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Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano:

para além das analogias biológicas

Rosana Icassatti Corazza


Professora da Facamp
Pesquisadora colaboradora do Grupo de Estudos sobre
Organização da Pesquisa e da Inovação (GEOPI-DPCT, IG/Unicamp)
Paulo Sérgio Fracalanza
Professor da Unicamp e da Facamp
Pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT-IE/Unicamp)

Palavras-chave Resumo Abstract


análise neo-schumpeteriana, Este artigo traz reflexões acerca da constru- This paper aims at contributing to the discussion
abordagem evolucionista, ção teórica da abordagem neo-schumpete- of the theoretical construction of
analogias biológicas, riana sobre as mudanças técnica e econômica. neo-schumpeterian approach of technical and
auto-organização. São recuperados, num primeiro momento, economic change. Firstly, some fundamental
Classificação JEL B52. argumentos fundamentais desta abordagem arguments of this approach which are built in
que se constroem com base em analogias analogy to the evolutionist conception of
com a concepção evolutiva das Ciências Bio- Biological Sciences are presented. Secondly, we
lógicas. Num segundo momento, faz-se um intended to distinguish, in recent literature, how
esforço para discernir, em suas contribuições neo-schumpeterian thinking evolves beyond such
recentes, como o pensamento neo-schumpe- analogies, by integrating the concept of
teriano se desenvolve para além dessas analo- self-organization as the explaining element of
gias, incorporando o conceito de auto-organi- the dynamic and evolving character of economic
Key words zação como elemento explicativo do caráter systems. Finally, some implications of such new
neo-Schumpeterian analysis, dinâmico e evolutivo dos sistemas econômi- perspective for the new-Schumpeterian research
evolutionist approach, biological cos. O artigo é finalizado pela identificação de agenda are identified.
analogies, self-organization. algumas implicações que essa nova perspecti-
va coloca sobre a pauta de pesquisas da agen-
JEL Classification B52. da neo-schumpeteriana.

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1_ Introdução 2_ Analogia biológica na


A partir do final dos anos 1970, os cha- abordagem neo-schumpeteriana
mados economistas neo-schumpeterianos da mudança tecnológica
difundiram amplamente o emprego de No conjunto das análises econômicas
analogias biológicas para a compreensão neoclássicas, a tecnologia é representada
do caráter evolutivo do desenvolvimento por uma função de produção que relacio-
capitalista e sobretudo do processo de na uma combinação particular de fatores
mudança tecnológica.1 de produção ou insumos com os níveis
Neste artigo, procura-se recupe- de produção alcançados. Já o progresso
rar, na segunda seção, a argumentação técnico é definido tout court como respon-
neo-schumpeteriana da mudança tecno- sável pela expansão da fronteira de possi-
lógica, evidenciando as principais analo- bilidades de produção.
gias biológicas empregadas, particular- Sob inspiração dos trabalhos de
mente emprestadas à teoria da evolução Schumpeter, a abordagem neo-schumpe-
biológica. Na terceira seção, são explora- teriana, que se constituiu teoricamente,
dos alguns aspectos da literatura neo- em certa medida, em contraposição às
schumpeteriana recente que, aproprian- representações neoclássicas da tecnolo-
do-se do conceito de auto-organização gia e do progresso técnico, oferece uma
como elemento explicativo do caráter di- análise da tecnologia que coloca a dinâ-
nâmico e evolutivo dos sistemas econô- mica tecnológica como motor do desen-
micos, conduzem a análise para além das volvimento das economias capitalistas.
referidas analogias biológicas. Um esfor- Em conhecido artigo, Dosi (1988)
ço para a identificação de algumas impli- define tecnologia como um complexo de
cações desses desenvolvimentos teóricos conhecimentos práticos e teóricos, en-
recentes para a agenda de pesquisa neo- globando – além de equipamentos físi-
schumpeteriana é objeto dos comentá- cos – não apenas know-how, métodos e
rios finais do artigo. procedimentos, mas também experiên-
1 Neste artigo, apoiamo-nos interna dessa abordagem evolucionistas’ (R. Nelson em sua natureza e impactos,
em grande parte na proposta pelo autor, que e S. Winter – EUA) e da destacando uma inter-relação
identificação de Possas (1988) aponta os “autores [...] SPRU da Sussex (UK, sob a com a dinâmica industrial e a
dos autores da abordagem basicamente situados em dois direção de C. Freeman), [que] estrutura dos mercados [...]”
neo-schumpeteriana, embora grupos não-rivais – o que voltam-se à análise da geração (Possas, 1988 p. 158).
não empreguemos a clivagem desenvolve ‘modelos e difusão de novas tecnologias

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cias (bem ou mal sucedidas). Se por schumpeteriana, evidenciando sua inspi-


um lado os equipamentos “incorporam” ração biológica. Assim, trata-se de iden-
os avanços tecnológicos, por outro uma tificar, nos comportamentos dos agentes
parte desincorporada da tecnologia con- econômicos:
siste em uma expertise particular, que é re- a. os elementos de permanência ou
flexo de experiências pregressas e de solu- hereditariedade;
ções tecnológicas passadas. Nessa pers- b. um princípio de variações ou mu-
pectiva, o autor advoga que a tecnologia tações;
inclui a percepção de um conjunto limitado de al- c. os mecanismos de seleção.
ternativas tecnológicas possíveis e de desenvolvimen-
tos nocionais futuros (Dosi, 1982, p. 151-152). 2.1_ Hereditariedade na economia
É possível dizer que, enquanto neo-schumpeteriana
as análises neoclássicas se desenvolve- Os elementos de permanência ou hereditariedade
ram emprestando conceitos à Mecânica têm em Economia, segundo a perspecti-
Newtoniana, a visão neo-schumpeteria- va neo-schumpeteriana, papel semelhan-
na foi significativamente influenciada pe- te ao dos genes em Biologia. Esses “ge-
la teoria da evolução, das Ciências Bioló- nes” assumem a forma de rotinas seguidas
gicas (Boulding, 1981). Assim como a pelos agentes econômicos e da coleção de
Biologia tem na teoria da evolução uma ativos de que uma firma dispõe.
teoria geral da mudança das espécies, a Estando na base dos comporta-
visão neo-schumpeteriana se estruturou, mentos dos agentes, e em particular das
ao longo das duas últimas décadas, como organizações, a noção de rotina é central
tentativa sistemática de construir uma em toda representação neo-schumpete-
teoria geral da mudança em Economia. riana. Nelson e Winter (1982) empregam o
Aliás, era essa a forma pela qual era apre- termo de maneira bastante flexível, com
sentado o programa de pesquisas neo- referência a uma atividade repetitiva que
schumpeteriano por dois de seus mais se consubstancia no interior de uma or-
ilustres tenentes no início da década de ganização e que decorre fundamental-
1980 (Nelson e Winter, 1982). mente da mobilização e da expressão de
As próximas subseções dedicam- competências individuais. Desse modo,
se a apresentar os principais conceitos o desempenho das tarefas quotidianas no
formulados dentro da abordagem neo- interior de uma organização e a solução

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encontrada para os conflitos criam um re- zão que as rotinas podem ser considera-
pertório de respostas aos problemas mais das, como enfatiza Ménard (1997), como
freqüentes. Essas respostas não são pau- procedimentos eficientes de estocagem
tadas pela otimalidade (ou maximização), de informação e de interpretação de si-
uma vez que são fruto de conhecimen- nais provenientes de fora da organização.
tos tácitos de sujeitos que não podem Por essa razão, as rotinas são uma espécie
ser maximizadores perfeitos e que, em fun- de memória organizacional.
ção de sua experiência pregressa e de li- Tendo, então, sua conformação
mitações cognitivas, se deixam guiar pe- moldada pela aprendizagem que é gerada
las rotinas construídas. no desenrolar das rotinas, os compor-
Assim, entendemos por rotina uma tamentos individuais dificilmente po-
estrutura de comportamento regular e pre- deriam ser reduzidos, de acordo com
visível que conduz a esquemas repetitivos Dosi (1991, apud Kemp, 1997) a um prin-
de atividade. Se as rotinas, porém, são ca- cípio de racionalidade invariante. A pro-
racterizadas pela repetição, também o são posta neo-schumpeteriana de interpreta-
pela experimentação, o que faz com que as ção dos comportamentos dos agentes se
tarefas sejam executadas de maneira pro- caracteriza, portanto, pela recusa das hi-
gressivamente melhor e mais rápida, propi- póteses de maximização e de racionalida-
ciando a geração constante de novas opor- de substantiva, que são fundamentos da
tunidades de operação. A repetição e a interpretação neoclássica.2
experimentação estão na base da apren- O segundo fator de hereditarieda-
dizagem, por meio da qual são construí- de é a coleção de ativos ou de recursos de
dos os comportamentos. É por essa ra- que uma organização dispõe.3

