A Dor como 5º Sinal Vital

UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR
Faculdade de Ciências da Saúde

A Dor como 5º Sinal Vital
Mestrado Integrado em Medicina – 1ºAno Módulo Arte da Medicina│Bloco Ética e Bioética

Ângela Dias Machado nº25721
Ano lectivo 2009/2010

Faculdade de Ciências da Saúde - UBI

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UBI Página 2 .A Dor como 5º Sinal Vital Índice Introdução O que é a dor? Algumas Classificações da Dor Classificação Temporal Classificação Fisiopatológica Dor como 5ºSinal Vital Conclusão Bibliografia 3 4 5 5 6 6 10 11 Introdução Faculdade de Ciências da Saúde .

defendendo a integridade do indivíduo e alertando-o para as suas perturbações. mal compreendida e subvalorizada. para a maior parte das pessoas. anulando-a quando desnecessária ou encontrando nela motivos de sublimação capazes de se encontrar a si própria. a persistência da dor para além do que é razoável causa-lhe sofrimento e interfere na sua qualidade de vida. irrealizável e a dor é mantida. ansiedade e depressão. Contudo. que a dor é uma experiência universal. quer nas suas formas agudas quer crónicas. Neste trabalho pretendo dar maior ênfase ao facto de a dor não controlada ser um grande problema de saúde pública por ser. a sua capacidade nesse campo é.UBI Página 3 . a estados de grande angústia. as investigações têm sido dificultadas pelo facto de a dor ser subjectiva e de a própria percepção individual da dor não ser consistente. Faculdade de Ciências da Saúde . A dor é sempre um fenómeno psicológico. podendo variar com a ocasião. benéfica. por vezes.A Dor como 5º Sinal Vital A dor confunde-se com o próprio Homem e acompanha-o durante toda a sua existência. tal forma. Porém. doença ou causa não diagnosticada. Mesmo que fosse de fácil quantificação. quer resulte de traumatismo. Infelizmente. de um modo geral. E. foi sempre difícil compreender e investigar a dor. O número de pessoas com uma incapacidade congénita para sentir dor é. embora a sua acção seja. Se juntarmos o facto de ser impossível comparar a dor de dois indivíduos. frequentemente. com alguma segurança. O ideal seria que a pessoa humana fosse capaz de gerir a sua dor. A compreensão do efeito da dor na mente é vital para o seu controlo eficaz. o cientista deparar-se-ia com outro problema quase insuperável: os voluntários para experiências escasseiam e as licenças para experimentação em animais são – como devem ser – difíceis de obter. a sua quantificação torna-se um pesadelo científico. conduzindo-as. pequeno que podemos generalizar.

Objectivamente. apenas admitimos a existência da dor quando se passa connosco e acreditamos na que os outros nos comunicam. Faculdade de Ciências da Saúde . e é claro que ele existe. de desespero. conseguimos começar a perceber como aquilo que a dor realmente é difere da nossa concepção instintiva acerca dela. dor de castigo. e assim não conseguimos escapar à ideia de que a dor representa uma agressão ao nosso corpo. de expiação. e assim por que é que não a conseguimos controlar eficazmente. A melhor definição é a da International Association for the Study of Pain (IASP): “Uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão radicular potencial ou real ou descrita em termos dessa lesão. graves. Também cremos que a intensidade da dor depende do grau de lesão. não temos meios de confirmação da dor que um indivíduo nos refere e só podemos inferir a hipótese de dor quando uma agressão. raiva. Sermos feridos causa dor e lesão. Esta pode ser aborrecimento. Não é possível sentir dor sem perturbação. de que sofrimento falamos? Da dos doentes que conhecemos tão pouco? Ou da nossa de os ver sofrer?” António Barbosa (1995) O que é a Dor? Quase todos já sentimos dores. a definição da IASP refere também uma componente emocional. Contudo. é óbvia. E assim voltamos à questão «o que é a dor?». Assim. quando sentimos dor. Mas de que dor. Contudo.UBI Página 4 . apenas temos duas coisas em mente – o elemento sensitivo e o elemento da lesão tecidular. mental ou existencial. por vezes.A Dor como 5º Sinal Vital “Dor de tormento. ou lesão tecidular.” Se dissecarmos esta definição peça a peça. O instinto diz-nos que a dor é o resultado de alguma agressão. Dor física. ansiedade ou medo.

