podeis crer. obrigado. se indiscrição não o fora? CARMEM — Apenas Carmem. garboso jovem. NOSTÁLGIO — Ah. apesar das guerras. (Coloca a rosa nos cabelos. Tudo aquilo que persiste no coração dos mortais.Nostálgio. Tout-court. nobre senhor? Nada tenho de cruéis dissímulos. sou e sempre serei a mais sincera dentre todas as donzelas. Oblíqua. gentil donzela? CARMEM — A honra é toda minha.) . fui. ilustre mancebo.) — Aceite. começam a dançar. das pestes. Quem é mesmo o senhor? NOSTÁLGIO — Sou aquilo que foi. cavalheiro. outros apenas Gio.. NOSTÁLGIO (Oferecendo a rosa. CARMEM — Mas deixemos de lisonjas. além da passagem vertiginosa e implacável do Tempo..) Mas aceito vossa prenda. CARMEM — Que exagero. Alguns preferem Nos. dissimulada. como singela prenda de minha ardente admiração e afeto. Nostálgio..) — Cigana eu. embora ainda não saiba sua graça. Mas prefiro Mr. a senhorita pode chamar-me assim. doce e fatal veneno que a um só tempo mata e embriaga: teu nome sempre será Mulher. Dar-me-ia a honra da contradança. Um criado seu. E vossa merca. NOSTÁLGIO — Nome de cigana. Duas sílabas crocantes: Car e Mem. Uma modesta rosa para enfeitar a suprema rainha de todas as flores.

(A valsa pára bruscamente. coberto por todas as cores de todas as flores recém desabrochadas.Poison! Eternity! And last but not least: Chanel número 5! NOSTÁLGIO — Sou o suspiro. o sândalo.―É o dia. Vêde. o arquipélago.) Mas venha..) NOSTÁLGIO — Calma. NOSTÁLGIO — A orquídea.. Maria del alma. a ametista.. seu idiota. Maria bonita.. no dia real.. enlevados.. Qu‘est que se passe.‖ NOSTÁLGIO — Sou o perfume no vale entre os seios da bemamada. recitando Fernando Pessoa. senhorita! Vosso ânimo arrefeceu tão súbito. quem sou eu? Não sou nada. Sou a praia deserta varrida pelo vento nas noites de lua cheia. CARMEM (Cantarolando. NOSTÁLGIO — Sou o bolero eternamente vivo na lembrança dos velhos enamorados. Por mais que o tempo passe. é dia já. CARMEM — Ai! NOSTÁLGIO — A pérola.. CARMEM .) E eu.) .NOSTÁLGIO — Sou o jardim de um sobrado de subúrbio.. até que ela o empurra bruscamente. (Noutro tom. venha. de aquellas noches. Fazei tudo por reparardes só no dia. CARMEM — Autentica. vêde-o. mon bijou? CARMEM (Em transe. CARMEM — A ametista. eu não consigo. CARMEM — Sois tantas coisas belas. (Valsam. senhor.‖ Não consigo esquecer aquele dia. Vêde-o. Não . ali fora.. Não passo de uma desgraçada que nada tem de seu além de um sonho falso. vêde.) — ―Acuerdáte en Acapulco. o arquipélago.. o sândalo...

O que? Você quer acabar com a única coisa que nós temos? Ora. a valsa não pode parar! (Ri como se estivesse bêbada. ri muito. eu gosto. HOMEM — Que é isso? Por que não? É tão bom sempre. CENA 7 Grotescos.podemos perder tempo. onde pode-se ver Vera com o fuzil na mão. Carmem e Nostálgio ficam estáticos VERA — Quem está aí? Responde..) E você? Responde logo. senão atiro. Ah. HOMEM DE CALMARITÁ (Aparece subitamente. deixa disso. segura-a por trás. VERA — Estive pensando. Vamos continuar dançando. acende-se a luz no Plano Alfa.) Tamtara-ram-tara-ram.) Vamos. Eu sei que tem alguém aí. HOMEM (Tirando o fuzil das mãos dela. Você gosta. meu amor..) Música. Enquanto isso. garota. descontrolada. A valsa continua. Nostálgio tentam dançar sem música. Venha.) .) — Claro que sou eu. Dance comigo. patéticos. enquanto puxa um relutante Nostálgio. Vem cá.. (Cautelosa. nós não temos . enlace-me como antes. Carmem e Mr. porque a vida é nada!‖ (Tenta cantarolar.. é melhor acabar logo com tudo. vamos valsar entre as ruínas. Carmem esbarra em coisas. aponta. maestro! ―Dai-me mais vinho. responde logo. senão atiro (Engatilha o fuzil. Não sentiu o meu cheiro? VERA — Não me toque. Dançando sobre as cinzas de tudo. voe comigo! Tam-tara-ram-tararam-ra-ram.

. ao mesmo tempo. três dias. Deixa eu matar minha fome. nenhum futuro.. E muito perigoso.. Existem poucos iguais a nós. que loucura. VERA — Não! Hoje é a última vez que nos encontramos.. meu Deus. garota. VERA — Tesão e fome. Nós só temos hoje e medo. nas virilhas.. (Começa a vestir as luvas de borracha.) . você e eu. Estamos em extinção.. tão forte.) Vai embora.) Bem na ponta dos meus dedos..) — Maldito macho. HOMEM — Isso. Vem cá.. E maldita a fenda entre minhas coxas que precisa do teu falo. Nenhuma esperança.) Aqui. Tesão e fome. Na curva do pescoço. HOMEM — The horror. VERA — Você é tão belo.. VERA — Agora e terror. VERA (Louca de tesão. porque não passa. (Agarra-se nele. você sabe. ..) O teu cheiro. ela começa a ceder. deixa eu comer você. The horror. quando parece que passa. Nós não estamos contaminados. Foi um verdadeiro milagre a gente ter se encontrado. eu não posso confiar em você. Dois. Só eu posso sentir. Temos que aproveitar. Deita aqui comigo. secreto. ele fica lá.. (Cheira-o por todo o corpo. Você não tem o direito de jogar isso fora. (Afastao. embaixo do braço. Não sei o que seria de mim se você não tivesse aparecido.Não diga isso. guardado nas minhas dobras. Teu cheiro fica grudado na minha pele quando a gente se separa. Mas eu tenho uma intuição estranha. HOMEM (Acariciando-a. E mesmo depois..nada. vem. continua aqui.. além de nós mesmos. como uma certeza. uma certeza absurda que você vai me trair.. como você. eu tinha quase esquecido do teu cheiro. Vem cá. HOMEM — Não há perigo nenhum. Sou um sobrevivente sadio.

Vem. VERA — Repete. Nostálgio tentam valsar sem música. onde Carmem e Mr. não esqueço nada. HOMEM (Começa a vestir as luvas de borracha. repete comigo: para sempre.) — Não. Melhor que a prime. Devagar. VERA — Quero sentir o teu peso. HOMEM — Nunca. CARMEM — Os cristais retinindo! NOSTÁLGIO — O champanhe derramado sobre as rendas! CARMEM — Çá vá! Ça vá! No Plano Alfa: HOMEM — Como você é gostosa. Vamos ficar assim para sempre. nada. VERA — Pela última vez. não se pode viver sem amor. Mais fundo que todas. VERA — A última. sim. me morde. meu amor. HOMEM — Nada nunca será a última vez entre nós.HOMEM — Eu sabia. Vem. Não é verdade que você não me quer. . a luz vai aumentando no Plano Real. Me lambe. Claro que tudo é mentira. A luz diminui um pouco no Plano Alfa. HOMEM — Deixa eu entrar em você VERA — Não esquece as luvas. VERA — Claro que não é verdade. Ao mesmo tempo. enquanto Vera e o Homem se abraçam com muitos gemidos. Me machuca.

) . isso é o que você é! Um manequim de gesso pintado! NOSTÁLGIO (Afastando-se.HOMEM (Erguendo as mãos com as luvas de borracha. CARMEM — Você é um robô ridículo.) — O suavíssimo pulsar da andorinha peregrina. Os dois voltam à obscuridade enquanto Carmem e Nostálgio continuam a rodopiar no Plano Real. CENA 8 Os gemidos de Vera e do Homem — obscenos como os de um vídeo pornô — vão diminuindo de intensidade. As valsas não morrem nunca. tentando desvencilhar-se. . minha bela. cada vez mais longe. NOSTÁLGIO — Sou os pares enlaçados no centro do salão. CARMEM (Agressiva. Valsemos. Fora daqui! NOSTÁLGIO — O verso póstumo na algibeira do poeta suicida. a rodopiar vertiginosamente no ritmo da fantasia.) — Você não é nada.) — Para sempre. mas sem música. você não passa de um boneco de cera com voz de fita cassete! NOSTÁLGIO (Soltando-a e falando mecanicamente. me deixa em paz.) . NOSTÁLGIO — Valsemos. depois o empurra. minha musa. CARMEM (Aos gritos. ferida em pleno vôo.) — Pára com isso! Chega. CARMEM (Deixa-se levar um pouco.Sou o ramo de miosótis esquecido entre as páginas amareladas de um livro de sonetos antigos. ainda morno de seu coração.Um manequim.

Era uma vez. Nada. cintilando. Não pára. HOMEM — Junto comigo. Vem que eu te espero. por favor. Em algum lugar. devagar. O diálogo de Vera e do Homem entremeia o de Carmem e Nostálgio no Plano Real. Agora. Eu olhava fotografias de um álbum antigo. nenhuma explosão. Nenhum barulho. meu amor. Eu não gostava de ir a festas. VERA — Estou indo. VERA — Aqui. absolutamente nada. Ah. VERA — Agora mais forte. Faz muito tempo. Só o silencio e a luz. assim. CARMEM — Então veio a luz. E devia ser abril. o mais cruel dos meses. HOMEM — Vem comigo. No Plano Real: CARMEM — Era de tarde. tenho quase certeza. as luzes todas acesas. o brilho dos cristais. meu amor. Devagar. Assim. Nós estávamos no porão da casa. agora.CENA 9 Volta luz tênue no Plano Alfa. De repente. . Estou indo. acho que era de tarde. Onde você gosta.) — Havia uma festa. Naquela tarde. HOMEM — Como você gosta. naquele tempo. NOSTÁLGIO (Ao longe. VERA — Mais fundo. Havia sempre naqueles dias. Sei que era abril porque as folhas começavam a amarelar nos plátanos da rua. mais longe. minha irmã Vera preparava um vestido novo para a festa daquela noite. nunca ninguém me tirava pra dançar. Tinha que ser em abril.

Para não ficar cega.Uma luz cegante. Parecia de vidro. Mas não fiz nenhum ruído. eu não lembro. Vera faz contraponto a Carmem. as roupas. CARMEM — Plác! fez. rasguei a fotografia que tinha nas mãos. CARMEM — Primeiro veio o vento. bem em frente a Notre-Dame. um barulho seco. VERA — Só muito depois encontramos os corpos de papai e mamãe. VERA — Eu podia imaginar que tudo mudaria tão completamente e para sempre depois daquela luz. Plác! VERA — Era uma foto de nós duas em Paris. CARMEM — Eu comecei a gritar. eu gritei e gritei até perder a voz. CARMEM — Papai e mamãe estavam fora. nem os ossos ficaram. VERA — Uma luz insuportável. a luz fica mais forte. no mesmo momento em que tesoura caiu no chão. tapei meus olhos com uma das mãos. dentro e fora do porão onde eu estava com Vera. de aço. Uma iuz que cortava a retina da gente. Os corpos. . sem querer.. VERA — Carmem rasgou sem querer a fotografia. Vários dias depois. O Homem continua deitado. Talvez já tivessem morrido. CARMEM — A tesoura de Vera caiu no chão e eu. No Plano Alfa. para não ficar cega. Dentro só tinha cinza. Só aquela luz clareando tudo longe. Pelas janelinhas do porão dava pra ver o vento de fogo queimando tudo. De olhos fechados. e fiquei quieta quando o vento começou a soprar. esverdeada. Eu quero dizer.. Eu vi o reflexo dela no rosto de Carmem e deixei a tesoura cair no chão. Em pé.

gritava. Que diga-se de passagem. Desde aquele dia. não me deixe só. Pronto. CENA 10 . De que adianta lembrar? As coisas não mudaram entre nós. quimeras. só mais uma.) . vosmecê nem necessita. já está passando.) Por favor. Outra vez. Já passou. CARMEM — Eu gritava. CARMEM — Eu tenho tanto medo. Deita aqui comigo. Eu não conseguia parar de gritar. sempre era de tarde ou de manhã naquele tempo. A pele da senhorita acordará louçã como uma porcelana chinesa. que a vida é apenas e nada mais que sonho. com Carmem dentro.) — Repousa. NOSTÁLGIO (Acomodando-a no caixão. vem. CARMEM — Era de tarde. senhor Nostálgio. Tudo mudou completamente. Não me obrigue a entrar no caixão. vinte minutos no máximo. (Toma-a pelo braço e começa conduzi-la em direção ao caixão. (Ergue a tampa do caixão. por favor. A luz apaga no Plano Alfa. Como se o grito pudesse me salvar. adormece. está prestes a fechá-la. Quinze. fantasia. NOSTÁLGIO — Apenas para o sono da beleza. vem cá. pronto. ilusão. no Plano Alfa. NOSTÁLGIO — Acalme-se. Agora parece que está sempre anoitecendo. tudo pó. VERA — Completamente.Esquece.HOMEM (Para Vera. Dorme e sonha. senhorita. Já vai passar. A senhorita está demasiado atacada dos nervos. minha bela.) Convém deveras repousar um poucochito. Pó. E para sempre.) Memória. Como se estivesse louca. (Muito frágil.

Que nada.É muito tarde. o porta-voz do Apocalipse. moçada! Esta é pra quebrar o gesso! A música toca um pouco (esta ou qualquer outra). E conta.) — Você ouviu? É a segunda transmissão de hoje. porrada. E continuam as frenéticas buscas das Sisters Salvadoras Carmem e Vera. únicos seres capazes de salvar a humanidade da completa extinção — oh não.NOSTÁLGIO (Está por fechar a tampa do caixão quando entra novamente aquele ruído eletrônico das transmissões de Nostradamus. em mais uma de suas transmissões diárias diretamente do centro da minha. oh não. da nossa Zona Contaminada. . Na voz tropical de Ney Matogrosso. Nostálgio começa a voltar ao Plano da Nostalgia. à venda em qualquer Posto de Insalubridade bem perto da sua toca. ão. vamos ouvir Trepa no Coqueiro. depois diminui ao mesmo tempo em que volta a luz no Plano Alfa. A voz de Vera aos poucos sobrepõe-se música. Cinza Angra 2. para lembrar os velhos bons tempos do libido. Luz no Plano Mídia. gemada. desventurados sobreviventes deste mundo cão. é mina. da sua. eu tenho que ir. Enquanto Nostradamus fala. Carmem permanece estática dentro do caixão e Mr. HOMEM — Sempre a mesma bobagem.) NOSTRADAMUS — E ão. Sacudam suas muletas. Tudo está sob absoluto controle. muita atenção. VERA (Para o Homem. à procura das Irmãs Sisters. é nada. ão: atenção. que escuridão! Batalhões patrulham incessantemente os escombros das ruas da cidade. VERA . Aqui fala o seu repórter Nostradamus Pereira. E agora fiquemos com mais outro hit do século passado. Não deixe o sol queimar as suas pústulas: passe cinza nelas.

até Vera. Eu não tenho nada. (Noutro tom. uma canção esquecida. E esperam. A noite é tão linda e a chuva é tão boa. enquanto o tempo não passa. Sei apenas que seus olhos estão sempre lá. sentado na bergère ou numa cadeira de balanço. Ela tem uma vida fora daqui. sempre aqui. Qualquer canção. já esqueci. São João.) — Não havia uma festa? Onde foi todo mundo? Todos sempre me deixam só. Não conheço suas caras. esqueci tudo. Nostálgio está no seu Plano da Nostalgia. bem coloridas.) Talvez sem eles eu nem existisse. fado. ela vê as coisas da rua. Quem foi mesmo que disse isso? Ah não importa. E eu não sei nada sobre eles. Mr. Eu não tenho nada. destino. ) CARMEM (Saindo do caixão. São João. Cantar e dançar. a platéia. (Olhando o próprio palco. essa é a única maneira de vencer o fim do mundo. Dessas que ninguém lembra mais. Volta no Plano Real. (Começa a espalhar pelo palco uma fileira de bandeirinhas de São João. Eles sabem tudo sobre mim. (Para a platéia. acende a fogueira no meu coração. vigiam todos os meus passos. à minha volta. (Canta. Ai de mim. vai caindo a garoa. nunca vi seus corpos.(Apaga-se a luz no Plano Alfa. dentro do caixão. No livro original não consta a Cena 11 . criticam. Nem mesmo esta existência de merda. Karma. cercada por olhos fosforecentes que observam cada um dos meus movimentos do fundo da escuridão.) O que é que vocês esperam de mim? Eu não tenho nenhuma sugestão a fazer para melhorar a vida de vocês. mortal e desvairada! (Procura algo dentro do caixão. Mas o melhor a fazer é cantar. Uma canção antiga.) Não havia uma festa por aqui? Então vamos cantar. Estou trancada dentro desta caixa preta. Sina. minha gente.) Só esta caixa preta.) Não é justo. Carmem está sozinha no palco. Observam e julgam. os spots.) ―E o balão vai subindo.‖ Obs.

Tenho que ir. VERA — E você acha que vou dizer onde moro? HOMEM — Você não confia em mim? VERA — Confio. dança e espalha bandeirinhas pelo Plano Real. (Procura o fuzil. (Abraçam-se.) — Que que foi? Vai me pedir em casamento? . HOMEM — É muito tempo. já disse. é isso? Nunca fui muito boa em contas. HOMEM — Eu levo você em casa.) — Espera. Sei lá. (Acaricia o Homem. HOMEM — Mais um pouco. Mr.) VERA (Tirando as luvas. Se houver o Coro dos Contaminados.) HOMEM (Segurando-a pelo braço. Uma semana. HOMEM — Não é isso. VERA — Não. pode colaborar com ela. Mas juro que eu volto. é muito arriscado. Nostálgio também sai de seu Plano para ajudá-la. VERA (Rindo.) — Deve passar do meio-dia. olham-se em silêncio por algum tempo até que ela se volta para sair. Mas não a esse ponto. Tem uma coisa que eu quero te dizer. sobre Vera e o Homem. Todos brincam enquanto a luz diminui para voltar no Plano Alfa.) Vou levando o seu cheiro junto comigo.CENA 12 CARMEM (Canta. Fica mais um pouco. faz tempo. acho que sim.) Semana que vem eu volto. VERA — Não posso ficar mais. VERA (Irônica. sete dias.) — Dez mil e oitenta minutos. cento e sessenta e oito horas.

o que? O que foi que você disse? Eu já ouvi esse nome em algum lugar.. Dizem até que tivemos sorte de sobreviver.. muito atenta. claro. S6 ficaram ruínas. porque não interessa ao Poder Central que todos vão embora à procura de outra coisa. Teu amor e uma cabana. meu bem? Capri. dentro da Zona Contaminada. VERA — Fugir? Mas fugir pra onde.) — Calma. detritos. HOMEM — Isso é o que eles dizem.. eu tenho que dormir.. HOMEM — Existe outro lugar. hein? Coqueirais e areia branca. como nos velhos tempos.. Finalmente apertaram o botão: bum! acabou. sílaba por sílaba. Estou farta de sonhos idiotas e escapistas.HOMEM — Foge comigo. E legiões de contaminados pelas ruas. VERA (Sarcástica.) HOMEM — Eu disse Calmaritá. Goa.) Mas eu conheço outro lugar. Só aqui. Arembepe? HOMEM (Lentamente. (Vira as costas e vai saindo. ―Santo‖ é maneira de dizer. Eu tenho que comer. (Pausa. meu bem? Você sabe perfeitamente que não existe mais nada além da Zona Contaminada.) — Calmaritá.) — A luta é aqui. VERA — Que lugar? Foi tudo destruído. O que existe é isto. VERA (Voltando.) — Não me diga. Bem que eu gostaria.. drinques tropicais de abacaxi com camarão. eu tenho que trepar — eu tenho que sobreviver todo santo dia. O que eles querem que a gente acredite. Um lugar paradisíaco onde a gente pudesse tomar banho de mar e fazer amor o tempo todo. sei. Eles querem que todos pensem que tudo começa. escombros. no planeta inteiro. onde. acontece e acaba aqui. . VERA (Sem prestar atenção. Mas.

) CARMEM (Batendo palmas. Agora é a sua vez. Um. mija na cama. (Pula e tropeça. VERA — Calma... CARMEM — ―São João. mija na casa. (pulando uma fogueira imaginária) três... Vamos pular a fogueira? NOSTÁLGIO — Primeiro você. Quem pisa no fogo. pulei. São João.) CENA 13 No Plano Real... bem quente.. NOSTÁLGIO — Não precisa empurrar. Em algum beco escuro. implicante. Eu disse Calmaritá. CARMEM — Então lá vou.. Todos falam em voz baixa. E proibido falar desse lugar. mija de bobo.. dois e. . Nostálgio brincam feito duas crianças — ou dois retardados mentais — no palco enfeitado de bandeirinhas. Quem pisa na lama. (A luz apaga subitamente no Plano Alfa.Quem pisa na brasa. é proibido dizer essa palavra. Um. quase cai.‖ Acende. Carmem e Mr. Mas ele existe.) .. como é mesmo? HOMEM — Calmaritá. O fogo purifica..HOMEM — Claro que você ouviu. São João. São João — acende a fogueira no meu coração. Acende. Acende uma fogueira bem grande. dois. num sussurro. São João. NOSTÁLGIO — Será que eu consigo? CARMEM — Claro que sim. Vai logo. Xangô menino. e. Ai. Pronto. eu já vou..

com um toque de maldade. E não é chato nada. (Conta até treze. O que será isso? Um triangulo? Não.. pega. NOSTÁLGIO (Pega na mão dela. NOSTÁLGIO — É fácil. Toma.. . (Acende a vela lentamente.) — O fogo purifica. Vamos brincar de ver a sorte. não. sim.) — Não quero mais brincar disso? CARMEM — Você quer brincar do quê. CARMEM (Pingando a vela na água e contando. CARMEM — Você mija na casa. E aqui tem tudo que a gente precisa.. você mija de bobo.) — Agora você vira a vela assim. Só o fogo purifica.) NOSTÁLGIO — Se o desenho formar um coração é um novo amor. então? NOSTÁLGIO — De sorte. olha só. CARMEM — Ah. um navio. quatro. (Pega uma vela e uma bacia cheia d’água. Só escorreguei um pouco. É superdivertido. Treze gotas. CARMEM .Não pisei nada. Parece mais um.Acho que não está formando nenhum coração. E muito importante acender a vela. dois. Não sei se eu quero. NOSTÁLGIO — Quer. A cinza é a única redenção da matéria vil. três. treze vezes. bem devagarinho também. você mija na cama. vem cá que eu te ensino. orienta.Eu não sei como é esse brinquedo. NOSTÁLGIO (Trombudo. Você vai adorar. CARMEM (Em transe. bem devagar.) — Um.) CARMEM .) Primeiro a gente acende a vela.. isso é meio chato. Acho que é um navio.NOSTÁLGIO . E vai pingando.

Cruzérrima. (Nostálgio estatiza. Evidente que é uma cruz. Eu já morri. E é pra logo.) — Cruz é morte certa.) — Você mexeu a bacia.) Estou ouvindo um barulho. está mudando. Você está pirada. CARMEM — Mentira! (Agitada. horizontal. Tudo bem aí? . NOSTÁLGIO — Uma cruz. Você está mentindo! NOSTÁLGIO — Cruz é morte. a alma está vazia. CARMEM — Espera. Um risco assim.. Deve ser outra coisa. vertical. Claro que sou eu. cruz não.. NOSTÁLGIO — Não mexi nada. fui eu que inventei você. parece que tem alguém aí. CARMEM (Aos gritos.. outro assim. Você não sabe nada. batendo palmas e cantando. A vida está deserta. Eu estou mandando. CARMEM — E cruz. fica quieto. Agora parece uma. CARMEM (Aterrorizada. assim não vale. todo mundo sabe. Fica quieto.) Eu não vou morrer. faz tempo. É morte certa. Carmem olha em volta.Não. Vera. Para bem longe. Vera. NOSTÁLGIO — Já parou. cruz quer dizer o quê? NOSTÁLGIO (Cruel. sim. é a Stephanie de Mônaco.) — Não.) — Treze gotas na bacia. é você? VERA (Em off) . bem infernal. Espera até a água parar de se mexer. E é uma cruz. CARMEM — Cala a boca. Não pára de mudar. E cruz é morte certa. pulando em volta dela. CARMEM — Pára com isso! NOSTÁLGIO (Implicante.NOSTÁLGIO — Navio é viagem..

) Anda. O seu repórter Nostradamus Pereira informa que movimentos inusitados foram observados durante a manhã de hoje num supermercado abandonado — ado. bota atenção nisso. Mas acho que vai formar coisa bem diferente. ado .) NOSTRADAMUS . dá o fora. Cruz eu não gosto. A gente só vê mesmo aquilo que acredita.próximo ao cruzamento das avenidas Chernobil com Nagasaki. (Para Nostálgio. bem no coração da sua.CARMEM — Tudo.Cruz. da minha. da nossa . tudo bem. que vai voltando para seu Plano com a vela acesa nas mãos. Para bem longe.) E mesmo que visse. Ambas se imobilizam. vai? VERA — Cruz? Bom. me explica uma coisa: se eu pingar treze gotas de uma vela numa bacia cheia d‘água. (Empurra Nostálgio. meu povão. não. entregando-lhe a vela acesa e empurrando-o para que Vera não o encontre. ela não acreditaria. hein? Era aquele seu amiguinho invisível outra vez? CARMEM — Vera. sai daí. Ela não pode ver você. VERA — Pois. olha só.E atenção. então. não vai formar o desenho de uma cruz. O desenho vai ser de um navio. é. vamos. sabe o que? CARMEM (Infantil.) . CENA 14 VERA (Entrando. E você lembra o que significa navio? CARMEM — Uma viagem. até pode. (Entra o ruído da transmissão de Nostradamus. VERA — Cruz coisa nenhuma.) — Pelo visto você andou se divertindo. Anda logo.

Tem café.) — Trouxe. CARMEM — Já sei: você encontrou rosas brancas. tudo que você pediu e muito. você trouxe? VERA (Mostra um galão. salsicha.Zona Vitaminada. fiquem agora com a ária do suicídio de Madame Butterfly. VERA (Abrindo a bolsa e jogando latas e pacotes. já? Agora não. muito mais. quero dizer Con-ta-mi-nada. esmalte. quero dizer. CARMEM — Embora? Mas agora. Até parece feliz. então coma primeiro. Nós vamos embora daqui. com coreografia do Coro dos Contaminados (se houver). E por falar em ária. e é possível que novas buscas levem finalmente ao covil onde escondem-se The Irmãs Sisters Carmem e Vera. Rárárá. escuta.) — Está bem. CARMEM — Você está tão estranha. tudo está rigorosamente sob controle. . Voltaremos a informar nos horários habituais ou a qualquer momento em edição imaginária. E as revistas.) VERA — Saco. extraordinária. enquanto voltam Carmem e Vera no Plano Real. Eles nunca vão nos encontrar. sardinha. Nada de novo. Eu preciso te dizer uma coisa importante. olé. bombons. trouxe. quero dizer. não é nada disso. na voz lendária de Maria Callas. alimária. nozes.) Carmem. agora eu estou com fome. japona! O gringo bunda-mole te chifrou mesmo! Arrive derci cornutta! (Nostradamus dubla Maria Callas no Plano Mídia. Minacontada. Olé. biscoito. (Entra Callas cantando. Escuta: nós vamos fazer uma viagem. CARMEM (Mastigando algum coisa.) E a gasolina. sempre a mesma história.) Te mata. Nós somos mais espertas que o Poder Central. quero dizer. Come à vontade. VERA — Não existem mais flores. batom. (Pega nas mãos de Carmem.

era essa a viagem que você falou. A viagem que eu falei é outra.) . Agora eles vem nos pegar. eu..) — Calma.. livrarias — livrarias até que eu gostava —. que fazia a gente esperar que tudo desse certo.VERA — E estou. CARMEM — Você encontrou a biografia da Lady Di? VERA — Ainda não.. sabe. Eles precisam de nós. Não é nada disso. Você contou a ele aonde nós estamos e agora temos que fugir. CARMEM (Assustada. hospitais.. . E um homem como nós.) . cemitérios. eu preciso te contar. Um homem bom.. feliz talvez ainda não. sabe qual? CARMEM — Esperança? Não me diga que você está com esperança! VERA — Estou.. O que aconteceu foi que. Com todo o equipamento. bares.... teatros. Meu Deus. Eu encontrei um homem. Não é um contaminado.. CARMEM (Incrédula. E que equipamento. Mas tenho assim. irmãzinha! Eles estão atrás de nós. meu bem.. museus.Um contaminado? Vera. E o homem também é outro. meu bem.. CARMEM — Não existem mais homens bons.Claro. Por onde eu vou começar? Bom. CARMEM (Muito surpresa. estou.) . mas vou encontrar. Senta aqui..) — Feliz? VERA — Bom.De verdade? VERA (Maliciosa. você ficou louca. para onde a gente vai agora? Já estou cansada de andar me escondendo por igrejas. como era mesmo o nome? Aquela coisa antiga. aquela coisa.. casas de cultura. Sei. VERA (Cortando a enumeração interminável.

Já faz tempo que a gente se encontra. mas só hoje ele me contou de um outro lugar que existe perto daqui. mas quase todo dia chega gente nova.VERA — Esse é. como eu. Venha. não são. é destruído pelos contaminados. E um vale à beira do último rio de águas limpas. nas terras altas. Vera. as planta canibais. de onde? Não existe lugar nenhum fora daqui. Eu tenho certeza. Gente como você. Luz sobre o Homem de Calmaritá. nós precisamos nos reproduzir e nos fortalecer para o futuro que virá. Ou você acha que você e sua irmã são as únicas sobreviventes da Grande Catástrofe? Não. E se perde no meio do caminho. Um mundo muito melhor que aquele que nós conheciamos antes da Grande Catástrofe. Umas trinta pessoas. Ele me ama. devorado pelos animais mutantes. mesmo chegando perto não vê coisa nenhuma. Nós precisamos nos reunir. Não tem muita gente lá. Fica meio escondido. parado no Plano Alfa. Carmem e Vera paralizam-se. Fica ao norte daqui. esse lugar chama-se Calmaritá. De onde veio esse homem. além de vocês. de longe ninguém vê. Só um buraco escuro. CARMEM — De lá. Um mundo novo. Quem não sabe. ele veio de lá. Ele não estava mentindo. Vera? CENA 15 (Luz no Plano Alfa. venha comigo para as Terras de Calmaritá. Ele conhece bem esse lugar. Traga sua irmã. não muito longe. Se nós sairmos logo . irmãzinha. só quem sabe que ele existe consegue encontrar. gente que por alguma razão conseguiu escapar das mutações. Existem outros.) HOMEM — Calmaritá. além de mim. trazida por um de nós.

suba quatro quarteirões em direção ao Comissariado Leste do Poder Central. você e sua irmã? VERA (No Plano Real. CENA 16 Apaga-se a iuz no Plano Alfa. que é tão bonito. tem lá.) — Saindo daqui. na loja funerária com a fachada incendiada. HOMEM (No Plano Alfa. Fica do outro lado. bem em frente. VERA — E lar. por volta da meia-noite estaremos chegando lá.) — Antes do entardecer eu passarei para apanhar vocês. CARMEM — E Clara. CARMEM — E tia. VERA — Tem maria. CARMEM — E ama. Vamos todos embora para as Terras de Calmaritá. Onde vocês moram. parece gostoso lá: Cal-ma-ri-tá. VERA — Tem calma dentro dela. tem maria lá. meu bem.depois do par-do-sol. voilá. aquela com a estátua de Prometeu bem no meio. e é bela. VERA — Tem alma. também tem.fica apenas no Plano Real. agora revele o seu. CARMEM — Parece bonito. . Arrumem suas coisas e venham comigo. CARMEM — E mar. Atravesse em diagonal a Praça Hiroshima. Eu revelei meu segredo.

. E não foi você mesma quem disse que. Itacuruçu.. Você sabia que na língua dos índios ita significava pedra? CARMEM — Ita.. diferente das outras duas.. Vera! Além do mais. isso não é motivo. VERA — Ele é um homem bom. VERA — Eu sei o que eu disse: no que depender de mim. Só porque você tre.. tem lama lá.VERA — Tem ita. que tragédia! Eu vou mesmo ficar pra titia. a humanidade pode acabar. CARMEM — E se ele nos denunciar ao Poder Central? VERA — Ele não faria isso. CARMEM — Como é que eu posso ter certeza? VERA — Eu vou ter um filho dele.. Agora não é mais apenas um buraco voraz. CARMEM — Que vulgar. não foi isso? Pois eu mudei de idéia.. como . furioso. Ita.. não significa que. Não sei explicar. Uma terceira coisa. petininga... eles não são todos iguais? VERA — Esse é diferente. fez amor com ele. (Noutro tom.. insaciável. irmãzinha? Afinal. Essa coisa nova dentro de mim me dá assim como uma espécie de.) Será que nós podemos confiar nesse homem. CARMEM — Mas tem. maracá. poâ. Ita... CARMEM — Como você sabe? VERA — Eu trepei com ele. (Acariciando o ventre. CARMEM — Um filho dele? Meu Deus. naquele mesmo lugar onde antes só existiam tesão e fome.) Desde que comecei a sentir a presença de uma outra coisa aqui.. VERA — Itaqui.

(Tira um rolo de papel. Se for menino. Nostálgio. VERA (Sem ouvir. se por acaso ele não vier. Daniel. Arjel. esse escombro que restou.) NOSTÁLGIO — Ilusão. e que só por falta de outra palavra ainda insistimos em chamar de ―humano‖. ele desce e vai recolhendo as bandeiras de São João. fazendo planos. debruçadas sobre o mapa. Tão insensato. Enquanto fala.) Quando chegarmos a Calmaritá. Para continuar existindo.) — Depois que o sol se for. você está sentindo fé? VERA — Pode ser. que bom vai ser passear com o meu sobrinho na beira do rio. CENA 17 (No Plano Real.) . Humano? Quero dizer. Fé. Que nome você vai dar pra ele? Precisamos fazer uma lista. Vou contar hoje à noite. Carmem e Vera falam baixinho. abre. eu gosto muito desses nomes de anjo. CARMEM — E ele sabe? VERA — Ainda não.era mesmo aquela coisa antiga que a gente sentia quando acreditava em alguma coisa? CARMEM — Fé? Meu Deus. Ah.Tem um rio. isso é tudo que o ser humano necessita. (Sonhadora. basta atravessarmos a praça e seguir por aquele caminho que vai para o norte.) CARMEM (Encantada. CARMEM — E se ele não aparecer? VERA — Ele me deu o mapa de lá. Gabriel. tão irracional na sua fantasia desenfreada que chega a inventar nomes próprios e lugares geográficos imaginários . E eu vou ser tia. Rafael. Vera. E isso ai. sobre Mr. Luz no Plano da Nostalgia.

Eu acredito. E se é verdade. Ao norte. Tudo que preciso está comigo. eu acredito. Essas coisas em que não se pode jamais tocar. Tudo que é necessário para começar um mundo novo. É tudo. sonoros. Rosebud. CARMEM (Remexendo dentro do caixão.para a própria ilusão. VERA — Meu filho. meu corpo. VERA (Estendendo a bolsa. Nomes mágicos. Getsemâni. Eu não vou levar nada.) — Pode pegar. CARMEM — Calmaritá. úteros perdidos a serem recuperados de alguma forma. Eldorado. cheios de sugestões que incendeiam a mente dos pobres coitados. (Recitando Manuel Bandeira.) — Pois eu preciso de muita coisa. então preciso arrumar as minhas coisas. continentes perdidos. eu já dizia cá com os meus botões. Na mente. Atlântida. Shangri-Lá. Pasárgada. nas terras altas. (Sai. Carmem. no sonho. Paraísos obsessivos. Lemúria. . CENA 18 (Carmem e Vera no Plano Real. Ah. terras do eterno prazer. Me empresta a sua bolsa. o Jardim das Hespérides.) ―E quando estiver cansado / Mando chamar a mãe d‘água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar. mesmo que apenas na fantasia. Mu. Calmaritá. Ilusão.) CARMEM — Parece verdade.‖ Utopias. e que tm apenas um nome.) VERA — É verdade. ilusão é tudo que o humano — esse escombro patético — necessita para continuar existindo. Parece um sonho. Nossa vida vai mudar.

De repente. meu bem? Acho que vou levar uns moldes também. meu bem. me leva pra lá. sempre é bom. Me diga só o que não tem em Calmaritá? Axé. tem mungunzá. por exemplo (tira uma boneca do caixão). . com trejeitos de Carmem Miranda. Carmem. vamos embora daqui. Eu não tenho filho.) — Tem tudo lá. AS DUAS (Improvisam fantasias com as tralhas de Carmem e cantam. Vera? VERA — Calmaritá. CARMEM — Pois é. Não tem aqui. meu pai Oxalá. não tem ali. Alguns botões. né. CARMEM — E vatapá. Como é mesmo. me diga só o que não tem em Calmaritá? Tem sapoti. Não posso parecer uma mendiga. Uma tesoura. oba lá-lá. VERA — Mais uma meia-hora e ele deve estar chegando por aí. CARMEM — E boitatá. pourquoi pas? Nunca se sabe o que as pessoas usam nessas tais Terras de Cal.. eu preciso de uma porção de coisas. mar e ita. Tem juriti e abará.Deve ter. VERA — E caruru. VERA — O que? CARMEM — Será que tem lá? VERA (Rindo e dando inicio a um jogo meio infantil) . cada aquela coleção de Manequim? Eu é que não quero andar mal vestida no meio de uma terra e de uma gente que nem conheço direito. minha primeira boneca. Como vai. eu quero ir já pra Calmaritá. é um lugar chiquérrimo. pois só tem lá. eu quero ir já.CARMEM — Mas eu não. eu não tenho homem. é o que eu digo.. Priscilia querida? Vamos embora. calma. Agulha e linha também. A Priscilla. sei lá. Tem tudo lá. Ah me leva daqui. CARMEM — Doce de abóbora. Babá.

