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Teatro Completo

Governador do Estado
Antonio Britto

Secretário da Cultura
Carlos Jorge Appel

Diretora do Instituto Estadual do Livro
Tania Franco Carvalhal

Conselho Editorial do IEL
Donaldo Schüler, Henry Saatkamp, La Masina, Luiz Antonio de Assis Brasil, Rita T. Schmidt, Sergio da Costa Franco, Sergio Faraco, Tania Franco Carvalhal (presidente, Secretária: Agata Pamplona

DEDALUS - Acervo - FFLCH-LE 21300123222

Outras obras do autor pela Editora Sulina Ovelhas Negras (1995) Inventário do Ir-remediável (1995) Pequenas Epifanias (1996)

Caio Fernando Abreu

Teatro Completo
Organização e prefácio: Luiz Arthur Nunes

Editora Sulina
Porto Alegre

1997

© 1997 by Abreu, Caio Fernando Capa: concepção e produção de Paria Comunicação Projeto gráfico: Bentancur Artes Gráficas Assessoramento de edição e revisão: Paulo Bentancur e Raimundo Fonteneie Editor: Luis Gomes CIP - BRASIL CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Bibliotecária responsável: Rosemarie Bianchessi dos Santos — CRB 10/797

C719a Abreu, Caio Fernando Teatro Completo / Abreu, Caio Fernando Porto Alegre : Sulina / IEL — Instituto Estadual do Livro, 1997. 224 p. : ±1. ISBN 85 205 0132—x CDU 070

Índices alfabéticos para catálogo sistemático 1. Teatro completo. Título Todosos direitos desta edição reservados a,,, ORGANIZAÇAO SULINA DE REPRESENTAÇOES S. A. Editora Sulina Rua Riachuelo, 1218 — 2° andar — 90010-273 Fone: (051) 228-1249 Fax: (051) 228-0734 E-mail: sulina@sulina.com.br Home Page: http://www.sulina.com.br Distribuidora Sulina Rua Cel. Genuíno, 290 — 90010-350 Fones: (051) 226-3866 — 226-3786 Fax: (051) 228-9146 Porto Alegre — RS

IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

ÍNDICE PREFÁCIO .................................................................. .7 PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA ............. 11 A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS ................................. 41 ZONA CONTAMINADA ............................................... 61 O HOMEM E A MANCHA ........................................... 95 CENAS AVULSAS ........................................................ 129 DIÁLOGO 1 ................................................................ 131 DIÁLOGO 2 ................................................................ 133 DIÁLOGO 3 ................................................................ 133 DIÁLOGO 4(0 Aborto) ................................................ 134 DIÁLOGO 5 ............................................................... 135 SARAUDAS9ÀS11 ....................................................... 137 1° QUADRO (Overture) .............................................. 139 2° QUADRO (Como Era Verde o Meu Vale) ................ 142 3° QUADRO (Bonecos Chineses) ................................ 144 4° QUADRO (Eles) ...................................................... 151 A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO .................................. 153 REUNIÃO DE FAMÍLIA ................................................ 181

cursávamos o CAD. num mergulho sem método. via tudo. o Curso de Arte Dramática da Faculdade de Filosofia da UFRGS. que a ficção que escreveu não foi apenas narrativa. No entanto. assim como também não concluiu o curso de Letras. as que ele compôs diretamente para o palco. conhecia todo mundo da classe teatral. é interessante a significação que teve o teatro infantil para este solteirão empedernido que detestava crianças (a quem costumava . Avesso à rigidez de programas.PREFÁCIO Caio Fernando Abreu é reconhecido como um dos ficcionistas mais brilhantes da literatura brasileira contemporânea. Caio era dos que estavam sempre junto. que se iniciava — assim como ele na literatura — na descoberta apaixonada de uma forma de expressão. o palco que ele tanto amava. a sua geração.. Não de imediato. O significado e a repercussão da parte conhecida de sua obra eclipsou essa segunda vertente. Não me refiro aqui às várias adaptações feitas para a cena a partir de suas histórias. nas salas de espetáculo. fazendo o papel de um vovó com uma barba branca de algodão. Lembro-me dele numa peça infantil da escola. Nos fins da década de 60 era apenas o amigo querido da nova geração de atores e diretores de Porto Alegre. teatro. Naquela época. épica: contos. teatro.. novelas e romances. Caio também cultivou a literatura dramática. Caio sempre adorou teatro. prazos e currículos. mas nem por isso menos alto e profundo. menor. Poucos sabem. nas salas de ensaio. Aliás. preferia passar pelas coisas como num vôo. porém. nas mesas de bar onde o assunto era teatro. porém. Não concluiria o curso. Não demorou muito e Caio tornou-se nosso colega. mas não menos importante. mas sim às peças de teatro. foi mais do que um espectador aficionado: tornou-se um homem de teatro.

ele foi autor de verdade de um texto para ―crionças‖. quando. foi retomado e ampliado dez anos depois para ser montado como um espetáculo completo. Via de regra. e com enorme sucesso. realização do Grupo de Teatro Província. no apartamento de Caio na Haddock Lobo em São Paulo. para quem a escrevera de encomenda. uma encomenda do Teatro Vivo de Irene Brietzke. Mas não para nós. principalmente quando sua algazarra atrapalhava seus preciosos momentos de criação). foi feita novamente em colaboração. dirigida por mim. A Comunidade do Arco-Iris. Como vêem. junto de Suzana Saldanha. voltara a morar em Porto Alegre. na casa do ator Carlos Moreno. Ele excursionou vários meses pelo Rio Grande do Sul atuando na montagem do Serafimfim-fim de Carlos Meceni. Caio e eu pisamos juntos o mesmo palco em 1976. Essa recriação. e nós os escrevemos a quatro mãos.. A peça era uma recriação do Chapeuzinho Vermelho. Mas podia acontecer . e Caio fazia justamente o papel do. já doente. embora bissexto. uma deliciosa e tocante performance de comicidade e lirismo.. A última vez que comprovei esse fato foi quando da leitura que ele fez de sua peça recém-concluída: O Homem e a Mancha. repetiu publicamente em duas ocasiões. Foram quatro dias de gargalhadas. Performance que. durante os feriados de carnaval. Algum tempo depois. redigíamos juntos: a frase que um inventava puxava a frase do outro. A Maldição do Vale Negro.. Caio foi autor. Tinha sido fácil nos esquetes do Sarau e continuou sendo na segunda versão da Maldição. estreada em Porto Alegre sob a direção de Suzana Saldanha. Então fomos parceiros não só ―nas tábuas‖. no espetáculo Sarau das 9 às 11. Essa leitura ficou-me na memória como uma. fiquei sabendo. como também ―de pena‖. E muito café e os milhares de cigarros que ele fumava. E bom ator.. Nara Keiserman e José de Abreu.chamar de ―crionças‖. Fabricar uma obra de arte a dois é em princípio algo dificílimo. autor da história recontada. O Sarau era uma peça de esquetes. latinhas de cerveja e pizzas por telefone. conheceu o palco por dentro. O último deles.

acabou fundindo-se à peça de minha autoria. Caio produziu cinco diálogos curtos. Todos esses diálogos de uma página ou menos. Seguramente logo após os anos que ele viveu em Londres. Só sei que a obra foi premiada num concurso do então SNT (Serviço Nacional de Teatro) e selecionada para leituras públicas em todo o Brasil. nos inícios dos 70. experiência que aparece transfigurada na peça. Graças à montagem carioca de A Maldição do Vale Negro. serviram-me também de excelente material de exercício em minhas aulas de teatro. a Censura Federal a interditou em todo o território nacional. Não saberia precisar a data em que foi escrita. A primeira investida independente de Caio na dramaturgia foi com Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Tamanha a minha ―obsessão‖ por esse texto.também de um escrever uma cena e do outro retocá-la. Uma outra dessas cenas avulsas. 1977. ―Fundiu-se‖ é a palavra. Love. montagem de 81. Zona Contaminada. uma pequena obra-prima. eu refiz repetidas vezes e de variadas formas em outros espetáculoscolagem. não fôssemos nós dramaturgos siameses. As obras teatrais de Caio Abreu s quais o meu nome não esteve de nenhuma forma associado (fora o caso de seus contos e novelas teatralizados) são a já citada Comunidade do Arco-Iris. e a admirável adaptação para a cena. O primeiro deles. Uma outra vez em que brincamos de teatro foi quando precisei de textos para um novo espetáculo de esquetes: deColagem. Que sintonia era essa? Era como brincar juntos. no Teatro de Arena. de Lya Luft. O Aborto. que Luciano Alabarse teve o privilégio . dividimos o Prêmio Moliére de melhor autor de 1988. Love. A de Porto Alegre. Interferíamos reciprocamente em nossas invenções sem nenhum constrangimento. que ele fez do romance Reunião de Família. que ele o dedicou a mim na abertura de seu livro de contos Morangos Mofados. o Diálogo do Companheiro. montada pela primeira vez no Rio de Janeiro por Gilberto Gavronski. Love. foi dirigida por mim e musicada pelo também saudoso Carlinhos Hartlieb. Pouco tempo depois.

Não faz um ano que Caio nos deixou. Ele sabia e dominava a diferença de gêneros. Na operação por que passou em suas mãos o livro de Lya Luft. O Homem e a Mancha. outro amigo seu do coração. mesmo inconfessados. 14 de novembro de 1996. ele nos disse: ―Façam logo para dar tempo de eu assistir‖.de encenar em Porto Alegre. Quando a recebemos de um Caio já debilitado. Luiz Arthur Nunes . coisas da vida. estamos a uma semana da estréia de O Homem e a Mancha. Curiosamente. Esse trabalho é a melhor comprovação de que Caio foi dramaturgo de fato e não um narrador por diletantismo pondo em diálogo suas histórias. Será no Theatro São Pedro. No momento em que ponho ponto final neste prefácio. Minha analista com certeza detectará algum ciúme meu vendo Caio fazer teatro com ―outros‖. o contar vira representar. Sua última peça. Porto Alegre. Afinal. Não há motivo para ciúmes. o Garoto Bombril não quis realizá-la. Certamente ele não vai perder. a narrativa vira cena. A parceria interrompida por um tempo já foi retomada. na maior parte da sua produção teatral eu estive presente. e ela terminou nas minhas mãos e nas do ator Marcos Breda. não assisti nenhuma dessas montagens. Por impedimentos normais. o épico vira dramático.

PODE SER QUE SEJA SÓ O LEITEIRO LÁ FORA Peça em 1 Ato Prêmio Serviço Nacional do Teatro Texto selecionado para leitura .

. enfim. lixo. atulhado de objetos fora de uso: colchões furados. CENÁRIO Sala de uma casa abandonada. Entre 20/30 anos. parece mais um quarto de despejo.PERSONAGENS JOÃO • LEO • BABY • MONA (CARLINHA BAIXO-ASTRAL) • ROSINHA • ALICE COOPER • ANGEL São todos muito jovens. guarda-roupas. cadeiras rasgadas. espelhos quebrados. e até mesmo objetos absurdos que ficam ao gosto do diretor. Na verdade.

Baby! BABY — Do fundo das trevas só o silêncio nos responde. A luz aumenta. JOÃO — Melhor. (Tira uma vela do bolso. Com . BABY . cara. Pode ter gente aí. a cena está completamente às escuras. onde é que você está? JOÃO — Aqui. Acho que podemos instalar aqui os nossos domínios.) — Mania de falar inglês. Quando você está no mundo. meu santo. JOÃO — Cala boca. vem cá.. Só uma porra no meio do caminho...Tinha uma porra no meio do caminho.. LEO — João. irmãos.) Merda! LEO — Que foi. tem alguém aí? BABY .. falando inglês as possibilidades de comunicação são muito maiores. Ei.Anybody here? LEO (Baixo. se tiver alguém morando a gente fica logo sabendo. Tem uma porrada de coisas. Acende e deposita em cima de um móvel. Tão lentamente que chegue a ficar monótono e angustiante.CENA 1 Quando a ação começa. No meio do caminho tinha uma porra. por exemplo. A lanterna pertence a João.) Aqui. cara? Que barulho é esse? Tem alguém aí? JOÃO — Não. Yeah! Everybody now: tinha uma porra no meio do caminho. (Esbarra num móvel. podemos colocar uma cortina de veludo cor de vinho.Língua internacional.. BABY . A luz de uma lanterna vai revelando alguns objetos. LEO — Fala baixo.

As coisas mais importantes da minha vida sempre aconteceram às dez pras sete. Depois. A gente ficar aqui. é claro. Por mim fico morando aqui o resto da vida. Qualquer jeito não temos mesmo para onde ir.. Assim poderemos fabricar nosso próprio ópio. muito vulgar. polícia. JOÃO (Acende outra vela e deposita sobre outro móvel.. João — Falar nisso. I like so much. Acho sonoro.) — Olha. Aqui no canto acho que ficará de extremo bom-gosto um aparador com tampo de mármore. rosas não. Importadas diretamente dos Países Baixos. o dono da casa. cara. Sei lá. tenho que chamar as outras pessoas. BABY — Basta chamar Mona e sua varinha de condão. cozinha com fogão. A gente pode dar um jeito. de manhã sempre acontece alguma coisa. Ou papoulas. Até nem tá muito estragado. Não. Melhor tulipas.Você acha que não vai ter problema? BABY — O que? Importar tulipas ou plantar papoulas? LEO — Não. BABY — Eu por mim fico aqui mesmo. eu acho que gente pode ficar pelo menos até amanhecer. vizinho. my fellow? LEO . E claro que teremos sempre flores. Estético. igual àquela que tinha na casa da tia Nenê. Já viu lá em cima? Tem três quartos. igual àquele que tinha na casa da vó Manca. Fico preocupado com a Rosinha naquela chuva. Que é que vocês acham? . LEO — E ainda por cima tem aquela chuva lá fora. JOÃO . essas coisas. What you think about. Rosas. Hmmmm. As dez pras sete. um monte de coisas. banheiro.franjas douradas. Tulipas da Antuérpia. LEO — Por que dez pras sete e não vinte pras oito? BABY — Porque eu gosto. Sempre acontece alguma coisa.E também pode não acontecer nada.

sei lá. tão sujo. eu vou lá fora chamar os outros. JOÃO . JOÃO — Deixa de ser besta. Leo. as pessoas tenham saído. LEO — Não sei. E se tiver alguém morando? BABY — Ué. amanhã pinta a polícia e manda a gente embora. LEO — Mas pode ser que.Bem..LEO . BABY — Olha. não. não é assim? Pelo menos a gente já tem onde dormir esta noite.. Leo rói as unhas e olha em volta lentamente. No máximo.. mas é diferente. não é? Tudo está bem quando termina bem. tão rebentado. Pode ser que voltam daqui a pouco. Parece um depósito de lixo. Leo concorda em silêncio. Não vai acontecer nada. Tudo tão velho. a gente chamou e ninguém se manifestou. um pouco assustado. Não tenha medo. tira uma vela do bolso. Fica com medo não. Não gosto nada disso. Baby começa a dedilhar o violão.... eu me sinto como se tivesse acabado. e nós não vamos viver? JOÃO — Sim.. Parece que nada mais vai ser bonito outra vez.Eu não sei. acende. Sabe. sei lá.) CENA 2 Silêncio. Você acha que alguém pode viver no meio deste lixo todo? BABY — Ué. Amanhã a gente arruma umas vassouras e. volto já. parece que tudo vai terminar bem.. cara se você der uma voltinha na cidade ou olhar pela janela vai ver que o depósito de lixo lá de fora é muito maior! . Leo. coloca ao lado das outras duas e senta num canto. Afinal. dá um jeito. (Sai.

.. Acabei de compor.. aí você vai ver que não está tão mal assim. meu santo. Ladies and gentlemen. um teto furado? BABY — Olha.. Baby. certeza eu não tenho mesmo de nada. Sem saber inglês você nunca vai subir na vida. Assim.dar o tal de look-around -.... é melhor do que ficar naquela chuva.. A gente dá o tal look-around e canta. Ei. LEO — Me diz uma coisa: você acredita nisso? Você tem certeza absoluta que acredita mesmo nisso? BABY ... Olha. RRRaimundo.mesmo furado.Que música mais doida.Eu não entendo nada de inglês..Quando a gente está se sentindo assim é só olhar em volta . um tostão faz de conta. um pobre cego mas com o olho bem aberto: uma canoa furada um barco sem fundo tudo é mundo e o céu é perto tudo é mundo e eu navego tudo é mundo e eu navego tudo é mundo. De onde foi que você tirou esse negócio? BABY — Da minha cuca. me entende? Agora basta um teto. Que sarro esta pronúncia. Thing like that.Nisso o quê? LEO — Nisso que você acaba de cantar. Um canto e um papo furado. Ninguém entende nada de nada e enquanto tudo cai eu canto por quase nada. Não tem importância. Amanhã não sei. Pode ser que. você acha que basta mesmo um papo furado.. my last song: Se Eu Me Chamasse Raimundo. Talvez eu seja muito louco mas basta um canto e um teto . quer ver? Eu quero mesmo muito pouco eu quase não quero nada de tão pouco que eu quero. vasto mundo e eu nem me chamo Raimundo. também. como é que se diz isso em inglês? LEO . quer saber duma coisa? E . Deixe ver. LEO . Sei lá. Eu sei de agora. Um vintém. BABY — Pois devia. fria lá de fora. If I Called Myself Raimundo. Nem sequer de que estou realmente vivo.. quero dizer.. ué.

Quando a gente aprofunda demais acaba caindo sabe onde? No inconsciente coletivo.melhor não aprofundar muito. distribuindo beijinhos. meu irmão. Vê. go home! / Más vibrações. só sentir. CENA 3 Entra Mona. Não aprofunda não.. sacou? Papo furado. depois entrega uma varinha para cada um. Rainha do Alto-Astral. não se usa mais. Não tá com nada. Já ouviu falar num cara chamado Jung? Mais ou menos isso.. BABY — Imagine como você não era antes. / Chegou Mona. uma vela acesa e duas varinhas de incenso na mão. Traz uma bolsa enorme. O tal de inconsciente coletivo.. MONA — Sabe com eu era antes? Um monstrinho de óculos cheio de problemas gênero ―será que vale a pena viver? — ninguém me .O quê? BABY — In-cons-ci-en-te co-le-ti-vo. / Forças do Baixo-Astral / fora daqui. não.. Leo. Hare Rama.. Hare Rama / Hare Rama. / Chegou Mona. Pensar já era. MONA — Corta! Lá vem você de novo com esse papo xaropento. go home! (Incensa um pouco a sala. Hare Rama / Rama Rama. inimiga do mal. Pensar acabou. você está com uma cara péssima! O que foi agora? Não está gostando do nosso novo lar? BABY — Não é nada. LEO . Me dá um cigarro. MONA — Hare krishna. / Más vibrações. Os arquétipos. Desde que parei de ler fiquei muito menos neurótica. Baby? Abaixo a razão e o pensamento! O negócio é só sentir. vê..) Pra espantar os maus fluídos. vê. não. Hare krishna / Krishna Krishna. Já não falei pra você que intelectualismo não é comigo. Nossa.

deixa ver. Agora chega.. E se você está querendo saber qual é a carta do Tarot que tem o número treze. Deve ter um .. para fechar o triangulo. Já vi coisa pior.Quer dizer então que a sua bed-trip continua a mesma? Puxa. ninguém me quer — o que vou fazer do meu futuro?‖ essas porcarias. sabe duma coisa que eu aprendi? O segredo do belo está aqui. renovação. sei lá. Na sua cuca. corta. você sempre acha tudo um lixo. Treze é morte mesmo. Sou Mona. me diz uma coisa: você olhou o número da casa? LEO — Eu olhei. é a morte. Corta essa. renascimento. transmutação. Baby. corta! (Acende mais uma varinha de incenso. Ah.ama.. tem também o cinqüenta e oito. Cinqüenta e oito? Cinqüenta e oito. não quero nem saber. eu sei... que papo é esse? MONA — É.) Mas deixa eu dar uma olhada no nosso novo lar. O número sempre diz como vai ser toda a transação da coisa. Mas Morte pode ter muitos sentidos. Mas o que tem isso? MONA — Como o que tem isso? Esotericamente é um dado importantíssimo. Ninguém me ama ou qualquer coisa do gênero. começo de outro. LEO — Mágico? Nem que eu fosse o Merlin conseguiria achar bonita essa merda toda. (Dá umas voltas enquanto Baby dedilha no violão. Se você souber olhar as coisas dum jeito mágico. dentro de você. (Depositando a vela ao lado das outras. MONA — Corta. LEO — Onde? Na lata de lixo? MONA . oh. quanto dá? BABY — Dá treze.) Três. Cinco mais oito. Olha. É cinqüenta e oito. fim de um ciclo. LEO . Além disso.. tudo fica mais bonito. a Rainha do Alto-Astral. Não necessariamente morte física ou espiritual mas. não. no seu olho que realmente vê.) Não tá mau.Ei.

O que é acerbos? MONA — Não sei.. (Observa Baby atentamente.. Escorpião.. muito irônico para Libra.O que foi? MONA (Tentando disfarçar.. você é que acredita nisso. O seu olho tem qualquer coisa de. Mudanças desfav. Decepções n& projetos. Remorsos. .) — ―Sofrimentos morais... Talvez Gêmeos... Claro.. não diga.. de Sagitário. qual é o seu signo? Não. Não vale a pena ficar se grilando à toa. Pois é....Ah..) Ah. BABY (Continua lendo.. o centauro com os pés na terra. muito calmo para Gêmeos.. MONA — Acredito.. Gêmeos ou Sagitário? MONA . a transmutação. Arrependimentos estéreis e acerbos‖. E por falar nisso. E essa transação do inconsciente coletivo. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah. Ações repreensíveis.) Aqui. deve ser Sagitário. mas não sei não. Querendo voar junto ao o satã. melhor esquecer essas coisas. Cinqüenta e oito. muito doce para Escorpião. quatro de espadas: ―Perigo eminente. Mas até onde não me enche a cuca de grilos idiotas. a trans. Deixa ver (Abre a bolsa e tira um livro enorme.. BABY — Ué. Pode deixar que eu adivinho. BABY — Libra. é? Deixa ver. Você é sarcástico demais para ser Libra.. esse fogo. quer dizer que é um dos quatro. não você não é tão inteligente assim. consulta-o. mas deve ser qualquer coisa bodiante.) Essa transação de música pode ser. Só pode ser Sagitário..) — Nada não. BABY . meu Deus. sim.. BABY — Qual é Mona? Escondendo a jogada? (Tomando-lhe o livro. Perigo por todas as partes. pode ser Libra. não tanto quanto um Escorpião.significado positivo.‖ MONA — Chega..

terremotos. MONA — Mas é fogo. minha reputação está em jogo. a quem não for mágico. ainda não.Mas escapar do quê.O que é que você está rindo.A-do-ro! MONA — Então é Sagitário mesmo! BABY . . BABY — Pode ser. fogo caindo dos céus — tudo de bodiento que você possa imaginar. Foi por isso que eu me confundi um pouco.Vai firme. é a primeira vez em toda a minha vida que erro. Afinal. Tanto Leão como Sagitário são signos do fogo. De vez em quando até solto umas fumacinhas pelo nariz. O quanto antes. MONA — Você gosta de vermelho? BABY . hein? Vocês precisam despertar o quanto antes o ser aquariano que dorme no fundo de vocês.BABY . o quanto antes — eu sei o que digo. você não tem? BABY . Sou Leão.Errou. MONA — O quê? Leão? Ah. Mas você deve pelo menos ter um ascendente em Sagitário.Não. meu Deus? MONA — Das inundações. claro. MONA . baixo-astral? Tomem muito cuidado vocês dois. Meu ascendente é Touro. não. sabia? Está na cara que você é fogo. não pode ser. maremotos. Vão acontecer coisas medonhas a quem não estiver desperto. LEO . Daqui a pouco vem o fim dos tempos e quem não for mágico não vai escapar. Tenho direito a uma pergunta? BABY .Tem certeza? MONA — Não. os seus poderes ocultos. meus irmãos.

. BABY — Apocalipse. eu sou. Para dizer a verdade. chutando. Baixo-Astral. Vinte com mais detalhes. Por que é que você não corta esse papo furado e vem me dar uma força aqui? (Leo e Mona começam a ajudar. eu sou eu sou amor da cabeça aos pés. parece que a tua vibração não está harmonizando com a minha. Rosinha. sete moradas da minha mente e a minha Kundalini já subiu no mínimo até o quinto chakra. Sei porque sou um espírito muito velho.) — Vade-retro. MONA — Baby. tive três encarnações no Tibet. Apocalipse é esse lixo todo aqui.Mas você não tem cara de mágico. MONA (Incensando a cara de Baby. recolha-se s suas trevas sagitarianas. (Canta.. Você está a fim de me irritar.. Vai ser difícil: tenho Vênus na décima primeira casa astral. como é que você sabe que eu sou Peixes? BABY (E começando a empurrar alguns objetos. não. por apenas dez cruzeiros. Estou em contato direto com forças paranormais. quando chegar o Apocalipse é que a gente vai ver. em Libra. meu amor. Cada consulta dá direito a um brinde: uma bola de cristal inteiramente grátis. Onde é que estão as pessoas? Alice. LEO . BABY — Passado. Pode agredir. Tudo com Madame Mona Yoiara. com essa cara você deve ser mesmo é Peixes: um bode só. presente e futuro.O que é que tem a Rosinha? . Nem de fogo. meu irmão. Papo furado.) — Chutando.. 3 sacerdotisa oriental. LEO — Ei. João. duas no Egito e uma em Atlantida — para falar só neste planeta.) MONA — A Rosinha não está nada bem. Eles foram comprar alguma coisa para comer. já abri as sete portas.) Ser eu sou.

tudo historinha. (Arrumam alguns colchões como sofas. deve estar cheia de más vibrações. desencarno de vez. Será que é fantasma? Essa casa é tão velha. Não tem mais essa de se sentir mal. Pode desamarrar o bode. MONA — Sem essa.MONA — Gravidez. Ou então venho homem. ) MONA — Que é isso. cara? Mulher é isso aí. na próxima vou para o espaço. (Ajeita o vaso num canto.) (Entra Rosinha. Ela geme sempre. Você não gosta? .Sou eu.. Devem ser só as pessoas chegando.) Você acha que aqui fica bem? LEO — Silêncio! Vocês também ouviram? Tem alguém lá fora. (Baby sai para ajudar João. A Rosinha está passando mal. Um bode. Mona corre a acender mais ama varinha de incenso. Mutante da Era de Aquário. é você? JOÃO (0ff) . Você sabe muito bem que eu sou andrógina.. tenho certeza que é a polícia! BABY — Historinha. Acho que estou pagando todo o meu Karma nesta encarnação. historinha. Me ajuda aqui. amparada por Baby e João.) Olhem só que bom presságio: flores! LEO . João. não é. Baby. BABY — Claro que você prefere a segunda hipótese. Inconsciente coletivo outra vez. LEO — É a polícia. MONA — Ai. Se caprichar nesta. meus guias do Oriente.De plástico. menina? Está tudo bem agora. MONA — No escuro ninguém nota. Olhe só em volta: já temos uma casa. Mona remexe no meio de algumas coisas e encontra um vaso com flores.

Vamos transformar isso aqui num castelo. JOÃO — Ficou bonito. ROSINHA — João. (Vai retirando coisas de dentro de um baú). não apareceu ninguém? LEO . Puxa. JOÃO . LEO — De plástico. Baby. Vamos fazer uma festa enquanto o dia não . (Começam a cobrir tudo com panos. não consigo nem olhar para fora de mim. qual é a de vocês. MONA — Está maravilhoso. purpurina.Foi a Rosinha. Mas não tem nada. LEO . tive uma idéia maravilhosa.Ainda não. Lá fora estava chovendo. tá sabendo? Me re-ne-go. Aqui está bom. pessoal. fica aqui comigo. BABY — Não apareceu nem vai aparecer.. Eu. Na minha bolsa tenho batom. Me dá tua mão. Nós até tentamos arrumar um pouco isso aqui.. Sinto uma dor horrível aqui. Daqui a pouco eu fico boa. Já está quase parecendo uma casa.ROSINHA — Ah.. também.) Meu Deus.exceto Baby.. parece que tem coisas incríveis... Já que a gente vai ficar aqui a noite toda e ninguém vai dormir. podemos fazer uma coisa ótimo uma festa à fantasia! O que é que vocês acham? (Ninguém parece muito entusiasmado . MONA — Baixo-astral. Como é.) Olha. Já vai passar. quentinho. vejam só o que eu achei: um monte de roupas. Tenho certeza que vou encontrar coisas ainda mais maravilhosas. MONA — Ei. sem dizer nada? Eu me renego a curtir bode. sombra. Mona. fazia frio. claro. me ajuda a cobrir esses colchões. hein? Vão ficar a noite toda com essas caras de velório. não sei. JOÃO — Alice foi batalhar pão. Tem até flores.Você demorou tanto.

uma vez o feiticeiro da tribo fez uma tatuagem no seu .) — Tem sim.) Um ser todo feito de luz entrou no seu corpo e plantou essa semente em seu ventre. A cada dia você sente que chega mais perto o momento em que o seu ventre explodirá.. Batom. jogando para fora toda essa luz.. MONA — Pois eu sei. da hipocrisia. menina.) Pronto: aqui está a manjedoura. incendiava.) Você assaltava navios armados até os dentes..) Levante um pouco a cabeça. Olhe por cima de todo mundo. eu não sei. Então nós todos estaremos salvos. Mona. MONA (Começando a vestir Rosinha. quando Alice chegar.sabe o que você fazia. Pode crer. senhora. ROSINHA — Ah... Eles adoravam você. todo esse amor. do medo.. eu não tenho jeito pra essas coisas. da violência.. Pode ser loucura minha. Isso aqui é o seu manto virginal. Um pouco de ruge.. da sujeira. (Começa a vesti-lo. Você... Assim. Já pensou? O seu filho pode ser até o próprio Cristo da Era de Aquário? Você precisa corresponder à nobreza do seu futuro filho... (Acende uma varinha de incenso e vai incensando Rosinha enquanto fala. Deste então você sabe que no seu interior está crescendo a única coisa capaz de salvar o mundo da loucura.. deixa ver. o que é que você quer ser? JOÃO — Ser? Eu. Uma pirata bom.. oferecendo o maior visual. mas sempre acho que você grávida assim parece a Virgem Maria. você está muito pálida. Agora você. violava todas as mulheres.chega? Já pensou.. para bem longe. das máquinas. Um pirata. Ela adora visual. Sabe que é assim que eu vejo você? às vezes até penso que você deve mesmo ter sido um pirata numa outra encarnação. encontrar todo mundo colorido. João? Você distribuía todo o ouro roubado entre os pretos de uma aldeia na costa de Madagascar. numa boa. João. do desamor. Você foi tocada por forças mágicas enquanto dormia. Agora faça um ar de. (Coloca um cesto de palha aos pés de Rosinha. roubava todo o ouro e depois . matava aqueles fidalgos gordos cobertos de seda. (Afasta-se para olhar. Rosinha tenta sorrir. de absoluta pureza.

só nesse dia todos vão saber que você sempre foi um príncipe. Leo. (Vai desenhando com batom no peito de João.) Um círculo mágico fechou todo o seu corpo. ROSINHA — Mas por quê. e você está esperando esse reino. Você só poderia ser morto no dia em que esse pedacinho do seu peito fosse atingido.. . Leo? Mona inventa estórias tão bonitas. E assim ainda não aconteceu.peito. porque você não pode se mostrar como realmente é. E você.Eu quero ser um príncipe. Só nesse dia você mostrará o seu verdadeiro rosto dourado e tocará seu alaúde para que todos fiquem contentes e sintam amor. sempre com vontade de voltar para o mar. que ninguém o entende. MONA — Eu sei. LEO — Mona inventa estórias. Você está sempre esperando o reino que prometeram. você atravessou os séculos e continua sendo aquele mesmo pirata. o ritual durou sete luas novas. de paz e amor. (Começa a vesti-lo. Alguém lhe prometeu um reino certa vez. Você anda sempre disfarçado. Eu não quero ouvir estórias. um reino de paz e amor. esse. elas não sabem que você é um príncipe..) Você vive num castelo sobre a montanha mais alta e mais escarpada. menos esse círculo. LEO . um pirata um pouco perdido no meio das cidades. As vezes você desce a montanha e vai até a vila e tenta conversar com as pessoas. isso é tudo. MONA — Você é um príncipe... quando o encantamento quebrar e o seu reino for revelado. Eu sou Leo. Mas você se sente sozinho no meio deles. Do que é que você quer se fantasiar? LEO — Eu não quero me fantasiar. você ainda está vivo. signo Peixes.Eu sou Leo. Então você tem sempre a sensação que ninguém o conhece. Só nesse dia. BABY . Mas um príncipe solitário.

LEO — Eu não consigo. Isso aqui é uma casa abandonada. não somos mágicos nem encantados. uma nuvem. procure sentir amor. meio loucos e sem ter sequer onde dormir. Olho em volta e acho tudo nojento. cheia de lixo. Sei lá. Eu não posso fingir que viver é uma coisa boa. esse que o seu olho sujo vê. não é um castelo: nós somos uns coitados mortos de fome. Voe. MONA — Faz de conta. A sua cuca é que é feia. um pássaro. Imagine. O que acontece é que você ainda não aprendeu a olhar. porque você acha que as coisas só tem um lado. Eu não posso fingir que este lugar é bonito. um rio. Eu não quero fingir. a mente pode te alimentar com flores. Tudo isso está dentro de você. uma árvore. Aqui.Você não é. Pelo menos sorria. que nós somos mágicos e encantados. Você é exatamente igual a esses cinzentos todos que estão lá fora. O que é que você quer que eu faça? MONA (Mansa. Só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas.) — Tente.. Porque você não consegue ver além do chão. nada é maravilhoso. Se a realidade te alimenta com merda. Eu não posso fingir que isso aqui é um castelo. E vou lhe dizer porque.João não é um pirata. A gente só consegue ver o que está dentro da gente. O seu olho daqui é que transforma tudo. E você só consegue ver o sujo. Nada é horrível. O seu jeito de olhar.. Olhe pra mim: faz mais de uma semana que não tomo banho . Sonhe. LEO — Eu já não tenho mais idade para fazer de conta. na sua mente. Você acha que isso é mau? LEO . na sua cuca. tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto. Invente. Eu não estou fazendo nada de errado. MONA . meu irmão.Mas eu não posso fingir que não estou com fome. Baby não é um príncipe. suja e doente. o feio e o doente das coisas. Rosinha não é a Virgem Maria.

. paz. Mas eu pergunto: e quem é que vai lavar os pratos. Para mim. não ter nada. você vai me amar muito. Olhe a minha boca: um lixo... Vamos ter girassóis no terraço. Paz e amor. não é? Pois para mim baixo-astral é o banheiro imundo. Eu estou cansado desse seu esoterismo de bolso. depois. Eu já sei: é baixo-astral pensar nessas coisas.) Se você vem e me diz: agora nós vamos viver juntos e ser felizes para sempre. Não suporto mais não ter banheiro.nem faço a barba.. o mundo é uma grande lata de lixo e nós somos apenas as moscas esvoaçando sobre essa merda toda. a fome. Faz quinze dias que uso mesmas meias. quem vai limpar a privada? Quem vai batalhar a maldita grana? Ou vamos estar tão ocupados em nos amar profundamente que não teremos de pensar nessas coisas? Não. Mona hesita um pouco. LEO — É mentira! Você me beija porque os outros estão olhando. passarinhos na varanda. E isso eu não tenho.. não ter casa. Faz dois meses que quebrei um dente e não tenho dinheiro para ir ao dentista. a pobreza. Eu não acredito em você. grudadas nos meus pés. paz e amor não são coisa nenhuma quando o que cerca você é lixo. . Tudo bem.. Eu vou te amar muito. amor e o caralho: você seria capaz de esquecer toda a sujeira do meu corpo e me dar um beijo? Silêncio. beija-o. vinhos e queijos todas as noites. porque ficaria muito feio para você não me beijar agora. almofadas macias. Olhe bem pra mim e me diga: você acha que alguém seria capaz de me amar com esta roupa imunda. Amor para mim inclui lençóis limpos. Eu não posso sorrir mais. baixo-astral é o lixo. quem vai varrer o chão. Elas já estão pegajosas. Não suporto mais o meu próprio cheiro. banho tomado e barriga cheia. dessas suas normas de bem viver à la Seleções do Reader‘s Digest. (Irônico. com esta boca podre? Você. você mesma que fala de espírito. Nenhum de nós tem. porque você acha que isso é bonito. não diga nada. meu anjo.

Vejam só: (abre a bolsa e joga vários pães para cima. chá. chá. chá. miçangas — ah! meu negócio é ofuscar meu negócio é rebrilhar meu negócio é cintilar. estoy veniendo de la Argentina para el Peru. BABY. chá eu sou Alice dos mil plás eu sou Alice dos boás eu sou Alice superstar! Cruz credo. E se ela falou. tá falado. você nunca foi tão bem-vindo em toda a sua vida! Imagine que estas pessoas ainda estão discutindo o tal de Inconsciente Coletivo.) ALICE (Cantando.talvez Killer .) E trouxe também um hóspede.Alice Cooper.Não é umas gracinha? Tem vinte aninhos e é Capricórnio. Chá.) ANGEL — Buenas noches para todos. Falou a Rainha do Alto Astral. ALICE . Leo apanha um e começa a comer vorazmente. que loucura é essa people? Quem é que estava berrando feito louco aqui dentro? Estão currando alguém. é? Se estiverem digam logo: quero participar. Capricórnio combina com Escorpião. Yo soy Angel.CENA 4 (Um rock pesadíssimo de Alice Cooper . Angelito? Nós nos complementamos. lules. minha bruxinha tropical? MONA — Só combina. Pois enquanto vocês ficam aqui de bobeira eu descolo coisas incríveis. Água e terra sempre se completam. chá.irrompe logo após as últimas palavras de Leo e serve como música a entrar de Alice Cooper. (Entra Angel com uma mochila nas costas. purpurina e tafetá brocado. Estoy encantado en conocerlos. muita seda e muito strass veludo. ALICE — Viu só. ALICE — Inconsciente coletivo — eu hein? Pra mim é piraçâo. E um rapaz muito maquiado e vestido de maneira ostensivamente andrógina. .) — Cetim.

Tenía trajes de chico. ALICE — Espera aí. bien.. a barra mais bissexual da paróquia. sabés? Estoy muy. seforita. No eres Carlinha Bajo-Astral? MONA — Quem? Carlinha Baixo-Astral? Muito antes pelo contrário. ALICE — Será que ele descobriu sua identidade secreta. chiquito eu sou Mona. é? Forças! Esta daqui é Mona a Rainha do Alto-Astral. Além disso. detesto a cor negra e tenho horror de violência. una barra un poquito pesada demás. pero era. esta chica no puede ser Carlinha es demasiado simpática. muy extravagante.. y le gustaba la violencia. no conozco Cochabamba. Está se vendo que ele não me conhece. como decir? muy peligrosa. ei mismo pelo. MONA — Gracias. . Angelito. sem essa.. ANGEL (Intrigado.) . A ia noche todos nosotros temíamos encontraria por las calies. pero creo que te conozco de otro sítio.. siempre de la color negra. He viajado mucho todo ei dia... muy fatigado. Bien. MONA — Pois eu me visto de mulher. minha pitonisa dos pampas? MONA — Nem morta.Como sabés que Carlinha vivia en Cochabamba? ALICE — Ah.) — Perdón.. Ei mismo tipo físico.ANGEL (Prestando atenção em Mona. vai ficar obsessivo agora. carifio. altíssimo Astral! ANGEL — Pero yo podria jurar por mi perra madre que eres Carlinha BajoAstral. Tenia exactamente mismo tipo físico desta otra. ANGEL — Encantado en conocerlos. como é que era essa tal Carlinha Baixo-Astral? ANGEL . e eu sou Alice Cooper. Anjo.Bueno. la misma. sí puede ser que yo estea equivocado.. era una chica muy. No. minha fadinha underground? A sua face oculta.

BABY (Fingindo afetação) — Você acha mesmo. João.Mona me diz que sou a Virgem da Era de Aquário. . muito proleta pro meu gabarito. você sabe que sempre tive uma tesão secreta por você? Que pena você ser tão limitado sexualmente.) Você também tá uma gracinha. (Para Rosinha. meu amor. ALICE (Superior. Depois a gente passa o chapéu e levanta a grana. o que e que você acha da gente fazer um som na praça. Todo mundo colorido. maquiado. achei que era melhor fazer uma festa à fantasia. De feia basta aquela cidade lá fora. Quem foi que teve essa idéia maravilhosa? MONA — Fui eu. creo que tengo la fantasia ideal para usted. bem? Ei. ALICE — Cruzes.. Meu som vai ser é no Carnegie Hail.) Little Rose. (Para Baby. tira a roupa. tá sabendo? Meu Deus. Inconsciente Coletivo.. meu santo. que coisa mais macha! João. parece uma festa. A gente podia escandalizar o mundo com nossas lascívias. aplaudindo e dando força.. MONA — Carifio.. Dou a maior força. O negócio é pesar a barra. dança rumba. Você tá uma verdadeira glória. não é? ALICE — Pode crer.) .ALICE — Mas que loucura é essa? Agora que estou reparando. Fique sabendo que sou gente fina demais pra cantar numa mísera praça. Rosinha. minha nega. Já que a gente vai mesmo ficar aqui a noite toda. Descaralhar. Alice. chocante.Eu bem? Tá pensando que eu sou o que? Muito vulgar. você tem sorte honey. mas se você rastejar a meus pés sou até capaz de cantar uma dessas suas musiquinhas subdesenvolvidas. um milhão de sorrys mas acho que você nem precisa mais de remédio. tango. Mona. Inconsciente Coletivo. com Mick Jagger no coro e Ney Matogrosso no platéia. não encontrei nenhuma farmácia aberta. é? Chocante. Misticismo não tá com nada. se masturba. ROSINHA . quer dizer que você continua curtindo essa de meninos de Deus. faz o que você quiser. domingo? Eu toco e você canta.

ANGEL . MONA . tirar a mochilinha. mas respeito. Só quero que você me respeite também. Alice? Botando o escorpião pra funcionar é? Até parece que você não me conhece. Quero voar. Jogue a sua energia sexual pra onde você quiser — desde que não seja pra cima do meu angelito.) Isso vale para todos vocês também.. MONA (Ofendida. BABY (Tirando um acorde do violão. não vai jogar uns panos por cima dessa caretice horrorosa? . Além disso. botar as asinhas a camisolinha e tudo. pra cuca. entendeu bem? (Para os outros. meu espanhol é um lixo.Que ótimo. tá legal? Segundo: você pode fantasiar ele à vontade. meu bem. Leo.. MONA — Além do mais. um momento! Adoro você. Não sei se fui suficientemente explícito.Acho bom. Você não quer tirar essa mochila? Senão vai ficar um anjo meio corcunda de Notre Dame. respeito toda essa sua transação de astral e tudo — acho que não tá com nada. E você. Espera aí que eu ajudo. só estou fantasiando o menino.) — Tá legal. ALICE (Interferindo e arrancando-lhe a mochila.) Eu sou assexuada. Então vamos deixar algumas coisas bem claras. yo entiendo todo.) — Queridíssima. você sabe muitíssimo bem que mando todas as minhas energias sexuais pra cima. você sabe.) — Cris-ta-li-no como sempre. tá legal. ALICE (Entediado. ALICE (Seco.) . tá? Primeiro: esse menino que aqui vês foi caçado por mim e vai ficar é comigo.Que hermoso! Pero puedes hablar portugues. suas piranhas enrustidas. dou a maior força. (Conciliadora.) — Qual é. Mas não se esqueça que ele vai ficar é comigo.

Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo .Não sei. filhinho. let it be.Tem nada. Uma vez um careta. fica todo mundo em silêncio. acho que sou apenas um fenômeno contemporâneo. Quando entro num lugar. senão ninguém vai te olhar nunca. ALICE .deixe o vento soprar. viril e agreste (Suspirando.rude.LEO (Seco. fique pelo menos com o gostinho de ter brilhado um pouco. mãos cheias de calos . Eu respondi: — Sei lá queridinho. Blusão de couro. Tenho certeza que ele ficou encucado uns três dias. Você não acha que tudo ficaria mais bonito se as pessoas jogassem uns panos e umas cores por cima? LEO — Eu acho que tem coisa mais importante que isso. Pelo menos faço eles pensar um pouco. Tratamento de choque. cara. Curte. meu filho. ALICE (Espantado. cara? Forças! Colorido fica tudo muito mais bonito! Sabe uma coisa que eu descobri depois de muita porrada? As pessoas têm a obrigação de oferecer. Angelical demais pro meu gosto. no mínimo. jeans manchados de graxa. Ora vê se pode.) — Não. Como é mesmo aquela frase do seu Tarot? Mona? .) — E por que não. meu amor. pra mim a vida é um punhado de lantejoulas e purpurina que o vento sopra. Existe coisa melhor do que você curtir seu próprio material? Eu me curto adoidado. veio me perguntar se eu era homem ou mulher.) Forças! Prefiro ele de mochila e calça Lee mesmo. te dou um conselho Alice Cooper sabe o que diz: você tem que ser maravilhoso. depois de me olhar milênios. se aproxima um pouco mais de meu ideal. olhando pra mim. meu amor. Sou uma força para todos esses urbanóides. um certo visual. botas. na maior perplexidade. MONA . curta adoidado! Sabe. muita corrente. Pra falar a verdade meu gênero mesmo são aqueles motoqueiros da pesada. Olha. Mas que se há de fazer? Deus também não é perfeito. se faz muito meu gênero.

Custa muito barato lá. Estou cansada. enquanto ela serve. eu acho que você não precisa de fantasia nenhuma. si.) — É.MONA . No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato‖.Qual? ALICE — ―El contentamento nel poco abre las puertas de lo mucho. Falou. você não vai me vestir? MONA (Depois de olhar bem para Alice. que deve passar de mão em mão como na cerimônia japonesa do chá..) – Adivinhe. acabo de ter uma idéia sensacional: cada um que beber faz um pedido em voz alta.) — É. Existe apenas um copo . (Para Angel. Primeiro nosso hóspede: Angel. Mona canta. Mona? MONA (Misteriosa. Quem precisa. tira uma garrafa térmica. (Para Mona. todos sentam em semicírculo. Chá de ervas orientais. Nós não precisamos.) Pero si te gusta. ROSINHA . Me encantam todas estas cosas celestiales. tira o que precisa quem não precisa bota lá de novo.) ―No Nepal tudo é barato No Nepal tudo é muito barato No Nepal existe uma praça bem redonda e cheia de dinheiro. Todo dia sete de cada mês uma fadinha boa traz um pacotinho do Nepal. . ANGEL — Si.a tampa da garrafa térmica. a mi me gusta mucho. ALICE — Coisas celestiais eu vou te mostrar daqui a pouco. para mi está muy bien. Nós já oferecemos visual sem necessidade de panos. É isso aí.. Você também não precisa. MONA (Pensativa. (Remexe na bolsa. Enquanto dura a ação.) Tenho uma garrafa térmica na minha bolsa.) E eu.Chá de quê.) ALICE — Ei. Angelito. Vocês querem um chá? (Exclamações entusiásticas. Mona.) — Pensando bem. (Zé Rodrix: Som imaginário. ALICE (Olhando bem para Mona.

) — Bonitas? LEO (Com um suspiro. LEO (Hesitando.) — Eu agora quero ver as coisas mais bonitas que o meu olho nem sempre quer ver As coisas mais bonitas e mais incríveis que o meu olho nem sempre quer ver.. longe desta civilização. no campo não. Y quiero tanbién que sea todo muy hermoso.) — Eu. Onde eu possa tocar minha viola e ter minhas coisas.. eu acho que eu queria conseguir ver as coisas um pouco mais. ROSINHA (Gemendo. ROSINHA — Mas é só o que eu quero agora Alice. MONA (Tentando ajudar. ALICE .) — ―Eu quero uma casa no campo‖.ANGEL (Bebendo. Na beira do mar.. las yerbas mágicas y las vibraciones de Macchu-Picchu. Bonitas. MONA — Eu só quero uma coisa: que baixe um disco-voador e me leve para longe desta mesma ci-vi-li-za-çâo de pessoas cinzentas. (Bebe. . Las llamas blanquitas.Eu quero ir para Nova Jorque. Não. construir uma casinha de madeira branca e ficar morando lá..) — Eu só queria parar de sentir esta dor. ALICE — Que desejo mais besta. BABY — Eu? Eu quero um canto pra mim. pescando e plantando..) CENA 5 BABY (Cantando..) — Yo quiero solo llegar a Peru... João? JOÃO (Cantarola. E você. Little Rose.) — É. virar o maior mito pop do século e morrer no auge da fama da juventude e da beleza nos braços de um motoqueiro.

com essa roupa de .) JOÃO — Você vem comigo..O campo. a terra. onde a gente possa ser inteiro. essa ansiedade nas pessoas. Eu não suporto mais a cidade. assistir televisão. menina? Você está tão bonita. a partir de agora. Nunca te vi tão bonita como agora. Rosinha? ROSINHA — Pra onde.Quem nunca andou no fio da navalha não sabe o que é rasgar a própria mortalha. João? JOÃO (Sorrindo. (Voltam todos a seus lugares — o autor acha importante esclarecer que. dos gerânios. claro que vou. BABY — Quem nunca dançou não vai poder dançar agora.. Lamento dizer. As vezes eu acho que vou enlouquecer no meio de toda essa correria. Quem nunca voou além do cascalho quando olha no espelho só vê um espantalho. Mas agora. cuidando dos jardins. assistir televisão no seu fuscão. Sabe. BABY . Será que eu vou morrer. sonhador. de todo esse barulho. Rosinha. João? JOÃO (Lentamente. eu fico imaginando você fazendo pão. Tem essa dor cravada aqui.TODOS — Colorido-colorido atrás da vidraça colorido-colorido no fio da fumaça colorido-colorido no fundo da taça. nada mais tem explicação. agora eu não posso. João. TODOS — Colorido-colorido no banco da praça colorido-colorido não transo cachaça. senhor e senhora se você não decolou talvez seja melhor que vá embora. Você gosta tanto de gerânios. dentro de mim. TODOS — Talvez seja melhor que vá embora talvez seja melhor que vá embora no seu fuscão.) .) — Morrer? Que idéia é essa. tirando leite. um lugar perto domar. ROSINHA — Eu vou com você. longe da cidade.

vinte e sete — não importa. interrompe. Vamos. Porque é que você não vai de uma vez? O que é que você está esperando? O que é que você está fazendo para realizar o seu sonho? ALICE (Interrompendo. O seu cabelo já começou a cair. os seus dentes estão ficando estragados. Na cidade as coisas são feias porque é tudo mentira. Tem outra peça lá em cima? JOÃO — Tem três quartos. Você já não é tão jovem. A mesma coisa. João. tudo vai ser verdade.) -Já ouvi esse papo antes.) — Pois eu vou realizar o meu sonho agora mesmo. Sempre. Lá. Fico te vendo exatamente assim como você está agora na beira do mar caminhando na grama cuidando dos gerânios. Angelito? . o campo. E um dia tudo não vai ter passado de um sonho. o que a gente diz. LEO (Irônico. Faz cinco anos que você fala a mesma coisa. O seu corpo vai-se decompor lentamente e você vai criar barriga e acreditar cada vez menos em todas as coisas. o mar. a volta à natureza. O campo. vinte e seis. Um só basta. sendo verdadeira. inútil. Faz cinco anos que eu conheço você. O que a gente faz. ROSINHA . Um dia você vai lembrar de tudo e pensar com tristeza: ―loucuras da juventude‖. E todo esse tempo dç agora não será mais que um longo tempo perdido. Ornar.Pega na minha mão. Não güento mais a caretice desse cara. Não falta muito pra você ter trinta anos. João. As coisas vão ficar cada vez mais duras. jogado fora. Eu já não sou tão jovem. Quanto mais você ficar aqui. você já não acredita tanto nas pessoas. a terra. mais envolvido com a cidade. a natureza — vão ficar cada vez mais distantes. mais poluído você fica. ALICE — Uau! Que exagero. Que idade você tem? Eu sei: vinte e cinco. em você mesmo. até mesmo o que a gente sente — é tudo mentira. Cada vez é mais difícil você se libertar.Virgem Maria. Rosinha e o que é verdade sempre é bonito.

..Eu tenho medo. Que hacen los angeles? MONA (Imóvel.. yo quiero ser como un pájaro. Você não me entende porque você nunca me olhou.. cara a cara.. Eu não sou só eu. perderme nel cielo... yo nunca seré un angel.. BABY — Eu poderia te ajudar.. Olhe firme no meu olho e me responda: você tem medo de mim? LEO . se você não tivesse medo de mim.. ANGEL ..Eu não te entendo. volar. Yo tendria que volar para que fuera un angel...Voar. (Alice sai empurrando Angel em direção à porta. Não existe divisão.Por que mi nombre es Angel? Hay un oscuro sentido por detrás de mi nombre. Me gustaria tanto.. volar. me encara fundo. Eu sou também você e todos os outros.No fundo das tuas pupilas eu vejo meu próprio rosto.. A gente só consegue conhecer alguém ou alguma coisa quando olha para ela bem de frente. . ) CENA 6 BABY — Será que você não entende que as coisas mudaram? LEO . Me diz o que é que você está vendo no fundo das minhas pupilas? LEO .. sabes? Yo quiero volar hasta los sitios encantados. hasta los sítios encantados. e todas as coisas que eu vejo. BABY — Você não me entende porquê você nos divide em dois: eu e você. enquanto este repete que quer voar... volar.. por entre las nubes.) — O ofício dos anjos é voar. Olhe firme no meu olho....ANGEL .

Me diga agora. eu não estava preparado. Basta cantar: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim.BABY . Agora. Era a solidão absoluta.. Depois eu fui saber que eu tinha envelhecido. Leo. Você não quer cantar comigo. com todo aquele branco-liso dentro de mim.) E tão fácil. grades na janela. E sabe como era o fim do mundo? Ele era branco e liso. Naquele dia. O fim do mundo era o silêncio e o vazio. Leo. Se eu tivesse medo ficaria lá para sempre. eu dei aquele passo eu venci o fim do mundo. E nunca mais ninguém me entenderia. choques elétricos.. para mim era o fim do mundo. . A maneira de vencer o fim do mundo era enchê-lo de sons e de cores. Eu não queria ficar lá. cada vez que eu volto lá eu canto essa musiquinha. havia várias pessoas à minha volta. um apartamento ou uma rua qualquer. No dia em que visitei o fim do mundo nasceu uma mancha branca dentro da minha cabeça. Mas para mim.E no fundo das suas pupilas eu vejo o meu próprio rosto. Diriam talvez que eu estava louco. Eu estava sozinho no fim do mundo e não podia ter medo. eu não queria ficar sozinho. Eu precisava dar um passo além do fim do mundo. Canta comigo. Então uma canção brotou do fim de mim. O fim do mundo estava dentro de mim. Eu não podia pedir socorro. Eu sabia que se contasse aos outros do que estava vendo. e eu cantei: Eu sou assim eu tenho um arco-íris dentro de mim. eu acho que eu não tenho medo de você. Foi então que eu descobri o jeito de dar esse passo. Para eles podia ser uma praia..Não. Nenhuma cor. ninguém entenderia. BABY — Então vou te contar uma estória que é o meu segredo. Quando eu olho no seu olho eu sou você e você é eu. nenhuma forma.. Não tinha nada lá. outra vez: você tem medo de mim? LEO . Se você tiver medo de mim é porque você tem medo de você. E eu venci. Leo? (Apanha um vidrinho de purpurina e começa a salpicar o rosto de Leo. Que aquela mancha branca era a velhice. E tomariam as providências que se costuma tomar com os loucos: clínicas.

