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™ A. S. Neill i (Summerhill) _ pretécio de Erich Fromm Hh LIBERDADE SEM MEDO SUMMERHILL talvez seja_a escola menos comum déste mundo. Trata-se de um lugar ‘onde as criangas no sfo.obrigadas a ie as aulas — podem deixar de assitir a Uigdes dus ante anos, se asin 0 quiserem. - Contudo, « bastante estranhamente, o¢ meninos ¢ meninas dessa escola APRENDEM! "E, na. verdade, 0 fato de serem privados das ligbes chega a set considerado um castigo severo. SUMMERHILL hi quase quarenta anos vem sendo dirigida por A.'S. Neill. E'a maior expe- rimentagio do. mundo ‘na outorga de lieido amor, ¢ aprovagio, & erianea. 0 lugar onde tum homem corajoso, apoiade por carajoros, teve a fortaleza de aplicar realmente — e sem reservas — 05 prinefpios da lberdade © da no: repressio, A escola movimenta-se sob um verdadeito go. vémo de criancas, onde os “patrbes” sio elas préprias. “Apesar da crenga comum de que tal Aatmosfera ctiaria uma quadritha de moleques incontrolaves, 05 visitantes de SUMMERHILT. ficam impressionados com a disciplina imposta si priprios pelos alunos, com sua alegria, ¢ fom suas boas mane'ras. Aquelas eriangas mos- tram uma simpatia e uma auséncia de descon- fianga em relagio aos adultos, que € a mara- vilha e 0 encanto mesma dos investigadores escolares oficiais da Tnglaterra. Neste livro, A, 8. Neill expressa, francamente, ies tinieas — e sadicate ~ quanto a0 aspeetos importantes da paternidade v da edu ‘eagio das eriangas. Muttas recomendagdes de feducadores, autores, socidlogos, psicdlogos. ¢ profess6res’famosos atestam que todos oF pais que lerem_éste livro encontrario néle ‘mui ‘exemplos de como se pode uplicar a files dde Neill as situagdes cotidianas. Os educs- ores achario inspiradores e priticos os pontos evista renovadores de Neil A leitura daste livro é uma experigneia escep- mente agradivel, pois que éle di pala- ‘ras aos sentimentos mais profundos de quan- tos se predcupam com as vriangas «© desejam vé-las aleangar uma vida feliz ¢ proveitoss, LIBERDADE SEM M&DO Sumani, Biblioteca “TEMAS MODERNOS” ~ 20 = Volumes publicados: - C. H. Thigpen = TAs Trés Faces de Eva” J.-A. M. Merlo. -- “O Rapto do Espirito” J. M. Murtagh e Sarah Harsis “Atire a Primeira Pedra” G.L-Kline “Bducacdo Sovistica” “A Longa Marcha" Simone de Beauvoir “Apocalipse do Atomo” Fernand Gigon brad Gerard Sparrow “Crimes em Desfile” Amold J. Toynbee = "De Leste a Oeste” Robert C. Cook — “Fertilidade Humana” E, Lancaster e J. Poling — “A Face Final de Eva” Martin Gardner - “Manias ¢ Crendices” Lucien Barnier = “A Nova Giéncia dos Sovtéticos” fean Rostand ~ "Fandticas ¢ Sébios” ‘ance Packard = “A Conquista do Prestigio Pes- soal” ‘Vance Packard ~ "A Nooa Téonica de Concen- cer’. Vance Packard ~ — “A Estratégia do Desperdicio” te , A. «par YP LIBERDADE “ SEM MEDO Preffcio de Soxmeesim, ERICH FROMM Radical Pransformacao na | Teoria e Tradugio de na Pratica da Baveagio Nair LACERDA 98 edigto TBRASA ‘h, Insiwisdo Brasileira de Difusdo Cultural S.A. «*0¥38, sores BOF Titulo do original inglés: ‘Summerhill Copyright 1960 Hart Publishing, Co, y Os! versos de O PROFETA, de Keblil Gibran, so reproduzides com permissio’do editor Alired. Knopf K Ine, Copyright 1025 by Kahlil Gibran, renovado em 1951 por Administrators CTA. of Kahlil Cib-an Estate, © Mary G. Gibran, t Ciaigo para obter tum livre guske V-20 Copa de Federico SPITALE 1970 Direitos exclusicos para a lingua portuguésa da TBRASA Instmrvigio Baasiiema pe Dervsio Cuurunat. S.A. Pea. D. Jost Gaspar, 134 - 8° and, - ej /83 - Tels, $7-5266/32-1008 - S.P. ‘ As criancas do Futuro, por nascer, Quando pagina tal puderem ler, Saberio que nos tempos do passado © Winuiase Bugs, Um crime o doce amor era julgado, Ys vir Teus filhos ndo sao teus filhos. Sao fithos ¢ filhas da Vida, anelando por si prépria, Vem através de ti, mas ndo de ti, E embora estejam contigo, a ti ndo pertencem. Podes dar-lhes teu amor, mas néo teus pensamentos, Pois que éles tém seus'pensamentos préprios. Podes abrigar seus corpos, mas ndo suas almas. Pois que suas almas residem na casa do amanhd, que ndo podes visitar sequer em sonhos. Podes esforcar-te por te parecer com éles, mas néo procures fazé-los semelhantes a ti, Pois a vida ndo recua, ¢ ndo se retarda no ontem, Tu és 0 arco do qual teus filhos, como flechas vivas, sd0 disparados "Que a tua inclinagao, na mao do arqueiro, seja para a alegria, Kanu. Ginran var A HAROLD H. HART Espero que receba tanto crédito (ou tantas cer- suras) quanto ev, por ésto livre. Sua atuagio nia foi apenas a de um editor, mas a de um crente no (que Summerhill féc, e esti fazendo, Sua pacitncia causou-me estupefacio. Escolher mi- Ihares de palaveas nos mens livros mais antigos, re visiclas, © combind-las com material ndvo — fol tarofa Em sua visita & escola, mostrou que sua preoen- gio principal era contar 4 Amésica algo do. qu> viv © gostou, Algo em que acreditou, Vin tudo quanto era fundamental, e fgnorou, com téda a razic, (9 que no importava, como, por exemplo, desi lino de eriangas felizes. Por éste meio eu o elejo aluno honorivio de Sum- meri A. S, Neill Outubro, 30, 1959 Summerhill, Liston, Suffolk, Inglaterca INDICE Profécio, por Erich Fromm ...... ‘Uma palavra de Introdugio, pelo Autor . I. ESCOLA SUMMERHILL A Idéia de Summerhill wees Uma Vista de Olhos a Summerhill 2.2.2... ‘A Educagio de Summerhill versus Educacio Padronizada © Que Acontece Com Os Que Se Forman Em Summerhill wees Ligdes Particulares Em , Summerhill... Autonomia Co-educagio Trabalho Diversio Teatro Danga e Misica Esporte © Jogos . Relatério dos Inspetores do Govdeno Britinico Notas sébre 0 relatério dos Inspetores de Sua Majestade O Futuro de Summerhill BR 22, a7 32 4a Bl 54 37 61 66 6s 70 80 83, xL IL TI. xu EDUCAGAO DE CRIANGAS A Crianga Sem Liberdade A Crianga Livre .....cceceecee Amor e Aprovagio Meédo Tnferioridade © Fantasia ‘Tendéncia A Destruigio Mentiras Responsabilidade ..... Obediéncia © Disciplina Kecompensas e Castigos Defecagio ¢ Hibitos de Higione Alimentagio Saride ¢ Sono Limpeza e Roupas « Brinquedos Rumor Maneiras Dinheiro Humor SEXO Atitudes Em Relagio a0 Sexo... Instrugio Sexual Masturbagio Nudez Pornografia ... Homossexualidade ....+ Promiscuidade, Iegitimidade e Aborto... 89 110 16 124 129 136 42 M4 151 160 164 169 im 115 uw 179 184 187 191 202, 212 214 217 219 IV. RELIGIAO E MORAL Religiéo . 225 Instrugio Moral 231 Influenciando a Crianga 238 Blasfémias © Tnsultos ... . 241 Censura esses ceteteceeens MME Vv. PROBLEMAS DAS CRIANCAS Crueldade © Sadismo seeseetteteeree OBL Criminalidade ........0++ 254 Roubo 258 Delingiiéneia . 263 A Cura da Crianga 269 ‘Estrada para a Felicidade. 274 VI. PROBLEMAS DOS PAIS Amor ¢ Odio ..... 281 Estragando a Crianga 285 Poder ¢ Autoridade 288 Cities 295 Divéreio wee 301 Ansiedade dos Pais 303 ‘Compreensio dos Pais 309 VIl. PERGUNTAS E RESPOSTAS Em Geral 319 ‘Sébre Summerhill 324 xu xv Sébre a Educacdo de Criancas .... Sobre Sexo Sobre Religito Sobre Psicologia Sobre Aprendizado Referencias 331 344 348 351 354 356 LIBERDADE SEM MRDO Sunnceneuns, Prefacio de Erich Fromm Tr Durante o século dezoito as idéias de liberdade, democracia @ autodeterminacio foram proclamadas por pensadores pro- gressistas, e, & altura da primeira metade do século vinte, tais idéias surgiram com proveito no campo da educagio. O prin- cipio bésico de tal autodeterminacio era a substituigio da autoridade pela liberdade, ensinando-se a erianga sem uso da férga, e sim através do apélo & sua curiosidade e as suas ne- cessidades espontineas, ganhando assim 0 interésse dela para © mundo que a rodeia, Essa atitude marcou o inicio da edu- cago progressiva ¢ foi passo importante no desenvolvimento {umano, Contudo, os resultados do névo método foram, muitas vézes, desapontadores. Nos iiltimos anos instalou-se reagio crescente contra a educagdo progressiva. Hoje, muitas pessoas acreditam gue a propria teoria seja errdnew devendo ser posta de Indo, forte tendéncia para obter cada vez maior disciplina, ‘hé, mesmo, uma campanha no sentido de que se permita aos professdres’ das escolas piblicas a aplicagio de castigos corpo- rais aos alunos, Talvez 0 fator mais importante nessa reagio seja o notével sucesso obtido pelo ensino na Unio Soviética. Ali, os mé- todos antiquados de autoritarismo sio aplicados com todo o ri- gor. E os resultados, no que se refere a conhecimentos, parecem indicar que agirfamos mais acertadamente voltando 3s velhas disciplinas, pondo de parte a questi da liberdade da crianca, Serd errénea a idéia de educagio sem emprégo da férca? Mesmo quando nfo 0 seja, tedricamente, como explicar seu relativo maldgro? : Acredito que a idéia da liberdade para as criangas ndo seja errada, Mas, foi, quase sempre, pervertida. A fim ce discutir com clareza 0 assunto, devemos, antes de mais nada, compre- ender a natureza da liberdade. Para tanto, devemos estabe- xv Tecer a diferenga entre autoridade manifesta e autoridade and- ‘A aiiforidade manifesta é exercida direta ¢ explicitamente. A pessoa que a exerce fala com franqueza aquela que The esta submetida: —Deve fazer isto, Se nfo o fizer, determinadas sangGes The serio aplicadas. A autoridade andnima tende a esconder que a fora esti sendo empregada, Faz de conta que ndo hd autoridade, que tudo € feito com’o consentimento de cada qual. O professor do pasado dizia a Johnny: —Deves fazer isto. Se nao fizeres, eu te castigarei, professor de hoje diz: =Tenho certeza de que gostards de fazer isto. Aqui, a sangio por desobediéncia nfo & 0 castigo corporal, mas 0 rosto penalizado dos pais, ou, 0 gue € pior, o levar consigo a sensacio de nfo estar “ajustado", de nao agir como os demais. A autoridade manifesta usava a forea fisica, ¢ au- toridade andnima emprega a manipulagio psiquica, ‘A. modificagio da autoridade manifesta do século dezenove para autoridade anénima do século vinte foi determinada elas necessidades de organizagio de nossa sociedade indus- trial modemna. A concentracio do capital leva A formagio de emprésas gigantescas, dirigidas por burocracia hierirquicamente organizada, Grande aglomerado de trabalhadores ¢ funcioné- ios trabalha em conjeinto, sendo cada individuo uma parte de vasta méquina de produgio organizada, que, para bem fun- cionar, deve fazé-lo sem dificuldades, nem interrupedes. © tra- balhador individual torna-se. apenas 'um_parafuso_em_til-mé- quina, Nessa organizagio de produgio 0 individuo é dirgido manipulado. Na esfera do consumo (na qual se tem a impressio de que © individuo expressa livre escolha) também éle 6 dirigido manipulado. Se no consumo de comida, de roupas, de -be- bidas, de cigarros, de programas de ridio e televisio, um poderoso aparelho de sugestio trabalha com dois propésitos Aumentar constantemente 0 apetite individual para novas como- Alidades, c, sogundo lugar, drigir tal apetite aos canals mais proveitosos para a indiistria, O homei & transformado no a8 TES consumidor, no etemo pimpotho de mama, eujo tinico desejo € consumir, cada vez mais, “melhores” coisas. Nosso sistema econdmico precisa criar homens que se adap- temi as suas Hecessidades, homens que cooperem hamoniosa- “mente, Tiomens que desejem consumir cada vez mais. Nosso sistema precisa criar homens cujos gostos sefam padronizados, homens que possam ser influenciados com facilidade, homens cujas necessidades possam ser conhecidas com antecipacao. ‘Nosso sistema precisa de homens que se sintam livres ¢ inde- pendentes, mas que, apesar disso, estejam dispostos fazer 0 que déles se espera, homens que se ajustem 4 maquina social, sem friecio, que possam ser guiados sem o emprégo da forca, que possam ser liderados sem Iideres, e que possam ser diri gidos sem qualquer ontro alvo que nao seja “ter sucesso”(*) Kautoridade no desapareceu, nem mesmo perdeu seu vigor, mas foi transformada de autoridade manifesta em autoridade andnima de persuasio e sugestio, Em outras palavias, para ser adaptivel, o homem modemo é obrigado a nutrir a ‘ilusio de que tudo é feito com seu consentimento, mesmo quando ésse consentimento Ihe é extraido através de sutil manipulacio. Seu consentimento & obtido, sim, mas atrés de suas costas, para além de sua conseiéncia, Os mesmos artificios sio empregados na edueagio progres- siva, A crianca é forgada a engolir a pilula, mas a esia pilula aplica-se uma cobertura de agiicar. Pais ‘e professdres tém confundido a auténtica educagao despida de autoritarismo com educagio por meio de persuasdo e coacdo ocultas. Assim, educagao progressiva foi rebaixada. Malogrou no tornar-so 0 que se pretendia que ela fésse, e nunca se desenvolveu como se esperava. Ir ~ O sistema de A. §. Neill & uma aproximagio radical no que se refere & educagao da crianga. Em minha opinizo, éste livro 6 de grande importincia, porque representa o verdadeivo prin. efpio da educagio despojada de médo, Na Escola Summerhill 8 autoridade nao mascara um sistema de manipulagio. ida, ver" The Bane’ Sisley, ES 18 xX Summerhill nfio exp6e uma teoria: relata experiéncia de ‘quase 40 anos, O autor sustenta que “a liberdade funciona”. s prineipios fundamentais do sistema de Neill sio apre- sentados de maneira simples e inequivoca neste livre. Em resumo, so os seguintes: 1-Neill mantém £€ inquebrantével na *bondade. da crianga” Acredita que a crianga nfo nasce deformada, covarde, nem como autémato destituido de alma, mas tem’ amplas poten- cialidades para amar a vida e por ela se interessar. 2-0 alvo da educago-que vem a sero alvo da vida~é trabalhar jubilosamente ¢ encontrar felicidade. Ter felicidade, segundo Neill, significa estar interessado na vida, ou, como diria eu, é atender a apélo da vida nfo apenas com o cérebro, ‘mas com téda a personalidade. 3-Na educagio, o desenvolvimento intelectual nio é 0 bas- tante, A educagéo deve ser ao mesmo tempo intelectual _e emocional, Na sociedade moderna encontramos uma separagio cerescente entre cérebro e sentimento, As experiéncas ‘do homem, hoje, so mais, e principalmente, experiéncias do pen- samento, e niio o reconhecimento imediato do que 0 coragio sente, os olhos véern, e os ouvidos ouvem, Realmente, a sepa- ragio entre 0 inteleto ¢ 0 sentimento levou 0 heme. 10 leno a um estado mental que se aproxima do eesquiziide ¢ no qual ale se tomou incapar ‘de ter qualquer eipeencia ‘nfo ser através do pensamento. 4A educagio deve ser entrosada com as necessidades pst- quicas da crianga, A crianca nfo é altrufsta, Ainda nio ama, no sentido do amor amadurecido do adulto. & um érro es- rar de uma crianga algo que ela s6 pode exibir de maneira ipécrita. O altruismo se desenvolve depois da infancia 5—Disciplina e castigo, dogmaticamente expostos, geram médo, ¢ médo gera hostilidade..Tal hostilidade pode nio ser consciente e manifesta, mas, apesar disso, paralisa o es‘drgo e 1 autenticidade do sentimento. A disciplina extensiva imposta as criangas é prejudicial e impede o desenvolvimento psiquico sadio, =Liberdade nao significa licenca. Este principio, muito importante, no qual Neill insiste, diz que o respeito pela pessoa deve ser miituo, Um professor nao usa de fdrca contra 9 crian- Gi, nei a crianga tem o direito de usar de forga contra o pro- xX fessor. Uma erlanga nfo pode impor ao adulto s6 por ser lima erjanca, nem pode a erianga suportar a pressio Aue de varias maneiras The impoem. fealitinamente relacionads com éste principio est a neces- sidade_do_uso.deverdadeira sinceridatle por pari ee eee qué iiunea, om seus 40° ands de tabblo cm Summerhill, mentiv a uma crianga, Quem quer que leis éste livro ficard_convencido de que tal’ afirmativa, embers possa parecer € a simples verdade. 50 desenvolvimento humano toma necessirio que a cri- Anca corte, eventualmente, os lagos esseneiais que 4 ligam. 4 seu pai e a sua mae, ou a substitutes posteriores, na sociedad, a fim de tomarse de fato independente. Deve aprender enfrentar 9 mundo como individuo. Deve aprendee a pro- curar a seguranga, néo num apégo simbélico, mas em sua Cope. cidade de reconhecer 0 mundo, intelectual, emociona: e artieth Gamente, Deve usar de_tédas_as suas {Orcas para conseguir, yatio com 0 miindo, em lugar de procurar seguranga. atravér de ‘submissio ou dominio, ” 9~Sentimentos de culpa tém, antes de mais nada, a fungéo dle pronder a etianga & autoridade, Sentimentos de’ culpa ado. empecilho para a independéncia: iniciam tum ciclo que’ oscila: constantemente entre a rebeligo, 0 arrependiment, a sub. missio, ¢ nova rebelifo. Culpa, tal como é sentida pela tmaioria das pessoas em nossa sociedade, no 6, principal» Mente, reagioavoz_da_consciéneia, ‘mas, essendalmente, compreensio da desobediéncia contra a autoridade, ¢ médo di. represilia. Nao importa que a punigéo seja representada, por castigo corporal, pela privacio do amor, ou pelo fao det se conseguir que 0 castigado so sinta como um intruso em sou meio. Todos ésses sentimentos de culpa geram médo, ¢ 0 médo gera hostilidade © hipocrisia. \ 10-A_Escola Summerhill _néo oferece_educacao_religiosa.. Entréianto, tal coisa néo significa que Summerhill deixe de Se interessar por aquilo que nos podemos referir, vagamente, comio valézes Ihumanisticos basfeot Neill vole questio de maneira sucinta: “A batalha nfo é entre os que acrecitam ne teologia e os que it sim entre os que. acredi tam mab ide Thumana eos quo acreditam na su Bresso da Miberdade humana.” O- autor continua: “Algam dia, “uma nova geragdo deixar de aceitar a religiio © os xx mitos obsoletos de hoje. Quando essa nova religifo vier, seré para recusar a idéia de que o homem nasceu em pecado. Essa nova religiZo Iouvari Deus por ter feito os homens felizes.” Neill & um critico da sociedade dos dias presentes. Insiste em que a especie de pessoas que se esté desenvolvendo nela & 4 do homem*asea, “Estamos vivendo numa sociedade hnensa"™ ¢ “a maior parte das nossas priticas religiosas é impostura.” Bastante lbgicamente, o autor é internacionalista, ¢ mantém a opinigo, firme ¢ intransigente, de que a disposigio para a guera_é_um barbaro atavismo da raca_humana., ~ } Realmente, Neill nfo tenta educar criancas para se ajusta- | rem bem & ordem existente mas empenha-se em educar exiangas que se tomnarao séres humanos felizes, homens e mulheres cuja nogio de valores nao seja a de ter muito mas a de ser. Neill 6 um realista, Sabe que mesmo quando as criangas que educa nfo venham a ser necessiriamente grande sucesso no sentido | mundano, terdo adquirido senso de autenticidade que evitari, com eficféncia, que se fagam desajustadas, ou miseréveis men- digas. O autor tomou uma decisio entre o desenvolvimento integral humano e 0 éxito integral de mercado, ¢ é intransi- gentemente honesto na mancira pela qual segue a estrada que leva ao fim escolhido, ur Lendo éste livro, eu me senti grandemente estimulado e en- corajado. Espero ‘que 0 mesmo aconteca a muitos leitores. Nao quero dizer com isso que esteja de acérdo com tédas_as declaragées do autor. E, certamente, a maior_parte dos lei- t éste livro’ como se se, tratasse_do_Evargelho, Estou certo de que~o autor seria o tltimo a desejar que tal coisa acontecesse. Posso me referir a dois pontos sébre os quais fago minhas principais reservas. Acho que Neill, de certa forma, subestima 4 importincia, o prazer, a autenticidade de uma comprecnsio intelectual do mundo, preferindo-the compreensio-artistica e “emocional. Ainda mais, o autor esté embebido nas suposicdes de Freud, e, ao que ‘me parece, como que superestima a importincia do sexo, 0 que 6 de habito entre os freudiands. Ainda assim, fica-mé a impressio de que 0 autor é homem de tal forma realista e de tio genuina compreensio no que se XxxIT relaciona com a crianga, que estas minhas erfticas se referem mais a algumas de suas formulagdes do que & sua real atitude no que tange & crianga. Dou énfase & palavra “realismo” porque 0 que mais me im- pressiona na atitude do autor é a sua capacidade de ver, de discemnir entre os fatos ¢ a ficcio, para nfo se deixar levar pelas racionalizacoes e ilusdes segundo as quais a maioria das essoas vive, ¢ com as quais essas mesmas pessoas bloqueiam @ passagem da experiéneia auténtica. Neill 6 homem possuidor de uma espécie de coragem rara em nossos dias, a coragem de acreditar no que vé, e de com- Dinar realismo'com uma fé inabalivel na razio e no amor. Mantém para com a vida reveréncia intransigente, ¢ respeito pelo individuo. E um experimentador_e_um_observador, nao uum dogmatic tomado de interésse egoistico pelo que esta fazendo. Mescla educagio com terapéutica, mas para éle a terapéutica,nfo ¢ assunto separndo, cujo fim seria soluionar “problemas” especiais, porém, simplesmente, 0 processo que pode demonstrar A erianga que a Sida all teth Stim de ber compreendida, e nfo para que fujamos dela Ficara bem claro para o leitor que a experiéncia relatada neste livro no é das que podem ser repetidas muitas vézes na sociedade dos dias presentes. TsS0~acontece nio apenas por depender, para se realizar, de uma pessoa ext-aordindria como Neill, mas também porque poucos ‘pais tém_acoragem ne es pack pent ina Tales a “sucessa-déles. "Isso, entretanto, nid dimiar 2 tmportancla deste livro. Y¥ Embora nio_ exista hoje nos Estados Unidos uma escola semelhante a Summerhill, qualquer pai teri proveito com a presente leitura. Sao capitulos que o desafiam a revistar a propria atitude em relacdo a seu filho, Perecbera que a me- neira de Neill lidar com criangas 6 bem diferente daquela que muitas pessoas poem escamecedoramente de parte como “tolerante”. A insisténcia de Neill quanto a um certo equilibrio tas relagdes entre pais e filhos-liberdade sem licenca—é a expécie de pensamento’ que pode transformar radicelmente as atitudes no lar, Os pais refletidos vao ficar impressionados a0 compreende- rem 0 quanto de pressio e poder esto usando, inconseiente- mente, contra seus filhos. Bste livro fornecerd signifieagdes novas para as palavras amor, aprovacdo, liberdade. Neill fostra inquebrantével respeito pela vida e pela liber- dade, ¢ sua negativa é radical quanto ao uso de forca. As XML criangas educadas com tais métodos desenvolvem em seu in- timo as qualidades de razo, amor, integridade, coragem, metas da tradigso humanistica ocidental. Se tal coisa aconteceu um dia em Summerhill, poderd acon- tecer em téda parte—uma vez que as pessoas estejam prepa- © "| radas para isso. Nao hé, realmente, criangas-problemas, como diz o autor, mas apenas “pais-problemas”, ¢ “humanidade-pro- bleme”. Acredito que o"Gabalho de Neill-sesemente que ‘gerinmard. Com o tempo, suas idéias terlo aceltacdo geral uma sociedade nova, na qual o proprio homem, e sua ex- | pansio, sejam a meta’ suprema de todo 0 esférco social. xxIV Spl D&O p Uma Palavra de Introducio any Em psicologia, homem algam sabe muito. As fis interio- res da vida humana ainda se mostram largamente ocultas para nds, Desde que 0 génio de Freud a tornou viva, a psicetogia tem caminhado muito, mas ainda é uma ciéncia nova, éelineando a costa de continente desconhecido. Daqui a cingiienta anos ‘5 psicélogos com certeza sorriréo da nossa ignorincia de hoje. A partir do momento em que deixei a educacio e me voltei para a psicologia infantil, tenho tratado com téda espécie de ‘criangas-incendiérias, ladras, mentirosas, das que vrinam na cama, das de mau génio. Anos de trabalho intensivo no trei- namento da crianga convenceram-me de que sei relativamente pouco sébre as forgas que dio motivo A vida. Estox também Convencido, entretanto, de que pais, necessitados de tratar com seus préprios filhos, sabem muito menos do que eu. Por acreditar que a crianga dificil é quase sempre assim em conseqiiéncia de tratamento errado no lar, ouso dirigir-me aos ais, ual é a finalidade da psicologia? Sugiro a palavra cura LiSnk eeatade de talon, Sug. pslams ee ‘que tenho de escolher, como cbrés, 0 Taranja_c_o-pitto; nto muero ser curado do hibito de fumar; no quero ser curado ‘do hibito de gostar de uma garrafa de cerveja. Professor algum tem 0 direito de curar uma crianga do habito de fazer” ruldo com um tambor. A nica das curas que deveria ser praticada 6 a cura da infelicidade. ian difel_4-a.crlanga infllz,., Esté om hostiidade aberta consigo propria, €, em” conseqtiéncia, em guerra com todo mundo. © adulto dificil vé-se na mesma situagio. Jamais um homem| feliz perturbou uma reuniio, pregou uma guerra ou linchou tum negro. Jamais uma mulher feliz atormentou seu marido xxv = Th SS on seus fils. Jamais um homem feliz cometeu assssinio ou roubo, Jamais-empregador feliz assustou seus empregados "Todos 08 crimes, todos os Gdios, tOdas as gucrTis: podem relacionar-se com a infelicidade, Bste livro é uma tentativa para mostrar como surge a infelicidade, como essa infelicidade arruina as vidas humanas, e como as criangas podem ser edueadas de forma que tal infelicidade jamais surja. Mais do que isso: éste livro é a histéria de um lugar-Sum- merhill—onde a infelicidade das criancas é curada, e, 0 que & mais importante, onde as criangas sio educadas para a feli- cidade, XXVT UM ESCOLA SUMMERHILL A IDBIA DE SUMMERHILL Esta é a historia de uma escola moderna—Summerkill. Sum- ‘merhill foi fundada em 1921. Esté situada na-aldeia-de-Leiston fem Suffolk, Inglaterra, e fica mais ou menos a cem mithas de Londres. a Uma palavra sébre os alunos de Summerhill, Alguns para ali vao Com a idade de cinco anos, ¢ outros ja com quinze. {As criangas, geralmente, permanecem na escola até aleancarem os dezesseis anos, Temos, quase sempre, vinte ¢ cinco rapazes vinte menina: As criancas sio divididas em trés grupos etirios. O mais névo vai dos cinco aos sete anos, 0 intermediario dos oito aos dez, © 0 mais velho dos onze aos quinze. Contamos, geralmente, com um bom punhadinho de erianeas vindas de paises estrangeiros. No momento (196), temos cinco escandinavos, um holandés, um alemio ¢ um americano. ‘As criangas stio instaladas pelos grupos etirios, com uma smic-da-casa” para cada grupo. O5 intermedifrios dormem num edificio de pedra, os mais velhos dormem em cabanas. ‘Apenas um ou dois alunos mais velhos tém quartos parti Cculares. Os rapazes ficam aos dois, trés, ow quatro num dormi tério, e 0 mesmo acontece as meninas. Nao sofrem inspecio dos quartos ¢ ninguém vai apanhar 0 que éles deisarem fora do lugar, Fieam em liberdade, Ninguém Thes diz 0 que de- vem vestir, Usam a roupa que guerem, a qualquer momento. Os jomais chamam a isso uma “Escola-do-faga-o-que-quiser”, ¢ insinuam que se trata de uma reuniéo de selvagens primi- tivos, desconhecedores das leis e das manciras. Parece necessirio, portanto, que eur escreva a histéria de Summerhill tio honestamente quanto me seja possivel. Que feu 0 faca com certo partidarismo, é natural: ainda assim, tentarei mostrar os deméritos de Summerhill, tanto quanto seus méritos, que serio os que se referem ao fato de existirem 8 ali criangas saudavels, livres, cujas vidas niio estiio. contamt- tnadas pelo médo e pelo édio. / Obviamente, uma escola que faz. com que alunos ativos fi- [quem sentados nas carteias,estudando assuntos em sus maior | parte intteis, € uma escola mé. Sera boa apenas para os que 2 | Rereditam em esclas deste tipo, para os cldsiosno-eadaves que desejam criancas déceis, nfo criadoras, prontas a se adap- tarem a uma civilizagIo cujo marco de sucesso é 0 dinheiro. Summerhill comecou como escola experimental. Ja nio o é. Agora, é uma escola de demonstragio, pois demonstra que a liberdade funciona. ” " Quando minha primeira espdsa e eu comegamos a escola, tinhamos uma idéia principal: fazer com que a escola se adap tasse as criangas, em lugar de fazer com que as criangas se adaptassem A’ eseola, Durante muitos anos eu havia lecionado em escolas comuns. | Conhecia bastante a outra férmula, Sabia que exa inteirsmente errada, Exrada por se basear numa concepgio adulta do que a erianga deveria ser e de como uma erianga deveria apren- der. A’ outra frmula datava dos dias em que a psicologia ainda era ciéneia desconhecida. Bem: resolvemos fazer uma escola na qual darfamos as criangas a liberdade de serem elas proprias. Para tivemos de renunciar_inteiramente a disciplina, ® directo, & sugesti6, a treinamento moral e A instrucao religiosa, Cha- iniiram=nds corajosos, mas isso nao exigia coragem. ‘Tudo quan- to requeria era 0 que tinhamos—crenea completa na crianca como ser bom, endo mau. Durante quase quarenta anos essa cerenga na bondade da crianca jamais vacilou, antes tomou-se 46 definitiva, Meu ponto de vista & que a crianga, de maneira inata, & sensata ¢ realista. Se fOr entregue a si propria, sem sugestio adulta alguma, ela se desenvolverd tanto quanto for capaz de se desenvolver. Logicamente, Summerhill é um lugar onde 8 pessoas que tém habilidade inata e desejo de se fazerem ceruditas, serao eruditas, enquanto as que apenas, sejam capazes de varrer ruas, varrerdo ruas. Mas, até agora, nio produzimos = yarredor de ruas. Nad escrevo isso para me dar ares, nrenbunt va , ar ares pois preferia antes ver a escola produzir um varredor de Fins feliz do que um erudito. neutdteo. Que tal é Summerhill? Bem, para falar numa das coisas: as “aulas, uli, dependem de opgio. As criangas poden, com- 4 arecer ou niio, e isso durante anos, se assim o desejarem. Ha um horério, mas s6 para 0s profess6res. ‘As criangas tém aulas, habitualmente, de acdrdo com a sua idade, mas, as vézes, de acdrdo com os seus interésses, Nao temos novos métodos de ensino, porque nao achamos que o ensino, em si mesmo, tenha grande importincia. Que uma escola’ tenha ou nio ‘algum meétodo especial para ensinar a dividir, & coisa de somenos, pois a divisio nao é importante se- do para aquéles que querem aprendé-la, E a crianca que quer aprender a dividir, aprenderd, seja qual for 0 ensino que receba, ‘As criangas que vém para Summerhill, destinadas ao jardim- da-infincia, assistem as aulas desde 0 infcio de sua estada, mas alunos provenientes de outras escolas juram que jamais tomario a aprender nenhuma estupida ligio em suas vidas, a tempo algum, Brincam, andam de bicilets, steno n0, ca minho dos outros, mas nfo querem saber de ligdes. Isso dura meses, em certos casos. O tempo de recuperacéo & propor: cional ao édio que trazem em relagio A thtima escola que freqiientaram, Nossa recordista, nesse ponto, foi ura gardta egressa de um convento. Vadiou trés anos. © periodo médio de reeuperagio, no que se refere & repulsa quanto a lighes, é de trés meses, Os estranhos a esta concepgio de liberdade esterio cogi- tando na espécie de casa-de-orates que deve ser exsa escola fem que as criangas brincam o dia inteiro, se assim 0 desejam. Muitos adultos dizem: —Se eu tivesse sido mandado para essa escola, rada teria feito em minha vida. Outros declara —Essas criangas vio sentir-se fortemente prejudicadas quan- do tiverem de competir com as que foram levadas a aprender. Penso em Jack, que nos deixa com dezessete anos para trabalhar numa fabrica de miquinas. Certo dia, o diretor-ge- rente mandou chamé-lo: =Vocé é 0 garoto que veio de Summerhill—disse éle~e eu estou curioso para saber que tal Ihe parece a edueacio que recebeu, agora que esté convivendo com garotos vindos das velhas escolas. Se tivesse de escolher novamente, iria para Eton ou para Summerhill? Oh! Para Summerhill, naturalmente—respondeu Jack, — Mas que oferece essa escola, que as outras niio oferecem? Jack cogou a cabega e respondeu, lentamente: Sei Iél Penso que dé a gente uma sensagio de completa autoconfianga, —Sim=disse o gerente, sécamente.—Reparei_nisso, quando voeé entrow nesta sala. ® jeu Deus!—riu Jack.