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Bernadette Velloso Porto, Maria Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Revista Brasileira do Caribe, vol. VIII, núm. 15, julio-diciembre, 2007, pp. 109-135 Associação Caruaruense de Ensino Superior Brasil
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Revista Brasileira do Caribe ISSN (Versión impresa): 1518-6784 revistacaribe@fchf.ufg.br, cecabcaribe@bol.com.br, kcouto@fchf.ufg.br Associação Caruaruense de Ensino Superior Brasil

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Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec
Maria Bernadette Velloso Porto Abstract
This article focuses on the analysis of the books Passages (1994) and Reperages (2001) by the Haitian writer Émile Ollivier, the representative figure of identities in transit of contemporaneity. It offers a reflection on the inscription of on the inbetween productive place in the selected location. It is important to take into consideration the plurality of imaginaries of belonging and the paratopic situation of the author which award their writing a particular and significative character in the context of the migrant´s literature of Quebec, where until recently identity was seen by the elites as homogeneus. Keywords: Literature, Caribbean Migrations, Identity

Resumo
Apoiando-se na análise dos livros Passages (1994) e Repérages (2001), do escritor haitiano Émile Ollivier, nome representativo das identidades em trânsito da contemporaneidade, pretende-se refletir sobre a inscrição de um “entre-dois” produtivo no corpus escolhido. Trata-se de levar em conta a pluralidade de imaginários do pertencimento (SIMON, 2004) e a situação paratópica do autor (MAINGUENEAU, 2001) que conferem à sua escrita um caráter particular e significativo no âmbito da chamada literatura migrante do Quebec, onde, até recentemente, a identidade era vista pelas elites como homogeneidade (BOUCHARD, 2000). Palavras-Chave: Literatura, Migrações Caribenhas, Identidade

*Artigo recedido em Janeiro e aprovado para publicação em Março de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 109-135

2000) a partir de situações 110 Revista Brasileira do Caribe. del escritor haitiano Émile Ollivier. Identidad Encarada.Maria Bernadette Velloso Porto Resumen El artículo se apoya en el análisis de los libros Passages (1994) y Reperages (2001). revisitada por teóricos como Stuart Hall (2003). que passou a ser vista na qualidade de comunidade imaginária. vol. considera-se a identidade não como um dado fixo e estável. Em contextos marcados pela diáspora. o local de origem não podendo ser associado a uma única fonte de identificação. deslocamento e devir inacabado. Goiânia. VIII. que sugere mais os movimentos do “tornar-se” do que as certezas do “ser”. as identidades são múltiplas. donde hasta recientemente la identidad era vista por las élites como homogénea. como algo que se expressa como deslize. à luz da “différance” derridiana. o escritor e teórico Amin Maalouf salienta a interferência de múltiplos pertencimentos em sua história de vida. ao longo de histórias plurais de deslocamentos e desterritorializações. construíram-se coletividades novas (BOUCHARD. Se trata de llevar en cuenta la pluralidad de imaginarios de pertenencia y la situación paratópica del autor que otorgan a su escrita un carácter particular y significativo en el ámbito de la llamada literatura migrante de Quebec. mas. Em se tratando das Américas. que constitui uma ilustração das elaborações das identidades em trânsito de nossa época. reflexionando sobre la inscripción de un entre lugar productivo en el locus seleccionado. a noção de diáspora. Migraciones caribeñas. nombre representativo de las identidades en tránsito de la contemporaneidad. sobretudo como questão conceitual e epistemológica e não como experiência empírica. Definindo-se no livro Les identités meurtrières (1998) como alguém situado em um entre-lugar que o leva a se ver como libanês e francês. n° 15 . permitenos repensar os processos de construções identitárias de nosso tempo e as idéias atribuídas até recentemente à nação. Palabras Claves: Literatura. Graças ao reconhecimento da perspectiva diaspórica da cultura.

/dez. que é pela mistura que a novidade entra no mundo (RUSHDIE. deu-se a revisão da identidade quebequense.92). Segundo ele. um asiático. todos os que estão no espaço caribenho “pertenciam originalmente a um outro lugar” e sua relação com essa história “está marcada pelas rupturas mais aterradoras. no Quebec.75). no campo literário. p. Como pensa Maximilien Laroche. Pois todos aqueles que moram hoje na América vieram de outro lugar. imprevisível e produtivo do contato entre culturas. Salman. híbrido. 1993. professor e crítico haitiano naturalizado canadense: Ser americano é ter conhecido a metamorfose que transforma um europeu. com Salman Rushdie. p.Uma voz da diáspora haitiana.. e mesmo o primeiro habitante desta terra.30). encarada 111 jul. o Caribe é fruto da crioulização. Nos últimos anos. verdadeiro habitante de um Novo Mundo. Considerando-se. e em particular. o espaço caribenho é marcado por uma estética diaspórica. p.394). percebe-se o caráter inovador do Caribe. há mais ou menos tempo e sofreram a metamorfose que esta terra e sua história impunham.. Ásia e África). Inserindo o Caribe no cenário da diáspora pós-colonial. a inegável contribuição caribenha na configuração das novas cartografias identitárias decorrentes das migrações pós-coloniais nas Américas. segundo as modalidades particulares de sua entrada neste Novo Mundo e segundo as peripécias de sua existência aqui (LAROCHE. exemplo maior da ruptura de modelos fechados e homogêneos de pertencimento cultural. Nascido dentro da violência colonial e por meio dela. o crítico da cultura Stuart Hall (Jamaica) também reconhece o que é dito na citação anterior. o que explica seu caráter impuro. com o aporte de vozes de imigrantes oriundos de diversos países não-europeus e. “movimento perpétuo de interpenetrabilidade cultural e lingüístico” (GLISSANT. 1993. 2003. Como se sabe.1995. depreende-se. processo inacabado. 2007 . do chamado Terceiro Mundo francófono (Antilhas. em especial. p. diaspóricas. neste homem novo. violentas e abruptas” (HALL. Resultante das relações enriquecedoras entre elementos culturais variados.

VIII. n° 15 . tal identidade passou a ser considerada sob o prisma da multiplicidade de centros de referência. uma certa abertura ou fragilidade no plano do domínio lingüístico ou do tecido de referências. aculturado. vol. muitas vezes problemático para os “Québécois de souche” que. um texto em que a confrontação dos elementos díspares produz o novo. mas que deixa traços do primeiro texto no novo. o imprevisível (SIMON. opta por criar um texto crioulizado. Nesse cenário de profundas transformações e questionamentos identitários. Estes efeitos estéticos são o resultado da situação de fronteira vivida pelo escritor que. Da fricção criativa de dois pertencimentos nasceram obras marcadas pelo híbrido. levando em conta um estado de dissonâncias e de interferências de várias formas. Pode-se dizer que. pois seus textos misturam imagens e signos do Haiti e do Quebec. um despojamento desterritorializante. ou seja. 2004. no panorama identitário do Quebec. por um vocabulário díspar. diante da presença de alofonias diversas. uma sintaxe não habitual. Graças à inclusão do olhar de estrangeiros. o que lhes permitia fugir dos horrores da ditadura de Duvalier. o reconhecimento das vozes migrantes. estes efeitos de dissonância são o resultado de um processo de tradução inacabada. interferências lingüísticas ou culturais. uma relação de transferência ou de passagem que não acaba em um produto naturalizado. Cabe lembrar aqui a definição do texto híbrido proposta por Sherry Simon: O que se pode entender por um texto híbrido? Trata-se de um texto que interroga os imaginários do pertencimento. Goiânia. vêem ameaçados seus valores identitários tradicionais – 112 Revista Brasileira do Caribe. em certos casos.Maria Bernadette Velloso Porto como homogênea pelas elites do século XIX e parte do século XX. segundo a expressão de Édouard Glissant. O texto híbrido é portanto um texto que manifesta “efeitos de tradução”. p. 1991). consciente da multiplicidade. Tais escritores e poetas apresentam em suas obras o que Maximilien Laroche chama de o “duplo palco da representação” (LAROCHE.13-14) Cabe lembrar que. ressalta-se a presença de autores haitianos que emigraram para o Quebec em decorrência da abertura do Canadá à política de imigração.

