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Anais do XXII SBIE - XVII WIE Aracaju, 21 a 25 de novembro de 2011

Anais do XXII SBIE - XVII WIE

Aracaju, 21 a 25 de novembro de 2011

Rede social como espaço de ensino- aprendizagem:

uso da plataforma Elgg em um curso de pós-graduação

Antonio Cordeiro 1 , Marcelo Massao 2 , Rodolfo Pimenta 3 , Lucimeri Ricas 4

{1,2, Pós-graduação em Tecnologias da Informação Aplicadas à Educação – iNCE/UFRJ

³Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro (FAETEC)

4 Programa de Pós-Graducação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologias/UFRJ

{marcelorb,rpprjbr,luricas}@gmail.com, antonio.cordeiro@yahoo.com.br

Abstract. The article describes the use of Web 2.0 tools integrated within a social networking platform allowing the learning from the connections produced in thematic communities, blogs, microblos, bookmarks, files, wiki, bulletin board, personal web pages and keywords. These features are available in free software Elgg, a framework for Personal Learning Environment (PLE) with focus on the relationships of users, which was implemented in a pos-graduation course.

Resumo. O artigo descreve o uso de ferramentas de web 2.0 integradas numa plataforma de rede social possibilitando o aprendizado a partir das conexões produzidas em comunidades temáticas, blogs, microblogs, favoritos, arquivos, wiki, mural de avisos, páginas pessoais e palavras-chave. Esses recursos estão disponíveis no software livre Elgg, um framework de Personal Learning Environment (PLE), implantado no curso de Pós-graduação em Tecnologias da Informação Aplicadas à Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

1. Introdução

O presente trabalho relata a experiência de utilização de rede social com a plataforma Elgg no curso de pós-graduação em Tecnologias da Informação Aplicadas à Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresentando as percepções desde o processo de implantação até a execução de atividades nesse ambiente. Primeiro são apresentadas características dos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) e dos ambientes de aprendizagem pessoal (personal learning environments – PLE) seguidas de uma breve comparação entre eles até chegar ao Elgg. Após esta contextualização, é descrita uma experiência da aplicação da ferramenta no contexto educacional. Ao final são apresentadas as conclusões e constatações que servirão para trabalhos futuros.

2. AVA x PLE

O ambiente virtual de aprendizagem (AVA) é uma plataforma que utiliza o ciberespaço para veicular conteúdos e permitir a interação entre os atores do processo educativo [Pereira e Dias 2007] ou simplesmente um conjunto de ferramentas eletrônicas focadas

ISSN: 2176-4301

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no processo de ensino-aprendizagem [ Mckimm et al, 2003]. O AVA deve conter recursos para autenticar usuários, registrar participação dos alunos, controlar o tempo de disponibilização de materiais e atividades, avaliar os estudantes de maneira formativa e promover a comunicação entre os participantes de forma síncrona e assíncrona [Milligan 1999]. O ambiente de aprendizagem pessoal (personal learning environment - PLE) integra em um único espaço todos os recursos que o aluno precisa para gerenciar seu aprendizado na rede [Lubensky 2007]. Dentre algumas ferramentas encontradas, destacam-se o blog, microblog, forum, wiki, comunidade, compartilhamento de arquivos, troca de mensagens e palavras-chaves (tags). De acordo com Mota (2009), o PLE representa a convergência das mudanças sociais e culturais ocorridas em virtude da tecnologia, sobretudo a WEB 2.0, que também atingiu a educação e o processo de aprendizagem. Nesse cenário, o aluno tem a liberdade de escolher quais ferramentas irá utilizar, assim como quais fontes de conteúdo são mais interessantes. Cada um dos ambientes apresenta características próprias e maneiras diferentes de gerenciarem o conteúdo e o relacionamento. De acordo com Anderson (2008), o sistema de aprendizagem pessoal (PLE) não oferece controle de documentos e gestão de aluno como os encontrados em AVA. Todavia um AVA, pelo seu desenho modular, tende a restringir o conteúdo proposto. Por outro lado, o PLE oferece maior possibilidade do aluno buscar novas formas de aprendizagem, não delimitando um espaço para desenvolvimento das atividades. Para Bassani e Bassani (2010), a diferença fundamental entre um AVA e um PLE refere-se ao fato de que um AVA enfatiza um modelo centrado no curso, enquanto o PLE centra-se no aluno.