—Lamento ter-The dado essa impressio. =Eu gostei—falou 0 diretor—A maior parte dos homens que ~chamo para aqui fica se retorcendo téda, parece sentir-se angustiada. Vocé veio como meu igual. A’propésito, para que departamento disse que gostaria de ser transferido? Essa histéria mostra que 0 ensino, em si mesmo, nio é tio importante quanto a personalidade ¢ o carater. Jack fracassou nos seus exames universitérios, porque detestava o ensino dos livros. Mas sua falta de conhecimento no que se referia aos Ensaios de Lamb ¢ & lingua francesa, nfo Ihe prejudicou a, vida. Hoje, 6 um bem sucedido mecinico. > Seja como for, ensina-se bastante em Summerhill. Talvez {um grupo dos nossos alunos de doze anos nao possa competir com uma classe de idade igual, em caligrafia, ortografia © fracoes, Mas, num exame que exigisse originalidade, nosso _grupo bateria ‘inteiramente os demais. Nao temos_provas de classe, em nossa escola, mas s-vézes organizamos um exame, como divertimento. As perguntas se- gtintes foram feta mun detest pose Onde se acha o que se segue: Madrid, a itha Quinta-Feira, ‘ontem, amor, democracia, dio, minha chave de fenda de béisa (ai de mim, para esta iiltima ndo houve resposta que valesse a pena). Dé as significacdes do que se segue: (0 ntimero mostra santas signficacdes sao eaperadas para cada palacra) Mao {aye apenas tres deram’ a tercela significa. cera: ¢ medida padrio para um cavalo. Metais (4)... metal, faces, altos oficiais do exército, ‘segdo de uma orquestra, Traduza o-“Ser-ou-ndo-ser” do Hamlet para Summerhiliense. Seré escusado dizer que tais perguntas nfo foram feitas a sério, e as criangas divertiram-se & grande com clas. Os re- ccém-chegados, em regra, nfio chegam a aleancar 0 padréo de respostas dos alunos que j4 estio aclimatados na escola. Nio se trata de serem menos capazes mentalmente, mas ce se terem de tal forma habituado a trabalhar numa trilha séria, que qualquer toque assim leve os deixa perplexos. Esse é 0 lado divertido do nosso ensino. Em tddas as classes trabalha-se bastante. Se, por qualquer razio, um professor 6 niio pode comparecer em determinado dia, isso & sempre um desapontamento para os alunos. Davi, de nove anos de idade, teve de ser isolado por estar com coqueluche. Chorou amargamente. =Vou perder a ligio de Geografia da Senhorita Roger!— protestava éle, Davi estivera na escola priticamente desde que niscera, ¢ tinha idéias definitivas ¢ categéricas quanto A necessidade de receber as suas ligSes, Hoje, Davi é explanador de matemé- tica na Universidade de Londres. Hi alguns anos, numa Assembléia Geral da Escola (na qual tddas as regras escolares 80 votadas pela escola inteira, Cada aluno e cada membro dp ‘compo, docente tendo um sot), al uém propds que certo aluno faltoso devesse ser punico com 0 slastamento dis aulay durante sete das, Os demats proves: f taram, alegando que seria castigo severo demais. Minka congregacio e eu nutrimos cordial aversio por tudo quai Para 6s, 0s exames. das. universidedes 20 uum ‘gndtemay Mas nao podemos recusar As criangas 0 ensino das matérias ali exigidas, Obviamente, enquanto existirem exa- pes des terio forga sObre ns. Daf o ser a congresagio de Summerhill sempre composta de professéres qualificados para ensinar pelos padrées estabelecidos. Nao que haja muitas criangas desejosas de fazer tais exames: s6 as que vio para a universidade passam por éles. E tais criangas nfo parecem achar grande dificuldade no en- frenté-los, Geralmente, comegam a’ preparar-se, sériamente, com a idade de catorze anos, e passam trés anos dedicando-se a isso. Como é natural, nem sempre vencem na primeim tenta- tiva, mas 0 importante é que tentem outra vez. Talver, soja Summerhill a escola mais feliz do mundo. Nao temos vadios, e dificilmente aparece um caso de nostalgia do lar. Musto raramente temo brigas, Diseusfes, sim, mas poucas vézes testemunhef uma daquelas lutas a punhos que tinhamos, quando ézamos rapazes. Raramente se ouve uma cr 1, porque as eriangas, quarido em liberdade, tém muito-menos édio a expressar do que quando sio oprimidas. Odio gera édio, amor gera amor. Amor significa ser favordvel A crianga, ¢ isso & essen- cial em qualquer escola. Nao se pode estar do lado da crianca, se a castigamos e repreendemos violentamente. Summerhill & uma escola em que a crianga sabe ser vista com aprovacio. Compreendam, entretanto, que nfio estamos acima ou além das fraquezas humanas. Passei semanas plantando batatas, 7 oi oito plantas arrancadas, em junho, fiz um barull n, havia uma diferenga entre o barulho que fiz eo q um autoritirfo,Meu rebuligo referia-se a batatas, mas o do autoritdrio arrast © campo moral—do direito ¢ do errado. Eu ni cerrado _rouba s hatatas, nfo fiz disso-uma_questio de bem_ou de-mal. Fiz barulho porque se tratava das minhas batatas. Exim minhas @ nfo deviam ter sido tocadas. Espero estar fazendo bem clara a distingio entre as duas atitudes.. Deixe-me dizer isso de uma outra maneira, Para as cri- angas, no sou autoridade que temam. Sou igual a clas, ¢ 0 barulho que fiz por causa das minhas batatas nao teve, # seus olhos, significagio maior do que o barulho que um ¢os ra- pazes poderia ter feito se encontrasse furado um dos preuma- ticos de sua bicicleta. Nao hé perigo em armar_barulho com. uma criana, quando 6 fazemos-em_térmos de igualdade, ‘Bem, alguns dirio: —Tudo isso & discurseira. Nao pode haver igualdade. Neill 6 0 chefe, 0 maior e o mais sensato. Isso 6 realmente verdade. Sou 0 chefe, € se houvesse um incéndio na casa as criangas correriam para mim, Sabem que sou maior e tenho mais conhecimentos, mas isso no importa quando as enfrento em seu préprio terreno, no caso 0 canteiro de batatas. Quando Billy, de cinco anos de idade, me mandou sair de sua festa de aniversirio porque eu nao fora convidado, sai imediatamente, tal como Billy sai do meu gabinete quando eu nio desejo a companhia déle. Nao é facil descrever ésse tipo de relagdes entre professor © aluno, mas todos os visitantes de Summerhill sabem 0 que quero dizer quando afirmo que essas so as relagées ideais. Vé-se isso na atitude para com o pessoal em geral. Rudd, 0 professor de Quimica, é chamado Derek. Outros membros do pessoal sio conhecidos como Harry, Ulla, Pam, Eu sou Neill ¢ a cozinheira é Esther. Em Summerhill todos tém direitos iguais. Ninguém tem licenga para usar meu piano de cauda e eu nfo tenho licenca para usar a bieicleta de um dos garotos sem a sua permissio. Na Assembléia Geral da Escola o voto de uma crianga de seis ‘anos-conta tanto quanto.o_meu., —Mas—dizem os sabidos—na pratica, naturalmente, os votos dos adultos contam. A erianga de seis anos no espera para ver como votam os outros, antes de levantar a propria mao? certa primavers, © quand 8 Eu As vézes gostaria que assim fdsse, pois muitas des minhas roposigbes tém sido recusadas.Criancus lives no se defsam influenciar facilmente. A auséncia do médo explica ésse fend- meno. Realmente, a auséncia do médo € a coisa mais bela que pode acontecer & uma erlang: ‘Nossas eriangas no tém medo do pessoal da escola. Uma das nossas regras € que depois de dez. horas da noite deve reinar siléncio no corredor de cima. Certa noite, mais ou menos 3s onze horas, Iutas de travesseiros se estavam tra- vando ali, e eu deixei minha escrivaninha, onde trabalho, para yrotestar contra o ruido. Quando cheguei ao alto da escada, Fouve um tropel de pés, e-0 corredor aparece vacio © silew, cioso. De sibito, ouvi uma vor desapontada exclamar: —Ora bolas! E s6 0 Neilll Imediamente a brincadeira recomegou. Quando expliquei que estava lé embaixo tentando eserever um livro, mostraram-se preo- caps ¢ concordaram em acabat com o barulho, Sus coreria tinha sido provocada pela suspeita de que fosse 0 funcionario dla noite (umn dos de sia propria idade) que estivesee chogund, Insisto na importéncia da auséncia de médo dos adultos. Uma crianga de nove anos viré contar-me que quebrow uma vidraga com a bola. Conta-me, porque nio receia provocar eélera, ou indignada prelegio moral. Pode ter de pagar pela vidraga, mas no deve recear descomposturas ou castigos. Houve uma ocasiéo, hé alguns anos, em que 0 Govérno Escolar renunciou ¢ ninguém se apresentou para as eleigdes. Servi-me da oportunidade para Iangar um manifesto: “Na auséneia de Govérno, eu, abaixo-assinado, declaro-me Gitador. Heil Neill!” Depressa houve murmiitios. Pelo correr da tarde, Vivien, de seis anos, veio ter comigo e disse: Neill, quebrei uma vidraga, Fizlhe sinal para que se fésse dali. =Nao me incomode por causa dessas coisinhas. Um pouco mais tarde éle voltava, dizendo que quebrara duas vidragas. A essa altura fiquei curioso e perguntefIhe que hist6ria era aquel —Nilo gosto de ditadores—explicou éle—e nio gosto ce passar sein a minha comida, (Descobri, mais tarde, te oposgue A ditadura tentado desforrar-se na cozinheira, que, prontamente, fechou a cozinha ¢ foi para casa.) —Bem—perguntei—e que vai fazer nesse caso? —Quebrar mais vidragas—declarou éle, obstinadamente. =Pois vi-falei. Ble foi. Quando voltou, anunciou ter quebrado dezessete vid:acas, Mss fique sabendodise,aninadamente—que pagarc por —Como? Com a minha mesada particular. Quanto tempo levaret para pagar tudo? Fiz um célculo rapido ¢ respondi: Mais ou menos dez anos. Por um instante le parece entistecer, mas Togo depois seu rosto iluminou-se: Ora bolas!—exclamou.—Néo tenho de pagar coisa nenbumal =E que se faz da regra sobre a propriedade privada?—indaguei. —As vidragas das janelas sio de minha propriedade privada, sei, mas agora nfo hi nenhuma regra de propridade privada. Nio ha govémo, e 0 govémo & que faz as regras. E talvez tenha sido a minha expressio que o levou a diz Mas, seja como for, pagaret as vidracas. No precisou pagar. Logo depois, fazendo eu uma confe- réncia em Londres, contei essa histéria, e, ao fim da minha palestra um jovem aproximou-se e entregou-me uma nota de tuma libra “para pagar as vidragas que aquéle demoninho par- tin”. Dois anos depois Vivien ainda contava aos demais a his- téria das vidragas ¢ do homem que as pagara: —Deve ter sido um télo terrivel, porque nem me tinha visto nunca. ‘As criangas estabelecem contato com estranhos muito mais facilmente quando nfo conhecem o médo. A reserva inglésa, no fundo, realmente, médo, e. por iss0 _0s_mais reservados sio os que tém maior fortuna. O fato de as criangas de Summerhill Serem excepcionalimente amistosas para com visi- tantes e estranhos é uma fonte de orgulho para mim € para © meu pessoal. Devemos confessar, entretanto, que muitos dos nossos_visi- tantessio pessoas, que interesam 8 cxiangas A espe, de visita mais Agradavel para elas é a do professor, especialmente do professor animado, que deseja ver seus cadernos e trabalhos escritos. A mais bem recebida é a visita que saiba contar fistnas de aventuras, viegens, ou, melhor do. que tds, de aviagio. Um jogador de boxe ou um bom tenista séo imedia- tamente rodeados, mas os visitantes que comegam a porejar teorias so postos’inteiramente de parte. 10 © comentirio mais freqiiente por parte dos visitantes é 0 de que se faz dificil distinguir entre membros do pessoal ¢ alunos, ei Summerhill, TE verdade: @ sensagio de inidade &” forte, quando as criancas sentem aprovagio, Nao ha defe- réncia para com um professor, como professor. Pessoal alunos tém a mesma comida e devem obedecer as mesmas leis da comunidade. As criancas se ressentiriam de qualquer privi- Iégio outorgado a0 pessoal. Quando eu tnha o hibito de fazer t6da a semana uma, pa lestra sObre psicologia, para a congregacio, havia murmirios aque disiam ho ser justo aquilo. "Made! ‘do plano passe! a fazer as palestras para todos que tivessem mais de doze anos. Tédas as tércas-feiras, 4 noite, meu gabinete fica cheio de animados jovenzinhos, que nfo sé ouvem como expressam livremente suas opinides. Entre os assuntos que as criangas me pediram que tratasse nessas palestras, estavam: “O Com- exo de Inferioridade”, “A Psicologia do Roubo”, “A Psico- logia_do_Quadrilhiefro”, “A Psicologia do Humor", “Por que o Homem se tomou um Moralista?” “Masturbagio”, “A Psico- eae Mugans™ © evident que tals riangas ito para a Si in conhiecimento amplo e claro sdbre si mesmas € sobre os demais, A pergunta que os visitantes de Summerhill fazem com mais freqiténcin 6: jas a crianga um dia no se voltaré contra a escola, cul- pando-a por ndo a ter feito estudar aritmética ou misica? A resposta & que 0 jovem Freddy Beethoven ou 0 jovem ‘Tommy Einstein ‘recusariam ser mantidos fora de sua esfera de aco. A fungio da crianga é viver sua propria vida, nfo a vida que seus pais, angustiados, pensam que elas devem levar, nem a que estd de acdrdo com os propésitos de um educador que imagina saber 0 melhor. ‘Téda interferéncia e orientagio por parte de adultos s6 produz uma geragio de robés. Niio se pode fazer criancas estudarem miisica ou qualquer outra colst sem de certa forma converte-las em aduos, deste tuldos de vontade, Sio modeladas como accitadores do satus quo—boa coisa para uma sociedade que precisa de ccupantes Sbedientes de Higubres escrivaninhas. de eatseitos de lope, de assageiros meciinicos do_subtirbio das 8,30—uma sociedade, para resumir, que vai sendo levada sdbre os ombros débeis de um homenzinho-o conformista morto de médo, Wn UMA VISTA DE OLHOS A SUMMERHILL Deixe-me deserever um dia tipico de Summerhill. A pri- meira refeicio vai das 8,15 as 9 horas. Pessoal e alunos levam essa refeicio da cozinha para a sala de jantar. As camas dovem estar feitas até as 9,30, quando comegam as ligdes. ‘Ao inicio de cada perfodo escolar um horirio é fixado. Assim, Derek pode ter no Iaboratério a Classe I, na segunda- feira, a Classe II na térga-feira, ¢ assim por diante. Eu tenho horétio idéntico para Inglés ¢ Matematica. Maurice 0 tem para Geografia e Historia. As criangas menores (dos sete ‘40s nove anos) passam, habitualmente, com se proprio pro- fessor, grande parte da manha, mas também vio para as Salas, de Ciéncias e Arte. Nenhum aluno & forgado a freqiientar as aulas. Mas, se Jimmy vem para o Inglés na segunda-feira e nfo mais aparece até a sextafeira da semana seguinte, os outros reclamam, com téda a razio, dizendo que éle esté atrasando trabalho. E lem expulsé-lo, por impedir 0 progresso. SAS ligées vio até uma hora, vimas as criancas do jardim da ‘infincia e as que ficam entre sete € nove anos almogam as 12.0, A escola tem de set alimentada em dois tums. A ‘congregagio os maiores almogamn & 1,30. As tardes sio inteiramente livres para todos. O que fazem durante a tarde nio sei. Eu me dedico & jardinagem, e rara- mente vejo meninos por ali, Os pequeninos, sim, que brincam de mocinho e bandido. Alguns dos mais’ velhos ocupam-se ‘com motores e radios, com desenhos e pinturas, Quando 0 tempo est bom, dedicam-se a jogos ao ar livre, Outros ficam na Oficina, consertando suas bicicletas ou fazendo barcos ¢ revdlveres. cha ¢ servido as quatro horas. As cinco, viias atividades tém inicio. Os mais jovens gostam que se leia para éles. Os 12 | médios preferem trabalhar na Sala de Arte—pintura, recortes de oleado, feitura de cestas. Na cerimica h& sempre um grupo ativo e, realmente, ceriimica parece ser uma obsessio, a manha ¢ & noite. Os mais velhos trabalham das cinco horas em diante, As oficinas de carpintaria e metalurgia ficam cheias t6das as noites. Nas noites das segundas-feiras os alunés vio ao cinema local, a expensas dos pais. Quando mudam o programa, is quintas- feiras, 05 que tém dinhieiro tormam a ir. Nas noites das térgas-feiras a congregacio e os ma’s velhos ouvem minha palestra sdbre psicologia. Ao mesmo tempo os menores formatn varios grupos de leitura. As noites das quar- tas-feiras sio para a danca, e os discos podem ser escolhidos entre uma pitha enorme. "As criangas ‘mpstram-se, todas, boss dangarinas, e alguns visitantes se tém sentido em condigio de inferioridade, dangando com elas. Nas noites das quintas- feiras néo hd nada de notivel. Os mais velhos vio ao cinema, em Leiston ou Aldeburgh. As noites das sextas-feiras sio re- servadas para algum acontecimento especial, talvez ensaio de ecas teatrai Mais importante & a noite de sibado, pois ¢ quando se faz a Assembléia Geral da Escola, Habitualmente, segue-se um baile. Durante as noites de invemo, as de domingo ficam sendo noites de teatro. Nao hé horério para o trabalho manual, Néo hi ligdes esta- belecidas para carpintaria. As criangas fazem 0 que querem fazer, € 0 que querem fazer é, quase sempre, um revélver de brinquedo, um canho, um barco, ow um papagaio. Nao se interessam muito pelos trabalhos que exigem encaixes com- licados. Mestno os mais velhos nfo apreciam a carpintaria fic. Nao ha muitos que se interessem pelo meu proprio passatempo-metal martelado—porque nio se pode por muita Inventiva numa vasilha de metal. Quando o dia esté bom & possivel que nfo se vejam os meni- nos quadrilheiros em Summerhill. Esto pelos cantos distantes, cuidando de suas peraltagens. Mas ver-se-io as meninas, que, ‘ou estio dentro de casa ou nas proximidades da casa. Nunca se afastam muito dos adultos. Freqiientemente se pode encontrar a Sala de Arte repleta de meninas que pintam ou fazem coisas coloridas, com teci- dos. Em geral, entretanto, acho que os meninos pequenos sio mais eriadores, pelo menos munca ouvi um déles dizer que 13 esti aborrecido porque nfo sabe 0 que hi de fazer, enquanto ae a " ‘Talvez eu considere os meninos mais criadores do que as meninas por estar a escola melhor aparelhada para les do que para elas. Meninas de dez anos, ou mais, nio véem grande uso numa oficina de ferro ou de madeira. Nio tém disposigio para lidar com maquinas, nem se sentem atraidas pela eletricidade e pelo ridio, ‘Tém seu trabalho de arte, que incluj cerimica, blocos de oleado, pintura, costura, mas’ para algumas isso nio € 0 bastante. Os meninos sio tio expertos como as meninas, no que se refere & cozinha. Uns ¢ outras fescrevem e representam suas proprias pecas, fazem seus pré- rios costumes ¢ cenérios. Geralmente, 0 talento teatral dos hlunos é de alto nivel, porque representam com sinceridade e ‘ngo para se exibirem. ‘As meninas parecem freqiientar o laboratério de quimica com tanta assiduidade quanto os rapazes. A oficina é 0 tinico lugar que nao atrai o elemento feminina, dos nove anos para cima. ‘Tomam as meninas parte menos ativa do que os meninos nas Assembléias Gerais da Escola, e nio encontro explicagao pronta para isso, ‘Até h& uns poucos anos, as meninas vinham sempre tarde para Summerhill: tivemos muitos fracassos, com eriancas. pro- Nenientes de conventos-e de escolas exclusivamente femininas, Jamais considerei uma dessas criangas como exemplo verda- Geiro da educagio livre. Tais meninas vinham assim tarde para a escola, procediam, quase sempre, de pais que nao apre- Giavam a liberdade, pois se a apreciassem suas filhas nio se teriam convertido em problemas. Entio, quando a menina se curava em Summerhil} de sua frustragio especial, era arreba- tada pelos pais “para uma excelente escola onde ela seri edu- cada’ Mas, nos anos recentes, estamos reccbendo meninas gue vém de casas onde se acredita em Summerhill. Formam uum belo grupo, sim, cheio de espirito, de originalidade ¢ ini- ciativa, Ocasionalmente, temos perdido meninas, por motivos finan- ceiros, as vézes por estarem seus irmaos freqitentando colégios pariculares dspendiosos. A velha uadigio ‘de fazer do filho jomem elemento importante da familia é obstinada. Per- demos tanto mieninas Como meninos por causa do cidime pos- th a ee ESE i een — sessivo dos pats, que temlam ver as_criangastransferirem-para S°SSeole sof tesldide em lagi a0 lan. m Summerhill sempre lutou um pouco para se manter. Poucos pais tém paciéncia e £6 suficientes para enviar o filho a uma Beola onde as criancas podem brincar, como alternativa para cena Tremem, co perber que aos vinte un anos se filha talvez se mostre sem Capacidade para ganhar a vida. Hoje, os alunos de Summerhill sio, em sua maioria, ri angascujos. pais as querem educar sem disciplina restritiva. Isso 6 um dos fatos mais felizes, pois nos velhos dias eu teria tm filho dos de arraigada tradigio apenas se 0 pai 0 enviasse tn desespéro de causa, Tais pais nio tém interésse algum na liberdade das criangas, e, secretamente, devem nos considerar tum bando de excéntricos Iuniticos. Foi muito dificil explicar Coisas a ésses obstinados. ‘Tembro-ine de um militar que pensou em matricular em Summerhill 0 filho de nove anos. —O lugar me parece bom—disse éle—mas tenho un receio. Meu rapaz pode aprender a masturbar-se aqui. PerguntetIhe porque temia tanto isso. Porque Ihe far muito mal—foi a resposta. “Nio féz tanto mal assim ao senhor nem a mim, nfo & mesmo?—indaguet eu, alegremente. O homem sain depressa, Tevando 0 filho. TE houve também a mie rica, que, depois de me fazer, per- untae durante. una hora, voliow-se para o.marido ¢ se: -Nio consgo resslvr se mando ou no Marjorie para esta “Nio se preocupe—disse-Ihe eu.—Resolverei pela Senhora. [No receberemos sia filha \ Tive que explicar-The o que quisera dizer aquilo: A senhora no acredita realmente em liberdade, ¢ se sua filha vier para c4, vai me fazer gastar a metade da minha vida a explicarthe tudo, e, a0 fim, ainda ndo estar. conven- Gida, © resultado seria. desastroso. para, Marjorie, porque a menina se veria constantemente diante de uma divida atroz: “Quem tem razio, o lar ou a escola?” ‘Os pais ideais sio os que chegain e dizem: Summerhill é © lugar para 0s nossos garotos. Nenhuma outra escola. serviia ‘Quando abrimos a escola as dificuldades eram particular. mente graves. Sb podiamos receber criangas das classes média 15 ¢ alta, porque tinhamos de equilibrar um orcamento, Nao contivamos com nenhum rieago para nos dar apoio. Nos pri- rmeiros dias da escola, um benfeitor, que insiste em permanecer #0 anonimato, ajudou-nos a atravessar uma ou duas épocas més, e mais tarde um dos pais féz generoso donativo—uma cozinha nova, um rédio, nova ala para nosso chalé, © nova oficina. Foi o benfeitor ideal, pois nao determinou_coadigdes, e nada pediu em troca. Summerhill deu ao meu Jimmy a educagio que eu desejava para éle—foi 0 que disse, dmpleznente, pois James Shand era uum crente verdadeiro na liberdade para a crianga, Entretanto, jamais tivemos possibilidade de_receber_os fi- Jhos_dos_pobres. F uma pena, 1880, pois temos de resuinir nnossos estudos apenas aos filhos dos da classe média. E as vézes & dificil ver a natureza da crianga quando escondida atrés de muito dinheiro e de roupas dispendiosas, Quando uma menina sabe que aos vinte e um anos entrar ni posse de substancial quantia, nio é facil estudar nela a natuzeza da crianga, Felizmente, entretanto, a maior parte dos alunos pre- sentes ¢ passados de Summerhill nio foi estragada pela for- tuna, Todos éles souberam, e sabem, que terio de ganhar a vida, quando deixarem a escola, Em Summerhill temos empregadas domésticas, da cidade, que trabalham para nds 0 dia todo, mas dormem em suas préprias casa, Sio jovens, e trabalham bastante bem. Numa atmosfera livre, onde ninguém toma ares de patrio, trabalham mais ¢ melhor do que as empregadas que o fazem sob auteridade, Sob todos os aspectos sio excelentes mécas, Sempre senti certa vergonha ao ver essas jovens terem de trabalhar tanto por haverem nascido pobres, quando tinhamos tido meninas imadas, de familias abastadas, sem energia suficiente para fazerem ‘as préprias camas. Devo confessar, porém, que eu proprio detesto ter de fazer a minha cama. Minha desculpa esfarrapada nesse caso, isto é, a alegagéo de que tenho muitas outa ‘coisas a fazer, nao convence as eriangas. Cagoam da minha defesa, quando digo que nio se pode esperar que um general se sie oeupando de ninherias Mais de uma vez fiz sentir que os adultos, em Summerhill, nio. so protétipos de virtude. Somos humanos como téda gente, © nossas fraquezas humanas muitas vézes entram em conflito com as nossas teorias. No lar médio, se uma crianga ‘quebra um prato, 0 pai ou a mae armam barulho, tornmdo'o 16 prato mais importante do que a crianga. Em Summerhill, se ima camareira ou uma crianga deixa cair uma pilha de pratos cou nada digo, minha espésa nada diz. Acidentes so acidentes. Mas se a crianga pede um livro emprestado e deixa-o ficar li fora, exposto a chuva, minha espdsa se zanga, porque livros, para ela, tém muita importincia. Em tal caso, eu, pessoal- mente, sou indiferente, pois os livros para mim tém pouco valor. Por outro lado, minha espdsa parece vagamente surpre- endida se eu fao barulho a propésito de um formio estragado, Dou valor a ferramentas, mas para ela as ferramentas pouco representam. ‘Em Summerhill temos uma vida em que damos de és, com tempo integral. As visitas cansam-n0s iangas, jis também clas desejam receber de nds. Pode ser maior éngio dar do que receber, mas, sem divida alguma, 6 mais exaustivo. Nossas Assembléias Gerais nas noites de sdbados, ai de mim, revelam 0 conflito entre erianigas e adultos, 1880 @ natural, pois numa comunidade de pessoas de varias idades, se ccda qual sacrificasse tudo as criangas menores, seria estragar completa- mente essas criangas. Os adultos queixam-se de um grupo de alunos mais velhos que no os deixain dormir, conversando ¢ indo depois que todos se recolheram. Harry queixa-se de que passou uma hora aplainando uma almofada para a porta da frente, e, a0 voltar do alméco, verificou que Billy se tinha servido dela para fazer uma prateleira, Eu fago acusagées contra as criangas que pediram emprestado meu material de Somagem e ni o devolveram. Minha mulher faz barulho por- que trés das criangas menores, depots da ceia, disseram estar gom fome, receberam pio e geléia, e, na manhi seguinte os pedagos de pio foram encontrados no piso do vestibulo. Peter conta, com tristeza, que alguns meninos atiraram sua preciosa argila uns nos outros, na sala da cerimica, E_a_eoisa_vai assim, a luta entre 0 ponto de vista adulto ¢ a falta de conhe- mento consciente dos jovens. Mas tal Tuta néo degenera jamais ei” hostilidade pessoal: nfio hd sentimentos amargos em relagio a cada qual. © conflito mantém Summerhill muito fanimado, Ha sempre alguma coisa acontocendo, e durante todo (© ano nem um s6 dia se passa insipidamente. Felizmente, 0 pessoal no tem excessivo sentimenta de pos- se, embora eu confesse que me magoa, quando compro uma Tata especial de tinta, a trés libras o galio, saber que uma das 17 meninas se serviu dela para pintar velha armacio de cama. Sou possessivo no que respeita ao meu carro, & minha maquina de escrever, 2s ferramentis da minha oficina, mas a0 tenho tal sentimento em relagio a pessoas, Quando se, é possesixn em relagio a pessoas nao se deve ser mestre-escol. © uso e estrago de material em Summerhill & processo natu- ral, $6 poderia ser impedido pela introducao de médo. O uuso estrago das f0rcas psiquicas ndo podem de forma alguma ser impedidos, pois as criangas pedem, e devem receber. Cin- jienta vézes ‘por dia a porta da minha sala se abre e uma crianga pergunta qualquer coisa: Hoje é dia de cinema? ~Por que nao tenho uma L. P.? (Licdo Particular.) =Vocé viu Pam? —Onde esté Ena? Tudo isso num dia de trabalho, € nao sinto jamais cansaco, embora nao tenhamos verdadeiramente vida particular, por- que a casa nio se presta muito para escola—nio se presta tito do ponte de vista adult, pois as eranas esti, sempre em cima de nés. Mas, a0 fim do periodo escolar, minha es- pésa ¢ eu estamos cansadissimos. Um fato digno de mencio é 0 de que dificilmente os mem- bros da congregacio perdem a calma. Isso tanto diz bem déles como das criangas. Sio, realmente, criancas adoraveis ara se conviver, € poucas ocasies aparecem em que se po- deta perder a ching Se a cranga & live e sentese aprovads, niio ser, regra geral, odienta. Nao terd prazer algum em levar um adulto a perder calma, ‘Tivemos uma professéra super-sensivel no que se referia & critica, e as meninas a atormentavam, Nao podiam atormentar qualquer outro,membro do pessoal docente, porque nen déles reagiria. $6 se pode atormentar quem tem digridade, {As criangas de Summerhill mostram tendéncia agressiva, coisa habitual nas criancas comuns? Bem, téda crianga deve ter alguma agressividade, para forcar seu caminho através da vida. A agressividade exagerada, que vemos nas criangas nio-libertas, 6 um protesto exagerado contra a animosidade que se demons: tra em relagio « elas. Em Summerhill, onde crianca alguma se sente detestada pelos adultos, a agressividade nfo & neces- sfria, As criangas agressivas que nos aparecem provém, inva- riivelmente, de lares onde nfo Thes dao amor e compreensao, 18 Quando eu era menino e freqiientava uma escola de aldeia, narizes sangrando mostravam-se um fenémeno semanal, pelo menos. Agressividade do tipo lutador & animosidade, ¢ jovens cheios de animosidade precisam lutar. Quando as eriancas estio. numa atmosfera da qual a animosidade foi eliminada, nio demonstram tal sentimento. ~~ Penso que a insisténcia freudiana sobre a agressividade é devida ao estudo de lares e escola, tal como éles sao. Nao se pode estudar a psicologia canina estudando 0 eo-de-caca préso wrrente. Nem se pode teorizar dogmaticamente sdbre psicologia humana quando a humanidade esté sob fortes_ca- deias, cadeias Forjadas por geragoes de odientos da vida, Acho ‘que iia liberdade de~Summerhill- a agressividade nfo se faz (° sentir em coisa alguma com a férga que tem nas escolas cstritas, Em Summerhill, entretanto, liberdade no significa anulaio do bom senso. Tomamos tédas as precaugdes para a sexu- ranga dos alunos. As eriangas s6 podem ir a0 banho de mar quando esta presente um salva-vidas para cada seis delas, ¢ nenhum dos alunos de menos de onze anos pode andar sb- zinho pelas ruas, de bicicleta. Essas regras foram ditadas pelas proprias criangas, nas Assembléias Gerais da Escola, Nao ha leis, contudo, quanto A escalada das drvores, Subir as arvores faz parte da educagio da vida, e proibir tidas as empresas perigosas sera fazer a erangs um covarde. Prof bimos a subida a telhadi di primido ow de~qualque 08 Sempre aft quando surge’ Tiana’ periodiea das espadas de madeira, Insisto em que as pontas seam cobertas com bor- racha, ou pano, mas, mesmo assim, fico setisfeito quando a mania passa, Nio é fécil marcar a linha diviséria entre realis- tico e simples afligio: - Nunca tive alunos prediletos, na escola. Naturalmente, sem- pie_gostel mais de-umas eriangas-do-que de outras, mas con- segui_manter tal coisa ignotada, Possivelmente 0 suéesso ‘de Summerhill se deva, em parte, ao fato de as criancas sen- tirem que sio tratadas da mesma maneira, ¢ tratadas com respeito. Temo, para qualquer escola, a existencia de atitude sentimental em relagio aos alunos. E tio fécil fazer cisaes dos nossos gansos, ¢ ver Picasso numa crianga que saiba espalhar tintas, 19 Na maior parte das escolas onde lecionei, a sala do corpo docente era um inferninho de intrigas, édios, citimes. Nossa sala do corpo docente é um lugar feliz, Os despeitos que freqtientemente sio vistos em outros lugares, ali esto ausentes. Sob liberdade, os adultos adquirem a mesma felicidade ¢ boa vontade que adquirem os alunos. As vézes, um memro novo do nosso corpo docente reage contra a liberdade muito a moda das criangas: nfo faz a barba, fica demasiado tempo na cama, pela manha, chega a ferir as leis da escola. Feliz- mente, a Ubertaglo quanto's complesos se faz mais depressa em adultos do que em criangas. Em noites alternadas de domingos eu conto as criangas me- nores uma histéria na qual figuram elas préprias em aventu Venho fazendo isso hé anos. Levei-as & minha recéndita Africa, ao fundo do mar, ¢ acima das nuvens. Hi algum tempo, imagine! quo eu, tinha morro @ que Summmerhil feara sob a dirego de um homem severo, chamado Muggins, que tomou as ligdes compulsérias. Quem ousasse dizer “ai” tomava ben- aladas. E descrevi como tédas as criangas obedeciam humil- jemente as ordens déle. Aquéles pequeninos, entre trés e oito anos, ficaram furiosos comig =Nao obedecemos nadal Fugimos. Matamos éle com um. martelo. Esté pensando que a gente ia agiientar um homem assim? Por fim, vi que sé poderia satisfazé-los ressuscitando, ¢ pondo o St, Muggins pela porta a fora, aos pontapés. Trata va-se na maior parte, de criangas que munca tinham conhecido escolas com restrigGes, ¢ sua reagio era espontinea e natural. Um mundo no qual o mestre-escola nfo estava ao Indo delas,. era um mundo pavoroso de se imaginar, no s6 por causa de sua experiencia de Summerhill, mas também por caust de sua experiéneia no lar, onde