As duas congelam como quem brinca de estátua. com gestos de Carmem Miranda.) VERA (Para o Homem. ira: Jacira! — . porta-voz oficial do Poder Central. raríssimos. VERA — Você devia ter resistido. ira. sofridíssimos.) — Você nos denunciou! HOMEM — Me perdoa. atención. caríssimos. pouco mais ou menos. (Luz no Plano Alfa. onde está parado o Homem de Calmaritá. o Coro dos Contaminados faz backing-vocal. da imensa. íssimos — sobreviventes da Grande Catástrofe. com coreograJlas e muito tchurutchuru e oh yeah! De repente o zumbido de Nostradamus no Plano Mídia interrompe tudo. procuradíssimos — íssimos. Há poucos instantes foi capturado mais um dos raros. da Grandissíssima Catástrofe. o arauto do fim dos tempos. amadíssimos. ado. sem mais frescuras e submetido à confissão obrigatória o charmoso sobrevivoso má-ravilhoso revelou saber — atenção. sexo masculino — e bota masculino nisso! é um bofe máravilhoso! até eu que nem sou chegado fiquei balançado como um veado — ado. as únicas fêmeas capazes de salvar a humanidade da mais negra e completa extinção. bem no ponto! Enfim. íssimos — sobreviventes da enorme. ado. a esperança voltou! Em edição extraordinária aqui quem vos fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. Se houver. NOSTRADAMUS — E atenção. ira. . atention. mucha atenção. eles me torturaram. aparentando por volta de 30 anos. De número não identificado. desventuradíssimos — íssimos. sem qualquer sinais exteriores de contaminação. please! — o paradeiro das Irmãs Sisters Carmem e Vera.CENA 19 Carmem e Vera brincam como duas meninas. caros.

da sua. Vera.) CENA 20 CARMEM — Você ouviu? . Mais pra zona do que pra nada. Nostradamus e o Coro dos Contaminados cantam e dançam loucamente. E se não for. eu fui fraco. Me perdoa. mais pra mina do que pra conta. Eu traí você. Batalhões armados até os dentes que sobraram já cercam o local. Fui obrigado a contar. com redes. eu nunca tive. O Homem tem uma das mãos estendidas em direção a Carmem e Vera.) HOMEM — Foi quando eu atravessava a praça. como se eu fosse um bicho. eles estavam escondidos atrás da estátua de Prometeu. as gatinhas Carmem e Vera estão descaradamente escondidas numa loja funerária semidestruída em pleno centro da minha. a luz permanece acesa no Plano Alfa. da nossa Zona Contaminada. que continuam estatizadas no Plano Real. fiquem com a voz de titia Jagger. Ao mesmo tempo. Queriam saber meu número. (Sempre com os Rollings Stones ao fundo. quero dizer. o sobrevivente. no mais expressivo hit do século passado: Sa-tis-fa-ti-on! Hoje mais do que nunca. Queriam saber de você. embora morta. que um dia será. não haverá fuga possível para as Irmãs Sisters. o Coro de Contaminados acompanha. Se for verdadeiro o que afirma o garanhão. ninguém resistiria. Eles me pegaram. a tia tinha razão: ninguém consegue ter satis-fa-ção! (Entra a voz de Mick Jagger.HOMEM — Eu não tive culpa. eu não tinha. Enquanto a funerária é cercada. vão coçando aí suas feridas. NOSTRADAMUS — Segundo revelou a lasanha. morta na Grande Catástrofe. muito animado. Eu não sou um número.

CARMEM — E do homem. Redes.VERA — Claro. e daqui a pouco a humanidade estará salva! Enquanto o cerco se fecha irreversivelmente. Do seu homem. Lidoka. CARMEM — Mas não adianta mapa. fiquem com Outro hit da etapa anterior à Grande Catástrofe.) E agora. ai. Tia Rege. Edir. vão preparando suas xoxotinhas para reprodução. VERA — Ele é um homem bom. NOSTRADAMUS — Completamente cercadas. Todo mundo ouviu.) . gatinhas. Desta vez ele falou também do homem. VERA — Ele sempre fala de nós. Meio sem graça. cada vez mais alto com Dudu. o que é que nós vamos fazer? Estamos perdidas. que tesão! — estão totalmente cercadas pelos batalhões do Poder Central. (Nostradamus e o Coro dos Contaminados dançam ao som das Frenéticas. VERA — Eu não estou perdida. numa homenagem às Irmãs Sisters. CARMEM — Ele falou de nós. Sandrão e Leiloca). amadas! Em edição extraordinária o seu repórter Nostradamus Pereira. CARMEM — Como ―bom‖? Ele nos denunciou! Nós estamos perdidas. o Nostradamus. para felicidade de todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. A prisão é questão de minutos. alô. Aos poucos vão saindo de seu Plano. Soltem todos suas frangas (vai entrando aquele tema de Dancing Days. moçada contaminada. Eu tenho o mapa. (Sacudindo Vera. Vamos lá. ele tenta. Existe um auto-falante em cada esquina da cidade. Nós estamos cercadas. bailem comigo ao som de As Frenéti-cas. gás lacrimogêneo. tiram Nostálgio para dançar. informa que as Irmãs Salvadoras Carmem e Vera — alô. algemas e mordaças serão utilizadas para prender as feras.

) HOMEM — Ao norte daqui. Existem mais alguns. Ele me deu o mapa. (Luz no Plano Alfa. chegaremos lá por volta da meia-noite. CARMEM — Isso é loucura. Vem comigo. lembra? Faz tanto tempo. além de vocês. CENA 21 (A partir de agora a ação acelera loucamente. Eles vão nos pegar. Se sairmos ao entardecer. mesmo que não exista mais. para sempre eu desisto. se você estiver só. num vale escondido nas terras altas. Eu não vou. Ruídos violentos começam a ser ouvidos — explosões. cacos de vidro partidos —. VERA — Eu vou tentar. eu não quero. Eu quero o que se perdeu. Venham comigo para as Terras de Calmaritá. Tudo acontece ao mesmo tempo. E preciso um companheiro para chegar.) VERA — Eu tenho o mapa. onde esta o Homem. CARMEM — Como os bonzos budistas. Eu desisto.VERA— Eu vou fugir. E se você tiver o mapa. CARMEM — É impossível. misturados aos fundos musicais anunciados por Nostradamus e a sons eletrônicos. Não quero esse lugar para onde você vai. Você tem que tentar também. e que nem sei se existe. O clima é atordoante. não fica muito longe. CARMEM — Eu não posso. amém. além de mim. VERA — Eu tenho o mapa. . Eu quero aquilo que conheço. sirenes. Ou então um mapa. eu fico aqui.

Eu tenho uma cruz marcada no meu destino. CARMEM — Onde está a gasolina? VERA — Para quê? Você não pode fazer isso. CARMEM (Pega o galão de gasolina e começa a derramar por tudo. CARMEM — Eu fico por aqui. claro. minha gente. Neste momento. Carmem e Vera estão totalmente cercadas. E se não existe esse. o meu gesto mais nobre é desistir de tudo agora. NOSTRADAMUS (Abraçado a Nostálgio. Sempre existe algum lugar. estão completamente perdidas. na voz . existe outro. caros ouvintes. Renuncio. aventurados idolatrados adorados ados. O fogo purifica.VERA — Existe.) . Carmem e Vera. Carmem! Você não é idiota a esse ponto. ados. VERA — Eu vou embora. seus tempo bemmovimentos dentro por permaneceram escondidas. Eu vou para Calmaritá.Loucura. e é tas. Onde estará aquela vela? (No Plano da Nostalgia. O homem não mentiu.) — Já disse que eu desisto. pouco importa: agora é definitivo. Ou achadas. informou e continuará informando o seu repórter Nostradamus Pereira neste glorioso entardecer do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste.) NOSTRADAMUS — E em vez de música. e é fé: ca-tás--tro-fe. venha comigo. as famigeradas Irmãs Sisters Salvadoras. ivo. ilusão ou realidade. E é cá. Finalmente as buscas tiveram seu fim. Venha comigo. Não há como fugir. ivo. hoje vamos brindá-los com um magnífico soneto de Luiz de Camões. Nostradamus acende a vela que Nostálgio tem nas mãos. e é tro. sobreviventes da Grande Catástrofe. Daqui de onde do estamos tenebroso Aleluia! já conseguimos antro onde e senhoras visualizar tanto senhores. Nostálgio vai caminhando com a vela acesa em direção a Carmem.

sus! Começa aqui uma nova era para todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. e se tornar. eclipse nesse passo. não o queria jamais o tempo dar. mais desgraçada que jamais se viu. Nostálgio! (A parte. No meio do fogo. que está parada no meio de um charco de gasolina. O fogo purifica. Os batalhões armados do Poder Central já estão invadindo o local. sangue chova o ar.) Dizem que ele não é real. da sua.) VERA — Não faça isso. E é inenarrável. (Canta. furibundos e não esqueçam. o Sol padeça. de ignorantes. acende a fogueira no meu coração. e volta para junto de Nostradamus. em pleno centro da minha. venha comigo. Aleluia.do querido companheiro Mr. Que melodia pode servir de fundo musical a um momento tão .‖ NOSTRADAMUS (Invadindo o Plano Real. as irmãs Carmem e Vera conseguiram manter em segredo seu sórdido esconderijo. caros ouvintes.) ―São João.) — A porta já foi arrombada. eia. a cor perdida. não te espantes. Nostálgio. quem se importa com qualquer coisa? Quem se importa? NOSTÁLGIO . mostre ao mundo sinais de se acabar. que este dia deitou o mundo a vida. Mas agora está tudo terminado. CARMEM — Só existe um lugar. As pessoas pasmadas. Pela última vez. o Sol lhes escureça. Nostálgio entrega a vela a Carmem. não tome mais ao mundo. São João. Este. Dá-lhe. bundo é o masculino de bunda. por assim dizer bem nas nossas barbas. com Nostálgio e o Coro dos Contaminados. quiçá segundos vagabundos. as lágrimas no rosto. A luz lhe falte. O gente temerosa. inacreditável minha gente adorável : durante dois anos. o meu lugar é aqui. sem que ninguém soubesse. da nossa Zona Contaminada. cuidem que o mundo já se destruiu. mas quem se importa com isso? Aliás.‖ (Com uma reverência. A captura das Irmãs Sisters é questão de minutos. Existe outro lugar. a mãe ao próprio filho não conheça.―O dia em que nasci morra e pereça. nasçam-lhe monstros.

VERA (Enquanto Carmem fala. assim. Permanece uma luz suave sobre o Homem de Calmaritá crucificado. De alguma forma. Eu sei que existe outro lugar. aos berros. quando tudo que eu queria era fazer o bem? Ilumina o caminho da mulher que amei. Espero que você encontre o seu lugar. eu te abençôo.) CARMEM (Segurando a vela acesa com as duas mãos acima da cabeça. de frente para a . agora. A beira da minha morte. com Nostradamus e Nostálgio atrás. nu. O Coro dos Contaminados cerca Carmem em semicírculo. com uma coroa de espinhos na cabeça. devagarinho. Eu vou ficar muito bem. meu Deus. para nós todos. O meu lugar é aqui. desvairada. A saída. Eu vou ficar bem. (Pega o fuzil. Vera. se sabias que eu era nada? Por que permitiste que eu traísse e enganasse. aos poucos. agora.) VERA — É tarde demais. (Luz no Plano Alfa. sacudindo os espectadores. Eu tenho que chegar lá. Basta levantar a mão assim. CARMEM — Eu vou ficar bem. meu Pai. irmãzinha.) — Adeus. basta um gesto. Vai com Deus. onde fica a saída? Me diga onde fica a saída! NOSTRADAMUS — Atrás dela! Pega! Não deixa escapar! Queremos ela com vida! Pega! Pega! (Vera some. sai gritando pela platéia. não muito alto. (Começa a tocar La Cumparsita. eu sei que existe uma saída! Ele me deu o mapa. Preciso salvar meu filho.emocionante? A única saída para Carmem e Vera agora é cantar um tango argentino. por que me abandonaste se sabias que eu era fraco.) — A saída.) Adeus. Preciso ir. (Beija Carmem. Nostradamus dança com Nostálgio. E que seja lindo lá. e depois. para mim. já que não quiseste iluminar o meu. minha louca irmã. O Homem de Calmaritá está crucificado. eu espero que tudo dê certo para você. eu tenho o mapa.) HOMEM — Meu Pai.

Ouvem-se ao longe os gritos de Vera e de Nostradamus. Em completa escuridão. dos Beatles. Os Contaminados entoam o mantra Om. à exceção da vela de Carmem.) (O autor sugere a Bachiana nº 5. junto com Carmem. com Tina Turner?) A vela apaga. Então os ruídos cessam completamente e todas as luzes se apagam. cada vez mais remotos.) .platéia. de Vila-Lobos. entra música bem alto. Ela está sentada em postura de lótus. com a vela acesa. ou outra à escolha do diretor — quem sabe Let it Be.

“E.) . em 1605.O HOMEM E A MANCHA Peça teatral em 1 Ato (Livre releitura do Dom Quixote. de Miguel de Cervantes) À memória de Clarice Lispector. com isto. que tanto me chamava de Quixote. e se não esqueça de mim.” (Miguel de Cervantes. Deus te dê saúde.

Além disso.) (Telões levantados. A esquerda. Também pode ser um divã ou um récamier. de Rodin.CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA e mais: GUILHERME. Talvez na posição do Pensador. ao lado. meio na penumbra. sustentado por um cabo de madeira. sobre o pequeno praticável. o Ator já se encontra no palco. Apenas o busto. um manequim de costureira.nova‖. uma cadeira espreguiçadeira de lona listrada. um pequeno praticável. pernas nem braços. Um ao fundo.PERSONAGENS (Todos feitos por um único ator) ATOR • MIGUEL QUESADA . uma voz em off. os outros dois um de cada lado. sem cabeça. A direita. um banquinho tipo ―cantor de bossa. Sentado no . Sobre ele há um globo terrestre relativamente grande e.HOMEM DA MANCHA • DOM QUIXOTE . todos pintados como se fossem prateleiras de uma biblioteca atulhada de livros. esses telões sobem ou descem. CENÁRIO No centro e ao fundo do palco. Dependendo da ação. apenas de malha preta. PRÓLOGO (Que trata da condição do ator e sua procura pelo geral até chegar ao particular. Quando o público entra. três telões pintados e independentes.

.. Toca o próprio rosto.) Era uma vez. com entonações diferentes (infantil. (Gira o globo terrestre. Para alertá-lo. Eu. etc.. ele continua a contemplar o globo sem se mover. encara a platéia decidido. no chão. começa a olhar em sete direções. Para cada uma dessas direções.. Eu. Deixa eu tentar outra vez. Muito gelo. para cima. Levanta a cabeça. muito esquimó. Muito palco. e onde era uma vez? E tão difícil escolher..) ATOR — Era uma vez. Dá uma giradinha de desprezo no globo..) Era uma vez.. etc. é isso mesmo. muito camelo.. meu Deus? Era uma vez quem? E quando. Com o indicador apontado faz com que pare ao acaso. Faz o sinal da cruz. muito iglu. era uma vez.) ATOR — Era uma vez um ator.. Claro. as luzes da platéia apagam. muito branco.. era uma vez.. (Torna a girar o globo. Por que não? Afinal. quem sabe aqui tem alguma idéia. para baixo. muito bastidor.. eu me acho bem interessantezinho.. (O Ator larga o copo/garrafa. então.. com movimentos muito definidos da cabeça — esquerda. muito pingüim.. Mas como se não percebesse.. muito ensaio. assustado. muita seca. Nem um pouco dramático. O Ator estremece. Era uma vez o que. Lentamente. Toca o terceiro sinal.. e bebe avidamente. Faz quase quarenta anos que convivo comigo mesmo. era uma vez. muita coxia. então. Deixa eu ver. Depois fica olhando o vidro.. Alguma coisa devo conhecer. que sede me deu. eu. o Saara. era uma vez. Nossa. direita. era uma vez.) vai repetindo: ) ATOR — Era uma vez. como se o estivesse vendo refletido. era uma vez. muito calor. Depois levanta-se e. Sim. Muita areia.banquinho. (O Ator pega um copo ou garrafa d’Água ao lado. muita platéia — graças a Deus! —. toca um quarto ou quinto sinal. tem que ser alguma coisa que eu conheça bem.. Retoma o autocontrole. é tão difícil começar. lírica. Acende luz sobre o Ator. Ah. catastrófica. . muito chato. em pé. cabisbaixo ele contempla um globo terrestre com muita atenção. a Groenlândia. Está nervoso. muita luz.. muito sol. muito frio.

) . Muito. muito sonho.. de braços abertos. Muito ―Era uma vez‖.. (Música circense feérica. muita ilusão.muita emoção. O Ator desce do praticável e vai caminhando para a boca de cena.

engraçado. porque ele sempre se vê em mim. mesmo quando não gosta do que vê. que eu incorporo. As últimas falas sao dadas em off.CENA 1 (De como o Ator sofre um pequeno surto narcisista mas acaba por reconhecer a necessidade do Outro para ser. então. O personagem..Ladies and gentiemen. eu sou um ator. tragédia grega. cantarola alguma coisa).. assustadores. sei me movimentar. que eu me transformo quando estou sendo um ator. Eu não seria um ator se não conseguisse ser também esse outro.. é dele que eu falo. mas acho que sou. estranhos..) ATOR (Mais sério. mas também. O importante é que seja alguma coisa bem conhecida do público. depois sai de cena. Simpático. Não tenho miitos cabelos nem muitos músculos. (O Ator recita qualquer coisa breve — Shakespeare. Eu conheço bem meu corpo. ao mesmo tempo.) ATOR . Caminha pelo palco procurando. meu Deus? Será que estou muito chato? Será que estou pirando? Onde está o personagem? (O Ator vai ficando cada vez mais frenético.) Bom. confuso. meio magro. ou cada noite um texto diferente. ilustrando o que diz. Um ator não é uma ator sem um personagem. um pouco tímido. mas sei principalmente representar. Como vocês podem ver.) Eu também sei cantar (improvisa. Molière. (Faz vários gestos. Falo principalmente daquele outro em que eu me torno. agora. Meu nome é Carlos.) . passo a ser um outro. eu sou mais ou menos alto. E não estou falando do outro que me assiste. embora eu também seja esse. divertidos.) — Quando represento. será que eu não sou um ator? Será que eu não sou eu? Será que eu não sou nada. flainenco seria o ideal). eu continuo sendo eu. posa. fazer gestos dramáticos. sei dançar (dança um pouco. (Pausa. aqui.

o Desventurado Trabalhador Anônimo. britadeiras. Alarmes de automóveis. (Noutro tom. Abrindo uma porta imaginária. freadas. sons de metrô. Quantos anos mesmo? Trinta. Essa é a única certeza que a gente tem. como se ficasse lá fora. sei lá.. gravata. telefones. livre desse pesadelo que parecia sem fim. trinta e muitos. gritos. O tempo sempre passa.ATOR — Onde está o outro? Ele é essencial para a minha sobrevivência! Onde está o personagem? Eu não tenho sentido sem o personagem! Eu vou enlouquecer sem o personagem! Eu preciso do outro! (Vai saindo. claro. O barulho diminui. Na minha nova vida. entra Miguel. Por sobre a malha o Ator. vendedores ambulantes. Parecia que o tempo não passava nunca. No palco vazio. susta! Eu quero porque quero o personagem! Me chama a produção! Cada meu celular? CENA 2 (Na qual se introduz afigura do personagem de Miguel Quesada. (Animado. faz o gesto de fechar a porta. máquinas de escrever. Miguel usa paletó. Intermináveis anos. a luz permanec e apenas sobre o globo terrestre. talvez chapéu. Longe de toda essa loucura. Fora a morte.) MIGUEL — Enfim só. Quero pensar é na vida. buzinas. o personagem. muito embrulhos e pacotes. Traz uma maleta de executivo tipo 007 e várias sacolas de supermercado. ambulâncias. Ouve-se um intenso ruído urbano. etc.) Mas passou. uma vassoura. Está um tanto excitado. sirenes de polícia e bombeiros. trinta e tantos.) Eu processo! Eu mando sustar o cheque! Susta. Deposita as coisas em qualquer lugar. Hoje foi definitivamente o último desses. Eu até desisti de contar.) Mas hoje não quero pensar na morte.) Querem acabar comigo! Isto é um complô! (Em off cada vez mais longe.. verdadeiro inferno sonoro. .

) Falo da sonoridade. Arrivederci. sentado. Miguel Quesada . gente que nunca me quis! Au revoir. (Poético. neuróticos urbanos. Não me refiro ao salário. Ah essa coisa sagrada. não econômica.amado.. bloody heil! Goodbye. (Deslumbrado. em seus após. cidade infernal do meu calvário de cada dia! Sayonara. Decibéis altíssimos. locura! Não preciso mais de vocês. . Nem a toda essa miséria. Uma questão estética. um tanto ridículo. insuportável. lógico. Onde habitam os anjos.. para estremecer a platéia.) — Adeus. Miguel Quesada está livre.) A-po-senta-do. Dá pulinhos de dança. Nem às filas. fica só com a gravata sobre a malha.) (Subitamente Miguel abre a porta imaginária. Depois.. Aposentado. o mal. o silencio. Sentado. vilie méchante da minha solidão sem remédio! Adiós. tão cheia de significados. O ruído urbano volta.(Miguel arranca o paletó. meio pedante. O ruído some.. o solitário depressivo. No mais perfeito e absoluto silêncio. o chapéu. que bela palavra! Deve ser uma das mais lindas da língua portuguesa.Finalmente chegou o grande dia. quanto silencio. cantarola Singing in the rain ou qualquer coisa assim. o zé-ninguém que nunca teve nada nesta vida além de seus loucos sonhos impossíveis —. sapateia. evidente.) MIGUEL .) MIGUEL (Aos berros. mulheres que não me amaram. claro. Começa a rodar pelo palco. amigos que me traíram.. gentalha! (Bate a porta. (Pausa breve e silenciosíssima.) CENA 3 (Onde se revela a radical decisão de Miguel de desligar-se do defora e as providências tomadas para tanto. inferno! So long.o desventurado trabalhador anônimo.. Uma palavra tão rica em melodia. o neurastênico insuportável. em seus aposentos. Após. Quanta tranqüilidade. de estar sentado...

E não importa que sejam coisas más ou tristes ou miseráveis ou cruéis. Tenho absolutamente tudo que preciso para viver sem sair nunca mais daqui.) bem. os telões. Miguel sobe no praticável. E além do mais. (A parte. não oferecem mais perigo algum. Por um segundo volta a ser o Ator. Descem lentamente. como Juan Carlos Onetti. que não precisam mais fazer coisa alguma a não ser lembrar. O tempo burilao tosco..A partir de hoje. De certa forma. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah. Afinal. um baú transbordante de memórias cintilantes como jóias preciosas.. todas as coisas que acontecem a um homem vivo são insuportavelmente reais.. O efeito é uma tanto claustrofóbico.. (Pensativo. começam a descer os três telões pintados como se fossem uma enorme biblioteca.) .) Comida. foi chatérrima -. Não preciso de nada lá de fora.. estas três paredes do meu apartamento.) Desde bem moço. (Vai tirando coisas das sacolas e espalhando pelo palco.. minhas memórias.) Bom isso. nunca mais vou sair de casa. (Hesita. Elas já foram vividas. até os sonhos. bebida. esmeraldas. tudo nesta vida começa sempre com ―era uma vez‖. mastigando. eu sempre tive inveja dos velhos. Nada de ―real‖. quero dizer. E também tenho minhas lembranças. Ametistas.) MIGUEL . Olha a platéia.. falando franco.. qualquer homem de quase 50 anos que trabalhou sem parar desde os 15.) Nenhum mérito pessoal nisso. Miguel está cercado de livros. qualquer homem assim pode se dar ao luxo de passar o resto da vida sem viver mais nada.Enquanto Miguel vai falando.) Porque tem o tempo. Como Marcel Proust. (Irônico. (Os telões já desceram completamente. remexendo na memória. (Melancólico. por mais chata que tenha sido a sua vidoca — e a minha. Como se na mente deles existisse um.. víveres para muitos e muitos anos. e até o dia da minha morte-amém. Um homem desses pode apenas ficar lembrando. rubis. consciente das três paredes teatrais. tudo nesta vicia são histórias. remédios. embora colorido. preciso tomar nota.. Tenho estas quatro. que modéstia à parte são muitas.

e acaba atendendo de uns três ou quatro toques. Até da delegacia. ansiedade. Mas reflete melhor enquanto o telefone continua tocando. violência. nunca mais sinais fechados. Faz um gesto de arrancar o fio da parede.) Depois. moderno. se for preciso. o homem que cansou de tudo e nunca mais saiu de casa. Nunca mais pessoas. E só pegar e ligar. CENA 4 (Da primeira invasao inevitável do chamado Real Insuportável e a maneira como Miguel lidou com isso. Hoje em dia tudo tem entrega a domicílio. desde menino. sei. (Confere numa agenda. muito alto. Até sexo. Enterrado vivo. sei. da locadora de vídeo. esse maldito mundo que chamam de ―real‖. nunca mais ninguém. qualquer problema.) MIGUEL (Disfarçando a voz. a ligação tá péssima. (Poético. sempre existe o velho e bom telefone. Quesada.Alô. Melhorou. da pizzaria. Demente. nunca mais correrias. diziam.Era uma vez Miguel Quesada. a gente nunca sabe.) . Sei.) E quando eu estiver cansado de pensar no que vivi. (Vai-se aproximando do telefone. O telefone toca. Rápido. maníaco. Nunca mais desejo.. depois hesita sem saber se atende.MIGUEL .) Deixa ver. Nome . Que maravilha Nenhum contato com o mundo lá de fora. eficiente. querida. do supermercado. Mas ele não se importava. o essencial. que foram sempre o que mais amei. espanhol. Miguel de quê mesmo? Que nada? Queijada? Ah. tenho os números da farmácia. quem tá falando? Quem? Tia Flora? Tia de quem? Ah. e que guardam outras histórias dentro deles. ainda me restarão os livros. o estritamente necessário. Quer falar com quem? Miguel de que? Fala mais alto. Só o indispensável. do pronto-socorro. Todas as histórias do mundo. Nunca mais filas nos bancos. Tinha suas próprias histórias para lembrar.. Miguel assusta-se.

) Mas a Carolina acho que nem tem meu número. Afinal. Quer dizer. não tem ninguém aqui com esse nome não. (Miguel bate o telefone com força.) Depois. nem credor.) As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade. Inútil deixar recado depois do sinal‖. a tia Flora.) Não. tinha. Sem trégua. Não sei de nada. Em seguida todo mundo se acostuma. Longe dos olhos. (Com pressa. mas tudo bem. No começo vai ser assim mesmo. perguntar. coração. Não disse quando volta. claro. O Zeca da livraria. paciência. Nem conheço ele. não sei pra onde.) MIGUEL (Gravando. insistir. Quem mais? Ah. nem vizinho. Mas a coitada está tão velha e surda.) Nenhum pai. nem namorada. a Silvana lá do banco. Talvez nunca. Liga pra informações.) E tem também a Carolina.mais esquisito. (Pausa. esse tal de Miguel viajou. meu bem. Nem sei bem por onde começar. é tão pouca gente. tão esclerosada que nem vai achar estranho. viu. Venci.. (Espreguiça-se. Eu só fiquei com o apartamento. Aperta botões e grava uma mensagem com voz disfarçada. A partir de hoje tenho todo o tempo do mundo. Todo o tempo do mundo pra não fazer mais nada. E. Viajou. . amor.) Mas não tem pressa. (Irônico. Mas talvez seja melhor tomar algumas providências. minha filha.) MIGUEL— Paciência. (Fatigado. O Guilherme do Almoxarifado. Tchau. (Miguel pega uma secretária eletrônica... tanto.) Esperei tanto por este dia. Miguel continua seu monólogo. Ah. (Suspira. Nunca pediu. Pois é. Tanto. (Melancólico. Hã-hã.) — ―Isto é uma gravação. (Sinal eletrônico. nenhuma mãe. longe do coração.. Miguel viajou. Não. Como é mesmo que minha mão dizia? Quem não é visto não é lembrado. Preocupado. nunca ofereci. Sinto muito. caminha pelo palco refletindo e tentando relaxar. Algumas pessoas vão ligar. nenhum irmão ou filho. Saco. nunca contei a ninguém desse meu plano. Foi uma luta. ter. Estou cansado.. mas não tem mais..

entende? Parada. violeta. Luz suave sobre o globo terrestre. como se tudo fosse branco ou preto ou cinza. meu Deus. Lilás. Assim. já está’ transformado no Homem da Mancha. como era mesmo? Tão.) . e em determinado lugar dessa superfície de repente lá estivesse ela.. roxa não! (O Homem levanta-se da espreguiçadeira. Bem clarinha. talvez só castanholas ou bater de saltos. se enrosca como um bebê. a mancha. Mas a transformação é sutil.) CENA 5 (Na qual se introduz um novo e inquietante personagem. Só um soninho. De vez em quando voltam nesse Homem as suas porções Miguel e Ator. (Dorme. isso eu me lembro. Ritmo de flamenco.. baixinho. Era clara. roxa. fala sozinho. Miguel está adormecido.) MIGUEL — Dormir. só de outra cor. Quando Miguel desperta. ela estava bem aqui. Não era uma mancha suja. (Meio alterado. A luz vai diminuindo enquanto ele se encolhe. quieta.. Quase no escuro.. gradativa. Que cansaço enorme.(Miguel deita-se na espreguiçadeira. Onde foi parar a mancha? Estava aqui. Só um pouquinho.) Bem aqui.. (Luz sobre o globo terrestre.. Entram acordes de uma melodia espanhola. Silêncio e paz.) Não.) Do tamanho do mundo. agora mesmo. que sono meu Deus. Era só. Azul celeste. ardente mas suavíssimo. Ah.A mancha. isso não. ao mesmo tempo em que também começa a emergir o Quixote. bem como sua estranha obsessâo. Roxa não. pelo amor de Deus. De outra cor. acomoda-se.. tão cansado.) . nâo era uma mancha feia.) HOMEM (Acorda de repente. (Procura no chão. Baixou o Quixote. Amarelo água.. Boceja. Imenso. Não pode ter sumido assim. sonhar.

em algum lugar.. ela não existe. Como será por lá? Como será o perfume das manhãs do Novo Mundo? Especiarias. . aqui deveria estar localizada Pasárgada. Mais ao norte. meu Deus. uma bolha. (O Homem pára em frente ao globo terrestre. um derrame.QUIXOTE (Em pé.) HOMEM — Não sei. em baixo.) Mas onde estará a mancha? Talvez aqui. hibiscos. Dizem que existe um novo mundo do outro lado do mar sem fim. dramático. se ela não existe. Pode ser então que cerca de Barcelos. Um ganglio. E o Novo Mundo. apalpa-se. eu estava dentro dela. dentro não. uma teia. Era isso. não sangra. Etiópia. não pulsa. não lembro. Sobe no praticável. não sei. araras. Se ela não está aqui.. um pouco ao sul de Trebizonda.) . uma jaula? Não lembro. Não era exatamente dentro. E onde estarão as Terras de Calmaritá? Gozado. Esquisito. o caminho das Índias. não era assim. não lembro. não importa. Ela não estava em volta de mim. maldição! Certamente este deve ser mais um dos imundos encantamentos dos nigromantes do mal que tanto me atormentam! (Homem sai procurando a mancha pelo palco. quem sabe. (Noutro tom. Acho que eu estava dentro dela. Tão clara.. (Leva as mãos à cabeça. eu estava. Que estranho.Ah.. Nem a leste. senta no banquinho na mesma posição do Ator durante o Prólogo. Madagascar. Vai caminhando em direção ao praticável enquanto fala. Ou mais acima. eu também não. Mas também não está. Como numa poça de água da chuva. Pérsia. feito uma rede. Em cima. E. um aneurisma..) HOMEM — As Índias. e começa a girar o globo. Uma mancha no meio dos meus miolos. talvez. Mas não dói. Eu estava parado no meio dela.) A não ser que existisse apenas dentro do meu próprio cérebro. Não. Mas Trebizonda também não existe neste globo. Ou era mesmo uma rede. no caminho de Santiago de Compostella. noroeste ou sudoeste. (Agitado.. Em algum lugar ela deve estar. nem a oeste.. Não sei. Dentro..) Ela tem que estar aqui.

Foi lá que aconteceu.‖ Está aqui. Argamasilla de Calatrava e Argamasilla de Alba. como se fosse novamente o Ator. tramas vis! Novamente a negra falange dos devotos de Lúcifer intenta confundir-me com sua astúcia maligna! Pois saibam que não os temo. Era lá que estava a mancha. Este livro não mente.) Nem sequer aquela sensação de quando entra água nos ouvidos. Já disse que não sinto nada. uma vertigem.) ―Miguel Esteban. Tisteafuera. já totalmente transformado em Quixote. antigo e lê com todo cuidado.): ―Vinde.Ah aleives. . corvos. ele pega um livro pesado. uma queimadura. (Começa a pular num pé só.) No meu corpo. um pouco mais forte. demônios! (Caminha hierático para a boca de cena e declama Mano Quintana. o Homem joga longe o globo.(Passando a mão no corpo. Não! Nada! (Violentamente. Mas eu não sinto nada. a mão direita cri spada e erguida dramaticamente no ar. Então. chacais. Nem mesmo um zumbido. como uma tatuagem.) QUIXOTE . Faz tempo que eu não sinto nada. Villaverde. Esquivias. Na minha pele. mas é definitivamente tomado pela figura quixotesca. batendo com a mão aberta no ouvido. Eram sete os povoados que compunham a região da Mancha. Depois acalma-se e começa a descer do praticável. no livro. urdiduras. Volta a melodia espanhola.) ATOR (Lendo. uma labirintite. ladrões de estrada! Da minha mão avaramente adunca! Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!‖ CENA 6 (De como por momentos o Ator retoma sua voz. Quintanar de la Orden. O Homem permanece parado.

embora não consiga encontrá-la em lugar algum.) Ah. professoral. Portanto. não me deixarei abater por patranhas vulgares. como dizem — e talvez tenham razão — certamente as idéias deste autor não o estavam quando. opressores de toda a aldeia global. Apanha uma espada de plástico ou madeira. se escreveu ―num lugar‖ isso obviamente indica que a referida mancha ocupava — ou ocupa — lugar no espaço. dentro ou fora.) VOZ GRAVADA . O Homem deixa o livro de lado. com o livro erguido na mão.―Num lugar de La Mancha. Fala em tom pedante. E eu preciso enfrentá-la. Pois convenhamos. QUIXOTE — Parece mais do que evidente que toda esta burla não passa disso mesmo. ou até mesmo em volta. escolheu justamente a expressão ―num lugar da Mancha‖. por mais que minhas idéias andem perturbadas. um fidalgo dos de lança em cabide. (Suspiroso. (Animado.. Vírus ou alucinação. Espaço físico. Rede ou ferida. Mas como fidalgo que sou. Começou a transmutar-se novamente em Dom Quixote. Maracutaia. Geográfica ou psicologica. para iniciar sua obra imortal. de cujo nome não quero lembrar-me. dos corruptos. real. (Noutro tom. E volta a ser o Homem da Mancha. . que importa? Em mim.) Lança em riste para defender-me dos vilões. acautelai-vos! Vossos dias estão contados. Caminha nervosamente. fado meu.‖ (O Ator fecha o livro. não há muito.Senhores. adarga antiga.(O Ator pára. vivia. tenho provas de que existe. A mancha existe.) E ainda que não.. Mero engodo. de Cervantes. mouros encantados. reles tramóia. rocim fraco e galgo corredor. Devaneio e perdição. Nigromantes.) HOMEM . Sinto que é chegada outra vez a hora de partir à cata de aventuras. Entra uma voz gravada lendo a primei ra frase do Dom Quixote.

Embora temporariamente fora de combate. eternamente enfrentativo! E salve também Dom Belianis da . (Altivo. Enquanto fala.) QUIXOTE — Salve o valente Amadis de Gaula.CENA 7 (Onde o fidalgo sonhador paramenta a si mesmo de cavaleiro andante e pede a bênção aos cavaleiros que o antecederam na lida. que nunca abaixou a crista! Salve o valoroso Felismarte de Mircnia.) QUIXOTE . que briosamente resisto a todos os embates do destino. amparador das viúvas e socorredor dos órfãos e desvalidos da sorte! (Para a platéia.) Mesmo que Idade do Ouro tenha passado e de seu antigo esplendor não restem mais que cinzas. mesmo que todos nós hoje nos sintamos a ponto de sucumbir sob a pata imunda desta Idade do Chumbo que a mim maltrata os rins. Por isso. quero louvar bem alto a outros cavaleiros que. por conta de um mal nos rins (apalpa as cadeiras. Música espanhola caliente. jamais deixarei de pertencer nobre ordem dos cavaleiros andantes.) Defensor das donzelas. Quixote vai-se vestindo. tm mantido acesa e ardente a chama da dignidade e da ética. geme) que quase me arrancou a vida. além de mim. Roupas e armadura são improvisadas com material retirado da maleta de executivo e/ou das sacolas que Miguel trouxe. mesmo com toda a vulgaridade e preconceito que grassa pelos quatro cantos do mundo — a profissão de cavaleiro andante deve ser preservada a qualquer custo. e a vós não sei que partes do corpo ou da mente. a duras penas. que jamais gastou pólvora em chimango! Salve o nunca assaz louvado Tirante. o Branco. Pode até pedir palmas da platéia. mais objetos que já estão no palco. muito bizarro. Quixote ergue a espada e saúda em tom vibrante. mas com certeza aflige também. (Dom Quixote já está totalmente paramentado e. naturalmente.

meu rocim banhado pelo rocio. do Filho e do Espírito Santo amém again. que sobre teu dorso percorrerei uma a uma as páginas das estradas e dos séculos. resplandecente. (Quixote faz uma cerimoniosa curvatura para a vassoura enfeitada. sem sair do lugar. Ou talvez Bucéfalo. como se fosse a crina. Quixote apanha a vassoura que Miguel trouxe com as compras. para render homenagem à célebre montaria de Alexandre. como se fossem arreios. Fomos feitos um para o outro e. não por desprezo. enfeita-a com esmero. Teu nome entrará para a História. nascido da garganta decepada da medonha Górgona. Mas digo-te em segredo e cá entre nós. com as palhas em frente ao próprio rosto. sonoro. um só ser seremos. amigo. como se fossem a cabeça do cavalo — e começa a trotar lentamente. para que não nos oiçam os intrigantes: no meu conceito pertences a uma estirpe ainda superior à daqueles dois. o Grande. séculos amém. como um centauro. um bod de plumas. como o corcel alado do herói Belerofonte. Pendura fitas. Digno de ti e também de mim. improvisa uma sela com uma almofada. Num ritual coreográfico.) — Poderia chamar-te Pégaso. e esse nome desde já imortal precisa ser alto. Depois monta ao contrário — isto é.Grécia e todos os outros que porventura olvidei. Tudo enquanto fala. és valente e veloz como o vento que desgrenha a copa dos olivais. Pois embora não tenhas asas nem mítico nascimento. mas por ser urgente a minha partida e curta a vossa paciência! CENA 8 (Na qual se narra com graça e nobreza o batismo do matungo finalmente conhecido como o Veloz Rocim Rocinante.) .) QUIXOTE (Para a vassoura. te batizo Rocinante em nome do Pai. Pelo sangue derramado das veias dos bravos tombados em batalha.

