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ALEXANDRE GARCIA

NOS BASTIDORES
DA NOTÍCIA

3ª. Edição
Copyright © 1990 by Alexandre Garcia
Foto de capa: Roberto Stuckert
Direitos mundiais de edição para a língua portuguesa adquiridos por
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Brasil

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CIP-Brasil.- Catalogação-na-fonte — Câmara Brasileira do Livro, SP

Garcia, Alexandre, 1940-


Nos bastidores da notícia / Alexandre Garcia. — 3. ed. — São Paulo :
Globo, 1990.
ISBN 85-250-0768-4
1. Jornalismo 2. Jornalistas - Brasil I. Título.
90-0169 CDD-302.2322
-920.50981

Índice para catálogo sistemático:


1. Brasil : Jornalistas : Memórias 920.50981
2. Notícias jornalísticas : Comunicação de massa : Sociologia 302.2322.
Orelhas do Livro

Nos Bastidores da Notícia pretende ser a memória do que


não foi publicado mas, muitas vezes, é mais interessante que a
própria notícia. São fatos vividos e testemunhados pelo autor, que
acrescentam um tempero esclarecedor a notícias que já estiveram
nas manchetes de primeira página nas duas décadas mais
recentes da história deste país.
Passando por episódios ligados aos governos militares do
Cone Sul, Alexandre Garcia faz revelações de peso, contribuindo
para uma visão mais completa de momentos tão cruciais para este
continente como foram a queda de Isabelita Perón, a guerra das
Malvinas e a ditadura Pinochet. A partir de 1976, Garcia toma um
outro posto de observação: a Capital Federal, Brasília. Daí, tendo
sempre como pano de fundo as personalidades mais significativas
que compõem a "malha" política do país, ele pôde testemunhar o
"outro lado" de grandes acontecimentos ocorridos nos últimos
anos: a demissão de Sylvio Frotta, a "sagração" de Figueiredo, o
afastamento de Aureliano da sucessão, a escolha de Tancredo
como primeiro presidente civil depois de anos de exceção, o
governo José Sarney e a eleição de Fernando Collor de Mello.

Alexandre Eggers Garcia nasceu em Cachoeira do Sul (RS)


em 1940. Formou-se em jornalismo na Faculdade dos Meios de
Comunicação Social da PUC/RS em 1971. Trabalhou no Jornal do
Brasil por nove anos; na Secretaria de Imprensa da Presidência da
República nos primeiros dezoito meses do governo Figueiredo; por
sete anos foi diretor da revista Manchete e da TV Manchete em
Brasília. Hoje é repórter especial e comentarista político da Rede
Globo, onde apresenta, também, a "Crônica" no Fantástico.
Seu contato com o microfone e as notícias começou cedo,
através de seu pai, Oscar Chaves Garcia, um conhecido radialista
no interior do Rio Grande do Sul. Aos sete anos fazia "pontas" em
novelas ao vivo, nas rádios de Cachoeira e de Estrela; aos quinze
transmitia a missa dominical na Rádio Cachoeira; aos dezesseis e
dezessete pagava seus estudos com o que auferia como locutor e
noticiarista nas rádios de Lajeado e Difusora de Porto Alegre.
Pelo Jornal do Brasil, trabalhou três anos na Argentina e no
Uruguai, cobriu o palácio do Planalto. Foi enviado especial ao
México, Alemanha Federal e Japão pela Manchete, e fez a
cobertura jornalística das guerras no Líbano, Malvinas, Angola e
Namíbia, além de muitas outras reportagens na Ásia, Europa,
África e Américas.
Além de seu trabalho no Jornal Nacional, Jornal da Globo e
Fantástico, produz um artigo semanal publicado em trinta jornais
brasileiros.

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Sumário

Alexandre Garcia e os seus bastidores —


Rachel de Queiroz

Nota do autor

PRIMEIRA PARTE
No Jornal do Brasil

SEGUNDA PARTE
No Palácio do Planalto

TERCEIRA PARTE
Na Manchete

QUARTA PARTE
Na TV Globo
Dedico este livro
a minha mulher
e a meus filhos
Alexandre Garcia
e os seus bastidores

Novo autor entrando na praça e começando por onde


muitos outros nem acabam. Prosa enxuta, sem quase nunca se
desviar da oralidade, uns longes de boa gíria, na medida exata. Ele
personifica a imagem ideal do repórter, o homem que não opina
diretamente, que não agride o leitor com considerações e recados
ideológicos. Que não se arvora ensaísta em economia, sociologia,
psicanálise, marxismo. O seu material são os fatos: sua narrativa
se compõe de fatos, apanhados à flor da ação. Sem floreios nem
comentários supérfluos. Constrói a sua história com sólidos
blocos de fatos, com as cores amenas ou violentas
correspondentes à realidade desses fatos. Como já disse: o
repórter por excelência.
Outra característica do escritor Alexandre Garcia é o seu
senso de humor — humor que, aliás, lhe deu uma posição tão
especial na sua atuação televisiva.
Inicia-se o livro com as aventuras de Alexandre Garcia na
Argentina de Isabelita Perón. O clima pesado, aquele cheiro de
fascismo e de golpe que o repórter fareja e denuncia; os riscos que
ele corre, os sustos que toma, naquela obsessão de resolver
mistérios e encaixar logicamente os acontecimentos, que é a alma
do ofício.
O planeta é o seu cenário. Brasília é o seu QG, mas
embarca em qualquer direção a que o remeta o jornal. Faz a
invasão do Líbano, guerra civil na Angola, luta na Namíbia. Visita
Soweto, na África do Sul; dá um pulo na Itália. Percorre a
Alemanha durante a visita do presidente Geisel. Vê Amazônia com
garimpeiros e índios, antes mesmo de o tema estar na moda. Anda
por toda parte, mesmo: Europa, Ásia, África, América. Mantém o
seu indefectível humor, quer nas horas trágicas, como naquele
episódio, em plena guerra do Líbano, quando se desgarra do
cicerone e se torna alvo de um atirador solitário. Ou naquele
lance, ao transpor a fronteira da Namíbia: a travessia do rio, à
tarde, quando ele chega a esquecer o perigo, arrastado pela beleza
solene do cenário.
Novela à parte é sua experiência no palácio do Planalto,
como assessor de Comunicação, durante o governo Figueiredo.
Alexandre vive então o seu momento de Saint-Simon, fazendo a
crônica da Corte, na nossa Versalhes tupiniquim. Mas mostra
muito melhor caráter do que o duque francês: conta o que pode
contar, sempre com graça, em flagrantes quase todos divertidos e
significativos. Nunca se viu um palaciano tão pouco palaciano,
sem deslumbres nem ressentimentos. Apresenta figurões e
figurinhas na sua dimensão exata, nítidas e honestas, como o bom
fotógrafo que ele também deve ser. Pode ter um leve toque de
malícia, sem jamais chegar à maledicência e ao innuendo.
Paralelamente, seja nas viagens, nas entrevistas, no Rio,
em Brasília ou exterior, Alexandre Garcia jamais deixa de ser o
jornalista político, o que é sua vocação mais autêntica. E tem um
método especial de interpretar a política, organizando os fatos,
que vão se encaixando uns nos outros em cadeia, o da frente
explicando o de trás, o recente decifrando o enigma ou segredo
criado pelo fato passado.
Para os seus fãs na TV, que nos divertimos com suas
brincadeiras, que nos pomos alerta com as suas denúncias e às
vezes até nos assustamos com algumas das suas constatações, é
uma surpresa descobrir que Alexandre Garcia é também um
excelente comunicador no livro, veículo bem diverso da câmera e
do jornal.
Tão bom, mesmo, que se eu fosse dona de alguma
Faculdade de Comunicação faria tudo para contratar mestre
Alexandre como o meu professor titular de jornalismo. Impresso e
falado.

RACHEL DE QUEIROZ
Nota do autor

Procuro mostrar, neste livro, o que ficou por trás das


notícias nesses últimos dezenove anos. Com o passar do tempo, o
que não se tornou do conhecimento público pode ajudar a
compreensão de fatos que vão compor a história contemporânea
no Brasil e em alguns países do mundo em que trabalhei.
O leitor vai encontrar revelações políticas, aventura,
episódios divertidos e pitorescos, impressões de viagem,
misturados ao sabor dos fatos que testemunhei, seguindo, no
possível, a ordem natural do tempo.
Foram seis meses de trabalho, com a ajuda de meu
microcomputador. Usei minhas anotações, minhas agendas, meus
arquivos, documentos que guardei, gravações de áudio e vídeo que
fiz. E minha memória. Não consultei fontes, jornais ou revistas. Só
me vali do que vi, ouvi, senti, toquei e cheirei. Para situar o leitor,
recordo fatos conhecidos sempre que necessário, antes de entrar
em seus bastidores.
Escrevi este livro pensando nos que gostam do jornalismo.

ALEXANDRE GARCIA
PRIMEIRA PARTE

NO JORNAL DO BRASIL
___________________________

Maio de 1971 a abril de 1979


Boa sorte e frustração

O gerente do Jornal do Brasil em Porto Alegre estava


engraxando os sapatos na esquina, quando eu saltei do carro para
meu primeiro dia de jornal. Era 2 de maio de 1971, e a Condessa
Pereira Carneiro estava na cidade. A redação estava quase
deserta. Quase todos haviam saído para cobrir as atividades da
condessa, que viera para a festa do Centenário da Casa Masson.
Eu estava na redação havia meia hora quando alguém avisou pelo
telefone que houvera uma explosão num depósito de fogos de
artifício no bairro Navegantes. O chefe da redação, Joseph Adam
Zukauskas — meu grande professor de jornalismo —, mandou-me
para a avenida Sertório, onde havia acontecido a explosão.
Havia um grande número de mortos, mas era difícil contá-
los. Pés, braços, vísceras, enegrecidos pela explosão, estavam
espalhados até nos telhados próximos. Estranhei que meus
colegas colhessem informações entre si e não da polícia ou dos
bombeiros, como eu havia aprendido nos livros americanos de
jornalismo. Pensei que seria mais confiável trabalhar sozinho. E
tratei de descobrir a causa da explosão, a quantidade e nomes dos
mortos e feridos.
Voltei à redação com o primeiro parágrafo na cabeça: "Um
fígado num telhado e um pedaço de perna num galinheiro a 50
metros eram os únicos indícios de que havia gente na explosão...''
E seguia ã descrição macabra, certo de que venderia jornal.
Minhas contas sobre o número de mortos consideravam a soma
dos pés, mãos, cabeças e fígados espalhados pela redondeza, com
o cuidado de considerar que dois pés e duas mãos significariam
um morto, num raciocínio matemático sobre anatomia. Passei
tudo para o papel e entreguei para o Zukauskas. Ele leu aquilo,
pôs outro papel na máquina e deu uma redação jornalística mais
ou menos assim:
PORTO ALEGRE — A explosão de um depósito clandestino
de fogos de artifício matou no mínimo 26pessoas num bairro
densamente povoado no meio da tarde de ontem.
Era minha primeira lição de jornalismo, justo no literal
batismo de fogo. A lição ficou marcada.
No final daquela primeira semana de jornalismo, um avião
de treinamento da FAB, um North American T-6, fazia vôos
rasantes no bairro de Ipanema, onde eu morava, em Porto Alegre.
Peguei uma pequena câmera Olympus, entrei no carro e subi a
estrada de um morro próximo, de onde poderia fotografar os
rasantes. O piloto me viu, acenou e desligou o motor. O avião
deslizou pelo ar, paralelo à encosta do morro, bateu com a cauda
nos fios de alta tensão, embicou em direção â praia do rio Guaíba
e entrou de nariz numa touceira de bambu. Desci o morro com o
carro, com ele passei sobre os fios derrubados e fui o primeiro a
chegar ao avião. O piloto estava de cabeça para baixo, ainda preso
ao cinto de segurança. O sangue escorria pelo rosto, saindo da
boca e do nariz, e pingava dos cabelos. Ele mexia os lábios e só
saía um grunhido fraco. Fotografei a cena. Gente que fazia
churrasco sob as árvores da praia chegou com facas e cortou o
cinto, retirando o piloto, que morreu no táxi que o levava ao
hospital.
A Aeronáutica chegou pouco depois. Isolou a área e proibiu
fotografias. Eu pus a câmera no bolso e fui para casa. Era
domingo e o Jornal do Brasil, naquela época, não saía às
segundas-feiras. Portanto, não havia pressa. Eu tinha em casa um
laboratório fotográfico, e tratei de revelar o filme. Estava satisfeito:
tinha fotografado toda a série de rasantes, o piloto acenando na
despedida, a queda ao solo e o piloto agonizando. Além disso,
havia por trás de tudo uma história de amor não correspondido. O
piloto, um segundo-tenente, dava rasantes sobre a casa da
namorada que rompera com ele.
Mas a satisfação iria durar pouco. Quando tirei o filme do
revelador e o pus diante da luz verde, as imagens mal apareciam.
Voltei o filme ao revelador, reforçando a fórmula. Melhorou um
pouco, mas o negativo estava fraco demais para produzir o clichê
de impressão. As fotos estavam impublicáveis. Até hoje guardo o
filme e as cópias em papel. Quando o avião deu o primeiro
rasante, e tirei rapidamente a capa da lente, inadvertidamente
devo ter girado o anel que seleciona a sensibilidade do filme. E
fotografei todo o episódio com um filme de 100 ASA com a câmera
regulada para 400 ASA — aí a lente trabalhou mais fechada,
deixando entrar pouca luz para um filme com menor
sensibilidade. Foi a primeira vez, entre muitas que vieram depois,
que senti que jornalismo é boa sorte revezada com frustração.
Dois anos depois, de novo a sorte misturada com
frustração. O presidente Mediei viria ao Rio Grande e a sucursal
do Jornal do Brasi/em Porto Alegre pediu aos órgãos de segurança
credencial para que eu pudesse cobrir a visita. Naquela época, por
questões políticas, credenciais eram negadas. A minha foi negada.
Através de um vizinho militar, que trabalhava no QG do III
Exército, o coronel Mário Doernte, eu soube que havia problemas
com a minha ficha no DOPS. E, se quisesse esclarecer alguma
coisa, teria que ir ao DOPS prestar depoimento. Hoje pode parecer
estranho, mas na época o ônus da prova era do acusado, não do
acusador. Fui.
O policial civil que anotava meu depoimento interrogou-me
sobre o governo e a política, sem dar-me pista alguma sobre que
acusação pesava sobre mim. Até que, radiante, perguntou-me o
significado da sigla POC.
— Partido Operário Comunista — respondi, deduzindo.
— Taí, ele sabe! — exultou o policial, virando-se para um
colega.
— Eu sou jornalista, tenho que saber a sigla de tudo —
argumentei, orgulhosamente. — Mas por que o senhor me
perguntou sobre POC?
— Porque no dia 28 de agosto de 1969 você foi flagrado
com a sigla ,desse partido pintada em seu carro!
Só então comecei a entender. Naquele dia, acontecera uma
grande gincana na cidade, a "Gincana Ipiranga'', e eu, como
presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Comunicação
Social da PUC, participava da gincana, representando a equipe da
faculdade. E a sigla PUC estava pintada várias vezes no meu
carro.
— Então você é do Partido Universitário Comunista —
concluiu o policial, dando o depoimento por encerrado.
O secretário de Segurança, coronel Athos César Baptista
Teixeira, já falecido, era casado com dona Evinha, da minha
cidade, Cachoeira do Sul. Ela era muito amiga de minha tia
Yvonne. Foi através dela que cheguei ao coronel Athos, para
explicar que PUC não era POC.
Dias depois, ele me chamou ao gabinete dele. Era uma
espécie de acareação com policiais do DOPS.
— Estou cercado de imbecis analfabetos — começou ele,
apontando para os policiais. — Esse aí prendeu o padrinho de um
casamento, na porta da igreja, como suspeito de ter metralhado o
cônsul dos Estados Unidos. E apresentou como prova o carro do
suspeito com uma rajada de balas no pára-brisa. Pois, olhe, eu dei
uma olhada no carro e propus a esse imbecil: ' 'Agora você enfia o
dedo nos buracos das balas''. Ele não conseguiu. Era um plástico
do filme Bonnie and Clyde! Ele levou trinta dias de suspensão,
mas ainda não aprendeu a ler pára-brisa de carro. Vai levar mais
trinta!
Em seguida, jogou sobre a mesa uma pasta de cartolina:
— Isto aqui é a sua ficha. Olhe o que vou fazer com ela.
E rasgou a papelada. Só que as cópias já estavam na
Agência Central do SNI. Em 1976, quando me transferi para
Brasília e pedi credencial no Palácio do Planalto, começou tudo de
novo: explicar que PUC não era POC. O então secretário de
Imprensa, coronel José Maria de Toledo Camargo, foi quem pôs
um ponto final na novela.
Quando Mediei voltou a Porto Alegre em junho de 1973,
para inaugurar a usina da Aços Finos Piratini, vi que estava
removido o obstáculo da ficha em Porto Alegre, porque consegui
credencial para fazer a cobertura da vinda do presidente. Estava
na usina, em Xarqueadas, a 50 quilômetros de Porto Alegre,
quando o JB me mandou voltar. "Redija logo a matéria, que você
vai embarcar para Montevidéu às cinco da tarde. O presidente do
Uruguai acaba de usar tropas para fechar o Congresso.''
As seis e meia da tarde eu já estava no aeroporto de
Carrasco. Havia soldados por toda a parte. Fui para o centro de
táxi e pedi que ele rodasse pelos pontos principais. O Congresso
estava cercado por tanques, no final da avenida Agraciada. No
Palácio do Governo havia um policiamento reforçado. Ao longo da
avenida 18 de Júlio, a principal da cidade, muito pouca gente.
Desembarquei no escritório da United Press International, onde o
chefe, Héctor Menoni, mostrou-me todos os despachos do dia e
deu-me um briefing sobre os antecedentes. Aconselhou-me a
comprar o livro Febrero Amargo, do senador Amílcar Vasconcellos,
que ajudou a atualizar-me sobre os fatos e personagens da crise
uruguaia. Passava um pouco das oito da noite quando meu texto,
via telex, chegava às mãos do Renato Machado, editor
internacional do/5.
No dia seguinte, fui curioso à banca de jornais da Plaza dei
Entrevero, comprar o JB. Era a primeira vez que meu nome
apareceria num despacho do exterior, com o qualificativo de
"enviado especial". Mas não havia uma linha minha. Em lugar do
meu texto, estava um outro, assinado pelo correspondente em
Buenos Aires, Jayme Dantas, que chegara mais cedo a
Montevidéu. No entanto, ao ler o texto de Jayme, a frustração foi
cedendo lugar a uma satisfação muito grande. Todos os pontos
que ele abordava eu havia abordado também. Tudo o que ele havia
julgado importante eu também havia julgado. Os dois textos
estavam praticamente iguais, com diferença apenas no estilo. Para
um iniciante significava um estímulo muito grande e uma injeção
de autoconfiança, porque Dantas era um veterano em coberturas
internacionais, antigo correspondente da Time. Era um bom início
para três emocionantes anos na área do rio da Prata.
Resolvi, então, ir à Casa de Gobierno pedir uma entrevista
ao presidente Juan Maria Bordaberry. Era importante, naquele
momento, saber do próprio presidente o pensamento dele sobre o
regime autocrático que estava inaugurando e também sobre as
relações dele com o vizinho do norte, o Brasil. O secretário de
Imprensa do presidente, Gerardo Achard, lamentou: "Você chegou
tarde, q presidente já prometeu dar a primeira entrevista a um
colega seu, de um jornal de São Paulo".
— Mala suerte! — fui embora, imaginando algum outro
grande assunto para a edição de domingo. Mas, no dia seguinte, o
telefone tocou, no escritório da United Press. Era do Achard, para
mim. "Você está com sorte. Seu colega foi preso e agora o
presidente é todo seu." Até hoje não sei se o jornalista de um
jornal de São Paulo era o Flávio Tavares, que teria sido preso
quando cobria uma reunião na universidade. Só sei que consegui
a entrevista exclusiva com Bordaberry e, na edição de domingo,
dei a manchete principal, dividindo a primeira página com o
casamento de Liz Taylor e Richard Burton.
Embora Bordaberry tenha dito que "todo poder é dos civis' ',
na resposta que deu o título da entrevista, por baixo quem
mandava eram os militares — na melhor hipótese tinham uma
divisão de poder com o presidente. E eu não conseguiria estar bem
informado se não tivesse fontes militares. Foi aí que o adido
militar brasileiro, coronel Sylvio Christo Miscow, me indicou um
certo general Mário Aguerrondo, que estava na reserva, mas era
uma espécie de guru dos generais mais modernos. Ele era o centro
de todas as confidencias dos militares, e eu recebia as
inconfidências do general Aguerrondo. Através dele, eu sabia tudo
o que os militares e o presidente discutiam.
Um dia, quando as relações entre o presidente e os
militares estavam a ponto de pegar fogo, o general se recusou a
falar pelo telefone. Disfarçando a voz, pediu-me para encontrá-lo
no Círculo Militar, num coquetel, às cinco da tarde.
Lá fui eu para o Círculo Militar, na avenida Agraciada. Com
uma credencial da Presidência, entrei. O general me fez um sinal
para que eu não me aproximasse. Peguei um copo de refrigerante
e fiquei fingindo naturalidade. Minutos depois, senti alguém atrás
de mim. ''Não se vire'' — o aviso veio com um hálito quente no
ouvido. Era o general, meio de costas para mim.
Ele sussurrava muito rápido. O meu nervosismo, o ruído
ambiente, o espanhol apressado dificultavam, e perdi muitas
partes da narrativa do general sobre uma violenta discussão entre
Bordaberry e os generais. Aparentemente, Aguerrondo se divertia
em me contar que Bordaberry não havia se dobrado para os
generais. Ao contrário, passara-lhes um "pito".
Quando o general terminou, saí apressado pela Agraciada e
18 de Júlio, já formando o texto na cabeça. Passei o material
direto pelo telex da UPI. No dia seguinte, estaria tudo ao Jornal do
Brasil.
No outro dia, o secretário de Imprensa do presidente me
ligou. Estava satisfeito com as notícias do Jornal do Brasil, mas
contava que o JB fora apreendido pelos militares no aeroporto de
Carrasco. E estava curiosíssimo para saber quem era o deep
throat.
Mas nunca soube. Ao longo dos meses, as apreensões do
JB foram tantas que um dia um uruguaio irritado me procurou.
Era o revendedor do jornal, que estava tendo prejuízos e me pedia
para moderar as notícias. Não pude atendê-lo. As notícias não
dependiam de mim, mas dos conterrâneos dele.
Outra fonte militar importante era o general Amaury Prantl.
Ele chefiava o correspondente uruguaio do SNI. Através dele, eu
ficava sabendo, inclusive, de troca de prisioneiros com o Brasil.
Era o ano de 1973, e isso era impublicável no Brasil. O primeiro
caso que veio a público foi o de Lilian Celiberti e Universino Díaz,
presos em Porto Alegre para serem mandados ao Uruguai. Mas aí
já era o governo Geisel levantando a censura.
Eu ficava no hotel Lancaster, na Plaza Cagancha, perto da
UPI. Um dia, ao entrar no hotel depois do almoço, o concierge me
entregou a chave do quarto com a mão tremendo e os olhos
sinalizando alguma coisa. Não entendi e fiquei com a impressão de
que ele apenas estava nervoso. Quando entrei no quarto, o
telefone tocou. Era o concierge me avisando que um agente da
polícia secreta, segundo ele, me seguia desde a manhã, e ficara
junto à porta do hotel, me esperando.
Liguei para o general Prantl e perguntei-lhe se eu estava
sob suspeita. Ele se surpreendeu com a informação e prometeu
providências. Não passaram vinte minutos e o concierge ligou de
novo, excitado:
"Don Garcia, o senhor não imagina o que aconteceu aqui
embaixo. Uma operação de guerra. Chegou um caminhão do
Exército cheio de soldados armados e levaram preso o agente que
estava seguindo o senhor''.
A partir daquele dia virei "autoridade" para o concierge, que
me dava tratamento VIP no hotel.
Se tinha fontes militares, também as tinha na guerrilha de
esquerda e de direita. Os porões da universidade abrigavam
células dos tupamaros. Havia até um hospital de campanha. Para
entrar lá, tive que provar que não era de um jornal de São Paulo,
que eles consideravam como porta-voz do imperialismo brasileiro.
Até hoje não consegui enquadrar nenhum jornal de São Paulo,
naquela época, em tal descrição. Acho que foi alguma matéria em
especial que os desgostou.
Perto da universidade funcionava a sede do outro extremo,
a juventud Uruguaya de Pie. O interior da sede da JUP me
transportava para a Alemanha em 1938. Havia, no palco do
auditório, uma foto gigantesca do líder da JUP, Hugo Manini. Eles
usavam coturnos e uniformes de brim. Mostraram-me até as
correntes grossas que usavam para conflitos de rua com a
esquerda. Era deles a Rádio Rural. Tinham 50 mil sócios.
Com o tempo, o governo acabou com a JUP e com os
tupamaros. Mas demorou. Um dia, encontrei um amigo tupamaro
em frente ao hotel Rochester. Era inverno e ele estava com o
chapéu enterrado na cabeça e a gola do sobretudo tapava-lhe o
rosto. "Agora vai correr sangue", prometeu ele, com raiva.
Perguntei-lhe o que iria acontecer. Ele ficou meio sem jeito ao
responder: ' 'Bem, primeiro, nós vamos embora para Buenos
Aires". Aí, eu percebi que a guerrilha estava chegando ao fim.
Os espíritos, no entanto, estavam longe de se desarmar. Um
dia, eu estava visitando parentes em Pocitos, um dos balneários
de Montevidéu, quando a prima Beba chegou esbaforida do
centro: "Está havendo um banho de sangue. Há sangue
escorrendo pelas sarjetas". Segundo ela, o Exército estava
dispersando a tiros de metralhadora uma manifestação popular
em favor do poder civil de Bordaberry. Liguei para a UPI e o
Menoni me confirmou que estava havendo um banho de sangue.
Em espanhol, a palavra sangre soa ainda mais forte. Saí correndo
para testemunhar o morticínio na avenida 18 de Júlio.
Quando cheguei, nada vi que lembrasse sangue. Havia
marcas de correria: sapatos perdidos, restos de granadas de gás
lacrimogêneo e até estojos de arma automática. Mas de sangue,
nada. Perguntei, nas imediações, a pessoas que haviam
participado da manifestação. Elas me confirmaram que houvera
um banho de sangue. Quando perguntei pelos cadáveres, elas me
informavam que já haviam sido levados, e que havia centenas de
feridos. Eu não conseguia me convencer. Não havia sangue em
parte alguma.
Consegui entrar no palácio e perguntei ao secretário de
Imprensa, Achard. Ele me contou que o Exército havia atirado,
sim, mas com cartuchos de festim e de borracha, apenas para
dispersar a multidão. E que não havia sequer feridos.
Naquele dia, mais uma vez, meu relato dos acontecimentos
chegava no JB, no Rio, diferente do relato das agências de
notícias. Elas falavam em banho de sangue, com centenas de
feridos, segundo testemunhas. E eu dava o meu testemunho,
dizendo que não tinha havido baixas civis quando o Exército usou
munição de efeito psicológico para dispersar a multidão.

Perón morto

Nunca vi Perón vivo, em carne e osso. Quando criança,


costumava ouvir as arengas peronistas pelo rádio. No Rio Grande
do Sul, na década de 40, a metrópole ainda era Buenos Aires.
Uma doença mais grave e ia-se para Buenos Aires, onde se
encontravam brasileiros de Cuiabá, que desciam o rio Paraguai.
As emissoras de rádio mais ouvidas eram de Buenos Aires. A
música, o tango. A primeira revista em quadrinhos que li
chamava-se Billiken. Os heróis eram "La Família Conejín", "Ocalito
y Tumbita''.
Fui ver Perón já morto, no final de junho de 1974, dentro
de um caixão no salão nobre do Congresso Nacional, um prédio
que lembra o Capitólio americano.
Quando o Jornal do Brasil me mandou para Buenos Aires,
fiquei surpreso. Afinal, lá estava o correspondente Jayme Dantas.
Imaginei que iria trabalhar como uma espécie de auxiliar de
Dantas. Quando lá cheguei, apresentei-me a Dantas no escritório
do JB na Calle Florida, 142. Dantas já tinha mais de sessenta
anos e uns quarenta de jornalismo. Perguntei-lhe o que deveria
fazer. Ele mexeu alguns papéis sobre a mesa, como se estivesse
mostrando trabalho, e me disse:
"Você veio para cobrir a morte de Perón. Eu estou ocupado,
fazendo para o 'Especial' de domingo uma reportagem sobre a
agricultura argentina. De modo que Perón é todo seu". Fiquei
assustado e contente. De novo a boa sorte, a oportunidade. O “
velho'' Dantas estava dando uma chance para um jovem que
começava, e não queria dizer isso. Apenas inventava a história da
reportagem sobre agricultura. E lá fui eu para o Congresso, ver o
corpo do Perón.
No final da tarde, voltei para a redação com o material do
dia. Tentei ouvir a opinião de Jayme Dantas, mas ele me disse que
eu fosse escrevendo, porque ele estava ocupado. Eu tinha
conversado com um certo Raul Alfonsín, líder da União Cívica
Radical. Ele me havia dito que a morte de Perón favorecia o
peronismo, que se estava enfraquecendo com Perón no governo: '
'Agora os seus seguidores vão se encarregar de reerguer o mito,
pois, com ele morto, fica mais fácil".
Texto escrito, tentei mostrar ao Dantas. Ele não quis ler. "O
texto não é seu? Pois então vã passá-lo para o Rio. Depois a gente
conversa." Saí pela Florida com o texto e fui até a avenida
Corrientes, onde estavam as cabines públicas de telex da Entel, e
eu mesmo, como sempre fiz, datilografei o telex para o JB, no Rio.
Voltei na maior curiosidade. A opinião dele era
absolutamente necessária. Entreguei-lhe o texto e me pareceu
uma eternidade o tempo que ele levou para ler. Aí me disse:
"Você poderia ter escrito tudo isso, usando um potente
telescópio, de Marte ou da Lua. Está tudo muito bem escrito,
isento, neutro, claro, objetivo. Mas está tudo incolor, inodoro e
insípido. Certinho demais. Você precisa botar cheiro nisso,
sentimento, emoção. Você precisa mostrar para o leitor que você
estava lá dentro, ao lado do caixão de Perón, no meio das pessoas
que choravam".
Que lição! Lembro até hoje de cada palavra. No dia
seguinte, agucei os sentidos para ouvir a música fúnebre que
tocava nos alto-falantes da praça do Congresso, para sentir o
cheiro azedo dos restos de pão que na véspera haviam sido
distribuídos pela CGT às filas que choravam, para descrever a
chuva fina que caía no frio de início de julho, para contar como as
mãos calejadas tentavam despedir-se do caudilho e, finalmente,
para descrever o gesto do tenente-general Leandro Henrique
Anaya, diante da viúva de Perón, tirando a espada da bainha: ' 'O
Exército se despede do mais antigo de seus soldados em atividade.
E não se despede apenas do militar, mas do condutor da nação, a
maior figura nacional deste século. Descanse em paz, mi general.
Apoiar quem recebe, sob o império da Constituição, tão pesada
carga é a maneira de homenageá-lo".
Os alto-falantes ampliavam a voz do general pela praça, e o
povo acrescentava, em uníssono: "Se siente, se siente, Perón está
presente". Naquele momento, o recado do general Anaya
significava o fim das dúvidas militares. Iriam todos apoiar a vice-
presidenta que assumia, Isabel de Perón, aliás, Maria Estela
Martínez de Perón, uma franzina moça, nascida na província do
governador Carlos Menem, La Rioja, que Perón foi conhecer fora
da Argentina.
Depois do general Anaya, o presidente da União Cívica
Radical, Ricardo Balbín, falou para a viúva de Perón: "Senhora, os
partidos políticos argentinos estarão a seu lado para servir à
permanência das instituições, o que Vossa Excelência simboliza
nesta hora". Estava selado um contrato social: as Forças Armadas,
o povo, os partidos políticos, todos se uniam para apoiar Isabelita
e garantir as instituições. Não era apenas Isabelita que ficara
viúva. A nação inteira estava viúva de Perón e preocupada em
preservar o espólio. Mas a paz não iria durar. No dia 5 de julho
aconteciam os primeiros choques entre os sindicatos e a
Juventude Peronista em Jujuy.
O braço armado da Juventude Peronista, os montoneros,
havia dado apoio ao "acordo entre as forças sociais e políticas
interessadas na libertação nacional, para que o vazio de poder não
seja preenchido por aventureiros, que querem destruir o
peronismo e toda a forma de organização popular''. Mas não durou
a paz. Os montoneros logo concluíram que havia forças
interessadas em preencher o vazio de poder deixado por Perón,
nas mãos de uma fraca presidenta, e voltaram à luta. Não
concordavam com a dependência de Isabelita em relação a López
Rega, "El Brujo". Segundo a lenda, "Lopecito" — como Perón o
chamava — teria sido o responsável pela aproximação do casal.
Então começou a luta armada. Além dos montoneros, havia
o ERP — Exército Revolucionário do Povo —, uma organização
marxista-trotsquista. Havia seqüestros, assaltos, roubos em geral,
como "desapropriações". Um dia, uma policial frustrou um assalto
a uma joalheria, prendendo o cabeça de uma célula guerrilheira.
Os jornais estamparam a foto dela com o pé direito sobre a nuca
de um guerrilheiro estirado na calçada, enquanto apontava para
ele uma pistola automática. Poucos dias depois, a policial saía de
casa, num subúrbio de Buenos Aires, e recebeu um tiro na
barriga. Caiu na calçada e ali ficou, sangrando. Os guerrilheiros
fecharam as ruas e impediram a chegada da ambulância e da
polícia. E ela sangrou até morrer.
Uma tarde, eu estava escrevendo quando ouvi uma
explosão próxima, na Calle Florida. Desci e vi a movimentação
numa lanchonete, onde eu costumava tomar leite com chocolate.
O chão estava coberto de sangue. Havia um morto e dois feridos.
Um policial me contou que fora uma bomba plástica, gelatinosa. O
explosivo é grudado sob a tampa da mesa por um ''cliente''. Antes
de sair, ele enfia no explosivo um lápis-detonador de tempo. Os
que ocuparem a mesa depois são explodidos.
A estratégia era meter medo na população. Filas de ônibus
eram metralhadas a esmo. E o objetivo era atingido. Chegou a um
ponto em que bancos eram assaltados enquanto guerilheiros, com
braçadeiras do ERP ou dos montoneros, desviavam o tráfego e
todos obedeciam, aterrorizados. O seqüestro dos Bun-gue y Born
rendeu à guerrilha mais de 20 milhões de dólares. Com isso,
compraram helicópteros para a região "liberada" de Tucumán e
foguetes terra-terra com que destruíram o prédio da polícia que
guardava os arquivos, numa manhã de domingo. Sob as ruas de
Buenos Aires, havia subterrâneos usados como linhas de tiro,
para treinamento.

De volta

Ainda corria o segundo semestre de 1974 quando o JB


nomeou outro correspondente em Buenos Aires, em lugar de
Jayme Dantas. E o enviado especial Alexandre Garcia ficou entre
Porto Alegre e Montevidéu. Atravessei o rio da Prata de Buenos
Aires a Colônia — o mais meridional dos bastiões portugueses do
século XVIII. Quando pus os pés em solo uruguaio, me senti em
casa, seguro. Havia no ar uma tranqüilidade que não existia em
Buenos Aires. O sol brilhava na alameda de tamareiras que
margeavam o asfalto até Montevidéu.
Mas, outra vez, eu iria experimentar como a tranqüilidade
seria relativa. Numa recepção num clube de Pocitos, eu fiquei
conversando por longo tempo com o adido soviético de Imprensa,
Oleg Nikolaev. E logo um colega da France Presse veio me avisar,
ao ouvido, que eu estava sendo fotografado por um agente do
Serviço Secreto disfarçado de fotógrafo de coluna social. Rimos
muito, Oleg e eu, mas ele logo me avisou que tinha ''lepra", e que
eu estava ficando leproso também. Imagino que o encontro com o
soviético foi para a minha ficha no Uruguai.
De volta a Porto Alegre, retornei ao meu trabalho na
sucursal do JB. E conheci um ministro do governo Geisel,
inaugurado naquele ano. Era o ministro das Minas e Energia,
Shigeaki Ueki. Ele me deu uma entrevista no aeroporto,
anunciando severa fiscalização para punir os caminhões e ônibus
diesel que estivessem "com a várvura desregurada". Eu parei de
anotar e pedi para ele repetir. Ele repetiu e eu, sinceramente,
continuava não entendendo. Ele foi se irritando à medida que
repetia lentamente: ''várvura'' e "desregurada''. Por fim me veio a
luz, e fiz a notícia contra as válvulas desreguladas dos motores a
diesel. Três anos mais tarde, iria reencontrar o ministro no palácio
do imperador Hirohito, em Tóquio. Na mesa do banquete, entre
duas senhoras, Ueki esforçava-se para ser agradável, e dissera
algo em japonês. As duas damas japonesas levaram a mão a boca
para esconder o riso. Mais tarde eu soube a tradução da frase do
ministro: "Nenê qué papá".
Em outubro, eu conheci em Canoas um personagem que
poderia estar em qualquer livro sobre o Barão Vermelho, ou na
obra de Antoine de Saint-Exupéry: Franz Nülle, um alemão forte,
nascido em 1897 na cidade de meus ancestrais maternos,
Hanôver. Na Primeira Guerra Mundial, em 1917, ele era
metralhador num bimotor AGG4 e no final da guerra foi
promovido a piloto de caça, num monoplace Fokker D7. Atuou na
Champag-ne, no Chemin des Dames. Atrapalhou a artilharia
aliada derrubando sete balões de observação e ainda abateu um
caça inglês e três De Havilland.
Terminada a guerra, ele não se desligou da aviação. Voltou
como mecânico e em 1924 passou a voar na América, num
Dornier do Sindicato Condor, como segundo piloto. Fazia a linha
Miami—Barranquilla, na Colômbia, passando por toda a América
Central e Caribe. Era um bimotor com asa sobre a fuselagem e
dois motores em linha, isto é, um no bordo de ataque e outro no
bordo de fuga da asa, e tinha capacidade para doze passageiros.
Quando queria voltar à Europa, ia de navio. Em 1925, foi
condecorado pelo governo da Colômbia com a Cruz de Boacaya,
mas só foi localizado em 1971, no Brasil, para receber a medalha.
Ele passou a voar no Brasil em 1927. Chegou com o
Sindicato Condor e logo entrou numa empresa recém-formada, a
Varig. Em junho, ele fazia a linha Porto Alegre—Pelotas com o
hidroavião D1012, depois voou num Dornier Mercur, num Junker
F-3. Na Revolução de 30, Franz levou Getúlio secretamente ao Rio,
para um encontro com Góes Monteiro. Foi um vôo perigoso de
preparação do movimento. O "Atlântico" da Varig chegou às oito
da noite e voltou a Porto Alegre pela madrugada. Havia mau tempo
e ele preferiu voar sobre o mar, de olho no que imaginava ser a
água. "O avião era um prolongamento do meu corpo. Eu sentia a
bolsa de ar que nos sustentava, entre as nuvens carregadas e o
mar revolto."
Em 1931, Franz Nülle passou a voar como correio. Natal,
Fernando de Noronha, interior do Rio Grande do Sul, onde
pousava em campos de gado e voava seguindo a cerca das
propriedades. Um dia, numa decolagem em Porto Alegre, trancou
o leme do Junker A-50. O avião caiu na ilha dos Mosquitos, no
estuário do Guaíba às onze da manhã, e ele só foi socorrido às
três da tarde. O sangue saía por um ferimento na perna, e ele
usou o cadarço do coturno para estancar a hemorragia, mas a
infecção que veio depois fez com que a perna fosse amputada.
Nunca mais tive notícia daquele pioneiro da aviação.
Na mesma época conheci dona Maria Tavares. Uma mulher
pequenina e cheia de energia nos seus mais de cinqüenta anos.
Em 1946, quando ela tinha 24 anos, acordou de madrugada com
um ladrão em casa e o surpreendeu carregando candelabros de
prata. O ladrão tinha um revólver, mas ela o chamou para
conversar. No final da conversa, o ladrão chorava e prometia voltar
para o presídio, de onde estava foragido. Ela o acompanhou e
obteve do diretor a promessa não apenas de não punir como
também de permitir que ele saísse da prisão para aprender um
ofício. Dona Maria gostou da idéia e conseguiu permissão para
tirar do presídio os piores condenados e encaminhá-los ao
trabalho.
Passaram-se os anos e ela criou o Serviço Social
Penitenciário, com prédio próprio para reeducação dos
condenados. Havia época em que lidava com 250 presos e nunca
teve uma única fuga. A bondade e a sinceridade de dona Maria
desarmavam os espíritos. Um dos seus "anjos", como ela os
chamava, chegou a ser guarda de banco. No primeiro dia, ele
voltou para "casa" com o revólver. Dona Maria não concordou:
"Você vai me desculpar, mas é muita tentação. Deixe o revólver no
banco''. Guardo com carinho a lembrança de dona Maria e um
veleiro de madeira, que um de seus anjos colocou dentro de uma
garrafa.
Também lembro de um piloto de Fórmula 2, um italiano
chamado Giovanni Salvati. Quando ele desembarcou no aeroporto
Salgado Filho para uma prova do Campeonato Brasileiro de
Fórmula 2, eu perguntei se iria tentar o primo posto (primeiro
lugar). Ele me respondeu que sim. E disputava com Graham Hill,
Ronnie Peterson, Carlos Reutemann e Emerson Fittipaldi. Ficamos
conversando e ele me contou que nascera em Castelamare
d'Istabia, perto de Nápoles. No dia seguinte, 15 de novembro de
1971, quando tentava ultrapassar Wilson Fittipaldi, ele entrou
direto no guard-rail e acabaram ali seus 28 anos de vida. Eu
cobria a corrida, e treze anos depois passei por Castelamare
d'Istabia, entre Nápoles e Sorrento. Não entendi como alguém
poderia trocar a paz daquele lugar por uma pista em que se
aposta uma corrida com a morte.
Por falar nisso, lembro-me de uma entrevista que fiz com o
doutor Euríclides de Jesus Zerbini, o pioneiro de transplante
cardíaco no Brasil. A entrevista chocou e provocou um editorial do
Jornal do Brasil, porque ele disse que o "cigarro é um mal maior
que o álcool e a maconha, na medida em que seu uso é permitido
e disseminado, enquanto os demais tóxicos são controlados por
fortes restrições sociais e policiais". Sendo mais disseminado,
concluiu o professor Zerbini, o fumo mata mais.
Depois da publicação da entrevista, o professor Bruno
Carlos Palombini, especialista em doenças pulmonares, levou-me
a uma visita ao pavilhão Pereira Filho, da Santa Casa de
Misericórdia de Porto Alegre. Era como se entrasse no inferno de
Dante. Fumantes de décadas pediam que Deus lhes mandasse a
morte como uma bênção. O cigarro destrói os pulmões e o
fumante morre de lenta asfixia, como se estivesse morrendo
afogado aos poucos, durante meses. O professor Palombini me
disse que é uma das mortes mais terríveis.
Nos meses de janeiro e fevereiro Porto Alegre se esvazia. As
pessoas fogem do calor, indo para o litoral ou para a serra. Quem
não consegue férias no verão manda a família para fora e sai nos
fins de semana. Naquela terça-feira, 25 de fevereiro de 1975, havia
pouco tráfego na avenida João Pessoa, e eu me dirigia à sucursal
do JB, logo depois de almoçar. No final da avenida, perto da
Faculdade de Engenharia, me chamou a atenção uma derrubada
de frondosas árvores, que eu conhecia desde o tempo em que
ficava à sombra delas, esperando o bonde. Havia seis árvores no
chão e, numa sétima árvore, vi algo que me fez frear o carro e
procurar um lugar para estacionar.
Três jovens estavam trepados na árvore e, embaixo, na
calçada, três operários, com uma motosserra, discutiam com eles.
Perguntei o que estava acontecendo.
— Eles estão derrubando tudo. Agora só vão derrubar com
a gente aqui em cima — gritou um jovem.
O capataz do trabalho me olhou e observou, com desdém:
— A gente vai carregar o caminhão com as outras árvores e
depois volta aqui. Deixa eles se divertirem um pouco e depois a
gente corta.
Foi quando percebi que tinha notícia nas mãos. Mas
também percebi que só seria notícia se a presença maciça de
jornalistas testemunhasse o que iria acontecer: ou a árvore seria
derrubada com os jovens ou eles salvariam a árvore. E corri para
um orelhão, avisando o JB, para que mandasse fotógrafo, e
avisando os outros jornais.
Logo soube o nome dos três. O primeiro a subir era um
terceiranista de engenharia eletrônica da Universidade Federal,
Carlos Alberto Dayrel, de vinte anos, mineiro de Sete Lagoas. Ele
estava na árvore desde as onze da manhã. Por volta do meio-dia, a
estudante de biblioteconomia Tereza Jardim, de 27 anos, ia levar
as crianças ao parque e desistiu. Deixou-as em casa e subiu na
árvore. Uma hora depois, aderiu à salvação da árvore o estudante
de matemática Marcos Saracol, de dezenove anos. "Só a violência
excessiva nos tira", avisou Marcos.
Um senhor que se identificou como Hélio Barros me contou
que a avó dele, Amália, assistira ao plantio daquelas acácias, seis
anos depois de Deodoro proclamar a República... Como ele, as
pessoas iam chegando e se organizando. Logo havia cartazes
contra a destruição e a substituição do verde pelo concreto. As
árvores estavam sendo derrubadas para elevar a pista da avenida
João Pessoa.
As três da tarde, chegava uma escada Magyrus e a Polícia
Militar. Aquela altura, o público era de umas duzentas pessoas,
mais toda a imprensa local e do Rio e São Paulo. Radiorrepórteres
subiam na árvore para entrevistar os jovens. O chefe de
policiamento, capitão Joaquim Moncks, de megafone, deu
garantias: "Trago a promessa da Prefeitura de que não haverá
corte da árvore. Também sou estudante e apoio a luta de vocês.
Vim dar segurança e evitar violência".
A mensagem continha as palavras "segurança" e "violência".
E ninguém havia pensado na hipótese de alguém precisar de
segurança — a não ser a árvore — nem de cometer violência — a
não ser contra a árvore. Os jovens desconfiaram e não desceram.
Foi então que chegou o diretor da Escola de Engenharia,
Adamastor Uriart, que trepou na acácia para negociar com Dayrel.
Ele convenceu Dayrel a descer, para irem juntos ao gabinete do
secretário de Obras. Mas os outros dois ficariam, protegendo a
acácia.
Dayrel parecia que ia ter um ataque de timidez, diante do
secretário Plínio Almeida, professor de arquitetura. O secretário
deu garantias de que a árvore seria preservada como símbolo,
mas, lá pelas tantas, chamou as árvores de "ornamento" e quase
pôs tudo a perder. Com a garantia do capitão Moncks somada à
garantia do secretário, Dayrel voltou à acácia e convenceu seus
companheiros de árvore a descerem.
Nem tinham tocado a calçada com seus pés, um certo
tenente PM Jesus deu-lhes voz de prisão. Fui o primeiro a
protestar e a puxar Dayrel para longe da multidão. A polícia
cercou o grupo e começou a violência. Houve vários feridos e
muitas câmeras quebradas, inclusive a da TV Difusora.
Embarquei Dayrel na Kombi do JB e fomos para a Secretaria de
Segurança. Eu não sabia, mas os dois companheiros de Dayrel,
naquele momento, estavam sendo presos.
Na Secretaria de Segurança, apresentei-me como repórter
do JB que precisava falar urgente com o secretario, Ney Pinto de
Alencar. Quando major, ele havia sido subcomandante do meu
batalhão, no 7º. de Infantaria, onde prestei serviço militar. Ele me
recebeu e eu estava indignado com o não-cumprimento de palavra
por parte da PM. Relatei a história e ele concordou comigo. Aí eu
avisei que o Dayrel estava no carro do JB, pronto a prestar
esclarecimentos sobre seu gesto. O secretário de Segurança
dispensou isso e ligou para o comandante da PM, coronel Danesi,
mandando liberar os detidos e abrir inquérito sobre a
arbitrariedade policial. A abertura prometida por Geisel vinha
lenta, gradual e segura. O elevado foi construído alguns metros
para o lado e a acácia tipa ficou lá, com seis anos a menos que a
República. Eram as primeiras sementes do movimento ecológico.
Em março de 1975, conheci Manoel Nascimento Vargas
Neto. Ele estava com 72 anos, a mesma idade que tinha seu tio
Getúlio quando se suicidou em agosto de 1954. Ele era a cara do
ex-presidente. Fiz com ele uma foto deitado numa rede, tomando
chimarrão, e era igual à famosa foto feita em São Borja do ex-
presidente esperando a posse. A foto compunha uma entrevista
até hoje inédita, porque o JB não publicou. Na entrevista, ele
revelava um fato desconhecido pela História do Brasil: ele havia
sido doublê de Getúlio durante a Revolução de 1930.
''A idéia de aparecer ao povo no lugar de meu tio, para que
ele pudesse descansar, surgiu numa madrugada da viagem ao Rio
(para Getúlio assumir o poder, com a Revolução vitoriosa).
Quando o trem parou numa cidade paranaense ao norte de Ponta
Grossa, tio Getúlio acordou e bateu no meu camarote: 'Vai receber
a manifestação, rapaz'.
''Estávamos com o mesmo uniforme, porque tio Getúlio
havia retirado os galões de general. Eu tinha 27 anos e ele, 47,
mas já éramos muito parecidos, e à noite todos os gatos são
pardos.
Apareci na plataforma e fui ovacionado pela multidão. Me
sapecaram oito discursos e me cobriram de flores. Eu queria
explicar que não era Getúlio, e sim estava ali em nome dele, mas o
Luiz Aranha, atrás de mim, recomendava: 'Fica firme'. Quando
terminaram as homenagens, fiz um discurso de agradecimento e
mandei tocar o trem.
''Dali para a frente, alguém lembrou que 'fica o Vargas Neto
na frente, porque se alguém tiver que dar um tiro, dão nele'. E eu
passei a receber o povo na plataforma do trem, no lugar do tio
Getúlio, que às vezes ficava rindo da cena, sentado numa cadeira
de vime, dentro do seu vagão.
"A cena mais pitoresca foi a entrada no Rio. Quem chegou à
plataforma para agradecer ao povo não foi o tio Getúlio. Fui eu.
Apareci entre dois coronéis, o Galdino Esteves e o Krause do
Canto, que me repetiam baixinho: 'Fica firme'. Eles perfilados e eu
acenando como o tio Getúlio. Enquanto isso, ele estava tratando
de contatos com militares e lideranças no Rio. Nada estava
ensaiado, mas deu certo e mantive o segredo para não prejudicar
tio Getúlio."
Quando concluí a entrevista com Vargas Neto, o governo
argentino estava expulsando do país o correspondente do JB,
Walder de Góes. Fiquei com um pressentimento: "Vai acabar
sobrando para mim".

Em vez da salada, o revólver

Antes de voltar à Argentina, recebi, em Porto Alegre, o aviso


de um general: "Preste bem atenção, esses argentinos estão se
preparando para invadir o Brasil; eles querem impedir a
construção de Itaipu". Dois anos antes, o general Amyr Borges
Fortes me entregara um nutrido dossiê, mostrando a importância
de uma idéia fantástica: a construção de uma super-hidrelétrica
no rio Paraná. Era o projeto Itaipu. Os militares argentinos
avaliavam a idéia como uma arma contra um sonho de hegemonia
no Cone Sul: a construção conjunta com o Paraguai iria atrair
aquele país para a órbita do Brasil. Iria lançar uma relação
econômica muito estreita entre Brasil e Paraguai. Isso não seria
bom para a Argentina, porque, naquele momento, também o
Uruguai parecia aproximar-se mais do Brasil. Além de tudo, a
represa seria uma bomba, capaz de inundar Buenos Aires. Com
essas considerações dos militares dos dois lados, desembarquei de
novo no aeroporto de Ezeiza.
Ainda no táxi, olhei para as margens da rodovia que liga
Ezeiza ao centro da cidade e me lembrei das centenas de
cadáveres que já estavam aparecendo nos acostamentos da
estrada. Nas bancas da Calle Florida, encontrei a revista
Estratégia denunciando Itaipu como mais um golpe da expansão
imperialista brasileira, idealizada pelo general Golbery.
O autor do artigo era o general-de-divisão Juan Enrique
Guglialmelli, já na reserva. Fui procurá-lo e ele me deu a seguinte
trinca de alternativas para o relacionamento Brasil-Argentina:
a) aceitar a situação, negociando com Brasília o papel de
sócio menor;
b) enfrentar o Brasil, aceitando como inevitáveis as
contradições. Nessa opção, não descartar a negociação, para
alcançar os objetivos por meios pacíficos ou mesmo para ganhar
tempo;
c) negociar, em função de interesses nacionais
compartilhados, afastando, de ambas as partes, propósitos de
hegemonia.
Depois de quatro séculos de rivalidade, parece que foi posta
em prática a alternativa V, mais de dez anos depois, quando
Sarney realizou o milagre de visitar, com Alfonsín, uma instalação
nuclear argentina. Em 1975, eu tentei visitar as instalações de
Atucha, e me trataram como se fosse um espião.
Naquela época, o general Guglialmelli, o almirante Izaac
Rojas e o general Osiris Guillermo Villegas eram os geopolíticos
argentinos. No Brasil, havia só o general Golbery, pregando
imperialismo para a conquista interna do país e, por isso, mal
interpretado.
Nos jornais, aparecia como um escândalo um mapa da Esso
brasileira, que havia cometido um erro na linha de fronteira entre
o Paraná e a província de Misiones, na Argentina. A fronteira do
Brasil avançava sobre o território argentino, e tudo foi
interpretado como um mapa de Golbery desenhado para
representar o Brasil pós-Itaipu. Como jornalista brasileiro, eu
andava pisando em ovos.
Foi então que o adido aeronáutico brasileiro, coronel
aviador Paim Pamplona, me apresentou uma pessoa muito
importante.
''Há um general-de-brigada sem comando que você precisa
conhecer. Amanhã à noite, ele virá a uma recepção na embaixada,
e eu vou te apresentar ele. E o general Jorge Rafael Videla. Ele vai
longe", disse-me o coronel Paim Pamplona.
Na noite seguinte, fui apresentado àquele general. Magro, o
nariz e o bigode saltavam-lhe da cabeça. Não tinha comando
algum, mas tinha muitas preocupações com o futuro da
Argentina. Achava que Brasil e Argentina não poderiam continuar
se tratando como inimigos potenciais; que o inimigo era real e
estava sobretudo dentro da Argentina, matando gente para
aterrorizar o povo e chegar ao poder, graças ao governo fraco da
presidenta Isabelita. Conversamos tanto que um coronel
interrompeu nossa conversa para cochichar ao ouvido do general.
Videla voltou-se para mim e disse:
''Meus oficiais estão preocupados em saber 'quem é esse
barbudo' com quem estou conversando tanto. Aqui na Argentina,
barbudo é sinônimo de gente perigosa".
O fato é que, um ano depois da morte de Perón, todos
notavam a fraqueza da presidenta, tutorada pelo espertalhão
López Rega. Ela sentia o peso da responsabilidade. Havia
emagrecido e seu corpo franzino parecia desaparecer. Eram
freqüentes as crises de depressão. No último dia de junho, um
grupo de jornalistas estrangeiros, no qual eu estava, encontrou
Rega na Casa Rosada, o palácio presidencial argentino. Ele deu
notícias sobre Isabelita:
''Ela está bem de saúde e pronta para dar duro em quem
estiver contra o país. Para quem tiver a cabeça dura,
encontraremos algo ainda mais duro".
Era o grito de guerra de López Rega. A polícia do governo,
inspirada por ele, iria entrar na guerra interna. Naqueles dias,
crescia o boato de que Isabelita iria renunciar, entregando o
governo para o peronista ítalo Luder, presidente do Senado.
Eu costumava jantar ou almoçar freqüentemente com um
amigo e colega, o subgerente do Banco do Brasil, Renato Mayer,
velho conhecido de Lajeado, RS. Em 6 de julho, fomos almoçar
num restaurante chamado Los Dos Patitos. Mal adivinhávamos
que os dois patinhos seríamos nós. Eram cerca de três da tarde e
achamos tudo muito deserto. Em Buenos Aires, isso é hora do
auge do almoço. A rústica porteira de acesso ao estacionamento
estava fechada. Eu desci do carro e abri.
Na porta do restaurante, havia duas morenas atraentes,
com casacos de pele. Era a primeira semana de julho e estava
muito frio. Entramos. O restaurante estava vazio. Estranho!
Alguns garçons nos espiavam. Eram caras totalmente novas. Já
havíamos estado ali muitas vezes, e nos dava a impressão de que
a casa havia mudado de dono. Mesmo assim, sentamos. Um
garçom se aproximou, solícito: "O que vão querer, senhores?"
Tomei a iniciativa. "Para começar, uma salada mista."
' Acã está su ensaiada mixta'', devolveu-me ele, enterrando-
me nas costelas o cano de uma Colt .45. E logo apareceram as
duas morenas atraentes, tirando metralhadoras portáteis debaixo
dos casacos de pele. Pensei que queriam dinheiro e fui dando a
carteira. Mas eles recusaram. Queriam ver meus documentos. E
para o Renato pediram o molho de chaves — entre as quais as do
Banco do Brasil.
Depois, mandaram que caminhássemos para o porão, com
as mãos sobre a cabeça. Na adega, encontramos os nossos amigos
garçons verdadeiros, tiritando de frio, amarrados no chão, e o
dono do restaurante. Todos sob a mira de mais três homens,
aparentando de 25 a 35 anos. Um deles me empurrou e ordenou:
''Cabeza al suelo!''
Obedeci. Deitei-me no chão e encostei bem a testa no
cimento frio. Alguém que pareceu ser o chefe pegou a
metralhadora e encostou o cano na minha nuca. "Então, este é o
espião imperialista brasileiro. Agora você vai morrer para não fazer
pouco da guerrilha em seu jornal."
Não tive tempo para pensar em nada. Só desejei não sujar
as calças. E como viajar de avião. A gente está nas mãos do piloto
e não há nada mais que se possa fazer. Lembro-me de ter feito
mentalmente a frase: "Então, é assim que se morre".
Mas ele não puxou o gatilho. Ficou matraqueando um
espanhol com gíria e meio sussurrado, e nada entendi. Me disse
então que nós iríamos ficar ali, e que, se abríssemos a porta,
iríamos todos pelos ares. E mandou que eu me virasse para ver
que armavam uma bomba na maçaneta. Antes de saírem, me
avisaram: ''Nós estaremos de olho em você, se falar mal da
guerrilha''.
O pessoal do restaurante estava numa espécie de banheiro
c não presenciou a cena. Quando o proprietário da casa percebeu
que os guerrilheiros haviam saído, correu para a porta. Eu e
Renato o interceptamos. ''Hay una bomba allí.'' Ele então foi para
uma pequena janela basculante e pôs-se a gritar, por meia hora,
até que alguém ouviu e chamou a polícia e o esquadrão de bomba.
A tarde terminava quando saímos dali. Os vizinhos contaram que
eles saíram num Torino e dois Fiat 125. O tenente da polícia nos
informou que se tratava de um grupo montonero.
Voltei para a sucursal do JB com uma história para ser
escrita na primeira pessoa do singular. Antes, liguei para o Rio
para saber se queriam a história. Queriam. E lá botaram o título:
EM VEZ DA SALADA, O REVÓLVER. E até deu direito a chamada
na primeira página. Como eu estava vivo, só restava festejar a
matéria jornalística. Fui para a casa do Renato e lá tomamos seus
melhores vinhos. Mas a história não iria acabar em Buenos Aires.
No consulado, o cônsul Rodolpho de Souza Dantas, além de
me dar um documento de identidade provisório, tratou de avisar à
Polícia Marítima e de Fronteiras do Brasil que os montoneros
estavam de posse de todos os meus documentos de identidade,
inclusive credenciais de jornalista. Quarenta dias depois, em 15
de agosto, num dia em que caía uma raríssima neve em Buenos
Aires, eu embarquei para o Rio, a chamado do JB. Estava
agasalhadíssimo: ceroulas, meias de lã, camiseta grossa. Foi um
vôo direto que chegou às dez da noite no Galeão. A diferença entre
o Rio e Buenos Aires era de, no mínimo, 30 graus centígrados.
Quando cheguei no guichê da Polícia Federal, no Galeão, o
agente olhou meu documento, olhou a minha cara e se levantou.
"Me acompanhe."
Levou-me a uma sala, deixou-me sob custódia de outro
agente, que não me deu qualquer satisfação, e lá fiquei uns trinta
minutos. Aí, entrou um agente com um papel na mão. E começou
um interrogatório. Queria saber de onde eu vinha. Ora, se eu não
havia saltado de uma nuvem, certamente que vinha de Buenos
Aires. Mas ele não sabia de que vôo eu era, e ficou irritado com a
piadinha. Queria saber o que eu fazia lá. Respondi que era
jornalista. Perguntou o que eu cobria lá. "Ora, é só ler jornal.
Pegue o Jornal do Brasil, e meu nome está lá: 'Alexandre Garcia —
Enviado Especial'.'' Queria saber que interesses eu tinha em
Buenos Aires. Nenhum, ora, quem tem interesses lá é o JB, eu sou
apenas um enviado especial. E por aí eu ia descobrindo como um
interrogatório pode ser chato sem ter sido divertido como aquele
do DOPS em Porto Alegre.
Porto Alegre! A lembrança me deu uma idéia. Será que
naquele papel na mão dele estava o registro do POC/PUC? Estava
de certa forma. Era o pedido do cônsul-geral, transformado numa
ordem para prender quem entrasse no Brasil com os documentos
de Alexandre Garcia. Eles haviam esquecido de esclarecer que
eram documentos anteriores a julho de 1975. Agora melhorava.
Eu só precisava provar a eles que eu era eu! Mas estava difícil. As
ceroulas, as meias de lã e a camiseta estavam ensopadas de suor.
Não por nervosismo. Por calor, mesmo. Experimentei o bom
humor e pedi que eles me puxassem a barba, para ver se era
postiça. Como eles acharam graça, consegui um telefone e liguei
para o JB. Só estava o plantão de redação. O que ele disse sobre
meus traços físicos acabou convencendo a Polícia Federal a me
deixar ir para o Leme Palace Hotel. Mas o passaporte ficou como
garantia de que eu voltaria no dia seguinte, para alterar a ordem,
deixando clara a data nos documentos, o que foi feito por um certo
sr. Moisés.
Quando voltei a Buenos Aires, uma notícia me esperava
com o adido militar brasileiro, coronel Zaldir de Lima. "Os
argentinos nos informaram que seus documentos foram
encontrados no cadáver de um montonero, que foi morto em
Misiones, na fronteira com o Brasil, com um carregamento de
armas.'' Mas nunca recebi de volta os documentos. Devem estar
num envelope, com a ficha de um guerrilheiro morto. Quando
encontro Renato Mayer de novo — hoje ele mora em Amsterdã —,
não deixamos de recordar aquele momento próximo da morte e
tentar lembrar de detalhes que a memória vai esquecendo.

Argentina doente

O mês de julho fora dificílimo na Argentina. Greves gerais


paralisavam o país, enquanto os montoneros e o Exército
Revolucionário do Povo atacavam por toda a parte. A "triple A", de
López Rega, por sua vez, atacava os maiores inimigos do governo
de Isabelita. Ela perdia cada vez mais a autoridade e o peso
corporal. Qualquer gripe a prostrava na cama. Para piorar, ela
ficava só. López Rega perdia o cargo. No Senado, prosseguia o
movimento para pôr o senador ítalo Luder na Casa Rosada,
forçando a presidenta a pedir licença para tratamento de saúde.
Victorio Calabró, governador da província de Buenos Aires,
apoiava o movimento. Ele tinha a força que têm no Brasil, juntos,
os governadores de São Paulo e Minas. Tanto Luder como Calabró
eram peronistas, mas queriam salvar o peronismo do fracasso. A
poderosa Confederação Geral do Trabalho (CGT) ficou ao lado de
Isabelita.
Em agosto, nas comemorações do aniversário do general
San Martin, haveria missa na catedral, onde está o túmulo do
libertador da Argentina e patrono do Exército. A Plaza de Mayo
estava tomada pela CGT e pela Juventude Peronista. Em torno da
praça ficam a Casa Rosada (o palácio presidencial), a catedral, o
antigo Cabildo (primeira câmara de representantes do povo) e o
todo-poderoso Ministério dei Bien-Estar Social.
Escoltada pelo chefe do Gabinete Militar apareceu, na porta
principal da Casa Rosada, a presidenta Maria Esteia Martínez de
Perón, a Isabelita. Passaram entre alas de soldados com uniformes
históricos do Regimiento San Martin e se dirigiram a pé para a
catedral, pelo meio da rua. Isabelita parecia ter emergido de
alguma corte européia do século passado. Estava envolta num
manto de arminho e trazia nas mãos um cetro. Era a própria reina
Isabel da Espanha americana...
Os adeptos da presidenta deliravam. E logo começaram a
entoar palavras de ordem contra os senadores, prometendo
paredón e forca para eles. Para o senador Luder, eles prometiam a
morte. Ela acenava, aprovando. O cardeal-arcebispo de Buenos
Aires e primaz da Argentina, monsenhor Juan Carlos Aramburu,
esperava a presidenta no alto da escadaria da catedral. Ela subiu
devagar, como convinha a uma debilitada rainha, segurando o
cetro com uma mão e o braço do general com a outra. Quando o
cardeal estendeu a mão para que ela beijasse o anel, a multidão
gritou o nome do governador da província de Buenos Aires:

''Calabrô, Calabrô, a la puta que lo pariô!''