uma cultura que carrega as origens se enriquece com a contribuição múltipla e aceita modificar-se sem se trair.Uma voz da diáspora haitiana.. torna-se um fator de revisão do implícito. ausente ou inacabado. o imaginário migrante dialoga com a representação simbólica do exílio que afetou anteriormente muitos autores do Quebec. Encarnação expressiva da situação paratópica (MAINGUENEAU. não ocorreu por acaso. já que. os quais viam seu país como incerto. 2001. Buscando mostrar que o exílio pode ser fecundo.. p.43). que todo desenraizamento é ou pode ser fator de grande criatividade e que toda migração é útil ao país de origem e ao país de adoção. já presente na memória coletiva dos quebequenses. Tratar da diáspora haitiana no Quebec nos remete ao livro de Jean Jonassaint intitulado Le pouvoir des mots. desabrochar ao se reinventar (KATTAN. o escritor iraquiano Naïm Kattan. material importante para os estudos do romance haitiano contemporâneo. na condição de migrante. autores migrantes colaboram de perto na reinvenção identitária do país que lhes deu abrigo. ao trazer para a cena coletiva a pluralidade de pontos de referência e de memórias culturais. Um dos representantes da presença do Haiti no Quebec contemplados na obra citada é Émile Ollivier. um dos privilégios do autor migrante é o olhar novo que ele lança sobre o país em que se instala: O imigrante. os romances haitianos de 1970 a 1980 foram escritos e/ou publicados na América do Norte. em especial. Em outras palavras. mas que está aí para ficar. em sua maioria. de modo exemplar. Nessa revisão contínua das identidades./dez. ele reúne trechos e depoimentos valiosos de seres diaspóricos. inscrevendo no seio da cultura quebequense as marcas de sua diferença e os apelos do exílio. Como pensa outro representante diaspórico da chamada literatura migrante do Quebec. 2001) de todo escritor que. 2007 . Segundo Jonassaint. les maux du pouvoir. as ambigüidades 113 jul. esse outro que não é um observador de passagem. ilustra.

p. Consciente de que se encontra diante de uma sensibilidade inusitada e de que vive. Ao exercer sua atividade profissional no campo das letras. p. p. 2001. na sua obra teórica Repérages (2001). Goiânia. Ao declarar. Como tantos outros haitianos que pensaram. que teria permanecido o mesmo jovem que rompera. E é na impossibilidade de se estabilizar em um lugar preciso que sua obra se constrói. exerceu várias ocupações e obteve um certificado de estudos literários na Sorbonne. ele não chegou a empreender o retorno ao país natal. como tantos outros indivíduos. “alimenta sua obra com o caráter radicalmente problemático de sua própria pertinência ao campo literário e à sociedade” (MAINGUENEAU. vol.27). Após ter vivido seus primeiros vinte e cinco anos em PortoPríncipe. morrendo no estrangeiro. esperava retornar à sua terra natal logo que essa situação política tivesse mudado. 2001. uma experiência inédita que 114 Revista Brasileira do Caribe.28). Ollivier decidiu se afastar do Haiti para escapar da violência da ditadura de François Duvalier. A mesma pergunta que aflige seres migrantes em geral se coloca para o autor em questão: “Como é possível viver não sendo totalmente daqui nem mais totalmente de lá?”(OLLIVIER. Ollivier salienta sua identidade móvel que o levou a adotar compromissos e a efetuar negociações a cada dia.Maria Bernadette Velloso Porto e contradições de quem não coincide necessariamente com um lugar no mundo. Buscou. Como todo escritor. não existe verdadeira literatura” (MAINGUENEAU. durante um ano. em 1965. um dia. se instalou no Quebec onde se tornou professor de sociologia na Universidade de Montreal. a princípio. 37). Ollivier acabou por aí criar um espaço de vida e de criação. Émile Ollivier privilegia em textos teóricos e ficcionais reflexões sobre o trajeto identitário de seres deslocados de nosso tempo. abrigo na França onde. n° 15 . 2001. negociando incessantemente entre o lugar e o não-lugar. Optando por um desvio provisório. com a exigüidade de sua ilha para partir em busca da conquista de vastos territórios. Como muitos imigrantes (autores e personagens romanescos). tira partido da deslocalização que caracteriza toda produção literária “sem ‘deslocalização’. estar de passagem no Canadá. Em 1968. VIII. no passado.

2001. a distância cria uma situação privilegiada (BAUMAN. 2001. assim como a intimidade. e quando nos enfiamos na terra. Origem inatingível. ao invés de valorizar a noção de raiz –associada às árvores .69). p. 2004. desejamos o céu. para se considerar como alguém deslocado que. reconhece-se como um “ser feito da interferência de todos os lugares que atravessou” (OLLIVIER.) Ao contrário das árvores. p. da servidão à liberdade ou à morte violenta. as estradas não emergem do solo ao acaso das sementes. nossos pés só servem para andar. só importam as estradas.Uma voz da diáspora haitiana. Émile Ollivier passou da posição de exilado à de migrante. é para apodrecer. 2001. já que uma estrada não tem nunca verdadeiro começo. A seiva do solo natal não se eleva por nossos pés em direção à cabeça. ao chegar ao Quebec.24). percebe que sua vida era pontuada por várias mortes 115 jul. p. 2005. ao longo de trinta anos de vida no Quebec. após ter sonhado durante muito tempo com o retorno ao país natal. antes da primeira curva. que.38) . faz de todos nós seres mutantes por excelência (OLLIVIER. p. Como nós. 20).. 2007 .910). Sob esse prisma. São elas que nos levam – da pobreza à riqueza ou a uma outra pobreza. empreendendo uma operação de descentramento (OLLIVIER.(. pois a cada cruzamento se uniram outras estradas que vinham de outras origens (MAALOUF. 2001. p. Por isso mesmo. já havia uma curva e mais uma. o autor do livro citado diz que é preciso desenvolver competências de “bricoleur” e aprender a viver nos interstícios. elas precisam de suas raízes. Origem ilusória.. Ollivier se colocou à escuta da realidade cultural a sua volta.prefere as idéias de estrada. de caminho. Para evocarmos o sociólogo Zygmunt Bauman. Para nós. por sua vez. Exposto a outros modos de socialização como todos os migrantes. cita o escritor Juan Goytsolo. os homens não. podemos lembrar que. Respiramos a luz../dez. lá atrás.. p. Vendo-se como um escritor das fronteiras (OLLIVIER.22). elas têm uma origem. ele parece dialogar com a visão de Amin Maalouf em seu livro Origines: As árvores devem se resignar. Desse modo.