2 Uma interessante distinção situação de escolha entre de agentes cuja capacidade interpretação da firma como
entre racionalidade múltiplas alternativas, num cognitiva não são “coleção de recursos”, cuja
substantiva e racionalidade quadro em que o critério que homogêneas, num universo alocação é determinada por
processual é apresentada por norteia essa escolha é o da caracterizado pela presença de decisão administrativa (dada
Koenig (1993). Segundo o maximização (do lucro ou da incerteza de natureza não por Penrose, 1959) e como
autor, a racionalidade utilidade), dada uma perfeita probabilística, e o resultado unidade de valorização desses
substantiva rege, no âmbito da disponibilidade de depende do processo que recursos.
análise neoclássica, os informações. A racionalidade estrutura a própria escolha.
comportamentos decisórios processual, por sua vez, 3 Como indica Possas (1995),

dos agentes diante de uma governa o processo de decisão é interessante reter a

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Possas (1999) sistematiza os ativos gíveis, fundamentados na experiência, co-


(ou recursos) de uma organização segun- nhecimento, relações estabelecidas, ima-
do sua natureza em quatro categorias: físi- gem criada” (Possas, 1999, p. 120).
cos (equipamentos, instalações, matérias- Entretanto, as rotinas e os ativos
primas), humanos, financeiros e imateriais não são todos equivalentes. Sabendo-se
ou “intangíveis” (imagem, boas relações, que as decisões dos agentes não são apoia-
experiência e capacidades). Ao caracteri- das por critério de otimalidade e que so-
zar esses ativos, a autora ressalta que maior frem mudanças em razão de processos
grau de flexibilidade pode ser associado de aprendizagem, espera-se que esses fa-
aos ativos financeiros, ao passo que graus tores de hereditariedade não sejam idên-
mais reduzidos de flexibilidade tenderão ticos entre os agentes – isto é, espera-se
a ser imputados aos ativos físicos e hu- que ocorra a diversidade.
manos e, finalmente, aos recursos ou ati-
vos intangíveis. O investimento em ati- 2.2_ Princípio de mutação na abordagem
vos pouco ou nada flexíveis encontra neo-schumpeteriana da mudança
justificativa no fato de serem eles justa- tecnológica
mente os de mais difícil imitação ou Já dissemos que a abordagem neo-schum-
transmissão entre as organizações, já que peteriana identifica um princípio de varia-
sua codificação é muito difícil ou mesmo ções e de mutações. De fato, essa abordagem
impossível.4 São “trunfos”, como a eles se concentra nas propriedades dos siste-
se refere a autora: mas econômicos, cuja dinâmica é gerada
internamente pela emergência persisten-
que permitem à firma a obtenção de ga-
te de inovações em produtos, processos,
nhos extraordinários [...]. [são] pontos
formas de organização, mercados e fontes
nos quais se podem estabelecer vantagens.
de matérias-primas. Existe, pois, segundo
Em muitos casos, como design, especifi-
cação ou desempenho, isso dependerá de
essa perspectiva teórica, um princípio di-
um saber técnico específico; em outros, de nâmico que conduz à evolução do sistema
uma capacidade particular de organização econômico, princípio este que pode ser
de administração; há ainda situações em encontrado nos comportamentos de bus-
4 Este ponto é abordado por ca (search) que estão na base das inovações.
que a imagem da firma é o relevante, ou
Foss (1996) e outros autores
que associam o conceito de outras nas quais o que importa são rela- Em outras palavras, são os comporta-
competências a esses ativos ou ções estabelecidas. Em todos os casos cita- mentos de busca que asseguram, em prin-
recursos menos flexíveis. dos temos a presença dos ativos intan- cípio, as transformações.

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Para compreender o princípio da do por uma heurística de busca, com base


variação, é útil distinguir, como sugere em experiências prévias, tentativas, suces-
Dosi (1991, apud Kemp, 1997), as rotinas sos e fracassos. Trata-se de uma visão de
estáticas, que consistem na simples repeti- processo em que a inovação não é fruto de
ção de práticas anteriores, das rotinas di- um cálculo de otimização, mas sim do re-
nâmicas, que são direcionadas a novas curso a uma heurística, isto é, a regras e
aprendizagens, isto é, são rotinas capazes procedimentos que são expressão de uma
de criar outras rotinas, outros ativos ou racionalidade confinada aos limites cogniti-
outras competências. vos dos agentes envolvidos, lidando com
A noção de rotina dinâmica de Dosi informações apenas imperfeitamente dis-
encontra equivalente no conceito de com- poníveis. Dessa forma, segundo Nelson e
portamento de busca, proposto por Nelson e Winter (1982), a heurística que caracteriza
Winter (1982), que designa processos ge- o processo de busca é fundamentada em
nuinamente associados a risco, feitos de conhecimentos humanos limitados e acu-
tentativas e erros. mulados ao longo do tempo, os quais, em-
A justificativa dos comportamen- bora não estejam voltados à obtenção de
tos de busca, imersos que são em um soluções ótimas ou maximizadoras, permi-
ambiente de profunda e ubíqua (pervasive) tem a geração de inovações.
incerteza, pode aparecer apenas ulterior- Dizer que as estratégias de busca
mente – ou pode simplesmente não apa- não são ótimas (e sim heurísticas) não sig-
recer. São as práticas de busca, porém, nifica ignorar a lógica de ação das organiza-
que permitem a inovação e, portanto, a ções capitalistas na busca da valorização de
mutação de firmas, indústrias e do pró- seus recursos. A teoria neo-schumpeteria-
prio sistema econômico como um todo. na assume, desde logo, a acepção do pro-
Ao cunhar o conceito de busca, cesso de concorrência capitalista como o
Nelson e Winter (1982) rejeitam que a ino- de enfrentamento de capitais em busca de
vação seja simples resultado de análises do oportunidades de valorização.5 Esse en-
tipo custo-benefício. Se as rotinas de busca, frentamento, no mercado, dá-se por meio
materializadas nas atividades de pesquisa e da busca incessante por parte das empresas 5 Esta acepção do processo

desenvolvimento, são permeadas por um por oportunidades de diferenciação, pela concorrencial, cara a muitos
economistas, está associada
tipo muito especial de incerteza – de natu- criação de assimetrias que lhes permitam à visão de capital como “valor
reza não-Bayesiana ou não-probabilística expandir suas fronteiras e conquistar no- que se valoriza”, encontrada
–, a inovação passa a ser um processo guia- vos espaços para a valorização do capital. em Marx.

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Dizer que essas estratégias não são ótimas É certo que o caráter de solução de
e, portanto, não são maximizadoras ex-ante problemas da inovação já define, per se, cer-
significa, isto sim, reconhecer que os tas questões ou áreas-problemas como rele-
agentes têm restritos limites cognitivos e vantes para investigação. Nesse sentido,
limitada disponibilidade de informações Rosenberg (1976) ilustra a importância
que não lhes permitem agir estritamente de dispositivos de focalização (focusing devices),
como maximizadores. que são problemas típicos, oportunida-
Assim, é sobretudo com o propó- des ou metas que tendem a ajustar o pro-
sito da valorização de seus recursos (ou cesso de busca em direções particulares.
ativos) que deve ser compreendido o en- Esses dispositivos de focalização assu-
volvimento das organizações nesses pro- mem a forma de imperativos tecnológicos que
cessos de busca da inovação. A perspectiva guiam a evolução de certas tecnologias,
da inovação é uma promessa da valorização de gargalos tecnológicos em certos proces-
dos recursos ou ativos das organizações, sos, ou ainda, de pontos fracos evidentes em
promessa cuja concretização exige uma produtos que se conformam em alvos
aposta (investimentos) por parte dessas. claros para aperfeiçoamentos. Esses si-
Ademais, dizer que as estratégias de nais evidentes que se poderiam colocar
busca não são ótimas não significa assumir como metas para os projetos de P&D de-
que a busca da solução de problemas, de lineiam o que Nelson e Winter (1977)
novos produtos e/ou processos tome a chamaram de trajetórias naturais, que ex-
forma de um fenômeno totalmente aleató- pressam certo moto interno (momentum) da
rio. A abordagem neo-schumpeteriana ofe- mudança tecnológica.7
rece diversas razões que fundamentam o Para evitar mal-entendidos, é pre-
caráter não randômico da inovação.6 ciso dizer que o que chamamos aqui de
6 Observemos, aqui, que os caráter até certo ponto estocástico podem provocar variação e interna do progresso técnico,
processos de busca envolvem para a ocorrência ou não de mutação esporadicamente” interpondo um questionamento
uma “dupla analogia biológica”: sucesso na tentativa de inovar. (Possas, 1996, p. 161). de fundo sobre seu arcabouço
admitem um paralelo tanto com No entanto, observam ainda os 7 Toda a argumentação sobre o conceitual: o determinismo
o darwinismo quanto com o autores sua adesão ao caráter não randômico da tecnológico. Uma leitura mais
lamarkianismo. Como pondera ‘lamarckianismo’ para efeito de inovação pode levar a um erro cuidadosa com respeito à
Possas (1988), “os autores desenvolver a analogia biológica: de interpretação, que consiste na operação dos mecanismos de
relacionam a busca com as não apenas os caracteres identificação da análise aprendizagem, à busca e à
mutações genéticas, notando adquiridos podem ser ‘herdados’, neo-schumpeteriana com um seleção deve, segundo
inclusive a possibilidade – e por aprendizado ou imitação, tratamento que privilegiaria entendemos, prevenir tal erro de
necessidade analítica – de um como também situações adversas exclusivamente uma lógica interpretação.

