VI Reunião de Antropologia do Mercosul Caderno De Textos - Grupo de Trabalho 9

:

“Família, Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate”.

Coordenadoras: Flávia de Mattos Motta - UFSC mottaflavia@bol.com.br Anna Paula Vencato - UFRJ apvencato@gmail.com

Secretaría: Congresos & Reuniones Cerrito 307 - Montevideo 11000 - Tel: 598 2 9160900 Fax: 598 2 9168902 E-mail: sextaram@fhuce.edu.uy - Pág. Web: www.fhuce.edu.uy/antrop/congreso

Sessão 1: (Homos)sexualidades, direitos e políticas. 16 de novembro

'Algumas garotas preferem garotas': The L Word, sexualidade e as políticas de visibilidade lésbica.
Anna Paula Vencato (IFCS – UFRJ) apvencato@gmail.com, apvencato@hotmail.com

52

Mulheres De Kêto: Um Estudo Etnográfico Sobre Lesbianidade, Família E Política Na Periferia De São Paulo
Camila Medeiros (Museu Nacional – UFRJ) milamed81@yahoo.com.br Eduardo Saraiva (UFSC – UNISC) eduardo@unisc.br

62

Performances Do Querer: Masculinidades Que Se Reinventam “Quem Precisa De Filhos?” Afirmação De Gênero Nas Construções De Parentalidade De Homens Gays, Travestis E Transexuais
Elizabeth Zambrano (UFRGS) elizamb@terra.com.br

85 102

O "povo de santo" do subúrbio carioca: homoerotismo, religiosidade e 'cor'
Laura Moutinho, Silvia Aguião e Crystiane Castro (CLAM - IMS/UERJ) lmoutinho@ims.uerj.br

143

Significados e representações da parceria civil registrada entre homossexuais masculinos em Cuiabá
Moisés Alessandro de Souza Lopes (UEL) sepolm@hotmail.com

189

Sonia Maluf (PPGAS – UFSC) maluf@floripa.com.br

Desejo e identificação: apontamentos para uma discussão sobre gênero e sexualidade

224

“Como Viver Bem”: Políticas de Identidade e Noções da Cidadã Ideal em uma Organização Brasileira de Lésbicas
Tomi Castle (University of Iowa) tomi-castle@uiowa.edu

239

1

Sessão 2: Sexualidade, Família e Gerações. 17 de novembro Mujeres migrando. El lugar de la família. 30 45

Ana Inés Mallimaci Barral (UBA) anamallimaci@yahoo.com.ar

Andréa Moraes Alves (UFRJ) andreamoraesalves@superig.com.br

Trajetórias Afetivas: Sexo E Amor Como Elementos Da Identidade Feminina

Discurso católico, familia y géneros en Chile, 1925-2004
Carmen Gloria Godoy R. (Universidad de Chile) cggodoy@vtr.net

74 103 119 158 207 250

Familia Y Democratización

Graciela Di Marco (Universidad Nacional de San Martín) gradimarco@sinectis.com.ar Ivonne Dos Santos (FHCE – UDELAR) ivonne2s@yahoo.com.ar

Paternidad Y Familia: Jóvenes De Sectores Pobres Urbanos Gênero, gerações e modos de vida

Mara Coelho de Souza Lago (CFH – UFSC) mlago@cfh.ufsc.br Pedro Nascimento (UFRGS, Instituto Papai, Fundação Ford) pedrofgn@uol.com.br

"Homens desempregados, mulheres provedoras: qual a novidade?"

Virna Virgínia Plastino (Museu Nacional - UFRJ) virna_plastino@yahoo.com.br

Dança com hora marcada: geração e gênero nos bailes de dança de salão.

2

Sessão 3: Feminismo, Sexualidade, Reprodução e Saúde. 18 de novembro

Alinne De Lima Bonetti (UNICAMP) alinne@unicamp.br, alinnebonetti@hotmail.com

Confronto De Arapiracas – Gênero, Feminismos E Concepções Disputantes Género E Poder Nas Famílias Da Periferia De Maputo (Moçambique)

05

Ana Bénard Da Costa (: Instituto De Investigação Científica E Tropical, Lisboa) asbbc@yahoo.com.br

15 84

Dialvys Rodríguez Hernández (Centro De Antropología, Ministerio De Ciencia, Tecnología Y Medio Ambiente (Citma), Ciudad De La Habana.) dialvys@yahoo.es

Una Perspectiva De Género: El Hombre Y La Mujer De La Reserva De La Biosfera “Península De Guanahacabibes”.

Juliana Marcus (IIGG - CONICET, Facultad de Ciencias Sociales, UBA) julimarcus@velocom.com.ar

Anticoncepción y maternidad en mujeres migrantes de sectores populares residentes en hoteles de la Ciudad de Buenos Aires.

120

Jurema Machado de Andrade Souza (PPGCS/UFBA) jurema@anai.org.br

Gênero, Sexualidade e Reprodução entre os Pataxó Hãhãhãi sul da Bahia

132

Maria de Fátima Paz Alves (UFPE) fatimapalves@hotmail.com

Masculinidade, Sexualidade E Prevenção De Ist/Aids Entre Homens Rurais No Nordeste Do Brasil: Um Estudo De Caso Sexualidad, Sociedad y economía en el Noroeste Argentino

173

Nélida Luna, Luciana Miguel, María ElinaVitello (UBA) lucianamarcelamiguel@yahoo.com.ar

206 225

Construções e Desconstruções: Identidade da Mulher Árabe Muçulmana em Brasília
Sônia Cristina Hamid (UNB) soniacrismid@ig.com.br

3

Confronto de Arapiracas – Gênero, Feminismos e Concepções Disputantesi Alinne de Lima Bonetti alinne@unicamp.br e alinne.bonetti@gmail.com Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Introdução Em tempos de intensa crítica a categorias universalizantes, o feminismo, como uma ideologia política típica das sociedades ocidentais modernas, tem se deparado com o dilema e o desafio de definir o seu projeto político, circunscrever o seu sujeito político e viabilizar a sua prática política (cf. Young, s/d, Harding, 1993, Butler, 1998 e 2003).ii O movimento feminista, enquanto um movimento social, pressupõe um projeto político específico, entendido como o “conjunto de crenças, interesses, concepções de mundo, representações do que deve ser a vida em sociedade, que orientam a ação política” (Dagnino, 2002:282). A um projeto político específico corresponde um “(...) sujeito coletivo no sentido de uma coletividade onde se elabora uma identidade e se organizam práticas através das quais seus membros pretendem defender seus interesses e expressar suas vontades, constituindo-se nessas lutas” (Sader, 1995:55). Tal sujeito político específico do feminismo seria, no caso, as mulheres. No entanto, tomando-se como referência os movimentos feministas latino– americanos, pode-se situar a década de 90 (cf. Soares, 1998) como um marco na pluralização do feminismo, seja em termos de bandeiras de luta, de diversidade de grupos e de espaços de atuação, a ponto de passar a ser referido no plural. Essa recrudescente diversidade no interior do movimento feminista implica na co-existência de distintos projetos políticos. O desafio de manter uma unidade nas reivindicações e lutas passa a ser problematizado, levando ao questionamento da especificidade do sujeito político do feminismo. É possível uma ação política sem um sujeito coerente, identificável e estável? Como viabilizar a ação política em meio a uma exaustiva constituição de diferenças? Para refletir sobre essas questões, analiso alguns dados com os quais me deparei na pesquisa etnográfica que realizei em Recife (PE), junto a um importante espaço de articulação política do movimento de mulheres/feminista local – o Fórum de Mulheres de Pernambuco. Para analisá-los, inspiro-me na contribuição de duas estudiosas feministas, cuja posição teórica possibilita compreender essa intensa diversidade interna do campo feminista contemporâneo. Sônia Alvarez (1998) propõe pensar o feminismo não mais como um movimento, mas como um “campo discursivo de atuação/ação” (pg. 265). A sua concepção de “campo feminista” aponta para uma reflexão acerca do campo do político, ou seja, “no sentido mais amplo, o cultural, o simbólico e as relações de poder/gênero que aí se constituem e se reconfiguram continuamente (Alvarez, 1998: 267). O deslocamento analítico embutido na proposta de Alvarez possibilita acolher a diversidade de concepções sobre o que seja o feminismo e considerar com as disputas internas entre elas. Somando-se à noção de campo feminista, a posição crítica de Judith Butler sobre a presunção acerca da existência de uma identidade feminina estável e coerente que fundamentaria a política feminista (cf. Butler, 1997 e 1998) possibilita analisar a questão do sujeito político do feminismo. Essa autora alerta para a necessidade do desvendamento analítico da constituição cultural e histórica dos sujeitos políticos e das formas discursivas de lhes atribuir autoridade e legitimidade. Na sua concepção, o sujeito político é contingente - porque situado contextual e historicamente (cf. Butler,

Não se restringe. não antecipadora com ênfase na instabilidade das categorias e na contingência. como definem algumas feministas pernambucanas. No entanto. resta atentar para as experiências concretas. constituído “a partir de cadeias de significados socialmente construídos” (Pinto. Tal abordagem permitiu-me identificar que as concepções disputantes sobre o feminismo revelam intricadas relações de poder e de gênero. Logo.gênero. possibilitando compreender melhor a sua constituição. tem como características os princípios democráticos tradicionais do feminismo. A abordagem etnográfica aqui utilizada preocupa-se com a interação entre contexto. como produtor de sentidos socialmente significativos.1998). marcado pelo estabelecimento de um sistema de distribuição desigual de prestígio. somado ao grande investimento de agências de cooperação internacional na região redunda na consolidação de um feminismo forte e atuante. impondo desafios constantes à prática política feminista. Tomando como universo de análise o campo feminista circunscrito ao Fórum de Mulheres de Pernambuco (FMPE). à relação corpo biológico. Esta análise parte. O gênero assim entendido cria categorizações. 1982). esses princípios devem ser analisados a partir de um contexto constituído por valores que implicam na distribuição desigual de prestígios e privilégios e no qual as diferentes agentes do campo ocupam posições simbólicas distintas. os seus contextos associados e o seu uso social pelos diferentes atores (cf. tomado genericamente. Uma proposta anti-fundacionista. e como uma “categoria de diferenciação” (Strathern. Acredito que tal experiência é reveladora dos mecanismos que engendram o campo feminista contemporâneo. classe. contextuais e contingentes. na prática. é provido de valores que podem estar implicados em processos de constituição de desigualdades e de relações de poder. 1987:164). através dela. buscarei demonstrar como o embate entre alteridades e entre concepções disputantes revelam diferentes sujeitos políticos. Tal sistema se traduz. Esse feminismo. portanto. tais como a autonomia. para o feminismo. Tais sujeitos desafiam a existência de um sujeito único e coerente. também. O campo feminista recifense Atualmente Recife parece ocupar um lugar central na campo feminista nordestino. antes abarca. a organização da vida social nas mais diversas manifestações das experiências humanas. Butler propõe uma incompletude essencial da categoria mulheres (cf. Essa 5 . A existência de muitos grupos feministas antigos e de projeção nacional. Butler. 2003:36). orientação sexual e raça. horizontalidade na participação e a construção do consenso na ação. A partir destes pressupostos é que analisarei os dados etnográficos sobre a experiência do campo feminista recifense. Busca-se. Assim. e dota de sentido. da compreensão de gênero como “um princípio pervasivo da organização social” (Strathern. A partir disso. 1987:278). Gênero. Atkinson. Assim. cujas relações entre si revelam possibilidades inventivas sobre relações de gênero e sobre relações sociais. marcadas pelas interseções entre sexo. 1990: ix) que tem como referência a imagética sexual.sexo. no estabelecimento de relações de poder que posicionam desigualmente as alteridades em disputa no campo. situação e sentido na constituição dos processos da ação social significativa. tal categoria de diferenciação perpassa e marca as mais diversas ações sociais. abarcar o significado da experiência social ao explorar os distintos domínios de sentido de gênero. Procurarei demonstrar analiticamente como esse campo discursivo feminista se configura.

sempre contando com a exposição de diferentes pontos de vista defendidos com muito afinco. a própria idéia da horizontalidade passa a ter uma outra conotação. para além do calendário feminista de datas comemorativas do movimento. mulheres de partido e de lutas comunitárias (DC090405). Nas primeiras reuniões de que participei. rindo-se muito do meu jeito. Ficava espantada de ver o tempo que se levava nas rodadas de discussão acerca de pontos de pautas mais polêmicos. após o IX Encontro Nacional Feminista de Garanhuns. agressivo embate. Guia de Fontes do FMPE). ONGs. 60 participantes. Constitui-se como um importante espaço de confluência do feminismo na cidade de Recife.iii Dentre as participantes há uma diversidade enorme no que tange à inserção política de cada grupo e à temática de trabalho. pode-se perceber como se dá a disputa entre diferentes visões sobre o feminismo dentro do próprio campo local. produzidos por essa práxis feminista. formada por três representações dentre as que fazem parte da sua articulação. Arapiracas – gênero e poder A primeira impressão que se tem quando se chega numa reunião do FMPE é a de que ali é um espaço plural. direitos sexuais. é um dos mais antigos. consolidados e atuantes do país. O FMPE é dirigido por uma coordenação colegiada eleita a cada dois anos. Nos seus 17 anos de existência. Era como se não pudessem abrir mão do espaço de fala e que a afirmação da sua posição era de crucial importância para o jogo político que se estabelecia ali. pejado de conflitos. mais ainda. de exercício democrático intenso. eu choraria. meio rural. universidade. portanto. porque a presidente tinha rompido com o feminismo. Numa conversa informal com uma participante. distribuídas entre 48 entidades e representações de feministas independentes. no qual as diferenças encontram espaço para a sua manifestação e. O FMPE objetiva reunir e articular os diferentes grupos feministas e de mulheres existentes no estado.equação define quem tem o poder de fala e. em torno de. DST/AIDS. Segundo Nair Valença. Olhando-se mais detalhada e demoradamente para os significados em ação. questão rural. uma das atuais coordenadoras do FMPE. Fundado em 1988. participação política. Alaíde. raça/etnia. Atualmente é composto por. meio urbano. Sobretudo. juventude/adolescência. sendo que há algumas entidades participantes com mais de uma temática de trabalho. que me sentiria intimidada se tivesse que ficar brigando o tempo todo. Contoume que a Casa Vive Mulher (ONG que representa no FMPE) esteve afastada do Fórum durante um tempo. É uma articulação política que reúne representações feministas. Nesse sentido. em tom de brincadeira. escondendo em si relações internas de desigualdade. com o movimento feminista de 6 .iv Os temas variam entre: “controle social. de ser escutada. o Fórum de Mulheres de Pernambuco é um espaço privilegiado para se compreender tais relações. educação. saúde. a composição política do Fórum é variada. trabalho e renda” (cf. O FMPE pauta as suas ações em concordância com a agenda feminista. um primeiro estranhamento que tive foi o tom beligerante que marcava as discussões. pesquisa. me sentenciou: não mermã! Nunca chore no Fórum de Mulheres que daí mesmo que elas vêm pra cima de tu com tudo! Nunca chore! Ali mulher não chora! O meu comentário a fez lembrar de uma situação que ela própria vivenciara. Sendo assim. porque as opiniões me soavam muito parecidas e se repetiam. de forte e (aos meus olhos). conforme registrei: “Comentei que não tinha muito talento para o jogo político. Disse-lhe. enfrentamento da violência contra a mulher. comentei sobre esse meu estranhamento acerca do tom agressivo e beligerante das reuniões. que se tivesse de passar por situações que presenciara.

É mais do que colocar o pau na mesa. para os diferentes sujeitos políticos em disputa e sentidos atribuídos ao feminismo. a Casa estava queimada e até retomar a participação foi muita disputa pelo espaço e eu levei muito na cabeça.. como me asseverou. tais relações revelam como o prestígio ali se distribui e apontam. articulando e agora a Casa tem o seu espaço novamente. somado à asserção “ali mulher não chora”. dispondo-se as cadeiras num grande círculo. nem sempre há espaço para a sustentação da voz. Mas fui insistindo. No entanto. incentivou-a que fosse à reunião e colocasse a arapiraca na mesa. diferentes sub-grupos. E. além disso. Exemplificou com o caso das mulheres de base. agora despachadamente. é um requisito fundamental da práxis política local. nas mais distintas situações. mais acostumada com os códigos locais. como um recurso do qual se lança mão em meio à disputa política. O tom aguerrido e a assertividade estranhadas pelo olhar estrangeiro da pesquisadora. no espaço público. questionando se não dava para colocar o útero mesmo. Normalmente acontecem no auditório. nunca têm espaço para falar porque se sentem intimidadas pela 7 . As reuniões do FMPE costumam acontecer na sede do Instituto Mulheres pela Cidadania. é algo recorrentemente utilizado nas reuniões do FMPE. no jogo político e nos significados de gênero produzidos dentro do FMPE.. segundo a sua opinião. Temerosa de enfrentar o grupo sozinha. Mas tem se que estar sempre na disputa para manter o espaço conquistado. também. Elemento recorrente na pesquisa. Para se estar ali. faz-se necessário ser valente e ter coragem para enfrentar as disputas. o espaço é organizado de forma a possibilitar o debate democrático e horizontal entre as participantes. entre risos tímidos. tinha se retirara do Fórum. Segundo ela. A idéia de colocar a arapiraca na mesa. o atributo arapiraca-coragem parece ser um importante traço que compõe o repertório simbólico do fazer político nesse campo. Contou-me de uma ocasião em que tivera de ir a uma reunião a fim de reivindicar uma vaga para a Casa numa importante conferência que ocorreria. Reclamação recorrente dentre as participantes do FMPE.Recife e.” (DC021104). frente ao conflito parece ser uma saída que remete a um determinado feminino. apontam para um modelo específico de feminilidade em curso naquele contexto. é mais poderoso. Foi bem difícil. veriam que há muitas que não concordam com o discurso feminista lésbico e que não se identificam como feministas.. conforme sugeri. se as mulheres que monopolizam a fala deixassem espaço para outras ali dentro se manifestarem. na mesa. uma das entidades mais prestigiosas e antigas do campo feminista de Pernambuco. Ainda rindo-se. angariar prestígio para estabelecer alianças e articular politicamente. É nessa arena que o jeito singular do fazer político emerge e em que se dão as disputas. em que somente determinadas figuras têm voz e força ali dentro e pautam as questões. Numa conversa sobre o funcionamento do FMPE com Alaíde. Nem todas possuem uma arapiraca. frágil e dependente. as quais. conforme registrei: “Alaíde identifica. Alaíde continuou a contar que elas e suas colegas costumavam brincar com essa história de arapiraca. Disse-me haver uma hegemonia de questões lésbicas e de um tipo de posição feminista marcada pela lesbianidade. a sua colega de trabalho Luana. Gargalhamos juntas. Chorar. dentro da horizontalidade.. pode-se perceber claramente a disposição de acordo com critérios de afinidade. me explicou: arapiraca é o simbólico do pênis. portanto. Em função disto. Quando as cadeiras são ocupadas pelas participantes.. ilumina questões importantes sobre o campo feminista de forma geral.. ela explicita a sua opinião sobre essa característica. Sustentar a sua voz. com capacidade para acolher em torno de 80 pessoas. revelando as relações de poder internas a ele. Antes de cada reunião. ao invés da arapiraca. Estranhei de imediato a palavra e ela. O que forma. hierarquias de poder. do qual parecem querer se afastar as mulheres que estão nesse jogo político. A formulação de Alaíde é exemplar para se pensar sobre a prática feminista local: na forma como se estabelecem as relações.

a gente vai e liga. o que vale é a articulação política. A recorrência dos lugares de fala de cada mulher que interagiu nessa disputa aponta indícios dele. uma primeira questão que surge é o que pode ser encerrado na idéia de uma homo-normatividade. na intensa disputa argumentativa numa situação de definição de representações para uma evento. o que. é o que dará o tom das relações políticas ali dentro. num genérico nós x elas. expõe o modo de fazer política ali. A questão de fundo aqui é a de explicitar a quem se refere esse genérico a gente no discurso de Odete. se a gente considera que determinada pessoa é mais adequada para a representação. A habilidade em tecer alianças políticas. muito articuladas e empoderadas. se reproduz dentro do FMPE.” (DC021104).vi Assim. Por mais que se assevere uma horizontalidade nas decisões. 8 . E são nos momentos de acirrada disputa política que esses elementos aparecem mais claramente. Um primeiro par de oposições. uma noção de sujeito político que é substancial. desde esses dois anos que estou aqui.na visão da informante . Identificando um favorecimento maior em pautar questões lésbicas e de entender serem essas as vozes mais ouvidas. esboçando esse modo singular de fazer política. encerrado na noção de articulação. é assim que funciona. Ressentem-se exatamente do que identificam como uma invisibilidade das questões de interesse das lésbicas ali dentro. mas com algumas diferenças. Há. É o estilo de fazer política do fórum. pode-se ter uma idéia de como o poder de decisão e de definir as pautas está distribuído. ela manifesta uma crítica à forma como a questão é tratada socialmente. Situando cada porta-voz em relação à entidade que representa. otimizadas pelas relações pessoais . Na grande maioria das suas intervenções. o a gente de Odete parece encontrar respaldo num feminismo que se pretende hegemônico ali dentro e que tem o maior capital de articulação. Visão semelhante acerca da visibilidade lésbica e das relações de poder dentro do FMPE têm as ativistas da Associação de Mulheres pela Diversidade Sexual. é uma das porta-vozes da luta pela visibilidade lésbica dentro do FMPE. como poderá se perceber. nas mãos de quem está o poder de tomá-las? À primeira vista. remetem a uma noção de sujeito político que retira a sua legitimidade e autoridade da experiência imediata. Essas disputas se dramatizam na constituição de um par antagônico. com o sinal trocado. a gente parece se referir ao coletivo democrático e participativo. militante feminista representante do Instituto Mulheres pela Cidadania. resistentes a esse genérico coletivo a gente e que disputam entre si.truculência das que dominam a cena. Inspiro-me aqui nas reflexões de Butler (2003) acerca da “matriz heterossexual compulsória”. Odete. levando-se em conta essa distribuição diferencial de prestígio e de arapiracas. Além disso. Kelly. Conforme a necessidade e cada situação. Não é uma instituição em si. que parecem ser muito importantes no campo feminista local. Ponderou que o discurso lésbico-feminista domina porque há muitas militantes lésbicas ali. mas é assim que a gente trabalha (DC070405). Não sei se é certo ou errado. que aparece na reflexão de Alaíde acima. está no nós heterossexuais X elas lésbicas. No entanto. a matriz contingente que definiria a inteligibilidade das relações dentro do FMPE e um dos eixos da distribuição de prestígio seria a da homo-normatividade. Os critérios é o de fazer acordos.v No entanto. da vivência. há visões discordantes. cujo conteúdo varia de acordo com a posição de cada sujeito de fala. É curioso de se notar que as ativistas lésbicas que participam do FMPE não compartilham dessa mesma visão. A distribuição desigual de privilégios é claramente assumida quando. com o intuito de encerrar a discussão: é por situação de articulação política. na sua concepção. Na reflexão de Alaíde. a distribuição diferencial da fala está associada com um jeito muito singular de fazer política. coordenadora do Instituto pela Livre Expressão Sexual.

Segundo esse ativista. se configura como um importante produtor de diferenças. tomado genericamente. entre diferentes agentes do campo feminista local. a associação da dimensão de pertencimento social introduz uma segmentação no sujeito “lésbica”. Essa mesma posição acerca da misandria do FMPE é compartilhada pelo Instituto pela Pluralidade Feminista. nós desistimos do embate. enfaticamente. Na sua avaliação. tão denunciadas. O marcador de classe. E tem de tudo ali dentro. Uma outra fonte de acusação e de disputa presentes no campo de pesquisa. Essa distinção desafia a possibilidade de afirmação de um sujeito político lésbico estável. tem muitas relações de poder lá dentro do fórum. Essa entidade tem uma estreita ligação com a Universidade Federal de Pernambuco. como poderia dar a entender a reivindicação de Kelly anteriormente. Também porque sabemos que nós. porque tudo é tido como feminista e não tem espaço para discordar. o Instituto foi o primeiro núcleo feminista a trabalhar com homens.Na concepção das ativistas do grupo. a casa era feminista. Definem-se como feministas. Além disso se traduz numa intensa fonte de conflito entre as lésbicas intelectuais e as lésbicas populares. já que este é o grande medo delas. que se aliam contra esse traço excludente de um discurso feminista que se pretende hegemônico. Ao contrário do que ocorre no FMPE. como ressalta Olavo Lugal. ambas foram categóricas em fazer uma separação entre gênero e feminismo. Assim. Cabe ressaltar que a entidade fez parte da coordenação do FMPE durante um período. Para ele a resistência na aceitação dos homens relaciona-se com uma determinada 9 . vindo em seu auxílio. mas tem também movimentos de mulheres. relações de poder. afirmou que a gente não se diz feminista. Não estamos pleiteando o lugar do sujeito político do movimento social. porque entendemos que o sujeito político são elas. Em conversa com Luana e Alaíde. Ficou uma discussão muito periférica. homens e adolescentes. O Fórum tem feministas. da Casa Vive Mulher. nesse contexto. que enfrenta muitas dificuldades na sua participação no FMPE pelo fato de ter nos homens o seu foco de trabalho. por exemplo de partidos. Segundo ele. conforme classificação êmica. o que não minimizou as tensões enfrentadas dentro do espaço do fórum: “Olavo desabafou que após reiteradas tentativas de participação no FMPE. mesmo com dificuldades. como nosso foco é a violência doméstica. Se outras não estiverem atentas. e o que conta é a discussão das lésbicas” (DC181004). O movimento de mulheres e o movimento feminista em si tem enquadramentos que discordam. Essa visão apareceu recorrentemente. mulheres. Ligado a esta distinção encontra-se também mais um elemento que contará no estabelecimento das. Aqui se estabelece uma oposição entre um nós mulheres X eles homens. e que contribui para se pensar as características do feminismo produzido ali. único. é mais conceitual e por isto é mais permissível à participação de homens. E não tem espaço. a discussão feminista na academia é outra. mas de um feminismo acadêmico. ativista da instituição. desde de movimentos de mulheres que luta pelo empoderamento até aqueles que lutam contra o feminismo. o FMPE é um fórum reconhecido como combativo e que não foi um espaço fácil para o Instituto estar. que não participam do fórum. Uma coisa com que não concordamos é que é barrada a participação dos homens. Nós. conseguiram muito pouco ali dentro: não conseguimos colocar o problema dos homens ali. Mas depois se brigou com todos os istas. tem que se assumir aportes do feminismo naquele momento. ao apresentarem os princípios que regem a ONG: “Luana. mas muda. enquanto homens. Alaíde. O que influencia o jogo político e as alianças entre os grupos em disputa. somos a exceção num contexto maior em que a hegemonia é outra. surgiu uma crítica à dimensão de posição de classe adotada pelas vozes hegemônicas. Nos trabalhamos num processo maior. completou: para se dizer feminista. cuja participação da entidade só foi possível a partir de uma representante mulher. socialista e muitos outros istas. a gente trabalha com gênero. Tem espaços de lideranças de mulheres. não podemos excluir os homens. sobre a sua relação com o feminismo e com o FMPE. vira só feminista. E que em virtude disso. é a da misiandria. Quando eu cheguei aqui. com direitos humanos. tendo se originado como um núcleo seu.

que é muito machista! Mas é na presença de mulheres oriundas de movimentos populares que se pode perceber um dos mais produtivos embates entre alteridades e a dramatização das relações de poder dentro do FMPE. na sua argumentação. como cristalizado. temos de feminilizar o movimento negro. identificando-a como periférica no FMPE. A visão do feminismo como sendo uma luta que somente diz respeito a mulheres e que exclui os homens. comparando o movimento negro ao movimento feminista. ele é visto como uma questão cuja bandeira deva ser primeiramente levantada pelas negras e não por qualquer uma das feministas ali dentro. Eva Basso. isso me incomoda bastante porque todas as questões do movimento feminista dizem respeito a todas as mulheres. para ter uma discussão entre eles. as militantes negras se ressentem da falta de espaço para as questões raciais ali dentro. No entanto. como o dominador. um outro eixo de oposição de fundamental importância no campo também aparece: o nós mulheres X elas mulheres negras. essa necessidade do protagonismo das feministas negras é contestada pelas próprias militantes. negras e brancas. O gênero propõe um exercício reflexivo e quando chegam num determinado ponto elas não conseguem passar da fixação na mulher” (DC101204). Uma das primeiras características que ouvi sobre o espaço do FMPE foi sobre a sua composição variada. importante ativista do tema. como o que subordina. que parece estar associada com a noção de sujeito político como veremos a seguir. pode-se perceber uma certa segmentação entre agendas de luta. Mesmo em se afirmar a garantia do espaço de discussão do tema dentro das ações do FMPE. Esta formulação apareceu em meio a uma reunião temática do FMPE que tratava da relação entre feminismo e mulheres negras. porque tem que ter o seu espaço de privacidade. É uma luta que tem de ser nossa e o desafio é esse: como vai ser o diálogo do sujeito mulher negra com esse sujeito universal do feminismo (Dc160305). Segundo algumas informantes. que tem tendências segregacionistas. Ela expõe. Por sua vez. balizadora de posições. Temos de observar a força que nós mulheres negras fazemos no sentido de enegrecer o movimento feminista. a justificativa pela opção misiândrica. Boa parte das feministas não consegue fazer essa leitura de gênero. Assim é o movimento negro. Trata-se de uma distinção êmica. o respeito ao protagonismo das próprias militantes negras é atribuído à dificuldade de relacionamento com o próprio movimento de mulheres negras. dentre as quais se encontravam desde ONGs feministas e mulheres de base. ela imprime uma forte característica no campo de pesquisa. é como contraponto. é corroborada pela posição de uma ativista feminista de renome no campo. 10 . não. que também quer ter o seu espaço de privacidade. É interessante perceber que na sua formulação. muito recorrente e marcante no campo. Apesar de ser um tema que foi adotado como um dos eixos principais da luta do Fórum. parece haver um entendimento é a de que a questão racial é um assunto cujo protagonismo deva ser das mulheres negras. Mas quando se diz que têm pautas do movimento feminista que não as inclui [as mulheres negras]. quando os homens aparecem. ele não parece gozar do mesmo grau de adesão e investimento que têm o tema da violência doméstica e do aborto legal e seguro. Isso não é segregação. defendendo as especificidades das lutas dos diferentes movimentos. Cíntia Dorneles. da mesma forma. posto serem contra quem se luta. do Grupo Saúde da Mulher e Aids. Segundo ela o movimento feminista não aceita homens. A o se observar as discussões sobre o tema. Já na reflexão de Cíntia Dorneles acima. afirmou que a questão racial deve ser algo de todas as mulheres no fórum.visão feminista: as mulheres feministas têm um entendimento de que o feminismo é para ser aplicado às mulheres apenas.

ter ou não recursos para a militância. cujas combinações demonstram a dinâmica desses pares antagônicos. como é reiteradamente interpretado. muitas se arvoram em ser suas porta-vozes. passa a ter importância fundamental a prática da coalizão. adequando-os à sua prática. posto que visa abarcar o agenciamento e a forma como sujeitos são constituídos. que só vai para o cotidiano [lutar] quem sente a opressão na pele (DC070405). que soa. em meio a um contexto de distribuição desigual de arapiracas. o argumento legitimador da experiência somado à tentativa de estabilização de uma identidade fixa e coerente acabam dando lugar a uma fluidez e a uma contingência. Muito embora a noção de experiência tenha um potencial desessencializador importante. acaba por ser tomada como um fundamento ontológico dos sujeitos e. Em vista disso. Na distribuição do espaço para a manifestação das arapiracas. Acredita-se. Por esse motivo. Os sujeitos políticos e os desafios à prática feminista O embate entre os diferentes sujeitos políticos sugere uma imprescindibilidade da presença de um representante legítimo para a defesa dos seus interesses. Tal formação de alianças situacionais. conforme desabafou Kelly num dos inúmeros embates que travou dentro do FMPE a fim de defender a sua bandeira política. Buscam. que variam de acordo com a situação e com os interesses em jogo (como se pode ver mais claramente na tensão entre lésbicas intelectuais X lésbicas populares). Levando-se essa dimensão em conta. em ter ou não voz. aqui nesse jogo político ela toma outra forma.O antagonismo entre um nós feministas X elas de base reveste-se de inúmeros sentidos: o de ter ou não ter acesso a estudos. No entanto. Antes parecem estar a se manifestar de outras formas e a se apropriar de determinados discursos. Esses elementos parecem necessários ao jogo político inscrito num universo de valores marcado pela distribuição desigual de prestígio. o grupo de mulheres de base são identificadas como as mais silentes no campo. No entanto. seja em prestígio ou em possibilidades de financiamentos para garantir a sobrevivência dos seus pequenos grupos e a de suas militantes. a intensa produção de alteridades nesse contexto político solapa a possibilidade de estabilização de uma identidade coletiva comum. embora articulando qualidades ontológicas fixas. nesse contexto. monopolizado por algumas mulheres. o silêncio não parece significar passividade ou falta de empoderamento neste caso. Esse suposto silêncio parece indicar um estratégico jogo de alianças. no embate político. que resistem a uma unificação. Tal noção de identidade resulta na articulação de um sujeito político cujas autoridade e legitimidade advém de uma concepção muito particular de experiência. Essas alteridades em embate e as suas concepções disputantes acerca do feminismo revelam sujeitos políticos distintos. estabelecer tais jogos tendo em vista ganhos políticos. assim. que revelam um jogo de identificações e diferenciações constantes de acordo com cada situação. sem levar em conta a dimensão simbólica da distribuição do poder de fala ali dentro. É interessante de se perceber que a noção de sujeito político em curso nesse contexto investigado. como substancial. conforme alerta Scott (1999). Desse modo. revela-se como um significante importante que dota a prática política feminista de sentido. encerradas na expressão êmica fazer articulação. 11 . E é nesse movimento que se percebe combinações circunstanciais dos eixos de constituição de alteridades. uma arma na disputa política ao se tornar inconteste. Essa legitimidade parece advir de uma noção de identidade. O silêncio é percebido (e ao que parece fonte de preocupação) pelas dirigentes do Fórum. entendido de maneira particular. acaba por impor uma fluidez ao sujeito político feminista. logo. Dessa forma. das que têm a sua voz escutada. a experiência empírica.

são sujeitos cujo agenciamento é criado através de situações e posições que lhes são conferidas. a experiência é coletiva assim como individual. Impõem. buscam entrar no jogo. que exercem o livre arbítrio. que são disputantes. visando angariar para si. também o poder de definição das pautas de lutas. aos poucos vai se tornando mais monofônica. diferencialmente. levando-se em consideração a proposta de Alvarez (1998) de tomar o feminismo como um campo discursivo de atuação e ação. resistente à unificação. autônomos. assim. perceber como os múltiplos sujeitos entram no campo político-discursivo. um desafio à prática feminista em como reunir essa diversidade.” (Scott. no contexto estudado há algumas vozes que são mais ouvidas. Eles não são indivíduos unificados. múltiplos sentidos possíveis para os conceitos que usam. 12 . Já que o discurso é. qual o conteúdo desse coletivo. mas não está confinada a uma ordem fixa de significados. E. faz-se necessário adotar uma outra forma de se compreender a experiência e os sujeitos políticos. o poder de falar em nome do coletivo e. no qual são produzidas relações de poder e de gênero. importa considerar as mediações simbólicas por que passam os processos cotidianos de disputas e embates entre os diferentes sujeitos do campo. Assim.) A experiência é um evento lingüístico (não acontece fora de significados estabelecidos). Schild (2000) alerta para o fato de que “os termos da cidadania e da comunidade de gênero estão sendo cada vez mais definidos por algumas mulheres em nome de todas” (Schild.Em vista disso. por definição.. mas existem conflitos entre sistemas discursivos. compartilhado. mais ainda. Sujeitos são constituídos discursivamente. contradições dentro de cada um deles. Assim. mas ao contrário. Esse sistema de distribuição desigual de prestígio impele o surgimento constante de novos jogos antagônicos entre vozes que buscam espaço no campo. introduzem novas concepções. vozes que são por muitas vezes requisitadas a se manifestarem. Ao se depararem com um sistema de distribuição de prestígio e privilégios constituídos no estabelecimento de relações de poder. E sujeitos têm agenciamento. de compreender como se estabelecem as relações e se distribui. a pluralidade de vozes (e presenças) que constituem a riqueza do campo discursivo feminista sintetizado no FMPE. A viragem discursiva proposta por Scott possibilita. E através disso. e para as suas bandeiras. 1999:42) Como procurei demonstrar nas descrições etnográficas. mais do que isto. (. acerca do feminismo. assim. Scott propõe tratá-los como “eventos discursivos”. Ao estudar o movimento de mulheres chileno. o que significa recusar a separação entre ‘experiência’ e linguagem e insistir na qualidade produtiva do discurso. Nessa disputa constante.. 2000: 152).

fpa. Vitória de 13 .6. São Paulo: Paz e Terra. Vera. Bloomington. Against proper objects. Vol. 1986) PINTO. no. IFCS/UFRJ. Defende que se trabalhe conscientemente com as categorias. vol 12.br/td/td06/td6_sociedade2.C. Eder. 236 – 258. 1998. SCOTT. ii Harding (1993). São Paulo: Paz e Terra. Sandra. vol 08. Judith. In Revista Estudos Feministas. Catende.Referências bibliográficas ALVAREZ.. no. a teoria feminista deve ser marcada pela incoerência. Campinas.). 1990 (1988). O gênero como serialidade – pensar as mulheres como um colectivo social. L. Problemas de Gênero – Feminismo e subversão da identidade. Experiência. Recife. Pp. In Revista estudos feministas. 1982. Naomi (ed. Irlys e SADER. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Clifford. YOUNG. ao criticar que o feminismo representa apenas um tipo de mulher: a branca. 1987. em cidades como Serra Talhada.). (original: Signs. edição). In WEED. 4. 2004. ______. Signs: journal of women in culture and society. In GEERTZ. 1999.S e RAMOS. Fundação Perseu Abramo. Ouricuri. Céli. A. GEERTZ. 2003 (1990). masculinidades. Paulista e Camaragibe) e 9 no interior da estado. In http://www. BUTLER. A instabilidade das categorias analíticas na Teoria Feminista. Afinal. LAGO. no. Tatau. 2002.O. Vol. DAGNINO. In BORBA. In DAGNINO. Cadernos Pagu – Trajetórias do gênero. SOARES.. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Guia de Fontes do Fórum de Mulheres de Pernambuco. Clifford. Marilyn.). Nalu e GODINHO. Florianópolis: Editora Mulheres. ______. 1995 (2a. Joan. Muitas Faces do Feminismo no Brasil.). Berkeley: University Of California Press. _____. do qual se originou esse texto. no. An awkward relationship: The case of feminims and anthropology. Registro o meu agradecimento às colegas Soraya Fleischer e Heloisa Paim pela leitura crítica e pelas sugestões feitas ao primeiro tratamento do material de pesquisa. Joaquim Nabuco. 1. posto que a vida social está em constante transformação. 265-284. FARIA. 1/93. Ângela. no. Anthropology – review essay. 1998 SOARES.htm. ocidental. Mulher e Política . Análises.R. Sociedade Civil e Espaços Públicos no Brasil. Evelina. – (11). 13 na região metropolitana (Olinda. In SILVA.Gênero e feminismo no Partido dos Trabalhadores. Vera. Evelina (org.2/98. Para ela. Feminism meets Queer Theory. The Gender of the Gift – problems with women and problems with society in Melanesia. 2. 26 são sediadas em Recife. Jane Monning.08. Maturidade ao poder. iii i Destas 48. s/r. acesso em 02. espaços públicos e a construção democrática no Brasil: limites e possibilidades. Signs: Journal of women in culture and society. Quando novos personagens entraram em cena – experiências e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo 1970 – 1980. nº6 (abr/mai/jun1989). Leituras. o que Querem as Mulheres na Política? In BARREIRA. ATKINSON. (orgs. Fundamentos contingentes: o feminismo e a questão do ‘pós-modernismo’. Feminismos latino-americanos. (orgs. sabendo que elas não são o retrato fiel da realidade. HARDING. inconsistência e instabilidade. propõe que a teoria feminista acolha e trabalhe com a instabilidade das categorias analíticas. burguesa e heterossexual. “Do ponto de vista dos nativos”: a natureza do entendimento antropológico. Teoria e Debate. Indianapolis: Indiana University Press. II. Petrópolis: Vozes. Sociedade civil.05 STRATHERN.org. Iris Marion. vol. 1997. 7-32. Elizabeth and SCHOR. 02. Falas de Gênero – Teorias. M. 1998. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. CIEC/ECO/UFRJ. T. Sonia E. p. Pp.

Guia de Fontes do FMPE. também.) o modelo discursivo/epistemológico hegemônico da inteligibilidade do gênero. o qual presume que.Santo Antão.. para os corpos serem coerentes e fazerem sentido (masculino expressa macho. dado o caráter fortemente contextualizador (e portanto revelador) da etnografia. iv Muito embora tenha consciência da vã tentativa em buscar manter o anonimato das pessoas com quem pesquisei. gêneros e desejos são naturalizados. (. expressões e palavras grafadas em itálico são êmicas. (cf. feminino expressa fêmea). vi Butler define essa matriz como “a grade de inteligibilidade cultural por meio da qual os corpos.. optei por trocar os nomes tanto das pessoas quanto das instituições a que estão ligadas. construídas pelos próprios informantes. que todos os fragmentos textuais. que é definido oposicional e hierarquicamente por meio da prática compulsória da heterossexualidade”. Em função do reduzido espaço. 215-216). é necessário haver um sexo estável. expresso por um gênero estável. buscando entender o universo simbólico do grupo pesquisado nos seus próprios termos. Categorias e conceitos êmicos são categorias nativas. Uma interessante reflexão sobre este aspecto da produção antropológica pode ser encontrado em Geertz (1998). O uso de categorias êmicas revelam um esforço do pesquisador em construir conceitos a partir do exercício da alteridade. (Butler. os nomes encontrados ao longo do texto são todos fictícios. Por ora fica apenas a sua menção. Logo. v 14 . Cabo de Santo Agostinho e Palmares. 2003. não poderei demonstrar etnograficamente esse ponto. Alerto. lançado em novembro de 2004).

Nesta análise discute-se se as transformações ocorridas nestes dois aspectos da realidade social terão contribuído (ou não) para uma modificação nos papeis de género e mais especificamente para um acréscimo do poder e autonomia das mulheres e para uma valorização do seu estatuto social. Após introduzir o texto com uma breve caracterização do contexto de investigação e das estratégias familiares. poder. Polana Caniço A e Hulene B1. A presente análise baseia-se em investigações realizadas na periferia de Maputo entre 1999 e 2002 (Bénard da COSTA 2003 . estratégias económicas Introdução Foi num contexto social e espacial. Lisboa . OPPENHEIMER 2003). permite compreender a dinâmica inerente às relações de género e de poder que num dado universo social se desenvolve.com.Ana Bénard da Costa. com as representações sociais e culturais e com a auto percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. asbbc@yahoo. onde se articula a avaliação da efectiva capacidade de controlo de recursos que os homens e mulheres da família exercem. . Defende-se que essa perspectiva. Antropóloga. Palavras Chave: Género. a reflexão centra-se em dados empíricos que se reportam a relações de aliança e a práticas desenvolvidas pelos membros das famílias para obtenção de rendimentos e/ou produtos. Com base nessa investigação esta comunicação desenvolve uma abordagem relacional das questões de género e poder.br Género e poder nas famílias da periferia de Maputo Resumo Esta comunicação baseia-se numa investigação sobre estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias da periferia de Maputo que decorreu no âmbito de dois projectos realizados entre os anos de 1998 e 2002 nos bairros de Mafalala. caracterizado por uma precariedade de infra- 1. doutorada em Estudos Africanos Interdisciplinares em Ciências Sociais e Investigadora no Instituto de Investigação Científica e Tropical. uniões conjugais. famílias.

Estas práticas. envolvem múltiplas dimensões (social. sociais. pelo menos ao nível das representações. Há uniões formalizadas simultaneamente no Registo Civil. Para a compreensão de todo este processo foi essencial o estudo das relações de género e poder que se processam no interior das famílias. que se desenvolveram as investigações em que a presente comunicação se baseia e que se centrou em famílias maioritariamente originárias das regiões rurais do Sul de Moçambique. implica diferentes cerimónias e o pagamento de uma prestação matrimonial. reflectindo-se sobre as implicações que as mudanças ocorridas nas relações de aliança e nas estratégias económicas das famílias2 têm (ou não) na sua transformação. 16 . Nessas investigações concluiu-se que as estratégias de sobrevivência e reprodução social das famílias se caracterizam pela coexistência de múltiplas articulações e interrelações entre diferentes actividades geradoras de recursos económicos. em que cada uma das mulheres é casada de forma diferente com o marido e há «uniões de facto» que não envolveram qualquer formalização. é um processo que. e simbólicos. simbólica e económica) e diferentes tipos de recursos (humanos. O lobolo não é um acto ou uma cerimónia circunscrita a um momento.estruturas urbanas e de serviços sociais. Entende-se como estratégias económicas o conjunto de práticas articuladas através das quais os membros das famílias obtêm rendimentos e/ou produtos. há famílias poligâmicas. outros que se casaram «muçulmanamente» . quando os actores sociais se afirmam «casados» podem referir-se a inúmeros tipos de casamento. leis e tradições A diversidade de tipos de uniões matrimoniais é significativa. Matrimónios. na Igreja Católica e através de lobolo3 . há casais que só cumpriram parcialmente as diferentes cerimónias e prestações que o lobolo implica. sociais. uma intenção 2. por índices elevados de «pobreza» e desemprego formal. Nesta comunicação analisam-se os diferentes papéis desempenhados pelos homens e mulheres ao nível das famílias. culturais e naturais) que são articulados de forma dinâmica e relacional pelos actores sociais no quadro das estratégias económicas que desenvolvem. Desta forma. Formalizar de algum modo uma união implica. coexistem diferentes processos de formalização das uniões conjugais que não são exclusivos entre si. entre outras coisas. Uniões conjugais em transformação e questões de género No contexto em análise. 3. diferentes tipos e níveis de relações sociais e diferentes comportamentos regidos por valores díspares.

3) mudanças estruturais nas relações familiares que se estabelecem através das alianças matrimoniais e cuja dinâmica não se coaduna com o «compromisso» de «longo prazo» que os diferentes sistemas criam. Pretende-se que esta nova Lei da Família venha a ser um importante instrumento de mudança no conjunto de práticas sociais (consagradas na anterior Lei ainda do tempo colonial e imanentes dos diferentes sistemas de parentesco moçambicanos) que sustentam e promovem profundos desequilíbrios nas relações de género4. http://www. em que direitos. dificulta a análise das diferentes situações. possibilitando arbitragens permanentes entre vários referentes. 4. deveres e obrigações dos diferentes membros da família. não só entre o casal e entre as duas famílias que assim se unem. sendo esta promulgada pelo Presidente Joaquim Chissano vários meses depois (a 25 de Agosto de 2004). E. A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união matrimonial tem várias implicações.de compromisso.doc 17 . 2) a desadequação dos diferentes sistemas matrimoniais ao contexto periurbano actual. mas também entre estas e o(s) modelo(s) social (is) de onde emanam os ritos ou as leis através dos quais esse casamento se realiza. por último. Cf. sendo uma das mais importantes a legal. Depois de um longo debate o Parlamento aprovou em Dezembro de 2003 a nova Lei da Família.net/mozambique/Outras_voces-3Maio % 202003. nomeadamente no que se refere ás uniões que pode ser repartida por tempos diferentes. pode significar alterações substantivas nas relações de género e de poder que implicam rupturas profundas com os modelos matrimoniais prevalecentes e com os papéis que os respectivos cônjuges supostamente assumem dentro na união conjugal. sistemas de sucessão e herança e sistemas matrimoniais são interpretados de forma diversa. A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união conjugal e o facto de existirem uniões de facto em que casal se considera e é considerado socialmente casado. Não formalizar uma união num contexto onde se cruzam diferentes sistemas matrimoniais – criando diferentes tipos de relações familiares – pode ter múltiplos significados : 1) uma diminuição da importância do casamento dentro da estrutura familiar.mujeresenred. A morosidade deste processo legislativo e a polémica que à volta dele se desenvolveu testemunha as contradições resultantes da coexistência de diferentes sistemas culturais que permitem uma dinâmica «normativa».

eventualmente. aliado ao facto de muitas casas terem poucos quartos. as diversas «divisões». Esta co-residência tem um significado diferente no meio rural. já que cada uma das mulheres possui a sua palhota e não tem de partilhar o mesmo espaço físico de habitação com as outras (Junod [1996 : 287). a tendência para a dispersão residencial das diferentes esposas em meio urbano explica-se mais por esta última razão do que por uma autonomia feminina previamente conquistada. 18 . Algumas casas de construção muito recente ocupavam toda a área do talhão e incluíam no seu interior a cozinha e a casa de banho que em muitos talhões se situam em anexos no exterior. Foram entrevistadas 81 famílias e inquiridas 1 000 e foi realizado trabalho de terreno mais aprofundado com seis famílias do bairro Polana Caniço A. embora em 24 % das famílias estudadas5 existissem relações entre um homem e duas ou mais mulheres. pois muitas mulheres (em regime de monogamia ou poligamia) consideram-se casadas mesmo sem terem sido loboladas. O modelo «moderno» e «urbano» de concentração espacial6. Há-de vir um senhor que é meu marido De forma a compreender as transformações ocorridas ao nível das relações de aliança e nos processos que nos últimos anos poderão ter contribuído para uma alteração significativa nas relações de género no contexto em análise. Esta distinção é subtil e. no contexto em análise. o lobolo não é o factor que introduz a diferença.poligâmicas. a exiguidade da maior parte dos talhões associa-se a um modelo «moderno» de construção que tende a concentrar. Este modelo «moderno» é visível nas casas mais recentes e aparentemente mais «ricas» e contrapõe-se a um outro modelo em que as diferentes divisões se distribuem pelo talhão de forma independente. Hesseling & Lauras-Locoh 1997). sob o mesmo tecto. torna ainda mais problemática a poligamia. transcrevem-se aqui as palavras de uma mulher. não foi possível apurar se todas estas relações eram poligâmicas de tipo «tradicional» ou se eram casamentos monogâmicos onde havia uma «amante». Desta forma. cada vez mais. 6. E. secretária da OMM (Organização da Mulher Moçambicana) no bairro de Hulene B : 5. Na cidade. A propósito da poligamia importa ainda referir que em meios urbanos – em Maputo ou noutras cidades da África Subsariana – a poligamia não implica necessariamente a co-residência das diferentes esposas (Loforte 2003.

Não parece. ou o que ela faz. […] mas ela trabalha. com a independência. O lobolo (ilustrando o «pluralismo moral» do contexto) é visto como um acto abominável através do qual mulheres são compradas e vendidas e simultaneamente como algo positivo que sanciona e dá estabilidade a uniões.«Minha mãe não quis casar com o cunhado e por isso mandaram-na embora. vou viver com aquela família definitivamente porque me lobolaram […] e a mulher era como tipo mão-de-obra […] Depois a Frelimo. Só que a diferença deve haver porque da mulher nasce bebé […]». a mulher livre da actualidade. então deu a liberdade à mulher. Ou arranja um amigo que lhe dá qualquer coisa para poder sustentar os filhos». tem direito de trabalhar como homem. Nestes excertos estão patentes as contradições entre uma «realidade» que ela descreve como composta de mães solteiras e mulheres abandonadas e as representações ideológicas que contrapõem à mulher submissa da sociedade tradicional. que o papel desempenhado pelo lobolo se relacione exclusiva e fundamentalmente com o estabelecimento de direitos e deveres de mulheres 19 . mais outra vez. não levam os filhos. e assim sucessivamente. A família do marido leva todos os bens da senhora […] podem até levar os filhos. tem todos os direitos iguais aos do homem. Mas qual é a verdadeira situação da mulher moçambicana em meio urbano? A existência de um elevado número de mulheres «mães solteiras» tem sido apontada como espelhando tanto a crise social que se vive e a dissolução da família «tradicional» e dos laços familiares subjacentes a esta. […] A mulher tem direito de falar. Posteriormente referiu : « Porque a mulher. no entanto. deixam a viúva com os filhos […] sem nada […] e a mulher volta para casa dos pais […] e ela engravida. antes. fica sozinha com os filhos. como a libertação da mulher da tutela da família «tradicional» e das regras rígidas que a reduziam a um « ser menor ». quando morre o marido eles arrancam todas as coisas da mulher. […] faziam isso antigamente. tem outro filho. Estão nascendo os filhos com muitos pais e ela sem nenhum marido e então chamamos de «mães solteiras» e ela não tem marido e não tem ninguém que lhe ajude […] Mas quem ajuda normalmente é a mãe dela […] mas também as mães ficam saturadas […] ela sai. ela estava muito fechada […] eu caso. ou vender. mas como eles sabem que os filhos são despesas.

na sociedade tsonga. se exigir muito dinheiro. em meio urbano. Se actualmente se verificam transformações que implicam a sua diminuição. a família destas sabe que. como parece acontecer em muitos casos (Loforte 1996 : 163-165). estas reflectem. mas sobretudo com a criação. não passam necessariamente pelo casamento e pelo pagamento de prestações matrimoniais. Esta prestação matrimonial era. […] a pessoa é conhecida quando faz lobolo. Estas solidariedades. Por outro lado. E. entre outras coisas. as raparigas sentem que se «juntarem» sem lobolo não estão casadas . para muitos dos jovens e das suas famílias. porque no caso de eu ter um problema aqui. mesmo que fosse esse o seu desejo. casado com três mulheres a quem lobolou. o noivo (e a família deste) não o pode pagar e que arrisca. porque não me conhece. o aumento verificado nesta prestação matrimonial mencionado por diversos membros das famílias. mas não tem aquele tratamento que a pessoa que fez lobolo tem. por isso. Ninguém na família me ajudou. O aumento (relativo) do custo desta prestação matrimonial reflecte. explica porque o considera importante : «Eu nunca gostei de ficar com filhos de dono sem saber porque é que estão comigo. você não tem onde apresentar as dificuldades que estão a passar aqui dentro de casa se não fez lobolo […]. a crise social e económica e as contradições internas das estratégias de reprodução social. Um dos informantes. dificulta ou impossibilita. senão há-de querer casar sem dinheiro e ainda confiar nos familiares ». Aparentemente esse aumento não é do interesse de nenhuma das partes: os rapazes querem cumprir a obrigação e não têm meios suficientes. Josué. quando se trata já do matrimónio. estruturante das estratégias matrimoniais que visavam antes de mais estabelecer uma cadeia de relações entre diferentes linhagens (Feliciano 1989a). a sua concretização. a que este e a sua filha vivam maritalmente. manutenção e desenvolvimento de redes de solidariedade entre diferentes grupos familiares. simultaneamente. para isso não há contribuição. o processo de deslocamento em que estas populações estiveram envolvidas nos últimos anos e que tornaram por vezes obsoletas as velhas alianças. Pode ser conhecido. eu não posso ir apresentar o problema a casa dessa pessoa. podendo esta ser abandonada com mais 20 . obrigando à criação e ao desenvolvimento de novas cadeias de solidariedade. e para eles também é muito importante.e maridos.

Consideram. Porém. A cerimónia de casamento é. as transformações que se verificam em todo o processo cerimonial do lobolo não reflectem necessariamente mudanças qualitativas nas relações de género. também. simultaneamente. Essas transformações – instabilidade das uniões matrimoniais verificada sobretudo entre os membros da geração mais nova e a pluralidade de tipos possíveis de uniões conjugais – reflectem a dinâmica das estratégias de sobrevivência e reprodução social que articulam de forma ambígua valores contraditórios. Nesse hipotético futuro se projectam actos e cerimónias como se de processos se tratasse. eventualmente. são muitas vezes auto-percepcionadas como negativas e podem traduzirse num maior isolamento social das mulheres e consequentemente num decréscimo do seu poder e estatuto. os indivíduos para sobreviverem e se reproduzirem necessitam de estar inseridos em redes sociais de solidariedade. sendo a família uma das mais importantes . No entanto. não sobrevivem se não desenvolverem práticas «egoístas» que lhes permitam satisfazer 21 . à semelhança das próprias uniões conjugais (o divórcio e a separação não são novidades). Concluindo. não é necessário que todos estes requisitos se cumpram para o casal se sentir «casado» e para a família de ambos os aceitar como tal. e muitos dos actores sociais disseram que o valor monetário do lobolo era calculado em função das despesas que haviam tido com a educação da filha. Por outras palavras. num contexto onde a sobrevivência e a reprodução social dependem em grande medida do estabelecimento de redes familiares de entreajuda. Por isso.facilidade do que aconteceria se fosse lobolada. Essa liberdade e autonomia. escrevem a carta onde as exigências ficam expressas e esperam que. o rapaz e a família deste façam os sacrifícios necessários para as poder cumprir. no contexto em que a união se efectiva — Maputo —. que o dinheiro que assim vão receber pode contribuir para fazer face a outras despesas essenciais (por exemplo. correndo o risco. e como referem: «há-de cumprir-se». apesar de ambas as partes não considerarem que a formalização do acto de matrimonial se tenha cumprido na íntegra. mesmo quando as situações indefinidas criadas ao nível das relações de aliança permitem à mulher uma maior liberdade e autonomia face às suas obrigações tradicionais. Mas «a vida está cara». ajudar um filho a pagar o lobolo que outra família exige). algo em permanente construção que se pode ir realizando ou protelando no tempo.

as mulheres exercem actividades geradoras de rendimentos ou produtos e as vendas são uma das tarefas principais em que se ocupam. Grande parte destas actividades realiza-se de modo «informal» e/ou destina-se ao auto consumo. Eu não faço nada. matrimoniais) que tenderiam a perpetuar essas unidades sociais. Para subsistir e fazer face às suas responsabilidades 22 . como é o caso da produção agrícola nas machambas urbanas ou rurais exploradas directamente por membros da família residentes na cidade ou por outros familiares que residem no campo. pequenos «bares» que fazem em casa. Da análise dos dados concluiu-se que em praticamente todas as famílias existem várias pessoas a trabalhar em actividades geradoras de rendimentos ou de produtos. de forma a contextualizar a análise. existe sempre a possibilidade de «circulação » entre redes de solidariedade e por isso é possível aos indivíduos e às famílias estabelecerem novas alianças com outras unidades sociais (novas uniões matrimoniais) e desenvolverem processos dinâmicos e versáteis de reprodução social. O trabalho feminino nas estratégias económicas das famílias A estas transformações nas práticas matrimoniais e à instabilidade das uniões conjugais aliam-se importantes mudanças económicas. continuidade e reprodução social. Uma das soluções possíveis passa pela aceitação e criação de condições que transformem as cerimónias matrimoniais em processos em permanente construção que podem a qualquer altura ser interrompidos. têm pequenas oficinas. Essas práticas podem gerar a quebra de alguns dos compromissos sociais em que se baseiam as referidas redes (neste caso. as famílias desenvolvem uma estratégia pela qual tentam conciliar a instabilidade das relações de aliança com as necessidades de coesão interna. na estrada. só vendo Verificou-se que em praticamente todas as famílias. as famílias) e por conseguinte quebram-se as alianças (neste caso. Muitas destas famílias têm bancas de vendas dos mais variados produtos à porta de casa ou vendem noutros locais : mercados do bairro. Antes de reflectirmos sobre o seu impacto nas relações de género e de poder importa apresentar alguns dados das investigações mencionadas.as suas necessidades materiais. No entanto. Muitos dos membros das famílias desenvolvem outros tipos de actividades geradoras de rendimentos em casa : são curandeiros. Desta forma. confeccionam comida para venda.

em alguns casos. venda de lenha. foi possível concluir que em muitas famílias o número de mulheres que trabalham é igual ou superior ao número de homens que trabalham. que têm chamado a atenção para o facto de muitas mulheres que desenvolvem actividades geradoras de recursos financeiros terem. só vendo» ou «aquilo que ela faz é para entreter». assim. venda de produtos hortícolas e frutícolas. um acréscimo de trabalho e de responsabilidades. as mulheres. em face da ausência de outras alternativas viáveis (entre os membros das famílias estudadas que trabalham no sector formal apenas se encontra uma mulher) tiveram de inserir-se nos circuitos do chamado mercado informal. ele não tem nada a ver com isso». Não obstante este facto e a dificuldade de apurar a importância da contribuição financeira das mulheres para os orçamentos familiares – a maioria das actividades não tem um rendimento constante e não é realizada de forma continuada –. as mulheres afirmaram que eram elas que efectivamente sustentavam a família e que a contribuição financeira do marido para as despesas domésticas não era suficiente: «atirou toda a responsabilidade. Importa notar que. Loforte 1996). Normalmente as crianças colaboram nestas actividades. pelo facto de obterem rendimentos monetários em actividades que exercem «fora de casa». as mulheres e os seus maridos não consideram as actividades que estas desenvolvem como «trabalho». para uma maior determinação no controlo das suas vidas e um maior poder de negociação e independência face aos homens. estas mulheres. As 23 . executando aí um leque muito variado de actividades – confecção e venda de carvão. têm a possibilidade de aceder a certas posições de poder e de conquistar uma certa visibilidade a nível do bairro que pode influenciar positivamente o seu estatuto na família e fora da família. Em alguns casos. Segundo alguns autores (Tripp 1989 . Estas actividades e as redes sociais em que as mulheres se inserem contribuiriam. ou que ele tinha arranjado outra mulher e quando vinha dava uma quantia insignificante. estando nas «bancas» sempre que é necessário. e referem : «eu não faço nada.«tradicionais» de provedoras do sustento da família. Esta ideia tem sido contrariada por outros autores (Caplan 1995 & Campbell 1995 . em meio urbano africano. confecção e venda de alimentos ou revenda de produtos importados. face às mulheres que não as desenvolvem. para um acréscimo da sua autoconfiança. Rocha & Grinspun 2001).

sendo necessário relacionar inúmeras variáveis para compreender a posição das mulheres em termos de autonomia. as actividades geradoras de rendimentos representam um acréscimo de trabalho. é ela que dá ao marido» – ou rompimentos com redes familiares e de parentesco. Esta situação é comum nas famílias numerosas onde existem muitas mulheres nas diferentes faixas etárias. Destacam-se algumas: a estrutura familiar (tipo de família. essa possibilidade pode gerar conflitos quando é concretizada – «há muita zanga entre os homens e as mulheres por causa do que hão-de fazer ao dinheiro. irmãs mais novas. com outros elementos masculinos da família . há uma repartição hierárquica das diferentes tarefas e responsabilidades e uma maior autonomia e disponibilidade daquelas que têm um estatuto mais elevado. quem vai às compras ou cozinha. são as outras mulheres da família de estatuto inferior (noras. 24 .primeiras continuam a ser responsáveis pela preparação das refeições da família e por todas as outras tarefas domésticas. Se o exercício de actividades geradoras de rendimentos monetários cria possibilidades para o aumento de autonomia e liberdade das mulheres face às obrigações e normas tradicionais e maior espaço social de circulação. a posição que a mulher ocupa dentro desta estrutura. Os homens não tiram o dinheiro. e a ausência de alternativas – uma mulher sem família é socialmente marginalizada – podem transformar a autonomia em sofrimento e a liberdade num pesadelo. por isso às vezes a mulher faz sem dizer nada ao marido. número de membros da família e distribuição por sexo) . as crianças e os jovens (incluindo rapazes). não as realizam. a situação do homem em termos de trabalho/rendimentos. segundas mulheres. quem varre o chão e lava a roupa. Em termos da análise empírica constatou-se que existiam situações muito diversas. O potencial de conflitos. para outras tal não acontece. Estas últimas. os recursos materiais disponíveis e a capacidade da mulher para os mobilizar e rentabilizar em seu benefício. a relação afectiva e emocional com o cônjuge ou. as actividades que desenvolve e a importância relativa dos rendimentos daí resultantes no orçamento familiar. Assim se. poder e estatuto. Quem vai buscar água e comprar lenha. embora continuem a gerir as actividades domésticas. na ausência deste. que por vezes atingem níveis dramáticos. Nestes casos. para muitas mulheres.

sozinha.Agradeço a Deus o que me deu.» Eva (30 anos) : «Não me considero uma mulher com sorte porque não tive o marido só para mim. estou à espera que ele venha para saber se fica comigo ou não. Sou casada mas ainda não fui lobolada. A autonomia da mulher pode ainda traduzir-se numa capacidade limitada para mobilizar recursos (humanos e materiais) e num aumento consequente de responsabilidades face a si e aos seus filhos e num maior isolamento social. mas vive sozinha. marido e filhos. estou num lar que já tinha lá duas mulheres. Prefiro assim. A primeira trabalha na machamba da família e não obtém quaisquer rendimentos monetários com essa actividade. trate de mim. […] Mas gostava mais de ter uma família. Cristina é professora na escola comunitária do bairro Polana Caniço A. ele está na África do Sul e nunca mais veio. não tenho quase despesas. comprei o talhão sozinha e foi o meu irmão que fez a casa […]. para mim basta ». ele é de três. porque esta aí ainda anda a tentar ver se consegue um lar […] agradeço a Deus o que me deu. sou só eu e o meu irmãozinho de dez anos que vive comigo […]. nem registo nem nada. tem um ordenado e casa própria. Como exemplo destas situações e da importância de equacionar diferentes dimensões da realidade social quando se reflecte sobre questões de género. solteira e com uma situação económica que lhe permite possuir casa própria e usufruir de uma certa independência não se considera necessariamente mais «valorizada» socialmente (embora seja certamente mais independente e tenha mais poder e autonomia sobre a sua vida) do que outra mulher inserida numa família poligâmica e sem rendimentos próprios. do que esta situação de independente. estou num lar O estatuto do casamento e da maternidade constitui um factor de grande peso cultural e social. 25 . mas desde que o senhor Josué [marido] cuide de mim. Uma (Eva) é a terceira esposa de um casamento poligâmico e outra (Cristina) afirma-se casada. mas também não posso dizer que sou muito azarada em relação à minha amiga. apresenta-se aqui o testemunho de duas amigas da mesma idade que vivem situações muito diferentes. Uma mulher sem filhos. Estas mulheres referem-se nos seguintes termos às suas situações : «Cristina (29 anos) : Eu há dois anos que vivo numa casa que é só minha em Magoanine. apenas produz para o consumo da família.

se manifestam diferentes graus de subordinação ou de poder (Mouffe 1996 : 104). têm estratégias de poder diferenciadas que variam em função de inúmeros factores: tipo de família em que se inserem. mas estas mudanças ocorrem em múltiplos sentidos. Simultaneamente. neste «estudo de caso». traduzir-se num aumento relativo do espaço de poder feminino face ao masculino. onde. os ganhos monetários provenientes de diversas actividades. complexas. Esse contexto. é pleno de contradições e articula de forma complexa valores «tradicionais». a afirmação de interesses individuais e a capacidade (e coragem) de certas mulheres tornam possível. Por outro lado. estas «conquistas» só adquirem «valor» quando têm significado e reconhecimento social dentro do contexto em que se efectivam. estas não são um grupo homogéneo nem são vítimas passivas. mas o facto de as mulheres terem a responsabilidade de prover ao sustento alimentar básico da sua família não constitui uma mudança. 60) e que uma mesma mulher vive uma multiplicidade de relações de diferente tipo. uma vez que as mulheres não partilham uma mesma realidade material (Casimiro 1999 : 53-54. de acordo com as circunstâncias diversas com que interage e com as diferentes posições que nestas circunstâncias ocupa. em certos casos. efectivamente. E tal pode. cada mulher é portadora de identidades múltiplas. A análise demonstrou que as mulheres constituem um elemento essencial nas estratégias económicas. No entanto. As diferenças entre essas mesmas experiências são ontologicamente complexas. A formação escolar. romper com fidelidades antigas que as subalternizavam. é necessária prudência quando se tenta extrair conclusões sobre eventuais modificações nas relações de género e é difícil percepcionar as direcções para as quais tendem as transformações observadas. o exercício de profissões. mesmo limitando o universo de análise às mulheres estudadas.Através destes discursos é possível concluir. experiências e memórias acumuladas. de forma dinâmica e por vezes ambivalente. pois esta era 26 . idade. interesses «modernos» e representações ideais de modernidade. que existem efectivamente mudanças no papel que a mulher desempenha dentro da família. para além de estar profundamente marcado por relações de género que subalternizam o papel social da mulher face ao do homem. contraditórias e em transformação. Neste complexo jogo e face às alternativas existentes.

bem como significados que essas questões e conceitos têm no contexto cultural e social em observação. Estas mudam frequentemente de culto quando se casam e passam a seguir a religião do marido. Mas mesmo a vida religiosa da mulher está por vezes dependente da vontade do marido. As informações empíricas disponíveis não permitem chegar a conclusões acerca de modificações nos papéis de género. não faz sentido falar de poder ou de autonomia sem os contextualizarmos dentro desta dinâmica relacional (Medick e Sabean 1988: 18). a análise das questões de género constitui essencialmente uma análise relacional e o que está em jogo são fundamentalmente relações sociais entre os membros masculinos e femininos da família. as mulheres participam frequentemente em grupos religiosos (igrejas). Pelo contrário. e as práticas concretas dos actores. Da mesma forma. as relações de poder devem ser compreendidas em termos de avaliação da capacidade de controlo de recursos materiais e humanos por parte dos homens e mulheres da família. Da mesma forma o acesso aos rendimentos monetários não se traduziu numa maior visibilidade ou intervenção a nível do bairro. ao nível das representações sociais e culturais no contexto em questão (como a sociedade em causa molda os papéis e os comportamentos de ambos os sexos) e em termos da auto-percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. Sendo assim. há ainda que ter em conta não só os múltiplos referentes em presença como as diferenças entre valores culturais e representações sociais. esta mudança não significou. O que se verificou foi que questões relacionadas com «autonomia». A compreensão destas questões pressupõe uma análise integrada onde intervêm diferentes significados e interpretações : o significado que o investigador dá a esses conceitos e que influencia as interpretações que faz da realidade social que analisa. No entanto. é reduzida. A diferença reside nos rendimentos monetários que agora adquirem através do seu trabalho.«tradicionalmente» a sua obrigação. a essência multidimensional das relações familiares implica que nessas mesmas 27 . por exemplo no «xitike». «independência». por si só. Simultaneamente. por outro. Neste último caso. uma transformação valorativa no estatuto das mulheres. associações de bairro (excluindo aqui a Organização da Mulher Moçambicana) e grupos de entreajuda. por um lado. Neste sentido. A participação das mulheres em ONG. «controlo» e «relações de poder» são extremamente complexas e têm de ser contextualizadas.

I. Bibliografia citada BEBBINGTON. HESSELING. dissertação de doutoramento. Avebury : 178-202. Gender. mimeo. CAPLAN. Avebury : 118-138. Universidade de Coimbra. in C. F. « Capitals and Capabilities : A Framework for Analyzing Peasant Viability. Coimbra.. World Development. 1999. Estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias na periferia de Maputo. mimeo. «Paz na Terra. Antropologia Económica dos Thonga do Sul de Moçambique. Lisboa. 28 . Gender. CREIGHTON . A. Rural Livelihoods and Poverty ». pouvoir. Family and Household in Tanzania. sociétés». Aldershot. mimeo. XXVII (12) : 2021-2044. CAMPBELL. J. Guerra em Casa : Feminismo e Organizações de Mulheres em Moçambique ».. 1997. COSTA. 1989. CASIMIRO. FELICIANO.relações sejam expressos diversos tipos e níveis de poder que não só podem não ser coincidentes como são dinâmicos e se alteram permanentemente sob a influência de inúmeros factores (Medick e Sabean. dissertação de mestrado. 1988 : 18). 1999. 1995. De todos estes factos deriva a presente dificuldade em expressar conclusões gerais – mesmo que limitadas ao universo em análise – sobre a influência que as actividades geradoras de rendimentos desenvolvidas por mulheres terão nas relações de género no seu maior ou menor acréscimo de poder e estatuto no interior ou no exterior da família. Bénard da 2003. Faculdade de Economia. G. ed. ed. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa (ISCTE). A. 1995. Lisboa. «Conceptualizing Gender Relations and the Household in Urban Tanzania ». J. & LAURAS-LOCOH. tese de doutoramento em Estudos africanos interdisciplinares em Ciências sociais. CREIGHTON. 65 : 3-20. Family and Household in Tanzania. Aldershot. P. «"In My Office We Don’t Have Closing Hours" : Gendered Household Relations in a Swahili Village in Northern Mafia Island» in C. «Femmes. T. Politique Africaine. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa.

«Introduction». Trabalho assalariado e estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias em Luanda. «Urbanização acelerada em Luanda e Maputo : impacto da guerra e das transformações sócio-económicas (décadas de 80 e 90)». 3ª edição. 1996. in Interest and Emotion : Essays on the Study of Family and Kinship. Lisboa. Instituto nacional de desenvolvimento da educação. Lisboa. Género e Poder entre os Tsonga de Moçambique. Cambridge. SITOE. Universidade técnica de Lisboa. Estudos de desenvolvimento nº 6. 2 vols. «Private Adjustments : Households. dissertação de doutoramento. M.JUNOD. mimeo. Centro de estudos sobre África e do desenvolvimento. tese de doutoramento em Estudos africanos interdisciplinares em ciências sociais. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa. ROCHA. Ela Por Ela. H. Usos e Costumes dos Bantos. A. Lisboa. M. MOUFFE. GONZÁLEZ de la & GRINSPUN. D. A.. 1996. MEDICK. undp. textos preliminares.W. J. org/dpa/publications/choicesforpoor/ENGLISH/CHAP03. A. 27 : 601-23 Ana Bénard da Costa é Antropóloga. ––––– 2003. TRIPP. Lisboa. 2004. 1996. 29 . [1912-1913] LOFORTE. RODRIGUES. H. http ://www. Journal of Modern African Studies. 1988. Arquivo Histórico de Moçambique. Dicionário Changana-Português. Lisboa. O Regresso do Político. U. Género e Poder entre os Tsonga de Moçambique. 1989. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa (ISCTE). Gradiva.. doutorada em Estudos Africanos Interdisciplinares em Ciências Sociais no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). B. Lisboa. UNDP (United Nations Development Programme). et al. Instituto superior de economia e gestão. 1996. mimeo. 2001.M. C.A. Maputo. & SABEAN. «Women and the Changing Urban Household Economy in Tanzania». C. Maputo. Crises and Work» in Choices for the Poor : Lessons from National Poverty Strategies. 2001. OPPENHEIMER. Cambridge University Press : 1-8.

“Mujeres migrando. Mujeres migrantes.com. familia. Las concepciones sobre la familia. estrategias y acomodaciones en las trayectorias migratorias. De este modo se analizarán las concepciones familiares asumidas por las teorías migratorias y las representaciones sobre la familia (en tanto ideal y en tanto prácticas) re-construidas en las entrevistas para dar cuenta de las distancias entre las verdades asumidas y las prácticas reales en las experiencias vividas. Bolivianas. A partir del análisis de entrevistas en profundidad realizadas entre mujeres nacidas en Bolivia y migrantes recientes cuya residencia sea la ciudad de Buenos Aires y Ushuaia intentamos desconstruir estas afirmaciones. supuestos casi nunca expresados. El lugar de la familia” Ana Inés Mallimaci anamallimaci@yahoo. Palabras Claves: Migraciones. sostienen una serie de afirmaciones sobre las migraciones de las mujeres (relacionadas con su origen y configuración) cuando migran con sus parejas y/o hijos (las migraciones de tipo “familiar”). / Facultad de Ciencias Sociales-UBA Resumen: Los estudios migratorios en sus versiones más novedosas han introducido a la familia como unidad de análisis desde la cual reconstruir prácticas. representaciones familiares. .ar Instituto Interdisciplinario de Estudios de Género – FFYL-UBA. no como mero ejercicio teórico sino como una herramienta desde la cual comprender el sentido que las migrantes construyen sobre sus trayectorias.

en su gran mayoría. urbanas y occidentales con el fin de ejercer vigilancia epistemológica y evitar el etnocentrismo que implicaría analizar desde lo propio realidades cercanas en el espacio (medido en metros) pero lejanas en cualquier otra dimensión. Objetivos: Para esta presentación hemos decidido trabajar con una pequeña porción de nuestra indagación: las representaciones familiares y su vinculación con las trayectorias migratorias de mujeres que migran a la Argentina después de sus maridosiii. Para ello estamos entrevistando a mujeres y varones que hayan nacido en el territorio boliviano y hayan atravesado las fronteras con nuestro país con el “ánimo de residir”i. Las técnicas de campo. de análisis y de escritura intentan dar cuenta de la “perspectiva que los actores y actoras sociales” imprimen a y en sus acciones en contextos culturales. La elección de este grupo de mujeres no es azarosa sino que se trata de mujeres cuya trayectoria migratoria ha sido analizada como “típica” de las primeras olas migratorias y que en las discusiones sobre las motivaciones de migración han sido encasilladas entre aquellas que migran motivadas por la “reunificación familiar”. Es en estas ideas donde vamos a encontrar concepciones supuestas y no discutidas sobre la familia por parte de los analistas que reproduce en mucho el ideal de familia nuclear conyugal y heterosexual de occidente. en la literatura más clásica. Este tipo de motivaciones le son exclusivas y se diferencian de las de cualquier típico varón migrante o de las típicas mujeres que conforman la llamada “feminización de la migración” que atraviesan las fronteras solas con el fin de trabajar. Se migra para reunirse con “la familia”. Nuestro trabajo se construye entonces a partir y sobre los relatos de estas mujeres y varones nacidas/os en Bolivia. enmarcando el análisis en un enfoque conjunto de las teorías feministas y las interpretativas dentro del campo sociológico. Las técnicas de recolección/construcción de información empleadas fueron entrevistas en profundidad no estructuradas. generalmente de un encuentro. de zonas rurales y de provincias específicas (Potosí y Cochabamba) permitiría algún grado de generalización no probabilística Interpretar sus experiencias implica en mucho tomar distancia de naturalizaciones y cotidianidades relativas a nuestras propias experiencias femeninas. Analíticamente. Aún así. En esta presentación decidimos trabajar sobre las motivaciones de la migración ya que es allí donde “la familia” aparece. no considerar ambas dimensiones impide indagar sobre las distancias y posibles tensiones entre las prácticas familiares vividas y lo idearios acerca de lo 31 . consideramos que el hecho de ser mujeres migrantes (es decir que estamos trabajando con mujeres pertenecientes a los sectores más bajos de Bolivia) provenientes. es decir con aquel varón que espera. sociales y económicos específicos. en las casas o lugares de trabajo de los/as entrevistadas/os con el principal fin de reconstruir las trayectorias migratorias de las/los entrevistadas/os.Introducción Esta presentación es un producto del trabajo que estoy realizando para la tesis doctoral cuyo tema central radica en analizar las múltiples relaciones entre las migraciones bolivianas a la argentina (ciudad de Buenos Aires y Ushuaia) y las estructuraciones de género. como un origen de las acciones y el destino para estas mujeresiv. Las 15 entrevistas seleccionadas para este trabajo pertenecen a mujeres que residen en áreas urbanas de la Ciudad de Buenos Aires y en Ushuaiaii con migraciones “familiares” y cuya edad varía desde los 23 años a los 70. En este trabajo no hemos enfatizado en las múltiples diferencias presentes entre las propias mujeres bolivianas frente a una misma trayectoria migratoria.

la categoría familia se da por supuesta y ya sabida y es incluida como un dato de la realidad o una posición en una variable independiente cuyo mayor dinamismo es registrar el “tipo” de familia según tamaño y estructura interna ( ver por ejemplo los trabajos de Poggio y Woof. entre la ideología familiar y las estructuras y económicas reales de unidad doméstica ((Moore 1996)) tanto de los investigadores como de los actores y actrices sociales cuyos mundos se analizan.familiar. este corrimiento en las perspectivas teóricas hacia las familias poco y nada nos dice acerca de las conceptualizaciones sobre la familia empleadas lo cual resulta paradójico dado el papel protagónico concedido a la familia. Intentaremos dar cuenta de la articulación de lo económico con lo doméstico como parte de un mismo sentido que impide su conceptualización como dos dimensiones separadas del mundo social. se ha difundido y aceptado la idea de que la comprensión de los motivos. a. Quiminal).vi Específicamente dentro del campo de los estudios migratorios. Pensada como estrategia (y solución) para superar la dicotomía entre los análisis estructurales (tanto los de raigambre marxista como aquellos incluidos en las teorías Push-pull) y aquellos centrados en el individuo racional (con información completa que decide.v Nada de lo que será dicho puede entenderse como el resultado de un análisis acabado sino como las primeras hipótesis surgidas de la indagación empírico – teórica. se desprende del corolario anterior que si las mujeres migran en y por la familia sus motivaciones no son económicas sino “sociales”. “privadas”. Gregorio Gil (1997)-. migrar como una estrategia racional)vii. b) Los estudios migratorios han producido una verdad que establece que cuando las mujeres migran después de sus maridos. como distintas puertas que serán abiertas para convertirse (con suerte) en futuros ejes y categorías de análisis. utilizar como unidad de análisis a “la familia migrante” y no a los individuos supuso mediar entre estructuras e individuos. trayectorias y relaciones con las sociedades receptoras y de origen deben ser analizadas en y a través de las familias migrantes. c) Basado en una visión dicotómica de la sociedad. Balán. Sin embargo. Por lo tanto esta ponencia se estructura en base a un triple problema: a) Los estudios migratorios utilizan a la familia como parte de sus análisis: que es lo que generalmente se entiende por ella? A partir de ello propondremos nuestros propios sentidos acerca de las familias. este trabajo se sitúa en el primer paso. es considerada entonces como “mesoestructuras” o estructuras intermedias que permiten comprender las decisiones de migración y los modos del movimiento y radicación -Hoerder (2000). Si el concepto de familia no 32 . desde hace algunos años. La familia (junto con las redes de sociabilidad). Una vez más (y como suele ocurrir con aquellas realidades cercanas que se nos aparecen como obvias y a veces naturalizadas). Significados sobre la familia en los estudios migratorios Realizaremos aquí un brevísimo repaso sobre las configuraciones sobre “la familia” en los estudios migratorios de corte sociológico. lo hacen con el fin de la “reunificación familiar”. Antes de comenzar esperamos se nos disculpen algunas advertencias para la lectura de las palabras que siguen. El análisis que realizaremos deberá ser comprendido como esbozos de ideas surgidas de algunas entrevistas realizadas en el marco de una investigación más amplia. Las motivaciones de migración serán comprendidas entonces como “estrategias familiares” en ciertos contextos estructurales. Cuáles son los motivos re-construidos por nuestras entrevistadas? Que sentido le atribuyen a la “reunificación familiar”?. En el juego de reflexión sobre datos empíricos para volver y enriquecer al campo. luego de sopesar costos y beneficios.

comidas. para luego traer a su familia. es el que migra por ser el que ejerce el rol productor de bienes y recursos) y la mujer confinada a lo doméstico y ejerciendo el rol de reproductora de la unidad. puede opacar otras prácticas familiares y migratorias y sobre todo invisibilizar las prácticas de las mujeres migrantes y de los hijos/as. se confunde un tipo ideal. Si su inserción resultara “exitosa”. es decir. por lo menos. Asimismo. Además. causas y consecuencias de la migración. etc. vestimenta. abstracto y teórico con prácticas familiares reales. Por otro lado. Típicamente la forma de las trayectorias migratoria de los miembros de la familia es “en cadena”((Benencia 2004. y tal como es expresado por Bernardes (1997) y (Moore 1996). al tomarse un tipo de familia como la norma se prescriben los modos adecuados de vivir en familia (por ejemplo. niños pasivos) y de género (varón en lo “público”. no aparece como problematizado y problematizable. Lo que constituye un ideal. La mujer será la encargada principal de la integración de sus hijos e hijas a un nuevo entorno como reproductora de lo doméstico. De este modo. festividades. un modelo se confunde así con las prácticas reales (Salles y Tuirán 1996). y paradójicamente. Con ello queremos decir que si bien esta imagen típica de familia migrando y su típica trayectoria no puede considerase como falsa ya que describe experiencias migratorias realesx al ser clasificada como “típica” y convertida en un supuesto que. b) La unidad conyugal está en el centro de la estructura familiar. afecto y emotividad familiar (aunque trabaje “productivamente” esta será su principal función) y principal encargada de la integración de la familia en su interior y con la sociedad más amplia. decide trasladarse a otro país (como parte de una estrategia familiar de supervivencia). lenguas. son distribuidos de forma igualitaria.forma parte del objeto construido como problemático existirán supuestos sobre qué es una familia que sostendrán silenciosamente los análisis posteriores. Un ejemplo claro de ello es lo difícil que ha sido incluir en la agenda de investigación el caso de mujeres que migran autónomamente (es decir. traerá o mandará llamar a su familia (es decir. una ideología. También. su mujer e hijo/as) que se juntarán con él y comenzarán una nueva vida en familia. Este modelo típico de familia supuesto en la mayor parte de los trabajos migratorios pueden rastrearse diferentes supuestos anclados en la “exitosa” imagen funcionalista sobre la familiaviii: a) Como unidad social diferente de otras. Las migraciones familiares Cuando se conceptualiza a la migración como familiar se entiende por ello que. 33 . será la principal encargada de mantener el lazo cultural con la sociedad de origen a través de la enseñanza y reproducción de costumbres. c) Se da por entendido o. el núcleo conyugal atraviese las fronteras de uno o más países. Devoto 2004)): un varón como jefe de hogar y padre de familia. el lazo afectivo entre los miembros de la familia. d) La estructura familiar se mantiene integrada por la clara división jerárquica de roles generacional (adultos activos. no es revalidado en el trabajo empírico. se supone que los recursos materiales y simbólicos. al comprender la migración de mujeres solteras por la ausencia o falta de una estructura familiar que la contenga o la ausencia de un varón que cumpla el rol productivo). Este traslado será facilitado por las redes de parentesco y sociales cuyas consecuencias son siempre positivas y beneficiosas para el ahora devenido migrante y su familia. sin el objetivo principal de reunirse con su pareja ya migrada)xi. la mujer migrante es la reproductora biológica y la representante simbólica de la reproducción nacionalix. su mujer y sus hijos. trabajador. al menos. La familia en la que se piensa es de tipo nuclear (con lazos con el resto de las familias nucleares a partir de las redes de parentesco) y heterosexual. en general.

abordados en esta presentación. meramente. siempre que una mujer migre luego de su marido el sentido mentado del movimiento será el de la “reunificación familiar” dando por supuesto las significancias de este título que se opone entonces a las migraciones de los varones motivadas económicamente y por factores productivos. es decir. Las concepciones familiares de los/as analistas orientarán en gran parte el trabajo sobre las migraciones lo que impacta de sobremanera en el estudio sobre las mujeres inmigrantes (por la tendencia occidental de considerar a la mujer en el ámbito de lo doméstico y reproductivo). Mantener implícitas las definiciones familiar ha implicado en la mayor parte de los casos reproducir imágenes familiares que invisibilizan nuevos modos de ser en familia. En nuestro trabajo consideramos a la/s familia/s como “contextos de intercambio de experiencias”. b) Cuando las mujeres migran después de sus maridos. pareja/s. padre o madre. el poder que se ejerza y los recursos que se pueden poner en juego. Cómo puede comprenderse a la familia? Como hemos visto resulta de singular importancia reflexionar acerca de la familia en los estudios migratorios. o suponiendo un modo normal de ser en familia (en su doble acepción de norma y corrección) aparece en el análisis como uno de los escenarios o contextos posibles en el que se decide migrar a la vez que se viven y hacen las experiencias familiares. si se tienen hijos/as a cargo. Consideramos así la pluralidad de experiencias para no trasladar los modelos hegemónicos (y propios) como destinos naturales o normativos. Asimismo creemos que este enfoque premite atravesar la división público / privado y analizar las diferentes experiencias y sentidos que puede adquirir la experiencia migratoria de acuerdo a si se es mujer o varón. En este artículo trabajaremos con los relatos de mujeres cuyas trayectorias de familias migrando han sido similares: juntadas (formal o informalmente) en Bolivia las trayectorias migratorias “familiares” comienza con la del varón en búsqueda de trabajo y pasado un tiempo (que varía de acuerdo a los casos) la migración de la mujer y sus hijos/as. Por ello le damos importancia a la línea de partida desde la cual se construyen las investigaciones que permitirán problematizar algunas cuestiones e invisibilizar otras. lo hacen con el fin de la “reunificación familiar”. Es este segundo conjunto de problemas los que serán. De este modo la familia lejos de ser fijada en una forma única. El contenido de estas experiencias es re-construido a partir de los relatos.Asimismo creemos central destacar el frecuente solapamiento entre las formas del migrar y los sentidos que supuestamente le corresponden: ante formas familiares y migratorias similares se prescriben sentidos equivalentes. Se incluyen también otros lazos de reciprocidad que no necesariamente son consanguíneos pero que funcionan como redes de recursos simbólicos y materiales que no solo cumplen funciones integradoras al estilo del modelo familiar funcionalista sino que sus consecuencias también son diferenciales de acuerdo al cuerpo que se tenga. etc. de organización familiar y de percepciones familiares por parte de quiénes “hacen” a la familia. Partiendo de esta primer definición de familia lo que intentaremo aquí es incorporar en el análisis los modos en que la familia es vivida y representada por las mujeres bolivianas entrevistadas. 34 . Esta afirmación tendría como destinatarias a las mujeres sobre las cuales se basan estas reflexiones.

las mujeres bolivianas provenientes de zonas rurales y campesinas han trabajado desde niñas y en sus hogares la división entre lo productivo y lo reproductivo asimilable a dentro del hogar / fuera del hogar no funcionan del mismo modo que en nuestras sociedades occidentales. Ante la pregunta de por qué migraron se respondía primeramente la necesidad de reunirse con sus parejas. Sin embargo. Considerando el aspecto formal. entre las mujeres que entrevistamos se destaca la vigencia de un modelo “ideal” conyugalidad en la que los cónyuges. (para ambas dimensiones pueden consultarse los trabajos de Benencia 1995. Segundo. practicados y.1) Las diversas experiencias familiares y la ideología familiar. lo que en la literatura clásica se ha denominado como reunificación familiarxiii o migración “social”. añorados. al indagar en las diferentes relaciones familiares en las que han vivido en sus primeros años resalta la pluralidad de dichas experiencias: conyugales. Generalmente. en los análisis una vez identificadas estas motivaciones se consideran sus trayectorias migratorias como no vinculadas al trabajo. representaciones y aspiraciones de sujetos que tanto en su país de origen como en el de llegada conviven con modelos culturales diferentes pero negociados y negociables. En este punto como en otros. entendidos como padre varón y madre mujer. con ausencia cotidiana del padre o madre consanguíneo. deben estar unidos y ser la base de lo que se considera como familia. el primer aspecto a destacar es el hecho de que la pertenencia a un país o incluso a sociedades similares (campesinas de ciertas regiones de Bolivia) y trayectorias migratorias semejantes no implica una socialización en estructuras familiares idénticas. En primer lugar. lo económico y lo productivo y las mujeres como dependientes y pasivas en relación a las decisiones de migraciones en el seno familiar. el análisis de las entrevistas recorre tensiones entre las prácticas discursivas y no discursivas. debe destacarse que este ha sido un trabajo pionero en darle visibilidad a las mujeres bolivianas como migrantes introduciendo dimensiones analíticas no exclusivamente centradas en torno a lo “verdaderamente” productivo (es decir. propondremos aquí que esta similitud con el modelo en cuanto a las formas del migrar poco nos dice acerca de los sentidos puestos en el movimiento (derivados de una única concepción familiar) las relaciones de género y las experiencias familiares. entre las mujeres bolivianas lo productivo constituye un aspecto central de su subjetividad. Sin embargo. Cuando hablamos de las experiencias familiares de estas mujeres bolivianas. monoparentales. a veces. el mismo Balán 1990. desde 35 . Lo que vuelve más interesante el estudio de la migración de estas mujeres es que una mirada que no problematice a la familia. en primer lugar.2) Motivaciones de migración Una de las dimensiones en la que pueden rastrearse estas tensiones es la que se desprende del relato sobre sus propias motivaciones para migrarxii. Sin embargo. Al respecto debemos decir que. a los géneros y sus relaciones puede fácilmente reproducir los modelos clásicos de interpretación comprendiendo al movimiento de mujeres como “dependiente” de la primer (y “verdadera”) migración masculina. Estos trabajos destacan la experiencias que.b. Ante la pluralidad de experiencias la unicidad del modelo aspirado. b. el trabajo asalariado). etc. Barrancos 2002 y Harris 1983). su interpretación sobre los motivos diferenciales de mujeres y varones reproduce en mucho los clásicos diferenciales de roles: los varones como seres productivos y las mujeres (privadas) afincadas a lo reproductivo y encargadas de la unión familiar. Pongamos como ejemplo un estudio paradigmático: el trabajo de Balan (1990) sobre los motivos diferenciales de mujeres y varones Cochabambinos para migrar a la Argentina. extensas.

