19Introdução

Introdução  Alfabeto e educação Nossas escolas primárias estão especialmente – se não exclusivamente –montadas para o ensino rudimentar da leitura e da escrita. Razões históricas têm levadoa confundir os problemas gerais da educação popular com o mero aprendizado das pri-meiras letras. Alfabetizar e alfabetização são palavras que nossos dicionários registra-ram antes que os de outras línguas. Temo-nos insurgido contra esse modo de encarar afunção da escola e, desde muito, em estudo de síntese das novas tendências da educaçãoprimária, procuramos demonstrar quão errônea se nos afigura essa limitada política doabecê (cf. Lourenço Filho, 1940, 1944, 1969).A escola popular carece de ter hoje função socializadora muito mais profundae extensa. Alfabeto e cultura não são sinônimos e, muito menos, alfabeto e educação. Poresta temos que entender adaptação convinhável ao tempo e ao meio, orientação das novasgerações aos problemas da vida presente, já nos seus variados aspectos de defesa da saúdee produção da riqueza, já nos de equilíbrio e melhoria das instituições sociais. Ajustamentoenfim às possibilidades e necessidades de cada região, com respeito aos quadros do tem-po – ou educação de base, como o define a Organização das Nações Unidas para aEducação, Ciência e Cultura (Unesco).O aprendizado da leitura e da escrita por certo que aí entra – em tal conjuntode técnicas adaptativas – como processo elementar, mero instrumento, nunca a finalidademesma. 1 Se um argumento vivo para o caso brasileiro devesse ser lembrado, bastariainvocar o fracasso social que o ensino das escolas rurais representa em quase todos osEstados. Já uma vez salientamos o inocente sofisma de onde brota a confusão do ensino 1 Foi nesse sentido que o A., quando chamado a dirigir pela segunda vez o Departamento Nacional de Educação, de 1947 a1950, organizou a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos, que, nesse prazo, atraiu a cursos noturnos mais detrês milhões de analfabetos. O programa dessa Campanha não era – nem é –

o problema se apresenta sobfeição das mais prementes. a fim de homogeneizar as classes queo tenham de fornecer. em relação à totalidade da população. Se a alfabetização não é o problemafinal da cultura. oproblema preliminar e único da cultura brasileira – como não será na de povo algumem condições idênticas às nossas – nem por isso deixa de ser digno de atenção especial. e esta. continua a ser aqui.Na escola popular. imprimindo-lhes ao trabalho maior rendimento. como em toda parte. a leitura e a escrita representam o problema crucial. Sem significação imediata ao político. de organização do trabalho mediante “ensino visual” por diafilmes. no entanto. desde que estrita-mente compelido em traçar planos de educação que visem ao equilíbrio e progressosocial em dado momento.por etapas sucessivas. ao mestre primário. como já o temosfeito. semexpressão cultural correspondente à percentagem dos que saibam ler.Não é aqui o lugar indicado para maior análise da questão. 20Testes ABC de primeiras letras com o da educação popular: o de assimilar-se a fase inicial da culturade um povo iletrado como o nosso com a do indivíduo ignorante. ao . o problemada leitura e da escrita é daqueles que. e imaginar-se que aconstrução de cultura no plano social se deva fazer. onde quer que uma escola popular esteja aberta. igualmente à do plano individual. missões culturais ecentros de iniciação profissional. “Como falar em cultura. de civismo. quenenhum argumento logra iludir. noBrasil.A história demonstra que tem havido cultura sem alfabetização extensa.assim. o esforço empregado na organização de meios que verifiquem a maturidade necessária à aprendizagem da leitura e da escrita. problema técnico fundamen-tal do custoso aparelho criado pelo Estado para mais pronta difusão dos elementos básicos de cultura individual. tradicional ou renovada.mas. A cultura não é apenas a escola de primeiras letras extensa. se 40% dos brasileiros de 15 anos e mais são analfabetos?” – perguntam sinceramentemuitos dos que escrevem acerca de nossos problemas de educação.  Localização do problema Porque se a questão da alfabetização extensa não é. em nosso entender.apenas de alfabetização. mas de difusão denoções de higiene. Não confundamoso instrumento e o resultado especial da obra – mas não desprezemos o instrumento esaibamos localizar o problema que dele decorre. 2 Sugerimo-la apenas para localizar o problema específico deste trabalho e justificar.

