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Qualidade de vida e diabetes

Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación

QUALIDADE DE VIDA RELACIONADA À SAÚDE DE PACIENTES DIABÉTICOS ATENDIDOS PELA EQUIPE SAÚDE DA FAMÍLIA

HEALTH-RELATED QUALITY OF LIFE OF DIABETIC PATIENTS SEEN BY FAMILY HEALTH TEAM

CALIDAD DE VIDA RELACIONADA A LA SALUD DE PACIENTES DIABÉTICOS ATENDIDOS POR EL EQUIPO SALUD DE LA FAMILIA

Francielle Silva Ferreira I Claudia Benedita dos Santos II

RESUMO:RESUMO:RESUMO:RESUMO:RESUMO: O Diabetes Mellitus (DM) é uma doença crônica cujo tratamento pode interferir na qualidade de vida dos indivíduos. Este estudo de pesquisa transversal objetivou descrever o perfil sociodemográfico e clínico e avaliar a qualida- de de vida relacionada à saúde (QVRS) de indivíduos com DM. Foi desenvolvido, no período de outubro a dezembro/2007, com indivíduos atendidos por uma equipe de saúde da família, em Uberaba-MG. Participaram do estudo 68 indivíduos, adultos e de ambos os sexos. Durante visitas domiciliares, utilizou-se instrumento contendo variáveis socio-demográficas

e clínicas e o Medical Outcomes Study 36 – Item Short Form Health Survey (SF – 36). Dos entrevistados, 70,6% são

mulheres, idade média 57,1 anos, 79,4% apresentaram outro problema de saúde e 55,9%, hiperglicemia. O SF-36 apresentou consistência interna satisfatória para a maioria das dimensões. Os resultados mostram impacto negativo do diabetes na QVRS. Ressalta-se a importância da promoção da saúde para melhorar as condições de vida. Palavras-ChavePalavras-ChavePalavras-ChavePalavras-ChavePalavras-Chave: Qualidade de vida relacionada à saúde; diabetes; promoção da saúde; equipe de saúde.

ABSTRACTABSTRACTABSTRACTABSTRACTABSTRACT::::: Diabetes mellitus (DM) is a chronic disease whose treatment can interfere with quality of life. This cross- sectional study described the socio-demographic and clinical profile and assessed the health-related quality of life (HRQOL) of individuals with DM. It took place from October to December 2007 with 68 adults of both sexes served by

a Family Health Team in Uberaba, Minas Gerais, Brazil. An instrument containing socio-demographic and clinical

variables and the Medical Outcomes Study: 36-Item Short-Form Health Survey (SF-36) were applied during home visits. Of the respondents, 70.6% were women with an average age of 57.1 years; 79.4% had other health problems and 55.9%, hyperglycemia. The SF-36 returned satisfactory internal consistency for most dimensions. The results show the adverse impact of diabetes on HRQOL. This underlines the importance of health promotion to improving life conditions. KeywordsKeywordsKeywordsKeywordsKeywords: Health-related quality of life; diabetes; health promotion; health team.

RESUMEN:RESUMEN:RESUMEN:RESUMEN:RESUMEN: El Diabetes mellitus (DM) es una enfermedad crónica cuyo tratamiento puede interferir en la calidad de vida de las personas. Este estudio de investigación transversal objetivó describir perfil sociodemográfico y clínico y evaluar la calidad de vida relacionada a la salud (CVRS) de personas con DM. Se desarrolló en el período de octubre

a diciembre/2007, con personas atendidas por un equipo de salud de la familia, en Uberaba-MG-Brasil. Participaron

del estudio 68 individuos, adultos y de ambos los sexos. Durante visitas domiciliarias, se utilizó instrumento que contiene las variables sociodemográficas y clínicas y el Medical Outcomes Study 36 - tem Short Form Health Survey (SF - 36). De los encuestados, 70,6% son mujeres, edad media 57,1 años, 79,4% presentaron otro problema de salud

y 55,9%, hiperglucemia. El SF-36 mostró consistencia interna satisfactoria para la mayoría de las dimensiones. Los

resultados muestran el impacto negativo del diabetes en la CVRS. Se resalta la importancia de la promoción de la salud para mejorar las condiciones de vida. PalabrasPalabrasPalabrasPalabrasPalabras ClaveClaveClaveClaveClave: Calidad de vida relacionada a la salud; diabetes; promoción de la salud; equipo de salud.