tem consequências benéficas para o organismo. portanto não pode ser lesada. Quando não conseguimos encontrar qualquer lesão. e alguém que seja hipnotizado pode ser submetido a uma intervenção cirúrgica sem sentir nada. quando a dor não é passível de ser reparada. achamos que a dor é inevitável.A Dor como 5º Sinal Vital Pode também ser o autocontrolo para suportar deliberadamente a dor. que é sentida como uma) lesão tecidular potencial ou real. Contudo. Há duas situações que ilustram este facto: a dor de um membro fantasma é sentida numa parte do corpo que já nem existe. achamos que a dor não devia existir. devendo ser encarada segundo um modelo biopsicossocial. Por conseguinte. o nosso instinto diz-nos que dor é lesão. sem disso nos apercebermos na altura. A definição diz ainda que a dor é descrita em termos da (ou seja. a dor não é apenas uma sensação mas sim um fenómeno complexo que envolve emoções e outros componentes que lhe estão associados. É um sinal de alarme que Faculdade de Ciências da Saúde . é comum sentirmos dores sem qualquer motivo e lesionarmo-nos enquanto estamos distraídos.UBI Página 5 . para benefício ou como parte de algo desejável. Se bem que sejam exemplos extremos. não existe relação directa entre a causa e a dor. esta lesão nem sempre existe. Diferentes Classificações da Dor Classificações temporais: aguda. Além disso. A dor aguda é uma dor que. dependendo do contexto em que o indivíduo está inserido nesse momento. e que o seu alívio resulta da cura dessa lesão. Assim. no desporto ou noutra actividade. até certo ponto. nem sempre a lesão tecidular potencial ou real resulta em dor. ou quando esta já foi curada. recidivante Dor aguda «Aguda» em medicina significa de curta duração e delimitada no tempo. Assim. crónica. a mesma lesão pode causar dores diferentes em indivíduos diferentes ou no mesmo indivíduo em momentos diferentes.

existe um tipo de dor aguda que é provocada pela própria intervenção dos profissionais de saúde. que muitas vezes persiste para além da cura da lesão que lhe deu origem. um derrame articular ou uma úlcera gástrica. ela deve ser combatida de forma a não se perpetuar e a não se tornar eventualmente numa dor crónica. portanto. ou que existe sem lesão aparente. é um sintoma muito importante para o diagnóstico de várias doenças. Além disso. do ponto de vista ético. é fundamental controlar a dor. Neste contexto. por exemplo nos procedimentos de diagnóstico ou nas terapêuticas cirúrgicas. se está a “lesar” o doente e também com o objectivo de redução do risco de complicações pós-operatórias como as infecções respiratórias ou as tromboses venosas dos membros inferiores. Neste caso. Sendo. sendo a principal causa de procura de cuidados de saúde pela população em geral. por exemplo. Embora a dor aguda seja útil em muitas circunstâncias. por exemplo.UBI Página 6 . para além do sofrimento que causa. O mesmo se aplica à dor associada ao trabalho de parto. quando a actuação médica provoca dor ou sofrimento superiores aos necessários. eticamente inaceitável não propiciar ao doente todos os meios disponíveis para lhe aliviar a dor e o sofrimento inúteis. e ao mesmo tempo redução do tempo de internamento dos doentes. alterações do sistema imunitário com uma consequente diminuição das defesas do organismo e aumento da susceptibilidade Faculdade de Ciências da Saúde . pois considera-se que. uma queimadura. A dor crónica não tem qualquer vantagem para o doente. gera diversos estádios patológicos como.A Dor como 5º Sinal Vital avisa da ocorrência de um traumatismo. para alcançar um benefício terapêutico. Dor crónica A dor crónica é geralmente definida como uma dor persistente ou recorrente durante pelo menos 3-6 meses com duração e intensidade capaz de afectar adversamente a função ou o bem-estar do doente. a chamada dor aguda pós-operatória. pelo contrário.

