Imagem: Luiz Fernando Cavalcante

O Seminário sobre inserção e protagonismo de pessoas com necessidades específicas motiva e aprimora o Programa de Promoção a Acessibilidade da Unisul.
Texto ● Aline Takaschima Direção de Arte ● Aline de Oliveira Núcleo de Pesquisa Revitalizando Culturas Unisul Pedra Branca

P

rimavera é asso-

ciada a renascimento e juventude. A natureza almeja a temporada para a constante renovação da vi-

da. Flores desabrocham, pássaros cantarolam, animais saem de suas tocas e o sol altivo resolve dar as caras. Os primeiros sopros da estação começaram a emergir na Unisul Pedra

Branca em setembro. O Seminário sobre a inserção de pessoas com deficiência na universidade, na última quarta feira do mês, dia 28, trouxe esperança e energia pela contínua luta que se desdobra e se vence dia após dia. Os coordenadores e professores vinculados ao projeto PPA – Programa de Promoção a Acessibilidade, alunos com deficiência que não se abatem em meio às adversidades e acadêmicos sensíveis à causa reuniram-se para uma palestra matinal com a professora mestra convidada, Nivânia Maria de Melo Reis. O evento matutino você pode conferir aqui *. A conferência foi precedida por uma conversa e chá da tarde, ocorrida no começo da tarde, entre docentes e acadêmicos. O evento perdurou até o último minuto possível, sendo finalizado às 19h, horário no qual os professores deveriam ministrar suas aulas noturnas na Unisul.
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O encontro contou com a mediação da coordenadora do PPA na Unisul Virtual, a psicóloga Vanessa de Andrade Manoel. Os professores reunidos no Auditório do Bloco C compartilharam suas vivências em sala de aula com alunos que possuem alguma deficiência. O primeiro a falar foi o professor/mestre de Educação Física e Coordenador de Eventos da Unisul, Geraldo Campos. O docente enfatizou logo no começo da conversa que não enxerga as pessoas com necessidades específicas como se possuíssem alguma diferenciação com as ditas “normais”. Afinal, segundo o professor, “todos têm deficiências, dependendo do momento da nossa vida ela vai se aflorar mais ou não.” Geraldo afirma que “as minorias são as maiorias e são tratadas de forma diferenciada e não de forma igualitária.” Desta forma o professor frisa a importância do PPA neste caminho. “Tem um papel e uma responsa-

bilidade muito grande.” Geraldo conta que atua com atletas com deficiência no grupo Equipe do OMDA, no setor de gestão estratégica e redes sociais. Lecionando em salas heterogêneas, o professor possui um leque abrangente de experiências diversas e convive com esta realidade há 6 anos. “Não consigo pensar que se tiver alguma tabela abaixada alguém pode se machucar”, conta o profissional de educação física. Já participaram de suas aulas: autistas, pessoas com Síndrome de Down, deficientes físicos, cegos e com baixa visão, com esquizofrenia, paralisados cerebrais e transtorno bipolar. Geraldo acredita que a construção para o ensino está na convivência. “A relação em sala de aula é mais significativa do que conhecer o histórico de deficiência.”

Vivência e Construção
Augusto, um jovem garoto estudante de educação física, possui paralisia cerebral e foi aluno de Geraldo. O acadêmico não fala e necessita andar em cadeiras de rodas. Com todos estes fenômenos agregados muitos poderão se questionar: O que ele está fazendo em uma universidade? Embora não fale, Augusto se comunica através do computador e possui a mesma capacidade intelectual de um calouro da mesma idade. O adolescente vai a shows e conversa com amigos via computador. A internet e as redes sociais auxiliaram o estudante e foram utilizadas como ferramenta de trabalho. Augusto pode participar das aulas interagindo com os colegas de sala. O acordo foi com que os alunos levassem os seus computadores e que se projetasse 2 data shows. Um era o Augusto no MSN, se comunicando com os demais, e