Mame e Papai estavam igualmente a favor déles. Um visitante norte-americano, professor de psicologia, cri- ticou nossa escola sob a alegacio de que ela é uma ilha, no se encaixa na comunidade, néo faz parte de uma unidade social maior. Minha resposta é a seguinte: “So eu tivesse de fundar uma escola em cidade pequena, tentando fazé-la parte da comunidade, que acontecetia? Que porcentagem, entre cem pais, aprovaria o sistema de assis téncia livre ds aulas? Quantos aprovariam o direito de a cri- 20 anga masturbar-se? Desde 0 tiro de partida eu teria de fazer concessdes quanto @ coisas que acredito verdadeiras”, Summerhill é uma ilha, Tem que ser uma ilha, porque os pais dos alunos moram em cidades que ficam a milhas de dis- Yineia, ou em paises de ultramar. Desde que & impossivel rounir 0s pais na cidade de Leiston, Suffolk, Suramerhill nao pode ser parte da vida cultural, econdmica e social de Leiston. ‘Apresso-me a acrescentar que Summerhill nZo & uma ilha em relagio a Leiston, Temos muitos contatos com 0 povo do lugar, ¢ as relagées miituas si0 amistosas, embora, funda- mentalmente, nio facamos parte da comunidade, Jamais pen- saria em pedir ao diretor do jornal local que’ publicasse a histéria dos sucessos de antigos akmos meus. Jogamos com as criangas da cidade, mas as nosias metas, no terreno da educagio estio bem longe uma das outras. Nao tendo qualquer filiagio religiosa, nao temos entrosagem com qualquer dos érgios religiosos da cidade. Se Summerhill fosse parte do centro municipal do lugar, seria obrigada a dar ensino religioso a seus alunos. TTenho a sensagio de que meu amigo norte-americano nto compreendeu o que significava a sua critica, Para mim, ela significa: “Neill nfo passa de um rebelde contra a sociedade; seu sis- tema nada fez, para unr a sociedade em unidade harmoniosa, nem pode servit de ponte entre a psicologia infantil ¢ a igno- raneigadulta quanto 8 Psicologia infantil, entre a vida oa antivida, entre a escola ¢ 0 lar.” Minha resposta é que nao sou um proselitista altivo da sociedade: posso apenas convencer a sociedade de que Ihe & necessiirio livrar-se de seu ddio, de seus castigos, de seu misti- cismo, Embora escreva e diga’o que penso da sociedade, se tentasse reformé-la através da acdo, a sociedade me mataria, como perigo piblico, Se, por exemplo, eu tentasse formar uma sociedade na qual os adolescentes estariam livres para ter sua vida amorosa_na- tural, ficaria perdido, se nio Tse préso como sedutor imoral da juventude. Detestando as concessies como detesto, teri que fazer aqui uma delas, compreendendo que meu trabalho essencial no é reformar’a sociedade, mas dar felicidade a algumas,-a~poucasGrlangas. A EDUCACAO DE SUMMERHILL VERSUS EDUCAGAO PADRONIZADA Mantenho que a meta da existéncia é encontrar felicidade, o que significa encontrar interésse. A educagio deveria ser uma Preparacio para a vida, Nossa cultura-nio tem tido grande sucesso, Nossa educacio, nossa politica, nossa economia, levam A guerra. Nossa medicina nfo pée fim as moléstias, Nossa religifo nfo aboliu a usura, 0 roubo, Nosso decantado human. tarismo ainda permite que a opinio piblica aprove o esporte Barbaro que €a caga, Os progress da epoct sto. progress da meciinica em radio e televisio, em eletrénica, em avioes a jato. Ameacam-nos novas guerras mundiais, pois @ cons- iéncia social do mundo ainda é primitiva, Se hoje sentissemos disposigio para indagar, poderiamos fazer algumas perguntas constrangedoras: Por que o homem parece ter muito maior ntimero de doencas do que os animais? Por que o homem odeia e mata na guerra, quando os ani- mais nao fazem tal coisa? Por que aumenta a mortalidade pelo cancer? Por que ha tantos ¢ tantos suicidios? Por que existe 0 dio chamado antisemitism? Por que se odeia ¢ lincha 0 negro? Por que ha despiques e despeitos? Por que 0 sexo é obsceno, e motivo para piadas maliciosas? Por que um bastardo é uma vergonha social? Por que continuam a existir religioes que de h4 muito per- deram seu amor, sua esperanga, ¢ sua caridade? HA milhares de porqués quanto a éste’jactancioso estado de civilizada eminéncia. Fago essas perguntas porque sou, de profissio, um professor, alguém que trata com jovens. Faso 22 essas perguntas porque as que muitas vézes os professores tazem nao tém importancia, pois se relerem a assintos esco- lares. Pergunto que espécie de bem terreno pode vir de dis- ccussdes sdbre francés, ou histéria antiga, ow seja ldo que for se ésses assuntos no valem um earacol quando comparados com as perguntas maiores, relativas & natural realizagdo da vida, da felicidade {ntima do homem. Quanto de nossa educagio verdadeiramente funcional, auténtica auto-expressio? O trabalho manual é, muitas vézes, ‘a confecgio de uma alfineteira sob os olhos de um especia. lista. Mesmo o sistema Montessori, famoso como sistema de Jogos dirgidos, faz-se maneira artificial de levar a erianga a aprender fazendo, Nao ha nada de criador néle. No lar, a crianga esta constantemente sendo ensinada, Em quase todos os lares, ha sempre pelo menos um adult adulto, que corre a mostrar a Tommy como sua nova méquina funciona. Ha sempre. alguém ‘Para erguer 0 bebe ¢ colosi-la numa cadeira, quando 0 que o bebé queria era examinar alguma coisa na parede. De cada vez que mostramos a Tom- my como sua méquina trabalha, estamos roubando a essa ¢rlana a alegria da vida—a alegria da descoberta—a alegria de vencer um obstaculo. Pior! Estamos fazendo com que essa crianga acredite que & inferior e deve depender de auxilio. Os pais sio tardos no compreender quanto é falho de im- portinicia o Indo referente & escola. Criangas, com adultos, aprendem o que desejam aprender. ‘Téda outorga de prémios, E notas-e exames, desvia 0 desenvolvimento adequaco' da per: sonalidide, $6 os pedantes declaram que o aprendizado li- resco é educagio, - a ‘08 livios so 0 material menos importante na escola, ‘Tudo quanto a crianga precisa aprender é ler, escrever, contar. O resto deveria compor-se de ferramentas, argila, esporte, teatro, Pintura e liberdade. A maior parte do trabalho escolar que os adolescentes fazem & simplesmente, desperdicio de tempo, de energia, de paci- éncia. Rouba & juventude seu direito de brincar, brincar e brincar: coloca sdbre ombros mogos cabegas yelhas. Quando"ed falo a estudantes de escolas normais © universi- dades, fico quase sempre chocado com a falta de qualidades adultas daqueles garotos ¢ gardtas recheados de iniiteis conhe- cimentos. Sabem muito, brilham em dialética, poder citar os clissicos, mas em sua maneira de encarar a vida muitos déles 23 sto criangas. Porque foram ensinados a saber, mas nfo Tres ensinaram a sentir, Tais estudantes sio amistosos, agradiveis, animados, mas algo Ihes falta: 0 fator emocional, 0 poder de subordinar 0 pensamento ao sentimento, Falo-Ihes de um mundo cujo conhecimento Ihes foi negado, e que éles conti- nuardo a desconhecer. Seus livros escolares nao tratam do carter humano, do amor, da liberdade, ou da autodetermi- nagio, Assim, 0 sistema continua, tendo por alvo apenas os padres do ensino livresco: continua separando a cabeca do coragio. i& era tempo de estarmos desafiando a nogio escolar de trabalho. Todos eoncordam em que i evianga deve aprender aritmética, histéria, geografia, um pouco de ciéncia, um pouco de arte, ¢, sem diivida’ alguma, literatura, mas € tempo de ‘compreendermos que uma crianga média nao tem grande inte- résse por ésses assuntos. Tenho a prova disso em cada aluno novo. Quanilo the dizem que a escola é livre, 0 névo aluno exclama: Oba! Ninguém mais me apanha estudando aquela estipida matemitica ¢ mais outras coisas! |. Nao pretendo denegrir 0 ensino. Mas o ensino deve vir de- ois do brinquedo. E ensino nao deveria ser temperado com rinquedo, a fim de se tornar tragavel, Aprender é importante, mas nao para tdda gente. Nijinsky jo conseguiu passar nos exames de sua escola de Sio Peters- burgo, e nao poderia entrar para o Balé do Estado sem a aprovagio naqueles exames. Nao Ihe era possivel, simples- mente, aprender os assuntos escolares: tinha a mente em outro lugar.’ Forjaram um exame para éle, dando-lhe as respostas prontas num papel, pelo menos & 0 que diz uma de suis bio- grafias, Que perda teria sofrido 0 mundo, se Nijinsky nfo tivesse podido, realmente, passar naqueles exames! Criadores aprendem 0 que desejam aprender para ter os instrumentos que o seu poder de inventar ¢ 0 seu genio exigem. Nao sabemos quanta capacidade de criagio é morta nas salas_ de aula. ‘Vi uma gardta chorar toda a noite por causa das liges de geometria. "Sun mic desojava que ela fésso para a univers lade, mas a alma da menina voltava-se toda para a arte, Fi- quei encantado quando tive noticia de que ela fracassara em seus exames vestibulares, e pela sétima vez. Talvez que agora 24 a mae permitisse a realizagio de seu desejo, que era ingressar no teatro. HE algum tempo, encontrei-me com uma gardta de catorze anos, em Copenhague. Essa garéta havia passado tres anos em Summerhill, ¢ tinha falado ali um inglés perfeito. =Vocé deve ser a primeira da classe em inglés, nao 6 mes- mo?—perguntei-lhe. Ela féz uma careta melancélica: =Nio. Sou uma das iiltimas, porque nio sei gramitica in- glésa. Penso que 0 que acabo de contar & quase o melhor comen- trio sbbre aquilo que os adultos consideram educagio. Escolares faiferentes, que, sob disciplina, passam arranhan- do através do colégio ou da universidade, e toraam-se pro- fessOres sem imaginagio, médicos mediocres e advogados in- competentes, talvez. chegassem a ser bons mecinicas ou exce- lentes pedreiros, ou policiais de primeira classe jé descobrimos que 0 rapaz que nfo consegue ou nfo quer tpieoer «ler ate—digamos-os quince anos. é sempre um rapaz com inclinagao para a mecanica, e mais tarde se tornard um bom maquinista ou eletricista. Eu no ousaria tomar um tom dogmitico em relagio a meninas que nunea vio as aulas especialmente as de matemitica e fisica, Freqiientemente tais ‘meninas passam muito tempo com trabalhos de agulha, ¢ algu. mas entre clas, mais tarde, passam a ser costureiras ou dese- nhistas. O curriculo que faz uma costureira em potencial es. tudar raiz quadrada ou a Lei de Boyle é absurdo. Cadwell Cook escreveu um livro chamado © Caminho do Brinquedo, no qual conta como ensina inglés através de brin- cadeiras. O livro é fascinante, cheio de coisas boas, mas, ainda assim, penso que se trata apenas de uma nova forma de acol- choar a teoria de que o ensino é de alta importincia. Cook firma que 0 ensino é tio importante que a piluia deve ser recoberta de agiicar. Essa nogio de que a nio ser que a crianga aprenda alguma coisa esta perdendo tempo, nada mais € do que uma maldigfo, uma maldigio que cega milhares de professéres, ¢ grande maioria dos inspetores escolares. Ha cingiienta anos a senha era “aprender brincando*. O. bri quedo assim, usado apenas como um meio para atingir leterminado fim, mas que havera de bom nesse fim eu nio s Se um professor vir seu aluno brincando cm lama, © pre- tender melhorar 0 espléndido momento falando em erosao das 25 ‘margens dos rios, que fim tem éle em vista? Que importa a trianga a erosio d0s trios? Muitos dos Chamados:ceuesdorer acreditam que nao importa o que uma crianca aprenda, desde que Ihe ensine algo, E, naturalmente, com as escolas tais como sio—apenas labricas de produgio’ em massa—que pode ‘um professor fazer senio ensinar algo ¢ chegar a acreditar no ensino, julgando-o, em si mesmo, coisa importante? Quando faco palestra para um grupo de professéres, comeco por dizer que nao vou falar sObreasunos esclares, sabre Gisciplina ou sébre aulas. Durante uma hora meu auditério ouve em enlevado siléncio, e, depois do aplauso sincero, 0 pre- ~ Sidente anuncia que estou pronto para responder perguntas. Pelo menos trés quartos das perguntas que me fazem versam sobre matéria escolar e ensino. av Nio digo isso tomando ares superiores, de forma alguma. igo‘ ea tte e para mostray como’ as paredes day la) de aulas ¢ os edif de prisdes estreitam a visio % dos. professores, impedindo-os de ver as coisas _verdadelra . mente. essenciais. daeducagio.7O" trabalho _déles_trata_com uma parte da crianga que esta acina do pescogo, ¢ natural- tmentdea parte vila emigcional del, fica sendo terério estan: geiro para o mestre, Eu gostaria de ver um movimento maior de rebeliio entre nossos jovens professores. Educagio de alto nivel ¢ diplomas universitirios nio_fazem a mfnima”diferenca na confrontac: males. da sociedade, Um neurético letrado nio faz dife- \ renga alguma de um neurdtico iletrado. a ‘Em todos 0s paises, sejam élés capitalistas, socialistas, ou |. / comunistas, primorosos prédios escolares so constru{dos, para fa educacao dos jovens. Mas todos os laboratérios ¢ oficinas maravilhosos nada fazem para ajudar John, Peter ou Ivan a ‘encer 05 prejulzas emocionals eos, miles socials nascidos da“ pressio sébre éles exereida pelos pais, pelos professdres ¢ pela, qualidade coercitiva da nossa civilizagio. 7 26 0 QUE ACONTECE CoM OS QUE SE FORMAM EM SUMMERHILL © médo dos pais em relagéo ao futuro dos filhos fornece mau prognéstico quanto 4 satide déstes dltimos. Bsse médo, bastante estranhamente, revela-se no desejo de que os filhos aprendam mais do que éles aprenderam, Essa espécie de pais ‘nfo se contenta em deixar que Willie aprenda a ler quando 0 desejar, mas teme, nervosamente, que Willie venha & ser um fracasso na vida, a no ser que'o empurrem. Tais pais nao podem esperar que 0 filho caminhe com a medida'de seus prdprios pasos e perguntam: ~Se meu filho nio sabe ler aos doze anos, que possibilidade teri de obter sucesso na vida? Se nfo pode passar aos dezoito anos nos vestibulares de colégio, que havera pare éle sendo um emprégo que nao exija especialidade? ‘Mas eu aprendi a esperar, e observar uma crianga fazendo pequeno ou nenhum progresso, Jamais duvide de que, no fim, se_nio fr molestada ou prejudicada, ela tera suceso na vida, Os filistinos dizem, naturalmente: Bolas! Entio voc’ acha que ser motorista de caminhio é ter sucesso na vida? Meu critério particular de sucesso refere-se & capacidade de trabalhar alegremente ¢ de viver positivamente. Sob essa defi- nigio, a maior parte dos alunos de Summerhill terminou por ter sucesso na vida, Tom veio para Summerhill com cinco anos de idade. Saiu aos dezessete, sem ter assistido, em todos ésses anos, a uma s6 ligio. Passou’a maior parte de seu tempo na oficira, fazendo coisas. Seu pai e sua mie tremiam de apreensio pelo seu futuro, Ble jamais manifestara qualquer desejo de aprender a ler. Uma noite, entretanto, quando 0 gardto tinha nove anos, dei com éle, na cama, lendo David Copperfield. Oli! exclamei—Quem 0 ensinou a ler? er Es mesmo me ensinl Alguns anos mais tarde veio perguntar-me: Eom se soma uma metade de dois quintos? Disse-lhe como, e perguntei se queria saber mais alguma coisa, No, obrigado—foi a resposta. Mais tarde, conseguiu emprégo mum estiidio cinematogrifico, nna qualidade de camera-boy. Quando estava aprendendo a sua tarela, aconteceu-me encontrar seu patrio num jantar festivo, © perguntei-lhe como se ia Tom atranjando. —£ 0 melhor rapaz que jf tivedisse 0 patriio.—Nao anda nun- «a, vive correndo, Nos fins-de-semana chega a ficar chato conto to- dos 0s diabos, porque nao sai do estiidio aos sibados e domingos. Houve Jack, um rapaz que nio conseguia aprender a ler. Ninguém [péde ensinar Jack. Mesmo quando pedia que Ihe dessem ligées de leitura, havia alguma dificuldade oculta que nio Ihe permitia distinguir entre b e p, Le k. Deixou a escola com dezessete anos, sem possibilidade de ler. Hoje, Jack é ferramenteiro. Gosta de conversar sbre traba- Ihos de“metalurgia. Agora sabe ler, mas, tanto quanto me constay Ie principalmente artigos sdbre assuntos, de, mecinica, fe, as yézes, trabalhos que tratam de psicologia. Penso que jamais leu um romance, contudo fala um inglés perfeitamente gramatical, e seus conhecimentos gerais sio notiveis. Um vist- tante norte-americano, nada sabendo da histéria déle, disse-me: —Que gardto inteligente & 0 Jack! Diana era uma pequena agradavel, que ia as aulas sem grande inteesse, Qua! mente nto efa ‘academies. Durante muito tempo estive a cogitar no que ela viria a fazer. Quando saiu da escola, com dezesseis anos, qualquer inspetor escolar a teria considerado bem pouco instruida, Hoje, Diana ¢ de- monstradora de um n6vo tipo de arte culindria, em Londres. Muitissimo hébil em seu trabalho, ela, 0 que é mais impor- tante, sente-se feliz, realizando-o. Certa firma exigia que seus empregados tivessem, pelo me- nos, passado nos exams vestibulares para colegio. Eserevi a0 chefe da firma a propésito de Robert. “iste gardto nio passou em exame algum, pois nio tem mente académica, Mas tem tutano!” Robert obteve 0 emprégo, Winifred, de treze anos, aluna das novas, disse-me que de- testava tédas as matérias, ¢ gritou de alegria quando ea Ihe declarei que estava live para fazer exatamente 0 que quisesse, 28 | } | —Voc? nem mesmo terd de ir as aulas, se néo 0 quiserfalet Ela resolveu divertirse, e isso fz, durante algumss semanas. Depois, reparei que a pequena se sentia entediada, —Ensine-me alguma_coisa—disse-me ela, certo dia—Estou muito chateada, —Otimo!—exclamei—Que deseja aprender? Nao sei. Nem eu tampouco. E deixei-a. Passaram-se meses, EntZo, cla me procurou outra vez. =Vou me submeter aos exames vestibulares para 0 colégio— declarou-e quero que me dé ligées, ‘Tédas as manhs trabalhava comigo e com outros professéres, e trabalhava bem. Confiou-me que as matérias nao a interes. savam muito, mas que o fim colimado realmente a interessava. ‘Winifred encontrou a si mesma por Ihe terem permitido que fsse ela propria. E interessante verificar que as criancas livres gostam de mateméticn. Alegram-se com 0 estudo da geografia da his téria. Criangas livres escolhem entre as materias oferecidas apenas as que Ihes interessam. Criangas livres passan a maior arte de seu tempo em outros interésses — carpintaria, meta- lurgia, pintura, Ieitura de ficoio, representagdes, jogos e fan- tasia, audigio de discos de jazz. Tom, de oito anos, estava constantemente abrindo a minha porta ¢ indagando: A propésito, 0 que farei agora? Ninguém Ihe diria o que devia fazer. Seis meses depois, se alguém quisesse encontrar Tom, ba tava ir ao quarto déle. Ali o encontraria mergulkado’ num ocean de felhas de papel. Passava horas fazendo mapas. ‘Um dia, um professor da Universidade de Viena visitou Sum- merhill.’ Esbarrou com Tom e féz-Ihe varias pergut i tarde, chegou-se para mim, e disse: —Tentei examinar aquéle gardto em geografia, ¢ éle falou de lugares que eu préprio jamais ouvi mencionar. Preciso, entretanto, falar também nos fracassos. Barbel, sueca de quinze anos, estéve conosco mais ou menos um ano. Du- rante todo 0 tempo nio encontrou trabalho algum que a Meressasse, Viera tarde demais para Summerhill. Durante dez anos de sua vida teve professbres que. peusavam por els, 29 Quando chegou a Summerhill j tinha perdido tdda a infefa- tiva, Estava entedinda, Felizmente, era rica, e tinha diante de si a promessa de uma vida de gra-senhora, Tive duas irmas, iugoslavas, de onze e catorze anos, respec- tivamente, A escola nao as interessou, Passavam a maior parte do tempo fazendo comentarios grosseiros a meu respeito, em croata, Um amigo pouco amiivel costumava traduzi-los para mim. Em tal caso 0 sucesso teria sido coisa miraculosa, pois 0 tinico > ‘ponte €m que nos encontrévamos para conversar era a arte, a iisica, Fiquet tisfeito_quando_a mie veio buscé-Jas, Com 0 correr dos anos percebemos que os rapazes de Sum- merhill que se inclinam para a engenharia no se dio a0 tra- balho de fazer os exames de matricula, Vio diretamente para 05 centros de treinamento, Sua tendéncia & ver o mundo, antes de se instalarem nos trabalhos universitarios. Um déles féz a volta a0 mundo como taifeiro, Dois outros foram para Quénia, trabalhar em cafézais, Um outro dirigiu-se para a Austrdlia, ¢ houve o que chegou, mesmo, a ir para a remota Giifana Inglésa. Derrick Boyd ¢ figura tipica do espirito aventuros> que a livie educacio estimula. Veio para Summerhill com oito anos deixou a escola depois de ter passado em seus exames vesti Dulares para a universidade aos dezoito anos. Desejaria ser médico, mas seu pai nfo podia mandé-lo para a universidade naquela ocasiao. Derrick pensou em encher 0 tempo de espera com uma viagem pelo mundo. Foi para as docas de Londres © passou dois dias tentando conseguir servico, qualquer servico, mesmo de foguista, Disseram-Ihe que havia grande némero de marinheiros experimentados sem emprégo, e éle voltou triste para casa. Logo depois, um condiscipulo falou-lhe numa senhora in- glésa que estava na Espanha e queria um motorista para_o seu carro. Derrick agarrou-se A oportunidade, foi para a Es- panha, construiu uma casa para a dama, ou aumentou a jé existente, guiou 0 carro dela através de téda a Europa, ¢ depois foi para a universidade. A senhora resolveu suxiliéto com as taxas universitarias. Depois de dois anos pediuthe que conseguisse um ano de afastamento dos estudos e fOsse levé-la com seu carro a Quénia, a fim de ali construir-Ihe uma casa. Derrick terminou seus estudos médicos na Cidade do Cabo. Larry, que veio para nés com doze anos, passou nos exames universiéfios com dezesseis fol para o Tet, cultivar frutas Considerando que aquela era uma ocupagéo muito mal remu- 30 nerada, resolveu fazer-se motorista de txi. Mais tarde foi para a Nova Zelindia, onde, conforme vim a saber, teve tda sorte de empregos, inclusive 0 de motorista de téxi, novamente, Entio, entrou para_a Universidade de Brisbane. Ha algum tempo, tive uma visita do defo daquela universidade que, cheio de admiragio, me relatou os feitos de Larry Por ocasidéo das férias, quando os estudantes foram para fas suas casas, Larry posse a trabalhar como operirio numa serraria. ‘Agora, 6 médico, em Essex, Inglaterra ‘Alguns antigos alunos, 6 verdade, no mostraram iniciativa, Por motivos dbvios, no posso descrevé-los aqui. Nosso_su- cesso_se_faz_sempre-entre-osque_tém_bons_lares. Derrick, Jack, Lary, Ginham pats_que se puseram em integral solid riedade em relagdo A escola, ¢ os rapazes jamais se, viram Gonfrontados com um dos mais fatigantes conflitos. “Quem em Taziio: a escola ou.o lat?” ummerhill produziu algum genio? Nao, até hoje nfo pro- duziu nenhum génio. Talvez. alguns espiritos criadores, ainda nio famosos, alguns artistas brilhantes, alguns miisieos inteli- jentes, nienhum escritor de sucesso, que eu saiba, um excelente jesenhista de méveis, ¢ marceneiro, alguns atdres © atrizes, alguns cientistas e matemiticos que ainda podero vir a apre- Sentar trabalhos originais. Penso que para 0 volume do nosso corpo docente—quarenta e cinco alunos de eada vez—uma pr Borsio generosa vem produsindo certo tipo de trabalho cria- lor e original Contudo, tenho dito, freqtientemente, que uma geragio de criangas livres nao prova coisa alguma com muity énfase. Mesmo em Summerhill hi algumas criancas que se_sentem culpadas por nio aprenderem nimero suficiente de ligbes. Nao poderia ser de outra maneira, num mundo em que ¢3 exames Slo a porta de entrada para algumas profissdes. E_h, quase sempre, também, uma Tia Maria, para exclamar: Onze anos, € WHO Sabo ler direitol ‘A crianca sente, vagamente, que todo ambiente exterior 6 contra o bringuedo e a favor do trabalho. Generalizando: nosso método de liberdade é quase seguro com criangas de menos de doze anos. Criangas de mais de doze anos Tevam muito tempo para so recuperarem da ea: eacio que poe a comida ma bia dos pequeninos © com colher. ot LIQOES PARTICULARES EM SUMMERHILL Antigamente, meu principal trabalho nfo era ecionar, mas dar “ligdes particulares". A maior parte das criangas precisava de atengdo psicolégica, mas havia sempre outras que tnham vindo de escolas estritas, e as ligdes particulares levavam a intengio de apressar 0 processo de adaptagio a liberdade. Se a crianga estiver amarrada por dentro, no se pode adaptar & idéia de que é livre, As “L. P.” eram conversas sem formalidade, junto da lareira. Eu me sentava ali, com 0 cachimbo na boca, e a ccianga também _quisesse, O cigarro era, muitas vézes, Certa vez convidei um rapaz de catorze anos a vir conversar comigo. Ble acabava de chegar a Summerhill, vindo de uma escola particular tipica. Reparei-Ihe nos dedos, manchados de nicotina, Tirando cigarros do bélso, estendi para éle 0 mago. —Obrigado—gaguejou 0 rapaz.—Eu no fumo, senhor. sorrindo, I dle pegou, Ibu estava matando. dois coelhos. de uma cajadada, Tinha diante de mim um rapaz para o qual os —Pegue um cigarro, seu mentiroso de uma figal—disse eu, diretores eram disciplinadores morais, severos, que a tod> mo- mento precisavam ser enganados. Oferecendo-lhe um cigarro cu mostrava nio desaprovar 0 fumo, para éle. Chamando-o mentiroso de uma figa tratava-o com a linguagem que me colocava em seu préprio nivel. Ao mesmo tempo, ia atacando © seu complexo de autoridade, pois mostrava que um dire- tor é capaz de dizer coisas assim, e com facilidade, alegre- mente. Gostaria de ter fotografado’ as expresses do rosio da- quele rapaz, durante essa primeira entrevista. Féra expulso da escola anterior por roubo. 32 =Ouvi dizer que voc é um tanto larépio—falei—Qual é a melhor forma que conhece de passar a perna na companbia fervovisria? —Nunea tentei passar a pera na companhia ferrovidria, senhor. —Ohi—disse eu—Assim no vail Vocé deve tentar. Eu sei uma porgio de jei E expus-he alguns. Ble estava boquiaberto. Com certeza tinha vindo.parar numa easa-de-loucos. O. dretor da. escola estava a dizerthe como se pode ser melhor ladrio? Anos depois le me confessou que aquela entrevista tinha sido 0 maior choque de sua vida. Que espécie de criangas precisam de L. P.? A melhor res- posta sera algumas ilustragdes. Lucy, a professora do Jardim-da-Infineia, vem ter comigo ¢ diz-me que Peggy est sé mostrando anti-social ¢ parece muito infeliz. E digo: —Esté bem, diga-Ihe que venha ter uma L. P. Peggy entra na minha saleta, =Nao quero L. P.-diz cla, sentando-se—Sio muito bobas. —Si0 mesmo—concordo—Perda de tempo. Nao teremos L. P. Ela pensa um pouco. —Bem-fala, devagar. importo. A essa altura ja se tinha instalado no meu cole. Faco-Ihe perguntas sibre © papai, a mie, e, principalmente, sdbre o irmao menor. Ela diz que 0 pequeno nio passa de um bur- Tinho tolo. —Deve ser—concordo.—Achas que a mamie gosta mais déle do que de ti? —Eila gosta dos dois do mesmo jeito—diz a pequena, ripida- mente. E acrescenta:—Pelo menos diz isso. As vézes, a crise de tristeza surge por causa de uma briga com outra crianga. Mas, na maioria das ocasiées, & carta vinda de casa que produz. 0 transtémo, talvez caria dizendo que 0 irmio ou a irmi tém uma boneca ou um papagaio novos. O fim da L. P, é fazer com que Peggy saia da sala bem contente, ¢ isso ¢ 0 que acontece. Com os recém-chegados a coisa nio é tio facil. Quando recebemos uma crianga de onze anos & qual disseram que os bebés sido trazidos pelo médico, é¢ trabalho drduo liberti-la das mentiras € médos. Porque, naturalmente, tal ccianca tem Se fdr pequenininha assim eu no me 33 luma sensagio de culpa com referéncia A masturbacio, ¢ a sensacio de culpa tem de ser destrufda, se quisermos que ela encontre felicidade. ‘A maior parte dos pequeninos, no precisa de L. P. Quando a propria Ganga pede ama Lr'B 6 que temoo a crconstincia ideal para estabelecer sessbes regulares. Algumas das mais yells podem, e, as vézes,rarzmente, um dos pequeninos tam- Charlie, de seis anos, sentia-se inferior aos garotos de sua idade, Perguntei-Ihe quando se sentia mais inferior e éle disse que era quando estava tomando banho, porque seu pénis era “muito menor do que 0 de todos os outros. Expliquetthe de onde he vinha aquela sensagio de médo. Era filko mais névo numa famflia de seis irmas, todas muito mais velhas do que éle, Entre a ultima das mégas ¢ éle havia um intor- valo de dez anos. A casa era de pessoal feminino. O pai mortera, ¢ suas irmas mandavam em tudo. A fim de que ‘também pudesse mandar, Charlie identificow-se como 0 femi- nino, na Vida. Depois de dez L. P., Charlie deixou de me procurar, Per- guntet-lhe o porqué, e ée me responden, alegremente: — Nio preciso mais de L. P, Minha ferramenta agora é tio grande como a de Bert. Entretanto, havia algo mais no caso, do que o apresentado naquele pequeno curso de terapia. Disseram a Charlie que a esturbayas o deisria impoterte, quando fésse bomem, 5 seu médo da impoténcia afetou-o fisicamente. Sua cura foi de- vida, também, & eliminagao do seu complexo de culpa e da mentira tla a propésito de impoténcia. Charlie deixou Sum- tnerhill um ou dois anos depois, Agora 6 un excelente bomen, feliz ¢ saudavel, que ira longe na vida. Silvia tinha pai severo, que nunca The fazia um elogio. Pelo contririo, criticava-a e atormentava-a durante o dia inteiro. Seu {inico desejo na vida era obter 0 amor paterno. Estava sentada fem seu quarto, e chorava amargamente, ao contar-me a sua histia, “Seu caso era dos dilfeis.Analsar a fil nfo ira modificar 9 pai. Nao podia haver solugao-enquanto Silvia nao “Hteangasse idado que Re permitisse sair da casa patema, Pre- veni-a de que corria o risco de casar-se com 0 homem errado, apenas para escapar a0 pai. —Que espécie de homem errado?