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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E TEOLOGIA

PENTECOSTALISMO: DECADÊNCIA EM SUA ÊNFASE ORIGINAL

FRANCISCO ERINALDO DA SILVA COSTA

GOIÂNIA-GO / 2007

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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E TEOLOGIA

PENTECOSTALISMO: DECADÊNCIA EM SUA ÊNFASE ORIGINAL

FRANCISCO ERINALDO DA SILVA COSTA

Artigo elaborado para fins de avaliação parcial na Disciplina Monografia, do Departamento de Filosofia e Teologia, do Curso Bacharel em Teologia, da Universidade Católica de Goiás, sob a orientação da Profa. Dra. Luzia Ferreira Peixoto.

GOIÂNIA-GO / 2007

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PENTECOSTALISMO: DECADÊNCIA EM SUA ÊNFASE ORIGINAL

Francisco Erinaldo da Silva Costa

Resumo: Neste artigo são feitas considerações sobre o movimento pentecostal, seu crescimento, o surgimento das diferentes ondas e famílias em suas respectivas épocas. Levando-se em consideração suas características peculiares e as razões motivadoras que proporcionam a decadência em sua ênfase original, o Batismo no Espírito Santo com evidência do “falar em línguas”.

Palavras-chave: Pentecostalismo; onda; Espírito Santo; línguas; decadência.

PENTECOSTALISMO

O nome Pentecostalismo deriva de Pentecostes 1 , evento da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e demais pessoas que se encontravam reunidas no cenáculo na cidade de Jerusalém (At 2,1-4), dando assim, início ao Cristianismo. Hoje, o termo Pentecostalismo é usualmente empregado para denominar a Igreja Pentecostal que teve origem da Igreja Metodista 2 implantada por John Wesley, e frisa a santificação como primeiro passo para uma vida cristã autêntica, sendo essa idéia de santificação um aspecto importante para a origem do pentecostalismo (CHAMPLIN, 2004, v. 5:201; OLIVEIRA, 2004:26). Influenciada pelo ambiente dos metodistas, a Igreja Pentecostal despontou como grande avivamento acontecido numa velha Igreja Metodista da Rua Azuza, Los Angeles, Estados Unidos, em 1906, onde se abrigavam evangélicos, em sua maioria negros. Mostrou-se desde o seu início não ser um movimento passageiro, efêmero e logo, espalhou-se por todo o mundo. Esse movimento é possível ser considerado como um movimento popular desde sua origem, com forte participação dos pobres e dos socialmente excluídos (OLIVEIRA, 2004:27). Na teologia do Pentecostalismo, dá-se ênfase à oralidade, permitindo aos menos instruídos o acesso à salvação e ao conhecimento da Palavra, proporcionando-lhes a liberdade de ação e culto. A presença do Espírito Santo, na vida dos fiéis possibilita um poder esmagador e instantâneo, mediante diversas experiências religiosas. É notório que o Pentecostalismo tem seu berço em

1 Pentecostes: festival judaico anual, também conhecido como “Festa das Semanas” ou “Dia dos Primeiros Frutos”, uma celebração dos primeiros rebentos da colheita. (Bíblia de Estudo Plenitude,

2001:1105).

2 Movimento que surgiu em 1727 entre os estudantes de Oxford, tendo como líderes Carlos e João Wesley. Tinham como propósito criar uma maior convicção e expressão religiosa. A designação Metodista surgiu quando um observador olhava como Carlos Wesley promovia essa organização, exclamou: “Está surgindo um novo grupo de metodistas.” (CHAMPLIN, 2004, v. 4:253).

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meio às pessoas mais simples que tiveram experiências distintas em suas vidas e

nos permite observar a continuidade dessa presença marcante de pessoas carentes

e consequentemente, o povo negro (BANDINI, 2003:22; OLIVEIRA, 2004:28-30).