Cuando tenía ocho años me quería traer pero yo lloraba. Si lo productivo resulta tan importante para la construcción de si mismas. Cuando les pregunto los motivos de estas decisiones (que en muchos casos tarda años en concretarse) no hay en sus respuestas contenidos referidos a motivaciones personales (es decir referidas a ellas como personas individuales ya sean satisfacciones personales. Gerarda. que el varón y la mujer como sostenes (y reproductores) del grupo familiar no deben estar separados. Y ellas deciden venirxiv. yo también decidí venir . aunque sea van a estar juntos”. los procesos que llevan a esta decisión.¿Y vos querías ir? . la pobreza. en mucho. al ser mujer. condiciones de vida no satisfactorias. etc) sino que responden ubicándose a ellas mismas como las representantes de la familia (su familia) que habla a través de ellas (es la familia el sujeto de la decisión).. en sus propios relatos hace.. pero ella era de Jujuy. Para ellas la migración era una entre otras posibilidades. En sus palabras queda claro que la migración familiar no puede entenderse como una estrategia familiar en el sentido de estrategia de y para toda la familia entendida como un objeto unívoco.¿Por qué? .. tías) que les aconsejan migrar enfatizando la necesidad de que los cónyuges estén unidos. en la reconstrucción de las trayectorias migratorias relatadas lo productivo pareciera relegarse frente a otras dimensiones a la hora de decidir migrar a la Argentina. Asimismo. las entrevistadas dan cuenta de las contradicciones que el viajar les provocaba.. deseos y obligaciones Cuando se analiza no solo las respuestas al “por qué” migraron sino que se reconstruye el como..Sí. Teresa. así también marido y mujer están juntos. resulta interesante que en el proceso de toma de decisión (que como ya dijimos puede ser largo) generalmente son nombradas en los relatos otras mujeres cercanas y ya unidas en pareja (abuelas. madres.. Sí.niñas. Las dudas que surgían. b. La gran mayoría de ellas no contaban con los mismos problemas laborales que sus maridos. tienen las mujeres en las arenas productivas y su vinculación al mercado. Ahí (cuando su marido ya estaba en Buenos Aires y ella dudaba en venir) me dice “pensalo porque tenés tus hijos.3) Conflictos. 32 años 36 .. Todas las entrevistadas realizaban algún tipo de tarea productiva y remunerativa en los tiempos previos a la migración (con la presencia o ausencia de sus parejas). ¿porqué ponerlo en juego en pos de la reunificación familiar? ¿Cómo podrían entenderse estas tensiones? Intentaremos algunas respuestas provisorias. melancolías. las veces que dijeron que no. hermanas. El trabajo y lo productivo. etc) ni estructurales (la falta de trabajo imperante. él (su marido) vino primero después mi hermana me dijo “vamos allá que vas a estar más o menos junto con tu marido” .. Y dije “entre la pareja comer sin comer.. amores. Sin embargo.Claro. 27 años. tus hijos pueden quedarse sin padre”. bueno. una cosa llevó a la otra. pero sus maridos ya habían migrado en búsqueda de mejores condiciones de trabajo. deseos. Yo tenía una madrina argentina. y es desde aquí que parte el trabajo de Balan. Bueno de esa manera vinimos.

y “bueno váyanse” y así vinieron. Por otro lado. han sido recurrentes los relatos de abandono materno y paterno quedando la crianza a cargo de los abuelos. relatan sus experiencias infantiles con una naturalidad ajena a las normas y valores de nuestras sociedades occidentales. 29 años La distancia entre los cónyuges es usada entonces. la distancia entre la pareja conyugal es recurrente. existe la posibilidad del largo plazo. Estaban sufriendo dicen porque su marido va a trabajar acá en Buenos Aires “queremos ir” dijeron a mi mamá. Sin embargo. yo quería estar acá al lado de él porque no es lo mismo es sacrificado porque yo tenía que dejar a mis hijos. Las hijas de estas madres. La relación con el padre sanguíneo se pierde con el abandono pero se conserva la relación con la madre que se separa de sus hijas ante la conformación de una nueva familia nuclear (el juntarse con un nuevo varón) y. siempre se “está viniendo”. en general. Pareciera que “ser familia” (tal como lo entendemos desde nuestra cultura) requiere para estas mujeres y su entorno la unión de los cónyuges y esa unión es también espacial. Por otro lado. por la negativa. para no estar separados. Mientras los varones se constituyen en migrantes también vuelven. ¿Usted prefería estar acá? Sí. sus madres y hermanas han viajado largas distancias ausentándose del hogar por varios días. En el caso de las mujeres 37 - - . a la frontera también. Si las parejas a distancia parecieran no sustentarse. Ellas. Y sin embargo constituyen el principal motivo explicitado por las entrevistadas para su propia migración. visitan. sobre todo. maternos. en los relatos sobre su vida en Bolivia. Norma. Estas situaciones no son sentidas como anormales (si bien algunas destacan la soledad y tristeza de alejarse de la madre) sino como estrategias necesarias: ante una nueva unión se instituye una nueva familia que gira alrededor de los cónyuges. de peligro en esta distancia no presente en las distancias femeninas. 41 años Sí. hoy mujeres migrantes. Ante ello dos opciones: que las mujeres e hijos/as migren o que el varón decida quedarse. primero vinieron sus maridos y después les llamaron Claro ¿Y ellas querían irse? Sí. querían mucho. las mujeres son las encargadas principales del mercadeo de los productos del trabajo familiar sobre la tierra. la normativa de la corresidencia conyugal pareciera pesar en tanto que arquetipo familiar. Dos diferencias se asoman entre estas distancias y las que motivan la migración. vivir “a la distancia” constituye una situación que debe normalizarse. Primero. las distancias femeninas siempre son temporales. Pareciera que las mujeres pueden ausentarse sin que se ponga en riesgo a la familia constituida sobre los cónyuges. Para la mayoría esta situación de ausencia masculina se inaugura con las migraciones intraestatales y hay algo de fragilidad. Si no hay separaciones. ahora son los varones y no las mujeres las que se distancian. viajar hasta Villasón. las separaciones sean siempre interpretadas como negativas o como situaciones que deberían evitarse. Ante la ausencia masculina entonces. como explicación y justificación del migrar. tampoco las parentalidades: no se puede ser padre (o madre) a la distancia.Claro. Entre las de origen campesinos. Las relaciones entre los cónyuges y sus hijos/as pequeñosxv necesitarían entonces la cercanía de los cuerpos para hacerse familiares. envían dinero pero la temporalidad es otra. la llegada de hijos e hijas de esta segunda unión. Berta. No es entonces que la distancia. sí.

Por otro lado. mente versus corazón. ¿deberemos decir que las motivaciones de las mujeres son de índole privada a diferencia de los varones que tienen motivaciones públicas. para coincidir con Balán (y muchos otros) en definir las motivaciones de las mujeres como no económicos – productivos debe conservarse sin críticas la visión de la sociedad y lo social configurada en un espacio público-productivo separado de otro privado-reproductivo y una concepción de las relaciones familiares como pertenecientes a este último espacio. es una clásica reinvindicación feminista la de definir al trabajo doméstico como prácticas tan productivas y económicas como aquellas tareas remuneradas ejercidas fuera del espacio doméstico. la unión conyugal (el motivo explicitado) no se expresa como un deseo frustrado de compañía o con contenidos nostálgicos sentimentales sino. c) Si las mujeres migran en y por la familia sus motivaciones no son económicas sino “sociales” y/o “privadas”. son sus propias acciones las que quedan invisibilizadas. Siguiendo el hilo de nuestra trabajo. razón versus sentimientos. Dado que son las mujeres las actrices de estas prácticas. En este sentido. Sin embargo. que por los criterios de selección de la muestra comparten el haber optado por la primer opción. En su libro Murillo (1996) reconstruye históricamente el proceso por el cuál se ha ido configurando esta dicotomía que es generizada y jerárquica y que oculta prácticas y sentidos al confinarlas al ámbito de lo privado. en nuestra investigación (así como en toda la vasta literatura sobre cadenas y redes migratorias) es claro que los varones migran también a un espacio en el que se encuentra una persona con la que se mantiene y recrea (en parte por la migración misma) un lazo social que. Lo que se juega aquí es una interpretación acerca de lo familiar relacionado con los aspectos domésticos / privados de las vidas en sociedad. emociones. la segunda opción no aparece como posibilidad en el horizonte posible de decisiones. las acciones cotidianas y las miradas micros que incluyen en el gran abanico de lo que es considerado potencial objeto científico las prácticas de 38 . en general. La reunificación familiar adquiere aquí un sentido propio. Si la presencia de otras/os familiares condiciona las migraciones femeninas también lo hace en las masculinas sin que a ningún/a teórico/a se le haya ocurrido titular esta migración como privada y/o social. Uno de los objetivos de las feministas dedicadas a la teoría del conocimiento es atravesar estas dicotomías e introducir como un aspecto fundamental de la vida social los sentimientos. en la división de motivaciones privadas-sociales para mujeres / públicaseconómicas para los varones pareciera erigirse intacta la implícita jerarquía de estas motivaciones en y para la investigación científica: racionalidad versus emotividad. en general es un familiar. bajo imperativos públicos y privados de reunificación familiar. El fuerte economicismo de las teorías migratorias (re-discutidas en la actualidad) y esta división explica también la invisibilidad de las mujeres en los trabajos migratorios. racionales y económicas?. la división social/económico (y el resto de las dicotomías que sustenta) invisbiliza aspectos de las migraciones masculinas.entrevistadas. Debate que excede y mucho los objetivos de este trabajo sólo diremos que el paradigma economicista (en todas sus vertientes ideológicas) enfatiza estas jerarquías quedando los sentimientos (que. sobre todo. Asimismo. c1) Motivaciones públicas – privadas Ante ello. Aquí deberemos nuevamente tomar los aportes de las teorías feministas que tanto han discutido la dicotomía Público / privado fundantes de las sociedades modernas occidentales. Si bien en este artículo no trabajamos con varones migrantes. están asociados a las mujeres y a lo familiar) fuera del interés científico.

Su marido se fe a Buenos Aires por trabajo y durante un año y medio Teresa se negó a su migración hasta que. Teresa. Sin embargo. Porque estaba en su casa. De este modo. Ello significa que lo emocional también se expresa desde códigos y normativas sociales acordes a un momento histórico y cultural específico. De este modo. 32 años..Volvió.. después de un año medio.Sí seguía. queda sólo esperar el envío de las remesas y dedicarse a las actividades domésticas. Cuando el marido migra. migrar para cumplimentar con normas sociales sobre los modos adecuados de hacer familias es un modo de hacer prácticos imperativos públicos y privados. De allí que a lo recientemente relatado pueda incluirse otra vía de interpretación.lo privado. también puede integrarse a una lógica económica al considerar a la familia como una unidad productiva y reproductiva. Las paradojas que surgían al considerar a mujeres forjadas en lo público que prescindían de ello por motivaciones privadas son trasladadas entonces a otra matriz de interpretación: primero. "vamos".así que quedé sola y dije "bueno..Me quedé y para entonces ya mi abuela había muerto. generalmente de modo informal.. es especialmente cuidadoso en no considerar “privadas” las motivaciones de las mujeres actualiza otra dicotomía: motivaciones sociales (¿no económicas?) para las mujeres – motivaciones económicas – laborales para los varones. Al respecto es ilustrativa la historia de Teresa quien trabajaba mercadeando en Bolivia mientras sus hijos/as eran cuidados por su familia. al que hemos hecho referencia. el imperativo de corresidencia conyugal en este caso. mi abuela murió y mis hermanos se fueron uno y el otro lado. La familia como excluida del ámbito de lo económico..¿Seguías con tres hijos vos allá? . de generar mayores ingresos familiares? . ¿Por qué no considerar que. En este sentido son ilustrativos los relatos de aquellas mujeres más reticentes a migrar a nuestro país ya que deciden el movimiento migratorio recién ante la ausencia de las redes locales familiares que les permitían ausentarse de sus hogares. Las causas de las migraciones nunca son unicausales y se hace necesario complejizarlas si bien quizás sea imposible aprehenderlas en toda su dimensión. la reunificación familiar adquiere otro sentido que se yuxtapone al anterior. nos vamos". Las certidumbres (nunca completas) de posibilidades de trabajo para ellas acompaña la reunificación familiar. sencillamente. En sus relatos las mujeres dejan claro que migran para tener mejores condiciones de vida que implica reunirse con sus maridos ya instalados e insertos. el de la lógica económica y productiva. . teniendo en cuenta las identidades productivas de las que dan cuenta las mujeres entrevistadas (y diversos estudios realizados tanto en nuestro país entre migrantes bolivianos como en la misma Boliviaxvi) la reunión familiar es un modo de renegociar los roles o. vamos a Buenos Aires. las pre .. ¿Volvió tu marido? (de la Argentina) .disposiciones sociales relativas a la familia no pueden comprenderse como imposiciones sin más a los sujetos cuyas prácticas solo estarían 39 . Lo familiar. C2) Motivaciones sociales – económicas Si bien el trabajo de Balán. Cuando las mujeres están solas con hijos/as se les hace más difícil trabajar y su movilidad está restringida a la presencia de familiares o amigos/as. las experiencias vividas en contextos familiares pueden incluir lógicas económicas y productivas que pueden reconstruirse a partir de sus relatos. lo que en nuestras sociedades es casi equivalente a decir las prácticas de las mujeres.. en la economía argentina.. Para entonces cuando se vino él acá me quedé en su casa de nuevo.

De este modo hemos hipotetizado que el sentido de la reunificación familiar lejos de ser “privado” (como derivación de un supuesto ámbito familiar reino de lo privado en contraposición a lo público) pareciera inscribirse en un ideal cultural y social que prescribe la unión del grupo conyugal como modo de ser y hacer familia. Aún si en las trayectorias migratorias relatadas en las entrevistas hubiesen resaltado únicamente motivaciones ausentes de racionalidad económica y con contenidos sentimentales. Para todas. Atendiendo a las respuestas y sentidos de nuestras entrevistadas podemos decir que efectivamente la reunificación familiar es proyectada como un fin deseado a ser alcanzado con el accionar migratorio.orientadas a la reproducción de estas normas y valores sociales y personales. ser familia en la práctica. afectividades. A partir de ello. Hemos intentado este ejercicio para una dimensión clásica en el estudio de las y los migrantes: las motivaciones del movimiento migratorios. Algunas ideas como conclusiones: Como hemos visto el estudio sobre las familias y aquellos sobre migraciones se nos ofrecen como dos campos de estudio que se potencian al integrarse y traingularse (si bien en este trabajo hemos hecho solo uno de los caminos). Este imperativo. No pareciera entonces que sea el “ser madre” lo que diera unidad a las concepciones familiares de las personas entrevistadas sino “ser mujer y varón” en la cercanía.sociales (para las mujeres) y “públicos” – económicos (para los varones). De este modo. cumplimentar el imperativo de la conyugalidad “normal y corresidente” más allá de entenderse como una imposición social es una pieza clave para insertarse y ser reconocidas por los otros y otras significantes. Circunstancias personales y sociales ubican de diferente modo a los actores sociales frente a las normativas sociales (y personales). el mismo fenómeno puede ser así interpretado desde diferentes miradas que visibilizan algunos aspectos olvidados en otras miradas (que seguramente olvidará y omitirá otros). pareciera pesar más entre las mujeres que entre los varones relacionado con la asignación de una imagen deteriorada de la mujer “con familia” pero “sin” ella. Los mismos sujetos. Las criticas a estas dicotomías se construyeron a partir de la conceptualización y construcción de las experiencias femeninas de migrantes cuya trayectoria familiar y migratoria reproduce en su forma los modelos típicos supuestos para el sostén de dichas dicotomías. Las relaciones y prácticas familiares deben comprenderse atravesando y configurando ambas dimensiones así como lo hacen las mujeres y varones que las conforman. este decir debe ser analizado y desconstruido para reconstruirlo sociologicamente. sociabilidades) constituyen aspectos fundamentales del proceso migratorio y pueden (deben) ser analizadas “científicamente”. deseos y acciones estructurados pero puestos en marcha de diferentes modos por los actores sociales. se discutió principalmente la división entre motivos “personales/privados” . hemos visto que las referencias a motivaciones englobadas en aquello que los analistas han denominado “reunificación familiar” (sentimientos. la crítica a la dicotomía público privado ha de-mostrado como aplicada al análisis de las motivaciones de migración oculta más de lo que permite analizar. 3. estas dimensiones no están exentas de 40 . Ahí encontramos a las mujeres reticentes a las exigencias de la corresidencia. ser mujer y varón cotidianamente. Asimismo. La migración en sus relatos es configurada también como una estrategia económica (que no implica racionalidad exenta de condicionamientos y emocionalidad). cuya decisión de migración representó conflictos y negociaciones y en donde la separación fue una de las opciones consideradas. asimismo. Sin embargo.

Madrid. la antropología tiene una larga tradición sobre el estudio de las familias y sistemas de parentesco y un estudio sobre las y los migrantes que difiere en parte del sociológico sobre los que no podremos dar cuenta en esta breve presentación. las ciudades actuales de destino no marcan fronteras de sentidos. Sin embargo. v Proyecto de Doctorado: “Migración y Género”. ix Para un análisis entre la relación entre concepciones femeninas y nacionalismos ver Nira Yuval-Davis 1993. trabajamos también con un “sentido común” del campo de estudios migratorios que sin estar explicitado aparece en congresos. vii Para una revisión reciente de las teorías migratorias ver Cristina Blanco (2000). La definición de migrante es de complicada delimitación. Morokvasik (2000). ante la artificial separación de dimensiones relacionadas a lo “familiar” y aquellas relativas a las áreas productivas y económicas de las decisiones individuales o colectivas. Jorge Martinez. Ver los trabajos de Gregorio Gil (1997). el de las decisiones migratorias." Seríe Población y Desarrollo. es decir que no responden únicamente a conciencias individuales. Esto no significa tampoco un determinismo social tout court dado que cumplimentar normativas deja espacios para estrategias diferenciales o modos de convertir las normas en recursos puestos en prácticas. por ejemplo. Caccopardo (2004) para nuestro país y los múltiples estudios sobre migración y maquila desarrollados en México. con fines técnicos de conformación de la muestra. Por ello. el caso de la comunidad Boliviana en zonas urbanas. viii Ver Parsons (1978) y las referencias al modelo clásico en Cheal (1991) y Moore. Celade 44. hemos visto como atravesando y reforzando el ideal de conyugalidad puede entreverse la dimensión económica formando parte de las mismas motivaciones de las prácticas desarrolladas. iv Basta ver para ello los estudios realizados sobre las migraciones “masivas” de principio de siglo. Cátedra. en el sentido durkheimniano. iii El trabajo se realiza a partir del análisis de 18 entrevistas en profundidad realizadas en el año 2004 en la Ciudad de Buenos Aires y en Ushuaia. factores psicológicos o personales. Henrietta L. Si bien muchosdebates aquí emprendidos son compartidos por otras disciplinas sociales. ii Si bien existen diferencias contextuales entre ser migrantes en la Ciudad de Buenos Aires o en Ushuaia para el tema que nos ocupa. sobre todo porque más que un estado hace referencia a un proceso que en algunas ocasiones puede durar toda la vida. seminarios y artículos varios.posibilidad de análisis socio-lógicos. Me parece justo excluir en nuestro país a Devoto cuyas historias de migración complejizan gran parte de las verdades sacralizadas en las teorías. Antropología y feminismo. el número 165 de la Revista UNESCO (2000) o Pizarro. vi A lo largo de este trabajo nuestras principales referencias serán acerca de debates sociológicos dentro del campo migratorio. esta última referida a Malinowski. Ariza (2000). Hemos aquí propuesto una vía de interpretación social asociando dichos contenidos con el deseo de cumplimentar con un ideal (social) de madre y esposa coherente con un ideal familiar que contiene la normativa de la corresidencia conyugal. x Como las tendencias generales de la migración de ultramar hacia los países latinoamericanos Ver Devoto (2003 ) xi Esta dificultad. queda reflejada en los trabajos sobre mujeres migrantes que han debido justificar su objeto de estudio con cifras estadísticas que demuestren la magnitud del fenómeno. "El mapa migratorio de América Latina y el Caribe. Los trabajos referenciados son citados de acuerdo a nudos problemáticos. las mujeres y el género. hemos decidido que denominaremos “migrantes” a quienes llegan a la Argentina con ánimo de residir (para excluir a lo/as trabajadores temporales) sin importar el tiempo que efectivamente residan en el territorio argentino o los/as que sin que dicho “ánimo” sea parte del proyecto inicial del movimiento por diferentes motivos deciden la radicación. 1996. Por último.. Exigencia de la que han sido eximidos los trabajos basados en el modelo típico descripto. ya superada por el trabajo constante de muchas investigadoras. sabemos que.. xii Es necesario aclarar que el lugar dado a las motivaciones de la migración no implica de modo alguno desconocer los condicionamientos económicos y sociales que generar las condiciones para que un grupo 41 i . 2003.

Benencia 42 . no tenemos contactos con las que optan por otras modalidades ya sea continuar con sus parejas viviendo en dos países diferentes o las que deciden separarse (mujeres en Bolivia). Lo que aquí se analiza son las representaciones y sentidos de las actrices sociales sobre sus propias acciones con el fin de “interpretar” más que de “explicar” el movimiento migratorio. Cusicanqui. es decir. (Benencia 2004: 442) xiv Queda claro que en nuestra muestra solo están presentes aquellas que deciden finalmente movilizarse. entre otros. xvi Por ejemplo. Barrancos. xv Aclaramos las edades de los hijos/as dado que una vez considerados “responsables” (lo que será diferencial para varones y mujeres) las relaciones pueden. el mismo Balán. de trabajar y enviar dinero a sus familias (a diferencia de lo ocurrido con migrantes de Paraguay y Perú no se ha observado que las mujeres bolivianas en un número considerable migren solas. xiii La migración boliviana a la argentina se inicia generalmente con la migración de los varones de diferentes edades con el fin. Harris (2). no se advierte una “feminización de la migración”). y de hecho se mantienen a través del espacio material. Aquí puede hablarse entonces de familias transnacionales para las relaciones padres/madres hijos/as pero es la imposibilidad de mantener este tipo de familia lo que ha hecho que las mujeres entrevistadas decidieran su migración.de la población se convierta en emigrable.

Nº 15-16. Vol. (pp. María Cristina (2004): Crisis y mujeres migrantes en la Argentina.(2004). S. Buenos Aires.Bibliografía • Arango. • Gregorio Gil (1997) “El estudio de las migraciones internacionales desde una perspectiva de género” en Revista Migraciones Nº 1. • Morokvasic Muller (2000). Barcelona: Paidós. 43 . Kirk (2000) “Mercados de trabajo. familia: un análisis desde la pespectiva del género del proceso de inserción y aculturación” en Estudios Migratorios Latinoamericanos. Jorge (1990) “La economía doméstica y las diferencias entre los sexos en las migraciones internacionales: un estudio sobre el caso de los bolivianos en Argentina” en Estudio Migratorios Latinoamericanos. CEMLA. Roberto (1998-1999). Nº 30. Inmigración limítrofe: los Bolivianos en Buenos Aires. Una visión andina del hombre y la mujer en Revistal Allpanchis. Historia de la Inmigración en la Argentina. (Ed. Gioconda (2002). CEMLA. • Bestard. women and gender in México. Fernando. Las collas: producción y reproducción en el conurbano bonaerense. Madrid: Siglo XXI. Gender and Migration in Developing Countries. • Parsons.B. CEMLA • Juliá./Yeoh. Madrid. Nº 40-41. Journal of Family Issues. Buenos Aires • ----. D. Barcelona: Ediciones Península. Cátedra. 433-484 en Devoto. Nª 4.5-19. La familia. Antropología y feminismo. • Herrera. • S. London: Routledge. nº1.(2004) Apendice. Complementariedad y conflicto. en Mary Nash (Compiladora). Lima. Ponencia en encuentro LASA. Ed. Radcliffe (1992). Joan (1998) Parentesco y Modernidad. Joaquín (2000) “Enfoques conceptuales y teóricos par explicar la migración”. Estrategias de familias bolivianas en la conformación de comunidades transnacionales. Unesco • Balan. 1996. Gabriela (1995). Talcott (1978) La estructura social de la familia en Fromm. Reframing the migration question: an analysis of men. en CHANT. Historia Argentina. Buenos Aires. In and out of the labour market: “immigrant and minority Women in Europe" in Willis K. Revista Internacional en Ciencias Sociales Nº 165. • Kanaiupuni. • Harris. Migración limítrofe y mercado de trabajo rural en la Argentina. Olivia (1983). • Devoto. John (1997) Family Studies. • Benencia. E. publicada on-line en Centre d'Estudis Demogràfics. (1991) Unity and Difference in Postmodern Families. artículo presentado en el seminario permanente sobre migraciones del IIGG. En prensa. Dora (2002). 2004.Universidad del Pais Vasco. Henrietta L. “Migración y familia: una mirada desde el género”. et al. Shawn Malia (2000). vol. Buenos Aires • ----. Sudamericana. Sudamericana. Social Forces. 1311-1347. • Benencia. Chant & S. • Barrancos. Migration and development: the importance of gender. Buenos Aires. Soledad (1996) El mito de la vida privada .).) Gender and Migration. (eds. • Cacopardo. Inmigración limítrofe. comunidad. 78.31-65). • Moore. Comunicación presentada al II Seminario de la “Red de estudios de población” del 9 al 13 de febrero del 2004 • Cheal. El fenómeno de la migración limítrofe en la Argentina: interrogantes y propuestas para seguir avanzando en Estudios Migratorios Latinoamericanos.14. Roberto y Karasik. pp. London and New York. Belhaven Press. • Hoerder. Buenos Aires. Eva Jiménez (1998): Una revisión crítica de las teorías migratorias desde la perspectiva de género. • Murillo. • Bernardes. Centro Editor de América Latina. Pp.

nª 178 (pp126-44) • Salles. R (1996) Mitos y creencias sobre la vida familiar en Revista Mexicana de Sociología. en Marta Lamas comp. las mujeres y el género. Joan (1996): El género: una categoría útil para el análisis histórico. Hacia una nueva agenda conceptua” en Revista Nueva Sociedad. Universidad de Greenwich. • Scott. México.59. Seríe Población y Desarrollo. Vania y Tuirán.117-144). El mapa migratorio de América Latina y el Caribe. 2003. Jorge Martinez. Nira (1993) Género y nación. (pp. • Portes. nº2.. vol. Articulaciones del origen. PUEG. Alejandro (2002) La sociología en el hemisferio. la cultura y la ciudadanía. 44 . Yuval-Davis. Celade 44.• Pizarro.

onde a mulher age como se não correspondesse aos avanços do homem. É sobre esse ponto específico que eu vou me dedicar nesse artigo. as fronteiras de seu grupo de estudo.72) . Uma opinião comum se afirma entre esses pesquisadores que se defrontam com o desafio de delimitar empiricamente.” (Heilborn:2004. Antes de aborda-lo. é uma “forma de associação” que institui através de sua operação cotidiana as dimensões da feminilidade e da masculinidade em relação às exibições de afeto: ao comportamento cortês do homem corresponde uma mise-en-scene da reserva feminina. Os estratos de camadas médias se diferenciam entre si e de outras camadas marcando as fronteiras simbólicas da distinção. em sua tese de doutorado recentemente publicada. apresentarei um breve perfil das mulheres entrevistadas e a forma como foi feito o contato com essas mulheres. Nas pesquisas que venho recentemente desenvolvendo sobre afetividade e sexualidade nas trajetórias de vida de mulheres de camadas médias urbanas e nascidas na década de 1940. * A dificuldade em se estabelecer contornos claros para a definição das camadas médias já se tornou lugar comum na teoria social. Essa opinião está bem representada por Heilborn (2004). Embora haja certa fluidez na marcação dos limites. a vantagem “reside em apontar a dimensão plural (donde a fórmula também adotada de segmentos) e simultaneamente não depender de premissas substancialistas contidas na tradição vinculada à estratificação social ou na teoria que deriva a posição das classes dos meios de produção. porém. tenho me perguntado sobre a existência de um padrão socialmente aceito e difundido de exibição do amor e do desejo sexual por parte dessas mulheres. Nessa atuação. No caso brasileiro.br Universidade Federal do Rio de Janeiro – RJ/Brasil O jogo da “coqueteria”. como nos lembra Simmel (1969) ao descrever esse tipo de sociabilidade no início do século XX. A autora.com. desde os trabalhos pioneiros de Gilberto Velho. o ethos e o estilo de vida ganham preeminência na conformação desses segmentos. Um aspecto que se sobressai no material de entrevista recolhido pela pesquisa em curso é de que a associação entre sexo e amor é obrigatória. Eles se definem muito mais pela diferença em relação aos outros do que pela ênfase na homogeneidade interna. intitulada Dois é par: gênero e identidade sexual em contexto igualitário.Trajetórias afetivas: sexo e amor como elementos da identidade feminina Andréa Moraes Alves andreamoraesalves@superig. se estabelecem padrões de relacionamento de gênero e se difunde a expectativa de que cabe a mulher o papel de objeto nas relações amorosas. sublinha a dimensão da moralidade como aquela que seria mais capaz de expressar a identidade desses grupos médios. no trabalho investigativo. uma série de antropólogos e sociólogos vem discutindo a formação dessas camadas no Brasil e sua relação com a urbanização. Meu questionamento está centrado na idéia de que diferentes gerações de mulheres podem experimentar essas demonstrações de afeto e sexualidade de maneira diversa e essas experiências servem de gancho para pensarmos a reconstrução da identidade feminina em relação ao amor e à vida sexual.

o ingresso na universidade. maior é a defasagem.Nessa pesquisa contei com a participação de duas bolsistas de iniciação científicai. composto por seis mulheres. As três mulheres que concederam entrevistas possuem ensino médio completo. “fruto de muita luta e trabalho árduo”. restaurantes diferenciados. A zona sul é o espaço da cidade onde se encontram todas as facilidades para aprimorar aquele estilo de vida mais refinado que é identificado com as camadas médias da região. sendo que uma delas acabou desistindo de conceder a entrevista. O resto da cidade ficaria com o outro extremo da escala: lá falta tudo isso. no subúrbio e na zona oeste da cidade. Todas residem na zona sul da cidade. Essas mulheres têm formação universitária e um mesmo passado de militância política. Assim. Esse ethos localiza a camada média suburbana numa fronteira entre as camadas populares e os estratos médios. Foi a partir da militância na Juventude Universitária Católica (JUC)iii que as vidas dessas mulheres se cruzaram. Os trabalhos exercidos foram de auxiliar de enfermagem e auxiliar de escritório. duas trabalharam fora e hoje estão aposentadas. Sou professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro e selecionei essas alunas para participarem do projeto. Uma delas atua politicamente na Baixada Fluminense. livrarias. ambos no serviço público. Pedi que elas localizassem pessoas que. ao passo que o resto da cidade abrigaria uma classe média voltada muito mais para o ethos do trabalho e do esforço para subir na vida. museus. mais educadas e civilizadas – no sentido que Norbert Elias (1990) dá ao termo. A zona sul seria o habitat natural das camadas médias elitizadas. seria um dos marcadores importantes para a delimitação dessa fronteira. principalmente a universitária. são todas casadas. Longe do campus da Praia Vermelha – zona sul – as alunas do curso de serviço social residem em geral na zona norte. incentivei as alunas a procurarem também entre suas vizinhas e conhecidas possíveis candidatas à entrevista. existem mais opções de cinema. Entre elas existem casadas. 46 . nenhuma delas cursou a universidade. A primeira função das bolsistas foi de buscar possíveis candidatas à entrevista. pertencessem à camada média do subúrbio e da Baixada. As leituras sobre pesquisa com camadas médias ajudaram a problematizar essa busca assim como tiveram o efeito de questionar o seu próprio pertencimento de classe. apareceram quatro mulheres moradoras do subúrbio e da zona oeste.ii Quanto mais longe do centro e da zona sul. embora com níveis de adesão diferenciados. Por várias vezes escutei as estudantes utilizarem a expressão “morar mal” para se referir as suas áreas de residência na cidade. ou seja. Esse deslocamento geográfico marca também uma distinção. viúvas e separadas. Dessa busca. O deslocamento espacial implicado nessa entrada numa universidade localizada na zona sul da cidade torna ainda mais real para a estudante esse sentimento de sacrifício e esforço para transitar de uma fronteira social à outra. teatros. A educação. é traduzido como “uma conquista”. shows de música. Um outro grupo de entrevistadas. Deste modo. pertence a uma rede de amigas de uma professora da faculdade. assim como elas. mas não necessariamente mais ricas. aproximando mais dos quadros médios. principalmente pública. escolas e equipamentos urbanos que funcionam com mais regularidade.

mas . compreendendo um certo campo comum de comunicação entre essas mulheres. Essa divisão em blocos serviu para a formulação do roteiro. Os blocos serviam de guias para a condução da entrevista. onde o “complexo do amor romântico” institui um duplo movimento: “por um lado. As alunas também foram orientadas a fazer um diário de campo sobre o contato com as entrevistadas. a entrada na universidade e/ou no mercado de trabalho e casamento/criação de filhos. a idéia central era fazer com que as mulheres relatassem suas trajetórias de vida com o mínimo de interferência direta da entrevistadora. 2004). elas observavam e eu conduzia. escolhe-se o socialmente próximo. * A convergência obrigatória entre sexo e amor foi encontrada em todas as entrevistas. ela está subsumida ao sentimento de intimidade e de compromisso com aquele ou aquela com quem se estabelece uma relação sexual. Nas últimas deixei que elas se encarregassem sozinhas de algumas. transformou-se numa díade porque só duas concederam entrevista. As entrevistas tiveram duração variada: de duas até oito horas. família e educação. principalmente no Ocidente. Em três ocasiões a entrevista foi feita só por mim. AnáliaTorres (2001: 114) ressalta a existência de formas de controle social sobre a experiência desse afeto. A sexualidade não se constitui para elas como um domínio “desentranhado” (Duarte. Vieram para o Rio quando jovens para estudar provenientes do nordeste do país e aqui tiveram acesso ao ensino universitário. a escolha do parceiro (é feita) num clima de liberdade. ou seja. O contato com elas foi estabelecido pelas alunas que procuravam voluntárias para a pesquisa em um grupo de terceira idade. de forma tendencial. as experiências juvenis relacionadas a namoro. quer dos ascendentes. dá-se sinais de desejo de integração. acentuando os componentes de atração e da lógica dos sentimentos como fatores decisivos. As entrevistas seguiram um roteiro estruturado em quatro blocos: os relatos sobre a família e a região de origem. Numa interessante resenha sobre as análises sociológicas dedicadas ao tema do amor. Elas se tornaram amigas através da profissão e comungam na origem social e no estado civil. Nas entrevistas mais longas foi necessário mais de um encontro com a entrevistada. o cotidiano e os projetos atuais. que refletissem as representações das mulheres sobre os temas: sexualidade e corpo.Uma terceira rede que. procura-se limar os aspectos eventualmente mais 47 . a união entre sexo e amor esteve marcada. Optei por realiza-las na residência da pessoa. perguntas fechadas foram evitadas. por outro lado. procura-se desde logo compatibilizar esses sentimentos com as expectativas quer dos pares. como a vida profissional e o grau de escolaridade. na verdade. Nas primeiras entrevistas. fui com as alunas. Ou seja. por exemplo. Em cada um desses pontos foram explorados tópicos relevantes para o assunto da pesquisa. mas. Durante as entrevistas não obedecemos necessariamente a essa ordem. Negociam-se aspectos da ritualização do enlace. Uma delas se prontificou e acabou introduzindo também a amiga. Tão diferentes em outros aspectos. Mesmo no caso de uma entrevistada que assumiu sua condição homossexual. ao mesmo tempo tão próximas no discurso sobre sua vida afetiva. Uma delas mora na zona sul e a outra na zona norte. é de mulheres solteiras e que ainda atuam profissionalmente no mesmo ramo: a área da saúde.

As razões para o início das relações residem no sentimento de paixão/amor. Comparando com os entrevistados de Gilberto Velho. Velho retoma Simmel para problematizar esse discurso sobre a paixão em oposição à razão como uma marca do pensamento ocidental e que implica também numa visão da paixão como um elemento de enriquecimento da “cultura subjetiva”. integrando-a numa lógica social mais global. principalmente da vivência da paixão como tendo a propriedade de acentuar a singularidade de suas experiências individuais. pode ocasionar um desgoverno das vidas individuais. por seu turno. sofreram uma interrupção do fluxo: elas não se casaram. Se para seus 48 . Essas emoções são valorizadas pelos segmentos médios urbanizados por lhes conferir acesso ao ideal de individualização difundido pelas sociedades modernas. esse prejuízo pôde ser revertido. não tiveram filhos. Essa incompatibilidade gerou também uma insegurança em relação à qualidade afetiva de seus envolvimentos sexuais. O sofrimento e a euforia causados pela paixão seriam vistos como recursos de intensificação da subjetividade e formas de auto conhecimento. de pai e mãe. o trabalho político e a vida profissional se tornaram os eixos centrais de sua subjetividade. eram residentes na zona sul da cidade e falavam de suas experiências afetivas. As solteiras. No que concerne às relações homem/mulher. uma exigência feita por seus pares para confirmar a vida independente que levavam nas esferas econômica e política. O tom forte e dramático que aparecia no discurso sobre a paixão contrastava com a racionalidade do casamento. no entanto. Essa é também a tônica identificada por Gilberto Velho (2002) em seu estudo com camadas médias urbanas intelectualizadas. mas escolheram ter vida sexual ativa o que lhes apresentou um dilema na construção de sua identidade feminina: a incompatibilidade forçada entre casamento e sexo. conseqüentemente. Para as exmilitantes da JUC. as entrevistadas atribuíam essa reversão ao acaso (sorte) ou a uma guinada individualista-afetiva em suas vidasv. mas como uma obrigação social. a experiência da paixão antecedeu ao casamento. drogas e rock and roll” que. sendo muitas vezes tidos como motivos legítimos para a separação de um enlace e começo de um novoiv. inaugurou a vida sexual dessas mulheres e na seqüência trouxe a maternidade. se deixado livre. mas o casamento moldaria esse sentimento. as solteiras de meu grupo de informantes não resignificaram a experiência sexual fora dos marcos do casamento e da reprodução como elementos de enriquecimento de suas “culturas subjetivas”. Esse.disruptivos da escolha amorosa. ambas se viram prejudicadas pelo projeto de vida profissional autônoma e/ou pelo trabalho de engajamento político. Em alguns casos. as relações de aliança domesticam o potencial de perda de controle que a paixão traz. As pessoas entrevistadas tinham entre 30 e 40 anos no final da década de 1970 no Rio de Janeiro. mas com o prejuízo de suas vidas afetivas. No entanto. Aqui vida afetiva pode ser tomada em seu sentido amplo: não só as relações homem/mulher como também a relação mãe/filhos. porém o prazer sexual e a vivência das paixões poderiam ocorrer fora dos laços de matrimônio. Reprodução e casamento estariam necessariamente ligados. não se dedicaram à atividade política contra a ditadura militar como um projeto individual. Mesmo aquelas mulheres que fazem parte das outras redes de entrevistadas compartilham desse processo. As pessoas que concederam essas entrevistas a Gilberto Velho fazem parte da mesma faixa etária das mulheres que entrevistei. As mulheres que compõem a rede de militantes políticas da JUC se referem a esse universo entrevistado por Gilberto Velho como a geração “sexo. diferente delas. acomodando o papel de esposa e esposo e.” As regras matrimoniais são assim vistas como uma forma de disciplinar o amor que.

estabeleceu-se a união como era previsto. essas mulheres tinham também que enfrentar um conflito interno: lidar com os códigos aprendidos de vivência afetivo-sexual. Se o corte entre sexo e casamento era vivido como um dilema.. um modelo de homem que pudesse corresponder aos seus anseios afetivos sem o custo da padronização dos papéis domésticos. vistos como sinais da identidade feminina. Foi ali no Aterro do Flamengo. o casamento e a maternidade. fui lá. que ficasse escrito na minha testa que eu não era mais virgem. 68 anos) Além do conflito com a família de origem e o modelo de casamento e vida afetiva que eles representavam. Há uma certa sensação de fracasso por não ter realizado. vieram os filhos e o amor extinguiu-se. ser mãe. mas de construir um novo amor com um companheiro. 62 anos) Para aquelas que foram casadas e se separaram. embora não sem problemas. o dilema era outro: justificar a separação.. A separação abre portas para o fortalecimento da vida profissional e para o exercício da vida sexual fora do casamento. Essas mulheres também acalentaram a expectativa de uma nova relação. elas tinham que perder a virgindade e ter relações sexuais independente do projeto de casamento. eu só sei que eu tinha que resolver aquilo. mas eu também queria ter casado de véu grinalda. se elas aprenderam a vida toda que o destino do amor é necessariamente o matrimônio e os filhos. tenho meu trabalho e minha independência. que tipo de amor era esse que elas poderiam viver? A insegurança que essa pergunta trazia a todas aquelas que não se casaram fica refletida em vários momentos de suas entrevistas. eu já tinha 30 anos na cara e todo mundo implicava comigo: Como é que pode uma mulher independentevi como você ser virgem? Eu tive que acabar com aquilo.” (Luzia. O rompimento de uma união sem amor e a aventura de conquistar um espaço como indivíduo torna as separadas da década de 1980 personagens de um romance heróico. Mas. não de um casamento. entendeu?” (Maria. vestígios do amor. fiz e acabou. O preconceito em relação às mulheres divorciadas era alardeado em acusações de promiscuidade. São essas mulheres que conseguem falar mais abertamente de sua vida sexual e das mudanças sentidas por elas nessa área. O amor existiu em algum momento.contemporâneos. “Eu tinha o maior medo que meus pais soubessem. nas suas práticas sexuais cotidianas. Era um sexo burocrático.” (Luzia. 62 anos) “Eu nem lembro da minha primeira vez direito. Abandonado o projeto de casamento que houvesse então amor entre ela e seu escolhido. a dissociação entre sexo e amor era impensável. 63 anos) “Olha. Como se a experiência do divórcio trouxesse os 49 . marcas de afeto. Na clandestinidade ninguém era de ninguém mesmo.” (Ana Clara. para seus familiares essa vivência não poderia aparecer. essas coisas. O grande problema para essas mulheres depois de estabelecida a ruptura entre sexo e casamento era buscar. sem sentimentos. com um companheiro. “Eu estudei. mesmo que temporariamente. Essa extinção do amor relatada com muito sofrimento resgata a noção de crescimento pessoal abordada anteriormente e de “coragem”. você nem sabia o nome de verdade daquela pessoa.

“Eu acho que o casamento é muito bom. mas é difícil sim. sessenta fica mais difícil se separar. já vou fazer quarenta. tem filho na época reprodutiva.. 64 anos) As que permaneceram casadas.” (Carla. o sexo e o casamento. Adoro meu marido. Essa articulação nos oferece um caminho para pensarmos a construção da identidade feminina em relação à experiência do amor e do casamento. 60 anos) No universo pesquisado encontramos pelo menos três maneiras distintas de conceber a interação entre sexualidade a afeto. o sexo perde cada vez mais o lugar e entra a categoria nativa de “costume” ou “hábito” para definir a relação do casal. escutando a música que gosta porque alma gêmea não existe. Em muitas situações fica claro o sofrimento e a relutância em se separar. isso é história. Morar junto é um exercício de paciência. têm uma visão mais tradicional sobre o amor. aí a gente se separou e ficou cada um pro seu lado. mas era mais problemas da existência. de compreensão e que nem sempre você está com paciência aí estoura o conflito. 50 . elas o negaram. ou eu tomo coragem e tomo essa decisão agora ou nunca mais por que aos cinqüenta. são duas pessoas diferentes. um companheiro. questionam menos a importância desses temas e tratam-nos de uma forma mais racionalista. não devemos ter uma visão épica desses processos de divórcio. O corte geracional que adotamos permite pensarmos essas maneiras como referências para problematizarmos a vivência afetiva de outras gerações de mulheres. às vezes tem que dar briga mesmo. No entanto. depois acaba. O amor é tido como um sentimento mais tranqüilo e seguro. elas não fracassaram no projeto de casamento. Afinal. permitiu relações com dezenas de outras pessoas. embora não necessariamente do amor e essa vivência independente do sexo tenha se dado com menos culpa e insegurança do que nas mulheres solteiras da mesma geração. com exceção daquela que julga ter tido uma história incomum de companheirismo com seu falecido esposo (o fato dela ser viúva há pouco tempo também pode contribuir para essa “idealização” de seu próprio matrimônio).a proximidade é muita. eu achava que era assim um declínio natural: você casa. Os conflitos são previsíveis. mas cada um na sua casa. gosto muito. Casamento é um negócio muito difícil. Pra mim foi muito bom naquele momento tomar uma posição. “Eu pensei: não tenho mais vinte anos. 63 anos) “Eu já estava com quarenta e poucos anos. já tinha feito anteriormente.. me permitiu um desenvolvimento profissional. A paixão é entendida como um momento pré-matrimônio. como as solteiras.” (Isabel.marcos necessários para viver o sexo como efetivamente separado do casamento. relação sem culpa” (Roberta. é um cúmplice que você tem. Eu fiz análise. Então um gosta do Zeca Pagodinho e o outro de Madre Deus e eu tenho que escutar Zeca Pagodinho e por aí vai. os filhos e os netos como esteios da relação. foi traumático. recordada como algo que ficou no passado e que a realidade do casamento molda e ao moldar traz também vantagens. esse foi pra segurar a barra mesmo porque estava muito pesado. mas também cria uma relação. O ideal é que você pudesse ter um marido legal. uma série de hábitos diferentes.

Simmel. Oeiras: Celta Editora. set. Rio de Janeiro: Zahar.. atuante entre os anos 1950 e 1960 no Brasil.17. projetos e fluxos culturais. Maria Luiza (2004) Dois é par: gênero e identidade sexual em contexto igualitário. pp. O Processo civilizador. Lins de Barros.S. Georg (1969) Cultura Feminina. Rio de Janeiro: Garamond.365-373. Michelle Terra Esperandio de Sá e Claudia Pontes Porto Myriam Moraes Lins de Barros concluiu duas pesquisas com estudantes universitários: Universidade. Gilberto (2002) Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração. A. Rio de Janeiro: Garamond. Myriam Moraes.Bibliografia Duarte. sendo o acesso à universidade tomado como o momento inaugural dessa passagem. A referência que marca a passagem da dependência para a independência está na entrada para o mundo público. A Sexualidade nas ciências sociais: leitura crítica das convenções.) Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Gregori. Torres. família e juventude e Juventude universitária. Nesses projetos aparece como dado relevante o deslocamento espacial e simbólico entre as áreas de moradia e o campus universitário. Elias. vi A categoria “independência” reaparece em várias falas.. Do “Mundinho fechado” ao universo quase infinito: negociando a saída de casa. redes sociais. Caderno CRH: Salvador. Norbert (1990). iv Também sobre o tema das relações de casamento e os modelos de casal moderno nos segmentos médios urbanos ver Heilborn (2004 v Maria (68 anos) diz: “Eu tive muita sorte na vida! Eu encontrei um homem aos 40 anos de idade. Anália Cardoso (2001) Sociologia do casamento: a família e a questão feminina.2004. In: Piscitelli. Uma análise parcial das pesquisas está publicada (Lins de Barros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. (orgs. 2004) iii A Juventude Universitária Católica (JUC) era um grupo de militância política e social ligado à Igreja Católica. Carrara. v. Eu sei que o casamento que eu tive com ele não é modelo pra ninguém da minha geração”. Velho. Lisboa: Galeria Panorama. ii i 51 .n./dez. Heilborn.F.42. me apaixonei e ele era alguém capaz de compreender e partilhar comigo. Luis Fernando Dias (2004).M.

mas isso não faz dele algo central para a série). Partindo dessa idéia e associando o L de lésbica a outros L´s (love. loneliness. sexualidade e as políticas de visibilidade lésbica1. como eu. you just go with the flow3. A primeira temporada do seriado começou a ser exibida nesses países em versão com cortes. produzido pelo canal Showtime (interessante notar que com exceção do episódio piloto todos os episódios têm título que começa com a letra L). em alguma escala. Está no intervalo da segunda para a terceira temporada nos EUA. também sobre algumas coisas que vem sendo escritas sobre o seriado. questionamentos e. hoje não se pode pensar em visibilidade e militância gay sem prestar atenção a uma maciça presença de sites dirigidos ao público homossexual na . Nesse contexto. Embora eu tenha assistido às duas temporadas na íntegra e alguns dos episódios editados que estão passando no Brasil. passou a ser exibido também na América Latina e Brasil. losing. nesse texto gostaria de refletir não apenas sobre ele mas. fazendo com que mesmo aquelas/es que não sabia inglês (mas têm acesso à Internet) pudessem assistir aos episódios já exibidos fora do país quase que imediatamente após sua exibição no país de origem. era restrito a países anglofônicos. debates. Quando pensei pela primeira vez em escrever sobre The L Word.“Algumas garotas preferem garotas”: The L Word. Até então. por exemplo. principalmente. o seriado ainda não era exibido por nenhum canal de TV no Brasil ou América Latina. o que se modifica um mês depois da estréia depois de vários protestos feitos à Warner Channel6. Recentemente. há grupos na internet que baixaram os episódios já exibidos nos EUA. exceto pelo fato de que tal grupo é composto por mulheres homo e bissexuais (o elemento transgênero até aparece em alguns poucos episódios. fórmula bastante conhecida já. várias outras pessoas tivessem acesso aos episódios – legendados ou não . (Shane) The L Word4 faz referência à “aquela palavra que começa com L e que temos desconforto em pronunciar”. legendaram e distribuíram para o público. Whether you're gay or you're straight.no Brasil5. life. Nos sites lésbicos brasileiros e estrangeiros. o seriado vem sendo foco constante de criticas. faz-se necessário pensar sobre que tipos de imagens de lésbicas estão sendo expostos no TV show e quais os possíveis impactos e implicações dessas representações nas políticas atuais de visibilidade lésbica. admiração. Isso não significa que. Sexuality is fluid. lies. Nos EUA a segunda temporada já terminou e a terceira está sendo gravada. exibido pela Warner Channel. e estreou no Brasil e América Latina em julho de 2005. sobretudo na mídia virtual7 (nacional e internacional) e seus impactos no âmbito da visibilidade lésbica. laugh) temos a base de um seriado norteamericano.com Universidade Federal do Rio de Janeiro. O seriado trata do dia-a-dia de um grupo de amigas. Até porque. O furor é tanto que no Brasil. como o Brasil.UFRJ Resumo: O seriado norte-americano The L Word tem se transformado num fenômeno de mídia nos países em que vem sendo assistido mesmo naqueles em que ainda não passava. Anna Paula Vencato2 apvencato@hotmail.

Contudo. contudo. contudo. Isso causou alguma celeuma nos fóruns internacionais. inclusive. que moram em Los Angeles. Evidentemente. não teve quorum no Brasil. não é incomum que se retrate The L Word como um “Sex and the city8 lésbico” ou um “Sex and the city lésbico. lésbicas e bissexuais. a ausência de “lésbicas masculinizadas12”. alto poder aquisitivo. mesmo as drag kings apresentadas são bastante femininas (embora seja difícil pensar numa drag king “feminina/lipstick” no mundo real). As lésbicas de The L Word têm “glamour” e alto poder aquisitivo (como pode ser visto na propaganda americana da primeira temporada. pode ter apelo junto ao público heterossexual masculino se pensarmos na idéia de ménage como uma fantasia sexual extremamente comum. no caso brasileiro. uma vez que no imaginário social lésbicas são comumente pensadas como mulheres masculinizadas e descuidadas. Voltando ao que os websites lésbicos internacionais têm discutido. Estão longe de um modelo masculinizado (“butch” ou “dyke”) e. modelos estéticos e pertencimento de classe. são de classes médias. entre outras coisas. diversas campanhas de fim político que tomam grande vulto especialmente ao circularem pela Internet. em que a maior parte das discussões passou mais pela idéia de que é bom ver mulheres lésbicas bonitas na TV. de fato. um lugar diferenciado no mundo. Essa discussão. Quando se fala em mídia internacional especializada. no que tange a padrões de consumo. devo concordar que há. 53 . mas partem da idéia de que a orientação sexual cria uma série de inserções sociais que não poderiam ser pensadas fora desse contexto. com acesso a bens culturais simbólicos de prestigio. A beleza das atrizes geralmente é citada muito mais em tom de tietagem que qualquer outra coisa. este seria o argumento mais politizado e pouco citado. as lésbicas de The L Word embora estabeleçam relações de longo prazo em alguns momentos. Essa comparação pode ser feita. O seriado exibido nos EUA propõe discutir a vida de um grupo de amigas. esse ideal de feminilidade lésbica. mas menos moralista9”. cujo instrumento principal de agência é a idéia de que é bom ter este estilo de vida e que é bom estar fora do armário10. ou desejem isso. Essa ausência talvez não tenha um impacto maior que o de ausência nos meandros do discurso político americano mas. especialmente no que concerne ao sexo. inclusive. intelectualizadas. na imagem11 abaixo).Internet. Há. não pautam seu discurso na idéia de “só ser uma mulher completa dentro de uma relação”. que reclamavam que as lésbicas masculinizadas deveriam estar representadas não apenas como figurantes eventuais. a boas roupas e cabeleireiros.

a maior parte das pessoas compartilha ex-namoradas ou “ex-ficantes”. Há argumentos que tentam defender essa prática. A prática do troca-troca é. sair do armário . uso de drogas (álcool e outras). O argumento da personagem e o de que as pessoas estão conectadas de fato por uma rede de relações de uma proximidade impressionante. não apenas mulheres gays estarão ligadas umas as outras por ter “ficado” com alguém que uma amiga ou ex já teria “ficado”. provavelmente. que normalmente falam da ausência de mulheres disponíveis no mercado.traição. de modo geral.. muito criticada e pouco defendida. (construção de/ relação com) família. também. A série traz. desenhado pela personagem Alice. bastante discutida nesse meio: sempre citada jocosamente. apesar dessa ausência. discussões acerca do sexo conjugal e do sex for fun (sexo pelo sexo). No final dessa rede. tentando dar um tom inclusivo a práticas sexuais diversas. práticas sexuais. homossexualidade e consumo14. mas provavelmente podem-se inserir personagens do mundo hetero e do universo gay masculino nesse quadro.visibilidade. Não há uma narrativa sobre sexo seguro na trama. sem tentar. que demonstra “quem ficou com quem” em Los Angeles (cidade cenário da série). A série se esforça em inserir personagens de etnias diversas. não se pode pensar em The L Word fora de um movimento de política identitária americanizado e que tenta representar vários sujeitos diferenciados dentro daquele cenário social. o seriado nos apresenta um quadro (ver figura abaixo). mas a freqüência a casas noturnas dedicadas ao público lésbico e também alguns outros (embora poucos) lugares dirigidos ao público gay em geral ou ao público heterossexual (no caso. 54 . Nesse ínterim. legitimar uma e deslegitimar a outra. nesse contexto. nem sobre doenças sexualmente transmissíveis. mas também desenhar o quadro). com reprodução assistida). Uma dessas narrativas diz respeito ao estabelecimento de relações erótico-afetivas no universo lésbico. homoparentalidade. traição. A idéia é a de que em qualquer círculo de amizades lésbico existiria uma espécie de o troca-troca de parceiras no sentido de que. Outro discurso comum é o de que é mais fácil estabelecer relações dentro do próprio grupo porque o meio gay tem muita gente que “não presta” e. É interessante pensar nesse quadro e como de fato corresponde a algo extremamente comum no universo lésbico (não apenas o troca-troca. raça. etc. o que estimularia esta certa endogamia afetivo-sexual. sado-masoquismo. alguns momentos numa casa de strip tease em que uma das personagens trabalha durante algum tempo e um vernissage na galeria de arte em que a outra trabalha). A idéia de festa está presente também. conjugalidade . discute família. homossexualidade e lazer. O seriado gira em torno de algumas narrativas pertinentes ao grupo: homoparentalidade (no caso. seria mais fácil ficar com alguém “decente” quando se está ficando com alguém já conhecido. não apenas no nível mais privado de amigas que se reúnem na casa de alguém.Contudo. inclusive. homossexualidade13 e trabalho.

dependendo do caso). inclusive de ataques homofóbicos. aquilo que se está vendo no seriado chega a ser fantasioso demais se comparado ao caso brasileiro. esbarra-se no modelo de políticas identitárias americano em contraste com a relativa “mistura” brasileira. a prática aparentemente não afeta diretamente ao grupo embora algumas das personagens sejam “ex” umas das outras. Endogamia. no caso). tende a ser temporário e. Castro e Moutinho (2005).Apesar de alguns discursos favoráveis. O rompimento desses laços de amizade pode ser “para sempre” mas. na idade adulta. Quando se tenta comparar o contexto da série com o contexto brasileiro. O argumento contrário à prática mais extremista afirma que é este tipo de comportamento que dá base à idéia de promiscuidade no universo homossexual feminino e que. Em The L Word lésbicas brancas. a prática aumenta o preconceito contra as mulheres. em uma pesquisa sobre homossexualidade em favelas cariocas havia apontado isso com relação a jovens negros homossexuais que. apenas uma tem um discurso mais organizado sobre família. às classes medias. Isso pode significar que também nos EUA. As demais até fazem poucas ou nenhuma referência à família. e. Em The L Word. a prática é apontada. essa troca de pares acabe resultando no término de relações longas de amizade. não só conseguem circular pelas favelas a despeito das divisões territoriais ocasionadas pelo tráfico mas também por outros lugares da cidade. Em alguns momentos. mas me parece que menos marcado dentro desse grupo do que o usualmente acionado na a sociedade americana. como no Brasil. das personagens brancas. inclusive no que diz respeito ao fato de circularem num meio extremamente protegido. A inserção de grupo das personagens e os locais pelos quais circulam permitem que se mantenham distantes do risco de ataques de conservadores radicais ou grupos que atuem de forma violenta contra homossexuais. com carreiras relativamente consolidadas e com alto poder aquisitivo. O recorte étnico existe. mas é condizente com o que defende uma espécie de estabelecimentos de relacionamento erótico-afetivos mais endogâmicos. especialmente quando ainda há sentimento pela pessoa com quem a amiga passou a ficar ou namorar. dentre homossexuais exista um trânsito possível e maior circulação de pessoas pertencentes a 55 . comumente. “assumidas”). No caso do seriado. latinas e negras convivem aparentemente sem conflitos étnicos. todas as pessoas voltam a fazer parte de um mesmo grupo de sociabilidade (com grau de amizade mais ou menos intenso. na faixa dos 25-35 anos (e até por essa razão. distância ou abandono. pois ficar com a ex de alguém pode indicar uma certa traição da amizade. em alguns momentos. e embora amplamente difundida no meio lésbico. As marcar étnico-religiosas aparecem com muito mais freqüência em referências a família de origem do que em outros aspectos. mesmo. mesmo quando contam alguma história sobre ter sido abandonada pela família de origem e ter vivido em abrigos pertencem. é um termo chave para pensar no conjunto de relações sociais estabelecidas pelas personagens da série. com eventuais aparições da mãe nos episódios (a personagem que é bissexual. aliás. como elemento constituidor do grupo. como os bairros de classes médias e altas. O seriado não possui marcas de classe claras que crie diferenciações entre as personagens principais que. quando o fazem acionam um discurso de não-aceitação. nesse contexto. mais tarde. As personagens são mulheres lésbicas. a prática não se dá sem conflitos. o que contrastaria com os discursos mais moralistas sobre esta prática. É bastante comum que. O interessante é que. femininas.

pensar a falta de fragmentação identitária étnica no grupo mostrado pela série e. Talvez isso indique que há um espaço. Diferente da idéia de uma lésbica descuidada. mesmo. mas lhes propicia outros lugares que antes pareciam impossíveis por barreiras fenotípicas significadas como menos belas em nossa cultura. conforme o argumento de Fry. foi constituidora dessa classe média. o acesso e realização de certas fantasias sexuais que envolvem uso de acessórios. são fundamentais para um reposicionamento do papel desses sujeitos dentro da sociedade brasileira. 56 . O mesmo movimento pode ser visto claramente em The L Word. há uma comodificação das relações implicada nessa construção da sexualidade lésbica e. acessórios e maquiagens reposiciona os sujeitos que lançam mão dessas estratégias dentro da estrutura social. um seriado como The L Word em termos de política de visibilidade constrói uma visibilidade lésbica nunca antes vista. e o acesso a produtos que deixam a pessoa mais bonita pode ser interpretada como um movimento político que constrói uma auto-estima melhor e insere essas pessoas em outra posição social. assim como na própria construção da identidade social16 desses sujeitos. que o fenômeno que descreve é o de um mercado que busca lucro embasando-se em parâmetros culturais que. O investimento em uma certa estética e um certo padrão de beleza. possuem sua própria casa montada. Não que uma melhor aparência seja equivalente a esquivar-se dos preconceitos históricos contra os negros. a transformação dos traços fenotípicos seja através do uso de produtos de beleza. em principio. Ou seja. também. boa aparência foi utilizada. as lésbicas ali retratadas constroem carreiras sexuais pautadas num tipo de consumo gay comum ao modelo americano: cruzeiros lésbicos. Estendendo este debate ao que poderia interessar numa política de visibilidade lésbica. de fato. historicamente. famosa pela segregação identitária. mas. palco para encontros de uma noite ou relações mais duradouras. pensar os porquês da ausência de mulheres masculinizadas na série. não é pensado como uma questão de ethos ou de cultura. os embelezadores. solteiras ou não. lugares inusitados eventualmente. para esse segmento do mercado.diferentes etnias e que isso pode indicar que a orientação sexual pode mobilizar e levadas a cabo essa circulação de sujeitos que possuem sexualidades não-hegemonicas. mesmo dentro da sociedade americana. Nesse contexto. como um sinônimo de branquidade. mas uma sexualidade que pode ser vivida intensamente pois todas. uma vez que na sociedade brasileira. contudo. Conforme aponta Gregori (2004) em relação ao consumo de mercadorias de sex-shops. discute que essa demanda não foi produzida pelo estabelecimento de uma classe média negra no Brasil. e acho que este é o principal ponto aqui que da mesma forma em que o mercado baliza a possibilidade da construção da identidade de classe média para a população negra no Brasil. Ser negro. seja através do uso de roupas. O autor nos informa. Fry (2002). em que as barreiras da segregação podem ser rompidas. não teriam relação com as “forças de mercado”. mas por especificidades estéticas. Num texto acerca da publicidade recente e criação de um mercado15 de produtos de beleza para negros no Brasil. poder-se-ia retomar a comparação entre The L Word e Sex and The City. festas em resorts dirigidos ao público homossexual feminino e. esta mercantilização traz colada em si uma tendência a investir num certo fortalecimento do self.

e especialmente lésbicas que fazem sexo . Um dos aspectos apresentados na série é a idéia de que mulheres fazem sexo por diversão. uma caça-vampiros em formação. há uma preocupação constante nas narrativas dos episódios de evitar o julgamento moral de várias práticas não-normativas (uso de acessórios de sex-shops. uma relação mais pautada em afetividade que em sexo. passa a namorar Kennedy. O discurso sobre o sexo em The L Word.43-44). conseqüentemente. “Xena. A idéia própria de que duas mulheres juntas fazem sexo e não precisam de um homem para isso. para a realização de sexo oral. De qualquer forma. é representado (mesmo que com personagens que vivem num mundo fantasioso povoado de entidades sobrenaturais e não-humanas) pela primeira vez. a idéia de sexo lésbico com cenas que apontam. embora estivessem presentes em alguns outros. Tara.. mas. que há mulheres que têm várias parceiras sexuais ao longo da vida e lésbicas podem ou não fazer uso de acessórios sexuais. em Buffy. Mesmo num clássico televisivo lésbico. inclusive no ideal de indivíduo autônomo em relação a sociedade em que está inserido. embora ficasse subliminar em sua relação com Gabrielle que tinham algo mais que apenas amizade. A meu ver é no que concerne às práticas sexuais entre lésbicas que The L Word de fato tem algo a nos dizer acerca do universo lésbico. a atividade sexual constitui atualmente um dos sinais mais reveladores da nova organização das idades e do curso de vida” (2004. necessariamente. Conforme Bozon. mas que mesmo que o façam isso não indicaria uma vinculação de prazer sexual pautado num modelo de sexo heterossexual (no sentido de englobar necessariamente a penetração de uma vagina por um pênis17)..nunca haviam sido mote central para nenhum seriado para a TV. com que passa a namorar ao longo da série e. Em termos de como se dá essa busca pelo prazer e vivência das sexualidades. entre outros). “a afirmação de um critério mundano de ‘satisfação’ e ‘prazer’ como justificação da vida humana é um dos traços mais característicos da inflexão moderna da cultura ocidental e certamente se associa ao processo de requalificação do ‘erotismo’ no quadro das fontes específicas de prazer (.. por exemplo. quando argumenta contra a hipótese repressiva18) fora de um contexto de adequações a uma certa normatividade. Isso implicaria em dizer que ao falar sobre a atividade sexual entre mulheres como um aspecto importante de suas vidas coloca-se também a questão de que mulheres podem romper em alguma medida. p. com a morte de Tara. É de fundamental importância nesse processo a conotação de transgressão na obtenção de prazer.A caça vampiros”. 57 .” (2004. de modo geral com “conversões temporárias” e posterior retorno à heterossexualidade.). também. apesar do público da série ser inicialmente adolescente. 63-64). “. Lésbicas . em boa parte das populares. não se pode pensar tal discursividade (nos termos de Foucault. 1999. O mais próximo que se havia chegado até então duma relação homossexual num seriado acontecera em “Buffy . a princesa guerreira” a orientação sexual da personagem nunca foi claramente posta. ménage. p..Mas não é apenas pela idéia de consumo que a lesbianidade se constrói no seriado. que duas mulheres juntas tenderiam a ter. em que a bruxa Willow descobre-se envolvida com outra bruxa. sendo que isso é fundamental. com a idéia de que as mulheres “não transam tanto quanto os homens ‘naturalmente’” e. Contudo. sexo em locais públicos. Conforme Duarte. mas timidamente. ilustrada de forma contundente na tela da tevê delineia contornos de para um grupo social que sempre viveu a margem dos grupos homossexuais masculinos nas representações midiáticas e. mais tarde.

A inocência e o vício: estudos sobre o homoerotismo. 3. 2004. 2005. In: CARRARA. 1992. 2005. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Maria Luiza. BARBOSA. 58 . FOUCAULT. Rio de Janeiro: Garamond. Rio de CASTRO. Luis Fernando Dias. Mirian (org. 303-326. GREGORI. Les significations sociales des actes sexuels. pp. Sexualidades brasileiras. Reflexões sobre raça. Richard. FRY. In: CARRARA. Regina Maria. 4-23.). pp. Rio de Janeiro: Graal. In: Para inglês ver. In: PARKER. Adriana (org. e que esse tipo de construção tem implicações na construção das identidades sociais das lésbicas que assistem ao seriado. Rio de Janeiro: Zahar. Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Alain.sobre um sexo “liberado” cria um espaço de regulação desse próprio sexo e acaba por legitimar alguns tipos de práticas sexuais enquanto marginaliza outras. In GOLDENBERG. Actes de la recherche en sciences sociales. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. FREIRE COSTA. juin 1999. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Regina. 1996. _____. Rio de Janeiro: Garamond. 2004. GREGORI. publicidade e produção da beleza no Brasil. 2004. _____. Laura. 1999. Jurandir. penso que o seriado pode e deve ser pensado dentro da perspectiva proposta por Gregori. Sergio. Maria Filomena. 87-115.) Nu e Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca. Referências Bibliográficas BOZON. Michel. no prelo. A sexualidade nas ciências sociais: leitura crítica das convenções. DUARTE. Crystiane. HEILBORN. Maria Filomena e PISCITELLI. 136-145. quando afirma que “hoje assistimos à criação de um erotismo politicamente correto protagonizado por atores ligados à defesa das minorias sexuais” (2004: 235). GREGORI. Sociologia Janeiro: FGV. Adriana (org. GIAMI. sex-shops e S/M. Prazer e perigo: notas sobre feminismo. 2002. Da hierarquia à igualdade: a construção histórica da homossexualidade no Brasil. Rio de Janeiro/São Paulo: Record. Sopa de letrinhas: Movimento homossexual e a produção de identidades coletivas nos anos 90. MOUTINHO. n° 128. Estética e Política: Relações entre "raça". Assim. FACCHINI.). Maria Filomena e PISCITELLI. Sergio. Rio de Janeiro: Garamond. da sexualidade. 1982. pp. ed. Ser ou estar homossexual: dilemas de construção de identidade social. Peter. (homos)sexualidade e pobreza no subúrbio carioca. Michel. pp.

no mesmo horário. e os participantes responderam a algumas perguntas sobre a série. O seriado é inspirado no livro homônimo da 59 . The L Word Fan Site (http://www. em matéria da Folha de São Paulo.http://origin. (. Com a gritaria.br/artigos. com duração de cerca de 45 minutos cada um. Dana Fairbanks (Erin Daniels).lword.. Peter Fry. das quais participo. no Brasil: Labris (http://labris.ig.ultimosegundo.uol. a série recomeçará do primeiro episódio . levou os telespectadores a entupir o Warner Channel de reclamações. sob orientação do Prof. para ter acesso aos episódios era necessário um conhecimento mínimo de internet e acesso à internet não-discado. Tina Kennard (Laurel Holloman). Os episódios não são escritos e dirigidos sempre pela mesma pessoa. então decidimos fazer um teste e optamos por exibir a versão light . Alice Pieszecki (Leisha Hailey).Trabalho de conclusão apresentado à disciplina “Tópicos Especiais em Saúde Coletiva: novos temas na abordagem Sócio-Antropológica da Sexualidade”. Evidentemente essa informação é usada amplamente por sites que falam do seriado. O mote da historia são os relacionamentos que estabelecem e as conversas que tem sobre estes e sobre sexo. Apenas Leisha Hailey é lésbica (assumida. publicada em 12 de agosto de 2005.d. o Warner comprou a versão light do programa. um ícone lésbico nos EUA. primeira série a retratar o universo das lésbicas.quarenta anos.thelwordbr.yahoo. 8 7 6 5 Série americana produzida pela HBO (http://www. A versão light sai do ar.com/).com/city/) e exibida no Brasil pelo canal de TV fechada FOX A série fala sobre a vida de quatro amigas na faixa dos trinta . Às segundas.lword. Disponivel no site http://www. foram ouvidos. Dr.shtml).orkut.asp?cod=343ASP026].lesbianation. 4 3 2 1 The L Word tem 13 episódios por temporada. quando o sexto episódio irá no ar.do) e também os sites AfterEllen. Dentre os sites da mídia especializada que tem falado sistematicamente sobre o seriado e que venho acompanhado posso citar. MixBrasil (http://mixbrasil..thelwordonline. Tim Haspel (Eric Mabius). Em janeiro.com.com/site/gaylesbian) e LesbiaNation (http://www. às 23h. compramos agora a versão integral. bem sucedidas profissionalmente. a série passará a ser exibida integralmente. Contudo. por via das dúvidas.html).groups. O grupo tem um site (http://www.org/).thelwordbr. mas. ou seja. The L Word Online (http://www. como o Chile. Conforme matéria de Lilian Fernandes. Fora do país. A partir deste domingo." A Warner recentemente afirmou. .com (http://www. no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva – IMS – UERJ. Há um grupo que se especializou em baixar. ministrada pela Prof. A primeira temporada tem como personagens principais Jenny Schecter (Mia Kirshner). que não é acessível para computadores de fora dos Estados Unidos (Showtime . Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia – IFCS – UFRJ. entitulada "'L word': cenas de sexo agora sem censura": "Os cortes nas cenas mais picantes de ‘L word’.aspx?cmm=435211). pois há boatos acerca das outras) na vida real. BellaOnLine (http://www. às 2h.br/).com/).com/TV/thelword. outra reivindicação dos fãs. diretora de programação do canal na América Latina.br/).agora.afterellen. foram organizados grupos de discussão para avaliar a programação do canal. assim como algumas atrizes já representaram lésbicas antes. o Warner tomou alguns cuidados antes de lançá-la na América Latina. que moram em Nova Iorque. lang.terra.com/main.diz Wilma Maciel. Kit Porter (Pam Grier) e Marina (Karina Lombard). Shane McCutcheon (Katherine Moennig). oferecida pelo canal a cabo americano Showtime justamente para facilitar sua comercialização..br/) e também uma lista de discussão (http://br. Dra. (. em 2005/1. tenho acompanhado o site oficial da produtora do seriado.com/site/lword/home. Algumas das pessoas que produziram ou dirigiram os episódios já tiveram atuação na produção/direção de filmes de temática lésbica.com.) ‘L word’ ganhará também horários alternativos.TV Transcript.com/transcripts/. "Episode Clip 1" for 1x01 "Pilot Episode" .com. temendo principalmente a repercussão em países mais conservadores que o Brasil. solteiras.br/) e The L Word BR (http://www.sho.bellaonline. Marina e Tim saem na segunda temporada e entra outra personagem central à trama. O resultado foi animador. Como o cliente sempre tem razão. sem cortes.. Dr.com/group/thelword_br/) e comunidade no Orkut (http://www. e já foi “casada” com a cantora k.www.) Embora tenha anunciado ‘L word’ como ‘polêmica’.com/Community. para o Segundo Caderno do jornal O GLOBO. Michel Bozon.com. . GLS Planet (http://glsplanet. Maria Luiza Heilborn e pelo Prof.hbo.É a primeira vez que o Warner traz um programa desse gênero. Às sextas.Como recebemos elogios pela iniciativa de exibir a série e reclamações por causa dos cortes. uma conexão rápida. traduzir e legendar os episódios e distribuí-los pela internet. será reprisado o capítulo de domingo. que a sua audiência cresceu em 30% com a apresentação do seriado [Matéria disponível no link: http://observatorio.com. Carmen de la Pica Morales (Sarah Shahi). a estratégia mudou. Bette Porter (Jennifer Beals). nem que para citar a peculiaridade de que a única atriz que é lésbica de fato na vida real interpreta a única personagem bissexual da trama.