—indagou. Um homem como seu pai, que a trataré cora sadismo, 8h een Silvia foi um caso triste, Em Summerhill ela era uma ga- rota socidvel, amistosa, que no ofendia ninguém. Em casa diziam que se fazia um deménio. Era o pai, evidentemente, que precisava ser analisado, ¢ nao a filha, Outro caso insoliivel foi o da pequena Florence, Era filha ilegitima, e nao o sabia, Minha experiéncia diz que todos os fillos ilegitimos sabem, ineonscientemente, que 0 sio, Flo- “fence com certera sabia que existia algum mistério atrés dela, Fu falei com a mae, dizendo que a inica possibilidade de cura para a disposicdo hostil e para a tristeza da filha seria contarThe a verdade. —Mas, Neill, no tenho coragem. Isso, para mim, nfo faria fa menor diferenga, mas, se contar, ela ndo guardaré segrédo, @ minha mie a retiraré de seu testamento. Bem, bem, terfamos de esperar pela morte da avé para ajudar Florence, ao que parecia. Nada se pode fazer quando uma verdade essencial deve conservar-se_nas-trevas. “Um antigo aluno voltou, aos vinte anos, para passar algum tempo conosco, ¢ pediu-me algumas L. P. “Mas eu The dei dezenas delas, enquanto vod estéve aqui— disse eu. Eu sei—respondeu éle, tristemente—Dezenas, a que no dei realmente grande aprégo, mas agora sinto que preciso delas. ‘Atualmente nfo dou mais terapia sistemAtiea. Com a crianca média, quando se Ihe falou claramente sbbre 0 nascimento ¢ a asturbacdo, © mostrou-se como a situagso da familia criow hostilidade ¢ cities, nada mais se pode fazer. Curar a neurose de uma crianca exige a libertagio da emotividade, © a cura no seré obtida, de forma alguma, com a exposicio de teorias psiquidtricas, dizendo-se & crianga que ela tem um complexo. Lembro-me de um rapaz de quinze anos ao qual tentei ajudar. Durante semanas éle ouviu silenciosamente as L. P., respondendo apenas, e com monossilabos, as perguntas que feu Ihe fazia, Resolvi usar processo dristico, ¢ na préxima L. P. disse-the: ‘Vou dizer 0 que, em sua propria mente, voce esté, pen- sando a seu respeito, Que & um tolo, preguicoso, estipido, presumido, rancoroso. —SouP—dise le, vermelio de eblera—Quemn pensa voed que 6, afinal Daquele dia em diante falou com facilidade, e objetiva- mente. Houve, ainda, George, um rapaz de onze anos. Seu 35 pai era modesto lojista numa aldeia préxima de Glasgow. O menino féra mandado para Summerhill pelo seu médico. O problema era de intenso médo, Temia estar fora de casa, mesmo para ir & escola da aldeia. Gritou de terror quando teve de deixar a casa. Com grande dificuldade 0 pai conse- guiu levé-lo a Summerhill, Chorou e agarrou-se 20 pai de tal forma que éste tiltimo néo podia voltar para casa. Sugeri que ficasse conosco por alguns dias. © médico jé me fornecera_o histérico daquele caso, com comentirios, na minha opiniio, muito corretos e titels. A questio da volta do pai ao lar se estava fazendo grave. Tentei conversar com George, mas éle chorava, aos solugos, direndo que queria voltar para a sua casa. =Isto nfo passa de uma prisio—dizia éle. Continue: falando, e ignoreithe as lagrimas. Quando vocé tinha quatro anos—disse-lhe eu—seu i zinho foi levado para o hospital ¢ trouxeram-no de volta num caixio. (Solugos aumentados.) Seu médo de deixar a casa vem de pensar que a mesma coisa Ihe pode acontecer: voltar num caixto, (Solugos mais altos.) Mas ésse no & o ponto principal, George, meu rapaz: vocé matou sew irmao! A. essa altura protestou violentamente, ameagou dar-me pontapés. Nao o matou de verdade, George, mas pensava que sua mie gostasse mais déle do que de voce, , a5 vézes, desejava que seu irmio morresse. Quando éle realmente morreu, voce sentiu-se com a consciéncia terrivelmente culpada, porque pen- sava que os seus desejas o tinham matado, ¢ que Deus 0 atari, castigando-o por sun culpa, se The acontecete sar Seus solugos cessaram. No dia seguinte, embora fizesse uma cena na estagio, deixou que o pai voltasse para casa, George passou algum tempo sentindo a nostalgia do lar, mas dentro de dezoito meses insistin em viajar para casa, nas férias, sdzinho, Cruzou Londres de estacio para estagio, e féz 0 mesmo caminho, no retOrmo para Summerhill, Chego cada vez mais & conclusio de que essa terapia no & necessiria quando as eriancas podem desgastar seus complexos em liberdade. Mas num caso como o de George, a liberdade no teria sido suficiente, Em Summerhill, é 0 amor que cura: é a aprovagio, a liber- dade de ser fiel'a si mesmo. Dos nossos quarenta © cinco 36 alunos s6 uma pequena fragio recebe L. P. Acredito cada ver mais no efeito terapéutico do trabalho criador. Gostaria que as criangas fizessem mais trabalhos manuais, mais representa- ‘ges, que dangassem mais. Deixem-me que esclarega serem as L. P. apenas para desa- bafos emocionais. Se uma crianga era infeliz, eu lhe dava uma L. P. Mas, se nao podia aprender a ler, ou detestava a matemitica, néo tentava curé-la com tratamento analitico. As vézes, no curso de uma L. P., falava-se nessa incapacidade de Ter, que datava da sugestio da mame para “ser um menino bom ¢ inteligente como seu irmio", ou no édio A matemitica, que vinha de uma antipatia pelo antigo professor da matéria Naturalmente, eu, para as criangas, sou o simbolo do pai, ¢ minha espasn & o simbolo da mie. Do ponto de vista social minha espdsa passa pior do que eu, porque reccbe tdda a Hstllaade inesconte que as menins!desocam das prOprias mies para ela, enquanto gostam de mim, Os meninos gostam de mink expésa como gostum de suns mies, ¢ a hastilidade contra o pai vem para mim. Os rapazes, porém, do expressio f tal hostlidade Gom menos fmpeto do que as menints, pol tem possibilidades muito maiores de lidarem mais com coisas do que com pessoas. Um menino zangado dé um pontay hung bola canto’ a menlna, diz polovas fertas © mo simbolo. Mas para ser justo, devo dizer que € pequeno o perfodo de tempo em que as meninas sio ferinas, de convivio dificil: na préadolescéncia e no primeiro ano’da adolescéacia. Nem tOdas elas passam por ésse estigio. Isso depende muito da escola que freqiientaram antes, e, ainda mais, da atitude da mie no que respeita & autoridade. Nas L. P. eu chamava a atengio para as relagées entre as reagies referentes a0 lar e as reagdes referentes A escola. Qualquer critica que me fizessem eu logo traduzia como cri- tica ao pai. Qualquer acusagio contra minha espd:a eu mos- trava ser acusagio contra a mie. Tentava manter as anélises objetivas, pois entrar em suas profundezas subjetivas era ser injusto para com a crianga. Houve ocasides, naturalmente, em que se fz necesséria uma ‘explanagio subjetiva, como no caso de Jane. Jane, de treze anos, andou pela escola dizendo a varias criangas que Neill as estava chamando. Tive uma torrente de visitantes: —Jane disse que vocé me estava chamando. Eu disse a Jane, mats tarde, que aquilo de estar mardando 0s outros vir ter’ comigo significava que ela propria dese- java vir. Qual era a técnica da L, P.? Nao tinha método invariével. As ‘vézes comecava com uma pergunta: “Quando voeb se olha no eepelho, gosta do seu rosto? ‘A Tesposta era sempre um =Que parte de seu rosto detesta mais? A resposta invaridivel referia-se ao nariz s alunos dio a mesma resposta. O rosto é a pessoa para ‘© mundo exterior. Quando pensamos em pessoas, pensamos ‘em seus rostos, e quando falimos com pessoas, olhamos para seus rostos. Assim, 0 rosto se toma uma reprodugéo do eu interior. Quando uma erianga diz que nao gosta de seu rosto, ‘quer dizer que nao gosta de sua personalidade. Meu segundo passo era deixar 0 rosto e entrar no cu. =Que é que voc’ mais detesta em sua pessoa?—perguntava. Habitualinente, a resposta referiase ao! fisico, —Meus pés, que sio grandes demais. =Sou gordo demais. Sou pequeno demais. —Meu cabelo, Eu nunca dava uma opiniéo, nem concordava em que éle ou ela eram gordos ou magros. Nem forcava as coisas. Se © corpo interessava, falivamos sobre éle até que nada mais houvesse a dizer. 86 entio nos voltévamos para a persona~ Muitas vézes fiz certo exame. =Vou escrever umas coisas—dizia—e depois examinarei voce através delas. A nota seré dada por vocé mesmo, conforme ache merecer. Por exemplo, perguntarei que porcentagem s8- bre cem vocé daria a st préprio no que se refere, digamos, & capacidade nos jogos, ou a valentia, ¢ por ai além. Eo exame comecava, Aqui vai um, feito para um rapaz de catorze anos: Beleza: Ohl Nao tanto! Apenas uns 45 por cento. Inteligéncia: Hum! 60. Vatentia: 25. Lealdade: Nao sou desleal para com os meus compa- nheiros, 80. Musicalidade: Zero. Trabalhos manuai (Resposta mastigada, sem clareza.) 38 Hostilidade: Essa 6 dificil demais. Nao, nio posso responder essa pergunta. Jogos: 66. Sentimento social: 90. Imbecilidade; Oh! Mais ou menos 160 por cent! Naturalmente, as respostas das criangas forneciam oportu- nidade de discussio. Percebi que seria melhor comegar com © ego, desde que éle despertasse interésse, Mais tarde, entiio, entrivamos na familia, e a crianga falava com facilidade maior, mostrava-se mais interessada. Com criangas novas, a ténica era mais espontinea, Se- ‘gulamos a pista da crianga, Aqui vai uma L, P. tipica, dada uma menina de seis anos, chamada Margaret, Entra ela em minha sala e diz: —Quero uma L. P. —Muito bem—digo eu. Ela se instala numa poltrona, —Que vem a ser uma L, P,?-indaga, Nao & nada que se possa comer-explico—mas, por aqui, nim dos meus bolos, devo ter um caramelo. abl Cf esté del E dowdhe o caramelo. —Por que esté querendo um L, P.?—indago. Evelyn teve uma, e eu também quero ter. Bem. Entio, comece, Sébre que quer conversar? —Tenho uma boneca. (Pausa.) Onde arranjou aquela histéria que esté no rebérdo da lareira? (Ela, dbviamente, nao deseja esperar pela minha resposta.) Quem estava nesta casa antes de vocé chegar? Suas perguntas indicam 0 desejo de saber alguma verdade importante e, cu tenho a suspeita de que tal verdade se rela- ciona com 0 nascimento. —De onde vém os bebés?—pergunto eu, stbitamente, Margaret levanta-se e caminha para a porta. —Detesto L. P.—diz ela. E vai embora. Mas, alguns dias depois, pede outra L. P., € progredimos. ‘© pequeno Tommy, de seis anos, também nfo se impor- tava de ter L, P., desde que eu nao Ihe dissesse coisas rudes. Durante as trés primeiras vézes éle saiu indignado, e eu sabia por qué. Sabia que apenas as tais coisas “rudes" o interes- savam, Ble era uma vitima da masturbacao proibida 39 Muitas criangas jamais tiveram L. P. Nao as quiseram, Tra- tava-se de criangas que tinham sido educadas corretamente, sem mentiras nem sermées dos pais. ‘Terapia nao cura imediatamente. A pessoa que esti sendo ‘fatada nio se beneficia muito durante algum tempo, habitual- mente durante cérca de um ano. Daf eu nunca me sentir pes- simista quanto a alunos mais velhos que deixam a escola no que chamivamos condigio psicolégica a meia cozedura. Tom nos foi mandado por ter sido um fracasso em sua escola, Quando deixou Summerhill, parecia destinado a con- tinuar um fracasso pelo resto de sua vida. Um ano depoi entretanto, seus pais nos esereveram contando que éle resol vera, de tepente, fazer-se médico, ¢ estava estudando séria- mente na universidade. Bill chegou a parecer um caso mais desanimador. Teve L. P. durante trés anos. Quando deixou a escola dava a impressao do ser um jovem de dezoito anos sem qualquer alvo na vida. Andou vagueando de um emprégo para outro durante mais de um ano. Depois resolveu-se pela agricultura, Tédas as noticias que tenho déle dizem que vai muito bem e mostra-se muito capaz, em seu trabalho. ‘Uma escola livre como Summerhill poderia ser dirigida sem LP, Elas apenas apressam 0 processo de reeducacio, come- gando com uma boa limpeza de primavera, antes do verio da liberdade. 40 AUTONOMIA ill_governa-se pelo principio de autonomia, democri- fico ein fun forma, Tudo quanto se relacione com a sociedade, grupo, a vida, wunigées pelas_transgressb ciais, € resolvido por votagko nas Assembléias Gerais da Escola, nas ‘noites do: subado. Cada membro do corpo docente, ¢ cada crianga, indepen- dente da idade que possa ter, apresenta seu voto, Meu voto pesa tanto quanto 0 de um gardto de sete anos. Alguém pode sorrir ¢ dizer: Mas sua voz tem mais valor, néo & mesmo? Bem, vejamos. Gerta vez levantei-me, numa das sessdes, ¢ propus que crianga alguma, com menos de dezesteis anos, tivesse permissio para fumar. Argumentei: 0 fumo era droga venenosa, 0 fumar nao correspondia a um verdadeito desejo da crianga, nfo passava de uma tentativa para parecer adulto, Argumentos contrarios foram langados de todos os lados. Féz- se a votagio e fui batido por grande maioria. © que se seguiu vale a pena registrar. Depois da minha derrots, um rape de devessis anos propos que nenbuma cr. anga de menos do doze, anos tivesse permissio para famar. E defendeu seu ponto de vista de tal forma que chegou a obter aprovacio para a sua proposta, Entretanto, na_assem- biéia semanal seguinte um menino de doze anos propos a anulagio da nova regra sdbre 0 fumo dizendo: —Ficamos todos sentados nos gabinetes sanitirios, fumando as escondidas, como fazem os garotos das escolas estritas, e eu acho que isso vai contra 0 espirito de Summerhill. Sua fala foi aplaudida, e aquela assembléia anulou a lei, Espero ter tomado claro que a minha voz nem sempre é mais poderosa do que a de uma crianga. Certa vez, falei com bastante energia sdbre a infragio da regra que estabelece hora de recolher ao leito, infragio que A trazia 0 conseqiiente ruido ¢ as figuras sonolentas que na mana seguinte cambaleavam por ali. Propus que os cul dos fossem multados em suas mesadas, a cada infragao. Um rapaz de catorze anos propos que deveria haver um penny de recompensa por hora que cada qual se conservasse de pé, depois da hora de recother. Tive alguns votos, mas foi éle quem obteve a grande maioria. ‘A autonomia de Summerhill nao tem burocracia. Em cada mbléia ha um presidente, nomeado pelo presidente anterior, “trabalho da secretéria é entregue a um voluntitio, Os que fiscalizam a hora de recolher dificilmente estio de ser- Vigo mais do que algumas semanas. Nossa democracia faz leis, e boas leis. Por exemplo, & proi- bido 0 banho de mar sem’a supervisio de um salva-vidas. Esses salva-vidas sio sempre membros do corpo docente. E proibido subir a telhados. A hora de recolher deve ser respei- tada, quando nfo, ha multas autométicas. Se deve haver ou nfo ‘aulas nas quintas ou sexta-feiras que precedem a um ferindo & coisa que se resolve pelo levantar de mio, numa Assembléia Geral da Escola. sucesso das assembléias depende muitissimo do presidente, da energia ou da (tibieza)déle, pois manter a ordem entre qua- renta ¢ cinco criangas vigorosas nao é tarefa das mais facets. O presidente tem a faculdade de multar cidadios barulhentos. Sob um presidente frouxo, as multas sio mais freqtientes. © corpo docente toma parte nas discussbes, naturalmente, Também eu fago, embora haja um. certo.mimero_de.situagies em que devo permanecer_neutro. Realmente, vi um gardto ser acusado de uma transgressio e safar-se do caso por meio de um alibi perfeito, embora, particularmente, me tivesse con- fiado que de fato cometera a transgressdo de que 0 acusavam. Em casos como ésse devo sempre ficar do lado do individuo. Participo, naturalmente, como qualquer outro, quando se trata de dar meu voto em relagio a um acontecimento ‘qual- quer ou quando apresento uma proposta. Aqui vai um exemplo tipico. Certa vez, levantei uma questi quanto a0 futebol jogado no vestibulo, que fica abaixo de meu escritério, Expliquel que detesto 0 ruldo do jogo enquanto stew tra balhando ¢ propus que se proibisse 0 futebol portas a dentro. Tive 0 apoio de algumas das meninas, de alguns dos rapazes mais velhos, ¢ da’ maioria do corpo docente. Mas minha proposta nfo foi aprovada, e isso significou que teria de 42 agiientar 0 ruidoso esfregar de pés abaixo do meu escritéri Finalmente, depois de muitas discussdes piblicas em varias assembléias, consegui maioria e foi abolido 0 futebol do vesti- bulo, Essa’ é a forma pela qual ia_geralmente_con segue fazer Valer seus direitos, em nossa demo ar: continuando a lutar por tles, E isso tanto se relaciona com 3s inhas como com os adultos. Por outro lado, ha aspectos da vida escolar que nio estio sob regime de autonomia. Minha mulher planeja por sua conta os arranjos dos dormitérios, trata dos cardipios, envia contas ¢ paga contas. A mim incumbe nomear professOres e pedir-lhes que se retirem quando vejo que no se mostram adequados & nossa escola, . A funcéo da autonomia de Summerhill ndo & apenas fazer leis, mas discutir os fatos sociais da comunidade, também, ‘Ao inicio de cada névo perfodo escolar sio feitas as regras. relativas & hora de recolher 20 leito, através de votucio. Vai-se para a cama conforme a idade de cada um. Depois, vem as questées do comportamento geral. Sio eleftas as comissoes de esporte, as dos bailes—essas duram até o fim do perfodo—as de teatro, nomeiam-se 0s fiscais do horirio de recolher, e es do cen- tro da cidade, isto é, os que fazem 0 relatério de possivel com- portamento vergonhoso de alunos fora dos limites da escola, © assunto que mais entsiasma desperts ¢ a comida, Mal de uma vez dei vida a uma reuniio insipida propondo que {f@sse abolido 0 habito de repetir a comida, Qualquer sinal de favoritismo na cozinha, em matéria de comida, & severamente tratado. Mas quando ¢ a cozinha que Ievanta a questiio do desperdicio de comida, os componentes das assembléias nfo se mostram muito interessados. A atitude da crianga em re- lagio & comida 6 essencialmente pessoal, e autocentralizada, Numa Assembléia Geral da Escola, tOdas as discussdes acade- micas sio evitadas. As criangas so eminentemente priticas, ¢ @ teoria as aborrece. Gostam de coisas concretas, dispensam as abstragées. Uma vez propus que a xingagio fosse abolida por Tei, e dei a minha raza. Eu estivera mostrando a esccla a uma senhora, que trazia seu filhinho como aluno em pe-spectiva. De sibito, do alto das escadas veio um adjetivo muito forte, ‘A mie agarrou ripidamente o filho e saiu quase corvendo. Por que—indaguei eu, na assembléia—minha renda hé de softer s6 porque alguns’ tolos xingam os outros diante dos pais de possiveis alunos? Nao se trata, absolutamente, de uma 48 Or, F questio moral, ¢ sim de coisa puramente financeira. Vocés xingam, © ew perco um aluno. Minha pergunta foi respondida por um gardto de catorze anos: =Neill esta falando um disparate—declarou éle—Esta claro gue se a tal senhora ficou eseandalizada é porque no acte- ita em Summerhill. Mesmo que tivesse chegado a matricular 9 fitho, da primeira vez que éle chegasse em casa dizendo “maldito” ou “inferno” ela o tiraria daqui. A assembléia concordou com éle, ¢ a minha proposta, sub- metida a votagio, foi recusada. A Assembléia Geral da Escola tem enfrentado muitas vézes o preblemna da intimidagio por meio de ameagas. Nossa comu- nade & muito severs "para com os intimidadores, ¢ reparo jue a regra a ésse respeito, dada pelo govérno da escola, foi Sublinbada no boletim'alisador “Todos os casos de intimagdo por meio de ameagas serdo severamente tratados.” © habito de intimidar néo é tio comum em Summerhill, entretanto, como nas escolas estritas, a razio nao & dif de encontrar. Sob a disciplina adulta, a crianea torna-se hostil. Desde que ndo pode expressar essa hostilidade contra ésses mesmos adultos, sem impunidade, volta-se para os meninos menores, ou mais fracos. Isso, entretanto, raramente acontece em Summerhill. Quando se’ investiga a propésito de uma queixa quanto a intimidagio, com muita freqiiéncia tudo nao passa do fato de Jenny ter chamado Peggy de lundtica, As vézes um caso de furto é trazido & consideracio da As- sembléia Geral. Nao hé qualquer castigo estabelecido para 0 roubo, mas hi, sempre, a reparagio, Muitas vézes uma crianga vem a mim e diz: John roubou alguns niqueis de Davi. E caso pam psico- dogid ou podemos tratar dso? Se considero 0 caso. para psicologia, requerendo atengio individual, digo-thes que deixem 0 assunto comigo. Se John & menino’ feliz normal, que roubou algo sem conseyiiéncia, permito que se faga a’ acusagao contra éle. O pior que Ihe pode acontecer € ficar sem todo o dinheiro de sua mesada, até que a divida seja paga por inteiro. Como sio orientadas as Assembléias Gerais da Escola? No infelo-de cada periodo um presidente é eleito apenas para uma assembléia. Quando esta termina, éle nomeia seu sucesior. Tal procedimento continua através de todo o periodo, Quem quer 4a que tenha um agravo, uma acusagio ou uma sugestic a fazer, pode fazé-la, e quem tem uma nova lei a propor, apresenta ‘Aqui, temos um exemplo tipico: Jim tirou 05 pedais da bi clota'de Jack porque os seus estavam com defeto e tle dese- java sair com alguns meninos para uma viagem de fim-de- Semana, Depois de dar a devida consideragio as provas, a assembiéia resolveu que Jim devia recolocar os pedais e ser proibido de fazer a viagem projetada, presidente pergunta: —Alguém faz, objegdes? Jim’ ergue-se e grita que aquilo tudo & muito engragado. Apenas, 0 adjetivo que usa nio é exatamente ésse. Isso niio é justo!—exclama—Eu no sabia que Jack usava aquela porcaria de bicicleta velha, que tem estado jogada no mato ha muitos dias, Nao me importo de recolocar es pedais, mas acho que 0 castigo é injusto, Eu ndo devia ser proibido de fazer a viagem. Segue-se uma discussio animada. Durante os debates trans- pira a histéria de que Jim costuma receber certa quantia se- mana] de sua casa, mas h4 seis semanas nada recebe ¢ esti completamente “liso”. A assembléia vota pelo cancelamento dda sentenca, e a sentenga é cancelada. Mas, que fazer quanto a Jim? Finalmente, fica resolvido que s¢ abriré uma subscrigao para consertar a bieicleta dele. Seus condiscipulos contribuem para a compra dos pedais a se vai éle, todo feliz, fazer a sua viagem. Habitualmente, o veredito da Assembléia da Escola é accito pelo culpado. Entretanto, $6-um veredito ¢ inacsitivel o- acusado, S ode apelar, e nesse caso @ presidente trard o assunto novamente | Freonsiteragao, ao final da si essa apelagto 0 asrunto €considérado com maior empenho, e, geralmente, 0 veredito | 6 abrandado, diante da inconformagao do acusado. As-criangas compreendem que, se o acusado sente que sofreu injustiga, ha muita probabilidade de que realmente a tenha ‘sofrido, Ein Summerhill nenhum culpado jamais da sinais de desafio ‘ou hostilidade contra a autoridade da comunidade a que per- tence. Fico sempre admirado diante da docilidade com que 68 altinos aceitam suas punigées. Num dos periodos escolares, quatro dos rapazes mais velhos foram acusados, na Assembléia Geral da Escola, de terem feito uma coisa ilegal, vendendo varios artigos de seu guarda- roupa. A Iei que proibia tal coisa havia sido aprovada sob 45 1 alegagio de que tal procedimento & injusto para com os pais que compram as roupas, ¢ injusto também para com a Beeolas porque quando as criangas vio para casa com des- falques em seu enxoval, os pais culpam a escola por nogli- géneia. Os outros rapazes foram punidos tirando-se-lhes as Saidas durante quatro dias, nos quais tiveram de ir para a Gama 4s oito horas da noite, Aceitaram a sentenga sem mur- murar, Na noite de segunda-feira, quando todos tinhem ido para o cinema, encontrei Dick, um dos culpados, lendo na cama, —Es um patetal—disse-lhe eu.—Todos foram para o cinema. Por que nao te levantas? ""Deixe de se fazer de engracado—foi a resposta. Essa_Iealdade dos alunos de Summerhill para com a sua propria democracta-€ espantosa.-Nao ha nela nem médo-nem Fesventimento-'Vi-um tapaz pasar por um longo julgamento, referente a certo ato anti-social, ¢ vi quando foi sentenciado. Muitas vézes, 0 que foi sentenciado é eleito presidente para a prdxima assembléi ‘© senso de justica que as eriangas possuem nunca deixa de ime sarsvihad Bison ‘capacidade administrativa € grande Como educacio, 2 autonomia tem grande valor. Certa classe de transgressio sof aml, automa. Se hi tuso sem permissio da bicicleta alheia, hi multa automitica de seis pence. Xingagio na cidade (no recinto da escola podem Singar-se A vontade), mau comportamento no cinema, subida a telhados, comida atirada na sala-de-jantar—essas e outras infra- bes as regras signifieam multas automiticas. Os castigos quase sempre se resumem em multas: entregar o dinheiro da mesada correspondente a uma semana, ou ficar sem cinema por uma semana. ‘Uma das objecdes que mais se ouve fazer contra eriangas atuando como juizes 6 a de que elas castigam com excesso de fudeza, Nao concordo com isso. Pelo contririo, as eriangas ‘So muito indulgentes. Jamais vi langarem sentenea severa em Summerhill, E, iavariavelmente, o castigo tem alguma re: Jagao_com_a_ falta, ~~~ “Trés meninas pequenas andavam perturbando 0 sono das outras, Castigo: deviam ir deitarse com uma hora de antece- @éneia, tOdas as noites, durante uma semana. Dois meninos foram acusados de atirar pelotas de lama em outros meninos, Castigo: terlam que carregar terra para nivelar 0 campo de héquel. Preqiientemente 0 presidente diz: 46 0 caso & tolo demais para que nos ocupemos déle. E resolve que nada seja feito. Quando nosso secretitrio foi julgado por ter andado na bi- cicleta de Ginger sem permissio, éle e dois outros membros do corpo docente, que também haviam usado a biciclete, tiveram ordem de se puxarem uns aos outros, sdbre a bicicleta de Ginger, por dez vézes, em témo do gramado da frerte. ‘Quatro meninos pequenes que subiram na escada perten- cente aos construtores que estavam levantando a nova oficina foram setenciados a subir e descer das ditas escadas durante ce minutos seguidos sem pausn. ‘A assembléia jamais pede conselho a um adulto. Bem, posso ee pense uma Geasido emt que TSO Tol fet. Trés me- ninas tinham andado a remexer na despensa. A assembléia multou-as em dinheiro de sua mesada. Elas tornaram a remexer na despensa aquela noite, ¢ a assembléia multou-as proibindo- Thes uma noite de cinema, As meninas insistiram na transgres- so, uma vez mais, e a assembléia ficou embaragada quanto 40 que poderia fazer naquele caso. O presidente consaltou-m —Dé dois pences de recompensa a cada uma—sugeri —Que? Mas, homem, a escola inteira vai fazer incursées na despensa, se fizermos isso. —Nio vai-afirmei—Tente 0 que eu disse. Ele tentou. Duas das meninas recusaram receber o dinheiro, as trés declararam que nunca mais se meteriam na despensa, E nao se meteram...durante mais ou menos dois meses. Atitudes pretensiosas numa assembléia sio raras. Qualquer sinal de pernosticismo encontra logo narizes torcidos na comu- nidade, Um menino de onze anos, terrivel exibicionista, tent: Vaverguerse ¢ chamar a atengao para si-com longs coment rios sem qualquer significacio, mas a tentativa era abatada pelos Jemais componentes da assembléia, que o obrigavam a sentar, aos gritos. Os jovens sio muito sensiveis para a falta de lade, Em Summerhill acredito térmos provado q funciona. Realmente, a escola sem autonomia nfo devia ser chamada escola progressiva. E uma escola que faz. concessbes. Nao podemos ter liberdade a nfo ser que as criancas se sintam livres para _governar sua propria vida social. Quando ha um. trio, nio ha liberdade real. Isso_se_ aplica ain chefes benévolos do_qué_a0s_disciplinadores. A crianca de wspitito pode rebelarse contra o chefe dspero,.mas-o-chefe a que usa de brandura apenas faz a crianga sentir-se frouxa, ¢ insegura quanto aos scus sentimentos reais. Boa autonomia”é possivel numa escola apenas quendo hd certa mescla de alunos mais velhos que gostam da vida tran- qiilla e lutam contra a indiferenga ou a oposigo dos que estio na idade de mocinho e bandido. Esses alunos mais velhos sio muitas vézes vencidos nas votagées, mas sio éles os que acreditam na autonomia, e desejam-na. As criangas até, digamos, doze anos, néo poderdo ter bom govémo proprio, por-ainda nfo haverematingido a idade social. Ainda assim, em Summerhill um garbto de sete anor ditelinente perde ‘qualquer das Assembléias Gerais. Certa primavera tivemos maré de pouca sorte. Alguns dos alunos mais velhos, compenetrados de espirito de comunidade, deixaram-nos, depois de passar em seus exames vestibulares, de forma que na escola ficaram poucos dos maiores. A vasta maioria dos alunos estava na idade e no estigio do quadri- Iheiro. Embora féssem sociais em suas falas, nfo tinham idade bastante para governar dizeito a comunidade. Faziam pasar qualquer quantidade de leis, e depois esqueciam-nas ¢ trans- grediam-nas. Os pouicos alunos maiores que haviam ficado Erin, nao sei por que coincidéncia, mais individualstas do que outra coisa, e preferiam viver sua propria existéacia em seus grupos préprios, de forma que 0 corpo docente estava figurando com excesso de procminéncia no ataque as trans- resis das res esolares, Assim chegou o di em que nuina las Assembléias Gerais cu tive de langar vigoroso ataque contra (0s maiores por se mostrarem no anti-sociais, mas sem preocupa- {cao social, ja que transgrediam as regras do hordrio de recolher, Mantendo-se de pé até muito tarde e no mostrando interésse no que os mais jovens estavam fazendo de forma anti-social Francamente, as eriangas_menores__mostram.interésse_me- re em governos, Deixadas a si préprias no sei se jamais itiriam algum, Seus valdres no so 0s nossos valores, @ suas maneiras no sio as nossas manciras. Discipling severa 6 a forma mais fil de adqutic@ adulto paz ¢ silencio. Qualquer pessoa pode ser um sargento-instrutor, Qual seja inbtodo sierantive ideal para garanti vida tanga cu no sei. Nossas tentativas e exros, em Summerhill, certamente falham no dar aos adultos vida trangiila, Por outro lado, éles nfo dario as criangas uma vida demasiado barulhenta. Talvez que a experiencia definitiva seja felicidade. Por ésse critério, Summerhill encontrou excelente acomodagao em sua autonomia, 48 Nossa Tel contra armas perigosas @ do mesmo modo, wna acomodagio. Espingardas de ar comprimido séo proibidas. Os poucos rapazes que desejam ter espingardas de ar comprimido ha escola detestam essa lei, mas, em sua maioria, conformam- se com ela, Quando so minoria, as eriangas no parecem res- sentir-se tanto disso quanto os adultos. Existe em Summerhill um problema eterno, que jamais pde ser solucfonado, ¢ que pode ser chamado o problema do indi- viduo versus comunidade. Tanto 0 pessoal como os alunos ficam exasperados quando_um grupo de meninazinhas, lidera- das por uma fnenina-problemaincomodam alguns, atirim agua em outros, transgridem as Teis do hordrio de recolher, e se tornam um incémodo permanente, Jean, a lider, é atzcada na Assembléia Geral, Palavras fortes stio usadas para condenar 0 mau uso que ela faz. da liberdade, transformando-a em licenca. ‘Uma psicéloga que nos visitou, disse-me: ~ Est tudo errado. © rosto da menina mostra-se infeliz: cla jamais foi amada, e téda essa critiea aberta faz com que se sinta menos amada do que nunca, Ela precisa €e amor, no de oposicao. Minha querida senhora—respondi eu—nés tentamos modifi- cé-la com amor. Durante semanas, foi recompensada por ser anti-social. Mostramos para com ela afeigo ¢ tolerincia, e ela nio reagiu. Antes, passou a nos considerar como tolos, alvos faceis para as suas agressies. Nao podemos sacrificar a comunidade inteira por causa de um individuo. Nao sei qual seja a resposta completa. Sei que quando Jean ver gungh sont sed ba jverh ‘socal © nfo! ier de tuma quadrilha, Tenho £8 no poder da opinigo pibliea. Crianga alguma passar anos sendo antipatizada e criticada. E, quanto A condenagio feita pela assembléia escolar, simplesmente nao podemos sacrificar outras criangas a uma (crianga-prob‘ema, ‘Uma vez tivemos um menino de seis atios que-havia tido vida miseravel antes de vir para Summerhill. Era um intimi- dador violento, destrutivo, cheio de hostilidade. Os pequenos de quatro © cinco anos sofriam e choravam, A comunidade recisava fazer algo afim de protegé-los, e, isso fazendo, tinha je colocar-se contra 0 intimidador. Os’ erros de dois pais no podiam ter permissio para reagir sobre outras criangas cujos pais thes tinham dado amor ¢ cuidados. Embora isso acontecesse raramente, precisei mandar criangas_ embora, por fazerem da escola um’ inferno para as demais. 