PENTECOSTALISMO NO BRASIL

O Brasil no início do século XX é marcado pelo pluralismo religioso, ainda que

a maioria das pessoas pertencesse à Igreja Católica. Nesse cenário, existiam ainda

as igrejas evangélicas: anglicana, congregacional, presbiteriana, metodista, batista, episcopal, adventista e luterana, além das religiões afro-brasileiras, indígenas e o espiritismo kardecista. Somente depois, surge o pentecostalismo vindo dos Estados Unidos (MENEZES, 2004:22). A primeira Igreja Pentecostal no Brasil, começou em São Bernardo do Campo, SP, em 1910 através de missionários presbiterianos, donde surgiu a Congregação Cristã do Brasil. A intenção do seu fundador, Luís Francescon, era atingir os imigrantes italianos residentes no Brasil e que compunham a classe operária brasileira. O culto era realizado em italiano. Contudo, esse empreendimento foi frustrado devido aos movimentos grevistas e da consciência política dos operários, tornando a formação desse grupo religioso inviável para a concepção de classe que se constituía entre os proletários 3 . O avanço dessa Igreja Pentecostal somente se deu quando ela introduziu a sua ação entre as classes mais pobres e marginalizadas, o que a torna, hoje, a segunda Igreja entre os pentecostais constituídos no Brasil. Contemporânea à criação da Congregação Cristã no Brasil, surge em Belém, Pará, a Assembléia de Deus, em 1911. Essa Igreja foi criada por batistas suecos vindos dos Estados Unidos. Depois de expulsos da Igreja Batista, Daniel Berg e Gunnar Vingren resolvem iniciar uma nova Igreja com os modos pentecostais conhecido nos Estados Unidos. O sucesso da Assembléia de Deus se dá pelas suas características de penetração nos meios populares, pois o catolicismo oficial não conseguia responder às buscas religiosas das pessoas. Expandindo-se por todo o Brasil, a Assembléia de Deus é hoje a maior Igreja pentecostal brasileira em quantidade de comungantes (BANDINI, 2003:23; MENEZES, 2007:21-22).

3 Homens que trabalham em ofícios ou profissões manuais ou mecânicas, em troca de salários, e deles vivem.

5

Após o surgimento dessas primeiras igrejas pentecostais no Brasil, e ao longo das décadas surgem ainda outras igrejas tais como: Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Pentecostal Brasil para Cristo, Deus é Amor, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Nova Vida, Igreja Sara Nossa Terra, sendo em sua maioria de origem estrangeira e ainda com suas peculiaridades pentecostais, porém, o Brasil adota o seu estilo próprio.

ONDAS PENTECOSTAIS

A história do pentecostalismo é organizada, segundo Freston, em três ondas

considerando as características de cada época (BANDINI, 2003:23; MENEZES,

2007:22).

A ênfase da primeira onda é a do Batismo no Espírito Santo, marcadas pelas:

Congregação Cristã no Brasil (1910) e Igreja Assembléia de Deus (1911). São características do pentecostalismo clássico 4 , onde o portador de dons espirituais é capaz de ter uma experiência religiosa movida intensamente pela emoção. A evidência do “falar em línguas” 5 faz com que os cultos sejam conduzidos fervorosamente com gritos, transes com quedas dos membros participantes, fundamentalismo bíblico 6 através da pregação livre da bíblia e da interpretação literal.

A segunda onda tem sua ênfase na cura e no exorcismo, e é marcado pelo

uso das mídias modernas (especialmente o rádio). Conhecido também como pentecostalismo deuteropentecostalismo 7 . As Igrejas dessa onda são as surgidas entre as décadas 50 e 60, sendo as três igrejas de maior impulso: Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), a única trazida diretamente dos Estados Unidos; Igreja Pentecostal Brasil para Cristo (1955), a primeira cujo fundador é brasileiro; e Igreja Deus é Amor (1962). Além das Igrejas identificadas, acrescenta-se também a Casa da Benção ou Igreja do Tabernáculo Evangélico de Jesus – ITEJ (1964). A

4 Surgido no período entre 1910 e 1950 (NUNES, 2007:5). Fundamenta-se na crença da presença do Espírito Santo na vida do crente através de sinais, denominados por estes como dons do Espírito Santo, tais como falar em línguas estranhas (glossolalia).