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial de Saúde (OMS), atra- vés do Grupo de Qualidade de Vida, define qualidade de vida (QV) como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e do sistema de valores em que vive e em relação aos seus objeti- vos, expectativas, padrões e preocupações” 1:1403 .

Qualidade de vida está relacionada a elemen- tos que a sociedade considera como padrão de con- forto e bem-estar, variando com a época, valores, espaços e histórias 2, 3 . Para os pesquisadores, mesmo na ausência de uma definição universal para o ter- mo QV, em qualquer lugar do mundo, as pessoas são

I Enfermeira Mestre em Enfermagem em Saúde Pública. Professora da Faculdade Talentos Humanos/ Curso de Graduação em Enfermagem – Uberaba/MG, Brasil. E-mail: francielle_ferreira@terra.com.br II Professora Doutora Associada – Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, Brasil. Doutor em Estatística. E-mail. cbsantos@eerp.usp.br

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familiarizadas com o termo e entendem o que ele compreende 4 . Conceituar QV é um desafio contínuo e medi-la assume contornos ainda mais pretensiosos 5 . A maio- ria dos instrumentos de avaliação de QV tem sido de- senvolvida nos Estados Unidos e Inglaterra, diferindo em sua forma de aplicação, extensão e conteúdo 6 . Exis- tem dois tipos de campos de aplicação de medidas de QV que podem ser classificadas em: genéricos ou es- pecíficos. Os genéricos são destinadas para uso geral de base populacional, independentemente da doença ou condição do paciente, bem como para pacientes sau- dáveis e os específicos, ao estudo da qualidade de vida de indivíduos doentes ou com agravos e/ou submeti- dos a intervenções médicas 2 . Para evitar ambiguidade e distinguir entre QV em seu senso mais amplo e a sua aplicação específica na medicina clínica e nos estudos clínicos, o termo qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) é frequentemente utilizado 4,7 . Este estudo objetiva descrever o perfil dos indi- víduos com Diabetes Mellitus atendidos por uma equi- pe de saúde da família (ESF), segundo variáveis sociodemográficas e clínicas e avaliar a qualidade de vida relacionada à saúde desses pacientes.

REFERENCIAL TEÓRICO

Em relação às doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) e seu impacto na QV das pessoas, a partir da década de 1960, o país passa por mudanças nas características das doenças que acometiam a popula- ção devido ao processo da transição demográfica e da transição epidemiológica por que passa o mundo, re- sultando em aumento da expectativa de vida ao nas- cer e mudança de morbimortalidade 8,9 . Entre as DCNTs destaca-se, no presente estu- do, o Diabetes Mellitus (DM) que é definido como síndrome de etiologia múltipla, podendo ser ocasio- nado pela falta de insulina e/ou incapacidade de a insulina exercer adequadamente suas funções, e que está entre as principais causas de morte 10,11 .

A estimativa é que, em 2025, o número de pesso-

as com DM ultrapasse 300 milhões. O Brasil é consi- derado o sexto país do mundo em número de pessoas com diabetes. Entre os fatores que contribuem para esse aumento destacam-se o envelhecimento da po- pulação, hereditariedade, alimentação inadequada, obesidade e estilo de vida cada vez mais sedentário 12-14 .

O DM é um dos principais fatores de risco para

doenças cardiovasculares que constituem a principal causa de morbimortalidade da população brasileira 15 .

Estudos têm demonstrado que aproximadamente 50% dos indivíduos desconhecem o diagnóstico, fa- zendo-o tardiamente 16 , sendo, muitas vezes, o diag- nóstico realizado já na presença de complicações 13 .

