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Raruilquer Santos Oliveira Renata Laurente Andrade Romulo Bassi Piconi

PLC 122 – A IMPORTÂNCIA DO PROJETO DE LEI E SUAS EXPRESSÕES PELA REPRESENTATIVIDADE SOCIAL EM FLORIANÓPOLIS

Trabalho apresentado à disciplina de Prática de Pesquisa como Componente Curricular, PPCC, da Disciplina de Teoria Política III, do curso de Ciências Sociais, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina.

Professora: Juliana Grigoli

FLORIANÓPOLIS

Julho/2011

Índice

Introdução

3

1. Importância do PLC 122 no contexto da homofobia no Brasil

7

2. Movimentos, participação e deliberação no processo das lutas

10

pelo PLC 122

2.1. Os movimentos sociais como atores políticos

10

2.2 – A construção da participação e da deliberação

19

3. Considerações Finais

27

4. Referências Bibliográficas

30

Anexo: Texto original do PLC 122

32

Introdução

Nos modernos debates sobre movimentos sociais estabeleceram-se, nos chamados “novos movimentos sociais”, o surgimento de novas identidades de grupos na busca pela liberdade e igualdade perante a lei dos grupos LGBTs, que desde muito tempo sofrem inúmeros preconceitos. Entre o final da década de 1970 e início da década de 1980 começaram a se organizar os primeiros movimentos gays no Brasil, numa época de grande euforia civil marcada pelo fim do regime militar e da repressão. Porém, apesar da forte articulação de tais movimentos no cenário nacional, o público gay ainda é um grupo que sobre certa marginalização civil, tanto pela igreja como por setores tradicionais da sociedade, sendo alvo de um tipo de preconceito que circula por quase todos os âmbitos da vida social de quem é vitimado: a homofobia. Recentemente, um projeto de lei, de âmbito nacional, foi aberto buscando a defesa desse grupo perante tal preconceito, que agride não apenas moralmente, mas em muitos casos, causa a repressão física. O presente projeto de pesquisa busca trabalhar tal projeto de lei. Partindo de pesquisas que revelaram dados alarmantes sobre a homofobia no Brasil, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais (ABGLT), associada a mais de 200 organizações, desenvolveram o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006, que propõe a criminalização de atos homofóbicos. O projeto tem como objetivo alterar a lei 7.716 de janeiro de 1989 que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, adicionando como crime o preconceito por orientação sexual e identidade de gênero, equiparando essa situação à discriminação por cor, raça, etnia, etc. O projeto surgiu, assim, como uma busca, baseada na Declaração Universal dos Direitos humanos, pela busca da proteção a esses grupos, o que ainda não consta na Legislação Federal Brasileira. Especificamente em Florianópolis, há uma forte mobilização de movimentos gays. A partir da década de 1980, a cidade passou a se tornar o “paraíso gay”, atraindo um forte contingente da população gay que começou a se estabelecer na cidade. Tal proporção tornou assim a cidade como um importante foco do movimento gay, que com grande manifestação busca também a aprovação do projeto de lei. Na cidade já existe e vigora a Lei 7476 de 2007, que instituiu o dia 17 de maio como Dia Municipal de Combate á Homofobia, Lesbofobia e Transfobia. A lei, de procedência da Vereadora Ângela Albino, já é uma forte expressão da representatividade dos movimentos, corroborando a amplitude da bandeira GLBT em Florianópolis.

Assim, estabeleceu-se, como centro deste trabalho, uma abordagem sobre a repercussão do Projeto de Lei 122/2006 na cidade, buscando compreender não apenas

como ele está sendo entendido, mas também quais e como grupos e atores sociais e políticos, em Florianópolis, estão envolvidos na luta pela aprovação desse projeto que busca a igualdade e democracia a um grupo de pessoas que tem tão ampla visibilidade civil na cidade.

O debate que se coloca no Projeto de Lei 122/2006, é que não só a igualdade

civil está assegurada a todos indivíduos, como também não há, na legislação federal brasileira, proteção assegurada às vítimas de crimes de natureza homofóbica. Por não haver tal garantia na Constituição, estima-se que cerca de 18 milhões de pessoas sofrem discriminação (assassinatos, agressões físicas, agressão verbal, discriminação na seleção

para emprego e no próprio local de trabalho, escola, etc.) e os agressores ficam impunes. Mas também o Projeto se coloca como algo polêmico e preocupante por uma camada da população que acredita estar tendo sua liberdade de expressão violada, uma vez que acredita que a não deve garantir direitos aos homossexuais – considera-se grande parte dos defensores dessa visão representantes da igreja, grupos tradicionais extremistas e próprios cidadãos civis que consideram absurda a manifestação dos movimentos gays e sua luta por esse direito. O projeto, assim, tramita em um ritmo lento desde 2006. Apresentado pela deputada Iara Bernardi (PT/SP) em 2001, o projeto, em 2006 foi aprovado pela Câmara e encaminhado ao Senado. Em 2007, a relatora da Comissão de Direitos Humanos Fátima Cleide (PT/RO) já manifestava voto favorável à aprovação do projeto, quando no mesmo ano a relatora do projeto pediu sua retirada para um “reexame da matéria”, pois o Senado estava recebendo ameaças e mensagens de protesto.

A questão então se coloca delicada, pois no campo político nota-se que o debate

ainda não está em vias de ser resolvido. Junto com a articulação dos grupos pela aprovação há também a articulação de grupos contrários ao projeto, tanto representantes

políticos, religiosos como da sociedade civil. Os movimentos – GBLT, em especial – buscam uma proteção garantida na Constituição para tantos outros grupos que sofrem preconceitos parecidos, de diferentes naturezas. Essa situação exigiu o movimento GLBT uma reorientação estratégica de suas ações, o que implicou numa forma especial de articulação pela aprovação do projeto.

Em contrapartida às diversas manifestações contrárias ao projeto de lei, seus defensores garantem que os principais argumentos contrários à lei são falsos. Entre eles, defendem que:

O projeto de lei não agride a liberdade de expressão, apenas pune condutas e discursos preconceituosos, como que acontece no caso do racismo. A liberdade de expressão não pode ser usada como escudo para crimes, difamação, propaganda odiosa, ataques morais e condutas ilícitas;

b) O projeto não interfere na liberdade religiosa, podendo as religiões manifestar livremente juízos de valor teológico, mas defende que representantes religiosos não propaguem “inverdades científicas”, fortalecendo estigmas contra esse segmento da população. Assim como a liberdade de expressão, a liberdade de culto não pode ser usada como instrumento de crimes morais e físicos contra homossexuais 1 .

a)

A partir de tais debates e pressupostos dos movimentos e partidos políticos articulados, e baseados nas questões e teorias elaboradas na temática da democracia participativa e deliberativa, essa pesquisa buscou identificar os grupos que estão se articulando na defesa do Projeto de Lei (PLC 122), especificamente como este processo está ocorrendo na cidade de Florianópolis e seus desdobramentos nas esferas de alguns movimentos e partidos políticos selecionados. Assim, buscou-se como objetivo geral identificar os grupos envolvidos na defesa do PLC 122, especificamente na cidade de Florianópolis, bem como verificar como estão se dando suas ações políticas e sociais, tanto no campo da luta pela aprovação do PLC 122 como também nas ações relacionadas à esfera social e os desdobramentos do debates em ambas. A metodologia abarcou, a princípio, o mapeamento, no contexto do debate do PLC 122, os grupos de militância LGBT e Direitos Humanos atuantes em Florianópolis. Em seguida, verificamos o discurso de militantes do movimento LGBT de Florianópolis a respeito do acompanhamento do PLC 122 a fim de detectar o direcionamento político referente ao Projeto de Lei. Na ideia inicial do projeto de pesquisa também havia a intenção de acompanhar reuniões e/ou sessões na Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, identificando as tramitações da Lei e suas implicações nos diálogos políticos. Mas por

1 Trecho retirado de um manifesto publicado na página http://www.naohomofobia.com.br/lei/index.php, consulta em 27/04/2011.