2001. 2001. Para o autor de Repérages. 28). Goiânia. Com outros representantes de diferentes modos de ser e de ler o mundo. p. p. Ao se fixar em Montreal.Maria Bernadette Velloso Porto e renascimentos sucessivos (OLLIVIER.64).23). a língua francesa.37). vol. o jovem haitiano compartilhou com outros a sensação de estranhamento. para se tornar seu país de adoção (OLLIVIER. a presença de “estrangeiros do interior”: os quebequenses que acabavam de deixar o espaço rural para se instalarem no tecido urbano de uma cidade em expansão que recebia alteridades plurais. Ciente de que a língua francesa se tornara cada vez mais indispensável em sua profissão. Ao ter perdido. sabe que seus livros não são de fato consumidos pela comunidade haitiana. Aos olhos de Émile Ollivier. o que remete à existência de “homens traduzidos” de nosso tempo. o Quebec mudou de estatuto a seus olhos. como propôs Salman Rushdie (1993. conquistada a cada dia de sua própria reconstrução identitária no novo país. VIII. vista como seu lugar de asilo (OLLIVIER. que ele reforça seus vínculos com a realidade caribenha. o autor de Repérages afirma ter feito o luto de sua origem. A maneira de continuar fiel à sua origem não seria falar continuamente dela na língua estrangeira que poderia lhe conferir maior visibilidade? E é no corpo a corpo com a diferença e com o francês. a experiência lingüística constitui um domínio privilegiado para se refletir sobre a condição migrante por parte de seres cindidos sob o ponto de vista identitário. aos poucos. n° 15 . deixando de ser simplesmente a terra que lhe ofereceu asilo. 116 Revista Brasileira do Caribe. Ollivier participou das profundas modificações ocorridas no Quebec a partir da Revolução Tranqüila. p. p. Embora trate de assuntos referentes à sua terra de origem. seu espaço de enunciação. dado o forte índice de analfabetismo de seu país. Situando-se numa encruzilhada entre dois idiomas – o crioulo e o francês – o autor leva em conta a questão de seu público. pelo gesto de migrar. precisou conquistar um outro. que trouxeram para o cenário das discussões identitárias o questionamento das certezas estabelecidas. 2001. sua outra língua. a seu lado. Por isso mesmo. tornado. falar uma outra língua equivale a assumir a posição do tradutor. pois logo percebeu.

1986. de Pascale Casanova (1999. p. p. minhas alegrias. dois universos e dois apelos lingüísticos que a obra desse autor se inscreve sob o signo da dualidade ou da digrafia.382). por uma dupla inscrição.. mas como busca inacabada e rentável que supõe a fricção produtiva entre dois idiomas e memórias culturais. um reservatório de sons. Ollivier tenta evitar qualquer perspectiva reducionista que poderia tornar exótica sua escrita.. e a criação de uma terceira língua.. no ato da escrita. na superfície do texto. transformação e um trabalho de recriação permanente. o próprio Ollivier se refere a esse dilaceramento de forma lúdica e criativa: Essa esquizofrenia vai ser encontrada provavelmente ao longo de toda a minha produção. ritmos e imagens (OLLIVIER. Em entrevista a Jean Jonassaint. 2001. Apesar dessas duas realidades trabalharem meus desejos. assim.Uma voz da diáspora haitiana.88) Como “esquizofrênico feliz”. Além de sugerir travessia. Tenho o hábito de dizer que sou haitiano à noite e quebequense de dia. presente nele como uma cripta. E é no ir e vir entre duas culturas. a literatura migrante de Émile Ollivier coloca a questão lingüística como componente maior do capital literário. E penso de fato que é uma situação de esquizofrenia. de alguém que está desvinculado da realidade.64) ./dez. 2007 . de uma memória impossível que aflora. Ollivier vale-se de um duplo pertencimento. Estou desvinculado da realidade haitiana. para evocarmos o capítulo “La tragédie des hommes traduits”. apesar de tudo. exercitando a prática tradutória não como um exercício de simples transposição de uma língua a outra. Marcada.. p. mas também da realidade quebequense. Como no próprio Haiti ele já conhecera de perto a dualidade lingüística.. vivenciada sob a forma de diglossia. meus trabalhos e meus dias (JONASSAINT. optando pela procura de um equilíbrio na instabilidade: 117 jul. aqui a realização do luto da origem supõe também a interferência constante. isto é. nascida do roçar entre as diferenças..

trabalhar sobre as imagens. mesmo em relações de dominação. ressemantizados no contexto estrangeiro. a gente se exprime.89) No conjunto da obra de Émile Ollivier. Goiânia. Historicamente. Como resolver esse problema no plano da criação? No que me diz respeito. as duas línguas foram vizinhas. na própria escrita. trata-se de andar sobre essas duas pernas. de preferência. p. Numa narrativa de caráter polifônico. em francês e em crioulo como ser haitiano. em resumo. a experiência do exílio. como 118 Revista Brasileira do Caribe. 1997. n° 15 . Logo. Minha principal preocupação é de expulsar toda folclorização. liderados por Amédée Hosange. as metáforas. o escritor identifica na desterritorialização um espaço de liberdade que o leva a fazer escolhas. e a caracterização do escritor migrante como um tradutor adquirem. não se trata de decidir entre o crioulo e o francês. a negociar entre danos e perdas. 1986. ao invés de se deixar paralisar pela dor da ruptura e do dilaceramento. a refazer seu imaginário. VIII. os provérbios. na formação social haitiana.Maria Bernadette Velloso Porto Tenho consciência de não trazer nenhuma resposta explícita à questão da diglossia. Um romance em particular ilustra a complexidade do universo do autor: trata-se de Passages. na maioria haitianos. o romance Passages apresenta vários personagens migrantes. destaque. pois. reinventada graças ao crioulo. fugir da relação de equivalência e. isto é. publicado em 1991. evitar a tradução literal do crioulo em francês. cujos trajetos de vida se entrecruzam. vol. embarcando em um barco frágil que os levaria. coabitaram. captar a substância da língua crioula e restituí-la diretamente em francês (JONASSAINT. Considerado pela autora do ensaio La mémoire sans frontières como uma “deriva polifônica” (GAUTHIER. cheiros e sabores de seu país. um grupo de haitianos se organiza para fugir das misérias de sua terra natal. revestindo-se de um caráter eminentemente dinâmico. p. e a encontrar. duas histórias principais estão vinculadas ao Haiti: de um lado. seu lugar por excelência no mundo. ao mesmo tempo. Trata-se de levar em conta esse fenômeno. a desterritorialização da língua francesa. a interiorizar cores.62).