3. Elgg

Entre as opções de PLE existentes atualmente na web, o Elgg 1 é um ambiente de código fonte aberto desenvolvido em 2004 por Dave Tosh e Ben Werdmuller que apresenta uma interface simples para os usuários criarem seus portfólios, gerenciarem grupos, gerarem repositórios de arquivos, adicionarem fóruns de discussão, escreverem artigos e postarem em blogs de forma pública, privada ou restrita ao grupo. Para Bomfim (2009), desde sua concepção possui características presentes nos PLEs como uma rede social baseada em FOAF (Friend Of A Friend), utilização de sindicação e alto grau de personalização. Um projeto desenvolvido no Elgg é o Community Brighton 2 , portal destinado aos funcionários e estudantes da University of Brighton, na Inglaterra, com cerca de 84.000 usuários cadastrados para ler notícias, compartilhar textos e acompanhar as atualizações dos colegas. Franklin & Harmelen (2007) destacam que o projeto criou um senso de comunidade nos estudantes dos cinco campi da universidade. No Canadá, a Universidade de Athabaska também desenvolveu uma plataforma colaborativa no Elgg denominada M2U 3 . Segundo Anderson (2008), o sistema é um espaço de trocas individuais e coletivas de conhecimento, possibilitando criar vínculos entre colegas com interesses culturais similares. Anderson (2008) também destaca a importância da reputação dentro da comunidade, outra característica fundamental dos relacionamentos no M2U. Quanto mais o usuário posta documentos e interage com os colegas, mais trilhas de conhecimento são abertas. É possível determinar o histórico de contribuições entre os estudantes que agregam valor de fato à rede [Cruz et al. 2007].

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4. Elgg no curso de pós-graduação PGTIAE

O Elgg mostrou-se uma plataforma viável no desenvolvimento de uma rede social no curso de pós-graduação em Tecnologias da Informação Aplicadas à Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (PGTIAE/iNCE/UFRJ), reunindo algumas ferramentas utilizadas da web 2.0 no mesmo ambiente. Iniciamos a utilização do software nas disciplinas Software Livre, Treinamento a Distância e Avaliação. Também estendemos a experiência durante a redação de artigos de forma colaborativa, pesquisa de referências para as monografias de alunos e interação com os participantes do 1o. Seminário da Pós-graduação PGTIAE.

participantes do 1o. Seminário da Pós-graduação PGTIAE. Figura 1. Comunidade Gerência em Saúde em

Figura 1. Comunidade Gerência em Saúde em

Vamos relatar aqui a vivência na plataforma durante a disciplina de Avaliação, realizada na comunidade Gerência em Saúde. Esta comunidade foi criada para ser utilizada pelos alunos do primeiro módulo de uma turma do curso técnico de Gerência em Saúde, turno da noite, da Escola Técnica Estadual Oscar Tenório. A escola está localizada no bairro de Marechal Hermes, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro.

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4.1 Descrição da tarefa proposta

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Em um primeiro encontro, em sala de aula com alunos da escola, foi proposta a tarefa para ser elaborada em grupo, no período de 23/8/2011 até 27/9/2011, correspondendo à 50% da nota da primeira avaliação bimestral e com os seguintes objetivos que deveriam ser alcançados:

Pesquisar sobre um tema escolhido dentro da área de Gerência em Saúde;

Compartilhar informações encontradas;

Discutir com os colegas;

Elaborar um texto dissertativo com a colaboração de todos os integrantes.

Também foi explicado que a avaliação desta tarefa aconteceria de 3 formas: um grupo avaliaria o outro, cada integrante avaliaria sua participação e a dos colegas de grupo e a avaliação do professor. Todas as avaliações seriam baseadas em 3 critérios definidos a seguir:

Participação: se o aluno participou do desenvolvimento.

