PORTUGAL ATLAS DO AMBIENTE

NOTÍCIA EXPLICATIVA

RECURSOS HÍDRICOS SUBTERRÂNEOS DA REGIÃO AUTÓNOMA DA MADEIRA

MINISTÉRIO DO AMBIENTE E RECURSOS NATURAIS DIRECÇÃO-GERAL DO AMBIENTE LISBOA - 1995

PORTUGAL ATLAS DO AMBIENTE

NOTÍCIA EXPLICATIVA VII.3

RECURSOS HÍDRICOS SUBTERRÂNEOS DA REGIÃO AUTÓNOMA DA MADEIRA

Elaborada por Raul Simões Duarte
Geólogo

MINISTÉRIO DO AMBIENTE E RECURSOS NATURAIS DIRECÇÃO-GERAL DO AMBIENTE LISBOA - 1995

ÍNDICE

Resumo................................................................................................... Summary................................................................................................ Résumé................................................................................................... Introdução............................................................................................... Caracterização geológica e geomorfológica................................ Factores climáticos ...................................................................... Informação utilizada e Método de representação................................... Descrição da Carta.................................................................................. Ilha da Madeira: Caracterização hidrogeológica.......................... Ilha do Porto Santo: Caracterização hidrogeológica.................... Interesse da Carta..................................................................................... Exploração de águas subterrâneas................................................. Levadas de descarga subterrânea................................................... Qualidade química das águas........................................................ Nascentes minerais........................................................................ Referências bibliográficas........................................................................

Resumo Com a cartografia dos “Recursos Hídricos Subterrâneos da Região Autónoma da Madeira”, Carta VII.3 do Atlas do Ambiente, escala 1:100 000, pretende-se dar a conhecer as potencialidades dos sistemas aquíferos existentes, sintetizando-se as unidades hidrogeológicas mais representativas; julga-se assim poder contribuir com dados informativos para uma correcta intervenção na gestão e ordenamento daqueles recursos. Na ilha da Madeira os aquíferos subterrâneos constituem a única fonte de abastecimento de água sendo suficientes para garantir as necessidades de consumo, apesar das disponibilidades não se distribuirem uniformemente no espaço e no tempo. Na ilha do Porto Santo, atendendo às fracas condições naturais para o armazenamento de reservas aquíferas subterrâneas, há necessidade de recorrer a outras opções. Na definição das grandes unidades hidrogeológicas utilizou-se como critério os aspectos estratigráficos das rochas vulcânicas, servindo de orientação a Carta Geológica da Madeira de 1975; a simbologia usada na Carta foi adaptada ao modelo da legenda internacional dos Mapas Hidrogeológicos (Unesco, 1970), tendo-se introduzido alterações de modo a servirem às condições específicas da Região. Depois de caracterizar geologicamente cada uma das ilhas e aludir aos principais elementos climáticos (com destaque para a pluviosidade, humidade, esta com valores ainda desconhecidos, o vento, entre outros), pela importância na recarga dos aquíferos, descrevem-se sucintamente as principais fases de captação de águas para o abastecimento público e demais utilizações, sob várias formas de pesquisa: poços, furos, galerias de captação, etc., aproveitamento das emergências ou de grupos de emergências, descrevendo-se as Levadas de descarga subterrânea principais. A Notícia contém ainda uma breve referência às Nascentes de água mineral que ocorrem na Região.

Summary

The mapping of the “Hydrological Underground Resources of the Autonomous Region of Madeira”, Chart VII.3 of the Environment Atlas, scale 1:100 000, aims at informing about the potentialities of the aquifer systems present, synthetizing representative hydrogeological unities. So one may contribute with informative data for a better intervention in the management of such resources. In the Madeira island the underground aquifers are the only water available to secure options and consumption needs. In the Porto Santo island, regarding the poor natural conditions for storage of underground aquiferous reserves, other options are needed. The definition of the hydrogeological great unities took into account the stratigraphic features of the vulcanic rocks, oriented by the Geological Map of Madeira, 1975. The symbology used in the Chart was adapted to the model used in the international legend of the Hydrogeological Charts (UNESCO, 1970), alterations being made according to specific conditions of the Region. After a geological characterization of each island and mentioning climatic elements such as rainfall, humidity (values still unknown), wind and others, for their importance in the recharge of aquifers, a short description is made of the main phases of water capturing for public supply and other utilizations under several features of search: prospecting wells, holes, captation galleries, etc., use of emergencies or emergency groups, a description being made of the main underground discharges called “levadas”. The Notice still contains a brief refference to the mineral water springs occuring in the Region.

Résumé La Carte de “Productivité des Formations Hidriques Souterraines de la Région Autonome de Madeira”, Carte VII.3 d´Atlas de l´Environnement, à l´échelle 1/100 000, a l´objectif de montrer les potentialités des systèmes de productivité des formations aquifères et de faire la synthèse des parties hydrologiques plus representatives; de cette façon on pense contribuer avec des informations pour une correcte administration et aménagement de ceux ressources. À l´île de Madeira, les formations aquifères souterraines constituent l´unique ressource pour l´approvisionnement d´eau, suffisantes pour la consommation publique. À l´île de Porto Santo, à cause des faibles conditions naturelles pour les réserves aquifères souterraines, il y a nécessité de recourir à d´autres options. Pour la définition des grandes unités hidrogéologiques on établit comme critère les aspects stratigraphiques des roches volcaniques, basé à la Carte Géologique de Madeira, de 1975; la symbologie utilisé dans cette carte a étè adapté au modèle de la légende internationale des cartes hidrogéologiques (UNESCO, 1970), avec quelques nuances liées aux conditions spécifiques de la région. Après la caractérisation géologique des deux îles et de faire référence aux principaux éléments climatiques pour la recharge des aquifères (précipitation, humidité, vent, etc.), on mentionne de forme succincte les principales phases de captation des eaux, pour l´approvisionnement public et d´autres utilisations nommément: puits, trous, galeries de captation, etc, le profit des émergences ou des groupements d´émergences. On décrit aussi les principaux canaux d´eau de décharge souterrainnes, nommés de “levadas”. La Note Explicative fait encore référence aux sources d´eau minéral de la région.

