TRABALHO ESCRAVO NO BRASIL: ANÁLISE A PARTIR DO EXEMPLO DE MATO GROSSO Rafael de Araújo Gomes, Procurador do Trabalho, Membro da Comissão

Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo de Mato Grosso e da Coordenadoria Nacional de Combate ao Trabalho Escravo do Ministério Público do Trabalho Junho de 2008

Sumário: 1. Introdução; 2. Definição contemporânea de trabalho escravo; 3. Razões do trabalho escravo no Brasil; 4. Dimensões do problema, particularmente em Mato Grosso; 5. Conclusão Palavras-chave: trabalho escravo; trabalho em condições análogas à de escravo; trabalho degradante; condições de trabalho em Mato Grosso; fiscalização do trabalho; trabalhador rural

1. Introdução Segundo Norberto Bobbio, em uma passagem já célebre do livro “A Era dos Direitos”: “O problema fundamental em relação aos direitos humanos, hoje, não é tanto o de justificá-los, mas o de protegê-los.” Tal afirmação mostra-se muito pertinente e atual, especialmente quando falamos em trabalho escravo, e ainda mais quando o país em questão é o Brasil. Isso porque, em nosso país, ninguém irá revelar, abertamente, que é favorável ao trabalho escravo. Ninguém mais irá relevar, publicamente, que é contra direitos fundamentais da pessoa humana, contra o direito à vida, à saúde, à dignidade. Portanto, em tese, todos seríamos favoráveis à eliminação dessa forma de exploração do homem pelo homem. Mas quando se trata de mudar o status quo, ou seja, de transformar em realidade tais direitos fundamentais, vemos então que o discurso de muitos sofre uma súbita alteração, e as resistências surgem, pelos mais variados motivos. Argumentar-se-á, por exemplo, que a imposição de exigências “demasiadas” ao produtor rural acabará por arruiná-lo, ou que isso irá gerar desemprego. Argumentarão, também, que o trabalho rural, no qual se verifica mais comumente o trabalho escravo, é por sua própria natureza mais “rude”, sendo inviável estender a mesma proteção assegurada a todo empregado urbano aos empregados rurais. Tal dissonância de discursos significa que, do ponto de vista teórico e ideológico, a legitimação dos direitos humanos encontra-se bem estabelecida, ao menos na arena pública. Do ponto de vista da efetividade de tais direitos, entretanto, questão prioritária de nosso tempo, como destaca Bobbio, estamos apenas engatinhando. Enfim, todos irão concordar que não deveria existir o trabalho escravo, em pleno século XXI, mas muitos não admitirão que se faça aquilo que é necessário ser feito para eliminar o
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problema. E o problema de fato existe, e é crônico, especialmente em Mato Grosso. Falaremos sobre números do trabalho escravo logo mais, mas por enquanto basta lembrar que 2007 foi o ano em que se bateu o recorde de trabalhadores libertados, em 13 anos de existência do Grupo de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego. Tal quadro muito se explica pela dívida histórica, raramente trazida ao centro dos debates políticos, que o Brasil tem com os seus trabalhadores rurais, além, é claro, do fato de nosso país ter sido a última nação das Américas a abolir a escravidão, em 1888. De fato, diferentemente do que ocorreu no México e na Argentina, países muito semelhantes ao Brasil, tanto do ponto de vista social quanto da regulamentação de direitos trabalhistas (centrada na lei e não na negociação coletiva), os trabalhadores rurais permaneceram quase que completamente esquecidos até a década de 60. Quanto ao México, devemos recordar que a revolução mexicana do começo do século passado, que conduziu à Constituição de 1917, a primeira a, de fato, constitucionalizar direitos sociais1 e trabalhistas, tinha por força motriz a mobilização de camponeses, de trabalhadores rurais. Na Argentina, com Perón, foram aprovadas na década de 40 leis de proteção ao trabalhador rural, como o “Estatuto del Peón”, decreto que contemplava direitos como salário mínimo, férias, assistência médica, editado por Perón apesar da forte resistência dos “estancieros” (grandes proprietários rurais). Veja-se que, na época, Perón defendia a nova legislação com argumentos humanitários, e dizia: “A escravidão foi extinta pela constituição de 1853. Mas não será escravo alguém que receba 15, 30 ou 40 pesos por mês?” No Brasil, no mesmo período, o trabalhador rural era expressamente excluído da proteção das leis aprovadas na década de 30, e reunidas e alteradas na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) em 43. Muito disso se deve ao fato de que Getúlio Vargas, embora buscasse sustentar seu regime com o apoio dos trabalhadores urbanos (antecipando-se, em determinados casos, às reivindicações de tais trabalhadores), fez-se sensível aos interesses dos grandes proprietários rurais, classe da qual ele próprio provinha, enquanto representante da oligarquia rural gaúcha. Por esse motivo, o art. 7° da CLT, ainda hoje em vigor, expressamente excluiu da proteção assegurada por essa Consolidação os trabalhadores do campo2. Só em 1963 começaria o trabalhador rural a receber alguma proteção, com a aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural, depois substituído pela Lei 5889/73, mas, ainda assim, para outorgar ao rurícola menos direitos que aqueles reconhecidos ao trabalhador urbano. Na prática, entretanto, pelo menos até a década de 80 os direitos dos trabalhadores rurais permaneceram estritamente no papel, pela ausência completa do Ministério do Trabalho, e portanto da fiscalização do trabalho, na área rural, e também pela pouca presença, até então, da Justiça do Trabalho no interior do país.

Algumas constituições anteriores à Mexicana de 1917 já haviam contemplado certos direitos sociais, mas de forma pontual. 2 Por exceção, alguns direitos previstos na CLT foram estendidos ao rurícola, como o salário mínimo. 2
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Efetivamente o resgate da dívida histórica do Brasil com os seus trabalhadores rurais só começou com a Constituição Federal de 1988, que nivelou-os aos urbanos, mas ainda está longe de terminar. Evidência disso é a persistência do trabalho escravo, caracterizado, a despeito de alguns focos em meios urbanos3, pela exploração sem limites do trabalhador rural. 2. Definição contemporânea de trabalho escravo Mas o que é o trabalho escravo? A primeira observação que se faz é a de que, segundo a doutrina pátria, o correto é dizer trabalho em condições análogas à de escravo. O escravo, como existiu no Brasil até 1888, era objeto de propriedade. Não se reconhece hoje que alguém possa ser, juridicamente, escravo, ainda que de forma ilícita, ou seja, mesmo à margem da lei. Não se admite, rigorosamente, dizer que alguém hoje seja escravo, mas sim que está sendo tratado como se escravo fosse. Mas, tendo-se em mente tal ressalva, costuma-se usar a expressão abreviada trabalho escravo, por economia de palavras, como será feito no presente artigo. Ainda hoje há divergências sobre o enquadramento de certas situações como trabalho escravo. Há aqueles que entendem que só é escravo se há restrição à liberdade, e há aqueles que entendem, a partir da nova redação do art. 149 do Código Penal, que também o trabalho degradante é trabalho prestado em condições análogas à de escravo. Observe-se que, para fins trabalhistas, nós de fato temos que ir ao Código Penal, pois nenhuma lei trabalhista brasileira traz o conceito de trabalho escravo. Até 2003, a definição típica trazida pelo Código Penal do crime de redução a condição análoga à de escravo era a seguinte: “Submeter alguém a condição análoga à de escravo”. Trata-se, a toda vista, de um tipo penal praticamente inútil, eis que demasiadamente aberto. O que é condição análoga à de escravo? O Código não dizia. A questão ficava quase que totalmente entregue à imaginação – e ao arbítrio – do julgador. Em 2003, o art. 149 foi alterado pela Lei 10.803, ganhando a seguinte redação: Art. 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto: Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência. § 1o Nas mesmas penas incorre quem: I - cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho;

Tendo como vítimas, em muitos casos, imigrantes ilegais, que se submetem a jornadas exaustivas – em indústrias da confecção de São Paulo, por exemplo – por receio de serem mandados de volta a seus países de origem, como Bolívia. 3
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II - mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho. Vê-se aí basicamente dois tipos de exploração do trabalhador sendo englobados no mesmo conceito de trabalho escravo: um é o trabalho forçado (quando há restrição à liberdade e à autodeterminação, seja pela imposição de uma dívida, seja por cerceamento de transporte, manutenção de vigilância ostensiva ou qualquer outra forma). O outro tipo é o trabalho degradante, cuja definição o artigo não apresenta (repetindo-se em parte, aqui, o defeito que o art. 149 apresentava antes da alteração de 2003), mas nessa figura podemos incluir a jornada exaustiva (quantidade excessiva de horas trabalhadas por dia), que se encontra expressamente mencionada. O que é trabalho degradante? A lei não diz4. Mas o que é degradar? Segundo o dicionário (lembrando que o significado gramatical há de ser o primeiro a ser considerado pelo hermeneuta), degradar é tratar de forma aviltante, é retirar a dignidade, é tornar desprezível. O núcleo do conceito parece estar depositado, portanto, na ofensa ao direito à dignidade, que constitui um dos princípios fundamentais do Estado Brasileiro, na forma do art. 1° da Constituição Federal. A dignidade também é, aliás, um dos valores nos quais se fundamenta todo o constitucionalismo pós 2ª Guerra Mundial5. Trabalho degradante, então, é o trabalho prestado em condições indignas, que ofendem não só a vítima, isto é, o trabalhador diretamente lesado, mas toda a sociedade, que é abalada diante de agressões de tamanho vulto à dignidade de quaisquer de seus membros. Via de regra, a degradância está relacionada com condições de saúde e de segurança no trabalho. Degradante é aquele trabalho desempenhado em condições tão ruins, tão grotescas, que humilha, destrói e oprime o trabalhador, o qual passa a ser tratado como coisa, como uma peça de produção a ser usada e abusada até que se desgaste e seja substituída, e não como um ser humano. Nesse sentido, o escravo moderno é tratado, sob certo aspecto, de forma pior que o escravo de antigamente. Quando a escravidão era juridicamente reconhecida, o escravo era propriedade de seu dono, e se morresse, o dono sofria um abalo em seu patrimônio. Em condições normais, portanto, o escravagista iria procurar preservar as suas posses, cuidando para que seu escravo não se tornasse seriamente debilitado ou morresse. Hoje, entretanto, os trabalhadores são descartáveis, e quando morrem ou adoecem, em razão das péssimas condições em que trabalham, são imediatamente substituídos, sem cerimônia6. Não há uma linha divisória rígida, na lei, que nos diga o que é degradante. Mas na prática, quando nos defrontamos com uma situação concreta, a maioria de nós irá concordar com o que é e o que não é degradante. O trabalho em condições degradantes é algo tão forte, tão chocante, que não há como não ficar horrorizado. Falando em abstrato, parece difícil, mas na prática não é.
De lege ferenda, portanto, deveria o art. 149 ser aperfeiçoado, com a explicitação de hipóteses caracterizadoras do trabalho em condições degradantes, como a não disponibilização de alojamentos minimamente adequados ou de água potável. 5 Conflito que tornou extremamente claro, para toda a humanidade, as conseqüências de não se eleger a dignidade humana como fundamento do Estado e de todo poder que se pretenda legítimo. 6 E como, via de regra, sua Carteira de Trabalho não se encontra anotada, permanece ele à margem de qualquer proteção da Previdência Social, à qual faria jus. 4
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Exemplos de condições degradantes podem ser vistas em vídeos disponíveis na internet, especialmente aqueles relacionados à campanha recentemente lançada pelo Ministério Público do Trabalho e o Ministério Público do Estado de Mato Grosso, para alertar a sociedade sobre as formas modernas de trabalho escravo. Os vídeos dessa campanha7 foram elaborados com imagens de fiscalizações realizadas em Mato Grosso pelo Ministério Público do Trabalho, em 2007 e 2008. Degradante, e portanto indigno, pode ser o local onde se dorme, onde se está alojado, que em muitos casos é um barraco de lona plástica escondido no meio do mato, com o chão de terra, que quando chove torna-se lamacento, e não oferece proteção contra as intempéries (chuva, vento, etc.) ou contra animais peçonhentos. Degradante, também, pode ser a água que se bebe, proveniente de “minas” ou córregos, sem quaisquer cuidados quanto à sua qualidade, assim como a comida que se ingere, em muitos casos infecta. Será degradante, também, a completa ausência de instalações sanitárias, o que obriga o trabalhador a fazer suas necessidades fisiológicas no mato, ou a existência de banheiros imundos e em quantidade insuficiente para o número de trabalhadores. Degradante poderá ser, ainda, a ausência de assistência à saúde, fato especialmente grave no Estado de Mato Grosso, onde são comuns as doenças tropicais, e o não fornecimento dos equipamentos de proteção indispensáveis, omissão que sujeita, por exemplo, os trabalhadores que laboram na aplicação de agrotóxico a riscos como o câncer, a impotência, a esterilidade e a morte. Todas essas situações são típicas e podem ser encontradas em muitas regiões de Mato Grosso, tanto em fazendas localizadas nas cercanias de centros urbanos quanto em localidades mais remotas. Tudo isso, enfim, está acontecendo agora, em prejuízo de milhares de trabalhadores. E se o trabalhador não estiver contente com tais condições degradantes, ele via de regra sempre pode sempre ir embora, ou ao menos isso dirá seu empregador. Para sair, bastará percorrer a pé as dezenas de quilômetros que em muitos casos separam as fazendas da cidade mais próxima, ou contar com a sorte de, em algum trecho de tal percurso, obter uma carona. Por tais circunstâncias se vê que o trabalho degradante e alguma espécie de limitação à liberdade de ir e vir costumam andar juntas. As condições acima apresentadas constituem a modalidade de trabalho escravo mais comum em Mato Grosso, e em inúmeras outras regiões do país. Na verdade, ela talvez possa ser encontrada, especialmente na região norte de Mato Grosso, em uma a cada duas fazendas, sem haver nisso qualquer exagero. De fato, ainda hoje permanecem extremamente comuns os barracos de lona, a falta de transporte, a não disponibilização de equipamentos de proteção individual (EPIs), a utilização de agrotóxicos sem qualquer cuidado, a falta de banheiros, o consumo de água não tratada ou filtrada. Claro que, para algo ser degradante, é preciso que nem tudo o seja. Não será qualquer violação à legislação trabalhista que caracterizará o trabalho em condições degradantes. Ele é habitualmente identificado por uma soma de violações às normas de saúde e segurança, um acúmulo de agressões aos direitos dos trabalhadores, que em seu conjunto acabam por ultrapassar a barreira do que pode ser suportado sem a submissão do homem à condição de coisa. Inicialmente, então, temos a situação paradigmática, que sempre caracterizará
Links para visualização dos vídeos, que se encontram na página do YouTube na internet: <http://br.youtube.com/watch?v=ntysCsq8bFA>; <http://br.youtube.com/watch?v=zUaPJZF5S3c>; <http://www.youtube.com/watch?v=3ZC3kf3qlw0>; <http://www.youtube.com/watch?v=yPykrkX4I2I> 5
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trabalho degradante: barraco de lona plástica, sem disponibilização de água, sem local para as refeições, sem banheiro, sem equipamentos de proteção, sem assistência médica. E a partir disso temos situações progressivamente menos graves, mas que ainda caracterizam trabalho degradante: digamos, há água potável, mas não há equipamento de proteção, e há alojamentos, os quais, entretanto, são superlotados, sem camas e sem ventilação. E quando há alojamentos, não existe superlotação, mas a jornada é excessiva e extenuante, o trabalho é penoso, o transporte até o local de trabalho se dá em veículos inseguros, os banheiros são imundos e os equipamentos de proteção encontram-se estragados e não são substituídos, situação comum na lavoura de cana, aqui também se reconhecerá o trabalho degradante. Mas se há alojamentos, água potável, transporte seguro, alimentação sadia, mas nem todos os EPIs são fornecidos, e as CTPS não são anotadas, já não teremos uma situação degradante, embora tenhamos violações significativas à legislação trabalhista, que também merecem ser corrigidas. Mas, recapitulando, se o trabalho degradante encontra-se expresso no art. 149 do Código Penal (ainda que o dispositivo não esclareça o seu exato alcance), porque há aqueles que, ainda hoje, entendem que trabalho escravo é apenas o trabalho prestado com restrição à liberdade? Uma explicação talvez seja o fato de que esse é justamente o conceito clássico, mais difundido, de trabalho escravo, também conhecido como plágio desde os tempos da Roma antiga, com a submissão completa de um ser humano a outro, que se arroga os poderes de dono. Outra explicação residiria na circunstância de que as normas internacionais, em especial a Convenção n° 29 da OIT, referem-se apenas ao trabalho forçado ou obrigatório, e não ao trabalho degradante. Um terceiro possível motivo estaria no fato de que o art. 149 se encontra na seção do Código Penal que diz respeito aos crimes contra a liberdade pessoal, juntamente com o constrangimento ilegal, a ameaça, o seqüestro e cárcere privado. Interpretariam alguns o tipo a partir de sua posição no Código. Quanto a tal explicação, há de se objetar que o crime de ameaça nunca sofreu restrições por não se referir, com exclusividade, à proteção da liberdade. De fato, se ameaço alguém de morte, só porque não gosto dessa pessoa, isso é uma ameaça, ainda que a restrição à liberdade de ir e vir ou de autodeterminar-se não seja a principal ofensa envolvida. Em realidade, não é apenas a posição de um dispositivo no Código Penal que determina quais bens jurídicos são pela norma protegidos. No caso da ameaça, além da liberdade, também são a paz de espírito e a segurança os bens da vida que estão sendo tutelados. Da mesma forma, no caso do trabalho escravo, segundo entendo, não só a liberdade, mas também a dignidade e a saúde estão sendo protegidas, através da atual redação do art. 149. E há de se reconhecer que também tais direitos são merecedores de tal proteção. Quanto às duas primeiras razões acima apresentadas, que fundamentariam uma interpretação mais restrita do conceito de trabalho escravo, há de se considerar que, em 2003, o legislador brasileiro decidiu pela introdução de uma inovação, visando, precisamente, ampliar a proteção conferida aos trabalhadores. Trata-se de uma opção legislativa deliberada, que merece ser reconhecida e
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respeitada, eis que exercida democraticamente, sob pena de, a pretexto de interpretarmos a lei, acabarmos por na prática derrogá-la. Nesse sentido, há de se recordar que o Projeto de Lei nº 7.429/2002, de autoria do Senador Waldeck Ornelas, que acabou sendo convertido na Lei nº 10.803, chegou a receber parecer negativo de seu relator, o Senador Júlio Delgado, o qual recomendava a exclusão da expressão “condições degradantes de trabalho”, por considerá-la vaga. Tal entendimento não foi referendado pela maioria dos parlamentares, tendo sido aprovada, inequivocamente, a proposição de ampliar o rol de condições definidas como análogas à de escravo. A opção do legislador poderia ter sido outra. Poderia ter sido criado um tipo penal exclusivo para o trabalho degradante. Ou então a posição do relator do Projeto poderia ter prevalecido, não sendo incluída no Código Penal qualquer menção a condições degradantes de trabalho. Não foram essas, entretanto, as escolhas do legislador em 2003. Pretendeu-se, parece-me, justamente ampliar o rol de condutas penalmente típicas, alcançando hipóteses novas – trabalho degradante, jornada exaustiva –, associando-as propositadamente a um delito já reconhecido por juristas e leigos como extremamente grave, e que desperta imediata repulsa e comoção, que é o trabalho escravo. O estabelecimento da associação trabalho degradante/trabalho escravo não foi fortuito, repita-se, mas deliberado, e seu sentido é o de ampliar a proteção conferida pelo Estado aos trabalhadores, estabelecendo um novo patamar civilizatório mínimo a ser respeito por empregadores em toda a parte. Tal decisão, efetuada pelo legislador pátrio em 2003, mostra-se plenamente justificável, pois o trabalho em condições degradantes é uma forma de exploração tão odiosa quanto o trabalho forçado. Suas conseqüências são também graves e perversas: no trabalho forçado, o trabalhador é tratado como propriedade, e não tem liberdade; no trabalho degradante, o ser humano é tratado como coisa, e não tem dignidade. Elogiável, por conseguinte, a decisão de reunir as figuras em um mesmo tipo penal. Hoje, levando em conta o reduzido número de denúncias, e o ainda menor número de condenações criminais, pelo art. 149 do Código Penal, a principal conseqüência do reconhecimento do trabalho degradante como trabalho escravo tem ocorrido na esfera administrativa, para fins da aplicação da Portaria nº 540/2004 do Ministério do Trabalho e Emprego. Tal Portaria instituiu, no âmbito do MTE, o cadastro de empregadores que mantiveram trabalhadores em condições análogas à de escravo, popularmente referido como “lista suja” do trabalho escravo. A inclusão do nome de um empregador nesse cadastro se dá ao final de um procedimento administrativo, que tem por início a realização de ação fiscal pelo Ministério do Trabalho e a lavratura de auto de infração, reconhecendo que trabalhadores estavam sendo submetidos a condições análogas à de escravo. Quem efetua o reconhecimento de tal submissão são os Auditores Fiscais do Trabalho responsáveis pela ação fiscal, sendo que os casos de trabalho degradante tem sido a principal situação ensejadora da lavratura de autos de infração por trabalho em condições análogas à de escravo.
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A maior conseqüência da inclusão de um empregador na “lista suja” é o obstáculo ao recebimento de empréstimos e financiamentos com recursos públicos, na medida em que a lista é utilizada por bancos e instituições oficiais8 como parâmetro para a concessão ou não de tais créditos. No entanto, caso o Congresso Nacional venha a aprovar a Proposta de Emenda à Constituição nº 438/2001, a polêmica em torno da caracterização do trabalho degradante como trabalho escravo provavelmente voltaria à tona, com força, pois as conseqüências para o empregador seriam ainda mais drásticas. Afinal, a PEC 438, já aprovada em primeiro turno pelo Congresso, prevê a expropriação (perda da propriedade sem direito a indenização) dos imóveis rurais e urbanos “onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo”. Apesar da PEC ser reconhecida como um instrumento fundamental à erradicação do trabalho escravo no Brasil, tendo recebido manifestações favoráveis de inúmeras instituições, autoridades e lideranças nacionais, a Proposta aguarda há anos para ser incluída na pauta do dia, e submetida à segunda votação pelo Congresso, eis que contra ela se mobilizam os parlamentares ligados à bancada ruralista. Caso a proposta venha a ser aprovada, certamente o exato conceito de trabalho em condições análogas à de escravo voltará a despertar fortes discussões. Em primeiro lugar, a emenda não utiliza a expressão mais técnica, mencionando apenas “trabalho escravo”. Em segundo, a conseqüência do reconhecimento do trabalho degradante, ainda hoje extremamente comum, como trabalho escravo será, para o proprietário escravagista, a perda da terra, sem direito a indenização. Previsivelmente, muitas novas teses jurídicas nascerão indispondo-se contra a equiparação de degradante a escravo, vindas em socorro aos interesses econômicos de tais fazendeiros. 3. Razões do trabalho escravo no Brasil A menção aos interesses econômicos envolvidos nos leva a outro aspecto fundamental da verdadeira face do trabalho escravo hoje no Brasil, que é o inegável poderio econômico daqueles que exploram sem limites o trabalhador, especialmente o rurícola, e os seus estreitos laços com o poder político. Realmente, ao contrário do que habitualmente se supõe, o trabalho escravo não é algo marginal à economia brasileira, fruto de desvios causados por pessoas rudes e ignorantes. Ao revés, a exploração do trabalho escravo, especialmente na modalidade de trabalho degradante, costuma ser “o lado de trás”, quase invisível, de empreendimentos econômicos supostamente modernos e bem sucedidos. No rastreamento da cadeia produtiva do trabalho escravo, que aponta quais empresas se aproveitam do trabalho escravo para a produção de seus produtos e serviços, iremos encontrar grandes e conhecidas marcas, gigantescas empresas multinacionais, e empresários rotineiramente saudados como importantes lideranças nacionais. Nesse sentido, muitas das maiores empresas siderúrgicas do país já se utilizaram ou continuam se aproveitando economicamente da mão-de-obra escrava existente em carvoarias
Além disso, inúmeras empresas privadas também adotam o mesmo procedimento, e o fazem espontaneamente, através de sua adesão ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, promovido pelo Instituto Ethos, OAB e Repórter Brasil. Através da adesão ao Pacto, tais empresas assumem o compromisso de não comercializar com quem figura na “lista suja”. 8
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espalhadas em diversas partes do país, nas quais costumam ser encontrados inclusive crianças e adolescentes em condições absolutamente deploráveis9. Da mesma forma, muitas roupas produzidas por grifes famosas também se utilizam do algodão produzido com o aproveitamento de trabalhadores submetidos a condições degradantes. E parte da carne adquirida em grandes supermercados nas capitais do país, ou restaurantes da moda, certamente provém de fazendas nas quais os trabalhadores são mantidos em barracos de lona sem quaisquer condições de saúde ou higiene, passando por grandes empresas frigoríficas antes de chegar ao consumidor. Outrossim, o etanol, saudado a quatro ventos como o motor de um novo e iminente milagre do desenvolvimento no país, vem sendo, de forma rotineira, produzido graças à exploração do trabalho degradante, que conduz inclusive trabalhadores à morte, em razão dos abusos a que são submetidos. Exemplo disso foi o resgate de mais de mil trabalhadores na usina Pagrisa, no Pará, em 2007. Os vínculos do poder político com o trabalho escravo também são eminentes, como demonstram os flagrantes realizados pelo Grupo Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego em fazendas pertencentes a prefeitos, deputados e senadores, entre outros. Exemplos disso são os casos, amplamente divulgados pela mídia, de descoberta de trabalho em condições análogas à de escravo na fazenda Ouro Verde, pertencente ao Senador João Ribeiro (TO), e na fazenda Caraíbas, em 2002, então pertencente ao Deputado Federal, e exPresidente da Câmara de Deputados, Inocêncio de Oliveira (PE). Outro exemplo, muito menos divulgado, foi a libertação, em 2007 no município de Blumenau/SC, de 26 trabalhadores localizados em fazenda pertencente à Coteminas, empresa do Vice-Presidente da República José de Alencar. E já em 2008, em Mato Grosso, foram encontrados trabalhadores em condições degradantes na fazenda pertencente ao ex-Prefeito do Município de Vera. Mas por que isso ocorre? Por que políticos com uma reputação a zelar correriam o risco de associar o seu nome a uma prática tão abjeta quanto o trabalho escravo? E por que empreendimentos econômicos novos e milionários, como aqueles visando a produção de etanol, acabam se aproveitando da mão-de-obra escrava, quando supostamente poderiam prescindir disso? Uma explicação habitualmente apresentada por alguns é a falta de informação. Empregadores submeteriam seus trabalhadores a tais condições por desconhecerem a legislação aplicável. Tal ignorância seria reforçada pelos costumes locais: afirma-se que, em regiões como Pará e Mato Grosso, sempre se trabalhou, no campo, dessa maneira (alojamentos precários, ausência de equipamentos de proteção, utilização de água de córregos para beber), e que os trabalhadores já estariam acostumados a isso, ou até prefeririam trabalhar assim. Todos esses argumentos são, evidentemente, falsos. Em primeiro lugar, grandes empresas e Senadores da República conhecem, com certeza, a legislação aplicável. Em segundo lugar, hoje em dia, mesmo fazendeiros de menor porte econômico sabem que manter trabalhadores em barracos de lona plástica, sem fornecer sequer água potável, é ilegal, não sendo por acaso que tais barracos encontram-se, via de regra, escondidos no meio do mato, em locais impossíveis de serem encontrados sem o acompanhamento de um informante, e que os trabalhadores sejam instruídos a se esconder ou a mentir caso apareça a fiscalização do trabalho. Em terceiro, muitos
Há decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (Pará) reconhecendo vínculo de emprego entre trabalhadores encontrados em situação análoga à de escravo em carvoaria e uma siderúrgica, a Simasa, pertencente ao Grupo Queiroz Galvão. Além disso, em 2004, foi autuada pelo MTE, entre outras siderúrgicas, a Margusa, subsidiária do Grupo Gerdau. Ambas, Simasa e Margusa, comercializam com a Vale do Rio Doce. 9
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dos fazendeiros que submetem trabalhadores a tais condições em regiões onde a prática é costumeira possuem propriedades em outras regiões ou estados, e nestes cumprem ao menos as normas mínimas de saúde e segurança, suficientes para afastar-se a degradância. Em quarto, nenhum ser humano acha “bom” trabalhar em condições degradantes, mesmo em regiões onde tal prática se perpetua a décadas, o que explica, entre outras coisas, os elevadíssimos índices de alcoolismo entre os trabalhadores rurais em tais regiões, procurando os rurícolas, supõe-se, alívio e escape ilusórios na droga para suas condições de vida. Embora a falta de informação ou conscientização possa explicar, em determinados casos, a violação de certas normas, com certeza não explica a manutenção, em pleno século XXI, do trabalho em condições análogas à de escravo em índices elevados. A causa do trabalho escravo tampouco será encontrada em argumentos de ordem moral, ou mesmo criminológica. Embora haja sim casos de empregadores escravagistas que se encontram no perfil de psicopatas, que submetem trabalhadores a torturas, por exemplo, eles constituem a exceção. Via de regra, os empregadores que exploram a mão-de-obra escrava são, em outros aspectos da vida, como quaisquer outras pessoas, e certamente não perversos ou patologicamente propensos a infligir sofrimento a outrem. O que de fato explica o trabalho escravo é, antes de tudo, a lógica do lucro, que rege uma economia capitalista, combinada com a ausência de efetiva fiscalização do cumprimento da legislação trabalhista. Uma análise interessante desse fenômeno – não específica à temática do trabalho escravo, por se referir ao cumprimento da legislação trabalhista como um todo - é feita por Adalberto Cardoso e Telma Lage no livro “As normas e os fatos 10”, cuja leitura mostra-se muito esclarecedora. Segundo Cardoso e Lage, a legislação trabalhista só tende a ser cumprida quando se conjugam dois fatores: sanção elevada pelo seu descumprimento e alta probabilidade da violação ser descoberta. Faltando qualquer um desses fatores, a legislação não será cumprida. Nesse sentido, afirmam os autores: “Empresários racionais defrontados com custos do trabalho considerados suficientemente altos tenderão a não assumi-los, a menos que as sanções sejam maiores do que esse custo e que a probabilidade de ser pego e sancionado seja suficientemente crível. Qualquer outra combinação de fatores será um incentivo ao nãocumprimento da lei11”. Não se trata, aqui, de perversidade de empresários e empregadores em geral, mas da lógica do capitalismo em ação: direitos trabalhistas, incluindo aqueles relacionados ao meio ambiente de trabalho, representam um custo elevado, que se coloca como um obstáculo ao lucro e à obtenção de uma posição mais competitiva no mercado. Nesse contexto, a tendência racional – fala-se aqui, estritamente, em racionalidade econômica, em uma busca dos meios eficazes para a obtenção de um fim, que é o lucro – será a de procurar reduzir tais custos pelo descumprimento da legislação, a não ser que a sanção seja elevada o bastante para inibir a prática ilícita e haja grande probabilidade (50% de chance ou mais, segundo Cardoso e Lage) da violação ser descoberta pelos órgãos de repressão. Tal lógica explica a disseminação do trabalho escravo, em particular do trabalho degradante, em regiões onde ele se mostra hoje comum, eis que, muito embora a sanção seja
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CARDOSO, Adalberto; LAGE, Telma. As normas e os fatos. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007. Ob. cit., p. 72. 10

elevada (multas administrativas e condenações judiciais, pela submissão de trabalhadores a condições aviltantes, costumam ser altas), a fiscalização na área rural praticamente inexiste. Um perfeito exemplo disso pode ser visto em Mato Grosso, onde há, além da sede da Superintendência Regional do Trabalho (ex-Delegacia Regional do Trabalho), localizada na capital, Cuiabá, uma única Gerência Regional do Trabalho (antiga Subdelegacia), em Rondonópolis, ao sul do estado. Ora, pelas regras do Ministério do Trabalho e Emprego, as Gerências Regionais são fundamentais, pois apenas nelas estão lotados Auditores-Fiscais do Trabalho, que realizam ações de fiscalização. Com uma só Gerência, o Mato Grosso, terceiro maior estado brasileiro, e um dos que tem apresentado, há vários anos, crescimento econômico mais acentuado, encontra-se no mesmo patamar de estados como Alagoas e Sergipe, que possuem uma fração de seu território. Dessa forma, pelo déficit de Gerências, aliado à má-distribuição das unidades do Ministério do Trabalho no Estado (concentradas ao sul), temos que a maior parte de Mato Grosso permanece desprovida de fiscalização efetiva, de nada adiantando a nomeação de novos Auditores, indicados para permanecerem em Cuiabá, pois não haverá veículos, diárias para pagamento de servidores ou mesmo combustível para viabilizar as constantes viagens que se fariam necessárias, para que tais Auditores chegassem, todos os meses, aos recantos mais distantes, e particularmente ao meio rural, onde predominam estradas de terra em péssimas condições de trafegabilidade. Há municípios no Estado que há anos não recebem qualquer ação de fiscalização. Como resultado, possui o fazendeiro escravagista não uma alta probabilidade, mas a virtual certeza que não será descoberto. As operações de Grupo Móvel do Ministério do Trabalho, que visam especificamente a erradicação do trabalho escravo, são a exceção que confirma a regra, pois tais operações são complexas e dispendiosas, havendo poucas equipes em todo o país para realizá-las, de modo que apenas um número reduzido de ações desse tipo são realizadas anualmente. Em 2007, por exemplo, foram realizadas em todo o país 116 operações de Grupo Móvel, tendo sido fiscalizadas 206 fazendas, o que constitui, é importante frisar, um esforço admirável, mas, ainda assim, é uma gota no oceano. Afinal, em diversos municípios da região norte de Mato Grosso, onde prolifera o trabalho degradante em fazendas de criação de gado, encontraremos em torno de duas mil fazendas voltadas a tal atividade12. Diante disso, tem-se o seguinte contexto referido por Cardoso e Lage: alta sanção combinada com poucas chances de ser descoberto o descumprimento, o que conduzirá, previsivelmente, à violação da lei trabalhista. A gravidade ou amplitude do descumprimento, aqui, está relacionada à extensão da ausência do Estado, representada pela carência de fiscalização do trabalho: no meio urbano, onde existe alguma chance, ainda que reduzida, do empregador ser flagrado, mesmo em municípios do interior, encontraremos o cumprimento de pelo menos de algumas imposições legais. No meio rural, entretanto, onde o Estado simplesmente não se faz presente, a maior parte das normas trabalhistas não são respeitadas, não constituindo a ofensa à dignidade humana freio ao descumprimento, pois o que prepondera é o fator econômico, e não motivações éticas.

Em Alta Floresta, por exemplo, há 2.488 propriedades rurais, das quais 2.074 com criação de gado. Em Juína a proporção é 2.637/2.110, e em Vila Rica, 1950/1950. Em todo o Estado, há mais de 104.000 fazendas com criação de gado. 11
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Veja-se que, em um contexto marcado pela ausência de fiscalização, levará vantagem o fazendeiro que mais descumprir a legislação, pois a economia que ele obtém com a supressão de direitos trabalhistas (e humanos) lhe assegurará uma vantagem competitiva com relação aos demais fazendeiros que se dedicam à mesma atividade econômica: ele poderá vender mais barato, mantendo a mesma margem de lucro, ou até mesmo alargando-a. O importante a frisar é o seguinte: não há como esperar que valores altruístas e humanitários preponderem de forma espontânea em uma economia de mercado, marcada pela competição permanente e globalizada. Quando o que vale é a necessidade de manter-se no mercado e obter o lucro, mesmo a óbvia obrigação moral e legal de preservar-se um patamar civilizatório mínimo não constituirá freio o bastante. Valores de ordem não econômica – como o respeito à dignidade de todo ser humano (e não apenas daqueles com dinheiro o bastante) precisam ser impostos aos agentes econômicos, pois são estranhos às regras do jogo capitalista13. No meio rural, os sindicatos e entidades da sociedade civil não se mostram fortes o bastante para assegurar, minimamente, tal imposição, logo esse papel precisa ser desempenhado pelo Estado, aí incluídos fiscalização do trabalho e Sistema de Justiça. Ressalte-se que tais fatores econômicos são indissociáveis de fatores políticos, pois através da dominação política assegura-se a manutenção do status quo e, por conseguinte, das margens de lucro. Nesse sentido, além da economia decorrente da supressão de direitos, procuram os fazendeiros escravagistas, via de regra grandes proprietários rurais, manter o poder político que possuem através do não reconhecimento dos direitos de que são titulares os trabalhadores. Afinal, um trabalhador plenamente cônscio de seus direitos buscará exercer sua cidadania, elegendo, por exemplo, os representantes que efetivamente realizarão a defesa de seus interesses. Já o “peão” não tem direitos, peão não precisa ser ouvido, não tem voz, é visto como um bêbado ou preguiçoso, e se dará por contente com qualquer coisa que vier a receber de seu empregador. É importante, então, para a classe de proprietários escravagistas, que os trabalhadores rurais continuem a ver a si mesmos como “peões” (e para isso precisam ser tratados como “peões”, mantidos em alojamentos precários, sem dignidade), pois assim não buscarão exercer sua cidadania, e não escolherão seus próprios prefeitos e deputados. Como resultado, o trabalho em condições análogas à de escravo permanece sendo uma realidade, particularmente em fronteiras agrícolas como Mato Grosso, Pará e Tocantins, onde a floresta amazônica continua sendo derrubada para a abertura de novos campos consagrados à criação de gado e novas lavouras. 4. Dimensões do problema, particularmente em Mato Grosso O problema, como dissemos antes, permanece sendo extremamente atual, tendo sido
Claro que existem motivos econômicos que recomendariam o cumprimento de obrigações trabalhistas, mas eles não são percebidos no dia-a-dia de cada empresa, de modo que são desconsiderados: historicamente, cenários caracterizados por intensa e crescente competição entre países e agentes econômicos, combinada com o progressivo achatamento das condições de vida dos trabalhadores, conduziram, sempre, a crises em larga escala e a insustentável pressão social, para as quais o sistema não possui solução, desaguando em conflitos armados, dos quais são os maiores exemplos a 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Não é por acaso, portanto, que o Tratado de Versailles, que pôs fim à 1ª Grande Guerra, implicou na criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e que nas décadas seguintes à 2ª Grande Guerra impô-se o Estado do Bem Estar Social (welfare state): logo após cada um desses conflitos, era unânime o reconhecimento de que o comprometimento da questão social é fator que conduz à guerra. Tais lições históricas são, entretanto, rapidamente esquecidas, ao ponto de falar-se abertamente, hoje, em “flexibilizar” (leia-se: suprimir) direitos trabalhistas em prol da maior competitividade de empresas, justamente os fatores que levaram, no passado, a crises econômicas e a explosões de violência. 12
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atingido, em 2007, o recorde de trabalhadores resgatados14 no Brasil em um único ano, desde que começaram as operações do Grupo Móvel de Erradicação do Trabalho Escravo, em 1995: 5.999 trabalhadores, segundo dados atualizados. De 1995 até o início de abril de 2008 (quadro abaixo), foram resgatados a partir de operações do Grupo Especial Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego 28.700 trabalhadores, tendo sido fiscalizadas 1.913 fazendas em todo o país.

Tais números, entretanto, não retratam a verdadeira dimensão do problema, eis que: 1) grande parte dos casos sequer chegam a ser denunciados; 2) a maioria das denúncias, recebidas pelo MTE, Comissão Pastoral da Terra, Ministério Público do Trabalho, Polícia Federal e outros órgãos e instituições, não são apuradas, por falta de estrutura dos órgãos de investigação e repressão; 3) os números dizem respeito apenas aos trabalhadores que laboravam na fazenda no momento da inspeção, sendo certo que, na maioria dos casos, a submissão de trabalhadores a condições aviltantes já constituía prática antiga e rotineira na fazenda inspecionada, o que leva a concluir que muitos outros trabalhadores já haviam sido ali submetidos, no passado, ao mesmo tratamento pelo mesmo empregador. A seguir apresentamos os dados da atuação do Grupo Especial Móvel em Mato Grosso. Veja-se que, se fossemos considerar apenas os dados de 2007, teríamos a impressão que o problema no Estado se faria pouco presente. Entretanto, apenas nos três primeiros meses de 2008, ultrapassou-se o número total de resgates de 2007, o que demonstra que os dados das operações de Grupo Móvel não se mostram capazes de constituir uma radiografia do problema efetivamente existente, pois dependem do número de fazendas inspecionadas e do tipo de denúncia que foi investigada.
Ano 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 (até 07/04) TOTAL
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Trabalhadores libertados 0 266 170 19 283 157 245 567 683 326 1412 444 107 111 4790

Fazendas inspecionadas 11 31 12 6 10 9 21 10 28 21 14 29 10 9 221

Preferimos a expressão resgatados a libertados, eis que a segunda vincula-se à idéia de trabalho forçado, com restrição à liberdade, não abrangendo, portanto, as hipóteses de trabalho degradante. 13

Tais dados representam, portanto, apenas uma pequena parte da realidade, ou a ponta do iceberg, permanecendo oculta a verdadeira dimensão do problema, aliando-se para tanto a falta de fiscalização do trabalho à ausência de informações fidedignas sobre a saúde – que deveriam ser geradas pelo SUS – do trabalhador rural. Um exemplo da cifra oculta do trabalho escravo, que os números oficiais não mostram, revelou-se a partir da implantação, no final de 2006, do Ofício de Alta Floresta do Ministério Público do Trabalho. A área territorial do Ofício abrange 29 municípios da região norte do Estado, inexistindo neles qualquer unidade do Ministério do Trabalho e Emprego, tais como gerências regionais ou agências de atendimento, o que dificulta o encaminhamento, pelos trabalhadores, de denúncias. Antes da abertura do Ofício, as denúncias na região eram apresentadas ou à Comissão Pastoral da Terra, ou a sindicatos de trabalhadores rurais, os quais as repassavam ao Ministério do Trabalho e Emprego. Desde a inauguração do Ofício, entretanto, um grande contingente de demanda reprimida começou a aparecer, ao ponto de, atualmente, receber o Ministério Público do Trabalho semanalmente denúncias de trabalho em condições análogas à de escravo, especialmente na modalidade de trabalho degradante. Tendo em vista a impossibilidade do Grupo Móvel Nacional dar resposta a todas as denúncias recebidas, e ante a inexistência, até recentemente, de um grupo móvel local, de âmbito estadual, o Ofício de Alta Floresta começou a efetuar inspeções em fazendas por conta própria, com o acompanhamento da Polícia Militar, para fins de segurança. De tal forma, em um período de 1 ano e 4 meses (até abril de 2008), efetuou o Ministério Público do Trabalho fiscalizações em 15 fazendas de Alta Floresta e municípios vizinhos (Nova Monte Verde, Carlinda e Nova Canaã do Norte), tendo nelas localizado 122 trabalhadores em condições degradantes, análogas à de escravo. Tais números não figuram nas estatísticas do MTE, por não resultarem da atuação de Grupo Móvel. O procedimento do Ministério Público do Trabalho – que não conta, através do Ofício de Alta Floresta, com a estrutura operacional do Grupo Móvel – diante das constatações tem sido o de propor a celebração de compromisso de ajustamento de conduta com o proprietário da fazenda, contemplando a anotação das CTPS e pagamento de verbas rescisórias e indenização pelos danos morais individuais e coletivos, e, caso haja a recusa por parte do infrator, ajuizar ação civil pública. Tais inspeções demonstram que a efetiva dimensão do problema é muito maior do que os dados do MTE permitem inferir. No mesmo período em que o MPT realizou as 15 ações de fiscalização em 4 municípios da região norte, inúmeras outras denúncias foram recebidas e não redundaram em ação fiscal, seja pelo Ministério Público do Trabalho, seja pelo Ministério do Trabalho e Emprego, órgão ao qual elas são repassadas. Além disso, há de se levar em conta que o Ministério do Trabalho e Emprego, em suas operações de Grupo Móvel, prioriza denúncias pelo número de trabalhadores a serem resgatados, o que é um critério válido, eis que os recursos para as operações, inclusive humanos, são limitados. Tal critério, no entanto, não se ajusta ao combate ao trabalho escravo em muitas regiões de Mato Grosso, onde predomina o trabalho em condições degradantes na atividade de derrubada de árvores para abertura de campos e em fazendas de pecuária. De fato, a pecuária é uma atividade que emprega muito menos trabalhadores
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que o cultivo da cana, por exemplo. Em cada fazenda de gado iremos encontrar 5, 10, 15, e dificilmente mais do que 20 trabalhadores. Por isso, as fiscalizações em fazendas voltadas a tal atividade econômica não rendem números tão espetaculares de resgates quanto as inspeções em lavouras de cana-de-açúcar, nas quais diversas dezenas ou até centenas de trabalhadores são encontrados em condições indignas. Ocorre, entretanto, que o número de fazendas com problemas é muito elevado (centenas, quiçá milhares, por município), de modo que a quantidade total de trabalhadores submetidos a esse tipo de exploração na região é muito grande. Além disso, a gravidade das violações costuma ser maior que aquelas encontradas em usinas de cana. Mas, pelas reais dificuldades logísticas para as ações de fiscalização (estradas precárias, enormes distâncias a serem percorridas, limitação do tempo de duração de cada operação), planejadas a partir de Brasília, o problema, típico da região mato-grossense, permanece não sendo reconhecido em toda sua inteireza. Atualmente – digamos, de outubro de 2007 a abril de 2008 –, o Ofício de Alta Floresta do Ministério Público do Trabalho tem recebimento semanalmente denúncias de trabalho escravo, que ensejam a instauração de expedientes de investigação. A maior parte deles, provavelmente, acabará tendo por fim o arquivamento, dentro de um ou dois anos, após ter sido solicitada ao Ministério do Trabalho e Emprego, reiteradamente, a realização de ação fiscal, sem que esta tenha ocorrido, muito embora se saiba que, em se tratando de trabalho escravo, a rapidez na apuração dos fatos mostra-se crucial. Importante frisar que a culpa por tal resultado decepcionante não pode ser creditada aos indivíduos envolvidos - Procuradores ou Auditores -, que procuram fazer o melhor trabalho possível, dentro das enormes adversidades que enfrentam. O problema é estrutural, e nasce do sucateamento a que foi submetida a fiscalização do trabalho no Brasil, fenômeno que atingiu o seu ápice na década de 1990, durante o Governo FHC, e não foi revertido pelo Governo Lula. Hoje, como também apontam Cardoso e Lage, na obra antes referida, a fiscalização do trabalho centra suas energias em grandes e bem organizadas empresas, localizadas nos maiores centros urbanos, passando ao largo das micro e pequenas empresas – nas quais trabalham a maioria dos trabalhadores – e do meio rural. Dessa forma, mascara-se a ineficácia do sistema, eis que os números da atuação parecerão estatisticamente significativos (grandes empresas, com muitos empregados, são, na realidade, mas fáceis e rápidas de fiscalizar, pois via de regra possuem a maior parte da documentação exigida, e todos ou quase todos os funcionários registrados), ao mesmo tempo em que os trabalhadores que mais necessitariam da intervenção do Estado são deixados de lado. 5. Conclusão Reitere-se que as operações de Grupo Especial Móvel são importantes, mas não será apenas com elas que se conseguirá erradicar o trabalho escravo, especialmente o trabalho em condições degradantes. Apenas a fiscalização rural habitual, rotineira, logrará alcançar tal objetivo, pela capacidade de transmitir aos violadores da norma uma expectativa real de que sua conduta ofensiva poderá ser descoberta. No Estado de Mato Grosso, tal solução passa, em caráter emergencial, pela criação de novas Gerências Regionais do Trabalho 15, com a destinação de recursos humanos e materiais adequados ao seu pleno funcionamento.
Visando tal objetivo, Ministério Público Federal e Ministério Público do Trabalho instauraram, em 2008, procedimentos investigatórios em face da União, com o propósito de realizar audiências públicas, propor a celebração de compromisso de ajustamento e, caso não seja obtida uma solução extrajudicial, ajuizar uma ação civil pública. 15
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Claro que a inauguração de novas Gerências não constitui uma solução mágica, mas trata-se de condição sine qua non, a partir da qual pode-se começar a planejar ações efetivas visando a proteção dos direitos fundamentais dos trabalhadores rurais, como a criação de grupos permanentes de fiscalização rural. Entretanto, apenas a repressão não basta. Para a eliminação do trabalho escravo, faz-se necessário, também, que a sociedade desperte para a gravidade do problema, e aprenda a identificar a face contemporânea do trabalho escravo. Há de fato hábitos muito enraizados, especialmente em Mato Grosso, que precisam mudar, costumeiramente fundamentados na convicção de que tais condições de trabalho e de vida “sempre foram assim”, ou que “não há outra forma de se trabalhar no campo”, “é melhor isso do que gerar desemprego”, “o produtor rural não tem como suportar esse custo”, etc. Precisa haver uma mudança de mentalidade, a fim de que todos percebam, inclusive empregados e empregadores rurais, que inexistem razões capazes de justificar a violação de direitos fundamentais da pessoa humana. Afirmar o contrário é aceitar a barbárie. Visando tal mudança de mentalidade, o Ministério Público do Trabalho, através da Procuradoria Regional do Trabalho da 23ª Região, e o Ministério Público do Estado de Mato Grosso firmaram parceria e lançaram, de forma pioneira, uma campanha educativa na mídia em abril de 2008, tendo como mote “quem aceita o trabalho escravo, ajuda a cavar esta cova”. A campanha, com veiculação em TV, rádio, jornais, outdoors e outros meio de comunicação, tem como uma de suas metas principais a apresentação à sociedade das circunstâncias que caracterizam o trabalho em condições degradantes. Outro exemplo da atuação conjunta do Ministério Público do Trabalho e do Ministério Público Estadual foi a celebração, também em 2008, de termos de compromisso de ajustamento de conduta com 19 empresas frigoríficas, entre elas várias das maiores empresas do setor, que assumiram a obrigação de não comercializar com pessoas que figuram na “lista suja” do trabalho escravo. Tais iniciativas sinalizam que alternativas para a erradicação do trabalho escravo existem, e devem ser permanentemente buscadas e aprimoradas. O Ministério Público, através de seus diversos ramos, tem procurado desempenhar o seu papel, mas é imperativa uma mudança de postura por parte do Governo Federal, no sentido de ampliar e adaptar a estrutura da fiscalização do trabalho existente no país, e também por parte dos Governos Estaduais e Municipais, a fim de que efetivamente assegurem aos trabalhadores necessitados os direitos à saúde, à educação, inclusive profissional, e à assistência pública, com apoio a pequenos agricultores a aos assentados.

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