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III SEMINÁRIO POLÍTICAS SOCIAIS E CIDADANIA AUTOR DO TEXTO: Michele Ribeiro de Oliveira; Renata Lígia Rufino Neves de Souza

Estado, Políticas Públicas e Violência de Gênero no Brasil

RESUMO: O artigo discute a relação do Estado e as políticas públicas no enfretamento à violência de gênero que atinge as mulheres no espaço doméstico e familiar no Brasil. A partir da perspectiva analítica-crítica, reflete-se sobre o papel do Estado na implementação de políticas públicas e programas que incorporam a perspectiva de gênero. No trânsito dos anos 1970 para 1980, tem-se o avanço e reconhecimento dos direitos das mulheres, com destaque ao enfretamento e intervenção na violência contra mulheres, resultante das pressões e mobilizações do Movimento Feminista que torna público à problemática que se limitava a esfera privada. Em seguida, apresenta-se a estrutura básica de atendimento a mulher em situação de violência atualmente no Brasil, enfatizando a Lei n.º 11.340/2006 que representa um avanço das mulheres no enfretamento e atendimento a violência de gênero.

Palavras-chave: Políticas Públicas, Gênero, Estado, Violência de Gênero, Movimento Feminista.

Introdução

Ao discutir as políticas públicas de enfretamento à violência de gênero que atinge as mulheres, com ênfase aquela ocorrida no espaço doméstico e familiar, é necessário compreender a relação entre homens e mulheres na sociedade, e dimensionar a intervenção do Estado nessa problemática.

A violência contra a mulher é um fenômeno social antigo, expressa a discriminação e preconceito, que ocorre no mundo inteiro, manifestando-se sob diversas facetas, comprometendo o desenvolvimento humano, concretizando violação de direitos. A visibilidade dessa expressão da questão social 1 da violência de gênero decorre das discussões do Movimento Feministas, proeminente para desmistificar o caráter privado de um problema que é da esfera pública.

Notadamente, como forma de interferir na relação entre classes sociais, do conflito capital e trabalho, o Estado sistematiza políticas sociais, que representam o mecanismo de resposta política do Estado nas expressões da “questão social”. Esta é indissociável do processo de acumulação da sociedade capitalista e dos efeitos que produz sobre o conjunto da classe trabalhadora, na disputa pela riqueza produzida socialmente e apropriada de forma desigual.

Ao legitimar a intervenção política na “questão social” pelo Estado, explicita a disputa pelo acesso a bens/serviços socialmente construídos. Entretanto, a configuração assumida pelo Estado difere entre os países, sejam cêntricos ou periféricos do capitalismo, modelado pela sua construção histórica e as forças sociais de dado contexto social, mediatizada e construídas a partir das relações de gênero e classes.

1 Neste trabalho entende-se por questão social o conceito abordado por Iamamoto (2004), em que a questão social é entendida como expressão das disparidades econômicas, políticas e culturais das classes sociais, mediatizadas por relações de gênero, características étnico-racionais e formação regional, colocando em causa as relações entre amplos segmentos da sociedade civil e o poder estatal.

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Assim, compreende-se que é no momento de consolidação do capitalismo, na sua fase monopólica, o Estado é compelido a realizar uma intervenção não apenas econômica, mediante políticas sociais. Segundo Netto (2001), a dinâmica e contradições do capitalismo monopolista, cria condições para que o Estado por ele capturado busque legitimação política através do jogo democrático, podendo atender demandas das classes subalternas.

Nessa perspectiva, as políticas sociais e, obviamente, do papel e importância do Estado no processo das relações sociais, considera o aspecto de contradição, antagonismo e complexidade que são engendradas na dinâmica social, em dada conjuntura face às correlações das forças sociais.

O

presente trabalho propõe uma discussão em torno do papel do Estado na implementação

de

políticas públicas de enfretamento a violência de gênero.