“história de migrações e de errâncias. Brigitte Kadmon Hosange. abaladas pela inclusão da diferença no âmbito de uma familiaridade construída a partir da ilusão e da pretensão da homogeneidade. donc à jeter le trouble. je peins le passage”(OLLIVIER. uma das poucas pessoas que sobreviveram ao naufrágio da embarcação e os sonhos dos que ousaram optar pelo exílio (ainda que visto como provisório). acaba conhecendo.194). sem realizar o desejo de retorno ao país natal. no plano da intriga e na própria construção do romance. a Miami. Normand grava o depoimento de Brigitte em cassetes. Vistas como trânsito.181). mas não chega a divulgá-lo. servir de intermediário entre as diversas vozes narrativas desse romance formado da reconstituição de diversas memórias.. Priorizando a idéia de passagem. Cabe a outro personagem haitiano (Régis). Como se atualizasse a mesma frase. Como afirma Lise Gauvin. o jornalista Normand Malavy. o romance se abre com uma epígrafe significativa de Montaigne: “Je ne peins pas l’être. clandestinos.. p. Histórias do viver e do morrer se intercalam no tecido narrativo marcado pela poética dos encontros e (des)encontros ligados às movências identitárias. à infliger notre chaleur. Voilà pourquoi nous intervenons ! Voilà pourquoi nous sommes intempestifs et insolites“ (OLLIVIER. o livro em questão coloca em cena múltiplas passagens. pois morre de um ataque cardíaco. à dire notre exubérance. a vida e a morte se conjugam na dinâmica do transitório. 2007 . enviado pela esposa do morto para buscar seu corpo./dez. A narrativa referente à preparação da viagem dos boat people haitianos em direção a Miami se reveste de um sentido 119 jul. de outro. sua compatriota. 2000. que há anos deixara o Haiti para viver em Montreal.1994. 1994. viúva de Amédée. Outra referência importante à noção de passagem se destaca de versos de René Char: “Nous sommes des passants appliqués à passer. p.Uma voz da diáspora haitiana. esse romance deixa provisoriamente o espaço geográfico haitiano para melhor encontrá-lo nas lembranças e no imaginário de indivíduos à procura de seu destino.” (GAUVIN. p. em Miami.7). Destaca-se aí a figura perturbadora do estrangeiro aos olhos de quem se definia pelas certezas identitárias.

feita por eles mesmos. da desolação e da miséria absoluta: Port-à-L’Écu.14). VIII. a morte repentina desse cadáver em vida (extremamente magro. 120 Revista Brasileira do Caribe. p. mesmo no estado em que se encontram. 1994. cinq maîtresses. A abertura do romance aponta para a decadência que afeta a cidadezinha de Port-à-L’Écu. de onde fora expulso um dia. Il tenait la terre de son grand-père. condenada ao abandono e ao silenciamento. de la main même de l’Empereur. de modo misterioso. Nul besoin de chercher son nom sur une carte . colocando em confronto dois tempos de um mesmo lugar. un bien grand et riche domaine. vaste grange. au lendemain des grandes tueries de l’indépendance (OLLIVIER. 1994. pois. os habitantes da referida cidade escolhem uma forma particular de resistência: a fuga numa embarcação precária. mas também de desafio e de orgulho (OLLIVIER.Maria Bernadette Velloso Porto mítico. passou a ser o espaço da improdutividade. vol. Goiânia. O retorno desse habitante a Portà-L’Écu. disait-il. a intervenção do sobrenatural se dá nas pequenas histórias do cotidiano marcadas pelo realismo mágico. Et pourtant. Port-à-L’Écu n’existe plus. ele parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos) acarreta um efetivo desequilíbrio ecológico que compromete a própria existência da coletividade. belles cases. c’était un village qui comptait tout près de trois mille chrétiens vivants.25). Em um mundo pleno de sinais. é revestido de tragédia. il n’y a guère de temps.27). augúrios e presságios. Prisioneiros de um mutismo feito de medo. p. que os levaria a Miami. Port-à-L’Écu n’existe nulle part. lequel l’avait obtenue. ce n’est plus le pays de la canne à sucre . com a crise da pequena cidade. 1994. que corre o risco de se tornar “lata de lixo dos Brancos”: afastando-se da representação do lugar habitável que fora um dia. conscientes de que. Il y avait à Port-à-L’Écu dix carreaux de terre. il ne figure sur aucune. como ocorre com a chegada de um ser inquietante que coincide. Là vivait Amédée Hosange. p. les loup-garous y ont élu domicile et parfois volent en plein jour. des deuxmoitiés. essas terras representam todo seu sopro vital (OLLIVIER. n° 15 .

Il n’avait pas besoin de montre pour déterminer quelle partie de la nuit ou du jour était passée (OLLIVIER. Mestre da ciência dos ventos baseada no vivido. p. sabe ler os sinais inscritos na paisagem. 1994. abre-se para a expansão dos limites identitários. Tal viagem clandestina em direção a um “Eldorado de lenda” (OLLIVIER.19) e dotado do sentido da orientação por ter uma bússola em suas narinas e por ser capaz de se valer do sol como seu compasso e seu cronômetro (OLLIVIER. 2007 . novo Hermes responsável pela transmissão da nova boa nova: a possibilidade do recomeço em outro lugar e da reconstrução da identidade nas searas da diáspora. dire combien le ciel avait marché au-dessus de la terre. como o “passeur” que os levaria à salvação. je vous l’ai déjà dit. p.. Tendo em sua bagagem existencial a experiência do nomadismo (cf. p. p. a prática do desvio constitui uma estratégia de sobrevivência eficaz para se enfrentar uma impossibilidade (GLISSANT. 1994. il associait les odeurs à la direction du vent.65) equivale a um “détour” no sentido glissantiano. Véritable pigeon voyageur. dominando as artes do enraizamento e da errância: Amédée. Concebido como um recurso temporário. deslocando-se como um pombo correio. Em estreita sintonia com a natureza. 1994. il pouvait faire le décompte des milles marins parcourus./dez. Segundo Édouard Glissant. Convencido de que lhe cabe a responsabilidade de assumir para si a resistência contra os riscos de desaparecimento de seu 121 jul.. 1997.Il m’avait souvent parlé de ses voyages au long cours. inteligência prática de seres oprimidos que a ela recorrem para contornar um problema de difícil solução. p. connaissait la navigation en haute mer. en reniflant. La nuit. “il avait foulé cette terre en nômade” (OLLIVIER. Il m’avait souvent parlé de ses voyages en haute mer.63). en fixant le ciel. monsieur. 1994.48). Amédée é escolhido por seus compatriotas como líder. 64).Uma voz da diáspora haitiana. o desvio é sinônimo de astúcia. Il connaissait la position des étoiles fixes et des étoiles errantes.