(Rosinha geme. Talvez bastasse qualquer coisa como chegar muito perto de você.. fica tudo lindo e eu não tenho medo. é ele querendo sair de dentro de mim.. mas eu tenho medo. MONA . Quando você canta. Se eu pudesse sentir bonito..) Silencio! Vocês não estão ouvindo? (Todos escutam.O que foi? ROSINHA — É ele. Ou sorrir..LEO (Recuando. me dá tua mão. canta para embalar o menino. Baby. Eu tenho medo. E muito cedo..) — É a polícia! Eu sei que é a polícia! ROSINHA — Não.) Vocês. Se eu pudesse catar junto com você.. ele não vai conseguir. exceto Mona. Canta.) — Não tenho medo. Qualquer coisa assim.) .. MONA (Sorrindo. para mim é tão desconhecido e tão estranho como um sonho que ainda não tive. JOÃO — Do que é que você está falando Mona? ROSINHA (Sempre gemendo.. passar a mão no teu cabelo e te chamar de amigo... Eu reconheço esse barulho de máquina sobrevoando a casa. só sorrir. Todos se aproximam... MONA (Imóvel.. Não pare de cantar. está ficando escuro dentro de mim. (Olha em volta.. João. ROSINHA — João.. que continua imóvel. Tudo acontece no momento certo. Seria fácil... canta mais... muito serena. Quem sabe daqui a pouco eu consigo cantar junto também.. .Eu estou cheia de dor..) — Eu estou cheia de luz.. Baby. tudo isso aqui. Leo. são eles.) — Eu não posso. Seria simples. não. eu sei. JOÃO .Não tenham medo. ele está querendo sair de dentro de mim.. Ele está querendo ir embora. Baby canta — até ser interrompido por um grito de Rosinha.) LEO (Estremecendo e afastando-se de Baby. não posso.

. Tem o poço. o poço fundo. Leo. olhando para cima — como se acompanhasse rumores e movimentos no andar superior. Eu não tenho mau cheiro. ROSINHA (Enquanto ela fala. é suja. E uma nave enorme. do boi da cara preta. Boi.. Eu estou preparada para entrar na nave. você está ouvindo. até furar. eu não sou feia. exatamente sobre o meu sétimo chakra. O único jeito de vencer a cuca é pingar uma gota d‘água na testa dela até furar. Nós precisamos chegar a tempo. João? Por onde eu tenho andado. Aonde eu fui. João? Nós não íamos para o campo. dourada. dizem que essas pessoas exalam mau cheiro. mamãe em Belém.BABY (Cantando. A minha mãe me avisou. Mona levanta-se e começa a andar lentamente pela sala. você não ia me levar para o mar? Será que é muito longe. Dizem que eles não se aproximam de quem come carne e de quem fuma.. Faz três anos que eu não fumo nem como carne. eu não sou suja. boi. Eles vieram me buscar porque eu estou preparada. sai de cima do telhado deixa meu menino dormir sossegado. João? Eu não podia deixar o menino assim sozinho perto daquele poço. Estão bem aqui em cima agora. boi da cara preta leva esse menino que tem medo de careta. cheios de luz. Ele não pode correr. escuro.) — João.. MONA (No meio da cena. JOÃO — Do que você está falando. Exatamente sobre minha cabeça. Eles são altos. sobre o lótus de mil . Não se deve deixar os meninos pequenos como ele perto do poço. Dos discos voadores. é feia. João. da cuca. Mona? MONA — Deles. manda a cuca sair de cima do telhado. A cuca é má. João. João? Você deixou o menino sozinho? Eu te disse para não deixar o menino sozinho. boi. Dorme neném que a cuca já lá vem papai tá na roça.) — Bicho papão. Leo. O menino vai cair lá dentro.) — Agora eles estão bem em cima do telhado. Ele é tão pequeno que ainda não tem pernas como os outros meninos... e não pode fugir do bicho-papão. Dos extraterrestres.. Baby. Ele é muito pequeno.. louros.

nesta noite? Tudo faz sentido. o último presente de Mona. Eu preciso deixar vocês. Black-out.. para depois do sol.Deixa ela ir. Quando a luz volta. pandeiro. Me ajuda. Não se esqueçam disso. Baby continua cantando canções de Ninar. Um vidro nas mãos. Quando você canta é como se parasse de doer. Ao mesmo tempo: Ouve-se um grito de Rosinha. MONA — Eu disse que ele era a única coisa capaz de salvar o mundo. João está em pé. Muito pálida. João. João. Vocês ouvem como eles me chamam? Parece o vento. Já cumpri minha missão aqui. imóvel. . disco-voador não existe! Você está louca. os braços estendidos acima da cabeça. etc.pétalas. onde tudo é dourado. Se ele for embora o mundo acaba. D6i tanto. Eu . Mona. Eles vão me levar para lá. volte aqui. Esperei tanto tempo. Nada é gratuito. estou indo.Mona. Não deixa ele ir embora. há um silêncio. Rosinha está deitada. Esperei tanto tempo. E o único jeito de vencer o fim do mundo. justamente agora aqui. Vocês não estão sentindo a vibração? Essa luz dourada baixando devagar sobre as coisas. João. (Apanha a bolsa e vai tirando se dentro alguns instrumentos musicais: flauta. para o alto astral. Eu preciso ir. Agora eu entendo. Seu manto branco está manchado de sangue. Baby. um som eletrônico ou uma explosão. Antes de ir embora vou deixar uma lembrança. nesta casa. Como é que eu podia saber que aconteceria agora.) Foi Baby quem me ensinou: quando tudo fica difícil a gente canta e toca. JOÃO . Leo e Baby. tanto. eu sei. a Rainha do Alto Astral. bongo. a chuva mas eu consigo ouvir mudamente a voz deles chamando pelo meu nome.. estão ajoelhados em atitude de adoração. misturado a rumor de máquina — qualquer coisa como um automóvel em alta velocidade. Canta mais. São eles. volte aqui! ROSINHA . para o outro lado.

ANGEL (0ff) — Donde estás. ALICE — Tão ouvindo? Tá completamente pirado.Dentro do vidro uma matéria sangrenta.... baixa os braços lentamente e deposita o vidro sobre a manjedoura. entrou numa que eu era um vampiro. eu preciso de forças! O anjinho pirou completamente! JOÃO (Muito calmo.) — Finalmente te encuentro. meu Deus. CENA 7 ALICE (Muito agitado.) Mona. começou a correr atrás de mim com uma estaca e um martelo. A cena permanece estática até o momento em que Alice entra correndo. (Detém se e observa os outros. Onde é que está Mona? (Chama. onde é que você tá? JOÃO (Muito calmo. será que todo mundo enlouqueceu aqui dentro desta casa? Isso aqui está parecendo um filme de terror. você está toda suja de sangue! Esse vidro. eu..) — Ela foi raptada por um disco-voador. príncipe de las tinieblas? No te ocultes de mi. mas o que foi que aconteceu aqui? Little-Rose. ALICE — O que? ANGEL (Entrando. Quando pensei que ele estava numa boa.. avança para Alice. Primeiro entrou numa que queria voar.) — O que foi que aconteceu? ALICE — O angelito portenho. maldito! Ahora te voy a matar con mis próprias manos! . tive que fazer uma força incrível para botar ele noutra. Mona. Tengo que exterminar te. dizendo coisas.. com uma estaca de madeira e um martelo nas maos.) — Forças gente.) Ei. Quase que se jogou pela janela.

ALICE — Segurem esse tarado! Ele quer me cravar esse negócio no coração! (Ninguém se move. ANGEL — Callate. Angelito! ANGEL (Gritando. talvez Lou Reed. assassinado por mochileiro argentino. Sou Alice Cooper... cabron! Perro de los infiernos! No quiero escuchar tus sucias palavras! ALICE . você está entrando numa errada comigo. você é a primeira pessoas que eu conto isso. eu fui legal. Nesse momento. vulgo Alice Cooper.Basta de comedias. Olha vou te contar um segredo que nunca contei para ninguém: sabe qual é o meu nome. Anjinho. calças compridas.. Olha.) ANGEL — Carlinha Bajo-Astral! . já estou vendo as manchetes no jornal amanhã: Jaime Roberto.) ANGEL (Declama García Lorca. entra um rock pesado.. perros de sus tocadores. convidei você pra dormir aqui.‖ Muerte a todos los vampiros maricones! ALICE — Espera aí. Você não tinha onde dormir. Anjinho. o nome com que me batizaram? E Jaime Roberto. só isso. Traz um charuto aceso na mão. sabe o que há de errado com você? E que você viu muito filme de horror. / abiertos en la plaza con fiebre de abanico / o emboscados en yertos paisajes de cicuta. Forças. Você ficou influenciado. botas.) — ―Maricas de todo el mundo. o meu nome verdadeiro mesmo. asesinos de palomas / Esclavos de la mujer. e acende um spot sobre Carlinha Baixo-Astral. não é nada disso. demônio! Es demasiado tarde! (Encosta a ponta da estaca no peito de Alice e ergue o martelo como se fosse desferir um golpe. meu Deus! Que coisa mais bagaceira.Espera aí. Olhe para mim. Eis o meu segredo mais vergonhoso. encontrei você na praça.) . parada na porta está toda vestida de negro. Calma.

(Puxa a navalha. Talvez fosse melhor ter morrido também. Não gosto que me toquem. Eu ia passando bem na hora da explosão.) Acabou. já não existe mais cidade. Eu sou Carlinha Baixo-Astral. ROSINHA — Do que é que você está falando? .E por que você faz tantas perguntas. Mantenha distância. meu santo? Não existe mais polícia. acabou tudo.Mona é a puta que os pariu.) — Polícia? Que polícia.. Vocês não ouviram a explosão? Explodiu tudo. (Caminha olhando em volta. de Carnaby Street. Ou foi você mesma que bordou? CARLINHA (Agressiva.. Tive sorte. não existe mais nada.Bem.) Há alguém aqui que duvide disso? ALICE .. sei lá porque. (Joga o charuto no chão e apaga com o pé. não é? Tem um cheiro de King‘s Road. Fica muito bem em você. não existem mais edifícios.. bem? Você é da polícia. por acaso? CARLINHA (Rindo debochada.CARLINHA — Em carne e osso. Agora vou ter que passar o resto da minha vida aqui com este bando de cretinos. acaba de salvar a minha vida. TODOS — Mona! CENA 8 CARLINHA . sorte. de Bibao. entendem? Só sobrou esta casa aqui. seja você quem for. essa camiseta é maravilhosa. boneca. Deve ser importada.) O que é andou acontecendo por aqui? Por que é que vocês estão vestidos desse jeito? Por que é que está garota está toda manchada do sangue? LEO . Hmmmm.) — Tira essas mãos nojentas de cima de mim. Muito Obrigado.

vísceras por toda parte. JOÃO — Não é possível.. Aquele pão não dá nem pra um dia. Você está gozando com a nossa cara. transo qualquer barra . BABY — Eu não posso acreditar. é muita loucura. boneca.. desculpe. ANGEL ... quero dizer. Me dá um cigarro. Alice. tão sensíveis. CARLINHA — Uma explosão atômica. (Para Alice. tendo nervos de aço. como se dizia no meu tempo. Alguém finalmente apertou o botão. está horrível lá fora. ALICE — Tem aquele pão que eu trouxe.. Carlinha Baixo-Astral: você está querendo dizer que. Mas vocês.. Vão fazer a sua carne descolar dos ossos e cair todinha em feridas punilantes. saia e veja com seus próprios olhos. CARLINHA — Para sempríssimo. Eu vejo e até curto em cima porque sou Carlinha Baixo-Astral. JOÃO — Deixa de ser besta.Que pasa? No estoy entendiendo nada.. Como em Hiroshima. Virou cinza. Vocês me parecem todos tão débeis. Tão paz e amor. não sei não. foi. tudo rebentado. CARLINHA-Pois se você não acredita. Já era. Tem as tais radiações atômicas. Puf! Acabou..BABY — Espere aí. Mona. que o mundo terminou? ALICE — Terminou mesmo? Acabou? ANGEL .) Por qué estan todos así? Que pasó? ..Yo no entiendo lo que dice. ROSINHA — Quer dizer que nós vamos ficar aqui para sempre. LEO — Mas nós vamos morrer de fome. sangue. LEO — Quer dizer que aquela explosão foi. Gente morta..de preferência as mais pesadas. Forever. Mas não aconselho. lembra? Além disso.

E quer saber duma coisa? Se acabou mesmo dou a maior força. no más.Eu concordo com você..ALiCE — Lo que pasó. es que ei mundo se ha terminado.Eu acho que agora a gente pode começar tudo de novo. ANGEL — No es possible. o Nepal. No lo puedo creer.Quer dizer que vocês não estão apavorados? JOÃO . Carlinha Bajo-Astral. una bombita. El mundo no puede terse acabado..Não. Acho maravilhoso ter acabado.) . Yo sé que tu especialidad es pirar la cuca de la gente. decepcionada. CARLINHA . Pode ser que desta vez dê certo.. Yo necessito yirme hasta ei Peru. te conozco hace mucho tiempo. desde muy lejos. E falando bem claro: na minha opinião foi um asseio. (Olhando em volta. Nós não tínhamos mesmo nada a perder.) Mas vocês não parecem muito impressionados.. ALICE — Na verdade eu não me impressiono com mais nada.Se ha acabado todo. desde Cochabamba. gaveta? . ALICE . El Peru también se ha acabado? CARLINHA .. No es verdad. Una bombita. a Nova Guiné e o Piauí.E você. Do jeito que estava só podia mesmo era acabar.. O Peru. Angelito. CARLINHA (Mais decepcionada. LEO .Eu tinha certeza que um dia você ia acabar concordando comigo. ALICE — Es lo que dice la chica.Nem você? BABY . ANGEL — No creo en esta chica. CARLINHA .

Ou para morrer. Será que a Era de Aquário começa agora? CARLINHA . sempre tinha um lema.Esse pelo menos escolheu o momento certo para nascer. ROSINHA (Assustada.Mas não vai amanhecer mais. nas outras comunidades onde morei. diria que ele foi o último representante da Era de Peixes. Cristo morreu.. Se Mona estivesse aqui. Sabem. . sei lá. E o primeiro da Era de Aquário. viva Cristo! Sabem. CARLINHA .O que? Nunca mais? CARLINHA (Lentamente. já que vamos ter que ficar aqui a vida toda.Eu. E na terceira: ―Já que estamos na merda. gavetinha. chovia muito e ninguém tinha para onde ir. BABY — Ele nasceu morto.Nunca mais.) . JOÃO — Ele nasceu no momento da explosão. As nuvens de radioatividade são tão densas que não vão deixar passar os raios de soi por um bom tempo. Parece também que é a última. Nós não somos uma comunidade. que o embale‖. LEO — Ele foi assassinado pela bomba. Nós só estamos aqui porque a casa estava abandonada. Nós só estamos esperando o amanhecer. Qual é o lema desta comunidade? JOÃO . Na primeira era: ―Passarinho que come pedrinha sabe o cu que tem‖. Era meu filho.) . pelo menos vamos comer uma laranja‖. No mínimo uns dez anos.ROSINHA . esta é a quarta comunidade onde moro.) — O que é isso aí? ROSINHA — É o Cristo da Era de Aquário.. Na segunda era: ―Quem pariu Mateus.Nós não temos lema nenhum. CARLINHA (Apontando a manjedoura.

CARLINHA — Ela sempre sabe o que fazer pra gente ficar contente. daqui a pouco amanhece e acontece alguma coisa. Se o mundo acabou mesmo nós somos o novo mundo. a gente canta e toca‖. Nós estamos tranqüilos. Como é que eu posso tocar e cantar se o mundo acabou? LEO — E o que é que você vai fazer? Não há mais nada a ser feito. Ficar desesperado e arrancar os cabelos não resolve nada. Solo esperar. ALICE — Bem. tudo bem.. Chame Mona. Eu estou lembrando duma coisa. confusos. Para falar a verdade. João! Eu não quero ficar no escuro! Mande ela embora. Não gosto dela.) — Ela está mentindo. De qualquer maneira nós temos que ficar aqui esperando. E a única maneira de vencer o fim do Mundo. Nosotros no podemos hacer nada. LEO .ROSINHA (Gritando. CARLINHA . ROSINHA . Silêncio.Mas o que é que a gente pode fazer? ANGEL — Nada. Antes de ir embora. (Apanha os instrumentos musicais e começa a distribuí-los entre as pessoas. vamos convir que é chó-cante! O que é que eu vou fazer sem um spot em cima de mim? BABY — Pra mim não faz diferença.) CARLINHA — Para mim não. Mona deixou uma lembrança. Ela disse assim: ―Quando tudo fica difícil.Mas esperando o quê? . E se não acabou. JOÃO — Mona foi embora com o disco-voador. faz vinte e três anos que estou no escuro. que o mundo tenha acabado.Esperem. Todos se entreolham. um presente.. Mas ficar dez anos no escuro? Ah.

Só isso. Que a noite acabe. Ainda pouco havia nuvens. Você inventa.) — Mas eu não sei tocar nem cantar. não. até que vários spots começam a acender e fica tudo muito claro. Não há nuvens de radioatividade tapando o sol. JOÃO — Então era mentira dela. CARLINHA — Não. ANGEL — Se han pasado siglos y siglos. O meu negócio sempre foi só pesar a barra.Amanheceu. . Eles vão parando de tocar. (Carlinha hesita mas acaba aceitando o instrumento.) — Amanheceu. O mundo não acabou. Tocam alguns momentos. LEO — Eu também não sei.) CENA 9 ROSINHA — (Sem emoção. Carlinha Bajo-Astral. faz pouco.) . Que o dia amanhece. Eu nunca fiz isso. Sentam-se todos lentamente em semicírculo em tomo da manjedoura. CARLINHA — Eu não menti.LEO — Sei lá. Começam a tocar. Qualquer coisa. Foi agorinha mesmo.) — O que aconteceu? ROSINHA — (Sem emoção. Que tudo isso termine. Ninguém sabe. LEO — (Como se despertasse de repente. Aparecem todos muito cansados. ALICE — Mas isso já faz muito tempo. Não é difícil. CARLINHA — (Começando a ceder. BABY— Ainda pouco? CARLINHA — É. Quando eu cheguei aqui. eu sei.

LEO — Você tem certeza que são mesmo dez pras sete? (Nesse momento ouvem-se batidas muito fortes na porta. Ninguém se move. Um pequeno intervalo e as batidas se repetem, cada vez mais fortes.) JOÃO — (Sem emoção.) — Estão batendo na porta. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino, trazendo ouro, incenso e mirra. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. BABY — Ou Mona. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vem nos buscar também. LEO — É a polícia. Tenho certeza que é a polícia. ANGEL — Puede ser algun vecino. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. Os monstros, com aquela pele toda verde, apodrecendo e caindo... Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. ALICE — Piração, piração, tudo piraçâo: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. (Silêncio. As batidas aumentam. Ninguém se move.) JOÃO — Seja quem for, continua batendo. CARLINHA — Alguém precisa abrir logo essa maldita porta. LEO — Eu tenho medo. ALICE — Quem abrir a porta precisa dizer alguma coisa. ROSINHA — Eu não sei o que dizer. ANGEL — Bueno, hay que abrir la puerta e decir algo, no?

(As batidas aumentam, a luz também. O ideal seria uma lâmpada de mercúrio.) BABY — (Lentamente.) — Eu acho... eu acho que a gente só pode dizer uma coisa. (As batidas aumentam mais.) BABY — Eu acho que a gente só pode dizer que nós não temos culpa. Que nenhum de nós tem culpa de nada. A única coisa que nós estamos tentando fazer é encontrar o jeito de dar um passo além do fim do mundo. (Baby começa a tocar. As batidas aumentam cada vez mais. Os outros hesitam, mas aos poucos, um por um, começam também a tocar e a cantar. O som e as palavras — o autor sugere — deveriam ser totalmente improvisados pelos atores. As batidas só cessam quando o som estiver mais ou menos definido. E a peça só termina quando os atores e/ou a platéia estiverem cansados. Ou quando alguém bater na porta avisando que amanheceu e o teatro precisa ser fechado — Por que não?)

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Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-lo em nosso grupo.

A COMUNIDADE DO ARCO-ÍRIS

Peça em 1 ato

PERSONAGENS

SEREIA • BRUXA DE PANO • MÁGICO • ROQUE • SOLDADINHO • BAILARINA • TIÃO •SIMÃO •BASTIÃO 3 MACACOS

CENÁRIO

Um grande arco-íris ao fundo e um lago; um cartaz com letras coloridas com os dizeres: Comunidade do Arco-Íris. A cena está toda enfeitada de balões e bandeirinhas de papel como para uma festa. A Sereia está dormindo, recostada em uma das pedras do lago.

CENA 1

SEREIA — (Despertando e espreguiçando-se lentamente.) — Hmmmmmm, que sono gostoso! Sonhei umas coisas tão bonitas... (Apanha um espelho e um pente.) Meu Deus, mas estou horrorosa, toda descabelada. Daqui a pouco a festa vai começar e eu ainda nem estou pronta. (Penteia-se, muito vaidosa.) As crianças já devem estar chegando por aí. (Olha para o público.) Mas vocês já estão todas aqui dentro. (Para o público.) Desculpem, eu não tinha me dado conta, pensei que era bem mais cedo. Boa tarde, como vão vocês? Sabem, é que a gente trabalhou tanto para deixar tudo bonito que eu fiquei muito cansada e acabei pegando no sono sem querer. Já vou chamar os outros. (Para dentro.) Máááááááágico! As crianças já chegaram, está na hora de começar a festa!

CENA 2

BRUXA — (Entra correndo, muito estabanada.) — Tá na hora de começar a festa, é? (Olha em volta.) Ei, mas onde é que estão os doces e o guaraná? Ah, já sei, comeram tudo, não é? Comeram tudo e nem me avisaram... Só lembraram de me chamar depois que a festa tinha acabado. Eu sei, conheço vocês, é preconceito racial, só porque eu sou de pano e vocês de carne e osso. (Para a Sereia.) Racista! SEREIA — (Muito envergonhada por causa das crianças.) — Calma, Bruxa, não é nada disso... eu...

Onde é que estão todas aquelas garrafas? Foi você que tomou tudo.BRUXA — Como que não é? Você sabe que eu adoro guaraná. (Para as crianças. gorda... E quer saber duma coisa? Não me importo nem um pouco que a tal festa tenha acabado. BRUXA — Vexame... (Para a Sereia. as crianças já chegaram e eu estou toda desarrumada. às vezes ela fica um pouco atacada. é? Bem feito. E pare de me ofender. hein? Já sei.) — Olhe. fique sabendo que ela era uma saia de veludo muito fina. vai ficar gorda como uma baleia e o Roque não vai querer mais namorar você! SEREIA — (Ofendida. sua baleia. SEREIA — Você quer parar de dar vexame? Pelo menos respeite os nossos convidados. quer que todo mundo me ache horrorosa. eeeeeu? Escuta aqui. SEREIA — (Conciliadora. .) Imagine eu. vá se enfeitar enquanto eu converso um pouco com as crianças. SEREIA — Acabado? Mas a festa ainda nem começou....) Por que você não disse logo. Você está é com inveja dos meus cabelos verdes.. Que desaforo! (Olhando-se no espelho.) . já sei.) Desculpem. ouviu bem? E não fale mal da minha avó. eeeeeu? Ora. BRUXA — Inveja.Gorda vai ficar a sua avó. (Vai começar a discutir novamente. BRUXA — Atacada..) Meu Deus. não é? Conheço todos os seus truques. não é de hoje que você. mas de repente olha para o público e muda de atitude. As crianças devem estar pensando que você é completamente louca. pareço mesmo uma bruxa. eeeeeeu? Mas logo eu? Pois olhe.. pra mim você não passa mesmo é duma sardinha enlatada.

claro que nâo.. só pode ser isso. Acho que ela está apaixonada pelo Roque! Afinal... E anda tão agressiva comigo.) Vai ver que. ele é meu namorado. Mas não tome todo o guaraná.. Antes era tão minha amiga.) Então. parece um furacão.) — Apaixonada pelo Roque.) . vocês gostam da roupa que mandei fazer especialmente para hoje? SEREIA — Eu acho horrorosa. BRUXA — Pois eu não acredito.) SEREIA — Que coisa mais louca. Você está dizendo isso só pra me irritar. SEREIA — (Aliviada. me chamando de baleia.. você está apaixonada pelo Roque? CENA 3 BRUXA — (Entrando toda faceira. de sardinha enlatada... SEREIA — (Furiosa.. Você está é com ciúmes. foi depois que ele começou a me namorar que ela ficou assim agressiva. ouviu? (Sai. BRUXA — (Maliciosa.. (Pensa um pouco. com um enorme chapéu de flor e um xale coloridíssimo.. enquanto a Bruxa dá voltas pelo palco como um manequim. claro.) — Ele é que está apaixonado por mim. (Para dentro. um horror.) Bruxa. zangada.) — Mentira...BRUXA — Tá bem. Sereia. BRUXA — Controle-se. eu cheguei a pensar que. olhe as crianças! O que não vão pensar de você? (A Sereia cruza os braços. Bruxinha.Que bom. tá bem (saindo).. Melhor perguntar a ela. Será que. Posso até sair numa lista de 10 mais . querida. eeeeeu? Imagina. Eu acho que estou maravilhosa..

elegantes.) — Você acha então que ele gosta de mim? BRUXA — Ele adora você. Está apaixonadíssimo.. como diz mesmo? Finesse. Ou virar estrela de cinema. SEREIA — Mas o discurso do Mágico não é assim...) CENA 4 MÁGICO — (Entrando. BRUXA — E você acreditou. Não pensa noutra coisa. tornam a chamar. SEREIA — (Mais animada.) — Deve estar terminando o tal discurso! Imaginem que ele inventou de fazer um discurso para vocês.Quem me chamou? O que é? (Olhando o público.) — Mágico! Máááááááááágico! (Esperam. BRUXA E SEREIA (juntas. sem a metade da sua finesse.. é isso aí.) Ai. a cartola na mão. uma bruxa de pano. Bruxa. sempre durmo na metade. Acho chatíssimo. sua boba? Não vê que é só pra implicar com você? Acha que o Roque vai olhar pra mim. não agüento aquelas coisas de ―neste momento solene e tal‖. da sua. Não sei bem o que é isso.) — Você disse que o Roque está apaixonado por você. menina? Por que está com essa cara de bacalhau em dia de Sexta-Feira Santa? SEREIA — (Chorosa. Cadê o Mágico? BRUXA (Para as crianças. sem a metade da sua classe. meu Deus. da sua elegância. mas eu tinha uma tia de tafetá francês que vivia repetindo que a tal de finesse era tudo na vida. Me dá um sono. Ele só quer contar para as crianças como nós viemos morar aqui. muito nervoso. Acho que até sonetos anda escrevendo.) . Vocês gostam de discurso? Pois eu não. E você. as crianças já .

) E vocês aí. me diga uma coisa.) Passei a noite inteira escrevendo. entre as radiosas flores deste dia primaveril.. BRUXA — Escuta.Como é que você sabe? BRUXA — (Irônica... (Começa a tirar um lenço enorme. começa de uma maneira muito bonita. Originalíssimo. é? SEREIA — Achou o discurso? MÁGICO .. Será que perdi? Ah..) Está aqui dentro. Nunca ninguém começou um discurso assim.. com a voz embargada de emoção.. Acho que está embaixo do segundo lenço.) — Porque é muito original.estão todas aqui dentro..) SEREIA — Puxa.) ..) . Quer ver? É assim: ―Neste momento solene. que não para de sair. você não quer falar de improviso? Acho que é muito melhor.) BRUXA — Escute. MÁGICO — (Voltando a remexer na cartola.Ainda não. SEREIA — As crianças já estão caindo de sono. Onde é que está o meu discurso? (Revirando todos os bolsos. que coisa mais atrapalhada. alguém precisa fazer alguma coisa.‖ BRUXA — ―. Esse lenço não tem fim. . que vergonha.‖ MÁGICO — (Espantado. (Para a Sereia e a Bruxa.. como é que começa esse discurso? MÁGICO — Bem. (Remexendo na cartola. (Começa a puxar outro lenço.E é mesmo. já sei. paradas como duas patetas. As crianças já estão quase todas dormindo.) — Nossa. BRUXA — (Ajudando o Mágico a puxar o lenço.

o Roque. estavam morrendo todos. Agora. Eu vivia suja de óleo. Bailarina? . Até que um dia a minha paciência esgotou. as outras personagens vão entrando: Roque. que toca sempre que ela se move ou fala. MÁGICO — É. SEREIA — (Para as crianças.. é? Mas um discurso tão bonito. (Puxando mais um pedaço do lenço. o Soldadinho e a Bailarina. Depois a minha dona ganhou de Natal um video game e me deixaram atirada num canto. o Soldadinho. que morava na mesma casa. Algumas crianças não sabem. (A medida que vai falando. o que o Mágico queria dizer é que hoje está fazendo justamente um ano que estamos morando aqui na Comunidade do Arco-Íris. com sua guitarra elétrica.) CENA 5 SEREIA — Eu estava cansada da poluição. Os três carregam uma faixa onde está escrito: Feliz aniversário. Até o meu cabelo verde já estava ficando meio preto de tanta sujeira. a Sereia. para fugirmos para cá. Os meus primos peixes. Então eu convidei a Bailarina. coitados.) Uma pena. aqui. moro numa lagoa limpinha e sem polui nenhuma. mas as bonecas também sentem igualzinho a elas... Vocês sabem. com seu regador.MÁGICO — Vocês acham. BRUXA — Eu estava cansada de ser mandada. e a Bailarina.Bem. a Bruxa de Pano.. não foi. Eu. essas indústrias e fábricas que vivem derramando porcarias nos rios e nos mares. A minha dona vivia me dando comidinha e me mandando dormir numas horas completamente loucas. com a música de caixinha. Faz exatamente um ano que nós cansamos de morar no Reino dos Homens e resolvemos mudar para cá.) . impaciente.

BAILARINA — Foi sim. Nossa história até é meio parecida. No começo, eu morava em cima duma caixinha de música. Toda a vez que abriam a caixinha eu dançava, O que mais gosto é de dançar. Parece que estou voando quando danço. Quando a caixinha era nova, abriam toda a hora, e eu dançava sempre. Depois a minha dona comprou uma vitrola eletrônica com dez caixas de som e uma TV colorida. Ninguém ligava mais pra mim. Fiquei jogada num canto, embolorando. Nunca mais dancei. Até que a Bruxa de Pano me convidou para mudar para cá. Eu estou muito feliz por ter vindo. Aqui posso dançar à vontade. MÁGICO—- Eu nunca fui um mágico muito bom. Nunca consegui parar de tirar coisas da cartola. (Puxando mais um pedaço do lenço.) Vocês vêem, até hoje não aprendi direito. No circo onde eu trabalhava, às vezes até jogavam tomates, couve-flor, cenoura... BRUXA — Ué, você podia montar uma tendinha... MÁGICO — Poder, podia, não é? Mas é que a minha vocação é mesmo pra mágico. E aqui ninguém se importa se os meus lenços não acabam nunca. SEREIA — (Para Roque.) — E você, querido, por que você veio pra cá? ROQUE — Porque aqui tem natureza, não é, bicho? Tem árvore, lago, tem pedra, passarinho. Não tem a poluição que você falou. No mundo dos homens tem muito edifício, cimento, túnel, viaduto. As pessoas moram numas caixinhas apertadas chamadas apartamentos. Eu nem podia tocar minha guitarra em paz. Logo vinham uns trezentos vizinhos reclamar do barulho. Aqui não (tira um acorde bem estridente), posso tocar à vontade que ninguém reclama. SEREIA — E eu acho que você toca muito bem. BRUXA — Eu acho um barato. ROQUE — Podes crer.

SEREIA — (Para o Soldadinho.) — E você, por que você abandonou o Reino dos Homens? SOLDADINHO — Porque eu não tinha vocação nenhuma pra guerra. E lá tem guerra o tempo todo. Bombas, tanques, as pessoas se matando, um horror. O meu sonho era ser jardineiro. Aqui eu posso ter o meu regador e molhar as flores todos os dias. Melhor do que ficar matando gente por aí, não é? ROQUE — Pode crer. MÁGICO — Muito bem, muito bem. Agora vamos cantar o nosso hino. TODOS — (Cantam e dançam.) Passarinho, flor do campo, borboleta nuvem clara, céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. Se você quer conhecer a felicidade venha morar na nossa comunidade venha, venha, venha logo, não duvides venha morar na A Comunidade do Arco-Íris. BRUXA — (Interrompendo.) — Ai, uma coisa peluda tocou no meu braço! MÁGICO — Psssssiu, que falta de respeito com o nosso hino. BRUXA — Mas estou dizendo que uma coisa peluda tocou no meu braço!

SEREIA — (Para Roque.) — Isso é só pra prestarem atenção nela. Não liga não. BRUXA — De novo! E foi daqui de trás dessa pedra, agora eu vi. (Vai espiar atrás de uma pedra. Solta um grito.) TODOS — (Agitados.) — Que foi? BRUXA — (Gritando.) — Tem três coisas peludas aí atrás dessa pedra!

CENA 6

TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — (Pulando de trá da pedra e fazendo muita bagunça. Os três carregam gravadores, máquinas fotográficas, um estetoscópio, e o tempo todo gravam, fotografam e auscultam as pedras e as árvores enquanto tomam anotações.) MÁGICO — Esperem aí, silêncio! Vamos parar com essa bagunça. Quem são vocês? TIÃO, SIMÃO e BASTIÃO — Nós somos Tião, Simão e Bastião! Queremos entrar nesta curtição! TIÁO (Pegando no cabelo da Sereia.) — Seu cabelo é natural ou é peruca? SIMÃO (Para Roque.) — Você sabe tocar Quero que Vá Tudo Pro Inferno? BRUXA — Meu Deus, que coisa mais antiga! BASTIÃO (Para o Mágico.) — Você não quer tirar um cacho de bananas dessa cartola? MÁGICO — Silêncio, silêncio! Que é que vocês querem aqui?

OS TRÊS — Queremos ficar morando com vocês. Estamos cansados daquele horrível Reino dos Homens. TIÃO — Lá só tem poluição. SIMÃO — E apartamentos. BASTIÃO — E filas. TIÃO — E automóveis. SIMÃO — Engarrafamentos. BASTIÃO — E guerras. TIÃO — E novelas de televisão. SIMÃO — E gente apressada. BASTIÃO — E acidentes. TIÃO — É horrível. SIMÃO — É terrível. BASTIÃO - É medonho. TIÃO — É tétrico. SIMÃO — É pavoroso. BASTIÃO - É assustador. OS TRÊS — É catastrófico! (Ajoelham-se, muito dramáticos.) — Pelo amor de Deus, não nos obriguem a voltar para lá! Nós não resistiríamos muito tempo! TIÃO — Eu teria que consultar um psiquiatra. SIMÃO — Eu tentaria o suicídio. BASTIÃO — Eu ia virar um criminoso. OS TRÊS — Nós enlouqueceríamos! Tenham piedade de nós!

TIÃO — Eu sei cozinhar feijão, arroz e guisadinho. SIMÃO — Eu sei varrer, lavar prato e pôr a mesa. BASTIÃO — Eu sei costurar, pintar e bordar. OS TRÊS — Nós sabemos fazer muitíssimas coisas. Por favor, deixem-nos ficar! TIÃO — Aqui é tudo tão bonito. Eu fico doente só de pensar em ver um edifício de novo na minha frente. (Atira-se ao chão, gemendo escandalosamente.) Não me obriguem a voltar! SIMÃO — Bastião, traga os sais do Tião! Meu Deus, está tendo outra crise! Bem que o médico avisou que ele não podia ser contrariado. (Bastião traz os sais. Tião aspira e melhora um pouco.) SIMÃO confusos.) BRUXA (Muito agressiva.) — Olhem, por mim vocês podem pegar todas as suas trouxas e ir já embora. Não acredito numa única palavra de toda essa macaquice. (Tião começa a ter outro ataque. Grande agitação.) MÁGICO — Que crueldade, Bruxa. Você não tem o direito de não acreditar neles. BASTIÃO — É isso mesmo. Ela não tem o direito. BRUXA — Tenho, sim senhor. E não acredito mesmo. Vocês não me enganam com toda essa choradeira. Sinto de longe quando há malandragem. Vocês vão indo e eu já venho voltando. Por mim vocês podem dar o fora agora mesmo. SEREIA — Você não é prefeita daqui para dar ordens assim. (Para os outros personagens, que estão muito

espantados.) — Por favor, digam alguma coisa. (Todos se entreolham,

você está muito louca. Mas não com essa macacada. (Todos se entreolham. Eu não sou amiga de macaco nenhum. queremos a democracia! MÁGICO — Acho que é a solução mais honesta. fique sabendo. Os macacos estão muito tensos.) — Que horror. quem achar que eles podem ficar vivendo entre nós. BRUXA . E não estou louca coisíssima nenhuma. E uma coisa que só as bruxas de pano têm. BRUXA — Pois eu me recuso.Bicho é a sua namorada. A maioria vence. que é peixe. por favor. SOLDADINHO democrática. Quem é de carne e osso como vocês não entende nada disso. MÁGICO — Então. mas devia ser.BRUXA — Não sou. BRUXA — Demo o quê? SOLDADINHO — De-mo-crá-ti-ca.) — Mas em que é que você se baseia para ter essas suspeitas todas sobre a honra dos nossos amigos? BRUXA — Amigos seus. E eu me baseio sabe em quê? No meu sétimo sentido. Vocês é que são loucos se deixarem essas coisas ficarem aqui. SEREIA (Escandalizada. Depois de algum tempo. bicho. levante a mão. a Sereia bota a língua para a — Desculpe. mas eu tenho uma solução . Todo mundo tem o direito de dar sua opinião. claro que sou. Vamos votar? OS TRÊS — Isso mesmo! Democracia. Bruxa! Então você não é democrática? BRUXA — Sou. MÁGICO (Muito polido. Então vocês não estão vendo que essa macacada aí está é fazendo fita? ROQUE — Calma.

TIÃO (Para a Sereia. tiram fotos. fazem uma grande algazarra. Essa macacada não vale nada. dançam. (Saem todos. SEREIA — Eu não posso.) OS TRÊS — Então quer dizer que podemos ficar? TODOS — Podem! (Os macacos pulam. (Sai. decidida. . Você está belíssima. Preciso dar algumas instruções a vocês antes da festa começar. (Apanha o pente e o espelho.) BRUXA (Saindo. gritam e beijam todo mundo. Não sei o que a Bruxa foi achar neles para implicar tanto.) CENA 7 SEREIA (Escovando o cabelo. As vezes ela parece meia louca. Preciso dar um jeito no meu cabelo. deslumbrante.) Gentil donzela..) — Você acha mesmo? Eu estava me achando tão horrorosa. Os macacos vão fazendo grandes reverências à Sereia. que lindo! ..Bruxa e levanta a mão... tão bem-educados.. Vocês vão se arrepender amargamente. furiosa. BASTIÃO — Deslumbrante.) — Mas está tão lindo assim.) SIMÃO — Horrorosa é aquela bruxa de pano. Menos a Bruxa.) — Não se esqueçam de que eu avisei. tão finos.. Um a um os outros levantam a mão. O meu sétimo sentido nunca me enganou.) MÁGICO — Muito bem. disseram que eu estava belíssima... Agora vamos todos lá para dentro. (Para o espelho.) — Uns rapazes tão gentis.. SEREIA (Muito faceira. Um deles até me chamou de gentil donzela. gentil donzela..

onde estão o meu espelho e o meu pente? Gozado. Não posso perder aquele espelho. que lindo. CENA 9 MÁGICO (Entra correndo.) Será que alguém pegou? Vocês não viram nada? (Nervosíssima. Gentil donzela. a Fada dos Sete Mares. Estavam bem aqui. (Procura o espelho e o pente. No escuro ouvem-se alguns ruídos abafados. como se alguém estivesse lutando.. (A luz vai enfraquecendo aos poucos.. (Para a platéia...O Roque nunca me disse nada assim. E o único pente no mundo capaz de pentear cabelos verdes como os meus. vou dar um jeitinho no meu cabelo.. muito agitado. Um pente de ouro e um espelho com moldura também de ouro. Será que foi a Bruxa que pegou? Ela vive pegando as minhas coisas. aconteceu uma coisa muito estranha.) Ué. tinha certeza que estavam aqui.. .) Será que alguém pegou? Não posso ficar assim descabelada.. foram presentes de minha madrinha. (Procura mais..) CENA 8 SEREIA (Despertando.) — Sereia.. Música suave.) — Parece que todo mundo enlouqueceu por aqui.. Depois volta o silêncio. em cima desta pedra. Daqui a pouco começa a festa e o que o meu namorado Roque vai dizer? Que coisa mais estranha. até apagar completamente. Já procurei por tudo e não consigo encontrar.) Com licença. A Sereia adormeceu. Sumiu a minha cartola. no dia em que fiz quinze anos.

CENA 10 MÁGICO — Ei. Vocês já viram um mágico sem cartola? SEREIA — Isso não é nada.. dormi um pouquinho e agora fui procurar e não achei. procurar pela platéia. Eu estou justamente procurando o meu pente e o meu espelho de ouro.Essa não. Não tô sacando qual é. não me diga que a sua guitarra também desapareceu.) Ah. Pior é uma sereia sem pente nem espelho. Você por acaso não a viu por aí? Que grilo! Logo agora..SEREIA — Sua cartola. Mágico.) — Pois é..) — E você não viu minha guitarra por aí? SEREIA — Roque. ROQUE (Procurando.. também procurando alguma coisa.. Roque. (Vai andando de costas e dá um encontrão em Roque. Sabe o que a Fada dos Sete Mares me disse no dia em que me deu o presente? Que quando eu perdesse o pente e o espelho o meu cabelo ia começar a ficar preto.. (Os três podem improvisar.) .. MÁGICO (Procurando pelo palco.) Nossos objetos não podem desaparecer assim. Sinto qualquer coisa preta na minha . A guitarra tá sempre comigo. Logo a minha cartola. mas que coisa triste. você não viu minha cartola por aí? ROQUE (Ao mesmo tempo.. na hora da festa. (Leva as mãos à cabeça. Tinha deixado aqui em cima desta pedra.) — Que estranho. bicho. chamar as crianças para ajudar. apavorada. acho que já está ficando. que vem entrando.) MÁGICO (Desanimado.

Agora ficou muda. Ela só fala quando aquela musiquinha toca.Não chore. um mágico sem cartola e um roqueiro sem guitarra. calma.) Ela não vai mais poder dançar nem falar.) Em vista da gravidade dos últimos acontecimentos.) E desapareceu também a chave de dar corda na Bailarina. Ai.. MÁGICO — (Subindo numa pedra.) . meu bem. fica decretado o estado de sítio na Comunidade do Arco-Íris: ninguém entra. . soluçando.. SOLDADINHO (Entra correndo com a Bailarina pela mão. vocês não sabem o que aconteceu! MÁGICO — Claro que sei: nossos objetos de estimação desapareceram..) ROQUE (Consolando-a. (A Bailarina corre a abraçar-se à Sereia. bicho! SEREIA — E a Bruxa de Pano! Aposto como ela está metida nisso. SEREIA (Consolando a Bailarina. bicho.. Daqui a pouco pinta o pente e o teu espelho. Que bela comunidade vai ficar a nossa: uma sereia morena..) ..cabeça. ninguém sai. que faz gestos como se tentasse expressar-se por mímica. SOLDADINHO — Mas isso não é possível! Precisamos fazer alguma coisa. uma bailarina muda que não pode dançar. SOLDADINHO — O meu regador também! (Todos olham para ele e a Bailarina. que horror! Vou ser a única sereia do mundo com o cabelo preto! (Começa a chorar.) Gente. Vamos fazer uma reunião geral imediatamente. Está todo mundo aqui? ROQUE — Faltam os macacos. um soldadinho sem regador.Calma.

(Em tom discursivo. horripilante e inconcebível. nem do abacate..) — Eu não. Não subiu o preço nem da banana. calma.Roubo! TIÃO .) . bicho. Eu vi. ROQUE — Deixa pra lá... que nos desgosta pro-fun-da-mente. Não consigo imaginar nada mais terrível. então se não foi isso. sim. MÁGICO — Calma..Roubo? BASTIÃO . TIÃO — Bem.Furto? SIMÃO — Afanação? . isso agora não tem importância. bicho. vocês estavam comendo os doces antes da festa! TIÃO (Disfarçando.) BASTIÃO — Que desgraça! Vamos morrer de fome ROQUE — Não é nada disso. Simão! TIÃO — Aconteceu alguma coisa? SEREIA — Ei. inconcebível.) Senhores macacos: aconteceu urna coisa muito séria. gritando. SOLDADINHO (Com voz cavernosa. horrível. MÁGICO — É. SIMÃO — Já sei! Subiu o preço da banana! (Os três têm uma crise histérica e se jogam ao chão. nem do abacaxi.) Tião.MÁGICO — Onde é que andam aqueles macacos? (Chamando. Bastião. SEREIA — Estavam. Uma coisa que nunca havia acontecido antes na nossa comunidade. Uma coisa terrível.

BASTIÃO — Uma criatura de pano. E a chave de dar corda à Bailarina.. Os macacos cochicham entre si por um instante. bem. (Todos se lamentam. senhores. TIÃO — Com um chapéu de flores. SOLDADINHO — E o meu regador. SEREIA — A Bruxa de Pano? MACACOS — Ela mesma! Ela mesma! MÁGICO — Não acredito. vil e infame cometeu um nefasto crime: roubou a minha cartola.. A Bruxa sempre foi uma criatura de bons sentimentos. TIÃO — Vil.) TIÃO — Um momento. um pouco atacada de vez em quando. ROQUE — E a minha guitarra. . SEREIA — E o meu pente e o meu espelho de ouro. uma criatura desnaturada.. bicho. mas jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas. Um pouco. BASTIÃO — Uma criatura desnaturada.. agora? ROQUE — Ela saiu daqui trigrilada! SIMÃO — E antes de sair disse que vocês todos iam se arrepender amargamente. SIMÃO — E um xale muito colorido.. Nós sabemos quem foi.MÁGICO — Sim. Agora ela não pode mais falar nem dançar.. SIMÃO — E infame. SIMÃO — Foi uma pessoa que não está presente. TIÃO — Então por que é que ela não está aqui. Enquanto nós nos preparávamos para a festa.

muito nervosos. SEREIA — Também acho. Simão e Bastião vamos aqui pela esquerda. não! MÁGICO — Mas por que não? Acho que é o único jeito de encontrarmos as nossas coisas. SEREIA — E nós? .) . MACACOS (Cochichando.) . Não entendo por que é que vocês não querem. já que vocês insistem. MÁGICO — Isso é muito grave. TIÃO — Eu.Está bem. MÁGICO — Está certo.Não. Todos se consultam e falam ao mesmo tempo. SEREIA — Uma o que? SOLDADINHO — Uma expedição de busca: dividimos as pessoas em dois grupos e saímos a procurar a Bruxa.) SOLDADINHO — Tenho uma idéia: acho que a gente deve fazer uma expedição de busca. MÁGICO — Não posso acreditar. o Soldadinho e o Roque vamos pela direita.) — Não! Isso não! SIMÃO e BASTIÃO (Em coro. Eu não sei o que fazer. Eu.BASTIÃO — Está tudo muito claro: ela ficou zangada porque não queria que nós ficássemos aqui e resolveu se vingar. (Grande agitação. TIÃO (Muito nervoso. SEREIA — Mas todas as provas são contra ela. MACACOS — Está na cara que foi ela.

.TIÃO (Com uma reverencia.. SEREIA — Você? Como é que você tem coragem de voltar aqui depois do que fez? (Gritando. e aqui estão o seu pente e o seu espelho de ouro.. Quem diria. E logo no dia de nosso aniversário.) SOLDADINHO . suas bobalhonas. Nos momentos difíceis os homens é que saem por aí.) — As damas ficam esperando. meu Deus? Às vezes me dá uma raiva de ser mulher. uma ladra. não está vendo que eu não posso sair do lago? (Bailarina corre e segura a Bruxa. (Abrindo a bolsa . . Bruxinha. As mulheres sempre ficam em casa esperando. a Bruxa de Pano..Cuide bem da bailarina. dona Sereia.) Aqui está a chave de sua musiquinha. eu sabia que você não faria uma coisa dessas. muito contente. dona Bailarina. fique sabendo.a musiquinha da Bailarina pode ser um cinto em forma de pauta musical.. (Saem.) Bailarina.) Veja só. (Olha para a Bailarina..) — Ladra? Ladra é a excelentíssima senhora sua avó. choramingando e torcendo as mãos. (Saem. com uma clave de sol como fivela.) — Eu sabia. Segure ela. BRUXA (Aparecendo de repente com uma bolsa cheia de coisas. Ambas choram e torcem as mãos.) BRUXA — Então vocês estão pensando que fui eu quem roubou todos aqueles cacarecos? Deixem de frescura.) CENA 11 SEREIA — E agora. que parecia tão nossa amiga. faça alguma coisa.. como as pessoas podem nos enganar.. BAILARINA (Dançando. Que papelão! Uma ladra. Bailarina.

.. mas se não foi você. Vamos desmascarar aqueles três. O meu sétimo sentido nunca me enganou. BAILARINA — Se não foi você. Foi assim (barulho fora de cena).Mas.) CENA 12 TIÃO (Entrando. suas tontas. BRUXA — Pois eu vou contar direitinho pra vocês. então quem foi? BRUXA — Adivinhe. Não conseguimos encontrar a criminosa.SEREIA (Penteando-se.. Vocês façam de conta que não sabem de nada.) .. SIMÃO — Deve ter tomado o primeiro trem para bem longe daqui. felicíssima. nem o Soldadinho.) — Foi inútil... Bem que eu avisei. nem o Roque. BRUXA — Então? SEREIA e BAILARINA — Os macacos! BRUXA — Claro.. então. Não sei como não perceberam desde o início.. (Desce para a platéia... BASTIÃO — A essa hora ela deve andar longe.. SEREIA — Nem o Mágico. nem a Sereia. nem eu. Mas acho que vem gente por aí.. E melhor eu me esconder no meio das crianças.. BAILARINA — Mas não entendo por que eles fariam uma coisa dessas.

. quero dizer.) CENA 13 . mas nós.Sim.) . sua..) BASTIÃO (Cutucando Simão. Meia-volta. com um ar tão satisfeito O que foi que houve com a Bailarina? Nem parece uma Bailarina sem música. veja.) — A Sereia está penteando o cabelo! BASTIÃO — Companheiros. colcha de retalhos.. ela está dançando novamente! SIMÃO — E o que tem isso? Ela não é uma bailarina? TIÃO (Muito nervoso.) — Segura a macacada! Ladrões..) — Mas a senhorita. lentamente. Se ela está dançando de novo é porque.. (Pode improvisar uma correria com as crianças atrás dos três macacos.. volver (Preparam-se para fugir.) BRUXA (Da platéia. BRUXA — Vocês vão ficar aí parados enquanto esse monstro me ofende? Crianças. sua..TIÃO (Fazendo uma reverência para a Bailarina. mentirosos! TIÃO — A ladra voltou! Segurem a Bruxa! BRUXA (Subindo ao palco. (A Bailairina começa a dançar. SIMÃO (Gritando. sua fera peluda! BASTIÃO — Fera peluda é a sua avó. vamos pegar a macacada. até apanhá-los..) — Simão...) — Ladra. a Bruxa de Pano tinha roubado a musiquinha dela. eeeeu? Ladrão é você. acho que está na hora de darmos o fora. dona Bailarina.

eles estão fugindo! (Roque e Soldadinho conseguem apanhar Bastião e Simão. sim. Eles foram para a beira do rio. eu consegui me desamarrar e vim correndo para cá. Surge um homem de terno e gravata. senhoras e senhores. ainda por cima. para a Bailarina:) Senhoritas. com a tal de democracia.É. amarrada.MÁGICO (Entrando. MÁGICO (Para Tião. E os outros dois também. Mas estavam com tanta pressa que não amarraram direito. MÁGICO — Bruxa. Roque. Você quer fazer o favor de explicar? BRUXA — É muito simples. que resiste até que a Bruxa consiga abrir um zíper na roupa de macaco. é que nós acabamos de prender os ladrões. ninguém está entendendo nada. E sabem quem eles são? São espiões! Isso mesmo: três espiões do Reino dos Homens! Foram enviados para acabar com a nossa comunidade.) SEREIA — Meu Deus. Bastião e Simão se esgueiram de mansinho. com Soldadinho e Roque. é um homem! BRUXA — É. Fiquei em cima duma árvore espiando. Depois que vocês decidiram que eles podiam ficar morando aqui. tiraram os disfarces de macacos e começaram a planejar o roubo das coisas de vocês. Para a Sereia. E um homem mau-caráter. (Avança para Tião.) Fiquem sabendo que com a Bruxa de Pano ninguém brinca. Aí eles me deixaram lá.) — Mas o que é que está acontecendo por aqui? BRUXA — O que está acontecendo. eu resolvi ir atrás deles para ver se descobria alguma coisa.) — Isso é verdade TIÃO (Muito humilde. Eu fiquei tão nervosa que escorreguei da árvore e caí bem em cima de um deles. E tenho uma surpresa para vocês. querem ter a honra de desmascarar esses malandros? (Elas puxam os fechos e aparecem mais dois homens.) . .

deixem-nos ficar! . TIÃO — É que todo mundo anda falando que vocês vivem de um modo diferente. SIMÃO — As ruas cheias de gente. todos constroem as suas casas.MÁGICO — Mas por que os homens querem acabar com a nossa comunidade? Nós não estamos fazendo mal para ninguém. Tem gente com medo de que esse modo de vida chegue a cidade. TIÃO — A televisão. BASTIÃO — Os automóveis. TIÃO — Fomos enviados para impedir que isso aconteça. BASTIÃO — Que aqui o trabalho é dividido entre todos. até todo mundo voltar para a cidade. BASTIÃO — O barulho da televisão. Por favor. TIÃO — Os apartamentos. SIMÃO — Mas agora nós gostamos daqui. SIMÃO — E as pessoas vivem bem e são felizes. BASTIÃO — Nós queríamos que vocês começassem a brigar entre vocês mesmos. fazem as suas roupas. SIMÃO — O barulho dos automóveis. comem o que plantam. TIÃO — Para os ônibus. SIMÃO — O custo de vida. Nos deram ordem de fotografar e gravar tudo. BASTIÃO — As guerras. não nos obriguem a voltar para lá. OS TRÊS — Por favor.