Convém realçar que não se pode confundir tratamento da dor crónica com cuidados paliativos. a medicina complementar e todos os desenvolvimentos da fisiologia. a dor crónica provoca frequentemente insónias. Dor como 5º sinal vital O objectivo da nossa existência profissional. O seu êxito tem sido na prevenção da disseminação da doença e na determinação e eliminação das suas causas.resultante de lesão do sistema nervoso periférico ou central. Se a saúde é a ausência de sintomas dolorosos. mas não se esgotam nele. através da cura. ocorre a activação de nociceptores. No campo da saúde mental. com enormes repercussões sobre o indivíduo e a sociedade pelo sofrimento e custos sócio-económicos que lhe estão associados. As pessoas sentem-se ‘doentes’ por toda a parte. muitas vezes. subdividindo-se em dor neuropática (devida a compromisso neurológico) e psicogénica (de origem psicossocial). então a Medicina falhou no seu objectivo primordial. Há. Classificação fisiopatológica da dor Dor nociceptiva .devido a uma lesão tecidular contínua. A medicina moderna. podendo mesmo levar ao suicídio. Faculdade de Ciências da Saúde . pois. aliviar a dor e promover a “saúde”. enquanto futuros médicos. outros sintomas e. Estes cuidados recorrem frequentemente ao tratamento da dor. é descobrir a causa. depressão.A Dor como 5º Sinal Vital às infecções.UBI Página 7 . provavelmente tão frequentemente como até aqui. ansiedade. estando o Sistema Nervoso Central íntegro. psicologia e patologia humana tiveram pouco efeito na incidência da ‘doença’ na comunidade. uma tendência actualmente para encarar a dor crónica não como um mero sintoma mas. sendo subdividida em dor visceral e dor somática Dor sem lesão tecidular activa . Sintomas comuns como a dor permanecem sem alívio porque a sociedade encara a saúde como a ausência de doença e não como a ausência de sintomas. como uma doença por si só.

é uma associação de todo o ser da pessoa bio-psico-social. foi criado o Plano Nacional de Luta Contra a Dor. organizada e validada cientificamente. dado que a sensação da mesma apenas pode ser sentida pela pessoa que a tem. a satisfação das necessidades do doente com dor continua a ser uma das dificuldades dos profissionais de saúde. Isto porque nós – medicina e sociedade – não compreendemos a dor. a dor é considerada um problema de saúde pública e nos últimos anos tem havido um interesse crescente de investimentos nesta área. porque a dor é uma experiência individual complexa. é causada ou persiste apesar do tratamento da doença. Como refere McCaffery. uma vez que é difícil avaliar e intervir adequadamente numa área em que é imprescindível uma articulação com uma equipa multidisciplinar. Apesar da criação do Plano Nacional de Luta contra a Dor. Actualmente. Com esta finalidade. e resulta em invalidez desnecessária. Faculdade de Ciências da Saúde . em Março de 2001. e no respeito pelos saberes. Isto. devendo o indivíduo ser tratado de forma holística e só através da congregação de esforços de toda a equipa.UBI Página 8 . se poderá encontrar uma intervenção eficaz em que o doente sairá mais beneficiado. quer a nível internacional. e a sua experiência individual de vida. é daqui que nasce a singularidade dos cuidados médicos. a pessoa que tem dor é a única autoridade sobre a existência e Natureza dessa dor. com o aparecimento de Associações para o Estudo da Dor. Nesta intervenção. condiciona a forma como sofre e exprime a sua dor. quer a nível nacional. que define o modelo organizacional a desenvolver pelos serviços de saúde e orientações técnicas que promovam práticas adequadas na abordagem da Pessoa com dor. tendo como objectivo definir uma actuação planeada. “A dor é o que a pessoa diz ser e existe sempre que a pessoa diz que existe”.A Dor como 5º Sinal Vital Muita da dor sofrida é desnecessária.

Contudo. pressão arterial e temperatura corporal. frequência cardíaca. estudos epidemiológicos indicam que a dor crónica mais frequente é a lombalgia ou seja as vulgares dores de costas). é necessário perguntar ao doente como este sintoma o afecta. que vão desde os medicamentos analgésicos anti-inflamatórios não esteróides. ou outro tipo de tratamentos como a fisioterapia e outras terapêuticas complementares. devido à complexidade do seu diagnóstico e/ou à necessidade de se Faculdade de Ciências da Saúde . dispondo para o efeito de um vasto leque de opções terapêuticas. existem alguns casos de dor em que. até aos opióides fortes como a morfina. nomeadamente a frequência respiratória. transmitindo informações sobre sensações dolorosas. que se considera como boa prática clínica.UBI Página 9 . em todos os serviços prestadores de cuidados de saúde.A Dor como 5º Sinal Vital Contudo. de modo a optimizar a terapêutica. a avaliação e registo regular da intensidade da dor. a Direcção-Geral da Saúde instituiu a “Dor como o 5º sinal vital”. na folha de registo dos sinais vitais (indicadores das condições de saúde). Mas a dor não é palpável. à semelhança do que já acontece há muitos anos para os 4 sinais vitais. não há um termómetro de dor. devendo ser incluído um espaço para registo da (sua) intensidade.que permitem uma avaliação com um carácter menos subjectivo. pois não há uma medida directa para a sua avaliação. através dos médicos de família. O tratamento da dor deve ser feito fundamentalmente nos cuidados de saúde primários. ou seja. A equiparação da dor a 5º sinal vital significa. Estes profissionais de saúde estão habilitados a diagnosticar e tratar a grande maioria das patologias dolorosas (a título de exemplo. Como tal. este aspecto nem sempre está presente na actuação dos profissionais de saúde pois estes preferem lidar com um sintoma que pode ser detectado e medido. como já foi referido. dar segurança à equipa prestadora de cuidados e melhorar a qualidade de vida dos doentes. Esta subjectividade levou ao aparecimento de instrumentos de trabalho – escalas da dor . como a aspirina. concretamente.