Quixote cavalga doidamente pelo palco. pocotó. senhora minha! CENA 10 . aos gritos. a cambraia do branco lencinho marejado de lágrimas. e com esmero. daquela que determina a mais funda razão de meus atos. com intensa emoção. desencantar brancas donzelas cativas. Certa confusão. Detém-te pois. que aqui estremeça! (Para o manequim. A melodia espanhola fica mais alta. meu impetuoso corcel. amigo Rocinante. A música só diminui quando ele pára subitamente em frente a um manequim. em louca disparada. Montado na vassoura-Rocinante. a acenar-me — vês? — como se humana fora.) QUIXOTE — Detém teu galope. Durante a cavalgada derruba alguns objetos. a bem-amada de nosso fogoso personagem. Eia! O mundo nos aguarda. mais vibrante. pocotó. Não é de minha têmpera partir sem antes despedir-me.) E agora basta de cortesias. seria profano dirigir-me a Ela montado sobre teu dorso. Vamos lá. que a vida é curta para tanta estrada! CENA 9 (De como se introduz na narrativa a idolatrada figura de Dulcinéia del Toboso.) Dulicinéia! Dulcinéia del Toboso. arrancar odientos tiranos de seus sórdidos tronos de sangue. Rocinante. enfrentar gigantes tenebrosos e feiticeiros malévolos. berrando com a espada erguida. Frente a esta divina aparição. bravo Rocinante. Vê como soa magnífico? Vê como se parece contigo? (Noutro tom. Vamos lá. Rocinante. Em frente. alimária. Vamos lá.QUIXOTE — Pocotó.

põe uma rosa vermelha. No lugar da cabeça. Quixote enreda-se nas fitas.) Ai de mim.. e ouviu a voz de Deus num poço tapado. Pega uma mantilha espanhola. Bom-dia-boa-tarde-como-foi-o-fim-de-semanaquer-um-cafezinho-parabéns-por-favor-muito-obrigado. Miguel coloca a mantilha sobre os ombros do manequim. muito colorida. o que não nasceu para isso. Carolina. e sem nenhuma graça. já um tanto influenciado pela linguagem de Quixote.) MIGUEL — Adorno teus ombros nus. Nunca me atrevi a dizer nada.) Colegas de trabalho. a teus filhos. Amáveis. geme uns versos de Fernando Pessoa/Alvaro de Campos. nunca mais. aperta-a contra o coração. platônico e patético! (Sofrendo muito... Beija-a. Que horror.. Eu. ainda no chão. E porque sei que é inútil.‖ (Subitamente Miguel recompõe-se. (Com amarga ironia. Carolina. à tua vida banal e limpa de senhora honesta. Carolina. nunca mais.. com leve sotaque lusitano. tão fiel a teu marido. sociáveis: dispensáveis. (Trágico.) MIGUEL (Para o manequim. Jamais ousaria pensar em mim como um amante. Perturbado. o personagem. nos adereços. e cantou a cantiga do Infinito numa capoeira.(Que trata da súbita e inesperada vinda à tona do desventurado Miguel Quesada para revelar seus frustrados amores.. como um corvo triste repito em despedida: nunca mais.. e leva um tombo grosseiro. que lindo encontrar contigo todas as manhãs de todos estes dias de todos estes anos. . por instantes volta a ser Miguel. Eras tão distante.) — Tu foste a única pessoa que poderia ter emprestado alguma cor à minha em sépia. o homem invisível. para que não te cause dano o sereno da noite..): ―Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta. Ao apear de Rocinante.

Pelos quatro cantos desta vasta Espanha juro glorificar vosso nome. que guapo! O que? Estalagem Ao Rendez-Vous dos Javalis? Mas deve haver algum equívoco. Mis cumprimentos. outra . anjo das minhas negras vigílias. Faz uma profunda. mas saberíeis vós dizer-me donde puedo encontrar o castelão deste aprazível sítio? Si. (Detém-se parafalar com alguém. cercado pelas cortesãs? .sobre o manequim coberto pelo xale espanhol. QUIXOTE — Buenos dias. como no. Dulcinéia del Toboso! (Música espanhola ardente Quixote esporeia Rocinante e sai de cena no galope Por momentos o palco fica vazio. Cumpri menta a todos. damas e cavalheiros deste encantador pueblito. Ergue-se um dos telões laterais. entra Quixote por esse espaço aberto. às vezes com algumas expressões em espanhol). Resta uma luz sobre o globo terrestre. entre coxins. solene e amorosa reverência para o manequim/Dulcinéia. Saludos.irreal . caro mancebo. Bálsamo de minh‘alma. Em sua imaginação. está entrando no pátio de um castelo.) Perdoai-me importuná-lo. Volta a transformar-se em Quixote. hermosas sefioritas. senhora minha. Dom Giraldo não passa o tempo na maciota. asa de pássaro no meu ferido coração de guerrilheira. Sempre a trote.(Miguel vai repetindo “nunca mais” enquanto torna a montar em Rocinante. outra sobre a espreguiçadeira. muito amável e simpático.) QUIXOTE — Prometo que voltarei.) CENA 11 (Dos sucessos de Dom Quixote em busca de quem o sagre cavaleiro e outras acolitecências mundanas. esforçados aldeões. E como se chama? Dom Giraldo de Villacafias.

está certo. Voilá.) QUIXOTE (Com um salamaleque. sempre com sua obsessão. e sai trotando. como assegurou el pibe.) QUIXOTE .) .) E além do mais. Sou o futuramente lendário Dom Quixote de La Mancha. permiti que me apresente. nada mais humano. enquanto reflete. CENA 12 (Que trata da inesperada e inoportuna vinda à tona do perturbado Homem da Mancha. Vai rindo sozinho. deve apreciar o contato mais íntimo com o povo. (Noutro tom.Nobre castelão Dom Giraldo de Viliacafias. muito educado. tinir de copos. apeia e faz uma mímica para entrar na estalagem Ao Rendez.No.. gargalhadas. (Noutro tom.) Como diz o vulgo. O Homem da Mancha voltou ao ser pronunciada apalavra “Mancha”. (Esporeia Rocinante. Ao fundo. fragmentos de conversas. Senior Bigas Luna! (A parte.. O referido Dom Giraldo deve ter afinal suas fraquezas. claro. E certo encontrálo na estalagem. (Quixote “estaciona” Rocinante. Dofia Rosita? Sempre solteira? (A parte. nada mais político. Vale! (Quixote despede-se. em 0ff ruídos de risadas. Os ruídos gravados cessam por completo.) Depravado! (Reflexivo.) Perna! (Reflexivo. Lejos de mi duvidar de vossas palavras. feliz.) Buenos dias. Quixote vai pedindo licença.) . Dom Giraldo deve apreciar beber umas e outras. sempre cumprimentando. Muchas gracias. música alta. morocho muchacho.Pensando bem. O Homem começa a procurar. no.Vous dos Javalis.) Como está. Dá voltas pelo palco. como bom administrado que parece ser.) Y todavia si. Nada mais louvável.

em pânico.. sem mais delongas. encontro-me ainda nas primícias da sua. visto que — não. eu não sou ninguém. Faz favor? E que sem ela. Não muito grande. que lá fora encontra-se em merecido repouso. da nossa — digamos — saga imortal Ousei adentrar vossos domínios com meu brioso corcel.. pelo amor de Deus! CENA 13 (Na qual o Ator recupera seu autocontrole e garbosamente volta a ser Dom Quixote para espanto de todos.o que estou dizendo.) QUIXOTE (Muito inseguro. me entende? (Agitado. por este — digamos — pequeno surto.. E o Ator. eu. (Disfarça. pousada e mais importante que tudo. Uma mancha clarinha. ela não tem preço. Dom Giraldo. não moro em lugar nenhum. O que? (Mais alto. Rocinante de Tal. à parte) A de caralho! A deixa. não.) ATOR . assim. Dom Giraldo de Villacaíias desejo solicitar-vos —ufa! — alimento. Não. pois bem. mas como eu ia dizendo.) Dizendo.. não. Quer dizer. E só uma mancha. Ela é barata.. Por alguns instantes.. Estou dizen-do.. eu disse. isso não interessa —. estala os dedos. Silêncio absoluto.) .) Não.. olha a platéia. como cavaleiro andante que sou. moça. por favor? Obrigado. da minha.. o Homem transforma-se no Ator... e da pesada.) Porra. no aguardo de vossa atenção. quer dizer. Eu fico solto no espaço.. Não teria o senhor por acaso visto por aí uma mancha assim. ela deve estar por aqui? Pode levantar seu pé. Clarinha.Perdão. eu tenho que achar a bosta dessa mancha! Você entende o que estou dizendo? (O Homem pára e olha em volta. E como se tivesse um branco e esquecesse o texto. Dom Quixote.HOMEM — Dá licença? A mancha.. Cainha. (Mais alto. . Homeless? Não. nem muito escura também. não sei o que é isso.

atentado pelos nigromantes.) QUIXOTE — Então. mas também remoto.como eu ia dizendo. Señor Dom Giraldo! (A parte. ou só de cuecas. à musa Dulcinéia dei Toboso. E como está o Sefior Montiel? (A parte.. como o crepúsculo já acaricia com seus róseos dedinhos o alto das cumeeiras. of course.. Arruma as roupas ao lado das armas. vossa concordancia resultará em vosso próprio louvor. Vossa Esplendidez finalizará o milenar ritual da sagrada salerosa. Sefiorita Santa. corno se estivesse de braço dado com Dom Giraldo. A luz baixa. ponho-me pois de imediato a velar minhas armas. Até o alvorecer permanecerei vigilante. (Aperta uma mão imaginária.) Buenas tardes.) Biscate! (Para Dom Giraldo. evidente. gracias.) — dez por cento vos parece justo? — ao sagrador Dom Giraldo de Villacafias. usando também Rocinante..) Corrupto! CENA 14 (Dos sucessos e também insucessos de nosso herói no ato de velar suas armas. encantado. sagrar-me cavaleiro? (Aliciante. (Noutro tom. com vossas nobres mãos. . Buenas noches. deverei — ufa! — honrar e defender até a morte e tudo e tal. ou ao contrário. Dom Quixote tira a roupa. bem como. com cuidado. Pode até ficar nu. junto ao globo terrestre. posto que.) .enfim e ao cabo: poderíeis. E ao romper da aurora.) Gracias. (Quixote sai caminhando. como determinam os manuais de cavalaria (à parte. enquanto fala. Arma uma espécie de escultura. sobre praticável..) Devo dizer-vos que em futuro não só próximo.

como uma fortaleza inóspita cravada no centro do meu coração. Esta é a mais perigosa de todas as horas.Dez. até o primeiro raio de soi da aurora! Nada de mau há de me suceder durante esta vigília! Ninfas. uma serpente. hoje cavalgando as pradarias do infinito! (Luz sobre o manequim! Dulcinéia. Ao longe. encontra-se também minha bem-amada senhora Dulcinéia del Toboso. um relógio bate lento 12 badaladas.) QUIXOTE (Contando as badaladas finais. por supuesto hão de vir importunar-me com suas perfídias. com uma vela de sete dias numa das mãos. (Grita para a escuridão. Preciso estar alerta.) I hope so! (Para a escuridão. Insone e temerosa por meu fado.. (Mais calmo. unicórnios. um LEO — pardo. Ela me protege com suas orações a La Virgen de Macarefta. abortos langanhentos? (Toma a espada. (A parte. Quixote. silfos.) Gentalha das trevas.. orixás e fadas: todas forças do bem estão do meu lado! além dos espíritos daqueles cavaleiros já tombados em batalha. . furioso.. Meia-noite. acorda súbito. arcanjos.) E sobretudo.Depois senta em postura de lótus.) QUIXOTE — Porventura sois surdos? A cera em vossos ouvidos será mais espessa que as muralhas de Jericó? Atrevei-vos a fazer barulho. que exigem a mais funda concentração e a mais alta filosofia.. duendes. se tendes amor a vossas peles fétidas lavradas de cascas purulentas! (Com um movimento brusco. como se lutasse. ogros e abantesmas: não ouseis vos aproximar de moi! Hei de resistir até o primeiro canto do gelo branco.) Guardai distância de mim. Como um raio. Imediatamente salta. que cochila. Quixote derruba alguma coisa na escultura. salamandras.) Pois então toma e toma esta em teu tentáculo nojento e outra mais em tua pata disforme e toma mais esta na tua carantonha medonha. Sabedores que aqui vela em solidão um cavaleiro inimigo do mal.) . Onze. cheia de crocotós.) Deixai-me em paz com meus pensamentos. Doze. Aquela em que feiticeiros e nigromantes escolheram para seus nauseabundos batuques.

) Pero. junto com apupos. horrorizado. Na minha própria pele. Senhor. Oh.(Quixote arruma a escultura. já se foram todos.) Ah. meu Deus. curador divino das feridas humanas. poupai-me.) — Ah. ufa. Mas de repente começam a jogar pedras. Que . eis o galo que cocorica três vezes. eis o primeiro raio de sol.) . Os objetos vêem de fora de cena. babaca! Quero meu dinheiro de volta! CENA 15 (Onde continua a narrativa da conturbada vigília até o raiar da manhã radiosa. O Homem cede lugar outra vez a Quixote..) VOZES EM 0FF — Cai fora. E torna a vir à tona O Homem da Mancha. Já se foram tantos.Hein? O que? (Toma a espada. najas emboscadas! Vinde todos a mim. Um tomate de pano ou plástico atinge Quixote na cabeça.) Amanheceu. verte em minhas veias o líquido sagrado de tua ânfora dourada para purificar meu sangue! (Subitamente um raio de luz incide sobre o rosto do Homem. Dai-me forças e dai-me fé... idiota! Manda matar! Jacira! Tá muito louco! Vai-te catar! Tá pensando que é o que? Fora. (Benzendo-se.) QUIXOTE (Recuperando-se. O perigo passou. Ele desmaia. Ao mesmo tempo. (Escuta. galo preto da encruzilhada! (Para a luz. pega a vela e tenta retomar a posição em lótus. ovos de todas as direções. não.) HOMEM (Olhando a própria pele. que pássa? Ah.. Por piedade. um galo canta ao longe. não.) Oh puríssimo anjo Rafael. Eu tenho que resistir. lacraias e morcegos. que tifego! (Brinca um pouco com a luz. Eu devo ser um dos últimos. tomates.) Vinde.

Com as mãos nas cadeiras. para que me façais por fim cavaleiro andante a vosso serviço. improvisado e monótono. Estou pronto para o ritual de sagração.) So! (Começa a entrar música sacra ao fundo..) Eu sou maravilhoso! (Sério. (A parte. mas os rins doem muito.) QUIXOTE — Buenos dias..) Deponho pois minha depauperada porém altiva carcaça a vossos mitológicos pés. Como vades. todo ritual foi cumprido a bom cabo e a contento. Abaixa a cabeça. Depois levanta-se — é o Ator que assume o papel de Dom Giraldo —.) Bueno. Ai que estou a adernar feito uma caravela em plena borrasca sem ao menos ter descoberto o Brasil... Quixote recupera-se com toda a dignidade.) Tivera eu comigo o poderoso bálsamo de Ferrabrás.) . CENA 16 (Do ritual da sagrada sagração e toda a sua magnifica magnitude. com uma das mãos erguidas sobre a cabeça de Quixote..) — Ai que já no tenho mais fresca idade. Permanece um momento assim.canoro Chanceler.) QUIXOTE (Com forte sotaque lusitano. (Aliviado. Música sacra mais alta.. (Suspirando. Ao perceber que o imagindrio Dom Giraldo entrou. e o passar inclemente dos anos instalou-se-me direto nas cadeiras. venci a primeira prova iniciática... (A parte. majestosíssimo senhor doutor Dom Giraldo de Viliacafías. (Quixote apóia um dos joelhos no chão. pega aquele mesmo livro da Cena 6 e lê num latim errado. ele anda com dificuldade. Quixote tenta levantarse.

bate três vezes em cada ombro da imaginária figura ajoelhada. monta novamente em Rocinante. claro. (Talvez Bach.) QUIXOTE (Mastigando alguma coisa. com a mão livre. Geme. Hã-hã. suspira.) — Adiós. Enfim consegue.) Marajá! (Trotando. Deus faça a vossa merca muito bom cavaleiro e tudo e tal e lhe dê toda a ventura na lida desta vida fodida. sei. Música sacra. como se orasse. bate a cabeça no chão três vezes — como num terreno de candomblé — talvez coloque uma guia — e torna a vestir-se.) CENA 17 (Onde são narradas inevitáveis indecisões no início do caminho e também as curiosidades turísticas de Rocinante. Pode usar uma varinha de incenso.) Pocotó-pocotó-pocotó. adiós. (A parte.) A luz dá a ilusão de vitrais. Apanha a espada e.) Obrigado pela verba! Claro. acabou. Quixote ergue as mãos unidas para o alto. nobre Dom Giraldo de Villacafias! (Sacode um saco de moedas. doem-lhe os rins. Tem dificuldade. E sai trotando pelo palco. Sinos.) ATOR — Pronto: acabou. pelo lado do telão levantado. acabou. Aumento de imposto.‖ (O Ator benze o lugar onde deve estar Quixote.ATOR — ―Per saeculum saeculorum dominus vobiscum peter filiis et espirictus sanctuslesbia pulchra est vanitas vanitatis summa cum laudae saculus plenus vaticanum voitilum positivus este terrae terrarum terris sumus est sun ad infmitum daementia precox amem. Mercado aberto às importações. prometo colaborar com vossa campanha.) . Todo paramentado. (Bate na barriga. Et voilá! (O Ator retoma a posição de Quixote. Haendel. satisfeito. Quixote benze-se.

Se pelo menos cruzasse meu caminho algum peregrino capaz de dizer-me onde encontrar algumas gotas do miraculoso Bálsamo de Ferrabrás para mitigar minhas dores. não? Pois cedo a teu desejo.) Eia. Eu preferiria toujours Almodóvar... tudo que vejo é poeira. Eu não disse? (Apontando.. pelo visto preferes Alarcón.) Dize-me lá. que embora o ar esteja seco farejo na brisa o cheiro da aventura. para onde queres ir tu? Para mim tanto se me dá.. Almodóvar del Pilar. Jóia. (Animado. que se não for o demo nem anhangá ou saci. (à parte) — a sinalização é péssima — indicando. Mas.) A leste.. por certo gente há de ser.. a pança está cheia.) QUIXOTE — Ah.) Lá naquela curva ergue-se um redemoinho de pó. a oeste.. que me renderia boas aventuras. (Para Rocinante.) E pode ser que deparemos até mesmo com o trevoso Marques de Villene.Bueno. Rocinante — comandado por Dom Quixote. cavalar amigo. o mais repelente feiticeiro dos últimos sete últimos sete séculos. Só vejo poeira e horizonte sem fim. deixa ver. a tal ponto que terra e céu parecem um só. Abandono as rédeas: em tuas patas entrego meu destino. Alarcón. (Pode colocar óculos para ler melhor. Alcázar de San Juan e ao sul. onde estão as limusines? — quero dizer.. claro — dá meia-volta e toma outra direção. ao norte. Videiras e olivais a perder de vista. mas deixo-te escolher.) Ai. (Esporeia Rocinante. Deus.. as aventuras. Terra mais seca esta minha. (Rocinante empina. Queres ver o famoso castelo.) Eis aqui uma placa. (Gemendo.. . Dize-me então num relincho: o que aconselha tua soberba intuição eqüina? (Pára. Tédio. Com sorte há de rastejar por lá algum mouro encantado em lagartixa.. Relincho gravado. latejam-se-me os quartos como se alguna morocha tuviera sapateado o flamenco sobre eles. Cafiaveras.. Nem sombra de gente. Tudo vai bem. mais depressa.

podes partir. o eleito da mais formosa dama do universo. ao mesmo tempo em que fustiga seu cruel feitor.) QUIXOTE (Para o moço. ambíguo. Dá algumas voltas e pára. Devo dizer-vos que. lembrando das inoportunas aparições do Homem da Mancha.CENA 18 (Em que o herói se toma de simpatias por um mancebo.) Para trás. que com tanto açodamento açoitais um jovem de tão puro semblante e nobre porte. Nossa que músculos duros tens. fracote. (Subitamente Quixote cai por terra. poltrão. recém sagrado cavaleiro andante com o aval de Dom Giraldo de Viliacafias.) Não creio em vós.) — Está livre. Tudo é um tanto erótico.) . o malfeitor mais pareceis vós. a estonteante Dulcinéia del Toboso! (Quixote curva-se para o moço supostamente amarrado. (Interrompe-se.. O moço imaginário deu-lhe um soco na cara e saiu correndo. e a quem encontrardes pelos cariinhos dizei bem alto que quem vos enfrentou foi Dom Quixote. Deixa-me desembaraçar-te das amarras.) Sou Dom Quixote e pronto.) Bem. Age como se o ajudasse a levantar-se. Quixote cavalga rápido. lasanha.) QUIXOTE . Assim.. Pode haver fumaça com efeito de poeira levantada.Alto lá. a meus olhos experimentados. E não te olvides: a quem encontrares pelo caminho repete bem alto que. (Desmonta apressado.) Isso.. sebo nas canelas. correi desembestado campo afora... (Recompondo-se. antes que eu faça um puchero de vossas frouxas carnes! Correi. E que peito mais cabeludo. Fala como se fosse com um mercador chicoteando seu criado.. mercenário! E corre que te arranco as calças! (Debochado. que mal vos fez este infeliz mancebo descamisado e com o lombo em carne viva? Ladrão? Malfeitor? (Furioso.. Escuta. isso. sacripanta! Sou Dom Quixote de La Man..

um tanto deprimido.. bem me diziam ―fazei o bem. como se meus quartos fossem a boca de um bacalhau pescado pelo anzol.) Eia! Avante! Ai-pi-ai-ô. Ainda ressoam em meus ouvidos os sinos do palácio onde fui sagrado cavaleiro. E o que dizer ouro bizantino dos candelabros? (Suspira.) Bueno. Porém. mas principalmente do peso bem mais concreto de toda esta traquitana. ainda sinto na pele a carícia macia das sedas nos trajes das donzelas.QUIXOTE (Levanta. claro. mas olhai a quem‖. (Para Rocinante. velhaco. nem tudo é luxo e ostentação. (A parte..) — Ai que sinto cá uma fisgada. espanando-se.. (Esporeia Rocinante. (Gritando.) Triste sina a de um cavaleiro andante. com sotaque lusitano.) — Volta cá. a textura luxuriosa do veludo adamascado na capa ritual sobre meus ombros... diz que quem mais se humiha. (Pensativo. pivete! Michê! (Quixote tenta correr atrás do moço. . cavalgadura.) Meia-volta. Tem paciência. Eis que de súbito lembrei-me de um homem muy leal e valoroso.) Cofio! Ainda por cima o bofe levou-me os últimos tostões. mais se exalta. (Apalpa os bolsos. Ninguém está livre de aconchegar uma víbora em seu regaço. Há também momentos de humildade.) QUIXOTE (Gemendo.. Tivera ao menos um outro ser humano para. Sinto muito frustrar tua turística tournée.) Volta aqui. Tem seus momentos de glória. sempre trotando. cafajeste! Ingrato.) Saco! (Mais conformado. que certamente acederá a meu convite. solidão e modéstia.) Mas para um cavaleiro.. Desiste e torna a montar em Rocinante. Silver! CENA 19 (Em que finalmente se introduz a fundamental figura do fiel escudeiro Sancho Pança.. me sinto deveras solitário. Ah. mas doem-lhe os rins. mal-agradecido! Trombadinha! Ah.) Mas é claro! Tudo que preciso é de um fiel escudeiro para aliviar-me não só do peso abstrato da solidão. (Detém-se: insight.

. O barril.. logo destronaremos algum tirano. que disso entendo eu.) é Sancho Pança. só resta um telão. calma. desencantaremos alguma bela princesa cativa. mula.. Quixote sai de cena por um lado e volta imediatamente pelo outro. Sua Excelência.. ao fundo.) Como não vês nada? Será que além de sonso és cego? Presta atenção. dear. Sancho Pança. não te apoquentes.. Até o final da temporada a prometida ilha será toda tua. Prometo.) E por caridade. Portanto. que toma invisível a quem o possui. Vês como brilha e rebrilha um adereço metálico na cabeça do cujo? Pois te juro trata-se do famigerado Elmo de Mambrino. caso contrário estarias farto de saber que a fortuna custa a surgir.. hein? (Quixote detém-se de repente. mas contra. (Mais paciente. Por sob aquele 1amo altaneiro vem vindo um cavaleiro a trote manso. caso contrário bate-se-me nas fuças esse teu bafo entranhado de cebola e alho e vinho vagabundo e sei lá mais que. panelas. Sossega pois a tua periquita. Logo. Hein? Já te disse que nada entendes de cavalaria andante. . Digo e redigo que aquela ilha em Angra será tua assim que tivermos alguma aventura — digamos — mais substancial. que já não é pouco. Essas coisas.. e não te metas em assuntos de cavalaria. Como é possível rememorar os doces aromas de alfazema da perfumada Dulcinéia se teu fartum me faz cair na real? E bem sabes o quanto detesto essa tal real. por uma cordinha. prometo. puxa um pequeno barril com rodas embaixo — ou sobre um carrinho. (Irritado. It‘s my business..) Não.) — Esporeia teu asno. já assinei tua carteira.) QUIXOTE .Ergue-se o outro telão lateral. arrancaremos a máscara da face de alguma medonha megera. Limita-te a teu ofício de escudeiro. Nada mau. ou mesmo sobre um skate. com correntes tramadas e tralhas penduradas (canecas. E seremos regiamente recompensados. quando falares não o faças a favor do vento. Estica-se e aponta para longe. etc. Continua montado em Rocinante e.Raios se me partam los cuemos se aquilo que avisto não é o Elmo de Mambrino! (Para Sancho. o Governador Sancho Pança. machado. Afinal.) QUIXOTE (Para Sancho. por supuesto.

) QUIXOTE (Para Sancho. minha cabeça . ouvem-se apenas os gritos. Viste? (Irritadíssimo.) Com o poderoso Elmo de Mambrino em minhas mãos .Deixa-te de preguiça. . Quixote volta muito orgulhoso. com um penico na cabeça. (Quixote apeia.) Então não percebes que os malditos nigromantes transformaram o cavaleiro num gordo cura de aldeia? E não percebes também que transformaram o próprio Elmo numa reles bacia? Pois te afirmo que esses grosseiros encantamentos não deterão meu ímpeto. Pega Sancho e ergue-o acima da própria cabeça. Sigamos portanto nosso rumo. Lá.) . Nem azinheira nem pitangueira. oh torvo escudeiro! Botaste reparo na desabalada carreira em que escafedeu-se o bandoleiro transmutado em cura? Ave. deixando Sancho parado. Eu falei á-la-mo. feito chapéu. Na ribanceira.Três vezes vitória. tapume. pois tomba lânguido o crepúsculo e o fatigado cavaleiro tem precisão de um sítio ameno para repousar seus ossos.) QUIXOTE Que azinheira.as portas da glória se arreganham para nós. Sai gritando com a espada. Gira-o como um periscópio até focalizar um ponto. companheiro.quer dizer. ave. Quixote dá voltas por fora do palco. estrupício. evoé! Mais uma conquista do invencível Dom Quixote! (Acaricia o Elmo/penico. CENA 20 (De como se faz noite e nosso herói arma o camping para o repouso enquanto lembra a bem-amada em suas orações. (Quixote torna a montar. homem de Deus! Põe-te em pé sobre teu asno e verás que verias o que vejo eu. mais abaixo.) Como? Um cura com uma bacia na cabeça para proteger-se do sal? Por certo perdeste o senso. (Devolve Sancho ao carrinho. Entrevero em off.

certamente opíparo não é o adjetivo mais adequado para este frugal repasto.) Perdão: a cada dia o seu quinhão. pois cifram-se apenas em implorar que te não recuses a dar-me o teu favor e amparo.) As últimas QUIXOTE — ―Ah! senhora das minhas ações. amanhã teremos faisão.) QUIXOTE (Prepara-se para dormir. que não olvidarei as minhas. Mastiga um pão. as mãos unidas. palavras são um sussurro na escuridão.. tuas cebolas provocaram-me horrendos borborigmos. se é possível que cheguem aos teus ouvidos as preces e rogos deste teu venturoso amante.A luz diminui.me-á o escorbuto tanto pão seco no bucho? Além do mais. Pode-se também forjar um fogo com papel celofane vermelho. agora que tanto deles preciso antes de embrenhar-me pela ignota região dos sonhos. diminuindo lentissimamente junto com a voz de Quixote.. (Deitado. Luz A sobre luz vai Dulcinéia/manequim. compadre Sancho. Tira o Elmo/penico. (Arrota.. Se Sancho for mesmo um barrilzinho. Sonha com tua ilha. apeia Sancho. E quanto a ti.‖ CENA 21 . Quixote reza. Quixote estende um sleeping-bag. caríssima e incomparável Dulcinéia del Toboso. Alimenta Rocinante com uma cenoura.. tem uma torneira de onde Quixote tira vinho e bebe numa caneca de lata. não abuses dos torresmos que não estou disposto a estremecer de susto com teus traques durante a madrugada. Noite. Quixote apeia. Dorme em paz. E não olvides tuas orações.) — Convenhamos. por tua inaudita beleza te peço que os escute. Causar. Suavíssima melodia espanhola.

Quixote levanta-se e vai caminhando até a espreguiçadeira. fundo de garantia. hein? Mal se aposentou e já viajou. se você estiver por aí atende. Talvez nunca. meu.)) VOZ DE MIGUEL (Na secretária. Olha. Miguel viajou. viu. Olhe. Luz sobre a espreguiçadeira. demissão. dissídio. faço questão. Quando o bip da máquina desliga. Escuta. uns tira-gostos pra gente comemorar a tua liberdade. Quem me dera. Atende uma secretária eletrônica.Cerveja. com aquele recado de Miguel. oleriti. aqui é o Guilherme do Almoxarifado. Tchau. Durante pelo menos 30 anos você só me ligou pra falar de coisas de trabalho. Quem sabe um uisquinho.―Isto é uma gravação. Eu fui-me embora daqui.) MIGUEL (Amargo. Guilherme. Guilherme.(Em que o chamado Real-Insuportável desta vez mais suportável novamente interrompe o fluxo e o devaneio. (Vide Cena 6.) . Inútil deixar recado depois do sinal.) . Miguel? Recado esquisito. Quixote acorda bruscamente. Circular. E vida boa. Eu pago. deixa pra lá. Agora é tarde. tira-gosto. Coisa fina. Me esquece. Toca três vezes. Está transformado em Miguel Quesada. Eu cansei. o personagem. A secretária se cala. (Ruído eletrônico.Alô. décimo terceiro.) VOZ MASCULINA . a voz de Guilherme na secretária. Mais de 30 anos. Luz súbita sobre o telefone. tem umas gatas aí super-afins. Mas você nunca me convidou pra nada. porra. Enquanto dura o bip e. No disse quando volta. Miguel? Tá me ouvindo? Tá bom. logo após.‖ (Ouve-se um irritante bip eletrônico. CENA 22 . Alô. Deita-se. Eu só queria convidar você prumas cervejas. uisquinho.

(Vai ficando entendido.. Odres de vinho.) Vislumbrei maquinarias tão intrigantes..) QUIXOTE . Bochecha. que desperta na espreguiçadeira e. (Para o nada. com engenhos a tal ponto indescritíveis. bundone. Sei. meu compadre. bufa. sei.. rosée. moleque da alta magia! Dessa maneira envergonhais a memória de vosso ancestral Merlin. companheiro Sancho.) . bebe café.) Que pobreza.) QUIXOTE (Dando um pulo. (A parte.Vite. de vossa amada Morgana. antes que rompa a manhã. Te crês que ainda está caliente e a dar-se vueltas y más vueltas cá pelos cornos? (Visionário.. vite! Apura que se faz hora. oh nigromantes nigrinhas.. Depois faz como se lavasse as mãos e o rosto. vai puxando Sancho pela cordinha. Tosse.. lingüiças. Que truquezinho mais chinfrim. fala-me de teus sonhos.) Então.. aos confins da Longelândia.. cospe.) Oquei.Maldição! Se sonâmbulo não o sou. De ouro? Veja só... para seu espanto. (Reflexivo. à remota Quintanópolis..) Covardes. seguido do despertar. vejo que os magos da treva andaram a mangar comigo durante o sono. Depois vai resmungando até Sancho. não no chão aonde adormecera ao lado de Sancho. Faltam-se-me as palavras — o que é raro — para . Subitamente Miguel volta a ser Quixote. Interessante. (Discretamente Quixote faz xixi num cantinho. Branco ou tinto? Sei. (Montado. como é possível dormir lá e acordar cá? Ah.(Do que aprontaram os nigromantes incompetentes com nosso herói durante a noite. Trotear é preciso. Devem estar todos rindo à socapa de vossa idiotia. Dona Sancha e as cinco Sanchinhas? Sei. Tudo isso enquanto desfaz o acampamento e recoloca Sancho sobre o carrinho.) Hã-hã.. premonitório.. Onde pensas que estás? Refestelado numa hospedaria cinco estrelas? Toma aí teu petit-dejeuner e avia-te presto.. quanto a mim creio que tive um sonho. incompetentes! Tivésseis reais poderes ter-me-íeis levado até as lonjuras da Beldregúndia. cospe. abre a torneira. Sacode-o.

O cenógrafo é livre para escolher vários símbolos da Mídia. no lo creo em meus bugalhos! Estás a ver como eu todos esses anões amontoados uns sobre os . além de fragmentos de jingles. plimplim da Globo. mas se reais. Vai-se aproximando do totem com muita prudência e alguns sustos. revistas. frases e trechos de música em vários idiomas. meu amigo.) QUIXOTE (Percebendo o totem-Moinho. (Quixote apeia de Rocinante. Esse é o Moinho de Vento. lá no alto. cada um sintonizado num canal diferente). eletrônicos. A chave confirma: é hoje! CENA 23 (Onde se narra o extraordinário acontecimento com a mutação eletrônica do gigante Briaréu e seus asseclas. vejo que aqui temos aventura da grossa! Arrete.) . depararemos com uma extraordinária aventura. mais jornais. emitindo raios e sons estranhos. papiermachê ou qualquer outro material Seria sensacional se pudesse girar. Sobre esse pedestal. Atrás do telão há um bizarro totem em forma de escultura. começa a subir o telão do fundo. Será quiçá o gigante Briaréu? Será a temível sábia Mentironiana? Será o monstro do Lago Ness? (Esporeia Rocinante. Mas logo ao despertar tive a segura intuição que.Uau! Me cago en la concha de Maria Santíssima! U-lá-lá. enquanto fala com Sancho.descrevê-los.) Vai afiando teus gumes. amigo Sancho. antes que o sol alcance o meio do céu. Tão lentamente que Quixote só o percebe quando está totalmente levantado.) QUIXOTE . vê-se uma enorme antena parabólica.Sancho de Deus. descargas estáticas de rádio. microfones e fios colados. (Enquanto Quixote e Sancho trotam. E formado por um pedestal de aparelhos de TV(reais ou de papelão. Que também pode ser real ou de arame.

) . estúrdias criaturas do fundo do íntimo do âmago do mais longínquo Hades! O bravo cavaleiro desafia a própria morte e contra vós investe! (Espada em riste. Quanta arrogância! Que enfrentativo ele é! Ah. Moinhos de vento? Capaz! Não percebeste. Hei de decepar esse teu braço repugnante para jogá -o aos cães danados! Hei de cravar uma estaca de madeira santa no teu podre coração. etc. vampiro imundo! (Benze-se. E chegado o vosso fim. biógrafos. trolha. Se forem reais. zumbindo. fascinado e aterrorizado. E estarrecedor! E estupefaciente! (Gritando. . mas acaba levando um grande tombo. exegetas. fecha tua matraca e me deixa em paz. Dependendo das imagens . fiisteus! (Quixote tenta escalar o totem. horrendo Briaréu! Vai encomendando tua alma a Leviathan. finalmente. Por El Greco.) QUIXOTE (Por terra.) . que o nefasto mago Freston transformou anões e gigantes nessas máquinas dementes? (Levanta. companheiro Sancho. Esta côsa lôca nada mais é que o monstruoso Briaréu em carne e osso.) Mas é sobretudo um estorvo! Não fujais.) Felizmente meus futuros cronistas. Quixote joga-se furiosamente contra o totem. bem que meu sonho me avisou. Talvez até consiga. as TVs nesse momento saem do ar.) QUIXOTE — Já dobrei meio século de Karma e nunca jamais en toda mi perra vida tropecei em tamanha trola.Caluda. fãs e etc. que neste embate aposto minha honra. reconhecendo conhecidos. altivo. geme e apalpa os rins. Ficam nas telas apenas aqueles riscos verticais. que no último instante.) QUIXOTE (Aos berros. minha doce Dulcinéia. que me cago hasta en la leche de mi puta madra! (Quixote examina as TVs.) Valeime. quando eu já saboreava o gosto da vitória.se forem reais — o Ator pode improvisar alguns comentários. um pouco.Chegou tua hora.ombros dos outros com aquele gigantão estalado lá em riba? Por Picasso! Olha só o monstro lá do alto girando seu único braço em direção ao céu.

vírgula. Mas não temer jamais. Ponto final. Em vão. o boca-a-boca sempre funciona. não esqueça de espalhar aos quatro — aos quatro não. e sim buscar discreto pelo atalho menos evidente e mais propício. Ponto. aos sete — ventos que teu amo e senhor Dom Quixote teve a audácia de enfrentar Briaréu. quem sabe? Um video maker que seja? Mas nem sequer um mísero cineasta? (A parte. que se me esnoba a mídia estou fodido. (A parte. Quixote torna a montar. (Quixote galopa a todo vapor para o lado oposto. Ponto.) QUIXOTE — Valha-me Lope de Vega. e o futuro me absolve! .haverão de fazer justiça. O que? Precipício não. Parece que os corruptos nigromantes donos do poder querem mesmo me enlouquecer. (Para Sancho. puxando Sancho em direção a um dos lados do palco.) QUIXOTE (Filosófico.. well. lesado: pro-pí-ci-o. De repente cai também o outro telâo. quiçá? Um jornalista..) E tu atoleimado. CENA 24 (De como a saia se ajusta pouco a pouco e todos os caminhos começam a parecer sem saída.) Well.. Sai a trote. (Para a platéia. Enquanto ele trota. ao menos? Algum fotógrafo.) Ai. patetas! Não fora eu quem a História confirmará que fui e continuo sendo..) Haveria por acaso algum biógrafo entre vós? Um escritor. well. E outra vez Quixote dá de cara no telão.) Em frente. que os caminhos se me ajustam qual saia sem fenda em nesga! (Para Sancho. Quixote dá de cara no telão. fogoso corcel.) Anota em tua agenda. despenca violentamente um telão lateral. Como quem teme.) Afinal. (Esporeando Rocinante. escudeiro: nesta vida às vezes é preciso saber recuar. que nada nem ninguém nos deterá.

talvez seja melhor investigar bem esta vereda que se me afigura sem salvação. Juro que nunca pensei. Abutres. que se há de fazer? (Avança. Pela primeira vez parece frágil. Um mísero e único caminho.) Mas o coração — ah. (Para os céus.Vejo que ainda resta um caminho. que medonha fedentina! Dir-se-ia que este sítio está juncado de cadáveres em franco estado de putrefação. o mais solitário. meu nome em boca de sapo: definitivamente xô! CENA 25 (Na qual todas as porções anteriores vêm subitamente à tona numa verdadeira apoteose esquizofrênica & pós-moderna. . O mais perigoso. inseguro.) QUIXOTE .) Valei-me. mas recupera-se e bate no peito.) Por Antonio Banderas. tapando o nariz. parece mesmo o único. respiração ritmada. meus caros amigos. Tira o Elmo/penico e pendura-o num dos ganchinhos de Sancho. onde ainda está o totem já apagado. já que prudência e covardia sinônimo não são. hienas. Anda pé ante pé. Cabeça fresca. puxando Rocinante por uma das mãos e Sancho pela outra. Augusto dos Anjos! (Quixote abandona Rocinante e Sancho.) Vade retro.) QUIXOTE — Bueno. (Equilibra-se. Olha em volta. equilibrando-se como numa corda bamba.(Quixote olha para o fundo. o mais melancólico de todos. Exu caveira. Mas cuernos. passo comedido. o coração eternamente enfrentativo! (Erguendo um braço com os dedos em figa. O mais estreito. vudu bestial! Falange de eguns. Ah quanta miséria. quase cai. Oxalá os pestilentos miasmas da sórdida matéria viva em decomposição não arruínem ainda mais minha depauperada saúde. assustado. Começa a caminhar para lá.