(Aqui os atores improvisam uma pequena votação com a platéia. Lá todos os rios estão poluídos. ROQUE — É. por favor. BASTIÃO — Eu quero tomar banho de rio. MÁGICO — Eu acho que eles devem ser perdoados. Lá os passarinhos estão quase todos engaiolados. TIÃO — Eu quero pisar descalço na grama. Acho que o melhor seria mandálos de volta para lá. OS TRÊS — Por favor. Lá é proibido pisar na grama. por favor! MÁGICO — Mas o que vocês fizeram não foi legal! O que é que você acha. SEREIA — Coitados.. procurando juntos um modo de viver melhor. mas não pensem que aqui tudo é fácil. estamos buscando. BRUXA (Indecisa. A maioria vence.) — Não sei. Quem acha que eles devem ficar levanta a mão. E perdoar é uma coisa muito bonita.SIMÃO — Eu quero ouvir os passarinhos cantarem livremente. nós estamos arrependidos. Nós estamos batalhando e mesmo assim pintam grilos! BAILARINA — Afinal. É horrível lá na cidade.) — Quem sabe a gente usa outra vez a . Bruxa? TIÃO — Bruxinha. Parecem mesmo arrependidos. SOLDADINHO democracia? BAILARINA — Como assim? SOLDADINHO — Vamos fazer uma votação com as crianças. que decide se os macacos ficam ou não.

venha. não duvides.) Passarinho. venha logo. borboleta nuvem clara. balões. a cartola e o regador. céu azul e sol brilhante nada disso tem lá na cidade nada disso tem lá na cidade. querida. quero lhe pedir desculpas por ter pensado tão mal de você. Não falei que tinha um sétimo sentido? SOLDADINHO — Viva a Comunidade do Arco-Íris! TODOS (Cantam. BRUXA — É pra você ver. bebidas. flor do campo. morar na Comunidade do Arco-Íris.BRUXA (Abrindo a bolsa. com as crianças subindo ao palco e os atores oferecendo doces. basta a canção para finalizar A Comunidade do Arco-Íris. Na impossibilidade disso.) .) — Acho que agora podemos começar a festa. Se você quer conhecer a felicidade venha. (Vai entregando a guitarra.) SEREIA — Bruxa. venha morar na nossa comunidade venha. (O final deveria ser uma festa.

que me fez escrever e me ajuda a viver. com gratidão e amizade. .ZONA CONTAMINADA Comédia negra em 1 Ato Para Scarlet Moon de Chevalier.

um fuzil. cantil. NOSTÁLGIO. descoloridos. enriçados. cravo vermelho na lapela. entre 25/35 anos. Iansâ de frente. rude. luvas brancas. talvez chapéu estilo cowboy. irmã de Vera. Forte. . um tanto gótica (meio morta-viva). seda. musselina. cabelos que imagino longos sempre soltos. Imagino-a com roupas de guerrilheira. cabelos muito curtos. cartucheiras tramadas no peito. Visual um tanto pré-rafaelita. quase um clown. esvoaçantes — tule.PERSONAGENS VERA. decidida. homem de idade indefinida. mas o oposto dela. seu visual deve dar a idéia exata do que ela fundamentalmente é: uma guerreira. Oxum de frente. Talvez use coroas de flores. MR. Anda descalça. CARMEM. De qualquer forma. Mas também a imagino toda de couro negro. Roupas leves. mais ou menos da mesma idade. pulseiras. Maquiagem muito branca.

dança e se agita muito. HOMEM DE CALMARITÁ. portanto. é um D. Imagino alguns bailarinos — uns cinco ou mais. Fica a critério do diretor. NOSTRADAMUS PEREIRA. Forte e musculoso. caixões. tralhas do gênero. Seu texto. mas também podem participar de outras ações. mas o diretor é livre para criar outras e também para eliminá-las. de Baudelaire (―Tem piedade. Imagino que fala às vezes com sotaque lusitano. J. . Obalua. o interior de uma loja funerária que sofreu um incêndio. talvez polainas e uma bengala. Tudo pode ser apenas sugerido. bermudão. ex-votos. Talvez tenha um auto-falante e um walk-man. sempre coreografados. como um coral. mas é fundamental pelo menos um caixão à vista (a cama de Carmem). Pode também usar roupas no estilo grunge (boné virado. Também pode ser feito por uma atriz. de qualquer idade. limita-se ao refrão das Litânias de Satã.) Algumas de suas intervenções estão sugeridas no texto.) ou eventualmente algum mote tipo: Atotô. quanto fantasias tipo Chacrinha. multo agitado. E da maior importância que passe uma impressão de irresistível sensualidade. por volta de 30 anos. homens e mulheres — cobertos de farrapos e chagas. Satã. camisetona). mas acho que seria ótimo. Compadecei-vos de nossas feridas!‖. mas castigado. há coroas de flores metálicas. Está coberto de trapos que deixam entrever nesgas de carne. Enquanto fala — talvez ritmadamente. quem sabe também muitos bottons. Eles geralmente acompanham as emissões de Nostradamus. pelos. gostosíssimo. fica a critério do diretor incluí-lo ou não. CORO DOS CONTAMINADOS.smoking impecável. bem animal. atotô! (―Livrai-nos de nossas chagas!. músculos. desta longa miséria!‖. como um rapper —. Entre escombros. CENÁRIO Basicamente.

os vários Planos podem ficar fora do palco. Também quero deixar bem claro que o texto está aberto às improvisações dos atores. . se o diretor quiser também uma mesinha com abajur art-nouveau em cima. ou num canto do palco (penso nele um pouco mais alto. exibindo eventualmente cenas de Grande Catástrofe ou ruas desertas. ou violeta — mas de qualquer forma. No Plano Mídia pode haver um telão. Mr. Noutro canto. Penso em sépia ou bege. fica o Plano da Nostalgia. modesta. Nostálgio é muito. Dependendo das possibilidades do palco e do diretor. Nesse caso. o espectador ficaria cercado pelo espetáculo. ou um espetáculo alucinado. flores carnívoras. As citadas são apenas sugestões do autor. sempre seguidos pelo Coro dos Contaminados (se houver. uma cadeira de balanço ou recamier. da mesma maneira que o anterior. invade todos os espaços. Há nele uma poltrona bergère. vírus (dá-lhe HIV!) ampliados. *•* Outras indicações/sugestões: 1. Nesse caso. Pode ser tanto uma comédia de humor negro.). Nostradamus move-se por todo o palco. da produção. Enfim. do espaço disponível. dos horrores dos campos de concentração nazistas. Em nível diferente.). etc. 2. passando pela Talidomida. O diretor fica livre para pirar. mais alto. Depende do diretor. é nele que acontece a maior parte da ação. Há ainda um quarto espaço — o Plano Mídia — onde fica Nostradamus Pereira. Zona Contaminada em nenhum momento se pretende um texto pronto. sobretudo o de Nostradamus Pereira. esse plano pode ser um praticável levadiço ou nem sequer existir.Esse espaço pode ser chamado Plano Real. Nostradamus Pereira intercala música em seu texto. 3. com várias cenas acontecendo simultânea e vertiginosamente. explosões nucleares (um bom cogumelo atômico). Dependendo do tipo de teatro. que faz backing-vocal e repete como um eco coisas que ele diz. ou preto. Imagino-o completamente branco. de cor contrastante com Plano anterior. montanhas de lixos. muito chique. ou um biombo recoberto de papel de parede estilo inglês. fica o Plano Alfa.

Nada se vê. Mais para a esquerda. com os dedos.) Quem está aí? Tem alguém aí? (A parte. geme. magnífico e seminu esta o Homem de Calmaritá. No Plano Real. Assim. E me toca. exatamente como se amanhecesse. me rasga.Ah vem. como se ouvisse ruídos. Preciso me esconder. me morde. No Plano Mídia. deve ser algum contaminado.CENA 1 Palco totalmente escuro. Nostradamus Pereira dança loucamente com um walk-man. a luz vai crescendo lentíssimamente. Com os dedos. me arranha. Bem fundo. põe a tua língua aqui. Aos poucos. como se dormisse. Ele acaricia sensualmente o próprio corpo. (Subitamente para. dobra-se todo de cócoras. estilo nostálgico. (Procura com os olhos.) . cujo som a platéia não ouve. Eu quero ficar todo melado dentro de ti. mata a minha sede. No Plano da Nostalgia. No Plano Alfa. mata a minha sede que já dura há tantos anos. ou abanando-se suavemente com um leque. passa a mão entre as coxas.) Maldição. num canto. sentado em sua bergère. Aqui. como antigamente.) . Por piedade. continua a treva. apalpa os mamilos como numa masturbação não exclusivamente genital. por favor. Em voz baixa. CENA 2 HOMEM DE CALMARITÁ (Continuando a acariciar-se. Como antes da Grande Peste. e fica imóvel.

o fuzil nas mãos. Droga..) Sai daí.. (Rasga a roupa de Vera. domina-a.) Essa barriguinha. outra vez aquele sonho. HOMEM — Sinto muito. besta imunda! Mostra tua cara purulenta. Vera debate-se como pode. Vai ter que ser do jeito mais prudente. (Aos gritos. falando alto. amordaça-a — tudo com trapos que arranca da própria roupa. tempo suficiente para que Vera saia debaixo dele e desça para o Plano Real. Ah. Tão bom. É um estupro. VERA (Debatendo-se. (Vera continua a gritar.) . A medida então que a luz diminui no Plano Alfa. eu não estou contaminada! Não me toca. A Peste deve estar em seus estágios iniciais.. eu não quero.. então. Hum. verme do Apocalipse! HOMEM DE CALMARITÁ (Saltando sobre Vera. isso não prova nada. Nenhuma ferida. VERA — Eu estou perfeita! Me larga. Nossa. olha bem.Aqui.) CENA 3 VERA (Espreguiçando-se. Luz somente nas mãos enluvadas do Homem. deve ser algum contaminado. Deixa ver esses peitos.. deitada num sleeping-bag.. Ergue as mãos para o alto.. No começo não se nota nada.VERA (Entrando. O Homem a amarra pelos pulsos e tornozelos. que continua a gritar e a debater-se. Deixa ver essa carinha. Não acredito em você Preciso salvar a minha pele. meu bem.) Maldição. Preciso matá-lo. ameaçadora. Bom.Todos dizem a mesma coisa. parece perfeita. veste-as e começa a lubrificá-las lentamente. aumenta no Plano Real. O Homem então tira um par de luvas de borracha de algum lugar.) — Me larga. . não me passa a tua peste. me deixa.) — Amanheceu outra vez. Aqui esta minha cara.) — Quem está aí? Tem alguém aí? (Procura. é verdade. não tem nenhuma mancha..) . contaminada dos infernos. HOMEM (Joga-a no chão.

em algum lugar do infinito. Ainda bem que estou acostumada. . cantarola. De alguma forma. sol! VERA — Não existe mais sol. Mas depois de um bom café qualquer um muda de idéia. O tesão começa aqui. como arde. subindo. Dois pregos fincados no espaço. VERA — Tão quente que faz a pele da gente ficar cheia de feridas que não cicatrizam nunca. sal! Bom dia. Verinha. sul! Bom dia. A fome começa aqui (apalpa o estômago). bem nos bicos dos meus seios. rijos. Nunca sei o que acontece primeiro. umedece. sei. Depois aperta a garganta e seca na boca. por trás das nuvens. devagarinho. todo dia a mesma coisa. subindo devagar.. alegria! Bom dia.que homem. quente. deve continuar existindo aquele mesmo sol. Imenso.) Amolece. (Apalpa o sexo.. redondo. dia! Bom dia. VERA — Aqui e agora. eu odeio estar viva aqui e agora. CARMEM (Saindo do caixão.) Faz uma volta redonda. CARMEM — Era uma vez uma irmãzinha que acordava todo dia num mau-humor horroroso. arde tanto. Tão forte. parece um buraco fundo. Então arde.) — Imagina.) — Bom dia. E vai subindo.. CARMEM — Sei. como arde. de pedra. desde criança. meu bem. sei. (Acaricia os seios. arde tanto. CARMEM (Abrindo a tampa de um caixão de defunto. entorpece e vai subindo também.. como você é idiotinha. até deixá-los duros. Você continua a mesma. Fome e tesão. Depois arde. Nunca sei qual o mais forte. amarelo. Como areia. Tão duro. Que tal um cafezinho bem quentinho e uma geleiazinha de moranguinhos num pãozinho bem fresquinho para adoçar o nosso diazinho que começa a tão azedinho? VERA — Ai Carmenzinha. As nuvens radioativas cobriram tudo. Tesão e fome. Verinha.

) — Então. ou me contaminar. CARMEM — Você vai me deixar outra vez sozinha aqui? Ah. CARMEM — Deus me livre. Kapput. o que é que temos para o nosso petit dejéneur? Bon jour. e que. Nem um grão-de-bico. mas eu não digo nada. caviar.) Tudo bem. anchovas daquele supermercado chiquérrimo. o que é pior. s‘il vous plat! Merci o beaucoup. O que aconteceu? VERA — Você come demais. belle journée! VERA — Nem baguete nem salete: os víveres acabaram. e que nós estávamos perdidas. e que logo viriam me pegar também. Afinal. Já olhou a sua bunda? (Pega o fuzil. cheguei até a pensar que eles tinham apanhado você. VERA (Cortando.) — Você pensa muita bobagem. vou sair pra buscar mais. Podem me matar. CARMEM — Não é possível. Você demorou horas. Necas de pitibiriba. CARMEM (Bem british.I beg your pardon? VERA (Soletrando.) — A-ca-ba-ram. CARMEM — Não quero ficar sozinha aqui. VERA — Não ficou picas. CARMEM — Mas a semana passada você trouxe tanta coisa. . O rango c‘est fini. madame! Une baguette de campagne. querida. VERA — Então vem comigo. Salmão. a última vez foi horrível. Vera. Supermercado abandonado é o que não falta.CARMEM (Fingindo não ouvir. você sabe perfeitamente que se eles me pegarem eu não vou dizer nada.) .

Vamos ver a cidade. E além disso você sabe muito bem que só estou tentando me acostumar com a idéia da morte. Amontoados no chão. CARMEM — Eu já vi o suficiente. Um cheiro adocicado de lixo. Pois eu estou tentando me acostumar com a idéia da vida. fedendo. você sabe.. Não adianta nada tapar o nariz. CARMEM — Pobrezinhos. Eu tenho medo. aquele cheiro podre perdido no meio dos destroços. A idéia da morte. Ele é todo acetinado. só da gente ver? VERA — Mas você não v quase nada. laboratório. enrolados nuns trapos. VERA — Mas não tem quase mais nenhum deles vivos. meu bem. Não existe nada mais morto do que as coisas lá do lado de fora. penetrante. Aquele cheiro fura qualquer pano. VERA — Os contaminados.. aquelas pessoas. Empesta tudo.. Não dói. Ou do que sobrou dela. VERA — O horror nunca é suficiente. Da última vez só vi uns dois ou três escondidos num beco. VERA — Laboratório? Só se for de cientista louca. só uma vez. você sabe.. CARMEM — Para mim é. para mim já bastou. Não quero nem dizer o nome. cheios de pus. Carmem. Por que é que tem que ser sempre eu. Ou o que restou da cidade. Ninguém resiste muito tempo. como você é tola. As ruas. Um cheiro nojento. podridão: foi isso o que sobrou. as ruas estão cheias daquelas pessoas. CARMEM — Pois é. Pareciam uns cães sarnentos. delirando dentro desse caixão medonho? CARMEM — Não fale assim do meu caixão. Ruína. devem sofrer tanto. .. E assim uma espécie de. eu não quero ver. Vem comigo. Você só sente o cheiro. atravessa qualquer parede..VERA — Por que? Vamos nós duas juntas. enquanto você fica aí no bem bom.

É pecado. eu tenho fé que Ele não vai nos abandonar.Que lindo! Uma côdea. qualquer coisa. duas ratazanas famintas enfiadas nesta toca imunda. Foi só o que sobrou. (Atira-o para Carmem. CARMEM — Não fale assim do corpo de Cristo. Na verdade. VERA — É melhor eu ir andando. irmã! VERA — Sol? Tem razão. Esse mormaço branco. inclusive nós. Estou com tanta fome. honey. um biscoito. . Não ficou mesmo nada por aí? VERA (Tirando um pão do bolso.) .) . VERA — Já abandonou. CARMEM — Não fale assim do nosso lar. A luz diabólica que mata todas as malditas criaturas que insistem em continuar vivas. Eu e você. CARMEM — Quer um pedacinho? VERA — Pão velho. eu quero dizer o sapo do inferno que ainda conseguem furar as nuvens de chumbo. duro.Um figo seco. Quanto mais cedo. VERA — Como se a gente fosse rato. CARMEM — Mas você mesma disse que não tem mais sol. não era assim que se dizia nos livros? Graças a Deus.CARMEM (Fingindo não ouvir. seco. que rói a pele da gente. quando digo ―sol‖. viscoso.) CARMEM (Apanhando o pão. É sacrilégio. mais nados têm horror à luz do sol.) — Tem esse resto de pão.

Vera com o fuzil. E dois. em sua primeira transmissão de hoje. CARMEM — Se Deus quiser. Eles não vão nos encontrar nunca. E um. mas as duas Sisters não foram localizadas. Batalhões armados até os dentes cercaram a área. queridos sobreviventes da Grande Catástrofe! Aqui quem fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. um bum. Conte à mina. onde está Nostradamus Pereira. muita atenção! Durante a madrugada passada o sobrevivente identificado pelo número 200 1-KBeta-S-B-03 procurou o Centro de Denúncias da minha. ação! VERA — Saco. Onde foi que eu deixei? Estava aqui. (Encontra uma garrafa térmica. é lero: Bom dia. garantindo ter informaçoes fresquinhas sobre o paradeiro das Sisters Salvadoras. no meio daquela pilha de Vanity Fair que você trouxe outro dia. Mais tarde constatou-se — ouça! ouça! — estar o Sobrevivente 2001 de tal sofrendo das terríveis alucinações características do Estágio D da contaminação. um brinco. porta-voz oficial do Comissariado do Poder Central. Luz sobre o Plano Mídia. (Tentando mudar de assunto. É quatro. irmãzinha. da sua. virou freguês.) Acho que aqui ainda deve ter um pouco daquele café de ontem.) Está muito frio. Carmem e Vera estatizam. querida? . serve Vera. atenção. É três. da nossa Zona Contaminada. E atenção. Carmem com o pedaço de pão estendido para Vera.CENA 4 Nesse momento entra um ruído eletrônico fortíssimo. NOSTRADAMUS — E é cinco. que simulacro. Segundo ele. ao alvorecer da manhã do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste. lá vem os bois. é zero. as fugitivas estariam ocultas num porão ao sul do Boulevard Césio 90. Sempre a mesma história.

maravilhosamente. resultante do cruzamento de uma ou ambas as fugitivas Sisters com algum contaminado. enquanto prossegue a transmissão de Nostradamus. NOSTRADAMUS — Como todos vocês estão cansados de saber.VERA — Frio. Vocês ouviram o seu repórter Nostradamus Pereira. As duas ficam bebendo café em silêncio. Eu disse regiamente. será regiamente recompensada pelo Poder Central.) Em nome do Pai.) CENA 5 CARMEM (Erguendo o pão seco em direção ao alto. cientistas especulam da possibilidade da criação de uma nova espécie de mutantes. abundantemente. mente. a completa extinção da humanidade. Além disso. do Filho. Like a Virgin ou algo assim. através da procriação. generosamente. Com vocês. todas as ruas vigiadas. após a Grande Catástrofe. e portanto as únicas mulheres vivas capazes de evitar. oh doce e sagrado Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. The Big Bitch. Toda a cidade está cercada. litúrgica.. .) Qualquer informação sobre Carmem e Vera. todas as saídas controladas. E agora fiquem com outro hit dos velhos bons tempos anteriores à Grande Catástrofe. em sua primeira transmissão diária. por um fenomenal fenômeno fescenino as irmãs Carmem e Vera são as únicas mulheres sobreviventes ainda com seus úteros em perfeitas condições de funcionamento. vacona! (Entra Material Girl. (Volta o ruído eletrônico enquanto a voz de Nostradamus vai desaparecendo.. Dá-lhe.) — Corpo de Cristo. as Sisters Salvadoras. Mas tudo bem. a deusa do fin-de-siécle passado: Ma-don-na. (Benze-se com o pão. mente. do Esp. fraco e fedorento. derramai sobre nós Vossas sagradas bençãos.

queri. eu esqueci do esmalte. Entregue-se você. a humanidade acabou. . também? Pois eu não. volte aqui. decidida. CARMEM — Às vezes acho que seria mais fácil se a gente se entregasse logo. fica calma. dizem que foi das primeiras a ser contaminada.) CARMEM — Não esquece de trazer a gasolina! E vê se encontra aquela biografia da Lady Di! (A parte. e esmalte.) CARMEM — Vera. E batom. (Pega o fuzil. querida. querida. Meu Deus.VERA (Cortando. lentamente. No que depender de mim.. Eu também vou aproveitar. Eu volto logo. Dorme. Fala baixo. (Sai. querida. pode ter certeza. Aproveita. Prefiro morrer de fome. VERA — Pare de me chamar de querida.) — Calma.) Chega de bobagem.) — Caralho! Não me pegarão com vida. você quer que eles nos encontrem? Fica em paz.) Coitadinha. viro tia de um monstrinho bem nojentinho. (Vai saindo. Não me deixe sozinha pelo amor de Deus! VERA (Vestindo as luvas. Ah. Na melhor das hipóteses. VERA — Para fazer um filho com um desses monstros sobreviventes? Um filho monstro. Foda-se a raça humana. sonha. CARMEM — Os desígnios de Deus são insondáveis. Eu me recuso. se quiser. Pára e apanha um par de luvas de borracha. eu também queria uns bombons. CARMEM — Que amor! VERA — Às vezes eu acho que você ficou completamente louca. ouviu? Eu me recuso a entregar meu corpo para esses monstros..

CARMEM — E no sétimo dia sete anjos desceram de suas sete casas.CENA 6 Enquanto Carmem fala sozinha. que se fizesse silencio por todos os cantos crestados desta terra calcinada por sete carcinomas cancerígenos. Nostálgio está: parado. ainda que tivesse todo o ouro do mundo eu nada seria. dá voltas pelo palco. quem na legião dos anjos escutaria meu grito? Vida.) — Bendita seja a sagrada refeição que me dais hoje. oh vale lamacento do Estige. cavalheiro? . Pega um espanador de penas. lansã! — o fruto de vosso ventre Jesus. Mr. Ondas do Danóbio. se eu gritasse. enumerando futilidades. e em nome do Senhor proclamaram aos sete ventos. sete moradas. acende-se a luz no Plano da Nostalgia. sobem os acordes de alguma valsa bem conhecida. muito formal) — A senhorita dar-meia a honra desta contradança? CARMEM — Falou comigo. Senhor. Imploro-vos de rastros que perdoe minha irmã Vera — ela não sabe o que faz e sem sua força e proteção.. por ti imploramos neste vale de lágrimas amargas de Petra von Kant. Nostálgio aproxima-se cada vez mais. Oxumaré. espana o caixão. minha mãe Oxum! Por ti rogamos. Enquanto Carmem reza (a atriz pode improvisar à vontade). Orai. com uma rosa vermelha nas mãos estendidas para Carmem. Aroboboi. Ao fundo. cheia de graça. Mr. sete moradas. Salve Rainha. doçura e esperança nossa. aroboboi! Ave Maria. seja ele qual for. Senta-se no centro do palco com o pedaço de pão nas mãos. Desde L‘Alma ou algo assim. mãe de misericórdia — eparrêi. CARMEM (Chorosa.. com suas sete espadas de fogo. Em vossas divinas mãos entrego meu destino. fecha a tampa e coloca uma coroa de flores em cima. NOSTÁLGIO (Curvando-se.

Ao contrário. nobre senhor? Nada tenho de cruéis dissímulos. gentil donzela? CARMEM — A honra é toda minha. NOSTÁLGIO — Nome de cigana. outros apenas Gio. Oblíqua. CARMEM — Que exagero. se indiscrição não o fora? CARMEM — Apenas Carmem. das pestes. além da passagem vertiginosa e implacável do Tempo. Tout-court.Nostálgio. a senhorita pode chamar-me assim. ilustre mancebo. dissimulada. CARMEM — Mas deixemos de lisonjas. podeis crer. Mas prefiro Mr. CARMEM — Que romântico! . Uma modesta rosa para enfeitar a suprema rainha de todas as flores.NOSTÁLGIO — Pois evidente que sim. E vossa merca. Quem é mesmo o senhor? NOSTÁLGIO — Sou aquilo que foi. Duas sílabas crocantes: Car e Mem. doce e fatal veneno que a um só tempo mata e embriaga: teu nome sempre será Mulher. e não volta. cavalheiro. sou e sempre serei a mais sincera dentre todas as donzelas. começam a dançar.) — Cigana eu. Um criado seu.) Mas aceito vossa prenda. (Coloca a rosa nos cabelos. Sou o que resta na memória. Nostálgio. embora ainda não saiba sua graça. Alguns preferem Nos. Dar-me-ia a honra da contradança.. CARMEM (Muito coquete... Tudo aquilo que persiste no coração dos mortais. NOSTÁLGIO — Ah.) — Aceite. NOSTÁLGIO (Enlaçando-a. NOSTÁLGIO (Oferecendo a rosa. apesar das guerras.) . como singela prenda de minha ardente admiração e afeto.. fui. garboso jovem. obrigado.

Sou a praia deserta varrida pelo vento nas noites de lua cheia. o arquipélago. CARMEM .. Não passo de uma desgraçada que nada tem de seu além de um sonho falso. NOSTÁLGIO — Sou o bolero eternamente vivo na lembrança dos velhos enamorados. mon bijou? CARMEM (Em transe. CARMEM — Sois tantas coisas belas.. (A valsa pára bruscamente. é dia já. no dia real.. eu não consigo. até que ela o empurra bruscamente. CARMEM — Ai! NOSTÁLGIO — A pérola. venha. Não . de aquellas noches.) — ―Acuerdáte en Acapulco..―É o dia. (Noutro tom. vêde.. o sândalo.‖ NOSTÁLGIO — Sou o perfume no vale entre os seios da bemamada.. o sândalo.. ali fora. Maria bonita.NOSTÁLGIO — Sou o jardim de um sobrado de subúrbio. Vêde..) E eu. quem sou eu? Não sou nada. (Valsam. CARMEM (Cantarolando. enlevados..‖ Não consigo esquecer aquele dia.) . senhorita! Vosso ânimo arrefeceu tão súbito. Maria del alma... Vêde-o. o arquipélago.. CARMEM — A ametista.Poison! Eternity! And last but not least: Chanel número 5! NOSTÁLGIO — Sou o suspiro. Por mais que o tempo passe. Qu‘est que se passe. vêde-o. NOSTÁLGIO — A orquídea. seu idiota.) Mas venha. a ametista. Fazei tudo por reparardes só no dia. coberto por todas as cores de todas as flores recém desabrochadas.) NOSTÁLGIO — Calma. senhor. CARMEM — Autentica. recitando Fernando Pessoa.

) Tamtara-ram-tara-ram. HOMEM (Tirando o fuzil das mãos dela. deixa disso. Enquanto isso.) — Claro que sou eu.. responde logo. a valsa não pode parar! (Ri como se estivesse bêbada.. Não sentiu o meu cheiro? VERA — Não me toque. HOMEM — Que é isso? Por que não? É tão bom sempre.. Carmem e Nostálgio ficam estáticos VERA — Quem está aí? Responde. Ah. Dançando sobre as cinzas de tudo. porque a vida é nada!‖ (Tenta cantarolar.) . Vamos continuar dançando. segura-a por trás.. garota. meu amor. senão atiro. ri muito. nós não temos .podemos perder tempo. Nostálgio tentam dançar sem música. Carmem e Mr. Venha.O que? Você quer acabar com a única coisa que nós temos? Ora. é melhor acabar logo com tudo. Dance comigo. patéticos. vamos valsar entre as ruínas. senão atiro (Engatilha o fuzil. A valsa continua. VERA — Estive pensando.) Vamos. onde pode-se ver Vera com o fuzil na mão. descontrolada. voe comigo! Tam-tara-ram-tararam-ra-ram. Eu sei que tem alguém aí.) E você? Responde logo. maestro! ―Dai-me mais vinho. Vem cá. (Cautelosa. eu gosto.) Música. acende-se a luz no Plano Alfa. Você gosta. Carmem esbarra em coisas. enlace-me como antes. aponta. HOMEM DE CALMARITÁ (Aparece subitamente. enquanto puxa um relutante Nostálgio. CENA 7 Grotescos.

(Agarra-se nele. como você.. ele fica lá. HOMEM — Isso. Na curva do pescoço. nenhum futuro. E maldita a fenda entre minhas coxas que precisa do teu falo.. Tesão e fome. você sabe. Você não tem o direito de jogar isso fora. secreto. Vem cá. E muito perigoso. HOMEM — Não há perigo nenhum.) Vai embora. .. ela começa a ceder. eu não posso confiar em você.. tão forte. como uma certeza. VERA — Tesão e fome. Vem cá. (Cheira-o por todo o corpo. além de nós mesmos.. Deita aqui comigo.) Aqui. The horror. ao mesmo tempo. Existem poucos iguais a nós. continua aqui. (Começa a vestir as luvas de borracha. Não sei o que seria de mim se você não tivesse aparecido. Deixa eu matar minha fome. Só eu posso sentir.. porque não passa. VERA — Agora e terror.) O teu cheiro. garota..) . três dias.) Bem na ponta dos meus dedos. Dois. vem.) — Maldito macho. HOMEM (Acariciando-a. meu Deus. quando parece que passa. HOMEM — The horror. que loucura. você e eu. VERA — Você é tão belo.. deixa eu comer você.. eu tinha quase esquecido do teu cheiro.. E mesmo depois. Nós não estamos contaminados. uma certeza absurda que você vai me trair. VERA — Não! Hoje é a última vez que nos encontramos.. guardado nas minhas dobras. Nós só temos hoje e medo. Sou um sobrevivente sadio.Não diga isso.. nas virilhas. Estamos em extinção. (Afastao. embaixo do braço. Temos que aproveitar.. VERA (Louca de tesão. Teu cheiro fica grudado na minha pele quando a gente se separa. Foi um verdadeiro milagre a gente ter se encontrado. Mas eu tenho uma intuição estranha.nada.. Nenhuma esperança.

Melhor que a prime. meu amor. Não é verdade que você não me quer. CARMEM — Os cristais retinindo! NOSTÁLGIO — O champanhe derramado sobre as rendas! CARMEM — Çá vá! Ça vá! No Plano Alfa: HOMEM — Como você é gostosa.) — Não. onde Carmem e Mr. Vem. me morde. VERA — Repete. a luz vai aumentando no Plano Real. enquanto Vera e o Homem se abraçam com muitos gemidos. Ao mesmo tempo. repete comigo: para sempre. HOMEM — Nada nunca será a última vez entre nós. não esqueço nada. A luz diminui um pouco no Plano Alfa. nada. VERA — Claro que não é verdade.HOMEM — Eu sabia. HOMEM — Nunca. sim. Vem. Me machuca. não se pode viver sem amor. Nostálgio tentam valsar sem música. Claro que tudo é mentira. VERA — A última. Me lambe. VERA — Quero sentir o teu peso. VERA — Pela última vez. Vamos ficar assim para sempre. . Devagar. Mais fundo que todas. HOMEM (Começa a vestir as luvas de borracha. HOMEM — Deixa eu entrar em você VERA — Não esquece as luvas.

mas sem música. me deixa em paz. cada vez mais longe. tentando desvencilhar-se.) . CARMEM (Aos gritos.) — Você não é nada. CENA 8 Os gemidos de Vera e do Homem — obscenos como os de um vídeo pornô — vão diminuindo de intensidade. isso é o que você é! Um manequim de gesso pintado! NOSTÁLGIO (Afastando-se. ferida em pleno vôo.) . minha musa. a rodopiar vertiginosamente no ritmo da fantasia. CARMEM (Deixa-se levar um pouco. Valsemos.Um manequim. NOSTÁLGIO — Sou os pares enlaçados no centro do salão.HOMEM (Erguendo as mãos com as luvas de borracha. depois o empurra. ainda morno de seu coração. você não passa de um boneco de cera com voz de fita cassete! NOSTÁLGIO (Soltando-a e falando mecanicamente. . NOSTÁLGIO — Valsemos. Fora daqui! NOSTÁLGIO — O verso póstumo na algibeira do poeta suicida.) — Pára com isso! Chega.) — Para sempre. minha bela. Os dois voltam à obscuridade enquanto Carmem e Nostálgio continuam a rodopiar no Plano Real.) — O suavíssimo pulsar da andorinha peregrina. CARMEM (Agressiva.Sou o ramo de miosótis esquecido entre as páginas amareladas de um livro de sonetos antigos. CARMEM — Você é um robô ridículo. As valsas não morrem nunca.

Assim. absolutamente nada. Ah. por favor. Sei que era abril porque as folhas começavam a amarelar nos plátanos da rua. E devia ser abril. meu amor. agora. Só o silencio e a luz. Nenhum barulho. VERA — Agora mais forte. Em algum lugar.CENA 9 Volta luz tênue no Plano Alfa. Nós estávamos no porão da casa. VERA — Mais fundo. Havia sempre naqueles dias. acho que era de tarde. Agora. Não pára. minha irmã Vera preparava um vestido novo para a festa daquela noite. CARMEM — Então veio a luz. HOMEM — Junto comigo. meu amor. as luzes todas acesas. assim. No Plano Real: CARMEM — Era de tarde. VERA — Estou indo. Naquela tarde. O diálogo de Vera e do Homem entremeia o de Carmem e Nostálgio no Plano Real. Estou indo. Nada. cintilando. devagar. Eu não gostava de ir a festas. Onde você gosta. VERA — Aqui. Era uma vez. Tinha que ser em abril. o brilho dos cristais.) — Havia uma festa. Eu olhava fotografias de um álbum antigo. o mais cruel dos meses. Devagar. mais longe. . Faz muito tempo. nunca ninguém me tirava pra dançar. NOSTÁLGIO (Ao longe. HOMEM — Como você gosta. tenho quase certeza. Vem que eu te espero. naquele tempo. nenhuma explosão. HOMEM — Vem comigo. De repente.

VERA — Carmem rasgou sem querer a fotografia. no mesmo momento em que tesoura caiu no chão. Só aquela luz clareando tudo longe. para não ficar cega. Os corpos. Talvez já tivessem morrido. bem em frente a Notre-Dame. nem os ossos ficaram. Vários dias depois. a luz fica mais forte. Em pé. de aço. esverdeada. eu não lembro. eu gritei e gritei até perder a voz. Vera faz contraponto a Carmem. VERA — Eu podia imaginar que tudo mudaria tão completamente e para sempre depois daquela luz. O Homem continua deitado. VERA — Só muito depois encontramos os corpos de papai e mamãe. De olhos fechados.. um barulho seco. Eu vi o reflexo dela no rosto de Carmem e deixei a tesoura cair no chão. Dentro só tinha cinza. VERA — Uma luz insuportável. Uma iuz que cortava a retina da gente. Parecia de vidro.Uma luz cegante. CARMEM — Eu comecei a gritar. . sem querer. CARMEM — Plác! fez. No Plano Alfa. Para não ficar cega. tapei meus olhos com uma das mãos. rasguei a fotografia que tinha nas mãos. Eu quero dizer. CARMEM — A tesoura de Vera caiu no chão e eu. as roupas. Pelas janelinhas do porão dava pra ver o vento de fogo queimando tudo. CARMEM — Papai e mamãe estavam fora. Plác! VERA — Era uma foto de nós duas em Paris. dentro e fora do porão onde eu estava com Vera. e fiquei quieta quando o vento começou a soprar.. CARMEM — Primeiro veio o vento. Mas não fiz nenhum ruído.

fantasia. (Ergue a tampa do caixão. não me deixe só. senhor Nostálgio.) — Repousa. Desde aquele dia. Outra vez.) . que a vida é apenas e nada mais que sonho. Quinze. adormece. NOSTÁLGIO — Acalme-se. NOSTÁLGIO — Apenas para o sono da beleza. E para sempre. sempre era de tarde ou de manhã naquele tempo.) Por favor. CARMEM — Eu tenho tanto medo. já está passando. A pele da senhorita acordará louçã como uma porcelana chinesa. CARMEM — Era de tarde.) Convém deveras repousar um poucochito. no Plano Alfa. vinte minutos no máximo. senhorita.Esquece. tudo pó. NOSTÁLGIO (Acomodando-a no caixão. Não me obrigue a entrar no caixão. CENA 10 . De que adianta lembrar? As coisas não mudaram entre nós. minha bela. Já vai passar. Como se estivesse louca. só mais uma. (Muito frágil. VERA — Completamente. está prestes a fechá-la. (Toma-a pelo braço e começa conduzi-la em direção ao caixão. Pronto. Eu não conseguia parar de gritar. CARMEM — Eu gritava.HOMEM (Para Vera. com Carmem dentro. Pó. Como se o grito pudesse me salvar. pronto. vem. A luz apaga no Plano Alfa. Tudo mudou completamente. gritava. ilusão. por favor. vem cá. vosmecê nem necessita. Agora parece que está sempre anoitecendo. Já passou. Que diga-se de passagem. A senhorita está demasiado atacada dos nervos. quimeras. Deita aqui comigo.) Memória. Dorme e sonha.

gemada.) — Você ouviu? É a segunda transmissão de hoje. Enquanto Nostradamus fala. da sua. porrada. Nostálgio começa a voltar ao Plano da Nostalgia. em mais uma de suas transmissões diárias diretamente do centro da minha. é nada. Carmem permanece estática dentro do caixão e Mr.É muito tarde. Sacudam suas muletas. muita atenção.NOSTÁLGIO (Está por fechar a tampa do caixão quando entra novamente aquele ruído eletrônico das transmissões de Nostradamus. Cinza Angra 2. Na voz tropical de Ney Matogrosso. ão. eu tenho que ir. Aqui fala o seu repórter Nostradamus Pereira. A voz de Vera aos poucos sobrepõe-se música. VERA . . vamos ouvir Trepa no Coqueiro. ão: atenção. VERA (Para o Homem. E conta. para lembrar os velhos bons tempos do libido. E agora fiquemos com mais outro hit do século passado. Não deixe o sol queimar as suas pústulas: passe cinza nelas. o porta-voz do Apocalipse. Tudo está sob absoluto controle. à venda em qualquer Posto de Insalubridade bem perto da sua toca. à procura das Irmãs Sisters. depois diminui ao mesmo tempo em que volta a luz no Plano Alfa.) NOSTRADAMUS — E ão. únicos seres capazes de salvar a humanidade da completa extinção — oh não. moçada! Esta é pra quebrar o gesso! A música toca um pouco (esta ou qualquer outra). E continuam as frenéticas buscas das Sisters Salvadoras Carmem e Vera. é mina. oh não. desventurados sobreviventes deste mundo cão. Luz no Plano Mídia. Que nada. HOMEM — Sempre a mesma bobagem. que escuridão! Batalhões patrulham incessantemente os escombros das ruas da cidade. da nossa Zona Contaminada.

criticam. nunca vi seus corpos. Mr.) — Não havia uma festa? Onde foi todo mundo? Todos sempre me deixam só. Não conheço suas caras.) Só esta caixa preta. já esqueci. até Vera.) Talvez sem eles eu nem existisse. fado. Eles sabem tudo sobre mim. (Começa a espalhar pelo palco uma fileira de bandeirinhas de São João. ela vê as coisas da rua. Nem mesmo esta existência de merda. vai caindo a garoa. bem coloridas. (Canta. dentro do caixão. Volta no Plano Real. cercada por olhos fosforecentes que observam cada um dos meus movimentos do fundo da escuridão. E eu não sei nada sobre eles. à minha volta. (Noutro tom. Uma canção antiga. Nostálgio está no seu Plano da Nostalgia. Observam e julgam.) Não havia uma festa por aqui? Então vamos cantar. essa é a única maneira de vencer o fim do mundo. No livro original não consta a Cena 11 . uma canção esquecida.) O que é que vocês esperam de mim? Eu não tenho nenhuma sugestão a fazer para melhorar a vida de vocês. destino. Karma. (Para a platéia. mortal e desvairada! (Procura algo dentro do caixão. acende a fogueira no meu coração.) ―E o balão vai subindo. Sina. Estou trancada dentro desta caixa preta. ) CARMEM (Saindo do caixão. minha gente. sentado na bergère ou numa cadeira de balanço.) Não é justo. São João. esqueci tudo. Eu não tenho nada. Ai de mim. Quem foi mesmo que disse isso? Ah não importa. São João. enquanto o tempo não passa.(Apaga-se a luz no Plano Alfa. os spots. E esperam. Sei apenas que seus olhos estão sempre lá. a platéia. Mas o melhor a fazer é cantar. Ela tem uma vida fora daqui.‖ Obs. Eu não tenho nada. Dessas que ninguém lembra mais. (Olhando o próprio palco. sempre aqui. Cantar e dançar. A noite é tão linda e a chuva é tão boa. vigiam todos os meus passos. Qualquer canção. Carmem está sozinha no palco.

já disse.) Semana que vem eu volto. sete dias.) Vou levando o seu cheiro junto comigo. Tenho que ir. acho que sim. Fica mais um pouco. dança e espalha bandeirinhas pelo Plano Real. Sei lá.) — Que que foi? Vai me pedir em casamento? . olham-se em silêncio por algum tempo até que ela se volta para sair. sobre Vera e o Homem. Mas juro que eu volto. HOMEM — Mais um pouco.) — Deve passar do meio-dia. é muito arriscado. (Acaricia o Homem.) VERA (Tirando as luvas. Se houver o Coro dos Contaminados. VERA (Rindo. Nostálgio também sai de seu Plano para ajudá-la. Mr.) HOMEM (Segurando-a pelo braço. Todos brincam enquanto a luz diminui para voltar no Plano Alfa. cento e sessenta e oito horas.) — Dez mil e oitenta minutos. é isso? Nunca fui muito boa em contas. Tem uma coisa que eu quero te dizer. HOMEM — Eu levo você em casa.CENA 12 CARMEM (Canta. VERA — E você acha que vou dizer onde moro? HOMEM — Você não confia em mim? VERA — Confio. HOMEM — Não é isso.) — Espera. (Procura o fuzil. pode colaborar com ela. VERA — Não posso ficar mais. VERA — Não. Uma semana. VERA (Irônica. (Abraçam-se. HOMEM — É muito tempo. Mas não a esse ponto. faz tempo.

Dizem até que tivemos sorte de sobreviver. Teu amor e uma cabana. Um lugar paradisíaco onde a gente pudesse tomar banho de mar e fazer amor o tempo todo. claro. onde.) — Calma.. como nos velhos tempos. drinques tropicais de abacaxi com camarão. VERA — Fugir? Mas fugir pra onde.. eu tenho que trepar — eu tenho que sobreviver todo santo dia.. sílaba por sílaba. hein? Coqueirais e areia branca. meu bem? Capri. Eles querem que todos pensem que tudo começa. no planeta inteiro. Goa. Finalmente apertaram o botão: bum! acabou.) — Calmaritá. .HOMEM — Foge comigo.) — A luta é aqui.. Arembepe? HOMEM (Lentamente. Eu tenho que comer. dentro da Zona Contaminada. escombros. o que? O que foi que você disse? Eu já ouvi esse nome em algum lugar. VERA (Voltando.) HOMEM — Eu disse Calmaritá. VERA (Sarcástica. (Pausa. Só aqui. E legiões de contaminados pelas ruas. HOMEM — Isso é o que eles dizem. Estou farta de sonhos idiotas e escapistas. sei. VERA — Que lugar? Foi tudo destruído. VERA (Sem prestar atenção. Bem que eu gostaria.) — Não me diga. S6 ficaram ruínas. Mas. O que existe é isto. eu tenho que dormir. muito atenta.. O que eles querem que a gente acredite. ―Santo‖ é maneira de dizer. acontece e acaba aqui. (Vira as costas e vai saindo. HOMEM — Existe outro lugar.. detritos. meu bem? Você sabe perfeitamente que não existe mais nada além da Zona Contaminada.) Mas eu conheço outro lugar. porque não interessa ao Poder Central que todos vão embora à procura de outra coisa.

O fogo purifica. Xangô menino. e. Vamos pular a fogueira? NOSTÁLGIO — Primeiro você. quase cai. Vai logo. Eu disse Calmaritá. Ai. mija na cama.. E proibido falar desse lugar.‖ Acende. São João — acende a fogueira no meu coração. eu já vou.HOMEM — Claro que você ouviu... implicante.. VERA — Calma. São João. NOSTÁLGIO — Será que eu consigo? CARMEM — Claro que sim. Carmem e Mr.. é proibido dizer essa palavra. São João. Quem pisa no fogo.. (Pula e tropeça. Um. . NOSTÁLGIO — Não precisa empurrar. Quem pisa na lama. Agora é a sua vez. como é mesmo? HOMEM — Calmaritá.) CARMEM (Batendo palmas. Nostálgio brincam feito duas crianças — ou dois retardados mentais — no palco enfeitado de bandeirinhas. CARMEM — Então lá vou.Quem pisa na brasa. Pronto. São João.. Acende. mija de bobo. dois. dois e.. Todos falam em voz baixa. bem quente. (A luz apaga subitamente no Plano Alfa.. Um.. Mas ele existe.. mija na casa. Em algum beco escuro. pulei.) CENA 13 No Plano Real.) . (pulando uma fogueira imaginária) três. num sussurro. Acende uma fogueira bem grande.. CARMEM — ―São João.

então? NOSTÁLGIO — De sorte.) CARMEM . CARMEM (Pingando a vela na água e contando. E aqui tem tudo que a gente precisa. treze vezes. É superdivertido. orienta.. Vamos brincar de ver a sorte. Só escorreguei um pouco. Treze gotas. NOSTÁLGIO (Pega na mão dela.Não pisei nada. A cinza é a única redenção da matéria vil. Só o fogo purifica. dois.) — Agora você vira a vela assim. olha só. O que será isso? Um triangulo? Não. E muito importante acender a vela.NOSTÁLGIO . sim. Você vai adorar. CARMEM (Em transe. vem cá que eu te ensino.) NOSTÁLGIO — Se o desenho formar um coração é um novo amor. NOSTÁLGIO — É fácil. .) Primeiro a gente acende a vela. não. NOSTÁLGIO — Quer. (Pega uma vela e uma bacia cheia d’água. pega. Não sei se eu quero. Acho que é um navio. (Acende a vela lentamente. isso é meio chato. três. NOSTÁLGIO (Trombudo. CARMEM — Ah. CARMEM . Parece mais um.) — Não quero mais brincar disso? CARMEM — Você quer brincar do quê.. CARMEM — Você mija na casa. bem devagarinho também. (Conta até treze. Toma. com um toque de maldade.. quatro.) — O fogo purifica. E não é chato nada.) — Um. você mija na cama. você mija de bobo. E vai pingando.Acho que não está formando nenhum coração. bem devagar.Eu não sei como é esse brinquedo. um navio..

) Eu não vou morrer. sim. CARMEM — E cruz. Deve ser outra coisa. faz tempo. bem infernal.) Estou ouvindo um barulho. Para bem longe. Vera. Não pára de mudar. E é pra logo. horizontal. a alma está vazia. é você? VERA (Em off) . A vida está deserta. É morte certa. está mudando..) — Cruz é morte certa.. Espera até a água parar de se mexer. Você está mentindo! NOSTÁLGIO — Cruz é morte. é a Stephanie de Mônaco. Fica quieto. Carmem olha em volta. Vera. CARMEM — Cala a boca. Eu estou mandando. batendo palmas e cantando. NOSTÁLGIO — Já parou.. CARMEM (Aos gritos. Um risco assim. CARMEM — Pára com isso! NOSTÁLGIO (Implicante.. Você está pirada. Eu já morri. CARMEM — Mentira! (Agitada.) — Não. parece que tem alguém aí. (Nostálgio estatiza. Você não sabe nada. Tudo bem aí? . CARMEM (Aterrorizada. fui eu que inventei você. Claro que sou eu. Cruzérrima. NOSTÁLGIO — Não mexi nada. fica quieto. Evidente que é uma cruz. cruz não.) — Você mexeu a bacia. NOSTÁLGIO — Uma cruz. outro assim. vertical. assim não vale. cruz quer dizer o quê? NOSTÁLGIO (Cruel. CARMEM — Espera.Não. todo mundo sabe.NOSTÁLGIO — Navio é viagem. Agora parece uma. E cruz é morte certa. E é uma cruz.) — Treze gotas na bacia. pulando em volta dela.

sai daí. não vai formar o desenho de uma cruz. que vai voltando para seu Plano com a vela acesa nas mãos. Mas acho que vai formar coisa bem diferente. O desenho vai ser de um navio. entregando-lhe a vela acesa e empurrando-o para que Vera não o encontre. tudo bem. Para bem longe. então.E atenção. (Empurra Nostálgio. olha só.CARMEM — Tudo. ado .) NOSTRADAMUS .) . VERA — Pois. A gente só vê mesmo aquilo que acredita.) Anda. O seu repórter Nostradamus Pereira informa que movimentos inusitados foram observados durante a manhã de hoje num supermercado abandonado — ado. (Para Nostálgio. vai? VERA — Cruz? Bom. não. vamos. hein? Era aquele seu amiguinho invisível outra vez? CARMEM — Vera.Cruz.próximo ao cruzamento das avenidas Chernobil com Nagasaki. (Entra o ruído da transmissão de Nostradamus. até pode. ela não acreditaria. Cruz eu não gosto. dá o fora. VERA — Cruz coisa nenhuma. Ela não pode ver você. bota atenção nisso.) E mesmo que visse. CENA 14 VERA (Entrando. é. Ambas se imobilizam. sabe o que? CARMEM (Infantil. da nossa . E você lembra o que significa navio? CARMEM — Uma viagem. Anda logo.) — Pelo visto você andou se divertindo. bem no coração da sua. me explica uma coisa: se eu pingar treze gotas de uma vela numa bacia cheia d‘água. da minha. meu povão.

VERA (Abrindo a bolsa e jogando latas e pacotes. VERA — Não existem mais flores. salsicha. japona! O gringo bunda-mole te chifrou mesmo! Arrive derci cornutta! (Nostradamus dubla Maria Callas no Plano Mídia. bombons. Nós vamos embora daqui. sempre a mesma história. Tem café. quero dizer. (Entra Callas cantando. Voltaremos a informar nos horários habituais ou a qualquer momento em edição imaginária. Rárárá. quero dizer.) Carmem. não é nada disso. tudo que você pediu e muito. CARMEM — Já sei: você encontrou rosas brancas. escuta. fiquem agora com a ária do suicídio de Madame Butterfly. quero dizer. na voz lendária de Maria Callas. trouxe. Eu preciso te dizer uma coisa importante. alimária.) — Está bem. Nada de novo. Come à vontade. Olé. você trouxe? VERA (Mostra um galão. (Pega nas mãos de Carmem. enquanto voltam Carmem e Vera no Plano Real. CARMEM — Você está tão estranha. CARMEM — Embora? Mas agora. já? Agora não. quero dizer Con-ta-mi-nada. olé. esmalte.) VERA — Saco. nozes. agora eu estou com fome. muito mais. Minacontada. batom. Nós somos mais espertas que o Poder Central.Zona Vitaminada. E as revistas. tudo está rigorosamente sob controle.) — Trouxe. CARMEM (Mastigando algum coisa. Até parece feliz. com coreografia do Coro dos Contaminados (se houver). E por falar em ária.) Te mata. . Escuta: nós vamos fazer uma viagem. biscoito. e é possível que novas buscas levem finalmente ao covil onde escondem-se The Irmãs Sisters Carmem e Vera.) E a gasolina. extraordinária. Eles nunca vão nos encontrar. então coma primeiro. sardinha.

De verdade? VERA (Maliciosa. casas de cultura.. .. sabe. feliz talvez ainda não. mas vou encontrar.. meu bem. você ficou louca. Por onde eu vou começar? Bom. O que aconteceu foi que. Você contou a ele aonde nós estamos e agora temos que fugir. hospitais. E que equipamento. eu preciso te contar. Não é nada disso..) — Calma.) .Um contaminado? Vera. era essa a viagem que você falou..) — Feliz? VERA — Bom. Eles precisam de nós. VERA (Cortando a enumeração interminável. E o homem também é outro. Agora eles vem nos pegar...Claro. como era mesmo o nome? Aquela coisa antiga. irmãzinha! Eles estão atrás de nós.. meu bem. estou.) . para onde a gente vai agora? Já estou cansada de andar me escondendo por igrejas. teatros. Senta aqui. E um homem como nós. CARMEM — Você encontrou a biografia da Lady Di? VERA — Ainda não.. livrarias — livrarias até que eu gostava —. Sei. sabe qual? CARMEM — Esperança? Não me diga que você está com esperança! VERA — Estou. Meu Deus.VERA — E estou. museus. CARMEM (Incrédula..) . A viagem que eu falei é outra. CARMEM (Muito surpresa. que fazia a gente esperar que tudo desse certo.. Eu encontrei um homem. bares.. Mas tenho assim. Não é um contaminado... cemitérios. aquela coisa. Um homem bom. Com todo o equipamento. eu. CARMEM — Não existem mais homens bons. CARMEM (Assustada.

irmãzinha. Traga sua irmã. devorado pelos animais mutantes. ele veio de lá. Só um buraco escuro. Ele conhece bem esse lugar. só quem sabe que ele existe consegue encontrar. Nós precisamos nos reunir. CARMEM — De lá. venha comigo para as Terras de Calmaritá. Vera. Umas trinta pessoas. gente que por alguma razão conseguiu escapar das mutações. como eu. mesmo chegando perto não vê coisa nenhuma. de onde? Não existe lugar nenhum fora daqui. Existem outros. Ele me ama. Eu tenho certeza. Fica meio escondido. trazida por um de nós. Se nós sairmos logo .VERA — Esse é. as planta canibais. não muito longe. Um mundo muito melhor que aquele que nós conheciamos antes da Grande Catástrofe. Fica ao norte daqui. nós precisamos nos reproduzir e nos fortalecer para o futuro que virá. Não tem muita gente lá. é destruído pelos contaminados. Ou você acha que você e sua irmã são as únicas sobreviventes da Grande Catástrofe? Não. Carmem e Vera paralizam-se. De onde veio esse homem. de longe ninguém vê. além de vocês. Já faz tempo que a gente se encontra. Um mundo novo. mas quase todo dia chega gente nova. E se perde no meio do caminho. esse lugar chama-se Calmaritá. nas terras altas. Venha. mas só hoje ele me contou de um outro lugar que existe perto daqui.) HOMEM — Calmaritá. Vera? CENA 15 (Luz no Plano Alfa. Gente como você. Ele não estava mentindo. Quem não sabe. E um vale à beira do último rio de águas limpas. Luz sobre o Homem de Calmaritá. parado no Plano Alfa. além de mim. não são.

CENA 16 Apaga-se a iuz no Plano Alfa. que é tão bonito.) — Antes do entardecer eu passarei para apanhar vocês. VERA — Tem calma dentro dela.fica apenas no Plano Real. Arrumem suas coisas e venham comigo. Atravesse em diagonal a Praça Hiroshima. meu bem. Onde vocês moram. voilá. aquela com a estátua de Prometeu bem no meio. Vamos todos embora para as Terras de Calmaritá. por volta da meia-noite estaremos chegando lá. CARMEM — E tia. VERA — Tem alma. CARMEM — E Clara. suba quatro quarteirões em direção ao Comissariado Leste do Poder Central. HOMEM (No Plano Alfa. bem em frente.) — Saindo daqui. CARMEM — E mar.depois do par-do-sol. agora revele o seu. Fica do outro lado. VERA — E lar. . também tem. CARMEM — E ama. Eu revelei meu segredo. e é bela. tem maria lá. CARMEM — Parece bonito. VERA — Tem maria. tem lá. na loja funerária com a fachada incendiada. você e sua irmã? VERA (No Plano Real. parece gostoso lá: Cal-ma-ri-tá.

Ita. Só porque você tre. diferente das outras duas. E não foi você mesma quem disse que. Não sei explicar. petininga. CARMEM — Que vulgar. maracá. irmãzinha? Afinal.. Ita.. tem lama lá. não foi isso? Pois eu mudei de idéia. CARMEM — Mas tem. VERA — Itaqui.. Itacuruçu. naquele mesmo lugar onde antes só existiam tesão e fome.. isso não é motivo.. eles não são todos iguais? VERA — Esse é diferente.) Será que nós podemos confiar nesse homem..) Desde que comecei a sentir a presença de uma outra coisa aqui. Vera! Além do mais. insaciável.VERA — Tem ita. como . Essa coisa nova dentro de mim me dá assim como uma espécie de. Uma terceira coisa. Agora não é mais apenas um buraco voraz. VERA — Eu sei o que eu disse: no que depender de mim. (Noutro tom... CARMEM — Um filho dele? Meu Deus.. CARMEM — E se ele nos denunciar ao Poder Central? VERA — Ele não faria isso. CARMEM — Como você sabe? VERA — Eu trepei com ele.. poâ... que tragédia! Eu vou mesmo ficar pra titia. Você sabia que na língua dos índios ita significava pedra? CARMEM — Ita. furioso.. VERA — Ele é um homem bom. não significa que. a humanidade pode acabar. CARMEM — Como é que eu posso ter certeza? VERA — Eu vou ter um filho dele.. (Acariciando o ventre. fez amor com ele.