habitualmente designadas por Unidades de Dor. Conclusão O confronto diário com um elevado número de pessoas internadas que sofrem com dor (mais do que as palavras dos doentes.UBI Página 10 . é necessário referenciar os doentes para serviços de saúde especializadas no diagnóstico e tratamento da dor. é o seu rosto triste e o seu olhar que tocam) e a dificuldade dos médicos e profissionais de saúde em a avaliar e intervir adequadamente nesta área. Faculdade de Ciências da Saúde .A Dor como 5º Sinal Vital instituírem terapêuticas mais diferenciadas. constituíram a base para a realização deste trabalho.

perturbações sexuais e. o controlo eficaz da dor é um dever dos profissionais de saúde. muitas vezes. que se podem traduzir em alterações de comportamento (regressão. aflição. falta de actividade.UBI Página 11 . bem como comportamentos terapêuticos assentes em bases científicas racionais. por si só. diminuição ou perda de apetite. A partir do momento em que se torna a dor visível não é possível ignorá-la. por excesso de medicação. O adulto com dor crónica sofre deterioração física progressiva por perturbações do sono. poderá sofrer alterações ao nível do seu desenvolvimento e da própria tolerância à dor. Inicialmente.A Dor como 5º Sinal Vital Vários estudos realizados com pessoas internadas nos Hospitais mostraram a existência de dor não aliviada. angústia mental e física e aumento da taxa de ocupação hospitalar. um direito dos doentes que dela padecem e um passo fundamental na qualidade dos cuidados que prestamos. diagnóstico e prognóstico. depressão e agressividade). Assim. Na criança hospitalizada. sujeita a investigação específica na sua produção e manifestações. só muito recentemente a dor foi considerada. o que contribui para a fadiga geral e incapacidade que se reflectem negativamente na sua qualidade de vida. Faculdade de Ciências da Saúde . a dor e a antecipação da dor geram ansiedade e medo. isolamento social. Sabe-se que o recém-nascido prematuro exposto frequentemente a manobras invasivas dolorosas. factor de informação. como entidade individualizada.

Faria. Heldberg.. Fox. Recursos de estudo disponibilizados na UP2: A Questão da Dor e o do Sofrimento – “A vivência da dor em contexto clínico: a dor enquanto sinal vital e a dor enquanto doença vivida” Faculdade de Ciências da Saúde . Lda. Direito de Saúde e Bioética.UBI Página 12 . Guilherme de. Osswald. Lisboa: Coniam. O Cuidador e o Doente Paliativo – Climepsi Editores. Coimbra: Formasau. Sinde. Maio de 1999 o Análise das necessidades / dificuldades do cuidador para o cuidar do doente paliativo no domicílio. Gomperts. Soares. Correia. Março de 2003 o o Bernard. W. Cuidados Paliativos. Sérvulo. Jean. Maria Manuela.. Katrina. 1998. Mikihiko. Rocha. Cohen.. A Bioética. Lisboa: Instituto Piaget. Oliveira. S. Março de Auby. Monteiro. Lisboa: Cerqueira. Mário. Have. Robert. Controlo da Dor Crónica. Freitas do.A Dor como 5º Sinal Vital Bibliografia o Twycross. Reneé C. Ascensão. Engelhardt. H.. Editor Principia. Diamond. Porto Alegre: Artmed. Robert. Arthur. Ronald. Rebecca. Schwatz. Segredos em clínica de dor. pg. Lisboa: Lex Edições Jurídicas. Amaral. Formação e Saúde. Eric. Jean-Marie. 10-13. 1ª Edição. Martinez. 1993 Caplan. Tristan. Smith. W. 1991. Nogueira da. A. 42-53 o Kanner. 2ª Edição. Wada. Walter. Henkten. Oliveira. Paula Lobato de. Wesley J. 2006 o The fullbright Brainstorms on Bioethics – Bioethics: Frontiers and New Challenges. Novembro de 2003 o Climepsi Editores. Raposo.

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