Introdução Os recursos hídricos subterrâneos assumem uma elevada importância no potencial endógeno ambiental da Região Autónoma da Madeira, onde, presentemente, está a ser implementada uma política de aproveitamento e preservação daqueles recursos, com o objectivo do desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida das populações. A cartografia efectuada tem por objectivo dar a conhecer os recursos hídricos potenciais e poder servir de instrumento de planeamento para satisfação das necessidades determinadas no quadro do desenvolvimento desejável para a região. A variabilidade na distribuição das áreas onde a água se encontra disponível, ou onde poderá ser disponibilizada, permite estabelecer uma estratégia para protecção e conservação das unidades hidrogeológicas potencialmente favoráveis. Na caracterização geral dos recursos hídricos subterrâneos foi utilizado um inventário das riquezas hídricas e os dados recolhidos em trabalhos de campo, tendo ainda como base os aspectos litológicos, estruturais e estratigráficos das formações vulcânicas. Dada a importância que assumem os dados climáticos como factores de alimentação e recarga dos aquíferos, estes foram tidos em conta nas duas ilhas cartografadas. Como se sabe, o arquipélago da Madeira é constituído por um conjunto de ilhas denominadas Madeira, Porto Santo, Desertas e Selvagens, apresentando-se nesta carta as duas primeiras pelo interesse que apresenta o abastecimento de água nas áreas povoadas.

Caracterização geológica Ilha da Madeira A formação geológica da ilha da Madeira iniciou-se no Miocénico prolongando-se até ao Quaternário, sendo essencialmente constituída por três fases de actividade vulcânica, seguidas por importantes estados de acalmia a que correspondem quase sempre episódios sedimentares. A primeira fase iniciou-se através de erupção submarina de natureza predominantemente explosiva, dando origem a materiais piroclásticos de granulometria variável, normalmente muito alterados e argilificados em virtude do longo período sujeitos a actividade erosiva. No interior destas formações ocorrem, por vezes em profundidade, intercalações de materiais mais grosseiros, brechas basálticas pouco alteradas e de aspecto escoriáceo, possivelmente relacionadas com condições tectónicas e geomorfológicas então prevalecentes, condicionando localmente o seu comportamento e interesse hidrogeológico. Esta unidade ocupa a zona central da ilha, formando as cabeceiras das ribeiras Brava, dos Socorridos e de S. Jorge, constituindo ainda a base de grande parte das bacias hidrográficas das ribeiras de S. Vicente, do Porco, de Machico e da Metade. A segunda fase de actividade eruptiva é caracterizada por erupções, tanto do tipo explosivo como efusivo, originando um complexo de alternância de materiais piroclásticos com escoadas lávicas, cujo desenvolvimento é variável de local para local, função da proximidade e do posicionamento dos aparelhos vulcânicos. Os afloramentos deste complexo ocupam predominantemente as vertentes situadas a sul, desde a linha de costa até altitudes da ordem dos 900 a 1000 m, adquirindo espessuras e morfologias diversas de acordo com a cota atingida pela unidade de base. Tal facto origina comportamentos hidrogeológicos distintos confor-

me o predomínio e espessura do material lávico, existindo por vezes condições geomorfológicas favoráveis à infiltração aquífera, como é o caso do Santo da Serra. A terceira fase, de carácter efusivo, deu origem a três subunidades vulcânicas, praticamente sucessivas, com larga representação na faixa planáltica central e nas vertentes norte da ilha, incluindo-se aqui as erupções mais recentes que ocorreram provavelmente no Quaternário. Inicia-se com um espesso complexo de escoadas de basalto com disposição subhorizontal, por vezes com disjunção prismática e com níveis de escórias e tufos finos bem estratificados. Estes afloramentos são visíveis nas áreas subjacentes e envolventes do Paul da Serra, do Fanal e da Bica da Cana, atingindo também a zona litoral norte, assim como a periferia do Chão dos Balcões, Poiso, Achada do Teixeira e Queimadas. Nalguns locais as escoadas apresentam lavas do tipo “aa” passando a escórias e brechas de escórias, tornando-se difícil estabelecer correlações de camadas entre as várias sequências observadas. No topo desta subunidade, aparecem alguns níveis de escoadas basálticas vacuolares separadas por basaltos escoriáceos seguidas por tufos e argilas vermelhas, por onde se iniciou o traçado da Galeria do Rabaçal. A este complexo sucede outro, composto por escoadas lávicas mais compactas e com raros níveis de tufos, atingindo a parte superior do planalto do Paul da Serra e aflorando ainda nas áreas do Poiso, João do Prado e Chão dos Balcões. As manifestações mais recentes da actividade vulcânica, que ocorreram provavelmente no Holocénico, estão representadas nos vales das ribeiras de S. Vicente, do Seixal e da Janela, tratando-se de alternância de lavas escoriáceas com basaltos porosos, chegando a formar perfeitas cavidades de tipo “tubo lava”. Durante este período a lava escorreu para os vales referidos a partir de várias crateras secundárias situadas nos flancos do maciço do Paul da Serra, cuja superfície topográfica deveria ser semelhante à actual.

Este vulcanismo recente parece ainda estar representado através de cones vulcânicos quase intactos em Porto Moniz, Ponta do Pargo, Arco da Calheta e nalguns pontos da costa sul nas proximidades do Funchal. O sistema filoniano encontra-se visível em todas as formações dos complexos vulcânicos descritos, quer em afloramentos quer no interior das galerias, não atingindo por vezes a superfície topográfica e terminando na formação onde foram inseridos. A distribuição espacial é variável, havendo áreas onde existe grande concentração de diques e, normalmente, em relação com os centros vulcânicos, outras, em que são menos abundantes ou quase inexistentes. Ilha de Porto Santo A ilha de Porto Santo é formada essencialmente por um conjunto de complexos vulcânicos de composição diferenciada, que se desenvolvem nas zonas NE e SW e por rochas sedimentares que ocupam a parte central e a costa sul. A actividade vulcânica inicia-se também no Miocénico, em meio submarino, e prolongou-se provavelmente até ao Quaternário, constituindo as formações dela resultantes o substrato e as áreas topograficamente mais acidentadas. As rochas vulcânicas são constituídas por basaltos, andesitos, traquitos, riolitos e tufos vulcânicos, havendo ainda a registar a ocorrência de cinzas e brechas vulcânicas nas vertentes dos relevos mais salientes. Enquanto que os basaltos e os riolitos se apresentam pouco alterados, os materiais piroclásticos dão origem a produtos argilosos de natureza bentonítica, com largo predomínio e espessura na encosta nordeste da ilha. É frequente a ocorrência de massas filonianas cortando indescriminadamente todas as formações geológicas, o que indica grande instabilidade vulcânica provavelmente durante o Quaternário. As formações sedimentares de maior extensão localizam-se na zona