Isabelita interrompeu o gesto e voltou-se para a praça,


abrindo os braços e sorrindo, enquanto a multidão seguia
gritando. Quando ela se voltou, o cardeal já não estava. Entrara
rápido na catedral e ordenara ao sacristão que fechasse todas as
portas, logo que a presidenta entrasse. Naquele dia, Isabelita
começou a perder o apoio da Igreja. A fraqueza da personalidade
da presidenta logo propiciou histórias de que ela estaria
influenciada pela magia negra do brujo López Rega. Lopecito, na
verdade, era conhecido por seus dotes como astrólogo. Pouco
depois, juntavam-se o bispo diocesano e o presidente da Comissão
Episcopal Latino-Americana, o poderoso monsenhor Eduardo
Pironio.
A saída de Rega também foi conseqüência de uma séria
crise militar, que resultou na queda do general Numa Laplane e
na subida de um general-de-brigada desconhecido: Jorge Rafael
Videla, em 27 de agosto. Os militares estavam inquietos. Eles já
tinham até uma frase: "Intervir para não se envolver". Eles
achavam que se demorassem a intervir na guerra interna,
acabariam envolvidos por ela de modo extraconstitucional.
Isabelita, sem López Rega, caía em profunda depressão, e
em setembro deixava Buenos Aires para descansar nas
montanhas de Córdoba.
Eu já conhecia Córdoba. Uma província encantadora, com
cidadezinhas nas montanhas como Carlos Paz, La Falda, Cosquín.
Até hoje tenho uma pedra retirada do leito de um rio de águas
cristalinas das Sierras de Córdoba. Visitei a casa de Manuel de
Falia em Alta Gracia e brinquei num labirinto vegetal em Los
Cocos. Agora, o Jornal do Brasil me mandava para Córdoba a fim
de tentar uma entrevista exclusiva com Isabelita, que estava
internada em Ascochinga, um lugarejo de novecentos habitantes,
num hotel de descanso, que já havia abrigado o senador Bob
Kennedy e senhora. Os jornais contavam que o local era
inacessível, guardado pela Força Aérea e pela Gendarmería
Nacional, e só entravam crianças, filmes água-com-açúcar e
revistas idem. Eu iria tentar entrar também.
Bem cedinho, embarquei num Fokker da Austral. Do
Aeroparque a Córdoba passou cerca de uma hora. Fui direto em
busca de um táxi. Expliquei ao motorista que era jornalista
brasileiro e que queria que ele me levasse a Ascochinga. Ele riu e
me explicou que todas as rutas estavam bloqueadas, mas que eu
estava com muita sorte. Ele era da região, e conhecia as
carreteras, estradas de terra, e por elas passamos, chegando ao
portão do hotel onde estava a senhora presidenta.
O guarda da Força Aérea prestou-me uma continência
impecável e um tenente nos fez sinal para entrarmos e nos indicou
o estacionamento. Estranhei. Não pedira sequer documento.
Então imaginei que eles pensavam que já havíamos sido
suficientemente identificados nas barreiras da estrada provincial,
a ruta, por onde não havíamos passado.
O carro estacionou diante do hotel e desci. Um coronel da
Gendarmería Nacional aproximou-se, sorridente e solícito.
Saudou-me com uma continência e pediu-me que o
acompanhasse. Enquanto caminhávamos por um corredor, eu
pensava: "A condessa (Pereira Carneiro) deve ser amiga da Isabelita
e eu não sabia. Ela deve ter ligado, pedindo a entrevista''. Numa
luxuosa ante-sala, o coronel pediu-me que esperasse. Depois,
voltou com um sorriso cúmplice:
— La senora lo espera.
Aí, resolvi quebrar o mistério:
— La senora me espera? (Como me espera? O coronel ficou
meio surpreso, mas foi adiante.
— Sí, I como no? Usted es el novio... Eu estava me tornando
noivo de alguém.
— Novio? Novio de quien?
— Novio de la senora... — explicou o coronel, já meio pouco
à vontade.
Agora essa! Um furacão passou-me pela cabeça. Se
confirmo, entro e me encontro com Isabelita. Ela põe a boca no
mundo e eu vou preso e vou ser apenas mais um cadáver nas
montanhas de Córdoba. Se ela não põe a boca no mundo, sei lá o
que pode acontecer. É, mas o tempo de jornalismo aventureiro
acabou na Guerra Civil Espanhola. Vou é me identificar melhor.
— Disculpe, pero no entiendo... Yo soy periodista,
corresponsal del Jornal do Brasil.
O coronel foi ficando vermelho e engasgou:
— Ah, si, no, si, es una broma... si, quien es... esteee...
miércoles! Pongase a fuera!
Imediatamente chamou os guardas, que se puseram a
revistar minha maleta, derramando-a todinha no chão. Depois,
passaram a revistar o carro. Estava tudo limpo. Eu não era
terrorista. Era, mesmo, um jornalista, vítima de um engano do
coronel.
— Pongase a fuera! Pongase a fuera! — e lá fui eu, feliz por
ter sobrevivido. O motorista exultava com a história que eu ia
contando para ele, enquanto voltávamos para Córdoba, e me
contava que corria o boato de que la senora estava namorando um
oficial da Força Aérea, do meu tipo físico, e que deixara de usar
uniforme e passara a usar barba, para manter encontros discretos
com a presidenta.
Ao longo da ruta provincial, os pessegueiros estão em flor.
Os rios cordobeses passam cristalinos por baixo das pontes. Por
tudo, há uma tranqüilidade aparente de plena primavera. ''Esta
paz é o nosso maior patrimônio'', me diz o motorista, e me convida
para um asado de chorizo y chinchulines na casa dele. Na
sinalização da estrada, buracos de bala de 9 milímetros mostram
que o maior patrimônio dos cordobeses estava sendo perdido.
Lembro-me de uma poesia de Federico Garcia Lorca, quando vejo
Córdoba ao longe. Ele também falava de uma Córdoba lejana, na
Espanha, tão envolvida pela violência quanto esta em que eu iria
entrar.
O dia está quente e o sol de primavera se despeja sobre a
cidade mediterrânea de quase 1 milhão de habitantes. Na avenida
Velez Sarsfield vejo ruínas da Confederação Geral do Trabalho. Na
avenida Ayacucho, as vidraças estão todas quebradas por
explosão. Na Calle Trejo, entre as duas faculdades, o asfalto está
coberto de estilhaços de pára-brisas. No fim da avenida Humberto
I, vejo um avião Hercules, quadrimotor, despejando pára-
quedistas. No centro da cidade, começo a ver barricadas com
sacos de areia. Atrás delas, nos observam guardas da Polícia
Provincial, com capacetes iguais aos do Exército alemão na
Primeira Guerra Mundial. A chefatura de polícia, ao lado da
catedral, está cercada por sacos de areia e veículos blindados.
Eram quase três horas da tarde e aceitei o convite do motorista
Juan Ricardo Serres para um asado na casa dele, no bairro
Zumarán.
A carne estava ótima, e o vinho, melhor ainda. Era uma
garrafa de litro. Ele me disse que um primo dele, de Mendoza,
costumava mandar. Por volta de quatro da tarde, da casa dele
avistamos fumaça no centro da cidade. Não precisei convidá-lo
duas vezes. Ele estava orgulhoso por acompanhar um jornalista
brasileiro. Despedi-me da mulher dele e dos filhos, e lá fomos nós,
a toda.
No centro, do alto dos edifícios, vinham rajadas de
metralhadora. Eram livre-atiradores do ERP, disse-me um policial,
mas ninguém conseguia vê-los. Uma loja da Xerox estava em fogo.
Vinha dali a fumaça que tínhamos visto. Fora uma bomba.
Copiadoras xerox estavam no meio do asfalto, despedaçadas.
Logo, mais rajadas dos edifícios de quatro, cinco, seis andares.
Rajadas e vitrines espatifadas. As pessoas correm em desespero.
Uma senhora cai sobre cacos de vidro e se levanta com os joelhos
e as mãos sangrando. Sirenes gritam pelo centro, ambulâncias
cruzam por carros de polícia.
Os policiais atiram para cima. De uma barricada, uma
metralhadora velha fica matraqueando e depois enguiça. O cheiro
da pólvora se mistura com o queimado de lojas de móveis recém-
atacadas por bombas molotov. Na esquina, escondido no vão de
uma parede, percebo que um grupo de jovens armados intercepta
um ônibus e faz os passageiros descerem. Um deles toma a
direção e acelera rumo às barricadas de sacos de areia. Vão tentar
atacar a chefatura de polícia. O ônibus se aproxima acelerando
sempre, com os jovens atirando pelas janelas. Todas as armas dos
blindados atiram contra o ônibus, que bate nos sacos de areia.
Ninguém se aproxima. A polícia continua atirando por dois ou três
minutos. No ônibus, todos estão mortos. Todos são jovens, bem
vestidos e de boa aparência. Há algumas moças.
No final da tarde, voltei para Buenos Aires. Ainda precisava
escrever toda a história. Imaginei que, depois dessa, iria precisar
de descanso. Dormi bem até as dez da manhã e fui para o
escritório do JB na Calle Florida. Comecei lendo os jornais do dia,
para saber como contavam os acontecimentos de Córdoba. O
gerente argentino do JB, Diego Ceballos, entrou correndo na
redação. "Tomaram a sede da Organização das Nações Unidas
para Refugiados, bem aqui pertinho.'' Diego era um verdadeiro
repórter. Pegou o catálogo telefônico e logo descobriu o telefone do
lugar. Fiz a tentativa e liguei para lá.
Atendeu uma mulher. Identifiquei-me. Ela falava espanhol
e disse que iria me passar para o número 1. Número 1, para os
que não sabem, sempre é o chefe. O número 1 atendeu-me
falando espanhol com sotaque brasileiro. Deixei-o à vontade e ele
me contou ser refugiado brasileiro ameaçado de morte pela "triple
A", de López Rega. Ele e mais doze refugiados chilenos haviam
pedido asilo na Austrália, Canadá e Suécia, e não haviam sido
aceitos. Então, armados, tomaram a sede do Alto-Comissariado na
ONU em Buenos Aires e fizeram cinco reféns.
"Tenho apenas um revólver", confidenciou ele, "mas vou
usá-lo se formos obrigados, se a polícia subir. Lá embaixo está
tudo cercado. A polícia precisa ir embora. Queremos ir para a
Argélia — lá é duro, mas os outros não nos querem. Só queremos
que a Argélia nos aceite, porque não temos onde viver.''
Desliguei o telefone e fui para a Calle Suipacha, esquina da
Diagonal Norte. Lá estavam bombeiros, polícia. Pela frente, o
trânsito passava normalmente, como se nada estivesse
acontecendo. Buenos Aires já não estranhava isso. Um
funcionário do Ministério de Relações Exteriores e Culto estava ali,
e dei a ele o telefone do número 1, contando-lhe a história. No dia
seguinte, o grupo era embarcado para a Argélia, num avião da
Alitalia.
No dia 17 de outubro, Dia do Peronismo, a Plaza de Mayo
estava cheia. De 200 a 250 mil pessoas, segundo cálculos da
Polícia Federal. Havia um sol de 30 graus e as ambulâncias
levavam as pessoas desmaiadas, enquanto os bombeiros
distribuíam água. Os bumbos peronistas estavam em toda a parte.
Uma barulheira infernal. Os que entravam passavam por rigorosa
revista, e a multidão estava cercada por carros blindados,
enquanto atiradores da polícia se postavam no alto dos edifícios. E
que o ERP havia anunciado que bombardearia a Plaza de Mayo.
Todos os esgotos haviam sido examinados, na hipótese de terem
os terroristas lá plantado bombas. Mas havia a possibilidade de o
ERP usar foguetes terra-terra.
Naquele dia se comemoram a libertação de Perón da ilha de
Martín Garcia e o início da caminhada do caudilho para a
Presidência da República, ajudado por Eva Perón. Naquele dia, as
bandeiras peronistas estavam no Cabildo de 1856, e até no
monumento ao fundador de Buenos Aires, Juan de Garay, que
chegou ao rio da Prata em 1580. Eram quatro da tarde, em meio à
barulheira peronista, quando conheci um cidadão esquisito. Ele
apareceu na sacada da Casa Rosada, para jogar beijos para a
multidão. Estava de terno branco com camisa preta e gravata
vermelha. Tinha uma cabeleira basta e costeletas até quase o
queixo. Pensei que fosse algum cantor popular. Disseram-me que
era um grande amigo de Isabelita. Era o governador da província
de La Rioja, Carlos Menem. Durante toda a festa, ele ficou atrás
de uma coluna de mármore rosado.
Quarenta e cinco minutos depois da chegada de Menem,
Isabelita apareceu para a multidão. Foi uma gritaria incrível. Eu
estava testemunhando agora o que eu ouvia, quando criança, pelo
rádio, nos tempos em que Perón e Evita arengavam na Plaza de
Mayo. Durante dez minutos, Isabelita acenava e a multidão
delirava. Era a volta dela após 35 dias em Ascochinga.
Ela começou o discurso com um grito estridente:
''Argentinos!!!" Como eu não esperava, levei um susto. E o resto do
discurso continuou no mesmo tom. Estridente e desagradável.
"Neste descanso, pude meditar e tomar consciência sobre o
presente, o passado e o futuro", começou ela, fazendo do óbvio a
grandiloqüência. Tenho o discurso até hoje, inteirinho, gravado,
que soa como as arengas de Mussolini na Piazza del Popolo.
"Combateremos com decisão todos os grandes males, desde a
guerrilha até a imoralidade", prometeu ela. E quando a CGT
começou a bater os tambores para reclamar do custo de vida e
pedir melhores salários, ela aplicou uma chave de Perón: ''Há
trinta anos, o povo veio para esta praça não para pedir aumento,
mas para resgatar um líder. Agora peço de novo que se repita a
marcha dos descamisados de 1945, homenageando a memória da
heroína do 17 de outubro, Evita Perón". Esse era o plano. Isabelita
era Evita, e o povo tinha de novo que garantir o poder para o
peronismo.
Dois dias depois eu encontrei o general Videla em
Montevidéu. Ele representava o Exército argentino na XI
Conferência de Exércitos Americanos. Era a primeira vez que eu
falava com ele como comandante do Exército. Perguntei-lhe sobre
a situação interna da Argentina e o papel do Exército.
"Olhe, hoje há uma guerra interna na Argentina. Mas uma
guerra estranha, em que apenas um lado está lutando. O lado da
guerrilha e dos terroristas do ERP e os montoneros. Em breve, eles
dominarão a Argentina e o Cone Sul se não houver uma reação.
Vai ser preciso entrarmos nessa guerra. Vai correr muito sangue.
Pode ser o meu sangue ou o de alguns de meus nove filhos. Mas
será preciso correr sangue, ou não teremos paz."
Minha missão na Conferência de Exércitos era conhecer o
pensamento militar do continente e reportar ao JB. Naquele
momento, havia regimes militares no Brasil, Uruguai, Chile, Peru,
Bolívia e Paraguai. A Argentina tinha um governo civil em franca
deterioração, acuado diante de uma guerrilha cada vez mais
poderosa. Mas era difícil penetrar no que discutiam. Todas as
reuniões eram fechadas à imprensa. Secretas. Foi aí que conheci
um general brasileiro simpaticão, Confúcio Danton de Paula
Avelino, chefe do Centro de Informações do Exército (CIEx).
Quando as reuniões acabavam, eu procurava o general
Confúcio para conversar. Ele dava "dicas" preciosas para minhas
matérias para o JB. No dia seguinte, ele me cumprimentava pela
fidelidade do texto. No terceiro dia, a confiança já era tão grande
que ele começou a me passar documentos com a classificação de
"secreto". Homem de informações, ele tinha o cuidado de rasgar
antes uma tira na parte superior dos documentos que, creio,
poderia identificá-lo como o inconfidente. Ele me passou, por
exemplo, um documento secreto do subchefe do Estado-Maior dos
Estados Unidos, o general (quatro estrelas) Walter T. Kerwin.
O documento continha informações sobre os efetivos
militares dos Estados Unidos, considerações sobre a Coréia e o
Vietnã, o aumento de efetivos navais soviéticos no Mediterrâneo e
a construção de bases soviéticas na Somália. Uma parte "quente"
dizia o seguinte:
"O deslocamento de aviões de reconhecimento desde a
África e Cuba e a presença cada vez maior de naves soviéticas que
colhem dados de informações desde as costas americanas são
outro indício do possível interesse militar a longo prazo dos
soviéticos em nosso continente. Como é o crescente deslocamento
naval soviético no Caribe. O emprego de bases cubanas pelos
soviéticos não pode ser ignorado, e não sendo suprimido por um
forte sistema bélico anti-submarino, pode constituir uma real
ameaça a pontos estratégicos das Américas, tais como o canal do
Panamá. Sobre este tema, devo dizer que estamos procurando
ativamente um acordo com a República do Panamá, o que
reconheceria as legítimas aspirações do povo panamenho, mas
protegeria também os interesses primordiais dos nossos países".
Numa das reuniões, falou o general (quatro estrelas) Fritz
de Azevedo Manso, chefe do Estado-Maior do Exército brasileiro. O
documento se chamava "Algumas reflexões sobre as Forças
Armadas como objetivo do movimento comunista internacional". E
começava assim: "Miguel Arraes, um militante marxista-leninista
de notória participação política no Nordeste brasileiro, vivendo
agora na Argélia, confessou sua descrença quanto à implantação
do comunismo no Brasil, a curto ou médio prazo, porque as
Forças Armadas brasileiras são visceralmente anticomunistas e
estão muito unidas, não havendo qualquer possibilidade de
desagregá-las. No seu entender, é inadiável começar agora o
trabalho de destruí-las por dentro, sem o que, todo esforço será
vão. No Exército brasileiro, temos, nesta hora, a certeza de que a
afirmação de Arraes excede em muito o caráter de uma frase de
efeito, para situar-se como uma verdadeira diretriz de ação
estratégica".
Esses documentos eram discutidos na segunda quinzena
de outubro de 1975 — pouco mais de dez anos antes da
perestroika e de Arraes voltar a ser governador de Pernambuco. A
conferência serviu também para que eu conhecesse melhor a
terrível situação por que passava a Argentina. Em Tucumán, na
guerrilha rural, já havia registro de duzentas mortes na brigada do
general Abdel Villas. Na província de Buenos Aires e nas
províncias de Entre-Ríos e Corrientes havia um ataque a bomba a
um Hercules cheio de soldados, que explodiu na cabeceira da
pista, o seqüestro de um Boeing 737 da Aerolineas, que se seguiu
ao metralhamento de recrutas nus no banheiro coletivo de um
quartel, um ataque ao próprio Serviço de Inteligência do Exército,
a tortura e morte do capitão Larrabure, que apareceu com os
joelhos esmagados por um torno e com menos de 40 quilos de
peso, e a sabotagem a bomba da fragata Santísima Trinidad. A
guerrilha estava com dois helicópteros e lança-foguetes, e já fazia
ataques maciços a Córdoba.
Na conferência, fui informado também de que dois
governadores ajudavam a guerrilha, assim como alguns
deputados. E soube também que, naqueles exatos dias de
outubro, a guerrilha começava a unificar suas ações, através de
uma espécie de Estado-Maior conjunto, reunindo os diversos
movimentos e facções.
A conferência estava terminando quando o general Videla
conversou comigo de novo: "Olhe, eu não sou político, não sou
peronista. Não gosto de política. Onde entra política começa o
desentendimento. Nós vamos ficar nos quartéis até o caos, já
aprendemos a lição". Perguntei a ele se os militares ficariam
alheios aos problemas de guerrilha e terrorismo. "O governo
político nos deu a atribuição de combatermos a guerrilha. E por
isso que vamos combater a subversão. Vai ser uma luta global;
assim como eles, os terroristas, têm uma orientação única, nós,
militares, passaremos a exercer nossa autoridade também sobre a
polícia. As Forças Armadas não irão além da repressão, mas vão
aconselhar o governo porque, afinal, a subversão também se
alimenta dos problemas sociais e econômicos."
Na Argentina, a situação estava cada vez pior. Havia um
juiz, Fasolini, acusando a presidenta de irregularidades; havia
uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara examinando
atos de corrupção da presidenta. Falava-se num julgamento
político de Isabelita, com conseqüente impeachment. No início de
novembro, admitia-se que a situação econômica não tinha
conserto com o governo peronista. ''Felizmente, o que o governo
rouba de dia a Argentina recupera à noite, com o gado engordando
e o trigo crescendo", diziam muitos argentinos.
De fato, a riqueza da Argentina era impressionante. Todos
alfabetizados, com altíssimo nível de mão-de-obra, os argentinos
tinham tudo para se recuperar do dia para a noite. Mas o governo
paralisava os investimentos. Havia incerteza e a indústria estava
se tornando obsoleta. As fábricas estavam sempre parando, ora
por greve ora por protesto dos empresários. O desemprego
aumentava. No dia 6 de novembro de 1975, o chanceler argentino
fez uma declaração comemorativa e significativa:
"Há 160 anos, o Reino Unido tomou nossas ilhas Malvinas.
A Argentina vai agora adotar uma atitude firme, porque chegou a
hora de persuadir Sua Majestade a decidir sobre a soberania nas
ilhas".
Era hora de começar a desviar a atenção do povo para
questões externas. E Itaipu também ajudava. Só que o povo queria
saber era da incerteza interna. No rádio, em uma estação de onda
média de Buenos Aires, eu fiquei estarrecido quando ouvi um
conhecido disc-jóquei esbravejar:
"O que fazem esses milicos com os impostos do povo que os
sustentam? Ficam nos quartéis, fazendo ginástica? Esperamos
que a espada caia como uma bênção dos céus para pôr fim a este
governo corrupto e incompetente".
Na Câmara, investigavam-se cheques de Isabelita da
Cruzada de Solidariedad Justicialista. O governador da província
de Buenos Aires, Victorio Calabró, insistia num peronismo sem
Isabelita, e estimulava a pressão para um pedido de licença de La
Senora. Os peronistas ligados a ela contra-atacavam, pedindo
intervenção na província de Buenos Aires. Em resposta, o
governador organizava uma manifestação de 30 mil pessoas
diante do palácio do governo, em La Plata. O peronismo estava
rachado.
Os militares começavam a fazer pronunciamentos políticos.
O diretor da Escola Superior de Guerra, general Rodolfo Mujica,
ao assumir, fez um discurso dizendo: "O soldado sente dor ao
compreender que o país está no auge da imoralidade e da
desordem". O vigário castrense, monsenhor Victorio Bonamín, ao
celebrar missa em memória do capitão Larrabure, torturado pela
guerrilha, perguntou, do púlpito: "Não quererá Cristo que as
Forças Armadas estejam mais além de suas funções? Será que as
armas do Exército argentino estão servindo de guardas para os
festins dos corruptos?" Parecia uma senha.
Em 5 de novembro, às seis e meia da tarde, o subeditor
internacional do JB, Luiz Mário Gazzaneo, insistia, pelo telefone,
que eu mandasse matéria para fechar a página, com a renúncia
de Isabelita. Respondi que não tinha o menor indício de renúncia
e ele insistiu que as agências já estavam dando a renúncia como
decidida. Ele concordou em manter a página internacional aberta
até ter uma confirmação minha sobre a renúncia.
No rádio, eu ouvia o programa de Bernardo Neustadt, um
jornalista que até hoje, na Argentina, é conhecido pela
honestidade. Neustadt revelava que à noite, em cadeia nacional, a
presidenta diria "no renuncio ni pido licencia". Fiquei com a
convicção de que ele havia lido o discurso de Isabelita. Era a
resposta para tudo: insistiam que ela renunciasse ou, pelo menos,
pedisse uma longa licença para tratamento de saúde.
Tomei coragem e liguei para o telefone 655-1892, do general
Videla. Fazia tempo que não falava com ele e eu precisava saber o
que estava acontecendo. Aí, eu soube, com o compromisso de não
usar como notícia. Os três chefes militares haviam ido a presença
de Isabelita pedir uma renúncia ' 'patriótica'', para que assumisse
o presidente do Senado e terminasse a crise de autoridade.
Segundo o general, a resposta da presidenta fora:
"Não renuncio nem peço licença, porque, se eu sair, o lugar
que o peronismo ocupa nos sindicatos será ocupado pelo
comunismo' '.
A fonte da frase de Neustadt era a mesma. Os generais,
com o argumento do comunismo, deram meia-volta e foram
embora, aborrecidos. E eu me lembrei de uma frase de Isabelita,
logo depois da morte de Perón: ''O general (Perôn) é meu grande
mestre; me preparou, nos últimos dezoito anos, e creio que não
vou decepcioná-lo". A resposta que ela acabara de dar aos
militares bem demonstrava que havia aprendido com o general
Perón.
Eu tinha a informação e não poderia usá-la integralmente.
Poderia apenas dizer que ela não renunciaria, ao contrário do que
as agências anunciavam com insistência. Liguei para o Gazzaneo,
no JB, e contei o que a presidenta diria, na cadeia nacional das
vinte horas: que não renunciaria nem pediria licença. Não
adiantou. Era a unanimidade das agências contra a minha
informação. Gazzaneo tinha em mãos os despachos da UPI, AP,
ANSA, AFP, EFE, Reuters e sei lá mais o quê. A página
internacional ficaria aberta até a fala presidencial.
Certa vez, em Montevidéu, cobrindo uma das crises entre
os militares e Bordaberry, eu estava na sacada da sucursal da
UPI, na avenida 18 de Júlio, quando fiz uma observação:
usualmente, os jipes do Exército que patrulhavam as ruas iam
com uma metralhadora Browning .30 (0,3 polegada de calibre).
Naquele dia, havia passado um jipe com uma Browning de meia
polegada de calibre. O chefe da UPI ouviu minha observação e foi
imediatamente para o telex. Não contive a curiosidade e espiei o
que ele estava despachando para a central de Nova York e, de lá,
para o mundo: "Recrudesce a crise uruguaia. O Exército passou a
patrulhar a cidade de Montevidéu com armas de grosso calibre
etc."
Agora, em Buenos Aires, eu enfrentava aquele tipo de
"cascata" (jargão jornalístico para notícia inventada ou exagerada).
E a cadeia nacional não entrava. As oito e meia da noite, Gazzaneo
voltou a ligar, dizendo que editaria os despachos das agências.
Garantia a ele que o JB daria uma tremenda "barriga" (notícia
falsa), e ele recuou. Teria que falar com os superiores, mas manter
as rotativas paradas. Afinal, era dar ou não dar a renúncia da
presidenta da Argentina.
Eram 23h05 quando entrou o escudo azul-celeste com as
armas da nação para anunciar a formação da cadeia. Isabelita
estava com o rosto pálido, demonstrando cansaço. Eu também
estava. O JB estava com as rotativas paradas, no Rio, até aquela
hora. Ela começou fazendo um longo elogio às Forças Armadas,
falou sobre os perigos que ameaçavam a Argentina e avisou:
"Como presidenta da Argentina, quero lhes deixar a segurança de
que todos os meus atos estão voltados para a felicidade da pátria,
e ninguém poderá tirar o mandato que Deus me outorgou".
Dei um suspiro de satisfação e fui para o telefone transmitir
para o Rio que eu estava certo. Ela não renunciava nem pedia
licença. E mais, dizia que o mandato dela lhe fora outorgado por
Deus. Sarney iria usar o mesmo raciocínio anos mais tarde. O
mandato chegara porque a mão de Deus interrompera a vida de
seu titular.
Fui para o hotel Rochester, na Calle Esmeralda, indo a pé
pela Florida. Tive a impressão de estar sendo seguido. Não era
seguro representar o JB na Argentina. Meu antecessor havia sido
expulso e, fazia dois meses, o ministro do Interior, Alberto
Rocamora, havia dado uma declaração à UPI afirmando que ''o
próximo correspondente que o Jornal do Brasil enviar nem sequer
o deixaremos descer do avião quando chegar''. Mas eu estava lá,
como enviado especial, depois de um ano ausente, enquanto o JB
mandava dois correspondentes sucessivos à Argentina.
Peguei a chave na portaria do hotel, passei pelo bar, peguei
um sanduíche e subi. Mal abri a geladeira para tirar uma cerveja e
bateram à porta. Desconfiado, perguntei antes quem batia.
"É o seu jantar, senhor."
Fiquei mais desconfiado ainda. Não havia pedido jantar
algum. Liguei para o serviço de quarto e eles me informaram que
não haviam mandado ninguém para meu quarto. Liguei para a
portaria e eles me disseram ter imaginado que alguém entrara
comigo no bar, e pensaram que fosse algum jornalista estrangeiro.
E mandaram imediatamente um segurança até o sexto andar.
Quando ele chegou lá, meu acompanhante desconhecido, depois
de escutar minhas conversas ao telefone, já havia se retirado.
Em meados de dezembro, a confirmação de que a senha do
monsenhor Bonamín fora entendida. Foi só o tempo para as
articulações. Caças-bombardeiros da Força Aérea faziam vôos ra-
santes sobre o centro de Buenos Aires e se concentravam sobre a
Plaza de Mayo. Corri à Plaza de Mayo, que ficava a uns 300 metros
de meu escritório, e vi que não iriam bombardear a Casa Rosada,
mas estavam lançando panfletos sobre a praça. Juntei um deles.
Era uma proclamação e começava assim:
"Quartel da Força Aérea argentina em operações.
Proclamação a toda a nação. Queremos ver o verdadeiro rosto da
pátria. Nossa consciência não suporta mais a humilhação e a
vergonha de guardar com as armas o festim dos corruptos, a burla
pública e a degradação das instituições".
A proclamação terminava com a seguinte frase: "No mês da
Imaculada Conceição. Viva a pátria argentina!"
Estavam sublevadas duas brigadas aéreas e quatro bases
aéreas, inclusive a do Aeroparque Metropolitano, em Buenos
Aires. O comandante da sublevação era o brigadeiro Jesus
Orlando Capellini.
Fui ao Aeroparque e consegui contato com os rebeldes,
porque não havia cerco militar a eles. Todos tinham no pescoço o
terço religioso. Era uma legítima cruzada. Houve bombardeio da
Base de Morón e, por fim, troca de comando na Força Aérea,
entrando o brigadeiro Orlando Agosti. A Rádio JB fazia um
programa de final de ano e lamentava que eu não tivesse gravado
0 som dos bombardeios em Morón. Então, pediam-me que,
de alguma forma, gravasse algo semelhante. Afinal, ruídos de
bombas e de metralhadoras eram o cotidiano em Buenos Aires.
Já era a semana do Natal e eu estava louco para voltar a
Porto Alegre. Desliguei o telefone praguejando. "Ora essa! Querem
que eu produza uma revoltazinha na Argentina só porque eles
perderam a outra!"
O escritório do JB em Buenos Aires tinha um entregador de
jornais nas bancas que eu sempre conheci apenas por Carlito. Era
um jovem forte, cara redonda, cabelos pretos e lisos. Carlito se
aproximou e propôs:
— Se você quiser, amanhã vamos ter barulho aqui no
centro.
— Vamos, quem?
Aí, Carlito me surpreendeu. Contou-me que era da
Juventude Peronista, e disse que tinha a classificação A-5, se é
que me lembro bem. Perguntei o significado do código.
— Apto ao uso de metralhadora — respondeu ele,
acrescentando que estariam comigo no dia seguinte, pela manhã,
para que eu pudesse gravar tudo direi unho.
— Estariam, quem? — mas ele não me respondeu. Apenas
marcou hora e local para o encontro.
Era semana de Natal, mas o centro estava deserto. As dez
horas, encontrei-me com Carlito, na Florida, esquina com
Cangallo. Com ele, mais três jovens, igualmente fortes, que não
falaram comigo.
— Vamos por ali — ordenou Carlito, assumindo o
comando. Havíamos caminhado um pouco pela Florida, quando
surgiu na esquina da Sarmiento um grupo de uns vinte policiais,
armados até os dentes. Na outra esquina, havia um grupo de
trinta jovens, igualmente armados. E nós estávamos no meio dos
dois grupos! Um policial atirou uma bomba de gás com um lança-
bombas. A bomba caiu diante de nós e Carlito, rápido, chutou-a
com a botina. Os manifestantes revidaram, atirando contra a
polícia. Carlito me empurrou para dentro do jornal La Naciõn e me
recomendou, satisfeito:
— Pode gravar, agora.
Foi um belo espetáculo. Gritos, estampidos, sirenes — tudo
o que a Rádio JB queria. Só que não quis. Quando liguei para
dizer que já tinha a gravação, eles me disseram que já tinham
gravado a retrospectiva do ano. Paciência. Afinal, pagam-me para
gravar e escrever. Publicar é com eles.
No dia 23 de dezembro, cancelei definitivamente meu Natal
brasileiro. No início da noite, a guerrilha atacava maciçamente as
comissárias de polícia da zona sul da grande Buenos Aires, para
depois atacar o arsenal do Exército. O Exército havia sido avisado
e entrou com tanques, artilharia pesada e helicópteros com
holofotes. O resultado foi mais de cem mortos do lado da guerrilha
e sete militares e dois policiais mortos do lado do governo. O Natal
sangrento não abalou Buenos Aires, que já se acostumava com a
violência.
E eu decidira ficar. Afinal, tinha muitos amigos brasileiros
em Buenos Aires. Um deles, o adido da Marinha, capitão-de-mar-
e-guerra Odilon Cardoso, tinha sido vítima da guerrilha naquele
ano. Um grupo guerrilheiro entrou no apartamento dele e o
amarrou, juntamente com sua mulher. Fizeram ameaças
semelhantes às que recebi no meu encontro com os montoneros
no restaurante Los Dos Patitos. Odilon pediu-me que nada
noticiasse, para não estimular a ação contra diplomatas
brasileiros. Eu participei da ceia de Natal com o Renato Mayer.
Comemos um peru preparado pela Lory, também de Lajeado, e
tomamos o bom champanhe argentino.
Naquela noite eu pensei numa grande lição que me dera o
chefe da sucursal ao JB em Porto Alegre, Lucídio Castello Branco.
Numa reunião de pauta, ele me perguntou se eu gostaria de fazer
a cobertura da safra de trigo no Rio Grande. Teria que viajar no
dia seguinte. Ingenuamente (eu tinha dois meses de jornal), eu
respondi que iria pensar. Ele enrubesceu de brabo e me disse:
"Jornalista não tem fome, não tem sede, não tem cansaço, não
tem sono, não tem hora. Tem é notícia''. Acho que aquela frase foi
fundamental para a minha carreira de jornalista.
Agora eu estava em Buenos Aires, no calorão de dezembro.
Um calor de 35 graus com 90 por cento de umidade. Insuportável.
Aí, saí um pouco da rotina e fui fazer uma matéria para o
"Caderno B". Com Jorge Luis Borges. Tenho até hoje gravada a voz
dele. Foi emocionante. O pequeno apartamento dele estava escuro,
no meio da tarde. A cegueira dele não sentia falta de luz. Era um
ambiente mágico. Ele tinha um gato no colo e conversávamos num
sofá de palhinha. Ele falava muito sobre as palavras. E fixou-se
numa delas.
— Sabe você que há palavras que são lindas em todas as
línguas? Palavras que contêm a beleza do que representam. Ouça,
por exemplo: ruüenor... nightingale... rossignol... rouxinol...
Ele pronunciava dando música e verso às palavras, como se
estivesse fazendo poesia. Da boca de Borges saíam rouxinóis.
Fazia pouco tempo havia morrido Erico Veríssimo. Contei a
ele. Ele ficou curioso, e perguntou-me quem era. Expliquei. Ele se
desculpou e me disse que entre os brasileiros conhecia somente
Euclides da Cunha, Jorge Amado e Guimarães Rosa. Quando
pronunciou o nome de Guimarães Rosa, fez uma entonação
especial e aproveitou para compará-lo a James Joyce.
Quando me despedi, ele agarrou minhas mãos e depois
passou a mão no meu rosto e fez uma referência à sua cegueira
quase total:
— Vejo você como um fantasma, cuja voz eu posso sentir.
Só minhas mãos podem saber que é um fantasma sólido.
Sugeri para o "Caderno de Turismo do" JB uma reportagem
sobre Mar dei Plata. Afinal, era verão e a sugestão foi aceita. Eu
estava com meu carro, com chapa brasileira, e fui dirigindo para o
balneário, a 400 quilômetros de Buenos Aires. Em Avellaneda, na
avenida Mitre, ainda saindo da Grande Buenos Aires, um guarda
da Policia Caminera (polícia rodoviária), na certa percebendo que
era carro de turista brasileiro, me parou, com a sirene aberta de
sua moto.
— O senhor passou por um sinal fechado.
— Sinal fechado? Mas não há sinais nesta avenida —
argumentei.
— O senhor me acusa de mentiroso? Pois está detido por
desacato.
— Desculpe, eu sou correspondente estrangeiro e
credenciado na Casa Rosada. Eu gostaria de dar um telefonema
para o secretário de Imprensa da Presidência...
— O senhor não está me entendendo. O senhor está detido
incomunicável — interrompeu ele.
Aí, fiquei calado. Muito bem, e agora? Ele se encarregou de
resolver o impasse:
— Tiene cruceiros o dólares?
— No tengo ni cruceiros ni dólares. Tengo pesos. Trabajo
acã. Ya le dije que soy corresponsal, periodista.
Aí ele tirou a mão direita do cabo do revólver, onde ela
havia estado até então, e sacou a caneta para atirar com outra
arma: fez uma longa conta — multa, reboque, taxa judicial,
armazenagem, liberação do carro —, que dava um total
equivalente a 120 dólares. Não me passou papel algum. Apenas
disse que, em se tratando de estrangeiro, ele poderia resolver tudo
ali mesmo, desde que eu pagasse aquelas "despesas". Paguei e fui
embora.
Quando cheguei a Mar del Plata, tive que procurar um hotel
barato, porque o dinheiro estava reduzido. O que encontrei, soube
à noite, pertencia a uma espécie de fundação da Gendarmería
Nacional. E lá se hospedavam, a preços especiais, oficiais da
Gendarmería. No café da manhã do dia seguinte, um senhor
moreno, de cabelo preto e liso, pediu licença e se sentou na minha
mesa. Puxou conversa e contou que estava no último posto do
oficialato da Gendarmería e que estava precisando de descanso,
porque os dias estavam difíceis, com salários baixos e muita
violência.
Eu estava com o golpe do policia caminero trancado na
garganta e contei para ele do que tinha sido vítima. Ele ouviu tudo
atentamente e no final me perguntou:
— Você tem o número ou o nome dele?
E, antes mesmo que eu respondesse que não tinha, ele
emendou:
— Porque, se você quiser, eu o mato para você.
Eu fiz o sorriso que imaginei devesse fazer. Afinal, ele
estava querendo ser gentil, e eu deveria ser gentil também. Mas
ele foi adiante.
— Eu o mato para você. Não tem o menor problema. Eu
acho que policiais que importunam estrangeiros, atentando contra
o bom nome do nosso país, têm que desaparecer.
Eu fiz outro sorriso besta e ele entendeu que eu estava
surpreso e então foi adiante.
— Traficante, corruptor de menores, essa gente tem que
desaparecer também. E fácil. Já acabei com muitos deles. A gente
leva para a delegacia, não registra nada, leva lá pra baixo e ra-tá-
tá-tá — disse ele, fazendo com as mãos o gesto de metralhar.
Depois, ele me ensinou a identificar as mortes na violência
argentina: quando o corpo estiver desfigurado, por ácido ou por
fogo, então é ex-guerrilheiro, justiçado pelos próprios
companheiros. Eles fazem isso para evitar que a identificação
propicie as ligações com amigos e familiares. Quando for um corpo
apenas crivado de balas e nada mais, então foi a polícia que
matou um guerrilheiro e o deixou em qualquer lugar, para ser
identificado e servir de exemplo.
Fiquei alguns dias em Mar del Plata. Seria fácil escrever
sobre o principal balneário argentino. Uma cidade com charme
europeu, erigida pelos ingleses e depois pelos espanhóis e
italianos, com um belo cassino, jeito mediterrâneo e ruas bem
traçadas onde viviam 300 mil habitantes. Naquele verão, 2
milhões de pessoas se divertiam em Mar del Plata, em excelentes
restaurantes, um rosário de clubes noturnos e espetáculos que em
janeiro e fevereiro se transferem de Buenos Aires.
Voltei a Buenos Aires para escrever a reportagem. Antes, fui
à embaixada e contei ao embaixador João Baptista Pinheiro o
golpe de que havia sido vítima. O embaixador riu e me contou que,
como eu, dezenas de turistas brasileiros têm sido vítimas de
golpes nas estradas. Me disse que a chapa amarela dos carros têm
sido um chamariz para policiais desonestos. Contou-me que os
policiais chegavam a assaltar ônibus de turismo, e que todos os
dias apareciam turistas brasileiros na embaixada sem um tostão
no bolso, pedindo dinheiro emprestado para poder voltar, por
terem sido assaltados nas estradas. Os golpes variavam. Na
estrada de Uruguaiana a Santa Fé, os guardas rodoviários pediam
cadena de remolque (corrente para reboque). De Santa Fé a
Buenos Aires, costumavam exigir espelho retrovisor direito, que,
naquele tempo, não era equipamento original dos carros
brasileiros. Como os turistas não tinham aqueles equipamentos,
inventavam a mesma soma que paguei: reboque, taxa judiciária,
armazenamento e liberação do carro, além da multa.
Ao escrever a reportagem sobre Mar dei Plata, incluí um '
'boxe" com conselhos ao turista, recomendando o uso de
transporte coletivo, para evitar uma ação que na Argentina é
chamada de coima. No Brasil, o melhor termo para traduzir talvez
fosse ''mordida''. E informei também que o principal foco desse
tipo de ação é a avenida Mitre, em Avellaneda, na saída de Buenos
Aires. No dia 15 de janeiro de 1976, o "Caderno de Turismo" do/5
publicava, em página inteira, a reportagem O CHARME EUROPEU
DE MAR DEL PLATA.
Naquele dia, eu já estava descansando em Garopaba, um
lugar quieto no litoral de Santa Catarina. Levara para ler as 424
páginas do livro Argentina-Brasil. Cuatro Siglos de Rivalidad, com
o qual eu pretendia me preparar para a eventualidade de ficar em
Buenos Aires como correspondente. E eu ainda estava em
Garopaba quando um policial entrou no escritório ao JB em
Buenos Aires para me levar para um depoimento.
Voltei a Buenos Aires em 16 de fevereiro, um domingo.
Quando liguei para Diego Ceballos, do escritório ao JB, ele estava
cheio de novidades. Foi ao hotel Rochester com elas na mão. Uma
delas era a intimação policial para comparecer à Comisaría de
Florencio Varela, 30 quilômetros ao sul de Buenos Aires. O autor
da denúncia era o inspetor-chefe da Policia Caminera. Ceballos me
explicou que eu já estava sendo procurado pela polícia, já que não
compareci na data marcada.
A outra novidade era o jornal Ultima Hora, edição de 4 de
fevereiro. Eu era a manchete da primeira página! A manchete
dizia: MACACO MENTIROSO. Era eu. "Macaco" por ser brasileiro,
é claro.
Abaixo da manchete, vinha uma reprodução da reportagem
do "Caderno de Turismo" ao JB e, ao lado, uma nota, dizendo que
a reportagem acusava os argentinos de cobrarem multa em
dólares de turistas brasileiros. Parecia coisa plantada. A
reportagem fora publicada em 15 de janeiro e, no mesmo dia, o JB
circulava nas bancas da Calle Florida. A intimação policial, de que
tenho cópia, era de 31 de janeiro. E Última Hora só publicava a
história em 4 de fevereiro.
Diego Ceballos me pedia que tivesse muito cuidado. Que já
haviam ligado várias vezes para o escritório e que minha vida
corria perigo. Liguei imediatamente para o Luiz Orlando Carneiro,
chefe da redação do/5 no Rio, e depois para o embaixador João
Baptista Pinheiro. O embaixador pediu-me que fosse segunda-
feira à embaixada.
Na segunda pela manhã, eu me reuni com o embaixador, o
cônsul-geral Rodolpho Souza Dantas e o ministro-conselheiro.
Combinamos que eu deveria negar a matéria contestada, porque a
parte da denúncia da ação da polícia rodoviária estava num "boxe"
sem autoria expressa. Mas havia um problema: negando, eu
poderia ser detido por calúnia contra a polícia, sem quaisquer
direitos ou garantias, pois vigorava o estado de sítio na Argentina.
Encaminhado pelo cônsul-geral, procurei, à tarde, o
advogado Pablo Argibay Molina, que explicou a minha situação: de
um lado, eu teria que me apresentar imediatamente à polícia. Eu
já era procurado. Deveria provar, com o cartão de turista, que
recém-voltara do Brasil, por isso não pudera comparecer à
Comisaría. De outro lado, não poderia fazer isso, porque aí estaria
comprovando minha situação irregular na Argentina, ou seja, o
exercício de uma profissão com o visto de turista. O advogado me
disse que eu poderia ser detido por suborno se confirmasse a
história, já que paguei ao guarda. Ou por calúnia, se a atribuísse
a "turistas brasileiros". Por fim, me aconselhou a deixar a
Argentina "o quanto antes, pela ausência de garantias
individuais".
Da cabine pública de telex, informei o JB sobre tudo o que
estava acontecendo naquele mesmo dia. Aí, a situação piorou. No
dia seguinte, o advogado me ligou para dizer que o telex que eu
havia transmitido já estava em poder do Side, o Servido de
Informaciones del Estado. Logo depois, o embaixador Baptista
Pinheiro me avisava que decidira conversar com o ministro da
Economia, muito ligado à presidenta, tentando achar uma saída
política. E me convidou para ficar morando na embaixada, onde
seria mais seguro.
Eu decidira continuar trabalhando. Afinal, a crise argentina
tinha que ser noticiada. Continuei mandando meus despachos
naqueles dois dias em que lá estava. Ainda na terça-feira, tomei
certas precauções. Passei a trabalhar de cortina fechada, pois
ficava de costas para a janela, a poucos metros das janelas do
edifício em frente. A porta do escritório tinha um sininho. Sempre
que alguém entrava, o sininho tocava. Naquela tarde, para mim, o
soar do sininho era esperado como a chegada de algum cavaleiro
do meu apocalipse.
Então, o sininho tocou, por volta de três da tarde. Saí de
minha sala e, já no salão onde eram guardados os encalhes do JB,
estava uma moça, enfiando a mão na sacola. Joguei-me atrás de
pilhas de jornais e esperei a explosão de uma granada. Quando
olhei para cima, ela me estendia a mão com cinco ou seis gravatas
do seu mostruário. Pedi desculpas e não comprei.
Eu ainda respirava acelerado quando o telefone tocou. O
embaixador queria conversar comigo. Quando cheguei ao gabinete
dele encontrei o adido naval, Odilon Cardoso, também
preocupado. O embaixador me disse que conversara com os
adidos militares e concluíra que eu corria sério risco de vida. Que
a situação saíra de qualquer controle político, porque estava nas
mãos da polícia, e que ele preferia não manter o convite para que
eu morasse na embaixada, porque não deveria envolver o governo
brasileiro. A tradução do aviso era: "Agora é por sua conta e risco".
Eu decidi que ficaria até quando pudesse agüentar. Afinal,
eu tinha informações do próprio general Videla de que a
presidenta poderia ser deposta a qualquer momento. Em nosso
último encontro num coquetel, eu havia sugerido, de brincadeira,
a data de 31 de março, "para que se fizesse uma comemoração
conjunta sobre a ponte entre Paso de Los Libres e Uruguaiana''. O
general não gostou da brincadeira, argumentando que eu estava
brincando com coisa séria. Mas a brincadeira tinha por objetivo
testar a cronologia do golpe. E me dera a pista de que seria no
máximo até o final de março.
Na Argentina, em tudo havia sinal de fim de festa.
Violência, greves de empresários e de empregados, economia em
desordem. No dia seguinte, escrevi mais cedo meu despacho e fui
para a embaixada sentir o ambiente. O embaixador Baptista
Pinheiro foi muito gentil. Chegou a me mostrar o quarto que sua
mulher, dona Céu, havia preparado para mim. As vidraças das
janelas eram de vidro blindado, à prova de bala de fuzil. A tarde
estava quente, e ele me convidou para um uísque na beira da
piscina. Chegou a me emprestar um calção. Enquanto
nadávamos, seguranças armados espreitavam com binóculos os
edifícios em volta. Havia inúmeros casos de atentados de um
edifício para outro, usando fuzil com mira telescópica.
No dia 19 de fevereiro o país fervia. No Congresso, só se
falava do impeachment da presidenta. Havia o escândalo do
cheque da Cruzada Justicialista e uma vacância do fato. Isabelita
reagia retirando do Congresso um pacote de projetos que havia
sido motivo da convocação extraordinária naquele verão. O
Congresso automaticamente entrava em recesso. Deputados e
senadores, furiosos, buscavam assinaturas para uma
autoconvocação, com o fim de votar o impeachment. No Congresso,
vários parlamentares estavam desconfiados que a presidenta iria
pedir forças policiais para garantir o recesso — ou seja, para
impedir o acesso ao prédio do Congresso.
Eu estava escrevendo isso quando o telefone tocou. Era o
coronel Zaldir de Lima, adido militar brasileiro.
— Olha, eu não quero te assustar, mas é hoje.
— Hoje, o quê? O golpe para derrubar a mulher?
— O golpe para te derrubar. Eles vão te pegar hoje. Vai
embora agora. Não tem tempo para mais nada. Eu fiquei sabendo
agora.
Era o aviso final. Devo esse ao meu amigo Zaldir. Alguém lá
dos segredos dele deve ter passado a informação. Mas eu estava
com o papel na máquina e sabia o que iria acontecer mais cedo ou
mais tarde. Então, ainda escrevi este último parágrafo:
"Num extremo da avenida de Mayo está o Congresso. No
outro, a Casa Rosada. Nesse eixo, começou, na madrugada
passada, a disputa de uma batalha decisiva para as instituições
argentinas. A coesão dos legisladores peronistas é a única força
que poderá impedir a autoconvocação do Congresso e a declaração
do impeachment. Essa é uma possibilidade muito frágil em favor
da presidenta, porque o partido está cindido. Mas, ainda que o
peronismo impeça o Congresso de declarar o impedimento
presidencial, a bola de neve já desce a ladeira. A crise econômica
chegou muito fundo, talvez ultrapassando os limites do caos. É
difícil antever que, depois de ter estendido seu limite crítico de
sustentação, Maria Esteia consiga recuar para a segurança".
Eu planejara uma última frase dizendo: "Se a solução não
vier pelo impeachment do Congresso, virá pela espada''. Mas era
uma previsão que eu poderia fazer só para mim, não para os
leitores ao JB. Soaria como uma aposta num golpe de Estado. E
não escrevi.
Peguei o texto, limpei minhas gavetas e corri para o telex
público mais próximo, na Calle San Martin. Passei o telex eu
mesmo, como sempre fazia, desconfiadíssimo agora dos
funcionários da Entel, a Embratel de lá. Quando o Rio deu o ok de
bem recebido, corri para o hotel, fechei a conta e pedi um táxi. Aí
um senhor que estava na portaria me disse, em português, que
era motorista da embaixada, e que eu não poderia pegar táxi
algum. Ele me levou até o Aeroparque, o aeroporto mais próximo.
Do Aeroparque só saem vôos domésticos e a ponte aérea
para Montevidéu. Mas sair pela estrada de Ezeiza, onde eu poderia
pegar um Varig para o Brasil, seria perigosíssimo. Fui ao guichê
da ponte aérea com um bilhete Buenos Aires—Porto Alegre em
aberto. O funcionário argumentou que poderia trocar, mas eu iria
perder a diferença. Perdi feliz a diferença e recebi um cartão de
embarque para Montevidéu. Quando atravessei a pista em direção
ao avião, esperava a qualquer momento um tiro nas costas. Olhei
para trás e vi um grupo de quatro pessoas olhando para mim do
terraço. Me deu um frio na espinha. Entrei no avião, um bimotor a
hélice, imaginando que talvez eles tivessem deixado uma bomba a
bordo, em alguma bagagem. Eu estava ficando neurótico com
aquela história toda.
Meia hora depois, eu desembarcava em Carrasco,
Montevidéu. Respirei fundo. Respirei segurança e liberdade. Tomei
um táxi para o hotel Lancaster. No caminho, desconfiei que estava
sendo seguido. Tinha de passar um telex para o Rio e decidi não ir
à UPI. Meu amigo Héctor Menoni não estava mais lá. Havia sido
transferido para a Colômbia depois de ter sido obrigado, pela
polícia uruguaia, a abrir o cofre e mostrar cópias de telex
expedidos. Mas a cabine pública já estava fechada e a noite
chegara. Fui dormir.
No dia seguinte, mandei um telex para o editor-chefe Walter
Fontoura, que dizia assim: "Atendendo a conselho do embaixador
Pinheiro, tomei ontem o último avião para Montevidéu, onde
estou. Não fiz qualquer consulta prévia porque o telex e o telefone
estão censurados. Apenas esperei para transmitir o material do
dia e procurei um avião. Maiores detalhes poderei dar quando
voltar. Como tenho 'datas prováveis', julgo conveniente ficar por
perto. Aguardo ordens".
Por volta do meio-dia, voltei à cabine pública de telex e lá
estava uma mensagem para mim: "Ciente da sua informação. Você
fez o melhor saindo de Buenos Aires. Pode regressar via Rio ou
diretamente para Porto Alegre. Abraços, Juarez Bahia". Quando
voltei ao hotel, Juarez Bahia, que era editor nacional, me ligou.
Explicou que estava indo para Brasília, como uma espécie de
interventor, e dizia que iria precisar de mim por lá. Perguntou se
eu aceitaria trabalhar na capital do país. Aceitei na hora, sem
conhecer Brasília. Aceitei imaginando que teria um horizonte mais
amplo para trabalhar. Foi minha maior oportunidade na profissão.
Aliviado, fui ao cinema diante do hotel, na Plaza Cagancha,
na sessão das três da tarde. Estava passando A Última Noite de
Bóris Grushenko, de Woody Allen. O cinema estava quase vazio. O
filme já havia começado quando alguém sentou ao meu lado.
Ficou uns cinco minutos e depois saiu.
Eu já estava acostumado às histórias de bombas em
Buenos Aires. Da namorada do filho do general, que deixara sob a
cama a bomba que fez voar pelos ares o general e sua mulher; das
granadas jogadas de motocicleta para dentro de carros da polícia;
das bombas em aviões e, principalmente, das bombas em mesas
de restaurante. Era fácil: só grudar um explosivo plástico de alto
poder e enfiar nele um lápis com detonador de tempo.
Para mim estava muito claro: o sujeito entrou, sentou a
meu lado e plantou uma bomba embaixo da poltrona dele. Senti
vontade de sair, mas vi que já havia mais gente naquela sessão,
inclusive nas proximidades. Gente que deve ter achado estranho
quando me pus a revistar e a apalpar cada centímetro das
poltronas próximas. Como nada achei, continuei com o Bóris
Grushenko.
Fiquei em Porto Alegre o tempo suficiente para produzir a
parte gaúcha da Revista Econômica que o JB estava fazendo e
preparar minha mudança para Brasília. Cheguei a Brasília no dia
16 de março de 1976.
Oito dias depois, em 24 de março, de madrugada, eu estava
perdendo um desfecho que já conhecia. No final de uma cansativa
noite de reuniões, a presidenta estava sendo levada de helicóptero
da Casa Rosada para a residência de Olivos quando o co-piloto
apontou-lhe uma pistola e avisou que ela estava sendo deposta. O
helicóptero desceu no Aeroparque, onde um avião esperava para
levá-la a um retiro em El Mesidor, na província de Neuquén, quase
2 mil quilômetros ao sul de Buenos Aires. Enfim, ela também saía
pelo Aeroparque.
Era o fim de três anos de governo civil na Argentina.
Quando soube das notícias pelo telex das agências, lamentei não
estar lá e fiquei lembrando um dia de março de 1973, quando eu
descansava num hotelzinho em Carlos Paz, nas montanhas de
Córdoba, e ainda nem sonhava que iria trabalhar na Argentina.
Era um sábado, 10 de março. No dia seguinte, haveria a
primeira eleição presidencial em dez anos. Os principais
concorrentes eram o dentista Héctor Cámpora, pela Frente
Justicialista de Liberación (peronismo), e Ricardo Balbin, pela
União Cívica Radical. Nas ruas, o slogan peronista era "Cámpora
presidente, Perôn al poder". Naquele sábado, à noite, na sala de TV
do hotel Suiza, eu assisti ao então presidente general Alejandro
Lanusse. Ele fazia um discurso de encerramento do último período
militar, que começara com a deposição do presidente Illía, em
1966, pelo tenente-coronel Onganía.
Lembro-me de que Lanusse falava em pé, com uniforme de
gala, branco, cheio de alamares, e com a espada na cintura.
Recordo de ele ter dito que a espada voltaria agora para o serviço
do poder civil, não importando o resultado das eleições. Fez uma
prestação de contas e disse que entregava o governo com o país
organizado e em paz. No dia seguinte, venceu Cámpora. Em 20 de
junho do mesmo ano, assumia o próprio Juan Domingo Perón,
trazendo como vice sua mulher, Maria Esteia Martínez de Perón.
Agora eu lembrava, de Brasília, a confusão dos últimos três anos e
o destino argentino de alternar civis populistas e caudilhos
militares no poder.
Enquanto não conseguia alugar uma casa em Brasília, eu
ficava no hotel Imperial. E ia, de vez em quando, jantar na
churrascaria Tabu, do hotel Nacional, que ficava a meio caminho
entre o JB e meu hotel. Numa noite, eu jantava quando levantei
os olhos e vi diante de mim um jovem de pouco mais de vinte
anos, com tênis e calça Lee. Ele tinha nas mãos uma sacola de
lona. Eu sabia que esse era o protótipo do guerrilheiro. Quando
ele enfiou a mão na sacola de lona para tirar a granada ou a arma,
virei a mesa por cima dele e saltei para trás, já com a cadeira na
mão para atingi-lo.
O rapaz estava estático, me olhando, com uma garrafa de
mel na mão. Eu estava bem de reflexos. Havia me defendido bem
do guerrilheiro. Se estivesse na Argentina. No Brasil, eu acabava
de pregar um susto num vendedor de mel, derrubara a comida no
chão e dera o maior vexame no restaurante. Eu estava precisando
me adaptar ao Brasil. Não havia, ainda, conseguido me livrar das
tensões da Argentina.
Amor à primeira vista

Brasília iria logo me dar a paz de que necessitava. Fora


amor à primeira vista. Quando deixei o aeroporto, no início da
tarde de 16 de março de 1976, senti um encontro no ar. No
''Bambolê de Dona Sara", estava tudo florido; depois, veio o
bosque de eucalipto logo depois do zoológico. Então, o Eixo
Rodoviário abriu um espaço enorme à minha frente, de onde
sempre se vêem o céu, até o horizonte, o lago Paranoá e o encontro
da terra com o céu, para onde quer que se olhe. Foi um amor para
sempre. Tornei-me logo brasiliense. Guardo até hoje o ticket do
táxi 1007, que, naquele dia, às I4h50, me levou, de malas e
bagagem, direto do aeroporto ao edifício Denasa, onde funciona a
sucursal do JB, para o primeiro dia de trabalho em Brasília.
Logo descobri que a capital é o paraíso para o jornalista.
Não apenas porque sedia os três poderes, mas também porque
nela se concentra o melhor retrato do Brasil, facilitado pela
eqüidistância geográfica com todos os Estados. Em Brasília estão
todos os sotaques, todas as comidas, todos os costumes do Brasil.
Em Brasília se percebe, sem distorções, os problemas do Acre e do
Rio de Janeiro; do Pará e do Paraná. Misture-se todo o Brasil com
quase cem embaixadas do mundo, e se tem em Brasília um
cosmopolitismo ofertado de bandeja. Para quem quiser percebê-lo
e explorá-lo, é claro. Isso, para o repórter, é o paraíso.
Comecei cobrindo o Ministério da Fazenda, onde passava as
tardes. Duas ou três vezes por semana conversávamos com o
ministro Mário Henrique Simonsen, às vezes aos sábados, na casa
dele, na QI 3, conjunto 14, casa 18, no lago Sul. Eu jogava xadrez
e aproveitava para perder algumas partidas do ministro, enquanto
fazia perguntas sobre a economia brasileira. Também conversava
muito com o assessor para Assuntos Internacionais, Francisco
Dornelles, mais tarde ministro da Fazenda de Tancredo, e com o
subcoordenador de Assuntos Econômicos, João Batista de Abreu,
depois ministro do Planejamento de Sarney.
Naquela época, desfilavam pelo Ministério da Fazenda
figuras como David Rockefeller — que chamava o ministro de ''my
friend Mário" —, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos,
William Simon, o megamilionário Y.K. Pao e até um certo Tony
Gebauer, que esteve com Simonsen no dia 3 de junho e doze anos
depois estaria na cadeia em Nova York. Depois de conversarem
com o ministro, geralmente conversavam com a gente, no
corredor. Tive longas conversas produtivas com gente como
Alexandre Kafka, Julien Chacel, Wolfgang Sauer, Erik de
Carvalho, Ornar Fontana e Alziro Zarur, todas anotadas até hoje
em caderninhos que dato e numero.
Minha primeira incursão na área política em Brasília
aconteceu em 7 de abril de 1976. O presidente Geisel havia
cassado os mandatos dos deputados Nadyr Rosetti, Amaury
Müller e Lysâneas Maciel, do MDB. O JB me designara para cobrir
uma reunião da cúpula da Arena, que iria analisar o episódio.
Estavam na reunião os senadores Petrônio Portela, Daniel Krieger
e Jarbas Passarinho, e os deputados Francelino Pereira, José
Bonifácio, Célio Borja e Nelson Marchezan. Quando a reunião
terminou, eles me disseram que Geisel não toleraria contestação à
Revolução, cassando tantos quantos fosse necessário cassar. Mas
que dependeria do MDB isolar seus radicais para voltar a
tranqüilidade à política brasileira.
O MDB havia emitido uma dura nota contra as cassações,
não repudiando aqueles que o governo considerava "radicais", e
não se mostrava intimidado. O secretário-geral da Arena, Nelson
Marchezan, examinava a nota e comentava: "Estranho que eles
não repudiaram o comunismo''. Naquele momento, no corredor do
Senado, passava o senador Pedro Simon, que tentou diminuir o
impacto da nota:
— A nota foi mole, Marchezan.
— Não, me disseram que foi dura — respondeu Marchezan,
fingindo que não a havia lido.
— Também, você queria que eles a servissem com açúcar?
— tornou Pedro Simon.
Continuei conversando com Marchezan, que tentava me
explicar que o MDB não estava entendendo a boa vontade de
Geisel, que demitira em janeiro o general Ednardo Mello do
comando do II Exército por causa das mortes do jornalista
Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, ocorridas no
DOI-CODI de São Paulo. Marchezan explicava que Geisel queria
fazer a abertura "lenta, gradual e segura". Mas que, para isso, o
MDB precisava segurar os radicais. O MDB era a única frente de
oposição existente na época.
Seis anos depois, eu conversava com o general Dilermando
Gomes Monteiro, na casa dele, em Brasília, sobre o episódio do
general Ednardo. O general Dilermando fora o substituto do
general Ednardo e me garantia que o general Ednardo não teve
qualquer responsabilidade direta na morte dos dois presos no
DOI-CODI. Mas teve que pagar, porque era o general em comando.
Era um sinal de Geisel de que a abertura seria para valer.
Japão

Embora tivesse feito a biografia de Geisel para o JB, jamais


havia falado com ele. Iria ter meu primeiro contato com o
presidente do outro lado do mundo, no Japão, naquele ano.
Eu estava cobrindo a tramitação do projeto da Lei das
Sociedades Anônimas quando ligou para minha casa, no lago Sul,
o chefe da sucursal do JB, Walder de Góes. Queria saber se eu
falava inglês. Respondi que dependia para quê.
— Se for para conversar com um americano, hoje, pode ser
difícil — expliquei.
— E se for para conversar com japoneses, no Japão? —
insistiu ele.
Respondi que então seria mais fácil. Ele encerrou a
conversa:
— Então se prepare para ir a Tóquio na semana que vem,
para cobrir a viagem do Geisel ao Japão.
Era véspera do 7 de Setembro. Eu morava sozinho, não
havia o menor empecilho para viajar. Mas eu não fazia questão.
Soube que havia uma grande disputa no JB, com muita gente
querendo ir. Eu não queria. Iria por missão, não por prazer.
Sempre fui muito enraizado à casa. Mas eu tinha apenas uma
semana para conhecer o Japão e a língua japonesa, antes de
viajar. Corri para a embaixada e pedi ao secretário Nakamura tudo
o que pudesse me dar sobre o país dele. Inclusive um pequeno
vocabulário.
Parecia que todos os jornalistas brasileiros haviam
escolhido aquele mesmo vôo para o Japão. Era noite de 10 de
setembro e o Boeing 707 da Varig estava lotado de japoneses,
jornalistas e passageiros de outras nacionalidades. Era um vôo de
44 horas, com escalas em Lima, Los Angeles e Anchorage, no
Alasca. O barulho a bordo começou logo na decolagem. Os
japoneses, muito discretos, estranhavam aquele bando
barulhento, que parecia uma equipe de futebol ou de artistas. O
uísque ajudou a aumentar a bagunça. Eu estava sentado bem
atrás, conversando com a companheira de poltrona, exatamente
sobre a má educação dos companheiros, quando chegou um deles
para conversar. E pôs o pé descalço sobre meu joelho. Eu nunca
havia viajado com um grupo de jornalistas. A partir daquela noite
passei a evitar a repetição de um tal vexame.
Na escala em Los Angeles, o avião demorou-se um pouco
mais e nos permitiram desembarcar. Minha companheira de
poltrona, uma paulista chamada Sílvia Regina, iria ficar, para
estudar na universidade do Sul da Califórnia. Acompanhei-a até a
calçada do aeroporto. Quando quis voltar ao setor de trânsito
internacional, um guarda me impediu. Eu estava off-limits, já
havia entrado em território americano, sem passar pela alfândega!
Expliquei, desesperado, que teria que seguir um vôo para Tóquio,
e que já haviam chamado o embarque.
— Não tenho nada com isso — respondeu o guarda,
impassível.
Eu já começava a suar, imaginando perder o vôo e perder a
chegada de Geisel a Tóquio, quando chegou um diplomata
brasileiro que voava conosco e dera falta de mim. Ele foi buscar
um oficial da Imigração e eu embarquei. Quando chegamos ao
Alasca e tornamos a desembarcar, eu fiquei rigorosamente dentro
dos limites, embora curioso com o frio e a neve lá fora. Aprendi a
lição. Em país civilizado, limite é limite, lei é lei. Não existe
jeitinho. Nos dez anos que se seguiram, só uma vez me descuidei.
Foi em Ottawa, no aeroporto, quando passei da linha amarela do
guichê, e um guarda, em voz alta, me chamou a atenção em
público. Quase morri de vergonha. Como se sabe, a linha amarela
nos guichês dos aeroportos protege a intimidade da gente. Evita
que o passageiro de trás bisbilhote nosso bilhete de passagem.
Pena que as linhas amarelas de Cumbica e do Galeão não sejam
respeitadas.
No trecho entre Anchorage e Tóquio aumentou a barulheira
promovida pelo bando de jornalistas brasileiros. Um deles já tinha
tomado conta do microfone da aeromoça e anunciava que
cruzávamos a dataline — linha de dados. Ele queria dizer linha de
data, dateline. Estávamos saindo de 11 e entrando em 12 de
setembro.
Não sei por quê, o comandante me chamou para viajar na
cabine de comando. O dia estava amanhecendo, estávamos sobre
o mar de Bering e podíamos ver a costa da União Soviética.
O comandante recebia sinais dos postos de defesa
soviéticos e respondia, conferindo a posição com o navegador. E
me explicava que era uma região muito perigosa. Um desvio de
rota em direção ao espaço aéreo soviético poderia ser confundido
com um ato de hostilidade e... adeus! Cerca de dez anos depois,
um jumbo da Korean Air Lines era tomado por hostil e abatido por
um Mig soviético.
Quando chegamos no aeroporto de Haneda, o nosso Boeing
707, o maior avião em uso no Brasil, era pequenino diante da
interminável fila de Jumbos que iam aterrissando e decolando. No
saguão do aeroporto havia milhares de pessoas. Para se localizar,
elas utilizavam estandartes, que identificavam um grupo, ou
megafones eletrônicos. Era segunda-feira, e grupos intermináveis
de japoneses se submetiam à inspeção da Saúde, porque traziam
abacaxis. Chegavam das ilhas havaianas, certamente descobrindo
que essa era a melhor forma de tomar aquele território americano.
Fui para a cidade num trem suspenso num trilho e me hospedei
no New Otani, um hotel com 2.100 apartamentos, 48 salões para
banquetes, 37 restaurantes e mais de cem lojas, inclusive um
supermercado. Os jardins do hotel, com 4 hectares, tinham mais
de quatrocentos anos de idade.
Foi nesse ambiente que testemunhei a continuação do
vexame iniciado no avião, protagonizado por um grupo de
jornalistas brasileiros. Os japoneses costumam ir dormir, no
máximo, às onze da noite. Pois no hotel New Otani, no andar dos
jornalistas brasileiros, uma tremenda batucada às duas da manhã
impedia que dormissem. Eu mandei uma nota para o "Informe
JB", anunciando que eram quinhentos anos de história
perturbando o sono de uma civilização de milênios. O coffee-shop
do hotel, ''Azalea'', foi tomado por eles como uma horda de
bárbaros, e meu companheiro de JB, Marcos Sá Corrêa,
aconselhou-me a evitar o "abominável Azalea", o que foi ótimo,
porque descobrimos os maravilhosos restaurantes orientais do
New Otani.
Na véspera da chegada de Geisel — Gaiseru Daitoriu, como
já havia aprendido a dizer — era feriado no Japão, o Keirô-no-hi,
em homenagem aos velhos, como nos ensinava a intérprete que
contratamos, Riuko Shinkai. Ela traduzia os noticiários na TV e
nos jornais para o Marcos e para mim. A primeira matéria que
escrevi, na preparação da visita, começava assim: "A economia
japonesa está entrando em nova era de estabilidade, depois de um
crítico período de recessão, ocasionado pela elevação dos preços
do petróleo". Era 1976 e o petróleo ainda subiu muito mais. Mas a
economia japonesa não parou de prosperar. Geisel chegou
também num 707. Quando a comitiva se dirigia para o palácio
Akasaka, onde ficou hospedado, e passou sobre o rio Furukawa, o
sol estava vermelho sobre as águas. No dia seguinte, o imperador
Hirohito e a imperatriz Nagako, o príncipe herdeiro Akihito e a
princesa Michiko iam ao palácio Akasaka dar as boas-vindas ao
casal Geisel. Um ônibus foi para o palácio, lotado com jornalistas
brasileiros. Na esquina do jardim do hotel New Otani, o ônibus
parou, esperando o sinal abrir. Na calçada, um dos mais
venerados pintores japoneses pintava um ângulo do jardim.
Abriram-se as janelas do ônibus e delas partiram gritos:
— Aí, kung-fu!
— Joga um tomate na tela dele!
— O que tá pintando aí, palhaço?
Anotei no caderninho e mandei para o "Informe JB". Era a
única forma de pedir desculpas aos nossos anfitriões.
A cerimônia de recepção a Geisel foi impressionante. Todos
estavam de fraque e cartola. A guarda japonesa — uns duzentos
soldados — realizava movimentos como um só. Ouvia-se uma
única batida — de botas ou coronhas no chão. Não uma batida
com ressonância. Uma única mesmo. Nunca vi ordem unida mais
perfeita em toda a minha vida. Vi igual em 1984, quando
aconteceu exatamente a mesma recepção para Figueiredo. A única
diferença é que a idade pesava um pouco mais sobre o imperador.
No domingo, dia 18, Geisel foi de trem-bala para Kioto, a
antiga capital imperial. No embarque, eu estava na plataforma,
quando chegou o casal Geisel. Dona Lucy me cumprimentou e
chamou o presidente: "Ernesto, é o filho da Talita". O presidente
me cumprimentou, mas não mostrou intimidade. Minha mãe e
minhas tias conheceram os tenentes Geisel — Orlando e Ernesto
— em Cachoeira, quando eles serviram no Regimento de
Artilharia. Dona Amália, irmã do presidente, fora professora de
meus primos. O coronel Markus, pai de dona Lucy, fora
companheiro de meu pai em Estrela, no Partido Libertador, e meu
pai treinava a equipe de basquete em que a irmã de dona Lucy,
Ruth, era uma das atletas. Dona Ruth, naquela época, era chefe
de minha irmã, na Delegacia de Ensino de Estrela. Eu estava
pronto para recordar tudo isso como uma abertura lenta e gradual
para uma entrevista, mas Geisel embarcou logo e, como eu disse,
não deu intimidade.
Quem ganhou a cobiçada entrevista, a mais de 200
quilômetros por hora no Shinkansen (trem-bala) foi o repórter da
TV Globo, Geraldo Costa Manso. Quando nós da imprensa ficamos
sabendo, morremos de ciúme. Do Rio, o editor de política, Elio
Gaspari, ligou-me para mandar um recado ao secretário de
Imprensa do presidente, Humberto Barreto. O recado era uma
única palavra: "Doeu".
A visita a Kioto foi impressionante. Visitamos palácios de
madeira construídos setecentos anos antes de Cabral chegar ao
Brasil. E estavam lá, intactos. Nos jardins do castelo de Nijo, um
conjunto tocava koto (um instrumento de madeira com treze
cordas de seda que são dedilhadas com palhetas de marfim). A
canção se chamava "Sakurá" (cerejeira). Geisel estava emocionado
e, para disfarçar, dirigiu-se a um fotógrafo brasileiro, nisei:
— Como é que você veio?
— De avião — respondeu o fotógrafo, com um sorriso nisei
muito aberto.
No dia seguinte, o humor do presidente seria testado
novamente. Humberto Barreto me avisava que as reclamações
tinham sido atendidas, e que Geisel me daria uma entrevista a
bordo do trem-bala, na volta para Tóquio. Para mim e para outros
queixosos: Leonardo Motta Neto, do Jornal de Brasília, Sérgio Mota
Mello, de O Estado de S. Paulo, e Carlos Henrique Santos, da Veja,
que mais tarde seria porta-voz de Sarney.
A entrevista aconteceu durante o café da manhã. Eu fiquei
ao lado do presidente, Leonardo e Sérgio na frente, e Carlos
Henrique na cabeceira da mesa, oposta à janela do trem.
O presidente, pelo jeito, só queria falar da viagem. E nós
queríamos que ele falasse sobre política interna. Lá pelas tantas,
ele explicou que o Japão é um país que deseja a paz mundial, e
acrescentou: "O Brasil, para se desenvolver, também precisa de
paz interna''. Era a deixa de que precisávamos e pedimos que ele
comparasse a democracia japonesa com a nossa.
— Vejamos — disse ele —, o povo japonês tem liberdade,
franquias, representatividade, é claro, mas não podemos copiar
dos outros. Precisamos de um regime compatível com o nosso
povo. Temos que viver a realidade, não um artificialismo. Está
escrito que democracia é assim, mas não se faz assim. Democracia
não é estática, está em constante adaptação às condições da
história dos povos. Espero que ela se desenvolva em nosso país,
que progrida. Temos agora as eleições municipais de 15 de
novembro. O que importa é a consolidação dos partidos para
servirem de base ao sistema político. Serão importantes para isso
também as eleições de 1978. Muita gente acha que partido não é
importante, mas é preciso partido para ter democracia. E tem que
haver partido de governo e partido de oposição.
Quando insistimos num detalhamento do projeto de
Abertura, ele respondeu:
— Temos que fazer abertura, não arrombamento. Naquele
momento, Humberto Barreto, em pé atrás de Geisel, fazia sinais
com o relógio para Leonardo e Sérgio, mostrando que nosso tempo
estava esgotado. Leonardo então emendou a frase do
arrombamento com um chute:
— Presidente, o fato é que estamos numa ditadura. Geisel
esfarelou entre os dedos uma fatia de pão torrado.
Não acreditou na ousadia e resolveu dar outra chance a
Leonardo:
— O quê?!
— Vivemos numa ditadura — repetiu Leonardo, já meio
engasgado. Como Humberto Barreto estava também atrás de mim,
eu tampouco entendia a brincadeira de Leonardo, e me
preocupava. "Isso vai acabar mal; o presidente vai virar a mesa é
agora", pensei.
Foi aí que Leonardo resolveu esclarecer:
— Ditadura do Humberto, aí atrás do senhor, que está
fazendo sinal pra gente terminar a entrevista.
Todos rimos nervosamente, menos Geisel. Estava
terminada a entrevista. Pela janela, passava o Fujiyama.
Marcos Sá Corrêa e eu, graças à nossa intérprete Riuko, e
graças ao fuso horário, conseguíamos mandar para o JB um
resumo do que diziam os jornais japoneses sobre Geisel no mesmo
dia. Ou seja, começávamos nossos despachos dizendo "Os jornais
de Tóquio, agora de manhã, estão publicando o seguinte: ..."
Numa noite, eu estava subindo para meu apartamento no
New Otani com Riuko, para assistirmos ao telejornal. Um grupo de
jornalistas brasileiros vinha atrás de nós e, sem saber que ela era
intérprete de português, diziam: "Vai comer a japonesinha, é?
Olha que é virado, na horizontal". Pedi desculpas a ela, mas não
adiantou muito. Na educação oriental dela, ela ficou chocada.
Nossa cobertura fora tão boa que a direção do jornal,
entusiasmada, nos deu um tempo para aproveitarmos a viagem,
antes de voltarmos. Marcos foi para a Tailândia e eu decidi ficar
no Japão, para conhecer melhor o país. Depois que a comitiva
brasileira se retirou do New Otani, o gerente do hotel, Vicente
Kato, me deu mais uma notícia sobre a horda que havia passado
por lá: os brasileiros haviam levado não apenas bíblias e garrafas
térmicas dos quartos mas também yukatas — trajes para dormir,
nos quais o hotel punha uma etiqueta, informando que um yukata
como aquele estava à disposição do hóspede numa das lojas do
térreo, por um preço baratíssimo. Pois além disso levaram
também cortinas do hotel e até uma torneira do banheiro.
Nos dias em que fiquei por lá, iria aprender muita coisa.
Meus rudimentos de japonês iriam ajudar um pouco. Sempre que
viajo, procuro falar a língua do lugar. É mais simpático. E dá
resultados. Quando pedia informações na rua, notava que a
pessoa desviava de seu caminho para me levar até um ponto a
partir do qual eu estaria bem orientado. E, ao se despedir,
caminhava para trás muitos metros, curvando-se em saudação.
Descobri como é importante a cortesia, em sinal de respeito pelo
próximo, e como os velhos são reverenciados. Comprei uma
câmera Olympus, com grande-angular e teleobjetiva, e saí a fazer
diapositivos (slides). Fiz centenas de fotografias e descobri a
fotogenia de Tóquio, com seus parques enormes e seus jardins
maravilhosos.
Eu lera que Tóquio era uma das cidades mais poluídas do
mundo. Era. Encontrei Tóquio tão limpa quanto a casa da gente.
Os táxis e ônibus usam gás, para não poluir. Não havia fumaça.
Vi muitos japoneses carregando o cigarro de ponta para cima, a
fim de levar a cinza até o cinzeiro mais próximo. Isso na rua! Não
havia sequer palito de fósforo no chão. As luvas brancas dos
motoristas de táxi — cujas portas se abrem automaticamente —
eram a imagem do asseio.
Contaram-me que a maior punição para um pedestre que
ouse atravessar uma rua fora da faixa própria é uma repreensão
pública feita pelo próprio guarda de trânsito. O infrator fica com
tanta vergonha que nem sequer vai para casa, para não encarar
seus familiares. Passa a noite bebendo, para afogar o vexame.
Li uma estatística mostrando que o maior medo em Tóquio
é de incêndio, logo seguido de vendaval, terremoto, guerra
atômica. Ser assaltado era o 25º. medo! Quando comentei isso
com um diplomata brasileiro, ele fez a seguinte imagem: "Uma
moça de dezoito anos, de negligé, às três da madrugada, no cais
de Tóquio, com um maço de dólares na mão, com certeza vai
chegar em casa tranqüila".
Um dia eu ia saindo por uma porta lateral do New Otani,
quando encontrei uma manifestação do outro lado da rua. Eram
cerca de cem pessoas, munidas de megafones eletrônicos e
cartazes, contra um ministro de Ferdinand Marcos, hospedado no
hotel. Junto à porta do hotel havia apenas um policial, que falava
para seu pulso esquerdo, onde havia um minúsculo microfone. A
manifestação corria normal até que alguém atirou uma pedra
contra o hotel. Aí o policial disse alguma coisa para seu pulso e
em dois minutos surgiu uma parafernália policial como eu nunca
havia imaginado existir. Os manifestantes foram literalmente
empacotados e conduzidos até uma esquina, distante 100 metros
do hotel. Aí, pelo alto-falante de um veículo blindado, a polícia
avisou: '' Os senhores jogaram uma pedra contra a propriedade
alheia c perderam o direito de se manifestar. Agora têm uma única
chance de se dispersar e voltar para suas casas, ou serão todos
processados". E foi todo mundo embora, de cabeças baixas.
Tratei de conhecer Tóquio e o espírito japonês o quanto
pude. Meu companheiro de descobertas era o Sérgio Sade, editor
de fotografia da Veja. Visitamos um grande número de templos e
cemitérios. Os cemitérios de Tóquio são quase alegres,
multicoloridos. Os mortos são representados por bonecos nos
quais os parentes vestem roupas tricotadas, como símbolo do
amor permanente. Cata-ventos que o vento (fu, em japonês) gira
mostram a eternidade da vida, através do movimento. Numa pira
há sempre incenso queimando.
O Japão consegue misturar o progresso, o ultramoderno,
com as tradições, o respeito humano, o cultivo do espírito. E eu
que sempre dizia que os japoneses, nossos antípodas, estavam de
cabeça para baixo! Ledo engano, de cabeça para baixo estamos
nós, com a desorganização, o jeitinho e o desrespeito às leis e ao
ser humano nos matando todos os dias.
Subimos a 250 metros de altura sobre Tóquio, na Torre de
Tóquio, bem mais alta que a Tour Eiffel. Lá de cima, como se
estivéssemos num avião, observamos a cidade e sua baía. Lá do
alto, eu ia identificando os bairros que já conhecera pelo metrô:
Ginza, Maronuchi, Akasaka, Akihabara, Shinjuko, o palácio do
Imperador, a Dieta, o parque Hibiya, o parque Yoyogi, onde
tínhamos visitado o templo de Meiji.

Hollywood

Quando havia deixado Tóquio no final do mês, imaginava


que jamais voltaria ao Japão. Que jamais teria de novo a
oportunidade de ir para o outro lado do mundo. Saí com vontade
de ficar. Como um descobridor exausto, eu dormi a viagem toda,
sobre o Pacífico, até Los Angeles. Quando acordei, o avião fazia
uma grande volta e a comissária me chamava a atenção para a
fenda de San Andrés, bem nítida lá embaixo, causadora de
terremotos na Califórnia. Olhei a fenda mas também procurava
um imenso letreiro na montanha — HOLLYWOOD. E para lá que
eu ia.
Hollywood era o altar da minha infância e adolescência, nas
matinês do cine Coliseu, em Cachoeira, e do cine Guarany, em
Estrela. Desembarquei no aeroporto internacional de Los Angeles
e pedi para o táxi me levar ao coração de Hollywood. E me
hospedei no Hollywood Roosevelt Hotel, em Hollywood Boulevard,
bem diante do teatro Chinês. Eu mal me continha para atravessar
a rua e conferir as mãos moldadas dos astros e estrelas de
Hollywood.
Liguei para o Sílio Boccanera, correspondente do JB em Los
Angeles, depois correspondente da Rede Globo na Europa.
Atendeu-me uma secretária eletrônica, engenhoca em que eu
jamais ouvira falar. E fiquei tentando dialogar com ela Quando
percebi que era uma gravação, desliguei, envergonhado. O Sílio
deve ter rido muito com o que ficou gravado, mas respeitou minha
jequice e não tocou no assunto.
Deixei minha mala sem abrir e corri para o outro lado da
Hollywood Boulevard. Queria ver a calçada do teatro de Sid
Caesar. O primeiro molde de mãos no cimento que vi foi de Ava
Gardner. Mãos e pés, moldados em outubro de 1952. Acima dela,
estavam três pares de mãos: eram dos irmãos Marx. Mais abaixo,
as mãos — e o nariz — de Jimmy Durante, com quem
contracenava Carmen Miranda quando morreu. Ao lado,
Cantinflas, o Mário Moreno, Susan Hayward, a Dalila, e Betty
Grable, a que casou com Harry James. E lá estavam também as
mãos rápidas de Roy Rogers com as ferraduras do Trigger. Para
mim, eram mais populares o Hopalong Cassidy, o Hoppy, com seu
cavalo Blackie (hieeeo, Blackiel), Bob Steele, o cruza-revólver,
Durango Kid e Charles Starret. Buckjones já era muito velho para
mim. Mas, enfim, estavam ali, diante de mim, as memórias das
matinês e das histórias em quadrinhos. Os que não estavam no
cimento do teatro Chinês estavam gravados na calçada da
Hollywood Boulevard.
Ali na esquina, o Car Museum. Lá estava o Batmóvel. Não o
inventado pelo modismo comercial do final dos anos 80. Estava lá
o Batmóvel original, o verdadeiro, do verdadeiro Bruce Wayne.
Mais adiante um pouco, a Capitol Tower, igualzinha à capa do
long-playing Jam Session at the Tower, com Ray Anthony, que
comprei em 1957. Fiquei na calçada, do outro lado da rua,
esperando reconhecer alguém na saída, e imaginei estar ouvindo
os acordes de "Perdido", com o pistão de Ray, o sax de Georgie
Auld e o trombone de Ray Sims.
Liguei então para Sílvia Regina, que eu havia conhecido no
vôo do Rio a Los Angeles. Ela já estava com um certo
conhecimento de Los Angeles, e dispunha de três dias para
explorarmos a área. Decidi alugar um carro e pedi conselho a dois
tripulantes da Varig, hospedados no mesmo hotel. Um deles me
contou que está impedido de dirigir nos Estados Unidos desde que
atravessou uma faixa de pedestre enquanto havia pedestre na
faixa. ''Não havia sinal luminoso, mas no momento em que o
pedestre põe o pé na faixa, ele tem sempre preferência", preveniu-
me ele.
Aí lembrei-me de que em Brasília eu tinha atravessado uma
faixa de pedestre entre o hotel Nacional e o Setor de Diversões Sul,
e um carro quase me atropelara. Ocorreu-me que aquela travessia
é muito usada por estrangeiros, que se hospedam no hotel e
atravessam a faixa na suposição de que os carros vão parar.
Experimentei fazer a travessia outra vez e recebi buzinadas e
xinga-mentos, e quase fui atropelado de novo. Resolvi batizar a
faixa de "matadouro de civilizado".
O tripulante da Varig me contou que, ao ser autuado, teve
que comparecer ao juiz, para julgamento, e teve a licença de dirigir
cassada. Nos Estados Unidos é crime muito grave desrespeitar a
segurança física das pessoas. Eu estava descobrindo que uma das
características do subdesenvolvimento é o desrespeito à pessoa.
No dia seguinte, numa agência da Avis ao lado do hotel,
aluguei um Toyota Corolla. Este carro e um BMW que dirigi na
Alemanha em 1978 foram os carros mais modernos que já dirigi.
Ao ligar a chave, o carro emitia um aviso sonoro até que o cinto de
segurança estivesse afivelado. Eu já usava cinto habitualmente
desde 1965, mas naquele ano de 1976, no distante Brasil, ainda
nem se falava no assunto. Fazia um ano que a Guerra do Vietnã
havia terminado, mas em catorze anos de participação americana
morreram do outro lado do Pacífico tantos americanos quantos
brasileiros morrem em apenas um ano, no trânsito. E para quem
conhece o trânsito brasileiro, desorganizado, irresponsável e sem
cinto, sabe muito bem que ainda morrem muito poucos. Parece
que Deus olha os irresponsáveis.
Com o mapa a meu lado, arranquei, faceiro, dirigindo em
Los Angeles. Sílvia Regina morava em Santa Monica, e eu fui por
Sunset Boulevard — de novo as lembranças! — e Santa Monica
Boulevard. Íamos começar pela Disneylândia, é claro. Umas vinte
vias expressas cortam Los Angeles. Entrei na Santa Monica
Freeway e depois na Santa Ana Freeway. Achei estranho que o
carro começasse a trepidar um pouco depois de 120 por hora, e
critiquei a qualidade do carro. Sílvia Regina me fez cair na
realidade:
— Mas o velocímetro está em milhas. Estamos a 200
quilômetros por hora!
Passamos quase todo o dia na Disneylândia, e antes do
final da tarde fomos conhecer o Queen Mary, o colosso dos mares,
agora definitivamente preso à terra em Long Beach — a praia do
tempo em que os concursos de beleza tinham prestígio. Senti-me o
próprio personagem dos anos 20, percorrendo os salões luxuosos
e passadiços do transatlântico. A noite, procuramos um
restaurante típico americano. Em Roma, como os romanos, nos
Estados Unidos, como os americanos.
Fomos ao Foods & Beverages. Quando entramos, pediram
meu nome. Mal havíamos sentado, a orquestra atacou
"Alexander's Ragtime Band" — que minha tia Yvonne costumava
cantar para mim nos anos 40. Era a homenagem aos clientes.
Depois de deixar Sílvia Regina em casa, senti-me dono de Los
Angeles, na direção de um carro, sozinho na noite, deslizando
entre as palmeiras de Sunset Boulevard.
No dia seguinte, tomamos a Hollywood Freeway rumo à
Universal City. Eu já estava me sentindo em casa. Passamos
quase todo o dia conhecendo como se faz cinema: o tubarão
engolindo o pescador, desastres aéreos, avalanches, inundações,
pontes caindo, casas incendiando, a casa do Psicose... Antes que o
dia terminasse, fomos assistir ao pôr-do-sol em Hollywood Bowl.
Estar ali, em Hollywood Bowl, era como conseguir tocar
num outro ídolo da memória. Lembrava-me dos dezessete anos,
quando era locutor da Rádio Independente, de Lajeado, no Rio
Grande do Sul, e apresentava programas com a Hollywood Bowl
Orchestra, nos tempos em que os discos, de 78 rotações, eram
de... baquelite, não é isso?
Num dos desenhos da Pantera Cor-de-Rosa, ela disputava
com o maestro a regência da Hollywood Bowl Orchestra. No final,
o maestro sai pelos ares segurando um foguete, que a Pantera
colocara em lugar da batuta, e a Pantera assume. E rege,
impecavelmente, o tema da Pantera Cor-de-Rosa. Quando
termina, ouve-se apenas um aplauso na platéia. A câmera vai
abrindo e identifica o espectador singular: o próprio Henry
Mancini.
No terceiro dia, saímos a passear por Beverly Hills, San
Fernando Valley, Burbank, Glendale, Pasadena — por ali havia
girado o mundo do entretenimento pelo menos por quatro
décadas. Eu não havia estado nos Estados Unidos antes. E antes
de conhecer, fazia a idéia de que o americano era grandalhão,
bobão, ingênuo — e as americanas, idem. Bobagem! Preconceito
de subdesenvolvido, tentando se consolar com o jeitinho que
nunca deu prêmio Nobel. E comecei a descobrir o que mais tarde
iria confirmar, em outras viagens aos Estados Unidos, que eles
exageram suas mazelas, porque, em seus rígidos padrões morais,
se envergonham muito delas.

A bola de cristal de Tancredo

De volta ao Brasil, retornei à cobertura da tramitação da Lei


das Sociedades Anônimas no Congresso. E passei a conviver, no
trabalho, com o deputado Tancredo Neves, relator da lei. Ele se
revelava profundo conhecedor da crise brasileira. O mundo estava
começando a perceber o início da crise do petróleo, e Tancredo
achava que o Brasil já estava atrasado na adoção de medidas
preventivas. Isso, é bom lembrar, em outubro de 1976, e a crise
chegaria ao auge depois de 1978. Tancredo lembrava que as
outras nações já se haviam prevenido. O barril tinha subido de 5
para 18 dólares. E ainda iria duplicar esse preço.
Tancredo parecia ter uma bola de cristal. Um dia ele me
disse: ''Tenho receio de que nosso processo de endividamento
externo se converta numa bola de neve". A dívida externa estava
chegando a 29 bilhões de dólares. Em outra ocasião, mostrou-se
quinze anos à frente: "Nossas exportações são estimuladas com
créditos de impostos. Se retirarmos esses incentivos, sem dúvida
teremos mais receita para cobrir as despesas públicas". Quando o
governo decidiu enfrentar a crise de petróleo aumentando os
preços dos combustíveis para conter o consumo, Tancredo teve
este argumento: ''Isso não vai adiantar. Quem tem carro tem
dinheiro para gastar um pouco mais. Vai atingir é quem não tem
dinheiro, e vai ter que pagar mais na passagem de ônibus. Um
racionamento teria mais efeito, porque tem um componente
psicológico, que criaria no Brasil uma cultura, uma mentalidade
de que carecemos: a de poupar".
Em lugar de racionamento, o trio econômico — Simonsen,
Reis Velloso e Ueki — inventou a "simoneta''. No dia 13 de janeiro
de 1977, os três ficaram quase três horas reunidos com Geisel e
depois anunciaram a surpresa: a compra de cupons, na rede
bancária, como depósito prévio para poder comprar gasolina. Só o
cupom, que seria impresso na Casa da Moeda, daria direito ao
abastecimento nos postos. O dinheiro da compra do cupom seria
devolvido em dois anos. Inventava-se um compulsório. Encargos
financeiros em lugar do racionamento.
Quando toneladas de cupons já estavam impressos, o
presidente Geisel convenceu-se de que a burocracia não
compensaria a pequena economia de combustível, e desistiu da
''simoneta''. Como ele havia aprovado a idéia, assumiu
pessoalmente na TV o ônus do anúncio do arrependimento,
isentando seus ministros. Lembro-me de que naquele dia, no
gabinete do presidente, um membro de uma equipe de TV
segurava o microfone ajoelhado diante de Geisel, para não
atrapalhar as câmeras. Um jornal deu em primeira página a foto
de Geisel com um homem ajoelhado diante dele. O presidente
ficou irritado com o simbolismo.
Uma das decisões não revogadas no pacote da "simoneta"
foi dar estímulo maior a um desconhecido programa, a que deram
a sigla de Proálcool.
A Lei das Sociedades Anônimas naquela época estava no
Senado, examinada por uma comissão formada pelos senadores
Franco Montoro, Paulo Guerra e Arnon de Mello, cujo filho,
Fernando, viria a ser nomeado prefeito de Maceió, dois anos mais
tarde, pelo governador Guilherme Palmeira.
Eu continuava cobrindo a economia. No Congresso,
acompanhava a Lei das Sociedades Anônimas; no governo, cobria
o Ministério da Fazenda, o Banco Central, o Banco do Brasil e a
Caixa Econômica. No início de fevereiro, a área econômica seria
protagonista das únicas mudanças civis no ministério de Geisel. O
presidente não gostou do que ouvira dizer que o seu ministro da
Indústria e Comércio, Severo Gomes, teria dito, e defenestrou o
ministro. Para o MIC, nomeou o presidente do Banco do Brasil,
Ângelo Calmon de Sá; para o Banco do Brasil, transferiu o
presidente da Caixa, Karlos Rieschbieter. E para a Caixa, nomeou
seu dileto secretário de Imprensa, Humberto Barreto.
Humberto permaneceu no palácio do Planalto aguardando
que Geisel nomeasse seu substituto. Foi naquela época que
comecei a cobrir a Presidência da República. E conheci o
"professor" Oswaldo Quinsan, braço direito de Humberto.
Quinsan, inteligente e autodidata, sabia tudo sobre o palácio. Já
havia sido enxotado do gabinete presidencial por dar a Geisel
palpites que ele não pedira. Agora, às vésperas de Humberto
assumir a presidência da Caixa, dava-se como certo que Quinsan
seria seu chefe de gabinete.
Aí, Quinsan apareceu no palácio com uma listagem de
computador. Pôs a lista sobre a mesa e, diante de mim e de outros
jornalistas, começou a relacionar cada nome lotado no gabinete da
presidênciada Caixa: "Esta é puta, eu vou demitir; este é ladrão,
eu vou demitir; este é veado, eu vou demitir; este é corrupto, eu
vou demitir", e ia dando os nomes, com um volume de voz que o
corpo só conseguiria acompanhar se ele subisse na mesa. No dia
seguinte, soube-se que Quinsan fora demitido da Caixa antes
mesmo de assumir. Falara demais, dando sentenças antes do
julgamento. Quando Humberto saiu do palácio, Quinsan
aposentou-se.
Para o lugar de Humberto, Geisel nomeou um companheiro
da Artilharia, o coronel José Maria de Toledo Camargo, que
assumiu no dia 2 de março. Foi ele quem introduziu os briefings,
às três e às seis da tarde — reuniões com os repórteres
credenciados para dar e discutir as notícias do dia. E foi ele quem
se interessou em resolver o problema de minha credencial negada,
ainda por causa do episódio POC/PUC, do DOPS gaúcho. E foi o
coronel Camargo quem nos surpreendeu, dias depois de assumir,
trazendo para a sala de briefing ninguém menos que o ministro da
Justiça, Armando Falcão, que nos três anos de governo se
notabilizara por fazer uma declaração: "Nada a declarar".
Era 7 de março de 1977, e no mês anterior o presidente
Geisel havia cassado o mandato de dois vereadores de Porto
Alegre. Naqueles dias, havia uma sensibilidade muito grande no
Congresso, onde havia dificuldades para passar o projeto de
Falcão e Geisel de reforma do Judiciário. O coronel Camargo
recém-havia falado sobre os dois assuntos do momento: a
divulgação de um relatório do governo Carter, denunciando
violação de direitos humanos no Brasil — Camargo classificou de
"episódio sério, que não irá além do que foi'' —; e também sobre a
deterioração das relações entre a Câmara Federal e o palácio do
Planalto — e Camargo disse que Geisel iria receber a mesa da
Câmara e o problema seria resolvido.
Aí, Armando Falcão declarou: "Sobre a questão das
reformas, nada tenho a declarar além do que o coronel Camargo
disse. Os políticos com quem tenho conversado não estão
pessimistas sobre as relações do Legislativo com o Executivo. Os
dois poderes estão funcionando a pleno rendimento, dentro do
princípio constitucional da independência e da harmonia''.
Quatro dias depois, o governo brasileiro, em represália,
denunciava o Acordo Militar com os Estados Unidos, vigente desde
1952, e, 24 dias depois, Geisel baixava o Ato Complementar 102,
pondo o Congresso em recesso e baixando o' 'pacote de abril'', que
incluía a reforma do Judiciário e uma série de mudanças políticas.
Na época, as relações entre Brasil e Estados Unidos
passavam por seu pior momento. No campo econômico, o "Trade
Act" impunha cotas e sobretaxas a produtos brasileiros, como
calçados e manufaturados de aço. Eu cobri um encontro entre o
ministro das Relações Exteriores, Azeredo da Silveira, e o
embaixador dos Estados Unidos, em que "Silveirinha" chegou a
ameaçar John Crimmins com a criação de um ressentimento
antiamericano no Brasil. Um dia depois disso, o palácio do
Planalto irritava ainda mais os Estados Unidos, anunciando a
mensagem de Geisel sobre o Programa Nuclear, com detalhes
sobre o acordo nuclear com a Alemanha Federal. Naquele dia,
chegava a Bonn a missão do subsecretário Warren Cristopher, dos
Estados Unidos, tentando demover os alemães a se associarem
com o Brasil.
Na primeira semana de maio, o presidente recebeu o
governador de Mato Grosso, José Garcia Neto, e anunciou a
criação de um Grupo de Trabalho para examinai a divisão do
Estado. Com a notícia na mão, eu passei pelo gabinete do
secretário particular do presidente, Heitor Ferreira, e ele me
mostrou, no mapa do Brasil, o Estado de Goiás. ' 'Aqui no norte de
Goiás, junto com o sul do Pará e o sul do Maranhão, também vai
sair um novo Estado". O Mato Grosso do Sul passou a existir em
1º. de janeiro de 1979, e o Estado de Tocantins foi criado com a
Constituição de 1989.
No dia 17 de maio, uma terça-feira, foi ao palácio o líder da
Arena na Câmara, deputado "Zezinho" Bonifácio. Ao sair, todos
queríamos saber sobre a possibilidade de haver algum tipo de
diálogo entre o MDB e o governo, já que o recesso de abril saíra
porque o partido fechara questão contra a reforma do Judiciário.
"Zezinho" Bonifácio não quis falar e alegou o seguinte:
''Eu não respondo mais a certas perguntas. Porque vocês
me fazem perguntas idiotas que me forçam a dar respostas
idiotas. Aí, vocês só publicam as minhas respostas, sem as
perguntas de vocês, e eu é que passo por idiota".
As relações entre o MDB e o governo continuaram péssimas
e no mês seguinte eram cassados o deputado Marcos Tito e o
próprio líder do partido na Câmara, Alencar Furtado.
De maio para junho, começava-se a articular a candidatura
do ministro do Exército, general Sylvio Frotta, à sucessão de
Geisel. A articulação tinha por agentes um grupo de deputados
chamados ''frotistas''. Os deputados Sinval Boaventura e Siqueira
Campos (governador de Tocantins doze anos depois) me diziam
que era preciso lançar logo o nome de Frotta, para evitar um
"arrombamento" na abertura "lenta, gradual e segura". O
presidente da Arena, deputado Francelino Pereira, procurava pôr
água na fervura, lembrando que só no segundo semestre de 1978
a convenção do partido escolheria o sucessor. Perguntei ao porta-
voz, coronel Camargo, o que o presidente estava achando de tudo
aquilo. O presidente achava que o momento da sucessão ainda
não havia chegado; que não seria adequado discutir o assunto tão
extemporaneamente.
Em junho, o Congresso votava a emenda constitucional que
instituía o divórcio no Brasil. Geisel recebera um telegrama dos
bispos, mas alegava nada ter com isso. Era uma proposta de um
congressista, Nelson Carneiro, e era uma decisão do Congresso,
que ele acataria.
Primeiro, votaram os senadores. Deu 33 a 23. Depois, os
deputados, e deu 187 a 138. Vitória do divórcio, a torcida festejava
nas galerias o autor da proposta, Nelson Carneiro. O senador
Paulo Brossard votara contra o divórcio, mas quando os fotógrafos
se aproximaram de Nelson Carneiro, Brossard foi cumprimentá-lo.
E, no dia seguinte, nas fotos dos jornais, ' 'faturou" o divórcio,
embora tivesse votado contra.
Naquela noite, eu deixava as galerias da Câmara lembrando
o que o coronel Camargo me dissera à tarde: "Eu não vou fazer
declaração alguma sobre a votação de hoje, mas sei que o
presidente tem uma posição a respeito, que não quer tornar
pública, porque esta é uma questão aberta e ele não quer
influenciar os deputados e senadores da Arena".
Achei curioso que naquela noite, numa época de profunda
divergência entre Geisel e o MDB, tantos opositores tenham
votado com o presidente, a favor do divórcio, e tantos arenistas
tenham se oposto a Geisel, votando contra o divórcio.