5 Refere-se ao Dom da Variedade de Línguas, conhecido popularmente por “línguas estranhas” (CHOWN, 2002:106).

6 O fundamentalismo tem como uma de suas doutrinas fundamentais “a inerrância das Escrituras, quanto a seus manuscritos originais” (CHAMPLIN, 2004, v. 2:828).

7 Surgido no período de 1950-1970, com a chegada de Harold Williams e Raymond Botright, pertencentes à Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular. Tem como berço a cidade de São Paulo (NUNES, 2007:5; ATAÍDES, 2007).

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imposição das mãos é freqüentemente usada para “curar” e levar ao “arrebatamento no espírito” ou “repouso no Espírito” o que estimula uma série de emoções psicossomáticas que, muitas vezes, produzem efeitos imediatos na sensação de que os seus males físicos foram sanados. A emoção, nesses casos, é fundamental para provocar os efeitos almejados nos cultos e o uso das mídias modernas favorece a realização de depoimentos de “curas” e “milagres” ocorridos entre os seguidores (BANDINI, 2003:23; MENEZES, 2007:23). A ênfase da terceira onda é a libertação, a qual denominamos neopentecostalismo 8 , e as igrejas que destacam-se nessas características são: a Igreja Nova Vida (1975), a Igreja Universal do Reino de Deus (1977), a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980), a Igreja Cristo Vive (1986) e a Igreja Sara Nossa Terra (1992), as quais seguem o estilo do televangelismo oriundo dos Estados Unidos (Igreja eletrônica), embora tenha características muito próprias. O neopentecostalismo se distingue com um discurso teológico narrativo com forte persuasão financeira. O uso dos meios de comunicação social, de modo especial a televisão, é de vital importância na sua característica. Organização em forma de empreendimento empresarial, com finalidades lucrativas e forte entendimento do mercado. A relação dos membros com a Igreja assemelha-se a um comércio religioso, no qual os bens simbólicos produzidos são comprados a partir da freqüência e do pagamento do dízimo. O envolvimento emotivo é grandioso nessas Igrejas, e o templo fica durante todo o dia aberto, com realização de vários cultos, permitindo a freqüência do maior número de pessoas. Os templos normalmente ficam localizados em lugares de muita freqüência de pessoas (MENEZES, 2007:23-

24).

FAMÍLIAS DO PROTESTANTISMO BRASILEIRO

Em seu trabalho científico Menezes (2007:22-25) além de apresentar as ondas pentecostais, baseado em Filho (2003), apresenta uma nova tipologia, denominada “famílias do protestantismo brasileiro”. A primeira família é constituída pelo protestantismo histórico ou de missão, composta das Igrejas: Congregacional, Presbiteriana, Batista, Metodista, Episcopal, Igreja Evangélica Luterana no Brasil.

8 Surgiu na segunda metade da década de 70 e está em processo de crescimento (NUNES, 2007:5).

7

A segunda família é composta das várias colônias de imigrantes europeus ou

de refugiados da guerra do século XIX, fazendo parte dessas Igrejas: Igreja

Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, Anglicanas, Igrejas Reformadas da Holanda, Armênia, Suíça e Hungria.

A terceira família é constituída das Igrejas pentecostais de origem americana,

porém surgidas no Brasil, conhecidas como pentecostalismo clássico: Assembléia de Deus, Congregação cristã no Brasil e a Igreja do Evangelho Quadrangular. A quarta família é constituída das denominações nascidas no Brasil, conhecidas como pentecostalismo autônomo, são elas: A Igreja Universal do Reino de Deus, Brasil para Cristo, Deus é Amor, Casa da Benção, Nova Vida, Cristo Vive, Renascer em Cristo, Sara Nossa terra e todas que surgem com diversas denominações às vezes muito independentes. A quinta família surge como conseqüência da intolerância das igrejas protestantes históricas em aceitar as mudanças de sistemas religiosos implantados no seio destas denominações, criando uma onda de neodenominacionalismo. São comuns nesta tendência: Batista Renovada, Metodista Wesleyana, Presbiteriana Renovada, Igreja Presbiteriana Independente Renovada, Congregacional Independente. Pode-se ainda lembrar aquelas seitas que também crescem no Brasil, são elas: Testemunhas de Jeová, Adventistas do Sétimo Dia (sabatistas), Santos dos Últimos Dias (Mórmons) e Ciência Cristã.