49 Digo isso com muita pena, com um ago sentimento de frus- “tragio, mas nfo tinha outro caminho a seguir Tive de modificar meus pontos de vista quanto autonomia, durante éstes longos anos? No todo, nao. De forma clguma consigo wisulizar Summerhill em elt. Fol sempre une forma querida. E 0 espeticulo que damos as visitas. Mas tem, tam- Dem, suas desvantagens, como quando uma menina cochichow para mim, numa das assembléias: Bu gostaria de falar contra o habito das meninas de entu- pirem os sanitérios por atirarem néles as toalhas higiénieas, as veja quantas visitas temos, ‘Aconselhei-a a mandar para o inferno as visitas ¢ felar no que tinha a falar. E ela falou. © beneficio educacional que a pritica cfviea fomece nio pode ser mais Iouvado do que merece. Em Summerhill, os Elunos Tutariam até a morte pelo seu direito de ter govérno auténomo. Na minha opiniio, a Assembléia Geral da Sseola, feita semanalmente, tm mais valor do que tOda_ uma semana de curriculo sdbre assuntos escolares, FE excelente teatro para” fazer pritica de oratéria, ¢ a maior parte das criancas fal bem, ‘sem constrangimento. Muitas vézes ouvi discursos bastante sen- satos, proferidos por eriangas que nfo sabiam ler nem escrever. Nilo vejo qualquer outro método que se pudesse adeptar a democracia de Summerhill. Pode ser uma democracia mais justa do que as polticas, porque as criangas sio bastante taridosas umas com as outras, € néo tém direitos adquiridos de que falar. Além disso, é democracia mais auténtica, por- jue as leis so feitas em assembléia aberta, ¢ a questio de lelegados eleitos, e incontroliveis, nfo se levanta, ‘Afinal, é a larga visio que as criancas livres adquirem 0 que faz autonomia to importante, Suas les trata de coisas, @sseneiais, nao de aparéncias. As leis"que govemam @ Cnduta Gar cidade sao a Aquieseéneia para com uma civilizagio menos livre. “A cidade”—o mundo exterior—gasta suas preciosas ener- fas afligindo-as com insignificdncias. Como se no esquema ia vida fivessem alguma importineia as roupas elegantes que se vestem ou o hibito de dizer “inferno”. Summerhill, afas- tando-se das ninharias exteriores da vida, pode ter, © tem, um espirito de comunidade que esta para_adiante de seu tempé Na verdade, ésse espirito 6 capaz de chamar uma pa ée mal dita pa, mas qualquer cavador de fossos hes diri—dizondo a verdade—que uma pi é uma maldita pa. 50 CO-EDUCAGAO Na_maioria das escolas estabelece-se um plano definido para separar os rapazes das mocas, especialmente em instalagdes, reservadas para dormitérios. Casos de amor nao sio estimu- lados. Da mesma forma, em Summerhill éles nao sio estimu- Jados. Mas também nao sio desencorajados. Em Summerhill, rapazes mécas sio deixados em paz. As relagées entre os Sexos parecem ser muito salutares. Um sexo no erescer& com qualquer ilusio ou desilusio no que se refere a0 outro, Nao se trata de dizer que Summerhill 6 uma grande famflia, onde todos os bons meninos e meninas sf como irmios e irmfs, uns para com as outras. Se fosse assim, eu me tomaria, imediatamente, um antieducacionista fand- tico. Sob co-educagiio auténtica—niio aquela em que mégas e rapa- zes freqiientam a mesma sala de aula, mas vivem ¢ dormem em ensis separadasa curiosidade-vergonhosa est quase que climinada, Nao hé Toms a espiar em buracos de fechadura, em Summerhill, e vé-se ali muito menos ansiedade en relagao a0 sexo do que nas outras escolas. De vez em quando um adulto vem & escola e pergunta: Mas éles no dormem todos uns com os outros? E quando eu digo que nao, éle ou ela, exclama: —Mas, por que nfio? Na idade déles eu me teria divertido & grande! Esse 6 0 tipo de pessoa que, educando-se juntos, acha que mécas e rapazes devem, necessiriamente, dar-se a licenga se- xual. E verdade que as pessoas nao dizem que éste pensamnento Sublinha suas objegées. Em vez, disso, argumentam, dizendo que mécas e rapazes tém capacidade diferente para aprender, e no devem, portanto, receber ligbes em conjunto, 51 As escolas deveriam ser co-educacionais, porque a vida é covducacional. Mas a co-eduengio 6 temida, por muitos pals ¢ professbres por causa do perigo da gravidez. Realmente, dizem- Ine que hd llores de escolas co-educacionais, que Fassam noites em claro preocupando-se. com essa_possibilidade. Criangas condicionadas, de ambos os sexos, si, muitas vézes, ineapazes de amar. Tal noticia pode ser confortadora para os que temem 0 sexo, mas, para a juventude em geral, a inca- pacidade de amar uma grande tragédia humana, Quando perguntei a alguns adolescentes de uma famosa escola particular co-educacional se havia casos de amor em sua escola, a resposta foi negativa, Depois de expressarem surprésa, disseram-me: —As vézes temos amizade entre um rapaz e uma mégs, mas isso nunca & um caso de amor. Desde que eu vira no campus daquela escola alguns garotos simpaticos'e algumas bonitas mocintas, figuel sabendo ue al se impunha um ideal de antiamor entre os alunos, e que aquela atmosfera altamente moral estava inibindo o sexo. Certa vez perguntei ao diretor de uma escola progressiva: =Vocé tem algum caso de amor em sua escola? =Nio, replicou éle, gravemente—Mas a verdade 6 que jé mais recebemos criangas-problemas. Os que sfo contra a co-educacio podem alegar que o sistema faz os rapazes efeminados e as mécas masculinas, Mas, bem a0 fundo, esté 0 médo moral, realmente um médo ejumento. Sexo, com amor, & 0 maior prazer déste mundo, e se vé tepri- mnido justamente porque é 0 maior prazer. Tudo o mais nio passa de evasio. A razio pela qual nao fico nutrindo receios de que os alu- ‘nos. mais antigos em Summerhill, os que ali estao desde a infincia, possam dar-se & licenca sexual, 6 saber que nio estou tratando com criangas que tém interésse reprimido, ¢ portanto ada natural, em sexo. Ha alguns anos tivemos dois alunos chegados a0 mesmo tempo: um rapaz de dezessete anos, vindo de uma escola par- ticular, e uma jovem de dezesseis’ anos, também egresta de uma escola particular. Apaixonaram-se mituamente, e estavam sempre juntos, Uma noite, j4 tarde, encontrei-me com ées e ficlos parar. =Niio sei o que vocds estio fazendo-disse-lhes—e, moral- mente, isso no me importa, pois nfio se trata absolutamente 52 de uma questio moral, Mas, econémicamente, importo-me, sim Se voce, Kate, tiver um bebé, minha escola ficaré arruinada, continuei a falar, explanando o tema. =Vocés acabam de’ chegar a Summerhill. Isso, para ambos, significa liberdade para fazer 0 que quiserem. Naturalmente, falta-lhes qualquer sentimento especial por esta escola. Se esti- vessem aqui desde a idade de sete anos, en jamais teria que Ihes falar como estou falando. Ambos serlam tio fortemente apegados 2 escola que pensoriam nas conseqiénees para Sum merhill. Foi essa a “inica maneira de tratar aquéle problema. Feliz: mente, nunca mais precisei falar com éles em tal assunto, 58 sche B 2 pone Lome TRABALHO ean 2 b (imer Unie? Em Summerhill tinhamos uma lei da comunidade que tratava de que cada crianga acima de doze anos, e todos.os-membros do pessoal, deveriam dar duas horas de’ trabalho semanal_na propriedade, 0 pagamenio era simbélice, de um niquel por jora. Se nfo trabalhassem, teriam o-dobro-de-multa. Alguns, inclusive profess6res, contentavam-se com pagar as multas, Dos que trabalhavam, a maioria tinha os olhos no rel6gio. Nao Kravia qualquer aspecto divertido no trabalho, portanio éle caceteava toda gente. A lei foi reexaminada, e as criangas a aboliram por unanimidade de votos. Hi alguns anos precisamos de uma enfermaria em Sunmer- hill. Resolvemos que a construirfamos nés mesmos, um ediffcio decente, de tijolo e cimento, Nenhum de nés jamais tinha assentado um tijolo, mas comecamos o trabalho. Algurs alu- nos ajudaram a cavar os fundamentos, ¢ demoliram varias pa- © _ redes velhas para aproveitamento dos tijolos. Mas as criancas exigiam pagamento, | Recusamos pagar saliios. Ao fim, enfermaria foi construida pelos profess6res, © por visitantes.” O ‘trabalho era demasiado insipido aos olhos das criangas, e para suas mentes jovens a necessidade de uma enfermaria era coisa muito remota. Nao tinham qualquer auto-interésse nequilo. y° Mas, algum tempo depois, quando quiseram um abrigo para as bicicletas, construiram-no sdzinhas, sem qualquer auxitio do pessoal. _ _Estou escrevendo sébre eriangas—nio como nés adultos ima- ginamos que elas deveriam ser—mais como realmente sic. Seu © senso de comunidade—seu senso de responsabilidade social—nio se desenvolve antes dos dezoito anos, ou mais. Seus interésses so imediatos, e 0 futuro, para clas, nao existe. Ainda nao vi uma crianga preguigosa. O que chamames pre- guiga ow € falta de interésse ou falta de satide. Uma erianga , sadia no pode ser preguigosa: esté sempre fazendo alguma coisa, 0 dia inteiro. Conheci, certa vez, um gardto muito sa- dio que era considerado preguigote, Nao se interesava_ por matemitica, mas 0 curriculo escolar exigia que estudasse ma- temitica. Ble nio queria estudar tal coisa, naturalmente, ¢ 0 seu professor da matéria 0 considerava preguicoso por isso. Li, recentemente, que se um casal saisse uma roite para dangar, e dangasse tédas as contradangas, teria andado vinte e cinco milhas. Ainda assim, pouea ou nenhuma fadiga sentiria, porque teria prazer naquela noite fora de casa—bem entendido, Se acertassem 0 passo um com o outro, Assim acontece com a crianga. O gardto preguigoso em sua casa, correré milhas durante um jdgo de futebol. . / Nao consigo obter que jovens de dezessete anos venhani~ 7 ajudar-me a plantar batatas ou a limpar canteitos de cebolas, ) embora os mesmos jovens gastem horas em tdmo de motores, | ou lavando earros, ou fazendo aparelhos de rédio. Levei algum | ~, tempo para aceitar ésse fendmeno. A verdade comecou a se | eselarecer para mim quando eu estava cavando no jardim de meu irmio, na Escécia. Nao sentia prazer no servico, e, de repente, tive a revelagio de que o que estava erredo era 0 [= fato de trabalhar num jardim que para mim nada si t E meu jardim nada significa para os rapazes, enquanto suas | bicieletas ou radios muita importincia tem a seus olhos. O | verdadeiro altruismo custa muito a chegar, ¢ munca perde de \ todo o seu fator de egoismo. oe Criangas pequenas tém atitude bastante diferente das de dez ~ anos, diante do trabalho. Os pequeninos de Summerhill, que - vio dos trés ao oito anos, trabathario como Héreu‘es mistu- rando cimento, carregando areia, limpando tijolos, tudo isso sem pensar em recompensa. Identificam-se com os adultos, e seu trabalho ¢ como uma fantasia que se fizesse realidade. Entretanto, da idade de oito ou nove até dezenove ou vinte, © desejo de realizar trabalho manual de tipo insipido aio existe néles. Isto é verdade no que se refere & maioria das eriang hi, individualmente, como é natural, criangas que se manifes- tam industriosas desde a mais tenra inflneia, e através de tdda a sua vida. A verdade & que nés, adultos, exploramos demais as crian- 68, € com muita freqiiéncia, Marion, vai depressa ao correio, levar esta carta ‘Téda crianga detesta ser usada. A crianga do tipo médio compreende, obscuramente, que & vestida ¢ alimentada pelos pais sem que isso custe qualquer esforco de sua parte. Sente que tal cuidado & um seu direito natural, mas compreende, por outro lado, que se espera dela—quando nao a obrigam a isso—uma centena de trabalhos subalternos e vérias tarelas desagradaveis, das quais os préprios pais se evadem, Li, certa vez, que uma escola da América fora construfda pelos préprios alunos, e imaginei ser aquela a férmula ideal. Kiso ?"Se as criangas construlram sua brépria escola podem, estar certos de que estéve ali perto algum cavalheira, com aspecto de animada e benevolente autoridade, a gritar encora- jamentos, regaladamente. Quando tal autoridade nao est pre sente, as’ criancas, simplesmente, ndo constrom escolas, inha opiniao pessoal é que uma civilizagio sadia nto exi- gitia que a crianga trabalhasse pelo menos até os dezoite anos. A maior parte dos rapazes e mécas faria muito trabalho antes, de aleangar essa idade; mas tal trabalho, para éles, represen- tara um bringuedo, se mostrara, provivelmente, antiecond. mico, visto pelos padroes dos pais.’ Sinto-me deprimido quan- do penso na gigantesca porcio.de trabalho que um estudante € obrigado a fazer a fim de se preparar para os exames, Cons- tame que em Budapeste cérca-de cingiienta por cento dos estudantes se arruinaram, fisica e psicoldgicamente, depois de seus exames vestibulares o. A razio pela qual continuamos recebendo tio bons reletérios aqui em Summerhill, a propésito das industriosas realizacoes de antigos alunos nossos, em trabalhos de responsabilidade, esti no fato de ésses mocos e mégas terem esgotado sua época de fantasia autocentralizada em nossa escola. Como.jovens adultos, estio capacitados para enfrentar as realidades de vida Sem qualquer nostalgia inconsciente em relagao aos jogos da nine 56 DIVERSAO Summerhill pode ser definida como escola na qual a diversio € da maior importancia. Porque as criangas e os gatinhos brin- cam eu nao sei. Penso que é uma questio de energia, Nao estou pensando em diversio nos térmos de campos atlé- ticos ou jogos organizados, e sim em térmos de inventiva. Jo- gos organizados exigem habilidade, competigio, trabalho de equipe, mas as brincadeiras das criangas habitualmente dispen- sam essas coisas. Criangas pequenas bricam de quadrilheiros, ‘com tiros e espadas de mentira. Muito antes da era do cinema as criangas brineavam de quadrilheiros. As histérias 2 os cine- mas podem dar alguma diregio a certa espécie de brinquedo, mas 0 que & fundamental néles est nos coragdes das eriangas de tédas as racas Em Summerhill as criangas de seis anos brincam 0 dia in- teiro, brincam com inventiva. Para uma erianga pequena, a realidade ¢ a fantasia esto muito préximas uma da outra, iando um menino de dez anos se veste de Fantasma, os pe- queninos gritam de satisfacio. Sabem que aquilo nfo passa de Tom, pois viram quando éle se envolveu no lengol. Mas, quando ‘9 outro avangou para éles, todos gritaram de terror, Criangas pequenas vivem uma existéncia de fantasia e Ievam essa fantasia para a ago. Meninos, dos oito aos catorze anos, brincam de quadrilheiros ¢ estfo sempre matando gente ou voando pelos céus em seus avides de madeira. As menina- zinhas também passa por ésse estigio, mas sem a forma de espingardas ¢ espadas. E coisa mais pessoal. A quadrilha de Mary fax objegdes & quadiilha de Nel, © hi brigas © pala- vras duras. As quadrilhas rivais de meninos nio passam de inimigos de brincadeira. Por isso os meninos pequenos sio de conviveneia mais facil do que as meninas pequenas. 57 Nao consegui descobrir onde as fronteiras de fantasia come- gam e acabam, Quando uma crianga leva uma refeigao para a boneca, num pratinho miniisculo, de brinquedo, acreditaré ela, naquele momento, que a boneca tem vida? Um cavalo de’ balango é um cavalo de verdade? Quando um rapyzinho grita: “Mios ao alto!” ¢ atira, pensa, Ou sente, que seu re- volver é de verdade? Estou inclinado a pensar que as cxiancas jimaginam serem verdadeiros os seus brinquedos, ¢ sé quan algum adulto sem sensibilidade se mete no meio e faz-lhes, Jembrar que aquilo é fantasia, volvem a terra, com um choque. Nenhum pai ou mae compreensivo jamais. destruiréa fantasia de uma cage Os meninos geralmente nao brincam com meninas, Meninos brincam de quadrilheiros, e de pegador, fazem cabanas nas frvores, cavam buracos ¢ trincheiras. ; _ As meninas raramente organizam seus brinquedos. Qutrora brincava-se muito de médico, e de professor, mas isso é coisa desconhecida para as criangas livres, pois no sentem neces- sidade de imitar a autoridade. Criangas menores brincam com boneeas, mas as meninas mais velhas parecem divertir-se mais no contato com pessoas, e ni coisas. Muitas vézes tivemos quadros mistos de héquet. Jogos de cartas © outros jogos de interior so, geralmente, mistos. Griangas_gostam de barulho ¢ de lama, Batem os pés nas escadas, gritam como risticos, andariam sobre 0 Vaso de Por- tland, se éle estivesse em seu caminho, ¢ andariam sem o ver, sequer. E demasiado freqiiente isso de as maes no brincarem tanto quanto deviam com os seus bebés. Parecem pensar que colo- cando um ursinho macio no carro déles resolvem a coisa por ‘uma ou duas horas, esquecendo-se de que bebés querem ser acariciados e abragados. ‘Dando como certo. de que-infiincia 6 tempo de brincadeiras, como reagimos diante désse fato, nds, os adultos? Ignoramo-la. Esquecemos tudo x respeito—porque brincar, para nos, é perder tempo. Daf Ievantarmos uma grande cidade escolar, com mui- tas salas e dispendiosos aparelhos para o ensino. Mas, quase sempre, tudo quanto oferecemos ao instinto que se volte para a brincadeira, 6 um pequeno espaco cimentado. Podiamos, com alguma verdade, dizer que 0s males da civili- zagio sio devidos ao fato de que crianca alguma jamais teve bastante diversao. Para dizé-lo de outra maneira, cada c-ianga 58 tem sido condicfonada para a vida adulta, muito antes de atingir a idade adulta. A-atitude adulta com referéncia ao brinquedo é muito arbi- trdria, Nés, os velhos, fazemos 0 horirio da erianga: estudos de nove ao meio-dia, Uma hora para almdgo. De ndvo licdes até as trés horas. Se uma crianga livre recebesse a incumbéncia de organizar um horério, & quase certo que reservaria muitos periodos para a diversio e apenas uns poucos para as Ii (© medo esta na raiz do antagonismo adulto em rdacio aos brinquedos das criangas. Centenas de vézes ouvi a indagacao angustiada: Mas, se meu filho brinea 0 dia inteiro, como poderé apren- der alguma coisa, como poderd passar nos exames? Muito poucos aceitam minha resposta: =Se seu filho se divertir tanto quanto deseja se divertir, poderd passar nos exames depois de dois anos de estudo inten- Sivo, em vez dos cinco, seis, ou sete anos habituais de apren- dizado numa escola que poe de parte a diversio como fator de vida. Mas sempre tenho de acrescentar: Isto é-se éle desejar passar nos exames. Ble pode desejar fazer-se dangarino de balé, ou meciinico de ridio, Ela pode desejar fazer-se costureira, desenhista ou enfer- meira de eriancas. . Sim, 0 temor pelo futuro da crianga leva os adultos a pri- varem os filhos do direito de brincar. H4 mais do que isso, entretanto; hd uma vaga idéia moral atrés da_desaprovacao quanto a brinquedos, uma sugestio de que ser erianga nao assim tio bom, uma sugestio que esté na adverténcia feita a jovens adultos: “Nao seja criancal” SY. Pais que esqueceram os desejos ardentes de sua infancia— ‘que_esqueceram ica e-como se nutre a fantasia sio pais mediocre cidade de brincar, esta psiquicamente morta e torna-se um perigo para ‘qualquer outra crianga que venha a ter contato com ela. Professéres de Israel falaram-me nos maravilhosos centros municipais que ali existem. A escola, ao que me contaram, é arte de uma comunidade cuja necessidade primordial & tra- jalhar duramente. Criangas de dez anos, disse-me um pro- fessor, choram se—como castigo—nio Ihes permitem cavar uma horta,|Se hi uma crianga de dez anos que chora por estar proibida de arrancar batatas, eu deveria ficar imagnando se 59 io seremos mentalmente deficientes, por aqui. Infircia & época de brinquedos. E qualquer sistema de comunidades que ignore essa verdade, est educando erradamente. Para mim, 0 método israelense vai sacrificando vidas novas a necessidades \pBeondinicas. Tss0 pode ser necessério, mas eu mao ousaria cha- ‘ina ideal ‘a ésse sistema de viver em comunidade. E desafiador, ainda assim muitissimo dificil, avaliar 0 pre- juize ,causado a uma crianga que no teve ppermissio para rrincar tanto quanto quis. Fico muitas vézes a cogitar se as grandes massas que assistem aos jogos de futebol nao estio tentando extravasar seu. interésse sufocado em brinquedos, fidentificando-se com os jogadores, jogando com éles por p ‘curacao. A maioria dos nossos diplomados de Summerhill n assiste a jogos de futebol, nem se interessa pelos cerimoniais, Penso que poucos entre éles andariam um pedago longo para ver uma procissio real. A pompa tem em si um elemento infantil; suas céres, seu formalismo, e os movimentos Ientos, trazem alguma sugestio de um mundo de brinquedo, com bo- nnecas vestidas. ‘Talvez seja por essa razio que as ‘mulheres gostam da pompa, mais do que os homens, Quando as pessoas ficam mais velhas e mais sofisticadas parecem ser cada vez menos atraidas pela pompa, seja ela de que espécie for. Du- vido que generais, politicos e diplomatas sintam, nas festas solenes, algo mais’ do que tédio. Ha alguma evidencia de que as criangas criadas livremente € com 0 maximo de tempo para brinear, no mostrem tendén- cia para se tornarem uniinimes com o pensamento da massa. | Entre os antigos Summerhillenses, os ‘inicos que podem ficil ¢ “entusfisticamente aclamar com a multidao, sio os que v.eram {de lares onde os pais tém inclinagdes comunistas. 60 TEATRO Durante o inverno, a noite de domingo, em Summerhill, é noite dle teatro. “As representagées tém sempre boa freqiifncia.” Vi ‘seis noites sucessivas de domingo com programa dramitico inte- gral. Mas, as vézes, depois de uma onda de teatro, nio hi espeticulo durante algumas semanas. A platéia é demasiado critica. Comporta-se bem—muito me- Thor do que se comportam, em sua maioria, as platéias londri- nas, Dificilmente temos assobios, bater de pés, ou vaias. teatro de Summerhill é uma quadra de jogos reformada, que tem capacidade para cem pessoas. O paleo & mével, isto 6, feito de caixas que podem ser empilhadas, formand> degraus € estrados. Tem iluminagao apropriada, e refletores. Nao ha genérios—apenas cortinas cinzentas. Quando a marcagio é “entram aldeées através de abertura na cérca viva", os atores empurram a cortina para o lado, A tradigio da escola é representar apenas pecas escritas em Summerhill, E 6 eédigo nao escrito diz que uma pega escrita por professdrés s6 pode ser representada se houver escassez de pegas feitas pelas criangas. O elenco faz seus proprios trajos, também, ¢ éles so excepcionalmente bem feitos. Nossa escola dramatica tende para a comédia e para a farsa, mais do que Para a tragéia, mas quando temos uma tragédia, é bem repre- sentada. As vézes, lindamente representada, As meninas representam mais do que os meninos. Os me- nitios pequenos produzem suas proprias pegas, mas, de costu- me, as partes nfo sao escritas. Eles mal precisariam disso, pois a frase principal de cada tipo é sempre “Mios ao alto!”. 'Nes- sas representacdes a cortina sempre corre sébre uma colegdo de cadaveres, pois os meninos pequenos, por natureza, fazem tudo completo, € sem concessées, 61 Daphne, uma garéta de treze anos, costumava dar-nos pecas tipo Sherlock Holmes. Recordo-me de uma a propésito deum delegado de policia que fugira com a mulher do beleguim:) Com 0 auxilio do investigador, e naturalmente, do “mieu-caro Watson’, o beleguim encontrou a pista da espdsa, na residéncia do delegado de policia. Ali, um espeticulo notével surgi para le. O delegado estava no 'sofé, 0 braco envolvendo a espdsa inficl, enquanto um bando de mulheres airadas dangava dan- as sinuosas, no centro da sal, O delegado estava em trajos de noite, Daphne sempre intodusia « alta sctedade em seus Meninas de catorze anos, ou por af, escrevem, as vézes, pecas em versos, e com freqiiéncia tais pecas sio boas, Natu- Faimente, nei todo 0 pessoal, nem todas as erlangas escrevern pecas. H& uma versio fortissima contra _o plagio. Quando, hé algum tempo, corta pega fol Fetirada do programa e tive de eserever uma as pressas, para substituigao de emergéncia, usei como tema uma histéria de W. E, Jacob. Houve um berreiro: “Plagifrio! Trapaceiro!” [As criangas de Summerhill ndo dramatizam as histérias. Nem desejam aquéle material emproado que tanto se usa nas outras escolas, Nosso grupo jamais representa Shakespeare, mas, &s vvézes escrevo sitiras shakespearianas, como, por exemplo, Julio César em ambiente de quadrilheiro americano—linguagem que & mescla de Shakespeare e histéria de revista de detetives, Mary pos 0 teatro abaixo quando, como Cledpatra, apunha- Jou todos os que estavam no palco, ¢, a seguir, olhando para fa lamina de sua faca, leu em voz alta as palavras: “ago que nfio mancha”, e depois mergulhou 0 punhal no préprio coracio. ‘A capacidade de representar dos alunos mantém nivel ele- vado. Entre 0s alunos de Summerhill nao existe 0 chamado Pinico no palco, Os pequeninos sio um encanto, porque vivem ‘Suas partes com a mais completa sinceridade. As meninas re- presentam com mais facilidade do que os meninos. Realmente, Tneninos de menos de dez anos raramente tepresentam, @ nio ser suas préprias pecas de quadrilheiros. E algumas criangas nunea chegam a representar, nem a ter qualquer desejo de fazé-lo. Descobrimos, em nossa longa experiéncia, que 0 pior ator € 0 que representa na vida, Tal crianca jamais se desloca de si mesma, © sente-se constrangida no paleo, Talvez constran- 62 da seja uma expresso errdnea, por significar que se esti Eonsciente de que outros esto conscentes de és." ‘Representar faz parte necesséria da educacio. E, de maneira ampla, um exibicionismo mas em Summerhill, quando a repre- sentagio se torna apenas exibicionismo, 0 ator nio é admirado. Como ator, a pessoa precisa ter um grande poder de se iden- tificar com outros. Com adultos, tal identificagio jamais é inconsciente, pois éles sabem que esto representando, Mas eu duvido que as criangas pequenas realmente o saibam. Muito freqiientemente, quando uma crianga entra, a sua deixa & “Quem és tu?, em vez, de responder: “Sou o fantasma do abadel”, ela responde: “Sou Peter! Em uma das peoas escritas para os bem pequeninos, havia uma cena de jattar com comida Je. verdade, © ponto levou algum tempo e teve algum trabalho para levar os atéres & ‘cena que se seguia Aquela. As criangas continuavam lidando com a comida, numa indiferenca completa pela plateéia, Representar é um método de se adquirir autoconfianga. Mas algumas criangas que jamais representam dizem-me que de- testam os espeticulos porque se sentem inferiores. Aqui esta uma dificuldade para a qual nfo encontrei solugio, Tal cri- anga geralmente encontra outra linha de agio na qual possa mostrar superioridade. O caso dificil é 0 da menina que adora representar, mas nfo tem possibilidades para isso. Eo fato de tal menina raramente estar fora do elenco é uma recomen- dagio para as boas maneiras da escola. Meninos ¢ meninas de treze ¢ catorze anos recusam-se a tomar qualquer papel que tenha que ver com cenas de amor, mas 0s pequeninos as representam com alegria ¢ fdlicidade. Os mais velhos, que ultrapassam 0s quinze, representario cenas de amor, se forem cenas de comédia, $6 um ou dois dos mais velhos Ievam a sério as cenas de amor. Sio cenas ‘que no podem ser bem representadas enquanto nao se sentiu amor. Ainda assim, as eriangas que jamais sentiram desgdsto ver- “Gadeiro na vida, representam espléndidamente um papel dolo- oso. Via aluna Virginia descontrolar-se num énsaio, e chorar enquanto representava um papel dramatico. Esso.se dera A conta do fato de téda crianga ter sentido desgdsto através da ima- ginagio. Com eleito, a morte entra cedo em t6das as fantasias infantis. Pecas para criangas devem estar ao nivel das eriangas. & cerrado fazer criangas representar pecas clissieas, que estio 63 Tonge da sua verdadeira vida de fantasia. Suas representagées como sua leitura, deveriam ser para a sua idade. As eriangas de Summerhill raramente Iéem Scott, Dickens ou ‘Thackeray, porque as criangas de hoje pertencem & era do cinema. Quan: do uma erianca vai ao cinema, vé uma histéria comprida ‘como Westward Ho, em uma hora e um quarto, uma histéria que Ihe exigiria dias de leitura, uma histéria sem as insfpidas des- crigdes de gente e de paisagens. Assim, em suas representa. ges, as eriancas nao desejam a histéria de Elsinore: desejam a histéria daquilo que as cerca, Embora as criangas de Summerhill representem as pegas que elas mesmas escrevem, nem por isso, quando tém oportunidade, deixim de demonstrar entusiasmo’ por um drama auténtico, realmente bom. Em certo inverno eu lia uma pega por semana para os mais velhos. Li todo Barrie, Ibsen, Strindgberg. Chekhov, um pouco de Shaw e de Galsworthy, bem come pecas modemas, como The Silver Cord e The Vortex. Nosso: melhores atdres ¢ atrizes gostaram de Ibsen. Os mais velhos interessaram-se pela técnica do teatro e seu Ponto de vista no caso € original. Por muito tempo houve um estratagema bastante respeitado no teatro, que consistia em jamais sair um personagem de cena sem dar uma desculpa para isso. Quando um dramaturgo desejava livrar-se do pai, de forma que a espésa e a filha pudessem dizer uma outra que éle era uma zebra, o velho pai, generosamente, levanta- va-se © comentava: “Bem, & melhor ir ver se 0 jardineiro plantou aquelas couves”. E lA se ia. Nossos dramaturgos jo- vens de Summerhill tem uma téenica mais direta. Conforme uma das meninas me disse: — Na vida real voc8 sai de uma sala sem dizer coisa alguma quanto ao lugar para onde vai. Isso € verdade quanto a nés, e é verdade também no palco de Summerhill. Summerhill especializa-se em certo ramo da arte dram’ ‘que pode ser chamado representagio espontinea. Eu proponho rovas de representagao como se segue: Vista um sobretudo imagindrio; tire-o de névo e pendure-o num cabide. Apanhe um ramo de fléres € encontre um cardo entre elas. Abra um telegrama que diz que seu pai (ou sua mae) morreu. Faca refeicdo apressada no restaurante de uma esta ferrovidria, cheio de apreensto, nfo ed 0 trem partir sem levé-lo. 64 As vézes a representagio 6 uma “conversa”. Por exemplo, eu me sento & mesa e anuncio que sou um funconério da imigragio de Harwich. Cada crianga deve ter um passaporte imaginirio ¢ deve estar preparada para responder minhas per- guntas. Isso é bom divertimento. De outras vézes, sou um produtor cinematogrifico entrevis- tando um elenco em perspectiva, ou um negociante procurando secretéria, Uma vez fui um homem que tinha pésto um anin- cio pedindo amanuense, Nenhuma das criangas sabia 0 que signilicava essa palavra. Uma das meninas agiu como se ela signilicasse manicura, ¢ isso dew lugar a uma boa comédia. Representagio espontinea & 0 lado criador de um teatro escola, 0 lado vital. “Nosso teatro tem feito mais em beneficio do espirito criador do que qualquer outra coisa em Summerhill, Qualquer pessoa pode representar numa pega, mas nem todos podem escrever uma peca. As criangas com certeza compre- ‘endem, embora obscuramente, que sua tradi¢ao de representar apenas pecas originais, ali feitas, encoraja 0 espfrito criador mais do que o fariam a'reproducio e a imitagio. DANCA E MUSICA Vamos dangar, mas dancemos segundo 0 regulamento. E 0 es- tranho & que 0 grupo aceita o regulumento, como grupo, en- quanto cada qual de seus componentes, particularments, esté concorde em que as tais regras sio detestiveis. Para mim, uma sala de baile em Londres & como qae um simbolo da Inglaterra. A danga, que deveria ser um prazer criador ¢ individual, toma-se passeio rigido. Um par danca exatamente como 0 outro. O conservadorismo da. rultidao impede que a maior parte dos dancarinos se mostre original. E a alegria da danga é a alegria da invencio. Quando a invengio fica de lado, 0 dangar se transforma em atividade insfpida e mecinica. A’ forma inglésa de dancar expressa, inte- gralmente, 0 médo da emogio € da originalidade. Se nio'ha lugar_para a liberdade num prazer come o da danca, como poderemos esperar que cla exista nos aspectos mais Sérios"da vida? Se alguém ndo ousa inventar seus pro- rios passos de danga, é bem pouco proviivel que o tolerem se ousar a invengio de seus proprios passos religiosos, educa- cionais, ou politicos! Em Summerhill todos os programas incluem a danga. Os bailes sio sempre organizados e realizados pelas meninas, que fazem isso muito bem. Nao dancam misica cléssica, preferem sempre o jaz2. Tivemos um balé com a miisica de Gershwin, Um Americano em Paris, Escrevi a histéria, as_meninas interpretaram-na dangando. Vi espeticulos menos bons nos paleos de Londres. ‘A danga € um excelente extravasamento para o in‘erésse sexual inconsciente. Digo inconsciente porque uma garbts pode ser bela, mas se for mé dangarina no conseguiré muitos pares, ‘nos bailes. Quise,tddas as notes nossa salacdeestr particular est repleta de criangas. Muitas vézes tocamos vitrola € os desa- 06 cordos surgem, nesse particular. As criangas querem Duke El- ington e Elvis Presley, © eu os detesto. Gosto de Ravel ¢ Stravinsky, ¢ de Gershwin. As vézes fico farto de jazz e impo- mho a lei—jé que aqucla 6 a minha sala-de-estar—de que to- carei 0 que desejo tocar. © trio Rosenkacalier, ou 0 quinteto Meistersinger tém condo de deixar a sala vazia, Mas hd algumas criangas que fapreciam a miisiea cldssica, como a pintura clissica, Nai tentamos conduzi-las a um nivel mais elevado de gisto-se que isso vem a significar alguma coisa. Realmente, para a felicidade de alguém, na vida, pouco importa que goste de Beethoven ou do hot jazz. As escolas terlam mais. stcesso_se_incluissem jazz no curriculo e_deixa: ‘sem Beethoven de fora. Em Summerhill, trés rapazes, ins Tados pelas jazz-bands, resolveram aprender a tocar. Dois déles compraram clarinetas e outro escolheu a trompa. Quando dei- xaram a escola foram todos estudar na Actdemia Real de Miisica. Hoje estio tocando em orquestras dedicadas_exclusi- vamente & misica chissica, Agrada-me imaginar que ésse pro- fresso em matéria de gésto musical veio do fato de lhes ter Sido permitido, em Summerhill, ouvir Duke Ellington ¢ Bach, ou outro compositor qualquer, afinal. or ESPORTES E JOGOS Na maior parte das escolas o esporte € compulsério. Mesmo fa presenga no assistir as partidas é compulséria. Em Summer- hill, os jogos, como as lig6es, podem ser ou nio realizacos ou_ assistidos. Houve um rapaz que estéve dez anos na escola e jamais tomou parte ativa num jégo. Ninguém jamais Ihe pediu que © fizesse. Mas a maior parte das criangas gosta de jogos, fe as mais novas nfo os organizam, porque brincam de quadri- Iheiros ou de Peles-Vermelhas. Constroem cabanas e fazem tédas as coisas que as criangas menores geralmente fazem. Nio tendo alcancado 0 estigio da cooperagio, nio devem ter jogos organizados para elas. Jogos e esportes organizados che- gam, habitualmente, no momento exato. Em Summerhill, nossos jogos principais so 0 héquei, no faverno, ¢ 0 ténis, no verio, ‘Uma das difcukdades com as criangas & conseguir pares para as duplas de ténis. Quando se tata de boquel the acelin natuaiments tabula’ em equipe, mas muitas