os habitantes de Port-à-L’Écu se mostram atingidos pela sensação incômoda de exigüidade (PARÉ. nous avons franchi cinq siècles d’histoire. não constituindo uma simples referência física que marcaria seres insulares. as danças. Notre substance est tissée de défaites et de décompositions. Ausentes dos estudos 122 Revista Brasileira do Caribe. VIII. podemos dizer que. o candomblé. de se refaire. opiniâtres et inaltérables galériens.184-185). l’esclavage et. vol. dans cette barque putride et imputrescible à la fois. Amédée atualiza o exercício do “marronnage” (termo criado a partir de “nègre marron”= “quilombola”). p. Malgré vents et marées. Goiânia. nous traversons le temps même si le sol semble se dérober sous nos pas. Coureurs de fond. effacement d’un peuplement : le génocide des Indiens caraïbes. Na base da resistência coletiva à decadência de sua cidadezinha e de sua própria dignidade como povo. n° 15 . entre outras manifestações criativas). nous continuons à survivre en nous livrant à d’impossibles gymnastiques (OLLIVIER. no cerne dessa obra. 1994. dégradable et pérenne. Nous avons subsisté.Maria Bernadette Velloso Porto povo. está a consciência da exigüidade que. de se défaire. que remete não só à fuga de escravos. une interminable histoire de brigandage. ce temps de tourments. depuis la mort de l’Empereur. 2001). cette éternité dans le purgatoire. la grande transhumance. a capoeira. persévéré sur les flots du temps. mas a todo gesto do resistir que se manifesta como prática cultural (como o vodu. nous franchissons la durée. Uma passagem em especial ilustra a consciência da fragilidade do ser exíguo. Et pourtant. dilacerado entre o sentimento de impotência e o desejo de sobrevivência: Nous venons d’un pays qui n’en finit pas de se faire . effacement d’un paysage. malgré ce présent en feu. Notre histoire est celle d’une perpétuelle menace d’effacement. aponta para a consciência da fragilidade e dos riscos de invisibilidade e de desaparecimento de uma comunidade. Apoiando-nos em pistas oferecidas por Simon Harel e Jacques Mathieu-Alexandre (2003) em sua análise do romance Passages.

66).Uma voz da diáspora haitiana. 87). 2007 . pelo paralelismo estabelecido entre a casa e a escritura. Obra-refúgio ou obra-insular. Espaço de convergência de inúmeras experiências diaspóricas. a situação diaspórica favorece a atividade da escrita. p. É o que faz Ollivier no romance em pauta. no espaço das letras. ao exercício criativo de práticas de sobrevivência adotadas pelos excluídos da História oficial. capaz de preencher e de superar o hiato geográfico instalado entre seres distanciados fisicamente. mesmo sabendo disso. fragmentada em várias cidades onde há diversas solidões (OLLIVIER. na busca de um outro lugar no mundo. Miami não seria. 1994.. 2001. p. o abafamento e o silêncio. acadêmicos voltados para as chamadas grandes literaturas. Escrita do trânsito e das transferências culturais que se abrem para os diálogos sempre inacabados da crioulização. pois. Mas. uma solução definitiva para seres desterritorializados. uma terra de errância. além de ser “um lugar de esperança e de miséria para os que conseguiram deixar sua terra de miséria” (GAUTHIER. p. Como experiência enriquecedora que leva indivíduos a ultrapassar limites. as produções da exigüidade correspondem à “fabricação original e autônoma de bens simbólicos inéditos” (PARÉ. Amédée 123 jul. “a escrita e a prática da arte acarretam uma liberação do espaço” (PARÉ. após certa hesitação e influenciado por uma visão mágica. a função da escritura é a “de aumentar desmesuradamente nossa relação com o mundo de modo a nos proteger da pequenez da condição humana e da insegurança que a acompanha” (HAREL & JACQUES. Apontada como a “América latina na América do Norte” (OLLIVIER. Miami aparece na narrativa como um lugar de passagem. 1994. pois. Escrita muitas vezes epistolar. uma possibilidade é vislumbrada pelo grupo liderado por Amédée como viável: Miami. p. 2003. 2001.65). oferecendo aos seres desterritorializados a oportunidade de inscrever seu lugar no mundo nas páginas da escrita. sob a máscara do sol que esconde cóleras e violências./dez. mas que encontram.97). 1997.66). p. Lutando contra o confinamento.. Como foi salientado. um sítio importante para se rever sob o ponto de vista identitário e para reler o próprio existir.206). essa cidade se reveste também de um sentido negativo. p.

. que acabara de morrer.86-87). Identificando. n° 15 .) Mais déjà. p. sans but. quitter le pays où ils étaient nés. inspirando-se na fixidez do mineral ou no modelo da raiz que. avec le vent. 124 Revista Brasileira do Caribe.. (.31). ne l’emporte-t-on pas partout avec soi ? (OLLIVIER. les grands espaces. il savait que souvent le crabe qui s’éloigne à une trop grande distance de la mer. Leyda oferece ao leitor pistas valiosas para a compreensão da diáspora: Voyez-vous. Um dos trechos mais poéticos do romance Passages referese a uma reflexão da personagem Leyda a respeito de duas formas de se estar no mundo: de um lado. interiorizado nas memórias e paisagens afetivas: Amédée ne comprit pas tout de suíte pourquoi ils devaient partir. 1994. Adeptes de vastes chevauchées. quelles que soient ses fins secrètes n’a jamais le temps de revenir.Maria Bernadette Velloso Porto responde afirmativamente à demanda dos que o procuraram como guia. a partir dos apelos da polinização. alguns homens se deixariam levar pelos movimentos do devir. haveria os seres sedentários. Amédée. vol. Normand était de cette race. ce jour-là. como já foi visto. Na base de sua decisão está a certeza de que mesmo quando deixamos o país natal. de outro. 1994. VIII. seu próprio marido Normand. empruntent d’aléatoires chemins. Il aimait ces déplacements à tâtons qui se jouent sur des surfaces illimitées où départs et retours finissent par se confondre (OLLIVIER. ils traversent. p. qui se tissent un destin minéral dans un rêve de pierre et ceux qui se prennent pour le pollen. devenir une race sans terre. influencé par sa vision. le monde est constitué de deux grandes races d’hommes : ceux qui prennent racine. Ils sautent dans des voiliers de hasard . nessa segunda categoria. Pourtant. Goiânia. ele nos acompanha. não corresponde ao ideal de vida valorizado pelo próprio Émile Ollivier. Sa part de territoire. avait changé d’avis. sans trajet préalablement déterminés.