Conceito de Gênero e Movimento Feminista

A partir da década de 1970, a categoria gênero foi incorporada ao discurso do Movimento

Feminista, e também, das Ciências Sociais e Humanas, para demonstrar as desigualdades socioculturais existentes entre mulheres e homens, fenômeno social que repercute na vida pública e privada das classes sociais, pois nesse contexto estão inseridos papéis sociais

diferenciados, construídos historicamente, imbuídos por dominação e submissão da mulher pelo homem, expressando relações de poder nas relações de gênero que são perpassadas

em

todas as dimensões das relações sociais.

O

Movimento Feminista brasileiro exerceu importante papel quanto ao discurso da

na perspectiva feminista, a

hierarquia sexual que secundariza a posição da mulher na sociedade não reconhece

desigualdade entre os sexos, partindo do pressuposto que “[

]

fronteiras de países nem classes sociais.” (HEILBORN, 2000, p.92)

A autora Saffioti (2004, p. 70), ao discutir gênero, interpreta esse conceito como “[

conjunto de normas modeladoras dos seres humanos em homens e mulheres, normas estas expressas nas relações destas duas categorias sociais, ressalta-se a necessidade de ampliar este conceito para as relações homem-homem e mulher-mulher.”

] um

Ainda, no debate conceitual sobre gênero, Faria (2005) coloca que a construção de gênero atinge as esferas: econômica, política, social e cultural, desencadeadas por elementos materiais concretos, mas também por elementos simbólicos, que delimitam os papéis do homem e da mulher.

Compreende-se gênero como uma construção social e histórica dos papeis masculinos e femininos, expressando as desigualdades ente homens e mulheres, baseadas na diferença

sexual, imbricadas por relação de poder. Portanto, gênero não restringe apenas a diferenciação entre os sexos, é um conceito construído que busca compreender as relações

de poder estabelecidas entre os homens e mulheres, que perpassam todas as esferas das

relações sociais. Ressalta-se que ao analisar gênero, se faz necessário observar a questão

da classe social e etnia.

No Brasil, o Movimento Feminista exerceu papel fundamental para problematizar e visibilizar a situação das mulheres no país. Na confluência dos movimentos sociais que no final da década de 1970 aponta no cenário político brasileiro à luta pela redemocratização e exigência de nova relação do Estado com a sociedade, o Movimento Feminista ressurgiu e contribuiu para explicitar as diversas manifestações de violência que eram (e ainda são) perpetradas contra as mulheres, ocorridas tanto no espaço público e doméstico.

A questão da violência contra a mulher começa a se delinear no Brasil nos novos contornos

do

contexto histórico de vigência do Regime Militar, emergindo a análise da discriminação

da

mulher na sociedade, questionando a divisão tradicional de papéis entre o homem e a

mulher, resultantes da construção histórica e social.

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Assim, a violência contra a mulher é colocada como resultante de uma cultura e relações sociais inscrita nas relações de gênero com privilégio do homem, arraigadas pela ideologia patriarcal e machista. Esse fenômeno remete-se a ideologia patriarcal que expressa à dominação e poder masculino, que se encontra permeada na forma de organização das

sociedades. Conforme coloca Saffioti (1989, p. 57), “[

o homem é socializado para

externar sua agressividade. Assim como a suavidade é valorizada na mulher, a agressividade aumenta, segundo a ideologia machista, a virilidade do homem.”

]

Naquele contexto, as iniciativas e mobilizações do Movimento Feminista tornam pública a situação de violência perpetrada contra a mulher, possibilitando reivindicar os direitos da mulher, exigindo e propondo políticas públicas nas distintas esferas do Estado. Assim, a denúncia da violência de gênero possibilita que essa problemática seja encarada como questão pública, portanto, possibilitando a intervenção do Estado nessa problemática.

Segundo Almeida (1998), a dimensão política da violência contra a mulher é visível na tolerância do Estado expressa pela ausência ou deficiência das políticas públicas de intervenção na complexidade desse fenômeno.

