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Cartografia da Cadeia Criativa do Livro: subsídios para uma política pública

Valéria Viana Labrea

Dezembro de 2011

FICHA TÉCNICA
Consultora: Valéria Viana Labrea Contatos: valeria.labrea@hotmail.com (61) 81789505 Consultoria realizada no âmbito da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura – DLLL (Secretaria de Articulação Institucional/ Ministério da Cultura)/ UNESCO. Finalidade da Contratação: Fornecer subsídios para o desenvolvimento de políticas, programas e ações para a cadeia criativa do livro.

PRODOC: 914BRZ4013 - CONTRATO: SA-3633/2010

DLLL/MinC SCS B, Qd. 9, Lt. C, Ed. Parque Cidade - Torre B 11º andar - Brasília - DF - CEP 70.308-200 Tel.: (61) 2024-2630

INTRODUÇÃO
Este texto é uma compilação da pesquisa realizada, no âmbito da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura (DLLL) do Ministério da Cultura (MinC), a fim de subsidiar uma proposta de política pública com foco na cadeia criativa do livro, uma linha programática até então pouco mobilizada na DLLL. Procuramos neste documento organizar os dados da pesquisa, dispersos em 05 relatórios temáticos, produzidos ao longo de 2011, cada um compondo um aspecto da cartografia. Para que se entenda, no documento 01 apresentamos uma proposta metodológica, no 02 um registro das articulações, no 03 parte da pesquisa realizada com entidades e autores, no 04 parte da pesquisa realizada entre os entes federados e o 05 apresenta os resultados da análise. O desafio é juntar os dados mais relevantes em um texto legível, pois esta fragmentação de informações ao longo de vários relatórios técnicos torna necessário um texto que organize a pesquisa. Este texto recupera dados e informações apresentados ao longo dos 05 produtos a fim de relacioná-los, analisar resultados preliminares e apontar cenários possíveis, com vistas à criação de uma política pública voltada para a articulação da cadeia criativa do livro.

METODOLOGIA
Nossa proposta de pesquisa partiu da compreensão de que a economia do livro e a

cadeia criativa devem ser problematizadas, terem seus campos de questões delimitados
e serem criadas políticas públicas culturais para resolver ou minimizar as demandas que surgirem. Uma proposta de política pública para o eixo economia do livro – cadeia

criativa do livro implica em considerar os aspectos de sua implementação, de forma a
identificar elementos favoráveis ou obstáculos ao alcance dos resultados e objetivos desejados, a partir de uma abordagem metodológica qualitativa. Nossa abordagem caracterizou-se pelo enfoque interpretativo nas análises e tratamento dos dados, contextualizando-os e recuperando sua historicidade. A cartografia é a forma que propomos para organizar os dados desta pesquisa, a partir de recortes temáticos e cronológicos, seguidos de uma análise dos processos a fim de visualizar as relações já instituídas e apontar cenários que permitam um planejamento estratégico a curto, médio e longo prazo, a ser realizado pela Diretoria. Um

dos aspectos positivos desta metodologia é sua vocação para articular noções e conceitos de diferentes áreas do conhecimento, sendo uma abordagem transdisciplinar e complexa, compatível com o universo das políticas culturais.
A ideia de propor uma cartografia, como método de organização textual deste estudo, parte da compreensão de que é possível mapear e acompanhar o processo referente ao desenvolvimento do eixo economia do livro, com ênfase na cadeia criativa do livro, em busca de diretrizes para o desenvolvimento de uma proposta de política pública que permita construir as referências básicas para estruturar a proposta do programa, visando o alcance de resultados.

Todo o percurso da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura (DLLL) do Ministério da Cultura (MinC) está muito bem documentado, com um esforço de contemplar o trabalho desenvolvido pelas coordenações que estruturam a Diretoria, e o organograma da Diretoria é organizado em função dos eixos presentes no Plano Nacional de Livro e Leitura (PNLL) – que descreve detalhadamente as atribuições do eixo da Economia do Livro e da cadeia criativa -, mas não existe documentação sobre ações implementadas, cujo foco principal seja a cadeia criativa do livro porque o foco das ações da Diretoria até então era no fortalecimento da cadeia mediadora e na criação e reestruturação de novos espaços de leitura, como podemos observar no Relatório de Gestão 2010. Após análise inicial, constatamos que não havia dados produzidos sobre a cadeia criativa do livro e nos propusemos a produzi-los a partir de contato com este importante segmento. Esta proposta se ampara nos objetivos traçados pelo Plano Nacional de Livro e Leitura (PNLL) no que diz respeito à implementação de fomento a núcleo voltado a

estudos, pesquisas e indicadores na área do livro e leitura; identificação e cadastro das ações de fomento à leitura em curso no país (Castilho: 2010, p.50), pois entendemos que
para propor ações para o fortalecimento da Cadeia Criativa é necessário antes conhecer o estado da arte e os antecedentes que possibilitaram o atual cenário. Nossa pesquisa mostrou uma ausência importante: a falta de pesquisadores que estudem profunda e detalhadamente a cadeia criativa do livro. Praticamente toda a literatura existente mapeia a questão da leitura, da formação de leitores e mediadores, bem como o mercado editorial, mas pouco ou nada se fala dos escritores e ilustradores, do seu percurso de formação e de suas questões profissionais. Existe, em nosso entendimento, uma profunda necessidade de organizar um grupo de pesquisa, vinculado a universidades e centros de pesquisa de políticas culturais, que problematize e crie conhecimentos relevantes sobre o funcionamento da cadeia criativa no país. O recorte territorial que demos a esta pesquisa contemplou todas as regiões do país, através de questionários e troca de mensagens eletrônicas. As reuniões com grupos focais e as entrevistas, no entanto, foram realizadas em algumas das capitais em que o MinC possui representação regional (RR): Porto Alegre (RR Sul), Rio de Janeiro (RR RJ

e ES), Belém (RR Norte) e Recife (RR Nordeste). Essas atividades demandaram viagens e contato direto com os entrevistados. Entendemos que não existe possibilidade de realizar uma pesquisa sem dados primários, oriundos do contato direto com os segmentos da cadeia criativa das diversas regionais do país, cada uma com sua singularidade, particularidades e realidade diferenciada, ainda mais se considerarmos o fato de que não existem pesquisas, sejam da academia ou do governo que contemplem este segmento. Inicialmente, incluímos São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Rio Branco e marcamos reuniões e entrevistas com integrantes da cadeia criativa local. Estas reuniões foram várias vezes remarcadas, até que foram finalmente canceladas. Não foram realizadas devido a dificuldade para autorização e emissão das passagens. A viagem ao Rio de Janeiro, realizada em junho, para pesquisa na FBN e Funarte, bem como entrevistas com autores de Literatura Infanto-juvenil e escritores indígenas, foi bastante prejudicada, pois a autorização não saiu em tempo hábil e tivemos que reduzir o período no Rio e pudemos realizar somente as entrevistas com autores infanto-juvenis e indígenas, disponíveis no período. Um dos resultados do cancelamento das viagens foi que a pesquisa apresentada sobre os editais da FBN e Funarte foi composta apenas pelos dados obtidos no sítio eletrônico e troca de mensagens eletrônicas com os responsáveis pelas ações. Infelizmente não conseguimos acesso aos projetos contemplados e por isso nos abstivemos de mapeá-los. Da mesma forma, organizamos na FLIP, em parceria com a RR RJ e a Casa Azul, uma agenda de entrevistas e reuniões com importantes segmentos da cadeia criativa, como os integrantes do Movimento Por um Brasil Literário e a rede de escritores do RJ. Teríamos acesso a escritores consagrados presentes no evento, mas novamente a autorização das passagens não saiu em tempo hábil e essa agenda teve de ser cancelada em cima da hora. Assim, essa parte da pesquisa ficou novamente limitada a dados secundários. Junto com a Representação Regional do Rio de Janeiro negociamos com a Prefeitura do Rio de Janeiro, Prefeitura de Paraty e Casa Azul programação para os pontos de leitura do Rio de Janeiro, conseguimos ônibus e almoço, mobilizamos 88 representantes de pontos de leitura que deveríamos acompanhar nas atividades e sequer conseguimos avisar à RR e aos pontos da nossa ausência no evento, pois ficamos aguardando a autorização da passagem até a noite anterior ao evento. Articulamos ampla rede de parcerias para propor programação cultural no ENECULT em Salvador, Bienal Internacional do Livro do RJ, Bienal do Livro de Pernambuco, Feira do Livro de Porto Alegre e não foi autorizada nossa presença em eventos organizados no âmbito desta consultoria única e exclusivamente para poder nos

colocar em contato com autores de diferentes regiões do país. Saímos bem desgastados politicamente com os parceiros e redes locais, em função da demora em autorizar a emissão de passagem, porque agendas tiveram que ser canceladas em cima da hora e muitas pessoas que já haviam se mobilizado para estar presentes perderam suas passagens e diárias. A questão da autorização e da emissão das passagens extrapola o âmbito desta consultoria é um problema sistêmico, recorrente, que prejudica o desenvolvimento do trabalho e cria desgastes, ruídos e desconforto com os beneficiários de nossas ações, com os autores e redes contatados e evidencia um certo grau de desorganização e de desconhecimento dos objetivos da consultoria, embora eles tenham sido propostos pelo próprio MinC, estejam explicitados no TOR e tenham sido aprovados no primeiro produto.

DIRETORIA DE LIVRO, LEITURA E LITERATURA – MINISTÉRIO DA CULTURA

A DLLL surge em resposta a uma demanda por uma política pública do livro, leitura e literatura no âmbito do Ministério da Cultura , e suas ações são organizadas de forma a responder afirmativamente aos eixos que compõem o Plano Nacional de Livro e Leitura3 (PNLL). O PNLL é composto por um conjunto de projetos, programas, atividades e eventos na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas em desenvolvimento no país, empreendidos pelo Estado, em âmbito federal, estadual e municipal, e pela sociedade. A DLLL tem suas competências institucionais legalmente estabelecidas a partir do Decreto 6.835/20094, e está organizada a partir de duas coordenações, a Coordenação de Livro e Leitura e a Coordenação de Economia do Livro. À Coordenação de Leitura e Literatura cabe as seguintes funções:
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O PNLL é produto do compromisso do governo federal de construir políticas públicas e culturais com base em um amplo debate com a sociedade e, em especial, com todos os setores interessados no tema. Sob a coordenação dos Ministérios da Cultura e da Educação, participaram do debate que conduziu à elaboração deste documento representantes de toda a cadeia produtiva do livro – editores, livreiros, distribuidores, gráficas, fabricantes de papel, escritores, administradores, gestores públicos e outros profissionais do livro –, bem como educadores, bibliotecários, universidades, especialistas em livro e leitura, organizações da sociedade, empresas públicas e privadas, governos estaduais, prefeituras e interessados em geral. www.pnll.gov.br. À Diretoria do Livro, Leitura e Literatura (DLLL), de acordo com o Decreto 6.835 de 30 de abril de 2009, compete: I - planejar, coordenar, monitorar e avaliar a implementação do Plano Nacional de Livro e Leitura, no âmbito dos programas, projetos e ações do Ministério; II formular, articular e implementar ações que promovam a democratização do acesso ao livro e à leitura; III - subsidiar tecnicamente a formulação e implementação de planos estaduais e municipais de livro e leitura; IV - subsidiar a formulação de políticas, programas, projetos e ações de acesso, difusão, produção e fruição ao livro e à leitura, por meio do fortalecimento da cadeia criativa e produtiva do livro e da cadeia mediadora da leitura; V - implementar, em conjunto com demais os órgãos competentes, as ações de fortalecimento da cadeia produtiva do livro brasileiro; VI - formular e implementar, em conjunto com a Fundação Biblioteca Nacional, programas de implantação e modernização das bibliotecas públicas, municipais e comunitárias; e VII - planejar, coordenar, integrar, monitorar e avaliar as ações de livro e leitura do Programa Mais Cultura. (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/D6835.htm).

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Planejar e executar ações que promovam a formação e a prática leitora, como pontos de leitura, agentes e mediadores de leitura. Criar e disponibilizar mecanismos de interação e articulação de iniciativas independentes com a finalidade de ampliar o diálogo entre atores da área. Apoiar e acompanhar ações que promovam a democratização do acesso ao livro pelo aumento quantitativo e qualitativo dos espaços de leitura no país. Estimular e promover o fortalecimento da cadeia criativa do livro através da promoção de projetos de apoio à produção literária, formação de novos escritores e profissionais da área. Apoiar e contribuir com o debate sobre direitos autorais e utilização de copyrights não-restritivos, equilibrando direito de autor com direitos de acesso à cultura escrita. Fomentar a interação do livro com novos suportes de leitura bem como da biblioteca como um espaço multiuso que dialoga com outras expressões e linguagens artístico-culturais. Promover um maior interesse pela leitura e pela escrita fortalecendo o Programa Nacional de Incentivo à Leitura – PROLER. Contribuir com a realização e multiplicação de eventos literários nacionais e internacionais voltados para o acesso à bibliodiversidade brasileira.

A Coordenação de Economia do Livro, busca através de suas ações: • Estimular o desenvolvimento sustentável e diversidade da cadeia produtiva do livro. • Subsidiar tomadas de decisão para mobilização governamental em favor da promoção da leitura em todo o país. • Promover a institucionalidade do livro e da leitura através da criação do Fundo Setorial Pró-Leitura e Instituto Nacional do Livro e da Leitura. • Apoiar a realização constante de pesquisas, estudos e indicadores nas áreas da leitura e do livro. Articular uma participação mais efetiva e estratégica da produção intelectual brasileira no mercado internacional.

Valorizar o livro e o hábito da leitura como direito de cidadania por meio de campanhas de incentivo a leitura. Promover seminários, oficinas, entre outros eventos que

incentivem o debate sobre as questões relacionadas a economia do livro. (Relatório Geral de Gestão DLLL. 2010:27-8) Um dado novo, que consideramos em nosso trabalho, é que a DLLL, a partir da gestão da Ministra Ana de Hollanda, estará vinculada à Fundação Biblioteca Nacional (FBN). A Fundação Biblioteca Nacional é o órgão vinculado ao Ministério da Cultura responsável pela política de governo para o livro, as bibliotecas e a leitura, coordenando estratégias fundamentais para o entrelaçamento desses três setores que alicerçam a cultura brasileira. Segundo o Relatório de Gestão, publicado em 2010, a FBN trabalha duas dimensões do livro, uma como acervo preservado, o livro tombado e a outra o livro

vivo, em processo de difusão:
A atuação da FBN pode ser sintetizada em duas linhas de frente: a primeira diz respeito à memória cultural da organização, como se sabe, depositária de um verdadeiro tesouro, reconhecido mundialmente; a segunda concerne à vida cultural do país, destacando-se o aperfeiçoamento de quadros específicos da área, o sistema de coedições com a rede editorial do país, as bolsas de pesquisa, de tradução, de apoio aos escritores iniciantes, os prêmios de reconhecimento e revelação de autores, a implantação e modernização de bibliotecas públicas, comunitárias e pontos de leitura, bem como os eventos, com elaboração de seminários e de exposições nacionais e internacionais, cursos, debates, para difundir e tornar presentes a diversidade das ofertas e a extensão da leitura. (http://www.bn.br/portal/arquivos/pdf/RelatorioGestao2009.pdf)

A DLLL por sua vez foca na implementação das políticas públicas para garantir instituição e preservação de acervo, acesso, difusão e qualificação da leitura. Segundo seu Relatório de Gestão (2010), a DLLL coordena e atua em várias frentes, no âmbito do Programa Mais Cultura do MinC e do Programa Livro Aberto da FBN, em ações diretas e federativas como implantação, construção e modernização de bibliotecas, pontos de leitura e agentes de leitura; projetos de institucionalização da política com foco no Plano Nacional de Livro e Leitura e no Fundo Pró-Leitura5; dialoga com diferentes instâncias de participação social como o Colegiado e Pré-Conferência Setorial de Livro e Leitura; e mantém relações internacionais com o CERLALC6 e a Feira do Livro de Frankfurt; busca
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Fundo Pró-Leitura é fruto de um acordo entre o Governo Federal e a indústria editorial brasileira. Em dezembro de 2004, a cadeia produtiva do livro foi desonerada do PIS/COFINS e, em contrapartida, o setor aceitou a proposta do Ministério da Cultura de destinar 1% do seu faturamento anual para um fundo que financie as ações previstas no Plano Nacional do Livro e Leitura. http://www.cultura.gov.br/site/2009/08/14/fundo-pro-leitura. El CERLALC es un organismo intergubernamental del ámbito iberoamericano bajo los auspicios de la UNESCO, que trabaja por el desarrollo y la integración de la región a través de la construcción de sociedades lectoras.Para ello orienta sus esfuerzos hacia la protección

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a transversalidade através da intersetorialidade entre MinC/MEC e das parcerias com entidades privadas e de outros projetos especiais, tais como demandas espontâneas da sociedade civil por meio do Fundo Nacional de Cultura. A FBN e o MinC, através da DLLL, historicamente são parceiras e trabalham colaborativamente em várias ações, como podemos observar pelo relato da FBN:
A política levada a efeito pelo Ministério da Cultura absorve e interpreta duas dimensões. De um lado, recolhe força e energia propulsoras no horizonte social, no clima comunitário. De outro, aperfeiçoa os mecanismos de difusão e transmissão. Essa dinâmica cultural tem um papel transformador nas mudanças sociais. A cultura é então percebida menos como uma aquisição, um produto, um resultado, do que como uma criação, uma ação, um movimento ligado às transformações da economia e das transformações sociais. O Programa Mais Cultura vai nessa direção. (…) Nesse horizonte é que vem se erguendo a nova política social do governo federal e do MinC, que engloba entre os seus diferentes desafios socioculturais (…) o de potencializar as ações de inclusão cultural; o de reincorporar a cultura como vetor de qualificação da educação; o de desenvolver a prática da leitura como fator determinante para o acesso à cidadania; o acesso à produção cultural; a potencialização da cultura digital. (…) Tendo em vista a convergência das atribuições da FBN com as iniciativas anunciadas pelo Programa Mais Cultura, foi de todo conveniente um entrosamento efetivo, uma interface entre os dois Programas do MinC _ Livro Aberto, programa de governo que consta do Plano Plurianual, gerenciado pela FBN, e o Mais Cultura, que surgiu da necessidade do MinC em contribuir para um desenvolvimento sustentável brasileiro _ a fim de evitar choque de interesses, superposição de ações, a perturbadora justaposição de recursos materiais, humanos e financeiros. Por isso, o MinC buscou na FBN uma vertente de operacionalização de suas ações, visando uma maior racionalidade, a fim de que fossem evitadas iniciativas similares e simultâneas (http://www.bn.br/portal/arquivos/pdf/RelatorioGestao2009.pdf)

As afinidades e convergências entre FBN e DLLL leva a pensar que planejar as ações conjuntamente vai potencializar o alcance dos objetivos comuns, embora as implicações deste novo lugar para a DLLL ainda estão sendo mensuradas e serão melhor identificadas a partir da análise das ações realizadas ao longo de 2011. Em 2011 a DLLL, além de dar assessoria contínua à FBN, focou suas ações em torno das políticas de livro, leitura, literatura e bibliotecas e de como devem fazer parte do Sistema Nacional de Cultura7, – sobretudo no que tange o mapa federativo – e do Plano Nacional de Cultura8, de maneira que essas instâncias possam propiciar uma integração sistêmica do próprio
de la creación intelectual, el fomento de la producción y circulación del libro y la promoción de la lectura y la escritura. Coopera y da asistencia técnica a los países en la formulación y aplicación de políticas públicas, genera conocimiento, divulga información especializada, impulsa procesos de formación y promueve espacios de concertación. http://www.cerlalc.org/
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O Sistema Nacional de Cultura tem a missão de formular e implantar políticas públicas de cultura, democráticas e permanentes, pactuadas entre os entes da federação – nos âmbitos Federal, Estadual e Municipal - e a sociedade civil, promovendo o desenvolvimento - humano, social e econômico com pleno exercício dos direitos e acesso aos bens e serviços culturais. http://blogs.cultura.gov.br/snc/files/2009/07/DOCUMENTO_BÁSICO_SNC_16DEZ2010.pdf. 8 O Plano Nacional de Cultura (PNC) tem por finalidade o planejamento e implementação de políticas públicas de longo prazo voltadas à proteção e promoção da diversidade cultural brasileira. (http://www.cultura.gov.br/site/categoria/politicas/plano-nacional-de-cultura/).

MinC, articulando as ações das Secretarias e dos Órgãos Vinculados com o Plano Nacional de Livro e de Leitura e com o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas9, gerando um diálogo de resultados. Durante a gestão dos Ministros da Cultura Gilberto Gil e Juca Ferreira, a área de livro e leitura contou com muitos avanços e conquistas como a meta alcançada de dotar todos os municípios brasileiros com pelo menos uma biblioteca pública, o fomento a projetos sociais de leitura desenvolvidos por pessoas físicas e jurídicas da sociedade civil e o salto orçamentário de 6 milhões em 2003 para 96 milhões de investimento anual a partir de 2008 com o programa Mais Cultura. Ainda assim, é evidente a necessidade da ampliação orçamentária e a qualificação das políticas públicas de livro, leitura e literatura voltadas para a democratização do acesso, e um esforço para o desenvolvimento da economia do livro, uma área que necessita de ações estruturantes e uma política de fomento para o fortalecimento das cadeias produtiva e criativa do livro.

CADEIA CRIATIVA DO LIVRO
A cadeia criativa do livro refere-se usualmente aos escritores, ilustradores e autores e não dispõe de muitas pesquisas acadêmicas, dados, indicadores, análises e interpretações. Mesmo internamente, até então, não dispúnhamos de informações sistemáticas e regulares sobre novos autores, sobre escritores não publicados e profissionais que trabalham com cursos e oficinas de produção textual e formação de leitores críticos, tampouco subsídios consistentes para o desenho e implementação de políticas públicas. Ainda há poucas pesquisas acadêmicas sobre o tema, as metodologias existentes são frágeis, os pesquisadores dispersos. Esse cenário, como já dissemos, torna urgente e necessárias as parcerias com universidades e institutos de pesquisa e a constituição de uma rede de pesquisadores. O pouco material disponível aponta a necessidade de provocarmos um encontro e um seminário para a interlocução entre os setores que compõem as cadeias produtiva e criativa, para produção de conhecimento sobre o que está sendo feito e seus resultados nos âmbitos do Estado e do mercado. Como em 2011 não dispúnhamos de recursos para a realização de um Seminário, propusemos à coordenação do ENECULT duas mesas temáticas e levamos a este importante encontro de pesquisadores de políticas culturais nomes importantes na área de livro, leitura e literatura.
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O Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas-SNBP, instituído pelo Decreto Presidencial nº 520, de 13 de maio de 1992, tem como objetivo principal o fortalecimento das Bibliotecas Públicas do país. Maiores informações, consulte o sítio eletrônico http://catalogos.bn.br/snbp/historico.html).

Propomos uma definição de cadeia criativa do livro, para termos um ponto de partida. Se formos em busca da etimologia da palavra, cadeia, do latim cadenatus, tem dois sentidos, ligado e preso. Preso, dispensamos. Vemos cadeia no sentido de ligação, unir pessoas ou grupo com objetivos semelhantes. Criativo, um qualificador que tem sua origem no latim creare, dar existência, gerar, formar. Mas criativo vai além de criar, é criar com uma certa qualidade, com uma estética, propor uma linguagem, uma singularidade. Entendemos que a cadeia criativa do livro é um espaço de ligação, de encontro com autores, escritores e leitores, para dar existência e condições de gerar novos livros. Lau Siqueira, em seu artigo, A distância entre autor e leitor na cadeia produtiva

do livro10, chama a atenção para o fato de que quando falamos em políticas públicas para
o livro e para a leitura, quase sempre quem dá o pontapé inicial para a cadeia produtiva do livro e da leitura - o escritor ou a escritora, o autor(a) - fica fora do debate, como fica claro no depoimento dos escritores que assinaram o Manifesto Temos fome de

literatura, do Movimento Literatura Urgente:
Escritores e poetas são, como todos sabem, os artífices principais da criação literária. Sem eles, não existem os livros, nem a indústria editorial, nem as bibliotecas, nem os leitores. Paradoxalmente, são também o segmento menos profissionalizado do setor. Profissionalizado, não no sentido da excelência de sua arte, mas na possibilidade de sobrevivência através de seu próprio trabalho criativo. Como também é do conhecimento de todos, muitos criadores literários, além de não contarem com nenhum, ou quase nenhum incentivo público, ainda assumem as despesas de edição de suas obras com recursos próprios, ou, como dizia o compositor Itamar Assumpção: Às Próprias Custas S/A. É, portanto, um segmento carente de políticas públicas que fomentem, incentivem e criem condições objetivas para o desenvolvimento de seu trabalho criativo.

O mesmo destino é dado ao ponto final da mesma cadeia produtiva: o leitor. Vemos algo similar quando falamos em cadeia criativa, pois autor e leitor são incluídos em cadeias diferenciadas, o autor na criativa e o leitor na mediadora11. Propomos ampliar a abrangência da cadeia criativa do livro porque se seu foco é, inicialmente, o autor – aquele que cria uma obra original -, ou escritor – que é um autor que se expressa por uma escrita esteticamente elaborada, entendemos que para dar condições para a autoria é necessário investimento na formação de um círculo virtuoso de leitura que inicia pela reintrodução das disciplinas de Literatura e de Criação Literária nas escolas e em espaços formadores; por bibliotecas públicas ou comunitárias com acervo qualificado;

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Disponível em blog: http://zonabranca.blog.uol.com.br. A cadeia mediadora da leitura é formada pelos mediadores, formadores, agentes de leitura e leitores.

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por Pontos e Agentes de Leitura nas comunidades; por eventos literários, saraus, cirandas e rodas de leitura; por investimentos e recursos para acervo e difusão da produção literária. Assim, ao criar as condições favoráveis para a formação de um leitor crítico, este poderá também se ver na posição de autor. Paulo Freire (1981), ao refletir sobre o processo de escrita, diz que escrita e leitura são “indicotomizáveis”(p.11) e que o processo de escrita pressupõe a leitura, tanto da palavra quanto do mundo (p.15). Os eixos norteadores do PNLL traduzem contemporaneamente essa visão freireana, ao compreender a leitura e escrita como práticas sociais e culturais, expressão da

multiplicidade de visões de mundo, esforço de interpretação que se reporta a amplos contextos; assim a leitura e a escrita são duas faces diferentes, mas inseparáveis de um mesmo fenômeno (Castilho: 2010, p.44).
Paulo Freire é absolutamente contemporâneo em sua compreensão do que é escrever e sua articulação necessária com a leitura. Fala ele sobre a escrita:
(…) processo (de escrever) que envolvia uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado - e até gostosamente - a "reler" momentos fundamentais de minha prática, guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão critica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo (Freire: 1981, p.9).

Propomos articular autor/leitor como elementos principais de uma política pública voltada para o fortalecimento da cadeia criativa do livro. Com isso, não desconhecemos ou desconsideramos de qualquer forma o trabalho específico e absolutamente necessário desenvolvido pela cadeia mediadora, voltada à formação de leitor, apenas sinalizamos que consideramos o leitor um elemento indissociado do autor e o incluímos também na cadeia criativa. Este é o sentido que preferimos e, conceitualmente, o entendemos alinhado com a proposta de uma economia do livro voltada para o social, transversal, colaborativa, sustentável, com foco em serviços e produtos culturais que contribuam para a autonomia dos grupos e espaços culturais. Affonso Romano de Sant’Anna (in Castilho:2010), ao fazer a arqueologia da história da leitura e do livro, lembra que o caminho que tornou possível a criação do Plano Nacional de Livro e Leitura foi antecedido, entre outros elementos, pela proposta freireana de leitura como instauradora de transformação e mobilização social.

INDICADORES DE ACESSO A CULTURA
Trabalhar com maior profundidade a Economia do Livro é imperativo, pois os indicadores de acesso à cultura no Brasil apontam que existem segmentos inteiros da população excluídos do mundo do livro, leitura e literatura, como demonstram os dados abaixo:
O brasileiro lê em média 1,8 livros per capita/ano (contra 2,4 na Colômbia e 7 na França, por exemplo). 73% dos livros estão concentrados nas mãos de apenas 16% da população. O preço médio do livro de leitura corrente é de R$ 25,00, elevadíssimo quando se compara com a renda do brasileiro nas classes C/D/E. (In:

http://www.unesco.org/pt/brasilia/culture-in-brazil/access-toculture-in-brazil/)

Esses dados, cotejados com outros que mostraremos a seguir, mostram a existência de um enorme déficit em relação às práticas de leitura no país, o que justifica e torna urgente pensar em políticas públicas para o fortalecimento da área de livro, leitura e literatura, com ênfase na cadeia criativa. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD, IBGE) que compõe o Mapa do Analfabetismo no Brasil (Inep) mostra que, em 2009, a taxa de analfabetismo da população de 15 anos ou mais estava em torno de 9,7% (cfe. Castilho: 2010). Se considerarmos o número de cidadãos brasileiros em 2009, cerca de 193.733.800 pessoas, segundo o Banco Mundial, este índice representa cerca de 18.792.178 brasileiros incapazes de ler um bilhete simples. Ou seja, em um país continente como o Brasil, quase 19 milhões de pessoas excluídas não só do mundo da leitura, mas de todos os produtos sociais e culturais que a pressupõe ou que dela derivam. O Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF), realizado pelo Instituto Paulo Montenegro (Ibope pela Educação) mostra que apenas um entre quarto jovens e adultos brasileiros

conseguia compreender totalmente as informações contidas em um texto e relacioná-las com outros dados (Castilho: 2010, p.37). O INEP vai além ao mostrar no Sistema
Nacional de Avaliação de Educação Básica (SAEB) de 2007 que cerca de 25% dos alunos de 8a. série e 13% dos alunos da 3a. série do ensino médio ainda não estão no nível adequado de leitura para a 4a. série do ensino fundamental (Idem, p.39). A publicação Cultura em números; anuário de estatísticas culturais 2010, editada pelo MinC, no que refere-se às políticas públicas do livro, leitura e literatura, tem somente o mapa das bibliotecas públicas e livrarias, dados sobre a leitura de jornal e revista apenas, o que indica que a economia do livro ainda está longe de ter políticas

públicas de impacto, que produzam indicadores. Os dados existentes mostram que há déficit de leitores e, portanto menores condições para a instalação de novos autores. A inexistência de dados sobre o trabalho dos autores reforça a necessidade de pensarmos políticas específicas para a cadeia criativa do livro. Por outro lado, a maior oferta de equipamentos culturais nos municípios brasileiros é de Bibliotecas Públicas, com quase a totalidade dos municípios atendidos. Essa ação não se deu à sombra do acaso. Foi uma política de incentivo do Governo Federal junto aos municípios de implementar, no mínimo, uma biblioteca por município. Conseguiu-se assim disseminar a implementação de bibliotecas. Tal política, implementada pela DLLL em parceria com a FBN, leva-nos a crer que, se houver incentivos do Estado e respaldo da sociedade, pode-se potencializar também a economia do livro e a cadeia criativa do livro. Esta ideia, parece-nos, dialoga com os pontos considerados estratégicos no Encontro Nacional de Livro e Leitura promovido pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério da Educação, realizado em Brasília nos dias 18 e 19 de novembro de 2010:
Promover a formação de mediadores de leitura para atuação em ambientes diversos, com ênfase na escola, na biblioteca pública e nas famílias, por meio da formação do professor leitor, da inclusão da mediação de leitura nos currículos de Biblioteconomia, Letras, Pedagogia e demais licenciaturas e pós-graduação, bem como na formação de mediadores e agentes de leitura para atuação em projetos promovidos pelo poder público e por entidades da sociedade civil. Promover a literatura brasileira por meio do fomento aos processos de criação, edição, difusão, circulação, intercâmbio e residências literárias, através de instrumentos como bolsas, prêmios, editais para escritores e linhas de crédito para editores, bem como retomar o ensino de Literatura no currículo escolar. (Relatório de Gestão DLLL 2010. Brasília: MinC, 2010, p.15)

E, ao pensar a necessidade de políticas públicas para o fortalecimento da cadeia criativa do livro, também consideramos as prioridades da pré-conferência do livro, leitura e literatura:
Garantir e promover a produção local (autores, editores, livreiros), compreendendo a preservação desses como prioridade de segurança intelectual e cultural nacionais; Ampliando os recursos do FNC que visem principalmente o financiamento de projetos editoriais de relevância, onde o custo do livro facilite o acesso à leitura e ao conhecimento; Garantir a difusão, circulação, capacitação e distribuição das produções regionais;

Estabelecer tabelas especiais para remessa dos livros junto aos Correios (carimbo apoio cultural dos correios/política pública dos Correios para a redução de tarifas); Garantir linhas de créditos acessíveis para a cadeia produtiva do livro (editoras, livrarias e distribuidoras) e para os leitores e também autores independentes; Criar leis que regulamentem os mecanismos de comercialização, distribuição e circulação da produção editorial nacional e regional como forma de traduzir a bibliodiversidade e as cadeias produtivas e criativas do livro locais. Garantir como orientação do MinC a exigência de um mínimo de produção local em estoque e em exposição nas livrarias, bem como na composição de acervos das bibliotecas públicas. (Relatório de Gestão DLLL 2010: p.15).

AÇÕES DA COORDENAÇÃO ECONOMIA DO LIVRO
Na DLLL, a cadeia criativa do livro é uma linha programática12 incipiente, que será qualificada a partir dos dados construídos por essa consultoria. Atualmente, o foco da coordenação da Economia do Livro é o acompanhamento dos processos de institucionalização da política do livro, leitura e literatura. A tramitação das propostas de legislação e regulamentação ocupa boa parte das ações, como é possível visualizar pela tabela abaixo que elenca parte das atividades desenvolvidas por esta coordenação.
Ação REGULAMENTAÇÃO DO PLANO NACIONAL DE LIVRO, LEITURA E LITERATURA – PNLL Descrição No intuito de institucionalizar as políticas de promoção do acesso ao livro e à leitura, os Ministérios da Cultura e da Educação criaram por meio da portaria interministerial nº 1.442 de 10 de agosto de 2006, o Plano Nacional do Livro e Leitura – PNLL – tendo como eixos organizadores estimular a democratização do acesso ao livro, o fomento e a valorização da leitura e o fortalecimento da cadeia produtiva do livro. Por sua vez, a Portaria Interministerial nº 1.537, de 31 de agosto de 2006, designou os membros do Conselho Diretivo do PNLL, órgão colegiado criado pela Portaria que instituiu o Plano. O projeto propõe a instituição por lei do Plano Nacional de Livro e Leitura – PNLL, criado em 2006, por meio de uma Portaria Interministerial (Portaria nº 1.442 de 10/08/2006, dos ministros da Cultura e da Educação), estabelecendo sua forma de gestão. No Ministério da Cultura, tal projeto tramita com o seguinte número de processo: 01400.002728/2010-14. A proposta de criação do Fundo vai ao encontro da diretriz do Ministério da Cultura no sentido de ampliar e diversificar as fontes de financiamento das atividades culturais de modo que se estabeleça um patamar socialmente responsável de

PROJETO DE LEI QUE INSTITUI O PLANO NACIONAL DE LIVRO E LEITURA

PROJETO DE LEI QUE INSTITUI O FUNDO SETORIAL DE LIVRO, LEITURA, LITERATURA E LINGUA PORTUGUESA – FUNDO
12

Segundo o Relatório de Gestão (2011), a Diretoria do Livro, Leitura e Literatura propôs a criação de seis linhas programáticas, partindo das três dimensões da cultura estabelecidas pelo Plano Nacional de Cultura, pelas prioridades setoriais de livro, leitura e literatura eleitas na II Conferência Nacional de Cultura e pelos quatro eixos do PNLL, assim distribuídas. A quinta linha programática contempla a cadeia criativa do livro: Linha programática desenvolvimento da cadeia criativa e produtiva do livro.

PRÓ-LEITURA MINUTA DE DECRETO DE REGULAMENTAÇÃO DA LEI DO LIVRO PROJETO DE LEI DE CRIAÇÃO DO INSTITUTO NACIONAL DE LIVRO, LEITURA E LITERATURA – INLLL PROJETO “MAIS LIVRO E MAIS LEITURA NOS ESTADOS E MUNICÍPIO”

recursos públicos a serem investidos no conjunto de atividades culturais e do nosso país. O Plano Nacional do Livro e Leitura abrangerá o conjunto de políticas, programas, projetos e ações de iniciativa do Governo Federal, dos entes federados e das entidades da sociedade civil, para promover o livro, a leitura, a literatura e as bibliotecas de acesso público no Brasil. A criação de um órgão específico, vinculado ao Ministério da Cultura, para a formulação e execução da política nacional de livro e leitura é uma reivindicação dos diversos segmentos do setor desde a extinção da Secretaria de Livro e Leitura que pertencia à estrutura organizacional do MinC. O Projeto “Mais Livro e Mais Leitura nos Estados e Municípios” tem como objetivo, portanto, fomentar Planos Estaduais e Municipais do Livro e Leitura, mobilizando, capacitando e assessorando Prefeituras e secretarias da Educação e Cultura para o seu desenvolvimento e implantação. Para isso, tem como principal estratégia propor uma logística que possibilite a mobilização de Estados e Municípios para o alcance dessa Meta.

O Edital Mais Cultura de Periódicos de Conteúdo Cultural está na fase de distribuição das doze revistas para sete mil assinantes, o que possibilitou a criação de um banco de dados que pode ser o ponto inicial para uma rede dos beneficiários das políticas de fomento da DLLL. Este edital, além de movimentar a cadeia produtiva, trabalha a democratização do acesso, pois o foco da distribuição das publicações são as Bibliotecas Públicas, Pontos de Leitura e Pontos de Cultura. Em nossa pesquisa tivemos vários depoimentos de autores criticando o fato de que alguns dos periódicos selecionados não são de cunho cultural, mas revistas mensais de interesse e assuntos gerais. A fim de dar uma resposta a estas críticas, Diretoria está atualmente trabalhando na proposta de um segundo edital, voltado para a premiação de 40 (quarenta) projetos apresentados por periódicos impressos (revistas, jornais, almanaques, fanzines ou publicações similares) produzidos em território brasileiro que desenvolvam conteúdo: a) exclusivamente sobre Literatura; b) sobre Literatura e Artes. O resultado esperado com esta seleção pública é valorizar as publicações dedicadas exclusivamente à Literatura ou Literatura e Artes, ampliando a sua capacidade de produção, difusão e distribuição. A Diretoria ainda não realizou pesquisa para acompanhar os resultados deste edital entre os beneficiários das assinaturas. Seria interessante saber o número exato de beneficiários e quantas edições de cada revista foram distribuídas para cada um, já que houve diferença na data de início da entrega, em função do atraso e da dificuldade em organizar o banco de dados com nomes e endereços dos beneficiários. Além disso, a Diretoria poderia buscar conhecer os dados sobre o número de leitores dos periódicos, a fim de saber se as revistas tiveram boa aceitação e circulação nos espaços de leitura em que foram distribuídas e se foram utilizadas – e de que forma –

em processos de qualificação e formação de leitores críticos. Existem várias pesquisas com trabalhos consistentes que demonstram que as revistas e jornais podem ser poderosos instrumentos de inclusão ao mundo da leitura e conhecer o modo como foram utilizados esses 12 periódicos, saber se estavam ou não inseridos em projetos de leitura é muito importante para a DLLL avaliar a continuidade desta ação, bem como ter dados para justificar investimento em tipos específicos de periódicos. Esta pesquisa poderia ser facilmente realizada, a partir de questionários e entrevistas com os beneficiários da ação. Da mesma forma seria interessante saber o que representou para as editoras dos periódicos essa ampliação de assinantes em espaços públicos – bibliotecas e pontos de leitura e cultura. O Edital PROCULTURA para Programação Cultural de Livrarias 2010 está na fase de habilitação dos projetos. Esse é o primeiro edital do Ministério da Cultura que contempla este elo da cadeia produtiva do livro. Seu objetivo é premiar propostas de projetos culturais de livrarias com o intuito de fortalecê-las, valorizar o seu papel cultural e fomentar a sua atuação como mediadoras e promotoras do livro e da leitura e desenvolver programação cultural voltada para a promoção do livro e da leitura no período de 12 meses, tais como: seminários, colóquios, saraus literários, encontro com autores, rodas de leitura, contação de histórias, oficinas de produção textual, entre outras dessa natureza, bem como propor um calendário anual de programação cultural da livraria, destacando sua função social na formação de leitores. Os recursos destinados para este edital somam R$ 3.000.000,00, oriundos do Fundo Nacional de Cultura. Desse valor, R$ 1.560.000,00 seriam destinados a 60 projetos de programação cultural de livrarias de pequeno porte e R$ 1.440.000,00 a 40 projetos de livrarias de médio porte. Este edital teve pouca adesão das livrarias – 42 propostas habilitadas - e o número de projetos habilitados está bem abaixo do esperado para premiação dos 100 inicialmente propostos. A Região Norte apresentou 04 propostas, as Regiões Nordeste e Centro-Oeste 05 cada uma, a Região Sul 14 e a Sudeste 15 projetos, sendo que destes, 34 referem-se a pequenos projetos e 8 a médio projetos. Os projetos habilitados são majoritariamente do interior do estado – 26 projetos, tendo 16 propostas oriundas das capitais. Estes dados confirmam a tendência verificada pela pesquisa Diagnóstico do

Setor Livreiro 2009 da ANL. Ela mostra que, no caso da região Sudeste, o índice de
distribuição de livrarias por região aumentou de 53% para 56%, e no caso da região Sul, de 15% para 19%. As regiões Nordeste e Norte perderam espaço. O Nordeste, que na pesquisa de 2006 aparecia com um percentual de 20%, baixou para 12% no estudo de 2009. A região Norte, que em 2006 obteve um percentual de 5%, caiu para 3% em 2009.

O Centro-Oeste ganhou espaço de 4% para 6%, e o Distrito Federal de 3% para 4% (ANL: 2010, p.3). Estes projetos não tem interface ou interlocução com bibliotecas públicas, pontos e agentes de leitura. Este edital foi trabalhado em parceria com a Associação Nacional de Livrarias e foi bem divulgado em todo território nacional entre as livrarias, tendo seu prazo ampliado para garantir plena participação dos eventuais interessados, mas não foi bem divulgado entre os beneficiários das demais ações da Diretoria – bibliotecas públicas e comunitárias, agentes de leitura, pontos de leitura -, que nas entrevistas com grupos focais realizadas em todas as regiões do país, declararam desconhecer totalmente o edital e por isso não propuseram às livrarias locais parcerias para atividades culturais em conjunto. Não existe pesquisa anterior ao edital que aponte dados que nos permitam compreender os motivos da pouca adesão das pequenas e médias livrarias ou mesmo porque não houve articulação entre as livrarias e outros beneficiários de nossas ações, o que por si só evidencia a importância de estudos prévios que respaldem e justifiquem as propostas de programas e ações. A pesquisa da ANL de 2009 aponta que a tendência das livrarias é agregar outros serviços além da venda de livros: 28% das livrarias são também cafeterias, 16% dispõem de espaço para eventos e programação cultural e 5% são também cybercafé (ANL: 2009, p.5), estas livrarias também estão se tornando um espaço de convivência, onde o

consumidor pode, além de comprar o livro que procura, participar de eventos
(idem:p.10). Este edital inova ao apostar e incentivar esta tendência, e poderia ter sido um propulsor de pequenas e médias livrarias como espaços e centros culturais dando visibilidade a projetos culturais desenvolvidos por beneficiários das políticas do MinC, que buscam justamente parceiros locais para viabilizar e fortalecer suas ações. Acreditamos que faltou visão sistêmica e integradora à Diretoria para fazer que livrarias, bibliotecas públicas e pontos de leitura se articulassem. O resultado foi a pouca adesão a esta proposta que poderia inaugurar uma parceria inédita entre mercado e sociedade civil. PONTOS DE LEITURA O Concurso Pontos de Leitura 2008 - Edição Machado de Assis13 teve como finalidade selecionar até 600 iniciativas culturais cujos objetivos fossem incentivar e fortalecer a prática da leitura no país, prioritária, mas não exclusivamente, nos
13

http://www.cultura.gov.br/site/2008/12/22/pontos-de-leitura-2008/, acesso em junho/2011.

municípios atendidos pelo Programa Territórios da Cidadania14, nas áreas do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania e outros municípios prioritários do Mais Cultura. Poderiam candidatar-se ao Concurso Pontos de Leitura 2008 pessoas físicas ou jurídicas nacionais, públicas ou privadas, sem fins lucrativos, representantes de iniciativas voltadas para, pelo menos, um dos objetivos a seguir: 1. promoção da leitura nas diversas comunidades do território nacional, de modo a contribuir para o fomento da prática leitora no Brasil; 2. democratização do acesso ao livro; 3. envolvimento e participação da comunidade na gestão da iniciativa segundo suas próprias necessidades de informação e fruição; 4. fomento à produção, ao intercâmbio e à divulgação de informações; 5. estímulo à formação de redes sociais e culturais (cfe. Cartilha Concurso Pontos de Leitura 2008.)

Um dos pré-requisitos para a inscrição era a comprovação de, no mínimo, um ano de atividade na área de livro, leitura e literatura (Brasil: 2008). O edital de 2008, seguindo a tendência da gestão do MinC de então de dar visibilidade à cultura produzida e vivida na/pela periferia e a trabalhos já existentes, reconhece como ponto de leitura as iniciativas que atendessem a apenas um dos cinco quesitos. Veremos adiante que as iniciativas premiadas não tiveram muita dificuldade em identificar-se com os dois primeiros deles, mas os três restantes mostraram-se justamente como as maiores dificuldades para manter os pontos de leitura em atividade. Os premiados deveriam integrar a Rede Biblioteca Viva, coordenada pela DLLL, que teria nessa rede o espaço de acompanhamento contínuo das atividades desenvolvidas nos pontos de leitura, como podemos observar pelo artigo 19 do Edital:
A Rede BIBLIOTECA VIVA será constituída pelos pontos de leitura, pelos pontos de cultura com ações voltadas para o livro e leitura, por bibliotecas públicas, comunitárias e/ou populares integrantes da Rede. A gestão desta Rede BIBLIOTECA VIVA será de responsabilidade da Coordenação Geral de Livro e Leitura e deverá ser compartilhada com as iniciativas selecionadas a partir deste Concurso. As iniciativas selecionadas serão acompanhadas pela Rede BIBLIOTECA VIVA (BRASIL, 2008).
14

Os Territórios da Cidadania tem como objetivos promover o desenvolvimento econômico e universalizar programas básicos de cidadania por meio de uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável. A participação social e a integração de ações entre Governo Federal, estados e municípios são fundamentais para a construção dessa estratégia. Fonte: http://www.territoriosdacidadania.gov.br/dotlrn/clubs/territriosrurais/one-community.

Na primeira edição deste concurso, foram selecionadas 514 iniciativas que receberam um kit com 650 livros, assim distribuídos: 50% de obras de ficção; 25% de não-ficção e 25% de referência, DVDs, enciclopédias, um computador e um mobiliário básico. Além disso, a Editora Globo e a Maurício de Sousa Produções doaram três milhões de revistas da Turma da Mônica aos Pontos de Leitura. De todos os Pontos de Leitura selecionados, 175 são oriundos dos Territórios da Cidadania, 204 estão no Sudeste, 187 no Nordeste, 48 no Sul, 30 no Centro-Oeste e 45 no Norte, como podemos observar no gráfico abaixo, que mostra a distribuição regional dos pontos de leitura.