CARACTERÍSTICAS DO PENTECOSTALISMO

São características comuns entre os pentecostais e até mesmo entre os grupos carismáticos nas Igrejas históricas (MENEZES, 2007:26): 1) Os Dons Espirituais: segundo a BEP, os dons espirituais são nove e manifestam o poder do Espírito, são eles: palavra da sabedoria, palavra da ciência, dom da fé, dons de curar, operação de maravilhas, profecia, discernir os espíritos, variedade de línguas, interpretação de línguas 9 . De maneira semelhante Menezes embasado pela

9 São nove os dons espirituais, a saber: 1) Palavra de sabedoria: declaração espiritual, num dado momento, pelo Espírito, sobrenaturalmente revelado a mente, o propósito e o caminho de Deus aplicado a uma situação específica; 2) Palavra de Ciência: é uma revelação sobrenatural de informação relativa a uma pessoa ou acontecimento, feita a um propósito específico, normalmente peculiar tendo a ver com uma necessidade imediata; 3) Dom da Fé: é uma forma de fé que vai além da fé natural e da fé para salvação. Ela confia sobrenaturalmente e não duvida em relação aos

8

Renovação Carismática Católica 10 registra os dons agrupados em “revelação:

palavra da ciência, de sabedoria e discernimento dos espíritos; poder: dom da fé, da cura e dos milagres; inspiração: dom da profecia, das línguas e da interpretação das línguas” 11 . Os dons necessariamente não requerem um cenário público. Entre os dons, a “variedade de línguas” ou “dom de línguas”, conhecido entre os pentecostais como “falar em línguas” se tornou a marca distintiva dos pentecostais, o que afirma a oralidade própria do pentecostalismo; 2) Cosmovisão Dualista: em sua visão de mundo há separação entre fé e vida, entre o mundo temporal e o mundo espiritual, o que acaba refletindo sobre a maneira de ver a sociedade, a política e a cultura; 3) Dificuldade com o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso: pela sua postura anti- ecumênica o pentecostalismo se vê como única possibilidade de salvação. A tolerância é existente com denominações de mesma identidade religiosa, sendo que em algumas localidades há a existência de conselhos de pastores que visam defender seus interesses corporativos, buscando vantagens às suas respectivas

assuntos

sobrenaturalmente pelo Espírito. O plural sugere que, como existem muitas doenças e moléstias, o dom está relacionado à cura de muitas desordens; 5) Operação de Maravilhas: é uma manifestação de poder além do curso normal da lei natural. É uma permissão divina para se fazer algo que não poderia ser feito naturalmente; 6) Profecia: é uma revelação divina em nome do Espírito, uma revelação edificante do Espírito para o momento, um discernimento súbito do Espírito, sugerindo

exortação e conforto; 7) Discernir os Espíritos: é a capacidade de discernir o mundo do espírito e, especialmente, detectar a verdadeira fonte das circunstâncias ou motivos das pessoas; 8) Variedade de Línguas: é o dom de falar sobrenaturalmente em uma língua não conhecida ao indivíduo. O plural

permite diferentes formas [

parte para adoração privada; 9) Interpretação de Línguas: é o dom de transmitir a mensagem transracional (mas não irracional) significativa do Espírito para os outros, quando exercido em público. Não é a tradução de uma língua estrangeira. 10 RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA, Conselho Nacional. Batismo no Espírito Santo. Aparecida, SP. Ed. Santuário, 1994:124.