11 12 Ao que tudo indica uma lésbica masculinizada será inserida na terceira temporada dentre as personagens principais da trama. nos alerta 15 60 . referência a um modelo identitário.guiadoscuriosos. GLS significa Gays. chegando a recusar-se a ser vista com outra personagem porque era "lésbica demais") e sua namorada Lara. Can I? Lara Perkins: One thing. Contudo. como poderia me ser dito. Dana: [almost laughing] I know.). o discurso de que gays consomem e por isso devem ser respeitados. Lésbicas e Simpatizantes. tem filhos/as. marcas condicionais (com implicações morais) sobre as bases em que deve ser construído o respeito. 21). As imagens aqui utilizadas são de divulgação e pertencem ao canal Showtime. de fato. Lara Perkins: Because you're going to be miserable being in the closet. a autora nos leva. em níveis diferentes. É como se identidade lésbica se construísse a partir da noção de uma relação estável. Segue o transcrição das falas: Dana: [apologizing to Lara] Can I please try again? I really want to try again. Também não vou tratar do consumo de substâncias psicoativas porque não há associação causal no seriado entre a homossexualidade das personagens que as utilizam recreativamente e o efetivo consumo delas. Dana: [holding back tears] Anything. Uso aqui o termo “homossexualidade”. e só dessa forma pudesse ser “verdadeira”. no que concerne há várias discussões de fãs brasileiras sobre a questão. no sentido de legitimar opiniões que diferenciam moralmente lésbicas “para casar” de outras lésbicas. me parece importante dizer que. Esse discurso pode tornar-se tão perigoso quanto o pensamento de que “pink money is pink power”. seja interessante porque exclui alusão à patologias. uma excessiva fragmentação identitária pode esvaziar a identidade reivindicada e prejudicar a visibilidade de uma categoria grupo (que luta por seus direitos. Nesse contexto. por visibilidade. Apesar da proposta de usar homoerotismo. Por vezes aciona-se um discurso que venho chamando de “ideologia do gay limpinho”. Dana: I know. “se dão ao respeito” e.php?cat_id=53613). me parece mais adequado a uma análise acerca de politicas de visibilidade lésbica manter um termo que faça.porque não é um substantivo (p. A primeira comparação sobrevive aos cortes primeiramente realizados pela Warner Channel. Lara Perkins: And you are really. que a série deu base (embora não propositalmente) a um certo discurso dentre lésbicas que defendem uma postura conservadora. que assinava uma coluna sobre sexo no jornal The New Yorker Observer (cf. Lara Perkins: You have to start taking at least take some steps towards being out. sendo um termo mais utilizado dentro de uma lógica de mercado no universo homossexual. informações do site http://www. etc.br/index. If you hide that. a segunda não. Não tratarei neste texto de questões relativas a homoparentalidade. a qual poderia nos levar a uma essencialização das diferenças e a um esvaziamento do sentido político das próprias categorias. you're hiding the best part. não essencializa a prática e descreve melhor pessoas que sentem desejo por pessoas do mesmo sexo por não indicar identidade . conforme Fry (1982). quando se fala de homossexualidade no Brasil é inevitável não lembrar da categoria GLS. Lara Perkins: And it's one of the things I like so much about you.jornalista Candace Bushnell.com. há um diálogo entre a personagem Dana (que é auto-homofóbica e refrata a idéia de sair do armário. De acordo com Facchini (2005) o Movimento Homossexual acaba lançando mão de outras designações mais específicas e com o intuito de contemplar a várias identidades distintas que compõem o movimento e o meio homossexual. a realizar uma reflexão crítica sobre os perigos dessa fragmentação e proliferação de identidades propostas pelo movimento. monogâmica e “repleta de amor (romântico)” entre duas mulheres. para não cair num discurso sobre uma condição ou identidade homossexual. Para a autora. Parece-me que ambos os discursos postulam. poderia fazer uso de homoerotismo. que veio como proposta de substitutivo para o patologizante “homossexualismo”. really gay. que prega que devemos ser respeitados porque homossexuais também constituem família. 10 9 No quinto episódio da primeira temporada. por vezes. ou incorrer no risco de criar diversas categorias estanques. Dana: I will. que ilustra como o coming out é pensado dentro da série. por espaço. "Lawfully". Em outro contexto. Contudo. conforme propõe Freire Costa (1992). à construção de um núcleo familiar homoparental e à conjugalidade. extremamente difundido pelas casas noturnas e alguns eventos de moda. 13 14 Em termos de mercado. um termo em princípio político.

Dana: That's all you would do. conforme Heilborn.] 17 18 De acordo com Bozon e Giami (1999). Jenny: You really wouldn't try to fuck a lot of girls? Shane: (smiling) I don't need a dick to do that. 61 . é um conjunto de marcas sociais que colocam um sujeito num determinado mundo social e vai apontar para três dimensões de modelação da pessoa: 1) atributos/traços que constituem classificatoriamente o sujeito (gênero. tomando corpo em significados que articulam a imagem de si em relação com o outro (1996: 137). enfrentando o dilema entre a ‘cidadania’ e o ‘orgulho/afirmação de diferenças essenciais e estanques’. She tells you she's gonna give you a penis. Shane: (nods) Mm-hmm. Yup. e não o contrário. etc.. you would just.. há um diálogo que evidencia como isso é pensado na série: Alice: Hey guys! Jenny: Hello! Alice: Alright. No quarto episódio da segunda temporada. (. 16 A identidade social.que “construir a cidadania a partir do reconhecimento da diversidade. and then it disappears. Segundo os autores. Gagnon e Simon vêem a sexualidade como um comportamento que pode ser explicado e tem origem em outras condutas sociais.282).. Foucault levanta a hipótese repressiva mas. idade. 2) como esses atributos se inserem num campo de significações sociais (que possui outros tantos atributos próprios). just pee.” (p. [Everybody laughs. antes. Gagnon e Simon já haviam falado em sexualidade menos como um princípio de coerção e mais como um princípio indispensável de produção das condutas sexuais e significados que lhe são atribuídos/vinculados.) parece ser o desafio colocado atualmente tanto para o MHB [Movimento Homossexual Brasileiro] quanto para todos os movimentos que se fundam em demandas especificas de uma ‘comunidade’.). "Lynch Pin". What do you do with that penis for 24 hours? Shane: I would pee standing up on every bush I could find. Dana: Oh my god. 3) Como esses atributos vão se expressar através de alguns valores. A fairy godmother comes to visit. Alice: You only get it for 24 hours..

passou a desenvolver muitas atividades voltadas para o “segmento GLBT” (Gays. a coordenar um movimento de moradia organizado na região. A partir de sua atuação no movimento de moradia estabeleceu contato com um deputado estadual do PT. candomblecista”. há quatorze anos. Aceitou ser entrevistada para a pesquisa que eu estava realizando na época a respeito de mulheres que tiveram filhos em um relacionamento heterossexual antes de se assumirem lésbicas. Se o tema da “maternidade lésbica” norteara a entrevista. então. lésbicas. conheci Flávia no XIV Encontro Nacional Feminista ocorrido em Porto Alegre. Ela participava do evento como coordenadora de uma associação de mulheres lésbicas.“Mulheres de Kêto: um estudo etnográfico sobre lesbianidade. ao qual logo se filiou. Apresentarei a seguir alguns aspectos de sua história de vida. já há muito tempo separados. Naquele primeiro momento. uma vez que busco retomar temas da vida de Flávia que não haviam sido explorados com a delimitação do recorte. outras questões naquele momento emergiram. nesta “colcha” que não é de retalhos. Neste espaço. se antes a pesquisa era sobre “Flávia. descobriu que o terreno que havia comprado estava em uma área irregular. Rio de Janeiro Em novembro de 2003. negras da periferia. dentre outros “atributos”. moradora da periferia. da qual foi exonerada na gestão atual de José Serra (PSDB). esse a indicou para coordenar um dos diretórios de articulação da campanha de Marta Suplicy (PT) – na época candidata à prefeita pela cidade de São Paulo. as quais renderam-lhe. mãe e lésbica”. é nascida e criada na cidade de São Paulo.br Universidade Federal do Rio de Janeiro. realizava um trabalho social junto ao Conselho Regional da Juventude da Igreja Católica na região onde morava. negra. O objetivo da pesquisa que agora desenvolvo para a dissertação de mestrado segue talvez um “caminho de volta”. Bissexuais e Transgêneros). com a eleição de Marta. e devido principalmente ao trabalho que Flávia começou a desenvolver na associação que criou para mulheres. pois não apresenta costuras que delimitam espaços. é filha de uma dona de casa e de um operário. É sobre aquele “pano de fundo” que se centra meu interesse atual de investigação. possibilitando aproximar a “maternidade lésbica” da “vida vivida” de Flávia. Lésbicas. da periferia da cidade de São Paulo. Nesta função. e nestes quatro anos participou . Durante este período.com. e passou. Assim. A etnografia permite atenuar estas separações. procuro agora articular o “negra. quando se mudou para o bairro onde reside atualmente. e irmã do meio entre dois irmãos. ficando porém como pano de fundo daquela problemática central à época. 39 anos. Desde muito jovem iniciou uma trajetória de militância política: quando adolescente. um cargo na Coordenadoria de Participação Popular da prefeitura. Flávia. investigação que resultou em minha monografia de graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina. negras. Flávia atuou sobretudo com a questão GLBT. família e política na periferia de São Paulo” Camila Pinheiro Medeiros milamed81@yahoo. esta mobilização aproximou-a do Partido dos Trabalhadores (PT). o método de entrevistas baseadas em histórias de vida levava a um recorte do objeto que privilegiava a comparação entre os depoimentos colhidos em entrevistas com outras mulheres.

camisetas bordadas. Na época. estava participando como representante do segmento da mulher com deficiência. em um conjunto habitacional muito próximo à casa onde moravam. Como Flávia está desempregada. elas mudaram-se para um apartamento. Elas conseguiram colocar este apartamento no nome do casal e das duas filhas de Flávia e é lá que as quatro residem atualmente (Vanessa foi morar com a mãe durante este ano). pois Flávia. Vanessa (15 anos). ela cuidava da filha de seu irmão mais novo. conforme me narrou. Nós temos assim. Neste espaço também funcionava a associação fundada por Flávia e a ela se juntou a organização dirigida por Luiza que há dez anos trabalha com mulheres com deficiências. passou a integrar – à frente da associação que criou para as mulheres lésbicas e negras de seu bairro – uma rede de discussões que se estabelece entre os grupos feministas e lésbicos de São Paulo e do país. Há dois anos. conheceu Luiza. auto-estima.ativamente da organização da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo – que em 2004. desde quando a menina tinha 4 anos de idade. foi terminado em função principalmente do incômodo de Flávia com a forma como sua companheira lidava com a lesbianidade. este chegou a agredir Flávia quando ela expôs a circunstância de sua aproximação com sua primeira companheira. com os postos de saúde. Tem meninas que nunca foram ao ginecologista. Flávia está produzindo artesanatos (velas. Nestes últimos anos também. As pessoas acham que é para se mobilizar só para fazer festa. Sobre a associação que coordena. Depois de sete meses de namoro. umas vinte mulheres no nosso grupo. Flávia falou-me em certa ocasião: “Porque falta uma formação política. mas tem que ter uma discussão política. que ficou exclusivamente destinada às associações. Luiza continua na presidência do referido conselho na prefeitura. relação com a saúde. sempre às escondidas. segundo estimativa da organização. Atualmente ele está casado com uma outra mulher e pouco mantém contato com Flávia. mas logo desistiu da idéia. mais próximas. então. 41 anos. e há dois anos como presidente eleita.) para complementar o orçamento doméstico. Nesta época. bijouterias etc. mas não recebe salário pois seu cargo é considerado de “relevância pública” (o qual não prevê remuneração).000 pessoas. a fonte de renda familiar é a aposentadoria de Luiza (ela aposentou-se por invalidez aos 20 anos. em seu cargo na Coordenadoria de Participação Popular. por exemplo. ele ameaçou requisitar a guarda das filhas. Luiza. Tatiana e Daniela. Flávia. onde Luiza trabalhava – primeiro como conselheira. no qual Luiza estava inscrita. No momento.600. Além disso. com as delegacias de mulheres. Luiza foi morar na casa que Flávia residia com suas filhas. estava em crise no casamento de oito anos que mantinha com o pai de suas duas filhas – Tatiana (atualmente com 12 anos) e Daniela (9 anos). depois de dois anos. que teve seu primeiro relacionamento homoerótico. que é deficiente visual. quando ainda estava com sua primeira companheira. dava assessoria ao Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência. Quando se decidiu separar de seu exmarido. Há cinco anos. E nós buscamos nos reunir para trabalhar a questão do emprego. Elas estreitaram os laços depois da eleição. porque acham que porque se relacionam com 63 . o qual. durante a campanha da prefeitura. Foi com esta mulher. quando perdeu a visão). biscuits. reuniu 1. não querendo assumir. Quando tinha 32 anos “descobriu-se” lésbica a partir de um contato íntimo que começara a estabelecer com uma amiga do movimento de moradia. Elas continuam coordenando suas associações e também são importantes articuladoras de um fórum de discussão acerca do “segmento LGBT na periferia de São Paulo” que está se consolidando no bairro onde moram.

Neste tempo em que convivi com uma “família recomposta homoparental feminina” (LE GALL. política. da periferia. Penso então que o direcionamento da trajetória de militância de Flávia articulase com as preocupações suscitadas por eventos de sua vida: se o terreno irregular comprado foi o principal propulsor da mobilização em torno das questões de moradia. E elas não têm opção de ir a um outro médico. Conforme Flávia designou-me. negra. você tem que ver. em certa medida.mulheres. não é de menor importância). Retomei o contato com Flávia em outubro de 2004. Além do cotidiano dessas mulheres estar pautado por militâncias políticas. Na verdade. e que minha companheira tem deficiência. ela e a filha Tatiana farão sete anos de santo. como já referido. Luiza é iniciada há dezessete e no início deste ano ocorreu a iniciação de Daniela. quando fui a São Paulo conhecer sua família e a associação que coordena. etc. pude repensar certas análises que realizei na pesquisa anterior. principalmente. cada uma querendo pegar uma dessas especificidades”. do candomblé. aquelas mulheres que foram presas e que tem todo um trabalho de auto-estima para ser feito com elas. mãe. sua atuação junto ao segmento GLBT emergiu a partir do momento em que se assumiu lésbica. o envolvimento religioso também está aí fortemente imbricado. Não bastasse aquele apartamento ser um universo onde pululavam diversas questões antropológicas – a respeito de família. pois se Flávia faz sua assunção lésbica reverberar pública e politicamente. porque o médico não leva em consideração a especificidade delas. não será possível desenvolver detidamente neste espaço a vivência religiosa do candomblé. porque nós temos meninas que têm dificuldade em ler. Este “envolvimento múltiplo” é sentido por Flávia. que brinca que elas fazem parte da “exclusão dentro da exclusão”: “Quando eu vou me apresentar em algum seminário. por exemplo. trata-se de uma “família candomblecista”: em dezembro. –. perceber que o “ser mãe” não pode ser dissociado do “ser lésbica”. e o médico já vai logo enfiando aquele bico de pato. é também esta esfera de atuação política que a impulsiona assumir sua lesbianidade. gênero. A partir desta experiência etnográfica de pesquisa. 2001). E tem também as regressas. mas sua articulação neste cotidiano. e eu falo que eu sou lésbica. muitas nunca tiveram uma penetração. como uma espécie de resposta política a demandas particulares – uma atitude que parece ser central e que dá sentido ao “ser-no-mundo” de Flávia. e o presente artigo é uma tentativa. religião. Tem a questão da educação também. é um caminho de mão dupla. muito difíceis do tempo em que elas estiveram presas”. que por sua vez é impensável sem se abordar a atuação política de Flávia (infelizmente. pude em algum grau vislumbrar uma “vida em movimento” que permitiu reelaborar certos pressupostos: a análise das “esferas em (inter)ação” possibilitou. algum lugar. havia uma porta aberta pela qual adentravam outras mulheres que também foram se tornando essenciais para a pesquisa – principalmente no que tange à possibilidade de informarem a respeito 64 . porque elas têm relatos. de reescrever algumas reflexões. Flávia ofereceu-me a hospedagem em seu apartamento para a pesquisa de campo que vim a realizar nos meses de fevereiro e março de 2005. não precisam. as pessoas ficam loucas. E se elas vão nesses postos de saúde da região muitas vezes elas sofrem preconceito. Nesta ocasião.

em São Paulo – representando as lésbicas. Conforme desenvolverei abaixo. e discursou no carro de som da Marcha Mundial de Mulheres no 8 de março – que ocorreu na Avenida Paulista. Mas o que pega mesmo é minha opção sexual. É neste sentido. 65 . o qual durou sete anos e terminou há dois. têm uma representatividade que vai muito além daqueles limites físicos impostos pelas paredes de seu exíguo apartamento. Neste momento. Na verdade. Significados do ser lésbica como um dado importante para pensar a vida familiar Antes propriamente de falar de características desta família homoparental no que concerne a “papéis familiares”. além de vizinhas. expondo que. Falava-me sobre seus pais e sobre sua lesbianidade: “Meus pais vieram para cá. Em uma ocasião. ou em circunstâncias de conversas particulares – por outras lésbicas que fazem parte da rede próxima de Flávia. Suas concepções informam. que ela fala pelas lésbicas da periferia em reuniões de organização da Caminhada Lésbica que ocorre em São Paulo um dia antes da Parada do Orgulho GLBT. ou de uma família.de reflexões compartilhadas acerca do ser lésbica na periferia. com as filhas e família extensa. Quando eu tinha uns 18. são as principais participantes da associação coordenada por Flávia (além disso. por si só. esta concepção parece-me ser fundamental no sentido de que influencia a delineação de arranjos familiares. mas contestarei este “apenas” a partir da apresentação de uma ‘expansividade’ que este caso pode ter. Mães ou não. Flávia. penso ser importante apresentar a forma como a lesbianidade é tratada neste contexto. e veio morar com os pais em São Paulo quando tinha 7 anos. mas quando você tem independência. moraram um tempo e depois voltaram. 1976). o consenso é nítido com relação ao assunto: ser lésbica não é uma questão de escolha. Além do mais. é uma coisa que nasce com a gente”. “condensa” opiniões de um círculo maior de pessoas que estão à sua volta. não se pode falar em opção. enquanto ela preparava o jantar. eu fui morar com eles. se esta é – segundo distinção exposta por elas mesmas – “estado” ou “condição”. ou de um apartamento. são as pessoas mais próximas de Flávia e Luiza e estão quase diariamente no apartamento delas – elas são próximas pois. é que apresento os dados a seguir. Portanto. Flávia é mãe-pequena – aquela que. Justifico uma antropologia a partir de uma pessoa. Ela e uma outra moça. De vez em quando eu fico com saudade. relacionamento conjugal. as quais talvez permitam falar em uma delineação de um ethos. como um liderança política e centralizadora de uma “rede de relações” (BOTT. Os pais voltaram para a cidade de origem e ela ficou em São Paulo principalmente em função do namoro com Fabiana. porque não é uma questão de escolher Natura ou Boticário. ou melhor. por exemplo. Cecília é da Paraíba. é difícil voltar. auxilia a mãe ou pai-de-santo durante as iniciações – de ambas). já que a lesbianidade foi um assunto debatido em diversas ocasiões – seja em discussões conjuntas na sala do apartamento. Eu fiquei. nasce-se assim. refiro-me então àquelas “reflexões compartilhadas” citadas na introdução deste artigo. estes dados – esta teoria nativa – já têm um potencial questionador da teoria antropológica. enfoco primordialmente apenas uma família. no candomblé. Fabiana (28 anos). conversava com Cecília (26 anos) na cozinha do apartamento. Seguindo uma idéia de que o que Flávia diz/informa não se refere apenas a ela.

por exemplo. voltava com Fabiana da sede de uma associação de “lésbicas do centro”. ocorre anualmente um dia antes da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo. Em outra ocasião. vez com mulher”. sobre equipamentos de saúde. Esta concepção também embasa a argumentação contrária à bissexualidade que elas explicitam. mantém uma lista de discussão na internet). não se assume lésbica a pessoa que não tem certeza de sua condição.Este tipo de discurso foi recorrente enquanto lá estive: “porque com a gente não tem essa de ‘estar’. festas. “Para mim não tem essa história de ‘estar lésbica’” (Luiza). além de realizar encontros bianuais. do ser lésbica na periferia. 66 . E eu não posso separar a discussão lésbica da vida dessas meninas aqui da periferia”. ela complementou: “Nós tínhamos mais proximidade com elas antes. eu dava um jeito para que fossem duas ou três participarem das atividades lá. ninguém parece se arriscar a ficar com uma menina se não for para valer. digamos. Frente ao comentário de uma mulher neste encontro de que Flávia era bissexual porque já fora casada com um homem. que. quando narramos a reunião para Flávia. sessões de filmes. e várias situações homofóbicas de agressão física e atentados de morte foram narradas. contrapõe-se uma. sobre atendimentos a lésbicas em postos de saúde. Mas é muito diferente. e na periferia. localizada em um prédio de uma área nobre de São Paulo: era uma ampla sala com computador. onde as pessoas controlam e onde tem violência”. Foi comum também ouvir histórias de mulheres que se descobriram lésbicas aos 9. havia chamadas para diversos eventos que lá ocorriam: saraus. 12 ou 13 anos de idade. porque todas lá têm convênio médico. Em uma discussão acalorada entre Flávia. A um certo descompromisso que elas por vezes apontam às lésbicas do centro – dentro de uma figura de oposição centro/periferia que elas costumam lançar mão –. em dezembro de 2004. narravam-se os debates em torno do assunto que aconteceram no último encontro da Liga Brasileira de Lésbicas (a LBL é uma articulação de grupos lésbicos de todo o país. as preocupações são muito diferentes. Saíamos de uma reunião de organização da Caminhada Lésbica – que. Explicando melhor: o bairro da periferia onde elas moram é caracterizado como de extremo preconceito a lésbicas e gays. Conforme me apontou Fabiana. sabe? E nós apresentamos isso para elas. se não tiver certeza de sua condição. uma grande televisão. Elas se preocupam em manter aquele espaço”. porque as conseqüências podem ser duras. Por conseguinte. DVD. Conversávamos a respeito daquele encontro: “Elas sempre deixaram claro que elas não têm uma proposta de formação política. onde pode tudo. “é muito diferente você ser lésbica no centro. Já em casa. Aqui a realidade é outra. O “ser lésbica na periferia” ilumina a concepção do “ser lésbica” na medida em que. Luiza indignou-se: “daqui a pouco vai ser a ‘Liga do Vai Quem Quer’!”. e da vinculação no movimento lésbico – dimensões que parecem formar três vértices de um triângulo. Todo sábado. porque centraliza concepções acerca do ser lésbica. videokês. ela respondeu: “A pessoa não é bi porque ficou com homem uma vez. No mural. Fabiana e Cecília. falava-me Fabiana. Elas não têm uma discussão. A partir do surgimento de uma proposta de integrar mulheres heterossexuais e bissexuais na LBL. Esta posição contrária à bissexualidade parece ser nodal para estas mulheres. firmeza de posição daquelas da periferia. É bi porque fica vez com homem. Chamou-me atenção o espaço da sede. como já dito. para estas mulheres. Luiza. Eu ‘sou’ [enfática] lésbica” (Fabiana).

Aquela coisa mesmo. Na pesquisa anterior. ser bissexual ou considerar-se como “estando lésbica” implicaria para elas um esvaziamento do teor político. Ambas consideram a lesbianidade como condição. mas – conjecturo – a não atuação em movimentos de militância leva a uma outra política: a do “se resguardar”. Apesar dos dois casamentos. por exemplo. ser colocada nos seguintes termos: já que se é. “Não. Ou eu tenho meus filhos. seria mais fácil para você impor sua presença e tudo. Conforme já exposto. por sua vez. a gente não tem aquele negócio. requer uma politização da lesbianidade que só é vislumbrada quando a mesma é tratada como condição. luta-se politicamente em torno da questão. Entrevistei Helena (39 anos) e Lila (29 anos). Então eu não vou fazer assim: “olha. então. e também são filhas pequenas desta. por exemplo). entendeu? Eu sempre fui dessa opinião. Se eu não tivesse filho. ele acaba com a menina na paulada”. Por quê? Porque tem sempre uma cobrança. a reuniões de militância. Helena disse que se descobriu lésbica aos 11 anos. a filha mais nova de Flávia. à marcha do 8 de março. mas que se casou principalmente para não decepcionar a mãe. pois significaria ficar em cima do muro por receio das conseqüências que o “ser” pode trazer. e depois fica com um rapaz. conforme narrou Luiza: “Aqui na periferia. Mais uma vez. dois filhos (17 e 15 anos) do segundo e. O mais novo saiu recentemente de casa. já havia traçado uma oposição entre mulheres vinculadas a movimentos sociais e aquelas não militantes no que se refere ao posicionamento político da família homoparental e exposição da lesbianidade. à Caminhada Lésbica. Não. Seguindo esta argumentação. Mais de uma vez. “ser lésbica na periferia” delineia a idéia de condição do “ser lésbica”.Luiza continuou: “elas têm uma outra concepção de visibilidade. e esta noção. O vértice de “vinculação ao movimento lésbico” é fundamental nesta tríade. eu tenho uma vida assim. eu não tenho aquela postura. “ser lésbica na periferia”. Lila nunca teve relacionamentos com homens. A relação entre estes dois vértices talvez possa..”. Fabiana e Cecília na militância política (não vão à Parada. Elas não sabem o que é não poder assumir para não sofrer agressão”. andarem de mãos dadas nas ruas. inviabiliza pensar um relacionamento com homens.. leva a uma publicização da lesbianidade. é um propulsor da vinculação política em torno da questão lésbica – é uma estratégia de politização. junto com os dois filhos mais velhos de Helena. Experimentar os “dois lados” pode levar a conseqüências nefastas. sou isso mesmo. Fabiana. e esta idéia de condição. se eu tivesse seguido outra vida e tudo. que morreu sem saber que a filha era lésbica. e a luta política. “vinculação ao movimento lésbico”). elas moram em uma casa próxima ao apartamento de Flávia e Luiza. Cecília e suas respectivas namoradas beijarem-se publicamente. na medida em que sua ausência leva a uma outra “política da lesbianidade”. se o rapaz sabe que ela ficou com a Fabiana.. de chegar: “ah. portanto. Atualmente. presenciei Flávia e Luiza.. a bissexualidade torna-se inconcebível: na periferia só se assume quem está certa de sua condição. eu sou isso mesmo. Elas participam de algumas reuniões da associação mas não têm o mesmo envolvimento de Flávia. Helena tem um filho de 23 anos do primeiro casamento. por divergências relativas à religião da mãe – Helena e Lila fizeram santo no mesmo barco (grupo de pessoas que são iniciadas conjuntamente) que Daniela. por sua vez. Luiza. somada à atuação política. Volto à imagem do triângulo (“ser lésbica”. uniu-se a Lila. namorarem dentro dos ônibus. se uma menina fica com a Fabiana. que moram juntas há quinze anos. Esta dicotomização foi também observada no contexto em que agora pesquiso. É neste sentido também que a idéia de se “estar lésbica” é muito criticada e é localizada às mulheres do centro da cidade. porque sou e acabou”. após a separação. 67 . A essencialização.

vinculada ou não a movimentos sociais. o que parece fortalecer a tese da militância política. há certamente uma preocupação relativa a reações lesbofóbicas que as filhas possam sofrer. penso que a “política da lesbianidade” varia se esta é considerada como estado ou condição. E esta política da lesbianidade terá. conforme será apresentado a seguir. Flávia e Luiza – que têm seu próprio quarto. da Parada do Orgulho GLBT. que o utilizam estampado em camisetas. Ambos os casos (Flávia/Luiza e Helena/Lila) tratam a lesbianidade como condição. poetisa grega da qual se originou a palavra lésbica) a uma tartaruga que Luiza lhe deu e que é seu animal de estimação. continuarei insistindo na comparação entre os dois casos citados no parágrafo anterior. é com freqüência que elas estão com camisetas da LBL. mas o fato de ter filhos não leva a uma “política do resguardo” por parte de Flávia. que pensam a lesbianidade como condição. Tatiana e Daniela com freqüência estão presentes em conversas a respeito de temas lésbicos. Diante de você ter filhos. inclusive tomando a palavra em algumas situações. explicou-me Fabiana certo dia.. principalmente. dentre outros signos que demonstram explicitamente a “orientação sexual”. Isto parece denotar uma distinção interessante nas configurações familiares no que diz respeito. não ficar escondendo para ninguém saber. conforme Luiza explicou enquanto conversava com um vizinho amigo delas que também assume publicamente sua homossexualidade: “Todo mundo sabe. um sapo feminino. Estes signos também são usados pelas filhas Tatiana e Daniela: elas inclusive vão para a escola com camisetas e bótons do movimento lésbico. O relacionamento com o pai das(os) filhas(os) é semelhante nos dois casos e parece seguir uma tendência já observada na pesquisa anterior: a ausência do pai – fato que me fez repensar a idéia de pluriparentalidade associada a famílias recompostas homoparentais femininas. grosso modo. Relacionamentos e papéis familiares Neste tópico. “Nós temos uma política de não deixar de falar as coisas na frente das crianças”. Flávia deu o nome de Safos (em uma referência a Safo de Lesbos. em ambos tratam-se de mulheres da periferia. foi transformado em “sapa”. E a gente sempre fez questão de não omitir.’ 68 . com os filhos e com a família extensa. dentre demais usos). se a pessoa é do centro ou da periferia. sob forma de chaveiros. do Seminário Nacional de Lésbicas. então você fica mais assim (Helena)”. o qual ela tem conhecimento da conotação (“sapatão”. ao relacionamento conjugal. até para quebrar com a chance do ‘ah é. uma repercussão no viver em família. seguindo uma linha de que é na explicitação que o “inimigo” é desarmado. em uma circunstância há a vinculação a algo que.. que sempre foi – e ainda é – um termo pejorativo para se referir a lésbicas.Mas a gente se cala mais diante da situação. De fato. com cama de casal – não se furtam de se relacionarem afetivamente na frente das crianças. Uma bandeirinha do arco-íris tem lugar de destaque na estante da sala. e Tatiana leva pendurado na mochila um chaveiro com um sapinho. poderíamos nomear como movimentos sociais (Flávia/Luiza) e na outra não (Helena/Lila). de você morar em um lugar e todo mundo conhecer. porém. dentre as variáveis que pude observar. É neste sentido que isto é mostrado abertamente também à vizinhança desde que Flávia e Luiza se mudaram. Em comum. Assim. por conseguinte. mas Flávia busca contornar a situação na base de muita conversa. Com esta exposição. e reapropriado como um emblema para estas mulheres.

não vai ter nenhum impacto porque não é novidade para ninguém. sendo que esta ainda era viva nos primeiros anos de relacionamento com Lila. Luiza. nas duas reuniões de condomínio que pude acompanhar. nunca foi sentado e conversado. Então.. A postura entre os dois casos aqui analisados também é diferenciada no que se refere ao relacionamento com demais membros da família extensa. e os últimos meses de sua vida passou morando na casa de Flávia e Luiza. 69 . conforme elas me apontaram. apesar de morar no mesmo bairro da mãe. por exemplo. Seus irmãos também sabem e se relacionam bem com Luiza. no mínimo uma noite por semana dorme no apartamento da filha. Exatamente. é muito respeitada pelos moradores. [Pergunto se eles sabem do caráter do relacionamento entre elas]. Helena apresentou a mesma preocupação e está muito apreensiva e resistente com o fato de seu filho do meio estar “se enveredando” pelos caminhos do homoerotismo. Helena. visto que a síndica anterior – que já havia se mudado –. ela perdeu o contato com o pai há muitos anos e.[imitando um tom de fofoca]. nunca houve uma conversa entre eles a respeito do vínculo que une Helena e Lila. ao contrário do que ocorre na casa de Flávia. conforme a primeira apresentou-me: “Porque na verdade. E não vão usar isso como xingamento também. assumiu-se lésbica com 13 anos. A mãe não aceitou. Ela expôs que tem certeza que isto será julgado negativamente à luz do argumento de que ele é gay por ter convivido quinze anos com sua mãe e a companheira.) com relação à educação das filhas e argumenta que. que é filha única. Quem cuidou de Lila desde a infância foi sua avó materna. deixou de pagar diversas mensalidades de água e luz. mas. Mas Flávia expõe que isto não impede que haja cobranças externas (família extensa. pai e irmãos. A gente trata sempre na esportiva assim. Atualmente Flávia é síndica do bloco e. sabem. Ela foi eleita com a incumbência de colocar as contas do prédio em dia. No caso de Lila. Mas por respeito mesmo. mostrar as coisas para eles na brincadeira. Luiza saiu de casa e elas ficaram muito tempo sem se falar. um ano após o falecimento de seu pai. ela faleceu há aproximadamente dois anos. na verdade. quanto a do filho. seu pai. por ser lésbica. os vizinhos descobriram e ficou insustentável morar lá”. Eu tento levar. Por sua vez. ex-marido. o cuidado neste sentido deve ser redobrado para evitar os comentários de que se algo sai errado é por conta do “mau exemplo” que se tem em casa. também é gay. a mim eles não perguntam (Helena)”. nunca falou nada à mãe. apesar de sempre insistir que ela deve ter sua própria casa. como já citado. Se eles não me perguntam mesmo assim é por respeito. cujo filho (tio de Lila) com quem mora. Contrariamente a esta situação de apresentação da lesbianidade para a família. Sabem. vizinhança etc. A gente tem um casal de amigas que teve que se mudar do conjunto onde elas moravam. também sabe – ele está gradativamente melhorando o seu trato com Luiza ao telefone. como a mãe. entendeu? Então não é aquela coisa assim de sentar e perguntar. Ela aceita bem tanto a situação da neta. em uma gestão comprovadamente fraudulenta. Mas. porque elas sempre esconderam. é mais na brincadeira. Pais e irmãos são distantes.. raramente elas se vêem. quando se insinua qualquer coisa. A mãe de Flávia sabe do relacionamento da filha e. que é mais distante. No entanto.

Lila. – cuidados que são freqüentemente compartilhados com a mãe de Flávia. as famílias de Flávia/Luiza e Helena/Lila – seguindo uma constante que também foi observada entre outras mulheres que já havia entrevistado – caracterizam-se pela quase ausência do pai das(os) filhas(os). diversas vezes. Durante todo o tempo em que estive no apartamento de Flávia e Luiza. estava implícito que se referiam a Sérgio. comprometidas com os cuidados com as crianças. Num dos dados que penso ser mais notáveis desta circunstância. Anne Cadoret (2001a e 2001b) apresenta o caráter profundamente perturbador das famílias homoparentais por não basearem sua organização social em uma complementaridade biológica entre os sexos. não houve nenhum telefonema do pai de Tatiana e Daniela e elas não passaram nem um dia com ele. Tatiana e Daniela utilizam o prenome para fazer uma distinção entre os dois “pais”: o pai-desanto e o “pai de verdade” (sic). Para posicionar a questão. até por uma questão – conforme Lila me explica – de prezar pela saúde da companheira. que mora na mesma cidade. em uma época que fazia serviços gerais em uma escola. porque ela merece”. estas famílias ressaltam ainda mais o caráter social do parentesco. que é diabética. “Pai Sérgio” é o primeiro. depois de sair de seu trabalho. Na casa de Helena e Lila. arrumem as camas. Por Luiza estar o dia inteiro fora trabalhando – assim também era o cotidiano de Flávia. A autora se refere a como estas famílias contestam a idéia de que o pai e a mãe 70 . permanece mais em casa –.Além da postura de exposição da lesbianidade. Em ambos os casos. há uma preocupação do casal relativa à educação das filhas. Flávia disse: “é porque nós conversamos muito e por toda a questão feminista também. ia para a referida escola fazer as tarefas que cabiam a Helena. Estas mulheres todas estão. falava-me Lila. uma vez que enfatizam que a parentalidade pode se configurar a partir de relações sociais e afetivas. quando elas falam simplesmente “pai”. “Pai Sérgio” é muito mais recorrente na conversa entre elas e. conforme Luiza falou-me uma vez. principalmente. Mas a Luiza. que agora. façam os deveres etc. Por conseguinte. durante as férias escolares. devido ao desemprego. no começo. Apesar de elas estarem passando por uma difícil situação financeira decorrente do desemprego de Lila. o segundo. não queria que eu trabalhasse”. apesar da proeminência das mães (Flávia e Helena). Na situação de Flávia. E complementou: “você acha que não tem gênero também na relação entre mulheres? Tem sim”. Finalizando considerações: pensando pluriparentalidade e lesbianidade Esta observação acerca da ausência do pai biológico fez-me refletir a respeito dos pressupostos de parentesco e do conceito de “pluriparentalidade” que embasaram a análise do trabalho anterior. ambos pesquisadores da parentalidade lésbica. No caso das famílias recompostas homoparentais. sexualidade. é notável como as esferas da conjugalidade. Helena já trabalhou fazendo faxinas e. que mora próxima à filha. e não necessariamente biológicas. a última é categórica com relação a não deixar a companheira trabalhar. os homens não têm lugar – “o cheiro do apartamento muda quando tem homem”. cabe também a Cecília e Fabiana. “pai Antônio”. A ausência do pai faz-se sentir também pelas escassas referências das filhas a ele. cuidarem para que Tatiana e Daniela façam as refeições. procriação e filiação não se dispõem em um eixo comum. cujo apartamento é uma afluência de mulheres formando uma espécie de “rede lésbica”. vão para a escola. Por fim. “Eu queria dar tudo para a Helena. o que parece mudar com relação ao pertencimento ou não a movimentos sociais é a relação conjugal. Sobre “papéis de gênero”. retomarei idéias de Anne Cadoret e Didier Le Gall. esta não admite que Helena trabalhe. em diferentes graus.

mas no sentido de um terceiro parent. parentalidade e relação de casal. Baseando-me nos dados da família de Flávia. Este argumento vai ao encontro daquele de Le Gall (2001). saindo de cena o par biológico. é que. seguindo uma diretriz de que “quem está junto. Depois deste trabalho de campo que realizei. da família” (CADORET. era como se estivesse explicando o que realmente acontecia na trajetória daquelas mulheres com relação à lesbianidade. esta “família de mulheres” assim se configura também em função de como é pensada a lesbianidade (sob a luz da idéia de condição). apresentando que a noção de que “o biológico no nascimento emoldura o social da aliança (. que também ressalta a característica própria das famílias homoparentais de “agitar” a idéia de justaposição entre procriação. por conseguinte. Após a experiência etnográfica. É de Flávia que irradia o motor principal na educação das filhas. desta forma. É a respeito deste ponto que desenvolverei uma segunda consideração crítica acerca de uma idéia que havia levantado na referida monografia de graduação: a de que a homossexualidade é concebida como algo tão construído socialmente quanto a heterossexualidade. o que o autor chama de “situação ideal” não se encaixe no contexto em questão: Flávia sente pelo ex-marido não procurar as filhas.biológicos são as “figuras de verdade” (sic) na educação dos filhos. desconstruir a teoria nativa. O que gostaria de aqui acrescentar.. Penso que este quadro faz repensar as bases daquela idéia de pluriparentalidade. busquei empreender um outro movimento. a “madrasta” vem para somar. Esta noção acabou orientando as análises para um caminho onde se buscava localizar na trajetória das mulheres entrevistadas indícios de que a lesbianidade era algo construído. e tentar não mais utilizar a teoria antropológica para. onde em apenas um deles o pai se faz presente.) não é mais adaptável à família homossexual”. há a mãe de Flávia. Conforme já apresentado.. uma vez que passa a ter um lugar reconhecido. por elas não estarem em um posição favorável para fazê-lo. repenso esta postura. Fabiana e Cecília –. o que parece delinear uma “família de mulheres”. 2001b:279-80 – livre tradução). Ele narra que nas situações ideais de recomposição homoparental feminina – que ele caracteriza como sendo quando o exmarido aceita a lesbianidade da mãe de seus filhos e continua presente na socialização e educação das crianças –. mas as ondas emitidas pelas demais também devem reverberar. não como concorrente ao do pai. no limite. O que dá a impressão é que. além de Luiza. E conclui: “o biológico não é mais o fundamento do social. surgem outras possibilidades – mais criativas – de desempenho dos papéis parentais. Na “equação” desta família considerada. Luiza e Antônio. Somando-se aos casos que analisei na pesquisa anterior. preza pela situação deste não interferir na educação que dá às meninas – esta não interferência do ex-marido é que parece ser a situação ideal para Flávia e Luiza. As conclusões do trabalho. desconsiderando. centraram-se fortemente em uma dimensão de escolha que suas narrativas claramente rechaçavam. é para ajudar”. Se eu estou em uma discussão entre quatro lésbicas – como 71 . baseando-me nesta experiência etnográfica. o que o discurso delas sobre o caráter essencializador (o ser lésbica) poderia informar. mas não por uma soma dos três componentes Flávia. Parece-me que na pesquisa anterior. Este fato ressalta o caráter premente dos laços afetivos em detrimento daqueles de sangue nestas configurações familiares. talvez. repito-me chamando a atenção para este afastamento do ex-marido nas situações das famílias recompostas homoparentais femininas. um parentesco adicional baseado na eleição mútua. mas ao mesmo tempo. a pluriparentalidade pode ser percebida. o pai é eclipsado (pois não é eliminado por completo) e outras “figuras de verdade” entram em cena – no caso em questão.

Família em Processos Contemporâneos: inovações culturais na sociedade brasileira. In: KNIBIEHLER. Acredito portanto que a questão central não seja a de inferir se é ou não algo construído. 2. Ana Clara Torres (orgs. Helena. o caminho – da teoria antropológica para teoria nativa – deve ser repensado. por exemplo. de repente. Este “desalojar de certezas” é o que possibilita o avanço conceitual da antropologia. É ela. “Le bricolage de la parenté”. Família. é uma forma de acentuar esta violência. 1. penso que falar em homossexualidade construída quando os discursos nativos apontam sempre para o contrário. Este – a condição inata da homossexualidade – é um ponto de partida interpretativo fundante para a compreensão das trajetórias de Flávia. “Maternité et homossexualité”.ocorreu enquanto estive lá – na qual se afirma categoricamente que ser lésbica não é uma questão de estado. Maternité. Se a “violência da escrita” é inevitável. Tempo de Brasília: etnografando lugares-eventos da política. a etnografia não pode ser concebida como “uma produção de exemplos”. não posso simplesmente usar da teoria antropológica para tentar desconstruir este argumento e. 1. p. Cecília e Fabiana. Elizabeth. O sistema classificatório nativo é o propulsor das dúvidas. p. 2003. mas como dados que fazem a antropologia pensar. 1995. 2000. Deste modo. Yvone (org). Rio de Janeiro: Francisco Alves.91. Fofoca e Honra: etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares. penso que se deve refletir o que as categorias nativas – o sistema classificatório nativo – têm a abalar com relação às “crenças antropológicas”. Lila. CADORET.89. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Affaire privée. A teoria antropológica só pode avançar mediante um movimento infinito onde as dúvidas trazidas pela realidade etnográfica desafiam as certezas da disciplina (BORGES. Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ. mas de condição. 77. p. FONSECA. ed. ed.). Se elas contradizem o que antes havia sido exposto.282. ______. nº 2. que desencadeará rompimentos e arranjos familiares. ______. “Amor e Família: vacas sagradas de nossa época”. mas buscar compreender que orientação esta idéia promove na interpretação destas mulheres acerca de suas histórias de vida – em que medida esta concepção é um motor para certas formas de agir e pensar. In: RIBEIRO. affaire publique. 2003). Família e Rede Social. ed. vinculações políticas e religiosas. Antonádia Monteiro. Anne. 69. In: Compendre – Le lien familial. 1976. Luiza. 265. Ivete. e levá-lo a sério quer dizer pensá-lo como possibilitador de mudanças da prática acadêmica. a partir de uma análise da trajetória de vida delas. provar que a lesbianidade é algo de fato construído. RIBEIRO. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS. BOTT. Paris: Bayard. Claudia. Portanto. 2001(a). São Paulo: Loyola. 72 . França: 2001(b). BIBLIOGRAFIA BORGES.

C. La Pluriparentalité. 2. STRATHERN. “Ensaio sobre as variações sazoneiras das sociedades esquimó”. I. MAUSS. 136. Claude. II). p. MALINOWSKI. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. 1972. Rio de Janeiro: Zahar. Sexualidades Brasileiras.. Richard. Marcel. 290. Tristes Trópicos. Regina Maria (orgs). p. 1988. BETTAHAR. ed.330.326. In: LE GALL. 2002. In: OGDEN. 1974. K. ed.145. 1996. BARBOSA. Chicago: The University of Chicago Press. In: ______. In: PARKER. 235. 1955. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária.300. 3. Bronislaw. O Significado de Significado: um estudo da influência da linguagem sobre o pensamento e sobre a ciência do simbolismo.FOOTE WHYTE. São Paulo: Abril Cultural. 73 . “O problema do significado em sociedades primitivas”. 1. Didier. HEILBORN. Rio de Janeiro: Relume Dumará/ABIA-IMS-UERJ. Sociologia e Antropologia (vol. “Recompositions homoparentales féminines”. RICHARDS. Didier. Maria Luiza. The Gender of the Gift: problems with women and problems with society in Melanesia. In: ______. “Ser ou estar homossexual: dilemas de construção de identidade social”. Lisboa: Edições 70. A.242. p. (orgs). “Lição de Escrita”. p. Yamina (orgs). França: Puf. Berkeley/Los Angeles/London: University of California Press. 203. Marilyn. 1984. William. p. (Coleção Os Pensadores) ______. LÉVI-STRAUSS. 295. LE GALL. Street Corner Society: the social structure of an Italian slum. ed.

1925-2004 Carmen Gloria Godoy R. And in this context. Toda vez que dichos debates suponen la posibilidad de producir transformaciones en el ordenamiento social existente. desde comienzos de la década de 1990 asistimos a un proceso en el que se ha venido haciendo patente la relegitimación del poder de la jerarquía eclesiástica católica para influir política y legislativamente en temas de interés público. E nesse marco. y más recientemente sobre la distribución y acceso a la denominada “píldora del día después” o “método de anticoncepción de emergencia”(2). cggodoy@vtr. Entre otras razones. Profesora Escuela de Antropología. Palabras claves: Familia. no marco do impulso dado à modernização da vida privada. fundamentalmente en . Universidad de Chile. com respeito aos modelos familiares e os padrões de gênero. Magíster en Estudios de Género y Cultura. familia y modernidad En Chile. cggodoy82@hotmail. producto de su capacidad para ejercer presión en debates tales como la Ley de divorcio. Universidad Academia de Humanismo Cristiano. la legalización del aborto. if the social transformations derived from it had some impact in the discourse of the catholic hierarchy. Resumo Esta conferência apresenta os resultados de uma investigação enfocada no discurso católico institucional a respeito da família e os gêneros durante grande parte do século XX e começos do XXI. Abstract This paper presents the results of an investigation(1) focused in the catholic institutional discourse about family and gender during great part of the XXth century and beginning of the XXIst. se as transformações sociais derivadas disso tiveram algum impacto no discurso da hierarquia católica. gender relations. em função de determinadas iniciativas estatais implementadas no Chile na área social. Os objetivos de dita investigação apontavam a conhecer de que maneira foi-se articulando o discurso eclesiástico com o discurso e as ações do Estado chileno. familia y géneros en Chile. Key Words: Family. la educación sexual. with regard to the familiar models and gender patterns. já seja sob a forma de sua negação ou resignificação. in the frame of the impulse started to the modernization of the private life.Discurso católico. religion and State. Tradición. depending on certain state initiatives implemented in Chile in the social area. mención Humanidades. already be under the form of its denial or resignificance. relaciones de género. religión y Estado. The aims of the above mentioned investigation were pointing to know about what way was articulating the ecclesiastic discourse with the discourse and the actions of the Chilean State.net.com Antropóloga.

En este sentido. 75 . la actitud de la jerarquía respecto a la familia no sufrió prácticamente ninguna modificación durante los siguientes cuarenta años. que parecen acoger las transformaciones económicas. sufrió una suerte de actualización durante los últimos años que da cuenta de alguna manera de la profundidad de su influencia en la sociedad chilena. De hecho. que promueven modelos de familia y género hegemónicos. y a una “tradición vinculada a la identidad nacional que debe ser preservada como el elemento clave para enfrentar lo que se aprecia como una ‘crisis de la familia’(5). expresando -institucionalmente. cambios estructurales sobre todo en términos económicos y políticos.su interés por la problemática social y acogiendo desde de fines de la década de 1950. sociales y también políticos. que trasciende el ámbito de las creencias religiosas. sino también al creciente protagonismo que adquieren hoy los discursos conservadores acerca de lo privado. de carácter ya no sólo local sino también global(6).que en la aceptación de las nulidades matrimoniales como “mal menor”. y en el mundo en general. se consolidó una tensión permanente entre ambos actores. la posición e influencia de la Iglesia Católica en la vida pública no habría sufrido en el transcurso del siglo XX. una transformación tan radical como supuso su separación del Estado.donde los sectores más conservadores de la sociedad chilena levantan un discurso organizado en torno a “la nostalgia por el pasado”. lo que se refleja más en la oposición al divorcio por cuestiones doctrinales -afirmando la indisolubilidad del matrimonio. obispos y arzobispos –de distintos sectores de la Iglesia. Esto es. y a ésta como soporte del orden social establecido. la pregunta que surge apunta no sólo a la tan mentada discusión sobre la “modernidad incompleta” de la sociedad chilena. que osciló entre el pánico de la jerarquía católica ante la posible “destrucción” de la sociedad. La resistencia de la Iglesia a los cambios que se producían en la sociedad chilena. y no como la transformación de sus sentidos y funciones como resultado de procesos económicos. y una suerte de acuerdo tácito en ciertos momentos claves y frente a situaciones específicas. a partir de mediados de los años sesenta. pero continúan sobrevalorando los roles de género tradicionales al interior de las familias. porque no obstante. No obstante. no así como instrumento y/o expresión de las transformaciones ocurridas a lo largo de casi un siglo. el repliegue de su esfera de influencia exclusivamente a la orientación espiritual de los creyentes (3). ya a fines del siglo XX. asociada a una identidad cultural. Es en el denominado “debate de temas valóricos” que comenzó a tomar forma en el país en los inicios de la década de los noventa –coincidentemente con el retorno a la democracia. existe una suerte de imaginario compartido por todos aquellos que de una u otra forma hemos recibido una formación católica. sociales y políticas de carácter global. A partir de la separación constitucional del Estado chileno y la Iglesia en 1925. en cuanto éstas son reconocidas como situaciones fraudulentas a las que se les debe poner freno. las distintas corrientes y movimientos que conforman la Iglesia Católica. la familia y la patria. y los roles asignados a hombres y mujeres en las relaciones sociales de género. y que otorga sentido a las relaciones sociales(4).las concepciones tradicionales sobre lo masculino y lo femenino. se proyectó entonces hacia el mundo de lo privado.en los debates sobre la familia. precisamente porque la importancia de la voz de sacerdotes. Ello.

sin embargo. le da una profundidad simbólica mayor a la institución familiar. Son los hijos de los hogares disueltos por el divorcio. Enero-Abril 1955.. “Acerca de la familia cristiana”. Nadie puede ignorar la importancia que para el progreso de una Nación tiene la familia bien constituida y estable. su importancia radica en que asegura los derechos civiles de los contrayentes y sus hijos.La persistencia ideológica del discurso Si bien durante el transcurso del siglo XX y sobre todo a mediados de los años sesenta.. necesariamente. Caro Rodríguez (21de Enero 1955) (R. para asegurar a sus hijos y esposos sus derechos civiles. pero eso no le otorga necesariamente legitimidad moral a la unión. 5 agosto de 1964) 76 . (Declaración del Comité Permanente de Episcopado a propósito del proyecto de Ley de Divorcio Civil. los que en el futuro se constituirán en una amenaza contra la sociedad.) La Santa Iglesia. El llamado Matrimonio Civil (..218) No obstante. que la que tendría sólo por el hecho de apelar al ordenamiento social. La metáfora de la nación como familia. Debilitar la familia es también. Para mediados de los años ‘50. vigente en los pueblos no cristianos (. José María Card. es el del “esclarecimiento” de una madre que habla a la conciencia de “sus hijos”. la indisolubilidad de las uniones y luego. El interés por el Bien Común. más adelante será tanto la estabilidad social como cultural la que se juega en la indisolubilidad del matrimonio.C. El rol que la Iglesia dice tener en este aspecto. y favorecer en ellos el resentimiento contra una sociedad que no les brindó el amor y la seguridad que necesitaban y a que tenían derecho. manda que todo matrimonio se inscriba en el Registro Civil. de forma tal que el amor y la seguridad son derechos que sólo se obtienen al interior de una familia fundada en el matrimonio. N°971. A lo largo de casi ochenta años el matrimonio religioso. si bien la concreción ( al menos oficial) del proceso de secularización que se lleva a cabo mediante la separación de la Iglesia del Estado genera resistencia por parte de aquélla y de los sectores conservadores. La disolución de los hogares suele causar en los hijos heridas psicológicas profundas. debilitar la Nación.) no es el matrimonio primitivo establecido por Dios en nuestros primeros padres. Pastoral. se termina por reconocer la obligatoriedad del matrimonio civil pero siempre relevando su carácter antinatural. civil y religioso. también lo mandan las leyes del Estado y deben observarse por todos los ciudadanos. no es más que el interés por preservar la fortaleza de la nación. p.las bases ideológicas del discurso católico en torno a la familia y los géneros no sufrieron una modificación sustancial (7). el rol de las mujeres en la vida social han tenido fuerte presencia como temas de debate en sí.. y como elementos que constituyen las bases del orden social. De esta forma. se produjeron sucesos importantes que aparecían como promesas de cambio -entre ellos la celebración del Concilio Vaticano II y la emergencia de nuevas corrientes de pensamiento de carácter latinoamericano.

ya que la reflexión sobre la familia progresivamente irá replegándose sobre sus propios límites. 6 de febrero de 1971) El divorcio. las relaciones entre Iglesia y Gobierno fueron difíciles. que plantea que una sociedad menor (la familia) no puede abandonar en una sociedad mayor (el Estado) responsabilidades que le son propias.No obstante. expuestos a situaciones de vulnerabilidad. en la medida que se consideraba que la crisis política recientemente experimentada por el país. gran parte de la relegitimación del poder de la Iglesia en la regulación de las prácticas del mundo privado se apoyaría hoy en la autoridad moral que le confirió su preocupación por los problemas sociales y su defensa irrestricta de los derechos humanos durante el régimen militar. y especialmente a los sectores populares. así como una legislación que proteja mejor los derechos de la mujer abandonada y de los hijos. La Política de población del año 1979. la actitud que la institución adoptó una vez que retornó la democracia al país. sino al contrario como un factor que contribuye al empobrecimiento de las mujeres. muy superior a la que tuvo en otros gobiernos. y sólo en materia familiar y reproductiva llegaron a puntos de consenso. resumió la postura de aquel respecto al uso y difusión de ciertos métodos anticonceptivos. y se convirtió en el espacio físico y simbólico donde se desarrollará la vida de los ciudadanos. Se estableció que el Estado no podía interferir en las decisiones que los grupos familiares tomaran respecto a la planificación familiar. ya que permitiría que el varón se desligue de todas sus responsabilidades con respecto a su esposa y sus hijos. Una vez instalados los militares en el poder. será visto no como una solución. sobre todo de las mujeres y los niños. cabe destacar el hecho que durante el período dictatorial claramente la familia adquirió una importancia fundamental. y especialmente sobre la práctica del aborto (8). Hay mucho que hacer por la familia en Chile. El primer aspecto se expresó en su preocupación – afianzada en la mirada crítica al capitalismo y al marxismo que planteaba la encíclica Laborem Excersens. Si bien la familia permanece como un espacio “moralizante”. sobre todo por las familias más desposeídas: mucho que hacer de positivo por su afianzamiento. argumentando el carácter cristiano del “pueblo chileno” y el principio de subsidariedad del Estado. las denominadas “encíclicas sociales” introdujeron un cambio en la mirada sobre los problemas de los sectores más pobres de la sociedad. Sugerimos. también había tocado a la familia. (“Matrimonio y Divorcio” Declaración del Comité Permanente del Episcopado. y que requieren de soluciones concretas. no obstante. Una vez finalizada la 77 . se reconocen situaciones de hogares “mal avenidos” y violencia que desestabilizan internamente a las familias. La familia fue relevada como una metáfora de la nación chilena (9). en vez de planear la forma legal de su posible disolución.por la manera en que los problemas económicos generados por la implantación del modelo neoliberal afectaban a la población. en este sentido. y similar tal vez a lo que sucede actualmente cuando la discusión sobre el tema se ha extendido a todas las áreas de la vida social. que son generalmente los más afectados por las situaciones irregulares. Ahora bien. por vía de ejemplo. Esto parece contradecir. No obstante. una política más orgánica de asignaciones familiares.

el entonces arzobispo Carlos Oviedo reflexionaba sobre el abandono generalizado de la moral natural. a principios de los años noventa también se produjo temor e inquietud en la institución eclesiástica. centrados en los temas de sexualidad y familia. la cual aparece como elemento cohesionador no sólo de la sociedad sino también de la identidad cultural. remarcando el peligro del divorcio y el aborto. en el que la familia adquiere un papel protagónico en la definición de las identidades individuales y colectivas. ésta podía participar en la elaboración de diagnósticos y la definición de contenidos escolares referidos al tema. de tal manera que la educación sexual se convirtiera en una tarea que comprometiera a la sociedad. generaron una fuerte oposición de la jerarquía eclesiástica. también generó una fuerte reacción. con la familia y el matrimonio como sus bastiones principales. y focalizada en la familia. la Política de Educación en Sexualidad elaborada por el Misterio de Educación en 1993. caracterizado por su tendencia conservadora y restauradora. en este sentido.dictadura. la controversia con la Iglesia no se hizo esperar. Las nuevas libertades conseguidas y la reaparición de ideas y conductas silenciadas por años. Así como en 1925 la separación del Estado generó temor a los cambios. el escenario de nuestro actual “drama” social. tal como en 1925. esto se ajusta a la política que desde el Vaticano se ha venido desarrollando intensamente a partir del papado de Juan Pablo II. Inaugurando en cierta forma. ni en la vida privada ni en la pública”. En ese contexto. ya que la discusión del proyecto de Ley de divorcio en el Congreso y la anticoncepción de emergencia. La presentación en el año 1998 del proyecto de Ley de matrimonio civil que se concretó finalmente en el 2004. en el marco de la “amenaza” que subyace en el proceso globalizador. y se requería también de la colaboración de distintos actores. y la educación se convirtió en una estrategia para promover planes propios en los establecimientos educativos de orientación católica. apoyándose para ello en organismos privados que comparten esa mirada. concentró estos esfuerzos orientando su acción hacia la formación de agentes pastorales y el desarrollo de cursos de preparación al matrimonio. retornó con mayor fuerza un discurso crítico sobre las transformaciones en las conductas y opciones individuales. Evidentemente. articulándose con centros de orientación y mediación familiar dependientes de instituciones de educación superior y técnico-profesional de orientación católica. que instala un debate sobre los límites de la moral individual y colectiva. tuvo importantes repercusiones durante los años posteriores. Frente al temor al “mal uso” de la libertad conseguida. generaron el escenario propicio para instalar en el año 1990 un debate que fue conocido como la “crisis moral”. En dicho documento se señalaba que si bien la educación sexual era primariamente responsabilidad de la familia. constituyéndose junto a los derechos sexuales como los dos ejes fundamentales del periodo 2000-2004. sobre todo entre quienes se autodefinían como católicos pero no aceptaban “la moral de la Iglesia. y se manifiesta el repliegue hacia una moral conservadora. lo que revela una cierta contradicción entre las críticas al modelo económico neoliberal 78 . La creación de la Vicaría para la Familia en 1998. entre otras actividades. La tensión respecto a las acciones del Estado. No obstante. la atención a parejas con problemas. vuelven claramente a un punto de quiebre.

proyectada desde lo físico a lo simbólico. Los discursos conservadores acerca de lo privado adquieren creciente protagonismo promoviendo modelos de familia y género hegemónicos. específicamente los derechos sexuales y reproductivos. y esta suerte de alianza generada en pro de la “defensa de la familia”. la paulatina emergencia de nuevos proyectos políticos y sociales. acogen formalmente las transformaciones económicas. convirtiéndola en una amenaza permanente. y consistente. la resistencia a los avances de un mercado deshumanizante. También desde los años noventa. que las alianzas mencionadas surgen en una coyuntura histórica muy particular. este discurso hegemónico que articula la posición de la Iglesia con la de los sectores más conservadores de la sociedad. y a ésta como soporte del orden social establecido. vinculada a grupos políticos y empresariales conservadores. no una ley natural. Sin embargo. la religión -y que en el caso de la religión católica se le asigna el carácter de elemento constitutivo de la identidad chilena. pero adhiriendo a la vez a una moral conservadora en el ámbito de las relaciones sociales. aparece como la otra columna del debate que se ha desarrollado con intensidad desde los años noventa. A esto se agrega la alta convocatoria generada en estos sectores por movimientos católicos de carácter ultraconservador tales como Opus Dei y Legionarios de Cristo. Cabe recordar en este sentido. se opone a la comprensión de las diferencias sexuales desde la categoría género. Así. No obstante. en 79 . ante una sociedad que funciona sobre un modelo económico agresivo. también podría llegar a traducirse en la resistencia a establecer un diálogo con individuos que no se rigen por la moral católica y todo lo que ella implica en cuanto estilo de vida. sociales y políticas de carácter global. y acentuado con el último gobierno de la Concertación de Partidos por la Democracia. para unificar cuerpo y espíritu. Así como en la creación de instituciones como Fundación Chile Unido. De esta forma. Por otra parte. el tema de los derechos sexuales y reproductivos. En este sentido.vuelve a ofrecer sentido a la experiencia humana. precisamente porque en ella tales diferencias operan como una construcción histórico-cultural. rechazando toda forma de intervención estatal en lo económico y exaltando las ventajas del libre mercado. pero continúan sobrevalorando los roles de género tradicionales al interior de las familias. la maternidad continúa siendo determinante. La necesidad de establecer consensos como una manera de asegurar la estabilidad política y social desvía el conflicto hacia la sexualidad. la diferencia fundamental que la Iglesia plantea entre hombres y mujeres.que produce la desigualdad como consecuencia de la injusta distribución de la riqueza. con una importante presencia en los medios de comunicación a través de campañas en contra del aborto y a favor del “fortalecimiento de la familia”. es sólo la identidad de las mujeres la que aparece más expuesta a los riesgos de que sus funciones biológicas predominen en la definición de su “esencia”. no así como instrumento y/o expresión de las transformaciones ocurridas a lo largo de casi un siglo. presentándose como una fuente valórica y un discurso convocante frente a la ausencia. o más bien. Sin embargo. algunos sectores empresariales y políticos han venido manifestando un “tradicionalismo ideológico”. convirtiendo así a la familia más que en un lugar de socialización primaria y de constitución de afectos. la familia y los derechos de las mujeres. las identidades tanto de hombres como mujeres dicen ser concebidas desde principios que trascienden su condición biológica.

familia y géneros. promovió la participación de los laicos en movimientos apostólicos no partidistas y mantuvo estrechas alianzas. prohibiendo a los sacerdotes participar en actividades políticas. representada por la Virgen-Madre y vinculada a 80 . 2. 4. Discurso católico. Sofía. Este trabajo abordó. cuyo componente es el Levonorgestrel. CEDEMFLACSO. “Iglesia y política: el colapso del partido conservador”. N°30. Universidad de Chile (2005). Ver también de Hans Küng.aprofa. pp. si bien como se plantea.y fue realizado como tesista dentro del marco de un proyecto más amplio del Fondo Nacional de Ciencia y Tecnología (FONDECYT) N°1030150. correspondiente al artículo: “Discurso católico. “Modernización y vida privada en tres grupos sociales de Santiago”. Las divinidades masculinas fueron desplazadas de su lugar dominante. aunque de carácter informal. Si bien el Vaticano aceptó desde mediados de los años ‘20 la separación de la Iglesia del Estado. De acuerdo a la Asociación Chilena de Protección a la Familia (APROFA). segundo semestre 1991. Santiago. un accidente anticonceptivo o de una violación. y desde la perspectiva de algunos autores constituye el eje articulador de una cultura mestiza latinoamericana que producto del proceso de conquista y colonización. más conocido como “píldora del día después”. Mondadori. La polémica se suscitó ante la posibilidad de acceder libremente al fármaco Postinor 2.Notas 1. 1925-2004. Correa. para evitar ser atacada por los regímenes fascistas que comenzaban a instalarse en Europa. mención humanidades: Acerca de la familia cristiana. 2002. DIBAM. La Iglesia Católica. En: Candina. También se basa en un trabajo anterior de la autora sobre los contenidos de La Revista Católica – publicación oficial de la Iglesia Católica en Chile. familia y géneros. Su venta se hace con receta médica retenida. la Iglesia continuó aliada al Partido Conservador –de carácter confesional y al cual el clero apoyaba explícita o implícitamente. y “sobre ellos se posó la figura de una diosa poderosa. En Chile. con los partidos católicos. Revista de Humanidades y Ciencias Sociales. entre otras razones por su común temor al comunismo. Asociación Chile de Protección a la Familia (APROFA) Disponible al 14 de septiembre de 2005 en < http://www. Barcelona. Santiago. Fuente: “Anticoncepción de Emergencia”. en Mapocho. 2005. Reflexiones sobre el mundo privado. Es claro que no es posible caracterizar el pensamiento de la Iglesia Católica como unitario y homogéneo.cl> 3.hasta fines de la década de 1950. Colección de Investigadores Jóvenes.al. sobre la base de la revisión de un extenso corpus documental. las identidades y roles femeninos y masculinos -incluyendo la dimensión sexual.un espacio constrictor y tensionado que impide la afirmación de los sujetos y la construcción de nuevas formas de convivencia social. Azún et. Síntesis realizada sobre la tesis para optar al grado de Magíster en Estudios de Género y Cultura. sustenta un imaginario cultural tanto en Latinoamérica como en Chile. la Anticoncepción de Emergencia consiste en una serie de métodos orientados a evitar el embarazo antes de que transcurran 72 horas de haber realizado un coito sin protección.137-138. Conservadurismo y Transgresión en Chile. supuso la conformación de un ethos y una nueva cosmovisión. La Revista Católica entre 1925-2000”. el discurso católico acerca de la familia y el matrimonio.entre los años 1925 y 2000.

585 (1998) que modifica el Código Civil. Vida privada. En: Candina. En 1989 la dictadura militar eliminó esta excepción.las divinidades femeninas precolombinas. tales como la Convención para la Eliminación de todas las formas de Discriminación contra las Mujeres (CEDAW) y la Convención sobre los Derechos del Niño y de la Niña.. y la nueva Ley de Matrimonio Civil (2004) que sustituye la ley de 1884. Santiago. en Mapocho. 1999. sin embargo. Madres y Huachos. Dichas transformaciones se expresan entre otros fenómenos. Azún et. Artículos 342 A y 245. Foro Red de Salud y Derechos Sexuales y Reproductivos.688 (2000) que establece el derecho de las alumnas embarazadas de continuar sus estudios.al. Revista de Humanidades y Ciencias Sociales. Ver de Sonia Montecino. y entre otras. 6. Ms. Carmen Gloria. Sofía. Chile.cl > 9. y se considera como un problema de salud pública que afecta principalmente a las mujeres (las leyes contra el aborto se encuentran en el Código Penal. 8. Ximena y Araujo K. Godoy Ramos. Disponible al 14 de septiembre de 2005 en < http://www. Este tema fue desarrollado más ampliamente en el trabajo realizado como tesis para optar al grado de Antropóloga Social. a través de una serie de reformas tendientes a la promoción de la igualdad y democratización en las relaciones entre géneros y generaciones. segundo semestre 1991. En Chile el aborto está penalizado en todas sus formas. p. El “modelo mariano” ejercería así fuerte influencia en la conformación de las identidades de género femenina y masculina. la que sigue sin ser revocada. la promulgación de la Ley de violencia intrafamiliar 19. N°30. el aborto terapéutico constituyó una excepción permitida por el Código de Salud entre 1931 y 1989. Alegorías del Mestizaje chileno. No está demás recordar que la Iglesia Católica opera en términos de universalidad. al considerar que toda mujer cuya vida estuviera en peligro podía solicitar un aborto si contaba con la aprobación de dos médicos. Universidad Academia de Humanismo Cristiano. la Ley 19. y sobre la base de un poder vertical. otorga validez al matrimonio religioso y establece el divorcio vincular. Valdés S. Conservadurismo y Transgresión 81 . Centro de Estudios para el Desarrollo de la Mujer (CEDEM). así como a diversos aspectos de su mitología”. “Iglesia y política: el colapso del partido conservador”. Santiago. Femenino y masculino en el régimen militar.31. Referencias bibliográficas Correa. de tal manera que las acciones de las iglesias locales deben ajustarse a los preceptos emitidos desde el Vaticano adaptándolos a sus particularidades culturales. 65 5. 7. igualando a los hijos nacidos dentro y fuera del matrimonio. DIBAM. Editorial Sudamericana. La Revista Católica entre 1925-2000”. la Ley 19. “Discurso católico.forosalud. Fuente: “Aborto en Chile”. 1996 (1ª ed. Modernización agraria y modernidad. Santiago. bajo la denominación “Crímenes y Delitos contra el Orden Familiar y la Moralidad Pública). 1991) p. 1973-1986”. Santiago. familia y géneros. “Identidad nacional.325 (1992). 2001. Katia.

Ms. 2002. Hans. Seminario Pontificio Mayor. Santiago. Caro Rodríguez (21de Enero 1955) (R.127. Pastoral. ------------------------------------------.cfg.C.) “Aborto en Chile”. Oficina de Planificación Nacional (ODEPLAN). Política Poblacional.Acerca de la familia cristiana.. (Versión electrónica disponible al 31 de marzo 2005 en <http://www. 2001 (4º ed.“Identidad nacional. “Acerca de la familia cristiana”. Universidad de Chile. La Iglesia Católica. 1996 (1ª ed. Discurso católico. 5 agosto de 1964 (Versión electrónica disponible al 31 de marzo 2005 en <http://www.cl >) 82 . 6 de febrero de 1971(Versión electrónica disponible al 31 de marzo 2005 en <http://www. Sonia. CEDEM-FLACSO.en Chile. Tesis para optar al grado de Antropóloga Social. Reflexiones sobre el mundo privado.uchile. Chile. abril 1979. 1925-2004. 1973-1986”. Barcelona.cl>) Presidencia de la República de Chile. 2005.forosalud. 15 de agosto 1998 (Versión electrónica disponible al 31 de marzo 2005 en <http:// www. Alegorías del Mestizaje chileno. José María Card. Katia. Vida privada.iglesia. Santiago. Editorial Sudamericana. Fuentes documentales La Revista Católica. Foro Red de Salud y Derechos Sexuales y Reproductivos. 1999.cl>) “La Iglesia Católica y el Proyecto de Ley sobre Matrimonio Civil”. juventud y sociedad permisiva”. Montecino. Santiago. Carlos Oviedo. 19252000. Ms. Política de Educación en Sexualidad. --------------------------------------. N° 971. Universidad Academia de Humanismo Cristiano. mención Humanidades. Ximena y Araujo K. Números 563-1. Conferencia Episcopal de Chile. Enero-Abril 1955. Femenino y masculino en el régimen militar.iglesia. Küng. Santiago. (Disponible al 14 de septiembre de 2005 en <http://www. Centro de Estudios para el Desarrollo de la Mujer (CEDEM). Modernización agraria y modernidad. familia y géneros. “Moral.iglesia. 2005. Santiago. Carta pastoral 24 septiembre 1991. Hacia un mejoramiento de la calidad de la educación. Tesis para optar al grado de Magíster en Estudios de Género y Cultura. 2001. Declaración del Comité Permanente de Episcopado a propósito del proyecto de Ley de Divorcio Civil. 1991) Valdés S. Madres y Huachos. Colección de Investigadores Jóvenes. Arzobispo de Santiago. Santiago. Mondadori.cl>) Ministerio de Educación de Chile.cl>) “Matrimonio y Divorcio” Declaración del Comité Permanente del Episcopado chileno. Santiago.

“Anticoncepción de emergencia”.cl >) 83 . Asociación Chile de Protección a la Familia (APROFA) (Disponible al 14 de septiembre de 2005 en <http://www.aprofa.

RESUMO: En este trabajo se hace una caracterización de la condición del hombre y de la mujer. y el desempeño de cada uno de ellos en el desarrollo de la familia como unidad básica de la sociedad.AUTOR/A: Dialvys Rodríguez Hernández INSTITUIÇÃO: Centro De Antropología. estudiando la influencia que esto ha tenido en el nivel educacional. Ministerio De Ciencia. es la mujer la máxima responsable del mantenimiento de la familia y la más afectada en los índices analizados. El Vallecito y La Bajada. el estatus laboral. E-MAIL: dialvys@yahoo. 84 . Tecnología Y Medio Ambiente (Citma). enclavadas en la Península de Guanahacabibes. Ciudad De La Habana. enfocado desde una perspectiva de género.es TÍTULO: Una Perspectiva De Género: El Hombre Y La Mujer De La Reserva De La Biosfera “Península De Guanahacabibes”. Cuba. Se analiza el papel del hombre y la mujer en el quehacer cotidiano de estas comunidades. Pinar del Río. a la población que habita en las comunidades El Valle de San Juan. e incluso en los índices de salud y el estado nutricional de cada individuo. Como ha sido reportado anteriormente.

heteronormatividade.ou?? Perguntava-me se haveria uma outra possibilidade de compreensão que não passasse necessariamente por estas categorias. de classe média. rearranjos identitários (compreensão sobre si mesmo.. experiência reconhecida como heterossexual. rearranjos familiares (mudança na relação com filhos. Palavras-chave: Gênero. masculinidades. até mesmo porque. Professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). No doutorado estou desenvolvendo uma pesquisa etnográfica junto a homens “maduros” (acima dos 30 anos de idade). bissexuais. Orientadoras: Profª Drª Miriam P. em processo. em determinado momento.. quando pensava sobre as referências teóricas necessárias para me ajudar a compreendê-lo. que viveram uma longa experiência afetivo-sexual-conjugal com mulheres. subjetividade. sexualidade. parentes. sua sexualidade) e a adoção de um vínculo nomeado e reconhecido por “homossexual” (esta é a expressão corrente entre os informantes) por se tratar de uma relação com alguém do mesmo sexo. na linha de Estudos de Gênero. Rio Grande do Sul. me peguei indagando se esses homens seriam homossexuais. Tal envolvimento implicou em separação (das esposas). como refere Joel Birman (1999). etc. Grossi e Profª Drª Mara Lago. Mestre em Educação (UFRGS). Doutorando no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas (UFSC). Autor: Eduardo Steindorf Saraiva Psicanalista. identidade. urbanos. nível superior.Título : Performances do querer: masculinidades que se reinventam. existem novas modalidades de inscrição das subjetividades no contexto atual das sociedades contemporâneas. heterossexuais.). Este artigo é fruto de uma inquietação que assume uma forma de investigação acadêmica que está em andamento. tornando necessário repensar os fundamentos de nossa leitura da subjetividade: . mas que em algum momento de suas vidas se vêem envolvidos de forma muito intensa com outro homem. Logo no início dessa minha aventura pelo campo.

são tecidas ali. dadas a priori. Nesse sentido. pois.“Trata-se.” (p. interiores.2003). O que não significa negar a sua materialidade. 2000. realidades lingüísticas. principalmente daqueles fundamentos que sustentam um caráter natural e/ou essencial para as identidades. tornando-as substâncias. sem que haja uma investigação sobre como são dados o sexo e/ou gênero e por que meios? Afinal.16) Tal pensamento me ajuda a justificar e dar consistência ao que percebo como crucial para aqueles que se propõem a investigar os novos territórios subjetivos. existência concreta. do sentimento amoroso. ou seja. uma das primeiras questões que coloco é: o que faz alguém se reconhecer. nomear o que sente e o que vive enquanto algo homossexual? Heterossexual? Bissexual? Com base em que e no que pode o sujeito afirmar que o seu desejo é homossexual? Ou. significadas. O fato é que são realidades vividas e sentidas. tal como Foucault 86 . não se trata simplesmente de um dado da natureza. nomeadas. a indagar sobre o lugar do desejo nas experiências dos meus informantes. que foi heterossexual e agora é homossexual? Com certeza. Mesmo as experiências consideradas mais íntimas. porém são vividas pelos sujeitos como se fossem. estas perguntas remetem para a noção de sexo e de como esta noção é construída de dentro da matriz heterossexual (BUTLER. portanto construídas na articulação sujeito/subjetividade/cultura/sociedade. então. e da relação entre desejo/amor/sexualidade. Significa sim. Comecei. o necessário trabalho de pôr em questão alguns dos “fundamentos normativos” que operam no sentido de confinar as subjetividades em “identidades”. Partilho de uma concepção na qual tanto as categorias hetero/homo/bi quanto desejo/amor/sexo não são “naturais”. essenciais. das recomposições desejantes. afirmar na via de uma investigação crítica. estão inscritas na linguagem. está inscrito historicamente. singulares. Parafraseando Butler (2003) pergunto: podemos referir-nos a um “dado” sexo ou um “dado” gênero. individuais (e o são!) como as experiências sexuais ou desejantes. o que não significa que estejam para sempre prisioneiras de um único sentido ou significado. Ou seja. sua corporeidade. de pensar nos destinos do desejo na atualidade. já que esses destinos nos permitem captar o que se passa nas subjetividades. o que é o “sexo”? Qual a concepção de sexo que autoriza o uso da expressão “pessoas do mesmo sexo?” Estas perguntas já indicam a direção conceitual que irei tomar: acredito que o sexo tem história.

do sexo-comoinstrumento-de-significação-cultural. lembrou que quando sua esposa viajava. antes disso somente quando criança. Algo como: gostou do que viveu. isso estimulava fantasias. em uma determinada ocasião enquanto assistiam a um filme. da sua “natureza”. Trouxe lembranças sobre estratégias de encobrimento do desejo homossexual. nunca concretizadas. entendo que não se trata de buscar as origens do gênero. investigar as apostas políticas. Conta que “rolou tudo” penetrou e foi penetrado. Tal como na crítica genealógica. na verdade. reprimido. Poucos anos depois desta experiência. Nesse sentido. Um amigo muito próximo. pergunta se o que viveu na experiência com o amigo poderia ter precipitado sua “necessidade” de casar. desejo. 2003: 66) Para dialogar com a teoria. nas suas palavras: “com ele senti prazer pela primeira vez”. um episódio que ocorrera por volta dos seus 17. são efeitos de uma formação específica de poder. que precisa ser “controlado”. Foi a primeira experiência com alguém do mesmo sexo nesse período da vida. são efeitos de instituições. designando como origem e causa categorias de identidade que. práticas e discursos cujos pontos de origem são múltiplos e difusos.”(Butler. “o próprio conceito do sexo-como-matéria. lembra que começou a fazer comparações entre esta e as experiências sexuais que havia tido com namoradas. Percebo através deste fragmento. a verdade íntima do desejo. Marcos se casou. ele alugava filmes pornográficos gays. Afora as experiências sexuais na infância com os primos. Após essa experiência sexual com o amigo. mas sentiu medo do que poderia vir pela frente (mudança de orientação sexual). MARCOS. ao invés disso. uma identidade sexual genuína ou autêntica que a repressão impede de ver. 32 anos: Lembra de um evento da sua adolescência. começou a tocá-lo. gênero. expressão. que para este informante o desejo sexual está compreendido enquanto algo.propõem na genealogia. E então percebeu. Ao relembrar estes eventos. a opção por casar-se com 87 . irei trazendo alguns fragmentos das entrevistas que venho realizando com os meus informantes. Por exemplo. gostou da experiência. que as categorias fundantes do sexo. então resolveu casar para se proteger. 18 anos. e a experiência com o amigo na adolescência. meu informante afirma que durante o tempo em que foi casado não teve qualquer relacionamento homossexual. e ele deixou. em brincadeiras com os primos. é uma formação discursiva que atua como fundação naturalizada da distinção natureza/cultura e das estratégias de dominação por ela sustentadas. Reprimir o quê? Por quê?De que forma? Neste caso. intensa.

E quando adulto? Quando eu olhava um filme que envolvia um homossexual. Tanto que todos os meus amigos da adolescência eram heterossexuais e eu também. 46 anos: Isso estava adormecido dentro de mim. Onde localizar a estratégia de dominação? No fato de que este sujeito irá produzir. O trocatroca. aquilo me despertava. tinha aquela história de grupinho de colégio. até conhecer a minha esposa. Era neste sentido. A gente brincava. Aparece aqui essa forte relação. todas as crianças devem fazer isso. como se fosse uma tensão absolutamente natural.E as fantasias passaram? Sim. e não uma estratégia de dominação forjada pelas normas regulatórias do sexo. imediatamente. entre casamento e ideal heterossexual. nada... Aquela coisa de um segurar o pênis do outro. eu não queria nem pensar no assunto. As brincadeiras de guri. íamos nos barzinhos. Mas aí. . Outro filme foi sobre a história de um padre que teve uma relação com um cara. me deixava excitado.. uma identidade. Eu tinha muitas fantasias na adolescência. do contato. eu tive uma experiência com um primo meu. . Mas acho que isso é normal. . Por que você tomava essa atitude? - 88 . inexoravelmente. Aquela relação dele. Logo depois eu fiquei noivo.E nunca rolou nada? Não. Aquilo me bloqueava logo em seguida. Como se casando com uma mulher afirmasse o desejo heterossexual. . do proibido. instituída historicamente. Eu me casei com 27 anos. A questão é: ele não poderia desejar também a mulher? Acredito que sim. tive uma namorada. Concursos de masturbação quando era mais guri. Entendo que a sua fala remete para a tensão naturezaXcultura. de amigos que tinham namoradas.Você não fazia nenhuma questão de ver o que era? Não. quando é a própria noção de “natural” que é forjada para produzir.Você era casado? Sim. fazia gozação.. Mas na minha infância. A estratégia de dominação está em fazer acreditar que a identidade é natural. .. Calígula. uma identidade. qual lugar: de homem heterossexual.uma mulher foi uma tentativa estratégica.. nada. de nu. PAULO.E aí o que você pensava? Que não tinha nada a ver. por volta dos 26 anos. Precisava encontrar um lugar na cultura. . Como eram as tuas fantasias? Era uma coisa de corpo. Identidade homossexual. com a vida social do colégio. de toque. quando eu tinha 8 anos. Na época. do beijo. por oposição e exclusão do que viveu. nunca mais.