) CARMEM (Encantada. Tão insensato. Gabriel. (Sonhadora. E isso ai.Tem um rio. e que só por falta de outra palavra ainda insistimos em chamar de ―humano‖. ele desce e vai recolhendo as bandeiras de São João. (Tira um rolo de papel. tão irracional na sua fantasia desenfreada que chega a inventar nomes próprios e lugares geográficos imaginários .era mesmo aquela coisa antiga que a gente sentia quando acreditava em alguma coisa? CARMEM — Fé? Meu Deus. Enquanto fala. Nostálgio. esse escombro que restou. CARMEM — E ele sabe? VERA — Ainda não. Humano? Quero dizer.) NOSTÁLGIO — Ilusão. Se for menino. Para continuar existindo. isso é tudo que o ser humano necessita. CENA 17 (No Plano Real. E eu vou ser tia.) . se por acaso ele não vier. Vou contar hoje à noite. Que nome você vai dar pra ele? Precisamos fazer uma lista. Fé. VERA (Sem ouvir. Daniel. Carmem e Vera falam baixinho. Rafael. eu gosto muito desses nomes de anjo. Ah. Luz no Plano da Nostalgia.) — Depois que o sol se for. fazendo planos. Arjel. sobre Mr. você está sentindo fé? VERA — Pode ser. que bom vai ser passear com o meu sobrinho na beira do rio. abre. basta atravessarmos a praça e seguir por aquele caminho que vai para o norte. CARMEM — E se ele não aparecer? VERA — Ele me deu o mapa de lá.) Quando chegarmos a Calmaritá. debruçadas sobre o mapa. Vera.

Eu não vou levar nada. Carmem. (Recitando Manuel Bandeira. cheios de sugestões que incendeiam a mente dos pobres coitados. eu acredito. Paraísos obsessivos. Mu.) ―E quando estiver cansado / Mando chamar a mãe d‘água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar. . CARMEM (Remexendo dentro do caixão. Nossa vida vai mudar.) — Pois eu preciso de muita coisa. nas terras altas. Atlântida. VERA (Estendendo a bolsa. Ilusão. úteros perdidos a serem recuperados de alguma forma. continentes perdidos. Me empresta a sua bolsa. então preciso arrumar as minhas coisas.para a própria ilusão. Rosebud. Shangri-Lá. E se é verdade. Calmaritá. o Jardim das Hespérides. e que tm apenas um nome. Eu acredito. É tudo. terras do eterno prazer. Ao norte. CENA 18 (Carmem e Vera no Plano Real. Tudo que é necessário para começar um mundo novo. Eldorado. eu já dizia cá com os meus botões.) CARMEM — Parece verdade. Getsemâni.) — Pode pegar. no sonho. meu corpo.) VERA — É verdade. VERA — Meu filho. (Sai. mesmo que apenas na fantasia. sonoros. Lemúria. Essas coisas em que não se pode jamais tocar. Nomes mágicos. ilusão é tudo que o humano — esse escombro patético — necessita para continuar existindo.‖ Utopias. Ah. Parece um sonho. Pasárgada. CARMEM — Calmaritá. Tudo que preciso está comigo. Na mente.

pourquoi pas? Nunca se sabe o que as pessoas usam nessas tais Terras de Cal. CARMEM — Pois é. mar e ita. tem mungunzá. VERA — E caruru. Tem tudo lá. Agulha e linha também. Vera? VERA — Calmaritá. VERA — O que? CARMEM — Será que tem lá? VERA (Rindo e dando inicio a um jogo meio infantil) . Alguns botões. calma. me leva pra lá. sei lá. com trejeitos de Carmem Miranda.. Me diga só o que não tem em Calmaritá? Axé. eu preciso de uma porção de coisas. Como é mesmo. De repente. Ah me leva daqui. oba lá-lá. sempre é bom. vamos embora daqui. CARMEM — E vatapá. Não posso parecer uma mendiga. me diga só o que não tem em Calmaritá? Tem sapoti.Deve ter. cada aquela coleção de Manequim? Eu é que não quero andar mal vestida no meio de uma terra e de uma gente que nem conheço direito. meu bem. VERA — Mais uma meia-hora e ele deve estar chegando por aí. meu bem? Acho que vou levar uns moldes também. não tem ali. eu quero ir já pra Calmaritá. é um lugar chiquérrimo. Não tem aqui.. CARMEM — E boitatá. eu quero ir já. Babá. é o que eu digo. minha primeira boneca. A Priscilla. Eu não tenho filho.) — Tem tudo lá. eu não tenho homem. meu pai Oxalá. . CARMEM — Doce de abóbora.CARMEM — Mas eu não. Carmem. né. AS DUAS (Improvisam fantasias com as tralhas de Carmem e cantam. Uma tesoura. pois só tem lá. Tem juriti e abará. Priscilia querida? Vamos embora. Como vai. por exemplo (tira uma boneca do caixão).

caríssimos. com gestos de Carmem Miranda. Há poucos instantes foi capturado mais um dos raros. o Coro dos Contaminados faz backing-vocal. sexo masculino — e bota masculino nisso! é um bofe máravilhoso! até eu que nem sou chegado fiquei balançado como um veado — ado. onde está parado o Homem de Calmaritá. bem no ponto! Enfim. (Luz no Plano Alfa. please! — o paradeiro das Irmãs Sisters Carmem e Vera. sem qualquer sinais exteriores de contaminação. a esperança voltou! Em edição extraordinária aqui quem vos fala é o seu repórter Nostradamus Pereira. atention. mucha atenção. ado. As duas congelam como quem brinca de estátua. ira.) — Você nos denunciou! HOMEM — Me perdoa. sofridíssimos. Se houver. íssimos — sobreviventes da enorme. eles me torturaram. ado. caros. da Grandissíssima Catástrofe. as únicas fêmeas capazes de salvar a humanidade da mais negra e completa extinção. . ira: Jacira! — . raríssimos. íssimos — sobreviventes da Grande Catástrofe. desventuradíssimos — íssimos.CENA 19 Carmem e Vera brincam como duas meninas. pouco mais ou menos. sem mais frescuras e submetido à confissão obrigatória o charmoso sobrevivoso má-ravilhoso revelou saber — atenção. amadíssimos.) VERA (Para o Homem. o arauto do fim dos tempos. ira. da imensa. com coreograJlas e muito tchurutchuru e oh yeah! De repente o zumbido de Nostradamus no Plano Mídia interrompe tudo. aparentando por volta de 30 anos. atención. procuradíssimos — íssimos. De número não identificado. VERA — Você devia ter resistido. NOSTRADAMUS — E atenção. porta-voz oficial do Poder Central.

mais pra mina do que pra conta. Queriam saber de você. o sobrevivente.) HOMEM — Foi quando eu atravessava a praça. Nostradamus e o Coro dos Contaminados cantam e dançam loucamente. da nossa Zona Contaminada. eles estavam escondidos atrás da estátua de Prometeu. ninguém resistiria. muito animado. morta na Grande Catástrofe. quero dizer. NOSTRADAMUS — Segundo revelou a lasanha. embora morta. as gatinhas Carmem e Vera estão descaradamente escondidas numa loja funerária semidestruída em pleno centro da minha. no mais expressivo hit do século passado: Sa-tis-fa-ti-on! Hoje mais do que nunca. Eu não sou um número. da sua. não haverá fuga possível para as Irmãs Sisters.) CENA 20 CARMEM — Você ouviu? . E se não for. Ao mesmo tempo. a tia tinha razão: ninguém consegue ter satis-fa-ção! (Entra a voz de Mick Jagger. que continuam estatizadas no Plano Real. a luz permanece acesa no Plano Alfa. Me perdoa. como se eu fosse um bicho. O Homem tem uma das mãos estendidas em direção a Carmem e Vera. Vera. vão coçando aí suas feridas. o Coro de Contaminados acompanha. (Sempre com os Rollings Stones ao fundo. Enquanto a funerária é cercada. Se for verdadeiro o que afirma o garanhão. eu nunca tive. que um dia será. Eu traí você. Queriam saber meu número.HOMEM — Eu não tive culpa. eu fui fraco. Batalhões armados até os dentes que sobraram já cercam o local. eu não tinha. Eles me pegaram. fiquem com a voz de titia Jagger. Mais pra zona do que pra nada. Fui obrigado a contar. com redes.

VERA — Ele é um homem bom. gatinhas. e daqui a pouco a humanidade estará salva! Enquanto o cerco se fecha irreversivelmente. NOSTRADAMUS — Completamente cercadas. algemas e mordaças serão utilizadas para prender as feras. fiquem com Outro hit da etapa anterior à Grande Catástrofe. VERA — Ele sempre fala de nós. o que é que nós vamos fazer? Estamos perdidas. moçada contaminada. que tesão! — estão totalmente cercadas pelos batalhões do Poder Central. Soltem todos suas frangas (vai entrando aquele tema de Dancing Days.) E agora. (Nostradamus e o Coro dos Contaminados dançam ao som das Frenéticas. ai. Meio sem graça. Nós estamos cercadas. CARMEM — Ele falou de nós. numa homenagem às Irmãs Sisters. Sandrão e Leiloca). Eu tenho o mapa. Tia Rege. Desta vez ele falou também do homem. para felicidade de todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. Existe um auto-falante em cada esquina da cidade. Do seu homem. Aos poucos vão saindo de seu Plano. Lidoka.) . Todo mundo ouviu. tiram Nostálgio para dançar. (Sacudindo Vera. Vamos lá. informa que as Irmãs Salvadoras Carmem e Vera — alô. vão preparando suas xoxotinhas para reprodução. ele tenta. gás lacrimogêneo.VERA — Claro. alô. cada vez mais alto com Dudu. CARMEM — Como ―bom‖? Ele nos denunciou! Nós estamos perdidas. amadas! Em edição extraordinária o seu repórter Nostradamus Pereira. Edir. CARMEM — Mas não adianta mapa. CARMEM — E do homem. A prisão é questão de minutos. Redes. VERA — Eu não estou perdida. bailem comigo ao som de As Frenéti-cas. o Nostradamus.

Ele me deu o mapa. Existem mais alguns. Tudo acontece ao mesmo tempo. VERA — Eu vou tentar. mesmo que não exista mais. lembra? Faz tanto tempo. (Luz no Plano Alfa. e que nem sei se existe. . cacos de vidro partidos —. E se você tiver o mapa. num vale escondido nas terras altas. Eu quero o que se perdeu. onde esta o Homem. VERA — Eu tenho o mapa. CARMEM — Isso é loucura. Eu desisto. Venham comigo para as Terras de Calmaritá. Você tem que tentar também. eu não quero. eu fico aqui. não fica muito longe. Não quero esse lugar para onde você vai. Vem comigo. Ou então um mapa. O clima é atordoante. além de vocês. E preciso um companheiro para chegar. se você estiver só. CENA 21 (A partir de agora a ação acelera loucamente. Eles vão nos pegar. chegaremos lá por volta da meia-noite. Eu não vou. CARMEM — Como os bonzos budistas.VERA— Eu vou fugir. CARMEM — É impossível. amém. sirenes. misturados aos fundos musicais anunciados por Nostradamus e a sons eletrônicos. Se sairmos ao entardecer. CARMEM — Eu não posso. além de mim. Ruídos violentos começam a ser ouvidos — explosões. para sempre eu desisto.) HOMEM — Ao norte daqui.) VERA — Eu tenho o mapa. Eu quero aquilo que conheço.

O homem não mentiu. CARMEM (Pega o galão de gasolina e começa a derramar por tudo. Onde estará aquela vela? (No Plano da Nostalgia. CARMEM — Eu fico por aqui. o meu gesto mais nobre é desistir de tudo agora.VERA — Existe. seus tempo bemmovimentos dentro por permaneceram escondidas. e é tro.) — Já disse que eu desisto. e é fé: ca-tás--tro-fe. ilusão ou realidade. Venha comigo.) NOSTRADAMUS — E em vez de música. Finalmente as buscas tiveram seu fim. Eu vou para Calmaritá. CARMEM — Onde está a gasolina? VERA — Para quê? Você não pode fazer isso. Daqui de onde do estamos tenebroso Aleluia! já conseguimos antro onde e senhoras visualizar tanto senhores. Renuncio. E se não existe esse. O fogo purifica. existe outro. estão completamente perdidas. Carmem! Você não é idiota a esse ponto.Loucura.) . e é tas. ivo. hoje vamos brindá-los com um magnífico soneto de Luiz de Camões. Carmem e Vera estão totalmente cercadas. sobreviventes da Grande Catástrofe. E é cá. Neste momento. Nostradamus acende a vela que Nostálgio tem nas mãos. informou e continuará informando o seu repórter Nostradamus Pereira neste glorioso entardecer do septuagésimo dia do Décimo Terceiro Ano da Peste. minha gente. claro. venha comigo. NOSTRADAMUS (Abraçado a Nostálgio. Nostálgio vai caminhando com a vela acesa em direção a Carmem. Carmem e Vera. ivo. as famigeradas Irmãs Sisters Salvadoras. VERA — Eu vou embora. Eu tenho uma cruz marcada no meu destino. caros ouvintes. Não há como fugir. pouco importa: agora é definitivo. ados. na voz . aventurados idolatrados adorados ados. Sempre existe algum lugar. Ou achadas.

) VERA — Não faça isso. mas quem se importa com isso? Aliás. eclipse nesse passo. cuidem que o mundo já se destruiu.―O dia em que nasci morra e pereça. a mãe ao próprio filho não conheça. de ignorantes. A captura das Irmãs Sisters é questão de minutos. sus! Começa aqui uma nova era para todos os sobreviventes da Grande Catástrofe. sangue chova o ar. Os batalhões armados do Poder Central já estão invadindo o local. nasçam-lhe monstros. Nostálgio. e volta para junto de Nostradamus. quem se importa com qualquer coisa? Quem se importa? NOSTÁLGIO . acende a fogueira no meu coração. E é inenarrável. A luz lhe falte. que está parada no meio de um charco de gasolina. O fogo purifica. mais desgraçada que jamais se viu. a cor perdida. O gente temerosa. mostre ao mundo sinais de se acabar. eia. Nostálgio! (A parte. não o queria jamais o tempo dar. não tome mais ao mundo. Pela última vez. em pleno centro da minha. não te espantes. por assim dizer bem nas nossas barbas. quiçá segundos vagabundos.) ―São João.) Dizem que ele não é real. e se tornar. Aleluia.do querido companheiro Mr. o Sol lhes escureça. bundo é o masculino de bunda. Existe outro lugar. da nossa Zona Contaminada.) — A porta já foi arrombada. Dá-lhe. Mas agora está tudo terminado. que este dia deitou o mundo a vida.‖ (Com uma reverência. inacreditável minha gente adorável : durante dois anos. sem que ninguém soubesse. furibundos e não esqueçam. No meio do fogo. venha comigo. caros ouvintes. as lágrimas no rosto. (Canta. São João. Nostálgio entrega a vela a Carmem. com Nostálgio e o Coro dos Contaminados.‖ NOSTRADAMUS (Invadindo o Plano Real. Este. Que melodia pode servir de fundo musical a um momento tão . o Sol padeça. As pessoas pasmadas. CARMEM — Só existe um lugar. o meu lugar é aqui. as irmãs Carmem e Vera conseguiram manter em segredo seu sórdido esconderijo. da sua.

CARMEM — Eu vou ficar bem. aos berros. basta um gesto. aos poucos. Eu vou ficar bem. O Coro dos Contaminados cerca Carmem em semicírculo. quando tudo que eu queria era fazer o bem? Ilumina o caminho da mulher que amei. Vai com Deus. eu sei que existe uma saída! Ele me deu o mapa. Preciso salvar meu filho.) Adeus. assim. desvairada. para nós todos. eu te abençôo. Nostradamus dança com Nostálgio. irmãzinha. E que seja lindo lá. onde fica a saída? Me diga onde fica a saída! NOSTRADAMUS — Atrás dela! Pega! Não deixa escapar! Queremos ela com vida! Pega! Pega! (Vera some. não muito alto.) — A saída. eu tenho o mapa. agora. O Homem de Calmaritá está crucificado.emocionante? A única saída para Carmem e Vera agora é cantar um tango argentino. agora. Basta levantar a mão assim. sacudindo os espectadores. para mim. A beira da minha morte. (Pega o fuzil. VERA (Enquanto Carmem fala. (Beija Carmem. eu espero que tudo dê certo para você. De alguma forma. nu. minha louca irmã. já que não quiseste iluminar o meu. Permanece uma luz suave sobre o Homem de Calmaritá crucificado. meu Deus.) HOMEM — Meu Pai. se sabias que eu era nada? Por que permitiste que eu traísse e enganasse. Espero que você encontre o seu lugar. O meu lugar é aqui. de frente para a . e depois. (Luz no Plano Alfa.) CARMEM (Segurando a vela acesa com as duas mãos acima da cabeça. sai gritando pela platéia. Eu vou ficar muito bem. (Começa a tocar La Cumparsita. com uma coroa de espinhos na cabeça. Eu sei que existe outro lugar.) — Adeus. devagarinho. A saída. Vera. Eu tenho que chegar lá. com Nostradamus e Nostálgio atrás.) VERA — É tarde demais. meu Pai. por que me abandonaste se sabias que eu era fraco. Preciso ir.

Os Contaminados entoam o mantra Om.) . Ouvem-se ao longe os gritos de Vera e de Nostradamus.) (O autor sugere a Bachiana nº 5. cada vez mais remotos. à exceção da vela de Carmem. junto com Carmem. Em completa escuridão. de Vila-Lobos. entra música bem alto. Ela está sentada em postura de lótus. Então os ruídos cessam completamente e todas as luzes se apagam. ou outra à escolha do diretor — quem sabe Let it Be. dos Beatles.platéia. com a vela acesa. com Tina Turner?) A vela apaga.

e se não esqueça de mim. de Miguel de Cervantes) À memória de Clarice Lispector.) . em 1605. com isto.O HOMEM E A MANCHA Peça teatral em 1 Ato (Livre releitura do Dom Quixote. que tanto me chamava de Quixote. Deus te dê saúde. “E.” (Miguel de Cervantes.

três telões pintados e independentes. A direita. Além disso. uma cadeira espreguiçadeira de lona listrada. sustentado por um cabo de madeira. Um ao fundo. um banquinho tipo ―cantor de bossa. um manequim de costureira.HOMEM DA MANCHA • DOM QUIXOTE . Quando o público entra. ao lado. esses telões sobem ou descem. de Rodin. sem cabeça. um pequeno praticável.nova‖. Também pode ser um divã ou um récamier. apenas de malha preta. os outros dois um de cada lado. PRÓLOGO (Que trata da condição do ator e sua procura pelo geral até chegar ao particular. o Ator já se encontra no palco. pernas nem braços. todos pintados como se fossem prateleiras de uma biblioteca atulhada de livros. meio na penumbra. uma voz em off. Dependendo da ação. A esquerda. Sobre ele há um globo terrestre relativamente grande e.) (Telões levantados. Talvez na posição do Pensador. Sentado no .CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA e mais: GUILHERME. Apenas o busto. sobre o pequeno praticável.PERSONAGENS (Todos feitos por um único ator) ATOR • MIGUEL QUESADA . CENÁRIO No centro e ao fundo do palco.

eu. Deixa eu ver. Para alertá-lo. muito esquimó. no chão. era uma vez. muito chato. Era uma vez o que. era uma vez. é tão difícil começar. muito ensaio.. Retoma o autocontrole. Eu. (Torna a girar o globo. muito camelo. muito iglu. etc. a Groenlândia. muito bastidor. Depois levanta-se e.. Depois fica olhando o vidro. Dá uma giradinha de desprezo no globo. eu me acho bem interessantezinho. para cima. O Ator estremece. Nem um pouco dramático. muita platéia — graças a Deus! —.) Era uma vez. muita seca. etc.) Era uma vez. Claro. Faz quase quarenta anos que convivo comigo mesmo. Está nervoso. Sim. com entonações diferentes (infantil. Faz o sinal da cruz.. toca um quarto ou quinto sinal. era uma vez. meu Deus? Era uma vez quem? E quando. Levanta a cabeça. Para cada uma dessas direções. em pé. Acende luz sobre o Ator. Lentamente. era uma vez. para baixo. direita. muito calor. muito sol. Muito gelo. Alguma coisa devo conhecer. Por que não? Afinal. era uma vez. era uma vez. Mas como se não percebesse.. .... e onde era uma vez? E tão difícil escolher. começa a olhar em sete direções... Toca o terceiro sinal. cabisbaixo ele contempla um globo terrestre com muita atenção..) vai repetindo: ) ATOR — Era uma vez..) ATOR — Era uma vez um ator. (Gira o globo terrestre. muito frio. (O Ator larga o copo/garrafa. Nossa. é isso mesmo. Deixa eu tentar outra vez. Toca o próprio rosto. as luzes da platéia apagam. então. muita luz. Ah.. então. lírica. Com o indicador apontado faz com que pare ao acaso. (O Ator pega um copo ou garrafa d’Água ao lado... Muito palco..banquinho. o Saara. com movimentos muito definidos da cabeça — esquerda..) ATOR — Era uma vez. tem que ser alguma coisa que eu conheça bem. Muita areia. muito pingüim. quem sabe aqui tem alguma idéia. como se o estivesse vendo refletido. muita coxia. encara a platéia decidido. assustado.. e bebe avidamente. Eu. muito branco.. catastrófica.. que sede me deu. ele continua a contemplar o globo sem se mover..

) . Muito ―Era uma vez‖. Muito. (Música circense feérica.muita emoção.. O Ator desce do praticável e vai caminhando para a boca de cena. de braços abertos. muito sonho.. muita ilusão.

assustadores. Eu conheço bem meu corpo.) . Não tenho miitos cabelos nem muitos músculos. será que eu não sou um ator? Será que eu não sou eu? Será que eu não sou nada. eu sou mais ou menos alto. um pouco tímido. As últimas falas sao dadas em off. cantarola alguma coisa).) ATOR (Mais sério. passo a ser um outro. (Faz vários gestos. depois sai de cena. aqui. confuso. embora eu também seja esse. Um ator não é uma ator sem um personagem. Molière.. eu sou um ator. engraçado. mas acho que sou. é dele que eu falo. Meu nome é Carlos. tragédia grega..) ATOR . (O Ator recita qualquer coisa breve — Shakespeare. fazer gestos dramáticos. eu continuo sendo eu. Eu não seria um ator se não conseguisse ser também esse outro. estranhos. O importante é que seja alguma coisa bem conhecida do público. mas também.Ladies and gentiemen. mesmo quando não gosta do que vê. ilustrando o que diz. então. sei me movimentar. que eu me transformo quando estou sendo um ator. que eu incorporo. flainenco seria o ideal). divertidos. Simpático. Falo principalmente daquele outro em que eu me torno. agora. mas sei principalmente representar.. porque ele sempre se vê em mim..) Bom. E não estou falando do outro que me assiste. (Pausa. Como vocês podem ver.) Eu também sei cantar (improvisa.CENA 1 (De como o Ator sofre um pequeno surto narcisista mas acaba por reconhecer a necessidade do Outro para ser.) — Quando represento. sei dançar (dança um pouco. posa. ou cada noite um texto diferente. meio magro. ao mesmo tempo. Caminha pelo palco procurando. meu Deus? Será que estou muito chato? Será que estou pirando? Onde está o personagem? (O Ator vai ficando cada vez mais frenético. O personagem.

muito embrulhos e pacotes. Na minha nova vida.) Querem acabar comigo! Isto é um complô! (Em off cada vez mais longe. No palco vazio. (Animado. o personagem. Intermináveis anos. freadas. Por sobre a malha o Ator. máquinas de escrever. Alarmes de automóveis.) Eu processo! Eu mando sustar o cheque! Susta. Ouve-se um intenso ruído urbano. Fora a morte. Está um tanto excitado. Abrindo uma porta imaginária. entra Miguel. (Noutro tom. Essa é a única certeza que a gente tem. verdadeiro inferno sonoro.) Mas passou. claro.) MIGUEL — Enfim só.. sons de metrô. . Hoje foi definitivamente o último desses. o Desventurado Trabalhador Anônimo. gravata. como se ficasse lá fora. Miguel usa paletó.. Quantos anos mesmo? Trinta. telefones. sirenes de polícia e bombeiros. Deposita as coisas em qualquer lugar. O barulho diminui. talvez chapéu. ambulâncias. Longe de toda essa loucura. Traz uma maleta de executivo tipo 007 e várias sacolas de supermercado. Eu até desisti de contar. vendedores ambulantes.) Mas hoje não quero pensar na morte. uma vassoura. faz o gesto de fechar a porta. trinta e muitos. O tempo sempre passa. susta! Eu quero porque quero o personagem! Me chama a produção! Cada meu celular? CENA 2 (Na qual se introduz afigura do personagem de Miguel Quesada. Parecia que o tempo não passava nunca. trinta e tantos. sei lá. etc. gritos. britadeiras. livre desse pesadelo que parecia sem fim. Quero pensar é na vida. buzinas.ATOR — Onde está o outro? Ele é essencial para a minha sobrevivência! Onde está o personagem? Eu não tenho sentido sem o personagem! Eu vou enlouquecer sem o personagem! Eu preciso do outro! (Vai saindo. a luz permanec e apenas sobre o globo terrestre.

) A-po-senta-do. que bela palavra! Deve ser uma das mais lindas da língua portuguesa. Miguel Quesada está livre. em seus após. Quanta tranqüilidade. Dá pulinhos de dança. bloody heil! Goodbye. O ruído some. neuróticos urbanos. quanto silencio. O ruído urbano volta. meio pedante. Miguel Quesada .(Miguel arranca o paletó.. Nem a toda essa miséria.) (Subitamente Miguel abre a porta imaginária. locura! Não preciso mais de vocês. inferno! So long. em seus aposentos. Arrivederci.. para estremecer a platéia. amigos que me traíram. . gentalha! (Bate a porta. evidente.) — Adeus. vilie méchante da minha solidão sem remédio! Adiós..) MIGUEL (Aos berros. cantarola Singing in the rain ou qualquer coisa assim. o mal. Não me refiro ao salário. o zé-ninguém que nunca teve nada nesta vida além de seus loucos sonhos impossíveis —. Aposentado.) CENA 3 (Onde se revela a radical decisão de Miguel de desligar-se do defora e as providências tomadas para tanto. cidade infernal do meu calvário de cada dia! Sayonara. Sentado.o desventurado trabalhador anônimo.. Após. Ah essa coisa sagrada. (Pausa breve e silenciosíssima. claro. sapateia. Começa a rodar pelo palco. o chapéu. Nem às filas. o silencio.. mulheres que não me amaram.. de estar sentado. (Deslumbrado. o solitário depressivo. lógico. tão cheia de significados. Uma questão estética.Finalmente chegou o grande dia.amado.. Uma palavra tão rica em melodia. sentado. o neurastênico insuportável. Depois. um tanto ridículo.) MIGUEL . insuportável.. não econômica. Decibéis altíssimos. fica só com a gravata sobre a malha. gente que nunca me quis! Au revoir. (Poético.) Falo da sonoridade. No mais perfeito e absoluto silêncio. Onde habitam os anjos.

) . Nada de ―real‖. O tempo burilao tosco. Afinal. (Vai tirando coisas das sacolas e espalhando pelo palco. (Hesita. O que é mesmo que eu estava dizendo? Ah. esmeraldas.. De certa forma. um baú transbordante de memórias cintilantes como jóias preciosas.. (Irônico. Um homem desses pode apenas ficar lembrando. E além do mais. (A parte. Por um segundo volta a ser o Ator.Enquanto Miguel vai falando. O efeito é uma tanto claustrofóbico. e até o dia da minha morte-amém. estas três paredes do meu apartamento. Tenho absolutamente tudo que preciso para viver sem sair nunca mais daqui. E não importa que sejam coisas más ou tristes ou miseráveis ou cruéis. (Os telões já desceram completamente. foi chatérrima -. como Juan Carlos Onetti. Elas já foram vividas.. Como se na mente deles existisse um. os telões. bebida. falando franco.. que modéstia à parte são muitas. tudo nesta vicia são histórias. Ametistas. eu sempre tive inveja dos velhos.) Nenhum mérito pessoal nisso. Miguel sobe no praticável. Como Marcel Proust. consciente das três paredes teatrais. não oferecem mais perigo algum. Tenho estas quatro.. que não precisam mais fazer coisa alguma a não ser lembrar. Miguel está cercado de livros. Descem lentamente.. remédios. minhas memórias. preciso tomar nota. (Pensativo. Não preciso de nada lá de fora. quero dizer. remexendo na memória..) Desde bem moço. começam a descer os três telões pintados como se fossem uma enorme biblioteca. nunca mais vou sair de casa.A partir de hoje. até os sonhos. qualquer homem de quase 50 anos que trabalhou sem parar desde os 15.. qualquer homem assim pode se dar ao luxo de passar o resto da vida sem viver mais nada.) MIGUEL .) bem. rubis. Olha a platéia. víveres para muitos e muitos anos.) Porque tem o tempo.. por mais chata que tenha sido a sua vidoca — e a minha. (Melancólico.. mastigando. todas as coisas que acontecem a um homem vivo são insuportavelmente reais.) Bom isso. E também tenho minhas lembranças. embora colorido.) Comida. tudo nesta vida começa sempre com ―era uma vez‖.

) Depois.) . o homem que cansou de tudo e nunca mais saiu de casa. depois hesita sem saber se atende. (Vai-se aproximando do telefone. Nunca mais filas nos bancos.) E quando eu estiver cansado de pensar no que vivi. Tinha suas próprias histórias para lembrar. e acaba atendendo de uns três ou quatro toques. (Poético. moderno.) Deixa ver. Miguel assusta-se. qualquer problema. Nome . (Confere numa agenda. espanhol. e que guardam outras histórias dentro deles. Só o indispensável. Mas reflete melhor enquanto o telefone continua tocando. Faz um gesto de arrancar o fio da parede. Quesada. ainda me restarão os livros. o essencial. violência. Demente. sei. diziam. ansiedade. Melhorou. da locadora de vídeo. nunca mais correrias. tenho os números da farmácia. quem tá falando? Quem? Tia Flora? Tia de quem? Ah. Quer falar com quem? Miguel de que? Fala mais alto. muito alto. eficiente. do pronto-socorro. E só pegar e ligar. querida. sei. Hoje em dia tudo tem entrega a domicílio. CENA 4 (Da primeira invasao inevitável do chamado Real Insuportável e a maneira como Miguel lidou com isso. O telefone toca. Todas as histórias do mundo.MIGUEL . Enterrado vivo. nunca mais ninguém. Mas ele não se importava. sempre existe o velho e bom telefone.. se for preciso. nunca mais sinais fechados.Era uma vez Miguel Quesada.Alô. Nunca mais pessoas. maníaco. a ligação tá péssima. do supermercado. Miguel de quê mesmo? Que nada? Queijada? Ah. Nunca mais desejo. Que maravilha Nenhum contato com o mundo lá de fora.) MIGUEL (Disfarçando a voz. o estritamente necessário. a gente nunca sabe. da pizzaria. que foram sempre o que mais amei. Até da delegacia. Sei. esse maldito mundo que chamam de ―real‖. Rápido. desde menino. Até sexo..

) MIGUEL (Gravando. A partir de hoje tenho todo o tempo do mundo. Longe dos olhos. longe do coração. Quer dizer. a tia Flora. Tanto. Nem sei bem por onde começar. Não. Ah.mais esquisito.) Não. Miguel viajou. Nem conheço ele. não tem ninguém aqui com esse nome não. Eu só fiquei com o apartamento.) MIGUEL— Paciência. minha filha. Afinal. Algumas pessoas vão ligar. nem namorada. (Sinal eletrônico. nem vizinho. (Irônico. Saco. perguntar. Como é mesmo que minha mão dizia? Quem não é visto não é lembrado. (Suspira. Preocupado. Sem trégua.) As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade.) E tem também a Carolina. caminha pelo palco refletindo e tentando relaxar. (Com pressa. (Melancólico. Quem mais? Ah.) Depois..) Esperei tanto por este dia. O Guilherme do Almoxarifado. Inútil deixar recado depois do sinal‖.. tão esclerosada que nem vai achar estranho... Venci. a Silvana lá do banco. O Zeca da livraria. E. Não disse quando volta. insistir. Estou cansado. ter. Tchau. é tão pouca gente. (Miguel pega uma secretária eletrônica. Aperta botões e grava uma mensagem com voz disfarçada. tinha.) Nenhum pai. nenhum irmão ou filho. (Miguel bate o telefone com força. nunca contei a ninguém desse meu plano. Talvez nunca. meu bem. (Fatigado. No começo vai ser assim mesmo. mas tudo bem. Não sei de nada. Pois é. nenhuma mãe. claro. Mas talvez seja melhor tomar algumas providências. amor. . Mas a coitada está tão velha e surda. mas não tem mais. Nunca pediu. Sinto muito. (Pausa. Em seguida todo mundo se acostuma. Todo o tempo do mundo pra não fazer mais nada. Liga pra informações.) Mas a Carolina acho que nem tem meu número.. Viajou. (Espreguiça-se. paciência. nunca ofereci. viu.) — ―Isto é uma gravação.. Foi uma luta. Hã-hã. tanto. nem credor. Miguel continua seu monólogo. não sei pra onde. coração. esse tal de Miguel viajou.) Mas não tem pressa.

) Do tamanho do mundo. Ah.. Baixou o Quixote. Só um soninho.. Mas a transformação é sutil.. ardente mas suavíssimo. Roxa não. (Procura no chão.) . roxa não! (O Homem levanta-se da espreguiçadeira. Era clara. a mancha. Quando Miguel desperta. De vez em quando voltam nesse Homem as suas porções Miguel e Ator.. Onde foi parar a mancha? Estava aqui. ao mesmo tempo em que também começa a emergir o Quixote. como se tudo fosse branco ou preto ou cinza. Bem clarinha. (Dorme.) HOMEM (Acorda de repente. tão cansado. pelo amor de Deus. De outra cor.. meu Deus. Entram acordes de uma melodia espanhola.A mancha. ela estava bem aqui. Boceja. (Luz sobre o globo terrestre. Amarelo água..) Não. se enrosca como um bebê. sonhar. e em determinado lugar dessa superfície de repente lá estivesse ela. Assim. violeta. fala sozinho. só de outra cor. Não era uma mancha suja. Ritmo de flamenco.) MIGUEL — Dormir. gradativa. Imenso. Só um pouquinho. nâo era uma mancha feia. Miguel está adormecido. agora mesmo. Azul celeste. Silêncio e paz.(Miguel deita-se na espreguiçadeira. Lilás. (Meio alterado. já está’ transformado no Homem da Mancha. que sono meu Deus. Não pode ter sumido assim.. talvez só castanholas ou bater de saltos. acomoda-se.) Bem aqui. isso não. quieta. bem como sua estranha obsessâo. Que cansaço enorme. Luz suave sobre o globo terrestre.. Quase no escuro.) . roxa. como era mesmo? Tão. baixinho. entende? Parada. Era só. A luz vai diminuindo enquanto ele se encolhe. isso eu me lembro.) CENA 5 (Na qual se introduz um novo e inquietante personagem.

Mas também não está. Acho que eu estava dentro dela. não sangra.QUIXOTE (Em pé. . um aneurisma. Se ela não está aqui. Ou mais acima.) A não ser que existisse apenas dentro do meu próprio cérebro. Ela não estava em volta de mim.) Ela tem que estar aqui. Mais ao norte. Madagascar. Não era exatamente dentro. Em cima. Esquisito. Um ganglio. eu também não. E o Novo Mundo. maldição! Certamente este deve ser mais um dos imundos encantamentos dos nigromantes do mal que tanto me atormentam! (Homem sai procurando a mancha pelo palco. uma jaula? Não lembro. Como será por lá? Como será o perfume das manhãs do Novo Mundo? Especiarias. Ou era mesmo uma rede. eu estava dentro dela. não lembro. Sobe no praticável. Uma mancha no meio dos meus miolos.. Não sei.. feito uma rede. no caminho de Santiago de Compostella. se ela não existe. Vai caminhando em direção ao praticável enquanto fala. Dizem que existe um novo mundo do outro lado do mar sem fim. um derrame. não lembro. Mas Trebizonda também não existe neste globo. talvez. hibiscos. Que estranho.) . ela não existe.... apalpa-se. nem a oeste. Eu estava parado no meio dela.) Mas onde estará a mancha? Talvez aqui. eu estava.Ah. (Agitado. dramático. meu Deus. uma bolha. Pode ser então que cerca de Barcelos. noroeste ou sudoeste. não importa. não sei. (Noutro tom.. Não. e começa a girar o globo. (O Homem pára em frente ao globo terrestre. araras. E onde estarão as Terras de Calmaritá? Gozado. um pouco ao sul de Trebizonda. aqui deveria estar localizada Pasárgada. Etiópia. uma teia. em baixo. Dentro. em algum lugar. Era isso. Como numa poça de água da chuva.) HOMEM — As Índias.. Mas não dói. Pérsia. o caminho das Índias. Nem a leste. dentro não. Em algum lugar ela deve estar.) HOMEM — Não sei.. (Leva as mãos à cabeça. senta no banquinho na mesma posição do Ator durante o Prólogo. quem sabe. não era assim. E. não pulsa. Tão clara.

antigo e lê com todo cuidado. Na minha pele. uma vertigem. .) No meu corpo. Nem mesmo um zumbido. Volta a melodia espanhola. uma labirintite.) ―Miguel Esteban.Ah aleives. (Começa a pular num pé só.) ATOR (Lendo. Quintanar de la Orden.) Nem sequer aquela sensação de quando entra água nos ouvidos. Não! Nada! (Violentamente. ladrões de estrada! Da minha mão avaramente adunca! Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!‖ CENA 6 (De como por momentos o Ator retoma sua voz. corvos. uma queimadura. ele pega um livro pesado. já totalmente transformado em Quixote.‖ Está aqui. Foi lá que aconteceu. O Homem permanece parado. o Homem joga longe o globo. demônios! (Caminha hierático para a boca de cena e declama Mano Quintana. batendo com a mão aberta no ouvido. tramas vis! Novamente a negra falange dos devotos de Lúcifer intenta confundir-me com sua astúcia maligna! Pois saibam que não os temo.(Passando a mão no corpo. Depois acalma-se e começa a descer do praticável. um pouco mais forte. Argamasilla de Calatrava e Argamasilla de Alba. Esquivias. chacais. Tisteafuera. Era lá que estava a mancha.) QUIXOTE . Já disse que não sinto nada. mas é definitivamente tomado pela figura quixotesca. como se fosse novamente o Ator. Mas eu não sinto nada. Faz tempo que eu não sinto nada. no livro. Villaverde.): ―Vinde. a mão direita cri spada e erguida dramaticamente no ar. Então. como uma tatuagem. urdiduras. Este livro não mente. Eram sete os povoados que compunham a região da Mancha.

) Ah. um fidalgo dos de lança em cabide.) HOMEM . (Animado. de Cervantes. Espaço físico.) Lança em riste para defender-me dos vilões. (Suspiroso. Fala em tom pedante. opressores de toda a aldeia global. Nigromantes. Apanha uma espada de plástico ou madeira. se escreveu ―num lugar‖ isso obviamente indica que a referida mancha ocupava — ou ocupa — lugar no espaço. E volta a ser o Homem da Mancha. Entra uma voz gravada lendo a primei ra frase do Dom Quixote. reles tramóia. professoral. adarga antiga. acautelai-vos! Vossos dias estão contados. ou até mesmo em volta.) E ainda que não. para iniciar sua obra imortal. não me deixarei abater por patranhas vulgares. O Homem deixa o livro de lado. dentro ou fora. Mas como fidalgo que sou. rocim fraco e galgo corredor. que importa? Em mim. embora não consiga encontrá-la em lugar algum. vivia. Portanto.. Vírus ou alucinação. Caminha nervosamente. tenho provas de que existe. QUIXOTE — Parece mais do que evidente que toda esta burla não passa disso mesmo. Rede ou ferida. de cujo nome não quero lembrar-me. Sinto que é chegada outra vez a hora de partir à cata de aventuras. Pois convenhamos. dos corruptos.Senhores. Mero engodo. real. . (Noutro tom.―Num lugar de La Mancha.) VOZ GRAVADA . escolheu justamente a expressão ―num lugar da Mancha‖. mouros encantados.‖ (O Ator fecha o livro.. não há muito. por mais que minhas idéias andem perturbadas. Geográfica ou psicologica. fado meu. como dizem — e talvez tenham razão — certamente as idéias deste autor não o estavam quando. Devaneio e perdição.(O Ator pára. A mancha existe. E eu preciso enfrentá-la. com o livro erguido na mão. Maracutaia. Começou a transmutar-se novamente em Dom Quixote.

) Defensor das donzelas. a duras penas. eternamente enfrentativo! E salve também Dom Belianis da . mesmo com toda a vulgaridade e preconceito que grassa pelos quatro cantos do mundo — a profissão de cavaleiro andante deve ser preservada a qualquer custo. que nunca abaixou a crista! Salve o valoroso Felismarte de Mircnia. mesmo que todos nós hoje nos sintamos a ponto de sucumbir sob a pata imunda desta Idade do Chumbo que a mim maltrata os rins. amparador das viúvas e socorredor dos órfãos e desvalidos da sorte! (Para a platéia. quero louvar bem alto a outros cavaleiros que. por conta de um mal nos rins (apalpa as cadeiras.Embora temporariamente fora de combate. o Branco. Roupas e armadura são improvisadas com material retirado da maleta de executivo e/ou das sacolas que Miguel trouxe. Quixote vai-se vestindo. que jamais gastou pólvora em chimango! Salve o nunca assaz louvado Tirante.) Mesmo que Idade do Ouro tenha passado e de seu antigo esplendor não restem mais que cinzas. geme) que quase me arrancou a vida. muito bizarro. Música espanhola caliente. que briosamente resisto a todos os embates do destino.CENA 7 (Onde o fidalgo sonhador paramenta a si mesmo de cavaleiro andante e pede a bênção aos cavaleiros que o antecederam na lida. naturalmente. (Altivo. além de mim.) QUIXOTE . mais objetos que já estão no palco. mas com certeza aflige também. (Dom Quixote já está totalmente paramentado e. Por isso. e a vós não sei que partes do corpo ou da mente.) QUIXOTE — Salve o valente Amadis de Gaula. Pode até pedir palmas da platéia. jamais deixarei de pertencer nobre ordem dos cavaleiros andantes. Quixote ergue a espada e saúda em tom vibrante. Enquanto fala. tm mantido acesa e ardente a chama da dignidade e da ética.

amigo. nascido da garganta decepada da medonha Górgona. como se fossem arreios. o Grande. Num ritual coreográfico. Quixote apanha a vassoura que Miguel trouxe com as compras. um só ser seremos. séculos amém. como se fossem a cabeça do cavalo — e começa a trotar lentamente. não por desprezo. Ou talvez Bucéfalo. Mas digo-te em segredo e cá entre nós. te batizo Rocinante em nome do Pai. como um centauro.) . do Filho e do Espírito Santo amém again.Grécia e todos os outros que porventura olvidei. sem sair do lugar. um bod de plumas. com as palhas em frente ao próprio rosto. e esse nome desde já imortal precisa ser alto. Pelo sangue derramado das veias dos bravos tombados em batalha. meu rocim banhado pelo rocio. Depois monta ao contrário — isto é.) QUIXOTE (Para a vassoura. Pendura fitas.) — Poderia chamar-te Pégaso. improvisa uma sela com uma almofada. Tudo enquanto fala. enfeita-a com esmero. para render homenagem à célebre montaria de Alexandre. mas por ser urgente a minha partida e curta a vossa paciência! CENA 8 (Na qual se narra com graça e nobreza o batismo do matungo finalmente conhecido como o Veloz Rocim Rocinante. como se fosse a crina. Digno de ti e também de mim. Fomos feitos um para o outro e. sonoro. Pois embora não tenhas asas nem mítico nascimento. és valente e veloz como o vento que desgrenha a copa dos olivais. Teu nome entrará para a História. resplandecente. como o corcel alado do herói Belerofonte. para que não nos oiçam os intrigantes: no meu conceito pertences a uma estirpe ainda superior à daqueles dois. (Quixote faz uma cerimoniosa curvatura para a vassoura enfeitada. que sobre teu dorso percorrerei uma a uma as páginas das estradas e dos séculos.

) Dulicinéia! Dulcinéia del Toboso. A música só diminui quando ele pára subitamente em frente a um manequim. Não é de minha têmpera partir sem antes despedir-me. Vê como soa magnífico? Vê como se parece contigo? (Noutro tom. Vamos lá. que aqui estremeça! (Para o manequim.) QUIXOTE — Detém teu galope. Vamos lá. Quixote cavalga doidamente pelo palco.) E agora basta de cortesias. a cambraia do branco lencinho marejado de lágrimas. a bem-amada de nosso fogoso personagem.QUIXOTE — Pocotó. amigo Rocinante. desencantar brancas donzelas cativas. Certa confusão. bravo Rocinante. pocotó. que a vida é curta para tanta estrada! CENA 9 (De como se introduz na narrativa a idolatrada figura de Dulcinéia del Toboso. com intensa emoção. berrando com a espada erguida. meu impetuoso corcel. Em frente. Rocinante. Vamos lá. Frente a esta divina aparição. Durante a cavalgada derruba alguns objetos. mais vibrante. em louca disparada. alimária. aos gritos. enfrentar gigantes tenebrosos e feiticeiros malévolos. daquela que determina a mais funda razão de meus atos. seria profano dirigir-me a Ela montado sobre teu dorso. e com esmero. Montado na vassoura-Rocinante. a acenar-me — vês? — como se humana fora. Rocinante. A melodia espanhola fica mais alta. Eia! O mundo nos aguarda. pocotó. senhora minha! CENA 10 . Detém-te pois. arrancar odientos tiranos de seus sórdidos tronos de sangue.

) — Tu foste a única pessoa que poderia ter emprestado alguma cor à minha em sépia. o personagem. Nunca me atrevi a dizer nada. Eras tão distante. Pega uma mantilha espanhola. Carolina. à tua vida banal e limpa de senhora honesta. nos adereços.) MIGUEL — Adorno teus ombros nus. Bom-dia-boa-tarde-como-foi-o-fim-de-semanaquer-um-cafezinho-parabéns-por-favor-muito-obrigado.. que lindo encontrar contigo todas as manhãs de todos estes dias de todos estes anos. Eu.. (Trágico. o homem invisível.. Quixote enreda-se nas fitas. muito colorida. E porque sei que é inútil. e leva um tombo grosseiro. a teus filhos. (Com amarga ironia.) Ai de mim... Carolina. Beija-a. e ouviu a voz de Deus num poço tapado. Perturbado. nunca mais. Miguel coloca a mantilha sobre os ombros do manequim. Que horror. Ao apear de Rocinante.. para que não te cause dano o sereno da noite. sociáveis: dispensáveis. geme uns versos de Fernando Pessoa/Alvaro de Campos. No lugar da cabeça. ainda no chão. o que não nasceu para isso. com leve sotaque lusitano. e sem nenhuma graça. põe uma rosa vermelha.) MIGUEL (Para o manequim...) Colegas de trabalho. já um tanto influenciado pela linguagem de Quixote. aperta-a contra o coração. tão fiel a teu marido. platônico e patético! (Sofrendo muito. Carolina. nunca mais.‖ (Subitamente Miguel recompõe-se. Amáveis. Jamais ousaria pensar em mim como um amante. por instantes volta a ser Miguel.): ―Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta. e cantou a cantiga do Infinito numa capoeira. como um corvo triste repito em despedida: nunca mais.(Que trata da súbita e inesperada vinda à tona do desventurado Miguel Quesada para revelar seus frustrados amores. .

outra sobre a espreguiçadeira. Volta a transformar-se em Quixote. Dom Giraldo não passa o tempo na maciota. senhora minha. hermosas sefioritas. Faz uma profunda. caro mancebo. damas e cavalheiros deste encantador pueblito. Dulcinéia del Toboso! (Música espanhola ardente Quixote esporeia Rocinante e sai de cena no galope Por momentos o palco fica vazio. cercado pelas cortesãs? . asa de pássaro no meu ferido coração de guerrilheira. às vezes com algumas expressões em espanhol). que guapo! O que? Estalagem Ao Rendez-Vous dos Javalis? Mas deve haver algum equívoco.irreal . Saludos. esforçados aldeões. Bálsamo de minh‘alma.sobre o manequim coberto pelo xale espanhol. Mis cumprimentos. anjo das minhas negras vigílias.) CENA 11 (Dos sucessos de Dom Quixote em busca de quem o sagre cavaleiro e outras acolitecências mundanas.) Perdoai-me importuná-lo. Sempre a trote. Em sua imaginação. entra Quixote por esse espaço aberto. muito amável e simpático. outra .(Miguel vai repetindo “nunca mais” enquanto torna a montar em Rocinante. Ergue-se um dos telões laterais. mas saberíeis vós dizer-me donde puedo encontrar o castelão deste aprazível sítio? Si. Cumpri menta a todos.) QUIXOTE — Prometo que voltarei. Resta uma luz sobre o globo terrestre. Pelos quatro cantos desta vasta Espanha juro glorificar vosso nome. E como se chama? Dom Giraldo de Villacafias. QUIXOTE — Buenos dias. solene e amorosa reverência para o manequim/Dulcinéia. entre coxins. como no. está entrando no pátio de um castelo. (Detém-se parafalar com alguém.

Lejos de mi duvidar de vossas palavras. como assegurou el pibe.. enquanto reflete. nada mais humano. fragmentos de conversas. Nada mais louvável. em 0ff ruídos de risadas. deve apreciar o contato mais íntimo com o povo.. Vai rindo sozinho.) Perna! (Reflexivo. O Homem da Mancha voltou ao ser pronunciada apalavra “Mancha”. Os ruídos gravados cessam por completo. O Homem começa a procurar.) Buenos dias. Quixote vai pedindo licença. Voilá. O referido Dom Giraldo deve ter afinal suas fraquezas. muito educado. sempre com sua obsessão. sempre cumprimentando. apeia e faz uma mímica para entrar na estalagem Ao Rendez. E certo encontrálo na estalagem. (Quixote “estaciona” Rocinante. (Noutro tom. (Esporeia Rocinante. morocho muchacho. claro. Ao fundo. nada mais político.) Como diz o vulgo. Dá voltas pelo palco. permiti que me apresente. feliz. no.) E além do mais. está certo. gargalhadas. Dom Giraldo deve apreciar beber umas e outras.) Como está. CENA 12 (Que trata da inesperada e inoportuna vinda à tona do perturbado Homem da Mancha.) . (Noutro tom.No. Vale! (Quixote despede-se. Muchas gracias.Pensando bem.) Y todavia si. tinir de copos. como bom administrado que parece ser.Vous dos Javalis. Dofia Rosita? Sempre solteira? (A parte.) QUIXOTE (Com um salamaleque. Sou o futuramente lendário Dom Quixote de La Mancha. Senior Bigas Luna! (A parte.) . e sai trotando.) QUIXOTE .Nobre castelão Dom Giraldo de Viliacafias. música alta.) Depravado! (Reflexivo.

. pousada e mais importante que tudo. . E só uma mancha. (Disfarça. encontro-me ainda nas primícias da sua.. eu disse. Quer dizer. eu tenho que achar a bosta dessa mancha! Você entende o que estou dizendo? (O Homem pára e olha em volta.. E como se tivesse um branco e esquecesse o texto. Silêncio absoluto. não moro em lugar nenhum. (Mais alto. Eu fico solto no espaço. assim. Dom Giraldo de Villacaíias desejo solicitar-vos —ufa! — alimento.. Cainha. Estou dizen-do. ela deve estar por aqui? Pode levantar seu pé...HOMEM — Dá licença? A mancha. Faz favor? E que sem ela.) . O que? (Mais alto. ela não tem preço. quer dizer. e da pesada. me entende? (Agitado. da nossa — digamos — saga imortal Ousei adentrar vossos domínios com meu brioso corcel.. eu não sou ninguém.... eu. não. moça. por este — digamos — pequeno surto. Não. como cavaleiro andante que sou.. estala os dedos. isso não interessa —. Uma mancha clarinha. Rocinante de Tal. Ela é barata. Dom Giraldo. E o Ator. em pânico. mas como eu ia dizendo.o que estou dizendo. Clarinha.) Não. Dom Quixote. Por alguns instantes. Homeless? Não. por favor? Obrigado. pelo amor de Deus! CENA 13 (Na qual o Ator recupera seu autocontrole e garbosamente volta a ser Dom Quixote para espanto de todos.) ATOR . não sei o que é isso.) QUIXOTE (Muito inseguro.. nem muito escura também.) Porra. da minha. que lá fora encontra-se em merecido repouso.Perdão. o Homem transforma-se no Ator.. visto que — não. olha a platéia. no aguardo de vossa atenção. Não teria o senhor por acaso visto por aí uma mancha assim. não. sem mais delongas.) Dizendo. pois bem. à parte) A de caralho! A deixa. Não muito grande.

Dom Quixote tira a roupa. sobre praticável. (Quixote sai caminhando.) . Sefiorita Santa.) Devo dizer-vos que em futuro não só próximo. . deverei — ufa! — honrar e defender até a morte e tudo e tal. corno se estivesse de braço dado com Dom Giraldo.. Vossa Esplendidez finalizará o milenar ritual da sagrada salerosa. vossa concordancia resultará em vosso próprio louvor. ou só de cuecas. Até o alvorecer permanecerei vigilante. Señor Dom Giraldo! (A parte. sagrar-me cavaleiro? (Aliciante. ponho-me pois de imediato a velar minhas armas. ou ao contrário. Buenas noches.enfim e ao cabo: poderíeis. posto que. bem como.. usando também Rocinante.) — dez por cento vos parece justo? — ao sagrador Dom Giraldo de Villacafias. junto ao globo terrestre.. como determinam os manuais de cavalaria (à parte. como o crepúsculo já acaricia com seus róseos dedinhos o alto das cumeeiras.) QUIXOTE — Então. à musa Dulcinéia dei Toboso.) Buenas tardes. gracias. (Noutro tom. evidente. (Aperta uma mão imaginária. encantado. A luz baixa.como eu ia dizendo..) Corrupto! CENA 14 (Dos sucessos e também insucessos de nosso herói no ato de velar suas armas. enquanto fala. Arruma as roupas ao lado das armas. E como está o Sefior Montiel? (A parte. of course. com cuidado. mas também remoto. com vossas nobres mãos.) Biscate! (Para Dom Giraldo.) Gracias. E ao romper da aurora. Arma uma espécie de escultura. Pode até ficar nu. atentado pelos nigromantes.