48 9% 204 40%

30 6%

187 36%

45 9%

Centro-Oeste

Nordeste

Norte

Sudeste

Sul

Os nove estados da região Nordeste tiveram o seguinte resultado em termos de iniciativas selecionadas: Alagoas (16); Bahia (40); Ceará (43); Maranhão (12); Paraíba (16); Piauí (8); Pernambuco (31); Rio Grande do Norte (19); e Sergipe (4). A região Sul teve 12% de participação no concurso. Foram 81 inscrições de projetos, dos quais 48 foram selecionados: Paraná (11); Santa Catarina (8); e Rio Grande do Sul (29). As demais regiões brasileiras – Centro-Oeste e Norte – tiveram a mesma porcentagem de participação: 7% cada uma. O Centro-Oeste inscreveu 49 trabalhos e teve selecionados 30, sendo 11 do Distrito Federal, 8 do Mato Grosso; 7 de Goiás; e 4 do Mato Grosso do Sul. Da região Norte foram efetivadas 50 inscrições e aprovadas 44 iniciativas, sendo 7 do Acre; 2 do Amapá; 10 do Amazonas; 14 do Pará; 5 do Tocantins; 4 de Rondônia; e 2 de Roraima. Podemos visualizar essa distribuição por estado no gráfico que segue.

80

57 49 43 39 30

29 19

16 7 10 2 11

17 12 8 4 8

15 16 8 11 4 2 8 4 5

AC

AL AM AP

BA CE DF ES GO MA MG MS MT PA

PB

PE

PI

PR

RJ

RN RO RR RS SC SE

SP TO

A partir de 2009, os Pontos de Leitura entraram no escopo das ações descentralizadas do Programa Mais Cultura, como parte dos convênios firmados entre a SAI/MinC e os entes federados. Mantendo-se o mesmo conceito, os Pontos de Leitura ganharam o formato de editais estaduais e municipais. Existem 11 editais lançados em 2010 para 382 novos Pontos de Leitura, nos seguintes estados: Acre, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul. O detalhamento dessa ação consta no Relatório de Gestão da DLLL (2010). À medida que esses editais estaduais e municipais forem concluídos, será necessário mapear quais são esses novos pontos, caracterizando-os e inserindo-os na rede de Pontos de Leitura. Para além de pesquisar as ações que desenvolvem com a cadeia criativa do livro, é interessante conhecer e documentar o projeto desses novos Pontos de Leitura e reunir aqueles do edital de 2008 da DLLL e os pontos dos editais descentralizados de 2010 em um encontro nacional visando a troca de experiência, o reconhecimento dos saberes e fazeres, suas demandas e necessidades, bem como o fortalecimento da rede.

CARTOGRAFIA DOS PONTOS DE LEITURA
A DLLL, após a entrega dos kits, montou um blog da Rede Biblioteca Viva15 a fim de manter uma linha de comunicação direta com os pontos de leitura. Mas, por várias razões, entre elas a insuficiência do quadro de pessoal envolvido com a gestão, tornou-se
15

Rede Biblioteca Viva http://www.cultura.gov.br/site/2008/09/25/rede-biblioteca-viva/.

difícil, senão impossível, o acompanhamento direto desta ação, pois existiam várias iniciativas simultâneas – editais descentralizados para estados e municípios de novos pontos de leitura, implantação e reforma de bibliotecas públicas, premiações, eventos, etc. – todas sendo realizadas pela equipe pequena da diretoria. Em vista dessa situação, em 2011, a DLLL se impôs o desafio de rearticular a rede dos pontos de leitura, atualizar os dados para inseri-los como beneficiários do Edital de Periódicos de Conteúdo Mais Cultura e dar visibilidade às ações desenvolvidas, fortalecendo uma cultura de participação a fim de construir uma proposta para qualificar e adensar o trabalho desenvolvido pelos pontos. Desse modo nossa cartografia tem início, organizada a partir de 03 eixos: 1. Mapeamento do lugar e da cultura local – organização da pesquisa a partir das regiões que atravessam o país, a fim de perceber as particularidades e diferentes contextos; 2. Fortalecimento e visibilidade do trabalho desenvolvido pelos pontos de leitura - descrição das práticas regionais comuns aos pontos, foco nas afinidades, 3. Construção reconhecendo de referências a diversidade e – multiculturalidade; político-culturais subsídios para uma proposta de política pública a partir da dicotomia o que tem / o que falta. (Adaptação livre de César e Menezes: 2007,p.6) Esses eixos se sustentam na centralidade das práticas culturais em torno dos saberes e fazeres na área do livro, leitura e literatura, bem como outras linguagens que circulam no ponto.
O mapeamento cultural, mais do que um inventário, é um conjunto de narrativas, histórias, falas, conversas, imagens e formas, que pode desenhar os contornos da ação cultural. No território simbólico da Cartografia, os diversos imaginários se juntam, se cruzam, conversam, refazem-se; e, nesse movimento, outras formas e fazeres tomam corpo. (César e Menezes: 2007,p.6).

A cartografia vai se construindo a partir do contato com os pontos, o envio dos questionários e o fomento de uma rede, um grupo de discussão virtual e de encontros presenciais nas regiões, antecedendo um encontro nacional visando a troca de experiências e de tecnologias sociais entre os pontos, aprofundar conceitos, e

sistematizar uma reflexão sobre o que se faz nos pontos de leitura. Essa rede se materializa em uma rede local, com encontros e trocas presenciais e em uma rede virtual, ancorada em um ou mais sítios eletrônicos que se organizam a partir dos textos, desenhos e imagens compartilhadas. Outro movimento é a mobilização social, ancorada nas articulações que se fazem no local e na troca de experiências, saberes e fazeres entre pontos e entre parceiros e o intercâmbio entre os diversos projetos, através de um projeto comum – a programação cultural dos pontos de leitura nas feiras do livro, detalhada no produto 02 e retomada adiante – que mobiliza e dá visibilidade ao trabalho desenvolvido nos pontos. As metas, quando (inter)relacionadas, mostram o ponto de leitura como um espaço de produção e ação cultural, mobilizador da comunidade. A fim de retomar o contato com os pontos de leitura, contatamos por mensagem eletrônica todos os 514 contemplados no edital de 2008. Como obtivemos poucas respostas - apenas 82 Pontos responderam ao convite inicial para participar da pesquisa - e muitas mensagens eletrônicas retornaram porque o endereço eletrônico havia mudado, percebemos a necessidade de atualizar os dados cadastrais. Esse trabalho foi realizado por telefonemas aos pontos, com a atualização cerca de 450 endereços. Para fomentar a criação de uma rede nacional de pontos de leitura, a DLLL fez dois movimentos: organizou um blog de notícias onde todos os integrantes podem postar seus textos, fotos, mapas simbólicos, livremente, para a publicização na internet, a partir do seguinte endereço eletrônico http://culturadigital.br/groups/cadeia-criativa-do-livroeconomia-do-livro/ e convidou os pontos a integrá-lo. Este grupo está ancorado no sítio eletrônico do Cultura Digital que contempla grande parte dos pontos de cultura e protagonistas da cultura digital. Este sítio possibilita que todos os membros organizem seu espaço como um blog, e que possam participar de vários grupos temáticos e consigam um certo grau de visibilidade para suas atividades e ações. Atualmente o blog conta com 58 seguidores. Uma das fragilidades da Diretoria é não contar com uma assessoria de comunicação que mantenha um sistema de comunicação e circulação de informações contínuo e regular. Essa fragilidade poderá ser reduzida com o blog, pois ele é de fácil acesso e manuseio e poderá ser atualizado com as informações que chegam das redes e dos parceiros. A ideia do blog é oferecer uma plataforma de postagem que vem para registro e memórias das atividades, documentação de manifestações culturais locais e criação de um canal de comunicação dinâmica que contenha as informações que sejam relevantes divulgar. Além disso, o blog é um espaço que permite que a Diretoria amplie suas ações, forme redes temáticas, dialogando com a Cultura Digital que, nas palavras do ex-Ministro Gilberto Gil, é um conceito novo.

Parte da ideia de que a revolução das tecnologias digitais é, em essência, cultural. O que está implicado aqui é que o uso de tecnologia digital muda os comportamentos. O uso pleno da Internet e do software livre cria fantásticas possibilidades de democratizar os acessos à informação e ao conhecimento, maximizar os potenciais dos bens e serviços culturais, amplificar os valores que formam o nosso repertório comum e, portanto, a nossa cultura, e potencializar também a produção cultural, criando inclusive novas formas de arte (Gilberto Gil, 2004).

Além do blog, outro movimento foi organizar uma lista no googlegroups, para troca de mensagem direta entre os pontos, pelo e-mail ponto-de-leitura@googlegroups.com. Atualmente essa lista consta com 301 membros e já é um espaço de mobilização e intercâmbio de projetos. Entendemos que, para articular uma rede que seja um espaço

de trabalho e mais que um mero grupo de discussões, é antes necessário conhecer as
particularidades regionais e marcar reuniões presenciais para mobilização dos diferentes segmentos que compõe a cadeia criativa, com a presença das Regionais do MinC e parceiros. A atualização dos dados cumpre com vários objetivos, uma vez que possibilita a inclusão dos dados dos Pontos de Leitura no sistema de informação da DLLL e no sistema de comunicação que a Diretoria está organizando, bem como torná-los beneficiários das 12 assinaturas de revistas que o Edital de Periódicos de Conteúdo Mais Cultura selecionou e está distribuindo entre Bibliotecas Públicas, Pontos de Leitura e Pontos de Cultura que desenvolvam atividades na área do livro, leitura e literatura. A foto abaixo, divulgada em um ponto de leitura, mostra as revistas que estão sendo disponibilizadas nestes espaços.

Foto: Bando da Leitura de Ponta Grossa, Paraná.

Para conhecer o trabalho desenvolvido pelos Pontos de Leitura com foco na cadeia criativa e seu trabalho de mobilização e ação cultural, elaboramos um pequeno questionário. As nove primeiras questões são de ordem geral e visam atualizar os dados cadastrais da instituição, verificar se é pessoa física ou jurídica, qual o território trabalhado, se também é pontão ou ponto de cultura. As questões restantes buscam mapear os projetos e atividades desenvolvidas pelo Ponto que contemplem autores e leitores, bem como outras linguagens e áreas trabalhadas, suas parcerias, públicos prioritários e demandas. Essas questões foram elaboradas considerando os objetivos que caracterizam um Ponto de Leitura e que foram descritos no Edital de 2008, para que pudéssemos observar quais destes objetivos foram atingidos pelos pontos, quais as dificuldades para alcançá-los e se existem novas tendências no trabalho desenvolvido pelos Pontos. Combinamos que os pontos teriam até a primeira quinzena de abril para devolver o questionário preenchido. No final do prazo para entrega dos questionários, 244 pontos de leitura do Edital de 2008 enviaram suas respostas. Isso equivale a cerca de 48% do total dos pontos de leitura. O número de pontos que responderam ao questionário indica que, embora todos os pontos de leitura contarem com o equipamento de informática que compôs o kit, eles ainda estão excluídos ou mal incluídos do universo da cultura digital16 porque, além da
16

O conceito de cultura digital não está consolidado. Aproxima-se de outros como sociedade da informação, cibercultura, revolução digital, era digital. Cada um deles, utilizado por determinados autores, pensadores e ativistas, demarca esta época, quando as relações humanas são fortemente mediadas por tecnologias e comunicações digitais.O sociólogo espanhol Manuel Castells, em dossiê publicado pela revista Telos, mantida pela Fundación Telefónica, define a cultura digital em seis tópicos: 1. Habilidade para comunicar ou mesclar qualquer produto baseado em uma linguagem comum digital; 2. Habilidade para comunicar desde o local até o global em tempo real e, vice-versa, para poder diluir o processo de interação; 3. Existência de múltiplas modalidades de comunicação; 4. Interconexão de todas as redes digitalizadas de bases de dados; 5. Capacidade de reconfigurar todas as configurações criando um novo sentido nas diferentes camadas dos processos de comunicação; 6. Constituição gradual da mente coletiva pelo trabalho em rede, mediante um conjunto de cérebros sem limite algum.Fonte: http://culturadigital.br/o-programa/conceito-de-cultura-digital/

dificuldade em utilizar o computador e entender sua linguagem, muitos Pontos de Leitura ficam em regiões em que o acesso à internet é restrito e de alto custo e este dado talvez explique a baixa adesão à pesquisa dos pontos de leitura do Norte do país. A pesquisa mostra que, embora 38% dos pontos desenvolvam atividades com Cultura Digital, 23% ainda não possuem acesso a internet. Para contribuir na questão do acesso, seria interessante que os pontos de leitura seguissem o modelo dos pontos de cultura, que realizaram uma parceria com o GESAC17 para a criação de pontos de presença. Este serviço do Ministério das Comunicações permite a instalação de conexão internet de banda larga, via satélite, computadores, impressoras e outros equipamentos para desenvolvimento de atividades voltadas ao acesso e à inclusão digital. Dos pontos de leitura que enviaram suas respostas, 8% são do Sul e do CentroOeste, 39% do Sudeste e Nordeste e 7% do Norte do país. Esta porcentagem aproxima-se bastante da porcentagem do recorte territorial das iniciativas premiadas no país. Acreditamos que esta porcentagem permita visualizar e descrever o funcionamento geral dos pontos no país e, a partir deste mapa propor, ações culturais voltadas para a implantação e potencialização dos projetos dos pontos de leitura. O gráfico abaixo permite visualizar a distribuição e participação pontos de leitura que participaram da pesquisa por estado e região do Brasil.

35

Contar de UF

30

25

20

15

10

5

0

DF 6

GO 4

MS 6

MT 2

AL 10

BA 18

CE 24

MA 4

PB 6

PE 16

PI 8

RN 6

SE 2

AM 4

AP 2

PA Norte 8

RR 2

ES 10

MG 30

RJ 24

SP 32

PR 4

RS Sul 12

SC 4

Centro-Oeste Total

Nordeste

Sudeste

Região UF

17

O GESAC é um programa de inclusão digital do Governo Federal, coordenado pelo Ministério das Comunicações – através do Departamento de Serviços de Inclusão Digital – que tem como objetivo promover a inclusão digital em todo o território brasileiro.Para oferecer uma alternativa de acesso ao computador e à Internet, o GESAC e seus parceiros disponibilizam a infra-estrutura fundamental para a expansão de uma rede. Milhares de brasileiros passam a dispor de equipamentos de informática e, ainda, do acesso à Internet. É a oportunidade de inserção no mundo das tecnologias de informação e comunicação por meio de uma iniciativa governamental pública, gratuita e democrática. Fonte: http://www.gesac.gov.br.

Segue abaixo, tabela que permite visualizar a distribuição regional e total nacional das questões apresentadas aos pontos no questionários, bem como suas respostas.
Descrição Iniciativas premiadas % Iniciativas que participaram da pesquisa % Atividade existente no Ponto de Leitura: Contação de histórias % Atividade existente no Ponto de Leitura: Cultura digital % Atividade existente no Ponto de Leitura: Empréstimo de livro % Atividade existente no Ponto de Leitura: Esporte e lazer % Atividade existente no Ponto de Leitura: Estudos, formação e pesquisa % Atividade existente no Ponto de Leitura: Formação de leitores críticos % Atividade existente no Ponto de Leitura: História oral, memória da comunidade % Atividade existente no Ponto de Leitura: Confecção de Livro Região Centro-oeste 30 6% 18 Nordeste 187 36% 94 Norte 45 9% 16 Sudeste 204 40% 96 Sul 48 9% 20 Total 514 100% 244

60% 10

50% 80

36% 14

47% 78

42% 16

48% 198

56% 10

85% 30

88% 4

81% 38

80% 10

81% 92

56% 16

32% 76

25% 10

40% 80

50% 16

38% 198

89% 4

81% 18

63% 2

83% 32

80% 8

81% 64

22% 12

19% 50

13% 8

33% 52

40% 8

26% 130

67% 12

53% 54

50% 8

54% 38

40% 8

53% 120

66% 8

57% 54

50% 10

40% 44

40% 4

49% 120

44% 4

57% 12

63% 6

46% 28

20% 6

49% 56

artesanal % Atividade existente no Ponto de Leitura: Ludicidade % Atividade existente no Ponto de Leitura: Cinema e vídeo % Atividade existente no Ponto de Leitura: Desenho % Atividade existente no Ponto de Leitura: Oficinas literárias % Atividade existente no Ponto de Leitura: Oficinas de música % Atividade existente no Ponto de Leitura: Produção textual % Atividade existente no Ponto de Leitura: Arte-educação % Atividade existente no Ponto de Leitura: Organização de rede % Atividade existente no Ponto de Leitura: Feira do livro % Atividade existente no Ponto de Leitura: Roda de conversa com autores % Atividade existente no Ponto de Leitura: Sarau literário %

22% 8

13% 72

38% 10

29% 54

30% 14

23% 158

44% 2

77% 16

63% 2

56% 34

70% 6

65% 60

11% 2

17% 30

13% 4

35% 34

30% 10

25% 80

11% 10

32% 56

25% 10

35% 50

50% 12

33% 138

56% 4

60% 24

63% 4

52% 36

60% 8

57% 76

22% 10

26% 38

25% 12

38% 50

40% 10

31% 120

56% 8

40% 18

75% 2

52% 46

50% 6

49% 80

44% 4

19% 10

13% 2

48% 18

30% 2

33% 36

22% 2

11% 8

13% 0

19% 12

10% 6

15% 28

11% 8

9% 32

0% 4

13% 36

30% 4

11% 84

44% 6

34 40

25% 6

38% 50

20% 4

34% 106

33%

43%

38%

52%

20%

43%

Atividade existente no Ponto de Leitura: Teatro % Atividade existente no Ponto de Leitura: Oficinas de Meio ambiente/EA % Necessidade do Ponto de Leitura: Recursos financeiros para renovação do acervo % Necessidade do Ponto de Leitura: Recursos financeiros para pgto de bibliotecária % Necessidade do Ponto de Leitura: Recursos financeiros para pagamento de local e manutenção % Necessidade do Ponto de Leitura: Recursos financeiros para bolsistas e monitores % Necessidade do Ponto de Leitura: Recursos financeiros para oficineiros e formadores % Necessidade do Ponto de Leitura: Recursos humanos % Necessidade do Ponto de Leitura: Qualificação e formação dos recursos humanos já existentes %

8

34

6

40

8

96

44% 0

36% 14

38% 1

42% 13

40% 2

39% 30

0 9

15% 59

6% 10

14% 59

10% 15

12% 152

50% 7

63% 61

63% 7

61% 59

75% 14

62% 148

39% 9

65% 55

44% 8

61% 58

70% 10

61% 140

50% 10

59% 63

50% 10

60% 66

50% 11

57% 160

56% 13

67% 77

63% 13

69% 79

55% 16

66% 198

72% 9

82% 61

81% 10

82% 62

80% 12

81% 154

50% 10

65% 61

63% 10

65% 62

60% 11

63% 154

56%

65%

63%

65%

55%

63%

Necessidade do Ponto de Leitura: Catalogação do acervo % Necessidade do Ponto de Leitura: Local adequado % O Ponto de Leitura tem parcerias com escolas % O Ponto de Leitura tem parcerias com bibliotecas % O Ponto de Leitura tem parcerias com livrarias % O Ponto de Leitura tem parcerias com Secult % O Ponto de Leitura tem parcerias com outros pontos de leitura % Ponto de Leitura que conta com Bibliotecária % Ponto de Leitura que conta com Divulgação do trabalho do ponto % Ponto de Leitura que conta com Acesso a internet % Ponto de Leitura que conta com Autores no Ponto % Ponto de Leitura que é Biblioteca comunitária % Ponto de Leitura que é Biblioteca itinerante % Ponto de Leitura que é Brinquedoteca

5

33

4

33

7

82

28% 5

35% 35

25% 1

34% 36

35% 5

34% 82

28% 5

37% 27

6% 5

38% 26

25% 5

34% 68

28% 4

29% 18

31% 4

27% 16

25% 4

28% 46

22% 3

19% 26

25% 5

17% 25

20% 5

19% 64

17% 5

28% 37

31% 6

26% 34

25% 6

26% 88

27,78% 4

39,36% 21

37,50% 7

35,42% 18

30,00% 6

36,07% 56

22% 3

22% 23

44% 2

19% 21

30% 7

23% 56

17% 1

24% 34

13% 4

22% 31

35% 8

23% 78

6% 1

36% 24

25% 4

32% 22

40% 5

32% 56

56% 10

26% 39

25% 9

23% 39

25% 11

23% 108

56% 18

42% 77

56% 16

41% 80

55% 19

44% 210

100% 8

82% 30

100% 4

83% 34

95% 4

86% 80

44% 8

32% 30

25% 4

35% 31

20% 7

33% 80

% Ponto de Leitura que tem Contadores de histórias % Ponto de Leitura que trabalha junto a livrarias para compor programação cultural % Ponto de Leitura que trabalha junto a bibliotecas para compor programação cultural %

44% 13

32% 59

25% 9

32% 62

35% 13

33% 156

72% 1

63% 13

56% 2

65% 10

65% 6

63% 32

56% 8

14% 28

13% 4

10% 29

30% 7

13% 76

44%

30%

25%

30%

35%

31%

Um dado importante é que as respostas dos pontos de leitura, em muitos aspectos, corroboram a existência de vários problemas e demandas, que os gestores públicos já supunham existir e interferir na qualidade da ação, como por exemplo, a interpretação divergente, por parte dos pontos, das normas e limites do Estado, a inexistência de legislação que fundamente a relação do Estado com pessoas físicas e entidades da sociedade civil de pequeno porte, recursos e investimentos insuficientes, a ausência de acompanhamento e avaliação sistêmica, por parte do Estado, das ações do ponto, através de visitas e encontros regulares. As reuniões com grupos focais permitiram que os pontos de leitura pudessem enunciar suas questões, aprofundando as questões que estavam nos questionários, tornando suas respostas mais precisas e focadas. Nestas conversas, os pontos de leitura foram unânimes em reconhecer que ao terem seu trabalho reconhecido pelo Ministério da Cultura aumentaram sua auto-estima e ganharam fôlego para suas atividades porque, muitas vezes, a manutenção das atividades do ponto depende totalmente de repasses públicos. Houve reclamação quanto à dificuldade de orientação, por parte do MinC, acerca de questões gerenciais dos pontos. O processo de descentralização para estados e municípios dos recursos para instalação de novos pontos foi criticado pois os pontos alegam que agora ficam à mercê de interferências e ingerências político-partidárias. Segundo uma análise de uma gestora de ponto de leitura, é frágil a parceria do MinC com os municípios na contratação de agentes de leitura, pois uma ação não está articulada e dialogando com a outra, mesmo sendo uma ação da DLLL/MinC e os pontos e agentes muitas vezes compartilhar uma

mesma comunidade. Diz ela: No meu entendimento, esses agentes de leitura já somos nós

e deveria ter uma cláusula explícita nestes acordos, que em cidades onde existam Pontos de Leitura, os agentes devam ser agentes do Pontos. Isso sim visibiliza, fortalece e valoriza as nossas ações e ainda "obriga" os municípios a enxergarem a sociedade civil com respeito.
Outra questão destacada na conversa com os pontos é a dificuldade de articulação de parcerias com o estado e município por estes acreditarem, erroneamente, que com o reconhecimento do MinC, suas necessidades dos pontos estariam supridas. Outras vezes, o que falta é o reconhecimento do ponto de leitura da região por essas instâncias. A fala de um gestor de um ponto de leitura sintetiza essa questão:
O que ajudaria bastante os projetos de parceria entre os Pontos e a iniciativa privada, assim como, com as prefeituras, é um trabalho de divulgação das ações desses espaços, quem sabe, até com 10 segundos que sejam na grande mídia, num comercial de TV, convocando a comunidade para conhecer os Pontos nas cidades contempladas pela ação do Mais Cultura. Essas ações precisam ser reconhecidas pelos prefeitos. Se foram 514 Pontos de Leitura, no Brasil, em 2008, reconhecidos pelo MinC, não custa uma correspondência aos gestores, convocando-os para, legalmente, constituírem convênio - através de subvenções sociais - com entidades responsáveis pelos Pontos. Esse reconhecimento é importante, pois aproxima os Pontos ao poder público municipal e à comunidade, entidades públicas e privadas conscientes de sua relevância.

Os pontos de leitura, em sua quase totalidade, são localizados na periferia, em áreas de vulnerabilidade social, econômica e cultural e sua presença nessas comunidades é muito importante na medida em que “uma das principais causas do elevado índice de analfabetismo funcional e das dificuldades para a compreensão da informação escrita se localiza na crônica falta de contato com a leitura, sobretudo entre população mais pobre” (Castilho: 2010, p.38). O investimento para manutenção destes espaços é fundamental para a formação e manutenção de leitores, pois “constata-se que, sem motivação e continuidade na aquisição do hábito da leitura, o jovem e o adulto (...) tendem a perder essa habilidade” (Lázaro in Castilho: 2010, p.141-2). Os Pontos de Leitura permitem ao MinC concretizar a ideia de que “os livros devem estar onde houver leitores e onde houver lugares de ações com potencial para transformar em novos espaços de leitura” (Manevy in Castilho: 2010, p.138) e suas atividades principais traduzem esse ideal, pois os pontos trabalham prioritariamente com o empréstimo de livros (82%) e a contação de histórias (82%), seguidos de oficinas de literatura (57%) e produção textual (56%), estudos, formação e pesquisa (54%),

oficinas para formação de leitores críticos (49%). Cerca de 44% dos Pontos de Cultura tem como integrante autores, publicados ou não, mas apenas 23% produzem livros de forma artesanal e este dado atualiza a percepção freiriana de que “é fundamental estimular os grupos sociais populares a contar sua história, para que se vá tentando a formação do que poderá vir a ser uma pequena biblioteca popular, com inclusão de páginas escritas pelos próprios educandos” (Freire: 1981, p.19). A grande maioria dos Pontos se descreve como biblioteca comunitária (86%) e suas atividades são mantidas, em grande parte, de forma voluntária e graças aos vínculos que estabelecem e, muitas vezes, são o único equipamento cultural da comunidade e o acesso a cultura se dá através das atividades desenvolvidas nestes espaços. Os pontos de leitura que funcionam como bibliotecas comunitárias comungam das características das bibliotecas públicas que, em grande parte, possuem “equipamentos precários, acervos ínfimos e ou muito defasados e recursos humanos despreparados para um processo de mediação eficiente na formação de leitores” (Castilho: 2010, p. 41). Fabiano Santos (2010) descreve de forma exemplar essa questão:
A percepção da biblioteca como um espaço cultural dinâmico, interativo, atraente e como ambiente de criação, fruição, produção e difusão ainda são poucos presentes no imaginário tanto do gestor público como do usuário. A biblioteca pública deve ser o epicentro do acesso ao livro e formação leitora, onde crianças, jovens, adultos e velhos possam não apenas ter o acesso aos livros, mas estabelecerem uma relação fecunda, exploradora e prazerosa com o universo da literatura, do conhecimento e da informação por meio de variados suportes de leitura. No entanto, são poucas as bibliotecas que realizam programação cultural ou qualquer atividade de promoção da leitura e não passam de 12% aquelas que extrapolam suas quatro paredes em atividades de extensão ou de promoção de acesso ao livro e à formação leitora. Outro ponto crítico se refere à situação do acervo, sobretudo nos seus aspectos de atualização e ampliação, bem como da utilização de mobiliários mais adequados para tornarem os ambientes mais atrativos e agradáveis para os usuários. Além disso, é gritante verificar que mais de 50% das bibliotecas não possuem internet e que – dentre as que possuem – 71% não disponibilizam para seus usuários, ficando restrito aos serviços administrativos. No entanto, dentre todas as variáveis apontadas pelo Censo, a mais absurda é enxergar que mais de 90% de nossas bibliotecas não oferecem qualquer serviço de acessibilidade, seja pela falta de uma simples rampa para o acesso físico às suas dependências ou pela ausência de aparelhos e livros em formato acessível como Braille, Daisy, áudio-livro ou outro formato que permita o acesso a pessoas com deficiências (Santos in Relatório de Gestão 2010, p.20)

Neste cenário é ainda maior a importância da comunidade contar com a presença dos pontos de leitura, que mesmo com todas suas debilidades, cumprem sua vocação em atuar como um “pólo difusor de informação e cultura, centro de educação continuada,

núcleo de lazer e entretenimento, estimulando a criação e a fruição dos mais diversificados bens artísticos e culturais, sintonizada com as tecnologias de informação e comunicação” (Castilho: 2010, p. 46). Os pontos de leitura muitas vezes funcionam como bibliotecas populares, na perspectiva freireana (1981) ou mesmo modestos mas presentes dínamos culturais, como o PNLL propõe, onde este local, longe de ser um depósito de livros, se vê na condição de um centro cultural e
é visto como fator fundamental para o aperfeiçoamento e a intensificação de uma forma correta de ler o texto em relação com o contexto. Daí a necessidade que tem uma biblioteca popular centrada nesta linha se estimular a criação de horas de trabalho em grupo, em que se façam verdadeiros seminários de leitura, ora buscando o adentramento crítico no texto, procurando apreender a sua significação mais profunda, ora propondo aos leitores uma experiência estética, de que a linguagem popular é intensamente rica (Freire: 1981, p.20)

Freire sugere também que a biblioteca popular ou, em nosso caso, os pontos de leitura, estimulem o registro das histórias do lugar, gravem e (re)escrevam essas histórias. Os pontos atuam muitas vezes como o espaço de preservação da memória e da história viva da comunidade e este é um dado importante, na medida que a memória e a história da comunidade fixam o já vivido, reconstruindo-o e agregando novos sentidos nessa reconstrução. Muitos pontos são também brinquedotecas (33%) e bibliotecas itinerantes (33%), cujos acervos são levados até seus leitores por bicicletas adaptadas, barcos, malas e mochilas repletas de livros e histórias. Cerca de 64% dos Pontos mantém contadores de histórias em projetos semanais e 49% deles desenvolvem projetos voltados à preservação da memória e da história de suas comunidades, suas crenças, saberes e fazeres com mestres e griôs e, nesse sentido, eles vivem e atualizam a proposta freireana de biblioteca popular, articuladas em redes e totalmente em sintonia com os princípios norteadores do PNLL, que mesmo ao “reafirmar a centralidade da palavra escrita, não desconsidera outros códigos e linguagens, as tradições orais e as novas textualidades que surgem com as tecnologias digitais” (Castilho: 2010, p. 45). Neste cenário, os Pontos facilitam a democratização do acesso gratuito aos livros, gibis e outros materiais de leitura, como pretendia o edital de 2008. Entendemos essas bibliotecas comunitárias e populares como espaços culturais mais amplos, vivos e dinâmicos, pontos de encontro e de trocas cognitivas e afetivas que mobilizam diferentes atores sociais: educadores, bibliotecários, educandos, jovens e crianças, povos e comunidades tradicionais, pois além das atividades ligadas ao livro, leitura e literatura, os pontos de leitura oferecem igualmente atividades lúdicas (65%) com brincadeiras e brincantes, oficinas de arte-educação (33%) e desenho (33%),

esporte e lazer (27%). Os Pontos oferecem vasta programação cultural (48%), saraus (44%), encontros com autores (34%) e feira de livro (12%), além de atividades com audiovisual, como cinema e vídeos (25%), música (31%), teatro (40%), educação ambiental e patrimonial (18%), fotografia (12%), grafite e fanzine (3%), demonstrando que além de um trabalho voltado para a promoção da leitura, contribuindo para o fomento da prática leitora no Brasil, os Pontos mobilizam outras linguagens, saberes e fazeres, podendo ser caracterizados como espaços onde a diversidade cultural habita. Os pontos de leitura ampliam o entorno cultural de seus usuários na medida em que incorporam ao ambiente letrado outras experiências culturais e estéticas. Juca Ferreira (2010) afirma que uma “sociedade leitora amplia as possibilidades de qualificar as relações humanas e ao dar conta do texto do mundo”, aprende a dizer suas próprias palavras e consegue mobilizar outras linguagens assim como “qualifica a relação do individuo com a saúde, com o mundo do trabalho, com o transito e a cidade, com o ambiente natural e social, possibilitando a superação de limites físicos e simbólicos” (p.23). Quem vive a experiência da leitura a partir da constituição de um espaço comunitário para o livro e a literatura possui melhores condições e qualidade de vida e pode, neste espaço, contribuir para as transformações necessárias em nossa sociedade. Assim não subestimamos a dificuldade dos pontos em se articular em rede. A grande fragilidade dos Pontos está na sua dificuldade em articulação tanto com a comunidade quanto com parceiros potenciais a fim de tornar o ponto realmente um espaço comunitário e popular. O Edital de 2008, no entanto, buscava nos pontos de leitura um trabalho que se caracterizasse justamente pelo “envolvimento e participação da comunidade na gestão, segundo suas próprias necessidades de informação e fruição; fomento à produção, ao intercâmbio e à divulgação de informações e estímulo à formação de redes sociais e culturais” (Brasil, 2008). A experiência demonstra que investir em iniciativas já existentes na sociedade, dando-lhes visibilidade e articulando-as em redes, permite que esses projetos enraízem em suas comunidades de forma mais permanente que projetos eventuais e homogêneos. No edital de 2008 se buscou esse perfil, mas vemos que o enraizamento e a formação de redes ainda são o grande desafio para os pontos de leitura e tornam precárias a sustentabilidade e autonomia do ponto. Embora 74% dos Pontos desenvolvam estratégias para divulgação das suas atividades e produtos culturais, tais como site, maillings, panfletos, boca-a-boca, visitas às escolas, 32% assinalam que têm dificuldade para mobilizar a comunidade a frequentar seus espaços. Essa dificuldade pode ser visualizada também a partir das suas precárias

parcerias com escolas (28%), bibliotecas (19%), livrarias (26%), Secretarias de Cultura (36%) e outros Pontos de Leitura (23%). Desenvolver uma estratégia de comunicação que vise o acolhimento e a sedução para a leitura é um desafio comum aos pontos. A grande maioria das cidades do interior não conta com livrarias – ou porque nunca existiram ou porque fecharam – e apenas 13% dos Pontos mantêm parceria com estes estabelecimentos. Embora existam bibliotecas públicas – o governo trabalhou intensamente para zerar o número de municípios sem bibliotecas públicas - somente 31% dos Pontos se articulam com elas para compor programação e atividades conjuntas. A grande maioria dos Pontos - cerca de 64% - não mantém parceria alguma para fortalecer e dar visibilidade ao trabalho desenvolvido. Os Pontos trabalham sozinhos, de forma voluntária e sem regularidade, com suas práticas e iniciativas invisíveis e silenciadas na própria comunidade. Nas entrevistas com grupos focais, os pontos alegam que nessas parcerias muitas vezes têm que abrir mão de sua autonomia, que os governos locais se apropriam e cooptam as iniciativas, partidarizando-as, e eles ficam em papel secundário ou mesmo são excluídos dos projetos. Muitos pontos revelam que por serem reconhecidos pelo governo federal, além de não contarem com recursos estaduais ou municipais (principalmente se estes estão ocupados por partidos de oposição), não têm suas atividades reconhecidas pelo governo local e não são chamados para trabalhos comuns. Outra provável causa deste isolamento é o fato de que 216 das 514 (41%) iniciativas premiadas sejam de pessoas físicas , que têm muitas e maiores dificuldades na articulação de parcerias e na captação de recursos para manutenção dos pontos e de suas atividades. Podemos considerar que o Edital de 2008 inova ao reconhecer pessoas físicas como Pontos de Leitura, focos importantes da disseminação do livro, leitura e literatura, mas, sem ter uma instituição ou projeto que permita acesso a novos recursos, variadas tecnologias sociais e desenvolvimento de projetos simultâneos, essas pessoas têm dificuldade em se articular a redes e, muitas vezes, não possuem o apoio da comunidade. A pesquisa mostra um discurso comum aos Pontos de Leitura formados por pessoas físicas: o Ponto funciona na residência pessoal (geralmente ocupa uma sala ou garagem), no horário em que a pessoa não está trabalhando (geralmente à noite ou nos finais de semana), e o espaço é pequeno, sem monitores, bibliotecária ou educadores presentes. Alguns declaram que sequer abriram os kits entregues por falta de espaço em suas casas ou porque o acordo para cessão de espaço na biblioteca ou instituição local acabou não se concretizando. Além disso, as entrevistas com grupos focais de pontos de leituras nos estados do RJ, PA, RS, PE, DF – cobrindo todas as regiões do país – aponta como uma das principais

necessidades dos pontos a existência de um programa que permita formar e manter mediadores e agentes de leitura fixos em pontos de leitura. Como 41% dos pontos de leitura são formados por pessoas físicas e estas estão excluídas de quase toda a política pública de editais, que prevê parcerias com instituições da sociedade civil, mas não com pessoas físicas, um edital de bolsas, para pessoas físicas seria uma solução possível para seus problemas de recursos humanos e manteria o ponto aberto para a comunidade. Hoje o que se vê, nestes 41% dos pontos de leitura, são atividades pontuais, voluntárias e sem regularidade, dependendo do tempo livre dos responsáveis pelos pontos. As entrevistas com grupos focais demonstram que muitas iniciativas vinculadas às pessoas físicas são nitidamente amadoras e sem planejamento, pois as mesmas participaram do edital e receberam os kits sem dispor de meios para a sustentabilidade dos pontos e agora esperam que o Estado construa uma política que dê possibilidade de continuidade e permanência destas iniciativas. Não por acaso, as maiores necessidades dos pontos são recursos financeiros: 82% dos pontos necessitam de recursos financeiros para manter oficineiros e formadores, 63% precisam de recursos humanos e recursos financeiros para a qualificação destes recursos humanos, 62% querem recursos para renovação do acervo, 61% não tem bibliotecária e somente 33% tem seu acervo catalogado, indicando necessidade de investimento na formação de mediadores e agentes de leitura, bem como em projetos sociais de leitura, para os quais temos algumas propostas que serão explicitadas adiante. Seria interessante, a partir o trabalho articulado entre MinC e MEC, propor parcerias com universidades locais, para projetos de extensão e pesquisa universitária com estudantes principalmente dos cursos de letras, biblioteconomia, pedagogia, para que os pontos possam contar com bolsistas, monitores e cursos de formação continuada, educação à distância, de forma regular. Os pontos possuem outras necessidades, estruturais, que passam por um local adequado - 57% não dispõem de recursos para pagamento de aluguel ou manutenção do local e 33% necessitam de um local mais adequado para o ponto. Estes dados, bem como relatos nas redes, mostram que muitas vezes os pontos desconhecem os limites da implementação do programa, pois suas principais reinvindicações são que o Estado se encarregue do pagamento do aluguel e da manutenção de um funcionário no ponto, mas estes quesitos não fazem parte do escopo da ação do MinC, não existe previsão no orçamento para despesas desta natureza e estes itens são justamente a contrapartida do ponto, prevista para a implementação da ação. PONTOS DE LEITURA – ALGUMAS PROPOSIÇÕES

O cenário que esta pesquisa aponta é complexo e não isento de contradições, como podemos perceber pelas dicotomias que podemos inferir dos dados, mas para além das dificuldades, o que vemos com os pontos de leitura é uma novidade no campo das políticas públicas culturais no sentido de dar visibilidade e estimular circuitos culturais em locais que normalmente não têm suas iniciativas reconhecidas. Nas palavras de Gabriela Gambi,
Estes pontos já existem e são atuantes na esfera comum, mas normalmente não têm suas potencialidades completamente reconhecidas. E se a leitura é absolutamente fundamental para a plena realização da nossa condição humana, sensibilizar os pontos que trabalham por ela significa recuperar um corpo social tornando-o mais saudável, mais harmônico, mais justo, enfim, mais humano em si. Em pouco tempo, já eram mais de 5 mil iniciativas de incentivo a leitura mapeadas em todo Brasil e que não objetivavam, em um primeiro momento, o recebimento de recursos públicos, mas o reconhecimento de que suas ações eram visíveis entre si e para o restante do país. Futuramente, seriam identificadas pelo MinC como partes intrínsecas das políticas públicas de acesso ao conhecimento que estavam sendo executadas diretamente pela sociedade civil, chamando-as de Pontos de Cultura e, na sequência, Pontos de Leitura (Gambi in Castilho: 2010, p.175)

Assim, se no momento inicial foi crucial o reconhecimento do que já existia na sociedade, mas ainda era invisível ou secundário no campo das práticas culturais, atualmente o desafio é continuar, ampliar e aprofundar o processo de reconhecimento destas iniciativas, dando-lhes um sentido de processo e de princípio, ao incentivar a comunicação dos pontos entre si e com o Estado, a partir das redes já instituídas e dos canais institucionais. A DLLL/MinC age nessa direção com a ação de descentralização da ação de identificar, reconhecer e apoiar iniciativas da sociedade civil de promoção e incentivo a leitura, através de Editais estaduais18 de Pontos de Leitura, realizados por meio de convênios do Programa Mais Cultura, firmados com Estados e municípios. Em nosso entendimento, existe a necessidade de qualificação das iniciativas já existentes, dando-lhes condições de superar as condições desfavoráveis para o pleno funcionamento dos pontos de leitura. Acreditamos que os dados da pesquisa apontam na direção de priorizar a qualificação do espaço já constituído, a fim de que ele não seja fechado por falta de investimento do Estado.
18

Em 2010, 18 convênios foram pagos ou parcialmente pagos, referente a 535 novos pontos de leitura nas seguintes cidades e estados: Prefeitura Municipal de Rio Branco/AC, Fundação Elias Mansour/AC, Fundação Pedro Calmon/BA, Secretaria de Cultura do Estado/CE, Secretaria de Cultura de Fortaleza/CE, Prefeitura Municipal de Anápolis/GO, Secretaria de Cultura/MA, Secretaria de Educação e Cultura/PB, Secretaria de Cultura do Estado/RJ, Prefeitura de Nilópolis/RJ, Prefeitura do Rio de Janeiro/RJ, Prefeitura de Canoas/RS, Prefeitura de Parobé/RS, Prefeitura de São Leopoldo/RS, Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves/RS, Prefeitura Municipal de Dois Irmãos/RS, Prefeitura de São Bernardo do Campo/SP, Prefeitura de Cachoerinha/RS, Prefeitura de Joinville/SC, Prefeitura de São Lourenço do Sul/RS, Consórcio Intermunicipal Culturando/SP e Consórcio Intermunicipal do Alto Uruguai – CIRAU/RS (Relatório de Gestão: 2010, p. 46).

O Relatório de Gestão da DLLL (2010) aponta a urgência de que, nos âmbitos do Fundo Pró-Leitura e do PROCULTURA, a plena execução de linhas programáticas permanentes que possam fomentar e financiar as políticas para o setor. Destacamos, dentre as seis linhas programáticas propostas pela DLLL, aquelas que poderiam criar condições de sustentabilidade e qualificação das ações desenvolvidas nos pontos de leitura. Reiteramos o fato de que essas linhas programáticas têm como ponto de partida as três dimensões da cultura estabelecidas pelo Plano Nacional de Cultura, as prioridades setoriais de livro, leitura e literatura eleitas na II Conferência Nacional de Cultura e os quatro eixos do PNLL. Assim, articulando novas ações a ações já existentes ou planejadas, segue abaixo nossa proposta de qualificação dos pontos de leitura. Esta proposta segue as diretrizes iniciais orientadoras desse trabalho, que como já mencionamos anteriormente, são encontradas nas ações já realizadas pela DLLL, porque entendemos ser importante fomentar novas ações dentro de ações que já contam com o investimento do Estado, qualificando-as e instaurando uma relação mais próxima com a

cadeia criativa do livro .
Da mesma forma, consideramos que estas propostas delimitam um campo de ações estratégicas que visam enfrentar, resolver ou minimizar os problemas que a Cartografia dos pontos revelou. Estas ações inserem-se nas linhas programáticas já desenvolvidas pela Diretoria de Livro, leitura e literatura e buscam garantir os direitos culturais dos indivíduos, reconhecer suas formas de vida em suas dimensões simbólicas e materiais, o enriquecimento de seu repertorio e a ampliação de sua capacidade de ação cultural sobre a realidade. “Os direitos culturais devem garantir aos indivíduos e às coletividades o direito à criação, ã fruição, à difusão de bens culturais, além do direito à memória e à participação nas decisões das políticas culturais” (Silva e Araújo: 2010, p.11). As linhas programáticas da DLLL fazem parte do planejamento e da atuação do Estado a fim de incentivar, multiplicar, consolidar e reconhecer circuitos culturais, articulando-os e coordenando-os em diferentes escalas (idem, p.12).
1. 1.2. Proposta de Ação 2014 Linha programática democratização do acesso Produto: Novos Espaços de Leitura Edital em 2014, para novos pontos, pontões de leitura e pontos de literatura indígena (descentralização para estados e municípios). Justificativa: ampliação do número de pontos e pontões de leitura, a fim de contemplar a maior variedade de públicos propostos como prioritários pelo MinC, considerando os investimentos do Programa Mais Cultura e áreas prioritárias da Agenda Social do Governo Federal (Territórios da Cidadania, Territórios da Paz, Semi-árido, etc); Meta: 300 novos pontos de leitura e 10 novos pontões de leitura – 02 em cada região do país.

Do total de 300 novos pontos de leitura, serão destinados recursos para implementação de no mínimo 30 Pontos de Literatura Indígenas e 30 Pontos de Leitura em áreas de comunidades de matriz africanas e tradicionais. Valor do investimento: R$ 30 mil reais por ponto de leitura e R$ 200 mil reais para pontões de leitura. Valor do investimento: R$9.000.000,00 (pontos de leitura) e R$ 2.000.000,00 (pontões). Valor total: R$ 11.000.000,00 2. 2.1. Proposta de Ação 2012 Linha programática fomento à leitura e mediadores de leitura Produto: Formação e Manutenção de Mediadores e Agentes de Leitura Edital em 2012 para Bolsa de complementação de renda para Mediadores e Agentes de Leitura em Pontos de Leitura. Justificativa: há necessidade de investimento do Estado para manter o ponto de leitura aberto à comunidade, com recursos humanos capacitados para intervirem como mediadores e agentes de leitura, pois muitas vezes ele é o único equipamento cultural disponível. Esta necessidade vem de encontro à realidade encontrada nos pontos em que 63% dos pontos não têm recursos para manter bibliotecária; 66% dos pontos não têm recursos para manter bolsistas e monitores; 82% dos pontos não têm recursos para manter oficineiros e formadores; 63% dos pontos apontam que é necessário investimento para manter e qualificar recursos humanos. Meta: 500 bolsas de 25h semanal, por 12 meses, renováveis por mais 12, para formação e manutenção no ponto de leitura de agentes de leitura. Valor da bolsa R$ 350,00. Valor do investimento anual: R$ 2.100.000,00 Valor do investimento 2012/2013; R$ 4.200.000,00 Produto: Novos Projetos Sociais de Leitura Edital em 2013 para seleção de 250 projetos sociais de leitura e literatura Justificativa: Existe necessidade de circulação e experimentação de projetos focados nas áreas de livro, leitura e literatura, visando que essas tecnologias sociais desenvolvidas em pontos de leitura cheguem até outros pontos de leitura. A proposta deste edital considera o fato de que 82% dos pontos mantêm projetos de hora do conto e contação de histórias e já desenvolveram várias tecnologias sociais nesta área que podem ser replicadas em novos contextos; Apenas 14% dos pontos participam de redes sociais e 37% dos pontos desenvolvem atividades voltadas à cultura digital, embora todos tenham recebido equipamento de informática, o que indica que projetos exemplares podem colaborar para ampliar sua articulação comunitária e inseri-los em outras plataformas; 51% dos pontos não desenvolvem atividades visando a formação de leitores críticos; 51% dos pontos não desenvolvem atividades para preservação e divulgação da memória e da história oral da comunidade; 44% dos pontos não possuem oficinas literárias; 51% dos pontos não desenvolvem oficinas de produção textual; 88% dos pontos não realizam ou participam de feira de livro; 66% dos pontos não fazem roda com autores; 57% dos pontos não realizam saraus. Meta: Reconhecer e premiar projetos sociais relevantes e exemplares de leitura e literatura, nas seguintes áreas: • Contação de histórias • Cultura Digital • Produção textual

2.2. Proposta de Ação 2013

5. 5.1. Proposta de Ação 2011

• Leitura e literatura • Memória e oralidade • Feira de livro e eventos literários na comunidade • Economia da cultura • Rede social • Literatura Indígena • Literatura de matriz africana • Literatura Infantil e Juvenil Meta: seleção de 250 projetos sociais de leitura e literatura exemplares, 50 em cada região do país, já existentes nas comunidades, com indicadores e avaliação, e que tenham condições de ser replicados em outros pontos de leitura. Prêmios de R$ 30.000,00 Investimento: R$ 7.500.000,00 Linha programática desenvolvimento da cadeia criativa e produtiva do livro Produto: Bolsas de criação, formação, residência e intercâmbio literário Incluir no edital para Bolsas de criação, formação, residência e intercâmbio literário, critérios de seleção de projetos que privilegiem públicos relacionados aos investimentos anteriores da DLLL/MinC, com destaque para autores emergentes oriundos de povos e comunidades tradicionais e periferia. Justificativa: responder afirmativamente a uma demanda do Colegiado Setorial do Livro, leitura e literatura da CNPC que, desde 2006, sinaliza a necessidade de promover o incentivo aos autores, inéditos e editados, por meio de bolsas de criação; circulação e intercâmbio nacional e internacional, concursos e prêmios literários: Bolsa de Criação Literária – para desenvolvimento de projetos literários de escritores e poetas. A cada ano seriam concedidas 100 bolsas em todo país, no valor de R$ 1.500,00 a R$ 3.000,00 mensais para cada contemplado, pelo prazo de seis meses a um ano, dependendo dos gêneros e critérios da comissão julgadora. (Castilho: 2010, p.104). Meta: 20% das bolsas para autores emergentes oriundos de povos e comunidades e periferia. Produto: Feiras e bienais de livros, festivais e jornadas literárias Programação Cultural da Rede dos Pontos de Leitura e Bibliotecas Comunitárias em feiras e bienais de livros, festivais e jornadas literárias. Proposta participarem 05 feiras anuais (uma em cada região do país, a ser decidida conjuntamente pela DLLL e a rede) Seleção de Pontos de Leitura: edital público. Programação: • Manhã: Lítero-ativismo – Roda de prosa com escritores e ilustradores locais – espaço para o encontro com os escritores/ilustradores locais com seus leitores. • Tarde: Roda de Mestres e Contadores de História – espaço para contação de histórias e compartilhar a memória, saberes e fazeres das comunidades e povos tradicionais. • Tarde: Lítero-ativismo – espaço para a divulgação de literatura infanto-juvenil. • Noite: Sarau da Lelelê – espaço para leitura de poesias, contos e cantos. • Ponto de Leitura na Feira – espaço para conhecer o kit que foi entregue aos pontos de leitura. • Encontro da Rede dos Pontos de Leitura e Bibliotecas Comunitárias.