Na fala deste informante destaco as expressões “isso”. Foi aí que eu comecei a questionar. não sei. Mas talvez possa ter sido por causa dos filhos. alguma coisa está errada. se eu gostava e se eu dava prazer. Então se eu sentia prazer. por causa do meu casamento. Eu não chegava a questionar isso. ter uma esposa. uma casa .. Tinha prazer e dava prazer. É tudo bem lógico no seu contexto. porque eu tinha escolhido outra vida pra mim. p.. A minha relação de ser pai. e que era isso que eu queria. porque eu tinha uma relação sexual que eu tinha prazer. O que não poderia irromper? A natureza? Instinto? Muito interessante a tensão que ele refere entre o que “tinha escolhido” e aquilo que ele nem queria pensar. Ele não é um simples fato ou a condição estática de um corpo. o sexo do homem e o sexo da mulher. Tem que procurar resolver isso. É o desconforto. que uma característica atribuída ao sexo e muito articulada ao conceito de homossexualidade. o desassossego. “adormecido”. o que é o “coerente”? Aí percebemos a força da estratégia de dominação. desde o início. Se você tem uma relação e se sente bem insatisfeito com ela. pois afirma ter tido experiências prazerosas e com muito sentido em sua vida. eu não cheguei a analisar muito bem isso. Foi aí que eu tive a primeira experiência.. percebi que eu gostei mais desta relação homo.” (BUTLER. eu estava me sentindo bem sexualmente. Tal característica fundamenta a idéia de heterossexualidade e homossexualidade. Para não ficar “incoerente” precisa recorrer a uma identidade. fala como se fossem experiências impossíveis de coabitarem no mesmo sujeito. Estava muito legal. Seria inominável? Perturbador? Este sujeito vinha mantendo uma coerência dentro daquilo que é socialmente esperado. 2000. Até que o próprio desgaste da relação trouxe à tona essas minhas fantasias. Acordar “aquilo” significaria produzir uma incoerência. para materializar o sexo do corpo e a diferença sexual a serviço da consolidação do imperativo heterossexual (Butler. Tanto assim o é. Isso tudo tinha ficado adormecido este tempo todo. Eu não me sentia insatisfeito. Porém. 89 . é parte de uma prática regulatória que produz os corpos que governa: “o sexo é um construto ideal que é forçosamente materializado através do tempo. era tudo perfeito. “aquilo”.155) As normas regulatórias do “sexo” trabalham de uma forma performativa para constituir a materialidade dos corpos. é a propriedade de ser dividido em dois.Olha. Não era o meu caso.. 2000). Do que está falando? Do controle? Não somente. Por isso que a categoria do “sexo” é. mas um processo pelo qual as normas regulatórias materializam o sexo e produzem essa materialização através de uma reiteração forçada destas normas. Então sim. normativa. Entretanto.

desejo e prática. para mostrar a marca do paradigma naturalista que estabelece uma continuidade causal entre sexo. (BUTLER. Os gêneros “inteligíveis” são aqueles que. instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo.Por que? Pela postulação dos princípios: atração pelo sexo oposto. ao contrário. mostrando sua fórmula socialmente instituída. gênero. ele está diretamente relacionado à sexualidade. trago um exemplo que tomei de Jurandir Freire Costa: “Em 1837. homem ou mulher. Entendo que é a este “eu verdadeiro” que os informantes se referem quando remetem à noção de essência. Supõe-se que a unidade metafísica dos três seja verdadeiramente conhecida e expressa num desejo diferenciador pelo gênero oposto – numa forma de heterossexualidade oposicional. sendo compreendidos como atributos expressivos de “macho” e “fêmea”. exigem uma heterossexualidade estável e oposicional. É a visão do gênero como substância. prática sexual e desejo. na Nova Inglaterra. realizando-se essa diferenciação por meio das práticas do desejo heterossexual. e mais do que isso. no gênero e no desejo. um jovem de 19 anos escrevia em seu diário longas e ardentes cartas de amor para suas amadas Julia e Elizabeth e seus amados Anthony Halsey e John Heath. em certo sentido. A instituição de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada exige e regula o gênero como uma relação binária em que o termo masculino diferencia-se do termo feminino. Então. E a coerência ou a unidade internas de qualquer dos gêneros. gênero e desejo. 90 . gênero e desejo. culpado ou envergonhado por apaixonar-se por homens e mulheres. E se referem porque estão acreditando que ele exista. gênero. Albert Dodd não parecia constrangido. mas. Butler resgata a expressão de Irigaray. atração pelo mesmo sexo. 2003) Para exemplificar estas noções de inteligibilidade enquanto coerência entre sexo. a “coerência” e a “continuidade” não são características lógicas ou analíticas da condição de pessoa. “velho sonho da simetria”. Quem deseja o mesmo sexo? Quem deseja o sexo oposto? A estratégia de heterossexualização do desejo requer e institui a produção de oposições discriminadas e assimétricas entre “feminino” e “masculino”. pois também está pressuposto aí que um “eu verdadeiro” é revelado no sexo. normas de inteligibilidade socialmente instituídas e mantidas por uma concepção de gênero que pressupõe uma relação causal entre sexo.

porém sem vínculo afetivo. simplesmente era capaz de sentir-se atraído por pessoas do mesmo sexo. que é essencialmente a linguagem do amor romântico. agora. viril. “Em nossa cultura. Da primeira ‘paquera’ até o altar e depois ao berçário. p. Até aqui é aqui. pecado contra a alma. um amor sincero.43) Além disso. O que sinto por você é uma amizade de um tipo mais forte. O antigo ‘vício que não tinha nome’ transformara-se no ‘amor que não ousa dizer seu nome’. p. 25 anos de casamento. também.” (1992. era. aberração moral. 1992. A coisa não foi simplesmente assim. mantendo.. O fato de amar homens não o fazia representante de uma outra espécie de homem. este “erotismo rebelde e indiferenciado” precisava ser controlado e redirecionado.Dirigia-se à Júlia no mesmo tom em que dizia: ‘John. psíquica e cívica. Já havia tido experiências sexuais com outros homens. Você tinha envolvimento sexual. e assim o podia nomear. toda linguagem amorosa... Dodd podia referir-se a seus amores masculinos na linguagem do romantismo. quatro filhos. para tanto foi transformado em “homossexualismo”: “Nos fins do século XIX a empresa chegava a seu termo. e pensando nesta questão do amor que não ousa dizer o nome. penso que estes sujeitos afirmam uma experiência amorosa. Estou compartimentalizado. a imagem de virilidade que tinha de si mesmo.. vergonha e maldição. profundo e fervoroso. realmente o amo. Deus sabe que eu sou capaz de amar.. 1992. O homoerotismo vivia sua era científica de culpa. É até aqui e ali eu não passo. Sabe que eu sempre me fiz essa pergunta várias vezes. não consigo. Por exemplo: FABIO. foi imaginariamente rebatida sobre o casal heteroerótico. Simplesmente.” (COSTA. 91 . Até que passou e eu não tive mais controle. puro. eu o amo. Mas não consegui saber por que. tudo que podemos dizer sobre o amor está imediatamente associado às imagens do homem e da mulher. Antes. Porém. e contrariamente ao período em que Dodd expressava seu amor tanto para homens quanto para as mulheres.. Como é que se consegue controlar isso? Explica. mas sem afeto? São os compartimentos. ao mesmo tempo. Por que com esse? O que você acha que este teve que os outros não tiveram? Não sei.41) Porque nasceu antes da invenção histórica do homossexual.. Não consigo. p.eu sou capaz de amar.93) Voltando aos meus informantes.”(COSTA. além da sexual. 53 anos. É um pouco germânica a coisa. querido John.

Foi quando eu realmente tive coragem e fui. olhou e percebeu que era aquele rapaz “bonito” que estava no carro. a paciência necessária.. percebeu que os dois estavam “tremendo”. Ele tinha uma relação estável. o rapaz o convidou para entrar. Ele sabia que você era casado? Sim. só queria ter uma experiência. MARCOS. Foi uma grande paixão. na verdade. sete anos de casamento. um processo. da fronteira. difícil. eu não gostava dele. Quando já havia se afastado do local. eu queria estar mais com eles. Ouviu uma buzina. do seu caso. esse tipo de coisa toda. Foi um período de muito sofrimento pra mim e pra ele também.” Continuou andando. na realidade. Mas a relação já tinha terminado. foram. Mas eu terminei a minha relação e voltei para a minha mulher. que tudo que eu sentia pela minha mulher era uma coisa um tanto quanto forçada e. digamos assim. 32 anos. de certa forma. então não tinha problema nenhum. moravam muito próximos. Pensou: “que homem bonito.Foi um processo? Sim. 46 anos. 15 anos de casamento. que ela não casou virgem. . E era uma relação. Então. apesar do pai dele ser gaúcho. porque em função da formação religiosa do meu pai. 42 anos. o primeiro amor da minha vida. E eu sabia que ele tinha uma relação estável. mas eu acho que te conheço”. tinha muito mais vivência.Você voltou? Sim. E eu acabei ficando novamente envolvido. resolveu entrar. seis meses. Ao que Marcos respondeu: “não 92 . mesmo porque ela não sabia que estava tendo um caso com um homem. ZÉ. PAULO. um filho. ou seja. apesar de na adolescência e na juventude ter tido muitas conversas com a minha avó a respeito de sexualidade. não tanto da minha mãe. Fiquei separado da minha esposa. que um dia estava ele andando no centro de Porto Alegre em direção a sua casa (estava morando sozinho) quando parou em uma banca de revistas. E não é correto estar com alguém só para ter uma experiência. Foi um processo estranho. Eram casados praticamente. E a gente queria sempre estar junto. mas de vez em quando olhava para trás e percebia que o homem continuava lá. Ele retribuiu o olhar.. Era ardente. Os pais dele já sabiam. Foi até o carro “tremendo todo”. Eu escondia da minha família. parou no viaduto próximo da sua casa e ficou contemplando a cidade. dois filhos.. e ele. porque ele teve o carinho necessário. uma chantagem emocional. ele sempre foi muito transparente. uma filha. Eu voltei por causa dos meus filhos. Tanto que quando eu ia ao apartamento dele era sempre escondido. E eu não tava preparado pra isso na época. das orgias nos anos 20 e por aí afora e coisas do gênero. Aí eu conheci o. Mas dois meses depois eu comecei a sair com o Claudio. E a minha ex-mulher começou a fazer. foi um sofrimento muito grande. parado e olhando para ele. um convívio. Embora não vivessem juntos.. só tinham casas separadas. estava muito carente. Nisso um homem passou por ele e fitouo nos olhos de uma forma incisiva. eu acho que quase dois anos. conversarem. assim por diante. Terminei a minha relação com o Cláudio porque percebi que. já separado e tentando namorar a ex-esposa. ele era filho único. digamos assim. 15 anos de casamento. Em termos de homossexualidade ele tinha muito mais experiência. e ele foi fantástico. A gente se encontrava e o sexo era maravilhoso. duas quadras. Ela me aceitou de volta. já conviviam com isso há muito tempo. Aí eu realmente vi que não era . Então o rapaz lhe disse: “sei que essa é velha. tanto da minha parte como da dele. desvirginado no universo gay. sentia muitas saudades. Foi na “recaída”.

e o espaço para a expressão destas está sujeito a regras. ao mesmo tempo em que é uma das formas mais dramáticas de vivenciar a existência e a relação com o outro.E que brincadeira era essa? Brincadeira no sentido de sexualidade. não foi em função dele. 2003. um processo lento de aproximação. somos colegas de profissão. embora seja encarada como possibilidade. E vi quantas pessoas acessavam essas salas. porque houve muito. separar-se da esposa. Iniciaram um relacionamento. VELHO. Marcos responde que sim. mas muito afeto. Por exemplo: FABIO: Faz três anos que nós nos conhecemos (se referindo ao atual companheiro).Você era casado ainda? Sim. O rapaz lhe fala de uma competição que tinha ocorrido há uns dez anos atrás. Mas. por minha conta e risco. E eu. A irrupção da paixão não está ao nível da representação consciente. Os guris me ensinaram a acessar. o sujeito pode efetivamente colocar a sua vida em risco. prevista. . entretanto a paixão trás algo de original e transforma o cotidiano. G. Chegou um ponto que não conseguia levar mais. 2002. Fazia um ano mais ou menos que eu acessava a Internet. Pode-se morrer de amor e de carência erótica. E eu sempre achei que ia ficar somente nas brincadeiras.lembro de ti”. inclusive pessoalmente. Começamos na brincadeira e íamos levando. . guardava lembranças do seu sorriso e carisma. Aí eu encontrei colegas. E por que estas experiências tiveram uma maior força de desestabilização do que as experiências exclusivamente sexuais? Podem ser consideradas práticas perturbadoras1? As emoções sempre têm uma dimensão social2. 93 . entrava nas salas. é possível afirmar que. era uma história de amor. porque é o colorido da vida. Dentro de uma compreensão psicanalítica. de desejo? No que está sustentada essa coragem? Acho que é amor. É inegável que estas experiências produziram desestabilizações nos sujeitos citados. Nesse sentido. A gente fazia umas brincadeiras. pelo erotismo. Foi um período muito difícil. Foi somente aí que Marcos decide. lembrava do local.Essa coragem que você tem é em nome do quê? De amor. . e também que meu informante lhe chamou a atenção. tanto física quanto afetivamente. 1 2 BUTLER. definitivamente. mas muito difícil mesmo. pois o registro biológico da vida seria permeado pelas pulsões. na realidade. que nunca ia passar disso. Marcos ficou impressionado. Ele então pergunta se Marcos competia na modalidade de ginástica olímpica. Era uma coisa que transbordava. Na época eu era casado.

Por exemplo: MARCOS. Atualmente Marcos assume para si mesmo e para alguns amigos mais próximos. está se dizendo que na sexualidade as dimensões da intensidade e do afeto são fundamentais. mas também percebe que sempre lutou e batalhou muito para anular o que chama de sua essência. estando então no registro do afeto e da afetação. diz 94 . tanto que em uma conversa recente com sua exesposa disse a ela que teria encontrado sua cara-metade. esta lógica da paixão produziu uma certa “desordem de gênero” nos sujeitos da minha investigação. Como se procurassem por algo ou alguém responsável por isto. que é gay. de maneira a assujeitá-lo. novamente. quando se enuncia que o sexual é permeado pela economia pulsional. perguntando-se de onde vêm? O recurso de remeter à “essência” vem responder um pouco a essa desestabilização. pois a paixão toma literalmente o sujeito. Desta maneira. no centro da leitura psicanalítica de subjetividade: “(. por sua vez. Para a psicanálise. Uma lógica que desse conta de explicar como e por que um homem que estava tão estabilizado dentro dos critérios de gênero tal qual conhecemos. 1998. dele se apodera. seria a incompletude corpórea e a não suficiência do sujeito o que criaria a condição de possibilidade do erotismo. Percebe hoje que sempre teve muita atração por homens. 32 anos. para barrar o abismo existente entre o dentro e o fora. p.. Não tem registro? Muitos vão buscar na infância.” (BIRMAN. Para dar conta disso penso que eles precisaram recorrer. 1999). considerando que teve uma relação heterossexual. Marcos diz que viveu uma condição heterossexual. criando uma certa ficção particular sobre as origens. A existência de algo inquietante que se impõe ao psiquismo e que estaria além do controle do sujeito.) a paixão é sempre algo que o sujeito sofre como paciente e nunca como agente. à matriz de inteligibilidade cultural e tentar forjar um sentido para essa experiência. indica os limites da racionalidade para lidar com essa irrupção.. e não bissexual como alguns chegam a pensar.116) A pulsão afeta o sujeito. se perturba afetivamente por outro homem. funcionando pela lógica da paixão. Para justificar seu autoconceito como gay ao invés de bissexual. Então.Conforme Birman (1998. é pelo erotismo que o sujeito busca a todo custo a completude corporal. ela põe o sujeito em movimento. Isso revela a dimensão de paixão que funda o conceito de pulsão que está. o fechamento de suas fendas. no passado remoto.

Outras permanecem casadas. nestes casos. com casos esporádicos. E se a repetição está fadada a persistir como mecanismo da reprodução cultural das identidades. produzida pela ordenação compulsória de atributos em seqüências de gênero coerentes.. Por que? Eu era o que sempre fui: um homossexual. supostamente. Para que a heterossexualidade permaneça intacta como forma social distinta. bem como os lugares subversivos de sua convergência e re-significação. PAULO. Você nasceu assim? Com certeza. Então. Outras nunca tiveram essa experiência. mediante um aparelho de produção excludente. sempre esteve “neles”. Essência como sinônimo de substância. Sentia tesão por sua ex-mulher no início do casamento. você bloqueava? Sim. outras não. todos os homossexuais nasceram assim. 95 . Recorrer à essência. Algumas se liberam. “dentro deles”. 46 anos Você disse para si mesmo que era/é um homossexual? Sim.a unidade do gênero é o efeito de uma prática reguladora que busca uniformizar a identidade do gênero por via da heterossexualidade compulsória. Não é à toa que os sujeitos usam as expressões “isso”. Por que eu sou gay? Porque a minha mãe deu mais atenção para o meu pai? Há tantos casais que fazem o mesmo e nem por isso os filhos se tornam gays. levando uma vida dupla. Acho que as pessoas são gays porque têm isso dentro delas. “aquilo”. ‘homossexualidade’ e ‘bissexualidade’. A força dessa prática é. com certeza.que não sente mais tesão ou atração por mulheres. restringir os significados relativos de ‘heterossexualidade’. ao mesmo tempo em que estão referindo-se a algo que. pareceu-me uma forma de realocarem-se em uma identidade. Ninguém influencia. acho que é o que acontece com todas as pessoas. porque não é a praia deles. inclusive tinham uma boa relação sexual. tornando-a culturalmente ininteligível. O fato de os regimes de poder do heterossexismo e do falocentrismo buscarem incrementar-se pela repetição constante de sua lógica. A regulação dos atributos de gênero se dá conforme linhas de coerência culturalmente estabelecidas: “.. Muitas vezes o pai e a mãe têm uma relação normal e o filho é gay. eu não me tornei homossexual depois de 40 anos. A noção de uma substância permanente é uma construção fictícia. ela exige uma concepção inteligível da homossexualidade e também a proibição dessa concepção. por ser tão íntimo torna-se desconhecido. sua metafísica e suas ontologias naturalizadas não implica que a própria repetição deva ser interrompida – como se isso fosse possível. Eu nasci assim.

Concordo com Butler quando ela afirma que a repetição é muito difícil de ser interrompida. pênis com ânus”. Nestas situações não se diz o nome. por estar diretamente associada com a relação homoerótica. transar. respondem: isso é coisa de viado! De gay. Isto implica em uma outra posição do sujeito naquela experiência. mas nos elementos envolvidos aí. alguns homens heterossexuais se permitem dizer para outro homem: quero sexo. porém é regra o anonimato. é uma ação desejante. plenamente dentro da cultura.daí emerge a questão crucial: que tipo de repetição subversiva poderia questionar a própria prática reguladora da identidade?” (BUTLER. Isto não estaria evidenciando o dilema identitário? Porém. na desestabilização de um arranjo. principalmente entre o sexo e o amor. assim. Ousar. O “impensável” está. Associo impensável com a expressão: “o amor que não ousa dizer o nome”3. Quando deparados com alguma pergunta sobre envolvimento amoroso com outro homem. o nome próprio. Pensemos nas práticas muito comuns entre homens. mesmo nas configurações homoeróticas há a inscrição em modelos sociais vigentes. Ato por ato. Ousar dizer o nome. mesmo entre aqueles casados. não precisa ser nomeado.57) Que tipo de repetição subversiva poderia questionar a própria prática reguladora da identidade? Nesse sentido. O que é ousar dizer o nome? Por que esta relação com o amor? 3 COSTA. 2003. mas é plenamente excluído da cultura dominante. É como se a relação se desse entre “partes” do corpo. olhar. 1992. o que venho escutando dos meus informantes é algo ambíguo a esse respeito. 96 . olhos com pênis. heterossexuais: no exercício de algumas fantasias eróticas eles podem experimentar tocar o sexo de outro homem. E a relação destes com as normas de inteligibilidade dos gêneros. onde está o sujeito nesta ação? Que. mas de quem é não importa muito. Sou macho. não se trata simplesmente de pensar em identidade. Nas salas de sexo na Internet. p. quando há a experiência perturbadora dos afetos e o desdobramento desses afetos na prática sexual. com certeza. porém sem implicação amorosa. fruto da matriz de inteligibilidade heterossexual. pênis com pênis. isso me parece subversivo. Ou seja. No entanto. pois tanto pode ser subversivo quanto não ser.

perversos.(. normais. Também muito associado a uma lógica do sofrimento. São identidades sócio- 97 . onde a invenção não tem lugar. lembro de algumas passagens dos filmes A Vila e Harry Potter. que lutou contra tudo e todos para se tornar presente. em que uma das estratégias usadas por aqueles de posição social dominante e que detinham um saber. anormais. Para Butler (2000). 1995) As realidades subjetivas são realidades lingüísticas. O trabalho das subjetividades seria um trabalho de lutar contra o que reprime. 1992:15. considerando que subjetividade pode ser compreendida como “um efeito das linguagens. Tanto é essência. Vivemos em uma cultura presa à noção de essência. tanto que ela própria se torna um ideal normativo ao invés de uma característica da experiência. de “verdade última do sujeito”. esteve ali. “identidade” é assegurada por conceitos estabilizadores de sexo. uma enorme força performativa na definição das subjetividades humanas. provocar. nem dependem exclusivamente de pretensos fatores biológicos para serem reconhecidos como realidades subjetivas particulares. como. homossexuais. É também a cultura das identidades. Entendo que tais ideais normativos inscrevem-se pela linguagem. conhecer. se materializar. “Aquele que não devemos dizer o nome”. Tomar um desejo enquanto algo da natureza é uma forma de afirmar que se sabe não sabendo. nomear.) São seres verbais ou figuras de discurso que podem ter. Homossexuais e heterossexuais não são realidades lingüísticas ilusórias ou delirantes. E esta é uma observação importante quando se trata das identidades sexuais: “Heterossexuais. precisa do discurso do reprimido.. substância. das práticas lingüísticas que determinam suas regras de formação e reconhecimento privado e público. sadios ou desviantes sexuais não existem “na natureza”. desde sempre.” (Costa. principalmente pela sua força performativa na construção das subjetividades.Indo além. cristalizando-a. de fato têm. invocar. Também é uma forma de dizer: o mal inevitável ou. a minha condenação. bissexuais. sabe-se apenas que. Para ser percebido como essência. atiçar. Dizer. saber. Afirmar sua presença. Acompanhado dessa idéia está uma noção muito forte do “reprimido”. gênero e sexualidade. doentes. E realidade psíquica ou lingüística é tudo que tem efeitos performativos sobre as subjetividades. para se referirem ao Mal usavam as expressões: “Aqueles que não devemos pronunciar”.. e não o de reinventar o desejo.

podendo colocar as normas do sexo em uma crise potencialmente produtiva. conceber o gênero como um constructo cultural que é simplesmente imposto sobre a superfície da matéria – quer se entenda essa como o ‘corpo’. Não se pode. pois é através do reconhecimento da diferença sexual.”(COSTA. uma função de diferenças materiais que não sejam. p. a materialidade do corpo não pode ser pensada separadamente da materialização daquela norma regulatória.. é produzida precisamente pelas práticas reguladoras que geram identidades coerentes por via de uma matriz de normas de gênero coerentes. nunca. e pela ação do recalque que o sujeito se subjetiva enquanto masculino ou feminino. mas a materialidade será repensada como o efeito do poder. Ao invés disso. Então. simplesmente. simultaneamente marcadas e formadas por práticas discursivas. O sexo adquire um efeito naturalizado. será plenamente material. sempre há instabilidades e possibilidades de rematerialização: “o que constitui a fixidez do corpo. por ser um construto tão culturalmente construído quanto o gênero. a diferença sexual4 não é. sentir.155) 4 Conceito fundamental no discurso psicanalítico. 1995. pois. como o efeito mais produtivo do poder. é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade cultural. p.culturais. desde as teorias construtivistas na produção contemporânea da antropologia no campo das sexualidades.43) A noção de que pode haver uma “verdade” do sexo. até a psicanálise. seus contornos. de alguma forma. completamente. seus movimentos. pensar. quer como um suposto sexo. uma vez que o próprio ‘sexo’ seja compreendido em sua normatividade. O ‘sexo’ é. não simplesmente aquilo que alguém tem ou uma descrição estática daquilo que alguém é: ele é uma das normas pelas quais o ‘alguém’ simplesmente se torna viável. etc. amar. algo que escapa à norma. Este caráter de “construído” vai ser enfocado através de diferentes campos do conhecimento.” (2000.. sofrer. às normas pelas quais sua materialização é imposta. tal como denomina Foucault. POSSIBILIDADES OUTRAS. mas também se produzem instabilidades. e está justamente nessa instabilidade a possibilidade desconstitutiva no próprio processo de repetição. Butler ressalta que os corpos não se conformam. 98 . o caráter imutável do sexo é contestável. que condicionam nossas maneiras de viver. de forma alguma. Portanto.

e sim. Este informante valoriza um aspecto da experiência de vida associado ao reconhecimento das possibilidades de mudança. Eu morei dois anos e meio na Espanha. eu tinha 44 anos. As coisas mudaram muito E isso marca muito. Você passa a ter outra percepção das coisas. até mesmo porque não ter o reconhecimento social como heterossexual efetivo é perder uma identidade social possível em troca de uma que é radicalmente menos sancionada. De assumir? Sim. Por quê? Eu estou feliz com a relação que estou tendo. de assumir. que não podem ser tomados como experiência. Marca em que sentido? Acho que o homem tenta justificar a supremacia da raça em outra vida. Desgrudou-se de alguma coisa. em termos do dia-a-dia inclusive.FABIO. Cortou. Esta foi uma das coisas. A opção foi agora. E eu tive a nítida sensação de que ali terminaria tudo. Entendo que é uma estratégia própria às normas de regulação dos sexos. essa é a essência daquela experiência. A sensação é de que temos de viver bem aqui. dos desejos. 99 . Logo que eu voltei. de regulação identitária. acredito que tais experiências podem ser consideradas focos de disseminação de “desordens do gênero”.. anteriormente não. Você alguma vez pensou nisso? O que será isso em mim? De onde vem? Eu acho que não é opção. selecionou. práticas perturbadoras e até mesmo subversivas. A minha vida tem esse marco. FINALIZANDO Os informantes se reconhecem em uma natureza sexual. Entretanto. Há um grande debate sobre se é opção. Isso foi opção. uma forma de afirmar que podia “escolher”.. como essência. 53 anos Você se define hoje em dia como homossexual? É. etc. Na verdade. em 1996. à matriz de inteligibilidade heteronormativa. Eu passei a ser muito seletivo. se é a natureza. Em valores gerais. como propõe Butler (2003). É uma coisa que me deixou feliz e intenso. com certeza. E esta é uma estratégia de dominação. Eu me acidentei e fiquei em coma. Amigos também. se é a cultura etc.

Joel.BIBLIOGRAFIA BIRMAN. 2001. desamparo e feminilidade – uma leitura psicanalítica sobre a sexualidade. J. (org. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. BUTLER. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. BIRMAN. Judith.). Rio de Janeiro: EdUERJ. M. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. A sexualidade nas ciências humanas. __________. 1999. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Gramáticas do erotismo: a feminilidade e as suas formas de subjetivação em psicanálise. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 1998. In: LOYOLA. 2003. Erotismo. 100 .

2002. Sexualidades brasileiras. 2000. 2002. Rio de Janeiro: EdUERJ. Ana Lila. G. R. VELHO. FAPERJ. ____________________ . LEJARRAGA. 1998. 4ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Judith.BUTLER. 1992. 10ed. Rio de Janeiro : Graal. 1988. ___________________ . 1995. 1985. Jurandir Freire.. _______ . In: PARKER. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. A inocência e o vício : estudos sobre o homoerotismo. História da sexualidade 3: o cuidado de si. 101 .). Rio de Janeiro: Relume Dumará. Rio de Janeiro: Relume Dumará: ABIA: IMS/UERJ. LOYOLA. A sexualidade nas ciências humanas.). e BARBOSA. (org. O referente da identidade homossexual. Paixão e ternura: um estudo sobre a noção do amor na obra freudiana. Regina (orgs. A face e o verso. Maria A. Rio de Janeiro : Graal. História da sexualidade 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro : Relume-Dumará. In: LOURO. Michel. 1996. 3ed. _________ . Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração. Guacira L. FOUCAULT. (org. Belo Horizonte: Autêntica. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. São Paulo: Escuta. Estudos sobre o homoerotismo II. COSTA. 2ed.).

Levanta-se a hipótese de que a existência dos filhos é uma das possibilidades encontradas para reafirmação da identidade masculina nos homossexuais e feminina nas travestis e transexuais. em andamento desde setembro de 2004. Os dados sobre os quais se embasa esse trabalho fazem parte da pesquisa do projeto “Direito à Homoparentalidade”. considerando as identidades e as posições relacionais dessas pessoas em seus grupos familiares (re)construídos. que tem ou pretendem ter filhos.com. Travestis E Transexuais RESUMO: O trabalho se propõe a refletir sobre como homens homossexuais. e como essas representações se constituem enquanto elementos legitimadores da sua identidade de gênero.br TÍTULO: “Quem Precisa De Filhos?” Afirmação De Gênero Nas Construções De Parentalidade De Homens Gays. com apoio do PROSARE e Fundação McArthur.AUTOR/A: Elizabeth Zambrano INSTITUIÇÃO: UFRGS E-MAIL: elizamb@terra. Busca-se analisar como pessoas até então consideradas não capazes de constituir “família” passam a construir novas configurações familiares. Considera-se as inúmeras possibilidades dessas combinações e as dificuldades de classificação daí decorrentes. Pensa-se que o uso do termo “familia homoparental” exige a explicitação de uma “identidade” dos pais (de sexo. travestis e transexuais. 102 . de gênero e de orientação). acionam representações de parentesco.

Coordenadoras: Flávia de Mattos Motta . Argentina gradimarco@sinectis. Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate.com.UFRJ Ponencia: Familias y Democratización Graciela Di Marco. Escuela de Posgrado Universidad Nacional de San Martín.ar democ@unsam.ar .UFSC e Anna Paula Vencato . Coordinadora Programa de Democratización de las relaciones Sociales.VI REUNIÓN DE ANTROPOLOGIA DEL MERCOSUR.edu. Grupo de Trabalho 9 : Família.

divorcio vincular (1987). OEA. Introducción. permite corroborar una mayor afirmación de sus derechos. sumada a su papel activo y protagónico en las luchas sociales. inciso 22. artículo 75.1 ¿Cómo se convierten. Decreto Igualdad de Trato entre Agentes de la Administración Pública Nacional. Régimen Especial de Seguridad Social para Empleados/as del Servicio Doméstico. la Convención sobre los Derechos del Niño (Naciones Unidas. En el nivel nacional: La reforma de la Constitución de la Nación de 1994. aprobación de la Convención Interamericana para prevenir. Protección contra la violencia familiar. sancionar y erradicar la violencia contra la mujer (Belem do Pará. Decreto Plan para la Igualdad de Oportunidades entre Varones y Mujeres en el Mundo Laboral.179 del año 1985). 1994). Reforma laboral: introducción de la figura de despido discriminatorio por razón de raza. el maltrato y la violencia no han desaparecido. Cuota mínima de participación de mujeres. Ratificada por Ley Nº 23. decreto sobre acoso sexual en la Administración Pública Nacional. impulsadas por las Naciones Unidas. Graciela (2005) Democratización de las Familias. en el capítulo cuarto. pues. reforma el Régimen de Patria Potestad y Filiación del Código Civil. Participación Femenina en las Unidades de Negociación Colectiva de las Condiciones Laborales (Cupo Sindical Femenino). la discriminación. Las leyes sancionadas en estos veinte años de democracia son las siguientes: ley que otorga el derecho a pensión del/de la concubino/a.Familias y Democratización.2 Sin embargo. UNICEF. la Convención sobre la Eliminación de todas las formas de Discriminación contra la Mujer (Naciones Unidas. lo que se confirma en cambios visibles y en los diferentes instrumentos de regulación jurídica que se han generado en el nivel internacional. la desigualdad. el Pacto de San José de Costa Rica. Reforma laboral: Estímulo al Empleo Estable: incorporación de dos incentivos para el empleo de mujeres. Esta ponencia resume los puntos centrales desarrollados en el libro: Di Marco. sancionar y erradicar la violencia contra la Mujer. establece que los tratados de derechos humanos tienen jerarquía constitucional: la Convención sobre la Eliminación de todas las formas de Discriminación contra la Mujer (aprobada por la Asamblea General de las Naciones Unidas. Hijos de la libertad I. la libertad y la democracia no sólo en forma de gobierno. 1990). la Convención Interamericana para prevenir. delitos contra la integridad sexual. La incorporación en los últimos treinta años de las mujeres en el mercado laboral. ya que forman parte del acervo de reflexiones que estamos realizando en el Programa de Democratización de las Relaciones Sociales de la UNSAM En el nivel internacional: Conferencias Mundiales sobre la Mujer. 2 1 104 . acompañada por una creciente conciencia de su situación desigual. regional y nacional. sino también en forma de vida? Ulrich Beck. * Esta ponencia y las presentadas en los grupos de trabajo once y veintinueve se articulan . aprobación de la Convención sobre la Eliminación de todas las formas de Discriminación contra la Mujer. Convención de Belem do Pará. sexo o religión. modificación del Código Penal. creación de un Sistema de Inasistencias Justificadas por razones de Gravidez. 1979). institución del Día Nacional de los Derechos Políticos de las Mujeres.

a nivel provincial y municipal. promoviendo una convivencia basada en el respeto de los derechos y en el cumplimiento de responsabilidades. de sostén y de reproducción. las tendencias actuales muestran las profundas modificaciones que se están produciendo en las familias: retraso en la formación de parejas y vida en común sin matrimonio.Por otra parte. mediante la redefinición de las relaciones de autoridad y poder entre mujeres y varones y el reconocimiento y puesta en práctica de los derechos de la infancia. Las formas familiares emergentes muestran diferentes relaciones de afecto. La propuesta de democratización de las relaciones familiares pretende la construcción de políticas públicas integradas que articulen los esfuerzos de varias áreas: desarrollo social. 105 . En La Argentina hemos desarrollado un programa de democratización de las familias como construcción de aportes para el impulso de nuevas políticas públicas dirigidas a los miembros de las familias considerados como sujetos de derecho. así como sobre las relaciones de autoridad masculina. Con este propósito buscamos que el ejercicio de la autoridad de adultos y adultas se desarrolle en un contexto de seguridad y confianza para aquellos. familias con un solo progenitor. con el fin de estimular el respeto y la autonomía en su educación. en un marco de cuidado y de interdependencia mutuos. educación. niñas y adolescentes. El punto de partida de esta propuesta es la necesidad de elaborar estrategias para evitar o mitigar la incidencia y reproducción del autoritarismo y la violencia. de subordinación femenina y de ejercicio de poder de los adultos y adultas sobre niños. salud. además de su protección y cuidado. enfatizando la planificación estratégica de las acciones que se emprendan. separaciones. divorcios. familias ensambladas. trabajando desde dos ejes fundamentales de intervención y análisis simultáneos: la equidad de género y los derechos de niñas. justicia y derechos humanos. varios grupos familiares emparentados que deciden compartir una vivienda por deterioro de las condiciones económicas. en un marco que promueve la articulación entre la ética del cuidado y la ética de los derechos. Estas nuevas formas muestran cómo los lazos familiares se crean y recrean continuamente. tanto dentro de la familia como en las relaciones sociales en general. Para ello. nuevas uniones. ponemos el acento en la dimensión política de las relaciones de género y en la necesidad de una reflexión crítica sobre los valores y las costumbres culturalmente arraigados y sostenidos desde el sistema patriarcal. niños y adolescentes.

El enfoque está basado en la perspectiva de derechos humanos, por lo cual consideramos que la intervención del estado para recoger experiencias de transformaciones en marcha, y multiplicarlas en otras poblaciones, está vinculada con aquellos, ya que el extremo del autoritarismo en las familias se traduce en violencia contra las mujeres y niños/as, que son consideradas violaciones de los derechos humanos. La familia ha sido la institución patriarcal clave como generadora de relaciones autoritarias y desiguales. Por tal motivo las políticas públicas que se replantean a cada uno de sus miembros como sujetos de derechos se proponen promover la igualdad de oportunidades entre hombres y mujeres y el fortalecimiento de los vínculos basados en la autonomía de sus miembros. Por estas razones, el programa que desarrollamos puede contribuir a las transformaciones en varios niveles: En las relaciones familiares, para el desarrollo de relaciones más democráticas, que favorezcan la igualdad de oportunidades para mujeres y para varones y la elaboración pacífica de los conflictos, y que contribuyan al descenso de la violencia ejercida hacia las mujeres, niños y niñas. En el estado, para la construcción e implementación de políticas integrales desde una perspectiva de democratización, basadas en la ética de los derechos y la del cuidado. En el de las diversas acciones que realizan los profesionales en las áreas sociales del estado, para la profundización de las prácticas que permiten la convergencia de los derechos, en especial, de las mujeres y niños y niñas. II. Marco conceptual La base teórica está constituida por el conjunto de las investigaciones que venimos realizando desde 1989 en Argentina.3 Como resultado de las mismas, hemos hallado dos prácticas que tienen un potencial transformador del autoritarismo en las familias: a) la acción colectiva de las mujeres, en el caso de que se trate de un espacio genuino de desarrollo de capacidades sociales y personales -y no cualquier tipo de participación- y b) las prácticas de negociaciones democratizadoras al interior del grupo familiar, que permiten instalar, mediante un discurso de derechos,

3

Di Marco, 1992, Schmukler y Di Marco,1997, Di Marco y Colombo,2001, Di Marco, 2002

106

nuevas formas de ejercer la autoridad familiar entre varones y mujeres y enfrentar los conflictos, teniendo en cuenta el desarrollo hacia la autonomía de los niños, niñas y jóvenes. Estas prácticas pueden ser impulsadas – tanto a nivel de los decisores políticos, de los agentes de las áreas sociales, como de la misma población- a través de propuestas elaboradas desde un enfoque que considere las relaciones entre hombres y mujeres como relaciones de poder asimétricas. Este programa se basa en la perspectiva de ampliación de la ciudadanía y propone promover activa y simultáneamente los derechos de las mujeres y de niños, niñas y jóvenes en los grupos familiares. Nos referimos a la ciudadanía como el derecho a tener derechos, asumiendo una conceptualización que no considera a la ciudadanía como una propiedad de las personas, sino como una construcción histórica y social, que depende de la sinergia entre la participación y la conciencia social. II. I La construcción de la perspectiva de democratización de las relaciones familiares. En este apartado mencionaremos algunas notas distintivas de los procesos de democratización social. Este concepto especifica los procesos de cambio del autoritarismo y la desigualdad de poder y de los recursos existentes en las instituciones públicas y privadas, y los mecanismos participativos que facilitan la incorporación a la ciudadanía de actores desplazados tanto en virtud de su género, como por su edad, religión, etnia, etc. Nos referimos a un progresivo aunque contradictorio desarrollo de una cultura democrática a nivel macro y microsocial, con valores tales como la participación, el pluralismo, la desnaturalización de la dominación, la redefinición de la autoridad y el poder, la concepción de la vida cotidiana como lugar, no sólo de las pequeñas cosas, sino como fermento de la historia (Hopenhayn, 1993, Heller, 1977). Los procesos democratizadores se vinculan a la revisión de los supuestos que sustentan las bases de la autoridad, la explicitación de la desigualdad para los actores marginados o subordinados, la distribución de los saberes y recursos de un colectivo social. La toma de conciencia de los actores institucionales, acerca de los

107

mecanismos que permiten la desigualdad social, es parte incuestionable de la democratización, ya que fomenta la ampliación de la ciudadanía. El discurso de derechos hace visible y legible al poder, lo desmitifica y permiten revisar y deconstruir los viejos contratos y acuerdos autoritarios de la sociedad, en los niveles macro y micro-políticos. Estos discursos incorporan el reconocimiento de las diferencias, la búsqueda de la dignidad, la desmitificación de las relaciones de poder establecidas, la construcción de interdependencias entre actores y organizaciones, permitiendo la democratización de la democracia (Giddens, 1992). La democratización no se refiere únicamente a la dimensión política, sino que avanza a hacia las diferentes esferas en las que se construye -o no- el discurso democrático, entre ellas, las relaciones familiares. Las familias pueden ser los ámbitos del amor, la intimidad, la seguridad, y simultáneamente, los de la opresión y la desigualdad, tanto en las relaciones de género, como en las de las generaciones, estabilizando conflictos surgidos de la naturalización de las relaciones de subordinación (como la violencia y abuso hacia mujeres y niños y niñas o personas mayores). Desde el enfoque de democratización se pone el acento en que las mujeres puedan posicionarse desde un lugar de autoridad y poder en sus relaciones, y que este proceso forme parte de una ampliación del reconocimiento de sus derechos. En consecuencia, más que referirnos a procesos de empoderamiento, preferimos considerar los procesos de reconocimiento del poder de las mujeres en diversos ámbitos, esto es, reconocimiento de la legitimidad de ese poder (autoridad), siendo un eje central el proceso de reconocimiento de su autoridad en la familia. La perspectiva de democratización de las relaciones familiares es un proceso abierto, que se nutre de diversos aportes teóricos, articulándolos en un marco conceptual que permita fundamentar políticas y acciones vinculadas con las familias, tal como lo hemos expresado en el desarrollo del libro. Para finalizar, proponemos la posibilidad de repensar la autoridad (y el poder), no dentro de la lógica del patriarcado, donde hay un solo vértice en la pirámide, sino con otra lógica por construir, donde la autoridad pueda ejercerse situacionalmente y no dependa de una jerarquía que otorga privilegios basados en criterios tradicionales.

108

Además, es necesario incorporar en las políticas sociales nuevas dimensiones: las de la mutualidad o interdependencia, la asistencia, el cuidado y las emociones (Tronto, 1994; Shakespeare, 2000; Shanley, 2001). Se trata de la elaboración de discursos que articulan la justicia y el cuidado -de uno mismo y de otros y otras- y los derechos de los que reciben asistencia a ser parte activa en la definición de sus necesidades (especialmente en el caso de ancianos y discapacitados), sin que los que los cuidan los subordinen. El aspecto del cuidado vinculado a la interdependencia existe como encuentro de sujetos autónomos: todos y todas necesitamos cuidar, y ser cuidados, para que la vida social tenga sentido. Esta tarea, que ha estado centralmente a cargo de las mujeres, es así reconsiderada para ser la responsabilidad tanto de las mujeres como de los hombres. Vincular la ética de los derechos con la ética del cuidado permite avanzar en una concepción de la política social que tiene presentes a los sujetos en su integralidad. La articulación interdependiente de la redistribución, el reconocimiento, el cuidado, el respeto a la integridad corporal, está íntimamente ligada a la democratización de las relaciones sociales, especialmente las de los grupos familiares. Por estas razones, el enfoque de democratización familiar: pone el acento en las relaciones de poder y autoridad; considera que los desafíos actuales se centran en la ampliación de las ciudadanías, con una concepción de simultaneidad de derechos, que no pueden ser abordados por etapas. Los ejes centrales son la igualdad de género y los derechos de la infancia. Los derechos de los niños y niñas son específicamente tomados en cuenta, especialmente en las relaciones en los hogares, pero también en las escuelas y en otras instituciones; se ubica en la interacción entre políticas de distribución y reconocimiento para acercarse al ideal emancipatorio de la justicia social; introduce la concepción critica de los enfoques de las masculinidades para repensar la equidad de género; intenta dar mayor visibilidad teórica y práctica a las dimensiones vinculadas a las emociones, el cuidado, la interdependencia y la mutualidad;

109

-

enfatiza el ejercicio de maternidades no subordinadas a lo privado doméstico, sino maternidades sociales, que convierten las necesidades vinculadas a sus hijos e hijas en acciones políticas.

II.II Ciudadanía, derechos, justicia social. Consideramos de central importancia el desarrollo de las condiciones necesarias para que las personas desarrollen capacidades para elegir la vida que quieren vivir, reconociendo la diversidad y heterogeneidad de las necesidades, vinculadas con las diferencias personales - sexo, edad, incapacidad, enfermedad- con el medio ambiente, con las relaciones sociales en un contexto determinado, con la distribución del poder dentro de la familias. La capacidad de participar en las decisiones que se tomen en el conjunto de la sociedad, es una dimensión central para evaluar la calidad de vida de ese conjunto social (Sen, 2000: 94) El derecho a un nivel de vida adecuado se vincula con la ciudadanía social, más allá de la posición económica del individuo, así como de su desempeño en el trabajo o cualquier otro ámbito de mercado. Se trata de una concepción de la solidaridad social amplia, colectiva y universalista, que alcanza a la población entera, por contraposición al enfoque focalizador de la asistencia social, estigmatizador para los receptores. Nos referimos con esto a las políticas que focalizan en virtud de la asignación de recursos, y no a aquellas que Consideramos propician acciones afirmativas (discriminación positiva) para conjuntamente los dos aspectos centrales de la justicia: la aboga por un colectivos en desventaja, con el fin de lograr una posterior igualación. redistribución y el reconocimiento (Fraser, 1997). La autora citada

paradigma que pueda contener a ambos. Los reclamos redistributivos (productos de la injusticia socioeconómica), se vinculan a un reparto más justo de bienes y recursos, y los de reconocimiento de las diferencias (productos de la injusticia cultural), a una aplicación más amplia de los derechos de las personas, que no esté ligada exclusivamente a las normas y valores culturales considerados “normales” o naturalizados. Fraser puntualiza como núcleo normativo de su concepción la idea de paridad en la participación: la justicia requiere que todos los miembros de la sociedad sean considerados como pares, para esto es necesaria la distribución de bienes materiales que asegure la independencia y la “voz” de los participantes y que las pautas

110

culturales de interpretación y valor aseguren la igualdad de oportunidades y el respeto por todos/ as. Se enlazan, entonces. la justicia social y económica, la identidad y el reconocimiento, la redistribución y la participación. (García y Lukes, 1999). Raczynski (1998) presenta la siguiente categorización de las políticas sociales: políticas de inversión en servicios básicos de educación y salud, políticas y subsidios para vivienda, equipamiento comunitario e infraestructura sanitaria; políticas de apoyo a la organización social y de capacitación para proveer de información para tener “voz” y participar en la toma de decisiones; políticas laborales y de remuneraciones, , políticas asistenciales, de empleo de emergencia o de transferencias directas de dinero y/o bienes. Los programas que apuntan al reconocimiento, se concretan en el tercer tipo de políticas mencionadas en el párrafo anterior, aquéllas que contribuyen a la igualdad de oportunidades, favoreciendo las organizaciones colectivas, que intentan contribuir a la democratización de las relaciones sociales, a través de promover la participación, la capacidad para tener “voz” en los asuntos que nos competen. La propuesta de Democratización de las relaciones sociales como política social puede ser considerada cómo una política de reconocimiento, pues pone el acento en la afirmación de los derechos de las mujeres y de niños, niñas y adolescentes y la puesta en práctica de estrategias para hacerlos cumplir efectivamente y en forma simultánea.. La redefinición de la autoridad femenina, replanteando las relaciones de poder y subordinación entre los géneros y la transformación de los contratos autoritarios que naturalizan la subordinación femenina y que no contemplan en toda su magnitud los derechos de la infancia, son dimensiones centrales del mismo. La interdependencia entre participación y conciencia social es una base fundamental para el desarrollo de procesos democratizadores, pues es en la acción colectiva donde se pueden iniciar y desarrollar estas transformaciones. En el enfoque se pone el énfasis en repensar el poder y la autoridad, tomando como eje las dificultades de reconocimiento de la autoridad de las mujeres, esto es, de la legitimidad de sus decisiones, basadas en sus deseos y necesidades. El enfoque de poder, autoridad y comunidad que desarrollamos nos ha llevado a apartarnos de la

111

por esto hacemos hincapié en la noción de democratización4. emocional. discapacitados y discapacitadas5. que someten a niños.noción actual de “empoderamiento”. niñas y adolescentes y de otros miembros de la familia. La posibilidad de repensar los modos autoritarios de relación familiar. no interfieran en la construcción de la ciudadanía plena para hombres y mujeres. entre ellos. La incorporación de las reflexiones acerca de las construcciones de la masculinidad que proponemos se sustenta en la necesidad de promover vínculos entre hombres y mujeres. Esta perspectiva incluye la concepción integral de los derechos de niños. es posible que se expresen acuerdos. los relacionados con los modelos (convencionales o no) de género y autoridad. además de las nuevas concepciones que se van construyendo acerca de las masculinidades. como las personas mayores. niñas y mujeres a situaciones de violencia (verbal. es una forma de comenzar a plantear el desarrollo de otras relaciones autoritarias. 112 . física) y facilitan el desarrollo de más violencia en una escalada en la que todos y todas se involucran. o como el lugar donde se configuran y recrean sistemas de creencias y prácticas acerca de varias dimensiones centrales de la vida cotidiana. por lo tanto. dimensiones necesarias para promover una transformación democrática de las relaciones de autoridad en las familias. es decir. En las interacciones familiares.III Categorías teóricas clave. entonces. para que estas diferencias no se conviertan en motivos que justifiquen la desigualdad y la subordinación y. Desde este enfoque de derechos se contemplan todas las diferencias que generan desigualdades. II. desacuerdos o prácticas contradictorias en relación con esos patrones culturales. aunque desde el programa que desarrollamos nos centremos estratégicamente en los derechos de las mujeres y de la infancia y adolescencia. de la desigualdad y el autoritarismo. El papel de las familias en la socialización de las generaciones jóvenes puede ser considerado como el de simple reproductor de los patrones de jerarquía por sexo y edad. en los que se respeten las diferencias de cada uno o cada una. Las familias. pueden ser comprendidas como los sitios de la reproducción de valores y normas culturalmente tan arraigados que se los considera “naturales” o bien como aquellos sitios donde se cuestionan y se cambian las reglas. La 4 5 ver libros citados. donde se producen procesos de transformación.

Consideramos que la familia es un núcleo indispensable de socialización donde se tejen las relaciones básicas para el desarrollo de la vida social y al mismo tiempo el lugar donde se gestan y se desarrollan con más claridad las relaciones de desigualdad. la transformación de las relaciones sociales entre los géneros requiere de un enfoque complejo que trabaje. ya que su impulso ha permitido transformar muchos aspectos de la realidad en los últimos años. y en la concepción de los derechos de la infancia. para favorecer el ejercicio de una autoridad democrática Somos conscientes de la multiplicidad y de la diversidad de comportamientos y conductas que asumen las personas en sus relaciones cotidianas. Para que las formas de convivencia más democráticas se transformen en estilos de vida se requiere un cambio cultural en los modelos de género. la vecindad. cada vez que sea necesario. violencia física). se formula una estrategia conceptual que apunta a las causas profundas del autoritarismo y la violencia.democratización de las relaciones de familia puede retroalimentar la democratización de las instituciones próximas a la vida cotidiana. consideramos indispensable trabajar desde el “colectivo” mujeres. el hospital. la escuela. Las hipótesis desde las que se parte consideran que la democratización social comienza por su práctica en los ámbitos donde transcurre la vida de la gente: la familia. Para aproximarnos a la democratización de las relaciones en los grupos familiares. de autoridad. Nuestro objetivo es repensar la organización desigual de las relaciones familiares de manera tal que hombres y mujeres puedan tomar conciencia de sus posibilidades de transformarlas. y no meramente a sus efectos más visibles e inmediatos. tanto la construcción de las subjetividades femeninas como la de las masculinas. Por esta razón. sometimiento afectivo y/o sexual. la asociación comunitaria. pero es cierto que esta multiplicidad permanece enmarcada en un sistema de relaciones de género que privilegia a un género (el masculino) sobre otro (el femenino). Por estas razones. el centro de salud. Por eso. junto con una concepción del cuidado mutuo entre todos los miembros del grupo familiar. desvalorización. Las elaboraciones teóricas y las discusiones conceptuales que planteamos pretenden dar cuenta de una situación histórica y culturalmente creada de desigualdad entre hombres y mujeres (desigualdad que asume diferentes formas: descalificación. para abordar la problemática de la democratización de las relaciones familiares y para desarrollar 113 . que se produce y luego reproduce en todas las instituciones sociales. disciplinamiento. según metodologías apropiadas.

se analizan la familia y la maternidad en la Argentina. consideramos que es conveniente reflexionar sobre algunos conceptos teóricos clave: Las familias: como institución social.niñas y adolescentes como sujetos únicos de derechos y se deja de considerarlos como objetos pasivos de intervención por parte de las familias. Desde la definición y desde las características centrales de las masculinidades. Masculinidades: Se aborda la relación entre la construcción de masculinidades y las relaciones que los hombres establecen dentro de sus familias. La construcción social de la niñez y de la adolescencia. en la medida que la maternidad es resignificada por las mujeres. destacando la centralidad de la experiencia de la maternidad en las vidas de muchas mujeres. se analiza la ubicación de privilegio de los hombres dentro de las relaciones de género y la manera en que ésta se inserta en la familia. en el cual los sujetos no son entes pasivos que absorben estas normas sin contradicciones. la escuela y el Estado para reconocerlos como portadores de derechos especiales según las etapas de desarrollo que estén transitando. Asimismo. la conformación de los modelos hegemónicos de relaciones familiares y las modificaciones del sistema patriarcal en la sociedad occidental. A partir de una revisión histórica y crítica de las concepciones sobre estas categorías se llega hasta la aprobación de la Convención sobre los Derechos del Niño. Se analizan los sistemas de poder y autoridad dentro de la familia y las jerarquías implícitas en las relaciones de poder entre sus miembros. sino que estos modelos son aquellos sobre los cuales se realiza la interpretación y valoración de la normalidad o no de las familias concretas. considerando las relaciones existentes entre feminidad y maternidad. identificando rupturas y continuidades del modelo patriarcal. Se tienen en cuenta la influencia de los modelos que la sociedad ofrece a la infancia y la adolescencia.herramientas adecuadas que la lleven adelante. Esta presentación no está indicando que los grupos familiares de los diversos países occidentales se ajustaron al modelo patriarcal en forma homogénea. desde el cual se considera a niños. en el pasaje por ciertas instituciones. Los conceptos acerca de las relaciones de género: La construcción de las identidades de género como parte de un aprendizaje familiar y social de pautas y valores asociados a cada género. donde se pone en evidencia la aparición de un nuevo paradigma. así como las implicaciones que ésta tiene en la construcción de ciudadanía. tradiciones y espacios de socialización que perpetúan desigualdades y comportamientos autoritarios. rituales. Allí se reconocen las identidades masculinas –y las femeninas– como construcciones 114 .

culturales que se reproducen socialmente, a través de distintas instituciones: familia, escuela, Estado, iglesias, etc., que vehiculizan modos de pensar y actuar, a la vez que establecen lugares de jerarquía de la masculinidad dentro de las relaciones de género mediante mandatos que subyacen en los comportamientos, actitudes, afectos y relaciones vinculares. Los conflictos: Se analizan las situaciones conflictivas que suceden en el ámbito familiar: las vinculadas con las relaciones de pareja y aquéllas relacionadas con hijos e hijas. Además se señalan las formas violentas de resolver conflictos y se considera la relación entre conflicto, poder y autoridad. Se plantea la democratización de las relaciones familiares, se proponen procesos de negociación que cuestionen las relaciones de poder y autoridad y se diferencian las negociaciones tradicionales de las democratizadoras, haciendo especial referencia al concepto de “discurso de derechos”. Las políticas sociales y las bases teóricas e ideológicas de aquellos discursos sobre los que se asientan los programas y las prácticas de intervención. Se analizan los discursos de tres perspectivas relevantes en el análisis de género, exactamente aquellas que tienen efectos a la hora de ser utilizadas para la fundamentación de políticas y programas. Por último, se analiza el concepto de empoderamiento, muy usado en estos discursos, y se propone el concepto de democratización para presentar una concepción de la política social que concibe a los sujetos en su integridad, vinculando en forma interdependiente la redistribución, el reconocimiento, el cuidado y el respeto por la integridad corporal. III. Algunas reflexiones. Durante diez años la mayor parte de los programas que se realizaron desde el estado estuvieron referidos al tema de la violencia contra las mujeres, propiciados por un clima favorable a su visibilización como agravio a los derechos humanos de las mujeres y a la implementación de leyes y políticas referidas a este problema. Estos años fueron fructíferos en capacitaciones específicas y en el armado de dispositivos institucionales para hacer frente a las consecuencias de la violencia en las mujeres y niños/as. En cambio, la propuesta desplegada estimula el reconocimiento de los factores que facilitan socialmente el maltrato y la violencia. Esta perspectiva necesita tiempo para ser desplegada y asumida por los actores institucionales, para que, sin dejar de
115

atender los estragos de la violencia, pudieran despegar su mirada de las víctimas, para repensar los contratos autoritarios que naturalizan la desigualdad en la de que ésta reposa, mas allá de los efectos de espejismo que ciertas condiciones de las mujeres actuales pudieran provocar, en el sentido de considerar que las relaciones de género se han tornado igualitarias6. Estas razones nos hicieron pensar que debíamos generar un programa cuyo propósito actual es el de generar una masa critica de diversos actores sociales (agentes institucionales, miembros de movimientos sociales y de organizaciones no gubernamentales) formados/as en este enfoque, para que de su práctica se desprendan proyectos que puedan contribuir a sostener propuesta. la perspectiva

Para este punto ver: Di Marco (2005) Democratización de las Familias. UNICEF y Di Marco, Graciela (2005) Democratización de las Familias. Estrategias y alternativas para la implementación de programas Sociales. UNSAM-Baudino.

6

116

BIBLIOGRAFÍA Beck, Ulrich (1999), Hijos de la libertad, Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica. Castells, Manuel (1999), La era de la información: economía, sociedad y cultura. Vol. II. El poder de la Identidad, México, Siglo XXI editores. Chitarroni, Horacio. y otros (2002), El infierno doméstico, Buenos Aires, USAL. Di Marco, Graciela (1998), “Ciudadanía femenina”, en ADEUEM (1998), Relaciones de género y exclusión en la Argentina de los 90, Buenos Aires, Editorial Espacios. Di Marco, Graciela (2000), “Democratización de la familia”, en Lo público y lo privado, Documentos de Políticas Sociales Nº 21, CIOBA, Dirección General de Políticas Sociales, Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires. Di Marco, Graciela y Colombo, Graciela (2000), “Las mujeres en un enfoque alternativo de prevención”, Documentos de Políticas Sociales Nº 22, CIOBA, Dirección General de Políticas Sociales, Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires. Di Marco, Graciela (2003), “Democratización de las relaciones familiares”, en (2003), Hacia una transformación de la política social en México, Puebla, México, Universidad Iberoamericana Golfo Centro. Di Marco, Graciela (2002), “Democratización social y ciudadanía”, en revista Ensayos y experiencias, Buenos Aires, Novedades educativas. Fernández, Ana María (1993), La mujer de la ilusión, Buenos Aires, Paidós. Giddens, Anthony (1992), The Transformation of Intimacy. Sexuality, love and eroticism in modern societies, Standford University Press. Held, David (1997), “Ciudadanía y autonomía”, en Agora Nº 7, invierno, Buenos Aires.

117

Kymlicka, Will y Norman, Wayne (1997), “El retorno del ciudadano. Una revisión de la producción reciente en teoría de la ciudadanía”, en Agora Nº 7, invierno, Buenos Aires. Schmukler, Beatriz y Di Marco, Graciela (1997), Las madres y la democratización de la familia en la Argentina contemporánea, Buenos Aires, Biblos.

118

AUTOR/A: Ivonne Dos Santos INSTITUIÇÃO: FHCE - UDELAR E-MAIL: ivonne2s@yahoo.com.ar TÍTULO: Paternidad Y Familia: Jóvenes De Sectores Pobres Urbanos RESUMO: Las transformaciones producidas en el plano de la sexualidad, de los roles de género y de las estructuras familiares, inciden sin duda en la conformación de las identidades y de las relaciones familiares. Lo que nos lleva a preguntarnos cómo los cambios sociales repercuten en los sujetos y cómo sus prácticas transforman su propio contexto. El considerar el efecto de las prácticas de los sujetos en sus familias nos permitirá entender cómo se retro-alimenta la configuración social estructurando los grupos familiares en un contexto de pobreza urbana. Me propongo analizar aquí las representaciones de jóvenes varones acerca de la paternidad y cómo sus prácticas reproductivas inciden en las dinámicas y estructuras familiares, buscando problematizar los conceptos de padrepaternidad-genitor. Por otro lado visualizar cómo los arreglos familiares funcionan como modelos a seguir por parte de los jóvenes y cómo las proyecciones discursivas entorno a “cómo son los hombres” a “cómo son los padres” construyen un “deber ser” y un “ser” (representaciones y prácticas) con relación a las prácticas reproductivas y vinculares de éstos jóvenes.

119

las significaciones relativas a la pareja y al cuerpo. que han sido socializadas en la gran ciudad durante los últimos quince años. asentamientos. Aspectos metodológicos Al interior de los sectores populares existe una gran heterogeneidad. pero por otro lado muchas de ellas la perciben como algo “natural”. Como veremos. que habitan en hoteles-pensión de la ciudad de Buenos Aires. el lugar de origen (provienen del conurbano. con lo cual deberíamos hablar de “maternidades” y no de maternidad. por un lado utilizan métodos anticonceptivos para regular su maternidad. la educación de sus hijos.com. la afectividad y la sexualidad de jóvenes migrantes. percibimos ciertas tensiones y contradicciones entre la herencia cultural que portan estos sujetos y los nuevos saberes y creencias que van asimilando de a poco. inherente al ser mujer. Se trata de mujeres migrantes. asociados a las representaciones que poseen acerca de los papeles sociales que deben desempeñar. etc. Los resultados de investigaciones anteriores3 nos han revelado que en los sectores populares la maternidad cobra un sentido distinto en madres adolescentes y madres jóvenes y adultas (generación). en contacto e interacción con otros códigos culturales diferentes a los propios y que por lo tanto han asimilado nuevos comportamientos relativos a al “ser mujer”. los modelos de maternidad y familia internalizados. provenientes de sectores populares. pero también la incidencia del espacio juega un papel sumamente significativo.ar Instituto Gino Germani / Universidad de Buenos Aires / CONICET Introducción La ponencia centra su mirada en algunos aspectos de mi proyecto de tesis doctoral1 ju sobre la socialización urbana y sus efectos en los consumos. indagamos sobre el sentido que las mujeres de sectores populares urbanos le otorgan a la maternidad y sobre cómo es percibido y valorado socialmente el “ser madre” al interior del sector estudiado. práctica asimilada a través del contacto con “otros culturales”. los mandatos culturales y prohibiciones acerca de la sexualidad. En este sentido. representación que reproduce y reactualiza su habitus de clase. hoteles. propiedades intrusadas. nos referimos a una heterogeneidad que combina varios factores.). interior del país y países limítrofes) y la generación. la anticoncepción (conocimiento y acceso a los MAC) y las relaciones de género. provenientes en su mayoría de sectores populares de las provincias del Noroeste y del Noreste argentino. luego de varios encuentros con ‘nuestras nativas’. Sin embargo. Nuestra hipótesis se orienta a afirmar que existen diversos factores que están incidiendo en las prácticas de estas mujeres.“Anticoncepción y maternidad en mujeres migrantes de sectores populares residentes en hoteles-pensión de la ciudad de Buenos Aires” Juliana Marcús ♦ julimarcus@velocom. con el objetivo de realizarse personalmente en otras esferas de la vida social. El modo en que se vivencia la maternidad no es el mismo si se trata de . inquilinatos. Aquí nos ocuparemos sólo de algunos: la espacialidad / hábitat2 (pueden habitar en villas. En esta oportunidad.

considerada como algo nato en la mujer. a través de luchas por la imposición de un sentido legítimo del ser madre. y particularmente las significaciones que ellas otorgan al “ser mujer”. aquellos imperantes en los sectores medios. rescatar e inscribir lo dicho por los nativos. ONGs. 1987:37) donde nos ocupamos de interpretar. en condiciones de pobreza. que según ellos caracteriza a la mujer “normal”. Utilizamos el método de la descripción densa (Geertz. deben analizarse con sentido crítico las teorías que históricamente han postulado como generales o universales las normas de lo que debe ser una buena madre diseñada de acuerdo a los patrones de la familia occidental. durante décadas la prensa francesa no escatimó la imagen estereotipada de la buena madre que se queda en casa. discursos y prácticas) puesto que en ella las formas culturales encuentran articulación. significados. sucesivas visitas a los grupos familiares. Mediante la utilización de técnicas etnográficas (observaciones prolongadas. comprender el universo cultural4 en el que desarrollan sus vidas. Para desentrañar las estructuras de significación atendimos a la conducta de los actores (representaciones. Estos planteos fueron los propuestos por Rousseau y Freud.) interactuando constantemente con otros códigos culturales. entrevistas en profundidad e historias de vida). prácticas y sentimientos que siempre son social y culturalmente producidos. Al postular que la maternidad genera naturalmente amor y la dedicación al niño. que si se trata de mujeres que viven en hoteles-pensión ubicados en la ciudad de Buenos Aires. 121 . En contraposición se esgrime el argumento de la mala madre como aquella “incapaz o indigna”. es decir. Lejos de poseer este carácter esencial. diferentes a los propios. que con ciento cincuenta años de distancia elaboraron una imagen de mujer coincidente: destacan su sentido de la abnegación y el sacrificio. donde tienen menos posibilidades de traspasar las fronteras del propio grupo. representa más bien una matriz de imágenes. cooperativas. Por ende. se construye contextualmente. 1991:264). inestabilidad ocupacional. Siguiendo a Badinter. establecimientos educacionales. a lo largo de la historia. realizamos visitas reiteradas a los hoteles e indagamos sobre la vida cotidiana de cinco mujeres con el objetivo de acceder a sus historias. etc. donde la primera condición de una buena maternidad es la capacidad de adaptarse a las necesidades del hijo. “establecer la significación que determinadas acciones sociales tienen para sus actores”. Aportes conceptuales sobre la(s) maternidad(es) El amor materno no es un amor natural. es decir.mujeres que residen en zonas marginales. moderna y de clase media. las aberraciones eran percibidas como excepciones patológicas a la norma (Badinter. la maternidad es cultural. precariedad material. Nancy Scheper-Hughes Lo importante al desnaturalizar el concepto de maternidad es abolir la supuesta existencia de una maternidad basada en el instinto. integrados en cierta medida a la dinámica de las instituciones sociales (ámbito laboral. ni las desdichas que acechan al hijo abandonado por la madre que trabaja. hospitales. escasamente integrados en las instituciones de la sociedad civil y del Estado.

no podía privarse a las mujeres de derechos civiles.cit. op. las feministas intentaron reformular la maternidad. tal como argumenta Freud.cit. op. Si la virilidad en sí misma es un fenómeno superior. sociales y políticos (Nari. Las teorías contemporáneas del sentir maternal 6 o amor materno son el producto de un momento histórico que coincide con la transición demográfica y con el auge de la familia nuclear moderna burguesa. durante la década del ’40. la anatomía es destino.cit. op.: 280). una “posición política”: el ejercicio de la maternidad era una forma de hacer política. esta estrategia resulta ajena a los significados compartidos por la mayoría de las mujeres que vive en situaciones de extrema pobreza. Asimismo. “lo adquirido se declaraba innato” (Badinter. También. 1924: 178. pues la distinción morfológica se expresa obligatoriamente en diferencias de desarrollo psíquico” (Freud. hecha para el sacrificio.: 281). Para las mujeres de sectores medios o incluso de la elite. representaban la norma de un correcto desarrollo femenino. En condiciones de alta mortalidad ocurre que las mujeres suelen tener muchos hijos. volvió caduca la teoría de la madre naturalmente abnegada. Millet piensa que hay que buscar la respuesta en la sociedad patriarcal y en la situación que esa sociedad les reserva a las mujeres (citado en Badinter. Las feministas eran plenamente conscientes del doble carácter de la maternidad: valiosa para la libertad. valiosa para la opresión. Fundamentalmente la consideraron una “función social” y para algunas. perteneciente al feminismo radical norteamericano5. El lenguaje de la “naturaleza” recubre suposiciones patriarcales sobre la pasividad (en las mujeres) y la actividad (en los hombres) (Chodorow. el masoquismo y el narcisismo propios de la personalidad femenina. aún hoy en la cultura 122 . violencia familiar. Sin embargo. citado en Chodorow. supo mostrar las fallas del razonamiento freudiano. pues arguye que “la exigencia feminista de derechos iguales para ambos sexos no nos llevará muy lejos. desde hace cientos de años que en las familias campesinas la lógica de la reproducción se relaciona con la inversión en un gran número de miembros del grupo que garantice el mantenimiento de la mano de obra. Al destruir el mito freudiano de la mujer normal. 2000). Para el psicoanálisis. 1997: 385).En la Argentina. Con relación a las mujeres de la clase obrera se insistía en las condiciones materiales inadecuadas en que se veían forzadas a ser madres (trabajos insalubres. Freud parece pensar como un determinista biológico. como aquellos de los sectores más pobres de la sociedad.). pasiva y masoquista. la opresión parecía venir de la mano del afianzamiento del modelo maternal hegemónico impulsado por los médicos. abandono de sus esposos). Según Freud. Puesto que eran o podían ser madres. debiera poder probarse. donde se encuentran presentes otras prácticas maternales. Poco importaba que la educación y los factores de socialización hayan inducido a las mujeres a adoptar esas actitudes. 1984: 230). incluso. nació en Estados Unidos un importante movimiento feminista cuyo objetivo prioritario fue cuestionar los fundamentos de la concepción freudiana de femineidad. Para Freud hay un destino reservado a las diferencias anatómicas entre los sexos. Kate Millet. aunque sobreviven sólo algunos de ellos. once años después de la aparición de El segundo sexo de Simone de Beauvoir. Desde esta noción de la maternidad no se consideran moralmente correctos ciertos “sentimientos maternales” diferentes. En los años ‘60. Esta concepción moderna del amor materno es el resultado de una estrategia reproductiva que promueve “tener pocos hijos e invertir a fondo (emocional y materialmente) en cada uno de los que nacen” (Scheper Hughes. la pasividad.

las pautas que cada sociedad transmite en cuanto al momento para ser madre o al número de hijos. La maternidad es parte importante del proyecto de vida. En estos estratos la maternidad temprana es culturalmente más aceptada. citado en Ariza y De Oliveira. poder y abundancia del grupo familiar (Wang. en el caso de las jóvenes del sector. Al comprender las prácticas populares se puede pensar que. La maternidad es percibida socialmente en los sectores populares como un valor positivo donde “(…) se potencia la valorización de la maternidad como principal proyecto de vida y símbolo de la identidad femenina”(Mancini y Wang. La percepción de la maternidad al interior de los sectores populares El mandato cultural de “ser madre” recae sobre toda mujer sin importar clase social (Mancini. si bien tanto en los sectores populares como en los sectores medios y altos funciona el mandato cultural de la maternidad. Los hijos se convierten en elementos clave a partir de los cuales se define esta identidad. 1994. Una frase que lo resume es soy mujer porque soy madre. pues su hijo es su alegría y su justificación. aunque su significado adquiere diferentes características según la clase social y las diferentes culturas.reproductiva de los sectores populares tener muchos hijos es símbolo de prestigio. En cuanto al valor atribuido a los hijos y el significado de la maternidad en sus vidas. la maternidad funciona como posibilidad de tener un 123 . Se sienten un individuo completo en tanto madres. autoridad moral y gratificación emocional (González Montes. constituyen una fuente de legitimidad social. Sentir a sus hijos como propios. mientras que en los sectores medios y altos. los significados que se le atribuyen son diferentes: en los sectores populares la maternidad aparece como el principal o único proyecto de vida que una mujer puede tener. Por ejemplo. 2004). como parte de sus pertenencias. además de dar sentido a sus vidas. 2003: 236). puesto que el ser madre otorga identidad como mujer. varían de acuerdo a los diferentes estratos socioculturales. reproduce y afirma aún más el lugar de madre como dadora de identidad. Las mujeres de sectores populares urbanos verbalizan que. A través de él termina de realizarse socialmente. Si bien en nuestra cultura occidental. En los sectores populares se liga directamente a la mujer con el ser madre. la maternidad es el principal organizador de la vida de la mujer. Muchas veces los embarazos no son planificados ni buscados por estas mujeres y junto al sentimiento de gratificación que supone ser madre se superpone otro: el de una aceptación a veces resignada como un destino inherente al ser mujer: soy madre porque soy mujer. 2004). 2003: 45). La figura de la madre acarrea prestigio y valoración social a las mujeres. Es el feminismo quien viene a cuestionar el lugar de la mujer-madre como biológicamente determinado. La maternidad también es vista como una fuente de poder. ya que el rol maternal les brinda recompensas y gratificaciones que no encuentran en otros ámbitos de sus vidas. es decir. la maternidad aparece como un proyecto casi insoslayable pero no exclusivo. los hijos tienen un valor simbólico como afirmación de su identidad. Es posible ver en el embarazo y la maternidad una forma de afirmación de la subjetividad de las jóvenes y de proyección a futuro. así como la cantidad de hijos por mujer suele ser bastante más elevada que en los sectores medios. la maternidad las reivindica frente a la comunidad al tiempo que les permite ejercer un control sobre los hijos.

mantenerse dentro de la casa” (Rousseau. Vivir en zonas céntricas de la Ciudad de Buenos Aires supone para estas mujeres cierto grado de integración a las instituciones de la sociedad civil. como la realización personal por fuera de la esfera afectiva y doméstica.8 Si bien es sabido que es a través del rol materno como la familia ejerce su principal influencia en la conformación de la subjetividad de los hijos. sus interacciones son siempre con otros que forman parte del mismo ambiente sociocultural. del colegio de los niños. En el caso de Cristina7. así como darles lo que a ellas les faltó de niñas. Geldstein. les posibilita interactuar con “otros culturales”. Si bien al principio la noticia no fue recibida con buenos augurios. pues “. Residir cerca de los hospitales.una mujer sin hijos no es una mujer completa” nos decía en uno de nuestros encuentros. esquemas de percepción y comportamiento. generando nuevos saberes y formas culturales. no mezclarse con los asuntos de fuera. 1762: 872. Por todo esto. citado en Badinter: 1991: 204-205). los barrios populares del Gran Buenos Aires y las zonas semi-urbanizadas del interior del país. 2000). En definitiva se sintió realizada como mujer. lo cual no supone ubicar tal proyecto como ausencia de otros proyectos o mero relleno de un futuro inimaginable para ellas.” (Pantelides. Ser madre en mujeres de sectores populares residentes en hoteles-pensión de barrios céntricos de la Capital Federal En este apartado nos centramos en las entrevistas e historias de vida que realizamos en el marco de nuestra investigación a mujeres migrantes provenientes de sectores populares que han sido socializadas en la ciudad mediante su residencia en hotelespensión ubicados en los barrios porteños de Balvanera. “Estas mujeres les asignan a sus hijos un valor afectivo y ‘reparador’. no hay que perder de vista la “otra cara” de la maternidad. como soporte afectivo y doméstico (Schmukler. 1989). de los comercios. de ciertas organizaciones sociales. consideramos que estas mujeres ocupan una posición más ventajosa (social. aquella responsable de las representaciones con las que se subordina a la mujer identificándola con la esfera privada. En este sentido. cultural y simbólicamente) al interior de los sectores populares respecto a la población de mujeres socializadas en contextos marginales como las villas miseria. más tarde Cristina consideró que sus hijas otorgaban un sentido de trascendencia a su vida.proyecto propio. que no han podido traspasar los límites de su grupo social de pertenencia donde ocasionalmente comparten su vida cotidiana con los pobladores de otras zonas de la ciudad. Al mismo tiempo. ser madre aparece como una forma de realización personal. aún siguen vigentes en los sectores populares más marginales: “la mujer debe limitarse al gobierno doméstico. una de nuestras jóvenes entrevistadas. pues de ellos esperan recibir ‘amor y compañía’. Congreso y Barracas. Infesta Domínguez. con sujetos de sectores medios que adscriben a pautas culturales distintas y a veces desconocidas por ellas. condiciona sus formas de vida y adaptación. es decir. 124 . La socialización urbana de estas mujeres de origen popular. 1995: 59). lo que empobrece su sociabilidad (Merklen. Parecería que algunos argumentos postulados en el siglo XVIII. es decir. es considerado un beneficio que otorga la ciudad. Constitución. En el discurso y las prácticas de nuestras entrevistadas se evidencia la fuerte influencia del hábitat urbano y la interacción con otros/nuevos códigos y mandatos culturales asociados a las capas medias de la sociedad.

. yo hago mi vida en función de él. yo me levanto cada día por él. Es madre de 2 hijas) “Mi gran amor es mi hijo. oriunda de San Juan. pero como veremos se trata de un proyecto más que completa su realización como mujer y sujeto social. es decir. la realización personal y el sentirse plenas no radica exclusivamente en el “ser madres”. La verdad soy muy feliz. “Nunca me gustó vivir en hotel porque aquí no hay vecinos permanentes. Por un lado. Tiene un hijo. es de tener mi casa. Es lo más importante que tengo en mi vida. Vive en la Capital Federal desde los 6 años.. 5 hijos) “Me sentía diferente con ellas. para nuestras entrevistadas los hijos cumplen un papel muy importante en sus vidas. que con mi mamá siempre lo tuvimos. todas ellas han tenido entre dos y cuatro hijos. Es madre de dos hijos) “El proyecto mío que de a poco se va cumpliendo.Si bien la maternidad es percibida como un rol dador de identidad.. el estudio y concretar el sueño de la “casa propia”. 30 años. Vive en la Ciudad de Buenos Aires desde los 5 años. ni hablar con alguien. Me hacían sentir alguien” (Cristina. Por otro lado. puesto que se trata de mujeres que han vivido durante muchos años en reducidas piezas de hotel. En este sentido. Tampoco me gusta tener que compartir el baño y a veces limpiarlo para que las nenas lo usen. Vive en Buenos Aires desde 1992. no me sentía tan sola.” (Susana. Él es todo. Pero las que no podes hacer valen la pena”.) ser madre. él es mi motor.) Uno de los proyectos que aparece con más fuerza es el de tener la “casa propia”. 125 . 28 años. provincia de Buenos Aires. correntina.) una de las mejores cosas que me han pasado en la vida es tener mis hijos (. Creemos que estos factores socioculturales inciden en la falta de uso o uso ineficiente de los métodos anticonceptivos sin perder de vista las condiciones de precariedad material que dificultan el acceso a la información. Mi mejor proyecto hasta ahora. Siempre sueño con tener mi casa propia (.. Ese fue un proyecto que tuve desde chica.. es una cosa linda que a una mujer le puede pasar” (Mirta. cada hijo concebido refuerza y potencia su identidad como mujer y como madre. “Mis hijos para mí son lo más valioso de mi vida (.. junto a sus familias. no encuentran ni existen proyectos alternativos9 a ser madre que demanden una consciente planificación de la maternidad. regulando el número de hijos. mi mejor logro es mi hijo.) ojála (sic) pudiera comprar un terreno y construir mi casa para asegurarles el futuro a mis hijas. Como argumentamos más arriba. no lo encuentran como único proyecto posible. pues ya han “cumplido” con el mandato y el deseo de la maternidad y ahora prefieren dedicar sus vidas a la realización personal en otras esferas sociales como la del trabajo. no cambiaría un segundo de mi vida por tenerlo. 29 años. (Ana. Cuando uno tiene un hijo sabés que hay cosas que vas a poder hacer y otras que no. aquí la gente está de paso y no podés hacer amigos. Las representaciones de estas mujeres influidas por nuevos mandatos culturales se diferencian a las de aquellas pertenecientes a los sectores populares más desfavorecidos de la sociedad donde la realización como mujer reside casi exclusivamente en el hecho de “tener hijos”.

” (Ana) Ahora bien... que he llegado al logro que tanto anhelaba yo y que tanto quería y que después va a quedar para los chicos. pero me falta el trabajo. Tenía la necesidad de realizarme como mamá. El Molino] me siento sumamente realizada porque vengo a trabajar para tener mi vivienda. pero ellas no se 126 .)Hay una etapa después de los 20.” (Mirta) “Trato y quiero superarme..) “Ahora estoy sin trabajo pero en el momento en que tengo trabajo me siento más realizada todavía. Pero me parecía que necesitaba algo más. igualmente me siento realizada en el sentido de ser madre. Hace 25 años llegó a Buenos Aires) El trabajo y la posibilidad de estudiar también representan un medio de realización y de desarrollo de la personalidad. el estudio y la participación en organizaciones civiles. salen de compras para agasajar a su familia. ni plan jefes y jefas ni vale de comida. El día que yo me muera se que me voy a morir tranquila porque se que yo he hecho mi casa. Falta que tenga trabajo para sentirme totalmente realizada en todo. por los 21. persiguiendo la realización personal en el trabajo.) Yo estoy orgullosa de trabajar. la realización personal excede al de ser madres. (Alejandra. No se me perdieron las esperanzas de llegar a estudiar algo. no me gusta ir a pedir nada. lo cual refleja cierta asimilación de mandatos culturales propios de los sectores medios de la sociedad.” (Mirta. trabajar para pagar mi lugar. cordobesa. donde sus gustos y deseos no son tenidos en cuenta. 42 años. porque yo quería ser profesora de inglés y yo hice hasta segundo año y después dejé. (. Tiene 2 hijas. -¿Te gustaría tener más hijos? -Sí. 34 años. En este sentido. Ahora mis proyectos son terminar la carrera (profesorado de educación física) y trabajar como profe. Lo que pasa que el tema de los hijos te absorben el tiempo. Yo soy una persona que le gusta estudiar y sé que quiero progresar para mí y para mi hijo.. A la gente ignorante es más fácil dominarla. El proyecto de la casa propia se está empezando a dar. 23 años que tenía como una sensación de que se pasaba el tiempo.. (. Por eso no fui a Pavón y Entre Ríos a pedir pieza [Secretaría de Desarrollo Social del Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires]. obviamente y bueno ahora con el tema de formar la cooperativa. me gustaría. No me quiero quedar acá. mendocina. festejan los cumpleaños de sus hijos y su marido pero nunca el de ellas. Me siento realizada como mujer y como persona. Como vimos. Si estudiás además podés tener un trabajo mejor. Es bueno estudiar porque el hecho de saber evita que la gente te lleve por delante.. una primera contradicción aparece en sus discursos y sus prácticas cuando por un lado se evidencia un esfuerzo por valorarse como mujeres no sólo ejerciendo la maternidad sino por fuera de ella. tener mi lugar. -¿Tenías otros proyectos o ese era el único proyecto a perseguir? -Mi proyecto era realizarme con alguna profesión. (. mi propia casa. Ya madre soy. Pero bueno también desarrollar mi persona está puesta en otras expectativas. Y con la cooperativa [Cooperativa de vivienda.) Sentí que cuando fui madre algo ya completé de mi persona. Pero el tema de realizarme profesionalmente todavía no se me pierde porque no hay edad. por qué no?. y por otro lado son ellas mismas quienes se ubican en un lugar ausente y relegado.Poco a poco lo voy concretando. Llegó a Buenos Aires a los 5 años de edad.

lo tiene que usar y sino le gusta. Yo me cuido con anticonceptivos y él usa su preservativo.Le costó un poco.. pero bueno tratemos de respetarnos (. Si vos querés planificar los embarazos tenés que cuidarte porque si no obviamente que van a venir de sorpresa (Alejandra. Sin embargo aún sigue vigente en los intersticios de la sociedad. Desde los 18 años reside en la Capital Federal) “Yo me cuido con pastillas. la gonorrea.obsequian nada.. cocinan las comidas favoritas de sus hijos y esposo. Por un lado utilizan métodos anticonceptivos para regular su maternidad y así poder realizarse por fuera de la esfera afectiva. Hay ciertas etapas de la mujer. “mirá en qué situación estamos. es que el hecho de tener hijos puede ser vivido por muchas mujeres como un servicio que se le presta a la pareja.. “darle hijos” a la pareja puede funcionar como un modo de complacer al varón (Mancini y Wang. Empecé a cuidarme con pastillas cuando tuve la cuarta hija que fue una nena que es Erica” (Mirta) “Después de tener a Lucas [su segundo y último hijo]. yo me hice poner el DIU. 1924.” (Susana) Pero por otro lado perciben la maternidad como algo “natural”. (.. En sus representaciones y discursos se reproducen los modelos teóricos que sostienen que la ‘biología es destino’ (Rousseau. Este sentido de la maternidad como algo nato en la mujer. lo siento. nacida en Córdoba. recayendo sobre algunas fracciones como los sectores populares. estamos alquilando”.. 1991). bueno.)yo no sé si tiene algo y me lo pasa a mí y después que hago porque hay diferentes enfermedades de transmisión sexual. . No está solamente el SIDA sino también la sífilis. En un contexto en el que los hijos son vistos como una prueba de virilidad y masculinidad. y fue así. Yo a la más grande la tuve a los 24. “todavía no”. .) Decíamos. “Llegó un momento que [ser madre] parecía que era una necesidad...¿Él no pone ninguna resistencia al preservativo? . en Badinter. 34 años. Y después es algo natural. las relaciones de género tradicionales no logran ser permeadas por roles de género más igualitarios.” (Alejandra) Una tercera tensión vinculada a la anterior. yo después de los veintipico sentí la necesidad de ser madre. 1762 y Freud. En este sentido. nos cuidamos. inherente al ser mujer. Llegó a la Provincia de Buenos Aires a los 5 años con su madre y una de sus hermanas luego de la separación de sus padres. 127 . “tratemos de cuidarnos”. Aunque tengo el DIU a la otra persona le digo que use preservativo. los hombres son un poco. práctica asimilada a través del contacto con “otros culturales”. ha sido impuesto socialmente por la sociedad patriarcal entre los siglos XVIII y XX. 2003).. En segundo lugar se evidencian ciertas tensiones y contradicciones entre la herencia cultural que portan estas mujeres y los nuevos saberes y creencias que van asimilando de a poco. Pero llegó un momento que estábamos necesitando tener hijos. subordinando sus gustos a los de ellos. La maternidad es vivida por las mujeres de sectores populares como un atributo de la esencia femenina.Sí. ocultando su construcción social y cultural a lo largo de la historia.. como un instinto..

la coquetería y la maternidad. Según Chodorow (op. ya me diste dos hijos hermosos’ (Mirta) Mi marido me dijo que quiere que le dé otro bebé.: 208). El ejercicio maternal de las mujeres. la reproducción del ejercicio de la maternidad es la base de la reproducción de la situación de las mujeres y de su responsabilidad en la esfera doméstica.). pues en su percepción se pueden leer las huellas que ha dejado la visión del mundo hegemónica. es como que la satisfacción de él ya la cumplió.cuenta en su obra ¿Existe el instinto maternal? (1991) que en lugar de instinto. Las mujeres ejercen la maternidad porque antes ésta fue ejercida en ellas por otras mujeres (Chodorow. ¿no sería más válido hablar de una presión social dirigida a que la mujer se realice exclusivamente a través de la maternidad?. han cuestionado el concepto de instinto maternal. deberíamos hablar de “maternidades” y no de maternidad. aquel mandato cultural reactualiza y reproduce el habitus de clase recayendo del mismo modo sobre toda fracción de los sectores populares donde la maternidad es pensada como un destino inherente al ser mujer. “no es porque misteriosos instintos la destinen inmediatamente a la pasividad. Él me dice. a una herencia cultural que pesa sobre la mujer (penalización de la soltería y de la no maternidad. op. ‘para mí esto ya es todo.). De este modo contribuyen a la perpetuación de sus propios roles sociales y a la posición que ocupan en la jerarquía de los sexos.cit. Lo que pasa que un día dijimos que cuando la chiquita tenga tres ó cuatro años íbamos a tener otro y ya va tener tres!.cit. pero yo no quiero saber nada ahora (Alejandra) “Ser madre es un hecho natural”: la reactualización del habitus de clase La maternidad es vivida por las mujeres de sectores populares como un atributo de la esencia femenina. Elisabeth Badinter – discípula de Simone de Beauvoir . Muchas feministas se han empeñado en destruir el mito de la maternidad natural.cit. se reconstituyen a sí mismas físicamente y se reproducen a sí mismas en tanto madres en la generación siguiente. impuesta por el patriarcado: hacer parecer natural lo que en realidad es una construcción social y cultural. en cuanto es un rasgo de la estructura social. Las mujeres. Como vimos. Para hacerlo. una respuesta a presiones sociales.Para él ya está. reconocimiento social de la mujer en tanto madre). ¿Cómo saber si el legítimo deseo de maternidad no es un deseo alienado en parte. Partiendo de la gran heterogeneidad que se vislumbra al interior de los sectores populares. Simone de Beauvoir argumenta en su obra El segundo sexo (1999) que si la niña mucho antes de la pubertad se presenta ya como sexualmente especificada. requiere de una explicación en los términos de la estructura social. Reflexiones finales Ni la biología ni los instintos ofrecen una explicación adecuada de las razones por las cuáles las mujeres llegan a ejercer la maternidad. sino porque la intervención de otro en su vida es casi original” (op. como algo natural. En este sentido. a un deseo social de ser madre inscripto en las mujeres?. como un instinto. la 128 . Yo ahora estoy muy absorbida por muchas cosas. en su rol doméstico.