) Deixai-me em paz com meus pensamentos. unicórnios. que cochila. Onze. um relógio bate lento 12 badaladas.Depois senta em postura de lótus. acorda súbito. Imediatamente salta. que exigem a mais funda concentração e a mais alta filosofia.) I hope so! (Para a escuridão.Dez.) QUIXOTE — Porventura sois surdos? A cera em vossos ouvidos será mais espessa que as muralhas de Jericó? Atrevei-vos a fazer barulho. Sabedores que aqui vela em solidão um cavaleiro inimigo do mal. cheia de crocotós. hoje cavalgando as pradarias do infinito! (Luz sobre o manequim! Dulcinéia. abortos langanhentos? (Toma a espada. até o primeiro raio de soi da aurora! Nada de mau há de me suceder durante esta vigília! Ninfas. encontra-se também minha bem-amada senhora Dulcinéia del Toboso.) Pois então toma e toma esta em teu tentáculo nojento e outra mais em tua pata disforme e toma mais esta na tua carantonha medonha. Ao longe.) .) Gentalha das trevas.. arcanjos. um LEO — pardo. Como um raio. Quixote. Quixote derruba alguma coisa na escultura.. . Aquela em que feiticeiros e nigromantes escolheram para seus nauseabundos batuques.) QUIXOTE (Contando as badaladas finais. como se lutasse. ogros e abantesmas: não ouseis vos aproximar de moi! Hei de resistir até o primeiro canto do gelo branco. Preciso estar alerta. Ela me protege com suas orações a La Virgen de Macarefta. Meia-noite.) E sobretudo. silfos. Esta é a mais perigosa de todas as horas. salamandras. (A parte... uma serpente. Doze. duendes. orixás e fadas: todas forças do bem estão do meu lado! além dos espíritos daqueles cavaleiros já tombados em batalha. (Grita para a escuridão.) Guardai distância de mim. (Mais calmo. como uma fortaleza inóspita cravada no centro do meu coração. com uma vela de sete dias numa das mãos. Insone e temerosa por meu fado. por supuesto hão de vir importunar-me com suas perfídias. se tendes amor a vossas peles fétidas lavradas de cascas purulentas! (Com um movimento brusco. furioso.

) Amanheceu. Eu tenho que resistir.Hein? O que? (Toma a espada. Na minha própria pele. Por piedade.) Oh puríssimo anjo Rafael. horrorizado.) Vinde. galo preto da encruzilhada! (Para a luz. Que .. não. poupai-me. Mas de repente começam a jogar pedras. curador divino das feridas humanas. (Escuta. que tifego! (Brinca um pouco com a luz. Dai-me forças e dai-me fé. Já se foram tantos. eis o primeiro raio de sol.) Pero. pega a vela e tenta retomar a posição em lótus.) QUIXOTE (Recuperando-se.) . eis o galo que cocorica três vezes.) VOZES EM 0FF — Cai fora. não. O Homem cede lugar outra vez a Quixote. babaca! Quero meu dinheiro de volta! CENA 15 (Onde continua a narrativa da conturbada vigília até o raiar da manhã radiosa.) HOMEM (Olhando a própria pele.(Quixote arruma a escultura. najas emboscadas! Vinde todos a mim.. Um tomate de pano ou plástico atinge Quixote na cabeça. Oh. Ao mesmo tempo. Eu devo ser um dos últimos.) Ah.. Ele desmaia. já se foram todos. que pássa? Ah. (Benzendo-se. E torna a vir à tona O Homem da Mancha. lacraias e morcegos. Senhor.. idiota! Manda matar! Jacira! Tá muito louco! Vai-te catar! Tá pensando que é o que? Fora. tomates. meu Deus. um galo canta ao longe.) — Ah. O perigo passou. Os objetos vêem de fora de cena. ovos de todas as direções. verte em minhas veias o líquido sagrado de tua ânfora dourada para purificar meu sangue! (Subitamente um raio de luz incide sobre o rosto do Homem. ufa. junto com apupos.

para que me façais por fim cavaleiro andante a vosso serviço. (Quixote apóia um dos joelhos no chão...) Bueno. Depois levanta-se — é o Ator que assume o papel de Dom Giraldo —.. e o passar inclemente dos anos instalou-se-me direto nas cadeiras. (A parte. (A parte..) QUIXOTE (Com forte sotaque lusitano.) Tivera eu comigo o poderoso bálsamo de Ferrabrás.canoro Chanceler.) Eu sou maravilhoso! (Sério.) Deponho pois minha depauperada porém altiva carcaça a vossos mitológicos pés. Estou pronto para o ritual de sagração.) — Ai que já no tenho mais fresca idade.) . ele anda com dificuldade. Quixote recupera-se com toda a dignidade. todo ritual foi cumprido a bom cabo e a contento. Música sacra mais alta.) QUIXOTE — Buenos dias. CENA 16 (Do ritual da sagrada sagração e toda a sua magnifica magnitude. Quixote tenta levantarse. com uma das mãos erguidas sobre a cabeça de Quixote. Com as mãos nas cadeiras. (Suspirando.. pega aquele mesmo livro da Cena 6 e lê num latim errado. Ai que estou a adernar feito uma caravela em plena borrasca sem ao menos ter descoberto o Brasil. Permanece um momento assim. improvisado e monótono... (Aliviado. Como vades. mas os rins doem muito. venci a primeira prova iniciática. majestosíssimo senhor doutor Dom Giraldo de Viliacafías. Ao perceber que o imagindrio Dom Giraldo entrou. Abaixa a cabeça..) So! (Começa a entrar música sacra ao fundo.

satisfeito. Deus faça a vossa merca muito bom cavaleiro e tudo e tal e lhe dê toda a ventura na lida desta vida fodida. E sai trotando pelo palco. suspira.) CENA 17 (Onde são narradas inevitáveis indecisões no início do caminho e também as curiosidades turísticas de Rocinante.) QUIXOTE (Mastigando alguma coisa. sei. Pode usar uma varinha de incenso.) Pocotó-pocotó-pocotó. com a mão livre. claro. (Bate na barriga.) Obrigado pela verba! Claro. acabou. como se orasse. bate a cabeça no chão três vezes — como num terreno de candomblé — talvez coloque uma guia — e torna a vestir-se. prometo colaborar com vossa campanha. adiós. Tem dificuldade. Et voilá! (O Ator retoma a posição de Quixote.) — Adiós.) Marajá! (Trotando.‖ (O Ator benze o lugar onde deve estar Quixote. Todo paramentado.) . nobre Dom Giraldo de Villacafias! (Sacode um saco de moedas. monta novamente em Rocinante. doem-lhe os rins. (A parte. Quixote benze-se. bate três vezes em cada ombro da imaginária figura ajoelhada. Música sacra. Apanha a espada e. (Talvez Bach. Sinos.) ATOR — Pronto: acabou. Aumento de imposto. Geme. Mercado aberto às importações. acabou. Enfim consegue.ATOR — ―Per saeculum saeculorum dominus vobiscum peter filiis et espirictus sanctuslesbia pulchra est vanitas vanitatis summa cum laudae saculus plenus vaticanum voitilum positivus este terrae terrarum terris sumus est sun ad infmitum daementia precox amem. pelo lado do telão levantado.) A luz dá a ilusão de vitrais. Haendel. Hã-hã. Quixote ergue as mãos unidas para o alto.

) Lá naquela curva ergue-se um redemoinho de pó... claro — dá meia-volta e toma outra direção. (Esporeia Rocinante. não? Pois cedo a teu desejo. Videiras e olivais a perder de vista. Tudo vai bem. o mais repelente feiticeiro dos últimos sete últimos sete séculos.. para onde queres ir tu? Para mim tanto se me dá. Almodóvar del Pilar. as aventuras.) Dize-me lá.Bueno... Mas. que embora o ar esteja seco farejo na brisa o cheiro da aventura. a tal ponto que terra e céu parecem um só. que se não for o demo nem anhangá ou saci. Rocinante — comandado por Dom Quixote. Terra mais seca esta minha.. mais depressa. ao norte. a oeste. Nem sombra de gente. Deus. que me renderia boas aventuras. Só vejo poeira e horizonte sem fim. Jóia. por certo gente há de ser.) Eia. (Rocinante empina.. (Gemendo. Alcázar de San Juan e ao sul..) QUIXOTE — Ah.) Eis aqui uma placa. . Tédio. deixa ver. Alarcón.) Ai. (Animado. cavalar amigo. mas deixo-te escolher. Abandono as rédeas: em tuas patas entrego meu destino. Cafiaveras. Relincho gravado.) E pode ser que deparemos até mesmo com o trevoso Marques de Villene.. a pança está cheia. onde estão as limusines? — quero dizer. pelo visto preferes Alarcón... (à parte) — a sinalização é péssima — indicando. Eu preferiria toujours Almodóvar. latejam-se-me os quartos como se alguna morocha tuviera sapateado o flamenco sobre eles.) A leste. Com sorte há de rastejar por lá algum mouro encantado em lagartixa.. (Pode colocar óculos para ler melhor. Eu não disse? (Apontando. tudo que vejo é poeira. Dize-me então num relincho: o que aconselha tua soberba intuição eqüina? (Pára. (Para Rocinante. Queres ver o famoso castelo. Se pelo menos cruzasse meu caminho algum peregrino capaz de dizer-me onde encontrar algumas gotas do miraculoso Bálsamo de Ferrabrás para mitigar minhas dores.

E que peito mais cabeludo. Escuta. Dá algumas voltas e pára. mercenário! E corre que te arranco as calças! (Debochado. antes que eu faça um puchero de vossas frouxas carnes! Correi.. ao mesmo tempo em que fustiga seu cruel feitor.CENA 18 (Em que o herói se toma de simpatias por um mancebo... lembrando das inoportunas aparições do Homem da Mancha. (Recompondo-se. podes partir. (Desmonta apressado. Nossa que músculos duros tens.. o eleito da mais formosa dama do universo. E não te olvides: a quem encontrares pelo caminho repete bem alto que. recém sagrado cavaleiro andante com o aval de Dom Giraldo de Viliacafias. Devo dizer-vos que.) — Está livre. e a quem encontrardes pelos cariinhos dizei bem alto que quem vos enfrentou foi Dom Quixote.) Isso.) QUIXOTE (Para o moço. Quixote cavalga rápido.) Para trás.) QUIXOTE . a estonteante Dulcinéia del Toboso! (Quixote curva-se para o moço supostamente amarrado. a meus olhos experimentados.) Bem. fracote. (Subitamente Quixote cai por terra. Fala como se fosse com um mercador chicoteando seu criado.) .. O moço imaginário deu-lhe um soco na cara e saiu correndo.Alto lá.) Sou Dom Quixote e pronto. ambíguo. Tudo é um tanto erótico. Pode haver fumaça com efeito de poeira levantada. (Interrompe-se..) Não creio em vós. que com tanto açodamento açoitais um jovem de tão puro semblante e nobre porte. o malfeitor mais pareceis vós... que mal vos fez este infeliz mancebo descamisado e com o lombo em carne viva? Ladrão? Malfeitor? (Furioso. Age como se o ajudasse a levantar-se. isso. lasanha. correi desembestado campo afora. Assim. sacripanta! Sou Dom Quixote de La Man. sebo nas canelas. Deixa-me desembaraçar-te das amarras. poltrão.

ainda sinto na pele a carícia macia das sedas nos trajes das donzelas. um tanto deprimido. solidão e modéstia.) — Volta cá.QUIXOTE (Levanta. claro.) — Ai que sinto cá uma fisgada. (A parte.. como se meus quartos fossem a boca de um bacalhau pescado pelo anzol.) Bueno. mas doem-lhe os rins. Ninguém está livre de aconchegar uma víbora em seu regaço. Sinto muito frustrar tua turística tournée. cavalgadura. . cafajeste! Ingrato. nem tudo é luxo e ostentação.) QUIXOTE (Gemendo. Tivera ao menos um outro ser humano para. a textura luxuriosa do veludo adamascado na capa ritual sobre meus ombros. mas principalmente do peso bem mais concreto de toda esta traquitana.) Saco! (Mais conformado. (Apalpa os bolsos. Eis que de súbito lembrei-me de um homem muy leal e valoroso.) Meia-volta.. Tem seus momentos de glória. velhaco. sempre trotando. (Esporeia Rocinante. que certamente acederá a meu convite. mais se exalta. pivete! Michê! (Quixote tenta correr atrás do moço. Silver! CENA 19 (Em que finalmente se introduz a fundamental figura do fiel escudeiro Sancho Pança.) Mas é claro! Tudo que preciso é de um fiel escudeiro para aliviar-me não só do peso abstrato da solidão. (Para Rocinante. me sinto deveras solitário. com sotaque lusitano.. Ah.) Cofio! Ainda por cima o bofe levou-me os últimos tostões.) Triste sina a de um cavaleiro andante. Porém. espanando-se. Desiste e torna a montar em Rocinante. (Gritando.. mas olhai a quem‖. E o que dizer ouro bizantino dos candelabros? (Suspira. bem me diziam ―fazei o bem.) Volta aqui. mal-agradecido! Trombadinha! Ah.. (Pensativo. diz que quem mais se humiha.) Mas para um cavaleiro. Tem paciência. Há também momentos de humildade. (Detém-se: insight.. Ainda ressoam em meus ouvidos os sinos do palácio onde fui sagrado cavaleiro..) Eia! Avante! Ai-pi-ai-ô..

hein? (Quixote detém-se de repente. ou mesmo sobre um skate. Por sob aquele 1amo altaneiro vem vindo um cavaleiro a trote manso. Continua montado em Rocinante e.) é Sancho Pança. Sua Excelência.) QUIXOTE (Para Sancho..) Como não vês nada? Será que além de sonso és cego? Presta atenção. que já não é pouco. E seremos regiamente recompensados. Vês como brilha e rebrilha um adereço metálico na cabeça do cujo? Pois te juro trata-se do famigerado Elmo de Mambrino. O barril. Até o final da temporada a prometida ilha será toda tua. Hein? Já te disse que nada entendes de cavalaria andante. que disso entendo eu. Quixote sai de cena por um lado e volta imediatamente pelo outro.) E por caridade. o Governador Sancho Pança. que toma invisível a quem o possui. não te apoquentes. mula. ao fundo. desencantaremos alguma bela princesa cativa. Logo. puxa um pequeno barril com rodas embaixo — ou sobre um carrinho. por uma cordinha. Digo e redigo que aquela ilha em Angra será tua assim que tivermos alguma aventura — digamos — mais substancial. machado. caso contrário estarias farto de saber que a fortuna custa a surgir. já assinei tua carteira.) — Esporeia teu asno. arrancaremos a máscara da face de alguma medonha megera.) QUIXOTE .. Sossega pois a tua periquita. e não te metas em assuntos de cavalaria.. Sancho Pança.) Não. quando falares não o faças a favor do vento. Afinal.. Estica-se e aponta para longe.Ergue-se o outro telão lateral. Como é possível rememorar os doces aromas de alfazema da perfumada Dulcinéia se teu fartum me faz cair na real? E bem sabes o quanto detesto essa tal real. prometo.. panelas. etc. It‘s my business. calma. Essas coisas. por supuesto. .. mas contra. Limita-te a teu ofício de escudeiro. (Mais paciente. com correntes tramadas e tralhas penduradas (canecas. Portanto.Raios se me partam los cuemos se aquilo que avisto não é o Elmo de Mambrino! (Para Sancho.. dear. só resta um telão. (Irritado.. caso contrário bate-se-me nas fuças esse teu bafo entranhado de cebola e alho e vinho vagabundo e sei lá mais que. Nada mau. logo destronaremos algum tirano. Prometo.

CENA 20 (De como se faz noite e nosso herói arma o camping para o repouso enquanto lembra a bem-amada em suas orações. (Quixote apeia. deixando Sancho parado.) QUIXOTE Que azinheira. Quixote volta muito orgulhoso. minha cabeça . oh torvo escudeiro! Botaste reparo na desabalada carreira em que escafedeu-se o bandoleiro transmutado em cura? Ave. Gira-o como um periscópio até focalizar um ponto. Nem azinheira nem pitangueira. evoé! Mais uma conquista do invencível Dom Quixote! (Acaricia o Elmo/penico. feito chapéu.quer dizer. Pega Sancho e ergue-o acima da própria cabeça. Sai gritando com a espada.) QUIXOTE (Para Sancho.as portas da glória se arreganham para nós. Quixote dá voltas por fora do palco.) Como? Um cura com uma bacia na cabeça para proteger-se do sal? Por certo perdeste o senso. mais abaixo. (Quixote torna a montar. . homem de Deus! Põe-te em pé sobre teu asno e verás que verias o que vejo eu.) Então não percebes que os malditos nigromantes transformaram o cavaleiro num gordo cura de aldeia? E não percebes também que transformaram o próprio Elmo numa reles bacia? Pois te afirmo que esses grosseiros encantamentos não deterão meu ímpeto. (Devolve Sancho ao carrinho.Três vezes vitória. pois tomba lânguido o crepúsculo e o fatigado cavaleiro tem precisão de um sítio ameno para repousar seus ossos.) . Lá. ouvem-se apenas os gritos. estrupício. com um penico na cabeça. companheiro.Deixa-te de preguiça. Viste? (Irritadíssimo. ave. Na ribanceira. Sigamos portanto nosso rumo. Eu falei á-la-mo. tapume.) Com o poderoso Elmo de Mambrino em minhas mãos . Entrevero em off.

não abuses dos torresmos que não estou disposto a estremecer de susto com teus traques durante a madrugada. que não olvidarei as minhas.) Perdão: a cada dia o seu quinhão. as mãos unidas. Quixote apeia. Luz A sobre luz vai Dulcinéia/manequim. E quanto a ti. Suavíssima melodia espanhola. por tua inaudita beleza te peço que os escute. Tira o Elmo/penico. Pode-se também forjar um fogo com papel celofane vermelho. pois cifram-se apenas em implorar que te não recuses a dar-me o teu favor e amparo.‖ CENA 21 .. se é possível que cheguem aos teus ouvidos as preces e rogos deste teu venturoso amante. tem uma torneira de onde Quixote tira vinho e bebe numa caneca de lata.. palavras são um sussurro na escuridão. agora que tanto deles preciso antes de embrenhar-me pela ignota região dos sonhos. Quixote estende um sleeping-bag.. Alimenta Rocinante com uma cenoura.me-á o escorbuto tanto pão seco no bucho? Além do mais.) — Convenhamos. (Arrota. Sonha com tua ilha. E não olvides tuas orações..) As últimas QUIXOTE — ―Ah! senhora das minhas ações. Se Sancho for mesmo um barrilzinho. apeia Sancho. amanhã teremos faisão.) QUIXOTE (Prepara-se para dormir. tuas cebolas provocaram-me horrendos borborigmos. Dorme em paz. (Deitado. compadre Sancho. Causar.A luz diminui. Noite. caríssima e incomparável Dulcinéia del Toboso. Quixote reza. Mastiga um pão. certamente opíparo não é o adjetivo mais adequado para este frugal repasto. diminuindo lentissimamente junto com a voz de Quixote.

Eu pago. viu.―Isto é uma gravação. a voz de Guilherme na secretária. uisquinho. Quem sabe um uisquinho.(Em que o chamado Real-Insuportável desta vez mais suportável novamente interrompe o fluxo e o devaneio. Miguel viajou.Alô. Alô. Circular. hein? Mal se aposentou e já viajou. Mais de 30 anos. Luz sobre a espreguiçadeira. deixa pra lá. aqui é o Guilherme do Almoxarifado. E vida boa. dissídio. Coisa fina. Agora é tarde. Quando o bip da máquina desliga. (Vide Cena 6. Eu fui-me embora daqui. Luz súbita sobre o telefone. Inútil deixar recado depois do sinal. com aquele recado de Miguel. Quem me dera. Guilherme.) . Toca três vezes. Guilherme. CENA 22 . porra. Olha. Miguel? Tá me ouvindo? Tá bom. Eu só queria convidar você prumas cervejas. No disse quando volta. Me esquece. Enquanto dura o bip e. Atende uma secretária eletrônica. Miguel? Recado esquisito. Mas você nunca me convidou pra nada. tem umas gatas aí super-afins. décimo terceiro. demissão. logo após. se você estiver por aí atende. Está transformado em Miguel Quesada. fundo de garantia.) . Olhe.Cerveja. Quixote acorda bruscamente. (Ruído eletrônico. Eu cansei. Escuta. Quixote levanta-se e vai caminhando até a espreguiçadeira. oleriti. meu. Durante pelo menos 30 anos você só me ligou pra falar de coisas de trabalho. A secretária se cala. uns tira-gostos pra gente comemorar a tua liberdade. Tchau. Deita-se. faço questão. Talvez nunca.‖ (Ouve-se um irritante bip eletrônico.) VOZ MASCULINA .)) VOZ DE MIGUEL (Na secretária.) MIGUEL (Amargo. tira-gosto. o personagem.

como é possível dormir lá e acordar cá? Ah. bufa. Que truquezinho mais chinfrim. de vossa amada Morgana.. Tudo isso enquanto desfaz o acampamento e recoloca Sancho sobre o carrinho.. aos confins da Longelândia. Te crês que ainda está caliente e a dar-se vueltas y más vueltas cá pelos cornos? (Visionário. Subitamente Miguel volta a ser Quixote.. lingüiças.) Então. (Para o nada.) QUIXOTE . Odres de vinho. sei. Devem estar todos rindo à socapa de vossa idiotia. (Vai ficando entendido. rosée. Dona Sancha e as cinco Sanchinhas? Sei.. fala-me de teus sonhos.) . Bochecha. cospe. oh nigromantes nigrinhas. Depois vai resmungando até Sancho. incompetentes! Tivésseis reais poderes ter-me-íeis levado até as lonjuras da Beldregúndia. cospe. (Reflexivo.. Faltam-se-me as palavras — o que é raro — para . para seu espanto. que desperta na espreguiçadeira e. bundone. à remota Quintanópolis. (A parte. Onde pensas que estás? Refestelado numa hospedaria cinco estrelas? Toma aí teu petit-dejeuner e avia-te presto. antes que rompa a manhã..(Do que aprontaram os nigromantes incompetentes com nosso herói durante a noite..) Que pobreza.. Interessante.) Covardes.. vejo que os magos da treva andaram a mangar comigo durante o sono..) Oquei. premonitório.) QUIXOTE (Dando um pulo.) Vislumbrei maquinarias tão intrigantes. com engenhos a tal ponto indescritíveis. meu compadre. abre a torneira... Branco ou tinto? Sei.Vite. De ouro? Veja só. (Discretamente Quixote faz xixi num cantinho. Tosse.Maldição! Se sonâmbulo não o sou.. vai puxando Sancho pela cordinha. vite! Apura que se faz hora. quanto a mim creio que tive um sonho.. Trotear é preciso. Sacode-o.) Hã-hã. seguido do despertar. moleque da alta magia! Dessa maneira envergonhais a memória de vosso ancestral Merlin. (Montado. companheiro Sancho. não no chão aonde adormecera ao lado de Sancho. Depois faz como se lavasse as mãos e o rosto. bebe café. Sei.

depararemos com uma extraordinária aventura. cada um sintonizado num canal diferente). eletrônicos. plimplim da Globo. descargas estáticas de rádio. Mas logo ao despertar tive a segura intuição que. Tão lentamente que Quixote só o percebe quando está totalmente levantado.Uau! Me cago en la concha de Maria Santíssima! U-lá-lá. Vai-se aproximando do totem com muita prudência e alguns sustos. (Enquanto Quixote e Sancho trotam. Esse é o Moinho de Vento. E formado por um pedestal de aparelhos de TV(reais ou de papelão. Atrás do telão há um bizarro totem em forma de escultura. mas se reais. no lo creo em meus bugalhos! Estás a ver como eu todos esses anões amontoados uns sobre os . além de fragmentos de jingles.) QUIXOTE (Percebendo o totem-Moinho. começa a subir o telão do fundo.) . microfones e fios colados. frases e trechos de música em vários idiomas. emitindo raios e sons estranhos. enquanto fala com Sancho. amigo Sancho. Sobre esse pedestal. vejo que aqui temos aventura da grossa! Arrete.descrevê-los. lá no alto. A chave confirma: é hoje! CENA 23 (Onde se narra o extraordinário acontecimento com a mutação eletrônica do gigante Briaréu e seus asseclas. antes que o sol alcance o meio do céu.) QUIXOTE . mais jornais. revistas. Que também pode ser real ou de arame. meu amigo.Sancho de Deus.) Vai afiando teus gumes. (Quixote apeia de Rocinante. vê-se uma enorme antena parabólica. Será quiçá o gigante Briaréu? Será a temível sábia Mentironiana? Será o monstro do Lago Ness? (Esporeia Rocinante. papiermachê ou qualquer outro material Seria sensacional se pudesse girar. O cenógrafo é livre para escolher vários símbolos da Mídia.

Ficam nas telas apenas aqueles riscos verticais.) .Caluda. quando eu já saboreava o gosto da vitória. Se forem reais.) Valeime.) Mas é sobretudo um estorvo! Não fujais. reconhecendo conhecidos. Talvez até consiga. biógrafos.ombros dos outros com aquele gigantão estalado lá em riba? Por Picasso! Olha só o monstro lá do alto girando seu único braço em direção ao céu. fecha tua matraca e me deixa em paz. Moinhos de vento? Capaz! Não percebeste. bem que meu sonho me avisou. etc. que o nefasto mago Freston transformou anões e gigantes nessas máquinas dementes? (Levanta. um pouco. as TVs nesse momento saem do ar. . que me cago hasta en la leche de mi puta madra! (Quixote examina as TVs. Esta côsa lôca nada mais é que o monstruoso Briaréu em carne e osso.) QUIXOTE (Aos berros.Chegou tua hora. Quanta arrogância! Que enfrentativo ele é! Ah. trolha. zumbindo. fãs e etc. geme e apalpa os rins. Hei de decepar esse teu braço repugnante para jogá -o aos cães danados! Hei de cravar uma estaca de madeira santa no teu podre coração. minha doce Dulcinéia. exegetas. que neste embate aposto minha honra.se forem reais — o Ator pode improvisar alguns comentários. Dependendo das imagens .) QUIXOTE — Já dobrei meio século de Karma e nunca jamais en toda mi perra vida tropecei em tamanha trola. estúrdias criaturas do fundo do íntimo do âmago do mais longínquo Hades! O bravo cavaleiro desafia a própria morte e contra vós investe! (Espada em riste. fascinado e aterrorizado. Quixote joga-se furiosamente contra o totem. que no último instante. horrendo Briaréu! Vai encomendando tua alma a Leviathan.) . altivo. companheiro Sancho. mas acaba levando um grande tombo.) Felizmente meus futuros cronistas. E estarrecedor! E estupefaciente! (Gritando. Por El Greco. finalmente. fiisteus! (Quixote tenta escalar o totem.) QUIXOTE (Por terra. E chegado o vosso fim. vampiro imundo! (Benze-se.

Mas não temer jamais.) QUIXOTE (Filosófico. Em vão. O que? Precipício não. que se me esnoba a mídia estou fodido.) QUIXOTE — Valha-me Lope de Vega. Ponto. CENA 24 (De como a saia se ajusta pouco a pouco e todos os caminhos começam a parecer sem saída. Quixote dá de cara no telão. que os caminhos se me ajustam qual saia sem fenda em nesga! (Para Sancho. (A parte. (Para a platéia.) Em frente.haverão de fazer justiça. fogoso corcel. que nada nem ninguém nos deterá. ao menos? Algum fotógrafo. aos sete — ventos que teu amo e senhor Dom Quixote teve a audácia de enfrentar Briaréu. despenca violentamente um telão lateral.) Ai. well. Ponto final. De repente cai também o outro telâo. lesado: pro-pí-ci-o. (Esporeando Rocinante. e o futuro me absolve! .. Quixote torna a montar. Enquanto ele trota. vírgula. não esqueça de espalhar aos quatro — aos quatro não.) Well.) Afinal. Ponto.. escudeiro: nesta vida às vezes é preciso saber recuar. quiçá? Um jornalista.) Haveria por acaso algum biógrafo entre vós? Um escritor. quem sabe? Um video maker que seja? Mas nem sequer um mísero cineasta? (A parte. (Quixote galopa a todo vapor para o lado oposto. o boca-a-boca sempre funciona.. Como quem teme. e sim buscar discreto pelo atalho menos evidente e mais propício. Sai a trote. Parece que os corruptos nigromantes donos do poder querem mesmo me enlouquecer.. (Para Sancho. patetas! Não fora eu quem a História confirmará que fui e continuo sendo.) E tu atoleimado. E outra vez Quixote dá de cara no telão.) Anota em tua agenda. well. puxando Sancho em direção a um dos lados do palco.

Abutres. Olha em volta. O mais perigoso. (Equilibra-se. passo comedido. Juro que nunca pensei. meus caros amigos. Tira o Elmo/penico e pendura-o num dos ganchinhos de Sancho.) QUIXOTE . mas recupera-se e bate no peito.) Valei-me. Começa a caminhar para lá.) Por Antonio Banderas. Um mísero e único caminho. (Para os céus.) Mas o coração — ah. Augusto dos Anjos! (Quixote abandona Rocinante e Sancho. respiração ritmada. já que prudência e covardia sinônimo não são. tapando o nariz. . Exu caveira. puxando Rocinante por uma das mãos e Sancho pela outra. o mais solitário. quase cai. Oxalá os pestilentos miasmas da sórdida matéria viva em decomposição não arruínem ainda mais minha depauperada saúde. O mais estreito. talvez seja melhor investigar bem esta vereda que se me afigura sem salvação. parece mesmo o único. Ah quanta miséria.) QUIXOTE — Bueno. meu nome em boca de sapo: definitivamente xô! CENA 25 (Na qual todas as porções anteriores vêm subitamente à tona numa verdadeira apoteose esquizofrênica & pós-moderna. onde ainda está o totem já apagado. Cabeça fresca. que medonha fedentina! Dir-se-ia que este sítio está juncado de cadáveres em franco estado de putrefação. Pela primeira vez parece frágil. o coração eternamente enfrentativo! (Erguendo um braço com os dedos em figa. hienas. o mais melancólico de todos. vudu bestial! Falange de eguns. assustado. Mas cuernos. que se há de fazer? (Avança.) Vade retro.(Quixote olha para o fundo. inseguro. equilibrando-se como numa corda bamba.Vejo que ainda resta um caminho. Anda pé ante pé.

e as mãos me tremem como de ressaca. Desaparecer. Por que. Esquecimento. os personagens anteriores — Ator. que o mundo era tão vasto e doloroso. que forem-se-me os molares.) Meu regente Marte. Ah. senhor da guerra. por que me abandonaste? Oh Saturno. E me fugiram os fios de cabelo.. não agir. Já quase nem tenho dentes. limite que nos separa dos outros e das coisas. de que? Não consigo lembrar.) QUIXOTE — Triste. Tão magro sou. Dos lados. Ficar parado seria fatal. Cair no esquecimento. O telão à frente do totem também começa a descer. Então acontece a Grande Divisão Esquizofrênica. o Homem da Mancha — começam a emergir caoticamente. o peito se me encava de desgosto. meio grego.) Esta rede de rugas no meu rosto. E que desejando a vastidão do mundo meu coração conheceria também a vastidão da dor. As coisas se me encurvam de fadiga. (Para o céu. (Tosse. implacável Senhor do Tempo. milímetro por milímetro. MIGUEL — Eu não sabia. mas lentamente. Não fazer. Ogunh. Também começa a emergir em Quixote o último personagem — o Cavaleiro da Triste Figura. triste figura a minha.. Fronteira. Cada um quer tomar o poder e falar. (Olhando as mãos.. Miguel Quesada. muito maiores di que eu? . Senhor.) E tem manchas tristes. permitiste que eu tentasse fugir da minha pequenez? Por que me deste todos esses sonhos. tristes. tão seco de carnes. fugir. já caíram os dois telões.Quixote está em frente ao impassível totem-Moinho. Senhor Meu. impiedoso Cronos: poupai-me do envilecer da carne viva! ATOR — Não se pode ir em frente. tristes. A pele é intransponível como uma malha. Merda de memória! HOMEM — A coisa mais triste do mundo é a pele. Sem controle algum. É impossível recuar. como espantados por meus loucos sonhos..

cadeados. Ou o cinismo. QUIXOTE (Citando Sun-Tzu. eu estarei entre eles. a lágrima. às vezes perde.‖ (Noutro tom.‖ . Além do vômito. meu bem. correntes.) — Ay que me muero! HOMEM — O vômito. bater as portas. ATOR (Citando Nelson Rodrigues. que não agüento o vivo! QUIXOTE (Bem espanhol. eu também quero outra coisa. ao pé do leito derradeiro!‖ QUIXOTE — Soltem os leões! HOMEM — Como as atrizes e cantoras que desaparecem para sempre. Mas sempre com um decote bem profundo. Em todas as batalhas será vencido. e sente o ritmo.) — Carolina! ―Querida.) ―Pura ou degradada até a última baixeza eu quero a estrela da manhã!‖ ATOR (Citando Vicente Pereira. Tragam-me chaves. Ponham-me grades. minha estrela da manhã. aqui quem te fala é uma morta!‖ HOMEM — Além da lágrima. Dêem-me o claustro que não suporto o outro. ATOR — Astaroth. Aquele que não conhece nem o inimigo nem a si mesmo.) — ―Herculano.) — ―Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo.QUIXOTE . mas conhece a si mesmo. trancar as portas. a prece.) — ―Sempre quando tiveres mais de três pessoas reunidas e for falado o nome de Deus. Meu Deus. (Recita Manuel Bandeira. nunca correrá perigo. Mesmo em cem batalhas.‖ MIGUEL (Citando Machado de Assis.Dulcinéia. As vezes ganha. Asmodeu! Belial. “A arte da Guerra”. Aquele que não conhece o inimigo.) ―Segura o turbante. Belfégor! MIGUEL — Fechar as portas.

Quem me dera o humor dos anjos.) — ―Ah o amor.) — Respeitável público! Senhores e senhoras. A luz fica mais clara. Suspensa por um fio de nylon. Ah. bem circense. tipo tirar infinitos de dentro do Elmo/penico.. em minha própria mancha! QUIXOTE — Ay ay ay que me muero! (Na cara de Quixote cai finalmente o terceiro telão. feérica. dos que fumam maconha para falar bobagens. despenca do alto do palco uma enorme lua . ATOR (Citando Oswald de Andrade. o riso. o humor dos palhaços. Quando Quixote volta-se para o público. HOMEM — Além da prece. O riso a que não me atrevo.) CENA 26 (Onde um alegre circo subitamente dá lugar ao deprimido e deprimente Cavaleiro da Triste Figura. das crianças.) ATOR (Braços abertos. O Ator pode fazer mágicas. o amor: eu quero porque quero da vida!‖ HOMEM — Socorram-me que me afogo em meu próprio sangue.. escondendo por completo o totem-Moinho. Efeitos feéricos de luz.ATOR (Citando Clarice Lispector. onde fica a saída? Eu preciso encontrar a saída! QUIXOTE — Nasci para viver morrendo. o amor. rapazes e senhoritas: boa-noite! (Música circense bem animada.) — ―Ter nascido me estragou a saúde.‖ MIGUEL — A saída. está transformado no Ator. e tu para viver comendo.

) Que vexame. (Mais alto. dias de vinho e rosas. Farrapo humano.) TRISTE (Para a lua.) Joguem. acabado. Escarrem-lhe na cara. .. Tamanha surra me deste. com fúria. Começa a colocar suas próprias roupas sobre o xale do manequim. (Para Rocinante. Esqueçam-me todos. Lancem-lhe apupos. tomates murchos e ratos morto. O Ator transformou-se novamente em Quixote que. que ensandeceu. Cavaleiro da Branca Lua. (Caidaço. Oh Lua. esqueceme. Triste caminha até o manequim/Dulcinéia.) — Lá vai ele.) Esquece-me também tu. (Para Sancho.lhe bosta. soçobro de si mesmo. que já no valho um furo sequer da sola das tuas negras botas.) Esquece-me incluso tu. que nunca foi nada! EPÍLOGO (Onde se encerra a narrativa falando da morte. TRISTE (Cada vez mais curvado. já se transformou no Cavaleiro da Triste Figura. (A parte. da vida. sombra de gente. Estou exausto desta farsa. Branca. Joguem-lhe ovos podres. que desatinou e nunca mais voltou. acariciando o barrilzinho. o mais amoroso e leal de todos os escudeiros de toda a história de toda a cavalaria andante. tornei-me agora exato e justo a alcunha que um dia me deste: Cavaleiro da Triste Figura. que aprimorou meu porte e suportou meus ossos. que endoideceu.em purpurina prateada. vencido estou. da saúde. Retira apenas a rosa vermelha que mantém nas mãos Enfia na cabeça o Elmo/penico e começa a caminhar em direção à espreguiçadeira.. destroço. companheiro Sancho.) Ah. A música também pára. Adeus. indomável Rocinante.) — Cavaleiro da Branca Lua. desalmada e feiticeira.) Mais do que nunca. por sua vez.. do amor e do azul.. branca lua: a teus pés de prata deponho meus arroubos. (Amargo. Ao ver a lua o Ator pára.

A lua batucada. Aliás. Dentro ou fora de mim. espanando os confetes. Está vestido apenas com a malha. você nunca diz nada. geme. Triste joga a rosa para a platéia. a rosa vermelha sempre nas mãos. Não pode desaparecer assim. E muito caro pra não dizer nada. E eu de nada me arrependo. (Desinteressado. as nossas vidas. No que é que eu estou pensando agora? Na mancha.) Ela tem que estar aqui.Perdoai-me todos. Leva a mão ao peito. por longo tempo. já cansei dessa história.) TRISTE . ao longe. e só me torna agora. dizem. ali.) Ay que me muero! (Cai deitado na espreguiçadeira. Triste vai falando enquanto deita. É que fugiu-seme a razão. Uma permanece. como o Ator no Prólogo.) // El segador siega el trigo. num último alento:) ―Si muero.) Do teto começa a cair uma chuva de confetes coloridos sobre Triste morto. a tua vida. deixa pra lá. cuíca geme ao fundo. Eu penso nela o tempo todo. Começam a subir ao HOMEM (Levanta.) AH. é claro. Quer saber do que mais? Caguei: K-Gay! . // El nino come naranjas. / dejad el balcón abierto. Tarde demais.Triste pára junto à espreguiçadeira. / dejad el balcón abierto!‖ (Com um esforço derradeiro.) — Já? Mas hoje eu quase nem disse nada. (Procura pelo chão. Ah. se a alguns fiz mal.) //Si muero. Tira o penico da cabeça e coloca-o embaixo. Aqui. Fala com um psicanalista imaginário. pois a morte já anunciou sua chegada. Assim não é possível. ou remotíssima mesmo tempo os três telões. Que louco sonho ou pesadelo foi a minha vida. // (Desde mi balcón lo siento. (Recita García Lorca. Nem você. consultando o relógio. / (Desde mi balcón lo veo. imóvel. somos todos inocentes nesta barca da Medusa a navegar insânias. Você melhor do que ninguém sabe disso.

Toca um sinal de início de espetáculo. Hoje mesmo? Miguel estaca sorrindo ao telefone. eu também. VOZ GRAVADA — ―Isto é uma gravação. pode falar. Já transformado em Miguel o Homem precipita-se para atender. sim... quer falar com quem? Miguel? Sou eu mesmo. Miguel. vital. Como? Ah. Resta o palco e poucos elementos espalhados. Deve ser mesmo. MIGUEL (Ao telefone. (Pára o globo.) Aqui. Mas a secretária eletrônica é mais rápida. eu de longe lá do alto — diz que a Terra é azul. ATOR (Estremecendo. Bem aqui.Alô. caminha até o praticável . lá no alto. com o indicador apontado. sim. Os três telões terminaram de subir. vamos nos ver.. Música espanhola vibrante. sim. eu nunca pensei que. animado. enquanto a luz diminui em resistência. procura e aponta. vigorosa..) Ah. Já transformado em Ator. Exatamente aqui.) Sim. três banquinho do início. (São Paulo. Carnaval de 1994) vezes enquanto o Ator volta a sentar no . Senta no banquinho em frente ao globo terrestre. sim. como despojos de uma batalha.‖ Miguel aperta um botão e desliga a secretária. Miguel deposita suavemente o telefone. surpreso e feliz. Claro. Atende sôfrego. claro. Os telões sumiram. A gente sempre esquece. então você recebeu a minha carta? (Confiante. sim. (Olhando em direções diferentes..) Carolina? Nossa. como no Prólogo. Quem gostaria? (Sorrindo.. O sinal repete duas. Muita falta.) . Quem vê lá do espaço. sim. repete sete vezes cada vez mais baixo.) — Hã? Hein? O que? Quem? (Gira lentamente o globo. vamos sim. E a lua. Que bom.O telefone começa a tocar. é verdade.) Eu também. O Ator não se move.

A — Não. não foi assim: que eu sou teu companheiro. Não tem nada.CENAS AVULSAS DIÁLOGO 1 A — Você é meu companheiro.Hein? A — Você é meu companheiro.O quê? A . A — Ah. B . B — Não é disso que estou falando. S6 isso. Deixa de ser paranóico.O quê? . sei. B — O que é que você quer dizer com isso? A — Eu quero dizer que você é meu companheiro. eu disse. Que eu sou teu companheiro.Eu disse que você é meu companheiro. B — Não. eu sinto. B — Tem alguma coisa atrás. B . A — Você está falando do quê. A — Você também sente? B . então? B — Eu estou falando disso que você falou agora.

não me confunda. não me confunda. A — Você não quer que seja isso assim? B . B .Eu vejo.Ser teu companheiro? A. por favor.É. não? B — Não.Ser meu companheiro. Claro que eu sinto. B — Agora não? A — Agora sim.Companheiro? A. Tem alguma coisa atrás. Você quer? B . Não é isso. A — Não me confunda. A. Tem alguma coisa atrás.É B . B — Você não sente? A — Que você é meu companheiro? Sinto. E você.Eu não sei.Não é que eu não queira: é que não é. você não vê? A . eu sei. sim. Não é assim. No começo era claro.Sim.A — Que você é meu companheiro? B — Não me confunda.Não. . B . No começo era claro. Por favor. A — Atrás do companheiro? B . Eu quero.O quê? A .

O quê? A — Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.O quê? A — Que você seja meu companheiro. O que definitiva e realmente sou ameaça rebentar as janelas. para longe. . B — A ração básica custa setenta por cento do salário mínimo.Você é meu companheiro. B .Hein? A .Maduro como um fruto. Não foi assim: eu disse. B — Você disse? A . B — O índice de mortalidade infantil aumentou em trinta por cento.O quê? B . A . Sazonando. eu disse.B . B . A . não é assim? Pronto para ser colhido.Não. A .Eu quero que você seja meu companheiro.Eu disse? B .Hein? (Ad infinitum) DIÁLOGO 2 A — Sinto-me tão nítido que quase posso tocar em mim. A — Broto para fora.

suponhamos. você falou que a gente podia alugar um apartamento em Moinhos de Vento. Nós dois. você acha? B — Isso é uma questão real ou simbólica? A .. eu.Suponhamos que sim. entende? Quero dizer: eu dizer que acho que faz muito tempo porque se passou.O que? B — Quero dizer que. A (Cortando. bem no meio da ponte do Guaíba... . E a partir disso.É. A ..B — A temperatura ambiente é de vinte graus centígrados e dois décimos. um mas. DIÁLOGO 3 A — Uma vez. Eu e você B — Ah.) — Mas você lembra? B . A — Esse ―suponhamos‖ é real ou (irônico) alegórico? B — ―Entre les deux.Como assim? B — Quero dizer: Você quer uma resposta alegórica ou realista? A — Realista?! Como? B — Realista no sentido de não ter subtexto. mon coéur vomitte‖. A — Muito tempo. B — A gente? A . Mas já faz tempo.

Eu tentei. porra... A — Mas eu podia acreditar? Menos de um dia. Afinal de contas.. A — Agressivo? Ah. meu bem. porra. porra. nem que você tivesse superpoderes..A (Cortando.. cara.. B — Não fica agressivo comigo. Nem que fosse médium. É completamente impossível alguém saber tão rápido. A — Tentou! Tentou como? Aquela vez que você me disse que tava grávida menos de um dia depois que a gente tinha trepado? B . DIÁLOGO 4 O Aborto A — Mas afinal.... não era? B — Mas eu já disse que tentei te dizer. cinqüenta por cento da cria era minha..) — Você acha que um mês é um tempo significativo? B — Significativo em que termos? A . Nem que fosse a Mulher Maravilha. .. E humanamente impossível qualquer pessoa saber.Acontece que você não tinha o direito de fazer este maldito aborto sem me consultar antes.Você não acreditou.Me passa o vinho. por que é que você não me disse que estava grávida? B . A .

) — E. isso te dói? A . Não me venha com esses superpoderes feminóides. (Articulando as palavras. . Me responde uma coisa: por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento.B — Uma mulher sempre sabe. Eu acho que.Quero saber tudo. A Sabe merda nenhuma.Porque é o único jeito de imaginar que eu tou fodendo com um homem. Sabe sempre. tem uma pergunta que há horas eu tou querendo te fazer.) Por que é que você sempre trepa de olhos fechados? A (Lento.) — Você quer saber? Você quer saber mesmo? B . tá sabendo? Na hora de baixar a calcinha. B — Sabe na hora. Sabe o tempo todo.. A — Não força.Absolutamente. não força? E já que a gente tá falando nessas coisas tão Íntimas.. cara.. cara.) . No segundo em que eu botei o olho em ti. Pausa longa B (Acendendo um cigarro. B — Como.. No minuto exato em que você põe o pau lá dentro. lentíssimamente. meu querido.

(T. mudança. aquele menino.. para mim.‖ (García Lorca) A (Cortando.estou tentando.. . (Shakespeare. ele continuará sendo — sempre — aquele menino recém-chegado de Florença.DIÁLOGO 5 A — Não consigo aceitar essa mudança..... estou atordoando. Eliot) A — Eu não consigo.) — Estou tentando.. B — ―Somenthing between Macondo and venice‖.. Florença. essa..... Time for visions and VER. eu não consigo.. ele continuará sendo sempre aquele menino recém-chegado de Florença.. Para mim. estou turvando. B — ―Life is a tale told by an idiot fuli of sound and fury‖. Para mim.) A — Não consigo...S. (Sylvia Plath) A — Estou tentando. Para mim. não consigo — não consigo aceitar essa.. B ..) ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖...―There will be time...... para mim... Aceitar essa mudança. eu não consigo.) ―Amor de mis entrafias: viva. B — ―Amor de mis entrafias: viva muerte‖ (Pausa.... para mim... . Time for me and time for you. ele continuará sendo aquele menino recém chegado de Florença. B — ―1 am too pure for you or anyone. não sei... There will be time. estou tateando. essa mudança... Your body hurst me as the world hurst me as the world hurst god‖... estou torvelinhando....... não sei. Time for one hundred of decisions and undecisions‖. mas não consigo. (Pausa.. estou tonteando.

google.com/group/Viciados_em_Livros.Se quiser outros títulos nos procure http://groups.) enquanto B repete sempre a última frase. será um prazer recebê-lo em nosso grupo. 2 2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Nota — A continua fazendo variações (que podem ser improvisadas ao infinito em torno de tentar-tatear-tontear-etc. .

SARAU DAS 9 ÀS 11* * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

PERSONAGENS MADAME DE ALENCASTRO • MONGE DO RESTELO • BABY • DEBORAH • BÓRIS. um homem-tronco • EGO .

Taormina foi o cenário onde transcorreu aprazível a minha infância. Ao fundo. Éramos servidos por exércitos de empregados que nos amavam e respeitavam. bosques e fontes. MADAME - Suavemente plantada entre os rochedos da harmoniosa Costa do Sol. O Monge de Restelo é uma figura visionária de capa vermelha. traz numa coleira um homem-tronco. vestindo um manto negro que só deixa de fora o rosto de alvaiade. tomaram conta. drugs & rock‘ n roll. Ela. QUADRO Overture Este é um quadro de monólogos entrecruzados. e eram capazes de dar a vida por nós. velha dama de negro e sotaque português. Recepções. bailes de máscara. Madame de Alencastro. Os rebeldes venceram. ditadores depostos. mas só se manifesta no final como um oráculo de nonsense. partidas de criquet. Ele. que geme sons inarticulados. E o Ego. jantares. Nesse ambiente eu me criei. sex. ocuparam . a imprecar vaticínios apocalípticos. que a tudo preside. jeans e discurso de protestos. Hoje tudo mudou. por onde ninfas e sátiros se perseguiam amorosamente. Reis destronados.1º. uma figura de altura desmesurada. Baby e Deborah são representantes da juventude. Habitam áreas estanques do palco. As falas dos personagens repercutem umas nas outras sem que haja qualquer diálogo ou contracenação entre eles. vivíamos em mansões cercadas de jardins. Bóris. picnics no campo. Isolados da turbulência do mundo. envelhecidas estrelas de cinema conviviam com magnatas do jet-set internacional e com a antiqüíssima aristocracia local. era uma festa sem fim. festas à beira da piscina.

Mas naquele tempo nâo havia rebeldes. BABY — Quem é você para colocar um epitáfio sobre mim? Quem é você para dizer que não dei certo? Por acaso você deu? Olhe dentro do meu olho e me responda: você se sente feliz? Você tem esperança? Eu não. cruamente. Mas quando olho para você. quando fazia calor. Tudo grita na sua cara que você não vale absolutamente nada. drogas.Quando olho para mim mesmo. pelo Arcebispo de Cantuária.E pensar que eu passei todo esse tempo investindo no meu know-how.. gosto muito menos. de Saravejo. far-se-á silêncio no céu.tudo e tivemos todos que fugir às pressas. não posso evitar de pensar que o homem é apenas um animal que não deu muito certo. MADAME — À tardinha. pelo ex-ditador Simeon da Cituânia e pelo regente Von Koseritz. quando olho para mim. O mundo te machuca. MONGE (Para Baby. não. passeávamos pela alameda da quinta de Don Juan do Franco Condado. ex-rei da Savóia. e que explodiu. não gosto do que vejo. DEBORAH .. a nossa graça e o nosso charme a beira-mar. dentro dos ônibus. Os amigos desaparecem no momento exato em que você precisa deles.. política. Então os anjos com suas trombetas preparar-se-ão para tocar. nas esquinas.E pensar que eu quase me danei apostando no meu back-ground. MONGE — Ao romper do sétimo selo. Éramos visitados pelo rei de Roma. BABY .) — Tu continuas fazendo parte daquele balão colorido que subiu embalado por música. ou tomávamos chá sob o caramanchão nos jardins de Humberto de Bourbon. As pessoas te empurram nas filas. . DEBORAH . E em noites de lua cheia desfilávamos todos a nossa beleza. Quando olho para você. Eu..

e a terça parte do mar mudar-se-á em sangue. I know not what to do. em que a princesa do Shirar representou o nascimento de Vênus. DEBORAH . entre todos vocês. Não. Não. Queimar-se-á a terça parte da terra. ou então transformadas em casernas ou hospitais. silenciosas. estenderá a mão para passar no meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia? DEBORAH . e toda a grama verde perecerá no fogo. tem agora que cozinhar a sua própria comida. no palacete de Otto Marino. Acabou tudo. MONGE — O primeiro anjo tocará a trombeta — e cairá uma saraivada de fogo misturada com sangue. eu não suportaria presenciar uma coisa dessas. e um terço dos navios ira a pique. o rei do manganês. emergindo de uma fonte de champanha coberta apenas por um manto de asas de borboleta. a terça parte das arvores. MONGE — O segundo anjo tocará a trombeta — e como um monte de fogo lançar-se-á ao mar. fechadas. BABY — Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de desencanto? Quem. ―Morram os opressores‖.Quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu. que será atirada sobre a terra. . desde que os rebeldes venceram. nunca mais voltei a Taormina. a poetisa Florbela Ortigão. MADAME — Fiquei sabendo outro dia que minha madrinha.Ando jururu. Não suportaria ver aquelas casas vazias. Nunca mais retornarei a Taormina.MADAME — Lembro-me ainda de uma grande festa a que fui aos 15 anos de idade. Não quero ver as paredes brancas de suas casas cobertas de inscrições em vermelho e negro: ―Abaixo a tirania‖. e perecerá um terço das criaturas que vivem no mar.

nos animais. MADAME . porque se tornarão amargas. não espero nenhuma cantiga de ninar. Quando se pára de pedir. Pela minha absoluta desesperança. não espero nenhum gesto. Você tem seus jeitos de tentar. Acredito nos astros. luminoso como um archote. Eu tenho os meus. De qualquer forma. BABY — Quanto a mim. um dia seremos poeira. BABY — Não espero nenhum olhar. acredito nas plantas. deixaram para trás uma avozinha cega. Acredito na pedra bruta. Acredito no vento que sopra da banda do rio quando o sol acaba de se pôr. descarregar esse mundo das costas. a gente está pronto para começar a receber. E a famosa confeitaria Garcez & Bernard. mas pouco importa onde terminará a minha queda. uma tia louca. Quando não se tem mais nada a perder. talvez também não acredite nos meus próprios. Chamar-se-á ―absinto‖ esse astro.Tivemos todos que fugir em debandada. teve as suas instalações transformadas num depósito de armamentos. um irmão entrevado. Não lhe peço que acredite em mim. e nosso porto é desconhecido. e virá tombar sobre a terça parte dos rios e das fontes d‘água. Por isso estou vivo. Muitos. Tivemos que vender nossos automóveis de luxo. meu coração bate ainda mais forte. na areia seca. dizia.E descansar os meus olhos no pasto. Não acredito nos seus. nas águas. Os industriais de Santa Lúcia tiveram todos os seus bens confiscados e contas bancárias bloqueadas pelo Governo rebelde. e muitos homens morrerão dessas águas. O futuro é um abismo escuro. MONGE — O terceiro anjo tocará a trombeta — e cairá do céu um grande astro. Soube também que faliu a revista Gran-Monde. especializada na crônica da vida mundana. só se tem a ganhar. cuja mais famosa especialidade eram os docinhos conhecidos como ―ossinhos de Santa Catarina‖ — a confeitaria. nossos iates e palacetes. na pressa. .DEBORAH . Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado. Converterá em absinto a terça parte das águas.

un paté trufado de Estrasburgo. pela espada morrerá. outrora um dos mais luxuosos da cidade.DEBORAH — Eu só quero fazer parte do backing vocal. Não me iludo. MONGE — De maneira que se lhes escurecerá a terça parte. MONGE .Tudo mudou. MADAME — Terminada a refeição. MADAME . ouça.Ainda na semana passada a única figura daqueles tempos que se mantinha em pé era o velho Cônsul de Pasca.Fuzilados.Quem tiver ouvidos. hoje submetido ao regime de autogestão. MONGE — Quem reduzir outro ao cativeiro. e deixará de resplandecer a terça parte do dia e da noite. MONGE — O quarto anjo tocará a trombeta. MADAME . será cativo ele mesmo. MONGE — Quem ferir pela espada. MADAME — E o que foi não voltará mais a ser. MADAME . Ciências e Artes foram todos mortos.disse. . un bon tinto y nada más‖ . MADAME . MADAME — Li no jornal que os imortais da Academia de Letras. ninguém mais o viu. que foi visto sexta-feira no restaurante La Tour d‘Ivoire. MONGE — E será ferida a terça parte do sol. shoobedoo-down-down. Tudo acabou. Ainda hoje tive a compreensão final. a terça parte da Lua e a terça parte das estrelas. e cantar o tempo todo: shoobedoo-down-down.Tomou dois cálices de vinho do Porto e encomendou o jantar: ―Yo quiero un poco de caviar.

MADAME (Para Ego. DEBORAH (Para Ego.) — Onde estão meus andores? Onde estão meus ouropéis? Onde estão meus cristais? EGO — Mantenha seu equilíbrio sobre o fio da navalha. A gente sentava embaixo da figueira e ficava vendo o sol se pôr atrás dos morros. E muitas passarão. 2° QUADRO: Como Era Verde o Meu Vale Monólogo auto-explanatório. Como era bonito lá.) .) — Quando será finalmente aberto o último seio? EGO — Bevete più latte. Ask for interchange.BABY (Para Ego. CENA Um hospital para doentes mentais. Trás de ahora viene lo que fue antes. A casa era branca e fresca. A gente via o rio dum lado e os morros do outro. Demandez de l‘interchange. A gente via mesmo só à . MONGE (Para Ego.) — Como posso acreditar outra vez no humano? EGO — Muitas gerações passaram.Where‘s my band? EGO — Solicite intercâmbio. y antes fue lo que será ahora.