Da esquerda para a direita: Prof. Marciel Evangelista Cataneo, Prof. Luciano Bittencourt, Coordenadora Vanessa de Andrade Manoel, Profª. Cláudia Reis, Prof. Geraldo Campos.

o outro o conteúdo da aula. Segundo Geraldo, “foi interessante, pois gerou um envolvimento maior da turma”. O segundo passo rumo à autonomia foi à eliminação do papel do acompanhante em alguns momentos dentro da universidade. O professor/mestre de educação física conta que a presença constante de uma segunda pessoa “muitas vezes limita as relações dos alunos e suas inter-relações com os outros.” Para realizar as avaliações da turma foi proposto a utilização dos recursos do Google docs. O que deveria ser feito era transpor para o formulário online as questões da prova. Este simples ato gerou frenesi na sala de aula, pois saía do cotidiano já estabelecido. Após aprender como utilizar a ferramenta todos puderam trabalhar da mesma forma. Apesar de todas as limitações, Augusto, muitas vezes, terminava a prova primeiro que o restante da sala.

Geraldo comentou sobre uma aluna americana de intercâmbio que possuía baixa visão. Para auxiliá-la, o profissional de educação física dava aula praticamente bilíngüe, escrevia tanto em português quanto em inglês. As palavras inglesas eram escritas com uma cor de fácil identificação para a estudante. Aos finais de semana, o docente e sua esposa, professora de inglês, iam a um café ensinar os conteúdos da matéria à aluna de maneira mais profunda, com o auxílio de uma tradutora. Geraldo afirma que, caso não exista uma estratégia definida as coisas podem ser construídas. “Cada um vai modelar de uma forma (as ações) pelas suas percepções, as estratégias aparecem quando a gente está aberto e disposto a conversar.” Sem titubear afirmando o que diz com a certeza de suas próprias experiências, conclui: “As coisas vão sendo construídas”.

Outra questão abordada pelo professor são os desafios relacionados aos sucessos e possíveis fracassos que o aluno terá depois de formado. “Até que ponto o benefício de alguém no mercado de ações terá atuação naquela área?” O professor destaca o caso de Augusto. Mesmo sem poder falar nem se locomover, o estudante gostaria de ser treinador de futebol. Esta vontade, infelizmente, está longe de ser cumprida, devido às dificuldades encontradas. Entretanto, Geraldo acredita que Augusto, como tantas outras pessoas com deficiências podem “conseguir trabalho com as competências possíveis dentro dos seus limites”.

“O que essencialmente constitui a formação?”
Em seguida foi à vez de Luciano Bittencourt, profes-

sor da Unisul e coordenador da UnA – Unidade de Articulação Acadêmica em Educação, Humanidades e Artes, compartilhar as experiências que vivenciou. O professor lidou com dois alunos cegos. Em sua primeira experiência Luciano lecionou ao aluno Jean Schutz. O professor acreditava que não possuiria dificuldades em sua didática, pelo fato de sua matéria trabalhar com o som. Algumas mudanças simples começaram a ocorrer dentro da sala de aula. Luciano afirma que começou a se policiar quando falava e escrevia ao quadro, por exemplo. Estas pequenas dificuldades e empecilhos eram vencidos pelo aluno que preenchia estas lacunas não hesitando em perguntar e avisar ao professor quando não compreendia algum tema. “Jean demonstrava muita eficiência em relação à que fazia todos os exercícios, que leu e entregou todas as resenhas”, conta Luciano. To2