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moto interno está mais relacionado aos limi- imaginação tecnológica dos engenheiros e
tes das capacidades cognitivas dos agentes en- das instituições em que eles se inserem es-
volvidos no processo de busca do que tão focalizados em direções bastante preci-
propriamente a uma autodeterminação sas, estando eles – por assim dizer –
tecnológica, uma vez que as atividades de “cegos” com respeito a outras alternativas
tecnológicas (Dosi, 1982, p. 153).
busca sofrem influência não apenas do
conjunto de conhecimentos detidos por Podemos dizer que uma caracterís-
engenheiros e técnicos e por sua capaci- tica importante de um paradigma tecnoló-
dade de compreensão dos problemas gico é que existe uma estrutura cognitiva
em foco, mas até mesmo de suas crenças que envolve a forma de interpretação do
sobre o que é factível ou sobre o que po- problema e os princípios empregados pa-
de ser experimentado. Esse aspecto cog- ra sua solução a qual é partilhada por toda
nitivo do processo de busca é funda- a comunidade tecnológica e pelos agentes
mental no conceito de regime tecnológico econômicos e com base na qual procu-
de Nelson e Winter (1977). ram-se melhorias em eficiência de proces-
O conceito de regime tecnológico so e desempenho de produto.
é retomado por Dosi (1982), que suge- Mais uma vez é útil enfatizar que, ao
re, em analogia com as contribuições so- colocar o problema dos limites das capaci-
bre a estrutura das revoluções científicas dades cognitivas dos agentes, a abordagem
proposta por Kuhn, a noção de paradig- neo-schumpeteriana contribui para o rom-
ma tecnológico que é definido como um pimento com a visão neoclássica da racio-
modelo ou um padrão de solução de problemas nalidade substantiva dos agentes econômi-
tecnológicos selecionados, formulados com base cos. A limitação das capacidades cognitivas
em princípios derivados das ciências naturais, dos agentes constitui a razão fundamental
por meio do emprego de tecnologias materiais se- da incorporação, pela abordagem neo-
lecionadas. Aqui, novamente, o que temos schumpeteriana, da hipótese da racionali-
chamado de moto interno da mudança tec- dade processual (procedural racionality).8
nológica também tem nas limitações cog- A importância da dimensão cogniti-
nitivas dos agentes envolvidos no pro- va na abordagem neo-schumpeteriana co-
cesso de busca um fator determinante: loca a aprendizagem – que tem lugar, co-
Os paradigmas tecnológicos têm um pode- mo já mencionamos, no desenrolar das
roso “efeito de exclusão”: os esforços e a rotinas – como elemento chave na compa- 8 Ver nota n° 2 deste artigo.

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tibilização da diversidade dos conhecimen- paradigmas, o que faz, de acordo com o


tos individuais dentro de uma organização, autor, com que as atividades de inovação
conferindo coerência a suas decisões.9 tendam a ser seletivas, realizadas em dire-
Definidos os problemas tecnoló- ções bastante precisas e cumulativas no
gicos, os princípios científicos e as tecno- que diz respeito à aquisição de capacita-
logias materiais para sua solução – isto é, ções para solução de problemas.10
os determinantes do paradigma tecnoló- O aperfeiçoamento desses trade-
gico –, cabe indagar sobre a direção que offs pode ser compreendido como o aper-
tomarão essas soluções, ou seja, a direção feiçoamento de um projeto dominante.11 Há,
do progresso técnico. pois, possibilidades de continuidade do
Dentro de um paradigma tecnoló- desenvolvimento tecnológico que são,
gico, existe um padrão de atividade normal de em geral, bem percebidas pelos enge-
solução de problemas, isto é, de progresso dentro nheiros e técnicos. Como afirma Rosen-
[desse] paradigma (Dosi, 1982, p. 152), a berg (1982), o conhecimento tecnológico
que o autor chama de trajetória tecnológica. cresce de forma dependente do conheci-
Segundo ele, uma trajetória tecnológica é mento acumulado anteriormente – tra-
9 Em suas diversas determinada por um paradigma e pode ta-se da característica de path-dependence
modalidades: learning by doing, ser definida como uma atividade normal da construção desse conhecimento e das
learning by using, learning by para solução de problemas. Ela pode ser próprias trajetórias tecnológicas.
interacting...
representada por um movimento com Os efeitos da acumulação do co-
10 Exemplos desses trade-offs

são arrolados por Dosi (1988).


base na solução de trade-offs entre variá- nhecimento no desenvolvimento de tec-
Na tecnologia de aeronaves, veis definidas como relevantes pelo para- nologias sobre a conformação de certos
a relação entre variáveis como digma. A noção de progresso, atenta padrões de mudança tecnológica podem
a potência, o peso bruto para Dosi (1982), é precisamente relacionada ser compreendidos com base no concei-
decolagem, a velocidade
cruzeiro e a distância cruzeiro;
ao aperfeiçoamento desses trade-offs. to de rendimentos crescentes de adoção, de Da-
na tecnologia microeletrônica, Assim, a existência de padrões re- vid (1985). Examinando a expansão his-
as relações entre a densidade lativamente organizados de inovação é tórica da adoção do teclado QWERTY
dos chips, a velocidade de explicada por Dosi (1988) pela busca do para máquinas de escrever, David (1985)
computação e o custo por bit
de informação.
aperfeiçoamento de trade-offs técnico-econômicos. observou o auto-reforço ao qual estão
11 A respeito do conceito de Essa busca específica é explicada valen- sujeitas as escolhas tecnológicas em ra-
projeto dominante, consultar do-se da própria forma de organização zão dos rendimentos crescentes de ado-
Utterback (1996). do conhecimento tecnológico segundo ção derivados da ampliação da adoção.

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Embora esse teclado talvez não repre- nadas que definem as características téc-
sentasse a melhor possibilidade para o nicas de um produto e sua produção.
conforto e a rapidez da atividade de dati- A interdependência entre os componen-
lografia, o treinamento e a qualificação tes de uma tecnologia (ou sistema tecno-
de datilógrafos para o seu uso contribuiu lógico) confere a ela certa rigidez: muitas
para sua padronização nas máquinas de vezes não é possível fazer alterações iso-
escrever. Por sua vez, essa padronização ladas em um componente sem compro-
fez crescer o interesse pela aquisição de meter sua compatibilidade com a totali-
qualificação e treinamento nesse tipo dade do sistema.
de teclado. Esse auto-reforço, segundo Para David (1985), uma padroni-
sugere o autor, é um fenômeno que po- zação prematura pode ser o resultado da
de levar ao aprisionamento (fenômeno a emergência de soluções que se apresen-
que deu nome de lock-in) do progresso tam “cedo demais”, na presença de cer-
tecnológico em determinadas soluções, tas condições, como interdependências
as quais não se revelam necessariamente técnicas, economias de escala e irreversi-
como as mais desejáveis. A história do te- bilidade gerada por efeitos de hábito e
clado QWERTY, como é narrada por aprendizagem.
David (1985), revela como eventos históri- Admitir a interdependência entre
cos podem influenciar os rumos da mu- as tecnologias – o fato de que técnicas,
dança tecnológica, levando ao apareci- equipamentos e o conhecimento neces-
mento desses fenômenos de lock-in. sário para operá-los estão inter-relacio-
Além de estarem relacionadas (e nados de modo sistêmico – implica aceitar a
apresentarem interdependências) quanto impossibilidade de constituição isolada
à evolução da qualificação dos usuários, de uma tecnologia. As tecnologias es-
as tecnologias não se desenvolvem isola- tão, por assim dizer, imersas em um con-
damente. Existem, também, interdepen- texto com dimensões tecnológicas, so-
dências técnicas. No mais das vezes, as ciais e econômicas.
tecnologias se organizam na forma de Assim, por exemplo, ao falar de
sistemas tecnológicos que articulam di- sistemas tecnológicos, Freeman (1991) rela-
versos componentes. Conforme sustenta ciona a constelação (cluster) de inovações
Rosenberg (1976), uma tecnologia é feita em materiais sintéticos, inovações petro-
de componentes ou partes inter-relacio- químicas e inovações em equipamentos