A sucessão de Geisel

No final da tarde do dia 14 de junho, eu estava no Oratório


do Soldado, no Setor Militar Urbano, em Brasília, para cobrir a
missa de sétimo dia por dona Alzirinha, que deixara viúvo o
general Orlando Geisel. Dona Alzirinha era de Cachoeira, como eu.
Eu contei 32 generais presentes. Também estavam na missa,
entre outros, os deputados Francelino Pereira, presidente da
Arena, Nelson Marchezan, secretário-geral do partido, Marco
Maciel, presidente da Câmara, e os senadores Petrônio Portela,
Magalhães Pinto, Daniel Krieger e Nelson Carneiro. Também
estavam lá o ministro Armando Falcão e o presidente da Caixa
Econômica, Humberto Barreto. O primeiro a chegar fora o chefe
do SNI, general João Figueiredo.
O general Orlando chegou acompanhado da filha e da irmã
Amália. Dona Amália lecionava no colégio Rio Branco, em
Cachoeira, e era amiga de minha mãe. Eu deveria ter uns doze ou
treze anos quando ouvi as duas conversando na estação
rodoviária de Candelária, onde os ônibus que nos levavam de
Estrela a Cachoeira faziam uma parada para o lanche. Minha mãe
perguntou pelos irmãos dela e dona Amália contou que estavam
penando, meio no ostracismo, por causa do governo Vargas.
Muitos anos depois, a situação era diferente. Quando um
emissário do Alto Comando do Exército foi a Porto Alegre
comunicar ao comandante do III Exército, general Emílio
Garrastazu Mediei, que ele fora escolhido para suceder à Junta
Militar, o general teria argumentado: "Mas por que eu? Por que
não um dos irmãos Geisel?"
O presidente Geisel chegou dois minutos antes da hora
mar-_ cada para iniciar a missa, acompanhado de dona Lucy.
Atrás dele vinha o ministro Golbery. Naquela igreja, naquele
momento, pelo menos quatro pessoas já sabiam que Figueiredo
seria o sucessor: Geisel, Golbery, Petrônio e Humberto. Desde a
preparação do governo Geisel, o presidente e seu grupo haviam
pensado no futuro. A abertura só seria concluída pelo sucessor de
Geisel. Geisel entregaria o governo sem o AI-5, que era o
instrumento do arbítrio, e o sucessor faria o resto. Mas Geisel já
havia sido atropelado uma vez, quando era chefe do Gabinete
Militar de Castello Branco, e vira o ministro do Exército, general
Costa e Silva, fazer-se presidente. Agora, para prevenir o
atropelamento, seria preciso ter um candidato à sucessão desde o
início. E o indicado, desde o final de 1973, era o general-de-divisão
João Figueiredo, que tinha sido chefe do Gabinete Militar de
Mediei.
O ministro do Exército, general Sylvio Frotta, não estava na
missa, embora lá estivessem o almirante Henning, ministro da
Marinha, e o brigadeiro Araripe Macedo, ministro da Aeronáutica.
O general Frotta já estava evitando encontros diretos com o
presidente. Quando ia ao palácio, subia ao quarto andar — o
gabinete presidencial é no terceiro — e entregava ao chefe do
Gabinete Militar, general Hugo Abreu, os documentos que
precisavam da assinatura do presidente. Ele e Geisel pelo menos
já haviam tido duas divergências.
A primeira fora em outubro de 1975, quando Frotta queria
punir o senador Leite Chaves por críticas ao Exército no plenário
do Senado. As críticas se referiam à morte do jornalista Vladimir
Herzog no DOI-CODI paulista. Frotta dirigiu-se diretamente ao
ministro da Justiça, Armando Falcão, pedindo providências
punitivas contra o senador, sem consultar Geisel. Mas o ministro
consultou. Geisel chamou Frotta e pediu que se acalmasse, que
ele não puniria Leite Chaves para não exacerbar ainda mais um
quadro difícil.
A segunda divergência conhecida ocorreu na promoção a
general do coronel Moraes Rego, assessor especial de Geisel. O
ministro Frotta apareceu no palácio com ato nomeando Moraes
Rego comandante em Dourados, Mato Grosso. E Geisel informou o
ministro que Moraes Rego iria comandar a Brigada de Infantaria
Motorizada em Campinas, São Paulo.
Entre os presentes naquela missa, havia outra pessoa
pensando na sucessão: o senador Magalhães Pinto, que já
procurava articular-se como candidato. O ex-ministro Severo
Gomes trabalhava abertamente pela candidatura do general Euler
Bentes Monteiro — e revelava assim talvez a razão principal de
sua demissão —, mas o senador Magalhães Pinto sonhava que
Euler poderia ser seu vice.
Entre os presentes, havia também gente preocupada com
os "frotistas". Na Câmara, os deputados Marcelo Linhares e
Eduardo Galil estavam muito ativos na pregação da candidatura
Frotta. No Exército, o secretário-geral, general Enio Pinheiro,
passava simpaticamente a alguns jornalistas informações de
campanha de Sylvio Frotta para presidente. No palácio, o general
Hugo Abreu e seu assistente, coronel Kurt Pessek, tratavam de
mostrar a jornalistas, como eu, que Figueiredo seria a última
escolha de Geisel. Humberto Barreto era um dos preocupados.
Achava que só a revelação da escolha de Figueiredo poderia
atropelar os que tentavam atropelar os planos sucessórios de
Geisel, e que se estava perdendo tempo.
Naquela missa, eu estava entre os que sabiam muito pouco
da sucessão. Nem me passava pela cabeça crer que Figueiredo
seria o ungido de Geisel. Mas sentia já os movimentos dos
"figueiredistas" e dos "frotistas". Nas circunstâncias da época, o
assunto ainda era tabu, e nem se cogitava fazer uma reportagem
sobre uma disputa entre generais.
Foi a Isto É que quebrou o tabu, com uma reportagem de
Villasboas Correia, que saiu uma semana depois daquela missa. A
matéria contava a disputa toda entre os "figueiredistas" e
"frotistas" e dava os nomes dos personagens. Dias depois,
Figueiredo voltou a assistir a uma missa no Oratório do Soldado.
O general chefe do SNI se escondia atrás dos óculos ray-ban e não
tinha a menor experiência com os repórteres. E foi abordado por
dois. No final de perguntas e respostas truncadas, eles
arrancaram do general algumas palavras em que ele acabava por
admitir a hipótese de ser candidato à Presidência.
O coronel Kurt Pessek me chamou ao gabinete militar no
dia em que 0 Globo e o Jornal de Brasília publicaram as
declarações de Figueiredo. E me disse que era apenas uma
manobra de "certa gente''. A "certa gente'', eu tinha certeza, eram
Golbery e Heitor Ferreira. E, com o Almanaque do Exército na
mão, provou-me que Figueiredo não teria a quarta estrela e que,
portanto, não poderia suceder a Geisel.
O MDB começava, na época, a campanha pela Constituinte.
O senador Eurico Rezende esteve com Geisel e depois falei com
ele. Foi quando percebi que o chamado processo revolucionário já
tinha um balizamento para acabar. "O presidente não morre de
amores pelo AI-5", revelou o senador. "Ele me disse que ficará
muito satisfeito no dia em que puder extinguir o AI-5 e com isso
esgotar o processo revolucionário."
No dia 28 de junho, quando foi promulgada a emenda do
divórcio, o senador Paulo Brossard me explicou que não assinaria
a emenda. "Minha assinatura numa emenda constitucional
contribuiria para legitimar este monstrengo. Não assino nenhuma
emenda, a não ser a que extingue o artigo que preserva o AI-5.''
A estratégia de Geisel, no entanto, esperava ter a garantia
do sucessor antes de extinguir o Ato Institucional n? 5. Enquanto
isso, usava-o para cassar o líder do MDB, Alencar Furtado, mas
despachava a Missão Portela para explicar que o prêmio do bom
entendimento seria a extinção do AI-5.
Em julho, Humberto Barreto, presidente da Caixa
Econômica, não se conteve e deu uma entrevista revelando sua
preferência por João Figueiredo para a Presidência da República.
Seria recado de Geisel? No dia em que saiu a entrevista, o
presidente recebeu vários políticos, entre eles Gióia Jr., Alípio de
Carvalho, Lomanto Jr., Nina Ribeiro e Ricardo Fiúza. Para todos
disse a mesma coisa: "A sucessão só será definida a partir de
janeiro de 1978, mas ninguém pode impedir que se discuta ou se
especule sobre o assunto". Geisel se preservava, mas liberava as
forças sucessórias. A partir de então, começava a campanha
eleitoral, restrita ao Colégio Eleitoral. Na Arena, dividiam-se as
alas de Figueiredo e de Frotta, com Magalhães Pinto praticamente
correndo por fora. No MDB, o general Euler ainda era apenas uma
idéia, e havia até gente imaginando que Frotta pudesse ser a
solução.
A entrevista de Humberto foi uma espécie de sinal para
Heitor Ferreira começar a distribuir biografias de Figueiredo para
seus amigos nas redações dos jornais. Nós, que cobríamos o
palácio, ficávamos enciumados por estarmos sendo preteridos na
"linha direta'' de Heitor. O general Hugo Abreu deve ter sentido
isso e nos chamava cada vez mais para conversar e nos convencer
de que Figueiredo não seria a solução.
A aproximação dos repórteres com o chefe do Gabinete
Militar coincidiu com uma greve na Universidade de Brasília. Para
não desgastar o chefe do SNI, seu candidato, Geisel entregou a
administração da crise ao general Hugo Abreu. Lembro-me de que
nos chamavam para nos entregar papéis sem qualquer
identificação de origem, mas contendo recomendações para os
jornais: que pontos destacar sobre a greve, o que não publicar,
além de resumos dos acontecimentos do dia, sob o ponto de vista
do Gabinete Militar. Parecia que se havia voltado no tempo. No
Gabinete Militar, no quarto andar, sobrevivia um outro tipo de
governo, ainda nas trevas da censura. No terceiro andar,
respirava-se a abertura, que viria com Figueiredo. A greve na UnB
dera a Geisel — ou Golbery — a oportunidade de desgastar o
general Hugo Abreu.
Dia 12 de outubro. Dia de Nossa Senhora Aparecida, é festa
da padroeira e feriado em Brasília. Eu estava em casa, no Setor
Mansões do Lago, de calção, mexendo no jardim, quando tocou o
telefone, lá pelas dez da manhã. Era o chefe da sucursal do JB,
Walder de Góes. "Venha para cá. O Geisel demitiu o Frotta.''
Geisel removia o principal obstáculo à sua sucessão e, ao
mesmo tempo, tirava o Exército da mais importante decisão
política. A "abertura" dava um enorme passo.
Quando cheguei, a redação estava em polvorosa. Um
repórter, recém-chegado de São Paulo, trazia da rua informações
alarmantes. Segundo ele, o Exército se preparava para tomar o
palácio e derrubar Geisel, mas Geisel já tinha tanques protegendo
o palácio. Aquilo me cheirava a "cascata". Antes de ir para o JB, eu
tivera o cuidado de passar de carro pela praça dos Três Poderes
para "olfatear" o ambiente. E não vira tanques. Perguntei ao afoito
repórter se ele os vira.
— Eu não vi, mas devem estar no subsolo, porque lá em
cima, na calçada, estão os soldados que pilotam os tanques. Eu
sei porque eles estavam com aqueles ferrinhos no calcanhar das
botas.
Eu rio até hoje, cada vez que vejo nos jornais alguma
matéria dele. O moçoilo nunca tinha visto espora na vida.
Naturalmente, os soldados que ele vira, reforçando a guarda, eram
do Regimento de Cavalaria de Guardas, que faz a guarda do
palácio, com o Batalhão da Guarda Presidencial.
Quando ele fez o relato fantástico, me fez lembrar um
episódio semelhante, também envolvendo o presidente Geisel. Eu
estava no JB em Porto Alegre, quando alguns jornais noticiaram
uma visita secreta de Geisel a seu sogro, o "coronel" Markus, em
Estrela. Eu liguei para a sobrinha de Geisel, dona Ruth, e tudo
ficou esclarecido. Quem estivera em Estrela fora Amália Lucy. E
viajara os 100 quilômetros de Porto Alegre a Estrela num Opala
preto, emprestado pelo governador Guazelli. O que alguns
jornalistas viram foi um Opala preto estacionado diante da casa
do "coronel" Markus. Em vez de noticiarem a presença do carro,
noticiaram a presença de Geisel.
Naquele dia 12 de outubro era preciso ter cuidado. Havia
muito boato na praça. Uma das primeiras informações concretas a
chegar fora a nota de Sylvio Frotta se despedindo. Frotta havia
deixado pronto um pronunciamento que iria fazer dois dias
depois, em Sobral, no Ceará, quando os "frotistas" esperavam
desencadear apoios nas Forças Armadas. Agora, ele tomava a
forma de despedida e o texto estava tão à direita, tão
anticomunista e tão radical que Geisel aprovou a divulgação do
pronunciamento como peça anti-Frotta.
Eu viria a saber mais tarde que Geisel planejara tudo.
Tinha recebido do SNI um relatório afirmando que Frotta esperava
contar com os generais do Alto Comando e que, depois do
pronunciamento preparado para Sobral, convocaria todos os
generais de quatro estrelas para uma espécie de solidariedade a
ele. Com isso, seria candidato ungido pelo Alto Comando e Geisel
teria que engolir Frotta como sucessor, tal como Castello teve que
se conformar com Costa e Silva.
Mas Geisel pretendia expelir antes o ministro do Exército. O
feriado do dia 12 caía no meio da semana, uma quarta-feira. Ele
pediu aos presidentes da Câmara e do Senado, Marco Maciel e
Petrônio Portela, que dessem um feriadão ao Legislativo. O
esquema militar de Geisel foi eficientíssimo. A fim de evitar
qualquer tentativa contra o palácio, ele reforçou a guarda e tomou
precauções contra os oficiais mais ligados a Frotta. E pela manhã,
cedinho, mandou chamar o ministro.
O presidente foi direto ao assunto. Disse ao ministro que os
dois já não se entendiam, e que precisava substituí-lo. E solicitou
que Frotta pedisse exoneração.
— Exoneração eu não peço. Se o senhor quiser, me demita.
— E o que eu vou fazer agora — encerrou o presidente.
Frotta se retirou, surpreso e abatido. Ainda recebeu seus
generais mais fiéis e até algumas sugestões para resistir. Os
generais de quatro estrelas, no entanto, haviam sido chamados
por Geisel, que mandava buscá-los no aeroporto.
Fui para o palácio, onde o general Hugo Abreu anunciou a
demissão do ministro. O general fez questão de ressalvar que ela
nada tinha a ver com a sucessão. Que eram apenas
desentendimentos entre o ministro e o presidente. Mais tarde eu
soube que a ressalva fora arrancada de Geisel pelo general Hugo
Abreu. E Hugo Abreu acabou se convencendo de que a demissão
não estava ligada à sucessão. Mas estava.
Às quatro da tarde o presidente deu posse ao novo ministro,
general Fernando Belfort Bethlem, que até aquele dia era
comandante do III Exército, sediado em Porto Alegre. Eu estava no
gabinete do presidente. Bethlem estava de terno. Ele estava no
Rio, ao ser chamado, e o uniforme ainda não havia chegado de
Porto Alegre. Geisel aparentava nervosismo, e fez um discurso
rápido:
"Como já se tornou público, eu exonerei o Excelentíssimo
senhor general Sylvio Frotta e convidei o general Bethlem para o
Ministério do Exército. Desejo que ele cumpra a sua missão,
mantendo a união do Exército, trabalhando pela eficiência dessa
arma que, junto com a Marinha e a Aeronáutica, tem se
incumbido de zelar pela nossa autonomia no mundo".
O general Bethlem respondeu dizendo que fora tomado de
"total surpresa" e que iria colocar no novo cargo "meus quase
cinqüenta anos de experiência. Vou precisar do total apoio de
Vossa Excelência, dos senhores ministros, de meus camaradas do
Exército, da Marinha e da Aeronáutica".
A cerimônia foi rápida e depois formaram uma rodinha de
conversa Geisel, o vice Adalberto Pereira dos Santos e os ministros
Armando Falcão e Alysson Paulinelli. Às I6hl0, chegou Figueiredo,
quando já todos estavam conversando sobre o dia histórico que
havia começado às oito da manhã e terminado às quatro da tarde.
Para cumprimentar Bethlem, Figueiredo interrompeu uma
conversa entre Geisel, Petrônio, Marco Maciel, o presidente do
Supremo, Antônio Neder, e o novo ministro. O general Argus Lima,
do IV Exército, com seu basto bigode, conversava com o general
Hugo Abreu num canto. Antônio Neder, Marco Maciel e Petrônio
saíram às I6hl5. Depois, deixaram o gabinete presidencial os
generais Dilermando Gomes Monteiro, Vinícius Notare, do
Departamento de Engenharia, Moacir Potiguara, chefe do EMFA,
Calderari, do Material Bélico, Argus Lima e o general Bethlem.
Todos seguiram o general Hugo Abreu, rumo ao quarto andar.
Iriam fazer uma avaliação final na situação. Os ministros Ney
Braga, Arnaldo Prieto, Reis Velloso, Quandt de Oliveira, Azeredo
da Silveira e Almeida Machado, mais o brigadeiro Araripe Macedo
e o almirante Henning, deixaram o palácio em seguida.
No dia seguinte, Geisel recebeu as credenciais do novo
embaixador francês. Conversou com ele em espanhol. Quando o
embaixador saiu, Geisel ficou ouvindo a Marselhesa, executada
pela Banda do Batalhão da Guarda Presidencial.
Foi um perfeito fundo musical para a revolução que Geisel
havia feito. Ele acabara de tirar o Alto Comando das decisões
políticas e abria caminho para a sucessão de Figueiredo. O plano
já incluía um civil depois de Figueiredo, segundo me disse o
general Golbery. Geisel, naquele dia, ainda recebeu os generais
Ariel Pacca e Fritz Azevedo Manso, e depois se retirou para o
Riacho Fundo. A noite, assistiu a O Espião que me Amava, com
Roger Moore. A partir daquele dia, no quarto andar, o general
Hugo Abreu, que aparentava amar Geisel, recrudescia sua
"espionagem" para impedir a candidatura Figueiredo.
O general Hugo e seu fiel assistente coronel Pessek me
chamavam, como a outros jornalistas, com freqüência cada vez
maior, para nos apresentar argumentos de que Figueiredo jamais
seria escolhido por Geisel. Eu fui um dos que acreditavam que
Geisel não escolheria Figueiredo. E tinha uma razão pessoal:
imaginava que Geisel iria querer um sucessor à sua imagem e
semelhança
— e Figueiredo não era nada disso.
Geisel repetia aos políticos que iam procurá-lo que a
solução para a sucessão só viria em 1978. Ele anunciaria o
indicado no início do ano e ele sairia em campanha para obter o
voto dos convencionais da Arena. Aprovado em convenção da
Arena, ele sairia em campanha pelo voto do Colégio Eleitoral, que
se reuniria em 15 de outubro, cinco meses antes da posse. A
agenda era essa, mas os jornais e revistas, abastecidos por Heitor
Ferreira
— que queria anular os esforços de Hugo Abreu —, não
paravam de especular sobre o nome de Figueiredo.
No final de novembro de 1977, eu e um colega do Estadão
demos de cara com Figueiredo no quarto andar do palácio. Ele
estava carrancudo e de óculos escuros, como sempre. Respondeu
ao nosso cumprimento com um grunhido, mas quando
perguntamos sobre sucessão presidencial, ele parou. Parecia ter
preparado uma resposta.
''Eu leio nos jornais que a sucessão vai ser decidida em
1978. Aí, consulto minha folhinha e vejo que não estamos em
1978, mas em novembro de 1977. Aí, leio de novo o que vocês
estão escrevendo, e percebo que se baseiam em 'conversas de
jantares íntimos'. Como eu não ouço conversas íntimas, nem
pesquiso atividades não oficiais'', alegou o chefe do SNI, "não
posso nem confirmar nem desmentir o que leio."
Foi a primeira vez em que senti um cheiro de candidato em
Figueiredo, com aquela história de "não posso confirmar nem
desmentir''.
No dia 24 de novembro, eu estava chegando ao
estacionamento do palácio do Planalto para buscar a lista de
promoções de generais, quando encontrei o presidente da
Eletrobrás, Antônio Carlos Magalhães, que procurava o carro dele.
Perguntei se sabia alguma coisa da sucessão. Ele me respondeu
que a represa de Sobradinho, no rio São Francisco, iria formar o
maior lago artificial do mundo. Depois, piscou um olho, e pôs a
mão no meu ombro, se despedindo:
— Vai dar Figueiredo.
Eu não acreditei, porque Figueiredo não fora promovido.
Novembro terminou com um lugar-comum: o coronel
Camargo desmentindo especulações sobre a sucessão, dizendo
que Geisel se ocuparia dela em janeiro, e o general Hugo Abreu
garantindo que o sucessor não seria Figueiredo.
No primeiro dia de dezembro, Geisel recebeu todos os
notáveis da Arena e avisou que seu último ano de governo, 1978,
seria o ano da escolha do seu sucessor e dos governadores, e que
tudo seria feito de comum acordo com o partido e — o mais
importante — seriam abolidos os atos de exceção assim que a
Constituição abrigasse salvaguardas institucionais. O senador
Teotônio Villela, que estava naquela reunião, me disse:
''Dentro da linha democrática do presidente, o que ele disse
hoje é a reafirmação de sua determinação pela democratização.
Tenho que exultar por isso, quando, de forma explícita, ele
comunica à nação a necessidade de substituir o arbítrio e a
exceção. E isso me cala fundo, pois, até o final de seu governo, ele
nos daria uma nova carta e democracia".
Antônio Carlos Magalhães, que estava ao lado, completou:
"Os instrumentos de salvaguardas, que serão incorporados à
Constituição, vão criar instrumentos para impedir que o país volte
aos tempos passados".
No final da tarde, 132 arenistas foram levar ao presidente
os cumprimentos de Natal. Na verdade, eram cumprimentos pelo
início formal da volta à democracia. Geisel estava no Salão Leste,
escoltado por Hugo Abreu, Golbery e Armando Falcão. Ao lado
deles, ainda, o senador Petrônio Portela e o deputado Marco
Maciel, presidentes do Senado e da Câmara. Apresentavam os
arenistas o presidente do "maior partido do Ocidente", deputado
Francelino Pereira e os líderes senador Eurico Rezende e deputado
"Zezinho" Bonifácio. A euforia do senador Teotônio Villela
contaminava a Arena inteira.
Ao senador Magalhães Pinto, candidatíssimo e em
campanha, perguntei sobre a sucessão. Ele fingiu estar afinado
com o cronograma de Geisel:
"Não é o momento de se falar em sucessão".
Três dias antes do Natal, Geisel teve seu almoço anual com
os oficiais generais das três forças, no Clube Naval. Contei 116
generais, almirantes e brigadeiros. O general-de-divisão João
Figueiredo estava na mesa principal, com o presidente e os
quatro-estrelas. Ele e Hugo Abreu eram os únicos três-estrelas
naquela mesa. Estavam ali na condição de ministros. Mas, na
verdade, era a ceia da unção, porque os oficiais generais mais bem
informados já sabiam da escolha de Geisel, e a apoiavam ou, no
mínimo, a acatavam sem restrição. O tecladista João Peixoto
Primo tocava, no órgão, "Aquarela do Brasil".
A noite, o presidente estava descontraído. Convidou para
jantar com ele seus auxiliares mais próximos: o assessor especial,
coronel Wilberto Lima, o chefe do cerimonial, Jorge Ribeiro, o
secretário de Imprensa, coronel Camargo, o secretário particular,
Heitor Ferreira, e o chefe do Serviço Médico, Américo Mourão.
No dia 26, o presidente promulgou a emenda constitucional
do divórcio. No dia seguinte, foi aniversário do general Hugo
Abreu, que fazia sessenta anos, e ele passou o dia no Rio. Quando
voltou, no dia 29, foi homenageado no gabinete do presidente.
Junto com Geisel, lá estavam o ministro do Planejamento,
Reis Velloso, Figueiredo e Golbery, que fez um curto discurso
sobre as virtudes do aniversariante e lhe deu um quadro de um
artista chamado Lourenço. O quadro tinha quatro bolas
brilhantes, parecidas com estrelas. No gabinete militar, a
homenagem foi interpretada como um sinal de promoção que, às
vésperas da sucessão, incluía Hugo Abreu no rol dos
presidenciáveis.
Mas. naquele mesmo dia, Geisel iria chamar Figueiredo
para uma conversa, na Granja do Riacho Fundo, 10 quilômetros
ao sul de Brasília, onde o presidente passava os fins de semana e
o verão. O próprio Figueiredo, anos depois, me contou como foi:
'' O presidente Geisel me chamou para dizer que tinha se
fixado no meu nome. Aí eu disse pra ele que eu não seria tão
cretino a ponto de responder que estava sendo surpreendido.
Porque há meses os jornais vinham falando no meu nome. E que,
portanto, eu estava preparado para, um dia, ter que responder
àquele convite. Então, já que ele estava dizendo aquilo, eu
perguntei se era uma ordem ou se era um convite. Ele respondeu:
'Não, estou lhe consultando' . Então, não. Então não quero. 'Mas
por que não quer?' Porque eu me conheço. E o senhor não me
conhece bem. O senhor serve comigo, mas nós nunca tivemos um
contato tão íntimo a ponto de o senhor dizer que possa me
conhecer bem. Eu me conheço e sei que não sirvo pra isso. Meu
temperamento — e o senhor consulte meus colegas no Exército e
eles vão todos coincidir comigo — é de que eu não sirvo pra isso.
Depois, eu não quero, tá?"
Figueiredo me contou que Geisel insistiu e então ele,
Figueiredo, pediu que Geisel pensasse por mais 24 horas. E
concluiu:
"No dia seguinte, ele voltou pra mim e disse: 'E, não tem
jeito. Vai ser você mesmo' ".
Naquela quinta-feira, 29 de dezembro, enquanto Geisel
conversava com Figueiredo na Riacho Fundo, eu conversava com o
general Hugo Abreu, no Gabinete Militar. O general estava
eufórico com o simbolismo do quadro das quatro bolas estelares.
Convencido dos argumentos de Hugo Abreu, eu fui para a redação
e escrevi uma matéria sobre a sucessão, para ser assinada, que
começava com o seguinte lead:

BRASÍLIA — O presidente Ernesto Geisel não devera


escolher como seu sucessor o general-de-divisão João Baptista
Figueiredo, e é provável que não anuncie o nome do candidato em
janeiro. A conclusão está fundamentada no temperamento e no
caráter do único eleitor do futuro presidente — o próprio general
Geisel —, cuja coerência toma previsíveis suas ações.

No corpo da matéria eu enumerava oito razões para explicar


o lead:
1) se Geisel disse que só trataria da sucessão em janeiro é
porque é verdade. E o longo trabalho não ficará pronto em janeiro;
2) ele jamais deixaria que pensassem ter afastado Frotta
para beneficiar Figueiredo;
3) seria prejudicial ter um candidato com a conotação de
candidatura palaciana;
4) ao escolher, ficará responsável pelos próximos seis anos,
então buscaria alguém à sua imagem e semelhança;
5) para gerir o processo de abertura, precisaria de um
general que não estivesse há mais de dez anos afastado da tropa;
6) a quarta estrela é importante para os militares, e
Figueiredo não a tem;
7) Geisel tem se irritado com as especulações envolvendo
Figueiredo; e
8) nenhum general, de uma extensa lista, tem, ainda,
maiores ou menores chances.
Meu chefe, Walder de Góes, leu a matéria e, em vez de
mandá-la para o telex, me chamou. Disse que era melhor não
publicar. Graças a isso, eu me livrei do vexame de dar uma
''barriga" descomunal. Em compensação, o general Hugo Abreu
acabou vítima daquela teoria. Na segunda-feira, 2 de janeiro, ele
entregou ao presidente um documento dizendo mais ou menos o
mesmo que me havia dito, mais uma relação de oito nomes
"presidenciáveis" — tendo o cuidado de omitir seu próprio nome e
de incluir Figueiredo no último lugar.
Como Geisel apenas recebera o documento, sem fazer
observação alguma, Hugo Abreu ficou satisfeito. Mas, no dia
seguinte, foi chamado ao palácio da Alvorada. Encontrou Geisel
com o documento na mão e informando-o que já havia escolhido
Figueiredo. Geisel também perguntava a Hugo Abreu se
confirmava críticas contidas no documento. Abreu não apenas as
confirmou como nominou os criticados: Golbery, Heitor e
Humberto Barreto. Geisel levantou a voz para defender seus
auxiliares mais próximos e Hugo Abreu então pediu demissão. Já
não havia barreiras para o anúncio oficial do nome de Figueiredo.

Aureliano: um soco na mesa

No dia seguinte, Geisel convocava a Arena e anunciava


oficialmente o nome de Figueiredo, com Aureliano para vice.
Figueiredo contou-me, anos mais tarde, que fora ele, Figueiredo,
quem indicara Aureliano como vice. Segundo Figueiredo, Geisel
apenas perguntou quem comunicaria ao futuro vice. ''Já que o
senhor me perguntou, o senhor comunica pra ele", contou
Figueiredo ter respondido.
No sábado daquela semana, Figueiredo foi padrinho de
casamento de um funcionário do SNI à disposição da residência
do Torto, Rossino Caldas de Albuquerque. O casamento era na
igreja Dom Bosco e depois seria servido um coquetel no subsolo
da igreja. Na hora do coquetel, surgiu um índio, de gravador,
chamado Juruna, que não largava Figueiredo. O ajudante-de-
ordens de Figueiredo era o capitão Juarez Marcon, meu colega de
científico na Escola João Neves da Fontoura, de Cachoeira do Sul.
Juarez me fez um sinal:
— Você quer aproveitar para conversar com o general? Aí
ele se livra do Juruna.
Topei, e ele me apresentou:
— General, este é o Alexandre, meu colega de científico,
meu amigo. Ele quer conhecer o senhor.
Eu ainda estava com a consciência pesada por não ter
acreditado que Figueiredo seria o escolhido. E principalmente
muito incomodado pela "barriga'' que poderia ter dado, se Walder
de Góes não tivesse impedido. E aí abri o jogo:
— General, eu jamais acreditei que o senhor pudesse ser o
escolhido. Tinha certeza de que Geisel jamais escolheria alguém
tão diferente dele. Cheguei a perder um litro de uísque jogando
contra o senhor.
Figueiredo pareceu ter gostado da minha franqueza:
— Pois se você tinha certeza de que um homem como
Geisel jamais escolheria um homem como eu, imagine eu, que
conheço a mim e a ele. Eu perdi uma caixa de uísque.
Anos mais tarde, Heitor Ferreira me disse que Figueiredo
estava apenas fingindo. Que ele sabia há muito tempo que era o
escolhido. Figueiredo era muito bom em contra-informação. Dois
anos depois da história da caixa de uísque perdida, ele me disse,
num canto do terceiro andar do palácio do Planalto:
— Eu vou me suicidar.
— Mas por quê, presidente? — perguntei, assustado.
— Porque eu não posso fumar, não posso mais montar e
não posso mais trepar.
Os problemas no coração e na coluna já haviam banido o
fumo e os cavalos. Eu quis ir adiante na conversa:
— Mas namorar não dá, presidente?
— De que jeito? Com essa cara de jabuti atolado, todo
mundo me reconhecendo, e com esses gorilas do Periassu (chefe
da Segurança), sempre atrás de mim, como é que eu vou fazer?
Desde então, sempre que alguém me contava algum
mexerico sobre Figueiredo, eu contra-argumentava contando a
história do suicídio.
Quando Aureliano Chaves veio a Geisel para um encontro
formal, como Vice-Presidente indicado, os jornais daquele dia
davam uma declaração do senador Magalhães Pinto. O senador,
candidato a disputar com Figueiredo a convenção da Arena,
sonhava com o apoio do governador de Minas, Aureliano. E
declarara que, se Aureliano aceitasse a indicação, estaria traindo
os ideais de Minas.
Depois de conversar com Geisel, Aureliano foi trazido pelo
coronel Camargo para a sala de briefing, para uma entrevista com
ns jornalistas credenciados no palácio.
Era uma mesa retangular, comprida, e Aureliano estava
sentado no centro. E eu, na frente dele. O coronel Camargo
anunciou que Aureliano aceitara a indicação e abriu para
perguntas.
Fui eu o primeiro:
— Governador, o senador Magalhães Pinto disse que, se o
senhor aceitasse a Vice-Presidência, estaria traindo os ideais
mineiros. Como o senhor se sente diante disso?
Aureliano ficou vermelho e deu um soco na mesa. Apontou
o indicador no meu nariz e gritou:
— Como é o seu nome? Como é o seu nome?
— Alexandre Garcia, mas não vem ao caso...
— Então repita o que você disse, se você é homem! Repita o
que disse! Eu não admito que ninguém me chame de traidor!
O coronel Camargo se revirava na cadeira, olhando para
mim, e eu tentava explicar que a acusação não era minha:
— Mas não sou eu quem está fazendo acusação ao senhor.
E o senador Magalhães Pinto...
Aureliano não se acalmou:
— Pois então traga ele aqui, que eu quero ver se ele é
homem bastante para repetir isso na minha frente.
A entrevista acabou ali. Aureliano mostrava que tinha
estopim tão curto quanto Figueiredo. Anos mais tarde, os estopins
os separaram.

México

Em meados de janeiro, fui para o México cobrir a visita do


presidente Geisel. Cheguei um dia antes e me meti no museu de
Antropologia. A viagem marcava a estréia de um auxiliar do
coronel Camargo, o primeiro-secretário Carlos Atila Alvares da
Silva. Na comitiva, para tentar vender aviões, o presidente da
Embraer, Ozires Silva, que eu havia conhecido em 1974, em Porto
Alegre. Quando o conheci, ele me contou as dificuldades iniciais
com a compra de licenças de fabricação. Agora, estava exultante
com o sucesso do Bandeirante.
Eu estava no saguão do hotel El Presidente Chapultepec —
onde se hospedava Geisel — conversando com o chefe do
Cerimonial, Jorge Ribeiro, Heitor Ferreira e o médico Américo
Mourão, quando chegou uma limusine com a bandeira da
Presidência do México, precedida de batedores. Era o próprio
presidente López Portillo, chegando de surpresa. Jorge
empalideceu. "Ninguém nos avisou nada", e correu para o telefone,
para prevenir Geisel. Mas López Portillo passou olimpicamente por
nós e entrou no salão de convenções.
Viera por outro motivo, não por Geisel.
Mais tarde, no palácio presidencial o presidente López
Portillo demonstrava extrema informalidade e lembro-me de que,
depois de mostrar a Geisel os painéis de Diego Rivera, sentaram-
se e ele pôs a mão sobre o joelho de Geisel. Quando Geisel decolou
de volta ao Brasil, enquanto uma orquestra de mariachis tocava
''Las Golondrinas'', ouvi Portillo comentar com a mulher dele,
dona Carmen: "Como ele é sério. Será que estava preocupado com
alguma coisa?"
A língua espanhola proporcionou os momentos mais
pitorescos da viagem. Numa churrascaria, eu pedi uma parrilada
com sotaque portenho — de Buenos Aires —, pronunciando o "ll"
como "j". O garçom quase me jogou a carne na cara. Perguntei a
um jornalista mexicano o porquê daquela má vontade. Ele me
respondeu que o garçom na certa pensava que estava servindo um
argentino.
William Anoni, da Rádio Nacional, e eu saíamos atrasados
para um rodeio em homenagem a Geisel, e tomamos um táxi.
William ordenou:
— Baje el caciete!
O motorista até hoje está tentando descobrir o que ele tinha
que baixar.
No elevador do majestoso hotel El Presidente Chapultepec,
um segurança brasileiro tentava conversar com uma mexicana.
Ela não estava entendendo nada, e perguntou:
— Habla usted el Espanol?
— Un pueco — respondeu o segurança.
Eu fui à Varig reservar a volta, junto com meu companheiro
José Quintiliano da Fonseca Filho. Fonseca queria passar por
Manaus, para fazer compras, e perguntava à atendente:
— Hay algun vuelo que pase por Manales?
Ela procurou Manales no livro de rotas e não encontrou.
Nem Manales entrou no mapa até hoje.
O mesmo Fonseca estava escrevendo seu material, na sala
de imprensa do hotel, num final de tarde de um dos dias mais
movimentados da visita de Geisel, quando alguém bateu em seu
ombro. Fonseca manteve-se concentrado na máquina de escrever,
porque tinha que seguir os horários de fechamento de seu jornal,
o Estadão. A mão no ombro insistia, até que Fonseca explodiu:
— Porra! Não vê que eu estou escrevendo?
Quando olhou para ver quem era, encontrou o presidente
Geisel, que trazia no rosto mais surpresa que o desconcertado
Fonseca.

0 guru do palácio

Figueiredo só deixaria o palácio depois que a Arena o


homologasse como candidato, na convenção marcada para abril.
Eu i fiquei no Planalto, cobrindo Geisel e Figueiredo. Certa vez, fiz
uma matéria sobre a segurança de Geisel e contei que, por
praticar ioga, o chefe da Segurança, tenente-coronel Arnold
Pedrozo, era apelidado de "guru" entre seus subordinados. O
coronel Pedrozo não gostou, e mandou me chamar em sua sala.
Entrei e ele me olhou com raiva, mandando-me sentar. Então,
tirou da cintura um Colt .45 e o jogou em cima da mesa, fazendo ,
estrondo equivalente aos seus 1,2 kg.
— Ninguém ri da minha cara. Você quer me fazer de bobo,
com essa história de guru.
— Mas guru não é ofensivo, é até um apelido carinhoso, de
conselheiro, de líder — argumentei.
— Agora esses caras estão lendo o Jornal do Brasil e rindo
de mim. Você tá vendo aquele buraco ali? — e me mostrou um
orifício de bala num canto da janela. — Aqui as armas às vezes
disparam.
Como ele não tinha mais nada a dizer, nem eu, retirei-me.
Quando passei por membros da Segurança, senti que disfarçavam
o riso. A história dó apelido, que eles me contaram, era para
deixar mesmo o coronel Pedrozo furioso. Desconfiei que tinha um
significado só conhecido no fechado Serviço de Segurança.
No corredor, encontrei-me com João Madeira, adjunto do
coronel Camargo. Madeira é hoje o mecenas da Shell para as artes
do Rio de Janeiro. Quando contei o incidente, Madeira riu e
contou-me que Pedrozo já havia brigado com o próprio Humberto
Barreto, numa viagem à Paraíba. Humberto estava botando para
dentro de uma solenidade uma equipe da TV Globo que não tinha
credencial, e Pedrozo barrou a equipe. Humberto insistiu:
— Eles estão comigo.
— Não interessa — respondeu Pedrozo —, sem credencial,
não entra.
— Então, amanhã, você vai ter que responder ao
presidente duas perguntas. Por que este evento não saiu no Jornal
Nacional e por que Humberto Barreto pediu demissão.
Irritado, Pedrozo deu ordens aos seus subordinados que
não exigissem credencial de ninguém mais.
Passado o governo Geisel, eu encontrei o coronel Pedrozo na
Amazônia. Procurava uma onça para fotografar, na Infantaria da
Selva, e, passando por um imenso tanque com água turva e
esverdeada, vi emergir do fundo um homem com equipamento de
mergulho. Ele tirou a máscara e o reconheci. Ficamos
conversando e depois nos encontramos outras vezes, com ele já
general.
Minhas viagens nacionais com Geisel foram poucas. Mas de
uma eu não me esqueço. Foi a Salvador, onde Geisel receberia, em
alto-mar, a corveta Niterói, fabricada na Inglaterra. A cobertura
jornalística seria feita do contratorpedeiro (destroyer) Alagoas.
Embarquei no cais de Salvador. Desci para o cassino dos oficiais,
para almoçar. O navio ainda estava amarrado ao cais, e o pequeno
balanço já me havia feito enjoar. Deitei num beliche, e piorei.
Depois que o navio levantou ferros, subi para o convés. Piorou. O
horizonte não parava de balançar. Pensei que iria morrer. Só
melhorei quando a Niterói começou a disparar seus mísseis
seacat. Quando servi na Infantaria, em 1959, fui da seleção de tiro
do 7º. RI, e tinha munição à vontade para treinar. Tiro é algo que
me fascina, desde as matinês do cine Coliseu, em Cachoeira.
Certa vez, os seguranças do palácio me convidaram para
atirar na linha de tiro do palácio da Alvorada. Depois de atirar
com eles o tiro rápido, fiquei preocupado com a segurança de
Figueiredo. Eles tinham que cumprir um mínimo de pontos, e
ficavam nervosos. Um dia, tive oportunidade de ver que eu estava
enganado. Uma pessoa começou a gritar contra Figueiredo de um
balcão do Teatro Municipal, e em segundos um dos seguranças
estava com o revólver apontado para a cabeça do suposto
agressor. "Gritar ele podia, mas, se puxasse uma arma, eu estava
pronto", contou-me o segurança.
Em meados de fevereiro, Figueiredo, no SNI, teve, enfim,
que ouvir Juruna e seu gravador. "Vim falar coisa de índio com
ele", me contou Juruna, misterioso. Nos dois anos seguintes, eu
seria acordado, cedinho, por dezenas de vezes, com um anúncio,
ao telefone:
— Aqui é o Mário. Eu quero fala com o João Batista. As
vezes, sonolento, eu demorava a identificar o ''Mário''.
Quando pedia que ele passasse no palácio, ele
argumentava:
— Lá não dá. Lá tem muita gente e muito burocrata. Eu
quero^ toma café da manhã como o João Batista lá no Torto.
A tarde daquele dia de meados de fevereiro, Figueiredo
recebeu Laudo Natel e Miguel Colassuono, juntos. Natel era
governador de São Paulo quando Figueiredo era o coronel-
comandante da Força Pública. Ele seria o indicado de Geisel para
voltar ao governo de São Paulo e ainda teria o apoio forte de
Figueiredo. Natel não quis falar da sucessão estadual naquele dia,
mas sim da federal: "Acho legítima a pretensão de Magalhães Pinto
de disputar uma indicação da Arena, mas acho que não chegou o
momento de um civil. Depois de Figueiredo, aí, sim, terá sido
criado o clima para um civil", vaticinou.

Alemanha: uma trapalhada na entrevista

No início de março, fui para a Alemanha Federal, cobrir a


visita de Geisel. Desembarquei no aeroporto de Frankfurt e rumei
para a escada rolante a fim de descer ao subsolo e tomar o trem
para Bonn. Quando cheguei com o carrinho no topo da escada,
comecei a tirar as malas. Um guarda me fez sinal para que
descesse com o carrinho pela escada. Achei que era brincadeira,
mas tentei. Quando o carrinho se inclinou, me joguei sobre as
malas, para segurá-las. Mas nada aconteceu. Carrinho e escada
rolante haviam sido feitos um para o outro. Isso faz treze anos e a
novidade ainda não chegou ao Brasil.
Comprei o bilhete para Bonn. O trem estava marcado para
17h31. Quando eram 17h27, um trem chegou à plataforma, e eu
fui embarcando. Um guarda que me havia ajudado na tradução do
bilhete me fez sinal de que não era aquele. Era o das 17h31. Que
saiu às 17h31.
Em Bonn, fiquei uma noite no caro Bristol, depois duas
noites no barato Stern, que fica em frente à Rathaus (Câmara
municipal) e por isso fora bombardeado na guerra, e as noites
seguintes na gratuita casa de meu colega Ricardo Kotscho — que
veio a ser o assessor de Imprensa na campanha presidencial de
Lula —, na tranqüila Bad Godesberg. Kotscho foi um perfeito
anfitrião. Chegou a emprestar-me até seu carro, um BMW.
Lá, eu conheci Hermano Henning, correspondente da
Globo, e Luiz Weis, que teria sido preso com Vladimir Herzog, em
outubro de 1975, se não se escondesse em São Paulo. Enquanto
Geisel procurava punir os responsáveis pela morte de Herzog, o
coronel Moraes Rego e Humberto Barreto pediam para Weis
manter-se escondido. Moraes Rego era agora o chefe do Gabinete
Militar. Humberto Barreto não estava mais na Presidência e
aquela viagem era a última do substituto dele, o coronel Camargo,
que iria voltar para o quartel. E Carlos Atila faria a viagem recém-
promovido a conselheiro. Como porta-voz do Itamaraty,
acompanhava a viagem Luís Felipe Lampreia.
Geisel foi recebido na Villa Hammerschmidt pelo presidente
Walter Schell. Um estrangeiro, que não fosse alemão ou brasileiro,
poderia cometer um engano. Ao passar em revista a tropa do
Wach-battalion, os dois presidentes estavam de capote preto, mas
havia algumas diferenças. Geisel caminhava ereto e Schell ia meio
desajeitado; Geisel era mais alto e pisava mais forte no chão.
Quando a tropa gritou, guturalmente: "Guten Tag, Herr
Bundesprãsident", um estranho poderia pensar que a saudação se
dirigia a Geisel.
Geisel evitou falar a língua de seus ancestrais, obedecendo
ao protocolo, mas eu o flagrei duas vezes. A primeira, em
Düsseldorf, quando acompanhava dona Lucy assinando um livro
de visitantes ilustres que ele já assinara:
— Auch du? (Tu também?)
No encontro com Helmut Schmidt, Geisel dispensou o
intérprete enquanto falavam sobre a fria temperatura, o castelo de
Gymnich e o transporte de helicóptero para lá. Na hora da
conversa oficial, com notas taquigráficas, cada qual falou a sua
língua.
Na entrevista coletiva, no hotel Am Tulpenfeld, o presidente
Geisel perdeu a paciência com a tradutora. Primeiro, ela se
atrapalhou ao traduzir uma pergunta que falava sobre "a
transição da ditadura para a democracia".
— Eu quero ler a pergunta — e leu o original, escrito no
papel que os jornalistas encaminhavam à tradutora, depois de ler
no microfone.
Ao terminar a resposta a uma pergunta sobre os interesses
do Brasil em várias regiões da África, Geisel ouviu a tradutora
insistir:
— Vossa Excelência esqueceu o corno da África — ela se
referia ao estratégico Chifre da África, onde está a Somália, e
arrancou risadas da platéia. Mas não de Geisel, que já não a
agüentava mais.
— Esta moça não está traduzindo nada — disse ele para o
ministro Silveira, de forma que os microfones captaram e os alto-
falantes ampliaram.
A partir dali, Geisel ficou mais atento às perguntas no
original, quando os jornalistas as liam no microfone. Mas teve
dificuldades.
— Não ouvi nada; não ouço nada; todo mundo tá falando
aí — reclamou da barulheira entre os jornalistas.
Um jornalista perguntava em holandês, e aí Geisel não
entendeu. A pergunta era longa e a intérprete queria interromper.
— Deixe ele fazer a pergunta toda e depois me diz —
ordenou Geisel à intérprete, que já estava absolutamente
atrapalhada. E a platéia não ajudava. Geisel comentou de novo
com Silveira, e o microfone captou: — O pessoal não senta, não
fica quieto, anda pra um lado e pra outro, tá uma bagunça!
A bagunça não ficou por aí. O gerente do hotel foi procurar
o coronel Camargo quase chorando. Explicou que o hotel já tinha
vinte anos com os mesmos tapetes persas no chão, e que os
tapetes tinham se mantido incólumes até a chegada dos
jornalistas brasileiros, que, ignorando a existência de um objeto
civilizado chamado cinzeiro, furaram os tapetes persas com as
pontas de cigarros que jogavam no chão.
Um dia, encontrei o fotógrafo Roberto Stuckert morrendo de
rir. Alguns jornalistas iam para o centro de Bonn fazer compras e
pediram endereços de lojas. Stuckert indicou como melhores as
lojas que ficam na Einbahnstrasse. Eles voltaram desolados. O
motorista de táxi os havia levado a várias ruas com esse nome.
(Einbahnstrasse significa "rua de mão única".)
Numa noite, haveria a partida decisiva pelo campeonato
brasileiro entre Atlético e São Paulo. João Saad, dono da Rede
Bandeirantes, participava da viagem como convidado de Geisel e
ofereceu uma linha de retorno da Bandeirantes, para os
jornalistas acompanharem o jogo. Só que, pelo fuso horário, iria
terminar depois da meia-noite. Acontece que o alemão
encarregado de cuidar da sala de imprensa tinha ordens de fechá-
la à meia-noite. Ricardo Kotscho convenceu-o a ficar um pouco
mais, explicando que a partida terminaria aos trinta minutos do
dia seguinte. O alemão concordou. Só que o jogo terminou
empatado e foi para a prorrogação. O alemão estrilou:
— Não entendo. Vocês me disseram que era aos trinta
minutos e agora não é mais. Não pode ser...
Kotscho explicou-lhe que seriam apenas mais vinte minutos
e deu-lhe 50 marcos a pretexto de pagar o táxi, porque o alemão já
havia perdido o último trem.
Passaram-se os vinte minutos e a prorrogação terminou
empatada. Haveria decisão por pênaltis. Aí, ninguém conseguiu
explicar ao alemão que a hora combinada não era mais aquela.
Ele apagou a luz, empurrou todos para fora e fechou a porta. Eu,
que não acompanho futebol, não sei até hoje quem foi campeão
brasileiro de futebol naquele ano. Só lamento ter ido dormir mais
tarde naquela noite, pois dependia do BMW do Kotscho.
Geisel foi a Berlim num Airbus, acompanhado por trinta
jornalistas e 33 empresários, entre os quais Erik de Carvalho, da
Varig, e Ornar Fontana, da Transbrasil. Também sou fascinado
por aviões e admirava o silêncio do vôo à altitude de uns 4 mil
metros. Uma comissária me explicou que as regras de sobrevôo da
RDA (Alemanha Oriental) exigem que os aviões fiquem ao alcance
das baterias antiaéreas. Muito confortante. Descemos em Berlin
Tegel e as bandeiras do Reino Unido, Estados Unidos, França,
Alemanha Federal e da cidade de Berlim mostravam-me estar na
cidade dividida. Passamos pela estátua eqüestre de Frederico
Guilherme, o Grande Eleitor da Prússia, e paramos no palácio de
Charlottenburg, onde Geisel iria almoçar.
Aproveitei o almoço do presidente e corri para o Muro de
Berlim. Pedi ao motorista do táxi para me levar ao check point
Charlie. Do posto de observação ocidental, eu podia ver o outro
lado, cinza e triste. A minha frente, o muro, cheio de inscrições e
cruzes. A meu lado, surpresa!, um brasileiro que era do Partido
Socialista e fora cassado pela Revolução, o ex-deputado Cândido
Norberto dos Santos, também jornalista, que estava ali
constatando, como eu, a existência de diferenças entre um mundo
dividido.
Depois do almoço, Geisel fez um passeio pelo portão de
Brandenburg, viu o antigo Reichstag, o palácio de Bellevue e o
muro. Mas seu carro não parou nem se aproximou do muro.
Em Bonn, Geisel ainda visitou Willy Brandt e o líder da
União Social Cristã, chamado Helmut Kohl. Comentamos que Kohl
era o alemão que melhor evitava confusão de nacionalidade com
Geisel, porque Kohl parece o dobro do tamanho de Geisel. Mal
comentávamos isso, e nos chegou um documento oficial alemão
que fazia renascer nossas dúvidas. O documento começava assim:
— Der Prãsident Fóderativen Republik Brasilien Ernest
Geisel em seu castelo de Gymnich...
Geisel voltou ao Brasil no final do dia 10 de março. Eu
permaneci. No dia seguinte, começavam minhas férias na Europa.
Iria a Paris, depois a Roma, onde vi, na janela do palácio do
Vaticano, uma das raras aparições do papa João Paulo I. Ele pedia
por Aldo Moro, ainda vivo em poder das Brigadas Vermelhas.
Depois fui a Veneza, Semana Santa em Madri e terminei em
Lisboa.
Quando voltei a Brasília, em abril, estava assumindo a
Secretaria de Imprensa da Presidência da República o coronel
Rubem Carlos Ludwig.
Conspiração contra Figueiredo

Nas promoções de 31 de março, Figueiredo era feito


general-de-exército, recebendo a quarta estrela. No dia 8 de abril,
o nome dele era homologado como candidato pela Convenção
Nacional da Arena. Eu fui cedinho, no dia seguinte, para a
residência do Torto, acompanhar o primeiro dia do candidato.
Figueiredo havia levantado às 5h30. Encontrei Djalma "Bagual",
seu churrasqueiro, satisfeito da vida: "Vejam só, o general vai ser
presidente".
Lá pelas onze horas chegava toda a cúpula da Arena, mais
Aureliano com dona Vivi. Figueiredo fez um discurso de dois
minutos, em que começava avisando: "Eu não sou de discurso". A
cúpula da Arena ficou preocupada, porque haveria uma
campanha eleitoral pela frente, mas depois Figueiredo mostraria
gostar de palanque. Ele e Geisel participavam da escolha dos
governadores e dos senadores indiretos, que iam sendo
anunciados na segunda quinzena de abril.
Quando foram anunciados Amaral de Souza para o governo
do Rio Grande do Sul e Tarso Dutra como senador indireto, o
secretário-geral da Arena, Nelson Marchezan, me disse:
"Conseguiram desenterrar um telegrama meu de protesto contra
as cassações que fizeram na Assembléia Legislativa, para poderem
eleger o Peracchi. E agora o Geisel me chama para me dizer que
seria o Amaralzinho, porque eu sou jovem e tenho idade para
esperar para depois. Ora se isso é desculpa!"
Os governadores iam sendo anunciados sempre como a
solução para unir a Arena nos Estados: Tarcísio Burity, na
Paraíba, Roberto Campos, na Bahia, Jorge Bornhausen, em Santa
Catarina, Guilherme Palmeira, em Alagoas... No dia do anúncio de
São Paulo, o governador Paulo Egydio Martins saiu do gabinete de
Geisel e me deu uma declaração:
"Hoje é o dia de anunciar o vencedor. E o vencedor é Laudo
Natel".
Francelino Pereira foi o escolhido para governar Minas. O
líder "Zezinho" Bonifácio esteve com Geisel e depois foi
maquiavélico: "Acredito que agora que a Arena tem candidato
general, e o doutor Magalhães Pinto só quer apoiar um civil, que
ele vá apoiar Tancredo Neves no MDB, porque, afinal, o MDB não
haverá de querer um general como candidato nem encontrará
militar que aceite". Um mês depois, os adversários de Figueiredo
na eleição indireta para presidente já eram o general Euler Bentes
com Paulo Brossard como vice.
Para o Maranhão, foi escolhido João Castello. Ao sair do
encontro com Geisel, ele me disse que iria a São Luís no dia
seguinte, com José Sarney, "acabar com as divergências
regionais". O que se viu foi que os dois se tornaram os maiores
divergentes.
A escolha no Pará foi das mais difíceis. Geisel queria
manter Passarinho no Senado, Figueiredo chegou a fazer um
apelo: "Eu preciso de você perto de mim". Com isso, Alacid Nunes
foi escolhido governador e Figueiredo se comprometeu com
Passarinho a ir ao Pará para explicar por que o líder majoritário
paraense não ficaria no Estado.
A sucessão presidencial e as sucessões estaduais deveriam
ter extenuado Geisel. No dia 20 de abril, ele distribuíra a Ordem
do Rio Branco, no Itamaraty, e depois presidia a formatura do
Instituto Rio Branco. Reclamou das luzes da TV, e, quando as
luzes se apagaram, ele empalideceu, tombou a cabeça, perdendo
os sentidos, e da boca saiu um fio de vômito. O ministro
Silveirinha discursava e a primeira coisa em que pensou foi que
Geisel não estava gostando de seu discurso. Foi levado às pressas
para o atendimento médico, mas logo se recuperou.
Geisel não poderia faltar naquele momento. Quando
Figueiredo teve certeza de que Geisel estava bem, aliviou-se
inventando uma piada:
"Um dia eu e o presidente fomos ao teatro Nacional ver O
Lago dos Cisnes. O presidente dormiu como hoje no discurso do
Silveirinha. Aí eu entendi por que o pessoal, no palco, andava na
ponta dos pés: para não acordar o presidente".
Eu ouvira a piada no gabinete do chefe do SNI, onde
entrara para conversar com o chefe de gabinete, coronel Danilo
Ven-turini, que me mantinha a par dos movimentos do general-
candidato. Naquele dia, comecei a compreender uma frase que
ouvira do irmão, Guilherme Figueiredo, em fevereiro:
"Depois do Carnaval, o João vai rasgar a fantasia".
Naquela ocasião, Guilherme trazia a tiracolo o presidente
da Embratur, Said Farhat, para apresentá-lo ao irmão. Mais tarde,
iria apresentar Eduardo Portella, para ser ministro da Educação.
Golbery resistiu: "Esse rapaz vai nos dar problemas". Mas um
telefonema de Adonias Filho tranqüilizou Golbery: "E um
intelectual, e vai desarmar as esquerdas".
Antes disso, Figueiredo teria outros problemas. Na revista
Questiones de America Latina e no jornal El Nacional, de Caracas,
em outubro de 1977, o chefe do SNI era acusado de ter pedido ao
seu antecessor, general Carlos Alberto da Fontoura, então
embaixador do Brasil em Portugal, para matar o ex-almirante
Cândido Aragão, que fora comandante dos fuzileiros navais e
resistira à deposição de Jango, em 1964. Com a censura levantada
no Brasil, só no início de maio de 1978 os jornais brasileiros
reproduziam as acusações. E publicavam documentos ligando as
operações do SNI com as da Dina chilena.
Era uma denúncia gravíssima contra o homem que citava
com freqüência seu pai, Euclydes Figueiredo, como exemplo de
liberal e democrata a ser seguido na Presidência. Era uma
acusação de assassínio em nome do Estado. O recém-nomeado
secretário de Imprensa adjunto, Marco Antônio Kraemer, me dizia
que o palácio não se pronunciaria a respeito. Geisel não queria se
meter; era uma questão do SNI. Kraemer me disse que o SNI
responderia, e me deu o telefone particular do inacessível chefe da
agência central do SNI, general-de-brigada Sebastião de Castro —
que anos depois foi comandante do Comando Militar do Sudeste,
baseado em São Paulo.
Liguei, e o general Sebastião, para surpresa minha, disse
que me receberia no apartamento dele, numa Superquadra Sul.
Quando cheguei, surpresa maior ainda: ele se dispunha a me
entregar os documentos do caso, dizendo que o fazia na confiança,
porque já ouvira o general Figueiredo elogiar minha fidelidade à
fonte.
Os documentos eram dois telex em código numérico e
respectivas "traduções". O primeiro, assinado pelo general
Figueiredo, mandava o embaixador de Portugal executar uma
operação tipo "acidente" contra o ex-almirante Aragão e Carlos Sá.
O segundo era do embaixador para Figueiredo, solicitando
confirmação em carta não cifrada, com timbre e assinatura. E aí
— falha dos ingênuos falsificadores — "Figueiredo" mandava a
carta, que era o terceiro documento, com timbre, assinatura e
tudo, mandando matar "os indivíduos acima citados, por se
constituírem grave risco à segurança nacional''. O segundo erro
dos falsificadores foi promover o almirante Aragão a "grave risco".
O terceiro foi usar código numérico, que o SNI não tem. Para ter
certeza, fiz a prova anos depois, mostrando o documento a um
oficial do SNI. Ele não sabia de que se tratava, mas disse: ' 'Isso
não é nosso''.
Tudo isso fechava com duas cartas chilenas ao general
Figueiredo, do subsecretário do Interior, Errique Montero Marx, e
do chefe da Dirección de Inteligência Nacional (Dina), coronel
Manuel Contreras Sepulveda, garantindo a participação dos
chilenos em operações do SNI em Portugal e na Espanha.
O general Sebastião ainda foi além: me disse que o plano
para envolver Figueiredo, e impedi-lo de ser presidente, ligava o
atentado que matou Orlando Letelier nos Estados Unidos à morte
de Juscelino, com o argumento de que o carro dele fora atingido
por uma mina antitanque. O general não disse, mas deixou no ar
que a origem da conspiração — uma nova "carta Brandi'' —
estaria entre os que, no Brasil, não queriam a solução Figueiredo.
Coincidência ou não, alguns oficiais de um movimento chamado
"Centelha" tinham sido transferidos para guarnições remotas e
pouco importantes.
No final de maio, Figueiredo passou para a reserva, a fim de
assumir a candidatura, e no início de junho se realizaram as
convenções estaduais da Arena. No Mato Grosso, Saldanha Derzi
vencia o candidato do Planalto, Italívio Coelho, na indicação para
o Senado, e em São Paulo o candidato de Geisel e Figueiredo,
Laudo Natel, era derrotado por Paulo Maluf.
Geisel não queria saber de Maluf nem pintado de ouro. O
caso Luftalla ainda era recente. Figueiredo e a Arena seguiam
Geisel na antipatia a Maluf. Políticos da Arena costumavam dar
''chá de cadeira" em Maluf, no Congresso, considerando-o um
chato. Agora, Paulo Maluf seria o governador do maior Estado do
país.
E a Arena precisaria dele na campanha eleitoral. Mal Maluf
trepava na mesa para proteger a urna da convenção quando faltou
luz, eu recebia a notícia em Brasília e ligava para o porta-voz
coronel Ludwig. Ele já estava dormindo e me atendeu sonolento:
— O que é que eu vou dizer? Eu não conversei com o
presidente.
— Mas o senhor precisa me dizer alguma coisa. As
rotativas estão paradas, esperando a reação do Planalto a esta
derrota surpresa — insisti.
— Quando eu fui dormir, pouco antes das onze, já tinha
recebido do Anhembi indícios de que Maluf poderia ganhar. Ora,
pode dizer que o presidente vai acatar o resultado. O que é que ele
vai fazer, né?
Era o suficiente. Do telefone de minha casa ditei o texto
para o editor de plantão, que fechava o Jornal do Brasil.
No outro dia, o título principal ao JB dizia que Geisel
acatava a vitória de Maluf. Meu texto dizia: "O porta-voz da
presidência, coronel Rubem Ludwig, declarou, esta madrugada,
que o governo recebe normalmente a vitória do sr. Paulo Maluf.
Preferiu, no entanto, não fazer maiores declarações a respeito,
deixando outros comentários para hoje, depois de conversar com o
presidente Geisel".
A notícia trazia um ar de triunfo para Maluf, que havia
vencido a cúpula da Revolução e da Arena no voto. Ele dedicava a
vitória ao presidente Geisel, por garantir eleições livres, e a
Figueiredo. Tudo isso devia ter irritado Geisel, que chamou Ludwig
bem cedo ao seu gabinete:

"Você falou demais".


No Aracoara

Figueiredo deixou o SNI em 15 de junho. Quatro dias antes,


ele havia feito treze pontos na loteria esportiva, mas ganhara
muito pouco. Naquele dia, o palácio se preparava para receber o
príncipe herdeiro do Japão, o hoje imperador Akihito. Na
transmissão do cargo para o general Medeiros, estavam os
ministros Delfim Netto, Reis Velloso, Golbery, o presidente do
Banco do Brasil, Rischbieter, o deputado Prisco Vianna, o coronel
Venturini, Heitor Ferreira, Miguel Colassuono e o publicitário
Mauro Salles.
Foi então que deixei o palácio para cobrir o escritório de
Figueiredo no 11? andar do hotel Aracoara, no Setor Hoteleiro
Norte, em Brasília. Acompanhavam Figueiredo meu amigo Juarez
Marcon, Venturini e o coronel Paiva Chaves. A Arena havia
designado Marchezan para integrar a equipe, e Said Farhat se
licenciava da Embratur para ser o homem de imprensa e relações
públicas. Pela manhã, antes de ir para o Aracoara, Figueiredo
costumava montar no Regimento de Cavalaria de Guardas, que ele
comandara. As vezes, aparecia lá um fotógrafo para fazer o general
montando. Um dia, Figueiredo ficou impaciente com a quantidade
de filmes que Carlos Namba, da Veja, estava fazendo. Desmontou
do cavalo, virou-se de costas para Namba e fez menção de tirar as
calças:
"Este ângulo você ainda não pegou, por causa da sela.
Pegue, e me deixe em paz".
Combinei com o já major Juarez Marcon para ir à pista do
RCG num sábado pela manhã. Figueiredo parecia me esperar,
com um chimarrão. Sentamos na pequena arquibancada, e eu,
para puxar conversa, mencionei os documentos que o general
Sebastião me dera.
— Sabe de uma coisa? — começou Figueiredo. — Uma vez
eu e o Geisel pescávamos no lago Paranoá, e ele me recomendava:
"Olha, Figueiredo, temos que acabar com esse negócio de tortura;
você tem que me prometer que no seu governo vai fazer o que eu
fiz em São Paulo''. Nisso — continuou Figueiredo — um
lambarizinho mordeu a minha isca e eu fisguei ele. Agarrei ele
assim, dei dois tapas na cara dele e disse: ' 'Vamos, conta onde
estão os peixes maiores!'' E aí me virei pro Geisel: "Pode deixar,
presidente, no meu governo não vai haver tortura".
' 'Um homem que faz esse tipo de brincadeira é um homem
puro", pensei. Ele falava de dentro, do coração. Era todo
sentimento. Ele me convidou para voltar, e em outros sábados
tomamos chimarrão juntos e rimos juntos das piadas dele sobre
ele mesmo. Quem ri de si próprio é uma pessoa de mente muito
saudável.
— Um dia eu estava no palanque, numa cidade de São
Paulo, pedindo voto pra Arena — contou ele certa vez —, quando
começou a pegar fogo no edifício em frente. E apareceu numa
janela uma senhora com a criança no colo: "Pelo amor de Deus,
salvem pelo menos meu filhinho!" O povo todo esperava que eu
fizesse alguma coisa, e eu percebia que tinha que fazer um ato
heróico para arrumar votos. "Pode atirar a criança que eu
seguro!", gritei. Tinha lá um pessoal do MDB que dizia: "Esse
velho não vai segurar é nada!" Aí as chamas começaram a pegar
no vestido da mulher e ela jogou a criança. Eu saltei do palanque
com a agilidade de um goleiro, voei numa "ponte", segurei a
criança no ar e caí no canteiro de grama do centro da avenida. A
multidão arenista delirava. Aí, eu me levantei, bati três vezes a
criança no gramado e chutei pra frente.
Num domingo, conversei com Figueiredo na mansão das
Cabanas, onde o deputado João Nogueira de Rezende, de Minas,
oferecia um churrasco. O candidato prometia acabar com a
poluição da baía de Guanabara, e me contava que costumava
praticar natação atravessando a enseada de Botafogo. Um dia, ele
se meteu na prova de travessia da baía de Guanabara, ganha pela
campeã Maria Lemke. "Quando perdi para uma mulher, vi que
precisava trocar de esporte."
O 11º. andar do hotel Aracoara era palco de uma romaria
diária de políticos, empresários, dirigentes de associações de
classe e até o Juruna. Os frotistas já haviam todos aderido, e de
vez em quando apareciam prefeitos do MDB, de municípios do
interior. O deputado Alcides Franciscatto era o mais assíduo dos
freqüentadores do Aracoara e já se tornara uma espécie de porta-
voz informal do general.

Um happening no Aracoara

No dia 18 de agosto de 1978, às seis e meia da tarde,


entram no auditório do 12º. andar do hotel Aracoara o general
Figueiredo e Farhat, acompanhados do coronel Paiva Chaves, do
major Marcon e de dois auxiliares. Esperam-nos vinte jornalistas,
sentados em semicírculo, em torno de duas cadeiras que
Figueiredo e Farhat ocupam. Farhat explica que o encontro é
informal, a pedido dos jornalistas, e que não é para publicação.
Figueiredo está sem óculos. Os jornalistas começam a perguntar:
Evandro Paranaguá — Para começar, vamos com amenidades...
Figueiredo (interrompendo) — Então, o que virá depois não serão
amenidades?
Evandro — A TV Globo está apresentando sátira política em
seus programas humorísticos e o senhor está sendo bastante
visado. Se importa com isso? Como vê isso?
Figueiredo — Não vejo, porque não vejo televisão. Não tenho
tempo. Só assisto ao Jornal Nacional. Mas, se me satirizam, não
me importo. No quartel me botavam apelido e eu nunca me
importei. Só que eu botava apelido nos outros também. Os
soldados me botavam apelido e eu sabia.
Alexandre Garcia — Quando for presidente vai ser assim?
Não vai se importar com a crítica e a sátira? Vai encarar como
ônus do poder?
Figueiredo — Sempre disse e repito: não vou mudar. Vou
admitir, vou encarar isso naturalmente.
Evandro — E, quando presidente, vai continuar praticando
hipismo?
Figueiredo — Por que não? Quando era chefe do Gabinete
Militar de Mediei, o cargo não me privou do hipismo; como chefe
do SNI, nunca deixei de montar. Por quê? Só porque no Alvorada
não tem lugar para isso?
Alexandre — O senhor vai morar no Alvorada?
Figueiredo — Taí uma boa pergunta.,Ainda não me decidi.
Alexandre — Não vai morar no Torto?
Figueiredo — Pois é. O Alvorada é um forno, muito quente.
E embaixo é uma vitrine. Aquilo não é residência. Nenhum
presidente ficou satisfeito em morar lá. No Torto é aconchegante, é
mais lar, é mais casa pra morar. Já pensaram: eu de bermuda no
saguão do Alvorada? Não dá. E muito pouco aconchegante. A
gente se perde lá dentro. Vou ficar preso na biblioteca. Acho que
fico no Torto e só uso o Alvorada, se eleito, para almoços solenes
com visitantes, recepções, coisas assim.
Sílvio Leite — Quero fazer um protesto. Nunca vi reunião
informal sem uísque.
(Os garçons do Aracoara começam a servir uísque White
Horse, guaraná e Coca-Cola, com canapés, como cortesia do hotel.
Figueiredo prefere água.)
Paulo Godoy — Seu irmão Diogo disse que o senhor sempre
foi um bom soldado...
Figueiredo — Se ele disse isso, me sinto muito honrado.
Godoy — ...mas que não gosta de política. E agora, como está se
dando?
Figueiredo — E verdade, eu sempre fui apartidário, sempre
tive horror de política. Mas agora estou tentando aprender. Mas
nunca vou conseguir.
Godoy — Nem depois dos seis anos?
Figueiredo — Nunca vou conseguir ser político. Tenho me
esforçado para isso.
César Fonseca — O senhor disse que tem feito um esforço
danado pra ser político, mas um chofer de táxi, em Recife, me
disse que já está "cheio" de militar na Presidência. Figueiredo — E
a opinião do chofer de táxi. Sílvio — E se passar a emenda
Montoro (acabando o bipartidarismo obrigatório) e se o MDB
ganhar em 15 de novembro, vai engrossar?
Figueiredo — Eu nunca disse isso. Vocês é que têm
entendido mal quando eu menciono o assunto. Se o MDB fizer
maioria... terei que me compor, se forem criados novos partidos.
Se houver quatro, por exemplo, terei que me compor com, no
mínimo, dois.
Melhor se me compuser com três. Mas é claro que aceitarei
a vitória do MDB e tentarei governar da melhor maneira possível.
Carlos Henrique Santos — E o capital estrangeiro, a remessa de
lucros, vai mudar?
Figueiredo — Vou. Mas se eu disser que vou, vocês vão
dizer que eu sou ditador, que eu quero fazer e faço. Vai depender
muita coisa do Congresso.

(............................................................................)

Fonseca — Está escolhendo o ministério?


Figueiredo — Se ainda não sei o que e como vou fazer, como
posso escolher os homens para fazer? Ainda é muito cedo.
Alexandre — Só depois de janeiro, então?
Figueiredo — E, só depois de janeiro.
Alexandre — Mas o Havelange já se apresenta como
ministro do
Esporte.
Figueiredo — E. Ha-ha-ha.

(............................................................................)

Godoy — Não acha que dona Dulce deva participar da


campanha?
Figueiredo — Se a campanha exigir que se faça crochê e
uns doces muito bons, sim.
Tereza Fernandes — Então o senhor é machista, general?
Figueiredo (movimentando-se na cadeira) — He-he-he.
Aloísio Carvalho (dirigindo-se a Ricardo Pedreira) — Fala,
Juquinha!
Figueiredo — Nunca me importei que me dêem apelidos.
Evandro — O senhor recebeu uma imposição. E um
candidato imposto.
Aloísio — Cala a boca, Evandro!
Sílvio — Você já falou demais!
José Quintiliano Fonseca — Deixa o general falar.
Figueiredo — Sim, eu fui escolhido pelo presidente Geisel.
Ele ouviu as Forças Armadas, ouviu o Alto Comando e me
chamou...
Fonseca — O senhor está fazendo campanha de direto, mas
foi imposto.
Figueiredo — E qual o presidente da Revolução que foi
escolhido pelo voto direto?
Alexandre — General, o senhor já tem alguma idéia, já fez
algum plano de como será feita sua sucessão, caso eleito?
Figueiredo — Eu pretendo interferir o mínimo possível na
minha sucessão.
Alexandre — E poderá ser um civil?
Figueiredo — Poderá, sim, por que não?
Evandro — General...
Sílvio — Poxa, cala a boca, Evandro!
Sônia Carneiro — General, o Euler diz que conta com o
respaldo militar...
Figueiredo — Na verdade...
Evandro — General...
Aloísio — Vamos te cassar a palavra, Evandro.
Sílvio — Cala a boca, Evandro!
Sônia — Vocês não deixaram o general responder à minha
pergunta.
Fonseca — Cala a boca, Sônia!
Roberto Stefanelli — A Sônia perguntou se o Euler tem o
apoio das Forças Armadas.
Figueiredo — Pelo que sei, ele tem, no máximo, uns 2 por
cento das Forças Armadas.
Evandro — Eu não acredito. Os estamentos de coronel para
baixo dão mais que meio a meio.
Figueiredo — E por isso que você escreve o que escreve.
Evandro — Eu não escrevo para agradar a ninguém.
Penna — General, se o Euler ganhar, vai haver
endurecimento do regime?
Figueiredo (fingindo inocência) — Pergunte aos 98 por
cento...
Sílvio — Então já disse que vai.

(..........................................................................)

Godoy — O senhor mesmo disse que é neófito em política,


jejuno. Como está se sentindo?
Aloísio — A sua imagem está crescendo no meio popular.
Como explica?
Farhat — Eu não queria ser mediador, mas há muitas
perguntas ao mesmo tempo.
Sílvio — Cala a boca, Aloísio!
Aloísio — Assim não dá!
Figueiredo (acende um cigarro) — Sabe, esse negócio de
imagem, os óculos claros nada têm a ver. Eu sempre usei óculos
escuros porque pensava que era o excesso de luz que estava me
causando essa conjuntivite no olho (e mostra o olho direito). Era a
luz, a poeira, tudo isso.
Evandro — Olha, o senhor passa nitrato de prata...
Figueiredo —Já experimentei tudo. Mas o caso é que, no
Rio, o general Venturini me levou a um oculista e ele descobriu
que meus cílios estavam crescendo para dentro...
Sílvio — Então usa cílios postiços, general.
Figueiredo — ...ele arrancou alguns, ali na hora mesmo.
Quando pegava poeira, ou no excesso de luz, eu piscava mais,
então irritava mais. E me receitou quatro óculos. Três estão aqui e
um está em casa. E todos claros, porque a luz nada tinha a ver.
Alexandre — Então não foi o Mauro Salles?
Figueiredo — Quando o Mauro me falou, eu disse a ele: já
mudei. Antes dele, quem me falou primeiro em mudar os óculos
por causa da imagem foi o Andreazza. Roberto — Por que a OAB e
a CNBB não vêm aqui?
Sílvio — O que o senhor está esperando, que não chama o
Magalhães (Pinto)?
Figueiredo — O Magalhães foi quem saiu da Arena. Preciso
esperar que ele volte. Olhe, o Magalhães é o que eu sempre disse:
foi sempre meu amigo; mas faz tempo que não falo com ele. Mas
sou seu amigo.
Evandro — O senhor mandou o Délio falar com ele?
Aloísio — Cala a boca, Evandro!
Figueiredo — Eu mandei o Délio a São Paulo falar com
Natel. Falar com o Magalhães, eu não sei nada. Eu não fui.
J.Q. Fonseca — General, o senhor vai acabar com a censura
no seu governo? A gente vai poder ver muié pelada?
Figueiredo — No teatro, sim. Se alguém gosta e quer ver
mulher nua no teatro, que vá. No teatro, vai quem quer. Mas, na
TV, não vou permitir. Não quero, por exemplo, que meu neto ouça
e veja pornografia, pornochanchadas de mau gosto.
Tereza — General, a dívida externa o preocupa?
Figueiredo — Mas claro que preocupa. Mas o que você quer
que eu faça, que mande tropas invadirem o Pentágono?
Alexandre — Fort Knox.
Penna — Vai botar logo a eleição direta?
Figueiredo — Olha, vocês conhecem bem o problema.
Eleição direta tampouco é tão democrática assim. Vocês sabem.
Eu tenho informações de cabos eleitorais ou candidatos que
''vendem'' determinado colégio eleitoral. ''Você me paga tanto e eu
lhe passo tantos eleitores." E o cabresto. A direta resolve isso?
Alexandre — Um leilão.
Figueiredo — Exatamente, como coibir isso?
Aloísio — Principalmente a Arena tem feito isso.
Figueiredo — ...os dois partidos. Todo mundo faz isso. E um
absurdo.
Penna — O senhor foi chefe do Gabinete Militar do governo
Mediei, um dos mais duros e fechados, e agora quer fazer
abertura. Não é uma incoerência?
Figueiredo — E o Castello Branco não era chefe do Estado-
Maior do Jango e não derrubou o presidente? E foi incoerência?

(Tumulto, muitos perguntam ao mesmo tempo, gritam,


xingam-se.)

Farhat — Assim não dá. Agora, para finalizar, vou


chamando na ordem da roda. Começa aqui pelo Paulo Godoy.
Godoy — General, pelas pessoas que a gente ouve, depois
das audiências, parece que o senhor concorda sempre com eles...
Sílvio — Concorda com tudo.
Evandro — Não tem coragem de dizer que não concorda?
Aloísio — Porra, cala a boca, Evandro!
Figueiredo — Quando eu concordo, eu digo que concordo.
Quando gosto de um trabalho, digo que gostei. Mas não concordo
sempre. Se não estou completamente a par do assunto, apenas
ouço e prometo ler o que me trouxeram.
Evandro — O senhor tem recebido tanto cavalo, chicote,
foto de cavalo, presente, como o senhor agüenta isso?
Figueiredo — Vocês não viveram no quartel como eu vivi.
Não tiveram a mesma vida. Por isso não compreendem. Eu gosto
disso. Eu gosto de cavalos. E, depois, como é que eu vou dizer a
alguém: não, eu não aceito a sua gentileza. Só tem um problema:
em breve minha casa vai ter cavalo por tudo.
Sílvio — Tá cheio de puxa-saco.

(...........................................................................)

(Estão todos em pé, cercando o general, que permanece


sentado. Evandro insiste em que os partidários de Euler nas Forças
Armadas são 50 por cento e não 2 por cento.)

Figueiredo — Se você insiste, pode ficar com 4 por cento.


(Sílvio, distraído, dá uma baforada de cigarro no rosto de
Figueiredo.)
Sílvio — Desculpe, general, eu lhe dei uma baforada na
cara.
Figueiredo — Me dá um cigarro.
Sílvio — General, o senhor tem que mentir, os seus
assessores têm que mentir.
Figueiredo — Eu não minto.
Sílvio — Lá no Planalto, o senhor vai nos tratar bem?
Aloísio — Lá no Planalto, jornalista é sub-raça.
Sílvio — Sub-raça, sim.
Penna — Não é verdade. Cobri Castello, Costa e Medici e
nunca fomos tão bem tratados. Não é verdade, general. Somos
bem tratados.
Figueiredo — Mas vocês têm que me dar uma folga. Não
podem me impedir de trabalhar, não podem invadir minha
intimidade.
Carlos Namba — Notou como os fotógrafos o mantinham na
mira, quando descia as escadas em Ouro Preto?
Sílvio — Torcendo para o senhor cair, como Gerald Ford.
Figueiredo — Vocês são uns bandidos. Me seguindo no Rio.
Aloísio — O jornal mandou. O jornal mandou.
Penna — Lembra quando Geisel tomou banho de mar em
Natal?
Figueiredo — E eu não vou poder nem tomar banho de
mar?
Sílvio — Não, não pode. O senhor é homem público.
Figueiredo — Querem fotografar tudo.
Sílvio — Queremos fotografar o seu arroto..Queremos o seu
arroto, general.
Figueiredo (levantando-se) — .. .se você me disser isso em
público... não faça isso.
Sílvio (retira um cartão calendário eleitoral com a foto de
Sarney do bolso superior do paletó do general) — O que é isso?
Deixa ver. Ah, é do Sarney. Eu até vou rasgar. (E rasga.)
Farhat — Vamos embora, general.

(E saem. Eram oito e quarenta da noite.)