Imagem: Jornal Fato e Versão

Prof. Luciano Bittencourt

davia, o estudante não trazia nenhuma referência e perspectiva pessoal. O acadêmico tentava suprir suas limitações respondendo “aos padrões técnicos e às questões consideradas formais.”. Este exemplo ilustra uma problemática que deve ser discutida dentro da instituição de ensino. Segundo Luciano, “a gente ainda trabalha a partir de uma reprodução de ideia de cultura e mundo excessivamente racional e lógico.” Este modelo não é mais compatível com a realidade vivida no mundo atual. As disciplinas precisam valorizar as percepções percebidas e entendidas pelo aluno. Mas como ter condições de dar uma resposta se não a reconhecem? O professor ainda lamenta “a perda do contato com a filosofia, artes em geral” que imbuem o indivíduo para uma “série de referências” e maior sensibilidade e clareza. Luciano afirma que a constituição dos currículos

são extremamente formais não englobando de maneira plena a apreensão de conhecimentos. “Botamos alguns conteúdos que consideramos obrigatórios, mas eles não são obrigatórios.” E ainda complementa. “A escolha dele não deve ser obrigatória”. O professor dá alguns exemplos em relação ao tema discutido. “Um aluno cego não vai depender de fotografia e planejamento visual para se tornar jornalista.” Esta premissa tradicional e obsoleta gera a exclusão de muitos alunos. “A gente não se dá conta que, às vezes, a pessoa tem uma experiência muito mais rica que supera o conhecimento daquilo”, lamenta Luciano. Jean Schutz priorizou desde a 4° fase o rádio jornalismo. Atualmente trabalha com rádio autosustentável. O professor afirma que “seguramente 30% a 40% do currículo ele sequer precisa. Como o currículo é padronizado a gente não consegue traba-

lhar com trajetórias singulares dentro dele.” O docente vai mais além, “os currículos precisam se abrir a perspectivas”. A formação deve passar por uma ideia em que as relações são significativas e que devem acontecer também no âmbito externo da universidade. Nas formações significativas as discussões se abrem não somente para criar políticas inclusivas, nem para políticas particulares. É necessário expandir os limites. “É preciso extrapolar isto através das interrelações e construção de novas formações a partir de novos territórios.” Maciel, estudante de engenharia e deficiente visual reitera a posição de Luciano. O aluno diz que não gosta de receber nota de graça, porém, é obrigado a fazer as matérias de desenho técnico e computação gráfica. Deu a dica ainda de substituir esta matéria por outra que não consta na grade normal do curso, entretanto seja re-

levante para a formação do acadêmico. Sônia, estudante de educação física e que possui baixa visão, relata que muitas vezes não sente vontade de participar das aulas práticas e não as realiza quando não quer. Na Semana da Integração, Sônia diz que jogou bola com os professores, vôlei com os colegas, e se divertiu muito com os esportes. Já no período de aula simplesmente não participa. Esta reação da aluna pode ser considerada uma afronta à instituição e à disciplina, porém Geraldo, professor/mestre de Educação Física, ressalta sobre a relação de sentido que aquilo possui para a estudante. “Não faz sentido para ti, então tu não tem interesse.” O professor destaca que é um problema da área da saúde em geral, pois lida com “estereótipo operacional”. Muitos não entendem como um profissional de educação física que anda em cadeiras de rodas vai conseguir exercer

a profissão. “Grande parte dos professores querem uma criatura que opere, opere pensando, mas principalmente que opere.” Geraldo afirma que são criados modelos mentais equivocados pois são distantes da realidade de mercado. O profissional de educação física acredita que a universidade precisa se reinventar e se reestruturar com este novo modelo e mentalidade do mundo. “Quando não há uma intervenção efetiva nas atuações e oportunidades a gente sempre vai ser subsidiada em processos de fora para dentro, e nas universidades de maneira geral é de dentro para fora.” A jornalista e professora da Unisul, Cláudia Reis sentiu na pele a questão exposta pelo professor Luciano. Começou a lecionar em 2010 a disciplina planejamento visual do jornalismo. Em sala estavam 2 alunos cegos. A professora questionou sobre o funcionamento ilógico de