central e são constituídas por sedimentos eólicos denominados calcarenitos. Estas formações encontram-se representadas por grãos finos a médios de conchas e algas de cor esbranquiçada, por vezes com intercalações de camadas argilo-detríticas castanho-avermelhadas. Os calcarenitos podem apresentar-se pouco cimentados, sendo facilmente desagregados pela actividade erosiva; outras vezes, a cimentação é tal que origina uma crosta calcária muito resistente e compacta, adquirindo um aspecto gresoso. Apresentam uma inclinação de modo geral para SE e uma espessura variável, sendo a máxina de 30 m e diminuindo de norte para sul, com maior possança na zona da Fonte da Areia. Dentro das formações sedimentares existem ainda areias de praia e de duna, originadas muito provavelmente a partir da desagregação dos calcarenitos e localizadas no litoral sul. Na ponta SE da ilha ocorrem alguns depósitos de vertente, existindo ainda depósitos aluvionares ao longo das principais linhas de água.

Factores climáticos Ilha da Madeira O clima da ilha da Madeira encontra-se muito influenciado pela localização geográfica e pelas características do relevo, o que origina uma variabilidade na distribuição dos valores de precipitação e temperatura. Os ventos dominantes oriundos do norte e responsáveis pela ocorrência de elevada precipitação e nevoeiro encontram um obstáculo no posicionamento E-W da ilha e na presença de relevos com altitudes compreendidas entre 1500 e 1800 m . Assim, o valor da precipitação é geralmente alto nas vertentes situadas a norte, enquanto que a sul é menor, verificando-se ainda que para cotas iguais poderá haver diferenças da ordem dos 500 mm entre as duas

vertentes. Os valores mais elevados oscilam entre os 2500 e os 3000 mm e ocorrem nas zonas do maciço leste do Pico Ruivo-Areeiro (cotas de 1860 m) e no maciço oeste do Paul da Serra (cotas de 1500), decrescendo com a altitude. A distribuição da precipitação é variável ao longo dos meses do ano, sendo normalmente, e em ano médio, mais intensa nos meses de Outubro a Maio; o período menos chuvoso decorre de Julho a Setembro. O valor médio da pluviosidade anual cifra-se em 750 x 106 m3, não se tendo aqui considerado o contributo da condensação da humidade, valor ainda desconhecido mas factor importante na recarga dos aquíferos. Quanto à temperatura verifica-se que varia também com a altitude, atingindo valores negativos e ocasionalmente queda de neve nos picos de maior cota, enquanto que na zona litoral se torna mais amena e com valores médios de 16o a 18o . Ilha de Porto Santo A característica principal do clima nesta ilha é o baixo valor da pluviosidade, que não ultrapassa a média anual de 370 mm, e a elevada evapotranspiração que atinge os 90%, enquanto que o escoamento e a infiltração no conjunto não ultrapassam os 10%. Da série de valores observados referentes aos anos hidrológicos de 1967/68 a 1992/1993, verifica-se que os meses em que houve recarga aquífera são Dezembro, Janeiro e Fevereiro, enquanto nos restantes, o valor de evapotranspiração média mensal ultrapassa sempre o da precipitação .

Informação utilizada e Método de representação

Os dados recolhidos nos trabalhos de campo foram apoiados por vezes em interpretações fotogeológicas e registados na base topográfica 1:25 000, sendo posteriormente transferidos para a escala aqui representada, 1:100 000. Na definição das grandes unidades hidrogeológicas utilizou-se como critério os aspectos estratigráficos das rochas vulcânicas, servindo de orientação a Carta Geológica da Madeira (1975); a simbologia e as cores usadas na Carta do Atlas foi adaptada ao modelo da legenda internacional dos Mapas Hidrogeológicos (Unesco, 1970), tendo-se introduzido alterações de modo a servirem às condições específicas da Região. Estabeleceram-se cinco unidades hidrológicas distintas por forma a englobar as características Hidrogeológicos das Ilhas da Madeira e Porto Santo. Apesar de nem sempre existir uma rede hidrográfica bem definida e hierarquizada, aproveitou-se o traçado da rede hidrográfica da Carta dos Recursos Hídricos Superficiais (Carta VII. 2 do Atlas, no prelo), simplificada de nomes; da mesma fonte se extraiu o traçado das levadas mais directamente ligadas à captação de recursos hídricos subterrâneos.

Descrição da Carta Caracterização hidrogeológica Ilha da Madeira O comportamento hidrogeológico das formações vulcânicas na ilha da Madeira, encontra-se em estreita ligação com a idade dos complexos onde estão inseridas, e consequentemente com o tipo de litologia nelas prevalecente.

Outro factor importante prende-se com a existência de estruturas geotectónicas, que sob a forma de fracturas ou de filões condicionam as diferentes unidades aquíferas, quer em dimensões e continuidade, quer nas condições de infiltração e permeabilidade. É evidente que a percolação aquífera subterrânea se torna por vezes de extrema complexidade, quando os factores litológicos se encontram influenciados por perturbações estruturais; há ainda a realçar que os valores de porosidade e permeabilidade não permanecem constantes ao longo da mesma escoada ou dos materiais de projecção. A variabilidade da porosidade e da permeabilidade poderá estar relacionada não só com o estado de alteração e compacidade das formações, mas também com a distribuição espacial de níveis de escórias e brechas de escórias no interior das escoadas lávicas e, ainda, com a variação granulométrica dos materiais piroclásticos. Com base nestes conceitos foram estabelecidas quatro unidades hidrológicas que passamos a descrever. Áreas favoráveis à infiltração Atendendo às características morfológicas, litológicas e tectónicas de determinadas áreas da ilha da Madeira, estas foram consideradas as principais zonas de recarga dos sistemas de aquíferos subjacentes, dando origem à ocorrência de emergências e alimentando as obras de captação que as atravessam ou que com elas estão relacionadas. Trata-se, de um modo geral, de áreas aplanadas, com formações de elevada permeabilidade e nas quais existe um sistema de fracturação importante muitas vezes associado à ocorrência de aparelhos vulcânicos. Outro factor característico é a elevada pluviosidade e a presença de grande concentração de humidade atmosférica, o que contribui de forma decisiva para o aumento da percolação aquífera subterrânea e a acumulação de reservas. As principais áreas que foi possível individualizar são as seguintes:

a) O Maciço do Paul da Serra, no qual se engloba o Fanal e a Achada Grande, constitui uma extensa área caracterizada por escoadas de basaltos com disposição subhorizontal e com vários níveis de escórias e raros tufos, ocorrendo superficialmente uma camada de cinzas vulcânicas consolidadas e, possivelmente, relacionadas com o episódio vulcânico mais recente. Nesta zona planáltica não existe uma rede hidrográfica bem definida e hierarquizada, devido à rápida infiltração da água das chuvas provocada pela elevada permeabilidade do maciço rochoso e pela topografia plana que não permite uma fácil escorrência superficial. Outro factor que contribui para a infiltração é a intensa fracturação, predominantemente NW-SE, que desempenha um papel importante na alimentação profunda, determinando uma produtividade mais elevada nas emergências situadas a cotas inferiores. b) Chão dos Balcões-João do Prado; Cedro-Pico do Areeiro e Achada do Teixeira, apresentam de um modo geral características semelhantes, ou seja a ocorrência de lavas escoriáceas e basálticas fragmentadas, áreas relativamente aplanadas e orientação e localização de diques em posição favorável de conexão hidráulica entre a superfície e os complexos vulcânicos subjacentes. Não sendo visível qualquer escorrência superficial no topo destas áreas, mesmo após longos períodos de elevada pluviosidade, leva-nos a admitir a existência de um fluxo rápido e, consequentemente, uma recarga intensa dos aquíferos. A Galeria dos Tornos parece estar em ligação directa com estas áreas de infiltração, enquanto que a do Porto Novo sofre uma influência induzida, existindo ainda algumas emergências ao longo das linhas de água envolventes destes maciços e que poderão considerar-se como resultantes de descargas do sistema de alimentação. c) No Santo da Serra as condições de infiltração estão em relação com o sistema estrutural aí instalado, pois a ocorrência de um aparelho vulcânico provavelmente correspondente a uma ”caldeira de subsidência”,

associado a diques localizados a sul e a leste, favorecem os mecanismos de percolação vertical e, consequentemente, a recarga profunda dos aquíferos. Esta área poderá ser responsável pela alimentação da Galeria das Fontes Vermelhas e dos furos da Ribeira de Santa Cruz e de Machico, estes últimos com forte artesianismo e denunciando um elevado potencial de reservas aquíferas subterrâneas. Aquíferos locais e descontínuos de elevada produtividade As escoadas lávicas da terceira fase de vulcanismo, com níveis de escórias, brechas de escórias, basaltos fragmentados e até vacuolares, têm alta permeabilidade apresentando quase sempre elevada produtividade. Quando se situam em áreas saturadas podem considerar-se como bons aquíferos. Os valores da permeabilidade são geralmente variáveis em função do grau de fracturação e da quantidade, tamanho e continuidade dos vazios existentes, podendo ocasionalmente adquirir menores valores devido à alteração do material rochoso. A ocorrência de intercalações de tufos ou níveis argilosos origina aquíferos suspensos, pois impedem a drenagem vertical da água armazenada e se não existem descontinuidades laterais, a percolação aquífera terá um fluxo horizontal através da lava permeável até emergir em nascentes. Os diques originam descontinuidades aquíferas, armazenando a água nestas formações permeáveis em compartimentos ou “células” com pressões hidrostáticas diferentes, função das dimensões, posicionamento e localização das áreas de recarga destes aquíferos confinados. Nestes compartimentos a água poderá ainda circular através das zonas fracturadas verticais que se desenvolvem paralelamente aos diques e quando atinge o nível de saturação, descarrega para outros compartimentos laterais ou na superfície topográfica. As manifestações deste tipo de aquífero de dique foram observadas em várias galerias, de entre as quais se destacam como mais importantes: o

Túnel dos Tornos, com produtividades de 250 a 275 l/s; do Porto Novo, com caudais de 150 a 200 l/s; do Rabaçal, com 100 l/s; da Rocha Vermelha, com 180 a 200 l/s e o da Levada do Seixal. No Túnel das Rabaças a zona mais produtiva está relacionada com uma fractura paralela a um dique. Existem também um grande número de nascentes que emergem nas cabeceiras da Ribeira da Janela, da Ribeira do Seixal, da Ribeira Brava e ainda ao longo do rebordo dos Planaltos do Paul da Serra, Chão dos Balcões e João do Prado. Aquíferos de moderada a elevada produtividade, com reservas somente locais De modo geral o que distingue o comportamento hidrogeológico desta mancha da anterior é um menor predomínio e espessura das camadas lávicas, as quais se apresentam intercaladas por níveis de materiais piroclásticos diminuindo-lhes o valor médio da permeabilidade. A ocorrência de aparelhos vulcânicos e a manifestação de fenómenos de vulcanismo fissural com o aparecimento de massas filoneanas, origina a existência de reservas aquíferas locais, quando as condições de alimentação são favoráveis. A Galeria das Fontes Vermelhas apresenta a sua elevada produtividade de cerca de 150 l/s, relacionada com a intercepção desta mancha, a qual apresenta localmente condições morfológicas e tectónicas que originam importantes reservas instaladas no Santo da Serra. Os furos instalados nas bacias hidrográficas das ribeiras de Santa Cruz, Socorridos e Porto Novo, devem a sua exploração aquífera às reservas acumuladas no interior destas formações em locais que estruturalmente se afiguram favoráveis. Os valores de transmissividade oscilam entre 3x103 m 2 /d e 4x103 m2 /d, podendo proporcionar caudais de 40 a 90 l/s com rebaixamentos de 1,0 a 5,0 m.

