TEATRO COMPLETO

CAIO FERNANDO ABREU

T

E A T R O

C O M P L E T O

C A I O F E R N A N D O A B R E U T E A T R O C O M P L E T O L U Í S A R T U R N U N E S M A R C O S B R E D A O R G A N I Z A D O R E S .

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.................................................. 217 Fichas técnicas das montagens de estréia ..........................................................97 A maldição do Vale Negro ................................................................................34 Pode ser que seja só o leiteiro lá fora ..................................................................................................................................................... 61 Reunião de família .................................................................................. 179 O homem e a mancha ........ 147 Zona contaminada ...................................................259 Fotos .............. 15 Diálogos ...................265 .......................................................................................................................................................................................................................................................... 13 Sarau das 9 às 11........................ 31 A Comunidade do Arco-Íris ................................................................................................................................................SUMÁRIO APRESENTAÇÃO Marcos Breda ..............................................................................................................................................................................9 PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO Luís Artur Nunes ......... 7 PREFÁCIO Luís Artur Nunes .................................

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ao cabo de alguns meses. O livro teve seu lançamento marcado para a estréia de O homem e a mancha. Mas foi. antes de mais nada. último texto teatral de Caio Fernando Abreu. engavetados. qualitativos – para ser deixada abandonada e dispersa. conseguimos reunir e organizar toda a sua dramaturgia. Como bom virginiano. Problemas com a antiga editora. nossa modesta homenagem póstuma a um amigo e. no Theatro São Pedro. atrasaram esta publicação. publicando-os e. Inclusive alguns textos inéditos. Foi meu primeiro monólogo como ator e minha primeira realização como produtor teatral. Sua produção teatral. após minha morte. Caio sempre foi extremamente perfeccionista com sua obra. reunidos no livro Ovelhas negras. infelizmente. sobretudo. no entanto. em novembro de 1996. revisando e lapidando seus guardados. ficou de fora desse final cut. Nasceu do processo de produção de O homem e a mancha. Que 7 . escrito exatos dois anos antes de seu falecimento. Revisou quase todos os seus escritos pouco antes de sua partida. um escritor (e dramaturgo) genial.APRESENTAÇÃO Este livro é filho de uma peça de teatro. numa parceria com o diretor Luís Artur Nunes. E era por demais expressiva – em termos quantitativos e. e publiquem porcarias. principalmente. posteriormente. dando fim ao escritos que – segundo sua opinião – não tinham valor literário. Eu e Luís Artur partimos para uma busca paciente e minuciosa e.” Caio antecipou-se. Ele mesmo dizia: “Não quero que abram meu baú.

14 de novembro de 2008 8 .. numa obscura semana do final de março de 1997. um livro para os amantes de teatro. 12 anos depois. sem a devida pompa e circunstância. o Teatro completo de Caio Fernando Abreu ganhar a publicação esmerada e cuidadosa que sempre mereceu. principalmente. completo) de Caio Fernando Abreu. bem entendido. corrigindo alguns erros da edição anterior. Longa vida ao teatro (agora sim. De ótimo teatro.. É um livro destinado aos inúmeros apreciadores da obra de Caio e. É com imenso orgulho que vejo agora.T E A T R O C O M P L E T O acabou acontecendo. Marcos Breda Rio de Janeiro.

que se iniciava — assim como ele na literatura — na descoberta apaixonada de uma forma de expressão. nas salas de ensaio. o palco que ele tanto amava. Não demorou muito e Caio tornou-se nosso colega. O significado e a repercussão da parte conhecida de sua obra eclipsaram essa segunda vertente. Não concluiria o curso. Poucos sabem. nas mesas de bar onde o assunto era teatro. Não me refiro aqui às várias adaptações feitas para a cena a partir de suas histórias. Caio sempre adorou teatro. o Curso de Arte Dramática da Faculdade de Filosofia da UFRGS. Não de imediato. preferia passar pelas coisas como num vôo. prazos e currículos.PREFÁCIO Caio Fernando Abreu é reconhecido como um dos ficcionistas mais brilhantes da literatura brasileira contemporânea. que a ficção que escreveu não foi apenas narrativa. porém. via tudo. Avesso à rigidez de programas. Naquela época. mas não menos importante. menor. Caio era dos que estavam sempre junto. teatro. mas sim às peças de teatro. foi mais do que um espectador aficionado: tornou-se um homem de teatro. teatro. conhecia todo mundo da classe teatral. cursávamos o CAD. nas salas de espetáculo. Caio também cultivou a literatura dramática. épica: contos. Nos fins da década de 60 era apenas o amigo querido da nova geração de atores e diretores de Porto Alegre. assim como também não concluiu o curso de Letras. No entanto. mas nem por isso menos alto e profundo. porém. Lembro-me dele numa peça in- 9 . novelas e romances. a sua geração. num mergulho sem método. as que ele compôs diretamente para o palco.