Relevância: se a contribuição agregou valor para o trabalho.

Produto: avaliação sobre o texto produzido.

Os alunos foram orientados em como acessar a plataforma, fazendo cadastro ou utilizando uma conta existente do Facebook ou Twitter, ingressar na comunidade de trabalho, e o que deveriam fazer primeiro: dividirem-se em grupos, escolherem os temas e colocarem essas informações em uma página colaborativa chamada de Grupos e Temas. Todas as instruções estavam disponíveis na parte de Arquivos da Comunidade. Como todos os registros do trabalho deveriam ficar na comunidade, foram ativados quatro recursos e atribuídas funções para eles de acordo com a lista abaixo:

Arquivos: enviar arquivos encontrados através da pesquisa, disponibilizando para seus colegas de grupo;

Discussão: similar ao fórum, serve para criação de tópicos de discussão para comunicação entre colegas e professor;

Favoritos: registrar links interessantes para o desenvolvimento do trabalho;

Páginas colaborativas (wiki): construção de documentos colaborativamente, ou seja, várias pessoas trabalhando em uma mesma produção.

Após as instruções iniciais, foi apresentado o seguinte cronograma como sugestão:

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do XXII SBIE - XVII WIE Aracaju, 21 a 25 de novembro de 2011 Figura 2.

Figura 2. Cronograma das atividades propostas

4.2 Percepções iniciais

Foram formados 3 grupos e nenhum deles escolheu um tema sugerido pelo professor. Eles tiveram a iniciativa de buscar um tema que fosse de interesse do grupo, formando o seguinte panorama inicial:

Grupo 1: 3 alunos. Tema Tecnologia da Informação em Saúde;

Grupo 2: 4 alunos. Tema A importância das férias para o trabalhador;

Grupo 3: 4 alunos. Tema Princípios norteadores do SUS - Universalidade, Equidade e Integralidade.

A faixa etária dos alunos é ampla, alguns não chegaram aos 20 anos e outros já estavam próximos dos 50 anos. Com a tarefa iniciada, a turma dividiu-se segundo critérios relacionados com motivação. Os alunos que já possuíam familiaridade com uso de computadores, os mais jovens, mostraram-se animados com a experiência de fazer um trabalho utilizando uma plataforma a distância. Já os menos jovens, ficaram receosos pelo fato de enfrentarem barreiras fundamentais como operar um computador, pesquisar na internet ou comunicar-se a distância. Entretanto, aceitaram o desafio. Também é interessante mencionar que todos os alunos dessa turma tinham poder aquisitivo baixo, levando em consideração o fato de estarem num curso técnico subsequente ao ensino médio e no turno da noite. Alguns possuíam computadores com acesso a internet mas outros nem computador tinham.

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4.3 Considerações sobre o desenvolvimento

Nas duas primeiras semanas, os grupos 1 e 2 conseguiram caminhar com suas atividades inserindo conteúdos pesquisados e discutindo com o grupo. Uma aluna do grupo 2, que destacou-se excelentemente durante todo o trabalho, iniciou uma votação, instigou os colegas a participarem e apresentou seu ponto de vista, o que levou outros a fazerem o mesmo. O grupo 3 foi o que encontrou dificuldades pois, apesar de possuir mais alunos, duas pessoas, de mais idade, apresentaram entraves na utilização da ferramenta e as outras duas não interagiram com frequência. Um ponto importante a destacar é que os que encontraram dificuldades já tinham iniciado as atividades, inserindo conteúdos e discutindo com os colegas. No encontro presencial, disseram que consideravam não ter feito nada e nem sabiam onde estavam suas atuações dentro da comunidade, mas contribuíram.

suas atuações dentro da comunidade, mas contribuíram. Figura 3. Produção dos grupos na comunidade Gerência em

Figura 3. Produção dos grupos na comunidade Gerência em Saúde

Novamente os recursos foram explicados, com mais detalhes, e ao longo da semana seguinte percebeu-se que eles utilizaram recursos diferentes, por exemplo:

existem os arquivos do perfil de um usuário e os arquivos da comunidade; uma aluna colocou seus arquivos no próprio perfil, levando-os para a comunidade após interferência do professor.

