Da esquerda para a direita: Psicóloga Vanessa de Andrade Manoel, Coordenadora do PPA Salete Cecília de Souza, Pró Reitor de Ensino

Mauri Luiz Heerdt, Coordenador de Pesquisa Rogério Santos da Costa e Professora na PUC de Minas Gerais Nivânia Maria de Melo Reis.

Texto: Aline Takaschima Fotos: Cristina Souza dia acordou ensolarado e altivo na Cidade Universitária Pedra Branca na última quarta-feira, dia 28 de setembro. Os acadêmicos, professores e funcionários da UNISUL, demais convidados, bem como participantes da comunidade puderam contemplar a bela manhã com diálogos e questões no Seminário acerca da acessibilidade e inclusão de pessoas com necessidades específicas dentro da universidade. O Professor Jaci Gonçalves declarou para os que ali estavam presentes sobre sua emoção de estar em tal encontro “depois de 44 anos trabalhando com a cultura da pessoa com deficiência.”

O

A abertura ficou ao encargo do Coordenador de Pesquisa, professor Rogério Santos da Costa. Com uma saudação entusiástica, e rodeado por colegas de peso da instituição o professor declarou para os presentes e para a câmera: “Sejam todos bem vindos!”. O mediador da programação agradeceu ainda a FAPESC – Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina, ao CAPs – Centros de Atenção Psicossocial, ao CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, e ao MEC – Ministério da Educação. Desta forma foi dada a largada, às 09h30min da

manhã, o debate sobre a inserção de pessoas com deficiências. O evento matinal promovido pelo Programa de Promoção a Acessibilidade – PPA teve a participação de alunos dos mais diversos cursos dentre eles fisioterapia, jornalismo e psicologia que encheram o auditório do bloco C. O momento ainda contava com a presença de um intérprete de libras, José Carlos Ferreira Souza, que atuou na comunicação daqueles que não podem ouvir. A participação não se restringiu apenas ao espaço físico do campus da Pedra Branca. Foram instaladas televisões na Orionópolis e UNISUL Tubarão. Os Internautas acompanharam através da Unisul Virtual contabilizando mais de 150 acessos no momento do evento. O primeiro a tomar a palavra a respeito das ações positivas da instituição foi o PróReitor de Ensino, Mauri Luiz Heerdt. “Nós precisamos acolher as diferenças, e formar uma universidade inclusiva. Há diferentes pessoas que precisam e podem circular em nosso meio.” Mauri ainda apontou à importância do olhar externo ampliado à questão, e as condições políticas que devem propiciar mudanças positivas para esta demanda. A Gerente de Ensino Pesquisa e Extensão, Dra. Regina Dutra, reiterou sobre a luta cotidiana dos que nadam contra a maré em prol de amplas mudanças para a inserção de pessoas com deficiências. “A universidade não pode impedir e dificultar o acesso aos que tenham uma necessidade especial. É um esforço e desafio diário.”

Intérprete de Libras José Carlos Ferreira de Souza. A direita: bancada de professores e coordenadores.

Houve uma troca de experiências entre os representantes do PPA e a professora mestra, Nivânia Maria de Melo Reis. A convidada é atuante no NAI – Núcleo de Apoio à Inclusão do Aluno com Necessidades Educacionais Especiais, da PUC de Minas Gerais. A professora relatou sobre as conquistas e desafios na inserção de alunos com deficiências na universidade. “A universidade Inclusiva não é simples, não é projeto barato nem tranqüilo e é uma luta constante.” Nivânia ainda confidenciou com sorriso no rosto, como quem não se abate nas adversidades enfrentadas: “Quanto mais o trabalho vai ficando bom, mais trabalho a gente tem”. O aumento da demanda de trabalho e desafios é constatado também na Universidade do Sul de Santa Catarina. Vanessa de Andrade Manoel, coordenadora do PPA na Unisul Virtual, destaca com felicidade nos olhos a importância do evento. “É um registro, um marco na mudança da postura da Universidade. O processo é lento, mas estamos construindo um espaço.” Salete Cecília de Souza, coordenadora do PPA, explica sobre a construção do programa na instituição. “Em 2001 e 2002 foram jogadas as sementes no sol da UNISUL. Nós fomos regando as sementes todos os dias. Em 2004, surgiu o Programa da Acessibilidade. Hoje existem cerca de