. junto de Suzana Saldanha. uma encomenda do Teatro Vivo de Irene Brietzke. repetiu publicamente em duas ocasiões. como também “de pena”. E muito café. conheceu o palco por dentro. foi feita novamente em colaboração. já doente. Então fomos parceiros não só “nas tábuas”. e Caio fazia justamente o papel do. para quem a escrevera de encomenda.. Como vêem. Caio foi ator. fazendo o papel de um vovô com uma barba branca de algodão. O último deles. ele foi autor de verdade de um texto para “crionças”. e com enorme sucesso. Mas não para nós. Tinha sido fácil nos esquetes do Sarau e continuou sendo na segunda versão da Maldição. quando. Fabricar uma obra de arte a dois é em princípio algo dificílimo. Mas podia acontecer também de um escrever uma cena e o outro retocá-la. dirigida por mim. Aliás. A Comunidade do Arco-Íris. redigíamos juntos: a frase que um inventava puxava a frase do outro. principalmente quando a algazarra atrapalhava seus preciosos momentos de criação).T E A T R O C O M P L E T O fantil da escola. A maldição do Vale Negro. durante os feriados de Carnaval. na casa do ator Carlos Moreno. E bom ator. embora bissexto. Nara Keiserman e José de Abreu. Performance que.... no espetáculo Sarau das 9 às 11. Ele excursionou vários meses pelo Rio Grande do Sul atuando na montagem do Serafim-fim-fim de Carlos Meceni. e nós os escrevemos a quatro mãos. A peça era uma recriação de Chapeuzinho Vermelho. além dos milhares de cigarros que ele fumava. A última vez que comprovei esse fato foi quando da leitura que ele fez de sua peça recém-concluída: O homem e a mancha. O Sarau era uma peça de esquetes. Caio e eu pisamos juntos o mesmo palco em 1976. Via de regra.. estreada em Porto Alegre sob a direção de Suzana Saldanha. fiquei sabendo. é interessante a significação que teve o teatro infantil para esse solteirão empedernido que detestava crianças (a quem costumava chamar de “crionças”. foi retomado e ampliado dez anos depois para ser montado como um espetáculo completo. Essa recriação. Essa leitura ficou-me na memória como uma deliciosa e tocante performance de comicidade e lirismo. Foram quatro dias de gargalhadas. Interferíamos 10 . no apartamento de Caio na Haddock Lobo em São Paulo. latinhas de cerveja e pizzas por telefone. realização do Grupo de Teatro Província. Algum tempo depois. voltara a morar em Porto Alegre. autor da história recontada.

de uma página ou menos. dividimos o Prêmio Molière de melhor autor de 1988. acabou fundindo-se à peça de minha autoria. Graças à montagem carioca de A maldição do Vale Negro.P R E F Á C I O reciprocamente em nossas invenções sem nenhum constrangimento. o épico vira dramático. e não um narrador. Após o Leiteiro. 1977. Outra vez em que brincamos de teatro foi quando precisei de textos para um novo espetáculo de esquetes: deColagem. Uma outra dessas cenas avulsas. experiência que aparece transfigurada na peça. dirigida por Nara Keiserman e musicada pelo também saudoso Carlinhos Hartlieb. O primeiro deles. que Luciano Alabarse teve o privilégio de encenar em Porto Alegre. Só sei que a obra foi premiada num concurso do então SNT (Serviço Nacional de Teatro) e selecionada para leituras públicas em todo o Brasil. Que sintonia era essa? Era como brincar juntos. Tamanha a minha “obsessão” por esse texto. pondo em diálogo suas histórias. Participei como ator da leitura de Porto Alegre. “Fundiu-se” é a palavra. Seguramente logo após os anos que ele viveu em Londres. o Diálogo do companheiro. eu o refiz repetidas vezes e de variadas formas em outros espetáculos-colagem. e a admirável adaptação para a cena do romance Reunião de família. que ele o dedicou a mim na abertura de seu livro de contos Morangos mofados. montada pela primeira vez no Rio de Janeiro por Gilberto Gawronski. embora não regularmente. a narração vira cena. Caio Abreu seguiu escrevendo para o teatro. o contar vira representar. O aborto. Esse trabalho é a melhor comprovação de que Caio foi dramaturgo de fato. a Censura Federal a interditou em todo o território nacional. Todos esses diálogos. Vieram a já citada Comunidade do Arco-Íris. love. Na operação por que passou em suas mãos o livro de Lya Luft. serviram-me também de excelente material de exercício em minhas aulas de teatro. Love. Zona contaminada. uma pequena obra-prima. no Teatro de Arena. por diletantismo. Caio produziu cinco diálogos curtos. não fôssemos nós dramaturgos siameses. A primeira investida independente de Caio na dramaturgia foi com Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Pouco tempo depois. nos inícios da década de 70. montagem de 1981. 11 . Não saberia precisar a data em que foi escrita. love. Ele sabia e dominava a diferença de gêneros. de Lya Luft.

mesmo inconfessados. 14 de novembro de 1996. Será no Theatro São Pedro. Certamente ele não vai perder. o Garoto Bombril não quis realizá-la. coisas da vida.T E A T R O C O M P L E T O Curiosamente. estamos a uma semana da estréia de O homem e a mancha. Minha analista com certeza detectará algum ciúme meu vendo Caio fazer teatro com “outros”. outro amigo seu do coração. Não há motivo para ciúmes. A parceria interrompida por um tempo já foi retomada. ele nos disse: “Façam logo para dar tempo de eu assistir. No momento em que ponho ponto final neste prefácio.” Não faz um ano que Caio nos deixou. Quando a recebemos de um Caio já debilitado. O homem e a mancha. porém. Por impedimentos normais. 12 . Luís Artur Nunes Porto Alegre. Sua última peça. e ela terminou nas minhas mãos e nas do ator Marcos Breda. não assisti a nenhuma dessas montagens.

Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Zona contaminada e A Comunidade do Arco-Íris. vinham nos perguntar sobre um relançamento. e para mim tocaram os Diálogos e as nossas parcerias: Sarau das 9 às 11 e A maldição do Vale Negro. a oportunidade de melhorarmos o volume que reúne a dramaturgia do nosso amigo. Em primeiro lugar. na primeira publicação. No caso da paródia de melodrama. pelo visto muito desejado por gente de teatro e por fãs da obra de Caio. houve uma correção importante. pois foi dessa forma que o próprio Caio os intitulara. Finalmente chegou o projeto da Agir e. Não foram poucas as vezes que. Os personagens do cigano Vassili e da cigana Jezebel devem expressar-se em espanhol correto. Gilberto Gawronski e Suzana Saldanha.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO É com imensa satisfação que saudamos esta segunda edição do Teatro completo de Caio Fernando Abreu. encarregou-se do mesmo. responsáveis pelas encenações de Reunião de família. E quem melhor para fazer esse trabalho senão aqueles que conviveram intimamente com os textos em suas montagens de estréia? Foi com essa idéia que convidamos Luciano Alabarse. Achamos melhor a troca. em casa ou em andanças teatrais pelo país. Nunca foi intenção dos autores que 13 . que representou 103 vezes O homem e a mancha pelo Brasil afora. com o título geral de Cenas avulsas. lançada há 12 anos. Diálogos vinha. houve uma revisão rigorosa para sanar os muitos erros de digitação da publicação original. Marcos Breda. há muito estava esgotada. A primeira. com ele.

a qual aparece separadamente no volume. Esperamos assim termos contribuído para uma edição muito mais cuidada e rigorosa do Teatro completo de Caio Fernando Abreu. A Carol. presente na primeira edição. muitas alterações são feitas no processo de ensaio. Por essa razão. que dez anos mais tarde seria por nós reelaborada como uma peça completa. permaneceram de fora também as passagens de outros escritores. correções que foram incorporadas nesta reedição. deixamos fora do Sarau o seu primeiro tratamento. Como se sabe.T E A T R O C O M P L E T O falassem portunhol. Por ocasião da segunda montagem carioca. nunca fez parte da versão definitiva da peça. colombiana de nascimento – prestou preciosa colaboração. ainda mais nesse caso em que os próprios autores eram responsáveis pela montagem do espetáculo. nosso agradecimento. corrigindo os erros. Luís Artur Nunes Rio de Janeiro. 3 de dezembro de 2008 14 . Por motivos óbvios. de A maldição do Vale Negro. quatro foram escritos em parceria por mim e Caio. e foi retirado o quadro “Eles”. Como ele merece. Tais alterações foram aqui incorporadas. O texto de Sarau das 9 às 11 também sofreu modificações. a atriz que interpretava Jezebel – Carolina Virgüez. “Eles” já tinha sido cortado pelos próprios autores por ocasião da montagem de estréia. Além disso. tive a felicidade de descobrir nos baús da vida o manuscrito original utilizado nos ensaios do Sarau das 9 às 11. Mas cometemos – Caio e eu – alguns atentados ao idioma ao escrever essas falas. O Sarau foi idealizado como uma colagem de textos de diferentes autores. Portanto. Desses. curta. O último era a primeira versão. As peças estão agora reordenadas na ordem cronológica de suas montagens de estréia e vêm acompanhadas de suas respectivas fichas técnicas.

SARAU DAS 9 ÀS 11 (Em colaboração com Luís Artur Nunes) .

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Ao fundo. vestindo um manto negro que só deixa de fora o rosto de alvaiade. É o EGO. que geme sons inarticulados. Ele. velha dama de negro e sotaque português. uma figura de altura desmesurada. 17 . um homem-tronco Ego Este é um quadro de monólogos entrecruzados. que a tudo preside. drugs & rock-’n-roll. jeans e discurso de protesto. BÓRIS. Habitam áreas estanques do palco. Ela. BABY e DEBORAH são representantes da juventude da época. mas só se manifesta no final como um oráculo de nonsense.1 o QUADRO: OUVERTURE PERSONAGENS Madame de Alencastro Monge do Restelo Baby Deborah Bóris. a imprecar vaticínios apocalípticos. traz numa coleira um homemtronco. sex. MADAME DE ALENCASTRO. O MONGE DO RESTELO é uma figura visionária de capa vermelha. As falas dos personagens repercutem umas nas outras sem que haja qualquer diálogo ou contracenação explícita entre eles.