João Presidente

Naquela noite, eu fui para casa convicto de que Geisel


escolhera o homem certo para fazer a democratização do país.
Tinha que ter paciência e convicções. E Figueiredo as tinha. E
sinceridade. Naquela noite, Figueiredo tinha revelado tudo o que
aconteceria em seu governo.
Três semanas depois, ele concedeu outra entrevista
informal. Desta vez, para um grupo de garotos de quatro a seis
anos:
— Por que você é soldado?
— Porque só me ensinaram isso. Meu pai só me ensinou a
ser soldado.
— Você vai gostar de ser presidente?
— Ah, não vou gostar, não. Garanto que não vou gostar.
Eu testemunhava esses encontros e lamentava que
ninguém conhecesse realmente o ''seu'' João que estava dentro do
general de Cavalaria ex-chefe do SNI. Então, decidi juntar as
historinhas da vida dele, que mostrassem quem ele realmente é.
Além dos meus registros pessoais, procurei os irmãos dele, os
amigos da mocidade, os velhos companheiros de farda e fui
juntando histórias para um livro.
Algumas delas, ele próprio me contou, em nossas manhãs
de sábado, como esta:
— Na minha primeira viagem como presidente eleito, em 18
de outubro, em São Paulo, eu estava numa loja comprando
sapatos quando uma senhora muito simpática me cumprimentou
e me perguntou se eu conhecia a última do Figueiredo. Eu
respondi que sim. E disse que o meu novo apelido era "pão de
fôrma": quadradão, casca grossa e de miolo mole.
No dia 15 de outubro, Figueiredo assistia pela TV a sua
vitória de 355 a 225 sobre o general Euler, do MDB, no hotel Ara-
coara. Farhat distribuía isqueiros com a inscrição FIGUEIREDO —
CORAGEM, FRANQUEZA, LEALDADE. O escritor Guilherme
Figueiredo recebeu um e protestou:
"Que falta de imaginação! Deveriam ter escrito 'Figueiredo é
Fogo!'"
No dia seguinte, Figueiredo foi visitar o líder "Zezinho"
Bonifácio, que estava doente. Fomos atrás. Lá, um de nós disse a
"Zezinho" que o presidente tinha o bom costume de dar
entrevistas. Figueiredo ressalvou:
— Só quando me dão cigarros — e filou um da fotógrafa
Sonja Rego. Rapidamente o repórter César Fonseca, que
costumava criticar Figueiredo, ofereceu-lhe fogo com o isqueiro
ganho na véspera. Figueiredo viu a inscrição e sorriu. — No fundo,
no fundo do bolso, você gosta de mim. Mas garanto que não saca
este isqueiro em público.
Em seguida, Figueiredo dirigiu-se a "Zezinho", que estava
de robe ao lado da mulher, dona Vera:
— Ele não é violento. É veemente e mordaz.
— Mas é preciso — justificou "Zezinho". — Se a gente ficar
quieto, eles acabam tomando conta.
— E — tornou Figueiredo. — Agora estão batendo na tecla
que o processo é ilegal, mas não se pejam de concorrer.
O repórter César Fonseca, do DCI, interrompeu:
— E quando o senhor vai mudar?
— Mudar o quê? — perguntou Figueiredo.
— Cotovelada... — explicou Fonseca, com um sorriso
maroto.
— Quando vocês pararem de me ameaçar a engolir o
microfone.
— E a eleição do novo papa? — perguntou Fonseca, para
mudar de assunto. João Paulo II recém-havia sido eleito pelo
Colégio de Cardeais.
— Ah, querem me culpar disso também?
Aí, perguntei se ele faria um apelo pela conciliação
nacional.
— Houve quem tenha votado ontem contra o cheiro do
cavalo (o deputado João Cunha, na declaração de voto). Mas eu
não guardo ressentimento de ninguém. Não quero que todos
torçam para o Fluminense, mas que participem do jogo de forma
limpa.
"Zezinho" Bonifácio acrescentou:
— Garanto que isso vocês não vão dar. Só dão quando é
contra, não é?
— O senhor concorda, general? — perguntou Sílvio Leite, j
— Concordo — respondeu Figueiredo. — No comício de
Campos, eu me dei o trabalho de fazer o cálculo do público.
Dava 42 mil pessoas. Descontei 10 mil, para ser pessimista. Daria
32 mil. Vocês escreveram 6 mil. No comício de Euler, com
quinhentas pessoas, vocês deram 5 mil. O que o "Zezinho" diz é
verdade.
A maioria da imprensa está contra mim.
— O senhor acha que a censura resolveria isso? — insistiu
Sílvio Leite.
— Sílvio, tudo é relativo. A censura também existe nos
regimes liberais. E quanto a vocês, vocês podem publicar tudo? Os
donos dos jornais aceitam tudo? Então, comecem a liberdade
dentro dos próprios jornais, porque sei de muita coisa a favor ou
contra
mim que não saiu, mas foi escrita.
— E como o senhor reage, quando sai contra?
— As vezes, engulo sapos do tamanho de um elefante.
Tenho vontade de jogar tudo para o alto e chamar quem escreveu,
dizendo: moço, isso é mentira! Quando é opinião, aceito, mas
quando é mentira, aí fica difícil.
— E como foi seu almoço com o Carlos Castello Branco? —
perguntou Sílvio Leite.
— Acho que ele teve uma surpresa. Pensava que iria
encontrar um gorila, e não encontrou. Agora, vocês querem que eu
converse com a imprensa, mas as perguntas que fazem são
sempre as mesmas, e depois se queixam que as respostas são
sempre as mesmas. Além disso, eu falo em off e sai no dia
seguinte. Eu perdi a confiança, porque vocês não entendem
brincadeira e levam ao pé da letra. (Referia-se ao famoso episódio
do "cheiro do cavalo".) E quando eu falei no "prendo e arrebento"
quem não quiser democracia, vocês imaginaram o seguinte:
"Vamos destruir este palhaço. Vamos publicar tudo". Mas o povo
gostou, porque o povo é bom e me compreende. E, além disso, o
"arrebento" é para valer mesmo!
No dia 15 de novembro, com título eleitoral do Rio,
Figueiredo votou em trânsito, em Brasília. Entrou na fila e foi
abordado pelos caciques Aniceto e Cipriano, que estavam
acompanhados de cinco guerreiros da aldeia de São Marcos. O
presidente da mesa viu Figueiredo e o chamou para votar na
frente dos outros:
"Taí, ó. O presidente virou cacique", resmungou Figueiredo.
Logo depois de votar, ele iria para o Rio, com dona Dulce, e
eu me adiantei e fui para a base aérea, cobrir o embarque. Era o
único jornalista, na calçada, sob o sol forte das onze da manhã.
Figueiredo me viu, me cumprimentou e entrou. Pouco depois, saía
da sala de autoridades o coronel Paiva Chaves e ouvi-o
perguntando ao sentinela se eu poderia entrar. O sentinela
respondeu que as ordens eram expressas: jornalista não entra.
Paiva Chaves voltou para a sala de autoridades, e um
minuto depois saía Figueiredo, em minha direção:
"Já que você não entra, eu saio. Tudo bem?"
E ali ficamos conversando sobre a evolução da democracia
até que, meia hora depois, um oficial veio explicar que a
decolagem, marcada para as onze horas, já estava muito atrasada.
No dia 29 de novembro, o presidente eleito transferiu-se
para o 19º. andar do prédio do Banco do Brasil, para formar o
governo. O general Venturini permitiu-me entrar para ver como
era o gabinete de Figueiredo. Sobre a mesa estavam: a Bíblia, Dom
Quixote e os livros Inflação sem Dinheiro, Explosão Demográfica,
Batalhas Ganhas e Perdidas e Fim do Futuro?, este de José
Lutzenberger.
Eu estava examinando um cavalinho de bronze, sobre uma
estante, quando entrou Figueiredo:
"Souberam que gosto de cavalo e começaram a me dar
cavalos; descobriram que gosto de churrasco, e só me oferecem
churrasco. Imagine se soubessem que também gosto de mulher!"
Enquanto eu ria, ele prevenia: ''Essa não é para botar no
livro, hein?"
Meu livro João Presidente foi lançado no salão nobre do
Senado, em 4 de dezembro. Figueiredo compareceu, e ficamos lado
a lado, assinando autógrafos. Lá estavam, entre outros, Petrônio
Portela, o embaixador da União Soviética, Dimitri Zhukov, o futuro
ministro do Exército, general Walter Pires, meus amigos Rubem
Ludwig, Humberto Barreto e o senador José Sarney, que me
indicara a editora.
No dia 18 de janeiro, Figueiredo recomendava à Arena o
nome de José Sarney para presidente do partido. Logo depois da
indicação solene, chegou ao 19º. andar do Banco do Brasil o
cacique xavante Aniceto, dizendo-me que viera falar com o João
Batista. Perguntei-lhe sobre a aldeia de São Marcos.
— Como? — o cacique parecia não ter entendido a
pergunta.
— A aldeia. Vai tudo bem na aldeia? — expliquei.
— Não sei — respondeu Aniceto.
— Mas você esteve aqui no dia 15 de novembro e não
voltou para lá?
— Não. Eu estava passando as festas de fim de ano no Rio.
SEGUNDA PARTE

NO PALÁCIO DO PLANALTO
_____________________________

Abril de 1979 a novembro de 1980


Mau começo no Planalto

Em fevereiro, o coronel Rubem Ludwig me avisou que


precisava falar comigo. Convidei-o para um churrasco em minha
casa. Passamos a tarde conversando e ele me disse que Figueiredo
gostaria que eu fosse trabalhar com ele, na Secretaria de
Imprensa. Argumentei que era um assunto com Farhat, que seria
o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação. Ludwig me disse
que era convocação pessoal do presidente, que o presidente o
havia encarregado de convidar-me e que eu precisaria aceitar,
porque ele, Ludwig, também gostaria que eu ajudasse Figueiredo
no difícil período que previa a volta dos banidos, a anistia, o fim
do bipartidarismo, enfim, a institucionalização da democracia. Eu
disse que aceitaria, mas precisaria de seus conselhos.
Ludwig era o executivo do Conselho de Segurança Nacional,
que funcionava na Esplanada dos Ministérios, no prédio do
Estado-Maior das Forças Armadas. Combinei ir lá para
conversarmos de novo. Foi lá que recebi o conselho principal de
Ludwig:
"Soldado na trincheira não ganha a guerra. Pode não
morrer, mas não ganha a guerra. Para ganhar, é preciso arriscar,
botar a cabeça para fora. Pode levar bala, mas é o único jeito de
ganhar''.
O conselho me marcou até hoje. E aceitei o convite.
Combinamos que eu aguardaria o convite formal de Farhat.
Terminou fevereiro, veio a posse em 15 de março, e eu
continuei no JB. Em meados de abril, eu estava no palácio para
conseguir permissão a fim de fazer uma reportagem no palácio da
Alvorada, que ficara vazio. Estava caminhando no mezanino
quando alguém me chamou. Era o coronel Paiva Chaves, assessor
especial do presidente:
— Como é, Alexandre, fazendo corpo mole? Não vai mesmo
vir ajudar a gente?
— Não depende de mim. Eu já aceitei o convite. Mas ainda
não recebi o convite oficial — argumentei.
— Mas não é possível! Faz um mês que o presidente
mandou o Farhat te convidar. Assim não dá. Vou falar com o
Figueiredo agora mesmo! — disse Paiva Chaves, irritado.
No dia seguinte, Farhat chamou-me ao gabinete dele.
Formal e com pompa, começou assim:
— Tenho observado o teu trabalho ultimamente e cheguei
à conclusão de que você pode ser um bom auxiliar para mim.
Então, decidi te convidar para trabalhar aqui, como subsecretário
para a imprensa nacional.
Eu fervi por dentro. Ele estava mentindo na minha cara. Me
deu vontade de chamá-lo de mentiroso e dar o fora e não falar
mais no assunto. Mas pensei no Rubão e no Figueiredo.
— Gostaria de ter um tempo para pensar — respondi. Fui
direto ao Conselho de Segurança Nacional, falar com o Rubão.
— Assim não vai dar. Já está começando mal. O homem
está mentindo para mim logo no início. Não posso aceitar. Não
posso trabalhar com o Farhat.
— Calma, esquece isso — aconselhou Ludwig. — Você não
vai trabalhar com o Farhat, você vai é trabalhar com o Figueiredo.
O Figueiredo é que quer ter você para ajudá-lo a fazer a abertura.
Saí dali conformado e no dia seguinte disse a Farhat que
aceitaria. Tratei de fazer minha última reportagem para o JB,
sobre o palácio da Alvorada, que saiu naquela semana mesmo, no
Caderno B. Só dez anos depois eu iria saber que Farhat queria dar
o cargo ao seu auxiliar no Aracoara, meu amigo e correto
profissional Anchieta Hélcias.
Assumi no dia 23 de abril de 1979, e encontrei dona Dulce
furiosa comigo. Ela não fora consultada sobre a reportagem do
Alvorada e achava que, como nova dona da casa, tinha antes que
fazer algumas modificações até que fossem permitidas reportagens
e fotografias.
Outro bom conselho de Rubem Ludwig foi este:" O principal
é você aprender a música. Sabendo a música, você bota a letra em
qualquer circunstância''. Criei o hábito de conversar todos os dias
com Heitor, Golbery e Venturini, depois de ler todas as notícias do
dia. Com isso, ia aprendendo a música, para botar a letra que
fosse necessária. E só saía do palácio depois do Jornal Nacional.
Logo aprendi que depois do JN chegavam telefonemas dos jornais
pedindo a repercussão no palácio sobre o que tinham ouvido na
Globo.

Golbery

Quando eu entrava no gabinete do ministro Golbery, ficava


com todos os sentidos atentos, era preciso sorver tudo o que fosse
possível daquele homem genial. Ninguém imagine Golbery pedante
ou orgulhoso. Ele era o retrato da simplicidade, como todo sábio.
Gostava de estudar a natureza humana, e por isso conversava
com as pessoas comuns. Quando ia para seu sítio, em Luziânia,
parava numa "venda" para conversar e assuntar. Muitas vezes eu
queria falar sobre algum assunto político e ele insistia em me
descrever alguma pessoa notável que conhecera no fim de
semana, no interior de Goiás. Tinha uma admiração irresistível
por pessoas dotadas de poderes extra-sensoriais, ou para-
normais.
"A gente estuda, estuda, e eles sabem mais do que a gente",
comentava, maravilhado.
Um dia, um deputado de Goiás fez uma acusação, em
plenário, contra um dos filhos de Golbery. Os jornais do dia
seguinte publicaram a acusação e os jornalistas credenciados no
palácio vieram me pedir a repercussão junto a Golbery. Subi ao
gabinete dele e ele me disse que já sabia da acusação e que não
iria respondê-la:
''Aqui no Brasil, levam quinze dias para esquecer. A
acusação de ontem saiu nos jornais de hoje e, se eu responder
hoje, continuam a falar nela nos jornais de amanhã. E eu não vou
contribuir para levarem dezesseis dias para esquecer''.
As pessoas o chamavam de "bruxo", mas, na verdade, ele é
que admirava o poder dos bruxos de preverem o futuro sem o
trabalho que ele tinha para fazer a mesma previsão racionalmente.
O segredo de Golbery era conhecer profundamente as pessoas
envolvidas em determinado processo. Como ele sabia a forma de
cada um dos envolvidos reagir, ele podia prever o resultado final
quando se misturassem os interesses dos envolvidos nas
circunstâncias do momento. Nenhum dos envolvidos sabia como
iria terminar. Mas Golbery sabia. E sabia tudo não por bruxo, mas
por estudioso.
Um dia, mal tinha começado a guerra entre Irã e Iraque, eu
entrei no gabinete dele e o encontrei estudando um diagrama de
um biodigestor. Perguntei-lhe se pretendia produzir biogás no
sítio.
"Nada disso. Estou é me preparando. Pode vir algum
ministro aqui com essa idéia de biogás e eu não posso deixar que
ele me enrole."
Dois colunistas, certa vez, escreveram que Golbery estava
ficando cego, a ponto de seu assistente, "Juquinha" Mamede, ter
que ler os jornais para o ministro. Subi e perguntei-lhe o que
responder, caso os repórteres me perguntassem. Golbery estava
colocando um parafusinho nos óculos e, ao se virar para mim,
deixou cair o minúsculo parafuso no tapete cinza. A secretária,
dona Lurdinha, que havia aberto a porta para mim, e eu nos
apressamos em ajudá-lo a encontrar o parafuso. Mas Golbery o
encontrou antes. Colocou-o de novo no orifício do aro dos óculos e
parafusou-o com a ponta de um canivete. Depois, olhou para mim
e perguntou:
— Você acha que estou cego?
— Puxa vida, claro que não! Agora já sei o que vou dizer a
eles — respondi.
— Não vai dizer nada. Você acha que por eles terem escrito
que estou cego, isso me alterou a visão para pior ou para melhor?
Então, não responda nada. Não vai afetar a minha visão.
Anos mais tarde, eu transpus aquela grande lição para uma
recomendação escrita aos repórteres da TV Manchete em Brasília:
"Se você vir um cavalo preto e reportar que ele é branco,
porque você não gosta de preto, sua reportagem não vai mudar a
cor do cavalo. E quando alguém descobrir a verdadeira cor, nunca
mais vai ter certeza de que você está dizendo a verdade".
Sílvio Caldas e Juscelino

Em meados do ano de 1979, apareceu no palácio o cantor


Sílvio Caldas para uma audiência com o presidente, conseguida
pelo senador José Sarney. Quando soube que Sílvio aguardava na
ante-sala, fui cumprimentá-lo e fazer-lhe companhia. Sílvio me
confidenciou que iria fazer um pedido ao presidente: um terreno
em Brasília para ser construído um memorial a JK. Me contou que
certa vez ouvira dona Sarah, emocionada, queixar-se de que há
anos não consegue sequer comprar um terreno para aquele fim,
porque "forças da Revolução" vêm impedindo.
— Você acha que devo tocar no assunto com o presidente?
— perguntou-me Sílvio.
Eu achava que sim, que estava coerente com a abertura,
mas pedi que Sílvio esperasse um pouco e fui aconselhar-me com
Golbery.
— Claro que pode! Pode e deve. Pode dizer para ele falar
com o presidente — encorajou Golbery.
Sílvio entrou e demorou-se mais de meia hora. Ao sair,
tinha lágrimas nos olhos.
— Olhe aqui — e mostrou-me o braço —, estou todo
arrepiado. Ele não só disse que vai dar o terreno como disse que
vai fazer isso para corrigir uma grande injustiça com Juscelino!
Eu senti que tinha nas mãos diamante puro. Só precisava
lapidar.
— Agora, Sílvio, você vai ter que contar tudo para a
imprensa.
Sílvio Caldas falou para a imprensa emocionado, elogiando
o coração justiceiro do João. Foi uma bomba. Dona Sarah ligou,
para agradecer a Figueiredo, e ele a chamou, para tratarem do
terreno. Figueiredo ligou em seguida para o governador do Distrito
Federal, seu amigo Aimé Lamaison, e mandou que ele selecionasse
cinco locais em que pudesse ser erguido o memorial.
Quando dona Sarah e suas filhas chegaram à calçada do
palácio, fui recebê-las:
— Dona Sarah, em nome do presidente, quero dizer-lhe
que esta casa é mais do que sua. Foi seu marido quem construiu
este palácio. Sinta-se à vontade.
Dona Sarah me contou, meses depois, na Fazendinha JK,
em Luziânia, que ela estava nervosíssima, e que a recepção a
havia acalmado.
Quando ela entrou no gabinete presidencial, encontrou
Figueiredo esperando-a na porta e um mapa de Brasília estendido
sobre a mesa.
— Pode escolher, dona Sarah, mas, se eu fosse a senhora,
ficaria com este — e apontou para o local onde o memorial foi
construído, a área mais nobre de Brasília. Depois, começou a
lamentar as injustiças por que passara Juscelino. Meses depois,
eu soube que, quando chefe do SNI, Figueiredo já havia feito uma
observação sobre o caso Juscelino, dizendo que JK fora
perseguido e injustiçado.
Figueiredo, depois, assinou ato reintegrando JK em todas
as ordens nacionais e sancionou projeto de Tancredo, devolvendo
as medalhas e comendas que lhe haviam sido confiscadas e que
hoje estão no memorial.
No aniversário de JK, em 12 de agosto de 1979, dona Sarah
iria abrir, em Diamantina, a subscrição nacional para a
construção do memorial. Mandei um bilhete ao presidente,
sugerindo que ele deveria abrir a subscrição. Fui para Diamantina
com um cheque de mil cruzeiros, assinado por Figueiredo, que
tornei nominativo ao Memorial de Juscelino Kubitschek.
Quem me levou, de carona, no seu avião particular, foi o
ex-cassado Aníbal Teixeira, que depois viria a ser ministro do
Planejamento do governo Sarney. Em Diamantina, fui tratado
como convidado da cidade, e fomos até a madrugada em
serenatas. Na Folha de S. Paulo de 13 de setembro, saiu um
"Painel" afirmando que eu gastara 3 mil cruzeiros de passagem
aérea, diárias, gasolina e refeições. A propósito de gasolina, no dia
seguinte consegui, com o presidente, que o CNP autorizasse a
abertura dos postos de Diamantina nos domingos à tarde, para
garantir o turismo. Fora um pedido do prefeito.

Cassados e oposição

Aníbal Teixeira mandou, por meu intermédio, ao ministro


Golbery, os originais de um livro de ficção política chamado
Trama. Golbery mandou-lhe um bilhete agradecendo e elogiando o
livro.
Mas Aníbal não fora o único cassado a quem servi como
intermediário. O seresteiro de Juscelino, César Prates, havia sido
despojado do cartório que recebera de JK, ao ser cassado. Fora
anistiado, mas continuava na rua da amargura. Conversei com o
ministro Golbery e ele achou boa idéia devolver o cartório a César
Prates, em 23 de junho de 1980. Fui à solenidade de reintegração
de posse no cartório e tirei uma foto com César, que a autografou,
agradecido. Meses depois, recebi dele um telefonema:
"Olha, era melhor eu não ter recebido o cartório de volta. Os
amigos que eu tinha no tempo da miséria eram poucos, mas
sinceros, agora eu não agüento mais os novos amigos que
apareceram. O cartório me fez descrer na Humanidade".
Certo dia, antes da anistia, eu li no Pasquim uma entrevista
com o ex-secretário de Imprensa de Jango, Raul Ryff, que fora
cassado. Os entrevistadores insistiam em que ele criticasse o
presidente Figueiredo, mas Ryff resistia: "Como eu posso criticar
esse general que eu não conheço, mas que fala em dar anistia e
redemocratizar o país?"
Peguei o telefone e liguei para o Ryff:
"Quero te cumprimentar pela coragem de, no Pasquim e sob
tanta insistência contra, ter feito justiça ao presidente. Em nome
do presidente, eu te cumprimento pela coragem".
O jornalista José Escarlate ouviu o telefonema e, no dia
seguinte, havia uma nota no O Globo, contando o episódio.
Bem cedinho, no palácio, Farhat me chamou e me passou
uma descompostura. Eu não deveria falar em nome do presidente,
cumprimentando um cassado. Ele foi então interrompido por seu
assessor, João Pato, avisando que estava sendo chamado para os
cumprimentos matinais ao presidente. Os "ministros da casa",
todos os dias, se alinham diante do elevador privativo no terceiro
andar, esperando o presidente chegar, para cumprimentá-lo.
Como Farhat ainda me dava recomendações, acompanhei-o até lá
e tomei o último lugar na linha de cumprimentos.
A porta do elevador se abriu e Figueiredo, ao me ver, veio
primeiro em minha direção:
"Meus cumprimentos. Eu li o que você fez ontem. Telefonou
para o Ryff em meu nome. Muito obrigado. E isso mesmo. É assim
que nós vamos fazer a abertura!"
Quando saímos dali, Farhat não dizia uma só palavra.
Através de um amigo funcionário do Senado, Antônio
Marcos, o "Marquinhos", comecei a fazer contatos com o MDB, de
pois de autorizado pelo ministro Golbery. Algumas lideranças do
MDB, desejosas de lançar uma ponte para entender-se com o
presidente, a fim de apresentar sugestões aos projetos de
institucionalização da democracia, sentiam-se constrangidas em
usar os canais conhecidos, como Marchezan ou Petrônio. Através
de um desconhecido, como eu, era mais fácil.
Na noite de 3 de setembro de 1979, por exemplo, encontrei-
me secretamente com o líder do MDB, deputado Freitas Nobre, no
apartamento do pai de "Marquinhos", que se retirou, deixando-nos
a sós. No dia seguinte, mandei o seguinte relatório ao presidente:

Ontem a noite, encontrei-me com o líder do MDB na Câmara,


deputado Freitas Nobre, no apartamento de um amigo, e
conversamos, os dois, cerca de duas horas.
Ele me pediu para transmitir ao senhor que, sempre que o
interesse nacional assim o exigir, pode o senhor contar com ele.
Disse estar disposto a ouvir, sempre que o senhor julgar que seu
procedimento, sua liderança ou seu voto não estiverem
considerando, acima de tudo, o interesse nacional.
Autoclassificou-se "socialista de orientação cristã" e
acrescentou preferir ser considerado ''autêntico'' dentro do MDB, por
que assim pode manter os autênticos sob rédea. ''Quem monta sabe
muito bem que ê preciso dar e tirar", disse ele.
Contou ter ficado muito bem impressionado com o relato do
deputado Athiê Jorge Cury, ao qual o senhor teria afirmado que
"não farei essa violência" de extinguir os atuais partidos.
Acrescentou estar disposto a elogiá-lo da tribuna, se a reformulação
partidária vier sem esse ''ato de violência" do governo.
Recordou que, quando líder, num 31 de março da legislatura
passada, excluiu, por sua exclusiva responsabilidade, os nomes de
cinco oradores que pretendiam "virar a mesa" em violentos
discursos contra a Revolução. Disse que um deles estava tão
disposto a bagunçar que já tinha comprado passagem para o
exterior, e dispunha de carro pronto, em frente ao edifício do
Congresso, para ir embora após o pronunciamento.
Afirmou, ainda, ter assumido a responsabilidade de conduzir
o voto da bancada, favorável ao substitutivo do governo, no projeto
de anistia, ''mesmo correndo o risco das vaias''. Revelou ter,
pessoalmente, compreendido e concordado com a exclusão da
anistia dos que praticaram atentados pessoais. Disse, no entanto,
ter ficado com a impressão — depois de visitar as prisões — de que
os excluídos foram vítimas, em sua maioria, de um idealismo cego,
ou de demagogos hoje beneficiados com a anistia.
Tendo eu manifestado o meu respeito por sua posição de
colocar o interesse nacional acima de questiúnculas partidárias, o
deputado Freitas Nobre chegou a sugerir um meio prático de
comunicação: "Sempre que o presidente julgar que minha posição,
como liderou deputado, estiver conflitando com o interesse nacional,
você pode me procurar para apresentar a posição do presidente a
respeito''.
Eu disse ao deputado que iria relatar ao senhor a nossa
conversa.

Acho que, com aqueles encontros, ajudamos muito a


desobstruir o difícil início da estrada que estava sendo desbravada
em direção à democracia. O que seria sacrilégio para o MDB
acabou sendo, na perspectiva histórica, uma contribuição
importante para se chegar ao objetivo.
Também me encontrava com freqüência com o aguerrido
vice-líder do MDB, deputado Alceu Collares, anos mais tarde eleito
prefeito de Porto Alegre pelo PDT. Um dia, ele me confidenciou
admirar o lado humano do "João". Contei ao presidente, que
retribuiu: também era admirador de Collares.
Voltei a Collares com a reação de Figueiredo. Collares
animou-se:
— Eu até que gostaria de conversar com esse tal de João.
Ele é rude e eu sou rude. Acho que os dois diríamos umas boas
verdades um para o outro e creio que ajudaríamos a botar mais
uns tijolos nessa democracia.
Quando relatei a Figueiredo o que dissera Collares, o
presidente topou:
— Pois diga pro Collares que, se ele vier aqui, também vai
ouvir umas verdades.
O encontro se deu em meados de setembro de 1979, sob
grande escândalo no MDB. Depois de quase uma hora de
conversa, eu aguardava ansioso na ante-sala, quando Collares
saiu.
— E aí, como foi?
— Foi o que era pra ser. Ele me disse as verdades dele e eu
disse as minhas pra ele, mas saímos nos dando muito bem. O
homem é macho mesmo e vai fazer democracia e eu vou fazer
oposição, mas vamos fazer juntos a democracia.
Para os jornalistas, Collares contou que viera pedir a
libertação das lideranças sindicais presas no Rio Grande do Sul,
em recente greve dos bancários.
Os "autênticos'' do MDB caíram em cima de Collares.
Alegavam que de nada adiantaria o encontro, porque o governo ' 'é
do monólogo" e que não ouve a oposição. Resolvi entrar de novo no
circuito, e mandei o seguinte bilhete ao Heitor Ferreira:
A greve dos bancários em Porto Alegre e em todo o Estado
está terminada. No sábado ã noite, uma concentração convocada
por catorze sindicatos, inclusive o dos jornalistas, reuniu o número
ridículo de quatrocentas pessoas. Alguns dos presos do interior são
pessoas conhecidas nas comunidades. Dos dezessete presos, três
já foram soltos. Não seria o caso de o presidente mandar soltar logo
os demais, hoje mesmo? Ficaria claro que o presidente ouviu o apelo
do Alceu Collares.

Heitor passou por Medeiros (SNI), pelo presidente, e o


ministro do Trabalho mandou soltar todo mundo. Graças ao Alceu
Collares.
Outro gaúcho que aproximei de Figueiredo foi Dilermando
de Araújo Reis, o "Mandico", homem de Jango, cassado, que o
acompanhou no exílio uruguaio.
Em duas ocasiões, para superar a barreira do
constrangimento, fiz com que o presidente convidasse o senador
Nelson Carneiro ao palácio. A primeira foi em 12 de outubro de
1979. O presidente iria sancionar, no Dia da Criança, o "Código de
Menores", de autoria do senador do MDB. Ninguém estava
lembrando do autor. Depois, foi em março de 1980, quando veio a
Brasília a Junta Diretiva do Parlamento Latino-Americano, do qual
o senador é membro. Em homenagem ao senador, Figueiredo
recebeu a junta. Exatamente dez anos depois, o senador Nelson
Carneiro voltaria ao Gabinete Presidencial, por dois dias, como
presidente da República.
Também tive produtivos contatos com o deputado Joel
Ferreira, responsável por 40 por cento dos votos do MDB no
Amazonas, do qual é um dos fundadores. O deputado estava sem
condições de resolver alguns problemas de seu Estado — vale
dizer, de cumprir alguns compromissos com seu eleitorado — e só
queria falar com Figueiredo, para poder realizar o prometido.
Consegui que Figueiredo o recebesse, e o deputado pôde atender a
várias reivindicações do Amazonas. Agradecido, ele passou para o
PDS, logo que foi criado o partido.
Na fundação do PDS, em 31 de janeiro de 1980, eu fui o
mestre-de-cerimônia no auditório da Comissão de Relações
Exteriores da Câmara. O ministro do Exército, general Walter
Pires, estava sentado na primeira fila e, na hora de assinar a ata
de fundação, eu sussurrei ao secretário-geral do PDS, deputado
Nelson Marchezan:
— Chamo o Walter Pires?
— Claro! — respondeu ele.
No dia seguinte, os jornais estamparam na primeira página
a foto do ministro do Exército, mostrando que ele "assinava sua
filiação ao PDS". Como o general ainda estava na ativa, criou-se
uma polêmica muito grande, já que militar da ativa está proibido
de filiar-se a partido político. Tudo ficou resolvido com a
explicação que dei no briefing daquele dia de que ele não se filiava,
apenas testemunhava a fundação do partido. Mas a assinatura
dele ficou lá, ao lado de outros fundadores do PDS, como José
Sarney e Amaral Peixoto.
Outra confusão que provoquei no partido do governo foi
ainda nos tempos da Arena. O vice-líder, deputado Jorge Arbage,
estivera com o presidente Figueiredo e, depois, no Congresso, ao
ser perguntado sobre a situação no seu Estado, o Pará, dera uma
resposta que poderia ser interpretada como uma preferência de
Figueiredo por Alacid Nunes, em prejuízo do senador Passarinho.
No gabinete presidencial, ouvi Figueiredo comentar a entrevista:
"Não foi bem isso que eu disse".
Quando me perguntaram a respeito, eu disse que o
deputado não estava interpretando bem o que lhe dissera o
presidente. A imprensa do Pará caiu em cima do deputado e ele
exigiu minha demissão, ou deixaria a vice-liderança. Era uma
espécie de "ou ele ou eu''. Mas acabamos nos entendendo e
ficamos bons amigos até hoje.
Um bom amigo que fiz foi o deputado Renato Azeredo, do
MDB e depois PP, ligadíssimo a Tancredo. Por algumas vezes,
tomei café da manhã na casa dele, para conversarmos, e por
várias vezes levei a Figueiredo a busca de soluções para problemas
em Minas e sugestões políticas de Renato e do próprio Tancredo.
Outro amigo de Tancredo que conheci na época foi o
arquiteto Oscar Niemeyer. Ele foi ao palácio do Planalto para
conversar com o diretor administrativo, coronel Antenor de Santa
Cruz Abreu, a fim de opinar sobre as reformas do palácio. Um
repórter me avisou que Oscar Niemeyer estava na portaria, mas
fora barrado por não estar de gravata. Desci correndo e o
acompanhei até o coronel Santa Cruz. Depois daquilo, Niemeyer
voltou várias vezes ao palácio para acompanhar as reformas — e
sempre sem gravata, é claro.
Não entendi por que, anos depois, na recém-implantada
"Nova República", saiu nos jornais que, num "dia histórico, Oscar
Niemeyer voltava ao palácio que ele construíra, mas se recusara a
freqüentar nos vinte anos de ditadura''. A legenda das fotos de
Niemeyer entrando no palácio, em 1985, dizia que ele entrava ali
pela primeira vez com a volta da democracia.
Questões de segurança

Trabalhar ao lado de Figueiredo fez com que eu viajasse


pelo Brasil todo. Numa das primeiras viagens, a Belém, estávamos
ainda voando no Boeing presidencial quando o chefe de gabinete
do general Medeiros (SNI), coronel Pacífico, avisou-me de que
poderíamos ter sérios problemas de manifestações contra o
presidente. Já estávamos no hotel, e o coronel Pacífico me
procurou.
Informou-me que a Igreja, via Pastoral da Terra, havia se
unido aos estudantes, para um cerco, no dia seguinte, à sede da
Sudam, onde Figueiredo iria presidir uma reunião sobre a
Amazônia. E disse que o ministro Medeiros gostaria que eu
dialogasse com os estudantes, tentando evitar uma solução
policial. Eu aceitei e fui preparando os argumentos.
No dia seguinte, 27 de julho de 1979, havia uns duzentos
ou trezentos estudantes diante da Sudam e mais de cem policiais
inquietos, ansiosos por defender o presidente. O carro do
presidente entrou sob vaias. Desci do carro onde estava e fiz sinal
para eles que desejava conversar. Começava a chover e os convidei
para entrarem no saguão, que ficou lotado. Expliquei a eles que,
em nome do presidente, queria ouvi-los. Logo percebi que metade
deles estava ali porque defendia de verdade as idéias expostas nos
cartazes que carregavam. E que a outra metade não queria
diálogo. Queria pretexto para a bagunça e para um confronto com
a polícia, que ampliasse o gesto deles. Eu já conhecia essa velha
tática. Meus três anos de Argentina foram um belo pós-graduação
naquela cartilha.
Meu trabalho foi apenas de provar que uma metade estava
sendo usada pela outra. E que a metade idealista poderia
conseguir coisas que a outra metade não poderia conseguir.
Quando isso ficou bem claro, pedi que escolhessem dez
representantes para conversarem com o presidente. A escolha
sedimentou a divisão. E dez não-agitadores conseguiram do
presidente respostas para o que queriam.
Um confronto sério aconteceu em 22 de maio de 1980, em
Ribeirão Preto. O SNI já havia informado o presidente que haveria
manifestações pesadas contra ele. Eu passei pelo quarto do
presidente, no hotel, e vi que ele estava reunido com o delegado
Romeu Tuma, do DOPS paulista.
Na hora da confusão, eu fui para o meio dos manifestantes,
para ouvir o que diziam e testemunhar a reação da polícia. As
palavras de ordem eram idênticas às que já ouvira em espanhol,
na Argentina. Quando os policiais começaram a dispersar o povo,
atirando, com lança-granadas, bombas de gás lacrimogêneo, foi
uma correria enorme. Voltei a aplicar as lições argentinas,
chutando granadas de gás. Mesmo assim, passei o resto do dia
com os olhos ardendo.
A tensão maior aconteceu em Ouro Preto, em 15 de outubro
de 1980. O SNI tinha a informação de que Figueiredo sofreria um
atentado. O chefe da Segurança, coronel Periassu, me preveniu do
perigo que todos corríamos, porque estávamos sempre perto do
presidente, e havia indícios de que seria usada uma bomba. No
meio da tarde, fomos informados de que o pessoal do coronel
Haroldo, do comando militar de Belo Horizonte, havia descoberto,
no quarto de um professor suspeito, embaixo da cama, farto
material explosivo. Com a notícia, houve um alívio geral na
comitiva.
Numa viagem a Manaus, eu aproveitava uma folga para
olhar os preços na Zona Franca, quando alguém me arrancou do
pulso o relógio e saiu correndo. Corri atrás dele e depois resolvi
diminuir o passo, mantendo o olho no ladrão. Era um homem
franzino, de uns trinta anos. Ele pensou que já não estava sendo
seguido, e também diminuiu o passo. Ele já estava em busca de
outra vítima, quando o surpreendi. Aproximei-me devagar e o
imobilizei, pelo pescoço. Disse-lhe que iríamos juntos para a
polícia e ele começou a fazer uma choradeira, a alegar que tinha
filhos para sustentar. E, enquanto eu mantinha apertado o
pescoço dele, enfiou a mão no bolso e começou a jogar relógios no
chão. Quando apareceu o meu, soltei-o e ele correu. Fiquei com
seis relógios. Eu acabava de assaltar um ladrão!
Noutra viagem à Amazônia, tínhamos uma passagem por
Marabá, onde fazia calor de mais de 40 graus. O almoço foi uma
apimentada caldeirada de peixe. E, logo depois do almoço,
embarcamos de volta no Buffalo da FAB, que esperava no sol. Mal
decolamos, começou o mau tempo e o avião sacudia. Aí, o
ministro Andreazza acendeu um Churchill, cubano. O avião virou
uma câmara de tortura. O presidente não disse nada, mas notei
que o senador Gabriel Hermes começou a abrir a camisa,
transpirando, e empalidecera. Aí eu fiz um sinal para o médico, dr.
Newton Mattos, que fez um apelo a Andreazza:
"Ministro, o senhor vai ter que apagar esse charuto".
Foi a minha sorte. Eu já ia entrar em parafuso também.

Jornalistas

No final da viagem a Belém, um dia depois do diálogo com


os estudantes, a comitiva presidencial foi recepcionada na base
aérea. Construída durante a Segunda Guerra Mundial, ela guarda
a arquitetura americana, padronizada, daqueles tempos. O que a
banda tocava também lembrava o início dos anos 40: "Moon light
Serenade", "Tuxedo Junction'', "I´am in the Mood for Love"... O
repórter Chico Dias queria entrevistar o presidente desde a
véspera. E nos esperava no portão da base, quando chegamos.
Chico me avisou que tentaria entrar carregando fios da Radiobrás.
Mais tarde, o vi esgueirando-se pelos vestiários, perto da piscina.
Na beira da piscina, de calção, conversavam, em sussurros,
Figueiredo e o chefe do SNI, general Medeiros. Ninguém da
comitiva ousava aproximar-se, para não violar-lhes a intimidade.
Foi quando notei um movimento na água, depois surgiu um nariz
como periscópio, um par de olhos e... era o Chico Dias, semi-
submerso, a um metro dos dois, ouvindo a conversa!
Quando percebeu que eu o flagrava, fez-me um sinal de que
ficasse quieto, que ele iria embora. E saiu, no mergulho, do outro
lado da piscina. Esgueirou-se até o vestiário e, minutos depois, me
entregou um calção molhado:
"Filei da segurança. Tchau!"
No início de 1980, estava para sair o resultado de
concorrência pública para novos canais de FM, inclusive em
Brasília. O radialista Mário Garófalo, que é uma legenda no rádio
brasileiro, me procurou para dizer que influências políticas iriam
derrotá-lo. E que, se ele pudesse falar com o presidente, tinha
certeza de que ganharia a concessão. Prometi falar com o
presidente.
Dias depois, o presidente embarcava na base aérea e
Garófalo me procurou.
"Se o presidente me der dois minutos, vai ser o suficiente.
E, se ele me der a concessão, eu juro que dou um beijo nele."
Fui falar com o presidente.
"Diga para o Garófalo vir aqui, que eu falo com ele."
Garófalo falou com o presidente já na saída para a pista. Eu
observava a distância, porque não iria viajar naquele dia. De
repente, vi Garófalo agarrando o presidente e beijando-o com todo
o seu espírito italiano e chorando.
No avião, Figueiredo chamou o secretário de Imprensa
Marco Antônio Kraemer e ordenou:
''Avise o Haroldo que uma FM de Brasília é do Garófalo''.
Entre os muitos jornalistas que tiveram a minha
intervenção para conseguirem credencial antes negada, estava
um, em setembro de 1979, chamado Fernando César de Moreira
Mesquita. Que viria a ser o secretário de Imprensa do presidente
Sarney.
Um jornalista que deu trabalho chamava-se Alexandre
Baumgarten. Vários assessores de Imprensa dos ministérios me
informavam que ele estava usando o nome do chefe do SNI,
general Medeiros, para coagir os ministérios a aprovarem
anúncios na quase falida revista O Cruzeiro. Juntei todas as
queixas e as levei ao general Medeiros. Ele me contou que já sabia.
E disse que se tratava de um aproveitador, que estava usando o
nome dele indevidamente. Eu soube depois que Baumgarten havia
sugerido, ainda nos tempos do escritório eleitoral no hotel
Aracoara, que o futuro governo usasse à vontade o espaço de O
Cruzeiro para plantar reportagens favoráveis. Mas, é claro, queria
a compensação em publicidade. Só que a proposta caíra no vazio,
porque a tiragem da revista era insignificante.
Também em 1979, através de um amigo comum, o
desbravador Ibrahim Abudi, conheci o jornalista David Nasser.
Trocamos correspondência e tivemos longas conversas telefônicas.
Quando ele morreu, fui ao enterro dele e lamentei não tê-lo
conhecido antes. Ele representava o retrato de uma era do
jornalismo brasileiro, cujo trabalho eu já acompanhava desde
1948, pois eu "devorava" todas as edições de O Cruzeiro. Até hoje
trago na memória as reportagens sobre o caso do tenente
Bandeira, o disco voador na barra da Tijuca, as aventuras dos
irmãos Villas-Boas no Brasil Central, feitas pela equipe de O
Cruzeiro.
Outra revista de que li todos os números foi Seleções.
Inclusive a partir de 1939, porque as encontrava no sótão da casa
de meu avô. Li todos os números, de 1939 ao final dos anos 60.
Quando comecei a fazer briefings — entrevistas coletivas
diárias com os jornalistas credenciados no palácio —, levava o
texto integral de tudo o que fora dito, retirado do gravador, para
discutir com Heitor Ferreira. Ele lia e fazia recomendações à
margem: "Está muito fraco"; "poderia ter ido mais fundo"; "faltou
convicção"; "falou demais". Era o aprendizado da música.
Certa vez, o professor Euríclides de Jesus Zerbini —
pioneiro de transplante cardíaco no Brasil — ia ter uma audiência
com o presidente. Na ante-sala, o professor me contou que iria
tentar obter de Figueiredo um juramento de parar de fumar. O
médico do presidente, dr. Newton, achou excelente a idéia de
trazer jornalistas para registrarem o juramento. Só assim o
presidente não poderia voltar atrás. Eu chamei os credenciados
para o gabinete presidencial, a fim de registrarem,
excepcionalmente, toda a conversa. O dr. Zerbini logo entrou no
assunto:
— Presidente, está provado que o cigarro faz mal, reduz o
tempo de vida, reduz os sentidos e provoca mortes dolorosas, por
câncer e enfisema. Por que o senhor não deixa de fumar?
Figueiredo juntou as mãos cruzando os dedos e girou os
polegares, como faz quando fica inquieto:
— Olha, professor, eu estou com 62 anos e um médico
amigo meu me disse que não vai adiantar eu deixar de fumar com
esta idade. O mal que o cigarro tinha que fazer já fez.
Aí, Figueiredo olhou para os jornalistas, de gravadores
ligados, e deve ter imaginado que estava dando um mau exemplo,
porque tentou minimizar o que dissera:
— Olha, dr. Zerbini, eu vou lhe dizer por que mesmo eu
não consigo deixar de fumar. É porque eu não tenho caráter.
Levei um susto. Imaginei o Hélio Fernandes achando a
manchete da Tribuna da Imprensa: FIGUEIREDO FINALMENTE
CONFESSA QUE NÃO TEM CARÁTER. Quando a audiência
terminou, procurei cada credenciado e fiz um apelo. Expliquei que
Figueiredo não queria se referir a ''caráter'', mas a''força de
vontade'' e que essa sinonímia era usada em Alegrete, no Rio
Grande do Sul, onde ele servira e aprendera o linguajar dos
pampas. Aí pedi que não publicassem.
Todos atenderam. Apenas o Emerson Souza deu a frase,
mas no final da matéria, escondida. O editor da Folha de S. Paulo
deve ter lido só o lead (primeiro parágrafo) e não aproveitou o
título. E o fato ficou inédito.
O mesmo não aconteceu quando um menino, no saguão do
palácio do Planalto, perguntou a Figueiredo o que ele faria se
ganhasse o salário mínimo. Quando Figueiredo respondeu "Se eu
ganhasse o salário mínimo eu daria um tiro na cuca'', todos os
jornalistas presentes riram e registraram. Eu fiquei escandalizado,
mas o ministro Farhat estava ao lado, rindo também, e aí eu
concluí que o problema não era meu. Acabou sendo problema do
presidente.
Ao ministro Farhat foram atribuídos os lances de
publicidade em que Figueiredo tomava cafezinho, andava na rua,
carregava crianças. Só que quem tomava a iniciativa de fazer isso
era o próprio Figueiredo e, outras vezes, seu assessor especial, o
coronel Paiva Chaves. Uma vez, na inauguração do porto de
Suape, ao sul de Recife, eu procurei o ministro Farhat para dizer
que seria conveniente o presidente falar com os jornalistas
pernambucanos. A reação dele foi:
"Não inventa isso. O presidente não quer".
Já no aeroporto dos Guararapes, o próprio presidente, ao
perceber que os jornalistas estavam ansiosos por falar com ele,
deixou a sala de autoridades para dar entrevistas. Aí, saí do
interlocutor hierárquico e passei a me comunicar com o coronel
Paiva Chaves, que tinha a percepção da oportunidade do fato.
Uma vez, em Belém, um segurança me avisou que
Figueiredo havia tirado todo o dinheiro do bolso e dado a uma
velhinha, que lhe pedira uma casa. Eu localizei a velhinha e avisei
os jornalistas.
No avião presidencial, de volta de uma viagem ao interior de
Rondônia, estava sentado atrás de mim um homem de botas
enlameadas e chapéu de palha. Ele me explicou que pedira carona
ao presidente e que o presidente mandou que ele entrasse no
avião. Quando desembarcamos em Brasília, tomei-o pelo braço e o
deixei nas mãos dos jornalistas.
O primeiro cafezinho de Figueiredo parece ter sido em
Vitória. O coronel Paiva Chaves foi à frente, deu uma olhada num
bar e trouxe o presidente. Foi um sucesso. Outra vez, no Rio,
numa casa próxima do local em que Figueiredo inaugurava
instalações do Sesi e Senai, um senhor me chamou e disse que
gostaria de levar seus netos, gêmeos, a Figueiredo. Contei ao
coronel Paiva Chaves, e Figueiredo caminhou até a casa, para
segurar os gêmeos no colo. Foi a foto do dia seguinte.
Figueiredo estava no interior do Nordeste, sendo
homenageado, no palanque, pelo cantor Luiz Gonzaga. O fotógrafo
oficial, Roberto Stuckert, cochichou algo no ouvido do "Lua" e
depois me disse:
' 'Pergunta pro presidente se ele topa botar o chapéu do
Luiz Gonzaga".
O presidente topou, e foi a grande foto do dia seguinte.
No início de junho de 1979, Stuckert entrou na minha sala
com um envelope na mão.
— Olha só!
Eram cromas (fotos em cores de celulóide) de Figueiredo
fazendo ginástica, levantando halteres, de calção de malha.
— A Manchete quer publicar. O que você acha? —
perguntou Stuckert.
— Acho melhor você consultar o Farhat — esquivei-me.
Stuckert demorou um pouco e voltou, desolado:
— O Farhat vetou. Não quer saber dessas fotos.
— Por que você não pergunta para o próprio presidente?
Afinal, não foi ele quem deixou fotografar? — encorajei.
Fomos os dois ao ajudante-de-ordens, major Marcon, e
entramos com ele no gabinete do presidente.
— O Farhat não quer que publiquem as fotos, presidente
— comunicou Stuckert.
Figueiredo olhou para as fotos e depois para Stuckert:
— E por que o Farhat não quer?
— Porque ele acha que o senhor está indecente, de calção
apertado — explicou o major Marcon, com um sorriso.
— O Farhat acha que estão aparecendo os seus... —
acrescentou Stuckert, fazendo um gesto com a mão no meio das
pernas.
— Então publica! — mandou Figueiredo. — O povo precisa
saber que eu tenho colhões!
A foto foi capa da Manchete de 23 de junho de 1979.
Numa viagem a São Paulo, para assistir a um jogo de
futebol no Morumbi, pelo Dia do Trabalho, o avião presidencial foi
desviado para Viracopos, em Campinas, porque havia mau tempo
em Congonhas. Na comitiva que saía do aeroporto, o carro onde
eu estava ficava um pouco atrás do carro do presidente. A
comitiva vinha devagar, para fazer a volta numa esquina em que
havia um posto de gasolina. Um frentista fechou o indicador e o
polegar e deu um grito:
— Figueiredo! Aqui, ó pra você!
Figueiredo aproveitou que o carro vinha devagar, abriu o
vidro e meteu o braço para fora, respondendo com uma "banana":
— Aqui, ó pra você também!
Já no estádio, contei a Figueiredo o que testemunhara e ele
comentou:
— Ele ficou desconcertado. Pensou que por eu ser
presidente da República ele poderia me ofender sem ter resposta.
No planejamento de uma outra viagem a São Paulo, Farhat
queria, por força, incluir Brodósqui, a terra natal de Portinari, no
roteiro. E obrigar Figueiredo a visitar o museu de Portinari. Eu
ouvi a conversa, que acabou com esta última frase de Figueiredo
ao coronel Paiva Chaves:
— Eu não vou. Eu não quero. Eu não gosto de Portinari.
Ele bota os seios no lugar da bunda e deforma as mulheres. Não
adianta eu dizer que gosto, só porque o Farhat quer que eu seja
fino. Eu não sou.
Os artistas

Os artistas em geral tinham livre trânsito no palácio.


Golbery era fascinado por Glauber Rocha. Um dia, conversando
com Glauber no hotel Eron, sugeri a ele que, no dia seguinte,
conversasse também com Figueiredo. Glauber foi e me disse:
''Gostei do homem". Mas continuava mais atraído por Golbery.
Lembro-me de que vinham artistas de cinema e cantores. Sônia
Braga esteve com Figueiredo; João Dias e Carlos Galhardo
conversaram com o presidente mais de uma vez.
Sílvio Caldas, depois de ter conseguido o terreno para o
memorial, ainda veio várias vezes dar sugestões a Figueiredo. E
ficava na minha casa, onde fazia camarões e polvos deliciosos,
cantava serestas maravilhosas e gravava depoimentos da história
da música popular brasileira.
Passei um Carnaval na casa dele, em Mangaratiba. Saímos
juntos para o mar, e Sílvio pôs-se a nadar. Fiquei preocupado
quando percebi que ele se distanciava muito de mim, que tentava
segui-lo:
— Aonde você vai? — gritei.
— Só até aquela ilhazinha ali — respondeu.
Eu cansei, depois de uns 500 metros. Parei e voltei. Ele
nadou cinco vezes mais. Foi até a ilhazinha, mergulhou e trouxe
uns caranguejos para comermos. Ele estava com 72 anos.
Um dia descobri nos arquivos de minha mãe uma foto do
irmão de Sílvio, Murilo, também cantor, junto com meu pai, que o
apresentara num espetáculo no cine Coliseu, em Cachoeira.
Consideramos aquilo um antecedente da nossa amizade e Sílvio se
pôs no lugar do irmão. Até hoje ele "lembra" que me segurava no
colo, em 1942, e que era companheiro de meu pai.
Almoçávamos no hotel Eron e Sílvio tinha uma garrafa de
uísque, recém-ganha. Chamou um garçom e pediu-lhe que a
embrulhasse:
— Vou embarcar agora e não fica bem entrar no avião de
garrafa na mão.
Comemos, pedimos a sobremesa, o cafezinho e a conta, e a
garrafa de uísque não voltava. Passamos pelo balcão e o garçom
ainda tentava embrulhá-la, todo atrapalhado com o papel. Sílvio,
perdendo a paciência, tirou-lhe a garrafa da mão, pegou o papel e
em segundos fez um embrulho perfeito. Antes de sair, perguntou
ao garçom:
— Que idade você tem, meu filho?
— Sessenta e dois.
— Dentro de dez anos você aprende a fazer embrulho. Era
o tempo que faltava para chegar à idade de Sílvio. Quando eu
contei ao ministro do Exército, general Walter
Pires, que Sílvio havia permanecido três meses em Suez,
com os pracinhas brasileiros da Força de Paz da ONU, o ministro
ficou interessado. Sílvio cantou e cozinhou para os pracinhas,
levou instrumentos musicais para alegrá-los e, de volta ao Brasil,
procurou os parentes dos soldados, servindo como um correio
pessoal. Walter Pires decidiu conceder a Sílvio, por isso, a
Medalha do Pacificador, "pelos assinalados serviços prestados ao
Exército brasileiro". No dia 31 de outubro de 1980, recebi um
bilhete do chefe de gabinete do ministro, coronel Amaury,
encaminhando cópia da portaria.
Dei um jeito de incluir a homenagem no briefing daquele
dia. Depois de anunciar um decreto com os novos níveis do salário
mínimo, acrescentei:
— Um outro ato, que não é especificamente do presidente,
mas do poder Executivo, do ministro do Exército, é a outorga da
Medalha do Pacificador ao cantor Sílvio Caldas — e li uma
biografia de Sílvio, cuja vida se confunde com a história da música
popular brasileira e tem sido um exemplo de trabalho e civilidade.
No início de 1980, comecei um produtivo contato com o
diretor do Centro Bíblico Católico, de São Paulo, o frei Paulo
Avelino de Assis. Certa vez, frei Paulo Avelino me escreveu:

Nós, padres, aqui em São Paulo, guardamos para o nosso


presidente João a maior bem-querença, mesmo porque a Bíblia nos
ensina a prestigiar as autoridades legitimamente constituídas.
Naquela época, as greves em São Paulo, que acabavam
dentro da Sé, estavam pondo o cardeal Arns e o governo em
campos ainda mais opostos.
No dia 26 de agosto de 1980, um pouco antes do meio-dia,
um grupo de mulheres, tendo à frente o deputado paulista Aurélio
Peres, chegou à frente do palácio para protestar contra a carestia.
O deputado já estava informado pela Secretaria de Segurança que
a manifestação não estava permitida. Mesmo assim, fui designado,
com o chefe da Segurança, coronel Periassu, para recebermos o
manifesto que traziam. Depois o Kraemer também participou das
conversações, porque insistiam em ser recebidos pelo presidente,
que não estava no palácio.
Aí começaram a gritar palavras de ordem que eu conhecia
da Argentina. Então, forçaram a entrada do palácio. A frente,
vinham mulheres com crianças. A guarda, com baionetas,
recolheu-se, para não ferir alguém.
Eles estavam cantando o Hino Nacional de punhos erguidos
e nós procurávamos o verdadeiro líder, para dialogar. Havíamos
percebido que o deputado Aurélio Peres só estava ali para trazer a
imunidade parlamentar e a presença do Legislativo. Mas não
mandava nada. Apenas esbravejava, de vez em quando, com o
segurança, a quem empurrava, para provocar uma agressão. Até
que percebi, no meio daquela gente, alguém que recebia consultas
e dava ordens, mas que se mantinha distante de nós. Abri
caminho e fui até ele:
— O senhor é o líder?
Ele ficou visivelmente contrafeito:
— Não! Todos nós somos líderes!
— Eu quero cumprimentá-lo — e estendi a mão. — Porque
essa idéia de trazer crianças recém-nascidas, idosos, senhoras
grávidas e homens doentes faria inveja ao Maquiavel.
Ele me deu as costas e se afastou. Eu gritei:
— Um momentinho, o senhor não quer me ouvir?
— Não, não quero ouvir — e foi para o outro extremo da
manifestação. Que só acabou quando a Polícia Militar, desarmada,
colocou todos em três ônibus e os transportou até a rodoviária.
Minha primeira missão na Presidência, em abril de 1979,
foi acompanhar o vice Aureliano Chaves a uma viagem a Porto
Alegre. Fomos com um jatinho da FAB, e eu esperava o momento
em que ele recordaria o episódio da entrevista em que ficou furioso
comigo, por causa da acusação de Magalhães Pinto. Mas ele se
portou como se nada tivesse acontecido, e conversamos
amigavelmente até Porto Alegre. Lá, fomos recebidos pelo vice-
governador Octávio Germano.
"Que tal levarmos o Aureliano para um passeio na rua da
Praia e depois um cafezinho na Bruxa?", sugeriu ele.
A noite eu passei a sugestão ao vice e, no dia seguinte,
Aureliano caminhava, com Octávio Germano, pela tradicional rua
da Praia, sob aplausos dos porto-alegrenses. Aquele era o chão de
Octávio Germano, freqüentador habitual daqueles lugares. Mas
para Aureliano era uma novidade. Aliás, era novidade absoluta
um vice da Revolução passear numa rua movimentada e ser
aplaudido. Ele foi o pioneiro. Só depois Figueiredo passou a fazer o
mesmo. E quem inventou a moda foi o talento do vice-governador
gaúcho.
Acho que os bons resultados da viagem fizeram com que
Aureliano sugerisse que eu deveria ficar à disposição da Comissão
Nacional de Energia, instituída na primeira metade de 1979, sob a
presidência dele.
Mais de dez anos antes da histeria do metanol, o presidente
Figueiredo dizia, em 4 de julho daquele ano: "Existem muitas
idéias, como a do metanol, mas há outras, como a do álcool da
cana, que pode resolver parte do problema".
As reuniões da Comissão Nacional de Energia se realizavam
no prédio do Banco do Brasil, onde funcionava a Vice-Presidência
da República. Eu participei de todas. Não é verdade o que
disseram os jornais da época, que havia grandes brigas entre o
ministro da Agricultura, Delfim Netto, e o presidente da Comissão,
Aureliano Chaves. Os jornais diziam que Aureliano mandava
Delfim calar a boca. O máximo que acontecia era Delfim fazer
ironias e Aureliano responder no seu estilo direto e com o rosto
vermelho. Eu lembro muito bem de todas as discussões que
visavam a dar duas garantias básicas aos brasileiros: que o preço
do álcool nunca fosse superior a 65% do preço da gasolina, e que
nunca faltasse álcool. Afinal, como poderia faltar álcool num país
com solo fértil, água abundante e sol o ano inteiro?
Meu maior f iasco — a saída de Simonsen

No dia 9 de agosto, uma quinta-feira, eram três da tarde e


eu participava de uma reunião da Comissão Nacional de Energia,
quando me chamaram ao telefone. Eram jornalistas credenciados
no palácio, que queriam maiores informações sobre uma suposta
saída do ministro do Planejamento, Mário Henrique Simonsen. Eu
não sabia de nada, mas prometi que iria me informar. O
presidente Figueiredo estava em São Paulo, visitando a Ceagesp,
envolvido em hortigranjeiros, acompanhado de Farhat e Kraemer.
Simonsen estava no palácio, fechando o III PND. E o problema
ficava comigo e com Aureliano. Voltei à sala de reuniões da
Comissão Nacional de Energia e cochichei para Aureliano:
— Os repórteres do palácio me ligaram, dizendo que o
Simonsen está pedindo demissão.
Aureliano me olhou, incrédulo. Pediu licença e foi para o
telefone, na sala ao lado. Ligou para Simonsen e conversou com
ele. Fiz sinal de que também queria falar.
— Não é verdade — disse Aureliano, aliviado, entregando-
me o telefone.
Perguntei a Simonsen se estava demissionário e ele me
respondeu que não, que estava trabalhando. Então percebi que
entravam na sala repórteres do palácio e insisti com Simonsen:
— Já tem jornalista aqui na minha frente, ministro. O que
eu digo para eles? Posso negar que o senhor esteja demissionário?
— Pode negar, sim — respondeu-me ele.
Aí, eu neguei pela primeira vez, e voltei à reunião da
Comissão Nacional de Energia.
Naquele dia, os jornais haviam amanhecido com críticas da
Arena ao ministro Simonsen. Em São Paulo, os repórteres
perguntavam ao ministro Farhat sobre a demissão:
— Uma bobagem.
Depois, perguntaram ao presidente Figueiredo:
— O ministro Simonsen não pediu demissão. Pelo menos
aqui em São Paulo ninguém pediu. E se não pediu a mim, não há
demissão.
Quando perguntaram a ele se concordava com as críticas
da Arena ao ministro Simonsen, Figueiredo defendeu-o:
— Não ouvi as críticas, mas a priori posso dizer que não
concordo, porque tenho acompanhado a atuação dos meus
ministros.
Quando a reunião da Comissão Nacional de Energia
terminou, fui correndo para o palácio. Lá, os repórteres estavam
em polvorosa. Havia boatos de que um caminhão da Fink já estava
levando a mudança do ministro e que a decisão fora tomada pela
manhã, quando ele lera as críticas arenistas nos jornais.
Subi para o quarto andar, onde funcionava a Secretaria do
Planejamento. Simonsen estava trancado, em reunião. Mandei-lhe
um bilhete:

Ministro, eu sei que é um ''saco'', mas os repórteres


continuam insistindo na sua demissão, 0 que faço?

Simonsen chamou-me:
— E um "saco", mesmo. Eu não estou demissionário coisa
nenhuma. Estou aqui terminando o orçamento. Faz o seguinte:
traz eles aqui para verem que eu estou trabalhando. Aí eles se
acalmam.
Desci cheio de autoridade. Entrei na sala de briefing, onde
uma multidão de repórteres me esperava, e dei uma declaração:
— Fico imaginando quão paradoxal é, num período em que
todas as fontes de informação estão abertas, os jornalistas
preferirem acreditar na imaginação de algumas pessoas. Os
senhores e as senhoras estão convidados para testemunharem
pessoalmente que o ministro não está demissionário, mas está
trabalhando. Venham comigo — concluí, triunfante.
E subimos todos para o gabinete do ministro do
Planejamento. Simonsen ficou surpreso com a avidez daquela
multidão. Sônia Carneiro, de gravador em punho, foi a primeira a
perguntar:
— Ministro, existe realmente uma carta sua de demissão,
entregue ao presidente?
— Não. Não tem nada disso. Vocês estão inventando
coisas. Aliás, eu fiquei só de dar fotografias. E olha que vocês vão
derrubar a mesa, hein? — respondeu Simonsen.
— O partido do governo fez críticas ao senhor, ontem, na
reunião da bancada...
— Mas é um direito fazer críticas. Aliás, é só fotografia. Não
é entrevista. Agora a gente tem que trabalhar — insistiu
Simonsen.
— O senhor está trabalhando no orçamento, então?
— Estamos trabalhando no orçamento; vocês estão vendo o
trabalho.
— A que o senhor atribui a origem desse boato?
— Ah, não tenho idéia. Se não fui eu que originei o boato,
então como posso saber a origem? Agora chega.
A entrevista terminou e eu saí triunfante, com a lição que
havia dado aos boateiros. Peguei minha pasta, entrei no meu
Fiatzinho e fui para o aeroporto. Iria participar, no Rio, de uma
homenagem no Country Club ao recém-nomeado ministro da
Desburocratização, Hélio Beltrão. No aeroporto de Brasília, já no
salão de embarque, encontrei Afonso Arinos. Cumprimentei-o e ele
lamentou:
— Que pena, a saída do Simonsen, não? Uma perda muito
grande para o governo...
Eu ainda estava com um resto do triunfo do palácio:
— Mas até o senhor, ministro, caiu no boato da demissão
do Simonsen? Não é nada disso!
— É, sim — respondeu-me ele, mantendo a fleuma. Foi o
próprio Simonsen que me contou.
Aí, um frio me percorreu a espinha.
Quando cheguei ao Leme Palace Hotel, liguei direto a
televisão. Estava na hora do Jornal Nacional. As imagens foram
desfilando na minha frente: o caminhão da Fink carregando
móveis na casa do Simonsen, sob as ordens de dona Iluska,
Figueiredo negando em São Paulo, Simonsen negando em Brasília,
eu dando a lição na imprensa e, encerrando, o carro de Simonsen
entrando na residência do Torto, para entregar a carta de
demissão. Eu estava arrasado.
No dia seguinte, sexta-feira, o palácio distribuiu carta de
Figueiredo, aceitando a demissão. Eu permanecia no Rio. A noite,
fui à homenagem a Beltrão. No sábado, Simonsen voltou para o
Rio. Eu precisava falar com ele, ou não descansaria. Liguei e ele
me pediu que passasse no apartamento dele, na Vieira Souto, no
domingo pela manhã.
Quando cheguei lá, encontrei o repórter Pedro Rogério
esperando na calçada. Pediu-me uma entrevista com o ex-
ministro, para o Fantástico. Simonsen me recebeu pedindo
desculpas:
— Aprontei uma boa para você. Mas ninguém poderia
saber antes do presidente e ele estava em São Paulo. Só voltou no
fim da tarde.
Eu respondi que da próxima me avisasse, como fez com
Afonso Arinos. Eu, pelo menos, tomaria mais cuidado.
— Fique descansado que não vai haver uma próxima. Mas
eu quero corrigir o que fiz com você.
— O Pedro Rogério está lá embaixo, querendo uma
entrevista para o Fantástico; o senhor não quer aproveitar para
esclarecer? — sugeri.
— Ótimo. Vamos descer.
A entrevista foi armada na praia. Simonsen pediu a Pedro
Rogério que perguntasse sobre a minha participação. E aí saiu
isto no Fantástico:
"— Ministro, o Alexandre Garcia sabia ou não sabia que o
senhor estava demissionário, quando falou com a imprensa?
— O Alexandre Garcia sabia... quer dizer, o Alexandre
Garcia não sabia que eu estava demissionário. Ele só soube
agora".
Como se vê, a emenda ficou muito pior que o soneto. Em
compensação, serviu a lição. Tempos depois, o Heitor me chamou.
Mostrou-me a xerox de uma carta:
— E o pedido de demissão do Castro Lima (ministro da
Saúde). O presidente mandou ele segurar até encontrar
substituto. Fica quieto, mas agora já fica sabendo, para não
repetir o Simonsen.
Um dia, no briefing, perguntaram ao Farhat se o ministro
da Saúde estava demissionário. Ele respondeu que não sabia de
nada. Eu fiquei quieto.
Excursão gastronômica

No início de outubro de 1979, o general Venturini me


perguntou se eu poderia cumprir missão no Nordeste. O
presidente estava preocupado com a seca e com as informações de
que populações famintas ameaçavam saquear as cidades. Eu
integraria um dos grupos do Conselho de Segurança Nacional que
visitariam a região flagelada. O grupo que iria a Pernambuco e
Paraíba era formado pelo tenente-coronel Luís Reis e eu.
Começamos em Recife, no dia 17 de outubro, pela Secretaria de
Agricultura e pela Sudene, onde se incorporou ao grupo o
agrônomo Walter Brandão com uma camioneta.
Viramos pelo avesso a região mais seca de Pernambuco e
Paraíba: Brejo da Madre de Deus, Caldeirão, Jataúba, Sertânia,
Iguaraci, Afogados da Ingazeira, Tabira, Borborema, São José do
Egito, Brejinho, em Pernambuco. Teixeira, Patos, Santa Luzia,
Jurico, Juazeirinho, Soledade, São Vicente do Seridó, Picuí e Nova
Palmeira, na Paraíba.
Foi o que chamamos de "excursão gastronômica". Nunca
comemos tanto nem nos deliciamos tanto: carne-de-sol,
macaxeira, cerveja gelada e... manteiga de garrafa, um manjar
divino, todos os dias. Em Fazenda Nova, tivemos uma surpresa.
Nos hospedamos num hotel e o coronel Reis abriu a janela do
nosso apartamento e disse: "Vou nadar numa piscina olímpica".
Eu estava deitado e respondi:
"Vai gozar a vovozinha!"
Chamou-me até a janela e eu não fui. Vestiu o calção e
saiu. Corri à janela e fiquei estático, como se estivesse vendo uma
miragem. Era verdade. Também nadamos na piscina do hotel em
Patos, na Paraíba. Outras vezes, dormimos em escolas municipais.
Eu recém-havia retirado, com o dr. Christovão, no palácio
do Planalto, dezenas de sinais de pele, na frente e nas costas do
tórax. Aproveitava um cauterizador que fora comprado para tirar
sinais do presidente Geisel. Havia começado a viagem cheio de
band-aids. Sentado na camioneta sacolejante o dia inteiro, sob o
calor, eu terminara o dia com a camisa empapada de sangue.
Tomei um banho e comecei a pôr band-aids novos, na escola de
Sertânia, onde iríamos dormir. Como eu não alcançava as costas,
pedi ao coronel Reis que me ajudasse. Eu estava com a toalha
enrolada na cintura e ele de cuecas, grudando band-aids nas
minhas costas. Foi quando entrou o agrônomo Walter, da Sudene:
"Desculpa!", e saiu rápido, fechando a porta. Passamos o
resto da viagem morrendo de rir do episódio. Luís Reis, anos
depois, foi meu padrinho de casamento, e até hoje me manda
tomar cuidado, senão vai grudar uns band-aids nas minhas
costas.
Uma tarde, na estrada, encontramos uma mulher jovem,
que estava para dar à luz. Eu passei para a carroceria da
camioneta e saímos a toda. Ela estava tendo contrações e o
coronel Reis a protegia, na cabine, contra os saltos que a
camioneta dava nos buracos da estrada de terra. Íamos torcendo
para que ela não parisse ali mesmo. Enfim, chegamos a um
hospital e ela foi direto para a sala de parto. Minutos depois,
ouvíamos o choro da criança, e seguimos viagem.
Nossa conclusão da viagem foi que, na maior parte dos
casos, embora a seca fosse verdadeira e o plano de emergência
estivesse entravado pela burocracia, havia muita exploração
política. Prefeitos e delegados anunciavam tentativas de invasão
que nunca existiram, para chamar atenção e apressar a chegada
de verbas federais. Em Brejinho, o suplente do delegado ligou para
a Globo, informando que a cidade estava cercada por retirantes. E
não estava. Em Santa Teresinha, incluída no plano de emergência
por pressão política de um deputado, tudo estava normal. O
mesmo em Malta e Desterro de Malta.

Ajudante-de-ordens na Europa

Eu recém-havia chegado do Nordeste, e o ministro Said


Farhat avisou-me que eu deveria acompanhá-lo numa viagem à
França e Alemanha Federal. Ele iria verificar o funcionamento dos
órgãos de comunicação social dos governos daqueles países.
Fomos de Lufthansa até Frankfurt e de lá a Paris. Ficamos no
hotel George V, na avenida com o mesmo nome. Paris, para mim,
era dos hotéis de duas estrelas da margem esquerda do Sena, no
Quartier Latin. Agora eu estava na margem direita, numa avenida
chique, no lado chique, num hotel cinco estrelas. Aproveitei o dia
de desfazer as malas para dar uma explorada nas avenidas que
convergem para a Etoile, onde está o Arco do Triunfo. Quando
passei diante do número 100 da Avenue Kleber jamais poderia
imaginar que ali morasse a mulher com quem eu me casaria, anos
depois, e que seria a mãe de meus filhos.
Ficamos quatro dias em Paris, entre visitas à embaixada
brasileira — onde reencontrei Carlos Atila —, à Agence France
Presse e ao secretário de Imprensa do Elisée, o palácio do
presidente. Só descobri a razão da minha presença naquela
viagem quando Farhat deixou escapar um comentário:
"Como eu invejo os generais: eu sempre quis ter um
ajudante-de-ordens!''
A mulher do ministro, dona Rai, deu-me um belíssimo
sapato italiano Gucci, que durou quase dez anos. Ela gostava de
dar presentes. Lembro-me de ter assistido, certa vez, no palácio, a
ela oferecendo um minúsculo gravador japonês à repórter Sônia
Carneiro, da Rádio JB. Sônia, tão ética quanto eficiente, recusou.
Dona Rai explicou:
''Não precisa pensar que eu estou querendo te comprar. É
para proteger a boca do meu marido contra esse tijolo de gravador
que você usa".
No dia 26 de novembro, uma segunda-feira, voamos para
Bonn. Desta vez eu fiquei no hotel Bristol sem medo do tamanho
da conta. Em Bonn, o programa foi pesado: muitas recepções
oficiais e reuniões de trabalho. Fomos a Mainz, conhecer o
Segundo Canal da TV alemã e depois a Colônia, para um encontro
com o presidente da Deutschewelle e com o diretor do jornal
Neven Dumont. Nessa última visita eu dormi de cansado. Na
quinta-feira, embarcamos para Munique, onde o programa foi
também visitas à TV, aos jornais e ao serviço de imprensa do
governo da Bavária.
Na sexta-feira, subimos aos Alpes. Lembro-me de ter
fotografado o velocímetro do Mercedes que levava a mim e um
funcionário do Inter Nationes, o órgão anfitrião. Queria mostrar,
no Brasil, que tinha rodado a 180 quilômetros por hora. Na
Alemanha não há limite de velocidade nas estradas. Do carro, eu
precisava botar velocidade de 1/500 segundo na minha câmera
para poder fotografar.
Na subida da montanha, o Mercedes que transportava o
ministro e sua mulher ia na nossa frente. Lá pelas tantas, o
funcionário alemão me avisou:
"Vai haver problemas; alguém jogou lixo na estrada".
Depois eu soube que dona Rai havia jogado pela janela do
carro um maço vazio de cigarros. Um carro que ia nos
ultrapassando percebeu que alguém sujava uma estrada de seu
país e começou a buzinar. Encostou no carro do ministro e gritou
uma série de palavrões. E eu me convenci, mais uma vez, que
limpeza é sinônimo de civilização. A meu lado, o funcionário
alemão justificava o xingamento: a limpeza das estradas, se for
necessária, vai gastar o dinheiro que os alemães entregaram ao
governo, através de impostos. Claro como água.
Na montanha, nevava. Paramos. Em minha estréia em
juntar neve para fazer bolas, abriu a costura do fundilho de
minhas calças. Fundilhos à parte, conheci, naquele dia, o mais
fabuloso e espetacular acervo rococó que já vi em toda a minha
vida, nas igrejas, conventos e escolas do caminho. Em
compensação, à noite, fomos à ópera de Munique assistir a Don
Giovanni, e eu dormi outra vez.
Estávamos hospedados no hotel Geisel. Quando voltamos
ao hotel, havia um recado para o ministro Farhat, pedindo que ele
ligasse urgente para o Brasil. Ele subiu para telefonar e desceu
pálido:
"O presidente andou dando socos em Florianópolis. Eu vou
ter que voltar amanhã para o Brasil".
Depois, disse-me que eu deveria ficar para cumprir
compromissos restantes em Paris, e confidenciou-me que havia
demorado no quarto não pelo telefonema, mas porque tivera uma
crise de diarréia em conseqüência do telefonema.
Ainda fiquei o fim de semana em Munique. Passei o sábado
fazendo fotografias e à noite pedi para o funcionário da Inter
Nationes levar-me à cervejaria do putsch de Hitler. Depois de
muita cerveja, ele começou a soltar a língua e falar sobre a divisão
de seu país. Contou-me que o pai dele, no dia em que se anunciou
a divisão em duas Alemanhas, em 1949, jogou o rádio pela janela.
E afirmou que há forças contra o retorno a uma pátria única: a
União Soviética, a Polônia, a França e a Inglaterra.
"Eles têm medo da Alemanha unida."
A semana seguinte, passei em Paris, retomando contatos
feitos na passagem de Farhat. Só que desta vez troquei o hotel
George V pelo apartamento de um diplomata brasileiro, Raul
Taunay. Ele estava entrando em férias e deixou-me a chave. E
virei morador da Avenue de la Motte Piquet, número 52, perto do
Campo de Marte, onde Santos Dumont decolou com o 14 Bis.
Através do jornalista Carlos Marques, conheci rapidamente
grande número de pessoas. Fui a uma festa na casa de um grupo
de exilados argentinos, onde estava Mercedes Sosa. Lembro-me de
que grande parte dos presentes fumava um cigarrinho que
passava de boca em boca. Quando me ofereceram, recusei com
um "obrigado, não fumo".
Na minha ecologia, a natureza humana é prioritária.
Sempre desconfiei de prazeres que não fossem naturais. O álcool,
por exemplo, sempre tolhe um pouco os sentidos. Quanto mais
consciente, mais se desfruta de todos os sentidos. Uma vez, em
Tóquio, eu conheci a filha de um deputado brasileiro de linha
dura. Jantamos, dançamos, e quando ela me falou em fumar um
cigarro misterioso que trazia escondido, eu simplesmente fugi e
nunca mais a vi. Na infância, era divertido: eu furtava vermute de
meu pai, para bebermos na barranca do rio Taquari, onde
trocávamos cigarros Fio de Ouro por charutos que os filhos do
Ancelmo Diel surrupiavam do pai. Mas, depois que a idade elimina
um pouco a nossa ignorância, os prazeres ficam cada vez mais
agudos com o que a gente descobre dentro de si mesmo.
Voltei ao Brasil em 10 de dezembro. Esperava-me um
lobista com uma oferta: se eu convencesse o ministro Delfim a
aceitar um empréstimo de 500 milhões de dólares de um banco
árabe, dividiria comigo a comissão de 5 por cento. Daria mais de 1
milhão de dólares! Era uma época em que ainda sobravam
petrodólares e o Brasil ainda fazia dívidas para favorecer o balanço
de pagamentos. Não aceitei. Quando meu avô, velho guarda-livros,
me passou a escrita do cine Coliseu, em Cachoeira, repetia-me
uma lição: sempre se tem paz e tranqüilidade quando se faz tudo
dentro da lei. Eu tinha dezenove anos. Lembro-me de que na
contabilidade de uma grande loja, onde eu era aprendiz de meu
avô, ele tinha grandes discussões com o proprietário, porque se
recusava a lançar em despesas da empresa as viagens
particulares do dono a Porto Alegre.
A oferta da comissão me ensinou que há caminhos de
enriquecimento rápido e ilícito, para quem estiver disposto a
percorrê-los, dentro do governo.
O ano de 1980 começou com a morte de Petrônio Portela.
Foi no Dia de Reis, que caiu num domingo. Eu estava em casa,
quando Farhat me ligou, chamando-me para a Casa de Saúde
Santa Lúcia. Quando cheguei lá, o ministro da Justiça já estava
morto.
''Ele quis vir caminhando, acabou se matando. Coisa de
político'', me contou Farhat. Petrônio havia sofrido infarto em
Florianópolis e voltou a Brasília tentando esconder o mal, para
não afetar sua força política. A demora no atendimento levou-lhe a
vida.
Na terça-feira, eu conversava com Heitor, no gabinete dele,
quando entrou, sorrindo, pela porta de ligação com o gabinete
presidencial, um deputado que eu não conhecia. Heitor se
encarregou da apresentação:
"Este é o Ibrahim 'Hábil' Ackel, o novo ministro da Justiça,
o homem com quem você vai conversar muito de agora em diante".
Em meados de janeiro, Karlos Rischbieter pediu demissão
do Ministério da Fazenda. No lugar dele, entrou Ernane Galvêas, e
o ministro do Planejamento, ex da Agricultura, Delfim Netto,
passou a ser, de fato, o superministro da Economia. Ele
trabalhava no quarto andar do palácio e, às vezes, eu o via
trabalhando. Era coisa de superdotado. Enquanto dirigia duas
reuniões em duas salas diferentes, atendia audiências para
resolver problemas e dava ordens por três ou quatro telefones. Ele
deixava uma frase numa reunião e passava para outra, e, depois
de despachar uma audiência, retomava o assunto da reunião
como se não tivesse se ausentado. Usava, para isso, três salas
contíguas.
Heitor passou para Abi-Ackel e para mim um cronograma
que deve ter sido elaborado por ele e Golbery:
''Esses são os planos de tudo o que deve acontecer na
política brasileira até 15 de março de 1985".
O cronograma começava com a anistia, em junho de 1979,
passava pela Lei Orgânica dos Partidos, no segundo semestre de
1979, e previa o adiamento das eleições municipais de 1980 para
1982. Com o adiamento, o governo ficaria liberado entre 15 de
março de 1979 e 15 de julho de 1981 — quando começaria a
campanha eleitoral — para tratar de três grandes problemas: a
inflação, o balanço de pagamentos/dívida externa e o saneamento
da Previdência. Para isso, contava com grandes safras agrícolas e
a adoção de medidas econômicas duras. Coroando tudo, seriam
adotadas todas as mudanças institucionais para efetivar a
abertura política.
Com o êxito do trabalho daqueles dois anos e pouco, a
previsão era fazer maioria no Congresso em 15 de outubro de
1982, usando o reforço do voto distrital. Aí, seria fácil fazer o
sucessor, um civil.
O cronograma só falhou no voto distrital e numa questão
muito subjetiva: na vontade do condutor formal do processo, o
presidente Figueiredo. Mesmo com maioria no Colégio Eleitoral, o
PDS não conseguiu eleger o sucessor.

A bomba nuclear

Em fins de maio, o general Venturini, como secretário-geral


do Conselho de Segurança Nacional, me indicou como uma
espécie de porta-voz do Programa Nuclear. O Kraemer me gozava:
"O 'chacal' (como ele me chamava) é o porta-voz da má
notícia''.
Na divisão do trabalho da Secretaria de Comunicação, o
Farhat ficava sempre com a boa notícia, o Kraemer, com a média,
e eu, com a má.
Eu gostava daquilo. Era um desafio defender o que era
pouco defensável ou que, pelo menos, tinha grande parte dos
jornais contra. Quando eu tinha 22 anos e lecionava inglês e
português na Escola Técnica de Comércio São Pedro, em
Encantado (RS), faltou por um semestre o professor de ciências, e
me pediram para "quebrar o galho''. Eu me joguei sobre os livros
de energia nuclear, porque queria transmitir algo mais atraente
aos alunos
— jovens entre dezessete e vinte anos. E cheguei ao
extremo de mostrar para eles, no quadro-negro, o diagrama de
uma bomba atômica em suas generalidades. Breve a cidade ficou
sabendo que eu estava ensinando a fazer bomba atômica...
Agora eu precisava provar que o Brasil tinha um programa
para fins pacíficos e que, esgotadas outras fontes de energia, a
saída era a energia nuclear. De novo tentei popularizar a questão,
mostrando, por exemplo, que viver em Brasília, com 1.200 metros
a menos de filtragem atmosférica, sujeita a mais radiatividade que
viver em Angra dos Reis, ao lado da usina.
Nos briefings, eu apontava a cadeira onde o repórter estava
sentado e informava: "Esta cadeira está emitindo radiatividade"
— e citava os valores. O mesmo dizia em relação às telas de
receptores de televisão, aos relógios luminosos. E ironizava: "Não
imaginem que a energia gerada em Angra vai distribuir
radiatividade no rosto de quem usa barbeador elétrico''. Minhas
declarações acabaram por colocar-me em polêmica com cientistas
— vejam só —, que eram procurados pelos repórteres.
Quando o general Venturini notou que a maior polêmica
estava no Rio Grande do Sul, despachou para lã o presidente da
Comissão Nacional de Energia Nuclear, Rex Nazaré Alves, o físico
John Forman, diretor da Nuclebrás, e eu. Tivemos um debate na
Assembléia Legislativa, com José Lutzenberger. Eu levei, como
trunfo, um decreto do presidente, obrigando as usinas nucleares a
serem o centro de reservas ecológicas. Mas Lutzenberger não ligou
muito o argumento.
A noite, participamos de um debate na TV Gaúcha, com o
físico José Goldenberg, então presidente da Sociedade Brasileira
para o Progresso da Ciência. Após o debate, confraternizamos
num jantar, mas o debate prosseguiu, entre Goldenberg, Forman e
Rex, mais quente ainda. Eu me deliciei, porque ampliava meus
argumentos para enfrentar os jornalistas.
A polêmica em torno do Programa Nuclear brasileiro
explodiu a partir de 4 de junho de 1980, quando o governo federal
desapropriou uma área no litoral paulista, entre Peruíbe e Iguape,
para construir as usinas nucleares números IV e V. Uma análise
confidencial do governo, feita no início de julho, concluía o
seguinte:

A divulgação pelo Jornal de Brasília, no dia 5 de junho, de


um documento sigiloso da DSI do Ministério das Minas e Energia,
em que eram apontadas várias autoridades e entidades de classe
que constantemente se manifestam contra o Acordo Nuclear,
contribuiu para manter o clima de agitação, fornecendo argumentos
largamente utilizados pelos jornalistas e demais opositores para
divulgar ampla campanha contestatória. A comunidade contrária ao
Acordo Nuclear continua em críticas, muitas delas visando a
projeção pessoal, utilizando a técnica de alarmar a população para
perigos muitas vezes descabidos e sem um fundamento. Essa
campanha obtém fruto, pelo desconhecimento da energia nuclear,
sua utilização pacífica e as seguranças adotadas de modo a evitar
quaisquer riscos. Sente-se, pois, a necessidade de uma campanha
de esclarecimento da opinião pública, que deveria ser seguida pela
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

A partir daí eu passei a ser orientado, todos os dias, por


autoridades no Programa Nuclear, para responder às perguntas
dos "opositores" jornalistas, a que se referia o documento. O
próprio documento sugeria que fossem dadas respostas às
seguintes perguntas:
• E a usina nuclear totalmente segura?
• Qual o critério de localização das usinas?
• Pode a radiatividade produzida pela usina causar danos à
população e à ecologia locais?
• Até onde pode a KWU alemã interferir na Nuclen?
• Em caso de acidentes, quais os responsáveis?
• Para que se obtenha todo o ciclo nuclear, quantas usinas
6 necessário instalar?
• Se existe falta de recursos no país, por que se constroem
outras usinas, além das já encomendadas?
• Há necessidade de reformular o Programa Nuclear
brasileiro, levando-se em conta a situação geral do país e as
outras fontes alternativas?
• Existem atrasos no Programa Nuclear?
• Quais os prejuízos com tais atrasos?
• Em que premissas se baseou o governo para firmar o
Acordo Nuclear com a Alemanha, se existe um enorme potencial
hidrelétrico a ser explorado?
• Qual será o custo real das usinas Angra I, II e III quando
prontas? Qual o custo real delas até agora?
• Qual a comparação de custo por kwa da energia
produzida em hidrelétrica, termelétrica e usina nuclear?
• Por que as instituições de pesquisa comprovadamente
competentes não participam do Programa Nuclear na aquisição de
tecnologia?
• Que informações poderão ser prestadas sobre o complexo
industrial de Poços de Caldas, já que essa é uma das obras mais
críticas do programa?
Como se nota, até hoje algumas das respostas a essas
perguntas ainda estão no ar, gerando uma polêmica interminável.
O grande problema é que, quando estiverem esgotadas as demais
fontes de energia, aí já será tarde para uma solução e pode vir a
escuridão. A energia, como a telefonia, a ferrovia, a rodovia — a
infra-estrutura em geral —, precisa começar a ser implantada
cinco anos antes de começar a faltar.