Sinônimo de fecundação e de renovação. pois. 1997. segundo o autor citado. Por isso. Para eles. 1997. quanto mais longe nos encontramos da “terra dos mortos”. A vivência do exílio. tem um efeito mortífero (MAFFESOLI. atribuindo-lhe. As que caem bem perto do tronco não têm nenhuma chance de crescer e de desabrochar. p. No romance Passages. Daí se explica a razão que leva Maffesoli a acreditar na necessidade de se empurrar para longe as fronteiras (MAFFESOLI.19).. 1997. Segundo a perspectiva do exílio visto como “détour”. mas também desprendimento. em geral. já que.28). 2007 .22).39). Para Maffesoli. opondo-o a Barrès que pedia aos homens para se enraizarem na terra e nos mortos. 1997. para quem existir significa “sair de si mesmo. permite./dez. da família. p. a passagem abaixo se aproxima da citação de Ollivier: Fazer uma leitura contemporânea de Gide. diferentes personagens conhecem de perto tal experiência. Amédée e Brigitte encaram a ida para Miami como recurso temporário. hedonista e místico das « nourritures terrestres » gozando do vento espalhando sementes. a cultura não é somente enraizamento. abrir-se para o outro” (MAFFESOLI.. p. um enriquecimento cultural. p. 1997. Não se poderia falar melhor da força do desprendimento que cresce longe das raízes. convite para a novidade e para a aventura no campo dos sentidos – transitórios como a própria existência–. a diáspora é. Apenas permanecerão vivas as plantas que jorrarão longe da árvore semeadora.142). o que corrobora o pensamento de Michel Maffesoli. já que a imobilização. pode-se morrer de tédio ou de desespero (MAFFESOLI. mais temos acesso a riquezas imateriais (MAFFESOLI. Gide. como sinônimo de confinamento. 1997. palavra que recobre diversas situações. Apenas as sementes que vão longe têm oportunidades de frutificar. além de se morrer de fome. Referindo-se à metáfora da raiz. 141-142). da terra dos mortos (MAFFESOLI.Uma voz da diáspora haitiana. segundo a lógica diaspórica. p. um caráter não definitivo. p. conforme foi apontado. do ninho. portanto. “só havia partida na perspectiva de um retorno 125 jul.

ou à elaboração de petições pela Nicarágua. VIII. 1994. 45). Durante muito tempo. 1994. Elle n’avait eu qu’une semaine. tentando se enraizar em projetos de melhoria do mundo. p. préservé de la ville longtemps imaginée. Cela avait suffi pour constater que la magie avait quitté sa ville. une douleur intense. n° 15 . Ora. ser dos trânsitos por excelência. Assim. situa-se paradoxalmente entre a busca de um impossível acordo consigo mesmo e um movimento de felicidade.Maria Bernadette Velloso Porto enriquecido de mil perfumes. Para reforçar a inviabilidade do retorno à origem. p. 1994. 1994. um desejo de viver (OLLIVIER. derrière ce nouveau masque. diante do fracasso da empreitada chefiada pelo marido. ela vive no Canadá há cerca de dez anos. alimentou o desejo de rever Cuba. Trata-se de Amparo. Brigitte manifesta o desejo de voltar a Port-à-L’Écu para ser enterrada na sua língua (OLLIVIER. como se buscasse compensar a desorientação de seus dias. “anda em círculos” (OLLIVIER. viveu um tempo com um chileno e se dedica a manifestações contra o racismo e a utilização de armas nucleares. seus atos se revelam incapazes de garantir uma mudança na ordem das coisas e de lhe assegurar uma nova meta de vida. p. de mil odores do alhures” (OLLIVIER. preenchendo o vazio de sua vida de modo a parecer muito ocupada. Goiânia. outro personagem migrante conhece a frustração ao fazer uma viagem a seu país. p. le visage secret. P.113). não realiza seu sonho de voltar ao país de origem. vol.229). mas ao empreender uma viagem ao seu país natal. intime. une grande déchirure.42). como já foi dito. Son séjour à la Havane. p. 1994. Dividido entre duas forças – o quimérico ressurgimento de seu passado e o esquecimento de suas raízes (OLLIVIER. por mais que ela se esforce. 1994.176). 126 Revista Brasileira do Caribe. peut-être auraitelle découvert. descobre a impossibilidade do retorno. Também Normand. Amparo fixa sur Leyda un regard mouillé : “ Jamais plus je ne pourrai vivre à La Havane” (OLLIVIER. Si elle était restée plus longtemps. Filha de sírios que emigraram para Cuba e depois se instalaram nos Estados Unidos. o enorme hiato criado entre ela e sua terra de origem. Tendo contínuo contato com imigrantes latinoamericanos. Mas. Na verdade.112).

Lido a partir dessa concepção de origem. destaca-se a sensação familiar e moderna de “des-locamento”. em nosso tempo. experimentada. No nível cultural como na experiência subjetiva. encontra-se o valor da viagem como busca e requisição da memória. p. 1991. Amparo parece ilustrar o pensamento do autor do livro Entre-deux: l’origine en partage: “Ora. 2007 .55). Amar é desejar encontrar o ser que possa abalar sua memória inerte para lhe dar vida nova. Como “impulso em direção a outros lugares” (SIBONY. o próprio presente nada lhe oferece de estável. reconstruída sem cessar por sua memória. um convite para se ultrapassarem fronteiras e para se descobrir que é possível desejar (em) outros lugares. antes. até então inerte ou cansada de ser igual a ela mesma. p.. por todos nós. Mas onde é o início de tudo? Não somos todos migrantes em trânsito permanente que nos leva a recomeçar sempre? No caso da personagem Amparo. a reencontrar sua carência vital e sua distância em relação a ela mesma (SIBONY.. No exemplo acima.57) 127 jul. sendo. E a imagem de seu país natal não passa de uma das versões possíveis de sua terra. Assim como Amédée e Normand. p.Uma voz da diáspora haitiana. segundo Daniel Sibony. a origem nada tem de paralisante./dez. aí está a própria procura do amor”. embora procure se fixar em projetos coletivos. 1991. entre o presente e lá onde tudo começou (HALL. 1991.34). Tratase ainda da dificuldade de nos situarmos de fato em um lugar preciso e da consciência de que não nos é facultada a possibilidade de voltar para casa. “Ora. que não precisamos. viajar para senti-la. p. o exílio é freqüentemente uma viagem que não sabe encontrar seu retorno” (SIBONY. já que. necessariamente. que forçará sua identidade a efetuar a viagem que ela escamoteia. o amor equivale a uma procura de renovação identitária e de revitalização da memória graças ao contato com a diferença e o alargamento de fronteiras. a noção de pátria confundindo-se com uma construção provisória e inacabada. 2003. abalar seu suporte de ser idêntico a si mesmo. 27). pois há sempre algo no meio.

Goiânia. Normand tinha “uma vida em suspenso” ao longo dos últimos dez anos durante os quais sofria de grave doença renal. conseguem se comunicar pela criação de uma terceira língua. a disponibilidade para acolher outras histórias e outras memórias culturais” (PORTO. Embora não dominem um idioma em comum. mesmo efêmeras.Maria Bernadette Velloso Porto Não é por um simples acaso que. ao efêmero e ao não-estabelecimento de relações efetivas. VIII. No romance Passages. Assim.68). a representação do amor no contexto diaspórico remete. Quanto a Amparo. na pele de outrem. o que contribuía para uma vida de recluso em uma cidade (Montreal) que se tornara uma prisão para ele (OLLIVIER. já que suas relações são superficiais. a oportunidade do encontro – encontro do outro e de um outro lugar de referência identitária. para personagens desterritorializados. 1994. os não-lugares de nossa época se associam ao trânsito. perda e fragmentação. o encontro desse casal equivale a uma possibilidade de neutralizar sua situação diaspórica. como se o amor fosse o ato inaugural de uma outra origem. 1994. A coincidência de trajetos existenciais parece reger o encontro dos dois amantes: vindo “de longe. nos territórios da paixão e/ou da afetividade. do outro lado da vida” (OLLIVIER. Normand se identifica a Montreal. em particular. o espaço para escreverem outras marcas de parcerias. Seres 128 Revista Brasileira do Caribe.69). Ao contrário do lugar. p. na experiência amorosa. 2004. não-lugar próprio da supermodernidade aos olhos de Marc Augé (1994). Amparo e Normand se encontram em um aeroporto. à história entre a cubana Amparo e o polonês Janush. que é histórico e supõe a idéia de um vínculo. cidade de outros seres transplantados. o exílio como ruptura é compensado pela vivência amorosa que constitui. seu cotidiano nada lhe reserva de concreto e de promissor. p. e de identificarem. Identificando.86). vol. no romance Passages. Cabe-nos aqui aprofundar a leitura do amor em tempos de exílio. corpo tatuado pelo já vivido. ainda que de modo fugaz. Associado às idéias de hiato. os amantes exercitam o gesto de se enraizarem. Conhecendo um duplo transplante (identitário e cirúrgico). um modo especial de suprir o vazio. n° 15 . p. “O importante é descobrir no corpo-texto do(a) amante.