5.3. Proposta de Ação 2012/2014

Estrutura necessária: Negociação de espaço na feira, equipamentos e divulgação incorporada ao Circuito Nacional de Feira de Livros. Meta: participação de 40 integrantes de pontos de leitura da região. Investimento anual:R$180.000,00. Investimento 2012/2014: R$540.000,00

RESULTADOS
Em 2011 conseguimos: 1. articular a rede nacional dos pontos de leitura; 2. organizar espaço no googlegroups e no culturadigital.br para os pontos de leitura; 3. realizar um mapeamento do estado da arte com a participação de 48% dos pontos de leitura ; 4. finalizar cadastro nacional dos pontos de leitura do Edital de 2008; 5. inserção dos pontos de leitura como beneficiários das assinaturas dos periódicos culturais; 6. realizar reunião com os pontos de leitura dos estados do Rio de Janeiro, Pernambuco, Pará, Bahia, Ceará, Rio Grande do Sul; 7. organizar a participação dos pontos de leitura na FLIP, Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, Bienal Internacional do Livro de Pernambuco; Feira do Livro de Porto Alegre, ENECULT; 8. inserir os pontos de leitura dos editais Mais Cultura (descentralizados) da Bahia, Ceará, Fortaleza/CE, Canoas/RS e São Leopoldo/RS na rede nacional dos pontos de leitura.

ENTRAVES E DIFICULDADES
Em 2011 o foco da Diretoria foi garantir a continuidade dos editais já realizados, pois como se sabe, a partir de 2009, os pontos de leitura entraram no escopo das ações descentralizadas do Programa Mais Cultura como parte dos convênios firmados entre a SAI/MinC e os entes federados. Mantendo-se o mesmo conceito, os pontos de leitura ganharam o formato de editais estaduais e municipais dos quais foram 18 convênios foram pagos ou parcialmente pagos.

PROPONENTE U F C C Fundação Pedro Calmon B A Secretaria de Cultura do Estado C E Secretaria de Cultura de Fortaleza C E Prefeitura Municipal de Anápolis G O Secretaria de Cultura M A Secretaria de Educação e Cultura P B Secretaria de Cultura do Estado R J Prefeitura de Nilópolis R J Prefeitura do Rio de Janeiro R J Prefeitura de Canoas R S Prefeitura de Parobé R S Prefeitura de São Leopoldo R S S S P S Joinville S C São Lourenço do Sul R S P S Consorcio Intermunicipal S Culturando Consórcio Intermunicipal do Alto R Uruguai – CIRAU TOTAL Prefeitura Municipal de Bento R Gonçalves Prefeitura Municipal de Dois R Irmãos Prefeitura de São Bernardo do S Campo Cachoerinha R Prefeitura Municipal de Rio A Branco Fundação Elias Mansour A

UNID 5 10 260 21 18 4 12 10 100 10 20 15 3 6 10 4 20 5 20 2 20 24 599

VALOR TOTAL 101.100,00 200.000,00 5.200.000,00 420.000,00 360.000,00 80.000,00 240.000,00 200.000,00 2.000.000,00 200.000,00 421.560,00 300.000,00 60.000,00 120.000,00 200.000,00 80.000,00 400.000,00 100.000,00 400.000,00 40.000,00 400.000,00 480.000,00 12.002.660,00

VALOR MINC 79.020,00 360.000,00 280.000,00 64.000,00 160.000,00 133.333,33 2.000.000,00 160.000,00 413.128,80 240.000,00 48.000,00 96.000,00 160.000,00 49.000,00 320.000,00 20.000,00 80.000,00 8.000,00 80.000,00 96.000,00 4.895.482,13

E m 201 0 fora m lanç ados

11 editais referentes a um total de 382 pontos de leitura: Fundação Elias Mansour/AC, Fundação Pedro Calmom/BA, Secretaria de Cultura do Estado/CE, Secretaria de Cultura de Fortaleza/CE, Secretaria de Cultura do Estado/MA, Secretaria de Educação e Cultura/PB, Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro/RJ, Prefeitura de Canoas/RS, Prefeitura de São Leopoldo/RS, Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves/RS, Secretaria de Cultura do Maranhão/MA. Dos editais já lançados conseguimos articular à rede nacional os já citados Bahia, Ceará e Rio Grande do Sul, os demais seguem sem acompanhamento.

Principais dificuldades: a) Acompanhar/avaliar/qualificar as ações desenvolvidas pelos pontos de leitura, tanto no aspecto qualitativo quanto quantitativo; b) Fomentar e alimentar com informações a rede nacional e redes locais dos pontos de leitura; c) Ausência de política pública voltada para a continuidade e qualificação das ações; d) Ausência de ponto focal na DLLL para acompanhar as ações dos pontos de leitura (minha consultoria limitou-se a mapear as ações a fim de relacioná-las à cadeia criativa do livro, a organização da rede e a participação em eventos foi também com essa finalidade. É necessário, portanto, uma pessoa encarregada do acompanhamento e avaliação das ações, bem como visitas e encontros locais); e) Compreensão, por parte da DLLL, dos pontos de leitura apenas como espaços de leitura, relacionando-os assim somente com cadeia mediadora, desconsiderando seu potencial como cadeia criativa (presença de autores em 44% dos pontos) e produtiva (cooperativas e incubadoras); f) Inarticulação das ações: as possibilidades de ação conjunta e colaborativa entre pontos de leitura e agentes de leitura, bibliotecas comunitárias, bibliotecas públicas e demais beneficiários das ações da DLLL e do MinC são desconsideradas e tornadas assim irrelevantes. Para além de uma política de investimento, vemos a necessidade de investir em parcerias com Programas já instituídos no MinC, com destaque aos Pontos de Cultura, pois os dados do IPEA (2010) indicam que 52% dos Pontos de Cultura têm como foco a literatura, 59% o teatro, 25% o grafite, 35% as artes gráficas, 43% a fotografia, entre outras linguagens que dialogam com o livro, leitura e literatura. Além disso, os Pontos e Pontões de Cultura, no mais das vezes, “são os únicos equipamentos culturais de muitas cidades brasileiras, daí sua importância como política pública que promova acesso aos equipamentos culturais” (Saraiva: 2010, p.11). Se entendermos que um dos objetivos da cadeia criativa do livro é criar espaço para o encontro com escritores, autores e leitores, fomentar parcerias com universidades a partir de projetos de pesquisa e extensão, interlocução dos agentes de leitura com os agentes escola viva, agente cultura viva e griôs e griôs aprendizes, podemos compreender que o ponto de cultura ou o ponto de leitura, como espaços já instituídos e credibilizados junto a comunidades e com equipamentos culturais disponíveis, podem ser também um espaço para permitir o acesso da comunidade ao

livro, leitura e literatura, e o encontro entre o leitor e o autor. Regra geral, os Pontos de Leitura são também Pontos e Pontões de Cultura, com exceção das iniciativas das pessoas físicas. Um bom exemplo é o Ponto de Leitura A Bruxa tá Solta que é Ponto de Leitura, Ponto e Pontão de Cultura, trabalha com escola, juventude, cultura digital, economia da cultura, cultura e saúde, interações estéticas, mídia livre, griôs e mestres dos saberes tradicionais, indígenas, quilombolas, além de facilitar a rede dos pontos da região norte e fazer parte da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura. Outro exemplo, desta vez no sul do país, é o Ponto e Pontão de Cultura Odomodê, que mesmo sem ser Ponto de Leitura, trabalha livro, leitura e literatura e com o registro de histórias e memórias de indígenas e quilombolas na região sul e centro-oeste do país, tendo já organizado vários livros de literatura na área. No centro-oeste, temos a Guaimbê que é Ponto e Pontão de Cultura, Ponto de Leitura, trabalha com escola, juventude, economia da cultura, cultura e saúde, interações estéticas, mídia livre, griôs e mestres dos saberes tradicionais. No nordeste, temos o iTEIA, que é um sítio de acervo que recebe e distribui a produção cultural de pontos de cultura, artistas, escritores e é referência na área, pois trabalha com software e licenças livres. Esses e outros exemplos demonstram o potencial dos pontos de cultura como parceiros para fomentar e qualificar a cadeia criativa e a economia do livro, a partir da interlocução que eles possibilitam com a cultura popular, a cultura digital e a cultura produzida nas periferias e interior dos estados. Os Pontos de Leitura são espaços importantes já constituídos para dar resposta ao desafio que é a criação de condições propícias ao aumento da diversidade das manifestações literárias, incorporando as experiências sociais existentes, os diferentes suportes para o livro, os saberes tradicionais, para a promoção da inclusão, simultaneamente cultural, social e econômica, de novos e múltiplos autores. Nesta ação existe grande potencial para promover a inclusão social, para requalificar espaços culturais, para ativar políticas que se ocupam do desenvolvimento sustentável da cadeia

criativa do livro, para além de uma política de editais, porque, se, atualmente, existe um
grau de dependência com relação aos editais e outros incentivos governamentais, existe também uma economia da cultura cujo foco é a sustentabilidade financeira em direção à autonomia. CARTOGRAFIA DOS PROGRAMAS DE BOLSAS NA ÁREA DO LIVRO, LEITURA E LITERATURA – FBN, FUNARTE, MEC, MDA, PETROBRAS e DLLL Esta pesquisa tem como referência os documentos disponíveis nos sítios eletrônicos da FBN, Funarte, Petrobrás, MDA e MEC, as trocas de mensagens eletrônicas

com as pessoas responsáveis pelo acompanhamento das ações e troca de mensagens eletrônicas com os premiados e contemplados nestes editais. Apresentaremos, inicialmente, um pequeno resumo contendo os dados principais de cada um destes editais: seus objetivos, critérios de avaliação e a sistematização dos dados dos projetos e depoimentos de autores contemplados, para contextualizar o item seguinte que é a análise destes dados, verificar os limites e as possibilidades de cada edital a fim de ter subsídios para propor um modelo de edital para a Diretoria. O objetivo de conhecer e analisar estes editais é aprender e dialogar com a experiência, propondo ações que irão complementar e qualificar a politica do Governo Federal para a área de livro, leitura e literatura, com foco na cadeia criativa do livro. Entendemos que para nossos objetivos – compreender a proposta de edital de cada programa – não é necessário analisar os projetos selecionados, pois os editais detalham o objeto, as condições de participação, bem como os critérios de seleção, caracterizando o perfil dos habilitados e os próprios critérios de seleção – ou sua ausência – nos indica a que públicos prioritários estas ações são dirigidas. Em nosso contato com as coordenações dos editais, conseguimos respostas – bem sintéticas - às nossas questões sobre impactos, resultados e acompanhamento dos projetos selecionados, em alguns casos conseguimos acesso ao banco de dados e lançamos um questionamento direto aos beneficiários, mas em nenhum caso tivemos acesso aos projetos – organizados em arquivos físicos - porque nossa viagem ao Rio de Janeiro, para pesquisar este material na FBN, Funarte e Petrobras foi cancelada em função da impossibilidade de emissão de passagem em tempo hábil. Conseguimos, no entanto, informações parciais sobre os projetos nos sítios eletrônicos das instituições e através de troca de mensagens – com coordenação de edital e beneficiários - e conseguimos montar uma cartografia que, para os fins desta pesquisa, é suficiente, pois não podemos perder de vista o objetivo desta análise: subsídios para uma proposta de política pública para o fortalecimento da cadeia criativa do livro. A ideia que nos move é que a expertise em editais destas instituições pode servir de parâmetro para a proposta formulada pela Diretoria e podemos aprender com estas experiências.

EDITAIS DA FBN
Por isso, nestes últimos anos, a administração pública brasileira, onde se inclui o Ministério da Cultura e sua vinculada, a Biblioteca Nacional, vem procurando firmar e estabelecer como prioridade a necessidade de promover e institucionalizar quatro funções básicas de planificação: prospectiva, ou visão de larga amplitude e prazo, coordenação, avaliação e organização estratégica. Estas funções ou tarefas, independentemente da

institucionalidade que prevaleça, permitirão definir uma visão de futuro compartilhada, facilitarão a formulação apropriada de planos e políticas multissetoriais, e apoiarão gestão por resultados, por se conhecerem os impactos e o cumprimento de metas dos projetos e programas, respaldando uma maior participação, de maneira descentralizada e efetiva. (...) Por último, teríamos o nível operativo (BN), espaço no qual se desenham e se executam projetos e programas no nível setorial, local, com limites temporais mais curtos e propósitos bem mais específicos. Esta tarefa, crucial para alcançar as metas de desenvolvimento integral, pressupõe uma sintonia com as grandes orientações de ordem nacional, bem como um financiamento adequado e oportuno, um respaldo técnico e humano de modo descentralizado e um esforço sistêmico, onde as regras, os princípios, os recursos e a própria instituição interagem ordenadamente. Só assim é possível estabelecer uma coordenação tanto vertical quanto horizontal entre os níveis estratégico, tático e operacional, e onde o largo prazo das metas estratégicas se articule com o curto prazo dos projetos. (...) Buscando atingir a meta de acessibilidade ao livro e à difusão da cultura brasileira no país e no exterior, a FBN promove os Prêmios de Literatura e concede bolsas a jovens escritores e de tradução. Dissemina, deste modo, a diversificada cultura brasileira (Relatório de Gestão FBN 2010: 2011, p. 10-16).

A Fundação Biblioteca Nacional mantém um Programa de Bolsas e Co-edições para dar sustentabilidade financeira aos autores em fase de produção. Estas bolsas têm o objetivo de incentivar a pesquisa, a criação literária nacional, estimulando o escritor a concluir obra autoral, e a tradução para outros idiomas de livros de escritores brasileiros, editados em língua portuguesa. A FBN/MinC lança, anualmente, três editais no âmbito do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa. As bolsas contemplam três modalidades: Programa Nacional de Apoio à Pesquisa, Programa de Apoio à Tradução de Autores Brasileiros e Programa Nacional de Bolsas para Autores com Obras em Fase de Conclusão.

PROGRAMA NACIONAL DE APOIO À PESQUISA
Seleção de projetos com o objetivo de incentivar a pesquisa e a produção de trabalhos originais a partir do acervo da FBN/MinC para a concessão de bolsas de pesquisa, pelo período de um ano, sem renovação, nas áreas de Ciências Humanas, Sociais, Linguística, Letras e Artes. As bolsas têm os seguintes valores: • • Nível 1: candidato com doutorado completo - R$ 2.200,00 Nível 2: candidato com mestrado completo - R$ 1.700,00

Nível 3: candidato com 3º grau completo ou pós-graduação lato sensu R$ 1.200,00

Desde 2004 foram distribuidas 135 bolsas:
Ano 2004 2006 2007 2008 2009 2010 Total No. de Bolsas 10 19 29 45 15 17 135

A FBN, condizente com sua vocação para acervo, tombamento e memória do livro mantém uma política de editais voltados para pesquisas a partir do seu acervo e produz conhecimentos relevantes, que são publicados em diversos periódicos e são disponibilizados em sua página eletrônica. A política de pesquisas que a FBN mantém permite que pesquisadores e acadêmicos tenham acesso a documentos importantes que, de outra forma, não estariam disponíveis e em condições de manuseio. O impacto e resultados destas pesquisas ainda não foram mensurados pela FBN, que não possui um mecanismo de acompanhamento e avaliação dos projetos selecionadas. Quando questionada a este respeito, a Coordenadoria de Pesquisa da FBN informou que
em relação ao Programa Nacional de Apoio à Pesquisa não formam feitos estudos de impacto. Sabemos, informalmente, que o Programa tem boa receptividade no meio acadêmico, através da demanda por informações para novos concursos ou em citações nos subprodutos dos projetos (trabalhos em eventos acadêmicos). Reconhecemos, também, nos projetos de bolsas de pesquisa a extensão de trabalhos acadêmicos, através da análise de currículos e entrevistas no contato inicial com o bolsista.

Em relação a esta ausência de acompanhamento e avaliação de resultados, a lamentamos, pois vemos que ela é fundamental para que se possa mensurar o valor e a importância de um programa, bem como subsidiar decisões acerca dos mesmos. Sem dados concretos, as decisões baseiam-se em senso comum e interesses políticos, que embora presentes e constituintes das políticas públicas não deveriam ser os únicos critérios para fundamentar sua existência e manutenção. Sugerimos à coordenação de

programas da FBN incorporar em seus editais procedimentos de acompanhamento e avaliação, bem como indicadores de resultados.
O planejamento governamental constitui-se em instrumento essencial para transpor a tendência imediatista e desestruturadora do cotidiano administrativo, estabelecendo uma ponte entre as ações de curto prazo e a visão de futuro materializada, dentre outras formas, no planejamento intersetorial em bases territoriais. (Brasil: 2010c, p.9)

Nas versões anteriores do edital da FBN para apoio à pesquisa existia uma terceira categoria, voltada a candidatos com graduação completa ou pós graduação latu senso. Nesta edição, essa última categoria foi eliminada, mas serão aceitos, no nível 1 doutores ou doutorandos e no 2, mestres ou mestrandos, o que amplia o leque de pesquisadores, que nas edições passadas, teriam que ser mestres ou doutores. Os valores da bolsa são os mesmos de 2010:
As bolsas serão divididas em duas categorias:!! 1. Bolsas para doutores ou doutorandos (matriculados como alunos regulares em programas de doutorado reconhecidos pela Capes), no valor unitário de 26.400,00 (vinte e seis mil e quatrocentos reais), dividido em 12 (doze) parcelas mensais de 2.200,00 (dois mil e duzentos reais); ! 2. Bolsas para mestres ou mestrandos (matriculados como alunos regulares em programas de mestrado reconhecidos pela Capes), no valor unitário de 20.400,00 (vinte mil e quatrocentos reais), dividido em 12 (doze) parcelas mensais de 1.700,00 (um mil e setecentos reais) (cfe. Edital 2011 in: http://www.bn.br/portal/index.jsp?nu_padrao_apresentacao=25&nu_ item_conteudo=1959&nu_pagina=1, acesso em 23/10/2011).!!

Mesmo sem um projeto para acompanhamento e avaliação de resultados, em seu Relatório de Gestão 2010 (2011), a FBN considerou como aspecto positivo a coesão da equipe e o alto grau de produção, não obstante limitação orçamentária. Em relação ao que foi realizado, a equipe da FBN destaca o seguinte: a) Produção de ferramentas difusoras de conhecimento e facilitadoras do acesso à informação contida no acervo sob a guarda da Biblioteca Nacional, b) Realização de pesquisas e produção de bibliografias, publicações, exposições presenciais e virtuais, seminários e estudos diversos e c) Realização, no âmbito interno, de estudos para aperfeiçoar o regulamento do processo seletivo de bolsas (Brasil: 2011b, p.30 grifo nosso). Estes estudos permitiram que a FBN ampliasse seu repertório temático no edital de 2011, como veremos abaixo.

No produto 04 sugerimos que a FBN deveria incluir a cadeia criativa do livro – o

livro, leitura, literatura e bibliotecas - entre os temas a serem contemplados por bolsas
de pesquisa, e assim colaborar para que se crie um espaço multidisciplinar, financiado pelo Estado, para o estudo de políticas culturais dentro desta temática, para dar visibilidade acadêmica e social ao assunto. Em edital lançado em outubro de 2011, a FBN irá selecionar o mesmo número de projetos de pesquisa que a edição de 2010, mas ampliou seu escopo de pesquisa e apoiará 17 trabalhos desenvolvidos nas áreas de Artes, Biblioteconomia, Ciências Sociais, Comunicação, Design, Educação, Filosofia, História, Literatura (incluindo a tradução de obras brasileiras no exterior) e Música.!!
O edital deste ano dará prioridade aos projetos que contemplem temas em dois grandes eixos: ! 1.Cultura letrada brasileira, especialmente no âmbito dos estudos do Livro, Imprensa Periódica, Leitura, Escrita, Bibliotecas, Livrarias, Editoras, Design, Artes Gráficas, Produção Editorial, Vida Literária, Literatura Popular, Direitos Autorais, Autores, Tradutores, Ilustradores e outros agentes do mundo do livro. !2. Relativos a efemérides: relações Alemanha-Brasil (imigração alemã no Brasil, arte alemã no acervo da FBN, à presença brasileira na Feira do Livro de Frankfurt etc.), aos escritores Rubem Braga, Vinícius de Moraes, ao historiador José Honório Rodrigues, ao prefeito Pereira Passos, à artista Tomie Ohtake, ao Barão de Mauá, ao cantor e compositor Jamelão e às Copas do Mundo de Futebol.!! O projeto de pesquisa deverá, obrigatoriamente, contemplar, como fonte ou objeto o acervo da Biblioteca Nacional, em qualquer uma de suas partes: geral, periódicos, livros raros, manuscritos, iconografia, cartografia ou música (cfe. Edital 2011 in: http://www.bn.br/portal/index.jsp?nu_padrao_apresentacao=25&nu_ item_conteudo=1959&nu_pagina=1, acesso em 23/10/2011, grifo nosso).!!

Como pode-se observar acima, nos temas grifados, a FBN incorporou a sugestão desta consultoria de tematizar as demandas da cadeia criativa do livro em sua proposta de apoio à pesquisa e, se houver projetos aprovados na área, podemos esperar para o final do próximo ano, a divulgação dos resultados das primeiras pesquisas. Vale retomar a ideia, já esboçada no produto 02 (Labrea: 2011b), da necessidade de organizar uma

rede de pesquisadores e de uma linha editorial para dar vazão ao material produzido
nestas pesquisas. Propomos que a DLLL/FBN forme uma parceria com a Fundação Casa de Rui Barbosa – que já possui expertissse neste assunto, como, por exemplo, a rede de pesquisadores do Programa Cultura Viva - para criação desta rede de pesquisadores, cuja linha de pesquisa – estudos culturais, políticas públicas de livro, leitura e literatura – produza conhecimentos que possam ser publicizados a partir de uma linha editorial –

publicação de livro, revistas e acervo on-line - e da organização de um banco de dados consistente sobre os autores e pesquisadores no país. É necessário, igualmente, encontros e seminários com universitários e pesquisadores da cadeia criativa, bem como um espaço virtual para dar visibilidade a um banco de dados voltado aos escritores e ilustradores e veicular notícias, eventos, publicações relacionados ao tema. Nesse sentido, podemos pensar em uma linha editorial, lançando uma Revista do Livro, Leitura e Literatura como um espaço de comunicação e difusão dos conhecimentos produzidos, bem como organizar e manter uma biblioteca – mesmo que virtual - de monografias, dissertações, teses e artigos disponíveis para consulta. Nossa proposta de linha editorial e blog foi apresentada e detalhada no produto 02 desta consultoria. A FBN possui uma Coordenação de Editoração que em 2010 publicou cerca de 20 obras, como

Poesia Sempre, Anais, Revista do Livro, Edições fac-simile, entre outras e esta poderia
incorporar uma nova revista ou mesmo incluir nas já existentes a ampliação da temática de pesquisa, criando um espaço necessário para dar visibilidade e credibilidade a uma linha de pesquisa até então inexistente no país.

PROGRAMA DE APOIO À TRADUÇÃO DE AUTORES BRASILEIROS - FBN
Com o objetivo de difundir a cultura e a literatura brasileiras no exterior, o Programa concede bolsas a editoras nacionais e estrangeiras que desejam traduzir, publicar e distribuir no exterior livros impressos e digitais de autores e editoras nacionais previamente editados no Brasil, para apoiar a tradução do autor brasileiro, nos seguintes gêneros literários: romance, conto, poesia, crônica, obra de referência, infantil e/ou juvenil, ensaio literário, ensaio social, ensaio histórico e antologias de poemas e contos. Embora exista desde 1993, houve anos em que não houve seleção de obras literárias e o valor da bolsa é considerado muito baixo pelo mercado editorial. Outro problema muito ressaltado pelos agentes literários era o caráter absolutamente aleatório dos prazos para apresentação de propostas (cfe. Lindoso: 2011).
Essas questões encontraram resposta e encaminhamento no último edital lançado pela Fundação Biblioteca Nacional (http://www.bn.br/portal/arquivos/pdf/Edital-de-Traducao-FBNMINC-2011-2012.pdf), que apresenta várias novidades. A primeira delas – e uma das mais importantes – é a perspectiva de continuidade a longo prazo e flexibilidade para apresentação das propostas. O edital já reserva recursos (R$ 2.700.000,00) para 2011 e 2012 – prevendo a publicação dos livros até agosto de 2013 – e estabelece a continuidade do programa até 2020, com a alocação bienal de recursos. A data de 2020 faz coincidir o programa de apoio às traduções com o PNLL e o Plano nacional de Cultura. Além de continuidade, o edital estabelece que não mais haverá prazo para a

entrega de propostas. Todas as que forem apresentadas em um trimestre serão analisadas e decididas em março, junho, setembro e dezembro de cada ano, com a divulgação dos resultados em trinta dias. Essa medida permitirá às editoras que apresentarem propostas uma rápida solução da pendência e a programação mais tranquila da tradução e da programação. Um segundo ponto importante é que as bolsas de apoio preveem também o auxílio para reedições de traduções previamente publicadas que já estiverem esgotadas e fora do mercado há pelo menos três anos. Nos anos setenta, e até meados dos anos oitenta, houve uma grande quantidade de traduções de autores brasileiros publicados em vários países – era o rescaldo do boom da literatura latino-americana – e que atualmente estão fora do mercado. Com a abertura do edital, várias dessas obras poderão eventualmente voltar ao mercado exterior. Um terceiro ponto importante é a exigência que a editora apresente um plano de comercialização e marketing do livro traduzido, e a consistência desse plano pesará na definição do valor do auxílio. O edital é de apoio “à tradução e à publicação”, de modo que há espaço para os beneficiários prestarem atenção a esse aspecto crucial do lançamento de um livro, que são as ações de divulgação. Como não basta declarar as boas intenções, as editoras terão que produzir relatórios sobre o desempenho do livro e o cumprimento desse plano por um período de dois anos após a publicação. O edital, dessa forma, possibilita que as editoras que se prepararem (e a falta de preparação das editoras brasileiras para entrar no mercado internacional ainda será abordada em outra coluna) possam apresentar em Frankfurt, em outubro, e em Guadalajara, em dezembro, propostas viáveis de tradução de romances, contos, poesia, crônicas, literatura infantil ou juvenil, obras de referência, ensaios literários e de ciências sociais, históricos e antologias (Lindoso in: http://www.culturaemercado.com.br/pontosde-vista/a-traducao-da-literatura-brasileira/. Acesso em 10 de outubro de 2011).

A seleção das inscrições no Programa de Apoio à Tradução de Autores Brasileiros é realizada pelo Conselho Interdisciplinar de Pesquisa (CIP), que tem os seguintes critérios de seleção: a) excelência do autor e do livro a ser traduzido; b) excelência do catálogo editorial da editora proponente; c) relevância estratégica do idioma a ser traduzido, para a promoção e divulgação da literatura brasileira (cfe. Edital II 2010). Podem ser livros nunca traduzidos para o idioma indicado, uma nova tradução naquela língua ou até mesmo obras já traduzidas e que estejam esgotadas ou fora de mercado há pelo menos três anos. Para os dois primeiros casos, há bolsas de US$ 2 mil a US$ 8 mil e para o último, de US$ 1 mil a US$ 4 mil. Para o período 2011/2012 o edital do Programa de Apoio à Tradução e Publicação de Autores Brasileiros no Exterior prevê R$ 2,7 milhões. Entre os autores brasileiros, os que tiveram pelo menos duas demandas de traduções no exterior, em 2010, estiveram nomes como Jorge Amado, Alberto Mussa,

Luis Fernando Veríssimo, Moacyr Scliar, Chico Buarque, Machado de Assis e Bernardo Carvalho. O Programa de Apoio à Tradução de Autores Brasileiros e Publicação de Reedições está disponibilizando R$12 milhões, do Fundo Nacional da Cultura (FNC), para a divulgação de obras brasileiras no mercado internacional. Os recursos foram oferecidos a editoras estrangeiras que desejarem traduzir, reeditar, publicar e distribuir, no exterior, livros impressos e digitalizados de autores e editoras nacionais. O Programa está acessível nos seguintes gêneros literários: romance, conto, poesia, crônica, obra de referência, infantil e/ou juvenil, ensaio literário, ensaio social, ensaio histórico e antologias de poemas e contos. Este recurso é para ser gasto ao longo de 10 anos e representa um compromisso da atual gestão do MinC em dar visibilidade no exterior à produção nacional, pois embora exista desde 1993, houve anos em que não houve seleção de obras literárias. Em 2010, o edital teve 02 edições e foram contemplados 67 projetos, indicando um crescimento nos investimentos, pois até então a media era de 23 projetos anuais. Os projetos contemplados em 2010 foram distribuídos da seguinte forma:
Valor R$4.000,00 R$6.000,00 R$8.000,00 R$10.000,00 R$12.000,00 U$6000,00 U$5000,00 U$4000,00 U$3000,00 U$2000,00 U$1000,00 País Brasil (2) Brasil (4) Brasil (3) Brasil (2) Brasil (2) Hungria, Bulgaria, França, Croácia Suécia, Itália, França, Grécia, Israel, Romênia, Espanha Espanha (2), México (2), Suécia, Suiça, Romênia (4), França, Estados Unidos (2), Argentina (5), Chile, Reino Unido, Holanda (2), Itália Reino Unido, Líbano, Estados Unidos (2), Argentina (2), Itália Croácia, Itália (2), Ucrânia, Argentina (2) Estados Unidos, Argentina, França, Chile, Peru, Espanha (2)

O Edital de Tradução da FBN é voltado tanto para o fortalecimento da cadeia

produtiva quanto da cadeia criativa do livro, pois mobiliza igualmente editoras e
tradutores, ao incentivar editoras brasileiras e estrangeiras a investir na tradução do autor nacional, para ampliar a circulação da produção literária nacional no exterior. Fábio Lima, da FBN, explica, por e-mail, as principais mudanças neste edital:
Uma das principais mudanças nos aspectos técnicos do programa de

bolsas de tradução foi o estabelecimento de um período de inscrições sem prazo final. As editoras encaminham os projetos e, de tempos em tempos, os resultados serão divulgados. Na opinião das editoras, foi uma mudança bastante positiva, pois reforça o caráter de permanência do programa. Outra mudança importante foi estender a concessão de bolsas a reedições de obras já traduzidas. Novos arranjos virão em breve. Alguns pontos serão modificado para faciltar o envio de inscrições e a dinâmica de avaliação.

Embora a FBN não tenha estudos e indicadores sobre o impacto destas publicações e seu público não possa ser mensurado com precisão (cfe. declaração da coordenação do edital no sítio do PNLL), Georgina Staneck, da FBN, acredita que o aumento da publicação de obras nacionais lá fora é reflexo do trabalho de sensibilização desta necessidade pela FBN junto ao governo e do fato de que o Brasil será homenageado em 2013 na Feira de Frankfurt, a maior feira de livros do mundo.
O leque de países que publicam as obras também aumentou. As pessoas estão olhando mais para o Brasil. E o que eles gostam e estão procurando são os autores atuais, nada de clássicos, eles querem o novo Brasil (http://anba.achanoticias.com.br/noticia_educacao.kmf?cod=121374 54).

Não obstante as modificações no teor do edital e o esforço da FBN em dar visibilidade às obras literárias brasileiras no exterior, questiona-se a necessidade de subsidiar editoras estrangeiras para publicar com recursos públicos escritores já com grande visibilidade. Vejamos.
O Ministério da Cultura acha mesmo fundamental subsidiar livro que dará lucro à centenária e bem-sucedida Éditions Gallimard, da França? Chico Buarque necessitaria mesmo desse subsídio? E Edney Silvestre? E Luís Fernando Veríssimo? É uma política de Estado inovadora traduzir Jorge Amado e Drummond em línguas estrangeiras? Justo os que são historicamente mais traduzidos? O governo considera que “política do livro e literatura” resume-se apenas em desonerar editoras e dar-lhes vantagens? Um mercado que faturou R$ 4,5 bilhões em 2010? Que faz fortunas enquanto autores do porte de um Roberto Piva se obrigam a recorrer a "vaquinhas" de amigos para sobreviver? E cujo preço de livro é um dos mais caros do mundo? (Jotabê Medeiros in: http://medeirosjotabe.blogspot.com/2011/11/leite-entornado.html, acesso em 22/11/2011).

Estas questões, retomadas e atualizadas em diferentes discursos nas redes e na mídia cultural, demonstram que espera-se que programas mantidos com recursos públicos sejam ajustados para atender autores e editoras que não seriam traduzidos de outra forma. Retomamos aqui a ideia que reiteramos ao longo da pesquisa: os recursos do Estado devem ser priorizados para atender públicos que, sem as políticas públicas ficariam à margem dos circuitos culturais. Essa ideia não é nova, tampouco original,

consta no PPA 2008-2011, ao se definir públicos e territórios prioritários para a Agenda Social do Governo Federal, onde se situa as ações do MinC. O desafio são políticas públicas que cumpram essa Agenda. Em entrevista realizada com Daniel Munduruku, importante escritor indígena, foi sugerida uma nova categoria para este edital: tradução de obras brasileiras para línguas indígenas, pois inexistem livros de literatura brasileira em línguas indígenas e os mesmos argumentos em prol da difusão da literatura brasileira no exterior justificam este investimento do Estado. Igualmente existe uma necessidade de (re)conhecimento da literatura brasileira por leitores indígenas e seria interessante que autores brasileiros circulassem as aldeias e frequentassem escolas indígenas e seus espaços formativos. Além disso, o mercado tem mecanismos para dar visibilidade aos escritores brasileiros no exterior. Um exemplo disso, é o programa Brazilian Publishers, uma iniciativa da CBL em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex-Brasil), criado há dois anos como parte de uma estratégia de promoção do mercado nacional. O Brazilian Publishers realizou um mapeamento do mercado internacional em que identificou áreas estratégicas para a literatura brasileira e oito países foram definidos como mercados principais: EUA, México, Chile, Argentina, França, Alemanha, Coreia do Sul e Japão, e dois secundários: Angola e Moçambique. Segundo este estudo, para promover nossa literatura nesses mercados, o Brasil precisa investir em programas de tradução consistentes, bem como em sistemas de distribuição eficientes e, nesse sentido, os projetos públicos de tradução muitas vezes são decisivos para a publicação e a distribuição da obra literária no exterior e a FBN tem uma posição estratégica nestes investimentos. Outro investimento que a FBN poderia articular junto com o MEC é a criação de disciplinas de Cultura Brasileira nas universidades estrangeiras, com intercâmbio ou residências de autores e ilustradores fora do país para contribuir para que os autores brasileiros contemporâneos sejam conhecidos e lidos no exterior. PROGRAMA NACIONAL DE BOLSAS PARA AUTORES COM OBRAS EM FASE DE CONCLUSÃO A iniciativa tem por finalidade incentivar a criação literária nacional e reconhecer a qualidade de textos de novos escritores brasileiros para conclusão de obras já iniciadas. A seleção contemplará obras dos seguintes gêneros literários: romance, conto, poesia, ensaio literário, ensaio social. O edital para autores em fase de conclusão é voltado diretamente para a cadeia criativa do livro, mas o recurso é exíguo e disponibilizado por muito pouco tempo: poucos bolsistas recebem R$1.000,00 por 06

meses.
2008 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste Total 2009 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste Total 2010 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste

No. de Bolsas 00 00 00 07 00 07

No. de Bolsas 00 01 01 06 00 08

No. de Bolsas 00 00 02 04 00

Total

06

Se observarmos as tabelas acima, que descrevem a distribuição das bolsas pelo território nacional, podemos observar que ela concentra-se na região Sudeste e não contempla as áreas e populações prioritárias do Mais Cultura e do Governo Federal ou mesmo uma distribuição equitativa em todo o território nacional. Além disso, o único critério de seleção das obras, explicitado no edital, refere-se à “qualidade técnica”, sem no entanto defini-la em termos mensuráveis. Ou seja, os critérios de seleção não estão postos no edital e não se tem elementos para questioná-los. Parece-nos um pouco arbitrária essa ausência e, ademais, avaliar um trabalho literário sem levar em conta as condições de produção19 deste trabalho, as territorialidades e subjetividades que ali estão postas, parece reconduzir a condição de autoria a uma mera questão de “talento” ou inspiração e não de trabalho, de construção e reconstrução de mundos, a partir da prática da escrita e da leitura. Em Ler o Mundo (2010), Affonso Romano de Sant’Anna, afirma que a leitura é uma tecnologia, é um saber e pode ser aprendida. Da mesma forma, entendemos que a escrita é uma técnica, um trabalho que, no caso do escritor, envolve também talento e criatividade que, em última análise, resultará na literariedade do texto. E sendo uma técnica é possível mensurar os critérios que a tornam uma obra literária. Sustentamos que estes critérios devem ser amplos o suficiente para incluir textos produzidos por diferentes cosmologias e matrizes simbólicas. No entanto, para parte dos contemplados, o fato do critério se limitar à qualidade técnica da obra é um fator positivo, como podemos ver pelo depoimento abaixo:

19

As condições de produção mostram a conjuntura em que um texto é produzido, bem como suas contradições. Esta noção discursiva teve sua primeira formulação em Pêcheux (1969). Para ele, “as CP remetem a lugares determinados na estrutura de uma formação social”. As relações de força entre esses lugares sociais encontram-se representadas no discurso por uma série de “formações imaginárias que designam o lugar que o destinador e o destinatário atribuem a si e ao outro”, construindo desse modo o imaginário social (cf. INDURSKY, 1997:28). Assim, por exemplo, um texto produzido por um autor localizado na região Sudeste, zona urbana tem condições de produção totalmente diverso de um texto produzido por um autor que vive no Norte do país, em comunidade ribeirinha. Assim, para avaliar a “literariedade” de tais textos, deve-se considerar suas especificidades e singularidades.

Todos os prêmios em questão foram muito importantes para o meu trabalho, uma vez que representaram, no caso das bolsas, um estímulo para a criação de obras que, de outra maneira, dificilmente seriam concluídas, e, no caso dos prêmios, um reconhecimento dos meus esforços em criar algo que tivesse um alcance mais amplo. No caso da Bolsa para autores com obra em fase de conclusão, da Biblioteca Nacional, gostaria de destacar como ponto positivo o fato de a avaliação das propostas se dar através de trechos da obra em formação, e não de um projeto. Explico-me: um autor de bons projetos não é necessariamente um autor de bons livros; e mais importante: um autor de bons livros não é necessariamente um autor de bons projetos. Outro elemento importante é o anonimato dos proponentes, que garante maior lisura e equidade ao processo de seleção. Graças a essa bolsa pude finalizar a contento meu livro O Cânone Acidental, que foi publicado mais tarde por uma editor (Marco Catalão, escritor, SP, contemplado com Bolsas e Prêmios da FBN, MEC e Funarte).

Mas essa posição não é unanimidade, e os critérios de seleção são questionados, como podemos ver no depoimento abaixo:
Alguns concursos em que participei nunca fui premiada ou selecionada, infelizmente. Nos editais da FBN, por exemplo, a equipe de jurados geralmente seleciona e premia autores já consagrados e editoras conhecidas no mercado. A FBN tem premiado os mesmos autores. Para quem está começando nas sendas das letras no Brasil é praticamente impossível sobreviver ou ser selecionado nestes editais. (Machado de Assis - 2008) (Andréa Leal, escritora e ilustradora, Minas Gerais).

O Governo Federal, através de suas políticas de educação e cultura, sem mencionar outras áreas que com elas dialogam, insiste que é fundamental reconhecer as especificidades e singularidades de todos os grupos étnicos e culturais que habitam o país e suas políticas devem contemplá-los igualmente. O critério da qualidade técnica aparentemente contempla escritores urbanos, com alto grau de escolarização, mas não é somente esta população que escreve e produz textos literários e este fato deve necessariamente ser considerado em editais públicos que se proponham ter abrangência nacional. Neste edital, os autores de Literatura Infantil e Juvenil não podem participar, o que nos leva a questionar os motivos deste veto, já que parece ser um consenso entre leitores e educadores que a Literatura Infanto-juvenil de qualidade é fundamental para a formação de novos leitores, pois ela é o primeiro contato com o livro e a literatura que a criança tem e deve, assim, ser estimulada.
Precisamos de projetos que possam nos colocar mais próximos das crianças e jovens, mostrando que a literatura não

é uma arte de gaveta ou de reclusão, mas uma forma viva de se trabalhar a construção do mundo. Os escritores precisam ser mais convidados para atividades que os coloquem dentro de escolas, em comunidades e nos sertões de nosso país (Adriano Messias, escritor infanto-juvenil, SP).

Tiepolo (2010), afirma que a literatura infanto-juvenil, encontrou seu caminho, abandonando o didatismo e o infantilismo e, desde Monteiro Lobato, possui uma forma de contar que continua formando leitores: uma linguagem próxima ao coloquial, mas que nada de simples tem, pois não menospreza o leitor; a rica intertextualidade, que permite ao leitor reconhecer suas referências culturais e conhecer outros mundos; personagens que passaram a integrar a vida dos leitores. Ana Maria Machado (2004) diz que para conquistar para a leitura devemos oferecer livros que podem ser mais simples, divertidos, mas que ao mesmo tempo garantam a exploração de certas ambiguidades de linguagem que caracterizam a literatura, apresentem empregos inusitados do idioma, tragam exemplos de recursos linguísticos criativos e carregados de invenção. Livros em que a simplicidade não seja confundida com a facilidade superficial. Em estudo sobre o perfil do leitor infanto-juvenil, Biasioli (2007) diz que a literatura infanto-juvenil é ainda marginalizada, não recebendo o incentivo que merece e fica circunscrita ao universo da escola e do professor. Novamente é papel do Estado reverter essa situação, reinserindo a Literatura Infanto-juvenil a um papel relevante e reconhecendo o trabalho de escrita do autor do livro infanto-juvenil. A Literatura Indígena, igualmente, necessita ser nomeada e reconhecida neste importante prêmio literário e sua ausência reforça a invisibilidade forçada que uma visão etnocentrista e estereotipada sobre a produção literária dos povos originais impôs e que urge ser superada. O reconhecimento do Estado, neste caso, é fundamental e atualiza o objetivo da política cultural do MinC: provocar mudanças na sociedade através de ações. Ao incorporar em seus já tradicionais e reconhecidos editais a literatura indígena, a FBN adotaria uma visão sistêmica de cultura, considerando as dimensões sociológica e antropológica de cultura. Ailton Krenak, escritor indígena, ao ser questionado sobre as formas que o MinC poderia contribuir para o fortalecimento da cadeia criativa na literatura indígena, sintetiza as necessidades deste segmento:
Para o fortalecimento do trabalho dos escritores e ilustradores indígenas o MinC deveria criar programa específico dirigido a estes criadores indígenas, que não estão ainda conectados a nenhum segmento, salvo raras exceções – pela particularidade que caracteriza as suas criações, estes criadores estão ainda com seus trabalhos restritos a suas

localidades, em muitos casos, em regiões isoladas dos centros urbanos, sem contato com editoras ou espaços que facilitem a realizações de mostras e outras exibições. O MinC poderia promover espaços de exibição e mostras desta produção, estimular a inclusão desta produção no mercado de literatura e outras mídias, além da possibilidade de criar ou apoiar a realização de Concursos de Criação & Arte onde os autores indígenas tivessem a oportunidade de mostrar seus trabalhos.

Sugerimos também reconhecer maneiras não tradicionais de produção, edição e circulação de obras literárias, como e-books e blogs literários. Na contemporaneidade, o formato livro está compartilhando espaço com outros formatos, em geral, digitais e eletrônicos e não se pode atribuir literariedade apenas à produção literária que se apresente no formato livro e é preciso reconhecer que a literatura brasileira hoje habita os espaços da cultura digital. Entendemos que os editais da FBN deveriam refletir a orientação de governo e ter ações que contemplem tanto a dimensão sociológica - voltada para o mercado de editoras e a formação de clientela, no caso, leitores -, quanto operar na dimensão antropológica, ao se transversalizar e dialogar com os diferentes segmentos sociais, pois é inegável a visibilidade que estes editais dão ao trabalho do escritor, como atesta o seguinte depoimento:
Para o autor, ganhar um prêmio literário repercute definitivamente na carreira, representa reconhecimento, os espaços para mídia abrem-se um pouco mais e melhora as condições para negociar com os grandes distribuidores, visto que os autores iniciantes no geral lançam seus livros por pequenas editoras que ainda não possuem boa estrutura de distribuição e divulgação (Eliana de Freitas, escritora, São Paulo).

Outra necessidade é acompanhar o trabalho do autor contemplado para conhecer o

futuro da publicação que contou com o investimento do Estado. A FBN não dispõe de um
processo de acompanhamento e avaliação do trabalho desenvolvido e não possui informações sobre a publicação, circulação e distribuição das obras resultantes da bolsa, o que só reforça a necessidade de estudos e pesquisas sobre as políticas públicas implementadas na área cultural. Baseada na pesquisa que realizamos junto ao escritores contemplados nos editais de 2008 a 2010, retomamos rapidamente as principais demandas e fragilidades do programa: a. O valor do recurso é exíguo, R$ 1.000,00 e disponibilizado por apenas 6 meses; b. Os critérios de seleção não estão bem explicitados no edital;

c. As bolsas estão concentradas na Região Sudeste do país; d. O edital não considera as áreas prioritárias do Governo Federal; e. Autores e ilustradores de literatura infanto-juvenil e de literatura indígena não podem participar do edital; f. O edital não prevê acompanhamento e avaliação do projeto desenvolvido pelo autor; g. O edital não prevê publicação e difusão da obra concluída com o recurso público. Essas fragilidades remetem a uma questão cara ao Governo Federal, estruturante nas políticas públicas executas pelo MinC e que deveriam se estender às suas vinculadas, que é o território que deve ser contemplado em toda sua extensão, incorporando as diferentes dimensões da cultura que nele se apresentam. Vejamos o que diz o PPA:
O PPA 2008-2011 incorpora a dimensão territorial no planejamento com o intuito de promover: a superação das desigualdades sociais e regionais;! o fortalecimento da coesão social e unidade territorial;!(…) a valorização da inovação e da diversidade cultural e étnica da população. (PPA 2008-2011, p.12-13)

A fim de dar resposta a estas fragilidades e incorporar a dimensão territorial em sua política de edital, esta consultoria sugere à FBN o seguinte: a. que o valor da bolsa seja maior e ampliado para um período de 12 meses; b. que, a exemplo dos editais da DLLL e da Funarte, este edital contemple as áreas prioritárias do Mais Cultura e Governo Federal, pois são estes públicos quem mais necessitam de investimento do Estado; c. que escritores e ilustradores indígenas e de literatura infanto-juvenil possam concorrer a bolsas e que essas literaturas sejam nomeadas e reconhecidas no edital; d. que os critérios de seleção contemplem as diferentes literariedades que advém da diversidade cultural característica do país; e. que as obras passem por um processo seletivo interno e sejam publicadas e distribuídas em bibliotecas públicas e comunitárias; f. que os autores e ilustradores se integrem à Caravana de Escritores do Circuito Nacional de Feiras do Livro, cujo projeto foi apresentado no produto 04 desta consultoria e será retomado adiante.