A bomba estrangeira

Eu ainda estava envolvido no Programa Nuclear quando o


general Venturini me chamou e me deu outra missão: o governo
preparava um estatuto dos estrangeiros, a fim de regular sua
permanência no país e alegadamente proteger os nacionais. Para
me preparar, passei a participar das reuniões no Conselho de
Segurança Nacional em que se elaborava o anteprojeto da Lei dos
Estrangeiros. Faziam parte daquelas reuniões representantes dos
ministérios do Trabalho, Relações Exteriores e Justiça, além da
Presidência da República, via Secretaria-Geral do Conselho de
Segurança Nacional.
O assunto começou a aparecer nos jornais no mês de
junho, e em julho passou para as primeiras páginas e para os
editoriais. Todos contra o projeto que estava sendo preparado pelo
governo. Os encontros diários com a imprensa eram verdadeiros
duelos de palavras. Era o exercício da dialética no seu sentido
grego. Do exterior, me chegavam páginas de jornais. O Journal de
Geneve, da Suíça, usava como maior título de sua página de
exterior: LE BRÉSIL A PEUR DU PÉRIL JAUNE (o Brasil tem medo
do perigo amarelo) — e começava com a história de um engenheiro
da Ford em Seul, Hoo Kwang Shin, que se tornou costureiro de
confecções em São Paulo, depois de entrar clandestinamente no
Brasil através do Paraguai.
O Le Monde, de Paris, dizia, em sua primeira página: LA
NOUVELLE LÉGISLATION MENACE LES EXILES POLITIQUES ET
LES MISSIONNAIRES ÉTRANGERS. No Brasil, além dos debates
com os jornalistas credenciados no Planalto, eu escrevia para o
colunista Carlos Castello Branco, do JB, e para o editor-chefe da
Folha de S. Paulo, Bóris Casoy, mas adiantava pouco. Colunistas e
editorialistas, em sua maioria, refletiam a OAB, a CNBB, a SBPC e
o PMDB, que estavam contra. Até parte do PDS era contra, como o
governador Ney Braga e o deputado Norton Macedo, do Paraná, ou
a bancada gaúcha do partido do governo, que refletiam temores de
seus eleitores descendentes de imigrantes. Mantive constante
diálogo com o deputado Diogo Nomura, do PDS de São Paulo, e
encaminhei à equipe que elaborava o anteprojeto muitas
sugestões dele, preocupado com a colônia japonesa.
As preocupações da Igreja me levaram a dom Luciano
Mendes de Almeida, na sede da CNBB. A imprensa nunca soube
daqueles nossos encontros, às vezes diários. Dom Luciano
começou apresentando os temores da CNBB, que eu levava para
as reuniões no Conselho de Segurança Nacional. Lá, o general
Venturini, que sempre foi um homem muito católico, me
encorajava a ir mais fundo no relacionamento com dom Luciano.
O governo não queria expulsar missionários estrangeiros, como se
imaginava — já que muitos deles eram indesejáveis, por sua
pregação política. O que o governo queria era saber quem eram, o
que faziam e onde faziam. Porque muitos deles entravam como
"turistas". O governo queria ter o registro deles como missionários,
avalizado pela CNBB.
Dom Luciano aproveitou nosso diálogo sobre os
estrangeiros para encaminhar o problema de uma gente muito
brasileira: os ianomami. Entregou-me um grosso volume com um
relatório sobre aquela nação indígena, cheio de fotografias. O
relatório foi preciosíssimo para o Conselho de Segurança Nacional.
Dom Luciano fazia pressão para que fosse criada imediatamente
uma reserva ianomami, para preservar aquela nação do avanço
dos garimpeiros. Foi em julho de 1980.
Foi nos nossos encontros na CNBB que dom Luciano
encaminhou também a solução para os agricultores
desapropriados pela represa de Itaipu. Naquele mesmo mês de
julho, a CNBB foi ao ministro da Justiça e ao presidente
Figueiredo formalizar modificações na Lei dos Estrangeiros, que
haviam sido encaminhadas por meu intermédio e já tinham sido
analisadas pela equipe interministerial que fazia o anteprojeto.
Na manhã do dia 15 de julho, o diplomata que representava
o Departamento Consular e Jurídico do Itamaraty trouxe para a
nossa reunião no Conselho de Segurança um dado bombástico.
Um estudo acadêmico apresentado na universidade da capital de
um país asiático mostrava que o Brasil tinha a potencialidade de
receber, ao longo de um programa de governo que teria que
abranger vários anos, até 10 milhões de imigrantes. Por razões
diplomáticas, ele não me revelou o nome do país. Duas semanas
antes, o Korea Herald atribuía a uma fonte oficial de Seul a
informação de que, "logo que a situação dos ilegais coreanos no
Brasil for resolvida através de negociações, o governo planeja
recomeçar a emigração de coreanos para a América do Sul sob um
bem planejado plano de exportação de força de trabalho" {...the
government plans to resume the emigration of Koreans to South
American countries, under a well planned man-power export plan).
No briefing da tarde daquele dia, eu usei o precioso
argumento em defesa da Lei dos Estrangeiros. Citei que o governo
tinha informações de que um país asiático poderia mandar 10
milhões de emigrantes ao Brasil e expliquei que "o Brasil não é
nenhum Timbuctu, onde estrangeiros possam entrar, permanecer
ou sair sem dar satisfação à soberania nacional, direito inerente a
qualquer Estado soberano sobre seu território. O Brasil não quer
importar criminosos nem deseja que estrangeiros permaneçam em
seu território sem qualquer registro, desobrigando-se da lei que
rege a todos os cidadãos de uma sociedade organizada. O Brasil
precisa criar a cada ano quase 2 milhões de empregos para os
brasileiros. Qual o pai que, tendo dificuldade em sustentar dez
filhos, ainda adota mais três?" — essa era, em essência, a filosofia
do estatuto dos estrangeiros.
No dia seguinte, a Folha de S. Paulo abriu a primeira página
com a seguinte manchete: ''DEZ MILHÕES QUEREM VIR MORAR
NO BRASIL — Governo sofre pressões de determinado país para
acolher esses imigrantes, revela porta-voz do Planalto". Todos os
jornais deram destaque à informação. Dois dias depois,
começavam as reações. O Globo publicava o editorial "Dez milhões
à porta", afirmando que "a ocultação do santo prejudica a
credibilidade do milagre". É que eu não tinha a informação
completa, isto é, o nome do país que mandaria um tal número de
emigrantes. No palácio, tive que dar explicações para diplomatas
do Japão e da Coréia, que me procuraram, dizendo que estavam
sendo pressionados pela imprensa brasileira. O Itamaraty não
quis me dar a informação completa e eu tive que agüentar as
conseqüências.
No mês de julho, defendendo a Lei dos Estrangeiros, eu
estava nos jornais todos os dias e, na maior parte, na primeira
página. Na divisão de trabalho da Secretaria de Comunicação
(Secom), de ficar com a ''má notícia'', eu estava tendo notoriedade
demais. Foi isso que imaginei no dia em que o ministro Farhat
interrompeu um briefing meu para dizer aos jornalistas que eu já
não responderia pela Lei dos Estrangeiros; que, daquele momento
em diante, os jornalistas teriam informações de técnicos no
assunto, que seriam chamados para isso.
Terminado o briefing, eu subi para o gabinete do chefe da
Casa Militar e perguntei ao general Venturini se eu estava fora da
guerra da Lei dos Estrangeiros.
— Você fora? Nem sonhe com isso! De modo nenhum! De
onde você tirou essa idéia?
— Porque o Farhat acaba de dizer isso no briefing —
respondi, mostrando a transcrição da gravação do briefing.
Venturini balançou a cabeça negativamente e sorriu como
faz quando está irritado e não quer demonstrar.
— Me liga com o Farhat — pediu ao capitão Carneiro. Eu
não sei o que o general falou com o ministro Farhat. Mas
naquele mesmo dia eu estava de novo na guerra em defesa
do anteprojeto do governo da Lei dos Estrangeiros.

Minhas brigas com Farhat

Meu relacionamento com Farhat não era bom desde antes


de eu entrar na Secom. Mas o pior momento aconteceu em
meados de agosto de 1980. Eu iria a Porto Alegre, em defesa do
Programa Nuclear, e o jornalista Jorge Olavo de Carvalho Leite, do
Correio do Povo, me ligara, pedindo uma entrevista para a edição
de domingo, dia 17. Eu subi ao quarto andar e procurei o ministro
Golbery. Expliquei a ele que daria uma entrevista a um jornal
importante, e que não gostaria de ficar no trivial; que eu gostaria
de dizer alguma coisa que merecesse destaque.
— Diga que o processo da sucessão será civil, dentro dos
partidos políticos.
Foi uma entrevista de página inteira, com chamada na
primeira página: O PRÓXIMO PRESIDENTE SERÁ CIVIL. Eu
respondia à seguinte pergunta:
"— Acredita na devolução do poder Executivo a um civil?
— Será eleito presidente da República, na sucessão do
presidente Figueiredo, um brasileiro nato com mais de 35 anos e
no pleno gozo de seus direitos políticos. Ser civil ou militar não é
condição a ser considerada, mas a sucessão, em si, certamente
será civil. A etapa da exceção encerrou-se quando o presidente
Geisel promoveu a revogação do AI-5 e isso muda por
inteiro o quadro sucessório".
Na segunda-feira, a declaração foi citada nos principais
jornais do Rio e São Paulo. Quando eu cheguei no palácio, o
Kraemer me avisou:
— O Farhat quer falar com você. E está furioso.
Desci ao gabinete de Farhat, agora instalado no segundo
andar, todo decorado por orquídeas amazônicas desenhadas por
Margareth Mee.
— De onde você tirou isso? — perguntou-me, brandindo a
"Sinopse" da EBN (Agência Brasileira de Notícias, que fazia um
resumo dos jornais do dia). E, antes que eu respondesse,
completava: — Você falou demais!
— Mas não é por isso que estamos aqui? Não está muito
claro que o objetivo de todo o nosso trabalho é a democracia, é
entregar o poder para um civil? — argumentei.
— Mas essa é uma declaração tão importante que o
presidente é quem deveria fazer — tornou o ministro.
Eu estava entendendo. Na divisão do trabalho, eu havia
acabado de invadir o departamento de boas notícias.
— O presidente está furioso com você! — concluiu Farhat.
Aí eu não agüentei. Ele estava mentindo de novo. O
presidente não deveria estar furioso comigo. Além disso, o
presidente já dissera que o sucessor seria um civil há muito tempo
naquele desastrado encontro com os jornalistas, ainda no hotel
Ara-coara. Resolvi combater mentira com mentira:
— Então eu não estou entendendo mais nada. Foi o
presidente quem me pediu para fazer essa declaração.
Farhat sentiu a batida e levou alguns segundos para reagir:
— Saia daqui!
Minutos depois, o secretário de Imprensa Marco Antônio
Kraemer foi me procurar com um recado: o Farhat pedia que eu
não pusesse mais os pés no gabinete dele. Achei ótimo. A partir
daquele momento, eu me desligava da hierarquia na Secom e
passava a usar sem receio os canais de sempre. Apenas não tinha
mais satisfações a dar ao ministro. Farhat tinha com o presidente
um encontro diário formal que nós, no palácio, chamávamos de
''Ilha da Fantasia''. Informei o Heitor do acontecido e sabia que ele
informaria Golbery e Medeiros. Ao general Venturini nem
precisaria dizer nada. Ele já havia percebido que houvera uma
rachadura. Dois dias depois, um repórter da sucursal do Jornal do
Brasil em Brasília produzia uma matéria que, ao ser transmitida
pelo telex, continha a recomendação de ' 'todas as cópias para o
editor de política" — o que significa que se tratava de uma matéria
especial. O texto era o seguinte:

BRASÍLIA — O líder da maioria na Câmara, deputado Nelson


Marchezan, não confia muito na permanência no cargo de porta-voz
adjunto da Presidência da República do sr. Alexandre Garcia, que
recentemente afirmou que o sucessor do presidente Figueiredo será
um civil.
Para amigos muito íntimos, o deputado Nelson Marchezan
disse que com esta declaração já somam a três as "gafes",
demonstrações de desinformação ou simples "excessos" de
criatividade do porta-voz do palácio do Planalto.

A seguir, o texto enumerava as outras duas "gafes": o


episódio da demissão de Simonsen e a notícia dos 10 milhões de
imigrantes potenciais. E concluía com o seguinte parágrafo:
O fato de ter dito que o sucessor do presidente Figueiredo
será um civil não foi bem-visto pela cúpula pedessista. A algumas
pessoas que freqüentam com mais assiduidade o seu gabinete, o sr.
Nelson Marchezan disse que não sabe como o sr. Alexandre Garcia
"sairá dessa". E completou dizendo que, no máximo, para salvar a
situação, o que ele poderá dizer é que foi mal interpretado: o
sucessor de Figueiredo não será, necessariamente, um civil, ' 'mas o
processo de sucessão, este sim, será civil''.
Como se nota, comparando com o que eu havia dito ao
Correio do Povo, o texto do JB é um primor de ''samba do crioulo
doido'' para justificar o qualificativo de gafe. Um texto
encomendado, evidentemente, em que Marchezan só foi usado
como pretexto. O JB não publicou, mas o telex chegou ao Rio. No
dia 22 de agosto eu mandava um bilhete ao Marchezan, com uma
''xerox'' do texto não publicado: Marchezan, em que pese a
tentativa de intriga, o meu amigo é firme credor da minha
incondicional amizade. Abraço, Alexandre.
Numa entrevista dada ao jornal espanhol El Pais, Liza
Minelli conta que foi procurada por uma repórter da revista Time
para uma entrevista. A repórter falou o tempo todo, discorrendo
sobre as angústias e tristezas de Liza. Depois de um monólogo de
hora e meia, Liza a interrompeu:
"Já vi que você não precisa de mim para fazer a entrevista.
Você veio aqui já tendo na cabeça tudo o que vai escrever. Você
apenas quer usar esta entrevista como pretexto, para mostrar que
sou uma mulher infeliz. Sinto decepcioná-la, mas eu não sou uma
mulher infeliz".
Liza Minelli conta que a repórter parou e perguntou: "Você é
feliz?"
''Ela disse isso com um tal tom de indignação que pensei
que iria me bater", conclui Liza.
Foi mais ou menos isso que alguém fez com Marchezan,
naquela ocasião. E é mais ou menos assim que se faz, muitas
vezes. Os entrevistados sabem muito bem disso.
No final de agosto, Heitor me chamou para me informar que
na "reunião das nove" o grupo palaciano havia pedido a cabeça do
ministro Farhat, com a extinção da Secom. Mas a resposta do
presidente fora negativa.
"Falou o coração do João. Disse que o Farhat largou tudo,
largou a Embratur para se dedicar a ele no Aracoara, e que não ia
deixar o Farhat mal, agora", contou Heitor Ferreira.
A reunião das nove era a mais importante do governo. Nela,
o presidente discutia os principais assuntos do dia com os
ministros Golbery, Medeiros, Venturini e Delfim. Naquele dia,
Heitor me dizia que haveria outra tentativa:
''Vai te preparando, que ainda vai se voltar à carga. Tu fica
como secretário de Imprensa e não vai ter mais Secom".
Dias depois, havia uma recepção na casa do jornalista
Wanderval Calaça. Quando cheguei, encontrei a mulher do
ministro, dona Rai Farhat. Ela brandiu o dedo em minha direção e
falou para que todos ouvissem:
"Eu sei, seu Alexandre, que você e aqueles seus amigos, o...
o Heitor e o... o Golbery, quiseram derrubar o meu marido, mas
não conseguiram, porque o Figueiredo não deixou. Vocês se
enganaram feio, e vão se enganar, se tentarem de novo. Quem
trabalha sério não precisa temer!"
Eu fui me afastando, porque não queria manter aquele tipo
de discussão em público. E tratei de ficar bem longe dela até o
final da festa.
No início de setembro, procurou-me o Roberto Lopes, da
Veja, dizendo-me que pretendia fazer comigo a entrevista "5
minutos com'' da Playboy. Procurei o Heitor e o consultei a
respeito.
''Vá em frente. Você precisa de tudo o que o torne bem
conhecido, para quando assumir a Secretaria de Imprensa."
A entrevista "5 minutos com Alexandre Garcia" saiu, com
uma foto em que estou sorrindo e de cachimbo na boca, na edição
de novembro, que já estava nas bancas no final de outubro. No
início de outubro, comentei sobre a entrevista com o diretor de
Bloch Editores em Brasília, Flávio Cavalcante Jr. Ele me disse que
seria excelente idéia fazer uma grande entrevista comigo para a
Ele & Ela. Não de uma página, como fizera a Playboy, mas de
várias páginas.
Heitor continuou estimulando, mas, como o ministro da
Justiça estava apreendendo revistas pornográficas, resolvi
conversar antes com o ministro Abi-Ackel, aproveitando um
almoço na casa dele. Abi-Ackel e dona Jacéa queriam me
agradecer por ter defendido o filho Paulinho, num episódio
ocorrido na sala de projeção do Ministério da Justiça.
Os jornais haviam noticiado que Paulinho Abi-Ackel, então
com quinze ou dezesseis anos, havia sido flagrado assistindo ao
Império dos Sentidos, numa sessão especial para ele, na sala de
projeção da Censura. Em conversa com um amigo, o jornalista
Márcio Braga, do JB, me contou que, na verdade, era uma sessão
da Censura que não era especial para o Paulinho. E que o
Paulinho fora levado para lá por um grupo de jornalistas, que
queria "fazer" a notícia. Quando eu soube disso, botei a boca no
mundo, mostrando que o jovem fora vítima de uma armadilha.
No almoço, Abi-Ackel aprovou a idéia da entrevista:
"Nada contra. Vá em frente e felicidades!"
A entrevista foi feita em minha casa, na margem norte do
lago Paranoá, pela repórter Marlene Galeazzi. Frederico Mendes, o
fotógrafo, pediu-me para fazer o que eu fazia em casa. Ele me
fotografou descalço com calça jeans e camiseta, cuidando do
jardim; de abrigo de ginástica, pedalando; de blusa preta e boina
argentina, praticando tiro ao alvo com uma pistola de pressão; de
bermuda e sem camisa, dando banho no cão pastor Sherlock. Era
um sábado quente, e de bermuda e sem camisa fui gravar a
entrevista na biblioteca, após as fotografias.
Foi quando tocou o telefone na cabeceira da minha cama,
no quarto ao lado da biblioteca. O telefone estava no lado oposto
ao acesso da biblioteca e me atravessei na cama para atender. Era
a Sônia Carneiro, da Rádio JB, fazendo perguntas sobre se
Figueiredo iria sair de casa naquele fim de semana. Enquanto eu
falava, notei que Frederico Mendes punha o lençol até meu tórax e
fazia mais uma fotografia.
O Flávio Cavalcante Jr. foi corretíssimo. Dias depois, ele me
entregava o texto original da minha entrevista, que conservo até
hoje. São dezoito laudas. Só que tive de reescrevê-lo todo. O
original só serviu para dar uma ordem ao conjunto. Depois,
Flavinho me mandou as fotos que seriam publicadas. Levei o texto
e as fotos para discuti-los com Heitor Ferreira. Tudo aprovado por
mim e por Heitor, dei o imprimatur para o Flavinho.
Na tarde de 15 de outubro, uma quarta-feira, o general
Venturini me convocou para uma reunião sigilosa no Conselho de
Segurança Nacional. Lá estavam os ministros das Minas e
Energia, do Estado-Maior das Forças Armadas e do SNI, além de
alguns generais e muitos técnicos de vários setores. O expositor
era Eliezer Baptista, da Vale do Rio Doce, e o assunto era a
revelação de uma das maiores reservas de minérios do mundo, na
serra dos Carajás. Quando ele terminou a exposição, todos
estavam hipnotizados pela quantidade dos mais variados minerais
estratégicos, concentrados num mesmo lugar.
Eram cinco da tarde e sugeri ao ministro Venturini que
deveríamos divulgar a descoberta naquele mesmo dia. Argumentei
que deveríamos divulgar para que nossos credores externos
soubessem que poderíamos pagar nossas dívidas, já que tínhamos
um grande futuro. E naquele dia, para que o palácio do Planalto
"faturasse" a boa notícia, antes que algum político dela tomasse
conhecimento e a anunciasse na tribuna. Venturini pediu-me uns
minutos e foi consultar o presidente. Não demorou muito e fez-me
um sinal:
"Está liberado".
Eu convoquei a imprensa para a sala de briefing e às seis
da tarde estava contando tudo sobre as enormes reservas
minerais da serra dos Carajás. Farhat estava em São Paulo
naquele dia e, mais uma vez, invadi o departamento de boa
notícia.
No dia seguinte, eu estava a bordo do Boeing presidencial,
numa viagem ao Piauí. Figueiredo estava trancado na sua cabine e
Farhat estava na primeira poltrona do lado esquerdo, lugar em
que costumava viajar. Ele pegou os jornais daquele dia e verificou
que todos davam, em primeira página, a descoberta de Carajás.
Farhat virou-se para trás e deu um grito, que o avião inteiro
ouviu:
— Alexandre! Venha cá! Quem foi que mandou você dizer
essas bobagens?
Ao lado dele, na primeira poltrona ao lado direito do
corredor, estavam os generais Medeiros e Venturini. E, antes que
Venturini falasse, Medeiros foi mais rápido, com seu vozeirão:
— Fui eu, Farhat, por quê? E Farhat:
— Mas é isso mesmo? Que descoberta gigantesca!
O pessoal da segurança estava tentando conter o riso e eu
estava duplamente acima das nuvens. Farhat nada notou, porque,
sem jeito, tentava ouvir as informações de Venturini sobre
Carajás. Naquele dia, as frutas piauienses que comemos no
palácio Karnak tiveram ainda mais sabor.
No final do dia, fomos para São Luís do Maranhão e
jantamos no palácio dos Leões com o governador Sarney. Recordo-
me de que o governador levou o presidente ao telefone para que
falasse com sua mãe, dona Kiola. E também me lembro do
comentário que o general Medeiros fez sobre o nome de uma
ponte: ''Bandeira Tribuzi''. Parece que o governo militar resistira
em homenagear o poeta maranhense — que anos depois seria
citado na ONU pelo presidente Sarney.
A entrevista saiu no final de outubro. Antes que a Ele & Ela
chegasse às bancas, Flávio Cavalcante Jr. me trouxe três
exemplares.
Entreguei um para o presidente, pedindo que lesse a
entrevista, e outro para Heitor. O presidente leu. Foi o que
demonstrou no dia 7 de novembro, uma sexta-feira. Tínhamos
trocado de avião no aeroporto Santos Dumont. Saímos do Boeing e
tomamos um Buffalo, que nos levaria a Pindamonhangaba, para a
inauguração de uma aciaria da Villares. Na cabeceira da pista,
estourou um conduto hidráulico dentro da fuselagem e o fluido
molhou toda a roupa do presidente.
Eu estava sentado diante dele, do outro lado, pois era um
avião de pára-quedistas. Ele começou a tirar a roupa e me olhou
com um jeito maroto:
"Será que estou seguro, tirando as calças na tua frente?"
Eu ri e ele continuou, contando uma história que o
impressionara e estava no "Fórum" daquela edição de Ele & Ela.
Naqueles dias, a revista já estava nas bancas.
A Veja que sairia no domingo seguinte trazia um boxe
intitulado "Vulgaridade Palaciana", criticando dois episódios. O
primeiro era a distribuição à imprensa, feita pelo ministro Farhat,
de uma carta de dona Maria Carmem Ferraz, ex-mulher do goleiro
Raul, do Flamengo, que dizia "João, o negócio vai pras cucuias" e
informava trabalhar "pra carvalho" numa cantina em Belo
Horizonte. A segunda crítica ia para minha entrevista a Ele & Ela,
e trazia minha foto, telefonando na cama, coberto por um lençol.
Sob o lençol, havia uma bermuda amarela Dunlop, comprada no
Paraguai, que não era citada nem lembrada.
Na segunda-feira, 10 de novembro, o Kraemer veio avisar-
me de que Farhat desejava falar comigo. Eram umas quatro da
tarde, e o ministro estava saindo para tomar um jatinho da FAB
na base aérea. Iríamos conversar no Galaxie ministerial, no
caminho para o aeroporto. Mal deixamos o palácio, Farhat pôs a
mão no meu joelho e disse:
— Nós dois sabemos que o nosso relacionamento nunca foi
bom. Eu falei com o presidente, e achamos que, depois daquela
entrevista, é melhor você pedir demissão.
— Meu presente de quarenta anos — respondi. E pedi
tempo para pensar. Queria confirmar se o presidente havia mesmo
autorizado a demissão. Mas Farhat não queria esperar.
— Aqui está a minha carta aceitando o seu pedido de
demissão. — A carta tinha a data de meu aniversário, 11 de
novembro.
Tudo se resolveu antes que o carro percorresse o primeiro
quilômetro. Os outros quinze até a base aérea foram de um
silêncio constrangedor.
A princípio, eu tinha a informação de que Farhat entrara no
gabinete do presidente e insistira com ele que alguma coisa tinha
que ser feita, diante das críticas da Veja — que, aliás, também o
atingiam. E que o presidente, para se ver livre da insistência, teria
dito: "Está bem, Farhat, faz o que você julgar melhor".
Mas depois eu soube que a força de Farhat viera do apoio
do general Medeiros, do SNI, que reprovara a entrevista.
Fui para casa sentindo um grande alívio e muita paz. O
tempo iria mostrar que sair naquele momento fora excelente para
mim. Naqueles dezoito meses havia aprendido bastante. E saía no
momento ideal.
Reli a entrevista, para ver se encontrava algo condenável. Aí
percebi que o título dado pela revista é que poderia ter doído:
ALEXANDRE GARCIA — O PORTA-VOZ DA ABERTURA.
Naquela segunda-feira, Golbery, gripado, não fora ao
palácio. Mal cheguei em casa, ele me telefonou:
''Então o turquinho te pegou? Pois agora temos que pegar o
turquinho!"
Fiquei preocupado em causar problemas ministeriais para o
presidente e respondi a ele que estava tudo bem assim. Que agora
eu voltaria a fazer jornalismo. Logo depois, ligou Heitor,
anunciando que me ligaria o recém-nomeado governador do Mato
Grosso do Sul, Pedro Pedrossian. Mal ele desligou, Pedrossian
estava ao telefone, oferecendo-me uma secretaria de Estado.
Agradeci e recusei, explicando que voltaria ao jornalismo.
O telefone continuou chamando. Farhat pedira a Kraemer
para anunciar imediatamente a minha saída, de modo a não dar
tempo a uma reação via Golbery. A imprensa, portanto, já sabia.
Logo depois ao Jornal Nacional, Carlos Chagas ligou oferecendo-
me um lugar no Estadão. Depois, foi Luiz Orlando Carneiro,
dizendo-me que tinha planos para mim, no JS, de que eu estava
licenciado. Por fim, foi Adolpho Bloch, meio se desculpando pela
entrevista, e pedindo-me para ir ao Rio, conversar com ele.
Naquela noite, havia um jantar na casa da colunista
Consuelo Badra, para o qual eu fora convidado como porta-voz da
Presidência. Fui assim mesmo. Lá encontrei Oscar Bloch, que me
ofereceu a direção da revista Tendência. Eu não gostaria de fazer
economia e apenas recordei a Oscar que um dia, no elevador do
hotel New Otani, em Tóquio, ele me havia convidado para
trabalhar com ele.
Passei a noite tranqüilo. No dia seguinte, minha casa
amanheceu cheia de repórteres e fotógrafos. Era a notoriedade que
Heitor tanto queria para depois da demissão de Farhat e da
extinção da Secom. Eu tinha uma declaração provocadora sobre
minha demissão: ''Foi uma vitória de Farhat sobre o grupo
palaciano". Entre os que me ligaram, naquele dia, para me
apresentar solidariedade, estavam o senador José Sarney, o
deputado Nelson Marchezan, os ministros Abi-Ackel e Hélio
Beltrão, e dona Sarah Kubitschek. A noite, chegaram meus
amigos do palácio do Planalto, trazendo tortas e bebidas para a
comemoração dos meus quarenta anos.
Os jornais do dia 12 de novembro já estavam melhores que
no primeiro dia. Eu tivera tempo de responder. O San Francisco
Chronicle daquele dia abriu com o título: BRAZILIAN OFFICIAL
FINDS BLISS, LOSES JOB (funcionário brasileiro encontra a
felicidade e perde o emprego). O despacho era da United Press. No
France Soir, o título era L'AMOUR À LA BRÉSILIENNE. Os jornais
brasileiros traziam grandes matérias com fotos. O comentário
mais favorável foi escrito por Hélio Fernandes, na sua coluna da
Tribuna da Imprensa:
Não conheço o assessor da Secom, Alexandre Garcia, um dos
porta-vozes do palácio do Planalto. Mas acho que a sua demissão
foi única e exclusivamente por causa da entrevista dada a revista
Ele & Ela, um absurdo total. Talvez a coisa mais exagerada da
entrevista tenha sido a própria foto de Alexandre Garcia na cama.
Mas ele está enrolado num lençol, numa atitude rigorosamente
familiar, falando ao telefone, não desafiando ninguém nem ferindo
os costumes do mais sisudo e pacato cidadão. Além do mais, o
porta-voz Alexandre Garcia é solteiro e sua entrevista não pode
chocar ninguém, não pode provocar o menor protesto seja de quem
for.
Também escreveram me defendendo o Henfil e o Mino
Carta. Uma solidariedade antecipada foi a do ex-ministro da
Justiça Armando Falcão. Na posse do senador Sarney na
Academia Brasileira de Letras, no início do mês, Falcão me
abraçou, dizendo que tinha lido a entrevista e a julgado
"sensacional, muito boa mesmo''. Com um elogio daqueles, jamais
iria imaginar que Farhat o superasse.
Eu queria me despedir do presidente, mas Heitor me
aconselhara a não ir logo, para evitar lágrimas. Duas semanas
depois, ele me ligou, dando o sinal verde. Mas aconselhou que eu
procurasse o Farhat: que fosse ao presidente através de Farhat.
Eu já não guardava mágoa alguma. Estava satisfeito: fora à casa
do Rubão Ludwig, festejar a promoção dele a general, logo depois
de ouvir no Jornal Nacional'uma declaração do ministro da
Educação Eduardo Portella, fazendo um jogo de palavras: ' 'Estou
ministro, mas não sou ministro".
"Vai cair amanhã", eu vaticinara, na conversa com Rubão.
No dia seguinte, Portella caía e Rubão se tornava um general na
Educação, em vez de comandar a Academia das Agulhas Negras.
Satisfeito pelo Rubão, eu ia procurar Farhat, para me levar
a Figueiredo. Ele gostou tanto que não nos deixou a sós, o
presidente e eu. Foi uma despedida curta mas significativa, com
um aperto firme de mão e olho no olho. Depois mandei uma
cartinha para Farhat, agradecendo a cortesia com que me
recebera e prometendo a ele a amizade dos tempos do Aracoara.
Punha uma pedra sobre tudo para começar vida nova. E aceitava
a proposta dos Bloch para chefiar a redação das revistas em
Brasília. Iria entrar num novo tipo de jornalismo, o de revistas
ilustradas semanais e mensais. Era uma grande mudança, para
quem fazia o jornalismo do dia-a-dia, que valorizava mais o texto
que a ilustração.
TERCEIRA PARTE

NA MANCHETE

_____________________
Dezembro de 1980 a fevereiro de 1988
Figueiredo de moto

Eu começava na Manchete contando os bastidores da


escolha de Ludwig. Ele fora chamado ao gabinete do presidente,
que lhe perguntou:
— Então, vais comandar a AM AN?
— Estou pronto para isso — respondeu Rubão, rápido.
— Irias — cortou o presidente. — Você vai ser o meu
ministro da Educação.
Logo depois, iria relatar na Manchete ''por que Farhat caiu''.
Ele sobrevivera à minha demissão 3 5 dias. Meteu-se na disputa
pela presidência da Câmara, entre Djalma Marinho e Nelson
Marchezan, e resolveu ser o juiz de uma declaração de Heitor
Ferreira contra Djalma. Com Farhat, caiu um mastodonte
chamado Secom.
No início de janeiro, a Manchete iria lançar uma edição
especial: seu número 1.500. Pediram-me para fazer uma
entrevista exclusiva com Figueiredo, no Torto. Liguei para ele no
dia 30 de dezembro e ele me recebeu no outro dia. Pensei que
fosse uma espécie de compensação. Serviu-me um copo de uísque,
queixou-se dos políticos e não tocou na minha saída do palácio.
Demonstrava que, para ele, o episódio já estava encerrado.
Naquela época, era eu quem desejava ter a entrevista a Ele & Ela
esquecida. Havia feito o nome, mas tinha que desligar a entrevista
do nome, com muito trabalho. Sabia que iria demorar anos.
Dez dias antes, o general-de-exército Antônio Carlos de An-
drada Serpa havia sido punido com dois dias de prisão domiciliar
por ter assinado o manifesto ''Em Defesa da Nação Ameaçada",
condenando as multinacionais. Figueiredo me disse:
"Eu conheço o Serpa. Sou amicíssimo dele. Mas, quando fez
aquilo, ele tinha certeza de que seria punido. Ele conhece o
regulamento disciplinar do Exército. Agora, quando o Tribunal de
Segurança do Getúlio puniu meu pai, que era coronel, com dez
anos de prisão, e o jogou três anos numa cela com presos comuns,
ninguém disse nada. Getúlio assinou um decreto matando meu
pai, declarando-o morto, e, quando minha mãe foi receber o
montepio, exigiram atestado de óbito. E ninguém disse nada.
Agora, prendem o general Serpa por dois dias na casa dele, e todo
mundo vem me falar em direitos humanos".
Em janeiro de 1981 eu já tinha recebido uma missão dos
Bloch: como chefe das revistas em Brasília, com representação da
empresa, portanto, deveria trabalhar junto ao presidente e ao
ministro Golbery para conseguir vencer a concorrência pública de
uma rede com cinco canais de televisão. Era o espólio da TV Tupi,
que formaria duas redes. Concorriam, entre outros, os Bloch,
Silvio Santos, os Civita (Abril), o professor Edvaldo Alves da Silva
(TV Capital).
Naquele mês, os Bloch me pediram que escrevesse na
Manchete uma espécie de memórias de meus tempos no palácio.
Saiu uma reportagem emocionada, intitulada O FIGUEIREDO
QUE EU VI, com uma foto de Roberto Stuckert, mostrando o
presidente andando de moto. Heitor Ferreira me chamou:
''Você prestou um grande serviço ao presidente e um
péssimo serviço a nós e ao país. Recém-estávamos dobrando o
presidente para ele parar de andar de moto e agora ele anda por aí
brandindo a Manchete na cara da gente, orgulhoso. Quando
quebrar a cabeça numa árvore e quebrar com ela o projeto da
abertura, você também será responsável".
Jânio confessa

Segunda-feira, 16 de fevereiro de 1981. O diretor de


Manchete em São Paulo, Salomão Schwartzman, me liga avisando
que Jânio Quadros quer me dar uma entrevista, e me espera na
casa dele no jardim Acapulco, Guarujá, no dia seguinte. Tomo um
avião para São Paulo na terça-feira pela manhã, e de lá desço para
o Guarujá, com o fotógrafo José Castro e meu gravador. Cheguei
na hora combinada, onze da manhã. No portão da casa do ex-
presidente, toco a campainha e um empregado me atende.
Identifico-me e digo que cheguei para a entrevista que o presidente
quer me dar. O empregado entra e volta com uma surpresa:
"O presidente não marcou entrevista alguma. E não tem
tempo para atendê-lo".
Fiquei atônito. Escrevi um bilhete para Jânio, explicando
que viera por causa de um telefonema de Salomão, e que voara de
Brasília naquela manhã, e viera de São Paulo de carro só para a
entrevista. E que tinha a certeza de que em meia hora gravaríamos
a entrevista.
Ele foi inflexível. Respondeu, pelo empregado, que não
tinha combinado entrevista alguma, e que eu viera de Brasília por
minha conta e risco. Aí, iniciei um longo diálogo em que eu era
quem mandava bilhetinhos para o homem que governou sete
meses com bilhetinhos. Por fim, ele concordou em me receber para
continuar a discussão, sob o argumento de que o sol, já perto do
meio-dia, estava muito forte na calçada.
Na biblioteca da casa, a discussão continuou, sobre fazer
ou não a entrevista. Quando entrei em detalhes da gramática que
Jânio havia escrito, o clima melhorou. Passamos a conversar
sobre a gramática da língua portuguesa, e eu me senti estimulado
a cometer um exagero; afinal, não poderia perder a viagem:
"Presidente, se for necessário, eu imploro esta entrevista".
Aí, ele concordou em fazer uma concessão. Avisou dona
Eloah que teria dois convidados para o almoço e mandou abrir um
vinho tinto siciliano. Foi aí que eu percebi a extensão da jogada:
ele queria dar a entrevista. Pedira-a ao Salomão. Era, portanto, o
pedinte, em situação inferior. Quando cheguei à casa dele, tratou
de inverter a situação, fazendo-me implorar, e ele se tornou o
poder concedente. Genial! — fiquei ainda mais admirador de
Jânio.
A entrevista foi interrompida várias vezes durante o dia,
enquanto íamos consumindo outras garrafas do mesmo delicioso
vinho. Quando perguntei-lhe sobre suas fontes de renda, ele se
levantou e me levou a um anexo da casa, transformado em ateliê.
"O senhor conhece Henry Ford? Como ele, faço produção
em série de quadros e encontro pessoas que compram."
Fiquei profundamente impressionado com as meninas
tristes que ele pinta. Conheço uma que está na casa do senador
José Richa, em Brasília. Eu a colocaria entre as mais geniais
pinturas da arte brasileira.
Já estávamos na terceira ou quarta garrafa do generoso
siciliano, quando resolvi fazer ao presidente uma velha pergunta
— qual a verdadeira causa de sua renúncia? — de uma nova
forma:
"Que erros o senhor admite ter cometido durante o seu
governo, erros que, se não tivesse cometido, não teria
renunciado?"
E ele me deu a seguinte resposta, que eu imagino ser a
única explicação clara dada até hoje para a renúncia:
''Eu assumi a Presidência sem ter uma noção exata da
situação econômica do país. Era terrível. Eu tinha um ministro da
Fazenda e um grande presidente do Banco do Brasil. Mas um dos
meus erros, no campo econômico-financeiro, foi ter tentado conter
o processo inflacionário de forma abrupta, violenta.
"No campo político, quero acreditar que eu pudesse ter sido
mais afável, menos duro, menos inflexível. O que me impulsionava
é que recebera um mandato do povo para produzir reformas. E
com esse mandato eu havia cassado, praticamente, os deputados
federais e senadores. Cassara também eminentes governadores.
Poderia e deveria ter sido mais hábil com eles, a despeito de ser
verdade que tratava igualmente os que me apoiavam e os que me
combatiam.
"Na política externa, sem prejuízo dos rumos estabelecidos,
talvez fosse possível caminhar com mais cautela, sem hostilizar, a
um tempo, nas posições de independência, os Estados Unidos, a
União Soviética e o Reino Unido.
''Mas o que disse, afinal, não é da essência. O que me
parece da essência foi ter-me trancado em Brasília, imaginando
que a jornada de trabalho das sete da manhã às oito da noite
resolvesse os problemas nacionais. Desconfiado disso, criei as
chamadas conferências de governadores, que me permitiram
contatos com as várias regiões do país. Mas poderia e deveria ter-
me aproximado mais das várias lideranças dos sindicatos, dos
estudantes, das várias categorias profissionais, das nossas
empresas, das igrejas de várias denominações e dos políticos bem
formados — que ainda existem em grande número, graças a Deus.
De fato, me distanciei até da própria imprensa, que reunia todas
as semanas, mas ignorava nos respectivos centros editoriais. O
Brasil é um arquipélago sócio-econômico e um bom presidente
precisa percorrê-lo amiúde, porque Brasília oferece uma visão
distorcida. E muito provável que, no contexto nacional e
internacional, minha visão tivesse sido distorcida.
"O que me conforta é saber que atendi minha consciência e
se não fiz mais e melhor foi por deficiências próprias. Restam-me
dois confortos: mantive no cargo, com exercícios permanentes, a
autoridade e a honra, e fui o primeiro a perceber que não somos
uma nação apenas latino-americana, mas temos destino africano,
latino-americano, asiático e mundial".
Não conheço outra confissão do ex-presidente que
esclarecesse tão objetivamente a renúncia; que não lhe revelasse
as causas.
A entrevista só terminou quando o sol já se punha na serra
do Mar e eu estava tão empolgado com Jânio quanto estivera em
1960, quando votei para presidente a única vez (não votei em
1989). Eu trouxera o título eleitoral no bolso, para cobrar dele o
voto daquele 3 de outubro. Mas deixei a cobrança no bolso,
porque sentia vontade de repetir aquele voto. Só acordei quando
cheguei a Brasília. Descobri que, diante do carisma de Jânio
Quadros, é preciso manter uma distância sanitária superior a mil
quilômetros.

Manchete ganha TV

Em março, fiz minha primeira viagem ao exterior pela


Manchete. Fui a Bogotá, cobrir a visita de Figueiredo à Colômbia.
Oscar Bloch Sigelman, presidente da TV Manchete, que disputava
a concorrência pelo canal, também foi. Os dois números
anteriores de Manchete eram sobre o Carnaval. Estávamos todos
hospedados no hotel Tequendama, onde também se encontrava a
comitiva presidencial. No saguão, Oscar esperava Figueiredo para
cumprimentá-lo e lembrar os interesses na concorrência. Quando
Figueiredo chegou, Oscar teve uma surpresa.
''Assim eu não vou dar a televisão para vocês. Eu estive
vendo a Manchete, é uma vergonha. Só dá bicha e mulher pelada e
vocês vão botar isso na televisão."
Oscar ficou sem resposta, parado no saguão, enquanto
Figueiredo se afastava. Ele não dormiu naquela noite nem me
deixou dormir. Para ele, o recado fora claro: estava perdida a
concessão da TV. Passou a noite toda conversando, tentando
descobrir uma saída. Até que me convenceu de que eu deveria
tentar conversar com Figueiredo no café da manhã. E me disse
que eu deveria dizer ao presidente que eu seria o diretor de
Jornalismo da rede e, portanto, poderia dar garantias de que
jamais seria feita qualquer cobertura escandalosa. Oscar só ficou
calmo quando eu acertei uma visita a Figueiredo, no apartamento
presidencial, para o café da manhã.
Prometi ao presidente que, como diretor de Jornalismo, não
permitiria o baixo nível. Figueiredo riu quando lembrou o susto
que deu no "Oscarzinho" — como o chamava. Mas justificou que
várias mulheres de ministros haviam levado ao presidente
preocupações quanto ao estilo de cobertura de Carnaval da
Manchete. Por fim, concluiu:
"Tá bom, eu acredito em você. Mas não diga nada para o
Oscarzinho. Deixa ele ficar assustado, que é bom".
Voltando ao Brasil, fui ao ministro Golbery para dar as
mesmas garantias. Depois, voltei a falar com o presidente, dizendo
a ele que, se a Manchete ganhasse a concorrência, eu seria o
diretor de Jornalismo, e o jornalismo teria sede em Brasília. O
Flávio Cavalcante Jr., diretor da Bloch em Brasília, também
trabalhava no lobby. Duas semanas depois, o Marco Antônio
Kraemer me chamou ao palácio. Levou-me para um canto do
gabinete do presidente e mostrou um dossiê:
"Olha, o presidente assinou hoje. A Manchete ganhou. E o
Silvio Santos também".
Três semanas antes, os jornais davam como certo que a
Abril e Silvio Santos ganhariam. Corri para o orelhão do
estacionamento do palácio, para preservar a fonte (Figueiredo não
descobriu que havia escuta telefônica até no gabinete dele?), e
liguei DDD a cobrar para o Jaquito Kapeler, superintendente da
Manchete:
"Jaquito, ganhamos. Mas não festeja ainda. Só vão
anunciar dentro de mais uns dias".
Depois do resultado oficial da concorrência, fomos, o Flávio
Cavalcante Jr. e eu, acompanhando o casal Adolpho e Lucy Bloch
e o Oscar Bloch Sigelman, levar os agradecimentos formais a
Figueiredo e ao ministro das Comunicações, Haroldo Corrêa de
Mattos.
Naquela época, eu já tinha um programa diário na Rede
Manchete de Rádio, chamado 5 Minutos com Alexandre Garcia,
criado pelo Flavinho Cavalcante. Era minha volta ao rádio, onde
eu havia começado fazendo papéis infantis em novelas, com sete
anos de idade. Aos quinze, eu transmitia a missa dominical. Aos
dezesseis, pagava meus estudos como locutor da Rádio Difusora,
em Porto Alegre. Naquela época, não havia gravador de fita. Os
gravadores de fio eram complicadíssimos, e tudo era ao vivo, em
geral de improviso. Isso me deu enorme experiência para enfrentar
a televisão.
Em geral, eu ia para o estúdio da Rádio Manchete com uma
idéia na cabeça e o cronômetro na mão. Iniciada a gravação, eu
ligava o cronômetro e ia falando. Quando chegava aos quatro
minutos e meio, eu começava a concluir o comentário. Sempre
achei que escrever ou ler altera a forma e o estilo da linguagem. A
linguagem escrita nunca é igual à linguagem oral. E o texto lido
nunca é igual ao improvisado. A linguagem oral e improvisada
resulta num coloquial convincente. O treino no rádio seria
precioso para a televisão.

Bomba no Riocentro

Quando explodiu a bomba no Riocentro, fui para o palácio,


conversar com Golbery. Ele me garantiu que Figueiredo pegaria os
culpados. E chegou a me dar um símbolo: Figueiredo era como um
cavalo escarvando a areia no partidor, esperando a largada, para
botar na cadeia os culpados e envolvidos em geral. Transmiti
essas garantias em duas reportagens, em Manchete e Fatos &
Fotos.
Na semana seguinte, na preparação dos próximos números
daquelas revistas, voltei a Golbery. Ele estava tenso.
"Por que foi que Geisel destituiu o general Ednardo?",
perguntou-me, e ele mesmo respondeu: "Porque tinha o AI-5. O
Figueiredo tem o AI-5? Não tem. Então, vai ter que fazer o quê?
Nada. Porque, numa normalidade democrática, nós dependemos
de inquéritos, e inquéritos dependem da Justiça. O Figueiredo faz
inquérito? Não faz. Ele fica aqui, no palácio. Não vai para o Rio
fazer inquérito. Quem faz inquérito é o I Exército. E qual é a única
testemunha? Não é esse capitão? O sargento morreu, não fala. E
você acha que esse capitão vai falar? Não vai. Então, não fique
dizendo que o Figueiredo vai punir os culpados, porque não vai,
porque vai ser difícil chegar a alguma conclusão. E, como você
sabe, in dúbio, pro reo".
Golbery não transparecia frustração. Aliás, não deixava
transparecer coisa alguma. Apenas o que havia dito: não adianta o
presidente querer, porque não depende dele. E, como o capitão
não vai dizer quem o mandou, não serão apuradas as
responsabilidades. Dito e feito. Passaram-se as semanas e as
explicações dadas nada esclareciam. Figueiredo estava engolindo
um sapo, na dieta da abertura, mas tudo fazia para que fosse o
último.
Três meses depois, no dia 6 de agosto, eu estava no teatro
Nacional, assistindo ao bailarino Fernando Bujones, quando
alguém sentando atrás de mim tocou-me o ombro. Era o
governador do Distrito Federal, Aimé Lamaison. Aproximou-se do
meu ouvido e disse:
"O Golbery está pedindo demissão. Falei agora com o
Torto".
Levei um susto. Eram nove e quinze da noite. Era a notícia
mais grave para o governo Figueiredo. Mais grave que a bomba do
Riocentro. Golbery era o cérebro do projeto de democratização —
ele dizia que é incorreto chamar de redemocratização, porque se
queria uma democracia nova, não a volta à antiga. Levantei-me e
procurei um telefone. Liguei para o Torto e falei com o ajudante-
de-ordens. Ele me confirmou. Figueiredo jantava camarão com
seus amigos Walter Pires e Paulo Vidal. Lamentei que trabalhasse
numa revista semanal, porque não poderia dar o furo. Liguei para
o Rio e descobri que poderia dar junto com os jornais: a Fatos &
Fotos sairia dois dias depois e os jornais do dia seguinte pouco
deram.
As interpretações dadas pelos jornais deixavam claro que
Golbery saiu porque não conseguira resultados no inquérito do
Rio-centro, ou porque não conseguiu que Figueiredo punisse os
responsáveis. Na verdade, ele já sabia que nada seria apurado. No
dia 18 de janeiro de 1985, em seu gabinete no palácio, o
presidente Figueiredo me disse o seguinte sobre a saída de
Golbery em 5 de agosto de 1981:
"O Golbery não saiu por causa do Riocentro. Ele saiu
porque eu aceitei a nomeação do general Coelho Neto como chefe
de gabinete do ministro do Exército. Ele me disse: 'Você não pode
aceitar isso. A opinião pública não aceita esse general'. Eu
respondi: 'Eu não posso governar fazendo tudo o que quer a
opinião pública. Nem posso desautorizar o Pires. O chefe de
gabinete é dele'. Então o Golbery saiu''.
Logo após a explosão da bomba do Riocentro, no dia 30 de
abril daquele ano, a neta de Tancredo estava entre as pessoas que
viram o capitão com as vísceras expostas, mas foi a única que
tomou a iniciativa de carregá-lo no seu carro e transportá-lo ao
hospital. Não se limitou a testemunhar os fatos, mas participou
deles, seguindo o exemplo do avô. O episódio me deu a idéia de
fazer uma grande entrevista com o senador Tancredo Neves sobre
os rumos do país. Ele me recebeu no apartamento dele, para o
café da manhã do dia 16 de maio.
Tancredo me recebeu de camisa social aberta ao peito, sem
gravata, e tomamos café numa pequena copa. Eleitor de Jânio e
Miltom Campos, perguntei a ele algo que sempre me intrigou:
— Se Miltom Campos fosse o vice de Jânio, na renúncia,
teria havido 1964? — e a resposta foi esta:
— Haveria, de qualquer maneira, porque 1964 dependeu
menos dos homens do que das instituições, que estavam
exauridas. A necessária reforma da Constituição de 1946 era
impedida por uma intransigência violenta da UDN. O governo já
não dispunha de instrumentos operacionais de administração. O
Legislativo não legislava e o Judiciário julgava lenta e dificilmente.
1964 foi mais uma reação contra as estruturas obsoletas e
inoperantes do que decorrência dos homens que exercitavam o
poder.
Quando Jânio renunciou, Tancredo, sem mandato, recebeu
a missão de convencer Jango, no Uruguai de volta da China, a
aceitar a alternativa parlamentarista. Ele me contou o episódio:
''Fui designado pelos militares que assumiram o poder —
pelo Mazzilli, que era presidente interino, e pelo general Ernesto
Geisel, da Casa Militar, para ir ao encontro do Jango. Ernesto
Geisel foi muito correto. Ele me deu a missão. Era uma hora
tensa. Só foi possível a posse do Jango por causa do Geisel. O
Brizola ajudou muito, lá no Sul, mas, se, naquela hora, o Ernesto
se soma aos militares que não queriam a posse, o Jango não
assumiria''.

Brizola

No dia 28 de maio de 1981, uma quinta-feira chuvosa, eu


fui à secretaria do PDT, no alto de Santa Teresa, no Rio, para uma
entrevista com Leonel Brizola, que havia retornado ao Brasil no
ano anterior, depois de dezesseis anos de exílio. Eu nunca havia
falado com ele antes, embora o conhecesse bem, por ser gaúcho.
Quando toquei a campainha do portão, ele atravessou o jardim
com uma grande cuia de chimarrão na mão.
— Entra, gaúcho velho, tou te esperando com o chimarrão
da amizade, que une gaúchos como nós!
Enquanto me dava um abraço, me surpreendia ainda mais:
— Tenho acompanhado tua carreira, cachoeirense velho, e
tenho admirado o teu trabalho.
"O homem é competente", pensei. Na recepção ele já me
desarmava para a entrevista, me conquistando com o calor da
simpatia. Ele havia perdido há pouco tempo a sigla do PTB, mas
irradiava alegria. Guardo até hoje a fita gravada do que
conversamos naquela tarde.
Contou-me, por exemplo, que, no episódio da renúncia de
Jânio e ao desconfiar que os militares poderiam não dar posse ao
vice, João Goulart, seu cunhado e amigo, passou a arregimentar
apoio no Exército. E ligou para o general Costa e Silva,
comandante do IV Exército em Recife, travando-se, segundo
Brizola, o seguinte diálogo telefônico:
— General, precisamos garantir a sucessão constitucional;
faço-lhe o apelo a um filho do Rio Grande.
— Pois faça o apelo aí para a sua Brigada Militar. E me
faça o favor de não ligar mais para cá — teria respondido Costa e
Silva. Brizola me contou como foi sua resposta:
— Eu lhe disse apenas: "Pois o senhor é um golpista", e
desliguei. Creio que daí surgiu uma inimizade que teve seus
efeitos posteriores.
Brizola contou ter recebido informações de um radioamador
que captara uma ordem do general Orlando Geisel, mandando '
'silenciar o palácio Piratini'', e que, por isso, se preparava para
resistir. Quando o comandante do III Exército foi ao palácio,
Brizola conta que estava preparado para dizer-lhe o seguinte: "Ali
está o telefone, general. O senhor pode dar a ordem para silenciar
o palácio. Mas o senhor vai ficar aqui conosco. Vamos entupir
todos aqui dentro". O general Machado Lopes, de fato, acabou por
aderir ao movimento de Brizola.
O ex-governador acha que quando Jango fez escala em
Porto Alegre, de volta de Montevidéu, já estava comprometido com
o parlamentarismo, depois de ter negociado a volta com Tancredo.
Brizola me revelou que tinha planos de reter o avião
presidencial que levava Tancredo a Montevidéu, na escala em
Porto Alegre. "Elaboramos um plano para prender Tancredo,
porque estávamos em desacordo com os entendimentos. Mas o
avião sobrevoou Porto Alegre e seguiu direto para Montevidéu. Até
hoje não perguntei ao senador Tancredo por que o avião não
baixou em Porto Alegre."
Eu perguntei. Tancredo me disse que o plano de vôo
realmente previa uma escala em Porto Alegre. "Eu telegrafei ao
general Ernesto Geisel, dizendo que se baixasse em Porto Alegre
eu poderia tentar demover Brizola. O general Geisel, em resposta,
telegrafou informando-me que Brizola se preparava para me
prender e deter o avião em Porto Alegre. Por isso, suspendemos a
escala."
Na escala de Jango em Porto Alegre, na rota Montevidéu—
Brasília, Brizola conta que lhe entregou um papel, contendo uma
proposta. "A nossa proposta era subir, chegar à capital militar-
mente; fechar o Congresso e, no mesmo ato, convocar uma
Constituinte para dentro de sessenta dias, porque o Congresso
violara a Constituição. A proposta não foi aceita pelo presidente. E
possível que aí se situem as raízes de nossas divergências." Brizola
lembra também que "eu mandei o Rubem Berta (presidente da
Varig) buscar o general Amaury Kruel no Rio, porque era a
alternativa como comandante militar".
Como se sabe, a gota final em 1964 foi o comício na Central
do Brasil e o discurso de Jango para os sargentos no Automóvel
Clube. Brizola negou ter alguma responsabilidade nisso. ' 'Eu já
não era conselheiro do presidente. Nada tive com a organização do
comício de 13 de março. Encontrei até dificuldades para falar.
Quem organizou tudo foram setores mais ligados ao governo,
como a Central dos Trabalhadores. Quanto ao discurso do
presidente para os sargentos, tomei conhecimento pelo rádio.''
Ele me disse que, se Jango tivesse nomeado o general
Henrique Lott de volta para o Ministério da Guerra, não teria
havido o movimento militar de 1964. E conta que estava em Porto
Alegre em 31 de março e chegou a propor a Jango uma resistência
em São Borja, "protegido por uma divisão, e que ele nomeasse o
general Ladário (comandante do III Exército) ministro da Guerra e
a mim ministro da Justiça'' .Jango recusou a proposta e Brizola
conta que precisou fugir para o Uruguai disfarçado num uniforme
que lhe cedeu um cabo da Brigada Militar do Rio Grande do Sul.
Quando perguntei a ele sobre dinheiro recebido de Cuba
para a guerrilha do coronel Jeferson Cardim de Alencar Osório, ele
respondeu assim: "O coronel Jeferson era uma pessoa muito
alterada, muito emocional, e não nos merecia confiabilidade. Nas
nossas conspirações primárias no Uruguai, o marginalizamos e ele
se ressentiu, resolvendo, por isso, tomar a iniciativa. Ele
pretendeu iludir muitas pessoas no Rio Grande, usando meu
nome indevidamente".
Quando insisti sobre acusações quanto ao uso de recursos
recebidos do exterior, ele respondeu: "Isso é bom de explorar, mas
não existe nenhum círculo de exilados, no mundo, que não receba
auxílio. Olha, todos nós passamos as nossas dificuldades, mas
não fui dos que passaram maiores dificuldades, não. Recebi não
apenas de Cuba, que foi uma tratativa de um grande companheiro
nosso que hoje já está morto, mas também de outras fontes. De
entidades da Holanda, da Suécia... Nunca neguei isso. No futuro,
pretendo fazer um relatório".
Brizola e Jango ficaram dez anos no Uruguai sem se falar.
Reataram relações numa conversa de duas horas e meia, três
meses antes de Jango morrer. Brizola conta que, naquela ocasião,
Jango disse a ele:
"Brizola, pelas mãos do MDB nós jamais voltaremos. Lá,
temos muitos amigos. Mas, se esperarmos pelo MDB, jamais
voltaremos. Poderemos voltar até pelas mãos dessa Arena, dos
militares, mas, se esperarmos pelo MDB, nunca voltaremos. E
culpa tua, Brizola, porque tu tens dado mão forte para essa gente.
Durante a Frente Ampla, tu ficaste com ela, e o MDB ficou
contra''.
Figueiredo me disse uma vez que o projeto de anistia do
MDB pretendia evitar o retorno de "concorrentes", como Brizola.
Já o sonho de Golbery era ter um grande número de líderes
oposicionistas para dividir a oposição.
Eu insisti com Brizola sobre os episódios de 31 de março e
1? de abril de 1964. Perguntei-lhe sobre o incitamento que fez
para que sargentos matassem seus oficiais. Ele mostrou que não
queria tratar daquele pedaço do passado:
"Que idade você tem, companheiro? Pois eu tinha então a
sua idade, com os arroubos da juventude. Ajude-me a botar uma
pedra em cima disso. O que é anistia, senão esquecimento?"
Ajudei-o, dando uma "penteada" na entrevista, eliminando
pontos de atrito. Já no final da entrevista, perguntei-lhe sobre o
presidente Figueiredo e ele foi elogioso, lembrando "a legenda que
foi seu pai" (o coronel Euclydes Figueiredo). E concluiu: "Tenho
esperança de que o presidente, com essas características de
personalidade e temperamento, venha a ser sensível às aspirações
do povo brasileiro".
Aí, segurou meu braço e me pediu para dizer ao presidente
que, se precisar dele, Brizola, para apoiar o esforço pela
democracia, estaria à disposição. E acrescentou, em tom de
confidencia:
' 'Você deve saber o quanto de pressões esse homem está
sofrendo, com esse Riocentro e essas bombas, que mostram que
há reações ao projeto dele. Diga para ele que conte comigo para
resistir''.
Quando voltei a Brasília, levei a mensagem de Brizola ao
palácio. Fui primeiro ao ministro Golbery, que ironizou:
"Ora, ora, então o sr. Leonel de Moura Brizola quer ajudar o
Figueiredo a fazer democracia? Vejam só! Agora ele quer
democracia!"
Quando fui ao presidente, a reação não foi muito diferente.
Ao terminar de transmitir o teor de minha conversa com Brizola,
Figueiredo perguntou:
"E você acreditou nisso?"
Respondi que não tinha que acreditar ou não. Que ele me
pedira para transmitir uma mensagem e eu estava cumprindo o
prometido.
''Está bem. Você já transmitiu o recado'', concluiu
Figueiredo, sem dar o menor sinal de simpatia a Brizola. Algum
tempo depois, Brizola iria ao palácio e Figueiredo o receberia.
Terremoto

Um mês depois, no final de junho, eu estava em Lima,


Peru, cobrindo a visita de Figueiredo ao presidente Belaúnde
Terry. Terminada a cobertura, eu subi os Andes para conhecer
Cuzco e Machu Picchu — a cidade perdida dos incas.
Como já disse, em viagens procuro fazer o que fazem os
locais. Em Cuzco, como os cuzquenos. A tarde, um nativo me
ofereceu uma papa de milho, que manipulava nas mãos imundas.
Estendeu-me à boca e aceitei, fazendo um sorriso agradecido.
Cuidei de mastigar bastante, na tentativa de a saliva anular a
imundície. Á noite, pedi, no cardápio, só comida local, inclusive
sopa de ají.
Acordei no final da madrugada com a sensação de ter uma
prensa sobre meus intestinos. Suava frio. Corri para o banheiro,
desesperado. Mas já estava ocupado. Meu companheiro de
viagem, o empresário Lindberg Aziz Kury, estava lá dentro. Eu não
conseguiria esperar. Tentei imaginar onde estaria o banheiro mais
próximo. Só me lembrei do banheiro do restaurante do hotel, em
outro andar. Corri para o elevador, vestido apenas com a bermuda
do pijama. Quando a porta do elevador abriu no andar do
restaurante, saí como uma bala. E atropelei um grupo de uns
trinta casais idosos americanos, que fizeram o desjejum mais cedo
para sair numa excursão. Lembro que, antes de fechar a porta do
banheiro atrás de mim, ainda notei que metade do grupo me
olhava assustada e outra metade já começava a rir, recuperada do
susto.
Na manhã daquele sábado, 27 de junho, os jornais de
Cuzco anunciavam em manchete de primeira página um terremoto
para aquele dia. O terremoto não veio. Para os outros. Os meus
intestinos estavam no topo da escala Richter.
De volta ao Brasil, consegui minha segunda entrevista com
Figueiredo, para Manchete: TODOS OS CAVALOS DO
PRESIDENTE. E tive que aprender sobre cavalos.
No último fim de semana de julho, eu fui a São Paulo para
acompanhar uma viagem de dois dias do governador Paulo Maluf
pelo interior. O que vi era uma pré-estréia do Indiana Jones.
Saímos cedo de Congonhas e a bordo ele ia lendo as fichas dos 37
prefeitos com quem iria conversar. Nas fichas estavam nomes,
valores, obras, reivindicações, história política de cada um. No
aeroporto de Bauru, esperam-no crianças de uma creche.
"Está boa a comida, crianças? Se não estiver, escrevam
para o titio!"
Ele toma um cafezinho no bar do aeroporto, põe uma nota
de quinhentos dobrada no bolso do avental da senhora que o
serviu e vai embora. No ônibus, já vai despachando com o prefeito
de Bauru e o de Agudos.
"Tudo bom, Nelson? A família vai bem? E o ICM?"
Em Cabrália Paulista, descobre que um líder político local
está doente. Muda todo o itinerário para visitá-lo.
"Oi, Pimentel, o que houve com você? Quer ir para São
Paulo? Vou mandar uma ambulância. Vamos cuidar de você, que
há muitas convenções pela frente!"
Em Duartina, o governador segura o microfone para Sílvio
Caldas cantar "Chão de Estrelas'' na inauguração da Caixa
Estadual. Já na estrada, o prefeito de Cabrália Paulista espera o
ônibus para ir despachando antes de chegar à cidade.
"Oi, Madrigal, botou gravata hoje, hein?"
Mais adiante, ele encontra um cego com a camiseta de
propaganda de Reynaldo de Barros, seu candidato ao governo do
Estado. Maluf abraça o cego, que responde:
"Estou com o senhor e não abro".
Maluf discursa no palanque. Atrás dele, um grupo de
políticos está em animada conversa. Ele interrompe:
''Vou parar um pouco para não atrapalhar a conversa aqui
atrás, não é, crianças? Minha professora sempre dizia: 'Quando
um burro fala, os outros baixam as orelhas' ".
Ainda diante do microfone, dá um cheque do Banespa, de
600 mil, para a presidenta da APAE de Duartina.
"Depois me assine um recibo."
O prefeito reclama que só falta um trecho para completar a
estrada, e Maluf recomenda ao superindentente do DER:
"Olhe, Drigo, está faltando um trecho de estrada. Temos
que fazer um conveniozinho aí. Se vire!"
Saímos de Duartina, mas Maluf comanda um desvio. O
ônibus sai da estrada e vai para a fazenda de Nacib Carlos, onde o
espera uma mesa cheia de quibes.
Mesa esvaziada, partimos para Gália. Do palanque da praça
principal, Maluf vai inaugurar o telefone. E pede uma ligação para
o Rio, para o deputado Célio Borja, que o estava criticando e
querendo deixar o PDS. Quando a voz surpresa de Célio Borja
entra nos alto-falantes, Maluf pede para a multidão cantar
"Parabéns a Você" — era o aniversário de Borja.
Dormimos em Marília e no dia seguinte vamos de avião
para Tupã. A bordo, recordei as frases indiscretas que saíram
pelos alto-falantes, como a exigência do recibo. Maluf olhou para
baixo e me mostrou duas cidades.
''Elas são rivais. Adhemar de Barros discursava numa e
pensava que estava na outra. Quanto mais elogiava a cidade rival,
mais o povo ficava irritado. Até que um assessor cochichou no
ouvido de Adhemar: 'O senhor está trocando de cidade'. Adhemar,
sem se dar conta do microfone, respondeu: 'Não faz mal, é tudo a
mesma merda'."
Em Bastos, Maluf diz, do palanque da praça:
"O povo daqui é movido a ovo!"
E, ao identificar um amigo, grita:
"Waldemar, eu não abro mão daquele docinho!"
E Waldemar:
''Eu sei, a Neusa já está esperando no aeroporto, com o
pacote!"
De helicóptero, vamos a Nova Avanhandava inaugurar uma
hidrelétrica. No palanque, o deputado goiano Guido Arantes
chama Maluf de "bandeirante do século XX". Maluf interrompe e
pede que levantem o braço os operários da hidrelétrica que não
são paulistas. A maioria não é.
"Estes é que são os bandeirantes do século XX, que vêm de
outros Estados para fazer o nosso progresso."
Quando chegamos a Congonhas, no início da noite de
domingo, observo:
— Ainda não vi o senhor ir ao banheiro.
— Não vou. Tenho uma autonomia de dez horas. Não dá
para perder tempo.

Setembro triste

Agosto foi o mês da saída de Golbery e setembro, o da


inauguração do Memorial JK. Fui designado para cobrir a
inauguração do monumento em cujo nascimento eu tivera
participação. E acompanhei o traslado dos restos de Juscelino, do
cemitério Campo da Esperança, onde ele repousava desde agosto
de 1976, ao seu lugar definitivo, no memorial. Os restos de JK
passaram a noite no Congresso, recebendo a homenagem que ele
não tivera. Descrevi assim aquela noite no Congresso:
"À meia-noite, ao iniciar-se o dia em que Juscelino
completaria 79 anos, padre Roque conduz a reza do terço. A meia-
noite de um 12 de setembro, as filhas Márcia e Maristela estão, de
novo, perto do pai. Só que, desta vez, não cantam o 'Parabéns',
mas contemplam os mistérios dolorosos do terço. Padre Roque põe
o terço entre os dedos de dona Conceição, tia de Juscelino, que
passa a conduzir as ave-marias, com voz marcada por 88 anos de
vida. Maristela a seu lado, emocionada, acaricia o azul da
bandeira que encobre o pai. Seus dedos percorrem o alto-relevo
das estrelas. Quando recebe o terço de padre Roque, Maristela
começa a pingar seu choro sobre a bandeira. As ave-marias saem
com dificuldade, na emoção do choro. Em torno da urna estão os
parentes e cerca de setenta pessoas. Ao terminar as preces, padre
Roque dá graças a Deus por ter nascido brasileiro, por ter-se
tornado padre, ter conhecido Juscelino, ter visto nascer Brasília. E
arremata:
" 'Mesmo depois de morto, Juscelino ainda fala' ".
Os que buscam com os olhos o ex-presidente lêem sobre o
seu caixão, mil vezes se quiserem, a mensagem: ORDEM E
PROGRESSO.
Na cobertura da Parada do 7 de Setembro, desvendei,
afinal, como são calculadas multidões no Brasil. Tal como eu
aprendera na faculdade, contei o público entre um poste e outro
das laterais do Eixão e fui multiplicando pelo número de trechos
iguais com a mesma densidade de gente. Depois, fiz o mesmo com
os trechos de menor densidade. Dava um total aproximado de 60
mil pessoas. Anotei no caderninho e continuei acompanhando a
parada. Aí, aproximei-me de um grupo de jornalistas, que discutia
alguma coisa.
— Vamos botar 25 mil pessoas? — sugeria um repórter.
— Não! Esses milicos expulsaram o padre Miracapillo!
Vamos dar 10 mil pra eles! — interrompeu outro.
Por fim, todos concordaram em que 15 mil pessoas
assistiram, em Brasília, àquele desfile na capital do país. A minha
estimativa de 60 mil deve ter sido considerada pelos leitores como
uma mentira, porque era o único com aquele número.
No ano seguinte, eu iria testemunhar, do terraço da Casa
Rosada, uma manifestação de apoio à invasão das Malvinas. A
Plaza de Mayo estava lotada, como lotadas estavam a avenida de
Mayo e as duas largas avenidas diagonais. Era, de longe, muito
mais gente que a praça da Sé ou a Candelária lotadas. Mas eram
400 mil pessoas.
Quando o papa visitou Seul, na Coréia, o helicóptero da
televisão levou alguns minutos para sobrevoar a multidão,
calculada como uma das maiores que já se viu no mundo. Eram
800 mil pessoas.
Setembro foi também o mês do infarto de Figueiredo. Serviu
como teste para a democratização, porque havia, ainda, dúvidas
sobre se Aureliano assumiria. Heitor Ferreira me contou que,
detectada a dúvida, era preciso demonstrar rapidamente a
normalidade das instituições. Aureliano foi chamado à suite 2.715
do hotel Othon, no Rio, onde o esperavam os três ministros
militares e os chefes do EMFA, do SNI e dos gabinetes civil e
militar. Quando Aureliano entrou, segundo relato de um dos
presentes, deve ter pensado que era um golpe militar. Mas logo se
tranqüilizou. Tratavam de sua posse imediata, diante de um laudo
médico afastando Figueiredo por dois meses.
Quando Figueiredo voltou de Cleveland, ainda sem operar,
eu estava no aeroporto, perto de seu velho amigo, o coronel Cunha
Costa, já na reserva. Na véspera do infarto, Figueiredo havia
ganho de Cunha Costa uma disputa com bolinhos de bacalhau:
ele conseguira comer dezessete, contra quinze do amigo! Agora
Figueiredo desembarcava e, ao cumprimentar Cunha Costa,
propunha:
"Vamos tomar uma sopinha?"
Eu tinha em mãos um vídeoteipe de uma entrevista de
Barbara Walters com Nancy Reagan, sobre o atentado a bala que
recém-havia sofrido o presidente dos Estados Unidos. Aquilo me
deu uma idéia. Levei a fita para dona Dulce e pedi que ela visse.
Eu queria dela uma entrevista semelhante, "o coração de Dulce
falando sobre o coração de João".

Dona Dulce

A entrevista aconteceu no dia 30 de outubro. Começou sob


a chuva, no pavilhão de ginástica, e prolongou-se na sala de
jantar da residência do Torto. Guardo até hoje a fita gravada.
Comecei perguntando o que ela fazia quando recebeu a notícia do
infarto do presidente:
— Eu terminava de fazer cooper e tinha caído na piscina.
Estava de cabeça molhada, a manicure fazendo pé e mão, quando
tocou o telefone... e eu ali, os pés na bacia, a manicure fazendo a
mão e eu tendo que fazer a mala.
Dona Dulce contou que lhe pediram para esperar até o dia
seguinte, quando o Boeing presidencial viria buscá-la.
— Ninguém vai me obrigar a esperar até amanhã. Eu vou
de avião comercial, agora mesmo, de óculos escuros.
Mas acabou esperando, cercada de três amigas: Lea Leal,
Ruth Jardim de Mattos e Clotilde Cunha Costa.
Na entrevista, ela contou o seguinte, sobre a volta de
Cleveland:
— Quando chegamos de volta a Brasília, os amigos
estavam nos esperando. Aureliano e Vivi são uns amores. Nos
receberam dizendo que haviam rezado por nós, em Aparecida. Eu
disse, bem séria, para a Vivi: "Minha querida, nós já ficamos três
anos (na Presidência). Você e o Aureliano, tão simpáticos,
poderiam ser camaradas e ficar os outros três, e a gente vai para
Nogueira, tá na hora de a gente curtir neto, filho, estou há treze
anos em Brasília". Ela ficou assustada, com as mãos frias: "Não
faz isso comigo, não". Argumentei: "Mas vem cá: você não é casada
com político que foi governador? E poderá um dia ser presidente,
não vai ser um espanto. Agora, espanto é o meu marido ser
presidente sem ter estudado para ser político. Estudou para ser
general, não é?"
Nós nos havíamos mudado do pavilhão de ginástica para o
salão de visitas do Torto, para fotografias, quando entrou o
ajudante-de-ordens, major Douglas, e cochichou algo no ouvido de
dona Dulce. Ela se aproximou, e me disse, de um jeito meio
engraçado:
— O João está na biblioteca e quer ir para o quarto. Mas vai
passar por aqui e não quer te ver. Por isso, você fica ali na outra
sala, para ele passar.
Eu achei divertido. Depois descobri que ele não queria me
ver porque estava zangado comigo. Na última Manchete, numa
reportagem sobre a volta do presidente, eu revelava o seguinte:

Na véspera de embarcar para Cleveland, Figueiredo saíra do


cinema do Torto e encontrara os armários da cozinha, onde ele
escondia petiscos, vazios. "Isto é o fim. Assim não dá. Esconderam
até a minha cocada preta, os meus queijos, o meu patê. É o fim. Não
vou a Cleveland, não vou fazer regime. Não é assim que vão evitar
que eu coma. " E saiu com um pacote de bolachas.

O presidente julgou aquilo uma imperdoável invasão da


privacidade e preferia não me encontrar a ter que me dizer uns
desaforos. No dia seguinte, mandei-lhe uma carta, pedindo
desculpas. Não pensei sequer em argumentar que, como
presidente da República, a saúde dele era um caso de interesse
nacional.
No final da entrevista, dona Dulce me contou que o episódio
do infarto causara o rompimento com uma de suas melhores
amigas, Zeli Lamaison, mulher do governador de Brasília, Aimé
Lamaison. Quando ela estava no hospital, no Rio, com Figueiredo,
o governador chegou de Cabo Frio para visitar o amigo. Dona
Dulce perguntou por Zeli. "Andava chovendo muito e hoje foi o
primeiro dia de sol. Ela resolveu aproveitar", teria dito o
governador. Dona Dulce não perdoou. E passou a proibir a
entrada do governador no Torto.
Depois que a entrevista terminou, ainda ficamos
conversando. Dona Dulce falou sobre as restrições impostas pela
segurança à vida dela, e contou-me um episódio pitoresco, em que
conseguiu fugir dos agentes encarregados de protegê-la.
Numa noite, no Rio, ela e Lea Leal, presidenta da LBA,
decidiram sair pelos fundos do edifício e tomar o velho Fusquinha
de Lea para passearem à vontade. E foram em direção ao Recreio
dos Bandeirantes, um lugar perigosíssimo à noite. Dona Dulce
conta que, num trecho completamente escuro e deserto, furou o
pneu do Fusquinha, e ela saiu para o acostamento, a pedir
socorro.
"Eu fazia sinais para os carros e imaginava: 'Eles não estão
acreditando que é a primeira-dama'."
Aquela foi uma cena que os jornais perderam.

Discípulos do aiatolá

Na quarta-feira, 18 de novembro de 1981, pela manhã, o


ex-secretário de Estado Henry Kissinger, professor da
Universidade de Harvard, fez uma palestra no auditório Dois
Candangos, da editora da Universidade de Brasília. Movidos por
interesse acadêmico, lá estavam doze embaixadores estrangeiros e
sessenta outros diplomatas, o ministro-chefe do gabinete civil,
Leitão de Abreu, um ministro do Supremo Tribunal e três
ministros do Superior Tribunal Federal. Havia um total de
duzentos assistentes, inclusive eu.
Lá pelas tantas, percebemos que o prédio estava cercado.
Eram trezentos dos 10 mil estudantes da Universidade de Brasília.
Batiam furiosamente nas janelas, portas e dutos de ar
condicionado, produzindo um barulho tal que já não se conseguia
ouvir o professor Kissinger, justo na hora em que ele falava do
terror imposto pelo aiatolá.
A conferência foi interrompida e os que tentaram sair foram
agredidos. Lá fora, todos os carros estavam tendo seus pneus
esvaziados pelos estudantes. Um deles gritou que era a tomada da
embaixada americana em Teerã. Aí vi que se tratava de uma
"aiatolice". Uma "aiatolete" gritou: "Kissinger nazista", e fiquei com
pena da ignorância dela. Kissinger fugira da Alemanha nazista e
23 de seus parentes foram mortos pelas SS. Dei uma olhada para
fora, através das grades impostas por meus carcereiros, e um
estudante, com jaleco branco, arremessou em minha direção um
ovo, que atingiu a grade e me respingou. O ministro Leitão de
Abreu tentava sair pelos fundos e seu secretário, o embaixador
Álvaro da Costa Franco, era atingido por um ovo na cabeça. O
embaixador da Finlândia, país que sofreu com soviéticos e
nazistas, tentava sair e era agredido por uma chuva de ovos e
ofensas. O embaixador de Malta, Helmuth von Dessauer,
conhecido por suas obras filantrópicas junto aos doentes da
Amazônia, teve o mesmo destino.
Fiquei imaginando os tempos em que a universidade era a
fonte do iluminismo, enquanto assistia, ali, a um avanço das
trevas. A ignorância é uma das grandes inimigas da democracia.
Quando Kissinger conseguiu sair, dentro de uma camioneta da
polícia, os estudantes se retiraram, cantando: "Kissinger é ladrão
— que saiu de camburão — e vamos pro bandejão". E entraram no
restaurante universitário, depois de quebrarem milhares de ovos,
para comer comida subsidiada, a um terço do preço pago pelos
operários.
Contei o episódio na Manchete, sob o título ESTUDANTES
PLANTAM SEMENTES DO TOTALITARISMO — OS DISCÍPULOS
DO AIATOLÁ. Foi a abertura do caminho para ganhar uma página
semanal fixa: "Alexandre Garcia escreve".
Meu artigo seguinte foi O QUE JÂNIO FOI FAZER NA LÍBIA.
Tomei por mote uma declaração do ex-presidente, ao desembarcar
em Trípoli, elogiando "a atitude humanitária do coronel Khadafí e
seus esforços em prol da paz mundial". O artigo criticava Jânio da
primeira à última palavra. Surpreendentemente, semanas depois
ele iria a Brasília e, ao me ver, elogiaria o meu trabalho.
Ele esteve com Figueiredo e depois foi ao Memorial JK.
Acompanhei-o. Mal conduzido, Jânio chegou pelos fundos. Ele
levava um ramalhete para depositar na tumba de Juscelino.
Quando viu uma placa comemorativa na parte dos fundos, ele
resolveu prestar a homenagem ali mesmo. Só que da rampa onde
ele estava havia uma distância de um metro sobre o espelho de
água, para chegar à placa. Ele se inclinou como a torre de Pisa e
desabaria na água se eu não o segurasse pelo braço. Avisei-o,
então, de que a tumba estava no interior do memorial.
Jânio entrou e, na obscuridade da cripta, parou diante da
tumba, ficou estático como se fizesse uma oração e pronunciou
uma frase:
'' Morreu meu amigo ".
A reação de Jânio deixava a impressão de que, para ele,
Juscelino havia morrido naquele dia. Depois, aparentemente
surpreendido pela emoção, Jânio interrompeu-se, anunciando:
"Devo ir embora".