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As alterações impostas pelo tratamento do DM, adoção de terapêutica medicamentosa, presença de complicações, entre outros, são alguns dos fatores relacionados ao DM que podem interferir na QV dos indivíduos 17,18 . Frente ao exposto, ressalta-se a relevância de conhecer os aspectos da QV dos indivíduos com DM mais impactados negativamente pela condição, para planejar e implementar as ações em saúde, em especi- al na atenção de enfermagem, voltadas para a pre- venção e promoção da saúde. No presente estudo, o enfoque é a QVRS, uma vez que se busca analisar os aspectos da QV dos indivíduos com DM mais com- prometidos pela doença e pelo tratamento.

METODOLOGIA

Estudo transversal desenvolvido com 68 indiví- duos com DM tipo 1 e 2, adultos, de ambos os sexos, em acompanhamento por uma ESF, no município de Uberaba-MG, no período de março a junho de 2007. Ficaram excluídos do presente estudo indivíduos com DM que estão realizando acompanhamento tempo- rariamente ou por tempo determinado e aqueles com alguma incapacidade de resposta, ou entendimento das questões, diagnosticados segundo prontuário, re- lato médico ou de cuidador.

Conforme informações obtidas junto à ESF e às fichas de cadastros no Hiperdia, encontrou-se um total de 94 indivíduos com DM, sendo que 24 são portadores do tipo 1 e 70 do tipo 2. Do total, 68 res- ponderam ao questionário. Os dados foram coletados pela própria pesquisadora, em visitas domiciliares, por meio da aplicação de um instrumento com variáveis sociodemográficas e clínicas e de outro para avalia- ção de QV, o questionário Medical Outcomes Study 36 – Item Short Form Health Survey (SF-36) 19 .

O SF-36 é um instrumento genérico de avalia- ção de QVRS, o qual foi desenvolvido por Ware e Sherbourne, em 1992, para ser utilizado em prática e pesquisa clínica, avaliações de políticas de saúde e pesquisas gerais na população. Avalia tanto aspectos negativos da saúde (doença ou enfermidade) como os aspectos positivos (bem-estar) 19 e apresenta um es- core final de 0 (pior estado geral de saúde) a 100 (me- lhor estado de saúde), sendo analisada cada dimen- são em separado 19 .

Este instrumento foi traduzido, validado e adap- tado culturalmente, no Brasil, por Ciconelli, 1997, sendo desenvolvido um protocolo para tradução e validação do SF-36, de acordo com algumas etapas propostas pelos coordenadores do International Quality of Life Assesment Project (IQOLA) e também em tra- balhos da literatura que abordam a metodologia da tradução de questionários para outros idiomas 20 .

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Os resultados obtidos foram dispostos em um banco de dados, utilizando-se a técnica da dupla ve- rificação, para minimizar os possíveis erros de digitação. As medidas estatísticas descritivas foram obtidas utilizando-se o programa estatístico Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 10.1. A con- sistência interna foi medida segundo o coeficiente de alfa de Cronbach, cujos valores aceitáveis são aqueles iguais ou maiores que 0,70 21 . A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (Protocolo n° 0625/ 2005). Todos os participantes do estudo leram e assi- naram duas vias do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, tendo uma ficado em sua posse e outra em posse do pesquisador responsável por este trabalho.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Realizaram-se as entrevistas em tempo médio de 14 minutos e 42 segundos. Os resultados são discuti- dos conforme as variáveis sociodemográficas, clíni- cas e da QVRS.