11 MENEZES, 2007:26-27, Apresenta os dons espirituais, com as seguintes classificações:

Revelação: 1) Palavra de Ciência: revelação divina através de uma palavra de conhecimento da glória de Deus em fatos, situações. Revela a verdade e libera a autoridade; 2) Palavra de sabedoria:

revelação divina da maneira de agir cristã; conduz ao conhecimento do amor e da vontade de Jesus. Utilizada para aconselhamentos, indica direção de vida; 3) Discernimento dos espíritos: percepção da vontade de Deus para executar as coisas, discernir o que é: espírito humano, espírito do mal e espírito de Deus. Poder: 1) Dom da Fé: certeza de que Deus existe e age; 2) Dom da cura: poder de Deus para restaurar a saúde do homem total, tanto físico, espiritual e interior; 3) Dom dos milagres: Poder de Deus que transforma inexplicavelmente as soluções quase impossíveis pelos meios comuns, intervindo e mudando a ordem natural. Inspiração: 1) Dom da profecia: mensagem divina em transmissão humana, palavra de Deus comunicada pelo homem; expressão do pensamento e da vontade de Deus através do instrumento humano; e Jesus falando em alguém, pelo Espírito Santo, segundo a vontade do Pai; 2) Dom de línguas: oração em linguagem não vernacular que provém do Espírito Santo. Essa oração é feita sob o controle da vontade da pessoa e utiliza as faculdades normais da fala. O intelecto não é usado, pelo fato de a oração não ser compreendida pela própria pessoa; 3) Dom de interpretação das línguas: a ação de Deus pela qual a pessoa proclama a mensagem de Deus com a mesma moção interior recebida, é falada em línguas (BEP - BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE. Barueri, SP. Sociedade Bíblica do Brasil, 2001:1188-1189).

designada especialmente para orar e cantar no Espírito, na maior

realiza

específicos

envolvidos;

4)

Dons

de

Curar:

são

aquelas

curas

que

Deus

],

[

]

9

denominações, o que está longe de significar empenho ecumênico. E não é diferente no movimento da Renovação Carismática Católica, cujo discurso se assemelha ao das Igrejas pentecostais. Ao tratar do diálogo inter-religioso, a dificuldade da Renovação Carismática Católica parece ainda maior; ela demoniza até a realidade simbólica das demais expressões religiosas. Toda dificuldade com o diálogo ecumênico e inter-religioso é caracterizada, principalmente, pela visão fundamentalista de interpretação das Sagradas Escrituras (MENEZES, 2007:27,30- 31); 4) Fundamentalismo: no pentecostalismo, existe o fundamentalismo bíblico, da tradução literal do texto, da aplicação irracional das leituras aplicadas à vida; é negada a exegese bíblica e afirmação de conceitos desprovidos do gênero literário e desenraizado da tradição, o que leva ao fanatismo religioso, fechamento em relação às pessoas que não compartilham das mesmas teses, proporcionando com isso brigas e intrigas, seja entre famílias, colegas de trabalho, ou de pessoas da própria vizinhança (MENEZES, 2007:31-32).

DECADÊNCIA

São mais de cem anos de existência do Pentecostalismo. A população evangélica no Brasil em 1980 era 7,9 milhões, em 1991 era 13,7 milhões e em 2000 era mais de 26,1 milhões, com projeção para 2007 de 43 milhões de evangélicos. Dentro dessa população evangélica os pentecostais são os que têm a maior porcentagem de fiéis (68%), e a denominação Assembléia de Deus tem mais de oito milhões de adeptos, sendo esta a maior representatividade de origem pentecostal, seguida da Congregação Cristã com mais de três milhões de adeptos 12 , ambas consideradas como da primeira onda do pentecostalismo (pentecostalismo clássico), onde enfatizam o batismo no Espírito Santo com evidência do “falar em línguas”. Inegável o crescimento quantitativo do pentecostalismo. Evidente que com as constantes mudanças mundiais e dentro de sua história de existência, o pentecostalismo sofreu (e ainda sofre) transformações com o surgimento de novas ondas pentecostais nas quais apresentaram ênfases distintas da original. A partir das décadas de 1950 (segunda onda – deuteropentecostalismo, na qual enfatiza a cura) e de 1970 (terceira onda – neopentecostalismo, enfatiza a libertação), percebe-se o início de sua decadência, pois apesar das notórias mudanças ainda