questões diplomáticas e logísticas, houve um impasse para realização desses acompanhamentos, ficando o trabalho mais direcionado a tratar apenas dos discursos dos atores envolvidos nos movimentos sociais, dando a possibilidade de focar mais na questão dos movimentos sociais e suas demandas enquanto formuladores e construtores da democracia participativa e deliberativa. Assim, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas junto aos principais representantes do movimento LGBT em Florianópolis, focando no relato das ações dos movimentos em relação à questão da homofobia e do PLC 122. Em um segundo momento, ocorreu uma pesquisa metódica e teórica sobre o texto do PLC 122, e também um levantamento de dados e referenciais sobre a questão da homofobia, em especial no contexto brasileiro. A princípio se tratará no trabalho sobre o que é e a importância do PLC 122, baseado nessa pesquisa de dados. Em um segundo momento será então abordada a questão da importância dos movimentos sociais, não somente nesse processo, mas no contexto da construção da democracia, da participação e da deliberação, com base nas entrevistas fornecidas por nossos informantes. Em seguida, aborda-se a questão específica do PLC 122 em relação à construção da democracia, deliberação e participação, tocando no que diz respeito a esse Projeto de Lei como uma representação de uma cultura deliberativa e participativa que pode ser observada nos modernos sistemas democráticos. Por fim, apresentamos as considerações finais, na esperança de que este trabalho venha futuramente a ter uma continuidade, não somente na questão da democracia deliberativa, mas na questão dos movimentos sociais como agentes políticos constituintes e construtores da democracia e de transformações sociais, bem como também a importância de continuar se analisando a questão do PLC 122 e suas tramitações no contexto contemporâneo onde questões de descriminação e preconceito estão cada vez mais tomando fôlego no debate político.

1.

Importância do PLC 122 no contexto da homofobia no Brasil

Juntamente com os argumentos contrários à aprovação do PLC 122 e até mesmo presente no discurso de muitos membros da sociedade civil é a afirmação de que não existe homofobia no Brasil, e por isso, não há necessidade de uma lei que penalize atos homofóbicos. Não há, na verdade, uma argumentação plausível sobre esta afirmação, pois os dados sobre casos de homofobia no Brasil são tão alarmantes quanto os índices de assassinatos, uma vez que as práticas homofóbicas não estão apenas nos atos de violência física, mas também em manifestações verbais e ideológicas. Em um levantamento feito pela UNESCO em 2004 2 , em uma seqüência de entrevistas com jovens de Brasília, 88% dos entrevistados consideraram normal humilhar gays e travestis, nas formas de violência verbal e psicológica; 27% afirmaram não aceitar ter homossexuais como colegas de classe e 35% dos pais e mães desses alunos não gostariam que seus filhos tivessem homossexuais como colegas de classe. Pesquisas de opinião pública ainda mais recentes relatam que, de todas as minorias sociais, os homossexuais são as principais vítimas de preconceito, mais rejeitados que negros, judeus e mulheres 3 . 79% dos brasileiros ainda afirmaram que considerariam vexaminoso ter um filho ou filha homossexual; 56% mudariam sua conduta com o colega de trabalho se soubessem que este é gay, 56% não concordam que um candidato gay fosse eleito Presidente da República, 45% trocariam de médico se descobrissem que ele é gay e 36% deixariam de contratar um homossexual para um cargo em sua empresa mesmo que fosse o mais qualificado para tal função. Esses dados são apenas uma amostra de que a homofobia se manifesta não apenas em atos físicos, mas também em discursos e práticas ideológicas que em nada justificam a afirmação de que não existe homofobia no Brasil. Uma matéria do jornal O Globo, de 1997, trouxe um levantamento também impactante sobre a homofobia. Dizia a matéria:

“Ao lado do Irã, Turquia e Zimbábue, o Brasil é apontado como um dos países que mais persegue e discrimina os homossexuais, de acordo com o Relatório da Anistia Internacional. Diz o Relatório: “no Brasil centenas de membros das minorias sexuais foram assassinados nos últimos anos” 4 .

2 Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 14(2): 248, maio-agosto/2006

3 Folha de São Paulo, 2-3-1983, “Homossexuais, as maiores vítimas do preconceito”; O Estado de S.Paulo, 7-11-1993, "Homossexual é o grupo mais discriminado". 4 O Globo, 24-06-97

Os dados de violência ideológica já revelam uma impactante realidade sobre a

homofobia no Brasil, mas dados concretos da violência física praticada contra

homossexuais revelam a impressionante importância de um projeto de lei tal qual o PLC

122. Ressalta-se que, implicado à impunidade de muitos casos, outros tantos não

chegam a ser vinculados á questão da agressão pela identidade de gênero da vítima.

Em abril de 2011, a ONG “Grupo Gay da Bahia” (GGB) divulgou um relatório

onde consta que a cada um dia e meio um homossexual foi morto no Brasil em 2010.

Com esse dado, o Brasil foi consagrado liderança mundial em assassinatos de

homossexuais, havendo 260 homicídios somente no referido ano. 5 Em 2011 já são

contabilizados 65 assassinatos. O levantamento aponta ainda que, nos últimos cinco

anos, houve um aumento de 113% no número de homicídios de gays, travestis e

lésbicas. Os gays são vítimas em 54% dos casos. Travestis são 42% e as lésbicas somam

4%. O risco de um homossexual ser morto violentamente no Brasil é 785% maior que

nos Estados Unidos. Neste país, foram registrados cerca de 14 assassinatos de travestis

em 2010, enquanto no Brasil foram 110. Esses números ainda são subnotificados, pois

no Brasil não há estatísticas oficiais de crimes de ódio, ou seja, as notas divulgadas pela

imprensa muitas vezes são deturpadoras do real motivo do assassinato.

Na primeira entrevista realizada para este trabalho, realizada com uma associada

à LBL (Liga Brasileira de Lésbicas) e também associada à ONGs de direitos humanos

que tratam de questões de violência de gênero, já nos foi revelado também dados

relevantes sobre a questão da homofobia em âmbito nacional. Já existem leis municipais

que penalizam atos homofóbicos, porém a importância de ser uma lei que abranja todo o

âmbito nacional se coloca frente a constatações de extrema relevância:

O que nós queremos é o nacional para que não ocorra isso que está acontecendo, porque mesmo que a mídia não coloque, na lista do que a gente ta vendo, diariamente tem um gay, um travesti ou uma travesti, sendo assassinado. Lésbica também, aliás, tá virando moda agora lésbica morrer também. Mas normalmente isso são “crimes passionais”, são maridos, são pais, ex-amantes, e tudo. Inclusive esse ano já teve três ou quatro casais de lésbicas assassinados por conta de crimes passionais. Nós tivemos no Paraná, em Recife, no Ceará, e no outro lugar eu não lembro. Mas é por conta de crime passional. E fora teve esse outro casal que foi o pai que mandou matar, que foi no Mato Grosso, se não me engano. Nos casos de estupro corretivo, estão acontecendo no interior de Goiás, do

5 Dados referentes a http://et7ra.com.br/site/2011/04/07/o-brasil-homofobico/, consulta em 03/07/2011

Mato Grosso, inclusive em prisões e tribos. Isso é o que a gente tem conhecimento em referência ao Centro de Atendimento à Mulher.

Luis Mott (2006), no relatório sobre homo-afetividade e direitos humanos

retifica frente os dados de violência homofóbica:

Convém insistir num ponto: não se trata esses assassinatos de crimes comuns, fruto de assalto ou bala perdida, nem de "crimes passionais" como as páginas policiais costumam noticiar. São crimes de ódio, em que a condição homossexual da vítima foi determinante no modus operandi do agressor. Portanto, "crime homofóbico", motivado pela ideologia preconceituosa dominante em nossa sociedade machista, que vê e trata o homossexual como presa fácil, efeminado, medroso, incapaz de reagir ou contar com o apoio social quando agredido. (MOTT, 2006, p. 514)

Ademais, os dados relevantes não estão apenas circunscritos no âmbito do

contato físico e verbal entre vítima e agressor. Os crimes também estão ocorrendo nos

ambientes virtuais. Segundo um estudo operacionalizado pela ONG SaferNet, crimes de

ódio na internet contra homossexuais aumentaram em cerca de 88% entre 2009 e 2010.

Este aumento chama ainda mais atenção se comparado com crimes de racismo e

xenofobia, que abrandaram no mesmo período, o que indica que o progresso da

homofobia segue uma lógica diferenciada das demais formas de preconceito. Outro

estudo, realizado pelo Centro de Combate a Homofobia (CCH) e pela Coordenadoria de

Diversidade Sexual (Cads) trouxe um dado revelador: entre 2006 e 2009, os casos de

denuncia de agressões físicas contra homossexuais expõem que 20% das agressões são

em casa, 2% no trabalho e 78% no espaço público. Isso revela que é na rua que a

população GLBT está mais ameaçada.