Na guerra das Malvinas

No dia 2 de abril, a Marinha argentina realizava um velho


sonho e punha em prática um velho plano, invadindo o
arquipélago das Malvinas, e eu iria voltar à reportagem e à
Argentina. Na quarta-feira, 7 de março, eu estava em Buenos
Aires, com o fotógrafo Paulo Scheuenstuhl. Logo eu retomava
minhas fontes e descobria que o beberrão Galtieri, na Presidência
do país, para desviar as atenções do povo para á crise interna e
obter popularidade e união em torno de si, autorizara um plano de
invasão, patrocinado pelo comandante da Marinha, o almirante
Jorge Anaya. E descobria outras coisas, que quase dez anos
depois podem ser reveladas.
Os ingleses foram prevenidos sobre a invasão pelos chilenos
e pelos israelenses. Na festa de despedida de um adido militar, os
adidos do Chile e de Israel avisaram os britânicos que, naquela
noite, saía uma força-tarefa argentina para invadir Port Stanley, a
capital do arquipélago. Os britânicos riram: "Os argentinos são
loucos, mas não tanto".
O Brasil ajudou a Argentina, inclusive militarmente. No
início, mandou técnicos para ajudarem na reparação de rotor de
helicóptero. Depois, com o embargo para entrega de munições, o
Brasil foi o canal por onde passaram mísseis comprados da Líbia
pela Argentina. E possível que o temível Exocet tenha passado
pelo Brasil. O governo brasileiro viu na guerra a oportunidade de
mostrar aos argentinos que é um bom vizinho nos piores
momentos. E que o Brasil é um vizinho confiável. A ajuda poderia
desagradar os britânicos, mas seria com os argentinos que o
Brasil teria que conviver. A ajuda abriu uma brecha em quatro
séculos de rivalidade e começou uma nova era nas relações entre
os dois países.
Logo depois da invasão, no domingo de Páscoa, eu estava
no terraço da Casa Rosada e na minha frente, na Plaza de Mayo,
400 mil pessoas deliravam, gritando slogans patrióticos e contra
os britânicos. Galtieri veio à sacada e quando os montoneros o
saudaram, erguendo o punho fechado, ele respondeu também de
punho fechado. Pela primeira vez um general argentino
comungava com os montoneros. Lá dentro, o secretário de Estado
Alexander Haig esperava Galtieri para uma conferência, visando a
evitar uma guerra entre dois aliados dos Estados Unidos.
No dia anterior, enquanto Haig ia a missa na igreja da
Santíssima Trindade, o embaixador soviético ia ao palácio San
Martin, assinar com o chanceler Costa Mendes um acordo de
cooperação com a União Soviética, para explorar os recursos
marítimos ao sul do paralelo 46. Onde estão as Malvinas. Eu
estava no hotel San Martin, entre a igreja da Santíssima Trindade
e a chancelaria, e corria de um lado para outro. O ex-presidente,
general Alejandro Lanusse, perguntava: "Se os ingleses nos
devolverem as Malvinas, o que faremos com os russos?" A
declaração fora feita na terça-feira, quando argentinos e soviéticos
assinaram um acordo de cooperação nuclear. Em seguida, se
anunciavam a compra, pelos soviéticos, de 18 milhões de litros de
vinhos da estatal Bodegas Giol e a disposição argentina de vender
80 por cento de sua safra de cereais aos soviéticos, para se
contrapor ao embargo americano por causa da invasão do
Afeganistão. Os argentinos haviam desagradado Fidel Castro, ao
ajudarem o governo salvadorenho a combater os guerrilheiros.
Mas Castro, empurrado pelos soviéticos, mandou rápido seu
embaixador para conversar com Galtieri. Tão rápido que o
Illyushin que o transportava se esqueceu de pedir permissão para
cruzar o espaço aéreo brasileiro, e foi interceptado por dois Mirage
da FAB, e teve que descer em Anápolis. Mas, no sábado à noite, o
embaixador Aragonés Navarro já estava em Buenos Aires, com
uma mensagem de Fidel.
Do terraço da Casa Rosada eu via os Montoneros,
comandados a distância por Mário Firmenich, que estava em
Havana e ordenara total apoio temporário ao governo militar. A
Juventude Peronista levava uma faixa: SENHOR HAIG, NÃO NOS
EMPURRE PARA O COMUNISMO.
Estava fácil de compreender: era a velha chantagem
peronista, agora adotada pelo general Galtieri. Se os americanos
não convencerem seus aliados ingleses a entregarem as ilhas, a
Argentina se entrega aos soviéticos, que gostariam muito de
receber o sul do continente, já que não estavam conseguindo o sul
da África. Para os soviéticos o jogo se baseava no princípio de que
"os inimigos dos nossos inimigos são nossos amigos".
Enquanto o povo gritava e eu esperava ao sol do terraço,
Haig e Galtieri conversavam. Eu estava ao lado do helicóptero de
Haig, quando ele surgiu, no terraço. Ele também era um general,
e, pelo jeito, estava desgostoso. Quando percebeu que eu iria
fazer-lhe uma pergunta, interrompeu-me:
''He 's a drunkl'' (ele é um bêbado), e entrou no helicóptero,
em direção ao aeroporto de Ezeiza.
Corri para um televisor, para acompanhar o embarque no
Air Force no. 1, que o trouxera. E ouvi, loud and clear; Haig deixar
o último aviso:
"Time is running out" (o tempo está se esgotando).
Enquanto isso, de novo na sacada, Galtieri gritava para a
multidão:
"Si quieren venir, que vengan!"
De fato, a esquadra inglesa começava a se deslocar para o
sul. Na Argentina, o país não parecia em guerra, mas em ataque
de loucura. Jovens de terno e gravata corriam pelo centro de
Buenos Aires quebrando vitrines de lojas que tivessem nomes
ingleses. O principal comentarista político do país gritava, no
Canal 11: "São traidores os que dizem que a Argentina é a
agressora''. Estava inaugurada a temporada de caça às bruxas.
"Muerte a los ingleses" era a palavra de ordem no país inteiro.
Mas não apenas aos ingleses. Nas ruas, o espírito era:
"Primeiro, vamos jogar os ingleses no Atlântico; depois, os chilenos
no Pacífico". Na caça às bruxas, radioamadores de sobrenome
britânico são proibidos de transmitir; bolsistas neozelandeses são
expulsos do país; jornalistas argentinos pedem que repórteres
britânicos sejam condenados à prisão como espiões; a camareira
do hotel cobra-me um apoio ostensivo contra os ingleses; o
jornaleiro pergunta-me, desconfiado, se sou colombiano, porque a
Colômbia se abstivera de votar na reunião da OEA. O
apresentador do noticiário das sete e meia da noite mostra uma
mulher piloto que se ofereceu como kamikaze para se lançar sobre
a esquadra britânica. Então, abandona o texto e, entusiasmado,
convoca todas as mulheres argentinas a seguirem-lhe o exemplo.
O coronel porta-voz do V Exército convoca a imprensa para
dizer que os soldados ingleses que se aproximam são
homossexuais e toxicômanos. Não satisfeito, acrescenta que são
violadores de mulheres. O repórter da televisão mostra na parede
dos quartéis das Malvinas retratos de Maradona e da Virgem do
Rosário e explica que eles substituem fotos pornográficas dos
ingleses. Na Manchete, eu desabafo: "Ninguém faz tango
impunemente".
No hotel, um mensageiro me conta que vai ser despedido,
porque foi flagrado escutando a BBC em onda curta. Era isso!
Vivíamos na Argentina a Europa de 1942. E passei a escutar a
BBC.
Uma boa idéia seria ouvir Oscar Camillion, que eu
conhecera em Brasília como embaixador da Argentina e chegara a
ser ministro das Relações Exteriores. Camillion, jornalista e
político, se dispôs a me receber em seu apartamento.
Camillion foi a primeira voz sensata que ouvi. Minha
primeira pergunta, enquanto Paulo fotografava o ex-chanceler
sentado num sofá de couro, era sobre as Malvinas.
"As Malvinas, na Argentina, não têm discussão. As ilhotas
do extremo sul, no canal de Beagle, que discutimos com o Chile,
não estão muito no coração do povo. Embora fosse uma questão
negociável, os ingleses nunca trataram do tema com resolução,
porque sempre acharam que as Malvinas não eram importantes.
As ilhas não estão num ponto estratégico-chave, não são
importantes sob o aspecto econômico. As ilhas nunca estiveram
no eixo das preocupações de Londres. Eram consideradas um
assunto chato. Falei a respeito com Lord Carrington (o ministro
das Relações Exteriores que renunciou com a invasão) e percebi
que ele achava chato falar sobre aquelas ilhotas."
Mais adiante, Camillion recordava que em 30 de março,
véspera da invasão, houvera uma tremenda manifestação na Plaza
de Mayo contra o governo e, quinze dias depois, no mesmo lugar,
a favor.
"O povo é inteligente e sabe que as Malvinas são bonitas,
mas o desemprego continua, a inflação piorará, que as Malvinas
são despesa e não lucro, e que há um preço a pagar por tudo isso,
que pode ser até um preço militar."
Camillion disse que "as Geórgias são indefensáveis por nós.
Elas só entraram nisso porque os ingleses as consideram
dependências das Falklands. Na escola, não ouvimos falar das
Geórgias nem das Sandwich nem das ilhas de Beagle. Só das
Malvinas argentinas''.
No final, deixou uma frase:
"Galtieri atravessou o Rubicão; agora terá que provar que é
César".
A entrevista saiu em quatro páginas, com grande destaque.
No mesmo dia, as agências mandavam as declarações de
Camillion para Buenos Aires. E eram todas censuradas. Camillion
me ligou para o hotel, apavorado:
''Você acabou comigo, com esta entrevista. Eu vou ser
preso. Mas vou negar tudo. Vou dizer que não dei entrevista para
você''.
Concordei, argumentando que a entrevista só era para valer
no Brasil, não na Argentina. E que eu confirmaria que inventei
tudo, se alguém me perguntasse, na Argentina.
Camillion teve prisão domiciliar e ninguém me perguntou
nada. Mas quando eu me aproximava da portaria do hotel, para
usar o telex, vi entrar um policial fardado, com metralhadora e
dois outros à paisana. Enquanto eu esperava o funcionário que
me cedia o telex, ouvi um dos policiais perguntar ao gerente:
— Em que quarto está o jornalista Alexandre Garcia?
O gerente, assustado, dirigiu o olhar para mim. Felizmente,
nenhum dos três policiais entendia de psicologia. Eu abaixei a
cabeça, enquanto ouvia o gerente responder:
— Está no 624.
— Então nós vamos requisitar um apartamento ao lado —
ordenou o policial, enquanto eu entrava, para passar meu telex
para a Fatos & Fotos.
Foi divertido. Eles ficavam na porta do apartamento deles e
registravam minha entrada. Quando eu saía, me seguiam. Entrei
numa sapataria para comprar uma calçadeira, que tenho até hoje,
e eles foram ao vendedor, para saber o que eu tinha feito.
Camillion me contara que o que mais havia desagradado o
governo era o desprezo às ilhas de Beagle. O presidente do
Uruguai, Aparicio Méndez, voltava do Chile declarando que era
iminente uma terceira guerra mundial. Havia ainda alguma coisa
que eu não sabia.
Então me pus a campo, visitando minhas fontes militares.
Por fim, descobri: havia um Operativo Rosário (Operação Rosário)
para ser desencadeado "sob a proteção da Virgem do Rosário". E
consistia em invadir as ilhas do canal de Beagle — Lennox, Nueva
e Picton —, chilenas por arbítrio do papa. Como a esquadra
inglesa aparelhou rumo ao sul, o Operativo Rosário foi suspenso,
até que se liquidasse a questão com os ingleses.
Voltei para o hotel com a sensação de ter algo muito quente
nas mãos. E liguei o rádio na BBC. Bem baixinho para meus
companeros não perceberem. A BBC noticiava uma comunicação
do ministro do Exterior, Sir Francis Pym na Câmara dos Comuns:
uma pequena força britânica retomara as ilhas Geórgias,
aceitando a rendição de uma força de ocupação de mais de cem
argentinos, comandados pelo capitão Alfredo Astiz. Eu me
lembrava daquele nome. Era o mesmo capitão acusado de torturar
freiras européias.
Saí do hotel San Martin e caminhei até o hotel Sheraton,
diante da apedrejada torre dos Ingleses. No 28? andar do
Sheraton funcionava a sala de imprensa do Estado-Maior
Conjunto, com notícias sobre a guerra. Quando entrei, um
tenente-coronel arengava, contando que uma sangrenta batalha
se desenvolvia nas praias das Geórgias, onde uns poucos bravos
argentinos tingiam as areias de sangue para defender o solo pátrio
de uma gigantesca força-tarefa britânica.
Aí, o interrompi:
— Sinto muito, coronel, nunca houve luta. A guarnição
argentina se rendeu ontem.
— No es verdad!
— É, sim. Um navio britânico deu uma salva de artilharia e
um grupo de ingleses foi receber a rendição, depois que o capitão
Astiz levantou bandeira branca.
— Não é verdade! O que o senhor está dizendo não é
verdade! Estou dando aqui a informação oficial!
— Pois eu estou dando uma informação mais oficial ainda.
O que eu disse foi anunciado por Sir Francis Pym no Parlamento
britânico. Acho que não há nada mais oficial do que isso.
O coronel me arrancou a credencial e me expulsou da sala.
Voltei para o hotel e chamei a Rádio Manchete, para gravar
meu despacho. E falei das reações à rendição das Geórgias.
Quando falei em rendição das Geórgias, o policial meu vizinho
começou a dar patadas na parede como um desesperado. Até
então o que eu achara divertido estava ficando perigoso. Eles
estavam perdendo o controle.
No dia seguinte, os jornais davam em manchete declarações
do comandante das Malvinas, general Menéndez: "Que venga el
principito". Ele se referia ao príncipe Andrew, que participou da
guerra, inclusive da ação, como piloto de helicóptero. Apenas num
jornal eu percebia que ainda restava gente de bom humor. Um
caricaturista mostrava duas solteironas na janela, bem
arrumadas, e uma dizendo à outra:
''Botou perfume, querida? Dizem que um príncipe vem aí''.
Mas o governo perdera o humor. No extremo sul, o enviado
especial do Estadão, Rodrigo Lara Mesquita, era preso como
espião. Em Buenos Aires, um repórter canadense que tropeçara
na bengala do chanceler Costa Mendes foi seqüestrado ao sair do
palácio San Martin. Depois, deram-lhe um banho de gasolina e
ficaram brincando com um isqueiro perto dele.
Senti que estava chegando a minha hora. Denunciar o
Operativo Rosário seria fatal. Na televisão, via reportagens feitas
nas Malvinas. Todos os soldados entrevistados tossiam uma tosse
feia e estavam mal abrigados do frio. Eram jovens de províncias
quentes, do norte: Formosa, Chaco, Comentes. Os do sul,
acostumados ao frio, ficaram no continente. Se os ingleses não
chegassem logo, eles morreriam de frio. Eu havia tentado ir para o
sul, mas as autoridades não permitiram. Já havia pouco que fazer
em Buenos Aires. E tudo se tornava muito perigoso, mais uma
vez. O fim se aproximava e a Argentina do governo militar
começava a reagir com a humilhação de um animal ferido. Liguei
para a sede da Manchete e propus transferir-me para Montevidéu.
Aleguei que de lá poderia cobrir a vinda de feridos e prisioneiros e
tentar uma ida às ilhas, via ingleses.
Aconselharam-me a voltar para o Rio. Iria escrever lá o
texto da denúncia do Operativo Rosário e deixei Buenos Aires em
27 de abril. Passei por São Paulo, para fazer com Rodrigo Lara
Mesquita uma reportagem-encontro entre duas vítimas da
arbitrariedade argentina, e depois fui para o Chile.
Na quarta-feira, 12 de maio, dia em que a Manchete
denunciava o plano argentino de invadir ilhas chilenas, eu
entrevistava o general Pinochet.
Ele me recebeu de blazer com camisa riscada e gravata
preta. Demonstrava, ao mesmo tempo, descontração e firmeza.
Falamos sobre Golbery e a geopolítica e ele me deu um livro dele,
Geopolitica, com uma dedicatória: Afectuosamente, ei autor. Foi
uma longa entrevista, que ocupou três páginas da Manchete. Ele
se referiu à questão das ilhas citando a Corte Internacional de
Haia e uma proposta de João Paulo II. E falou muito na amizade
chileno-argentina.
Quando desliguei o gravador, continuamos conversando.
Ele parecia mais solto, como resultado, talvez, de uma avaliação
da confiança que poderia ter em mim. No início da entrevista, eu
havia contado para ele o que, exatamente, estava saindo na
Manchete daquele dia sobre o Operativo Rosário. E só agora, no
final, ele iria fazer um comentário a respeito. Olhou nos meus
olhos e disse:
— O que vou lhe dizer agora é um segredo de Estado. O
senhor não está autorizado a publicar. O senhor está disposto a
manter o segredo?
Respondi que sim e ele continuou:
— Pois isso que o senhor está denunciando é apenas uma
parte de um plano maior. O senhor, com certeza, sabe que nossa
Marinha está no sul, acabamos de recolher sobreviventes do
Belgrano, mas o que o senhor não sabe é que nossa Aviação está
no norte e nosso Exército está atento, na cordilheira. Porque,
quando os argentinos invadirem Beagle com sua Marinha, o
Exército deles tentará invadir-nos pelos Andes, enquanto Peru e
Bolívia tentarão satisfazer suas reivindicações territoriais pelo
norte.
— Mas isso levará a uma guerra envolvendo todo o Cone
Sul, inclusive o Brasil... — interrompi.
— Sem dúvida.
— O Chile ficará cercado, num primeiro momento. Ouvi
nas ruas de Buenos Aires ameaça de que jogarão os chilenos no
Pacífico — provoquei.
— Sim, ficará cercado e em inferioridade apenas numérica.
Pero será una buena pelea! — disse Pinochet, em bem-humorado
desafio.
Eu lembrava que no mês anterior o general Osiris Villegas,
um dos gurus da geopolítica argentina, declarava que "Malvinas e
Beagle são as duas faces de um mesmo conflito". O historiador
argentino José Maria Rosa, em janeiro, previa: "O governo do
general Galtieri terá pouco tempo de vida e é por isso que ele já se
está mobilizando para preparar uma guerra contra o Chile". No
norte, há um século mantêm-se em suspenso reivindicações
territoriais do Peru e Bolívia sobre territórios perdidos na guerra
do Pacífico paia o Chile. Tudo isso poderia explodir sobre o Cone
Sul, se a sra. Thatcher não tivesse reagido. Paraguai e Brasil
poderiam ser envolvidos também, já que uma vitória argentina
sobre os ingleses com certeza estimularia velhas reivindicações
territoriais na região de Iguaçu. A vitória inglesa, ao contrário,
derrubou o regime militar argentino, derrubou uma corrente
argentina de hegemonia no continente e devolveu à região
melhores relações de vizinhança.
Eu ainda estive com o almirante Howard, no Ministério da
Defesa, para saber mais sobre o assunto, no dia seguinte. E na
sexta-feira fui ao Ministério das Relações Exteriores, onde o ex-
embaixador no Brasil, Zegers de Santa Cruz, me deu um briefing
sobre a situação. No sábado — ninguém é de ferro —, subi a
cordilheira para passar o dia nas pistas de esqui de Farellones.
Na segunda-feira, já no Rio, escrevi a entrevista, e terça-
feira, em Brasília, procurei o presidente Figueiredo. Pensei que iria
contar para ele uma grande novidade, sobre a possibilidade de
uma guerra envolvendo Chile, Argentina, Peru e Bolívia. Ele me
ouviu sem surpresa e depois me disse:
"Eu já sabia disso. O Pinochet já havia me ligado".
Enquanto eu escrevia a entrevista de Pinochet, ainda no
Rio, na segunda-feira, todos da redação ouvimos um grande
estrondo, que abalou o prédio. Pelo telefone, soubemos que o
estrondo fora ouvido na maior parte da cidade, e ninguém tinha
explicação para ele. Já no Galeão, na tarde daquele dia, enquanto
meu avião taxiava para Brasília, eu vi, num canto da pista, dois
caças F-5E e um bombardeiro Vulcan, da Royal Air Force. Quando
cheguei a Brasília, liguei para a Aeronáutica e soube que o Vulcan
estava em emergência, emitindo o código internacional de socorro,
7700, e os dois caças brasileiros haviam provocado grande ruído
ao romper a barreira do som para irem escoltá-lo, pois estava
armado. Os jornais disseram que o Vulcan fora "interceptado".
Aproveitei para fazer uma reportagem sobre o Cindacta, que
recebera o sinal de emergência e que, semanas antes, pilotara o
Illyushin cubano no espaço aéreo brasileiro. Dois anos depois, eu
iria reencontrar o Vulcan no Museu da RAF em Hendon, perto de
Londres.
Na terça-feira, 18 de maio, no Clube Naval, em Brasília,
numa recepção da Costa Rica, o embaixador da Argentina, Hugo
Caminos, interpelou-me:
— O senhor diz que nossos soldados estão com fome e com
frio. Isto é mentira! Os britânicos é que estão morrendo de fome e
de frio!
Fiquei chocado. Caminos é um professor respeitado, e
estava também envolvido pelo fanatismo.
— Mas, professor, até o senhor acredita nessa história?
Vamos falar de futebol, não seria melhor?
Na verdade, a embaixada argentina havia organizado uma
grande gantomima em Brasília. Um certo Raul Jassen, do
Movimento Árabe-Americano, era chamado pelo rádio como
correspondente em Buenos Aires. Mas transmitia de Brasília
mesmo. Era uma Rose of Tokio de 1982. Dava notícias como a
prisão do príncipe Andrew pelo general Menéndez, a morte de
Margaret Thatcher por um atentado, o afundamento da nau
capitania da esquadra inglesa, o porta-aviões HMS Invincible, com
a morte do contra-almirante John Woodward — e outras do
mesmo gênero.
Era uma tentativa de pressionar, na capital do Brasil,
governo e congressistas, mostrando a vitória argentina e o
massacre dos britânicos. Eu já tinha visto essa peça teatral em
Buenos Aires.
Depois que a guerra acabou, o embaixador britânico, Sir
William Harding, chamou-me para um almoço na residência dele,
no dia 9 de junho. Explicou-me que seria sugerida à Sua
Majestade a rainha Elizabeth II a inclusão do meu nome na
Ordem do Império Britânico. E que ele me consultava se eu
aceitaria, para que a sugestão fosse apresentada. No dia 4 de
outubro de 1983, a rainha me fez oficial honorário da divisão civil
da Ordem do Império Britânico. Era o reconhecimento pela
cobertura não-fanatizada da guerra.
Depois do almoço na embaixada britânica, eu ainda teria
que fazer um telefonema. Para um almirante do Estado-Maior da
marinha do Brasil. Quando voltei da Argentina, ele havia me
chamado ao seu gabinete e lá encontrei outros quatro almirantes.
Todos discordavam de minhas análises. Diziam-me que eu estava
enganado ao imaginar que os ingleses retomariam as Malvinas. '
'Eles estão a milhares de quilômetros de casa, e os argentinos têm
à disposição um imenso porta-aviões, que é a Patagônia. Além
disso, há os ventos e o mar encapelado, nesta época, e a defesa de
uma ilha sempre dá superioridade sobre quem vem do mar." Eu
tinha apenas um argumento contra a experiência dos almirantes.
Perguntei:
— Como se chamam esses enfeites que os oficiais da
Marinha têm na manga?
— Nó de Nelson — me responderam.
— Ah, bom, então não estamos tratando de uma Marinha
comum. Estamos tratando da Marinha modelo.
No telefonema, eu lhe recordei apenas:
— Eu não disse que o pessoal do almirante Nelson iria
desembarcar? — E ironizei, parafraseando: "Cada um cumpriu
com o seu dever".

A queda do governador

No início da segunda quinzena de maio, Heitor Ferreira me


deu uma idéia: "Por que não entrevistar Said Farhat, numa
entrevista de duas páginas para a Manchete, dando-lhe uma força
como candidato ao Senado pelo Acre?"
Fiquei intrigado, a princípio, mas depois compreendi. De
um lado, eu desarmaria o que tivesse restado de seqüela de minha
saída do palácio; de outro, Heitor conseguiria projetar o candidato.
Liguei para Farhat e ele aceitou, meio incrédulo. Tomei um avião e
na manhã de quarta-feira, 28 de maio de 1982, estava no
apartamento dele, na rua Tabapuã, em São Paulo. Quando
terminamos a entrevista, ele me abraçou forte, como nunca havia
feito no palácio, e tinha lágrimas nos olhos. Mas ele não conseguiu
ser eleito.
No dia 18 de junho de 1982, era a abertura solene da Feira
dos Estados, tradicional festa anual de Brasília. Normalmente, a
festa é aberta pelas duas ''primeiras-damas'', a mulher do
presidente e a mulher do governador. Naquele ano, a comissão
organizadora teve que realizar duas solenidades de abertura,
porque dona Dulce avisara que não iria à festa se lá estivessem o
governador e sua mulher. Era conseqüência do episódio ocorrido
havia quase dez meses, quando Figueiredo estava hospitalizado no
Rio.
Figueiredo, contrariado por ser impedido de estar na festa
com seu amigo, o governador Lamaison, ficou em casa jogando
carta com o coronel Cunha Costa. Na festa, na noite daquela
sexta-feira, na mesa reservada para o presidente, estavam dona
Dulce e alguns ministros.
Na segunda-feira, o Jornal do Brasil anunciava a
substituição do governador Lamaison pelo coronel Alzir Nunes
Gay. Figueiredo não sabia de nada e mandava Carlos Atila
desmentir a notícia. Mas, para Lamaison, a notícia foi a gota-
d'água. Imaginou que a notícia fora ''plantada'' para constrangê-lo,
e pediu demissão na terça-feira. Ele me disse que já não
agüentava mais os constrangimentos. Para visitar Figueiredo, no
Torto, tinha que entrar pelos fundos, para não ser visto por dona
Dulce. Tomava chimarrão com o companheiro, escondido nas
cavalariças. Havia meses Figueiredo não comparecia a solenidades
do Distrito Federal para evitar constrangimentos, como o da Feira
dos Estados. Para não chatear mais o amigo, Lamaison caiu fora.
As razões domésticas da saída do governador foram
deturpadas por uma boataria maldosa. Achei que deveria contar o
motivo real, que estava em dois depoimentos que eu obtivera: do
próprio governador, contando seus constrangimentos, e de dona
Dulce, que me confidenciou o episódio do hospital, quando ela
achou que dona Zeli deveria dar-lhe assistência, em vez de
aproveitar o raro sol de Cabo Frio. E expliquei isso em duas
reportagens, na Manchete e na Fatos & Fotos, onde o título foi
TODA A VERDADE SOBRE A SAÍDA DE LAMAISON. Era uma
forma de neutralizar os boatos.
Dona Dulce não leu, porque quando as revistas saíram ela
já estava numa longa viagem à Ásia, a convite do armador chinês
Y.K. Pao. Quando voltou ao Brasil, alguém deu as revistas para ela
ler. Leu e não gostou. Só fiquei sabendo disso no dia 11 de
setembro, um sábado.
Eu estava no Rio para o casamento da filha do coronel
Carlos Alberto Coutinho, quando o telefone me acordou, no Leme
Palace Hotel. Era um ajudante-de-ordens do presidente, ligando
da Gávea Pequena.
— Quero te dar um conselho. Não chega perto da dona
Dulce hoje, no casamento. Ela vai te botar os cachorros em
público, e vai ficar chato.
Eu não imaginava o motivo da zanga e perguntei por quê.
— As reportagens da saída do Lamaison. Ela acha que você
insinuou que foi briga de dondoca. Ela disse agora para o chefe,
no café da manhã, que vai te pegar no casamento.
A noite, na igreja Santa Margarida Maria, na Lagoa, não
houve problema. O casal presidencial estava lá na frente, em lugar
de honra, e eu fiquei atrás. Depois, fomos para a recepção, no
clube Caiçaras.
Lá chegando, tratei de manter dona Dulce sob minha visão,
de modo a ter uma distância segura. Foi quando alguém me
segurou pelo braço, vindo por trás, e me disse no ouvido:
— Vamos lá pra fora.
Era o presidente. Acompanhei-o, sob o olhar curioso dos
demais convidados. No jardim, ele me preveniu:
— Fica longe da baixinha.
— Obrigado, presidente, pelo aviso, mas eu já estou
prevenido. Eu sei que ela quer me pegar, que está furiosa com a
reportagem da saída do Lamaison, e que disse isso pro senhor
hoje de manhã, no café — esnobei.
Figueiredo me olhou, estupefato:
— Assim não é possível! Assim não é possível! Eu não
tenho mais vida privada, com essa história de você ser amigo dos
meus ajudantes-de-ordens!
— Mas, presidente, amigo é para essas coisas. Além disso,
o senhor teve seu SNI durante tanto tempo; é justo que eu
também tenha o meu.
Figueiredo concordou, e tornou a recomendar:
— E, mas não fica perto da baixinha.
Tentei explicar para ele que havia boatos maldosos e que eu
precisava contar a verdade.
— E, mas a Dulce acha que você fez parecer briga de
dondoca e não gostou.
Como eu percebi que o resto da festa seria uma corrida de
gato-e-rato, saí mais cedo e fui para o hotel.
Dona Dulce só conseguiu desabafar a zanga um ano depois,
pelo telefone, quando pedi uma entrevista para a TV Manchete.

Canadá

No dia 29 de junho, voei de Bandeirante de transporte para


a barreira do Inferno, em Natal. Naquela época, eu escrevia
mensalmente na revista Mulher de Hoje a última página: "Um
homem dá o seu recado". E tentava ganhar tempo escrevendo a
bordo de um avião sacolejante, sentado nos bancos transversais
de pára-quedistas. Em Natal, dormi na base aérea, e no dia
seguinte, no meio da tarde, assisti ao lançamento do foguete
Sonda III, de dois estágios. Depois do trovão do lançamento, ele
subiu a mais de 500 quilômetros e escreveu no céu azul um risco
sinuoso de fumaça branca.
No dia 17 de julho, voei para o Canadá, num DC-10
especial da Varig, que levava os empresários que iriam participar
da visita do presidente Figueiredo. Não esqueço a visão de Nova
York a 10 mil metros de altitude: imponente até de longe. Quando
o avião fez a aproximação para o aeroporto de Ottawa, deu para
ver um Canadá lindo no verão. Até as estradinhas vicinais são
asfaltadas e fora delas há um verde maravilhoso, diferente do
nosso, semidestruído. No aeroporto, recebi minha lição de
civilidade: ultrapassei a faixa amarela no balcão da alfândega e o
guarda deu um grito:
"Behind the yellow Une, sir!" (Para trás da linha amarela,
senhor!)
No aeroporto há um cheiro neutro de limpeza. Na pista,
saem aviões da ponte aérea para Nova York. Fokker-27, a hélice.
No ônibus, os empresários reclamam do calor e pedem para ligar o
ar-condicionado. O motorista responde que abram as janelas. País
civilizado e desenvolvido, entre os grandes do mundo, também é
econômico. Por isso mesmo.
No fim de semana, Figueiredo ainda não chegou, e já tive
meu briefing sobre Brasil-Canadá ainda em Brasília, com o
embaixador Rubens Ricúpero. Resolvo, então, bater pé pela
cidade.
De tênis e jeans, eu pensava estar muito informal. Mas
todos andavam de bermudas e shorts: eram férias e verão. A
cidade regurgitava de turistas; estava florida e colorida; mas era,
ao mesmo tempo, silenciosa e absolutamente limpa em seus
jardins impecáveis. A limpeza se refletia num detalhe: nunca vi
uma única mosca. Nem mosquito, naquele verão. Quando
descobri o Canadian War Museum, me meti lá dentro e não saí
mais, naquele sábado. Com fumaça, gritos, tiros, gás, participei,
de dentro de uma trincheira, da encenação quase real da guerra
de trincheiras da Primeira Guerra Mundial.
No domingo pela manhã, saí a caminhar pelas margens do
rio Ottawa, sob as maple trees, a árvore nacional. Apanhei uma
folha e saí marchando, assobiando "The Maple Tree Forever", de
um disco comprado em 1962, da Banda Marcial da Guarda
Britânica. Depois, subi até o canal Rideau, e fiquei admirando o
castelo que é o Château Laurier Hotel, onde iria ficar a comitiva do
presidente. Ali na Confederation Square, numa tendinha, tomei o
meu melhor suco de laranja do mundo, com laranjas espremidas
na hora, mas de um sabor que eu ainda não conhecera. Depois,
fui bater pé no majestoso Parlamento, e vi o dia acabar sentado
num banco atrás do Parlamento, olhando a curva do rio Ottawa.
Ali, atirado naquele banco, sozinho com o mundo e feliz, eu liguei
o automático da câmera e me fotografei.
Na segunda-feira, 19 de julho, chegou Figueiredo.
Acompanhei os três dias da visita sem muito esforço; tinha que
produzir apenas dois textos: um para a Manchete e outro para
Fatos & Fotos. Era muito mais cômodo do que produzir para um
jornal diário. Lembro-me de que esperava Figueiredo numa
pequena arquibancada, armada junto à porta da casa do primeiro-
ministro Pierre Trudeau. Figueiredo vinha caminhando com
Trudeau e, quando me viu, lá no fundo, atrás de todos, fez um
aceno: "Oi, Alexandre".
No dia 21, Figueiredo embarcou em seu avião para Brasília
e eu embarquei num outro para Nova York. Estava com Oscar
Bloch e ele nos levou para o luxuosíssimo The Helmsley Palace, na
Madison Avenue. Foi a primeira vez que vi uma chave magnética
com código. Da janela de meu quarto, fiz uma de minhas melhores
fotos: a catedral de São Patrício, em primeiro plano, num final de
tarde, com o Rockefeller Center e Nova York ao fundo.
Como sempre, saí a pé para conhecer a cidade. Caminhei
desde o Metropolitan Museum, no Central Park, até a Wall Street,
com tudo a que tinha direito: Broadway Square, Empire State até
o último observatório, World Trade Center até o último
observatório. A noite, Village e Little Italy. Passei uma semana de
deslumbramento, ao ir descobrindo um mínimo de Nova York. No
domingo, atravessamos o rio Hudson e fomos para The Palisades,
passar o dia. A noite, era o embarque de volta ao Brasil.

Guerra no Líbano

Mas não iria ficar muito tempo em casa. Israel invadira o


Líbano e os jornais anunciavam que a OLP estava cercada em
Beirute, na iminência de ser massacrada. No início de agosto, fui
mandado para lá, via Roma e Telavive. Já em Roma, na troca de
avião, dava para sentir a tensão do Oriente Médio: a inspeção
policial para o vôo a Telavive era absolutamente minuciosa. Não
escapava um bolso, um canto da mala. Cheguei à tarde, cansado,
pois voara a noite toda, e fui para o Hilton, na beira do
Mediterrâneo.
Nem bem chegara, já veio um funcionário do governo de
Israel me procurar, marcando a saída do veículo que me levaria ao
front no dia seguinte. Aquele encontro me despertou para uma
realidade: no dia seguinte eu estaria no meio da mais violenta
guerra do planeta naquele momento. Fui para a sacada fazer
ginástica. Olhava a paz das águas do Mediterrâneo e voltava os
olhos para o norte: "Lá é a guerra. E eu vou estar numa guerra
amanhã". Era a realização de um sonho de toda a vida. Participar
de uma guerra. Agora era certo. A excitação da expectativa me deu
fome e desci para o restaurante. Lá comecei a encontrar a guerra.
Muitos jovens mutilados jantavam também, alguns sem pernas,
de cadeiras de rodas, outros sem braços, com o rosto queimado,
sem um olho ou cheios de cicatrizes. A guerra só é romântica para
os sonhadores. Servi-me de muitas saladas, que estavam
apetitosas, e frutos do mar. Tomei vinho israelense, enquanto
observava a juventude que dera partes de seus corpos novos para
a guerra. Que loucura!
Dormi com toda a profundidade a que o cansaço me dava
direito, e acordei com o despertador do hotel às cinco e meia da
manhã. Da sacada, via o céu vermelho anunciar o sol. Fiquei
pensando no que já teria vivido quando aquele sol se pusesse,
naquele dia que começava. Era um dos dias mais importantes de
minha vida, meu primeiro dia de guerra. Será que eu terminaria o
dia vivo? Pensei na história daquela região, desde Abraão, dos
fenícios, dos romanos, dos turcos, dos ingleses. Meu guia me
esperava no saguão. Ele havia lutado contra os ingleses, em 1948,
depois participara de todas as outras guerras, menos desta.
Agora, ele era apenas um guia para jornalistas estrangeiros.
Perguntei se viajaríamos desarmados. Ele respondeu que perto da
fronteira um oficial nos esperava. Botei toda a minha bagagem no
carro, pois não sabia quando iria voltar, nem por onde, e seguimos
rumo ao norte, na direção da guerra, com o Mediterrâneo sempre
a vista, à nossa esquerda.
Uma barreira de arame farpado protege a estrada asfaltada
do Mediterrâneo. Pergunto ao motorista Jacob, que fora sargento
na guerra até duas semanas atrás, a razão da proteção. Ele me
explica que no ano anterior quarenta israelenses haviam sido
mortos num ônibus, naquela estrada, por guerrilheiros que vieram
do mar, numa lancha.
São 160 quilômetros de estrada, entre Telavive e a fronteira
sul do Líbano, por onde vamos entrar. A minha direita, vejo o
monte Carmelo. Chegamos a Haifa, um grande porto, e Jacob me
mostra o hospital militar, onde está a maior parte dos feridos
desta guerra.
— Nossos soldados não são bons em paradas militares,
porque são muito independentes. Mas, na guerra, sabem o que
fazer.
Depois de Haifa, a poucos quilômetros da fronteira,
entramos à direita. Vamos até um kibutz, onde o guia civil será
substituído por um militar. Um oficial pendura seu fuzil Galil na
cadeira e me oferece um café. Descobre que sou brasileiro e
começa a falar espanhol, para me explicar por que os eucaliptos
ali perto estão queimando.
— Foram os katiusha que os alcançaram esta manhã,
antes do nascer do sol. Eles atiram os foguetes de 35 quilômetros
de distância e desaparecem.
Ele apontou algumas colinas pedregosas como o lugar onde
"eles" desaparecem. Era para lá que eu estava indo.
Aí chegou um coronel de uns cinqüenta anos. Apresentou-
se como meu guia dali para frente. E me informou ser carioca.
Tinha na mão uma metralhadora Uzi e me contava que as Forças
de Defesa de Israel (IDF) tinham perdido dezoito soldados no dia
anterior.
— Hoje, você nos acompanha na tomada do aeroporto de
Beirute — avisou ele.
Ainda olho para trás. Estou sobre um solo histórico. Logo
ao sul, está Allit, que fornecia sal ao império romano; mais
adiante, Accra, atacada por Napoleão no cerco ao Egito. E agora
entro em Naharya, toda esburacada por canhões 155 milímetros,
que atiram do outro lado da fronteira.
São oito da manhã quando cruzamos a fronteira. Entramos
num Líbano escancarado. O coronel me avisa que, se quiser viver
120 anos dali para a frente, "não junte mais nada do chão. Pode
explodir''. Olho as rochas nas colinas que nos cercam e penso se
atrás de uma delas não há um katiusha nos espreitando. Em
lugar dele surge, gigantesco, semi-enterrado, um Merkavah
(carruagem), um tanque israelense de 60 toneladas — o dobro do
maior tanque brasileiro.
A estrada asfaltada está esburacada pelo tráfego pesado.
Grandes carretas transportam os blindados de 60 toneladas, para
que cheguem mais rápido ao front. Nos jipes, soldados israelenses
andam sem camisa e de óculos escuros, mais parecendo turistas,
sem botas e com chinelos de dedo. Fotografo. Mais adiante, uma
barraca da Força de Paz da ONU, com três bandeiras: do Líbano,
de Israel e da ONU.
— Esses aí não fazem nada. Só gastam o dinheiro das
nações contribuintes — queixa-se o coronel.
Ao longo da estrada, não há uma única casa inteira. As que
ainda têm janelas mostram buracos de balas em torno do
retângulo das janelas. O motorista me explica que naquelas casas
havia atiradores, e que ninguém iria perder tempo em mandar
uma patrulha capturá-los. Para um atirador, a resposta era
artilharia. O Exército precisava avançar, e não poderia perder
tempo com atiradores.
Estamos na metade de um trecho de 95 quilômetros entre a
fronteira e Beirute. Agora motoniveladoras israelenses alargam a
estrada, aumentando o acostamento, para garantir dois tipos de
tráfego: o civil e o militar. Tal como seus ancestrais fenícios,
enquanto os outros guerreiam, os libaneses praticam o comércio.
As margens da estrada estão coalhadas de tendas vendendo
cigarros, ovos, ventiladores, roupas, frutas, espanadores para tirar
a poeira levantada pelo impacto das bombas. A luz excessiva sobre
o solo claro faz arder os olhos e o calor já sobe a quase 40 graus.
Vejo numa camiseta a inscrição LEBANON FOREVER.
Entramos em Sidon. A cidade está cheia de cicatrizes da
guerra que passou por aqui há poucos dias. Mas está cheia de
vida. Muita gente na rua, vendendo e comprando.
— E incrível! Há dois dias, a cidade estava deserta. Só
havia soldados procurando atiradores e minas — observa o
coronel.
Entramos num congestionamento. Um inferno de buzinas.
A maior parte dos carros está com perfurações de bala. O
motorista Jacob ainda lembra:
— Há duas semanas, ataquei esta cidade. Esperamos que
a população fugisse para a praia, então atacamos. Mas muito
terrorista alemão fugiu no meio do povo e embarcou na praia.
— Terrorista alemão? O coronel explica:
— Você acha que estamos combatendo a OLP? Você vai ver
muitos loiros no caminho. São alemães, do Baader-Meinhoff,
franceses do Action Directe, italianos das Brigate Rosse e até
companheiros seus, latino-americanos, de El Salvador e Cuba.
Uma patrulha nos detém, pela primeira vez. Estão em
busca de terroristas europeus, que fogem em carros da população
local. Aproveitamos para parar e tomar um refrigerante. Resolvo
caminhar um pouco. Uma patrulha israelense me detém.
Perguntam-me qual é a minha unidade. Respondo que sou
jornalista brasileiro. Não acreditam. Acham que sou um soldado
israelense dando um passeio irregular. O coronel vem em meu
socorro e explica que é meu guia. Os policiais militares pedem
desculpas e se despedem:
— Shaloml
A saudação é parecida em toda a região. Eles lutam entre
si, mas são primos. Prisioneiros passam por nós. São sírios, líbios,
argelinos, egípcios, jordanianos. "Saiam!"
Um tanque Merkavah passa por nós voltando ao front com
uma bandeira libanesa como estandarte. Sempre com o
Mediterrâneo à nossa esquerda, vamos avançando. À direita, vejo
Damour, onde nasceu o velho líder Camille Chamoun, que na
minha adolescência visitou o Brasil, e era efígie nos selos
comemorativos que eu colecionava. Damour é, agora, um monte
de ruínas. Adiante, o ruído da artilharia pesada mostra a direção
de Beirute. Havíamos passado pelas ruínas históricas de Tiro e eu
não havia notado.
Vamos entrar em Beirute pelo aeroporto. Na cabeceira da
pista, um esquadrão de tanques Merkavah está em posição de
combate. Passamos entre eles e paramos na pista. O coronel
conversa com alguns soldados e me informa:
— Temos que ir pela pista. Fora dela, está tudo minado.
Ontem, um jipe com americanos bateu numa mina anticarro e
morreram três.
Avançamos com cuidado, acompanhando a faixa amarela
que marca o meio da pista. O coronel me informa que no outro
extremo está a artilharia inimiga. Imagino ver a qualquer
momento uma bola de fogo em nossa direção e sugiro ao motorista
andar em ziguezague. O coronel me acalma:
— Eles não ousariam revelar suas posições. Olhe para os
lados.
Ao longo da pista, dos dois lados, imensos tanques
Merkavah estão enterrados, apenas com a torre para fora,
esperando o momento da destruição do inimigo.
A fumaça preta nos indica o prédio principal do aeroporto.
Esqueletos de três Boeing 707 ainda queimam. No terminal de
embarque, centenas de malas pilhadas, com roupas espalhadas,
mostram que, para muitos, a guerra chegou antes de terem
conseguido fugir dela. Um libanês fardado se aproxima, irritado:
— Esses yehrekdinoun levaram nossas mulheres e nossos
carros. Agora estão no final da rua. Quero que acabem com eles!
No imenso saguão do aeroporto, o piso está coalhado de
fezes humanas, misturadas com estojos de arma automática. Não
entendi e critiquei a sujeira.
— É a proximidade da morte — explicou o coronel. —
Quando percebem que a morte está chegando, o esfíncter solta —
e fez um sinal entre o indicador e o polegar.
Então era isso! O cheiro de fezes humanas, ali, era o cheiro
da morte. Resolvi subir, sozinho, à torre do aeroporto. Estava
curioso para ver os combates no fim da rua.
Nas escadas da subida, o cenário era o mesmo. As paredes
esburacadas de bala, os degraus cobertos de fezes e estojos vazios.
Os cadáveres e os feridos haviam sido retirados no dia anterior.
Do alto da torre, vejo a batalha como num filme. Em
buracos feitos pela artilharia na avenida de acesso ao aeroporto,
soldados correm para a frente, enquanto dois carros blindados
leves vão atirando. No final da avenida, pequenos fios de fumaça
mostram a resistência débil ao avanço. Do outro lado, na pista,
outros blindados leves, transportando tropas, avançam como se
estivessem numa corrida de Fórmula 1.
Saímos do aeroporto por uma estrada recém-aberta pela
engenharia israelense. Subimos uma elevação e começo a
encontrar canhões de 155 milímetros, apontados para o centro de
Beirute. Lá embaixo, vejo a cidade, com vários focos de incêndio e
muita fumaça preta. No horizonte, o Mediterrâneo azul. Dois
aviões atacam o museu Nacional. O coronel explica que o museu
já estava destruído pela OLP, que o convertera num depósito de
munições.
Não conheci Beirute dos tempos em que o Líbano era a
Suíça do Oriente Médio. Mas, mesmo coberta de fumaça negra e
constituída de esqueletos de edifícios, a cidade ainda conservava
sua beleza original. Dava para sentir que a alma de Beirute ainda
estava ali, bem viva, com toda a sua simpatia e beleza. Uma pena
que os libaneses estivessem sofrendo uma guerra que não era
deles.
Voltamos a descer. Soldados israelenses só de calção
dormem sob os tanques. Mulheres libanesas e velhos retiram em
garrafões plásticos água de um cano rompido, e guardam no
porta-malas de um Mercedes-Benz com placa de Zurique. O
coronel me explica que não há autoridade para impedir o
contrabando de automóveis nem para cobrar contas de água, luz e
telefone. Tudo é livre.
Aumenta para mim o mistério do Líbano. Como sobrevive?
Na descida para a cidade, quase somos atropelados pelas
60 toneladas de um Merkavah, que desce a toda. Saímos da
estrada improvisada, enquanto ele passava, provocando um
terremoto. Contornamos o centro e vamos ao quartel-general das
falanges libanesas. A guarda do QG faz uma exibição de garbo e
eu me lembro da frase de Jacob, dizendo que os israelenses não
são bons em paradas, mas entendem de guerra. Entro e me fazem
preencher um formulário, fazem uma foto polaroid e me dão uma
credencial. Minha foto fica horrível.
A credencial não me dá direito à vida nem a circular por
setores não controlados pelas falanges. O coronel me informa que
livre-atiradores nos prédios bombardeados já mataram dez
soldados israelenses naquela semana. E com obuses plantados no
museu, antes de ele ser destruído, mataram oito, naquela manhã.
A população, ao perceber que a OLP e os europeus estão
cercados, tenta sair do cerco, para a parte controlada por Israel e
pelo Exército libanês. Os israelenses abrem uma passagem na
Porta Galari Saman, e é para lá que vou.
Filas intermináveis de gente e de carros estão deixando por
ali aquela parte da cidade. Na maioria os carros são europeus, e
fariam inveja a qualquer rico brasileiro, mesmo com os buracos de
balas. Os carros vêm atulhados de pertences pessoais, aparelhos
de TV, malas, eletrodomésticos.
De uma janela, uma metralhadora pesada começa a
espoucar sobre um jipe libanês que vem a toda, de dentro da
cidade cercada. O jipe evita atropelar a fila de refugiados e vem
saltando sobre troncos, pedras e sacos de areia, com os quatro
pneus furados. Bate num muro e os soldados saltam dele e saem
caminhando, sem reagir ao atirador da janela.
Um homem de uns trinta anos, que estava na coluna que ia
saindo, foi agredido a socos e pontapés por um soldado libanês. A
mãe da vítima, experiente, assistiu calada. O filho saiu ferido, mas
livre. Um adolescente vem correndo e o interrompo. Ele me
responde, em francês: "Eles estão atirando em todo mundo". Um
senhor de sessenta anos me conta que vai para a casa do irmão,
no interior, e que, quando tudo passar, ele volta para casa.
Por ali, vejo algo incrível: lojas estão abertas, protegidas por
sacos de areia. Há buracos de bala por tudo. Afinal, já são sete
anos de convivência com a guerra. Naquele momento, se
misturam cinco exércitos: israelense, sírio, libanês de Gemayel,
libanês de Haddad e a OLP com reforços estrangeiros. Isso sem
contar as forças de paz da ONU, acampadas no sul do país, vendo
passar, para um lado e para outro, israelenses, palestinos e
libaneses. Vejo alguns israelenses vestidos com coletes à prova de
balas. Estão cansados e a guerra marca a cara deles. Outros, mais
descansados, comem melancia à sombra de um tanque.
Agora vamos para a terra de ninguém, na Passagem do
Museu. E um lugar diferente de todos os que já vi. Há silêncio.
Não vejo pessoa alguma. Parece um cemitério. Nosso carro se
aproxima de uma esquina, onde há um posto de serviço
bombardeado. Passa um táxi e o motorista nos aconselha a
estacionar na garagem de lubrificação. Desembarcamos e o
coronel me aponta uma rua larga.
— Isto é terra de ninguém. Aí é o front.
— Vamos lá? — convido.
— Só se eu fosse louco — responde o coronel, mostrando a
farda.
Estou com uma camisa verde-oliva comprada em Manaus,
calça jeans e tênis. Fico tentado pelo desafio.
— Eu vou! — aviso o coronel.
— Você vai por sua conta e risco. Cuidado!
Com a teleobjetiva pendurada no pescoço, vou caminhando,
cauteloso, para dentro da terra de ninguém. Ouço meus passos,
no silêncio profundo. Não há movimento, não há nada. A vida
parece ter parado, ali, à espera da morte. De repente, ouço alguns
zumbidos sobre minha cabeça, como se fossem abelhas. Caio no
chão, imediatamente. O instinto funciona.
Quando eu prestava serviço militar no 1° de Infantaria, em
Santa Maria, passei uma manhã numa trincheira, informando
pelo rádio os resultados de tiro de fuzil e de metralhadora sobre
um alvo logo acima de mim. Os projéteis passavam por cima,
provocando zumbido como se fossem abelhas. Eu tinha sabatina
de economia na noite daquele dia e, enquanto atiravam, eu
estudava no livro de economia geral. O livro ficou todo respingado
de barro, jogado pelos projéteis que batiam na borda da trincheira.
Aquele zumbido era, pois, um velho conhecido. Um dia, em
Brasília, eu estava no telhado de minha casa, varrendo folhas de
eucalipto, quando ouvi de novo aqueles zumbidos perto de meu
ouvido. Desci do telhado e descobri que o vizinho, Paulo
Madureira Coelho, atirava em pombos, com uma carabina .22.
Deitado no chão da terra de ninguém, desejei que fosse um
engano do atirador. Talvez o disparo não fosse para mim. Só
haveria um modo de saber: levantando-me.
Levantei-me devagar e já estava respirando fundo como
constatação do "engano", quando vários zumbidos passaram de
novo pela minha cabeça e abriram buracos na parede. E eu pude
ouvir em seguida o estampido do fuzil automático Kalashnikov, o
AK-47 soviético.
Dei um salto para dentro de uma floreira no jardim de um
edifício. Sempre tive curiosidade de saber como reagiria num
momento como aquele. Tinha boas razões para acreditar que
molharia a calça. Mas eu estava furioso, com raiva. Queria ter um
fuzil para poder responder. Levantei a cabeça, para saber onde ele
estava. Ele atirou de novo e vi que se escondia no escuro do
quinto andar de um edifício semidestruído. Não estava na janela.
Apontei a tele e fotografei o lugar. Ele atirou de novo, e continuou
abrindo buracos na parede. E me pôs mais raiva. Botei a cabeça
para fora e gritei, com toda a força dos meus pulmões:
— Covarde filho da puta!
Eu não pensava em medo ou em morte. Pensava em
revidar. Ele atirava em mim sem saber quem eu era. Queria me
matar. Pois eu queria revidar, só queria ter uma arma para
revidar.
Do final da rua, alertado pelos tiros, surgiu um blindado
israelense. Veio em disparada, metralhando a fachada do edifício
de onde vinham os tiros. Aproveitei e corri uns 100 metros, até
uma trincheira de sacos de areia que havia na esquina. Dois
soldados me esperavam, apontando metralhadoras para mim.
Estavam de colete à prova de balas, capacete, óculos contra poeira
— pareciam ser de outro planeta.
— Shalom! — me saudaram.
— Hello! — respondi. — Onde é o banheiro?
Eles riem. "Faça em qualquer lugar." Faço, volto, e eles me
esperam com uma garrafa plástica de água mineral.
— De onde você veio? Você é maluco! — me censuram.
Conto minha história e peço licença para fotografá-los. Fico
de costas para o edifício onde estava o atirador e de frente para
eles.
— You're really fooll — criticam os dois soldados. Ouço, ao
longe, o coronel gritando por mim, perguntando
onde estou. Respondo, também aos gritos, que já vou
voltar. Sinalizo para os israelenses que vou voltar pelo mesmo
caminho. Eles balançam a cabeça, desaprovando. Numa esquina
mais acima, um civil se esquiva de outro atirador, e chega
correndo à nossa esquina. Passa outro blindado israelense, e
corro ao lado dele, protegido.
Ao chegar de volta ao posto de serviço, vejo um garoto de
uns oito anos recolhendo água de um cano rompido, perto de um
carro Mercedes todo perfurado. Sinalizo para o garoto que ele
sente no capo do carro para fazermos uma foto. Pensei que aquilo
seria o retrato da guerra. Quando me afasto uns passos para
enquadrar a cena, o chão treme como um violento terremoto,
acompanhado de um estrondo. Uma nuvem de fumaça preta
surge à minha frente, a uns 50 metros de distância, envolvendo
um edifício, e no topo do prédio, em letras bem grandes, já
encobertas pela fumaça, leio ALEXANDRE. Fotografo.
O coronel me chama, desesperado.
— Vamos embora! Começou a artilharia!
E vamos para o bairro cristão de Junieh, ao norte, onde não
há guerra. Nos hotéis, as pessoas nadam nas piscinas à beira do
Mediterrâneo, como se nada estivesse acontecendo. Só se sabe
que há guerra pelo ruído das explosões a distância e pelas
ambulâncias que entram no bairro trazendo feridos.
Pelo rádio, no final do dia, ficamos sabendo que um carro-
bomba entrou no saguão do hotel Alexandre, matando sessenta
pessoas, principalmente as que estavam no restaurante e no
coffee-shop.
Conto para o coronel que é a explosão que vi e fotografei e
ele empalidece:
— Você nos salvou a vida! Não entendi.
— Eu tinha preparado uma surpresa para você. Iria levá-lo
ao hotel com o seu nome para um lanche em sua homenagem,
mas a sua idéia de levar tiros na terra de ninguém atrapalhou
tudo.
À noite, com a cabeça no travesseiro, eu pensava naquele
dia. O sujeito que atirou em mim me confundira. Eu estava com
camisa verde-oliva e com uma teleobjetiva no pescoço. De longe,
pensou que fosse alguém armado. Quis me matar, mas, na
verdade, salvou-me a vida. Não fosse ele, eu estaria no hotel
Alexandre, na hora da explosão.
Depois pensei na minha raiva e na vontade de reagir,
quando ele abriu fogo contra mim. E descobri que essa deve ser a
reação de muita gente, na guerra. E assim que o gênero humano
morre e mata, ao longo da História. E dormi com a paz de um
sobrevivente.
No dia seguinte, fomos a Damour, agora uma cidade-
fantasma. Está tudo destruído. Nenhuma casa inteira. Até as
tamareiras estão queimadas, com as folhas secas chorando ao
vento que vai para o Mediterrâneo. Damour fica no alto de uma
colina e de lá se vê o mar até um distante horizonte.
Nas casas, os colchões estão sujos de sangue; há capacetes
de aço pelo chão, com coturnos e armas abandonadas. Dentro de
uma igreja, vejo jipes queimados, aparelhados com metralhadoras,
e um lança-rojão abandonado. A cidade fora ocupada, por muitos
meses, para ser uma universidade mundial do terror, conta-me o
coronel, mostrando mapas com inscrições em espanhol e inglês.
Há um cunhete (caixa de munição) em alfabeto russo e uma
inscrição na parede em alemão.
O coronel se queixa dos jornalistas. ' 'Vocês saturaram a
opinião pública mundial com a informação mentirosa de que
iríamos massacrar os palestinos sem pátria. Aí, as nações
humanitárias mandaram navios para resgatar os pobres
palestinos. Só que o que o mundo viu na TV foram loiros de cara
encoberta embarcando nos navios. Eram terroristas europeus e
guerrilheiros centro-americanos, voltando para fazer terror e
guerrilha. O mundo perdeu a chance de fazer uma 'limpeza' que
nada tinha a ver com os palestinos. Está claro que agora vocês são
cúmplices se o terror voltar à Europa."
No vale do Bekaa, os sírios estão sendo empurrados de
volta para a fronteira. Vamos para lá com muito cuidado. Um
camponês nos saúda e desabafa, na sua sabedoria:
"Aqui não tem guerra civil. Os sírios são libaneses? Os
palestinos são libaneses? Os israelenses são libaneses? Então que
guerra civil é essa? Nós só queremos paz e os outros vêm guerrear
aqui dentro".
Em Nabatiê, o centro da cidade está congestionado.
Compram, vendem, caminham. Carros com placas da Suíça,
Alemanha e França. Um carro passa buzinando a Marselhesa. Um
libanês me conta que desde a ocupação da cidade fora embora
para a Arábia Saudita. "Agora que os israelenses expulsaram eles,
eu voltei para o meu negócio. No tempo deles, eles entravam,
levavam e não pagavam."
Há resquícios da retomada da cidade pelas paredes
esburacadas com balas. No prédio dos correios, um jipe retorcido,
aparelhado com uma metralhadora antiaérea, sinaliza a antiga
ocupação dos prédios públicos. Em 1976, a cidade tinha 40 mil
pessoas. Com a ocupação, caiu para 2 mil. Agora, 20 mil já estão
de volta. Em todas as casas, mastros improvisados com bandeiras
brancas mostram que os libaneses querem paz.
Em Marjoyun, encontro na crista de uma montanha,
dominando o vale, uma coluna de velhos tanques Sherman,
guarnecidos por apenas um jovem libanês, do Exército do major
Haddad. Sinalizo que vou subir na torre de um tanque e peço a ele
que me fotografe. Depois, descemos para a cidade. Na praça
central, um grupo de adolescentes me cerca. Querem saber tudo
sobre o Brasil. Um deles me diz, orgulhoso:
— Meu tio é um policial famoso no Brasil! Pergunto o nome
do tio dele.
— Tuma! — conta ele, enchendo o peito.
— Você conhece a família Squeff? — me pergunta outro. E
conheço, de Cachoeira. Também conheço os Bardawil, os Farhat,
os Bechara, os Karan, os Saade, os Nader, os Fakkoury, os
Haddad.
— Mande para eles os abraços de Marjoyun — me
recomendam aqueles adolescentes fortes, saudáveis, alegres,
cercados pela guerra.
Por toda a parte, vejo soldados da ONU. Os nepaleses estão
em trincheiras. Um grupo nórdico joga vôlei, enquanto oficiais
tomam Coca-Cola. Eu ainda não tinha visto antes oficiais fardados
e com brinquinho na orelha.
No dia seguinte, vamos subir para a fortaleza de Beaufort,
que domina toda a região. Construída pelos cruzados, no século
XII, desde então nunca nenhuma força militar conseguira tomá-la.
Até chegarem os israelenses. Olhando-a do vale do rio Litani,
parece impossível que alguém tenha conseguido tomar as
escarpas cheias de cavernas, com mais de 700 metros de subida
quase vertical. Subimos por uma estrada estreita, sinuosa e cheia
de pedras soltas. Nas margens da estrada, avisos de minas não
retiradas.
Lá de cima a visão é fantástica. Vêem-se todo o sul do
Líbano, o Mediterrâneo, as colinas de Golan, a Alta Galiléia, o vale
do Litani com o passo de Hardale, o sul do Bekaa. Uma bandeira
do Líbano, com o cedro verde sobre o branco e o vermelho, domina
o ponto mais alto de Beaufort. Há túneis cavados por toda a parte.
Um soldado libanês vigia, com uma metralhadora tcheca. Quando
digo que sou brasileiro, ele me oferece uma ameixa madura, com a
mão molhada de suor.
"Tenho um amigo em São Paulo", conta ele.
Não consigo imaginar como foi a tomada de Beaufort,
semanas antes. Pergunto ao coronel como conseguiram.
''Como você vê, é impossível subir pela escarpa. Então
viemos pela estrada que você subiu. Nossa aviação ficou
bombardeando intensamente, enquanto subíamos. Quando a
aviação parou, já estávamos aqui em cima. Tivemos que entrar
nos túneis com lança-chamas. Todos os cinqüenta guerrilheiros
foram mortos ou capturados. Morreram oito israelenses.
A tomada de Beaufort é considerada um dos maiores feitos
militares da história das guerras.
Voltei para Israel através da Alta Galiléia, nas fraldas das
colinas de Golan. Minha primeira refeição em Israel foi um peixe
de São Pedro, na beira do mar da Galiléia. Curioso, fui conhecer
as nascentes do rio Jordão. Depois, seguimos para Jerusalém.
Fiquei três dias batendo pé pelas ruelas da cidade, entre muralhas
milenares, que é sagrada para três religiões: o judaísmo, o
islamismo e o cristianismo. Fui fotografar o Muro das
Lamentações e um grupo de judeus ortodoxos ultraconservadores
quase me linchou: era o dia sagrado do Shabbath — é proibido até
fotografar.
Paz e guerra

Depois da guerra, pensei que merecia uns dias na Grécia,


que ficava no caminho de volta. Em Atenas, num domingo
ensolarado, peguei um mapa da cidade e saí a bater pé. Subi a
Acrópole, em primeiro lugar. Depois, fui para o Stadium, que me
lembrava as Olimpíadas; em seguida, fui para o jardim Nacional
conhecer o palácio real e admirar a fachada do hotel Grande
Bretagne. No dia seguinte, tomei um navio para uma excursão a
algumas ilhas.
Em Aegina, enquanto os demais passageiros iam para o
interior visitar templos ou comprar cerâmica, eu saí a nadar.
Distanciei-me da ilha, vendo o fundo do mar, os peixes, as plantas
marinhas. Depois da guerra, era a primeira vez que sentia a paz
de estar só, ali no mar, longe de tudo. Foi um momento profundo
de felicidade, que até hoje me alimenta o espírito. Só saí dali
quando o navio apitou, anunciando a partida próxima.
Em Poros, havia muito tempo disponível e saí a bater pé
pela cidadezinha. As casas brancas sobem a montanha em torno
de ruelas tortuosas. As janelas azuis estavam enfeitadas com
flores. Enquanto subia, dividindo, às vezes, as pedras da rua com
um burrico que descia, trazendo carga, eu via o céu azul se
olhasse para a frente. Quando parava para respirar, olhava para
trás e via o mar azul, e outras ilhas, e sentia o vento no rosto.
Vontade de ficar por ali!
Em Hydra, andei de novo pela cidade, pelo porto, fotografei,
procurei lugares, casas, gente. Impossível não viver intensamente,
por ali, entre a História, a beleza e a tranqüilidade.
Da Grécia, vou para Paris. Do aeroporto Charles de Gaulle,
ligo para o escritório da Manchete, na Place de Ia Concorde. Quem
atende o telefone é o próprio Adolpho Bloch:
"Venha logo para cá. Estão de novo matando judeus em
Paris!"
No táxi, fiquei pensando no recrudescimento do nazismo,
sob outra forma. E lembrei de uma recente declaração de Georges
Habashe, líder da Frente Popular de Libertação da Palestina (não
confundir com OLP) e do truste do cimento e aço no Líbano:
"Matar um judeu longe do campo de batalha vale mais do que
matar cem judeus em combate, porque atrai mais atenção".
Um grupo de quatro ou cinco homens havia assassinado
seis pessoas e ferido outras 22, na Rue des Rosiers, no bairro
judeu. Portavam pistolas-metralhadoras WCZ-63, usadas por
pára-quedistas tchecos e poloneses. Entraram no restaurante de
Jo Goldenberg e jogaram uma granada; depois, perseguiram os
empregados até a cozinha, onde os mataram friamente. Um
açougueiro marroquino, Mahamed Benemon, que se aproximou
para atender um amigo ferido, veio falando árabe, pedindo para
não atirar. O matador esperou que ele se aproximasse mais, para
não errar o tiro. Apenas duas balas se perderam, e ficaram
encravadas na parede do restaurante.
Fui para a Rue des Rosiers e entrei nos labirintos do
terrorismo. Descobri que, acobertado pela Action Directe — uma
organização terrorista francesa —, estava o nome de Abou Nidal.
Aproveitando-se do enfraquecimento da OLP de Arafat, cercada no
Líbano, Nidal estava tentando assumir a liderança do movimento
palestino, sob a proteção dos sírios. Os sírios, por sua vez,
estavam respaldados pelos soviéticos, que mantinham uma
espécie de QG em Karlovy Vary, na URSS.
Comecei a puxar o fio e fui descobrindo que 620 brigadisti
italianos, das Brigate Rosse, estavam no Líbano; alguns voltaram
e outros talvez estivessem ainda cercados em Beirute. Que o
Exército Secreto de Libertação da Armênia — que eu nem sabia
existir — tinha o QG em Beirute. Que o Exército Vermelho
Japonês (Seigikum) tinha um QG na Coréia do Norte e outro em
Beirute, cercado pelos judeus, naquele momento. Que alguns
membros do Baader-Meinhoff ainda estavam cercados em Beirute.
E, segundo minhas fontes francesas, estariam no Líbano, naquele
momento, tentando escapar do cerco israelense, montoneros
argentinos, gente do MIR chileno, do M-19 colombiano, do DRU
salvadorenho e até um ou dois membros da antiga Vanguarda
Popular Revolucionária, do Brasil, que teriam sido surpreendidos
pelo avanço israelense sobre Damour. O que me deram por certo é
que a cartilha usada por eles é o ''Mini manual da Guerrilha
Urbana", do brasileiro Carlos Marighella.
Depois de uma semana em Paris, volto a Brasília e logo
recebo um convite do embaixador Robert Richard para jantar com
Yves Montand, na embaixada da França. E a conversa, é claro, cai
no terrorismo em Paris. Fico surpreendido com o conhecimento de
Montand sobre os grupos terroristas que operam na França. E
descubro que a abolição da pena de morte e do Tribunal de
Segurança do Estado devolveram a Paris a condição de santuário
para os terroristas do mundo. A classificação de refugiado político
tornara-se um salvo-conduto não apenas para os refugiados
verdadeiros como também para os terroristas profissionais.
Minhas duas reportagens seguintes ainda iriam me manter
no campo militar: fiz uma extensa matéria sobre o Exército
brasileiro e depois uma entrevista com meu amigo Rubem Ludwig,
que deixava o Ministério da Educação para chefiar o Gabinete
Militar da Presidência.
Amazônia espetacular

No dia 13 de setembro, fui mandado para a Amazônia, onde


ficaria até o final de outubro. Havia sido designado coordenador
de uma edição especial da Manchete, com 162 páginas, que
ganhou o título AMAZÔNIA ESPETACULAR. Minha base passou a
ser Manaus. De lá, me embrenhei na floresta graças aos aviões do
José Altino Machado, um mineiro de Governador Valadares, que
lida com garimpos. No início de 1990, ele liderou os garimpeiros
de Roraima, na tentativa de permanecerem nas terras ianomami.
O piloto atende pelo apelido de "Mucura". O Cessna 206
tem o suporte de uma das asas amarrado com arame. Na cabine,
divido lugar com Zé Altino, o fotógrafo Olavo e latas de gasolina
para o avião e querosene para os lampiões dos garimpos. O
primeiro vôo nos levou duas horas para dentro da selva. Quando
Manaus e a confluência do Negro com o Solimões ficaram para
trás, só havia verde à nossa frente, até a terra se encontrar com o
horizonte. As nuvens desenham sombras sobre o verde. As árvores
disputam espaço na busca da luz. Águas de todas as formas
fazem desenhos no verde.
O ronco do avião não deixa saber se há silêncio lá embaixo,
como parece. O que haveria sob a copa das árvores? Uma clareira
mostra que a pesquisa da Petrobrás passou por ali. Uma fumaça
ao longe mostra a presença do homem. O rio Madeira, barrento,
deixa ilhas no seu rastro. A seu lado, corre o rio Canomã,
cristalino, vindo de outras terras. Em praias de igarapés, a areia
branca reflete a luz do sol.
Navegando em VOR ('' vôo de olho no rio "), o piloto Mucura
encontra a pista em que vamos descer. E uma pequena cicatriz no
meio da floresta. O avião passa raspando a copa das árvores,
embica e praticamente bate no chão, saindo aos pulos, enquanto
torço para que ele pare antes de bater nas árvores no final da'
'pista''.
Desço do avião, aliviado, e olho a "pista". O terreno é de tal
forma irregular que seria quase impossível andar por ali mesmo de
carroça ou bicicleta. Na cabeceira da ''pista'' há várias cruzes,
sinalizando um pequeno cemitério.
— Acidente de aviação? — pergunto a Zé Altino.
— Acidente de chumbo — responde ele. E eu não pergunto
mais nada.
Ele aponta um bando de homens, todos armados, na beira
da mata, nos esperando:
— Quem domina a pista domina o garimpo — explica Zé
Altino.
Ele me conta que é comum haver ataques a pistas, quando
um garimpo é bom. A pista é o único lugar por onde podem chegar
os mantimentos e ferramentas e sair o ouro. Observo que há umas
dez cruzes no cemitério e um monturo de terra ainda está fofo. No
primeiro barraco de zinco, está instalada uma espécie de armazém
geral. No zinco, há um rombo de um palmo de diâmetro.
— Foi uma Boito que disparou esta noite — explica Misael,
um piloto de Belo Horizonte. Sobre a cabeça dele, dezenas de
facões à venda estão pendurados, de ponta para baixo, numa
cordinha frágil. Os facões de Dâmocles. Embaixo deles, Misael fica
me dizendo que não sabe se fica ou se volta para Minas Gerais.
Ele vende de tudo, desde cerveja em lata a Johntex. Sobre o
balcão, a balança para pesar ouro e, ao lado, um cofre:
— O cofre nunca passa a noite cheio. No fim do dia, vem
um avião, para buscar o ouro.
O garimpo propriamente dito está a certa distância. Vou até
lá. Numa árvore, um macaco assustado foge agitando as folhas. O
chão é úmido, fofo e acidentado. Quem imagina a planície
amazônica como um terreno plano está totalmente enganado. Só
há plano nas várzeas. O resto é muito acidentado. Escorregamos
num caminho íngreme, atravessamos um igarapé sobre um tronco
e chegamos a uma choupana, onde estão três maranhenses e um
cearense. Um radiogravador joga na selva um programa da Rádio
Nacional em onda curta para a Amazônia. Ao lado do rádio, o
mesmo Poliplex que eu tomava quando criança, para receber
vitaminas e sais minerais. No chão, o pau-de-garimpeiro, que
queima verde e não apaga nunca, mantém quente o café. O peixe,
pescado no rio Anta, a trinta minutos de caminhada, seca ao sol.
Ao lado da choupana, outros dois homens cavam, tirando 2
metros de capa de solo vegetal, para chegar à areia e cascalho
onde está o pó de ouro. Motobombas fazem a lavagem da areia,
para depois retirar o ouro com a bateia. Eles trabalham à sombra.
O sol só chega ali ao meio-dia. As árvores, da altura de um edifício
de quinze andares, impedem a passagem da luz do sol no resto do
dia. No fundo do buraco, com água pelo joelho, um garimpeiro nos
cumprimenta, sorrindo, e mostra a boca cheia de dentes de ouro.
— Do garimpo para a boca, com Ederaldo Risadinha —
brinca o nosso guarda-costas, que exercita a pontaria, disparando
a Boito 12 em direção a uma árvore. O tiro ecoa na floresta e os
pássaros fogem, espantados. Um garimpeiro maranhense,
chamado José Ribamar, lembra:
— E quando corre sangue que aparece ouro.
Um outro garimpeiro, chamado Arimatéia, explica que o
perigo maior é o Capelobo, "o pai-do-ouro, que vem pra se vinga''.
O dia está terminando, e é hora de voltar. Um outro avião
vem de Jacareacanga, trazendo mantimentos, e vamos aproveitar
a carona. Na cabine, restos de arroz de um saco furado misturam-
se com o ouro retirado naquele dia.
Em Manaus, encontro o comandante militar da Amazônia,
general Euclides Figueiredo, irmão do presidente. Ele me convida
para assistir a uma manobra militar em Roraima, na fronteira
com a Venezuela, e depois me leva para almoçar em sua casa. No
pátio, o general me mostra um veadinho, num cercado.
''Este é o veado do general'', e dá uma gostosa gargalhada.
Na Funai, em Manaus, encontro um índio tchicano, da
fronteira com a Colômbia. Ele me explica que plantam epadu, de
onde se extrai a coca. E quando a Polícia Federal ameaça tocar
fogo nas plantações, ele vem dar queixa à Funai, alegando que são
plantas destinadas a cerimônias religiosas. Pisca o olho e me
conta que vende tudo em dólar. O funcionário da Funai me explica
depois que os índios estão recebendo dólares falsos, porque na
Colômbia a lei só proíbe falsificar o dinheiro do país.
Ali mesmo na Funai encontro o governador de Roraima,
brigadeiro (hoje deputado) Ottomar de Souza Pinto. Ele me diz que
vai para Boa Vista no dia seguinte, e que seu avião vai vazio.
Aceito a carona.
Não deveria ter aceito. De Boeing seria mais saudável. O
brigadeiro ia pilotando e resolveu me mostrar a paisagem de perto,
quando chegamos à Perimetral Norte. O avião quase tocava a copa
das árvores, na turbulência do meio-dia, com quase 40 graus de
calor. Eu ia ficando verde e o brigadeiro descrevendo as vilas
recém-implantadas. Até que percebeu:
"Você prefere que eu voe mais alto?"
Já tínhamos voado uma hora e meia e ainda tínhamos uma
hora pela frente. Pedi que ele voasse mais alto. A turbulência
passou e a temperatura refrescou. Já em Roraima, acaba a
floresta e começa a savana. Parece que estamos no pampa. E
quando começa a montanha, ao norte de Boa Vista, a paisagem é
lindíssima. E outro dos vários Brasis. Naquele dia, conheci o
ponto extremo norte do Brasil, na fronteira com a Guiana.
Semanas depois, eu iria terminar o trabalho na Amazônia
conhecendo um Brasil que surgia. Em Rondônia.
Saio do Boeing que me levou a Porto Velho e uma hora
depois estou a bordo de uma locomotiva a carvão, fazendo uma
viagem de um século atrás, em 25 quilômetros da Madeira—
Mamoré. Entre a mata e o rio Madeira, vejo esqueletos de
locomotivas, postes telegráficos plantados pelo marechal Rondon.
No dia seguinte, vou preparar outra viagem fantástica com
o governador de Rondônia, o Teixeirão. Vou acompanhá-lo, de
helicóptero, numa viagem de rotina pelo novo Estado.
Iríamos de Porto Velho até o extremo sul do Estado, em
Vilhena. Na hora do embarque, o Teixeirão apareceu gingando o
corpo, como sempre, e de boné com emblema de pára-quedistas.
— Vamos?
Ele sobrevoou a capital para mostrar suas obras e depois
seguimos a BR-364, cheia de caminhões. Da bolha transparente
do helicóptero, posso testemunhar a popularidade do governador.
Os motoristas o reconhecem, pelo gorro vermelho, e piscam os
faróis e buzinam quando ele acena de volta. Pousamos várias
vezes para ele visitar pioneiros. Na casa de uma viúva, pousamos
no pasto e depois pulamos a cerca. A mesa estava cheia de doces,
pães e biscoitos nos esperando.
— Quando eu vi o helicóptero, servi a mesa — explicou a
senhora, enquanto eu tentava morder os bocados sem engolir
moscas, pois havia milhares delas sobre as guloseimas.
Depois que decolamos, Teixeirão ordenou ao piloto:
— Faça o vôo de espantar macaco!
E íamos raspando a copa das árvores. Ele achava divertido
corrermos aquele risco.
Sobrevoamos Ariquemes, uma cidade recém-nascida.
Vemos dois clubes com piscina, o fórum, o Banco do Brasil,
colégios, armazéns de cereais, silos... a cidade avança sobre a
floresta.
— Você vê hoje, volta amanhã e já está maior, já tem mais
casas — comenta, orgulhoso, o governador.
Em Jaru, recém-nascida, Teixeirão mostra, satisfeito, as
novas escolas, o fórum, o hospital, a sede regional do governo do
Estado, as obras de saneamento.
Em Ji-Paraná, a cidade já não consegue ser vista de um
helicóptero voando baixo. Teixeirão me mostra a penitenciária que
foi convertida em hospital, e sobrevoa as novas escolas, todas com
quadras de esportes.
Descemos em Caçoai, cidade com três anos de idade. O
governador vai inaugurar a piscina do Country Club. Country
Club na beira da floresta! Ele é recebido por descendentes de
japoneses, polacos, italianos, alemães e índios. Um líder político
local aproxima-se:
— Governador, amanhã nós vamos lhe mandar um telex,
com algumas reivindicações.
— Por que você não diz logo e economiza o telex?
— Mas é que temos que ficar com a cópia do telex.
— Então diga logo agora e a gente resolve logo. Amanhã,
você só tira a cópia do telex e fica com ela — conclui Teixeirão.
Naquela festa de inauguração eu testemunhei o gesto que
mais me impressionou em toda a viagem à Amazônia. Havia, no
Country Club, umas trezentas pessoas. Era um local recém-
desbravado. Talvez há um ano fosse floresta ali. Todos bebem em
latinhas: cerveja ou guaraná. O chão é de terra batida. E há uma
caixa no centro do terreno. Ninguém joga lata vazia no chão.
Todos vão até a caixa para jogar lá as latas vazias. Fiquei
imaginando por quê. Acho que é porque eles têm noção do que
custou conquistar cada palmo daquele terreno: a malária, as
dificuldades, o calor, a falta de transportes, de recursos em geral.
E com aquela noção de civilização, superaram os litorâneos, que
jogam latinhas na praia.
Depois do almoço, voamos para Rolim de Moura. O
governador fala com o subprefeito. Falta antibiótico. Ele vai
providenciar. Mas reclama que, se chover, a água vai cobrir a
estrada recém-aberta. Pede a abertura imediata de bueiros.
— Quando eu cheguei aqui a primeira vez, tinha uma
ruazinha só — comenta o governador.
Em Pimenta Bueno, ele mostra a moderna rodoviária, mas
lamenta que esteja faltando escola. Ele desvia o helicóptero e vai a
Espigão do Oeste, visitar uma candidata a prefeito. Pousa junto à
casa dela, espantando as galinhas.
No dia seguinte, vamos ao rio Ávila, examinar sondagens
para uma hidrelétrica. Depois, passamos por Vilhena, a última
cidade ao sul do Estado, onde faz 10 graus centígrados no
inverno. Entre a cidade e a divisa com o Mato Grosso, Teixeirão
tem uma surpresa: a BR-364 está congestionada de caminhões
parados. Há centenas de caminhões atolados no barro. Teixeirão
faz o helicóptero pousar junto aos barracos da empreiteira que
está asfaltando a estrada.
— Onde está o engenheiro responsável?
— Está na cidade, almoçando.
— Mas que almoçando?! Os caminhões atolando e ele
almoçando? Os motoristas não estão almoçando; eu não estou
almoçando; e ele está almoçando, enquanto tem aqui este serviço
porco? Eu quero ele aqui agora, quero ele tirando os caminhões,
passando as máquinas nesse barro!
Os motoristas se aproximam:
— Ele é o Teixeirão. Já nos ajudou, lá em Ji-Paraná, nos
deu comida quando a gente tava atolado.
— Vocês não podem fazer um arroz-com-feijão para essa
gente? — pergunta o governador ao capataz da empreiteira.
O Teixeirão falava já com os pés enterrados no barro. A
camisa já estava toda enlameada pelas mãos dos camioneiros que
queriam cumprimentá-lo, tocar nele. Foi quando surgiu na boléia
de um caminhão recém-chegado do sul uma mulher motorista,
que gritou:
— Quem é esse cara?
— E o governador — respondem os motoristas.
— Ah — diz a mulher com ironia —, é o governador deste
lamaçal? A gente entra no seu Estado e dá com a fuça neste
lamaçal. Por que tem tanta estrada boa e quando a gente chega
aqui encontra esta estrada horrível?
Teixeirão não perde o humor:
— Pela mesma razão que tem mulher horrível como a
senhora e tem mulher bonita. Mas a minha estrada horrível tem
cura.
Os motoristas dão barrigadas de rir em torno do
governador, e a mulher sai dali, sem graça, patinando no lamaçal
horrível.
Logo em seguida, mais sem graça ainda, chega o
engenheiro responsável.
— Que diabo de obra é esta? — pergunta o governador. —
Já tem gente perdida no cerrado, tentando evitar a estrada!
— Mas eu estou esperando o laudo técnico — tenta
justificar o engenheiro.
— Mas que laudo técnico, homem? Nós estamos numa
emergência, isto é uma guerra, e você vem me falar em laudo
técnico? Eu quero é ver esses caminhões saindo daqui agora
mesmo. Você está cheio de máquinas. Bote essas merdas para
trabalhar. A riqueza taí parada, o pessoal está sem comer. Olhe:
eu ainda vou até Colorado. Volto aqui às quatro da tarde e não
quero ver um só caminhão atolado. Quero a pista desimpedida!
Às quatro da tarde passamos por lá, de volta. A porta de
ligação de Rondônia com o Brasil estava desimpedida. Aberta.
Empurrada pelo peito do Teixeirão. Agora eu entendia por que os
faróis piscavam quando os motoristas viam o gorro vermelho na
cabeça daquele gaúcho de São Jerônimo na cabine do helicóptero.
Minha missão estava terminada, e eu deveria embarcar em
Porto Velho, de volta para Brasília. Teixeirão insistiu para que eu
saísse ali de Vilhena mesmo, num bimotor do governo do Estado,
que precisava ir a Curitiba.
Entre Vilhena e Cuiabá, pegamos mau tempo. Aliás,
péssimo tempo. Escureceu tudo às cinco da tarde. Na primeira
nuvem em que entramos, o pequeno avião parecia se desintegrar.
Vi que o radar estava desligado. Achei que, se estivesse ligado,
poderíamos evitar as nuvens piores.
— Mas o radar não funciona — explicou o piloto. — Aliás,
muita coisa não funciona. E por isso que este avião está indo para
uma revisão há muito vencida.
Era o que faltava! Estávamos dentro de um liquidificador.
Eu suava frio, agarrado na poltrona. O piloto olhou para trás e
deve ter notado que eu deveria estar verde.
— Você está com medo? — perguntou-me.
— Estou.
— Eu também!
Eu ainda não havia conhecido um piloto tão sincero quanto
sádico. Enfim, sobrevivemos, e pousamos em Cuiabá, para
reabastecimento. Do hangar do reabastecimento eu via, ao longe,
o Boeing em que eu deveria estar. Eu estava com a passagem na
maleta. Me deu vontade de correr pela pista e trocar de avião.
Mas achei que seria um vexame excessivo. Fiquei ali,
esperando melhor sorte em nossa etapa final.
Quando decolamos, a chuva havia parado e o céu limpara.
Acho que estávamos voando havia mais de duas horas, quando
avistamos luzes de uma grande cidade.
— Lá está Brasília. Vamos descer — avisou o piloto.
— Eu acho que não é Brasília — opinei, humildemente.
— É, sim — insistiu o piloto. — Está tudo certo com a
minha navegação.
Aí eu insisti:
— Mas então me diga onde está o eixão, eu conheço
Brasília e acho que isso aí é Anápolis.
O piloto acabou concordando e foi assim que chegamos a
Brasília.
Para entender ainda muita coisa, eu precisava conversar
com um entendido. Meu amigo Ibrahim Abudi trouxe a Brasília o
Orlando Villas-Boas e tivemos uma longa conversa, que entrou
madrugada adentro. Ele acabou me contando detalhes de
histórias que eu lera em O Cruzeiro, quando menino, sobre a
Expedição Roncador—Xingu, que originou 42 cidades e a base do
Cachimbo. Me falou sobre a abertura da estrada Cuiabá—
Santarém, sobre os contatos com os índios apiacá, em 1949, e
com os kren-akoro. Orlando tem histórias até com Aldous Huxley,
de minhas leituras na adolescência, e com o rei Leopoldo III, da
Bélgica. Uma manhã, Sua Majestade estava nu tomando banho
nas águas cristalinas de um rio amazônico, quando Orlando se
aproximou:
"Bom dia, seu rei!"

Duas histórias policiais

No início de fevereiro de 1983, o assunto nacional era a


identificação de um corpo que dera na praia da Macumba, no Rio,
como o de Alexandre von Baumgarten — o mesmo que usava o
nome do chefe do SNI para vender aos ministérios publicidade do
governo. Ele tinha dois tiros na cabeça e um no abdome. Só que
era uma história complicada. O corpo fora identificado
inicialmente como o de um marginal. Mas, no dia 25 de outubro, a
filha Patrícia teria assinado um laudo de reconhecimento de
Baumgarten sem ver o corpo do pai. O restante da família preferiu
acreditar na hipótese de afogamento e ninguém pediu qualquer
investigação, até que o fato veio à tona em fins de janeiro, junto
com a divulgação de um dossiê do desaparecido.
O dossiê, datado de 28 de janeiro de 1981, começava
dizendo:
Nesta data, é certo que minha extinção física já foi decidida
pelo Serviço Nacional de Informações. A minha única dúvida é se
essa decisão foi tomada em nível de ministro-chefe do SNI, general
Octávio Aguiar de Medeiros, ou se ficou no nível do chefe da
Agência Central de Informações, general Newton de Oliveira e Cruz.
Mais adiante, o dossiê atribuído a Alexandre von
Baumgarten explica:

No dia 19, realizou-se uma reunião no gabinete do general


Newton Cruz, na qual se decidiu pela minha eliminação física de
forma definitiva.