Variáveis Sociodemográficas

Dos 68 indivíduos, 48(70,6%) são mulheres. O fato de pesquisas observarem maior prevalência de mulheres com DM pode estar relacionado à maior procura delas pelos serviços de saúde 22 . Quanto ao estado civil, 48(70,6%) são casados. Acredita-se que indivíduos que convivem com um companheiro te- nham melhor resultado no tratamento do DM 23,24 . Quanto à variável trabalho, 34(50%) não exer- cem atividade profissional e 13(19,1%) apenas ati- vidades referentes ao lar, fato que corrobora a idade dos indivíduos. A média para idade foi de 57,1 anos (desvio-padrão: 10,9 anos). Os resultados confir- mam estudos que demonstram maior prevalência de DM em pessoas com idade avançada e dados do Mi- nistério da Saúde 13 que mostram maior número de pessoas, com idade entre 60-69 anos (17%) acome- tidas pelo DM. Esta realidade está associada à perda da capacidade de execução de atividades ligadas ao trabalho ou ao dia a dia 13,16,23,25-28 . Para a renda familiar, obtida pela soma das ren- das individuais de todos os membros familiares, o valor médio foi de 2,7 salários mínimos (SM), apre- sentando desvio de 2,1 SM. Destaca-se que 23(33.8%) apresentam renda de um SM e meio ou menos. Infe- re-se que uma maior renda poderia ser fator facilitador na adesão ao tratamento do diabetes. Em relação a anos de estudo, a média foi de 3,2 e desvio- padrão de 2,8 anos. Dos 68 participantes, 23(33,8%) relataram ter um ano ou menos de escolaridade, fator considerado dificultador 26 na adesão ao tratamento.

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Variáveis Clínicas

Ao serem questionados quanto ao tratamento do DM, 20(29,4%) indivíduos associam exercício fí- sico a outras formas de tratamento, a dieta foi relata- da por 37(54,4%) entrevistados. Para o tratamento do DM, é fundamental não apenas o uso de medica- mentos, mas a alteração do estilo de vida. O tempo de diagnóstico do diabetes variou de 1 a 36 anos, com média de 8,9 e desvio-padrão de 6,7 anos. Na popula- ção brasileira, parte significativa com DM desconhe- ce o diagnóstico, o qual é definido, na maioria das vezes, já na presença de complicações 29 . Entre os problemas citados para a realização do tratamento, destacam-se a dificuldade para seguir a dieta para 17(25%) entrevistados e a dificuldade fi- nanceira para igual proporção. A adesão ao tratamen- to constitui um das dificuldades enfrentadas pelo ser- viço de saúde 30,31 . Dos entrevistados, 54(79,4%) responderam pos- suir problemas de saúde, contra 14(20,6%). Das comorbidades citadas, 46(43,8%) relataram hiperten- são arterial e 22(21,0%), problemas cardiovasculares. Estudo realizado com indivíduos com DM tipo 2 en- controu uma elevada frequência de fatores de risco cardiovasculares, com destaque para a hipertensão arterial, presente em 73% dos pacientes estudados 28,29 . Há presença de amputação em membros inferi- ores, referida por 3(4,4%) indivíduos. Entre os parti- cipantes, 22(32,4%) referiram alterações nos pés, sen- do 12(40,0%) delas relacionadas à presença de dormência, 4(13,3%) à dor e 3(10,0%) à queimação. Indivíduos com DM têm risco aumentado para am- putações de membros inferiores 32 . A média do índice de massa corporal (IMC) foi de 25,9 Kg/m², com desvio-padrão de 6,5 Kg/m². A OMS considera IMC (peso/altura²) normal valores entre 18,5 e 24,9 Kg/m² 33 , dessa forma, vê-se que os entrevistados estão, em média, com valores acima do normal. De acordo com a OMS 34 , a obesidade e o sobrepeso são importantes fatores de risco para o de- senvolvimento de doenças crônicas como diabetes tipo 2, cardiopatias e hipertensão. Quanto à pressão arterial, a maioria dos indivíduos não apresentou al- teração, sendo que 38(55,9%) revelaram glicemia al- terada. O controle glicêmico constitui-se objetivo predominante no tratamento do DM.

Variáveis Referentes à QVRS

Para a avaliação da QVRS dos indivíduos, obti- veram-se os escores brutos e também os padroniza- dos, individuais, para cada dimensão do SF-36. Os valores variaram entre zero e cem, caracterizando maior e menor impacto negativo do diabetes na QV, respectivamente, conforme mostra a Tabela 1.

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TTTTTABELAABELAABELAABELAABELA 1:1:1:1:1: Valores padronizados médios, respectivos desvios-padrão, intervalo obtido, quartis e valores de alfa de Cronbach das dimensões do SF-36 entre os pacientes diabéticos atendidos por uma equipe de saúde da família. Uberaba-MG, 2007.