Estado e Perspectiva de Gênero

Com o Movimento Feminista evidencia-se o debate em torno da importância do papel do Estado no que concerne à implementação das políticas públicas e na intervenção das relações entre homens e mulheres. O Estado intervém e regula os contornos das relações de gênero, a exemplo de assuntos como aborto, divórcio, anticoncepção, discriminação, mercado de trabalho, violência contra a mulher.

No interior do Movimento, visualiza-se diferenciadas concepções em relação ao papel do Estado em torna da questão de gênero. Lembrando, que numa sociedade capitalista o Estado reproduz interesse burguês e patriarcal, ao mesmo tempo em reflete as divisões de classes e as desigualdades entre homens e mulheres.

Segundo Sorj (2008), no Brasil o feminismo pode ser considerado “republicano”, pois têm a característica das reivindicações de direitos ao Estado e demanda deste uma intervenção para corrigir ou intervir na relação de desigualdade de gênero. É demandado ao Estado proteger as mulheres contra a violência doméstica, quanto à morosidade do judiciário, à descriminação no trabalho, entre outros. Nessa perspectiva, o feminismo no Brasil enfoca a reivindicação de caráter social, enfatizando o papel do Estado para promoção dessa equidade de gênero. Destarte, no “feminismo republicano” o Estado tem importante papel de mudanças da relação de gênero, e as políticas públicas tornam-se ferramentas para alcanças esse objetivo.

Evidente, que esta situação decorre das relações concretas e objetivas que estão inseridas as mulheres nos países latino-americanos e da periferia dos países capitalistas, em que a realidade é mais suscetível as questões de ordem social, acentuando as relações desiguais de gênero.

Observa-se que a interlocução do Estado com os movimentos sociais está presente na política do país, expandindo, sobretudo a partir do período de redemocratização, na construção dos direitos políticos, civis e sociais que teve culminância com a Constituição Federal de 1988. Apesar dos refluxos dos movimentos sociais a partir dos anos 1990, ainda, se estabelece importante relação entre os diversos movimentos sociais com o Estado brasileiro. A luta pelo reconhecimento dos direitos e da situação da mulher na sociedade brasileira a partir da década de 1970 se apresenta como uma demanda nova, expressa por sujeitos políticos que começam a pressionar o sistema político, exigindo intervenção face suas reivindicações. Apesar dos problemas existirem anteriormente, só a partir desse contexto é que a realidade das mulheres torna objeto de atenção e intervenção do Estado e repercute

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na sociedade. Naquele contexto de transformações nas relações entre o Estado e a sociedade, destaca-se o momento de redemocratização e a crise fiscal que atinge as esferas econômicas, política e social, as mulheres se inserem nas mobilizações em torno da democracia, ao mesmo tempo, atrelam-se as reivindicações das classes trabalhadora face ao acirramento das desigualdades sociais e concentração de renda, acentuando as expressões da questão social no país.

Paralelo ao agravamento das desigualdades entre as classes sociais, os movimento de mulheres e Movimento Feminista explicitam as temáticas específicas da mulher, com destaque a luta pela creche, saúde, sexualidade, contracepção e violência contra a mulher, contribuindo para a incorporação da questão de gênero na agenda das políticas públicas. Deste modo, as políticas públicas podem ser entendidas como ações do Estado em responder as necessidades e demandas da sociedade, que materializam direitos reconhecidos.

Políticas Públicas e Gênero

Nas últimas quatro décadas visualiza-se um movimento internacional quanto à proteção dos direitos humanos da mulher, em que avança o reconhecimento de direitos da mulher através das convenções e tratados internacionais, e também, das leis nacionais, objetiva a transformação da condição da mulher na sociedade.

Segundo Piovesan (2003, p.40),

Faz-se necessária a especificação do sujeito de direito, que passa a ser visto em suas particularidades. Neste sentido, determinados sujeitos de direitos, ou determinada violações de direitos, exigem uma resposta específica e diferenciada. Transita-se do paradigma do homem, ocidental, adulto, heterossexual e dono de um patrimônio para visibilidade de novos sujeitos de direitos.