vézes proferem jogar individualmente o tenis, em lugar de organizar duplas. O trabalho em equipe & mais facilmente obtido a altura dos dezessete anos. Natagio é coisa apreciada por tédas as idades. A praia de Sizewel nfo & boa para criangas, pois parece estar sempre de maré cheia, As longas extensdes de areia, com pedras © pocas, coisa que as criangas tanto apreciam, nfo existem fem nossa costa. Nao temos gindsticas attificiais em nossa escola e eu nio |as considero necessérias. As criangas fazem todo 0 exercicio de que precisam em seus jogos, nadando, dangando ou peda- Tando as suas bicicletas. Fico a cogitar s¢ eriancas livres che- gariam jamais a freqiientar um ginisio (de esportes), para aulas. Nossos jogos dentro de casa sio o ténis-de-mesa, 0 xadrez, cartas. os As criangas menores tém uma piscina rasa, de patinar, um juadrado de areia, uma gangorra, e balangos. O quadrado Ae areia esté sempre cheio' de criangas desalinhadas, nos dias quentes, E os menores vivem a queixar-se de que os maiores vém usar sua areia. Ao que parece, teremos que fazer um qua- drado de areia para os mais velhos. A idade da areia e dos bolos de lama se prolonga mais do que pensamos. ‘Tivemos debates e discusses por causa da nossa incongru- éncia, representada pela distribuigao de prémios para esportes. A incongruéncia reside em nossa resoluta_recusa quanto & introdugio de prémios ou notas no curriculo escolar. O argu- mento quanto-a recompensas € que a coisa deve ser feita por si mesma, no pela recompense, o que é verdade auténticn ‘Assim, as vézes nos perguntam ‘por que & certo dar prémios de tenis, © errado. dar prémioe’ de ‘goografia, Acho® gue resposta deve ser a seguinte: 0 ténis é um jégo d> franca competigéo, ¢ consiste em bater o-outro jogador. O estudo de geografis nfo é fal cols, Se eu souber realmente gografis, pouco me importaré que 0 outro Saiba mais ou menos do que eu, Sei que as criangas desejam prémios quando se trata de jogos, © nao os desejam para assuntos escolares—pelo. me- nos isso acontece em Summerhill. Em Summerhill, seja como for, nio fazemos herbis_dos_nossos-vencedores em esportes. O fato de Fred ser o capitio do nosso time de héquei nio dé a0 seu voto qualquer péso mais em nossas Assembléics Gerais da Escola, Os esportes, em Summerhill, esto colocados no lugar que Ihes compete. Um rapaz que jamais entra em joges nio é visto com desaprovagio, nem considerado inferior. “Vive deixa viver” 6 uma divisa que encontra sua expressio” ideal quando as criangas tém liberdade para serem 0 que sio. Eu proprio pouco interésse tenho pelos esportes mas conservo agudo interésse em esportividade. Se em Summerhill os pro- fessOres insistirem: “Vamos, rapazes, vamos para 0 campol”, 0s esportes se teriam tomado coisa’ pervertida,, Somente em condigées de liberdade de jogar ou nao jogar & que se pode desenvolver a verdadetra esportvidade, SS Po 69 RELATORIO DOS INSPETORES DO GOVERNO BRITANICO MINISTERIO DA EDUCACAO. Relatério dos Inspetores de Sua Majestade sébre a Escola Summerhill Leiston, Suffolk Leste Inspecionada de 20 a 21 de junho de 1949 NOTAS 1, Bate Relatrio ¢ nao ser por disposi¢ao expressa da Esc deverd chlo intogralmente, 2. O direito autoral relativo a ésse Relatério pertence ao Con- trolador do Departamento de Livreiros e Editéres de Sua Majestade. O Controlador nao faz objegdes & reprodugao do Relat6rio, desde que fique claramente compreendido, por todos {que se envolverem na reprodugio, que 0s direitos autorais Ihe pertencem, confidencial ¢ no pode ser publiado, a ‘la. Se for publicado, 70 3. Devo ficar entendido que a publicagio déste Relatério de forma alguma representa recogni¢io por parte do Ministro. Mintstinro pa Epucagio Roa Corzox Loxones, W. 1. IND. 38/8/6/8 Esta escola é famosa em todo 0 mundo como a que realiza experiéncia educacional em linhas revoluciondrias, ¢ na qual as teorias expostas publicamente pelo seu Direto:, teorias amplamente conhecidas ¢ discutidas, sio postas em pratica. ‘A tarefa de inspegio foi severa ¢ interessante, severa por cau- sa da enorme diferenca, na pritica, entre esta Escola © outras com as quais os inspetores estio’habituados, e interessante pela oportunidade que oferecen de tentar avaliar, e nio apenas observar, 0 valor da educagio ali oferecida, ‘Todas as criangas da Escola séo internas e a taxa anual 6 de £120. Apesar dos saldrios baixos que o pessoal recebe, ‘0s quais’ nos referiremos mais tarde, 0 Diretor tem dificul- dade para manter a Escola dentro dessa cifra, que fle reluta fem aumentar diante das circunstincias financeiras dos pais, € que sio de seu conhecimento. Embora a taxa seja beixa, com- aad A de muitos internatos ndependentes,¢ proporcio. dé Hessua seit maion_ oF inepetres ara um tanto spree fidos diante da alegacio de dificuldades financeiras feita pelo Diretor. $6 um exame bastante minucioso da contabilidade & das despesas poderia mostrar os. gastos. possivelmente aboliveis sem perda, ¢ talvez fosse interessante a realizacio de tal exame por parte de alguma fonte independente e expe- riente. Enquanto isso nfo se faz pode ser dito que, haja de- ficiéncia onde houver, as criangas sio alimentadas com cuida-, do ¢ fartura oo Os principios sobre os quals a cola 6 dlvgida sto bem conhecidos daqueles que leram os livros de seu Diretor. Al- guns déles foram largamente aceitos desde o infeo, outros exerceram grande influéncia nas escolas em geral, enquanto alguns foram vistos com desconfianga e aversiio pela maioria dos professors ¢ pats, Tmbora os inspetores tentassem seguir sua pritica normal de avaliagao do que esté sendo feito, usando de objetividade, pareceu-lhes impossivel fazer relatério justo em relagio 2 Escola, sem algumas referéncias aos seus principios € metas, aceitem éles ou nio, pessoalmente, tais metas ¢ pri cfpios. 1 O principio fundamental na diregio da Escola é a liberdade, aoe tata de‘uma Mberdade absolute, Hd certas Tis rla- tivas A seguranca da vida ¢ A integridade fisica, feitas pelas triangas ¢ aprovadas pelo Diretor apenns quando sao suffelen- temente rigorosas. As criangas, por exemplo, nfo podem ir a0 banho de mar a nao ser em’ presenga de dois membros do pessoal, que slo salvarvidas, “As eriangas mais novas nio po- lem sair dos limites da escola sem a companhia dos mais velhos. Estes, e outros regulamentos similares, sio categéricos, € os transgressores recebem punicio por meio de multas. Mas 9 grau de liberdade concedida as criangas ¢ muitissimo maior do. que 0s inspetores tém visto em outras escolas, e a liber- dade é verdadeira, Crianga alguma, por exemplo, & obrigada ir as ligdes. Conforme ser& dito mais tarde, a maioria as freqiienta quase sempre com regularidade, mas houve um. aluno que viveu 13 anos na Escola sem jamais entrar numa sala de aulas e € agora capacitado ferramenteiro e fabricante de instrumentos de precisio, Esse caso extremo é mencionado para mostrar que a liberdade dada as eriangas é genuina e no retirada quando os resultados se tornam constrangedores. A Escola, entretanto, nio é dirigida dentro de prinefpios anar- quicos. As leis sio feitas por um parlamento escolar, que se feline peribdieamente, sob a presideneia de uma das’ crangas © cujas reunides sio assistidas pelo pessoal e pelas criancas que 0 desejarem, Essa assembléia tem ilimitado poder dz dis- cussio, ¢, a0 que parece, poderes bastante razodveis de legis- agao. "Em certa ocasido discutiu a demissio de um professor, mostrando, segundo dizem, excelente julgamento em suas opi- nides. Mas tais casos so raros, e, normalmente, 0 parlamento se preocupa com os problemas cotidianos provenientes da vida em. comunidade. Os ingpetores tiveram oportunidade de assistit a uma dessas assembléias, no primeiro dia de inspecio. Os principais essun- tos discutidos foram a deeretagio do regulamento referente 20 hordrio de dormir feito pelo parlamento, e 0 controle da entra- dana cozinha em horas nio autorizadas. Foram problemas discutidos com grande vigor e liberdade de comentirio, de uma forma bastante ordenada, ¢ sem preocupacio quanto as pessoas presentes. Embora parecesse que muito tempo se gas- tasse em argumentagio estéril, os inspetores concordaram com © Diretor em que a experiéncia do aprendizado, no que tange A organizagio de seus préprios assuntos, era mais valiosa para as eriangas do que 0 tempo perdido. E evidente que a maioria dos pais e professdres hesitaria mais no dar liberdade completa em matéria de sexo. Muitos concordariam com 0 Diretor até certa altura, desviando-se, depois, de seus pontos de vista. Talvez nao tivessem dificul- dade ém aceitar sua nogio de que 0 conhecimento do. sexo deve ser dado livremente, que sexo deve ser afastado da idéia de culpa, © que as inibicdes de hé muito aceitas tém feito muitissimo mal, mas, uma escola mista, tomariamaiores precaugées do que éle toma, Obviamente, € muito dificil fazer comentirios justos sobre os resultados disso. Em qualquer co- munidade de adolescentes os sentimentos sexuais devem estar presentes, e nio serio removidos, com certeza, pelo fato de se verem rodeados de tabus. Ao contrario, isso pode inflamar tais sentimentos. Ao mesmo tempo, conforme o Diretor concorda, @ liberdade completa de expressi-los mio é possivel, embora seja desejavel. Tudo quanto se pode dizer, com seguranga, & que dificilmente se encontraria uma colegio de meninas © rapa- zes de rostos mais abertos, mais despreocupados, ¢ que desastres como os que se poderia esperar ocorressem, absolutamente ocorreram, nos vinte e oito anos de existéncia da Escola. ‘Um dos asstintos altatiente controvertidos-deve-ser-mencio- nado aqui, e é a auséncia de qualquer espécie de vida e ins- trugdo religiosa. Nao hi proserigao da religiio, ¢ se o parla- inento escolar resolvesse introduzi-la provavelmente ela o seria. Da mesma maneira, se um dos alunos, particularmente, a de- sejar, nada seré feito para desvid-lo de tal propésite. “Tédas as criangas_vém de familias que nio_aceitam as doutrinas” ortodoxas cristis,@ jamais houve a manifestagio de” qualquer desejo de ter instrueio ow culto réligioso. Sem fazer qual- quer violéncia ao térmo, podemos dizer, com seguranga, que muitos principios cristaos sf postos em praticas nessa Escola, fe gue nela existe muita coisa que qualquer cristio aprovaria, Os efeitos da completa auséncia de instrugio religosa nao podem ser julgados, & natural, em dois dias de inspecio. Pareceu necessirio escrever esta introducio a respeito da Escola, antes de passar ao material de relatério costumeiro. E sobre 0 cenério de fundo da liberdade auténtica que a orgax nizagio ¢ as atividades da Escola devem ser encaradas. ORGANIZACAO Hi 70 criancas entre as idades de 4 e 16 anos. Vivem em quatro edificios separados, que descreveremos na secio refe- Tente ao recinto escolar. Nessa segdo, a educagio, no sentido 738 mais estrito da palavra, ser descrita. HA seis Classes, organi- zadas muito vagamente, de acérdo com a idade, mas com considerével~precisio;-de~acérdo com a_capacidade, Essas Classes retiném-se conforme um horirio bastante comm ¢ ortodoxo, de cinco periodos de 40 minutos durante cinco manhis por semana. ‘Tém lugares exatos de reunizo ¢ profes- sores determinados para regé-las. Diferem das classes das es- colas comuns apenas no fato de no haver a minima gerantia de que todos aparecam. Pode nfo aparecer ninguém. Os ins- petores tiveram muito trabalho para descobrir 0 que de fato acontece, tanto assstindo a aulas como fazendo perguntas, Parece que a freqiiéncia cresce em regularidade & pro- porcio que as criangas aumentam de idade, e, desde que uma delas resolve seguir certa classe, habitualmente 0 faz com assiduidade. Foi muito mais dificil descobrir se o equilfbrio do trabalho ¢ dos assuntos era bom. Desde que muitas das criangas recebem 0 Certificado Escolar, sua escolha é contro- ada pelas exigéncias dos exames, quando éles se aproximam, mas 0s menores tém completa liberdade de escother. No todo, 6 resultado désse sistema nada tem de grandioso. & verdade gque 8 rianeas trbalham através do wnia vontade prépria © le um interésse que sio muito renovadores, mas suas reali- zagdes mostram-se mediocres. Iss0 mio seré, na opiniio do ©*inspetor, um resultado inevitivel do sistema, mas antes de mau funcionamento désse sistema, Entre outras causas, exis- tem: L.A Falta de um bom professor dos pequenos, que possa supervisar e integrar seus trabalhos ¢ atividades. 3. A qualidade geral do ensino, Q ensino, dos pequenos é tanto quanto se pode julgar, esclarecido e eficaz, ¢ hi algum bom ensino nas Classes superiores, mas a falta’ de um bom professor dos pequenos, que possa inspirar ¢ estimular os de 8, 9 e 10 anos, & bastante visivel. Alguns métodos. surpre- endentemente antiquados estio em uso, e quando as. criangas aleangam a idade em que estio prontas para trabalho mais avangado, sofrem desvantagem considerivel e apresentam aos seus professéres problemas sérios. O ensino dos maiores é bem melhor, e, em um ou dois casos, realmente bom. 3. As criancas nao tém orientagio. F recomendével que uma garéta de quinze anos resolva se deseja estudar francés e alemao, duas linguas que ela anteriormente negligenciara, mas deixi-la empreender tal tarefa em dois periodos por semana para o alemio e em trés para o francés, 6 certamente, um 4 tantinho irresponsfvel. O progresso da menina foi lento, apesar de sua admirével reolugto e ela deveria, ter tido multo mais tempo para aquilo. Parecen aos inspetores que alguma espécie de trabalho tutorial (*) deveria ser instalado, a fim de que as criangas tivessem assisténcia em seu planejamento de tra- balho. 4, Falta de vida particular, “Summerhill & um lugar onde se tem dificuldade para estudar.” Sao palavras do Dire‘or. Exis- te, ali a atividade de uma colmeia e muita coisa a capturar a ‘atengio ¢ o interésse. Nenhuma das criangas ten quarto para si prOpria e nfo h& salas especificadamente separadas para estudos. Determinada pessoa, sem divida alguma, sempre Conseguiria encontrar um canto, mas 0 grau de resolugio ne- cessirio para isso é raro. Poucas criangas permanecem na Escola para além dos dezessete anos, embora nada s impega de ficar. Ha, e tém havido algumas criangas extremamente capazes e inteligentes, em Summerhill, é de se duvidar que, do ponto de vista académico, elas recebam tudo quanto ni cessitam, Ao mesmo tempo, hé algum excelente trabalho feito, sempre gue a qualidade do ensino € boa. A Arte € segao notavel. Ha dificuldade em perceber qualquer diferenca significativa ‘entre as pinturas das criangas de Summerhill e as das escolas muito mais tradicionais, mas 0 trabalho mostra-se bom, sob todos os padrdes que se observe. Bons trabalhos manuais, em grande variedade, podem ser vistos ali, A instalagao de ‘um forno (para produtos industriais, como tijolos, gisso ete.) estava sendo feita durante a inspegio ¢ as vasilhas que espe- ravam 0 primeiro fogo mostravam-se excelentes, em sua forma. A instalagio de um tear propiciaré névo trabalho manual, que esté tendo um comégo animadcr. Uma porgio de trabalho escrito de criagio ¢ feito, inclusive um Jomal de Parede, e pecas teatra.s ‘io. eseritas e repre- sentadas em todos os periodos escolares. .a-se muito nessas pegas, mas, ao que parece, nfo ha o habito de conservar os Inanuscritos, de forma que no foi possivel julgarlhes a quali dade. Recentemente, uma representagao da Macbeth foi le- vada'a efeito no pequeno teatro da Escola, todos os cenirios © costumes tendo sido preparados na Escola. E é interessan- te notar que essa pega foi levada & cena contra os desejos do Diretor, que prefere ver os alunos representarem pegas es- ritas por éles préprios. A Educagio Fisica ¢ fornecida de acérdo com os prinefpios da Escola. Nio hé jogos nem treinamento fisico compuls6rios, futebol, cricket, e ténis, sto jogados com entusiasmo, e, se- gundo consta, 6 futebol conta com jogadores habilitadissimos, devido & presenga, entre 0 pessoal, de um conhecedor. As ccriangas organizam’ partidas com outras escolas da cidade, No dia da visita feita pela inspegio havia uma partida de cricket contra uma escola moderna, ‘vizinha, ¢ os de Summerhill ti- mham resolvido que seu melhor elemento nao fizesse parte do jogo, pois o melhor jogador do outro quadro estava docnte. Passa-se muito tempo ao ar livre, ¢ as criangas levam uma vida saudavel ¢ ativa, revelando-se tal coisa em seu aspecto, Apenas uma investigagio muito minuciosa poderia revelar ‘quanto perdem, se chegam a perder, em conseqiiéneia da falta de uma educagao fisica mais formal. INSTALAGOES A Escola esté situada em terrenos que dio ampla possibili- dade de recreagio. O edificio principal, que fol, antiganente casa particular, dispde, para fins escolares, de um vestibulo, uma sala-de-jantar, enfermarias, sala de arte, pequena sala de trabalhos manuais, e dormitério das meninas. Os mais novos dormem mum chalé, onde sua sala de aula também se situa. Os dormitérios para os outros meninos e as demais salas de aula ficam em cabanas no jardim, onde esto, igualmente, os quartos-de-dormir de alguns membros do pessoal. Todos ésses juartos tém portas que se abrem diretamente para o jardim. As salas de atla sio pequenas, embora nfo sejam inadequadas, pois 0 ensino é dado a peauenos grupos de cada vez. Um dos dormitérios representa notavel esforco de construgio dos meninos ¢ do pesca e fot construido para hospital. Ao, que parece, ndo houve necessidade de usi-lo com ésse propésito. AAs instalagdes dos dormitérios so um tanto primitivas, qu julgadas pelos padres normais, mas percebe-se que 0 registro de sade’ da Hecola é bom, portanto tals Tnstalagées podem ser consideradas como satisfatérias. H4 niimero suficieite de banheitos disponiveis. Embora as instalagdes do jardim & primeira vista parecam de um primitivismo pouco usual, representam, na verdade, 76 lugar eminentemente propicio para criar a atmosfera de per- manente campo de férias, que & uma ‘feigio importante da Escola. Além disso, dio a oportunidade de ver como as cri- fancas continuam seus estudos sem se sentirem perturbadas pelos muitos visitantes que estavam presentes no dia da ins- pecao. PESSOAL © pessoal recebe 8& por més, com casa ¢ comida, Obter homens e mulheres bem qualificados académicamente e de alta capacidade como professdres, que nfo s6 acreditem nos prineipios da Escola mas sejam suficientemente amadurecidos fe bem equilibrados para conseguir viver com criangas em térmos de igualdade, deve ser tarefa_considerdvel para 0 Di- cetor. Ter servido em.Summerhill nao & uma recomendacio, em_miitos lugares, ¢ a necessaria combinagio de convicgio, desinterésse, cardter ¢ capacidade € rara. J& se féz sentir que pessoal nfo est A altura de todas as exigéncias, mas ainda assim 6 muito melhor do que o pessoal de muitas exclas inde- pendentes, que pagam salérios bem maiores. Esté represen- tado por um Licenciado em Letras com louvor, de Edinburgh, jarao inglés; um Bacharel em Ciéncias ¢ ‘Licenciado em tras, de Liverpool; um licenciado com distingio louvor em Matemética, de Cambridge; um F. A. com louvor, de Londres, para Francés e Alemio; e um Bacharel em artes de Cambridge para Histéria. Quatro tém diplomas de professéres. Nao esto inclufdos nessa lista os professores de trabalhos ma- nuais e oficios, que tém titulos estrangeiros so os melhores do corpo docente. Embora precise de uma corregio aqui e ali, 0 corps docente do momento esti Ionge de ser fraco, e se pudessem seus mem- bros, através de freqiiéncia a cursos, e de visitas de obser- vagio, renovar sua experiéncia e colocarem-se a altura do ins- tante presente, dariam boa conta de si. Ao mesmo tempo, isso seria desejar muito, Esperar que um salirio de £96 por ano pudesse atrair para a Escola os professdres de que ela neces- sita, 6 demais, e parece claro que tal dificuldade tem de ser encarada de frente, © Diretor ¢ homem de profunda convicgao € sinceridade. Sua fé e sua paciéncia devem ser inexauriveis. Tem 0 poder raro_de ser personalidade forte, sem se fazer dominador. i ‘velo em sua escola sem respeiti-lo, mesmo quando Sc se discorde e mesmo se antipatize com as suas idéias. Fle tem sentido humoristico, célida humanidade e vigoroso bom senso, gue favia de sua pessoa, um, bom Diretorem qualquer lugar, e sua feliz vida de familia é compartilhada por criancas pre= sumivelmente tio capazes de tirar proveito do exemplo como quaisquer outras. Encara com largueza a educacio, que considera uma forma de aprender como viver abundantemente, ¢ embora admita pelo menos algumas das eriticas déste Relatério, sente que sua Escola deve resistir ou tombar, mais pela espécie de c-iangas que. se 08 vierema ser, do que pelos conhecimientos ¢ hhabilidades espectficas que Ihes forem ensinadas. Nessa base de avaliagao, pode ser dito: — 1. Que as criangas stio cheias de vida e entusiasmo. Nao h4 ‘sinal de tédio ou apatia, A Escola esté envolvida numa atmosfera de contentamento ¢ toleriincia, A afeicdo com que a véem os antigos alunos é evidéncia de seu sucesso. Um grupo de mais ou menos 30 déles aparece para as represen- tagoes e os bailes de fins de periodos, ¢ muitos vém pasar suas férias na Escola. Talvez valha a pena anotar, neste ponto, que, embora nos primeiros tempos a Escola fésse freqiientada quase inteira- mente por criangas-problemas, 0 total é agora representativo de um razoivel ¢ anormal corte transversal da populagi 2 Que as maneiras das criangas sio encantadoras. Podem carecer, aqui ¢ ali, de alguma das convenges nesse particular, mas sua amistosidade, seguranca ¢ naturalidade, e auséncia total de timidez ¢ constrangimento, tornam-nas pessoas com as quais se convive com facilidade e agrado. 3. Que a iniciativa, a responsabilidade, e a integridade, sio encorajadas todas pelo sistema, e que, tanto quanto tais coisas podem ser julgadas, elas estio, realmente, se desenvolvendo. 4. Que as evidéncias com que se podem contar nao sugerem ‘que os egressos de Summerhill venham a ser desajustados na sociedade comum. As informagdes que se seguem nio contam, naturalmente, tda a histéria, mas indicam que a educagao de Summerhill néo é necessiriamente hostil a0 sucesso em socie- dade. Antigos alunos tornaram-se: Capitio dos Engetheiros Eletromecinicos Reais; Sargento Contramestre de Bateria; Pi- oto de Bombeiro e Lider de Esquadrio; Enfermeira de Crian- as; Comissiria de Aviagio; Clarinetista da Banda dos Guar- 78 esc = regen acer mien a ee a a das-Granadeiros; Membro Beit do Colégio Imperial; éangarina de balé em Sadler's Wells; operador e estritor de ontgs para um importante jnnal didio nacional; ¢ wm inves tigador e pesquisador de mercados para uma grande firma, Entre outros, receberam os seguintes titulos: F, A. com louvor, Economia, Cambridge; Scholar Royal College of Art; Bacharel em Ciéncias com louvor, primeira classe, em Fisica, Londres: Bacharel em Artes, com louvor, Histéria, ‘Cambridge; Bacharel em Artes, primeira classe, com louvor, Linguas Modernas, Manchester. 5. Os pontos de vista do Dietor tornam esta Escola um lugar especialmente apropriado para o tipo de educacio em Ge 0 tbalho essenclal esté baseado no interésse da crianca fe na qual os estudos feitos em classe nio sao injustamente sovernidos peas exigencies dos exames, Ter ciado una ita Gao na qual a educagio académica do tipo mais inteligente poi florescer @ uma relizgio, ma ela nfo est realmente lorescendo, e grande oportunidade fica, assim, perdida. Com melhor ensino em todos os estigios, © acima de tudo no estigio elementar, tal educagio poderia florescer, ¢ uma expe- tiéncia de profundo interésse receberia sua oportunidade in- tegral de se afirmar. ‘Na mente permanecem algumas diividas tanto sdbre os prin- cfpios como sébre os métodos. Um conhecimento mais intimo fe mais prolongado da Escola talvez anulasse algumes dessas davidas'e possivelmente intensificasse outras. O que niio po- demos duvidar é de que ali se faz trabalho fascinante ¢ valioso esquisa_educacional, ¢ que todos os educadores teriam proveito conhecendo-0. ad 79 NOTAS SOBRE 0 RELATORIO DOS INSPETORES DE SUA MAJESTADE Tivemos, realmente, muita sorte por nos terem mandado dois inspetores de larga’ visio. Deixamos imediatamente de parte 9 “senhor” e durante os dois dias da visita travamos amistosas discussées. Eu sabia que os inspetores esto acostumados a apanhar um livro de francés diante de uma sala de aula e apertar a classe téda a fim de descobrir 0 que os alunos sabem. Raciocinei gue, tal espécie de inepagio teria pouen posbilidade, na avaliagao de uma escola na qual as ligdes ndo constituem 0 Principal critério, Disse a um dos inspetores: ~Vocés nao podem inspecionar realmente Summerhill porque nosso critério ¢ felicidade, sinceridade, equilibrio ¢ sociabili- dade. ~ ~ ~ “Ble ria disse que ainda assim iria tentar. E_ambos os nossos inspetores adaptaram-se de maneira admirdvel, ¢ tornou- se claro que o trabalho Ihes deu muita satisfacio, Coisas estranhas os impressionaram. Um déles disse: =Que sensagao brusca e deliciosa é entrar numa sala de aulas e perceber que os alunos nao nos prestam atengao, de- pois de anos de ver classes inteiras saltarem em cumprimentos! Sim, tivemos sorte por serem aquéles dois. Mas, quanto ao relatério em si: “...0s_inspetores ficaram uum tanto surpreendidos diante da alegagao de dificuldades financeiras...” A resposta encontra-se, em sua maior rarte, em sérias dividas, e ainda assim isso nao constitui a historia toda, O relatério informa que a taxa anual 6 de £120, mas depois disso tentamos enfrentar a subida dos pregos através dos anos, aumentando a taxa média anual para £250. Isso nada deixa para consertos dos prédios, para a compra de névo material, ¢ outras coisas assim. Os estragos so maiores em Summerhill 80 do que nas escolas comuns, pois em Summerhill as eriangas tém permissio para atravessar sua época de quadrilheiros, © mobilidrio fica destrufdo. © relatério diz que temos setenta eriangas. Hoje, estamos apenas com quarenta e cinco, fato que de certa fo:ma anula a elevacio das taxas. Também hé referéncias a ensino me- Giocre dado aos da classe elementar. Tivemos sempre essa dificuldade. Mesmo com um excelente professor, é diftcil atra- vessar 0 programa comum das escolas piblicas, quando mais no seja porque os alunos tém liberdade para fazerem outra coisa, Se as criangas de uma escola piblica, as que estio entre 05 dez e os doze anos, pudessem subir as dirvores e cavar bu- racos, em vez de ir s-aulas, seus padrées seriam iguais aos nossos. Mas aceitamos o fato de que nossas meninas © me- nninos passardo por um perfodo em que devem ter padrio mais baixo de ensino, porque achamos que brincar é de maior im- portincia, durante essa época de suas vidas, do que estudar. ‘Mesmo que aceitéssemos como importante 0 atraso de nossos pequenos nas ligGes, nem por isso deixa de ser verdade que @sses mesmos pequenos, um ano depois, tomando-se do grupo mais velho, passem nos exames de Oxford com notas muito boas, ‘Tais alunos foram examinados num total de 39 matérias, média de 6 1/2 matérias por aluno. Os resultados foram: 2, Muito Bom, 0 que ultrapassa 70. Nos 39 exames, nio houve um 36 fracasso, © inconveniente de niio estar & altura dos padrées mantidos pelas escolas regulares, quando um menino € um dos pequenos de Summerhill, nao’ significa, necessiria- mente, que tal aluno exiba padrio baixo quando pertencer & turma’dos mais velhos. Por minha parte sempre gostei dos que comecaram tarde. Vi algumas criangas inteligentes, que recitavam Milton 20s quatro anos, apresentarem-se como bébados e vagabundos, 20s vinte ¢ quatro. Gosto de conhecer_um homem.que diz, aos cingjienta_e trés anos de idade, nao saber,ainda, @”que vai” ser_na_vida, Tenho a suspeita’de que um menitio que aos sete anos sabe exatamente 0 que quer ser, pode toraar-se um inferior que conservaré pela vida além uma atitude conser- vadora. relatério diz: “Ter criado uma situagio na qual a educa- ‘so académica do tipo mais inteligente pode florescer 6 uma Fealizagao, mas ela mio estd realmente florescendo, ¢ grande oportunidade fica, assim, perdida”. Este & 0 tinico pardgrafo 0 qual 05 dois inspetores nio venceram suas predcupagdes 8s académicas. Nosso sistema floresce quando uma crianga deseja educago académica, e isso se vé no resultado dos exames. Mas talvez.o pardgrafo dos inspetores queira dizer que melhor instrugdo elementar resultaria em mais criangas desejando fa- zer exames vestibulares. Nao é tempo de colocarmos a educagio académica en seu lugar? Ela pretende, muitas vézes, transformar uma orelha de porca em bilsa de séda. Eu fico a pensar no que teria adian- tado a educacdo académica para alguns de nossos velhos alunos de Summerhill—uma desenhista de vestidos, um cabeleireiro, um bailarino de balé, alguns miisicos, algumas enfermeicas de criangas, alguns mecinicos, alguns maquinistas, e meia dizia de artistas. Ainda assim, 6 um relatério justo e generoso, Publico-o simplesmente porque é bom que o péblico leitor tenhz uma visio de Summerhill que nfo seja a minha. Note-se que 0 relatério ndo supde qualquer espécie de recogni¢io oficial dada pelo Ministério de Educacio. Pessoalmente, nao me importo, mas a recognigao seria bem recebida, por dois fatdres: os pro- fessOres ficariam situados sob 0 Plano de Superanuidade do Estado, e os pais teriam melhor oportunidade de conseguirem auxilio’ dos Conselhos locais. Gostaria de registrar que Summerhill jamais teve qualquer dificuldade com 0 Ministério de Educagio. Tédas as consultas, tédas as visitas que fiz ao Ministério, foram atendidas com cortesia e amistosidade, Meu tinico reeuo veio quando 0 Mi- nistro recusou permissio a um pai escandinavo para importar erigir casas pré-fabricadas, livre de despesas, logo depois da guerra, Quando penso no interésse autoritério que os governos euro- peus manifestam em relagio as escolas particulates, alegro-me ir viver ¢ trabalhar num pais que permite tanta amplitude aventura particular. Mostro tolerincia para com as criineas. Ministério mostra tolerncia para com a minha escola, Estou satisfeito, 0 FUTURO DE SUMMERHILL Agora, que estou com setenta e sete anos, sinto que niio esere- verei mais livros sobre educagio, pois pouco de névo tenho a dizer. Mas 0 que tenho a dizer & algo em meu favor: nio passei os tiltimos quarenta anos escrevendo teorias sdbre cri- aneas. A maior parte do que escrevi se baseou na obseryacio das criangas, na vida com as criangas. Na verdade, hauri inspirago em Freud, Honer Lane, ¢ outros, mas 20s poucos fui deixando de parte as teorias quando 0 teste da realidade as revelava destitufdas de valor. trabalho de um autor & extravagante. Como no ridio, um| autor envia para fora uma espécie de mensagem a pessoas que nao vé, pessoas que éle néo pode contar. Meu piblico tém sido um piiblico especial. O que se poderia chamar de piblico aflelal nfo me conbece. A British Broadcasting Company ja- | mais pensaria em me convidar para uma palestra radiofOn sobre educagio. Nenhuma universidade, inclusive aquela em ie me formei, a de Edinburgh, pensaria em me oferecer um titulo honorifico. Quando faco ‘palestras para estudantes de Oxford © Cambridge, nenhum professor, nenhum dignitirio do ‘colégio me vem ouvir. Penso que me sinto bastante orgulhoso ‘com. isso, percebendo qiie sér reconhecido pela gente oficial seria uma afirmativa de qué sé Fizera antiquado. Houve um tempo em que me ressenti de 0 The London Times nio ter publicado qualquer das cartas que lhe enviei, mas hoje percebo que a recusa déle 6 um elogio. Nao quero insinuar que me afastei do desejo de receber e Ainda assim, a idade traz modificagées, modifica- ‘Ges em Valores. Recentemente, fiz. palestras para sctecentos Suecos, enchendo uma sala feita para seiscentas pessoas, e nio me senti jubiloso nem soberbo. Pensei que estivesse de fato indiferente, até que perguntei a mim mesmo: Como se sentiria vocé se a platéia fésse de dex pessoas? 