Existem ainda algumas galerias de pequena extensão nas zonas da Quinta Grande, Campanário, Calheta, Prazeres e Fajã da Ovelha, que servem de origem de abastecimento a pequenos núcleos populacionais e para rega, apresentando moderada produtividade de 3 a 10 l/s. Estes valores, são devidos à ocorrência de rochas em que prevalecem níveis de piroclásticos e basaltos em fase de alteração, portanto, de fraca permeabilidade. Aquíferos pouco produtivos ou eventualmente de boa produtividade em zonas muito localizada Foram incluídas nesta mancha as formações de natureza piroclástica da primeira fase eruptiva, as quais se apresentam quase sempre em grande estado de alteração, originando à superfície materiais essencialmente argilosos. Os trabalhos de captação horizontal que atravessam em determinados troços esta mancha, têm-se mostrado com caudais extremamente reduzidos, muito embora a sua traçagem esteja implantada por vezes em áreas com elevados valores de precipitação. Tal facto prende-se com a fraca permeabilidade dos materiais que compõem estas formações geológicas e necessariamente com a falta de infiltração necessária à criação dum fácil fluxo de percolação. Muitas vezes, encontram-se diques ao longo do traçado das galerias aqui instaladas; no entanto, o contributo de produtividade é sempre pequeno, talvez devido a uma enorme perda de carga na percolação, resumindo-se quase sempre em pequenos “pingueiros”. Estão nestas condições o troço da Galeria dos Tornos na zona da Fajã da Nogueira, o Túnel na Fajã do Penedo, a Galeria do Curral das Freiras e os Túneis da Encumeada. Nas captações tubulares instaladas na Ribeira de Machico, foram encontrados valores de boa produtividade, tendo-se atravessado alguns níveis de materiais gosseiros de aspecto escoriáceo pouco argilosos e de basalto

muito fracturado a partir dos -60,0 m, originando em dois furos um nível aquífero superior à superfície topográfica e debitando naturalmente um caudal superior a 5 l/s. As condições favoráveis de produtividade e a elevada carga piezométrica aqui encontradas parece poderem atribuir-se à existência de uma fracturação intensa de direcção NNE-SSW e ENE-WSW que condiciona a percolação de todas as zonas periféricas a cotas mais elevadas em direcção ao vale, o que permite uma acumulação de reservas importantes. Ilha do Porto Santo As potencialidades dos recursos hídricos subterrâneos da Ilha do Porto Santo são muito reduzidas em virtude da constituição litológica e geomorfológica da ilha, as quais, associadas às condições climáticas desfavoráveis para recarga, não permitem a ocorrência de aquíferos importantes. As formações vulcânicas apresentam uma permeabilidade diminuta pois, mesmo quando fracturadas, mostram tendência para se colmatarem em profundidade por efeito da argilificação. As formações sedimentares, dada a pequena e irregular espessura e a heterogeneidade litológica, não permitem a acumulação de reservas, funcionando apenas com recarga das formações subjacentes. A rede filoniana, compartimentando todas as formações geológicas, dá origem a descontinuidades, não permitindo a ligação hidráulica nas áreas de melhor aptidão aquífera. Da análise destas condições hidrogeológicas foi possível estabelecer duas manchas distintas de acordo com a sua permeabilidade: Aquíferos pouco produtivos Englobam-se aqui as rochas sedimentares, com realce para a cobertura de calcarenitos os quais, embora não possuam qualquer

armazenamento aquífero, permitem uma razoável infiltração das águas das chuvas e a sua acumulação nas rochas subjacentes. A permeabilidade com valores calculados entre 10-7 e 10-6 m/s poderá, nos casos em que a granulometria seja muito fina ou a cimentação mais intensa, adquirir menor valor, reduzindo-lhes assim o interesse aquífero. A existência em determinados locais de intercalações argilo-detríticas e, por vezes, de vulcanoclastos, diminui ainda substancialmente a permeabilidade destas formações. As captações aqui instaladas obtêm os seus débitos na base dos calcarenitos, constituindo as origens de água mais produtivas e de melhor qualidade química da região, tais como as da ribeira do Tanque, do ribeiro Cochino, do ribeiro Salgado e da Fonte da Areia. Aquicludo ou Região sem água subterrânea apreciável mesmo em profundidade A maior parte da superfície da ilha é constituída por rochas de permeabilidade extremamente reduzida ou praticamente impermeáveis, assumindo estas maior significado na zona nordeste. Incluimos nesta mancha as formações vulcânicas, quer as fracturadas que mostram tendência para se colmatarem e com sistemas de fracturas sem grande continuidade, quer as de natureza piroclástica com comportamentos que se poderão considerar como impermeáveis. Todavia, na zona sudoeste, a captação do Zimbralinho adquiriu especial importância devido a fenómenos de transferência de água entre bacias hidrográficas, ocasionadas por um sistema de fracturas acompanhado por massas filoneanas. Na zona nordeste, ocorrem algumas pequenas emergências de carácter sazonal que funcionam como descargas de água infiltrada no topo dos maciços, mas com produtividades diminutas.

Interesse da Carta No domínio dos recursos hídricos subterrâneos é indispensável uma série de dados e informação de base, que permitam caracterizar a situação, por forma a poderem-se tomar as decisões certas e alcançar os objectivos pretendidos. O conhecimento da distribuição e potencialidades dos sistemas aquíferos, das áreas e meios de exploração mais favoráveis, irá por certo contribuir para uma correta intervenção na gestão e ordenamento daqueles recursos. Exploração de águas subterrâneas Ilha da Madeira Para satisfação das necessidades de abastecimento de água, o aproveitamento dos recursos hídricos subterrâneos na Madeira iniciou-se no século XV, através de um sistema de transporte em aquedutos denominados “levadas“, que captavam as numerosas descargas subterrâneas desde as zonas altas e as conduziam para a costa sul, onde a concentração populacional era maior devido às condições mais favoráveis de clima e relevo. Em 1947 iniciaram-se as obras do Plano Geral de Aproveitamentos Hidráulicos com a construção da nova e extensa rede de levadas para condução da água das emergências de maior débito, conjuntamente com algumas escorrências superficiais da zona norte para sul. Esta água, distribuída por gravidade, era essencialmente usada para irrigação, produção de energia eléctrica e, em parte, para uso doméstico. Em 1960 inicia-se a construção do Túnel dos Tornos cujo sucesso veio demonstrar a vantagem deste tipo de captação quando se conjugam condições favoráveis de constituição geológica, topográficas e de recarga.