“La naturalización de los roles y la violencia invisible”. El segundo sexo.). -JELIN. amor y erotismo en las sociedades modernas. -BADINTER. Alejandra y Arias. trabajo y género. Biblos. La cultura de la noche.“Hacia el desarrollo de una teoría del patriarcado capitalista y el feminismo socialista”. Margulis y otros. porque sólo la injusticia. Anthony (1998). Buenos Aires. Sudamericana. La interpretación de las culturas. Eisenstein (comp. Mario (1994). Giberti (comp. La dimensión cultural en la afectividad y la sexualidad de los jóvenes de Buenos Aires. donde priorizan no sólo el rol maternal.. Argentina. -GEERTZ. Siglo XXI. Patriarcado capitalista y feminismo socialista. -MARGULIS. Para Condorcet “el genio femenino no se limita a la maternidad. Elizabeth (1998). -GIDDENS. sostiene que son las condiciones sociales las que llevan a la desigualdad social y de género. Pierre (1991). sino también la realización en otras esferas de su vida. -CLIMENT. Taurus. Nancy (1984). ¿Existe el instinto maternal?. op. Ed.(mayo). y E. AEPA.). -MARCÚS. (primera edición en inglés en 1978. Gedisa Editores. Inés y Wang. M. La mujer y la violencia invisible. En M. En A.maternidad se vive y percibe distinto en madres de sectores populares marginales y madres de sectores populares deslocalizados. Diana (1996). CENEP. que habitan en la ciudad y se encuentran en permanente contacto con los códigos culturales imperantes en los sectores medios10. Espasa Calpes. Madrid. -BOURDIEU. op. Ed. Paidos. imágenes de género y proyecto de vida en adolescentes embarazadas”. -EISENSTEIN. Buenos Aires. Buenos Aires. Buenos Aires. Gedisa. Buenos Aires. la transformación de las familias. Taller de Investigaciones Sociales en Salud Reproductiva y Sexualidad. Universidad de California). Elisabeth (1991).VV. 129 . Ed.cit. Orlandina (2003). -CHODOROW. sino que la mujer puede acceder a todas las posiciones. Wainerman (comp. En M. Pan y afectos. Buenos Aires. En AA. “Estilo de vida. Inés (2004).cit. Universidad Nacional de Córdoba. México. Madrid. “Acerca de las familias y los hogares: estructura y dinámica”. Buenos Aires. cultura. “ ‘Por nuestras hijas’. (primera edición en 1949 por Editorial Gallimard. Ed. sexualidad. pues. FCE. El sentido práctico. Fernández. El ejercicio de la maternidad. Ed. Evangelina (1989). Cátedra. Ponencia presentada en el VII Congreso Argentino de Antropología Social. Paris) -DOROLA. Juliana (2003). sexualidad. -MANCINI. Sexualidad. citado en Badinter. Ed. Buenos Aires. Margulis y otros.: 292). Biblos. Fondo de Cultura Económica. En C. Juventud. cultura. En Z. La transformación de la intimidad. Lucía (2003). Bibliografía -ARIZA. Resulta evidente. -MANCINI. que no existe un comportamiento maternal suficientemente unificado como para que pueda hablarse de instinto o de actitud maternal “en sí” (Badinter. Ed. y no la naturaleza. vínculos en las familias”. Familia. “Modelos de maternidad entre las jóvenes de los sectores medios de Buenos Aires”. Juventud. Buenos Aires. les impide el conocimiento y el poder” (1791: 281.).: 140). Marina y De Oliveira. Sudamericana. Silla (1980). “Prácticas anticonceptivas en las mujeres jóvenes”. Clifford (1987). España. La dimensión cultural en la afectividad y la sexualidad de los jóvenes de Buenos Aires. Barcelona. -DE BEAUVOIR. CEDES. En este sentido. Un mundo de nuevas relaciones. Simone (1999).

-SCHEPER-HUGHES. Ed. “La dimensión cultural de la maternidad de las jóvenes que asisten a un hospital municipal de Buenos Aires”. Notas sobre sociabilidad y cultura en los asentamientos del Gran Buenos Aires hacia fines de los 90”. Mujer y sociedad en América Latina. -WANG. El caso de la industria de la vestimenta en Uruguay”. -PANTELIDES. Lucía (2004). La dimensión cultural en la afectividad y sexualidad de los jóvenes de Buenos Aires. Juventud.). el cuidado). -PISCITELLI. 153-169. Susana (1991). IIED. La dimensión cultural en la afectividad y la sexualidad de los jóvenes de Buenos Aires. En E. La transformación de las identidades sociales. Giberti (comp. 4 Entendemos por cultura al “conjunto interrelacionado de los códigos de la significación. “Vulnerabilidad y Exclusión en América Latina”. Buenos Aires.-MARGULIS Mario y otros (2003). dirigido por el Profesor Mario Margulis e integrado por un grupo de jóvenes investigadores. Buenos Aires. influyen y condicionan las prácticas de los actores. 3 Al respecto ver Margulis y otros: Juventud. Imágenes de género y conducta reproductiva en la adolescencia. Editorial Biblos / UNGS. Ernesto. Doctoranda en Ciencias Sociales. sexualidad. Ediciones Ariel. Biblos. compartidos por un grupo social. Fernández y E. Este libro presenta algunos resultados de investigaciones realizadas entre 1998 y 2003 por un equipo de investigación de la UBA del cual formo parte. ponencia presentada en el VII Congreso Argentino de Antropología Social. 2003. cultura. julimarcus@velocom. Buenos Aires. Historia de las mujeres en la Argentina. 1 ♦ Las características del hábitat. Adriana (1995). quien ha contribuido a elaborar 2 130 . En M. -MINUJIN. (mayo). Argentina. Feijoo. Todos entran. La gran creadora de esta teoría es la lingüista y psicoanalista Luce Irigaray (1974). Violencia y vida cotidiana en Brasil. Marcela María Alejandra (2000). “Ambigüedades y desacuerdos: los conceptos de sexo y género en la antropología feminista”. pp. Bellardi Marta. La muerte sin llanto. La mujer y la violencia invisible. Buenos Aires. Geldstein.. titulado "Cultura y Juventud en Buenos Aires: cambios en los códigos culturales relativos a la afectividad y la sexualidad". en Maristella Svampa (editora) Desde abajo. Editorial Taurus. -ROSTAGNOL. ese ambiente que media las interacciones con los demás considerado como espacio simbólico y cultural. -NARI. Silvia y Gazzoli. Cultura. Ed.com. “Maternidad. Buenos Aires. Nancy (1997). Edith. Buenos Aires. V. tomo II. Lic. Año 14. CLACSO. Minujin. Pita y G. Agostinis. “El rol materno y la politización de la familia”. M. Santillana/UNICEF. 5 El feminismo radical forma parte de la teoría feminista de la diferencia cuyos postulados se inclinan por la valoración positiva de la femineidad (propensión de las mujeres a la ternura. Colombia. Beatriz (1989). Rosa. 1994: 13). Alejandra (1995). Sudamericana. En A. Sexualidad. Cuaderno del CENEP Nº 51.ar Este trabajo de investigación se desarrolla en el marco del Proyecto UBACyT SO10. Biblos. Gil Lozano. Buenos Aires. -PASTRANA. “Género y división sexual del trabajo. del C. Nº 50-51. Barcelona. encontrar la especificidad femenina que no sea la que el patriarcado ha impuesto históricamente. -MERKLEN. En F. Universidad Nacional de Córdoba. N° 16. Bustelo y A. Alberto (1998). UBA. con subsidios UBACyT otorgados por la Secretaría de Ciencia y Técnica de la misma universidad. siglo XX. históricamente constituidos. Ed. Denis (2000). Vivir en un cuarto: inquilinatos y hoteles en el Buenos Aires actual. Buenos Aires. docentes y estudiantes. en Sociología (UBA). -SCHMUKLER. En Cuadernos del Instituto Nacional de Antropología y Pensamiento Latinoamericano. la comunicación y la interacción” (Margulis. política y feminismo”. es decir. Ini. Revista Medio Ambiente y Urbanización. Infesta Domínguez. Buenos Aires. “Vivir en los márgenes: la lógica del cazador. que hacen posible la identificación. Rubén (1995).

cuanto más jóvenes.realizada en 1999 por el equipo de investigación dirigido por el Prof. donde la falta de oportunidades profesionales y educativas terminan imponiéndose y estableciendo que la maternidad se constituya en su principal destino y objetivo en la vida. Critica al feminismo de la igualdad. 8 Balzac en su obra Mémoires de deux jeunes mariées le hace decir a uno de sus personajes: “una mujer sin hijos es una monstruosidad. 10 En cuanto a los sectores medios y altos. De aquí se desprende la afirmación que reivindica Simone de Beauvoir en su obra El segundo sexo: “no se nace mujer. asocian en menor grado el logro y la felicidad femenina con la maternidad. Esta corriente tiene por objetivo la superación de las diferencias de género y culturales que suponen la sujeción de un género (femenino) a otro (masculino). 1994: 32). En ellas persiste con vigor el deseo de desarrollarse en el mundo del estudio y del trabajo.una “identidad subjetiva sexuada” (Rivera. el feminismo de la igualdad postula que la diferencia femenina es un producto cultural. una construcción social impuesta por el patriarcado que supone la sumisión de la mujer al hombre. 131 . instruidas y activas son las mujeres. existiendo un rechazo hacia ella. Irigaray fue en Francia una de las primeras psicoanalistas que refutó el modelo freudiano. de 18 a 32 años de edad. Sostiene que en Freud la mujer aparece como lo negativo. Mario Margulis en el marco del Proyecto UBACyT TS25. 7 Los nombres utilizados son ficticios para resguardar la identidad de las entrevistadas. estamos hechas solamente para ser madres” (citado en Badinter. Hay una desvalorización del propio sexo femenino considerando a la niña como un varón imperfecto y mediocre. ver Scheper Hughes (1997). 9 Tener en cuenta que el proyecto de vida se liga a la maternidad no implica olvidar que ello también funciona como indicador de una situación económica y social desventajosa.cit. El psicoanálisis hace que la niña se aleje de su primera identificación que es la madre. Kennell y Ruddick.: 212). 6 Para un análisis más completo de las teorías del sentir maternal desarrolladas por Klaus. quedando asimilada al deseo masculino. en su gran mayoría estudiantes universitarios y profesionales que habitan en barrios de clase media de la Ciudad de Buenos Aires). planificándola con relación a otros aspectos de la vida (Datos obtenidos de una encuesta -155 casos. El universo que compuso la muestra de la encuesta se orientó hacia jóvenes de sectores medios. pues dicha igualdad entre el varón y la mujer hace perder la identidad femenina. “La dimensión cultural en la afectividad y la sexualidad de los jóvenes de sectores medios”. La maternidad se posterga hasta alrededor de los treinta años. como la carencia. Por otro lado. op. se llega a serlo” (1999: 207).

mediante a laqueadura tubária. sexualidade. que abrangia 100% das mulheres em idade reprodutiva existentes nas 10 famílias que compõem a aldeia (CIMI 1998:2). Sexualidade e Reprodução entre os Pataxó hãhãhãi” Jurema Machado de Andrade Souza Universidade Federal da Bahia. das aldeias Bahetái e Caramuru. sexualidade e reprodução à luz dessas denúncias de esterilização.“Gênero. através de declarações à imprensa e de documentos elaborados sobre o tema. Isso será feito ao propósito de demarcar questões relacionadas ao desenvolvimento de minha pesquisa de mestrado (em andamento) sobre práticas e representações de gênero. Por sua vez.br Resumo: Inserido no campo da etnologia dos índios do nordeste do Brasil. . entre as 14 aldeias incluídas. situada em Itaju do Colônia. localizado no sul da Bahia. caracterizado-o como uma prática genocidaii e racista. Em uma notícia-crime dirigida à Procuradoria Geral da República em Salvador. este diagnóstico constatou que. o artigo tece considerações a respeito das denúncias de esterilização de mulheres indígenas do povo Pataxó Hãhãhãi. as lideranças informaram haver tomado conhecimento do fato mediante um “diagnóstico das condições de saúde” realizado nas aldeias Pataxóiii. Brasil juremam@ufba. líderes indígenas masculinos relacionaram o fato às condições de vida desses grupos. seguindo uma perspectiva mais geral de gênero. notadamente as Pataxó hãhãhãi. Introdução Em 1998. reprodução. a de Bahetá. esterilização. no sul da Bahia. Naquele mesmo ano. a imprensa do sul do Brasil divulgou a ocorrência de uma esterilização em massa entre as mulheres em idade fértil. apresentava um surpreendente índice de laqueaduras. Palavras-chave: Pataxó-hãhãhãi. na década de noventa do século passado.

) os fazendeiros e os políticos envolvidos pretendem exterminar o povo Pataxó hãhãhae” (ibid. Apesar das dificuldades. Os índios passam fome e sobrevivem da cesta básica fornecida pelo governo. Espremidos entre a cidade de Itajú do Colônia -. o Dr. convocaram uma reunião com a população daquela aldeia. Segundo uma repórter do jornal O Globo. às quais teriam sido induzidas por agentes da campanha política de um médico. parecia ser a salvação para quem não tinha como alimentar suas crianças (ibid. e. eliminar a presença dos índios na região. confessou que. Não é difícil imaginar o que levou as mulheres casadas de Bahetá a fazerem a esterilização. A mesma matéria traz os depoimentos de duas mulheres. afirmam que “(. ainda. não há sequer uma índia grávida. Assim. de um alqueire de terra seca e improdutiva e sem alimentos. e a segunda. O rio Colônia.08. afirmou ter-se arrependido “porque ainda poderia aumentar minha família de índios.). vem sendo represado pelos fazendeiros da região e já não tem mais água nem peixes suficientes. reiteradas vezes. que corta a aldeia. constatado o fato. mãe de cinco filhos e com o marido doente. Hoje. o cacique geral das aldeias Pataxó setentrionais. e que. que não teriam sido submetidas a exames médicos prévios para a realização dessas intervenções cirúrgicas. nem têm nascido mais crianças. olho para a minha aldeia e vejo eles se acabando”.Os líderes dizem que. “acabou convencida de que não teria condições de sustentar outras crianças e resolveu fazer a operação” (ibid. e o cacique da aldeia Bahetá – denunciaram o ato cirúrgico e interpretaram-no politicamente.. o povo Pataxó hãhãhãi mostra aparente arrependimento pela decisão antes tomada. “Na aldeia Bahetá. na época. Diante do fato consumado. e propriedades de grandes fazendeiros que se apoderam de parte da reserva. associando-o a mais uma possível investida dos fazendeiros. Nessa ocasião. 133 133 . Os índios vivem numa pequena área. sem meias palavras. os líderes – o presidente do Conselho de Saúde Indígena.a 110 Km de Ilhéus --.). os Pataxó estão vendo sua nação minguar” (O Globo.. que invadem a reserva indígena e que têm tentado. Roland Lavigne. A primeira. A denúncia repercutiu e mobilizou a grande imprensa.). 30.98). e deputado. com 40 anos e seis filhos. quatro anos depois das primeiras cirurgias (feitas em 1994). as mulheres confirmaram a realização das laqueaduras.

hoje. Segundo Guaraci Adeodato de Souza. entre outros. A esterilização é. verificando as circunstâncias em que foram realizados. as crescentes e desiguais conquistas de sobrevivência dos filhos e a radicalização da medicalização da vida social. Como se pode ver. indisponíveis.O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) obteve números referentes a mulheres indígenas de outras aldeias. reforçaram pressões ou estímulos para o encerramento das carreiras reprodutivas” (Souza. jurídico-político. a fim de identificar.)” (Diário da Justiça. particularmente da medicalização da procriação.) em especial as que disciplinam o planejamento familiar (. E apurar. nesta conjuntura.. a questão é complexa. coletivos e difusos.. “analisa-se como nas classes populares. que também teriam sido esterilizadas. o Ministério Público da União resolveu instaurar inquérito civil para apurar “a efetiva ocorrência dos procedimentos médico-cirúrgicos de esterilização noticiados. Além disso. Através da Procuradoria da República no Estado da Bahia. já que este pode provocar a gradativa extinção do povo indígena (CIMI 1998:2). 134 134 . sócio-econômico. 1998:52).). notadamente as das aldeias de Panelão e Caramuru. segundo consta. por omissão. a possível existência de infração das normas constitucionais e infraconstitucionais estabelecidas para proteção e garantia dos direitos individuais. averiguar também o eventual prejuízo contra o patrimônio da União. teriam custeado tais procedimentos (ibid.. reprodutivo. nessas condutas.. dado que lhe cabe proteger as comunidades indígenas e defender seus direitos. e se desdobra em várias dimensões. o método de controle de natalidade mais largamente usado no mundo. e as conseqüências imediatas e mediatas para a já reduzida população Pataxó hãhãhãi. demográfico. agravando a situação criminal dos responsáveis pelo ato. nos planos étnico. 1996: 229). o que. que. também. para o assessor jurídico do CIMI. em face do uso irregular de verbas do Sistema Único de Saúde – SUS. a eventual responsabilidade da União. Os exames realizados nas mulheres esterilizadas concluíram pela irreversibilidade do processo. e investigar seus autores. caracterizaria mesmo uma tentativa de esterilização. (.

à sexualidade e à reprodução. A esterilização evidencia. Eu parto do pressuposto. cujo objeto. o meu interesse na pesquisa surgiu na medida em que o caso revelava. por sua vez. obriga o pesquisador a acolher outras 135 135 . especialmente no que se refere ao caso das esterilizações. constitui o universo das concepções. constitui forte evidência de alterações em curso nas relações entre os gêneros” (Carvalho. a laqueadura é apresentada pelos índios como prática comum de contracepção. tanto do sul como do norte. Nessa pesquisa. o que. na maior parte dos casos. sem conhecimento dos maridos. aliás. mudanças no campo dos gêneros. estão “experimentando mudanças nos padrões de reprodução e sexualidade. a esterilização pode ser tomada como ponto de partida para a investigação que desenvolvo no mestrado. notadamente os da aldeia Bahetá e Caramuru. muito resumidamente. segundo os depoimentos dados pelas próprias mulheres ao Ministério Público Federal. baseada nos noticiados fatos sobre as esterilizações. adotaram a laqueadura como o mais recorrente método contraceptivo (Carvalho & Souza. que culminou na minha monografia de conclusão de curso. notadamente no que diz respeito ao corpo. portanto. Por outro lado. dos líderes ou da própria FUNAI. especialmente. as cirurgias teriam sido feitas. o demonstraram os dados da pesquisa realizada pela ANAÍ (Associação Nacional de Ação Indigenista . A partir das considerações tecidas. que os Pataxó hãhãhãi. práticas e representações das mulheres Pataxó Hãhãhãi sobre sexualidade. Em suma. e não exclusiva das índias Pataxó hãhãhãi – como.Bahia) sobre DST / AIDS. entre índias do norte e sul do Estado da Bahia. ou pelo menos apontava. 2002).É importante esclarecer que meu interesse não incide apenas sobre a questão da esterilização propriamente dita. reprodução e contracepção. constata-se que a grande maioria das índias. tratando o tema da laqueadura no contexto indígena para tentar descrever possíveis especificidades. Isto. já que. no que diz respeito à condição feminina na composição interna dos grupos domésticos. preenchendo possíveis lacunas no recolhimento do material etnográfico e na sua análise. o fato de a etnologia indígena se tratar de um campo composto por sociedades/culturas cujos níveis de organização/observação são estreitamente relacionais. Assim. 1998). pretendo dar continuidade a um trabalho iniciado na graduação. alterações no campo dos gêneros entre essa população. De fato.

ao interromper esse processo. bem como outras práticas contraceptivas. que estariam afetando. sinalizaria para modificações produzidas nas identidades em conjunção. 1998). como memória histórico-social. ao mesmo tempo em que confere às mulheres “segurança ontológica” enquanto seres humanos produtores (Almeida apud Carvalho 1998: 69). Algo assim. • Quais os fatores motivadores da escolha da esterilização como método contraceptivo.variáveis. dando conta do sistema de relações significativas (modos de ação e cognição) no qual está imerso o sistema de relações de gênero dos Pataxó hãhãhãi. talvez mais particular e intensamente. 136 136 . inclusive aquelas tidas como tradicionais. não obstante pertençam às mães. são “feitos” pelos pais (Carvalho. O suposto e o objetivo da pesquisa Como atestam as evidências empíricas de significativo conjunto de etnografias. pretendo responder as seguintes questões: • Quais são as práticas e representações relacionadas à sexualidade e reprodução. o comportamento reprodutivo dos grupos indígenas deixa-se orientar – salvo em situações adversas pós-contato. devido à forte ideologia masculina de virilidade relacionada ao desempenho reprodutivo masculino – que parece preconizar que os filhos. a própria identidade masculina. ou outro fator inibidor — pela prática de “deixar vir os filhos até a menopausa” (Souza apud Carvalho 1998). As esterilização de mulheres Pataxó hãhãhãi. admitindo que estes fatores possam se alterar a depender do indivíduo e das circunstâncias em que ele esteja envolvido. parece suscitar nos homens os sentimentos de que exercem certa dominação sobre suas parceiras e gozam de autonomia. a masculinidade. especialmente significativas em situação de contato interétnico. identidade étnica e relações econômico-sociais e simbólicas com a terra. • Analisar as distintas posições de homens e mulheres na estrutura social e as reações dos líderes masculinos frente à esterilização. manifesta na sua maior exposição pública. Neste sentido.

as terras da referida reserva começam a ser alvo da cobiça de grandes fazendeiros. e no próprio padrão demográfico registrado no Brasil para outros grupos indígenas. objetivava conter os índios que ainda se encontravam nas matas do sul da Bahia e representavam empecilho à expansão da lavoura cacaueira. 1938 apud Carvalho & Souza. 2000). distante apenas 1. ao mesmo tempo em que pequenos lotes nas suas margens começam a ser arrendados a não-índios pelo próprio SPI. Em 1926. para “gozo dos índios Pataxós e Tupinambás” (Lei Estadual nº 1916/26)iv. o governo do Estado da Bahia concedeu títulos de propriedade aos invasores da reserva. Entre as décadas de setenta e oitenta do século XX. ou seja. ou permaneceram no que restou da sede do posto localizado no norte da reserva.• Identificar as repercussões das práticas contraceptivas no padrão demográfico dos distintos grupos étnicos que compõem a Reserva Caramuru-Paraguaçu. ou seja. o Posto Caramuru. Após sérias e violentas investidas. A criação da Reserva. dos Pataxó Hãhãhãi e Baenã. a quase totalidade das terras dos dois postos da reserva foi invadida. o então Serviço de Proteção aos Índios – SPI criou a Reserva CaramuruParaguaçu. o campo a ser investigado é a Reserva CaramuruParaguaçu. Campo Etnográfico Como já mencionado anteriormente. com a 137 137 .5 km da cidade de Itaju do Colônia. e o Paraguaçu. A partir da década de 30 do século XX. notadamente a área concernente à cidade de Pau Brasil. em terras devolutas do Estado da Bahia.099 hectares dos municípios de Pau-Brasil. o que culminou na quase total expulsão dos índios. para o recolhimento e “pacificação” dos “índios apanhados na mata” (Nimuendaju. reservado aos índios oriundos de outras aldeias extintas. Itajú do Colônia e Camacã. Itaju do Colônia e Camacã. as localidades de Mundo Novo (Aldeia Caramuru) e Água Vermelha. Aqueles que resistiram tornaram-se empregados nas fazendas vizinhas. que hoje abarca 54. estabelecido ao norte. localizada nos municípios de Pau Brasil. A partir de 1936. a reserva passa a apresentar uma nova configuração administrativo-espacial. com a divisão da área em dois Postos Indígenas: o Caramuru. ao sul.

como. índios de Olivença. Kamakan. Baenan. Até o resultado do julgamento. os índios gozam. não pode haver um método comparativo para as comparações feitas entre objetos mais distantes e mais contrastivos (geralmente chamadas de comparações entre culturas ou sociedades) e outro método (que poderíamos chamar de análise detalhada) para as comparações feitas entre diferentes casos e vozes de um grupo designado. as informações serão revertidas para o grupo investigado. através das quais poderei reconstituir micro-histórias de vida (das trajetórias de contato e dos ciclos reprodutivos). por exemplo. A Metodologia do Trabalho A investigação se apóia na observação sistemática.) trabalhando com os termos de uma moderna concepção de cultura. Como bem observa Fredrik Barth. realizada em etapas distintas. Kariri-Sapuyá.099 hectares demarcados para a instalação da reserva Caramuru-Paraguaçu. da ocupação de 12.. a fim de contribuir para a discussão e reflexão sobre o tema. os índios deverão se manter nas áreas retomadas através de ações de manutenção de posse ou de negociações de pagamento de benfeitorias.justificativa de que alí “não havia mais índios. atenção especial será conferida à comparação dos próprios objetos descritos. Após sistematizadas.000 hectares. Dos 54. decorre o requisito fundamental de atentar para o complexo mosaico étnico que caracteriza a Reserva Caramuru-Paragussu – coexistência de índios Pataxó hãhãhãi. não importando que o grupo designado ao qual consideramos que eles pertencem e ao qual eles 138 138 . O material coletado deverá servir aos índios em diversas ocasiões.. em áreas descontínuas e retomadas muito recentementevi. inicialmente previsto para o ano de 2003. a Fundação Nacional do Índio – FUNAI entrou com um processo de Ação de Nulidade de Títulos junto ao Supremo Tribunal Federal. no decorrer das quais lançarei mão de entrevistas semi-estruturadas (individuais e com grupos). Em 1982. “(. só meia dúzia de descendentes no posto abandonado de Itajú do Colônia”v. nas reuniões dos agentes de saúde e Grupo das Mulheres Hãhãhãivii da aldeia Caramuru. compartilhada. Como preocupação central desta proposta. Neste sentido. apenas.

produzido e mantido (Butler 1990:3). portanto.).. Considerações Finais Para tentar dar conta das questões propostas. pode ser mudado pela prática (Carvalho.. Deste modo.consideram pertencer seja pequeno (. de classe. Neste sentido. ou como esta reproduz o sistema.. segundo a qual “as representações são enunciados performativos que pretendem fazer acontecer o que eles enunciam. Algo assim tende a levar em consideração a acepção de Bourdieu. Assim. 1998).). sexuais e regionais.) e o caráter arbitrário das nossas distinções entre sociedades (. e como este. é o mesmo que se munir do instrumento capaz de dar conta mais completamente da “realidade”... ou então. nas quais é. a questão do gênero está relacionada ao modo como as pessoas negociam e alternam suas percepções de gênero e corpo nas várias relações que constituem sua vida social (Busby. de compreender e prever mais exatamente as potencialidades nela 139 139 . Se reconhecemos a natureza contínua da variação na cultura (. serão privilegiados os modos de ação e as representações. reciprocamente. étnicas. eu parto do suposto de que o gênero intersecta modalidades de identidades discursivamente construídas – raciais. para tentar nortear a investigação. buscando-se verificar a relação entre a estrutura e a prática. e apoiadas em relações sociais com a terra. restituir ao mesmo tempo as estruturas objetivas e a relação com estas estruturas. as próprias idéias de dentro e entre parecem perder sua força e utilidade” (Barth 2000: 195). identidade étnica. Igualmente. 1997).. invariavelmente. casamento e grupo doméstico. busco sempre levar em conta a premissa de que as categorias de gênero são relacionais. o que torna impossível separar gênero de intersecções políticas e culturais. etc. o trabalho. idade.. e que no caso a ser pesquisado. cumpre também levar em consideração as observações de Cecília Busby. são interseccionadas por variáveis como memória histórico-social. mais do que propriamente diferenças corporais. que aponta para o fato de que a definição do que venha significar as classificações de gênero em uma determinada população é algo sempre sujeito a uma construção.

ou melhor. no extremo sul da Bahia. Assim. Referências Bibliográficas 140 140 . nos municípios de Itaju do Colônia. 1998:112). localizados no sul da Bahia. sobre a resposta que lhe foi dada pelos representantes do governo. nos municípios de Porto Seguro. Diário Oficial. ou seja. Kamakan e Kariri-Sapuyá). considerada “medicina tradicional”. bem como discussões que possam articular a participação dessas mulheres na vida política do grupo. as práticas cotidianas e as relações de sociabilidade estão norteando a construção de um anteparo interpretativo que faz do agregado de indivíduos uma coletividade específica. na Reserva Paraguaçu-Caramuru. no todo ou em parte. o grupo étnico. Mongoió.889 de 1º de outubro de 1956). e revestem essas mesmas práticas de significação e legitimidade. que. Itamaraju e Prado. da imposição. intermitentemente. quando os índios conseguiram avançar para áreas mais distantes do núcleo onde se concentravam. Em 1997 mais três fazendas foram retomadas. Pp. e confecção de roupas. iv Estado da Bahia. com regionais. 11/08/1926. índia Baenã. e da adoção de medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo (Lei No. vi A primeira retomada da área deu-se em 1982. no sul da Bahia. através de lesão grave à integridade física de membros do grupo. Salvador. uma fazenda denominada São Lucas. criada em 1926 com 20 léguas quadradas em florestas gerais e acatingadas. “índios de Olivença”.contidas. e os meridionais. iii A literatura etnológica divide. para realização de atividades. foi estabelecido. Notas A aldeia referida recebeu o nome da índia Bahetá. ii Genocida. juntamente com outros grupos (Baenã. 2. de condições de existência capazes de ocasionar-lhes a destruição física total ou parcial. aqueles a quem estou referindo. à luz de critérios geográficos e sócio-culturais. como a preparação de remédios. levariam à completa intrusão da área e à expulsão dos índios. Os arrendamentos sucessivos celebrados pelo SPI. os setentrionais. 9935. compelidos à dispersão pelas fazendas vizinhas. vii i As mulheres Pataxó hãhãhãi reúnem-se. na medida em que possibilitam que dispositivos de reconhecimento do grupo sejam acionados. no sentido de haver sido realizada com a intenção de destruir. Pau Brasil e Camacã. quando questionados sobre a ilegalidade da distribuição dos títulos numa área demarcada para reserva indígena. os Pataxó em dois ramos. v Depoimento de Maura Titia. em 1926. Botocudo. pelo SPI. que. de 1079 ha. O processo de aceleramento de retomada do território teve vez a partir de 1999. intencional. as possibilidades que ela oferece objetivamente às diferentes pretensões subjetivas” (Bourdieu. As interações que pautam a vida cotidiana dos índios Pataxó hãhãhãi nas relações de sociabilidade que estabelecem com seus pares e com os não-índios engendram as concepções de mundo que regulam a vida social na aldeia. falecida em 1996 (supostamente de cólera) era considerada a última representante do povo indígene HãHãHãi. Santa Cruz de Cabrália.

Considerações preliminares sobre o caso da esterilização das mulheres da comunidade indígena Bahetá do povo Pataxó Hã HÃ Hãi. Rio de Janeiro: Contra Capa. In Cadernos de Saúde Pública. 2000. SOUZA.08. Fredrik. Sexualidade e Reprodução: práticas e representações entre os índios Pataxó (sul da Bahia). Cecília. 1998. p. 2002. BOURDIE. Ana Cláudia Gomes. São Paulo: Edusp. Pierre. BUTLER. 1990. O GLOBO. BUSBY. Judith. Corpo. v. Edinburgh: Univ. Inc. SOUZA. “Permeable and Partible Persons: a comparative analysis of gender and body in south India and Melanesia”. A Economia das Trocas Lingüísticas. Caderno País. 30. 180-200). OVERING. 261-278).1998. 69-79). Press (pp. 1998. 1992. 141 141 . CARVALHO. 1) (pp. Maria Rosário Carvalho. 1997.BARTH. Relatório DST/AIDS entre mulheres indígenas do norte e sul da Bahia”. London: Routledge: Chapman & Hall.. Nº 14 (sup. Discourse and Practice. Wasting Markets Analyses of Ideology. Jurema Machado de A. O guru. “Aspectos positivos e negativos da esterilização tubária do ponto de vista das mulheres esterilizadas”. o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de janeiro.DF. 12. Salvador: ANAÍ/ MS/ UNESCO. In: The journal of royal anthropological institute. 1998. Feminism and and the Subversion of Identity. Brasília. Maria Rosário. 3 (pp. CARVALHO. “Wandering in the market and the forest”. CIMI. Joanna. 1998. Luzinete Simões. Projeto de Pesquisa encaminhado à Fundação Carlos Chagas – PRODIR III. MINELLA.

.). Monografia apresentada como requisito para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais. “Alguns aspectos da construção do gênero entre os Javaé da Ilha do Bananal”. (pp. 1996. Massachusetts. Ceres. Eduardo. et al. Tese de Doutorado apresentada à Universidade Estadual de Campinas. 1998. In Corpo e Significado: Ensaios de Antropologia Social (LEAL. _____________ 1981. Rio de Janeiro. VIEIRA. UFBA. VICTORA. 1) (pp. 142 142 . 1995. VIVEIROS DE CASTRO. Org. (pp. In Cadernos de Saúde Pública. F. “As imagens do Corpo: Representações do aparelho reprodutor feminino e reapropriações dos modelos médicos”. João Pacheco de. Mulheres Pataxó hãhãhãi: corpo. Patrícia de Mendonça. Sucessão das Gerações na Bahia: reencontro de uma totalidade esquecida. 5. 77-81). In Sociedades Indígenas e Indigenismo no Brasil. Cambridge.). Campinas: UNICAMP. Guaraci Adeodato de. In Cadernos Pagu. SOUZA. “A construção da pessoa nas sociedades indígenas brasileiras”. In Sociedades Indígenas e Indigenismo no Brasil. (pp. 1987. Nº 14 (sup. and London: Harvard University Press.RODRIGUES. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 59 – 68). 1987. O. SOUZA. “The Suyá Indians of Mato Grosso”. A. Org. 1995. “O arrependimento após esterilização feminina”. 131-147). 11-29). 2002. Rio de Janeiro: UFRJ/ Marco Zero. SEEGER. vol. (pp. “A fabricação do corpo na sociedade xinguana”. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro / Marco Zero. 31-41). Jurema Machado de A. Nature and Society in Central Brazil. sexualidade e reprodução. (OLIVEIRA. concentração em Antropologia. Elisabeth Meloni.

UFSC e Anna Paula Vencato .UFRJ . Fragmentación e Diversidad” O "povo de santo" do subúrbio carioca: homoerotismo. Coordenadoras: Flávia de Mattos Motta .“Identidad.VI Reunião de Antropologia do Mercosul . Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate. religiosidade e 'cor' Laura Moutinhoi Silvia Aguiãoii Crystiane Castroiii Grupo de Trabalho: Família.

que venho visitando há mais ou menos um ano e meio. não excluem a tensão que de modo mais ou menos explícito perpassa o tema da homossexualidade. pretendia incluir na análise as parcerias heterocrômicas entre as lésbicas freqüentadoras do barracão. Maria Lina Leão Teixeira (1986) coloca o corpo no cerne deste cruzamento. Parte dos estudiosos compreendeu que os homossexuais eram motivo de “constrangimento” e um elemento a mais no estigma que sempre pairou sobre o candomblé. Inicialmente. Esta é uma distinção que funciona apenas para um primeiro contato com o tema. igualmente. uma religião tida como menos prestigiosa na hierarquia religiosa (Birman. entretanto. Estas questões ganham contornos ainda mais complexos quando à homossexualidade são agregados a diferenciação racial. lazer e encontros amorosos. como um dilema particularmente expressivo. Os relacionamentos afetivo-sexuais heterocrômicos entre homossexuais são. e. posto que o ponto de partida que informa a presente pesquisa está calcado na idéia de que neste segmento as esferas religiosa e erótica aparecem não somente com uma ênfase particular mas. na interpretação de Patrícia Birman (1995). (:02) Para Teixeira uma “sexualidade mítica” informa a construção das identidades sexuais neste contexto. tampouco aparece como um interdito. na idéia de formalizar a união no plano religioso. um campo privilegiado para a análise. a homossexualidade encontra um lugar no candomblé por conta da própria lógica que estrutura o culto. a miscigenação e o racismo. igualmente. Por ora. que possui. por exemplo. entretanto. 1997: 229). os candomblés se mantêm – de modo particularmente visível nos subúrbios e nas favelas cariocas -. o objetivo deste paper é analisar a dinâmica dos afetos e prazeres presente nos relacionamentos afetivo-sexuais heterocrômicos entre parcerias gays que freqüentam os cultos de possessão do subúrbio carioca e discutir uma das formas (entre as muitas existentes) com que o “povo de santo” se insere na cena gay carioca. como um espaço fundamental não somente de vivência e expressão da religiosidade mas. Neste paper. entrou em crise nos últimos meses por conta de uma série de divergências entre alguns filhos-de-santo com o pai-de santo local que vem sendo acusado de negligência e desleixo por estar sendo absorvido em excesso com um novo 144 . estigmatização e desconforto com a presença de homossexuais nos candomblés são um ponto nevrálgico da literatura sobre as chamadas religiões afro no Brasil. esta relação surge eivada de tabusiv. entretanto. uma das formas de expressão de si. sobretudo. Assumir a identidade homossexual em alguns segmentos do “povo de santo” não aparece. Voltarei a este ponto. como. posto que a possessão funciona como mecanismo de construção da diferença entre os gêneros. mas em alguns níveis. de sociabilidade. A despeito do visível crescimento das igrejas evangélicas. gostaria de destacar que alguns dos relatos surgidos no trabalho de campo ainda que apresentem situações e apontem para espaços de acolhimento. Além disso. por ser um “veículo” através do qual os orixás se manifestam. O candomblé. neste sentido. Desta forma. Relacionar-se sexualmente com pessoas do mesmo sexo.Introdução A negação. como fortemente intercruzadas. em verdade um caráter profundamente exploratório será dado destaque aos cultos de possessão mais como espaço de sociabilidade do que como expressão de religiosidade.

minha filha (. A leiga. comprometer o desenho da pesquisa. Vila Kennedy.vii bairros do subúrbio e da zona sul. a partir de certo momento do trabalho de campo. para ter acesso às trajetórias sexuais/amorosasix foi necessário que eu adquirisse alguma competência no santo. no qual eles me acolheram animadamente. por assim dizer.) você está para o seu santo. justamente.”. rolos. quando procuro registrar tanto a trajetória afetivo-sexual dos entrevistados quanto as experiências religiosas. ficantes “inter-raciais”. fortemente intercruzados com a esfera religiosaviii no candomblé. entrando em minha pesquisa e me conduzindo para outras regiões como os bairros de Madureira. que tenham mantido ao menos. no próprio culto. Venho acompanhando de longe o conflito.. Aconteceu algumas 145 . Como me disse um dos entrevistados ao ser perguntado sobre as relações afetivo-sexuais no barracão: “uai. As fofocas sexuais compõem um importante espaço da pesquisa.. bem como os cálculos que cada um faz com relação à prevenção às DSTs/Aids. rolos e ficantes inter-raciais e não tinha intenção de explorar diretamente de que forma essa dimensão se inter-relaciona com outros aspectos da vida dos sujeitos da pesquisa. Esta dinâmica ficará mais clara nas próximas páginas. Seguir este itinerário com eles tem me permitido compreender alguns dos caminhos e descaminhos do desejo que anima o grupo. na busca por casais. moradores de diversas regiões do Rio de Janeiro. o candomblé também funciona como um espaço de lazer e facilitador de encontros amorosos. escolares. Trata-se de “um povo” que paquera e namora muito entre si. O trabalho de campo consiste em entrevistas no formato história de vida. percorro candomblés. não querer me perder de uma genealogia específica que se espraia pelo subúrbio carioca (todos ligados a um influente pai-de-santo do bairro de Madureira). Além disso. como as favelas da Maré e Rio das Pedras. como fui chamada.. Assim. A esfera religiosa não havia sido pensada no desenho original da pesquisa. O erótico e a própria dinâmica dos afetos e prazeres estão. Não quis me afastar do grupo pelo fato de. passou a perguntar e tentar entender como “raça”. no caso dos jovens. Trata-se de um percurso interessante de sociabilidade. Senador Camará e Brás de Pina. pois o adév que me acolheu e abriu as portas do grupo está.amor. Modificar a estratégia do campo iria. um relacionamento afetivo-sexual heterocrômico. no fato de que neste segmento homossexuais “assumidos” não somente circulam abertamente como possuem um espaço. subúrbio do Rio de Janeiro. como dito. ainda que eventualmente tenso. Desde minha primeira visita à favela da Maré. sobretudo. O desenho da pesquisavi Há cerca de três anos venho entrevistando e convivendo com gays e lésbicas. no mercado de trabalho. por um lado. A seguir irei apresentar com o trabalho de campo foi estruturado e está se desenvolvendo. como nos demais ambientes religiosos. assim. entretanto. além do candomblé o grupo costuma circular por algumas boates e/ou casas de amigos da região. né?! Festa de santo é festa nossa.. no centro da disputa. Meu foco eram os casais. Além disso. bem como se intercruzam com as esferas normativa e erótica. boates. mas não é cego. o “povo do santo” foi.. por outro lado. em algum momento de suas trajetórias. esportes ou qualquer situação de lazer que seja convidada para participar. (homos)sexualidade e religiosidade eram articuladas. A diferença reside. construídas e vividas neste segmento religioso.

H. mas como parte de um jogo lúdico. (Cf. a freqüente desconfiança com relação à performance viril dos ogãsx. Neste aspecto. um ponto importante. Por fim. digamos assim. (cuja sigla significava “Barbies in total control here”)xiii.e a conversa envereda para detalhes picantes. aquilo que literatura destaca como “xoxação”.. cumprindo este papel. é importante ter em mente. que faz com que o circuito dos barracões de candomblé adquira relevância no interior de um eixo mais amplo: os homossexuais masculinos. 1982. Fosfobox (Copacabana). na verdade. Para os mais escuros. além da festa X-Dementexi. Fry. bem como o próprio circuito dos barracões de candomblé e as escolas de samba. ser puxada para um canto e ouvir aos sussurros que o que “fulano” falou não é bem assim e que. O autor problematiza 146 . Cabe destacar. 00 (Gávea) que tem somente um diaxii dedicado a este público e festas como a B. Duarte vem trabalhando com uma perspectiva que inverte a lógica tradicional que explica a adesão religiosa. Galeria Café (Ipanema). No subúrbio carioca as “quartas-feiras gays” do Shopping Madureira. é preciso explicitar que a análise de Luiz Fernando Dias Duarte (2003) traz um importante aporte para o presente estudo. “raça” e sexualidade dominante nestas regiões e sua articulação com violência e o tráfico de drogas em cada território observadoxv.vezes de após uma entrevista ou depois de uma animada conversa sobre sexo e paqueras com o grupo. 1994) a ser explorado no mercado afetivo-sexual carioca diferenciado das moças e rapazes heterossexuais destas regiões.I. o idioma de gênero. ainda que disseminado e presente nas conversas. faz parte do que pode ser chamado de ‘circuito GLS’ underground carioca. ou seja.C. foram citados como espaços onde gays e lésbicas de distintas regiões do Rio de Janeiro se encontram. o Cabaré Casa Nova na Lapa. que as fofocas e as relações jocosas não são diretamente despertadas pelo tema da pesquisa. boates como Dama de Ferro (Ipanema). no sentido que lhe empresta Mary Douglas (1966). não foi apresentado como possuindo um caráter poluidor. Este tipo de rumor. A perspectiva tradicional destaca a influência da religião sobre o ethos e estilo de vida dos fiéis. 1995. entre outros). a Le Boy em Copacabana. como aliás. sobre um ou mais membros do grupo. boate de Jacarepaguáxiv. Como vários autores destacaram este segmento religioso tem como marca as rivalidades e fofocas. Na zona sul carioca. Fredoom (Barra). também apareceram na pesquisa. Importante destacar. neste sentido. Birman.. São muitos os mapas ou territórios de encontros que vêm se delineando na pesquisa. tanto os moradores do subúrbio quanto das favelas parecem ter um “campo de possibilidades” (Cf. Velho. Algumas boates apareceram nas falas de meus entrevistados como locais de encontros amorosos entre indivíduos de classes e cores diferenciadas. Há outros circuitos mais fechados. para certas “tribos”. ainda. fazem sexo e se separaram (ou não). é possível percorrer e ultrapassar de diferentes modos e com distintas interações as linhas de classe do Rio de Janeiro. paqueram. sempre contado em tom de riso e galhofa. 1986. O Buraco da Lacraia no Bairro de Fátima. ele gosta de. a 1140. em especial. Teixeira. o “vôlei dos gays” da praça do Cemitério de Irajá às terças e quintas-feiras.T. que não oferece exatamente perigo de perda de prestígio ou posição. disputas e ironias.

especialmente os homossexuais. o masculino é definido no candomblé em oposição à possessão. o gênero feminino “recebe santo”. “moreno”. por exemplo. O comportamento dos homossexuais masculinos. como destacou Saulo. porque a gente tem 147 . com os flertes se superpondo à performance do santo. um novo aporte que. Nesse sentido. não é problema. ser inter-cruzadas. contribuindo para a elaboração de um idioma de gênero distinto daquele que informa e organiza a sociedade mais ampla. até mesmo as mulheres. .. ao contrário. entretanto. imagina sendo homossexual?! Os homens. não é definido como oposto do masculino. do ponto de vista biológico. Desta forma. neste sentido. Deste modo. que seria o estilo de vida que influenciaria a escolha religiosa.. como por exemplo. está freqüentemente sob suspeição e a percepção generalizada é de que eles precisam de limites. A sobreposição entre a etiqueta do santo e a social é ainda compreendida por parte da literatura que trata do tema como resultado do impacto do escravismo na organização religiosa. permite explorar sob outro ângulo a(s) escolha(s) religiosa(s) dos entrevistados e a forma com que eles vivem e refletem sobre suas experiências amorosas e sexuais neste e em outros ambientes.xvi Neste contexto. mas “a sapatão” expressa certa “malícia” neste momento. entre outros autores). estão sempre prontos para a “caça sexual” (Heilborn. eventualmente. esta questão ganha contornos particulares.e homossexuais devem seguir uma etiqueta cuja a tônica é a discrição. A narrativa de João. em detrimento da sanguínea. O pólo feminino. a coisa piora”. você vê que a gente fica assim olhando. 22 anos. “moreno-branco” é ilustrativa: “vamos dizer. como parte da literatura consultada reconhece. pois são homens e. A idéia de que os homens. uma contínua inversão simbólica dos gêneros. De acordo com alguns relatos de gays que entrevistei. não importando se o sujeito é biologicamente masculino. no caso da pesquisa em questão. você vê. A sexualidade aparece como um dos elementos que ganharam contornos particulares neste cenário. é recorrente nos estudos sobre homossexualidade. quando “além de homem é homossexual. o que significa que acolhe indivíduos que. Patrícia Birman (1995) seguindo uma pista aberta pioneiramente por Peter Fry (1982)xvii forneceu a chave para se entender o lugar dos homossexuais no culto. Duarte fornece. no ritual os “viados” “respeitam mais que o sapatão”: trocar de roupa na frente de um “irmão de santo”. ao explorar as construções de gênero nos cultos de possessão e explicitar que o candomblé opera através da possessão (e não da ordem biológica). (Cf. 2004). entretanto. de 18 anos.homem em si já é mais nervoso. podem tanto ser do sexo masculino como do feminino. prestando atenção em tudo. elas tão dançando mas a gente tá vendo tudo o que tá acontecendo. na desvinculação do sexo da reprodução. Segato. entretanto. você tá na roda do candomblé. os namoros e as paqueras hetero. nos rituais estas esferas podem. O mercado dos afetos e prazeres homossexual e heterocrômico entre o “povo de santo” No candomblé. mais atirado.essa perspectiva defendendo. que reforçou a família do santo. 1995.

fala comigo e com o meu menino’”.. mas concebe o barracão e o momento ritual como de dedicação aos orixás. chamando atenção para as “falsas possessões”. é apegado à vida mundana e os orixás. assim como o próprio lugar dos adés no ritual. inclusive. né? (. sempre se olha em volta.. o ritual para o santo pode se intercruzar com o ritual de paquera.) Aí. o barracão não é local de paquera. Ele até conheceu um ex-namorado branco em um candomblé. As relações entre homens e entidades transformam a paquera em um ritual de duas dimensões. sou sozinho.. Nesse sentido. ainda que possuam “mais luz”.. assim. de 18 anos. a transgressão que exsuda dos jogos de cena e brincadeiras adquire um sentido particular na hierarquia religiosa do candomblé. E contou que certa vez “fui para assistir uma coisa e. Mateus esclarece.. é mais coisa que o povo fala. entra. que a pessoa não vai ser boa pro cavalo”.. por exemplo.. ela pode deixar um recado pro médium que ela está incorporada de que é pra tomar cuidado com a pessoa. nas palavras de João: “se a pomba-gira te encosta.. todo exu. A pomba-gira pode falar... mas entre um despertar ou outro. Birman (1997) associa este evento. entra o [fulano] e eu me interesso. Assim. a pomba-gira virar e falar: ‘eu que encostei em fulano pra fulano sair’. Os santos católicos experimentaram a vida terrena de modo santificado.”..... Tá me cantando.. Os adés não são aqueles que exploram a aflição ou a queixa. Recorre-se ao transe e à autoridade que os espíritos conferem para explorar interesses sexuais e eróticos.. trazem parte da experiência humana. Para Fry (1982). acabei fazendo outra”. Só falou assim. Mas há limites: “interferir. Os amores vividos podem receber a intervenção das entidades. mas sim.. No caso do candomblé. Na perspectiva apresentada por João.. Isso não existe. essa dupla esfera de ação está relacionada às experiências terrenas dos orixás.. “Esse viado tá de fingimento.. com “uma vida muito voltada para a caridade”. Vejamos um relato ilustrativo: “a primeira vez que [fulano] viu a pomba-gira do meu pai eles pensaram até que a pomba-gira tava cantando ele porque a pomba-gira chegou pra ele e falou assim: ‘quando o senhor precisar de mim. João. do sexo e do erotismo. Eu vou dar uma encarada pra ver qual é e tal”. é categórico sobre este ponto: “rola muito fingimento. vamos supor.que tomar conta da casa. O fato de distintas esferas de vivência estarem imbricadas coloca freqüentemente sob suspeição a performance no santo. que quando está no candomblé “se dedica ao santo” mas que às vezes acontece envolvimento porque “há muita gente bonita aqui”. à lógica de alteridade e do feminino que estrutura o candomblé. não se paquera com as entidades. Usa o nome da pomba-gira pra fazer tudo o que tem vontade”. Como a “festa do santo é festa nossa”. as potencialidades abertas pela linguagem do santo. negro. 148 . Para Mateus. uma das facetas da falsa possessão está diretamente relacionada à paquera.Por que Pomba Gira vai perder o tempo dela pra cantar alguém por mim?”.

Como no universo das relações heterocrômicas e heterossexuaisxix a idéia de “convivência” é chave para que se possa compreender sua posição: “a gente convive mais e. mistura! Tem preto. para João não é complicado sair e namorar um negro. João recriminou o racismo dos homossexuais.quer dizer. ele tá pedindo o quê? ‘Bicha preetaa!’ É a primeira coisa que falam. cabelo pintado de loiro.. a gente nem fala nada. É a primeira. Ele diz assim: “às vezes você passa na rua.. vários brincos na orelha. no espaço da rua. Especialmente. é vaidoso. de short curto desfiado aparecendo a popa da bunda. aquilo me atrai.. com cerca de 30 anos: “eu acho a cor mais bonita. Então.”. um mulato acaba sendo um negro mas de cor mais clara.. Vejamos a seguir como o universo do “povo de santo” se inter-relaciona com outros espaços próprios da cultura GLSxxi carioca. Entre os brancos entrevistados a cor negra como fator de atração aparece como o motivo principal dos encontros amorosos-sexuais. Para João. pois considera que aquele que sofre tanta discriminação. que a “convivência” não aparece como vetor explicativo com relação ao preconceito contra os homossexuais. o homem é negro e assim se veste bem. que reaparece quando a questão racial entra em cena. Enquanto conversávamos sobre o tema.. você nem mexe. É interessante notar. a discriminar qualquer coisa”. Para Mateus e vários outros entrevistados.”. Por este motivo ele também defende que não há racismo neste espaço. “tem que ser a última pessoa a ter discriminação.. se ele tiver “boa postura”.Aí. tonalidade mais clara”. Tal atitude seria capaz de neutralizar a discriminação racial. unha feita. eles acabam procurando o que? Os viados!”. pai-de-santo branco.. não. a cor mulata. entretanto.. tem moreno. tem muito casal inter-racial nos barracões “porque o povo do candomblé está acostumado com os pretos”xviii. bichona!”. por ter “muita atração” pela cor: “Olha. vai marica. diz que “gosta de sair com preto”. Para João: “vamos botar assim. sobretudo. Aí a gente ta passando e: “viadinho!” ou “ah. é claro.. Interessante notar que quando o assunto muda para a beleza dos ogãs negros que tocaram na saída de uma Iaôxx que eu tinha assistido uma semana antes. tem branco. acho que tudo é a forma como você se porta. não rola isso. na frente de um bar onde tem um monte de homens bebendo passar um homossexual preto de unha pintada de rosa.A “compostura” como atitude que impõe respeito e proteção contra as fofocas.. Assim. Vamos botar assim: se você tiver passando na rua. por exemplo. 149 . anda perfumado. No dizer de Paulo. O próprio termo “racismo” é freqüentemente utilizado como sinônimo de discriminação – formulações como “havia muito racismo contra homossexuais” são registros comuns no trabalho de campo. Tudo é sua postura. mais chamativa. os rumores e os mal-entendidos se coadunam com uma certa etiqueta religiosa. porque se você perceber todo mundo discrimina um pouco a cor negra”. a cor negra perde relevância.. os “gays” se atraem pela postura viril dos ogãs e os ogãs se atraem pelos gays porque “eles fazem o que as mulheres não gostam de fazer. João..

que somente circulam por locais “brancos”. embora não surpreenda. Oriente Médio. em Copacabana ou na boate Help. no qual a demanda por viver (e se alimentar) de um mercado étnico/racial é organizada pelas mulheres. a crença na sensualidade particular da mulher brasileira.que circula pelos points do subúrbio e da zona oeste. Com eles. Uma percepção que também se faz presente entre as garotas de programa. faz parte deste grupo de amigos – todos de santo . De acordo com Blanchette e Silva (2004) que analisam o mercado sexual (heterossexual) carioca. Piscitelli (2001) trabalha com um conceito de turismo sexual que auxilia na compreensão deste universo. que. especialmente. É interessante notar como as noções de raça e cor intercruzadas com nacionalidade compõem um quadro hierarquizado de ofertas sexuais no mercado do amor e do sexo em Copacabana. Neste “turismo afro-americano”. escolas de samba e boates do subúrbio. Ele faz sucesso entre homossexuais brancos e estrangeiros e com os negros forâneos disse passar despercebido para os angolanos. A busca por “autenticidade” (Piscitelli. de acordo com o autor. Trata-se. negros e mestiços no Brasil. Para estes viajantes a “mistura” não aparece como um problema. não se 150 . o Rio de Janeiro seja tido com um espaço relativamente seguro e pelo fato de que o mercado do sexo conta com uma estrutura qualificada de organização. interessa-me reter a idéia de que a situação assim percebida facilitaria a transformação dos envolvimentos sexuais em afetivos. Saulo aponta o negro africano como o menos prestigiado neste contexto. Marcelo Ferreira (2005) trabalha exatamente com o desconforto do mercado do turismo carioca com negros norte-americanos de alto poder aquisitivo. com termas e boates. Deste ponto. com pouco interesse pelos pontos turísticos tradicionais e mesmo pela forma como se organizam as relações entre brancos. Ir às boates. Dentre os fatores perfilados pelos autores chama atenção. 2004) é uma categoria-chave neste universo. África. É significativa a percepção de que as garotas de programa se prostituem. pois “eles só querem branquinhos”. são os negros norte-americanos. em um lugar central. com viés fortemente militante. inclusive. Este é um aspecto interessante. Alguns destes contatos podem. o que prevalece em Copacabana. um rapaz negro. mas “não agem como putas”. de um turismo mais “família”. entretanto. Ferreira notou que ao invés de grandes grupos. este viajante vem no máximo com três pessoas. No caso do chamado “turismo sexual”.Intersecções do desejo: do circuito do “santo” para o circuito da “pegação” A maior parte dos entrevistados não se mantém apenas nos candomblés. pela idéia de que em relação a outros mercados como a Ásia. outras vezes para “fazer dinheiro”. as mulheres negras aparecem. Saulo. desdobrar-se em um vínculo mais longo. para “pegar” uns “gringos” e “fazer um trocado”. como vem evidenciando meu trabalho de campo. Saulo já “saiu”. Os mais bonitos. Às vezes ele vai à boate Le Boy. à praia de Copacabana e à Lapa é um programa que eles fazem com alguma regularidade. que tem como destino principal o Rio de Janeiro e a cidade de Salvador. de fato. morador do subúrbio de 24 anos. o Rio de Janeiro funciona como um “campo de diversões sexuais” para estrangeiros por conta da desvalorização do Real frente ao Euro e ao dólar. situada no mesmo bairro. Às vezes vão para “zoar” e paquerar.

Marcos não acha os gringos fisicamente muito atraentes. Ele morou com o gringo. As trajetórias de Saulo e de outros rapazes negros guardam. Disse que os homens nem conversam com “travesti”. Sexualmente ele diz que é “normal”. gays e brancos dizem: “puxa! O que vocês têm? A gente fica de escanteio”.”. nunca tinha tido namorado ou ficado com uma mulher: “nunca nem beijei mulher”. Ele se “atrai” pelo “jeito de ser”: “ser pessoas de fora. como elucidou. Ele fala dele. Amigos meus. Marcos contou que ele e vários de seus amigos negros vão para as boates da zona sul encontrar os gringos: “Tem muitos gays que vem para o Brasil e eles gostam muito de paquerar os negros”.. como explicou de modo evasivo. Mas que onde mora é mais complicado ser gay do que ser lésbica.restringe ao turismo heterossexual. Ele acha que elas são mais respeitadas. Eu também não sei o que é isso. de outro país”. bem como desestabiliza o roteiro tradicional da desigualdade carioca. principalmente por ser negro. Então isso é muito interessante. Disse ainda que “é legal ter contato com uma pessoa que me mostra coisas que eu só vejo na televisão”. não. que tem uma coisa diferente”.. Vejamos o que diz a autora: “o turismo sexual é (. da zona sul” E que com os “gringos” isso não acontece. conheceu gente de vários países: ele aprendeu e deu informações e ao mesmo tempo também as recebeu. inclusive.. os gringos acham que os “negros tem mais calor. no qual a sexualidade alarga a “agência” dos entrevistados. E para ele os gringos “são legais” porque “eles têm uma cultura diferente”. A perspectiva apresentada por Marcos é muito interessante pois está todo o tempo falando em troca. é bem legal você explorar isso dele e ele explorar isso da gente”. Mas que os gringos acham que eles são fogorosos! No mercado do amor e do sexo Marcos considera que não tem chance com os brancos brasileiros.) qualquer experiência de viagem na qual a prestação de serviços sexuais da população local em troca de retribuições monetárias e não monetárias seja um elemento crucial para a fruição da viagem”. Marcos explicou da seguinte forma este tipo de encontro: “trocar informação. fazia telecurso. porque se ele sentar com uma para conversar vai todo mundo dizer que “ele tá pegando um travesti. “Eles acabam dando preferência para a gente. Sobre discriminação. ele ia a festas. com quem namorou por seis meses. uma “travola”’. semelhanças interessantes com as das mulheres pesquisadas por Piscitelli (2004). uma boate de Bangu e algumas outras de Copacabana. chegando a morar com ele em Ipanema. é que quase todos os dias ele voltava para a região onde reside para ver os amigos. branco. Marcos tinha pouco mais de 20 anos quando eu o entrevistei. A trajetória de Marcos expressa o que estou tentando enfatizar.. disse ele gesticulando enfaticamente de modo a expressar espanto e incerteza. Interessante. como ele vive lá e eu falo como vivo aqui. Ele se sente muito discriminado mas é “boyzinho” (quer dizer se veste como homem) e que o pior mesmo é ser “travesti”.. ele me disse que é muito difícil ser negro e homossexual: “nenhuma família merece!”. Afirmou também que gosta muito de homem bonito. “porque eles dão preferência ao pessoal que é dali. ele disse. 151 . por exemplo. que freqüenta a Lapa. Foi em uma delas que ele conheceu um namorado europeu.. para matar saudade. Segundo sua explicação.

a homossexualidade e a homofobia aparecem como categorias dominantes. “raça”. Perlongher (1987). tem sido mais difícil trabalhar com a questão racial neste campo do que anteriormente (idem). 2004). na pesquisa realizada até o momento. Vale ainda destacar que tanto nos arranjos heterocrômicos homossexuais quanto entre os heterossexuais a raça/cor não evoca uma distinção moral. o referencial da homossexualidade se sobrepõe ao da raça. 1991). 152 . As falas remetem. algum bloqueio. em especial. mas o outro motivo que o levava a não sair com negros se referia a “oportunidade”. que atuam em inúmeros territórios na cidade do Rio de Janeiro. sobretudo. classe e idade e. a principal dificuldade sentida refere-se à forte articulação entre virilidade e raça negra. alguma coisa”. para a dificuldade de se articular duas formas distintas de desigualdades. em vez de dissertarmos sobre identidades talvez seja conveniente falarmos de territorialidades uma sugestão particularmente interessante posto que o tema ora sob análise se desenrola em um espaço profundamente marcado por facções violentas. que. Ainda que nos jogos eróticos encenados no candomblé e em outros espaços a cor e a raça apareçam associadas ao erotismo e que todos considerem que o candomblé seja mais acolhedor para com relacionamentos afetivos-sexuais heterocrômicos. o espaço do candomblé..) Acho que dentro deles deve existir algum preconceito. Além disso. Para o autor. constituem categorias que funcionam como tensores libidinais que orientam os sujeitos na busca por corpos e prazeres. O contraste branco/negro – mais claro/mais escuro povoa o universo erótico dos encontros. em O Negócio do Michê demonstra como gênero.Marcos disse que sentia atração sexual por homens brancos. a correlação entre cor/raça e erotismo entre parcerias gays e lésbicas heterocrômicos. Tal associação possui enorme atrativo no mercado dos afetos e prazeres cariocaxxii.. que encompassam o racismo. A representação corrente de um forte erotismo associado à cor negra – que neste ponto não se diferencia nas relações homo ou heterossexuais. Stolcke. Moutinho. por fim. no eixo da discriminação. mas também contribui para dificultar a aceitação da homossexualidade em certos contextos. (. Caráter. contornos específicos às distinções de raça. de forma mais porosa. não apresenta diferenças substantivas em relação aos relacionamentos afetivo-sexuais interraciais entre heterossexuais (Cf. sexualidade e gênero. por exemplo. Por um lado. De fato. De acordo com alguns jovens filhos-de-santo negros. Por outro lado. é algo que se desenvolve com a criação (socialização) não tem a ver com raça. nas quais o negro ou o pólo mais escuro aparece associado à maior excitação e desempenho sexuais – não deve ser percebido de forma estática. das que dizem respeito às questões relativas à territorialidade. Sua fala possui eco com a de outros entrevistados: “parece que um negro não gosta de outro negro. Faz-se necessário enfatizar. sobretudo. O universo pesquisado se aproxima de algumas das reflexões tecidas por Perlongher (1993). à identidade e aos desejos que animam os mercados do prazer e do sexo. conferindo. por exemplo. raça/cor e homossexualidade compõem na fala dos entrevistados um somatório de discriminações (Cf. A cor e a raça também aparecem como um elemento a mais – e de fundamental importância – na elaboração estética que acompanha e constitui. em certas regiões empobrecidas e favelizadasxxiii. neste sentido.

entre outros. cryscastro65@yahoo. que pesquisa na Internet e nos chats homossexuais) e Débora Baldelli (festas/boates de música eletrônica da zona sul carioca). igualmente.br iv A relação entre homossexualidade e religiosidade foi explorada mais detalhadamente no artigo “Homossexualidade.com. saguiao@terra. Sobre homossexualidade e pentecostalismo.CLAM/IMS/UERJ. De acordo com Bataille (1988). organizada por Maria Luiza Heilborn e Luiz Fernando Dias Duarte (no prelo). v São assim chamados os homens que mantém relações sexuais com homens e que entram em transe no culto. Fazem parte da equipe de pesquisa: Silvia Aguião (pesquisando a favela de Rio das Pedras). mas.Assim. o erotismo “viceja na transgressão”.br ii Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC/IMS/UERJ) e pesquisadora assistente do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos . idade entre outras categorizações -. 2002. gênero e violência na favela de Rio das Pedras. professora visitante do PPGSC/IMS/UERJ e pesquisadora do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos . “bicha” e “gay’. Notas Doutora em antropologia pelo PPGSA/UFRJ. Recebe. ver também Gregori (2003). Mas no caso do catolicismo brasileiro é preciso ter mente que o sincretismo entre santos católicos e os orixás torna a experiência religiosa muito mais dinâmica e complexa do que a primeira aproximação que estou esboçando neste paper permite entrever. vi Esta pesquisa integra o projeto Recém-Doutor que desenvolvo no âmbito do IMS e do CLAM. cujas mudanças tornam visíveis (como. estudante de ciências sociais da UERJ. raça/cor. vii viii i Sobre o intercruzamento entre raça. 1988) e está em contínuo movimento. Cf. cor e religiosidade: flerte entre o “povo de santo” no Rio de Janeiro”. por exemplo. 1999.como apontou. classe. coordenado por Luiz Fernando Dias Duarte (PPGAS/MN/UFRJ) e Jane Russo (CLAM/IMS/UERJ). O ponto da reflexão de Perlongher que interessa diretamente a esta pesquisa refere-se a maneira de compreender os sistema classificatórios: são “sinalizadores” de intensidades libidinais. ix A noção de carreiras sexuais/amorosas tem como aporte a idéia de que a sexualidade é experimentada.Em termos formais pode-se dizer que enquanto o cristianismo se construiu em oposição ao “espírito da transgressão”. os sujeitos circulam por uma “trama” e por “redes” definindo-se a partir de sua “trajetória e posição ‘topológica’ na rede”. A pesquisa foi apoiada inicialmente pelo CNPq e atualmente faz parte do “Projeto Integrado Sexualidade. ver Carrara & Ramos (2005). Vítor Grunvald (bolsista de Iniciação científica pela FAPERJ. Além disso. reconfigura e por vezes obscurece as hierarquias e desigualdades que conformam o tecido social. Heilborn. aos quais os indivíduos estão submetidos ao longo de suas trajetórias de vida.com base em gênero. alguns dos (des)caminhos de um desejo “viceja na transgressão” (Bataille. ver Natividade (2003 e 2004). No candomblé em questão a categoria mais utilizada para homens que mantém relações sexuais com homens é “entendido”. Moutinho. que será publicado na Coletânea Família.CLAM/IMS/UERJ. há que se considerar a crença de que . Cf. subsídios da FAPERJ e do programa “Cientista Jovem do Nosso Estado – FAPERJ/2003”. Gênero e Família: rupturas e continuidades na experiência da pessoa ocidental moderna”.com. orientação sexual e religiosa. que (re)ordena. venho contando com o apoio fundamental de Crystiane Castro.br iii Estudante de graduação do curso de Ciências Sociais (UERJ) e assistente de pesquisa do Centro LatinoAmericano em Sexualidade e Direitos Humanos . Sobre o tema do erotismo. no candomblé estes domínios não foram elaborados em oposição.uerj. Sobre o caráter excludente das religiões cristãs. lmoutinho@ims. Religião e Sexualidade. as trajetórias de Marcos e Saulo evidenciaram). Gilberto Freyre . considerada mais amena e respeitosa do que outras que eles também utilizam como “viado”. Nesta parte do trabalho.CLAM/IMS/UERJ. no momento.o catolicismo que adentrou em solo brasileiro trazia junto com o colonizador português a sensualidade e uma forte cultura sexual. 153 . percebida e vivida de acordo com os roteiros de socialização .

Landes inaugurou as análises sobre gênero e homossexualidade no candomblé. publicada em 2002. entre outros motivos. Zaluar (1994). Patrícia (1997) “Futilidades Levadas a Sério: o candomblé como uma linguagem religiosa do sexo e do exótico”. direitos. (Baldelli & Moutinho. xxiii Sobre o tema Cf. nº 21. Pernambuco.) que estão cumprindo seus deveres religiosos e aprendendo o conhecimento gradativo que o processo iniciático supõe. 154 . 2004. Lisboa. T. Novos Estudos (Cebrap). Georges (1998). Marcos (2001) As cores de Acari. xvi Cf.. entre outros. Olinda. Rio de Janeiro: Relume Dumará. xiv A 1140. xviii Para uma relativização de que as religiões afro eram populares e freqüentadas exclusivamente por negros.. 2004:5/6) xii No período em que a maior parte do trabalho de campo foi realizado nesta área. A X-Demente é composta por um público predominantemente masculino e branco. Ed. xiii Sobre o tema Cf. responsável pela sua exclusão acadêmica. Patrícia (1995) Fazer estilo. Sérgio. Rio de Janeiro: CEPESC/IMS/UERJ. Laura (2004) “‘Hoje eu vou me jogar!’ – Indivíduo. 2001. BIRMAN. Heilborn (2004). e SILVA. Rio de Janeiro. entre outros. Moutinho. Política. xvii Fry (1982) foi o autor que enfrentou pioneiramente a polêmica em torno da etnografia de Ruth Landes (1947). 2002 e 2004. BERQUÓ. referência para a identificação de homens gays fortes. mas são a mão-deobra maior utilizada nos serviços. Sobre o tema ver. André Augusto (2004) Miséria da Periferia: desigualdades raciais e pobreza na metrópole do Rio de Janeiro. xxii Cf. violência e homossexualidade: 9ª Parada do orgulho GLBT – Rio 2004.. Rio de Janeiro: Pallas Editora. Paper apresentado na XXIV Reunião Brasileira de Antropologia. xix Cf. xv Sobre o tema Cf. xx Iaôs são “filhos de santo (. RAMOS. In: Vianna. Moutinho (2002). Cunha (2002). BATAILLE. 74-85. ver Maggie. 2004. abrindo espaço para que a homossexualidade pudesse ser analisada sob nova perspectiva. BRANDÃO.Forma como são chamados os homens iniciados que não entram em transe. Baldelli & Moutinho. era aos domingos. Ana Paula A mistura clássica. Rio de Janeiro: UFRJ. H (Org) Galeras cariocas: territórios de conflitos e encontros culturais. Rio de Janeiro: Editora FGV. Niterói: PENESB. Moutinho 2004 a. (. x Bibliografia ALVITO. Débora & MOUTINHO. adotando uma perspectiva que foi. malhados e musculosos. 1995. “Demografia da Desigualdade”. Tem um papel menor na estratificação do grupo. (Teixeira. CARRARA. Leitura crítica.. que não se restringem ao gênero eletrônico. Sílvia (2005). Elza (1988). pp. O Erotismo. o apelo do Rio de Janeiro como destino para o turismo sexual. a Freedom na Barra da Tijuca e a Hábeas da Tijuca compõem o circuito mais amplo das “boates gays”. xi A X-Demente é conhecida como a festa das “Barbies”. Moutinho. Brandão (2004).) Não devem questionar as ordens que lhes são dirigidas pelos irmãos mais velhos ou pela hierarquia de mando do terreiro”. 2002. Alvito (2001). o prefácio de Mariza Corrêa e a apresentação de Peter Fry à 2ª edição de A Cidade das Mulheres. lésbicas e simpatizantes ou suspeitos como se diz em tom anedótico e provocativo. BLANCHETTE. Antígona. criando gênero. que compõem a maior parte do público freqüentador da festa. 1986: 210) xxi Sigla para Gays. recentemente as quintas-feiras passaram a ser o dia da semana dedicado ao público GLS. BALDELLI. geralmente de peito raspado. Diferentemente dos adés a performance dos ogãs é viril e seu desejo sexual se dirigem à meninas e não meninos como no caso dos adés. junto com a Le Boy de Copacabana. corpo e transe ao som da música eletrônica”. BIRMAN. sendo reconhecida como uma festa de “pegação gay masculina”.

Olívia Gomes da. DOUGLAS. gênero e sexualidade no Rio de Janeiro – a experiência dos turistas negros norte-americanos. Pureza e Perigo. Fabiano (2000) Genres. 1967]. EUGENIO. Peter (1982) “Homossexualidade masculina e cultos de afro-brasileiros”. Rio de Janeiro: Editora Garamond. L e BRANDÃO. Gênero e Sexualidade”. Maria Luiza (2004). Marcelo (2005) E se o gringo for negão? “raça”. Y (Org). Jorge Zahar Editor. (2003) “Entre fenômenos e fluxos: estética.CECCHETTO. Tese de doutoramento. Kelly (2004) Black Magic at the Margins: macumba in Rio de Janeiro na ethnographic analysis of a religious life. FRY. Rio de Janeiro: UFRJ. Tese de doutorado. GONTIJO. GREGORI.3ª ed. In: Cadernos Pagu (6-7) Núcleo de Estudos de Gênero PAGU/UNICAMP pp. Dissertação de Mestrado. M. Maria Filomena (2003) Relações de violência e erotismo. Rio de Janeiro: UCAM. MAGGIE. CUNHA. Ed. (2003) “Ethos privado e racionalização religiosa: negociações da reprodução na sociedade brasileira”. Fernanda. Fátima (1998). FERREIRA. pp. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. EHESS/UFRJ. 155 . amor e amizade no universo gay e ‘moderninho’ da zona sul carioca”. Guerra de orixá: um estudo de ritual e conflito. cor. 153-200. In: (ORG) HEILBORN. HEALEY. Paris. Maria Luiza (1999). Yvonne (2001). The University of Chicago: Chicago/Illinois. Mark (1996) “Os desencontros da tradição em cidade das mulheres: raça e gênero na etnografia de Ruth Landes”. Ruth (2002) A cidade das mulheres.CLAM/IMS/UERJ. FRY. C e Maggie. Sexualidade: O Olhar das Ciências Sociais. “Galeras funk cariocas: os bailes e a constituição do ethos guerreiro” In: Alba Zaluar e Marcos Alvito (orgs. Carmem Dora (2004) O Homossexual visto por entendidos. Perigo (20). (2002) “Bonde do Mal: notas sobre território. São Paulo. Rio de Janeiro: Editora Garamond. Luiz Fernando Dias. DUARTE. PPSC/IMS/UERJ. LANDES. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. “Construção de Si. Dois É Par: Conjugalidade. HEILBORN.). Perspectiva. Elaine. Paper apresentado no Seminário Religião e Sexualidade: Convicções e Responsabilidades” .78-120. Paper apresentado no Seminário Culturas Jovens e Novas Sensibilidades. Rio de Janeiro: Zahar. In: Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. In: Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. HEILBORN. GUIMARÃES. Prazer. Cadernos PAGU: Erotismo. violência e juventude numa favela do subúrbio carioca” In: Rezende. 2ª Edição. Núcleo de Estudos de Gênero PAGU/UNICAMP. Mary (1966). carnaval e SIDA: la construction des identités homossexuelles dans les situations rituelles du carnaval de Rio de Janeiro à l’ère du SIDA. Gênero e Identidade Sexual em Contexto Igualitário. [1ª edição americana 1947publicada pela Editora Civilização Brasileira. HAYES. Um século de favela. Peter (1982) “Da hierarquia à igualdade: a construção histórica da homossexualidade no Brasil”. Rio de Janeiro: Zahar. Raça como Retórica: a Construção da Diferença. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. Rio de Janeiro.

Revista Religião e Sociedade. VELHO. Transas de um Povo Santo: um Estudo sobre identidades sexuais. VELHO. Rio de Janeiro: Jorge Zaha. MOUTINHO. Sérgio (orgs). Néstor (1993) Antropologia das sociedades complexas: identidade e territorialidade. pp. Editora Fiocruz. Simone (2003). Estudos AfroAsiáticos. gênero e cor em Rio das Pedras”. Uma análise comparativa sobre relacionamentos afetivosexuais " inter-raciais" no Brasil e África do Sul. Adriana (2001). Richard Guy. M (org). Qual prevenção? Aids. Verena (1991). Rita Laura (1995). Rio de Janeiro. PERLONGHER. Revista Brasileira de Ciências Sociais Vol. Laura (2002) “Considerações sobre violência. 156 . Maria Filomena Gregori e Sérgio Carrara. NATIVIDADE. Jorge Zahar. RIOS. Luís Felipe. São Paulo. Laura (2004c) “Sexualidade. Marcelo (2003) Carreiras homossexuais e pentecostalismo: análise de biografias. “Entre a praia de Iracema e a União Européia: turismo sexual internacional e migração feminina”. uma favela carioca.br MOUTINHO. Editora Pallas. Maria Filomena e Carrara. 22/junho São Paulo: ANPOCS/EDUSC. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais”. 2004. Gilberto & KUSCHINIR. Construções da sexualidade: gênero. Brasília: Editora UnB. Santos e daimones. PISCITELLI. PISCITELLI. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora PUCRio/Edições Loyola. assim como Raça para Etnicidade?”. 101-119. Gregori. gênero e erotismo no candomblé do Rio de Janeiro”. In : Burgos. Gilberto (1994). In: (Org. In: Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. São Paulo: UNESP. ou como estava vestida Margaret Mead. Anna Paula. Rio de Janeiro: Garamond. Rio de Janeiro. nº 20. No 56. Karina (2003) Pesquisas urbanas: desafios do trabalho antropológico.19. MOUTINHO. São Paulo: ANPOCS/EDUSC. Luís Felipe e Parker. Disponível em: www. Adriana. 148p. MOUTINHO. Marcelo (2004) Carreiras homossexuais no contexto do pentecostalismo: dilemas e soluções.scielo. "cor" e desejo.MONTEIRO. SEGATO. Laura (2004b) “Condenados pelo desejo? Razões de Estado na África do Sul”. Dissertação de mestrado. ‘raça’ e direitos na África do Sul: primeiras reflexões”.) Uziel. 2002. A utopia da comunidade: Rio das Pedras. Adriana (2004). Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Brasiliense. outubro/2004. Meeting of the Latin American Studies Association. Washington DC. Rio de Janeiro. “Sexo está para Gênero. sexualidade e gênero em uma favela carioca Rio de Janeiro. STOLCKE. (2004a) Razão. Dissertação de Mestrado. Laura. O Negócio do michê. Néstor (1987). PPSC/UERJ: Rio de Janeiro. Visões imperiais: gênero e sexualidade no contexto do turismo sexual internacional em Fortaleza. Rios. In: Piscitelli. Garamond. 23 / 1. Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades complexas. “Performando a tradicionalidade: geração. Rio de Janeiro:ISER NATIVIDADE. Maria Lina Leão (1986). identidade e comportamento nos tempos de Aids. PERLONGHER. (Org) Adriana Piscitelli. PPGSA/IFCS/UFRJ. Vol. TEIXEIRA.

