Palestra OS AUTORES E SUAS IDEIAS: CESAR LOMBROSO Maristela Bleggi Tomasini

OS AUTORES E SUAS IDEIAS: CESAR LOMBROSO
Maristela Bleggi Tomasini Palestra realizada pela autora em 15 de agosto de 2011, durante a I Jornada Sandra Jatahy Pesavento: Visões do Cárcere, no Memorial do Judiciário, RS.

O livro VISÕES DO CÁRCERE, obra que inspirou esta Jornada, foi escrito por Sandra Jatahy Pesavento, quando ela se deparou com um álbum de fotos de criminosos de Porto Alegre e um relatório de Antropologia Criminal, obra do Dr. Sebastião Leão. Pensar em Antropologia Criminal significa pensar em Cesar Lombroso e nas ideias desse médico italiano, que influenciou profundamente toda estrutura do Direito Penal e da política criminal. Lombroso nasce em 1835 em Verona, e alcança o século XX, morrendo em 1909. Suas ideias foram colocadas no livro O HOMEM DELINQUENTE, onde ele pretendeu responder a indagações que cada um de nós, ao menos alguma vez na vida, já se formulou: EXISTE O CRIMINOSO NATO? AS PESSOAS JÁ NASCEM PREDESTINADAS AO CRIME? É possível, com base no que se entende por ciência ― algo capaz de PREVER ACONTECIMENTOS e ainda atuar no CONTROLE destes ― designar quem são os criminosos dentre as pessoas honestas? Existem pessoas que nascem predestinadas ao crime? E esses indivíduos apresentariam estigmas denunciadores dessa condição, de forma a nos permitir descobri-los? Existe o criminoso nato? Pode-se reconhecê-lo mesmo antes que pratique seus crimes? Falamos de um tempo em que se pretendeu responder a essas perguntas afirmativamente. Lombroso apontou-nos os criminosos e nos deu deles uma descrição genérica de seus traços mais constantes que são: uma fronte fugidia, notável protuberância do occipital, as maçãs do rosto salientes com marcante prognatismo inferior, o nariz
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marcado por assimetrias, os braços longos, as mãos grandes, às vezes com mais de cinco dedos, e as orelhas mal formadas, frequentemente em abano. Teriam os lábios grossos, os dentes irregulares, às vezes seriam estrábicos, além de pouco sensíveis à dor. Além disso, ele nos forneceu um retrato psicológico, descrevendo-os como brutais, cínicos, vaidosos, cruéis, impulsivos e preguiçosos, exibidos, pretensiosos, covardes, destituídos de senso moral. Os criminosos constituiriam, enfim, uma fração à parte de indesejáveis no seio social, fração que era preciso sanear, pensavam alguns. Não é difícil perceber que, nesse discurso que se coloca como ciência, vai grande dose de ideologia. Se figurarmos o século XIX como o tempo de ascensão de uma classe que acumulava capital lado a lado a uma população que nada tinha além da força de trabalho, veremos que o antigo modelo do Direito Penal Clássico, que olhava o delito e não o delinquente, começava a tornar-se inoperante. As grandes cidades começaram a concentrar um número cada vez maior de operários empobrecidos, e a maré dos delitos aumentava. Era preciso, pois, sanear esses redutos. Desse modo, as fórmulas lombrosianas encontram em boa parte da sociedade não apenas estímulo, mas ainda simpatia. O imaginário popular sempre designou o criminoso, e praticamente não há sociedade isenta de crimes. Meios de controle da criminalidade são constantes e estão presentes em diferentes fases da história. O criminoso é pura e simplesmente o transgressor dos paradigmas vigentes em dada sociedade. Mas então, se é verdade que toda sociedade designa os seus criminosos, onde se destaca a obra de Lombroso, uma vez que toda sociedade já tinha como definir e como identificar os seus delinquentes? A rigor, não era necessário que Lombroso nos apontasse os criminosos. A diferença está no fato de ele ter sido um pioneiro, ao lançar mão de toda uma metodologia científica para lastrear suas teses, o que até então nunca fora tentado. Essa metodologia incluiu observações, estatísticas, medidas e comparações de toda ordem, e ele ousou publicar suas conclusões, denunciando existir, sim, uma diferença de ordem biológica entre o criminoso e o homem honesto. Da obra de Lombroso quase nada sobreviveu. Ele, contudo, permanece na história como o indivíduo que, através de um único livro, conseguiu confrontar o saber vigente, provocando reações em cadeia que estimularam o desenvolvimento da ciência em seu tempo, especialmente o Direito e a Sociologia.