sob o modo metafórico. revisitado pela perspectiva de Pentecostes que assegura a comunicabilidade a despeito das diferenças.128). dans l’affrontement désespéré de deux impuissantes paroles en quête de vérités (OLLIVIER. il pouvait se livrer sans restriction à ses activités de peintre. Por isso. a experiência maior da alteridade. Como se exprimissem. ou do outro lado do espelho. de impossibilidades. o exercício do diálogo.Uma voz da diáspora haitiana. Colocando em prática uma espécie de sacralização do amor. apesar de todos os desafios e riscos. seguindo diversos roteiros em que adotam várias identidades. a possibilidade de entendimento entre dois mundos. Assim. de não-dito. Ils avaient fini par créer une langue médiane mâtinée de gestes et surtout de silences. como se exercitassem. por meio do jogo amoroso. da fronteira. 1994. Mergulho vertiginoso no fundo de si mesmo./dez. bénéficiaire d’une bourse du gouvernement français. p. Il était polonais. sua linguagem parece ilustrar a recuperação do episódio bíblico de Babel. constituindo “a busca desvairada 129 jul. eles tiram partido da capacidade tradutória. inúmeros deslocamentos e trajetos inéditos. Aucun des deux ne parlait la langue de l’autre: typique dialogue Est-Ouest. atualizando. para além de suas opacidades culturais. como na vivência da diáspora. Janush était de ces êtres sensibles qui captaient intuitivement toutes les manifestations de la vie. elle avait rencontré Janush. Qu’importait ce manque! Une langue commune n’est pas absolument indispensable à la prise des langues et l’emmêlement de deux vies. experimentam. 2007 .. Il parlait polonais. Leurs échanges se situaient en deçà ou par-delà les langues. Feita de silêncios. os dois personagens apontam para o exercício maior dos diálogos interculturais: Un jour à la cité des Arts. o amor se mostra capaz de abalar as certezas identitárias. os amantes transformam o quarto do hotel em Paris em uma espécie de templo. Elle ne comprenait que l’espagnol et l’anglais.. Le silence fondait leur relation. baragouinait le français. os dois amantes vencem qualquer impedimento.. onde assumem diferentes papéis..

reinventando seu cotidiano.Maria Bernadette Velloso Porto de uma parte de si mesmo. já que os parceiros investem na contínua renovação de papéis e de lugares 130 Revista Brasileira do Caribe.. eles imaginam que viajam a cada noite. mourir sous les toits de cette mansarde de l’avenue de Wagram à Paris. convidando-os para exercitarem o próprio simbólico que. com a unidade narcísica. há muito esquecida” (OLLIVIER. descobrem-se em um lugar diferente da cama. há um grande mapa-mundi e a cada novo dia. como se o movimento de seus corpos os levasse a um outro continente. da pluralidade e da hibridação. Abalando.p. p. n° 15 . nous traversions plusieurs fois le globe. 1994. Goiânia. Le ciel de notre lit figurait une carte du monde et chaque jour. o pacto amoroso aposta na estranheza. l’aventure commençait dès le petit matin. le lendemain à Singapour. Ele convoca o entredois. pois.131). 1994. faisions escale dans des contrées prodigieuses. visitions des pays de légendes et de merveilles : cratères éteints de la cordillière des Andes. no deslocamento.129). No teto do quarto de hotel parisiense. p. após uma noite de amor. o amor os leva a se despirem de qualquer sugestão de fixação. à luz da experiência diaspórica.)”(SIBONY. ‘viagens’(. Nous revenions sur les ailes de midi. conforme foi visto na citação de Sibony o suporte identitário dos dois personagens.1991. o amor não poderia se manifestar em contexto marcado pela idéia de unidade: como falta e busca. Por isso mesmo. define-se como reinvenção permanente e experiência do heterogêneo. isto é. Certains matins. Exprimindo-se criativamente em situação de fronteiras culturais. Janush et moi nous nous réveillions sur un point différent de la planète. Trata-se ainda da vivência do imprevisível e da renovação cotidiana da disponibilidade para o gesto de partir: Avec Janush. “não combina com o um-só. Vivido. de acordo com Daniel Sibony. nous prenions le petit-déjeuner à Sidney. Oiseaux migrateurs. vol. Orient imaginaire. lovés dans l’été de notre édredon (OLLIVIER. passagens. à New Delhi ou à Buenos Aires.57). Kilimandjaro aux neiges fumantes. VIII..

gostos e ritmos e à liberação do corpo grotesco próprio da carnavalização rabelaisiana. em que diversos níveis lingüísticos coabitam sem hierarquias. Assim. Na reconstituição de suas memórias elaboradas em Montreal. identitários. graças à inclusão da multiplicidade de cores. Isso explica a cenografia do ritual amoroso inventado por esses personagens que elegem a vivência amorosa (e aqui pouco importa se se trata de amor ou de paixão) como espaço significativo da condição diaspórica. o que reforça a paratopia de seres desterritorializados. Atenta aos excessos característicos do carnaval. associada às expectativas de um ir além. um grande lirismo se destaca nessa obra. Émile Ollivier imprimiu em seu romance as marcas da Poética da Relação proposta por Édouard Glissant (1990). surpresos diante da manifestação dionisíaca da diferença em seu território. Hibridação de registros de língua.71). Como salienta Louise Gauthier (1997. odores. Valendo-se das promessas da diáspora.Uma voz da diáspora haitiana. Se na narrativa da viúva de Amédée. como todo desejo – de “escreverem” suas histórias graças à travessia de línguas e de memórias corporais e culturais. o personagem Leyda evoca esse momento expressivo do encontro de culturas e seus efeitos sobre os quebequenses. para empreender uma viagem em um universo marcado pela riqueza de imagens e de metáforas inesperadas. ela registra o 131 jul.. na riqueza da não-coincidência.. pertence a um domínio mais culto do francês. identificam-se a sabedoria ligada à experiência presente em provérbios haitianos e o ritmo próprio do conto e da oralidade. Cabe agora ressaltar que o prazer da leitura do romance Passages está diretamente ligado à representação das movências: o leitor é chamado para se deslocar dos limites de seu mundo. Espaço da polifonia e da pluralidade. p. a do personagem Régis – que tece as ligações entre diversas histórias./dez. de paisagens e de manifestações culturais que remetem a um “dépaysement” criativo que nada tem de exótico. precisam levar adiante seu desejo – sempre movente. 2007 . o livro em questão coloca na paisagem transcultural montrealense a explosão do orgiasmo carnavalesco caribenho. engajando-se em uma escrita fundamentada na hibridação.