157 . Revan/Ed. Alba (1994) Condomínio do diabo. Rio de Janeiro: Ed.ZALUAR. UFRJ.

trabalho. produzindo fotos e vídeos que.SP Mestra em Antropologia – UFSC-SC Resumo Em pesquisas realizadas em municípios da Região Metropolitana de Florianópolis (Antônio Carlos e Biguaçú). têm propiciado um retorno interativo do trabalho de campo aos sujeitos entrevistados. no processo de migração para a cidade. viuvez. Gerações e Modos de Vida. escola. O trabalho tem se desdobrado com a utilização de técnicas da antropologia visual. foram entrevistados mulheres e homens de três gerações.Título: Gênero. aposentadoria. a casa e os afazeres domésticos.br Instituição: Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC Margens – Núcleo de Pesquisa Modos de Vida. A análise das entrevistas tem trazido um material precioso para refletir sobre gênero e gerações suscitando questões específicas sobre vínculos familiares. Titulação: Doutora em Psicologia Educacional – UNICAMP. focalizando as trajetórias de sujeitos egressos do meio rural. Autora: Mara Coelho de Souza Lago 1 mlago@cfh.ufsc. Família e Relações de Gênero. gerações e subjetividades. ou de urbanização de seus espaços de vida e trabalho. . sobre gênero. além de ilustrarem melhor todo o contexto das pesquisas. parentalidade.

identidade (conferir Lago 1999. classe. sejam exercidas por quem for). assim. é porque nos processos inconscientes de identificações. Sujeito em posições. individualiza. no interior de uma mesma disciplina. num movimento de internalização (a socialização é reduzida. Um ser biológico em absoluto estado de desamparo. consciente e dono de si. Sujeito cultural que transita na cultura e não pode ser oposto à dimensão social. um conhecimento organizado de sua própria trajetória. desejante. etnia e outras diferenças que se façam presentes em diferentes contextos e situações históricas. com o interesse flutuando entre disciplinas (antropologia – psicanálise – psicologia social). sujeito do inconsciente. significado e fala. tão cara às explicações sociológicas que repetidamente caem na distinção opositiva entre indivíduo e sociedade. gerações. – Quais as questões? – Que conceitos precisam ser explicitados? Da discussão sobre sujeitos. Uma concepção que se distancia do sentido (mais atraente) de sujeito da vontade. vai construindo a memória de si. o processo de constituição de sujeito se dá no sentido da individuação de um ser desde sempre cultural. se pode dizer eu de si mesmo. Sujeito significante. Ao contrário. No centro das análises desta linha de pesquisa há uma concepção de sujeito cuja dimensão social não resulta de um processo gradativo de inserção. subjetividade. função de pai. Identificado. significa.As questões teóricas. com diferentes olhares sobre o(s) mesmo(s) objeto(s). que é falado. Numa posição acadêmica interdisciplinar na área das ciências humanas (sociais. da falta. na linguagem. na sociedade. a partir de diferentes quadros teóricos). daquilo que desde fora lhe é ensinado/acrescentado. que nasce na cultura. os sujeitos Gênero é um tema interdisciplinar e esta afirmação já é um lugar comum. diferenciase. portanto). o trabalho de campo. constitui-se em particularidades e. Identificação como uma categoria diferenciada e superadora da concepção de socialização. culturalmente significado. em um indivíduo. uma história de vida que o particulariza. 159 . identificação. incompleto. necessitando de cuidados (função de mãe. à sua dimensão de aprendizagem). os esclarecimentos conceituais se fazem mais necessários (do que realmente já o são. 2004) retomemos a questão das identificações. Subjetivação/objetivação. identifica-se. de gênero.

Quando vamos a campo pesquisar nossos informantes, sujeitos em diferentes posições, estamos no terreno do empírico. Além do que podemos observar e além de todas as informações que podemos obter em documentos de vários tipos sobre eles e seus contextos, vamos atrás de seus relatos, das narrativas que nos possam fazer de suas experiências, suas histórias pessoais, seus modos de vida. È este, em geral, o material que privilegiamos nas pesquisas que denominamos etnográficas, pesquisas qualitativas por excelência (Fonseca, 1999), que não produzem dados no sentido duro, e que resultam de relações que almejam ser dialógicas (Cardoso de Oliveira, 2000) marcadas pela intersubjetividade, pesquisas que se objetivam nos documentos (escritos, visuais, audiovisuais), em análises interpretativas, como lembra Clifford Geertz (1996) interpretações de interpretações, que refletem fortemente a subjetividade do/a pesquisador/a, marcadas pelas teorias que dirigem seu olhar (e que o/a disciplinam, no trocadilho que faz Cardoso de Oliveira, inspirado que é também por Foucault). Estamos em campo, então, frente a outras subjetividades, buscando familiaridade com o desconhecido, procurando colocar-nos no lugar do informante, do seu ponto de vista e, ao mesmo tempo, esforçando-nos para nos despirmos de pré-noções sobre o diferente e tentando estranhar o que nele nos é familiar. (Da Matta, 1981). Em campo, as diferentes posições dos sujeitos se impõem aos nossos olhares – sujeitos de gênero, de origem étnica, de classe, habitantes do campo ou da cidade, com modos de vida e formas de trabalho diferenciados, sujeitos de gerações, que “vivem uma certa não contemporaneidade de contemporâneos”, como refere Alda Motta (2004), reportando-se a uma concepção de Karl Mannheim (1982). Minhas pesquisas centradas em sujeitos que vivenciam a urbanização de seus espaços de vida e trabalho (Lago, 1992, 1996), iniciaram com os descendentes de açorianos na Ilha de Santa Catarina e agora se dirigem para os descendentes de alemães que fundaram a antiga colônia de São Pedro, próxima à Florianópolis. Colonos que viviam da agricultura, em lavoura de pequena propriedade, produzindo para o consumo com mão de obra familiar e que, buscando novas terras para cultivo nos arredores, fundaram outras colônias (como o município de Antônio Carlos, que resultou da expansão desse território).

160

Os trabalhos etnográficos, que se constroem muito especialmente sobre as narrativas dos informantes, nesta perspectiva inspirada por concepções (pós)-estruturalistas e semióticas de sujeito e cultura (Geertz, leitura lacaniana de Freud, estudos de gênero), têm como foco muito central a consideração da linguagem, a fala, a dimensão simbólica que define o humano. As falas Assim, precisamos nos deter, de início, no termo “colono”, como “colono alemão2” definidor de etnia (identidade étnica) e de posição diferenciada no mundo do trabalho. Homens e mulheres rurais, cuja primeira língua, o alemão, não era substituída por um nível satisfatório de domínio do português apreendido nas escolas (isoladas, cursadas em geral até as primeiras séries primárias, pelas gerações dos adultos entrevistados que agora estão com mais de 40 anos). A vergonha de falar “errado”, com sotaque, carregando nos erres, e a recusa em continuarem a ensinar o alemão a seus filhos. Vergonha do idioma, revelando uma posição desprivilegiada na escala social de classes, corroborada pelas atividades que realizam no mercado de trabalho no processo de urbanização: construção civil, trabalho doméstico, enfim, setor de serviços, como mão de obra não qualificada3. Esta é uma questão dos “colonos alemães” oriundos da região de São Pedro, colônia que “não deu certo” se comparada (e é sempre comparada) à da região do Vale do Itajaí, mais especificamente, à colonização de Blumenau. Não deu certo porque não alcançou o desenvolvimento industrial e o nível de urbanização de Blumenau e outras cidades do Vale, que se constituíram como importantes pólos industriais do Estado de Santa Catarina, a importância de cada uma crescendo ou decrescendo em diferentes momentos, a partir do sucesso ou insucesso de diferentes empreendimentos industriais, empresariais. Quando consideramos condições objetivas e subjetivas dos contextos sóciohistórico-culturais vivenciados, podemos destacar alguns aspectos diferenciais que se concretizam. Os habitantes urbanos de Blumenau, Brusque e Joinville4 e outras cidades do Vale, mais orgulhosas de suas origens, identificam-se como “alemães”, ensinando o alemão (como primeira língua) a seus filhos, em diversas gerações (Seyferth, 1974) e ressaltando

161

características positivas de identidade cultural, em relação aos que chamam de “brasileiros” (Schulze, 1996; Paquette, 1994). Características que talvez não sejam valorizadas da mesma forma pelos “colonos” que vivem da agricultura nos arredores rurais destas mesmas localidades urbanas. (O modo de falar)... é um traço distintivo de identidade a ser exibido com orgulho ou a ser disfarçado com vergonha, conforme seus falantes sejam valorizados ou, ao contrário, denegridos, como acontece muito com as populações de origem rural e pobre (LAGO, 1996, p. 24). Tomemos alguns dos sujeitos falantes para refletir sobre questões que suas narrativas nos trazem (e que possibilitam/desencadeiam interpretações).

Escuta/interpretação Um autor importante para orientar nosso olhar nesta linha de pesquisa tem sido Louis Dumont (1985, 1992) (e seus tradutores5 na antropologia brasileira, entre os quais destaco Luiz Fernando Duarte, 1986). As análises e concepções de Dumont são esclarecedoras para refletir sobre as sociedades ocidentais contemporâneas, que ele caracteriza como marcadas pela ideologia do individualismo, o indivíduo como valor, em contraposição às sociedades “tradicionais”, hierárquicas, em que o valor está ligado ao todo, ao interesse coletivo. Sua concepção de que todo e parte não são oposições dicotômicas e que se articulam numa relação de englobante/englobado, posições que podem ser invertidas de tal forma que, em determinadas circunstâncias, o elemento englobado passe a ser o englogador e vice-versa, tem sido extremamente importante para pensar sobre transformações sociais, no caso, sujeitos de origem rural vivenciando o processo de urbanização. Estas contribuições teóricas têm fundamentado as reflexões da linha sobre as questões que articulam, nas pesquisas empíricas, famílias, sujeitos e suas posições de gênero, gerações, classe, origem étnica, trabalho, etc. Tomemos a narrativa do informante de 55 anos, entrevistado em momento anterior da pesquisa (Lago et al, 2000). Ele mora em um município vizinho ao de Antônio Carlos,

162

onde nasceu e viveu trabalhando na agricultura desde criança até os 34 anos, quando casou e passou a trabalhar no setor de construção civil em Biguaçú, Florianópolis e arredores. Em suas palavras “... a mulher puxou para sair do sítio (...) a gente veio morar aqui e no primeiro tempo não se acostumou...”. Em toda a sua entrevista este informante permanece entre o campo e a cidade, comparando, mudando de posição, opinião), avaliando o antes e o agora, o trabalho rural e o trabalho na cidade, a aposentadoria lá e cá. Na realidade, ele foi puxado para/pela cidade e está sempre olhando para o modo de vida anterior, comparando o seu cotidiano com o dos irmãos que permaneceram no campo, a qualidade de vida cá e lá. Um parêntese: nas entrevistas com os homens as questões ligadas ao trabalho ganham um maior destaque e penso que isto se dá não apenas por eles se referirem mais ao trabalho, mas porque nós entrevistadoras/es costumamos centrar nossas perguntas nessas dimensões da vida social. Pesquisadoras, inclusive, que acabam(os) referindo mais os homens à vida no espaço público, à função de principais responsáveis pelo sustento da família. Mesmo nesta família, dou-me conta, que acompanho e sei serem os encargos fundamentalmente divididos, o salário da mulher sendo tão (ou mais) importante que o do marido, já que ela trabalhava à cerca de 15 anos no mesmo emprego, enquanto ele costumava passar alguns meses recebendo o seguro desemprego entre os trabalhos numa e noutra construção, já que não fazia parte de equipes regulares de construtoras específicas. Entressafras em que procurava serviços de pedreiro por conta própria, ganhando por dia menos que uma diarista em trabalho doméstico. Fecha parêntese. Os pais deste informante tiveram 13 filhos (2 falecidos). Seus irmãos que vivem na agricultura têm cinco, seis filhos. Ele, apenas três. Seus pais já faleceram e as terras, que tinham sido do avô e do pai, ficaram com dois irmãos mais velhos, que compraram as partes dos outros e permaneceram no trabalho rural. “... hoje já tem uma porção de sobrinhos morando no mesmo terreno...”, mas poucos deles se mantendo apenas com a produção agrícola e, em geral, durante os períodos em que não estavam empregados em outras atividades (conforme nos mostraram as observações no local). Os/as irmãs/os que saíram de Antônio Carlos foram para localidades próximas em Santa Catarina, exceto a “irmã mais velha que foi lá pra Pouso Redondo em cima do Rio Grande do Sul (...) tinham que sair porque ficar tudo também não dava, não”. (Esta

163

expressão em cima do Rio Grande do Sul é intrigante. – Tem a ver com a condição de agricultor, em cima da terra, a terra como elemento fundamental de trabalho, como condição de vida?). Na continuidade de sua fala, o informante prossegue na comparação dos modos de vida “... mas quem tá lá ainda reclama... tem gente que tá aqui e reclama e vai lá no sítio e acham que não ta bom. Mas hoje ta melhor pra eles, do que antigamente...” Em sua avaliação, o fator que propiciou esta melhora foi a obtenção da aposentadoria pelos agricultores, uma questão que ele percebe com ambigüidade “... igual meus irmãos, lá eles fazem 55 anos e os homens se aposenta e ganha um salário mínimo, e a mulher 50 anos. Mas eles têm tudo assim, de planta, e têm vaca de leite, tudo, e com aquele salário eles vivem bem”. Em outro momento de sua entrevista, falando da aposentadoria que tentava obter como operário, agregando o tempo que fora agricultor, revela: “quando eu tinha os papel pronto o governo tinha traçado aquilo ali, fechou (...) dia 10 de setembro, dia 15 eu peguei os papel (...) eu falei com advogado e ele disse que era pra eu esperar fazer 65 anos que eu posso me aposentar por mais... Isso eu acho errado, o operário tem que ter 65 anos na idade prá se aposentá e o colono se aposenta com 55 pelo mesmo salário e não paga a bem dizer nada, o lavrador. E a mulher com 50”. Lembrado que o colono trabalha desde criança, ele ressalta “Mas eu também, porque quem trabalha nesse serviço que nem eu é só gente do interior...”. Em seu relato, ele está subjetivando os temas do êxodo rural, do trabalho na cidade como mão de obra não qualificada, a dependência das pessoas em relação às decisões arbitradas pelo governo sem formas efetivas de reação, tendo que seguir o que foi traçado pelo poder institucional. Traçados que em certas circunstâncias beneficiam os sujeitos, no caso, os irmãos agricultores que têm perspectivas diferentes das que os pais tiveram “já antigamente com os nossos pais, naquele tempo se os filhos ajudavam e sustentavam, tudo bem, senão eles passavam mal, hoje nesse ponto o sítio até que tá melhor”. Mas os sujeitos falam de uma aposentadoria que se distancia das discussões atuais sobre os déficits dos sistemas previdenciários das “sociedades de mercado democráticas” em que a aposentadoria que foi “... institucionalizada como um meio de compensação ao risco de privação advinda da perda da capacidade para o trabalho devido ao declínio físico do envelhecimento” (Simões, 2004) passa a ser questionada, à medida em que deixa

164

1997).”. daí já tem uma idade boa.. enquanto possível. aprendia. para o consumo.. O processo de envelhecimento é referido pelo entrevistado com a expressão “estar com uma idade boa”.) era só até a quarta série do primário (.. para quem a aposentadoria não era percebida como inatividade. ovos. etc. a quem se podia atribuir mais idade. na pele. Esta adjetivação de boa ou muito boa para se referir a mais idade ou bastante idade me fez refletir e levou-me à associação com outra fala do entrevistado “Hoje pros filhos tá 165 . carne. as marcas do labor nos sinais de envelhecimento. 2004. Também portam as mesmas marcas... tendo que se contentar com atividades que não exigem qualificações específicas. para se tornar uma etapa de novas oportunidades de lazer e aprendizado. quem aprendia. trazem nas mãos. Debert.. nos setores de serviço. esses/as homens e mulheres do campo que vieram buscar trabalho na cidade. que ficava irritada quando lhe franqueavam as filas de idosos no comércio.. não os/as isentam de continuar plantando e produzindo leite. Etapa que busca outras designações. de velhos velhos (Motta 1997. daí não”. estando ela ainda alguns anos distante dos 60.. As/os aposentados/as do meio rural não deixam de trabalhar porque “o mínimo” que o Estado lhes paga só ajuda na sobrevivência.. inquirido sobre o desejo de voltar para o meio rural.) a gente pouco se interessava também (... “uma terceira idade” de jovens velhos.. contraposta a uma “quarta idade”. ele respondeu “Hoje não adianta mais. agora os filhos não querem mais e a gente está com uma idade muito boa e não adianta mais”. porque estes colonos que trabalham/ram na terra de sol a sol desde criança. Um homem de 56 anos. bem como à esposa. novos patamares geracionais.) os pais davam tempo prá gente ir à aula e naquele tempo era assim. não aprendeu nem ler nem escrever e foi passado para trás.. o informante. Falando sobre escolaridade e informando que estudara até a terceira série primária com 12 anos ele contou que não se interessava em continuar os estudos porque “. Primeiro. eu tinha um irmão que. Da mesma forma.. Apesar de várias dificuldades arroladas. um motivo forte para ele deixar os estudos foi a idade boa. em função da evolução dos níveis da perspectiva de vida e outros fatores. no corpo.de ser a marca de entrada na velhice. apesar das aulas serem “mais fracas (.. Assim. mas como um reforço seguro que lhe possibilitaria uma continuidade mais tranqüila da atividade remunerada. quem não aprendia ficava assim.

embora continuando no meio rural vivenciam experiências semelhantes com os filhos (a cidade já chegou lá). Jovens. adulto. O informante constata e reflete com os irmãos que. idoso. eles passam a trabalhar para si e para as famílias que constituem. se ajudam nas despesas familiares. transporte. quando trabalham. ganham independência e não trabalham “pro monte”. ainda quando formados em 2º ou 3º grau). eu até digo pros meus irmãos mais velhos que hoje tá mais fácil ser filho do que ser pai”. ser mais velho. ele vive numa sociedade urbana. em que os filhos trabalhavam nas terras dos pais e os ganhos eram para “o monte”. da mesma forma que outras mulheres desse município e de Biguaçú. lazer. cujos ganhos. ser responsável. com outros valores. Mas seriam sempre muito boas essas idades? E quando os pais ficavam dependentes dos filhos. ser homem. tomar as decisões pela família..Tomam suas próprias decisões e os pais têm que aceitá-las.muito melhor. podia significar algo bom na sua infância e juventude (tempo de identificações estruturantes). era ter uma idade boa/muito boa. Uma senhora de 62 anos entrevistada em Antônio Carlos. mãe de muitos filhos. 1985).. são estudantes que já trabalham (diferentes dos informantes de Brandão. Ser adulto. Foi transformada pelas práticas e ideário individualistas. por não poderem mais trabalhar? Quando precisavam vender parte da propriedade. às vezes aos próprios filhos. para terem um pecúlio na velhice. com modelos mais hierárquicos de família. etc.. Ser pai. de serem as mulheres descendentes de alemães muito trabalhadeiras6 . Aqui ele precisa continuar a dar estudo para os filhos que. outros modelos de família. viúva recente. a qual 166 . Agora que está mais velho (com uma idade que deveria ser muito boa). com a figura paterna responsável pelas decisões familiares. constituir família e deixar a casa paterna. Aí não era tão bom ser criança/jovem e a idade que se acrescentava à vivência de cada sujeito era boa. concluindo que agora já não é tão bom ser pai. estudos. é melhor ser jovem. Ela mora numa casa antiga construída pelo avô de seu marido. A idade muito boa já não tem as mesmas compensações. no modelo hierárquico de família. confome relatou uma das entrevistadas? Percebe-se que ser “velho velho” também era uma questão delicada mesmo no meio rural. são dirigidos principalmente para atender às suas próprias necessidades individuais (roupas. ressaltou a importância. em grupos familiares extensos.

a viuvez não é vivenciada por ela como uma oportunidade para livrar-se do ambiente doméstico ou de restrições impostas pelo cônjuge. Fez uma relato sobre a importância subjetiva dessa participação. 2004). na linha de depoimentos obtidos em outras pesquisas (Motta. conforme ocorre com algumas mulheres (Motta. mesmos os que saíram do município e moram em Florianópolis e Blumenau. trabalho e interesses partilhados. ela tem uma vista muito bonita. já que passou a depender mais da carona dos filhos para os acontecimentos sociais. tendo a filha mais moça e o genro morando com ela. Sua residência foi a primeira construção em estilo germânico restaurada no município e ela relata: “Olha. destacando o convívio de pessoas de sua geração. precisando adequar-se aos seus horários de permanência nos locais e eventos a que comparecia. fazia crochê e bordados para fora. ela discorreu bastante sobre o sentimento de solidão que a viuvez. 167 . além de ensinar estas artes a um grupo de terceira idade do qual participava. da vida na localidade.. Em sua condição de trabalhadeira ela também fazia bolos e salgados para festas. Apesar do convívio com os filhos. a tendência ao abandono do trabalho na agricultura. pra falar a verdade às vezes eu digo pros meus filhos que a minha casa tem 100 anos. Na ocasião da pesquisa. fez ano passado. onde a produção de hortifrutigranjeiros é a atividade econômica relevante. mas eu me sinto tão bem nessa casa que eu não trocaria ela por uma casa nova (. concomitante ao trabalho na roça do qual participava com o marido e os filhos. eu abro a porta aqui pra ti. lhe trouxe após mais de trinta anos de casamento com vida. os passeios que realizavam e o fato de manter-se ativa. 1997). na paróquia do município.) Queres ver. pais de uma menina pequena. de tarde eu prefiro ficar aqui. Contou sentir-se também restringida em sua autonomia..mostra com orgulho. destacando todos os afazeres domésticos que sempre desenvolveu. Se a freqüência ao grupo de meia idade a aproxima da experiência dos “velhos jovens” contemporâneos em ambientes urbanos. embora se possa perceber entre os adultos jovens e entre as moças e rapazes entrevistados. que são parte importante ainda. Mas eu mais gosto mesmo é da minha casa”.

tinha dois acompanhante. Era lá no Beto Carreiro World ... só vou me vestir de jeca e vou ir lá na festinha (. E continuo ajudando... e eu tinha um ingresso. Quando eu era pequena eu também ajudava bastante. um a um. os homens... e à qual ela mostra pertencer. A forma como ela e as outras informantes mais jovens se referiram às tarefas domésticas e o cuidado que mostraram com suas casas (as antigas e as novas). 168 . sabe aquelas promoção (. quase todo mundo errô (.. com suas histórias de vida.... tem pouca fita.. Tinha que pagar 42 reais. tem motivado a continuidade da pesquisa.) a professora não escolheu” P.. só que daí eu era muito grande e o vestido era muito caro pra mim . processo que está ocorrendo com intensidade atualmente...) todo mundo não ia dar .. Agora tinha ingresso na escola. eu odiei! Eu queria fazê o pau de fita (. enfim 7. agora centrada na recuperação/visibilização do trabalho doméstico e da importância subjetiva da casa para as mulheres. Pesquisa que projeta desdobramentos na produção de um documentário áudio-visual e de material fotográfico sobre as casas germânicas restauradas.. E tu não gostaste de não ser escolhida? R.. em suas particularidades.. E foi difícil de ensaiar.. Mas o buquê não deu pra jogar porque era da loja lá (. parece ter antecipado um movimento de restauração das construções de estilo alemão da localidade. Material (vídeo e fotos) que servirá para um retorno mais efetivo dos estudos realizados aos sujeitos que os têm possibilitado..) quando a gente crescer a gente trabalha e depois ganha dinheiro e daí pode ir.) eu vou usar meu vestido melhor (. Ressaltando que os sujeitos pesquisados têm vivenciado as experiências de urbanização de seus espaços e modos de vida..) eu não vou fazer nada..) Minha tia se casou (. para as famílias... o acompanhante levava .. Ah..) eu ia ser dama. com vistas a uma exposição de fotos no município de Antônio Carlos..) Eu não fui em nada aqui (.) eu não pude ir porque pagava muito caro os brinquedo .). Daí foi bem legal o casamento. Não pude ir (. trazemos algumas de suas falas: “Vai ter festa junina (...A casa que lhe pertence. Tinha aqui..

. tendo migrado do trabalho no campo no extremo oeste de Santa Catarina.. Sua fala. (Professor.Agora tô chegando mais cedo da escola... (Menina. parece estar dialogando com o discurso institucional no Brasil. “As pessoas se restringiam aos estudos até na 4 ª série e depois paravam e auxiliavam os pais na roça. ex-agricultor. porque não sei o que que deu na escola que to chegando mais cedo. mas também eles não tinham que pagar (.) É claro que humanamente falando talvez as crianças sofriam muito. É a única filha entre três homens.. como professor graduado. quer dizer. em Biguaçú.. daquilo que eles que eles podiam (. daí agora eu posso assistir toda vez Pokemon”.. porque era necessário.. no seu inconformismo consumista. porque senão era difícil a atividade que eles faziam sem essa mão de obra. profissão que os informantes não aprenderam na escola. É bem protegida pela família e pelos parentes que moram perto. mas era um jeito que os pais tinham de controlar a situação e .”. 36 anos) Este relato traz a questão do trabalho infantil na agricultura.) Afinal.. quando enfantizam que as crianças precisam aprender o hábito do trabalho desde cedo. 8 anos) Esta menina não falou só de frustrações e carências. 6 anos. não era gratuita. sobre o problema do trabalho infantil. Trouxe essas falas porque ela me pareceu bastante diferente das crianças de camadas médias urbanas. dois do primeiro casamento do pai. Então os filhos eram uma mão de obra que eles tinham .. aos 5.. distanciando-se do relato defensivo dos agricultores. e está feliz porque ganhou um sobrinho. além de estudarem ajudavam nos serviços da casa. 169 . mas participando das atividades dos pais. e mesmo das crianças filhas dos adultos mais jovens que entrevistamos em Antônio Carlos. todas as crianças. da roça.) tendo aí a necessidade dos casais terem muitos filhos. era até um tipo de escravidão que hoje muitos adultos têm lembranças ruim daquele tempo. a vida era difícil e todos tinham que ajudar (. né? E desde aos poucos anos de idade. 3º grau completo..

Eu quero me casar. a escolaridade colocada como condição para o trabalho no meio urbano. tudo isso aí. Mas eu queria mesmo me formar primeiro. 170 . Se bem que pra mim ela não precisa mandar muito assim. vinculado a continuidade dos estudos.. mas que deve vir depois do término dos estudos. ou quando a mãe não deixava alguma coisa pronta prá ele. nessas pesquisas com classes trabalhadoras no/entre o campo e a cidade. Nas investigações referidas neste trabalho. tem gente que se não casa. como atividade inquestinável..Esta linha de pesquisa tem contado com a colaboração valiosa de alunos de graduação. a centralidade das formações familiares para as diversas gerações pesquisadas. como grupos com interesses coletivos educando indivíduos individualistas. Que é o meu primeiro objetivo. Este relato traz a questão do projeto de futuro para as novas gerações... Notas 1. Mariana Grasel de Figueiredo e. (Moça. À guisa de fechamento podemos ressaltar.) Mas eu não. essas coisas (. Famílias que...Conferir Lago(1999). morre. 2. cursando pré-vestibular. E não colono de origem alemã. ter filho.) final de semana quando ela tá em casa é sempre ela que faz comida. Agradeço a todos o inestimável trabalho que têm realizado..“O pai que reina um pouquinho.. Mas o resto .. como seria mais correto falar – indicando aí a questão importante da identidade cultural (e pessoal!).) eu queria me formar primeiro e depois casar. daí ele fazia só prá ele mesmo. bolsistas de Iniciação Científica..). se não tá com namorado. mas não é assim né eu tenho que casar. todo mundo quer né. eu sempre faço (.) ele ( irmão) só fazia quando não tinha ninguém em casa. a maternidade são vistas pela jovem como algo que “todos querem”. Erikson Kaszubowski. como ensina Duarte8. E o trabalho feminino fora do lar. são o lócus de sua própria contradição. (. Carolina Duarte de Souza e Marina Silveira Soares. A mãe manda a gente fazer. mas quem manda é a mãe mesmo (. teve como auxiliares de pesquisa Carla Nichele Serafim. eu levo a minha vida (. é esse”. atualmente. A constituição de família... 18 anos).

10 jan/fev/mar/abr. 1981. As mulheres. Brasília: Paralelo 15. _______________. A Interpretação das Culturas. Memória de uma comunidade que se transforma: estudo de caso do processo de urbanização de uma comunidade de origem açoriana no litoral. Quando cada caso não é um caso: pesquisa etnográfica e educação. Louis. Modos de Vida e Identidade: sujeitos no processo de urbanização da Ilha de Santa Catarina. C. FONSECA. 2000. Velhice na contemporaneidade. In: Peixoto. Roberto. já que seus filhos estão tendo melhores oportunidades de escolarização nos espaços urbanizados. 6. falantes de outras línguas. analisando outras realidades empíricas. Lins de. sempre em função do investimento de mães/pais em sua escolaridade. Uma questão geracional. São Paulo: Brasiliense./ CNPQ. Myriam M. ou através da migração para outras cidades da Região Metropolitana. DA MATTA. Conferência de Luis Fernando Duarte. de saúde. GEERTZ.. Kaszubowski. LAGO. E. Municípios com expressiva população de descendência alemã. os homens. 1996. Silveira). Relativizando: uma introdução à antropologia social. S. Tradução no sentido da “viagem” das teorias para outros países.3. DUARTE. etc. 2004. Projeto com bolsistas IC/CNPq. entre outras etnias. São Paulo: UNESP. 171 . Souza. N. Rio de Janeiro: LTC Editora. Rio de Janeiro: Ed. A educação como cultura. Roberto. DUMONT. Da Vida Nervosa nas Classes Trabalhadoras Urbanas. Luis Fernando. 5. 1985. Florianópolis: Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1985. CARDOSO de OLIVEIRA. São Paulo: EDUSP/CNPq. Referências BARROS. Rio de Janeiro: Rocco. Petrópolis: Vozes. Revista Brasileira de Educação. 8. 4. _______________. Cláudia. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Carlos Rodrigues. da Ilha de Santa Catarina. Clifford. as casas. Homo Hierarquicus: o sistema das castas e suas implicações. FGV. UFSC. 11. 1996. O trabalho do Antropólogo. BRANDÃO. diaristas e também nos setores comercial. 1999. onde essas mulheres são valorizadas para os empregos de domésticas. 1992. (Lago. 1986. proferida na UFSC em 2003. 7. (org) Família e Envelhecimento. Mara C. N. Fato reconhecido em toda a região metropolitana de Florianópolis. O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna.

C. São Paulo: Ática. SERAFIM. Mara C. Pedro. Marialice (org) Karl Mannheim. Masculino. Didier. Mara C. 1998.. da. . Florianópolis: UFSC/CNPq. Carmen S. De sujeitos e identidades: diálogos entre Ciências Humanas e Psicanálise. Tânia R. S. SEYFERTH. Florianópolis: Ed. FGV. 1994. Júlio A. Identidade. Mulheres. E. Carla N. 1996. A Colonização Alemã no Vale do Itajaí-Mirim.. (orgs) Falas de Gênero. Feminino.) Genealogias do Silêncio: feminismo e gênero. Relatório Final de Pesquisa PIBIC/CNPq. MOTTA. TONELI. Maria Juracy. Grossi (orgs). Florianópolis: Ed. In: FORACCHI. A constituição da identidade masculina: alguns pontos para discussão. SIMÕES. RAMOS. 172 . . _______________. Relatório Final de Pesquisa CNPq. Alcione L. Gerações e Subjetividades na Grande Florianópolis. In: PEIXOTO. 1982. . FGV. Identidade Étnica. Mulheres. In: Revista Estudos Feministas. 1999. 1997. O problema sociológico das gerações. v. LAGO. C. Karl. ._______________. (org). FIGUEIREDO. (org). Relatório de Pesquisa. PAQUETTE. Subjetividades possíveis: idosas e tempo geracional. 5 n. Florianópolis : Ed. In: RIAL. S. M. & M. linguagem e relações interétnicas: o caso dos brasileiros de origem alemã. 1. Gênero. Representações Sociais e Linguagem. O . Mariana G. 2004. MANNHEIM. Maria Juracy F (orgs. Alda B. Florianópolis: UFSC. Florianópolis: UFSC. Porto Alegre: Movimento. TONELI. Palavras e Convivência: idosos hoje. Clélia. 2004. E. Família e Envelhecimento. _________________. Mulheres. Provedores e militantes: imagens de homens aposentados na família e na vida pública. Plural . 1974. SCHULZE. In: PEIXOTO. 2000. 2004. Rio de Janeiro: Ed. LAGO. In: J. Giralda. Família e Envelhecimento. In: SILVA. Identidade: a fragmentação do conceito. Rio de Janeiro: Ed.

O uso do preservativo. assim como a atuação pouco eficaz dos serviços de saúde locais e campanhas de prevenção acentua a vulnerabilidade dos homens e suas parceiras às ISTs e a AIDS. prevenção. Palavras Chave: Gênero. atribuídas à imaturidade. O trabalho tem por base 22 entrevistas semi-estruturadas com estes homens e observação do cotidiano local. Alguns homens relatam experiências homoeróticas na infância e adolescência. ambigüidade. SEXUALIDADE E PREVENÇÃO DE IST/AIDS ENTRE HOMENS RURAIS NO NORDESTE DO BRASIL: UM ESTUDO DE CASO Maria de Fátima Paz Alves Doutoranda em Antropologia/UFPE fatimapalves@hotmail. não percebendo-se os entrevistados sob risco de contraí-la.com No trabalho buscamos entender como homens rurais residentes num município da zona da mata de Pernambuco/Brasil concebem o masculino e as relações de gênero e como representam suas práticas sexuais e de prevenção de IST/AIDS. é inconstante e irregular. As ambigüidades presentes no discurso. A sexualidade caracteriza-se por uma dupla moral de gênero. concorrendo com o conhecimento da parceira.MASCULINIDADE. sexualidade. que não afetam a construção da identidade masculina. Os resultados indicam que os homens apresentam um modelo de masculinidade pautado em valores tradicionais. masculinidade. admitindo-se múltiplas parceiras para os homens. percebido negativamente. É reconhecido o desejo feminino e valoriza-se a reciprocidade nas relações sexuais ao tempo em que se distingue o que se faz com a “mulher de casa e de rua”. destacando-se uma rígida separação dos universos masculino e feminino. As ISTs são pouco temidas ao passo que a AIDS é associada à morte. assim como a sua visão da vivência da sexualidade e da prevenção . MASCULINIDADE. SEXUALIDADE E PREVENÇÃO DE IST/AIDS ENTRE HOMENS RURAIS NO NORDESTE DO BRASIL: UM ESTUDO DE CASO Apresentamos e discutimos neste artigo os significados atribuídos ao masculino por homens rurais. principalmente solteiros. explorando diversos aspectos que configuram à masculinidade e as relações de gênero.

1997. não tomando como objeto a relação entre estes e seus patrões ou superiores. Tomamos como referência a perspectiva de gênero. 2000. Há entre eles 10 católicos. já que a assimetria não anula a Na realização da pesquisa da qual deriva este trabalho contamos com bolsa do Programa interinstitucional de treinamento em metodologia de pesquisa em gênero.área desapropriada para assentamento na década de 60. A maioria dos entrevistados (treze) se situam na faixa etária entre 18 e 30 anos. 2001). 11 são assalariados rurais. entretanto. que ainda persiste. sexualidade e saúde reprodutiva. 1997. com o plantio de cana-de-açucar. nove são casados (dois encontram-se no segundo casamento) e um estava separado no momento da pesquisa. Heiborn. Almeida. geração opção sexual. apoiado pela Fundação Ford. Oliveira. embora no século XX tenha havido significativa mudança em sua organização econômica e social (FIDEM. um é agente de saúde. Na construção e vivência das masculinidades e das feminilidades destaca-se o significado das inserções de classe. 174 . sendo também realizada observação participante do cotidiano nas localidades investigadas3. 1998. Kimmel. raça.de IST/AIDS1. 3 A zona da mata é formada por uma faixa de terra que fica entre o litoral e o agreste do estado. 4 Neste trabalho nos detemos na análise de homens que grosso modo se assemelham enquanto categoria social. Oliveira.Ele tem por base pesquisa realizada num município da zona da mata de Pernambuco2. Doze são solteiros. Consideramos para efeito de análise a existência de modelos centrais de masculinidade que representam referência para os homens. 8 se denominam agricultores (dispondo ele ou a família de um terreno para plantio e criação). entre outras. 2001)4. entre as quais aquelas relativas à sexualidade são constituídas e compartilhadas por homens e mulheres. 1990. etnia. Entendemos também que as expectativas e experiências que dizem respeito à construção e vivência do masculino (e do feminino). 1996). 1997. quando foram entrevistados 22 homens residentes em três localidades situadas na zona rural do município de Vitória de Santo Antão. há sempre o contraponto feminino na afirmação da masculinidade. sete entre 30 e 35 anos e dois tem mais de 40 anos. um aposentado e um é servente. exercendo coerção em relação a atitudes e comportamentos. 1992. capazes de configurar contornos específicos às vivências e seus sentidos considerando as especificidades dos distintos contextos (Connel. engenho desativado onde só se planta cana na atualidade. 2 1 A pesquisa foi realizada entre outubro de dezembro de 2001 nos engenhos Galiléia. 9 protestantes e 3 que declararão não ter religião. Almeida. residem no campo e já desenvolveram. Engenho Cachoeirinha. 1998. Os entrevistados exercem algum tipo de atividade relacionada ao campo ou. Eles apresentam em sua maioria baixa escolaridade e tem renda média de um salário mínimo. onde funciona uma usina de açúcar e Engenho Pitu3. que há uma significativa flexibilidade nos elementos que configuram estes modelos. reconhecendo a existência de relações assimétricas entre os gêneros (Scott. como também na forma como ele se concretiza no cotidiano (Connel. reconhecendo. 1998. suas terras férteis tem sido ocupadas desde o início da colonização portuguesa. que inspirada na crítica feminista afirma a construção social e histórica das vivências e significados relativos ao ser homem e mulher. Fonsêca. 2000. 2001).

Para Vilela (op. Loyola. 1994. 1996. 1998). sabe chegar e sair dos lugares. “de caráter“ e “de moral”: “um cabra rochedo”.cit). 1992. condicionando às carreiras sexuais.cit). condizente com uma não preocupação com a prevenção. sustenta e protege sua família. afastando-nos de uma perspectiva “naturalista” que a toma como algo inerente à natureza biológica e/ou psicológica do humano (Heilborn 1999. Prerrogativas. 1999. termo que conduz a se pensar seu oposto: "grupo sem risco". Alves. Enquanto em outros.Destaca-se em diversos contextos a concepção da AIDS como “doença do outro” (Loyola. Knauth. Monteiro. Ressalta-se ainda a falta de prioridade dada a homens heterossexuais nas estratégias de prevenção ao HIV (Vilela. Também não se vêem como "grupo de risco". 1991. inclusive sexuais. 1998. Leal e Boff. 1996. onde a negociação não se desloca das relações assimétricas entre estes/as (Heilborn. procura atender às expectativas relativas às suas atribuições enquanto marido e pai. nem se sentem impelidos a lutar por seus direitos. Se casado.importância e o lugar das mulheres na vida dos homens (Fonsêca.1999. 1999. 2002). verifica-se sua banalização (Knauth. limites e flexibilizações na representação da Masculinidade Ser homem na visão dos entrevistados significa ser “homem de respeito”. 1998. "os normais". se solteiro goza de 175 . 1997. A idéia de que o gênero informa ou mantém relação estreita com a vivência e representação da sexualidade por homens e mulheres tem sido demonstrada em diversos estudos. os homens heterossexuais não se percebem como minorias. 2001). econômicos sociais e culturais (Daniel e Parker. cujo modelo é o casal heterossexual. Parker. Knauth. Eles demonstram que isto se dá desde o processo de socialização. Leal e Boff. op. 1998. que é honesto. A difusão da AIDS mais recentemente (a partir dos anos 90) tem sido vista como produto de fatores políticos. A sexualidade é concebida como uma construção social e histórica de relações que atendem a múltiplos sentidos e finalidades. relacionada a uma introjeção da lógica de gênero na abordagem a estes. 2001. 1999.Nesta perspectiva. no qual o homem tem ampla liberdade para exercer sua sexualidade. 2001). Alves. 2000. 1. 2000). Vilela e Barbosa. Portela e Nascimento. Leal. se ultrapassa a idéia inicial de que as informações sobre a infecção por HIV e as formas de transmissão evocariam uma proteção individual e adoção de medidas eficazes de prevenção.1998). trabalhador. na formação das identidades e das expectativas em relação ao comportamento sexual.

o assassino. A categoria respeito é bastante significativa para se compreender os valores vigentes no campo. mas também pode tornar-se motivo de repúdio quando exageram. respeitar os pais e “não se juntar com quem não presta”. Neste sentido é interessante observar uma contradição potencialmente conflituosa: se os homens arrumam mulher fora. tendo amizade com todos. sabendo “entrar e sair dos lugares” sem criar confusão. Ser evangélico neste contexto é distinguir-se dos demais. o que bate em mulher. de serem evangélicos. particularmente. fragilizando o laço conjugal e familiar e favorecendo a infidelidade da mulher. Por sua vez. destoa-se do padrão de masculinidade idealizado na área. tendo em vista. sendo o bêbado alvo de chacotas que o desqualificam enquanto homem. O respeito associa-se tanto a capacidade de não desprender ação que possa prejudicar alguém quanto ao agir de modo “pacato”. embora queiram. fazer bagunça ou ser motivo para chacota. particularmente em relação o lazer e à sexualidade. isso lhe valoriza perante outros homens. Eles por sua vez tendem a passar uma imagem de correção num discurso onde se observam por vezes contradições entre representações e vivências. apresentando um comportamento “mais recatado”.5 O álcool é um elemento importante na sociabilidade cotidiana dos homens que não são “crentes”. particularmente. Alguns entrevistados demonstram dificuldade. o que se aproxima da representação do que seja o “homem que não presta”. 5 176 . o homem que sai com outras mulheres e despreza a “mulher de casa”. ou se “não sabe beber”. devendo. feminilizando-o. O “crente” não precisa fazer o que os outros fazem porque supostamente a vida de “renúncia do mundo” já representa uma prova6. passando a servir como referência negativa para a comunidade. É comum visualizar diariamente nos bares rodas de homens que conversam. Com outros homens se mantém sempre uma relação de amizade e competição. se se bebe demais. o que significa ser homem no contexto analisado. A religião parece representar uma espécie de salvo conduto para a masculinidade. Não ser visto como “homem de respeito” significa fugir das prerrogativas afetas ao modelo de masculinidade idealizado localmente. pois não Vale de Almeida (1996) teve semelhante percepção em seu estudo da masculinidade numa aldeia portuguesa. entretanto.maior liberdade. sendo desqualificado por esta. 6 Vez por outra se comenta que alguns crentes não correspondem às expectativas santidade que apregoam fazendo coisas que não devem. o significado da traição feminina neste contexto. “o fresco” (homossexual). O homem que não presta neste contexto é o “maconheiro”. riem e bebem juntos. o ladrão.

7 177 . até esta parece afirmar-se em função dos ditames da igreja. diminuição da liberdade de ir e vir (fica mais caseiro). Um homem separado entrevistado coloca-se como se tivesse voltado a vida de solteiro “Agora. por sua vez. e maior controle da sexualidade. retirando-os da “desordem” da vida de solteiro. mudou de novo. não anula a assimetria com as mulheres. como no caso de dois entrevistados. O casamento é pensado para a vida toda. que deve ser exercida com a mulher de casa preferencialmente. talvez o principal. considerando-se a constante e próxima convivência entre as pessoas por vezes desde a infância. que se acentua com a chegada dos filhos. É neste cenário que se constrói as prerrogativas de um modelo que se flexibiliza em função de recortes que demarcam distinções coletivas e individuais entre os homens. principalmente financeira. A chegada dos filhos é um fato visto sempre de forma positiva pelos homens e que acentua a transformação ou a consolida. ao exercício da sexualidade e a falta de compromisso financeiro. por vezes sendo tido como “donzelo” (aquele que aparentemente não tem vida sexual) ou “fresco”. na medida em que dá um norte às suas vidas.agüentariam tantas restrições. A vida de casado caracteriza-se pelo seu oposto: pela responsabilidade. sendo mal visto o homem que permanece solteiro além do tempo considerado adequado. na configuração da masculinidade nas localidades. as relações que eles estabelecem com outros homens e com as mulheres. mas acontecem separações. por vezes. Esta distinção. atribuídas principalmente à traição feminina. podendo eventualmente se dar “pulos de cerca”. Eu ando prá todo canto assim mais os amigos”. Esperam-se mudanças no comportamento dos homens com o casamento7. A vida de solteiro é caracterizada pela liberdade em relação ao uso do tempo e aos deslocamentos. considerando-se neste sentido. de forma discreta para não desestabilizar o laço conjugal. A comunidade de parentes e vizinhos/as pode ser vista como um cenário importante. É quase sempre considerada boa a vida de casado. Para os entrevistados o casamento representa uma significativa mudança. sem as quais não se verifica a consolidação da identidade adulta do homem. ressaltando-se o afeto e a responsabilidade pelo sustento destes. sendo a formação da família algo fundamental para a construção da identidade masculina adulta. Isto pode se relacionar tanto com a visão da sexualidade como algo necessário a uma vida “normal” como pela homofobia que perpassa as suas concepções sobre o ser homem.

8 178 . 9 Portela e Nascimento (2000) destacam a importância das aposentadorias rurais para a população da zona da mata. passear na cidade. distinguindo-se Concepção semelhante tem sido identificada em sociedades tradicionais. jogar bola. o que embora tenha sido visto na pesquisa de campo. A menina deve ser criada para ser esposa. especialmente o assalariado representa mais uma obrigação não se lhe atribuindo uma conotação positiva para além da afirmação de que este lhes permite que se mantenham e as suas famílias. tomar banho de bica. não foi explicitado nas entrevistas. como a Cabília. e quando falam de ficarem em casa se referem a descansar muito mais que ficar com os filhos ou fazendo algum tipo de atividade doméstica. 03 das esposas dos entrevistados exercem atividade remunerada como costureiras. que é melhor ter emprego do que estar desempregado. Parece contribuir para a manutenção deste modelo a baixa empregabilidade da mão de obra feminina. até mesmo por conta do desemprego ou sub-emprego de muitos homens nas localidades. uma outra é merendeira e outra agente de saúde. A liberdade traduz-se no termo andar.Representa-se a socialização das mulheres como relacionada à contenção de comportamentos e a uma maior circunscrição ao espaço doméstico ao passo que a socialização masculina se daria preferencialmente no espaço público e denotaria um movimento de ocupação cada vez maior deste espaço. uma vez que se relaciona diretamente com o bom desempenho das atribuições do seu papel de provedor ou mesmo com os gastos referentes à vida de solteiro. o trabalho em si. Evidentemente nem sempre tudo funciona como no modelo. Para os mesmos é preferível a companhia dos amigos a dos parentes em suas horas vagas. analisada por Bourdieu. legitimado como masculino8. pescar. que tanto pode significar vaguear pelas redondezas. que adquiram o que precisam ou possam desfrutar melhor as horas vagas e. Nas horas vagas tanto os solteiros (mais estes) como os casados relatam uma gama ampla de coisas que podem fazer. A disposição para o trabalho ou o ser trabalhador é um dos requisitos mais importantes do ser homem. Os entrevistados tendem a minimizar ou negar a importância da renda auferida pelas mulheres possivelmente porque este reconhecimento lhes afetaria tendo em vista ser o provimento da família uma prerrogativa importante do ser homem9. Contudo. que acentua a dependência econômica das mulheres do pai ou companheiro. (1999). como caçar. sair com os amigos ou ir para o bar ou para o cabaré. sendo vista em geral como uma futura dona de casa. “para arrumar alguém que tome conta dela”.

Entretanto. aquém dos caracteres diferenciais que a heterogeneidade masculina sinaliza. elas como 179 . entre os quais: geração. observa-se uma atualização e um redimensionamento das prerrogativas relativas à definição do que signifique ser homem. posição no núcleo familiar e as interações cotidianas entre homens e entre homens e mulheres. condição de solteiro e casado. há características que prevalecem estabelecendo um ponto em comum. orientação sexual. Os evangélicos ressaltam que sua condição os impede de se divertirem como as “pessoas do mundo”. Verifica-se a existência de nuances relativos à noção de masculinidade no contexto focalizado. mesmo considerando-se as especificidades do contexto local. na qual inclusive se sentem protegidos “do que não presta”. portanto várias masculinidades. embora eles o tenham em maior intensidade. parece assumir este papel no seu cotidiano. o que não representa uma queixa.basicamente os programas que se faz com os amigos. Eles consideram que o desejo sexual é um atributo tanto dos homens quanto das mulheres. constituindo. entre outros aspectos. Isto fica evidente. 2. pertencimento religioso. algumas que se aproximam mais de um padrão idealizado e outras que parecem distar deste. Levando em conta vários recortes. As relações dos homens com diferentes instituições e a forma como atuam em distintos campos da sua existência estabelece diferenciais entre homens e grupos de homens. com a família e com a esposa ou namorada no caso dos solteiros. Alguns elementos relativos à representação da vivência da sexualidade pelos homens Os entrevistados parecem divididos entre a idéia do sexo como “necessidade. Por outro lado. prazer e obrigação”. que homogeneíza as diferentes masculinidades: as relações assimétricas que travam com as mulheres. Embora isto não seja visto para eles como lazer ou diversão. além do que costumam participar ativamente das atividades da igreja. conforme veremos a seguir. quando se aborda a forma como se dão as relações de gênero na vivência da sexualidade. que parece pouco favorável à realização de um projeto de autonomia feminina. já que se dizem plenamente satisfeitos nessa condição. não se pode dizer que a assimetria entre homens e mulheres necessariamente retire delas todo o poder de barganha com estes.

ora denominando-as de “negas”11. já que o sexo é visto como uma espécie de tarefa pesada. o que também foi observado nos estudos de Malinowski (1983). aprovando-o ou valorizando-o diante de outros homens não há possibilidade de uma negativa. o que. Com as últimas a sexualidade ganha uma conotação de sexo domesticado: “tranqüilo”. mesmo num contexto de assimetria de gênero. senão poderá vir a resultar em doença. o que remete a representação desta como algo perigoso. diante da convocação de uma mulher. e “menina”.que por compensação tem a capacidade de ter mais orgasmos. Verifica-se uma distinção na forma como os homens denominam as mulheres com quem se relacionam sexualmente fora do casamento. Observa-se uma visão da sexualidade feminina como capaz de exercer um efeito devastador. principalmente se for homem só poderia estar relacionado a algum tipo de anormalidade ou doença. verificando que as categorias de classificação que opõem mulheres “fáceis”. 12 Heilborn (1999) constatou algo semelhante em suas pesquisas. na relação sexual o homem se alivia. termo que significa uma mulher de pouco valor: “uma prostituta” ou uma mulher fácil. o que dizem ter tido péssimo. contrariando de certa forma a visão predatória e animalizada do sexo que tendem a colocar. Neste caso fica bastante explícita a construção social da “necessidade” explicitando-se também que há outros nuances para além da relação de subordinação.dominação entre homens e mulheres. e mulheres para casar ordenam o modo 10 180 . também referido como feito com cuidado ou com amor. mas se for de mais suga sua energia. sexo demais também faz mal. podendo prejudicar o desempenho no trabalho. o que é traduzido na afirmação de que as mulheres gostam mais de sexo. considerando o acúmulo. Ao que parece. “que dão mole”. que poderá julgar sua performance. vista em geral como uma moça não virgem (mãe solteira ou separada) que mantém com eles relações sexuais sem pagamento. contudo diferencia-se da namorada e da esposa. esgotando as energias masculinas. Alguns entrevistados afirmam que já transaram por obrigação. Dos homens que responderam a pergunta: quem gosta mais de sexo: seis disseram que eram as mulheres. entre outros. 11 Este termo remete a uma alusão clara a desvalorização da mulher negra.10 Para eles parece difícil aceitar que alguém possa não ter vida sexual. três. Por outro lado. fazendo com que ele fique fraco. os homens e sete os dois. Godelier (2001) e Bourdieu (1999). em principio não pensando-se nela para uma relação estável e duradoura12. embora não se relacione com a cor/raça da mulher em questão.

relacionada aos seguintes aspectos: ao fato de cobrar pelo sexo. passível de compromisso. Se a moça é virgem é preciso ter cuidado para não vir a ter problemas caso venha a ter relação com ela. Os critérios de escolha de uma moça para namorar evidenciam a distinção na forma como concebem as mulheres com quem namoram ou estão casados e aquelas com as quais ficam. ou seja. sentindo-se dependentes. devem preferencialmente ter relações com as suas mulheres. entretanto a mulher não virgem ou separada em seu ponto de vista corre grande risco de ser vista como “de um e de outro”. a mulher de cabaré é vista como mais “carinhosa”13. segundo os entrevistados. podendo eventualmente vir a se relacionarem com outras ou mesmo ir ao cabaré. de fazer um sexo apressado. Carinho na linguagem dos homens representa a depender do contexto tanto a demonstração de afeto quanto a prática de carícias mais ousadas na relação sexual. Melhor mesmo é quando conseguem uma “pessoa certa” com quem ficam regularmente. pelo fato de precisarem delas e pagarem para isso. Mais ainda. Os jovens solteiros evangélicos por vezes demonstram-se pressionados entre a “necessidade” e os ditames da igreja. seja financeiramente. e por ser arriscado transar com elas. a moça que ele escolhe para namorar “tem que ser bem direitinha. A referência ao cabaré é feita em geral pelos homens solteiros ou pelos casados em relação ao tempo de solteiros. Os entrevistados afirmam que a virgindade não é fundamental em sua escolha para o casamento. cabendo um comportamento bastante exemplar nestes casos para que tenham chance de serem vistas como “mulher direita”. aquela que o cara sabe que presta”. como os homens se aproximam das figuras femininas em e relações que são organizadas por um princípio de valorização do masculino. e pelos evangélicos quando eram solteiros e /ou não eram crentes. certinha. ainda que tendo como contraponto o masculino. de fazer sexo com vários homens. Para Sebastião. pois só podem namorar com moça da igreja e um namoro com regras mais rígidas. Os homens casados. 13 181 . no sentido de ser “safada”. seja pelo conhecimento por parte da comunidade do fato ou de sua continuidade ou constância. tem relações sexuais fora do casamento ou namoro. com a qual inclusive podem vir a ter uma relação com mais afeto. ao que parece. quietinha.Os entrevistados apresentam uma visão negativa em especial da mulher do cabaré. fazendo coisas que as outras não fazem para conseguir o dinheiro do homem. pensando já no próximo cliente. ou trazendo doenças para a mulher de casa. mas sem comprometer o convívio no núcleo familiar. Com os evangélicos se acentuam estas objeções. que representariam o maior perigo de contrair infecções sexualmente transmissíveis. Por outro lado.

A homossexualidade é vista como algo que fere a natureza já que “Deus fez o homem para a mulher e a mulher para o Homem”14. de moral e de respeito. dois afirmaram se encontrar com mulheres casadas no momento. também dizem não dar importância à virgindade. Nascimento. 1999. o homem incompleto. pois. em particular sobre as classes populares (Parker. e o “fresco”. Verifica-se no discurso dos entrevistados uma distinção e uma espécie de continuum entre o homem maduro. ora persistindo uns ora outros. O “tipo ideal” que surge nesta 14 Trata-se de uma visão também encontrada em outras análises. e três referiram já ter se relacionado anteriormente. um incidente de percurso. se casam com mulheres não virgens ou transam com as namoradas. enquanto representações. um “pulo de cerca”. Apesar da infidelidade feminina ser considerada um fato grave é freqüente nas localidades a referência a sua ocorrência. assim como a negação desta para a mulher. Dois deles disseram que se separaram por haverem sido traídos. 1994. Verifica-se uma incompatibilidade entre o estereótipo de homossexual representado pelos entrevistados e a gama de experiências sexuais de que falam. ou necessidade. 2001). embora estejam presentes no modelo. assim como pelos entrevistados. embora nem sempre isto fique muito claro no depoimento dos homens. na prática. se o faz é considerado “cabra safado”. que não deve se envolver com outro homem. mas é visto como natural a possibilidade de traição do homem. 182 . A referência ao sexo com outro homem sugere um comportamento ativo. Para os entrevistados tanto o homem como a mulher deve ser fiel. A constante referência a “moças de família” que transam com o namorado ou engravidam também parece admitir que a separação entre as categorias de mulheres não funciona exatamente como nos padrões tradicionais. garoto que ainda não tem experiência ou mesmo o homem solteiro que pode vir a ter por inexperiência. no exercício de sua liberdade ou mesmo por dinheiro. sendo concebida em geral a traição do homem como um fato banal. quase que desprovido de características masculinas. se os homens fazem uma separação clara entre categorias de mulheres. ao contrário da feminina. A aceitação social da infidelidade masculina relacionada à percepção da sexualidade masculina como mais próxima da animalidade aliada a dependência econômica das mulheres desfavorece a ocorrência de um conflito mais sério quando o homem é infiel. Alves.Verifica-se uma certa ambigüidade na adoção de valores “tradicionais” e “modernos”. efeminado.

identificado principalmente como método preventivo contra ISTs e AIDS. ser homem não significa necessariamente ser ativo. como por exemplo. 16 Esta característica aparece como um aspecto recorrente em vários estudos. como modo de andar ou a presença de secreção na calcinha. 1996. Ou seja.representação aparece como um elemento raro nas comunidades enquanto as experiências homoeróticas parecem ser relativamente comuns. o status ocupacional mais elevado. entre os quais: Guimarães. em princípio qualquer mulher seria elegível desde que passasse no teste.Concepções sobre a Prevenção de IST/AIDS Todos os entrevistados dizem conhecer o preservativo.Cinco homens declararam nunca terem usado o preservativo. embora persista enquanto representação uma relação de atividade-passividade entre um homem que mantém as características da masculinidade (ainda que por vezes incompleto) e um outro homem efeminado conforme padrão explicitado por Parker (1994. com pessoa conhecida. quando através de uma espécie de teste pode-se avaliar se a parceira está saudável. observandose um sinal. mas que lá dentro elas não usam. concorre com o preservativo. 1994. em relação à construção e vivência da masculinidade. a forma como se reconhece e legitima as práticas homoeróticas entre distintas categorias de homens. sem que se tenha um compromisso efetivo. Não é necessário o uso do preservativo segundo os homens: em casa com a esposa porque ambos são fiéis ou porque se usa o preservativo fora. O uso da camisinha aparece como inconstante e irregular. Loyola. enquanto sete afirmam que usam na atualidade. o que sugere que na prática estas se dão entre homens que não se enquadram necessariamente neste modelo. neste último caso. Berquó. Destaca-se.16 15 Esta questão da obrigatoriedade nem sempre se confirma. Seu uso é visto como necessário com mulher de cabaré. 183 . abrindo-se o leque para outros requisitos que podem vir a fortalecer a masculinidade. Ao que tudo indica não parece haver uma relação necessária entre identidades e práticas sexuais neste contexto (Lago. Um entrevistado afirmou que a dona do cabaré que ele freqüenta exige que as suas funcionárias usem. pelo fato delas transarem com muitos homens ou porque lá é obrigatório15. A idéia sobre o conhecimento da parceira. assim sendo. 2000). em geral uma mulher das proximidades com a qual se fica. 1994. colocando-se como possibilidade em determinadas circunstâncias e não em outras. ou fazendo um certo tipo de toque nos órgãos genitais da mulher. Oito deles declararam já ter usado camisinha. transa-se com camisinha ou com mulher conhecida. Neste caso. 3. 1999).

por nomes conhecidos localmente. parece haver uma significativa circulação de informação. comumente indicadas pelos amigos. levando-o a broxar. pode favorecer a uma performance ruim ou fraca. Esta parece ser a representação mais forte em relação ao preservativo. ao passo que as ISTs incomodam. mula e crista de galo.A mulher que tem muitos homens 184 . mas tem remédio. o preservativo não permite que se “sinta o gosto” ou tira o prazer.Embora se reconheça a importância do uso da camisinha para evitar ISTs e AIDS. formigueiro. há uma percepção negativa desta quando se considera a possibilidade de utilizála. Os entrevistados tem conhecimento de diversas ISTs ou porque já tiveram ou porque conhecem outros que tiveram. Todos os entrevistados já ouviram falar da AIDS. dada a falta de familiaridade. prende e retém algo que deveria ser solto. O homem é visto como tendo mais facilidade de pegar ISTs e AIDS. Elas são identificadas. Vários referem a existência de doação de preservativos nos postos de saúde da cidade. capim. Aliás. Verifica-se ainda a idéia de que o uso da camisinha faz mal a mulher. capaz de inibir o uso por parte dos mais jovens. Há referencia também ao fato dele não se cuidar como a mulher. um deles afirma ser muito caro e não estar ao alcance dos pobres. Foram citadas: sífilis. A AIDS é concebida pelos entrevistados como uma doença que não tem cura. também sobre ISTs. deixando seu útero seco. “não escolhe”. a um farmacêutico ou utilização de chás ou fórmulas caseiras. e penetrar. Para eles. embora por vezes se atrapalhem na hora de dizer quanto custa. As informações que tem nem sempre são verdadeiras ou consistentes. quando deveria se molhado pelo sêmen do homem. mostrando-se em geral muito genéricas e parciais. Eles o consideram barato. principalmente porque se relaciona com qualquer mulher. e jogado no útero da mulher. “é feito cachorro”. Para o tratamento das ISTs há referência a consulta a um médico.Alguns entrevistados sabem que existe medicação para prolongar a vida do portador de HIV. Alguns depoimentos revelam a existência de um contra-discurso bastante difundido entre os homens a respeito da camisinha. por vezes. que mata aos poucos. que pode ser canalizada para se pensar em estratégias de intervenção. ficar em contato com a parte interna da mulher. O preço do preservativo não é visto pelos entrevistados como empecilho a sua aquisição. faz a pessoa secar. à maneira deles. sua prevenção e tratamento. Em alguns depoimentos o assento e o beijo aparecem como formas de infecção por HIV. gonorréia de sangue e de pus. que nem sempre foi possível traduzir.

escondendo a doença. 1996). No contexto brasileiro ver Knauth.aparece em seguida como mais vulnerável e por último o homossexual. que são flexibilizados em função de distintos contextos e circunstâncias. baseiam-se num conhecimento impreciso e inconsistente. mesmo considerando a referência a esta como de domínio público nas localidades. e uma visão distorcida e distante do risco em relação às ISTS e a AIDS. Em geral a prostituta é pensada como fonte de doenças17.1998. A AIDS. aparecendo uma fantasia em relação a esta. bastante ameaçadora. Embora predomine uma visão tradicional das relações de gênero. não se 17 Esta representação assemelha-se aquela de que fala Carrara (1994) ao discorrer sobre a transmissão da sífilis no século XIX. Parker. observando-se uma oscilação entre “valores antigos e modernos”. Destaca-se o significado do casamento e da chegada dos filhos na formação da identidade masculina madura. da quantidade. 1994 e Guimarães. quando a prostituta era vista como a fonte do mal. Afirma-se que ela ao saber que está com AIDS se vingará de todos. 185 . pois acreditam tomarem os devidos cuidados. 18 Diversos autores encontraram representação da AIDS como doença do outro. As informações sobre a AIDS e as DSTs e sobre suas formas de prevenção e tratamento. A esposa ou companheira nunca é vista como passível de transmitir ISTs ou AIDS. por sua vez. As mulheres representam um contraponto para a construção da masculinidade. ainda é vista como “doença do outro”18. como o lugar das mulheres (em suas várias categorias) na construção e vivência desta. Verifica-se uma percepção negativa do preservativo. o que pode relacionar-se a própria negação da relação homoerótica.Considerações finais Os entrevistados demonstram uma concepção tradicional dos atributos alocados à masculinidade e a feminilidade. assim. Loyola. associando-se à virilidade. 1994. o que parece se relacionar diretamente com o seu não uso. As campanhas de prevenção parecem não ter um impacto significativo sobre estes homens talvez pela falta de conhecimento do seu universo cultural. 1999. 4. uma certa ambigüidade. podendo-se mesmo dizer que em algumas situações ou circunstâncias podem colocá-la em xeque. Para eles o risco de contrair ISTs não representa algo tão grave assim. notadamente no que diz respeito à sexualidade. Os entrevistados não se vêem como estando em risco em relação a ISTs e principalmente a AIDS. verifica-se em alguns aspectos. O risco é avaliado em função do número de parceiros que se imagina que alguém teve. por se valerem de critérios que consideram confiáveis para a escolha das parceiras.

OLAVARRIA. C. Honra. in: PARKER.F. C.”E Homem trabalha que nem a gente”: um estudo sobre trabalho feminino numa comunidade rural do agreste pernambucano. R E GALVÃO. para eles representada pela fatalidade.W. Record 186 . M. “Mas eu conheço ele” . UFPE. A (Org. na associação com a morte. Relume Dumará. In: LOYOLA.M. M. O. 1999 CARRARA. estereótipo do qual se afastam. Uma questão de gênero. (org. O enigma do dom. Iglu.São Paulo. C.AIDS e Sexualidade: O Ponto de Vista das Ciências Humanas. “Uma Genealogia do “Gênero”. Mestrado em Antropologia.P. C. AIDS. 1 N.F.1994. Relumé-Dumará. P. R. São Paulo. Recife. UFRPE. DA MATTA. Rio de Janeiro. A dominação masculina.M. & PARKER. J. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado. Série Família e Gênero. Revista de Antropologia Vol. FONSÊCA. Gênero e Sociedade. GUIMARÃES. D. In: MURARO. Quebrando o silêncio.M. a terceira epidemia.R. Rio de Janeiro. R. um método de prevenção do HIV/AIDS. M.Referências Bibliográficas ALMEIDA. CONNEL.T.24. “A AIDS e a História das Doenças Venéreas no Brasil”. ALVES. 1985 A Casa e a Rua: espaço. Rio de janeiro. 2 ."La organizacion social de la masculinidad". S. Chile. Rio de janeiro. In: BRUSCHINI. Masculinidad/es Poder y Crisis. 2001. Rio de Janeiro. Humor e relações de gênero. DANIEL. 2001. O que demanda a realização de trabalhos efetivos de informação e intervenção adequados a sua realidade.In VALDÈZ. Rosa dos tempos. & PUPIN.1996. A. BOURDIEU. cidadania .utilizando de uma linguagem que os coloque a par do que é a epidemia. N. Recife. M. mulher e morte no Brasil. Mulher. Brasiliense. FONSECA.Representações sociais sobre masculinidade ente homens pobres do Recife. A.). Diversas características presentes no discurso dos homens em relação à construção da masculinidade. Relumé-Dumará. Mulheres e AIDS no Brasil. parecem indicar que há um elevado nível de exposição ao risco de contraí-las. B.). Ediciones de las Mujeres. M. 2001. R.1997. J (orgs).P. sexualidade e prevenção das ISTS e da AIDS. 5. AlVES. Relatório da pesquisa. & COSTA. H.1991. Masculinidades: uma discussão conceitual preliminar. GODELER.1996.

A. sedução e sexualidade: fragmentos de identidade masculina em uma perspectiva relacional". M. A. COSTA.6. 1996."Maternidade sob o signo da AIDS: Um estudo sobre mulheres infectadas". R. 1983. LEAL. LEAL. Porto Alegre. B. LOYOLA.103 –117. Sexualidades Pelo Avesso. 0.1999.1997. In BARBOSA. São Paulo.(org) Direitos Tardios.24.L. M.1999.In: Heiborn (org) Sexualidade. ano 4.L. KNAUTH. N.1997. Relume Dumará. NASCIMENTO. In: Parker. Rio de Janeiro: Relume Dumará.HEIlBORN. M. In: Estudos Feministas. Fazendo gênero. (orgs) Sexualidades Brasileiras.Homens Pobres. R. R. “A primeira vez nunca se esquece”. Horizontes Antropológicos. A.Rio de janeiro. Rio de Janeiro: Ed. A vida sexual dos selvagens. n.1999. O olhar das ciências sociais.PE (memo). KIMMEL.1998. gênero e sexualidade”. R. (org) A Sexualidade nas Ciências humanas. queixas.(org) Sexualidade. KNAUTH. In VALDÈZ. KNAUTH. v.R. M. R (orgs). 1994 “A Percepção e prevenção da AIDS no Rio de Janeiro”. P. M. UERJ. HEIlBORN. D. Rio de janeiro. LAGO.O.”Subjetividade Feminina e Soropositividade”.M.São Paulo. Loyola. In: Costa.(orgs). Rio de janeiro: Rosa dos tempos. In.”Construção de si. Porto Alegre.F.9. 187 1999. Barbosa. O. IFCS/UFRJ.L.F. 1992. . OLAVARRIA. a Antropologia da Mulher no Brasil.O. n.”A Produção Simultânea de Masculinidades Hegemônicas e Subalternas”.L. LOYOLA. Chile: Ediciones de las Mujeres. S.1998. 2002. ano 4. D. T. Zahar.In: AIDS e Sexualidade: O Ponto de Vista das Ciências Humanas. Rio de Janeiro. MONTEIRO.p. Editora 34."Suicídio Y honor en la cultura gaúcha". In: Bruschini. A banalização da AIDS.F. O olhar das Ciências Sociais. Francisco Alves. A. C. M.PARKER. HEIlBORN. Masculinidades à margem. sexualidade e gênero numa favela carioca. Rio de Janeiro. In: Horizontes Antropológicos.9. In: (HEIBORN.Bissexualidade masculina: uma identidade negociada. A construção social da masculinidade no município de Camaragibe . Rio de Janeiro. Editora 32. Zahar. J. 1996 "Insultos. Rio de Janeiro.M. MALINOWSKI. R. M “Sexo e sexualidade” 1998.& BOOF..F. D. (org) Uma questão de gênero. Editora Fiocruz. Masculinidad/es Poder y Crisis. Qual prevenção? AIDS. R.

Medrado. W. Rident. W. 1990. A. Rio de Janeiro. V. M. 1999. In: Parker. São Paulo. 1998. V. OLIVEIRA. Gênero. Na Contramão da AIDS: Sexualidade. Discursos sobre a masculinidade. Do Sujeito da Ação ao Objeto da Reflexão: Homem Sexualidade e reprodução. PARKER. Rio de Janeiro. Fim de Século. V 6 n 1/98. Ed 34. "Repensando as relações entre gênero e sexualidade". Hucitec.In: Galvão L.1994. IFCS – UFRJ. do sexo que se faz ao sexo do qual se fala”. VALE DE ALMEIDA.. Intervenção.P. São Paulo. Novos Estudos. P. São Paulo.R. 188 . “Homem que Homem também pega AIDS?” In: Arilha. e NASCIMENTO. J (0rgs. 2000. Rio de Janeiro: Relume Dumará. (Mimeo). “Num país tropical. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 1995.) Saúde sexual e reprodutiva no Brasil.1992. V. Barbosa. CEBAAP. Diaz.OLIVEIRA. S.R. 2000.Corpos. PARKER. P. P. (orgs) Sexualidades Brasileiras. Estudos Feministas. Política. R. J. Prazeres e Paixões.P.B (orgs) Homens e Masculinidades. R. uma categoria útil de análise histórica In: Educação e Realidade. PORTELLA. VILELA. A construção da Solidariedade. Lisboa. SCOTT. Population council.1998. Best Seller. 56. Valores e Vivências da Masculinidade. VILELA. 2000. M. M. R. e BARBOSA. Crises. M. VILELA. Senhores de si: uma interpretação antropológica da masculinidade. O Caso da Zona da Mata Canavieira de Pernambuco.R. W. Ed 34 PARKER. Porto Alegre.

Introdução Esse artigo tem como fim desenvolver uma análise dos significados e das representações sociais que homossexuais masculinos que vivem uma relação de conjugalidade tem da Parceria Civil Registrada. segundo o censo de 2004.SIGNIFICADOS E REPRESENTAÇÕES DA PARCERIA CIVIL REGISTRADA ENTRE HOMOSSEXUAIS MASCULINOS EM CUIABÁ Moisés Alessandro de Souza Lopes . Sexualidade e Saúde Reprodutiva promovido pelo Programa de Estudos e Pesquisas em Gênero. dos significados e das representações sociais que homossexuais masculinos têm da regulamentação civil da união entre pessoas do mesmo sexo. Brasil. Resta dizer. esse artigo assume relevância por desenvolver uma análise.sepolm@hotmail. Sexualidade e Saúde/IMS/UERJ com apoio da Fundação Ford. Essa análise só está sendo possível pelo desenvolvimento de uma pesquisa que está sendo financiada com recursos do Programa Interinstitucional de Treinamento em Metodologia de Pesquisa em Gênero. Desse modo. a Grande Cuiabá que conta com uma população total superior a 700 mil habitantes. tendo como metodologia a pesquisa qualitativa sendo que a estratégia metodológica empregada para a coleta de dados está sendo a realização de entrevistas face a face por meio de roteiro semi-estruturado. Esse núcleo urbano é formado pelas cidades de Cuiabá e Várzea Grande. bem como da possibilidade de regulamentação de sua união. Resta destacar ainda que a pesquisa não se encontra concluída com a necessidade de um retorno a campo com a realização de mais entrevistas. como as vêem. fato que ocorrerá em novembro desse ano. Essa pesquisa tem como objetivo principal identificar e analisar como os homossexuais que vivem relações estáveis significam suas relações.com Mestre em Ciências Sociais. as constroem e as vivem cotidianamente. destaco que essa pesquisa assume importância por analisar um dos maiores núcleos urbanos do interior do país e o maior do oeste brasileiro. que . 1. ainda preliminar. Além disso. sendo a primeira composta por mais de 500 mil habitantes.

pois deputados eleitos2 assumiram o compromisso de defender essa proposta. Já a discussão sobre a união entre homossexuais na sociedade não seguiu o mesmo caminho. situando os termos do debate. “Apresentei a idéia e contei com grande colaboração dos grupos gays. Devem-se destacar também aqui os diversos estudos desenvolvidos principalmente na França em decorrência da aprovação do Pacte Civil de Solidarité (PACS) em 1999. que a Deputada Marta Suplicy. a principal preocupação daqueles parlamentares e também do movimento dos(as) homossexuais ao se buscar o reconhecimento da conjugalidade entre pessoas do mesmo sexo era assegurar o direito à inclusão dos(as) parceiros(as) na Previdência Social e em planos de saúde privados. entre outras iniciativas. É a partir da apresentação e publicização desse projeto na Câmara dos Deputados que a discussão sobre a conjugalidade homossexual ganhou impulso e foi colocada em foco na mídia brasileira de maneira mais sistemática. Nas palavras dela3.2. define a proposta original do Projeto de Lei de Parceria Civil Registrada (Almeida Neto. em 1995. Vale ressaltar que uma característica comum de quase todos os projetos aprovados é a proibição da adoção de filhos por parte dos casais homossexuais. esse projeto que busca garantir aos(as) homossexuais a condição de cidadãos(ãs) não foi até hoje para a votação na Câmara dos Deputados estando engavetado. É somente após a realização do 1º Congresso da Associação Brasileira de Gays. Na academia ocorreu. uma expansão de estudos sobre as 190 . bem como direitos relativos à herança. 1999). Lésbicas e Travestis (ABGLT) e da 17ª Conferência da Internacional Lesbian and Gay Association (ILGA). a discussão sobre o reconhecimento da conjugalidade homossexual emergiu no cenário político1 por volta do final da década de 90. No Brasil. bem como de diversas ONGs favoráveis. mas não abandonou o cenário político. inserida na proposta do programa de governo do candidato Luiz Inácio Lula da Silva do PT. em parceria com especialistas e lideranças do movimento dos(as) homossexuais. 1999). como os beijaços que ocorreram nos shoppings e restaurantes das grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Conjugalidade homossexual no Brasil. A luta por conjugalidade teria como justificativa a legalização de uma situação de fato e a garantia de amparo aos(as) homossexuais que perdem seus(suas) parceiros(as) principalmente em decorrência da AIDS (Almeida Neto. vale destacar aqui as manifestações das igrejas católicas e evangélicas contrárias ao projeto. Durante os últimos anos. eles participaram mesmo. as passeatas do orgulho gay que em dado momento tiveram como tema a união homossexual e a criação de fóruns e grupos de debate na internet. as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo têm assumido gradualmente espaço na mídia nacional e internacional. se tornando pública com manifestações de apoio e repúdio de diversas instituições em diversos momentos. Houve um intercâmbio muito intenso. mais especificamente em 1994. Inúmeros países de quase todos os continentes aprovaram ou colocaram em discussão leis específicas com o fim de regulamentar a possibilidade de existência jurídica dessas famílias formadas por gays e lésbicas. Sob pressão de grupos conservadores essa proposta foi retirada do programa presidencial de governo. tendo sido derrubada apenas na Holanda e encontrando-se em discussão em alguns outros países. no âmbito das eleições para a Presidência da República. paralelamente a esse movimento de maior visibilização das uniões entre pessoas do mesmo sexo. No entanto. Refiz o projeto baseada nas observações deles”. Assim. Além dessas ocorreram manifestações por parte dos(as) próprios(as) homossexuais que colocavam em questão a união homossexual e o preconceito sofrido.

se torna essencial para a consistência do projeto uma memória que forneça a noção de um passado que produziu o presente constituindo uma trajetória e uma biografia do indivíduo. tendo como metodologia a pesquisa qualitativa sendo que a estratégia metodológica empregada para a coleta de dados está sendo a realização de entrevistas face a face por meio de roteiro semi-estruturado. Ou invertendo a colocação – é indivíduo-sujeito aquele que faz projetos.] circunstâncias de um presente do indivíduo envolvem. a tese de Anna Paula Uziel (2002) que desenvolve uma análise da relação entre família e homossexualidade a partir de duas ilustrações. 1981) que em suas palavras se refere a. pois é na verdade um instrumento de negociação da realidade com outros atores. sentimentos e aspirações para o mundo. p. podendo ser um grupo social. as “[. não seja necessariamente um indivíduo. para apreender como se dá a construção da conjugalidade homossexual masculina dentro da complexidade e fragmentação da sociedade contemporânea tomo como ponto de partida o conceito de projeto desenvolvido por Velho (1999. emoções”. Nesse sentido. baseada em uma memória que dá consistência à biografia. através do estabelecimento de objetivos e fins. Somando-se a isso. temos de levar em conta que o projeto sempre leva em consideração a existência do outro. necessariamente. Assim. a tese de doutorado de Luiz Mello de Almeida Netto (1999) que desenvolve uma análise da construção social da conjugalidade homossexual. como as vêem. valores. incluindo entre elas a conjugalidade homossexual. que a noção de projeto busca dar conta da margem relativa de escolha que indivíduos e/ou grupos tem em determinado momento histórico em uma sociedade. Partindo disso. diante disso esse estudo adquire importância por buscar identificar e analisar como os homossexuais que vivem relações estáveis significam suas relações. poucos estudos no Brasil se preocuparam em analisar como os(as) próprios(as) homossexuais significam e representam sua relação estável.] conduta organizada para atingir finalidades específicas. Vale destacar. No entanto. destaco que essa pesquisa assume relevância por analisar um dos maiores núcleos urbanos do interior do país e um dos maiores do oeste brasileiro.. Além disso. conseqüentemente. sua identidade social e possibilitando a esse sujeito situar e ordenar suas experiências individuais dentro de uma sucessão de etapas (trajetória). objetivos. creio que toda a noção de projeto está indissoluvelmente imbricada à idéia de indivíduo-sujeito. Velho (1999.. é o que possibilita a formulação e condução de projetos.101). na medida em que busca.homossexualidades e as diversas manifestações homoeróticas. [.101) destaca que. a Grande Cuiabá que conta com uma população total superior a 700 mil habitantes. sendo a primeira composta por mais de 500 mil habitantes. existindo assim como meio de comunicação. Embora o ator. Portanto. projeto e memória se articulam com o fim de significar a vida e as ações dos indivíduos construindo. Nesse sentido. a organização dos meios através dos quais esses poderão ser atingidos (1999. as constroem e as vivem cotidianamente. p.. o projeto é a antecipação no futuro dessas trajetória e biografia. indivíduos ou grupos. se a memória permite uma visão retrospectiva mais ou menos organizada de uma trajetória e biografia. segundo o censo de 2004. A consciência e valorização de uma individualidade singular.. preconceitos. um partido. de expressão de interesses. uma no campo do Legislativo e outra no campo do Poder Judiciário. Esse núcleo urbano é formado pelas cidades de Cuiabá e Várzea Grande. bem como. Destacam-se aqui a tese de doutorado de Maria Luiza Heilborn (1992) que desenvolve um estudo comparativo entre a conjugalidade de heterossexuais e homossexuais (gays e lésbicas) e aponta similitudes e diferenças. o projeto deixa 191 . em princípio. ou outra categoria.

sem esvaziá-las arbitrariamente de suas peculiaridades e singularidades (Velho. Dentro desse repertório.] aos indivíduos transitarem entre diferentes domínios e situações. sem maiores danos ou custos psicológico-sociais.40). acrescenta novos sentidos e significados a sua biografia provocando repercussões em sua identidade. que com isso. Esse preconceito e homofobia dispersos no imaginário social acabam influenciando a construção de um projeto de conjugalidade entre pessoas do mesmo sexo e. auxilia-nos a noção de campo de possibilidades como dimensão sociocultural. p. dizer-se gay ou homossexual é o primeiro e mais difícil momento de um longo processo de desconstrução das imagens negativas associadas à homossexualidade e aos homossexuais (p. evitando um voluntarismo individualista agonístico ou um determinismo sociocultural rígido. associadas à natureza da estrutura social (p. as noções de projeto e campo de possibilidades podem ajudar a análise de trajetórias e biografias enquanto expressão de um quadro sócio-histórico. sendo importante nessa pesquisa a formulação e colocação em prática desse projeto de vida a dois. Desse modo. bem como pela existência do preconceito e da homofobia. Assim. quando já estabelecido esse projeto. sem que isso signifique uma exclusão dos outros indivíduos. A identidade nas sociedades urbanas contemporâneas. desenvolvem-se papéis e desempenhos mais especializados. tornam mais difícil o momento da revelação. prestígio. se devem a especificidades de trajetória. que faz com que todos. Esse autor intitula essa diversificação de papéis de “potencial de metamorfose” que permite. com ênfase na consciência individual. a partir de uma visão mais estática de identidade. assim como de pré-julgamentos que tomam a homossexualidade como uma doença ou falha de caráter moral.82). Segundo Velho (1999) por ser produto de uma interação entre indivíduos e/ou grupos. possam participar de n códigos e mundos. Tarnovski (2003) afirma que: A existência de estereótipos negativos. Levarei também em consideração que o projeto individual de conjugalidade é resultado de uma interação deste com diversos outros projetos individuais dentro de um campo de possibilidades.de ser exclusivamente racional sendo resultado de uma deliberação consciente diante das circunstâncias que envolvem o indivíduo (campo de possibilidades). Nesse sentido. o projeto tem um caráter marcadamente dinâmico. [. poder..17). potencialmente. pois estariam apoiadas em um “anonimato relativo” e em uma diversificação de papéis e domínios. Pelo contrário. 1999. acabam provocando um silenciamento da própria união e uma escolha sobre as possíveis pessoas que poderiam ser portadoras desse “segredo”. espaço para formulação e implementação de projetos. Nas palavras do autor: Para lidar com o possível viés racionalista. As diferenças. ao me referir a um projeto de conjugalidade entre homossexuais masculinos levarei em consideração a ação deliberada que resulta em um planejamento para o estabelecimento desse objeto e/ou a intenção de realizá-lo. 192 . teriam assim uma maior margem de manobra. claramente existentes. origem. portanto. trata-se de uma característica mais generalizada da sociabilidade contemporânea. independente da possibilidade de existência de um plano detalhado passo a passo ou dele ser vago. A problemática do “anonimato relativo” se agudiza e se complexifica ao se tratar do estabelecimento de um projeto de conjugalidade homossexual devido a existência no imaginário de uma infinidade de representações sociais de caráter negativo sobre as homossexualidades. ao contrário do que se poderia esperar. em suas palavras. associada à possibilidade de trânsito entre estes.. resultando em uma produção de identidades multifacetadas e de relativa estabilidade. de constante reelaboração e releitura do passado pelo ator.

se a busca pela conjugalidade homossexual masculina é pautada como uma maneira de “proteção” a epidemia de AIDS. no Brasil. na homossexualidade feminina essa não é a questão principal. tornando mais complexa a possibilidade dessa visibilização. No entanto. a luta do movimento homossexual se fazia pautada principalmente na idéia de liberalização sexual que implicava na existência de múltiplos(as) parceiros(as) sexuais (Arán. 2003). através das leis de parceria civil. Féres-Carneiro (1997) e Grossi (2003) chamam atenção para especificidades que as diferenças de gênero nas questões referentes às homossexualidades implicam. particularmente. além do companheiro. e sim a assunção de um modelo conjugal igualitário. marcados pelo modelo de um conjunto formado pela díade do casal heterossexual com sua prole. Não podemos nos esquecer também que é somente a partir da década de 90 que se busca o reconhecimento da conjugalidade entre pessoas do mesmo sexo. a revelação do “segredo” de uma união homossexual passaria por um processo de diálogo/negociação de visibilidades e de aceitação das respectivas homossexualidades. como dito anteriormente. devido à inexistência de amparo legal para a união entre dois indivíduos do mesmo sexo. ocorreu a emergência do reconhecimento civil da conjugalidade homossexual. Assim. A forte demanda por reconhecimento legal destas uniões. Alguns autores enfatizam a emergência do modelo individualista moderno constituído. por lésbicas e gays vivendo em grandes metrópoles mundiais. por causa da AIDS. Há várias explicações para esse desejo de conjugalidade entre indivíduos do mesmo sexo. Grossi (2003).Se “assumir-se” como homossexual é o ponto inicial do processo de desconstrução das imagens negativas associadas à homossexualidade. Assim. 2003. Heilborn (1992). e que esse fenômeno assinala uma etapa significativa nos modelos ocidentais modernos de parentesco. 193 . assumir um projeto de conjugalidade igualmente passaria por um processo de desconstrução de estereótipos e representações negativas que abarcariam agora dois indivíduos. Em suas palavras. aponta que no final da década de 90. que teria sido um propulsor da busca por conjugalidade em relações homoeróticas como forma de autoproteção à contaminação. vai culminar no Brasil com a apresentação do Projeto de Parceria Civil Registrada em 1995. busca que se iniciou na Europa e nos Estados Unidos e que. que assumiriam modelos de fechamento no conforto do lar tecnologizado dos casais DIWC (duplo salário sem filhos). Outros ressaltam o impacto da AIDS sobre a comunidade gay. seria uma das conseqüências dos inúmeros casos dramáticos de pessoas que perderam. Grossi. moradia e renda. Antes disso. nas décadas de 70 e 80.