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Em 1876 aparece a 1ª edição de O Homem Delinquente. A repercussão foi grande: uns contra, outros a favor, mas todos completamente motivados pela extraordinária audácia de Lombroso. Ao seu redor, assim, formou-se um séquito ocupado em definir os ajustes necessários à aplicação das novidades. Ora, Lombroso lançou suas observações, mas não disse como elas deveriam ser aplicadas. Ele sugeriu, porém, que o Direito se mostrava em desvantagem em relação às outras ciências, e que deveria ajustar-se às novas descobertas, sob pena de tornar-se completamente obsoleto. Os dois principais vultos que, juntamente com Lombroso, vão dar início à Antropologia Criminal são Ferri (1856 – 1929) e Garofalo (1851-1934), duas inteligências que decidiram ampliar as descobertas do médico italiano, buscando uma aplicação para suas ideias. Lombroso, em sucessivas edições de seu livro, retificou muitas de suas afirmações. Todavia, foi a 5ª edição italiana a que se tornou efetivamente histórica. Publicada sob o título original de L’Uomo Delinquente in rapporto all’antropologia ed alle discipline carcerarie, Fratelli Bocca Editori, Torino, em três volumes ilustrados, o primeiro e o segundo impressos em 1896; o terceiro, em 1897. Lombroso alterou suas observações iniciais, frequentemente corrigindo-as ele próprio, reconhecendo e confessando falhas. Importante referir que em 1885, Garofalo publicou sua obra Criminologia, dando nome à nova ciência que se desenvolverá até a guerra de 1914, com a realização de Congressos Internacionais de Antropologia Criminal1, termo adotado em homenagem a Lombroso. A Antropologia Criminal tinha em vista estudar todos os aspectos sob os quais se apresentava o fenômeno criminal, fossem biológicos, fossem sociais. O livro de Lombroso teve um impacto tão profundo à época, que causou uma verdadeira revolução no saber, repercutindo sobre o Direito e sobre a Educação, duas instâncias de controle do Estado sobre o comportamento, ― afinal, aprende-se pelo amor ou pela dor. Ora, Direito e Educação eram instâncias ainda ligadas a princípios metafísicos, em plena era da ascensão das ideias positivas. A grande repercussão das teorias de Lombroso, no entanto, deu-se no Direito que, até então, construíra sua teoria do delito com base na chamada Escola Clássica, onde apenas o crime (uma entidade abstrata) era olhado, e não o criminoso, de certa forma, descartado do
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(Roma, 1885  Paris, 1889  Bruxelas, 1892  Genebra, 1896  Amsterdã, 1901  Turim, 1906

 Colônia, 1913).

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cenário do crime, uma vez que, todos eram absolutamente iguais perante a lei. Este postulado, diante das novas ideias, não passa de pura metafísica. Com o Livro de César Lombroso, o Direito viu-se forçado a dirigir o olhar à figura do delinquente. Ele foi então classificado, medido, fotografado, estudado em laboratórios e, ― por que não dizer? ― excluído do mundo das pessoas ditas honestas, desta vez com aval da própria ciência, então acreditada como tal. É preciso salientar que grandes inteligências da época endossaram as teorias de Lombroso, e talvez a mais importante delas tenha sido Taine (1828-1893) que lhe escreveu a famosa carta publicada em uma das edições francesas de O Homem Delinquente. A relevância desta carta pode ser avaliada pelos ouvintes a partir do próprio texto. Diz Taine, dirigindo-se a Lombroso:
...Vós nos haveis mostrado esses orangotangos lúbricos, ferozes, de face humana. Certamente, sendo tais, não poderiam agir de outro modo senão como o fazem. Se eles violentam, se eles roubam, se eles matam, é em virtude de seu natural e de seu passado, infalivelmente. Razão a mais para destruí-los logo que se constata que são e permanecerão sendo sempre orangotangos.

Vejam bem: os criminosos não possuíam nem livre arbítrio nem dignidade humana. Ora, a ideia de que havia homens predestinados ao crime não desagradava à sociedade culta da época, nem à camada dominante que então se via às voltas com o aumento da criminalidade, especialmente nos grandes centros urbanos que se modificavam rapidamente com o desenvolvimento da indústria, do comércio, na mesma velocidade com que se modificavam as paisagens, inclusive humanas das grandes cidades. O fenômeno criminal, assim, tomava contornos que favoreciam visões radicais, que tinham como propósito a purificação da sociedade, ou melhor, o seu saneamento, a sua normalização, com a exclusão ou com a neutralização dos indivíduos indesejáveis, aí inserido o criminoso, o louco, o desviado, o selvagem, a histérica, o homossexual, etc., enfim, todos os que apresentavam particularidades em sua fisiologia. Lombroso não se deteve apenas em expor dados antropométricos. Seu trabalho não se limitou à confecção de tabelas ou à comparação de medidas. Não. É preciso acrescentar ainda que os estigmas observados por Lombroso compreenderam igualmente todo um conjunto de caracteres sociais e psicológicos, estes últimos, magistralmente detalhados em

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sua obra. Ele analisou a literatura, a poesia, tatuagens, a sexualidade, a psicologia, as tendências, os gostos e as preferências estéticas dos criminosos. Na Itália, como na França, O Homem Delinquente repercutiu ainda na área do saber onde se desenvolviam as ciências psicológicas, e lá encontra favores e simpatias da parte dos psiquiatras dedicados ao estudo das relações entre o crime e a loucura. Assim, por exemplo, é o caso de citar Féré (1852-1907) médico, aluno do conhecidíssimo Dr. Charcot. Ele afirmou que, à saúde hereditária, corresponde a beleza física e que, à hereditariedade mórbida, corresponde a feiúra física. Assim se poderia dizer que a feiúra física acompanharia também, muitas vezes, as degenerescências intelectuais e somáticas, pela boa razão de que uma necessitaria da outra. Entre as doenças intelectuais estaria assim colocada a própria criminalidade, que seria impossível distinguir da alienação. E mesmo quando não apresentassem qualquer má-formação exterior grosseira, pelo único fato de mostrarem-se incapazes de adaptações, os criminosos deveriam ser considerados como uma excrescência. É claro que contraditores seriam inevitáveis, e as ideias de Lombroso tornam-se objeto de uma controvérsia tenaz com os adeptos da Escola Francesa do meio social. Aí vamos encontrar, não só Tarde (1843-1904), mas ainda Lacassagne (1843-1924) e Joly (1839-1925). Para estes os fatores hereditários existem, mas seu papel é inferior àquele representado pelo meio social no qual nasce e vive o delinquente. De qualquer modo, independente da biologia para uns, ou de ordem social para outros, o criminoso permanecia ainda como um agente potencialmente nocivo dentro da sociedade. Sua existência continuava a ser vista como ameaça ao meio social. Lacassagne (1843-1924), da escola francesa, é autor da famosa observação: As sociedades têm os criminosos que merecem. O meio social funcionaria como um caldo de cultura, onde o criminoso seria o micróbio que faria esse caldo social fermentar. Lacassagne negou qualquer especificidade dos estigmas lombrosianos, embora admitisse sua existência. Demonstrou que tais estigmas não eram manifestações atávicas, mas o produto das influências do meio, da alimentação, do alcoolismo, da tuberculose, da sífilis e de outras doenças venéreas, fatores que assolavam as classes mais pobres. Os criminosos viriam, sobretudo, da pobreza e da desgraça. Por isso, antes de agir sobre os criminosos, seria