DimensõesDimensõesDimensõesDimensõesDimensões SF-36/SF-36/SF-36/SF-36/SF-36/ N°N°N°N°N° dasdasdasdasdas QuestõesQuestõesQuestõesQuestõesQuestões Min: 0 Máx: 100

MédiaMédiaMédiaMédiaMédia

QuartilQuartilQuartilQuartilQuartil

MedianaMedianaMedianaMedianaMediana

QuartilQuartilQuartilQuartilQuartil 33333

alfaalfaalfaalfaalfa

(DP)(DP)(DP)(DP)(DP)

11111

CronbachCronbachCronbachCronbachCronbach

Aspectos sociais 6 a + 10 Dor

7 b +

8 b

63,8 (30,7)

53,0 (31,1)

50

62,5

100

0,42

22

51

72

0,89

Estado geral de saúde

1 b

+ 11 (a + b a + c+ d Saúde mental

+ h a )

9 (b + c + d a + f Vitalidade 9 (a a + e a + g

+ i)

a )

51,1 (26,6)

49,9 (26,0)

48,6 (24,3)

22

32

50

48

72

71

0,66

0,77

31,3

50

70

0,62

Capacidade funcional

3(a+b+c+d+e+f+g+h+i+j)

48,2 (31,2)

20

45

75

0,90

Aspectos

emocionais

5 (a+b+c)

46,6 (45,4)

0

33,3

100

0,89

Aspectos

físicos

38,6 (42,4)

0

25

100

0,89

4 (a+b+c+d)

a Questões reversas.

b Questões recodificadas.

A consistência interna do SF-36 foi inferior a

0,70 para três dimensões: estado geral de saúde ( = 0,66), vitalidade (a = 0,62) e aspectos sociais (a =

0,42). Nos demais componentes, variou de 0,77 a 0,90.

A dimensão que apresentou maior valor para o alfa de

Cronbach foi capacidade funcional (a =0,90), prece- dida pelas dimensões aspectos emocionais, dor e as- pectos físicos que apresentaram valores iguais (a =0,89) e saúde mental (a =0,77).

Em relação aos escores padronizados, segundo dimensões do SF-36, os valores médios variaram en- tre 38,6 e 63,8. Os que apresentaram maiores escores médios foram: aspectos sociais (63,8) e dor (53), já os que apresentaram os menores escores médios foram:

aspectos emocionais (46,6) e aspectos físicos (38,6).

A dimensão aspectos sociais analisa a partici-

pação dos indivíduos em grupos sociais e se esta foi comprometida por problemas de saúde 20 . Apesar do diabetes apresentar menor impacto na dimensão as- pectos sociais, ressalta-se que o valor para o alfa de Cronbach, neste estudo, foi baixo (á=0,42), podendo indicar falta de consistência nas respostas dos indi- víduos. Avaliando a intensidade da dor e como ela interfere nas atividades do dia a dia dos pacientes 20 , observou-se que mesmo tendo a maioria – 44(64,7%) – dos pacientes referido dor moderada ou mais inten- sa, essa não interferiu na QV.

A dimensão estado geral de saúde avalia a per-

cepção dos pacientes quanto à sua saúde 20 . As questões QV1 e QV11d que mensuraram tal aspecto obtiveram

as menores médias, mostrando assim uma percepção

não positiva, dos indivíduos, em relação à sua saúde.

Em relação à saúde mental, é avaliada a presen- ça de angústia e bem-estar psicológico 20 . Em estudo sobre a QVRS associada a condições crônicas, reali- zado em oito países (International Quality of Life Assesment Project) através do SF-36, foi constatado um impacto negativo e significativo das condições crônicas nos aspectos físicos e um moderado impacto sobre a saúde mental dos entrevistados 35 .

A vitalidade é avaliada pelo nível de energia e

fadiga 20 . Na questão nove, os indivíduos demonstra- ram maior dificuldade para responder, o que pode ter acontecido devido às opções de respostas oferecidas pelo questionário. Em estudo 34 que avaliou o Diabetes Mellitus tipo 2 e a QVRS, as dimensões com menores escores foram estado geral de saúde e vitalidade.