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para manufatura de plásticos introduzi- Aliás, o esforço de preservação


dos na década de 1930. Essas inovações, desse patrimônio pode ser compreendi-
inter-relacionadas, fazem parte do siste- do como fonte de certa rigidez das traje-
ma tecnológico da indústria petroquími- tórias tecnológicas, quando as organiza-
ca. Da mesma maneira, a automatização ções se comportam de modo a preservar
elétrica de bens de consumo duráveis do- seu status quo. Comportamentos desse ti-
mésticos está presente em uma constela- po não estão em desacordo com a lógica
ção de inovações (como os aparelhos li- da valorização do capital, que subsume
quidificadores e batedeiras elétricas), que ao processo concorrencial. Pelo contrá-
não envolvem apenas inter-relações téc- rio, trata-se de uma aversão ao risco que é
nicas, mas também abarcam interdepen- coerente com a tentativa de preservar as
dências econômicas e inovações organi- posições já alcançadas pela organização,
zacionais. Um exemplo fornecido pelo por meio da proteção de seus recursos
autor é a cristalização do hábito do con- no estado em que se encontram – evitan-
sumidor do uso dos sistemas de crédito do tanto quanto possível, portanto, quais-
na compra de bens duráveis. quer mutações e tentando continuar usu-
Por outro lado, uma vez realizada fruindo da rentabilidade oferecida por
uma mudança compatível com o sistema, esses recursos/ativos até então. Um tal es-
torna-se impossível o retorno à situação forço de preservação de seus ativos con-
anterior. Assim, o conceito de trajetória tribui para a inércia de uma organização.
tecnológica, além de path-dependent, impli- Os conceitos apresentados, de inér-
ca irreversibilidade, isto é, uma vez alcan- cia organizacional, de path-dependence, cu-
çada nova posição ou novo patamar no mulatividade, irreversibilidade e lock-in,
progresso da trajetória, não existe pos- são articulados pela abordagem neo-
sibilidade de volta à situação anterior. schumpeteriana para o entendimento da
12 Patrimônio tecnológico é
Uma razão essencial para o fenô- dinâmica tecnológica e são consistentes
conceito análogo ao de “base meno da irreversibilidade, segundo Wil- com a idéia de que existem certos pa-
de conhecimento”, de Nelson linger e Zuscovitch (1993), está na trans- drões no progresso tecnológico. De fato,
e Winter (1982), que se refere missão de certo patrimônio tecnológico – que temos salientado até aqui os aspectos
a um conjunto que envolve
um código de linguagem, uma
corresponderia à noção de patrimônio gené- da mudança tecnológica que se associam
gama de conhecimentos tico, para usar mais uma vez a analogia de forma particular à sobrevivência e ao
técnicos e uma experiência. biológica – de uma a outra geração.12 aperfeiçoamento de determinadas solu-

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138 Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano

ções. Seria um engano, entretanto, supor sua obra de 1942, Capitalismo, Socialismo e
que a existência de padrões tenha como Democracia, como motor de uma inces-
conseqüência a homogeneidade ou que sante competição intercapitalista.13
ela pressuponha continuidade. Portanto, o que leva as organizações
Quando mencionamos anterior- a empreender os arriscados processos de
mente que as rotinas não são todas equi- busca e a engendrar as condições de ruptu-
valentes, explicitamos que não existe uma ra com soluções tecnológicas precedentes
homogeneidade nos processos de busca. é, antes de mais nada, a busca pela criação
Ao contrário, as ações envidadas no âm- de posições diferenciadas nos mercados, a
bito desses processos são movidas por busca pela valorização contínua de seus re-
uma lógica que é pautada pela criação de cursos. Mais do que a busca pela sobrevi-
diversidade, isto é, de mutações. vência, trata-se aqui de uma busca por dese-
Assim, quando se fala em evolução quilíbrios, pela construção permanente de
não se trata de um processo obrigatoria- assimetrias. A competição capitalista que
mente contínuo, uma vez que o evolucio- fundamenta a lógica do comportamento
nismo econômico não implica exclusi- inovativo – fonte da diversidade – é, por
vamente uma perspectiva de mudanças sua vez, fator necessário para a operação
graduais, mas é coerente com alterações do mecanismo de seleção.
abruptas, rupturas, revoluções. Da mesma 13 Em “Capitalismo, empresarial (relativa a
forma que o evolucionismo biológico, Socialismo e Democracia”, empresário no sentido
ele admite descontinuidades, fenômenos Schumpeter critica a noção schumpeteriano). Nesse
aos quais os neo-schumpeterianos se re- walrasiano-marshalliana de confronto é que se dá a
concorrência, opondo-se aos destruição criativa, que bombardeia as
ferem como mudanças de paradigma.
teóricos da concorrência estruturas industriais vigentes.
A posição central que a inovação perfeita. Para Schumpeter De acordo com Schumpeter, o
ocupa no processo de desenvolvimento (1984), na análise da sistema capitalista possui um
econômico é uma idéia presente na abor- concorrência perfeita, as firmas caráter essencialmente
– pequenas e em grande progressista, evolutivo e não
dagem neo-schumpeteriana que é em- número – tentam apenas estacionário. Há, portanto,
prestada, como já afirmamos, de Schum- “administrar a estrutura”. Em um processo de inovação
peter, que a interpreta em seu livro de sua interpretação, porém, as industrial que “revoluciona a
1912, A Teoria do Desenvolvimento Econômi- inovações são os instrumentos estrutura econômica a partir de
da verdadeira concorrência, o dentro, incessantemente,
co, como fonte interna do dinamismo do confronto entre firmas nas destruindo a velha estrutura e
sistema econômico e que a identifica, em quais se desenvolve a atividade criando a nova.”

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Rosana Icassatti Corazza_Paulo Sérgio Fracalanza 139

2.3_ Mecanismo de seleção segundo a qual existem mecanismos de sele-


na economia neo-schumpeteriana ção que agem sobre os “genes” (rotinas,
Assim, ao lado da existência de fatores processos de busca, ativos e competências)
que proporcionariam um moto interno à e sobre as “mutações” (inovações). Esses
mudança tecnológica, Nelson e Winter mecanismos, agindo como filtro que sele-
(1977) advertem para a importância de ciona entre diferentes evoluções possí-
fatores não tecnológicos e mesmo ex- veis, são constituídos por fatores, como
tra-econômicos para o direcionamento aqueles indicados por Possas (1999), que
do progresso técnico.14 Deve ficar claro formam o ambiente seletivo no qual as
que, estando presentes nos ambientes em firmas atuam.
que atuam as organizações, esses fatores Por um lado, há o ambiente seletivo de
influenciam desde logo a heurística de mercado, composto pela pressão competi-
seus processos de busca. tiva das firmas que nele atuam, dos po-
Há, entretanto, outra instância de tenciais concorrentes e das condições da
atuação desses fatores externos no direcio- demanda, que pode chancelar ou não
namento do progresso técnico, que fica os esforços de inovação, validando-os
evidente quando os autores propõem o ou não pelo mecanismo de troca. Por ou-
conceito de ambientes seletivos. tro lado, há o ambiente não mercantil, com-
A idéia de ambientes seletivos per- posto pela atuação do Estado e de outras
tence à interpretação neo-schumpeteriana instituições cuja ação pode ou não san-
cionar aqueles esforços.15 Assim, para ser
14 A complexidade de fatores comunicação de fiel à tradição neo-schumpeteriana, é pre-
externos não é, dessa forma, conhecimento, a oferta
deixada de lado pela análise de capacitações tecnológicas e ciso reconhecer que existe uma multi-
neo-schumpeteriana, tendo de qualificações, as condições plicidade de ambientes seletivos, carac-
sua relevância sido ressaltada ocupacionais, as próprias terizados por elementos que exercem
por outros autores, como condições de mercado, as diferentes forças seletivas e que não se resu-
Dosi (1988), que sublinha a possibilidades de
importância de causas financiamento, as tendências mem ao mercado.
externas mais amplas para a macroeconômicas e as Uma maneira interessante de in-
busca, desenvolvimento e políticas públicas. terpretar essa multiplicidade é sugerida
adoção de novos processos e 15 Para um maior
por Possas (1999), que organiza os ele-
produtos, tais como: o estado detalhamento, consultar
da arte nos campos científicos, mentos do ambiente seletivo em seis
Dosi (1988).
os meios disponíveis para categorias:

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140 Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano

1. elementos econômicos da estrutu- instituições de apoio à pesquisa e


ra do mercado (como o grau de políticas de compra do governo);
concentração, principais compe- 4. elementos do meio ambiente na-
tidores, vantagens detidas por ca- tural (como clima, solo, flora, fa-
da um deles, características dos una, relevo, hidrografia, riquezas
insumos disponíveis e dos setores naturais, densidade demográfica
que os fornecem, qualificação da e pirâmide etária);
mão-de-obra, tamanho do mer- 5. elementos de caráter social (como
cado, preferências dos consumi- distribuição de renda e riqueza,
dores, fontes e formas de finan- níveis educacionais, relações de
ciamento disponíveis); trabalho, sindicatos e associações
2. elementos da situação macroeco- patronais e de trabalhadores e
nômica (como taxa de câmbio, formas de relações e interação
taxa de juro, situação das contas predominantes entre fornecedo-
públicas, situação do balanço de res e usuários);
pagamentos e nível de utilização 6. elementos de caráter cultural (como
da capacidade); língua, história, religião e valores,
3. elementos de natureza político- festas e prazeres, hábitos alimenta-
jurídico-institucional, que abran- res, regras de etiqueta e conven-
gem as leis e normas que regulam ções de costume, manifestações
a atividade econômica e as insti- artísticas e relações interpessoais).
tuições que as executam (esta A autora salienta ainda que esses
categoria inclui, por exemplo, im- elementos que caracterizam o ambiente
postos, tarifas, subsídios, legisla- seletivo são mutáveis e, muitas vezes, até
ção – ambiental, trabalhista, pre- efêmeros, fato que confere ao processo
videnciária, comercial, bancária, de seleção uma feição eminentemente histórica
de direitos dos consumidores, de (Possas, 1999, p. 136).
propriedade industrial e de regu- A seleção de variações ocorre ex-
lação da concorrência –, normas ante e ex-post. A seleção ex-ante sobrevém
técnicas, políticas de fomento a quando as firmas antecipam a seleção
setores ou regiões específicos, que pode ser feita ex-post por seu ambien-
políticas de suporte à inovação, te seletivo. Essa seleção tem lugar quan-