de Sarajevo. jantares. bailes de máscaras. Isolados da turbulência do mundo. DEBORAH — E pensar que eu quase me danei apostando no meu background. partidas de críquete. era uma festa sem fim. cruamente. bosques e fontes.. ditadores depostos. quando fazia calor. BABY — Quem é você para colocar um epitáfio sobre mim? Quem é você para dizer que não dei certo? Por acaso você deu? Olhe dentro do meu olho e me responda: você se sente feliz? Você tem esperança? Eu não. Nesse ambiente eu me criei. Taormina foi o cenário onde transcorreu aprazível a minha infância. Então os anjos com suas trombetas preparar-se-ão para tocar. piqueniques no campo. Hoje tudo mudou. que nos amavam e respeitavam. ou tomávamos chá sob o caramanchão nos jardins de Humberto de Bourbon. Éramos servidos por exércitos de empregados. ocuparam tudo. Os amigos desapare* As falas de Deborah são os versos de uma canção de Rita Lee 18 . por onde ninfas e sátiros se perseguiam amorosamente. e que explodiu. far-se-á silêncio no céu. DEBORAH — E pensar que eu passei todo esse tempo investindo no meu know-how.* MADAME — À tardinha. vivíamos em mansões cercadas de jardins.) — Tu continuas fazendo parte daquele balão colorido que subiu embalado por música. Os rebeldes venceram.. E em noites de lua cheia desfilávamos todos a nossa beleza. tomaram conta. BABY — Quando olho para mim mesmo. drogas.. e tivemos todos que fugir às pressas. gosto muito menos.T E A T R O C O M P L E T O MADAME — Suavemente plantada entre os rochedos da harmoniosa Costa do Sol. festas à beira da piscina. Eu. Mas quando olho para você. Recepções. política. Mas naquele tempo não havia rebeldes. a nossa graça e o nosso charme à beira-mar. não gosto do que vejo.. Reis destronados. Éramos visitados pelo rei de Roma. passeávamos pela alameda da quinta de Don Juan do Franco-Condado. pelo arcebispo da Cantuária. MONGE (Para Baby. pelo ex-ditador Simeon da Lituânia e pelo regente Von Koseritz. não. MONGE — Ao romper do sétimo selo. exrei de Sabóia. envelhecidas estrelas de cinema conviviam com magnatas do jet set internacional e com a antiqüíssima aristocracia local. e eram capazes de dar a vida por nós.

Nunca mais retornarei a Taormina. BABY — Quem se importa com o meu olho escancarado e cheio de desencanto? Quem. descarregar esse mundo das costas. ou então transformadas em casernas e hospitais. Quando olho para você. só se tem a ganhar. meu coração bate ainda mais forte. silenciosas. Não. a gente 19 . nunca mais voltei a Taormina desde que os rebeldes venceram. MONGE — O primeiro anjo tocará a trombeta – e cairá uma saraivada de fogo misturada com sangue. DEBORAH — Ando jururu. que será atirada sobre a terra. nas esquinas.S A R A U D A S 9 À S 1 1 cem no momento exato em que você precisa deles. e perecerá um terço das criaturas que vivem no mar. emergindo de uma fonte de champanha coberta apenas por um manto de asas de borboleta. tem agora que cozinhar a sua própria comida. DEBORAH — E descansar os meus olhos no pasto. entre todos vocês. As pessoas te empurram nas filas. e um terço dos navios irá a pique. O mundo te machuca. Queimar-se-á a terça parte da terra. fechadas. I know not what to do. MONGE — O segundo anjo tocará a trombeta — e como um monte de fogo lançar-se-á ao mar. não espero nenhuma cantiga de ninar. no palacete de Otto Mariño. Por isso estou vivo. “Morram os opressores”. MADAME — Fiquei sabendo outro dia que minha madrinha. MADAME — Lembro-me ainda de uma grande festa a que fui aos 15 anos de idade. Quando não se tem mais nada a perder. Quando se pára de pedir. e a terça parte do mar mudar-se-á em sangue. estenderá a mão para passar no meu cabelo? Quem cantará um acalanto para a minha insônia? DEBORAH — Quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu. Não quero ver as paredes brancas de suas casas cobertas de inscrições em vermelho e negro: “Abaixo a tirania”. BABY — Não espero nenhum olhar. quando olho para mim. Tudo grita na sua cara que você não vale absolutamente nada. e toda a grama verde perecerá no fogo. a poetisa Florbela Ortigão. em que a princesa do Shiraz representou o nascimento de Vênus. eu não suportaria presenciar uma coisa dessas. Não suportaria ver aquelas casas vazias. não espero nenhum gesto. dentro dos ônibus. o rei do manganês. Acabou tudo. não posso evitar de pensar que o homem é apenas um animal que não deu muito certo. Pela minha absoluta desesperança. Não. a terça parte das árvores.