A dimensão capacidade funcional avalia a pre-

sença das limitações físicas e como estas interferem na capacidade física dos indivíduos 20 . A questão com maior média foi a QV3J (2,5), a qual avaliou as limi- tações dos pacientes para tomar banho ou vestir-se. Ao analisar as médias das referidas questões, fica evi- dente que os pacientes apresentam dificuldade con- siderável para a realização de atividades que exigem maior esforço físico.

Na dimensão aspectos emocionais, são avalia- das as limitações na forma e quantidade de trabalho e como tais limitações interferem nas atividades diári- as dos indivíduos 20 , sendo essa a segunda dimensão mais impactada negativamente pelo diabetes. Con- forme indicaram as respostas, de certa forma os pro- blemas emocionais interferem no trabalho e ativida- des da vida diária dos indivíduos com diabetes.

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Avaliam-se também, na dimensão aspectos fí- sicos, as limitações na forma e quantidade de traba- lho e como tais limitações interferem nas atividades diárias dos pacientes 20 ; as opções da questão quatro tiveram média abaixo de 1,50. Neste trabalho, essa foi a dimensão com maior impacto negativo do dia- betes. No presente estudo, dos 68 participantes, 54(79,4%) relataram ter outro problema de saúde, fato que pode ter influenciado negativamente no es- core da dimensão aspectos físicos que obteve menor valor entre as dimensões do SF-36. A segunda pergunta do questionário compara as condições de saúde atual e as de um ano atrás; 25(36,8%) pacientes responderam quase a mesma coi- sa, precedida de 13(19,1%) pacientes que responde- ram um pouco pior agora do que um ano atrás.

CONCLUSÕES

Quanto à caracterização sociodemográfica e clíni- ca dos participantes deste estudo, observou-se maio- ria do sexo feminino e casada, em que metade da amos- tra não exerce atividade profissional. Obteve-se mai- or prevalência dos indivíduos em faixas etárias mais elevadas, sendo que a maioria dos indivíduos tem poucos anos de estudo. Em relação ao tratamento do DM, verificou-se dificuldade de adesão à dieta e à prática de exercício físico. A média obtida para o tempo de diagnóstico do diabetes foi de 8,9 anos. Entre os problemas citados para a realização do tratamento, destacam-se a dificul- dade financeira e para seguir a dieta em igual propor- ção. A maioria possui outro problema de saúde. Os pacientes, em média, apresentaram valores de IMC acima do normal. Já em relação aos níveis pressóricos dos participantes do estudo constatou-se a maioria com valores considerados normais. No que se refere à glicemia, a maioria dos indivíduos apre- sentaram glicemia alterada. Neste estudo, foi observada, portanto, a pre- sença de fatores de risco para o desenvolvimento de complicações advindas do DM, bem como a di- ficuldade de adesão ao tratamento do diabetes uma vez que este exige alterações no estilo de vida e adoção de hábitos saudáveis. Os resultados mostraram um impacto negativo do diabetes na QVRS dos indivíduos participantes, perceptível pelos escores médios obtidos em cada di- mensão do SF-36, principalmente nos aspectos físi- cos, emocionais, capacidade funcional e vitalidade. Dessa forma, conhecer as dimensões mais ne- gativamente impactadas pelo diabetes possibilita o planejamento de ações de promoção da saúde e pre- venção voltadas a este grupo, de maneira a capacitá- lo para escolhas saudáveis em seu cotidiano, com vistas à melhoria da QV.

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Ressalta-se ainda que, apesar de o SF-36 ser um instrumento válido e confiável, ele apresentou, ao ser aplicado neste estudo, algumas limitações. Acredita- se que tais limitações, muito provavelmente relacio- nadas às características sociodemográficas e culturais dos indivíduos, não interferem de forma significante nos resultados aqui apresentados, no entanto é opor- tuno aqui mencioná-las. Além disso, frente à existên- cia de inúmeros determinantes de saúde, estudos futu- ros complementares a este devem ser realizados para que subsidiem e auxiliem na implementação das ações de enfermagem voltadas ao atendimento das necessi- dades de saúde dos indivíduos.

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