Merda de memória! HOMEM — A coisa mais triste do mundo é a pele. fugir.) Esta rede de rugas no meu rosto. Senhor Meu. O telão à frente do totem também começa a descer. As coisas se me encurvam de fadiga. muito maiores di que eu? . Desaparecer. o Homem da Mancha — começam a emergir caoticamente. triste figura a minha. Tão magro sou. limite que nos separa dos outros e das coisas.) Meu regente Marte. o peito se me encava de desgosto. E que desejando a vastidão do mundo meu coração conheceria também a vastidão da dor. Já quase nem tenho dentes.Quixote está em frente ao impassível totem-Moinho. mas lentamente. (Olhando as mãos. implacável Senhor do Tempo. Dos lados. impiedoso Cronos: poupai-me do envilecer da carne viva! ATOR — Não se pode ir em frente. meio grego. não agir. Também começa a emergir em Quixote o último personagem — o Cavaleiro da Triste Figura. (Para o céu. Cair no esquecimento. A pele é intransponível como uma malha. milímetro por milímetro. de que? Não consigo lembrar. Ficar parado seria fatal..) QUIXOTE — Triste. tristes. Por que. Então acontece a Grande Divisão Esquizofrênica.) E tem manchas tristes... como espantados por meus loucos sonhos. Ogunh. que forem-se-me os molares. MIGUEL — Eu não sabia. Sem controle algum. É impossível recuar. E me fugiram os fios de cabelo. Cada um quer tomar o poder e falar. os personagens anteriores — Ator. permitiste que eu tentasse fugir da minha pequenez? Por que me deste todos esses sonhos. Esquecimento.. Fronteira. por que me abandonaste? Oh Saturno. (Tosse. senhor da guerra. Não fazer. e as mãos me tremem como de ressaca. já caíram os dois telões. que o mundo era tão vasto e doloroso. tão seco de carnes. Senhor. Ah. Miguel Quesada. tristes.

a lágrima. Meu Deus. ATOR (Citando Nelson Rodrigues. a prece. Tragam-me chaves. QUIXOTE (Citando Sun-Tzu. eu estarei entre eles. As vezes ganha. Asmodeu! Belial.) — ―Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo. eu também quero outra coisa. nunca correrá perigo. meu bem. Ponham-me grades. Mesmo em cem batalhas. Além do vômito. às vezes perde. minha estrela da manhã. aqui quem te fala é uma morta!‖ HOMEM — Além da lágrima. ATOR — Astaroth.‖ . que não agüento o vivo! QUIXOTE (Bem espanhol.‖ (Noutro tom. Ou o cinismo. bater as portas.) ―Pura ou degradada até a última baixeza eu quero a estrela da manhã!‖ ATOR (Citando Vicente Pereira. correntes. (Recita Manuel Bandeira.) — ―Sempre quando tiveres mais de três pessoas reunidas e for falado o nome de Deus. Dêem-me o claustro que não suporto o outro. Aquele que não conhece nem o inimigo nem a si mesmo. mas conhece a si mesmo. Aquele que não conhece o inimigo. Em todas as batalhas será vencido. e sente o ritmo.QUIXOTE . Mas sempre com um decote bem profundo.) — ―Herculano.Dulcinéia. ao pé do leito derradeiro!‖ QUIXOTE — Soltem os leões! HOMEM — Como as atrizes e cantoras que desaparecem para sempre. trancar as portas.) ―Segura o turbante.) — Ay que me muero! HOMEM — O vômito. Belfégor! MIGUEL — Fechar as portas. cadeados.‖ MIGUEL (Citando Machado de Assis.) — Carolina! ―Querida. “A arte da Guerra”.

está transformado no Ator. Quando Quixote volta-se para o público. ATOR (Citando Oswald de Andrade. dos que fumam maconha para falar bobagens.) CENA 26 (Onde um alegre circo subitamente dá lugar ao deprimido e deprimente Cavaleiro da Triste Figura. escondendo por completo o totem-Moinho.) ATOR (Braços abertos. o amor. onde fica a saída? Eu preciso encontrar a saída! QUIXOTE — Nasci para viver morrendo.‖ MIGUEL — A saída. Ah. o amor: eu quero porque quero da vida!‖ HOMEM — Socorram-me que me afogo em meu próprio sangue. O Ator pode fazer mágicas. Suspensa por um fio de nylon. em minha própria mancha! QUIXOTE — Ay ay ay que me muero! (Na cara de Quixote cai finalmente o terceiro telão.) — ―Ter nascido me estragou a saúde. rapazes e senhoritas: boa-noite! (Música circense bem animada. despenca do alto do palco uma enorme lua . HOMEM — Além da prece.) — Respeitável público! Senhores e senhoras. O riso a que não me atrevo. Quem me dera o humor dos anjos.. o humor dos palhaços.ATOR (Citando Clarice Lispector. das crianças. tipo tirar infinitos de dentro do Elmo/penico. e tu para viver comendo. o riso. Efeitos feéricos de luz. feérica.. bem circense. A luz fica mais clara.) — ―Ah o amor.

por sua vez.) — Cavaleiro da Branca Lua. vencido estou.) Mais do que nunca.) TRISTE (Para a lua. esqueceme. Esqueçam-me todos.) Esquece-me incluso tu.) Ah. Ao ver a lua o Ator pára. branca lua: a teus pés de prata deponho meus arroubos. sombra de gente. Escarrem-lhe na cara.) Joguem. da saúde. desalmada e feiticeira. Lancem-lhe apupos.) — Lá vai ele. tomates murchos e ratos morto. Oh Lua. (Para Sancho. O Ator transformou-se novamente em Quixote que. A música também pára..) Que vexame. que nunca foi nada! EPÍLOGO (Onde se encerra a narrativa falando da morte. (Mais alto. da vida. Triste caminha até o manequim/Dulcinéia. acariciando o barrilzinho. Joguem-lhe ovos podres. do amor e do azul. . dias de vinho e rosas. já se transformou no Cavaleiro da Triste Figura. indomável Rocinante. TRISTE (Cada vez mais curvado. tornei-me agora exato e justo a alcunha que um dia me deste: Cavaleiro da Triste Figura. Adeus. o mais amoroso e leal de todos os escudeiros de toda a história de toda a cavalaria andante. (Caidaço. Cavaleiro da Branca Lua.. com fúria. que desatinou e nunca mais voltou.) Esquece-me também tu. acabado..lhe bosta. que ensandeceu.. (Amargo. que aprimorou meu porte e suportou meus ossos. que endoideceu. destroço. Retira apenas a rosa vermelha que mantém nas mãos Enfia na cabeça o Elmo/penico e começa a caminhar em direção à espreguiçadeira. Branca. Estou exausto desta farsa. (A parte. que já no valho um furo sequer da sola das tuas negras botas. Farrapo humano. Tamanha surra me deste.em purpurina prateada. companheiro Sancho. Começa a colocar suas próprias roupas sobre o xale do manequim. soçobro de si mesmo. (Para Rocinante.

ou remotíssima mesmo tempo os três telões. é claro. pois a morte já anunciou sua chegada. (Procura pelo chão.) Do teto começa a cair uma chuva de confetes coloridos sobre Triste morto. (Recita García Lorca. Aliás. espanando os confetes.) //Si muero. você nunca diz nada. Assim não é possível. ao longe. E muito caro pra não dizer nada. Fala com um psicanalista imaginário. // (Desde mi balcón lo siento. Triste vai falando enquanto deita. Não pode desaparecer assim.) AH. Você melhor do que ninguém sabe disso. ali. deixa pra lá.) Ela tem que estar aqui. Quer saber do que mais? Caguei: K-Gay! . a tua vida.Triste pára junto à espreguiçadeira. Dentro ou fora de mim. / dejad el balcón abierto!‖ (Com um esforço derradeiro. a rosa vermelha sempre nas mãos. somos todos inocentes nesta barca da Medusa a navegar insânias. / dejad el balcón abierto. Tira o penico da cabeça e coloca-o embaixo. já cansei dessa história. geme. A lua batucada. / (Desde mi balcón lo veo. e só me torna agora.) TRISTE . as nossas vidas. // El nino come naranjas. num último alento:) ―Si muero. Que louco sonho ou pesadelo foi a minha vida. consultando o relógio. Tarde demais.) // El segador siega el trigo. E eu de nada me arrependo. por longo tempo. imóvel. Aqui.Perdoai-me todos. Eu penso nela o tempo todo. Leva a mão ao peito. Está vestido apenas com a malha. (Desinteressado. É que fugiu-seme a razão. No que é que eu estou pensando agora? Na mancha. cuíca geme ao fundo.) Ay que me muero! (Cai deitado na espreguiçadeira. dizem. Uma permanece. Começam a subir ao HOMEM (Levanta. como o Ator no Prólogo. Nem você. Triste joga a rosa para a platéia.) — Já? Mas hoje eu quase nem disse nada. se a alguns fiz mal. Ah.

surpreso e feliz. quer falar com quem? Miguel? Sou eu mesmo. Miguel deposita suavemente o telefone. enquanto a luz diminui em resistência. Atende sôfrego. VOZ GRAVADA — ―Isto é uma gravação.) Aqui. ATOR (Estremecendo. vamos sim.) Carolina? Nossa. Os telões sumiram.) Sim. O sinal repete duas. é verdade. então você recebeu a minha carta? (Confiante.. sim. Senta no banquinho em frente ao globo terrestre. (São Paulo. como despojos de uma batalha. Mas a secretária eletrônica é mais rápida. Carnaval de 1994) vezes enquanto o Ator volta a sentar no . (Olhando em direções diferentes. Hoje mesmo? Miguel estaca sorrindo ao telefone. procura e aponta. pode falar. como no Prólogo.Alô. repete sete vezes cada vez mais baixo.) Ah. A gente sempre esquece. com o indicador apontado. Muita falta. Toca um sinal de início de espetáculo. Bem aqui.. vamos nos ver.) — Hã? Hein? O que? Quem? (Gira lentamente o globo. Que bom. Miguel. Deve ser mesmo. E a lua. lá no alto.‖ Miguel aperta um botão e desliga a secretária. claro. Música espanhola vibrante. sim. Já transformado em Ator.. O Ator não se move.. MIGUEL (Ao telefone. Os três telões terminaram de subir. Exatamente aqui.O telefone começa a tocar. três banquinho do início. (Pára o globo. eu também.) . Resta o palco e poucos elementos espalhados. Já transformado em Miguel o Homem precipita-se para atender. vigorosa.. sim. Quem gostaria? (Sorrindo. sim. vital. Como? Ah. Claro. Quem vê lá do espaço. animado.) Eu também. caminha até o praticável . sim. eu nunca pensei que. eu de longe lá do alto — diz que a Terra é azul. sim..

Eu disse que você é meu companheiro.O quê? A .O quê? . não foi assim: que eu sou teu companheiro. B — Não. sei. Não tem nada. eu disse. Deixa de ser paranóico. B . B — Não é disso que estou falando.CENAS AVULSAS DIÁLOGO 1 A — Você é meu companheiro.Hein? A — Você é meu companheiro. B — O que é que você quer dizer com isso? A — Eu quero dizer que você é meu companheiro. A — Não. A — Você está falando do quê. A — Ah. então? B — Eu estou falando disso que você falou agora. eu sinto. S6 isso. Que eu sou teu companheiro. B . B — Tem alguma coisa atrás. A — Você também sente? B .

A — Não me confunda. A — Atrás do companheiro? B . Não é isso. B . .Ser teu companheiro? A. sim. E você.Ser meu companheiro.A — Que você é meu companheiro? B — Não me confunda.Eu vejo. No começo era claro. Por favor.Sim. não? B — Não. No começo era claro. A — Você não quer que seja isso assim? B . Não é assim. Tem alguma coisa atrás. não me confunda.Não é que eu não queira: é que não é.Companheiro? A. B — Agora não? A — Agora sim.É.É B . B — Você não sente? A — Que você é meu companheiro? Sinto. A. eu sei. Você quer? B .Eu não sei. Tem alguma coisa atrás.Não. Claro que eu sinto.O quê? A . B . não me confunda. por favor. Eu quero. você não vê? A .

para longe. B . .Não.Eu disse? B .O quê? B . Sazonando. A .Eu quero que você seja meu companheiro.O quê? A — Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro. A . B — Você disse? A . B — A ração básica custa setenta por cento do salário mínimo. não é assim? Pronto para ser colhido. B . O que definitiva e realmente sou ameaça rebentar as janelas. A .O quê? A — Que você seja meu companheiro. B — O índice de mortalidade infantil aumentou em trinta por cento.Você é meu companheiro. A — Broto para fora. Não foi assim: eu disse. eu disse.Hein? A .B .Maduro como um fruto.Hein? (Ad infinitum) DIÁLOGO 2 A — Sinto-me tão nítido que quase posso tocar em mim.

B — A gente? A .O que? B — Quero dizer que. eu... E a partir disso. A — Muito tempo.B — A temperatura ambiente é de vinte graus centígrados e dois décimos.) — Mas você lembra? B . .É.Como assim? B — Quero dizer: Você quer uma resposta alegórica ou realista? A — Realista?! Como? B — Realista no sentido de não ter subtexto. suponhamos. bem no meio da ponte do Guaíba.. A . A — Esse ―suponhamos‖ é real ou (irônico) alegórico? B — ―Entre les deux. você acha? B — Isso é uma questão real ou simbólica? A .Suponhamos que sim. um mas. A (Cortando. mon coéur vomitte‖. Eu e você B — Ah. Mas já faz tempo.. você falou que a gente podia alugar um apartamento em Moinhos de Vento. DIÁLOGO 3 A — Uma vez. entende? Quero dizer: eu dizer que acho que faz muito tempo porque se passou. Nós dois.

B — Não fica agressivo comigo... porra.) — Você acha que um mês é um tempo significativo? B — Significativo em que termos? A ..Eu tentei.. não era? B — Mas eu já disse que tentei te dizer. porra. É completamente impossível alguém saber tão rápido.. Nem que fosse médium.Me passa o vinho. nem que você tivesse superpoderes.Acontece que você não tinha o direito de fazer este maldito aborto sem me consultar antes. .. A — Tentou! Tentou como? Aquela vez que você me disse que tava grávida menos de um dia depois que a gente tinha trepado? B .. E humanamente impossível qualquer pessoa saber. DIÁLOGO 4 O Aborto A — Mas afinal.. porra.. meu bem.. cinqüenta por cento da cria era minha.. A — Mas eu podia acreditar? Menos de um dia. por que é que você não me disse que estava grávida? B . A .A (Cortando.Você não acreditou. Afinal de contas. A — Agressivo? Ah. cara. Nem que fosse a Mulher Maravilha.

B — Sabe na hora. Sabe o tempo todo. Me responde uma coisa: por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento.) — E. (Articulando as palavras.. Não me venha com esses superpoderes feminóides. A Sabe merda nenhuma. lentíssimamente. cara.Quero saber tudo. isso te dói? A . B — Como.B — Uma mulher sempre sabe.) Por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento. Pausa longa B (Acendendo um cigarro. tem uma pergunta que há horas eu tou querendo te fazer. No segundo em que eu botei o olho em ti. cara. Eu acho que. A — Não força. meu querido.Absolutamente.Porque é o único jeito de imaginar que eu tou fodendo com um homem. não força? E já que a gente tá falando nessas coisas tão Íntimas. Sabe sempre... No minuto exato em que você põe o pau lá dentro. .) .) — Você quer saber? Você quer saber mesmo? B . tá sabendo? Na hora de baixar a calcinha..

estou torvelinhando.S.. estou turvando.....) ―Amor de mis entrafias: viva. Para mim.. Time for one hundred of decisions and undecisions‖.‖ (García Lorca) A (Cortando. ele continuará sendo sempre aquele menino recém-chegado de Florença. mas não consigo. B — ―Somenthing between Macondo and venice‖. essa. eu não consigo. . para mim.) — Estou tentando...estou tentando. essa mudança. Time for me and time for you. B — ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖ (Pausa. Time for visions and VER. Aceitar essa mudança.. para mim.. Para mim....... (T.. aquele menino.. ele continuará sendo — sempre — aquele menino recém-chegado de Florença. Eliot) A — Eu não consigo.. estou atordoando. B .... Florença.. ... estou tonteando..... mudança. B — ―Life is a tale told by an idiot fuli of sound and fury‖.. para mim.. B — ―1 am too pure for you or anyone.) A — Não consigo. Para mim. não consigo — não consigo aceitar essa. There will be time.. não sei..―There will be time. estou tateando. (Shakespeare... eu não consigo. não sei. ele continuará sendo aquele menino recém chegado de Florença. (Pausa.) ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖....... (Sylvia Plath) A — Estou tentando....DIÁLOGO 5 A — Não consigo aceitar essa mudança. Your body hurst me as the world hurst me as the world hurst god‖..

2 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.com/group/Viciados_em_Livros.google.Se quiser outros títulos nos procure http://groups.Nota — A continua fazendo variações (que podem ser improvisadas ao infinito em torno de tentar-tatear-tontear-etc. .) enquanto B repete sempre a última frase. será um prazer recebê-lo em nosso grupo.

SARAU DAS 9 ÀS 11* * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

PERSONAGENS MADAME DE ALENCASTRO • MONGE DO RESTELO • BABY • DEBORAH • BÓRIS. um homem-tronco • EGO .

envelhecidas estrelas de cinema conviviam com magnatas do jet-set internacional e com a antiqüíssima aristocracia local. jeans e discurso de protestos. ocuparam . E o Ego. vivíamos em mansões cercadas de jardins. a imprecar vaticínios apocalípticos. jantares. e eram capazes de dar a vida por nós. picnics no campo. era uma festa sem fim. que geme sons inarticulados. Hoje tudo mudou. tomaram conta. bailes de máscara. Reis destronados. que a tudo preside. Isolados da turbulência do mundo. festas à beira da piscina. partidas de criquet. MADAME - Suavemente plantada entre os rochedos da harmoniosa Costa do Sol. Nesse ambiente eu me criei. velha dama de negro e sotaque português. Ao fundo. Éramos servidos por exércitos de empregados que nos amavam e respeitavam. por onde ninfas e sátiros se perseguiam amorosamente. Madame de Alencastro.1º. sex. Baby e Deborah são representantes da juventude. As falas dos personagens repercutem umas nas outras sem que haja qualquer diálogo ou contracenação entre eles. ditadores depostos. Bóris. Habitam áreas estanques do palco. Taormina foi o cenário onde transcorreu aprazível a minha infância. bosques e fontes. QUADRO Overture Este é um quadro de monólogos entrecruzados. Os rebeldes venceram. uma figura de altura desmesurada. mas só se manifesta no final como um oráculo de nonsense. drugs & rock‘ n roll. Recepções. Ela. Ele. traz numa coleira um homem-tronco. vestindo um manto negro que só deixa de fora o rosto de alvaiade. O Monge de Restelo é uma figura visionária de capa vermelha.

passeávamos pela alameda da quinta de Don Juan do Franco Condado. nas esquinas.) — Tu continuas fazendo parte daquele balão colorido que subiu embalado por música. MADAME — À tardinha. quando olho para mim.. ou tomávamos chá sob o caramanchão nos jardins de Humberto de Bourbon. política. quando fazia calor. cruamente. DEBORAH .. BABY . MONGE (Para Baby. DEBORAH .. Os amigos desaparecem no momento exato em que você precisa deles. de Saravejo.tudo e tivemos todos que fugir às pressas. Então os anjos com suas trombetas preparar-se-ão para tocar. Tudo grita na sua cara que você não vale absolutamente nada. far-se-á silêncio no céu. a nossa graça e o nosso charme a beira-mar. não gosto do que vejo.. Mas naquele tempo nâo havia rebeldes. Éramos visitados pelo rei de Roma. gosto muito menos. BABY — Quem é você para colocar um epitáfio sobre mim? Quem é você para dizer que não dei certo? Por acaso você deu? Olhe dentro do meu olho e me responda: você se sente feliz? Você tem esperança? Eu não. não. Eu. Quando olho para você.E pensar que eu quase me danei apostando no meu back-ground. ex-rei da Savóia. O mundo te machuca. As pessoas te empurram nas filas. pelo ex-ditador Simeon da Cituânia e pelo regente Von Koseritz.Quando olho para mim mesmo. MONGE — Ao romper do sétimo selo. E em noites de lua cheia desfilávamos todos a nossa beleza. pelo Arcebispo de Cantuária. Mas quando olho para você.E pensar que eu passei todo esse tempo investindo no meu know-how. . e que explodiu. drogas. dentro dos ônibus. não posso evitar de pensar que o homem é apenas um animal que não deu muito certo.

Quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu. e perecerá um terço das criaturas que vivem no mar. ―Morram os opressores‖. no palacete de Otto Marino. Acabou tudo. o rei do manganês. . MONGE — O primeiro anjo tocará a trombeta — e cairá uma saraivada de fogo misturada com sangue. em que a princesa do Shirar representou o nascimento de Vênus. e a terça parte do mar mudar-se-á em sangue. BABY — Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de desencanto? Quem. entre todos vocês. emergindo de uma fonte de champanha coberta apenas por um manto de asas de borboleta. desde que os rebeldes venceram. ou então transformadas em casernas ou hospitais. silenciosas. a terça parte das arvores. DEBORAH .MADAME — Lembro-me ainda de uma grande festa a que fui aos 15 anos de idade. a poetisa Florbela Ortigão. MADAME — Fiquei sabendo outro dia que minha madrinha. e um terço dos navios ira a pique. Não. Não. Nunca mais retornarei a Taormina. Queimar-se-á a terça parte da terra.Ando jururu. e toda a grama verde perecerá no fogo. estenderá a mão para passar no meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia? DEBORAH . tem agora que cozinhar a sua própria comida. eu não suportaria presenciar uma coisa dessas. nunca mais voltei a Taormina. MONGE — O segundo anjo tocará a trombeta — e como um monte de fogo lançar-se-á ao mar. fechadas. I know not what to do. Não suportaria ver aquelas casas vazias. Não quero ver as paredes brancas de suas casas cobertas de inscrições em vermelho e negro: ―Abaixo a tirania‖. que será atirada sobre a terra.

cuja mais famosa especialidade eram os docinhos conhecidos como ―ossinhos de Santa Catarina‖ — a confeitaria. Os industriais de Santa Lúcia tiveram todos os seus bens confiscados e contas bancárias bloqueadas pelo Governo rebelde. deixaram para trás uma avozinha cega.DEBORAH . Soube também que faliu a revista Gran-Monde. talvez também não acredite nos meus próprios. Eu tenho os meus. meu coração bate ainda mais forte. MONGE — O terceiro anjo tocará a trombeta — e cairá do céu um grande astro. Quando se pára de pedir. Quando não se tem mais nada a perder. acredito nas plantas. BABY — Quanto a mim. Não lhe peço que acredite em mim.E descansar os meus olhos no pasto. luminoso como um archote. especializada na crônica da vida mundana. Acredito no vento que sopra da banda do rio quando o sol acaba de se pôr. e muitos homens morrerão dessas águas. e virá tombar sobre a terça parte dos rios e das fontes d‘água. dizia. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado.Tivemos todos que fugir em debandada. teve as suas instalações transformadas num depósito de armamentos. Tivemos que vender nossos automóveis de luxo. uma tia louca. De qualquer forma. nos animais. Chamar-se-á ―absinto‖ esse astro. a gente está pronto para começar a receber. Você tem seus jeitos de tentar. Muitos. não espero nenhuma cantiga de ninar. só se tem a ganhar. e nosso porto é desconhecido. mas pouco importa onde terminará a minha queda. Converterá em absinto a terça parte das águas. nossos iates e palacetes. um irmão entrevado. Por isso estou vivo. um dia seremos poeira. porque se tornarão amargas. O futuro é um abismo escuro. na pressa. descarregar esse mundo das costas. Acredito na pedra bruta. nas águas. na areia seca. MADAME . Não acredito nos seus. . não espero nenhum gesto. Pela minha absoluta desesperança. E a famosa confeitaria Garcez & Bernard. BABY — Não espero nenhum olhar. Acredito nos astros.

MONGE — E será ferida a terça parte do sol. a terça parte da Lua e a terça parte das estrelas.disse. MADAME . outrora um dos mais luxuosos da cidade.Tomou dois cálices de vinho do Porto e encomendou o jantar: ―Yo quiero un poco de caviar.DEBORAH — Eu só quero fazer parte do backing vocal. e deixará de resplandecer a terça parte do dia e da noite. ninguém mais o viu. un bon tinto y nada más‖ . . MONGE — O quarto anjo tocará a trombeta. MADAME . hoje submetido ao regime de autogestão. Ciências e Artes foram todos mortos. ouça. MONGE . MADAME — Terminada a refeição. MADAME — Li no jornal que os imortais da Academia de Letras. MADAME .Tudo mudou. MONGE — Quem ferir pela espada. será cativo ele mesmo. MONGE — De maneira que se lhes escurecerá a terça parte. MADAME . Tudo acabou.Ainda na semana passada a única figura daqueles tempos que se mantinha em pé era o velho Cônsul de Pasca. MONGE — Quem reduzir outro ao cativeiro. MADAME — E o que foi não voltará mais a ser.Quem tiver ouvidos. shoobedoo-down-down. pela espada morrerá. un paté trufado de Estrasburgo. que foi visto sexta-feira no restaurante La Tour d‘Ivoire. Não me iludo. e cantar o tempo todo: shoobedoo-down-down.Fuzilados. Ainda hoje tive a compreensão final.

CENA Um hospital para doentes mentais. 2° QUADRO: Como Era Verde o Meu Vale Monólogo auto-explanatório. A casa era branca e fresca. DEBORAH (Para Ego. A gente sentava embaixo da figueira e ficava vendo o sol se pôr atrás dos morros. MONGE (Para Ego. A gente via mesmo só à .) — Quando será finalmente aberto o último seio? EGO — Bevete più latte.Where‘s my band? EGO — Solicite intercâmbio.) — Onde estão meus andores? Onde estão meus ouropéis? Onde estão meus cristais? EGO — Mantenha seu equilíbrio sobre o fio da navalha. A gente via o rio dum lado e os morros do outro.) .BABY (Para Ego.) — Como posso acreditar outra vez no humano? EGO — Muitas gerações passaram. E muitas passarão. Ask for interchange. Como era bonito lá. y antes fue lo que será ahora. Demandez de l‘interchange. Trás de ahora viene lo que fue antes. MADAME (Para Ego.

E o sol se pondo por trás. eu tenho cinco filhos e os cinco tavam casados e precisavam de dinheiro. na estrada. Mas a fábrica largava uma fumaça branca que caía em cima das árvores e das verduras. as árvores perdiam as folhas e a terra não dava mais nada. mesmo assim. Então as cercas das outras casas começaram a se aproximar e a gente foi ficando espremido ali. Ficou apontando e olhando. Foi numa dessas tardes que a gente viu o trem. A minha propriedade não era muito grande. resolveu vender tudo e mudar pra Canoas. era sempre bonito lá. A terra tava no nome deles. que ele não queria que eles crescessem uns ignorantes que nem eu. A terra foi ficando tão imprestável e as cercas se aproximaram tanto que o Clodomiro. . A gente pensou que ela tivesse se queimado. O povo da vila dizia que era bom. os peixes do rio foram morrendo todos. De repente ela parou e apontou pro lado do morro. E mesmo quando tinha muito trabalho — tirar leite das vacas. O Clodomiro falou que as crianças precisavam de escola. porque de dia era tanto trabalho que a gente nem tinha tempo de olhar pros lados. De longe parecia pequenininho. Depois dum tempo as plantas começavam a murchar. Aí a gente parou de conversar e ficou todo mundo olhando o trem. em cima daquela colina onde ficava a nossa casa. Fazia tempo que uns homens do governo trabalhavam na estrada de ferro. Veio também a fábrica de cimento. carregados de trilhos e umas máquinas que eu não conhecia. semear o trigo —. Lembro que a Zefa vinha descendo os degraus da casa com o mate numa das mãos e a chaleira na outra. A Zefa ficou tão nervosa que derrubou a cuja no chão e virou a água quente da chaleira. Mas ela riu e disse que não era nada. Todo dia a gente podia ver os caminhões passando lá embaixo. colher o milho. quase como uma centopéia na encosta daquele morro grande. meu filho mais velho. que era o progresso que tava chegando e agora todo mundo ia ter trabalho e ganhar bastante dinheiro. recolher os ovos no galinheiro. Um tempo depois vieram as casas. arar a terra.tardinha. que não sei ler nem escrever.

Eu não brigava. 3° QUADRO Bonecos Chineses . dizia que não era bom pras crianças. quando entesava de querer uma coisa não tinha ninguém no mundo capaz de fazer ela mudar de idéia. eu achava muito bonito lá. Então o Clodomiro vendeu a terra e a gente se mudou pra Canoas. Mas era um pátio tão cheio de pedra que nem urtiga nascia lá. A minha nora reclamava todo dia. Ele tinha dito que a gente ia morar numa casinha que nem a outra. Eu não conseguia mais dormir e de noite ficava andando pela casa. falando comigo mesmo. como era bonito lá‖. e que eu podia plantar no pátio.Eu não queria vender. Ela era uma mulher mais braba. quem sabe se a velha ainda tivesse viva o Clodomiro não tivesse vendido. como era bonito lá‖. Quando a gente fica velho os filhos não ligam mais pros palpites da gente. Eu só suspirava e repetia: ―Como era bonito lá. Eu fui ficando cada vez mais triste. Eu já não conseguia nem comer nem dormir direito. choravam e tinham medo de mim. A minha nora reclamava cada vez mais. por causa do barulho dos caminhões na feira perto de casa. e eu não podia fazer nada. da sala pro banheiro. do banheiro pro quarto. Eu fui ficando triste. não queria lavar as minhas camisas. dizia que eu parecia um bicho numa jaula. E ficava andando da cozinha pra sala. Mas ela tinha morrido já faz muito tempo. me botaram numa camisa de força e me trouxeram pro hospício. Os vizinhos cochichavam quando eu saía no portão. Eu tinha um pouco de medo de sair além do portão. As crianças acordavam com os meus passos. pensando na figueira e nas coisas que a gente conversava embaixo dela. Eu sempre repetia assim: «Como era bonito lá. Aí um dia eles disseram que eu tava louco.

se não você vai terminar chegando atrasado no seu emprego. A — Escute. A . A (Ri.O que é que você falou? B — Eu disse que os pássaros são livres. A . estou aqui. B — Sabe. A — Muito bom. B — E você? Não vai fazer o mesmo? A — Fazer o que? B — Simplesmente agradecer. A — Ah.E o que é que me importa isso? B — É preciso agradecer. hoje. E tome o seu café de uma vez. você acordou hoje com o quê. . B — Sim.Com a luz do sol. B — Os pássaros são livres. você vai se visitar. hein? B . você está aí.PERSONAGENS A (uma dona de casa) e B (seu cunhado). escute aqui. A — Eu tenho mais coisas a pensar do que na luz do sol. com a minha ajuda. eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo essas besteiras.) — Você acha que eu tenho tempo pra essas bobagens? B — Você já fez sua saudação ao dia? A — Ora. então agradeça.

É assim que eu penso. fazer comida pra vocês. B — Não se preocupe. Você acha pouco tudo isso? B — Acho que falta mais alguma coisa. eu não tenho esses problemas de tempo. Tenho que lavar a sua roupa e a de seu irmão. A — O que eu sei é que eu sou senhora do teu irmão. Você tem casa. mas senhora de si mesma. comida. B . O salário que traz pra casa não paga nem o papel higiênico que você gasta. A — É claro que você não tem esses problemas. há muito que já devia ter ido trabalhar. E você está fazendo eu perder tempo. tem aí o trouxa do teu irmão que te sustenta. meu querido cunhado. roupa lavada. . Não é você quem paga o aluguel. sabia? E você também está perdendo tempo. Vá trabalhar logo e me deixe trabalhar também. Não é assim que você pensa? A — Claro. A . E pra isso eu preciso de tempo. Eu já estou é farta de você! B .Por exemplo. Tenho que limpar a casa.Não há tempo a perder. A — Eu sei que eu tenho muitas outras coisas a fazer.E onde está o seu outro lado? A — O que é que você está dizendo? B — Aquele lado que não lhe faz escrava.Por exemplo? Eu já vou lhe dizer. o tempo não existe pra mim. arrumar as camas. E mesmo que você perca o emprego de tanto chegar atrasado e não contribua com dinheiro algum pra casa.B .

pelo menos você parece disposto a colaborar. eu não estaria aturando você todo esse tempo aqui dentro da minha casa. se você quiser. revele esse segredo logo e vá andando. Experimente parar um pouco. ouviu! Não admito essas brincadeiras de mau gosto! Seu vagabundo! parasita! explorador! B . B — Estou mais disposto a colaborar do que você pensa. A — Você está é louco. Escute. se mexe demais. e isso é tudo pra você? A — Eu não me casei com ele? Se eu fosse senhora de mim. A — Escute uma coisa. faz coisas demais. A minha paciência tem limites. Chegue um pouco mais perto. De qualquer jeito você vai morrer um dia. Se dependesse de mim. .E o que é que você está pretendendo? B — Cale-se. A . vou lhe revelar um segredo. Isto é uma falta de respeito! Onde já se viu uma coisa dessas? Debochar de mim na minha cara! Eu não admito.Sabe de uma coisa? Você fala demais. Quer? A — Bom. a situação seria bem diferente. (Cala a boca. Pare. tudo demais! A — Pare com isso! Pare com isso! B — Pare você.B — Ah. B — Depende de você. eu posso ajudá-la a mudar a situação agora. A — Muito bem.) A — O que é isso? 8 — Cale-se. Escute o silencio. B — Eu quero brincar com a sua cabeça.

o planeta.) Espera! B . Mas sendo uma poeira.Ah. o universo. vá! É melhor mesmo que você vá de uma vez.. Vamos conversar com calma. A — O que está acontecendo? O que foi que deu em você? B .Escute. Adeus. B — Você não é a única pessoa do mundo. não é? A . Você não passa de uma poeira. Esta não é a única casa. Nem o único sistema solar.Estou cansado. Cansado da sua infinita burrice. Cansado da sua mesquinharia! A . Você deve ter varizes. B — Bunda mole. da sua falta de sentido! A . (Pausa. você é tudo também. pelo menos. da sua mediocridade.Escutar? Mas eu não estou ouvindo nada.Está bem.. o país. a cama. B — Você não estava cansada de mim? A — Estou cansada.O quê? . simplesmente. não desta maneira.Eu é que estou cansada de você! B — E do seu medo. A . o sistema solar. Desculpe. Deixa eu buscar uma cadeira.O que você quer dizer com tudo isso? Eu acho melhor você ir embora da minha casa já e já! B . Eu vou.. me chamou? Você não queria que eu fosse embora? A — Não. Este não é o único país do mundo. A — Vá. uma pessoa.B .. Este não é o único planeta.

E hemorróidas. meu Deus? Pare com isso! Pare de falar difícil! Você está louco. A — A nossa.B .O que é isso? Eu não entendo essa conversa! Você está me deixando louca! B . B — Você está aqui dentro. B — E problemas digestivos! A . está fora da realidade! Desça. Você está aqui dentro comigo. Eu não. No rabo. A — Eu acho melhor você acabar com essas agressões. A — E onde é que você está? . que eu não vou agüentar. querido cunhado.Também! B — Conheço todos os seus males.Também! B — E caspa! A . A — Que conjunto de reações. B — Você não chega a ser uma individualidade.Você é mais um conjunto de reações do que propriamente um ser humano. Tudo em você é típico. coisa nenhuma! O que é isso. A — Claro! Você é um deles! B — São típicos. desça.Tenho. A . A minha é outra. Característico. A . é aqui a realidade! B — Esta é a sua realidade. E pára de andar ao meu redor que eu fico tonta.

. A — Não acredito em você.Eu? B — Sim. me torturar. no éter. Pra você se achar.. No tanque. Me ajudar! Tem graça! Em que você poderia me ajudar? B — Eu podia ajudá-la a encontrar. B — Mas eu já disse que posso ajudá-la. Eu não gosto de pensar nela. Você só sabe me explorar. isto está cheirando a bruxaria! umbanda! espiritismo! Eu sou católica praticante. no supermercado. você se perdeu a si mesma.Eu me sinto insultada.. na água.. dentro de mim.. Você não se acha nunca. A — Meu Deus.. . no fogo. A . humilhada. e dentro de você. é preciso começar pensando. A .. A — Mas concretamente. está ouvindo? Eu não admito isso na minha casa! Pare com isso imediatamente! B — Parei. me irritar.. B — Você se engana. Eu estou sempre me achando. A. A . A — Mas como me perdi? Eu me acho todos os dias.Encontrar o quê? B — Você mesma. B — Pense em você mesma.Em quê? B — Pense. na terra. me diga concretamente em quê? Na minha vida? Mas a minha vida é tão feia. na cozinha.B — Eu? Eu estou no ar.

A . O que é que eu faço com ela? B . em que? Me explique. Em você Em você. A — No meu interior? No meu interior eu tenho vísceras.Na minha cabeça? A minha cabeça dói. Penso no banho das crianças. B .A — Em que parte de mim? Eu sou composta de muitas partes: cabeça. B — No seu interior. Acho até que me esqueci de mim. Pense! A — Na pilha de roupas pra passar. Em buscar as crianças do colégio. já disse. eu tenho pulmões.Quando foi que você se esqueceu de si mesma? . B — Detalhes! A — Nas cortinas que eu tenho que mandar lavar! B — Detalhes.Há muito tempo que eu não penso em mim. A . tronco e membros.Eu já disse. B — Frescura! Pense! A — Em levar as crianças pro colégio. pelo amor de Deus! B . meu Deus. eu tenho coração! útero. B — Insignificâncias! Continue pensando! A — Mas em quê.Pense. B — Na sua cabeça. A — Mas eu penso.