um irmão entrevado. Ciências e Artes foram todos mortos. Acredito no vento que sopra da banda do rio quando o sol acaba de se pôr. um dia seremos poeira. MONGE — O terceiro anjo tocará a trombeta — e cairá do céu um grande astro. nossos iates e palacetes. Acredito nos astros. Acredito na pedra bruta. talvez também não acredite nos meus próprios. Tudo acabou.T E A T R O C O M P L E T O está pronto para começar a receber. 20 . Chamar-se-á “absinto”. esse astro. MADAME — Tudo mudou. E a famosa confeitaria Garcez & Bernard. deixaram para trás uma avozinha cega. e cantar o tempo todo: shoobedoo-down-down. De qualquer forma. e nosso porto é desconhecido. DEBORAH — Eu só quero fazer parte do backing vocal. e muitos homens morrerão dessas águas. MONGE — E será ferida a terça parte do Sol. especializada na crônica da vida mundana. O futuro é um abismo escuro. Não acredito nos seus. Eu tenho os meus. Soube também que faliu a revista Grand-Monde. MADAME — Li no jornal que os imortais da Academia de Letras. dizia. MADAME — E o que foi não voltará mais a ser. MONGE — De maneira que se lhes escurecerá a terça parte do céu. teve as suas instalações transformadas num depósito de armamentos. Ainda hoje tive a compreensão final. Muitos. Os industriais de Santa Lucia tiveram todos os seus bens confiscados e as contas bancárias bloqueadas pelo governo rebelde. BABY — Quanto a mim. Não lhe peço que acredite em mim. Não me iludo. e virá tombar sobre a terça parte dos rios e das fontes d’água. mas pouco importa onde terminará a minha queda. e deixará de resplandecer a terça parte do dia e da noite. acredito nas plantas. MADAME — Tivemos todos que fugir em debandada. cuja mais famosa especialidade eram os docinhos conhecidos como “ossinhos de Santa Catarina” — a confeitaria. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado. a terça parte da Lua e a terça parte das estrelas. uma tia louca. nos animais. porque se tornarão amargas. na areia seca. shoobedoo-down-down. na pressa. MADAME — Fuzilados. luminoso como um archote. nas águas. Você tem seus jeitos de tentar. Converterá em absinto a terça parte das águas. MONGE — O quarto anjo tocará a trombeta. Tivemos que vender nossos automóveis de luxo.

hoje submetido ao regime de autogestão. pela espada morrerá. EGO — Trás ahora viene lo que fue antes. Ask for interchange. que apenas lança um gemido. DEBORAH (Para Ego. a única figura daqueles tempos que se mantinha em pé era o velho Cônsul de Pasca. 2 o QUADRO: COMO ERA VERDE MEU VALE Monólogo auto-explanatório. A partir desse momento. o homem-tronco.) — Como posso acreditar outra vez no humano? EGO — Muitas gerações passaram. MADAME (Para Ego. A casa era branca e fresca.S A R A U D A S 9 À S 1 1 MONGE — Quem tiver ouvidos. Demandez de l’interchange.) — Quando será finalmente aberto o último seio? EGO — Bevete più latte. MONGE — Quem ferir pela espada. os personagens fazem perguntas ao EGO. que lhes responde com enigmas. como um oráculo. un buen tinto y nada más”. E muitas passarão.) — Onde estão meus andores? Onde estão meus ouropéis? Onde estão meus cristais? EGO — Mantenha seu equilíbrio sobre o fio da navalha. Cena: um hospital para doentes mentais. MONGE (Para Ego. BABY (Para Ego. A gente sentava embaixo da figueira e ficava vendo o sol se pôr atrás dos morros. MADAME — Ainda na semana passada. ouça. y antes fue lo que será ahora. MADAME — Tomou dois cálices de vinho do Porto e encomendou o jantar: “Yo quiero un poco de caviar. que foi visto sexta-feira no restaurante La Tour d’Ivoire. disse. un paté trufado de Estrasburgo. ninguém mais o viu. MONGE — Quem reduzir o outro ao cativeiro será cativo ele mesmo. O primeiro é BÓRIS. MADAME — Terminada a refeição.) — Cadê a minha banda? Cadê o meu rock? EGO — Solicite intercâmbio. outrora um dos mais luxuosos da cidade. Como era bonito lá. A 21 .

Mas ela tinha morrido já faz muito tempo. E o sol se deitando por trás. mesmo assim. Foi numa dessas tardes que a gente viu o trem. Fazia tempo que uns homens do governo trabalhavam na estrada de ferro. Veio também a fábrica de cimento. carregados de trilhos e umas máquinas que eu não conhecia. Quem sabe se a velha ainda tivesse viva o Clodomiro não tivesse vendido. De repente ela parou e apontou pro lado do morro. Ela era uma mulher mais braba. porque de dia era tanto trabalho que a gente nem tinha tempo de olhar pros lados. E mesmo quando tinha muito trabalho — tirar leite das vacas. resolveu vender tudo e mudar pra Canoas. Todo dia a gente podia ver os caminhões passando lá embaixo na estrada. e agora todo mundo ia ter trabalho e ganhar bastante dinheiro. quando entesava de querer uma coisa não tinha ninguém no mundo capaz de fazer ela mudar de idéia. e eu não podia fazer nada. Ficou apontando e olhando. A Zefa ficou tão nervosa que derrubou a cuia no chão e virou a água quente da chaleira. eu tenho cinco filhos e os cinco tavam casados e precisavam de dinheiro. A gente pensou que ela tivesse se queimado. que era o progresso que tava chegando. era sempre bonito lá. O Clodomiro falou que as crianças precisavam de escola. que o Clodomiro. Depois dum tempo as plantas começavam a murchar. que não sei ler nem escrever. Lembro que a Zefa vinha descendo os degraus da casa com o mate numa das mãos e a chaleira na outra. Aí a gente parou de conversar e ficou todo mundo olhando o trem. De longe parecia pequenininho. as árvores perdiam as folhas e a terra não dava mais nada. Eu não queria vender. e as cercas se aproximaram tanto. arar a terra. A minha propriedade não era muito grande.T E A T R O C O M P L E T O gente via o rio dum lado e os morros do outro. os peixes do rio foram morrendo todos. Então as cercas das outras casas começaram a se aproximar e a gente foi ficando espremido ali. que ele não queria que eles crescessem uns ignorantes que nem eu. em cima daquele morro onde ficava a nossa casa. quase como uma cobra na encosta daquele morro grande. Mas a gente via mesmo só à tardinha. plantar o milho —. Um tempo depois vieram as casas. A terra tava no nome deles. O povo da vila dizia que era bom. eu achava muito bonito lá. meu filho mais velho. Mas ela riu e disse que não era nada. Quando a gente fica velho 22 . recolher os ovos no galinheiro. A terra foi ficando tão imprestável. Mas a fábrica largava uma fumaça branca que caía em cima das árvores e das verduras.