possuir alunos com deficiência visual na matéria de planejamento visual. “Que sentido aquela aula iria fazer a alguém que não enxerga?” e ainda “O que dizer a eles a respeito de cor?” Tentou partir, então, para outro caminho. Através do lúdico, Cláudia pode extrapolar as fronteiras acadêmicas: programas de rádio e audiovisuais compuseram suas aulas. No final do semestre, os estudantes com deficiência visual se sentiram entusiasmados e integraram elementos que traziam sentido a eles. Um deles produziu uma áudio-reportagem sobre um determinado fato, e outro fez uma versão sonora do jornal Fato e Versão. Os colegas interpretaram suas matérias ao ler para os colegas cegos que iriam produzir o material sonoro. No final das contas, Cláudia conta aliviada e orgulhosa, “todos se sentiram integrados na disciplina”.

“A acessibilidade permite o acesso a lições de vida e de conhecimento para quem mesmo?”

O último a tomar a palavra para fechar o primeiro bloco foi o então professor Marciel Evangelista Cataneo, coordenador do curso de filosofia na Unisul virtual. O professor relatou sobre o calmo e doce estudante Maurício, portador de deficiência visual. Ainda arrematou poeticamente “Se enxergássemos menos, talvez nossos corações se alargassem. Talvez víssemos coisas mais importantes e profundas. Talvez a visão nos iluda.” Ao corrigir provas em um domingo preguiçoso, o professor escuta na rádio CBN a voz de Mário Motta chamando os repórteres para a cobertura em uma cachoeira, onde estava sendo realizado rafting. O professor pára de corrigir suas avaliações quando escuta a voz de

Maurício sendo entrevistado. “Pois é, tô aqui fazendo rafting...” E Mario Motta pergunta “Mas você é cego?” Com toda a calma do mundo, Maurício responde “Pois é, eu gosto de esporte de aventura.” A partir daí Marciel não se concentrou mais em suas correções, sentou em frente ao computador e escreveu um e-mail minucioso ao jornalista Mario Motta contando a respeito da vida do estudante Maurício. O aluno veio do interior do Rio Grande do Sul justamente para estudar. Vivia sozinho no bairro Kobrasol e atualmente vive com um irmão. “É um guri novo fazendo a vida”, diz o professor. Mario Motta respondeu ao e-mail: “Obrigado pela dica. Iremos fazer mais pauta com ele, é uma boa história.” Os olhos do professor percorreram o auditório e os presentes. Pensativo ele exclama: “Às vezes eu ouço tantas pessoas que tem tanto medo para tudo...” Marciel ainda indaga a si

mesmo e aos outros. “A acessibilidade permite o acesso a lições de vida e de conhecimento para quem mesmo?” Todos estavam entretidos nas calorosas conversas que se prosseguia no esvair da tarde. Vanessa então declarou a pausa para o lanche, depois de quase 2h. de reflexões. A sala se animou com a mesa repleta de guloseimas, chá, café e sucos. Marciel então tomou a palavra: “Eu gostaria de ponderar só mais uma questão antes de irmos comer...” E os presentes comentaram: “Depois, professor, depois... Vamos comer primeiro.” Marciel replicou: “Eu não quero fazer a introdução para o bloco seguinte, quero fazer a finalização.” Os presentes deram o aval e a palavra foi dada ao professor de filosofia. Marciel leu, com muita entonação e interpretação, uma carta de um aluno da Unisul Virtual: “Olá, eu sou o Cássio de Souza, sou surdo. Tenho uma esposa maravilhosa e

recentemente tornei-me pai. Minha filha é a coisa mais linda do mundo, o maior presente que Deus me deu nesta vida. Acredito que Deus tem sustentado toda a minha luta diária. Dedico a Ele todas as minhas vitórias pessoais. Acredito também que tenho aprendido muito com as derrotas, este constante cair e se levantar diariamente. A vida não é só de vitórias. Para uma pessoa surda há muito preconceito a ser enfrentado. No entanto, não estou sozinho. Sou torcedor do Cruzeiro, não sou fanático, mas gosto muito do meu time. Acompanho os jogos do Cruzeiro através do placar eletrônico no site do Globo Esporte. Minha grande paixão são os estudos. Nunca parei de estudar desde quando entrei no préprimário. Minha mãe também era surda. Ela foi a primeira professora surda de Belo Horizonte! Minha querida mamãe... Além de grande exemplo de superação, foi também minha primeira professora. A Unisul Virtual já faz parte das minhas páginas de vitória. Aprendi muito com a seguinte frase: “Quem não senta para aprender, ja-