200 alunos com deficiências estudando na Unisul”. A coordenadora ressalta o árduo trabalho diário para sensibilizar a universidade e a constante luta em equipe para acolher mais pessoas com deficiências que possuam o desejo de estudar: “Todos os dias nós estamos trabalhando. Há uma série de atuadores neste processo.” Nivânia apontou uma série de ações tomadas pela PUC de Minas Gerais, que favorecem a inserção de pessoas com necessidades específicas. A sociedade inclusiva, por exemplo, através de um grupo de professores e alunos visa levar aos indivíduos com deficiência na comunidade uma série de benefícios: cursos de capacitação para professores, curso de primeiro emprego com pessoas com deficiência, curso de domínio de teclado de digitação de pessoas cegas, entre outros. Existe ainda o Curso de Pedagogia com ênfase em necessidades educacionais especiais realizado dentro da PUC para professores da instituição. O curso de especialização virtual inclusiva é realizado pela PUC Virtual. Além da capacitação de quase 14 mil professores da rede pública em educação inclusiva. “É um trabalho abrangente, mas buscamos atender esta demanda.” Para as coisas darem certo deve existir um compromisso institucional que permita com que as coisas aconteçam, pondera a professora. O propósito não é apenas seguir leis e portarias que exijam a garantia dos direitos das pessoas com deficiências, e sim uma equiparação de oportunidades. “O aluno é da universidade, é de todos nós.” E ainda complementa: “O envolvimento de toda comunidade acadêmica é importante.” Esta premissa de envolvimento da comunidade acadêmica na Unisul foi constatada, para a alegria dos presentes, no próprio evento matinal que ali estava sendo realizado.

A professora de fisioterapia e assistente de extensão da Unisul questionou sobre o compartilhamento e interação entre graduandos da área da saúde, para um possível acompanhamento de casos, e estudantes com deficiências. A representante da PUC diz que existe uma ligação com as clínicas da própria universidade. Os alunos com necessidades específicas recebem diversos tratamentos: fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, entre outros. Além de estar acompanhados, na medida do possível, de estagiários que acompanham o caso. Luciano Bittencourt, professor e coordenador da UnA – Unidade de Articulação Acadêmica das Ciências da Educação, Humanidades e Artes, destacou que “as discussões relacionadas ao processo de formação de pessoas com deficiência relacionado a integralização curricular ainda não ocorreram no âmbito institucional.” Luciano ainda questionou a Nivânia se existe na PUC Minas Gerais, “ações ou estratégias que estão sendo discutidas no processo de formação dos estudantes que se encontram nas instituições de ensino” sobre o tema. A professora frisou que tais ações e estratégias não estão institucionalizadas, todavia elas acabam ocorrendo à medida que surgem questões emblemáticas. Em certo momento, uma aluna cega da PUC precisou amputar as duas pernas. A estudante andava com cadeiras de rodas, passando a utilizar muletas posteriormente. Os colegas de sala ficaram com pena da acadêmica, e exigiram da universidade uma postura de auxílio. “Vocês devem fazer “isto”. “Vocês devem fazer “aquilo”. Nivânia conta que o NAI conversou com os alunos sobre o caso. A menina iria receber os auxílios sim, afinal são direitos que ela possui como indivíduo. Houve uma mudança na postura da sala. Os estudantes saíram da postura de

caridade para chegarem ao local de direito. Os temas expostos e as vitórias conquistadas pela PUC de Minas Gerais ao encontrar soluções e meios para atingir seus devidos fins ocorreram com muito “jogo de cintura” e “descoberta de estratégias”, como a própria professora afirma. Nivânia conta que uma vez organizou um relatório sobre as dificuldades arquitetônicas que cada campus possuía. Um elevador com porta, por exemplo, é sinal de problema para os cadeirantes e portadores de muletas. Ao adentrar o ascensor, a pessoa com deficiência recebe um empurrão da pesada peça que não espera convite para fechar abruptamente. Alguns alunos questionam: “mas tem rampa!” A professora rebate: “tente subir uma rampa todos os dias sentado em uma cadeira de rodas.”