sua encenação inspirou-se no exercício de mesmo nome desenvolvido pelo grupo americano Performance Group. A — Ah. * O quadro recebeu o título de “Bonecos Chineses” porque. da sala pro banheiro. As crianças acordavam com os meus passos. Eu fui ficando cada vez mais triste. Eu só suspirava e repetia: “Como era bonito lá. do banheiro pro quarto. dizia que não era bom pras crianças. como era bonito lá. dizia que eu parecia um bicho numa jaula. A minha nora reclamava cada vez mais. Eu sempre repetia: “Como era bonito lá. como era bonito lá. me botaram numa camisa-de-força e me trouxeram pro hospício. Ele tinha dito que a gente ia morar numa casinha que nem a outra. Eu não brigava. falando comigo mesmo. 23 . pensando na figueira e nas coisas que a gente conversava embaixo dela. Eu fui ficando triste. não queria lavar as minhas camisas.” E ficava andando da cozinha pra sala. estou aqui. você está aí. por causa do barulho dos caminhões na feira perto de casa. choravam e tinham medo de mim. e que eu podia plantar no pátio.” Aí um dia eles disseram que eu tava louco. Então o Clodomiro vendeu a terra e a gente se mudou pra Canoas. Eu já não conseguia nem comer nem dormir direito. B — Sim. A — O que é que você falou? B — Eu disse que os pássaros são livres. Eu tinha um pouco de medo de sair pra fora. Eu não conseguia mais dormir e de noite ficava andando pela casa. Os vizinhos cochichavam quando eu saía no portão. Mas era um pátio tão cheio de pedra que nem urtiga nascia lá. no espetáculo. A minha nora reclamava todo dia. em que atores manipulam outros atores como se fossem bonecos.S A R A U D A S 9 À S 1 1 os filhos não ligam mais pros palpites da gente. 3 o QUADRO: BONECOS CHINESES PERSONAGENS * A (uma dona de casa) e B (seu cunhado) B — Os pássaros são livres.

Tenho que lavar a sua roupa e a do seu irmão. Você acha pouco tudo isso? B — Acho que falta mais alguma coisa. então agradeça. Você tem casa. A — Muito bem. A — É claro que você não tem esses problemas. B — E onde está o seu outro lado? A — O que é que você está dizendo? B — Aquele lado que não faz você escrava. E mesmo que você perca o emprego de tanto chegar atrasado e não contribua com dinheiro algum pra casa. sabia? E você também está perdendo tempo. A (Ri. Tenho que limpar a casa. B — E você? Não vai fazer o mesmo? A — Fazer o quê? B — Simplesmente agradecer. tem aí o trouxa do teu irmão que te sustenta. A — Eu sei que eu tenho muitas outras coisas a fazer. escute aqui. eu não tenho esses problemas de tempo. hoje. fazer comida pra vocês. Vá trabalhar logo e me deixe trabalhar também. A — Eu tenho mais coisas a pensar do que na luz do sol. Não é você quem paga o aluguel. arrumar as camas. Eu já estou é farta de você! B — Não há tempo a perder. É assim que eu penso. E pra isso eu preciso de tempo. O tempo não existe pra mim. hein? B — Com a luz do sol. você vai se visitar. se não você vai terminar chegando atrasado no seu emprego. mas senhora de si mesma. você acordou hoje com o quê.) — Você acha que eu tenho tempo pra essas bobagens? B — Você já fez sua saudação ao dia? A — Ora. B — Por exemplo? A — Por exemplo? Eu já vou lhe dizer. Há muito que já devia ter ido trabalhar. E você está me fazendo perder tempo. Não é assim que você pensa? A — Claro. A — Escute. B — Sabe. com a minha ajuda. E tome o seu café de uma vez. O salário que traz pra casa não paga nem o papel higiênico que você gasta. eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo essas besteiras. 24 . B — Não se preocupe. comida. meu querido cunhado.T E A T R O C O M P L E T O A — E o que é que me importa isso? B — É preciso agradecer. roupa lavada.