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Outro ponto interessante é o uso de recursos externos à comunidade do trabalho, como as mensagens particulares enviadas para outro usuário, que foram utilizadas para tirar dúvidas com o professor, ressaltando que esse recurso não foi apresentado, foi descoberto.

5. Conclusão

O processo de ensino-aprendizagem pode beneficiar-se cada vez mais dos recursos

tecnológicos, sobretudo da WEB 2.0. Uma alternativa é integrar o AVA ao PLE para que os desenvolvedores e usuários utilizem o melhor de cada ambiente ao invés de preferirem uma arquitetura a outra. Segundo Anderson (2008), a integração possibilita a ampla personalização dos contextos de aprendizagem, não apenas por professores e

gestores, mas também pelos alunos, à medida que ganham controle sobre seus próprios aprendizados. Bassani e Bassani (2010) apontam a tendência da aprendizagem pessoal em rede onde os usuários terão cada vez mais liberdade de escolha. Segundo os pesquisadores, tecnologias que promovam a autonomia, que incentivem a diversidade e permitam a interação, serão mais eficazes que as demais. Nessa perspectiva, a educação online evoluirá de uma abordagem definida pelo AVA para a ideia de PLE [Bassani and Bassani 2010]. Com base na experiência descrita da utilização do Elgg em disciplinas da pós- graduação em Tecnologias da Informação Aplicadas à Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (PGTIAE/iNCE/UFRJ), em particular na disciplina de Avaliação, concluímos que a adesão ao ambiente demanda sugestões de uso que exemplifiquem o potencial educativo desse tipo de plataforma para os estudantes. A turma de informática básica do curso de Gerência em Saúde do Colégio Faetec, onde foi realizado o estudo de caso da plataforma de aprendizagem pessoal, era composta por um grupo heterogêneo de alunos, levando em consideração a faixa etária, experiência com tecnologia e recursos disponíveis. Durante todo o tempo dessa atividade, eles se mostraram dispostos a enfrentar

os desafios de um trabalho em grupo a distância, mesmo com limitações operacionais.

Tiveram a iniciativa de escolher seus próprios temas, de tentar ajudar os outros grupos em encontros presenciais e até comentar as produções alheias durante seu processo de construção. Relataram a realização da tarefa como positivas para suas vidas. E o mais importante: perderam o medo de ingressarem em uma ferramenta ou ambiente novo! A experiência adquirida permitiu que explorassem o que sabiam e amadurecessem com os próprios erros, identificando suas dificuldades. Todos conseguiram concluir o texto em uma página colaborativa e fizeram as avaliações através do formulário do Google Docs no último encontro presencial, data limite para finalização do texto. As avaliações foram realizadas com seriedade e às cegas, o que pôde ser confirmado nos grupos 2 e 3 onde alunos que tiveram maior desempenho avaliaram-se não tão bem, enquanto outros menos participativos avaliaram-se melhor. Isso reforça a necessidade do professor como mediador acompanhando todo o desenvolvimento e tendo total domínio da ferramenta escolhida, eliminando o julgamento da transferência da responsabilidade da avaliação para os alunos, o que normalmente é levantado por eles quando esse tipo de avaliação é proposta.

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Na semana seguinte ao término das atividades, as notas foram apresentadas. Surpreendentemente, os alunos que receberam notas menores não contestaram, relatando a falta com o grupo e as dificuldades que tiveram. Novamente falaram bem da ferramenta e comentaram que sugeriram para outro professor colocar seus trabalhos na comunidade. Com isso, continuam utilizando a plataforma e o ambiente construído na comunidade para desenvolver trabalhos de outros professores, compartilhando seus conhecimentos e colaborando com os colegas.

Referências

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Bassani, P.B.S. e Bassani, R.V. (2010) “Aprender em/na rede: reflexões sobre o potencial das redes de aprendizagem nos processos de educação a distância”,

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