PRÊMIO LITERÁRIO FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL

O Prêmio Literário Fundação Biblioteca Nacional tem como objetivo conceder Prêmios Literários a escritores, tradutores e autores de projetos gráficos, em reconhecimento à qualidade intelectual e técnica de seus trabalhos, nas seguintes categorias assim distribuídas: • • • • • • • • Prêmio Alphonsus de Guimarães, de Poesia; Prêmio Machado de Assis, de Romance; Prêmio Clarice Lispector, de Conto; Prêmio Mário de Andrade, de Ensaio Literário; Prêmio Sérgio Buarque de Holanda, de Ensaio Social; Prêmio Paulo Rónai, de Tradução; Prêmio Aloísio Magalhães, de Projeto Gráfico; Prêmio Glória Pondé, de Literatura Infantil e Juvenil.

O autor selecionado em primeiro lugar é contemplado com o Prêmio em espécie, no valor bruto de R$ 12.500,00 (cfe. Edital 2010). Os autores classificados em 2º e 3º lugares recebem um certificado de participação. Uma das condições para a premiação é o livro já ter sido publicado, como podemos ver pelos critérios abaixo, presente no edital:
Poderão concorrer apenas livros inéditos (1a edição), publicados no Brasil. Caso a data de publicação (mês e ano) não conste no livro, o autor deverá enviar um dos seguintes documentos comprobatórios: a. Cópia da nota fiscal da gráfica; ou b. Declaração da editora confirmando a data de publicação (Edital 2010).

A comissão julgadora seleciona a obra a ser premiada, de acordo com a especificidade de cada categoria, a partir dos seguintes critérios: a. b. c. d. e. f. qualidade literária da obra; originalidade; criatividade; contribuição à cultura nacional; dificuldade linguística da tradução; qualidade do acabamento, papel e impressão; uso criativo dos elementos gráficos.

A FBN, em seu Relatório de Gestão, avalia da seguinte forma a estruturação do Prêmio:
A divisão do prêmio em categorias distintas de produtividade intelectual resulta em incentivo e revelação de novos talentos, opção que teve repercussão positiva em todo o Brasil. A escolha das publicações a serem laureadas é resultado consensual das diferentes Comissões Julgadoras, compostas cada uma delas de três membros, escolhidos segundo sua especificidade profissional, incluindo críticos literários, professores universitários, profissionais do mercado editorial do país e personalidades destacadas no meio literário (Brasil: 2011c, p.48).

O edital na edição de 2010 recebeu 546 inscrições nas categorias de tradução, romance, conto, projeto gráfico, poesia, literatura infantil e juvenil, ensaio social, que tornam evidente que existe um imenso campo literário no país, cujos autores necessitam de políticas inclusivas que reconheçam a qualidade do trabalho desenvolvido. O Prêmio Literário FBN 2011 segue o mesmo padrão dos editais passados e está em fase de avaliação. Este ano são 621 inscritos e ainda não temos os contemplados.
Autores premiados – 2008 a 2010 Categoria Nome Poesia Romance Conto Ensaio literário Ensaio social Tradução Projeto Gráfico InfantoJuvenil 2009 Poesia Romance Ensaio Literário Ensaio Social Tradução Projeto Gráfico InfantoJuvenil Conto 2008 Projeto Gráfico Poesia Conto InfantoJuvenil Romance Ensaio Daniel Galera Walnice Nogueira Galvão Cia das Letras Cia das Letras RS SP Beatriz Bracher Elisa Von Randow Cardoso e Ricardo Farkas (Kiko Farkas) Roberto Lopes Piva Dalton Jerson Trevisan Rodrigo Lacerda Ed. 34 Editora Instituto Moreira Salles Ed. Globo Record Cosac Naify SP SP SP n/i RJ Bartolomeu Campos de Queirós Ed. Comboio de Corda MG Ronaldo Vainfas e Lúcia Bastos Pereira das Neves Erick Ramalho Marina Carolina Sampaio Ed. Objetiva Ed. Tessitura Cosac Naify RJ MG SP Marina Colasanti Raimundo Carrero Luiz Costa Lima Record Record Cia das Letras RJ PE RJ Jean-Claude R. Alphen Manuela Cunha Rubens Figueiredo Raul Loureiro e Cláudia Warrak Cosac Naify Cosac Naify Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Edusp Ed. Scipione SP SP RJ SP Adélia Prado Joca Terron Carlos Henrique Schroeder Antonio Prado Record Cia das Letras Ed. Da Casa Ed. 34

Ano 2010

Editora

Estado MG SP SC SP

Literário Ensaio Social Tradução Distribuição prêmios por região 2008 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste n/i Total No. de Prêmio 00 00 01 05 00 02 08 Carlos Fico da Silva Júnior Maurício Santana Dias dos 2009 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste n/i Total No. de Prêmio 00 01 00 07 00 00 08 2010 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste n/i Total No. de Prêmio 00 00 01 07 00 00 08 Ed. Civilização Cia das Letras RJ n/i

Período de 2008 a 2010 – Editoras Editora Cia das Letras Cosac Naify Ed. 34 Ed. Civilização Ed. Comboio de Corda Ed. da Casa Ed. Globo Ed. Objetiva Ed. Scipione Ed. Tessitura Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Edusp Editora Instituto Moreira Salles Record Total 01 04 24 No. de contemplados 05 04 02 01 01 01 01 01 01 01 01

Os resultados, que podemos visualizar acima, demonstram que os autores premiados estão concentrados na Região Sudeste, cerca de 85% dos premiados são desta região, o restante do Sul e Nordeste, não tendo nenhum contemplado da Região Norte e da Região Centro-Oeste, o que sugere que estas regiões devem ter investimento público para dar vazão e reconhecimento à sua produção literária. Da mesma forma, percebemos

que existe uma recorrência das mesmas editoras, todas de grande porte, também da Região Sudeste, tornando evidente que há necessidade de investimento também na

cadeia produtiva do livro, principalmente para o fortalecimentos de editoras de pequeno
e médio portes. No Prêmio Literário FBN não há uma categoria de premiação para escritores indígenas que escrevem em língua portuguesa e, novamente, fica a sugestão da inclusão desta nova categoria. A Literatura Indígena Contemporânea ou, como prefere o escritor Olívio Jekupé, a literatura nativa, tem sua especificidade: é uma literatura que retrata a cosmologia indígena e traz para a escrita o discurso oral. Graça Graúna, escritora e professora universitária, enfatiza os poucos estudos existentes e a ausência do reconhecimento de que literatura indígena é também literatura. Citamos:
Identidades, utopia, cumplicidade, esperança, resistência, deslocamento, transculturação, mito, história, diáspora e outras palavras andantes configuram alguns termos possíveis para designar, a priori, a existência da literatura indígena contemporânea no Brasil. Gerando a sua própria teoria, a literatura escrita dos povos indígenas no Brasil pede que se leiam as várias faces de sua transversalidade, a começar pela estreita relação que mantém com a literatura de tradição oral, com a história de outras nações excluídas (as nações africanas, por exemplo), com a mescla cultural e outros aspectos fronteiriços que se manifestam na literatura estrangeira e, acentuadamente, no cenário da literatura Nacional (Graúna, s/d, p.1).

É importante a presença da Literatura Indígena nesta premiação, pois é inegável a sua importância e a visibilidade que dá para o trabalho do escritor, como demonstra o depoimento abaixo:
Participei do prêmio FBN 2010, (1ª lugar) e o prêmio na categoria criança pela Fundação FNLIJ com duas obras indicadas entre as oito finalistas. Este prêmio me trouxe maior visibilidade no mercado pois todo editor da área acompanha a premiação, ao mesmo tempo foi um prêmio literário e como sou um autor iniciante me deu mais estimulo para continuar escrevendo e mostrar meu trabalho para as editoras (JeanClaude R. Alphen, escritor infanto-juvenil, SP).

Mas existem também algumas críticas, pois muitos escritores ficam de fora da premiação e, no seu entendimento, isso acontece porque eles não se enquadram no perfil que é tradicionalmente contemplado, como podemos ver pelo depoimento de uma escritora paulista:
Sinto muita dificuldade no que concerne a prêmios e concursos, que muitas vezes contemplam os mesmos nomes, ou pessoas de um mesmo grupo. O júri se repete bastante e é desanimador. Infelizmente, sempre preferem seus amigos e protegidos. O universo destes concursos é muito provinciano, e as vezes, até mesmo misógino. Já desisti de me inscrever no futuro. Acho que seria interessante se o MinC analisasse e apoiasse projetos individuais, ou até mesmo pequenas editoras.

Atualmente tenho publicado livros artesanais, de baixo custo (plaquetes). É muito difícil e caro publicar no Brasil, divulgar o seu trabalho, conseguir resenhas, etc.

De fato, existe muita semelhança entre o perfil dos escritores premiados, regra geral, são escritores já consagrados, com várias publicações, já têm certa visibilidade na mídia, suas obras são resenhadas e contam com crítica literária, em geral os escritores possuem blog ou sítio eletrônico pessoal, são escritores urbanos, do eixo Rio-São Paulo, vinculados a grandes editoras, com alto índice de escolaridade e estão plenamente inseridos no mercado editorial. As críticas a este perfil que se repete ao longo dos anos são no sentido da necessidade de também reconhecer o não-cânone, os não-ilustres, nas palavras de um autor baiano:
Falta conhecimento de editais mais democráticos, falta acesso e interesse de editoras para autores novos. Às vezes já existem a tantos anos, mas ainda são considerados “autores emergentes” pois não conseguem vencer as “muralhas” -, desde questões regionais, formação, distribuição, elaborar seus projetos dentro dos formatos exigidos, preconceitos, etc.

Isaura Botelho (2001) aponta duas dimensões da cultura que deveriam ser consideradas alvos das políticas culturais: a sociológica e a antropológica. A dimensão sociológica refere-se ao mercado, à cultura elaborada com a intenção explícita de construir determinados sentidos e de alcançar algum tipo de público, através de meios específicos de expressão. Já a dimensão antropológica remete à cultura produzida no cotidiano, representada pelos pequenos mundos construídos pelos indivíduos, que lhes garante equilíbrio e estabilidade no convívio social. Se retomarmos as dimensões sociológica e antropológica da cultura que Isaura Botelho descreve, vemos que as políticas de editais da FBN – ao contrário da política cultural do MinC – privilegia a dimensão sociológica de cultura, focada no mercado, no cânone, para valorização do que já está posto e parece pouco aberta a novidades, já que estes editais, nestes termos, se repetem sistematicamente ao longo dos anos e repete-se igualmente o perfil dos contemplados. Sant’Anna (2010), ao refletir sobre o mercado editorial mostra que as editoras apostam em autores “bancáveis”, com maior probabilidade de agradar ao público médio que “lê livros como assiste novela de televisão, como passatempo e fruição”. Ficam de fora, portanto, autores menos “bancáveis” e por isso é interessante que o Estado, que não precisa operar seguindo a lógica mercadológica, invista seus parcos recursos em autores que reflitam a diversidade cultural do país. A busca por novos cânones é, inclusive, característica das demais políticas culturais do governo federal. Rubim (2006a), ao estudar a política cultural no governo Lula, afirma

que o MinC opera com a predominância de uma percepção antropológica de cultura, o que lhe permite acolher e dar espaço para a diversidade cultural, a ver participação social como direito de cidadania e propor muitos programas que atendem a uma “clientela”, até então fora do circuito de fomento. Como demonstram as palavras de Gilberto Gil, na abertura da Teia 2006, a política cultural do MinC permite reconhecer na

sociedade e nas diversas expressões regionais, estéticas, a força necessária para revelar os brasis ocultos ou excluídos. Dar evidência a esta interculturalidade é possível a partir
de uma visão de cultura que possui três dimensões que se desenvolvem articuladamente: a econômica, a do

direito da cidadania e a do valor simbólico (Ferreira in Castilho: 2010, p.24). Assim,
resta perguntar, se a política cultural do MinC vai na direção da interculturalidade e da valorização das diferentes subjetividades e territoriedades, qual o motivo dos editais da FBN, regra geral, não acompanhar esta tendência?

Editais Funarte
A Funarte em 2010 teve seu maior orçamento nos últimos 20 anos – R$ 100 milhões de reais - e por isso ampliou o número de beneficiários de seus editais e fomentou novas ações. Essa ampliação, a partir de um amplo processo de consulta pública para definir áreas e temáticas prioritárias, permitiu que a equipe gestora realizasse uma revisão dos editais já existentes e a criação de novos editais. Ressaltamos a importância desta consulta pública, pois permite que o Estado priorize e responda às demandas e necessidades pactuadas junto à sociedade, tendo assim seu respaldo e apoio. A política de editais da Funarte revela um esforço em dialogar com as diretrizes do PPA 2008-2011 e as diretrizes gerais do MinC, que apresentamos na introdução acima. O resultado, na área de literatura foi a ampliação da bolsa de criação e a primeira edição da bolsa de circulação literária, articulando as cadeias criativa, mediadora e produtiva, pois a bolsa de criação publicou as melhores obras e a de circulação promoveu intercâmbio entre projetos literários, contemplando áreas e públicos prioritários para a Agenda Social do Governo Federal.
Durante o ano, a atenção da Funarte permaneceu focada na institucionalização de suas políticas, na democratização dos processos seletivos, na utilização de ferramentas de comunicação para a difusão das artes (em especial a internet), na reforma de seus espaços e na ampliação do acesso aos bens artísticos. (…) Como resultado desse trabalho, pelo conjunto de iniciativas implementadas, a Fundação voltou a desempenhar papel determinante no estímulo à produção artística, no incentivo à

formação e qualificação profissional, no desenvolvimento de pesquisas, na edição de livros sobre arte e na circulação de obras e espetáculos (Relatório de Gestão 2010: 2011, p.13, grifo nosso).

BOLSA FUNARTE DE CRIAÇÃO LITERÁRIA
Desde 2007 a Funarte lança este edital, cujo objetivo é fomentar, no âmbito nacional, a produção inédita de textos inéditos nas categorias correspondentes aos gêneros lírico e narrativo, a partir da concessão de bolsas para o desenvolvimento de projetos de criação literária. Os projetos são avaliados a partir dos seguintes critérios: 1. relevância cultural - valor simbólico, histórico e cultural das ações e manifestações culturais e artísticas envolvidas; 2. criatividade e inovação - originalidade das ações e busca de novas práticas e relações no campo cultural; 3. metodologia do trabalho - organização, planejamento e método de execução do projeto. Podemos perceber, pelas tabelas abaixo que, com exceção de 2008, há uma tendência de crescimento do número de inscritos no edital e em 2009 foi ampliado o número de contemplados, beneficiados por um aporte extra de recursos que o MinC repassou para a Funarte e o edital de 2010 foi novamente foi ampliado para 60 bolsas, no valor de R$ 30.000,00.
Contemplados - 2010 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste Total Total de inscritos No. de Bolsas 05 11 09 30 05 60 1490 Contemplados - 2009 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste Total Total de inscritos No. de Bolsas 04 04 04 04 04 20 1046

Sul Sudeste Contemplados - 2008 Região Norte Nordeste No. de Bolsas 02 02 Centro-Oeste Total Total de Inscritos

02 02 02 10 369

Sul Contemplados - 2007 Região Norte Nordeste No. de Bolsas 02 02 Sudeste Centro-Oeste Total Total de Inscritos

02 02 02 10 502

Existe um número definido de bolsas para cada região do país e o escritor concorre com outros escritores da sua própria região, e este é um critério importantíssimo, pois garante que todo o território nacional seja contemplado e evita que a distribuição dos recursos se concentre na região Sudeste, como ocorre, por exemplo, com as bolsas da FBN. Este cuidado da Funarte demonstra que a instituição desenvolve suas políticas de acordo com a orientação da gestão atual do MinC que é dar evidência aos diferentes grupos culturais espalhados no território nacional. Outro aspecto importante é a Funarte disponibilizar uma cartilha contendo respostas para as principais questões e um modelo do projeto a ser apresentado. Esta simples providência ameniza as dificuldades que muitos escritores relatam: a burocracia quase intransponível, a dificuldade em elaboração de projetos e de responder aos editais em linguagem que os gestores compreendam, a falta de transparência dos critérios de seleção. Com informações precisas, os escritores podem fazer suas propostas dentro de padrões compreensíveis e, por sua vez, compreender porque seu projeto foi ou não aceito. Estes aspectos positivos são reconhecidos, como podemos constatar pelo depoimento do escritor Marco Catalão que segue:
No caso da Bolsa Funarte de Criação Literária, gostaria de destacar como pontos positivos o valor da premiação (muito mais alto que o da FBN), a forma desburocratizada do pagamento (feito numa única parcela), a exigência de dois relatórios (um no meio e outro no fim do processo) e a possibilidade de que algumas obras (5 entre as 60 contempladas) venham a ser publicadas. Trata-se de um ótimo estímulo para que o escritor se esforce ao máximo na execução da sua obra. Acabo de entregar à Funarte meu relatório final, com o livro completo, e espero que ele seja um dos escolhidos para serem publicados (Marco Catalão, escritor, SP).

A Funarte cita em seu edital como será o processo de acompanhamento do trabalho desenvolvido e ao contatar escritores contemplados com a bolsa soubemos que eles estão em processo de organizar relatórios. O relato do poeta e ficcionista Ademir Assunção ilustra bem os impactos e os resultados da bolsa para o desenvolvimento do trabalho do autor. Citamos:

O resultado da Bolsa Funarte foi a criação do livro Peixes Vermelhos no Meio da Sala, um conjunto de 66 poemas em prosa, divididos em 7 partes. A Bolsa Funarte possibilitou dedicar-me integralmente a uma obra que vinha gestando havia 4 anos, porém, por afazeres diversos, vinha adiando. Ou escrevendo muito lentamente. Para o meu processo criativo, possibilitou o desenvolvimento do poema em prosa, gênero que já havia me dedicado no livro “Cinemitologias”, lançado em 1998. Além da pesquisa concentrada, possibilitou-me o desenvolvimento da nova obra e a procura de novos caminhos no conjunto da minha poesia, que abrange outros cinco livros: Lsd Nô (1994), Zona Branca (2001), A Musa Chapada (2008), Buenas Noches, Paraguaylândia (2009) e A Voz do Ventríloquo (a ser lançado ainda este ano). No Brasil, como em quase todos os países do mundo, é comum pesquisadores obterem bolsas federais ou estaduais para desenvolverem dissertações e teses de mestrado, doutorado ou pós-doutorado. Porém, são raríssimas as bolsas para escritores e poetas poderem se dedicar ao trabalho criativo, ao desenvolvimento de suas linguagens e a construção de novas obras que vão se somar ao acervo da literatura brasileira. São raríssimos os escritores e poetas que conseguem viver do seu próprio trabalho criativo. A absoluta maioria deles tem que se dedicar a outros trabalhos para garantir a sobrevivência. Apenas nas horas vagas (geralmente nas madrugadas, nos feriados e finais de semana) é que podem se dedicar ao próprio trabalho criativo. Muitas vezes, por força das necessidades, acabam adiando suas obras, ou conseguindo concluí-las em prazos muito extensos. Neste sentido, a Bolsa Funarte é uma importantíssima conquista não somente para os escritores, mas para os leitores e o conjunto da sociedade brasileira, pois tem enriquecido seu acervo literário com novas obras. Especialmente para a arte poética, a Bolsa Funarte tem um papel importantíssimo, visto que a poesia é, entre todos os gêneros, o mais marginal dentro do mercado editorial. Possibilitar que poetas se dediquem com mais tempo ao trabalho criativo é reconhecer a importância da poesia para o patrimônio cultural do país (Ademir Assunção, escritor, São Paulo).

BOLSA FUNARTE DE CIRCULAÇÃO LITERÁRIA
Este edital busca fomentar a promoção e difusão da literatura no âmbito nacional, exclusivamente nos Territórios da Cidadania. O Programa Territórios da Cidadania, criado em 2009, tem por objetivo promover e acelerar a superação da pobreza e das desigualdades sociais no meio rural, inclusive as de gênero, raça e etnia, por meio de estratégia de desenvolvimento territorial sustentável que contempla: integração de políticas públicas com base no planejamento territorial; ampliação dos mecanismos de participação social na gestão das políticas públicas de interesse do desenvolvimento dos territórios; ampliação da oferta dos programas básicos de cidadania; inclusão e integração produtiva das populações pobres e dos segmentos sociais mais vulneráveis, tais como trabalhadoras rurais, quilombolas, indígenas e populações tradicionais;

valorização da diversidade social, cultural, econômica, política, institucional e ambiental das regiões e das populações (cfe. Edital 2010). Neste edital são oferecidas bolsas a projetos, propostos por pessoas físicas, que ofereçam uma ou mais atividades, a saber: oficinas, cursos, contação de histórias e/ou palestras, a serem executados durante 06 meses. Os critérios de seleção deste edital são os seguintes: 1. criatividade e inovação – originalidade das ações e busca de novas práticas e relações no campo cultural; 2. relevância cultural – valor simbólico, histórico e cultural das ações e manifestações culturais e artísticas envolvidas; 3. impacto social da proposta – quantitativo (estimativa de número de pessoas beneficiadas) e qualitativo (características sócio-econômicas ou formação); 4. metodologia do trabalho – organização e método de execução do projeto. A Funarte contempla todas as regiões do país, seguindo o modelo do edital anterior, em que o projeto disputa com outros projetos da mesma região, garantindo que todas as regiões sejam contempladas e que diferentes populações sejam beneficiadas pelos projetos. As 50 bolsas, no valor de R$ 40.000,00, são distribuídas da seguinte forma:
Contemplados – 2010 Região No. de Bolsas Norte Nordeste Sul Sudeste CentroOeste Total Total de inscritos 50 387 05 10 10 20 05

da

população

beneficiada;

duração

e

profundidade das ações de fruição, sensibilização, capacitação

Os projetos não estão disponíveis, mas os títulos e a descrição de algumas atividades que são divulgadas no sítio eletrônico da Funarte sugerem que estes projetos dialogam com diferentes linguagens – música, fotografia, teatro, dança, esporte, etc. – e são realizados nas cidades, principalmente na periferia, no campo, em comunidades de pequenos agricultores, em aldeias indígenas e comunidades tradicionais. Os projetos trabalham com literatura – contos, contação de histórias, poesia, literatura infantojuvenil, literatura indígena, história de vida, rap, cordel, entre outros – em projetos itinerantes que literalmente circulam entre regiões. A Funarte vem investindo em editais de criação e circulação literária e tem um

know-how, um saber fazer que sugere que os caminhos do multiculturalismo e diferentes
territoriedades e subjetividades são os que melhor dão conta das realidades que se entrecruzam e formam o país. Essa percepção antropológica de cultura lhe permite acolher e dar espaço para a diversidade cultural, a ver participação social como direito de cidadania e propor muitos programas que atendem a uma “clientela” até então fora do circuito de fomento. Exemplo disso é o fato dos projetos serem realizados em no mínimo 03 municípios, sendo pelo menos um deles em uma região geográfica diferente daquela pela qual o proponente se inscreveu. Os projetos serão executados em bibliotecas públicas, associações de moradores, escolas públicas e/ou centros culturais. As atividades previstas em cada projeto serão, obrigatoriamente, gratuitas. Além disso, os projetos têm uma proposta de acompanhamento explicitado no edital e esta proposta busca documentar as diferentes fases do processo e publicizar as atividades desenvolvidas pelos contemplados no site da Funarte. A Funarte realiza suas políticas culturais na área literária a partir da constituição de circuitos culturais: eventos articulados, incluindo criação, produção, circulação e fruição e a Diretoria tem muito o que aprender com esta experiência e são interessantes inclusive parcerias para que os editais possam ser ampliados e contemplem um maior número de beneficiários. A Bolsa Funarte de Criação Literária e a Bolsa Funarte de Circulação Literária são editais que contemplam simultaneamente as cadeias criativa, produtiva e mediadora, pois englobam criação literária, publicação e projetos de estímulo às práticas de leitura, como podemos observar nos termos dos editais e nos depoimentos dos contemplados apresentado no produto 03 (Labrea:2011c) desta consultoria. A Funarte fez um esforço deliberado para atingir públicos e territórios até então excluídos ou mal incluídos nas ações governamentais na área da literatura. Citamos o Relatório de Gestão 2010:
As ações de qualificação profissional da Funarte mantiveram o formato, adotado recentemente, que visa a extinguir o colonialismo cultural. A instituição promoveu grandes programas de

intercâmbio, levando profissionais de todas as regiões brasileiras a sair de sua área de atuação, promovendo uma troca horizontal de conhecimento. Antes, apenas profissionais do eixo Rio-São Paulo percorreriam o país. A nova configuração garante a permanência de um dos maiores patrimônios do Brasil, a sua diversidade cultural. A Funarte buscou maior contato com a Região Norte do país, da qual tradicionalmente recebe menos inscrições em programas de fomento às artes. Houve aumento no número de inscrições, mas esse diálogo com o Norte, além de outras áreas menos favorecidas pela ação da Funarte, deve ser permanente, de forma a corrigir distorções históricas (Brasil: 2011c, p.21, grifo nosso).

Da mesma forma, seus editais foram formulados com clareza e o resultado foi a maior participação da sociedade em todo território nacional.
Os editais fazem com que a distribuição dos recursos públicos para a área cultural seja feita de forma democrática, transparente e aberta, com regras claras, objetivos específicos e critérios de avaliação previamente divulgados, tornando as políticas públicas de cultura mais difundidas e acessíveis à sociedade. Essa forma de seleção tem motivado um grande número de inscrições, o que possibilita promover uma distribuição mais equilibrada dos recursos públicos entre as regiões e segmentos culturais, realizando a desconcentração dos investimentos e reforçando áreas com dificuldade de captação de recursos (Brasil: 2011c, p.23).

Esta consultoria sugeriu em seu produto 04 que a DLL/FBN ampliasse sua interlocução com a Funarte, para que se possa trabalhar em parceria, dada a qualidade técnica e os interesses comuns destes editais na área de literatura, pois seu know-how contempla tanto as diretrizes da Conferência Nacional de Cultura, Plano Nacional do Livro e Leitura, quanto os territórios prioritários do Mais Cultura e a agenda social do Governo Social, bem como fortalece a cadeia criativa do livro, como já fundamentamos no produto 04. Esse diálogo de fato está ocorrendo, pois houve reunião entre a presidência da Funarte e DLLL/FBN para que o edital de criação literária fosse lançando no início de 2012 em parceria. É possível incluir os autores contemplados nos editais da Funarte na Caravana de Escritores, no Circuito de Feiras de Livro, na programação cultural de bibliotecas públicas e comunitárias e de pontos de leitura e igualmente incluilos no banco de dados que a Diretoria está consolidando, bem como futuramente divulgar suas obras literárias no sítio eletrônico que propomos para a DLLL/FBN (cfe. Labrea: 2011b).

CONCURSO PÚBLICO LITERATURA PARA TODOS – MEC
O MEC, um dos maiores compradores e distribuidores de livros didáticos, paradidáticos e literários no país, mantém um programa inovador que, além de selecionar a produção literária, as publica e distribui na sua rede de ensino de jovens e

adultos. A realização do Concurso Literatura para Todos é uma das estratégias da Política de Leitura do Ministério da Educação que procura democratizar o acesso à leitura, constituir um acervo bibliográfico literário específico para jovens, adultos e idosos recém alfabetizados e criar uma comunidade de leitores. Esse novo público é chamado de neoleitores. O MEC publica e distribui as obras vencedoras às entidades parceiras do Programa Brasil Alfabetizado, às escolas públicas que oferecem a modalidade EJA, às universidades que compõem a Rede de Formação de Alfabetização de Jovens e Adultos, aos núcleos de EJA das instituições de ensino superior e às unidades prisionais que ofertam essa modalidade de ensino. Em 2010, em sua quarta edição, os candidatos concorreram nas categorias Prosa (Conto, novela e crônica), Poesia, Textos da tradição oral (em prosa ou em verso), Perfil Biográfico e Dramaturgia. Foram selecionadas duas obras das categorias: prosa, poesia e textos da tradição oral e apenas uma obra das categorias: perfil biográfico e dramaturgia. Também será selecionada uma obra de qualquer uma das modalidades do concurso de autor natural dos países africanos de língua oficial portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Os vencedores recebem prêmios no valor de R$ 10 mil. Critérios de seleção: 1. presença característica de literariedade, 2. exploração do universo cultural e linguístico do público neoleitor, 3. escrita criativa utilizando linguagem expressiva, 4. textos que contribuam para a construção da consciência individual, social e ética e 5. textos que estimulem a imaginação e a reflexão. Na edição de 2010 foram selecionadas apenas 07 obras:
TÍTULO DA OBRA O Pênalti Um andarilho na noite do sertão Poemas para viver em voz alta Autores especiais Sabenças Ainda é cedo amor Arca do Banzé GÊNERO Dramaturgia Tradição oral Poesia Perfil biográfico Novela Contos Obra africana AUTOR José Carlos Barbosa de Aragão Antônio da Costa Leal Ricardo Aleixo Rubiana Pereira Burg e Simone Xavier de Lima Carlos Pessoa Rosa Luis Pimentel José Luis Tavar UF MG RN MG RJ SP BA Cabo Verde

A análise dos dados disponíveis dos autores selecionados sugere que o perfil dos escritores selecionados não se encaixa no padrão imposto pelo mercado editorial, embora possamos observar que a região Sudeste novamente se imponha. Mas, ao contrário do perfil dos premiados nos editais da FBN, os escritores com alto grau de escolarização são cordelistas ou desenvolvem trabalhos dentro das temáticas da cultura popular, dialogam com a oralidade, com a negritude. Alguns possuem obras premiadas e traduzidas em diversos países mas temos também escritores emergentes que tem no blog seu mecanismo de difusão literária. Enfim, podemos ver que os perfis são singulares e ecléticos e estas características são mais do que recomendadas porque garantem uma multiplicidade de textos literários e isto é fundamental para a formação dos neoleitores, que são jovens, adultos ou idosos que estão “iniciando sua história de leitura, mas já contam com uma história de leitura do mundo, possuindo vasta experiência do mundo, e, geral vinculada ao seu cotidiano e ao seu trabalho” (cfe. Tiepolo, s/d). Outro aspecto importante a considerar sobre o edital do MEC é que ele contempla tanto o circuito da criação quanto da distribuição e da circulação e vai além, ao inseri-los no programa de estudo e leitura de jovens e adultos em fase de alfabetização. Além disso, seu recorte reconhecendo diferentes territorialidades e identidades evidencia um caráter multirreferencial e multicultural, uma política de inclusão em que existe um espaço de criação e fruição literária para além dos cânones e dos autores já reconhecidos. Este edital contempla todos os elos da cadeia criativa, produtiva e mediadora, já que se ocupa da seleção dos textos, sua publicação e distribuição, visando a formação de novos leitores.
Acredito que o maior desafio do autor brasileiro é ser lido e para vencer esse desafio precisa superar os problemas de divulgação e distribuição. Programas do governo que selecionam livros para serem comprados e distribuídos em bibliotecas e escolas são uma boa alternativa, formar o público brasileiro para a leitura e o gosto por nossos autores. Porém os editais dessa natureza precisam ser menos burocráticos, para viabilizar a participação de autores independentes e editoras pequenas (Eliana de Freitas, escritora, São Paulo).

Seria interessante que a DLLL investisse em uma política de livro, leitura e literatura que mobilizasse estes 03 elos, pois um dos grandes problemas apontados nas reuniões com escritores emergentes é que depois de conseguirem, com muito custo, publicar suas obras, elas ficam “encalhadas” nas editoras, pois a distribuição é muito cara e depende muito da orientação do mercado editorial, historicamente voltado à difusão de best sellers e literatura estrangeira. A presidente da Liga Brasileira de Editoras, relatou que existem muitas editoras pequenas dispostas a doar parte de seu acervo para o MinC para que ele se responsabilize pela distribuição dos livros em

bibliotecas públicas e comunitárias e em pontos de leitura. Laura Bergallo, escritora carioca, chama a atenção para a importância da distribuição e circulação das obras literárias: sem dúvida, a melhor contribuição dos governos é o estímulo permanente à

literatura nas escolas. Campanhas de estímulo à leitura para a população em geral (através de mídia impressa e eletrônica) também são sempre de grande ajuda.
O MEC, segundo depoimentos de contemplados, está com muita dificuldade em conseguir publicar e distribuir as obras literárias premiadas e em 2011 não lançou novo edital. De toda forma, a proposta de selecionar obras literárias, publicá-las e distribui-las dentro de projetos de Educação de Jovens e Adultos é exemplar.

PROGRAMA ARCA DAS LETRAS – MDA
O MDA mantém um portal com todas as informações do Programa Arca das Letras, que busca formar pequenas comunidades de leitores a partir da doação de acervo e da formação de agente de leitura voluntário em regiões rurais. Criado em 2003 pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o programa Arca das Letras implanta bibliotecas para facilitar o acesso ao livro e à informação no meio rural brasileiro. O Programa beneficia diariamente milhares de famílias do campo, formadas por agricultores familiares, assentados da reforma agrária, comunidades de pescadores, remanescentes de quilombos, indígenas e populações ribeirinhas. Para incentivar e facilitar o acesso à leitura, as bibliotecas são instaladas na casa dos agentes de leitura ou nas sedes de uso coletivo (associações comunitárias, pontos de cultura, igrejas), de acordo com a escolha da comunidade e disponibilidade dos agentes. O acervo inicial de cada arca conta com cerca de 200 livros, selecionados para contribuir com o trabalho, a pesquisa e o lazer das populações que vivem no campo. Os exemplares são escolhidos de acordo com a indicação e demanda das famílias atendidas. Os acervos são formados por literatura infantil, para jovens e adultos, livros didáticos, técnicos, especializados e de referência ao exercício da cidadania. As arcas são administradas por agentes de leitura, moradores escolhidos por indicação da comunidade para efetuar as atividades das bibliotecas. São eles que realizam o incentivo à leitura, o empréstimo dos livros, a ampliação dos acervos e a valorização da cultura local. Todo o trabalho dos agentes de leitura é voluntário. Quantidade de Arcas implantadas por estado:
Estado Acre Alagoas No. de Arcas 239 114

Amapá Amazonas Bahia Ceará Espírito Santo Goiás Maranhão Mato Grosso Mato Grosso do Sul Minas Gerais Pará Paraíba Paraná Pernambuco Piauí Rio de Janeiro Rio Grande do Norte Rio Grande do Sul Rondônia Roraima Santa Catarina São Paulo Sergipe Tocantins Distrito Federal Total Geral

55 329 215 836 204 160 421 193 162 690 276 350 282 422 531 075 664 373 058 065 n/i 260 092 065 n/i 7131

Esta ação é voltada para a cadeia mediadora do livro e a criação de novos espaços de leitura, mas a incluímos neste mapa porque estes espaços poderão ser visitado por escritores e podem ser utilizados para atividades para o fortalecimento da cadeia

criativa do livro. Adiante formulamos uma proposta de Programa de Circulação de
Escritor@s, Ilustrador@s e Obras Literárias, a partir de um projeto que visa tanto fortalecer e dar visibilidade ao trabalho desenvolvido pelos autores brasileiros, a partir de contato direto e frequente com seu público leitor, quanto qualificar as condições para a prática da leitura em espaços já instituídos para tal. Destacamos que o projeto beneficia comunidades e povos rurais e tradicionais, em áreas consideradas prioritárias para o governo federal.

Por isto, em um documento que pretende mapear as principais ações federativas na área do livro, leitura e literatura é importante não perder de vista que este programa já instituiu cerca de 7000 novos espaços de leitura e estes espaços podem e devem ser utilizados também para facilitar o surgimento de novos autores, a partir de processos formativos, ou mesmo para receber a visita de escritores e ilustradores. Uma informação recorrente quando ouvimos os escritores que estão fora das zonas urbanas é a dificuldade em encontrar espaços e profissionais qualificados para a formação de novos escritores e ilustradores e este dado justifica pensarmos em ações para fortalecer a cadeia criativa na zona rural. Um dos motivos que podemos pensar para que a maior parte dos escritores e ilustradores hoje se concentre na região Sudeste, no eixo Rio-São Paulo, é devido ao fato de que historicamente lá estejam presentes os espaços formadores, além das grandes editoras. Assim, podemos pensar que se o Estado investir nos espaços de leitura que já possui, fora dos grandes centros, é possível criar novos pólos literários e neste cenário um projeto da extensão da Arca das Letras pode ser estratégico para o fortalecimento da cadeia criativa do livro. Nossa sugestão é para que a Diretoria se articule com o MDA e proponha uma agenda positiva, a fim de qualificar estes espaços, seja com ações voltadas à formação de leitores e escritores ou mesmo incluir estes espaços no roteiro da Caravana dos Escritores, da qual falaremos adiante.

PROGRAMA PETROBRAS CULTURAL – LITERATURA
A Petrobras, uma das maiores mecenas do país, mantém em seu Programa Cultural, desde 2007, projetos literários em várias regiões do país. O objetivo desta seleção pública é contemplar, por meio de uma bolsa de criação literária, a manifestação de escritores de ficção e poesia, com inteira liberdade de formas e gêneros, que já tenham demonstrado consistência, originalidade e potência criativa em trabalhos anteriores. Os recursos concedidos visam oferecer condições para que o autor (e eventual co-autor e/ou ilustrador, a depender da natureza da proposta) possa se dedicar, de modo intensivo, à realização da obra, concluindo o projeto no prazo máximo de 24 meses a partir da contratação do patrocínio da Petrobras. Os projetos deverão resultar na produção de uma obra inédita de ficção e/ou de poesia em livro com tiragem mínima de 1500 exemplares, e sua consequente comercialização levada a efeito pelo proponente. Na análise dos projetos desta área de seleção pública são considerados, como fator de priorização, os seguintes critérios específicos: 1. mérito do projeto: qualidade e originalidade do texto literário;

2. viabilidade de execução: capacidade de realização do projeto, considerando-se suas características técnicas e a experiência dos envolvidos na proposta para realizá-lo dentro do cronograma determinado; 3. difusão: planejamento de ações que aumentem o grau de articulação do projeto com parceiros e públicos, tais como palestras, oficinas e intercâmbios. No edital de 2010 foram selecionados 15 projetos de criação literária – projetos de livros de romances ou poesia - distribuídos da seguinte forma no território nacional:

2010 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste

No. de Bolsas 00 01 02 12 00

2008/2009 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste

No. de Bolsas 02 00 02 13 00

2007 Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste

No. de Bolsas 00 00 02 03 00

O edital da Petrobrás, embora com formulação ousada, ainda concentra a maior parte de seus recursos em projetos oriundos das regiões Sudeste e Sul do país. Seria interessante que a Petrobras, seguindo o exemplo dos editais da Funarte, tivesse um recorte regional para seleção dos contemplados e deveria investir, ao menos parte dos seus recursos, em grupos que ainda estejam fora do circuito cultural, mas que demandam do governo investimentos e espaços, como os autores emergentes ou iniciantes, pois seus termos privilegia autores do eixo Sul-Sudeste, historicamente já bem inseridos na distribuição dos recursos culturais. O edital inova ao propor uma bolsa com valor relevante por um prazo de tempo que permite concluir a obra literária, produzi-la e iniciar sua distribuição. Nas reuniões realizadas com grupos focais foi relatada a preocupação de existir um déficit de editais que tenham recursos previstos para publicação, distribuição e circulação das obras literárias de criação e, por isso, o formato proposto por este edital é interessante, pois transita entre a cadeia criativa e produtiva, investindo igualmente na circulação e distribuição das obras. A Petrobrás – assim como o MinC - está investindo na Cultura Digital e nas novas tecnologias de difusão e produção cultural e para além da publicação em livro, a circulação das obras também deverá ser feita através da disponibilização gratuita do seu conteúdo (integralmente ou em parte) em sites na internet, sem prejuízo da sua comercialização em livro amplia a forma de acesso, democratizando-o. Essa abordagem é coerente com uma política orientada para a dimensão antropológica e simbólica da cultura que busca a inovação estética, a diversidade e a inclusão tecnológica. Além disso, a possibilidade de comercializar sua produção é coerente com os princípios da economia da cultura. Seria interessante uma parceria entre Petrobras e MinC para que além de recursos para novos projetos de criação literária, possam incentivar projetos para criar estratégias para a criação ou fortalecimento de um mercado consumidor destes produtos culturais.

GRÁFICO QUE SISTEMATIZA OS EDITAIS E PROGRAMAS DESCRITOS

Edital/ Instituição Programa Nacional de Apoio à Pesquisa - FBN

Objetivo do edital Bolsas de pesquisa incentivar a pesquisa e a produção de trabalhos originais a partir do acervo da FBN/MinC.

Valor total

Valor da bolsa ou premiação Candidato com doutorado completo – R$ 2.200,00 candidato com mestrado completo – R$ 1.700,00 candidato com 3º grau completo ou pósgraduação lato sensu – R$ 1.200,00 Editoras Nacionais R$ 12.000,00 R$ 10.000,00 R$ 8.000,00 R$ 6.000,00 R$ 4.000,00 Editoras Estrangeiras (valores em dólar): US$ 6.000,00 US$ 5.000,00 US$ 4.000,00 US$ 3.000,00 US$ 2.000,00 R$ 6.000,00, pagos em 6 meses

No. premiados por região

R$ 310.000,00

17 pessoas físicas não discrimina as regiões

Programa de Apoio à Tradução de Autores Brasileiros – FBN

Difundir a cultura e a literatura brasileiras no exterior

R$ 364.000,00

67 projetos de editoras sendo 13 de editoras do Brasil e o restante estrangeiros.

Programa Nacional de Bolsas para Autores com Obras em Fase de Conclusão – FBN

Incentivar a criação literária nacional e reconhecer a qualidade de textos de novos escritores brasileiros

R$ 36.000,00

6 pessoas físicas - não discrimina as regiões

Prêmio Literário Fundação Biblioteca Nacional

Bolsa Funarte de Criação Literária

Bolsa Funarte de Circulação literária

Prêmios Literários a escritores, tradutores e autores de projeto gráfico, em reconheciment o à qualidade intelectual e técnica de seus trabalhos, nas seguintes categorias: Romance; Conto; Poesia; Ensaio Literário; Ensaio Social; Tradução; Projeto Gráfico; Literatura Infantil e Juvenil. Fomentar, no âmbito nacional, a produção inédita de textos inéditos nas categorias correspondent es aos gêneros lírico e narrativo, a partir da concessão de bolsas para o desenvolvimen to de projetos de criação literária Fomentar a promoção e difusão da literatura no âmbito nacional, exclusivament e nos Territórios da Cidadania, a partir da concessão de bolsas a projetos que ofereçam, uma ou mais atividades, a saber: oficinas, cursos,

R$96.000,00

R$12.000,00

8 pessoas físicas - não discrimina as regiões

R$1.800.000,00

R$ 30.000,00

60 bolsas para pessoas físicas Norte 05 Nordeste 11 Sul 09 Sudeste 30 Centro-Oeste 05

R$2.000.000,00

R$ 40.000,00

50 bolsas para pessoas físicas Norte 05 Nordeste 10 Sul 10 Sudeste 20 Centro-Oeste 05

Concurso Público Literatura para Todos – MEC

Arca das Letras – MDA

Programa Petrobras Cultural

contação de histórias e/ou palestras. Seleção de obras literárias inéditas específicas para neoleitores jovens, adultos e idosos, em processo de alfabetização pelo Programa Brasil Alfabetizado e matriculados nas turmas de educação de jovens e adultos das redes públicas de ensino Criado pelo Ministério do Desenvolvimen to Agrário (MDA) em 2003, o programa Arca das Letras promove o acesso à leitura por meio da implantação de bibliotecas nas comunidades rurais brasileiras. Atende famílias de agricultores, assentados da reforma agrária, pescadores, quilombolas, indígenas e populações ribeirinhas. Contemplar, por meio de uma bolsa de criação literária, a manifestação de escritores de ficção e poesia, com inteira liberdade de formas e

R$ 10.000,00 Em 2010 foram selecionados 07 obras literárias.

Desde 2003 foram implantadas 7131 arcas, em todos os estados brasileiros.

R$ 810.000,00

até R$ 54.000,00

15 projetos de pessoas físicas 02 do Sul, 12 do Sudeste e 01 do Nordeste.

gêneros, que já tenham demonstrado consistência, originalidade e potência criativa em trabalhos anteriores.

ANÁLISE DOS RESULTADOS20
Os programas, editais de bolsas e de concursos analisados trazem vários benefícios para o autor – recursos financeiros, visibilidade, divulgação, oportunidades de participação em eventos, aumento da auto-estima, reconhecimento, entre outros – e colaboram para formação e qualificação de leitores, ao ampliar os espaços de produção e circulação para novos autores e projetos literários que, sem esses recursos, dificilmente se realizariam. Os prêmios literários cumprem com seu papel de reconhecer talentos e dar visibilidade à literatura nacional. Assim, se é inegável que estes editais são importantes e devem ser mantidos, ampliados e qualificados, a sua qualificação passa igualmente por reconhecer seus limites e seus problemas. No produto 03 (Labrea:2011c) vimos que as maiores dificuldades encontradas nos editais são: 1. a burocracia exige uma expertisse em elaboração de projetos que muitas vezes está longe da realidade dos autores fora dos grandes centros urbanos (14%); 2. os critérios de seleção não contemplam a bibiodiversidade do país, nem a diversidade cultural que caracteriza as diferentes regiões (14%); 3. a comissão de seleção geralmente seleciona e premia autores já consagrados e editoras conhecidas no mercado (11%); 4. premiados concentrados no eixo RJ/SP (8%) e a premiação não contempla outras regiões do país (5%); 5. pouca quantidade de editais (8%); 6. os editais são pouco divulgados (6%); 7. o valor da bolsa ou prêmio é muito baixo e por pouco tempo (5%) e o pagamento é muito demorado (3%);

20

Este item consta no relatório 05 e pode ter dados e frases referidas na apresentação dos editais acima. Isso ocorre porque, originariamente, estes itens estavam nos produtos 03 e 04, estando dispersos em vários relatórios, portanto. Assim, pedimos desculpas para eventuais repetições, mas retirar parte do texto em favor da redundância, tiraria dele parte da forca de sua argumentação. No item a seguir, apresentaremos a contextualização dos dados, obtidos a partir de entrevistas e questionários com os escritores contemplados.

