Você está na página 1de 8

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO

UM PAÍS DE ÁREA REPARTIDA

A IMPORTÂNCIA DO MAR E A LOCALIZAÇÃO DO ESPAÇO PORTUGUÊS

O MAR QUE NOS ENVOLVE

A MORFOLOGIA DOS FUNDOS

CORRENTES OCEÂNICAS

O MAR E A ATMOSFERA

VARIAÇÕES DE TEMPERATURA

A TERRA QUE HABITAMOS

UNIDADES MORFOESTRUTURAIS EVOLUÇÃO GEOLÓGICA DO OESTE PENINSULAR

O RELEVO DO CONTINENTE

FISIONOMIA DAS REGIÕES AUTÓNOMAS

CLIMA E SUAS INFLUÊNCIAS

17

19

20

25

25

26

28

29

36

38

38

43

43

50

ELEMENTOS CLIMÁTICOS

50

A

IRREGULARIDADE DO TEMPO NO CONTINENTE

54

AS ONDAS DE CALOR

59

O CLIMA DAS ILHAS

59

A

REDE HIDROGRÁFICA

61

OS SOLOS

64

A

VEGETAÇÃO ‘NATURAL’

65

TIPOS DE PAISAGEM

DIVERSIDADE E GRUPOS DE PAISAGEM ÁREAS PROTEGIDAS AS ILHAS REDE NATURA 2000 ÁREAS DE PROTECÇÃO DE AVIFAUNA

66

66

70

73

77

77

OS HOMENS E O MEIO

TERRITÓRIO, SUPORTE DAS GENTES

A POPULAÇÃO

80

82

86

EVOLUÇÃO RECENTE

86

UMA DISTRIBUIÇÃO DESIGUAL

86

BAIXOS NÍVEIS DE NATALIDADE E FORTES SALDOS MIGRATÓRIOS

93

UM ENVELHECIMENTO PROGRESSIVO

93

A

EMERGÊNCIA DE NOVOS COMPORTAMENTOS

93

EDUCAÇÃO

94

TERRA DE MIGRAÇÕES

98

A

EMIGRAÇÃO

98

O REGRESSO

100

A

IMIGRAÇÃO

102

UMA POPULAÇÃO QUE SE URBANIZA

104

UMA LEITURA ‘CLÁSSICA’ DO SISTEMA URBANO NACIONAL

104

UMA AVALIAÇÃO RECENTE

106

MUDANÇAS RECENTES

110

LISBOA E PORTO COMO REFERÊNCIAS

110

‘PRODUZIR’ CIDADE

111

COMUNICAÇÕES E MOBILIDADE DA POPULAÇÃO

120

REDES DE COMUNICAÇÃO

120

SISTEMA DE TRANSPORTES

123

871_05_Miolo_Pags1a80 06/02/01 10:34 Página 15

O PAÍS SOCIOECONÓMICO

ECONOMIA PORTUGUESA: ARTICULAÇÃO DIFÍCIL ENTRE MUDANÇAS INTERNAS E AS EXIGÊNCIAS COMPETITIVAS

ACTIVIDADES DA TERRA

A AGRICULTURA

130

132

138

139

AGRICULTURA EM MODO DE PRODUÇÃO BIOLÓGICO145

PECUÁRIA

145

149

150

154

162

A CAÇA

A EXPLORAÇÃO DOS RECURSOS EXTRACTÍVEIS

168

164

RECURSOS VIVOS MARINHOS

UM SECTOR ESTRATÉGICO

168

172

ECONOMIA E DESENVOLVIMENTO

176

REGIONAL

O SECTOR DAS PESCAS

A FLORESTA

PRODUTOS TRADICIONAIS

ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

CRESCIMENTO ECONÓMICO

176

OS SECTORES DE ACTIVIDADE E A DIFERENCIAÇÃO

 

REGIONAL

177

MERCADO EXTERNO E COMPETITIVIDADE

183

A

COESÃO SOCIAL

186

O

DESENVOLVIMENTO HUMANO

189

TEMPO DE TURISMO

O TURISMO BALNEAR

NOVOS PRODUTOS

UM SECTOR ESTRATÉGICO DE FUTURO

POLÍTICAS DO TERRITÓRIO

190

191

192

195

198

A

ADMINISTRAÇÃO

198

O

PLANEAMENTO

202

A

QUALIFICAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO

SUSTENTÁVEL

204

PORTUGAL NUM MUNDO DE RELAÇÃO

210

A LÍNGUA PORTUGUESA: UM TRAÇO DE UNIÃO À RODA DO MUNDO

212

COMUNIDADES PORTUGUESAS

216

TESTEMUNHOS DE UM PASSADO LONGÍNQUO

216

EVIDÊNCIAS CULTURAIS DE HOJE

217

IDENTIDADE E CULTURA EM TEMPOS DE MUDANÇA

222

RIQUEZA E DIVERSIDADE DE CULTURAS

222

FRONTEIRAS DE UM PORTUGAL CULTURAL

223

ACTUAL SUPORTE À CULTURA

223

PORTUGAL NA UNIÃO EUROPEIA

228

PORTUGAL NA EUROPA

229

A

INTEGRAÇÃO DA EUROPA

229

TRANSFORMAÇÕES NA UE-15

230

PRIORIDADES SOCIAIS DA UE

230

DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO

 

E

NÍVEL DE VIDA

231

ENERGIA: A MAIOR FRAGILIDADE DA UE

232

PRESIDÊNCIA PORTUGUESA NA UE

233

O

ALARGAMENTO DA UE

234

UMA CONSTITUIÇÃO PARA A EUROPA

235

O ATLAS E O POSICIONAMENTO ESTRATÉGICO DE PORTUGAL

ANEXOS

PLANTAS ESPONTÂNEAS, SUBESPONTÂNEAS

236

239

E

ORNAMENTAIS MAIS COMUNS EM PORTUGAL

240

CARTA DE PORTUGAL CONTINENTAL ESCALA 1: 550 000 CARTA DAS REGIÕES AUTÓNOMAS DOS AÇORES

E

DA MADEIRA ESCALA 1: 200 000

242

ÍNDICE ONOMÁSTICO

260

DIVISÃO ADMINISTRATIVA POR CONCELHOS

268

NOTAS BIOGRÁFICAS DOS AUTORES

272

BIBLIOGRAFIA

273

CRÉDITOS

274

871_05_Miolo_Pags81a130 06/02/01 17:27 Página 98

OS HOMENS E O MEIO

Dulce Pimentel

TERRA DE MIGRAÇÕES

A história da emigração portuguesa começa com a saída de colonos para se fixarem nas ilhas da Madeira e dos Açores, logo após a sua ocupação definitiva em 1425 e 1427, respectivamente. Os cerca de 4,9 milhões de cidadãos portugueses ou de origem portuguesa que residem no estrangeiro constituem a prova da importância que a emigração teve e continua a ter para Portugal. Ao longo de séculos, mas sobretudo no século XX, os movimentos emigratórios sofreram alterações significativas de volume e de destinos, reflexo do estado de desenvolvimento do País e da evolução do mercado internacional de trabalho.

A emigração

No início do século XX e até 1914, o fluxo emigratório essencialmente para o Brasil era muito grande, apresentando um registo de 195 000 emigrantes só de 1911 a 1913. Nos anos seguintes, em consequência das duas guerras mundiais e da grave crise económica dos anos 30, a emigração sofre novo decréscimo. É precisamente entre os anos 30 e meados dos anos 40 que se regista o menor volume de emigrantes: 7 000 saídas anuais no período 1939/1945; foi o fim da fase transo- ceânica que caracterizou a primeira metade do século XX, com predomínio da emigração para o continente americano e em especial para o Brasil, mas logo a seguir, com 26 000 saídas anuais entre 1946 e 1955, inicia-se uma nova fase que deco- rrerá até meados dos anos 70. A Europa procura recompor-se dos danos causados pela guerra, com o apoio financeiro dos Estados Unidos, através do Plano Marshall. Com a formação do Mercado Comum, atingem-se níveis elevados de crescimento económico, sen- do as necessidades de mão-de-obra colmatadas com o recrutamento de trabalhadores nos países do Sul da Euro- pa: entre 1958 e 1973 foram emitidas 8 milhões de autori- zações de trabalho. É nesse período que se registam os valo- res mais elevados de emigração em Portugal: entre 1960 e 1974 terão emigrado mais de 1,5 milhão de portugueses, ou seja, uma média de 100 000 saídas anuais, que só a crise petrolífera de 1973 e consequente recessão económica veio travar. Até então, o movimento emigratório assume proporções alarmantes, pois aos números oficiais há que acrescentar o grande volume de saídas clandestinas. O máximo de emi- grantes legais registou-se em 1966 (120 000), mas o record de saídas foi alcançado em 1970 (173 300 emigrantes, dos quais 107 000 ilegais). Entre 1969 e 1973, período em que o movi- mento de ‘clandestinos’ ganhou maior importância, 300 000 portugueses saíram ilegalmente do País, correspondendo a 54% do total de emigrantes.

98 ATLAS DE PORTUGAL IGP

Esta fase de intensa emigração para a Europa ocorreu durante a guerra colonial e originou um decréscimo de 3% na população entre 1960 e 1970. O principal destino foi a Fran-

ça, país que recebeu um terço (65 200) dos emigrantes na pri- meira metade dos anos 60, 59% (264 000) durante a segunda metade dessa década e 28% (81 000) no primeiro quinquénio de 70. É precisamente nos primeiros anos de 70 que a Ale- manha surge como destino preferencial dos emigrantes por- tugueses (29% do total), estimando-se que em 1973 aí residi- riam 100 000 portugueses.

A emigração intra-europeia alargou-se a todas as regiões

do território nacional, mas foi mais intensa nas áreas densa- mente povoadas do Norte e Centro do Continente. Desde finais dos anos 50, e sobretudo na década de 60, foram também consideráveis os movimentos migratórios de todos os territórios portugueses para as então colónias africa- nas. É também neste período que a Venezuela se afirma como destino da emigração portuguesa, em especial de madeirenses (mais de 60% dos cerca de 400 000 residentes de origem por- tuguesa), que também procuraram a África do Sul, onde hoje residem cerca de 300 000 portugueses, maioritariamente madeirenses. No continente americano, Estados Unidos e Canadá não deixaram de exercer uma forte atracção, receben- do sobretudo emigrantes açorianos. Nos Açores, terra de emigração desde os mais recuados tempos, o maior fenómeno emigratório moderno deu-se a par- tir de 1957, aquando da erupção do vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial: num gesto de solidariedade o Canadá ‘abriu’ a imigração às vítimas do vulcão e, quase imediatamente, a todos os açorianos. Houve freguesias que perderam metade e mais dos seus habitantes, como na ilha das Flores; e, nas outras, se bem que a proporção não tenha sido tão importante, foi gran-

de. Vejamos o exemplo da ilha de São Miguel, onde de 1957 a 1977 emigraram 107 131 pessoas, mais de metade das quais para o Canadá e dois quintos para os Estados Unidos.

A abertura da imigração, como foi o caso do Canadá, ou a

sua reabertura após uns anos de dificuldades, como aconteceu

84 654

871_05_Miolo_Pags81a130 06/02/01 17:27 Página 99

OS HOMENS E O MEIO

Terra de migrações

Evolução do fenómeno migratório em Portugal, 1900/2003

140

120

100

80

60

40

20

000

000

000

000

000

000

000

0

1910

Emigração

Imigração

Emigração clandestina

1920

1930

1940

1950

1960

1970

1980

1990

2000

Emigrantes segundo o tipo de emigração, 1992/2003

40

35

30

25

20

15

10

000

000

000

000

000

000

000

5 000

0

1992 1993

1994

1995 1996

Total

Emig. permanentes

Emig. temporários

1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003

Emigrantes por países de destino,

1992/2003

58 887Alemanha Espanha 17 252 França R.Unido 28 760 Suíça 71 330 EUA 8 573
58 887Alemanha
Espanha
17 252
França
R.Unido
28 760
Suíça
71 330
EUA
8 573
Canadá
4 118
Outros
61 731

com os Estados Unidos da América, trouxe grandes modifi- cações de carácter socioeconómico ao Arquipélago: um ainda maior desenvolvimento da criação de gado; a transformação não só de muitos terrenos incultos, mas também de outros ocupados com culturas alimentares e, até, industriais (em São Miguel) para ‘construção’ de pastagens; o quase despovoa- mento das freguesias mais afastadas dos maiores centros populacionais (apesar de uma melhoria considerável nos transportes e novos meios de comunicação) e uma conse- quente ‘urbanização’ na maneira de estar na vida, a par do desenvolvimento de actividades terciárias, principalmente administração pública e construção civil. Na Madeira, ilhas de grande densidade de população e poucos recursos, não admira que a emigração tenha sido sem- pre uma importante ‘válvula de escape’ para os seus habitan- tes (de 1900 a 1974 o número de saídas legais elevou-se a 152 000, metade das quais no período 1955/1974); contudo, o desenvolvimento turístico das últimas dezenas de anos fez reduzir muitíssimo essa prática secular. E também fez alterar, em muito, os modos de vida, pois uma população que em meados do século passado ainda vivia principalmente dos tra- balhos agrícolas e seus derivados, em 2001 só cerca de 6% da população e 13% dos activos mantinha esta ocupação, enquanto o sector dos serviços ocupava 66% dos activos, em especial no turismo e na construção. A composição dos fluxos emigratórios também se alterou:

inicialmente constituídos por mão-de-obra masculina, os últimos anos da década de 60 revelam uma maior participação feminina – 40% em 1966, 48% em 1967 e 54% em 1968 – e uma maior proporção de jovens menores de 15 anos, valores que evidenciam o processo de reagrupamento familiar em curso nesse período. Em traços gerais, a maioria dos emigran- tes era adulta, sobretudo homens com baixos níveis de esco- laridade e de qualificação profissional.

A partir de meados dos anos 70 a emigração em Portugal

entra numa nova fase. Desde logo pela grande quebra verifi- cada no número de saídas: entre 1974 e 1988 a emigração ofi- cial cifrou-se em 230 000 saídas, o que corresponde a uma média anual de, apenas, 15 000 emigrantes. Paralelamente à contínua redução dos contingentes emigra- tórios, apenas contrariada nos últimos anos da década de 80, verifica-se uma maior diversificação dos destinos. Os portu- gueses continuaram a partir para a Europa – França, Espanha, Luxemburgo, Suíça e Alemanha, revitalizando redes já existen- tes ou criando novos espaços de emigração – mas também para os Estados Unidos e Canadá e outros destinos longínquos como a Austrália, África do Sul e países do Médio Oriente. Embora a emigração para alguns destinos, nomeadamente

os mais distantes, pressuponha o establecimento a longo pra- zo, uma parte significativa dos emigrantes que saiu do Conti- nente, nos anos 80, fê-lo com carácter temporário (43% do total de saídas legais entre 1980 e 1988). O exemplo ‘francês’ é elucidativo: dos cerca de 42 000 emigrantes registados entre 1980 e 1988, 80% foram emigrantes temporários. O decréscimo da emigração verificado nesta fase ficou a dever-se a vários factores: por um lado, a crise económica internacional de 1973 levou os principais países de imigração na Europa – Alemanha (1973) e França (1974) – a adoptar medidas restritivas à entrada de novos imigrantes e de incen- tivo ao retorno aos países de origem, mas também a mudan- ça de regime político em Portugal (1974) que conduziu ao fim da guerra colonial e ao processo de independência das colónias africanas.

A integração de Portugal na Comunidade Europeia, com as

necessidades do mercado internacional de trabalho, permitiu que se criassem novas condições de mobilidade para os trabalha-

dores portugueses. Com efeito, a emigração não cessou. Entre 1992, data em que o Instituto Nacional de Estatística inicia a

ATLAS DE PORTUGAL IGP 99

871_05_Miolo_Pags81a130 06/02/01 17:27 Página 100

OS HOMENS E O MEIO

Terra de migrações

realização do Inquérito aos Movimentos Migratórios de Saída, e 2003 emigraram cerca de 336 200 pessoas, ou seja, uma média anual de 28 000. Esta emigração, maioritariamente temporária, envolve sobretudo homens e jovens em idade activa – de 1999 a 2003, apenas 23% dos emigrantes eram mulheres, 52% tinha idade compreendida entre 15 e 29 anos e cerca de 30% entre 30 e 44 anos. A baixa proporção de menores de 15 anos – somente 6% do total, no último quinquénio – reflecte a redução dos emi- grantes permanentes. Os Açores são a única região do País em que a emigração permanente é superior à temporária o que se deve à importância dos destinos americanos. Os portugueses continuam a emigrar para a Europa, sobretudo para a França e Suiça, destinos de quase metade do total de saídas nos últimos cinco anos. Alemanha, Reino Uni- do e Espanha contam-se também entre os países que mais recebem portugueses. Em conjunto, os cinco países acolhe- ram 78% do total da emigração e o continente americano, em particular Estados Unidos e Canadá, cerca de 4%. Em relação a estes últimos a tendência é para a redução do número de partidas, confirmada pelo Bureau of Citizenship and Immigration Services: no decénio 1992-2001, a emigração portuguesa para os Estados Unidos diminuiu 40%. A quase totalidade dos fluxos de partida é gerada no Con- tinente: entre 1999 e 2003, 95% do total, sendo 46% na região Norte, enquanto do Alentejo, Algarve e Regiões Autónomas saiu pouco mais de 10%. Dos indivíduos que emigraram durante este período 45% possuía o 2.º ou 3.º ciclo do ensino básico, 9% o secundário ou superior, e 10% não tinham qualquer grau de ensino. A nova face da emigração portuguesa mostra uma maior pro- porção de licenciados ou com o ensino secundário. O aumento da taxa de desemprego, nomeadamente dos diplomados (entre Maio de 2002 e Maio de 2003 o número de desempregados com o ensino superior aumentou 44%) tem impulsionado a partida de jovens qualificados, em que se incluem muitos investigadores.

Remessas de emigrantes

Milhões de euros

4 000 3 500 3 000 2 500 2 000 1 500 1 000 500
4
000
3
500
3
000
2
500
2
000
1
500
1
000
500
0
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003

100 ATLAS DE PORTUGAL IGP

Entre os impactos da emigração, um dos mais importantes é, sem dúvida, as poupanças que são enviadas para Portugal. As remessas são uma importante fonte de rendimento das famílias e de dinamização da economia e têm contribuído para equili- brar a balança de pagamentos nacional. Em 2001, os emigran- tes enviaram para Portugal 3,7 mil milhões de euros, o que representa 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e é superior ao contributo do turismo ou do investimento estrangeiro.

A redução das remessas observada nos dois últimos anos

(cerca de 30%) era previsível, dado que com o euro desapare- ceriam os ganhos cambiais que sempre constuituíram um incentivo ao envio, e não deixará também de reflectir as alte- rações no padrão de poupança dos novos emigrantes. A maio- ria das remessas são provenientes de França e Suiça, países onde residem importantes comunidades de portugueses e para onde se dirigem os mais recentes fluxos de emigrantes. Será, por certo merecedor de atenção o facto de a mais signi- ficativa descida no envio de remessas ter sido precisamente

registada em França (-30%, entre 2001 e 2003). Os últimos trinta anos da sociedade portuguesa regista-

ram, do ponto de vista dos movimentos migratórios, três acontecimentos marcantes.

O primeiro foi a chegada, em poucos meses, de um inten-

so fluxo de mais de meio milhão de portugueses e de popula- ção de origem portuguesa, residente nas ex-colónias africanas (retornados), em consequência do 25 de Abril de 1974 e do subsequente processo de descolonização que lhe esteve direc- tamente associado. Pelas suas características, intensidade e duração, constituiu um acontecimento ímpar na História nacional, com repercussões significativas na estrutura demo- gráfica, social e económica do País. O segundo acontecimento foi o regresso parcial de emi- grantes; o terceiro foi a intensificação dos fluxos imigratórios, num país tradicionalmente de emigração.

O regresso

Paralelamente ao fenómeno da emigração, merece nota de destaque um outro, muito menos notado na comunidade científica e na sociedade portuguesa em geral, mas nem por isso menos importante: o regresso de emigrantes portugueses provenientes de países estrangeiros. O pouco destaque que tem merecido deve-se a três características essenciais. Em primeiro lugar, o facto de ser um fenómeno pratica- mente contínuo no tempo e no espaço, que decorre princi- palmente de decisões individuais e familiares, ainda que pos- sa também estar relacionado com fenómenos políticos, legis- lativos, económicos ou sociais. Em segundo lugar, porque o regresso tem ocorrido para praticamente todo o território nacional, ainda que os grandes centros urbanos tenham importância significativa. Finalmen-

te, porque os regressados, apesar de indutores de mudança,

871_05_Miolo_Pags81a130 06/02/01 17:28 Página 101

Regresso de emigrantes portugueses 1976/1981 Nº de emigrantes 9 000 5 000 2 500 1
Regresso de emigrantes
portugueses
1976/1981
Nº de emigrantes
9
000
5
000
2
500
1
000
500
100
N
0
25
50 km
1986/1991
1986/1991

OS HOMENS E O MEIO

Terra de migrações

nomeadamente nas áreas rurais mais pobres do interior, exer- cem fraca pressão sobre o mercado de trabalho e a estrutura produtiva, em consequência do seu medo de investir e correr riscos; por isso se dedicam com tanta frequência a pequenas actividades por conta própria. Os números oficiais do regresso de emigrantes, apurados pelos recenseamentos decenais da população, do Instituto Nacional de Estatística (INE), indicam que só nos períodos de 1976/81, 1986/91 e 1996/2001 chegaram mais de 295 000 indivíduos ao território nacional. Extrapolando estes valores conclui-se que, em apenas um quarto de século (1976/2001), terão talvez regressado quase 600 000 indivíduos, o que é considerável dada a dimensão demográfica do país. A análise parcelar dos dados disponíveis permite constatar que o último quinquénio da década de 80 do século XX, relativa- mente ao último da década anterior, registou uma quebra de quase 9% no número de regressos, enquanto o último quinqué- nio da década de 90 revela um acréscimo de quase 15%. Este aumento significativo explica-se, em grande parte, pelo incre- mento do número de portugueses provenientes da Suíça que aumentou mais de cinco vezes e meia (+21 500 indivíduos) e da Alemanha, quase duas vezes (+5 100). Os regressos de França praticamente estabilizaram (+2%), registando 51 000 chegadas,

1996/2001
1996/2001

ATLAS DE PORTUGAL IGP 101

000

450

871_05_Miolo_Pags81a130 06/02/01 17:28 Página 102

OS HOMENS E O MEIO

Terra de migrações

Estrangeiros residentes em Portugal,

1975/2003

1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989
1975
1976
1977
1978
1979
1980
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
0
50 000
100
000
150
200
000
000
250
000
300
350
000
000
400
000

Principais países de origem de estrangeiros com residência legalizada

Cabo Verde Espanha Brasil EUA R. Unido Alemanha Angola Venezuela França Guiné-Bissau Canadá S. Tomé
Cabo Verde
Espanha
Brasil
EUA
R. Unido
Alemanha
Angola
Venezuela
França
Guiné-Bissau
Canadá
S. Tomé e
Príncipe
1980
Holanda
2003
Moçambique
0
10000
20000
30000
40000
50000
60000

Autorizações de permanência concedidas, 2001/2003

Ucrânia

Brasil

Moldávia

Roménia

Cabo Verde

Angola

Rússia

Guiné-Bissau

China

Índia

Paquistão

Bulgária

S. Tomé e Príncipe

Marrocos

Guiné Conakry

Bielorrússia

S. Tomé e Príncipe Marrocos Guiné Conakry Bielorrússia 0 10000 20000 30000 40000 50000 60000 70000

0

10000

20000

30000

40000

50000

60000

70000

assim como os da América do Norte (+4%), com apenas 12 000 regressos. As últimas estimativas da Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas indicam 4 835 500 cidadãos portugueses ou de origem portuguesa, espalhados pelo mundo, dos quais 58% reside no continente americano, 31% na Europa, 7% em África, e os restantes 4% noutras par- tes do mundo. Sendo um fenómeno quase tão antigo como o da própria emigração, o regresso de emigrantes portugueses e suas famílias deverá continuar a ocorrer, embora a ritmos, naturalmente, diferentes.

A imigração

É o terceiro acontecimento marcante nas dinâmicas migratórias pois, pela primeira vez na sua História, Portugal deixou de ser um país de emigração para se tornar também num país de imigração; o número de imigrantes legais tem, nos últimos anos, superado o número de emigrantes. E, nes- te aspecto, destacaram-se, primeiro, os provenientes de países africanos de língua oficial portuguesa, depois os do Brasil e, mais recentemente, os provenientes de países do Leste euro- peu, que, rapidamente, passaram a constituir o grupo de estrangeiros mais numeroso a residir em Portugal. Vejamos alguns números. De acordo com as estatísticas oficiais do Serviço de Estran- geiros e Fronteiras (SEF), em 1975, residiam no território nacional menos de 32 000 estrangeiros, número que não mais parou de aumentar, atingindo quase 87 000 em 1986, data da

102 ATLAS DE PORTUGAL IGP

entrada de Portugal na então Comunidade Económica Euro- peia, 168 300 em 1995 e 223 600 no final do ano de 2001. Por anos, os acréscimos mais significativos registaram-se em 1993 (+10,7%) e 1994 (14,7%) devido ao facto de se incluírem os dados relativos ao Processo de Regularização Extraordinária que decorreu entre Outubro de 1992 e Março de 1993. O mesmo sucedeu nos anos de 1999, 2000 e 2001, cujos acréscimos se devem à inclusão progressiva dos dados estatísticos relativos ao Processo de Regularização Extraordi- nária decorrido entre Junho e Dezembro de 1996. Os números oficiais pecam, no entanto, por uma signifi- cativa subavaliação, como se comprova pela aplicação do novo dispositivo legal, surgido em 2001, de atribuição de Autoriza- ções de Permanência a trabalhadores estrangeiros titulares de contrato de trabalho. A ‘explosão’ registada nas cifras oficiais naquele ano (+69%) e no seguinte (+18%) explicam-se ape- nas pela aplicação da nova legislação. Em 31 de Maio de 2002 haviam já sido atribuídas, segundo o SEF, mais de 181 000 Autorizações de Permanência, elevan- do o número total de imigrantes legalizados (incluindo os que têm autorização de permanência) para 404 700 indivíduos (4% da população portuguesa), o que equivale a um acréscimo de quase 94% em relação ao final de 2000. Pela primeira vez as estatísticas oficiais incluem o fluxo migratório oriundo do Leste europeu, avaliado em quase 97 000 indivíduos, com par- ticular destaque para os cidadãos ucranianos (mais de 65 000), romenos (mais de 13 600) e russos (mais de 7 000). Os últimos números provisórios disponíveis referentes ao final do ano de 2003 apontam já para mais de 434 500 imi- grantes com estatuto legal, entre residentes e com Autorizações

871_05_Miolo_Pags81a130 06/02/01 17:28 Página 103

OS HOMENS E O MEIO

Terra de migrações

‰ 94 49 18 12 7 N 0 25 50 km
94
49
18
12
7
N
0 25
50 km

Estrangeiros por 1 000 habitantes, 2001

de Permanência ao abrigo da legislação vigente. O grupo mais numeroso é constituído por cidadãos de nacionalidade cabo-verdiana e brasileira, respectivamente perto de 16% e de 14%, e ainda ucraniana (13%). A distribuição geográfica da população estrangeira eviden- cia uma maior concentração nas principais aglomerações urbanas, com destaque para a área metropolitana de Lisboa, onde de acordo com o censo de 2001 residiam 50% dos estrangeiros. Ao nível concelhio observam-se grandes assimetrias. É no Algarve que a população estrangeira tem maior importância

relativa, representando 6% do total de habitantes da região. Significativa é também a presença de estrangeiros em vários concelhos da região de Lisboa – Amadora, Loures, Sintra, Cascais, Odivelas e Seixal. Na região Norte o peso relativo da população estrangeira é reduzido, assim como na região Cen- tro, embora nesta seja notória a atracção exercida pelos con- celhos do litoral. Praticamente, num quarto de século, Portugal passa de país de forte diáspora a país de imigração, sem contudo, aban- donar por completo a tradição emigrante, iniciada há mais de cinco séculos.

ATLAS DE PORTUGAL IGP 103