mais ficará em pé para ensinar!.” O emocionante depoimento do aluno foi precedido por um recado do filósofo aos docentes: “Professor, professora, sai do teu ego. Experimenta o caminho do outro, te faz estrangeiro, busca o estranhamento, busca a compreensão do mundo a partir do lugar do outro e aí então tu serás capaz de destruir a indiferença e a insensibilidade. E aí a ética passa a ser possível.”

Um pouco de cada um
Após retornarem do momento de confraternização, Salete Cecília de Souza, coordenadora do PPA, reitera a importância da confraternização de docentes e discentes no âmbito acadêmico. “A interação de vida acadêmica é importante”, diz a coordenadora. O espaço físico do PPA é pequeno, entretanto não deixa de ser um local onde alunos, estagiários e pro-

fessores podem conversar, estudar e ter uma troca de vivências. “Circular pela universidade é importante” frisa a otimista Salete, feliz pela quarta-feira compartilhada. A palavra então é passada para os alunos dividirem suas experiências e situações diversas. O primeiro a falar é o estudante angolano Vitorino, que possui deficiência visual. “O sistema é que não quer a gente”, diz o aluno. “Mesmo em salas de aula privadas ou particulares, os alunos sofrem para pegar o material didático”, lamenta o estudante que relata sobre sua experiência em outra universidade, antes de entrar na Unisul. “No primeiro semestre nesta outra universidade eu pagava alguém para fazer as leituras dos materiais. Já na segunda fase amigos de sala fizeram um grupo de estudos, e se reuniam todas as semanas na casa de alguém para fazer os estudos, e isto me favorecia.” Vitorino ainda relata

que o problema de aceitação em abrir oportunidades para pessoas com deficiência é muito grande. “Nesta outra universidade que eseu tudava computador nunca vi”, ironiza o estudante cego acerca das carências encontradas. “As provas eram todas orais e tu do era muito difícil.” Vanessa conta que certa vez foi convidada para fazer uma palestra no Rio de Janeiro no STJ – Superior Tribunal de Justiça. Estava sendo discutido se aceitavam ou não os alunos com deficiência nas escolas. A coordenadora do PPA incrédula comenta: “Ainda existe este tipo de discussão. Em uma cidade tão grande como o Rio de Janeiro.” As defasagens encontradas são imensas, entretanto aos poucos pequenas vitórias, como as vistas na Universidade do Sul de Santa Catarina, são construídas e fomentadas.

As carências e falta de esclarecimento por parte de alguns setores da sociedade é construída através dos pré-conceitos que vão se acumulando e se solidificando na mente humana. A discriminação é latente em alguns meios. “O deficiente é o animal mais próximo do homem.” Conta Vitorino que certa vez leu esta premissa em algum livro. O estudante diz que esta sentença o faz refletir. Certa vez quando estava em sala, uma secretária bateu a porta e perguntou ao professor que ministrava a aula: “Quantos alunos estão presentes?” E eis que o professor responde: “Tenho aqui comigo 41 alunos mais 1 cego.” Estas situações, infelizmente, estão presentes no dia-a-dia de pessoas com deficiências físicas. Geraldo afirma: “Não vamos nos preocupar se somos animais ou não, todos somos (animais) neste processo”. Entretanto, não deixa de ser difícil e duro passar por determinadas formas de