corredor, pois a aluna não conseguia segurar o lado no qual o corrimão se encontrava. A responsável pelas mudanças arquitetônicas então comentou: “Não é que eu não tinha pensado sobre isso?” Aos poucos a percepção da arquiteta foi se modificando em relação às questões apresentadas. Para a moça, um cego não possuía dificuldades em andar no campus, ao percorrer o espaço com as pessoas com deficiência ela acabou antecipando os problemas. “Cuidado senão você pode cair!”. Depois do episódio, foram conquistas uma série de melhorias arquitetônicas. Os estudantes de arquitetura tiveram sua sensibilidade e percepção perante estas questões ampliadas da mesma forma que a arquiteta. Em uma palestra ministrada pela professora Nivânia, não existia a compreensão pelos alunos sobre a importância e o peso que o tema possuía. Os futuros arquitetos então foram convidados a andar pelo campus com bengalas, cadeiras de rodas e olhos vendados para sentir na pele o dia-a-dia de pessoas com deficiência. Ao retornar a sala os participantes eram outros. Conseguiam entender a relevância sobre as questões apresentadas. A professora da PUC então concluiu: “Não é que eles não tenham sensibilidade, e sim é uma questão de vivência para conhecer a realidade do outro.”

Estrutura da Unisul Virtual transmitindo ao vivo via web.

O documento com as dificuldades no espaço físico encontradas na PUC foram levadas a arquiteta responsável. No primeiro momento, a profissional demonstrou incredulidade com todos os problemas apresentados. Esta visão logo mudou quando um grupo de alunos com deficiência convidou a arquiteta para fazer um tour pelo campus. Uma menina hemiparética, com déficit de movimento, mostrou à profissional que o corrimão deveria percorrer ambos os lados do

Da Inserção ao Protagonismo
O professor Jaci Gonçalves chamou a atenção sobre “a participação das pessoas com deficiências no sentido de sua valorização como protagonistas dos movimentos de transformação.” Ainda compartilhou uma bonita história sobre o primeiro aluno cego da Unisul, Jean Schutz. Na apresentação de seu TCC aos gestores do campus após sua formatura, o reitor declarou ao aluno: “Em todo o meu

tempo de reitoria você foi quem me mandou o e-mail mais desaforado.” O formando ficou perplexo, mas o reitor ainda concluiu para alívio e orgulho do aluno: “Mas nessa sua atitude, você nos ajudou a obedecer à lei, pois você pediu para nós obedecermos à lei.” Jaci Gonçalves falou sobre a importância das pessoas na criação da própria história, e superação desta sociedade inclusiva para a participativa. Para Nivânia, “Os alunos são atuantes, vão em busca do direito, das mudanças necessárias. É visível e interessante a movimentação e organização deles.” Exemplo de autonomia na criação da própria história é a de Rodrigo Malta. O Aluno do curso de especialização em docência do ensino superior na PUC Virtual, não entendia com clareza o DVD de vídeo aulas pelo fato de ser surdo. Pediu ajuda ao NAI e recebeu o DVD traduzido para libras com dois intérpretes. Hoje em dia é professor da PUC em diversos cursos como fonoaudiologia, pedagogia e letras. Tal pensamento não se encontra apenas entre alguns indivíduos. Inúmeras pessoas com necessidades específicas não se posicionam como os “coitadinhos” da história, nem como os “super heróis”, pólos extremistas personificados no discurso midiático e senso-comum. Jackson, aluno cego da engenharia ambiental na Unisul, afirma que a pessoa

com deficiência não é tão diferente da outra considerada “normal”. O estudante pondera a função da universidade no processo de adaptação ao espaço, entretanto faz uma objeção ao afirmar que a instituição deva “tirar a dependência do aluno”. O acadêmico não descarta a importância dos discentes com deficiência física correrem atrás dos materiais exigidos. É um compartilhamento mútuo, todavia as pessoas devem ser protagonistas do caminho trilhado que escolherem. O evento foi cercado de pessoas imbuídas em um espírito de mudanças positivas na qualidade do ensino, vivência e inserção dos alunos com deficiências. A platéia presente não hesitou em aproveitar a oportunidade para conhecer os caminhos percorridos e os obstáculos enfrentados por estes guerreiros que estão à frente dos programas sociais; tanto coordenadores e visionários de projetos quanto acadêmicos com necessidades específicas que lutaram para chegar a uma universidade. Segundo Nivânia, “Se não há um movimento e atitude pró-ativa as coisas no Brasil demoram a acontecer.” Os atuantes neste processo abraçaram a causa e lutam diariamente por melhorias gradativas. Seus frutos já podem ser vistos e sentidos em ações transformadoras, como o encontro realizado na manhã ensolarada de quartafeira no Seminário de Pesquisa, Observação e Aplicação Inclusiva (Programa PPA).

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