O trabalho de campo foi realizado durante todo o mês de agosto em Cuiabá (infelizmente não tive acesso a nenhum casal homossexual que morasse na cidade de Várzea Grande até o momento) e compreende seis entrevistas gravadas que serão analisadas nesse artigo. questões sobre o conhecimento de legislação sobre união civil entre pessoas do mesmo sexo e sobre o estabelecimento de contrato de parceria. entre os amigos. se relacionam tanto com homens quanto com mulheres.) Dados do sujeito e do parceiro: dados que permitiram estabelecer o perfil sócio-econômico e cultural dos sujeitos entrevistados e de seus parceiros.3.) Significados e vivências da homossexualidade: questões que buscavam analisar os significados da sexualidade e como se refletiram na construção do sujeito. tempo de relação e nomeação do parceiro. discriminações sofridas individualmente. profissão. co-habitação. tempo de relação e configuração da família de origem do entrevistado (número de irmãos(ãs). escolaridade. questões referentes a organização de tarefas e funções domésticas. O acesso ao campo foi realizado através de contatos mediados por pessoas de minha rede de relações. As entrevistas tiveram por base um roteiro semi-estruturado que foi organizado em torno de quatro blocos temáticos. questões referentes a preconceitos ou discriminação sofridos como casal. questões referentes a características da relação conjugal. vizinhos e parentes. Essa escolha foi motivada pelos objetivos da pesquisa que busca analisar as representações e os significados da conjugalidade entre indivíduos homossexuais que vivem uma união. tais como: etapas da trajetória de vida em que a homossexualidade apareceu como “problema” ou ponto de inflexão significativo e envolvimento da família de origem. no qual foi marcado um encontro pessoalmente para explicar os motivos da pesquisa. busquei eliminar indivíduos que se auto-declaram como sozinhos (mesmo que vivam uma situação conjugal com outro homem). isto é. no trabalho. Cada uma das entrevistas totalizou uma média de 60 minutos e foi realizada (quase que na totalidade) na casa dos entrevistados após um primeiro contato por telefone. bem como o universos de homens que vivem uma vida “dupla”. amigos e conhecidos que apresentaram amigos e conhecidos dentro dos critérios estabelecidos para que a pesquisa pudesse ser desenvolvida. quais sejam: 1. redes de sociabilidade. resultando em um total de seis entrevistas realizadas e mais algumas a serem realizadas no mês de 194 .) Relação conjugal atual: questões que buscaram compreender como ocorreu a construção do projeto de vida em comum. conhecimento de terceiros de sua homossexualidade. Universo de entrevistados e configuração da pesquisa. negociação de dificuldades e conflitos. fidelidade. que incluíam: questões relativas ao modo de estabelecimento da parceria afetivo/sexual.) Conjugalidade homossexual: questões que deram acesso a representações e significados da conjugalidade que incluíam: questões referentes a tipos de parceria afetivo/sexuais. 4. religião. comparação com a conjugalidade heterossexual. 2. Além disso. relatos das conversas não gravadas (tanto antes quanto depois das entrevistas) e contatos estabelecidos (pessoalmente ou por telefone) que não resultaram em entrevistas. regulamentação da conjugalidade homossexual. tais como: idade. bem como. 3. conjugalidade dos pais). Assim. também foi feito um diário de campo com o fim de anotar informações sobre o contexto das entrevistas. Um dos princípios relevantes para a delimitação dos sujeitos participantes da pesquisa foi a auto-definição de estar vivendo uma situação de conjugalidade.

nem com os indivíduos dessa rede de sociabilidades.novembro. Paulo e André fazem parte de uma rede de sociabilidades mista. mesmo que ainda em um ambiente receptivo e relativamente “seguro” para tal vivência. para a realização das entrevistas tive acesso. esse possível informante me ligou desistindo de participar. Outra característica importante é que apesar de não haver essa visibilidade ocorre a formação de redes de sociabilidades específicas que envolvem geralmente indivíduos que vivem também uma situação de conjugalidade ou outros que buscam igualmente uma situação de conjugalidade. mas esse também desistiu de participar da pesquisa. apesar de guiado por critérios pré-definidos como classe social e auto-definição de vida em comum. O quadro abaixo resume até o momento o perfil dos participantes da pesquisa: Nome (fictício) Rodrigo Paulo André Marcos Marcelo Murilo Idade 31 29 33 42 35 20 Escolaridade Pós-graduação 3º grau incompleto 3º grau cursando 3º grau completo 3º grau incompleto 3º grau cursando Profissão Professor e revisor de textos Professor e guia turístico Técnico em enfermagem Professor Promotor de eventos Bancário 2 anos 1 ano e meio 6 anos 10 anos e meio 2 anos e meio Tempo de relação 7 anos Os informantes Rodrigo. fiz o contato por telefone e pessoalmente. Após a realização dessas entrevistas surgiu a necessidade de realização de uma análise dos dados obtidos com a possibilidade de retorno ao campo para a realização de mais entrevistas. marcamos a entrevista e no dia anterior a realização desta. entrei em contato com dois desses por telefone. fato que acontecerá no mês de novembro desse ano. já o segundo. Além desses informantes alguns outros me foram apresentados por uma amiga pessoal para a realização da entrevista. se reúnem com uma certa regularidade para realização de almoços e jantares. Marcelo e Murilo não se conhecem nem tem nenhum contato entre si. também indivíduos homossexuais que aspiram a um relacionamento estável. Esse tipo de acesso aos informantes. Os outros três entrevistados não se conheciam nem faziam parte dessa rede de sociabilidades e me foram apresentados por três diferentes amigos. Essa dificuldade de acesso pode apontar para uma característica importante desse tipo de relação na cidade de Cuiabá. Já os informantes Marcos. ficou dependente da possibilidade de identificação e acesso a esses informantes. Essa característica aponta para um processo de vivência da conjugalidade fora do âmbito doméstico. 195 . a uma dessas redes de sociabilidades e realizei a partir dela três entrevistas. através de um amigo. um deles se prontificou a ser entrevistado. Assim. na qual casais heterossexuais e homossexuais e. qual seja: os casais homossexuais não formam um grupo visível e de fácil identificação.

constatei que a maioria não é natural de Cuiabá. devido a seu porte e complexidade. transeuntes e curiosos. bem como a produção de identidades multifacetadas e de relativa identidade (Velho. local de migração para os que buscariam “se libertar da família” estabelecendo uma vida mais autônoma e independente. essa migração de cidades pequenas para grandes é motivada pela esperança de encontrar anonimato e indiferença a sua maneira de viver. marcada pela menor possibilidade de estabelecimento de um “anonimato relativo” como nas outras cidades. é também uma busca explícita para comunidades com reputação estabelecida e organizada. 196 . que atrai caravanas de diversos municípios do interior e também de outros estados. Recife (Parker. e também. Esse fluxo de homossexuais para Cuiabá também fica explícito quando da realização da Parada Gay da cidade. tanto em termo de lazer quanto de saúde e resistência à discriminação. e se somada a Várzea Grande (cidade vizinha) comporia a chamada Grande Cuiabá. sendo que o restante (7) migrou de cidades menores do que Cuiabá. em matéria do dia posterior a parada. Belém. Mundo gay de Cuiabá. apesar de capital. Analisando a procedência de meus entrevistados e seus companheiros. apenas quatro dentre eles são naturais da cidade. Porto Alegre. ou são de outras cidades do interior de outros estados também consideradas pequenas (3 deles) e. A Parada Gay de Cuiabá é realizada desde junho de 2003. Segundo Bozon (2004). 1999). entre essas destacam-se: Fortaleza. prazer e lazer no período de férias e finais de semana para homossexuais. em comparação com cidades maiores. mesmo assim ficaria bem abaixo da cidade menos populosa supra-citada que compreenderia mais de 1 milhão de habitantes. a manifestação teve como título “I Parada da Diversidade de Cuiabá” sendo realizada em 26 de junho de 2003 com a participação de cerca de duas mil pessoas. entre os seis indivíduos entrevistados e seus companheiros apenas 5 são de cidades médias e nenhum é procedente de uma cidade maior que Cuiabá. Assim. é necessário apontar a formação de “culturas gays” cada vez mais visíveis em diversas cidades menores do país. Cuiabá se estabeleceria como uma cidade média. Curitiba.4. centros regionais e/ou nacionais de desenvolvimento marcadas por uma grande concentração populacional e existência de um “anonimato relativo” nas relações interpessoais. Estabelecendo uma comparação com essas cidades. a Grande Cuiabá se enquadra entre as cidades de porte médio do Brasil e. uma ong fundada em 1997 com o objetivo de possibilitar um espaço para a discussão de problemas comuns entre homossexuais. Ou seja. entre homossexuais. Mas temos também de levar em consideração que em comparação com cidades menores ao seu redor a Grande Cuiabá torna-se local de turismo. sendo que o informantes restantes ou são procedentes do interior do estado (4 deles). Embora cidades como Rio de Janeiro e São Paulo tenham se tornado os centros mais importantes da vida gay no Brasil. Em sua primeira edição. Analisando o tamanho dessas cidades poderia se dizer que em sua maioria todas se destacam como capitais. 2002). visibilidade e discrição. que permitem uma maior diversificação de papéis. tem uma vida gay muito mais circunscrita e restrita. Belo Horizonte. de acordo com o jornal “Folha do Estado”. organizada pelo grupo Livre Mente. apenas um é procedente de uma outra cidade do mesmo porte que Cuiabá. Essa conurbação teria uma população de mais de 765 mil habitantes com Cuiabá respondendo por 525 mil e Várzea Grande por 240 mil habitantes.

entre aspas. somos profissionais. transeuntes e. que homossexual é só homossexual e não é mais nada. travestis. nas palavras dele: Eu acho. no dia 19 de junho de 2004. mobilizou estudantes. para que as pessoas vejam que sim nós existimos. ou como eles próprios chamavam. que sim nós estamos aqui. né. que é só gay e não é mais nada. É um pacto de mediocridade. localizada no centro-sul da cidade conhecido como sendo de 197 . transexuais e simpatizantes contagiaram os curiosos. paralisando o fluxo de veículos em horário comercial. já segundo da organização reuniu cerca de 10 mil pessoas.Lésbicas. o bar Presidente que fica na área central e aumenta a freqüência depois das 22 horas. intitulada “O mundo mudou. idosos. eu acho que há uma aparente aceitação em Cuiabá. somos tanta coisa. Eu acho que é isso que tem que transparecer. Um exemplo disso foi a tentativa no ano de 2005 por parte do prefeito – apoiado por grupos evangélicos – de impedir a realização da parada no centro da cidade na véspera dessa. Cuiabá apresenta poucas possibilidades de locais para encontro entre homossexuais. vale a pena lembrar a existência de uma grande presença de “curiosos” que exclusivamente assistem a parada. Eu acho que isso é uma coisa muito prejudicial. nos telhados. né. Havia gente amontoada em porta. coisa que havia sido feita há alguns dias por uma festa promovida pela própria comunidade evangélica. para muitas pessoas homossexuais. os desconfiados e os desavisados que aderiram ao movimento. é uma hipocrisia muito grande dizer que as pessoas daqui respeitam mais os homossexuais do que em outros lugares. alegando que a avenida não poderia ser ocupada por movimentos sociais. a sauna que funciona todos os dias da semana das 16 às 22 horas. apresentação de filmes e palestras a respeito da discriminação homossexual. somos seres humanos. se relacionando. já que o referido parque fecha seus portões às 18 horas. acompanhado por som de trios-elétricos. A homossexualidade em Cuiabá é velada. O espetáculo. Já a terceira edição ocorreu no dia 29 de julho de 2005 e. não (sic). Somando-se a isso. um de meus informantes afirma a existência de uma forte hipocrisia da sociedade no que tange a questão da homossexualidade apontando a existência do que chamou de “pacto de mediocridade” no qual as pessoas fingem não saber a respeito da homossexualidade das pessoas. gays. mas fingem que não sabem. disputando um melhor ângulo na avenida. pois a partir do momento que nós não nos mostrarmos de certa forma. outras pessoas e escondem. os locais de “pegação” estão dispersos na cidade com destaque para o Parque Okamura. que são homossexuais passam anos de relacionamento. mas que realmente “esquenta” de quinta-feira a domingo de acordo com informantes. a região do porto. reuniu cerca de 10 mil pessoas de acordo com a Polícia Militar e cerca de 18 mil segundo organizadores do evento. traga sua família”. eu finjo que estou te enganando e você finge que está sendo enganado e é assim que as famílias se portam. no período das 17 às 19 horas. até quem estava em horário de trabalho não resistiu e prestigiou a parada. apresentação de teatro. porque as pessoas sabem. Comparada a cidades maiores. Murilo. mureta. ruas e avenidas do centro da cidade. acho que isso é muito prejudicial. janela. Destaca-se também a existência de alguns outros eventos que ocorrem na semana da Parada tais como. bem como a existência de manifestações contrárias a realização desse evento. que sim nós não somos só homossexuais. o título da parada foi “Pouca vergonha é o seu preconceito” e segundo dados da Polícia Militar promoveu a concentração de cerca de 7 mil pessoas. segundo informantes os locais das interações homoeróticas. que nós somos estudantes. as famílias homossexuais se portam. É importante destacar que a referida parada acontece anualmente nas principais praças. mesmo casadas com outra. Em sua segunda edição.

pois vivem suas homossexualidades de maneira clandestina. um ambiente aonde você. sem a exposição pública de uma identidade homossexual. os que o fazem afirmaram a existência de uma baixa freqüência a boates e uma maior possibilidade de presença em bares. Cuiabá é vista com uma cidade com uma população que ameaça a honra do indivíduo. Segundo Bozon (2004). [. nas palavras de Marcelo isso fica bem claro. De acordo com esse autor essa busca se apóia na ignorância dos sistemas de relações. não é adequado para um casal.. fica mais discreto”. então existem algumas coisas que acabam atrapalhando né. Apontaram também a existência de uma aparente aceitação da homossexualidade pela sociedade de Cuiabá que se contrapõem à prática cotidiana com diversos exemplos de atitudes discriminatórias e preconceituosas. historicamente o homem (e também a mulher) sempre procurou fora de sua própria sociedade uma sexualidade mais livre. principalmente pra gente que vive em um meio aonde tem pessoas que não tem.freqüência das travestis. na região central. ponto dos garotos de programa e. bem como violência dirigida a homossexuais de uma maneira geral. que não trariam nada de positivo pra relação. ou que preferem se encontrar em espaços que são reconhecidamente gays e heterossexual ao mesmo tempo. A discrição é uma grande preocupação em todas as interações entre homossexuais a ponto de muitos desses não irem a locais declarados de freqüência de homossexuais. os princípios delas muitas vezes não são os seus. especialmente São Paulo e Rio de Janeiro. né. com agressões e violência. a avenida Barão de Melgaço próximo a Ong Livre mente. de maneira oposta. né. com comentários e. informantes afirmaram que essa interação acontece em todos os lugares inclusive em boates e bares de freqüência heterossexual a diferença é que nesses locais a interação é feita de maneira absolutamente “silenciosa” e discreta. a boate Zum Zum que funciona de quinta-feira a sábado. a vida.] a infidelidade ela é muito constante e presente num relacionamento. imposições e dependências estabelecidas que caracterizam essas outras sociedades e no caráter mítico da noção de liberdade sexual. Há também uma particularidade entre as interações homoeróticas ocorridas em Cuiabá como afirmou um informante. É claro que esses locais não são os únicos em que acontece a existência de interação homoerótica. que são vistos como locais de vivência plena da liberdade de ser homossexual com possibilidade de parceiros andarem de mãos dadas e se beijarem sem serem constrangidos ou ameaçados em qualquer lugar e momento e. assinalaram a todo o momento uma diferenciação na vivência da homossexualidade entre Cuiabá e outras cidades grandes. No desenvolvimento da entrevista a maioria de meus informantes afirmou não freqüentar o “meio gay” e. Esses locais têm freqüência de públicos com idades e classes sociais variadas sendo que essas interações assumem o caráter de clandestinidade por se misturarem ao fluxo da vida e se concentrarem majoritariamente em locais abertos. em que a relação entre parceiros(as) fossem mais fáceis. que oferecem um grau limitado de segurança para os indivíduos que podem não querer ser identificados publicamente como gays. que não tem princípios. Além disso.. em outros termos parecem querer evitar que lhes seja colada a imagem negativa e estereotipada do “homossexual promíscuo”. já que a boate é considerada como “local de pegação” e por estarem vivendo uma situação de conjugalidade não acham condizente com a situação. “todo mundo de Cuiabá trepa em Várzea Grande. 198 . exceção da boate e da sauna.

essas mudanças seriam resultantes de uma tendência à passagem de um modelo de família hierárquica para outro de família mais igualitária. com destaque para a expansão de famílias monoparentais e chefiadas por mulheres.71). Assim. essa pesquisa tem por objetivo identificar e analisar os significados e representações que os parceiros homossexuais masculinos têm de suas relações estáveis. desse modo o recorte social denominado por essa autora de “perfil moderno das camadas médias” que possui três princípios: a psicologicidade. Como dito anteriormente. levando em conta os estudos já desenvolvidos sobre a conjugalidade. Essa transposição de modelos está pautada em um processo de aprofundamento e extensão do individualismo que estimula a instabilidade e a volatilidade nas relações íntimas no casamento e na família.rejeitando qualquer diferença de status entre os gêneros -. levei em consideração esses e outros estudos para o desenvolvimento da pesquisa aqui empreendida. nas palavras de Heilborn: O problema da definição das camadas médias é clássico: são definidas pela exclusão. com o tempo. É preciso lembrar que as discussões sobre conjugalidade nos estudos contemporâneos buscam dar conta das estruturas pertinentes a uma vida a dois se situando como um recorte da problemática conjugal frente à da família (Heilborn. esse estudo partirá. tais segmentos sociais eram todos aqueles que se situavam entre a aristocracia e o proletariado (2004. Esse estudo se pauta na trilha já traçada por Heilborn (1992) privilegiando o universo simbólico que sustenta os denominados novos arranjos conjugais e. Desse modo. assim como também das representações sobre regulamentação civil dessa união. ou ao menos circunscrever.. os problemas no uso das expressões burguesia ou classes médias. De acordo com Figueira (1987). no companheirismo e no apoio psicológico. E é também histórico: [.] Peter Gay realiza uma boa digressão sobre o incômodo e a ambigüidade que a expressão sempre comportou. partindo das informações obtidas pelas entrevistas e de uma análise do perfil desses casais. p. 1992). buscarei nesse artigo desenvolver algumas reflexões sobre o conhecimento do Projeto de Parceria Civil Registrada. Esses novos arranjos conjugais estruturam-se basicamente a partir do princípio da igualdade . por aquilo que não são. Vaitzman (1994) e Berquó (1998). a dificuldade de definição do que se entende por camadas médias. tendência inicialmente mais visível nas camadas médias urbanas e. Conjugalidade gay em Cuiabá: Parceria Civil Registrada e regulamentação da união. O quadro abaixo dará uma idéia real do perfil dos participantes da pesquisa até o momento: 199 . Velho (1981) e Heilborn (1992) também apontam essa expansão do igualitarismo em detrimento da tradicionalidade no domínio da família assim como. Típicos in between. partindo da seleção de indivíduos e seus companheiros provenientes desse universo de classe média. das análises já desenvolvidas sobre as mudanças que vem ocorrendo gradualmente na instituição familiar que tradicionalmente se encontrava centrada na idéia de um casal heterossexual e os filhos resultantes dessa união e hoje se encontra com um formato muito mais plural. Assim. a igualdade e a mudança. termo preferencialmente no plural entre os ingleses. passando a permear também as camadas populares. e dedica um bom número de páginas para tentar resolver. bem como o conhecimento sobre a regulamentação civil dessa união..5.

você colocou as coisas aqui de acordo com o gosto de vocês. mas é assim. ah. não é merecedor você viver com a pessoa nove. eu sou casado. porque eu conheço casos de pessoas que viveram juntas e quando o outro vai embora. não de apego material. Então onde é que está a sua história o que você construiu. não. Todos os informantes sem exceção apontam a necessidade de regulamentação dessa união. o tempo de relação foi outro critério que variou bastante com a existência de relacionamentos estabelecidos no período de um ano e meio até a existência de relações mantidas há 10 anos e meio. hoje isso na minha cabeça ela está mais (pausa) tá mais certa. 5 anos e você construir um lar. eu não vejo por isso.NOME (fictícios) Rodrigo Paulo André Marcos Marcelo Murilo IDADE ESCOLARIDADE PROFISSÃO IDADE DO COMPANHEIRO ESCOLARIDADE DO COMPANHEIRO 3º grau cursando 2º grau incompleto 2º grau completo 3º grau completo Pós-graduação Pós-graduação PROFISSÃO DO COMPANHEIRO Técnico em enfermagem Vendedor Funcionário administrativo Enfermeiro Administrador Professor TEMPO DE RELAÇÃO 7 anos 2 anos 1 ano e meio 6 anos 10 anos e meio 2 anos e meio 31 29 33 42 35 20 Pós-graduação 3º grau incompleto 3º grau cursando 3º grau completo 3º grau incompleto 3º grau cursando Professor Professor e guia turístico Técnico enfermagem Professor Promotor de eventos Bancário 37 23 29 28 30 28 De uma maneira geral. 10. desde a roupa. é desumano. podemos perceber a existência de uma relativa homogamia etária entre os entrevistados e seus companheiros. que a gente coloca nas coisas. mas de sentimento né. assim. é uma. Além disso. discriminação e preconceitos sofridos foram feitas perguntas com o tema da regulamentação da união entre pessoas do mesmo sexo. alguns afirmam que essa regulamentação é necessária no caso da morte de um dos parceiros para garantir a transmissão de bens. em tudo que a gente faz. na fala de Marcelo isso fica bem claro: Pesquisador: Você acha que a conjugalidade homossexual deve ser regulamentada? Marcelo: Acredito que sim. acredito que sim. No transcorrer das entrevistas além de questões que diziam respeito a fidelidade. por questões assim de direitos que o companheiro de repente teria. 15. eu acho que tem isso. onde vai colocar qualquer coisa da decoração e de repente quando um falece. iria passar a 200 . né. com tudo que você tem que torna-se assim esse é o sofá que seu pai sentava. a família vem e levam tudo. Então. acho que não seria desumano. aquela era a cadeira que seu pai sentava e via ou assistia televisão. Então eu acredito que há necessidade de uma regulamentação. não assim como de repente. vocês compraram juntos. exceção verificada entre Marcos e seu companheiro com uma diferença etária de 14 anos. verifica-se também uma relativa homogamia escolar entre os casais. outros acrescentam que além da questão da morte essa regulamentação se faria necessária também para extensão de direitos para o casal homossexual que são garantidos para o casal heterossexual. porque assim. mais assim. construiu coisas e a família fica com tudo não assim visando apenas a questão material que isso é uma coisa que eu e meu companheiro estamos amadurecendo. morre. a gente compra junto tudo. Como se percebe na tabela ocorre uma grande variação nas profissões/trabalhos nos quais os entrevistados se mantêm com uma pequena concentração desses na carreira do magistério. porque eu acredito que como na família heterossexual você constrói uma história dentro do lar com os filhos. né. coabitação.

que tenhamos que ser tutelados pelo Estado como se fossemos incapazes.. por parte do Estado. mas sim de modo intercalado. enquanto os direitos civis antes da abolição da escravatura não existiam e foram posteriormente universalizados. Assim. pois homossexuais e heterossexuais são igualmente cidadãos e não deveriam ser diferenciados. Quando questionados se já haviam conversado com o companheiro a respeito da regulamentação de 201 . todos afirmam que a possibilidade de estabelecimento dessa especificidade se basearia em uma discriminação. e o companheiro não pode né. cidadania está inextricavelmente ligada ao reconhecimento. né. ela poderia. Essa concepção cidadania passa a ser entendida como o conjunto de direitos estabelecidos pelo Estado aos seus membros integrais e seu exercício é identificado com o uso desses direitos legalizados. Tal como formulada por Marshall (1967). no período colonial já existia o direito ao voto que após a libertação dos escravos foi restringido. Pesquisador: Você acha que deve ter uma legislação específica ou deve-se enquadrar tudo na mesma legislação de heteros e homossexuais? Murilo: Olha.e constata a existência de três momentos de construção dessa universalização: os direitos civis. para esse autor. Mas temos de levar em conta que o próprio autor alerta sobre a inexistência de qualquer princípio que defina qual devam ser esses direitos universais. todos apontam a necessidade de equiparação entre esses dois tipos de conjugalidade. mas uma legislação específica. mas o companheiro dele. 1995). ela beneficia não só o funcionário. com plano de saúde. Essa comparação entre direitos de casais heterossexuais e de casais homossexuais aparece na fala de todos os informantes.] concedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade (p. Na sociedade atual a expressão cidadania ganha espaço com multiplicidades de sentidos e intenções. A mídia a acrescenta diariamente em seus noticiários e os diversos grupos em sua luta por reconhecimento. de um conjunto de direitos através de legislação. quando questionados sobre a necessidade de uma legislação específica para casais homossexuais. Temos de lembrar também que até o início da “abertura política” todos esses direitos foram colocados em suspensão pela ditadura militar. cidadania se refere a um status que é “[. eu acho que é isso que a norma tem que possibilitar. eu gostaria que a legislação fosse uma porque eu não acredito que nós sejamos diferentes. não consigo vislumbrar. o estabelecimento de direitos civis. os direitos políticos e os direitos sociais4. E. que possibilitasse as pessoas se relacionar. Murilo afirma isso constantemente em sua entrevista e essa fala é bem representativa dessa questão. antes disso a educação e a saúde ficavam a cargo de entidades privadas quase que exclusivamente (Carvalho. mas eu acho que a lei deveria ser ampla para todos. com outras coisas. Assim. disso eu discordo. Marshall constrói um histórico . 76)”. políticos e sociais não se deu de forma sucessiva. Para solucionar esse problema. mais. Já os direitos sociais só foram reconhecidos pelo Estado no século XX. com outros benefícios que. não sei.ter na empresa. estabelecer suas relações e tivesse os direitos que tem os heterossexuais. não no momento.com o fim de perceber quais são esses direitos de cidadania na Inglaterra . Porque só o homem ele pode colocar os filhos dele e a mulher dele. como é que chama (pausa) ser muito mais um controle desses relacionamentos. que iriam ajudar e ele iria se sentir valorizado também. mas em contrapartida eu acho que uma regulamentação. No Brasil.. diferentemente do que aconteceu na Inglaterra. Uma outra questão que apareceu muito na fala de meus entrevistados é o desejo de estabelecimento de um contrato para assegurar os bens conquistados. eu vejo possibilidades.

nem dos direitos que esse buscava garantir. citavam apenas que a referida proponente do projeto era a favor da união de casais gays. Além disso. pro Congresso. né. que ela é a favor da união de casais homossexuais. que a legislação aprove uma lei de casais homossexuais. ela saiu outros pegaram pra dar continuidade e a coisa realmente não vai pra frente. não sei mais nenhuma informação. pelo menos entre meus entrevistados. como que eles herdem tudo de dentro da casa. já pensamos nisso né. da pessoa. a despeito da visibilidade alcançada na mídia através da veiculação de notícias e na sociedade através das “Paradas Gay” torna-se um projeto que alcança pouca repercussão. e ta tentando. mas eu não conheço. só por alto. todos entrevistados afirmaram que já haviam conversado e que sentiam necessidade de algo que desse uma garantia ao companheiro. não conheço nada do assunto. de pessoas do mesmo sexo. né. não sabiam do conteúdo do projeto. ficaria para a pessoa. Pesquisador: E o que foi que você ouviu por alto? Marcelo: É exatamente isso que você falou né. e queremos fazer. e que ela defende. e mais pra frente vamos conseguir. apresentado pela então deputada Marta Suplicy na Câmara dos Deputados. eu só sei que ela levou pra Câmara. assim. um projeto que busca assegurar direitos a casais homossexuais.o sinceramente houve casos de amigos em que aconteceu de estarem juntos a um bom tempo e de uma hora para outra aconteceu algo com uma das duas pessoas e a família vem e toma tudo e isso eu não quero que acontece comigo. o projeto de Parceria Civil Registrada? Marcelo: Já ouvi falar. inclusive você tocou em um ponto que semana retrasada estávamos conversando eu e ele de fazer uma espécie de um contrato e procurar um advogado para ver como seria estarmos. Pesquisador: Você já ouviu falar do projeto da Marta Suplicy. não li. para que todos possam casar. e fazermos qualquer coisa para que o outro. Pensamos em fazer iss. e o que eu sei vai até aí. eu não quero que acontece com ele entendeu de ele ficar desamparado e. que ela. Assim. Pesquisador: Você nunca ouviu falar nada a respeito? Marcelo: Não assim muito específico não. 202 . mas eu não conheço a fundo. ou qualquer coisa parecida. a fala de Marcelo aponta isso com muita clareza. o que chamou a atenção nas entrevistas é que todos os entrevistados apesar de terem ouvido falar do projeto de Parceria Civil Registrada.sua união. tampouco ele comigo. Pesquisador: Você já pensou em fazer algum contrato para regulamentar a relação de vocês? Paulo: Sim. né. como que seria.

203 . bem como busca desenvolver uma análise da regulamentação da união civil entre homossexuais em uma cidade do interior do país. Considerações finais As análises contidas nesse artigo se referem a recortes particulares das entrevistas privilegiando os significados e representações sociais da Parceria Civil Registrada entre homossexuais masculinos que vivem uma situação de conjugalidade. observação e referencial teórico metodológico apontando algumas perspectivas de análise e não se referindo a conclusões ou resultados finais alcançados. Esse recorte não esgotou de maneira alguma a riqueza e complexidade do material levantado por meio de entrevistas e observações. A pretensão dessa pesquisa é buscar problematizar ainda mais o debate acerca da conjugalidade homossexual trazendo à discussão representações e significados da união entre pessoas do mesmo sexo em uma cidade média do interior do país.6. mesmo porque será acrescentado mais dados a essa pesquisa decorrente de uma nova ida a campo e a realização de novas entrevistas no mês de novembro desse mesmo ano. Lembro que esse é ainda um trabalho não concluído e que essa apresentação na verdade trata-se de uma primeira tentativa de articulação entre análise de dados.

José Murilo de.).2. Psicol. Maria Cecília de Souza. 1997. 1995. 2002. Editora FGV. In: Pesquisa qualitativa em Saúde: uma Introdução ao tema. Porto Alegre. vol. A escolha amorosa e interação conjugal na heterossexualidade e na homossexualidade. Rio de Janeiro. Michel. Rio de Janeiro. HEILBORN. HASSEN. M. 1967. “Pedagogias da sexualidade”. p. Maria Luiza. Família no Brasil dos Anos 90: Um estudo sobre a construção social da conjugalidade homossexual. 2004. Rio de Janeiro. Belo Horizonte. ____________ (Org. FERES-CARNEIRO. In: MINAYO. 2004. KNAUTH. 1993. casal? Conjugalidade. Brasília. 1999.7. Ana Clara T. O Corpo Educado: Pedagogias da sexualidade.H. Comunicação apresentada na V Reunião de Antropologia do Mercosul. Daniela Riva. Guacira Lopes (org. FRY. PARKER. 1981. Florianópolis. 2000. “Corpo. O desafio do conhecimento: Pesquisa qualitativa em saúde. 204 . 1982. novos problemas. Família e homossexualidade: velhas questões. Autêntica. Individualismo e Cultura: notas para uma antropologia da Sociedade Contemporânea. Loyola. pp. TARNOVSKI. Ivete e RIBEIRO. Sexualidades Ocidentais: Contribuição para a história e para a sociologia da sexualidade. 91106. 1995. Editora Garamound. Michael. SC. Zahar. Família e Sexualidade. História da Sexualidade: A vontade de saber. 1999. FOUCAULT. Rio de Janeiro. BOZON. Tese de doutorado. políticas e direitos. VELHO. MARSHALL. “Pai é tudo igual?”: significados da paternidade para homens que se autodefinem como homossexuais. Tese de doutoramento. “O que faz um casal. igualitarismo e identidade sexual em camadas médias urbanas”. ____________. Para Inglês Ver: Identidade e Política na Cultura Brasileira. Dois e Par: Conjugalidade. Record. Guacira Lopes. André (orgs. GT Homossexualidades: cultura.11-52. Zahar Editores. CARVALHO. “Fase de análise ou tratamento do material”. Grall. Desenvolvimiento de la ciudadania em Brasil. 1987. Cidadania.). Tomo Editorial.scielo. pp. Rio de Janeiro.php?script=sci_arttext&pid=S0102-9721997000200012&lng=pt&nrm=iso>. 2002. saúde e Doença na Antropologia”. Luiz Mello de. 2001a. Anna Paula. In: ARIÉS. Família em processos contemporâneos: Inovações Culturais na Sociedade Brasileira. México: Fondo de Cultura Econômica. São Paulo. Dois é Par: Gênero e Identidade Sexual em contexto igualitário. ou: a felicidade no gueto?”. SP-RJ. “A homossexualidade masculina. Abaixo do Equador. 08-34. Brasiliense. Projeto e Metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Gênero e Identidade Sexual em um Contexto Igualitário. São Paulo. R. Reflex.br/scielo. Sociologia da Sexualidade. Maria Cecília de Souza. Museu Nacional. POLLAK. Disponível em: http://www. Philippe e BÉJIN. Flávio Luiz. 1992.10. Peter. Rio de Janeiro. MINAYO. Zahar. Rio de Janeiro. UnB. no. T. Terezinha. Rio de Janeiro. classe social e status. Unicamp. ____________. Tese de Doutorado. ____________.In: LOURO. Editora FGV. Hucitec-Abrasco. Rio de Janeiro.351-368. VICTORA. pp. Jorge Zahar Editores. Bibliografia ALMEIDA NETO. dezembro de 2003. Maria de Nazareth Agra. Ceres Gomes. pp. 197-247. 2001. Crit. São Paulo.). In: RIBEIRO. Gilberto. UZIEL. LOURO. 2004a.

www. 1 205 . os direitos políticos se referem à possibilidade de organização e participação nas instituições da vida política do Estado. 4 Segundo Marshall (1967) os direitos civis dizem respeito à propriedade de seu corpo e a possibilidade de recorrer à justiça. Como exemplo dessa anterioridade. cito o caso muito publicizado da disputa em torno dos bens do pintor Jorginho Guinle que faleceu em decorrência da AIDS e que teve desfecho através de julgamento em 22 de agosto de 1989. Notas explicativas Falo aqui em cenário político fazendo contraposição ao cenário jurídico. 2 Segundo Almeida Neto (1999). Telma de Souza (PT/SP) e José Fortunari (PT/RS). os direitos sociais que dizem respeito à garantia de uma série de benesses. chegou-se a falar na existência de uma “bancada gay” .sem isso implicar na homossexualidade de seus integrantes .htm.com. por fim. Marta Suplicy (PT/SP). educação e legislação trabalhista. e.8. visto que as discussões sobre conjugalidade na esfera jurídica são anteriores a esse período.br/diversao/gls/suplicy.formada pelos Deputados Fernando Gabeira (PV/RJ). tais como saúde.uol. 3 Entrevista concedida ao site UOL.

María ElinaVitello INSTITUIÇÃO: UBA. La metodología propuesta triangula datos secundarios provenientes de la etnohistoria combinando dicha información con entrevistas semiestructuradas. Lo que nos proponemos es mostrar como el modo de producción de una sociedad conforma y determina la construcción social de la sexualidad. Los cambios estructurales operados en las comunidades indígenas visitadas han significado una nueva división sexual del trabajo. Luciana Miguel. cuya especificidad es pertenecer a una identidad étnica con largo asentamiento en esa región. realizadas a las mujeres en su contexto familiar y comunal.AUTOR/A: Nélida Luna. y las modalidades en las que se expresan las prácticas sexuales dentro de un grupo.com.ar TÍTULO: Sexualidad. Procuraremos explicar cuales son los indicadores que nos permiten entender el rol actual de las mujeres. 206 . su identidad de genero y su subjetividad en distintos momentos de su ciclo vital. que origina determinadas relaciones de género cuyo resultado se manifiesta en el incremento del poder del masculino. E-MAIL: Lucianamarcelamiguel@yahoo. Sociedad y economía en el Noroeste Argentino RESUMO: Este trabajo forma parte de una investigación sobre los modelos de existencia y reproducción de población indígena en agricultores de regadío de la quebrada de Humahuaca.

UFRJ (apvencato@gmail. Coordenadoras: Flávia de Mattos Motta . Bolsista IFP – Fundação Ford.com.VI Reunião de Antropologia do Mercosul Grupo de Trabalho: Família.br Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate.com) Homens desempregados. Porto Alegre.com. mulheres provedoras: qual a novidade? Pedro Nascimento – pedrofgn@uol. .br) e Anna Paula Vencato .UFSC (mottaflavia@bol.

desempregados. “Homens desempregados. apresentarei particularmente algumas questões sobre a persistência das imagens fixas de homem provedor e mulher dona de casa como domínios estanques contrapondo-os a um conjunto de situações presenciadas em minha experiência etnográfica onde estes domínios estão cotidianamente sendo negociados e suas fronteiras questionadas por diferentes razões. nordeste brasileiro. Seria possível para a população com a qual trabalhei falar simplesmente em desemprego ou estaríamos diante de uma forma diferenciada de experiência do trabalho? Por outro lado. busquei perceber as estratégias que eram utilizadas para associar as dificuldades da vida diária à idealização de um certo modelo de masculinidade (Nascimento. A partir de distintas dimensões – a relação com as mulheres. Antes de avançar nestas questões. Região Metropolitana de Recife. Não estudei a condição de homens que. Estarei mais interessado em oferecer exemplos que permitam pensar situações específicas onde determinados sujeitos encontram sentidos diferenciados para contextos onde as questões enunciadas aqui são vivenciadas. as conexões entre gênero e desemprego masculino ou. sustentados por outrem. mulheres provedoras”. Meu interesse era caracterizar a condição de homens que apresentaram essa trajetória mas que. Pernambuco. E a pergunta central para esta investigação era: a inversão do padrão de homem provedor e mulher dona de casa subverte (ou em que medida altera) as relações tradicionais marcadas pela dominação masculina? No presente artigo.. Num segundo momento. Falar em homens desempregados aciona uma compreensão de sujeitos que de alguma forma estiveram inseridos no mercado de trabalho formal. particularmente. Não estarei aqui interessado em pensar se está acontecendo algum tipo de transformação estrutural maior ou se estamos diante de uma configuração muito particular dadas as características dos sujeitos investigados. talvez seja importante explicitar alguns pressupostos problemáticos presentes no título desta comunicação. falar em mulheres provedoras poderia acionar a idéia de que estaríamos simplesmente diante de uma alteração dos atores de uma função exercida sempre da mesma forma. aparentemente “acomodados”. particularmente nos bares. o que são as buscas de 208 .Homens desempregados. a homossociabilidade masculina. estavam à procura de trabalho. 1999). as implicações do fato de os homens não serem provedores de seus lares e dependerem financeiramente de mulheres (Nascimento).. mais precisamente. articulando reflexões presentes nestes dois momentos. Falar de mulheres provedoras traz o pressuposto de que os homens foram sempre esses sujeitos e estariam agora perdendo esta função. não mais buscavam superar esses períodos de desemprego: estavam adaptados à nova situação em que se identificavam e eram identificados como “homens que não trabalhavam”. Num primeiro momento destas investigações estava interessado em observar a diversidade das experiências associadas à construção das imagens de “homem” nesta comunidade. mulheres provedoras: qual a novidade? Pedro Nascimento Pra começar: itinerários de pesquisa e uma autocrítica Este artigo é baseado em pesquisas realizadas entre 1997 e 2000 em uma comunidade de baixa renda no município de Camaragibe. 2005). Sempre o foram? Importa refletir o que são os padrões idealizados a esse respeito e. bem como sua vinculação com o assalariamento e uma associação de trabalho em emprego. meu objetivo foi se orientando para perceber. tendo sua história laboral caracterizada por períodos regulares de desemprego. ou então da confusão entre “chefe da família” e “provedor” (Oliveira. a busca por trabalho. junto a isso. naquele momento.

representando 4. Porto Alegre e Salvador). Rio de Janeiro. Montali. ainda será importante considerar que a grande maioria das pessoas com as quais convivi apresentam uma trajetória laboral marcada pela informalidade. mas também como não significando simplesmente a ocupação de uma atribuição masculina? O que têm os moradores de Camaragibe a ver com os números do IBGE? Além destas ressalvas. Na comparação com agosto de 2004 percebe-se que o total de desempregadas encolheu 18.3%. A taxa de desemprego elevou-se significativamente nos anos 90. Esse movimento pode ser observado pela análise dos dados da PME. pela marginalidade. Entre os homens.5% entre as mulheres. com a incorporação de 288 mil trabalhadoras ao universo das pessoas com algum tipo de ocupação. enquanto que entre os homens esta proporção foi de 39% (Santos & Moretto. como fugir de uma avaliação linear que colocaria a presença de diversos sujeitos como sendo responsáveis pelo sustento da casa como não sendo uma novidade inaugurada pelo quadro do desemprego contemporâneo? Como não pensar a presença da mulher neste cenário como sendo também não apenas uma decorrência.4%. 2001).65% no mês seguinte entre os homens. Como o crescimento da PEA feminina foi de 1.990 milhões de pessoas ocupadas do sexo masculino registradas em agosto de 2004. a elevação do número de ocupados ficou próxima a 415 mil e o estoque de desempregados aumentou em 264 mil. mesmo num contexto de crise. não se pode negar as mudanças no perfil da inserção feminina no mercado de trabalho no século passado e as mudanças daí decorrentes. enquanto a PEA cresceu apenas 680 mil. No caso dos homens. 25% das mulheres que ingressaram na PEA ficaram desempregadas.5%. que saíram de 1. Belo Horizonte. De acordo com O IBGE. particularmente do desemprego masculino e sua precarização sobretudo nos anos 90. pela não qualificação. refletindo a contratação de 182 mil além dos 10. considerando-se o saldo da década. É impossível desconsiderar o quadro atual do mundo do trabalho e da economia que apontam para uma tendência irreversível do desemprego. 209 . Da mesma forma. temos que. Contudo. 2001. Não são estes principalmente que alimentam as estatísticas oficiais sobre ocupação e desemprego. havia 926 mil homens desempregados em agosto. Os estudos sobre mercado de trabalho e gênero constataram durante os anos 90. 2003). entre 1991 e 1999.139 milhão. tendência de crescimento da taxa de participação feminina concomitante à queda daquela referente aos homens (Santos & Moretto. assim como pela análise dos dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) para a Região Metropolitana do Recife. tanto a feminina como a masculina. a tendência inverteu-se.4% em julho de 2005 para 7. Para as mulheres. o número de desempregados caiu 15. A quantidade de mulheres desempregadas elevou-se em aproximadamente 300 mil.173 milhão para 1. Ou seja. pode-se concluir que o impacto foi mais desfavorável para os homens do que para as mulheres. recuando de 11. teremos em vista estas perguntas para fugirmos à tentação de incorrermos em simplificações e generalizações. Qual seria então o sentido de falar em desemprego para esta população ou procurar conexões entre suas trajetórias e os determinantes estruturais do mundo do trabalho? Estaríamos perpetuando uma compreensão que toma como sinônimos trabalho e emprego? Ao lidarmos com os dados disponíveis sobre ocupação e desemprego no Brasil.2 milhão. resultado de uma queda de 3% no número de desempregadas. Em números absolutos. para seis regiões metropolitanas (São Paulo. a taxa de desemprego aumentou de 7. Recife.atualização de um modelo marcadas sempre pela ambigüidade e o conflito cotidianamente.9% para 11. Mas. cerca de 900 mil mulheres encontraram ocupação.

além de se ser passível de questionamentos ao longo da história encontra indicadores na conjuntura econômica atual. estendia-se até por volta das 19 ou 20 horas. cadeira. Assim. que vivem com sua mãe. deixava sua filha na casa de sua mãe e ia para a avenida com seu filho mais novo ou sozinha. mas algumas atividades. Firmino. embora ele sempre estivesse reivindicando participação. Ele tem 38 anos e há dez anos é casado com Luzia. em outros. assumindo especificidades nos diferentes tipos de família. Desemprego e trabalho feminino em Camaragibe Com relação às questões que nos interessarão mais diretamente aqui – o trabalho em suas várias compreensões ou sua ausência e as imagens associadas à idéia de provedor – antes de pensarmos experiências daqueles homens identificados por períodos longos sem trabalho e sem participar diretamente do provimento do lar. ocupava-se do fogo para que não se apagasse. bem como diversos sentidos estão em jogo na definição destas atribuições. ela fechava a casa. como por o acarajé para fritar. Não para afirmar que o que pude perceber naquela comunidade específica é apenas um reflexo de uma tendência global inexorável.Segundo Montali (2003). a panela com o acarajé para ser frito. em pouco tempo. Dizia-me que só considerava a possibilidade de a esposa trabalhar fora pela necessidade financeira. Luzia tem outros três filhos de seu primeiro casamento. conduzia o carro. Quando chegava a hora de ir para casa. Deste casamento têm dois filhos. Era Luzia quem muitas vezes dava o dinheiro para ele ir comprar estas coisas que faltavam. Em geral. Sua relação com o trabalho de Luzia sempre foi bastante ambígua. Várias vezes. sempre achou que seria melhor que ela não o fizesse. carvão. é necessário entender a inserção diferenciada dos componentes da família no mercado de trabalho como sendo definidos articuladamente pela “dinâmica da economia e das relações familiares e de gênero. fogareiro. todas as tardes. vejamos como estas situações variam. bem como conduzi-lo até sua casa. Às vezes. Masinho. mas preferia que ela ficasse em casa para cuidar das crianças. mas na maioria das vezes. ou em sua "banca de acarajé". Umas vezes. seja vendendo os mais variados produtos "de porta em porta". um de seus filhos do primeiro casamento. falou-se sobre o tempo em que Luzia também trabalhava como balconista numa padaria. assim como a grande maioria dos homens que conheci. até servia algum cliente. e sempre procurou ocultar esta relação. que é a área "mais movimentada" do bairro. dependendo "do movimento". Luzia havia "botado a banca de acarajé na avenida". sempre precisou que a esposa trabalhasse. Durante todo o tempo em que convivi com eles. etc. organizava todo o material em cima da mesa e punha o acarajé para fritar. É neste sentido que estes dados estão sendo apresentados aqui. 2003: 129-130). Fique claro que. este trabalho era pensado como 210 . era ela própria. Ele trabalha numa banca de jogo de bicho num bairro vizinho àquele onde moram. Luzia sempre trabalhou de algum modo. afetados pela composição predominante da etapa do ciclo de vida familiar” (Montali. apresentava-se como seu proprietário. era ele quem se encarregava de juntar o material e organizá-lo no carro de mão. ela. mas para insistir na idéia de que um quadro nitidamente configurado entre funções masculinas e femininas no âmbito do sustento financeiro dos lares. em outras. por volta das 18 horas Firmino chegava. Com grande habilidade. Conduzia todo o material necessário num carro de mão: mesa. o que precisava comprar. ele nunca fazia. Ele que diretamente não contribuía para o "negócio" e que até desencorajava Luzia em vários momentos. Acendia o fogo. Quando os conheci. Essa atividade que iniciava por volta das 16 horas. Chegava e perguntava se tinha alguma coisa faltando. colocava o "negócio pra funcionar".

Em relação ao trabalho. Minha mãe “abanca” eu e meu irmão". Num imaginativo recurso. como os citados. desempregado. que conta com a sua mãe. 1987). quando ela não tem. Dizia-me.. Luzia estava só e começou a contar-me de seu desapontamento com Firmino. Firmino voltou. meio que justificando sua atitude àquela tarde. Ao voltar à noite. ele deixava de trabalhar e esperava pelo dela. Nessa caminhada de volta para casa. diziam: "Nesses dias que eu tô sem trabalhar". ou com as redes femininas consangüíneas para realizar as suas atividades. Esta era a razão porque ela dizia que ia deixar de trabalhar. Porém. Em alguns momentos. na banca de Luzia. Luzia foi na frente com uma colega e ele ficou comigo. para ver se ele "se tocava". devido ao grande número de desempregados. do orçamento doméstico. alugando um quiosque. Em todas elas existe sempre a tensão acionada pelo reconhecimento de que o trabalho desenvolvido pelo homem não é suficiente para o “sustento” da casa. Minha mãe me dá. contrariando todo discurso de Luzia de que ele não estava contribuindo financeiramente. de acordo com o modelo vigente. Para além das singularidades deste caso. Biu me falava: "Ela bota pra dentro e eu também. conforme diziam repetidamente: "Emprego tá muito difícil". Em alguns momentos. o que era mais um elemento para ele desqualificá-lo em outras vezes. a ambigüidade do reconhecimento da necessidade do trabalho feminino e a busca de recompor ou se reacomodar frente à cisão simbólica entre aquilo que era esperado de cada um. passei na avenida. seja em demonstrar que ele era quem comprava a matéria-prima. vi o mesmo Firmino e outros homens. o que não deu certo). muitos lares são sustentados pelas esposas. bêbado. certa vez.. fazendo planos de expandi-lo (como de fato fizeram posteriormente. onde ele foi parando em cada um dos bares do caminho.uma atividade dela. Firmino estava lá e percebi-o visivelmente embriagado. dizendo que todas as vezes que começava a ganhar algum dinheiro. Importa notar que este "quando eu não tenho". como o fez em alguns momentos. eu fiz questão de conduzir o carro de mão com o material. Outros já não fazem biscates. atrapalhou as vendas e ainda a detratou frente alguns clientes. comprando e transportando botijões de água ou de gás em troca de algum dinheiro. Comentou que "um homem não pode deixar a mulher saber que ele gosta dela. parecia querer demonstrar que o negócio também era seu. pois percebi que ele não estava em condições de fazê-lo. recolhendo lixo. como é o caso de Brito. A consangüinidade operando (Fonseca. Conheci muitos homens procurando emprego. na hora de voltar para casa. Ela lamentava. Disse-me que ele falou quando ela não quis ir embora para casa com ele: "Você quer ficar só aí por causa dos machos". No período junino saía todos os dias bem cedo para comprar milho para Luzia cozinhar e fazer pamonha e canjica para vender. às vezes. afirmava que ele é quem dava dinheiro a ela. pra ficar gostando mais". Neste mesmo dia. Esta situação vivenciada por Luzia e Firmino apresenta muitas características percebidas em outras relações. pedindo dinheiro "emprestado" às mulheres. bem como o seu de que ela estava ganhando mais dinheiro que ele. mães ou outro parente. limpando fossa. nem procuram emprego. quando eu não tenho ela tem. eu tenho. seja na sua "assistência" a Luzia. aqui e também no caso de Luzia. aparentemente recuperado da embriaguez. Outros homens ainda. pois ele.. procuram definir um perfil igualitário de divisão de responsabilidades: "Mas é assim. na 211 .". Ela tem que achar que ele não gosta. nem sempre igualitária. participava e até incentivava Luzia. Além desta "divisão".. sendo ajudante de pedreiro. como acabou virando um hábito meu. outros fazendo biscates: limpando jardins e quintais de residências. inclusive para comprar bebida. e faziam isso de modo constrangido e até buscavam estratégias para fazer ver que ainda tinha alguma participação no provimento do lar. Procurando dar o tom de ocasionalidade.

seu melhor amigo. Fazendo biscates dos mais diversos tipos (construindo laje. onde novos recursos eram utilizados. preguiça. vão se adaptando a um certo jeito de viver. não sendo possível associar definitivamente a nenhum deles nem predefinir que tarefas seriam mais próprias de alguns. sua esposa reclamou num dos bares porque seu proprietário tinha vendido fiado a seu marido sem sua autorização. Tião disse malandramente: "Tá botando bocão porque? Não é pra me sustentar que ela trabalha?". pelo fato de viver ainda com a esposa e 212 . Brito (casado. salvo momentos em que bebem demais e não têm condições físicas. é possível identificar na trajetória de todos os sujeitos a referência ao trabalho como dimensão importante da vida. seja pelo fato de perceber que é possível aproveitarse do resultado do trabalho alheio. estes homens já não buscavam ocultar o fato de que não trabalhavam e que não dependia deles a manutenção financeira da casa. Em nenhum momento a condição de dependente de outrem é simplesmente apresentada. Seu destino em geral é a própria bebida ou outras pequenas compras pessoais como cigarro. Esse esforço envolve doença. Ela sempre vem acompanhada de uma tentativa de justificação e demonstra um esforço engenhoso para dizerem que não têm condições de voltar a desempenhar esse papel ou. conjuntura nacional. esses homens muitas vezes desenvolvem pequenas atividades e recebem algum dinheiro por isso. logo após afirmarem que estavam desempregados. ou por articulações desses fatores. nem houve um redimensionamento das atividades domésticas.maioria das vezes se estende por anos. Muitos destes homens apresentavam-se como fazendo entre 3 e 12 anos que não desenvolviam atividades consideradas relevantes para o sustento financeiro de seus lares. fazendo um contraponto que é também uma inversão de um discurso largamente difundido de que o dinheiro que a mulher ganha é para suas “coisinhas”. em geral decorrentes de debilitação pela bebida. mais corriqueiramente. sempre pensada como complementar e inferior (Agradeço a Alinne Bonetti por essa e muitas outras perspicazes observações a esse texto). Em outro momento. não apenas admitindo sua condição. Alguns deles brincaram certa vez. transportando água para casa). enquanto ele fica os dias entre os bares e casa de Dão. casos de homens que. Passava-se então a uma nova situação. que os mantenha por um certo tempo. dizendo. Quando digo que não trabalham. lanches etc. até os casos dos que “não fazem nada”. A busca de biscates não é uma prática constante para a maioria deles. O reconhecimento do desemprego: assumindo-se não provedores Com o passar do tempo e uma maior abertura das pessoas em campo. que não o desejam. mesmo que para alguns sempre tenha havido períodos sem trabalho e para outros seja tentadora a possibilidade de ter alguém que os “banque”. que eram da "CIT: Companhia Inimiga do Trabalho". ainda. Seria possível apresentá-los em um continuum que vai desde os que fazem pequenas atividades diariamente. seja pela impossibilidade de encontrar um trabalho que faça diferença no orçamento doméstico. 40 anos). Certa vez. esperteza etc. mas isso precisaria ser compreendido numa dinâmica que permite variações. No entanto. mas em busca de legitimação. Constatei. seja por razões de saúde. "vendo filme de boneco". com diferenciadas ênfases de acordo com a pessoa e o momento. prestando pequenos serviços a vizinhos ou. usando um recurso diferente quando a força não funciona. refiro-me ao sentido de não-participação no conjunto das despesas da casa. ao longo do tempo. Brito afirmou que sua esposa sai de casa para trabalhar às cinco horas da manhã e deixa a sua comida já pronta. não sendo os provedores do lar. com bastante variação. radicaliza esta situação. Depois que ela se foi.

. 2000). o mesmo se percebe entre mães e filhos. esses são os que não apenas não trabalham. Fonseca. e os demais se revezam entre períodos em que moram em outra casa com suas esposas ou companheiras e períodos em que recorrem à casa da mãe. Diferentemente daqueles que não trabalham por um período. 1987). então. Se eu não trabalhar. Só nessa. mas de casos onde as mulheres. Meu marido. o negócio cai mesmo.. Se o cara for procurar. mas ele não trabalha. Neves (1985) destaca o fato de que os arranjos matrifocais são uma variação que permite o controle de situações críticas onde. trabalhei muito tempo mais não. e não acha emprego. como se sabe que não irão fazê-lo.. que têm entre 22 e 40 anos. não vai mesmo. dois deles. cansaram-se de tentar reverter a situação e já não esperam que seus homens voltem a trabalhar para que elas apenas complementem os recursos. tou com ele assim.desistiram. mas estão sempre à procura de algum trabalho. não tem mais com que me aperrear com nada. não fiz mais nada na vida. gasta o dinheiro que tem e não come. Embora focalizando as mulheres e sua condição de chefes de família. e poucos grupos domésticos conformam-se à norma tradicional que define a divisão de trabalho entre marido e mulher” (Woortmann. tem problematizado os modelos aqui discutidos. ou ainda momentos em que brigam com suas mulheres ou mesmo se separam.não desenvolver qualquer atividade remunerada torna seu discurso ainda mais significativo quando fala que. aos 62 anos. 1990.... muitas vezes – penso ser possível afirmar . assumem-se dependentes. Neles. além de não ser a discussão sobre arranjos matrifocais que está em jogo aqui. Uns mais à vontade. outros mais constrangidos. Uma irmã é empregada doméstica e mora em uma casa vizinha com seu marido e dois filhos. esposa de Dino. destacando sempre que "somente uma pequena proporção dos homens é capaz de atualizar a norma ideal. quando estão desempregados. é de passar fome” (Zélia. desde que casou. nem querermos restringir a importância das relações entre demais consangüíneos (Fonseca.) E até hoje nunca me preocupei mais. 51 anos. 1987. Trabalhei assim. não trabalhou com regularidade e não contribui mais para a provisão do lar: – De lá pra cá eu não. Se isso acontece na relação entre maridos e esposas. Woortmann. forneceram elementos para se pensar a condição masculina e suas relações. Ela tem sete filhos. 39 anos). O que vai variar é o tom com que cada um apresenta essa experiência. cabendo-lhe. 1985: 202). toma conta de todas as atividades da casa e se refere a seus filhos. a mulher vai procurar mudar a situação “cooptando o companheiro a assumir os papéis principais ou a assegurar os recursos básicos à reprodução da família. querendo a todo instante passar um tom de naturalidade.. o filho mais novo nunca teve emprego nem contribuiu significativamente para o orçamento familiar. se eu não trabalhar.. Scott. “Coitados” ou “espertos”. Os casos por mim estudados certamente configuram arranjos bastante distintos dos enunciados por Neves. como “os 213 . assumidamente. não se trata de uma variação para controle de situações críticas. Todos esses homens se percebem e são percebidos como pessoas que não estão trabalhando.. enquanto é possível. Que vou fazer? Fico o dia inteiro em casa. Um conjunto importante de estudos na antropologia sobre famílias pobres das periferias urbanas brasileiras (Neves. 1987: 66). como é o caso de Dona Neide. 1985. a complementação de recursos” (Neves. já não trabalham e são os “papudinhos” (termo usado para designar os dependentes de bebida alcoólica) da casa. já tou ficando velho mesmo. Há um reconhecimento explícito de que não podem mais contar com eles: “o jeito é eu trabalhar. no dia que aparecer eu vou.. Dona Neide.. E essas afirmações não são feitas apenas para mim. pingado aí (. e emprego tá difícil mesmo.. como é o caso de Brito.

às vezes. Porque você vê. mas a maneira como se comportam nessa situação. Frente a esses diversificados posicionamentos. aí eu faço mais é. Se pra quem tem profissão já é difícil. o chão da casa só.. ao menos. hoje em dia pro cara arrumar um trabalho. a falta de qualificação para o mercado contribui decisivamente para manter esses homens afastados do mundo do trabalho ou. pra começar. quando a gente vê no rádio. pois.. não dá pra mim. essas coisas. vai procurar emprego. precisa de curso não sei de quê. explica que é ela quem mantém a casa com o dinheiro que recebe da pensão do falecido esposo: – É porque é uma mixaria de nada né. não encontra. o mais presente na fala de homens e mulheres é o reconhecimento da dificuldade de qualquer homem conseguir emprego em virtude dos contextos conjunturalmente formados. ao invés de consegui-lo. A situação tá difícil mesmo porque emprego hoje em dia. hoje não é ele só.meninos”. que nem trabalhar em loja. não sei o que mais. mesmo que tolerada com maior ou menor resignação.. Porque eu não sei. vê notícia. na televisão. só dentro de casa com. passando pela compaixão ou o sentimento de obrigação ou de solidariedade. reclama porque o filho não trabalha e questiona sua constante embriaguez. A mesma mãe que. mesmo. que tem profissão. só. Eu só faço. O que varia é a ênfase dada a cada caso.. o que depende do tipo de relação mantido pela pessoa envolvida e dos contextos em que cada experiência é avaliada. Considerando que. eu não tenho esses estudos. Embora nenhuma delas considere essa uma condição “normal”. o segundo grau. em alguns momentos. Desde o discurso revoltado de uma mulher casada há mais de dez anos com o homem que não mais trabalha e bebe. as razões de não estar trabalhando: – Porque. 52 anos) Do mesmo modo que Brito comentava em outro momento que “emprego tá difícil mesmo”. (Dona Aline. e pronto. é clara a percepção de que se está diante de uma situação com contornos bem marcados. tudo. Mas. emerge a busca por uma compreensão que justifique a experiência atual.) que a gente vê em repórter. Um de seus filhos. preencher que eu sei preencher. se acontecer de eu tiver a sorte de entrar numa firma.. porque se eu não comprar as coisas pra dentro de casa a gente vai viver como. com enorme sintonia de argumento. o que é que eu vou fazer? É só preencher a ficha. para arrumar serviço melhor. eu ainda compro as coisas para dentro de casa. Joca (32 anos) reafirma.. os meus meninos não têm profissão. acabaria por gastar dinheiro com transporte e alimentação.. Entre eles. tem que ter o primeiro grau. não vou negar. ainda é mais fácil. 22 até 25. e pra quem não tem? Pra quem tá novo assim de 20 anos. É em todo canto que passa é essa calamidade que não tem emprego (. né? Por que eles não compram. apenas dois deles concluíram o primeiro ciclo do ensino fundamental (antigo primário) e só Neto concluiu o segundo (antigo ginásio). E o de 30 anos. né? Emprego tá difícil. 214 . que não querem empregar mais? E outra. é clara a distinção de que o que se leva em conta na relação com os homens não é apenas o fato de não trabalharem. lhes dá mais elementos para justificar sua condição de dependentes de outras pessoas. às vez tem profissão. Mesmo figurando junto à noção de que muitas vezes há desinteresse e preguiça dos homens.. pode em outro momento compadecerse de sua condição: – Na maioria. insistindo em que não valeria a pena sair para procurar trabalho. a pessoa.. vê pai de família desempregado às vez não é nem por causa de cachaça. a consideração de que existem elementos externos à vontade dos sujeitos é reconhecida por todos.. dos sujeitos investigados. os outros homens falam de sua condição corroborando a compreensão de Dona Aline. quem tem que comprar sou eu mesma. emprego tá difícil.

que nem tá acontecendo aí nos serviços que tem aí. vou nada. A importância da bebida na configuração e legitimação desse quadro dá-se não só no sentido de que alguns homens deixaram de trabalhar. Beto. porque. tem que sair. sem uma sandália (. como aparece na fala de Dona Aline: – No caso. Se o fato de “ter o prato de comer” já desencoraja esses homens de procurar trabalho. falando sobre seu irmão. vou procurar trabalho mais não. Zélia. quem não tem. (. né? Porque a pessoa dentro de casa não arruma nada não. essa justificativa via doença vem aliada a uma admissão explícita de que não querem voltar a trabalhar. porque vê que a pessoa não tem resistência pra continuar aquele serviço. Eu vou dizer.. qualquer coisa que ele pega. Trabalhar eu posso. é por que tem alguém pra dar.. Ele pegava qualquer biscate. falar com alguém. sua tanto. fazia biquinho. né? O cara tem que passar o dia.. Porque quem vai dar serviço a uma pessoa que só bebe? Não dá.) também uma coisa dessas também não se pode trabalhar mais né.. Ele pega uma coisinha assim. Principalmente quando surgem as comparações com o passado (possível diferenciador da condição atual).. pegar uma ficha ainda pra ir lá e. só coisa pouca.. há muito tempo. sabe? Agora é que ele bebe direto sem parar. que pra mim tenho o prato de comer pr’eu comer e pronto.. mas pra trabalhar no pesado mesmo. É. Quem tem condições vai.. Agora. o que eu tinha de fazer já fiz já. tem que sustentar ele agora até o fim”. vai passar o dia todinho com fome. eu ir procurar? Não me interessa mais. Tou pra isso não.. Se ele quiser me procure. A resistência dele é muito fraca. vê se trabalha ainda. a noite com frio. acho que não vivia assim e a pessoa não vai andar sem uma roupa. se não tivesse. Se vive. na maioria das vezes esse alguém é a mãe. deixa entrever isso quando compara a situação atual de seu marido com esse tempo passado e reconhece sua incapacidade para assumir algum trabalho: – Ele trabalhava. O cara ter que dormir na fila do trabalho. Doente. Em outros casos.. vai? Muito embora prevaleça a percepção de que “alguém” os sustenta. não agüento. mas procurar. mas não bebia tanto.. A mãe é a primeira e mais importante referência de cuidado. Eu. essa é uma das implicações.. mas também do reconhecimento de que a bebida interfere em sua capacidade de trabalho por debilitá-los fisicamente. 215 . a noite lá. A pessoa dentro de casa arruma o quê? Nada. A maioria dessas pessoas que vivem assim é por que têm alguém pra ajudar. Agora que tá ruim mesmo.. Trabalho. a pessoa tem que batalhar. tornaram-se vagabundos e “entregaram-se à bebida”. aí eu vou.Além desses elementos conjunturais.. Ele não pega por causa da bebida.. Não agüento mais não. tanto faz. um dos principais argumentos para o nãotrabalho é a própria bebida. para além dessas justificativas. pra mim não tou nem ligando agora. ela é reconhecida em diversas situações como um empecilho ao trabalho. Trabalha tanto pra nunca ter nada na vida. procurar. explica por que o mesmo não trabalha: “Porque ele bebe. aí tou por aqui.) não vai viver sem alimento.. mesmo usando argumentos semelhantes. sem poder trabalhar. começar e continuar. Brito fala com extrema naturalidade articulando todos esses argumentos apresentados até agora: – Ave Maria! Vou fazer força? Não. né? Vai se preocupar. rapaz. se aproveitar. Mesmo mantendo-se válidas as opiniões a respeito da bebida como irresponsabilidade ou esperteza de homens que preferem a vida dos bares ao trabalho.. pra ver se arruma alguma coisa. sabe? Bebia cana.. o principal elemento para que um homem se instale na condição de não-trabalhador será o fato de ter alguém que o sustente. só nessa. a esposa de Dino. eu nunca corri de trabalho não. chega eu penso que ele vai ter um troço. será explícito para todos que. depende da pessoa mesmo.

e levar pro hospital não levo não. mesmo Zeneide. mesmo que não definitivas. Enquanto a mãe dele estiver viva. em momentos distintos. nessa época. ou ao menos é necessário dizer que os homens encontram outros argumentos para não trabalharem. No dia que sua mãe bater as botas (se eu não bater as botas primeiro) e você chegar ao ponto dele [referindo-se a Brito que. quando seu esposo chega bêbado em casa e acorda com os efeitos devastadores da ressaca. entretanto não a impediu de cuidar dele quando veio a adoecer. Mesmo que esse provimento se dê via irmãs ou esposas. essa substituição nunca é vivida como satisfatória. viu? Porque sua mãe cuida de você. como também deixa claro que os arranjos construídos para sua sobrevivência não são fixos. quando sozinhos. Essa fala de Zeneide não apenas refere à predestinação da mãe como cuidadora. Ele tá doente porque quer. as mães são pensadas como “naturalmente” mais propensas a serem as cuidadoras. mas retoma a questão dos constantes alertas e das ameaças feitas aos homens em razão da bebida. é essa possibilidade de contar com alguém que lhes permite manipular todos os argumentos aqui delineados. quando não há a figura da mãe. ela será insuficiente para pensar a situação de muitos homens que não trabalham há muitos anos. Bem mais do que uma simples justificativa para o fato de não trabalharem. colega de bebida dos homens aqui referidos. 1997). mesmo sendo em muitos aspectos semelhante aos seus amigos no que se refere à bebida e qualificação profissional. a mãe dele faz. Eu boto você pra dormir no chão. nunca se deu “ao luxo” de não trabalhar.Tanto Neto como Brito localizam na morte de suas mães a passagem para períodos de maiores dificuldades. eu sempre eu digo ao daqui de casa [o marido]: ‘Reze pra você só adoecer enquanto sua mãe tiver viva. Essa referência corrente à mãe irá aparecer não apenas pelo que significa em termos de provimento financeiro. o que. Ele tem vários filhos e. Trabalho e honra: quando é melhor não trabalhar Mesmo sendo essa explicação válida para o caso de Bento. Você morre aí no chão. Quando morrer. Quando me refiro ao apoio que recebem e ao cuidado devotado pelas mulheres. As dificuldades de convivência apontadas. estou falando de negociações constantes. mesmo frágil. Além disso. Cuido não. vivem em piores condições do que qualquer outro – é o de que. A mãe é apontada tanto pelos próprios homens quanto pelas mulheres como capaz de dar atenção ao filho nas mais diversas situações: – E. como que lhes dando um norte (Villa. estava doente]. ou. A própria esposa de Brito já o havia alertado antes para que não viesse a adoecer novamente por causa da bebida. porque na minha cama não dorme. que um homem acolhido por uma delas seja obrigado a encontrar outras possibilidades no futuro. há uma marcante compreensão dos homens acerca de que trabalhar é muito mais do que apenas 216 . Contudo. Tão significativo quanto o fato de que não foi possível localizar nenhum homem sendo cuidado por outro homem – além do fato de que. Se assim não fosse. apesar de todas as reclamações. de mim você tá cortado. ou a situação de Bento. assiste-o com alimentação e outros cuidados. não seria compreensível a situação de Severino no tempo em que morou sozinho. então. a possibilidade de sobrevivência de um homem passa pela presença feminina. Mesmo que uma mulher ocupe o lugar da mãe. O argumento da pressão da necessidade não é suficiente. eu vou lá no cemitério e enterro’. pelos homens marcam a diferença definida pela presença de uma ou outra. sempre tensas e passíveis de rupturas. permitindo que um homem que hoje mora só possa vir no futuro a ser novamente acolhido por sua irmã. Isto aponta não só para a centralidade das mulheres na vida desses homens.

Com essa fala Brito certamente se referia a Bento. Ter menino é fogo. quando se referem aos homens com quem vivem. Podemos então entender a diferença entre estes acomodados e aqueles. ao mesmo tempo. Para ela. tranqüilo. ficar doente. 1971. prefiro ficar em casa. Vou nada. É por isso que eles não me chamam pra trabalhar. Se tivesse menino. Além de ter um trabalho. de que. quando há a expectativa de que uma outra pessoa irá trabalhar para sustentá-lo. por mais difíceis que fossem as circunstâncias em que estavam vivendo esses homens. qualquer coisa. cinco filhos não pode (…) Aí o cara tem que ser explorado mesmo de toda maneira. sem fazer nada. que mora em frente a sua casa. redefine-se cotidianamente a relação. Vou me aperrear pra quê? Trabalhar de me matar pra ninguém.desenvolver alguma atividade. utilizando-se um “filtro imaginário que permite ver e narrar sua vida de acordo com uma imagem de si socialmente aceitável” (Fonseca. sejam os sozinhos ou os que têm grande família para sustentar. a honra figuraria “como elemento simbólico chave que. o pão mais tarde. Os argumentos apresentados pelos homens podem ser pensados na direção do que Fonseca (2000) sugere sobre a mesma noção de honra. que já não podem contar com apoio algum. ao mesmo tempo. Da mesma forma como as ameaças de abandono 217 . a noção de honra permite empreender uma reelaboração simbólica que tende a maximizar o amor próprio. Não por acaso. batalhar pra arrumar o leite pro menino. o que faz com tranqüilidade: – Aqui eu vivo só. Foi a esposa de Bento quem me disse certa vez com sorriso irônico que Brito “dormia demais”. Tem que correr atrás de alguma coisa. E tem gente que se apóia nesse tipo de coisa (…) aí quer maltratar a pessoa. Apesar disso. Existe uma diferença marcante entre ricos e pobres mas. eles sempre apresentavam diversas estratégias para se apresentarem como próximos das características percebidas como masculinas no nível ideal. sejam maridos. 1999). marcada pelo sentido de honra. Vou não.13). regula o comportamento e define a identidade dos membros do grupo” e permite dar ênfase aos aspectos não-materiais da organização social. filhos ou irmãos. Segundo a autora. viu? Passar por certa humilhação que eu vejo o povo passar por aí… P : Que tipo de humilhação? – É. tem leite pra comprar e o cara tem que batalhar. este precisa ser capaz de fazer com que eles vislumbrem a possibilidade de virem a estar em uma situação melhor do que a atual e aparece como uma importante justificativa para recusar certos serviços que aparecem. onde a idéia de que a esperteza do pobre e uma dignidade que não pode sucumbir frente ao dinheiro repõe a igualdade. Ao mesmo tempo. 2000: 21). Só assim será possível somar-se a esse conjunto de fatores o fato já mencionado. Porque o cara que tem quatro. as mulheres em algumas situações apresentam certa resignação na fala. p. sem precisão. Estas configurariam um recurso que chamei de auto-elogio (Nascimento. porque sabem que eu não vou mesmo. trabalhar. porque tem filho pra dar de comer. A utilização desses argumentos precisa ser levada em conta para não cairmos na explicação fácil da pressão da necessidade. e certamente o barulho que os muitos filhos do vizinho fazem à sua porta permitem-no respirar aliviado quando lembra que não os tem. Tu é doido? Aí o cara assim. o homem “se acomoda”. O príncipe que não veio: conjugalidade e desemprego masculino As diversas questões referidas até aqui procuram problematizar as várias possibilidades de formações em relação à provisão do lar e as justificativas dadas para se posicionar frente às mesmas. O trecho que se segue – que é de uma conversa entre o pesquisador (P) e Brito – revela as razões de manter sua condição. pelo direito ao “orgulho de si mesmo” (Pitt-Rivers. nem que eu quisesse não tava. busca-se mostrar que o fato de os homens não trabalharem não é percebido de forma tranqüila.

Muito embora existam discursos emancipatórios e críticas vorazes. Este não trabalha. ouvi dizer. bem como as queixas em razão da bebida e da falta de trabalho não resultam facilmente em rupturas e mudanças. quando é remédio pra mim ela é quem compra. Podemos pensar que em nossa sociedade a imagem de alguém sozinho ou abandonado não é o que se pode chamar de um projeto acalentado. A segunda questão refere-se à necessidade de entender os vários arranjos constituídos em suas características específicas. O grande trunfo de sua esposa na equação de forças é a posse da casa que. estas não são feitas como uma cobrança insistente do tipo “agora ou nunca”. segundo ela. Reforçando essa idéia. e não tou devendo a ninguém. por outro apóia-se no fato de que não é da esposa que depende para sobreviver. Eu tou comendo e dormindo. Assim. as diferenças são marcantes. sugerindo uma maleabilidade ou plasticidade que confere a essas relações capacidade de manutenção maior do que a habitual. assim. Quando é. não parece sobrar dúvida de que a manutenção da casa é assegurada pela mãe de Renato. Ao contrário. porque Marta se lasca de trabalhar. aí. Contudo. Eles moram numa casa nos fundos da casa da mãe de Renato. às vezes. podemos pensar que não só se provêm alimento e teto. pra mim e pra minha menina. o que funciona a favor deste: se. vem sendo construída há anos com seu dinheiro. Que ela vê que eu não tenho condições de comprar. Muito embora acredite que não seja possível responder à pergunta “Por que essas mulheres não abandonam esses homens?”. sempre deixaram evidente que as despesas da casa são pagas pela mãe de Renato. remédio caro. 1987 para a mesma questão). não sei o quê’ (…) Aí eu tou. o que se percebe é mais um lamento por não se poder ver cumpridas as expectativas alimentadas do que uma crítica irrestrita à postura masculina. Ficam falando. o discurso de Brito afirmando não se incomodar com as críticas e xingamentos que recebe sugere a possibilidade de pensarmos sua condição como uma situação legitimada. pra dar de comer a Brito. ela é quem compra. vende produtos de beleza a domicílio. que eu não vou me preocupar com isso. o exemplo de Zeneide e Renato é bastante elucidativo. Os sonhos são refeitos a cada dia de acordo com a experiência que se apresenta. apenas com base na racionalidade. Para pensar sobre esse aspecto. em virtude de suas vantagens intrínsecas: – Umas pessoas por aí. vou tá me 218 . mais do que uma cesta básica. remédio de dez. Ela me dá assim. por um lado. o que se percebe é um longo período de negociações e adaptações. Ou seja. quarenta e acima. os constantes conflitos. ou um irmão e uma irmã. A primeira é que não operam com a noção de que qualquer discrepância do homem em relação ao esperado implicaria necessariamente o fim do relacionamento.em caso de doença não se confirmam. doze reais. considero importante destacar duas questões que devem ser levadas em conta se quisermos entender ao menos algumas de suas nuances(ver também Fonseca. Em outros casos. eu compro. Mesmo quando as mulheres fazem comparações entre o tempo em que esses homens não bebiam e o presente. um bocado. uma mãe e um filho. eu sei das coisas. é criticado pela esposa por beber e não trabalhar. mas quando é remédio de vinte. mas perceber que o tipo de vínculo mantido em cada par define os contornos assumidos na trajetória de aparentes subversões dos padrões de gênero: se o par é formado por um esposo e uma esposa. há em geral mais de duas pessoas envolvidas na questão. umas não. mas eu fico calado. ela é quem compra. referindo-se a sua sogra: – Ela me ajuda ainda. sabe? ‘É. Vejamos como ela explicita essa relação. não se trata de pensar homens e mulheres como categorias absolutas. Zeneide recebe pensão do primeiro marido e. ela me dá cinqüenta reais e o bujão [de gás] todo mês (…) E assim. Além disso.