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preciso agir sobre o meio. Seria a miséria, e não a fisiologia, que deixaria a sua marca, produzindo as anomalias e as particularidades anatômicas apontadas por Lombroso. Todavia, com ou sem razão naquilo que afirmava apaixonadamente, certo é que Lombroso foi um iniciador, um homem cuja importância histórica dificilmente pode ser negligenciada. Em Direito Penal, a época de Lombroso é a do surgimento chamada Escola Positiva, que ressalta as implicações jurídicas dos postulados de Darwin (1809-1882) e Lamarck (1744-1829), do naturalismo, do materialismo, da sociologia defendida por Comte (1798-1857), Spencer (1820-1903) e Wundt (1823-1920), não faltando sequer o tempero atrativo da frenologia de Gall (1758-1828), da fisiognomonia de Lavater (17411801), um amálgama notável de observações, teorias e postulados que gerava a produção de saberes para todos os gostos e preferências. O Direito Penal dito clássico, apontado como metafísico e obsoleto pela nova Escola, foi, no entanto, também fruto de uma reação. Surge a partir de Beccaria e sua conhecidíssima obra intitulada Dos Delitos e das Penas, e visava pôr um freio às ambições da aristocracia que, com seu arbítrio, ameaçava a burguesia então emergente que enriquecia cada vez mais. Esta última revolta-se e faz declarar os seus direitos individuais e humanos, sob a bandeira da igualdade. Todavia, uma vez esta nova classe ascendente instalada no poder, uma vez estabilizada através do domínio dos meios de produção, do industrialismo e do capitalismo, sente-se desprotegida e mesmo desamparada frente ao aumento da delinquência, o que reclamava, assim, novos remédios. Nada melhor então que o esse modelo, que prometia deter as classes perigosas, v.g., o proletariado, os criminosos, os selvagens, os loucos, as histéricas, os homossexuais, as prostitutas, enfim, a fração dita doentia da sociedade que passa a ser vista como uma ameaça à parte que se considerava como sã. A nova criminologia e a antropologia criminal inspiram um verdadeiro remanejo do sistema da verdade perante o Poder Judiciário. Finalmente, eu diria que o Direito Penal de hoje orienta-se por princípios, e é na estrita observância da dignidade da pessoa humana que ele procura legitimar-se como instrumento que tem por objetivo, não mais a normalização do homem, mas a busca da solução de conflitos que surgem na sociedade, à vista da constante lesão a valores colidentes, aos bens jurídicos que o Direito Penal pretende tutelar.
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Como qualquer outra prática, o Direito, e em especial o Direito Penal, submete-se ao império das ideias dominantes, das crenças e dos desejos vigentes na sociedade onde se desenvolve. Nesse sentido, pensar o Direito através da história dos homens que o construíram talvez seja uma das formas mais gratificantes e, ao mesmo tempo, uma das mais eficazes, para que se compreenda, ao menos em parte, as razões de tantas e tão profundas alterações em seus postulados.

Sobre a autora: Maristela Bleggi Tomasini é advogada em Porto Alegre, RS, formada em Direito pela Universidade do Vale dos Rios dos Sinos, RS, em 1983, com habilitação específica em direito civil. É tradutora da língua francesa, com versões para o português O Homem Delinquente, de César Lombroso, Porto Alegre, 2001, Ed. Lenz, em conjunto com o Dr. Oscar Antonio Corbo Garcia; As Transformações do Direito, Estudo Sociológico, de Gabriel Tarde, 2002, Ed. Supervirtual e A Criminalidade Comparada, também de Gabriel Tarde, 2004, pela EBooks Brasil. Todos os trabalhos de tradução foram anotados e comentados com finalidade didática. Atualmente dedica-se ao Mestrado em Memória Social e Bens Culturais na Unilasalle, Canoas, RS.
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4325372D7 http://direito2.com/tjrs/2011/jul/27/memorial-do-judiciario-sedia-i-jornada-sandra-jatahy-pesavento-visoes-do-carcere

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