8. não existe acompanhamento ou avaliação do trabalho desenvolvido (4%) e as ações não tem continuidade (4%); 9. a mídia não faz boa cobertura dos prêmios literários; 10. as obras concluídas não são publicadas (2%) e as obras publicadas não tem boa distribuição e divulgação (2%). Os itens do 1 ao 4 foram atribuídos especificamente ao editais da FBN e dizem respeito ao não-reconhecimento da diversidade cultural que caracteriza o país e que é uma das principais características da gestão do MinC, como demonstramos acima, ao descrever públicos e territórios prioritários da Agenda Social do Governo Federal. As diferentes territorialidades muitas vezes passa a ser a cor local, transformada em

paisagem nas narrativas e não, como defendem os escritores oriundos destes locais, um
fator que diferencia e determina a escrita e coloca uma nova literariedade, ainda não reconhecida pela crítica e academias, e tornada irrelevante nas seleções dos editais. O Governo Federal, através de suas políticas de educação e cultura,
sem mencionar outras áreas que com elas dialogam, insiste que é fundamental reconhecer as especificidades e singularidades de todos os grupos étnicos e culturais que habitam o país e suas políticas devem contemplá-los igualmente. O critério da qualidade técnica aparentemente contempla escritores urbanos, com alto grau de escolarização, mas não é somente esta população que escreve e produz textos literários e este fato deve necessariamente ser considerado em editais públicos que se proponham ter abrangência nacional. (...) De fato, existe muita semelhança entre o perfil dos escritores premiados, regra geral, são escritores já consagrados, com várias publicações, já têm certa visibilidade na mídia, suas obras são resenhadas e contam com crítica literária, em geral os escritores possuem blog ou sítio eletrônico pessoal, são escritores urbanos, do eixo Rio-São Paulo, vinculados a grandes editoras, com alto índice de escolaridade e estão plenamente inseridos no mercado editorial. As críticas a este perfil que se repete ao longo dos anos são no sentido da necessidade de também reconhecer o não-cânone, os não-ilustres. (Labrea: 2011c, p.19-20;25).

Os itens 5 e 7 - referem-se aos editais FBN e Funarte - dizem respeito ao fato de que a periodicidade e os valores são insuficientes para a demanda existente e isso tem a ver com o MinC ter um dos menores orçamentos da Esplanada, embora o investimento da Funarte, R$ 3.800.000,00, nos 2 editais seja muito mais robusto que o da FBN e explicado pelo aporte de recursos que ela teve em 2010. O investimento médio anual da FBN com bolsa de criação – cerca de R$ 36.000,00 – é muito pequeno tanto para impactar o orçamento quanto para dar vazão e visibilidade ao grande número de escritores que surgem a todo momento. A bolsa de criação da FBN pode ser considerada

pro-forma, mais para marcar uma posição do que para mobilizar o mercado literário.

Esses dados, por si só, justificam que se faça uma reformulação nos critérios e orçamentos dos editais da FBN que estão distantes das diretrizes do MinC e longe de responder às demandas da sociedade, como já expusemos no produto anterior (Labrea: 2011c). A nova gestão trouxe mudanças, como apontamos em nossa análise acima, entre elas o aumento de recursos, a ampliação de temas e estes elementos e apontam caminhos mais promissores e sugerem uma nova tendência no tratamento destas questões pela atual gestão da FBN. Em 2011 o edital de tradução conta com mais recursos, principalmente em função do Brasil ser o país homenageado em 2013 na Feira de Frankfurt; o edital de pesquisa teve seus temas ampliados e existe expectativa de mudanças significativas no edital de criação literária. A bolsa da Funarte de criação é mais consistente com uma política pública de Estado, por todos os aspectos já mencionados anteriormente mas em 2011 não houve nova edição da bolsa em função de não haver dotação orçamentária. A Funarte é quem, dentro os editais analisados, tem mostrado uma maior vocação para reconhecer e nomear as diferentes subjetividades e territorialidades que caracterizam os autores nacionais e mantém espaços consistentes na mídia e redes sociais e é lamentável que em 2011 essa política não tenha tido continuidade. Podemos nos perguntar, visto a ampliação do orçamento da FBN e do contingenciamento do orçamento da Funarte, se ao se decidir por promover ou não uma política pública, existe uma análise de resultados e impactos que fundamenta essa decisão, bem como se se considera a participação social na construção desta política. Os autores têm muita dificuldade em conseguir lugar na mídia, nas livrarias e eventos literários, principalmente os emergentes e ainda não consagrados, e esta dificuldade vem traduzida na falta de divulgação que aparece nos itens 6 e 9 acima, e isso reafirma a importância de um portal, da ampliação das redes sociais e uma linha editorial voltada para o segmento. Outras demandas reiteradas nos diversos depoimentos apresentados nos produtos anteriores e sintetizadas no item 10 são a necessidade de publicação, distribuição e circulação de obras literárias. Esta demanda implica desde processos de seleção de obras, interlocução com editoras, participação em eventos literários, pontos de venda, até a intervenção e mediação do Estado nos processos de formação de leitores e distribuição, dos livros. De outro lado, vemos escolas e bibliotecas públicas ou comunitárias com acervo escasso, desatualizado e com quantidade insuficiente de livros para atender a demanda do público leitor. Para articular essas duas necessidades – do autor publicar, distribuir e fazer circular a obra

literária e de renovação de acervo – pode-se pensar em políticas públicas integradoras e articuladas, que pensem todo o processo – cadeia criativa, produtiva e mediadora – que vai desde seleção, publicação da obra, distribuição em bibliotecas e espaços públicos de leitura até o trabalho de leitura, interpretação e criação literária dos leitores. A FBN vai investir R$ 40 milhões para compra de livros para renovar o acervo de bibliotecas públicas, comunitárias e pontos de leitura. Em outubro de 2011, com uma ação que dialoga com a necessidade dos autores de publicação, distribuição e circulação de obras literárias, lançou o Edital de chamada pública para a formação de cadastro

nacional de livros cujo preço final de venda ao consumidor não exceda a dez reais, e para a formação de cadastro nacional de pontos de venda interessados em comercializar esses livros junto às bibliotecas de acesso público inscritas no cadastro nacional de bibliotecas públicas, do sistema nacional de bibliotecas públicas – SNBP. Este edital, como o nome já
explica, tem como objetivo cadastrar obras literárias para serem vendidas para bibliotecas públicas e comunitárias a, no máximo, R$10,00. Este edital pode vir a responder parcialmente a demanda dos escritores – já publicados, vinculados a editoras - por distribuição de suas obras em bibliotecas públicas e comunitárias, embora não existam critérios explícitos no edital ou anexos que garantam a qualidade literária e a bibliodiversidade dos livros cadastrados, tampouco fala da remuneração do autor e, por isso, é difícil avaliar a qualidade literária do que será de fato oferecido às bibliotecas. Podemos inferir que este Edital é favorável às editoras que terão como dar vazão às suas produções literárias e deste modo abastecer o mercado editorial e os pontos de venda. No entanto, essa ausência de critérios, aliada ao valor máximo do livro, nos faz questionar sobre o controle de qualidade das obras e que tipo de negociação envolvendo os autores irá implicar. Recomendamos que a FBN explicite os critérios para a seleção das obras disponibilizadas pelas editoras, a fim de se garantir o acesso a obras literárias de qualidade e não deixe essa decisão nas mãos das editoras. O mais correto seria o levantamento de demandas antes do cadastro dos livros pelas editoras, ou seja, as próprias bibliotecas mapeassem suas necessidades, a partir de pesquisa de acervo e da interlocução direta com seu público leitor e projetasse os cenários desejáveis, a quantidade de livros necessários, considerando os autores regionais, e o edital respondesse às necessidades existentes. Do modo que está posto, são as editoras quem definem os livros a serem disponibilizados, a seu critério, e as bibliotecas terão que escolher entre o que for oferecido. Esta forma não necessariamente beneficia os leitores, que não foram consultados sobre o que querem ler, mas somente o mercado editorial que poderá dar vazão, na pior das hipóteses, a seus livros mais baratos

ou mesmo encalhados. Se as bibliotecas mapeassem suas demandas e estas forem sistematizadas pela FBN, a legislação permite ao Governo Federal a compra de livros diretamente das editoras, podendo negociar preço e entrega em virtude da grande quantidade de livros que estará sendo negociado. No Relatório de Gestão da FBN 2010 está possibilidade está bem explicitada:
Com orçamento proveniente do Programa Mais Cultura, desde 2008, a FBN vem licitando, com êxito, publicações e outros bens patrimoniais para bibliotecas públicas localizadas em territórios da cidadania, em municípios com baixo índice de desenvolvimento humano e em áreas de violência. (…) A competência da interlocução com as Coordenadorias Regionais do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas - SNBP e com as Prefeituras, assim como a gerência de todas as atividades, fica a cargo da Coordenação Geral do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas SNBP, enquanto à Coordenação Geral de Planejamento e Administração - CGPA atribui-se tarefa das operacionalizações das aquisições e das distribuições para atingir as metas estratégicas propostas (Relatório de Gestão FBN 2010: p.13).

Ou seja, a FBN tem condições de comprar e distribuir os livros paras as bibliotecas e pontos de leitura. Na aquisição de livros pelas bibliotecas é desnecessário o papel do ponto de venda que terá que ser remunerado pelo papel de intermediário entre editoras e bibliotecas. Earp e Kornis demonstram em seu livro Economia da Cultura (2005) que cerca de 40 a 50% do valor de capa do livro refere-se aos custos de distribuição. Assim, entre bibliotecas e editoras sairá mais em conta dispensar intermediários, possibilitando a negociação de livros de maior qualidade gráfica pelos mesmos R$10,00, que é o preço máximo para venda. Outra questão, elencada entre as maiores dificuldades dos autores, é a ausência de o acompanhamento e a avaliação dos programas e editais, que aparece no item 8, e que tem como consequência, entre outras, a falta de continuidade da ação e dados quantitativos e qualitativos das ações. A avaliação é a coleta sistemática e regular de informações sobre as ações, as características e os resultados de um programa, e a identificação, esclarecimento e aplicação de critérios, passíveis de serem defendidos publicamente, para determinar o valor - mérito e relevância -, a qualidade, utilidade, efetividade ou importância do programa sendo avaliado em relação aos critérios estabelecidos, gerando recomendações para melhorar o programa e as informações para prestar contas aos públicos interno e externo ao programa do trabalho desenvolvido (cfe. Chianca: 2001, p.16).

Os programas e editais são concebidos para solucionar problemas previamente identificados, e para alcançar resultados mensuráveis, a partir de indicadores oriundos de um processo de acompanhamento e avaliação. De modo geral, os programas que estamos avaliando executam a primeira parte deste processo – identificam problemas e propõem ações para resolvê-los ou minimizá-los -, mas não conseguem nem acompanhar e avaliar a ação, gerar dados ou informações sobre as mesmas, tampouco prever e garantir sua continuidade, seja por questões de escassez de recursos humanos, contingenciamento do orçamento ou mesmo porque não previu essas etapas. Tomamos como exemplo de nossa argumentação a bolsa de criação da FBN que serve para o autor finalizar a escrita da obra literária, mas não prevê ou acompanha o que acontece com o livro depois de finalizado, se ele é ou não publicado. Assim não temos como avaliar se esta bolsa de fato serviu para alavancar a carreira do autor, pois em literatura não basta finalizar a obra literária, é necessário publicá-la, divulgá-la, vendê-la e se existe investimento do Estado na criação da obra, se deveria ao menos conhecer seu futuro. Vimos no produto anterior que a FBN não acompanha e nem realiza processo de avaliação, o MEC prevê acompanhamento interno e externo – o que seria o ideal - mas está com dificuldade em publicar os livros selecionados, não mantendo sequer comunicação com os autores contemplados em seu edital, e novamente é a Funarte quem demonstra seguir um planejamento estratégico, pois mantém uma rede para manter a interlocução com seus bolsistas e entre os mesmos, solicita relatórios regulares, vemos na mídia as notícias sobre os livros publicados e os depoimentos dos contemplados (Labrea:2011c) mostra que existe um processo de acompanhamento e avaliação constante que permite estabelecer a correlação entre o objetivo alcançado e o problema que deu causa a esse objetivo, as correlações entre as ações a serem empreendidas, em um modelo de gestão voltado para resultados e impacto na qualidade de vida da população beneficiada pela política pública. A avaliação de resultados é possível através de um processo contínuo de ação e reflexão, que permitam aos gestores a análise da experiência. O papel da avaliação transcende a mera questão fiscalizadora ou controladora, abrangendo uma intensa reflexão que deve ser feita com todos os envolvidos no processo. Nesse sentido, acreditamos que os resultados dos programas analisados são – com exceção da Funarte avaliados apenas qualitativamente, de modo quase intuitivo, assistemático, e esta avaliação pode e deve ser quantificada, com a criação e aplicação de indicadores.
Neste sentido, a identificação dos resultados das ações por meio de medidas de desempenho se constitui no eixo de comunicação com a sociedade e de evidência da evolução do plano, o que faz dos

indicadores elementos fundamentais para todo o ciclo de gestão das políticas públicas (Brasil: 2010c, p.9, grifo nosso).

OS CONTEMPLADOS NOS EDITAIS
Ao longo de nossa pesquisa, conseguimos contatar vários escritores e ilustradores que foram contemplados com prêmios e editais. A lista dos contemplados, em bolsas e premiações do Governo Federal, dos quais conseguimos depoimento, segue abaixo.
Contemplados e premiados em bolsas e premiações do Governo Federal Edital – Descrição Ano Contemplado Bolsa para autores em fase de conclusão – FBN Bolsa Funarte de Circulação Literária 2008 2009 2009 2010 2010 n/i 2010 n/i 2010 2008 2009 ----2009 2009 2010 2010 n/i 2010 2010 2010 2011 2011 2001 2006 2006 2007 2008 2009 2010 2010 2009 2010 2010 2010 2010 2010 2005 n/i Aurélio Pinotti Catalão Manoel José de Miranda Neto Priscila Costa Lopes Ademiro Alves de Sousa “Sacolinha” Edgar Borges Roni Wasiry Guará Simone Cavalcante Daniel Munduruku Fabiano Calixto Ademiro Alves de Sousa “Sacolinha” Edgar Borges Hélio Neri de Oliveira Aurélio Pinotti Catalão Ademir Assunção Danilo Bueno Jaider Esbell Carlos Henrique Schoroeder Eduardo Loureiro Jr. Laís Chaffe Leusa Regina Araujo Esteves Ademir Demarchi Ademir Demarchi Neida Rocha Neida Rocha Neida Rocha Neida Rocha Neida Rocha Nilza Aparecida Hoehne Rigo Aurélio Pinotti Catalão Carlos Alberto Pessoa Rosa Adélia Prado Claudio Henrique Schoeder Jean-Claude Ramos Alphen Maria Fulgência Bonfim Ivana Arruda Leite Danilo Bueno

Bolsa Funarte de Criação Literária

Lei Rouanet – MinC

Literatura para todos – MEC Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional Prêmio Literatura de cordel Patativa do Assaré – DLLL/MinC Petrobrás Cultural – Literatura

2008 2008

Cintia Moscovich Cristino Wapichana

Um aspecto importante desta pesquisa foi mapear os resultados e impactos que ter sido contemplado pelos editais do Governo Federal proporciona. Enviamos o questionário a todos os contemplados nos editais – MinC, FBN, Funarte, MEC e apresentamos na tabela acima a relação dos autores que responderam a nossa pesquisa, em que sistematizamos as mudanças que ocorreram – impactos e resultados – ao serem contemplados, como segue na tabela abaixo
Impacto e resultado dos Editais % Impactos e Resultados 28 28 25 22 19 17 15 12 12 11 11 10 08 06 05 05 04 04 03 Aumento de práticas de leitura em locais de difícil acesso ao livro. Contato com os leitores Visibilidade e divulgação e difusão da obra literária Reconhecimento do trabalho realizado Publicação Distribuição da publicação nas escolas, bibliotecas, eventos literários e populações sem acervo Estímulo e amadurecimento do trabalho e ideias Incentivo para se manter na profissão Possibilidade de circulação de conteúdo de forma crítica Divulgação na mídia Participação em eventos Contato com cadeia produtiva (editoras, distribuidoras, etc.) Disponibilidade de tempo para se dedicar à literatura. Tranquilidade para trabalhar (bolsa) Retorno financeiro Vitalidade à literatura e ao trabalho do escritor Contato com novos escritores Divulgação do blog ou sítio eletrônico Novo livro finalizado

Podemos visualizar melhor estes resultados a partir da narrativa dos contemplados que segue abaixo, separados por edital.
Prêmio Literário FBN A premiação não alterou meu trabalho literário

propriamente dito, que não deve depender de outra coisa senão à exigência interna de criação, a seu estatuto próprio. Os prêmios têm, sim, o efeito de dar maior visibilidade aos autores, trazendo novos leitores para suas obras. É claro que ganhar prêmios é melhor que não ganhá-los. São sempre bem recebidos. Adélia Prado. Este prêmio me trouxe maior visibilidade no mercado pois todo editor da área acompanha premiação, ao mesmo tempo foi um prêmio literário e como sou um autor iniciante me deu mais estimulo para continuar escrevendo e mostrar meu trabalho para as editoras. Jean-Claude Alphen. Bolsa da Biblioteca Nacional para Autores com Obra em Fase de Conclusão. Com a Bolsa de apoio da Fundação Biblioteca Nacional, foi possível destinar tempo e recursos para a pesquisa e elaboração da obra. Manoel Miranda Neto. No caso da Bolsa para autores com obra em fase de conclusão, da Biblioteca Nacional, gostaria de destacar como ponto positivo o fato de a avaliação das propostas se dar através de trechos da obra em formação, e não de um projeto. Explico-me: um autor de bons projetos não é necessariamente um autor de bons livros; e mais importante: um autor de bons livros não é necessariamente um autor de bons projetos. Outro elemento importante é o anonimato dos proponentes, que garante maior lisura e equidade ao processo de seleção. Marco Catalão. Graças a essa bolsa pude finalizar a contento meu livro O Cânone Acidental, que foi publicado mais tarde por uma editora. O prêmio foi de extrema importância nesse meu início de carreira literária. Na época, eu não tinha nenhuma publicação (com exceção de coletâneas e antologias) e não acredita muito nessas grandes seletivas ou no meu potencial. A Bolsa para muitos escritores dá um valor simbólico, para mim foi como uma Megassena. Acima de qualquer valor monetário, estava o meu reconhecimento. O pessoal que me atendeu na FBN foi bastante atencioso, e a Bolsa funcionou sem atrasos. No ano seguinte eu já estava com tudo pronto para publicar o meu primeiro livro de contos. Sou muito grata à bolsa. Acesso semanalmente os sites das instituições listadas à procura de novos prêmios e bolsas dos quais eu possa participar. São de extrema importância para nós. Priscila Costa Lopes. Toda premiação traz um reconhecimento e visibilidade importantíssimos ao trabalho do autor. Três pontos são fundamentais: valorização financeira, reconhecimento e difusão da obra. A valorização financeira é essencial para que o artista possa para além de sobreviver, viver dignamente de sua arte. O reconhecimento dá visibilidade e estimula a criação, o compartilhamento das ideias e envolvimento da comunidade no ato de criar com garantia de resultados. Isso é fundamental, os resultados serem vistos por outros, trocados, referendados. Daraína Pregnolatto.

Os escritores e ilustradores da literatura infanto-juvenil estão ausentes tanto nas bolsas da FBN para autores quanto nas de tradução, como já mencionamos anteriormente. Existe um paradoxo: ao mesmo tempo em que temos escritores e ilustradores com reconhecimento nacional e vasta produção literária e que é consenso que a entrada ao mundo da leitura se dá por meio dos livros infantis, os escritores deste segmento têm a percepção de que a literatura infanto-juvenil é relegada à posição secundária, sem muita atenção dos críticos, da mídia e excluída de importantes editais, como os já citados da FBN. Novamente nos valemos de Tiepolo (2010), quando afirma que a literatura infanto-juvenil, encontrou seu caminho, abandonando o didatismo e o infantilismo e, desde Monteiro Lobato, possui uma forma de contar que continua formando leitores: uma linguagem próxima ao coloquial, mas que nada de simples tem, pois não menospreza o leitor; a rica intertextualidade, que permite ao leitor reconhecer suas referências culturais e conhecer outros mundos; personagens que passaram a integrar a vida dos leitores. E isso reafirma a importância do Estado estimular a presença de autores e ilustradores infanto-juvenis em seus editais e premiações, pois existe necessidade de projetos que fortaleçam a produção nacional que tem que competir com a literatura estrangeira que invade o mercado sem restrições, como veremos nos depoimentos abaixo.
Depoimento de escritor Precisamos de projetos que possam nos colocar mais próximos das crianças e jovens, mostrando que a literatura não é uma arte de gaveta ou de reclusão, mas uma forma viva de se trabalhar a construção do mundo. Os escritores precisam ser mais convidados para atividades que os coloquem dentro de escolas, em comunidades e nos sertões de nosso país. Adriano Messias. Bolsas de estímulo para continuidade a quem realmente se dedica ao ofício de escrever e ilustrar profissionalmente, firmando com a arte da imagem e da palavra ao leitor em qualificação. Financiamento mais amplo à tradução de autores infantis brasileiros para outros idiomas, além da criação de uma rede de distribuição mais eficaz. Proteção à produção nacional de LIJ, haja visto a invasão de traduções e editoras internacionais que vem se servir do mercado que firmamos, e não possibilitam a via inversa. Embora treze anos de trabalho em LIJ, ainda não nos foi possível assegurar estabilidade e tranquilidade para dedicarmo-nos com mais afinco à produção literária, haja visto tenhamos que nos desdobrar em divulgadores do próprio trabalho, além de para assinarmos contratos tenhamos de ter uma boa performance junto ao público leitor. Imagino que muitos novos autores sofram ainda mais com a dificuldade de publicação, haja visto as editoras

tenham preferência por autores que já lhes assegurem uma fatia do mercado. Além disso, com a facilidade de publicar por editoras "vanity free" - editoras nas quais o autor paga para ser publicado, ou seja, autores que publicam por pura vaidade. Em detrimento disto, vemos autores excepcionais que humildemente sujeitam seus textos à equipes de avaliação, revisores, especialistas formados e contratados tendo de criar desafios para ocuparem lugares nas prateleiras da grandes livrarias e disputarem mercado a partir dos preços de suas publicações, em vez da qualidade das mesmas. Hermes Bernardi Jr.

Em estudo sobre o perfil do leitor infanto-juvenil, Biasioli (2007) diz que a literatura infanto-juvenil é ainda marginalizada, não recebendo o incentivo que merece e fica circunscrita ao universo da escola e do professor. Novamente é papel do Estado reverter essa situação, ao colaborar para que a Literatura Infanto-juvenil ocupe um papel relevante e ao reconhecer o trabalho de escrita do autor do livro infanto-juvenil, a partir de uma política pública voltada a fortalecer os escritores nacionais. Da mesma forma, escritores indígenas não têm espaço nas bolsas da FBN e esta ausência é, nos termos de Boaventura de Sousa Santos (2004), um desperdício da

experiência estética e literária produzida pela literatura indígena neste país. Mauricio
Negro discorre de forma exemplar sobre os modos que o Estado e o mercado poderiam fortalecer este importante segmento literário.
Todo autor de texto ou imagem, virtualmente ligado à produção literária, carece sobretudo de visibilidade e divulgação do seu trabalho. Autores indígenas, e todos que se dedicam ao registro e revalorização dos saberes milenares nativos, precisam de uma exposição maior na grande mídia. Também precisam de aporte logístico para se dedicarem com mais frequência e entrega à sua arte. Boas alternativas são os programas de estímulo artístico e literário, financiados e acompanhados, como acontecem em instituições no exterior. Na França existem o que chama de francofonia. Ou seja, uma rede de iniciativas que promovem e gratificam àqueles que zelam pela identidade nacional. (...) No Brasil temos uma vastidão de identidades, uma riqueza linguística, étnica e cultural notáveis. Intercâmbios, oficinas literárias e gráficas, prêmios estímulo, entre outras ideias poderiam ajudar. O mais importante é conceber uma iniciativa de apoio que permita uma produção mais regular, concentrada e focada de nossos autores, escritores e ilustradores. No conceito de residência artística ainda, no Brasil conheço o Instituto Sacatar (http://www.sacatar.org/). Outros poderiam existir seguindo esse modelo e com bolsas especiais a autores autóctones. Para os novos autores indígenas também seria interessante promover intercâmbios com produtores de texto e imagem já atuantes no segmento. Mauricio Negro.

Eliane Potiguara diz que o MinC também contribuiria para o fortalecimento da

literatura indígena ao implementar ações culturais e campanhas publicitárias, além de publicar ou comprar livros para distribuição em escolas e bibliotecas. Esta ação também contribuiria para o cumprimento da Lei Federal 11.645 de 10 de março de 2008 que torna obrigatório o ensino da historia e cultura indígena em sala de aula. Daniel Munduruku propõe organizar uma Academia dos Saberes Indígenas, para que, além de formar e qualificar novas lideranças, se tenha um espaço reservado para a preservação da memória, dos saberes e fazeres das diferentes etnias que compõem o Brasil. Além disso, teve a ideia de Pontos de Literatura Indígena nas aldeias, além da tradução de obras da Literatura Brasileira para os principais idiomas indígenas, como apresentamos no produto 04 (Labrea: 2011c).
Bolsa Funarte de Criação Literária A Bolsa Funarte possibilitou dedicar-me integralmente a uma obra que vinha gestando havia 4 anos, porém, por afazeres diversos, vinha adiando. Ou escrevendo muito lentamente. (…) Para o meu processo criativo, possibilitou o desenvolvimento do poema em prosa. Além da pesquisa concentrada, possibilitou-me o desenvolvimento da nova obra e a procura de novos caminhos no conjunto da minha poesia. (…) No Brasil, como em quase todos os países do mundo, é comum pesquisadores obterem bolsas federais ou estaduais para desenvolverem dissertações e teses de mestrado, doutorado ou pósdoutorado. Porém, são raríssimas as bolsas para escritores e poetas poderem se dedicar ao trabalho criativo, ao desenvolvimento de suas linguagens e a construção de novas obras que vão se somar ao acervo da literatura brasileira. São raríssimos os escritores e poetas que conseguem viver do seu próprio trabalho criativo. A absoluta maioria deles tem que se dedicar a outros trabalhos para garantir a sobrevivência. Apenas nas horas vagas (geralmente nas madrugadas, nos feriados e finais de semana) é que podem se dedicar ao próprio trabalho criativo. Muitas vezes, por força das necessidades, acabam adiando suas obras, ou conseguindo concluí-las em prazos muito extensos. Neste sentido, a Bolsa Funarte é uma importantíssima conquista não somente para os escritores, mas para os leitores e o conjunto da sociedade brasileira, pois tem enriquecido seu acervo literário com novas obras. Especialmente para a arte poética, a Bolsa Funarte tem um papel importantíssimo, visto que a poesia é, entre todos os gêneros, o mais marginal dentro do mercado editorial. Possibilitar que poetas se dediquem com mais tempo ao trabalho criativo é reconhecer a importância da poesia para o patrimônio cultural do país. Ademir Assunção. A Bolsa de Criação permitiu dar início ao trabalho de preparação de meu primeiro livro solo impresso. Em conversas com outros beneficiados, a sensação predominante é sempre a mesma: a bolsa estimula a produção literária muito além da questão

monetária. É uma escada para atingir o sonho da publicação. No meu caso, é com recursos de bolsa que irei imprimir as mil cópias do livro, com previsão de doar 100 unidades para escolas públicas e particulares de Roraima, conforme o projeto aprovado. No caso da Bolsa Funarte de Criação Literária, gostaria de destacar como pontos positivos o valor da premiação (muito mais alto que o da FBN), a forma desburocratizada do pagamento (feito numa única parcela), a exigência de dois relatórios (um no meio e outro no fim do processo) e a possibilidade de que algumas obras (5 entre as 60 contempladas) venham a ser publicadas. Trata-se de um ótimo estímulo para que o escritor se esforce ao máximo na execução da sua obra. Acabo de entregar à Funarte meu relatório final, com o livro completo, e espero que ele seja um dos escolhidos para serem publicados. Marco Catalão. Bolsa Funarte de Circulação Literária A bolsa de circulação literária permitiu que ampliasse o alcance das ações do coletivo do qual faço parte. Conseguimos levar (…) para comunidades indígenas e para o Nordeste, fortalecemos a nossa rede de parcerias e consolidamos o nosso nome como a principal (quiçá a única) organização social informal a trabalhar com literatura e arte no Estado. O prêmio possibilitou a divulgação da literatura indígena em diverso municípios do estado de São Paulo e do Amazonas. Foram atividades que envolveram grupos de escritores indígenas e que propunham oficinas, palestras, saraus para jovens e educadores. Percebemos que a literatura indígena ainda é pouco conhecida pela sociedade brasileira. As pessoas ainda manifestam preconceitos e estereótipos clássicos com relação aos povos indígenas brasileiros. Por outro lado, ao entrarem em contato com a literatura indígena, acabam sendo impactadas pela realidade que esta literatura alcançou. Do meu ponto de vista, editais que facilitem esta difusão beneficiará não apenas os indígenas, mas toda a sociedade brasileira. Daniel Munduruku.

Como podemos ver pelo depoimento acima, o reconhecimento do Estado, neste caso, é fundamental e atualiza o objetivo da política cultural do MinC: provocar mudanças na sociedade através de ações. Ao incorporar em seus editais a literatura indígena, a Funarte adota uma visão sistêmica de cultura, considerando as dimensões sociológica e antropológica de cultura. As bolsas Funarte dialogam tanto com escritores urbanos, radicados nos grandes centros, sem esquecer as diferentes regiões do pais, todas contempladas, além de escritores indígenas. O resultado desta inclusão pode ser medido nos depoimentos a seguir:
Depoimento de escritor

O edital foi muito importante para divulgação da literatura preservação e documentação dos saberes tradicionais de meu povo, serviu como incentivo para outros parentes também buscarem essas alternativas, o resultado é positivo para o trabalho que desenvolvo. Roni Wasiry Guará. O trabalho em si foi importantíssimo como ferramenta para se trabalhar em sala de aula história e cultura indígena (...) Foram feitas várias oficinas e escolas e associações com os contadores de historias e entregue 5 kits em cada oficina. Foi entregue também na biblioteca nacional 120 kits para serem distribuídos em bibliotecas espalhadas pelo País e outra parte do material foi entregue para professores e escritores indígenas distribuírem em suas comunidades e nas escolas indígenas nas 5 regiões. Cristino Wapichana. Edital Literatura para todos – MEC No caso do Concurso Literatura Para Todos, promovido pelo MEC, a iniciativa de criar livros para um público específico que normalmente não tem acesso à literatura me parece excelente e muito louvável, mas sua implementação tem deixado a desejar. Recebi o prêmio em 2009, mas até agora o livro não foi publicado (nem mesmo os livros premiados em 2008 foram publicados). Marco Catalão. Edital PETROBRAS Cultural – Literatura Essa ajuda financeira me deu tranquilidade para trabalhar. E digo o mesmo que outros escritores comentam. No meu caso, particularmente, como fui acometida de grave doença, a confiança depositada por uma instituição como a que me chancela, me levou, e tem levado, adiante. Na verdade, após a rigorosa seleção a que são submetidos os candidatos à bolsa, a escolha significa um grande prêmio também moral. Talvez não seja o ideal que os escritores e demais artistas dependam do Estado de forma integral mas creio que, para que o trabalho intelectual seja valorizado, o exemplo tem de partir da esfera mais alta. Cintia Moscovich. Para o autor, ganhar um prêmio literário repercute definitivamente na carreira, representa reconhecimento, os espaços para mídia abrem-se um pouco mais e melhora as condições para negociar com os grandes distribuidores, visto que os autores iniciantes no geral lançam seus livros por pequenas editoras que ainda não possuem boa estrutura de distribuição e divulgação. Eliana de Freitas

Os editais, como podemos acompanhar pelos depoimentos acima, trazem vários benefícios para o autor – recursos financeiros, visibilidade, divulgação, oportunidades de participação em eventos, aumento da auto-estima, reconhecimento, entre outros – e colaboram para formação de novos leitores ao dar espaço para novos autores e projetos

literários que, sem esses recursos, dificilmente se realizariam. Os prêmios literários cumprem com seu papel de reconhecer talentos e dar visibilidade à literatura nacional. Assim, se é inegável que estes editais são importantes e devem ser mantidos e qualificados, a sua qualificação passa igualmente por reconhecer seus limites e seus problemas. Para isso, contamos novamente com o depoimento de autores que se candidataram aos editais e – sendo ou não premiados – puderam perceber de perto as maiores dificuldades que eles apresentam. As duas maiores dificuldades visualizadas estão na burocracia que exige uma expertisse em elaboração de projetos que muitas vezes está longe da realidade dos autores fora dos grandes centros urbanos e nos critérios de seleção que não contemplam a bibliodiversidade do país, nem o multiculturalismo que caracteriza as diferentes regiões. A dificuldade para reconhecer a diferença multicultural também está presente na percepção que os premiados se concentram no eixo Rio-São Paulo e têm características semelhantes: são em geral, autores urbanos, com alto grau de escolaridade. As diferentes territorialidades muitas vezes passam a ser a cor local, uma paisagem em suas narrativas e não, como defendem os escritores oriundos destes locais, um fator que diferencia a escrita e coloca uma nova literariedade, ainda não reconhecida pela crítica e tornada irrelevante nas seleções dos editais.
O Governo Federal, através de suas políticas de educação e cultura, sem mencionar outras áreas que com elas dialogam, insiste que é fundamental reconhecer as especificidades e singularidades de todos os grupos étnicos e culturais que habitam o país e suas políticas devem contemplá-los igualmente. O critério da qualidade técnica aparentemente contempla escritores urbanos, com alto grau de escolarização, mas não é somente esta população que escreve e produz textos literários e este fato deve necessariamente ser considerado em editais públicos que se proponham ter abrangência nacional (Labrea: 2011c, p.19-20)

Por isso talvez exista a percepção de que os editais selecionam sempre os mesmos. Se observarmos a tabela dos contemplado acima, veremos que na verdade existe uma alternância nos selecionados e embora alguns poucos sejam contemplados em diferentes editais (talvez porque já tenham dominado a metodologia de elaboração de projetos, muito parecida em todos os editais), a regra é que os contemplados sejam pessoas diferentes, a cada edição. Nos prêmios, a tendência é reconhecer os já consagrados, e isto é previsível já que se busca reconhecer a excelência, mas mesmo assim existe espaço para autores que estão em processo de se colocar no mercado e que mostram a mesma

excelência dos mais experientes. O que de fato existe é uma tendência de reconhecer e premiar autores que possuem um perfil semelhante, como vimos ao analisar os editais e ver que é fato dos prêmios estarem concentrados na Região Sudeste.
De fato, existe muita semelhança entre o perfil dos escritores premiados, regra geral, são escritores já consagrados, com várias publicações, já têm certa visibilidade na mídia, suas obras são resenhadas e contam com crítica literária, em geral os escritores possuem blog ou sítio eletrônico pessoal, são escritores urbanos, do eixo Rio-São Paulo, vinculados a grandes editoras, com alto índice de escolaridade e estão plenamente inseridos no mercado editorial. As críticas a este perfil que se repete ao longo dos anos são no sentido da necessidade de também reconhecer o não-cânone, os não-ilustres. (Labrea: 2011c, p.25).

Esse dado, por si só, justifica que se faça uma reformulação nos critérios dos editais, principalmente os da FBN que são muito conservadores, como já expusemos no produto 04 (Labrea: 2011c). A Funarte é quem, dentre os editais analisados, tem mostrado uma vocação para reconhecer e nomear as diferentes subjetividades e territorialidades que constituem os autores nacionais. Outra questão, não menos relevante, é o acompanhamento e a avaliação destes editais. Vimos em depoimentos que muitas vezes a bolsa de criação serve para finalizar o livro e este, sem prenúncio de publicação, vai para a gaveta. Se existe publicação, a obra não é distribuída ou divulgada corretamente. Ou seja, as ações em geral não tem continuidade. Vimos no produto anterior que a FBN não acompanha e nem realiza processo de avaliação, o MEC está com dificuldade em publicar os livros e novamente é a Funarte quem mantém uma rede com seus bolsistas, pede relatórios regulares e os depoimentos mostram que existe um processo de acompanhamento e avaliação constante. Abaixo segue a tabela dos problemas mais citados, entre eles a burocracia, critérios que excluem os novos autores e comissão de seleção que premia os mesmos autores e editoras já consagrados.
Problemas em relação aos editais % Problemas 1 4 4 1 8 Critérios de seleção estão fora da realidade dos escritores 1 novos ou emergentes A comissão de seleção geralmente seleciona e premia autores já 1 consagrados e editoras conhecidas no Mercado Os premiados são sempre os mesmos, nos diferentes editais 0 Burocracia que dificulta o acesso

0 8 0 8 0 6 0 5 0 5 4 4 0 3 0 3 0 2 0 2

Premiados concentrados no eixo RJ/SP Pouca quantidade de editais Os editais são poucos divulgados A premiação não contempla as diferentes regiões do pais Valor da bolsa é muito baixo ou avaliação do trabalho

Não existe acompanhamento 0 desenvolvido As ações não tem continuidade 0

Pagamento do prêmio ou bolsa é muito demorado A mídia não faz boa cobertura dos prêmios literários As obras concluídas não são publicadas As obras publicadas não tem boa distribuição

Além do depoimento dos contemplados, conseguimos mapear igualmente escritores e ilustradores que se candidataram aos editais, mas não foram contemplados (ou foram em algum e outro não), mas, generosamente, fizeram uma avaliação de sua participação nos editais. Muitos escritores ficam de fora da premiação e, no seu entendimento, isso acontece porque eles não se enquadram no perfil que é tradicionalmente contemplado, como podemos ver pelo depoimento de uma escritora paulista:
Sinto muita dificuldade no que concerne a prêmios e concursos, que muitas vezes contemplam os mesmos nomes, ou pessoas de um mesmo grupo. O júri se repete bastante e é desanimador. Infelizmente, sempre preferem seus amigos e protegidos. O universo destes concursos é muito provinciano, e as vezes, até mesmo misógino. Já desisti de me inscrever no futuro. Acho que seria interessante se o MinC analisasse e apoiasse projetos individuais, ou até mesmo pequenas editoras. Atualmente tenho publicado livros artesanais, de baixo custo (plaquetes). É muito difícil e caro publicar no Brasil, divulgar o seu trabalho, conseguir resenhas, etc.

Ao acompanhar estes depoimentos que abarcam os discursos e narrativas de contemplados e não-contemplados, as forças e os limites de cada edital, procuramos credibilizar toda experiência, mostrando tanto o discurso que é comum aos autores, quanto suas particularidades, para podermos, ao fim desta consultoria, propor subsídios que tenham o respaldo da comunidade de escritores com as quais dialogamos.

Depoimento de escritores Alguns concursos em que participei nunca fui premiada ou selecionada, infelizmente. Nos editais da FBN, por exemplo, a equipe de jurados, geralmente seleciona e premia autores já consagrados e editoras conhecidas no mercado. A FBN tem premiado os mesmos autores. [Sugestões]: ESCRITOR: selecionar em seus editais, autores não consagrados (que estão fora do MERCADO EDITORIAL), mas que estão produzindo e publicando livros e NOVIDADES na área literária - O MinC não tem olhos para produção do interior e para movimentos literários nascidos e criados no interior. ESCRITOR: editais específicos para AUTORES NÃO CONSAGRADOS (independente da idade), para publicação de obras e distribuição gratuita nos pontos de leitura implementados pelo MEC-MINC. (algumas revistas e periódicos selecionados para fazerem parte do acervo de bibliotecas e pontos de leitura, (edital 2010 - com verba de 100.000,00) não estimulam a leitura. A revista mais indicada para literatura e leitura é a CULT. Processo seletivo para ilustradores (de todo Brasil) de livros distribuídos pelo MEC/MINC e processo seletivo para NOVOS JURADOS. Andreia Leal. Pergunto: a quem é destinado o fortalecimento [dos editais]? Aos escritores e ilustradores que estão em evidência na mídia e vivem nos grandes centros e por isso podem correr atrás e se exporem mais? Geralmente quem vive no interior e não tem suficiente aval financeiro não consegue alcançar essa visibilidade e termina se anulando por falta de estimulo. E quando encontra estímulos no caso dos editais do governo do estado e federal , se esbarra com uma lista enorme de coisas, inviáveis do ponto de vista financeiro e temporal. Depois baila sempre na cabeça quem irá avaliar? Onde ficará o meu trabalho depois? Estou falando de bons trabalhos. Celeste Martinez. [O governo poderia contribuir] criando basicamente, leis de incentivo para a produção autoral, facilitando a informação em massa desses editais e simplificando o ingresso dos participantes em projetos culturais, após uma apresentação de seu portfólio e/ou produções. Danilo Dias Existem milhares de escritores no Brasil hoje que vivem da escrita e, estranhamente, esses, muitas vezes, são beneficiados por editais, como o da Petrobras, que exige do autor mínimo de um livro publicado para que seu projeto seja aceito. (...) Acredito que a demanda que nós escritores, principalmente iniciantes, precisamos é de uma maior visibilidade aos olhos institucionais. Bem como uma prática mais justa, principalmente em distribuição, de benefícios mais sérios por parte dos editais e fazer dos prêmios literários uma via para o aparecimento de novos escritores, bom como a solidificação, mas não a dependência desses meios para que seja essa uma profissão viável nesse país. Marcos Fabio de Faria. Uma vez, li o edital da PETROBRAS e achei labiríntico, dificílimo. Tenho um amigo poeta, que alcançou a graça de receber uma bolsa da

PETROBRAS, que me disse o seguinte: “Quase desisti no meio do processo, tamanha a burocracia e o número de etapas a cumprir”. Luis Roberto Guedes. [é necessário ] Mais concursos confiáveis e responsáveis. A ausência de uma ata, por parte do júri, justificando escolhas, faz com que os participantes não tenham como compreender, em profundidade, os critérios adotados e qual a mentalidade estética que houvera prevalecido. Um memorial justificativo, por parte do júri, traria o benefício da coerência, transparência e formação de uma consciência crítica do público participante e leitor em geral. Estaríamos interessados nisso? Trabalhar com seriedade para a construção de um processo participativo de fato; ao invés de premiarmos artistas consagrados com milhões, via recursos públicos, para a divulgação de um trabalho já exaustivamente divulgado, dividirmos milhões entre a massa marginalizada que produz, com maior identidade dadas as suas condicionantes particulares, sua obra de fundo de quintal, de fundo de gaveta, a fundo perdido. Ricardo Carranza.

Estes depoimentos traduzem uma realidade que vislumbramos acima quando elencamos os contemplados nos editais FBN desde 2008. Nas bolsas de tradução vemos muitas vezes o mesmo autor ser selecionado para ser traduzido em diferentes idiomas, como ocorreu, por exemplo no edital de 2010, em que tiveram pelo menos duas demandas de traduções no exterior, estiveram nomes como Jorge Amado, Alberto Mussa, Luis Fernando Veríssimo, Moacyr Scliar, Chico Buarque, Machado de Assis e Bernardo Carvalho. Se esta realidade é justificada, pelo menos parcialmente, pela necessidade de promover a Literatura Brasileira no mercado internacional e ele, como já sabemos, é impulsionado por mais do mesmo, por autores já conhecidos e consagrados com vendagem garantida. Mas os contemplados para a bolsa de tradução não se resumem aos mesmos autores, fato perceptível pela lista dos contemplados no período 2008-2010, onde existe espaço – embora menor - para autores emergentes e contemporâneos. O fato é que o número de bolsas é reduzido e isso limita as opções. Este estudo demonstra a necessidade de estimular traduções literárias de qualidade, assim como a necessidade de desenvolver políticas públicas que possuam continuidade, ampliando o número e o valor das bolsas de tradução, reservando um número de suas bolsas aos autores emergentes. A agenda social do Governo Federal tem como premissa a articulação das políticas públicas desenvolvidas na esfera social e, com isso, o aumento da eficiência na ação do Estado. Seguindo essa ideia, podemos pensar em políticas públicas articuladas, dialógicas e complementares a fim de ampliar o rol de oportunidades e fortalecer a cadeia criativa do livro e na parte final deste produto reapresentaremos nossa proposta, já exposta no produto 04 e os editais que a DLLL/FBN

está lançando este ano, seguido de análise. No momento, cabe apresentar os dados obtidos com a pesquisa com os escritores e ilustradores para contextualizar e justificar nossa proposta de política pública para o fortalecimento da cadeia criativa do livro.

PESQUISA COM ESCRITORES E ILUSTRADORES
Iniciamos a pesquisa, para mapear necessidades e demandas dos escritores e ilustradores, com a elaboração do instrumento de pesquisa, um questionário, apresentado no produto 02 (Labrea, 2011b) com dez questões – dados de identificação, publicações, formação, participação em editais e premiações, impacto e resultados dos editais e prêmios em seu trabalho, uma questão sobre como o Governo Federal poderia contribuir para o fortalecimento do trabalho do escritor e ilustrador, suas demandas e necessidades. Enviamos este questionário, seguido de um ofício apresentando a pesquisa e seus objetivos, às entidades e redes de escritores, além de cerca de 200 escritores que achamos através de pesquisa na internet e banco de dados da Diretoria. Foram enviados em torno de 700 e-mails, sem contar o papel importantíssimo de difusão da pesquisa que as redes e entidades desempenharam, multiplicando a circulação de nossas mensagens. Recebemos 188 respostas, sendo que, destas, 31 são de escritores da Região Sul, 93 da Região Sudeste, 11 da Região Norte, 44 da Região Nordeste e 9 do Centro-Oeste. Deste total, 14 escritores são da Literatura indígena (contos, romances e poesia) e 28 da Literatura Infanto-Juvenil (contos, romances e poesia), como podemos ver na tabela abaixo:
Distribuição de autores por região Lit. Brasileira Literatura Infanto-juvenil Indígena 08 00 Sul 11 08 Sudeste 00 02 Norte 07 03 Nordeste 02 01 Centrooeste 28 14 Total Parcial Região

Literatura Brasileira: contos, crônicas, poesia, romances e blog. 23 74 09 34 06 146

Total Geral 31 93 11 44 09 188

Em relação à formação e escolaridade, os escritores e ilustradores que responderam à nossa pesquisa, em geral, têm formação superior, e destes, a grande maioria tem mestrado ou especialização, muitos com doutorado e pós-doutorado, em

geral na área de humanas e ciências sociais. Somente 23 autores não têm graduação, tendo completado apenas o ensino médio, como podemos observar na tabela abaixo. Este dado reforça o senso comum que afirma que a literatura é uma área restrita, que exige formação e uma série de conhecimentos e técnicas que são acessíveis somente a pessoas com um alto grau de escolaridade. Vemos que autores com ensino médio, em geral, são autodidatas e têm mais dificuldades em se colocar no mercado editorial e publicar sua obra. Mesmo considerando que o Ministério da Cultura, ao longo da gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira e agora com Ana de Hollanda, esteja trabalhando para reconhecer os saberes tradicionais e dar um novo estatuto para as histórias orais, os contadores e os Mestres, vemos que a produção literária oriunda de povos e comunidades tradicionais é ainda pouca, com distribuição e circulação regional apenas. Este dado poderá ser visualizado adiante, o mencionamos agora apenas para enfatizar o fato de que a profissionalização do escritor e ilustrador está diretamente relacionada a alto grau de escolarização.
Escolaridade Ensino Médio 05 12 01 05 00 23

Região

Sul Sudeste Norte Nordeste Centro-oeste Total Parcial

Ensino Superior (Graduação e pós-graduação) 26 81 10 39 09 165

Total Geral 31 93 11 44 09 188

Em nossa pesquisa solicitamos que os autores listassem suas obras. Todos o fizeram, porém nem todos citaram o nome da editora, apenas o nome da obra. Mesmo assim, conseguimos uma lista considerável de editoras, que apresentamos a seguir pelo nome, seguido do número de escritores e ilustradores publicados.
Editoras citadas na pesquisa Editora Lit. Brasileira: contos, crônicas, poesia, romances, cordel, etc. 0 34 7 7 Letras 3 Achiamé 1 Adonis 1 AGE 1 Alcance

Lit. Indígena

Lit. Brasileira Infanto-juvenil

0 0 0 0 0 0

1 0 0 0 0 0

Alfa-ômega All Print/SP Alpharrabio Ed. Alternativa Amarilys/Manole Annablume Arena Verlag/Alemanha Argonautas Art Pop Artes e Ofícios Ateliê Editorial Ática Atrito Art Atual Autêntica/PUC MG Bagaço Balgarski Pisatel/Bulgária Baltazar Rebello de Souza Barbárie Base Editorial Bernúncia Bertrand Brasil Biruta Blocos Ed. Blog Boi Tempo Brasil Grafia Brasília Bureau Caki Books Caliban Callis Candlewick/EUA Catavento CBJE/RJ Centro Ecumênico de Publicações e Estudos CEPE Cepim/Itália Cia das Letras/Letrinhas Cia Editora de Pernambuco Ciência do Acidente Civilização Brasileira CN Ed. CNEC Conecta Brasil Confraria do Vento Conrad Cortez Cosac Naif DCL Degaspari Delicatta

1 2 6 1 0 1 0 0 0 0 2 1 3 0 1 2 0 1 1 0 1 1 0 1 28 1 1 1 1 0 2 0 0 1 1 1 1 0 0 2 2 2 1 1 0 3 0 1 3 0 1 1

0 0 0 0 1 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0

0 1 0 0 0 0 0 1 1 2 0 2 0 3 0 0 0 0 0 1 0 0 3 0 0 0 0 0 0 1 0 1 1 0 0 0 0 0 2 0 0 0 0 0 1 0 2 0 0 3 0 0

Demócrito Rocha Demônio Negro Dengo Dengo Design/SC Dimensão Dubolso Dulcinéia Catadora É Realizações Eblis/RS E-book Eco-Rio Ed. Almedina/Portugal Ed. Da Casa Ed. Da Tribo Ed. Do Brasil Ed. Inteligentes Edição do Autor Ediouro Edipro Editorial Andrômedra/Costa Rica EDUFBA Eldorado Elementar Escrita Fina Escrituras Expressão Popular Farrar Straus & Giroux/EUA Formar Formato Francis FTD Fumproart Funcultura de Pernanbuco Fundo de Assistência à Cultura de Mauá Geração Ed. Giz/SP Global Globo Grafite/RS Gramofone Grãos de Luz e Griô/BA GTR Hobby & Work/Itália IAP Idea Ed. IEL/IGEL/RS Iluminuras Imprensa oficial do Paraná INL In Vento

0 1 1 1 0 1 2 1 2 5 0 1 2 1 2 1 19 1 1 1 1 2 0 0 4 1 0 1 0 0 1 0 1 1 1 2 4 0 1 0 1 0 0 0 1 1 4 1 1 1

0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0

1 0 0 0 3 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 1 0 0 0 0 1 1 0 0 1 0 2 1 4 1 0 0 0 0 2 3 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0

Independente Insular Jac José Olympio Jovens Escribas/RN Juarez de Oliveira Kan Kelps KLP La Salle Lamparinas Larousse Letras Contemporâneas Letra Selvagem/SP Letras & Artes Letras & Letras LGE Limiar Língua Geral Linha Gráfica Litteris Livraria São José Livro Aberto Livro Pronto LPM Lume Masso Ohno Mauá Meiotom Melhoramentos Miró Moderna Multifoco/RJ Nankin Não publicado (obra inédita) Nativa News Print Nova Fronteira Nova Letra Nova Razão Cultural Novitas Odorizzi Oficina Raquel Oliveira de Azeméis/Portugal Opera Prima/SP Orpheu Paka-tatu Palavra Mágica Palmarinca Panda Books Panorâmica Poética Luso-Hispanica/Portugal Papa Terra Ed.