Esses levantamentos e dados refutam a então questionável inexistência de

homofobia no Brasil, e ainda mais, retificam a importância de um projeto de lei que

puna atos de violência contra homossexuais. Se incluso nos discursos contrários ao

Projeto está a ameaça à liberdade de expressão, na homofobia latente da sociedade está

degenerada a liberdade dos homossexuais, a mesma liberdade assegurada pela

Declaração Universal dos Direitos Humanos. A importância de um Projeto de Lei que

criminalize tais atos de violência homofóbicos, e seus respectivos praticantes está no

fato de assegurar a liberdade de manifestação e expressão da orientação sexual, bem

como o direito dos homossexuais de terem seus espaços no âmbito público sem serem

agredidos fisica, psicológica e moralmente. É a mesma lei que após longos períodos de

lutas, assegurou a cidadania aos negros, índios, religiosos, etc.: mais que uma lei que proteja, uma lei que assegure a todos os cidadãos que eles podem exercer plenamente sua cidadania sem ter medo de serem punidos e agredidos por isso. Essa luta pela aprovação é, então, uma luta pela cidadania. Mas não é uma luta que se deve esperar ser solucionada pelos órgãos políticos, pois há uma multiplicidade de atores na constituição dos espaços onde a luta é travada. Faz-se, então, necessário reconhecer os atores desses processos, seus papéis e suas articulações nos debates.

2. Movimentos, participação e deliberação no processo das lutas pelo PLC 122

2.1 – Os movimentos sociais como atores políticos

A partir da constatação de dados sobre a homofobia no Brasil, percebe-se a importância de uma luta pela aprovação do PLC 122. Mas não é essa uma luta articulada no campo político apenas pelos partidos e pelos políticos. Para além disso se envolve um amplo leque de atores sociais que estão intimamente ligados não somente entre si, mas também dentro das diversas esferas da vida política, e isso não se constata apenas no amplo debate nacional, mas também na parte delimitada de Florianópolis, como um campo delimitado, porém muito amplo, integrante e representativo desse grande leque de articulações políticas e sociais. As entrevistas realizadas envolveram representantes de associações que tratam do tema GLBT, e que estão fortemente ligados aos movimentos sociais que se inserem não apenas nesta, mas em diversas lutas pela busca da cidadania, pela inclusão e tantos outros direitos que lhes são legítimos. É então, de forma relutante, que vem a tona a princípio, a questão da importância dos movimentos sociais no contexto de lutas políticas e ideológicas, como verdadeiros atores políticos. No Brasil, as primeiras mobilizações do movimento surgiu durante o Regime Militar, num período de “maior recrudescimento do Regime, onde qualquer descuido ou conduta tida como ‘imoral’ servia de motivação para se cassar os direitos individuais de manifestantes” (TAQUES, 2007, p.12). Essas primeiras mobilizações eram em prol do direito de se assumir, rejeitando qualquer atitude que impedisse os gays de viver suas sexualidades de forma livre. Em 1978, o “Jornal Lampião” se impõe como porta-voz dessa minoria, abordando de forma positiva a sexualidade. Neste mesmo ano houve a articulação do Grupo Somos em São Paulo se manifestando contra a forma como

homossexualidade era tratada. Junto com essas movimentações em São Paulo, a luta pelo direito de viver sua própria sexualidade, outras cidades se juntaram a esse debate ao mesmo tempo que floresceram muitas outras mobilizações por todo o Brasil.

As mobilizações pós-68 como os movimentos de estudantes, de mulheres, pelos direitos humanos e cívicos, étnicos e/ou culturais, pelo meio ambiente, contra a violência, contra a fome e a miséria, etc., se caracterizam pela grande diversidade de temas que penetraram no espaço público. Muitos temas que tinham sido reservados à esfera do Estado e do poder político (desenvolvimento e meio ambiente, por exemplo) e outros temas que eram considerados privados (relações de gênero, por exemplo) transformaram-se em questões sociais e políticas (TAQUES, 2007, apud. SCHERER- WARREN & ROSSIAUD, 1999).

Mesmo com toda essa mobilização,

os movimentos sociais brasileiros que portavam como bandeira principal a luta contra a discriminação para com homossexuais em fins dos anos 70 e inicio da década de 80, passaram por momentos de desgaste e quase de desaparecimento. Concomitantemente ocorre o surgimento de uma epidemia que marcaria definitivamente o movimento GLBT brasileiro: a AIDS. (TAQUES, 2007)

O aparecimento dos primeiros casos de AIDS durante a década de 80 alterou os rumos do movimento LGBT especialmente devido ao fato dessa doença ter elegido como primeiras vítimas os homossexuais. A AIDS por isso passou a ser conhecida como “peste gay” e associada com uma punição à conduta dos homossexuais. O discurso que considera a homossexualidade uma prática proibida por questões morais, se torna com a AIDS uma questão de saúde pública. E dessa forma, o enfrentamento da AIDS ganhou espaço e alterou profundamente as lutas do movimento LGBT no Brasil, incorporando a luta da aceitação da diferença e de igualdade de direitos. Aos poucos essa luta abriu cada vez mais espaços de discussão e sua luta tem tido resultados. Uma mostra disso é que o poder Legislativo vem cada vez mais debatendo sobre a questão da homossexualidade especialmente depois dos anos 2000, tanto à nível local quanto nacional. A discussão também se inseriu nas secretarias de defesa dos direitos humanos, ministério da educação, da saúde entre outros. A elaboração da cartilha contra a homofobia para auxiliar os professores a tratarem o tema, mesmo que tenha sido barrada pelo poder executivo também é uma vitória do movimento na busca de uma mudança de identidade coletiva. Mais recentemente o poder judiciário também passou a debater a questão, especialmente a partir do parecer

de legalidade na união entre pessoas do mesmo sexo. E hoje a luta por criminalizar a homofobia vem gerado cada vez mais discussão e ampliando o campo de ação do movimento. A nível local e estadual vimos também alguma discussão especialmente no poder legislativo. Na Assembleia Legislativa de Santa Catarina um projeto de lei que prevê aplicação de penalidades à prática discriminatória em razão de orientação sexual não teve articulação política suficiente para ser aprovada. Já a nível municipal existe a penalização por multa para à prática de atos discriminatórios e também foi instituído o dia 17 de maio como dia de combate a Homofobia. O Projeto de Lei 122/2006 é criticado por diversos segmentos no caminho legislativo em todo processo, desde quando se trata de uma proposição parlamentar até “possivelmente” se tornar uma norma jurídica oriunda do Congresso nacional. Até pouco tempo, o projeto encontrava-se em tramitações na Comissão de Direitos humanos do Senado federal, tendo a senadora Marta Suplicy como relatora do mesmo, ainda que nos últimos dias a mídia tenha divulgado a desistência da senadora na continuidade do projeto. Marta alega que o projeto já tem determinado peso negativo e carrega estigmas pela má interpretação e distorção dos verdadeiros objetivos e determinações do projeto. Neste caso, a proposta da senadora é trabalhar na criação de outro projeto com novas, porém semelhantes, proposições. A importância dos movimentos GLBTs é que não apenas eles se colocam como uma nova identidade de movimentos, mas também como uma nova forma de identidade no cenário político. Eles, como outros movimentos que lutam pela cidadania de grupos oprimidos, buscam simultaneamente a cidadania e a igualdade de direitos e a celebração da diferença, não a diferença que os separa como cidadãos, mas como a diferença que deve ser reconhecida dentre todas as diferenças possíveis na constituição dos cidadãos. É uma questão de que

a diferença também “pode ser colocada como fonte de diversidade,

heterogeneidade e hibridismo, sendo vista como enriquecedora: é o caso dos movimentos sociais que buscam resgatar as identidades sexuais dos constrangimentos da norma e celebrar a diferença. (LÜCHMANN, 2004, apud WOODWARD, 2000)

] [

O movimento gay, que surgiu no âmago dos novos movimentos sociais, que se constituíram a partir da década de oitenta, forma-se assim como mais um dos atores políticos que reestruturam a esfera pública e a esfera política na democracia moderna. A ascensão dos movimentos sociais na política não somente trouxe-os como atores

sociais, como também os tornou constituintes e legitimadores da democracia moderna. Ao mesmo passo que se estruturam como agrupamentos de pessoas que se reconhecem identitariamente, se constituem como reformuladores da democracia. Vale-se destacar a importante constatação que Hamel (2009) faz:

Pode-se dizer, que a partir da década de 1980, os movimentos sociais mudaram substancialmente a constituição da esfera pública, onde somente os partidos políticos e as elites eram aptos a discutir as problemáticas sociais, em uma clara e evidente verticalização do poder no sentido de cima para baixo. Com a ascensão dos movimentos sociais se inverte consideravelmente a lógica do poder político e do próprio poder dominante brasileiro, uma vez que a partir deste momento, as aspirações e demandas sociais das classes oprimidas começam a ganhar espaço de discussão na esfera pública por suas próprias manifestações. (HAMEL, 2009)

Enquanto reformuladores da democracia, e ainda mais diretamente, da esfera pública, os movimentos sociais reafirmam sua importância na participação política. Eles se constituem como novos atores políticos, reivindicativos e legitimadores da democracia, e sua inserção nos debates e deliberações políticas reafirmam sua natureza na medida em são porta-vozes de diversos atores sociais, constituintes dessa mesma esfera pública. As questões que são trazidas e colocadas pelos movimentos sociais se constituem, hoje, o cerne da política moderna, e é com veemência que muitos autores ressalvam que a força legitimadora da democracia moderna está pautada na possibilidade da participação política dos movimentos sociais. A partir das questões que são levantadas no interior dos movimentos sociais é que se coloca a validação da questão da cidadania, a mesma que está pautada nos principais pressupostos democráticos. Como Fleuri salienta:

O que se quer dizer é que as questões colocadas, seja pelas disputas étnicas, geracionais, de classe, de gênero, seja pelo multiculturalismo e mesmo por grupos que buscam a validação pública de novos padrões de comportamento, apresentam um cerne comum: todos eles colocam em questão os limites da cidadania moderna fundada na garantia formal de igualdade entre diferentes indivíduos. (FLEURI, 2004)

Por esse caráter da moderna democracia constituída pela atuação dos movimentos sociais constata-se que nos modernos processos de tomadas de decisões políticas estão inúmeros atores envolvidos, as problemáticas sociais e questões relevantes à democracia estão, se não totalmente, amplamente amparadas nas questões que são levadas pelos movimentos sociais a partir do reconhecimento destes das questões que são relevantes para as sociedades a partir dos princípios democráticos.

A atuação desse tipo de movimento se torna evidente em uma sociedade multicultural como a brasileira. Segundo Stuart Hall, as sociedades multiculturais são heterogêneas e se diferem do Estado-nação moderno, constitucional liberal, “que se afirma sobre o pressuposto da homogeneidade cultural organizada em torno de valores universais, seculares e individualistas liberais” (HALL, 2003). O Estado-moderno está pautado teoricamente numa cidadania universal e numa neutralidade cultural, mas

a cidadania universal e a neutralidade cultural do estado são as duas bases do universalismo liberal ocidental, mas o vazio entre ideal e prática, entre igualdade formal e igualdade concreta, entre liberdade positiva e negativa, tem assombrado a concepção liberal de cidadania desde o inicio. (HALL,

2003)

Os grupos minoritários, como os participantes do movimento LGBT, se colocam como questionadores também desse modelo de Estado liberal. Essa igualdade só é possível numa sociedade homogênea em que a neutralidade do Estado garante a autonomia pessoal e a liberdade do indivíduo de buscar a sua própria concepção de bem, desde que no campo privado. No entanto, esses grupos minoritários vem colocar em debate que essa autonomia pessoal no campo privado, cada vez mais precisa ser debatido no domínio público. A homogeneidade aparente da sociedade esconde relações de dominação e de poder. Na discussão sobre confronto político apresentada por McAdams, Tarrow e Tilly

(2009)

um movimento social é uma interação sustentada entre pessoas poderosas e outras que não têm poder: um desafio contínuo aos detentores de poder em nome da população cujos interlocutores afirmam estar ela sendo injustamente prejudicada ou ameaçada por isso (MCADAMS; TARROW; TILLY, 2009)

Os movimentos sociais ao fazer reinvindicações às autoridades, também afirmam a sua própria identidade como atores dignos, significativos e solidários. No caso dos movimentos relacionados à luta contra ao preconceito contra a homossexualidade, não só buscam afirmar sua identidade, mas colocam em pauta o reconhecimento e a mudança de identidades coletivas. Ainda segundo essa teoria do confronto político, as ações dos movimentos sociais são efetivas quando:

a)forja alianças de consciências ou de interesses com membros existentes no sistema político; b) representa uma ameaça plausível de interromper processos políticos rotineiros; c) coloca outra ameaça plausível ou influência direta na arena eleitoral; e/ou d) provoca pressão de detentores de poder externos sobre as autoridades (MCADAMS; TARROW; TILLY, 2009)

O movimento LGBT se insere na categorização de movimento social apresentada a partir de que eles estão numa luta constante junto aos detentores do poder, mas essa luta não se dá somente em relação ao governo, mas aos diferentes grupos de interesse que reprovam o movimento e fazem uma oposição tão grande que vem impedido até mesmo a aprovação do projeto de lei. No caso há aqui uma luta muito intensa entre por exemplo os grupos religiosos. Aqui vemos uma luta não entre o movimento e o governo, mas entre grupos sociais distintos que buscam de uma afirmação das suas próprias identidades. Na articulação pela aprovação do PLC 122 reconhece-se que o processo não ocorre de forma diferente: nas entrevistas realizadas, reconhece-se a participação dos movimentos sociais como atores políticos em constante permanência nos debates, se articulando nas diversas formas de organizações dos debates. Florianópolis, como uma micro-esfera do debate dessa questão, já fornece uma ampla demonstração de como e quais os atores que estão articulados pela aprovação do PLC 122, bem como são numerosos esses atores. Na primeira entrevista, realizada com uma representante da ABL (Articulação Brasileira de Lésbicas) e também membro de uma ONG que trata de questões de direitos humanos com enfoque na sexualidade, a ADEH, ela já nos demonstrou que os movimentos não se constituem como agentes solitários nessas lutas, ao contrário, eles se constroem em comunicação com diversos outros setores. A ADEH é uma ONG que trabalha a questão de direitos humanos na assistência às questões principalmente envolvendo GLBTs. Eles trabalham fortemente na questão de prevenção e redução de danos, tendo uma forte parceria com a Secretaria Especial de Direitos Humanos. Além disso, recentemente buscam implementar um trabalho com PSP (Política de Segurança Pública) no que diz respeito á questões como empoderamento feminino. Trabalhando a questão de combate à violência, essa política se dá de várias formas, desde a violência física até o comportamento de setores da imprensa que tratam de modo preconceituoso os GLBTs, de modo especial as transgêneros. Pretende-se ainda, recentemente, a criação de um banco de dados com informações sobre violência de gênero na Grande Florianópolis. Eles também estão articulados com o Conselho Municipal de Assistência Social, que na fala da entrevista

se mostrou como algo muito positivo essa articulação do movimento com todos esses setores: “A gente tá ligado em vários pontos do governo, entendeu? Para justamente conseguir isso.” A articulação também envolve diversas outras esferas de movimentos sociais em seu contexto. Nessa primeira fala da entrevistada, já se foi possível mapear os inúmeros sujeitos que se colocam nesse processo de reivindicação. A ABL está ligada à ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis), que por sua vez faz parte de um coletivo maior e global, a ILGA (International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans e Intersex Association). Dentro da questão do PLC 122, os movimentos passaram a se articular com diversos setores, em principio com ONGs, como a ADEH e o Instituto Arco-Íris, e

a

partir disso, também com outras áreas que se interligam nas questões de gênero, como

o

NIGS (Núcleo de Pesquisas de Identidade, Gênero e Subjetividade) da UFSC, o IEG

(Instituto de Estudos de Gênero), com o grupo de pesquisa Margens e também com a FAED, que é a Faculdade de Educação da UDESC. Recentemente, em Florianópolis, os movimentos, nessas redes de parcerias, vem também trabalhando no projeto “Escola sem Homofobia”, juntamente com o NEPRE (Núcleo de Prevenção à Violência nas Escolas). O segundo entrevistado foi o coordenador estadual da ABGLT em Santa Catarina. A ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis) como o próprio nome já explica, é uma associação que engloba todo o âmbito nacional, e isso inclui o Estado de Santa Catarina e a sede da associação no estado que está situada em Florianópolis. Ele também é coordenador da ONG ROMA (Núcleo de Diversidade Sexual da Grande Florianópolis), que atua na área da educação, segurança pública e saúde. O Roma trabalha com estas temáticas em relação aos Direitos Humanos, principalmente em relação aos direitos LGBT. A ONG também trabalha no projeto “Escola sem Homofobia”, como parte do grupo gestor do programa. Eles também trabalham na questão do “Advocacy”, que é um programa que coloca os cidadãos atuando no poder legislativo, em uma articulação por políticas públicas, principalmente com relação aos grupos GLBT. Nas palavras do entrevistado:

É articular políticas públicas no poder legislativo e executivo. Tem

gente que acha que é “uma mão lava a outra”

advogado do diabo, mas não é isso que a gente faz. É uma articulação para promoção de políticas públicas. Resumidamente seria isso.