Posteriormente, foram realizadas novas galerias cujas produtividades têm vindo a satisfazer as necessidades de consumo, embora se tornem muito influenciadas pela variação do regime pluviométrico. O aumento populacional e o desenvolvimento económico e turístico vieram aumentar a necessidade de obtenção de maior volume de água para abastecimento e regadio, tendo-se iniciado em 1978 a construção de captações tubulares nas zonas baixas das principais linhas de água, de modo a interceptar o elevado potencial aquífero basal existente nessas áreas. Os meios de exploração utilizados são os seguintes: Poços. A construção destas captações tem como finalidade a acumulação de água para a utilização particular em regadio, podendo algumas vezes captar pequenas emergências, mas sempre com o objectivo de constituir reservas para posterior utilização quando necessário. Furos. As primeiras sondagens executadas na ilha da Madeira não foram satisfatórias quanto a resultados de produtividade, sendo a bibliografia muito escassa sobre a caracterização técnica dos trabalhos. Dos sete furos então efectuados, encontram-se em serviço: dois no Caniçal, destinados ao abastecimento público, mas não satisfazendo minimamente as necessidades, pois o mais produtivo não ultrapassa os 4,3 l/s; e um outro, na ribeira de Boaventura, que abastece uma unidade de britagem. Em 1984 iniciou-se nova campanha de furos de pesquisa e captação os quais foram implantados nos seguintes locais: - Ribeira de Machico, executados dois furos de captação JK2 e JK3 com produtividades respectivamente de 60 l/s e 40 l/s e transmissividades de 110 m2 /d e 90 m2 /d. Inicialmente, realizou-se outro furo denominado JK1, para jusante dos anteriores, com o objectivo de efectuar um controlo do

eventual avanço da intrusão marinha. - Ribeira dos Socorridos, possui cinco furos de captação com produtividades médias de 80 l/s e rebaixamentos que não ultrapassavam os 3 m de profundidade à data da execução, tendo-se calculado valores de transmissividade da ordem de 3x103 m2/d . - Ribeira do Porto Novo, um furo denominado JK9 que se encontra em exploração com caudal de 40 l/s . - Ribeira Brava, realizados dois furos de captação de pequeno diâmetro e denominados VV1 e VV2 , que apenas produziram caudais da ordem dos 2 a 5 l/s, não ultrapassando a profundidade dos 60 m, em virtude da incapacidade do equipamento utilizado. Mais recentemente, em 1994, foram realizados outros furos de modo a reforçar os sistemas de abastecimentos existentes, não tendo esta campanha ainda terminado, mas existindo alguns dados que mostram resultados muito favoráveis. Os locais pesquisados foram os seguintes: - Ribeira do Porto Novo - um furo designado por JK10 e afastado cerca de 400 m para montante do já existente, obtendo-se uma produtividade semelhante a 40 l/s. - Santo da Serra - um furo, executado com o objectivo de reconhecer as capacidades produtivas desta unidade e, ao mesmo tempo, avaliar a rentabilidade de realização de furos de captação a cotas elevadas. Esta captação foi denominada JK11 e produziu 5 l/s . - Ribeira de Machico - dois furos, implantados entre as captações JK2 e JK3, produziram caudais de 60 a 90 l/s, com rebaixamentos de 4 a 5m em relação à cota do terreno. Os ensaios de caudal com duração de 90 horas mostraram não haver qualquer interferência entre estas captações e as anteriormente realizadas. - Ribeira de Santa Cruz - dois furos, designados por JK14 e JK15, deram produtividades de 65 e 100 l/s , apresentando ligeiros rebaixamentos

da ordem de 1,5 m. Galerias de captação. As principais galerias de captação encontramse implantadas nas zonas marginais dos planaltos, apresentando extensões da ordem dos milhares de metros como forma de penetrar no interior dos maciços vulcânicos. Existe ainda um elevado número de pequenas galerias que aproveitam as descargas de aquíferos suspensos. Mencionam-se nesta Notícia apenas as mais importantes da Região: - Galeria dos Tornos, com cerca de 5000 m de extensão, iniciou-se à cota de 600 m nos taludes da margem esquerda da ribeira de Santa Luzia e só começou a ser produtiva a partir dos 960 m, verificando-se que as zonas de maior débito estão relacionadas com as formações do complexo vulcânico da terceira fase ou seja, com as permeabilidades médias a altas. A água aparece em compartimentos de dique com diferentes pressões hidrostáticas. Registam-se elevados caudais entre os 960 e 1220 m, 3100 e 3150 m, 3210 e 3330 m e, ainda, entre os 3340 e 3600 m. - Galeria das Fontes Vermelhas, denominada também “Complexo Hídrico 7 de Outubro”, encontra-se localizada na margem direita das cabeceiras da ribeira de Machico e apresenta uma extensão total de 1107 m. Esta galeria, dirigida no sentido do maciço do Santo da Serra atravessou camadas basálticas e um complexo de rochas piroclásticas pouco produtivas até aquela extensão, altura em que cortou um dique seguido de basalto escoriáceo, donde surgiu um caudal instantâneo de 200 l/s. A sua produtividade encontra-se relacionada com o sistema aquífero do Planalto do Santo da Serra, tendo havido o cuidado de preservar e regularizar tão grande manancial, através da construção de uma estrutura de betão que garante a reconstituição das condições hidrogeológicas iniciais. - Galeria do Porto Novo, localizada na ribeira do Porto Novo e com direcção ao planalto do Poiso - João do Prado, atingiu o comprimento total de cerca de 2900 m. Até aos 2640 m mostrou pequenos índices de produtivi-