12 Estatística encontrada no site: http://www.sepal.org.br, 2007.

10

primam pela ênfase original, além de se manterem convictos em suas características próprias, causando assim um fechamento aos demais seguimentos religiosos (anti- ecumenismo e diálogo inter-religioso). Os dons do Espírito Santo são num total de nove. São provisórios (MENEZES, 2007:48). São feitos comentários pelo apóstolo Paulo em sua primeira carta escrita aos Coríntios, nos capítulos 12 a 14, e por Lucas quando escreveu o livro de Atos dos Apóstolos. Dentro da escala de valores que o Novo Testamento dá aos dons espirituais, “o falar em línguas é o menos importante dos dons espirituais.”, a não ser que seja seguido de interpretação, a fim de edificar a igreja (I Co 14.5), além de ser também menos importante que a pregação e o ensino cristão, apesar de alguns praticantes não aceitarem esta afirmação (CHAMPLIN, 2004, v. 3:853). Abusos sempre estiveram presentes no “falar em línguas”, o que gera dúvidas sobre a utilização de maneira plena desse dom, conforme acentua Champlin (2004, v.

1:467):

Desde o princípio o dom das línguas se mostrou sujeito a uma

variedade de abusos, e por causa disto, é possível que o Espírito não mais inspire este dom. Espíritos ainda podem dar estas inspirações e o espírito

humano é capaz de inspirá-lo, sem a ajuda de qualquer força exterior. O problema não é se existe ou não o fenômeno das línguas. O fenômeno existe, a despeito de muitos casos de fraude. Mas a experiência do fenômeno não prova que é o Espírito Santo que inspira a prática. O fenômeno pode acompanhar uma experiência espiritual válida e poderosa,

As línguas podem se originar de um

ou pode ser fraudulenta ou fingida. [

truque apto de forças malignas, ou podem partir do próprio Espírito.

] [

]

Embasado neste texto é possível afirmar que a ênfase (Batismo no Espírito Santo) dada pelos pentecostais clássicos, na verdade está repleto de dúvidas

quanto à veracidade do fenômeno, que é vivenciado de maneira particular porque “o

(CHOWN, 2002:105), o que leva ao

raciocínio acertado que a decadência é fato, haja vista estarem envolvidos: fraudes, fingimentos, truques e forças malignas. Existe ainda a possibilidade do desaparecimento deste dom. Vejamos mais uma vez o que diz Champlin (2004, v.

3:853):

que fala em língua a si mesmo se edifica [

]”

Talvez devido ao crescente institucionalismo, não se ouve falar muito sobre as línguas e outros dons espirituais nos séculos que se seguiram ao

período apostólico, excetuando entre grupos que outros cristãos não consideravam como formadores do centro da cristandade, como foi o caso dos montanistas, para exemplificar. Não há que duvidar que nesses grupos, a prática fosse acompanhada por um grande desequilíbrio teológico, o que contribuiu mais ainda para seu descrédito. Lá pelo século

IV D.C., o dom de línguas deve ter desaparecido virtualmente. Os pais da

Igreja, em sua maioria, sentiam-se inteiramente perdidos quando tentavam

11

expor ou ensinar sobre os dons espirituais, [

inicial da Reforma Protestante, [ [ ]

Por igual modo, na época

praticamente nada se falou a respeito.

]

]

Percebe-se que desde os tempos antigos já havia um verdadeiro “desequilíbrio” e “descrédito” e o conseqüente “desaparecimento” do tão almejado dom espiritual. Em consonância ao texto entende-se que se estão presentes essas diversas possibilidades, não restam dúvidas que o Batismo no Espírito Santo perde seu efeito. Como vimos anteriormente, Pentecostalismo deriva de Pentecoste, e os pentecostais vinculam o Batismo no Espírito Santo pela manifestação do “falar em línguas”, pois, embasam-se na inerrância das Escrituras Sagradas (fundamentalismo bíblico), em especial no evento do dia de Pentecoste, o que pode ser confirmado por Chown (2002:101).

No dia de Pentecoste, ouviu-se, entre os apóstolos reunidos, o som de um vento forte, e línguas de fogo foram vistas sobre cada um deles. No entanto, apenas o dom de variedade de línguas foi mencionado no momento de indicar que estavam cheios do Espírito Santo: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava” (At 2.4).