Tão bonito. Você acha ridículo tudo o que eu contei? B .A — Não sei. lavar as mãos e os joelhos que estavam pretos. cheia de vergamotas. como se fosse uma máscara pintada. aproximese.Tenta. E só fica o cansaço. E tão difícil pensar. B — Existe. Eu já nem me lembro direito. isso não é coisa pra uma mulher da minha idade. Mas aí tudo desaparece. As coisas fogem da minha cabeça quando eu me esforço. vontade de me atirar na cama e chorar. ela não existe mais. o corpo doído.Não. Eu não quero pensar mais nisso. sim. E além disso. que até adormecia ao pé da árvore. e acordava com os gritos da minha mãe mandando eu tomar banho. ás vezes eu penso nisso tudo e chego a sentir um pouquinho daquela alegria. Venha. Eu gostava de brincar no jardim. eu sou a vergamoteira. Fale comigo. Acho que você pode voltar a falar com a sua vergamoteira. Faz tanto tempo isso. E digo mais. só sei que faz muito tempo. A . debaixo de uma vergamoteira. A — Você acha que vai dar certo? B .Eu tenho vergonha. Eu conversava com ela. colorida. Eu vou virar de costas. A — Ora. Era até bonito. . Eu não via nada de errado nisso. B — Tente se lembrar. Eu ficava tão calma. Eu gostava de ficar olhando para ela. Faz de conta que eu não estou aqui. não acho. As mãos ficavam coloridas e os joelhos também. frondosa. Olhe. E estou cansada. A . Diga alguma coisa. Eu acho que não consigo mais nem pensar.A última coisa que eu me lembro de mim é quando eu tinha sete anos. O vento soprava e ela abanava as folhinhas pra mim como se me respondesse. tão tranqüila.

.. B — Sete é número cabalístico.B — Vem cá. Se eu comer as sete vergamotinhas eu encontro.) — Eu não posso. B — Que pena. Mamãe não deixou eu vir ao jardim ontem. coragem. encontro. A .Não. B — Quantas vergamotas eu tenho hoje? A (Conta. Isso só você é que vai saber. o que é que eu encontro? B — Não sei. A . aproxima-se lentamente. ele representa força. . B . você tem uma chave em suas mãos. B — Já pensou no que isto significa? A. B — Eu já estava com saudades de você. Há quanto tempo você não vinha aqui. (Hesita. A (Ri envergonhada. B — Não. vem falar comigo.) Oi. Eu tinha sabatina e tive que ficar no meu quarto estudando.Oi. A . A — Acho que entendi. A — Esta vergamoteira é nova. Mas esta aqui é nova.) — Sete.Eu sei. de bruxaria.E daí..E daí? B . Eu não conhecia ela. Esta outra aqui também.Desde anteontem. E aquela ali. A — Eu também estava.. Esta eu já tinha visto.

A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO * Peça em 1 Ato * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

CONDESSA URSULA DE BELMONT. MARQUES RAFAEL D‘ALLENÇON.PERSONAGENS NARRADOR • AGHATA. irmã do conde e louca • JEZEBEL. VASSILI. muito doente • ROSALINDA. um jovem mancebo. uma velha governanta • CONDE MAURÍCIO DE BELMONT. um velho nobre. uma donzela de 19 anos . uma cigana . um cigano cego .

.. saberá por certo apiedar-se de vossa desdita.CENA 1 NARRADOR . governara seus domínios com a mão de ferro. que estou cada vez pior.Na província de Castelfranc. seis. Aqui está (serve-lhe). Senhor. último descendente da estirpe e que outrora.. que cruéis provações ainda me reservará o destino? AGATHA — Não vos preocupeis demasiado. Assim.. sete. Oh.. Vamos..... o velho conde Maurício.. ergue-se.. deveis beber a tisana toda..... cinco. três.) . Mais um gole. que há muitos anos serve a família. quatro. sinto-me dolorosamente mal. A nossa história tem início na tarde de 15 de abril do ano da graça de 1834.. imponente. . que já por toda a parte começava a ostentar os dons fecundos do seu rico e poético reino. senhor conde.. pinga lentamente algumas gotas de uma tisana escura num cálice de cristal. (pinga mais) ou três. na sua infinita bondade de misericórdia... Agatha. ao contrário.. duas. Uma chuva miúda e fria cai sobre a terra. conhecido pelo nome de Vale Negro. Numa sala do castelo. dorme um sono entrecortado de gemidos e sobressaltos. MAURÍCIO — Arre. Não vais dar-me a tisana? AGATHA — Estava justamente a prepará-la para vós.) Talvez mais uma ou duas. No topo de uma das montanhas que dominam o vale. senhor conde. que sabor repugnante! E se ao menos adiantasse de alguma cousa! Parece-me.. AGATHA — Uma. A governanta Agatha. paralisando a formosa primavera. de antiqüíssima linhagem e senhores daquela região. Agatha.. MAURÍCIO (Gemendo.. o castelo dos condes de Belmont. estende-se um vale coberto por densa floresta de pinheiros e ciprestes. Acho que é o suficiente por hoje.Aghata. (Observa Maurício. Deus..

Então.) — Quiçá eu mereça todos estes abomináveis tormentos.A chuva parou já faz mais de hora. entre as cabras.. se eu morrer. senhor. juras que.Com este tempo chuvoso? AGATHA .) — Falávamos sobre os males que afligem vosso padrinho. Deve andar pelos bosques colhendo frutos e flores silvestres. quando raiou o sol. MAURÍCIO — Aproxima-te. Rosalinda. senhor. . (Suspira. Agatha. MAURÍCIO . O senhor conde quer que eu descerre os reposteiros? MAURÍCIO — Não.) Pobre Rosalinda! Deus permita que não descubra jamais o hediondo segredo que envolve as suas origens. Que trafega estás. e pensava em vós.MAURÍCIO — Agatha. Como deveis padecer.Ainda não a vi hoje. meu primaveril crisântemo. Ela jamais saberá. andavas pelos bosques? ROSALINDA — Sim. Temos sol de novo. abandonado aqui neste leito. meu amado bem feitor! MAURÍCIO (Amargo. como é de seu feitio.. A luz me molesta. onde está Rosalinda? AGATHA . padrinho. a natureza toda parecia explodir em cores inefáveis e perfumes inebriantes. jamais revelarás a verdade a Rosalinda? AGATHA — Tranqüilizai-vos.) — Quem jamais saberá o que? AGATHA (Friamente. por favor. Caminhava pelos montes. CENA 2 ROSALINDA (Entrando com um cesto de palha carregado de flores e frutos. Oh.

AGATHA (Cortando. Deve ter chegado alguém.) Ouvis? A cascata parou.) . (Ouvem-se latidos.) AGATHA . Esta é a maldição do Vale Negro. inexplicável pela ciência dos homens. Belzebu. MAURÍCIO — (Agitado. (Agatha sai. AGATHA (Anunciando.O marques Rafael d‘Allençon. Tenho um pressentimento. E apenas um fenômeno natural. padrinho. ROSALINDA . padrinho. Lúcifer. ROSALINDA — O que dizeis. quietos! (Cessam os latidos. Ouvem-se batidas de aldrava. Asmodeu.) MAURÍCIO — Atende.AGATHA (Seca. MAURÍCIO — Cala-te..) Não! (Ouvem-se gritos ao longe.) ROSALINDA . o conde Maurício de Belmont. (Indo à janela. Agatha? Todos os camponeses e mineiros do Vale Negro sabem que não existe fidalgo mais nobre.Os gritos novamente. .) E quanto aos gritos. De que sofrida garganta brotam esses brados inumanos? E por que a cascata pára? AGATHA (Lúgubre.) — Os cães estão latindo. sinto um aperto no coração. (A Rosalinda. Agatha..) — A cascata costuma parar quando algo terrível está para acontecer.Tenho tanto medo.) Cérbero. Não atemorize nossa linda pequena. minha rósea tulipa.) — Deus sabe o que faz. AGATHA — Caluda! (Escutando.. Belfegor. Agatha. Astaroth. mais justo e magnânimo que meu amado padrinho.) Não te assustes..Quem poderá ser? Oh.

) .) Bálsamo de minh‘alma. MAURÍCIO — Agatha. pois. RAFAEL (Estremecendo.. Só são soltos ao anoitecer. durante o dia. RAFAEL — Folgo em sabê-lo. permanecem acorrentados. (A Rosalinda. caríssimo conde.Abreviamo-la.) . retira-te. Os cães.) A não ser que. A mim cabe obedecer. Mas não precisais temer. Seriam capazes de trucidar qualquer um de nós. ROSALINDA (De olhos baixos. Inclusive eu . A que devo a honra de vossa presença aqui em meu tugúrio? RAFAEL — Assunto particular.Vós ordenais.) — Seria um erro fatal. o velho feitor Bonifácio. Para não incorrer no erro de vir visitar-vos à noite.) Por que razão viveis cercado de feras? (Melífluo. meu padrinho.. senhor marques. Com vossa licença. (Olhando de soslaio a Rosalinda. AGATHA (Levemente irônica. caro marques.) — Brrrrrrr! Que conversa desagradável! MAURÍCIO (Secamente.) — Maldição! Esses cães são verdadeiros demônios! (A Maurício.CENA 3 RAFAEL (Entrando. O que dificilmente aconteceria. senhor marques. (Sai com Agatha.) . que os alimento.) Acaso tendes medo que alguém vos roube esta gentil donzela? MAURÍCIO — A maldade no coração dos homens é incalculável. que só obedecem ao seu tratador. São animais ferocíssimos. necessito estar a sós com o marques.

) .A hipoteca vence hoje.) — Tendes razão. MAURÍCIO (Agitado. Ao fim e ao cabo. Devo confessar que pareceis já um cadáver.Que dizeis? RAFAEL .CENA 4 RAFAEL — Não desejo roubar vosso precioso tempo. RAFAEL — Ora. Outrossim. biltre dos infernos. MAURÍCIO — Que quereis dizer com isso..) Que Deus o tenha! . Conheço vossas diabólicas tramas. RAFAEL (Lentamente. coincidentemente. E em adiantado estado de putrefação. sois vós o único responsável por vossas próprias desditas. senhor! Inesgotável é a taça de infortúnios que me fazeis sorver neste vale de lágrimas! RAFAEL — Sois injusto com o bom Deus.Não é possível. Não há sombra de fraude neles. Não tolero vossa presença maligna. (Entrega-os.) Parece-me que vossa senil memória anda já a pregar-vos peça.. Apenas isso. Ide logo ao cerne da questão.) . caro senhor. a virgem e o Espírito Santo são testemunhas de minha desventura. MAURÍCIO (Examinando os papéis. Por certo adulterastes os papéis. quero crer que já não vos resta muito... apesar de possuir a metade de vossa idade. estimado conde.. conheço bastante bem vosso passado. Oh.. Isso é um engodo. MAURÍCIO — Deus. o meu finado pai? (Compungido.A hipoteca vence hoje.. Podeis verificar. MAURÍCIO . senhor conde. Acaso esqueceste que vosso companheiro preferido das noitadas de esbórnia e deboche era.. RAFAEL — Os papéis cá estão em minha algibeira.

) . MAURÍCiO (Cortando.) . senhor conde. o velho marques d‘Allençon. não conseguia parar! Era mais forte do que eu! RAFAEL (Continuando.. o vinho. as mulheres.Vosso pai. MAURÍCIO — Ah. . Ou porventura olvidais que foi sobre o pano verde que empenhaste toda vossa fortuna? MAURÍCIO (Num arranque.. Vossa Senhoria ofereceu como garantia de sua derradeira aposta.já embotado pelos vapores etílicos. basta de ressuscitar esses horrendos fantasmas do passado! RAFAEL (Implacável. .. aquela noute nefasta.) — Eu não podia. RAFAEL — Ah.. como dizeis. e não vou perder a oportunidade de vos dar o merecido troco! Não. com meu pai... foi numa ―noute nefasta‖. as canções. como gosto pelos ―prazeres‖ da vida: a boa mesa. há mais de dez anos que.Não..) — Basta. implacável. herdei muitas ―virtudes‖. Sim.MAURÍCIO (Amargo. Todos os bens do ilustre clã dos Belmont hipotecados à não menos ilustre casa d‘Aliençon! . a devassidão e o vício que levaram o meu progenitor à loucura e à morte são agora a causa de vossa ruína financeira. RAFAEL — Sim. não basta! Já fui assaz insultado por vós. sentado a uma mesa de truco. no auge do desespero. aliás. não podeis negar que estais colhendo hoje o amargo fruto de vossa desenfreada paixão pelo jogo! MAURÍCIO ..) .. vejo que vossa memória começa a reavivar-se. os títulos de suas propriedades. senhor Conde Maurício de Belmont.. que acerbas recordações vindes me despertar! RAFAEL — A concupiscência. de quem. após já haver perdido vultosíssima quantia e já embotado pelos vapores etílicos..Aquela noute.

Mil vezes a mais negra miséria! RAFAEL (Sem se abalar.Senhor. poderíeis fazer bem mais do que imaginais em vosso próprio benefício.. arrogante mancebo? CENA 5 .. MAURÍCiO (Tomado de cólera. Deus de minh‘alma! O que me resta fazer agora? RAFAEL — Se vós tivésseis uma mente. que tendes? MAURÍCIO . (Agatha sai conduzindo Maurício.) O mais ignóbil dos répteis é mais nobre do que vós. mais atilada. tendes até amanhã.) — Então estais completamente arruinado.Ajuda-me.. jamais a vós. ao meio-dia.Não sou homem de meias palavras. Cederia a mão de Rosalinda ao mais imundo dos mineiros do Vale Negro.O que fizeste a meu padrinho. digamos. canalha! O que mais ainda quereis deste lamentável destroço humano? RAFAEL (Direto.) — Infâmia! Gozasse eu de alguma saúde e vos expulsaria daqui a chicotadas.) .. Quero vossa afilhada.MAURÍCIO — Ah.) — Como vos atreveis? Ficai sabendo que não sois digno de lamber o chão onde roça a fímbria da saia de Rosalinda..) .) ROSALINDA (A RafaeL) . (Tossindo violentamente. como sou um homem magnânimo. MAURÍCIO — Falai logo. vil cobarde! ROSALINDA (Entrando com Agatha. MAURÍCIO (Tossindo muito agitadamente.. A escolha é vossa. Mas. para vos retirardes do castelo. Agatha. preciso repousar.

nem vosso padrinho. que. O senhor conde está gravemente enfermo.. ROSALINDA — Crimes? De que falais? Meu padrinho nunca cometeu crime algum. A hipoteca vence justamente hoje.) . menina. .. minha pombinha. RAFAEL Como não? Então não sabeis que hipotecou todas as suas propriedades à casa d‘Aliençon? ROSALINDA . minha pequena.. senhor marquês. Mas isso não é crime...RAFAEL .A vida desregrada que levou.Tudo depende de vós. RAFAEL — Crime é deixar ao desabrigo uma donzela como vós.Que não tendes mais teto que vos abrigue. ROSALINDA — De mim? Sabei que tudo faria para amenizar as derradeiras horas de meu benfeitor. minha flor das montanhas..Sei-o. ROSALINDA — Isso quer dizer que. complacente com este vosso admirador. apiedai-vos de nossa desgraça! Que tendes vós em lugar de coração? Uma taça de veneno? RAFAEL . os ágapes desenfreados. como pudeste observar. ROSALINDA — Mas então por que está ele neste deplorável estado? RAFAEL . RAFAEL (Interrompendo. Nem vós..Vamos. ROSALINDA — Mas não podeis cometer essa vileza. Sua morte é questão de meses. os muitos crimes que cometeu o corroem por dentro. As propriedades pertencem a ele.. Nada fiz a vosso padrinho. Oh. nem aqueles cães demoníacos. RAFAEL — Basta que sejais. nem a bruxa governanta.

Rafael passou a visitar mais amiúde o castelo e.) . O marquês d‘Allençon. Se isso pode salvar meu benfeitor da ruína.) RAFAEL (Abraçando-a. inclusive. Freqüentemente. desistindo de protestar os títulos da hipoteca. petúnias. (Resoluta. para a satisfação de vossos brutais prazeres. persignando-se. Seu habitual cinismo e arrogância. hortências. . a situação modificou-se sensivelmente no castelo dos Belmont. gerânios. sim. podeis dispor de meu corpo e de minh‘alma como quiserdes.ROSALINDA — Complacente? Que insinuais? Não vos entendo. Entrementes. sofrera uma profunda transformação. crisântemos.) Não haverá lugar em vosso coração para um pouco de ternura? ROSALINDA (Percebendo). Falai claramente. cederam lugar a uma solicitude. fatos mui estranhos continuavam a ocorrer nos sombrios aposentos da mansão dos Belmont. begônias e miosótis. RAFAEL (Incisivo. Voltavam ao por-do-sol. (Insinuante. Agora compreendo o que desejais. aliás.) Está bem. participava das tertúlias e saraus familiares. pequena. ele e Rosalinda passavam as calorosas tardes estivais a percorrer os bosques e pradarias.Alguns meses depois daquele dia em que Rosalinda levou a cabo o seu gesto de desprendimento e afeto filial. Nos menores frascos repousam as mais puras essências.) — Sobre esse assunto não há necessidade de falar claramente. como num passe de mágica. (Abre os braços resolutamente. magnólias.Sois mais ladina do que aparentais. por misericórdia. CENA 6 NARRADOR . a ameaça da ruína deixara de pender sobre a família. A atitude do marques. carregando braçadas de antúrios.Oh.

Em semi-obscuridade, o Conde Maurício está dormindo, recostado no sofá quando entra Ursula. Roupas rasgadas, desgrenhada, inteiramente louca. Traz uma boneca nos braços.

ÚRSULA (Fala para as paredes, às vezes para si mesma ou para a boneca.) — Como sói ser verde o campo quando o astro-rei principia a tombar no horizonte! Por um segundo, a natureza inteira se veste de dourado... Vês, filhinha? O verde dos campos sendo mansamente invadido por todo esse esplendor dourado que brota do arrebol. Que espetáculo redentor para a torturada visão dos homens! O ouro derramando-se sobre o verde, tingindo o azul do firmamento. (Estremecendo.) Até... até que os besouros começam a cair. Lentamente, despencam dos céus feito gotas negras de chuva. Vindos do infinito, qual aranhas viscosas e peçonhentas... E quando caem de costas — ah, quando um besouro cai de costas, não se levanta nunca mais. (Quase gritando.) Nunca, nunca mais! (Com o grito, Maurício agita-se e geme dormindo. Ùrsula volta-se para ele.) Vês, filhinha? E assim que são os poderosos. confortáveis Desalmados, como se impiedosos. Dormem um profundamente, campo de ouro. repousassem sobre

Indiferentes à queda lenta dos besouros negros sobre o charco de sua alma manchada pelo sangue dos inocentes. Alheios à desventura dos oprimidos camponeses que labutam no fundo lamacento das minas para cobrir de ouro seu medonho latifúndio. (Vai-se aproximando de Maurício.) Mas se todos — ah, se todos unidos erguessem atrevidos suas sofridas cabeças para gritar não! ao opressor... Ah, filhinha: como tudo poderia ser diverso desta iniqüidade. Quão ditosa seria novamente a pobre corça dos pés quebrados! (Gritando.) Companheiros, uni-vos! Uni- vos para destroçar o maligno! (Segura Maurício e começa a sacudilo violentamente.) Este, que se traveste de benfeitor dos pobres e dos oprimidos! Uni-vos como 1ob famintos de justiça para destroçá-lo em pedaços sangrentos!

MAURÍCIO (Despertando, estonteado.) — Rosalinda, Rosalinda, que aconteceu, minha cornucópia de água-régia? ÚRSULA (Possessa, aos uivos, tentando estrangular Maurício.) — Somente a morte do maldito poderá redimir o sangue dos oprimidos! MAURÍCIO (Num espasmo.) — Úrsula, que fazes aqui? ÚRSULA — Sim, assassino! Apesar dos pés quebrados, a corça ainda pode fugir. MAURÍCIO (Tenta levantar-se, Úrsula o empurra. Ele está apavorado. Grita.) — Agatha! Agatha, tira esta louca daqui! ÚRSULA — Tarde demais, corrupto! Como a ave peregrina que mais dia, menos dia, torna ao ninho — a justiça sempre chega. AGATHA (Entrando, com um chicote.) - Para trás, animal! (Estalando o chicote.) Afasta- te, fera repelente! Ou te reduzirei a pó num estalar de dedos. ÚRSULA (Encolhe-se, a boneca cai ao chão, ela tenta inutilmente apanhar.) — Por piedade, não! Minha filhinha! Mata-me, se quiseres. Mas por tudo que há de mais sagrado, peço-te: poupa o mais puro fruto de meu ventre! AGATHA Besta imunda! (Vai chicoteando Úrsula para fora da sala.) Retira-te para teu infecto covil! Foste feita para o aconchego dos ratos, das lacraias e dos escorpiões — não para o convívio dos seres humanos. (Para Maurício, antes de sair.) Serenai-vos, senhor Conde. O velho Bonifácio saberá tratar desta lepra em forma de gente. (Vai saindo, chicoteando Ursula. Os cães latem furiosamente lá fora. Grande alarido. Depois, volta o silêncio. A boneca ficou caída ao chão, aos pés de Maurício.) MAURÍCIO (Após demorado silêncio, apanha a boneca e começa a acariciá-la dorida mente.) — Haverá de ser tão inesgotável a bondade de Deus a ponto de, um dia, ser capaz de perdoar-me? Merecerei a

graça suprema de sua doce mão pousada sobre este fervilhar de vermes no caldeirão de minha alma pútrida? (Grita, como numa tragédia grega.) Infeliz de mim! (Num frenesi, beija a boneca. Depois joga-a longe.) Agatha, Agatha! Tira este aborto daqui! Socorre-me que morro... (O Conde Maurício soluça, arquejante. Foco em Maurício e na boneca calva. A luz vai diminuindo em resistência, enquanto ele geme. Em off sobrepondo-se aos gemidos, vão crescendo a gargalhada de Agatha, os uivos de Ursula e os latidos dos cães enfurecidos.)

CENA 7

NARRADOR — Transcorridos mais alguns meses, a situação no castelo de Belmont em nada se modificara. Rafael d‘Allençon soubera perfidamente ganhar a confiança de Rosalinda com juras de eterno amor e promessas de matrimônio. Pouco a pouco, as fibras do coração da donzela, passaram a vibrar no compasso da mais pura e devotada paixão. Porém, horas mais negras estavam por vir. Um dia, Rosalinda descobriu que ia ser mãe. Sem coragem de contar a Rafael, durante vários dias, amargou sozinha seu terrível segredo. Por casualidade, iniciara-se a temporada da caça à raposa, e Rafael passara uma semana sem visitá-la. Uma manhã, munindo-se de coragem, Rosalinda tomou da pena e verteu seu coração, transbordante de receios, numa longa missiva endereçada ao marquês. Rafael aproxima-se por trás de Rosalinda, que não percebe sua presença, e atira-lhe a carta a seus pés. RAFAEL (Agressivo.) - Qual a razão disto? ROSALINDA — Ah, meu amado, és tu. Que susto me causaste! RAFAEL (Seco.) — E então?

ROSALINDA — E então o que? Não te entendo. O que se passa contigo? Por que chegas assim, tão agastado, sem uma saudação sequer... nem ao menos um ósculo... um amplexo? RAFAEL — Ora, Rosalinda, não me venhas de borzeguins ao leito! Quero saber o que significam as aleivosas insinuações contidas nessa missiva. ROSALINDA (Ressentida.) - Amor meu, que duras palavras! Tu, que sempre me demonstraste tanto carinho, tanta afeição, tanto... ardor... RAFAEL — Tratava-te assim porque eras dócil e cordata comigo. Porque te curvavas a todos os meus caprichos. Mas agora... ROSALINDA — Mas eu não mudei! Eu continuo sendo tua escrava fiel e obediente! Sabes bem que meu antigo asco por ti transmutou-se na mais excelsa paixão! RAFAEL — Chega de tergiversações! Exijo que me esclareças imediatamente o significado dessa carta! ROSALINDA - Peço-te perdão, meu querido amigo. Foi quiçá por excesso de pundonor que não fiz mais cristalinas as minhas palavras. Mas como transmitir à fria brancura impassível do papel o turbilhão que me devasta o peito, desde que fui abençoada por este milagre... este augusto milagre... RAFAEL — Que história é essa de milagre? Vamos, fala! ROSALINDA (Em êxtase.) — O milagre da maternidade! RAFAEL - O que? Um filho?! ROSALINDA — Sim, um filho! Sublime fruto a coroar o nosso amor! RAFAEL (Agarrando-a brutalmente.) — O que estás a dizer? Ficaste louca?

ROSALINDA — Rafael, Rafael, foste tu quem perdeu a razão! Não te reconheço. Julgava que rebentarias de alegria ao saber... RAFAEL (Cortando-a, possesso, e sacudindo-a pelos braços.) — Alegria? Alegria?!!! ROSALINDA — Sim, amado. Agora só nos resta finalmente desvelar aos olhos do mundo a nossa união, realizar o nosso sonho dourado... Ah, meu príncipe, toda noite, em meu leito, contemplo-me, núbil, galgando ao lado teu o mármore dos degraus do altar... RAFAEL (Empurrando-a.) - Casar contigo? Quem te pôs esta idéia ridícula na cabeça? ROSALINDA (Chocada.) - Tu mesmo, Rafael! Tu mesmo quantas vezes juraste que um dia... que só precisávamos um pouco de paciência e ocultar por algum tempo o nosso amor, até conseguires convencer tua família... RAFAEL (Cortando, irônico.) — ...que eu desposaria uma enjeitada? Uma bastarda? Uma criatura sem nome, sem posição e sem fortuna? Porventura chegaste a acreditar um segundo que eu, um nobre, um aristocrata, um d‘Allençon uniria meus destinos a uma qualquer? Alguém que não sabe sequer de onde veio nem quem são seus pais? ROSALINDA (Com dolorosa compreensão.) — Então isto significa que estiveste a mentir-me esse tempo todo... RAFAEL (Rindo a bandeiras despregadas.) — Que esperta és! Só agora percebes que eu estava tão somente... ROSALINDA (Cortando.) — . ..brincando comigo, iludindo meu pobre coração, fazendo-me crer que me querias, apenas para me

com renovada esperança.) — Rafael.. reza. não tens mais nada a esperar. menina.) .) — Dize. te-la-ias entregue ao primeiro que passasse! Pois fica tu sabendo.Marafona! (Sai a passos largos. Virgem Santíssima! Oh. me conquistar.) .seduzir. é monstruoso demais! O que será de minha honra ultrajada? RAFAEL (Irônico.me nesta sombria encruzilhada do destino! RAFAEL — Isso! Reza. Porque de mim.) — E tu caíste na esparrela. quando gemias. não pensavas em tua honra. qual uma gata no cio. minha cara. deleitada.) — Naquelas noites ardentes. Apaga meu nome de tua memória! Esquece para sempre que eu existo! Nunca mais. em meus braços..) (Às gargalhadas. meu anjo e meu algoz! Que palavra é essa? RAFAEL (Cuspindo a palavra.Basta! Só tenho uma única e derradeira palavra a dizer-te! ROSALINDA (Abrindo os braços. Rafael. Porque se não a entregasses a mim. de teus instintos libidinosos. desfrutar-me como mero objeto de tua lascívia. pois vais precisar muito da misericórdia divina. agarrandose a ele. Senhora protetora dos aflitos! Valei. franguinha! E com que facilidade! A tua estultícia.Rafael.) . insensata. que doravante não há mais nada entre nós! Nada! ROSALINDA (Numa última e desesperada tentativa. ouviste bem? Nunca mais pretendo voltar a ver-te! ROSALINDA (Reagindo como uma loba ferida. é realmente . não tens o direito de fazer isso comigo! E cruel. RAFAEL espantosa! ROSALINDA — Oh. meu dilacerado amor! RAFAEL(Desvencilhando-se.

despedaça-a com fúria e esfrega freneticamente os pedaços pelo rosto e pelo corpo..Padrinho.. Insidiosamente.. dizendo-se sua amiga e protetora..Padrinho querido. por piedade! (Rosalinda.. cabisbaixa e meditabunda? Pareces infeliz.. (Observando-a.. Rosalinda chorou. a pérfida serviçal terminou descobrindo o segredo que torturava o coração de Rosalinda. há mais um anjinho aos pés da Virgem Maria. quando Rosalinda não podia mais esconder o seu estado. Finalmente. onde sempre luziam os arrebóis da alegria. apodera-se da carta esquecida. Só deixava a solidão dos seus aposentos para ir à capela atirar-se aos pés da Virgem..) Mas por que estás assim... dize. a perversa Agatha aconselhou que revelasse toda a verdade ao conde.) CENA 8 NARRADOR — Depois desse trágico desfecho. Fundas olheiras ensombreceram seu semblante angelical.. ROSALINDA . agora está turvo de uma névoa de tristeza. dias inteiros. Não confias em teu velho amigo? ROSALINDA ..ROSALINDA — Ah. conseguiu conquistar a confiança da rapariga. em seu desespero. Teu semblante. lárimas grossas como punhos. eu. MAURÍCIO — Vamos. fala.. deixava-se adormecer sobre as frias lajes do oratório.) . até ser despertada. muitas horas depois.. Deste modo. Conta-me a razão de tuas penas. pela mão da governanta Agatha. MAURÍCIO — Bons dias. MAURÍCIO — Sim. minha querida. . soluçando.Padrinho. Com freqüência. ROSALINDA (Hesitante.

) . MAURÍCIO (Reagindo com violência. maldita! ROSALINDA (A os prantos. Podes ser mais precisa? ROSALINDA .Um rebento? Um bastardo? Mas quem te desonrou? (Esbofeteando-a..Aqui.) — Vamos... Retirate daqui.. aquele réptil nauseabundo! (Tossindo. .) Vou ter um filho. Sei que haveis de compreender e perdoar.) Desgraçada.) Agatha. padrinho. perdão! Eu juro que. MAURÍCIO — Ah. vamos! Enxovalhaste o nome do conde Maurício de Belmont! ROSALINDA . MAURÍCIO (Surpresíssimo. (Pausa.) .) — O marquês Rafael d‘Aliençon é o culpado da minha desventura.Perdão.me. surge inesperadamente a lâmina que me estraçalha o peito.. fala.Padrinho. socorre-me que morro. Pobre idiota! De onde supunha que só pudessem vir flores e sorrisos..) — Que dizes. Rosalinda. que floresce em tempo de inverno? Onde está ela? ROSALINDA (Baixando os olhos. Rosalinda? Não me atormentes com enigmas e despautérios! Recuso-me a aceitar a terrível verdade que se esconde por detrás de tuas palavras! ROSALINDA — Está bem.) — Perjura! Jamais te perdoarei! (Chamando.Que flor tão rara é essa. padrinho. padrinho.MAURÍCIO . não vês que apressas a minha morte? Atraiçoaste toda a cega confiança que durante esses 19 anos depositei em ti. MAURÍCIO (Cortando.Não entendo o sentido de tuas palavras. MAURÍCIO . todos me atraiçoaram. uma nova flor começa a desabrochar para a vida..) Todos.. agitado. (Agatha acorre e o ampara. E meu ventre.

(Detendo-se diante de um objeto.te imediatamente daqui! Não pertences mais a este lar. segurando uma capa. Aqui passei os melhores anos de minha desditosa existência. ébria e solitária...) Ah. oh! um daguerreótipo! Que belo! (Examina o medalhão enquanto fecha a tampa do cofre. Nunca me foi permitido abri-lo. criatura ingrata e sem pudor! O demônio tomou conta de tua alma.. Jamais pensei que minh‘alma pudesse abrigar tamanha dor! O fel da desilusão inunda-me o peito! (Recobrando-se. oh..) — Infeliz de mim! Deus é testemunha de que agi com a melhor das intenções... o que será desta pobre órfã com um filho a germinarlhe no seio? Abandonada por todos.. que vejo? Alguém haverá esquecido a chave na fechadura.. noite após noite. comovida. (Neste instante entra Agatha... Senhor.. Num ato reflexo.) Hás de pagar amargamente. padrinho.... (Agatha vai conduzindo-o para fora. Agora nada mais me resta a fazer aqui. como o foi tua mãe.)Tenho de ir-me. minha. Rosalinda esconde o daguerreótipo no seio.) Jamais olvidarei estes salões. MAURÍCIO — Não me chames mais de padrinho. Sei que não devo abri-lo mas a curiosidade me espicaça. não tens esse direito! E retira.. Mas. (Olhando ao redor. e. o velho cofre de charão... estes móveis.. Sinto os dedos a queimar.. Não passas de uma reles meretriz.. Senhor! Como se parece comigo! Dir-se-ia minha irmã. por todos desprezada.ROSALINDA — Foi para salvar vossos bens que cometi essa iniqüidade.) .. Deve conter antigos segredos de família. (Abre o cofre. clamando inutilmente por misericórdia! CENA 9 ROSALINDA (Sozinha. Oh. estas paredes.) Velhos papéis. ou minha. à margem de qualquer dignidade.. Hás de rolar na lama e te arrastar no vício.) Quem será esta dama de melancólico semblante? Que formosa! Mas.

(Dá-lhe o manto.. Algumas...) ROSALINDA — Como sois bondosa. Pareceis uma lebre surpreendida pelo caçador. esses cachos de Pandora. Se vosso padrinho vos surpreender.. AGATHA — Levai isto para proteger-vos da intempérie.... minha pequena? Tão assustadiça. Meu padrinho me contou que pertencera a minha mãe. Já estou a ir-me. (Voltando-se à jovem. (tocando-a) com esse porte de amazona. E não será difícil para uma rapariga encantadora como vós. Lembro-me dela. Agatha! (Vestindo a capa e acariciando-a. (Para si.) E cheio de prazeres inauditos. Enfrentarei com bravura a escuridão dos meus caminhos.. rubicunda e capitosa (largando-a) Mas entendereis com o tempo minhas palavras.Não deveis ter medo.. Opípara.) Deveis procurar um velho cavalheiro que compreenda a vossa desventura.. AGATHA .. O mundo é vasto. E por que me tocais com tal ardor? AGATHA — Porque sois tenra como um faisão natalino. pequena.Que a vida pode ser vivida de muitas maneiras.) Essa velha capa. ROSALINDA — Não vos entendo.AGATHA — Ainda estais aí? Que fazeis aí parada.) . Agatha.Tendes razão. ROSALINDA .Que dizeis? AGATHA . bem divertidas.....Estava apenas a despedir-me do cenário que emoldurou minha juventude. ROSALINDA (Sem compreender. Agora ide sem mais delongas. .. ROSALINDA . Agatha.

escutando ao longe os uivos ameaçadores dos lobos e as lúgubres vozes das aves noturnas..... a reles governanta. ROSALINDA ..Pobre genitora! Como há de ter padecido! Devo partir agora.) AGATHA . (Conta as gotas. duas. Enquanto isso.Enquanto a pérfida governanta regozijava-se com o golpe do destino que viera ajudar seus planos diabólicos. a corcunda repugnante. só parando para repousar num monte de feno quando lhe faltavam totalmente as forças. a harpia selvagem! Ah. a sua maledicência. numa . Agatha.. onde vivera os anos mais floridos da sua existência. e eu em breve estarei completamente sozinha no castelo. a desgraçada Rosalinda. Deixavase então cair ao pé de uma árvore e. outras amanhã. quatro. perto dali. embrenhou-se na floresta e caminhou durante três dias e três noites. torno-me a única herdeira do conde Maurício de Belmont. deixava o castelo de Belmont. (Abraçam-se. os camponeses pagarão caro o seu desprezo. (Apanha a tisana. com o peito dilacerado pela dor. Serei a mulher mais poderosa de todo o Vale Negro.) Uma. três. Rosalinda sai.Finalmente os fados estão a meu favor! Com o afastamento da pequena. com as roupas estraçalhadas pelas urzes e espinhos e os pés ensangüentados pelas pedras do caminho. minha boa Agatha.Vossa mãe vos trazia envolvida nela quando veio estrebuchar nas escadarias do castelo numa gélida noite de inverno há 19 anos atrás. CENA 10 NARRADOR . Resta apressar a morte do conde. a bruxa intratável. E em meio à tempestade que rugia com fúria... adormecia exausta. Adeus.) Algumas gotas a mais hoje.AGATHA .

Vamos. hay álguien entre los árboles. . VASSILI (Toca mais um pouco. (Invocando. toca. Son los Arcanos del Tarot de los Bohemios que hoy solo me dicen incongruencias.. Mira... Confio en tu oído. Jezebel põe as cartas do Tarot.) Fuerzas ocultas dei más alto Astral. que es esto? Hay 1guien aqui? VASSILI — Te lo dije. Muchos conflict. carajo! Pero toca. al final.. si.. mi audición se ha aguzado mucho.. Algun conejito perdido. toca más. (Ruido. JEZEBEL . Rosalinda entra e coloca-se atrás de uma árvore. El sonido de tu violín tiene la virtud de acalentar mi alma como el más dulce de los vinos. VASSILI — No. Cofio.. pero no confio en tus temores. JEZEBEL . depois para abruptamente. carajo! Por piedad. claro. enquanto Vassili toca seu violino. Tu sabes que desde que he perdido la visión....) Pero. carifio. Pero.clareira da floresta.Hay algo que vuelve del pasado. no consigo ver claramente! El pasado se pone otra vez como presente y también como futuro Una muchacha. Devo estar loca. por la derecha.) — Jezebel. Jezebel? JEZEBEL — Nada.. Jezebel. la Justicia vencerá VASSILI — Que cosas estás a refunfufiar. y una mujer muy mala.. dejame ver la suerte en paz. Yo conozco muy bien los sonidos de los animales y de las personas. alguna serpiente.. aqui. la Muerte.... orientad mis manos para desvendar el secreto. y que hermosa es! Un viejo senõr. Son muy distintos. JEZEBEL — No hay nadie. uma tribo de ciganos havia montado acampamento e dedicava-se a seus afazeres habituais.. Vassili..Si.. por favor. Jezebel.

Está toda mojada. es lo mismo.) Con mil demonios.) .) Tenías razón.Esta voz... por Dios. (Rosalinda aproxima-se. Como te llamas? ROSALINDA — Rosalinda. Acercate hasta el fuego. los párpados.Sou eu. no lo puedo creer.Quién está ay? (Saca do punhal. Mas por que ele está tão agitado? JEZEBEL — Es su imaginación muy exacerbada.. Estrano! Pareceme que ya he visto algo semejante. esta voz. .. que no estoy para chistes! ROSALINDA (Aparecendo. Perdi-me pela floresta e cheguei até aqui orientada pelo som mavioso de um violino. (Para Vassili. es una pobre muchacha perdida en la tempestad. la nariz. Donde encontraste este manto. Todo. exactamente lo mismo... senhora. una muchacha! Y toda mojada..) Vamos. por Diós. no es possible. La muchacha está assustada. Se cree que te pareces a alguien que conoció.) Si. nina? ROSALINDA — Não tenho para onde ir.) Que raro trabajo. no es verdad la piel. de una mujer que he conocido en tiempos más dichosos. carino? ROSALINDA (Hesitando. Que pasó. que quereis vós de mim? VASSILI . los ojos. (Examina-a. JEZEBEL — Acercate..) . hace mucho tiempo..Agatha me lo deu. JEZEBEL — Acalmate. Vamos. nina? ROSALINDA . VASSILI (Caminhando para Rosalinda.JEZEBEL (Erguendo-se.. coso. Apenas uma pobre órfâ.. senhora. toma un poco de vino.. Puedo tocar en tu rostro. JEZEBEL — Es el violín de Vassili. todo es igual.. si.Es que me acuerdo de.. Vassili... carifio.. (Passando os dedos no rosto de Rosalinda. dame tu mantilla.) .) — Não sei.. las cejas.