1 0 1 0 2 1 2 0 1 0 1 0 1 3 1 1 2 2 2 0 1 1 1 2 1 3 2 1 1 0 1 2 5 2 25 1 1 2 0 1 1 0 1 1 1 1 0 1 1 0 1 1

0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0

0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 3 0 0 0 0 1 0 0 1 2 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 1 0 0 11 0 0 0 1 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0

Parlenda Paulinas Paulus Paz & Terra Pensata Perspectiva Planeta Plano Play Positivo Prefeitura Municipal de Salvador Primus/SP Projeto Prumo Quadragono Libri/Itália Razão Cultural Realejo Ed./SP Rebra Record Resolução RG RHJ Risco Editorial Rocco Sal da Terra Saraiva Scipione Scortecci Secretaria de Cultura de São Paulo Secretaria de Cultura do Mato Grosso Secretaria de Cultura do Paraná Secretaria de Educação do Ceará Secretária Municipal de Educação de Porto Alegre/RS Secult Bahia Seiva Difusão Cultural Selo Orpheu Selo Sebastião Grifo Sereia Cantadora Sinergia/SC Singular SM Sociedade de Arte e Cultura de Ilhéus/BA Sucesso Suliane Taurus Tecnoprint Tex

1 1 0 2 0 1 1 1 1 0 1 1 0 0 0 2 1 1 0 1 2 1 1 0 1 0 1 7 1 0 1 0 1

0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0

0 3 2 0 1 0 1 0 0 3 0 0 1 4 0 0 0 0 3 0 0 0 0 2 0 2 2 0 0 0 0 1 0

1 1 1 1 1 1 1 3 1 1 1 2 1 0

0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1

0 0 0 0 0 0 0 4 0 0 0 0 0 0

Thesaurus Tigre Azul/RJ Todolivro Travessa dos Editores UBE UERJ UFF UFMG UFPB UFRS UFSC UnB União dos Poetas do Pará Verbis/DF Vertente Via Litterarum Vida e consciência Xapuri Zit

3 1 0 2 1 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1 1 0 0 0

0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1

0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 2

Como podemos observar pela tabela acima, são muitas as editoras citadas na pesquisa, em geral de pequeno e médio porte, embora grandes editoras façam parte da vida profissional dos escritores a apareçam igualmente na pesquisa. Os autores, via de regra, têm várias obras publicadas pela mesma editora, mas na tabela a assinalamos apenas uma vez, independente do número de publicações, porque nosso objetivo era conhecer o número de autores publicados e não a quantidade de obras. Além de editoras, as universidades públicas e as secretarias de Estado cumprem o papel de publicar e distribuir obras literárias, em geral, antologias e coletâneas, organizadas a partir de editais, eventos e concursos públicos. A grande maioria de autores se vale de publicações independentes – edição do autor -, blogues e sítios eletrônicos, livros digitais para divulgar sua obra literária, o que mostra que existe um espaço dentro da cultura digital para ser utilizado para a difusão e circulação de obras literárias.

DEMANDAS E NECESSIDADES
Solicitamos aos autores listarem suas demandas e necessidades, para que pudéssemos conhecer questões que, em seu entendimento, dificultam sua entrada e/ou permanência na vida literária. Abaixo sistematizamos todas as menções, ao lado do número de vezes que os autores a citam.
Sistematização de demandas e necessidades da cadeia criativa do livro Necessidades e Demandas Profissionalização do autor, seguro social e dedicação exclusiva

No. 66

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ao ofício de escritor/ilustrador Recursos financeiros e subsídios para o autor Divulgação Distribuição e circulação da obra literária Publicação Visibilidade, publicidade, reconhecimento Acesso à editoras Espaço para escritores emergentes Apoio a pesquisa Formação de público leitor Participação em eventos literários Escolas públicas de formação literária Novos pontos de venda, em lugares alternativos Livros a preços populares Revisores Agenciamento (no Brasil e exterior)

Esta pesquisa foca em escritores e ilustradores que já exercem essa atividade, embora sejam poucos que a exerçam com exclusividade. O trabalho de escritor e ilustrador em geral é a atividade secundária e não é a responsável por sua autonomia financeira. Não por acaso as principais demandas elencadas pelos escritores sejam a profissionalização da carreira de escritor/ilustrador, com legislação trabalhista e benefícios sociais, com possibilidade de dedicação exclusiva ao ofício, além de recursos financeiros e subsídios para o escritor/ilustrador, seguido de divulgação, distribuição, circulação e publicação da obra literária, além de maior participação em atividades literárias e eventos. Vejamos um depoimento que sintetiza o discurso que prevaleceu entre os autores consultados:
Depoimento de escritores Os autores são obrigados a trabalhar em inúmeras outras atividades para sua sobrevivência. Palestras, cursos, encontros com seu público – nada disso costuma ser remunerado para o escritor não-renomado. Todas as atividades em torno da literatura despertam interesse do escritor: consultoria para projetos editoriais; oficinas em escolas e bibliotecas públicas; programas de intercâmbio entre escritores via universidades de todo o Pais; e dão condições para que o escritor participe ativamente dos programas de incentivo à leitura junto às bibliotecas e salas de leitura de todo o País. Leusa Araújo. Ao contrário dos profissionais de outras áreas afins (como os atores, os músicos ou até mesmo os críticos literários), os escritores quase sempre são obrigados a se dedicar a outras atividades para ganhar dinheiro, reservando apenas as “horas que sobram” para o trabalho que deveria ocupar

todo o seu tempo: a criação artística. O resultado dessa situação só pode ser a baixa qualidade da maior parte da produção literária nacional, que naturalmente persistirá enquanto tal situação se mantiver. É fácil imaginar a diferença entre a produção artística de um músico que passa doze horas por dia se dedicando ao seu instrumento e a de outro músico que só toca nas horas de folga; ainda assim, julga-se que um escritor pode ser ao mesmo tempo professor, advogado, engenheiro e médico. A principal necessidade de um escritor, como de qualquer outro artista, é tempo para se dedicar à sua obra. E esse tempo só existe se ele ganha (através de bolsas, prêmios literários ou direitos autorais) o suficiente para não precisar buscar outros trabalhos. A ciência só progrediu exponencialmente no mundo a partir do momento em que se percebeu que os cientistas não podiam ser apenas aqueles ricos ou excêntricos que tinham tempo e disposição para se dedicar às pesquisas, mas que deviam ser estimulados por órgãos públicos através de bolsas e incentivos. Estou certo de que um programa contínuo de bolsas e prêmios para que os escritores pudessem desenvolver seu trabalho a longo prazo traria benefícios incalculáveis para a cultura nacional. Marco Catalão. O principal problema que qualquer escritor enfrenta é o de encontrar meios de se sustentar no período em que está escrevendo. A demanda é, portanto, de obter recursos para criar. Não há a menor dúvida. Por outro lado, a atividade da escrita deve ser encarada não apenas como a "produção de textos escritos", mas também como a de incitadores de ações. Isto acontece em vários níveis. Seja com o desdobramento que muitas obras alcança (adaptações para teatro, cinema, circulação na internet), seja pelo fato de grande parte dos escritores serem figuras inquietas, apaixonadas e guerreiras. O maior afã de um escritor é o de ver sua obra refletida no público. Daí a existência de Baladas Literárias, Cooperifas, Ceps 20.000.Tudo ficaria mais fácil se houvesse uma clara manifestação de interesse da parte de quem implanta políticas públicas para a literatura. Léo Gonçalves Para se escrever é preciso tempo e garantia de meios econômicos para dedicação a isso, por isso a ideia das bolsas possibilita a concretização de escrita de livros. Ademir Demarchi. Acredito que a principal demanda é a profissionalização de seu trabalho com a

garantia de contrato, publicidade, formação de leitores e distribuição. Antonio Filho

Essa demanda por profissionalização e recursos é antiga e Mario Prata, em 2002, pede publicamente, em carta aberta, ao então Presidente da República, a profissionalização do escritor:
Minha profissão não existe, presidente. Não posso me aposentar... Não tenho um sindicato que me represente. Estou sujeito a contratos de direitos autorais absurdos que sempre beneficiam os editores e/ou contratantes. Eles, todos com profissão definida. (Prata: 2002. Disponível in:
http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/cl/cl02/cl020701.htm)

Em 1998 houve um projeto de lei - PL 4641/1998 – que propunha regulamentar a profissão de escritor. O projeto conceitua o escritor, como sendo “aquele que, individualmente ou em colaboração, houver criado obra intelectual escrita, de qualquer gênero ou natureza, publicada, sob qualquer forma ou processo técnico, no País ou no exterior”. O PL não passou na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados em 2001 e 2007 e foi arquivado em 2011. Cabe aqui retomar os principais argumentos em favor da rejeição da proposta:
O exercício das atividades de escritor não pode ser caracterizado como profissão, no sentido estrito da palavra, uma vez que tal exercício “atém-se à aptidão especial e habilidade pessoal de execução”, como consignado no art. 2o desta proposição. Fica, pois, confirmado que as atividades do escritor se caracterizam pelo ato da criação e sua obra é considerada um produto intelectual ou artístico já acolhido pela lei que trata dos Direitos Autorais. O dom artístico e criativo pode florescer em qualquer fase da vida do homem, até mesmo na infância, quando a criança com potencial para as letras é capaz de criar e de produzir livros. Isso posto, resulta que inexiste uma categoria profissional de escritores. Parece-nos mais um caso de projeto de lei que busca assegurar direitos para grupos, desvinculado que está das condições mínimas exigidas para a aprovação de regulamentação profissional. Senão vejamos. A Constituição Federal consagra, entre os direitos e garantias Fundamentais, que é “livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações que a lei estabelecer” (art. 5o, inciso XIII). Trata-se de princípio de liberdade da atividade profissional, fundamentada na prevalência do interesse público sobre os de grupos ou os de determinados segmentos. A regulamentação de uma atividade profissional somente é viável quando se pretende defender interesses sociais acima dos individuais. Dessa forma, é necessário que a mesma seja fundamentada em conhecimentos técnicos e científicos especializados e, principalmente, que seu exercício inadequado, ineficiente ou inconseqüente possa trazer danos sociais, com riscos à segurança, à integridade física e à saúde da coletividade, como é o caso dos médicos, engenheiros e outros, cuja regulamentação é

indispensável para a defesa e proteção do interesse publico. (Relatório da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público, 2001, disponível em http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idPro posicao=21019).

Em 2007, a estes argumentos, que foram acatados neste novo parecer, o novo relator acrescentou outros fatores analisados:
Outrossim, quanto aos demais aspectos da proposição que dizem respeito aos direitos de edição, a Lei no 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, já contempla o acordo entre as partes ao dispor que mediante contrato de edição, o editor, obrigando-se a reproduzir e a divulgar a obra literária, artística ou científica, fica autorizado, em caráter de exclusividade, a publicá-la e a explorá-la pelo prazo e nas condições pactuadas com o autor. Tem-se que a referida lei é bastante benéfica ao escritor, pois adota um regramento amplo, que assegura inúmeros direitos ao autor e limita bastante a possibilidade de utilização lícita de obras de terceiros. Além disso, a Classificação Brasileira de Ocupações – CBO, elaborada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, que na versão de 2002 reconhece mais de 2.422 profissões, classifica o escritor como profissional da escrita, nos seguintes termos: Autor-roteirista - Adaptador de obras para teatro, cinema e televisão, Argumentista-roteirista de história em quadrinhos, Autor-roteirista de cinema, Autor-roteirista de rádio, Autor-roteirista de teatro, Autor-roteirista de televisão, Autorroteirista multimídia, Dramaturgista; Crítico - Crítico de artes plásticas, Crítico de cinema, Crítico de dança, Crítico de jornal (ombudsman), Crítico de música, Crítico de rádio, Crítico de teatro, Crítico de televisão, Crítico literário; Escritor de ficção - Autor de ficção, Contista, Cronista de ficção, Dramaturgo, Ensaísta de ficção, Escritor de cordel, Escritor de folhetim, Escritor de histórias em quadrinhos, Escritor de novela de rádio, Escritor de novela de televisão, Escritor de obras educativas de ficção, Fabulista, Folclorista de ficção, Letrista (música), Libretista, Memorialista de ficção, Novelista (escritor), Prosador , Romancista; Escritor de não ficção Biógrafo, Cronista de não ficção, Enciclopedista, Ensaísta de não ficção, Escritor de obra didática, Escritor de obras científicas, Escritor de obras educativas de não ficção, Escritor de obras técnicas, Folclorista de não ficção, Memorialista de não-ficção; Poeta - Letrista, Trovador; Redator de textos técnicos - Glossarista, Redator de anais, Redator de jornal, Redator de manuais técnicos, Redator de textos científicos, Redator de textos comerciais. Assim, percebemos que não existe especificamente a profissão de escritor, sendo que o domínio da escrita é um requisito exigido para o exercício de várias profissões, como as relacionadas acima. Por fim, acima de tudo, está o dispositivo constitucional previsto no inciso XXVII do art. 5o que determina pertencer aos autores o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de sua obras, transmissíveis aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar. Ante o exposto, entendemos que os escritores hoje são devidamente reconhecidos tanto pela legislação vigente quanto por suas contribuições ao contexto cultural do País, bem como têm os direitos sobre suas obras assegurados pela Constituição Federal e pela Lei de Direitos Autorais, razões pelas quais somos pela rejeição do Projeto de Lei no 4.641, de 1998.(Relatório da Comissão de Trabalho,

Administração e Serviço Público, 2001, disponível em http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idPro posicao=21019).

Os argumentos, em nossa interpretação, são válidos, já que, ao contrário de outras profissões, o escritor e ilustrador dependem de qualidades pessoais, imateriais – talento, criatividade, técnica – além do que, inexiste uma formação, em nível de graduação para o ofício de escritor. O que vemos é que os escritores, muitas vezes, passam pelas faculdades de Letras, Comunicação Social – Jornalismo ou Publicidade e Propaganda, Direito e outros cursos da área de Humanas e Ciências Sociais e a partir destas áreas têm acesso ao mercado de trabalho, mas não há como garantir a priori que quem deseja ser escritor tenha as condições para tal ou quem passe por tais graduações vá a ser um autor, e se for, se será publicado. Até mesmo porque autores muitas vezes se formam em áreas que não dá para relacionar diretamente com literatura. No entanto, a obra literária produzida, os autores e as editoras e agentes necessitam pactuar os “direitos e deveres” de cada parte. Os escritores e ilustradores, por não serem profissionalizados, não recebem os benefícios sociais que trabalhadores assalariados, com carteira assinada têm direito:
Depoimento de escritores Deveria haver alguma forma de seguro social para o escritor, haja vista que muitos de nós não temos vínculo empregatício com nenhuma empresa ou instituição. Adriano Messias. É importante que haja uma regularização da profissão e um controle mais rígido na relação trabalhista do escritor com as editoras, pois hoje o escritor é refém das editoras, que os remunera com apenas 10% do preço de capa, não presta contas devidamente e, por vezes, ainda paga em livros. Marcelo Spalding. Creio, com sinceridade, que o que deve ser feito já está sendo feito em parte através de bolsas que devem ser mantidas. Sugiro, no entanto, que se pense, com bastante seriedade, na profissionalização do escritor (se bem que a categoria deva se organizar de forma mais representativa). Penso que escritores, ilustradores, pintores, escultores, bailarinos, todos os artistas devem ser prestigiados, ainda mais num país como o nosso, cuja tradição mais sólida é a do futebol. Não chego a alcançar de forma prática o tipo de atitude a tomar, mas sinto que os escritores devem participar da sociedade de forma mais sistêmica. Infelizmente, o trabalho intelectual ainda é pouco valorizado. Cintia Moscovich.

Veremos nos depoimentos abaixo, que muitos autores sentem-se prejudicados pela forma com que as editoras negociam seus contratos, pois muitas vezes eles não têm

como controlar o número de publicações da obra, não têm gerência sobre estratégias de publicidade e distribuição, sentem que perdem lugar nas prateleiras para best sellers internacionais, entre outras questões levantadas. Algumas das ideias expostas pelos autores consultados:
Depoimentos de escritores As editoras devem ser obrigadas a prestarem contas do que vendem. Talvez numerando os livros. As editoras devem colocar em destaque e em vitrines uma porcentagem de autores nacionais tendo uma parte só para alternativos ou novos. Colaborar para o marketing e a divulgação de livros e seus autores nas diversas mídias nacionais. As bibliotecas públicas e Casas de Cultura devem pagar os direitos autorais pelos poemas declamados durante os saraus que fazemos. Uma ajuda previdenciária, mesmo para aqueles que já estão aposentados, porque além do trabalho para seu sustento, gastaram grande parte de sua vida escrevendo, revisando, montando e fazendo tudo sozinho para deixar um legado para a sociedade, que não o conhece. Esta ajuda previdenciária seria muito útil para todos nós.21 (O Governo deveria) Obrigar as editoras a colocar número em cada exemplar impresso. Obrigar as editoras a pagarem direitos autorais para os ilustradores. Exigir que as editoras apresentem comprovante de direitos autorais dos ilustradores nas compras de livros do governo. Jô Oliveira. Na minha opinião, a negociação entre editoras e governo para aquisição de livros literários para bibliotecas escolares ainda não atende plenamente às demandas do autor e do artista gráfico (designer e ilustrador), ao não colocar em questão ou resguardar a integralidade dos direitos autorais, além de determinar uma certo tipologia de produções editoriais cujos parâmetros excluem as criações escapem ao padrão pré-estabelecido, reprimindo a liberdade de expressão criativa. Paula Mastroberti.

Este debate aponta para uma discussão importante, a da interlocução entre autores e editoras, que hoje se faz a partir da Lei de Diretos Autorais, da qual trataremos a seguir.

DIREITOS AUTORAIS
A Lei de Direito Autoral (LDA - 9610/98) atualmente está em processo de reformulação, a partir de consulta pública para definir a Reforma da Lei de Direitos
21

Em nossa pesquisa solicitamos autorização dos entrevistados para citá-los nominalmente. Quando não existe o nome do entrevistado ao lado do seu depoimento é porque não fomos autorizados a citá-lo nominalmente.

Autorais. Em 2007, o Ministério da Cultura iniciou uma ampla discussão sobre a necessidade de atualizar a legislação autoral no Brasil, promovendo a criação Fórum Nacional de Direito Autoral e, desde então, vive-se o processo de, coletivamente, reformular a proposta.
Vários são os motivos que, já àquela época, podiam ser indicados para afirmar a pertinência de debater uma reforma da nossa atual legislação. Com efeito, o rápido avanço das tecnologias de comunicação e informação, o digital, a internet e as novas possibilidades de compartilhamento, fizeram emergir uma nova cultura de remix e mashups de informação e conteúdo (em grande parte protegida). A nova cultura emergente, nesse sentido, desafiou os modelos jurídicos existentes e passou a exigir uma ampla discussão e reflexão orientada para a formulação de políticas públicas adequadas à sociedade da informação (Moncau: 2010, disponível em http://www.teoriaedebate.org.br/materias/cultura/direito-autoral-oque-esta-em-jogo).

Os autores ouvidos nesta pesquisa se posicionam sobre a LDA e a proposta de reformulação consolidada em 2010 e, para fins da pesquisa, separamos em duas colunas os depoimentos, a fim de podermos visualizar os diferentes posicionamentos. Na coluna da esquerda inserimos depoimentos de autores que não querem mudanças na atual Lei de Direito Autoral, de 1998, muito em função de acreditarem que a proposta de reformulação deixe seus direitos a descoberto. Na coluna da direita estão os depoimentos de autores que acham necessário uma LDA que contemple as novas tecnologias e os novos formatos de distribuição e circulação da obra literária.
Depoimento de escritores Depoimentos desfavorável à mudança na Lei de Direito Autoral – recortes discursivos dos Autores A minha principal demanda está ligada à defesa dos Direitos Autorais. A flexibilização da legislação de Direitos Autorais, como vem sendo proposta por alguns setores da sociedade, é extremamente perigosa e danosa para os escritores, que não recebem outra forma de pagamento ou salário, apenas os Direitos Autorais. Leo Cunha. Acho que o governo federal deveria manter como está a lei dos direitos autorais pois já é muito difícil manter um padrão econômico razoável sendo autor e ilustrador, sem os direitos, não haveria retaguarda para esses profissionais. Jean-Claude Alphen.

Depoimento sobre a necessidade da Lei de Direito Autoral – recortes discursivos dos Autores Maior respeito aos direitos autorais e melhor remuneração pelo trabalho relacionado ao ofício literário. Adélia Prado.

Além da criação de programas públicos de criação e circulação, é fundamental continuar e aprofundar as discussões sobre direito autoral. No caso específico da literatura, é fundamental que sejam discutidas as porcentagens de direitos autorais referentes aos e-books, e que o Poder Público exerça papel de mediador entre os criadores e o mercado editorial.

Além disso, é preciso que o Governo Federal, que detém a maioria na Câmara e no Senado, fortaleçam os ganhos dos escritores e ilustradores, impedindo mudanças aventureiras na Lei de Direitos Autorais, como está sendo debatido. Um outro ponto importante é a realização de modo permanente de campanhas de incentivo à leitura, junto à população. Hardy Guedes. Garantir, por meio da reforma da lei do direito autoral, que os direitos dos autores seja pago por uso de suas obras ou de qualquer parte delas. Se alguém acessar meu texto pela internet (um texto publicado canonicamente por uma editora), que ele pague por isso. E se alguém utilizou um pedaço de meu texto em uma antologia, mesmo que escolar, que ele me pague por isso. João Bosco Bezerra Bonfim. O Governo Federal pode tornar digno o trabalho do escritor, permitindo-lhe exercer sua função com dignidade. No momento o exercício da função de escritor é marginal. Seria necessária a adoção de medidas que viabilizassem a leitura em larga escala, evidenciando a conveniência de postura reflexiva por parte dos cidadãos. Hoje predomina entre nós a dispersão - é Internet, são os programas televisivos de mau gosto, são as propagandas enganosas, as músicas horríveis. E o direito autoral? Que estímulo tem o escritor em se debruçar sobre um tema e gastar anos e anos desenvolvendo-o, se a sua obra será

Como é sabido, em relação ao livro impresso, os direitos de autor praticados pelo mercado são geralmente de 10% do preço de capa. No caso dos e-books, os custos tanto para editoras quanto para livrarias caem vertiginosamente, pois não há despesas com papel, impressão, distribuição física e armazenagem. Não há nenhuma justificativa plausível para se manter o direito de autor em 10%. Há já proposta inicial dos próprios autores de elevar para 33,33%, cabendo aos outros elos da cadeia do livro partes iguais de 33,33% para as editoras e 33,33% para as livrarias virtuais. Em caso de vendas diretas pelas próprias editoras, através dos seus sites, essas porcentagens poderiam ser praticadas em meio a meio: 50% para os autores, 50% para as editoras. O advento dos e-books pode propiciar maior dignidade para o trabalho do escritor, de um lado, e barateamento do livro para o leitor (de outro lado). Ou pode, simplesmente, significar aumento vertiginoso de lucros para editoras e livrarias, em função do prejuízo tanto para os autores quanto para os leitores. Ademir Assunção. Sobre a questão dos direitos autorais, que está em pauta – queremos ter mais segurança de que as prestações de contas correspondem ao que efetivamente foi vendido. Claudio Willer.

pirateada? Se a indústria do xerox se apropria de qualquer texto e o reproduz sem qualquer autorização do autor? Faustino Machado

A fim de entendermos melhor as reivindicações dos autores, acho que cabe uma “parada” para conhecermos melhor a proposta de reformulação que pautou os argumentos acima, ainda mais porque esta discussão está sendo conduzida pelo MinC. Ao lermos os depoimentos acima, podemos ver que existem duas posições em relação ao Direito Autoral: há autores que não querem mudanças na Lei, pois temem que a “flexibilização” que está sendo proposta resulta em diminuição de seus direitos e recursos financeiros. Estes autores parecem inferir que a atualização da Lei diminuirá seus direitos sobre as obras. Suas falas mostram que embora estes autores reclamem da pouca transparência na arrecadação e na distribuição de seus direitos e não estejam bem certos em relação à remuneração que recebem das editoras porque a Lei atual não oferece mecanismos eficazes para comprovar a lisura dessas prestações de contas, mesmo com essas deficiências narradas, preferem a legislação atual. Talvez ajude a elucidar estas questões se visualizarmos as alterações que compõem a proposta de legislação a que eles se referem. As novas tecnologias criaram um ambiente propício para a difusão sem controle de obras literárias de autores contemporâneos. Existem sítios eletrônicos que divulgam e disponibilizam gratuitamente, em e-books e arquivos de textos, obras literárias atuais. Muitas vezes best sellers sequer traduzidos para o português estão disponíveis para

downloading e isso ocorre à revelia dos autores e editores. A proposta de modernização
da LDA busca fazer valer os direitos do autor no ambiente virtual, criando condições para que as obras circulem e movimentem a economia da cultura, ao definir quem fica responsável pela gestão do uso das obras e possibilitando a formação de novos arranjos produtivos, o que consequentemente dá maior controle do autor sobre sua criação ao mesmo tempo em que não limita o acesso à cultura e ao conhecimento, promove a diversidade da produção cultural e redistribui os ganhos relativos aos direitos autorais. Outra questão que a nova PDA explicita é o conceito de licença (autorização para uso sem transferência de titularidade) para que o autor conheça as alternativas para melhor controle dos usos de suas obras. Os contratos de edição, necessários para a difusão da obra em larga escala, não poderão mais incluir a cessão (transferência definitiva) de direitos. O autor pode cedê-los, mas isso terá de ser feito num contrato específico. Além disso, o estabelecimento de contratos mais seguros e claros favorecerá os autores no caso de novos usos criados a partir das inovações tecnológicas (cfe.

Brasil:s/d). Em relação a outras questões, citamos:
A regra continua como é hoje: a obra só entra em domínio público 70 anos depois da morte do autor. A lei atual possui uma lacuna a respeito de obras sob encomenda, aquelas realizadas a pedido de terceiros, e deixa o autor refém dos contratos específicos para esse fim. O novo texto traz dispositivos para proteger o criador: ele poderá recobrar o direito em certos casos, terá garantia de participação em usos futuros não previstos e poderá publicá-la em obras completas. Uma série de medidas do novo texto tem impacto direto na educação e na difusão da diversidade cultural. Fica permitida a comunicação de obras teatrais, literárias, musicais e audiovisuais, em qualquer espaço, desde que seja para fins didáticos e não haja cobrança de ingressos. De acordo com a lei atual, esse uso só é possível dentro das escolas. Fica permitido também, sem necessidade de autorização, adaptar e reproduzir, sem finalidade comercial, obras em formato acessível para pessoas com deficiência. Está permitida a reprodução, sem finalidade comercial, de livros, músicas ou filmes, que estão com a última publicação esgotada e também não haja estoque disponível para venda. A cópia de livros ou partes de livros é hoje um dos maiores imbróglios do setor editorial, de sua relação com o consumidor e do acesso à educação. O novo texto traz um dispositivo que incentiva os autores e as editoras a disponibilizarem suas obras para reprodução por serviços reprográficos comerciais, como as copiadoras das universidades. Cria­se para isso a exigência de que haja o licenciamento das obras com a garantia de pagamento de uma retribuição a autores e editores. Autores e editores, reunidos em associações de gestão coletiva, ficam responsáveis por receber o montante, sendo que aos autores caberá, pelo menos, metade do valor líquido arrecadado. O modelo é amplamente utilizado no mundo e não implica alterações significativas de preço do serviço. Ganham professores e estudantes porque uma de suas mais recorrentes práticas entra para a legalidade. Ganham autores porque passam a ser remunerados pelo uso de suas obras. Ganham os editores que também receberão parte do que for arrecadado com a reprografia das obras que eles editam. A lei traz para a legalidade os sebos, que vendem livros e discos usados, e o empréstimo de livros por bibliotecas. De acordo com a legislação atual, o autor deve autorizar a distribuição (venda, revenda, empréstimo, aluguel) da obra. A proposta diz que o direito de distribuição termina com a primeira venda. Assim, sebos podem revendê­las e bibliotecas fazerem os empréstimos de forma legal. O novo texto prevê claramente direitos em redes digitais, definindo a modalidade de uso interativo de obras e a quem cabe sua titularidade. Hoje, há uma grande incerteza jurídica quanto a quem cabe fazer a gestão coletiva do uso de obras na internet. As mudanças darão mais segurança para que os titulares se organizem para exercerem seus direitos e melhorarão a relação entre autores, usuários, consumidores e investidores. Como exemplo, editoras que queiram investir no licenciamento de obras musicais na internet terão mais segurança para atuar na defesa dos interesses dos autores. Dessa forma, a modernização da lei também colabora para colocar o debate da economia digital no Brasil no rumo certo e prepara as bases para uma discussão mais ampla, que deverá ser feita nos próximos anos no mundo todo.

(Disponível http://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral/wpcontent/uploads/2010/07/cartilha-direito-autoral.pdf, 02/09/2011).

em acesso em

Moncau (2010) entende que a proposta do MinC representa um avanço no tratamento do direito autoral no Brasil, protegendo autores, ampliando o acesso da sociedade à cultura e informação em casos de interesse social e oferecendo maior transparência ao sistema de gestão coletiva.
O mais importante, porém, é afastar o medo que alguns setores tentam criar em torno de uma proposta muito razoável, que merece ser discutida de maneira profunda e sem preconceitos por toda a sociedade. (Moncau: 2010, disponível em http://www.teoriaedebate.org.br/materias/cultura/direito-autoral-oque-esta-em-jogo?page=0,1).

Esta discussão atualmente encontra-se em novo estágio, pois o texto consolidado, após um novo tempo de consulta, ainda não está disponível. O que podemos inferir é que esta questão não é trivial e necessita ser melhor explicitada para parte dos autores, pois existe, como podemos ver nos depoimentos acima, inferências que o novo texto não justifica. Isso sinaliza que, embora a legislação seja de suma importância para a regulação e para o sustento dos autores, a discussão necessita ser aprofundada e melhor apropriada pela maior parte deste segmento.

OUTRAS DEMANDAS: PUBLICAÇÃO, DISTRIBUIÇÃO, CIRCULAÇÃO DAS OBRAS LITERÁRIAS
Outras demandas reiteradas nos diversos depoimentos são a necessidade de publicação, distribuição e circulação de obras literárias. Esta demanda implica desde processos de seleção de obras, interlocução com editoras, participação em eventos literários, pontos de venda, até a intervenção e mediação do Estado nos processos de formação de leitores e distribuição, dos livros. De outro lado, vemos escolas e bibliotecas públicas ou comunitárias com acervo escasso, desatualizado e com quantidade insuficiente de livros para atender a demanda do público leitor. Para articular essas duas necessidades – do autor publicar, distribuir e fazer circular a obra literária e de renovação de acervo – pode-se pensar em políticas públicas integradoras e articuladas, que pensem todo o processo – cadeia criativa, produtiva e mediadora – que vai desde seleção, publicação da obra, distribuição em bibliotecas e espaços públicos de leitura até o trabalho de leitura, interpretação e criação literária dos leitores. Os Editais que analisamos acima, de modos diferentes, realizam partes deste processo, bem como o

Programa Agente de Leitura e os Editais para construção e reforma de bibliotecas, desta Diretoria, caberia integrá-los e ampliar o número de beneficiários, aumentando o valor do investimento, em um primeiro momento, e, à medida que novos recursos financeiros forem aportados para esta área, elaborar um edital específico. Embora grande parte de suas necessidades e demandas sejam coletivas, poucos escritores veem necessidade de se organizar em sindicatos ou associações de classe e demandam ao Estado responder por grande parte de suas necessidades. Passemos aos depoimentos que sintetizam o discurso recorrente entre eles:
Demandas e necessidades – recortes discursivos dos Autores Apoio cultural. Incentivo financeiro. Abertura de editais. Apoio a pesquisa. Altair Ramos Democratizando ainda mais um banco de dados, deixando eles mais eficientes no que se refere às informações sobre concursos, prêmios e editais públicos existentes. Aumentando o número de prêmios nacionais. Ampliando o número de editais para jovens escritores e ilustradores, a maioria destes concursos e editais só beneficia os escritores já consolidados. Uma boa dica também era criar um programa social para empréstimos de dinheiro para publicação de livros de autores em pequenas tiragens... Bem, estamos indo no caminho certo, mais e mais eventos literários, expansão de editais, tudo bem, o problema como sempre é ampliar os pontos de venda, é colocar nosso produto a disposição de compradores. Ou seja, queremos mais leitores. Bruno Gaudêncio. Publicações em tiragens pequenas e distribuição vinculada a ações culturais e educativas. Programas de intercâmbios com países irmãos, e de demais continentes, bilíngues. Tratar literatura não consagrada e letramento enquanto fatores de economia cultural e de desenvolvimento. Beth Brait. Mantendo e ampliando os programas de apoio à produção e à difusão de livros e publicações, assim como criando condições de redes de trocas e comercialização das produções editoriais, independentes dos contratos com o mercado editorial tradicional, cujas práticas muitas vezes inviabilizam a distribuição em maior escala, em concorrência com grandes publicações de mercado. No caso de nossa experiência, o trabalho está mais concentrado na organização das publicações de acervos fotográficos e de registros de memórias, mas de qualquer modo, o aporte à produção editorial em todas as escalas de sua cadeia produtiva é importante para a sustentabilidade do trabalho. Considero que o setor da distribuição seja o mais sensível e que merece atenção especial no sentido de criar novas oportunidades de trocas e comercialização das produções editoriais, considerando-se a atual situação de contato entre autores e distribuidores, quando, muitas vezes o trabalho autoral é desenvolvido sem foco majoritário

em lucros e vendas, e sim no comprometimento com a criação e a inovação intelectual, estética e de linguagem. Algo que vai um pouco de encontro com a mentalidade de distribuidores comerciais. Outro aspecto das produções editoriais independentes que comprometem sua "concorrência" com as produções editoriais de mercado é a escala da produção, pois muitas vezes as produções de foco artístico e autoral são realizadas em pequenas escalas e quantidades, algo que encarece o valor unitários das publicações e, consequentemente, seu preço de capa. Câmara Clara. Creio que nos falta um grande concurso literário, como o Prêmio Camões, por exemplo. Para que a tradição seja implantada, é preciso começar de algum ponto. Até aqui, as atividades com premiações e semelhantes ficam por conta da Academia Brasileira de Letras. Nada contra, tudo a favor, mas a Casa de Machado se tornou um lugar inusual. Creio que o MinC deva tomar a si a tarefa de um bom prêmio literário (todos os gêneros, e não só romance). O Estado de São Paulo já tem um grande prêmio. Por que não o Prêmio Brasil de Literatura, cada ano escolhendo o melhor livro editado? Com jurados em todos os Estados? E que tal um salão de ilustradores? Cintia Moscovich.

Como bem lembra Eliakim Rufino, “essas demandas já constam de documentos que

foram produzidos em reuniões coletivas pelo Brasil afora. Falta é colocar em prática.
Existe a sistematização das demandas dos autores realizada pelo Movimento Literatura Urgente que em 2004 escreveu a várias mãos um Manifesto chamado Temos fome de

literatura. Em nossa análise, esse manifesto explicita as necessidades e demandas dos
autores no país, bem como sugere possíveis caminhos. Não por acaso, esse manifesto constitui a pauta do Colegiado Setorial de Livro, Leitura e Literatura da Comissão Nacional de Cultura do MinC. Vamos ao texto integral:
TEMOS FOME DE LITERATURA

Exmo Sr. Gilberto Gil Ministro da Cultura do Brasil Exmo Sr. Galeno Amorim Coordenador do Programa Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas Temos acompanhado com interesse, entusiasmo e atenção as iniciativas do Ministério da Cultura para a criação de uma Política Nacional voltada para o Livro, a Leitura e as Bibliotecas. As discussões públicas sobre o assunto e a abertura da equipe ministerial para ouvir a sociedade civil são realmente louváveis e estimulantes para os que participam da cadeia produtiva da literatura e do livro e para todos os interessados. Sobretudo em um país em que se lê pouco — muito embora tenha uma produção literária de altíssima qualidade —, esses esforços se fazem necessários e urgentes. Como escritores, poetas e ensaístas, manifestamos nosso desejo e nosso interesse de contribuir nesse processo de discussão para o estabelecimento de

políticas públicas o mais abrangente possível, que inclua todos os segmentos da cadeia produtiva da literatura e do livro. No ABC da Literatura, entusiasmada e brilhante defesa da criação artística, poética e literária, o poeta Ezra Pound afirma: "Uma Nação que negligencia as percepções de seus artistas entra em declínio. Depois de um certo tempo ela cessa de agir e apenas sobrevive." Não é preciso gastar tinta para evidenciar o papel fundamental da criação literária e poética no grande caldo vivo e orgânico que forma a arte e a cultura de um país. Também não é difícil perceber que, quando as condições para a criação e a circulação da arte e da cultura sofrem um processo de estrangulamento, logo se nota um empobrecimento das relações humanas. Daí para o desencanto, a paralisia e, em grau mais acentuado, a barbárie, são apenas alguns passos. Largos, por sinal. Escritores e poetas são, como todos sabem, os artífices principais da criação literária. Sem eles, não existem os livros, nem a indústria editorial, nem as bibliotecas, nem os leitores. Paradoxalmente, são também o segmento menos profissionalizado do setor. Profissionalizado, não no sentido da excelência de sua arte, mas na possibilidade de sobrevivência através de seu próprio trabalho criativo. Como também é do conhecimento de todos, muitos criadores literários, além de não contarem com nenhum, ou quase nenhum incentivo público, ainda assumem as despesas de edição de suas obras com recursos próprios, ou, como dizia o compositor Itamar Assumpção: Às Próprias Custas S/A. É, portanto, um segmento carente de políticas públicas que fomentem, incentivem e criem condições objetivas para o desenvolvimento de seu trabalho criativo. Em que pese todo o esforço do Ministério da Cultura em desenvolver políticas públicas para o setor ligado ao livro, temos percebido, com preocupação e desapontamento, a não inclusão, com maior ênfase e clareza, da criação literária nessas políticas. Notamos que a palavra Literatura jamais está incluída nas políticas para o livro, a leitura e as bibliotecas. Não se trata de uma simples questão semântica ou de nomenclatura. Trata-se, sim, da necessidade de Políticas Públicas de Fomento à Criação Literária. Trata-se, sim, do entendimento profundo de que, da mesma forma que o Brasil tem fome de livros, os escritores têm fome de políticas públicas para a literatura. Sem essa consciência, as políticas nacionais, estaduais ou municipais serão necessariamente incompletas. Tendo em vista essas condições e o esforço da equipe ministerial em pensar e implementar medidas de desenvolvimento para o setor, decidimos tornar públicas, e trazer aos representantes do Ministério da Cultura, as seguintes reivindicações: 1) Inclusão do termo LITERATURA nos programas, leis, conselhos e câmaras setoriais relacionados ao livro, leitura e bibliotecas, que estão sendo propostos pelo Ministério da Cultura. Desta forma, teríamos o Programa Nacional da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas, a Lei da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas, o Conselho Nacional da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas e a Câmara Setorial da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas;

2) Inclusão de artigo na Lei da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas criando o Fundo Nacional da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas, com 30% das verbas destinadas diretamente ao Fomento à Criação e Circulação Literária e os outros 70% ao fomento à Leitura e Bibliotecas; 3) Inclusão do termo FOMENTO À CRIAÇÃO LITERÁRIA no § 2º do Artigo 1° da Lei da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas, ficando com a seguinte redação: “§ 2º A Política Nacional da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas objetivará a instrumentalização da implantação e o desenvolvimento da indústria editorial e o fomento à criação literária como bases de afirmação da nacionalidade e da cultura brasileira, com papel estratégico relevante na difusão e permanência da língua, das artes e da ciência e dos valores pátrios (sugerimos tirar esse “apêndice”, porque não é função da arte enaltecer valores pátrios, ora, convenhamos).” 4) Criação de um Programa de Compra Direta de Livros do próprio autor, tendo em vista o fato de grande parte da produção literária brasileira – sobretudo a poesia – ser publicada, ainda hoje, às expensas dos próprios autores. A proposta tem inspiração no Programa de Compra Direta de Alimentos da Agricultura Familiar, fruto de uma parceria dos ministérios do Desenvolvimento Agrário, de Segurança Alimentar e Combate à Fome e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com o objetivo de garantir renda aos agricultores familiares e assentados da reforma agrária, além de abastecer os estoques reguladores do governo; 5) Criação da Subcâmara Setorial de Fomento à Criação Literária, na Câmara Setorial da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas. Esta Subcâmara seria formada preferencialmente por escritores e poetas e representantes do Ministério da Cultura. Como parte do esforço para contribuirmos com a formulação de programas públicos que incluam o fomento à criação literária e o contato direto do escritor com o público, trazemos também as seguintes propostas, que podem, objetivamente, ser implementadas em curto e médio prazo: PROPOSTAS PARA UMA POLÍTICA PÚBLICA DE FOMENTO À CRIAÇÃO LITERÁRIA 1) PROGRAMA DE CIRCULAÇÃO DE ESCRITORES E POETAS I – em articulação do Ministério da Cultura com o Ministério da Educação, criar um Programa de Circulação de Escritores e Poetas pelas universidades do País. Caravanas de cinco escritores e poetas deverão circular pelas universidades das cinco regiões do Brasil (Norte, Nordeste, Centro, Sudeste, Sul), para debates sobre literatura, leituras públicas e lançamentos de livros e revistas. Cada caravana deverá passar por, no mínimo, cinco cidades diferentes. Serão, portanto, cinco caravanas simultâneas, com cinco escritores cada. Total: 25 escritores. Essas caravanas deverão ser trimestrais. Sugestão de nome: Projeto Waly Salomão.

2) PROGRAMA DE CIRCULAÇÃO DE ESCRITORES E POETAS II – Mesmo princípio do Programa anterior, mas, agora, em articulação do Ministério da Cultura com os governos estaduais e municipais brasileiros (através de suas respectivas Secretarias de Cultura). Desta forma, se poderia ampliar o projeto para a rede de escolas estaduais e municipais. Sugestão de nome: Projeto Paulo Leminski. 3) PROGRAMA LATINOAMÉRICA DE LITERATURA - em articulação do MinC com os Ministérios da Cultura estrangeiros, embaixadas e universidades criar o Programa Latino América de Literatura para circulação mútua de escritores e poetas entre os países latino-americanos, promovendo debates, leituras públicas e lançamentos de livros e revistas. Se poderia ampliar para um Programa de Intercâmbio de Escritores e Poetas Visitantes nas Universidades desses países. 4) PROGRAMA ENTRE-MARES DE LITERATURA – a mesma idéia do programa anterior, porém entre o Brasil, Portugal, e os países africanos e asiáticos de língua portuguesa. 5) PROGRAMA PRIMEIRO LIVRO - um incentivo do MinC (e eventuais e bem-vindos parceiros) para a publicação, divulgação e distribuição a escolas e bibliotecas do primeiro livro de escritores e poetas brasileiros. 6) FUNDO NACIONAL DA LITERATURA, LIVRO, LEITURA E BIBLIOTECAS com 30% do orçamento destinado diretamente ao fomento de projetos independentes (publicação de revistas, CDs e DVDs de poesia e/ou prosa, recitais de poesia, festivais literários, coedições, ciclos de discussões, pesquisas, etc...). 7) BOLSA CRIAÇÃO LITERÁRIA para desenvolvimento de projetos literários de escritores e poetas. A cada ano seriam concedidas 20 bolsas em todo o país, no valor de R$ 3 mil mensais para cada contemplado pelo prazo de um ano. Os autores escolhidos não poderiam ter vínculo empregatício, dedicando-se integralmente ao projeto. Os recursos poderiam ser conseguidos em parceria com as empresas estatais e a iniciativa privada. 8) SISTEMA PÚBLICO DE DISTRIBUIÇÃO - Criação de um sistema público de distribuição de livros (em parceria com os correios) voltado para as pequenas editoras e a produção independente. 9) PUBLICAÇÕES LITERÁRIAS - Criação de veículos públicos de circulação para a literatura, tais como jornais e revistas (através da imprensa oficial), sites e programas de rádio e TV na rede pública de comunicação. 10) JORNADA NACIONAL LITERÁRIA – Criação de um grande evento anual, reunindo escritores, poetas e ensaístas para leituras, debates, conferências, palestras e lançamentos. O evento será aberto preferencialmente a professores, estudantes e também ao público em geral. Desta forma, os professores poderão se atualizar sobre a criação e a discussão literária do Brasil, servindo de agentes multiplicadores junto aos seus alunos. A cada ano a jornada será

realizada em uma cidade diferente do País, privilegiando todas as regiões. Para definir os critérios e a seleção de projetos e de autores para cada uma das propostas anteriores, reivindicamos a formação de uma comissão paritária com membros do Ministério da Cultura, dos escritores e da sociedade civil ligados ao setor literário e com comprovado conhecimento. Reivindicamos ainda que todos os programas sejam anunciados em editais públicos, de forma transparente e democrática, especialmente os que se referem ao Fundo Nacional da Literatura e à Bolsa Criação Literária. Por fim, motivados pelo Programa Fome Zero, da Presidência da República, que compreende a necessidade de incentivo à agricultura familiar e ao pequeno produtor para a erradicação definitiva da fome no país, nos sentimos animados a participar ativamente de um programa que erradique a fome de livros e também a fome de incentivo à criação literária no Brasil. Cientes da importância da criação literária na formação cultural do País, temos certeza de que nossas reivindicações e propostas encontrarão eco entre todos os interessados no problema da leitura — da equipe ministerial aos editores, livreiros, bibliotecários e da sociedade em geral. (Fonte: http://zonafantasma.sites.uol.com.br/mlu.html, acesso em 06/09/2011)

As propostas deste Manifesto estão influenciando as políticas públicas, desde sua incorporação na pauta do Colegiado Setorial, nos novos editais de bolsas e prêmios literários que examinamos no produto anterior (Labrea:2011c), na proposta da Caravana dos Escritores e Circuito de Feiras de Livro e Eventos que a FBN lançou em 2011. Poderemos ver nos depoimentos que seguem, que os autores, da sua forma, repetem várias destas propostas quando referem-se às possíveis contribuições do Minc e do Governo Federal para o fortalecimento da cadeia criativa do livro. A tabela abaixo mostra as ações mais mencionadas pelos escritores.
Ações para o fortalecimento da cadeia criativa Menção Como o MinC pode contribuir para o fortalecimento da cadeia criativa do livro Programa de circulação e distribuição de obras literárias – 67 selecionadas por editais públicos - nas bibliotecas, escolas, etc. Edital para Concursos literários para selecionar e publicar obras 54 literárias inéditas Criação de novas bolsas de criação literária 48 Editais com foco em autores regionais, do interior, áreas rurais, 41 indígenas, quilombolas. Regionalização dos recursos. Edital público para seleção de autores literários em eventos literários, 40 feiras do livro, bibliotecas e escolas. Programa de incentivo à leitura de autores literários nas escolas e 27 bibliotecas Apoio a autores emergentes e independentes, a partir de pequenos 25

24 21 17 15 14 14 13 13 12 11 10

09 07 07 05 04 03 03 03 02 02 02 01 01

projetos Patrocínio a saraus, feiras e eventos literários Compra da produção de pequenas editoras e/ou de novos escritores independentes para distribuição nas escolas e bibliotecas Criação de rede sociais para troca de informação, trocas e comercialização de produtos editoriais. Criação de novas bolsas de residências e intercâmbio para escritores Programa de oficinas de criação literária e formação continuada para escritores e ilustradores Proteção ao direito autoral Criação de selo editorial para publicação das obras literárias pelo MinC Novos prêmios literários Criação de banco de dados – dados de autores, concursos, editais, etc. Subsídios às pequenas editoras e cadeia produtiva do livro através de incentivos fiscais Edital para seleção de obras literárias, em parceria com editoras, escolhidas através dos meios legais de licitação, que apresentassem as melhores propostas estratégicas de edição, publicação, publicidade, divulgação, distribuição e contrato Criação de programa social para empréstimo de dinheiro para publicação de livros de novos autores em pequenas tiragens. Criação de sítio eletrônico de referência para a literatura e autores Implementação de novas bibliotecas, pontos e agentes de leitura Organizar um evento literário nacional bianual itinerante para lançar as obras apoiadas pelo MinC em cada estado. Criação de cooperativas de escritores e ilustradores Apoio às entidades de classe Criação de novas bolsas de tradução literária Publicação de periódico literário editado pelo MinC Apoio aos planos estaduais e municipais de livro e leitura Criação do Instituto Nacional do Livro Criação do Fundo Nacional de Literatura Cumprir as deliberações propostas nas Conferências de Cultura. Manter as diretrizes da Lei Rouanet

As mais citadas – bolsas de circulação, criação literária e publicação e distribuição de obras literárias nas escolas e bibliotecas e participação em eventos literários – já são ao menos parcialmente contempladas nos editais da FBN, Funarte e MEC (cfe. Labrea:2011c), embora em quantidade insuficiente para suprir a demanda nacional. A questão da necessidade de regionalização dos recursos – via de regra os contemplados concentram-se no eixo Rio-São Paulo –, bem como o apoio a autores emergentes são bastante citados pelos autores, como podemos acompanhar pelos depoimentos abaixo:
Depoimento de escritores Estimulando a remoção dos óbices que dificultam a conversão de textos em publicações e sua (das publicações) exposição ao público. Acho que, sem atentar contra a Federação, a regionalização dos orçamentos em função das populações envolvidas, poderia impulsionar o setor em regiões externas ao eixo Rio-São Paulo. Alexandre Santos. Acredito que o último escritor do norte

publicado por uma editora mediana foi o poeta amazonense Tiago de Melo. As grandes não fazem nem menção, restringindo-se quase sempre ao velho eixo Rio-São Paulo, quando não reproduzem os chamados mais-vendidos internacionais. O Ministério da Cultura tem condições perfeitas de criar comissões para aferir o que se tem de criativo ao longo dessa região. Tem também mecanismos precisos e já em uso para distribuir e difundir tais criações. João Bosco Maia da Silva.

Autores emergentes, que lutam pela visibilidade de seu trabalho têm várias dificuldades, como podemos visualizar pelo depoimento abaixo:
Depoimento de escritores Acho que permitir que um autor/ilustrador possam publicar seu livro é valiosíssimo, visto que muitas obras de qualidade não despertam o interesse comercial das editoras. Mas acho que agora podemos pensar também em novas medidas. Por exemplo, existe espaço para novos autores, mas pouca divulgação. Esta, via de regra, ocorre por parte de sites e blogs de amigos, mas não permite uma divulgação mais ampla para quem ainda não "faz parte do clube". A descentralização da informação trouxe essa dificuldade extra para obras de autores novos. Além disso, o pouco espaço nos meios tradicionais para a crítica literária teve consequências não só para autores, como para os próprios críticos. Estes, escrevendo sobretudo em veículos especializados (quase sempre, acadêmicos), perderam a mão de escrever para o público de forma menos técnica. Por causa dos aspectos levantados acima, acredito que contribuir para ações de divulgação e promoção dos livros publicados com incentivo é essencial para permitir que os autores tenham a oportunidade de apresentar seu trabalho para o público leitor. Isso, a longo prazo, será bom não apenas para autores, ilustradores e editores, mas para a formação do estudante brasileiro e para a sociedade como um todo. Ter familiaridade com a escrita e com a leitura, reservar um tempo para a concentração e a reflexão, saber de nossa cultura de forma prazerosa, tudo isso pode ser facilitado pelo contato com um bom livro. Mas é preciso que haja investimentos e várias ações em escolas e em pontos-de-venda, em veículos de informação (recentíssimos ou tradicionais) e em festivais, palestras, bate-papos - tudo isso integrado aos prêmios que visam a publicação de livros. Também seria interessante verificar uma maneira de equilibrar a relação baixo custo/traduções malfeitas de bestsellers internacionais insossos/maior público e custo relativamente alto/literatura nacional de qualidade/público restrito, talvez com impostos diversos para cada caso. Andréa Catrópa/SP

Há necessidade de editais para projeto de compra, pelo Estado, da produção de pequenas editoras, verba para publicação, recursos para participação de autores em

eventos literários e circulação de autores nas escolas e bibliotecas figuram na lista das principais demandas para o governo fortalecer a cadeia criativa do livro. Chama atenção o fato destas demandas referirem-se quase que exclusivamente a recursos financeiros – bolsas, viagens, publicação – e que questões políticas como o Plano Nacional de Livro e Leitura e os planos estaduais e municipais, Fundo Nacional de Literatura, Instituto Nacional do Livro, as deliberações para o segmento nas Conferências Nacionais de Cultura estão praticamente fora das preocupações dos autores pesquisados, como podemos observar na tabela abaixo, pelo baixo índice de menção a estes assuntos, estruturantes de uma política pública de Estado. Os autores compõem uma narrativa sobre as possibilidades de implementação de políticas públicas. Em sua grande maioria falam de bolsas, prêmios, eventos, publicações e oportunidades para divulgar as obras literárias.
Depoimento de escritores [Para saber como o MinC pode contribuir para o fortalecimento da cadeia criativa do livro], este é o 1º passo, mapear escritores e ilustradores, conhecer suas necessidades, ouvi-los, promover encontros, seminários com oportunidades de trabalhos e criar políticas públicas não só de governo, mas de Estado mesmo, para que não quebrem boas iniciativas com mudanças de governos; enfim dar visibilidade, valorização a esses profissionais. Dinorá Couto. A primeira coisa seria considerar de vital importância para a formação de leitores o uso de nossa literatura como imprescindível no conhecimento da língua portuguesa. Sem isso não podemos falar de identidade nacional. E ainda multiplicando bibliotecas, criando mecanismos permanentes de incentivo à leitura desde o ensino fundamental até a universidade. Adélia Prado Complicado o Estado bancar os artistas, mas editais de fomento e publicação, assim como concursos e prêmios com valores significativos. Édson Camargo. Acredito que os primeiros passos no caminho para que a produção literária seja acrescida e evoluída é esse. Os autores não midiáticos precisam de visibilidade. Não podemos produzir sem incentivos. Acredito mesmo na evolução e criação de obras importantes no Brasil através de um edital ou concurso público que possa agraciar aos menos favorecidos. Acredito que agora possamos levar adiante muitos projeto pois, as escolas precisam de muita poesia em suas salas de aula e muito esporte em suas quadras para afastar nossas crianças do palco das desilusões, onde milhares estão nesses tempos de tantas dificuldades, contribuindo para um mundo mais infeliz. Conhecendo o escritor, primeiro passo. Os órgãos ligados ao ministério podem entrar em contato com o escritor e ver suas necessidades que, na

maioria, é incentivo para publicação de suas obras. Nem sempre os concursos atingem um grande número. Primeiro porque só premiam uns poucos. Não existe premiação em grande escala e nós temos muitos intelectuais espalhados pelo Brasil. Precisamos de maior visibilidade. Precisamos de muito mais projetos em execução. É necessário acabar com tanta burocracia para se resolver coisas simples. Vamos trazer os escritores para os colégios e para as faculdades também. Mas ninguém pode realizar nada sem incentivos. Josué Ramires Ramalho. Acredito que o maior desafio do autor brasileiro é ser lido e para vencer esse desafio precisa superar os problemas de divulgação e distribuição. Programas do governo que selecionam livros para serem comprados e distribuídos em bibliotecas e escolas são uma boa alternativa, formar o público brasileiro para a leitura e o gosto por nossos autores. Porém os editais dessa natureza precisam ser menos burocráticos, para viabilizar a participação de autores independentes e editoras pequenas. Vejo semanalmente que nas listas de livros mais vendidos, 99% quando não 100%, são compostas de autores estrangeiros, me pergunto, será que eles são tão melhores que nós? Creio que o cinema nacional enfrentou as mesmas dificuldades e que ainda não as superou por completo, mas com os incentivos que recebeu, venceu algumas barreiras. Contação de histórias, tardes de autógrafos em parques e praças públicas, debates literários, incentivos que permitissem baratear o custo dos livros ao público são ações que contribuiriam. Mas o que temos é exatamente o oposto, eventos literários de grande repercussão como a Bienal Internacional do Livro, FLIP, reafirmam e amplificam a divulgação dos que já são conhecidos e fecham-se aos escritores que ainda não são conhecidos. Num projeto de publicação de livros incentivado pela Lei Rouanet, 10% dos mesmos devem ser distribuídos às bibliotecas públicas. Nesse conceito, projetos como a Bienal e a Flip, que são espaços, palcos para os escritores, 10% do tempo e espaço deveria servir a autores iniciantes apresentarem seus trabalhos ao público. E essa iniciativa deveria merecer uma boa curadoria para apresentar bons trabalhos e que os mesmos recebessem a mesma divulgação que o evento como um todo recebe. Eliana de Freitas Apoiando projetos estruturantes como oficinas com autores, grupos de poetas com inserção social, seja organizando saraus, publicando periódicos ou oferecendo oficinas. Criando um site que se tornasse referência para jovens interessados em literatura, com utilização de entrevistas, vídeos, etc, etc. Chacal. Para o escritor, especificamente, com bolsas de incentivo à escrita, realização de projetos (um modelo que pode ser associado a algum lugar, cidade, ponto cultural importante é o de bolsa residência, em que o autor fica hospedado no lugar com o compromisso de escrever um livro que se situe nesse lugar; isso pode ser feito em associação com entidades do governo, como ministério do turismo, FUNAI – (por que não

levar escritores para um período em aldeias?); a Funarte já tem dado prêmios para escrita com seus editais, a Biblioteca Nacional está com um edital para tradução de escritores em outras línguas - seria interessante ampliar isso - tanto os prêmios de escrita da Funarte, que têm a mesma quantidade para todas as regiões, o que é um disparate, pois não leva em consideração a população dessas regiões, garantindo uma proporcionalidade. O mesmo poderia ser pensado para ilustradores. Ademir Demarchi. Conheço muita gente que tem seus trabalhos guardados em gavetas, é certo que todo escritor e poeta ânsia por um público, mas faltam políticas de incentivo a leitura, faltam locais onde possamos nos reunir com certa liberdade de tempo e movimento. Quando ocorrem seminários importantes para os autores, ocorrem nos grandes centros, distante de nós interioranos, trabalhadores; ficamos segregados do mundo cultural e dos eventos. Então acredito ser de muita importância o incentivo do Ministério da Cultura em nossa cidade. A cultura popular esta morrendo pouco a pouco, mesmo considerando avanços na área do conhecimento, as políticas municipais, na maioria das vezes apóiam somente eventos de grande monta. O escritor, o poeta, o recitador, o músico, o artista plástico tem sido desmerecidamente desprestigiado, o que desestimula o artista de longa data e desencoraja aqueles que estão a dar os primeiros passos. Leo Cunha. Criando iniciativas que contemplem os autores. Melhorando as características e regras dos prêmios, obviamente, mas também criando programas que possibilitem aos escritores um maior contato com seu público. Mais cursos, mais palestras, mais contato. Em eventos como a Flip e as Bienais, é possível ficar atento ao que ocorre em suas periferias. Ali acontecem intensas iniciativas vindas dos próprios autores e também de entidades que os apoiam. Fortificar essas iniciativas, fortificar as pequenas ações pode levar a um melhor resultado no nível macro. Há também, em todo o Brasil, séries de iniciativas autônomas que visam a promoção da literatura. Em Belo Horizonte, por exemplo, acontece a ZIP, organizada pelos poetas Chico de Paula e Ricardo Aleixo. Em São Paulo, tem a Flap e a Flup, espécies de contra-Flip. Em Brasília tem a Bienal de Poesia, em Montes Claros, o Psiu Poético. A meu ver, os piores problemas enfrentados pelos criadores dessas iniciativas, é atravessar a burocracia que envolve o pedido de financiamentos dos governos federais, estaduais e municipais. Valeria a pena descobrir meios de simplificar o acesso assim como manter os postos do MinC atentos para os acontecimentos culturais de cada lugar, em busca de favorecê-los e alcançar algum tipo de parceria mais efetiva. Leo Gonçalves. Numa sociedade comandada pelo Capital onde o que é bom é o que vende, cabe ao governo federal estabelecer políticas públicas permanentes de valorização do livro e da literatura que contemplem a boa literatura que não foi contemplada pelo grande mercado, ou seja, a das editoras gigantes,

conglomerados internacionais que nem sempre contemplam a literatura mais experimental ou mesmo a poesia, gênero muito "mal visto" pelo mercado editorial. A formação do leitor é essencial e isso não pode estar desvinculado dos programas da educação formal. Dalila Teles Veras. A continuidade dessas iniciativas já seria uma ótima contribuição para o trabalho dos escritores e dos ilustradores. Como escritor que tenta viver de (e para) seu trabalho, gostaria que tais práticas se tornassem institucionalizadas, ou seja: que soubéssemos (independentemente de quem é o Presidente da República ou o Ministro da Cultura) que em janeiro sempre haveria a seleção para tal bolsa; em julho sempre seriam selecionados os vencedores de tal prêmio, etc. O ideal seria que houvesse um órgão de fomento (como a Fapesp em São Paulo ou a Faperj no Rio de Janeiro) vinculado ao Ministério da Cultura que fornecesse bolsas regulares aos escritores e ilustradores (nos moldes da Bolsa Funarte de Criação Literária) para que estes pudessem se dedicar exclusivamente ao seu trabalho. Marco Catalão.

Uma questão recorrente entre os autores ouvidos é a necessidade do Governo Federal ter uma interlocução com editoras, seja através de legislação, incentivo fiscal, seja por uma política de compra e distribuição de livros. Os autores têm várias sugestões nesse campo, como podemos acompanhar pelos depoimentos abaixo.
Depoimento de escritores Tudo está por ser feito. É preciso ampliar subvenções de edições, compras para bibliotecas públicas, bolsas para criação, apoio às traduções patrocínio de periódicos literários (o último programa nesse tópico foi vergonhoso, privilegiou revistas de variedades que estão no mercado e deixou de fora periódicos literários de qualidade). Dialogar com municípios – políticas culturais municipais costumam ser irresponsáveis. Já que a FLIP foi um sucesso, poderiam apoiar eventos não tão mercadológicos, p. ex. bons festivais de poesia (a exemplo dos da Colômbia, Venezuela, etc). Claudio Willer. Acredito que as Leis de Incentivo, tanto federais quanto nos outros níveis, devem fortalecer a modalidade "fundos", que não vincula a viabilização dos projetos (particularmente aqueles de menor impacto ou potencial mercadológico) à captação junto a empresas e outros "patrocinadores" que estão excessivamente preocupados com a questão da visibilidade de suas marcas. Leo Cunha. Elaborando um programa de incentivo a literatura, através de subsídios às editoras, baixando impostos, subsidiando as indústrias fornecedoras de papel, aumentando a divulgação através da internet, de programas televisivos, e fazendo o livro chegar ás mãos, principalmente das crianças de uma maneira mais fácil, mais rápida e mais barata. Incentivar o escritor e ilustrador com programas de apoio,

treinamento, reconhecer e regulamentar a profissão, criar mais concursos literários, incentivar escritores e ilustradores a montar “work-shops” de literatura e apresentar em escolas, enfim, criar meios para que os bons escritores criem, editem, distribuam seus livros às pessoas menos favorecidas. Antenor Ferreira Junior.

Para saber como o Governo pode contribuir, é interessante conhecer como o mercado editorial funciona. Earp e Kornis (2005) afirmam que o mercado editorial se caracteriza pela entrada constante de novas pequenas editoras, que são a principal fonte de inovação do sistema, mesmo que parte substancial delas se mostre comercialmente inviável e, eventualmente, não se mantenha. Como estratégia para se manterem no Mercado, as pequenas e médias editoras, focam suas publicações em nichos de interesses, em pequenos segmentos para que atinjam um publico determinado. Earp e Kornis sintetizam a questão nestes termos:
O problema fundamental do editor não é colocar o seu produto no mercado, mas encontrar o leitor certo para cada um de seus títulos. O problema fundamental do consumidor é encontrar os livros que o interessam em meio à multiplicidade de títulos produzidos. Juntando a oferta fácil com a demanda difícil, temos de fazer com que os editores e os compradores de livros se encontrem mutuamente. Há um risco crônico de superprodução. É por isso que o problema do livro é, acima de tudo, de distribuição, que depende, sobretudo, de informação que é ainda mais importante em uma sociedade (que se pretende) da informação (Earp e Kornis: 2005, p.18).

Acreditamos que o Governo Federal tem um papel importante a desempenhar neste cenário, seja desenvolver um trabalho a fim de promover e dar visibilidade à pequenas editoras e suas publicações, seja contribuir na circulação e distribuição dos livros nas bibliotecas, universidades e escolas e espaços públicos que contam com investimento do Estado. A Pré-Conferência Setorial de Livro, Leitura e Literatura, realizada em 2010, encaminhou à II Conferência Nacional de Cultura as seguintes diretrizes, que, em nosso entendimento, deveriam direcionar os futuros editais da área:
Garantir e promover a produção local (autores, editores, livreiros), compreendendo a preservação desses como prioridade de segurança intelectual e cultural nacionais; Ampliar os recursos do FNC que visem principalmente o financiamento de projetos editoriais de relevância, onde o custo do livro facilite o acesso à leitura e ao conhecimento; garantir a difusão, circulação, capacitação e distribuição das produções regionais; Estabelecer tabelas especiais para remessa dos livros junto aos Correios (carimbo apoio cultural dos correios/política pública dos Correios para a redução de tarifas);

Garantir linhas de créditos acessíveis para a cadeia produtiva do livro (editoras, livrarias e distribuidoras) e para os leitores e também autores independentes; Criar leis que regulamentem os mecanismos de comercialização, distribuição e circulação da produção editorial nacional e regional como forma de traduzir a bibliodiversidade e as cadeias produtivas e criativas do livro locais. Garantir como orientação do MinC a exigência de um mínimo de produção local em estoque e em exposição nas livrarias, bem como na composição de acervos das bibliotecas públicas (Relatório de Gestão DLLL: 2010, p.213)

Os escritores que contribuíram para esta pesquisa apontam caminhos semelhantes para o Governo Federal contribuir para o fortalecimento da cadeia criativa do livro, em que podemos perceber que a relação entre a cadeia produtiva e a cadeia criativa é muito próxima e ambas se fortalecem se houver uma política que impeça a concentração dos lucros em apenas um dos elos. Nesse sentido, o Governo colabora através de subsídios às editoras, diminuição da carga tributária, fazendo valer as diretrizes presentes na Lei nº 10.753, de 30 de outubro de 2003, que dispõe da Política Nacional do Livro22. Com o intuito de impulsionar a produção editorial brasileira, o Governo Federal desonerou de tributos a cadeia produtiva do livro, com o inciso VI do artigo 28 da Lei nº 10.865, de 30 de abril de 2004, abrindo espaços para o reaquecimento de parcela do setor editorial e livreiro. Ao baixar a alíquota do PIS/COFINS para zero, o setor produtivo do livro foi desonerado em média de 9% dos tributos e o Brasil passou a integrar um seleto grupo de países que entende a cultura como vetor de desenvolvimento (idem:239). No entanto, há necessidade premente da criação de um mecanismo formal que permita o recolhimento desta contribuição. Analisadas as diversas alternativas possíveis para dar sustentação ao demandado Fundo Pró-Leitura, chegou-se à conclusão que o mecanismo mais apropriado é a criação de uma Contribuição Social. A Contribuição Social Pró-Leitura será devida, conforme compromisso assumido pelos próprios contribuintes em 2004, pelas pessoas jurídicas de direito privado beneficiadas pela desoneração que explorem atividade econômica de edição de livros e terá como fato gerador o aferimento mensal de receita bruta decorrente da venda de livros por editoras, sendo a base de cálculo a receita bruta e sua alíquota de incidência da ordem de 1%. Ao acompanhar as discussões da reforma da Lei Federal de Incentivo à Cultura Lei Rouanet e tomando a frente na concretização do conceito de participação social real nos investimentos culturais, os agentes do livro, leitura e literatura vem há mais de
22

http://www.receita.fazenda.gov.br/legislacao/leis/2003/lei10753.htm.

cinco anos trabalhando pela criação do Fundo Pró-Leitura. A criação da categoria específica no Fundo Nacional da Cultura (FNC) permitirá o pleno cumprimento dos dispostos na Lei do Livro de 2003, através da execução de projetos, programas e ações que, definidos pelo Comitê Gestor que tem composição paritária entre Governo e sociedade civil, seriam financiados em grande parte pela contribuição do setor produtivo, recolhida pela Contribuição Pró-Leitura, contando também com outras fontes para constituição de sua receita como recursos do Tesouro Nacional, do Fundo Nacional da Cultura, dotações consignadas no orçamento Geral da União, doações, subvenções e auxílios, recursos provenientes de acordos, convênios ou contratos, entre outros. Com esta formatação, que já foi discutida com os parceiros envolvidos, lançamos um novo momento, a marca de uma política pública de estado, onde governo e sociedade atuam juntos pelo desenvolvimento da leitura no Brasil (cfe. Relatório de Gestão DLLL: 2010, p.297).

POLÍTICA DE EDITAIS DA DLLL PARA O FORTALECIMENTO DA CADEIA CRIATIVA DO LIVRO: RESULTADOS DE ATIVIDADES JÁ DESENVOLVIDAS

A Diretoria, através do trabalho de pesquisa desenvolvido por esta consultoria, buscou, antes de implementar qualquer proposta de ação, conhecer as demandas, necessidades e potencialidades do setor, ao dialogar com os segmentos da sociedade que serão beneficiados pela implementação de uma política pública para o fortalecimento da

cadeia criativa do livro, bem como agir a fim de resolver total ou parcialmente os
problemas que foram mapeados ao longo desta consultoria. As referências que orientaram este trabalho foram o Relatório de Gestão da DLLL (2010), Relatório de Gestão da Fundação Biblioteca Nacional (2010), material produzido na interlocução da DLLL com o Colegiado Setorial de Livro e Literatura23, as prioridades elencadas na préconferência do livro, leitura e literatura e o Plano Nacional e Livro e Leitura24. Não
23

Colegiado Setorial de Livro e Literatura integra o Conselho Nacional de Políticas Culturais que é um órgão colegiado integrante da estrutura básica do Ministério da Cultura e foi reestruturado a partir do Decreto 5.520, de 24 de agosto de 2005. Este órgão tem como finalidade “propor a formulação de políticas públicas, com vistas a promover a articulação e o debate dos diferentes níveis de governo e a sociedade civil organizada, para o desenvolvimento e o fomento das atividades culturais no território nacional”. http://culturadigital.br/setoriallivro/ O PNLL é produto do compromisso do governo federal de construir políticas públicas e culturais com base em um amplo debate com a sociedade e, em especial, com todos os setores interessados no tema. Sob a coordenação dos Ministérios da Cultura e da Educação, participaram do debate que conduziu à elaboração deste documento representantes de toda a cadeia produtiva do livro – editores, livreiros, distribuidores, gráficas, fabricantes de papel, escritores, administradores, gestores públicos e outros profissionais do livro –, bem como educadores, bibliotecários, universidades, especialistas em livro e leitura, organizações da sociedade, empresas

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obstante, mesmo antes desta ação iniciar, houve demandas da cadeia criativa, envolvendo cordelistas, e para atendê-los a DLLL lançou o Edital Prêmio Mais Cultura de

Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa de Assaré.
O Edital Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa de Assaré foi uma resposta aos compromissos assumidos pelo Governo Federal no I Encontro Nordestino de Cordel em Brasília. Neste encontro foram discutidas duas importantes questões para o setor: a proposta de criação da Cooperativa Nacional de Cordel como instância nacional de integração, mobilização e proposição de ações comuns entre os diversos atores e iniciativas existentes no país ligados ao cordel e suas linguagens afins, e a mobilização relacionada a abertura do pedido de registro, junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Repente e da Literatura de Cordel como patrimônios imateriais brasileiros. O governo, através do MinC, já tinha apoiado diversas ações neste segmento: foi realizado em outubro de 2007, o Encontro Nacional de Rappers e Repentistas – Rap Rep que reuniu, em caráter inédito, na cidade de Campina Grande, autoridades de governo, especialistas em Cultura e artistas do Hip-Hop e da cantoria popular. O encontro teve como objetivo identificar semelhanças e diferenças entre as culturas do hip-hop e do repente, fortalecer esses movimentos em suas comunidades e regiões, além de aprofundar a discussão acerca do rap, embolada, repente e cordel e o papel de cada uma dessas linguagens no cenário cultural brasileiro. Os repentistas fazem parte da antiga tradição, que vem da Península Ibérica, do verso, da rima, da palavra. Já o rap é uma expressão urbana extremamente rica e que também usa a rima e a palavra. Então, unir na contemporaneidade o repente com o rap foi algo extremamente criativo e uma prova que a tradição e o contemporâneo não se opõem, mas dialogam e criam novas sínteses e novos hibridismos culturais, reforçando a diversidade cultural de nosso país. Além das apresentações, foram realizadas oficinas diárias de xilogravura, cordel, grafite, rima, danças populares, cantoria, discotecagem e dança de rua. Em novembro de 2007 foi realizado o I Concurso de Literatura de Cordel, promovido pelo IPHAN, que teve como tema “Feira de Caruaru Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro”. O objetivo foi ressaltar a literatura de cordel como valor agregado ao título concedido a feira, o que concretizou a premiação de três autores e o reconhecimento de mais trinta obras que passaram a compor a acervo do Instituto. O

públicas e privadas, governos estaduais, prefeituras e interessados em geral. www.pnll.gov.br.

edital da Ação Griô do Programa Cultura Viva , de 2007/2008, premiou 04 projetos na área de Cordel. A Fundação Casa de Rui Barbosa dispõe de uma coleção de Literatura de Cordel composta de 8.000 folhetos de cordel e de obras sobre o tema, incluindo centenas de folhetos raros, dentre os quais a coleção do patrono da literatura de cordel, Leandro Gomes de Barros, representando um dos acervos mais ricos e organizados à disposição do público. A Fundação tem o maior acervo digitalizado especializado com folhetos de cordéis, além de biografias dos autores e bibliografia sobre cordel disponível na Biblioteca. Em 2008, o acervo de literatura de cordel sob guarda da Biblioteca São Clemente foi disponibilizado para busca online na base de dados do portal da Fundação Casa de Rui Barbosa. A busca pode ser realizada a partir das referências catalográficas consultadas por autor, título, assunto, local de publicação, editora/tipografia, data ou gênero. Constituído a partir da década de 1960, hoje o acervo apresenta uma extensa bibliografia da literatura de cordel, composta de catálogos, antologias e estudos especializados, sendo considerado o maior acervo do país no gênero. Dos mais de 8 mil folhetos, 2.340 podem ser acessados em versão digital, com suas versões originais e variantes. Também podem ser consultadas as biografias de poetas e a bibliografia sobre cordel disponível no acervo da Fundação, com 400 referências, dentre artigos, livros, recortes, teses e dissertações. Assim, a fim de dar continuidade à série de ações já implementadas para o fortalecimento da cultura popular, o Ministério da Cultura, através da DLLL, lançou o Edital Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa de Assaré25 que contemplou 200 projetos em um investimento totalizando R$ 3 milhões. Concorreram poetas, repentistas, cantadores, emboladores e muitos artistas populares e profissionais da cultura em quatro categorias: 1. Criação e Produção: destinada as produções literárias e artísticas voltadas para a Literatura de Cordel, Xilogravura, Repente, Cantoria, Coco e Embolada. (obras inéditas ou reedição) em formato de folheto de cordel, livro, CD ou DVD. A tiragem mínima para a publicação de folhetos de cordel é de 3.000 exemplares; A produção mínima para obras em livro, CD ou DVD é de 1.000 exemplares. 2. Pesquisa: destinada a publicação de pesquisas inéditas ou editadas, em qualquer área de Humanidades, que contribuam para a compreensão, a
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http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2010/06/microsoft-word-edital-004-premio-mais-cultura-de-literatura-decordel-10-06.pdf

interpretação e o ensino do cordel e artes afins. Para esta categoria, serão consideradas dissertações de mestrado, teses de doutorado ou reedição de livros publicados até 10 de março de 2010; A tiragem mínima para a publicação das pesquisas, incluindo a reedição de livros é de 1.000 exemplares. 3. Formação: destinada a projetos de formação de profissionais que atuam em áreas que dialogam com a Literatura de Cordel e suas linguagens afins, a exemplo de autores, ilustradores, editores, agentes e mediadores de leitura, e/ou que incentivem a formação de novos leitores de Cordel. Para esta categoria, poderão ser inscritos projetos de cursos, seminários, oficinas, dentre outras atividades sócio-culturais, de caráter educativo, dirigidos tanto a profissionais que atuam na área como para o publico em geral; Poderão se inscrever iniciativas existentes com proposta de manutenção e/ou ampliação da sua programação de suas atividades ou novos projetos de formação. 4. Difusão: destinado a projetos que contribuam para a valorização e propagação da cultura popular, estimulando a divulgação de obras, o reconhecimento e a geração de renda de poetas, artistas populares e profissionais da cultura que atuam de forma direta ou indireta no campo da literatura de Cordel, do Repente e outras linguagens afins. Para esta categoria, serão considerados dois tipos de iniciativas: a) Eventos, tais como festivais, mostras, feiras, rodadas de negócios, programa de circulação de shows e espetáculos de cultura popular, dentre outros; e b) Produtos culturais, em qualquer linguagem ou combinação de mídias, a exemplo de jornais, revistas, programas de rádio, sites, dentre outros (Cfe. Edital 2010). Para avaliação e seleção das propostas habilitadas foram adotados critérios que contemplaram e valorizaram a diversidade cultural e diferentes territorialidades, como podemos observar a seguir: 1. Impacto cultural e social da iniciativa (máximo de 50 pontos) a. Excelência do conteúdo proposto pela iniciativa, de acordo com a natureza de cada categoria (0 a 10 pontos): criação e produção: originalidade estética da obra, inovação e criatividade e qualidade do projeto técnico; pesquisa: fundamentação teórica quanto à temática abordada, clareza de objetivos e da metodologia e qualidade do projeto técnico; formação: clareza de objetivos e da metodologia utilizada, eficácia dos recursos pedagógicos empregados, qualidade técnica do projeto; difusão: originalidade, inovação e qualidade artística do produto ou evento proposto, abrangência do projeto quanto à formação de platéia e/ou público

consumidor, qualidade do projeto técnico. Características da iniciativa que contribuam com a promoção do livro e a formação de novos leitores (0 a 10 pontos); b. Características da iniciativa que contribuam com a promoção do acesso a bens, produtos e serviços culturais (0 a 10 pontos); c. Características da iniciativa que contribuam com a promoção da acessibilidade (0 a 10 pontos); d. Características da iniciativa que contribuam com a promoção da cultura digital (0 a 10 pontos); 2. Avaliação do proponente (máximo de 20 pontos): a. Adequação da experiência da instituição ao objeto da proposta (0 a 10 pontos); e b. Realização comprovada de projetos relevantes para a área cultural (0 a 10 pontos). 3. Adequação do orçamento e viabilidade do Projeto (máxima de 20 Pontos) a. Coerência entre as ações do projeto e os custos apresentados (0 ou 10 pontos); e b. Razoabilidade dos itens de despesas e seus custos (0 ou 10 pontos). 4. Iniciativas inseridas em áreas de atendimento às prioridades de territorialização do Programa Mais Cultura (máximo de 10 pontos): a. Semi-Árido ou Território da Cidadania (2 pontos); b. Território de vulnerabilidade social - Pronasci (2 pontos); c. Território de indígenas, quilombolas, ribeirinhas ou de comunidades artesanais (2 pontos) d. Bacia Hidrográfica do São Francisco e BR 163 (2 pontos); e e. Cidades Históricas - IPHAN/ (2 pontos). Destacamos as iniciativas premiadas na categoria criação e produção, pois são elas quem dialogam diretamente com a cadeia criativa do livro. Distribuição por estados e regiões do premiados de folhetos de cordel (80 iniciativas):

Folheto de Cordel

35

Contar de Município

30

25

20

15

10

5

0

Distrito Federal Grosso do Sul Mato Bahia Centro-Oeste 1 1 5

Ceará 31

Maranhão Paraíba Nordeste 1 9

Pernambuco iauí P 9 Região Estado 1

Rio Grande Pará do Norte 6 1

Tocantins Rio de Janeiro Paulo São Sudeste 1 7 7

Norte

Total

Distribuição por estados e regiões do premiados de produtos literários e artísticos (20 iniciativas):
Produtos literários e artísticos

6

Contar de Município

5

4

3

Total

2

1

0

Ceará 2

Paraíba 1

Pernambuco Nordeste 4

Rio Grande do Norte Pará Norte 1 Região Estado 1

Minas Gerais 1

Rio de Janeiro Sudeste 2

São Paulo 5

Total

Embora a coordenação deste edital esteja com a Coordenação de Livro e Leitura, consideramos este edital como a primeira ação com foco direto no fortalecimento da

cadeia criativa do livro26. As quatro categorias premiadas têm importância estratégica e
relevância simbólica para o reconhecimento de uma das principais linguagens artísticas do Brasil, entendendo sua unicidade e papel central na construção da identidade nacional e desenvolvimento das culturas populares. Entendemos que este edital alinhase com as diretrizes do MinC que priorizam uma visão antropológica da Cultura (cfe. Labrea: 2011b), com a Agenda Social do Governo Federal e é uma política pública
26

A cadeia criativa do livro está vinculada à Coordenação de Economia do Livro.

voltada para o reconhecimento e fomento da diversidade cultural brasileira, além de contemplar as três dimensões da cultura - valor simbólico, democratização do acesso e economia da cultura. Ao longo de 2011, a Diretoria pagou os prêmios e em dezembro vai fazer a cerimônia de premiação em Fortaleza/CE. Os projetos premiados irão se desenvolver ao longo de 2012 e, por isso, não dispomos de elementos para avaliação de resultados. A Diretoria, até o momento, realizou o cadastro dos projetos e criou um banco de dados dos contemplados. Esperamos que todos os projetos sejam acompanhados pela equipe da DLLL. Um momento importante do trabalho de acompanhamento destes projetos será: a) Esboçar o mapa dos projetos premiados, a partir da contratação de uma consultoria específica para acompanhar e documentar esta ação; b) Criar indicadores de monitoramento e avaliação; c) Propor a articulação de uma rede da Literatura de Cordel, com blog e um sistema de comunicação eficiente e encontros regulares presenciais; d) Publicar as obras premiadas; e) Inserir os autores premiados em feiras do livro e eventos literários, como a Caravana de Escritores; f) Ao final do período de execução do projeto, sistematizar a experiência em um relatório geral e publicizá-lo; g) Revisão do projeto para dar continuidade a ação.

SUBSÍDIOS PARA O FORTALECIMENTO DA CADEIA CRIATIVA DO LIVRO: PROPOSTA INICIAL PARA A FORMULAÇÃO DE PROGRAMA
As ações de governo tendem a um planejamento para atingir objetivos de longo prazo, inicialmente 04 anos, mas visando 20 anos de ações contínuas ou complementares, cujos impactos são projetados desde a fase inicial do planejamento, em um modelo de gestão por resultados. O planejamento também considera a participação social e a integração de todo o território no planejamento nacional. São princípios estruturantes do PPA 2008-2011:
a) Convergência territorial: orientação da alocação dos investimentos públicos e privados, visando a uma organização mais equilibrada do território; b) Integração de políticas e programas, tendo o PPA como instrumento integrador das políticas do Governo Federal para o período de quatro anos, a partir de um horizonte de 20 anos;! c) Gestão estratégica dos projetos e programas considerados

prioritários para a Estratégia de Desenvolvimento, de modo a assegurar o alcance dos resultados pretendidos;! d) Monitoramento, avaliação e revisão contínua dos programas, criando condições para a melhoria da qualidade e produtividade dos bens e serviços públicos; e) Transparência na aplicação dos recursos públicos, mediante ampla divulgação dos gastos e dos resultados obtidos;! f ) Participação social no acompanhamento do ciclo de gestão do PPA como importante instrumento de interação entre o Estado e o cidadão, para aperfeiçoamento das políticas públicas . (PPA 20082011, p.40-1, grifo nosso)

O PPA se organiza a partir de programas, com ações orçamentárias e nãoorçamentárias, executados pelos entes federados, na forma de projetos e atividades. Neste contexto, os editais que estamos analisando fazem parte de um programa vinculado aos ministérios ou fundações e se integram ao PPA 2008-2011, sendo, cada um deles, uma unidade de integração entre o planejamento e o orçamento (cfe. PPPA 2008-2011). O processo de gestão do PPA é composto pelas etapas de elaboração, implementação, monitoramento, avaliação e revisão dos programas. A avaliação do êxito da ação governamental é, idealmente, medido por indicadores que dizem se o resultado alcançado é coerente com os objetivos do programa.
No âmbito da Administração Pública Federal, a partir de estudos empreendidos pela Comissão de Monitoramento e Avaliação – CMA e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, a Secretaria de Planejamento e Investimento Estratégico - SPI, responsável pela qualidade do ciclo de planejamento das políticas públicas, optou pela metodologia do Modelo Lógico de Programas, que permite estabelecer a correlação entre o objetivo a ser alcançado e o problema que deu causa a esse objetivo, as correlações entre as ações a serem empreendidas e as causas do problema-alvo, bem como outras informações essenciais às boas práticas de elaboração de Programas. (Brasil: 2010c, p.19)

O IPEA desenvolveu, em 2006, uma metodologia para construção de modelo lógico de programa, em resposta à demanda colocada pela Comissão de Monitoramento e Avaliação, órgão colegiado de composição interministerial e coordenado pela Secretaria de Planejamento e Investimento Estratégico do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (SPI/ MPOG).
Na ocasião, foi ressaltado que a metodologia deveria ser aplicada a qualquer tipo de programa do Plano Plurianual (PPA) e estar focada no aperfeiçoamento de aspectos relacionados ao desenho e gerenciamento de programas, como um procedimento necessário para preparar avaliações de resultados das ações de governo

(Cassiolato: 2010,p.38).

Este modelo será a referência em nossa proposta de política pública para o fortalecimento da linha programática do eixo Economia do livro – cadeia criativa do

livro, com base nas informações e dados oriundos da pesquisa realizada ao longo de
2011. Essa proposta, destacamos, é baseada única e exclusivamente nos dados oriundos da pesquisa, visto que em 2011 não houve planejamento por parte da DLLL e, posteriomente, da FBN, das ações a serem executadas na linha programática da cadeia criativa do livro. No produto 01 nos referimos a uma oficina para o planejamento das ações prioritárias de 2011 da DLLL e FBN (Labrea: 2011a), mas ela não ocorreu. Assim, assumimos que esta proposta é parcial, pois dá conta somente das demandas estratégicas, mapeadas e fundamentadas no PPA 2007-2011 e objetivos do MinC, no Relatório de Gestão da DLLL 2010 e no PNLL, desconsiderando as prioridades e os interesses políticos da atual gestão da DLLL/FBN, pois as desconhecemos. Em nossa proposta vamos adotar o seguinte referencial para esboçar uma teoria do programa:
1. Explicação do problema e referências básicas do programa (objetivo, público-alvo e beneficiários); 2. Estruturação lógica do programa para alcance de resultados; e 3. Identificação de fatores de contexto que podem influenciar na implementação do programa (Cassiolato: 2010, p.38).

EXPLICAÇÃO DO PROBLEMA
A necessidade de uma política pública voltada para o fortalecimento da cadeia criativa do livro é uma demanda histórica, presente no PNLL, nas prioridades elencadas na CNC, nos encontros de livro e leitura, no Colegiado de livro, leitura e literatura, nos indicadores de livro, leitura e literatura apresentados anteriormente (Labrea:2011d) e nas demandas mapeadas por esta consultoria28.
O problema surge quando o Mercado investe somente em nichos, em autores já conhecidos, em temas recorrentes e em leituras sem complexidade ou grande desafio para os leitores, deste modo excluindo uma grande gama de autores inéditos iniciantes, que não chegam às editoras ou tem suas obras rejeitadas por não se enquadrarem nos padrões da cultura de massa. Aqui cabe a intervenção do Estado, a fim de garantir que a diversidade cultural do país esteja presente na produção literária nacional, que grupos emergentes consigam visibilidade para seus textos e tenham condições de produzi-los, que as expressões artísticas e literárias de todos os territórios possam circular e alcançar novos leitores (Labrea: 2011c, p.5)
28

A análise deste material está presente nos produtos 01, 03 e 04 e não vamos retomá-la neste documento.

Consideramos que todos os escritores e ilustradores, sejam eles populares, emergentes, independentes, consagrados, etc. devem ter um espaço institucional para que possam chegar a possíveis leitores, e que se o caminho do mercado editorial não é viável em função da necessidade de lucro, o Estado pode oferecer alternativas para difusão e circulação de novos escritores, através de editais públicos que tornem possível a produção de novas obras, sua circulação e distribuição a partir de escolas e universidades públicas, bibliotecas públicas e comunitárias até que estes autores tenham reconhecimento e formem seu próprio nicho, com leitores e possam se inserir ser absorvidos pelo mercado editorial. Nesse sentido é importante que a legislação e as articulações que envolvem governo e mercado sejam as mais abrangentes possíveis, garantindo que ao mesmo tempo em que se invista em autores já consagrados, com retorno financeiro comprovado, também tenha espaço para investimentos em autores emergentes de diferentes territórios e subjetividades. Considerando a escassez dos recursos financeiros do MinC, os editais e recursos públicos devem eleger públicos e áreas prioritárias e estas devem se caracterizar pela necessidade de subsídios do Estado para dar visibilidade à sua produção. Para visualizar a totalidade das necessidades e demandas mapeadas nos diferentes espaços de participação da sociedade civil, organizamos o box abaixo, onde elencamos as demandas dos grupos de trabalho da cadeia criativa, embora nem todas as demandas digam efetivamente respeito ao escopo de ação da Cadeia Criativa – questões como acervo, legislação, editoras, formação de leitor, direitos autorais, tradução, livro popular, ponto de venda, difusão no exterior, etc., são pertinentes à cadeia criativa, mas já vem sendo acompanhadas pelas coordenações de livro e leitura e pelas coordenações da FBN, respectivamente, e por isso não vamos considerá-las em nossa proposta de política pública, para não haver sobreposição ou ações duplicadas.
Plano Nacional de Livro e Leitura Encontro Nacional de Livro e Leitura – MinC/MEC
Promover a literatura brasileira por meio do fomento aos processos de criação, edição, difusão,

Prioridades da pré-conferência do livro, leitura e literatura – CNC
Garantir e promover a produção local (autores, editores, livreiros), compreendendo a preservação desses como prioridade de

Pesquisa com escritores e ilustradores e entidades e associações
Profissionalização do autor, seguro social e dedicação exclusiva ao ofício de escritor ou ilustrador

Instituição e estímulo para a concessão de prêmios nas diferentes áreas e bolsas de criação literária para apoiar os

escritores.

Apoio à circulação de escritores por escolas, bibliotecas, feiras, etc.

circulação, intercâmbio e residências literárias, através de instrumentos como bolsas, prêmios, editais para escritores e linhas de crédito para editores, bem como retomar o ensino de Literatura no currículo escolar.

segurança intelectual e cultural nacionais. Ampliar os recursos do FNC que visem principalmente o financiamento de projetos editoriais de relevância, onde o custo do livro facilite o acesso à leitura e ao conhecimento. Garantir a difusão, circulação, capacitação e distribuição das produções regionais. Estabelecer tabelas especiais para remessa dos livros junto aos Correios (carimbo apoio cultural dos correios/política pública dos Correiros para a redução de tarifas); Garantir linhas de créditos acessíveis para a cadeia produtiva do livro (editoras, livrarias e distribuidoras) e para os leitores e também autores independentes; Criar leis que regulamentem os mecanismos de comercialização, distribuição e circulação da produção editorial nacional e regional como forma de traduzir a bibliodiversidade e as cadeias produtivas e criativas do livro locais. Garantir como orientação do MinC a exigência de um mínimo de produção local em Recursos financeiros e subsídios para o autor

Defesa dos direitos do escritor.

Divulgação

Apoio à publicação de novos autores

Distribuição e circulação da obra literária

Programas de apoio à tradução

Publicação

Fóruns de direitos autorais e copyright restritivo e não-restritivo

Visibilidade, publicidade, reconhecimento

Participação em feiras internacionais Programas de exportação de

Acesso à editoras Espaço para escritores

livros e apoio para a tradução de livros brasileiros para edição no exterior Difusão da leitura e dos escritores brasileiros no exterior Reedição de obras importantes, mas fora de circulação

estoque e em exposição nas livrarias, bem como na composição de acervos das bibliotecas públicas.

emergentes

Apoio a pesquisa

Formação de público leitor Participação em eventos literários Escolas públicas de formação literária Novos pontos de venda, em lugares alternativos Livros a preços populares Revisores Agenciamento (no Brasil e exterior)

Fonte: Relatório de Gestão da DLLL 2010.

A fim de criar uma agenda de ações prioritária, com viabilidade financeira e

recursos humanos compatíveis com a disponibilidade da Diretoria, as demandas que
consideramos como problemas a serem resolvidos pela proposta de politica pública são aqueles citados simultaneamente nos 04 quadros. São eles: 1) Necessidade de recursos financeiros para subsidiar o desenvolvimento dos projetos dos autores; 2) Difusão, circulação da obra literária; 3) Residências e intercâmbios para autores.

REFERÊNCIAS BÁSICAS DO PROGRAMA
Objetivo Fortalecer a cadeia criativa do livro. Público-alvo Autores: escritores ilustradores. e Beneficiários Primários: Autores Secundários: Leitores (crianças, jovens e adultos).

ESTRUTARAÇÃO LÓGICA DO PROGRAMA PARA ALCANCE DE RESULTADOS RECURSOS
• Recursos humanos Formação de equipe composta por coordenador/gerente; assistente administrativo (processos, orçamento, SINCOV, etc.); pessoa

encarregada do acompanhamento e monitoramento das ações; ASCOM; auxiliar de informática. • Recursos financeiros Investimento: a definir (PPA 2012-2015)

AÇÕES
• Articulação Institucional Criação de uma agenda de articulação institucional, voltada a consolidar a interlocução da Diretoria com instituições que atuam na mesma área, para contar com parceiros, patrocinadores e apoiadores de suas ações, a fim de driblar a escassez de recursos e viabilizar a execução de alguns projetos que não seriam atendidos, ou seriam atendidos apenas parcialmente, por orçamento próprio. Nesse sentido é prioritário para a DLLL, que está em processo de se incorporar à FBN, definir conjuntamente orçamento e ações prioritárias, a fim de evitar sobreposição e contigenciamento, pois as ações que a FBN executa com foco em escritores e ilustradores não estão subordinadas à Coordenação Economia do Livro – cadeia criativa. Considerando que as políticas públicas para o fortalecimento da cadeia criativa do livro existentes são executadas pela DLLL, FBN, Funarte, MEC e MDA (cfe. Labrea: 2011d) é fundamental para a Diretoria se somar a estas ações, antes de pensar em sobrepô-las ou mesmo substitui-las com outras ações do mesmo teor. O IPEA (Brasil: 2008, p.23), ao analisar o modelo de planejamento do Governo Federal, verificou que há uma tendência de fragmentação das ações em programas setoriais em detrimento de sua articulação em programas multissetoriais, envolvendo a articulação e coordenação de ações de órgãos variados que atuam sobre o problema identificado. Uma abordagem multissetorial, por parte da Diretoria junto a outras instituições governamentais possibilitaria a troca recíproca de informações e o estabelecimento de estratégias comuns para o alcance dos objetivos e metas estipulados para a cadeia criativa. Se considerarmos os editais da FBN podemos pensar que a experiência da Diretoria na formulação de editais que contemplam as diretrizes da Agenda Social do Governo Federal podem aprimorar e qualificar o Programa de Bolsas e Co-edições da FBN. Em relação à Funarte, a DLLL/FBN poderia colaborar com recursos financeiros para ampliar o número de bolsas, participar do processo de monitoramento e avaliação e incorporar os autores selecionados à Caravana de Escritores.

A Diretoria deveria aprofundar sua relação com as instituições e associações de classe, pois o principal resultado de nossa pesquisa com as entidades foi a ausência de

resposta das instituições29 que trabalham diretamente com escritores e ilustradores. As
entidades ligadas à cadeia produtiva, à edição e distribuição de livros desenvolvem atividades para a qualificação dos profissionais já ligados ao setor, inseridos no mercado, mas não existem ações para novos autores e esta opção é coerente com a lógica do mercado editorial, pois há um descompasso entre a imensa oferta global e a

limitadíssima capacidade de absorção do consumidor individual (Earp, Konis: 2005,
p.14), o que torna dispensável este tipo de investimento por parte das editoras. A Diretoria poderia trabalhar igualmente para fortalecer a integração com o aparato técnico-burocrático necessário à política para o fortalecimento da cadeia criativa do livro; promover a institucionalização de espaços e mecanismos de participação social (palestras, seminários, conselhos, câmaras, conferências etc.); e dar continuidade com o processo de elaborar e adequar a legislação para atender aos três níveis da administração pública (cfe. Brasil: 2008, p.24). • Política de Editais EDITAL PARA SELEÇÃO DE BOLSAS DE CRIAÇÃO LITERÁRIA (PARCERIA DLLL/FBN E FUNARTE) Proposta de parceria entre Funarte/DLLL/FBN para nova edição da Bolsa Funarte de Criação Literária, para selecionar 120 bolsistas para produção inédita de textos nas categorias correspondentes aos gêneros lírico e narrativa. Valor anual do investimento R$ 3.600.000,00, ao longo de 5 anos. EDITAL PARA SELEÇÃO DE PROJETOS DE CIRCULAÇÃO DE AUTORES E OBRAS LITERÁRIAS (PARCERIA DLLL/FBN E FUNARTE) Proposta de parceria entre Funarte/DLLL/FBN para nova edição da Bolsa Funarte de Circulação Literária, para selecionar 100 bolsistas para fomentar a promoção e difusão
29

O questionário foi enviado para 12 entidades e associações, com histórico e trabalho reconhecidos, que trabalham com autores, escritores e ilustradores em âmbito nacional: Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares; Associação Brasileira de Difusão do Livro; Associação Brasileira das Editoras Universitárias; Academia Brasileira de Letras; Associação de Leitura do Brasil; Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil; União Brasileira de Escritores; Associação Nacional de Livrarias; Câmara Brasileira do Livro; Câmara Rio-Grandense do Livro; Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e a LIBRE - Liga Brasileira de Editoras. Mesmo tendo ampliado o período para entrega do questionário, tendo trocado a entrega do produto 03 pelo 04 para viabilizar maior participação das entidades, apenas 04 entidades o responderam: Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares; Associação de Leitura do Brasil; Associação Brasileira das Editoras Universitárias e a Associação Brasileira de Difusão do Livro (Labrea:2011c).

da literatura no âmbito nacional, exclusivamente nos Territórios da Cidadania, a partir da concessão de bolsas a projetos que ofereçam, uma ou mais atividades, a saber: oficinas, cursos, contação de histórias e/ou palestras. Valor anual do investimento R$ 4.000.000,00, ao longo de 5 anos. EDITAL BOLSA DE CURSO, OFICINAS E RESIDÊNCIA LITERÁRIAS 2011 Considerando as demandas levantadas na pesquisa realizada por esta consultoria e os editais e programas já existentes, propomos o EDITAL BOLSA DE CURSO, OFICINAS E RESIDÊNCIA LITERÁRIAS 201130 que visa a seleção e concessão de 50 bolsas visando o apoio para as seguintes categorias: a) Curso e/ou Oficinas - ministrar curso e/ou oficinas de criação literária, voltadas para o ofício de autor no Brasil; b) Residência Literária realizar residências literárias de autores brasileiros em território nacional e no exterior e c) Residência Literária - realizar residências literárias de autores de países que têm o português como língua oficial exclusivamente no Brasil; com investimento de R$1.000.000,00 (hum milhão de reais). A Diretoria, na proposta deste edital, busca atingir os públicos e territórios prioritários para o Governo Federal, bem como atingir todos os gêneros literários, sem privilegiar nenhum. Se é certo que as políticas culturais, isoladamente, não conseguem atingir o plano do cotidiano, vemos que existe um esforço do MinC para escutar e dar uma resposta afirmativa às demandas oriundas da sociedade civil, organizando-as em torno de objetivos comuns, formalizando-as por meio de ações e programas para dar-lhes visibilidade e legitimá-las. Para tanto, buscamos articular as dimensões antropológica e sociológica de cultura e fomentar novos circuitos culturais. As demandas e subjetividades que emergem dos pequenos mundos que habitam nichos do universo cultural, antes invisíveis - ao serem reconhecidos e nomeados pelo poder público, a partir de uma política pública - são incorporadas, ao menos parcialmente, pelo mercado e pela administração pública. Existe uma assimetria histórica entre sociedade, Estado e mercado e o MinC, especificamente, a DLLL, em sua política de editais busca apresentar uma abordagem de gestão que leve em conta os contextos sociais, a fim de garantir e ampliar os meios de fruição, produção e difusão cultural. Nossa proposta de edital segue abaixo.

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A primeira versão deste edital, apresentada no produto 04 desta consultoria, tinha várias outras categorias e um orçamento no valor de 10 milhões, foi elaborada por Fernando Braga, consultor da DLLL. Trabalhamos em cima da versão dele para propor esta versão, que está em avaliaçãoo pela Presidência da FBN desde setembro/2011.

MINISTÉRIO DA CULTURA DIRETORIA DE LIVRO, LEITURA E LITERATURA – DLLL FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL EDITAL BOLSA DE CRIAÇÃO, CURSO, OFICINAS E RESIDÊNCIA LITERÁRIAS 2011 EDITAL DE CONCURSO PÚBLICO N° XXXXX/2011 A União, por intermédio do Ministério da Cultura, neste ato representado pela Diretoria de Livro, Leitura e Literatura/Fundação Biblioteca Nacional, no uso de suas atribuições legais, torna público o EDITAL BOLSA DE CURSO, OFICINAS E RESIDÊNCIA LITERÁRIAS 2011. O presente edital é fundamentado pela Lei n.º 10.753, de 30 de outubro de 2003, que institui a Política Nacional do Livro; pelo Decreto n.° 7.559, de 01 de setembro de 2011, que institui o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL); pela Lei do Depósito Legal Nº 10.994/2004; Decreto 5.761/2006 e Decreto 6.170/2007; pela Portaria Interministerial 127/2008 - CGU/MF/MPOG; pela Lei 8.666/1993 e pela Portaria n.º 29/2009, do Ministério da Cultura. Este edital público será regido pelos seguintes princípios: I. Transparência; II. Isonomia; III. Legalidade; IV. Moralidade; V. Impessoalidade; VI. Publicidade; VII. Eficiência; VIII. Equilíbrio na distribuição regional dos recursos; e IX. Acesso à inscrição. I. DO OBJETO 1.1. Constitui objeto deste Edital a seleção e concessão de bolsas visando o apoio para as seguintes categorias: • Curso e/ou Oficinas - ministrar curso e/ou oficinas de criação literária, voltadas para o ofício de autor no Brasil; Residência Literária - realizar residências literárias de autores brasileiros em território nacional e no exterior e Residência Literária - realizar residências literárias de autores de países que têm o português como língua oficial exclusivamente no Brasil;

1.2. Para efeito deste edital de seleção define-se por: a) Obra Literária: texto criado ou recriado de forma artística nas categorias de coletânea de poesia, romance, coletânea de crônicas, coletânea de contos, literatura infantil e juvenil, dramaturgia, literatura em quadrinhos, ilustração de obras literárias e coleção de literatura de cordel com no mínimo 10 (dez) títulos; b) Autores: pessoas físicas brasileiras ou que comprovem residência no Brasil há mais de 2 (dois) anos, ou oriundas de países que têm o português como língua oficial, que comprovem atuação profissional como escritor em qualquer gênero literário; como

ilustrador de obras literárias; como quadrinista e com os demais documentos necessários para participação neste certame; c) Residência Literária: estadia do candidato, por tempo determinado, em instituições relacionadas à formação de escritores, instituições culturais em geral e sedes de grupos culturais com o objetivo de desenvolver pesquisas, projetos artísticos e trocas de experiências e conhecimentos. II. DOS RECURSOS ORÇAMENTÁRIOS 2.1 Os recursos destinados para este edital somam R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais), oriundos do Fundo Nacional de Cultura, Programa XXX, Ação XXX, PT: XXX e PTRES XXX. 2.2 Não há previsão de custos administrativos para a execução do processo seletivo deste edital, em conformidade com o art.6º do anexo da Portaria N º 29/2009. III. DO PRAZO DE VIGÊNCIA 3.1 O presente Edital possui prazo de validade de 12 (doze) meses contados da publicação da homologação do resultado definitivo da seleção no Diário Oficial da União e poderá ser prorrogado por igual período, mediante decisão motivada. IV. DAS CONDIÇÕES DE PARTICIPAÇÃO 4.1 No caso das letras a, b e c, do item 1.1 poderão participar pessoas físicas maiores de 18 (dezoito) anos, brasileiros natos ou naturalizados, estrangeiros residentes no país há mais de 2 (dois) anos; 4.2 No caso da letra d, do item 1.1 poderão participar pessoas físicas maiores de 18 (dezoito) anos, cidadãos natos ou naturalizados de países que têm o português como língua oficial; 4.3 É proibida a participação de candidatos que sejam: a) Membro do Poder Executivo, Legislativo, Judiciário, do Ministério Público, nos níveis municipal, estadual e federal, ou do Tribunal de Contas da União, ou respectivo cônjuge ou companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade até o 2º grau; b) Servidor público ou prestador de serviço vinculado ao Ministério da Cultura e suas instituições vinculadas ou respectivo cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade até o 2º grau; c) Funcionários ou associados das instituições parceiras ou respectivo cônjuge, companheiro ou parentes em linha reta, colateral ou por afinidade até o 2º grau; d) Membros da Comissão de Seleção. V. DO APOIO OFERECIDO As bolsas disponibilizadas por este edital devem ser utilizadas exclusivamente para: 5.1 os projetos de curso e/ou oficinas: a) Auxílio financeiro para desenvolver e ministrar projeto de curso e/ou oficinas selecionado pelo edital; 5.2 as residências literárias: a) Pagamento de passagens aéreas para formação de autores brasileiros fora de seu domicílio de origem;

b) Manutenção de autores brasileiros em formação fora de seus domicílios de origem, abrangendo hospedagem, alimentação e traslado; c) Pagamento de passagens aéreas para formação de autores de países que têm o português como língua oficial em residência cultural no Brasil; d) Manutenção de autores de países que têm o português como língua oficial em residência cultural no Brasil; e) Pagamento de mensalidades de instituições de ensino para formações de autores brasileiros no Brasil e no exterior; f) Compra de livros e material necessário para as formações e residências; VI CRITÉRIOS DE SELEÇÃO 6.1 A quantidade estimada de 50 (cinqüenta) projetos apoiados, a previsão de apoio por projeto e os critérios de seleção, por categoria e tipo de proposta estão descritos conforme segue: 6.2 Bolsas para projeto de cursos e/ou oficinas para autores brasileiros em território nacional Apoio Quantidade Valor bruto Valor estimada de máximo estimado do projetos unitário do recurso por apoiados apoio (R$) categoria (R$) Curso e/ou oficinas 20 Máximo de R$ 400.000,00 com duração mínima 20.000,00 de 72h/aula

6.2.1 Os critérios para julgamento dos projetos de curso e/ou oficinas são os seguintes: • Qualidade e originalidade do projeto de curso e/ou oficina (0 a 35,5 pontos) • Impacto social da proposta – quantitativo (estimativa de número de pessoas beneficiadas) e qualitativo (características sócio-econômicas da população beneficiada; duração e profundidade dos cursos e/ou oficinas) (0 a 30 pontos); • Metodologia do trabalho – organização e método de execução do projeto (0 a 30 pontos); • Currículo do autor da proposta (primeiro critério de desempate); 6.2.1.1 A fim de minimizar desigualdades e promover a descentralização das ações culturais, os requerimentos receberão bonificação em sua pontuação de acordo com a Unidade Federativa de origem, com base no histórico da demanda apresentada ao MinC em anos anteriores, conforme estabelecido a seguir: Candidatura originária da UF Acre Alagoas Amapá Amazonas Bahia Ceará Distrito Federal Espírito Santo Goiás Pontos atribuídos 2,5 2,5 2,5 2,5 1 2 1,5 2,5 2

Maranhão Mato Grosso Mato Grosso do Sul Minas Gerais Pará Paraíba Paraná Pernambuco Piauí Rio de Janeiro Rio Grande do Norte Rio Grande do Sul Rondônia Roraima Santa Catarina São Paulo Sergipe Tocantins

2,5 2,5 2,5 1 2 2,5 1,5 2 2,5 0,5 2,5 1 2,5 2,5 1,5 0,5 2,5 2,5

6.2.1.1.1 No ato de inscrição o proponente deverá anexar comprovante de endereço (água, luz, telefone), sob pena de ter sua inscrição invalidada. 6.2.2 No intuito de fortalecer, promover e difundir ações literárias no interior do país, receberão bonificação adicional de 1 (um) ponto candidaturas não originárias das capitais estaduais e de Brasília, ou cujos cursos e/ou oficinas ocorram fora das referidas localidades. 6.2.3 Em consonância com o Decreto nº 6.040 de 07 de fevereiro de 2007 que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, serão bonificados com 1 (um) ponto, requerimentos de povos e de comunidades tradicionais, incluindo: povos indígenas, quilombolas, ciganos, povos de terreiro, irmandades de negros, agricultores tradicionais, pescadores artesanais, caiçaras, faxinalenses, pantaneiros, quebradeiras de coco babaçu, marisqueiras, retireiros, pomeranos, geraizeiros, caranguejeiras, ribeirinhos, agroextrativistas, seringueiros e fundos de pasto. 6.2.4 Em caso de empate entre os proponentes, o desempate seguirá a seguinte ordem de pontuação dos critérios (média das notas dos membros da Comissão de Avaliação): d) Currículo do autor; a) Qualidade e originalidade do projeto; b) Impacto Social da proposta; c) Metodologia do trabalho. 6.2.5 O projeto de curso e/ou oficinas deverá conter os seguintes itens: apresentação, objetivo, justificativa, metodologia, cronograma, perfil e pré-requisitos do público alvo, material didático, referências bibliográficas, carga horária e período do curso e/ou oficinas, planilha de custos. O curso e/ou oficinas selecionado neste edital, bem como o material didático não poderá, sob hipótese alguma, ser cobrado taxa de inscrição ou mensalidade. 6.3 Bolsas para residências literárias Apoio Quantidade estimada de projetos apoiados Residência de 30 dias a 6 meses no 15

Valor bruto máximo unitário do apoio (R$) Máximo de 10.000,00

Valor estimado do recurso por categoria (R$) 150.000,00

Brasil

Residência de 60 dias a 6 meses no exterior

15

Máximo de 30.000,00

450.000,00

TOTAL

30

600.000,00

6.3.1 Os critérios para julgamento das propostas de residências literárias são os seguintes: • Qualidade das propostas de atividade a ser desenvolvida na residência (intercâmbio, curso, circulação de bens culturais, oficinas, programação cultural, pesquisa, vivências, entre outras atividades pertinentes aos objetivos deste Edital.) (0 a 45,5 pontos); Pertinência e coerência entre o trabalho do proponente e a proposta de atividade a ser desenvolvida na residência (0 a 30 pontos); Portfólio ou histórico da instituição, comunidade ou profissional em que se dará a residência (0 a 20 pontos); Currículo do proponente (primeiro critério de desempate);

• • •

6.3.1.1 A fim de minimizar desigualdades e promover a descentralização das ações culturais, os requerimentos receberão bonificação em sua pontuação de acordo com a Unidade Federativa de origem, com base no histórico da demanda apresentada ao MinC em anos anteriores, conforme estabelecido a seguir: Candidatura originária da UF Acre Alagoas Amapá Amazonas Bahia Ceará Distrito Federal Espírito Santo Goiás Maranhão Mato Grosso Mato Grosso do Sul Minas Gerais Pará Paraíba Paraná Pernambuco Piauí Rio de Janeiro Rio Grande do Norte Pontos atribuídos 2,5 2,5 2,5 2,5 1 2 1,5 2,5 2 2,5 2,5 2,5 1 2 2,5 1,5 2 2,5 0,5 2,5

Rio Grande do Sul Rondônia Roraima Santa Catarina São Paulo Sergipe Tocantins

1 2,5 2,5 1,5 0,5 2,5 2,5

6.3.1.1 No ato de inscrição o proponente deverá anexar comprovante de endereço (água, luz, telefone), sob pena de ter sua inscrição invalidada. 6.3.2 No intuito de fortalecer, promover e difundir ações literárias no interior do país, receberão bonificação adicional de 1 (um) ponto candidaturas não originárias das capitais estaduais e de Brasília, ou cujos cursos e/ou oficinas ocorram fora das referidas localidades. 6.3.3 Em consonância com as prioridades da política internacional brasileira e da política cultural do Ministério da Cultura, serão bonificados com 1,5 (um e meio) ponto adicional os requerimentos oriundos dos países que fazem parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. 6.3.4 Em consonância com o Decreto nº 6.040 de 07 de fevereiro de 2007 que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, serão bonificados com 1 (um) ponto, requerimentos de povos e de comunidades tradicionais, incluindo: povos indígenas, quilombolas, ciganos, povos de terreiro, irmandades de negros, agricultores tradicionais, pescadores artesanais, caiçaras, faxinalenses, pantaneiros, quebradeiras de coco babaçu, marisqueiras, retireiros, pomeranos, geraizeiros, caranguejeiras, ribeirinhos, agroextrativistas, seringueiros e fundos de pasto. 6.3.5 Em caso de empate entre os proponentes, o desempate seguirá a seguinte ordem de pontuação dos critérios (média das notas dos membros da Comissão de Avaliação): d) Currículo do proponente; a) Qualidade da proposta; b) Pertinência e coerência do trabalho do proponente e a proposta de atividade; c) Portfólio ou histórico da instituição, comunidade ou profissional em que se dará a residência. 6.3.2 O proponente oriundo de país que tem o português como idioma oficial, se contemplado, receberá valor reservado à residência no exterior – máximo de R$ 30.000,00. 6.4 A Comissão de Avaliação se reserva o direito de aprovar total o parcialmente a planilha de custos das propostas selecionadas, podendo indicar bolsas com valores menores do que os previstos nos itens 6.2 e 6.3. 6.5 Os projetos de qualquer categoria que não obtiverem pontuação igual ou superior a 50 (cinqüenta) pontos serão desclassificados; VII DA BOLSA 7.1 O valor da bolsa concedida a cada proponente contemplado será pago integralmente após a aprovação da análise documental e assinatura do Termo de Compromisso. 7.2 O valor da bolsa será depositada em conta corrente do proponente contemplado, sendo vetado o depósito em conta conjunta, conta poupança e/ou conta de terceiros. 7.3 No caso de não haver inscrição em alguma das categorias ou o(s) projeto(s) apresentado(s) estar(em) em desacordo com as exigências do Edital, a Diretoria do Livro, Leitura e

Literatura/FBN/MinC poderá redistribuir a bolsa para as outras categorias, respeitando a seguinte ordem: a) curso e/ou oficinas; b) residências literárias. 7.4 Ocorrendo desistência ou impossibilidade do recebimento da bolsa por parte do contemplado, os recursos poderão ser destinados a outros projetos relacionados ao objeto deste Edital, dentro da mesma categoria, observada a ordem de classificação feita pela Comissão de Avaliação. 7.5 Na hipótese de nova dotação orçamentária poderão ser concedidas novas bolsas, de acordo com a ordem de classificação feita pela Comissão de Avaliação, respeitando a seguinte ordem: a) curso e/ou oficinas; b) residências literárias. 7.6 Os valores e quantidades de projetos apoiados estimados nos itens 6.2 e 6.3 configuram apenas expectativa de apoio pelo Ministério da Cultura, ficando o repasse efetivo das bolsas condicionado à quantidade e qualidade das propostas inscritas, à disponibilidade orçamentária do MinC e ao atendimento, pelos proponentes, de todas as condições para recebimento das bolsas; 7.7 No sentido de otimizar a execução dos recursos públicos oferecidos para apoio às iniciativas participantes, a depender da qualidade e valores solicitados nas propostas recebidas e/ou da disponibilidade orçamentária, o Ministério da Cultura reserva-se o direito de apoiar números diferentes e/ou superiores de propostas por categoria; 7.8 Os proponentes selecionados deverão comprovar sua condição de regularidade jurídica, fiscal e tributária, mediante apresentação de cópia da documentação, no prazo máximo de 10 (dez) dias úteis, a contar do recebimento da comunicação do resultado. A não apresentação destes documentos implicará em desclassificação e chamada do próximo da lista de classificação. 7.8.1 Para a assinatura do Termo de Compromisso, o proponente deverá encaminhar a seguinte documentação: a) Certidão Negativa de Débitos de Tributos e Contribuições Federais. Esta certidão pode ser obtida no site www.receita.fazenda.gov.br, opção “pessoa física”; b) Se o concorrente for estrangeiro: cópia de comprovação de residência no Brasil há mais de 2 (dois) anos e cédula de identidade estrangeira ou visto de trabalho ou visto de permanência c) Cópia do documento de identidade; d) Cópia do Cadastro de Pessoa Física – CPF. e) Dados bancários (nome do banco, nome e número da agência e conta corrente) do proponente. 7.8.2 Os contemplados que estiverem inadimplentes junto ao Cadastro Informativo dos Créditos Quitados do Setor Público Federal (CADIN) serão desclassificados. 7.8.3 Para o recebimento das bolsas o candidato deverá comprovar adimplência junto aos órgãos de controle fiscal federais, entre eles a Receita Federal e o Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores – SICAF; 7.9 Ficam sob a responsabilidade dos contemplados todos os contatos, os custos, os encargos e a operacionalização do projeto proposto. VIII. DAS INSCRIÇÕES Ao realizar a inscrição o candidato: a) Reconhece e declara, automaticamente, que aceita as regras e condições estabelecidas neste Edital, às quais não poderá alegar desconhecimento; b) Responsabiliza-se legalmente pelos documentos e materiais apresentados.

8.1 As inscrições são gratuitas e serão realizadas no prazo de xxxxxxx a xxxxxxx de 2011, somente pelo sítio eletrônico www.cultura.gov.br. Não serão aceitas inscrições pelo correio, correio eletrônico e não serão consideradas as inscrições efetuadas após o término do prazo. 8.2 As inscrições para participar na Categoria de Curso e/ou Oficinas devem ser compostas por: a) Formulário de inscrição devidamente preenchido e assinado – ANEXO I; b) Projeto do curso e/ou oficina - ver roteiro de elaboração de propostas – ANEXO II; c) Planilha orçamentária – ver roteiro de elaboração de propostas – ANEXO II; d) Para os casos em que a planilha de custos somar valor superior ao apoio estabelecido na categoria, deverá ser apresentada Declaração de Disponibilidade de Recursos Adicionais – ANEXO III; e) Currículo do candidato constando seu histórico acadêmico e profissional e sua produção literária (máximo de 5 laudas); 8.3 As inscrições para participar na Categoria de Residência Literária devem ser compostas por: a) Formulário de inscrição devidamente preenchido e assinado – ANEXO I; b) Cronograma de atividades – ANEXO IV, c) Planilha orçamentária – ver roteiro de elaboração de propostas – ANEXO IV; d) Para os casos em que a planilha de custos somar valor superior ao apoio estabelecido na categoria, deverá ser apresentada Declaração de Disponibilidade de Recursos Adicionais – ANEXO III; e) Currículo do candidato constando seu histórico acadêmico e profissional e sua produção literária (máximo de 5 laudas); f) Número do(s) Registro(s) no ISBN de obra(s) de sua autoria; g) No máximo 3 (três) títulos mais recentes do autor, registrados no ISBN (um exemplar de cada); h) Carta de admissão ou convite para participação de residência ou de formação voltadas para o ofício de autor; i) Ementa ou Programa da atividade a ser desenvolvida durante o período de residência, com a respectiva duração; j) Histórico ou portfólio da instituição, comunidade ou profissional em que será realizada a residência (máximo de 3 laudas); 8.4 Todo o material de inscrição deverá ser encaminhado em português; IX DA HABILITAÇÃO E SELEÇÃO 9.1. O processo de seleção é composto das seguintes etapas: a) Habilitação do projeto: a análise dos documentos solicitados. b) Avaliação e Seleção: realizada pela Comissão de Avaliação e Seleção constituída segundo os critérios constantes nos itens 6.2.1, 6.2.1.1., 6.2.2, 6.2.3, para bolsas para execução de projetos de curso e/ou oficinas e 6.3.1, 6.3.1.1, 6.3.2, 6.3.3, 6.3.4 para bolsas de residências literárias. c) Habilitação para o Termo de Compromisso: após a publicação do Resultado Final no Diário Oficial da União, os proponentes selecionados deverão entregar a documentação complementar, conforme item 7.8.1, para a assinatura do Termo de Compromisso. 9.2. Compete ao Ministério da Cultura, por intermédio da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura/FBN proceder a habilitação das propostas, a partir da verificação dos documentos apresentados no ato da inscrição dos candidatos e convocar uma comissão técnica, designada pela unidade gestora da seleção pública, que conferirá se as inscrições obedecem às exigências de prazo, condições, documentos e itens expressos no edital, para, ao final da conferência, encaminhar, acompanhada de ata circunstanciando suas ações, a lista de inscrições habilitadas e

inabilitadas à unidade gestora da seleção pública, que cuidará da divulgação e publicação da lista de habilitação. 9.3. A lista de habilitação deverá conter: I - nome do projeto e do proponente; II - município e UF do proponente; III - razão da inabilitação, em caso de indeferimento; e IV - formulário próprio para recurso, em anexo. 9.4. Caberá recurso da inabilitação da inscrição, a ser analisado pela comissão técnica responsável pela etapa de habilitação, a qual apresentará ata de julgamento dos recursos para a unidade gestora, que cuidará de sua divulgação e publicação. 9.5 Compete ao Ministério da Cultura, por intermédio da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura/FBN e/ou de outro órgão interno ou externo, a habilitação das propostas, a partir da verificação dos documentos apresentados no ato da inscrição dos candidatos. 9.6 A relação dos proponentes habilitados e inabilitados será publicada no Diário Oficial da União e simultaneamente no sítio eletrônico www.cultura.gov.br; sendo de total responsabilidade do proponente acompanhar a atualização de informações em ambos. 9.7 Após a publicação do resultado da fase de habilitação, os candidatos não habilitados poderão interpor recurso, no prazo de 5 (cinco) dias úteis a contar da data de publicação no Diário Oficial da União, não cabendo a apresentação de documentos não anexados anteriormente. 9.8 O recurso deverá ser efetuado somente no sítio eletrônico www.cultura.gov.br, não sendo recebido por correio eletrônico ou correio. 9.9 Os recursos serão julgados pelo Ministério da Cultura, por intermédio da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura/FBN, homologados pelo seu dirigente, e o resultado será publicado no Diário Oficial da União e divulgado no sítio eletrônico www.cultura.gov.br, sendo de total responsabilidade do proponente acompanhar a atualização de informações em ambos. 9.10 As inscrições habilitadas serão avaliadas por uma Comissão de Avaliação e Seleção presidida por representante da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura/FBN, ou pelo seu substituto (a) indicado (a), a quem caberá o voto de qualidade. 9.11 A Comissão de Avaliação e Seleção será composta por membros e seus respectivos suplentes, a serem indicados pelo Ministério da Cultura, através da Diretoria do Livro Leitura/FBN, entre representantes do Ministério da Cultura, de outros órgãos da administração pública federal e membros da sociedade civil com ampla atuação no setor editorial e livreiro e especialistas na área de literatura, mercado editorial nacional e internacional, críticos literários, acadêmicos, entre outros, sendo preferencialmente, pelo menos, um representante de cada região do país. Os membros da Comissão de Avaliação e Seleção e os respectivos suplentes serão designados por meio de portaria, a ser publicada até a fase de habilitação. 9.12 A decisão da Comissão de Avaliação e Seleção é soberana e se dará, a partir de pareceres prévios emitidos e apresentados por Subcomissões, compostas da seguinte forma: a) Subcomissão de Curso e/ou Oficinas b) Subcomissão de Residência Literária 9.13 Os pareceres prévios emitidos pelas Subcomissões deverão indicar o deferimento ou indeferimento dos projetos e, se for o caso, glosas ou reduções de itens do orçamento com os respectivos argumentos que subsidiarão a decisão final por maioria de votos da Comissão de Avaliação e Seleção;

9.14 Os membros da Subcomissão que emitiram o parecer prévio devem abster-se da votação referente ao(s) projeto(s) previamente examinado(s). 9.15 Os membros da Comissão de Avaliação e Seleção não poderão ter vínculo com as iniciativas que estiverem em processo de seleção. 9.16 Os membros da Comissão ficam impedidos de participar da apreciação de projetos que estiverem em processo de avaliação e seleção nos quais: a) Tenham interesse direto ou indireto na matéria; b) Tenham participado como colaborador na elaboração da proposta ou tenham realizado projetos em parceria com o candidato nos últimos dois anos, ou se tais situações ocorrem quanto ao cônjuge, companheiro ou parente e afins até o terceiro grau; c) Estejam litigando judicial ou administrativamente com o proponente, ou respectivo cônjuge ou companheiro. 9.17 O membro da Comissão que incorrer em impedimento deve comunicar o fato ao referido colegiado, abstendo-se de atuar, sob pena de nulidade dos atos que praticar. X DO ACOMPANHAMENTO 10.1 Os proponentes contemplados ficarão obrigados a encaminhar à Diretoria de Livro, Leitura e Literatura um relatório mensal, em formato eletrônico, apresentando o desenvolvimento da execução do projeto. 10.2 Os proponentes contemplados ficarão obrigados a encaminhar à Diretoria de Livro, Leitura e Literatura um relatório final, impresso e encadernado e em formato eletrônico, em até 30 dias do término de execução do projeto apresentando as atividades realizadas conforme disposto no projeto contemplado. O relatório final deverá conter, no mínimo: a) Curso e/ou oficina: relatório de atividades, material didático utilizado, avaliação do desempenho dos participantes, proposta de desdobramentos a partir da formação realizada e, caso estejam previstos no programa de formação, certificado ou diploma, todos os relatórios mensais; b) Residência cultural: relatório de atividades desempenhadas na residência; avaliação do desempenho do proponente pela instituição da residência ou integrantes do grupo cultural e proposta ou relatório de desdobramentos a partir da residência realizada, todos os relatórios mensais. XI DAS DISPOSIÇÕES GERAIS 11.1 Será possível a inscrição de mais de um projeto na mesma categoria ou em categorias distintas, mas cada proponente será contemplado com apenas um projeto, a critério da Comissão de Avaliação e Seleção; 11.2 A inscrição do candidato implica na total aceitação às normas e condições estabelecidas neste Edital, não podendo o proponente alegar desconhecimento; 11.3 É de inteira responsabilidade dos candidatos a veracidade das informações apresentadas e o cumprimento de todas as exigências para participação no Edital, estando sujeitos às penalidades cabíveis aqueles candidatos que omitirem ou fraudarem dados e documentos exigidos pelo Ministério da Cultura; 11.4 O Ministério da Cultura não se responsabiliza por licenças e autorizações para utilização pelo candidato de trechos e citações de outras obras, dados e fatos da vida de terceiros, entre outros conteúdos sujeitos à proteção de qualquer natureza, necessários ao desempenho das atividades previstas no Edital;

11.5 Os valores das bolsas de todas as categorias estão sujeitos a descontos legais; 11.6 É rigorosamente vedada a utilização dos recursos deste Edital para o custeio de despesas fora ou em desacordo com a proposta aprovada pela Comissão de Avaliação e Seleção; 11.7 Os projetos selecionados deverão ser executados imediatamente após o pagamento da bolsa com prazo para finalização de acordo com o cronograma da proposta; 11.8 Os casos omissos serão apreciados e resolvidos pelo Diretor de Livro, Leitura e Literatura – DLLL e/ou pela Comissão de Avaliação e Seleção, ficando eleito o Foro da Justiça Federal, Seção Judiciária do Distrito Federal para dirimir eventuais questões de cunho jurídico relativas a este Edital;

FABIANO DOS SANTOS Diretor de Livro, Leitura e Literatura - DLLL/FBN GALENO DE AMORIM JÚNIOR Presidente da Fundação Biblioteca Nacional

CAMPANHA NACIONAL PARA CADASTRO DE ESCRITORES E ILUSTRADORES Recomendamos à Diretoria realizar uma campanha nacional para o mapeamento e cadastro de escritores (as) e ilustradores (as), a fim de criar um canal de interlocução direta e estar atualizada das necessidades e demandas do segmento. Iniciamos um cadastro para esta pesquisa, via mensagens eletrônicas para as redes e movimentos de escritores e ilustradores, bem como para as entidades, mas o ideal seria uma campanha nacional, a partir de um sítio eletrônico em que os escritores e ilustradores poderiam se cadastrar on-line. Em nosso segundo produto (Labrea:2011b) propomos um formato de blog para a rede dos pontos de leitura, que acreditamos ser compatível igualmente a um espaço reservado aos escritores e ilustradores. Este cadastro é uma reivindicação da Câmara Setorial do Livro e Leitura e, em 2006, seus integrantes descreveram minuciosamente os passos deste cadastro, que sugerimos adotar como referência:
A realização de um Censo Nacional de Escritores tem como objetivo fazer um levantamento completo e um mapeamento da localização e perfil dos escritores brasileiros e suas obras, estejam estas publicadas ou inéditas. Entre outros aspectos, destacamos alguns fundamentais: 1) Informações do cadastramento – o formulário a ser preenchido para cada escritor deverá ter: campos de identificação, como nome real, nome literário, sexo, data e local de nascimento, profissão, estado civil, formação, campos de localização, como endereço residencial, município, UF, código de endereçamento postal, telefones residencial, comercial e

2)

3)

4)

5)

6)

celular, correio eletrônico e página na web; informações literárias, como número de livros publicados e número de inéditos, gêneros nos quais escreve (poesia, romance, crônica, jornalismo, livros científicos, literatura infanto-juvenil, contos, outros ensaios etc.), editoras com as quais já publicou; e um campo aberto para comentários adicionais. Não é aconselhável mais que isto, para não ser exaustivo, e informações complementares podem ser coletadas a posteriori. Tecnologia do censo – As informações relacionadas no item acima deverão ser capturadas através de um formulário online, em website específico na internet, através de duas formas: a) que possa ser preenchido diretamente através de uma página interativa e b) que possa ser feito download do formulário em formato para impressão (pdf e rtf). Esta ultima forma visa permitir que o alcance do censo ultrapasse as barreiras de acesso digital, de modo que os formulários em papel tanto podem ser enviados por correio como digitados diretamente por parceiros envolvidos na mobilização e na capacitação de dados. Mobilização e capacitação – Visando obter uma ampla representatividade, o Censo Nacional de Escritores deverá possuir “banners” para serem colocados em sites de editores, de entidades literárias, impressos, com cópia do formulário e os endereços de correio e na web, releases para a imprensa e uma campanha de lançamento que engaje parceiros no censo, reuniões específicas com setores da imprensa, da área editorial, universidades e entidades de escritores podem ajudar a garantir um alcance territorial significativo. Período de realização – O censo teria três etapas de 60 dias cada: a primeira etapa seria a do levantamento inicial, com a publicação dos resultados alcançados nesses dois primeiros meses; a segunda fase constituir-se-ia da continuidade da primeira, por mais dois meses, com reforço nos estados e municípios que tenham carreado dados inferiores à expectativa, publicando-se no website do censo e nos dos parceiros, bem como na imprensa, um mapa parcial e um ranqueamento de resultados, até para estimular uma saudável competição, e evidenciando aos parceiros locais onde podem existir zonas de baixa densidade de participação; e a terceira fase, que consiste na consistência, cruzamento e análise dos resultados, com a feitura de mapas georreferenciados, mapas conceituais, tabelas, gráficos e um relatório final. Análise e mapeamento dos dados – Este trabalho consiste em revisão e consistência de dados, correção de erros de digitação, padronização de caixa, glosagem de resultados repetidos ou inconsistentes, cruzamentos de dados (qual a porcentagem de escritores do sexo feminino no nordeste, qual a faixa etária média dos escritores em Santa Catarina, qual a distribuição nacional dos autores em função do número de obras inéditas e assim por diante), assinalando-se para cada formulário uma localização geográfica com latitude e longitude, visando a produção de mapas georreferenciados e temáticos, bem como gráficos, tabelas e textos analíticos e descritivos. Divulgação dos resultados – Os resultados serão divulgados no website do Censo de forma completa, com o material de divulgação mais sintético e também com os dados completos,

para serem utilizados livremente por quem fizer download dos mesmos. Idealmente, seria interessante a feitura de uma publicação de ampla tiragem e um CD a ser disponibilizado para todos os parceiros. 7) Pesquisas posteriores – Uma vez feito esse primeiro censo, e assim obtido um universo de respondentes, poderão ser feitas pesquisas complementares posteriores, para a obtenção de mais dados e informações (por exemplo, relação de obras editadas, com título, ano de publicação, editora, gênero, número de páginas e, se possível, sinopse de algumas linhas) (Castilho:2010,p.107-108).

PROGRAMA DE CIRCULAÇÃO DE ESCRITORES, ILUSTRADORES E OBRAS LITERÁRIAS
Outra importante demanda são programas de circulação de escritores em universidades no Brasil e exterior, escolas públicas, bibliotecas públicas, bibliotecas comunitárias, pontos de leitura, pontos de cultura, zonas rurais onde existem Arcas da Letras implantadas, junto aos projetos beneficiados pela bolsa de circulação literária da Funarte. Estes projetos de circulação estariam vinculados a uma rede local para difusão de escritores e ilustradores, bem como ao fortalecimento de circuitos literários. A Caravana dos escritores do Circuito de Feiras do Livro, poderia integrar este programa, mas estamos propondo ações enraizadas, para além de um calendário de eventos, que tenham continuidade e regularidade ao longo do ano. A Caravana explicita que seu foco está na cadeia produtiva do livro, voltada para o fortalecimento do mercado editorial, e em nosso entendimento para fortalecer a cadeia criativa do livro temos que considerar que os livros, mais que mercadorias, são objetos culturais e que a presença de escritores e ilustradores nestes espaços, em um projeto anual, para além de vender a obra, a faz circular, aumentar o fluxo e o interesse de leitores e torna possível falarmos em circuitos literários mais amplos. Estes programas já foram sugeridos em 2004 pelo Movimento Literatura Urgente e, em 2006, incorporados às demandas do Colegiado Setorial de Livro, leitura e literatura:
1) Programa de Circulação de Escritores na Universidade – em articulação do Ministério da Cultura com o Ministério da Educação, criar um programa de circulação de escritores e poetas pelas universidades. Caravanas bimestrais de cinco autores deverão circular pelas universidades das cinco regiões do Brasil para debates sobre literatura, leituras públicas e lançamentos de livros e revistas. 2) Programa de Circulação de Escritores na Escola – mesmo princípio do programa anterior, mas agora em articulação do Ministério da Cultura com os governos estaduais e municipais brasileiros (através de suas respectivas Secretarias de Cultura e Educação ampliando, assim, o projeto para a rede de escolas

públicas estaduais e municipais. Os escritores e poetas deverão ser selecionados com preponderância de autores locais de cada comunidade, assegurando-se, porém, significativa presença de autores de outras regiões. 3) Programa Latino-Americano de Literatura – em articulação do MinC com o Itamaraty e Ministérios da Cultura estrangeiros, embaixadas e universidades, para circulação mútua de escritores e poetas entre países latino-americanos, criando também um Programa de Intercâmbio de Escritores e Poetas Visitantes nas universidades desses países. Tal circulação deverá envolver presença em eventos culturais e educacionais, períodos de estadia com hospedagem garantida, bem como políticas para a tradução e publicação de obras. 4) Programa Entre-Mares da Literatura – a mesma idéia do programa anterior, porém entre o Brasil, Portugal e os demais países de língua portuguesa, assegurando- se também na visitação desses autores a escolas públicas, além das universidades. 5) Jornada Nacional Literária – criação ou apoio a um grande evento anual (a ser realizado em cidades diferentes), reunindo escritores, poetas e ensaístas para leituras, debates, conferências, palestras e lançamentos, e aberto a estudantes e professores (estes, com isto, poderão se atualizar sobre a criação e a discussão literária do Brasil, servindo de agentes multiplicadores junto aos seus alunos). Para definir os critérios e a seleção de projetos e de autores para cada uma das propostas acima, sugerimos a formação de uma comissão paritária com membros do Ministério da Cultura, dos escritores e da sociedade civil ligados ao setor literário e com comprovado conhecimento. É fundamental também que todos os programas sejam anunciados em editais públicos, de forma transparente e democrática, especialmente os que se referem ao Fundo Nacional da Literatura e à Bolsa de Criação Literária (Castilho: 2010, p. 106-7).

IDENTIFICAÇÃO DE FATORES DE CONTEXTO QUE PODEM INFLUENCIAR NA IMPLEMENTAÇÃO DO PROGRAMA
Devemos considerar que os instrumentos de planejamento e de gestão sofrem limitações para o acompanhamento acurado e a condução precisa das políticas públicas, diante do contigenciamento orçamentário, da escassez de recursos humanos, da mudança de orientação política, da ausência de um sistema de informações adequadas para o monitoramento do desenvolvimento das ações, entre outros fatores, e isto poderá influenciar e até mesmo determinar o futuro das ações propostas. As iniciativas propostas foram formuladas a partir do que está consubstanciado no PPA e reproduzem algumas das prioridades políticas dos órgãos setoriais, das instâncias de participaçnao social e refletem, ao menos discursivamente, as opções estratégicas da Diretoria e PNLL. Mas hoje a Diretoria faz parte da FBN e é importante conhecer o grau de adesão à

proposta por parte da FBN, pois, em última instância, será ela quem decidirá pela implementação ou não das ações e o grau de prioridade, investimento e recursos humanos despendidos. Uma questão relevante a ser esclarecida em conjunto com a FBN é até que ponto se trata efetivamente de uma agenda comum que haverá uma soma de esforços institucionais, ou se a agenda da Diretoria estará comprometida prioritarimente com a agenda da FBN. Se analisarmos o escopo das ações da FBN em 2011, veremos que seu foco foram as bibliotecas e os livros, priorizando a cadeia produtiva e a interlocução com as editoras e livreiros. São agendas diferenciadas, mas que podem se complementar, se houver o entendimento por parte da FBN de que a Diretoria se organiza a partir dos eixos do PNLL e já tem um histórico de ações e uma linha programática bem definida (cfe. Relatório de Gestão DLLL 2010).
Paralelamente, cabe refletir ainda sobre as questões ligadas à organização institucional adequada ao funcionamento dessas iniciativas, boa parte delas de ampla magnitude e complexidade. Colocar em prática tal agenda de prioridades requer gestão estratégica, o que, além da clareza sobre quais são estas prioridades, implica dispor de instrumentos de mobilização e coordenação política sofisticados, capazes de romper com a lógica setorializada e burocratizada da execução do orçamento público. (Brasil, 2008, p.25).

Outra questão importante que devemos considerar quando se pensa em fatores que podem influenciar a execução ou não de uma ação é o contingenciamento no orçamento, que tem afetado o MinC de modo geral e a Diretoria em particular e isso tem dificultado a execução de ações finalísticas, inviabilizando o desenvolvimento de iniciativas culturais consideradas prioritárias para se alcançar minimamente os objetivos contidos na política pretendida para o setor de livro, leitura e literatura. Em 2010, por exemplo, a instabilidade do fluxo de recursos financeiros produziu um impacto negativo na execução das ações, gerando um elevado montante de recursos de restos a pagar para o exercício de 2011 e isso congelou, por assim dizer, a agenda da Diretoria que passou o ano tentando viabilizar os recursos para pagar os editais e ações de 2010, antes de qualquer nova iniciativa. As ações que sugerimos acima são importantes para introduzir novos circuitos culturais com foco na cadeia criativa no centro das políticas culturais de livro e leitura da Diretoria. Assumimos que o objetivo principal das políticas culturais é promover mudanças na sociedade através da cultura. As políticas culturais são um conjunto de intervenções realizadas pelo Estado, instituições civis e grupos comunitários organizados a fim de orientar o desenvolvimento simbólico, satisfazer as necessidades

culturais da população e obter consenso para um tipo de ordem ou de transformação social (Canclini: 2001). Por fim, uma agenda positiva do livro, leitura e literatura é estratégica para o desenvolvimento do país e dialoga com os princípios da democracia e o direito cultural, visto como o direito de produzir, fruir, transmitir bens e produções culturais, bem como reconhecer formas de vida. É dever do Estado a tutela do direito cultural, garantindo sua realização por meio de ações e políticas.
A democracia cultural, como conjunto de eventos que envolve distribuições de bens, oportunidades, participação na criação e em fluxos de decisão, se irradia para os processos contínuos de desenvolvimento. Ela significa crescente melhoria das condições de vida e reconhecimento de que formas alternativas de vida e cultura devem ser consideradas em sua dignidade, inclusive por contribuírem para o desenvolvimento e para o convívio e interação dos diferentes, ou para a interculturalidade (Silva e Araújo: 2010, p.15)

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