Não só estes autores escrevem sobre essa manifestação, mas os próprios membros da maior denominação pentecostal brasileira (Assembléia de Deus)

mostram suas convicções e as registram em suas convenções 13 . São enfáticos e defensores do Batismo no Espírito Santo e assim escrevem em seu credo: “Cremos

] [

intercessão de Cristo, com a evidência inicial de falar em outras línguas, conforme a

sua vontade” 14 , com confirmação em uma de suas doutrinas básicas registradas:

“Um dos alvos principais de Cristo na sua missão terrena foi batizar seu povo no Espírito. Ele ordenou aos discípulos não começarem a testemunhar até que fossem

batizados no Espírito Santo e revestidos do poder do alto.” 15 Continuam as suas

doutrinas considerando que “o falar noutras línguas, [

um sinal da parte de Deus para evidenciar o batismo no Espírito Santo. Esse padrão bíblico para o viver na plenitude do Espírito continua o mesmo para os dias de

No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a

]

era entre os crentes do NT,

13 Registradas em sua página da internet: http://www.cgadb.com.br, onde são estabelecidos: o credo, o estatuto, as doutrinas, as convenções estaduais e nacionais etc.

14 O credo das Assembléias de Deus no Brasil é enumerado em catorze itens. Este é o número 9. Os textos bíblicos são os do Livro de Atos 1.5; 2.4; 10.44-46; 19.1-7.

15 As doutrinas básicas das Assembléias de Deus no Brasil são num total de onze. Esta doutrina é conhecida como “O Batismo no Espírito Santo” com dez itens. Este é o de número 2. São utilizados os textos bíblicos dos livros de Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33; Lc 24.49; At 1.4,5,8.

12

hoje.” 16 , porém, reconhecem que o fato de alguém falar “noutras línguas” ou exercitar outra manifestação sobrenatural, pode não ser obra do Espírito Santo, e sim do próprio homem ou do próprio demônio, chegando a considerá-las como falsas 17 . Certo é que os pentecostais clássicos utilizam as Sagradas Escrituras para provarem e fundamentarem suas doutrinas como oriundas da vontade de Deus, voltadas ao amor, ao bem-estar, a comunhão e fraternidade, conforme registro a seguir: “O real batismo no Espírito Santo aprofundará nosso amor pelos demais seguidores de Cristo e a nossa preocupação pelo seu bem-estar. A comunhão e fraternidade cristãs, de que nos fala a Bíblia, somente podem existir através do Espírito.” 18

Atentamente se observa a apologia e as regras doutrinárias argumentadas pelos pentecostais clássicos, onde dão destaque especial ao Batismo no Espírito Santo (ênfase original do Pentecostalismo). Diante destas argumentações nota-se claramente a decadência qualitativa do pentecostalismo clássico. Serão destacadas mais algumas idéias que levará a certeza desse processo contínuo de decadência. Então, vejamos: 1) Com a chegada da segunda onda do pentecostalismo, onde o destaque é dado à cura e ao exorcismo, e em seguida o surgimento da terceira onda, com ênfase na libertação, o pentecostalismo da primeira onda perde o seu destaque, porque não se detectam mais, nestas novas ondas, a ênfase no batismo no espírito Santo com manifestação do falar “línguas estranhas”, iniciando assim a sua decadência; 2) As Escrituras Sagradas registram nove dons espirituais, concedidos pelo Espírito Santo, mas os pentecostais clássicos dão especial atenção ao dom da “Variedade de Línguas”, mesmo sendo considerado o menos importante dentre os outros (a não ser que seja acompanhado da interpretação), menos importante que o ensino e a pregação. Traz apenas edificação individual e sem qualquer entendimento; 3) A história deixa claro que esse dom foi alvo de práticas abusivas, além de ter desaparecido por longo período, sendo impossível afirmar a autenticidade de sua manifestação, pois pode ser: a) fingimento humano, b) truque de ação demoníaca, c) o próprio Espírito Santo; 4) A maior denominação

16 Doutrina: “O Falar em Línguas”. Textos utilizados para fundamentá-la são os do livro de Atos 2.4; 10.45-47; 19.6.

17 Considerações feitas dentro da doutrina “O Falar em Línguas”, no item intitulado como “Outras línguas, porém falsas”. 18 Considerações feitas dentro da doutrina “Provas do Genuíno Batismo no Espírito Santo”, com nove itens. Este é o item 4. Os textos bíblicos utilizados são At 2.38, 44-46; 4.32-35; 2 Co 13.13.