Gostai? Tomai..) JEZEBEL .Minha mãe...Si..) Quien es la mujer del retrato? ROSALINDA — Não sei.... hermosura. es Ursula? JEZEBEL . mira el daguerreótipo y habla toda ia verdad. es. É um velho daguerreótipo.Quien? ROSALINDA . que tortuosos caminos fue necessario cruzar hasta encontrarte. VASSILI (Abraça Rosalinda. a governanta do castelo do Vale Negro..Pero que es esto? Eres tu? ROSALINDA — Não.. (Entrega o manto a Jezebel ... miei de mi corazón.. como posso saber? Mas imagino que seja. es Úrsula.. ROSALINDA (Assustada. que eu não conheci. Encontrei-o por acaso. JEZEBEL — Pero ia semejanza es imprensionante! VASSILI — (Agitadíssimo.) — Hija mia..) .) — Tu madre? Jezebel. JEZEBEL E VASSILI .Agatha! ROSALINDA — Sim.. es. o daguerreótipo fica visível.. chorando.JEZEBEL E VASSILI (Muito espantados.) Pertenceu a minha mãe.... VASSILI (Muito emocionado. (Nova reação dos ciganos.. JEZEBEL — Maurício de Belmont! Maldición! Quieres decir que este perro todavia vive? . sou apenas uma pobre órfã recolhida pela bondade do Senhor Conde Maurício de Belmont.) — Que está acontecendo? Não sou vossa filha.

ROSALINDA . Ahora vamonos. A astuta cigana havia preparado um narcótico para os cães que guardavam os portões. Padece de grave enfermidade.) Expulsou-me do castelo.. já era noite fechada. Sem perda de tempo. A lua escondera-se atrás de plúmbeas nuvens prenunciadoras de tempestade.. porém. (Saem.). (Chorando. Sua intuição. Quando chegaram ao castelo. hace anos. Los dos se enamoraram locamente. que calava fundo em sua alma de órfâ desamparada. .) CENA 11 NARRADOR — Um turbilhão agitava a mente de Rosalinda.. diante de tão inesperadas revelações. aconselhava-a a obedecer ao espírito forte e decidido da cigana Jezebel e a confiar na doçura do rosto e da voz de Vassili. ROSALINDA — Quer dizer que meus verdadeiros pais são. Jezebel preparou uma carroça e os três puseram-se a caminho. lançando-me os mais terríveis vitupérios.. Nel camino te explicaremos todo. VASSILI — Perro de los infiernos! Voy a matarlo con mis propias manos.ROSALINDA — Sim. JEZEBEL (Entrando com Vassili e Rosalinda.Não entendo o que dizeis. e assim eles puderam penetrar na propriedade. mas por pouco tempo. la hermana del conde Maurício de Belmont.y fue eso lo que sucedió. JEZEBEL — El gitano Vassili y Úrsula. Porque quereis matar meu padrinho? JEZEBEL — No hay tiempo a perder. ainda incrédula. Tenemos que ir imediatamente al castillo.

Estava tan poseso que queria mandar matar a toda la tribu.Angel mio..Não vos entendo. la atraicionó. (Vassili e Jezebel escondem-se...El mismo comando el ataque. Que quereis dizer com isso? Não tendes direito algum. Maurício no podia admitir que una Belmont desposara un gitano.) VASSILI . que se hacia pasar por confidente de Úrsula. ROSALINDA — Pobre. ROSALINDA — Enjeitada. meu tio descobriu tudo. querido papai.) . (Toca-o com ternura. VASSILI — Agatha.Vosso pai? Porventura delirais? Vosso pai há muito não pertence ao reino dos vivos. não passais de uma pobre enjeitada. JEZEBEL . Não preciso de vossa piedade! AGATHA . Ursula entonces abondonó el castilio y ocultóse com los gitanos em la montanas. atrás deste reposteiro. (Subitamente. surpresa..por supuesto.Mas meu padrinho. contando toda la verdad a Maurício..Vós por aqui novamente? Não bastaram as maldições que vosso padrinho vos lançou? Que quereis? Uma esmola? Uma côdea de pão? ROSALINDA — Quero apenas o que me é de direito. ROSALINDA — Posso imaginar o resto... Allá se celebró el casamiento. se meu pai está aqui próximo? AGATHA .) AGATHA (Entrando..) Oigo un ruído. Meu tio mandou seus esbirros invadirem o acampamento cigano. eu? Como. ROSALINDA — Aqui. Vamos escondemos. ROSALINDA . Y con su propria mano cegó a Vassili con una chibatada. .

ROSALINDA (Puxando o reposteiro.) — Como não? AGATHA (Recuando.) — O cigano Vassili! Jezebel! Que desejais? VASSILI — Solo la verdad, Agatha. Nada más que la verdad. JEZEBEL (Ameaçando-a com o punhal.) — Vamos, mujer. Donde está Úrsula? AGATHA - Não sei, não sei... VASSILI (Torcendo-lhe o braço.) — Vamos, confiesa antes que te mate como a un perro. AGATHA — Por piedade, eu conto. (Recompõe-se.) Úrsula foi encarcerada na cripta subterrânea embaixo da cascata. ROSALINDA — A cascata... Quer dizer que aqueles uivos dilacerados que se ouvem quando cascata para pertencem à... à minha mãe? AGATHA —, Sim. Ela perdeu a razão quando vós nascestes. Vosso tio então encerrou-a lá. VASSILI — Mi pobre Úrsula. JEZEBEL — Y donde están las llaves de la cripta? AGATHA — Aqui. (Estendendo-lhe um molho de chaves.) VASSILI — Precisamos libertar mi amada Úrsula. Vamonos todos a la cripta. Y tu, Agatha, vienes con nosotros para mostramos el camino. JEZEBEL - Vamos. AGATHA — A cascata parou novamente. (Ouvem-se gritos ao longe.)

CENA 12

NARRADOR — Desse modo, através de uma passagem secreta, conhecida somente por Agatha, os quatro penetraram nos subterrâneos do castelo de Belmont. Desceram por uma íngreme escada em caracol e embrenharam-se num labirinto de lúgubres corredores e estreitas galerias escavadas na rocha. Os gritos misteriosos haviam cessado, e o sepulcral silêncio era apenas perturbado pelo eco surdo dos seus passos e peio ocasional bater de asas de um morcego. Finalmente, desembocaram numa cripta úmida e infecta, que dir-se-ia habitada apenas por ratazanas e aranhas, não fosse aquela estranha voz entoando uma canção que parecia vir de além-túmulo. ROSALINDA — Por Deus! Está tão escuro aqui. Não consigo ver nada. JEZEBEL (Tomando a vela das mãos de Agatha.) - Pronto. Asi es mejor. (Olhando em volta.) Pero que sitio sucio... Es una pocilga, carajo. (Para Agatha.) Vamos, desalmada. Donde está Ursula? AGATHA (Apontando para um ponto, que Jezebel ilumina.) — Ali. (Aparece Úrsula, completamente louca, suja e desgrenhada. Canta, enquanto embala uma boneca nos braços.) VASSILI — Mi querida, luz de mis ojos... Úrsula, bien amada! ROSALINDA(Avançando para Úrsula.)- Mamãe! Oh, mamãe, julgava que estáveis morta! ÚRSULA (Para a boneca.) - Filha, filhinha querida Não deves ter medo, não deixarei que te façam mal. (Para Vassili.) Afasta-te, Maurício! Não permitirei que destruas o fruto do meu amor! (Mudando o tom.) Besouro que cai de cosas não levanta nunca mais. JEZEBEL - Está completamente loca! Maurício de Belmont ha de

Pagar muy caro todas las atrocidades que ha cometido! URSULA (Chorando.) — A corça corria celeremente sobre o ouro dos campos. Como se fora uma seta voando sobre o verde. Até... até que numa curva mais abrupta do escarpado caminho, numa curva ignominiosa seus pés quebraram. ROSALINDA (Num gemido.) - Desditosa genitora! ÚRSULA (Em pleno delírio.) — E ela não pode correr mais. As corças de pés quebrados não podem correr. Apenas rastejam. Como os besouros caídos de costas... que não se levantam nunca mais. VASSILI (Para Ursula.) — Carinio, no me reconoces? Soy yo, tu Vassili. Tu amor, el gitano... ÚRSULA — Vassili? Não, não: Vassili foi assassinado por Maurício. Seu sangue cigano cobriu o verde dos campos como o sangue inocente dos pés quebrados da corça... O vermelho da violência derramado impunemente sobre o verde da humildade... VASSILI (Insistindo.) — Y esta chica, ves? Esta chica es Rosalinda, nuestra hija querida. Mira que hermosa es! ÚRSULA (Para a boneca.) — Tanto tempo. Tudo faz tanto, tanto tempo. Hoje é como se fora outrora. E nunca mais outra vez. ROSALINDA — Mamãe, mamãe, sou eu, Rosalinda, tua filha, a flor de teu ventre puro. ÚRSULA (Para a boneca.) — Minha filha? Minha filha é esta aqui. Filhinha, filhinha... (Para a boneca.) — Sossega, ninguém te fará mal. AGATHA (Mordaz.) - E definitivamente inútil. Esta parva jamais recuperará a razão.

JEZEBEL (Torcendo-lhe o braço.) - Callate, conchuda! Tus palabras son mas monstruosas que tu joroba! (Como se orasse.) Nel amor, hay fuerzas increíbles... capazes de cambiar el universo... VASSILI (Pegando Úrsula pelos ombros e sacudindo-a.) — Úrsula. Te digo que soy Vassili! Muchos anios se han pasado. Pero estoy vivo. Y estoy acá para vingar nuestro amor. Soy Vassili! Vassili! ÚRSULA (Com um lampejo de lucidez.) — Vassili? VASSILI Si, mi amada, no reconoces mi rosto? ÚRSULA — Esse rosto... essa pele morena... esse corpo delgado... (Detem-se.)Não, não! Não acredito! Vai-te daqui! Es um impostor! Um sicário a mando de Maurício para me torturar ainda mais! (Em delírio.) Bezouro que cai de costas... JEZEBEL (Um tanto irritada.) — Ay, cono! Va a empezar de nuevo! VASSILI (Transtornado, agarrando-a com mais força.) — Úrsula, mirame bien en la cara, en los ojos, en estes ojos ciegos... ÚRSULA (Tocando-o.) — Meu Deus, o manso veludo dessa tez... a suavidade desses lábios carmesim... Vassili, serás mesmo tu? O brinco em tua orelha esquerda... VASSILI — Úrsula, vida mia... ÚRSULA — O frescor de hortelã de teu hálito cálido, tuas mãos nodosas e fortes. A carícia áspera de tua barba dura que me lanhava o colo nas noites de indizível prazer. Não, não pode ser verdade, seria bom demais. Será que estou ficando louca, Virgem Santíssima? VASSILI — Es verdad, carinio, soy yo! Y acá está también Jezebel, nuestra querida amiga y protectora.

ÚRSULA — Vassili, meu Vassili... Ai, Jesus, parece um sonho... (Delírio.) Ou quem sabe Deus teve pena de mim e me chamou para sentar ao lado seu no empíreo celestial? JEZEBEL (Disfarçando.) - Ay, carajo! VASSILI — No, no, estás viva! Acabaranse tus penas! ÚRSULA (Reconhecendo-o finalmente.) - Sim, agora eu tenho certeza! És tu, Vassili! Meu adorado! Mas de que desvão esquecido da memória me surgiste? VASSILI — Úrsula! (Abraçam-se e beijam-se ardentemente.) Vamos ahora empezar vida nueva, tu, yo y Rosalinda... ÚRSULA — Rosalinda?... (Olha para a boneca. Olha para Rosalinda. Deixa cair a boneca.) Meu Deus... não pode ser... seria demasiada ventura para meu coração se essa donzela fosse... fosse... ROSALINDA (Abrindo os braços.) — Vossa filha! ÚRSULA (Abraçando-a.) - Filha querida! Oh, fruto mais puro que o meu ventre jamais gerou! Enfim posso abraçar-te! ROSALINDA - Mamãe, querida! Que felicidade encontrar-vos! ÚRSULA — Minha boa Jezebel... Mas... que aconteceu? Por que estão todos aqui? Por que estou vestida assim? Que tenebrosa masmorra é essa? (Começando a delirar de novo.) Há como um poço escuro em minha memória... Um poço escuro onde flutuam corças de pés quebrados... negros besouros caídos de costas... (Vê Agatha e recua espavorida.) O que ela está fazendo aqui? JEZEBEL (Agarrando-a por um braço, impaciente.) - No hay tiempo para explicar, Ursula. Ni para locuras otra vez. Más tarde te esclareceremos todo. Tememos ahora que desmascarar Maurício.

Deve andar esmolando pelas sarjetas. do malgrado a alegria do seu reencontro com os pais. (Saem todos) CENA 13 NARRADOR — Celeremente voltaram todos ao castelo. Maurício. Não há lugar para meretrizes no castelo do Conde Maurício de Belmont. E tu. certamente fariam petrificar a própria Górgona.) — Já não estou louca. eu a expulsei de meus domínios. O coração de Rosalinda. Solamente un monstruo sin entranas podria encarcelar su propia hermana. MAURÍCIO — Teu bem-amado? Tua querida filha? Se te referes àquele cigano imundo. ÚRSULA (Muito segura. a felicidade parecia prestes a sorrir aos nossos heróis.) — Tua maldade não tem limites. Depois de tão cruéis sofrimentos.) — Quem me tocou? Úrsula? Fugiste novamente? Agatha. Meu bem-amado e minha querida filha me devolveram a razão. meu caro irmão. E quanto a tua ingrata filha. Os sofrimentos que já causaste. sabes muito bem disso.Vamonos deste infecto covil. Quando chegaram ao castelo. MAURÍCIO (Está adormecido.. . o relógio soava as doze badaladas. A pobre rapariga pensava no fruto de seu desgraçado amor. fica tu sabendo que há muitos anos eu mesmo o ceguei com uma chicotada. que crescia em seu seio como uma erva daninha e em breve viria ao mundo sem a proteção de um pai. ainda estava velado por uma nuvem de inquietação. as vidas que destruíste.. tira esta louca daqui! ÚRSULA (Perfeitamente lúcida. mais do que ninguém. quando Úrsula entra lentamente e toca em seus cabelos.

quem iniciou este rosário de desgraças.. Em nobres.. e em mineiros. insensata! Vejo que estás mais demente do que nunca. uma condessa do clã dos Belmont! ÚRSULA . És tu. uma aristocrata. Mas o verdadeiro espírito de solidariedade humana. MAURÍCIO (Interrompendo-a. de um lado. uma mulher.e apenas tu. Explorados. E uma mulher com coração! Não podia assistir indiferente aos tormentos dos desventurados mineiros e de suas miseráveis famílias. Queria levar-lhes comida e agasalho. MAURÍCIO — Basta! Já foste longe demais.a cu1pada de tudo.tu. Contra mim. em miseráveis e poderosos. uma condessa de Belmont. minha cara irmã. meu irmão! Os camponeses entregando suas lamentáveis vidas às profundezas da terra de teu porco latifúndio. Foi Vassili quem me ensinou que o mundo não precisa necessariamente ser dividido entre pobres e ricos. insuflando os mineiros do Vale Negro contra mim. inicialmente. movida por um sentimento cristão de amor ao próximo.MAURÍCIO (Interrompendo-a. teu próprio irmão! Tu.Ou não te recordas? Queres que te refresque a memória? Mesmo antes de te amancebares com aquele cigano asqueroso.Sim. Queria somente mitigar as duras penas impostas por ti àqueles infelizes. em senhores e escravos. ciganos e negros do outro. Foi a caridade que me levou. Mas antes de tudo. eu o aprendi com aquele que consideras um pária: Vassili! MAURÍCiO — Maldito seja! ÚRSULA .Ousas acusar-me? Foste tu .) .) — Caridade? Chamas de caridade a teu gesto de incitamento à rebelião contra a autoridade? ÚRSULA — Aproximei-me dos mineiros. escravizados por ti. Retorna a teu repulsivo subterrâneo. ensinar àquelas pobres criancinhas a cartilha e o catecismo.Sim. . já me desafiavas. as criancinhas e os anciãos inocentes morriam à míngua em suas fétidas choupanas. uma aristocrata. enquanto as mulheres. ele mesmo. inermes.

a própria vida acabou para ti.Não! JEZEBEL (Matreira. quando acabo de reencontrar meu marido e minha filha. espectro de gente! ÚRSULA (Muito calma.) — No se escapará. senhor conde. (Arranca-o das mãos de Agatha.) . Aqui está. JEZEBEL — Dejame ver este frasco.) Tisana medicinal! Esto es un fuerte veneno: arsénico! La joroba está asesinando lentamente el Conde! MAURÍCIO . minha tisana! AGATHA (Libertando-se de Jezebel.Nada tens a fazer aqui. a vida recomeça para mim. (Afasta o reposteiro e aparecem Vassili. muito sôfrega. velhaco! Eu sempre quis apenas tua fortuna! ÚRSULA .Y por que no? Por lo que dicen.Veneno! Oh.) Pronto. AGATHA (Tentando escondê-lo.) AGATHA . Teu sonho libertário acabou! (Irônico.) — Enganas-te. Jezebel e Agatha. Agatha.Não a deixem fugir! VASSILI (Segurando Agatha. Rosalinda. mui prezado irmão. apanha o vidro.) Agatha. Após tantos anos obnubilada. maldita! .Pois te enganaste. Neste exato momento.) .) CENA 14 MAURÍCIO — Jezebel! Vassili! Rosalinda! Não é possível! (Tosse. ingrata Agatha! E eu que te supunha a única criatura no mundo a manter-me alguma fidelidade! (Tosse e entra em violenta crise. tratase apenas de una tisana medicinal. na casa que desonraste.) E contudo teu coração ainda pulse.

não negueis o derradeiro pedido de um moribundo. MAURÍCIO — Jezebel. JEZEBEL (Hesita. Que trevosa sina a minha! Ajudem-me que morro! (Para Jezebel. Desventurado cigano Vassili. Tivesse tido eu tal privilégio. Jezebel. MAURÍCIO . Leva uma pancada na cabeça e cai desfalecido. (Rosalinda e Ursula choram) AGATHA (Aproveitando-se da emoção de Vassili. minha devotada irmã. Um único beijo. Ursula. Dai-me um beijo. Todos olham.... JEZEBEL — Se finó..) Cigana Jezebel. eternamente a vagar pelas sombras. sobrinha querida. antes de morrer quero revelar-vos um segredo.Rosalinda.. perdoai-me! Deixo para vós toda a minha fortuna (morre). Jezebel. Mas sempre me desprezaste. Sinto que morro. (Tosse) Jezebel. Acaba curvando-se e beijando-o) .Mi corazón siempre pertenecerá a Vassili. deixai-me repetir vosso nome como se música fora para meus fatigados ouvidos. Agatha foge rindo às gargalhadas) . um derradeiro beijo e morrerei feliz. aunque el no me quiera. ah Jezebel.. apanha a bengala que Maurício deixou cair) — Adeus. idiotas! Não me pegarão com vida. meu sonho mais acalentado sempre foi beijar vossos lábios de carmim. (Fecha os olhos dele com delicadeza e melancolia) Acabó. Pero la muerte es poderosa. Que los dioses se apiaden de tu espíritu. JEZEBEL — Un secreto? Por mi no escucharia tus sucias palabras. (Vassili tenta apanhá-la.. Todos vítimas de minha cega cupidez! Por tudo que há de mais sagrado. Está muerto.MAURÍCIO (Tossindo muito) — Ledo engano! Meu esfalfado coração já não resiste a esses golpes cruéis. quiçá o destino não me houvera transformado neste sórdido algoz que ora agoniza.. Habla... Está bien.. sempre vos amei. Jezebel..

. TODOS — Vassili! Papai! Ele está vivo! VASSILI (Ainda tonto.) Los perros se despertaron y van a atacarla! Que escena horrible! Diós mio.) ROSALINDA (Correndo à janela. . (Ouvem-se vários estampidos..) — Rafael. tola donzela.) ..) — Os cães a destroçaram.) — Que oigo? Mi hija. só pode ser ele! JEZEBEL .. VASSILI (Despertando.Quien es esse hombre? ROSALINDA (Baixando os olhos. ahora? Hay un caballero que llega. Y quiero saber. la estan destrozando! Tanta sangre! (Pausa) Que es esto. ÚRSULA — Teve o fim que merecia.. de que hombre estás hablando.) — Si. eu. Estoy más vivo do que nunca. meu Deus..ÚRSULA — Vassili! Oh.Rosalinda. Y saca de una escopeta apunta a los perros. iludida por perfídias! — entreguei minha pureza e que me desgraçou. JEZEBEL . Pero demasiado tarde. Jezebel corre à janela.Do homem por quem me apaixonei. CENA 15 RAFAEL (Entrando com o corpo de Agatha.Papai. ROSALINDA (Dolorosa.Pobre joroba! RAFAEL . papai! Fale comigo! JEZEBEL — Maldición! (Ouvem-se os cães latindo. ela o matou! ROSALINDA . Rosalinda. Do biltre infame a quem — ah..) — O pai de meu filho.

ROSALINDA (Cortando.. Hace quanto tiempo no la veía.. por piedade.. la escarlata! JEZEBEL — Es una alucinación. olhando em volta. (Interrompendo-se. Estou amargamente arrependido. sientate un poco... Solo una luminosidad.Venha. Desde que vos desonrei. Perdoai-me.. Quero reparar meu erro...) Pero. Ele está morto. que pasa? Siento como un vértigo. Doce Rosalinda. el azul. ÚRSULA .. no compreendo. Por Dios. una luminosidad en las solombras.) pero la escarlata. Atraiçoaste-me com vossas juras inconseqüentes.) — Que mais ainda quereis de mim....... Si.) — Pero yo la concedo...) — Vim justamente pedir-vos perdão por todo o mal que involuntariamente vos causei. Yo soy su verdadero padre. Vim pedir vossa mão ao Conde Maurício. el verde. Que luz cegante es esa? Que claridad espantosa hay en el mundo! ROSALINDA — Papai.. RAFAEL (Contrito. VASSILI (Levantando-se. Vassili. ÚRSULA — Vassili. (olhando olhando para qualquer coisa vermelha que há em cena.Tarde demais.No. Yo podia anteriormente decifrar algunos cobres. no! Quiero quedarme en pie. o que tens? O sangue fugiu de tuas faces. ROSALINDA . Estás fatigado de tantas emociones. VASSILI — No compreendo. julgo enlouquecer sem vosso amor. Mis ojos... cruel mancebo? Ide-vos daqui... Mis ojos. papai! .. porque no hay negror en la ceguera. com vosso falso amor. VASSILI . querido. Si es seguro que usted quiere a mi hija de verdad.. vossa imagem não me sai do pensamento.

.E assim. si! Jesú.. como agradecer-vos tanta felicidade? JEZEBEL — Las cartas no mienten jamás. os sofrimentos tiveram seu fim. no es verdad! Es un milagro. un verdadero milagro. Nos es posibie. VASSILI — Si.A pancada que Agatha te deu.. Ursula. incrédulo. Rosalinda: impiezo a ver claramente vuestros rostros queridos! ÚRSULA ..) — Então... ROSALINDA . ÚRSULA — Amanhã mesmo triplicarei o salário dos mineiros. RAFAEL — Agora.. ROSALINDA — Sim..) VASSILI — Ahora seremos todos felizes. e terminados os infortúnios daquelas almas abnegadas. ver. si.Alabado sea! RAFAEL (Para Rosalinda.. NARRADOR . meu Deus..... ROSALINDA — Oh. cerremos docemente as cortinas . Não conseguiria ocultar por mais tempo que meu coração vos pertence desde o primeiro momento que vos vi! (Beijam-se apaixonadamente. quereis contrair matrimonio comigo? ROSALINDA — Minha resposta só poderia ser afirmativa. un milagro divino! (Olhando uma a uma.... yo he recuperado la visión! JEZEBEL — Alabado sea Dios! TODOS . Jesú. a paz e a justiça reinarão para sempre no castelo de Belmont.fez com que vossa visão voltasse!.) Jezebel. por los dioses.. no lo puedo crer.VASSILI — Quiero ver. meu amado. punidos os culpados.

acariciando o seio das flores. enquanto as auras da noite. da ventura e da paz. cantam o hino misterioso do amor. .sobre este quadro familiar.

REUNIÃO DE FAMÍLIA* Peça em 2 Atos *Adaptação do romance de Lya Luft .

sem pausa. Na casa da família. O resto se passa em vários planos. mais jovens. outras atrizes.) CENÁRIO (Tudo se passa durante um fim de semana — tarde e noite de sábado. o Professor e Berta serão sempre representados pelos mesmos atores — eles sempre foram velhos —. e assim por diante. PROFESSOR • BERTA • ALICE MENINA • ARETUSA MENINA • EVELYN MENINA • RENATO MENINO• MARIDO DE ALICE • FILHO DE ALICE • PADRE • ENFERMEIRO DE CORÁLIA • MÃE DE ALICE • CORÁLIA (Nos flash-backs. podem ser usados bonecos ou. A idéia é de que uma cena interpenetre a outra — isto é. quando uma termina. uma penteadeira (no quarto de Evelyn. podem ou não ser usados atores. Deve haver também um outro Plano — que chamaremos de Inconsciente/Memória —. As figuras do Padre e do Enfermeiro podem ser vividas pelos mesmos atores que fazem o Marido e o Filho de Alice.PERSONAGENS ALICE • ARETUSA • EVELYN • RENATO • BRUNO.) . é indispensável uma grande mesa onde são feitas as refeições. no presente ou no passado.). quando Alice vai visitar a família. De qualquer maneira. o dia todo de domingo e a manhã de segunda-feira —. Para as rápidas aparições de Corália e da Mãe de Alice. onde acontecem certas alucinações ou lembranças do passado. caracterizados por um ou outro elemento — como uma poltrona antiga (no quarto do Professor). talvez com pequenas mudanças de postura. para as mesmas personagens. a próxima já começou —. sendo a mudança indicada pela luz e a troca de planos. bem caracterizadas.

(Dá de ombros. (Para o filho. O almoço. ALICE (Ignorando... Para o marido. onde anda? FILHO — Está no clube. Muito doente.E claro que só vai comer um sanduíche.Você tem mesmo que ir? ALICE (Um pouco brusca. com certo carinho coquete.) . MARIDO . refrigerante. qualquer coisa mental. É sábado. é só esquentar.. Acho que daria menos trabalho se vocês comessem num restaurante. FILHO .) — Ela está doente. Só vem de tardezinha.. E agora apareceu esse problema com Evelyn. Parece que é..I ATO CENA 1 ALICE. Aretusa insistiu tanto. MARIDO (Com ironia.) Mas você só gosta da comida que eu faço. Essa sua cunhada.) — Faz tantos meses que não vejo meu pai.) . sacudindo a cabeça..Evelyn com um problema mental? Sua irmã é a mulher mais sensata que conheço. ALICE (Reprovadora e maternal. . essas porcarias que vocês comem por aí.) E o seu irmão. É sábado. não é? Sanduíche não alimenta. por volta do meio-dia.) — Aretusa. MARIDO e FILHO Na casa de Alice.. Tudo é muito arrumado e limpo. A mesa está posta. ALICE— Deixei pronto o almoço de amanhã.. terminando. Está na geladeira..) — Tenho.O que é que há com tia Evelyn? ALICE (Preocupada. não sei bem. MARIDO (Interrompendo. Sanduíche.

eu já vou indo. conferindo o dinheiro e a passagem de ônibus. Será que não seria pior para ela enfrentar a realidade de Cristiano ter morrido? MARIDO (Ignorando o espanto de Alice. como se refletisse. E melhor eu ir indo também. Remexe na bolsa. mãe.) — Será que não esqueci nada? (Olha em volta devagar. sem afeto.) .Eu sei.) . (Sai. velha.) Boa viagem. (Olha o relógio..) — Passa a água? FILHO (Levantando-se. sem sair da mesa.) ALICE (Pensativa.ALICE .O que? ALICE — Que. Eu dou um jeito. meio confusa.. (beija Alice distraidamente.. Ela não se conforma.) Você não acha que um dia a gente podia mandar colocar um espelho grande aqui na sala? MARIDO (Baixa o jornal e olha-a por cima dos óculos admirado.É. ALICE (Apanha a bolsa e uma sacola de viagem a um canto.) Não vai dar nem tempo de lavar os pratos. Mas depois que Cristiano morreu. Dá um beijo em todos lá.. começa a ler o jornal.) — O que será que ele quis dizer com isso? MARIDO (Distraído. FILHO — Mas será que nós temos o direito de querer que ela se cure? ALICE (Sem compreender.O que? FILHO — Isso mesmo.Não está na hora do seu ônibus? ALICE (Levantando-se.) . que a realidade pode não ser o melhor? Pode não ser preferível à normalidade? MARIDO . MARIDO — Pode deixar. eu sei.) .Espelho grande? Para que? . Alice fica em silêncio por um momento.Bom. O Marido apanha os óculos e.) .

A sala é ótima..) . Berta e. então.Nada. dentro de um caixão de defunto uma figura de rosto disforme e barriga enorme. dizendo e fazendo coisas desajeitadas e brutais.. Começa a examinar o rosto com ar crítico. eu preferia assim.) — Claro. depois dá de ombros e tira da bolsa um pequeno espelho. A MÃE e ALICE MENINA Alice está parada num ponto que deve ser a parada de ônibus. Enquanto isso. . Desde o começo a gente se acostumou a não ter grandes ardores. lendo jornal. Achava meio esquisito aquele homem um pouco gordo. Agora me procura raramente e sem emoção. enquanto acende um foco no marido que lê o jornal. acende-se a luz no plano do Inconsciente/Memória.) — Boa viagem. É bobagem minha. Você tem razão. Cuide-se direito. BERTA. Você não está acostumada a viajar sozinha. que pode ser uma atriz ou uma boneca). (Olha o relógio. A sala é pequena. de chinelo. calvo.) Segunda. estou de volta. onde estão Alice Menina. E eu prefiro vê-lo ao meu lado. Eu li numa revista que dá a impressão de mais espaço. MARIDO (Voltando a ler. ALICE (Curvando-separa beijar o marido. claro. sem imaginar sequer quem é a sua verdadeira mulher.) Meu marido. ALICE (Dirige-se ao público. CENA 2 ALICE.ALICE (Arrependida de ter falado. (Encaminhando-se para aporta. MARIDO (Sem levantar os olhos do jornal.) Esqueci de colocar o meu perfume.) — A sala é ótima assim. (Levando a mão aos cabelos.

Por isso está sempre de castigo.Ela não vai responder. CENA 3 ALICE. Alice você é má. cantarolando. mãezinha! BERTA (imóvel. Alice. Ela não pode falar.) Ninguém gosta de você. (Acende-se a luz sobre o caixão. Apanha um espelho pequeno. Você mente. Por isso leva esses tapas.) Mamãe. Fala para si mesma. ALICE MENINA e RENATO MENINO . é suja. ALICE MENINA ( Vai-se afastando enquanto Berta repete as mesmas coisas.) . Sou eu. Depois torna a se aproximar e tenta colocar a figura no colo.) . como se estivesse hipnotizada. ALICE MENINA — Eu não quero olhar. Ela recua. Fala comigo. onde é que você está? Mamãe.) Mãezinha. ALICE MENINA (Gritando.) — Mamãe? Mamãe. (Para o caixão. Alice.ALICE MENINA (Aproxima-se do caixão. Uma agulha deste tamanho.) — Alice. o que é que você tem? Você está doente? Pode deixar que eu cuido de você. Por isso ninguém gosta de você. Alice. fala comigo. Alice. Você é louca. distraída. BERTA — Todos os dias vem um médico e tira água da barriga dela com uma agulha enorme. De repente para e chama. assustada. talvez pulando corda. (Começa a sorrir como uma mulher adulta e repete. não se esconda de mim. Você é muito má.Não é verdade. Você não vê como ela está inchada? Olha só a barriga dela. igual ao de Alice adulta e olha-se. Ela só pode chorar. Berta! Você está mentindo! BERTA — Não estou mentindo.

A luz apaga sobre Alice Menina e Renato Menino para acender-se novamente sobre Alice Adulta. corta a cena.Renato. estridente. a bolsa nas mãos.) . ALICE MENINA .É uma arma secreta.Agora não posso.No jardim de entrada da casa da família.Uma arma? Pra que? RENATO MENINO (Hesitando.Não chama ele assim.Para matar ele. Ele é o Professor. facas. perto do qual brincam Alice Menina e Renato Menino.) . Mas ele não é meu pai. ALICE MENINA . olhando para cima. ALICE MENINA .) Eu vou matar o Professor com minha arma secreta. (Decidido. ALICE MENINA .O que é que você está fazendo? RENATO MENINO (Com ódio.) . Renato mexe com pedaços de madeira.Ele é seu pai também.Que me importa. vem brincar comigo. Ela está parada. (A gravação de uma gargalhada infantil.Ele quem? RENATO MENINO . RENATO MENINO (Obstinado. A luz acende-se sobre o tronco. Renato! RENATO MENINO . Estou ocupado. latas velhas.) . ALICE MENINA . Alice Adulta aproximase do lugar onde resta o tronco de uma grande árvore cortada. barbantes. Você não pode matar seu pai.) — Você vai preso. ALICE MENINA (Assustada. RENATO MENINO . Alice Adulta mergulha nas sombras.O Professor. Ele é seu pai.

tão trabalhadeira.) E você continua com cheiro de cigarro. como se estivesse se justificando..CENA 4 ALICE e ARETUSA (Na entrada da casa da família. do menino? . Mas não é por trabalhar demais. com certo carinho.) — Renato também não vem. não? (Afasta-se para vê-la melhor. hein? ALICE — (Sem se ofender. saí tão apressada que esqueci meu perfume.Aretusa.) Ah. (Rindo. ninguém aqui tem cabeça para pensar nesse problema. abraça Alice. você é tão eficiente. Chega a trazer serviço para casa no fim de semana.) — Ele está cheio de brotos. com um cigarro aceso. Com uma ponta de ironia. Mas por enquanto. junto ao tronco cortado da árvore. De cigarro e de jasmim.) .) — Acho uma pena Bruno ter mandado cortar esta árvore.) — Alice. Alice. ALICE (Triste.. que bom que você veio! Há quanto tempo. ele trabalha demais. tentando ser natural. E o seu irmão me saiu um grande folgado! ALICE (Olhando com tristeza o tronco da árvore. ARETUSA — Qualquer dia acaba rachando as paredes da casa. você sabe. você sabe. E eu. (Muda de tom. ARETUSA (Displicente.. Berta é passa o dia todo arrancando os brotinhos. ALICE (Preocupada. Era um álamo tão bonito..) ARETUSA (Entrando. ARETUSA (Sem dar importância. Coitado.) Mas você engordou.) Meu marido não pode vir. tem alguém dormindo no quarto do.) — Ele estava cheio de raízes. Imagine que para arrancar o tronco teriam que tirar todas as lajes e abrir um buraco enorme.

talvez tenham derrapado o carro bateu num poste e ficou destruído. Depois de alguns dias precisaram amputá-las. Ainda bem que na hora de encomendar o caixão calcularam o tamanho dele como se as pernas ainda existissem. Chovia muito. uma depois da outra. uma criança. logo abaixo do quadril. sozinha. enquanto Aretusa ainda fala. Não sei. ALICE (Intrigada. mas Cristiano teve as duas pernas esmagadas.) . Restou apenas um pedaço de menino. Todo dia arruma as roupinhas dele sobre a cama. Aonde vai.) . (Preocupada. E me CENA 5 No quarto de Evelyn. Não tem ninguém. EVELYN (Dirigindo-se para o público.ARETUSA . diz que ele fica espiando a rua e conta tudo o que acontece por lá. como se fosse Cristiano.Não. Evelyn conserva tudo como quando ele estava vivo. corta temos que conseguir que ela ponha essa coisa no lixo. As vezes senta o palhaço na janela. apanha o Palhaço e começa a niná-lo. com o boneco nos braços. leva o boneco. Evelyn não se machucou muito. Parecia examinava.) — Mas tinha uma pessoa lá quando eu cheguei. lembra? Aquele palhaço que o Cristiano não largava nunca. mas não resistiu.) — Evelyn levava Cristiano de carro para a escola quando o acidente aconteceu. Viveu ainda algumas semanas. tinha um rosto pequeno. (Após a fala. não. A luz sobre ela acendeu-se lentamente.Só pode ter sido aquele boneco horroroso. eu vi.) Alice. Sua irmã agora vive agarrada com ele. Ela está parada. tudo aqui ficou esquisito demais desde que o menino morreu. ARETUSA (Um pouco irritada. mais tarde tira outra vez. a atriz. Depois guarda. já como a personagem.

) — Está vendo isso aqui? De manhã.Eles deviam mudar para um apartamento..) — Isso não é nada saudável. (Cansada. tudo escuro. Ela não aceita. Evelyn era tão caprichosa. Agora tem cheiro de umidade. Dá até pena de ver. Ainda mais morte de criança.) Casa só é bom quando tem criança. E menor. ARETUSA (Mostrando uma mancha na perna. Tudo fechado. ARETUSA — Saudável? Isso não é normal.) — Não é que ela não aceite. mofo. (Suspirando. É muito mais grave. (Como se revelasse algo importante. É diferente. ARETUSA (Dura. ALICE (Abatida. — que caracterizem bem um quarto de criança. ALICE (Meio distraída. deixa que ela fale cada bobagem. O aluguel seria o mesmo. Alguns elementos — talvez um móbile bem colorido.) . etc. ALICE (Arrumando uma das camas. Tropecei num . na verdade acho que sua irmã ainda não percebeu que o menino está morto. Ela não percebe. Alice! ALICE (Angustiada. com papai e Berta. mais prático. Ele é tão apaixonado pela mulher que só pensa num jeito dela não sofrer mais ainda. Bem doente. mais seguro. Dá muito menos trabalho.) — Morte é uma coisa muito triste. ARETUSA (Penalizada.) — E que ela anda doente. levei um tombo. francamente. Alice.) Sabe.) — É.) Até o cheiro da casa mudou. Bruno não ajuda muito.CENA 6 ALICE e ARETUSA No quarto que pertencia a Cristiano. E agora. uma bicicleta. quando cheguei.. Insistiu tanto no telefone para que eu viesse. mudando de assunto.

