APRENDER A ADORAR PARA NÃO EXCLUIR Xavier Quinzá Lleó Natal 2001

No Natal, somos convidados a adorar. Porque há uma experiência de adoração que, quando se aprende em horas de silêncio e de paciência, nos traz um clima de serenidade benigna, na qual o coração se nos converte, nos transfigura desde dentro, nos refresca o olhar. Mas, neste nosso mundo de exclusão e marginalidade crescentes, não é um luxo exercitar a prática da adoração? Não será muito melhor empregar o tempo acolhendo, sarando, educando, quer dizer, incluindo a todos e todas na fraternidade universal de filhos? Não nos está o Natal a chamar precisamente a isso? Sinceramente creio que não perdemos tempo enquanto adoramos, porque aprendemos a adorar para não excluir. Só desde uma prática assídua e constante da adoração silenciosa e paciente do mistério de Deus encarnado nos preparamos para não excluir a ninguém nem do coração nem de nossa casa. Porque aprendemos a deixar-nos alargar o espaço da nossa intimidade pelo único Dono que tão plenamente nos habita. Adorar ante o presépio no Natal é abordar uma certa prática de intimidade, é assistir ao alargar da nossa tenda interior, na qual Ele habita. E, por tanto, é intensificar a relação, é abrigar o desejo e alentá-lo ao mesmo tempo, para que nos ilumine uma Presença pouco reconhecida. É ir trazendo para a luz a Presença oculta do Amor, que sempre nos desinstala e nos descentra, dando entrada ao Outro, e a outras e outros, no nosso espaço próprio e pessoal. E, então, o alargamento produz-se porque se esgueiram para dentro todos os outros com as suas vidas, os seus sofrimentos, os seus amores, e os deixamos pesar no encontro misterioso com o Senhor da vida. Adorar é uma prática de inclusão. Porque se nos atrevemos a olhar os olhos que nos olham desde a intempérie da gruta, descobrimos que o Seu olhar reflecte-se em muitos outros e nos reorienta em direcção aos olhos dos nossos irmãos. Ou seja, se adoramos bem, incluímo-los no nosso coração, e ali arraigam, ou podem arraigar, e se os deixarmos crescerão como a semente e darão fruto por trinta, sessenta ou cem por um. E, ó milagre inesperado! Também os excluídos da nossa sociedade e do nosso coração egoísta pugnam por fazer um espacinho em nós, de maneira que a adoração natalícia converte-se numa atitude de luta contra a exclusão a partir de uma dinâmica que, até este ponto, desconhecíamos. Porque se cria um espaço maior, onde a disponibilidade é fruto de uma prática contínua de desapropriação e de recusa de privilégios. Não se pode adorar no Natal “em Espírito e em verdade” sem nos aproximarmos e destruirmos as barreiras que nos separam dessas vidas ameaçadas, desses corações devastados, que não entrarão na nossa sem que se produza uma mudança, sem que os recebamos como um dom, fruto dum processo de purificação e reabilitação do desejo. Se aprendermos a adorar aprendemos também a não excluir ninguém desse espaço sagrado em que nos encontramos, corpo e palavra partilhada com Aquele que quase sem nos darmos conta, se fez o Guardião da nossa intimidade. É necessário entrar num processo progressivo e lento em que o primeiro seria, necessariamente, iniciarmo-nos na prática da desapropriação. Necessitamos aprender a soltar-nos, a desprender-nos também do que nos alimenta. Aprender a desempossar-nos de nós próprios. A entregar o que somos. O desprendimento é a outra cara do movimento da vida. O gasto generoso, o desperdício, é um sinal de saúde, de vida. E adorar pausadamente vai-nos fazendo aligeirar o coração, libertar o fluxo de vida. Porque, se não o fazemos, passamos rapidamente a querer apropriar-nos também dos outros, e convertemo-los em coisas ao nosso serviço arrebatando-lhes o que são: amados, filhos e filhas benditos do Deus da vida. Fazemo-nos o centro e deslocamo-los a uma categoria menor, a uma identidade de periferia. Marginalizamo-los ao fazê-los objecto do nosso capricho ou dos nossos desejos. Ou talvez rivais com os quais temos de disputar o lugar central no coração e no afecto dos outros.

É o antídoto para travar essa corrida desenfreada em direcção à solidão e ao egoísmo. de o ir tirando pouco a pouco do centro em que o pomos. Porque iríamos deixando alargar-nos o coração e nos iríamos sentindo confortáveis habitados pelos outros e não os veríamos como invasores da nossa propriedade pessoal. no coração maternal do Pai Deus. porque os sabemos incluídos no nosso coração de carne. A adoração é prestar-se a sofrer o longo processo de desinstalação do próprio eu. ao assenhorar-nos do que somos. Para isso Ele é o verdadeiro Dono! Se soubéssemos adorar não excluiríamos ninguém.E o mais terrível é que. como a nós mesmos. adorar é o primeiro. Também Ele nos parece um rival do nosso bem-estar. A exclusão é sempre falta de prática de adoração. tão pouco encontra acolhimento na nossa casa. . ao pretender ocupar o centro da vida. A nossa sociedade exclui aqueles que previamente excluiu o nosso coração. Como na noite de Belém. Também no Natal. terminamos por excluir também a Deus do nosso coração. porque os sabemos incluídos. mas sim como hóspedes e irmãos. e desde aí. Ele vai ordenando todo o espaço interior e pondo tudo no Seu sítio. Ao adorar situamos o Deus e Senhor da vida no Seu lugar. Porque o coração e o mundo se olham mutuamente e se reflectem um no outro muito mais do que pensamos. como dom de convivência e de vida. E aprender a adorar é aprender a não excluir ninguém do coração do mundo. um hóspede inoportuno para o nosso coração cobiçoso! Quanta razão tem Paulo quando diz que a cobiça é uma idolatria! Por isso. um presente do Pai comum.

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