83 E a resposta foi —Com uma contrariedade de todos os diabos! De forma que, embora nao exista orgulho positive, nao deixa de existir desgésto negativo. Aeambicio morre com.a idade, Recognicéo é assunto dife- rente. Nao gosto de ver um livro com o titulo, digamos, de A Histéria das Escolas Progressivas, quando tal livro ignora 0 meu trabalho. Jamais cheguei_a-conhecer alguém que fosse honestamente indiferente & tecognicio. > Ha certo aspecto comico na dade: Durante anos eu tenho estado fazendo uma tentativa para alcangar os jovens—esiudan- tes jovens, professes jovens, pais jovers-vendo a idade como um impedimento para 0 progresso. Agora, que estou vel:o—um dos Velhos contra os quais preguei tio longamente—sinto de maneira diferente. Recentemente, quando falei_a trezentos estudantes de Cambridge, senti-me a pessoa mais joven do salio. Senti, sim. Disse-lhes: —Por que precisam vocés.que wn velho-como eu Ihes _ falar. de. liberdade? \ Atualmente, nfo penso em térmos de juventude e idade. Acho que os anos pouco tém a ver com 0 pensamento de cada qual. Conhego garotos de vinte anos que tém noventa, e homens de sessenta que tém vinte. Estou pensando em térmos de renovagao, de entusiasmo, de falta de conservadorismo, de _ torpor, de pessimismo. Nao sei se me abrandei ou nfo. Suport os tolos do que costumava, ¢ sinto-me mais irritado_pelas con- versas tediosas, menos interessado_nas_hist6rias_pessoais dos outros, Mas a verdade € que tive gente demais impondo-se a mim nestes tltimos trinta anos. Também sinto menos inverésse pelas coisas, ¢ raramente desejo comprar algo. Ha anos que io reparo nas vitrinas das casas de roupas. E mesmo minhas queridas casas de ferramentas em Euston Road jé nio me atraem agora. Se aleancei um estigio em que o rufdo feito pelas ctiancas me incomoda mais do que outrora, nfo posso dizer que a idade me tenba feito impaciente. Ainda posso ver uma crian- ca fazer tédas as coisas erradas, desembaragar-se de todos 1s seus complexos antigos, sabendo que no devido tempo aque- Ja erianga ser um bom eidadio. A idade diminui o médo, Mas a idade’ também diminui a coragem, TS anos ew dizia % facilidade a um menino qué ameagasse saltar de uma janela alta, se nio fizesse 0 que queria, que fdsse saltila Nao tenho eerteza de poder fazer a mesma coisa, hoje. to menos alegrementd Uma pergunta que me fazem com freqiiéncia & a seguinte: —Mas Summerhill no é espetiiculo de um homem s6? Pode continuar sem voce? Summerhill de forma alguma é espeticulo de um homem s6. No trabalho cotidiano da escola minha espésa e os professdres sio tio importantes quanto eu. A idéia de ndo-interferéncia com 0 crescimento da crianga ¢ da nenhuma pressdo sobre a crianga é que féz da escola 0 que ela chegou a ser. Summerhill & conhecida no mundo inteiro? Néo diia isso. E 0 apenas de um punhado relativamente pequeno de edt cadores. Summerhill é melhor conhecida na Escandinivi Durante trinta anos tivemos alunos da Noruega, da Suécia, da Dinamarea, as vézes vinte déles ao mesmo tempo. Temos tam- bém tido alunos da Austrélia, da Nova Zelindia, da Africa do Sul, do Canad. Meus livros tém sido traduzidos para muitas nguas, inclusive para 0 japonés, hebraico, industanés, guajara- i, Summerhill tem certa influéncia no Japao. Ha mais de trinta anos tivemos a visita de Seisch Shimoda, notivel educador. ‘Tédas as tradugdes dos meus livros se tém vendido bastante bem, e consta-me que professdres de Téquio discutem nossos métodos, © Sr. Shimoda tornou a vir pastar um més conosco, ‘em 1958, Um diretor de escola do Sudo conta-me que Sum: meshill é de grande interésse para alguns professes daquele lugar. Trato désses fatos relativos a tradugées, visitas e correspon- déncia sem ilusées. Fagam parar mil pessoas na Rua Oxford ¢ perguntem-Ihes o que significa, para elas, a palavra Summerhill E muito provavel que nenhuma jamais tenha ouvido ‘al nome, E necessario cultivar sentido humoristico s6br tncia, ou nossa falta de importincia, ‘Nao penso que o mundo chegue a usar tio cedo 0 método de educagao de Summerhill-se é que chegard a usi-lo. O mundo pode encontrar melhor formula. $6 uma bexiga de ar wia imagina que seu trabalho é a iiltima palavra ne assunto, © mundo deve encontrar uma formula melhor. Porqe a poll tica nfio salvaré a humanidade, Jamais féz tal coisa. A maior 50 parte dos jomais politicos esti estourando hostilidade, hosti- idade todo 0 tempo. Muitos déles so socialistas por odiarem 0s ricos, em vez de’ amar os _pobres. 30 ‘Como podemos ter lares felizes, cheios de amor, quando 0 lar € um pequeno retalho de uma terra natal que manifesta dio social de uma centena de manciras?, Podem bem percebet- porque nao encaro educagio como assunto para-exames e est dos em classes. A escola foge & sua finalidade bisica: todo 0 85 -mitica, e hist6ria, do mun | grego, e1 nfo ajudard a f © @ Jar mais amavel, as-erfangas livres de inibigi0, os pais livres de neuroses. O proprio futuro de Summerhill pode ser de pequene impor- tani ‘Mas o futuro da deta de Simmmeshillé de ties impor- tncia para a humanidade. Novas geragées devem receber a oportunidade de crescer libertas. A outorga-daliberdide & a gutorga do amor, E sé 0 amor pode salvar o mundo. 86 DoIs EDUCAGAO DE CRIANGAS A ORIANGA SEM LIBERDADE. A crianga modelada, condicionada, disciplinada, reprimida, a crianga sem liberdade cujo nome & Legiao, vive em todos os recantos do mundo, Vive em nossa cidade, mesmo ali do outro lado da rua. Senta-se a uma carteira mondtona de monétona escola, © mais tarde senta-se a uma escrivaninha ainda mais mondtona de um escritério, ou no banco de uma fébrica, E décil, disposta a obedecer & autoridade, medrosa da eritica, € Yuase Tandtica em scu desejo de ser noimal, convencional © correta, Aceita 0 que Ihe ensinaram quase ‘sem indagagoes, € transmite a seus filhos todos 0s seus complexos, médos e frustragoes. ‘Dizem 05 pisicdlogos que a maior parte dos danos psiquicos gue se infligem a, uma crane € comresponente aos prinetos ‘cinco anos de vida. E é possivel que estejam mais proximos da verdade os que dizem que nos primeitos cinco dias, ou primeiras cinco semanas, ou talvez, nos primeiros cinco minu- tos, pode ser infligido a crianga um dano que perdure por toda a sua existéncia. A falta de liberdade comega com 0 nascimento. Nio, comega beniantes do nascimento. Se uma mulher reprimida, de corp‘ rigido, concebe um filho, quem pode dizer que efeito a rigidez maternal tem sObre o recém-nascido? “Pode bem ser que nio haja exagéro em dizer-se que todas as criangas da nossa civilizagéo nascem numa atmosfera que desaprova a vida, Os advogados do hordrio de alimentagio so, basicamente, contra o prazer. Querem que a crianca seja dlsciplinada na alimentagio porque a alimentagio sem horinio sugere prazer orgistico ao seio. O argumento quanto é nutricao 6, “quase sempre, uma racionalizacio; 0 motivo profundo é moldar a crianga numa disciplinada criatura que colocaré 0 dever antes do prazer. 89 Consideremos a vida de um gardto comum de escola ele- mentar, um John Smith. Seus pais véo a igreja de vez em guando, mas, apesar diss, insstem em que John vé & Escola }ominical tOdas as semanas. Os pais casarari-se, e com muita razio, porque sentiram atragio sexual miitua. Tinkam de se casar, porque em seu meio nao se podia viver juntos, sexual- mente, se nao se fésse respeitavel, isto é, casado. Como acon- tece com bastante freqiiéncia, a atracio sexual nao er bas- tante, e as diferengas de temperamento fizeram 0 lar tomar-se ponto de tensio, com ocasionais discusses em voz. alta por parte dos pais. Havia, também, muitos momentos ternos, mas 8 pequend John nfo via nada demais nes, enquanto a5 sy cussdes violentas entre os pais o feriam no plexo solar, ¢ 0 assustavam, com 0 resultado de ser abatido por estar chorando sem motivo. Desde 0 princfpio éle foi condicionado. A slimentacio com hordrio deu-the muita frustragao. Quando tinha fome, rel6gio dizia que ainda faltava muito para a hora de comer, Era envolvido em excesso de roupas, ¢ envolvido muito apatada- mente. Nao podia dar pontapés livremente, como desejava, A frustragio nas _sensagdes Ievou-o a chupar o dedo. Mas 0 médico da familia disse que nio deviam deixé-lo adquirir maus habitos, e mamae ordenou que se amarrasse seu brago nas ‘mangas ou se passasse qualquer coisa mal-cheirosa na ponta de seus dedos, “Suas fungoes’naturais foram delxadas em pa durante 0 periodo das fraldas. Mas, quando comecou a enga- tinhar © a percorrer o piso, as palavras mate e porco come- ‘garam a soar pela casa, ¢ teve inicio um sombrio aprendizado para faz-lo limpo. Antes disso, sua mao tinha sido afastada de cada vez que tocava em seus drgios genitais, e depressa éle comecou a as- soclar a prolbiefo genital com 0 desgésto adquirido em ralagdo a fezes, Assim, anos mais tarde, quando se tornou caixeiro- visjante, seu repertério de anedoias consist em-partes fgusis de histérias de sexo ¢ de assuntos. escatoldgicos. Grande parte de sua educagio foi-condicionada pelos pa- rentes ¢ vizinhos. A mie e o pai tinham desejo ansioso de agir corretamente, de fazer as coisas apropriadas, de forma que quando aparecessem os parentes, ou os vizinhos, John se com: ortasse como crianga bem educada. Tinha que dizer “Ol gado” quando a tin Ana The desse um pedago de chocolate ¢ levia ser extremamente cuidadoso quanto As suas maneiras & mesa. Especialmente, devia evitar de dizer qualquer coisa, quando os adultos estivessem falando. Seus abomindveis trajos domingueiros eram concessio feita 0s vizinhos. Sua educagao no setor respeitabilidade tornou-se um sistema envolvente de mentiras—um sistema do qual éle nio tinha consciénea, habitualmente, A mentira introduziu-se cedo, em sua vida, Disseram-lhe que Deus nio gostava de meninos que diziam Maldito, e que 0 chefe do trem ‘he daria pancada, se comecasse a vaguear pelos corredores. Téda a sua curiosidade no que se referia A origem da vida era atendida com mentiras grosseiras, mentiras tio eficazes que sua curiosidade sObre a vida ¢ 0 nascimento desapareceu. As mentiras em relagao A vida vieram a combinar-se com médos, quando, & altura dos seus cinco anos, a mie encontrou-o brin- cando no terreno genital com sua irmi ¢ a menina do vizinho. A rigorosa surra que Ihe deram no momento-e que 0 pai, a0 voltar para casa, repetiu—convenceram John, para sempre, que © sexo era sujo'e pecaminoso, algo em que uma pessoa nem sequer deve pensar. O pobre John teve de sufocar seu inte- résse em sexo, até chegar A puberdade, e entio dava garga- Unadag no cinema, quando alguma mulher dizia estar grivida le trés meses, Intelectualmente, a carreira de John foi normal. Aprendia com facilidade, ¢ assim escapava aos escérnios e cast'gos que um professor éstipido Ihe poderia infligir. Deixou a escola com tinturas dos conhecimentos mais imiteis, e com uma cul- tura que se satisfazia facilmente com as revistas mcis reles, filmes banais, e a suculenta biblioteca policial. Para John, 0 nome Colgate estava associado apenas com a pasta de dente, e Beethoven e Bach eram uns sujeitos intro- metidos que se atravessavam no caminho quando 0 que se desejava era ouvir o Elvis Presley ou a Orquestra Beiderbecke, primo rico de John, Reginald Worthington, foi para uma escola particular, mas seu adiantamento, nas coisas essenciais, igualou-se ao do pobre John. Teve de aceitar o inferior na vida, a mesma escravidéo a0 status quo, a mesma negagio do amor e da alegria. Essas descrigdes de John e Reginald so caricatures unila- terais? Nao sio caricaturas, exatamente, contudo nio fiz.a des- rico completa. Deixei de parte a célida humanidade de ambos, humanidade que sobrevive ao pior condicionamento do carter. Os Smiths ¢ Worthingtons da vida sio, em sua maior parte, pessoas decentes, amistosas, cheias de erengas e supers- tigdes infantis, de confiancas e lealdades infantis. les, e seus semelhantes, produzem os Joao de Tal que fazem as leis pede humanidade, $fo as pessoas a decretar que os animais on devem ser mortos com humanidade, que os de estimagiie sojam tratados com cuidado, mas cedem, quando se trata da desu- manidade do homem. Aceitam um cédigo criminal cruel e anticristéo sem se preocuparem, ¢ aceitam a matanga de outros homens na guerra, como fendmeno natural. John © seu primo rico concordam em que o amor e as leis do casamento devam ser estipidos, maldosos ¢ detestiveis. Concordam em que deva haver uma lei para os homens, ¢ outra Iei para as mulheres, no que se refere ao amor. Ambos exigem jue as mBgas com que se casarem sejam virgens. Quando se thes pergunta se éles sio virgens, franzem as sobrancelhas © declaram: “Mas um homem € diferente!” ‘Ambos so firmes suportes do estado patriarcal, mesmo quan- do jamais tenham ouvido semelhante expresso, Fora mol- dados como produtos que o estado patriarcal julga necessirios para a sua perpetuacio. Suas emocées silo antes as emocbes da multidéo, do que sentimentos individuais. “Muito tempo depois de terem deixado a escola, a escola que detestaram quando estudantes, exclamario. —Fui batido em minha escola ¢ isso me féz muito ben. B,entdo,encaminharam ses fils pats a mesma esas, ov para qualquer outra, idéntica, Em térmos psicolégicos, zceitam Pepa sem rebelifo constrativa contra éler e assim a’ tadigio da autoridade paterna é levada avante, geracdo apés_geragio. ‘completar 0 retrato de John Smith, preciso fazer um esbdgo da vida de sua’ irma, Mary. Curto, porque, amplamente, seu ambiente repressive é 0 mesmo que sufoca seu irmio. Ela tem, entretanto, desvantagens que John nio tem, Numa sociedade patriarcal, Mary é positivamente inferior, © educam-na para ter consciéncia disso. Tem que fazer tare fas domésticas, enguanto seu imo 18 ou brinea. Depressa aprende, que quando tiver un emprégo ganharl menos do que ganha um homem, Mary, geralmente, nio se rebela contra sua situagio inferior na sociedade, feita pelo homem. Fste trata de darlhe uma ‘compensagiio, vistosa, como quase todas sio. Ela é 0 foco das bboas maneiras, é tratada com deferéneia, e 0 homem fica em pé diante dela, se nio estiver sentado. O homem pede-lhe {ue The conceda a honra de casar-se com éle. Mary & sutil- mente ensinada que uma de suas funcSes principais é parecer tio adoravel quanto” possfvel, © isso tem como resultado que muitos milhées mais-sio gastos em roupas © cosméticos do que em livros ¢ escolas. 92 Na esfera do sexo Mary é tio ignorante e reprimida como seu irmio. Numa sociedade patriarcal, os homens decretaram que as mulheres devem ser puras, virginais, inocentes. Mary no tem culpa de ter crescido na erenga sincera de que as mulheres tém mentalidade mais pura do que os homens. De certa forma quase mistica, os homens que a rodeiam leva- ram-na a pensar e sentir que sua fungio na vida & apenas a reproduca0, ¢ que 0 prazer sexual & privilégio do homem. A avd de Mary, a sua mie, provavelmente, nao deviam ter sexo algum até que 0 homem exato surgisse e acordasse a bela adormecida. Mary ultrapassou essa fase, mas nio foi tio longe como gostariamos de ncreditar, Sua vid amorosa é gover pelo terror da gravidez, pois compreende que um filho ilegi- Emo com toda a corteza estragaria sues possibilidades de obter um marido, Uma das grandes tarefas de hoje e de amanha é a inves- igagio da energia sexual reprimida e suas relagdes com as doengas humanas. Nosso John Smith pode morrer de pertur- bacdes renais, ¢ Mary Smith pode morrer de cineer. E nio cogitardo de saber se sua vida emocional, estreita e zeprimida, tem qualquer conexio com suas doengas. Um dia a huma: nidade podera localizar tédas as suas misérias, seus édios, € suas moléstias, em sua forma particular de eivilizagio, que é essencialmente contra a vida. Se rigida educagao de carter faz corpos humanos rigidos— entorpecidos ¢ cercados, em vez de serem vibrantes e vivos—parece I6gico concluir-se que essa mesma rigidez mortal inibiré a pulsagio de todos os érgaos humanos necessérios & vida, Para resumir, meu ponto de vista & que a edueagio sem liber- dade resulta numa vida que nao pode ser integralmente vivida. Tal educagio ignora quase inteiramente as emocdes da vida, porque essas emogdes so dindmicas, a falta de oportunidade de wressio deve resultar, ¢ resulta, em insignificdncia, em feal- dade, em hostilidade. Apenas a eabeca é instruida. Se as emo. ‘des tivessem livre expansio, 0 intelecto saberia cuidar de si proprio. yem est no fato de seu caréter, como o| \) oldar-se. Nao € possivel moldar o carater de ~uiir gato, animal superior ao cachorro. Podemos dar a um cio mé consciéncia, mas nao podemos dar consciéncia a um gato, Alda assim a inafria das pessoas prefere os cies, porque sua ‘obediéncia eo lisonjeiro balango de sua cauda constituem\ © prova evidente da superioridade e valor de seu dono. b 92 J, | lbanga com 0 que se faz num canil. A erianga chicoteads (*), O treinamento que se faz com as criangas tem muita seme- como 0 eiozinho chicoteado, torna-se um adulto obediente, inferior. Assim como treinamos os cies para que se adaptem ‘20s nossos propésitos, treinamos nossas eriangas. Naquele canil que 6 0 quarto da erianga, os cies humanos devem ser limpos, no devem latir demais, devem obedecer ao assobio, e devem se alimentar quando considerarmos que é 0 momento exato para isso, ‘Vi centenas de milhares de cies obedientes, bajuladores, sacudirem a cauda em Templehof, Berlim, quando em 1935, © grande treinador Hitler, assobiava suas ordens. Eu gostaria de citar algumas Instrugdes para Gestantes lan- gadas fut alguns anos, por um hospitel-escola de mulheres, na Pensilvinia. “O hébito de chupar o dedo deve ser evitado pela colocagio do braco da erianga num tubo de papelio, a fim de que ela no possa dobrar 0 braco na articulagio do cotovélo.” “Partes Particulares. Dever ser mantidas escrupulosamente limpas, a fim de evitar desconférto, moléstias ea formacdo de maus habitos.” (Os grifos sio meus.) Culpo a profissio médica por muita coisa errada na educa- ao das criancas. Os médicos, habitualmente, nio sio treinados hesse tipo de educacéo, mas ainda assim, para muitas mulheres, a palavra do médico é a voz de Deus. $e disser que a ctianga deve ser espancada por masturbagio, a pobre mie nfo sabe que esté éle falando através do seu préprio complexo de culpa sexual ¢ nio através de conhecimento cientifico da natureza da crianga. Culpo os médicos por prescreverem 0 tolo horirio de allmentacio, os preyentvos contra a succto dos decos, a estipida profbigio de brincar com a erianga e de consentir que ela faca 0 que quiser. A cri roblema ¢ a erianga sob pressio quanto 3 lime peza @ quanto & repressd6-sexual,-Os adultos consideran’ na: tural que @ cxianga aprenda a comportar-se de modo que a vida deles, adultos, seja a mais trangiiila possivel. Dai a importincia dada &'obediéncia, as maneiras, & docilidade. Um déstes dias, vi um gardto de trés anos Ievado ao jardim por sua mae. Trazia uma roupa impecivel. Comegou a brin- car com terra e sujou levemente os trajos. A mie veio correndo, deu-he uma palmada, levou-o para dentro e tomou a apare- ex, com 0 pequeno chorando, metido em outras roupas. Dez minutos depois éle estava sujo outra vez, e 0 caso se repetiu. Pensei em dizer & me que seu filho a detestaria pelo resto da vida, e, pior, detestaria a prépria vida, Mas compreendi que nada do que eu pudesse dizer calaria na mente da mulher, De quase tédas as vézes que vou a uma vila ox a uma cidade, vejo uma erianga de trés anos tropecar ¢ cair, ¢ entio arrepio-me ao ver a mae espancar o filo por ter caido. ‘Em quase tédas as viagens em estradas de ferro ogo mies dizerem: —Se sair de ndvo para ésse corredor, Willie, 0 chefe do trem prende voce. A maior parte das criangas ¢ educada dentro de um tecido de mentiras e proibigdes ignaras. Muitas mies que tratam os filhos razoivelmente bem em seus lares alham com fle, © espanenm-nos em pubico, por que temem a opiniio de seus vizinhos. A crianea, desde 0 inicio, deve ser forcada a ajustar-se A nossa sociedade insana, Uma vez, quando fazia uma palestra numa cidade maritima da Inglaterra, comentei: ~As_senhoras_mies_compreendem que de cada vez que espancam seus filhos estio. mostrando que os odeian? A reagio foi tremenda, Uma mulher gritou comigo, selva- ‘gemente, Quando, mais tarde, no decorrer da noitada, dei meus pontos de’ vista sébre 0 assunto intitulado: “Como podemos Inelhorar a atmosfera moral e religiosa em nossos fares?” a platéia vaiou-me com gésto enorme. Aquilo foi um choque para mim, porque quando fago uma palestra em geral fago-a para pessoas que acreditam naquilo em que eu acredito. Mas, ali, a platéia era de pessoas do setor do trabalho e da classe média, que jamais tinham ouvido falar em psicologia infantil Foi 0 que me levou a compreender como esté entrincheirada a maioria compacta que é contra a liberdade da crianga—e da liberdade para ela propria. A civilizagio esté doente ¢ infeliz, e eu afirmo que a raiz de tal estado pode ser encontrada na familia destituida de liberdade. "As “criangas tormam-se éndurecidas por tédas” as forgas da reagao e do ddio, endurecidas, desde os dias em que estavam num bérco, Sio treinadas para dizerem ndo 2 Vida, porque suas jovens vidas sio um longo ndo. Néo faga barulhol Nao se masturbe! Nao mintal Nio roubel 95 So ensinadas a dizer sim a tudo quanto é negative na vida. Respeite os velhos! Respeite a religiiol Respeite 0 pro- fessor! Respeite a lei dos pais! Nao pergunte coisa alguma, Obedeca, apenas. ‘Nao-hd virludes em respeitar 0 que nao 6 respeitivel, ni & virtuoso viver em peeado Tegal com uma mulher ou um homem que deixamos de amar, nio é virtude amar um Deus que realmente tememos. A tragédia esté no fato do que 0 homem—que mantém a familia em sujeigio—é, e dever ser, éle préprio, um escravo cérea de dez meses, por chorar de séde. 96 f uma comida entre os crentes da apatia ¢ os crentes da vida, Que homem algum ouse permanecer neutro: isso signi- ficart morte. Devemos estar de um lado ou de outro. O lado a morte nos a4 a eriange-problema, o lado da vide nos dé a crianga sadia, 97 A ORIANCA LIVRE Hi tio poucos bebés regulados por conta prépria que qual ‘quer tentativa para descrevé-los nio passaré de conjectura. Os resultados observados até hoje sugerem 0 infcio de uma nova ivilizagio, mais profundamente modificada em suas caracte- Histicas do que qualquer sociedade nova prometida por qual- quer tipo de partido politico. Deixar que a crianga se regule por conta prépria implica ‘em crenga na bondade da natureza humana, uma crenga que nio é, nem nunca foi pecado original. Ninguém jamais viu uma crianga completamente auto-regu- Jada, "A vida de cada ‘rianga tein sido moldada pelos pais, pelos professdres ¢ pela sociedade. Quando minha filha Zoe Enha dois anos, umarevista, a Piture Post, publicos um artigo sdbre ela, com fotografias, dizendo que, na opinigo da revista, entre tOdas as criangas da Inglaterra era ela a que melhor possibilidade tinha de ser livre. Nao era inteiramente verda- deiro, aquilo, pois a menina vivia, ¢ vive, numa escola, entre muitas criangas que nao sio auto-reguladas. Essas criangas, mais velhas, tém sido mais ou menos condicionadas, ¢ desde we a moldagem do cardter leva ao médo ¢ & hostilidade, se em contato com algumas criangas que so contra Minha filha foi educada sem médo de animais. Ainda assim, certo dia, parei o carro numa fazenda e disse-lhe: =Vem, vamos ver as vacas. De repente, ela se mostrou amedrontada e disse: No, as vacas comem a gente. Uma crianga de sete anos, que nio se regulara por conta propria, dissera-lhe aquilo. Na verdade, tal médo durou apenas luma ou duas semanas. "Uma hist6ria posterior, referente a tigres que estariam de alcatéia nas moitas, também teve sobre cla influéneia pouco duradoura. 98 Ao que parece, uma crianga que se regulou por conta pré- pria & capaz de ‘vencer as influéncias das criangas condicio- nadas, em tempo relativamente curto. Os médos ¢ os inte- résses reprimidos de Zoe jamais duraram muito, mas ninguém pode dizer que dano permanente, se tal dano houver, ésses médos adquiridos j4 introduziram’ em seu cariter. Dezenas de pessoas estranhas, em todo 0 vasto mundo, tém dito de Zoe: “Aqui esti algo bastante névo, uma crianga’ gra- ccjosa-¢ equilibrada, uma, crianga feliz, em paz com o seu ambiente, nfo em guerra,” Isso verdade. Ela é, tanto quan- to possivel numa sociedade neurética, a crianga natural, que parece conhecer, automaticamente, a fronteira entre a liberdade ea licenga, Um dos perigos de ter uma crianga auto-regulada 6 0 exces- sivo interésse que os adultos mostram por ela, colocando-a demasiadamente no centro do quadro. O natural, numa comu- nidade de criangas auto-reguladas, é que nenhuma de'as chame a atengio. Nenhuma seria encorajada a exibirse. Entio, no hhaveria 0 citime das outras criangas, ao se verem diante de uma crianga livre, que nio tem as suas inibigbes. Comparada com seu amigo Ted, Zoe, quando crianga, era flexivel e desembaragada de membros. Quando a levantivamos, seu corpo mostrava-se relaxado como o de um gatinho, mas 0 pobre Ted era erguido como um saco de batatas. Nao podia relaxar os misculos: suas reagées eram tédas defensivas ¢ resis- tentes: fazia-se contra a vida, em t6das as Profetizo que as criancas auto-reguladas nfo passario por essa fase desagradavel. Nao vejo motives para que jamais thes aconteca tal coisa. Jé que mio tém a sensagao de estarem amarradas ¢ restringidas pelos pais, quando na fase do bérco, no haverd motivas para que mais tarde surja qualquer rebe- ligo contra éles, Mesmo em lares semilivres, a igualdade entre Bis.2 fio, com freqiéncin, tio boa, que 0 empenho re- Ide de libertar-se dos pais nfo chega a aparecei | Deizar que o bebé se regule por conta prépria significa dar- The o direito de viver licremente, sem autoridade externa em | coisas psiquicas e sométicas. Isso significa que comer quando | tiver fome, chegaré aos hibitos de higiene quando assim 0 | quiser, nunca seri repreendido nem espancado, mas sempre “a. anado e protegido, /* Tudo isso podera parecer natural e excelente, mas ainda assim & espantoso o niimero de pais jovens que, accitando a 99 idéia, conseguem fazer dela um mal-entendido. Tommy, de quatro anos, bate nas teclas do piano de um vizinho com sew martelo de pau. Scus pais, encantados, ficam a olhé-lo com tum sorriso triunfante, que significa: “Nao & maravilhoso, isso de regular-se por conta propria?” Outos pais acham que munes,devem levar espontineamente seu filho de dezoito meses para a cama, porque isso seria inter- ferie'com a nataresa, “Nada disso! O bebe deve ter pennissio para ficar acordado. Quando se cansar, a mie o levari para 8 quarto” © queaconece,porém, & ficar a eranga cams € colérica. Nao pode dizer que deseja ir para cama, que deseja dormir, porque mio sabe expressar em palavras a sux von- tade. E 0 resultado habitual é a mae exausta ter de levanté-lo do chi, e, muito desapontada, levé-lo aos berros para a cama. Outro casal jovem veio falar comigo, quase se desculpando, para perguntar se nfo seria errado colocar um resguardo na fareira do quarto das criangas. ‘Tédas essas ilustragées_mos- tram que qualquer idéia, velha-ou_nova, toma-se’perigosa quando no apoiada no bom-senso. ~ 6 um louico, tomando conta de criangas, deixaria sem grades as janelas e sem protegio o fogo da lareira, no quarto delas. ‘Ainda assim, com freqiiéncia grande, jovens entusiastas das criangas auto-reguladas, quando visitam minha escola, mostram- se surpreendidos com a nossa falta de liberdade, pois fechamos 0s venenos a chave, nos armérios dos nossos laboratérios, ¢ temos uma regra que proibe as brincadeiras nas saidas ‘de ineéndio, Todo o movimento libertador é perturbado e des- prezado pelo fato de tantos advogados da liberdade nio terem Colocado os pls com firmers no terreno que pretendem pal- ‘Um déles, recentemente, protestou por me ver falar alto, severamente, com um menino-problema xle sete anos que estava dando pontapés na porta do meu escritério. Imaginava que eu devia sorrir ¢ tolerar o rufdo até que 0 menino gastasse todo 0 seu desejo de dar pontapés nas portas. E verdade que passei alguns bons anos de minha vida tolerando, pacientemente, o comportamento destrutivo de crianeas-problemas, mas isto fiz como seu médico-psicolégico, ¢ no como seu. compatrota, ‘Se uma jovem mie pensa que seu filho de trés anos deve ter permissio para pintar a porta da frente com tinta vermelha, soba alegacao de que assim éle se esté expressando livre- mente, eis que se mostra incapaz de compreender 0 que 2 crianga auto-regulada significa. 