Fui conversar com o general Newton Cruz sobre o caso e ele


fez os seguintes raciocínios:
• Se foi realmente determinada a "eliminação física" de
Baumgarten é porque ele seria repositório de graves segredos,
capazes de incriminar fatalmente as pessoas que decidiram a sua
morte;
• Se isso é verdade, é difícil entender por que a decisão
demorou tanto para ser executada — de 19 de janeiro de 1981 a
outubro de 1982;
• No dia da reunião decisiva, 19 de janeiro de 1981, o
general Newton Cruz tem provas de que não estava em Brasília; se
estivesse, seria estranho que ele convocasse seu superior para
uma reunião no gabinete do subordinado (a Agência Central); se
houve a reunião entre os dois, é fantástico que Baumgarten
tomasse conhecimento do que conversaram, já que decidir a morte
de alguém por certo seria algo envolvido por cuidados
extraordinários de sigilo;
• Se Baumgarten tinha essa informação desde, no mínimo,
28 de janeiro de 1981, por que não procurou a polícia ou não a
denunciou à imprensa, abortando assim o plano de sua morte?;
• Na madrugada chuvosa de 13 de outubro, Baumgarten e
sua mulher Jeanette Yvonne Hansen insistiram em sair para
pescar. O fotógrafo Heinz Prellwitz deixou na secretária eletrônica
de Baumgarten o recado de que desistiria de acompanhá-los por
causa do mau tempo. Por que ele teria saído mesmo com mau
tempo?;
• Dos três que estavam na traineira Mirimi — Baumgarten,
Jeanette e o barqueiro Manoel Augusto Valente Pires —, apenas o
corpo de Baumgarten deu na praia. Onde estariam os outros dois
corpos? Por que não foram levados pelas mesmas correntes
marítimas que levaram o corpo de Baumgarten?;
• O corpo estava todo cortado, como se fosse para não
flutuar ou não ser identificado. Quem fez os cortes teria tempo
para revistar os bolsos e tirar tudo que pudesse identificá-lo. Mas
no bolso, protegida por plástico, havia uma carteira do
Departamento de Investigações Especiais, identificando Alexandre
von Baumgarten. Por que esse paradoxo?;
• O dossiê contém alguns fatos negados: o advogado José
Oswaldo Corrêa diz que nunca houve uma certa reunião lá citada;
o sócio de Baumgarten, Romeu Onaga, e o ex-diretor de O
Cruzeiro, Porto Sobrinho, também negam as partes do dossiê em
que foram envolvidos;
• Baumgarten, morto, deixa um inventário com um
apartamento no Rio, um em São Paulo e uma casa no Guarujá,
que ficam, livres de dívidas, para a família;
• Por outro lado, a Editora Von Baumgarten, segundo laudo
de auditores, levantado em 12 de fevereiro de 1980, deixa um
elevado passivo líquido;
• O dossiê, segundo Baumgarten, teria onze cópias,
inclusive para o general Medeiros, que alega não ter recebido.
Assim, pelo menos dez pessoas teriam tido conhecimento imediato
do dossiê, ficando com a porta aberta para eliminar alguém que já
havia acusado o SNI pelo homicídio — essa hipótese foi incluída
pelo general Newton Cruz como homenagem a Agatha Christie.
No dia 14 de janeiro, Baumgarten escreveu ao general
Medeiros pedindo ajuda financeira do governo, sob a alegação de
que estava à beira da falência. O pedido não foi atendido. Duas
semanas depois, Baumgarten escrevia a história de sua morte, no
dossiê.
A conclusão a que levava o raciocínio do general seria a de
duvidar da morte de Baumgarten e de sua mulher. Segundo o
general, Baumgarten poderia ter planejado o seu desaparecimento
à custa do barqueiro da Mirimi — de três pessoas só apareceu um
corpo — e fugido com ela para o exterior, livrando-se de todas as
dívidas.
Depois daquela conversa, o general Newton Cruz virou
comandante militar do Planalto e executor das medidas de
emergência. Em 1985, no primeiro ano da Nova República, entrou
política no caso, que foi desarquivado com o testemunho do
bailarino Polua e as investigações do delegado Ivan Vasques. E
Newton Cruz se tornou o principal acusado de um caso policial até
hoje sem solução.
O outro caso policial sem solução até hoje aconteceu dentro
do próprio gabinete do presidente Figueiredo. O palácio estava em
reformas e o gabinete presidencial fora demolido. Onde havia um
salão de despachos, uma sala de espera e uma sala dos
ajudantes-de-ordens, foi feito um grande gabinete, dividido em
dois: um escritório para despachos cotidianos e um salão para
recepção de grupos ou para solenidades, no canto nordeste do
palácio, no terceiro andar. Entre as duas salas, foi construída
uma divisória de madeira, na qual alguém introduziu um espião
eletrônico. Só ali poderia ter sido colocado, porque as paredes que
dão para o exterior são puro vidro transparente. Na divisória, o
aparelho ficaria perto da mesa presidencial.
Minhas fontes na segurança presidencial me contaram que
o espião deve ter entrado — se entrou — como técnico em
eletricidade da empreiteira. Ele pôs o aparelho sobre a peça de
madeira em que foi fixado o lambri. Mas a peça desabou e
denunciou o aparelho.
Tratava-se de um transmissor de um milésimo de watt, que
emite sinais até apenas a 200 metros de distância. Era dotado de
um microfone sensível e de seis pilhas e ligado a distância. O sinal
emitido era fraco e não conseguia ultrapassar o piso de um andar
para outro nem paredes de tijolos. Mas poderia refletir-se até sair
pela janela de vidro. Para compensar a fraca potência do
transmissor, teria que haver um potente receptor a menos de 200
metros do gabinete presidencial: um carro parado, algo no
subterrâneo da praça dos Três Poderes ou no próprio palácio.
O presidente me disse que o espião se enganou de gabinete.
Se quisesse ganhar dinheiro, deveria instalar a escuta no andar de
cima, no gabinete do Delfim, para saber das desvalorizações
cambiais e dos aumentos da gasolina; se quisesse saber das
armas brasileiras, teria que se instalar em São Paulo, na Avibrás
ou na Engesa; se quisesse saber de tecnologia, deveria espionar o
CTA.
''E se quisesse saber sobre sucessão presidencial, deveria
espionar os partidos, porque eu não vou me meter nisso", disse o
presidente, que parece ter-se divertido com a espionagem.
Mais guerra: Namíbia e Angola

No dia 21 de janeiro, uma sexta-feira, às dez e meia da


manhã, eu andava de moto perto de minha casa, no Setor
Mansões do Lago, quando um cachorro entrou na roda dianteira.
Eu fui para o chão, na pista de asfalto rudimentar. Estava de
botas e calça de brim, de modo que nada aconteceu da cintura
para baixo. Mas, da cintura para cima, foi um desastre: eu estava
sem capacete, sem camisa e sem luvas.
Quando eu estava na Presidência, também havia caído
naquele asfalto. Amarrara na bicicleta meu cão pastor e tentava
fazê-lo puxar-me. Passou um gato e Sherlock me arrastou no
asfalto. Foi como passar um ralador sujo no peito e barriga. No
chuveiro, para tirar a sujeira, eu urrava de dor. Dois anos depois,
terminada a cobertura das Malvinas, eu varria o telhado do galpão
de minha casa, quando as telhas de amianto se abriram embaixo
de mim, e eu cai junto a um velho pára-raios, guardado de ponta
para cima. Escapei de ser empalado, mas as telhas quebradas
abriram dezenas de riscos no meu tórax.
Agora a coisa era mais séria. Além das mãos e do peito, eu
havia batido com a boca numa pedra. O lábio, entre o nariz e a
boca, abrira-se numa fenda, e eu sentia um dente incisivo
superior sobre a língua.
"Logo agora, que eu vou começar na televisão!", pensei,
desesperado. E ali mesmo enfiei o dente de novo na cavidade.
Caminhei uns 300 metros arrastando a moto, passei pela vizinha
Zéti e pedi que ligasse para o meu dentista, César Schneider, e fui
para o espelho, ajeitar melhor o dente no buraco. Depois fiquei
tonto, permaneci uns minutos deitado no chão do banheiro,
enquanto sangrava, e, quando me senti melhor, fui dirigindo ao
Conjunto Nacional, onde o dr. Schneider me esperava. As pessoas
ficaram assustadas, ao ver aquele maluco sangrando, com a
camisa empapada.
Schneider fez uma radiografia e me disse que um cirurgião
de boca, o dr. Zé Maria Campos, já me esperava no Setor Hospital
Sul, no extremo sul da cidade. Ele costurou o lábio superior sem
precisar raspar o bigode, ajeitou as gengivas e amarrou com fio de
aço o dente que eu havia reimplantado.
E foi assim, com a boca cheia de arame, que eu parti, três
semanas depois, para cobrir mais uma guerra, no sul de Angola e
norte da Namíbia.
Atravessei o Atlântico Sul num tranqüilo vôo da Varig e
desembarquei em Johanesburgo. Fiquei admirado: era como se
estivesse no Canadá — uma cidade limpíssima, ultramoderna.
Teria que ficar por lá uns três dias, até que conseguisse apoio
para ir ao front. Então aproveitei para realizar um velho sonho de
infância: fazer um safári. Eu lia as histórias de Stanley e
Livingstone e sonhava ser um explorador do Congo Belga — na
minha infância era Congo Belga, capital Léopoldville.
Tomei um avião para o Kruger Park, uma das maiores
reservas de vida selvagem do mundo, no nordeste da África do
Sul, fazendo fronteira com Moçambique. O avião era um velho DC-
3 do início dos anos 40. Mas parecia novinho em folha. Lá de cima
eu via as usinas nucleares e as minas de ouro e lembrava que era
o segundo país desenvolvido em que eu voava em velhos aviões a
hélice. E este ainda era a pistão! Passei pelo lugar onde, anos
depois, cairia o avião do líder moçambicano Samora Machel.
Descemos no aeroporto de Phalaborwa. Eu e outros turistas que
íamos ao Kruger Park alugamos um jipe com guia e lá fomos nós.
O guia estava vestido como eu vira nos velhos filmes. E
sabia tudo, enxergava tudo. Descobriu uma pantera sobre uma
árvore, que eu levei quase dez minutos procurando com a
teleobjetiva. Quando vimos a primeira manada de elefantes,
explicou-nos que, quando eles se tornam em grande número,
pondo em perigo as espécies vegetais que destroem, o governo dá
licença para caçá-los, cobrando uma taxa por cabeça abatida, que
serve para sustentar o parque. Também passam à nossa frente
manadas de zebras, girafas, antílopes. O guia nos explica que há
meses não chove. Por isso, há cata-ventos puxando água
subterrânea para bebedouros de cimento espalhados ao longo do
parque, que é maior que o Estado do Espírito Santo.
Bandos de babuínos fazem algazarra nas árvores, enquanto
jacarés e peixes se debatem no lodaçal de um lago quase seco.
Passamos o dia percorrendo aquele paraíso. Á noite, fomos dormir
num hotel a 20 quilômetros da fronteira com Moçambique — o
Satara Camp — formado por cabanas, dentro de uma paliçada à
prova de elefantes. Passei a noite acordando com o rugido de
leões. No outro dia, descobri que, se não estão famintos nem têm
crias, os leões deixam que a gente se aproxime, para fotografar.
De volta a Johanesburgo, fui conhecer Soweto, o famoso
gueto negro. Tive uma surpresa. Soweto tem melhor aparência que
a maioria das cidades brasileiras. Ruas asfaltadas, casas de
alvenaria, todas com jardins floridos, grande parte das pessoas
com automóveis, e um dos maiores campos de golfe do mundo, de
onde saem campeões da África do Sul. Só quando descobri o
bairro chique de Pretória é que entendi por que chamam Soweto
de gueto. E que o bairro chique de Pretória faz parecerem guetos
alguns bairros chiques de grandes cidades brasileiras. E tudo uma
questão de escala. Nos hotéis em que fiquei, a maior parte dos
hóspedes era negra e a arrumadeira poderia ser branca. Os negros
andavam com seus automóveis e não vi gente descalça. Ao
contrário, grande parte andava de terno e gravata. Aí compreendi
que a comparação deles é feita com a Europa. Se fosse comparar
com o Terceiro Mundo, seria humilhante para nós.
Deixei para trás os jacarandás que povoam Pretória e voei
para a seca Windhoek, capital da Namíbia. Lá é tão seco que os
gramados dos canteiros da rua são feitos com cimento pintado de
verde. Fotografei negros e loiras andando juntos na rua principal,
para mostrar os slides aos brasileiros que falam de um racismo
que tem mais no Brasil que na África do Sul. A noite, fui jantar
com a presidenta da Federação das Empresárias da Namíbia, sra.
Schoeman. Aliás, um jantar marcado para as sete da noite.
Quando entrei no jardim da casa dela, vi um antílope
pastando e alguns esquilos correndo. Num canto, um babuíno me
espreitava. Após cumprimentar a sra. Schoeman, elogiei os
animais dela.
"Meus animais? Mas como eu posso ter animais?"
Eu havia dito uma coisa absurda. ''Animal não tem dono,
não pode ser propriedade de ninguém. E contra a natureza.'' Eu
andava precisando aprender muito num país que nem
independente era.
Naquela noite, no hotel Kalahari Sands, recebi um
misterioso português que se dizia representante do governo da
Jam-ba, de Jonas Savimbi. Queria acertar minha entrada no
território, dar-me uma espécie de salvo-conduto. No dia seguinte,
consegui um piloto para levar-me até a fronteira.
Era um escocês bem-humorado, que foi logo me avisando
que a licença de vôo dele estava vencida. De qualquer forma,
decolamos, de monomotor, para uma viagem de duas horas e
meia. Lá de cima eu via fazendas, kraals de tribos herero,
manadas de búfalos e elefantes, grupos de babuínos e animais
reunidos onde quer que houvesse água. Quando nos aproximamos
da pista percebi que havia entrado em zona de guerra. O avião
recebeu instruções de voar a 3 mil metros sobre a pista e descer
em parafuso, por causa dos foguetes escondidos no cerrado — um
cerrado como no Centro-Oeste brasileiro. Meu estômago
embrulhado ainda pôde ver, na cabeceira da pista, mangrulhos
(torres de madeira) com metralhadoras antiaéreas, protegidas por
sacos de areia.
Aliás, todas as casas estavam protegidas com sacos de
areia, em Rundu. E a maior parte delas já tinha construído abrigo
subterrâneo. Mas é no hospital que encontro a guerra.
Ambulâncias antiminas, blindadas com aço, trazem feridos. No
corredor, encontro três crianças com pedaços de carne
arrancados. Numa cama está outra menina, de dez anos, Emilie
Daniel. Passou quatro horas na cirurgia, e se recusa a comer,
porque perdeu os pais. Todos são vítimas de um ataque da Swapo,
vindo de Angola, sobre Nkurenkuru, onde há uma aldeia de
bushman (gente da savana) acusada de colaborar com a polícia na
Namíbia. Todos vieram de helicóptero graças a Sindemba.
Sindemba tem vinte anos e está convalescendo na cama.
Através do intérprete, me conta que a Swapo atacou com armas
anti-tanque, queimando tudo na aldeia. Ele viu que haviam
deixado muitos feridos para trás, e correu para Rundu, em busca
de socorro.
O médico me conta que ele correu 55 quilômetros com uma
bala de fuzil 7,62 encravada no osso, logo abaixo do joelho. Eu
tinha na minha frente um herói maior que o grego da Maratona.
No dia seguinte, vou conhecer uma missão de padres
alemães a oeste, às margens do rio Kavango. Ali já é território
caprivi — batizado a partir do nome de um colonizador alemão.
Na missão, fico maravilhado. São centenas de crianças
lindas, alegres, disciplinadas. Todas órfãs. Converso com os
padres. Do outro lado do rio está Angola. A guerra levou os pais
das crianças. Fico com uma vontade imensa de ficar ali. De
ajudar. Agora entendo os missionários.
No terceiro dia, obtenho licença para cruzar o rio, por
minha conta e risco. Antes, passo num batalhão kavango, e me
mostram as armas apreendidas: velhos conhecidos do Líbano —
fuzis Kalashnikov de vários tipos e procedência, foguetes Katiusha
e uma infinidade de minas. As minas — antipessoal e anticarro —
são as armas mais usadas nessa guerra imunda, em que as
principais vítimas são as crianças. Há fuzis Kalashnikov com
tambor redondo e com pente; com pente de metal e de plástico;
com coronha de madeira ou de plástico, conforme venham da
China ou da União Soviética, ou da Tchecoslováquia ou da
Alemanha Oriental.
Do outro lado do rio estão 40 mil cubanos, 2.500 soviéticos,
ajudando o governo de Luanda a combater a Unita, que domina
uma terça parte do território angolano. E para lá que vou.
Da margem do rio, olho pelo binóculo e vejo uma cidade
fantasma. E Calai. Da cidade, só as paredes ficaram em pé. Há
meses, a cidade fora palco de lutas entre a Unita e o MPLA, de
Luanda. Quando o MPLA se retirou, coalhou o lugar com minas
soviéticas. Na semana anterior, uma mulher fora pescar na
margem norte do rio, ao lado de Calai, e pisou numa mina. Um
helicóptero pairando no ar foi buscar os seus restos.
Pego um bote e decido pôr meus pés em Angola. Aqui e ali
vejo garças e crocodilos, nas águas limpas do rio Kavango.
Lembro-me de uma frase do guia do Kruger Park: "Crocodilos e
hipopótamos mataram mais gente na África que todos os felinos
juntos". Mas o cheiro bom da água me invade as narinas e sinto
distantes os perigos.
Um grupo de soldados da Unita, do outro lado do rio, me
acena e me faz voltar à realidade. Aproximo-me, para conversar.
Pelo que ele conta, estão ganhando a guerra. Fala-me de centenas
de tanques soviéticos, que tomaram dos cubanos. Jactam-se de
ter derrubado vários helicópteros Antonov-24 e 26. Contam que já
derrubaram até MIG-21, com mísseis que ganharam dos
americanos, e dizem que o MPLA "entregou" algumas dezenas de
canhões. Um oficial tira do bolso um mapa e me mostra a região
que dominam. "Eles gastaram 450 milhões de dólares para
recuperar o caminho de ferro de Benguela, mas o comboio andou
50 quilômetros e parou. Isso que estava coberto de cubanos, com
metralhadoras soviéticas."
O oficial me conta que Jonas Savimbi vai vencer porque é
uma força étnica, nacionalista. "Luanda não entende as tribos.
Mandar papel higiênico e sardinha em lata como doação é dizer
que somos bundas-sujas comedores de peixe-podre."
Os soldados riem, enquanto me despeço. A noite vai
chegando e penso nos crocodilos e hipopótamos.
Quando chego à outra margem, o sol já sumiu e o céu se
tinge de vermelho. Vou para o hotel seguindo o cheiro do
churrasco que estão preparando numa grelha perto de um imenso
baobá — como o de O Pequeno Príncipe. O pôr-do-sol do planalto
Central, no Brasil, é um dos mais lindos do mundo. Mas o pôr-do-
sol na África é mais bonito ainda. Fico ali, embevecido, de novo
com aquela vontade de ficar. E não paro de fotografar.
Em torno do churrasco, vejo o vermelho do céu desaparecer
e chegar a noite profunda, como só na África. Dormi assustado
aquela noite, imaginando comandos cruzando o rio, para destruir
o nosso hotelzinho.
De manhã bem cedo, uma camioneta Datsun nos leva de
volta à pista. Caminho entre formigas gigantes e levo um susto,
quando percebo que um vulto me observa, escondido atrás de um
arbusto. Aguço o olhar. E apenas um babuíno curioso. Sob a
vigilância das metralhadoras nas torres, decolamos para outro
ponto da fronteira. Vamos para Oshakati, no território ovambo, a
uma hora e meia de vôo.
Meu piloto escocês ainda está com sono. Diz que bebeu
muita cerveja e quer tirar uma soneca. Pergunta-me se entendo de
pilotagem. Digo para ele que já li tudo sobre pilotagem, mas nunca
pilotei. Ele fica feliz e me entrega o comando. E dorme.
Vou mantendo a rota, mas me atrapalho com o vento que
vem do sudoeste. Divirto-me desviando das nuvens, quando me
sinto senhor do avião. Meia hora depois ele acorda e faz uma
checagem na rota. Leva um susto. Estamos sobre território
angolano, com mísseis SAM-3 apontados para a gente!
Ele entrou imediatamente numa curva e botou a proa para
o sul. Ele parecia muito assustado. Eu, que não conhecia o perigo,
estava achando divertido.
Novamente descemos em parafuso. Agora fiquei pior,
porque não tirava os olhos da cidade, que ia girando, lá embaixo.
Logo descubro as marcas da guerra: há crateras por toda a parte,
e, em cada esquina, trincheiras com soldados sul-africanos. No
território kavango, os próprios kavango eram os soldados. Aqui,
parece que o governo não confia no povo ovambo, que deu origem
à Swapo.
Na praça principal, as crianças brincam com um canhão
antiaéreo de 12,7 milímetros, soviético, recém-capturado. Um
tenente sul-africano me explica que queriam deixar ali na praça
um tanque T-34 soviético, mas as autoridades não permitiram.
Pergunto sobre armas e ele elogia o Kalashnikov PPSH, o que tem
tambor circular, para 72 cartuchos. ''É tão bom que foi usado nas
duas guerras mundiais." E conta que a mina preferida da Swapo é
a ''viúva negra'', que atinge as pernas e a genitália.
Visito uma escola para crianças mutiladas e descubro os
estragos da "viúva negra" e suas irmãs. Konjeni tem onze anos e
mal consegue me ver. Ele perdeu as duas mãos e parte da visão ao
encontrar uma granada. Yalde tem dez anos e sorri. Não consigo
descobrir de onde tira o sorriso. Seu rosto está terrivelmente
mutilado. Ele perdeu os dois olhos e a perna esquerda na explosão
de uma mina, que matou seus pais e irmãos. A freira me informa
que há dois dias lhe trouxeram um bebê — o único sobrevivente
de uma família de cinco, que estava numa camioneta atingida por
uma mina, em Okalongo.
Passo a noite de novo maldormida. No hotel, olho o imenso
janelão de vidro de meu quarto e lembro o que me dissera o
tenente, na praça: "Eles enchem a cara de uísque, e depois
atacam, de 8 quilômetros de distância, com foguetes soviéticos
que atiram do ombro. E um foguete muito potente, de 122
milímetros, que faz muitos estragos".
No dia seguinte, continuei viagem, afastando-me da zona de
guerra. No mesmo avião, decolei para Swakopmund. Lá do alto, â
esquerda, o parque Etosha, com manadas de girafas, zebras e
antílopes. A direita, a Costa do Esqueleto, no Atlântico, coalhada
de focas. Um ano depois, o grande herói brasileiro, Amyr Klink,
passaria por ali o momento mais difícil de sua travessia a remo do
oceano Atlântico.
Em Swakopmund, descemos num deserto. O deserto da
Namíbia, o mais antigo do planeta, vai até o mar. O piloto amarra
o avião, para que o vento, carregado de areia, não o leve. A cidade
foi colonizada pelos alemães, expulsos na Segunda Guerra
Mundial pelos sul-africanos, que então receberam um mandato da
Liga das Nações para administrar a Namíbia, ex-colônia alemã.
Vejo, na praça principal, um monumento aos soldados alemães
que lutaram nas duas guerras. A100 metros do monumento está o
hotel Eggers — de algum parente meu, pelo lado materno. Pela
primeira vez vejo, num pequeno restaurante, o aviso: NÃO
ATENDEMOS NEGROS. O piloto escocês me diz que o restaurante
atendido pelo proprietário pode fazer isso. Quase todos falam
alemão.
No dia seguinte, vou fazer uma excursão ao deserto da
Namíbia. Estou ansioso. Vou entrar num deserto pela primeira
vez. Durmo sob o ruído do Atlântico bravio.
Vamos de Land Rover, o motorista e eu. Ele carrega água e
provisões. Uns 10 quilômetros depois das últimas casas, vejo um
forte no deserto, com a bandeira imperial alemã tremulando no
mastro!
As primeiras paisagens do deserto são cidades
abandonadas, construídas em torno de antigas minas de
diamantes. Paramos num oásis, para descansar. O mais
impressionante de tudo é o silêncio.
No meio do deserto, há uma planta, a welwitschia, que tem
mais de 2 mil anos. Ela se alimenta da raríssima umidade do ar.
Não há cerca, não há placa, nada a protege, a não ser a civilização
na cabeça das pessoas. Ninguém tira uma lasquinha para levar de
lembrança um pedaço de um dos seres vivos mais idosos do
mundo.
Alguém me disse certa vez que miragens são apenas
miragens. Vi um imenso lago azul, no deserto, com as águas
brilhando ao sol. E fotografei. Depois, corri para dentro dele e era
só areia. Mas quando revelei meus slides, o lago estava lá, bem
real. E o tenho na parede de minha casa, sempre que sinto
saudade daquele lago.
Nunca imaginei que um deserto pudesse ter tanta beleza, e
me veio de novo a vontade de ficar na África. Seria esse o sortilégio
que prendeu por lá tanta gente?
No dia seguinte, vamos a Walvis Bay, um antigo enclave
britânico, hoje sul-africano. As grandes lagunas da baía produzem
sal em abundância e estão coalhadas de flamingos e pelicanos. Os
locais me perguntam se é verdade que os carros brasileiros estão
rodando com álcool de cana. Respondo que sim e isso parece
deixá-los fascinados. Mas eu estou fascinado com os milhares de
flamingos que passam voando, como nuvens cor-de-rosa.
Dunas gigantescas escondem as minas de diamantes e
minerais estratégicos que fazem a riqueza daquele deserto.
No dia seguinte, quarta-feira, 2 de março de 1983, volto
para Windhoek e me despeço de meu companheiro piloto. Ele me
promete, sorrindo, que na próxima viagem estará com a carta de
piloto revalidada.
O Mercedes que me leva ao aeroporto de Windhoek vai a
160 quilômetros por hora numa excelente estrada, quando freia de
repente. Vejo que há, na estrada, uma nuvem de besouros. Era
para não matá-los.
O Boeing 727 que me levava para a Cidade do Cabo estava
cheio de soldados, com os fuzis entre as pernas. Sobre o deserto
de Kalahari, o avião entrou numa turbulência terrível, e as armas
batiam forte com a coronha no chão. Olhei sem graça para o
soldado a meu lado e perguntei se tinham revisado bem se não
havia cartucho na câmara. Ele sorriu e me respondeu que não.
A Cidade do Cabo é belíssima, limpa, ultramoderna. A
arquitetura no centro da cidade é uma primorosa obra de arte.
Fiquei num hotel cinco estrelas, onde na maioria os hóspedes são
negros, aparentando serem homens de negócios. Eu não estava
entendendo. Mais uma vez o que eu lera não conferia com a
realidade. Assim foi na Argentina, no Líbano e agora na África do
Sul.
Converso com lideranças negras e eles me explicam que o
apartheid é principalmente político. Que o apartheid econômico e
social já está bastante reduzido. E me contam duas piadas da
atualidade:
"Quando aboliram a separação nos ônibus, os brancos
continuaram sentando na frente e os negros atrás, por simples
hábito. Até que um motorista teve uma idéia para romper o
costume:
— Vamos imaginar que neste ônibus não existem brancos
nem negros. Todo mundo é verde!
Os passageiros estavam achando boa a idéia, quando o
motorista completou:
— Agora o verde-claro senta na frente e o verde-escuro
atrás!''
E outra:
''Sabe qual é o cúmulo da segregação? E pedir uísque Black
& White em copos separados".
Visito as praias e observo que as que eram reservadas aos
negros têm piscinas térmicas na retaguarda, para o caso de a
água do mar estar muito fria. Lá longe, vejo a ilha onde está preso
Nelson Mandela. Na praia, descubro mais uma piada da
atualidade:
''Uma velhinha, que morava no último andar de um edifício
diante de uma praia de brancos, ficou surpresa quando os
primeiros negros começaram a freqüentar a praia. Um dia, ligou
para a polícia, denunciando que um negro, alto e viril, estava se
exibindo, nu, para ela.
A polícia atendeu ao chamado e, no apartamento dela,
perguntou pelo negro.
— Ele está lá embaixo, na praia — explicou a velha
senhora. O policial foi à janela e nada viu.
— Mas ele está atrás daquele muro. Se o senhor subir
nesta mesa, vai ver tudo! — disse a velhinha".
Por toda a cidade, vejo outdoors imensos anunciando um
produto chamado Mainstay. A foto é de negros e loiras, loiros e
negras em trajes de banho, juntos na praia. Fotografo, para
mostrar no Brasil, onde o preconceito de cor ainda não permitira
aquilo.
Num bairro de negros, as crianças saem da escola. Todas
uniformizadas com uniformes que, no Brasil, seriam de colégio
chique de freiras. Descubro que há mais negros na universidade
na África do Sul do que brancos no Brasil. Que os maiores
hospitais do mundo estão aqui.
Vou para o bairro de mulatos e fico estonteado com os
supermercados luxuosos. E descubro também que mulato pode
ser loiro e de olho azul, dependendo do formato do nariz e dos
lábios, em país de discriminação racial. Fico na dúvida sobre se a
situação do negro no Brasil nos permite criticar o apartheid sul-
africano.
No fim de semana, compro um bilhete de excursão de
ônibus, e começo pelo Parque Nacional do cabo da Boa Esperança.
Na estrada, o ônibus pára por causa de um grupo de babuínos
que atravessa a pista. O motorista avisa os estrangeiros, pelo alto-
falante, que é proibido dar comida aos animais. E para evitar que
eles peguem as nossas doenças, explica.
No cabo da Boa Esperança, ou cabo das Tormentas, o
ônibus pára, mas vou a pé até o finalzinho. Quero tocar na água.
O vento é insuportável. Agora sinto por que os navegadores do
século XV davam tanta fama ao cabo. Sento-me numa guarita
centenária e fico ali, vendo passar Vasco da Gama. Muito antes
dele também os fenícios teriam vencido aquela barreira. Ali de
perto, a Marinha da África do Sul monitora todas as passagens.
É um ponto vital no controle da rota comercial entre Ásia e
Europa, depois que o canal de Suez perdeu o valor. Isso me faz
entender muita coisa.
A viagem continua, agora pela costa sudeste da África. Uma
costa toda recortada, com praias de areia branca, entre a
montanha e o mar. As cidades balneárias seguem o modelo do
resto do país: jardins impecáveis, ruas limpíssimas, tudo
organizado. Uma senhora a meu lado conta que é fazendeira no
interior. E me diz que se os negros quiserem tomar suas terras,
como na Rodésia (hoje Zimbábue), ela morre defendendo suas
posses, porque é tão africana quanto os negros. Noto que o país é
um barril de pólvora. Todos são africanos e todos querem seus
direitos. Vai ser preciso usar muita sabedoria.

Aviões líbios

Volto ao Brasil na segunda-feira, 7 de março. No mês


seguinte, estoura o escândalo dos quatro aviões líbios apreendidos
no Brasil, carregados com armas. Procuro meu amigo, brigadeiro
Nelson Taveira, chefe-de-gabinete do ministro da Aeronáutica e
um dos cérebros mais brilhantes da FAB. Descubro que os três
Illyushin detidos em Manaus transportavam armas para os
sandinistas. E que um Hercules em pane no Recife transportava
armas para o M-19 colombiano.
Na Líbia, o coronel Khadafi jogou a culpa a um funcionário
subalterno, que rotulara as cargas como "ajuda médica" — e foi
com esse rótulo que a Líbia pedira autorização para entrar no
espaço aéreo brasileiro. O ministro das Relações Exteriores da
Nicarágua, padre Miguel d'Escoto, que dias antes havia saído nos
jornais da Líbia rezando numa mesquita ao lado do coronel
Khadafi, telegrafou ao Itamaraty, com a mesma devoção, pedindo
a liberação dos aviões para que a "ajuda médica" chegasse rápido
aos necessitados.
A carga para o M-19 era de 15 toneladas. Ao saber da
apreensão, os guerrilheiros fizeram ameaças telefônicas
prometendo atacar o aeroporto de Manaus se a carga não fosse
liberada no Recife. Ao saber da ameaça, meu amigo coronel Gélio
Fregapani levou seus homens do batalhão da Selva para as
proximidades do aeroporto, e ficou torcendo por um ataque do M-
19. Pelo que conheço do Frega, tenho certeza de que ele gostaria,
mesmo, de enfrentá-los sozinho.
O Brasil não transigiu em sua soberania, e os aviões
decolaram vazios. Ficaram duas lições: a importância do
promontório do Nordeste, no ''estreito" entre a África e a América;
e a necessidade de cobrir todo o território nacional com o sistema
Dacta — que acabou fazendo falta em 1989, para os que
morreram a bordo do desorientado Boeing da Varig, pilotado pelo
comandante Garcez.
No dia 16 de junho, eu iria receber minha primeira
condecoração brasileira, a medalha Mérito Santos Dumont,
entregue pelo ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos.
Eu lembrava que em 1980, na entrega da Ordem do Rio
Branco, no Itamaraty (eu ainda estava na Presidência da
República), o ministro Farhat me avisou: este ano, é o Kraemer; no
ano que vem eu dou para você. Aí entendi que, no serviço público,
há uma farta distribuição de medalhas, com uma cota para cada
ministério. E o ministro vai distribuindo para os seus protegidos.
Eu ganhava agora minha primeira medalha brasileira fora
do serviço público. Porque a Aeronáutica julgara que, no episódio
dos aviões líbios, eu defendera a soberania nacional. E iria receber
a Ordem do Rio Branco, em 1988.

TV Manchete

No dia 5 de junho de 1983, um domingo, entrou no ar a TV


Manchete. Eu não sabia nada de televisão. Nunca tive qualquer
treinamento e na segunda-feira já deveria entrar no ar. Pedi uma
entrevista ao ministro da Justiça e levei para lá duas equipes.
Pensei que, para fazer o contraplano, precisaria de uma segunda
câmera. Como eu era o diretor, ninguém reclamou. Só fiquei
sabendo da besteira, na trabalheira que deu para editar. Foi a
Célia Ladeira quem me ensinou como deveria fazer.
Naquela segunda-feira, o correio me entregou um pacote
mandado por minha irmã. Era uma foto de meu pai, diante de
uma câmera RCA da TV Tupi Difusora, canal 3, de São Paulo. A
foto fora feita quando meu pai apresentava um artista gaúcho,
Henrique Uebel — O Homem dos Sete Instrumentos — na
primeira estação de TV do Brasil, em agosto de 1954. O retrato de
meu pai ficou ali, diante de mim, empurrando-me naquele
primeiro dia.
A primeira viagem pela televisão foi ao Chile, em setembro.
Aquele setembro era o início da primavera no Chile. Santiago
estava coberta de flores e, enquanto eu ia falando com as
lideranças da oposição e do governo, descobria que se estava
abrindo o caminho para o país voltar à democracia. Fiquei uma
semana em Santiago e um fim de semana em Vina del Mar.
Lembro-me de que em Vina, seguindo um hábito, pedi num
restaurante os mariscos que não conhecia. Puseram-me um prato
de molusco, desses que só existem no litoral chileno, e eu os fui
comendo, embora sentisse que ainda estavam vivos. O garçom se
espantou, quando chegou com os molhos que matariam os bichos
antes de serem tragados.
Naquela primeira viagem, não tive o principal problema que
se tem, em TV, numa viagem ao exterior: gerar o material via
satélite. Gravei uma semana de fitas e depois as editei em Brasília.
Quando a série de reportagens entrou no ar, eu já não estava no
Chile.
Sempre foi um desespero ter o material pronto e não poder
gerar para botar no ar. No dia 24 de fevereiro de 1984, uma sexta-
feira, por volta de oito da noite, minha equipe e eu estávamos a
bordo de um avião da VASP no aeroporto Val-de-Cãns, em Belém,
prontos para decolar para Macapá. Iríamos ao Amapá cobrir uma
visita presidencial ao projeto Jari.
Eu estava na primeira poltrona e o co-piloto veio conversar.
Interrompeu a conversa porque o comandante o chamava. Depois,
nervoso, voltou para dizer-me no ouvido:
— A torre está avisando que vamos ser seqüestrados.
Levantei-me devagar e fui conversar com o cinegrafista
Humberto Figueiredo, como se nada estivesse acontecendo:
— Liga a câmera que vão seqüestrar o avião e temos muito
que filmar.
Em seguida, entraram vários agentes da Polícia Federal, e
foram se espalhando na fuselagem. O comandante pediu pelos
alto-falantes que os passageiros descessem. Na pista, havia uma
parafernália policial. Entramos num corredor de homens armados,
e cada passageiro foi revistado. Finalmente se encontrou o
seqüestrador: ele estava com dois revólveres carregados, na
cintura, e confessou que iria desviar o avião para Cuba, para fugir
de sua mãe. Além dos dois revólveres do seqüestrador, foram
apreendidos entre os passageiros outros seis revólveres. Se
houvesse o seqüestro, poderia acontecer um terrível tiroteio a
bordo.
A mãe do seqüestrador — um jovem de 24 anos — é que o
denunciara, avisando o aeroporto. Registramos tudo no video-
teipe, mas não tínhamos como botar no ar. Foi dado novo
embarque e voamos a Macapá. Em Macapá, liguei para a TV
Manchete, no Rio, e só pude botar no ar uma edição extra na voz
do locutor, e depois, na segunda edição do Jornal da Manchete, a
minha fala via telefone, contando o episódio.
Não havia como gerar de Macapá e no sábado ainda tinha
que cobrir a visita de Figueiredo ao projeto Jari. Estava
desesperado, com o material do seqüestro exclusivo nas mãos,
com a cena do seqüestrador sendo preso. No final da tarde
consegui chegar a Belém e fui a uma TV local para editar e gerar
para o Rio. Foi um sufoco. Mas entrou tudo no ar às oito e meia
da noite.
Em abril daquele ano, no Marrocos, o sufoco não foi menor.
Eu estava em Fez e tinha concluído um dia com belíssimas
imagens da recepção que o rei Hassam II havia prestado a
Figueiredo na porta de entrada das muralhas da cidade antiga.
Quando fui gerar o material trabalhosamente editado, me
informaram que havia um canal reservado, sim, mas de Rabat
para o Rio. De Fez, não haveria como gerar. O desespero só
terminou quando a TV Nacional me cedeu um tempo no seu canal
de Fez ao Rio, via Rabat.
Aliás, aquele não foi o único desespero em Fez. Ao chegar,
dois dias antes do presidente, aproveitei para bater pé pela cidade.
Levava minha bolsa com duas câmeras, teleobjetiva, grande-
angular, tripé — toda a parafernália de fotógrafo amador. E me
enfiei pelas ruelas escuras da cidade antiga. Quando percebi,
estava num lugar sem saída, cercado de altos muros e de gente
mal-encarada, todos com facas afiadíssimas nas mãos. Havia no
local um cheiro de carne podre e vários poços escuros, de onde
saía o cheiro. Parecia filme. Quando percebi que era um curtume
artesanal, em que preparavam peles de carneiros e bodes, achei
graça do meu medo, mas saí a toda, ao sentir que um dos homens
vinha em minha direção, de faca na mão, sem tirar os olhos de
minha bolsa.
Outro desespero de geração aconteceu no Japão, em maio
de 1984. Eu não tinha equipe própria. Éramos apenas a eficiente
Antonieta Goulart, que agia como produtora e editora, e eu.
Contratamos uma equipe local. Depois da trabalheira de edição,
estávamos prontos para gerar às quatro da tarde no Brasil — ou
seja, às quatro da manhã em Tóquio. E só conseguimos gerar às
sete da manhã em Tóquio, via Alemanha. Terminamos de gerar,
passamos num Kentucky Fried Chicken e voltamos ao trabalho.
Passamos assim de 22 a 24 de maio, sem dormir. No último dia,
quando a programação terminou e eu pensei que iria finalmente
dormir, o presidente me convidou para um jantar informal, no
restaurante Anton, de seu amigo Antônio Inoki. Antônio Inoki
morou no Brasil em Leme (SP) e Marília, foi campeão de luta livre,
lutou com Cassius Clay, elegeu-se senador no Japão e, na visita
de Collor a Tóquio, convidou-o para lutarem caratê.
Outro japonês, que apareceu de surpresa na visita de
Figueiredo, foi Paulo Nishihara, nascido 46 anos antes na Vila
Maria-na, em São Paulo. Ele apareceu no aeroporto de Haneda e
se apresentou para mim, dizendo que mentira à segurança que
era meu secretário. Há dezenove anos vivia em Osaka, como
secretário do patriarca supremo da Perfect Liberty. Saiu em todos
os jornais brasileiros, cumprimentando Figueiredo na descida do
avião, e ficou me ajudando na cobertura. Anos depois, encontrei-o
no Brasil, trabalhando para a Aji-no-moto.
No dia em que Figueiredo iria chegar, acordei com um
tremor e barulhos em meu quarto, no hotel New Otani. A cama
tremia, o quarto tremia, tudo estalava, e o barulho era o mesmo
que morar sobre uma passagem de metrô. Anotei a hora: quatro e
vinte da manhã. Contei o tempo do tremor: mais de trinta
segundos. Pela manhã, liguei para meu amigo Angel Esteves, do
escritório japonês da Manchete, e pedi que ele se informasse na
Sismologia sobre um terremoto àquela hora. Ele confirmou. Era
um terremoto pequeno, de 3,5 pontos da escala Richter.
Quando Figueiredo chegou ao aeroporto, esperei que
tocasse o pé na pista e, com ele atrás de mim, comecei a gravar:
"Quatro horas antes de o presidente Figueiredo pisar o solo
japonês, um terremoto de 3,5 pontos na escala Richter atingiu
Tóquio..." — e fui em frente.
No dia seguinte, os colegas me cobravam as reclamações de
suas chefias sobre o terremoto que não noticiaram. E eu
respondia com ironia: "Meu caro, um terremoto não é notícia que
eu possa sonegar de você".
No dia 27 de maio, domingo, fomos para Pequim, esperar
Figueiredo.
Para quem gosta de cinza e poluição, Pequim é ótima.
Viajar de Tóquio para Pequim é dar um salto entre o Primeiro e o
Terceiro Mundo. A praça da Paz Celestial impressiona pela
grandiosidade dos edifícios em torno. O que mais me
impressionou ali foi imaginar que os aviões de Chiang Kai-shek,
com a capital cercada pelos exércitos vermelhos de Mao, usavam a
praça como aeroporto. Esse é o tamanho da praça. Diante dela, a
Cidade Proibida, antiga morada dos imperadores, é
impressionante. Acompanhando Figueiredo, consegui conhecer
aposentos vedados ao turista comum.
Fora de Pequim, visitei os mausoléus da dinastia Ming,
construídos quase cem anos antes da descoberta do Brasil, e a
Grande Muralha, com 6 mil quilômetros e 2 mil anos. Também me
impressionou o palácio descomunal onde Figueiredo foi
homenageado com um banquete, o Grande Palácio do Povo.
As bicicletas, em Pequim, são um perigo. Quando abre o
sinal, na grande avenida central — que faz parecer o eixo
rodoviário de Brasília uma ruela —, sai da frente! São milhares
delas, que avançam como um exército barulhento, tocando
campainha, transportando de tudo — só não vi piano, mas sofás
vi muitos. Bicicleta e Tai-chi-chuan. Ah, e óculos escuros
espelhados. Todos os guardas de trânsito de Pequim usavam
óculos espelhados em 1984. Cada vez que vejo alguém de óculos
espelhados no Brasil, mentalmente vejo um guarda de trânsito
pequinês.
Contratei uma equipe local de televisão. Três chineses, é
claro. E foi um desastre. Consegui aprender meia dúzia de
palavras — Brasil, sim, não, obrigado, não entendo e o polivalente
nihau, que serve para bom dia, boa tarde e boa noite.
Um dia, eles me deixaram na mão, e Figueiredo estava
dando uma entrevista. Peguei o único equipamento que trouxera
da TV Manchete, o microfone, e entrei na entrevista, com o fio no
bolso. No Brasil, todos me viram. Na Globo.
A edição das matérias eu havia contratado à TV estatal
chinesa. No final do primeiro dia, fui para lã, editar. No jornalismo
da televisão, se costuma editar primeiro a voz, para depois cobrir o
áudio com a imagem. O chinês designado para editar comigo não
concordou.
— Primeiro a imagem, depois você grava a voz vendo a
imagem.
Expliquei que faríamos diferente. Primeiro a voz, depois a
imagem.
— Impossível. Como você vai dizer antes de ver? Expliquei
a ele que no Brasil é primeiro a voz depois a
imagem.
— Nossa civilização tem 4 mil anos — argumentou o
chinês, em tom definitivo.
— E? E quantos anos de televisão?
Ele ficou irritado, foi tomar um chá, cuspiu as folhas e
apontou a cabine de locução.
— Você espera lá, quando eu mandar as imagens. Aí fala.
E foi assim que editei na China. Transmitindo o que via no
monitor à minha frente.
Todos me assustavam quanto ao uso de dinheiro
estrangeiro na China — o mais grave crime. Na hora de cobrar, ele
entrou no meu quarto no hotel Pequim (os quartos não têm
chave).
— São 2.500 dólares!
— Em dinheiro chinês, quanto dá? — perguntei, já pedindo
o recibo.
— Eu disse dólares — e me entregou um recibo em dólares,
com o timbre da TV estatal chinesa!
O encontro de Figueiredo com Deng Xiaoping teve mais ou
menos a mesma fluidez. Eu estava próximo e ouvi a conversa,
iniciada depois de Deng tomar um gole de chá e cuspir as folhas
num penico.
— O senhor passa bem? — perguntou Deng. E antes que
Figueiredo respondesse, olhou para o brasileiro com um sorriso
maroto: — Você é general-de-exército quatro-estrelas. Eu sou
soldado quatro-estrelas. E diferente.
Figueiredo percebeu a gozação e foi em frente:
— O general, quando perde o batalhão, é condenado. O
soldado do batalhão que perde, todo mundo tem pena dele.
Deng então engrossou:
— Lutei vinte anos na guerra.
— Quais são suas recordações? — acalmou Figueiredo.
— Naquela época, eu só pensava em revolução, por causa
da opressão imperialista. Não tivemos saída. Afinal, os
expulsamos para Taiwan. Mas a guerra principal foi nos últimos
três anos.
E começou a falar na modernização da China, e a
Segurança me retirou da conversa.
Da China, eu iria passar uns dias no Havaí, via Tóquio.
Paulo Nishihara e Angel Esteves me esperavam no aeroporto de
Narita com uma mala cheia de fitas de videoteipe que eu juntara
do lixo. No Japão, uma fita é usada uma só vez e jogada no lixo.
Depois da edição em Tóquio, eu ia para o lixo e recolhia as fitas,
como catador terceiro-mundista.
Vou ficar sexta e sábado em Honolulu. Quando o avião se
aproxima do aeroporto, identifico Pearl Harbor à minha esquerda.
Bato olho e revejo nuvens de "zeros" voando baixo entre as
montanhas Waianae e Koolau, para atacar a base de Hickam, da
Força Aérea, e torpedear e bombardear os navios da Marinha. Ali
no fundo devem estar o USS Utah e o USS Arizona, A paisagem à
minha esquerda torna real tudo o que tanto li sobre aquela manhã
de domingo, 7 de dezembro de 1941.
Mal deixei as malas no Princess Kaiulani Hotel, corri para o
museu de Pearl Harbor, e fiquei extasiado revendo imagens que já
tantas vezes havia visto. Depois fui para o USS Arizona Memorial,
no centro da baía, onde repousa o casco do navio.
Eu precisava aproveitar bem aqueles dois dias. Peguei uma
excursão pela ilha de Oahu. Conheci Paradise Park, o Sea Life
Park, o Blow Hole e subi o Diamond Head. Voltei ao hotel, vesti o
calção e fui nadar na praia de Waikiki. Uma loucura! Só fui dormir
depois de cair de cansaço, num jantar musical com músicas
havaianas. No outro dia, cedinho, saí a bater pé pela cidade, para
ver tudo.
No sábado à noite, tomei o avião para San Francisco. Fiquei
num hotel em plena ladeira da Powell Street, ouvindo os bondes e
com a visão da ponte San Francisco—Oakland no final da rua.
Quando estava fotografando um bonde, ele deu uma freada tão
grande que espalhou uma.cascata de faíscas pela rua. Parou na
minha frente. Comentei: ' 'Esse cara é louco!'' E levei um susto
quando o motorneiro me respondeu em português:
"Louco... e carioca!", e arrancou o bonde, saindo a toda.
Saí cedo a caminhar. Queria ver a ilha de Alcatraz e a ponte
Golden Gate. Foi o que vi, ao chegar ao Fishermen's Wharf. Depois
saí a passear pela tarde de domingo na pitoresca Union Street.
Dois sustos no quartel
Naquele ano de 1984, no dia 21 de fevereiro, eu iria fazer
uma reportagem especial sobre o aniversário da tomada de Monte
Castelo, usando filmes da campanha da FEB na Itália. Precisava
de ambiente para gravar a minha participação. Pedi a ajuda de
meu amigo coronel Gélio Fregapani e ele me emprestou um fuzil
Mauser — dos que foram usados no treinamento dos praci-nhas,
antes de embarcarem para a Itália. E fui gravar junto a um velho
canhão antiaéreo, que está preso numa base de cimento, perto do
quartel do 32? Grupo de Artilharia de Campanha, no Setor Militar
Urbano, em Brasília.
Eu estava iniciando a gravação, quando me vi cercado de
duas dezenas de nervosos soldados, com os dedos nos gatilhos de
seus fuzis FAL.
— Calma, gente, vamos tirar o dedo do gatilho, senão
dispara — recomendei.
Um sargento, muito nervoso, me perguntou o que eu estava
fazendo ali, armado. Aí me dei conta da realidade. Para mim, o
velho Mauser era uma peça de museu, não uma arma que
pusesse o quartel em perigo.
— Por favor, ligue para o coronel Roure, e diga para ele que
o Alexandre Garcia está armado com um fuzil Mauser, em frente
ao quartel dele.
Demorou uns minutos, e veio lá de dentro o oficial de dia,
um tenente. Fez continência, dizendo que estava tudo bem. Que o
coronel Roure dera ordem para dar o apoio que eu precisasse.
Dias depois, encontrei-me com meu amigo Roure, e rimos
muito do mal-entendido. O coronel Roure, durante a Constituinte,
foi eficientíssimo assessor parlamentar do Ministério do Exército.
Quanto à reportagem, com depoimentos de veteranos da
FEB, acabou por me valer a medalha Mascarenhas de Moraes,
conferida pela Associação dos Veteranos da FEB.
No mesmo ano, em 12 de outubro, saí para gravar a minha
parte numa reportagem sobre o aniversário da destituição do
ministro do Exército, general Sylvio Frotta. Fui gravar na frente do
quartel da Polícia do Exército, também no Setor Militar Urbano. Ia
começar, quando um grupo de dez PE's veio correndo, armado de
metralhadoras, e me cercou. Minha equipe ficou lívida. O cabo que
comandava o grupo me informava que eu estava preso, por gravar
em área militar. Eu ia começar a argumentar, quando ouvi uma
gritaria atrás de mim.
Era o general Newton Cruz, comandante militar do
Planalto, que jogava peteca na sua casa e vira o episódio. Vinha só
de tênis e calção gritando:
— Que bagunça é esta aí? Que negócio é esse, seu cabo? O
cabo se perfilou e explicou que eu não tinha licença para
ligar uma câmera em área militar, e que eu estava preso.
— Pois agora está solto e tem licença! E vocês vão voltar
correndo para o quartel ou vão todos pro xilindró! Acelerado!
O general Newton Cruz tinha essas explosões. Meses antes,
havíamos nos aproximado quando ele deu uns safanões no
jornalista Honório Dantas — hoje seu grande amigo. Eu tinha as
imagens do episódio, mas como ainda eram tempos duvidosos,
liguei para ele, para ouvir sua versão. Quando ele soube que
iríamos pôr tudo no ar, reagiu assim:
''Bota mesmo! É bom que todo o mundo saiba que não sou
maricas, de levar desaforo para casa!"
Depois que o jornal foi ao ar, convidou-me para ir a sua
casa, falar sobre o assunto. Meses depois, ele recebia o próprio
Honório Dantas, que lhe presenteava com uma imagem de Nossa
Senhora.
Certa vez, uma centena de agricultores sem-terra, vindos do
norte de Goiás, da região do Bico do Papagaio, estavam fazendo
uma manifestação diante do palácio do Planalto. A repórter
Martha Saíomon se preparava para fazer a cobertura, quando pedi
a ela:
"Procure um sem-terra típico, verdadeiro. Não um padre,
nem um ativista do PT ou da Pastoral da Terra. Procure um sem-
terra de verdade, e pergunte a ele se tivesse terra própria,
escriturada, o que faria se a terra dele fosse invadida por sem-
terras''.
No final do dia, vi o resultado gravado em videoteipe. Era
uma verdadeira parábola.
A repórter e o sem-terra verdadeiro estavam sentados num
banco de cimento da praça dos Três Poderes e ele respondeu
assim a pergunta:
"Nós tamos aqui sentado neste banco, né dona? A gente
pode senta aqui porque esse banco não é de ninguém. Mas se este
banco fosse meu, a senhora só sentava aqui se eu deixasse. E se a
senhora quisesse me toma o meu banco, eu não ia deixa, não,
senhora".
O encarregado das questões fundiárias no Brasil, na época,
era o general Danilo Venturini. Numa noite, no hotel Tambaú, em
João Pessoa, ele me revelou detalhes da missão que cumprira no
Suriname.
Aquele país estava em dificuldades, e o governo brasileiro
recebia do embaixador Luís Filipe Lampreia e do adido militar
Roberto Fontoura da Fonseca informações de que os cubanos
estavam entrando aos bandos. Preocupado com a vizinhança, o
presidente Figueiredo despachou o general Venturini para
conversar com o homem-forte, coronel Bouterse.
Venturini conta ter vivido em Paramaribo um verdadeiro
filme de espionagem. De um lado, um Bouterse desconfiado de
todos, inclusive dos próprios companheiros; de outro, partidários
dos cubanos querendo mandar de volta o emissário brasileiro. Ele
só conseguiu conversar a sós e protegido de microfones espiões
quando, enfim, ganhou a confiança de Bouterse e pôde dar
garantias de ajuda brasileira, desde que o futuro do Suriname
ficasse ligado ao continente sul-americano, não ao Caribe. Negócio
fechado, os cubanos foram expulsos do país dias depois. E o
Brasil evitou um enclave no continente.

A sucessão de Figueiredo

A sucessão de Figueiredo, na verdade, começou em julho de


1983, quando o presidente foi para Cleveland, ser operado.
Aureliano assumiu numa época em que Figueiredo, pela doença
coronariana, demonstrava desinteresse pelo trabalho na
Presidência. No escritório das cavalariças do Torto, ele tinha um
calendário de contagem regressiva para 15 de março de 1985. Na
mesa de trabalho, no Planalto, certa vez surpreendera um
ministro com quem despachava, ao estar absorto, olhando o Torto
através da janela.
— Algum problema, presidente? — perguntou o ministro,
ao notar que Figueiredo não ouvia os problemas do ministério.
— E um cavalo meu que está com um problema na pata.
Aureliano, ao contrário, mantinha a agenda cheia no
palácio. Chegava cedo e ficava até as onze da noite. Gente de
Figueiredo, no palácio, me dizia que Aureliano, à noite, ficava
tomando chá com torradas com sua mulher, dona Vivi, só para
manter lá fora o estandarte presidencial, sinal de que continuava
despachando.
Eu soube que, naquela época, Aureliano teria comentado,
na casa de um jornalista, que Figueiredo era um muro que ruía, e
que, por isso, não iria fazer qualquer crítica ao presidente. Um dos
presentes levou a fofoca fresquinha a Figueiredo.
Mas a gota d'água foi a ação de Aureliano ante um
manifesto de empresários. No dia 11 de agosto de 1983, os
principais empresários do país divulgaram um documento contra
a recessão e o desemprego. No dia 24 de agosto, eles foram ao
palácio, tendo à frente o deputado Herbert Levy. A respeito do
episódio, Figueiredo me disse o seguinte:
"Ele recebeu aqueles empresários, com um documento de
crítica ao meu governo, e não teve a elegância de esperar a minha
volta. Chamou o Delfim e mandou que ele se explicasse aos
empresários. O Golbery disse que eu não tinha disposição para
governar e ele (Aureliano) nada fez, enquanto eu convalescia. Na
volta, eu falei duro com ele. Disse tudo o que tinha que dizer".
Assim, quando Figueiredo reassumiu, no final de agosto de
1983, Aureliano já sabia que perdera a indicação de Figueiredo
para ser seu sucessor. De novo, Figueiredo me disse a respeito:
"O dr. Aureliano sempre foi pelas indiretas. Quando soube
que eu não o indicaria candidato, ele, que esperava ser o indicado,
começou a pregar diretas".
Dias depois, no 7 de Setembro, surgiu o primeiro impasse
do rompimento entre os dois. Teriam que ficar lado a lado no
palanque presidencial. Eu sabia que a briga iria render alguma
imagem para a televisão e mandei o cinegrafista Humberto
Figueiredo ficar de olho, com uma câmera instalada num tripé,
com teleobjetiva, diante dos dois, no palanque.
Foi um verdadeiro bale. Os dois evitaram conversar e
evitaram se olhar. As cabeças permaneceram paralelas o tempo
todo. Os dedos abotoaram e desabotoaram os paletós dezenas de
vezes. Rendeu uma edição fantástica, uma espécie de embrião da
"crônica" dominical que eu iria fazer mais tarde.
Figueiredo me contou assim aquele episódio:
"No 7 de Setembro, o Coutinho (coronel Coutinho, amigo de
Aureliano) veio me dar o recado: 'O dr. Aureliano não tem nada
pessoal contra o senhor. E prova disso é que vai estar ao seu lado,
no palanque, no 7 de Setembro'. Eu respondi: 'Pois diga ao dr.
Aureliano que não vá. Porque não vou dirigir palavra a ele. E só
não vou tratá-lo mal em respeito ao cargo de vice-presidente'. O
próprio Pires (general Walter Pires, ministro do Exército) me disse:
'Se você conversar com esse cara, não sou mais seu amigo' ".
Figueiredo também me contou por que Aureliano esperava
ser indicado por ele como sucessor:
"Na casa de meu filho, no Rio, eu me encontrei com
Armando Falcão. Ele me perguntou se o Aureliano seria um bom
candidato. Eu respondi que sim. Foi lá pelo final de 1982. Então,
sem autorização minha, o Armando Falcão contou a conversa para
o Aureliano. E o Aureliano cruzou os braços, esperando ser
indicado por mim para ser o meu sucessor. Depois, ficou zangado
quando soube que eu não indicaria ninguém".
Semanas depois daquele 7 de Setembro, Figueiredo e Geisel
almoçaram juntos, no palácio da Alvorada. Figueiredo me contou:
"No almoço que tivemos, no Alvorada, o Geisel quis me
aproximar do Aureliano. Alegou que eu estava levando a questão
para o terreno pessoal. E argumentou: 'Se não for o Aureliano, vai
acabar ganhando o candidato do partido cujo presidente (Ulysses)
me chamou de Idi-Amin branco'. Eu retruquei: 'Mas o senhor não
está levando a questão para o terreno pessoal?' E o Ulysses não
era seu amigo".
Quando ficou claro que Aureliano não teria o apoio de
Figueiredo, o ministro das Minas e Energia, César Cais, começou
a pregar uma emenda constitucional para permitir a reeleição de
Figueiredo. Figueiredo me contou a história:
"O César vive aprontando. Lá em Cleveland, ele veio propor
prorrogação, reeleição. Eu disse que não queria. Ele saiu e disse o
que quis".
Figueiredo também me contou uma parte da sucessão, que
aconteceu antes de ele ir para Cleveland:
"Lá no hotel Ca'd'Oro, antes de eu ir para Cleveland, reuni
todas as lideranças do PDS em São Paulo. Todo mundo, até o
Laudo Natel, o José Maria Marin, o Maluf. O dr. Leitão insistiu e
eu convidei o Paulo Egídio Martins. Estavam todos. Então, eu dei
a palavra e deixei que falassem. Cada um puxou para seu lado,
espinafrando os outros. Eu deixei que falassem. No final, eu disse:
'Se continuar assim, sem união, o partido vai chegar estraçalhado
na eleição e não vai fazer o presidente' ".
No dia 5 de outubro a sucessão mostrava sua primeira
conseqüência. Heitor Ferreira me chamou, no meio da tarde
daquela quarta-feira, e me informou que estava demitido. Por três
vezes tentaram demover Figueiredo de demitir Heitor. A primeira
foi Ludwig.
— Mas então eu vou ter que tirar o Leitão — respondeu
Figueiredo.
A segunda foi o general Medeiros.
— Mas é ele ou o Leitão — justificou o presidente. Por fim,
foi o assessor especial, coronel Gobatto.
— Então vã falar com o Leitão. Gobatto foi.
— Esta é uma decisão já tomada pelo presidente —
respondeu Leitão.
Heitor vinha dizendo que Maluf ganharia a convenção do
PDS. E Leitão não gostaria que Maluf ganhasse.
Fiz imagens exclusivas de Heitor limpando as gavetas,
depois de nove anos e meio como secretário particular do
presidente. Ele saiu e foi trabalhar por Maluf.
Eu visitava Golbery no seu gabinete no Banco Cidade pelo
menos uma vez por mês. E já havia percebido que o ex-ministro
estava com Maluf. Não por Maluf, mas para tirar Andreazza do
caminho. Não por antipatia por Andreazza. Golbery achava que
uma sucessão de Figueiredo para Andreazza continuaria sendo
uma passagem de comando.
Naquela época, ganhava as ruas a campanha pelas diretas
para presidente. E, naquele outubro, protestos e pressões sobre o
Congresso, no exame de um decreto de política salarial e outro
sobre a remuneração nas estatais, faziam o presidente baixar
estado de emergência em Brasília. O encarregado da execução foi
o general Newton Cruz.
Havia uma reunião na OAB e ele impediu a reunião com
tropas. Depois me contou:
"O João não me disse se as medidas de emergência teriam
exceção. Me disse apenas: 'Execute o que está escrito'. E aqui está
escrito que estão proibidas as reuniões. Não fui eu quem inventou
isso, não fui eu quem baixou o estado de emergência. Eu sou
apenas um general cumprindo ordens. O João faz e eu que me
dane''.
O ex-chefe do gabinete militar de Geisel, general Moraes
Rego, criticou a execução das medidas de emergência e foi preso.
Liguei para a casa dele, onde estava preso, e ele me disse apenas:
"Não é assim que se fazem essas coisas".
No final de novembro, formou-se a aliança PDS-PTB, dando
ao governo maioria no Congresso. A aliança não durou, porque
não foram realizados todos os pré-requisitos. Tenho a lista, feita
em 5 de agosto, dos "pré-requisitos": entregar ao PTB uma
diretoria da Companhia Siderúrgica Nacional, uma diretoria da
Cosipa, a presidência e duas diretorias da Cobal, a presidência da
Light e uma diretoria do BNDES — desde que isso rendesse para o
governo quinze votos.
Na mesma época, Figueiredo foi para a África. De Lagos,
Nigéria, falou o seguinte sobre a campanha das diretas-já:
"Eu sou pelas diretas, mas acho que no momento não há
possibilidade. Acho muito difícil estabelecer o ideal das diretas
para eleger meu sucessor. Acho muito difícil porque o meu partido
não iria se conformar. Eu me conformo. Mas o meu partido não
iria se conformar".
Heitor Ferreira tinha a teoria de que Figueiredo queria
embaralhar a sucessão de tal forma que a única saída fosse a
prorrogação de seu próprio mandato. Acho que Figueiredo estava
apenas demonstrando sua decepção pela política. Queria que o
PDS fosse punido por suas ambições internas, seus
personalismos.
No final do ano, numa fala à nação, Figueiredo declarou
que não iria conduzir o processo de sua sucessão. Que isso ficaria
entregue ao PDS. No PDS, já corriam Maluf, Andreazza, Aureliano,
Marco Maciel e Hélio Beltrão. Armando Falcão entregou a
Aureliano uma carta de apoio de Geisel.
Em janeiro, o PMDB começou a organizar os comícios pelas
diretas, em apoio à emenda do deputado Dante de Oliveira.
Em março, o ministro da Marinha, Maximiano da Fonseca,
demitiu-se do cargo. Ele era simpático â candidatura de Aureliano.
Me disse, certa vez:
"Há o Maluf e o anti-Maluf; o Andreazza e o anti-Andreazza.
Mas não há o anti-Aureliano".
Havia, sim. Figueiredo. E o almirante Maximiano, que
estava com o candidato de Geisel, acabou na diretoria de
transportes da Petrobrás.
O movimento das diretas crescia. A emenda Dante de
Oliveira iria ser votada em 25 de abril. Na primeira quinzena
daquele mês, o presidente viajava para Marrocos e Espanha.
Depois da visita ao Marrocos, eu estava em Madri, quando
me informaram que o deputado Alcides Franciscatto, muito amigo
de Figueiredo, havia dito à imprensa que, no avião, o presidente
lhe dissera que gostaria de ter sido a milionésima primeira pessoa
no comício das diretas, recém-realizado na Candelária. No
elevador do hotel, o general Ludwig me disse:
"O Franciscatto falou demais".
No dia seguinte, pela manhã, eu iria com o porta-voz Carlos
Atila acompanhar o presidente no café da manhã, no palácio onde
ele estava hospedado. Quando cheguei, fiquei na porta.
Franciscatto estava em pé, diante do presidente.
Figueiredo dizia a Franciscatto que, se ele não desmentisse
a história do milionésimo primeiro, iria ser desligado da comitiva
presidencial.
Quando o deputado saiu dali, perguntei se não queria me
dar uma entrevista, esclarecendo tudo. Ele concordou. Gravamos
a entrevista ali mesmo, no palácio, num salão chamado "Salón de
los Pasos Perdidos". O salão era decorado por esculturas de
profetas, imagino. Um, apontando para fora, como se estivesse
expulsando alguém; outro, tapando os olhos, como se não
quisesse ver; e outro, com a cara de incrédulo, como se não
acreditasse no que estava ouvindo.
Na entrevista, Franciscatto deu mil voltas para fazer o
desmentido, explicando que o que dissera não foi o que o
presidente disse, e que o que o presidente disse não foi o que
dissera, porque o presidente havia dito outra coisa.
Fui correndo para a televisão espanhola, onde pedi uma
máquina de edição. Foi a primeira edição que fiz sozinho,
operando a máquina. Destaquei o nome do salão e usei as
imagens das esculturas para sublinhar as frases de Franciscatto.
Quando os familiares dele ligaram de São Paulo, na mesma
noite em que a matéria foi ao ar, ele veio se queixar, dizendo que
eu o tratara muito mal; deixara-o muito mal.
No Brasil, a emenda Dante de Oliveira não passou. Não
alcançando dois terços da Câmara, nem sequer precisou ser
apreciada pelo Senado. No Eixo Monumental, com Brasília de
novo sob estado de emergência, o desabafo se canalizou no prédio
do Ministério do Exército, onde está o Comando Militar do
Planalto, o posto de comando do general Newton Cruz. Havia um
buzinaço contra ele. Eu estava na calçada.
Vi chegar um bando de soldados da guarda, todos recrutas,
com fuzis FAL embalados. Na calçada havia alguns parlamentares
e os soldados estavam nervosos, com o dedo no gatilho,
empurrando os parlamentares com o cano de suas armas. Então
apareceu o general Newton Cruz, o "Nini", com uma espécie de
pinguelim na mão — o pequeno chicote que para mim equivaleria
ao bastão de comando na cavalaria. Mandou os soldados se
recolherem, deu um empurrão num parlamentar e depois foi para
o meio da avenida, dispersar o buzinaço. Ia de carro a carro,
desafiando:
"Buzina agora, se você é homem!"
Os motoristas, assustados, arrancavam, enquanto ele ia
dirigindo o tráfego:
"Vamos embora! Vão andando! Dispersar!"
Quando tudo se acalmou, ele previu:
"Vão cair em cima de mim, de novo. Mas imagina se eu
deixasse esses recrutas inexperientes com arma na mão reagirem.
E eu não poderia deixar de reagir. Essa gente tem que respeitar as
instituições, e o Comando Militar do Planalto é uma instituição".
Com o fracasso momentâneo do movimento das diretas, os
políticos que estavam nele passaram a se articular para ganhar o
poder via Colégio Eleitoral mesmo, onde o grande adversário seria,
por certo, Paulo Maluf. Dentro do próprio PDS, havia desânimo
dos que não queriam Paulo Maluf. Para eles, a saída seria uma
consulta prévia às bases do partido, como forma de evitar o rolo
compressor malufista na convenção.
Aureliano resolveu percorrer o país, para consultar as
bases do PDS. E começou pelo Piauí. Golbery, ferino, me disse o
seguinte:
"O Aureliano cometeu um erro estratégico. O Piauí é muito
quente. Ele vai desistir".
Não deu outra. Aureliano ficou dois ou três dias no Piauí,
voltou para uma reunião e depois enfurnou-se na fazenda de Três
Pontas, onde ficou quarenta dias. E acabou desistindo de disputar
a convenção. A luta, no PDS, ficaria entre Andreazza e Maluf.
No início de junho, o PDS tentava vencer a crise para evitar
um racha na convenção, através da fidelidade partidária
obrigatória. E fez uma reunião secreta do seu diretório nacional,
no auditório de sua sede, no quinto andar de um edifício do Setor
Comercial Sul, em Brasília. A portas fechadas. Os jornalistas
protestaram, fizeram discursos. Enquanto preparavam um abaixo-
assinado contra a censura do PDS, peguei minha equipe e fui para
o prédio ao lado, da SHIS — Sociedade de Habitação de Interesse
Social de Brasília. Retiramos da parede um aparelho de ar
condicionado e, com teleobjetiva, Caio Coutinho filmou dali toda a
reunião. Depois, pelo telefone, me informei de detalhes sobre o
que se passava. Fiz uma edição contando o significado de cada
imagem. Foi com base naquela reportagem que Carlos Amorim,
então do Jornal da Manchete, e Luís Gleiser, então do Programa de
Domingo, sugeriram que eu fizesse uma crônica de TV com os
bastidores da notícia.
O presidente do PDS, senador José Sarney, ainda tentava,
com a ajuda de um grupo, realizar uma prévia, uma espécie de
eleição primária, para chegar à convenção com apenas um
candidato. Segundo Golbery, Sarney queria ser o vice das duas
chapas — como uma espécie de homenagem ao presidente do
partido. Mas Maluf escolheu o presidente da Câmara, Flávio
Marcílio. Sarney ainda amargou uma desaprovação de Figueiredo
à idéia das prévias, contrariando uma informação de Leitão de
Abreu de que Figueiredo apoiaria.
Na sexta-feira, 8 de junho, eu fora procurar Sarney, para
gravar uma entrevista sobre o imbróglio no PDS. Ele estava
preocupadíssimo. Nunca o havia visto daquele jeito. Pediu para
deixarmos a entrevista para outro dia. Estava acontecendo,
naquele dia, o desentendimento com Figueiredo.
Na segunda-feira, eu estava na reunião do PDS, a um metro
de Sarney, quando ele surpreendeu a todos com a renúncia. Leu
um texto muito nervoso, todo atrapalhado, e renunciou, indo
embora da sala. Assumiu o vice, senador Jorge Bornhausen, que
logo recebeu a contrariedade dos demais membros da direção do
partido, seguidores de Maluf. Bornhausen também renunciou e se
retirou. Na cabeceira da mesa ficou Flávio Marcílio, sem saber o
que fazer, sem ter quem encerrasse a reunião.
Estavam começando o racha no PDS e a derrota de Maluf.
Tancredo, do outro lado, começava a avaliar a possibilidade de ser
candidato. Ele era governador de Minas, ainda no meio do
mandato, e só deixaria o cargo se tivesse certeza de maioria no
Colégio Eleitoral. E o PMDB sozinho não lhe daria maioria. No dia
19 de junho, Franco Montoro organizou em São Paulo uma
reunião com nove outros governadores do PMDB e com o
governador Brizola. E decidiram lançar o nome de Tancredo para
presidente.
Eu iria passar o mês de julho na Europa, com minha
mulher e minha mãe. E estava pondo em dia os compromissos.
Por duas vezes recebera recado do lugar-tenente de Maluf, Calim
Eid, de que precisava falar comigo. Encontrei-o num corredor da
Câmara.
— Você queria falar comigo?
— Aqui, não. Vá ao meu escritório — recomendou Eid.
Fiquei intrigado. Alguma coisa muito grave estaria por
acontecer com a candidatura Maluf? No dia seguinte, à tarde,
liguei e fui ao escritório de Calim Eid.
Achei que o assunto era muito secreto, porque ele fechou a
porta depois que entrei, e passou a chave. Sentou-se diante de
mim e disse:
— Então você vai levar sua mulherzinha e sua mãezinha
para um passeio à Europa? Eu fiquei sabendo. Olha, eu gostaria
muito de estar lá, em Paris, para oferecer um jantar para vocês no
melhor restaurante de Paris.
Agradeci, e fiquei esperando pelo grande assunto que me
levara ao escritório dele. Calim Eid continuou:
— Olha, como eu não vou poder oferecer pessoalmente
esse jantar para vocês, gostaria que você fosse ao melhor
restaurante, ao Maxim's, pedisse uma Veuve Clicot, os melhores
vinhos, o melhor do cardápio, tudo por minha conta.
E tirou do bolso um maço de notas de 100 dólares que,
dobradas pelo meio, davam cerca de um centímetro de espessura.
Olhei para aquilo, espantado. Lembrei-me do exemplo de
meu avô.
E me lembrei também de que meu chefe no Banco do
Brasil, em 1963, Washington Castro, havia recebido um telefone
de presente de um cliente. E devolveu. Não poderia ter
neutralidade com um cliente que lhe presenteara com um telefone.
— Calim, se você quiser me agradar, me dê um charuto —
cortei.
Não adiantou. Calim Eid estava na minha frente, segurando
o maço de dólares.
— Calim, eu sinto muito. Meu avô me ensinou a não
aceitar um presente tão grande. Eu janto por minha conta e
brindo à sua saúde.
— Você está pensando que estou querendo lhe comprar?
— Longe de mim. Só estou pensando que você quer me
pagar um jantar muito caro e eu não posso aceitar.
— Se você não aceitar, vai estar me ofendendo. Vai estar
dizendo que eu estou querendo te comprar — argumentou Eid.
— Você é que está dizendo isso. Eu não estou dizendo. Mas
se você pensa assim...
— Vamos cortar relações, se você não aceitar.
— Então estão cortadas — concluí. Levantei-me e nunca
mais falei com ele.
Voltei das férias no início de agosto e já encontrei formada a
Frente Liberal, com 61 votos no Colégio Eleitoral. Era número
suficiente para Tancredo deixar o governo de Minas e ser
candidato. Até o ex-presidente da Arena, Francelino Pereira,
desligou-se do PDS. Na convenção, Maluf ganhou de Andreazza, e
o racha aumentou. O PMDB fez convenção e homologou a
candidatura de Tancredo, com Sarney de vice.
O presidente Figueiredo me revelou o seguinte, sobre a
saída de Sarney do PDS:
''Tenho cartas do Sarney, pedindo-me para coordenar a
sucessão dentro do PDS. Depois ele saiu, sem me avisar nada. A
mim, que sempre o avisei de tudo. Na casa do Gazalle, em São
Paulo, o Sarney disse a meu filho: 'O seu pai não deve permitir
que a oposição ganhe a Presidência. O seu pai tem força para dar
um golpe e permanecer no poder. Ele precisa fazer isso' ".
Sobre a vitória de Maluf na convenção, Figueiredo me
contou o seguinte:
"Um dia antes da convenção, eu chamei o Maluf aqui e
disse: 'O SNI me informou que você vai ganhar. Mas acho que você
vai perder no Colégio Eleitoral' ".
"Depois que ele ganhou, ele voltou aqui. Eu chamei o dr.
Leitão para acompanhar a conversa. Eu voltei a dizer: 'Você vai
perder no Colégio Eleitoral, se não mudar sua estratégia'. Ele
pegou um papel e começou a escrever: 'Tenho o apoio do Brizola'.
Eu respondi: 'Você não vai ganhar nenhum voto do Brizola'. Aí ele
insistiu: 'Tenho os votos do PTB'. E eu avisei: 'O PTB não vai votar
em você'. Ele continuou: 'Tenho cinqüenta votos na oposição'. Aí
eu disse: 'Você só vai ter o Agnaldo Timóteo e o apoio do Alcides
Fonseca, e não vai ter muito voto do PDS'. Ele insistiu, dizendo
que tinha os números e que iria ganhar. Eu peguei o papel com os
números que ele havia escrito, escrevi uma palavra, dobrei o papel
e coloquei no bolso dele. 'Depois você abre para ver o que está lhe
faltando', eu disse a ele. No papel estava escrita a palavra
HUMILDADE."
Maluf candidato saiu a percorrer o país. Carlos Atila me
contou ter assistido a uma cena típica, ainda na disputa da
convenção. Maluf bateu à porta de um convencional em Belém, e
recebeu esta resposta:
— Sinto muito, eu já estou comprometido com o ministro
Andreazza.
— Mas que bom! O Andreazza é muito meu amigo e ótimo
candidato! Mas eu não vim pedir seu voto. Vim é falar com sua
filha, que foi campeã de natação na escola.
O convencional, surpreso, chamou a filha. Era uma menina
de catorze anos. Maluf abraçou-a, chamando-a pelo nome:
— Meus parabéns, querida. Vim aqui só para dizer a você
que, quando eu for presidente, você terá o patrocínio do meu
governo para treinar muito e ir para as Olimpíadas.
O pai, ao lado, já estava com lágrimas nos olhos e dando
adeus para seu compromisso com Andreazza.
Ultrapassada a etapa da convenção, Maluf saía, agora, para
conquistar votos na oposição e tentar atenuar o racha no PDS.
Tancredo, com a opinião pública e os jornalistas a seu lado,
tinha certeza da vitória e queria garantir a posse. Procurou
primeiro João Figueiredo.
"O dr. Tancredo veio aqui no Torto com Passarinho",
contou-me o presidente. "Ele havia falado mal das Forças
Armadas e queria se explicar. Foi o Passarinho que arranjou tudo.
Ele chegou e foi elogiando o meu governo e as Forças Armadas.
Então eu lhe disse: 'Pena que isso que o senhor está me dizendo
não é dito para a imprensa'."
Depois, Tancredo foi ao ministro do Exército. O general
Walter Pires me contou que o encontro foi arranjado de modo que
ninguém soubesse: "Ele queria ter certeza de que, eleito, tomaria
posse. Perguntei a ele quem estava garantindo a democratização
do país, se não eram as Forças Armadas. Aí ele elogiou o papel
das Forças Armadas e me garantiu que não haveria revanchismo,
que ele não permitiria. Andaram dizendo que eu pedi para ser
embaixador em Portugal, por causa da língua. Eu não pediria.
Mas sei que não vou gostar de ficar abrindo tampa de panela para
ver o que vai ter para o almoço".
No dia 13 de novembro de 1984, Tancredo jantou com o
ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos. O convite
partira de Tancredo. O brigadeiro Délio me revelou que Tancredo
elogiou o seu trabalho à frente do ministério e chegou a dizer que,
num momento em que julgara estar iminente uma crise
institucional, sugerira o nome de Délio como sucessor de
Figueiredo. Délio respondeu que não havia sido feito para ser
presidente da República. No final do jantar, Tancredo assegurou a
Délio que o ouviria antes de escolher o futuro ministro da
Aeronáutica — o que não aconteceu.
A cobertura dos dois candidatos tinha características
diferentes. As entrevistas diárias com Maluf eram autênticos
interrogatórios, em que o candidato era o réu culpado. Com
Tancredo, era o oposto. Tudo se fazia para que ele se saísse bem
nas entrevistas, e, se respondesse mal a alguma pergunta, a
resposta não saía.
Maluf, que já sentia a derrota, queria se recuperar tentando
fazer um debate público com Tancredo. Tancredo, confiante na
vitória, fazia tudo para evitar o debate de que não necessitava. Já
havia evitado uma conversa com a Globo, que teria esse objetivo.
Um dia, cometeu um deslize. Respondendo a uma pergunta para a
televisão, disse que não temia debater com Maluf.
"Marquem hora e lugar que estarei lá."
Percebi que era a chance de promovermos o debate entre os
dois candidatos. Liguei para o superintendente da TV Manchete,
Pedro Jack Kappeler, e relatei o desafio de Tancredo. Ele
consultou a programação e marcou as nove da noite do domingo,
dia 7 de outubro, para o debate.
No dia seguinte, 21 de setembro, pedi para a repórter Taísa
Ferreira que perguntasse ao dr. Tancredo, na entrevista coletiva
diária, se confirmaria a proposta da véspera, porque já tínhamos
marcado dia e hora, e estávamos levando o convite ao candidato
Maluf.
Mas a Taísa teve que passar pela censura do assessor de
imprensa, José Augusto Ribeiro. Ela me contou que, antes de
fazer a pergunta, teve que dizer a ele o que perguntaria. Quando
ele soube, retirou-a da sala, impedindo que perguntasse. Todos
acharam aquilo muito natural porque, afinal, era para ajudar o dr.
Tancredo.
Taísa me ligou, quase chorando. Então fui ao candidato
Maluf e gravei com ele uma entrevista, perguntando se aceitaria
debater com o seu adversário no dia e hora que havíamos
marcado. Maluf respondeu afirmativamente. Depois, perguntei se
estava informado de que, se não fosse, ficaria uma cadeira vazia
em seu lugar — e ele respondeu que a cadeira dele não ficaria
vazia.
Na edição, pus a frase do dr. Tancredo, pedindo para
marcar dia e hora do debate com Maluf; depois Maluf aceitando o
debate e falando da cadeira vazia. Depois eu entrei, ao vivo, no
estúdio, informando que nossa repórter havia sido impedida de
cobrar do dr. Tancredo o desafio da véspera.
Tancredo ficou furioso. Me chamou de speaker numa
entrevista aos jornais, dizendo que eu preparara uma armadilha
para ele. E não falou no cerceamento da repórter, nem ninguém
perguntou. A partir daquele episódio, Adolpho Bloch me tirou, por
uns tempos, a página semanal na Manchete. Depois, fiquei
sabendo o que acontecera.
Aloysio Alves, já ministro da Administração, me contou ter
sido emissário de Tancredo para pedir minha demissão a Adolpho
Bloch. E me disse que Adolpho foi muito correto, porque
respondeu que não faria isso de forma alguma. Aí Tancredo
mandou dizer, via Aloysio Alves, que eu não teria credencial para
cobrir a Presidência da República.
No dia 4 de setembro, eu estava numa recepção na casa do
deputado Amaral Netto, uma das lideranças da campanha de
Maluf. Ele reunia cerca de cinqüenta políticos e uns vinte
militares, quase todos da reserva. A festa parou para assistir -ia
Jornal Nacional. Quando Cid Moreira anunciou as notícias da
sucessão, fez-se silêncio completo. Primeiro, apareceu o ministro
da Aeronáutica, discursando na inauguração do aeroporto 2 de
Julho e criticando o apoio de Antônio Carlos Magalhães a
Tancredo. Depois, entrou Antônio Carlos espinafrando o
brigadeiro Délio como nunca ninguém antes fizera com um
ministro militar.
''Acabou!'', disse Amaral Netto. Ele traduzia ali a
compreensão de todos de que a candidatura Maluf já não tinha
mais bases, estava ruindo. Os que ficaram ficaram apenas para
honrar compromissos, já sabendo da derrota. Os outros
debandaram para o lado mais forte.
No dia 9 de novembro, o SNI mandava ao presidente
Figueiredo uma análise informando que a vitória de Tancredo já
era matematicamente certa. E já dava uma margem superior a
cem votos de diferença sobre Maluf. A derrota era atribuída a três
fatores:

1) a impopularidade do governo e de Maluf;


2) o excesso de confiança de Maluf no poder econômico de
conquista do Colégio Eleitoral;
3) o desprezo que Maluf deu à força dos governadores.