De forma contundente o Movimento Feminista no Brasil possibilitou a incorporação os desejos e anseios das mulheres no discurso político, culminando no reconhecimento de direitos através dos marcos legais no país. No espectro da proteção direcionada mulher, destaca-se a Constituição Federal de 1988, que trouxe avanços significativos para este segmento, que assegura a igualdade entre homens e mulheres, inclusive, inserindo temas relativos à saúde, família, proibição da descriminação no mercado de trabalho e violência.

A Constituição de 1988 imprime um novo ordenamento político e jurídico, consubstanciando

direitos civis, políticos e sociais assegurados por lei. Nesta prever o dever do Estado de

coibir à violência no âmbito das relações familiares (art. 226, parágrafo 8º).

A década de 1980 representa um avanço da democracia e do esboço de Estado que alarga a

intervenção na área social e na Seguridade Social, paradoxalmente, esse cenário será marcado pela redução dos investimentos do Estado em políticas de corte social, face ao discurso da incapacidade de investimento estatal. Nesse contexto, a reestruturação produtiva e a ideário neoliberal são direcionamentos para superação da crise. Portanto, tem-se a instauração das bases para o que se denomina do Estado mínimo, com redução de investimento em políticas sociais e não intervenção na economia, que sob a lógica do mercado a privatização e mercantilização de serviços e atendimentos, tornam-se essencial para superar a crise desencadeada na década anterior. Resultante do processo de mobilização e articulação do Movimento Feminista, a década de 1980 é marcada por avanços de direitos das mulheres a implantação de políticas públicas que incorporam à questão de gênero. Naquele contexto, com o lema “Quem ama não mata!”, o Movimento Feminista evidencia os assassinatos de mulheres dos setores da classe média, cometido pelos companheiros e maridos, denunciando a ausência de políticas e impunidade dos casos.

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Quanto às políticas públicas sobre à problemática da violência contra a mulher em 1983 foi criado o Conselho Estadual da Condição Feminina e, em 1985 a primeira Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher Especializada de Atendimento ambos no Estado de São Paulo. Ainda, em 1985, foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, vinculado ao Ministério da Justiça.

Posteriormente a essa contexto, tem-se a continuidade da luta pela incorporação da perspectiva de gênero nas políticas públicas, pontuadas nos encontros mundiais como: ECO (1992); Conferência sobre Direitos Humanos (1993); Conferência sobre População e Desenvolvimento (1994) e Cúpula Mundial sobre a Mulher (1995).

A partir da Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em Beijing (1995), e a articulação

do Movimento de Mulheres no Brasil, possibilitou alterações na relação do Estado concernente à questão de gênero, com elaboração de uma agenda de políticas públicas, contemplando questões como: violência, saúde, geração de emprego e renda, educação, trabalho, habitação, questão agrária e transversalidade de perspectiva de gênero em todas as políticas públicas.

Na análise das políticas públicas para as mulheres no Brasil, a criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres em 2003, apresenta um avanço na proposta de coordenação, articulação e formulação de políticas que contemplem a relação de gênero, em especial, da condição da mulher na sociedade brasileira, na perspectiva da promoção da igualdade de gênero, que se coloca como desafio presente na realidade social. Inclusive no ano de 2004 foi promulgado o Ano da Mulher no Brasil.

No avanço da conquista de direitos e no reconhecimento da necessidade de formular políticas públicas para mulheres, tem-se Plano de Políticas Públicas para Mulheres, lançado em 2004 que baliza as políticas públicas com enfoque de gênero, aborda em seus capítulos diversos assuntos pertinentes aos direitos e cidadania da mulher, com destaque para o fenômeno da violência.

A violência de gênero, que atinge a mulher, é compreendida como questão pública, sendo

necessárias ações direcionadas para o enfrentamento, coibição e atendimento das mulheres em situação de violência. O PNPM inaugura a Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, com objetivo de articular serviços e as diversas esferas do poder e organizações no enfrentamento da violência de gênero.