100 Lembro-me de estar com um amigo no teatro Covent Garden, certo dia. Durante 0 primeiro balé uma crianga que estava & nossa frente conversou. com 0 pai em voz alta, Ao fim do balé fui arranjar outras cadeiras. Meu companheito disse-me: “Que faria, se fSsse um dos garotos de Summerhill que fizesse aquilo? ‘~Diria que calasse a béca—respondi. =Nivo teria necessidade de dizer sso—replioon meu amigo— jorque o garéto nao agiria daquela maneira, Porcho, mesmo, que nenhum dees agiria daquela manefra. Uma vez uma senhora trouxe uma gardta de sete anos para Sr. Neill—disse ela—eu li tudo quanto 0 senhor escreveu, linha por linha, E mesmo antes de Daphne nascer eu havia resolvido educi-la pelos seus pontos de vista. Lancei os olhos para Daphne, que estava de pé sibre meu. piano de cauda, com seus sapatos pesados. Deu um salto dali para o sofé, © quase atravessou as molas. ‘“Vejo como é natural essa menina—exclamou a mic—E a crianca Neilliana En senti que corava essa distingao entre liberdade e licenga que os pais ni conseguem captar. No lar diseiplinado, a crianga ndo tem reitos. No lar estragado, elas tém todos os direitos. © lar apro- priado € aquéle em que criancas e adultos tém direitos iguais. Eo mesmo conceito-se-aplica ds escolas-—— ‘Devemos insistir sempre em que dar liberdade no significa arruinar a erianga, Se um garotinho de trés anos quiser andar em cima da mesa devemos dizer-The, simplesmente, que éle nio deve fazer isso. Ele precisa obedecer, isso é verdade. Mas, por outro lado, nds 0 obedeveremos, quando fr necessério. Eu saio do quarto das criangas pequenas quando elas me mandam sai Ha uma certa quintidade de sacrificios a fazer, por parte do adulto, se as, Giangas tveron de viver segundo fea hate reza intima. Pais sadios chegam a uma espécie de acdrdo, no que se refere @ concess6es. Pais nio-sadios ou se tomam ivlentos ou estragam seus filhos permitindo-Ihes ter todos os direitos s Na pritica, a divergéncia de interésse entre pais ¢ filhos pode ser abrandads, se no reselvids, por wm honesto toma la -cé. Zoe respeitava minha escrivaninha e ndo mostrava dis- posic’ alguina para brincar com a minha méquina de eserever 108 fe meus papéis, Por meu tuo eu respeitava seu quarto e seus brinquedos. angas sio muito sensatas, e depressa_accitam leis i deviam ser exploradas;-como tantas vézes sio. ‘Os pais chamam, com excessiva freqiiéncia: Jimmy, traze-me um copo de gua. Isso quando a crianga esté interessada num jégo absorvente. Grande parte da desobediéncia 6 devida 20 método enado de manejar a crianga. Zoe, quando tinha pouco mais de um ano, passou por um perfodo em que mostrava grande inte- résse pelos meus éculos, arrancando-os dos meus olhos para ver que tal cram, Eu nfo protestava, nfo mostrava aborre- cimento no aspecto nem na voz. Depressa ela perdeu o inte- résse pelos meus dculos e nao mais tocou néles. Sem divida, se eu tivesse dito, severamente, que nio os tirasse — ou pior, se the batesse na mfozinha—seu interésse pelos dculos poderia ter continuado, misturado ao médo quanto a mim, Médo ¢-rebelido ‘Minha mulher defxava-a brincar com enfeites quebriveis. A menina lidava com éles euidadosamente, ¢ raramente quebrava algum. Descobriu as coisas sdzinha. Evidentemente, hi um Imite paraiso de regularse por conta propria. Nio podemos permitir que um bebé de seis meses descubra por conta pré- Pria que um cigarro aceso queima e produz dor. errado gritar, alarmado, em semelhante caso. O certo é afastar o Perigo sem qualquer encenagio. A io ser, que a erianea seja mentalmente retardads, de- pressa descobriré 0 que The interessa. Deixada em liberdade, sem gritos excitados ¢ sem vozes coléricas, ela ser inacrediti- velmente sensivel em seu trato com material de téda a espécie. A mae aflita que esta présa ao fogio a gis e se desespera por saber 0 que os filhos estario fazendo, néo tem, jamais, confianga alguma nas atividades déles. “Va ver 0 que 0 bebé est fazendo e diga-Ihe que nfo faga. Eis uma frase que ainda se aplica a muitos lares de ho Quando uma mie escreve perguntando-me o que deve fazer ‘com criancas que desarrumam tudo enquanto ela esti cozi- nhando, eu 36 posso responder que talvez. ela os tenha educado dessa maneira. Um casal leu alguns dos meus livros e ficou com a cons- ciéncia impressionada pela idéia de que tinha educado nal os seus filhos. Reuniu a famflia em conferéncia, ¢ disse: 102 —Educamos voces erradamente, De agora em diante tém liberdade para fazer 0 que quiserem. Jé nio me lembro a que total chegou a conta pelos estragos, mas recordo que tiveram de fazer nova conferéncia para res” cindir 0 contrato anterior. © argumento habitual contra a liberdade das criangas & 0 seguinte: A vida é dura, € devemos treinar as criangas part que se ajustem mais tarde a vida. Portanto, precisamos disciplind-las. Se Ihes permitirmos fazer 0 que quisérem, como poderio jamais servir um patro? Como poderdo competir com outros que tiveram disciplina? Como poderdo exercer a autodisciplinai As pessoas que protestam contra a outorga de liberdade as criangas ¢ usam ésse argumento, nfo compreendem que par- tem de uma suposi¢ao infundada, destitufda de prova, a supo- sigio de que a erianga nao cresceri e nio se desenvolveri a nao Ser que a forcem a tanto. Contudo, todos os trinte © nove anos eriéncia em Summerhill desaprovam essa suposigio. Observem, entre uina centena de-ontros, 0 caso. de. Meriyn Estéve em Summerhill dez anos, entre as idades de sete ¢ dezessete e durante todo ésse tempo nao freqiientou uma sb aula, Com dezessete anos mal sabia ler. Ainda assim, quando sai da escola, Mervyn resolven tornar-se ferramenteiro, apren- deu a Ter sdzinho,e bem depressa absorveu, em pequeno prazo de autodidaxia, todo conhecimento técnico de que Precisava, Através de ‘seus préprios esforcos, preparou-se para seu aprendizado, Hoje, ésse mesmo camarada est vastamente educado em letras, ganha excelente salirio, e 6 um lider em sua comunidade. Quanto a autodiseiplina, Mervyn construiu uma boa parte de Sua casa com as proprias mios e esti edu- ‘cando uma bela familia de trés filhos, com o fruto de seu trabalho diario, Da mesina maneira, todos os anos meninos ¢ meninas de Summerhill, que até entio raramente estudavam, resolvem entrar para o colégio, e espontineamente comegam, entao, 0 longo € cansativo trabalho de se prepararem para os exames vestibulares, Por que fazem isso? A suposicio comum de que bons habitos que néo foram for- cados-Gurante a infaneia jamais se desenvelverio. mats tarde na_vida, ¢ uma suposicéo dentro da_qual fomos educados, ¢ aie sem. discutir, aceitamos, sbmente: porque tal idéi jamais foi desafiada, Eu nego tal premi ~ 103 A liberdade & necesséria para a crianga porque apenss sob erdade ela pode erescer de sua maneta natural-a boa ma: neira. Vejo os resultados da opressio em criancas que vém de cescolas estritas © conventos. So fardos de hipocrisia, mos- trando polidez artificial e maneiras posticas. Sua reagio diante da liberdade & ripida e cansativa. Du rante a primeira ou as duas primeiras semanas, abrem as portas para os professdres, chamam-me “Senhor” ¢ levam-me Cuidadosamente. Olham para mim com “respeito”, que facil- mente se faz, reconheeivel como médo. Depois de algumas semanas de liberdade mostram 0 que realmente sio. Tornam- se imprudentes, sem modos, sujas. Fazem tudo quanto Thes proibiram fazer no passado: blasfemam, fumam, quebran coi- sas. E todo o tempo, nos olhos e na voz, mantém expressio polida e hipécrita, Levam pelo menos seis meses para perder sua hipocrisia, Depois disso, perdem também sua deferéncia diante do que véem como autoridade, Mais ou menos dentro désse prizo tornam-se garotos naturais e saudéveis, que dizem o que sen- tem sem perturbacio nem hostilidade. Quando uma crianga chega a ter liberdade desde bem pequena, mio passa por ésse estigio de hipocrisia e fingimento. A coisa mais iimpressionante em Summerhill ¢ a absoluta sinceridade existente entre os alunos. Essa coisa de ser sincero na vida e para com a vida é vital. B, realmente, a coisa mais vital déste mundo. Se tivermos sin- ceridade, tédas as demais coisas virio para nés. Todos cumpre- endem 0 valor da sinceridade—digamos—na agio. Esperamos Sinceridade dos nossos politicos (tal 6 a capacidade ce ot mismo desta humanidade!) dos nossos juizes e magistrados, professéres © médicos. Ainda assim, edueamnos nossas criangas de tal forma que elas no ousam ser sinceras. Possivelmente a maior descoberta que fizemos em Sum- methill foi a de que a crianga nasce’ sincera, Combixamos deixar as criangas em paz a fim de que pudéssemos observar @ que elas eram, Essa ¢ a unica forma de se lidar com criangas. A escola pioneira do futuro deve seguir ésse caminho, Se desejar contribuir para 0 conhecimento du crianca, ¢, 0 que & mais importante, para felicidade da tal crianca. O-alvo da vida é a felicidade. Q mal da vida é tudo quanto limita ou destri~a felicidade, “A felicidade sempre significa bondade; a infelicidade em seu’ limite extremo significa perse- guigfo de judeus, tortura da minoria, on guerra 10s Mas, reconheco que a sinceridade tem seus momentos cons- trangedores. Como quando, recentemente, uma menina de trés anos olhou para um visitante barbudo e disse: —Acho que nio gosto do seu rosto. O visitante estéve a altura da ocasiai Mas et gosto do seul E Mary sorriu. Bom, cu nio disetiret pela liberdade & exanga, Meta hora pssada com uma erianga livre eonvenee mais do que win livro le argumentos. Ver & erer. Dar liberdade_a_uma a_nfo é coisa fiicil. Significa recustimos ensifarThe religiéo, ‘politer, ou conseiéncia “de ‘classe. Uma crianga nao pode ter liberdade real quando ouve © pai bradar contra alguns grupos politicos, ou ouve a mie zangar-se com a classe das domésticas. F, quase impossivel evitar que as criangas adotem nossa atitude diante da vida, filho de um agougueiro nio poderé, provivelmente, pregar © vegetarianismo, isto é a no ser que 0 médo em relagao & autoridade paterna o leve para a oposicio. ‘A propria natureza da sociedade é inimiga da liberdade. A socieladema multidio=é conservadora, e host nos pensamens tos novos. ‘A moda ¢ coisa tipica da aversio da turba pela liberdade, ‘A turba_exige uniformidade, Na vida eu sou um desequilic ‘rado, porque uso sandalias. Na minha aldeia eu seria um desequilibrado se usasse chapéu alto. Poucos homens ousam livrar-se do que é correto. A lei na Inglaterra—a lei da multidao—profbe que se comprem cigarros depois de oito horas da noite. Nao sei de uma sé pessoa que aprove tal lei. Como individuo, aceitamos calma- mente regulamentos da multidio bastante estipidos. | Poucos individuos quereriam assumir a responsabilidade de enforcar um assassin, de mandar um criminoso para a morte em vida que se chama prisio. A multidgo mantém barba- idades tais como a pena de morte e nosso sistema penal, Porque multidao nfo tem consciéncia. A multidio nao sabe pensar, sabe apenas sentir. Para a multidao, um criminoso é uum perigo e a maneira mais ficil de se proteger é matar o Perigo ou encerlo, Noss obsoleto ciigo criminal é baseado hindamentalmente no médo, e nosso sistema opressor de edu- cago também é baseado fundamentalmente no médo—médo da nova geragio, 105 Sir Martin Conway, em seu delicioso livro, A Multidao na Paz ¢ na Guerra, mostra que a multidao gosta dos velhos. Na guerra, escolhe generais velhos, na paz, prefere os velhos mé- Gicos. A multido agarra-se aos velhos porque teme os jovens instinto de autodefesa na multidio vé na nova geracéo tum perigo-médo de ter multidéo nova a crescer e rivalizar com cla—multidio que pode, talvez, destruir a antiga, Na menor entre tédas_ as mmaltidées—a familia—a liberdade é ne- jada aos jovens pela mesma razo. Os adultos agarram-se aos Selbos valdres~dos velhos ‘valores emocionais. Nao hi base Togica para um pai proibir o fumo a sua filha de vinte anos. A proibigao nasce de fontes emocionais, de fontes corserva- doras. Atris da proibico esté 0 médo. Que poderd ela fazer depois disso? A multidio 6 a guardia da moralidade. O adulto receia dar liberdade a6s jovens porque teme que os jovers pos- sam realmente fazer tédas as coisas que éle, adulto, desejou fazer. A eterna imposigio dos conceitos e valores adultos sobre as criangas é um grande pecado contra a infancia, Dar liberdade & permitir que a crianga viva sua propria vida. Assim to, patoce simples. Apenas nostos Tudbitod dees trosos de ensinar, modelar, pregar e cogitar, tornam-se inca- pazes de compreender a simplicidade da verdadeira liberdade. ual & a reagio da crianca diante da_liberdade? Criancas inteligentes € Wio-inteligentes ganham algo que ja- mais tinham tido antes—algo quase indefinivel. O_sinal exterior wincipal é um aumento grande da sinceridade ¢ da caridade, ‘uma diminuigéo da agressividade, Quando as cri estao sob médo e disciplina, ndo se mostram claramente a sivas. Apenas uma vez, em trinta ¢ oito anos, houve, em Sum: merhill, uma briga em que os narizes sangraram. Sempre tivemos uma pequena disputa de vez em quando-pois nio hd liberdade na escola que possa anular completamente a influéncia de um mau lar. O caréter adquirido nos primeiros meses de vida pode ser modificado pela fiberdade, mas nunca chega a ficar inteiramente transformado. O superinimigo da liberdade & 0 médo. Se falarmos em sexo as criangas, elas néo se tomardo licenciosas? Se no censurarmos as pecas teatrais, © povo nao se tomard imoral? 5 adultos que receiam ver a juventude corrompida sé0 os corruptos, tal como os de mentalidade suja sio os que dizem que deviamos usar trajos de banho de duas pecas. Se um homem sente-se chocado seja pelo que fér, ser sempre pela ‘coisa em que esté mais interessado, O homem que-afe:a vir- 106 tude é 0 libertino sem. coragem_para_enfrentar_a mudez da propria alma. Mas liberdade significa a conquista da ignorincia. Um povo livre mio necessitaria de censores de pecas teatrais nem de costumes. Porque um povo livre nao teria interésse em coisas Chocantes, ja que um Povo livre nfo pode sentir-se chocado. ©s alunos de Summerhill nfo sofrem choque— ¢ néo porque estejam adiantados no pecado—mas porque expandiram seus interésses em coisas chocantes e ndo tém mais uso para éles em suas conversas ou em seu espirito, ‘As pessoas esto sempre me dizendo: Mas como suas criangas livres se adaptario jamais aos penosos trabalhos da vida? Espero que essas criangas livres sejam pioneiras na aboligao désses_penosos trabalhos da vida, 7 ~Devemos consentir que as criancas sejam egoistas—nio dad vosas-livres para seguirem seu interésse infantil ctravés da infincia, Quando o interésse individual da crianga ¢ seu inte- Hasse social se choca, 0 dateéase pessoal deve ter prece: jéncia. A idéi@ inteira de Summerhill repousa ‘A escola deveria fazer da vida da crianga um bringuedo. No quero dizer que a erianga deva ter um caminho de rosas, Tomar tudo fécil para ela é fatal para o seu cariter. Mas. fa propria vida apresenta tantas dificuldades que as dificuldades axtficais preparadas com que presenteamos as riangas nfo se fazem necessirias. ‘Acredito que impor qualquer coisa atrds de autoridade é errado. A crianga ndo devia fazer nada enquanto ndo manti- ‘vesse @ opinido—a sua opiniéo—de que tal coisa deveria ser feita, A maldigio da humanidade 6 a coergao exterior, venha ela do Papa, do Estado, do professor ou dos pais. E 0 fas- cismo por inteiro. “Muitas pessoas pedem um deus: como podria ser de outra maneira se o lar & governado por deuses de chumbo de ambos (5 sexos, deuses que exigem verdade perfeita e comportamento moral? 'A liberdade significa fazer 0 que quisermos, desde que nfo se interfira com a liberdade alheia. O resultado é autodiseiplina, Em nossa educagio politica como nacio, recusamos deixar viver. Persuadimos através do médo. Mas ha uma grande diferenca entre obrigar uma crianga a deixar de atirar pedras, ¢ obrigéla a aprender latim, Atirar pedras envolve outras 107 pessoas, mas aprender Iatim envolve apenas_uma crianga. A ‘comunidade temo direito de_restringir 0 menino-antisoctal~ -por estar interferindo com o direito dos outros, mas a comur nidade nio-tem_o direito de compelir 0 menino a aprender Tatim—porque aprender latim & uma questio pessoal. Forcar _uma_erianca a_estudar & como forgar_ um homem @ adotar™ ‘uma religiio por decreto do Parlamento. Fé igualmente idiota. Aprendi latim quando menino—ou, antes, deram-me livros Jatinos nos quais eu deveria aprender. Como menino jamais pude aprender a matéria, porque o meu interésse estava em outro pont. Com a idade de vinte © um anos descobri que no podia entrar na universidade sem latim. Em menos de um ano sabia bastante para passar nos exames vestibulares. O auto-interésse levou-me a estudar latim. ‘Téda_crianca tem_o direito de usar roupa de tal tipo que io importe_um_caracol se elas. se.amarrotarem ou nio. Téda cerianga tem 0 direito 3 liberdade de palayra. Durante muitos anos levei ouvindo todos os “bandidos” ¢ “malditos” de adoles- entes que nio tinham tido Ticenga para dizer tais palavras fem sua quadra da primeira infincia, © surpreendente & que, com milhdes de criaturas criadas no médo e horror do sexo, 0 mundo ainda nao seja mais neurético do que ¢, Para mim, isso quer dizer que a huma- nidade natural tem um poder inato de dominar, finalmente, ‘os males que The sto impostos. Ha uma tendéncia lenta para a liberdade, tanto sexual como outras. Na minha meninice, uma mulher ia ao banho de mar usando meias e roupa com- rida. Atualmente, as mulheres mostram as pernas e 0 corpo. As criangas vio tendo mais liberdade, a cada geragio. Stmen- te alguns Iundticos colocam, hoje, pimenta no polegar de eria a, a fim de evitar que ela 0 chupe. E bem poucos sao = palses do. presente €m que as eriangas podem ser batidas na escola. A liberdade funciona Jentamente, e é possivel que se pessem muitos anos antes que a crianga compreenda o que ela signi- fica. Quem quer que pretenda resultados rapidos é otimista incurdvel. E a liberdade funciona melhor com as criangas inte- ligentes, Seria uma satisfacio poder dizer que, tocando a iberdade, antes de mais nada, nas emogdes, tédas as criancas, inteligentes ou broncas, reagem igualmente diante dela, Mas no posso dizer tal coisa. Vé-se a diferenca em matéria de ligdes, Todas as eriangas livres brincam a maior parte do tempo, durante anos, mas 108 juando chega a ocasiio, as inteligentes acomodam-se e agar- Hiimse 20 trabalho necessério para slominar as materias exigidas nos exames do govérno. Em pouco mais de dois anos um rapaz ou uma garéta fazem o trabalho que uma crianga disci- pllnada leva olfo anos a fazer. ‘O professor ortodoxo insiste em que os exames sé serio um éxito ‘se a disciplina mantiver 0 nariz do candidato enterrado tos ios, “Nowe restados provam que om ene i entes sso € uma llusio, Sob liberdade, 36 os-imtelizentes ian (SR concentrarse num estudo intensivo, colts das: mais fificeis de se realizar numa comunidade onde tantas outras atragdes #0 fazem presentes, Sel que sob disciplina relativamente mediocre hi alunos que passam nos exames, mas fico a pensar no que éles se tornario, mais tarde, na vida. Se tédas as escolas féssem livres e tédas ‘as ligdes optativas, acredito que as criangas alcancariam seu méximo de possibilidades. ‘Sei de maes aflitas, ocupadas com a sua cozinha—enquanto (© bebé esté engatinhando por ali e derrubando coisas—que perguntam, irtedas: Que hist6ria 6 essa de regular-se por conta propria? Pode ser muito boa para as mulheres ricas, que tém pajens, mas para as que vivem como cu, isso nfo passa de palavério © confusio, Outras podem grtar: —Eu gostaria de fazer isso, mas como comegar? Que livros sbbre 0 assunto posso ler? A resposta é que nao hé livros, nem ordculos, nem autori- dades, Tudo quanto ha é uma pequena, bem pequena minoria de pais, médicos e professéres, que acreditam em personalidade fe no otganismo que chamamos crianca, e que estao dispostas a nada fazer para deformar essa personalidade e dar rigidez Aquele corpo através de interferéncia errada. Somos tedos pes- quisadores' nfo-autoritirios, procurando a’ verdade sobre a Tumanidade. Tudo quanto’ podemos oferecer 6 um relato de nossas observagdes quanto a criangas educadas em liberdade, 109 AMOR E APROVAQAO A finalidade e 0 bem-estar das criangas dependem do grau de amor ¢ aprovagio que Ihes amos. Devemos estar do lado da crianga. Estar do lado da erianga é dar-Ihe amor—nio amor possessivo, nio amor sentimental—mas comportarmo-nes para com a crianga de tal maneira que ela se sinta amada e apro- vada por nés. Isso pode ser feito. Conheco dezenas de pais que estio do Jado de. seus filhos, nada pedindo em troca, ¢, entietanto, recebendo bastante. Compreendem que seus filhos niio sio pequenos adultos. Um filho de dez anos escreve para casa: “Querida mamae, por favor, mande-me meus cingiienta cen- tavos. Espero que todos estejam bem, Carinhos a0 pap: Os pais sorriem, sabendo que isso é 0 que wma crianca de dez anos escreve quando é sincera ¢ nio tem receio de se expressar. O tipo, errado de pais suspira diante de uma carta assim e pensa: “Bichinho egoista, sempre pedindo alguma coisa.” Os pais bem orientados da minha escola jamais perguntam, como vio os filhos, porque véem isso por si mesmos. 0 tipo exrado esti sempre fazendo perguntas impacientes: Ele ainda nao sabe ler? Quando é que vai aprender a ser cuidadoso na limpesa? Ela oat ds aulas?" Tudo é questo de f8 na crianga, Alguns a tém, mas a maior parte nao, E se nao temos essa 6, as criancas sen- temno. Sentem que nosso amor nao pode ser muito prefundo, quando nao, confariamos inais nelase Quando aprovamos as eriangas podemos falar com elas sobre qualquer coisa, sobre todas as coisas, porque a aprovagio faz com que muitas inibi- ges desaparegam. 110 ‘Mas uma pergunta surge: =f, possfvel que alguém aprove eriancas, se no sprova a si proprio? Se néo tem consciéncia de si proprio, como pode aptovar-se? Em outras palavras, quanto mais consciente alguém estiver de si proprio e de scus motivos, mais provivel serd ‘que se aprove. Manifesto a fervorosa esperanga, entio, de que um melhor conhecimento de si proprio e da natureza da crianga venha a ajudar os pais a manter seus filhos livres de neuroses. Repito que os puis esto estragando a vida de seus filhos quando os forgam a aceitar crengas antiquadas, maneiras antiquadas, mo- “ral antiquada. Esto sacrificando a crianga ao passado. 550 & certo principalmente quando os pais impoem religigo as crian- as, sob autoridade, tal como a éles a religito foi imposta. Se bem que a coisa mais dificil déste mundo seja renunciar Agullo que ‘consideramos importante, s6 através da rennin ‘encontramos vida, progresso, felicidade, Os pais devem renun- ciar. Devem renunciar & hostilidade que se mascara ob auto- ridade e critica, Devem renunciar & intolerdncia que é resul- tado do médo. Devem renunciar 4 velha moral e ao veredito das multidoes. Ou, mais simplesmente, os pais devem tormar-se pessoas, individuos. Devem saber onde se situam, realmente, Nao é fell, Porque o homem mio & apenas éle proprio, mas wma ‘combinagio de todos quantos conheceu, e retém em i préprio muitos dos valéres alheios. Os pais impdem a autoridade que Thes veio de seus préprios pais, porque cada homem carrega ‘em si o préprio pai, cada mulher a propria mie. E a impo- sicdo dessa rigida autoridade que gera 0 édio, e, com éle, as ccriangas-problemas. Tal atitude 6 a oposta Aquela pela qual se 6 aprovagio & crianga. Muitas meninas me tém dito: —Nada que eu faca agrada minha mae. Sabe fazer tudo me- Thor do que eu, e fica furiosa se erro na costura ou no tried. As criangas no necessitam tanto de ensino quanto de amor © de compreensio, Necessitam de aprovacio € liberdade para serem naturalmente boas. Os pais que sejam de fato fortes amorosos sio os que tém capacidade para dar & crianca a iberdade de ser boa. mundo est sofrendo de um excesso de censures, 0 que vem a ser, na verdade, uma forma disfargada de dizer que éle esta sofrendo de excesso de édio. O édio dos pais € que faz da crianga um problema, tal como 0 édio da sociedade faz ut do criminoso um problema. A salvagio reside no amor, mas © que a toma dificil 6 que ninguém pode forcar o amor. Os pais da crianga-problema devem recolher-se © perguntar a si proprios: Mostrei verdadeira aprovacao a meu filho? Mostrei que tinha confianca néle? Mostrei,compreensdo? Nao ‘estou teorizando, Sei que uma crianga-problema pode vir para a minha escola ‘e tomarse uma erianga normal © fez, Sei que os ingredientes principais no progresso de cura sio as domonstragbes de aprovacio, de conkianga, de compreensio, ‘A aprovagao 6 tio necesséria para a crianga normal como para a crianga-problema. tinico mandamento a que pais mestres devem obedecer 6 0 seguinte: Estards. do.lado- da— crianga. A obediéneia a ésse mandamento féz de Summerhill ‘uma escola vitoriosa. Porque estamos, positivamente, do lado_ da crianga, e a crianga, mesmo dé forma inconsciente, sabe ‘0 estou afirmando que sejamos um bando de anjps, 1 ocasides em que nés, adultos, fazemos barulho. Se estou pi tando uma porta e Robert atira lama na minha pintura fresca, ‘eu 0 xingo vigorosamente, porque o gardto esté concsco hi muito tempo € 0 que Ihe diga nfo tem importineia. Supo- nhamos, porém, que Robert tivesse chegado recentemente, vin- do de uma escola odienta, ¢ seu gesto representasse a tentativa de uta contra a autoridade: eu o ajudaria a atirar a lama jorque sua salvago seria mais importante do que a porta. Sei Feo'devo estar do lado déle enquanto expande seu ilo até esgoti-lo, a fim de que de névo se faca sociavel. Nao é fécil. Jé tenho testemunhado, sem nada dizer, um menino maltra- tar meu precioso tdmo. Sei que se protestasse éle imediata- mente me_identificaria com seu severo pai, que sempre ameagava bater-Ihe se 0 gardto tocasse em suas ferramentas. O estranho € que se pode estar do lado da crianea, mesmo quando, as vézes, se atira contra ela alguns desaforos. Se estivermos do lado da crianga ela corresponde isso. Qualquer desafdro sem importineia que se possa dizer, a proptsito, de batatas ou de ferramentas arranhadas, no perturba ¢s rela~ ‘ees fundamentais. Quando se trata uma crianga sem trazer para 0 caso a autoridade © a moralidade, ela sente que se esti do lado dela. Em sua vida pregressa a autoridade ea moralidade eram como policiais a restringirem suas atividades. Quando uma menina. de oito anos passa por mim e diz “Neill & um grande tolo”, sei que isso nfo passa da sua forma negativa de expressar amor, de me dizer que se sente & von- uz fr tade comigo. As criangas nfo amam tanto quanto desejam ser amadas, Para uma crianga, a aprovagio do adulto significa amor, enquanto a desaprovagio significx dio, A atitude das ceriangas para com 0 pessoal docente de Summerhill & seme- Ihante & sua atitude para comigo. As criangas sentem que o pessoal esté sempre de seu lado. Ja falei na sinceridade das criangas livres. Essa sinceridade resulta de se sentirem aprovadas. Nao tém padrées artficiais dle comportamento pelos quais sjustam sua vida, nem tabus para refreé-los. Nao sentem necessidade de viver uma exis- {éncia.que & mentira. Alunos novos, vindos de escola onde tm de respeitar a autoridade, dirigem-se a mim como “Senhor’. $6 quando des- cobrem que no sou autoridade desistem do Senhor e chamam- me Neill. Nunca procuram consiguir minha aprovagia pessoal, e sim a aprovagio de téda a comunidade escolar. Mas, no tempo em que fui mestre-escola na Esoécia, qualquer das cri- angas se conservaria alegremente na escola para me ajudar a limpar a sala-de-aula ou podar uma cérca viva, buscando, hipocritamente, a minha aprovagio. Porque eu era 0 chefe. ‘Nenhuma das criangas de Summerhill jamais faz coise alguma para obter @ minha aprovagio, embora haa visitntes “que podem pensar o contririo, quando véem alguns meninos ¢ meninas ajudando-me a limpar 0 mato dos canteiros. Entre- tanto, aquelas criangas esto ali trabalhando por um motivo que nada tem a ver comigo, pessoalmente. Uma lei da Assem- bléia Geral, promulgada pelos proprios alunos, determinou que todos os que passassem dos doze anos seriam obrigacos a dar duas horas de trabalho por semana, cada um, no jardim. Essa lei foi por éles mesmos rescindida, mais tarde, Em qualquer sociedad, entretanto, Mi um deseo natural de /f aprovagio, O criminoso € a criatura qué perdeu 0 desejo de / ser aprovado pela maior parte da sociedade, ou antes, 0 crimi- noso é a criatura que foi forgada a transformar seu desejo de aprovagio no sentimento oposto, o de desprézo pela sociedade. © eximinoso & sempre o Egolata n°l: Quero entiquecer de- pressa ¢ @ sociedad que vd para o inferno! As sentengas que © levam a prisio apenas reforcam o seu egoismo, Uma tempo- rada no cativeiro leva 0 criminoso a tomar-se um ldbo solitério, revolvendo pensamentos sobre si priprio e sobre a horrivel sociedade que o castiga. Castigo e prisio ndo podem reformar lum criminoso, porque, para éle, tais coisas nio passam de dio da sociedade. A’sociedade elimina a oportunidade que 4113. ale possa ter de se tomar socifvel, a fim de obter novamente fa aprovagio dos demais. Bsse louco e desumano sistema de prisio merece condenagiio, pois nao toca, em relacao ao prisio- neiro, em nada que para’ éle tenha valor psicol6gico. Por isso digo que a primeira reforma essencial em qualquer escola 2 oportunidate de aprovagto social. Enguanto as ccriangas tiverem de cumprimentar as visitas, de ficar de pé ‘em linhas militares, de saltar sobre os pés quando 0 superin- tendente entra na sala, néo ha liberdade auténtica, e, poranto, nio hé oportunidade de aprovagio social. Homer Lane des- cobriu que quando um novo rapaz chegava @ Pequena Com- ‘monweath, procurava a aprovagio de seus companheiros, geral- mente usando a técnica que usara em sua favela: gabeva-se de seus delitos, da esperteza com que furtava os lojistas, das suas proezas no evadir-se dos policiais. Quando percebia que se estava gabando para jovens que haviam ultrapassade essa forma de procurar & aprovacio social, 0 recéim-chegado ficava desconcertado, ¢, muitas vézes, punha de lado os companheiros, classificando-os de maricas. Aos poucos, seu amor natural da aprovagio forgava-o a procurar ssa aprovacio entre as p soas de seu névo ambiente. E, sem qualquer anilise i vidual por parte de Lane, adaptava-se aos scus novos compa- nheiros. Dentro de alguns meses era uma criatura socivel Quero falar agora ao marido comum, decente, solitir volton para casa no trem das cinco e meia da tarde. Eu o conhego, John Brown. Sei que deseja amar seus filhos e ser amado por éles, em troca. Sei que quando seu filo de cinco anos acorda as duas horas da madrugada, e grita obsti- nadamente, sem causa aparente, vocé, naquele momento, nao sente grande amor por éle. Pode estar certo de que 0 gardto tem alguma razio para gritar, mesmo que niio seja_pessfvel descobrir qual seja, imediatamente. Se ficar zangado, tente nio demonstrar isso. A voz do homem é mais assustedora para um bebé do que a da mulher, e voc nunca poderd saber Gue existéncia de temores seré instilada num bebé, em conse- qiiéneia de uma voz irada, em momento inoportuno. “Nio se deite na cama com a crianca’=diz.o folheto ée ins- trugdes para os pais. Ponha-o de lado. Dé a0 bebé todos os beijos ¢ carinhos que puder. | Nao use seus filhos como formas de exibicbes. Seja tio culda- {doso nos Iouvores como nas censuras, E maw cantar loa a 114 que tuma crianga que esté presente, Oh! Sim! Mary vai muito s bem. Foi a primeira da classe na semana passada. Menina inteligente! Isso nio quer dizer que jamais deva louvar a crianga. ¥ bom dizer a seu filho: Estd bonito » papagaio que vocé féz, Mas 0 louvor, quando com éle se quet iimpres- sionar as visitas, € errado. Os jovens gansos tem muita faci. lidade de esticar © pescogo como cisnes, quando flutuam num ambiente de louvagio. E isso tira & erianga 0 senso de reali. dade quanto a si prépria, Nunca devemos encorajar uma “| erianea a sair fora da realidade, a construir desi propria uma \Amagen_fantasista, Por outro lado, quando a ck tee rane \nunca ffsista_no fato. Mesmo que o boletim™ escolar exiba “abundancia “de notes baixas, nada diga, E se Billy vier para casa chorando porque foi batido numa briga, nao o chame maricas, Se chegar a usar as palavras Quando eu tinha a sua idad estaré cometendo um érro tremendo. Para resumir, deve apr var seu filho como éle é e resistir A tentagio de um ser A sua imagem e semelhanca, jcpMinba_divisa para o lar, na educagéo como na vida, & esta: [Pelo amor de Deus, deise- r ‘ | vidasy-Essa“é ima atitude que Se encaixa em tddas as situagses. a, inden ate possvel para, encrajar a toleincia. estranho que a palavra tolerdncia nfo me tenha ocorrido antes, Porque’ €'a palavra propia para uma escola Keer heen levando as crianeas por um caminho que as fari tolerantes, mostrando-nos toleranies para com elas. py 2 op wt we P m5 MEDO [Passei grande parte de meu tempo remendando criangas que finham’sido feridas elas possore quo thes Gavamn mico."O ‘médo pode ser uma coisa terivel na vida de, uma erianca,, médo deve ser inteiramente eliminado, médo dos adultos, médo do castigo, médo da desaprovacio, médo de Deus. .Sdmente 0 Sdio pode florescer numa atmosfera de médo,_ ‘Temos receio de tantas coisas—da pobreza, do ridiculo, de fantasmas, de ladrées, de acidentes, da opiniio piblica doengas, da morte. A’histéria da vida de um homem é a his téria ‘de seus médos. Milhées de adultos receiam caminhar no escuro, Milhares déles tém vaga sensagio de desconférto quando um policial chama A sua porta. A maior parte dos viajantes imagina naufragios de navios, queda de avices. Vi jantes de estradas de ferro procuram os vages do centro da composicio. “Seguranca antes de mais nada” é frase expressiva a principal preocupagio do homem. Deve ter havido uma época, na histéria do homem, em que © médo de ser morto 0 levou a fugir © esconder-se. Hoje, a ‘ida tomou-se tdo segura que 0 mElo n servigo da protesso pessoal jé nfo é necessirio. E, ainda assim, a humanidade sente hoje mais médo do que sentiram nossos ancestrais da Idade da Pedra. O homem primitivo tinha apenas os monstros de grande porte a temer, mas nés temos varios monstros: trens, navios, avioes, ladrdes, automéveis, e, 0 mais poderoso entre todos, 'o médo de ser descoberto. O médo ainda nos é neces- sdrio. E 0 médo que me leva a atravessar a rua com ctidado. Na natureza, 0 médo serve aos propésitos da conservagio da espécie. Coelhos ¢ cavalos sobreviveram porque 0 médo’os forca a comer do perigo. Médo & fator importante mas leis das. selvas. 116 (© médo é sempre egoista: tememos pela nossa prépria pele, ow pela pele dos que amamos. Na mtioria dos ease, entre tanto tememos pela nossa propria pele. Quando eu era me- nino tinha médo de andar pelo escuro a0 anoitecsr na fa zenda, a fim de ir buscar leite. Contudo, quando minha ima ia comigo, nfo temia que ela fésse assassinada no caminho. O médo tem de ser egoista, pois todo o médo é, em diltima anilise, 0 médo da mort Heréi é 0 homem que pode transformar seu médo em energia positiva. O escudo do herdi é 0 sew médo. O médo de ter médo é, para o soldado, 0 mais angustiado dos médos, © covarde é incapaz de converter seu médo em agic positiva. A corvardia é muito mais universal do que a bravura, Todos somos covardes. Alguns de nds conseguem esconder sua covardia, outros deixam-na transparecer. A covardia é sempre relativa, Podemos ser herdicos quanto a déterminadas coisas, e covardes. diante_de outras. Lembro-me da. minha rimeira ligdo de arremésso de bomba, quando era recruta. Um los homens errou no atirar sua bomba por cima da