) O que é que nós vamos fazer agora. não podia parar de pensar nisso. Sozinho com seus bichos. Faz meses que o menino morreu e as coisas dele continuam aparecendo em todos os cantos da casa.) Logo os pés.) . Agora ele deu para pedir comida no quarto. ALICE (Sonolenta. ALICE — Meu Deus. (Noutro tom. mas ele continua com essa história? ARETUSA . E você sabe que venho vê-los seguidamente. Quando fui ver Evelyn hoje de manhã. Parece que nunca se separa dele. aquele boneco que Cristiano adorava.Claro. como se falasse para si mesma. nem se notava que o corpo terminava tão depressa. . ALICE (Abalada. só atrapalho. Com aquele monte de flores.) — Que coisa. (Em voz mais baixa. querendo mudar de assunto. (Cúmplice. E cada vez pior. Cortaram os pés dele.O pior não é isso.. ALICE (Impressionada. Mas ainda bem que no caixão não se notava nada. ela estava com aquele boneco no colo. Sabe qual é? O Palhaço.Você já viu meu pai? ARETUSA (Seca. Logo que cheguei. se queixa. junto com as pernas. Não quer mais descer. Nunca sei ajudar. Aretusa.) — Não sei. Eu fiquei tão impressionada. ARETUSA (Um pouco cruel. Não pode ser.. de manhã.Continua. mas acaba levando. o tempo todo.) .) Bruno me contou que às vezes ela diz que Cristiano passou a noite com os pés gelados. Não sei lidar direito com as pessoas. ALICE — Mas o médico disse que poderia ser um problema de circulação.) — Os pés? (Meio sem sentido. numa espécie de censura. Aretusa? ARETUSA (Dolorida. Berta reclama. E ele fica lá.) Você sabe muito bem disso.carrinho de plástico na sala.) .

Berta. Que tem insetos no ouvido.se. Mas não se assuste: Evelyn mudou muito. Nem parece a mesma. brusca. EVELYN MENINA (Aproximando. Interrompe-se de repente.) Aquela árvore também não quer morrer. Alice. (Voltando-se. Menino não pode ser mãe.) . Por que é que você não pede para ele? ALICE MENINA .O Professor diz que não.Quase nada.O que é que você está olhando? ARETUSA.Renato não. Feito um passarinho.Alice.) E eu? Quem é que vai ser a minha mãe? EVELYN MENINA . ALICE (Ainda tentando mudar de assunto. ALICE .E Evelyn. Logo ela vai acordar e você fala com ela.. (Começa a cantar uma cantiga de ninar enquanto embala Evelyn. Um ninho de insetos. Berta não pára de arrancar os brotos do álamo. come direito? ARETUSA . Vem que eu embalo você. Ele é menino.) Era tão bem disposta.. .Pode ser Renato. Pelo menos. Envelheceu tanto. (Caminha até a janela e espia para fora.) .ARETUSA . vamos brincar de mãe e filha? ALICE MENINA — Vamos. CENA 7 ALICE MENINA e EVELYN MENINA No Plano do Inconsciente/Memória. Crescem por toda a parte.

cercada de revistas coloridas.Você também não. ora! ALICE MENINA (Chorando.) .Você.) . ALICE MENINA (Começa a chorar.) . Você é muito pequena EVELYN MENINA (Com certa crueldade. Ela está sentada na cama. os recortes e as revistas.) Berta.EVELYN MENINA . Nada que te interesse. Pode ser Berta.Então posso ser eu.) . cantarolando e batendo palmas. RENATO MENINO (Na porta. encabulado.) — O que é. posso entrar? BERTA (Guardando apressada a tesoura..Então já sei. O que é que você quer? RENATO MENINO (Indeciso. À medida em que a luz apaga sobre a cena anterior. menino? Será que não tenho um segundo de paz nesta casa? RENATO MENINO (Entrando. acende-se sobre Berta.) — Nada. Você quer brincar comigo? .Berta não quero.) — Alice é filha de Berta-tá-tá! Berta tem cheiro de cebola-lá-lá! Alice também tem! Cheiro de cebola-lá-lá! CENA 8 BERTA e RENATO MENINO No quarto de Berta.O que é que você estava fazendo? BERTA (Brusca. Não estava fazendo nada. recortando figuras. Ela tem cheiro de cebola! EVELYN MENINA (Começa a girar em torno de Alice..) .

) . . Pode dormir.Sou. Dorme.BERTA (Ríspida. BERTA (Apontando o vaso. Eu te mostro como é. ALICE MENINA. Ele está parado ao lado de um vaso sanitário. BERTA. Renato. BERTA (Depois de hesitar. Enquanto Renato adormece. bem devagarinho.Mas é só um pouquinho. acende-se a luz sobre o Professor.) — E eu lá tenho tempo para brincadeiras? Vai procurar alguém da sua idade. Pode dormir sem medo.) . você deixa? (Aproxima-se. CENA 9 PROFESSOR. RENATO MENINO (Persuasivo. Isso. (Pega a mão de Berta e coloca sobre sua própria cabeça. Como se você fosse minha mãe. filhinho. Berta.Claro que não. a sua mãe está aqui. EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA Na seqüência da cena anterior.) Posso deitar a cabeça no seu colo? (Berta não responde. RENATO MENINO (Quase dormindo. o Renato urinou outra vez fora do vaso e sujou todo o banheiro. Ninguém vai bater em você enquanto eu estiver aqui.) Agora você passa a mão na minha cabeça. Ela hesita. Você é minha mãe.) — Professor. RENATO. Renato ajeita-se no colo dela. comovida. diz. mas acaba fazendo o que ele pede. Assim. Sou sua mãe.) Faz eu dormir. Berta abandona o menino dormindo e caminha em direção ao Professor. Berta? Diz que é. MENINO.) .) — Você não vai deixar o Professor me bater? BERTA (Continua a niná-lo.

seu animal? Você sujou todo o banheiro de novo.Como o que foi? Ainda pergunta? Se fazendo de inocente. papai? PROFESSOR (Segura-o pela gola da camisa.) .Foi sem querer. você vai limpar tudo com a língua.) . Não quero saber de promessas. Você é um porcalhão. PROFESSOR (Empurrando-o para o vaso. Alice está sentada na cama quando Aretusa entra. cabisbaixo. papai! Eu não faço nunca mais! PROFESSOR (Empurrando a cabeça do menino contra o vaso.) — Te ajoelha. RENATO MENINO (Com medo. pai. (Dá-lhe um tapa e sai. em torno de Renato. saltitantes. não.) — Renato.) — O que foi. .) — Por que é que o pai tem tanta raiva da gente? ALICE MENINA.) — Renato é um porcalhão! Renato é um porcalhão! Renato lambe o mijo! Renato lambe o mijo! CENA 10 ALICE e ARETUSA No ex-quarto de Cristiano.) — Tudo. Renato! Onde é que se meteu esse diabo de menino? RENATO MENINO (Entrando. Eu juro que não faço de novo.) . seu porco sujo. RENATO MENINO (Debatendo-se. abraçado ao vaso.) RENATO MENINO (Soluçando. Sujou? Pois agora vai limpar tudo com a língua. andando de lado.Não.PROFESSOR (Chamando. cantarolando. EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA (Entram em fila indiana e circulam.

enquanto acende a luz sobre o Professor.O quê? ALICE — Rasputin. As pancadas tornam a soar. ALICE (Em tom de recriminação.) . Você o conhece desde criança e sabe muito bem como ele era tímido e infeliz. As vezes eu apanhava até por coisas que nem me lembrava mais que tinha feito. Tão frios. Aretusa. Mas você só humilha ele o tempo todo. bate com a bengala no assoalho e Berta tem que atender. Cobre o rosto com as mãos.O velho Rasputin.É o seu pai. Cansei de telefonar. Uma vez viu uma figura num livro e achou muito parecido com papai. Era assim que Renato chamava ele. De estímulo.. Aretusa e Alice ficam imóveis. ARETUSA . Papai era muito severo. Alice aproxima-se. o velho Rasputin. Seu irmão não deve estar em casa..) . (Aretusa parece magoada.) Desculpe. Você sabe. ALiCE (Quase sorrindo. Eu também achei. Aretusa. ninguém atende.) — Não adianta. mas ouvem-se três batidas fortes — uma bengala batendo na madeira. (Aretusa vai responder. três vezes. Eu não quis.) — Não fale assim do seu marido. Uma pessoa como Renato precisa de carinho. Pareciam uma faca.) O que é isso? ARETUSA (Cansada. como se fosse chorar. Quando ele quer alguma coisa. Alice se assusta. O idiota não vem mesmo. Ele foi quem mais apanhou de papai. CENA 11 ALICE e PROFESSOR . Aqueles olhos que furavam a alma da gente. a culpa não é sua. desculpe.ARETUSA (Irritada.

) .São insetos. Eles estudam. curva a cabeça sobre o ombro e a move devagar. Ele está sentado. Não foi nem uma vez. Uma das mãos segura a bengala.) — Bruno bem que podia obrigá-la a ir. Eu mesma não podia vir. PROFESSOR (Obstinado..Não. E aí poderia. Eu tenho certeza.) — Bem. PROFESSOR (Sem ouvir.) — Evelyn? Ela não vai nem ao cemitério.Quarto do Professor.. pai. abrir.) — Mas. se divertir um pouco. (Entorta um pouco a cabeça. E um zumbido de insetos. Só nos fins de semana têm algum tempo para descansar. A roupa está muito desalinhada. não sei. São insetos. E não é um barulho. De vez em quando..) — Não puderam vir. PROFESSOR (Cortando. retirar. ALICE (Entrando devagar. desde que o menino morreu.) Mas você sabe como ele é condescendente. (Em tom de desprezo. Estava tão ocupada. Ando até pior.) . um cobertor sobre os joelhos. brusco.. Muito pior.) — Dá licença. papai? O senhor está bem? PROFESSOR (Sacudindo afirmativamente a cabeça e fazendo um gesto para que Alice se aproxime. Insetos daninhos. Mas fiquei. pai.O senhor melhorou daquele barulho no ouvido? PROFESSOR (Seco. Alice? ALICE (Em tom de justificativa. E não fica nada bem uma mãe não cuidar da sepultura do filho. Não melhorei nada. como se . Presta atenção.) . se fossem insetos o médico conseguiria vê-los. trabalham. fiquei muito preocupada com Evelyn. O senhor sabe como é. bem.. pai. ALICE — Ela está doente. E os filhos. ALICE (Paciente. ALICE (Tentando ser gentil.

) — Uma velha casa. E se a gente mentisse que ele é seu? BERTA . três vezes. Alice Menina tem uma caixa de sapatos nas mãos. sem sabedoria. Berta? Olha a carinha dele. sempre franzindo o focinho. uma velha empregada: que tem isso demais? E só uma velha casa. E por todos os cantos a lembrança de Cristiano. não é. Mas essa velhice me deprime. ALICE MENINA . Enquanto ela fala. Alice estremece. PROFESSOR. menina? Mas o que é que eu vou fazer com um porquinho-da-índia? ALICE MENINA . CENA 12 ALICE. ué. dentro da qual está o porquinho-da-índia. (Bate com a bengala no chão. O velho choraminga. Outro dia ele até bateu a janela quando o canário da vizinha começou a cantar.Meu.pudesse ouvir alguma coisa. BERTA e ARETUSA ALICE (Sozinha.. Alice. Chegou a quebrar um vidro. Você tem nojo dele? . sem paz. no Plano do Inconsciente/Memória acendeuse a luz sobre Alice Menina e Berta.) Berta.) — Mas ele é tão bonitinho. o foco de luz apenas sobre ela. Bateu com força. ALICE (Insistindo. Será que o pai deixa eu ficar com ele? BERTA —Você sabe muito bem que seu pai detesta bichos. violentamente. ALICE MENINA. vá chamar Berta.Nada. um velho pai. Perto da árvore ficava a gaiola grande com os dois porquinhos-da-índia que lhe dei. Iguais ao que eu tive na infância e que tratei com carinho de mãe..) Você não ouve? Agora eles estão começando a se mexer.Ele é tão bonzinho.

) — Mas e se ele fugir? Se entrar dentro de casa? Esse bicho é que nem rato. É de mentirinha.) .Tá bem. (Para a caixa. BERTA (Relutante.Pois então? Você diz que ele é seu. BERTA (Saindo. Alice continua brincando. deixa. ALICE MENINA (Animada. (Senta no chão. Até gosto. Pura.) Primeiro vou contar uma história para você dormir. já está acesa a luz sobre o Professor. Furioso.) . assim que nem você. (Choramingando. Que coisa. Era um porquinho todo quentinho e fofinho.) — Obrigado. Estd todo furado. BERTA (Cedendo. ALICE MENINA (Insistindo. Eu garanto que ele não vai dar trabalho nenhum.Ah.) Mas se der algum problema depois. mas meio brusca. Berta.) — Não. Berta. (Vai saindo. abre-o e examina. tá bem. Assim ele fica no seu quarto. Horácio. menina. encaminha-se para Alice e joga-lhe . comovida. Rói tudo que encontra pela frente. não diga que eu não avisei. ALICE MENINA (Muito feliz. Tem uma cara de Horácio. Era uma vez um porquinho-da-índia que um dia foi bater numa casa bem igual a esta. Não suporta nem passarinho.BERTA (Curva-se para olhar o porquinho.) . Não precisa chorar. Enquanto Berta sai. PROFESSOR (Apanha um jornal dobrado do chão. Ele não vai entrar nunca dentro de casa (para a caixa). com dois olhinhos vermelhos arregalados de medo porque ele achava que não tinha casa. não é. porquinho? E só vai comer restos de verduras velhas. Só falta os óculos. Eu digo que é meu.) Eu nunca tive um bichinho.) Acho que vou chamar ele de Horácio. Nojo não.) — O Professor tem verdadeiro horror de bicho. Berta.

Acende-se a luz sobre Aretusa Adulta. ALICE ADULTA .) — Uma barata. Alice grita. a caixa não! PROFESSOR (Fora de si. para Alice. Eu ainda nem tinha lido. menina.) Alice Menina fica sozinha com os pedaços da caixa. PROFESSOR (Avançando alguma coisa dentro dela. ALICE (Apavorado. violentamente. então.) E isso é para você aprender a me respeitar.) — Animal nojento.) . que morreu gorgolejante enquanto o Professor torcia o pé para esmagar melhor. pai? Deve ter sido algum rato. Outro dia vi uma barata na cozinha. Alice.) .) — Alice.Como é que um corpo tão pequeno pode espirrar tanto sangue? Até hoje o guincho do animalzinho perfura meu cérebro quando penso nisso. sem conseguir.Roído. Enquanto isso. Faz dias que você anda escondendo . este jornal está todo roído. (Joga a caixa no chão.Me dá esse bicho imundo.) . PROFESSOR — E desde quando tem rato nesta casa? ALICE (Assustada. Um único guincho.) — Me dá ele. Ele sai.) . Alice tenta alcançá-la. ALICE (Tentando escondera caixa.Cala a boca. eu prometo! PROFESSOR . Um jornal novo. volta a luz sobre Alice Adulta. (Começa a puxá-la pelos cabelos. pai! Eu prometo que nunca mais ele vai roer o seu jornal. chorando.Além de tudo é mentirosa. Me dá essa caixa. sozinha em outro plano. (Começa a pisotear a caixa.Não. Arranca-lhe a caixa das mãos.o jornal na cara. Quantas vezes tenho de repetir que não quero nenhum bicho dentro desta casa? ALICE (Gritando.

Mesmo assim me cansei um pouco. Aretusa está ao lado dela. agora ficou tudo mais rápido. como se recitasse algo decorado.) — No mundo da lua. ALICE (Nervosa. (Ri. ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn. que fuma em silêncio.ARETUSA (Irônica e divertida. Você sabe. Alice? Evelyn acordou e quer ver você.) — Estou. muito composta.) Saí correndo. eu ia comprar uns chinelos novos. E uns chinelos. Eu até ia trazer um bolo. Aretusa? ARETUSA — Nem prestei atenção. Suba! CENA 13 ALICE. sempre tão ocupados. Quando Alice entra. ALICE (Beija Evelyn. esqueci até o perfume. sim. Estou muito bem. (Volta-se e fica olhando pela janela. você reparou.) — Olha. Não puderam vir. Evelyn está sentada com o boneco no colo. mas acabei deixando. Estou bem. como se tivesse acabado de penteá-la e arrumá-la. insegura. meu marido e os rapazes mandaram lembranças.fumando. Evelyn.) . Estou. fingindo ignorar o boneco e procurando ser natural. num tom monótono e automático. Com esses ônibus modernos. depois de olhar um momento para Aretusa. Você vai bem? EVELYN (Sacudindo a cabeça.) — Fiz uma viagem tão boa. O meu está tão velho.

(Vai saindo. Alice.Bruno está chegando. Já que Evelyn tem companhia. ARETUSA (Da janela. Garanto que você faz muita falta no escritório. Eu como tudo e limpo o prato. tensa.ALICE (Pega uma escova e começa a escovar o cabelo de Evelyn.) — Sim.Quando der. volta-se e sorri para Evelyn. Quando der. Bruno está jogado no sofá quando Alice entra. querida? (Evelyn não parece ouvir. ALICE (Maternal. Alice? ALICE — Bem.) ALICE (Um tanto apressada e aliviada.Você tem comido direitinho. Faz séculos que ele anda só do trabalho para casa.Como vai. Na porta. Levanta-se para beijá-la. BRUNO . depois cai de novo no sofá. Faz muito tempo que não vejo o Bruno.) — Parece cansado. . RENATO MENINO e BERTA Sala da casa. E mais magro. querida. (Aproxima-se e coloca a mão no ombro de Evelyn. BRUNO. da casa para o trabalho. eu volto.) . Tive que insistir para que saísse hoje e se distraísse um pouco.) — Seu cabelo continua tão bonito. querida? EVELYN (Falando como uma criança. Quando é que você volta? EVELYN (Remota.) Não é.) . não sei. curva-se para beijar Evelyn.) . Bruno. Tão louro. Um dia. graças a Deus.) .) CENA 14 ALICE. que continua imóvel. E você? (Examinando-o.Então eu vou lá embaixo receber o seu marido. Seus colegas devem estar com saudades. Evelyn.

sentando-se no sofá.BRUNO (Indiferente. passeando um pouco? BRUNO — Aretusa insistiu tanto. BRUNO (Desinteressado. Ela segura o boneco e fala como se. ALICE (Depois de uma pausa em que não sabe o que dizer.. E quase não come. bom. acendendo um cigarro.) — O filme? ALICE . em voz baixa. ALICE (Horrorizada..) ... Bruno! E aquele boneco. No começo. BRUNO — Eu sei.) Mas realidade é uma coisa que ela não agüenta mais.) — Então. meu filho disse que.) — Ela não quer mais falar com o médico.) — Mas é só assim que ela fica mais calma.) — Descobri que Evelyn anda com uma gilete em baixo do travesseiro. Que coisa mais macabra! BRUNO (Paciente. BRUNO (Interrompendo. Não quis ir no psiquiatra.) — Engraçado.. ALICE — Mas isso é perigoso.) — Pode ser. O filme era bom.) — Era. ALICE — Aretusa me disse que Evelyn parece não aceitar a morte de Cristiano. ALICE (Tentando parecer animada. tentei fazer com que aceitasse a realidade.. Ela não parece nada bem.. Fui ao cinema... (Amargo. BRUNO (Como se não ouvisse.) — Acabei de ver Evelyn. O filme que você viu. Concordei com Aretusa em chamar você porque não sabia mais o que fazer. o Palhaço? Você tem que tirar aquilo dela. ALICE — E gostou do filme? BRUNO (Distante. como se o menino estivesse vivo. ALICE (Meio distraída. uma o que? ..Uma. Faz tempo que não me peso.É.

o que é que você acha que devemos fazer? ALICE (Recostando. Essas coisas. fica quase normal. Devia doer . Não consigo raciocinar direito. ALICE Que horror. mas não adiantava.. num hospício. ALICE . Já botei fora duas ou três. Fazia tempo. Será que ela.. BRUNO — Péssimo. sim.Uma gilete. BRUNO (Angustiado.) — Meu pai também está tão esquisito.Alice.) — Não sei. no sofá. ela tem de querer também.. só desesperada. Mas até parece castigo. ALICE (Para mudar de assunto. Quando esquece. BRUNO (Interrompendo. BRUNO — Então deve ter-se assustado.. Ninguém pode forçar. E o médico. Precisamos ter paciência. E ele agora deu para se queixar a toda hora dos tais bichos. Quando a gente era criança. ALICE (Pensativa. cansada. Depois começa tudo outra vez. não? ALICE — Fazia.se para trás.. tem outra lá. Nós não temos dinheiro para uma boa clínica particular. Mas sempre quando vou ver.) .) — Não quero que ela seja internada num. Ela não está louca.) — Deus que me perdoe.. Uma noite ele não parava de chorar.) — Castigo por que? ALICE — É uma história antiga. Berta pingava azeite morno. BRUNO (Intrigado. Fazia meses que você não o via. Bruno.) — Que é a idade. depois de pensar um momento. Renato sofria de infecções nos ouvidos. Bem.BRUNO (Em voz muito baixa. E psiquiatra.) . o que diz? BRUNO (Batendo de leve com o indicador na testa.Que coisa horrível.

ALICE (Como se não ouvisse. ALICE (Distraída. quando eles dormem. tinha um líquido grosso. Papai levantou umas duas vezes e mandou que ele calasse a boca. Uma arma secreta. RENATO MENINO (No outro Plano. escorrendo do ouvido de Renato.) BRUNO . BERTA e RENATO . ARETUSA. EVELYN.) — Está na hora de servir o jantar. A luz se apaga no Plano do Inconsciente/Memória.) BERTA (Entra.) — Uma arma. como na Cena 3. Para matar o Professor. Porque você está aqui. acende-se a luz sobre Renato Menino. PROFESSOR. abriu a porta com um empurrão e deu um tapa na cabeça de Renato. amarelo. CENA 15 ALICE. No dia seguinte. (Ouvem-se as três bengaladas do Professor. O bofetão de papai tinha feito rebentar um abscesso no ouvido dele. com toda a força.) — Vou ver se Evelyn quer descer. para Alice. Na terceira vez. BRUNO (Levantando-se. Que não fizesse fita.) — Será que na cama.muito. BRUNO.) — O Professor também vai descer hoje.) — Louça toda velha. Era pus.) BERTA (Pondo a mesa. Berta levou ele ao médico. (Sai.) .Quando entramos no quarto. Tantos pratos rachados. Ele prepara a arma. no Plano do Inconsciente/Memória. (Enquanto Alice fala.O Professor sempre foi muito violento. acende a luz. o boneco fica no meio dos dois? BERTA (Como se não tivesse escutado. meio para si mesma.

Berta tira e coloca coisas na mesa. entremeada de silêncios longos. O médico não sabe nada. Você não almoçou hoje. ALICE (Conciliadora. Evelyn? ALICE .Deixa.Ela não comeu quase nada. repugnada. Bruno. (Dando-lhe comida na boca. De repente. ARETUSA — Pois eu não. pai? BRUNO (interrompendo o Professor. que ainda não chegou. BRUNO (Para Evelyn. (Para Bruno. que cruzou os talheres. A cena é lenta e difícil.Eu não quero. bem que você precisa.) . Até pelo contrário. Agora. e de Berta.) — Só um pouquinho. EVELYN (Como criança. Acho que foi a viagem. hein? ALICE — Estou sem fome. o barulho da campainha. paciente. Constrangimento. Por que você quer me obrigar a comer? BRUNO — Para ficar forte. ARETUSA (Mentindo. Quando mudo de ambiente. Estão todos sentados à mesa do jantar.Vamos.) —A carne está ótima. (Para Alice. PROFESSOR (Com desprezo.. Evelyn. ALICE (Para o Professor.Na sala. Tem que comer mais um pouquinho. Estamos todos juntos. que serve a mesa. À exceção de Renato. querida. Hoje é um dia especial. Evelyn tem o boneco no colo. . mais um pouquinho.) Passa o arroz? Silêncio espesso. BRUNO (Para Evelyn) .. Assim.Ele não pode.) .) — Quer mais vinho.) E você.O médico.) — Você está com frio. depois de encontrar um vermezinho na salada. não vai comer mais nada? Está de regime? Olha.) . que estende o copo.) . me abre o apetite. O médico proibiu.

Um sanduíche.Quem pode ser numa hora dessas? BRUNO — Visita é coisa rara por aqui. PROFESSOR — Deve ser algum mendigo. (Pega o bule e serve. muito formal.) Olha só quem chegou.) . RENATO (Contrafeito.) — Ué. RENATO (Beija Alice. (Beija Aretusa no rosto.) — Pode deixar que eu mesma vejo. achei que você não vinha. com uma bolsa de viagem. Quando você telefonou.) — Boa-noite para todos. ARETUSA — Pelo menos tome um café. tocou e ninguém atendeu.Então.) ARETUSA (Agressiva.PROFESSOR .Eu sempre digo que sanduíche não alimenta.) . ALICE (Maternal. Comi no caminho.) .) . Ele aperta a mão de Bruno. Liguei acho que umas dez vezes.Não.) — Você já jantou? RENATO .) Eu mudei de idéia. ALICE (Para o Professor. Alice? Tudo bem? (Ela sorri. A cidade está cheia deles.faz um carinho na cabeça de Evelyn e senta-se ao lado dela.Boa-noite. Não tenho fome.) ALICE (Para Renato. Renato bebe e fica remexendo na xícara com a colherinha. Tocou. (Aperta a mão do pai. Até telefonei hoje à tarde.) — Quer que eu veja quem é? BERTA (Para Alice. RENATO Como vai. provavelmente eu já tinha saído. olhos baixos. (Berta sai e volta acompanhada de Renato. papai? PROFESSOR (Seco.

ALICE (Entrando. para alguém invisível. O Professor começa a mexer lentamente a cabeça. Tudo bem. Tudo bem? (Senta-se à mesa. No escuro. olhando Renato e o boneco. um por um. (Pára por um instante.) ALICE (Para o Professor. pai? O senhor está sentindo alguma coisa? PROFESSOR — São os insetos. Olha para todos. Estava quente.RENATO e BRUNO Na sala de refeições. RENATO . Depois recomeça os movimentos com a cabeça. Não passou frio durante a noite? RENATO (Distraído. A mesa está posta para o café quando Alice entra. Renato. de manhã cedo. ALICE — Tem razão. Renato. como se escutasse. não.) .) — Vocês não acham que ele se parece com o Palhaço? (Ninguém ri. Esse calor não é normal de manhã cedo. brinda distraidamente com bolinhas de pão.) — Que foi. A luz apaga. com desprezo.Não.) . .) Eles estão se mexendo agora. Parece que vai chover. ouve-se a gravação de uma gargalhada estridente de criança.) Fiquei preocupa com você aqui em baixo.É possível.Bom-dia. que já está sentado. Berta me trouxe um cobertor Mas nem era preciso. Está tão abafado. sem ninguém esperar. II ATO CENA 1 ALICE. Silêncio constrangido. Alice.EVELYN (De repente.

.) RENATO ..) ALICE .o que? ALICE (Meio envergonhada. Ela dormiu muito mal. RENATO (Desinteressado. BRUNO (Entrando.O que foi? ALICE (Meio repugnada.Não. ela riu durante a noite? RENATO .) . (Prova o café e faz uma careta. Renato? Eu tive a impressão de ter ouvido alguém rindo.Bom-dia.) E além do mais.Eu não ouvi nada. Não tenho vontade.ALICE — Me passa o café? (Renato passa e ela se serve. Bruno.Berta está muito velha.) .Faz muito tempo que Evelyn não ri. ALICE — Acho que ela nem enxerga mais direito. Continua a fazer bolinhas de pão.Você não vai tomar café? ALICE (Suspirando..) . ALICE (Intrigada. (Afasta a xícara. ALICE (Meio atrapalhada.Riu. RENATO (Dando de ombros.) RENATO .) . passou bem à noite? BRUNO (Abatido. com essa casa toda fechada. Acho uma coisa indecente.) . Devem ter sido os gatos. Está quase frio. (Toma mais um gole. O calor fica pior.) — Bruno. por acaso ela. E Evelyn. Berta devia ventilar mais a casa.) — Claro. claro. E muito fraco.Bom-dia. Acordou várias vezes. . Eles fazem muito barulho nos telhados.Não.) Péssimo. BRUNO (Cortando.) .. Você não ouviu nada.) — O café.) . (Renato não responde.

ALICE (Nervosa. CORÁLIA e ENFERMEIRO Quando Renato fala. fumando.RENATO . ARETUSA. CORÁLIA e ENFERMEIRO .Ela era linda. BRUNO (Para Renato. Uns olhos tão grandes e inocentes. apaga-se a luz sobre a cena anterior e acende-se sobre Aretusa. empurrada por um Enfermeiro. ARETUSA . tentando rir.tem os cabelos todos brancos e a cabeça caída sobre o peito. pondo a mão na testa. Enquanto eles passam. ouve-se apenas a voz de Aretusa. CENA 3 ALICE. numa cadeira de rodas. RENATO (Para Alice. Noite de sábado.) — Pode ser. Corália — uma atriz ou uma boneca .Ou algum babado na rua.) — E Aretusa? Não vai descer? CENA 2 ARETUSA. A luz acende-se também no Plano do Inconsciente/Memória. Tinha um jeito de menina.) — Acho que estou pegando uma gripe daquelas. Ela está na cama.) — Me passa o pão? ALICE (De repente. Cruzam a cena Corália. deitada.

Prometa que não vai se meter em nenhuma complicação com essa menina. ARETUSA (Sonhadora. você vai acabar se metendo em complicações. casada. mas paciente.) Não faz mal nenhum assim.) — No mesmo que você. E não sou atrasada. ARETUSA (Sem ouvir.) — Linda. ALICE — Escuta. não se preocupe.É um flash-back. (Implicante. minha querida moralista. Eu finjo que não percebo. só de longe. mas vejo bem nos olhos dela. Aretusa. tão linda. minha santinha. . ARETUSA . o que mais me impressiona nela são os olhos. no colégio. Sem maldade nenhuma. Enormes. E tem uns olhos. Ela me ama. inocentes. Lá no fundo. Meu Deus. sim. Atrasada.) . Imagina se alguém descobrir. você é uma mulher adulta. Aretusa. o escândalo que vai ser. mas continua a virgenzinha de sempre. ALICE (Preocupada.) Prometa. ALICE (Espantada.) Ah. Aretusa. Tão terna.) — Claro que entendeu. indisfarçável. Só acho um pouco estranho. Aretusa? Ela é sua aluna. (Para si mesma. (Segurando Aretusa pelos ombros. Ela me ama. recém-casada.) E ela me ama.) — Como não faz mal. ALICE — Você tem que me prometer que vai tomar cuidado. Depois não diga que eu não avisei.Uma menina tão linda. ARETUSA — Não tem nada de estranho. debochada. Eu apenas me deixo amar. ingênua. na casa de Alice.Ah.) — Será que eu entendi direito. (Para Alice. Você nem imagina como ela é linda. Alice. a filha do Bicho-Papão não sabe em que mundo vive? ALICE (Meio irritada. Aretusa? ARETUSA (Rindo. Alice. A cena pode ser feita pelas atrizes que fazem Alice e Aretusa Adultas ou por Alice e Aretusa Meninas.

Pára com isso. ARETUSA (Dando de ombros.) Corália. em desespero. sem pausa. Se você fica mais tranqüila assim.. Magnólia. voltando-se.) — Assim é que se fala. mas a cena vem imediatamente na seqüência da anterior.Está bem. grita.) CENA 4 ALICE e ARETUSA Passaram-se alguns meses. Parece nome de flor.) — Ela tentou se matar. ALICE — Fale mais devagar. (Noutro tom. Aretusa. acende-se novamente a luz no plano do Inconsciente/Memória.) Como é mesmo o nome dela? ARETUSA (De costas para Alice Enquanto ela fala. Alice. Não entendo nada.) . Corália (Tapa a boca com a mão. Que vai se ver livre dela. está bem. (Fingindo solenidade.) . Quando apaga-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória. acende-se novamente sobre Alice e A retusa.) .Corália. Que coisa mais antiga! ALICE (Insistente. Nome engraçado. Corália-Rosália.se. e o Enfermeiro torna a passar com Corália na cadeira de rodas..) Prometo solenemente me ver livre dela.ARETUSA (Desvencilhando. (Num crescente. ARETUSA — Mas prometer o que. ARETUSA (Que ainda estava de costas. criatura? ALICE — Que não vai se meter em nenhuma complicação. Aretusa. séria. .) — Prometa. ALICE (Aliviada.

(Baixando a voz. olhares. O que fiz foi só para o bem dela. Que ela era meio louca. Eu fiz tudo errado.) — Nada. ARETUSA — Eu sei que você me entende. Aretusa.) — Você agiu direito. Eu ainda consegui consertar a história..) Hoje de manhã encontraram ela na cama. Alice. aquelas coisas.) — Corália. Alice. Ambigüidades. Foi ela quem contou para uma amiga..) . Eu comecei a fugir. O diretor da escola nos chamou para tentar evitar o escândalo.) Cheguei a insinuar que. despeito. ARETUSA (Culpada.ALICE . que Corália não regulava bem. . Não adiantou nada. Eu fiquei com medo e disse que se ela não se afastasse eu contaria aos pais dela e ao diretor. Ela ficou me procurando por toda parte. O que foi que aconteceu? ARETUSA (Acendendo um cigarro. (Envergonhada. Só. promessas. Ela era tão bonita. ALICE (Colocando a mão na cabeça dela. meu Deus? ARETUSA (Quase gritando.Não. a tratá-la mal. inveja. ALICE — Não estou acusando ninguém.Ela? Ela quem. ALICE (Chocada. Falei em calúnia.. mandava cartas. a boca toda queimada de veneno.. Pare de me acusar.) — Não fique assim. não. Não fiz nada. Corália tentou se matar. ALICE (Tentando acalmá-la.) — Nada. Queria que nós fôssemos embora juntas. Eu não tive culpa.) . não aconteceu nada. Fique calma e me conte tudo. Telefonava. Você não sabe de nada. Aretusa? ARETUSA (Muito agitada. Eu não queria complicações.O que? O que foi que você fez. você me entende? Que era imaginação dela. Não tive coragem de desiludi-la. Alice. Aretusa. Foi só então que eu descobri o quanto gostava dela. A idiota da amiga contou tudo para os pais de Corália.

ARETUSA (Lentamente. fumando. Estava fraco e frio. não? ALICE (Sem se ofender. não vou agüentar sozinha. No quarto.) E você bem que podia cuidar um pouco da forma.) Esta semana fui ver Corália. ARETUSA (Irônica.. Eu acabo destruindo tudo que toco. ARETUSA . ARETUSA .Estou com preguiça.) — Nem tomei café. ALICE — E fumando em jejum.) -Juro que nunca mais vou amar ninguém. Nunca mais vou me ligar a ninguém. fique calma.Não queria que depois ela sofresse ainda mais. ALICE — Ela não vai morrer. Nunca mais.Quer um cigarro? ALICE . ALICE — Ainda está aí? Você nem se vestiu. (Agressiva. Aretusa está de camisola. ALICE — Fique calma. .Você sabe que não fumo. quando Alice entra.Não quero comer. Faz mal. às vezes as pessoas progridem.) — Bem. CENA 5 ALICE e ARETUSA Volta ao presente. ARETUSA — Se ela morrer. Você não vai tomar café? ARETUSA . de repente.. Não vai acontecer nada. (Depois de uma pausa.

não vai melhorar nunca.) — E como é que você queria que ela estivesse? Ah. (Melancólica.) É estranho. Ou um bicho.) — Não. Parece uma velha.. ALICE — Não fale assim. eu sei. Ainda é muito cedo. ALICE (Agoniada. ALICE (Confusa. (Num sussurro. não pode mais falar. Já está na hora do almoço? ARETUSA (Remota. não é bom. mas. Ninguém sabe o que ela sente.Quantos anos ela tem? ARETUSA — Quarenta. Faz anos que ela está assim.) ALICE — É o papai.ALICE (Assustada. Ele deve estar chamando Berta. não mudam nunca. As duas se sobressaltam.E por que não? É a verdade. ALICE — Eu sei. Quarenta anos.) Sabe? O cabelo dela agora está branco como a neve. Você sabe muito bem: Corália não pode mais andar. Não sei. (Ouvem-se as batidas do Professor. ARETUSA (Irônica.) . Ela não pode mesmo ficar boa? ARETUSA (Cansada.) . ARETUSA (Dura. acho que a morte seria melhor para ela.Fui.) . Mas as coisas às vezes mudam.E como ela está? ARETUSA (Amarga. Mas eu sou a única que tem coragem de dizer. mas parece contente quando me vê.. Mal sustenta a cabeça.) . Ela não vai ficar boa. Não tem esperança nenhuma. Alice. Acho que é só por isso que os pais dela permitem que eu a veja. ALICE . Todo mundo acha isso mesmo.) — Neste caso. Alice.Eu já disse mil vezes.) — Corália? Você foi ver Corália? ARETUSA . Não é bom desejar a morte de ninguém. Sempre que eu venho aqui dou uma chegada lá. .Pode ser.

Às vezes. quase . torna a encarar Aretusa. Da porta. Você lembra? ARETUSA (Desinteressada. Ele gostava tanto do balanço. me procurava para desabafar. ARETUSA MENINA. dando o texto como um coro de tragédia grega.. Lá estão parados Alice. de repente.É só o vento. (Antes que Aretusa retruque. Aretusa olha bem para as pernas dela.ALICE — Coitada. Mas você tem razão. de repente.Não. lembrei como a gente chamava você quando era criança. (Volta-se para sair. Assim ela nem pode mais trabalhar direito. No começo. Vou ver se precisa de ajuda. ALICE — Há mais de vinte anos Aretusa carrega esse segredo sombrio. Acho que não comentou com ninguém além de mim.) Você devia tratar dessas varizes. Você ouviu? arvore farfalhando. parece que o menino ainda está se embalando naquele galho.. (Alice volta-se novamente para sair. acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. Como era? ALICE (Bem devagar.. ia dizer que está farfalhando.) Que engraçado.) — Aretusa-Medusa. Agora. à escuta. levemente maldosa. EVELYN MENINA e RENATO MENINO Durante as últimas falas da cena anterior. As duas ficam atentas. ouve-se o barulho do vento. como folhas de que cortaram a árvore. CENA 6 ALICE MENINA. Evelyn e Renato meninos.. agressiva. Aretusa..) Se a gente não soubesse ARETUSA .. estáticos. Falam sem entonação infantil.) . Tempos depois.

se entre o amor e a repulsa. mais diferente de nós. a parede. casou-se com Renato. mostra a si mesma que é louca e má. Eu estou aqui. Evelyn? Calma. que lhe cobra uma pequena indenização.Você também ouviu? . A cama está cheia de brinquedos espalhados. Debate. EVELYN (Assustada. O som da risadinha faz com que Evelyn acorde sobressaltada.O que foi. A luz acendeu-se sobre o quarto de Evelyn.repentinamente. na cena anterior. o pé da cama. da voz sensual. Duas pessoas que nada tinham em comum. EVELYN — Mal Aretusa cochilava. talvez enxergue por trás da imagem familiar aquele rosto inapagável. E não conseguem viver em paz. Ela está dormindo. com uma bandeja nas mãos. Ela insistia. Assim. e a culpa não a deixa dormir. está tudo bem. não saía de perto dele. RENATO — Talvez Renato a amasse. a aranha cinzenta começava a arranhar a porta. com o Palhaço nos braços. BRUNO . ARETUSA — Sempre que Aretusa se mira num espelho. como às vezes amamos o que é mais oposto. foi cortada pela gravação de uma risada infantil. CENA 7 BRUNO e EVELYN A última fala de Aretusa. porque Aretusa nunca escapará de Corália. Como se ela se punisse fazendo-o sofrer.) . usava da sedução do seu olhar dourado. das maneiras desinibidas. Bruno está ao lado. mas de longe.