Políticas Públicas para as Mulheres e Violência de Gênero

As reivindicações e denúncias do Movimento Feminista são incisivas para a visibilidade ao fenômeno social da violência de gênero, que conseguiu inserir os anseios além do espaço da militância, mas para o reconhecimento do Estado quanto ao problema social da violência perpetrada contra a mulher. Propicia-se que a violência de gênero ganhe visibilidade nas discussões e estudos acadêmicos, espraiando-se para diversos setores da sociedade.

A violência de gênero implica nas relações de dominação, exploração, hierarquia e de poder

nas relações entre os gêneros, sendo o principal alvo as mulheres, independente da classe social, raça/étnica ou geração. Ao abordar a violência de gênero, deve se mencionar que esta ocorre de forma diferenciada

os homens

para os homens e para as mulheres, conforme Queiroz (2008, p. 14), “[

sofrem violência nos espaços públicos, em geral praticada por outro homem, as mulheres sofrem a violência masculina, dentro da casa, no espaço privado e seu agressor, via de regra, é ou foi o namorado, o marido, o companheiro ou o amante.”

]

Na visão de Teles e Melo (2003, p. 18), o conceito de violência de gênero

6

] [

dominação do homem e de submissão da mulher. Ele demonstra que os papéis impostos ás mulheres e aos homens, consolidados ao longo da história e reforçados pelo patriarcado

deve ser entendido como uma relação de poder de

e sua ideologia, induzem relações violentas entre os sexos e

indica que a prática desse tipo de violência não é fruto da natureza, mas sim do processo de socialização das pessoas.

] [

tratam de criar e preservar estereótipos que reforçam a idéia de que o sexo masculino tem o poder de controlar os desejos, as opiniões e a liberdade de ir e vir das mulheres.

Os costumes, a educação e os meios de comunicação

Ainda, na definição de violência de gênero destaca-se o posicionamento de Saffioti (2004, p. 81), que expressa o mecanismo de sujeição das mulheres aos homens na ordem social, ou

seja, “[

privilegia o masculino”.

não ocorre aleatoriamente, mas deriva de uma organização social de gênero, que

]

O Brasil é signatário de diversos acordos e tratados internacionais que contemplam os direitos das mulheres, incluindo a temática da violência gênero. Concernente a esta violência destacam-se a Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher, ratificada pelo Brasil em 1984; e a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, ratificada em 1995.

No tocante as políticas públicas de violência de gênero no país destacam-se Conselho Nacional dos Direitos da Mulher; Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher; o Programa Nacional de Direitos Humanos e a Lei n.º 11.340 denominada Maria da Penha, que supera a Lei n.º 9.099/95. Esta contribuiu para a judicialização da violência de gênero, em que era concebido como situação de menor potencial ofensivo, contribuindo para a naturalização da problemática, afirmando a hierarquia entre os gêneros, como expressão patriarcal.

A Lei n.º 11.340 (“Lei Maria da Penha”), aprovada em 07/08/2006, cria mecanismos para

coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, dispõe sobre a criação dos Juizados

de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar; define a violência doméstica e familiar contra mulher, bem como, tipifica a violência como: física, sexual, psicológica, patrimonial e moral.

O conceito de violência a partir da Lei é:

Art. 5 o Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica

e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada

no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual

ou psicológico e dano moral ou patrimonial:

I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o

espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas;

II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade

formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade

expressa;

III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente

de coabitação.

Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo

independem de orientação sexual.

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Art. 6 o A violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos.

Ao discutir violência deve-se analisar na plataforma de um fenômeno social, cultural e político, como expressão da questão social. A violência contra as mulheres é uma expressão da dominação masculina, que se estrutura e se reproduz nas relações de poder entre homens e mulheres. Segundo Portella (2004), as relações se fundam em contextos históricos e socioculturais que conferem características diferenciadas à violência.

Ainda, como colocada Piovesan (2003), que mesmo com os extraordinários avanços legais internacionais e constitucionais, dos direitos da mulher, não implicam automaticamente em sensível mudança cultural.