Imagem: Luiz Fernando Cavalcante

tratamento e abordagens excludentes por alguns meios da sociedade. Salete arremata: “Muitas vezes as pessoas catalogam e classificam outras pessoas, e isto é triste.” Vitorino é convidado a dar palestras para crianças e estudantes acadêmicos. Uma diferença brusca é sentida nestes dois públicos distintos. “A criança demonstra curiosidade e interage mais.” Os acadêmicos que assistem a suas palestras surgem com verdades absolutas difíceis de serem modificadas. O estudante acredita que as mudanças devem começar na infância, pois “mudar a mentalidade de um adulto é muito complicado.” Sônia, estudante de educação física, afirma que a sociedade possui três maneiras de imaginar as pessoas com deficiência: “Alguns não tem a menor idéia de como o sujeito faz para se virar”. A estudante, então, passa para a segunda classificação que está em alta hoje em dia.

“Outros vêem o deficiente com pena, como se fossem coitadinhos, ou com uma espécie de adoração: O super cego que tem uma super audição, um super tato...” A professora Cláudia comenta a respeito deste rótulo: “É comum encontrar este discurso na mídia hoje em dia.” Já a terceira classificação, segundo a estudante, é vista com maus olhos pela sociedade. “O terceiro tipo vê o deficiente como uma pessoa capaz e que pode fazer qualquer coisa que queira dentro das suas possibilidades.” A aluna, com voz segura e firmeza desabafa: “O deficiente não é um coitadinho, nem um santo. É uma pessoa como todas as outras.” A acadêmica luta em sala de aula procurando uma mudança no pensamento de alguns colegas. “É preciso desmistificar que as pessoas são normais.” Sônia conta que mesmo sendo uma pessoa que nasceu com a deficiência, nunca se deixou excluir de nada: “A

única coisa que impede um aluno a não fazer alguma coisa é ele não querer. Tudo é possível dentro de suas possibilidades.”

“Uma coisa é ter políticas públicas, outra coisa são os públicos exigirem políticas sobre si mesmos.”
O coordenador do projeto Revitalizando Culturas, e professor/doutor da Unisul Jaci Gonçalves emendou o discurso da aluna Sônia e Vitorino para discutir e refletir sobre a autonomia e protagonismo das pessoas com deficiência. “Até onde a universidade vai cumprir a sua missão se ela não escutar o outro em profundidade?” Segundo o professor, o universo é constituído de diversidade e os que não percebem a diferença entre diversidade e desigualdade não sabem a base. O PPA e as organizações em geral devem auxiliar as pessoas com deficiência para que elas possam escrever a

história dentro da universidade. Jaci ilustra a proposição com a própria experiência de alguém que galgou e venceu obstáculos ditos impossíveis por incrédulos ao ajudar a construir organizações sociais. “Eu me recordo quando a gente estimulou a criar algumas organizações há uns 30, 40 anos atrás. Na época parecia que nunca iria se chegar ao parlamento, mas chegamos.” Para o professor, os movimentos são necessários e estruturais para que se consiga mudar alguma coisa e frisa: “Quem vai fazer isto não somos nós, são eles apoiados por nós.” Jaci ainda pondera: “Uma coisa é ter políticas públicas, outra coisa são os públicos exigirem políticas sobre si mesmos.” Comovido e empunhando o microfone, o professor Jaci desabafa: “Este dia é emocionante, pois a gente não esperava que acontecesse já.” A primavera aconteceu aos presentes do evento do Pro-

grama de Promoção a Acessibilidade: “A gente teve coragem para refletir. Quando a gente se põe a refletir a gente percebe que tivemos caminhos e andanças, mas que ainda temos muito chão para andar.”, diz o professor. Flores desabrocharam à medida que as ideias e discursos foram postos na mesa.

A estação trouxe esperança e renovação aos professores, alunos e estagiários reunidos. O acontecimento ocorreu através da motivação dos organizadores e os que ali estavam afeitos às mudanças. O professor Jaci então conclui: “Esta coisa borbulha por dentro da gente. Borbulha porque tem paixão!”

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