Era outra coisa. se você não quer.) — Só um pouco de leite.. . já disse! BRUNO (Enquanto ela abraça o Palhaço. Só um sonho. até que ela se acalme. EVELYN (Com raiva. EVELYN (Infantil. você precisa ficar forte de novo. Não era nada. não. paciente. EVELYN .) . BRUNO (Falando como quem se dirige a uma criança.) . como uma.) Tome pelo menos um pouquinho de café.) . Até Renato veio.Não. eu trouxe café e pão para você. sem dizer nada. Eu não quero.Eu não quero comer.... BRUNO (Cortando. Vai fazer bem. EVELYN (Resistindo.Você sonhou. Olha. não. EVELYN — Não.) — Não quero. até Bruno desistir. (Ele abraça e fica embalando-a durante algum tempo. Como. reunida.Não quero. mas era muito claro. está bem. BRUNO — Mas não precisa comer. Todo mundo quer que você desça.. EVELYN (Jogando a xícara ao chão e gritando. então. Não eram batidas..) — Só um pouco.BRUNO — O quê? As batidas? Deve ser o Professor chamando Berta. Tenho nojo de leite.Só um gole. larga a bandeja em cima da mesa e tenta devagarinho tirar o Palhaço de Evelyn.) Você não quer descer um pouco? Toda a família está aí. Vinha de longe.) — Está bem. BRUNO .) — O Palhaço não! Me deixa ficar com ele! Me deixa! BRUNO (Senta-se ao lado dela e tenta fazê-la beber da xícara. (Passa a mão no cabelo dela.

BRUNO (Um pouco assustado. ALICE — Berta.EVELYN (Infantil. Sempre faz tudo que eu quero..) — Está bem.. . Mas fique calma. afasta-se da janela. não. Quero ficar cuidando dele. só quero ficar aqui com ele.. se você não quer eu não abro. Está um dia bonito. Pra mim.Você é tão bom comigo. EVELYN — Como é que você sabe? Você nunca experimentou pra saber. você nunca casou? BERTA .. desanimado.Nunca. Se Berta vier me buscar. BRUNO (Fingindo não ouvir. Mais tarde eu desço um pouco. Pra uns.. EVELYN MENINA e BERTA Luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória. EVELYN — Mas casamento não é bom? BERTA .o. enquanto Evelyn cuida do Palhaço como se fosse um bebê. etc.) . Graças a Deus. EVELYN (Feliz. BRUNO (Levanta-se e vai até a janela. (Embala o Palhaço enquanto Bruno olha.Depende. beija-o. tem sol..) — Você não quer descer um pouco e conversar com eles? EVELYN — Eu quero ficar aqui.) Por enquanto. embala. CENA 8 ALICE MENINA. pode ser.) — Então eu vou abrir a janela. timidamente.) .Eu não quero comer.

) — Berta. ouve passos que se aproximam. bem vulgares. desculpe.) — Não tem importância. A luz revela um quarto muito pobre. parada. você está aí? (Bate à porta do quarto e torna a chamar. não muito alto.) — Procurando por mim. com fotografias de mulheres nuas. De repente.. eu. Ninguém responde Alice entra. ALICE (Chamando.Menina. Alice? ALICE (Embaraçada. No final da cena anterior. fecha aporta do guarda-roupa e a gaveta. Aí entrei. Berta! Sou eu. homem pra mim é peste! CENA 9 ALICE e BERTA No quarto de Berta. Alice.. mas fingindo naturalidade. ALICE — Eu queria conversar um pouco sobre. acendeu-se a luz no quarto de Berta.ALICE — Berta. BERTA (Dando de ombros. Alice estd muito chocada.. Alice abre a porta de um guarda-roupa e encontra uma colagem de mulheres nuas. por que você não se casa? BERTA .. Berta. levemente irônica. Há também algumas revistas empilhadas sob a cama e também uma tesoura grande. à porta do qual esta’ Alice adulta. BERTA (Entrando. Você não estava.) Berta. A gaveta da mesinha de cabeceira está aberta e atulhada de papéis recortadas. Rapidamente. . ninguém respondeu.) — Sim. Alice começa a remexer e fica muito espantada: são recortes de revistas. eu bati. sobre a saúde de meu pai. dessas que se encontram em pensões de rapazes.

(Com nojo. Ele é que devia ter pena de mim. pede a comida no quarto e depois despeja tudo no meio dos lençóis..Ele fica batendo no chão. (Dura. (Suspirando. Eu é que sei. BERTA (Dando uma risadinha maldosa. batendo como um desesperado.) — Metade do tempo acho que não sabe. se faz de desentendido e diz que não me chamou. Vamos conversar.) As vezes. como se procurasse a palavra exata) .só infeliz. BERTA . coitado.. ALICE — Ele sempre foi exigente. ele está tão velho. E suja toda a cama.E não está mesmo. quando vai deitar.. Quando eu subo as escadas. Há pouco ele tornou a bater..) — Você sabe por que é mesmo que eu continuo aqui. diz que fui eu que fiz a sujeira toda. Mas que nada.) ALICE — Estou com pena de papai.) E um inferno.BERTA — Então sente.) — Mas Berta.) Um velho caduco. (Com ódio. (hesitando.) — Mas está pior. Ele não me parece nada bem. ALICE — Mas ele não é mau. Ele está ficando caduco. um velho nojento. Só. ALICE (Penalizada. então? Você não ouviu as batidas da bengala? ALICE — Ouvi. Quanto mais velho fica mais exigente..) Mas eu não tenho pena. Desde que eu era criança. Alice? .. BERTA (Rancorosa. que trabalhei a vida toda. E a bengala. Será que tem consciência do que faz? BERTA (Desinteressada. De noite. BERTA . Ele nem quer mais tomar banho. (Ambas sentam na cama. Batendo.

em voz muito baixa.) — Berta. A luz acende-se sobre ele. desde crianças. você quer ir embora daqui? BERTA .. Você nos conhece tão bem. BERTA (Em voz baixa. sim. parado na escada. ARETUSA. Berta? BERTA (Triunfante. esse vai me pagar! ALICE (Colocando com cuidado a mão no braço dela. ALICE (Sem entender. Não fale assim.Estou aqui para apreciar a morte dele. Mas o velho. Tenho pena. o velho.) .Vingança? A sua vingança.. Todos nós tivemos uma vida difícil. ALICE — Não é bem assim.) — Vai ser a minha vingança..ALICE (Sacudindo a cabeça. você: tenho pena de vocês todos.) . mas firme. meu Deus? BERTA (Com ódio e mágoa. Até parece que. RENATO e BERTA . ah.) — Não. ALICE (Chocada. BRUNO. BERTA (Calma.Embora? Eu não! E para onde iria? Quem vai me querer. e sempre fomos muito retraídos. agora que estou velha e imprestável? (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor. PROFESSOR.) — A morte dele? Mas para que. Renato. ALICE — Não é verdade..) CENA 10 ALICE. com ódio.Sempre fui como um cachorro. há tanto tempo. Berta? Mas vingança de quê.Sempre fui como um cachorro nesta família. não.) . Evelyn.) . Você tem raiva de nós? BERTA — Raiva? Raiva.

Ela está melhor. não acha? Afinal Evelyn é sua irmã. agora quer descansar. o Professor caminhou até sentar-se na cabeceira da mesa.) — Bem. Mas não se preocupem.) — Se ninguém vai fazer nada. RENATO (Irritado. Ficar aí parado não adianta nada. Não foi minha. BRUNO — Uma clínica particular é cara demais. BRUNO (Sentando-se. então por que esse teatro de a gente se reunir aqui um fim de semana inteiro? BRUNO (Seco.) — Será que Evelyn não gostaria de descer e almoçar com a gente? Se você quiser eu subo. PROFESSOR . .) — A idéia foi sua. Ela já comeu. BRUNO — Não precisa. me disseram. ALICE (Cortando.) — Evelyn não vai descer para o almoço.) . não minha.O que é que você quer que eu faça? Eu pelo menos estou aqui. que está desinteressado. Conversamos um pouco hoje de manhã.Antes não tivesse vindo. ela não está louca.A partir da cena anterior. Talvez consiga convencê-la. ARETUSA .Evelyn precisa ser internada. Alice. também podia se interessar um pouco. ALICE — Melhor? Mas Bruno.. para Bruno. mas a responsabilidade é de todos. ARETUSA (Impaciente. os outros vão chegando. não estou? E eu nem podia vir. Bruno é o último. só. não é? (Para Renato. Berta fica parada atrás. Até comeu melhor. e eu também notei. Aretusa. Além disso. achei que estava mais disposta. A os poucos. ARETUSA (Agressiva..) E você. só desesperada. que ela age como se o menino estivesse vivo.

me passa a água? Está tão quente. para Renato. Ele é um frouxo. Odeia seus próprios filhos. (Quase gritando. (Todos param de comer e voltam-separa ele. BRUNO (Procurando aliviar o ambiente.PROFESSOR (De repente. sarcasticamente. Comerciante tem que ser mais safado.Mais ou menos.) .) — Um pai como o senhor acaba com a vida de qualquer um.O que é que você quer dizer com isso. será que não se pode ter pelo menos uma refeição tranqüila nesta casa? BERTA (Irônica e imóvel. seu fracassado? ALICE (Tentando desviar o assunto.) — Bondoso? Bondoso coisa nenhuma.) — O senhor quer saber o que eu acho mesmo? Acho que o senhor nos odeia. mas é verdade. ALICE (Ainda tentando aliviar o clima. Não sei como isso é possível. (Alice serve a si mesma e a Aretusa. isso sim. Pior para o senhor que ele .) — A única pessoa de quem o senhor gostou um pouco na vida foi Cristiano. (O Professor ri. depois de remexer no prato com o garfo por alguns instantes.) RENATO (De repente.) . PROFESSOR (Por um momento parece que vai reagir. como vão? RENATO (Mexendo a mão no ar.) — Pelo amor de Deus. honesto demais para ser bom comerciante.) PROFESSOR .) O senhor nunca foi pai: é um carrasco.) — Renato tem um problema: ele é bondoso demais.) — E você já viu uma refeição calma por aqui? RENATO (Pouco a pouco mais exaltado. mas encolhe a cabeça sobre os ombros.) — Você nem sequer tem inteligência para inventar uma desculpa melhor.E os negócios.) RENATO (Em voz baixa e clara. ARETUSA (Agressiva.) — Aretusa.

morreu. Foi o que ela falou: ―O pai deles não tem coração‖. Alice também estava lá. Bruno olha com mágoa e surpresa para Renato. e o senhor nunca lhe deu amor nem atenção. lembra? Não. (O Professor derruba o copo de vinho na toalha. na janela. Ela morreu de tristeza. Berta lembra. foi ela quem lavou meu rosto depois. ouviu? Que apodreça! Aretusa começa a chorar.) RENATO (Sarcástico. Aretusa estende a mão como se fosse tocar no braço do marido.Lembra o dia quando o senhor esfregou minha cara no mijo do chão. o senhor também foi um carrasco. acho que esqueceu. Que confortável. (Aretusa deixa cair o copo d‘dgua. Era quase uma menina.Renato. Ruídos de bichos dentro dos seus ouvidos. agora chega. ele bebeu demais. pare! RENATO (Levantando-se da cadeira. Então os vermes estão comendo o senhor antes da morte? Que coisa mais bem feita! (Gritando.. Foi só isso. para torná-lo ainda mais indistinto. . mas permanece sentada.) Que maravilha! O senhor ainda nem morreu e já está cheio de bichos? Quero que apodreça. Renato sai. essa é a verdade. Berta me contou que nossa mãe morreu de desgosto. solta um grito incompreensível.) . ALICE — Renato.) Nem de nossa mãe o senhor gostava.) — Me contaram que o senhor anda escutando ruídos. Aretusa faz menção de levantar-se. o senhor sabe esquecer. Muitas pessoas comentavam isso. Naquela vez. não? Pois eu me lembro. porque o senhor não tinha coração. Para ela.) . cheio de ódio. mas desiste. Junto com o grito. Ela preferiu morrer. de solidão. Ele está doente.. Bruno levanta-se e coloca a mão no ombro do Professor. (O Professor começa a balançar a cabeça.) Berta me disse também que logo antes de morrer nossa mãe pediu que ela tomasse sempre conta de nós. Renato caminha pela sala e. ARETUSA (Gritando. ARETUSA — Ele bebeu demais. pode soar a gravação da risadinha infantil.

Aretusa? ARETUSA (Remota. que permanece sentada.) .) — E tem. E ótimo..) CENA 11 ALICE e ARETUSA MENINAS (As duas brincam. Você nunca viu no cinema? ALICE .BRUNO — Berta. Que é que tem? Depois põe a língua lá dentro. Aretusa? ARETUSA — Na boca. Venha. Os dois sobem lentamente a escada. mas vai. ALICE (Curiosa. claro. acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória.. ALICE — A língua? Não é meio nojento? ARETUSA (Rindo. Enquanto isso.) — Na boca.Café? ALICE — Então vamos até a cozinha. bem devagarinho. (Berta resmunga. sensuais e inocentes.) ALICE (Para Aretusa. É muito melhor. Na vida real é de verdade. mas no cinema é outra coisa.) . esfregando os braços como se tivesse frio.. (Alice vai-se curvando para ela. Lá deve ter café quente. tem gosto? . como se fosse abraçá-la.) — No cinema é fingido.Nojento nada.Sim. me ajude a levar o Professor para cima.) .Você não quer um café. amparando o Professor. ARETUSA (Maliciosa.) ALICE (Espantada.

É engraçado. deixa eu te mostrar. um dia.Saber pra que? Você nem tem namorado. mas sem brusquidão. Se eu contar.) . Vem cá. enquanto Aretusa acaricia os seios de Alice.. Aretusa está na janela.) . Alice.. ARETUSA — Não seja boba. (Beijam-se longamente. de costas para a platéia. ALICE (Indecisa. fumando e olhando para fora. ARETUSA . ARETUSA (Aproximando-se. Aretusa abraça-a.ARETUSA (Divertida. ora.) — Engraçado? Engraçado é o que vou te mostrar agora.) Feche os olhos.Mas posso ter. Uma santinha! ALICE . você é louca! Você. A cena se passa no presente. ALICE .) . ARETUSA (Rindo muito. ora. como você é inocente. meio tonta.. (Alice aproxima-se.. assim..) — Gosto? Você quer saber se tem gosto? Ah. ninguém acredita.) — Não sei bem.Como se beija.Eu queria saber como é.Mostrar o que? ARETUSA (Muito perto. gostou? ALICE (Confusa. Alice.) ALICE — Aretusa. solta o corpo. quer ver? (Levanta a saia. você pintou de louro! CENA 12 ALICE e ARETUSA No quarto. Acho que não é direito. ..Quer que eu te mostre? ALICE (Meio assustada. isso. Alice afasta-se.) — Não sei.) Então.

ARETUSA (De repente.. (Intrigada. quem sabe. Fico meio ansiosa quando não tem nada para fazer.O quê? ARETUSA — Nada.É que eu gosto de estar ocupada. ela se recupera. Nem parece domingo. ALICE — Pode ser. ALICE (Impressionada. mas age como se estivesse. ARETUSA (Irônica. fiquei abalada. O tempo.O céu está ficando cheio de nuvens escuras. Não sei. Vinho me dá um sono. E aquela cena com Renato.Você entendeu o que ele gritou naquela hora? . ARETUSA . não é? O tempo é remédio para tudo.) Vou me deitar um pouco.Não sei. Você acha que ela está melhorando.Coitado dele. Pelo menos é assim que estou me sentindo agora.Ou quase tudo. como Bruno disse? ARETUSA (Suspirando. Até tenho medo de começar a escutar o menino correndo por aí.) . ALICE . Depois.) — Alice. Acho que vai chover. ALICE — Que dia mais triste.) — Não diga bobagens.. Aretusa.) .ARETUSA . ALICE (Divertida. a formiguinha laboriosa. ALICE . (Cansada. para mim também. Deixei ela quase dormindo. Você está falando como uma velha. é tão estranho: ela não diz que Cristiano está vivo. Alice. ARETUSA — Pois para mim domingo sempre é triste. Faz apenas alguns meses que o menino morreu. mas disfarçando.) — Eu estou velha.) — Estive com Evelyn há pouco.Pensando bem. ALICE . ALICE . ARETUSA (Ambígua. Acho que tomei vinho demais na hora do almoço.) Sabe.

) — Deus? Por que Renato se lembraria de chamar logo por Ele? ARETUSA (Vaga. ALICE (Insistente. uma coisa assim. não devia? Mas não lembro. Acho estranho.) — Mas o que foi que ele gritou? Pode parecer esquisito. CENA 13 PROFESSOR. Renato observa tudo. estão o Professor e o Padre. Ele gritou: ―Deus!‖ ALICE (Intrigada. Você acha que ele chamou nossa mãe? ARETUSA (Segura. não sei de nada. aliás. ARETUSA . Tem bebido muito. é esquisito. Escondido. de problemas. fora isso não lembro nada daquele tempo.) — Não. mas tive a impressão que ele chamou nossa mãe. . tanta coisa. Ele chamou Deus. Aliás. Ouvi muito bem. porque já tinha uns cinco ou seis anos. ARETUSA — Ele bebeu demais. Por causa do velho. Fugiu da casa do vizinho. PADRE e RENA TO MENINO Nas últimas falas da cena anterior acendeu-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória Ao lado de um caixão de defunto.) — Ah.Renato.ARETUSA (Distraída.Ele quem? ALICE . Devia lembrar.) Você sabia da história do enterro da sua mãe? ALICE — Não. sei lá.Renato viu. Eu lembro que levaram nós três para a casa de um vizinho. Na janela. Você sabe melhor do que eu. ficou escondido e viu tudo. (Noutro tom. E nós não vimos nada.) . Seu irmão é cheio de complexos.

) .) .) Alma. mais forte sobre Renato escondido. No fundo de seu coração. PROFESSOR . mas severo. para si mesmo. PADRE (Paciente..) Não acredito nessa fantasia.) .A fé é problema de cada um..) — Nessa hora. PROFESSOR.Mas Professor. PADRE (Aponta o caixão. PADRE (Brando. Saia já.O senhor não tem dever de nada . (O Padre queria insistir mais.Ela está morta. E o senhor. o senhor disse alma? Encomendar a Deus? Deus? (Ri. só isso. PROFESSOR (Cortando.. PADRE .Mas a sua esposa. A gargalhada infantil corta a cena enquanto a luz acende sobre a próxima. Acabou.No fundo de meu coração não existe fé nenhuma. que só . Deus nunca entrou dentro desta casa! (Cobre o rosto com as mãos. Não aqui.) Deus. PROFESSOR O seu lugar é junto dos que acredita na religião. saia daqui.Preciso encomendar a Deus a alma desta nossa irmã. eu tenho o dever de. O Professor fala sozinho. Professor.) serve para consolar os fracos.. Deus nunca teve nada a ver comigo.O que é que o senhor está fazendo aqui? Não mandei chamar padre nenhum. PROFESSOR (Sarcástico. O Professor faz um gesto ameaçador e ele sai. não precisa chamar nenhum padre. A luz diminui sobre ele enquanto incide.PROFESSOR . Ele chora baixinho. O nosso lugar é perto dos que sofrem. por favor. Eu é que tenho o dever de expu1sá-lo daqui . PADRE ...

ARETUSA — Mamãe? Coitada. Evelyn? EVELYN (Embalando o Palhaço. Renato é aquilo que vocês sabem. ALICE — Ela era cheia de manias. (Suspirando. . Pelo menos assim saio um pouco. umas margaridas. Aretusa. (Rindo. bem. Tão inseguro. Carregava sempre um saco abarrotado de coisas. ALICE — Sabe. lembro sim. Já está com um ombro mais baixo que o outro. Acho até bom dar aulas. Lembra dela.A gente tem que se manter ocupada. de tanto fazer força. vejo outras pessoas. ALICE . lembra dele? Era tão sem graça. acho que enlouqueceria. está tão velha. Alice e Aretusa procuram distraí-la.) Sem falar na cozinha. Plantei umas roseiras.) E Renato. ALICE — Mas que tanto ela guarda lá dentro? ARETUSA — Ah. andei reformando aquele jardinzinho na frente de casa. (Mostra as mãos.) — A sua mãe? Lembro. ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn. Evelyn mantém os olhos fixos e o boneco nos braços. Ela não joga fora nada. ARETUSA — E não perdeu a mania.CENA 14 ALICE.) Olha só as minhas mãos como estão ásperas de tanto lidar na terra. Vai tudo para dentro daquele saco. Pois agora está ficando lindo. tudo. sei lá. E completamente caduca. ARETUSA — Se eu ficasse o dia todo em casa.

) — Aretusa. acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/ Memória. para Evelyn. ALICE (Animada. um ioiô ou um carrinho.. Talvez essa cena possa ser feita também junto ao tronco decepado da árvore.) — Está bem. enquanto finge estar absorvido com outro brinquedo — por exemplo. As três estão sentadas. EVELYN (Distraída. A parte. Você planta num dia e no dia seguinte já tem um verdinho brotando. Hes. ARETUSA . ALICE (De repente. Quando arrancarem o toco. ARETUSA. Renato observa disfarçadamente. EVELYN . (Para Evelyn.) Quando arrancarem aquele toco de álamo no pátio. você bem que podia fazer uns canteiros. Jardim é uma coisa tão linda. Já tenho alguma prática..Jardim de que? CENA 15 ALICE. na cena anterior.ARETUSA . ARETUSA (Sonhadora.) — Posso te ensinar como se faz. ALICE — É tão bom mexer na terra. brincando.. Jardim das Hespérides. EVELYN e RENATO MENINOS Enquanto elas falam.Mas o que é isso.. você lembra do Jardim das Hespérides? ARETUSA .Você vai gostar.Adoro jardins. Tem umas que crescem tão depressa.A vida brotando. plantar algumas flores. Depois ver as plantinhas crescerem. ALICE — Das Hespérides. Como é mesmo? .) .

Decerto bordavam também. Vamos brincar logo.) – Mas o que mais essas Hespérides aí faziam? ALICE .E uma fruta. EVELYN — Medusa não era aquela que tinha cabelo de cobrinha e matava as pessoas só de olhar para elas? ALICE (Exibida. Era muito má. E uma delas tinha o seu nome.) — Bom. No livro não explica direito. laranja. . Só diz que elas cuidavam dum jardim onde tinha uma árvore com pomos de ouro. Alice e Aretusa muito cúmplices.) — Então tá.Nada. ARETUSA . Assim que nem maçã.De dançar eu gosto. No colégio todo mundo me chama de Aretusa-Medusa.) EVELYN (Impaciente.. princesas. dançavam. ALICE (Meio irritada. não sei bem. ARETUSA . era a Árvore do Pecado.. (As três dão risadinhas e cochicham.) — Hes-pé-ri-des. Ah: tinha também um dragão de cem cabeças. Mais ou menos isso. aquela da cobra. acho que elas não faziam só isso. essa era outra. Ela olhava as pessoas e daí as pessoas se transformavam em pedra. Aretusa. ARETUSA (Querendo mudar de assunto.ALICE (Paciente e um pouco exibida. EVELYN — E que árvore era essa? Árvore do Paraíso? ARETUSA (Maliciosa. unindo as cabeças. Evelyn sem entender muito bem. Vai ver.Como? O que é isso? ALICE . fadas. Imagine. cantavam. Ainda mais com um dragão do lado. ficar o dia inteiro cuidando duma árvore. Eram umas bruxas.) — Não. ARETUSA . cuidavam do jardim com a árvore.) — Ela não matava as pessoas.Deus me livre! Eu tenho horror desse nome. EVELYN — Mas então devia ser muito chato.

ARETUSA .Você o quê? RENATO .) CENA 16 ALICE e ARETUSA . Eu sei o que ele pode ser. Juro.) — Deixa ele brincar. ALICE — Mas por quê.Mas eu acho que não quero brincar disso.ARETUSA . O dragão de cem cabeças. Aretusa? Você não gostou da história? ARETUSA — Da história.Você jura que não chama? EVELYN (Beijando os dedos em cruz. Senão me chamam de Aretusa-Medusa. gostei.) .) . RENATO (Animado. O que é que eu sou? ALICE . RENATO (Aproximando-se.) .Então está bem.) .Um guarda do castelo? Um pomo de ouro? ARETUSA (Rindo.Por esta luz que me alumia. (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor. Esta brincadeira é só de meninas.Eu? EVELYN (Agressiva. O que eu não quero é me chamar Aretusa.) — Não. ALICE — Ninguém chama. ARETUSA (Maliciosa.Não pode.) . Você tem que ser Aretusa. ARETUSA (Para Evelyn.Eu quero brincar também. E o álamo pode ser a árvore dos pomos de ouro.

Não ouvi nada. leves.Que passos.... . cuidado. uns passos.) — Claro. E você. Só pode ter sido Evelyn. um pouco nervosa.Pareciam uns. Alice ri. Você ainda não tem cinqüenta anos e já vai começar a caducar? (Ambas já estão completamente vestidas.) — Deve ter sido sua irmã.) ALICE (Misteriosa. em tom misterioso.) Alice. almoçando. fuma preguiçosamente.. por que é que você ainda usa esse penteado? Envelhece uns dez anos.) — E o que tem isso? Eu não me importo. ARETUSA — Bem.. ARETUSA (Implicante.) — Cuidado. você não ouviu alguém correndo aqui em cima. sabia? ALICE (Dando de ombros. mas Aretusa.) — Aretusa. Pareciam passos de criança.) — Uns passinhos.) Estou pronta. rápidos. Só pode ter sido ela.No quarto. (Crítica. não vai se vestir? ARETUSA — Calma. ALICE . logo depois que Renato deu aquele grito? ARETUSA . de combinação. calma. se quer parecer mais velha ainda. Alice? (Não parece impressionada e começa a vestir-se.. ALICE (De repente. As duas estão se preparando para o jantar. ARETUSA . Alice já está vestida e arruma os cabelos. ARETUSA (Dando de ombros. o problema é seu. ALICE (Disfarçando a perturbação. O resto da família estava lá em baixo. Alice. ALICE — Acho que estou pronta. já vou.

você não pode parar com isso? Já tem tanto problema aqui. em paz.) — Que bom que estamos todos juntos. Para você está sempre tudo bem.) — Aretusa. passando-se os pratos em silêncio e. Comem devagar. ARETUSA (Irônica. Berta ajuda o Professor a sentar-se. . ALICE (Sorridente. Amanhã de manhã já tenho que voltar. ao menos vamos comer em paz.) . em pé Tudo é lento.Então. Amanhã a gente vai. Mas se não fosse eu. a princípio. Pena que é por tão pouco tempo. Renato e Evelyn também sentam.Como não sabe? Eu tenho que dar aula amanhã à tarde. ARETUSA (Para Renato. ALICE (Irritada.. tudo bem..) — Tudo bem. mas com certa delicadeza. Claro. Enquanto Alice e Aretusa descem. ARETUSA (Irritada.) — Não se meta. Bruno. queria só ver se ficava tudo bem. quando vamos? RENATO (Distraído. vamos descer? (‗A risadinha gravada finaliza a cena. Alice. imitando. RENATO (Imperturbável. não sei. não é você quem se mexe. Berta coloca-se à parte. Evelyn tem o Palhaço no colo.) — E nós. Talvez meio ritualístico.) CENA 17 TODOS PRESENTES No final da cena anterior.) .) — Acho que amanhã também.Tudo bem. ARETUSA (Agressiva. a luz acendeu-se sobre a sala de jantar.

) O que? Você está contra mim? Mas Renato. Ele conhece a família que tem. acho bom você não se intrometer.) Não queira ser a palmatória do mundo.Nem ama ninguém. Senti na sua voz.ALICE (Agressiva.) — Eu? Logo eu.) .) Você não ama ninguém. (Mais alto. ARETUSA (Lenta e cruel. levantando cedo todos os dias — e apesar de tudo me sentindo feliz com essa vida. Como pode falar assim diante de papai? ARETUSA .) Isso mesmo: feliz.) — Alice.Você não sabe o que está falando. não tinha vontade de vir. já notou? ALICE . sempre cheirando a fritura. E seu pai aqui. Nunca amou.) — Ora. desde . banca a escrava deles. apodrecendo! Onde foi que você andou esse tempo todo.Seu pai conhece você há muito tempo.. Alice. não venha. que tenho dedicado aos outros a minha vida toda. Apenas aceitou porque pegava mal. Faz tudo por eles. Pegava mal você se desinteressar completamente. Nem o seu marido e os seus filhos você ama de verdade. Alice. hein? (Cada vez mais alto..) — Você não desconfia que sempre estraga os encontros da família? Não desconfia que está destruindo a vida de meu irmão? RENATO (De repente. Quantas vezes você o visitou nesses anos todos. esfolando as mãos.Eu não julgo ninguém. ALICE (Espantada. parando de comer. (Desafiadora. ALICE (Chocada. Você tem a obsessão de julgar os outros. Você. apenas porque tem medo da solidão. ARETUSA (Debochada..) . não venha se fazer de santa. esquecendo a aparência. Alice.) Sua irmã meio louca de dor e você por pouco nem vinha. A galinha choca dos filhos.. ALICE (Indignada. eu estou tentando defender você! ARETUSA (Cortante.

ARETUSA (Vulgar. decente? Decente. quem é você? Pensa que só porque teve outra educação. Enganou a todos. Mas recompõe-se... Ah. Ele só come a comida que eu mesma faço... como se fosse chorar. Você não tem direito! ALICE (Fora de si. não deixa aquilo. Aretusa? Não basta Corália? ARETUSA (Gritando. Você estragou a vida de Renato. Pois eu fiquei cinco. quantas vezes ficou à noite com ele. ALICE (Levantando-se e derrubando a cadeira.) — Você. que se transformou numa morta-viva por sua culpa.Pare de me acusar! Afinal. e é verdade. Alice? A doméstica.. Que ridículo! ALICE — Você tem inveja de mim. antigamente.. Tem inveja porque levo uma vida decente.) . é isso. logo você? Como é hipócrita! Já esqueceu o que você fazia comigo no quarto. (Imitando.) — E você. Agora quer outra vítima. hein? ALICE — Fiquei...) Você acabou também com aquela menina. Fiquei duas noites inteiras. com essa história de que só faço que ele quer. Inveja. ARETUSA (Irônica.) — Duas noites? Duas noites inteiras? Mas que sacrificada.. quinze noites.) O maridinho não quer isso. porque é independente e trabalha fora.) — Digo e repito quantas vezes eu quiser: Corália! Corália! ARETUSA (Cobre o rosto com as mãos. Até perdi a conta. E não foi só isso. (Lenta e cruel.. sim. até o marido.que se casou? E quando Cristiano estava no hospital. como gostava! . Corália. a patetinha. é melhor do que eu? Você uma vez me disse que destrói as coisas ao seu redor. Alice. mas bem que gostava.) — Não diga esse nome. esqueceu? Quando a gente ficava sozinha? A santinha esqueceu. dez.

Alice. atemorizada. Vocês não sabiam. Ninguém está. ALICE . (Evelyn recua.) Acha que é a única mulher do mundo a perder um filho? Cristiano está morto. (Evelyn encolhe-se.ALICE . porque não éramos mais crianças! (Aretusa levanta-se e sai de repente. Bruno a abraça protetoramente.Alice. assustada. Alice.O que a gente fazia. ALICE (Gritando. quer saber de uma coisa? Estou farta do seu teatro. (Olhando em volta. sim. começa a chorar. a boazinha. como se fosse tomá-lo..) .) BRUNO .) — Não chore. Todos olham para Alice que. você não está segura. agora tudo acabou. Evelyn! EVELYN (Para os outros.É a história mais ridícula do mundo. é uma ordinária. Alice? Até o nome dele guardei.) EVELYN (Passando a mão no braço de Alice.Pare com isso.) EVELYN .) Mas o que é que todos somos? (Lentamente. Você pensava que estaria segura na sua vidinha confortável enquanto os outro iam se desgraçando? Não.) E esse boneco nojento não vai substituí-lo. mas eu sabia. (Aponta para o Palhaço. Sei a história de Matias. a dona-de-casa . Alice. ALICE (Afastando brusca a mão de Evelyn) .Sei a história de Matias.. você mesma me contou.Cale-se! ARETUSA . parada. um por um. Sei de tudo. Evelyn aperta-o mais nos braços. Evelyn. Está vendo. EVELYN (Afastando Bruno.) — Tirem ela daqui! Ela está louca! (Ninguém se move. Convença-se: ele está morto. Não foi por mal.) — Acabou.) Sei de tudo. hein? Não vá me dizer agora que era brincadeirinha de criança. Pensa que Aretusa já revelou tudo? Ela é louca. tenha cuidado com o que fala.Evelyn. Alice.

Bruno sai atrás chamando. Renato bate ritmada e irritantemente com a faca no copo. esse amante.. Mas contém-se. é verdade. Boa-noite. (Sai. parados nos quatro cantos do palco.. Apanha . PROFESSOR (Batendo a bengala. Ela tem um amante! Isso mesmo: um amante. EVELYN (Desvencilhando-se. mas foge de casa e vai trepar com outro homem! BRUNO (Tentando abraçá-la.) RENATO — Evelyn está doente. ela me contou. sim. o que sente. Tudo isso. Berta parada. Matias. Aretusa Menina. Alice? Ou foi tudo invenção da sua cabeça? Faz diferença saber? (Levanta-se. a cada momento.se e ajuda-o nas escadas. Matias só existe na cabeça dela. mas é possível. Uma vergonha! (Gritando. Matias. e por um momento é como se fosse fazer um gesto em direção à Alice.) . onde há um caixão de defunto e. O Professor continua a comer como se nada tivesse acontecido.) — Berta. Acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. foi inventado..) — Você teve mesmo um amante. Vocês nem adivinham. Ela tem que se tratar. ALICE (Em voz baixa. Saem.) Ela tem um amante.) RENATO (Levanta-se inibido. (Berta aproxima.) -Mas o mais engraçado vocês ainda não sabem. fique calma. essa sujeira.) Sozinha na sala. E invenção dela. como era doce com ele.Evelyn. Pensam que não é possível. Alice hesita por uns momentos.) Cadela! (Sai correndo. por favor. Um amante que se chama Matias. Você teve um amante. depois senta-se. (Levanta-se e joga o Palhaço na cara de Alice. O que faz com ele. em lençóis alheios? Ah. Finge de santa. está na hora de subir. Alice. Evelyn Menina e Renato Menino.) — Eu vou dar uma volta. Alice Menina.. Alice? Você rolou com ele em leitos escusos. essa traição.honesta.

animais. mas acabei sendo Alice.) CENA 18 ALICE MENINA. ARETUSA MENINA. num terreno baldio.o Palhaço e senta-o no centro da mesa. fui para um proprietário menos exigente. Umas crianças solitárias. na moldura do espelho rachado que aceita essas imagens tão placidamente. a de mãos ásperas e coração agoniado. esquisitas. escorraçadas. o que eu fiz com a minha vida? O quê? . Uma gargalhada infantil corta a cena. sem olhar para trás. mas não deu certo. ARETUSA — Como feras. E a minha vida. Sai. Somos bichos de focinho sujo. EVELYN MENINA e RENATO MENINO A luz mantém-se ainda sobre o Palhaço. como se ocultasse no fundo coisas muito mais terríveis. Feras encurraladas nesta sala. E falam sem as características das suas personagens: são como fantasmas. a coitada. RENATO — Fomos uma ninhada de cachorrinhos que brincam juntos. sem se importar se o outro conseguiu escapar. no centro da mesa. menos violento — mas meu dono. mas logo são capazes de se dilacerar por um naco de carne. Berta tentou nos acolher no seu avental fedorento. E na hora do perigo correm cada um para o seu lado. enquanto eles falam. ALICE — Eu tinha outros planos para minha vida. Troquei de dono quando me casei. EVELYN — Crias sem mãe.

) . Só precisa de repouso agora.) — Pelo contrário.Não. BRUNO (Para Berta. ALICE (Para Renato. numa hora em que meu marido estiver de bom-humor. Ela não vai descer. está ótima. (Uma pausa. Chove muito. (Berta apanha uma bandeja com café e sai. que sorri sem levantar o rosto.Feliz. Passa a mão no cabelo de Renato.CENA 19 ALICE. Renato e Bruno. para Alice. Berta está parada atrás. Todos estão calmos e compostos. afetuosa. com cara de sono. vou pedir para colocarmos um .) . feliz por voltar para casa? ALICE (Tranqüila. Tudo bem.) — Você não ficou dolorido? Duas noites seguidas naquele sofá acabam com as costas de qualquer um. (Noutro tom.) ALICE (Para Bruno. Ela dormiu melhor essa noite. Alice olha devagar em volta. BERTA.) Sabe. tomando café.Evelyn não está bem? BRUNO (Sorridente. Aretusa. Aretusa desce a escada. ARETUSA (Acendendo um cigarro.) — Então. A chuva forte dá vontade de dormir. BRUNO.) — Berta. MARIDO e FILHO Na sala. ARETUSA. Todos sorriem e tomam seu café. RENATO. tudo bem. Manhã de segunda feira.) Você me alcança o açúcar? Alice alcança. de robe. Alice. Há uma toalha limpa sobre a mesa onde estão Alice. pode levar a bandeja para Evelyn. RENATO .

com/group/Viciados_em_Livros . O Marido e o Filho estão à mesa. num soco . acende-se a luz sobre a sala da casa de Alice. tornando café.google. o Professor no quarto. Porto Alegre.talvez com a gargalhada infantil. se acariciando. Berta recortando revistas. Ou fantasmas do passado que continuam a habitar a casa.Corália na cadeira de rodas. Dizem que dá impressão de mais espaço. (Em fevereiro de 1984. A luz apaga lentamente.com/group/digitalsource http://groups. calor de 40º.) http://groups. Nos outros planos. etc. Evelyn embalando o Palhaço.google. Passa o leite? Alice estende-lhe o bule de leite. As duas se olham longamente. São como quadros vivos. Renato Menino preparando a arma.) -. em resistência. exatamente como na primeira cena do primeiro ato. Ou de brusco. acendem-se luzes e sobre algumas das cenas já’ vistas .espelho grande na sala lá de casa. Alice e Aretusa adolescentes. O que é que você acha? ARETUSA (Sorridente. Em outro plano. Ninguém diz nada.