Aí eu fazia assim: trabalhava um dia. reclamava que. É significativo o fato de Brito não apenas dizer que sua esposa “nunca se preocupou com isso não”. como alguém que não tivesse nada a dar em troca na relação. A queixa principal de muitas mulheres é à impossibilidade de experimentar a situação tradicional. [poderia] ficar mais em casa. A falta sentida é não apenas a de um homem provedor. Outro elemento igualmente importante nessa configuração é a fuga da solidão..) trabalho. Ou ainda. mas de elementos subjetivos como o respeito e a companhia. conversar com a gente. A casa é citada como contrapartida. ele não tem não.. “isso não é vida de ninguém”. outro não. sabe. Assim. É pra ter uma conversa. às vezes com filho no braço. Não sinto falta de nada dele não.... Isso é suficiente para ele não se apresentar destituído. bem como o de reforçar na seqüência que a mesma já sabia de sua condição de desemprego e de não procurar trabalho desde que se conheceram. aí isso aí a gente sente falta. se seus homens trabalhassem. Pra mim. ela talvez tenha continuado a esperar que isso se efetivasse. não haverá. Não sinto falta não. faço minhas compras. essa dimensão simbólica se atualiza pela presença do homem. de não ter assim a força de um homem. a vendedora de acarajé cujo exemplo utilizei inicialmente. Isso indica que não houve uma ruptura radical no quadro original do casamento. Não se trata de mandá-lo procurar emprego ou mudar 219 .. elas não trabalhariam tanto: “Queria que ele trabalhasse e sempre continuasse botando a feira dentro de casa. Ela dizia que só trabalhava quando “as coisas apertavam”. Sentir falta assim. sabe. Ao longo dos anos de convivência. certa noção de que. Importante notar que essa falta é remetida a um tempo anterior. sabe. Outras vezes suspirava dizendo que “a coisa mais linda do mundo é uma mulher em casa com as coisas feitas. Por sua vez. Porque um homem dentro de casa é pra ajudar a gente. ele nunca fez. esperando seus maridos chegarem do trabalho. de mulher dona de casa. para além das queixas. de maior ausência do marido. não senti diferença nenhuma. isso aí. muito embora digam que. seu marido passava a faltar ao trabalho com o objetivo de ser demitido. Outros homens – e mulheres. Nunca teve. Ele chega. romanticamente idealizada. Perguntei certa vez para Zélia se ela percebia diferença entre o tempo em que seu marido fazia biscates e o tempo em que não mais trabalhava e ela apresentou essa diferença entre a falta material e a falta afetiva: Pra mim. Por vezes a vi reclamar de sua situação dizendo. de jeito nenhum. como o caso de Zeneide citado há pouco – usam o argumento de não abrir mão da casa como razão para não se separarem. ter um diálogo pra gente conversar e tudo. assim desde o começo ele nunca fez isso não. a gente sente falta assim. Mas será possível pensar que algo mais possa ainda ser conseguido? Daí a idéia de não se separar.. sem ter assim um.. as mulheres referem sua condição de independência financeira em relação aos maridos como algo positivo. um. Sinto falta. É um homem assim sem. de algum modo. alegando não sentir falta da ajuda do marido. esperando o marido chegar”. mesmo se insatisfatória? Este conjunto de expectativas aparece quando a mesma mulher fala acerca das tarefas que manda o marido fazer. um homem sem força. não faz.. todas as vezes que começava a ganhar algum dinheiro. porque os biscates dele pra mim não servia. a relação foi mantida. Mas ele não me ajuda. Eu mesmo (.aperreando?! Tem certas pessoas que falam demais. eu sinto falta... o que é que eu vou fazer?”. mãe e esposa. Aí. Só servia pra ele mesmo. e ela [sua esposa] nunca se preocupou com isso não. Luzia via muitas mulheres nos pontos de ônibus. Mesmo sentindo essa falta desde que o conheceu. Parece não esperar mais que o provimento econômico se efetive. A mesma Luzia..

se fosse homem.. não foi. a essa noção corresponde a percepção masculina de ser legítimo o cuidado que as mulheres lhes devotam. só viver de beleza dentro de casa. eu vou dizer. Foi ali. não sai de dentro de casa.. há queixas ecoando sempre. honra as calças que veste..) Mas nem todo homem é assim. fui buscar. ela retoma o discurso. mas. decidi provocá-lo para verificar se ele manteria o mesmo tom de sua fala. sei lá? Porque tem pena. sei lá? E outras porque eles não saem. é porque ela tem que ter a obrigação dela. foi até ali numa barraca que tem. mas eu reclamo e tudo. ele não vai. quem queira”. mas eu digo assim (. Sua cobrança é pela execução de pequenas tarefas compreendidas como masculinas: “Eu reclamo porque eu digo.totalmente de vida. E aqui em Camaragibe. feito marica? Sem querer ter obrigação com nada na vida? Eu acho que muda. eu aceito.. ele pareceu constrangido em dizer que a obrigação dele seria trabalhar para sustentar a casa. sei lá. Ontem eu mandei ele ir buscar o bujão de gás. ‘vai buscar uma coisa ali e tal’. Se. Mesmo não contando com a contrapartida masculina do provimento.) E muitas mora assim. deixou. A inversão desses papéis não altera as demais relações de forma significativa. Quando perguntada por que acha que as mulheres aceitam a situação. “Quem é que quer ter um homem que não quer trabalhar. ‘Vai buscar uma coisa ali e tal’. Já sofri muito pra ter. Por um breve lapso de tempo. – Eu deixo pronto. aí ele come mais a filha (risos). enquanto homem e esposo.. sua obrigação. sem reclamação: – Não. mesmo que depois apresente seus sonhos. Disse que na outra não tinha. quando se referem a trabalhar fora de casa. (. não queria depender de mulher. ele não vai. mas ao mesmo tempo deixa entrever as vantagens da situação: Muitas aceitam. são safados. A vida é dar comida a ele aí. apontam para a idéia de que estão vivendo situações que não gostariam de viver. vou fazer o quê? Deixar minha casa eu não vou. não foi.) Porque. Usa o discurso de que quer se separar. (. a gente dá um prato de comer até um animal. Difícil ele encher essas jarras. e ela sabe. Tanto Zélia como Dona Aline.. Ó. atribuindo sempre ao homem o poder de efetivar a ruptura. olhe. por exemplo. Brito relata alegremente por que é sua esposa quem tem de fazer todas as atividades domésticas quando chega em casa à noite. então. Perguntei qual seria. se acostuma. as mulheres consideram que não abandonarão por completo os homens. E eu vou tá perdendo tempo pra fazer comer?! Tem dia que eu acordo. porque é a obrigação dela. O que ela reivindica é que ele faça certas coisas. (. eu mesma. Essa noção se associa às falas onde aparece a idéia de que a mulher não quer mais conviver com o marido. eu disse na outra tem. Eu reclamo porque eu digo assim. não posso nem morrer... por um lado. [risos] é. as mulheres dizem manter suas atividades de dona de casa. foi o lugar onde eu mais vi homem gigolô. não sou machista não.) Eu mesmo moro porque. Interessante observar aqui que sua reivindicação não é a de que ele rompa totalmente com a situação presente. né?'. de mãe. já que todas as atividades mencionadas até então seriam obrigação da esposa. de irmão.): 'Comida. Como já mencionado.. se acomoda. reafirmando sua impossibilidade por razões que estariam para 220 . segundo ele.. “não se entregue” totalmente. né? Muitas porque têm medo de botar pra fora. agora incluindo-se no grupo das mulheres que esperam o dia em que seus parceiros irão embora.. Outras porque. Diante dessa declaração. Eu mesmo. Zeneide avalia a manutenção do casamento usando exemplos de outras mulheres.. muda muito. ontem eu mandei ele ir buscar o bujão de gás. mas ao mesmo tempo não o põe para fora de casa por variadas razões. mas né não. Não tem quem goste. se acostuma. (. e ele não foi”. Deixo a comida pronta. não reclama não. Difícil ele encher essas jarras.

não é assim não. ou as declarações de mulheres que acham que têm de manter suas atividades. não sei... Oh.). daquele suor do homem que vem do trabalho. porque é muito bonito. porque senão. me cheira.. visando afirmar que as coisas não estão assim tão modificadas quanto parecem. pode apresentá-los como exploradores e as mulheres como vítimas. lindo. poderia levar à visão deles como vítimas de uma estrutura injusta de desemprego. a despeito de ele não trabalhar: o mais importante em sua fala é o tom de naturalidade que ele imprime. aí era obrigação minha mesmo. (riso). se eu morasse só (. meu sonho era esse. Meu sonho era esse (. já tou tão.. mas a aspectos subjetivos de suas vidas. A despeito da grande distância dos desígnios tradicionais de gênero. É fácil imaginar que ele queria eliminar qualquer possibilidade de eu vir a fazer dele o mesmo juízo que fazem seus vizinhos – preguiçoso e explorador. Lavava roupa. mesmo assim.. mas não vai se realizar.. lindo... Eu acho lindo.. Assim como iniciei dizendo que não pretendia operar com noções estanques onde idéias de provedores e donas de casa 221 . só se esse sonho passar pra minha filha.. ele tá com aquele suor. busca demonstrar que o que ocorre não chega a reconfigurar totalmente as relações estabelecidas.. Agora. meu Deus. tiro até o sapato dele (. já botei água pra ela lavar roupa. sabia? Imaginava assim: ele chega. Aí quando ele chegar. morasse só. mesmo admitindo a noção radicalizada do ideal burguês fracassado. eu acho que. focalizando os argumentos de Brito. Eu vou pegar e vou lavar minha roupa. pra (. não tivesse ninguém pra fazer. Pode ser uma tentativa desesperada de dizer que alguma coisa ainda sobrevive da forma como ele imagina que deveria ser – nem que essa sobrevivência dure o tempo de uma entrevista. Uma primeira leitura. morrer de sede? Esse engenhoso discurso para justificar a submissão feminina deve certamente ser também entendido como um daqueles discursos de auto-afirmação. Quando ele chegar. tampouco pretende operar com a idéia de que tudo é sempre igual ao “que já foi um dia”. acho que não.. como os dados aqui trazidos sugerem. por quê? Eu com mulher em casa. cheirar ele com aquele suor que ele vem do serviço.. aí eu. *********** Esta fala apresentada assim no final de um artigo que pergunta no título qual a novidade? não tem a mera intenção da contundência. a obrigação não seria sua: – Não. se eu tivesse só.. já mencionados.além de sua vontade. como já foi dito. Sua inserção nesse contexto não lhes faz abrir mão totalmente dos sonhos que alimentaram. Não. focalizando os homens como doentes ou desempregados e impossibilitados de conseguir qualquer trabalho. É obrigação dela. quem ia fazer? Eu ia. estão sendo negociadas sob diversos aspectos cotidianamente. Mas sua argumentação busca dizer não apenas que há alguém que provê sua manutenção e satisfaz suas necessidades materiais..) eu imaginava de tirar. eu tou tomada banho esperando ele. era obrigação. Tento evitar uma oscilação entre duas possíveis interpretações mais imediatas para esse quadro.. se eu não fizesse.. rapidamente voltou ao tema das funções domésticas para dizer que.) ele se realizar.. não só em relação ao trabalho e seu lugar na casa. Experimento aqui uma terceira interpretação que precisa considerar o universo simbólico onde se situam as relações de gênero e o lugar do valor trabalho e do valor provimento para a constituição das convenções de gênero que.) porque não tinha quem fizesse. O fato de certas mulheres manterem as uniões não implica sua concordância com a forma de sua vida hoje. Outra leitura. eu ia passar fome era. do jeito que ele chegar. como faz Zélia: Eu sonhava assim: “Meu marido vai ser um homem cheiroso’.

que o dinheiro do marido “só serve pra ele mesmo”. (orgs. C.4. (ou melhor seria dizer assim como os discursos e as idealizações) os valores passam pela prática. _________.). mas o nosso foco principal tem a ver com a forma como estas imagens se reproduzem. 1997 p.) Gênero.2. org.161-89. Porto Alegre: Ed. como vimos. Família. Aliados e rivais na família: o conflito entre consangüíneos e afins em uma vila portoalegrense. mas tem a ver com estes mesmos processos como estas pessoas estão conduzindo suas vidas hoje em meio a todos os elementos com que temos argumentado aqui. Agustín Latapí (1998) pensando sobre o processo de reestruturação produtiva no México e as trajetórias masculinas neste cenário argumenta que o homem provedor único é um “mito” há muito tempo e que a capacidade dos homens de serem provedores exclusivos dos lares. 1987. provimento material e provimento simbólico é possível visualizar ao mesmo tempo um jogo de inversões das convenções tradicionais de gênero e sua marca ao mesmo tempo aparecendo na fala dos sujeitos. Neste jogo constante entre modelos de feminilidade e modelos de masculinidade. 1996. masculinidade e poder: revendo um caso do sul de Portugal. SCALON. São Paulo: Editora Contexto. ARAÚJO. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. mas “como foi possível manter-se a imagem de homem provedor por tanto tempo e de maneira tão geral se. É necessário pensar como esses modelos se reproduzem. 2005. os vários níveis em que as relações de parentesco são acionadas. Certamente muitos estudos problematizam para a realidade brasileira este quadro (Araújo e Scalon. A despeito dos discursos e das idealizações. mãe e pobre" In História das Mulheres no Brasil (Mary DelPriore. na realidade a maior parte dos lares teve outros provedores” (Latapí. 222 . família e trabalho no Brasil. 2005). n. Referências ALMEIDA. pela experiência cotidiana. Nesse âmbito é que se torna possível pensar afirmações como a de uma mulher que diz.88-104. apesar de ser um modelo legítimo em geral é válido apenas para uma minoria de homens. Gênero. Miguel V . p. v. jun. O que busquei neste artigo foi menos uma explicação para possíveis mudanças e permanências e mais uma reflexão sobre porque insistimos sempre nas mesmas imagens para pensar distintas realidades. São Paulo. FGV.fossem vista como significando sempre a mesma coisa. não quero agora sugerir que os sujeitos com os quais convivi fazem exatamente o contrário do que gostariam de fazer. 1998: 199-200). 510-553. nas quais a consangüinidade opera na construção das redes de apoio e solidariedade (o que não quer dizer isenta de conflitos como vimos) é outro elemento. Rio de Janeiro. Da mesma forma. O que pudéssemos pensar como possibilidade para a filha desta mulher (que transfere para a mesma seu sonho não realizado) não seria simplesmente a repetição ou algo absolutamente novo. propondo que a pergunta deveria ser não a respeito de que os homens são ou não os provedores. Claudia. FONSECA. p. 2000. ___________. "Ser mulher. da UFRGS. Revista Brasileira de Ciências Sociais. A relação entre o jogo dos sentidos com que se opera no cotidiano e os condicionamentos estruturais (inclusive estes sendo acionados a todo instante através principalmente da repetida frase “emprego ta difícil”) certamente precisa ser considerada. In: ANUÁRIO Antropológico 95. C. fofoca e honra: etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares.

G. A família como espelho: estudo sobre a moral dos pobres. ‘Ser homem ou nada’: diversidade de experiências e estratégias de atualização da masculinidade hegemônica em Camaragibe. Abri.observatorio.LATAPÍ. São Paulo/Rio de Janeiro: ALAST. WOORTMANN./Jun 2003. Agustín Escobar. Relação família-trabalho: reestruturação produtiva e desemprego. Nesse terreiro galo não canta: estudo do caráter matrifocal de unidades familiares de baixa renda. São Paulo: FCC. Recife. p. Albertina (org.) Direitos tardios: saúde. Anuário Antropológico 83. 1997. SCOTT. vol. p. NEVES. Alejandro M. família e trabalho no Brasil. maio 1990.) Honra e vergonha: valores das sociedades mediterrâneas. p. _____________.115-40. Cadernos de Pesquisa. Significados da reprodução na construção da identidade masculina em setores populares urbanos. p. “A provisão da família: redefinição ou manutenção dos papéis?” In ARAÚJO. PE.br/biblioteca/doc/Desempreparticfemin. In: COSTA. Amilton. Zuleica L.1998. O homem na matrifocalidade: gênero. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. percepção e experiências do domínio doméstico. São Paulo: Autores Associados. (org. Julian. p. UFPE. Honra e posição social. 2005. Reestructuración y masculinidad en México". VILLA. John G. (orgs.2005. Fortaleza: UFC.sp. (Mestr. Lilia. Dissert. sexualidade e reprodução na América Latina. p.123-135. SANTOS. “Desemprego e participação feminina no mercado de trabalho: um estudo exploratório sobre os anos 90” (2001) <http://www.17. Parry. Rio de Janeiro. In: PERISTIANY. MONTALI.) Gênero. 123-147. 223 . C. Delma P . Laís e ABREU. São Paulo Perspec. SARTI. 34. Cynthia. "Los hombres y sus historias. 199-226. PITT-RIVERS. Klaas. n. OLIVEIRA. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Pedro F. R.38-47.doc> Acesso em 08. 1996. no. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 1999. Anselmo e MORETTO.) Gênero e trabalho na sociologia latino-americana. 1971.11-60.2. SCALON.) Antropologia Cultural. NASCIMENTO. São Paulo.gov. Ed. FGV. 1985. In: ABRAMO. CNPq. A família das mulheres. Alice Rangel (orgs.10. C.73. 1987. Não-provedores: desemprego e alcoolismo masculino em comunidades de baixa renda (no prelo)..

fundamental para a consolidação da matriz heterossexual da sexualidade (Butler) baseada no modelo binarista atividade/passividade. se a diferença entre “identidade de gênero” e “orientação sexual” se mostrou proveitosa no sentido de romper e desnaturalizar a justaposição entre essas duas categorias. sobretudo pelas teóricas feministas do cinema ao analisar as diferentes posições do olhar e da imagem no cinema.AUTOR/A: Sonia Weidner Maluf INSTITUIÇÃO: PPGAS . para quem tal separação pressuporia a distinção entre desejo e identificação. Pretende-se explorar. pode trazer uma contribuição para esse debate. Particularmente na antropologia.com.UFSC E-MAIL: Maluf@floripa.br TÍTULO: Desejo e identificação: apontamentos para uma discussão sobre gênero e sexualidade RESUMO: O objetivo do paper é fazer uma reflexão sobre a forma como os conceitos e as temáticas de gênero e sexualidade têm sido articulados – ou desarticulados – nos estudos na área. e de outro aquelas que alertam sobre os limites de se pensar uma teoria e um campo de análise próprio da sexualidade sem um diálogo com teorias de gênero ou com as teorias feministas. por outro lado acabou limitando uma compreensão tanto etnográfica quanto teórica de como gênero e sexualidade se articulam nas formas dominantes de constituição de sujeitos e de subjetividades (nas quais tanto diferença sexual quanto sexualidade são biologizadas). A crítica mais forte à separação entre gênero e sexualidade como dois campos distintos tem partido de algumas teóricas feministas. e na rejeição do desejo homossexual. abordagens que propõe gênero e sexualidade como dois “sistemas distintos”. A crítica à distinção entre desejo e identificação. 224 . que indivíduos se constituem como sujeitos masculinos e femininos. É na adesão a essa matriz. de um lado.

assim. ao contrário. Com o intuito de alcançar uma das dimensões desta identidade. 1990. é a memória que dirá o que foi perdido e o que foi encontrado. a memória individual seria uma interpretação/ressignificação da memória coletiva ou. contudo. Nesse contexto. Para refletir sobre as perdas. o que se encontra não são opiniões soltas e desestruturadas. ou seja. p. das diferenças percebidas na vivência entre duas culturas e como.. de forma mais ampla. Em outras palavras. que é um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações. Em ambas. ou seja. constroem e reconstroem suas identidades.77) Dentro de uma perspectiva mais durkheimiana. Nesse sentido. Ao buscar entender as percepções de indivíduos. incorporações e ressignificações das idéias. busco apreender a visão feminina a respeito do casamento. analiso as falas de duas famílias de origem árabe: egípcia e palestina. analisarei as mudanças de concepções nas práticas de casamento entre mulheres de duas gerações: imigrantes e descendentes.. Ao contrário. não tenho como intuito desenvolver uma análise psicológica do sujeito. longe de querer definir antecipadamente o que é o ocidental e o oriental e/ou o que é tradicional e moderno – definições que comprometeriam toda a validade do trabalho. pensam. uma percepção das mudanças que já ocorriam nos países de origem. valores e práticas relacionados ao casamento. não subsistem.“Construções e Desconstruções: Identidade da Mulher Árabe Muçulmana em Brasília” Sônia Cristina Hamid (soniahamid@gmail. considerando as diferenças percebidas ao longo desse processo de convivência com duas culturas. Para o alcance do objetivo proposto. da imigração e. de como se reconhecem como mulheres. de forma mais ampla. uma manifestação individual do inconsciente coletivo proposto por Durkheim. as quais nos representamos de modo incompleto ou indistinto. o que o autor busca realmente advertir é que é impossível rememorar se não se tem como ponto de partida quadros sociais reais. constroem e reconstroem sua identidade num país ocidentali. se não se parte do grupo em que se vive e se os próprios elementos lembrados não foram vividos em grupo.com) Universidade de Brasília – UnB. nesse processo. Assim. “Para nós. adoto como fio condutor a memória. partindo dos discursos e narrativas das imigrantes e descendentes. transformações e mudanças. o que é próprio daqui e o que é próprio de lá. em Brasília. buscando. pois são relativas e mutáveis -. mas manifestações de um modo de pensar e sentir coletivo e estruturado. Sempre que tiver informações precisas2. imagens completamente prontas. onde estão todas as indicações necessárias para reconstruir tais partes de nosso passado. em alguma galeria subterrânea de nosso pensamento. Brasil Este ensaio se traduz como o primeiro esforço de perceber como mulheres imigrantes árabes muçulmanas reconhecem.” (HALBWACHS. . mas na sociedade. mencionarei também os costumes e práticas das mães e avós das imigrantes entrevistadas. parto das percepções das entrevistadas. o conceito de memória adotado na análise será o proposto por Maurice Halbwachs (1990) que afirma que toda memória é um fenômeno coletivo e social.

(p. nesse sentido. que dota uma coletividade de um modo de pensar e agir semelhantes. temos as imigrantes que se socializaram dentro da própria cultura árabe e que possuem.. exercido principalmente pela escola. podendo ser considerados pontos chaves que ajudam a constituir a identidade do sujeito..204) 226 . a cultura não é só um código comum. mas que no processo de socialização foram tão inculcados que acabaram por se tornar parte do próprio sujeito.embora individuais. BOURDIEU (1974) defende que há um processo de inculcação da cultura. São estruturadas porque atuam dentro de um habitus de grupo.. nessas. Seguindo suas análises. uma negociação de subjetividades com um pano de fundo estruturado”.90). e somente esses”.(WOORTMANN 1998. compreendemos melhor quando Pollak. por outro lado. este habitus poderia ser definido como o sistema dos esquemas interiorizados que permitem engendrar todos os pensamentos. É dentro desse contexto que Pollak irá mostrar que o sentimento de identidade está profundamente ligado a memória. na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si”. uma memória de acontecimentos vividos. a partir dos quais se engendram uma infinidade de esquemas particulares. possuem uma memória de acontecimentos herdados que são incorporados como se tivessem sido vividos. p. em seu texto Memória e Identidade Social. “A memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade. .“.. percepções e ações característicos de uma cultura.201) afirma que existe na memória individual e coletiva aquilo que ele define como os acontecimentos vividos e os acontecimentos herdados (ou vividos por tabela). São elementos... afirma que existem marcos e pontos relativamente invariantes e imutáveis na memória. num certo sentido. Sendo a memória constituída de narrativas.349) Considerando essas reflexões.. Pollak (1992. não obstante as variações. mas que são tomados e vividos como se fossem seus. temos então. nem mesmo um repertório comum de respostas a problemas comuns. p. que não se situam dentro do espaço-tempo de uma pessoa ou de um grupo.as memórias individuais são sempre coletivas. poderíamos dizer que são estruturas estruturadas constituintes do sujeito e que orientam o próprio modo de perceber e sentir os outros elementos da cultura. na pesquisa desenvolvida com as mulheres árabes de Brasília. São todos aqueles eventos. tanto individual como coletiva. Estes últimos se caracterizariam como acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou.e que. Em outras palavras. previamente assimilados. e nos remetendo a Bourdieu. ou um grupo de esquemas de pensamento particulares e particularizados. seguem sempre um padrão. em grande medida. e tentando definir os elementos constitutivos da memória. é sobretudo um conjunto de esquemas fundamentais. (POLLAK. iguais. são. temos as descendentes de imigrantes que se socializaram entre duas culturas – árabe (família) e brasileira (sociedade) . p.. continua o autor. afirma o autor. que se repetem constantemente na fala dos indivíduos.1992. Se por um lado.

Longe de significar somente um passeio pela psicologia do indivíduo. percebemos que são as memórias desse passado vivido no Oriente que mostram para essas mulheres quem elas são e quais são seus valores. a pessoa com quem se fala e sua situação presente. ELY e McCABE (1996) já apontavam no texto “Gender Differences in Memories for Speech” as peculiaridades com que homens e mulheres lembravam a mesma informação. Entretanto. sendo estas reflexos da maneira como cada sexo era socializado. pois se constitui como ponto chave para o entendimento das mudanças nas concepções das imigrantes. variando conforme o lugar. juntamente com algumas reflexões a respeito da realidade estudada. este reconstrói o passado em função dos seus interesses e de sua posição no presente. trabalho. A importância do presente para lembrar o passado será retomada várias vezes ao longo do texto. Assim. pois as lembranças dependerão do social (presente e passado). Esse primeiro “caminhar” pelas teorias da memória. é seletiva. aqui buscarei entender o que a memória feminina pensa a respeito de concepções e práticas de casamento. Halbwachs já afirmava que a memória é em larga medida uma reconstrução do passado. nos possibilita perceber que. A memória aqui estudada também não se caracteriza como um livro aberto que pode ser consultado no momento da necessidade. a medida em que dá presença ao passado para dar significado ao presente. de aceitabilidade e admissibilidade do novo grupo que as cerca. contudo. é preciso esclarecer a relação que estabeleço com as mesmas. organizado e estruturado. chamada “memória de gênero”. tratarei diretamente agora das imigrantes e descendentes estudadas. na verdade. Tentando pensar dentro da realidade das imigrantes. confirma que a memória é prática. O meu interesse de desenvolver estudos entre mulheres árabes-muçulmanas está profundamente ligado ao fato de ser 227 . tendo em vista que é a partir dos dados presentes que as cenas vividas são interpretadas e ressignificadas. Neste sentido. como se percebem enquanto mulheres entre essas duas realidades? Definindo o campo de trabalho Antes de tudo. além disso. é a memória que dá sentido ao presente e é este presente que ressignifica esta mesma memória passada. revelando ao indivíduo quem ele é ou pode ser. que tenha um sentido de continuidade dentro do tempo e que se desenvolva dentro de um sentimento de coerência. não podemos esquecer que é o presente vivido entre duas culturas que irá possibilitar uma reflexão. estamos. é importante ressaltar que ao mesmo tempo em que a memória sustenta e apóia a identidade de um determinado grupo. nesse mesmo sentido. Feita essa primeira exposição. é o presente agora vivido no Ocidente que diz como elas irão lembrar ou mesmo esquecer esse passado. Woortmann.É a memória que permite que o indivíduo construa a imagem que tem de si. num processo dialético. também. que adquira esse sentimento de pertencimento ao grupo. tanto em relação a si mesmo como aos outros. quais os elementos que são importantes para que elas continuem com o sentimento de continuidade e coerência e. Quem são elas? Como pensam as práticas de casamento? Percebem diferenças nos costumes dos países? Em uma dimensão mais ampla. Ela. nos aproximando de um pensar coletivo. apesar de estarmos falando sobre vidas pessoais. continuidade e coerência. é importante esclarecer que este ensaio trata de uma modalidade da memória coletiva. substituição ou incorporação de elementos próprios de cada local. ao mesmo tempo que a escolha pela manutenção. Antes de iniciar a análise das falas das duas famílias entrevistadas. a memória nos traz a dimensão do social e do sentimento de pertencimento. Ora.

neste sentido. Desenvolvendo a análise das famílias. percebo que enquanto nativa e pesquisadora minha saída será a mesma da de minhas entrevistadas: a memória é seletiva.descendente de árabes e. Ao longo da escrita e do processo de reflexão possibilitado pelas várias experiências narradas. Ao ter que abordar as relações estabelecidas dentro de minha família. elas também optaram. pois era contratado para trabalhar como sheik em um país ocidental. Samira Osman (1997. Amira e seu marido são da cidade da Cisjordânia. Embora o autor esteja tratando precisamente da relação entre memória oficial e oficiosa em um âmbito mais político. pertencem a famílias de classe média e possuem nível de instrução superior. pois exige todo um esforço de distanciamento e de estranhamento do familiar. Quando se opta por desenvolver uma pesquisa com a própria família por meio da memória. Assim. O que levou o marido de Amira a imigrar foi o desejo de encontrar uma situação de vida melhor com possibilidades de ascensão social e econômica. viviam naquilo que eles concebem como roça. o desafio se torna ainda maior. selecionaria fatos entendidos como apropriados e importantes para analisar neste contexto. pensam e ressignificam a realidade. Reconheço que ser nativa e pesquisadora ao mesmo tempo não é uma tarefa fácil. ainda que fosse inconsciente. o que se percebe é que o motivo que levou Ayda e Amira3 a imigrarem foi o mesmo: o casamento. Revelar-se. tanto árabe como 228 . podemos pensar essas questões dentro da realidade que estava tentando apresentar. reconhecendo os limites e possibilidades que minha condição proporciona. p. Retomo então a reflexão iniciada. Esquecimento e Silêncio” adverte que a memória não está somente relacionada à adesão a uma comunidade afetiva. me vejo. Pollak (1992) em seu texto “Memória. a um processo de enquadramento da memória. Além disso. seja pela questão da dificuldade de sobrevivência na terra natal. as diferenças históricas e sócio-culturais vivenciadas nos países de origem. a imigração para o marido de Amira significou um desejo de melhorar a vida de toda a família grande. ao estudar a imigração árabe em São Paulo. nesse sentido. ao se casarem. onde deixar transparecer alguns fatos poderiam comprometer o próprio sentimento de coerência identitário. Sendo assim. pela vida em uma realidade distante e estranha daquela então vivenciada. optei por partir da análise de entrevistas desenvolvidas com a família de minha professora de árabe e com minha própria família. Assim. muitas vezes. Ao imigrar para o Brasil. somente alcançaram nível de instrução fundamental. Como os maridos de ambas as entrevistadas já viviam e trabalhavam no Brasil. mais do que um projeto individual. Os motivos que levaram os maridos a imigrarem revelam. onde o plantio de azeitonas e o cuidado de cabritos. seja na busca de melhores condições de vida para seus membros”. de querer me aprofundar nos estudos da adaptação e socialização dessa etnia em países ocidentais. Nesse sentido. em grande medida. além dos “bicos” conseguidos no Estado de Israel garantiam o sustento da família. pude pensar sobre a minha própria maneira de rememorar e mesmo de esquecer ou querer calar. Num outro contexto. em grande medida. Deste modo. mas. Toda a descrição exposta acima foi feita no sentido de mostrar que não estamos tratando de famílias que partem do mesmo país ou da mesma realidade sócio-cultural. o marido já tinha profissão garantida. Partindo de contextos distintos. está profundamente ligada a grupos de poder. me pego entre a necessidade de expor e analisar fatos e de silenciá-los. é importante para que o leitor saiba de onde se parte e qual a relação do pesquisador com seus sujeitos de pesquisa. pelas dificuldades econômicas e escassez de terras para cultivo. como defendia Halbwachs. gerando necessidades ou mesmo obrigando pessoas ao esquecimento e silêncio. esclarece que “a saída do país de origem não pode ser desvinculada do projeto maior envolvendo a família grande. vivendo dentro de uma memória enquadrada. Tanto Ayda como seu marido são da cidade do Cairo.28).

tá bom”. se identificando um com o outro nesse sentido. Como critério de análise. deixaremos que elas falem. muito pesada.brasileira de maneira diferenciada.(Amira. com marido e filho. nada.(Amira 2005) Na memória de Amira. de outro. Aí. ia ficar mulher solteira. O valor do casamento dentro do mundo árabe torna-se mais claro quando uma situação adversa não permite sua continuidade. também não posso te afirmar porque eu tentei. Daremos voz às memórias que são partes constituintes de cada uma delas e que revelam como pensam seus passados e suas identidades atuais. pra fazer família. Não vai ter marido.E quando a pessoa não casa? “Ah. feliz. pouco valorizada. triste. Fazendo um paralelo com DARTON (1986). diferente. que eu tenho hoje. que ao analisar a origem dos contos infantis em vários países percebe como uma mesma estrutura de história é ressignificada de acordo com os interesses e necessidades locais. o que tento esclarecer é que não busco encontrar uma única memória a respeito dos vários contextos apresentados.O que significa o casamento pra você? “Casamento é a felicidade da mulher. não vai ter nada. menina assim muçulmana árabe. parto da entrevista de Amira. tem-se a mulher casada. Porque a gente é criada. “Porque nunca consegui criar uma afinidade. mas dentro de um pano de fundo estruturado. né? Porque tinha 23 anos. 2005) . a formação que a menina recebe. Não sei assim. neto pra mãe e pai dela. Em meio a toda essa diversidade. em seguida. mas memórias – no plural . Ninguém gosta de casar e 229 . Não tem essa de que se não der certo separa. por exemplo. às vezes sem valor nenhum. tendo que trabalhar toda a vida com os pais. principalmente para a mulher. fazer filho pro marido. trabalhando a vida inteira na casa do pai. Não sei se seria bom ou não. O que Deus dá. Com isso. Na família palestina. É ele que garante a continuidade e prosperidade da família. assim. A palavra separação lá é muito forte. Ao se constituir como um elemento de valor social. minha casa”. fazer dar certo. analiso as falas de Ayda e de sua filha Leila. fazer casa dela. muito indesejada. valorizada. Contudo. complementando com minhas próprias informações.que revelam a riqueza e diversidade vivenciada em cada realidade. do lado egípcio. é importante retomar Woortmann (1998) quando afirma que as lembranças variam. ele acaba que por criar dicotomias “hierárquicas”: de um lado. não vai ter filho. que casamento é pra vida toda. poderíamos dizer que também existe um conjunto de esquemas básicos próprios da cultura e da religião que são interpretados de maneira particular conforme a realidade e vontades dos membros de cada país. As Imigrantes . Pra viver feliz na vida. o casamento é o próprio símbolo da felicidade e do “poder”. Então. Assim. contudo. tem-se a mulher solteira. buscar uma análise crítica de ambos os discursos. Falei pra você que se talvez eu tivesse a maturidade. tentei de muitas formas. exploro e reflito as percepções por gerações – primeiro as imigrantes e depois as descendentes – para. a partir de agora. reconheço que há alguns esquemas básicos que são comuns e que fazem com que se percebam como árabes e muçulmanos.

se eu quisesse repetir essa experiência e viesse a descobrir que aquela pessoa que eu me casei não é a mesma pessoa que eu fiz a imagem. Ao mencionar a separação. onde ela ressalta: “não. Robert Katestenbaum (1975).. Nem pra si. ele não é exemplo de nada. O que se percebe. mostra que numa tentativa de validação da memória. “Com a convivência. Mas eu era muito jovem. não conheço”. passa a atribuir-se parte da responsabilidade pelo fracasso. Ele tinha problemas mesmo”. faz questão de lembrar que se esforçou muito para que isso não acontecesse. Tenho 7 ou 8 tios da parte da mãe. Ayda se separou do marido. em seu texto Memories of Tomorrow: on the Interpretation of Time in Later Life. talvez seja com a memória do futuro que ela esteja se preocupando. aqui se separa muito mais fácil. Agora. Tanto que ele ficava daquele jeito agressivo e de repente voltava ao normal. essa coisa patológica. é que Ayda atribui o fracasso de sua vida conjugal a dois fatores: a sua falta de maturidade e aos problemas psicológicos do marido. que você pode ajudar a pessoa a ser o que ela não é. a aptidão e habilidade feminina em preservar uma instituição de prestígio. foi porque o marido tinha problemas psicológicos graves. Que realmente é uma experiência muito traumática”. em alguma medida. Eu era muito imatura também. Aqui se não deu certo as pessoas separam na maior naturalidade. nem pra ninguém. ela. (Ayda.Ao mesmo tempo. Se acabou tomando esta decisão. Nos dois casos. Que muitas vezes funciona. Fazer acreditar que o ser humano não é perfeito. É com os olhos do presente – hoje se vendo como uma mulher madura com capacidade de adaptar o outro de acordo com sua vontade – que ela analisa a falta de sucesso no casamento. Ao dizer que sofria de depressão e distúrbios. “. quando diz que era imatura. que eu criei a imagem. retira a culpa do marido. casamento é para toda a vida.. de casar pra vida toda”. reforça que no mundo árabe. podemos mostrar o que Halbwachs havia dito da memória como reconstrução do passado. tenho primas e primos. em vários relatos. nunca vi esse exemplo. Lá. Ayda mostra que no mundo árabe. A necessidade de ressaltar tal característica da cultura surge em contraposição à realidade percebida no Brasil. muito inexperiente. de alguma forma.. 2005) Você conhece alguém lá que se separou? “Tem uma prima minha que se separou.separar. Ninguém deseja isso nunca. muito imatura”. não é só a união do casamento que é importante para definir a posição e status da mulher. Assim. eu vou tentar adequar. eu fui descobrindo que ele não era aquilo que eu achei que fosse. uma separação definitiva assim. Neste trecho. perdoando o marido porque era doente ou se atribuindo 230 . mais do que o presente. Que a maturidade que faz a gente pensar dessa forma. A sua manutenção se caracteriza também como um esforço desejado que revela.. (Ayda. Vive muito bem agora com ele. contudo. nem pras filhas. as pessoas ainda reservam essa coisa de família. adaptar essa pessoa dentro da minha mente e tentar jogar essa pessoa a ser do jeito que me agrada. pois justifica dizendo que se ele era agressivo é porque tinha problemas que iam além do seu controle. por exemplo. 2005) Depois de 23 anos de casada. a pessoa pode usar o passado para revelar a competência do indivíduo no presente e no futuro. mas que depois voltou para o marido dela. sofrendo de depressão e de mudança brusca de humor e personalidade. Eu hoje. Neste contexto.

A memória do ideal. O casamento entre parentes. Amira conta que sua avó e sua mãe se casaram com seus respectivos primos de primeiro grau e que ela somente não casou porque ocorreu um imprevisto que dificultou a união. É importante perceber para quem se fala e que tipo de imagem se quer passar dentro de uma pesquisa que trata da cultura árabe. além disso. da cunhada. meu irmão. ele. serve de parâmetro para classificar aquilo que corresponde aos valores e idéias das tradições. Como já afirmava Pollak (1992). Ao mesmo tempo em que se ajuda tirando uma parente da condição de solteira. escondido. Seguindo um padrão. gerando. Não sei o que fomos fazer e ele até comprou presente para mim. embora nunca vivida. numa cidade chamada Nablus. mãe. também se tem vantagens econômicas ao unir forças de trabalho ou ao manter e perpetuar a propriedade familiar. Ainda é interessante notar. na realidade de vida na roça. Nesse meio tempo. Em sua família. saímos. dos parentes. “O casamento foi um pedido do irmão. O marido de Amira é também seu primo de terceiro grau. que orienta o que deve ser dito ou silenciado. dificilmente se separaria dela ou 231 . Esses encontros eram formais. principalmente com primos. por trás da memória oficial enquadrada. o noivado para o casamento.. Ayda não chegava a expor exatamente que tipo de patologia e atitudes o marido possuía.. a oposição criada entre memória psicológica/individualizada e memória cultural/ideal. tanto paternos como maternos. é visto como mais seguro para a mulher. Somente depois desse primeiro contato e do consentimento dos parentes é que os noivos passaram a estabelecer relações com suas futuras esposas. pois o noivo. como o relatado por Amira no trecho acima.parte da culpa. tanto material como social. como membro da família. Mais uma vez é a situação presente . significa um sistema de troca e de ajuda mútua. paralelos ou cruzados. Ao longo da entrevista. mostrava sua preocupação em não denegrir a imagem da cultura. há toda um cuidado com o que se expõe.. ela pode estar querendo transparecer a imagem de uma boa mulher e esposa – memória que pretende que os outros tenham em relação a ela no futuro. mas também aquilo que é silenciado. há o costume de se casar com parentes. sendo um caso patológico que se distingue radicalmente daquilo que ela esperava ou foi ensinada a ter. sempre com a presença da família. É importante ressaltar que a entrevista não compreende somente os ditos. Fiquei sabendo do pessoal lá. neste caso a sócio-política. esconde-se um conjunto de memórias subterrâneas – proibidas. Casar com parentes. “Como ocorreu o casamento?”. desta forma expectativas nos indivíduos. eu. O marido não é visto por Ayda como uma pessoa que simboliza os valores e idéias da cultura. parece. sapatilha. os interessados se dirigiram aos homens responsáveis pela família e pediram as moças em casamento. camuflado. neste caso. Nesse sentido. Fazia questão de ressaltar que ele não era exemplo de homem árabe e. sandália. tio. nesse sentido.” (Amira 2005) Tanto o casamento de Ayda como o de Amira ocorreu em menos de um mês. foi bom”. Não durou nem 10 dias. eles que foram me contando. ocorrendo geralmente na casa da noiva ou em pequenos passeios.. clandestinas ou mesmo vergonhosas. Percebe-se que falar mal da postura de um homem árabe numa cultura ocidental seria confirmar todos os estereótipos e preconceitos que se pregam nos meios de comunicação e que já se configuram como representação coletiva no ocidente.

assim. Considerando todo o ocorrido ao longo da relação. dado o casamento preferencial entre primos. faria como sua mãe que se relacionou durante quase dois anos com seu pai antes de optar pelo casamento. um homem árabe também seria melhor. É difícil para uma mulher depois que tá velha. 218). deseja que se casem com muçulmanos.. Aqui. ao contrário do brasileiro. Se eles demoram a chegar dá briga. porque aqui diferente. Para sua filha. Diz que se fosse hoje. mas os argumentos utilizados são distintos. se interessando. ao estudar uma comunidade de imigrantes alemães no sul do Brasil. é o principal elemento trazido por Amira para justificar sua preferência por um genro árabe. Diferente da árabe. Considerando que a religião é transmitida. de que se torne mulher solteira. mas porque. as pessoas ficam casadas há 50 anos e depois acabam separando. garantindo assim a continuidade da religião para a próxima geração. Ayda também lembra que o casamento terá mais chance de ser feliz se os dois envolvidos compartilharem as mesmas crenças e valores. Woortmann (2001). a brasileira é vista como desconfiada. O medo de que sua filha fique sozinha. A mulher lá já tá acostumada. dentro do mundo árabe. é que a imigrante constrói seus discursos justificando a preferência por árabes nos casamentos de seus filhos. O elemento importante aqui não é a origem.tentaria tirar algum proveito da situação.”(p. Seu marido a viu por meio de um amigo e. pela linha paterna. Ayda. não se separa da mulher e lhe garante uma vida mais digna até sua velhice. Neste contexto. Seguindo a tradição e considerando a realidade observada no Brasil. Para ela. Em relação às suas filhas. a imagem construída em relação a personalidade e a falta de compromisso do brasileiro. pois estaria acostumada a entender melhor todas as situações. possuir uma memória genealógica é extremamente importante. conhecer bem o marido antes – o que não pressupõe contatos físicos – é um elemento importante para garantir uma boa escolha e a felicidade do casamento. Lá o homem não separa. Combinando. (Amira. já afirmava que “o conhecimento de parentesco é fundamental para a construção de estratégias matrimoniais.. dificilmente deixa a mulher. que pressupõe um conjunto de idéias e condutas específico e particular. diferente de Amira. é importante que uma menina muçulmana se case com alguém que siga o islamismo. resolveu pedi-la em casamento para seu pai. de outro. seria mais compreensiva. ao contrário de Amira. Tudo aqui no Brasil é motivo de briga”. seguindo. mas a religião. 232 . às vezes. conseguir alguma coisa. mesmo que sejam brasileiros. Não é melhor porque ele é mais compreensivo ou não faz cobranças. Lá as mulheres aceitariam eles quando eles saem. 2005). “Gostaria que eles casassem com árabe. geniosa e um pouco intolerante com os atrasos e saídas do marido. tem filhos. Amira também gostaria que seus filhos se casassem com primos ou então com alguma pessoa de origem árabe. não se casou com um parente e diz que esse costume não fez parte de nenhuma geração de sua família. Pra minha filha viver melhor. nesse contexto. o valor dado ao casamento e o medo da separação trazidos pela tradição árabe e. A mulher árabe. ela não vai pensar que o homem tá traindo ela. ela se arrepende por ter se casado tão rápido e por não ter conhecido suas características e personalidade anteriormente. aceitam mais as coisas. Acho que eles se dariam melhor com árabe. de um lado. os mesmos princípios de vida.

“O véu significa proteção. Se por um lado. Mas se acontecer alguma coisa errada. Se para tomar as decisões importantes. Contra os olhos malvados. os olhares que querem te despir. No casamento. por outro. as duas entrevistadas acreditam que o homem tem uma capacidade racional maior que a mulher. Ainda que a mulher tenha muitas vezes acesso a ele. com que elas tenham que se cobrir para evitá-los. pois os limites deste trabalho e o tema aqui proposto não permitem que nos prolonguemos muito. Dos filhos também. ocorreu. ligado à família e é a partir dele que ela acaba definindo sua identidade. quem é que tá te desejando. a obrigação da mulher é cuidar dos filhos. sem dúvida. de criar os filhos. O homem só trabalha fora pra trazer dinheiro pra casa. um elemento importante para garantir a harmonia e coerência do lar e. a perda de todo um “framework for memories” que era a base para a construção de ambas as identidades. essas definições e delimitações continuam atuando. abrindo possibilidades para que haja cobranças mútuas no que diz respeito aos deveres e obrigações. Ainda que a mulher trabalhe fora – como era o caso de Ayda -. da casa e do marido. Homem tem uma mente um pouco animalesca. só queríamos analisar a contradição da visão tida em 233 . Acho que o homem tem que ter a palavra mais forte que a mulher. Na rua você nunca sabe quem é que tá te olhando. A discussão a respeito do véu. assim. Ao expor a fala que remete ao uso do véu. razão X emoção.“Quem cuida da casa é a mulher. não é lá que ela exerce sua verdadeira função. o homem é concebido como o mais sensato e equilibrado. 2005) Dentro do casamento. né? No trabalho. Seu espaço é o da casa. fazendo. pois esta é muito emotiva e. contudo. Ele naturalmente tem mais razão que a mulher”(Amira. Homem é homem. de alguma forma. pra mim é melhor”. no plano das atrações físicas. né? Então. Ele é visto como praticamente incapaz de controlar seus olhares e atos. É o homem quem dá a palavra final na casa porque ele é o machão. O espaço público é predominantemente masculino. é interessante notar que no que diz respeito à questão sexual. elas declaram que o homem possui um lado instintivo incontrolável. ainda. só lhe resta o instinto. os espaços e as funções destinados a homens e mulheres são muito bem definidos e delimitados. A mulher tem que ser menos um pouquinho que homem. Não sabe nada da casa. quando a fábrica fechou – espaço masculino. para constituir suas identidades enquanto mulheres e esposas na família e sociedade. em grande medida. na faculdade. devido ao trabalho. No que diz respeito à dicotomia razão e emoção. menos capaz de lidar com situações críticas que exijam equilíbrio e serenidade. não pode ser dois juntos não. na escola. mostraram como homens e mulheres possuíam espaços e atividades delimitadas e como a memória feminina também era construída a partir da atividade e do espaço masculino. a mulher o quanto mais protegida assim com a roupa. Assim. por isso. abordaremos melhor esse tema num próximo ensaio. do papel da mulher e da relação estabelecida entre a cultura árabe e a ocidental mereceriam. a obrigação do homem é garantir o sustento econômico da família e tomar as decisões mais importantes. Modell e Hinshaw (1996). a culpa é da mulher. a diferenciação dos espaços e atividade é. Para as imigrantes. ao discutirem a respeito da memória de gênero construída em torno de uma fábrica. um espaço de análise maior. poderíamos dizer que há duas dicotomias principais que orientam a prática e o pensamento do homem e da mulher na relação: público X privado. Contudo.

na família de Leila. Eu particularmente não tô nem um pouco preparada pra casar. conheci meus avós. estabelecer vínculos de afinidade com os mesmos. viajou para o país de seus pais e freqüentou mesquitas e eventos próprios da cultura. recentemente. Dos três filhos. somente um viajou para conhecer os parentes na Palestina. ela apresentaria para a família. Neste sentido. mas não aquela coisa em que todo mundo quer ver quem é. seja através dos espaços. “É porque. principalmente nesses conformes.. Aí sai toda minha família pra jantar com ele. contudo. né! É porque é a coisa mais constrangedora do mundo você se deparar com uma pessoa que você nunca viu na vida.. desde pequena. Já viajei cinco vezes ao Egito. eu nem sabia quem era. em minha família. Revela-me que acha importante também conhecer bem a pessoa antes de casar. aí vamos todos e eu querendo morrer. Pô. aprendeu a língua. aconteceu. em que a família toda tem que conhecer antes.relação ao homem que oscila do “animalesco” ao racional e a maneira como as mulheres se constroem em relação a essas categorias. de outro. na realidade. Se interessou por mim. foi falar com minha mãe e queria me conhecer. né? Minha mãe o convidou. As descendentes A cultura árabe sempre esteve presente durante sua criação? “Com certeza. acha desinteressante e constrangedor que haja mediadores direcionando a relação. Antes que façamos uma análise mais geral das concepções de casamento das imigrantes. É interessante perceber que a forma de abordagem utilizada pelos pretendentes de Leila foi a mesma usada no casamento de sua mãe e que parece ser comum no mundo 234 . Contudo. é interessante lembrar de Connerton (1999) quando mostra a importância de performances rituais como meios de transmitir as imagens e o conhecimento passado. Não que eu não queira que minha família conheça meu futuro marido. fazendo com que nenhum dos filhos se interessassem pela religião ou em seguir os costumes do país. com intenções de casar contigo. os poucos elementos presentes ficaram restritos à família. aí vai o sheik também. o tempo todo. foi criada entre árabes. é mais legal que a coisa seja mais agradável. começa a reparar nele. Em contrapartida. o autor expõe os mecanismos utilizados por uma sociedade para perpetuar-se. (Leila. né. Leila tem o objetivo de se relacionar e de se casar com um muçulmano dentro das tradições. sem. não gostaria que a pessoa falasse anteriormente com a família e que houvesse encontros formais que expusesse o casal. desde as piadas até rezar e lidar com coisas um pouco mais sérias assim. é importante analisar os discursos das descendentes. sendo dois ou três anos o tempo ideal. Ao contrário do que aconteceu com sua mãe. exponho os principais relatos que manifestam o ponto de vista de mulheres que se socializaram entre duas culturas. foram criados os mecanismos para a perpetuação dos valores próprios da cultura. mais natural” (Leila. Neste sentido. de um funcionário de uma Embaixada aqui de Brasília ter me visto na mesquita. 2005) Leila. Se de um lado. objetos ou pessoas. o ambiente de minha casa sempre foi muito isolado dos eventos e símbolos do mundo árabe. Gostaria que ocorresse de forma mais natural e agradável. 2005). Partindo da análise de cerimônias comemorativas e práticas corporais. e havendo interesse mútuo.

a memória genealógica está estreitamente associada à construção da identidade”. da cultura. afirmar de onde parte cada um desses valores – se da cultura ocidental ou árabe. Eu gosto mais da interação assim do papel dos dois. mas assim. cuidando da casa.árabe. de que os três filhos se casariam com os primos paternos. Partindo do exposto. nunca houve a iniciativa por parte de meus pais de que conhecêssemos a árvore genealógica da família. recebi uma proposta de casamento do meu primo. O tipo de relação estabelecida ao longo do namoro será dentro dos costumes e tradições árabes.. Aqui. contudo. Ela se sente constrangida. práticas e bens no círculo familiar e. Contudo. além disso. “Nas alte Kolonien. produtos do trabalho da memória. sempre provendo ele. reconhecer a tentativa de perpetuação dos costumes e do patrimônio dentro da família. “Tem o papel da mulher árabe no casamento de sempre cuidar do marido. fundadas entre 1824 e 1832. como seria sentido se o pedido fosse o de um brasileiro. apesar de casada. mas que costuma receber bem os pretendentes para não denegrir a imagem da família.214) Durante minha criação. não da religião. Casar com um parente significa garantir a permanência dos valores. não é sentido como uma perda para os pais e família grande. sem contato físico e com a presença de parentes e amigas nos passeios e encontros. é obrigação dela e isso eu já não gosto tanto. as expectativas e sentimentos da descendente são distintos dos vividos outrora. a abordagem não deve acontecer por meio de mediadores. busca de outras realizações (pessoais e profissionais) são importantes para um casamento feliz e para a constituição de uma identidade plena.. que são instrumentos da memória e. Nesse 235 . percebemos que a memória genealógica é tão seletiva quanto qualquer outra memória e que ela também age tendo como base os interesses e valores presentes. dentre as muitas negociações entre idéias diversas. (p. tanto elementos da cultura árabe como da cultura ocidental se mostram presentes. seria perigoso. Neste caso. Só tento dizer que. chega a dizer que acha ridículo esse tipo de situação. a vida dos primos sempre era exaltada e contada entre nós. O parentesco é construído por uma memória seletiva: o que deve ser retido e o que deve ser esquecido. Coincidentemente com a elaboração deste trabalho. Contudo. O casamento. cheguei à conclusão de que não queria seguir com a tradição de casamento de meus pais. “não foi perdida” para alguém de fora. o parentesco é concebido por determinadas categorias. Contudo. é importante retomar Woortmann (2001) quando trata de memória genealógica. E dentro do casamento árabe não acontece muito isso. sempre houve insinuações. desde a infância. nesse contexto. a depender do valor que representa para o que se poderia chamar de“agentes da memória”. na medida em que poderia se caracterizar como uma maneira de fossilizar cada tradição e prática. por meio de seu irmão. Próprio do machismo árabe. convivência por um período longo. prosseguida por um interesse mútuo. Analisar o pedido de casamento de meu primo é. Não aceitar o pedido de casamento também traduz esse meu processo de convivência e ressignificação dos valores de ambas as culturas. Significa aceitar que valores como “necessidade de sentimentos profundos pelo outro”. Não vou dizer subserviente. mas deve ser casual. ao mesmo tempo. contando-me dos interesses do mesmo para um casamento próximo. Nesse sentido. significa dizer que a menina. ainda faz parte da família. em grande medida. Como em minha família há a tradição de casamento entre primos.

idéias e sentimentos que dependem da memória familiar e cultural mantida e reforçada ao longo do processo de socialização e dos interesses presentes no momento de escolha dos elementos. e. Leila parece mostrar que o que busca não é o representante da cultura daqui nem. O que ela espera é uma relação de complementaridade entre ambos e acha que isso. mas para mostrar que elas são diferentes das brasileiras e. essa oposição não é feita para se criar uma síntese das duas. do papel da mulher como mãe. E muçulmano sempre. Contudo. No que diz respeito às descendentes. Na sociedade brasileira. acredito que essa noção poderia somente ser utilizada em relação às descendentes. em estar decidindo. Criando a categoria árabe-brasileiro. É interessante notar que não se reconhecem enquanto árabes. a palavra final seria dele. Considerações finais Sylvia Yanagisako (1985). contudo. em regra. nesse sentido. No caso das imigrantes e descendentes árabes. ele também tem que acatar as opiniões dela”. porque a mulher tem que obedecer ao marido. mas aí é que tá: tem que haver esse equilíbrio entre o homem e a mulher em estar pensando. tampouco. entre a cultura árabe e a cultura brasileira. referida acima. O que há não é uma junção. Como havia dito no início. sentir e se comportar. provavelmente. tampouco como brasileiras. acredito que se configuram como árabesbrasileiras. reforçam a importância do casamento e de sua manutenção. disseram que não. antes de tudo. Essa 236 . entretanto. tem todo um pressuposto pra mulher obedecer ao marido. da cultura de lá. uma síntese dos dois. Nesse sentido. discordo quando a autora adota a palavra síntese para designar a relação estabelecida entre as duas culturas. dona de casa e boa esposa e do interesse de que seus filhos dêem continuidade a tradição se casando com árabes. É complicado isso. se vêem enquanto árabes. nesse contexto. será encontrado com um marido árabe/brasileiro. Tem que haver uma harmonia. que seus valores continuavam exatamente como eram antes. seu sentimento identitário e suas lembranças parecem se criar por meio da interação. esse trabalho é o primeiro esforço de pensar como mulheres árabes-muçulmanas constroem sua identidade num país ocidental. ressalta que deve haver uma interação de respeito e aceitação mútuos. dessa forma cega. ao estudar as mudanças ocorridas nas relações de parentesco e nas práticas de casamento entre duas gerações de imigrantes japonesas nos Estados Unidos. mas uma negociação de valores. um árabe socializado dentro da cultura oriental poderia ser muito machista para os seus parâmetros. já realmente cogitei a possibilidade de me casar com um brasileiro filho de árabes. Para ela. Quando perguntei se percebiam mudanças em seus comportamentos. Leila reconhece que. afirma que eles se configuram como americanos-japoneses e que concebem suas relações de parentesco em termos de uma oposição simbólica entre japonês e americano. o que elas buscam é reforçar os próprios elementos da cultura de origem. por que eu acho assim muito importante a cultura. a mulher deve obedecer ao marido.(Leila) No que diz respeito à relação entre marido e mulher no casamento. mas não é assim. substituição e negociação de elementos de ambas as culturas. A mulher não vai poder dar ordem ao marido. As imigrantes árabes criam a oposição simbólica.sentido. já um brasileiro convertido não traria os elementos da cultura considerados tão importantes. do homem não ser egoísta de tomar a decisão baseando somente no ponto de vista dele. formulando a partir daí. estão envoltas por ambos os valores. construindo quase que uma terceira forma de pensar.

A Memória Coletiva. 237 . . M. Memories of Tomorrow: On the Interpretation of Time in Later life. In: LEYDERSDORF et alli. KASTENBAUM. 2 i BIBLIOGRAFIA BOURDIEU. NOTAS Tema de minha Dissertação de Mestrado que será defendida entre 2006/2007. In: FREITAS.UCG.Rio de Janeiro. M. e McCABE. Rio de Janeiro.org) Nova York: New York Univ. Memória. Oeiras.1992. Edit. São Paulo. vol.1999. por abordar de forma mais precisa as gerações das imigrantes e descendentes devido a dificuldade de se conseguir informações das entrevistadas a respeito das gerações anteriores. Esquecimento e Silêncio.F. Vértice Editora. Introdução e Memória Social DARNTON.1992. J. Press. já nos mostra a complexidade e amplitude de tal relação. São Paulo POLLAK.Gender Differences in Memories for Speech. 3 Nomes fictícios. . P. Como as Sociedades Recordam.cm.: Anais do I Seminário e da II Semana deAntropologia da UCG. (sherover. – 1986. São Paulo. C. R. In: LEYDERSDORF et alli. In: Série Seminários de Pesquisa. e HINSHAW. op cit HALBWACHS. Mulheres de Ontem: gênero e memória no seringal. neste ensaio. . Celta Editora. A Economia das Trocas Simbólicas. ELY. R.1990. Pennsilvania. . In: Estudos Históricos. Graal. tratando de práticas de casamento. In: The Personal Experience of Time.primeira abordagem. que a memória é o fio condutor principal capaz de desvendar as possíveis transformações ocorridas entre as culturas. Editora Perspectiva. Edit. 1975 MODELL. J.A – 1997. História Oral de Famílias Imigrantes árabes em São Paulo. ___________ . R. E. Ela nos mostra. Embora o objetivo inicial tenha sido o de analisar as concepções das práticas de casamento de quatro gerações.1996. Memory and Gender in Homestead. P. 10. CONNERTON. S.1974.1996.1998. Goiânia. . In: Estudos Históricos op cit WOORTMANN. optou-se. O Grande Massacre dos Gatos. . . texto 5. Homens de Hoje . ainda. op cit OSMAN. Memória e Identidade Social.

. Transforming the past: Kinship and Tradition among Japanese Americans. In: Horizontes Antropológicos. YANAGISAKO.2001. no. Stanford University Press. Identidades e Memória entre Teuto -Brasileiros. UFRGS. S. ._______________.1985. Porto Alegre. 238 . 14.

mas. ao contrário. Brazil . sugiro que essas mulheres estão capitulando às concepções culturais hegemônicas e. Department of Anthropology tomi-castle@uiowa. e proponho que a luta pela cidadania ultrapassa uma luta por direitos e/ou a luta pelo reconhecimento legal. lesbians. Brazil. instead. Doutoranda em Antropologia pela University of Iowa. Ao examinar as idéias da cidadania lésbica que foram elaboradas no curso. I examine a citizenship course recently offered by a lesbian rights organization in Campinas. concomitantemente. Neste trabalho. concentrates on full inclusion in public life. se concentra na inclusão total na vida pública. I argue that these women are both capitulating to hegemonic cultural conceptions of propriety and. In this paper. I suggest that the fight for full citizenship goes beyond a struggle for rights and/or for legal recognition and. investigo um curso de cidadania oferecido por uma organização de lésbicas em Campinas. simultaneously. By examining the notions of lesbian citizenship elaborated during the course. Brasil Key Words: citizenship. Brasil. rewriting those conceptions through their refusal of the role of marginalized other in Brazilian society. Palavras-chaves: cidadania. social movements. lésbicas.“Como Viver Bem”: Políticas de Identidade e Noções da Cidadã Ideal em uma Organização Brasileira de Lésbicas Tomi Castle. movimento social. Abstract: Recent anthropological investigations of citizenship have tended to focus on varieties of citizens that do not fit neatly into either side of the traditional divide between liberal and republican citizenships.edu Resumo: Recentemente. investigações antropológicas de cidadania têm se focalizado em tipos de cidadãos que não integram quaisquer dos lados da divisão tradicional entre cidadania liberal e cidadania republicana. re-escrevendo essas mesmas concepções pelo fato de rejeitarem o papel do “outro” marginalizado na sociedade brasileira. identity politics. identidade.

Embora o discurso sobre direitos tenha permeado muitas discussões de cidadania no grupo. o focus em ganhar direitos um por um. (Movimento Lésbico de Campinas) em Campinas. de ‘extranha’ (Phelan 2001) na sociedade brasileira. que teve como intenção ‘capacitar’ as mulheres para poder demandar participação como cidadãs do Brasil. investigações antropológicas de cidadania têm se focalizado em tipos de cidadãos que não integram quaisquer dos lados da divisão tradicional entre cidadania liberal e cidadania republicana. talvez. Ao examinar o conteúdo do curso e as respostas das participantes.Ca. novas variedades de cidadãos em todo o mundo estão exigindo inclusão de uma maneira que combina um focus no status legal com um ênfase na prática e. Phelan 2001). rechaça entendimentos fáceis da cidadania como algo conferido primariamente.Le. Ao examinar as definições da ‘cidadã ideal’ desenvolvidas durante o curso de Mo.Le. se não exclusivamente. Tais cidadãos incluem os ‘cidadãos flexíveis’ de Ong (1999) e os ‘nacionalistas à larga distância’ ou ‘cidadãos trans-border’ de Schiller (2002). possibilidade de exclusão. ius sanguinis ou ius soli. Em seguida. pondero noções de cidadania que não encaixam facilmente nos modelos correntes de cidadania.. Ao examinar um curso de cidadania lésbica realizado pela organização lésbica Mo. dessa forma. Também afirmo que atores sociais que demandam cidadania total podem.Ca. cobrarem de sí mesmos um papel. essas mulheres estão utilizando concepções culturais de adequação e re-escrevendo essas mesmas concepções na recusa do papel de ‘outro’ marginalizado (Lister 2003:74) ou. simultaneamente. Recorro aos conceitos de cidadania mais utilizados na literatura acadêmica contemporânia.Le. examino o curso de cidadania recentemente desenvolvido pelo Mo. uma postura de ‘cidadãos ideais’ negando. enquanto outros encaixam mais precisamente no conceito de ‘extranha’ (Bauman 1991. Finalmente. sugiro que. ao mesmo tempo. advogado por várias organizações GLBT nos Estados Unidos e no Brasil. pelo menos teoricamente falando.Recentemente. e me detenho especialmente nos modelos mais útis no caso de Campinas. Brasil em 2004.Ca. ao mesmo tempo. Pelo contrário. De fato. se torna inútil diante de demandas pela cidadania total. argumento que as demandas pela cidadania ultrapassam as demandas pelos direitos civis e/ou reconhecimento legal. as demandas pela cidadania que discuto aqui tratam da inclusão total e participativa na vida pública e não só de acesso a direitos específicos. sugiro que ao focalizar a cidadania lésbica como uma chave para erradicar a discriminação Estadual e como um conceito que inclui 240 .

Stewart 1995) ou para repensar questões de cidadania (e. depender do modelo “martial” como uma maneira de mudar relações sociais injustas é. que provavelmente tem visto tantas variações quanto a cidadania liberal e republicana.g. que leva um conjunto de direitos e responsibilidades. se for preciso.Ca. Como D´Amico (2000) explica no seu estudo de noções “martial” de cidadania nos Estados Unidos contemporâneo. Embora pareça contraditório.’ dois modelos que. ao mesmo tempo. 241 . Outro jeito popular de conceitualizar a cidadania. Cidadania(s) Recentemente. Shane Phelan (2001) tem reconsiderado dois modelos distintos de cidadania que tem dominado o discurso público e acadêmico por muito tempo: o modelo ‘liberal’ e o modelo ‘republicano. ‘a tradição republicana tem providenciado visões fortes de participação ligadas diretamente a exclusões fortes das pessoas vistas como inadequadas’ (Phelan 2001:13). Lister 2003). frequentemente.g. o modelo liberal considera o cidadão em termos de um status legal. estes ainda servem de base para começar a desenvolver ‘novos’ modelos (e. Embora hoje esses modelos são utilizados sem modificações muito infrequentemente. é o modelo “martial” de cidadania. porém ainda utilizado. O cidadão/soldado ideal tem a espectativa de se sacrificar. especialmente nas populações mais desesperadas. essa estratégia inverte noções tradicionais de cidadania.” com sua promessa de conferir benefícios ao soldado como um prêmio. atual o potencial. nas versões mais antigas. Esse conceito de “direitos iguais” para “responsabilidades iguais” (Kerber 1990:90) não é o mais conhecido e tampouco o mais comum. Assim. como requisito do status de cidadão e. rejeita as idéias dominantes de quem poderia e deviria participar no fórum público e utiliza tais noções.vários direitos e responsabilidades—tanto do Estado quanto da cidadã—as mulheres de Mo. o modelo “martial. Além disso. em retorno. conferido através de caminhos legais. virando a extensão de cidadania um resulto lógico. trata cidadania como um prêmio para o serviço (Elshtain 1987). pode esperar todos os benefícios da cidadania. Mas. que escolhe se e quando atuar. se focaliza em ‘prática’ ou seja. tem sido utilizado como uma maneira de conseguir mobilidade social.Le. estão empenhando uma forma de ativismo social que. A definição de cidadania do modelo republicano. têm sua origem na Grécia Antiga. em contraste. participação nessa visão não é limitada só pelo indivíduo. na defesa do Estado e. um cidadão é alguém que participa em governar e em ser governado. mas depende da aprovação de outros. De forma mais ampla. Esse modelo localiza o serviço militar.

sendo essa uma sutileza que não encaixa bem em modelos tradicionais. Afro-Americanos. em que atores racionais lutam para mudar seu status de excluído. Como ela explica. melhor demostrada na opinião dela nos trabalhos de Catherine MacKinnon e John Rawls. mulheres. sugere que “[m]ulheres têm muitos motivos para desconfiar da maioria dos hábitos das pessoas através dos séculos. Nussbaum se concentra menos na cidadania em sí. nenhum dos quais é o resultado da racionalidade.no melhor caso. Enquanto a posição de Nussbaum é admiravelmente otimista—que argumentação racional poderia conseguir justiça—parece pouco aplicável na vida real. não só pela exclusão de homens vistos como “inadequados” pelo serviço. e mais no uso de “razão” em combater discriminação. Embora os modelos elaborados por Ong e Schiller constituam em uma avanço em modelos anteriores que 242 . por exemplo. sem especificar o papel de cidadão. A filosofa feminista Marth Nussbaum recentemente elaborou uma visão de cidadania. e mais frequentemente. apesar de inclusão legal. e minoridades sexuais.[e então] mulheres especialmente precisam da `razão´” (1999:79).” Cidadãos flexíveis trabalham apesar das fronteiras nacionais e com fronteiras nacionais. As “nacionais a larga distância” de Nina Glick Schiller´s (2001) também questionam fronteiras. Concepções “martial” de cidadania são perigosas. inicialmente. acesso a instituição militar” (D´Amico 2000:117). Aihwa Ong (1999). cidadania múltipla—e sobretudo cidadania através de fronteiras. famílias de classe trabalhadora. Modelos de cidadania elaborados mais recentemente para lidar com questões não facilmente encaixadas nos modelos citados têm a tendência de lidar com questões de cidadania escolhida. então. também. e o conceito dela de “trans-border citizens” leva em conta “a participação política e a reivindicação de direitos e privilégios num Estado por pessoas que não são cidadãos legais do Estado” (2001:362). estão achando. ser uma versão modificada do modelo liberal de cidadania e se focaliza em acessar privilégios e direitos através de caminhos legais. Pelo mesmo modo. Em argumentar que mulheres deveriam aceitar uma versão de liberalismo de Kant nas lutas pela igualdade. conforme servem suas necessidades e interesses.. mais também. A descrição dela parece. Aqui Nussbaum presume que a “razão” é o suficiente para combater prejuízo e sexismo. “exatamente como as sufragistas acharam o voto inadequado para conseguir uma transformação nas hierarquias de gênero. captura o caráter escolhido e transnacional de algumas formas de cidadania contemporânea no modelo de “cidadania flexível.. pela exclusão de mulheres e minoridades sexuais. e de fato exclusão a acesso de cidadania. complicado.

Na mesma linha. argumenta pela inseparabilidade de violência. crime. que examina o papel de cidades vis-à-vis cidadania. Phelan propõe que gays e lésbicas nos Estados Unidos são “estranhos”—nem parte de “nós” nem parte de “outros.)..” nem “inimigos. por exemplo. 243 . tanto quanto em outros lugares. nascimento. também são entendidas como espaços que podem responder com mais violência a demandas pela inclusão. a “estranha” é numa posição liminal. Como coloco aqui. cit. focalizam sua introdução a uma coleção recente. especificamente. no Brasil. Ao demonstrar que cidadania tem relação com “o reconhecimento que. Outro jeito corrente de conceitualizar a cidadania se concentra menos em elaborar modelos de que a cidadania é ou deveria ser e mais em impedimentos à cidadania na prática e.” Esse modelo se focaliza dentro de fronteiras nacionais e em pessoas que são. Um modelo final de cidadania que é particularmente importante para teorizar a posição em que pessoas GLBT frequentemente se encontram é a utilização de Shane Phelan (2001) do conceito de Bauman (1991) de “a estranha. nenhum dos dois modelos é apropriado para considerar a posição de pessoas GLBT-identificadas. cidadãos legais.” Mais propriamente.:5). a analise de Phelan preenche a lacuna deixada por outros acadêmicos.[e] violência” (ibid.se deveria ser reconhecido” (2001:14).. tecnicamente. Ao tratar a questão de pessoas que.” nem “amigos. Teresa Caldeira. por sangue. e encontros nos espaços públicos. o modelo de Phelan providencia um modo interessante e realisticamente útil para começar a pensar sobre cidadania lésbica no Brasil.eram incapazes de ajustar e entender às exigences de cidadania globalizada. no seu excelente trabalho sobre Aqui. É esse modelo que mais pode ser aplicado ao curso de cidadania das lésbicas brasileiras que trato aqui.. ou naturalização. Holston e Appadurai. na violência urbana. Argumentam que “pessoas usam violência para elaborar demandas da cidade e usam a cidade para elaborar demandas violentas” (1999:16). a análise de Phelan chama atenção à separação atual entre cidadania de jure e de fato nas vidas de muitos Americanos. encaixam nos requisitos de cidadania. que cause mais ansiedade (op.. conceitualizadas como espaços que podem permitir mais variação de cidadania. mas que por vários motivos não têm acesso à essa cidadania. na violência. embora cidades são segregação e cidadania em São Paulo (2000). Em outras palavras. Phelan sugere que “a distância da estranha de inclusão cultural a faz vítima continua de exclusão.

durou 10 semanas. e as participantes se reuniram todos dos sábados (menos feriados) por 3 horas para participarem de palestras ministradas por pessoas com experiência acadêmica e/ou profissional sobre assuntos distintos com o auxílio de leitura de textos previamente selecionados. e a inclusão de companheiras em planos de saúde. A suposição extremamente idealista atrás do curso se pautava na ânsia de que atores socias “capacitados” poderiam derrubar sistemas opressivos com o seu conhecimento. têm mais a ganhar por confiar em “razão. não em montar um desafio às regras do sistema. Os direitos principais discutidos em conjunção com cidadania no curso foram: casamento/união civil.Le. adoção. providenciaram uma parte da motivação do curso. Embora esses direitos e outros direitos não disfrutados por participantes do curso e. por extensão. e não em gahnar direitos específicos. Em contraste aos atores sociais de Nussbaum. outros grupos marginalizados.O Primeiro Curso de Cidadania Lésbica O primeiro curso de cidadania lésbida de Mo. De fato.Ca. parece encaixar (1999). estes não constituiram o motivo principal. As participantes no curso de cidadania de Mo.Ca.Le. não estavam preocupadas principalmente em mudar as idéias da população ou em iniciar debates públicos sobre problemas de preconceito ou homofobia. que mulheres e.Le. Ao contrário. entre o dia 13 de março 2004 até o dia 29 de maio de 2004.Ca. embora o grupo sim lide com esses problemas em outras atividades. mas em aprender jogar com tais regras tão bem que não poderiam mais ser excluídas.” era a conclusão pre-determinada do curso. participantes atribuiram sua incapacidade de acessar esses direitos inteiramente à falta de acesso a cidadania total. Que esses atores novamente capacitados intelectualmente poderiam acessar uma inclusão total na vida pública. guarda de crianças. sendo isso o que as participantes entendiam por “cidadania.” ao contrário de tentar mudar hábitos. as participantes procuravam se capacitar para trabalhar dentro do sistema legal brasileiro. as mulheres de Mo. Vale pontuar que a atmosfera das reuniões do curso não era composta por mulheres sem poderes buscando adquirir meios de obter um status de cidadã geralmente negado. por outras lésbicas brasileiras. No lugar desse focus. o curso se tratava de providenciar para as mulheres a capacidade—o conhecimento—de serem atores sociais empenhados. E é aqui que a sugestão de Martha Nussbaum. porém o discurso de direitos esteve presente. O conceito de cidadania promulgado durante o curso não girava em torno de direitos. Como demostram 244 . por extensão. se concentraram em ganhar acesso a cidadania. herança.

de cidadania no Brasil. Luce Irigaray. Cidadania da Mulher Lésbica. idéias foram criticadas mais frequentemente. historicamente e contemporaneamente. e Judith Butler. e Brasileira. participantes de Mo. e.” participantes sempre lembravam da sua posição liminal na sociedade brasileira. vários textos escritos por estrangeiros eram incluidos: por exemplo.” Na procura do papel de “cidadã lésbica ideal. mas diariamente impedidas de acessar esse papel—na posição de “estranha” definida por Phelan (2001)—era o problema principal a ser resolvido no curso. mas no que poderiam significar para a luta por cidadania total. Mulheres na Sociedade Brasileira. Outros autores discutidos. gerando mais espaço para debater o que poderia significar ser uma “cidadã lésbica. Homossexualidade e Legislação Brasileira. Leituras para cada semana eram dirigidas a tópicos específicos julgados importantes para formulações de cidadania lésbica incluindo as seguintes temáticas: Constituções Brasileiras. Ou seja.” Nem todos os textos utilizados eram pro-lésbicas. 245 . tanto quanto históricos. nem simplesmente familiaridade com o “inimigo. tanto quanto os antropólogos Margaret Mead e Gilbert Herdt. as participantes leram vários textos. Muitos dos textos continham idéias distintas. Monique Wittig. embora reticente a aceitar um ponto de vista biologizante vis-a-vis sexualidade. mais não lidos diretamente. não no mérito intelectual. Movimentos Sociais: Cidadania e Direitos. definiam e entendiam que eram legalmente cidadãs brasileiras. o focus era sobre o que significava ser uma “cidadã” no Brasil. por Peter Fry e por Michel Foucault. e. o mais importante. o primeiro artigo na apostila do curso foi uma discussão caústica entitulado “Diga Não ao Casamento Gay. Por exemplo. as participantes utilizaram as idéias baseado na sua utilidade para o projeto de criar uma cidadania viável no Brasil.Ca. Em ponto de fato. cada artigo foi examinado para entender a relevância das idéias para cultivar uma identidade como cidadã. como se poderia unir os dois—em outras palavras.as leituras do curso. por último. Embora muitos dos autores lidos no curso fossem brasileiros.” O que as mulheres ganharam ao discutir essas matérias não foi somente um arsenal de conceitos teóricos. Ao final.” Mas precisamente. lésbica.Le. Para começar um processo de abandono dessa posição liminal de “estranha” e acessar participação total na vida pública. como se poderia teorizar gênero e sexualidade lésbica. não estavam simplesmente procurando ganhar direitos específicos. mulher. e as vezes. contraditórias. procurando entendimentos contemporâneos. incluiam as feministas Simone de Beauvoir. como virar uma “cidadã lésbica.

“essencialismo estratégico” se consta em “geralizações temporárias que frequentemente são necessárias no estabelecimento de instituções sociopolíticos como campos de pesquisa e movimentos políticos” (2004:477). O resultado esperado era que as participantes saíssem do curso não só com conhecimento detalhado das oito constituções brasileiras e as idéias de cidadania encapsuladas em cada ou com maior entendimento de teórias “da moda. O curso de cidadania buscou providenciar o primeiro passo imprescindível nessa preparação. Letícia colocou a questão assim: “têm muitas pessoas que têm respostas biologizantes [para questões de sexualidade]. era acessível somente se se preparassem completamente. e algumas com certeza não) que estavam lutando por uma coisa que era delas por direito—que não estavam pedindo privilégios especiais. Gostaria agora de sugerir que. participantes no curso frequentemente contextualizaram seu projeto de cidadania como uma batalha numa guerra internacional para igualdade e se referiram a exemplos como a revolta de Stonewall em 1969 como uma inspiração. tais posições poderiam debilitar a viabilidade de demandas por cidadania por fazer com que as lésbicas pareçam ter escolhido o papel de ‘desviantes’. idéias biologizantes eram repudiadas.” Como Bucholtz e Hall explicam.Ca.Le. além de intervir não somente no nível pessoal ou só no nivel Estadual para tentar mudar sua situação.. em vez 246 .participantes eram igualmente duvidosas ao respeito de um ponto de vista construtivista-social.” mas também com a crença (se já não possuiram.. Embora relutante a aceitar a idéia que todas as lésbicas são intrinsicamente parecidas ou que todas sofrem precisamente o mesmo tipo de discriminação. promovida não só no curso.. mas também nas outras atividades de Mo. específicamente de lesbianismo. Ao contrário de abordar profundamente questões de sexualidade ou identidade sexual. Da mesma forma...mas acho que são um problema. as mulheres de Mo.. se argumentos para a construção social de sexualidade fossem aceitos e a “naturalidade” de sexualidade lésbica fosse questionada. Algumas questões foram ressaltadas nas discussões do grupo. participantes escolheram se concentrar em como a “cidadã” foi compreendida no Brasil e como poderiam aprender a exercer esse papel. Mais importante ainda. é um exemplo perfeito do que Spivak (1995) chamou “essencialismo estratégico. além de ser delas por direito.. porque poderia começar falar da seleção natural e vai acabar falando em coisas bastante féias.Le.como com Hitler. entre elas a idéia que..mas a gente sabe que não existe um tipo de humano melhor.Ca. participantes aprenderam que cidadania.” A visão de sexualidade e.

Ca.de internalizar e utilizar concepções de propriedade. mais interessante sobre o tipo de cidadania que está sendo elaborado aqui é a impossibilidade de compreende-lo através dos modelos acadêmicos mais conhecidos. De fato. estão tomando o papel de cidadã. talvez. As participantes 247 . Embora Phelan tenha desenvolvido o modelo para teorizar a posição precária de gays e lésbicas nos Estados Unidos. é iqualmente verdade que. de “estranha.” O que é.Le.” Tal descrição lembra da contenção de Lister que cidadania “se opera simultaneamente como mecanismo de inclusão e exclusão e também com idioma de ambos disciplina e resistência” (2003:4-5). não encaixam facilmente com a maioria de entendimentos de cidadania. Mo. As noções de cidadania promovidas aqui..Ca.Le. De fato.” Mais adiante. Conclusão Tenho tentando esboçar os aspectos mais importantes de um curso pioneiro de cidadania promovido recentemente por um grupo de ativistas lésbicas no interior de estado de São Paulo. Se as participantes de. mas em contrapartida disputa idéias dominantes sobre quem pode e deveria participar no forum público. estão re-escrevendo esses concepções e recusando o papel de outro marginalizado—ou. e a posição das mulheres de Mo. em tomar cidadania como algo verdadeiramente delas.Ca. é um dos poucos modelos que procura entender a divisão atual entre cidadania de jure e de facto. Tão projeto indica uma forma nova de ativismo social—em que atores individuais tentam ganhar inclusão na vida pública por virar “cidadãos ideais. as noções de cidadania promovidas durante o curso são progressivas e conservadores—obrigando resistência tanto quanto capitulação.Le. A “cidadã ideal” elaborada nesse curso assumiria então o papel através do esforço concentrado em dominar os entendimentos de cidadania operando no Brasil contemporâneo. Embora seja verdade que as participantes no curso de cidadania fizeram pouco para desestabilizar cidadania como um lugar principal de exclusão ou inclusão no Brasil. como uma forma de enfrentamento a essas mesmas exclusões. o modelo da “estranha” de Phelan (2001). este se ajusta com o curso de Mo. cidadães lésbicas capacitadas poderão frustrar qualquer tentativa de excluílas da vida pública por virarem a sempre-incluída “cidadã ideal. virar uma cidadã ideal não simplesmente inclui capitulação. Porém. o modelo que utilizei aqui. têm razão.. essas mulheres estão recusando a permanecer “estranhas” e estão exigindo a ser tratadas com a mesma dignidade e respeito que outros brasileiros. um papel tradicionalmente negado para elas.

Le. não com alguma teória específica. vai requerer mais tempo e esforço.” claro. Quando pedí que Ana explicasse o que se aprende em um curso de cidadania. Esse projeto também vislumbra providênciar um exemplo de essencialismo estratégico em ação. que tem pouco a ganhar pelo projeto de cidadania em entrar em debates sofisticados sobre a sexualidade lésbica. A importância desse trabalho então. Longe de serem vítimas passivas de exclusão estadual.entendiam que não eram precisamente “incluídas. e até mais prioritariamente. as mulheres tratadas aqui assumem responsibilidade para mudar sua posição e o fazem sem desculpar o Estado. importantemente.Ca. têm julgado. mas. nem com algum dado e tampouco com um esboço de como seria uma cidadã lésbica incluída. ela respondeu. não são crentes ingênuas em uma idéia de “irmandade” universal entre lésbicas. A procura por cidadania participatória e total de Mo. provavelmente corretamente. Mas as lições desenvolvidas durante o curso não serão esquecidas pelas participantes tão cedo. mas de forma simples e profunda com “como viver bem. mas ao mesmo tempo reconheceram que não viviam em uma posição de “inimigas” também não. pode não achar sucesso. mas também.Le. tanto quanto um pouco de sorte.” 248 . Participantes de Mo.Ca. não está somente relacionada a análise. Provavalmente. ao fato de privilegiar as experiências vividas de mulheres individuais tentando resolver questões de cidadania.

Elshtain. Malden. 1-18. New York: Palgrave MacMillan. Gender. New York: Routledge. Sexuality and the US Military. 1991. 46. Oxford. eds. James and Arjun Appadurai. Donna Landry and Gerald MacLean. The Spivak Reader. 1990. Francine. 2004. James Holston. Modernity and Ambivalence. Ltd. 2000. ed. Jean Bethke. City of Walls: Crime. Citizenship: Feminist Perspectives. Berkeley: University of California Press. Ruth. 33:469-515. Race. Politics and Social Theory. Zygmunt.” pp. 1. MA. Sex and Social Justice. New York: Basic Books. vol. eds. 105-122. and Victoria. “Cities and Citizenship. Theory. 1987. Jean Bethke Elshtain and Sheila Tobias. Shane. Nina Glick and Georges Fouron. Holston. Aihwa. Second edition. Mary and Kira Hall. UK. Schiller. New York and Oxford: Oxford University Press.” pp. Linda K. Stewart. 2003. in Women. Ithaca. D’Amico. Susie Jacobs. eds. Philadelphia: Temple University Press.89103. Teresa Pires do Rio. Ruth Jacobson.” pp. 2001. Savage. 2002. “Long-Distance Nationalism Defined. in The Anthropology of Politics: A Reader in Ethnography. 1999.Referências Bibliográficas Bauman. Phelan. Bucholtz. “Theorizing Identity in Language and Sexuality Research. Joan Vincent. Nussbaum. Ong. Militarism. Angus. Segregation. Flexible Citizens: The Cultural Logics of Transnationality. Martha. Violence and Resistance. New York: Cornell University Press. MD: Rowman & Littlefield. Sexual Strangers: Gays. Kerber. and Critique. Ltd. AU: Blackwell Publishing.” in Language and Society. “Two Conceptions of Citizenship. Caldeira. 1999. and Dilemmas of Citizenship. Women and War. Durham and London: Duke University Press. Durham: Duke University Press. “May All Our Citizens Be Soldiers and All Our Soldiers Citizens: The Ambiguities of Female Citizenship in the New Nation. in The British Journal of Sociology. in States of Conflict: Gender. Lister. “Citizen-Soldier? Class. ed. Spivak.” pp. 1995. and War: Essays in History. 2000. and Jennifer Marchbank. 249 . 1999. Lesbians.” pp. Gayatri. and Citizenship in São Paulo. 356-365. no. 63-78. London and New York: Zed Books. in Cities and Citizenship.

principalmente quando contrastado a um “elemento” transformador: uma outra performance inserida nos salões por jovens dançarinos. classe. onde categorias como gênero. negros.com. contra o envelhecimento. moradores da periferia que são contratados. Os homens freqüentadores antigos dos bailes aludem a um “tempo áureo” da gafieira onde o “romantismo” estava presente no modo como abordavam ou conduziam as “damas nos salões”. O interesse primordial é analisar as representações masculinas e femininas nesses espaços de relações e refletir sobre o caráter polissêmico da idéia de tradição associada ao contexto em estudo. etnia e geração se transformam continuamente. as quais são freqüentadas. majoritariamente. por homens e mulheres com mais de 60 anos de idade. por meio da dança de salão. mesclando-se em uma natureza diversa própria daqueles que dançam.UFRJ E-MAIL: virna_plastino@yahoo.AUTOR/A: Virna Virgínia Plastino INSTITUIÇÃO: Museu Nacional . no qual os freqüentadores expressam um certo apego à vida em um embate contra o tempo. para acompanhá-las nos bailes. a exaltação da “idade de ouro” coexiste com reformulações no sistema classificatório nativo.br TÍTULO: Dança com hora marcada: geração e gênero nos bailes de dança de salão. RESUMO: Nesta comunicação pretendo discutir como as formas contemporâneas de masculinidade e feminilidade são elaboradas. Nesse movimento de viver. nas academias localizadas em bairros nobres da cidade. 250 . em “gafieiras” localizadas no centro da cidade do Rio de Janeiro. Já as mulheres concebem o “jeito tradicional” de dançar como fonte de monotonia e de repetição.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful