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A Moderna feitiçaria

s paroquianos da respeitável igreja da rua Arlington, em Boston, viram e


ouviram muita coisa ao longo dos anos. Afinal, é em seu altar que o
evangelho unitário de um deus único, e não tríplice, tem sido
transmitido de geração em geração. Foi ali também, numa crise agora
remota, que o abolicionista William Ellery Channing protestou
contra os malefícios da escravatura. E, um século depois , seria nessa
mesma igreja que vários manifestantes externariam seu protesto contra a
intervenção americana no Vietnã.
Contudo, é possível pensar que nem mesmo paroquianos com tanta tradição e audácia
teriam sido capazes de prever a incrível cena que ocorreu nessa igreja numa sexta-feira de
abril, no ano de 1976. Naquela noite, quando as luzes da igreja diminuíram e o som cristalino
de uma flauta se espalhou por entre mais de mil mulheres ali reunidas, quatro feiticeiras,
cada uma delas empunhando uma vela, colocaram-se ao redor do altar. Com elas encontrava-
se uma alta sacerdotisa da magia, Morgan McFarland, filha de um ministro protestante.
Numa voz clara e firme, McFarland proferiu um longo encantamento cujos místicos ecos
pareciam realmente muito distintos da doutrina que os paroquianos unitaristas estavam
habituados a ouvir: "No momento infinito antes do início do Tempo, a Deusa se levantou em
meio ao caos e deu a luz a Si Mesma (...) antes de qualquer nascimento (...) antes de seu
próprio nascer. E quando separou os Céus das Águas e neles dançou, a Deusa, em Seu êxtase,
criou tudo que há. Seus movimentos geraram o vento, o elemento Ar nasceu e respirou."
Enquanto a alta sacerdotisa prosseguia em seu cântico, descrevendo sua própria versão
da criação do mundo, suas companheiras de altar começaram a acender as velas, uma após a
outra — a primeira para o leste, depois para o sul, o oeste e, por fim, para o norte. As
palavras de MacFarland repercutiam, ressoando diante de todos como se fossem ditas pela
voz de uma antiga pitonisa, uma voz que invocava a grande divindade feminina que, segundo
afirmavam as sacerdotisas, havia criado os céus e a terra. No ápice de seu canto, MacFarland
rememorava o dia em que a deusa criara a primeira mulher e lhe ensinara os nomes que
deveriam ser eternamente pronunciados em forma de oração: "Sou Ártemis, a Donzela dos
Animais, a Virgem dos Caçadores. Sou ísis, a Grande Mãe. Sou Ngame, a Deusa ancestral
que sopra a mortalha. E se
rei chamada por milhares de nomes. Invoquem a mim, minhas filhas, e saibam que
sou Nêmesis."
Tudo isso ocorreu durante uma convenção de três dias, cujo tema era a espiritualidade
feminina. Apesar de recorrer a elementos familiares tais como velas, túnicas e música, essa foi
a prece menos ortodoxa que já ecoara pelas paredes de arenito da igreja da rua Arlington. A
cerimônia deve ter sido contagian-te, pois no final a nave da igreja estava repleta de pessoas
dançando e quase mil vozes preenchiam aquele local majestoso e antigo unidas em uma só
cantilena que dizia: "A Deusa vive, há magia no ar. A Deusa vive, há magia no ar."
Para muitos especialistas que pesquisam a história da feitiçaria, aquela deusa invocada
durante a cerimônia, uma deusa cuja dança arrebatada teria urdido o vento, o ar e o fogo e cujo
riso, afirmava-se, instilara a vida em todas as mulheres, não poderia, de modo algum, ter
existido no momento da criação, porque nasceu e recebeu sua aparência, tanto quanto sua
personalidade, de uma imaginação absolutamente moderna. Sua origem histórica, afirmam os
céticos, limita-se a poucos traços colhidos de concepções um tanto nebulosas relacionadas
com divindades da Europa pré-cristã, concepções estas que teriam sido intencionalmente
rebuscadas com detalhes teatrais para adequar-se aos ritos e cerimônias.
Porém, para muitos praticantes da feitiçaria, sua Grande Deusa é realmente um
ancestral espírito criador, cultuado na Europa e no Oriente Próximo muito antes da intro-
dução do Deus cristão. Acreditam que a deusa tenha sobrevivido aos séculos de perseguição
ocultando-se nos corações de seus adoradores secretos, filhos e filhas espirituais que foram
condenados ao ecúleo e à fogueira da Inquisição devido a suas crenças. E agora, dizem, a deusa
emerge mais uma vez, abertamente, inspirando celebrações nos redutos daquela mesma religião
organizada que anteriormente tentara expurgar tudo que estivesse relacionado com ela e seus
seguidores.
Seus modernos adeptos não têm a menor dúvida quanto à antigüidade de sua fé. Ser um
feiticeiro, afirma um deles, é "entrar em profunda sintonia com coisas que são mais antigas do
que a própria espécie humana". E, realmente, até certos não-iniciados declaram perceber
nesse movimento dos praticantes de feitiçaria uma força invisível que anima o universo.
Uma mulher que classificou os ensinamentos e ritos da feitiçaria como "meras palavras,
sem qualquer significado", disse no entanto que, quando compareceu ao local no qual as
feiticeiras se reuniam, sentiu uma força que parecia pairar além dos limites da razão. "Sinto
uma corrente", confessou em carta a uma amiga, "uma força que nos cerca. Uma força viva,
que pulsa, flui e reflui, cresce e desaparece como a lua (...) não sei o que é, e não sei como
usá-la. É como quando se está bem perto de uma corrente elétrica, tão perto que se pode até
ouvir seu zumbido, seu estalo, mas sem conseguir conectá-la."
Hoje, contudo, milhares de homens e mulheres que levam uma vida comum, afora essa
busca, acreditam estar conectando
essa corrente e extraindo energia daquilo que Theo-dore Roszak define como "a fonte
da consciência espiritual do homem". No decorrer desse processo, estes que se proclamam
neopagãos descobrem — ou, como dizem alguns deles, redescobrem — o que afirmam ser uma
religião ancestral, uma religião cuja linguagem é a do mito e do ritual, cuja fé professa a
realidade do êxtase e é difícil de ser definida, uma religião de muitas divindades e não de
apenas um só Deus.
Esses modernos adoradores da natureza, tal como os pagãos de eras passadas, não
separam o natural do sobrenatural, o ordinário do extraordinário, o mundano do espiritual.
Para um neopagão, tudo pertence a um mesmo todo. Calcula-se que o número de neopagãos
alcance um número aproximado de 100 mil ou mais adeptos nos Estados unidos, formando
uma irmandade que se reflete na verdadeira explosão de festivais pagãos iniciada na década
de 70. Mo final da década de 80, havia mais de cinqüenta desses festivais nos Estados
Unidos, atraindo uma platéia que reunia desde os adeptos mais radicais até meros curiosos.
Segundo Margot Adler, autora de Atraindo a Lua, um livro que documenta a ascensão do
neopaganismo, tais festivais "mudaram completamente a face do movimento pagão" e estão
gerando uma comunidade paga nacional. Adler afirma que esse grupo abrange pessoas
cujo perfil social inclui desde tatuadores e estivadores até banqueiros, advogados e muitos
profissionais da área de informática.
Nem todos os neopagãos da atualidade podem ser chamados de bruxos ou feiticeiros,
pois nem sempre associam o culto neopagão à natureza e a antigas divindades com a prática da
magia ritualística, como fazem os feiticeiros. Mas um número desconhecido de neopagãos adota
os princípios de uma fé popularmente chamada de feitiçaria e conhecida entre os iniciados
como "a prática". Essa religião também é conhecida pelo nome de Wicca, uma palavra do
inglês antigo que designa "feiticeiro"; esse termo pode estar relacionado com as raízes indo-
européias das palavras wic e weik, que significam "dobrar" ou "virar". Portanto, aos olhos dos
modernos adeptos da Wicca, as bruxas nunca foram as megeras ou mulheres fatais descritas
pelo populacho, mas sim homens e mulheres capazes de "dobrar" a realidade através da prática
da magia. Eles acreditam que os feiticeiros da história seriam os curandeiros das aldeias, senhores
do folclore e da sabedoria tradicional e, portanto, os pilares da sociedade local.
Apesar da moderna popularidade da feitiçaria como religião, a crença medieval
no poder das bruxas para convocar malefícios nunca desapareceu
completamente. E era ainda bem forte em 1928, no condado de York, na
Pensilvânia, a ponto de provocar mortes. Dois homens e um menino confessaram
o assassinato de Nelson Rehmeyer, um fazendeiro solitário que se dizia feiticeiro,
para apanhar um cacho de seus cabelos. Precisavam do cacho, afirmaram, para
quebrar o feitiço que ele lhes jogara. John Blymyer, o mais velho, declarou que
ele também era bruxo e que durante quinze anos buscara o responsável por seus
infortúnios. Logo após sua detenção, declarou: "Rehmeyer está morto. Não me
sinto mais enfeitiçado. Agora consigo comer e beber."
Blymyer e seus amigos não estavam sozinhos em suas crenças. Os jornais
mencionavam outras pessoas preocupadas com feitiços; um barbeiro contava que
alguns fregueses levavam consigo o cabelo cortado, para evitar "dores de ca-
beça". Depois do médico-legista do condado de York ter se lamentado de que
metade do condado acreditava em magia negra, as sociedades locais de médicos
anunciaram uma "cruzada contra a prática de feitiçaria e suas crendices
maléficas".

Mas o estereótipo persiste, e as bruxas continuam a ser objeto de calunia, lutando para
desfazer a imagem de companheiras do diabo. Para muitos, a bruxa era, e ainda é, a adoradora do
demônio. Bem recentemente, em 1952, o autor britânico Pennethorne Hughes classificou
algumas feiticeiras da história como "lascivas e pervertidas", atribuindo-lhes uma longa lista de
pecados reais ou imaginários. "Elas faziam feitiços", escreveu, "causavam prejuízos,
envenenavam, provocavam abortos no gado e inibiam o nascimento de seres humanos, serviam
ao diabo, parodiavam os rituais cristãos, aliavam-se aos inimigos do rei, copulavam com outros
bruxos ou bruxas que chamavam de íncubos ou súcubos e cometiam abusos com animais
domésticos."
Diante de tantas acusações, não chega a ser surpreendente o fato de que as palavras
"mago", "feiticeiro" ou "bruxo" e "magia", "feitiçaria", ou "bruxaria" continuem a despertar
profundas reações. "A feitiçaria é uma palavra que assusta a uns e confunde a outros", observa
uma escritora radicada na Califórnia, também praticante de feitiçaria, conhecida pelo nome de
Starhawk. "Na mente do povo", ela observa, as bruxas do passado são "megeras horrendas
montadas em vassouras, ou maléficas satanistas que participavam de rituais obscenos." E a
opinião contemporânea não tem demonstrado bondade maior para com as feiticeiras atuais,
considerando-as, como aponta Starhawk, "membros de um culto esquisito, que não tem a
profundidade, dignidade ou seriedade de propósitos de uma verdadeira religião".
Mas trata-se de fato de uma religião, tanto para quem a religião é "uma necessidade
humana de beleza", como no sentido que figura no dicionário: "sistema institucionalizado de
atitudes, crenças e praticas religiosas". Até mesmo o Departamento de Defesa dos Estados
Unidos cedeu às reivindicações dos praticantes da Wicca para que esta fosse considerada como
religião válida e, em meados da década de 70, o Pentágono recrutou uma feiticeira, Lady
Theos, para revisar o capítulo referente a bruxaria no Manual dos Capelães do exército. As
contribuições de Lady Theos foram atualizadas em 1985, por uma erudita neopagã chamada
Selena Fox. Outro sinal dos tempos pode ser visto nos cartões de identidade dos membros
das forças armadas, nos quais as palavras "pagão" e "wiccan" agora aparecem com fre-
qüência, embora certamente em menor número, do que os nomes de outras afiliações
religiosas.
Apesar desse reconhecimento e embora a Constituição americana — tal como a
brasileira — garanta o direito à liberdade de crença, a prática de feitiçaria ainda enfrenta
duras críticas e até mesmo uma perseguição premeditada. Esses ataques naturalmente não
se comparam, em escala e em violência, com o prolongado reinado de horror que
predominou do século XIV ao XVII, período descrito pelas feiticeiras contemporâneas como
"a época das fogueiras", ou "a grande caçada às bruxas". De fato, a perseguição atual é
comparativamente até benigna — demissões de empregos, perda da custódia dos filhos,
prisão por infrações aos bons costumes —, mas causa prejuízos que levaram a alta
sacerdotisa da ordem Wicca, Morgan McFarland, a rotular estes tempos como ua era das
fogueiras brandas".
Pelo menos em parte, a fonte da relativa tolerância atual, bem como as raízes desse
renascimento da Wicca, podem ser encontradas nos trabalhos elaborados no início do
século XX pela antropóloga inglesa Margaret Murray. As pesquisas de Murray sobre as
origens e a história da feitiçaria começaram, como ela posteriormente registrou em sua
autobiografia, com "a idéia comum de que todas as feiticeiras eram velhas padecendo de
alucinações por causa do diabo". Mas ao examinar os registros dos julgamentos que
restaram da Inquisição, Murray logo desmascarou o diabo, segundo suas próprias palavras,
e descobriu em seu lugar algo que identificou como o Deus Chi-frudo de um culto à
fertilidade, uma divindade paga que os inquisidores, em busca de heresias religiosas,
transformaram em uma incorporação do diabo. À medida que aprofundou o estudo daqueles
registros ela se convenceu de que esse deus pos-
suía um equivalente feminino, uma versão medieval da divina caçadora das épocas
clássicas, que os gregos chamavam de Ártemis e os romanos de Diana. Ela supunha que as
feiticeiras condenadas reverenciavam Diana como líder espiritual.
Na visão de Murray, a feitiçaria seria o mesmo culto a fertilidade anterior ao
cristianismo, que ela denominou culto a Diana, e seria "a antiga religião da Europa
ocidental". Vestígios dessa fé, segundo ela, poderiam ser rastreados no passado a ate cerca de
25 mil anos, época em que viveu uma raça aborígine composta de anões, cuja existência
permaneceu registrada pelos conquistadores que invadiram aquelas terras apenas nas lendas
e superstições sobre elfos e fadas. Seria uma "religião alegre", como a descreve Murray,
repleta de festejos, danças e abandono sexual e incompreensível para os sombrios
inquisidores, cujo único recurso foi destruí-la até as mais tenras raízes.
Em 1 9 2 1, Murray divulgou suas conclusões em O Culto a Feiticeira na Europa
Ocidental, o primeiro dos três livros que ela publicaria sobre o assunto, em um trabalho que
outorgaria certa legitimidade à religião Wicca. Outros estudiosos, contudo, imediatamente
atacaram tanto os métodos utilizados por Murray como suas conclusões. Um crítico
simplesmente classificou seu livro como "um palavrório enfadonho". Embora o trabalho de
Margareth Murray nunca tenha desfrutado de muito prestígio nos círculos acadêmicos,
recentes estudos arqueológicos induziram alguns historiadores a fazer ao menos uma
releitura mais criteriosa de algumas de suas teorias mais polêmicas. Mesmo que a seu
modo, Murray realmente conseguiu, através de uma reavaliação favorável da feitiçaria,
abrir uma porta para um fluxo de interesse pelo culto a Diana.
queles que acataram a liderança de Murray e se aventuraram a penetrar
por aquela porta logo descobriram que estavam também na trilha de um
escritor e folclorista americano chamado Charles Leland. Em 1899, mais de
duas décadas antes de Murray apresentar suas teorias, Leland havia
publicado Aradia, obra que ele descreveu como o evangelho de La Vecchia Religione, uma
expressão que desde então passou a fazer parte do saber "Wicca". Ao apresentar a tradu-
ção do manual secreto de mitos e encantamentos de um feiticeiro italiano, o livro relata a
lenda de Diana, Rainha das Feiticeiras, cujo encontro com o deus-sol Lúcifer resultara
numa filha chamada Aradia. Esta seria Ia prima strega, "a primeira bruxa", a que revelara os
segredos da feitiçaria para a humanidade.
Aradia é no mínimo uma fonte duvidosa e provavelmente uma fraude cabal;
contudo, terminou servindo de inspiração para inúmeros ritos praticados por feiticeiros
contemporâneos, inclusive para a Exortação à Deusa, que convoca seus ouvintes a
"reunir-se em lugares secretos para adorar Meu Espírito, a Mim que sou a Rainha de
todas as Feitiçarias". Embora a obra conte com poucos, ou raros, defensores no círculo
acadêmico, em oposição aos que lhe lançam duras críticas, Aradia de certo modo
reacendeu as chamas desse renascimento da feitiçaria, e sua ênfase no culto à deusa tornou
o livro muito popular nas assembléias feministas.
Um trabalho mais recente com enfoque similar, porém de reputação mais sólida, é
o livro de Robert Graves, A Deusa Branca, publicado pela primeira vez em 1948. Em estilo
lírico, Graves apresenta argumentos que revelam a existência de um culto ancestral
centrado na figura de uma matriarcal deusa lunar. Segundo o autor, essa deusa seria a única
salvação para a civilização ocidental, substituta da musa inspiradora de toda criação
poética. Mas, se por um lado muitos entre os primeiros leitores encontraram nesse livro
fundamentos para a prática de feitiçaria e se mais tarde ele continuou a inspirar os
seguidores da Wicca, o próprio Graves expressou profundas reservas com relação à
bruxaria. Sua ambivalência torna-se aparente num ensaio de 1964, no qual o autor
sublinha a longevidade e a força da religião Wicca, mas também faz críticas ao que ele
considera como uma ênfase em jogos e brincadeiras. Na verdade, o ideal para a feitiçaria,
escreve Graves, seria que "surgisse um místico de grande força para revestir de seriedade
essa prática, recuperando sua busca original de sabedoria".
A referência de Graves era uma irônica alfinetada em Gerald Brosseau Gardner,
um senhor inglês peculiar e carismático, que exerceria profunda — embora frívola, do
ponto de vista de Graves — influência no ressurgimento do interesse pela feitiçaria. Gardner,
que nascera em 1884 nas proximidades de Liverpool, tivera diversas carreiras e ocupações:
funcionário de alfândega, plantador de seringueiras, antropólogo e, finalmente, místico
declarado. Pouco afeito às convenções, era um nudista convicto, professando um perpétuo
interesse pela "magia e assuntos do gênero", campo que para ele incluía tudo: desde os
pequenos seres das lendas inglesas até as vítimas da Inquisição e os cultos secretos da
antiga Grécia, Roma e Egito. Pertenceu, durante certo tempo, à famosa sociedade dos
aprendizes de magos chamada Ordem Hermética da Aurora Dourada.
Gerald Gardner enfureceu os círculos acadêmicos quando anunciou que as teorias de
Margaret Murray eram verdadeiras. A feitiçaria, declarou, havia sido uma religião e
continuava a ser. Ele dizia saber isso simplesmente porque ele próprio era um bruxo. Seu
surpreendente depoimento veio à luz em 1954, com o lançamento de A Feitiçaria Moderna,
o livro mais importante para o renascimento da feitiçaria. Sua publicação teria sido
impossível antes de 1951, ano no qual os frágeis decretos de 1753 contra a feitiçaria
foram finalmente revogados pelo Parlamento britânico. Curiosamente, o Parlamento rescindiu
esses decretos cedendo às pressões das igrejas espíritas, cujas tentativas de contato com as almas
dos que já se foram também haviam sido reprimidas pela lei. A revogação contou com
pouquíssimos oponentes, porque os legisladores imaginavam que certamente após mais de três
séculos de perseguição e 200 anos de silêncio, a feitiçaria era assunto morto e enterrado.
Se a prática não havia desaparecido, como A Feitiçaria Moderna tentava provar, o
próprio Gardner admitiu ao menos que a feitiçaria estava morrendo quando ele a encontrou pela
primeira vez, em 1939. Gardner gerou muita polêmica ao afirmar que, após a catastrófica
perseguição medieval, a bruxaria tinha sobrevivido através dos séculos, secretamente, à medida
que seu saber canônico e seus rituais eram transmitidos de uma geração para outra de
feiticeiros. Segundo Gardner, sua atração pelo ocultismo havia feito com que se encontrasse
com uma herdeira da antiga tradição, "a Velha Dorothy" Clutterbuck, que supostamente seria alta
sacerdotisa de uma seita sobrevivente. Logo após esse encontro, Gardner foi iniciado na prática,
embora mais tarde tenha afirmado, no trecho mais improvável de uma história inconsistente,
que desconhecia as intenções da velha Dorothy até chegar ao meio da cerimônia iniciática,
ouvir a palavra "Wicca" e perceber "que a bruxa que eu pensei que morrera queimada há centenas
de anos ainda vivia".
Considerando-se devidamente preparado para tal função, Gardner gradualmente assumiu
o papel de porta-voz informal da prática. Assim, lançou uma nova luz nas atividades até então
secretas da bruxaria ao descrever em seu livro, por exemplo, a suposta atuação desses adeptos para
impedir a invasão de Hitler na Inglaterra. De acordo com Gardner, os feiticeiros da Grã-Bretanha
reuniram-se na costa inglesa em 1941 e juntos produziram "a marca das chamas" — uma intensa
concentração de energia espiritual, também conhecida como "cone do poder", para supostamente
enviar uma mensagem mental ao Führer: "Você não pode vir. Você não pode cruzar o mar". Não
se pode afirmar se o encantamento produziu ou não o efeito desejado mas, como Gardner salientou
prontamente, a história realmente registra o fato de Hitler ter reconsiderado seu plano de invadir a
Inglaterra na última hora, voltando-se abruptamente para a Rússia. Gardner declara que
esse mesmo encantamento teria, aparentemente, causado o desmoronamento da Armada
Espanhola em 1588, quando muitos feiticeiros conjuraram uma tempestade que tragou a
maior frota marítima daquela época.

O poeta inglês Robert Graves inadvertidamente incentivou o


ressurgimento da feitiçaria ao divulgar em seu livro de 1948, "A
Deusa Branca", sua visão da divindade feminina primordial. Ele
acreditava que, apesar da repressão dos primeiros imperadores
cristãos, esse culto havia sido preservado.

Quando não reescrevia a história, Gerald Gardner assumia a tarefa de fazer uma
revisão da feitiçaria. Partindo de suas próprias extensas pesquisas sobre magia ritual, ele
criou uma "sopa" literária sobre feitiçaria feita com ingredientes que incluíam fragmentos
de antigos rituais supostamente preservados por seus companheiros, adeptos da prática,
além de elementos de ritos maçônicos e citações de seu colega Aleister Crowley,
renomado ocultista que se declarava a Grande Besta da magia ritual. Gardner decidiu
então acrescentar uma pitada de Aradia e da Deusa Branca e, para ficar no ponto,
temperou seu trabalho incorporando-lhe um pouquinho de Ovídio e de Rudyard Kipling.
O resultado final, escrito numa imitação de inglês elisabetano, engrossado ainda com
pretensas 162 leis de feitiçaria, foi uma espécie de catecismo da Wicca, ressuscitado por
Gardner. Assim que completou o trabalho, seu compilador tentou fazê-lo passar por um
manual de uma bruxa do século XVI, ou um Livro das Sombras.
Apesar dessa origem duvidosa, o volume transformou-se em evangelho e l i t u r g i a
da tradição gardneriana da Wicca, como veio a ser chamada essa última encarnação da
feitiçaria. Era uma "pacífica e feliz religião da natureza", nas palavras de Margot Adler
em Atraindo a Lua. "As bruxas reuniam-se em assembléias, conduzidas por sacerdotisas.
Adoravam duas divindades, em especial, o deus das florestas e de tudo que elas
encerram, e a grande deusa tríplice da fertilidade e do renascimento. Nuas, as feiticeiras
formavam um círculo e produziam energia com seus corpos através da dança, do canto e
de técnicas de meditação. Concentravam-se basicamente na Deusa; celebravam os oito
festivais pagãos da Europa, buscando entrar em sintonia com a natureza."
Como indaga o próprio Gardner em seu livro, "Há algo de errado ou pernicioso
nisso tudo? Se praticassem esses ritos dentro de uma igreja, omitindo o nome da deusa ou
substituindo-o pelo de uma santa, será que alguém se oporia?"
Talvez não, embora a nudez ritualística recomendada por Gardner causasse, e ainda
cause, um certo espanto. Mas para Gardner as roupas simplesmente impedem a liberação
da força psíquica que ele acreditava existir no corpo humano. Ao se desnudarem para
adorar a deusa, as feiticeiras não só se despiam de seus trajes habituais, como também de
sua vida cotidiana. Além disso, sua nudez representaria um regresso simbólico a uma era
anterior à perda da inocência.
Gardner justifica a nudez ritualística em sua adaptação da Exortação à Deusa, de
Aradia, na qual a prima strega recomenda a suas seguidoras: "Como sinal de que sois
verdadeiramente livres, deveis estar nuas em seus ritos; cantai, celebrai, fazendo música e
amor, tudo em meu louvor." A recomendação da nudez, acrescentada à defesa feita por
Gardner do sexo ritualístico — o Grande Rito, como ele o chamava —, virtualmente pedia
críticas. Rapidamente o pai da tradição gardneriana ganharia reputação de velho
obsceno.

as, sendo um nudista e ocultista vitalício, Gardner estava habituado aos


olhares reprovadores da sociedade e em seu livro A Feitiçaria Moderna,
parecia antever as críticas que posteriormente receberia. Contudo, angariou
pouquíssima simpatia entre seus detratores ao optar por caracterizar a nudez ritualística
como "um grupo familiar tentando fazer uma experiência científica de acordo com o texto do
livro". Pior ainda, alguns de seus críticos pensaram ter sentido um cheiro de fraude após o
exame minucioso de seus trabalhos, começando então a questionar a validade do
supostamente antiquíssimo Livro das Sombras, bem como de sua crença numa tradição
ininterrupta de prática da feitiçaria.
Entre seus críticos mais ferrenhos encontrava-se o historiador Elliot Rose, que em 1962
desacreditou a feitiçaria de Gardner, afirmando que era um sincretismo, e aconselhando
ironicamente àqueles que buscassem alguma profundidade mística na prática da bruxaria
que escolhessem uns dez "amigos alucinados" e formassem sua própria assembléia de bruxos.
"Será um grupo tão tradicional, bem-instruído e autêntico quanto qualquer outro desses
últimos milênios", observava Rose acidamente.
Os críticos mais contumazes mantiveram fogo cerrado ate mesmo após 1964,
quando Gerald Gardner foi confinado em segurança dentro de seu túmulo. Francis King,
um destacado cronista britânico do ocultismo, acusou Gardner de fundar "um culto às
bruxas elaborado e escrito em estilo romântico, um culto redigido de seu próprio
punho", um pouco para escapar do tédio. King chegou até a declarar que Gardner
contratara seu amigo, o mágico Aleister Crowley, para que este lhe redigisse uma nova
liturgia.
Aidan Kelly é outro crítico, o fundador da Nova Ordem Ortodoxa Reformada da
Aurora Dourada, uma ramificação da prática da magia. Kelly declarou trivialmente que
Gardner inventara a feitiçaria moderna e que ele, em sua tentativa desorientada de reformar a
velha religião, formara outra, inteiramente nova. Segundo Kelly, a primazia da deusa, a
elevação da mulher ao status de alta
sacerdotisa, o uso do círculo para concentração de energia e até mesmo o ritual para
atrair a lua, no qual uma alta sacerdotisa se transforma temporariamente em deusa, eram
contribuições de Gardner à prática. Além disso, em 1984, Kelly assegurou em um jornal
pagão que não há base alguma para a declaração de Gardner segundo a qual sua tradição de
feitiçaria teria raízes no antigo paganismo europeu. No mesmo artigo, Kelly forneceu
detalhes acerca das origens do polêmico Livro das Sombras, de Gardner. O trabalho não
teria sido iniciado, desconfiava Kelly, no século XVI, como Gardner afirmava, mas sim
nos primórdios da Segunda Guerra Mundial.
Gardner teria começado a registrar em um livro de anotações vários rituais que
havia pilhado de outras tradições ocultistas, bem como passagens favoritas dos textos que
lia. Quando encheu seu primeiro livro de anotações, segundo Kelly, Gardner considerou
que tinha em mãos a receita do primeiro Livro das Sombras. Kelly também chamou
atenção para uma profunda revisão daquilo que se tornara a "tradição" de Gardner,
demonstrando que não se tratava da continuidade de uma religião cujas raízes remontavam
a milênios, mas sim de uma invenção recente e, como tal, um tanto inconsistente. Em seus
primeiros anos, a Wicca de Gardner estivera centralizada no culto ao equivalente
masculino do deus principal, registrava Kelly. Por volta da década de 50, contudo, o Deus
Chifrudo fora eclipsado pela Grande Deusa. Uma mudança equivalente havia ocorrido na
própria prática das assembléias, durante as quais o alto sacerdote fora subitamente
relegado a segundo plano, substituído por uma alta sacerdotisa. Como Kelly demonstrou,
essas mudanças só aconteceram depois que Doreen Valiente, a primeira alta sacerdotisa da
linha de Gardner, começou a adotar o mito da Deusa Branca de Robert Graves como
sistema oficial de crenças. Na verdade, Valiente é, na visão de Kelly, a verdadeira mentora da
grande maioria dos rituais gardnerianos.
Um sumo sacerdote veste um adereço de pele com chifres para representar o lado
masculino da divindade Wicca, durante um ritual. Os adeptos da Wicca dizem que seu
Deus Chifrudo, vinculado ao grego Pã e ao celta Cernuno, corporifica o princípio
masculino e é simbolizado pelo sol.
Kelly no entanto contrabalançou suas virulentas críticas a Gardner ao creditar-lhe não
só uma criatividade genial, mas também a responsabilidade pela vitalidade da feitiçaria
contemporânea. O mesmo fez J. Gordon Melton, um ministro metodista e fundador do
Instituto para o Estudo da Religião Americana. Numa entrevista recente, comentou que todo o
movimento neopagão deve seu surgimento, bem como seu ímpeto, a Gerald Gardner. "Tudo
aquilo que chamamos hoje de movimento da feitiçaria moderna", declarou Melton, "pode ser
datado a partir de Gardner".
Dúvidas e polêmicas sobre suas fontes à parte, a influência de Gerald Gardner no
moderno processo de renascimento da Wicca é indiscutível, assim como seu papel de pai
espiritual dessa tradição específica de feitiçaria que hoje carrega seu nome. Embora os
métodos de Gardner revelassem um certo toque de charlatania e seus motivos talvez
parecessem um tanto confusos, sua mensagem era apropriada para sua época e foi recebida
com entusiasmo dos dois lados do Atlântico. Quer ele tenha ou não redescoberto e resgatado
um antigo caminho de sabedoria, aparentemente seus seguidores foram capazes de captar em
seu trabalho uma fonte para uma prática espiritual que lhes traz satisfação.
Além do mais, na condição de alto sacerdote de seu grupo, Gerald Gardner foi
pessoalmente responsável pela iniciação de dúzias de novos feiticeiros e pela criação de
muitas novas assembléias de bruxos. Estas, por sua vez, geraram outros grupos, num processo
que se tornou conhecido como "a colméia" e que, de fato, resultou numa espécie de sucessão
apostólica cujas origens remontam ao grupo original criado por Gardner. Outras assembléias
gardnerianas nasceram a partir de feiticeiras autodidatas, que formaram seus próprios grupos
após ler as obras de Gardner, adotando sua filosofia.
Contudo, nem todas as feiticeiras estão vinculadas ao gardnerianismo. Muitas
professam uma herança anterior a Gardner e desempenham seus rituais de acordo com
diversos modelos colhidos das tradições celta, escandinava e alemã. Além disso, alguns
desses pretensos tradicionalistas declaram-se feiticeiros hereditários, nascidos em famílias de
bruxos e destinados a transmitir seus segredos aos próprios filhos.
Zsuzsanna — ou Z — Budapest é uma famosa feiticeira feminista e alta sacerdotisa da
Assembléia Número Um de Feiticeiros de Susan B. Anthony, nome atribuído em homenagem
à famosa advogada americana, defensora dos direitos da mulher. Z Budapest afirma que a
origem de seu conhecimento remonta a sua pátria, a Hungria, e ao ano de 1270. Mas diz
ter sido educada acreditando que a prática da feitiçaria era apenas uma prática, e não uma
religião, cujos fundamentos lhe foram transmitidos pela própria mãe, uma artista que previa
o futuro e supostamente usava seus poderes mágicos para acalmar os ventos. Somente
muitos anos depois, quando migrou para os Estados Unidos, Z teria descoberto os
trabalhos de escritores como Robert Graves e Esther Harding, e passou a reconhecer-se
como a praticante de Wicca que era na realidade.
utras feiticeiras que também se declaram herdeiras de uma tradição
descrevem experiências semelhantes às de Z. Budapest. Contam que, para elas,
a prática era um assunto de família até lerem, acidentalmente, a literatura sobre
a Wicca — geralmente livros escritos por Gerald Gardner, ou Margaret Murray,
ou por autores contemporâneos como Starhawk, Janet e Stewart Farrar, ou Margot
Adler. Só então teriam compreendido que pertenciam a um universo mais amplo. Lady
Cibele, por exemplo, uma bruxa de Wisconsin, afirma que cresceu acreditando que a
prática se limitava ao círculo de seus familiares. "Foi só na universidade que descobri que
havia mais pessoas envolvidas com a prática", confessou a Margot Adler, "e eu não sabia
que éramos muitos até 1964, quando meu marido veio correndo para casa, da biblioteca
onde trabalhava, murmurando muito animado que Tem mais gente como nós no mundo!'."
O marido de Lady Cibele havia encontrado A Feitiçaria Moderna e, quando leram o livro
juntos, emocionaram-se com a sensação de familiaridade que sentiram pelas idéias e
práticas descritas por Gerald Gardner.
Mesmo que todos esses depoimentos sejam verdadeiros, o nascimento no seio de
uma família de feiticeiros não representaria uma garantia de que uma criança em especial
se tornaria posteriormente especialista nos segredos da prática. Em alguns casos o dom
pula uma geração, na maioria das vezes porque um feiticeiro decide que nenhum de seus
próprios filhos possui o temperamento adequado para iniciar-se na prática. O resultado é
que a Wicca geralmente se vincula às tais "historias da vovó", nas quais, como aponta J.
Gordon Melton, "aparece alguém que diz: fui iniciado por minha avó que era bruxa, des-
cendente de uma linhagem ancestral". Pouquíssimas histórias dessa natureza sobrevivem a
um exame minucioso e muitas parecem até ridículas. Os próprios praticantes da Wicca sen-
tem-se um tanto constrangidos com a proliferação de histórias da vovó. "Depois de algum
tempo", comentou um sacerdote Wicca, "você percebe que, se ouviu uma história de avó, já
ouviu todas. Você percebe que o além deve estar lotado de vovozinhas assim."
Entre as "histórias da vovó" mais interessantes está a que foi contada pelo suposto
Rei das Feiticeiras, Alexander Sanders, que declarou ter sido iniciado na prática por sua
avó, em meados de 1933, com apenas 7 anos de idade. Mas os céticos rapidamente
salientam o fato de que a linha de feitiçaria de Sanders, conhecida como Tradição
Alexandrina, guarda profunda semelhança com a de Gardner. De fato, muitos dos rituais
de Sanders são virtualmente idênticos aos de Gardner e isto levou alguns observadores a
desprezar essa tradição, considerando-a como uma simples variante, e não um legado
deixado por uma avó misteriosa e convenientemente falecida.
Muitos desses mesmos céticos encararam com igual desconfiança a história da
famosa feiticeira inglesa Sybil Leek, que também afirmava ter se iniciado na prática ainda no
colo da avó. Na opinião de Melton, Leek, como Sanders, simplesmente exagerou alguns
acontecimentos de sua infância. No entanto, os ataques dos incrédulos pouco fizeram para
diminuir a enorme popularidade da feiticeira-escritora e na época de sua morte, em 1983,
Sybill Leek era uma das bruxas mais famosas dos dois lados do Atlântico. Leek era uma
autora prolífica, e durante sua vida produziu mais de sessenta livros que espalharam pelo
mundo o evangelho da fé Wicca — e, não por acaso, sua própria fama.
Porém, ainda mais do que os livros de Leek, o que levou a Wicca da Inglaterra
para os Estados Unidos foi a própria tradição de Gardner, que cruzou o Atlântico em 1964
como parte da bagagem espiritual de dois expatriados britânicos. Raymond e
Rosemary Buckland já estavam prontos para passar dois anos em Long Island, Nova
York, quando, movidos pelo interesse por ocultismo, decidiram escrever a Gardner em sua
casa em Isle of Man. Tal correspondência resultaria posteriormente em um encontro e um
curso rápido de feitiçaria na casa de Gardner. Nesse breve período o casal Buckland foi sa-
grado respectivamente sacerdote e sacerdotisa gardnerianos. Foram uns dos últimos
feiticeiros iniciados e ungidos pessoalmente por Gardner antes de sua morte.
Assim que regressaram ao lar nova-iorquino, os Bucklands rapidamente puseram
em prática tudo que haviam aprendido. Formaram a primeira assembléia gardneriana nos
Estados Unidos e esta por sua vez, com o passar do tempo, gerou muitos outros grupos.
Esses grupos propagaram o evangelho gardneriano de uma costa a outra, tanto nos Estados
Unidos quanto no Canadá. Durante certo tempo, Rosemary Buckland, ou Lady Rowen,
como era conhecida entre os praticantes da Wicca, foi coroada a rainha das feiticeiras
pelos grupos aos quais dera origem. Enquanto isso, Ray Buckland, ou Robat, nome que
havia adotado, seguindo o exemplo de Gerald Gardner, seu mentor, publicou o primeiro de
uma série de livros que produziria sobre feitiçaria. Seus trabalhos fizeram com que a
prática se tornasse acessível para muitos aspirantes a iniciados, especialmente em seu novo
lar, onde o interesse pela Wicca floresceu na atmosfera tolerante do final da década de 60
e início dos anos 70.
No mesmo período em que Ray e Rosemary Buckland se dedicaram a propagar esse
renascimento da feitiçaria na America do Norte, o ocultismo começou a se transformar
em algo que a antropóloga cultural Tanya M. Luhrmann descreveu como "uma
contracultura sofisticada". Em seu livro Atrativos da Feitiçaria publicado em 1989,
Luhrmann apresenta uma teoria se-qundò a qual "a contracultura da década de 60 voltou-se
para o ocultismo - astrologia, tarô, medicina e alimentação alternativa - porque eram
alternativas para a cultura estabelecida; muitos descobriram as cartas do tarô ao
mesmo tempo que descobriram o broto de feijão".
Ray Buckland recorda esse período como uma época excitante durante a qual veio
a luz um número crescente de assembléias de bruxos, bem como as mais diversas
expressões da crença Wicca. Feiticeiras detentoras de estilos altamente personalizados
eram estimuladas pela permissividade daqueles dias sentindo-se finalmente livres para
expor-se. Ao mesmo tempo, a tradição gardneriana frutificava, espalhando as sementes
de novas assembléias e gerando dissidências em todas as direções.
Certos grupos, tais como os que professavam a tradição de Alexandria e ainda
um híbrido mais recente chamado de tradição de Algard, eram crias perfeitas do grupo
anterior, isto é, assemelhavam-se aos progenitores gardnerianos em tudo, menos no
nome. Outros eram parentes mais afastados, baseando-se nos ensinamentos de Gerald
Gardner, mas acrescentando idéias novas. Entre estes figuram a Nova Wicca de
Illinois, a Wicca Georgiana sediada na Califórnia e a Wicca de Maidenhill, da
Filadélfia. Outras, tais como a igreja de Y Tylwyth Teg, a Pecti-Wita, e o Caminho do
Norte, inspiram-se no passado mágico das lendas celtas, escocesas e nórdicas.
As variações da Wicca não terminam por aqui: na verdade, elas apresentam uma
diversidade que reflete a natureza individualista da prática da feitiçaria. A Wicca é tão
aberta quanto eclética. "Todos nós conectamos com o Divino de maneiras diferentes",
afirma Selena Fox, fundadora de uma tradição própria. "Muitos caminhos levam à
verdade." De fato, o próprio grupo de Fox, o Santuário do Círculo, reconhecido como
uma igreja Wicca pelo governo federal, estadual e local, tenta fornecer um substrato comum
a todos esses caminhos. O Santuário do Círculo define-se como um serviço de troca e
intercâmbio internacional para praticantes de diferentes estirpes de Wicca. Muitas
feministas, no entanto, envolveram-se em algum dos inúmeros cultos a Diana que
proliferaram na década de 70. Essas assembléias assumiram seu nome a partir do culto a
Diana, com base na concepção de Margaret Murray, e enfatizam em suas práticas a
veneração à deusa. Há até mesmo um curso por correspondência para aspirantes à Wicca que
já conseguiu atrair aproximadamente 40 mil alunos.
Mas essa onda de bruxos autodidatas passou a preocupar alguns dos antigos adeptos
da Wicca, inclusive Ray Buckland, que certa vez lamentou o advento dessa religião "feita
em casa". Em 1973, contrariado com algo que ele considerava como a corrupção da
feitiçaria, Buckland rompeu seus vínculos com o gardnerianismo e criou um novo conjunto
de práticas, retomando a tradição da Seax-Wicca, ou Wicca saxã. Ao fazer isso, produziu
também sua própria versão de uma feitiçaria autodidata e em sua obra A Árvore, seu
primeiro produto na linha Seax-Wicca, incluía instruções detalhadas que permitiam a
qualquer leitor "iniciar-se como feiticeiro e gerar sua própria Assembléia".
Com o anúncio aparentemente contraditório de uma "nova tradição" espalhando-
se aos quatro ventos, a Wicca ingressava numa fase de contendas entre os novos e os
antigos. Ao romper com a tradição gardneriana, Ray Buckland tentava distanciar-se das
querelas. "Enquanto os outros brigam para definir qual seria a mais antiga das tradições",
anunciou orgulhosamente, "declaro pertencer à mais jovem de todas elas!".
Isso ocorreu em 1973. Depois, surgiu uma grande profusão de assembléias e
correntes da Wicca nas quais a honra de ser a novidade do dia às vezes confere uma
importância passageira. Além disso, essa abundância de ritos e nomes transformou a
própria Wicca numa fé um tanto difícil de ser definida. Até agora foram inúteis as
tentativas de formular um credo aceitável por todos que se proclamam seguidores da
Wicca, apesar da necessidade profunda de seus seguidores no sentido de tornar público um
conjunto de crenças que os distinga oficialmente dos satanistas. Em 1974, o Conselho dos
Feiticeiros Americanos, um grupo de representantes de diversas seitas Wicca, formulou
um documento que se intitulava corajosamente "Princípios da Crença Wicca". Porém,
assim que se ratificou o documento, o conselho que o produzira se desfez devido a
desavenças entre seus membros, pondo fim a esse breve consenso. No ano seguinte, uma
nova associação, que hoje engloba cerca de setenta grupos de seguidores da Wicca, ratificou
o Pacto da Deusa, um decreto mais duradouro propositalmente redigido nos moldes do
documento da igreja Congregacional. Embora o pacto incluísse um código de ética e
garantisse a autonomia das assembléias signatárias, está longe de definir o que seria a
Wicca. "Não poderíamos definir com palavras o que é Wicca", admite o pacto, "porque
existem muitas diferenças."
Muitos bruxos alegam que essas diferenças apenas fazem aumentar os atrativos da
Wicca. De fato, mesmo no seio de uma tradição específica, distintos grupos podem ater-se
a crenças contrastantes e praticar rituais dessemelhantes. Essa situação é satisfatória para a
maioria dos feiticeiros, que não vêem por que a Wicca deveria ser menos diversificada do
que as inúmeras denominações cristãs.
Porém, até mesmo na ausência de um credo oficial, um grande número de
feiticeiros acata um pretenso conselho, ou lei da Wicca: "Não prejudicarás a terceiros." Não
se sabe ao certo, mas aparentemente essa adaptação livre da regra de ouro do cristianismo
tem vigorado pelo menos desde a época de Gerald Gardner. Nas palavras do Manual dos
Capelães do Exército dos Estados Unidos, a lei da Wicca geralmente é interpretada como se
dissesse que o praticante pode fazer o que bem desejar com suas capacidades psíquicas
desenvolvidas na prática da feitiçaria, contanto que jamais prejudique alguém com seus
poderes. Como mais uma medida de precaução contra o mau uso desses poderes mágicos,
a maioria das assembléias também apela para uma lei chamada "lei do triplo", que
consiste em uma outra máxima antiga. O provérbio adverte os bruxos, prevenindo: "Todo
bem que fizerdes, a vós retornará três vezes maior; todo mal que fizerdes, também a vós re-
gressará três vezes maior."
Dada a dificuldade em classificar a feitiçaria, ou estabelecer uma lista concisa com
as crenças comuns a todos os adeptos da Wicca, uma descrição completa das ca-
racterísticas de um bruxo moderno necessariamente é apenas aproximativa. Todavia,
pode-se afirmar com segurança que a maioria dos feiticeiros acredita na reencarnação,
reverencia a natureza, venera uma divindade onipresente e multifacetada e incorpora a
magia ritualística em seu culto a essa divindade. Além disso, poucos feiticeiros
questionariam os preceitos básicos resumidos por Margot Adler em Atraindo a Lua. "A
palavra é sagrada", ela escreveu. "A natureza é sagrada. O corpo é sagrado. A sexualidade é
sagrada. A mente é sagrada. A imaginação é sagrada. Você é sagrado. Um caminho
espiritual que nãoestiver estagnado termina conduzindo à compreensão da própria
natureza divina. Você é Deusa. Você é Deus. A divindade está (...) tanto dentro como fora
de você."
Três pressuspostos filosóficos fundamentam essas crenças e estes, mais do que
qualquer outra característica, vinculam a feitiçaria moderna e o neopaganismo às práticas
correspondentes do mundo antigo. O primeiro pressuposto é o animismo, ou a idéia de
que objetos supostamente inanimados, tais como rochas ou árvores, estão imbuídos de uma
espiritualidade própria. Um segundo traço comum é o panteísmo, segundo o qual a
divindade é parte essencial da natureza. E a terceira característica é o politeísmo, ou a
convicção de que a divindade é ao mesmo tempo múltipla e diversificada.
Juntas, essas crenças compreendem uma concepção geral do divino que permeou o
mundo pré-cristão. Nas palavras do historiador Arnold Toynbee, "a divindade era inerente
a todos os fenômenos naturais, inclusive àqueles que o homem domara e domesticara. A
divindade estava presente nas fontes, nos rios e nos mares; nas árvores, tanto no carvalho
de uma mata silvestre como na oliveira cultivada em uma plantação; no milho e nos
vinhedos; nas montanhas; nos terremotos, no trovão e nos raios." A presença de Deus ou da
divindade era sentida em todos os lugares, em todas as coisas; ela seria "plural, não
singular; um panteon, e não um único ser sobre-humano e todo-poderoso".
A escritora e bruxa Starhawk reproduz em grande parte o mesmo tema ao observar
que a bruxaria "não se baseia em um dogma ou conjunto de crenças, nem em escrituras, ou
em algum livro sagrado revelado por um grande homem. A feitiçaria retira seus
ensinamentos da própria natureza e inspira-se nos movimentos do sol, da lua e das estrelas,
no vôo dos pássaros, no lento crescimento das árvores e no ciclo das estações".
Mas Starhawk também reconhece que o aspecto politeísta da Wicca — o culto à
"Deusa Tríplice do nascimento, do amor e da morte e a seu consorte, o Caçador, que é o
senhor da Dança da Vida"— constitui a grande diferença entre a feitiçaria moderna e as
principais religiões ocidentais. Mesmo assim, muitos adeptos da Wicca discordam quanto
ao fato de seu deus ou deusa serem meros símbolos, entidades verdadeiras ou poderosas
imagens primárias — aquilo que Carl Jung alcunhou de arquétipo —, profundamente
arraigadas no subconsciente humano. Os feiticeiros também divergem quanto aos nomes de
suas divindades. Como se expressa no cântico da alta sacerdotisa Morgan McFarland na
igreja da rua Arlington, são inúmeros os nomes para o deus e a deusa. Abrangem desde
Cernuno, Pã e Herne no lado masculino da divindade, a Cerridwen, Arianrhod e Diana, no
aspecto feminino. Na verdade, há tantos nomes diferentes provenientes de tantas culturas
e tradições que McFarland não se afastava da verdade quando dizia a sua platéia que a
deusa "será chamada por milhares de nomes".
Seja qual for seu nome, a deusa, na maioria das seitas da Wicca, tem precedência
sobre o deus. Seu alto status reflete-se em títulos tais como a Grande Deusa e a Grande
Mãe. De fato, para Starhawk e para muitas outras feiticeiras, o culto a uma suprema
divindade feminina constituiu, desde tempos remotos, a própria essência da feitiçaria,
uma força que "permeia as origens de todas as civilizações".
.tarhawk comenta que "A Deusa-Mãe foi gravada nas paredes das cavernas
paleolíticas e esculpida em pedra desde 25 mil anos antes de Cristo." Ela
argumenta ainda que as mulheres com freqüência tinham papel de chefia em
culturas centradas na deusa, há milhares de anos. "Para a Mãe", escreve, "foram
erguidos grandes círculos de pedra nas Ilhas Britânicas. Para Ela foi escavada a grande
passagem dos túmulos na Irlanda. Em Sua honra as dançarinas sagradas saltaram sobre os
touros em Creta. A Avó Terra sustentou o solo das pradarias norte-americanas e a Grande
Mãe do Oceano lavou as costas da África."
Na visão de Starhawk, a deusa não é um Deus Pai distante e dominador, principal
arquiteto da terra e remoto governante no além. Ao contrário, a deusa é uma amiga sábia e
profundamente valiosa, que está no mundo e a ele pertence. Starhawk gosta de pensar na
deusa como o sopro do universo e, ao mesmo tempo, um ser extremamente real. "As
pessoas me perguntam se eu creio na deusa", escreve Starhawk. "Respondo: 'Você acredita
nas rochas?'."
Certamente, a força e a permanência são as analogias mais óbvias da imagem da
deusa enquanto rocha. Contudo, é essa deusa de aspectos eternamente mutantes e
multifaceta-dos, a misteriosa divindade feminina que aos poucos se revela e que às vezes
nem se deixa ver, que constitui a principal atração para a grande maioria das feiticeiras.
Por essa razão, a divindade feminina geralmente é simbolizada por uma lua inconstante, em
suas diferentes fases — quarto crescente, lua cheia ou quarto minguante —, cor-
respondendo aos três aspectos da deusa tríplice: a donzela, a mãe e a velha.
A cerimônia conhecida como Atraindo a Lua (página 113) fundamenta-se nesse
sim-bolismo e representa um dos mais místicos rituais da Wicca. Nessa cerimônia, a alta
sacerdotisa de um grupo de feiticeiros invoca o poder da Grande Mãe para então assumir o
papel da própria deusa. Como parte da celebração, a alta sacerdotisa recita a invocação
denominada Exortação à Deusa, na qual convoca cada uma de suas feiticeiras para se
postar a seu lado. "Eu, que sou a beleza da terra verde, a lua branca entre as estrelas, o
mistério das águas, e o desejo no coração do homem, convoco tua alma", ela acena.
"Levanta e vem até mim."
Entre os que atendem nos dias de hoje ao chamado da deusa encontra-se um
número crescente de feministas. Muitas uniram-se às centenas de cultos a Diana, grupos
que se formaram na década de 80, fazendo da feitiçaria feminista o ramo mais prolífico
da prática. A maioria desses grupos exclui homens; Z Budapest, a líder do movimento de
feiticeiras feministas, chega até mesmo a chamar a feitiçaria de Religião das Mulheres.
Considera que os homens não devem partilhar dessa fé.
Algumas outras feiticeiras feministas concordam e até levam essa idéia mais longe,
dizendo que todas as mulheres são feiticeiras, em virtude apenas de seu gênero.
O fascínio que a feitiçaria exerce sobre as feministas é compreensível, pois elas
acreditam, como alega Margot Adler, que a bruxa é "um símbolo extraordinário —
independente, inconformista, forte e orgulhosa. Ela é política, embora seja mágica e
espiritual." Ao mesmo tempo, a feitiçaria moderna tem se desenvolvido como expressão
especificamente feminina da espiritualidade — com uma fé voltada para uma deusa
apaixonada e provedora, com rituais que reconhecem e até mesmo acolhem a natureza
cíclica da vida de uma mulher. Como tal, a religião Wicca esta desprovida do patriarcado e
da hierarquia que vieram a caracterizar o cristianismo. "Trata-se de uma religião de
mulheres1', declarou uma autora, "uma religião da terra, uma religião difamada pelo
cristianismo patriarcal e que agora, finalmente, e reivindicada."
Além disso, ao reinvidicar a deusa, muitas das feiticeiras feministas de hoje estão
também reivindicando aquilo que consideram como sua herança de direito. Voltam-se em
direção a séculos remotos, em busca de uma época na qual a mulher não era apenas o
centro de seu lar como também a guardiã do ritual e a mantenedora da memória tribal. A
escritora Monique Wittig captou esse espírito ao recomendar a suas leitoras: "Havia um
tempo em que você não era uma escrava, lembre-se disso. Você caminhava só, cheia de
alegria, banhava-se de ventre nu. Você sabia como escapar do encontro com um urso.
Conhecia os temores invernais quando ouvia os lobos se reunindo. Mas sabia ocultar-se,
sentando nos topos das árvores e aguardando durante horas o amanhecer. Você diz que não
existem palavras para descrever essa época, você diz que ela nunca existiu. Mas lembre-se.
Faça um esforço para lembrar. E se achar que não é capaz, invente."
Assim, algumas feministas encaram a prática da feitiçaria como uma tentativa de
remediar a amnésia histórica e cultural que afirmam ter sido imposta às mulheres através de
séculos de dominação masculina. Para outras, especialmente para aquelas que ajustam a
realidade da Wicca para criar suas próprias tradições centradas na mulher, a feitiçaria se
aproxima da invenção. "A crença das feiticeiras feministas é em uma nova, embora
ancestral, essência de pura veneração", escreveram duas feiticeiras num jornal da Wicca.
"Elas acreditam no futuro. Elas chegam como o vento norte: trazendo o estremecer da
mudança e o frescor do renascer."
As feministas contemporâneas são apenas parcialmente responsáveis pela expansão
da Wicca nas décadas de 70 e 80. A prática é amplamente adotada por milhares de
feiticeiras e feiticeiros que não são feministas e nem mesmo mulheres, e esses seguidores
oferecem uma multiplicidade de razões pessoais para responder ao chamado da deusa. Na
verdade, devido ao grande número de americanos que praticam alguma forma de
neopaganismo atualmente, parece haver espaço suficiente na fé Wicca para acomodar
feiticeiros de todas as linhas e extrações.
Não resta dúvida de que alguns deles são escapistas que desejam fugir da sociedade,
diletantes entediados que buscam novidades extravagantes e têm o privilégio de contar com
possibilidades de encontrá-las. Contudo, na opinião de Susan Robert, a maioria dos
feiticeiros nos Estados unidos não é formada por ricaços desocupados, mas sim por
americanos de classe média que, aparentemente, levam uma vida cotidiana pacata e
discreta. Robert observa que os feiticeiros geralmente se negam a unir-se como uma
categoria, tendem a ser in-conformistas e a ter conservado "a fé simples que a maioria de
nós acredita ser própria das crianças".
Outros observadores reportam descobertas semelhantes. A antropóloga britânica
Tanya Luhrmann, por exemplo, registra que um grande número de feiticeiros aos quais ela
entrevistou a respeito do fascínio exercido pela feitiçaria citaram forças motivadoras tais
como "uma necessidade de ser criança, de maravilhar-se com a natureza e voltar a vivenciar
uma intensidade imaginativa que parecia perdida." Da mesma forma, Margot Adler observou
que traços do deslumbramento infantil surgem como característica comum entre os neopagãos
que estudou, da mesma forma que uma aceitação tranqüila da vida e da morte, acrescida de
um desejo de viver em harmonia com a natureza.

As iluminuras feitas por um amigo do feiticeiro neste "Livro das Sombras"


rompem a antiga regra segundo a qual um diário mágico deve conter apenas a
letra do proprietário. Hoje em dia os iniciados tiram fotocópias, e até
digitam seus diários em computadores.
Apesar das dificuldades que surgem quando se quer classificar os feiticeiros dentro
de categorias, as pesquisas feitas com os neopagãos fornecem alguns dados referentes ao
que se pratica e por que se pratica. Uma pesquisa de 1980, por exemplo, mostra que os
neopagãos são, geralmente, executivos de classe média. A mesma pesquisa também revela
que a formação religiosa desses indivíduos assemelha-se muito ao perfil religioso nacional
da maioria dos americanos: antigos protestantes englobam quase a metade do grupo e
antigos católicos correspondem a pouco mais de 25 por cento do total.
Uma segunda pesquisa, conduzida por Margot Adler em 1985, apontou poucas
modificações nesses números, ou no tipo de atividade profissional exercida pelos
neopagãos. A pesquisa de Adler revelou um número surpreendentemente elevado de
profissionais da área de informática: programadores, analistas de sistema e analistas de
software. A uma pergunta acerca da aparente relação entre os computadores e o interesse
pelo neopaganismo, um entrevistado respondeu que "os computadores se assemelham à
mágica, pois funcionam de um jeito invisível para cumprir suas tarefas". Outro observou
que a informática, tal como o neopaganismo, "atrai pessoas criativas, levemente incultas e
solitárias".
Seja qual for a explicação, a relação entre o mundo da alta tecnologia e a esfera
das florestas e matas, própria da feitiçaria, não se limita a esse lado do Atlântico. Em
Atrativos da Feitiçaria, seu estudo sobre a feitiçaria publicado em 1989 na Inglaterra,
Luhrmann registra uma concentração semelhante de profissionais da informática entre os
feiticeiros que conheceu. Ele concluiu que deveria haver uma espécie de atração, com
base no fato de que "ambas, a magia e a informática, envolvem a criação de um mundo
definido por regras determinadas, e a ação ocorre dentro desses limites". Luhrman
também reconhece que a explicação verdadeira poderia ser de ordem muito mais simples
e prática e que os feiticeiros se tornavam programadores simplesmente porque
precisavam de um emprego. Nos tempos atuais, muitos dos empregos capazes de atrair
inconformistas instruídos têm estado na área da informática.
Outro subgrupo de neopagãos identificado pelos estudos de Luhrmann e Adler
corresponde àqueles que chegaram à prática de suas crenças através do interesse por
literatura fantástica e de ficção científica. As obras de J.R.R. Tolkien, Ursula K. LeGuin e
da sacerdotisa Wicca Marion Zimmer Bradley, entre outras, freqüentam as prateleiras dos
praticantes da Wicca. Em alguns casos, a vivida experiência da leitura dessas obras acendeu
a centelha que levaria à iniciação na prática. Alguns praticantes da Wicca encaram a
ficção científica, em particular, como uma espécie de literatura religiosa que proporciona
uma nova mitologia para nossa época.
Naturalmente, não chega a ser surpreendente o fato de que os praticantes de uma
religião alicerçada no ritual e no romance sejam também aficionados de uma literatura que
fala de um poder ancestral e de um encantamento perene, ou sobre a vitória do nobre bem
sobre o asqueroso mal. Como disse uma feiticeira a Margot Adler: "A prática é um espaço
para visionários (...) um espaço onde tudo se encaixa: a beleza, a pompa, a música, a dança,
canções e sonhos. Para mim, ela se tornou quase tão necessária quanto comer e beber."
as a mensagem que perpassa as várias pesquisas é a de que as pessoas chegam à
prática da Wicca pejas razões mais diversas. Para alguns feiticeiros, ! a força
motivadora era a veneração à natureza, i ou um profundo interesse por
mitologia. Outros descobriram a Wicca depois de terem rejeitado o
cristianismo e buscado uma vida espiritual alternativa. Há ainda quem afirme ter apenas
correspondido a um chamado interno e misterioso, semelhante à vocação que induz jovens
a ingressar em um seminário ou convento. Muitos praticantes da Wicca mencionam como
principal atrativo a idéia de adotarem uma religião que dispensa intermediários e cujas
crenças podem ser postas em prática de maneira inteiramente pessoal. Os acadêmicos que
pesquisam as causas desse grande interesse pela Wicca sugerem que a feitiçaria ajuda seus
praticantes encontrarem um significado, em um mundo desprovido de sentido; rituais, em
uma sociedade que anseia por rituais; e proteção contra as pressões exercidas pelas rápidas
mudanças sociais e tecnológicas. "Milhares de caminhos levam à prática", conclui
Margot Adler, "mas o principal é que ninguém 'se converte' à Wicca. Basicamente, o que
todos sentem é: 'Ah! Sempre acreditei em tudo isso. Só que nunca soube que tinha um
nome!'."
De fato, a maioria dos feiticeiros descreve sua introdução à prática não como uma
conversão mas como um chegar em casa. O resultado é que poucos neopagãos realmente
fazem prosélitos. A experiência de Alison Harlow, uma analista de sistemas num grande
centro de pesquisa médica da Califórnia, é típica, sendo que no decorrer de seu relato
abarca muitos temas comuns à Wicca. "Era noite de Natal", ela começa, "e eu cantava no
coro de uma igreja adorável na margem de um lago e ela estava linda, toda decorada. Era
lua cheia e o brilho do luar atravessava as janelas de vidro da igreja. Olhei para fora e tive a
impressão de que algo de especial acontecia, mas só que não era dentro da igreja." Quando a
missa terminou, Harlow desculpou-se e caminhou até o topo de uma colina lá perto.
Quando olhou para a lua e depois para a igreja embaixo, repentinamente sentiu uma
"presença".
"Parecia muito antiga, sábia e definitivamente feminina", ela recorda. "Não consigo
descrevê-la mais do que isso, mas senti que essa presença, esse ser, olhava para mim, para
essa igreja e aquelas pessoas dizendo: 'Coitadinhos! Têm intenções tão boas, mas
compreendem tão pouco.'"
Harlow também sentiu que seja lá quem fosse "ela", a presença era incrivelmente
velha e paciente; estava exasperada com o rumo que as coisas tomavam no planeta, mas
não abandonara a esperança de que começaríamos a compreender um pouco mais do
mundo". Levada por esse incidente, Alison Harlow decidiu descobrir tudo que pudesse
sobre a "presença" feminina, uma decisão que a levou ao estudo da literatura Wicca, ao
contato com muitas tradições da prática, à iniciação como sacerdotisa Wicca e, em última
instância, à criação de sua própria assembléia.
Os primeiros passos ensaiados por Harlow, seguidos por seu longo aprendizado,
emprestam credibilidade à sugestão de Luhrmann segundo a qual abraçar a Wicca é mais um
processo de auto-sugestão do que de conversão. "Envolver-se com magia", ela escreve, "é
como entrar num mundo de faz-de-conta." Os noviços encontram muitas idéias novas e
exóticas e devem gradualmente tomar decisões sobre o valor que essas concepções possam
ter. A prática não requer um compromisso imediato e nem há um conjunto de crenças
previamente estabelecido que o noviço deva colocar em prática. Ao invés disso, o novo
estudante tem permissão e liberdade para experimentar, como se estivesse fazendo apenas
uma experiência.
Em Salem, Massachusetts, cenário de antigos julgamentos e execuções
de bruxas, feiticeiros modernos reúnem-se para um sabá com Laurie
Cabot, que, em 1975, foi nomeada a bruxa oficial de Salem. Eastman
Kodak atribuiu o estranho risco azul perto da base da foto à eletricidade
estática no filme, mas Cabot discorda. Ela afirma que a energia estava
presente na sala, formando "o perímetro de nosso circulo mágico".

Assim, a prática da feitiçaria precede a crença e esse processo geralmente se trans-


forma em um prolongado período de sondagem da alma. E, principalmente, porque o credo
Wicca desafia abertamente as convenções, muitos neófitos necessitam certo tempo para
sua fé crescer gradualmente. No decorrer dessa fase exploratória, o noviço descobre novas
maneiras de ver o mundo. Luhrmann sugere que essa evolução lenta e geralmente
idiossincrática da filosofia pessoal possa explicar, ao menos até certo ponto, por que os
feiticeiros têm tanta dificuldade em concordar com um credo comum.
Para aqueles que terminam abraçando a Wicca, seu ritual acaba parecendo menos
teatral e mais significativo. Finalmente, Luhrmann observa, "a magia parece prática,
razoável, sensata e a experiência de se envolver com a prática se transforma em um lado
agradável da vida".
Para muitos praticantes da Wicca, um marco importante no crescimento em sua fé
é a iniciação como feiticeiro. Alguns novos praticantes desempenham uma cerimônia
solitária de auto-iniciação, uma afirmação de sua crença e da dedicação à deusa, ou ao
deus. Outros são ao mesmo tempo introduzidos em uma religião e em uma assembléia,
juntando-se a um grupo que pode ter de três a trinta participantes. Simples ou elaborado, o
ritual iniciático é um sinal exterior da transição de noviço a devoto. A iniciação
geralmente inclui a bênção dos instrumentos do novo feiticeiro, e ao término do ritual um
voto solene de sigilo sela a cerimônia — e os lábios de seus participantes.
O sigilo, na realidade, é uma fonte de tranqüilidade para os feiticeiros, pois até hoje
muitos deles ainda vivem tomados pelo temor. Idéias errôneas acerca da feitiçaria e a má
interpretação de sua crenças transformam os seguidores da Wicca em alvo de atos de
vandalismo, discriminação e dificuldades no emprego.
Recentemente, um dos julgamentos mais notórios envolvendo a prática de
feitiçaria foi uma ação judicial executada por Jamie Kellam Dodge, conselheira do
Exército de Salvação em Pascagoula, Mississippi, até sua demissão em agosto de 1987.
Dodge, que reconheceu ser feiticeira, foi demitida de seu emprego depois de ter sido sur-
preendida usando a fotocopia-dôra de seu escritório para reproduzir páginas com rituais
Wicca. Ela processou seu antigo empregador por discriminação religiosa, e o Exército da
Salvação contestou na corte, afirmando que a razão era violar a política da organização, que
proíbe o uso das fotocopiadoras para fins pessoais.
0 advogado de Dodge tentou colocar a questão na seguinte perspectiva: "Se ela fosse
uma cristã e estivesse usando essa fotocopiadora, alguém teria se importado? Se ela estivesse
usando a máquina para copiar receitas de um livro de culinária, ninguém teria feito
objeções." 0 caso foi ao tribunal em 1988, e um juiz federal determinou que a demissão de
Dodge constituíra realmente uma violação de seu direito constitucional de venerar o que
ela bem desejasse. Chegou-se a um acordo sobre a multa de 1,25 milhão de dólares fora da
Corte, mas o valor, não revelado, provavelmente foi substancial.
Controvérsias seculares são uma dura realidade para muitos praticantes da Wicca da
atualidade. Selena Fox e os membros de seu Santuário do Círculo, por exemplo, vivem numa
comunidade rural perto de Madison, em Wisconsin; a certa altura foram obrigados a enfrentar
uma batalha legal que durou dois anos para obter o reconhecimento como igreja pela
administração da cidade e do município — embora o estado de Wisconsin e o ministério da
Fazenda já tivessem há muito lhe outorgado o status de igreja. A disputa começou como
uma audiência de rotina sobre a questão do zoneamento, mas foi tão contaminada pelos
antigos medos da feitiçaria como uma espécie de satanismo que a imprensa local passou a
referir-se à questão como "a caça às bruxas". Ao tecer um comentário sobre Fox e exigindo
permanecer no anonimato, um vizinho da igreja disse a um jornalista: "Ela me apavora. O que
eles fazem não é normal". E um oficial do município descreveu o Santuário do Círculo como
a "anti-igreja".
A resposta de Fox foi abrir as portas celebrando uma festa e, depois disso, ao
menos alguns daqueles que visitaram os 80 hectares do Círculo do Santuário
concordaram que as atividades do grupo, que incluíam casamentos e cerimônias de cura
planetária, eram tudo menos demoníacas. "Fui ver seus rituais para descobrir o que estava
acontecendo", admitiu um auxiliar da promotoria, pertencente a um comitê estadual de
Wisconsin que acompanhava cultos e gangues. "O grupo é muito aberto, quase infantil. O
problema é que as pessoas pensam que feitiçaria, satanismo e ocultismo são a mesma
coisa."
A confusão entre feitiçaria e satanismo chegou a estender-se aos altos escalões do
governo. Em 1985, ao mencionar uma preocupação crescente com "o aumento de cultos,
satanismo, feitiçaria e coisas do gênero", o senador Jesse Helms acrescentou a
procedimentos legais normalmente corriqueiros uma emenda que negava a isenção de
impostos aos grupos praticantes de Wicca. A emenda foi ratificada pelo Senado, mas
posteriormente derrotada por um acordo da Câmara com o Senado, depois de grupos
neopagãos organizarem uma campanha maciça, enviando cartas de protesto.
Diante de tal oposição e fazendo um esforço para colocar a Wicca nas mesmas
bases legais que as outras religiões, alguns feiticeiros e neopagãos tentaram apoiar-se em
seu grande número de adeptos, formando redes de auxílio mútuo. Entre as novas
organizações para proteção constam o Santuário do Círculo, As Feiticeiras da Deusa, a
Liga Contra a Difamação dos Feiticeiros. Ao unirem suas forças, muitos feiticeiros viram-
se obrigados a abandonar o véu do sigilo no qual se refugiavam juntamente com a grande
maioria de seus colegas. Alguns deles acolhem bem tais mudanças, sentindo que a
reticência habitual dos feiticeiros do passado muitas vezes conduziu à apatia.
"Muitos cristãos só comparecem à igreja no Matai ou na Páscoa", observa Selena
Fox, "e muitos pagãos só aparecem na época de Halloween, a Noite das Bruxas."
A própria Fox está entre as líderes da Wicca mais ativas e destacadas. Como parte
daquilo que ela chama de seu sacerdócio, ela faz freqüentes aparições em programas de
entrevistas na televisão e inúmeras palestras em universidades. E nas vizinhanças de onde
mora, já trabalhou lado a lado com mulheres de outras igrejas regionais como voluntária da
Cruz Vermelha, depois de um furacão ter devastado uma cidade nas proximidades de
Barneveld, em junho de 1984. Seus esforços no sentido de dar à Wicca um ar de
respeitabilidade finalmente apresentaram resultados em 1988, quando foi convidada para
falar em uma conferência do Conselho Mundial de Igrejas. Fox refere-se ao evento, que
ocorreu em Toronto, como um dos melhores momentos de seu sacerdócio.
Contudo, a luta para conquistar a legitimidade para a prática pode ter seu preço. A
institucionalização da feitiçaria traz à mente de alguns de seus praticantes o espectro da
ruptura dos valores da feitiçaria. Especialmente inquietante é a crescente demanda por um
clero pago feita por algumas facções da Wicca. Os tradicionalistas sentem que uma
mudança dessa natureza contraria os próprios ditames da prática, contra o ensino da doutrina
em troca de dinheiro. "Se há algo que não quero ver", diz Doreen Valiente, a sacerdotisa
original de Gerald Gardner, "é a feitiçaria se tornar muito parecida com uma religião
organizada."
Mas essa perspectiva parece remota, apesar do surpreendente crescimento das
últimas décadas. Em primeiro lugar porque a proliferação de diversas "tradições" torna
improvável a centralização. Mesmo assim, muitos especialistas chegam a prever uma
contínua expansão para a Wicca e J. Gordon Melton, entre outros, detectou a emergência
de "uma liderança mais madura e mais sofisticada" para o futuro da prática. Quanto aos
problemas inerentes a esse crescimento, é provável que uma religião cuja principal
invocação, a Exortação da Deusa, pede "júbilo e reverência" seja capaz de superar muitas
das preocupações cotidianas. "Viver é mesmo muito divertido", disse uma sacerdotisa à
antropóloga Tanya Luhrmann. "A Wicca é a única religião que capta essa graça da vida".

Dicionário do Feiticeiro
Antigos, ou Poderosos: aspectos das divindades, invocados como guardiães durante os
rituais.
Assembléia, ou "Coven": reunião de iniciados na Wicca.
Balefire: fogueira ritualística.
Charme: objeto energizado; amuleto usado para afastar certas energias ou talismã para atraí-
las.
Círculo mágico: limites de uma esfera de poder pessoal dentro da qual os iniciados realizam
rituais.
Deasil: movimentos no sentido horário, que é o do sol, realizados durante o ritual, para que
passem energias positivas.
Divinação: a arte de decifrar o desconhecido através do uso de cartas de tarô, cristais ou
similares.
Elementos: constituintes do universo: terra, ar, fogo e água; para algumas tradições, o espírito
é o quinto elemento.
Encantamento: ritual que invoca magia benéfica.
Energizar: transmitir energia pessoal para um objeto.
Esbat: celebração da lua cheia, doze ou treze vezes por ano.
Familiares: animais pelos quais um feiticeiro sente profundo apego; uma espécie de
parentesco.
Força da Terra: energia das coisas naturais; manifestações visíveis da força divina.
Força divina: energia espiritual, o poder do deus e da deusa.
Instrumentos: objetos de rituais .
Invocação: prece feita durante uma reunião de feiticeiros pedindo para que os altos poderes
se manifestem.
Livro das Sombras: livro no qual o feiticeiro registra encantamentos, rituais e histórias
mágicas; grimoire.
Magia: a arte de modificar a percepção ou a realidade por outros meios que não os físicos.
Neopagão: praticante de religião atual, como a Wicca.
Pagão: palavra latina que designa "morador do campo", membro de uma religião pré-cristã,
mágica e politeísta.
Poder pessoal: o poder que mora dentro de
cada um, que nasce da mesma fonte que o
poder divino.
Prática, A: feitiçaria; a Antiga Religião; ver
Wicca.
Sabá: um dos oito festivais sazonais.
Tradição Wicca: denominação ou caminho
da prática Wicca.
Wicca: religião natural neopagã.
Widdershins: movimento contrário ao do
sol, ou anti-horário. Pode ser negativo, ou
adotado para dispersar energias negativas ou
desfazer o círculo mágico após um ritual.

Símbolos do Saber Wicca


Quando escrevem cartas, ou anotam
suas experiências em seus diários, muitos
feiticeiros usam símbolos Wicca como estes
abaixo. Alguns relacionam-se com símbolos
alquímicos e muitos teriam sido usados para preservar o sigilo na perigosa época da Inquisição.
Termos incomuns estão definidos no Dicionário de um Feiticeiro; e mais informações podem
ser encontradas nas ilustrações referentes aos instrumentos de feitiçaria.

Implementos Ritualísticos

Tradicionalmente, os bruxos preferem encontrar ou fabricar seus próprios instru-


mentos, que sempre consagram antes de utilizar em trabalhos mágicos. A maioria dos
iniciados reserva seus instrumentos estritamente para uso ritual; alguns dizem que os
instrumentos não são essenciais, mas ajudam a aumentar a concentração.
Embora pouco usados para manipular coi sas físicas, estes implementos primários
mostrados nestas páginas são chamados de instrumentos de feitiçaria. Jamais são utilizados
para ferir seres vivos, declaram os iniciados, e muito menos para matar. Os bruxos dizem que
eles estão presentes em rituais inofensivos e até benéficos, cerimônias desempenhadas para
efetuar mu danças psíquicas ou espirituais.
Recipientes como a taça e o caldeirão simbolizam a deusa e servem para captar e
transformar a energia. Os instrumentos longos e fálicos — o athame, a espada, o cajado e a
varinha — naturalmente representam o deus; são brandidos para dirigir e cortar energias. Para
cortar alimentos durante os rituais, os feiticeiros utilizam uma faca simples e afiada com um
cabo branco que a diferencia do athame.
O athame, uma faca escura com dois fios e cabo negro, transfere o poder pessoal, ou
energia psíquica, do corpo do feiticeiro para o mundo.
A espada, como o athame, desempenha o corte simbólico ou psíquico, especialmente
quando é usada para desenhar um círculo mágico, isolando o espaço dentro dele.
A taça é o símbolo da deusa, do princípio feminino e de sua energia. Ela contém água
(outro símbolo da deusa) ou vinho, para uso ritual.
O cajado pode substituir a espada ou varinha para marcar grandes círculos mágicos.
Uma tiara com a lua crescente, símbolo da deusa, é usada pela suma sacerdotisa para
retratar ou corporificar a divindade no ritual.
Um par de chifres pode ser usado na cabeça do sumo sacerdote em rituais ao Deus
Chifrudo.
Com a varinha mágica, feita de madeira sagrada, invoca-se as divindades e outros
espíritos.
Símbolo do lar, da deusa e do deus, a vassoura é um dos instrumentos favoritos
dos iniciados, usada para a limpeza psíquica do espaço do ritual antes, durante e após os
trabalhos mágicos.
O caldeirão é pote no qual, supostamente, ocorre a transformação mágica,
geralmente com a ajuda do fogo. Cheio de água, é usado para prever o futuro.
O tambor tocado em alguns encontros contribui para concentrar energia.

A Roda do Ano Wicca

Os seguidores da Wicca falam do ano como se ele fosse uma roda; seu calendário é um
círculo, significando que o ciclo das estações gira infinitamente. Espaçadas harmonicamente
pela roda do ano Wicca estão as oito datas de festas, ou sabás. Estas diferem dos "esbás", as
doze ou treze ocasiões durante o ano em que se realizam assembléias para celebrar a lua
cheia. Os quatro sabás menores, na verdade, são feriados solares, marcos da jornada anual do
sol pelos céus. Os quatro sabás maiores celebram o ciclo agrícola da terra: a semeadura, o
crescimento, a colheita e o repouso.
O ciclo do sabá é uma recontagem e celebração da ancestral história da Grande Deusa
e de seu filho e companheiro, o Deus Chifrudo. Há entre as seitas Wicca uma grande
diversidade em tomo desse mito. Segue-se uma dessas versões, que incorpora várias crenças
sobre a morte, o renascimento e o fiel retorno dos ciclos, acompanhando o ciclo do ano no
hemisfério norte.
Yule, um sabá menor, é a festa do solstício de inverno (por volta de 22 de dezembro),
marcando não apenas a noite mais longa do ano, mas também o início do retorno do sol.
Nessa época, narra a história, a deusa dá à luz a deus, representado pelo sol; depois, ela
descansa durantes os meses frios que pertencem ao deus-menino. Em Yule, os iniciados
acendem fogueiras ou velas para dar boas-vindas ao sol e confeccionam enfeites com
azevinho e visco — vermelho para o sol, verde pela vida eterna, branco pela pureza.
Imbolc (1º de fevereiro), um sabá importante também chamado de festa das velas,
celebra os primeiros sinais da primavera, o brotar invisível das sementes sob o solo. Os dias
mais longos mostram o poder do deus-menino. Os iniciados encerram o confinamento do
inverno com ritos de purificação e acendem todo tipo de fogo, desde velas brancas até
enormes fogueiras. Durante o sabá menor do equinócio da primavera (por volta de 21 de
março), a exuberante deusa está desperta, abençoando a terra com sua fertilidade. Os
iniciados da Wicca pintam cascas de ovos, plantam sementes e planejam novos
empreendimentos.
Em Beltane, 1º de maio, outro grande sabá, o deus atinge a maturidade, enquanto o
poder da deusa faz crescerem os frutos. Excitados pelas energias da natureza, eles se amam
e ela concebe. Os adeptos desfrutam um festival de flores, o que geralmente inclui a dança
em volta do mastro, um símbolo de fertilidade.
O solstício de verão (por volta de 21 de junho) é o dia mais longo e requer fogueiras em
homenagem à deusa e ao deus. Também é uma ocasião para pactos e casamentos, nos quais
os recém-casados pulam uma vassoura. O sabá mais importante da estação é Lugnasadh
(pronuncia-se "lun-sar"), em 1º de agosto, que marca a primeira colheita e a promessa de
amadurecimento dos frutos e cereais. Os primeiros cereais são usados para fazer pãezinhos em
forma de sol. À medida que os dias encurtam o deus se enfraquece e a deusa sente o filho de
ambos crescer no útero. No equinócio do outono (por volta de 22 de setembro), o deus
prepara-se para morrer e a deusa está no auge de sua fartura. Os iniciados agradecem pela
colheita, simbolizada pela cornucópia.
Na roda do ano, opondo-se às profusas flores de Beltane, surge o grande sabá de
Samhain (pronuncia-se "sou-en"), em 31 de outubro, quando tudo que já floresceu está
perecendo ou adormecendo. O sol se debilita e o deus está à morte. Oportunamente, chega o
Ano Novo da Wicca, corporificando a fé de que toda morte traz o renascimento através da
deusa. Na verdade, a próxima festa, Yule, novamente celebra o nascimento do deus.
A coincidência desses festivais com os feriados cristãos, bem como as semelhanças
entre os símbolos da Wicca e os do cristianismo, segundo muitos antropólogos, não seria apenas
acidental, mas sim uma prova da pré-existência das crenças pagãs. Para as autoridades cristãs
que reprimiam as religiões mais antigas durante a Idade das Trevas, converter os feriados já
estabelecidos, atribuindo-lhes um novo significado cristão, facilitava a aceitação de uma nova fé.

Cerimonias e Celebrações
A cena está se tornando cada vez mais comum: um grupo se reúne, geralmente em
noites de luar, em meio a uma floresta ou em uma colina isolada. Às vezes trajando túnicas e
máscaras, outras inteiramente nus, os participantes iniciam uma cerimônia com cantos e
danças, um ritual que certamente pareceria esquisito e misterioso para um observador casual,
embora seja um comportamento indiscutivelmente religioso.
Assim os bruxos praticam sua fé. Como os adeptos de religiões mais convencionais, os
iniciados em feitiçaria, ou Wicca, usam rituais para vincular-se espiritualmente entre si e a
suas divindades. Os ritos da Wicca diferem de uma seita para outra. Vários rituais da
Comunidade do Espírito da Terra, uma vasta rede de feiticeiros e pagãos da região de Boston,
nos Estados unidos, estão representados nas próximas páginas.
Algumas cerimônias são periódicas, marcando as fases da lua ou a mudança de
estações. Outras, tais como a Iniciação, casamentos ou pactos, só ocorrem quando há
necessidade. E há também aquelas cerimônias que, como a consagração do vinho com um
athame, a faca ritualística (acima), fazem parte de todos os encontros. Seja qual for seu
propósito, a maioria dos rituais Wicca — especialmente quando celebrados nos locais eleitos
eternamente pelos bruxos — evoca um estado de espírito onírico que atravessa os tempos,
remontando a uma era mais romântica.

Iniciação: "Confiança total"

Para um novo feiticeiro, a iniciação é a mais significativa de todas as cerimônias.


Alguns bruxos solitários fazem a própria iniciação, mas é mais comum o ritual em grupo, que
confere a integração em uma assembléia, bem como o ingresso na fé Wicca. Trata-se de um
rito de morte e renascimento simbólicos. A iniciação mostrada aqui é a praticada pela
Fraternidade de Athanor, um dos diversos grupos da Comunidade do Espírito da Terra. Lide-
rando o ritual — e a maioria das cerimônias apresentadas nestas páginas — está o sumo
sacerdote de Athanor, Andras Corban Arthen, trajando uma pele de lobo, que ele crê conferir-
lhe os poderes desse animal. A iniciação em uma de suas assembléias ocorre ao cabo de dois
ou três anos de estudo, durante os quais o aprendiz passa a conhecer a história da Wicca,
produz seus próprios implementos ritualísticos, pratica a leitura do tarô e outros supostos
métodos divinatórios e se torna versado naquilo que eles chamam de técnicas de cura
psíquica.
Como a maioria dos ritos da Wicca, a iniciação começa com a delimitação de um
círculo mágico para definir o espaço sagrado da cerimônia. Aqui, há um largo círculo, cheio
de inscrições, depositado na grama, mas o bruxo pode traçá-lo na terra com o athame, ou
apenas riscá-lo no ar com o indicador.
A candidata é banhada ritualisticamente, e então conduzida para o círculo mágico, nua,
de olhos vendados e com as mãos amarradas nas costas. Tais condições devem fazê-la sentir-
se vulnerável,' testando sua confiança em seus companheiros. Cima interpeladora dá um passo
em sua direção, pressiona o athame contra seu peito e lhe pergunta o nome e sua intenção. Em
meio a um renascimento simbólico, ela responde com seu novo nome de feiticeira, afirmando
que abraça sua nova vida espiritual e vem "em perfeito amor e em total confiança".
Ao término da cerimônia, o sacerdote segura seus pulsos e a faz girar nas quatro
direções (à direita), apresentando-a para os quatro pontos cardeais. Então ela é acolhida pelo
grupo e todos celebram sua vinda bebendo e comendo. Como diz Arthen, "os pagãos gostam
muito de festejos".

Para Captar a Energia da Lua

Os praticantes da Wicca identificam a lua, eternamente mutante — crescente, cheia e


minguante —, com sua grande deusa em suas diversas facetas: donzela, mãe e velha. É por
isso que a cerimônia destinada a canalizar para a terra os poderes mágicos da lua está na
essência do culto à deusa, sendo um rito chave na liturgia da Wicca.
Quando se encontram para um dos doze ou treze esbás do ano, que são as celebrações
da lua cheia, os membros da Fraternidade de Athanor reúnem-se em um círculo mágico para
direcionar suas energias psíquicas através de seu sumo sacerdote — que aqui aparece
ajoelhado np centro do círculo — e para sua suma sacerdotisa, que está de pé com os braços
erguidos em direção aos céus. Acreditam que a concentração de energia ajudará a sacerdotisa
a "atrair a lua para dentro de si" e transformar-se em uma; corporificação da deusa.
"Geralmente, a época da lua cheia é sempre; repleta de muita tensão psíquica", explica
Arthen, o sumo sacerdote. Esse ritual tenta utilizar essa tensão. "Ele ajuda a sacerdote a entrar
em um transe profundo, no qual terá visões ou dirá palavras que geralmente são relevantes
para as pessoas da assembléia”.
As taças nas mãos da sacerdotisa contêm água, o elemento que simboliza a lua e é
governado por ela. Os membros dizem que essa água se torna "psiquicamente energizada”
com o poder que a trespassa. Cada feiticeiro deve beber um pouco dela ao término do ritual,
na cerimônia que o sumo sacerdote Arthen chama de sacramento.
Muitos grupos realizam essa cerimônia de atrair a lua em outras fases, além da lua
cheia. Tentam conectar o poder da lua crescente para promover o crescimento pessoal e
começo de novas empreitadas e conectam com a minguante, ou lua negra, para selar os finais
de coisas que devem ter um fim.
A maioria dos grupos considera a cerimônia como uma maneira de honrar a Grande
Deusa, mas muitos abdicam dos rituais, resumindo-se simplesmente a deter-se por um mo-
mento quando a lua está cheia, para meditar sobre a divindade Wicca.

Para Elevar o Cone do Poder

"A magia", diz o sumo sacerdote Arthen, "está se unindo às forças psíquicas para pro-
mover mudanças." Parte do treinamento de um feiticeiro, ele observa, é aprender a usar a
energia psíquica e uma técnica primária com esse objetivo, um ritual praticado em quase
todos os encontros e o de elevação do cone do poder. Como a maioria das atividades, isso
acontece no centro de um círculo mágico. "Especialmente no caso deste ritual", diz Arthen, "o
círculo mágico é visualizado não apenas como um círculo, mas como um domo, uma bolha de
energia psíquica — uma maneira de conter o poder antes de começar a usá-lo."
Ao tentar gerar energia para formar o cone do poder, os bruxos recorrem à dança, à
meditação e aos cânticos. Para "moldar" o poder que afirmam produzir, reúnem-se em torno
do círculo mágico, estiram os braços em direção à terra e gradualmente os levantam, como se
vê aqui, em direção a um ponto focal acima do centro do círculo. Quando o líder da
assembléia sente que a energia atingiu seu ápice, ordena aos membros: "Enviem-na agora!"
Então, todos visualizam aquela energia assumindo a forma de um cone que deixa o círculo e
viaja até um destino previamente determinado.
O alvo do cone pode ser alguém doente ou outro membro do grupo que necessite de
assistência em seu trabalho mágico. Mas seu destino também pode estar menos delimitado.
Como a prática da feitiçaria está profundamente vinculada à natureza, o cone do poder pode
ser enviado, diz Arthen, "para ajudar a superar as crises ambientais que atravessamos.

Festas do Ano Wicca

Nem todos os rituais da Wicca são solenes e taciturnos. "Misturamos a alegria e a


reverência", diz Arthen. Os oito sabás que se destacam no ano dos bruxos — homenageando a
primeira jornada do sol e o ciclo agrícola rítmico da terra — são ocasiões para muitas festas
animadas. O mais festivo de todos os sabás é Beltane, alegre acolhida à primavera que
acontece no dia 19 de maio. Em Beltane, os pagãos do Espírito da Terra reúnem-se para
divertir-se com a brincadeira do mastro, como se vê aqui.
A dança do mastro, antigo rito da fertilidade, começa como um jogo ritualístico
carregado do forte simbolismo sexual que caracteriza a maioria das cerimônias da Wicca. As
mulheres do grupo cavam um buraco dentro do qual um mastro, obviamente fálico, deverá ser
plantado. Mas quando os homens se aproximam, carregando o mastro, são confrontados por
um círculo formado por mulheres, que cercam o poste como se o estivessem defendendo.
Num ato de sedução simbólico, as mulheres brincam de abrir e fechar o círculo em
lugares diferentes, enquanto os homens correm carregando o mastro e tentando penetrar
naquele círculo.
"Finalmente", conta o sumo sacerdote Arthen, "os homens têm a permissão de entrar
com o mastro e plantá-lo na terra." Em seguida, as feiticeiras começam a dança da fita, ao
redor do mastro, cruzando e atravessando os carrinhos umas das outras até que as fitas
brilhantes estejam todas entrelaçadas no mastro. "O ritual une as energias dos homens e das
mulheres", explica Arthen, "para que haja muita fertilidade."
Acreditando que cada sabá conduz a um ápice de energias psíquicas e terrenas, os
feiticeiros praticam os rituais do sabá mesmo que estejam sós. Contudo, nos últimos anos, os
adeptos da Wicca têm se reunido em número cada vez maior para celebrar os sabás; o
comparecimento aos festivais do Espírito da Terra aumentou cerca de sete vezes, no período
de quase uma década.

A Celebração das Passagens da Vida

Como outros grupos religiosos, as comunidades Wicca celebram os momentos mais


significativos na vida individual e familiar, inclusive nascimento, morte, casamento — que
chamam de "unir as mãos" — e a escolha do nome das crianças. O Espírito da Terra é
reconhecido como igreja pelo estado de Massachusetts, diz Arthen, e portanto seu ritual de
"unir as mãos" pode configurar um matrimônio legal.
Muitas vezes o ritual não é usado para estabelecer um casamento legal, mas sim um
vínculo reconhecido apenas pelos praticantes da Wicca. Se um casal que se uniu dessa forma
decidir se separar, seu vínculo será desfeito através de outra cerimônia Wicca, conhecida
como "desunião das mãos".
Fundamental para essa cerimônia é a bênção dada à união do casal e o ritual de atar
suas mãos — o passo que corresponde ao nome do ritual e que há muito tempo produziu a
famosa metáfora que se tornou sinônimo de casamento, "amarrar-se". A fita colorida que une
o par é feita por eles, com três fios de fibra ou couro representando a noiva, o noivo e seu
relacionamento. Durante as semanas ou até meses que antecedem o casamento, o casal deve
sentar-se regularmente — talvez a cada lua nova — para trançar um pedaço dessa corda é
conversar sobre o enlace de suas vidas através de amor, trabalho, amizade, sexo e filhos.
Os filhos de feiticeiros são apresentados ao grupo durante um ritual de escolha de
nome chamado "a bênção da criança", ou batismo. Essa cerimônia inclui com freqüência o
plantio de uma árvore, que pode ser fertilizada com a placenta ou com o cordão umbilical.
Em uma cerimônia semelhante conhecida como batismo mágico, que geralmente ocorre antes
da iniciação, o aprendiz de feiticeiro declara os nomes pelos quais deseja ser conhecido dentro
de seu grupo de magia.