B — Escute. o país. Cansado da sua mesquinharia! A — Eu é que estou cansada de você! 25 . Mas. Pare. A — O que está acontecendo? O que foi que deu em você? B — Estou cansado. a situação seria bem diferente. o planeta. A — Muito bem.S A R A U D A S 9 À S 1 1 A — O que eu sei é que eu sou senhora do teu irmão. o universo. Escute o silêncio. Quer? A — Bom. a casa. Cansado da sua infinita burrice. Isto é uma falta de respeito! Onde já se viu uma coisa dessas? Debochar de mim na minha cara! Eu não admito. Este não é o único país do mundo.. vou lhe revelar um segredo. B — Eu quero brincar com a sua cabeça. você é tudo também: uma pessoa. Se você quiser. Nem o único sistema solar. B — Estou mais disposto a colaborar do que você pensa. De qualquer jeito você vai morrer um dia. B — Depende de você. B — Você não é a única pessoa do mundo. A — Você está é louco. A — O que é isso? B — Cale-se. eu posso ajudá-la a mudar a situação agora. A — Escute uma coisa. Esta não é a única casa. sendo uma poeira. pelo menos você parece disposto a colaborar. Chegue um pouco mais perto. revele esse segredo logo e vá andando. Este não é o único planeta. A minha paciência tem limites. Você não passa de uma poeira.. tudo demais! A — Pare com isso! Pare com isso! B — Pare você. Escute. B — Ah. faz coisas demais. Experimente parar um pouco. A — Escutar? Mas eu não estou ouvindo nada. se mexe demais. o sistema solar. Se dependesse de mim. A — O que é que você está pretendendo? B — Cale-se. ouviu! Não admito essas brincadeiras de mau gosto! Seu vagabundo! Parasita! Explorador! B — Sabe de uma coisa? Você fala demais. eu não estaria aturando você todo esse tempo aqui dentro da minha casa. e isso é tudo pra você? A — Eu não me casei com ele? Se eu fosse senhora de mim.

não é? A — O quê? B — E hemorróidas. Você deve ter varizes. E pare de andar ao meu redor que eu fico tonta. simplesmente. desça. pelo menos. coisa nenhuma! O que é isso. B — Você não estava cansada de mim? A — Estou cansada.. está fora da realidade! Está no mundo da lua! Desça. Você está aqui dentro comigo. Desculpe. me chamou? Você não queria que eu fosse embora? A — Não. Eu não. Vamos conversar com calma. A minha é outra. é aqui a realidade! B — Esta é a sua realidade. vá! É melhor mesmo que você vá de uma vez. A — A nossa. A — Vá. No rabo. que eu não vou agüentar. A — O que é isso? Eu não entendo essa conversa! Você está me deixando louca! B — Você é mais um conjunto de reações do que propriamente um ser humano.) Espera! B — Ah. B — Você não chega a ser uma pessoa. A — Que conjunto de reações. B — Você está aqui dentro. B — E problemas digestivos! A — Também! B — E caspa! A — Também! B — Conheço todos os seus males. da sua falta de sentido! A — O que você quer dizer com tudo isso? Eu acho melhor você ir embora da minha casa já e já! B — Está bem. (Pausa. A — E onde é que você está? 26 . não desta maneira. B — Bunda mole. Tudo em você é típico. querido cunhado. A — Claro! Você é um deles! B — São típicos. Adeus. Deixa eu buscar uma cadeira. A — Eu acho melhor você acabar com essas agressões. Característico. A — Tenho. Eu vou. meu Deus? Pare com isso! Pare de falar difícil! Você está louco.T E A T R O C O M P L E T O B — E do seu medo. da sua mediocridade..

. Penso no banho das crianças. A — Eu me sinto insultada. na cozinha. B — Na sua cabeça. e dentro de você. B — Você se engana. A — Eu? B — Sim.. Pense! 27 .. A — Na minha cabeça? A minha cabeça dói. A — Não acredito em você. no éter. A — Em quê? B — Pense. no supermercado. A — Mas como me perdi? Eu me acho todos os dias. B — No seu interior.. A — No meu interior? No meu interior eu tenho vísceras. está ouvindo? Eu não admito isso na minha casa! Pare com isso imediatamente! B — Parei. me diga. já disse. eu tenho coração. na terra. me torturar. Eu não gosto de pensar nela. No tanque. você se perdeu a si mesma. tronco e membros. é preciso começar pensando. eu tenho pulmões. no fogo. na água. Me ajudar! Tem graça! Em que você poderia me ajudar? B — Eu podia te ajudar a encontrar. Você não se acha nunca. isto está cheirando a bruxaria! Umbanda! Espiritismo! Eu sou católica praticante. me irritar.. B — Pense em você mesma..S A R A U D A S 9 À S 1 1 B — Eu? Eu estou no ar. B — Detalhes! A — Nas cortinas que eu tenho que mandar lavar! B — Detalhes. A — Mas concretamente. A — Encontrar o quê? B — Você mesma.. Você só sabe me explorar. A — Meu Deus. dentro de mim. Pra você se achar. humilhada... A — Mas eu penso. O que é que eu faço com ela? B — Pense. A — Em que parte de mim? Eu sou composta de muitas partes: cabeça. útero. B — Mas eu já disse que posso te ajudar. Eu estou sempre me achando. concretamente em quê? Na minha vida? Mas a minha vida é tão feia.