De longe parecia pequenininho. Veio também a fábrica de cimento. Aí a gente parou de conversar e ficou todo mundo olhando o trem. porque de dia era tanto trabalho que a gente nem tinha tempo de olhar pros lados. que ele não queria que eles crescessem uns ignorantes que nem eu. De repente ela parou e apontou pro lado do morro. Lembro que a Zefa vinha descendo os degraus da casa com o mate numa das mãos e a chaleira na outra. recolher os ovos no galinheiro. semear o trigo —. carregados de trilhos e umas máquinas que eu não conhecia. A terra tava no nome deles. A gente pensou que ela tivesse se queimado. . A Zefa ficou tão nervosa que derrubou a cuja no chão e virou a água quente da chaleira. as árvores perdiam as folhas e a terra não dava mais nada. quase como uma centopéia na encosta daquele morro grande.tardinha. mesmo assim. Todo dia a gente podia ver os caminhões passando lá embaixo. O povo da vila dizia que era bom. arar a terra. E o sol se pondo por trás. que não sei ler nem escrever. Mas a fábrica largava uma fumaça branca que caía em cima das árvores e das verduras. Então as cercas das outras casas começaram a se aproximar e a gente foi ficando espremido ali. os peixes do rio foram morrendo todos. resolveu vender tudo e mudar pra Canoas. O Clodomiro falou que as crianças precisavam de escola. E mesmo quando tinha muito trabalho — tirar leite das vacas. Um tempo depois vieram as casas. Foi numa dessas tardes que a gente viu o trem. A minha propriedade não era muito grande. Depois dum tempo as plantas começavam a murchar. era sempre bonito lá. meu filho mais velho. Mas ela riu e disse que não era nada. eu tenho cinco filhos e os cinco tavam casados e precisavam de dinheiro. em cima daquela colina onde ficava a nossa casa. que era o progresso que tava chegando e agora todo mundo ia ter trabalho e ganhar bastante dinheiro. A terra foi ficando tão imprestável e as cercas se aproximaram tanto que o Clodomiro. colher o milho. Fazia tempo que uns homens do governo trabalhavam na estrada de ferro. na estrada. Ficou apontando e olhando.

Aí um dia eles disseram que eu tava louco. quando entesava de querer uma coisa não tinha ninguém no mundo capaz de fazer ela mudar de idéia. por causa do barulho dos caminhões na feira perto de casa. Ela era uma mulher mais braba. Mas ela tinha morrido já faz muito tempo. Eu não conseguia mais dormir e de noite ficava andando pela casa. e que eu podia plantar no pátio. Eu só suspirava e repetia: ―Como era bonito lá.Eu não queria vender. Ele tinha dito que a gente ia morar numa casinha que nem a outra. Os vizinhos cochichavam quando eu saía no portão. A minha nora reclamava cada vez mais. não queria lavar as minhas camisas. falando comigo mesmo. Eu fui ficando triste. Então o Clodomiro vendeu a terra e a gente se mudou pra Canoas. pensando na figueira e nas coisas que a gente conversava embaixo dela. A minha nora reclamava todo dia. do banheiro pro quarto. 3° QUADRO Bonecos Chineses . como era bonito lá‖. quem sabe se a velha ainda tivesse viva o Clodomiro não tivesse vendido. Eu já não conseguia nem comer nem dormir direito. me botaram numa camisa de força e me trouxeram pro hospício. Eu tinha um pouco de medo de sair além do portão. dizia que eu parecia um bicho numa jaula. como era bonito lá‖. Mas era um pátio tão cheio de pedra que nem urtiga nascia lá. As crianças acordavam com os meus passos. Quando a gente fica velho os filhos não ligam mais pros palpites da gente. Eu sempre repetia assim: «Como era bonito lá. e eu não podia fazer nada. da sala pro banheiro. E ficava andando da cozinha pra sala. eu achava muito bonito lá. Eu não brigava. choravam e tinham medo de mim. dizia que não era bom pras crianças. Eu fui ficando cada vez mais triste.

) — Você acha que eu tenho tempo pra essas bobagens? B — Você já fez sua saudação ao dia? A — Ora. A . . hein? B . você vai se visitar. A — Ah. você acordou hoje com o quê. eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo essas besteiras. estou aqui. A (Ri. você está aí. B — Sim.E o que é que me importa isso? B — É preciso agradecer. então agradeça. escute aqui. B — Os pássaros são livres. A . B — E você? Não vai fazer o mesmo? A — Fazer o que? B — Simplesmente agradecer. A — Escute. se não você vai terminar chegando atrasado no seu emprego. E tome o seu café de uma vez.O que é que você falou? B — Eu disse que os pássaros são livres.PERSONAGENS A (uma dona de casa) e B (seu cunhado). com a minha ajuda. A — Eu tenho mais coisas a pensar do que na luz do sol. B — Sabe. A — Muito bom.Com a luz do sol. hoje.

mas senhora de si mesma.Não há tempo a perder. sabia? E você também está perdendo tempo. arrumar as camas. fazer comida pra vocês. A — O que eu sei é que eu sou senhora do teu irmão. O salário que traz pra casa não paga nem o papel higiênico que você gasta. A — Eu sei que eu tenho muitas outras coisas a fazer. Não é assim que você pensa? A — Claro. A — É claro que você não tem esses problemas. E pra isso eu preciso de tempo. meu querido cunhado.E onde está o seu outro lado? A — O que é que você está dizendo? B — Aquele lado que não lhe faz escrava. roupa lavada. há muito que já devia ter ido trabalhar. E mesmo que você perca o emprego de tanto chegar atrasado e não contribua com dinheiro algum pra casa.Por exemplo. eu não tenho esses problemas de tempo. B . tem aí o trouxa do teu irmão que te sustenta. comida. A . Tenho que lavar a sua roupa e a de seu irmão.B . Não é você quem paga o aluguel. Você acha pouco tudo isso? B — Acho que falta mais alguma coisa. É assim que eu penso. E você está fazendo eu perder tempo. B — Não se preocupe. Tenho que limpar a casa.Por exemplo? Eu já vou lhe dizer. Vá trabalhar logo e me deixe trabalhar também. Você tem casa. Eu já estou é farta de você! B . . o tempo não existe pra mim.

B — Eu quero brincar com a sua cabeça. Pare. (Cala a boca.B — Ah. Experimente parar um pouco. se você quiser. a situação seria bem diferente. Se dependesse de mim. Escute o silencio. se mexe demais. eu posso ajudá-la a mudar a situação agora. B — Estou mais disposto a colaborar do que você pensa. A .E o que é que você está pretendendo? B — Cale-se. vou lhe revelar um segredo. A minha paciência tem limites. A — Você está é louco. A — Escute uma coisa. A — Muito bem. B — Depende de você. revele esse segredo logo e vá andando. faz coisas demais. ouviu! Não admito essas brincadeiras de mau gosto! Seu vagabundo! parasita! explorador! B .Sabe de uma coisa? Você fala demais. Escute.) A — O que é isso? 8 — Cale-se. Chegue um pouco mais perto. De qualquer jeito você vai morrer um dia. Quer? A — Bom. e isso é tudo pra você? A — Eu não me casei com ele? Se eu fosse senhora de mim. Isto é uma falta de respeito! Onde já se viu uma coisa dessas? Debochar de mim na minha cara! Eu não admito. . pelo menos você parece disposto a colaborar. tudo demais! A — Pare com isso! Pare com isso! B — Pare você. eu não estaria aturando você todo esse tempo aqui dentro da minha casa.

Cansado da sua mesquinharia! A . Adeus. pelo menos. Este não é o único planeta. Vamos conversar com calma. você é tudo também.Ah. B — Você não estava cansada de mim? A — Estou cansada.O quê? . A .. Eu vou. uma pessoa. Deixa eu buscar uma cadeira. a cama. Nem o único sistema solar. o país. não é? A . B — Você não é a única pessoa do mundo. o planeta. Você não passa de uma poeira. Cansado da sua infinita burrice. da sua falta de sentido! A .. A — Vá.. me chamou? Você não queria que eu fosse embora? A — Não.Escute. não desta maneira. da sua mediocridade. simplesmente.Eu é que estou cansada de você! B — E do seu medo. A — O que está acontecendo? O que foi que deu em você? B .Está bem. B — Bunda mole.O que você quer dizer com tudo isso? Eu acho melhor você ir embora da minha casa já e já! B .Estou cansado. Você deve ter varizes.B .) Espera! B .Escutar? Mas eu não estou ouvindo nada. Desculpe. Esta não é a única casa. Mas sendo uma poeira. o sistema solar. (Pausa.. Este não é o único país do mundo. vá! É melhor mesmo que você vá de uma vez. o universo.

A — E onde é que você está? . A — A nossa. A — Que conjunto de reações. Eu não. Tudo em você é típico. Você está aqui dentro comigo. querido cunhado.O que é isso? Eu não entendo essa conversa! Você está me deixando louca! B . B — Você não chega a ser uma individualidade. B — E problemas digestivos! A .E hemorróidas.Também! B — Conheço todos os seus males. A — Eu acho melhor você acabar com essas agressões.Você é mais um conjunto de reações do que propriamente um ser humano. A . No rabo.B . é aqui a realidade! B — Esta é a sua realidade. está fora da realidade! Desça. meu Deus? Pare com isso! Pare de falar difícil! Você está louco. A minha é outra.Também! B — E caspa! A . E pára de andar ao meu redor que eu fico tonta. coisa nenhuma! O que é isso.Tenho. desça. A — Claro! Você é um deles! B — São típicos. B — Você está aqui dentro. que eu não vou agüentar. A . Característico.

na cozinha. B — Mas eu já disse que posso ajudá-la. na água. A. Eu estou sempre me achando.Encontrar o quê? B — Você mesma. A . no éter. me torturar. Você só sabe me explorar. A — Mas como me perdi? Eu me acho todos os dias. é preciso começar pensando. Eu não gosto de pensar nela. está ouvindo? Eu não admito isso na minha casa! Pare com isso imediatamente! B — Parei. humilhada. dentro de mim. A — Mas concretamente.. B — Pense em você mesma..Eu? B — Sim. A .Em quê? B — Pense. No tanque. . B — Você se engana..Eu me sinto insultada.. A . isto está cheirando a bruxaria! umbanda! espiritismo! Eu sou católica praticante. Me ajudar! Tem graça! Em que você poderia me ajudar? B — Eu podia ajudá-la a encontrar. A — Meu Deus. no supermercado. na terra. e dentro de você.B — Eu? Eu estou no ar. A — Não acredito em você... Você não se acha nunca.. me irritar.. você se perdeu a si mesma. no fogo. Pra você se achar. me diga concretamente em quê? Na minha vida? Mas a minha vida é tão feia.

B — Na sua cabeça. B — No seu interior. A — Mas eu penso.Eu já disse. meu Deus. eu tenho pulmões. B . pelo amor de Deus! B . O que é que eu faço com ela? B . Penso no banho das crianças. Acho até que me esqueci de mim. Em você Em você. tronco e membros. A .Há muito tempo que eu não penso em mim. Pense! A — Na pilha de roupas pra passar. em que? Me explique. eu tenho coração! útero.Na minha cabeça? A minha cabeça dói.Quando foi que você se esqueceu de si mesma? . B — Frescura! Pense! A — Em levar as crianças pro colégio.A — Em que parte de mim? Eu sou composta de muitas partes: cabeça. já disse. B — Detalhes! A — Nas cortinas que eu tenho que mandar lavar! B — Detalhes.Pense. A . B — Insignificâncias! Continue pensando! A — Mas em quê. A — No meu interior? No meu interior eu tenho vísceras. Em buscar as crianças do colégio.

ela não existe mais. tão tranqüila.Eu tenho vergonha. Eu gostava de ficar olhando para ela. A — Você acha que vai dar certo? B . Fale comigo.Tenta. . Eu gostava de brincar no jardim. frondosa. O vento soprava e ela abanava as folhinhas pra mim como se me respondesse. Eu não via nada de errado nisso. Eu não quero pensar mais nisso. E além disso. Eu ficava tão calma. B — Tente se lembrar. Venha. cheia de vergamotas. que até adormecia ao pé da árvore. A . sim. debaixo de uma vergamoteira. vontade de me atirar na cama e chorar. Eu vou virar de costas. A . Acho que você pode voltar a falar com a sua vergamoteira. como se fosse uma máscara pintada. Era até bonito. Faz de conta que eu não estou aqui. Eu conversava com ela. Mas aí tudo desaparece. E tão difícil pensar. não acho. A — Ora. Diga alguma coisa.Não. As mãos ficavam coloridas e os joelhos também. Eu acho que não consigo mais nem pensar. aproximese. isso não é coisa pra uma mulher da minha idade. só sei que faz muito tempo. e acordava com os gritos da minha mãe mandando eu tomar banho. As coisas fogem da minha cabeça quando eu me esforço.A — Não sei. Tão bonito. Olhe. Eu já nem me lembro direito. B — Existe. E estou cansada. ás vezes eu penso nisso tudo e chego a sentir um pouquinho daquela alegria. o corpo doído. Faz tanto tempo isso. colorida. E digo mais. eu sou a vergamoteira. E só fica o cansaço. lavar as mãos e os joelhos que estavam pretos.A última coisa que eu me lembro de mim é quando eu tinha sete anos. Você acha ridículo tudo o que eu contei? B .

B — Que pena. o que é que eu encontro? B — Não sei. A (Ri envergonhada. B .. A .Desde anteontem. B — Sete é número cabalístico. Se eu comer as sete vergamotinhas eu encontro. A — Acho que entendi.. .Oi.) Oi. B — Eu já estava com saudades de você.B — Vem cá. A — Esta vergamoteira é nova. A . vem falar comigo. E aquela ali. encontro. B — Já pensou no que isto significa? A. aproxima-se lentamente. de bruxaria.E daí. Eu tinha sabatina e tive que ficar no meu quarto estudando. Há quanto tempo você não vinha aqui. A — Eu também estava. B — Quantas vergamotas eu tenho hoje? A (Conta. ele representa força. coragem..) — Sete.Não. Esta outra aqui também.E daí? B . você tem uma chave em suas mãos.) — Eu não posso. Mas esta aqui é nova. (Hesita. Esta eu já tinha visto. Isso só você é que vai saber. Mamãe não deixou eu vir ao jardim ontem.. B — Não. A . Eu não conhecia ela.Eu sei.

A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO * Peça em 1 Ato * Em colaboração com Luiz Arthur Nunes .

VASSILI. irmã do conde e louca • JEZEBEL. uma velha governanta • CONDE MAURÍCIO DE BELMONT. uma cigana . um cigano cego . uma donzela de 19 anos . um velho nobre. MARQUES RAFAEL D‘ALLENÇON. CONDESSA URSULA DE BELMONT.PERSONAGENS NARRADOR • AGHATA. muito doente • ROSALINDA. um jovem mancebo.

.. senhor conde. dorme um sono entrecortado de gemidos e sobressaltos. ergue-se.Aghata. que já por toda a parte começava a ostentar os dons fecundos do seu rico e poético reino. que estou cada vez pior. (pinga mais) ou três.. Mais um gole.. cinco. saberá por certo apiedar-se de vossa desdita.. Agatha. MAURÍCIO — Arre. Não vais dar-me a tisana? AGATHA — Estava justamente a prepará-la para vós. deveis beber a tisana toda. pinga lentamente algumas gotas de uma tisana escura num cálice de cristal... último descendente da estirpe e que outrora.. conhecido pelo nome de Vale Negro... três.. o velho conde Maurício... ao contrário. quatro. governara seus domínios com a mão de ferro. A governanta Agatha. . duas. estende-se um vale coberto por densa floresta de pinheiros e ciprestes.... Oh.. No topo de uma das montanhas que dominam o vale.. de antiqüíssima linhagem e senhores daquela região. (Observa Maurício. sete.) Talvez mais uma ou duas. Acho que é o suficiente por hoje. Agatha. seis. sinto-me dolorosamente mal. Numa sala do castelo.CENA 1 NARRADOR .. senhor conde..Na província de Castelfranc.. Aqui está (serve-lhe). MAURÍCIO (Gemendo.) . o castelo dos condes de Belmont. que há muitos anos serve a família. Uma chuva miúda e fria cai sobre a terra. Deus. paralisando a formosa primavera.. Senhor. AGATHA — Uma. A nossa história tem início na tarde de 15 de abril do ano da graça de 1834. que sabor repugnante! E se ao menos adiantasse de alguma cousa! Parece-me.. Assim. imponente.. que cruéis provações ainda me reservará o destino? AGATHA — Não vos preocupeis demasiado. na sua infinita bondade de misericórdia. Vamos.

Deve andar pelos bosques colhendo frutos e flores silvestres. (Suspira. ..) — Falávamos sobre os males que afligem vosso padrinho.. meu primaveril crisântemo.) — Quiçá eu mereça todos estes abomináveis tormentos. Temos sol de novo.) Pobre Rosalinda! Deus permita que não descubra jamais o hediondo segredo que envolve as suas origens.Com este tempo chuvoso? AGATHA . Ela jamais saberá. CENA 2 ROSALINDA (Entrando com um cesto de palha carregado de flores e frutos. jamais revelarás a verdade a Rosalinda? AGATHA — Tranqüilizai-vos. O senhor conde quer que eu descerre os reposteiros? MAURÍCIO — Não. meu amado bem feitor! MAURÍCIO (Amargo. abandonado aqui neste leito. e pensava em vós.) — Quem jamais saberá o que? AGATHA (Friamente.A chuva parou já faz mais de hora. senhor. A luz me molesta. a natureza toda parecia explodir em cores inefáveis e perfumes inebriantes. como é de seu feitio. Agatha.Ainda não a vi hoje. senhor. por favor. Então. se eu morrer. entre as cabras. onde está Rosalinda? AGATHA . Que trafega estás. juras que. Como deveis padecer. Caminhava pelos montes. Rosalinda. andavas pelos bosques? ROSALINDA — Sim. padrinho. MAURÍCIO .MAURÍCIO — Agatha. quando raiou o sol. MAURÍCIO — Aproxima-te. Oh.

E apenas um fenômeno natural.) — A cascata costuma parar quando algo terrível está para acontecer.O marques Rafael d‘Allençon. AGATHA (Anunciando.. padrinho.) — Deus sabe o que faz. Agatha. Deve ter chegado alguém. o conde Maurício de Belmont. mais justo e magnânimo que meu amado padrinho.) MAURÍCIO — Atende.) Ouvis? A cascata parou.Os gritos novamente. quietos! (Cessam os latidos. ROSALINDA . Belzebu.. Ouvem-se batidas de aldrava. MAURÍCIO — (Agitado. Agatha.) — Os cães estão latindo.) . minha rósea tulipa. MAURÍCIO — Cala-te. AGATHA (Cortando. . (Agatha sai.AGATHA (Seca. ROSALINDA — O que dizeis. Esta é a maldição do Vale Negro. (Indo à janela. AGATHA — Caluda! (Escutando. Não atemorize nossa linda pequena. Lúcifer. De que sofrida garganta brotam esses brados inumanos? E por que a cascata pára? AGATHA (Lúgubre.) ROSALINDA . Tenho um pressentimento.) AGATHA . padrinho.Tenho tanto medo.) Não! (Ouvem-se gritos ao longe. Agatha? Todos os camponeses e mineiros do Vale Negro sabem que não existe fidalgo mais nobre. inexplicável pela ciência dos homens.) Cérbero..Quem poderá ser? Oh. Belfegor.) Não te assustes.. sinto um aperto no coração.) E quanto aos gritos. (A Rosalinda. (Ouvem-se latidos. Astaroth. Asmodeu.

) — Seria um erro fatal. o velho feitor Bonifácio.) Por que razão viveis cercado de feras? (Melífluo. A que devo a honra de vossa presença aqui em meu tugúrio? RAFAEL — Assunto particular. necessito estar a sós com o marques. ROSALINDA (De olhos baixos. O que dificilmente aconteceria. (Sai com Agatha. Só são soltos ao anoitecer.. senhor marques.) . MAURÍCIO — Agatha. senhor marques. (Olhando de soslaio a Rosalinda. RAFAEL (Estremecendo. AGATHA (Levemente irônica. RAFAEL — Folgo em sabê-lo. caríssimo conde. Inclusive eu . permanecem acorrentados. caro marques. durante o dia. que os alimento.) .) — Brrrrrrr! Que conversa desagradável! MAURÍCIO (Secamente.) — Maldição! Esses cães são verdadeiros demônios! (A Maurício. Os cães. retira-te.Abreviamo-la. que só obedecem ao seu tratador. São animais ferocíssimos.Vós ordenais. Seriam capazes de trucidar qualquer um de nós. Mas não precisais temer. Para não incorrer no erro de vir visitar-vos à noite.CENA 3 RAFAEL (Entrando.) Acaso tendes medo que alguém vos roube esta gentil donzela? MAURÍCIO — A maldade no coração dos homens é incalculável. pois. (A Rosalinda.) Bálsamo de minh‘alma. Com vossa licença. meu padrinho. A mim cabe obedecer..) .) A não ser que.

Não é possível.CENA 4 RAFAEL — Não desejo roubar vosso precioso tempo. apesar de possuir a metade de vossa idade. sois vós o único responsável por vossas próprias desditas. Ide logo ao cerne da questão. MAURÍCIO — Que quereis dizer com isso. MAURÍCIO (Agitado.. biltre dos infernos. Outrossim..) . senhor conde. Devo confessar que pareceis já um cadáver. Conheço vossas diabólicas tramas. MAURÍCIO . RAFAEL (Lentamente. senhor! Inesgotável é a taça de infortúnios que me fazeis sorver neste vale de lágrimas! RAFAEL — Sois injusto com o bom Deus.) ...A hipoteca vence hoje. Ao fim e ao cabo. coincidentemente. a virgem e o Espírito Santo são testemunhas de minha desventura. Isso é um engodo.. MAURÍCIO (Examinando os papéis. Acaso esqueceste que vosso companheiro preferido das noitadas de esbórnia e deboche era.) — Tendes razão.) Que Deus o tenha! . caro senhor. (Entrega-os. o meu finado pai? (Compungido.. estimado conde.Que dizeis? RAFAEL .. MAURÍCIO — Deus. E em adiantado estado de putrefação. RAFAEL — Ora. Por certo adulterastes os papéis. conheço bastante bem vosso passado. Não há sombra de fraude neles.A hipoteca vence hoje. RAFAEL — Os papéis cá estão em minha algibeira.. Podeis verificar. Não tolero vossa presença maligna.) Parece-me que vossa senil memória anda já a pregar-vos peça. quero crer que já não vos resta muito. Oh. Apenas isso.

que acerbas recordações vindes me despertar! RAFAEL — A concupiscência..Aquela noute. senhor Conde Maurício de Belmont.. senhor conde. no auge do desespero. .Não. e não vou perder a oportunidade de vos dar o merecido troco! Não.. há mais de dez anos que. de quem. não podeis negar que estais colhendo hoje o amargo fruto de vossa desenfreada paixão pelo jogo! MAURÍCIO . Sim.. com meu pai.já embotado pelos vapores etílicos. foi numa ―noute nefasta‖. o velho marques d‘Allençon.. após já haver perdido vultosíssima quantia e já embotado pelos vapores etílicos. implacável.) . basta de ressuscitar esses horrendos fantasmas do passado! RAFAEL (Implacável.Vosso pai.. RAFAEL — Ah. RAFAEL — Sim.) . Todos os bens do ilustre clã dos Belmont hipotecados à não menos ilustre casa d‘Aliençon! . os títulos de suas propriedades.. vejo que vossa memória começa a reavivar-se. como dizeis. o vinho. não basta! Já fui assaz insultado por vós. aquela noute nefasta. Ou porventura olvidais que foi sobre o pano verde que empenhaste toda vossa fortuna? MAURÍCIO (Num arranque.) — Basta.) . MAURÍCIO — Ah.) — Eu não podia. as canções. herdei muitas ―virtudes‖.. a devassidão e o vício que levaram o meu progenitor à loucura e à morte são agora a causa de vossa ruína financeira.. como gosto pelos ―prazeres‖ da vida: a boa mesa. MAURÍCiO (Cortando. aliás. as mulheres.. não conseguia parar! Era mais forte do que eu! RAFAEL (Continuando. .MAURÍCIO (Amargo. sentado a uma mesa de truco.. Vossa Senhoria ofereceu como garantia de sua derradeira aposta.

. vil cobarde! ROSALINDA (Entrando com Agatha. Deus de minh‘alma! O que me resta fazer agora? RAFAEL — Se vós tivésseis uma mente. canalha! O que mais ainda quereis deste lamentável destroço humano? RAFAEL (Direto.MAURÍCIO — Ah. A escolha é vossa.) — Como vos atreveis? Ficai sabendo que não sois digno de lamber o chão onde roça a fímbria da saia de Rosalinda. (Agatha sai conduzindo Maurício.Senhor.O que fizeste a meu padrinho. que tendes? MAURÍCIO .. MAURÍCIO (Tossindo muito agitadamente.. Mil vezes a mais negra miséria! RAFAEL (Sem se abalar. para vos retirardes do castelo.) ROSALINDA (A RafaeL) . Mas. Quero vossa afilhada. ao meio-dia. arrogante mancebo? CENA 5 .) . Cederia a mão de Rosalinda ao mais imundo dos mineiros do Vale Negro. digamos. preciso repousar.) .) O mais ignóbil dos répteis é mais nobre do que vós. Agatha. MAURÍCiO (Tomado de cólera.) — Infâmia! Gozasse eu de alguma saúde e vos expulsaria daqui a chicotadas.) — Então estais completamente arruinado.. mais atilada. (Tossindo violentamente.Não sou homem de meias palavras.. MAURÍCIO — Falai logo.. como sou um homem magnânimo. tendes até amanhã. poderíeis fazer bem mais do que imaginais em vosso próprio benefício. jamais a vós.Ajuda-me.

Oh. os ágapes desenfreados.A vida desregrada que levou.. apiedai-vos de nossa desgraça! Que tendes vós em lugar de coração? Uma taça de veneno? RAFAEL . A hipoteca vence justamente hoje.Tudo depende de vós. ROSALINDA — Mas não podeis cometer essa vileza. menina..Que não tendes mais teto que vos abrigue. O senhor conde está gravemente enfermo.) . nem a bruxa governanta.. As propriedades pertencem a ele. senhor marquês.Vamos. minha pequena. que. complacente com este vosso admirador. Nem vós. .. RAFAEL (Interrompendo. Nada fiz a vosso padrinho. minha flor das montanhas. os muitos crimes que cometeu o corroem por dentro. ROSALINDA — Mas então por que está ele neste deplorável estado? RAFAEL .RAFAEL . Mas isso não é crime. nem vosso padrinho... como pudeste observar. nem aqueles cães demoníacos. ROSALINDA — Crimes? De que falais? Meu padrinho nunca cometeu crime algum. RAFAEL — Crime é deixar ao desabrigo uma donzela como vós. RAFAEL — Basta que sejais.. minha pombinha. ROSALINDA — De mim? Sabei que tudo faria para amenizar as derradeiras horas de meu benfeitor.Sei-o. Sua morte é questão de meses.. RAFAEL Como não? Então não sabeis que hipotecou todas as suas propriedades à casa d‘Aliençon? ROSALINDA . ROSALINDA — Isso quer dizer que.

Freqüentemente.) RAFAEL (Abraçando-a. desistindo de protestar os títulos da hipoteca. Se isso pode salvar meu benfeitor da ruína. crisântemos. A atitude do marques. por misericórdia.ROSALINDA — Complacente? Que insinuais? Não vos entendo. magnólias. Nos menores frascos repousam as mais puras essências. Rafael passou a visitar mais amiúde o castelo e. cederam lugar a uma solicitude. hortências. podeis dispor de meu corpo e de minh‘alma como quiserdes. (Resoluta. Seu habitual cinismo e arrogância. fatos mui estranhos continuavam a ocorrer nos sombrios aposentos da mansão dos Belmont. (Insinuante. O marquês d‘Allençon. Agora compreendo o que desejais. para a satisfação de vossos brutais prazeres. sim. participava das tertúlias e saraus familiares. Entrementes. inclusive. Voltavam ao por-do-sol. RAFAEL (Incisivo. sofrera uma profunda transformação.Sois mais ladina do que aparentais.) — Sobre esse assunto não há necessidade de falar claramente. a ameaça da ruína deixara de pender sobre a família. (Abre os braços resolutamente. begônias e miosótis. . aliás. petúnias.Alguns meses depois daquele dia em que Rosalinda levou a cabo o seu gesto de desprendimento e afeto filial. ele e Rosalinda passavam as calorosas tardes estivais a percorrer os bosques e pradarias. gerânios.Oh.) Não haverá lugar em vosso coração para um pouco de ternura? ROSALINDA (Percebendo). Falai claramente.) Está bem. persignando-se.) . CENA 6 NARRADOR . carregando braçadas de antúrios. como num passe de mágica. a situação modificou-se sensivelmente no castelo dos Belmont. pequena.

Em semi-obscuridade, o Conde Maurício está dormindo, recostado no sofá quando entra Ursula. Roupas rasgadas, desgrenhada, inteiramente louca. Traz uma boneca nos braços.

ÚRSULA (Fala para as paredes, às vezes para si mesma ou para a boneca.) — Como sói ser verde o campo quando o astro-rei principia a tombar no horizonte! Por um segundo, a natureza inteira se veste de dourado... Vês, filhinha? O verde dos campos sendo mansamente invadido por todo esse esplendor dourado que brota do arrebol. Que espetáculo redentor para a torturada visão dos homens! O ouro derramando-se sobre o verde, tingindo o azul do firmamento. (Estremecendo.) Até... até que os besouros começam a cair. Lentamente, despencam dos céus feito gotas negras de chuva. Vindos do infinito, qual aranhas viscosas e peçonhentas... E quando caem de costas — ah, quando um besouro cai de costas, não se levanta nunca mais. (Quase gritando.) Nunca, nunca mais! (Com o grito, Maurício agita-se e geme dormindo. Ùrsula volta-se para ele.) Vês, filhinha? E assim que são os poderosos. confortáveis Desalmados, como se impiedosos. Dormem um profundamente, campo de ouro. repousassem sobre

Indiferentes à queda lenta dos besouros negros sobre o charco de sua alma manchada pelo sangue dos inocentes. Alheios à desventura dos oprimidos camponeses que labutam no fundo lamacento das minas para cobrir de ouro seu medonho latifúndio. (Vai-se aproximando de Maurício.) Mas se todos — ah, se todos unidos erguessem atrevidos suas sofridas cabeças para gritar não! ao opressor... Ah, filhinha: como tudo poderia ser diverso desta iniqüidade. Quão ditosa seria novamente a pobre corça dos pés quebrados! (Gritando.) Companheiros, uni-vos! Uni- vos para destroçar o maligno! (Segura Maurício e começa a sacudilo violentamente.) Este, que se traveste de benfeitor dos pobres e dos oprimidos! Uni-vos como 1ob famintos de justiça para destroçá-lo em pedaços sangrentos!

MAURÍCIO (Despertando, estonteado.) — Rosalinda, Rosalinda, que aconteceu, minha cornucópia de água-régia? ÚRSULA (Possessa, aos uivos, tentando estrangular Maurício.) — Somente a morte do maldito poderá redimir o sangue dos oprimidos! MAURÍCIO (Num espasmo.) — Úrsula, que fazes aqui? ÚRSULA — Sim, assassino! Apesar dos pés quebrados, a corça ainda pode fugir. MAURÍCIO (Tenta levantar-se, Úrsula o empurra. Ele está apavorado. Grita.) — Agatha! Agatha, tira esta louca daqui! ÚRSULA — Tarde demais, corrupto! Como a ave peregrina que mais dia, menos dia, torna ao ninho — a justiça sempre chega. AGATHA (Entrando, com um chicote.) - Para trás, animal! (Estalando o chicote.) Afasta- te, fera repelente! Ou te reduzirei a pó num estalar de dedos. ÚRSULA (Encolhe-se, a boneca cai ao chão, ela tenta inutilmente apanhar.) — Por piedade, não! Minha filhinha! Mata-me, se quiseres. Mas por tudo que há de mais sagrado, peço-te: poupa o mais puro fruto de meu ventre! AGATHA Besta imunda! (Vai chicoteando Úrsula para fora da sala.) Retira-te para teu infecto covil! Foste feita para o aconchego dos ratos, das lacraias e dos escorpiões — não para o convívio dos seres humanos. (Para Maurício, antes de sair.) Serenai-vos, senhor Conde. O velho Bonifácio saberá tratar desta lepra em forma de gente. (Vai saindo, chicoteando Ursula. Os cães latem furiosamente lá fora. Grande alarido. Depois, volta o silêncio. A boneca ficou caída ao chão, aos pés de Maurício.) MAURÍCIO (Após demorado silêncio, apanha a boneca e começa a acariciá-la dorida mente.) — Haverá de ser tão inesgotável a bondade de Deus a ponto de, um dia, ser capaz de perdoar-me? Merecerei a

graça suprema de sua doce mão pousada sobre este fervilhar de vermes no caldeirão de minha alma pútrida? (Grita, como numa tragédia grega.) Infeliz de mim! (Num frenesi, beija a boneca. Depois joga-a longe.) Agatha, Agatha! Tira este aborto daqui! Socorre-me que morro... (O Conde Maurício soluça, arquejante. Foco em Maurício e na boneca calva. A luz vai diminuindo em resistência, enquanto ele geme. Em off sobrepondo-se aos gemidos, vão crescendo a gargalhada de Agatha, os uivos de Ursula e os latidos dos cães enfurecidos.)

CENA 7

NARRADOR — Transcorridos mais alguns meses, a situação no castelo de Belmont em nada se modificara. Rafael d‘Allençon soubera perfidamente ganhar a confiança de Rosalinda com juras de eterno amor e promessas de matrimônio. Pouco a pouco, as fibras do coração da donzela, passaram a vibrar no compasso da mais pura e devotada paixão. Porém, horas mais negras estavam por vir. Um dia, Rosalinda descobriu que ia ser mãe. Sem coragem de contar a Rafael, durante vários dias, amargou sozinha seu terrível segredo. Por casualidade, iniciara-se a temporada da caça à raposa, e Rafael passara uma semana sem visitá-la. Uma manhã, munindo-se de coragem, Rosalinda tomou da pena e verteu seu coração, transbordante de receios, numa longa missiva endereçada ao marquês. Rafael aproxima-se por trás de Rosalinda, que não percebe sua presença, e atira-lhe a carta a seus pés. RAFAEL (Agressivo.) - Qual a razão disto? ROSALINDA — Ah, meu amado, és tu. Que susto me causaste! RAFAEL (Seco.) — E então?

ROSALINDA — E então o que? Não te entendo. O que se passa contigo? Por que chegas assim, tão agastado, sem uma saudação sequer... nem ao menos um ósculo... um amplexo? RAFAEL — Ora, Rosalinda, não me venhas de borzeguins ao leito! Quero saber o que significam as aleivosas insinuações contidas nessa missiva. ROSALINDA (Ressentida.) - Amor meu, que duras palavras! Tu, que sempre me demonstraste tanto carinho, tanta afeição, tanto... ardor... RAFAEL — Tratava-te assim porque eras dócil e cordata comigo. Porque te curvavas a todos os meus caprichos. Mas agora... ROSALINDA — Mas eu não mudei! Eu continuo sendo tua escrava fiel e obediente! Sabes bem que meu antigo asco por ti transmutou-se na mais excelsa paixão! RAFAEL — Chega de tergiversações! Exijo que me esclareças imediatamente o significado dessa carta! ROSALINDA - Peço-te perdão, meu querido amigo. Foi quiçá por excesso de pundonor que não fiz mais cristalinas as minhas palavras. Mas como transmitir à fria brancura impassível do papel o turbilhão que me devasta o peito, desde que fui abençoada por este milagre... este augusto milagre... RAFAEL — Que história é essa de milagre? Vamos, fala! ROSALINDA (Em êxtase.) — O milagre da maternidade! RAFAEL - O que? Um filho?! ROSALINDA — Sim, um filho! Sublime fruto a coroar o nosso amor! RAFAEL (Agarrando-a brutalmente.) — O que estás a dizer? Ficaste louca?

ROSALINDA — Rafael, Rafael, foste tu quem perdeu a razão! Não te reconheço. Julgava que rebentarias de alegria ao saber... RAFAEL (Cortando-a, possesso, e sacudindo-a pelos braços.) — Alegria? Alegria?!!! ROSALINDA — Sim, amado. Agora só nos resta finalmente desvelar aos olhos do mundo a nossa união, realizar o nosso sonho dourado... Ah, meu príncipe, toda noite, em meu leito, contemplo-me, núbil, galgando ao lado teu o mármore dos degraus do altar... RAFAEL (Empurrando-a.) - Casar contigo? Quem te pôs esta idéia ridícula na cabeça? ROSALINDA (Chocada.) - Tu mesmo, Rafael! Tu mesmo quantas vezes juraste que um dia... que só precisávamos um pouco de paciência e ocultar por algum tempo o nosso amor, até conseguires convencer tua família... RAFAEL (Cortando, irônico.) — ...que eu desposaria uma enjeitada? Uma bastarda? Uma criatura sem nome, sem posição e sem fortuna? Porventura chegaste a acreditar um segundo que eu, um nobre, um aristocrata, um d‘Allençon uniria meus destinos a uma qualquer? Alguém que não sabe sequer de onde veio nem quem são seus pais? ROSALINDA (Com dolorosa compreensão.) — Então isto significa que estiveste a mentir-me esse tempo todo... RAFAEL (Rindo a bandeiras despregadas.) — Que esperta és! Só agora percebes que eu estava tão somente... ROSALINDA (Cortando.) — . ..brincando comigo, iludindo meu pobre coração, fazendo-me crer que me querias, apenas para me

) — Naquelas noites ardentes. minha cara. qual uma gata no cio. agarrandose a ele. que doravante não há mais nada entre nós! Nada! ROSALINDA (Numa última e desesperada tentativa. ouviste bem? Nunca mais pretendo voltar a ver-te! ROSALINDA (Reagindo como uma loba ferida.Rafael.) (Às gargalhadas. quando gemias. reza.) — E tu caíste na esparrela. meu anjo e meu algoz! Que palavra é essa? RAFAEL (Cuspindo a palavra.) . não tens mais nada a esperar.seduzir. desfrutar-me como mero objeto de tua lascívia.) . não tens o direito de fazer isso comigo! E cruel. Porque de mim. com renovada esperança. meu dilacerado amor! RAFAEL(Desvencilhando-se.) — Dize.) — Rafael. é monstruoso demais! O que será de minha honra ultrajada? RAFAEL (Irônico. pois vais precisar muito da misericórdia divina. menina. Apaga meu nome de tua memória! Esquece para sempre que eu existo! Nunca mais.me nesta sombria encruzilhada do destino! RAFAEL — Isso! Reza. insensata.Basta! Só tenho uma única e derradeira palavra a dizer-te! ROSALINDA (Abrindo os braços. de teus instintos libidinosos. Senhora protetora dos aflitos! Valei. franguinha! E com que facilidade! A tua estultícia. Porque se não a entregasses a mim. RAFAEL espantosa! ROSALINDA — Oh.) . é realmente . te-la-ias entregue ao primeiro que passasse! Pois fica tu sabendo.Marafona! (Sai a passos largos. Rafael. não pensavas em tua honra. deleitada.. me conquistar.. Virgem Santíssima! Oh. em meus braços.

.. Com freqüência. muitas horas depois. fala.ROSALINDA — Ah... Deste modo. a pérfida serviçal terminou descobrindo o segredo que torturava o coração de Rosalinda. apodera-se da carta esquecida. cabisbaixa e meditabunda? Pareces infeliz.Padrinho. ROSALINDA . (Observando-a. onde sempre luziam os arrebóis da alegria. dizendo-se sua amiga e protetora. há mais um anjinho aos pés da Virgem Maria..) . conseguiu conquistar a confiança da rapariga. MAURÍCIO — Sim.. em seu desespero.. Insidiosamente. lárimas grossas como punhos. até ser despertada. deixava-se adormecer sobre as frias lajes do oratório. Não confias em teu velho amigo? ROSALINDA . MAURÍCIO — Vamos. dias inteiros. Finalmente.. eu.. quando Rosalinda não podia mais esconder o seu estado. MAURÍCIO — Bons dias.Padrinho.. minha querida.) CENA 8 NARRADOR — Depois desse trágico desfecho. pela mão da governanta Agatha.) Mas por que estás assim. Conta-me a razão de tuas penas. despedaça-a com fúria e esfrega freneticamente os pedaços pelo rosto e pelo corpo.. agora está turvo de uma névoa de tristeza. a perversa Agatha aconselhou que revelasse toda a verdade ao conde. .. Teu semblante.Padrinho querido. dize. Fundas olheiras ensombreceram seu semblante angelical.. Rosalinda chorou. soluçando. ROSALINDA (Hesitante. por piedade! (Rosalinda.. Só deixava a solidão dos seus aposentos para ir à capela atirar-se aos pés da Virgem.

agitado. MAURÍCIO (Reagindo com violência. (Agatha acorre e o ampara.) Desgraçada. MAURÍCIO .Aqui.Perdão.) . Rosalinda? Não me atormentes com enigmas e despautérios! Recuso-me a aceitar a terrível verdade que se esconde por detrás de tuas palavras! ROSALINDA — Está bem. surge inesperadamente a lâmina que me estraçalha o peito.) Todos.Que flor tão rara é essa..) — O marquês Rafael d‘Aliençon é o culpado da minha desventura.. . maldita! ROSALINDA (A os prantos.) Vou ter um filho.) — Perjura! Jamais te perdoarei! (Chamando.. padrinho. MAURÍCIO — Ah.Um rebento? Um bastardo? Mas quem te desonrou? (Esbofeteando-a. Podes ser mais precisa? ROSALINDA .Padrinho. padrinho. Sei que haveis de compreender e perdoar.) — Que dizes. socorre-me que morro. perdão! Eu juro que. E meu ventre... fala. vamos! Enxovalhaste o nome do conde Maurício de Belmont! ROSALINDA .Não entendo o sentido de tuas palavras.me.) .) — Vamos..MAURÍCIO . Pobre idiota! De onde supunha que só pudessem vir flores e sorrisos. aquele réptil nauseabundo! (Tossindo. todos me atraiçoaram. uma nova flor começa a desabrochar para a vida. (Pausa.) Agatha. Rosalinda.. padrinho. que floresce em tempo de inverno? Onde está ela? ROSALINDA (Baixando os olhos. não vês que apressas a minha morte? Atraiçoaste toda a cega confiança que durante esses 19 anos depositei em ti.. Retirate daqui. MAURÍCIO (Cortando. MAURÍCIO (Surpresíssimo.

.. clamando inutilmente por misericórdia! CENA 9 ROSALINDA (Sozinha.. MAURÍCIO — Não me chames mais de padrinho....)Tenho de ir-me.. ébria e solitária... Sei que não devo abri-lo mas a curiosidade me espicaça... Não passas de uma reles meretriz. (Abre o cofre. estas paredes.) — Infeliz de mim! Deus é testemunha de que agi com a melhor das intenções.) Velhos papéis. Agora nada mais me resta a fazer aqui.. por todos desprezada. minha. Mas... ou minha. o que será desta pobre órfã com um filho a germinarlhe no seio? Abandonada por todos. oh! um daguerreótipo! Que belo! (Examina o medalhão enquanto fecha a tampa do cofre. e. que vejo? Alguém haverá esquecido a chave na fechadura.. Senhor. não tens esse direito! E retira.) Hás de pagar amargamente. (Detendo-se diante de um objeto. o velho cofre de charão. à margem de qualquer dignidade.. Sinto os dedos a queimar. segurando uma capa. Senhor! Como se parece comigo! Dir-se-ia minha irmã..) Quem será esta dama de melancólico semblante? Que formosa! Mas. (Agatha vai conduzindo-o para fora. Num ato reflexo. Rosalinda esconde o daguerreótipo no seio. Deve conter antigos segredos de família. Nunca me foi permitido abri-lo. (Olhando ao redor.. criatura ingrata e sem pudor! O demônio tomou conta de tua alma. Aqui passei os melhores anos de minha desditosa existência...) Jamais olvidarei estes salões. como o foi tua mãe. estes móveis. padrinho. comovida. Hás de rolar na lama e te arrastar no vício. Oh.. (Neste instante entra Agatha. oh.) Ah. noite após noite. Jamais pensei que minh‘alma pudesse abrigar tamanha dor! O fel da desilusão inunda-me o peito! (Recobrando-se.te imediatamente daqui! Não pertences mais a este lar.) ..ROSALINDA — Foi para salvar vossos bens que cometi essa iniqüidade.

Agatha. (Dá-lhe o manto. E por que me tocais com tal ardor? AGATHA — Porque sois tenra como um faisão natalino. Agatha! (Vestindo a capa e acariciando-a. ROSALINDA .Não deveis ter medo.AGATHA — Ainda estais aí? Que fazeis aí parada.Que dizeis? AGATHA . Agatha. bem divertidas..... .. ROSALINDA . E não será difícil para uma rapariga encantadora como vós. Pareceis uma lebre surpreendida pelo caçador.Tendes razão. (tocando-a) com esse porte de amazona..) Essa velha capa.Que a vida pode ser vivida de muitas maneiras... esses cachos de Pandora...) Deveis procurar um velho cavalheiro que compreenda a vossa desventura. ROSALINDA — Não vos entendo.. Se vosso padrinho vos surpreender. Agora ide sem mais delongas. rubicunda e capitosa (largando-a) Mas entendereis com o tempo minhas palavras. Lembro-me dela.. (Voltando-se à jovem.Estava apenas a despedir-me do cenário que emoldurou minha juventude.) E cheio de prazeres inauditos. O mundo é vasto. ROSALINDA (Sem compreender. Algumas. AGATHA ..) ROSALINDA — Como sois bondosa. Opípara. Já estou a ir-me.. Enfrentarei com bravura a escuridão dos meus caminhos. minha pequena? Tão assustadiça.. Meu padrinho me contou que pertencera a minha mãe.. pequena.) . AGATHA — Levai isto para proteger-vos da intempérie. (Para si.

Serei a mulher mais poderosa de todo o Vale Negro. (Abraçam-se. com as roupas estraçalhadas pelas urzes e espinhos e os pés ensangüentados pelas pedras do caminho. numa . a bruxa intratável.) Uma. a harpia selvagem! Ah. Deixavase então cair ao pé de uma árvore e. CENA 10 NARRADOR . Resta apressar a morte do conde.. onde vivera os anos mais floridos da sua existência.Pobre genitora! Como há de ter padecido! Devo partir agora. E em meio à tempestade que rugia com fúria. três... a corcunda repugnante. minha boa Agatha.. com o peito dilacerado pela dor. a sua maledicência. quatro.) Algumas gotas a mais hoje.Finalmente os fados estão a meu favor! Com o afastamento da pequena. Rosalinda sai. Enquanto isso. só parando para repousar num monte de feno quando lhe faltavam totalmente as forças. embrenhou-se na floresta e caminhou durante três dias e três noites. outras amanhã.Vossa mãe vos trazia envolvida nela quando veio estrebuchar nas escadarias do castelo numa gélida noite de inverno há 19 anos atrás.AGATHA . a desgraçada Rosalinda.. os camponeses pagarão caro o seu desprezo. torno-me a única herdeira do conde Maurício de Belmont. perto dali.. a reles governanta. deixava o castelo de Belmont. escutando ao longe os uivos ameaçadores dos lobos e as lúgubres vozes das aves noturnas. adormecia exausta. (Apanha a tisana. ROSALINDA .. Adeus. (Conta as gotas. duas. e eu em breve estarei completamente sozinha no castelo..Enquanto a pérfida governanta regozijava-se com o golpe do destino que viera ajudar seus planos diabólicos.) AGATHA . Agatha.

hay álguien entre los árboles. .. toca. por la derecha.. VASSILI (Toca mais um pouco. Son muy distintos.. Yo conozco muy bien los sonidos de los animales y de las personas... El sonido de tu violín tiene la virtud de acalentar mi alma como el más dulce de los vinos.. carifio. Vassili. depois para abruptamente.Si. VASSILI — No. JEZEBEL — No hay nadie.) — Jezebel.. al final. Mira. dejame ver la suerte en paz. JEZEBEL .Hay algo que vuelve del pasado.. carajo! Pero toca. (Ruido. Cofio..clareira da floresta. Vamos. si. Son los Arcanos del Tarot de los Bohemios que hoy solo me dicen incongruencias. Jezebel. Confio en tu oído..) Pero. y que hermosa es! Un viejo senõr... Algun conejito perdido. Jezebel. JEZEBEL .) Fuerzas ocultas dei más alto Astral. Tu sabes que desde que he perdido la visión.. enquanto Vassili toca seu violino. toca más.. Jezebel põe as cartas do Tarot.. (Invocando.. mi audición se ha aguzado mucho. orientad mis manos para desvendar el secreto. la Justicia vencerá VASSILI — Que cosas estás a refunfufiar. Devo estar loca. Muchos conflict.. que es esto? Hay 1guien aqui? VASSILI — Te lo dije. pero no confio en tus temores.. claro. no consigo ver claramente! El pasado se pone otra vez como presente y también como futuro Una muchacha. y una mujer muy mala. aqui. Jezebel? JEZEBEL — Nada.. Pero. uma tribo de ciganos havia montado acampamento e dedicava-se a seus afazeres habituais. carajo! Por piedad. la Muerte. Rosalinda entra e coloca-se atrás de uma árvore. alguna serpiente. por favor.

Puedo tocar en tu rostro..Sou eu.. dame tu mantilla. no lo puedo creer. (Examina-a. Está toda mojada..) . JEZEBEL — Es el violín de Vassili. si. hace mucho tiempo. . Que pasó.. una muchacha! Y toda mojada. coso.Quién está ay? (Saca do punhal.. nina? ROSALINDA . no es possible.JEZEBEL (Erguendo-se. que no estoy para chistes! ROSALINDA (Aparecendo. las cejas. es una pobre muchacha perdida en la tempestad. los ojos.) Tenías razón.) . no es verdad la piel.... todo es igual. Donde encontraste este manto. (Rosalinda aproxima-se. Mas por que ele está tão agitado? JEZEBEL — Es su imaginación muy exacerbada. toma un poco de vino.) — Não sei.Agatha me lo deu.Es que me acuerdo de. senhora.. La muchacha está assustada. JEZEBEL — Acercate.. (Passando os dedos no rosto de Rosalinda.. es lo mismo.) Vamos.) Con mil demonios. JEZEBEL — Acalmate. exactamente lo mismo. de una mujer que he conocido en tiempos más dichosos. senhora. Perdi-me pela floresta e cheguei até aqui orientada pelo som mavioso de um violino. Apenas uma pobre órfâ.. que quereis vós de mim? VASSILI .. Estrano! Pareceme que ya he visto algo semejante. (Para Vassili. por Diós. esta voz. carifio. los párpados.) Que raro trabajo..Esta voz. VASSILI (Caminhando para Rosalinda.. Se cree que te pareces a alguien que conoció.. la nariz. por Dios. nina? ROSALINDA — Não tenho para onde ir. Vassili. Acercate hasta el fuego..) Si. Vamos.) . Todo.. carino? ROSALINDA (Hesitando. Como te llamas? ROSALINDA — Rosalinda.

.) . que tortuosos caminos fue necessario cruzar hasta encontrarte.) — Hija mia. mira el daguerreótipo y habla toda ia verdad... JEZEBEL — Pero ia semejanza es imprensionante! VASSILI — (Agitadíssimo. o daguerreótipo fica visível. VASSILI (Muito emocionado. Encontrei-o por acaso. es. (Nova reação dos ciganos.JEZEBEL E VASSILI (Muito espantados. É um velho daguerreótipo.Pero que es esto? Eres tu? ROSALINDA — Não... a governanta do castelo do Vale Negro.. hermosura. es.. que eu não conheci. miei de mi corazón.. VASSILI (Abraça Rosalinda.....) JEZEBEL .) Quien es la mujer del retrato? ROSALINDA — Não sei.) — Que está acontecendo? Não sou vossa filha.. sou apenas uma pobre órfã recolhida pela bondade do Senhor Conde Maurício de Belmont...Quien? ROSALINDA . Gostai? Tomai.Agatha! ROSALINDA — Sim. JEZEBEL E VASSILI .. (Entrega o manto a Jezebel . como posso saber? Mas imagino que seja.. es Úrsula. chorando.Minha mãe... ROSALINDA (Assustada..) Pertenceu a minha mãe. JEZEBEL — Maurício de Belmont! Maldición! Quieres decir que este perro todavia vive? .Si. es Ursula? JEZEBEL .) — Tu madre? Jezebel.

Sem perda de tempo. diante de tão inesperadas revelações.) CENA 11 NARRADOR — Um turbilhão agitava a mente de Rosalinda. Porque quereis matar meu padrinho? JEZEBEL — No hay tiempo a perder. Los dos se enamoraram locamente. JEZEBEL (Entrando com Vassili e Rosalinda. ROSALINDA . JEZEBEL — El gitano Vassili y Úrsula. A astuta cigana havia preparado um narcótico para os cães que guardavam os portões.Não entendo o que dizeis. ROSALINDA — Quer dizer que meus verdadeiros pais são.. Nel camino te explicaremos todo. Tenemos que ir imediatamente al castillo. A lua escondera-se atrás de plúmbeas nuvens prenunciadoras de tempestade.ROSALINDA — Sim. e assim eles puderam penetrar na propriedade.).. Quando chegaram ao castelo. Padece de grave enfermidade.y fue eso lo que sucedió. (Chorando. hace anos. porém.) Expulsou-me do castelo. . já era noite fechada. mas por pouco tempo. aconselhava-a a obedecer ao espírito forte e decidido da cigana Jezebel e a confiar na doçura do rosto e da voz de Vassili.. Ahora vamonos. que calava fundo em sua alma de órfâ desamparada. VASSILI — Perro de los infiernos! Voy a matarlo con mis propias manos. Jezebel preparou uma carroça e os três puseram-se a caminho. la hermana del conde Maurício de Belmont. (Saem.. lançando-me os mais terríveis vitupérios. Sua intuição. ainda incrédula.

Que quereis dizer com isso? Não tendes direito algum... atrás deste reposteiro.. Meu tio mandou seus esbirros invadirem o acampamento cigano. . surpresa. JEZEBEL .. (Subitamente. (Vassili e Jezebel escondem-se. eu? Como. contando toda la verdad a Maurício.. ROSALINDA . se meu pai está aqui próximo? AGATHA .. Maurício no podia admitir que una Belmont desposara un gitano.) Oigo un ruído.El mismo comando el ataque.) .. VASSILI — Agatha.Vosso pai? Porventura delirais? Vosso pai há muito não pertence ao reino dos vivos. Ursula entonces abondonó el castilio y ocultóse com los gitanos em la montanas. ROSALINDA — Pobre. la atraicionó. que se hacia pasar por confidente de Úrsula. Estava tan poseso que queria mandar matar a toda la tribu. não passais de uma pobre enjeitada. Allá se celebró el casamiento. meu tio descobriu tudo. (Toca-o com ternura. ROSALINDA — Posso imaginar o resto. querido papai.Vós por aqui novamente? Não bastaram as maldições que vosso padrinho vos lançou? Que quereis? Uma esmola? Uma côdea de pão? ROSALINDA — Quero apenas o que me é de direito.) AGATHA (Entrando.Não vos entendo.por supuesto. ROSALINDA — Enjeitada.. Vamos escondemos.Mas meu padrinho. Y con su propria mano cegó a Vassili con una chibatada. Não preciso de vossa piedade! AGATHA .) VASSILI .Angel mio. ROSALINDA — Aqui.

ROSALINDA (Puxando o reposteiro.) — Como não? AGATHA (Recuando.) — O cigano Vassili! Jezebel! Que desejais? VASSILI — Solo la verdad, Agatha. Nada más que la verdad. JEZEBEL (Ameaçando-a com o punhal.) — Vamos, mujer. Donde está Úrsula? AGATHA - Não sei, não sei... VASSILI (Torcendo-lhe o braço.) — Vamos, confiesa antes que te mate como a un perro. AGATHA — Por piedade, eu conto. (Recompõe-se.) Úrsula foi encarcerada na cripta subterrânea embaixo da cascata. ROSALINDA — A cascata... Quer dizer que aqueles uivos dilacerados que se ouvem quando cascata para pertencem à... à minha mãe? AGATHA —, Sim. Ela perdeu a razão quando vós nascestes. Vosso tio então encerrou-a lá. VASSILI — Mi pobre Úrsula. JEZEBEL — Y donde están las llaves de la cripta? AGATHA — Aqui. (Estendendo-lhe um molho de chaves.) VASSILI — Precisamos libertar mi amada Úrsula. Vamonos todos a la cripta. Y tu, Agatha, vienes con nosotros para mostramos el camino. JEZEBEL - Vamos. AGATHA — A cascata parou novamente. (Ouvem-se gritos ao longe.)

CENA 12

NARRADOR — Desse modo, através de uma passagem secreta, conhecida somente por Agatha, os quatro penetraram nos subterrâneos do castelo de Belmont. Desceram por uma íngreme escada em caracol e embrenharam-se num labirinto de lúgubres corredores e estreitas galerias escavadas na rocha. Os gritos misteriosos haviam cessado, e o sepulcral silêncio era apenas perturbado pelo eco surdo dos seus passos e peio ocasional bater de asas de um morcego. Finalmente, desembocaram numa cripta úmida e infecta, que dir-se-ia habitada apenas por ratazanas e aranhas, não fosse aquela estranha voz entoando uma canção que parecia vir de além-túmulo. ROSALINDA — Por Deus! Está tão escuro aqui. Não consigo ver nada. JEZEBEL (Tomando a vela das mãos de Agatha.) - Pronto. Asi es mejor. (Olhando em volta.) Pero que sitio sucio... Es una pocilga, carajo. (Para Agatha.) Vamos, desalmada. Donde está Ursula? AGATHA (Apontando para um ponto, que Jezebel ilumina.) — Ali. (Aparece Úrsula, completamente louca, suja e desgrenhada. Canta, enquanto embala uma boneca nos braços.) VASSILI — Mi querida, luz de mis ojos... Úrsula, bien amada! ROSALINDA(Avançando para Úrsula.)- Mamãe! Oh, mamãe, julgava que estáveis morta! ÚRSULA (Para a boneca.) - Filha, filhinha querida Não deves ter medo, não deixarei que te façam mal. (Para Vassili.) Afasta-te, Maurício! Não permitirei que destruas o fruto do meu amor! (Mudando o tom.) Besouro que cai de cosas não levanta nunca mais. JEZEBEL - Está completamente loca! Maurício de Belmont ha de

Pagar muy caro todas las atrocidades que ha cometido! URSULA (Chorando.) — A corça corria celeremente sobre o ouro dos campos. Como se fora uma seta voando sobre o verde. Até... até que numa curva mais abrupta do escarpado caminho, numa curva ignominiosa seus pés quebraram. ROSALINDA (Num gemido.) - Desditosa genitora! ÚRSULA (Em pleno delírio.) — E ela não pode correr mais. As corças de pés quebrados não podem correr. Apenas rastejam. Como os besouros caídos de costas... que não se levantam nunca mais. VASSILI (Para Ursula.) — Carinio, no me reconoces? Soy yo, tu Vassili. Tu amor, el gitano... ÚRSULA — Vassili? Não, não: Vassili foi assassinado por Maurício. Seu sangue cigano cobriu o verde dos campos como o sangue inocente dos pés quebrados da corça... O vermelho da violência derramado impunemente sobre o verde da humildade... VASSILI (Insistindo.) — Y esta chica, ves? Esta chica es Rosalinda, nuestra hija querida. Mira que hermosa es! ÚRSULA (Para a boneca.) — Tanto tempo. Tudo faz tanto, tanto tempo. Hoje é como se fora outrora. E nunca mais outra vez. ROSALINDA — Mamãe, mamãe, sou eu, Rosalinda, tua filha, a flor de teu ventre puro. ÚRSULA (Para a boneca.) — Minha filha? Minha filha é esta aqui. Filhinha, filhinha... (Para a boneca.) — Sossega, ninguém te fará mal. AGATHA (Mordaz.) - E definitivamente inútil. Esta parva jamais recuperará a razão.

JEZEBEL (Torcendo-lhe o braço.) - Callate, conchuda! Tus palabras son mas monstruosas que tu joroba! (Como se orasse.) Nel amor, hay fuerzas increíbles... capazes de cambiar el universo... VASSILI (Pegando Úrsula pelos ombros e sacudindo-a.) — Úrsula. Te digo que soy Vassili! Muchos anios se han pasado. Pero estoy vivo. Y estoy acá para vingar nuestro amor. Soy Vassili! Vassili! ÚRSULA (Com um lampejo de lucidez.) — Vassili? VASSILI Si, mi amada, no reconoces mi rosto? ÚRSULA — Esse rosto... essa pele morena... esse corpo delgado... (Detem-se.)Não, não! Não acredito! Vai-te daqui! Es um impostor! Um sicário a mando de Maurício para me torturar ainda mais! (Em delírio.) Bezouro que cai de costas... JEZEBEL (Um tanto irritada.) — Ay, cono! Va a empezar de nuevo! VASSILI (Transtornado, agarrando-a com mais força.) — Úrsula, mirame bien en la cara, en los ojos, en estes ojos ciegos... ÚRSULA (Tocando-o.) — Meu Deus, o manso veludo dessa tez... a suavidade desses lábios carmesim... Vassili, serás mesmo tu? O brinco em tua orelha esquerda... VASSILI — Úrsula, vida mia... ÚRSULA — O frescor de hortelã de teu hálito cálido, tuas mãos nodosas e fortes. A carícia áspera de tua barba dura que me lanhava o colo nas noites de indizível prazer. Não, não pode ser verdade, seria bom demais. Será que estou ficando louca, Virgem Santíssima? VASSILI — Es verdad, carinio, soy yo! Y acá está también Jezebel, nuestra querida amiga y protectora.

ÚRSULA — Vassili, meu Vassili... Ai, Jesus, parece um sonho... (Delírio.) Ou quem sabe Deus teve pena de mim e me chamou para sentar ao lado seu no empíreo celestial? JEZEBEL (Disfarçando.) - Ay, carajo! VASSILI — No, no, estás viva! Acabaranse tus penas! ÚRSULA (Reconhecendo-o finalmente.) - Sim, agora eu tenho certeza! És tu, Vassili! Meu adorado! Mas de que desvão esquecido da memória me surgiste? VASSILI — Úrsula! (Abraçam-se e beijam-se ardentemente.) Vamos ahora empezar vida nueva, tu, yo y Rosalinda... ÚRSULA — Rosalinda?... (Olha para a boneca. Olha para Rosalinda. Deixa cair a boneca.) Meu Deus... não pode ser... seria demasiada ventura para meu coração se essa donzela fosse... fosse... ROSALINDA (Abrindo os braços.) — Vossa filha! ÚRSULA (Abraçando-a.) - Filha querida! Oh, fruto mais puro que o meu ventre jamais gerou! Enfim posso abraçar-te! ROSALINDA - Mamãe, querida! Que felicidade encontrar-vos! ÚRSULA — Minha boa Jezebel... Mas... que aconteceu? Por que estão todos aqui? Por que estou vestida assim? Que tenebrosa masmorra é essa? (Começando a delirar de novo.) Há como um poço escuro em minha memória... Um poço escuro onde flutuam corças de pés quebrados... negros besouros caídos de costas... (Vê Agatha e recua espavorida.) O que ela está fazendo aqui? JEZEBEL (Agarrando-a por um braço, impaciente.) - No hay tiempo para explicar, Ursula. Ni para locuras otra vez. Más tarde te esclareceremos todo. Tememos ahora que desmascarar Maurício.

MAURÍCIO (Está adormecido. mais do que ninguém. a felicidade parecia prestes a sorrir aos nossos heróis. E tu. Não há lugar para meretrizes no castelo do Conde Maurício de Belmont. . do malgrado a alegria do seu reencontro com os pais. tira esta louca daqui! ÚRSULA (Perfeitamente lúcida. as vidas que destruíste.. sabes muito bem disso. ainda estava velado por uma nuvem de inquietação. Os sofrimentos que já causaste. O coração de Rosalinda. A pobre rapariga pensava no fruto de seu desgraçado amor. o relógio soava as doze badaladas.) — Tua maldade não tem limites. Meu bem-amado e minha querida filha me devolveram a razão. (Saem todos) CENA 13 NARRADOR — Celeremente voltaram todos ao castelo. quando Úrsula entra lentamente e toca em seus cabelos. Maurício. Depois de tão cruéis sofrimentos. Solamente un monstruo sin entranas podria encarcelar su propia hermana.Vamonos deste infecto covil.. ÚRSULA (Muito segura. fica tu sabendo que há muitos anos eu mesmo o ceguei com uma chicotada.) — Já não estou louca. eu a expulsei de meus domínios. E quanto a tua ingrata filha. que crescia em seu seio como uma erva daninha e em breve viria ao mundo sem a proteção de um pai. MAURÍCIO — Teu bem-amado? Tua querida filha? Se te referes àquele cigano imundo. Deve andar esmolando pelas sarjetas. Quando chegaram ao castelo. meu caro irmão.) — Quem me tocou? Úrsula? Fugiste novamente? Agatha. certamente fariam petrificar a própria Górgona.

eu o aprendi com aquele que consideras um pária: Vassili! MAURÍCiO — Maldito seja! ÚRSULA . teu próprio irmão! Tu. uma aristocrata. uma condessa de Belmont.. Mas o verdadeiro espírito de solidariedade humana.) — Caridade? Chamas de caridade a teu gesto de incitamento à rebelião contra a autoridade? ÚRSULA — Aproximei-me dos mineiros. as criancinhas e os anciãos inocentes morriam à míngua em suas fétidas choupanas. .e apenas tu.Sim.. em miseráveis e poderosos.a cu1pada de tudo.Sim. já me desafiavas.quem iniciou este rosário de desgraças.Ousas acusar-me? Foste tu . Queria somente mitigar as duras penas impostas por ti àqueles infelizes. movida por um sentimento cristão de amor ao próximo. Em nobres. MAURÍCIO — Basta! Já foste longe demais. Retorna a teu repulsivo subterrâneo. uma aristocrata. uma mulher. Explorados. meu irmão! Os camponeses entregando suas lamentáveis vidas às profundezas da terra de teu porco latifúndio. ciganos e negros do outro.MAURÍCIO (Interrompendo-a. ensinar àquelas pobres criancinhas a cartilha e o catecismo. minha cara irmã.) . És tu.tu.Ou não te recordas? Queres que te refresque a memória? Mesmo antes de te amancebares com aquele cigano asqueroso. inermes. Foi Vassili quem me ensinou que o mundo não precisa necessariamente ser dividido entre pobres e ricos. enquanto as mulheres. Queria levar-lhes comida e agasalho. Mas antes de tudo. insensata! Vejo que estás mais demente do que nunca. em senhores e escravos. MAURÍCIO (Interrompendo-a. escravizados por ti. ele mesmo. E uma mulher com coração! Não podia assistir indiferente aos tormentos dos desventurados mineiros e de suas miseráveis famílias. uma condessa do clã dos Belmont! ÚRSULA . Contra mim. de um lado. e em mineiros. inicialmente. Foi a caridade que me levou. insuflando os mineiros do Vale Negro contra mim.

) — Enganas-te. mui prezado irmão. ingrata Agatha! E eu que te supunha a única criatura no mundo a manter-me alguma fidelidade! (Tosse e entra em violenta crise. Rosalinda. a vida recomeça para mim. senhor conde. maldita! .Não a deixem fugir! VASSILI (Segurando Agatha.Não! JEZEBEL (Matreira. Aqui está.Pois te enganaste.) . quando acabo de reencontrar meu marido e minha filha. velhaco! Eu sempre quis apenas tua fortuna! ÚRSULA . (Afasta o reposteiro e aparecem Vassili. a própria vida acabou para ti. JEZEBEL — Dejame ver este frasco.) — No se escapará. na casa que desonraste. espectro de gente! ÚRSULA (Muito calma.) CENA 14 MAURÍCIO — Jezebel! Vassili! Rosalinda! Não é possível! (Tosse.Y por que no? Por lo que dicen.Nada tens a fazer aqui. minha tisana! AGATHA (Libertando-se de Jezebel. (Arranca-o das mãos de Agatha. tratase apenas de una tisana medicinal. Agatha.) E contudo teu coração ainda pulse.) Pronto. Após tantos anos obnubilada. Neste exato momento. AGATHA (Tentando escondê-lo.) .) Tisana medicinal! Esto es un fuerte veneno: arsénico! La joroba está asesinando lentamente el Conde! MAURÍCIO . Jezebel e Agatha.) AGATHA .Veneno! Oh. Teu sonho libertário acabou! (Irônico.) Agatha. muito sôfrega. apanha o vidro.

perdoai-me! Deixo para vós toda a minha fortuna (morre). Todos olham. JEZEBEL — Se finó. deixai-me repetir vosso nome como se música fora para meus fatigados ouvidos. (Vassili tenta apanhá-la. Habla. Que trevosa sina a minha! Ajudem-me que morro! (Para Jezebel. Jezebel.. Pero la muerte es poderosa.. Tivesse tido eu tal privilégio. (Tosse) Jezebel. Está bien... antes de morrer quero revelar-vos um segredo..Rosalinda. sempre vos amei. Dai-me um beijo. aunque el no me quiera. eternamente a vagar pelas sombras. Que los dioses se apiaden de tu espíritu. (Rosalinda e Ursula choram) AGATHA (Aproveitando-se da emoção de Vassili. Acaba curvando-se e beijando-o) . não negueis o derradeiro pedido de um moribundo..) Cigana Jezebel... Jezebel. MAURÍCIO — Jezebel. um derradeiro beijo e morrerei feliz. idiotas! Não me pegarão com vida. quiçá o destino não me houvera transformado neste sórdido algoz que ora agoniza. Sinto que morro.. meu sonho mais acalentado sempre foi beijar vossos lábios de carmim. JEZEBEL (Hesita.. Está muerto. MAURÍCIO .. Jezebel. Leva uma pancada na cabeça e cai desfalecido. apanha a bengala que Maurício deixou cair) — Adeus. (Fecha os olhos dele com delicadeza e melancolia) Acabó. Um único beijo. Todos vítimas de minha cega cupidez! Por tudo que há de mais sagrado. minha devotada irmã. Mas sempre me desprezaste. ah Jezebel.Mi corazón siempre pertenecerá a Vassili. JEZEBEL — Un secreto? Por mi no escucharia tus sucias palabras.. Desventurado cigano Vassili.MAURÍCIO (Tossindo muito) — Ledo engano! Meu esfalfado coração já não resiste a esses golpes cruéis. Ursula. sobrinha querida. Agatha foge rindo às gargalhadas) .

ÚRSULA — Teve o fim que merecia. TODOS — Vassili! Papai! Ele está vivo! VASSILI (Ainda tonto. Y saca de una escopeta apunta a los perros.Rosalinda. Pero demasiado tarde. Rosalinda. Do biltre infame a quem — ah. só pode ser ele! JEZEBEL . (Ouvem-se vários estampidos.. VASSILI (Despertando.. ROSALINDA (Dolorosa. JEZEBEL . CENA 15 RAFAEL (Entrando com o corpo de Agatha.) .) — Que oigo? Mi hija. meu Deus.) ROSALINDA (Correndo à janela. de que hombre estás hablando. eu. la estan destrozando! Tanta sangre! (Pausa) Que es esto. ela o matou! ROSALINDA . Estoy más vivo do que nunca.) — Si.) — O pai de meu filho.Do homem por quem me apaixonei. iludida por perfídias! — entreguei minha pureza e que me desgraçou.) — Rafael. papai! Fale comigo! JEZEBEL — Maldición! (Ouvem-se os cães latindo.) Los perros se despertaron y van a atacarla! Que escena horrible! Diós mio. Jezebel corre à janela.Quien es esse hombre? ROSALINDA (Baixando os olhos..) — Os cães a destroçaram..Papai.. .Pobre joroba! RAFAEL .ÚRSULA — Vassili! Oh. tola donzela.. ahora? Hay un caballero que llega. Y quiero saber..

. que pasa? Siento como un vértigo. com vosso falso amor. Si. Estou amargamente arrependido. cruel mancebo? Ide-vos daqui. (olhando olhando para qualquer coisa vermelha que há em cena. el verde. el azul..ROSALINDA (Cortando. julgo enlouquecer sem vosso amor. Yo soy su verdadero padre... Vassili.. Quero reparar meu erro. o que tens? O sangue fugiu de tuas faces. Yo podia anteriormente decifrar algunos cobres. Estás fatigado de tantas emociones. ÚRSULA . querido. Ele está morto.) — Que mais ainda quereis de mim. sientate un poco. Mis ojos.) — Pero yo la concedo. no compreendo. Doce Rosalinda. Desde que vos desonrei. papai! . Por Dios. Solo una luminosidad... ÚRSULA — Vassili. ROSALINDA .. una luminosidad en las solombras. no! Quiero quedarme en pie.. olhando em volta. la escarlata! JEZEBEL — Es una alucinación.Tarde demais.Venha. Si es seguro que usted quiere a mi hija de verdad... Atraiçoaste-me com vossas juras inconseqüentes. vossa imagem não me sai do pensamento. VASSILI . Que luz cegante es esa? Que claridad espantosa hay en el mundo! ROSALINDA — Papai...No. (Interrompendo-se.) pero la escarlata. Vim pedir vossa mão ao Conde Maurício. VASSILI — No compreendo.. Hace quanto tiempo no la veía.. VASSILI (Levantando-se... porque no hay negror en la ceguera.. Mis ojos. por piedade..) Pero.. RAFAEL (Contrito.) — Vim justamente pedir-vos perdão por todo o mal que involuntariamente vos causei.... Perdoai-me..

. ÚRSULA — Amanhã mesmo triplicarei o salário dos mineiros. quereis contrair matrimonio comigo? ROSALINDA — Minha resposta só poderia ser afirmativa. a paz e a justiça reinarão para sempre no castelo de Belmont.. incrédulo.VASSILI — Quiero ver. RAFAEL — Agora. si.) — Então..... VASSILI — Si...fez com que vossa visão voltasse!..A pancada que Agatha te deu.Alabado sea! RAFAEL (Para Rosalinda. un milagro divino! (Olhando uma a uma. como agradecer-vos tanta felicidade? JEZEBEL — Las cartas no mienten jamás. meu Deus. Nos es posibie.. si! Jesú.. no lo puedo crer. cerremos docemente as cortinas . ROSALINDA — Oh. ROSALINDA .. os sofrimentos tiveram seu fim.. Não conseguiria ocultar por mais tempo que meu coração vos pertence desde o primeiro momento que vos vi! (Beijam-se apaixonadamente. no es verdad! Es un milagro. por los dioses. Rosalinda: impiezo a ver claramente vuestros rostros queridos! ÚRSULA . ver.. un verdadero milagro. meu amado.. Ursula. Jesú. NARRADOR .) Jezebel.. punidos os culpados. e terminados os infortúnios daquelas almas abnegadas. ROSALINDA — Sim..E assim. yo he recuperado la visión! JEZEBEL — Alabado sea Dios! TODOS .) VASSILI — Ahora seremos todos felizes.

acariciando o seio das flores.sobre este quadro familiar. enquanto as auras da noite. . da ventura e da paz. cantam o hino misterioso do amor.

REUNIÃO DE FAMÍLIA* Peça em 2 Atos *Adaptação do romance de Lya Luft .

sem pausa. uma penteadeira (no quarto de Evelyn. o dia todo de domingo e a manhã de segunda-feira —. talvez com pequenas mudanças de postura. onde acontecem certas alucinações ou lembranças do passado. caracterizados por um ou outro elemento — como uma poltrona antiga (no quarto do Professor).PERSONAGENS ALICE • ARETUSA • EVELYN • RENATO • BRUNO. é indispensável uma grande mesa onde são feitas as refeições. podem ou não ser usados atores.). Deve haver também um outro Plano — que chamaremos de Inconsciente/Memória —. no presente ou no passado. O resto se passa em vários planos. Na casa da família. A idéia é de que uma cena interpenetre a outra — isto é. quando uma termina. PROFESSOR • BERTA • ALICE MENINA • ARETUSA MENINA • EVELYN MENINA • RENATO MENINO• MARIDO DE ALICE • FILHO DE ALICE • PADRE • ENFERMEIRO DE CORÁLIA • MÃE DE ALICE • CORÁLIA (Nos flash-backs. e assim por diante.) CENÁRIO (Tudo se passa durante um fim de semana — tarde e noite de sábado. bem caracterizadas. podem ser usados bonecos ou. De qualquer maneira. mais jovens. Para as rápidas aparições de Corália e da Mãe de Alice. outras atrizes. a próxima já começou —.) . para as mesmas personagens. sendo a mudança indicada pela luz e a troca de planos. quando Alice vai visitar a família. o Professor e Berta serão sempre representados pelos mesmos atores — eles sempre foram velhos —. As figuras do Padre e do Enfermeiro podem ser vividas pelos mesmos atores que fazem o Marido e o Filho de Alice.

MARIDO e FILHO Na casa de Alice.. . não é? Sanduíche não alimenta.. A mesa está posta.) — Ela está doente. não sei bem. terminando. onde anda? FILHO — Está no clube. MARIDO .. qualquer coisa mental. ALICE (Ignorando.. Aretusa insistiu tanto. ALICE— Deixei pronto o almoço de amanhã.) . Está na geladeira.. sacudindo a cabeça.. por volta do meio-dia.) — Tenho. É sábado.) .) E o seu irmão. Acho que daria menos trabalho se vocês comessem num restaurante.) Mas você só gosta da comida que eu faço. MARIDO (Interrompendo. Muito doente. é só esquentar. Parece que é. refrigerante. (Dá de ombros.Você tem mesmo que ir? ALICE (Um pouco brusca. essas porcarias que vocês comem por aí. Tudo é muito arrumado e limpo. ALICE (Reprovadora e maternal.I ATO CENA 1 ALICE. (Para o filho. Para o marido. Sanduíche.) — Aretusa. Só vem de tardezinha.E claro que só vai comer um sanduíche. O almoço.Evelyn com um problema mental? Sua irmã é a mulher mais sensata que conheço. FILHO . Essa sua cunhada. E agora apareceu esse problema com Evelyn... MARIDO (Com ironia. com certo carinho coquete.O que é que há com tia Evelyn? ALICE (Preocupada. É sábado..) — Faz tantos meses que não vejo meu pai.

. eu já vou indo. Mas depois que Cristiano morreu. velha.Espelho grande? Para que? .) — O que será que ele quis dizer com isso? MARIDO (Distraído.) — Será que não esqueci nada? (Olha em volta devagar.) Boa viagem.) .) ALICE (Pensativa. sem afeto.Não está na hora do seu ônibus? ALICE (Levantando-se. MARIDO — Pode deixar.) Você não acha que um dia a gente podia mandar colocar um espelho grande aqui na sala? MARIDO (Baixa o jornal e olha-a por cima dos óculos admirado. mãe. conferindo o dinheiro e a passagem de ônibus. Eu dou um jeito. FILHO — Mas será que nós temos o direito de querer que ela se cure? ALICE (Sem compreender. E melhor eu ir indo também. ALICE (Apanha a bolsa e uma sacola de viagem a um canto. (Olha o relógio..O que? ALICE — Que. como se refletisse.. meio confusa. Será que não seria pior para ela enfrentar a realidade de Cristiano ter morrido? MARIDO (Ignorando o espanto de Alice. sem sair da mesa. eu sei. que a realidade pode não ser o melhor? Pode não ser preferível à normalidade? MARIDO . O Marido apanha os óculos e.Eu sei..ALICE . começa a ler o jornal.) .O que? FILHO — Isso mesmo. (Sai. Remexe na bolsa. Ela não se conforma.) .É.Bom.) Não vai dar nem tempo de lavar os pratos.) — Passa a água? FILHO (Levantando-se. Dá um beijo em todos lá.) . Alice fica em silêncio por um momento.) . (beija Alice distraidamente.

então. enquanto acende um foco no marido que lê o jornal. (Encaminhando-se para aporta.ALICE (Arrependida de ter falado. É bobagem minha.) — Boa viagem.) — Claro. MARIDO (Voltando a ler. estou de volta. de chinelo. A MÃE e ALICE MENINA Alice está parada num ponto que deve ser a parada de ônibus. lendo jornal. calvo. Achava meio esquisito aquele homem um pouco gordo. (Olha o relógio. A sala é pequena. MARIDO (Sem levantar os olhos do jornal. E eu prefiro vê-lo ao meu lado. Cuide-se direito. depois dá de ombros e tira da bolsa um pequeno espelho. Você não está acostumada a viajar sozinha. eu preferia assim.) . Você tem razão.. Agora me procura raramente e sem emoção. ALICE (Curvando-separa beijar o marido. CENA 2 ALICE. dentro de um caixão de defunto uma figura de rosto disforme e barriga enorme. Berta e. dizendo e fazendo coisas desajeitadas e brutais. Começa a examinar o rosto com ar crítico.) Meu marido.Nada.) Segunda.) Esqueci de colocar o meu perfume.) — A sala é ótima assim. onde estão Alice Menina. que pode ser uma atriz ou uma boneca). A sala é ótima. sem imaginar sequer quem é a sua verdadeira mulher. acende-se a luz no plano do Inconsciente/Memória. Enquanto isso. . Eu li numa revista que dá a impressão de mais espaço. (Levando a mão aos cabelos. BERTA.. ALICE (Dirige-se ao público. claro. Desde o começo a gente se acostumou a não ter grandes ardores.

Por isso ninguém gosta de você. Ela só pode chorar. ALICE MENINA — Eu não quero olhar. Ela recua. Fala para si mesma.) Mãezinha. Ela não pode falar. ALICE MENINA ( Vai-se afastando enquanto Berta repete as mesmas coisas. CENA 3 ALICE. Uma agulha deste tamanho. Alice. Berta! Você está mentindo! BERTA — Não estou mentindo. Depois torna a se aproximar e tenta colocar a figura no colo.Ela não vai responder. distraída. (Acende-se a luz sobre o caixão. Fala comigo. Alice. Você é louca. Alice. como se estivesse hipnotizada.) Mamãe.) . ALICE MENINA (Gritando.) . fala comigo. De repente para e chama.Não é verdade. igual ao de Alice adulta e olha-se. onde é que você está? Mamãe. cantarolando. mãezinha! BERTA (imóvel. Sou eu. ALICE MENINA e RENATO MENINO . (Começa a sorrir como uma mulher adulta e repete. não se esconda de mim.) — Mamãe? Mamãe.) Ninguém gosta de você. Alice você é má. Você é muito má.ALICE MENINA (Aproxima-se do caixão. o que é que você tem? Você está doente? Pode deixar que eu cuido de você. talvez pulando corda. Por isso leva esses tapas. assustada. Por isso está sempre de castigo. Você mente. Apanha um espelho pequeno. Alice.) — Alice. BERTA — Todos os dias vem um médico e tira água da barriga dela com uma agulha enorme. Você não vê como ela está inchada? Olha só a barriga dela. (Para o caixão. é suja.

estridente. barbantes. Renato! RENATO MENINO .Para matar ele.Ele é seu pai também.Ele quem? RENATO MENINO .Renato. ALICE MENINA (Assustada. Alice Adulta mergulha nas sombras. Mas ele não é meu pai. Alice Adulta aproximase do lugar onde resta o tronco de uma grande árvore cortada.) . Ela está parada.Agora não posso.) .Uma arma? Pra que? RENATO MENINO (Hesitando.No jardim de entrada da casa da família. vem brincar comigo.Não chama ele assim. A luz acende-se sobre o tronco.É uma arma secreta. ALICE MENINA . perto do qual brincam Alice Menina e Renato Menino. ALICE MENINA . ALICE MENINA . corta a cena. facas.Que me importa. Estou ocupado. (A gravação de uma gargalhada infantil. RENATO MENINO (Obstinado.O Professor. a bolsa nas mãos.) Eu vou matar o Professor com minha arma secreta. ALICE MENINA .) . (Decidido. Ele é seu pai.O que é que você está fazendo? RENATO MENINO (Com ódio. latas velhas. ALICE MENINA . Ele é o Professor. Renato mexe com pedaços de madeira. RENATO MENINO .) .) — Você vai preso. A luz apaga sobre Alice Menina e Renato Menino para acender-se novamente sobre Alice Adulta. olhando para cima. Você não pode matar seu pai.

Com uma ponta de ironia. saí tão apressada que esqueci meu perfume. você é tão eficiente. E eu.) . ele trabalha demais.) Ah. ALICE (Preocupada. tão trabalhadeira. ninguém aqui tem cabeça para pensar nesse problema.CENA 4 ALICE e ARETUSA (Na entrada da casa da família.. Berta é passa o dia todo arrancando os brotinhos. junto ao tronco cortado da árvore. com um cigarro aceso.) — Renato também não vem. Era um álamo tão bonito. ARETUSA (Sem dar importância. E o seu irmão me saiu um grande folgado! ALICE (Olhando com tristeza o tronco da árvore.) E você continua com cheiro de cigarro. você sabe. ARETUSA (Displicente. como se estivesse se justificando.. De cigarro e de jasmim. (Rindo.) — Ele está cheio de brotos. Mas não é por trabalhar demais.) Meu marido não pode vir. com certo carinho. Imagine que para arrancar o tronco teriam que tirar todas as lajes e abrir um buraco enorme. do menino? . tem alguém dormindo no quarto do.) ARETUSA (Entrando.) — Ele estava cheio de raízes. ALICE (Triste.) Mas você engordou. Mas por enquanto.) — Acho uma pena Bruno ter mandado cortar esta árvore.Aretusa. Coitado. (Muda de tom.. você sabe. Alice. Chega a trazer serviço para casa no fim de semana. não? (Afasta-se para vê-la melhor. que bom que você veio! Há quanto tempo. ARETUSA — Qualquer dia acaba rachando as paredes da casa. tentando ser natural. abraça Alice.. hein? ALICE — (Sem se ofender.) — Alice.

Só pode ter sido aquele boneco horroroso. tudo aqui ficou esquisito demais desde que o menino morreu. uma criança. Ela está parada. com o boneco nos braços.) — Evelyn levava Cristiano de carro para a escola quando o acidente aconteceu. Todo dia arruma as roupinhas dele sobre a cama.) — Mas tinha uma pessoa lá quando eu cheguei.) . tinha um rosto pequeno.ARETUSA . logo abaixo do quadril. Chovia muito.Não. Depois de alguns dias precisaram amputá-las. não. Parecia examinava. (Preocupada. Viveu ainda algumas semanas. mais tarde tira outra vez. ARETUSA (Um pouco irritada. apanha o Palhaço e começa a niná-lo. Aonde vai. mas Cristiano teve as duas pernas esmagadas. Evelyn conserva tudo como quando ele estava vivo. Não tem ninguém. lembra? Aquele palhaço que o Cristiano não largava nunca. As vezes senta o palhaço na janela. (Após a fala. eu vi. Ainda bem que na hora de encomendar o caixão calcularam o tamanho dele como se as pernas ainda existissem. Não sei. E me CENA 5 No quarto de Evelyn. diz que ele fica espiando a rua e conta tudo o que acontece por lá. sozinha. mas não resistiu. A luz sobre ela acendeu-se lentamente. talvez tenham derrapado o carro bateu num poste e ficou destruído. Sua irmã agora vive agarrada com ele. como se fosse Cristiano.) . Evelyn não se machucou muito. uma depois da outra. enquanto Aretusa ainda fala. corta temos que conseguir que ela ponha essa coisa no lixo. já como a personagem. Depois guarda. ALICE (Intrigada. a atriz. EVELYN (Dirigindo-se para o público. Restou apenas um pedaço de menino.) Alice. leva o boneco.

Bem doente. O aluguel seria o mesmo. E agora. ARETUSA (Mostrando uma mancha na perna. tudo escuro. Insistiu tanto no telefone para que eu viesse. quando cheguei. uma bicicleta. — que caracterizem bem um quarto de criança. Alice. E menor. Dá muito menos trabalho.) — Isso não é nada saudável. Alice! ALICE (Angustiada.) Até o cheiro da casa mudou. levei um tombo. ARETUSA — Saudável? Isso não é normal. ALICE (Meio distraída. É diferente. ALICE (Arrumando uma das camas.) — É. Alguns elementos — talvez um móbile bem colorido.) — Não é que ela não aceite. Ela não percebe.) — E que ela anda doente.) . na verdade acho que sua irmã ainda não percebeu que o menino está morto. Agora tem cheiro de umidade. mais prático. ARETUSA (Penalizada. Evelyn era tão caprichosa. mais seguro. com papai e Berta. ALICE (Abatida.) Casa só é bom quando tem criança. deixa que ela fale cada bobagem.) — Está vendo isso aqui? De manhã. (Cansada. Ainda mais morte de criança. etc. (Suspirando. Ele é tão apaixonado pela mulher que só pensa num jeito dela não sofrer mais ainda. mofo. Tropecei num . (Como se revelasse algo importante.CENA 6 ALICE e ARETUSA No quarto que pertencia a Cristiano. mudando de assunto.. Tudo fechado. Ela não aceita.) Sabe.Eles deviam mudar para um apartamento. francamente.) — Morte é uma coisa muito triste. Dá até pena de ver. Bruno não ajuda muito. ARETUSA (Dura. É muito mais grave..

mas ele continua com essa história? ARETUSA .) — Os pés? (Meio sem sentido. Eu fiquei tão impressionada.carrinho de plástico na sala. Não quer mais descer. Logo que cheguei. aquele boneco que Cristiano adorava. só atrapalho.) . de manhã. Berta reclama.) — Que coisa. se queixa.) — Não sei. Cortaram os pés dele. E ele fica lá.. ela estava com aquele boneco no colo. Quando fui ver Evelyn hoje de manhã. (Em voz mais baixa. Agora ele deu para pedir comida no quarto.Claro. Nunca sei ajudar.O pior não é isso. Aretusa. Com aquele monte de flores. ALICE — Meu Deus. nem se notava que o corpo terminava tão depressa.) Bruno me contou que às vezes ela diz que Cristiano passou a noite com os pés gelados. numa espécie de censura. ALICE (Impressionada. (Noutro tom.) . mas acaba levando. ALICE (Sonolenta. Sabe qual é? O Palhaço.) Você sabe muito bem disso. o tempo todo. (Cúmplice. Sozinho com seus bichos.) .) Logo os pés. Faz meses que o menino morreu e as coisas dele continuam aparecendo em todos os cantos da casa. E cada vez pior. E você sabe que venho vê-los seguidamente. Parece que nunca se separa dele.. junto com as pernas. . ARETUSA (Um pouco cruel. ALICE (Abalada.) O que é que nós vamos fazer agora. não podia parar de pensar nisso. ALICE — Mas o médico disse que poderia ser um problema de circulação. como se falasse para si mesma. Aretusa? ARETUSA (Dolorida. Não pode ser. Não sei lidar direito com as pessoas. Mas ainda bem que no caixão não se notava nada. querendo mudar de assunto.Você já viu meu pai? ARETUSA (Seca.Continua.

) . (Começa a cantar uma cantiga de ninar enquanto embala Evelyn. brusca. Interrompe-se de repente.O que é que você está olhando? ARETUSA.Renato não. come direito? ARETUSA . Envelheceu tanto. Nem parece a mesma. vamos brincar de mãe e filha? ALICE MENINA — Vamos. Por que é que você não pede para ele? ALICE MENINA . (Voltando-se. Logo ela vai acordar e você fala com ela. Pelo menos. Que tem insetos no ouvido. Berta não pára de arrancar os brotos do álamo.O Professor diz que não.E Evelyn. EVELYN MENINA (Aproximando. Mas não se assuste: Evelyn mudou muito. ALICE . Um ninho de insetos. Menino não pode ser mãe.se. Ele é menino. Feito um passarinho..) E eu? Quem é que vai ser a minha mãe? EVELYN MENINA .Berta. Alice.) Aquela árvore também não quer morrer. (Caminha até a janela e espia para fora.) Era tão bem disposta. ALICE (Ainda tentando mudar de assunto. CENA 7 ALICE MENINA e EVELYN MENINA No Plano do Inconsciente/Memória. Vem que eu embalo você.. .Alice. Crescem por toda a parte.Quase nada.Pode ser Renato.ARETUSA .) .

) .O que é que você estava fazendo? BERTA (Brusca. posso entrar? BERTA (Guardando apressada a tesoura.) — O que é. Não estava fazendo nada. cantarolando e batendo palmas. recortando figuras. Você é muito pequena EVELYN MENINA (Com certa crueldade. Você quer brincar comigo? .) — Alice é filha de Berta-tá-tá! Berta tem cheiro de cebola-lá-lá! Alice também tem! Cheiro de cebola-lá-lá! CENA 8 BERTA e RENATO MENINO No quarto de Berta. Pode ser Berta.Você também não.) .Você. cercada de revistas coloridas. Ela tem cheiro de cebola! EVELYN MENINA (Começa a girar em torno de Alice.) — Nada. ALICE MENINA (Começa a chorar.. Ela está sentada na cama. Nada que te interesse. encabulado.) . acende-se sobre Berta.) . menino? Será que não tenho um segundo de paz nesta casa? RENATO MENINO (Entrando.Então posso ser eu. RENATO MENINO (Na porta.) .EVELYN MENINA .. O que é que você quer? RENATO MENINO (Indeciso.Então já sei.Berta não quero. À medida em que a luz apaga sobre a cena anterior. ora! ALICE MENINA (Chorando. os recortes e as revistas.) Berta.

Ela hesita. Renato ajeita-se no colo dela. Ninguém vai bater em você enquanto eu estiver aqui. (Pega a mão de Berta e coloca sobre sua própria cabeça.) Posso deitar a cabeça no seu colo? (Berta não responde. CENA 9 PROFESSOR. bem devagarinho. Berta.) . Berta? Diz que é. MENINO.BERTA (Ríspida. RENATO MENINO (Persuasivo. a sua mãe está aqui. BERTA. Renato. Pode dormir sem medo.) — E eu lá tenho tempo para brincadeiras? Vai procurar alguém da sua idade.Mas é só um pouquinho. Pode dormir. Berta abandona o menino dormindo e caminha em direção ao Professor. EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA Na seqüência da cena anterior.) — Professor.) Agora você passa a mão na minha cabeça. Isso.Sou. Você é minha mãe. acende-se a luz sobre o Professor.) . . filhinho. mas acaba fazendo o que ele pede. o Renato urinou outra vez fora do vaso e sujou todo o banheiro. RENATO. RENATO MENINO (Quase dormindo. Sou sua mãe. Como se você fosse minha mãe. diz. comovida. BERTA (Depois de hesitar. Dorme. Eu te mostro como é.Claro que não. BERTA (Apontando o vaso. Enquanto Renato adormece. Ele está parado ao lado de um vaso sanitário. você deixa? (Aproxima-se. ALICE MENINA. Assim.) — Você não vai deixar o Professor me bater? BERTA (Continua a niná-lo.) .) Faz eu dormir.

) RENATO MENINO (Soluçando. papai! Eu não faço nunca mais! PROFESSOR (Empurrando a cabeça do menino contra o vaso. . EVELYN MENINA e ARETUSA MENINA (Entram em fila indiana e circulam. RENATO MENINO (Debatendo-se.) — Tudo.) — O que foi.Foi sem querer. cabisbaixo.) — Por que é que o pai tem tanta raiva da gente? ALICE MENINA. andando de lado. Alice está sentada na cama quando Aretusa entra.Não.) . Não quero saber de promessas. seu animal? Você sujou todo o banheiro de novo. Você é um porcalhão.) . PROFESSOR (Empurrando-o para o vaso.) . RENATO MENINO (Com medo. Sujou? Pois agora vai limpar tudo com a língua. cantarolando. Eu juro que não faço de novo. seu porco sujo.PROFESSOR (Chamando. em torno de Renato. pai. não. saltitantes.) — Renato é um porcalhão! Renato é um porcalhão! Renato lambe o mijo! Renato lambe o mijo! CENA 10 ALICE e ARETUSA No ex-quarto de Cristiano.Como o que foi? Ainda pergunta? Se fazendo de inocente. Renato! Onde é que se meteu esse diabo de menino? RENATO MENINO (Entrando. você vai limpar tudo com a língua. papai? PROFESSOR (Segura-o pela gola da camisa. (Dá-lhe um tapa e sai. abraçado ao vaso.) — Te ajoelha.) — Renato.

De estímulo. Papai era muito severo. ALiCE (Quase sorrindo. Alice se assusta. Era assim que Renato chamava ele.O quê? ALICE — Rasputin.) — Não fale assim do seu marido.) — Não adianta. Quando ele quer alguma coisa. a culpa não é sua. ninguém atende. Seu irmão não deve estar em casa.. como se fosse chorar.) Desculpe. o velho Rasputin. As vezes eu apanhava até por coisas que nem me lembrava mais que tinha feito.ARETUSA (Irritada. enquanto acende a luz sobre o Professor. Uma vez viu uma figura num livro e achou muito parecido com papai. Aretusa.) O que é isso? ARETUSA (Cansada. Alice aproxima-se. mas ouvem-se três batidas fortes — uma bengala batendo na madeira. (Aretusa vai responder. CENA 11 ALICE e PROFESSOR . (Aretusa parece magoada. As pancadas tornam a soar. ALICE (Em tom de recriminação. desculpe. Pareciam uma faca.. Eu também achei. Tão frios. Aqueles olhos que furavam a alma da gente. Você sabe. Aretusa. Cansei de telefonar.) . Cobre o rosto com as mãos. Eu não quis. O idiota não vem mesmo. Aretusa e Alice ficam imóveis. Ele foi quem mais apanhou de papai.É o seu pai. Você o conhece desde criança e sabe muito bem como ele era tímido e infeliz. bate com a bengala no assoalho e Berta tem que atender. ARETUSA .) . três vezes.O velho Rasputin. Mas você só humilha ele o tempo todo. Uma pessoa como Renato precisa de carinho.

como se .) — Evelyn? Ela não vai nem ao cemitério.) . O senhor sabe como é. um cobertor sobre os joelhos. PROFESSOR (Sem ouvir. Presta atenção.) — Não puderam vir.São insetos. E um zumbido de insetos. E os filhos. E aí poderia. Muito pior. Uma das mãos segura a bengala.Quarto do Professor.. retirar. Eles estudam. pai. Estava tão ocupada.) .. ALICE — Ela está doente. abrir. papai? O senhor está bem? PROFESSOR (Sacudindo afirmativamente a cabeça e fazendo um gesto para que Alice se aproxime. PROFESSOR (Obstinado. Ando até pior. desde que o menino morreu. De vez em quando. Alice? ALICE (Em tom de justificativa. Eu tenho certeza. Só nos fins de semana têm algum tempo para descansar. A roupa está muito desalinhada. ALICE (Entrando devagar. ALICE (Tentando ser gentil.) Mas você sabe como ele é condescendente. se fossem insetos o médico conseguiria vê-los. Não foi nem uma vez. Ele está sentado. se divertir um pouco. pai. ALICE (Paciente. E não é um barulho..) . trabalham. brusco.) — Bruno bem que podia obrigá-la a ir. Mas fiquei. bem. não sei. Insetos daninhos. PROFESSOR (Cortando. Eu mesma não podia vir.. curva a cabeça sobre o ombro e a move devagar.. fiquei muito preocupada com Evelyn. (Entorta um pouco a cabeça.) — Mas. São insetos. (Em tom de desprezo.Não. pai. Não melhorei nada. E não fica nada bem uma mãe não cuidar da sepultura do filho.O senhor melhorou daquele barulho no ouvido? PROFESSOR (Seco.) — Dá licença.) — Bem.

ALICE MENINA . uma velha empregada: que tem isso demais? E só uma velha casa. O velho choraminga. Outro dia ele até bateu a janela quando o canário da vizinha começou a cantar. no Plano do Inconsciente/Memória acendeuse a luz sobre Alice Menina e Berta. Alice. Será que o pai deixa eu ficar com ele? BERTA —Você sabe muito bem que seu pai detesta bichos. ALICE (Insistindo. Bateu com força.pudesse ouvir alguma coisa. um velho pai. três vezes. vá chamar Berta. Mas essa velhice me deprime. sempre franzindo o focinho. Chegou a quebrar um vidro. ALICE MENINA. Alice Menina tem uma caixa de sapatos nas mãos. sem paz. Iguais ao que eu tive na infância e que tratei com carinho de mãe. BERTA e ARETUSA ALICE (Sozinha. E se a gente mentisse que ele é seu? BERTA . PROFESSOR. ué. (Bate com a bengala no chão. Berta? Olha a carinha dele. violentamente.Nada. o foco de luz apenas sobre ela.Meu. E por todos os cantos a lembrança de Cristiano.. CENA 12 ALICE. Enquanto ela fala.) Você não ouve? Agora eles estão começando a se mexer.) Berta. Alice estremece. Perto da árvore ficava a gaiola grande com os dois porquinhos-da-índia que lhe dei.Ele é tão bonzinho.) — Uma velha casa.. menina? Mas o que é que eu vou fazer com um porquinho-da-índia? ALICE MENINA . não é.) — Mas ele é tão bonitinho. sem sabedoria. Você tem nojo dele? . dentro da qual está o porquinho-da-índia.

(Para a caixa. BERTA (Relutante. comovida. já está acesa a luz sobre o Professor. Nojo não.) . tá bem.Pois então? Você diz que ele é seu. menina. Berta.Ah. Que coisa. ALICE MENINA (Insistindo.) — Não.) . Tem uma cara de Horácio. ALICE MENINA (Muito feliz. Estd todo furado. Berta.) Eu nunca tive um bichinho. Enquanto Berta sai.) Primeiro vou contar uma história para você dormir. Era uma vez um porquinho-da-índia que um dia foi bater numa casa bem igual a esta. Berta. É de mentirinha. Eu digo que é meu. não é. BERTA (Cedendo. com dois olhinhos vermelhos arregalados de medo porque ele achava que não tinha casa. Ele não vai entrar nunca dentro de casa (para a caixa).) Acho que vou chamar ele de Horácio.BERTA (Curva-se para olhar o porquinho. Furioso. PROFESSOR (Apanha um jornal dobrado do chão.) — O Professor tem verdadeiro horror de bicho.Tá bem. (Senta no chão. Horácio.) Mas se der algum problema depois. ALICE MENINA (Animada.) . não diga que eu não avisei. Não precisa chorar. Alice continua brincando. Pura. encaminha-se para Alice e joga-lhe . Só falta os óculos. mas meio brusca. porquinho? E só vai comer restos de verduras velhas. Eu garanto que ele não vai dar trabalho nenhum. Rói tudo que encontra pela frente. (Choramingando. deixa. (Vai saindo. Assim ele fica no seu quarto.) — Mas e se ele fugir? Se entrar dentro de casa? Esse bicho é que nem rato. abre-o e examina. assim que nem você. Era um porquinho todo quentinho e fofinho. Não suporta nem passarinho. BERTA (Saindo.) — Obrigado. Até gosto.

Enquanto isso. chorando.Roído.) — Uma barata.) . Me dá essa caixa. Acende-se a luz sobre Aretusa Adulta.) — Me dá ele.) .) Alice Menina fica sozinha com os pedaços da caixa. Faz dias que você anda escondendo . violentamente. volta a luz sobre Alice Adulta. PROFESSOR (Avançando alguma coisa dentro dela. este jornal está todo roído. Um único guincho. Ele sai.) — Animal nojento. Alice tenta alcançá-la.) . Outro dia vi uma barata na cozinha. (Começa a puxá-la pelos cabelos. ALICE (Tentando escondera caixa. pai! Eu prometo que nunca mais ele vai roer o seu jornal. (Joga a caixa no chão. Arranca-lhe a caixa das mãos. PROFESSOR — E desde quando tem rato nesta casa? ALICE (Assustada. que morreu gorgolejante enquanto o Professor torcia o pé para esmagar melhor.Me dá esse bicho imundo. Um jornal novo. ALICE ADULTA .Não.Além de tudo é mentirosa.) — Alice. ALICE (Apavorado. eu prometo! PROFESSOR . Alice grita. sem conseguir. Eu ainda nem tinha lido.o jornal na cara. a caixa não! PROFESSOR (Fora de si. sozinha em outro plano. menina. então. Quantas vezes tenho de repetir que não quero nenhum bicho dentro desta casa? ALICE (Gritando. para Alice. Alice.Cala a boca. (Começa a pisotear a caixa.Como é que um corpo tão pequeno pode espirrar tanto sangue? Até hoje o guincho do animalzinho perfura meu cérebro quando penso nisso.) .) E isso é para você aprender a me respeitar. pai? Deve ter sido algum rato.

Com esses ônibus modernos.) — No mundo da lua. Estou muito bem. Eu até ia trazer um bolo.fumando. (Ri. depois de olhar um momento para Aretusa. Aretusa está ao lado dela.) — Estou. O meu está tão velho. que fuma em silêncio. num tom monótono e automático. Você vai bem? EVELYN (Sacudindo a cabeça. Suba! CENA 13 ALICE. eu ia comprar uns chinelos novos. Você sabe. fingindo ignorar o boneco e procurando ser natural. muito composta. Alice? Evelyn acordou e quer ver você. Aretusa? ARETUSA — Nem prestei atenção. Mesmo assim me cansei um pouco. (Volta-se e fica olhando pela janela. mas acabei deixando. você reparou.) — Fiz uma viagem tão boa. Quando Alice entra. Estou. sempre tão ocupados.ARETUSA (Irônica e divertida. Estou bem. Evelyn está sentada com o boneco no colo. como se tivesse acabado de penteá-la e arrumá-la. ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn. meu marido e os rapazes mandaram lembranças. ALICE (Beija Evelyn. esqueci até o perfume. Não puderam vir.) . Evelyn. ALICE (Nervosa.) — Olha. insegura. E uns chinelos. sim. agora ficou tudo mais rápido. como se recitasse algo decorado.) Saí correndo.

curva-se para beijar Evelyn.) — Seu cabelo continua tão bonito.) . Faz muito tempo que não vejo o Bruno. Bruno. Levanta-se para beijá-la. Eu como tudo e limpo o prato.) — Parece cansado. Evelyn.) Não é. (Aproxima-se e coloca a mão no ombro de Evelyn. Quando der.Então eu vou lá embaixo receber o seu marido. BRUNO. graças a Deus. Já que Evelyn tem companhia. E mais magro. volta-se e sorri para Evelyn. que continua imóvel. Quando é que você volta? EVELYN (Remota. Faz séculos que ele anda só do trabalho para casa.Bruno está chegando.Como vai. RENATO MENINO e BERTA Sala da casa. Tive que insistir para que saísse hoje e se distraísse um pouco. depois cai de novo no sofá.) .) CENA 14 ALICE. Alice. Alice? ALICE — Bem. eu volto. Um dia. da casa para o trabalho. não sei. querida? (Evelyn não parece ouvir. Seus colegas devem estar com saudades. tensa. Garanto que você faz muita falta no escritório. ALICE (Maternal. (Vai saindo.ALICE (Pega uma escova e começa a escovar o cabelo de Evelyn. BRUNO . Na porta.) . E você? (Examinando-o. Tão louro.Quando der.) ALICE (Um tanto apressada e aliviada. ARETUSA (Da janela. . querida.) — Sim. querida? EVELYN (Falando como uma criança. Bruno está jogado no sofá quando Alice entra.Você tem comido direitinho.) .

) — Ela não quer mais falar com o médico. bom. ALICE (Meio distraída. passeando um pouco? BRUNO — Aretusa insistiu tanto.) .É..Uma. (Amargo.. Ela segura o boneco e fala como se.) — Descobri que Evelyn anda com uma gilete em baixo do travesseiro. uma o que? .) — O filme? ALICE .) — Pode ser. ALICE (Tentando parecer animada. Fui ao cinema. ALICE — E gostou do filme? BRUNO (Distante. Faz tempo que não me peso. sentando-se no sofá. acendendo um cigarro.) — Era.) — Acabei de ver Evelyn. tentei fazer com que aceitasse a realidade. BRUNO (Desinteressado.) — Engraçado. BRUNO (Como se não ouvisse.. em voz baixa. meu filho disse que. ALICE (Horrorizada. ALICE (Depois de uma pausa em que não sabe o que dizer.) — Então. Que coisa mais macabra! BRUNO (Paciente.BRUNO (Indiferente. O filme que você viu. BRUNO (Interrompendo.. O filme era bom.. E quase não come. No começo.. o Palhaço? Você tem que tirar aquilo dela. como se o menino estivesse vivo.) — Mas é só assim que ela fica mais calma. ALICE — Aretusa me disse que Evelyn parece não aceitar a morte de Cristiano.. ALICE — Mas isso é perigoso.. BRUNO — Eu sei. Bruno! E aquele boneco.) Mas realidade é uma coisa que ela não agüenta mais. Concordei com Aretusa em chamar você porque não sabia mais o que fazer.. Não quis ir no psiquiatra.. Ela não parece nada bem.

Ela não está louca.se para trás.) — Meu pai também está tão esquisito. Devia doer .Que coisa horrível.) — Que é a idade. num hospício. ela tem de querer também. só desesperada. E ele agora deu para se queixar a toda hora dos tais bichos. BRUNO (Angustiado. Bruno. Renato sofria de infecções nos ouvidos.BRUNO (Em voz muito baixa..) — Não quero que ela seja internada num. o que diz? BRUNO (Batendo de leve com o indicador na testa. Fazia meses que você não o via. Já botei fora duas ou três. fica quase normal.. mas não adiantava. Não consigo raciocinar direito. E psiquiatra. BRUNO — Então deve ter-se assustado. BRUNO (Interrompendo. Berta pingava azeite morno. ALICE . Uma noite ele não parava de chorar. Essas coisas. ALICE Que horror. Mas até parece castigo. Ninguém pode forçar. BRUNO (Intrigado..Alice. ALICE (Pensativa. sim. Precisamos ter paciência. BRUNO — Péssimo. o que é que você acha que devemos fazer? ALICE (Recostando.) . no sofá.Uma gilete.) — Deus que me perdoe. depois de pensar um momento. E o médico. tem outra lá. Bem. Nós não temos dinheiro para uma boa clínica particular. Mas sempre quando vou ver.) .. ALICE (Para mudar de assunto. Fazia tempo.) — Não sei. cansada.) — Castigo por que? ALICE — É uma história antiga... Será que ela. Quando esquece. não? ALICE — Fazia. Quando a gente era criança. Depois começa tudo outra vez.