échouaient là. pulsions sauvages de la violence lascive des tropiques. après avoir fait le tour du monde. renovada pela irrupção dos signos da alteridade: Leyda gardait en mémoire l’image de toutes les couleurs de peaux se côtoyant dans une débauche de costumes bigarrés. de phallus aux proportions gigantesques. royaume de testicules. une cacophonie. cette partie de la ville devenue soudain folle (. de trous. un coup pour moi. démêlés. assoiffés de fentes.38-39) Na lógica da carnavalização. une horde de corps que des coulées de sueur font luire au soleil . méringue. de vanille. de piment. de clou de girofle. casseroles ébréchées. dans ce parc de Notre-Dame-de-Grâce. de basilic.. cercles de femmes. serpentins qui deviennent cerceaux emmêlés. un coup pour toi.Maria Bernadette Velloso Porto transbordamento de limites. Et les odeurs! Des matrones. du bruit qui soudain devient rythmes. n° 15 .. masques. a dessacralização da cultura oficial. femmes-lézards. tout cela vibrait sous le regard médusé des archéo-Québécois qui auraient pris panique. reggae. vol. femmes-libellules. bouquets de canelle . plantes parvenues à maturité sans que l’on puisse en préciser l’âge. des assauts de fantaisie. d’ail. steelbands d’un jour. incitant à des déhanchements. pâtés relevés de poivre. une foule criant haut et fort. vieux bidons d’essences. rubans de dentelles. femmes-tortues. dá-se uma série de transformações: a revelação do mundo às avessas. 1994. défilés de couples mimant des scénes d’accouplement. des punchs exotiques. de fourreaux. plantes plantureuses aux yeux rouges de plusieurs veilles de laborieuses préparations. calypso. Et l’on voit passer des bipèdes obscènes sur des plates-formes mobiles. rythmes célébres qui. sandwichs à l’avocat. n’était la présence massive et rassurante de la flicaille prête à toute éventualité (OLLIVIER. rabordaille. a transgressão ou a travessia das fronteiras da ordem cotidiana. a manifestação do corpo grotesco 132 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia.) Et l’on tape sur tout ce qui peut résonner : bouteiilles vides. distribuent victuailles et rafraîchissements . p. de fruits de la passion: irruption de la Caraïbe des origines . VIII. de muscade.

as mulheres conhecem. No âmbito de jogos identitários característicos do carnaval. Seja como for. aprofundou sua experiência do entre-dois. investindo. nossa relação com o passado e com a origem é sempre passível de releitura e nos permite atestar a veracidade de uma afirmação do romance: “(. 240). mesmo localizados. No caso de Ollivier. os corpos individuais encontrando seu prolongamento no corpo social “contaminado” pelos apelos caribenhos. 1994. 2007 . na vela do barco que levaria alguns haitianos a Miami... em formas diferenciadas de identidade. e da sexualidade desenfreada. no Quebec.83). cultuados em seu país natal. mostra-se disponível para incluir em seus referenciais identitários valores e 133 jul. Entretanto. Isso indica o caráter de duplicidade identitária do autor que. mantenedora da ordem. ainda que debaixo de fantasias e disfarces. foram bordadas imagens do panteão católico e de divindades do vento e do mar. elas parecem brincar de outras possibilidades de ser e de estar no mundo. Sugerindo a dupla inscrição identitária do autor.. mesmo que por momentos.) o ser humano não pára de se inventar” (OLLIVIER. atinge a todos. Por uma espécie de crescendo. lagarto e tartaruga./dez. Assim. p. Longe de se fundamentarem numa visão folclorizante da diferença. com seus excessos e transgressões de limites habituais. Desse modo. insinuando que toda essa algazarra é apenas provisória. Todavia. p. por mais que a identidade esteja ligada aos movimentos do devir. recusando-se a reconhecer uma concepção simplista de pertencimento. a vivência da religiosidade por parte de personagens é marcada pelo sincretismo. ao longo da qual o improviso é permitido. e a presença dos excessos associados à enumeração. o carnaval caribenho reinventado em uma metrópole da América do Norte acena com as promessas de renovação e de metamorfose. abalada com a desmedida da festa carnavalesca. o devir animal: revestindo-se de atributos de libélula. 2003. as referências a manifestações culturais do Haiti desempenham sempre um papel relevante na obra de Émile Ollivier. comprova que. a euforia contagiante da festa. todos nós nos originamos e falamos a partir de “algum lugar” (HALL. a cerimônia vodu realizada a bordo do barco. a polícia permanece de sobreaviso.Uma voz da diáspora haitiana..

La mémoire sans frontières : Émile Ollivier. 1997. S. Da diáspora : identidades e mediações culturais. ela também pode ser concebida como falta. Sainte-Foy (Québec) : Les Presses de l’Université Laval. « Littérature et culture nationale du Québec : le clivage culture savante/culture populaire ». Paris : Seuil. Fronteiras. a despeito de alguma resistência.). transferts culturels et l’expérience de l’habitabilité dans les romans d’exil d’Émile Ollivier”. GLISSANT. Montréal : Presses de l’Université de Montréal. GAUVIN. Langagement : l’écrivain et la langue au Québec.. 2005. 1995. Introduction à une poétique du divers. 2003. 2000. É. les maux du pouvoir : des romanciers haïtiens de l’exil. Belo Horizonte: Editora da UFMG. Bibliografia AUGÉ. Campinas. Paris : Seuil. G. In : Revue Internationale d’Études Canadiennes n° 27. n° 15 .(org. insuficiência e ausência que levam o ser humano a largar as amarras de um porto seguro das certezas para se deixar envolver pelos movimentos do devir e pela expansão diaspórica.In : PORTO. Montréal : Boréal. J. Brasília: Representação da UNESCO no Brasil. 1986. GLISSANT. CASANOVA. Le discours antillais. & JACQUES. paisagens na literatura canadense. HALL. 1990. Naïm Kattan et les écrivains migrants au Québec. S.Maria Bernadette Velloso Porto produtos culturais do país que o recebeu. M. Por sua vez. Ottawa : Conseil International d’Études Canadiennes. Les pouvoirs des mots. La République Mondiale des Lettres. BOUCHARD. São Paulo: Papirus. Paris : Gallimard. numa via de mão dupla enriquecedora. GLISSANT. 2003. É . VIII. 134 Revista Brasileira do Caribe. M. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Montréal : Les Presses de l’Université de Montréal. M. BAUMAN. Z. P. 1994. distinção e ruptura. Paris: Éditions de l’Arcantère . 2000. passagens. GAUTHIER. L. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. E se a idéia de identidade supõe limites. JONASSAINT. L.. vol. esse se viu transformado com as vozes caribenhas. Niterói: EDUFF/ABECAN. 1997. Goiânia. HAREL. Identidade. “L’écrivain témoin : déplacement. É. Poétique de la Relation. 1999. exclusão.

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