isso não é coisa pra uma mulher da minha idade. B — Quando foi que você se esqueceu de si mesma? A — Não sei. Eu não quero pensar mais nisso aqui. Você acha ridículo tudo o que eu contei? B — Não. eu já nem me lembro direito. B — Insignificâncias! Continue pensando! A — Mas em quê. só sei que faz muito tempo. Eu gostava de ficar olhando para ela. Em você. O vento soprava e ela abanava as folhinhas pra mim como se me respondesse. Em você. ela não existe mais. B — Existe. Eu gostava de brincar no jardim. Diga alguma coisa. As coisas fogem da minha cabeça quando eu me esforço. tão tranqüila. Venha. Olhe. o corpo doído. A — Você acha que vai dar certo? 28 . Eu não via nada de errado nisso. meu Deus. lavar as mãos e os joelhos. Eu acho que não consigo mais nem pensar. sim. Acho até que me esqueci de mim. E estou cansada. A — A última coisa que eu me lembro de mim é quando eu tinha sete anos. além disso. pelo amor de Deus! B — Eu já disse. como se fossem umas máscaras pintadas. debaixo de uma bergamoteira. E só fica o cansaço. frondosa. Faz tanto tempo isso. A — Há muito tempo que eu não penso em mim. que estavam pretos. aproxime-se. Às vezes eu penso nisso tudo e chego a sentir um pouquinho daquela alegria. Eu vou virar de costas. não acho. B — Tente se lembrar. Fale comigo. Em buscar as crianças no colégio. e acordava com os gritos da minha mãe mandando eu tomar banho. eu sou a bergamoteira. que até adormecia ao pé da árvore. Acho que você pode voltar a falar com a sua bergamoteira. E digo mais. colorida. Eu ficava tão calma. Faz de conta que eu não estou aqui.T E A T R O C O M P L E T O A — Na pilha de roupas pra passar. vontade de me atirar na cama e chorar. em quê? Me explique. Tão bonito. Mas aí tudo desaparece. É tão difícil pensar. Era até bonito. cheia de bergamotas. E. B — Frescura! Pense! A — Em levar as crianças pro colégio. As mãos ficavam coloridas e os joelhos também. Eu conversava com ela. A — Ora.

Vá em frente... A — Quatro. A — Mas você não vai sentir dor quando eu arrancar elas do galho? B — Não. Tem certeza que não vai doer? B — Não tenha medo. Eu não conhecia ela. B — Já pensou no que isso significa? A — Não. Acredite. Esta outra aqui também. O que é que eu encontro? B — Não sei. vem falar comigo. e me perdi.. você tem uma chave em suas mãos.) Oi. Se eu comer as sete bergamotinhas eu encontro.. A — Eu tenho vergonha. aquela gordona.) — Sete.. B — Vem cá. A — Uma... de bruxaria.. duas. Mamãe não deixou eu vir ao jardim ontem. Esta eu já tinha visto. 29 ....S A R A U D A S 9 À S 1 1 B — Tente. A — Eu sei.. ele representa força.. B — Que pena. envergonhada. B — Sete é número cabalístico.. A (Ri.. Continue. Mas esta aqui é nova. A — E daí? B — E daí. B — Quantas bergamotas eu tenho hoje? A (Conta. eu encontro. B — Eu já estava com saudades de você. não recue. Isso só você é que vai saber. cinco. B — Não pare. A — Esta bergamota é nova. A — Acho que entendi. B — Vamos. Três... B — Oi. A — Desde anteontem.. A — Aquela bonitinha. Seis..) — Eu não posso. E você é parte dela. E aquela ali. A natureza é livre.. vamos. Há quanto tempo você não vinha aqui. aproxima-se lentamente. (Hesita. A — Então eu vou colher.. Pode colhê-las. A — Eu também estava.. Me encontrei. B — Não. coragem. A — Sete. Eu tinha sabatina e tive que ficar no meu quarto estudando... B — Só mais uma.

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publicando-os e. após minha morte. Inclusive alguns textos inéditos. De ótimo teatro. um livro para os amantes de teatro. Eu e Luis Artur Nunes partimos para uma busca paciente e minuciosa e. Revisou quase todos os seus escritos. pouco antes de sua partida.“ MARCOS BREDA .’ Caio antecipou-se. dando fim ao escritos que – segundo sua opinião – não tinham valor literário. engavetados. posteriormente. bem entendido. reunidos no livro Ovelhas negras. conseguimos reunir e organizar toda a sua dramaturgia. É um livro destinado aos inúmeros apreciadores da obra de Caio e. Ele mesmo dizia: ‘Não quero que abram meu baú.“Caio sempre foi extremamente perfeccionista com sua obra. e publiquem porcarias. ao cabo de alguns meses. principalmente. revisando e lapidando seus guardados.

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