Ou que é atuar como

Segundo ele, a importância de uma ação assim envolve a questão de que ainda não possuímos uma coordenadoria no poder público que atue sobre a causa da homofobia, como ainda não há a lei, fica difícil aplicar uma política efetiva no combate à discriminação. O projeto atua, assim, buscando políticas de segurança pública, agindo como sujeito político na luta contra a homofobia. Além disso, o ROMA, aliado à ABLGT, participa de campanhas nacionais relativas ao PLC 122, como a politização de jovens, distribuição de folders sobre o PLC e sobre a homofobia, os abaixo-assinados pela aprovação do projeto, etc. O grupo sofre de carências financeiras, porém suas ações estão severamente articuladas pela aprovação do PLC 122. O ROMA também está fortemente vinculado à ADEH, à ANTRA (Associação Nacional de Travestis, Transexuais e Transgêneros), também ao coletivo GOZZE, que é o grupo de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT) da UFSC.

O que se coloca é que, na sua construção como sujeito político no debate pela

aprovação do PLC 122, o movimento GLBT se constrói como um sujeito político formado por essas múltiplas articulações e relações com diversos setores. Para mostrar que essa lei não será apenas uma conquista do Movimento Gay, mas também uma conquista para todos os setores que se envolvem nesse processo: os setores de educação, direitos humanos, segurança pública, etc. A própria questão do Kit “Escola sem Homofobia” (erroneamente tratado como “kit gay”) é ao mesmo tempo, um aliado da luta desses movimentos pelo combate à homofobia e também uma medida sócio- educativa na prevenção de violências dentro das escolas. Vê-se que não se trata apenas do movimento gay e suas questões, pois as questões que o movimento evoca não deixam de ser questões que são pertinentes em todos os âmbitos sociais, ao invés de serem relativas a apenas um grupo em específico. Como se destaca na própria fala da primeira entrevistada:

A gente não trabalha [como muitos falam] “a não, tem uma coisinha só pra gays e pra lésbicas”, não, isso é trabalhado junto com todos, entendeu? A única diferença é que tipo um negro vai lá e faz o seu trabalho juto com os professores, a ADEH vai lá e faz o seu trabalho junto com os professores, todos são chamados e todos fazem um trabalho de prevenção dentro das escolas.

O movimento GLBT se constrói como agente político na luta e na deliberação

pela aprovação do PLC 122, mas não se trata apenas do movimento em si – é um corpo formado por diversas articulações e setores políticos e sociais, constituindo o sujeito da

deliberação pela aprovação de um Projeto de Lei que não beneficiará apenas um grupo social em específico, mas será algo importante em amplas questões fundamentais da constituição da cidadania, como educação, direitos humanos, combate à violência, segurança pública, entre outros. Destaca-se, ainda, que a importância dessa articulação se delineia por seus fortes laços com importantes setores de articulações políticas destacados pela fala da entrevistada:

E têm também as secretarias que sempre nos recebem, né, que é a

FPM, a CEPIR, a CDH, a FECON, que são secretarias ligadas diretamente com a Presidência da República, que é de direitos

humanos, da mulher, da igualdade racial e da comunicação social,

E em cima do PLC 122, a gente tá

em constante reunião, digo a gente enquanto associação nacional, enquanto ABGLT, enquanto a ANCRA, a ABL, a ABRAGAY, a LBL, que são várias associações e associações nacionais que estão constantemente na Câmara e no Senado trabalhando isso.

nós tivemos recentemente o MEC

Em relação ao segundo entrevistado, ele também pôde mapear:

A gente tá articulando, pelo MCLGBT, todos os movimentos sociais,

ONGs de direitos humanos como um todo, pessoas com deficiência, movimento negro, assim como a Câmara, Assembleia e OAB, para que possamos fazer as conferências municipais e estaduais. São umas das ações que são feitas pelo Roma e pelo movimento, para ter uma interação. Aqui em Florianópolis nós temos contatos com o pessoal do movimento negro e em Palhoça com o movimento indígena.

Esse mapeamento dos diversos setores políticos e associativos ligados à articulação do movimento GLBT demonstra, a princípio, a importância da questão que é reivindicada; mostra-se que é uma questão não apenas reivindicadora de direitos dos gays, mas também uma questão que é pertinente como um fato social na construção da democracia, que é o combate á violência e a promoção de políticas educacionais que formem cidadãos livres e democráticos, que excluam das relações sociais qualquer forma de violência contra qualquer outro cidadão, também sujeito livre e participante de sua vida social. A constituição do movimento enquanto articulação de inúmeros setores em comunicação é uma característica peculiar das modernas formas associativas. A importância dessa forma de articulação se constitui, ao mesmo tempo como acopladora de inúmeras intenções na demanda de uma questão, como também uma forma de tornar

os movimentos mais maleáveis e comunicativos com setores e representantes políticos, tornando o debate político menos como uma forma de combate e mais como uma forma de diálogo. Lüchmann já observa essa faceta dos modernos movimentos sociais:

Os movimentos não apenas se entrecruzam e se articulam na luta por diferentes demandas e na luta pela articulação das diferenças, como também se mostram mais permeáveis ao estabelecimento de relações com diferentes atores sociais – representantes políticos, setores empresariais, entre outros. (LÜCHMANN, 2004)

Para nosso segundo entrevistado, é de grande importância a articulação do movimento enquanto se constitui como ator político nesse processo de deliberação, e um ponto importante que ele tocou é que ainda está na mão dos movimentos tratarem da questão da homofobia na construção da sociedade civil mais consciente. Reconhecendo a dificuldade da aprovação do PLC 122 e do papel dos movimentos, ele assegurou:

Primeiro porque a gente diz que está num estado laico que não é laico. Se estamos num estado laico não podemos deixar deputados evangélicos e cristão tomarem partidos religiosos em questão de legislatura. Enquanto estratégias, acho que o movimento pecou em não ter conseguido desmistificar o que é homofobia através

da mídia, entrando na casa de todo cidadão brasileiro pra explicar o

que se ele agredir, ou cometer alguma agressão

física, que é aí está a questão do projeto de lei. Se a gente não conseguir alcançar a mídia, em massa, eu acho difícil aprovar qualquer outro projeto. Acho que falta publicizar todos os porquês nas cabeças das pessoas.

que é o PLC, [

]

A partir daí é que o movimento se constitui como um ator político na esfera pública, no reconhecimento das questões que são relevantes para a sociedade e na deliberação dessas mesmas questões, como constituintes da democracia moderna. Já constituído como agente político, o movimento toma frente em suas formas de participação e deliberação no debate político em busca defesa dessa questão que se constitui como uma importante articulação para a transformação social.

2.2 – A construção da participação e da deliberação

Os processos de constituição dos movimentos enquanto atores políticos na esfera pública se fazem por uma via de mão dupla: eles se formam na medida em que desencadeiam a associação de membros da sociedade civil e também na forma como se

organizam e se articulam nos seus processos reivindicatórios das questões que concernem aos movimentos. É um processo que ocorre dentro de uma possibilidade de uma democracia deliberativa que os movimentos encontram sua força e legitimidade enquanto “necessidade dos cidadãos deliberarem a respeito de seus problemas e de suas demandas sociais”, como também no reconhecimento da possibilidade da opinião pública como força para “direcionar o poder administrativo ao atendimento de determinadas demandas sociais” (HAMEL, 2009, p.32). No âmbito circunscrito a Florianópolis, em particular, as ações políticas dos movimentos revelam que a articulação pela aprovação do PLC 122 está ocorrendo de forma contínua e em diversas esferas, onde os sujeitos não apenas estão se colocando como porta-vozes de todas as associações e indivíduos que reivindicam a aprovação, como também têm trazido ao conhecimento da sociedade civil a importância social e política da aprovação do projeto. As ações a nível municipal estão fortemente relacionadas com as ações que estão se dando a nível nacional, e se revelam como um importante substrato representativo do que ocorre em grande parte do território brasileiro. As associações e movimentos de Florianópolis estiveram diretamente relacionados com as conferências LGBTs que têm ocorrido em todo Brasil. Em 2008 houve a primeira Conferência Estadual e Nacional LGBT, onde os movimentos levaram as propostas para que o projeto do PLC 122 fosse colocado em votação na Câmara dos Deputados e no Senado. Essas demandas se colocam frente a questão da necessidade da lei a nível nacional, tendo em vista que em alguns estados e municípios já possuem uma lei de penalização à homofobia 6 , e Florianópolis se insere nesse contexto. Reconhece-se assim que os movimentos de Florianópolis não cessam sua luta após a conquista dessa lei no município: eles estão na luta nacional. As ações dos movimentos florianopolitano estão, assim, circunscritas por ações que visam a aprovação do PLC 122 em todo o âmbito nacional. Nas entrevistas realizadas, assim, pode-se mapear como estão se dando essas articulações. Se começou com a Conferência LGBT em 2008, que levou as propostas para que se colocasse o processo em votação, e a partir disso se transformou em um Projeto de Lei, que este ano

6 Em 1990 em Salvador foi aprovada a Lei Orgânica Municipal proibindo a discriminação baseada na orientação sexual, exemplo seguido por 74 municípios de norte a sul do país e por três constituições estaduais: a de Mato Grosso, Sergipe e Distrito Federal.

quase foi votado pela Câmara, impedido pela “bancada fundamentalista” do Senado, que o impeliu de volta à Câmara e agora permanece como um processo pendente em um jogo de refutações e debates. O principal obstáculo à aprovação do PLC 122 é, segundo a entrevistada, a bancada fundamentalista, constituída por pastores, religiosos e partidos tradicionalistas que vêem o projeto como uma ameaça a “liberdade de expressão”. Mas apesar disso as ações dos movimentos continuam de forma cada vez mais expressiva. A partir da transformação do projeto em Projeto de Lei, os movimentos, no âmbito de Florianópolis, começaram a e articular com várias ONGs, como a ADEH, o Instituto Arco-Íris, setores do âmbito acadêmico como núcleos de pesquisa e estudos de gênero, onde começaram a desenvolver ações no âmbito educacional para conscientização da população a respeito não somente do PLC 122, mas também da importância do combate à homofobia e à violência. Um exemplo dessas ações é o projeto “Escola sem Homofobia”, que articulado na mesma ideologia da busca da aprovação do PLC 122, trabalha em conjunto com núcleos de prevenção à violência, não apenas contra homossexuais, mas no combate a violência contra qualquer indivíduo. Assim, os trabalhos vinculados à articulação pela aprovação do PLC 122 estão ocorrendo em todos os âmbitos da sociedade civil, no contexto de um posicionamento político e ideológico do movimento GLBT na esfera pública. Além dos trabalhos educativos, os movimentos também estão se articulando politicamente. Em 2011, Florianópolis participou da segunda Marcha Nacional Contra a Homofobia, que é uma das reivindicações práticas pela aprovação do PLC 122. A partir desse evento, se começa a articulação com variados setores políticos. Questionada sobre as principais ações em relação à política, nossa entrevistada pôde apontar:

Por conta da marcha, porque quando a gente vai pra marcha, não vai só pra marcha, a gente já vai com uma agenda, sabe, daí tem seminário na UNP, tem seminário na Câmara de deputados, tem agenda com os ministérios, aliás, nessa última marcha que teve agora em maio, nós tivemos cerca de diversas mesas com os ministérios. Inclusive o Ministério das Forças Armadas, que há tempos nós queríamos uma reunião com eles.

Além disso, há constantes reuniões das associações com as Secretarias, entre elas a FPM, o CEPIR (Comitê Estadual de Promoção da Igualdade Étnicorracial), a CDH (Comissão de Direitos Humanos) e a FECON, entre outras, que estão diretamente ligadas à Presidência da República. E ainda há as articulações com o MEC nos projetos educacionais que envolvem questões de gênero. Os movimentos, nesse sentido, estão

constantemente na Assembleia Legislativa, na Câmara e no Senado participando dos debates sobre a aprovação do PLC 122. Essas ações têm, de acordo com nossa entrevistada, se refletido numa abertura cada vez maior dada aos movimentos e associações nos debates políticos:

No nosso último seminário nacional, o seminário na Câmara, que nós temos um seminário que é realizado na Câmara de Deputados de Brasília, nós tivemos mesas muito cheias e com muita gente querendo falar. Na marcha também nós tivemos muitos e muitos deputados, senadores, sabe, articuladores

As articulações pela aprovação do PLC 122, em Florianópolis, assim como em grande parte do território nacional, estão se dando de forma contínua e persistente na esfera pública. O processo para aprovação do projeto ocorre de maneira lenta, pois ele toca em questões que estão correntemente sendo refutadas pela bancada fundamentalista, além disso, há o reconhecimento de que no Brasil as tomadas de decisões políticas a respeito de reivindicações de diversos movimentos e associações se processam de forma arrastada. Isso se relaciona com o fato de que o PLC 122 já foi arquivado e desarquivado inúmeras vezes, teve o texto alterado, foi questionado, etc. Assim como o Projeto da União Civil, que ainda não foi aprovado devido ao demorado processo de suas tramitações pela Câmara desde 1980 7 . Ao se tratar das ações empreendidas pela aprovação do PLC 122 verifica-se que os sujeitos, movimentos e associações estão inseridos num contexto de ampla participação civil nos processos de deliberação política. Pode-se analisar assim, como a representação de uma democracia deliberativa, onde a esfera pública se torna espaço de todos os cidadãos, que nesse processo de reivindicação e manifestação de suas demandas sociais, se estabelecem sujeitos através da comunicação e participação política, tornando-se autônomos e discutindo publicamente os problemas e as necessidades, situando-se os movimentos e associações como um canal necessário para tais reivindicações. Em se tratando de como está ocorrendo esse processo de

7 O processo de arquivamento e desarquivamento de projetos ocorre no jogo das mudanças de mandatos. Quando um mandato termina, os projetos que não foram ainda aprovados são arquivados e voltam para a relação de projetos que estão em processo de espera pela aprovação. Quando uma nova bancada assume, é preciso que haja um representante que defenda determinado projeto para que ele seja desarquivado e volte ao processo de votação e aprovação. Não ocorrendo tal circunstância, ele permanece no arquivo. O projeto da União Civil entre pessoas do mesmo sexo foi primeiramente levado por Marta Suplicy enquanto Deputada, por volta de 1980. Com a mudança das bancadas que ocorreram a partir de então, e com a saída de Marta Suplicy deste cargo, o projeto foi sendo passado por diversos representantes e até hoje ainda não foi aprovado.

reivindicação da aprovação do PLC 122, Habermas se introduz como um importante expoente defensor da importância da democracia deliberativa. As diversas ações empreendidas pelos movimentos e pelas associações são um meio de se levantar, na esfera pública a conscientização dos indivíduos sobre uma questão social que é de grande importância que seja defendida e buscada sua inserção dos procedimentos políticos. Isso está no cerne do que Habermas defende em sua teoria da democracia deliberativa. Para o autor, o que empresta a força legitimadora do procedimento político é justamente esse percurso da argumentação discursiva que se desenrola na esfera pública. “A própria pressão da esfera pública consegue forçar a elaboração de questões e, com isso, atualizar sensibilidades em relação às responsabilidades políticas” (LUBENOW, 2010, p.54). Os movimentos, enquanto suas ações são empreendidas nos diversos âmbitos da esfera pública – como os projetos sócio-educativos, as conferências, as marchas, etc. – estão compreendendo um processo de elaboração de uma questão social e, com isso, colocando em foco a responsabilidade política para tratar tal questão. Os movimentos estão assumindo, assim, o papel da esfera pública da pressão para que o problema seja tratado pelo aparelho governamental. Habermas explica que:

Na perspectiva de uma teoria da democracia, a esfera pública tem que reforçar a pressão exercida pelos problemas, ou seja, ela não pode limitar-se a percebê-los, e a identificá-los, devendo, além disso, tematizá-los, problematizá-los e dramatizá-los de modo convincente e eficaz, a ponto de serem assumidos e elaborados pelo complexo parlamentar. (LUBENOW, 2010, apud. HABERMAS, 1992)

Para Habermas, o procedimento da democracia deliberativa constitui o âmago do processo democrático, por isso é possível se pensar os movimentos e associações envolvidos na luta pela aprovação do PLC 122 como constituintes de um processo de democracia deliberativa. Enquanto atuantes na esfera pública, eles se constituem como meio pelo qual está sendo levantado o problema da homofobia, buscando que esta relevante questão seja tratada pelos governantes no âmbito político. A esfera pública se constitui nesse processo de luta e reivindicação como o espaço social de onde emerge uma formação discursiva de uma vontade política. Assim, os movimentos, nas suas articulações nos processos da luta pela aprovação do PLC 122 exercem a função que é dada por Habermas à esfera pública no processo da democracia deliberativa, como é explicada por Lubenow:

A esfera pública tem a função de filtrar e sintetizar temas, argumentos e

contribuições, e transportá-los para o nível dos processos institucionalizados

de resolução e decisão, de introduzir no sistema político os conflitos

existentes na sociedade civil, a fim de exercer influência e direcionar os processos de regulação e circulação do poder do sistema político, através de uma abertura estrutural, sensível e porosa, ancorada no mundo da vida. [ ] quando abrange questões politicamente relevantes, ela deixa ao cargo do sistema político a elaboração especializada. Embora as tomadas de decisão e

a filtragem das razões via procedimento formal parlamentar ainda

permanecem tarefas da esfera pública formal, são as esferas informais que têm a responsabilidade de identificar e interpretar os problemas sociais.

(LUBENOW, 2010)

As ações empreendidas pelos movimentos GLBTs se constituem, assim, como mecanismos pelos quais, na esfera pública, se articula e se organiza o debate sobre a importância da aprovação do PLC 122. Enquanto agentes políticos, eles tematizam o problema no âmbito da sociedade civil para se ressaltar a importância da existência de uma lei que criminalize os atos homofóbicos, ações que se colocam como uma questão de relevância fundamental na democracia moderna. Trazendo essas questões ao debate na sociedade civil, através dos projetos educativos, articulados com as questões de segurança pública e direitos humanos, eles tematizam o problema da homofobia e vão aos poucos congregando apoio à sua causa da busca da decisão política a favor do PLC 122. Lüchmann coloca bem essa questão ao relacioná-la com uma análise da democracia deliberativa:

Os movimentos sociais, utilizando-se de uma série de mecanismos organizacionais de debate, interlocução e influência, podem dramatizar as questões de forma a impactar a agenda da mídia, tornando-as acessíveis ao grande público e ganhando um lugar na agenda pública, sendo que algumas vezes, requer-se o apoio de ações espetaculares, de protestos de massas e de incessantes campanhas antes que um tema possa avançar, através de votos vitoriosos, de pontos programáticos dos partidos ‘estabelecidos’

cuidadosamente ampliados, dos acórdãos, das súmulas, do judiciário, etc., até

a área central do sistema político e ali receber consideração formal. (LÜCHMANN, 2002).

Os movimentos, nessa luta pela aprovação do PLC se colocam como agentes no jogo da democracia deliberativa. A partir dos movimentos sociais ocorre uma ruptura com “a tradição paternalista de apropriação das reivindicações populares e também para com a tradição clientelista, onde os cidadãos passam a ser os próprios agentes da construção democrática” (HAMEL, 2009, p.35). Eles obedecem, também, a necessidade habermasiana dos cidadãos deliberarem a respeito de seus problemas e suas demandas

sociais, assim como a importância da opinião pública direcionar o poder administrativo ao atendimento de determinadas demandas sociais. A importância dos movimentos sociais na busca pela aprovação do PLC 122 se constitui da mesma forma que é dada a importância dos movimentos sociais em geral, como aponta Hamel:

Mais do que deliberarem acerca de seus problemas, exigirem o reconhecimento de minorias, reivindicarem melhorias substanciais em suas condições de vida, os movimentos sociais estão marcando, sensivelmente, sua atuação na política brasileira com um novo e grande passo na democracia rumo à consolidação de práticas democráticas participativas, como alternativas para o desenvolvimento social e político do país, redefinindo o papel da democracia e do Estado Democrático de Direito. (HAMEL, 2009).

Quanto á representação política favorável à aprovação do PLC 122, ao nosso modelo de democracia, percebemos que a idéia de ter um representante participativo em atividade de representação é avaliado como uma estrutura positiva e correspondente a vontade de “maioria” em se tratando dos cidadãos brasileiros. Contudo percebemos que esta representatividade política é condicionada pela subjetividade do sujeito ao passo que as os resultados das negociações governamentais, lembrando aqui, especialmente, da representatividade da senadora Marta Suplicy, as relações se dão por vontade de uns poucos em situações de uma micro-política. Pateman, citando Berelson, diz que o mesmo questiona a “teoria clássica” com as evidências práticas para concluir, por exemplo, que a teoria clássica pressupunha um cidadão interessado e participativo, o qual não aparece na realidade. A sua obra está dentro da concepção muito recente de que a teoria democrática moderna deve ser descritiva e focalizar na conjuntura política atual:

Segundo esse ponto de vista, pode-se perceber que os altos níveis de participação e interesse são exigidos apenas de uma minoria de cidadãos e que, além disso, a apatia e o desinteresse da maioria cumprem um importante papel na manutenção da estabilidade do sistema tomado como um todo. Portanto, chega-se ao argumento de que essa participação que ocorre de fato é exatamente a participação necessária para um sistema de democracia estável. (PATEMAN, 1992)

A participação, condição essencial para a democracia moderna, constitui o cerne desse longo processo de luta dos movimentos e da sociedade civil pela aprovação do PLC 122. A democracia deliberativa, assim, fica representada por esse processo, que

está sendo articulado na esfera política, social, enfim, em todos os âmbitos da esfera pública. Se tira de conclusão que o Projeto de Lei está crescendo e sendo articulado num amplo e majestoso processo de participação política, alimentado pelos ideais democráticos e pelos inúmeros sujeitos que se articulam num processo de construção coletiva.

Considerações Finais

Nosso trabalho, por hora, aqui se encerra. Procuramos apresentar o PLC 122/2006 e a constituição da luta por sua aprovação, elaborada e levada a campo especialmente pelos movimentos GLBT. Esses movimentos não são os únicos agentes na luta pela aprovação, mas através de suas ações é que as lutas mais expressivas estão se travando. Eles não apenas estão se construindo no campo político, mas acima de tudo, levantam suas bandeiras na sociedade civil, como forma de tornar legítimas suas reivindicações e também de agregar diversos outros campos e agentes na sua luta, que não é apenas uma conquista para o movimento, mas uma conquista para a cidadania, para a educação, os direitos humanos, a segurança pública, etc. As articulações dos movimentos mostram que existe um amplo jogo de relações pelo qual se estabelece a luta por esse direito político. Eles estão vinculados a diversos setores da sociedade civil e política, na perspectiva de levar da forma mais democrática possível sua reivindicação e até como forma de tornar mais claro e objetivo o debate acerca do tema. Estabelece-se aqui também que o movimento ao mesmo tempo em que está no debate político, ele também toma suas manifestações como forma de abrir o debate na sociedade civil e tornar o máximo de cidadãos possível conscientes da importância da aprovação dessa lei. Agentes de uma expressão da democracia deliberativa, onde na esfera pública eles tomam voz, estabelecem a importância desse problema social, e levam ao poder político formal a demanda e a responsabilidade de tomar uma decisão a respeito disso, os movimentos agem enquanto atores políticos e sociais, aos poucos trazendo transformações políticas e sociais que refletem a democracia sendo questionada e reformulada através desses sujeitos e processos de participação. Nos repertórios de argumentações a cerca da não aprovação do PLC 122, as bancada religiosa, “fundamentalistas”, como denominando por muitos, é apontada como principal responsável pelos discursos que desqualificam o projeto de lei, e sustenta especulações errôneas baseadas em argumentações religiosas, especialmente cristãs. Tratou-se aqui de investigar essas tramitações dando relevância a esses conflitos entre contras e a favores, portanto destacamos alguns pontos de observação pelos quais a homofobia institucionalizada pelos pilares firmemente religiosos que o estado Brasileiro supostamente “democrático de direito” é palco de desordem e incoerência política.

Comumente, ouvimos falar, ou se referir a tal projeto, “projeto da homofobia”

ou “projeto contra homofobia”, evidenciado o entendimento que liga o projeto somente

a questão da homofobia e/ou outras referências as homossexualidades. Atentemos ao

fato que a homofobia entra em discussão a partir do momento em que a discriminação

por orientação sexual, gênero e identidade de gênero e que por outro lado esta lei não

atuaria somente em prol dos direitos de pessoas homossexuais, como também idosos,

pessoas com deficiência, xenofobia, preconceito religioso e racismo. Ou seja, diversas

pautas de defesa do projeto não teriam referência às homossexualidades como ponto

principal de defesa, porém, este é o único impedimento. Como segue:

Art. 2 A ementa da Lei nº 7.716 de 5 de Janeiro de 1989 passa avigorar com a seguinte redação:

“Define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.” (NR)

Levemos em consideração ainda que orientação sexual, gênero e identidades de

gênero, campos de vivências e expressões das sexualidades, acrescidas no projeto não

aponta unicamente para as homossexualidades, uma vez que qualquer pessoa

heterossexual que vier a sofrer discriminação baseadas do que o PLC 122 condena

como crime, teria respaldo legal perante a lei com os devidos procedimentos que

orientam o PL. Por isso, aqui noção de que a homofobia se sustenta em favor da não

aprovação e se solidifica ao passo que pensamos nas diferentes formas históricas e

universalizadas que a heterossexualidade teve e tem lugar de conforto nas relações

sociais, não sendo minimamente associadas ao que se cabe em termos de discriminação

e preconceito.

Este projeto de lei, considerando toda participação do movimento social em

várias formas de manifestações políticas de diferentes entidades, ainda levando em

conta de que se trataria de uma ação do poder público visando o bem comum, se

percebe que não exatamente por punir, antes por expor a problemática das violências

contra homossexuais levando-a a uma discussão no âmbito nacional teriam resultados

altamente positivos para as vivências e todos os mecanismos de cidadania LGBT.

A raiz da homofobia está no plano das idéias e sua percepção é tida através das

manifestações e expressões:

A interpretação da homofobia como um medo irracional de tipo patológico foi amplamente criticada, pois só considera parcialmente o problema. É por essa razão que preferimos dedicar mais tempo à descrição da homofobia como manifestação cultural e social comparável ao racismo ou ao antissemitismo. (BORRILLO, 2009)

Chamamos atenção aqui, que a instituição de uma lei que “criminaliza o pensamento” de ódio, homofóbico, a partir de uma instância política existiria uma exercício de poder (poder da maioria) desencadeada para combater por meios da lei, a violências e discriminações contra os cidadãos protegido pela referida lei. Como nos diz:

“Toda a teoria política de Rousseau apóia-se na participação individual de cada cidadão no processo político de tomada de decisões, e, em sua teoria, a participação é bem mais do que um complemento protetor de uma série de arranjos institucionais: ela também provoca um efeito psicológico sobre os que participam, assegurando uma inter-relação contínua entre o funcionamento das instituições e as qualidades e atitudes psicológicas dos indivíduos que interagem dentro delas.” (PATEMAN, 1992)

Este ponto, em diálogo com o que Pateman, nos trás, ao falar dos arranjos institucionais, serve para perceber os efeitos educativos atuantes na compreensão dos indivíduos que a aprovação da lei permite.

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ANEXO

Texto Original do Projeto de Lei 122/2006

PROJETO DE LEI DA CÂMARA

Nº 122, DE 2006

(Nº 5.003/2001, Na Câmara dos Deputados)

Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, dá nova redação ao § 3º do art. 140 do Decreto–Lei nº 2.849, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, e ao art. 5º da Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto–Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e dá outras providências.

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º Esta Lei altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1999, o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, e a Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto–Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, definindo os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.

Art. 2º A ementa da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.” (NR)

Art. 3º o caput do art. 1º da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1999, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.” (NR)

Art. 4º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1999, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 4º–A:

“Art. 4º-A Praticar o empregador ou seu preposto atos de dispensa direta ou indireta:

Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco)anos.”

Art. 5º Os arts. 5º, 6º e 7º da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1999, passam a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 5º Impedir, recusar ou proibir o ingresso ou a permanência em qualquer ambiente

ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público: Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.”{NR)

“Art. 6º Recusar, negar, impedir, preterir, prejudicar, retardar ou excluir, em qualquer sistema de seleção educacional, recrutamento ou promoção funcional ou profissional:

Pena – reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos. Parágrafo único. (Revogado) ”(NR)

“Art. 7º Sobretaxar, recusar, preterir ou impedir a hospedagem em hotéis, motéis, pensões ou similares: Pena – reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos.” (NR)

Art. 6º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1999, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 7º-A:

“Art. 7º-A Sobretaxar, recusar, preterir ou impedir a locação, a compra, a aquisição, o arrendamento ou o empréstimo de bens móveis ou imóveis de qualquer finalidade:

Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

Art. 7º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida dos seguintes art. 8º-A e 8º-B:

“Art. 8º-A Impedir ou restringir a expressão e a manifestação de afetividade em locais públicos ou privados abertos ao público, em virtude das características previstas no art.

1º desta Lei: Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

“Art. 8º–B Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs: Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

Art. 8º Os arts. 16 e 20 da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1999, passam a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 16. Constituem efeito da condenação:

I – a perda do cargo ou função pública,para o servidor público;

II – inabilitação para contratos com órgãos da administração pública direta, indireta ou

fundacional;

III – proibição de acesso a créditos concedidos pelo Poder Público e suas instituições

financeiras ou a programas de incentivo ao desenvolvimento por estes instituídos ou

mantidos;

IV – vedação de isenções, remissões, anistias ou quaisquer benefícios de natureza

tributária;

V – multa de até 10.000 (dez mil) UFIR, podendo ser multiplicada em até 10 (dez)

vezes em caso de reincidência, levando–se em conta a capacidade financeira do infrator;

VI

– suspensão do funcionamento dos estabelecimentos por prazo não superior a 3 (três)

meses.

§ 1º Os recursos provenientes das multas estabelecidas por esta Lei serão destinados para campanhas educativas contra a discriminação.

§ 2º Quando o ato ilícito for praticado por contratado, concessionário, permissionário da administração pública, além das responsabilidades individuais, será acrescida a pena de rescisão do instrumento contratual, do convênio ou da permissão.

§ 3º Em qualquer caso, o prazo de inabilitação será de 12 (doze) meses contados da data

da aplicação da sanção.

§ 4º As informações cadastrais e as referências invocadas como justificadoras da

discriminação serão sempre acessíveis a todos aqueles que se sujeitarem a processo

seletivo, no que se refere à sua participação.” (NR)

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero:

§ 5º O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta,

constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou

psicológica.” (NR)

Art. 9º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 20–A e 20–B:

“Art. 20-A. A prática dos atos discriminatórios a que se refere esta Lei será apurada em processo administrativo e penal, que terá início mediante:

I – reclamação do ofendido ou ofendida;

II – ato ou ofício de autoridade competente;

III – comunicado de organizações não governamentais de defesa da cidadania e direitos

humanos.”

“Art. 20–B. A interpretação dos dispositivos desta Lei e de todos os instrumentos normativos de proteção dos direitos de igualdade, de oportunidade e de tratamento atenderá ao princípio da mais ampla proteção dos direitos humanos.

§ 1º Nesse intuito, serão observadas, além dos princípios e direitos previstos nesta Lei, todas as disposições decorrentes de tratados ou convenções internacionais das quais o Brasil seja signatário, da legislação interna e das disposições administrativas.

§ 2º Para fins de interpretação e aplicação desta Lei, serão observadas, sempre que mais benéficas em favor da luta antidiscriminatória, as diretrizes traçadas pelas Cortes Internacionais de Direitos Humanos, devidamente reconhecidas pelo Brasil.”

Art. 10. O § 3º do art. 140 do Decreto–Lei nº 2.649, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 140. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero, ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos e multa.”(NR)

Art. 11. O art. 5º da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo Decreto– Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, passa a vigorar acrescido do seguinte parágrafo único:

“Art. 5º Parágrafo uníco. Fica proibida a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso a relação de emprego, ou sua manutenção, por motivo de sexo, orientação sexual e identidade de gênero, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar ou idade,

ressalvadas, neste caso, as hipóteses de proteção ao menor previstas no inciso XXXIII do caput do art. 7º da Constituição Federal.” (NR)

Art. 12. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.