) BRUNO . Berta levou ele ao médico. Para matar o Professor. (Enquanto Alice fala.) — Vou ver se Evelyn quer descer. Uma arma secreta. (Sai. Porque você está aqui. EVELYN.muito.) BERTA (Entra. com toda a força. Que não fizesse fita. escorrendo do ouvido de Renato. O bofetão de papai tinha feito rebentar um abscesso no ouvido dele.) — Será que na cama. para Alice. (Ouvem-se as três bengaladas do Professor. RENATO MENINO (No outro Plano.) — Está na hora de servir o jantar. PROFESSOR. BERTA e RENATO .O Professor sempre foi muito violento. quando eles dormem. ARETUSA. Tantos pratos rachados. A luz se apaga no Plano do Inconsciente/Memória. no Plano do Inconsciente/Memória.) — Uma arma. acende-se a luz sobre Renato Menino. ALICE (Distraída. tinha um líquido grosso. BRUNO. BRUNO (Levantando-se. meio para si mesma. abriu a porta com um empurrão e deu um tapa na cabeça de Renato. amarelo. Era pus.) — O Professor também vai descer hoje. Na terceira vez. CENA 15 ALICE.Quando entramos no quarto. Papai levantou umas duas vezes e mandou que ele calasse a boca. No dia seguinte.) BERTA (Pondo a mesa. como na Cena 3.) . Ele prepara a arma. o boneco fica no meio dos dois? BERTA (Como se não tivesse escutado. ALICE (Como se não ouvisse. acende a luz.) — Louça toda velha.

entremeada de silêncios longos. Constrangimento. Assim. que serve a mesa.Na sala.) . pai? BRUNO (interrompendo o Professor. Tem que comer mais um pouquinho.Deixa. Quando mudo de ambiente. O médico não sabe nada. paciente. que ainda não chegou. Estão todos sentados à mesa do jantar. o barulho da campainha. ARETUSA — Pois eu não. Agora. BRUNO (Para Evelyn. Hoje é um dia especial. Evelyn tem o boneco no colo. À exceção de Renato.O médico. EVELYN (Como criança. me abre o apetite. e de Berta.) — Você está com frio. que cruzou os talheres. bem que você precisa.) E você.) —A carne está ótima. De repente.) — Quer mais vinho.) . mais um pouquinho. (Para Alice. Berta tira e coloca coisas na mesa. Bruno. . PROFESSOR (Com desprezo.) Passa o arroz? Silêncio espesso.Ele não pode. ARETUSA (Mentindo. (Dando-lhe comida na boca.Ela não comeu quase nada. O médico proibiu. ALICE (Para o Professor. (Para Bruno. ALICE (Conciliadora.) . Você não almoçou hoje.) .) — Só um pouquinho.Eu não quero. repugnada. A cena é lenta e difícil. querida. que estende o copo. Evelyn. Até pelo contrário.. Por que você quer me obrigar a comer? BRUNO — Para ficar forte.. Acho que foi a viagem. BRUNO (Para Evelyn) . Estamos todos juntos. não vai comer mais nada? Está de regime? Olha. hein? ALICE — Estou sem fome. Evelyn? ALICE .Vamos. depois de encontrar um vermezinho na salada.

(Beija Aretusa no rosto. RENATO (Beija Alice.) ALICE (Para Renato. Tocou. Liguei acho que umas dez vezes.PROFESSOR . papai? PROFESSOR (Seco.Eu sempre digo que sanduíche não alimenta. Um sanduíche. (Berta sai e volta acompanhada de Renato.) — Você já jantou? RENATO . tocou e ninguém atendeu.Quem pode ser numa hora dessas? BRUNO — Visita é coisa rara por aqui. com uma bolsa de viagem. ALICE (Maternal. provavelmente eu já tinha saído. A cidade está cheia deles. Não tenho fome.) — Ué. (Pega o bule e serve.) ARETUSA (Agressiva.) — Pode deixar que eu mesma vejo. Até telefonei hoje à tarde. Alice? Tudo bem? (Ela sorri.) Eu mudei de idéia.Então.faz um carinho na cabeça de Evelyn e senta-se ao lado dela.) . (Aperta a mão do pai.) — Quer que eu veja quem é? BERTA (Para Alice. olhos baixos.Boa-noite. RENATO Como vai. RENATO (Contrafeito. ARETUSA — Pelo menos tome um café.) . ALICE (Para o Professor. muito formal.) — Boa-noite para todos. achei que você não vinha. Quando você telefonou. Ele aperta a mão de Bruno.Não. PROFESSOR — Deve ser algum mendigo.) Olha só quem chegou. Comi no caminho. Renato bebe e fica remexendo na xícara com a colherinha.) .) .

ALICE (Entrando.RENATO e BRUNO Na sala de refeições. para alguém invisível.) . II ATO CENA 1 ALICE. A luz apaga. Parece que vai chover. Tudo bem. como se escutasse. que já está sentado.) Eles estão se mexendo agora. RENATO . Depois recomeça os movimentos com a cabeça. A mesa está posta para o café quando Alice entra.É possível.EVELYN (De repente. Esse calor não é normal de manhã cedo.) — Que foi. (Pára por um instante.) Fiquei preocupa com você aqui em baixo. . Está tão abafado. de manhã cedo. com desprezo. não. Estava quente. Renato. Alice. Silêncio constrangido. sem ninguém esperar. O Professor começa a mexer lentamente a cabeça. brinda distraidamente com bolinhas de pão.) ALICE (Para o Professor. Berta me trouxe um cobertor Mas nem era preciso. pai? O senhor está sentindo alguma coisa? PROFESSOR — São os insetos. Olha para todos. olhando Renato e o boneco. ALICE — Tem razão.) . No escuro. Renato. um por um. ouve-se a gravação de uma gargalhada estridente de criança.Bom-dia. Não passou frio durante a noite? RENATO (Distraído.Não. Tudo bem? (Senta-se à mesa.) — Vocês não acham que ele se parece com o Palhaço? (Ninguém ri.

.) E além do mais. .) — Claro.) ALICE . Ela dormiu muito mal.Não. Acordou várias vezes. ALICE — Acho que ela nem enxerga mais direito. BRUNO (Cortando. Eles fazem muito barulho nos telhados. E muito fraco. (Afasta a xícara.O que foi? ALICE (Meio repugnada. Acho uma coisa indecente. Berta devia ventilar mais a casa.) Péssimo.) .. ALICE (Intrigada. Devem ter sido os gatos..Você não vai tomar café? ALICE (Suspirando.o que? ALICE (Meio envergonhada. ALICE (Meio atrapalhada.Bom-dia.Bom-dia. Não tenho vontade.) . E Evelyn. Continua a fazer bolinhas de pão.) RENATO . (Renato não responde. RENATO (Dando de ombros.) — Bruno. O calor fica pior.Faz muito tempo que Evelyn não ri. RENATO (Desinteressado.Berta está muito velha.) — O café. Bruno.Não.ALICE — Me passa o café? (Renato passa e ela se serve. ela riu durante a noite? RENATO . por acaso ela.) . Renato? Eu tive a impressão de ter ouvido alguém rindo. Você não ouviu nada.. claro. passou bem à noite? BRUNO (Abatido.Riu. com essa casa toda fechada. (Prova o café e faz uma careta.) . Está quase frio. BRUNO (Entrando.) .) RENATO . (Toma mais um gole.) .Eu não ouvi nada.) .

BRUNO (Para Renato. empurrada por um Enfermeiro. Tinha um jeito de menina. ARETUSA .RENATO . Cruzam a cena Corália. pondo a mão na testa.Ou algum babado na rua. ALICE (Nervosa.Ela era linda.) — E Aretusa? Não vai descer? CENA 2 ARETUSA. numa cadeira de rodas. ARETUSA. RENATO (Para Alice. CORÁLIA e ENFERMEIRO .) — Pode ser. fumando. A luz acende-se também no Plano do Inconsciente/Memória.) — Acho que estou pegando uma gripe daquelas. apaga-se a luz sobre a cena anterior e acende-se sobre Aretusa. ouve-se apenas a voz de Aretusa.) — Me passa o pão? ALICE (De repente. Uns olhos tão grandes e inocentes.tem os cabelos todos brancos e a cabeça caída sobre o peito. Corália — uma atriz ou uma boneca . Ela está na cama. CORÁLIA e ENFERMEIRO Quando Renato fala. Enquanto eles passam. tentando rir. deitada. Noite de sábado. CENA 3 ALICE.

mas continua a virgenzinha de sempre.) . na casa de Alice. ALICE (Preocupada. ALICE — Você tem que me prometer que vai tomar cuidado. Atrasada.É um flash-back. (Implicante. Lá no fundo. mas vejo bem nos olhos dela. Enormes. Você nem imagina como ela é linda. ARETUSA . debochada. o que mais me impressiona nela são os olhos. minha querida moralista. E não sou atrasada. você é uma mulher adulta. ARETUSA — Não tem nada de estranho. Aretusa? Ela é sua aluna. o escândalo que vai ser. ingênua.) — Claro que entendeu.) Prometa. (Para Alice. Aretusa? ARETUSA (Rindo. só de longe. Eu finjo que não percebo. no colégio. Ela me ama.) — Como não faz mal. sim. Só acho um pouco estranho. ARETUSA (Sem ouvir. A cena pode ser feita pelas atrizes que fazem Alice e Aretusa Adultas ou por Alice e Aretusa Meninas. a filha do Bicho-Papão não sabe em que mundo vive? ALICE (Meio irritada.Ah. você vai acabar se metendo em complicações. ALICE (Espantada. E tem uns olhos.Uma menina tão linda. minha santinha. (Segurando Aretusa pelos ombros. Depois não diga que eu não avisei.) Ah. não se preocupe. Sem maldade nenhuma. recém-casada. casada. Meu Deus. inocentes. Eu apenas me deixo amar.) E ela me ama. Alice. tão linda. mas paciente. ALICE — Escuta.) — Será que eu entendi direito. Tão terna. Ela me ama. Prometa que não vai se meter em nenhuma complicação com essa menina. . Aretusa. Imagina se alguém descobrir.) — No mesmo que você. Aretusa. Aretusa. Alice. indisfarçável.) — Linda. (Para si mesma.) Não faz mal nenhum assim. ARETUSA (Sonhadora.

Alice. (Noutro tom. Não entendo nada. Nome engraçado.ARETUSA (Desvencilhando.) .) Prometo solenemente me ver livre dela. sem pausa. ARETUSA — Mas prometer o que.) Corália. acende-se novamente a luz no plano do Inconsciente/Memória.Pára com isso. e o Enfermeiro torna a passar com Corália na cadeira de rodas. séria. criatura? ALICE — Que não vai se meter em nenhuma complicação.. Aretusa.) — Prometa. Corália-Rosália.se.) . (Fingindo solenidade. ALICE (Aliviada.) — Assim é que se fala. Corália (Tapa a boca com a mão. voltando-se. ARETUSA (Dando de ombros. Quando apaga-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória. Magnólia.) Como é mesmo o nome dela? ARETUSA (De costas para Alice Enquanto ela fala. Que vai se ver livre dela.) .Está bem. Se você fica mais tranqüila assim. acende-se novamente sobre Alice e A retusa. Aretusa. (Num crescente.) CENA 4 ALICE e ARETUSA Passaram-se alguns meses. ARETUSA (Que ainda estava de costas. ALICE — Fale mais devagar. está bem. Parece nome de flor.) — Ela tentou se matar. . Que coisa mais antiga! ALICE (Insistente.Corália. grita. mas a cena vem imediatamente na seqüência da anterior. em desespero..

Aretusa? ARETUSA (Muito agitada.O que? O que foi que você fez. Telefonava. Eu comecei a fugir.Não. ARETUSA (Culpada.) Hoje de manhã encontraram ela na cama. Foi só então que eu descobri o quanto gostava dela..) — Nada. Eu fiquei com medo e disse que se ela não se afastasse eu contaria aos pais dela e ao diretor.. Aretusa. não aconteceu nada. que Corália não regulava bem. promessas.) Cheguei a insinuar que. ALICE — Não estou acusando ninguém. aquelas coisas. Não tive coragem de desiludi-la. Eu não tive culpa.. Alice. Alice. Pare de me acusar. O que foi que aconteceu? ARETUSA (Acendendo um cigarro. despeito. não. mandava cartas. Ela era tão bonita. a boca toda queimada de veneno. ALICE (Tentando acalmá-la.. a tratá-la mal. (Baixando a voz. meu Deus? ARETUSA (Quase gritando.) — Nada. inveja. Fique calma e me conte tudo. O que fiz foi só para o bem dela. (Envergonhada.) — Você agiu direito.) . olhares. Ela ficou me procurando por toda parte. ARETUSA — Eu sei que você me entende. Que ela era meio louca. Foi ela quem contou para uma amiga. . Queria que nós fôssemos embora juntas. Eu fiz tudo errado. Alice.ALICE . Aretusa. Você não sabe de nada. A idiota da amiga contou tudo para os pais de Corália. Corália tentou se matar. Eu ainda consegui consertar a história.) — Não fique assim. Não adiantou nada. ALICE (Chocada. ALICE (Colocando a mão na cabeça dela. O diretor da escola nos chamou para tentar evitar o escândalo.Ela? Ela quem.) . você me entende? Que era imaginação dela. Falei em calúnia. Ambigüidades. Só. Eu não queria complicações. Não fiz nada.) — Corália.

ALICE — E fumando em jejum. fumando.Quer um cigarro? ALICE . ARETUSA .Não queria que depois ela sofresse ainda mais. Não vai acontecer nada.Você sabe que não fumo. ARETUSA (Irônica. ALICE — Fique calma. de repente. Você não vai tomar café? ARETUSA . (Depois de uma pausa. não vou agüentar sozinha. .Estou com preguiça.) Esta semana fui ver Corália.) -Juro que nunca mais vou amar ninguém. não? ALICE (Sem se ofender. Eu acabo destruindo tudo que toco. quando Alice entra. às vezes as pessoas progridem. Nunca mais vou me ligar a ninguém. Estava fraco e frio. ARETUSA . ARETUSA — Se ela morrer. Nunca mais. Faz mal. fique calma.. (Agressiva.) E você bem que podia cuidar um pouco da forma. No quarto. Aretusa está de camisola.Não quero comer. ARETUSA (Lentamente.) — Nem tomei café. ALICE — Ainda está aí? Você nem se vestiu..) — Bem. CENA 5 ALICE e ARETUSA Volta ao presente. ALICE — Ela não vai morrer.

Ela não vai ficar boa. eu sei.) — Corália? Você foi ver Corália? ARETUSA .Fui. (Melancólica.) Sabe? O cabelo dela agora está branco como a neve.) . Alice.Quantos anos ela tem? ARETUSA — Quarenta. Parece uma velha. ALICE (Agoniada.) .) ALICE — É o papai. Mal sustenta a cabeça.Eu já disse mil vezes. (Ouvem-se as batidas do Professor. Ainda é muito cedo. ALICE — Não fale assim. não mudam nunca. não é bom. Todo mundo acha isso mesmo. Ele deve estar chamando Berta. Faz anos que ela está assim.ALICE (Assustada.) — Neste caso. Não sei. ALICE . Não tem esperança nenhuma. ARETUSA (Dura.) . Não é bom desejar a morte de ninguém. mas parece contente quando me vê. (Num sussurro. não vai melhorar nunca. Alice.. As duas se sobressaltam. Ou um bicho. acho que a morte seria melhor para ela. Sempre que eu venho aqui dou uma chegada lá. Acho que é só por isso que os pais dela permitem que eu a veja.E por que não? É a verdade. ALICE — Eu sei.E como ela está? ARETUSA (Amarga. ARETUSA (Irônica. não pode mais falar. Ela não pode mesmo ficar boa? ARETUSA (Cansada.) É estranho.) — E como é que você queria que ela estivesse? Ah. Já está na hora do almoço? ARETUSA (Remota. Quarenta anos. Mas eu sou a única que tem coragem de dizer.) . Ninguém sabe o que ela sente..Pode ser. ALICE (Confusa. Mas as coisas às vezes mudam. .) — Não. Você sabe muito bem: Corália não pode mais andar. mas.

Falam sem entonação infantil. As duas ficam atentas. Aretusa. Vou ver se precisa de ajuda.É só o vento.) Se a gente não soubesse ARETUSA .ALICE — Coitada. Ele gostava tanto do balanço. CENA 6 ALICE MENINA. dando o texto como um coro de tragédia grega. (Volta-se para sair. Você ouviu? arvore farfalhando. acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. Agora. como folhas de que cortaram a árvore. de repente. quase .) Você devia tratar dessas varizes. ouve-se o barulho do vento.) — Aretusa-Medusa. ALICE — Há mais de vinte anos Aretusa carrega esse segredo sombrio.Não. Você lembra? ARETUSA (Desinteressada. parece que o menino ainda está se embalando naquele galho.. ia dizer que está farfalhando. (Antes que Aretusa retruque. No começo. Como era? ALICE (Bem devagar.) Que engraçado.. Tempos depois. (Alice volta-se novamente para sair.. me procurava para desabafar. torna a encarar Aretusa. Da porta.. Lá estão parados Alice. Assim ela nem pode mais trabalhar direito. Às vezes. Mas você tem razão. ARETUSA MENINA. EVELYN MENINA e RENATO MENINO Durante as últimas falas da cena anterior. Aretusa olha bem para as pernas dela. Evelyn e Renato meninos.. à escuta.. Acho que não comentou com ninguém além de mim. lembrei como a gente chamava você quando era criança. agressiva.) . levemente maldosa. de repente. estáticos.

CENA 7 BRUNO e EVELYN A última fala de Aretusa. e a culpa não a deixa dormir.Você também ouviu? . porque Aretusa nunca escapará de Corália. RENATO — Talvez Renato a amasse. ARETUSA — Sempre que Aretusa se mira num espelho. que lhe cobra uma pequena indenização. Ela está dormindo. Eu estou aqui. está tudo bem. Duas pessoas que nada tinham em comum. casou-se com Renato. talvez enxergue por trás da imagem familiar aquele rosto inapagável. com o Palhaço nos braços. Ela insistia. EVELYN — Mal Aretusa cochilava.se entre o amor e a repulsa. mostra a si mesma que é louca e má. Assim. BRUNO . na cena anterior. Evelyn? Calma. o pé da cama.O que foi. Debate. EVELYN (Assustada. das maneiras desinibidas. mas de longe. Como se ela se punisse fazendo-o sofrer. da voz sensual. não saía de perto dele. com uma bandeja nas mãos.repentinamente.) . usava da sedução do seu olhar dourado. E não conseguem viver em paz. Bruno está ao lado. O som da risadinha faz com que Evelyn acorde sobressaltada. a parede. a aranha cinzenta começava a arranhar a porta. foi cortada pela gravação de uma risada infantil. como às vezes amamos o que é mais oposto. mais diferente de nós. A cama está cheia de brinquedos espalhados. A luz acendeu-se sobre o quarto de Evelyn.

.Não. (Ele abraça e fica embalando-a durante algum tempo. Não era nada. Como. Vinha de longe. larga a bandeja em cima da mesa e tenta devagarinho tirar o Palhaço de Evelyn.) — Não quero. então. EVELYN — Não.) .Não quero. paciente. Não eram batidas. EVELYN (Jogando a xícara ao chão e gritando.BRUNO — O quê? As batidas? Deve ser o Professor chamando Berta. até que ela se acalme. EVELYN (Resistindo. não.) — Está bem. você precisa ficar forte de novo.) Você não quer descer um pouco? Toda a família está aí. como uma.) — Só um pouco de leite. eu trouxe café e pão para você. . se você não quer. BRUNO .Só um gole. não. até Bruno desistir.. já disse! BRUNO (Enquanto ela abraça o Palhaço.) .. mas era muito claro. sem dizer nada. BRUNO — Mas não precisa comer... BRUNO (Falando como quem se dirige a uma criança. Até Renato veio.Eu não quero comer.) .Você sonhou.) — Só um pouco. EVELYN (Infantil. está bem. EVELYN . Eu não quero. EVELYN (Com raiva. Era outra coisa. (Passa a mão no cabelo dela. reunida.) Tome pelo menos um pouquinho de café. BRUNO (Cortando. Tenho nojo de leite. Todo mundo quer que você desça. Olha. Só um sonho..) — O Palhaço não! Me deixa ficar com ele! Me deixa! BRUNO (Senta-se ao lado dela e tenta fazê-la beber da xícara. Vai fazer bem.

Quero ficar cuidando dele.Nunca. Sempre faz tudo que eu quero. BRUNO (Um pouco assustado.o.Eu não quero comer. etc.. (Embala o Palhaço enquanto Bruno olha. EVELYN (Feliz.Você é tão bom comigo. .. ALICE — Berta. EVELYN — Mas casamento não é bom? BERTA ..) — Então eu vou abrir a janela. afasta-se da janela..) Por enquanto. EVELYN MENINA e BERTA Luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória. Se Berta vier me buscar.) — Está bem. você nunca casou? BERTA . só quero ficar aqui com ele. timidamente. Está um dia bonito. tem sol. Mas fique calma..Depende. Pra mim.EVELYN (Infantil. EVELYN — Como é que você sabe? Você nunca experimentou pra saber. se você não quer eu não abro. pode ser. BRUNO (Fingindo não ouvir. Pra uns. embala.) . beija-o.) — Você não quer descer um pouco e conversar com eles? EVELYN — Eu quero ficar aqui.. desanimado. BRUNO (Levanta-se e vai até a janela. Graças a Deus. Mais tarde eu desço um pouco. CENA 8 ALICE MENINA.) . enquanto Evelyn cuida do Palhaço como se fosse um bebê. não.

.. desculpe. Alice? ALICE (Embaraçada. . ninguém respondeu. Há também algumas revistas empilhadas sob a cama e também uma tesoura grande.) — Procurando por mim. Berta! Sou eu. ALICE (Chamando. sobre a saúde de meu pai. mas fingindo naturalidade. ouve passos que se aproximam.. Aí entrei. com fotografias de mulheres nuas.) Berta. De repente. BERTA (Entrando. homem pra mim é peste! CENA 9 ALICE e BERTA No quarto de Berta. eu. A luz revela um quarto muito pobre. Berta. não muito alto. por que você não se casa? BERTA . acendeu-se a luz no quarto de Berta. Ninguém responde Alice entra. Você não estava. Alice começa a remexer e fica muito espantada: são recortes de revistas. fecha aporta do guarda-roupa e a gaveta.) — Sim. bem vulgares.) — Não tem importância. parada. à porta do qual esta’ Alice adulta. eu bati. ALICE — Eu queria conversar um pouco sobre. Rapidamente. você está aí? (Bate à porta do quarto e torna a chamar. BERTA (Dando de ombros. Alice. No final da cena anterior. Alice abre a porta de um guarda-roupa e encontra uma colagem de mulheres nuas..ALICE — Berta. levemente irônica.) — Berta. A gaveta da mesinha de cabeceira está aberta e atulhada de papéis recortadas. Alice estd muito chocada. dessas que se encontram em pensões de rapazes.Menina.

De noite. Ele é que devia ter pena de mim. BERTA (Dando uma risadinha maldosa. Alice? . que trabalhei a vida toda.) Mas eu não tenho pena. E suja toda a cama.) E um inferno. (Suspirando. Só.BERTA — Então sente. Desde que eu era criança.) As vezes. um velho nojento.) — Metade do tempo acho que não sabe. Ele está ficando caduco. E a bengala. (Dura.) — Mas Berta. Ele não me parece nada bem.. ALICE (Penalizada. então? Você não ouviu as batidas da bengala? ALICE — Ouvi.só infeliz. Batendo.. (Com ódio. quando vai deitar. Quando eu subo as escadas. ALICE — Ele sempre foi exigente. BERTA . Vamos conversar. coitado. (Com nojo. (Ambas sentam na cama.) — Você sabe por que é mesmo que eu continuo aqui. Quanto mais velho fica mais exigente. Será que tem consciência do que faz? BERTA (Desinteressada. (hesitando. Mas que nada.) — Mas está pior. diz que fui eu que fiz a sujeira toda.. ele está tão velho. pede a comida no quarto e depois despeja tudo no meio dos lençóis.E não está mesmo.. ALICE — Mas ele não é mau. BERTA . Eu é que sei. como se procurasse a palavra exata) . batendo como um desesperado.Ele fica batendo no chão... Há pouco ele tornou a bater.) ALICE — Estou com pena de papai. Ele nem quer mais tomar banho. BERTA (Rancorosa.) Um velho caduco. se faz de desentendido e diz que não me chamou.

há tanto tempo. ALICE — Não é bem assim..) .Embora? Eu não! E para onde iria? Quem vai me querer. BERTA (Em voz baixa.) CENA 10 ALICE. desde crianças.) — Berta.) . Berta? Mas vingança de quê.. Tenho pena.) . A luz acende-se sobre ele. ALICE (Chocada.. ALICE (Sem entender.. o velho. Você nos conhece tão bem. ARETUSA. ah.) . sim. e sempre fomos muito retraídos. você: tenho pena de vocês todos. Você tem raiva de nós? BERTA — Raiva? Raiva. você quer ir embora daqui? BERTA . BERTA (Calma. Não fale assim. Berta? BERTA (Triunfante. meu Deus? BERTA (Com ódio e mágoa. Até parece que. Todos nós tivemos uma vida difícil. parado na escada.ALICE (Sacudindo a cabeça. Mas o velho. mas firme.Sempre fui como um cachorro nesta família.Sempre fui como um cachorro.) — A morte dele? Mas para que. PROFESSOR.Vingança? A sua vingança.Estou aqui para apreciar a morte dele.) — Vai ser a minha vingança. RENATO e BERTA .) — Não. em voz muito baixa. Evelyn. BRUNO. não. ALICE — Não é verdade. Renato. com ódio. agora que estou velha e imprestável? (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor. esse vai me pagar! ALICE (Colocando com cuidado a mão no braço dela.

os outros vão chegando. só desesperada. que está desinteressado. ARETUSA (Impaciente. ela não está louca.. não estou? E eu nem podia vir. Ela já comeu. só. Conversamos um pouco hoje de manhã.) — Bem. BRUNO — Uma clínica particular é cara demais. Até comeu melhor. então por que esse teatro de a gente se reunir aqui um fim de semana inteiro? BRUNO (Seco. agora quer descansar.) — A idéia foi sua. Alice. RENATO (Irritado. que ela age como se o menino estivesse vivo. Mas não se preocupem. Ficar aí parado não adianta nada. ARETUSA . e eu também notei. Não foi minha. Talvez consiga convencê-la. PROFESSOR . A os poucos.) — Evelyn não vai descer para o almoço. o Professor caminhou até sentar-se na cabeceira da mesa. Aretusa. não é? (Para Renato.Antes não tivesse vindo.) — Será que Evelyn não gostaria de descer e almoçar com a gente? Se você quiser eu subo. para Bruno. ARETUSA (Agressiva. BRUNO (Sentando-se. Ela está melhor.) . não minha.A partir da cena anterior.. ALICE — Melhor? Mas Bruno. ALICE (Cortando. não acha? Afinal Evelyn é sua irmã. Berta fica parada atrás. me disseram. Bruno é o último.O que é que você quer que eu faça? Eu pelo menos estou aqui. Além disso. achei que estava mais disposta. .Evelyn precisa ser internada. também podia se interessar um pouco. BRUNO — Não precisa. mas a responsabilidade é de todos.) — Se ninguém vai fazer nada.) E você.

PROFESSOR (Por um momento parece que vai reagir. (Quase gritando. honesto demais para ser bom comerciante.) — Aretusa. Não sei como isso é possível. como vão? RENATO (Mexendo a mão no ar.) — Um pai como o senhor acaba com a vida de qualquer um.) — Bondoso? Bondoso coisa nenhuma. para Renato. isso sim. Ele é um frouxo. BRUNO (Procurando aliviar o ambiente. me passa a água? Está tão quente. (Todos param de comer e voltam-separa ele. (Alice serve a si mesma e a Aretusa.) RENATO (Em voz baixa e clara. sarcasticamente.) — Renato tem um problema: ele é bondoso demais. ARETUSA (Agressiva. ALICE (Ainda tentando aliviar o clima.) PROFESSOR .O que é que você quer dizer com isso. Odeia seus próprios filhos.) — A única pessoa de quem o senhor gostou um pouco na vida foi Cristiano.) — Você nem sequer tem inteligência para inventar uma desculpa melhor.) — O senhor quer saber o que eu acho mesmo? Acho que o senhor nos odeia.Mais ou menos.E os negócios. mas encolhe a cabeça sobre os ombros.) — E você já viu uma refeição calma por aqui? RENATO (Pouco a pouco mais exaltado. depois de remexer no prato com o garfo por alguns instantes. Comerciante tem que ser mais safado.PROFESSOR (De repente. seu fracassado? ALICE (Tentando desviar o assunto.) RENATO (De repente. será que não se pode ter pelo menos uma refeição tranqüila nesta casa? BERTA (Irônica e imóvel.) — Pelo amor de Deus.) .) . Pior para o senhor que ele . (O Professor ri. mas é verdade.) O senhor nunca foi pai: é um carrasco.

agora chega.) — Me contaram que o senhor anda escutando ruídos. Renato caminha pela sala e.Renato.) Que maravilha! O senhor ainda nem morreu e já está cheio de bichos? Quero que apodreça. e o senhor nunca lhe deu amor nem atenção. Aretusa faz menção de levantar-se. mas desiste. Alice também estava lá. Aretusa estende a mão como se fosse tocar no braço do marido. cheio de ódio. Bruno olha com mágoa e surpresa para Renato.. Então os vermes estão comendo o senhor antes da morte? Que coisa mais bem feita! (Gritando.. na janela. solta um grito incompreensível. (Aretusa deixa cair o copo d‘dgua. acho que esqueceu. Berta lembra. ouviu? Que apodreça! Aretusa começa a chorar. foi ela quem lavou meu rosto depois.) Berta me disse também que logo antes de morrer nossa mãe pediu que ela tomasse sempre conta de nós. Muitas pessoas comentavam isso. Era quase uma menina. ARETUSA — Ele bebeu demais. lembra? Não. Para ela. mas permanece sentada. ele bebeu demais. pare! RENATO (Levantando-se da cadeira. Naquela vez.) . Ela morreu de tristeza. Ruídos de bichos dentro dos seus ouvidos. pode soar a gravação da risadinha infantil. de solidão. Bruno levanta-se e coloca a mão no ombro do Professor. Foi o que ela falou: ―O pai deles não tem coração‖. Berta me contou que nossa mãe morreu de desgosto. o senhor também foi um carrasco. Ele está doente.) . ARETUSA (Gritando. para torná-lo ainda mais indistinto.) Nem de nossa mãe o senhor gostava. . (O Professor derruba o copo de vinho na toalha. Renato sai.Lembra o dia quando o senhor esfregou minha cara no mijo do chão. Que confortável. ALICE — Renato. essa é a verdade. não? Pois eu me lembro. porque o senhor não tinha coração. Foi só isso. (O Professor começa a balançar a cabeça. o senhor sabe esquecer.morreu.) RENATO (Sarcástico. Junto com o grito. Ela preferiu morrer.

Você não quer um café.) — E tem. mas no cinema é outra coisa.) . esfregando os braços como se tivesse frio. Você nunca viu no cinema? ALICE . me ajude a levar o Professor para cima. (Alice vai-se curvando para ela.) — No cinema é fingido. bem devagarinho. tem gosto? . ALICE (Curiosa.. que permanece sentada. Os dois sobem lentamente a escada. ARETUSA (Maliciosa. ALICE — A língua? Não é meio nojento? ARETUSA (Rindo.) ALICE (Para Aretusa. Venha. Que é que tem? Depois põe a língua lá dentro. como se fosse abraçá-la. mas vai.) — Na boca. claro. sensuais e inocentes. amparando o Professor. acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. Enquanto isso.Café? ALICE — Então vamos até a cozinha.) ... Aretusa? ARETUSA (Remota.Nojento nada. (Berta resmunga. Aretusa? ARETUSA — Na boca.) . Lá deve ter café quente.) CENA 11 ALICE e ARETUSA MENINAS (As duas brincam.BRUNO — Berta. É muito melhor.) ALICE (Espantada. Na vida real é de verdade.Sim. E ótimo.

) ALICE — Aretusa. Vem cá.ARETUSA (Divertida. Aretusa está na janela.Quer que eu te mostre? ALICE (Meio assustada. Aretusa abraça-a. deixa eu te mostrar. ora.) — Gosto? Você quer saber se tem gosto? Ah..Eu queria saber como é.) . fumando e olhando para fora. ALICE . ALICE (Indecisa. assim.) — Não sei. Alice afasta-se. ARETUSA (Aproximando-se. . (Beijam-se longamente. ARETUSA — Não seja boba. um dia. ARETUSA . quer ver? (Levanta a saia.Saber pra que? Você nem tem namorado.) . É engraçado. você é louca! Você. (Alice aproxima-se.) — Engraçado? Engraçado é o que vou te mostrar agora. enquanto Aretusa acaricia os seios de Alice.) Feche os olhos. meio tonta. como você é inocente. mas sem brusquidão. isso.Como se beija.) Então. Acho que não é direito.Mostrar o que? ARETUSA (Muito perto.. solta o corpo. ninguém acredita..) . de costas para a platéia. ARETUSA (Rindo muito.) — Não sei bem. A cena se passa no presente. Alice. ora.. Uma santinha! ALICE . você pintou de louro! CENA 12 ALICE e ARETUSA No quarto. gostou? ALICE (Confusa. Alice...Mas posso ter. Se eu contar.

Depois. ALICE — Que dia mais triste.) . Acho que vai chover. como Bruno disse? ARETUSA (Suspirando.) — Alice.) .Não sei.) Vou me deitar um pouco. ALICE — Pode ser.Pensando bem. ALICE .) — Não diga bobagens. ALICE (Impressionada. ALICE .. Nem parece domingo.) Sabe. Acho que tomei vinho demais na hora do almoço.ARETUSA . ALICE (Divertida. fiquei abalada. ALICE . E aquela cena com Renato. (Intrigada. ARETUSA (Irônica. ALICE .O quê? ARETUSA — Nada. Vinho me dá um sono.Você entendeu o que ele gritou naquela hora? . Não sei. Alice. mas disfarçando. ARETUSA . mas age como se estivesse. Você acha que ela está melhorando. Faz apenas alguns meses que o menino morreu. quem sabe.. Deixei ela quase dormindo. ARETUSA (De repente. Até tenho medo de começar a escutar o menino correndo por aí.Coitado dele. a formiguinha laboriosa. ARETUSA — Pois para mim domingo sempre é triste.) — Eu estou velha. (Cansada. é tão estranho: ela não diz que Cristiano está vivo. Você está falando como uma velha. Pelo menos é assim que estou me sentindo agora. O tempo. ela se recupera. Fico meio ansiosa quando não tem nada para fazer. para mim também.O céu está ficando cheio de nuvens escuras.É que eu gosto de estar ocupada.Ou quase tudo.) — Estive com Evelyn há pouco. não é? O tempo é remédio para tudo. ARETUSA (Ambígua. Aretusa.

ARETUSA (Distraída. ALICE (Insistente. Seu irmão é cheio de complexos. de problemas. Na janela. Eu lembro que levaram nós três para a casa de um vizinho. mas tive a impressão que ele chamou nossa mãe. CENA 13 PROFESSOR.) — Ah. Aliás. ARETUSA — Ele bebeu demais. tanta coisa. fora isso não lembro nada daquele tempo. (Noutro tom. Por causa do velho. Renato observa tudo. ficou escondido e viu tudo.) — Mas o que foi que ele gritou? Pode parecer esquisito.) . Ele chamou Deus.) — Não. Devia lembrar. Ouvi muito bem. . ARETUSA . Fugiu da casa do vizinho.Renato viu. não sei de nada. é esquisito. estão o Professor e o Padre. não devia? Mas não lembro. Acho estranho. porque já tinha uns cinco ou seis anos. uma coisa assim.Ele quem? ALICE . E nós não vimos nada.) — Deus? Por que Renato se lembraria de chamar logo por Ele? ARETUSA (Vaga. aliás. sei lá. PADRE e RENA TO MENINO Nas últimas falas da cena anterior acendeu-se a luz sobre o Plano do Inconsciente/Memória Ao lado de um caixão de defunto. Você sabe melhor do que eu.Renato. Ele gritou: ―Deus!‖ ALICE (Intrigada.) Você sabia da história do enterro da sua mãe? ALICE — Não. Tem bebido muito. Escondido. Você acha que ele chamou nossa mãe? ARETUSA (Segura.

O senhor não tem dever de nada . PADRE (Brando. E o senhor. No fundo de seu coração. Ele chora baixinho.Ela está morta. PROFESSOR (Sarcástico. PADRE (Aponta o caixão. A luz diminui sobre ele enquanto incide. PROFESSOR. por favor.) serve para consolar os fracos. Deus nunca teve nada a ver comigo.) — Nessa hora. A gargalhada infantil corta a cena enquanto a luz acende sobre a próxima.. Professor.. PADRE .) Não acredito nessa fantasia. O Professor faz um gesto ameaçador e ele sai.) .O que é que o senhor está fazendo aqui? Não mandei chamar padre nenhum. PROFESSOR (Cortando. Eu é que tenho o dever de expu1sá-lo daqui ..PROFESSOR . PROFESSOR .) .. mas severo.Mas Professor. não precisa chamar nenhum padre. só isso. Acabou.Mas a sua esposa. PROFESSOR O seu lugar é junto dos que acredita na religião.A fé é problema de cada um. O Professor fala sozinho. o senhor disse alma? Encomendar a Deus? Deus? (Ri. para si mesmo.Preciso encomendar a Deus a alma desta nossa irmã. PADRE .) .No fundo de meu coração não existe fé nenhuma. O nosso lugar é perto dos que sofrem. saia daqui. (O Padre queria insistir mais. mais forte sobre Renato escondido. Deus nunca entrou dentro desta casa! (Cobre o rosto com as mãos.) Alma.) Deus. PADRE (Paciente. Saia já. que só .. Não aqui. eu tenho o dever de..

Vai tudo para dentro daquele saco. Acho até bom dar aulas. ALICE . ALICE — Mas que tanto ela guarda lá dentro? ARETUSA — Ah. Plantei umas roseiras.) — A sua mãe? Lembro. sei lá. Tão inseguro. Pelo menos assim saio um pouco. andei reformando aquele jardinzinho na frente de casa. acho que enlouqueceria. umas margaridas. Pois agora está ficando lindo. lembra dele? Era tão sem graça. Renato é aquilo que vocês sabem. Evelyn mantém os olhos fixos e o boneco nos braços.CENA 14 ALICE. E completamente caduca. tudo. (Rindo. ARETUSA e EVELYN No quarto de Evelyn. Lembra dela. Evelyn? EVELYN (Embalando o Palhaço. . ARETUSA — E não perdeu a mania. vejo outras pessoas.A gente tem que se manter ocupada. bem. Aretusa. Alice e Aretusa procuram distraí-la.) Olha só as minhas mãos como estão ásperas de tanto lidar na terra. Carregava sempre um saco abarrotado de coisas. Ela não joga fora nada. ALICE — Sabe. de tanto fazer força. ARETUSA — Mamãe? Coitada. lembro sim. (Suspirando. está tão velha. (Mostra as mãos.) Sem falar na cozinha.) E Renato. ARETUSA — Se eu ficasse o dia todo em casa. ALICE — Ela era cheia de manias. Já está com um ombro mais baixo que o outro.

um ioiô ou um carrinho.ARETUSA . A parte. Renato observa disfarçadamente.. EVELYN e RENATO MENINOS Enquanto elas falam.Você vai gostar. ALICE — É tão bom mexer na terra.) . Como é mesmo? . ALICE (Animada. ARETUSA (Sonhadora.Adoro jardins. plantar algumas flores. Tem umas que crescem tão depressa. Jardim é uma coisa tão linda. brincando. Hes. Já tenho alguma prática. EVELYN . enquanto finge estar absorvido com outro brinquedo — por exemplo. na cena anterior.A vida brotando. acendeu-se a luz no Plano do Inconsciente/ Memória.) — Posso te ensinar como se faz. Quando arrancarem o toco.Jardim de que? CENA 15 ALICE.) Quando arrancarem aquele toco de álamo no pátio. você lembra do Jardim das Hespérides? ARETUSA .. Você planta num dia e no dia seguinte já tem um verdinho brotando..) — Está bem. Talvez essa cena possa ser feita também junto ao tronco decepado da árvore. ARETUSA. ALICE — Das Hespérides.. EVELYN (Distraída. ARETUSA .) — Aretusa. Depois ver as plantinhas crescerem. você bem que podia fazer uns canteiros.Mas o que é isso. para Evelyn. (Para Evelyn. Jardim das Hespérides. ALICE (De repente. As três estão sentadas.

ALICE (Paciente e um pouco exibida.Nada. . princesas. ficar o dia inteiro cuidando duma árvore.. Era muito má. E uma delas tinha o seu nome. ARETUSA . Evelyn sem entender muito bem. aquela da cobra. fadas. EVELYN — E que árvore era essa? Árvore do Paraíso? ARETUSA (Maliciosa. ARETUSA (Querendo mudar de assunto. Ela olhava as pessoas e daí as pessoas se transformavam em pedra. Alice e Aretusa muito cúmplices.) EVELYN (Impaciente. Mais ou menos isso.) – Mas o que mais essas Hespérides aí faziam? ALICE .) — Então tá. Eram umas bruxas. dançavam. laranja.Deus me livre! Eu tenho horror desse nome. Ah: tinha também um dragão de cem cabeças. ALICE (Meio irritada.) — Não. cantavam. ARETUSA .) — Hes-pé-ri-des.De dançar eu gosto.Como? O que é isso? ALICE . EVELYN — Mas então devia ser muito chato.) — Bom. acho que elas não faziam só isso.) — Ela não matava as pessoas. Ainda mais com um dragão do lado. Aretusa. No livro não explica direito. Vai ver. Assim que nem maçã. ARETUSA .. No colégio todo mundo me chama de Aretusa-Medusa.E uma fruta. não sei bem. (As três dão risadinhas e cochicham. unindo as cabeças. Imagine. era a Árvore do Pecado. Só diz que elas cuidavam dum jardim onde tinha uma árvore com pomos de ouro. EVELYN — Medusa não era aquela que tinha cabelo de cobrinha e matava as pessoas só de olhar para elas? ALICE (Exibida. cuidavam do jardim com a árvore. Decerto bordavam também. Vamos brincar logo. essa era outra.

RENATO (Animado. Juro.Não pode.) .Você jura que não chama? EVELYN (Beijando os dedos em cruz. ARETUSA .Eu quero brincar também.Você o quê? RENATO . E o álamo pode ser a árvore dos pomos de ouro.Eu? EVELYN (Agressiva. Aretusa? Você não gostou da história? ARETUSA — Da história. O que é que eu sou? ALICE . ALICE — Mas por quê.) .) . ARETUSA (Para Evelyn. gostei. Eu sei o que ele pode ser. ARETUSA (Maliciosa.ARETUSA . O dragão de cem cabeças. Esta brincadeira é só de meninas.Um guarda do castelo? Um pomo de ouro? ARETUSA (Rindo. Você tem que ser Aretusa.Mas eu acho que não quero brincar disso.Por esta luz que me alumia. RENATO (Aproximando-se. (Ouvem-se as batidas da bengala do Professor. O que eu não quero é me chamar Aretusa.) . ALICE — Ninguém chama.Então está bem.) — Deixa ele brincar.) . Senão me chamam de Aretusa-Medusa.) — Não.) CENA 16 ALICE e ARETUSA .

Alice ri.. Só pode ter sido Evelyn. rápidos. almoçando.. (Crítica. leves. ARETUSA (Implicante..) — Claro.Pareciam uns. ALICE (De repente. Alice. calma.No quarto. E você. logo depois que Renato deu aquele grito? ARETUSA .) — Deve ter sido sua irmã. o problema é seu. . por que é que você ainda usa esse penteado? Envelhece uns dez anos.) Alice.) — Uns passinhos.) — Cuidado. As duas estão se preparando para o jantar. O resto da família estava lá em baixo. você não ouviu alguém correndo aqui em cima. cuidado. ALICE . Alice? (Não parece impressionada e começa a vestir-se. se quer parecer mais velha ainda. em tom misterioso. ARETUSA .. ARETUSA — Bem. mas Aretusa.. Só pode ter sido ela. sabia? ALICE (Dando de ombros. uns passos. ALICE (Disfarçando a perturbação. Alice já está vestida e arruma os cabelos. de combinação. ALICE — Acho que estou pronta.) Estou pronta. ARETUSA (Dando de ombros.) ALICE (Misteriosa. não vai se vestir? ARETUSA — Calma.Não ouvi nada. um pouco nervosa. já vou.) — E o que tem isso? Eu não me importo.. Você ainda não tem cinqüenta anos e já vai começar a caducar? (Ambas já estão completamente vestidas. Pareciam passos de criança. fuma preguiçosamente.Que passos.) — Aretusa.

ARETUSA (Para Renato. Amanhã a gente vai. você não pode parar com isso? Já tem tanto problema aqui. ARETUSA (Irônica.) — Tudo bem. ALICE (Irritada. Berta ajuda o Professor a sentar-se. vamos descer? (‗A risadinha gravada finaliza a cena. ao menos vamos comer em paz. em paz.. Pena que é por tão pouco tempo. a princípio.) CENA 17 TODOS PRESENTES No final da cena anterior.) . ALICE (Sorridente. Evelyn tem o Palhaço no colo. imitando. . Enquanto Alice e Aretusa descem.) — E nós. ARETUSA (Irritada. em pé Tudo é lento.) .Então.Tudo bem. Alice. tudo bem. RENATO (Imperturbável. Talvez meio ritualístico.) — Acho que amanhã também. Amanhã de manhã já tenho que voltar. ARETUSA (Agressiva. Berta coloca-se à parte. quando vamos? RENATO (Distraído. queria só ver se ficava tudo bem. Para você está sempre tudo bem. Renato e Evelyn também sentam. Claro. a luz acendeu-se sobre a sala de jantar.) — Aretusa. Mas se não fosse eu. não sei.. mas com certa delicadeza.) — Não se meta. Comem devagar. não é você quem se mexe.) — Que bom que estamos todos juntos. passando-se os pratos em silêncio e.Como não sabe? Eu tenho que dar aula amanhã à tarde. Bruno.

não tinha vontade de vir. Alice.) Sua irmã meio louca de dor e você por pouco nem vinha. levantando cedo todos os dias — e apesar de tudo me sentindo feliz com essa vida. Nem o seu marido e os seus filhos você ama de verdade. que tenho dedicado aos outros a minha vida toda.) — Eu? Logo eu. hein? (Cada vez mais alto. Alice. já notou? ALICE .. Senti na sua voz. (Desafiadora. sempre cheirando a fritura. Alice.Seu pai conhece você há muito tempo.Eu não julgo ninguém.) Você não ama ninguém. esfolando as mãos..) O que? Você está contra mim? Mas Renato.) — Alice.) . apenas porque tem medo da solidão.) — Você não desconfia que sempre estraga os encontros da família? Não desconfia que está destruindo a vida de meu irmão? RENATO (De repente. não venha se fazer de santa. Você.. A galinha choca dos filhos.Nem ama ninguém. Nunca amou. acho bom você não se intrometer.) — Ora. apodrecendo! Onde foi que você andou esse tempo todo.Você não sabe o que está falando.) Isso mesmo: feliz.. Quantas vezes você o visitou nesses anos todos.ALICE (Agressiva. ALICE (Espantada. ALICE (Chocada. ARETUSA (Lenta e cruel. banca a escrava deles. Pegava mal você se desinteressar completamente. ARETUSA (Debochada. E seu pai aqui. Ele conhece a família que tem. ALICE (Indignada. Como pode falar assim diante de papai? ARETUSA . Você tem a obsessão de julgar os outros. desde . Apenas aceitou porque pegava mal.) . Faz tudo por eles. não venha. parando de comer. esquecendo a aparência. eu estou tentando defender você! ARETUSA (Cortante.) Não queira ser a palmatória do mundo. (Mais alto.

quem é você? Pensa que só porque teve outra educação. Alice.) Você acabou também com aquela menina. decente? Decente. e é verdade. ALICE (Levantando-se e derrubando a cadeira. ARETUSA (Irônica. é melhor do que eu? Você uma vez me disse que destrói as coisas ao seu redor. esqueceu? Quando a gente ficava sozinha? A santinha esqueceu. Você estragou a vida de Renato. ARETUSA (Vulgar. Mas recompõe-se. logo você? Como é hipócrita! Já esqueceu o que você fazia comigo no quarto.. antigamente. é isso. E não foi só isso.. Você não tem direito! ALICE (Fora de si. Corália.. como gostava! .. Aretusa? Não basta Corália? ARETUSA (Gritando. não deixa aquilo..) — E você.) O maridinho não quer isso..) — Duas noites? Duas noites inteiras? Mas que sacrificada. Agora quer outra vítima. como se fosse chorar. Tem inveja porque levo uma vida decente.Pare de me acusar! Afinal. a patetinha. Alice? A doméstica. Fiquei duas noites inteiras.. Ah. dez. (Lenta e cruel. Que ridículo! ALICE — Você tem inveja de mim.. quinze noites. sim. porque é independente e trabalha fora. hein? ALICE — Fiquei. Enganou a todos.) — Digo e repito quantas vezes eu quiser: Corália! Corália! ARETUSA (Cobre o rosto com as mãos. Ele só come a comida que eu mesma faço.) — Não diga esse nome.que se casou? E quando Cristiano estava no hospital. com essa história de que só faço que ele quer. Até perdi a conta. (Imitando.. Pois eu fiquei cinco.) — Você. Inveja. que se transformou numa morta-viva por sua culpa.) . até o marido. mas bem que gostava. quantas vezes ficou à noite com ele..

Evelyn aperta-o mais nos braços.Alice. ALICE (Gritando. começa a chorar. como se fosse tomá-lo. um por um. Todos olham para Alice que.) Acha que é a única mulher do mundo a perder um filho? Cristiano está morto.Cale-se! ARETUSA . você não está segura. Evelyn! EVELYN (Para os outros. é uma ordinária..Sei a história de Matias.) EVELYN (Passando a mão no braço de Alice.. Evelyn.) EVELYN . Alice? Até o nome dele guardei. (Aponta para o Palhaço.) BRUNO .) — Acabou. a dona-de-casa . Vocês não sabiam. Alice. sim. Sei de tudo. Alice. Convença-se: ele está morto. Pensa que Aretusa já revelou tudo? Ela é louca. atemorizada.ALICE . mas eu sabia. (Evelyn recua. tenha cuidado com o que fala.É a história mais ridícula do mundo. ALICE . Bruno a abraça protetoramente. assustada. Sei a história de Matias. (Olhando em volta.Pare com isso. agora tudo acabou.Evelyn.) — Não chore. Não foi por mal. você mesma me contou.) — Tirem ela daqui! Ela está louca! (Ninguém se move. Alice. (Evelyn encolhe-se.) Sei de tudo. Você pensava que estaria segura na sua vidinha confortável enquanto os outro iam se desgraçando? Não. Está vendo. porque não éramos mais crianças! (Aretusa levanta-se e sai de repente. EVELYN (Afastando Bruno. Ninguém está.O que a gente fazia.) Mas o que é que todos somos? (Lentamente. ALICE (Afastando brusca a mão de Evelyn) . hein? Não vá me dizer agora que era brincadeirinha de criança. Alice.) . a boazinha. quer saber de uma coisa? Estou farta do seu teatro. parada.) E esse boneco nojento não vai substituí-lo.

como era doce com ele. a cada momento. Matias. Alice hesita por uns momentos. Matias só existe na cabeça dela.) . o que sente. em lençóis alheios? Ah. depois senta-se. O que faz com ele. e por um momento é como se fosse fazer um gesto em direção à Alice. Tudo isso. (Levanta-se e joga o Palhaço na cara de Alice. Ela tem que se tratar. essa sujeira. PROFESSOR (Batendo a bengala. Bruno sai atrás chamando..) RENATO (Levanta-se inibido. Boa-noite. mas foge de casa e vai trepar com outro homem! BRUNO (Tentando abraçá-la. está na hora de subir. (Sai. Você teve um amante. Aretusa Menina. Finge de santa. Alice Menina. ALICE (Em voz baixa. Matias. parados nos quatro cantos do palco.se e ajuda-o nas escadas. Vocês nem adivinham. Renato bate ritmada e irritantemente com a faca no copo.) — Berta.) Cadela! (Sai correndo. Mas contém-se. Apanha . EVELYN (Desvencilhando-se.) Ela tem um amante. Ela tem um amante! Isso mesmo: um amante.) — Eu vou dar uma volta.) Sozinha na sala. Saem. Alice? Você rolou com ele em leitos escusos. Evelyn Menina e Renato Menino. Um amante que se chama Matias.) -Mas o mais engraçado vocês ainda não sabem. Alice? Ou foi tudo invenção da sua cabeça? Faz diferença saber? (Levanta-se. essa traição. Uma vergonha! (Gritando. Alice. esse amante.) — Você teve mesmo um amante. E invenção dela.. sim..) RENATO — Evelyn está doente. foi inventado. por favor. O Professor continua a comer como se nada tivesse acontecido.honesta. (Berta aproxima. mas é possível.Evelyn. onde há um caixão de defunto e. é verdade. Acende-se a luz no Plano do Inconsciente/Memória. Pensam que não é possível. ela me contou. fique calma. Berta parada..

mas acabei sendo Alice. sem se importar se o outro conseguiu escapar. E falam sem as características das suas personagens: são como fantasmas. Berta tentou nos acolher no seu avental fedorento. a de mãos ásperas e coração agoniado. RENATO — Fomos uma ninhada de cachorrinhos que brincam juntos. animais. a coitada. Somos bichos de focinho sujo. E a minha vida. mas logo são capazes de se dilacerar por um naco de carne. ALICE — Eu tinha outros planos para minha vida. enquanto eles falam. como se ocultasse no fundo coisas muito mais terríveis. num terreno baldio. ARETUSA MENINA. o que eu fiz com a minha vida? O quê? . Uma gargalhada infantil corta a cena. fui para um proprietário menos exigente. escorraçadas. Feras encurraladas nesta sala. EVELYN — Crias sem mãe.) CENA 18 ALICE MENINA. Sai. Troquei de dono quando me casei. Umas crianças solitárias. menos violento — mas meu dono. na moldura do espelho rachado que aceita essas imagens tão placidamente. EVELYN MENINA e RENATO MENINO A luz mantém-se ainda sobre o Palhaço. esquisitas.o Palhaço e senta-o no centro da mesa. no centro da mesa. sem olhar para trás. mas não deu certo. E na hora do perigo correm cada um para o seu lado. ARETUSA — Como feras.

) — Então. Todos sorriem e tomam seu café. Ela dormiu melhor essa noite. RENATO . Renato e Bruno. afetuosa. ALICE (Para Renato. ARETUSA. Aretusa. feliz por voltar para casa? ALICE (Tranqüila. está ótima. Alice. Manhã de segunda feira. (Noutro tom. tudo bem. Chove muito. de robe. Ela não vai descer. Todos estão calmos e compostos. BRUNO. (Uma pausa.) — Berta.) — Pelo contrário. Só precisa de repouso agora.) Sabe. A chuva forte dá vontade de dormir. pode levar a bandeja para Evelyn.Feliz.) — Você não ficou dolorido? Duas noites seguidas naquele sofá acabam com as costas de qualquer um. BERTA.) . Há uma toalha limpa sobre a mesa onde estão Alice.) Você me alcança o açúcar? Alice alcança. para Alice. numa hora em que meu marido estiver de bom-humor.Evelyn não está bem? BRUNO (Sorridente. que sorri sem levantar o rosto. Alice olha devagar em volta. Tudo bem. BRUNO (Para Berta. tomando café. RENATO. Aretusa desce a escada.) ALICE (Para Bruno.) . com cara de sono.Não. ARETUSA (Acendendo um cigarro. MARIDO e FILHO Na sala. Berta está parada atrás. vou pedir para colocarmos um . (Berta apanha uma bandeja com café e sai. Passa a mão no cabelo de Renato.CENA 19 ALICE.

tornando café. Berta recortando revistas. Ou fantasmas do passado que continuam a habitar a casa. Dizem que dá impressão de mais espaço.talvez com a gargalhada infantil. Porto Alegre. Ninguém diz nada.) http://groups. exatamente como na primeira cena do primeiro ato. se acariciando. O Marido e o Filho estão à mesa. A luz apaga lentamente. Renato Menino preparando a arma. calor de 40º.espelho grande na sala lá de casa.google.com/group/digitalsource http://groups. Evelyn embalando o Palhaço. em resistência. Ou de brusco. Passa o leite? Alice estende-lhe o bule de leite. acendem-se luzes e sobre algumas das cenas já’ vistas . acende-se a luz sobre a sala da casa de Alice. Nos outros planos. São como quadros vivos. o Professor no quarto. Em outro plano.com/group/Viciados_em_Livros . Alice e Aretusa adolescentes. num soco .google. (Em fevereiro de 1984. O que é que você acha? ARETUSA (Sorridente.Corália na cadeira de rodas. As duas se olham longamente.) -. etc.

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