No Brasil existe um fosso entre o reconhecimento da necessidade de formulação de políticas de promoção da igualdade de gênero e a efetivação desses direitos. Conforme Almeida (2007), no país a intervenção na violência de gênero está estruturada em delegacias especializadas no atendimento a mulher (DEAMs); centros e núcleos de atendimento à mulher e as casas-abrigo.

A DEAM foi marco inicial no atendimento as mulheres em situação de violência na década de

1980, que se apresenta como mecanismo importante, apesar da precarização da estruturação dos serviços.

As casas-abrigo, espaço essencial na atenção e efetivação dos direitos das mulheres, precisam está articulada com as demais políticas e serviços. Vale destacar que se tem um número insuficiente para efetivação e acesso dessa política de atendimento.

A partir do PNPM prever a implantação do Centro de Referência para Mulheres, na

perspectiva de promover à prevenção e o atendimento, através de serviços e ações direcionadas as mulheres vítimas de violência, que à luz da Política Nacional de Enfrentamento da Violência contra a Mulher, preconiza a proteção e o atendimento humanizado e de qualidade às mulheres, ainda, visa à redução dos índices de violência. Destaca-se ainda os serviços de saúde no atendimento as mulheres em situação de violência, e também, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) realiza atendimentos e encaminhamentos.

Considerações Finais

A partir das reflexões apresentadas visualizam-se os avanços dos direitos da mulher no

âmbito internacional e nacional, afirmando direitos que historicamente representa a luta das mulheres. Contudo, presencia-se uma relação desigual entre os gêneros, determinada pela construção histórica, social e cultural da sociedade, em que as relações de dominação, exploração e poder entre mulheres e homens são presentes. Assim, a violência de gênero,

fenômeno social, cultural e político, se apresenta como expressão da questão social.

A conquista de direito consubstancia o avanço da luta das mulheres, expresso nas leis e

tratados mencionados, porém na realidade presencia-se a violência de gênero a qual atinge parcela considerável de mulheres, situação que pode ser agravada pela influência do caldo cultural machista e patriarcal, em especial na região nordestina, que está arraigada nas relações sociais, em que a figura feminina ainda é visualizada sob a perspectiva da propriedade e sujeição ao homem. Diariamente são noticiadas situações de femicídio 2 ,

2 Cf. Safiotti (2004).

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estupros, ameaças, lesões corporais entre os tipos de violência que são perpetrados contra as mulheres através de homens do seu convívio familiar ou parceiros íntimos.

Quanto à questão da violência de gênero, a Lei n.º 11.340 Lei Maria da Penha supera a Lei n.º 9090/95. A Lei Maria da Penha aponta mecanismos de coibição à violência doméstica e familiar contra a mulher, prevendo a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e a assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

As DEAMs, casas-abrigo e centro de referência são políticas de atendimento as mulheres em situação de violência, configuram-se avanço enquanto direitos das mulheres, porém necessitam de efetivação e implementação das ações e serviços, pois há limites e impasses na realidade concreta para acesso dos direitos e proteção das mulheres na situação de violência. É notório o descompasso entre os avanços legais/direitos assegurados e a sua efetivação, com ausência ou precarização de políticas de atendimentos as mulheres em situação de violência.

Nesse contexto de influência neoliberal, que representa uma direção teórica e política contra o Estado intervencionista ou de bem-estar, remete para uma redefinição de seu papel, com prioridade para a redução dos investimentos em políticas públicas, em especial as políticas e programas sociais. Portanto, refletem diretamente nas condições objetivas de implementação das políticas públicas, comprometendo a efetivação dos direitos alcançados, atingindo diretamente e de forma desigual as mulheres.

Por fim, ressalta que a problemática incorporada na agenda pública, precisa ser efetivada enquanto dever do Estado em implantar e ampliar políticas públicas para prevenir, punir e combater a violência contra a mulher, possibilitando os atendimentos e acesso as mulheres em situação de violência, sendo condição necessária para materializar os direitos conquistados pelas mulheres.

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