dade; a partir desta extensão iniciou o atravessamento de formações do aparelho vulcânico do Meio da Serra, constituídas por basaltos escoriáceos e vários diques, com realce para o troço situado aos 2815 m, onde ao interceptar um dique basáltico de direcção N78 o W o caudal aumentou substancialmente para 200 l/s. - Galeria das Rabaças, situa-se nas cabeceiras da ribeira da Ponta do Sol e encontra-se dirigida para a zona das Casas Velhas do planalto do Paul da Serra, tendo atravessado inicialmente um nível de conglomerados seguido de tufos e escórias basálticas, sendo neste contacto que apareceu a primeira zona produtiva. Esta galeria terminou aos 1900 m em formações basálticas, tendo atravessado uma zona intensamente fracturada aos 1850 m, de onde provém a grande produtividade. - Galeria da Rocha Vermelha, com orientação NE-SW, inicia-se na ribeira da Janela prolongando-se até à ribeira do Seixal com uma extensão de aproximadamente 1750 m. O emboquilhamento SW atravessa rochas piroclásticas até cerca dos 800 m, mostrando-se aqui praticamente seco, seguindo-se basaltos e escórias cortados por diques, onde se observou o aparecimento de grande quantidade de água com elevada pressão, cerca de 200 l/s . De notar que o traçado desta galeria na zona mais produtiva é coincidente com uma das áreas favoráveis à infiltração. - Galeria da Levada do Seixal, com o comprimento total de 1800 m e orientação NNE- SSW, apenas mostrou produtividade na parte média do traçado, tendo a água surgido ao longo de compartimentos de diques com caudal de 20 a 30 l/s. - Galeria do Rabaçal, projectada inicialmente para um comprimento de 1500 m, ao atingir os 500 m captou um caudal de 100 l/s, muito superior ao estimado e em ligação com diques de basaltos, cortando escoadas lávicas intercaladas com níveis de escórias basálticas. Esta galeria encontra-se implantada junto à Levada do Risco, na vertente oeste do planalto do Paul da

Serra. - Galeria da Levada do Risco, sobreposta à da Rocha Vermelha, com uma diferença de cota de 135 m, apresenta uma produtividade muito reduzida e com origem no contacto de tufos com escoadas lávicas. - Galeria da Fajã do Penedo, construída com o objectivo de aumentar o caudal disponível no sistema dos Tornos, encontra-se localizada na margem direita da ribeira do Porco e na direcção da ribeira de João Fernandes. Atravessou essencialmente materiais piroclásticos de baixa permeabilidade, cortados por fracturas subverticais paralelas, por vezes associadas a diques. A produtividade cifra-se em cerca de 15 l/s, com perdas de água de cerca de 5 a 10 l/s, nas proximidades do emboquilhamento. Aproveitamento de emergências ou grupo de emergências. Desde há séculos que se vem processando a utilização da água de nascentes no consumo doméstico e em sistema de regadios, em virtude da constância e elevado número destes pontos de água distribuídos quase uniformemente por toda a ilha. São originadas pela ocorrência de níveis argilosos instalados a cotas preferenciais no interior de formações mais permeáveis, sendo o contacto entre estes diferentes tipos de estratos responsável pela exsurgência da água. A água superficial, originada pela precipitação, infiltra-se nas camadas permeáveis, percolando até encontrar um nível impermeável de descarga. O primeiro nível de emergências surge entre os 1500 e 1600 m na zona do Pico Ruivo, Bica da Cana, Juncal e Lombo do Moiro, encontrando-se outra série entre os 1300 e 1400 m e as mais produtivas, cerca da cota dos 1000 m. Estas são as principais ocorrências, no entanto, outras sucessões se verificam a níveis inferiores, por vezes até próximo do nível do mar. Estima-se para volume total destas descargas o valor de 10x106 m3/ano.

Levadas de descarga subterrânea. O aproveitamento dos recursos hídricos para satisfação das necessidades agrícolas, eléctricas e de abastecimento conduziu à construção de canais associados a aquedutos e túneis para transporte dessas águas da zona norte, onde os valores de precipitação são mais elevados, para a zona sul, onde as manifestações aquíferas são menos intensas devido à suavidade do clima. As levadas transportam as águas provenientes de descargas subterrâneas, sendo também alimentadas no seu percurso por outros sistemas aquíferos, os quais foram detectados durante a fase construtiva deste tipo de condutas e naturalmente nelas integradas. A cartografia assinala os troços mais importantes das levadas que captaram recursos hídricos subterrâneos, os quais atingem por vezes caudais avultados. O volume total disponível no conjunto destes aproveitamentos cifrase aproximadamente em 130 x10 6 m3/ano.

Ilha do Porto Santo A área com melhor aptidão aquífera está situada na zona central da ilha e corresponde à cobertura das formações sedimentares, sendo aqui onde se concentram as captações mais produtivas e importantes da região. A qualidade química destas águas poderá considerar-se como favorável a nível local, pois os teores de cloretos situam-se entre os 250 e os 800 mg/l. A grande maioria das captações localizadas nas zonas nordeste e sudoeste são pouco importantes, pois além das diminutas produtividades a água apresenta elevados valores de teores de cloretos que nalguns casos atingem 2000 mg/l. Os recursos hídricos subterrâneos são normalmente explorados

através das seguintes captações: Poços. Localizam-se ao longo das principais linhas de água e nas áreas correspondentes às planícies de nível de base, junto ao litoral sul. Estas captações, quando equipadas com sistemas elevatórios, costumam ser designadas por “noras”, encontrando-se as mais importantes integradas na rede de abastecimento público, como é o caso das noras Leacock, Júlio Santos, Língua de Vaca, Heréus e Araújos, na ribeira do Tanque. Outra parte deste tipo de captações são utilizadas para rega, por vezes e quando junto do litoral apresentam as soleiras muito próximas ou mesmo abaixo do nível do mar, sendo notório a existência de fenómenos de intrusão salina derivados de uma exploração intensiva. Galerias. Estas captações foram executadas para o aproveitamento e melhoria de algumas nascentes, cuja água depois de captada é conduzida para depósitos e posteriormente bombeada para reservatórios. Existem duas galerias com cerca de 500 m de extensão, uma localizada na margem direita do ribeiro Cochino e outra, nas proximidades da Na Sra da Graça, que foram executadas como tentativa de melhoria de produtividade de emergências aí localizadas, mas com resultados desanimadores, pois os teores dos cloretos variam entre 3000 e 2000 mg/l. As galerias mais importantes encontram-se destinadas ao abastecimento público, a grande maioria delas com reduzidas extensões, como é o caso do Zimbralinho, na zona sudoeste, do ribeiro Salgado e do ribeiro Cochino, na zona central, e as do Perregil e Fonte Velha, na vertente norte junto à Fonte da Areia. Na base de algumas noras foram executadas galerias, sendo a mais importante a que liga a nora Língua de Vaca à nora dos Heréus. Furos. Nesta ilha foram levadas a efeito numerosas sondagens de