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Rosana Icassatti Corazza_Paulo Sérgio Fracalanza 141

do a firma faz escolhas de heurísticas ou cial pregresso, tanto no mercado particu-


regras de decisão com base numa anteci- lar em questão quanto no conjunto da
pação do que julga ser adaptado (fitted) às economia.16 A segunda razão deve-se à
pressões seletivas que espera encontrar. constatação de que as decisões privadas
A idéia de seleção ex-ante é consistente procuram, com freqüência, alterar esses
com o fato de que busca e seleção não consti- elementos a seu favor.17 Entretanto, a
tuem fenômenos estanques. Pelo contrário, conformação do ambiente seletivo não
como argumentam Nelson e Winter pode ser completamente endogeneizada,
(1982), a decisão de desenvolver uma uma vez que a capacidade dos agentes
inovação depende de características do em influenciar em sua conformação não
ambiente seletivo, que, por sua vez, sofre é, apesar de seus esforços, ilimitada.
influência da mudança tecnológica. Exis- Reconhecemos, então, que o pro-
16 Assim é que “o grau de
te a percepção, portanto, de uma co-evo- cesso seletivo é fator determinante na
concentração, a lução entre a mudança tecnológica e o orientação da inovação não apenas tecno-
disponibilidade de insumos e ambiente seletivo. lógica, mas entendida no sentido schum-
seus preços, o tamanho do A seleção ex-post ocorre quando peteriano, como novos produtos, novos
mercado, os padrões de linhas
de produtos que vieram a se
produtos e processos elaborados com processos, novos mercados, novas fontes
impor, as trajetórias base naquele conjunto de heurísticas são de matérias-primas e novas formas orga-
tecnológicas trilhadas etc.” chancelados pelo mercado e pelas instân- nizacionais. Não se deve depreender, daí,
são fruto do processo cias seletivas não mercantis. que esse reconhecimento equivale a ado-
concorrencial anterior (Possas,
1999, p. 138).
Possas (1999) concorda com Nel- tar a perspectiva conhecida por demand-
17 “Por exemplo, os gastos son e Winter (1977), considerando que pull, uma vez que, como vimos, o am-
em propaganda com a existe uma retroalimentação (feedback) en- biente seletivo não deve ser reduzido às
finalidade de alterar as tre ambiente seletivo e as atividades (co- preferências dos consumidores e às ca-
preferências dos mo as de P&D) de uma firma, e adverte racterísticas da demanda.
consumidores, os programas
de treinamento de que o ambiente seletivo não pode ser Além disso, as características do
mão-de-obra, a preparação de considerado como completamente exó- ambiente seletivo determinam, ainda co-
fornecedores. Também geno, enumerando duas razões para tan- mo argumenta Possas (1999), o ritmo do
através de sua articulação to. A primeira delas decorre do fato de próprio processo seletivo. Tal ritmo é po-
política podem influir nas
normas regulatórias ou na que a conformação desses elementos (as sitivamente influenciado tanto pela pre-
atuação governamental” feições do processo seletivo) surge como sença nesse ambiente de organizações
(Possas, 1999, p. 138). resultado de todo processo concorren- com estratégias agressivas (que pressio-

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142 Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano

nam os concorrentes a manterem ritmos e econômicas que se colocam à solução


acelerados de renovação de suas posi- de problemas. A possibilidade da con-
ções) como pela existência de institui- quista de posições diferenciadas no mer-
ções governamentais de apoio à pesquisa cado por meio da inovação garante que
e à inovação. sempre existam organizações dispostas a
Importa dizer que o mecanismo fazer as apostas (investimentos) necessá-
de seleção que descrevemos opera sobre rias para que as promessas (de inovação)
as estratégias formuladas com base nos também continuem existindo. A possibi-
processos de busca (das quais não é in- lidade de que tais apostas resultem em
teiramente independente), influenciando fracassos – por um lado, graças ao fato
fortemente não apenas o paradigma tec- de que os resultados técnicos e econômi-
nológico que irá vigir, mas também a cos que podem advir das inovações são,
formação da própria estrutura do merca- em grande medida, imponderáveis e, por
do (pela qual também é influenciado). outro lado, em razão da própria aversão
Desse modo, o processo de seleção pos- ao risco por parte de algumas organiza-
sui, dentro da abordagem neo-schum- ções – pode conduzir a uma espécie de
peteriana, natureza cambiante e funciona bloqueio à inovação, contribuindo para a
como espécie de mecanismo de transmissão inércia ou para a permanência das solu-
entre as estratégias das firmas e a estru- ções tecnológicas estabelecidas.
tura de mercado.
Portanto, o fato de que a dinâmica
tecnológica constitui um fenômeno fun- 3_ Desenvolvimentos
damentado em rotinas e trajetórias tec- neo-schumpeterianos recentes:
nológicas – estruturadas em processos para além das analogias
de busca em ambientes de incerteza – le- biológicas
va à existência, ao mesmo tempo, da pos- É preciso reconhecer, desde logo, que
sibilidade, ou da promessa, da inovação e as bases do questionamento do uso tão
do risco da inércia. A promessa da inova- difundido das analogias biológicas po-
ção é a perspectiva de que mudanças mais dem ser encontradas já há algum tempo.
ou menos radicais podem levar a uma Freeman (1991), por exemplo, ponde-
evolução dos sistemas produtivos e, as- rando sobre as divergências entre a evo-
sim, à superação de dificuldades técnicas lução biológica e a social, sustenta que:

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Rosana Icassatti Corazza_Paulo Sérgio Fracalanza 143

Uma dessas diferenças se refere à intera- referidas competências e rotinas passam


ção entre o ‘ambiente seletivo’ e as ‘muta- a ser as unidades de seleção.
ções’ que emergem e sobrevivem. Outra se A segunda razão está relacionada
relaciona à natureza proposital da intera- à intencionalidade dos agentes no caso
ção deste ambiente com os indivíduos e
da evolução dos fenômenos econômicos.
as instituições sociais que cultivam e de-
Os agentes econômicos, pelo fato de serem
senham, deliberadamente, certos tipos de
‘mutação’ (Freeman, 1991, p. 217).18 dotados de memória e expectativas, de
capacidade de introspecção e inferência,
Nos últimos anos, muitos neo- são capazes de avaliar resultados passa-
schumpeterianos seguiram um rumo que, dos do processo seletivo ao qual estão
por um lado, contrapõe os fenômenos sujeitos e de se antecipar a seus futuros
econômicos da competição, inovação e
desdobramentos. Sobretudo, como ressal-
crescimento a seus análogos biológicos e, por
tam Metcalfe, Fonseca e Ramlogan (2000),
outro, compartilha com eles os mesmos
esses agentes – ainda que constrangidos
fundamentos epistemológicos.19
por sua racionalidade limitada – são ca-
Metcalfe, Fonseca e Ramlogan
(2000) expõem duas razões para o dis- pazes de agir estrategicamente, modelan-
tanciamento do fenômeno evolutivo em do a seu favor o ambiente seletivo (ou ao
Economia e em Biologia. menos tentando fazê-lo).
18 A crítica de Edith Penrose,
de 1952 apud Freeman (1991) A primeira razão diz respeito ao É fato, portanto, que a economia
ao uso de analogias biológicas fato de que, nos processos econômicos, a neo-schumpeteriana reconheça a nature-
pela Economia, ainda mais za distinta dos fenômenos evolutivos em
distante no tempo, é reputada
demarcação entre unidades de seleção e am-
como das mais devastadoras: bientes seletivos é mais fluida do que nos Biologia e em Economia. Ao lado disso,
ela atacou as analogias entre o processos biológicos. O que é unidade de porém, ela também tem reconhecido que
crescimento de plantas seleção para determinado nível de análi- esses dois campos do conhecimento se
(e animais) e o crescimento de deparam com questões semelhantes do
firmas. Também Schumpeter, se torna-se ambiente seletivo em outro.
segundo lembra o autor, era Quando se trata do processo concorren- ponto de vista epistemológico, a partir
contrário ao uso dessas cial interfirmas, a unidade de seleção é a do momento em que ambos caracterizam
analogias biológicas. firma propriamente dita. Quando consi- seu objeto de análise como sistemas que evoluem
19 Com respeito a este debate,
deramos o processo de desenvolvimento e que lançam mão de um mesmo arrazoa-
consultar, por exemplo,
Foster (2000), Metcalfe, interno da firma, da geração de compe- do para elucidar o modus operandi do pro-
Fonseca e Ramlogan (2000 tências e de rotinas, então a firma passa a cesso evolutivo subjacente a seus respecti-
e Hodgson (2002). ser o ambiente seletivo, ao passo que as vos sistemas (biológico e econômico).

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144 Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano

Foster (2000) é um dos economis- Metcalfe, Fonseca e Ramlogan, 2000). Ex-


tas que têm enfrentado a complexa tare- plicar a origem (e conseqüências) da diver-
fa de desvendar os caminhos do pensa- sidade torna-se, portanto, tarefa central em
mento evolucionista em ambas as áreas. qualquer programa de pesquisa teórica
Tendo adentrado o debate evolucionista, evolucionista – biológica ou social.20
tanto no campo da Biologia quanto no da Assim, embora distinga a evolu-
Economia, o autor busca explicar o per- ção dos sistemas biológicos da dos siste-
curso do desenvolvimento recente de am- mas econômicos, Foster (2000) defende
bas as áreas de conhecimento. O essen- a idéia de que existe um fenômeno co-
cial, segundo argumenta, seria desvendar mum aos processos evolutivos em geral.
“o que está por trás” do fenômeno da evo- Para elucidar a geração de nova
lução, tanto em uma quanto em outra área. variedade, esse autor identificou a ten-
“O que está por trás da evolução” é dência, tanto no desenvolvimento do pen-
questão um tanto intrigante: vimos, ante- samento biológico quanto no econômico
riormente neste artigo, que o fenômeno da (no caso, em particular, as contribuições
seleção age sobre uma base de variação recentes neo-schumpeterianas), da busca
(genes na Biologia e, digamos, competên- de fundamentação no chamado fenô-
cias e rotinas na Economia). O resultado meno da auto-organização, ao qual o au-
do processo seletivo, entretanto, implica tor faz referência em duas situações.
a redução da variedade! “A evolução conso- Em primeiro lugar, ele observa que a
me seu próprio combustível ” (Lewontin apud Biologia evolutiva – fonte das analogias

20 Seria desnecessário dizer – técnico, consiste nas diversidade de origem terceiro aspecto consiste nas
e ademais já o fizemos assimetrias tecnológicas entre técnico-econômica entre diferenças de procedimentos e
anteriormente – que a as firmas de uma indústria. firmas refere-se à variedade critérios da firma em face dos
consideração das relações Trata-se das diferenças entre tecnológica, entendida processos de decisão quanto a
entre diversidade e seleção firmas que dizem respeito à como diferenças preços, investimento –
não é alheia à tradição capacidade tecnológica para não necessariamente especialmente em P&D, em
neo-schumpeteriana. É inovar; aos distintos graus de hierarquizáveis, como no caso quantidade e qualidade – e às
interessante lembrar com o sucesso na adoção e anterior, mas que correspondem rotinas básicas em que se
auxílio de Possas (1988) que, desenvolvimento de inovações a especificidades da traduz a estratégia da firma, a
nessa tradição, a diversidade de produtos e processos; e às acumulação de conhecimentos diversidade comportamental, em
assume diferentes aspectos: estruturas de custo. [...] Um tecnológicos, ao uso de suma” (Possas, 1996 p. 169).
“Uma primeira manifestação, segundo aspecto importante insumos e à linha de produtos
de caráter essencialmente relativo às fontes de das firmas. Finalmente, o

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Rosana Icassatti Corazza_Paulo Sérgio Fracalanza 145

selecionistas da economia neo-schumpe- Foster (2000) reconhece de pronto, mas


teriana – abraça a noção de auto-organi- ela pode nos auxiliar em parte – assegura
zação como um dos elementos de expli- ele – a esclarecer os passos que a econo-
cação da evolução ordenada dos sistemas mia neo-schumpeteriana pode dar num
vivos e da própria geração de variedade. futuro próximo.
Como decorrência, o autor pondera que O autor adverte que o evolucio-
a incorporação do raciocínio evolutivo nismo biológico (neo-darwinista) se ape-
pela Economia deve considerar, logica- gou, durante grande parte do século XX,
mente, as implicações desse fenômeno à noção newtoniana de equilíbrio. En-
para sua própria teorização evolucio- quanto a Química e a Física (a termodi-
nista – sem que isso signifique sujeição à nâmica, em particular) se lançavam ao
nova analogia biológica. Em segundo estudo dos sistemas abertos e suas pro-
21 Note-se, conforme explica
lugar, o autor defende que a visão do priedades, caracterizados por estruturas
Georgescu-Roegen (1995), próprio Schumpeter é portadora de ele- dissipativas, que se distanciam de situa-
que um sistema é dito mentos compatíveis com uma aborda- ções referidas como equilíbrio (newto-
“aberto” se ele pode trocar gem auto-organizadora especificamente niano), os neodarwinistas relutavam em
matéria e energia com seu
ambiente. Ao contrário
econômica, cujo pleno desenvolvimen- abandonar essa noção de equilíbrio.21
dos sistemas fechados, to é um desafio aberto à economia neo- Nesse sentido, Foster (2000) argu-
em que o grau de entropia schumpeteriana. menta que os neodarwinistas continua-
apenas pode crescer ao longo Vamos abordar essas duas situa- ram por muito tempo apegados àquela
do tempo, nos sistemas
abertos (particularmente nos
ções nas próximas subseções. idéia de equilíbrio, mesmo depois de o
sistemas vivos – ou biológicos biólogo Ronald Fisher ter remodelado a
– estudados particularmente 3.1_ Auto-organização e variedade idéia de seleção natural na década de
por I. Prigogine) a entropia na Biologia evolutiva 1930, abandonando a idéia de equilíbrio
pode decrescer. Embora
reconheça o interesse do
A primeira situação, como já menciona- newtoniano de balanço de forças em favor
estudo desses sistemas, o mos, é a consideração do fenômeno da de uma redefinição termodinâmica de
autor adverte que a auto-organização como elemento de expli- equilíbrio como estado em que todas as mu-
aplicação do conhecimento cação do processo evolutivo biológico. danças estruturais cessam (propondo a maxi-
sobre esses sistemas às
questões econômicas
Para um economista, compreen- mização da adaptação como referência ao es-
deva ser “extremamente der os caminhos trilhados pelo pensa- tado de entropia máxima, da termodinâmica).
prudente” (Georgescu-Roegen, mento evolucionista em Biologia pode Uma das razões desse apego po-
1995, p. 155). parecer uma tarefa assustadora, o que deria ser atribuída, de acordo com Foster

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146 Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano

(2000), a uma espécie de obstáculo episte- tente das coisas. A ordem pode ser consi-
mológico, caracterizado pelo fato de que derada como uma seqüência, ou uma su-
os neodarwinistas se dedicavam, tradicio- cessão, no espaço e no tempo. A ordem
nalmente, à análise dos resultados da sele- biológica é tudo isso e, mais especialmente,
ção (por exemplo, quanto a seus aspectos uma seqüência no espaço e no tempo (Lwoff
apud Babloyantz e Goldbeter, 1985, p. 1178).
morfológicos e funcionais) e não propria-
mente do processo seletivo e, sobretudo, É precisamente essa ordem que
não se debruçavam sobre a questão da di- permeia a idéia de evolução na Biologia,
versidade genética. Um tanto ironicamen- uma vez que está associada a um cresci-
te, o autor sugere que a aceitação da ne- mento na organização dos sistemas vivos
cessidade de examinar essa questão: e na formação de estruturas progressiva-
mente mais complexas.
“Moveria a biologia de maneira amea-
No desenvolvimento da Biologia
çadora dos botânicos e zoólogos para os
geneticistas, numa diferente tradição cien-
evolutiva, um problema, que por certo
tífica” (Foster, 2000, p. 315, grifo nosso). tempo não encontrou solução, consistia
em tornar a emergência da ordem obser-
O olhar de botânicos e zoólogos, vada compatível com as grandes leis da
dirigido para o estudo dos resultados do Física, em particular às leis da termodinâ-
processo seletivo, como por meio da aná- mica, que prevêem que um sistema isola-
lise da morfologia e das funções dos se- do (fechado) caminha no tempo rumo
res vivos (inclusive com suas preocupa- à desordem (alta entropia). Pensou-se, por
ções taxonômicas), ilustra bem o que o isso, durante algum tempo, que a vida – a
autor chama de obstáculo epistemológico: tra- organização biológica – não poderia ser
ta-se de investigar o fruto do processo descrita a partir das leis da Física.
evolutivo e não seus condicionantes. Mas, Ora, um sistema vivo não é isola-
ao fazerem esse tipo de estudo, os biólo- do: ele constitui um sistema aberto e, atu-
gos tocam numa questão fundamental: a almente, grande parte dos biólogos con-
ordem que emerge do processo evolutivo. sideram que basta aplicar as referidas leis
Em seu livro intitulado L´ordre bio- físicas ao conjunto ambiente mais organis-
logique, A. Lwoff escreveu: mo, de modo que:
Um certo aspecto da ordem é o arranjo de- [...] a idéia de que a vida pudesse violar
terminado presente na constituição exis- uma lei natural não tem lugar na ciência.

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Ao contrário, como se notou [...] recen- ção explicaria o moto interno da geração da
temente na exposição notável d´Erwin diversidade, a seleção natural explicaria sua
Schrödinger [...], a vida parece escapar à redução e ambos os processos são consi-
degradação entrópica à qual é submetida
derados, desde logo, não estanques.
a matéria inerte. Na realidade, todo or-
Os fenômenos de auto-organiza-
ganismo vivo se esforça incessantemente
em compensar sua própria degradação ção mais comuns citados em estudos de
entrópica contínua assimilando a baixa Biologia nesse campo incluem, de um la-
entropia e expulsando a alta entropia do, o aparecimento de múltiplos estados
(Georgescu-Roegen, 1995, p. 84). estacionários e, de outro, a evolução ru-
Trata-se aqui das chamadas estrutu- mo a um regime de oscilações que se re-
ras dissipativas a que nos referimos mais troalimentam, correspondentes a um ci-
acima, que caracterizam sistemas aber- clo em torno de um estado estacionário
tos e que têm certa capacidade de trans- instável. São incontáveis os exemplos da
ferir ou exportar sua degeneração entró- Biologia para esse fenômeno de auto-
pica para seu ambiente: absorvendo ma- organização, envolvendo fenômenos tão
22 Embora compreendamos
téria e energia na forma química de baixa diversos quanto o ciclo da glicólise, a
que esta concepção esteja entropia (alimentos) e liberando matéria agregação de formas unicelulares sociais,
suficientemente clara no texto
e energia na forma de alta entropia (resí- a regulação genética e a embriogênese
de Foster (2000), não parece
ser esta a leitura de Hodgson duos e calor). Operando dessa forma, tais (diferenciação de organismos pluricelula-
(2002), que abraça o estruturas podem contribuir para estabe- res). São todos fenômenos rítmicos que
Darwinismo como uma lecer a ordem biológica que se manifesta podem ser interpretados como aparição
“metateoria universal”,
dentro da qual todas as
espacial e temporalmente. Mas como es- de uma ordem temporal sob a forma de
teorias evolutivas deveriam sa ordem se estabeleceria? oscilações que se retroalimentam.23
se aninhar. O exame do avanço recente do Em meados dos anos 1990, os es-
23 A análise de processos de
pensamento evolucionista em Biologia tudiosos da evolução biológica começa-
auto-organização temporal permitiu a Foster (2000) identificar a ten- ram, de acordo com o autor, a compreen-
recentemente lança luz sobre a
possibilidade de oscilações dência dessa ciência a integrar o conceito der que a auto-organização é mais do que
biológicas (e físico-químicas) de auto-organização à noção de seleção natu- um processo energético no domínio bio-
não periódicas. Esse tipo de ral para definir uma nova Biologia Evo- lógico, envolvendo também a aquisição e
comportamento dos sistemas lutiva. Nenhum dos dois conceitos ex- o processamento de informação que gera
abertos possui caráter
aleatório e, por essa razão, é plicaria per se o fenômeno da evolução o novo: a variedade sobre a qual a seleção
denominado “caos”. em Biologia.22 Enquanto a auto-organiza- competitiva opera. O processo de auto-orga-

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148 Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano

nização de um sistema se caracteriza por cresci- Schumpeter. Nesse sentido, o autor per-
mento e oscilação (não linear) e, ainda, pela cria- gunta a si mesmo se:
ção de uma complexidade organizada. O fenô-
Poderia ser o caso que, de um modo algo
meno do desenvolvimento (i. e., gera- intuitivo, ele tivesse chegado a compreen-
ção de variedade) e o de seleção seriam, der o caráter auto-organizador dos proces-
assim, processos históricos sobrepostos sos evolutivos, em um cenário econômico,
(overlapping historical processes). mesmo antes que os processos de auto-
Em suma, os sistemas vivos têm organização fossem reconhecidos na física,
capacidade muito pronunciada de esto- química e biologia? (Foster, 2000, p. 318)
car informações e de adaptar seu com-
Depois de mergulhar em alguns es-
portamento em virtude de estímulos re-
critos sobre a auto-organização nas Ciên-
cebidos do ambiente, fato que os torna
cias Naturais, uma tal questão pode parecer
aptos a se desenvolver e a sobreviver.
admirável. Entretanto, mais do que uma
Dentre as manifestações mais corriqueiras,
questão curiosa, essa é a tese do autor.
existem os ritmos inatos de periodicidade
Para que não fiquemos exagerada-
diversa, além da gênese de formas espaciais
mente surpresos com essa tese, é conve-
quando do desenvolvimento embrionário.
niente ressaltar o sentido ontológico da
Em Ecologia e em Genética, as aplicações
integração da noção de auto-organização
são inúmeras. A modelização matemática,
pelas Ciências Naturais (Física, Química
objeto de esforço concentrado nos últimos
e Biologia) e pela Economia (e eventual-
anos, envolve o recurso aos fundamentos
mente por outras Ciências Humanas): a
da análise dinâmica, com o uso do cálculo
origem dessa integração reside no fato
diferencial não linear.
de que a auto-organização é propriedade
pertinente aos sistemas dissipativos em ge-
3.2_ Auto-organização e variedade
especificamente econômicas: ral. Não se trata, pois, de uma nova ana-
a intuição de Schumpeter logia – seja com a Biologia, seja dessa
A segunda situação à qual Foster (2000) vez com a termodinâmica. É nesse sen-
faz referência é, como já dissemos, a tido que é possível pensar em uma auto-
existência de uma abordagem auto-orga- organização especificamente econômi-
nizadora especificamente econômica, que ca. E a tese de Foster (2000) consiste na
o autor advoga já estar presente, ainda idéia de que Schumpeter tinha forte in-
que intuitivamente, nos escritos de tuição a esse respeito.

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Nos parágrafos abaixo, reprodu- Em segundo lugar, notemos que a


ziremos algumas citações da obra de organização assim concebida por Schum-
Schumpeter, indicadas por Foster (2000), peter é, de acordo com sua visão, gerada
que nos auxiliam a conhecer sua tese. internamente (lembremos que a idéia de
Enfatizaremos alguns pontos da argu- auto-organização se refere ao surgimen-
mentação do autor nos quais ele procura to de uma ordem com base em mecanis-
evidenciar a intuição de Schumpeter so- mos internos ao sistema):
bre o caráter auto-organizador da evolu-
ção econômica: “Entenderemos por ‘desenvolvimento’, por-
tanto, apenas as mudanças da vida econô-
_ a noção de organização;
mica que não lhe forem impostas de fora,
_ a idéia de que a organização é ge- mas que surjam de dentro, por sua própria
rada internamente; iniciativa” (Schumpeter, 1988, p. 47).
_ a distinção entre crescimento e de-
senvolvimento; Em terceiro lugar, note-se que
_ a negação da análise estática; Schumpeter distingue crescimento de
_ o abandono da idéia de equilíbrio desenvolvimento:
newtoniano; “[...] desenvolvimento consiste primariamen-
_ a identificação da evolução econô- te em empregar os recursos existentes de ma-
mica com um processo no qual o neiras diferentes, em fazer novas coisas com
equilíbrio está ausente. eles, independentemente se aqueles recursos
Em primeiro lugar, vejamos a no- cresçam ou não” (Schumpeter, 1988, p. 50).
ção de organização abraçada por Schum- Em quarto lugar, Schumpeter ne-
peter: “O desenvolvimento, no sentido que lhe
ga a utilidade da análise estática para a
damos, é definido [...] pela realização de novas
compreensão de processos evolutivos:
combinações” (Schumpeter, 1988, p. 48).
Se aceitamos que a idéia de desen- “[A] análise estática não é apenas inca-
volvimento de Schumpeter está associa- paz de predizer as conseqüências das mu-
da à evolução do sistema capitalista, com danças descontínuas na maneira tradicio-
a emergência progressiva de formas téc- nal de fazer as coisas; não pode explicar a
nicas e organizacionais mais sofisticadas ocorrência de tais revoluções produtivas
ou complexas, temos um primeiro vín- nem os fenômenos que as acompanham”
(Schumpeter, 1988, p. 46).
culo com a noção de auto-organização.

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150 Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano

Certamente, as restrições que na subseção anterior, caracteriza-se por


Schumpeter atribui à análise estática se oscilações periódicas, essas também es-
coadunam com seu questionamento da tão presentes na análise de Schumpeter,
noção walrasiana (newtoniana) de equilí- na forma dos ciclos dos negócios.
brio, explicitada, entre outros momentos, Em suma, Foster (2000) sustenta
quando (finalmente, em quinto lugar em que a intuição de Schumpeter sobre o
nossa exposição) Schumpeter identifica a caráter auto-organizador da evolução
evolução econômica com um processo econômica é compreendida a partir do
em que o equilíbrio está ausente: momento em que o autor abandona sua
O desenvolvimento, no sentido em que o referência didática ao equilíbrio geral está-
tomamos, é um fenômeno distinto, inteira- tico walrasiano e demonstra que proces-
mente estranho ao que pode ser observado sos de mudança evolutiva sem equilíbrio
no fluxo circular ou na tendência para o são a norma na vida econômica e que há
equilíbrio. É uma mudança espontânea e oscilações em torno das trajetórias histó-
descontínua nos canais do fluxo, pertur- ricas não lineares geradas por esses pro-
bação do equilíbrio, que altera e desloca cessos. Nas palavras de Schumpeter:
para sempre o estado de equilíbrio previa-
mente existente (Schumpeter, 1988, p. 47). [...] assim, nossa posição pode ser caracteri-
zada por três pares correspondentes de oposi-
Ou ainda: ções. Primeiramente, pela oposição de dois
[...] o que estamos prestes a considerar processos reais: o fluxo circular ou a tendên-
é o tipo de mudança que emerge de dentro cia para o equilíbrio, por um lado, uma mu-
do sistema que desloca de tal modo o seu dança dos canais da rotina econômica ou
ponto de equilíbrio que o novo não pode uma mudança espontânea nos dados econô-
ser alcançado a partir do antigo mediante micos que emergem de dentro do sistema, por
passos infinitesimais. Adicione sucessi- outro. Em segundo lugar, pela oposição de
vamente quantas diligências quiser, com dois aparatos teóricos: o estático e o dinâmi-
isso nunca terá uma estrada de ferro co. Em terceiro lugar, pela oposição de dois
(Schumpeter, 1988, p. 47).
tipos de conduta, que, seguindo a realidade,
podemos descrever como dois tipos de indiví-
Resta ainda dizer que se o fenô- duos: os meros administradores e os empre-
meno da auto-organização, como vimos sários (Schumpeter, 1988, p. 58-59).

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4_ Comentários finais sas, 1988, p. 173) – ofereceram ao longo


As reflexões desenvolvidas neste artigo de muitos anos (e, em muitos casos, ain-
dizem respeito à construção teórica da da têm oferecido) insights para a interpre-
abordagem neo-schumpeteriana sobre as tação do fenômeno da evolução de siste-
mudanças técnica e econômica. Para a mas complexos (tais como são os casos
compreensão dos caminhos do pensa- tanto na Biologia como na Economia).
mento econômico nesta abordagem teó- Assim, essas analogias talvez continuem
rica, partimos de uma discussão sobre a a ter um papel a representar enquanto
tríade conceitual neo-schumpeteriana que não se tenha uma estrutura teórica pró-
se constrói em analogia aos conceitos pria, bem definida, da teoria econômica
da Biologia (hereditariedade-variação-sele- neo-schumpeteriana.
ção) para identificar, a seguir, alguns de- A possibilidade de interação entre
senvolvimentos recentes que incorporam a o conceito de sistemas auto-organizado-
idéia de auto-organização. res e a tríade conceitual neo-schumpe-
A incorporação da noção de auto- teriana tem levado alguns economistas
organização pela economia neo-schumpe- a propor sugestões para a agenda de
teriana é coerente com a crítica dessa pesquisas da economia neo-schumpeteria-
na. Metcalfe, Fonseca e Ramlogan (2000)
corrente de análise econômica ao meca-
sugerem, nessa direção, que:
nicismo newtoniano característico das aná-
lises de equilíbrio geral walrasiano. Nesse “os frutos da interação entre essas diferentes
sentido, trata-se de um enfoque episte- abordagens permanecem por ser elaborados,
mológico radicalmente diferente das aná- [...] presumindo que o estudo dos temas do
lises do funcionamento dos sistemas eco- crescimento, inovação e competição proverá
uma lente apropriada para tanto” (Metcalfe,
nômicos pelo mainstream.
Fonseca e Ramlogan, 2000, p. 14).
É provável que exista uma com-
plementaridade entre o uso de analogias Se essa observação deixa entrever
biológicas e o recurso à idéia de sistemas questões positivas relevantes para a pauta
auto-organizadores pela economia neo- de pesquisa neo-schumpeteriana, não
schumpeteriana. menos importantes são suas derivações
Até o momento, as analogias bio- normativas: embora a existência de siste-
lógicas – empregadas mais como referên- mas tecnológicos e a eventualidade da
cia heurística do que como camisa de força (Pos- observação de fenômenos de continui-

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152 Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano

dade possam dificultar a possibilidade de é bastante desafiadora à análise prospectiva


ruptura ou de introdução de uma nova neo-schumpeteriana) está associada ao po-
tecnologia (considerada socialmente dese- der de predição de tais modelos.
jável, por exemplo), tais sistemas podem, Em primeiro lugar, o tratamento
como observa Silverberg (apud Freeman, dos processos econômicos como fenô-
1991), reorganizar-se em função, por menos evolutivos e auto-organizadores
exemplo, da ação de políticas públicas: possibilita, segundo Foster (2000), o uso
de ferramentas matemáticas – sobretudo
Nós não estamos sempre livres para fazer
o que queremos porque o restante do siste- a aplicação do cálculo diferencial não li-
ma pode reagir de forma bastante conser- near, mas também o arsenal de instru-
vadora [auto-preservadora], ou de maneira mentos dos jogos evolucionários24 – e,
contra-intuitivamente desastrosa. Por ou- portanto, de maior formalização da eco-
tro lado, mudanças aplicadas de maneira nomia neo-schumpeteriana.25 Essas fer-
muito astuta por um agente apropriada- ramentas permitiriam o tratamento de
mente situado, tal como o governo, os mo- sistemas complexos, não lineares, pelo
vimentos sociais etc., podem conseguir de- relaxamento da hipótese da existência de
sencadear uma reorganização completa e um (ou vários) equilíbrio(s) no fenôme-
autopropagadora do sistema rumo a um
no analisado, possibilidade apontada, en-
estado inequivocamente mais favorável, o
tre outros por Foster (2000), Metcalfe,
qual poderia não ser atingido por agentes
seguindo suas próprias rotinas (Silverberg
Fonseca e Ramlogan (2000) e Possas
apud Freeman, 1991, p. 227) .
(1988), que identifica, nesse sentido, os

Tendo em mente esse desafio às


possibilidades de intervenção, concebi- 24 Consultar Prado (1999) 25 É conveniente ressaltar que,

das com base em uma perspectiva teórica para a apresentação de um ainda segundo Foster (2000), a
heterodoxa, gostaríamos de pontuar duas modelo de jogos adequação da Matemática para
evolucionários em que representar processos
implicações da consideração do fenômeno
tecnologias competem evolutivos é tema de um
da auto-organização para a agenda de pes- por uma parcela de debate ainda aberto, com
quisas da economia neo-schumpeteriana. mercado, incorporando posições muito distantes de
A primeira diz respeito às possibilidades de fenômenos como a quaisquer consensos, no
sensibilidade dos resultados campo da Biologia. Pode-se
formalização da análise neo-schumpete-
às condições iniciais, esperar igualmente, segundo o
riana, enquanto a segunda (que não é des- da path dependecye dos autor, amplos debates a esse
vinculada da primeira, mas que certamente efeitos de lock-in. respeito também na Economia.

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trabalhos de neo-schumpeterianos como Em segundo lugar, a idéia de se


Silverberg, Dosi e Orsenigo (1988). empregar o conceito de auto-organização
Nota-se então que, ao lado das para que se compreenda a evolução dos
observações de Foster (2000) sobre a sistemas econômicos reforça a perspec-
presença intuitiva da noção de auto-orga- tiva do desenvolvimento de um paradig-
nização nos escritos de Schumpeter, essa ma microeconômico dinâmico, como já
noção tem recentemente se tornado ob- afirmou Possas (1988), que se coloque,
jeto de esforço teórico e, de maneira no- ao mesmo tempo, como alternativo ao
tável, de desenvolvimento formal por mainstream e que não desabe na proposi-
parte de autores neo-schumpeterianos.26 ção da indeterminação total. Ao permitir
Podemos dizer que, apesar das dife- a concepção de que os processos com-
renças internas na corrente neo-schum- petitivos – embora sejam esses necessa-
peteriana, os conceitos, métodos e re- riamente abertos (open-ended) e estejam
sultados da modelagem da dinâmica envoltos em ambiente de incerteza não-
econômica e industrial evidenciam uma probabilística – sejam caracterizados pela
compreensão geral que inclui mecanis- emergência de ordem ou regularidade, a
mos de transmissão e retroalimentação possibilidade de que tais modelos (caso
entre estratégias e estrutura, criação de venham a comprovar sua capacidade ana-
diversidade econômica e tecnológica e lítico-positiva) venham a ter poder pros-
processos de seleção. Esse desenvolvi- pectivo (de predição) surge como pers-
mento formal na tradição neo-schum- pectiva a ser explorada. Desenvolvimentos
peteriana se deu como conseqüência de são aguardados nesse campo.
um refinamento de versões discursivas de Não deixam de ser reconfortantes
modelos neo-schumpeterianos via flow- essas implicações, uma vez que:
charts até modelos formais computadori- “Abandonar a busca por regularidades
zados, com as referidas incorporações [...] envolveria também o abandono da
da análise dinâmica e dos jogos evolucio- tentativa de construir qualquer teoria”
nários. Uma perspectiva de aplicação (Dosi, 1984, p. 105).
26 O leitor interessado nessas desses modelos é o estudo do desen-
questões pode consultar: volvimento tecnológico e da evolução de
Silverberg (1994; 1988). estruturas industriais.

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154 Caminhos do pensamento neo-schumpeteriano

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em reflexões conduzidas, em
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parte, durante a estada dos
São Paulo: Nova Cultural, 1988. autores no Bureau d´Économie
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