13

pentecostal estabelece seu credo e suas doutrinas fundamentados pelas Escrituras Sagradas, com ênfase no “falar em línguas” principal evidência do Batismo no

Espírito Santo, como sendo a vontade de Deus para os crentes primitivos e também para os dias de hoje, porém entram em contradição com a história que havia atribuído a extinção das “línguas estranhas” e a incerteza de ser realmente uma ação do Espírito; 5) Registram ainda em suas doutrinas que o “real Batismo no Espírito Santo” é firmado no amor aos demais seguidores de Cristo. O amor é

comentado por Paulo (I Co 13) e Champlin relata que: “[

paulina é aquela que tudo deve ser feito e praticado no ambiente do amor cristão” (CHAMPLIN, 2004, v. 3:852). Amor esse que o próprio Deus mostrou ao mundo, não fazendo acepção de pessoas, conforme está escrito no evangelho de João, capítulo

3, versículo 16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho

unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

A base dos dons é o amor - que é um fator qualificativo para os que exercem os

donos espirituais – e deve-se julgar se os praticantes dos dons são dedicados ao amor (BEP, 2001:1073, 1390); 6) São fechados e resistentes ao diálogo com os outros seguimentos do Cristianismo conforme destaca Brandão (on line): “Fora os casos raros e atuais, entre pessoas, grupos e igrejas, os Pentecostais resistem, mais do que os Batistas e os praticantes de outras denominações tradicionais, a qualquer tipo de aproximação ecumênica”; 7) Se dentro do próprio movimento existem os que falam e os que não falam em línguas estranhas, então, é perceptível que existe divisão, mostrando mais uma vez que aquilo que eles tanto pregam, “[ ] A comunhão e fraternidade cristãs, de que nos fala a Bíblia, somente podem existir através do Espírito”, utilizando-se da Bíblia como perfeita, perde o seu valor.

]

a principal instrução

Após as argumentações, deixamos uma última observação sobre o posicionamento dos pentecostais clássicos, quanto a inovações, conforme Dias (2007) 19 :

] [

estas palavras revelam-nos profundas divergências no contexto pentecostal. Renovar é mudar para melhor ou melhorar em alguns aspectos, enquanto que inovar é modificar o antigo e introduzir novos costumes, novas práticas e, no nosso caso, novas liturgias e maneiras de adoração no culto a Deus. Inovar, enfim, é querer tornar a igreja diferente,

Renovação ou inovação? Embora muito semelhantes na pronúncia,

19 Dias, Jean. Elaborador da webmaster da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil,

em:

<http://www.cgadb.com.br/sobreCgadb/posicaoSobre/inovacoes.html>.

2007.

Texto

sobre

o

posicionamento

“Inovações”.

Disponível

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conformando-a, muitas vezes, com o mundo. No meio em que vivemos,

presenciamos todos os dias inovações das mais diversas. Algumas, até

razoáveis; outras, esquisitas, antibíblicas. [

apenas, para lembrar que não precisamos copiar ou importar costumes e métodos para manter a estabilidade que o Espírito Santo nos legou, até

aqui. Liturgias humanas passam. Não, porém, a liturgia dos cultos da igreja

Rejeitemos essas inovações. Devemos expurgá-las do nosso Renovar sim. Inovar não.

meio! [

primitiva. [

]

Observamos esses fatos,

]

]

Está confirmada a estagnação no tempo, a concepção em não mudar o que é

“antigo”, talvez por medo de tornar a igreja diferente, porque não dizer “melhor” e

“atrativa”. Tudo isso leva conseqüentemente a decadência em sua ênfase principal

(original).

REFERÊNCIAS

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