mestre. pondera Gates(1932. Nenhuma outra matéria apresenta tão sériasdificuldades no ensino primário. no 6º. Ver. prática que a maioria denossas escolas não tem encarado como primacial. pelos exercícios escolares correntes.por parte do próprio discípulo. em numerosos países. 5  Como a questão tem sido encarada . 3 O hábito de bem usar dessas técnicas elementares e o da iniciativa de seu uso. no 3º. já em 1927. 56%. 33%. p. sem transformação radical do uso da leitura em nossas escolas. no 5º. sobre o papel cultural do ensino primário e do de outros níveis foram expostas. Ver também Witty e Kopel (1939). a propósito. exercício de exceção navida real. a melhoria de condições do aprendizado inicial sempre representará progresso de economia e eficiência. 5). se apresenta como fundamental. 21Introdução transformação ou sem ela. e os resultados dos dois primeiros anos de estudos parecem ser decisivos. no 7º e 8º ainda 25%. com essa 2 As idéias do A. 4 Nas escolas brasileiras. a leitura vemtomando a sua verdadeira finalidade para pesquisa e autocultura por parte do próprio aluno. 3 Nas escolas americanas. Bastará lançar os olhos para a percentagemde repetentes de 1° ano.90%. 70%. e jamais conseguida. devem ser preocupação constante do mestre e o objetivoverdadeiro desse aprendizado. tantopelas exigências da organização do ensino graduado quanto pelos reclamos sociais. a Série de Leitura Graduada Pedrinho e o guia do mestrepara ela preparado. no 2º. ainda em boa parte de nossas escolas. 99. De há muito. no 4º. Tais hábitos não se inculcam às crianças e aos adolescen-tes.15% das crianças não promovidas do 1º ano ou grau o devem à deficiência em leitura. 40%. no livro Juazeiro do Padre Cícero . 4 Mas. a leitura tem mantido a falsa noção da finalidade da “leitura expressiva”. aliás.

Os mestres brasileiros têm procurado uma panacéia. Tomado aos ameri-canos. da venda dedeterminado tipo de cartilha. Melhor e mais rápido é uma lei de nosso tempo. levando a criança à finalidadeexata e perfeita do aprendizado. em virtude da grafiainglesa. Sua influênciatem sido enorme e. cada qual recomendável por certo aspectoparticular.A chamada “leitura analítica” em pouco tempo por aqui se disseminou.Se se der um balanço às tentativas para melhoria da aprendizagem inicial daleitura.O problema de eficiência e rendimento tem preocupado sempre os mestres detodo o mundo e.muito embora não possa ser comparado em número e valor ao dos especialistas america-nos. os seus propagadores no Brasil. São cartilhas das mais variadas espécies. um sem-número de artifícios. O problema tem-se-lhes afigurado como restrito aodos procedimentos didáticos. Do anacrônico aprendizado pela soletração e pela Carta de nomes.centuplica a produção e faz viver intensamente. Verificação idêntica foi feita nas escolas do antigo DistritoFederal. dese-josos de ensinar a ler e a escrever a todos. Mas digamos também que.em 1930.Pode-se ensinar a ler. nem sempreexposta em seus princípios verdadeiros. pelo menos. dominós. por mil e 5 Nos grupos escolares da capital de São Paulo. À falta de uma teoriadefinida do processo. . foram encontrados 45% de repetentes. O que aqui desejamos assinalar tão-somente é que o esforço de nossos mestres tem sido unilateral. por certos aspectos.lotos. esse sistema tem concorrido para que desprezemos uma das facilidades de nossalíngua: a escrita quase inteiramente silábica. nos últimos tempos. 320). É humano. à leitura globalizada e inicialmente com sentido. rápida e facilmente. por exemplo. em que o lado sentimental e. muitas vezes. 3 e 4. e a ler bem. não tem sido o menos importante. 6 Afastar-nos-íamos do assunto deste ensaio se pretendêssemos a n a l i s a r detidamente a questão. rapidamentepassamos à palavração e à sentenciação. de modo considerável. Boletim de Educação Pública. em que a máquina aproxima as distâncias. a “leitura analítica” tem concorrido para com-plicar o problema da leitura inicial a muitos mestres. e. benéfica. p. os mestres brasileiros. têmformado partidos. sem prejuízo algum de seu desenvolvimento. Mas nãointeressa à técnica escolar. criaram-na. Muitos deles repetiam o ano pela terceira e quarta vez. nesse esforço. n. jogos educativos. nos 50 anos mais chegados. cadernos. metodicamente. em 1932 (cf. para o total da matrícula do 1º ano. posteriormente. verificar-se-á que o contingente brasileiro é notável. o comercial. Distrito Federal. asmais das vezes com acentuada carência de conhecimento psicológico. onde a leitura tem que ser ensinada quase palavra por palavra.

12. Novaspesquisas. com o seuconhecido La méthode d’enseignement universel . em 1933 e 1934.9.0seriaperderumtempoprecioso.0.feitas pelomesmoautor. para início da apren-dizagem.demonstra-ram que a vantagem de iniciar-se o ensino aos 6. se bem que menor. São clássicosarespeitoostrabalhosdeV.A situação nas escolas do DistritoFederal melhorou. a expunha noopúsculo De la manière de apprendre les langues . de Sara Louise Arnold (1899). outrasenfimde7. das quais umas haviam aprendido a ler a partir de 5.0. outras de 6.10. veja-se Reading: how to teach it . 8 Em suas primeiras investigações.dasquais400deescolasurbanase118deescolasrurais. com 12. em suaopinião. o segundo. Para aludir a obra mais recente (e à qual se vai radicar o movimento depropagação no Brasil. por outro lado. conforme os dados da publicação Desenvolvimento do sistemaescolar do Distrito Federal (1934). Jacotot. a fixação da idade simplesmente cronológica.7–7. poisa conclusão do curso primário se dava.iniciadaaos5.0. ou real.0–6. a iniciativa parece ter partido do abade Radonvillers que. o terceiro com 12. em média.0. pois.verificouVaney (1908a) que o primeiro grupo atingia.0. 8 . Investigações acerca da idade cronológica Aliás. já em 1768.com518crianças. Parecia-lhe nãohaver.Vaney. na Escola Americanae na Escola Modelo Caetano de Campos). Segundo Simon. mas detentativas empíricas.9(Vaney.0 ainda era evidente. acompanhando115 crianças. renovou-a Nicolas Adam e. em média. Em 1787. tem sido estudada por vários autores.0anos. consideravelmente.3e12. vantagem alguma em iniciar os estudos primários aos 5.aos12. partir dos 7. graças ao trabalho inicialmente desenvolvido em São Paulo por Márcia Brown. em 1818. 6 O aprendizado da leitura pela sentença e pela palavra não surgiu da aplicação de leis psicológicas definidas.1908b). queprocurouverificarosbonsouosmausefeitosdaaprendizagemdaleituraedaescrita.0. a conclusãodos estudos primários com 11.

Indicamos assim a idade em anos e meses. .

é óbvio. As pacientesobservações. nuncapara se concluir. E o que importa para os problemas práticos reais não é saber qual a idade emque a média das crianças aproveita.24Testes ABC Tais conclusões têm hoje valor histórico. em média.ou a que regime deverá ser sujeita. As observações de Vaney estiveramsujeitas a múltiplas causas de erro e só serviam para o primeiro desbaste do problema. e Simon. . mas. daí. João. na Alemanha. qual o momento em que esta criança. com melhor aproveitamento. por Stanley Hall. iniciadas em jardins de infância. que a idade ótima para certa e determinada criança seja a de seis oude sete anos. sim. nos Estados Unidos. um problema de maturidade a investigar. para que isso possa ser obtido. no caso.Benedito ou Maria.Que há. sujeitos a determinado trabalho escolar.Huth. num grupo de indivíduos. está apta para receber o ensino da leitura.que seria o de demonstrar a existência de uma idade ótima para início do ensino primá-rio.

por vezes. a afirmação categórica de Huth (1929) de que “é um verda-deiro absurdo querer iniciar crianças com menos de 6. tão acentuadas. Stanlley Hall ( apud Köpke.0 anos. podemos verificar que a percentagem dos que aprendem nasidades mais avançadas (8. Sucede também que há crianças de 5. que. (Simon.6 e sobretudo de 4.0 anos. esse autor declara que a maioria das crianças de 5. porém. A . mesmodepois de um ano de escola maternal. quando consideramos grandes grupos de crianças.0 e 9. tomados ao acaso. com relação a grupos suficientemente nume-rosos de crianças das várias idades a considerar – nunca. de criança para criança. Mas as pesquisas de cadaqual padecem do mesmo critério do valor global. somente expomos como as coisas se passam.0 a 6. continuam incapazes.legitimamente. para certo e determinadoindivíduo.na generalidade.dentro das idades menos avançadas (6.0).Mas o probidoso experimentador acrescenta: Claro está que. ao nos exprimirmos assim. pela idade cronológica pode ser feito. Há pessoas que informam conhecer crianças de 3. em termos de probabilidade.0 a 5. variação essa.na França.0 (chez le plupart. 1916) era levado a concluir que entre os 5. enorme. Com crianças de 4. Em vista dessas variações individuais.0capazes de copiarem. quando assim generalizada.0 e 9.0 anos de idade é que esta é a fasede interesse e facilidade para a aprendizagem da leitura. chez la três grande majorité) copiam todas as letras de maneira reco-nhecível. não para averificação individual. no mesmo prazo.As observações de Simon o testemunham.0.0) é maior do que aquela que aprende. assim. Assim.0 e 7. nos processos da escrita”parece-nos de escassa validade.0 e 8. Mais cuidadoso em emitir qualquerparecer sobre a idade cronológica. só a metade copia o modelo de modo reconhecível.0 a6.O prognóstico de aprendizagem. den-tro das idades 5. provam-no de sobejo. conclusão essa de evidenteprecariedade para os efeitos de aplicação.O que a observação diária nos demonstra é que. 1924). hávariação na capacidade de aprender a ler e a escrever.0 anos. para médias de crianças. 9 Por outro lado.

Davidson (1931. aliás. diagnóstico para um prognóstico.3. ànoção empírica de uma idade escolar . publicou uma tabela de exames. que não se apresentam de forma idêntica em cada criança. 10  Investigações sobre a idade escolar e retardados O fato de não haver relação constante. lia correntemente.0 anos devemos ao autoralemão Weygandt ( apud Lafora. depois à classificação a posteriori dos retardados.Não seria ainda uma verificação precoce. primeiramente. As verificações estatísticas demonstram correlação. três anos.A seguir. Temos a observação de uma criança que aos 3. As primeiras tentativasdas normas para a verificação da idade escolar entre 7. 155) que. que está longede ser completa. mas.tornaram-seconhecidosostrabalhosdeVaney .6 copiava de maneira perfeitacaracteres de imprensa. que não estão submetidos apenas ao fator tempo de vida. p. p.logo adotada oficialmente pelo governo da Baviera. são. levou alguns pesquisadores. assimtambém a outros.são bastante expressivos. em 1905. em relaçãoao andamento do ensino para a média das crianças de sua idade. ao contrá-rio. e mais. eaos 6. em estudo publicado nas Genetic Psychology Monographs.2 começava a ler silabicamente. Aos 4. personalíssimas. o caso de uma criança quelia correntemente aos três anos e sete meses.razão é simples: naquilo que chamamos capacidade de aprender influem pro-cessos evolutivos. mas simplescertificação de uma realidade: há crianças que se retardam por dois. entre o progresso na aprendizagem daleitura e escrita e o da idade cronológica. escrevia de memória as letras que se lhe ditavam. Os fatos. P. 119) cita. entre a capacidade de aprender e a idade cronológica. Julgar da capacidade de aprender tão-somente pela idade cronológica 9 H.0 e 13.1927. 25Introdução será desconhecer os fundamentos do próprio processo de desenvolvimento.

exigir-se-iam trêsanosdeatraso. comfreqüência às mesmasescolas. desde que não contassemmais denove anosdeidade. foi mesmo o critério do aproveitamentoescolar que lhe sugeriu uma classificação dos anormais em idiotas. de seleção de anormais pelo retardamento escolar.desdequesecomparasseograudeinstruçãodeumadeter-minadacriançacomessasmédias. de modoa comunicar seu pensamento depois de dois anos de escolaridade. imbecis e débeis mentais .que. de idade mental. seria imbecil toda criança que não chegasse a ler e a escrever. poisconvencionou-seclassificarcomoretardadas as crianças que apresentassem uma idade esco-lar atrasada de dois anos em relação à sua idade cronológica ou real. Curioso é notar que. depoisdessaidade. para Binet. 11 10 . da congênita ou produzida pouco depois do nasci-mento. facilitaram a Binet e Simonos primeiros trabalhos relativos à aferição dos testes de nível de inteligência.E. Neles.Foio primeiro passo para a seleção dos anormais de escola ou retardados.ter-se-iaassimasua classificaçãoemnormasdeidadeescolar. ou seja. Os dois primeiros têrmos sempre existiram em psiquiatria para diferenciar adesintegração intelectual adquirida.em1907. evidentementegrosseiro. Para Binet. As investigações de Vaney e o referido critério. procurava-se fixar ograu médio de instrução entre crianças da mesma idade e da mesma condição social.Por certo que problemas práticos e fórmulas empíricas precedem sempre asdescobertas da ciência.publicounormasdeclassificaçãoparaascriançasdasescolasparisienses.

A permanência de crianças de 9. que não pode exprimirverbalmente seu pensamento. compreender o que lê – uma vez quenenhuma perturbação da visão ou paralisia do braço tenham obstado a aquisição dessa forma de linguagem. Tal resultado. mas persiste. Diz Claparède: “As esco-las não as têm considerado . 7  Nova maneira de propor a questão Nesse debate de processos. nem cremos que possa ser inventado. Calculada a co-variação entre os resultados da leitura e a idade cronológica. aparece. isso sim. que não pode transmitirseu pensamento pela escrita. sem que esse atraso seja devido à insuficiência de escolaridade. em classes de 1º grau. com taisartifícios de motivação. nos alunos das classes primárias. em certos autores. 111 e segs. Há artistas que o fazem com maiores ou menoresrecursos técnicos ou de intuição natural. p. uma correlação antes negativa que positiva. não num grupo suficientemente extenso de indivíduos. da criança viva. ou. que dê esse resultado. nem ler a escrita ou o impresso.” 22Testes um modos .”“É imbecil toda criança que não chega a comunicar-se por escrito com seus semelhantes. . fica plenamente esclarecido ao considerarmos que essas correlações têm sido obtidas em classes de escolascomuns. seja antes negativa que positiva.10. 11 As definições de Binet (1927. à primeira vistaparadoxal.A ABC própria silabação pode ser empregada como ponto de partida. por exemplo. para conclusão geral.0. Falamos da criançareal. e 11. Mas não há artifício mágico que ensine aler. nem compreender o pensamento verbalmente expresso pelos outros – uma vez que nãohaja perturbação da audição ou dos órgãos da fonação. por força. um retardamento nestas crianças. com as suas mil diversidades individuais. Brooks (1924). Esse retardamento podeatenuar-se. isto é. mas que demonstre umatraso de dois ou de três anos no decurso de seus estudos. a criança tem ficado esquecida. isto é.”“É débil toda criança que saiba comunicar-se com seus semelhantes pela palavra e por escrito.0. demonstra.) são precisamente estas:“É idiota toda criança que não chega a comunicar-se pela palavra com os seus semelhantes. Ver. mais exatamente. emtais grupos considerados.0. que a conclusão sobre a relação existente entre a perfeição da leiturae a idade cronológica.E não nos espantamos de verificar. evidentemente.

preparadas para tecer seda.. A aparelhagem era a mesma e funcionava perfeitamente. E se. ao pé. para só se cuidar doque o mestre deva fazer em face da criança abstrata. antes do ajustamento das máquinas que a devam trabalhar.Tudo de antemão estabelecido. em igual prazo.. os momentos em que se deve escrever comgiz de cor e o momento de retrospecto das palavras matrizes. por número de lições e páginas do livro padrão. Supõem-se crian-ças iguais. cem por cento de alfabetização. pedaços de barbante e grosseiras felpas de coco. 7 .. Daíum ritual: cinco passos. os teares se emperrarão a meiocaminho.. por minutos.no programa. os m e s m o s p a s s o s formais e rigores de técnica. articulado. . cumprido o ritual. Se.A nova maneira de propor a questão se resume simplesmente nisto: estudemosa matéria-prima. nesta outra. não o farão provei-tosamente se as provermos com lã. É umpostulado da escola nova. nada de novo.Mas a verdade é que não estão. para o fim especial da aprendizagem inicial da leiturae escrita... em certo ano letivo.Não são dignas de solicitude da escola senão as crianças quese conformam com certo tipo esquemático que a escola criou à sua imagem. lhes dermos. Imaginado esse tipo padrão. sete passos. que diz respeito à organização racional das classes e das esco-las (Lourenço Filho. no horário. do aluno-médio. ou seja umtipo monstruoso e contrário à natureza: o do aluno-médio ” . Se este pro-fessor conseguiu. com a mesma cartilha. Ao cabode certo número de lições. determinado processo dáresultado considerável. é ele mesmoquem agora confessa não ter podido ensinar. As máquinas. no que éestranho à criança. todas as crianças deverãoestar lendo e escrevendo. mecanismos capazes de funcionamento por excitações de fora para dentro. . O que de novo apresentamos é o pro-cesso de seleção dos alunos novatos. a tempo e hora. E a criança real fica esquecida. Até aí. admite-se igualmente que as reações da classetambém possam ser padronizadas. 1969a). de mistura. não apresenta o mesmo êxito. não chegando a dar nenhum produto aceitável. Tudo se viu e mediu. com extensão rigorosamente determinada por dias. combinado. com maiores probabilidades de êxito. O mestre só terá que funcionar como autômato bem regulado. a a l u n o s q u e l h e t e n h a m c a b i d o p o r s o r t e . com tênues fios deseda. nesta classe. Masa matéria-prima era outra.

Para nós. Decretou-se que a idade de sete anos é a da maioridade escolar. hoje. em média. . seja de que natureza for. 23Introdução  O julgamento empírico da idade escolar Vejamos como se comportam. Em elevadapercentagem. há aí alguma coisa de artificial e grosseiro. em face das criançasque recebem.” Há. que as torna capazes de manifestar interesse pela cultura simbólica. natural na criança. decresce consideravelmente. em geral. capitais no aprendizado da leitura e da escrita. a nospronunciarmos pelo método analítico ou pelo sintético. variávelcom o meio social.. queo coeficiente de egocentrismo. Em especial para as coordenaçõesvisual-motora e auditivo-motora da palavra. É nessa idade. para verificação do valor do processo global e da silabação. nos Estados Unidos. Possuem desenvolvimento de linguagem. somos tentados a responder assim: a nosso ver a leitura nãopossui um método específico.. carvão ou giz. Por força de uma disposição de lei. Eaescolanãoastemrespeitado. escreveu Simon (1924): “Demodo que. também. as palavras que se lhes dizem. quando curiosidades indiscretas nos intimam a nos decidirmos por este ou por aquele processo. De modo geral.Desenham a seu modo.Tudo isso. como ade vinte e um.levaram a lei a fixar uma idade.como para a capacidade de atençãoefatigabilidade. De modo perfeita-mente empírico.asvariaçõesindividuaissãomuitogran-des. em relação à matéria-prima que vão trabalhar. Cf.Reproduzem. estranhos à intimidade do labor didático.Só o empirismo e necessidades da vida prática. não de maneira absoluta. Têm travado relações com olápis. com facilidade. ao da leitura e escrita. as crianças desete anos devem estar aptas ao trabalho da escola primária e. ou seja. talvez até deacessório. São capazes de recortar uma gravura. Heilman (1964) e Chall (1967). a da maioridade civil. as crianças de sete anos estão aptas para a vida escolar. claro que acertadamente.Depois de estudo experimental. onde mais se havia propagado o ensino inicial por sentenças e palavras. pois. umforte movimento em favor dos métodos fônicos. o que lhes assegura certo desembaraço de coordenação visual-motora. São capazes de ir àescola e de retornar a casa. nossas escolas. sozinhas.

pelasimples razão deterem elas atingido aidade crono-lógica prefixada. Juntaaesmo. Efazmais.emboraperfeitamentedesenvolvidasparaaaprendizageminicial. maturos e imaturos. quepermita. de um lado. poderão aprender. os capazesde aprender a ler em três meses e os que. para desigual velocidade noe n s i n o . sob tal regime. de outro. nem em três anos. a organização de classes seletivas. apreciação rápida. c o m o q u e t e n d e r ã o a m a i o r e c o n o m i a d e t e m p o e e n e r g i a d o s m e s t r e s . simples e eficiente da capacidade de aprender a leitura e escrita.nasmesmasclasses.abrelugaràs quenãoapre-sentam aindamaturidade suficiente. e conseqüente aumento da produção útil do aparelho escolar .Será preciso substituir esse critério empírico por outro de maior garantia.Tantoquantonãoaceitacriançasdemenosdeseteanos.

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