pesquisa e eventual captação, a grande maioria com resultados desfavoráveis, quer do ponto de vista quantitativo quer qualitativo. Das captações do tipo furo actualmente em serviço, uma localiza-se nas proximidades do Hotel do Porto Santo e outra, nas cabeceiras do ribeiro Cochino, não ultrapassando a melhor delas a produtividade de 5 m3 /h, com um teor de cloretos de cerca de 1 000 mg/l. A última campanha de furos foi executada em 1986; no entanto, nenhuma com possibilidades de aproveitamento, devido aos diminutos caudais e ao elevado teor de cloretos. Aproveitamento de emergências. Existem algumas emergências mas a grande maioria de carácter sazonal e com produtividades diminutas, destinando-se uma parte para rega e outra, para o abastecimento de pequenos fontenários.

Qualidade química das águas Ilha da Madeira A composição físico-química das águas ocorrentes na região é função do percurso realizado, do tempo de residência e da maior ou menor permeabilidade das formações atravessadas, variando a sua fácies com a cota a que se encontra. As águas das captações tubulares instaladas nos aquíferos basais e relacionadas com a acumulação de reservas nas zonas costeiras, costumam apresentar uma fácies bicarbonatada a cloretada e em que os catiões prevalecentes são o Na+ e o Ca2+. Trata-se de águas fracamente mineralizadas, com condutividades que não ultrapassam os 300 µS/cm e com pH entre 6,9 e 7,7. A mineralização

destas águas diminui em função do afastamento da linha de costa, provavelmente devido a uma maior concentração de sais nas zonas de descarga. As águas das emergências apresentam uma composição físicoquímica variável e em relação com a altitude, apresentando-se essencialmente cloretadas até à cota de 700m, passando depois a bicarbonatadas até cerca dos 1300 m, seguindo-se finalmente outro grupo em que a concentração hidrogeniónica e a mineralização é menor e a sua fácies varia entre bicarbonatada e cloretada. A variabilidade vertical destas águas poderá atribuir-se às diferenças dos valores de precipitação e temperatura, à distribuição vertical dos diferentes tipos litológicos e necessariamente da permeabilidade, ao aumento do tempo de residência e, ainda, à concentração de sais nas zonas mais próximas do litoral. A água das galerias, embora reflectindo um quimismo relacionado com a cota a que se encontram instaladas, possuem em regra uma mineralização mais elevada que a das emergências, ocasionada pelo maior tempo de contacto da água com o material rochoso no percurso de percolação.

Ilha do Porto Santo De modo geral trata-se de águas excessivamente mineralizadas e alcalinas, em que o anião dominante é o Cl - e o catião é o Na+, havendo, no entanto, variações pontuais em função do tempo de contacto e do tipo de formação geológica onde está instalado o seu percurso. As formações vulcânicas desenvolveram-se em meio submarino incorporando na sua constituição grande quantidade de sais, que a percolação aquífera acaba por arrastar e originar a sua concentração, por efeito da elevada evapotranspiração e diminuta precipitação. Poderá haver também uma contribuição das brisas marinhas, que

contendo sais em suspensão os introduzem no circuito aquífero através das águas das chuvas, afectando tanto os recursos hídricos subterrâneos dos calcarenitos como os das rochas vulcânicas. É notório, no entanto, que quanto maior for a espessura das formações calcareníticas, menor é o valor da condutividade e do teor de cloretos. Nas captações do Perregil, Fonte da Areia, Nora Leacock, Nora Júlio Santos e Língua de Vaca, o teor de cloretos varia entre 250 e 550 mg/l e a condutividade entre 1200 e 2000 µS /cm, enquanto que nas captações dos ribeiros Cochino e Salgado, onde a cobertura sedimentar é mais reduzida, estes valores oscilam entre 800 e 980 mg/l para teor de cloretos e entre 4000 e 4300 µS/cm para a condutividade. Nas águas em que o percurso se encontra apenas limitado às formações vulcânicas, os valores de cloretos atingem teores compreendidos entre 700 e 2000 mg/l e a condutividade entre 4000 e 7000 µS /cm, dependendo do tempo de residência da água-rocha.

Nascentes de água mineral A exploração deste recurso encontra-se pouco implementada na Região, muito embora existam condições hidrogeológicas que permitam reconhecer a ocorrência de aquíferos com características de poderem conter água mineral natural ou, no mínimo, serem considerados como água de nascente. A informação disponível é escassa quanto a estes elementos e poucos estudos têm sido desenvolvidos sobre esta matéria a nível regional, tendo-se apenas conhecimento das seguintes águas minerais: Ilha da Madeira A bibliografia refere a ocorrência de três nascentes de água

consideradas como minerais, as quais se encontram localizadas nas zonas de Santo António (Funchal), Ponta da Queimada (Machico) e na Baía de Abra (Ponta de S. Lourenço), denominadas respectivamente por Águas do Jamboto, Águas de São Roque e Águas do Salitre. Estas águas estão classificadas de acordo com a composição físicoquímica determinada em análises referidas nos elementos consultados e mencionadas como se segue : Água do Jamboto - hipossalina cloretada férrica; Água de São Roque - cloretada bicarbonatada sódica; Água do Salitre - cloretada gaso-carbónica sódica.

Ilha do Porto Santo Na ribeira da Fontinha, situada nas proximidades da Vila de Porto Santo, existe uma unidade de engarrafamento industrial que aproveita a água de duas captações aí localizadas. Trata-se de água de fácies essencialmente cloretada.

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