A análise deixava o governo com três alternativas:

1) perder feio no Colégio Eleitoral, aceitando passivamente


a derrota;
2) alterar pela força as regras do jogo sucessório;
3) manobrar com a oposição, visando a uma composição.

O SNI aconselhava que o governo seguisse a terceira


alternativa, convencendo Maluf a renunciar à candidatura, por
um lado; por outro, oferecendo uma embaixada a Sarney, para
que ele deixasse vaga a vice-presidência de Tancredo.
A análise sugeria que, para ocupar a vice de Tancredo, o
governo negociasse Passarinho, Rubem Ludwig ou Marchezan,
com ênfase para Marchezan. E que houvesse um pacto de não-
agressão ao governo Figueiredo, combinando isso também com os
ministros militares. Por fim, que o ministro da Justiça de
Tancredo fosse afinado com o atual governo, "para evitar um
apaixonado do tipo Brossard, com notórias pretensões políticas e
pronto a desencadear processos que rendam dividendos eleitorais,
do tipo Coroa-Brastel, Riocentro, Capemi..."
A análise errou duas vezes em relação a Brossard. Primeiro,
porque Tancredo só não o fez ministro da Justiça porque Brossard
estava defendendo o escandaloso caso do Banco Sul-Brasileiro;
segundo, porque Brossard, ministro da Justiça de Sarney, foi
absolutamente "confiável" quanto às paixões citadas na análise. E
Tancredo nomeou Fernando Lyra, nem um pouco afinado com o
último governo militar.
Figueiredo não seguiu alternativa alguma das sugeridas.
Apenas manteve-se distante do processo. Quanto ao seu chefe do
Gabinete Civil, Leitão de Abreu, seguiu seu próprio caminho,
aproximando-se da candidatura de Tancredo, para derrotar Maluf.
Quanto ao pacto de não-agressão, o SNI não sabia, mas Tancredo
já estava dando garantias de não-revanchismo ao presidente e aos
ministros militares. Marchezan seguiu um pouco o exemplo do
presidente, e ficou eqüidistante.
No dia 15 de janeiro de 1985, transmiti ao vivo a vitória de
Tancredo sobre Maluf por 480 contra 180 votos. Um massacre.

"Quero que me esqueçam"

A entrevista que Figueiredo me deu, para a TV Manchete,


no final de seu governo, fora pedida em 29 de maio do ano
anterior. Figueiredo visitava os aposentos do imperador, na Cidade
Proibida, em Pequim, quando sugeri a ele que, antes de deixar o
governo, gravássemos uma entrevista fazendo um balanço muito
pessoal sobre o período. Ele concordou. No dia 4 de janeiro de
1985, ele havia sido operado da coluna, no Rio. Fui visitá-lo no dia
11, na Casa de Saúde São José, quando ele conversou muito,
fazendo revelações sobre as principais personagens da política
brasileira. No final, pediu que eu acertasse com o Carlos Atila a
data da entrevista.
Quando fui marcar a data, Carlos Atila me sinalizou um
recuo do presidente. Contou-me que o presidente estava receoso:
"O Alexandre é meu amigo, mas antes de tudo é jornalista.
Vai me perguntar coisas que não posso responder".
Argumentei que, se ele não pudesse responder, que não
respondesse, e que eu já tinha duas promessas dele de gravar a
entrevista: na China e no hospital no Rio. O presidente acabou, no
final, concordando até com a data que sugeri: terça-feira, 22 de
janeiro, pela manhã.
Era uma manhã chuvosa. Fiquei receoso quando o
ajudante-de-ordens, major Marcon, veio ao portão do Torto para
me dizer que o presidente não estava bem e não estava com
vontade de dar a entrevista. Insisti, e pedi a ele que pelo menos
me deixasse entrar.
— Você me deixa falar com o presidente, por minha conta e
risco. Se ele concordar, gravamos. Se não concordar, vou embora.
Esperei o presidente alguns minutos. Ele estava fazendo
fisioterapia. Quando chegou, estava de jogging e tênis.
— O que você vai me perguntar?
— Riocentro, Aureliano...
— Mas é só o que não posso responder? Eu já disse tudo o
que tinha pra dizer pro Aureliano. Quanto ao Riocentro, eu estava
de mãos amarradas, não tinha o AI-5. Aí, tinha que ser com a
Justiça, e não comigo.
— O senhor já está respondendo... Por que não vamos lá
dentro gravar? Já pedi para montarem o estúdio.
— Estúdio? Mas é para a televisão? E eu nesses trajes?
— Se o senhor quiser gravar à vontade, é nesses trajes. E
para o senhor dizer tudo o que sente.
— Tá bom, vamos lá.
Só interrompemos a entrevista uma vez, porque eu não
agüentava de vontade de ir ao banheiro. No final, fiz um
oferecimento, dizendo que a câmera representava o povo, o povão,
em cuja casa o presidente estava entrando.
— Nesse momento em que o senhor está deixando a
Presidência da República, o que o senhor diria para este povo?
— Bom, o povo que poderá me escutar será talvez os 70
por cento dos brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então,
desejar que eles tenham razão, que o dr. Tancredo consiga um
governo bom pra eles. E que eles tenham consigo... o dr. Tancredo
e que ele dê a eles o que não consegui. E desejar felicidades a eles.
E que me esqueçam. Aliás, eu pedi isso desde o começo, se
lembra?
Levei um susto. Era uma reação amarga. Tentei suavizar:
— Mas eu tenho a impressão de que a História não vai
esquecer certas coisas. Anistia, por exemplo... em primeiro lugar.
E o acesso à democracia.
Aí, Figueiredo insistiu:
— Pode ser que não esqueçam. Mas eu preferia que
esquecessem.
— Para o senhor viver tranqüilo, lá no sítio do Dragão.
— E... e que não me venham conversar sobre política. Que
aí eu abro meu arquivo.
— O senhor tem cartas e papéis guardados?
— Muitos.
— Então, presidente, muito obrigado ao senhor.
— Obrigado a vocês.
Terminada a entrevista, pedimos ao presidente mais alguns
minutos para gravarmos big doses — imagens muito próximas —
do rosto dele, para a abertura do programa. Ele mantinha a
carranca.
— Presidente, o senhor está muito sério. Poderia fazer um
sorriso para a gente gravar a abertura do programa?
— Me dê um motivo para rir.
— Lembre-se da expressão que o senhor vai fazer quando
estiver descendo a rampa do palácio, no dia 15 de março...
— Ah, mas a expressão que eu vou fazer é esta aqui, ó! E
fez uma "banana", que a câmera não registrou, porque estava
fechada no rosto dele. Mas o fotógrafo Roberto Stuckert foi rápido
e deu o "clic" na câmera fotográfica.
Levei 22 horas editando a entrevista. Apenas botei por
ordem de assunto e separei por blocos, para ter intervalos
comerciais. Uma única frase foi retirada. Foi quando perguntei a
Figueiredo sobre a ida de Francisco Dornelles aos Estados Unidos,
para preparar um renegociação da dívida. Figueiredo me
respondeu que Dornelles não teria êxito, porque o Brasil não
merece mais crédito. Achei que era torpedear o futuro, e tirei a
frase.
A entrevista acabou se notabilizando pelo "Quero que me
esqueçam''. Depois, não o esqueci, mas ele ficara no sítio do
Dragão e eu, em Brasília. Liguei no aniversário dele, em 15 de
janeiro de 1986, e conversamos sobre a situação do país.
"O Sarney vai melhor que eu. Eu nunca consegui essa
inflação."
Em 15 de janeiro de 1987 voltei a ligar, mas a reação dele
foi dura.
— Estou com saudades do senhor, presidente.
— Saudades? Como, saudades, se você fica falando mal de
mim?
— Falando mal do senhor? Quando, presidente?
— Nos Estados Unidos você falou mal de mim. E pela
televisão. Você disse que Sarney e Reagan não falaram em cavalos.
Você insinuou que eu e o Reagan só falamos em cavalos.
(As duas e meia da tarde de uma quarta-feira, 10 de
setembro de 1986, em Washington, o embaixador Rubens
Ricúpero me relatava o encontro, na Casa Branca, entre os
presidentes Reagan e Sarney. No final, brincando, Ricúpero
acrescentou uma frase: "E não falaram em cavalos''. Eu achei a
frase boa e a utilizei, sem citar a fonte.)
— Mas, presidente, eu não quis insinuar isso...
— Ah, você não quis insinuar. Claro que não. Você é um
jornalista inteligente e eu sou um estúpido general de cavalaria,
que não entende insinuações!
Resolvi encerrar, porque eu não tinha, mesmo, argumentos:
— Então eu lhe peço desculpas, presidente.
— Ah, me pede desculpas pelo telefone e me ofende em
público... Assim é ótimo.
— Eu lhe prometo que vou pedir desculpas em público.
— Está bem, vamos ver.
A primeira providência que tomei foi escrever um artigo na
Manchete, pedindo desculpas e mostrando que fora injusto com o
presidente.
Depois, fui a São Paulo participar do Programa Hebe
Camargo, na terça-feira, 10 de fevereiro. Pedi à minha amiga Hebe
que me perguntasse sobre o episódio com Figueiredo, para me dar
oportunidade de pedir desculpas também pela televisão. E foi o
que fiz.
Figueiredo mandou-me um cartão comovente, aceitando o
pedido de desculpas. Mas no ano seguinte, entrevistado pela
Marília Gabriela, e perguntado sobre o "Quero que me esqueçam",
declarou que não dissera aquilo; que a entrevista havia sido
deturpada.
Fiquei indignado. Ele estava me fazendo uma grave
acusação. Aliás, impossível de ser verdadeira pelo fato de a
câmera de TV obedecer a leis físicas da óptica e do som: eu não
poderia inventar uma fala dele na televisão. Liguei para o sítio do
Dragão. Informaram-me que ele estava em São Paulo, na casa de
Georges Gazalle. Liguei para lá. Ele havia saído. Foi melhor. Eu
iria dizer para ele que era a vez de ele pedir desculpas.

A tragédia de Tancredo

No dia 13 de fevereiro de 1985, uma quarta-feira, às onze


da manhã, eu fui procurar Mauro Salles, o encarregado de
Imprensa de Tancredo, em seu gabinete. Queria conversar sobre a
cobertura do novo presidente. Ele me respondeu que seria muito
difícil para mim conseguir cumprir o meu trabalho, porque eu
havia deixado péssima impressão no episódio da cadeira vazia (o
debate que não houve entre Maluf e Tancredo). Mauro Salles
explicou que pessoalmente nada tinha contra mim, e que
tampouco o dr. Tancredo tinha alguma restrição. Mas que o dr.
Ulysses é que impusera como exigência que eu fosse "esfriado".
Uma espécie de banimento do exercício da profissão.
De lá até hoje, a forma como o dr. Ulysses me trata é o
oposto daquela informação de Mauro Salles. O tratamento que o
dr. Ulysses e sua mulher dona Mora me dispensam — e já me
receberam várias vezes em sua casa — é a negação daquilo.
No domingo, 3 de março, a Veja circulou com uma foto do
futuro ministro da Aeronáutica, brigadeiro Moreira Lima,
retirando de seu gabinete a foto do então presidente Figueiredo.
Dois dias depois, fui ao Ministério da Aeronáutica e fiquei
sabendo o que havia acontecido.
Vários políticos ligados a Tancredo reafirmaram a Délio a
promessa feita pessoalmente por Tancredo de ouvi-lo na escolha
do ministro. Délio, pensando num general da ativa, fixou-se no
tenente-brigadeiro Luís Felipe. E foi surpreendido com a escolha
de Moreira Lima.
Moreira Lima e outros três brigadeiros ligaram-se a
Aureliano, e a nomeação de Moreira Lima fora conseqüência disso.
No episódio das fotos da Veja, Moreira Lima ligou para Délio no
mesmo domingo em que a revista circulou. Queria justificar-se,
mas Délio ficou insatisfeito. Mesmo porque a maior parte dos
membros do Alto Comando do Exército fez saber à Aeronáutica o
seu desagrado pela atitude do futuro ministro. Délio, então, tomou
um avião e foi a Belo Horizonte falar com Tancredo, na segunda-
feira, dia em que Tancredo fazia 75 anos. Délio esperava que
Tancredo cancelasse o convite a Moreira Lima, após mostrar a
Tancredo que o brigadeiro ficara passível de punição. Mas
Tancredo confirmou o convite, que era conseqüência de
compromisso com Aureliano.
Délio foi então a Figueiredo, já com a intenção de levar
Moreira Lima ao presidente para desculpar-se. Délio resolveu que
teria de preservar a FAB, que ficaria mal se Moreira Lima fosse
punido e depois virasse ministro. A Aeronáutica começaria mal o
novo governo, com moral baixo. Délio, então, resolveu engolir
sapos: o de não ter sido ouvido para a escolha do ministro, como
esperava, e o de não punir Moreira Lima. E passou a buscar uma
solução.
Nesse tempo, Moreira Lima, pelo telefone, também se
explicava ao próprio Tancredo e ao chefe do Gabinete Militar de
Figueiredo, o general Rubem Ludwig.
Moreira Lima voou do Rio para Brasília na terça-feira e fez
uma carta, com dois destinatários, uma para Délio e outra para
Figueiredo, ambas de igual teor, e assinou as duas. Quando Délio
disse a Figueiredo que o próprio Moreira Lima iria levar a carta ao
presidente, Figueiredo reagiu assim:
"É. Traga esse f.d.p. aqui, que ele vai ouvir!"
Délio ficou preocupado. Figueiredo iria agravar a crise e
resolveu ir sozinho a Figueiredo, levando a carta. Nela, Moreira
Lima explicava que haviam sido feitas dezenas de fotografias, no
seu gabinete de comandante geral de apoio, com as fotos de
Figueiredo e Délio atrás de si. E que, atendendo a uma sugestão,
pusera no lugar daquelas fotos os quadros de Santos Dumont e
Salgado Filho, para fazer mais fotos. E, quando repunha no lugar
a foto de Figueiredo, fora fotografado sem saber. Dizia também
que ' 'o texto foi fruto de fértil imaginação de quem redigiu". E
pediu desculpas.
A carta era para ter apenas uso interno. Mas Figueiredo,
frustrado por não ter conseguido encontrar-se pessoalmente com
Moreira Lima, mandou o porta-voz Carlos Atila divulgá-la,
antecedida por uma nota oficial, que dizia: ' 'A propósito do
episódio, o presidente determinou que fosse tornado público que
se trata de ato, quando menos censurável, suscetível de punição
regulamentar, que somente não efetua diante de solicitação
expressa do presidente eleito Tancredo Neves".
Às llh40 da manhã de terça-feira, 12 de março, Tancredo
subiu com dificuldade os degraus do prédio da Fundação Getúlio
Vargas, em Brasília, para fazer o anúncio oficial do seu ministério.
Eu estava lá.
Quem o trouxe da residência na granja do Riacho Fundo foi
José Hugo Castello Branco. José Hugo me contou que, ao chegar
ao Riacho Fundo na manhã daquele dia, Tancredo perguntou-lhe:
— O que você quer ser no meu governo? José Hugo
respondeu:
— Eu não peço nada, presidente, mas, já que o senhor me
pergunta, eu acho que ficaria satisfeito com o governo do Distrito
Federal, com que eu sempre sonhei, como homenagem à Minas de
Juscelino, ou a presidência do Banco do Brasil.
— Pois você não vai ter nem uma nem outra. Você vai ser o
meu chefe da Casa Civil — respondeu Tancredo.
Já no carro, ainda segundo José Hugo, Tancredo estendeu-
lhe um papel:
— Toma. Vai lendo. E o ministério que você é que vai
anunciar.
José Hugo foi lendo, enquanto o carro andava para a
Fundação Getúlio Vargas. Quando terminou a lista, perguntou:
— E o Fernando Henrique (Cardoso), não vai ter nada?
— E mesmo, eu estava me esquecendo do Fernando
Henrique. Então põe aí... líder do governo no Congresso.
José Hugo acrescentou com a caneta o nome de Fernando
Henrique na lista datilografada, e, ao se dar conta de que o
Congresso não tem líder, apenas o Senado e a Câmara, perguntou:
— Mas o que ele vai fazer?
— Não sei, Zé Hugo; depois a gente vê isso — e botou
carinhosamente a mão sobre o joelho de seu chefe do Gabinete
Civil.
No anúncio do ministério, Tancredo estava sentado de
forma esquisita, quase deitado na cadeira, como se não pudesse
formar um ângulo reto entre o tronco e as pernas.
No mesmo dia, ele foi jantar na Casa da Manchete, em
Brasília. Adolpho Bloch estava com Tancredo e me chamou.
Tancredo estendeu-me a mão e segurou minha mão direita com as
duas mãos:
— Meu querido! Como vai você?
As mãos dele estavam geladas e secas. Só mais tarde eu
saberia que ele já estava doente. Quando entrou no carro para
voltar para casa, ele se contorceu de dor. A câmera da TV
Manchete registrou isso e eu usei no ar, depois que ele foi
hospitalizado, para mostrar que já sentia dor. A dor estava toda no
rosto de Tancredo, quando ele teve que dobrar o corpo para entrar
pela porta traseira do Galaxie.
O ministro José Hugo contou-me, mais tarde, que
Tancredo, ainda no gabinete da Fundação Getúlio Vargas, toda a
vez que falava com um médico, contava a história de um primo,
em São João Del Rey, que sentia dores no abdome e que já tomara
tais e tais antibióticos, mas não estava adiantando. O médico
perguntava se o primo não havia experimentado um outro tipo de
antibiótico que, com certeza, Tancredo mandava comprar e
passava a usar. Assim, ele teria deixado quase inócuo o
tratamento feito depois, no hospital, com antibióticos. Ele não
queria, de forma alguma, naquele momento da vida nacional,
passar a idéia de que estivesse doente.
Em janeiro, antes de viajar para a Europa, ele fez um
exame médico superficial. O médico que o examinou contou-me
que, quando apalpou o abdome, Tancredo deu um salto, como se
sentisse uma forte dor. O médico sugeriu um exame mais
aprofundado, que Tancredo adiou para a volta. Depois daquele
exame, ele foi a Campo Grande, onde a temperatura estava em 38
graus, e depois viajou para a Itália, onde havia um frio de 6 graus.
Na passagem pelos Estados Unidos, ele já estava com um
processo de infecção generalizada, constatada pelo dentista que o
atendeu. Chamaram o dentista, pensando que fosse uma infecção
dentária. Essa parte me foi contada pelo jornalista André Gustavo
Stumpf, cliente do dentista que atendeu Tancredo.
No dia seguinte ao jantar na Manchete, Tancredo foi à
missa em ação de graças no santuário Dom Bosco. Notei que ele
tinha dificuldade em fazer o movimento de ajoelhar-se e levantar-
se. Mas fazia, assim mesmo, porque sabia que todos os olhos
estavam postos nele.
Na televisão, já tínhamos tudo pronto para a cobertura da
posse. Havíamos montado um estúdio dentro do Congresso
Nacional. Eram cerca de dez da noite e eu me preparava para ir
para casa, quando alguém ligou do hotel Nacional:
"O Roberto Gusmão (futuro ministro) chegou aqui dizendo
que o Tancredo foi hospitalizado e vai ser operado de apendicite!''
Foi uma correria! Confirmamos a internação, começamos a
instalar uma antena parabólica para transmitirmos do hospital e
entrei no estúdio montado no Congresso. Era o primeiro estúdio
da TV Manchete em Brasília e a primeira vez que eu fazia
ancoragem do noticiário. Quando recebemos o diagnóstico da
''diverticulite" que deixaria Tancredo sem tomar posse no dia
seguinte, passei rapidamente pelos livros médicos para explicar a
doença e fui para a Constituição.
Interpretei que o vice é vice de um presidente. Se o
presidente não toma posse, o vice não é nada. Pela Constituição,
Figueiredo deixaria a Presidência no dia seguinte. Havendo vaga,
assumiria o presidente da Câmara, Ulysses Guimarães, e
convocaria nova eleição presidencial para dentro de trinta dias.
Era a interpretação dos artigos 77, 78 e 79 da Constituição que
vigorava.
Minutos depois, entrou no estúdio o Roberto d'Ávila:
"Você está enganado! O Afonso Arinos está na Globo
dizendo que o Sarney é que assume!"
Afonso Arinos se baseava no parágrafo único do artigo 76:
Se, decorridos dez dias da data fixada para aposse, o presidente
ou o vice-presidente, salvo motivo de força maior, não tiver
assumido o cargo, este será declarado vago pelo Congresso
Nacional. O imortal da Academia Brasileira de Letras, José Sarney,
era salvo por uma conjunção: "ou'', que é alternativa e não aditiva.
Durante a agonia de Tancredo, eu fui informado por três
médicos que tiveram papel fundamental no período de
hospitalização do presidente eleito. Através do telefone, eles me
passavam cada detalhe do que acontecia com Tancredo dentro da
UTI. Minhas informações do estúdio improvisado que se transferiu
para a Casa da Manchete pouco conferiam com as informações
oficiais. Dei sempre na véspera a necessidade de mais uma
cirurgia; dei em primeiro lugar o resultado da biópsia; expliquei
que o pus entrara na circulação sangüínea, provocando uma
infecção generalizada irreversível; revelei a primeira parada
cardíaca de Tancredo, com uso de desfibrilador (choque elétrico),
enquanto para o boletim oficial dava "sinais vitais estáveis".
Ele morreu no domingo, 21 de abril, bem antes da hora
oficial da morte.
Eram cerca de seis e meia da tarde, eu estava em casa, de
bermuda, quando tocou o telefone. Era um dos médicos.
"Não vai dar mais para segurar. Hoje acaba tudo. Ele está
no fim. Está morto. Durante o Fantástico, lá pelas oito e meia, o
Antônio Brito vai ler uma nota, dizendo que o estado é irreversível,
e umas duas horas depois vai ser anunciada a morte."
Liguei para o Jaquito, no Rio:
''Jaquito, o Tancredo está morrendo agora. Vamos dar o
furo antes do porta-voz!"
Jaquito se preocupou em que a multidão depredasse a
Manchete. Lembrou-se da morte de Getúlio, e recomendou que,
em lugar do furo, preparássemos o estúdio para acompanhar o
anúncio oficial e depois entrar já com as repercussões da morte.
Fiquei frustradíssimo. Era a grande chance de dar o furo do
ano.
Ás oito e meia da noite, durante o Fantástico, o porta-voz
Antônio Brito anunciou que o estado de Tancredo era irreversível e
às dez e meia da noite anunciou que ele havia morrido.

O governo Sarney

No dia seguinte ao sepultamento em São João Del Rey,


Sarney me ligou:
''Alexandre, é o Sarney. Eu queria dizer para você que a
porta do meu gabinete está aberta para você. E ligue quando
quiser; quando precisar de alguma coisa".
Liguei poucas vezes, durante esses cinco anos de Nova
República. Talvez umas dez vezes, no máximo. Sempre no final do
dia para confirmar alguma informação de última hora ou saber a
posição dele em algum assunto grave. E ele sempre me atendeu
com a mesma disposição com que me telefonara aquela primeira
vez.
Na noite de 17 de maio, fui jantar na casa de José Hugo
Castello Branco. Ele me contou algumas coisas sobre Tancredo:
• Que o ministro da Reforma Agrária foi mudado na última
hora porque Nelson Ribeiro apareceu com o apoio da Igreja
progressista e da Igreja conservadora da região Norte;
• Que Tancredo, quando fez exame médico antes de viajar
para o exterior, em janeiro, estava tão preocupado com as
aparências que pediu para José Hugo ficar ocupando o gabinete
como se fosse o presidente eleito;
• Que, no seu estilo, Tancredo não fez nenhum convite
formal a ministro algum. Deixava que soubessem pelos jornais, ou
imaginava que já sabiam;
• Revelou que naquele mesmo dia havia almoçado com
Golbery e o convidara para visitá-lo no Gabinete Civil;
• Disse que admira Delfim e que acha Aureliano um eterno
zangado, que se deu mal ao indicar Sarney companheiro de chapa
de Tancredo só para irritar Figueiredo;
• Que Olavo Setúbal queria o Ministério da Fazenda, mas
Tancredo o mandou para o Itamaraty com uma justificativa: ''A
mulher dele vai gostar mais do Itamaraty";
• Que Tancredo não planejou nada do que foi feito na
construção da Nova República. Tudo vinha de improviso;
• E que todos sabiam que Tancredo iria morrer, mas era
preciso retardar o máximo para o choque não ser grande. "Nós já
torcíamos para acabar logo, mas deu tempo para Sarney se
ajeitar. Sarney não estava preparado, nem o país. Se Tancredo
morresse entre os dias 14 e 16 de março, o que aconteceria?"
No dia seguinte, conversei uma hora e meia com Golbery.
Ele me disse que, naquela altura da Nova República, o grande
problema era o ministério de Tancredo com Sarney na chefia. Um
ministério tão heterogêneo que só Tancredo administraria. E que,
para agravar o problema, os ministros ainda viam Sarney como
vice. Eles, ministros, tinham o status de ter sido escolhidos por
Tancredo. Sarney, não. Fora imposto numa composição. E que
Sarney precisaria impor-se, mostrar ao ministério quem é o chefe.
"Fora de Sarney não há salvação. E golpe militar. Como ele é um
político experiente e capaz, vale a pena apoiá-lo. E preciso unir
forças em torno do presidente, para que ele possa fazer o que tem
que fazer. Ou seguiremos o caminho da Argentina'', previu
Golbery.
Três semanas depois, eu conversava com o chefe do SNI,
general Ivan de Souza Mendes. Na época, falava-se na construção
do Panteão da Liberdade e da Democracia, na praça dos Três
Poderes. O general me dizia que o panteão não iria sair, porque
Sarney não gostara da idéia. O panteão saiu. O general elogiou o
talento de Niemeyer e tirou uma moeda do bolso: "Diga-me se é o
JK da estátua no memorial". Respondi que parecia, em negativo.
"E, mas é Lênin, e esta moeda é soviética. Foi o modelo." Depois,
falou no caso Baumgarten. "Tenho certeza de que Medeiros não
sabia de nada. Mas não é caso para o SNI. E caso de polícia. O
SNI não vai acobertar ninguém."
No sábado, dia 19 de maio de 1985, reuniram-se no Torto
as seguintes pessoas, para discutir economia: Roberto Gusmão,
Francisco Dornelles, João Sayad, Olavo Setúbal — todos esses
ministros do governo. E mais: Mário Henrique Simonsen, João
Manoel Cardoso de Mello, Luiz Gonzaga Beluzzo, Ibraim Eris, Luís
Paulo Rosemberg e Antônio Dias Leite.
No final de agosto, eu preparava uma matéria especial,
mostrando as figuras da política brasileira e seus sósias famosos.
O ministro Carlos Sant'Anna teria Henry Fonda; o ministro Marco
Maciel, Giscard d'Estaing; o ministro Waldir Pires, Winston
Churchill; o ministro Ivan de Souza Mendes, Robert Stack; o
ministro Dílson Funaro, Roy Scheider; e o ex-ministro Rubem
Ludwig, Dana Andrews.
O ministro Dílson Funaro tinha sido nomeado no final
daquele mês. Pelo PMDB do dr. Ulysses. Em conversa com o
presidente Sarney, ele me dizia que estava cumprindo
rigorosamente os compromissos da Aliança Democrática. Era um
eufemismo para justificar que o PMDB, e não ele, estava
governando. O PMDB havia feito milhares de nomeações para
cargos de confiança do governo, e alguns ministros reportavam-se
diretamente ao presidente do partido, deputado Ulysses
Guimarães. O administrador do maior orçamento, o ministro da
Previdência Waldir Pires, por exemplo, antes de ir a Sarney ia a
Ulysses. Sarney assistia a tudo pacientemente, esperando forças
para fazer seu próprio ministério.
Sarney me dizia que fizera tudo de acordo com a Aliança
Democrática, desde o primeiro dia, quando leu o discurso de
Tancredo — aquele que dizia para o governo ' 'E proibido gastar''.
Criou o Conselho da Mulher, criou a Comissão de Estudos
Constitucionais.
A idéia de Tancredo era manter o controle sobre a
elaboração da nova Constituição através daquela comissão. A
comissão faria um anteprojeto e o Congresso Constituinte se
limitaria a trabalhar sobre aquele anteprojeto. Mas a comissão,
sem Tancredo para controlá-la, perdeu-se na prolixidade. Um dos
integrantes da comissão, o jurista Cláudio Pacheco, me disse que
estavam criando um monstrengo que não poderia ser aproveitado.
E o trabalho da comissão acabou esquecido nas gavetas do
Ministério da Justiça. No final, custou 4 milhões de cruzados.
Em janeiro de 1986, começa a construção do panteão, na
praça dos Três Poderes. Fui para a frente da placa anunciando a
construção e disse que num país em crise econômica é preciso
não gastar com o supérfluo. Que o Panteão da Liberdade e da
Democracia está no coração de cada um. No dia 17, Adolpho
Bloch me diz que o presidente Sarney ligou para se queixar do
meu comentário.
Logo depois, começam obras no palácio do Ministério da
Justiça, para retirar as placas de mármore que revestem a
fachada, sob a orientação de Oscar Niemeyer. O amigo e seresteiro
de Juscelino, César Prates, me dá o testemunho de uma conversa
entre JK e Niemeyer, em que Juscelino recomendava,
expressamente, o uso do mármore, argumentando o eterno viço
daquela pedra. Omito a história na TV para evitar nova queixa do
presidente.
No dia 22, fui conversar com o ministro da Agricultura,
Pedro Simon, no gabinete dele. Simon fora o peemedebista que
mais se insurgiu contra a indicação de Sarney como vice de
Tancredo. Quando a direção do PMDB ouviu de Aureliano a
indicação de Sarney, numa reunião no gabinete do vice, no Banco
do Brasil, Simon quis retirar-se: "Assim não dá. Não é possível
termos na chapa o próprio presidente do PDS!"
Simon fora escolhido ministro por Tancredo, e era dos
ministros do PMDB. E numa situação difícil, porque com certeza
Sarney sabia do episódio da indicação de seu nome.
Naquela terça-feira à noite, dia 21 de janeiro, Simon me
dizia que estava saindo do Ministério da Agricultura para
concorrer nas eleições de novembro. Chamou o porta-voz de
Sarney, Fernando César Mesquita, de "pueril", e disse que ainda
não sabia a que concorrer, preferindo ser constituinte a
governador do Rio Grande.
Simon me revelou que Marco Maciel iria para o Gabinete
Civil. Com isso, Maciel ganharia poder e, junto com Antônio
Carlos Magalhães, faria o PFL ''tomar'' o ministério do PMDB.
Disse que o PMDB gostaria de ter o Ministério da Educação e que
o ministro Renato Archer, da Ciência e Tecnologia, gostaria de ir
para o Itamaraty, mas não iria porque o partido não quer aquele
ministério.
Pedro Simon era o número dois no PMDB. Disse que o
partido cumpriu seus compromissos de Nova República, mas que
seus ministros ficaram paralisados de 15 de março até 21 de abril,
quando morreu Tancredo. E que depois não conseguiram
trabalhar a não ser a partir de 15 de junho, por causa das listas
de nomeações. E que também nada fizeram entre 15 de dezembro
e 15 de fevereiro, por causa da legislação sobre
desincompatibilização eleitoral.
Era o retrato de um governo perplexo e imobilizado. Simon
ainda traçava a receita da paralisia do governo: ' 'No primeiro ano,
teve eleições municipais nas capitais; no segundo, vai ter eleições
para governadores, deputados estaduais e federais e dois terços do
Senado; no terceiro e no quarto ano, vai ter a Constituinte; no
último ano, vai ter a eleição presidencial direta. Não sobra ano
algum para governar sem a pressão eleitoral. Ou seja, não vai
conseguir fazer nada''.
No dia seguinte, fui conversar com o ministro da
Administração Aloysio Alves, que era uma espécie de ponte entre
Ulysses e Sarney — amigo dos dois. Aloysio Alves me contou que
Ulysses ouvira de Sarney a seguinte declaração sobre a mudança
ministerial:
''Eu sou reconhecido pelo apoio que o PMDB me tem dado e
saberei ser reconhecido, nessa composição do ministério que sou
obrigado a fazer por força da Lei de Desincompatibilização. Podem
ficar tranqüilos, que saberei compensar esse apoio. O partido terá
seu peso no ministério. Confiem em mim".
Segundo Aloysio Alves, Ulysses, que iria indicar nomes, não
indicou porque entendeu as palavras de Sarney como o assumir
de uma carta branca para agir. Era Sarney tentando assumir o
governo. Puxava Marco Maciel para o palácio, dando mais força ao
PFL, e tentava desvencilhar-se de Fernando Lyra, que Tancredo
pusera no Ministério da Justiça. Aproveitou uma entrevista de
Lyra à Playboy e uma declaração de Lyra de que queria botar
Delfim na cadeia mas não conseguia. Sarney estava pensando em
botar na Previdência, onde estava o ulyssista Waldir Pires, o
gaúcho João Gilberto. Andava colhendo de todos informações
sobre o deputado. O pefelista Jorge Bornhausen poderia ir para o
Ministério da Indústria e Comércio ou para a Educação. José
Hugo deixaria a Casa Civil para presidir o BNDES. O Paraná
perderia Affonso Camargo nos Transportes, mas iria para lá o
peemedebista José Richa, embora o governador Hélio Garcia
estivesse reivindicando o cargo para Minas. Para ajeitar a
sucessão maranhense, Sarney queria a permanência de Renato
Archer na Ciência e Tecnologia. Aluísio Pimenta queria ficar na
Cultura, mas a falta de peso político poderia tirá-lo. E Pazzianotto
ficaria no Trabalho se não tivesse chance de ser governador de
São Paulo. Nelson Ribeiro, atrapalhado na Reforma Agrária,
desapropriando a rua principal de Londrina, teria que sair. E
Aureliano estava programado para deixar o Ministério das Minas e
Energia para ser o presidente e condutor do PFL — e fazer uma
grande bancada na Constituinte. Para seu lugar, Aureliano iria
indicar Paulino Cícero.
Esses eram os planos ministeriais de Sarney, segundo
relato de Aloysio Alves. Dois dias antes do prazo de
desincompatibilização eleitoral, em 13 de fevereiro, Sarney
anuncia o novo ministério. Sai Pedro Simon e entra íris Rezende;
Marco Maciel vai para o Gabinete Civil e José Hugo para a
Indústria e Comércio; surge Vicente Fialho, um amigo de Sarney,
para um novo ministério: Irrigação; Sarney consegue tirar Lyra e
botar Brossard na Justiça, mas não consegue pôr João Gilberto
na Previdência — Ulysses nomeia Rafael de Almeida Magalhães.
Aluísio Pimenta sai da Cultura e entra Celso Furtado. Carlos
Sant'Anna sai da Saúde e entra o também baiano Roberto Santos.
Um amigo de Sarney, José Reinaldo Tavares, vai para o lugar de
Affonso Camargo, nos Transportes, e o Paraná é compensado, não
com Richa, mas com Deny Schwartz no Ministério do
Desenvolvimento Urbano. Sarney conseguia avançar sobre o poder
do PMDB.
No dia 28 de fevereiro, pela manhã, eu estava na ante-sala
do ministro Dílson Funaro, esperando para falar com ele. E lia no
JB uma entrevista de página inteira do senador Fernando
Henrique Cardoso, pregando o rompimento da Aliança
Democrática e a retirada do PMDB do governo. Na noite daquele
dia, foi anunciado o Plano Cruzado. E no dia seguinte, um sábado,
o PMDB assumia a paternidade do plano. Naquele sábado, emiti
meu primeiro cheque em cruzados para comprar três franguinhas
poedeiras. Com elas, iniciei uma criação que me dá ovos até hoje e
me dá estrume para alimentar algumas centenas de carpas
japonesas. Para mim, foi esse o grande benefício do Plano
Cruzado.
João Sayad só permanecera no ministério porque Sarney
aceitara a informação de que ele se afinara com Funaro. E Sayad
estava lá, também, tendo que explicar o milagre que iria dar ao
Brasil inflação suíça e desenvolvimento japonês. Era mirabolante
demais para ser verdade. O grupo do Cruzado desempenhava o
papel de sábios, futuros prêmios Nobel em economia. E ninguém
acordava. Eu sabia que não era verdade, mas Adolpho Bloch me
disse que Sarney havia ligado para reclamar que só eu não estava
ajudando. Resolvi, então, ver o lado bom: o povo que saía para as
ruas para ser fiscal de Sarney, que discutia economia, que
participava do controle de preços depois do Cruzado não deixaria
de fiscalizar o governo. Com o Cruzado, chegaria a democracia em
que o povo iria, depois, fiscalizar os gastos do governo, causa
maior da inflação. O Cruzado estimulava a participação popular —
e esse era o lado bom. Mas nem isso durou. O povo voltou para
casa.
Um dia, fui ao Ministério da Fazenda, entrevistar Funaro.
Antes da entrevista, ele pôs a mão sobre o meu joelho e disse:
"Vamos salvar este país!"
Quando a entrevista terminou, ele me olhou nos olhos e
declarou:
"Você não calcula o bem que está fazendo ao povo deste
país ao permitir que eu fale com eles".
Pensei estar diante de Maomé, no instante em que deixaria
a pedra de Medina.
Sarney estava no auge. No dia 1º. de abril, à tarde, uma
terça-feira, conversei, no palácio do Planalto, com o embaixador
Jerônimo Moscardo, então subsecretário da Casa Civil para
Assuntos Institucionais. Ele me disse que Sarney, cem dias depois
de lançado o Plano Cruzado, vivia seu período rooseveltiano.
Roosevelt se comunicava com o povo americano pelo rádio, na
conversa ao pé da lareira.
"Sarney se comunica pela televisão. Pelo que fala e pelo que
ouve. Quando você falou que, se aumentasse a gasolina, o plano
perderia credibilidade, em 1º. de março, o presidente deu um soco
na mesa e cancelou o aumento que estava preparado para vigorar
a partir de 26 de fevereiro, antes do plano. Você, com seus
comentários concisos e objetivos, tem sido a consciência da
Presidência, pela independência e compromisso apenas com a
nação. Você tem sido visto, ouvido e seriamente considerado pelo
presidente. Você tem mais poder junto ao presidente que qualquer
ministro", disse-me o embaixador.
''O presidente vai manter contato com o povo diretamente
pela televisão, passando por cima dos partidos e dos políticos. Vai
deixar de lado o marasmo da velha política e aderir à modernidade
da comunicação eletrônica. E vai manter essa ponte sem se
preocupar com sustentação no Congresso. A sustentação popular,
plebiscitária, diária, é mais forte. Foi ela que fez o PMDB voltar
atrás na idéia de abandonar o governo. Mas quem se preocupa
com o PMDB? Uma crise entre políticos não abala mais o país que
uma remarcação de preços nas Lojas Americanas.
''A linguagem vai ser direta com o povo. E o presidente não
vai defender erros de ministros nem da administração pública. O
presidente não tem responsabilidade nem solidariedade pelos
erros da administração. A administração, se errar, que arque com
as conseqüências perante a opinião pública. O presidente se
entende direto com o povo.
"O presidente descobriu também que a Presidência é como
um avião: parado, não tem sustentação para voar. E, quando está
no ar, precisa manter a velocidade para ter sustentação. A reforma
monetária fez a Presidência decolar. Agora, o avião vai precisar de
combustível constante, para manter-se voando e sustentado (pelo
povo). Daí a necessidade de manter um programa de novidades,
principalmente na área social, que está sendo preparado.
"O problema é que a Presidência tem uns 2 mil funcionários
e deste total só 1 por cento é dedicado à nobre tarefa de pensar",
continuou o embaixador. "O problema é que hoje o governo é um
centauro diferente: uma metade é cavalo e a outra também é."
O centauro sem cabeça estava esquecendo da palavrinha
que Figueiredo escrevera no bilhete a Maluf: HUMILDADE. Sarney
estava com mais de 80 por cento da opinião pública e sucumbia à
tentação de governar direto com seu povo, passando por cima de
partidos e políticos. Um dia, conversei com ele sobre certos
desentendimentos com a imprensa. Ele me respondeu que, com
mais de 80 por cento da opinião pública, não precisava da
imprensa. Eu já tinha ouvido o diagnóstico desse quadro da boca
do ex-presidente Jânio Quadros, quando me explicou as razões da
renúncia.
Eu já desconfiava que Sarney me considerava. Um dia, o
porta-voz Fernando César Mesquita me entregou uma caricatura
em que Sarney me retratava. Hoje, está na parede da minha
biblioteca. Noutra ocasião, numa recepção no Itamaraty, o
presidente me apresentou ao primeiro-ministro da Espanha Felipe
González como "o mais ácido dos jornalistas brasileiros". No dia
seguinte, o presidente me ligou, pedindo desculpas. Respondi que
o presidente não precisa pedir desculpas. Mesmo porque eu
considerara a apresentação um elogio.
Um desligamento similar da realidade eu sentira no
ministro da Cultura, Celso Furtado. Fui jantar na casa dele, na
Península dos Ministros, na noite de 28 de maio de 1986. Eu
argumentava que a capital do país, uma cidade-monumento,
estava abandonada e suja. O governador José Aparecido cuidava
de inscrevê-la como patrimônio da humanidade, na Unesco, mas
não cuidava propriamente do patrimônio em si. Eu lembrava que
os brasilienses civilizados tinham que conduzir lixo nos bolsos,
porque não há cestos de lixo nas áreas públicas. E que, se
houvesse, as pessoas iriam se acostumando a usá-los. E concluía
perguntando se não deveríamos trocar a cultura da elite pela
cultura popular, ensinando antes hábitos elementares de
civilização, para deixar as artes para depois.
O ministro me olhou como se eu recém-tivesse chegado de
Marte. Com enfado, explicou-me que conhece cada boulanger e
cada boucher do Quartier Latin em Paris, mas que ainda não
tivera tempo de andar por Brasília, a ponto de saber se faltam
cestos de lixo ou se a cidade anda suja.
Eu deixei o ministro na sua ''rive gaúche'' e voltei para a
minha Brasília.
Em Brasília eu iria encontrar outro problema causado pelo
governador José Aparecido. Uma mulher havia abandonado há
dois anos suas duas filhas numa instituição de freiras. As
crianças estavam em tal grau de diabetes que nem sequer
caminhavam, com três anos de idade.
Um casal italiano — ele ferroviário — atravessou o Atlântico
para adotar as duas meninas. Levaram-nas para a Itália, onde
lhes deram assistência médica, alimentação, escola e, sobretudo,
amor. As crianças se recuperaram, aprenderam italiano,
descobriram um lar. Aí apareceu a mãe natural, que foi
encaminhada ao governador pelo presidente da OAB, Maurício
Corrêa. E o governador foi à Itália para trazer as meninas de volta.
Na revista Manchete, botei a boca no mundo, dizendo que o
governador, num ato demagógico do presidente da OAB, que
conseguiu uma carta precatória, iria ser o carrasco que executaria
a condenação de duas inocentes meninas a voltarem para a
sarjeta.
Nunca recebi tantas cartas e telegramas por um artigo
como naquela ocasião. Acabei entrando no problema de adoção de
crianças brasileiras por estrangeiros. Descobri que os brasileiros
morrem de ciúme das crianças que, retiradas da pobreza e da
doença, ficam com chance de cursar a universidade em Roma,
Londres, Telavive, Paris ou Colônia.
Juizes de menores me ligaram, do Rio, São Paulo e Brasília,
horrorizados com as injustiças que fazem às crianças, por pura
demagogia ou por xenofobia. Descobri que uma menina de treze
anos, no interior de Goiás, havia dado à luz outra menina, de pai
desconhecido. Ela doou a criança a um casal francês. O casal
registrou a criança e se preparava para embarcar, quando,
denunciado por um jornal de Goiânia, foi preso. As duas meninas,
mãe e filha, passam fome em Goiás e a menina mais velha
engravidou de novo, sem saber quem é o pai. O jornal que
denunciou o "crime" não foi considerado responsável pela
condenação daquela criança à fome, quando poderia estar hoje já
na pré-escola de um país desenvolvido.
Tenho nojo dessa gente que condena crianças. Escrevi um
artigo chamado OS HERODES DO BRASIL, inspirado nos
jornalistas que fizeram voltar de Israel o menino Iaron, que já vivia
feliz e saudável com seus pais de amor. O menino voltou para a
mãe natural que o abandonara e hoje ninguém mais sabe dele. E
os herodes estão aí, soltos, continuando a condenar crianças. Um
ministro de um Tribunal Superior me ligou no caso do menino
Iaron, para me dizer: ''É como tirar a sorte grande de um menino
que acaba de ganhá-la''. Um embaixador brasileiro me escreveu:
Querem impor reserva de mercado também às crianças, para evitar
que as nossas sarjetas fiquem vazias.
Uma senhora me mostrou, chorando, duas fotos do mesmo
menino: na primeira, o menino estava esquálido, com a morte nos
olhos; na segunda, rechonchudo e feliz, com os olhos brilhando. E
me explicou que a primeira fora tirada quando o menino havia
sido recebido da mãe que o abandonou. A segunda, já nos Estados
Unidos, com seus pais de amor. E aí me contou que, por
campanha de jornalistas brasileiros, um juiz de menores foi
buscar o menino de volta e o colocou num depósito. Com falta de
amor, o menino definhou e, em cinco meses, morreu. Eu dedico
esses fatos aos herodes do Brasil, meus colegas.

A campanha eleitoral

Em meados do ano, quando começou a campanha eleitoral,


o Plano Cruzado começava a fazer água. O presidente Sar-ney me
contou, depois da eleição, que o manteve sem alterações a pedido
do PMDB, já que os ajustes necessários poderiam ser
impopulares. Só vieram dias depois das eleições.
Na campanha, o líder comunista Roberto Freire me contou
que, quando era candidato à Prefeitura do Recife, no ano anterior,
uma mulher lhe disse:
— Deputado, eu acho o senhor ótimo, mas não voto no
senhor para prefeito, porque o senhor é comunista.
— Mas por que a senhora não vota em comunista? —
perguntou Roberto Freire.
— Porque, se os comunistas chegarem ao poder, vão tirar
tudo o que tenho para distribuir para os outros.
O candidato Roberto Freire examinou a mulher da cabeça
aos pés: estava descalça e com um vestidinho velho e rasgado.
Curioso, quis saber:
— Mas o que a senhora tem, para tirar?
— Agora, eu não tenho nada — respondeu a mulher. —
Mas um dia eu vou ter.
O presidente Sarney aproveitou a campanha para viajar.
Acompanhei-o a Roma, na primeira quinzena de julho, e aos
Estados Unidos, em setembro.
No dia 7 de julho, conversei, pela manhã, com dom Lucas
Neves, no Vaticano, e, à tarde, gravei uma entrevista com o
cardeal Agnello Rossi, o ex-arcebispo de São Paulo. Gravamos nos
jardins do Vaticano. E ali, com a basílica de São Pedro ao fundo,
dom Agnello me contou que havia conhecido um colega meu.
— Coitado! Contou-me que perdeu todo o dinheiro e
emprestei-lhe 300 dólares!
Eu já desconfiava quem seria a personagem. Mesmo assim,
perguntei o nome. Dom Agnello me disse e eu respondi:
— Sinto muito, dom Agnello, mas o senhor caiu no conto
do vigário. Esse cara é um vigarista.
Era um colega que, na viagem de Figueiredo ao Japão, eu
vira tirando uma nota de 10 dólares da aeromoça que vendia
cigarros no corredor do avião.
No aeroporto Leonardo da Vinci, na hora de irmos embora,
eu caminhava com o Mário Garófalo no saguão, quando o tipo veio
correndo:
— Por favor! Eu estava fazendo compras ali no free-shop e
já está tudo registrado na máquina e faltaram 30 dólares. Alguém
aí tem 30 dólares?
O Garófalo, boníssimo caráter, já estava pondo a mão no
bolso, quando eu interrompi:
— Acabamos, os dois, de gastar todos os nossos dólares
comprando licor Strega de verdade.
Depois expliquei para o Garófalo que o "colega'' havia dado
o golpe em ninguém menos que um homem chamado Agnello
(cordeiro).
Outro fato pitoresco com jornalista aconteceu na sala de
imprensa do hotel Excelsior, onde estava a comitiva presidencial.
Eu passei por um colega e vi que ele escrevia para seu jornal que
Sarney, naquela noite, iria assistir a uma ópera chamada "Termas
de Caracala". Na verdade, Sarney iria assistir a um espetáculo de
som e luz nas termas. Parei e o corrigi:
"Está errado. O nome da ópera é Termas e o autor é
Caracala''.
Ele mandou assim. E o jornal, um dos integrantes da
chamada ''grande imprensa'', na dúvida, simplesmente retirou
aquele trecho da matéria.
No último dia de Sarney em Roma, pus uma câmera no
segundo andar de um prédio e me sentei na mureta da Fontana di
Trevi. E dali disse que Sarney teve um programa extenso, que
deixou de fora algo que todos fazem quando visitam Roma: jogar
uma moeda na Fontana di Trevi, para voltar, um dia.
Eu jogava a moeda, subindo o som com Renato Rascel
cantando "Arrivederci Roma".
Por sorte foi o último dia de cobertura, porque na noite
daquela sexta-feira fui comer um churrasco, no caminho da Via
Apia Antica, com a Ana Amélia de Lemos e o Luis Fernando
Veríssimo, e mordi uma lingüiça dura que me quebrou de novo o
dente quebrado no acidente de moto.
No dia 7 de setembro, amanheci em Nova York. Havia festa
na rua 42, reduto dos brasileiros. Mas estava muito chata, e fui
passear no Central Park. Foi a maior crise de saudade que senti
em minha vida, de minha mulher e de minha filha de nove meses.
Jurei que nunca mais sairia de casa. Quando voltei, fizemos o
nosso filho homem.
No dia 8, Sarney chegaria a Washington, e fui para lá.
Fiquei hospedado no Howard Johnson, em frente ao edifício
Watergate. Marcou-me bastante uma conversa que tive na
recepção na embaixada brasileira. Uma senhora americana, de
uns sessenta anos, provavelmente funcionária do Departamento
de Estado, me perguntou se realmente as mulheres brasileiras
seriam prostitutas.
Eu pensei que ela estivesse fazendo algum gracejo de mau
gosto. Mesmo assim, perguntei por que ela pensava assim.
Ela me respondeu que via uma revista brasileira, que
mostrava Carnaval e praia, e que as mulheres brasileiras
andavam nuas, com um pequeno cinto no meio das pernas.
Aí é que eu me dei conta de que há muitas diferenças entre
a maior nação do mundo e o Brasil. Os padrões morais são muito
diferentes. Eu tentei explicar alguma coisa para ela, mas não
consegui.
De volta ao Brasil, o embaixador da Suécia me chamou
para almoçar com duas deputadas do Parlamento sueco. Me
fizeram duas perguntas: "Se não há censura, por que toda a
imprensa apóia o governo?" e "Por que ninguém discute a
Constituição que será feita no próximo ano?"
Respondi que a imprensa se engajara toda em apoio à Nova
República, e que agora se sente cúmplice. Quanto à nova
Constituição, respondi que não rende tanto quanto as eleições de
novembro. Porque as eleições escolhem nomes e a Constituição,
princípios.
A um mês das eleições, o Plano Cruzado fazia água por
todos os lados. O ministro Deny Schwartz, num almoço, me
contava que faltavam pneus para o transporte urbano e Funaro
não permitia importá-los da Coréia. E, no entanto, autorizava a
importação de tampinhas de garrafa. Lembrei-o de que, quando
criança, eu construía caminhões pondo rodas de tampinha de
garrafa. A Polícia Federal entrava de metralhadora nos campos
para desapropriar gado. A TV chegou a anunciar que mil bois
desapropriados em São Paulo produziriam 221 mil toneladas de
carne! Na emoção, produziam-se minotauros de 221 toneladas
cada um. Importava-se leite em pó radiativo. Não se continha a
raiz da inflação, que era o déficit público. Encontrei o presidente
Sarney num jantar, na casa do ministro Aloysio Alves. Disse tudo
isso para o presidente. Ele me olhou, surpreso, como se eu
estivesse falando sobre o sexo dos anjos:
"E, mas as árvores continuarão crescendo e o rio Amazonas
vai continuar correndo para o mar".
Até hoje eu tento entender se a imagem foi extrativista,
fatalista ou simplesmente poética.
Naquela época, o presidente Raul Alfonsín estava em
Brasília, consolidando o fim de quatro séculos de rivalidade entre
Argentina e Brasil. Na recepção no Itamaraty, encontrei meu
amigo Rex Nazaré Alves, então presidente da Comissão Nacional
de Energia Nuclear, conversando com o ministro-conselheiro da
embaixada argentina.
"Imagine o que você escreveria se este encontro fosse há
três anos. Diria que estávamos trocando espionagem. Um
escândalo!", comentou Rex, sorrindo.
Na verdade, quando Sarney foi à Argentina e visitou a
central nuclear de Atucha, eu lembrei que uma vez tentei ir lá, e
isso levantou a suspeição de que eu seria espião brasileiro. Agora,
Brasil e Argentina estavam associados na pesquisa e indústria
nuclear, e a troca de informações viraria rotina se a Argentina não
estivesse tão à nossa frente.
Às vésperas da eleição de 15 de novembro descobrimos que
o governo preparava para anunciar, depois das eleições, as
correções do Plano Cruzado, que incluíam aumentos de preços em
geral, inclusive dos combustíveis e das tarifas públicas, o fim do
subsídio do trigo e um compulsório sobre salários, além de um
cálculo de índice de inflação que só levaria em conta a cesta
básica de famílias com menos de cinco salários mínimos. Botei no
ar a novidade, sem maior repercussão, por causa da nossa baixa
audiência.
A preparação das correções deixava os técnicos da Fazenda
malucos. Eles preparavam as sugestões, entregavam a Funaro,
que as levava ao presidente. Sarney jogava tudo de lado, mas não
dizia o que queria. Funaro voltava aos técnicos e pedia mais
sugestões, sem dizer o que queria. Provavelmente, Sarney, pouco à
vontade, estava "empurrando com a barriga", até que chegasse o
15 de novembro, com a enxurrada de votos para o PMDB.
O partido elegeu todos os governadores, menos o de
Sergipe. E fez 305 dos 559 constituintes. Teoricamente, poderia
fazer sozinho a nova Constituição. O PMDB estava no auge de sua
força eleitoral. Ninguém imaginaria que em 11 de abril de 1990,
da bancada reduzida a 128 deputados, apenas pouco mais de
setenta seguiriam a orientação do partido na votação da principal
medida do Plano Collor.
Mal saíram os resultados das urnas, Funaro, Sayad e
Pazzia-notto iam para a sala de briefing do palácio anunciar que
os automóveis subiriam 80 por cento, as bebidas 100 por cento,
mais o álcool, a gasolina, o telefone, a energia... Com o novo índice
de cálculo de inflação, Edmar Bacha deixa o IBGE. E descubro
que o governo desistira de cortar os subsídios do trigo e impor
mais um compulsório sobre salários.
"A palavra compulsório nunca pega bem", me disse Ulysses,
demonstrando que tivera participação no veto, antes das eleições.
O porta-voz Fernando César ficou envergonhado com o
anúncio das medidas. "Nem deixaram esfriar os votos. Ficou muito
na cara." E ameaçou demitir-se. Aproveitou a chance de obter
uma reconfirmação do presidente, porque já havia brigado com o
ministro da Reforma Agrária, Dante de Oliveira. Em lugar de
avisar o presidente, avisou o JB e a Veja. O presidente leu a
notícia do desagrado de Fernando César e ouviu suas queixas.
Ele aproveitou para se queixar do Incra e disse a Sarney
que o anúncio estivera confuso, que nem mesmo as autoridades
se entendiam quanto às medidas; saíram erros nos textos feitos
rapidamente e não conferidos. E, principalmente, a opinião
pública ficara profundamente contrariada, em especial os eleitores
do PMDB, que se sentiram traídos. Resultado: Funaro, Sayad e o
genro do presidente, Jorge Murad, resolveram juntar-se para
começar tudo de novo e tentar explicar melhor as medidas, na
tentativa de recuperar a opinião pública.
Conversei com Dante de Oliveira na casa dele, naquele final
de novembro de 1986. O assunto seria a briga com Fernando
César, mas Dante me revelou algo mais importante: era portador
de um recado de Sarney para Ulysses.
Sarney gostaria que a Constituinte decidisse logo nos
primeiros dias de trabalho o tamanho do atual mandato
presidencial. Queria afastar a dúvida, para que pudesse planejar
seu governo. Sarney estava certo de que o mandato de seis anos
seria reduzido para quatro ou cinco anos. ' 'Provavelmente cinco'',
me disse Dante. Ainda segundo o ministro, a resposta de Ulysses
foi que o mandato de Sarney ficaria igual ao mandato geral que a
Constituição estabelecesse para os presidentes.
O PFL, massacrado na eleição, achava demais tirar um ano
de Sarney. Seria tirar também um ano dos ministros pefelistas.
Marco Maciel me disse que Sarney havia sido empossado para um
mandato de seis anos, e que lhe tirar um ano seria uma cassação
inconstitucional.
Dias depois de nossa conversa, Dante e Fernando César
põem fim à briga, colocando seus cargos à disposição do
presidente. Sarney confirma Dante na Reforma Agrária e cria o
cargo de ouvidor-geral para Fernando César.
Na TV Manchete, eu estava terminando o ano bem melhor
que começara. No início do ano, ainda estávamos numa sala
comum feita estúdio. Como eu sempre entrei ao vivo, tinha que
botar vigias do lado de fora, para não deixar movimentar carro
algum na Casa da Manchete. Depois, com ajuda do Fausto Moser,
fomos fazendo um estudiozinho. Para isolar a acústica, usamos
embalagens de ovos. Quando Adolpho Bloch descobriu o estúdio
quase pronto, contei-lhe que havia custado o preço de um
Fusquinha e ele concordou. Mas faltava ar condicionado. No
lançamento do Plano Cruzado, eu entrevistava as autoridades de
porta aberta, por causa do calor. Teleprompter nem precisava,
porque eu nunca usei. As câmeras chegavam da rua e iam para o
estúdio, pouco antes de o vivo de Brasília entrar no ar. As vezes,
dois minutos antes de entrar, eu ainda estava no telefone,
tentando ampliar alguma notícia que não tínhamos, e que eu
acabara de ouvir no Jornal Nacional Eu tomava anotações e ia
para o estúdio, na maior correria.
Terminei o ano com um convite do comandante militar do
planalto, general Mário Orlando Sampaio, para cobrir as
manobras de seu comando, no Campo de Formosa. Aceitei, mas
pedi para fazer uma atualização, como reservista. E gravei a
reportagem com uniforme camuflado de combate, atirando com
dois velhos conhecidos, o morteiro 60 mm e a metralhadora
pesada Browning .50. E com uma arma que eu não conhecia, a
metralhadora MAG 7,62 mm. Foi uma festa!

1987 — No f undo do poço

O ano começou com os governadores eleitos pelo PMDB se


reunindo para discutir a linha política em relação ao governo Sar-
ney. Consideravam que o PMDB é o maior partido, o grande
vitorioso em 15 de novembro e o principal partido no governo. Mas
não queriam o ônus da baixa popularidade do governo. Não
queriam ser obrigados a aplaudir as decisões do governo, mas
queriam ser ouvidos, isto é, participar do governo, podendo
criticar. O partido deixava cada vez mais claro que havia resolvido
o dilema do príncipe da Dinamarca: conseguia ser e não ser
governo ao mesmo tempo. E iria demonstrar isso na Constituinte,
instalada no dia 1º. de fevereiro. Na Constituinte, crescia o poder
do dr. Ulysses. Ele se elegia presidente da Assembléia,
acumulando com a presidência do partido, da Câmara e, às vezes,
da República. Um tetrapresidente. Enquanto isso, em Alagoas,
uma semana antes de tomar posse como governador, Fernando
Collor entrava na Justiça para não pagar os "marajás".
No início do ano, inventava-se a reativação do Conselho de
Desenvolvimento Social. Na primeira reunião, o ministro do
Interior, Ronaldo Costa Couto, propôs um corajoso programa de
controle de natalidade, torpedeado por todos os lados. Ronaldo me
disse: "A direita não quer, porque precisa da massa, para explorar;
a esquerda não quer, porque precisa de mais pobreza para ter
argumentos ideológicos. E a Igreja também não quer". Resultado:
depois da reunião, saiu uma notinha covarde.
De São Paulo, me liga minha amiga Hebe Camargo, recém-
chegada de Paris, contando-me que vira, jantando, Fafá de Belém
e Paulo Maluf. '' Veja só: aqui ela é contra o Paulo e caiu em cima
de mim porque apoiei Maluf. Em Paris, pode." A noite, em seu
programa, Hebe contou o milagre sem revelar o nome da santa. E
repetiu: "Em Paris, pode".
Encontro o delegado Romeu Tuma e pergunto por que foi
ele o escolhido para paraninfar a turma de dentistas da Faculdade
de Odontologia de Santo Amaro.
"Porque identifiquei o Mengele pela arcada dentária!"
Em 1984, eu havia encontrado Tuma no aeroporto
Leonardo da Vinci, em Roma, chegando. Antes de entrar num
carro da polícia italiana, pediu-me sigilo. Estava na pista do
mafioso Tomaso Buscetta.
Naquele janeiro de 1987, o governo da Itália e o Vaticano
estavam pedindo a exumação do corpo do padre Maurizio Miraglio.
Segundo a Polícia Federal, ele morrera de infarto ao entrar num
motel com uma prostituta, no Maranhão. O ministro Brossard,
com a CNBB atravessada na garganta por causa de conflitos no
"Bico do Papagaio", mostrou-me as reações dos bispos ao caso do
Maranhão:
'' Vou pedir ao Tuma que ponha em campo os legistas do
Mengele".
Dentro do próprio palácio do Planalto, ouço queixas contra
o imobilismo do presidente, enquanto avança a crise econômica.
"Sarney e Funaro sofrem da mesma doença: otimismo
irrealista", me diz alguém. Vou ao gabinete de Ulysses e provoco:
— O presidente está otimista quanto à atual situação
econômica.
— Pois é — responde Ulysses. — A nação está com as veias
abertas, e ninguém estanca a hemorragia. É preciso fazer alguma
coisa já.
Os juros estavam a 341 por cento ao ano. Em 17 de março,
João Sayad não agüenta e larga o Ministério do Planejamento.
Entra Aníbal Teixeira, que fazia o Programa do Leite.
A Constituinte, logo em seu início, criou o Projeto de
Decisão, pelo qual poderia decidir, com força constitucional, sobre
qualquer assunto "relevante". Encontrei Sarney revoltado:
'' A Constituinte veio para pacificar, não para perturbar!
Isso é tão amplo que podem transferir o lago Paranoá para
Paracatu!"
O constituinte Luís Ignácio Lula da Silva me procurou para
apresentar uma idéia: tirar a televisão do plenário.
'' Tem gente que é só acender a luz da TV e começa a fazer
tudo para aparecer, vira artista, sem se dar conta do ridículo! O
Pompeu de Souza não sai de trás do Ulysses. O Roberto d'Ávila
fica caminhando atrás da mesa e inventando rompimento com a
África do Sul. Assim não dá. A TV só deveria dar espaço para
quem tiver proposta séria, que tenha a ver com a Constituição,
não para papagaio de pirata nem seguidor do Damião do Jegue.''
Não adiantou nada a proposta de Lula. O mal é tão
arraigado que, na votação das medidas provisórias do governo
Collor, ainda se mantinha o hábito. Bastava acender as luzes da
TV que um grupo de parlamentares, que nada teria que fazer ali,
se amontoasse diante da mesa diretora dos trabalhos, para
aparecer.
Após o desabafo do Lula, recomendei cuidados na TV
Manchete. Desde 10 de março, tínhamos — Marilena Chiarelli e
eu — um programa semanal sobre os trabalhos da Constituinte. E
tratávamos de evitar os papagaios de pirata.
Em julho, fui fazer uma palestra no curso de jornalismo da
Universidade de Brasília. Falava sobre a clareza, objetividade e
isenção que precisa ter o repórter. Isso é elementar em jornalismo.
E citei como exemplo um episódio ocorrido em São Paulo, no qual
o capitão Conte, da PM, matou dois seqüestradores que, com uma
faca, ameaçavam cortar a garganta de uma menina.
— Se fosse nos Estados Unidos, o capitão seria
condecorado. Aqui, a imprensa o apresentou como bandido —
argumentei.
— Mas ele é bandido! — cortou um aluno. — Os policiais
são bandidos. Eles ajudam a massacrar o povo! Os que a
imprensa corrupta apresenta como bandidos são apenas vítimas
da sociedade!
Expliquei que ele estava defendendo tese sociológica ou
fazendo editorial. Que o repórter deveria se limitar aos fatos. Aí, o
professor me interrompeu:
— Mas eu não estou ensinando meus alunos a serem
repórteres isentos, neutros e objetivos. Eu os estou ensinando a
serem militantes ideológicos!
Eu havia voltado a Marte. E começava a entender por que
se tornaram raros os repórteres. E por que a nossa credibilidade
anda tão baixa.
No governo, em março, a coisa andava feia. Marco Maciel
me disse que seria preciso mudar o ministério, fazendo um
''ministério de crise", apartidário, de união nacional. Deny
Schwartz me disse, em sua casa, que estava propondo a todos os
ministros que entregassem os cargos. Funaro voltava de uma
viagem ao Japão e recebia meu amigo Paulo Vellinho. Na saída,
Paulo Vellinho me contou: "Impressionante o otimismo dele. Ainda
esta do outro lado do mundo".
Ainda em março, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra
me dá uma entrevista exclusiva, em sua casa, e lança o livro
Rompendo o Silêncio. Ele me disse estar certo de que seria punido.
Perdeu a promoção a general, mas não teve outra punição. Fui
almoçar com o ministro Leônidas e perguntei a ele sobre a
aplicação do Regulamento Disciplinar do Exército. Ele me
respondeu:
"Mas que RDE? Então ele não tem direito de escrever um
livro? Então ele não tem família nem honra para defender?"
Na Constituinte, o ex-guerrilheiro deputado José Genoíno,
do PT, foi procurar o coronel assessor parlamentar do Ministério
do Exército. O coronel Roure me contou que Genoíno pediu os
argumentos do Exército para manter o atual papel das Forças
Armadas na Constituição. Genoíno lhe disse que queria fazer um
jogo aberto, para que vencesse quem tivesse os melhores
argumentos.
No dia 13 de março, veio a Brasília, em visita oficial, o líder
guerrilheiro da Swapo, Sam Nujoma, eleito presidente da Namíbia
quatro anos depois. Na época, escrevi um artigo em Manchete:
SAM NUJOMA VEM PARA JANTAR. No artigo, eu sugeria que
Nujoma contasse a Sarney como ele plantou as minas soviéticas
que mutilaram as crianças que vi nos hospitais do norte da
Namíbia. Eu soube, mais tarde, no Itamaraty, que Sarney leu o
artigo e desistiu de receber Nujoma. A comitiva estava indo para o
Planalto e teve que retornar. O Itamaraty precisou convencer
Sarney da estratégia diplomática que estava em jogo. Sarney o
recebeu, mas já era tarde: a indecisão fora notada por
embaixadores da África negra.
Fui convidado para um jantar com o governador Newton
Cardoso, na noite de 7 de abril, uma terça-feira. Quando cheguei
ao local do jantar, a casa de uma empreiteira, no lago Sul, o
governador não estava. O anfitrião chamou-me para um canto
para explicar que o governador não pudera vir, mas que eu ficasse
à vontade. E passou a mostrar-me a casa. No subsolo, um telão de
TV "para vídeos eróticos". No pátio, "uma piscina para banhos
nus'', protegida por muros, o que não é permitido em Brasília. Por
fim, ele me perguntou se eu queria escolher modelos, num álbum.
E citou alguns colegas que já haviam desfrutado daquela
"hospitalidade" em ocasiões anteriores.
Eu me retirei, furioso por ter sido feito de idiota. E por ter
sido confundido com algum mutilado mental. Agora sei que isso
existe.
Noutro dia, almocei com o ex-porta-voz de Charles de
Gaulle, Alain Peyrefitte. Estava presente o jornalista Luís Edgard
de Andrade. E recompusemos um erro histórico: o general De
Gaulle não disse a famosa frase "Le Brèsil n'est pas un pays
sérieux".
No episódio da ''guerra da lagosta'', Luís Edgard estava na
embaixada do Brasil em Paris, esperando o embaixador Carlos
Alves de Souza voltar de uma audiência com De Gaulle. Quando
chegou, o embaixador proferiu a frase, em francês. Luís Edgard
conta que entendeu como se fosse de De Gaulle, mas era uma
frase do próprio embaixador brasileiro. Peyrefitte confirmou ter
presenciado a reunião entre o presidente da França e o
embaixador do Brasil, e que jamais ouvira tal frase. Um caso
típico de non è vera, ma è bene trovatta. (A frase na verdade parece
ser de De Gaulle, mas proferida noutra ocasião, sobre a guerra na
Argélia.)
Em abril, ninguém mais agüentava a crise econômica, e o
país inteiro pedia a saída de Funaro. No palácio, descubro que
Sarney não vai tomar iniciativa alguma. A iniciativa seria de
Funaro. Num banquete, no Itamaraty, Funaro comentou que não
há crise. Que só dentro do país se fala em crise. Que no exterior
todos dizem que o Brasil vai bem. Que são os especuladores, os
boateiros e a imprensa que estão inventando crise. Funaro estava
convicto de que tudo ia bem.
No mesmo banquete, o ministro José Hugo Castello Branco
me confidencia que já entregou o cargo ao presidente. O
governador Quércia quer botar no MIC o deputado Ralph de Biasi.
Mas ainda teria que esperar muito. Aloysio Alves avisa que não
contem com ele para uma renúncia coletiva. E Aureliano continua
ameaçando sair.
Por fim, sai Funaro, depois de pressões do governador
Newton Cardoso, que queria o Ministério da Fazenda para Minas,
e do governador Orestes Quércia, que deu o troco à falta de apoio
de Funaro nas últimas eleições, dizendo que ministro da Fazenda
tem que se reportar ao presidente Sarney, não ao dr. Ulysses. E
Moreira Franco pedia uma reforma ministerial. No dia 23, Funaro
entregou seu pedido a Sarney, que lhe pediu para esperar, até
encontrar alguém. Sarney chegou a nomear Tasso Jereissati.
Aliás, tentou. A assessoria de imprensa do palácio chegou a
distribuir uma biografia do governador do Ceará. Mas o dr.
Ulysses não deixou, embora vetando o correligionário nordestino.
Indicou Bresser Pereira. A reação de Sarney foi pífia: não quis
anunciar o ministro. Ulysses saiu com Bresser do gabinete
presidencial e fez o anúncio.
Ao mesmo tempo, Marco Maciel deixou o Gabinete Civil e
voltou para o Senado, para cuidar do PFL, já que Aureliano não
deixava o ministério para tratar do partido. Para o lugar de Maciel
iria Prisco Viana, ligado a Sarney. Mas Ronaldo Costa Couto
acabou no lugar. Para o lugar de Ronaldo, o Ministério do Interior,
o PMDB indicava o vice de Arraes, Carlos Wilson. Mas aí se falou
em João Alves, e Albano Franco reagiu para vetá-lo. E acabou
surgindo o deputado Joaquim Francisco como tércius. O PMDB
perdeu o Ministério do Interior e Arraes ficou desgostoso.
O preço da pacificação de Arraes era a Sudene. O novo
ministro Joaquim Francisco tenta fazer o superintendente da
Sudene durante 93 dias. Não consegue e sai. Mas o PFL mantém o
Ministério do Interior, entrando finalmente João Alves, o
governador de Sergipe, para o desagrado, agora, de Albano
Franco.
O PMDB de Arraes — como chamava Tancredo — perde
mais um pouco com a morte, em acidente de avião, do ministro da
Reforma Agrária, Marcos Freire. Para o lugar dele vai Jáder
Barbalho, ex-autêntico do PMDB, mas ligado a Sarney.
Por fim, em 24 de setembro, ainda por causa da Sudene,
cujo superintendente Arraes queria nomear, rompe-se o que já
estava há muito apodrecido: a Aliança Democrática, que
propiciara a vitória da dupla Tancredo-Sarney no Colégio Eleitoral.
A denúncia oficial da aliança foi feita pelo senador Marco Maciel,
numa entrevista a que assisti, no palácio do Planalto.
No dia 20 de maio, almocei com o arcebispo Desmond Tutu.
Ele contou uma piada. "Eu tinha um pastor que costumava
consolar os fiéis que tinham sofrido alguma tragédia na vida
sempre com a mesma frase: 'Poderia ter sido pior'. Um dia, a
mulher deixou dele. Os fiéis foram consolá-lo, mas tomaram o
cuidado de não usar a frase do próprio pastor. E se
surpreenderam quando ele próprio a usou: 'Poderia ter sido pior'.
Os fiéis se entreolharam, enquanto o pastor completava: 'Ela
poderia ter ficado'."
Em seguida, o arcebispo contou mais uma:
"Quando eu recebi o título de Doutor Honoris Causa por
Howard, em Washington, eles me pediram as medidas da cabeça,
para fazer a beca. E eu respondi: 'Não sei. Minha cabeça cresce
constantemente' ".
Depois, se virou para nós e perguntou:
"Vocês já não estão cansados de me ver na televisão?"
Mal conseguíamos levar a comida à boca, e Tutu contava:
''Vocês conhecem aquela do cristão que foi jogado aos leões
na arena romana? O leão se aproximou, feroz, e o cristão
cochichou-lhe no ouvido. O leão ficou manso e se afastou. O
imperador quis saber o segredo do cristão. 'Eu disse a ele que
costumava discursar depois do jantar.' "
O ministro Abreu Sodré me cochichou ao ouvido: "Conta
pra ele a piada do leão brasileiro. É o leão do Imposto de Renda,
que só come branco, porque negro não tem renda no Brasil".
Já que o Brasil vinha se metendo tanto nos assuntos
internos da África do Sul, o arcebispo Tutu deu o troco: sugeriu
que a nova Constituição brasileira proibisse a discriminação racial
no Brasil. Abreu Sodré reagiu rápido, explicando que há décadas
vigora a Lei Afonso Arinos, que considera crime a discriminação
racial. Tutu desculpou-se.
A deputada Benedita da Silva me contou que a visita de
Tutu foi uma "rasteira" do Itamaraty no grupo que pretendia trazer
o arcebispo extra-oficialmente, para que conhecesse a
discriminação racial no Brasil e o péssimo estado social dos
negros. Ela havia encontrado o arcebispo em Nova York, numa
reunião da Organização Mundial de Igrejas, e o convidara para
uma visita informal ao Brasil. O governo soube e faturou duas
vezes: na frente externa, apoiando a luta de Tutu na África, e na
frente interna, impedindo que o arcebispo conhecesse a situação
real do negro no Brasil. Benedita me contou que, mesmo assim,
conseguiu mostrar os fatos ao arcebispo.
Em 18 de junho, conversei com Golbery. Ele já pensava
sobre a eleição presidencial, que nem data marcada tinha:
"O PMDB quer tirar dois anos de Sarney, antecipando a
eleição presidencial. Mas está fazendo a mesa para Brizola jantar.
O PMDB quer marcar eleição sem ter como derrotar Brizola. O
único que pode derrotá-lo é o Quércia, mas Quércia não vai deixar
o governo de São Paulo. Tem idade para esperar".
Consultei Ulysses sobre a análise de Golbery. Ulysses
pouco ligou:
"Brizola é o favorito porque já é candidato e é o único. Se a
gente fosse ter medo do adversário, nunca marcaria eleição".
Aquela fora a minha última conversa com Golbery. Ele ficou
doente, foi internado e morreu em setembro. No velório, pela
madrugada, o genro de Golbery, Alberto Costa, me contou que,
após a morte, apressou-se em guardar "muitos papéis" que
Golbery vinha escrevendo. Depois, Alberto Costa apontou alguns
antigos colaboradores de Golbery, que estavam servindo à Nova
República. Eles estavam atrás de uma floreira, distantes do
caixão. "Ainda devem estar com medo do velho."

Besteiro! Generalizado

Na Constituinte, todo mundo queria fazer a sua


Constituição. O senador Bisol, relator da Comissão dos Direitos e
Garantias Individuais, propunha que homens e mulheres fossem
iguais, salvo na gestação, parto e aleitamento. Eu fiz um
comentário na TV, mostrando como era divertida a proposta, e o
senador convocou a imprensa para me responder. Nunca imaginei
que eu tivesse tal importância. Dias depois, eu assistia à
inauguração da sede da liderança do PCB na Câmara, quando
uma comunista idosa, uma passionária brasileira, resumiu sua
compreensão da proposta:
"Eu entendi tudo. Quando for aprovada a nova
Constituição, eu vou exigir meus direitos de ereção. Eu sempre
quis ter ereção. E a ereção não está entre as diferenças
excetuadas pelo senador Bisol".
Uma outra proposta dizia que é livre a escolha individual de
espetáculos ou de programas de rádio e televisão. A Constituição
iria garantir o nosso direito de mudar de canal. Mais adiante,
propunha-se que ninguém fosse privado do fornecimento de água
e luz por falta de pagamento. O que equivaleria a liberar água e
luz grátis para todos.
Mas o besteirol não era apenas na Constituinte. Na
economia, corria solto. O ministro Bresser Pereira fora ao plenário
da Câmara para falar sobre economia e, pensando estar numa
aula, sentou-se sobre a mesa diretora dos trabalhos! O PMDB
botou-o no ministério para seguir a linha do partido na economia
externa. E Bresser criticava a linha do partido, que estava muito à
esquerda e contra o FMI. Aí me chega um livro de Bresser, de
1982, da Editora Brasiliense, Economia Brasileira — Uma
Introdução Crítica. Na página 82 está escrito: Os intelectuais de
esquerda ou marxistas (não necessariamente marxistas-leninistas
nem marxistas ortodoxos) entre os quais me incluo... Agora Bresser
Pereira estava à direita do PMDB e o partido já torcia o nariz para
ele.
A inflação, na época, era "preventiva" — aumentavam-se os
preços com medo do futuro. A inflação já havia sido "de demanda",
"de escassez", "gregoriana", "de acidentalidade", "inercial" e
"psicológica" — conforme o ministro. E sempre foi ' 'perversa''.
Testemunhar a passagem de ministros e presidentes sempre ajuda
a aumentar o vocabulário. E a ter consciência de que o poder é
passageiro — e às vezes cruel para quem o exerce.
O ex-deputado Jorge Vargas me dizia que deixara de
concorrer à quinta renovação de seu mandato porque descobrira
que seus filhos cresceram, seus netos nasceram e ele não tivera
tempo de ser marido, pai e avô. Aos 61 anos começou uma nova
vida, voltada para a família e seus negócios — que se deterioraram
enquanto ele estava na Câmara dos Deputados por vinte anos.
No início do segundo semestre de 1987, o PMDB fez uma
convenção que pretendia decidir se o partido seria governo ou
oposição. A convenção terminou com o PMDB na mesma. Mário
Covas foi um dos grandes defensores da idéia de o PMDB ser
claramente de oposição, contra Sarney. Eu trouxera o senador
para uma entrevista ao vivo, na tribuna da Câmara, quando recebi
um chamado ao telefone. Era o presidente.
Sarney começou me dizendo que o PMDB era um partido de
duas caras. "Uma para o palanque, outra para pedir favores ao
governo, onde detém 90 por cento dos cargos. Foi gravíssima a
omissão do partido diante dos insultos de que fui alvo. Vou ter
uma profunda conversa com os dirigentes do PMDB." Perguntei ao
presidente se poderia repetir no ar o que ele dissera e ele
autorizou.
Com Covas a meu lado, li as anotações com as frases
textuais de Sarney. Estávamos os dois na tribuna da Câmara e
Covas acompanhava a leitura do desabafo inteiro de Sarney. O
porta-voz Frota Netto me contou que Sarney, no Alvorada, assistia
deliciado à cena pela televisão. Na verdade, eu estava sendo seu
alter ego. Depois de lido o telefonema de Sarney, virei-me para o
senador:
— Como o senhor responde ao presidente, senador?
— Não é para mim. Porque eu não tenho duas caras.
Tenho uma só. E é isso que eu quero que o partido tenha. Eu
nunca pedi nada ao governo.
No dia seguinte, Sarney conversou com Ulysses. Os
assessores presidenciais lamentaram o desabafo da véspera, que
parece ter esfriado o ânimo do presidente, que foi bem calmo com
Ulysses. Quanto a Covas, o ministro das Comunicações apressou-
se em levar a Sarney que ele pedira, para a cidade de Caçapava
(SP), uma concessão de canal de FM.
E a convenção mostrou três PMDB: o de Covas, contra o
governo, o de Ulysses, nem lá nem cá, e o de Carlos Sant'Anna,
apoiando Sarney. Ainda era o ser e não ser governo ao mesmo
tempo.
No dia 26 de agosto, pela manhã, a convite do ministro da
Justiça, participei de uma reunião do Conselho Superior de
Censura com vários cineastas brasileiros. Muitos se queixavam
dos enlatados americanos, argumentando que eram maniqueístas.
Dividiam as pessoas em boas e más, os bons sendo bonitos e os
maus feios, e o bem triunfando no fim. Achei estranho. Pensei que
isso fosse bom. Eu passei minha infância lendo histórias em
quadrinhos americanas que tinham esse clichê e nem por isso sou
um adulto menos feliz. Levantei a discussão e alguns descobriram
que o que estamos fazendo, no Brasil, de diferente dos americanos
é que eles põem valores morais e de conduta em suas histórias,
seus filmes, suas peças, enfim, nas obras que se destinam ao
grande público. E que os valores que damos são os das exceções,
não do brasileiro comum. As personagens mais desajustadas,
mais malucas, mais alienadas é que são os nossos heróis. José
Louzeiro contou que subira um morro do Rio e perguntara a um
garoto da favela — já com algumas mortes nas costas e sem brilho
nos olhos — o que mais desejaria na vida.
"Ter alguém que eu possa chamar de pai", respondeu o
garoto, meio envergonhado por uma suposta fraqueza
sentimental. ' 'E pura falta de amor'', concluiu José Louzeiro. Falta
de amor acima de falta de comida. E que modelos esses garotos
têm tido? O que tem feito a escola? E os políticos? E as elites? E
os meios de comunicação?
Naquela reunião, fiquei perguntando o que significa
mostrar Ronald Biggs na TV, como herói. Significa dizer para os
jovens que o crime pode compensar, desde que se venha para o
Brasil. O que se diz para um menino favelado, quando se põe no
ar uma longa entrevista de um bandido? Que esse é o caminho
para sair na televisão, já que as outras portas da fama estão
fechadas para ele. Contei que recém-havia visto na TV a notícia,
feita na Europa, sobre um maluco que pôs fogo no teatro de
Frankfurt. A TV mostrou o teatro queimando e depois uma cabine
telefônica vazia, informando que ele fora preso quando telefonava
para um jornal. Em nenhum momento saiu o nome dele. Se
dessem o nome, o crime teria compensado. Esse era o objetivo
dele. E se dessem o nome, ou mostrassem a cara dele, outros
malucos queimariam teatros para sair na televisão.
E também contei a história de um menino de dezessete
anos que fora preso participando do massacre de uma mulher, na
África do Sul. Perguntado pelo juiz o que tinha contra ela, o
menino respondeu:
"Nada, mas eu vi a câmera da televisão, e bati também,
para sair na TV".
E li um episódio ocorrido no mês anterior, descrito na
revista Veja:

Em todas as 1.320 celas do Carandiru (presídio de São


Paulo onde recém-houvera um sangrento levante) há um aparelho
de televisão em preto-e-branco. Na semana passada, a platéia
aplaudiu, com gritos de entusiasmo, uma operação que deu certo: a
fuga de oito detentos do Presídio Central de Porto Alegre, protegidos
por reféns.

Aí lembrei as normas da CBS, do país onde há, no mundo,


mais liberdade de imprensa: jamais mostre o crime como algo que
pode compensar. E uma outra norma: se você perceber que a
presença da câmera está instigando manifestantes, retire-se com
toda a equipe.
Saí feliz da reunião. Percebia que muita gente concordava
em que em primeiro lugar vem o compromisso moral com as
pessoas que influenciamos.
Naquele agosto, um dos mais brilhantes constituintes, o
deputado Nelson Jobim, me dizia que no primeiro semestre tinha
havido uma catarse na Assembléia Nacional Constituinte: que
todos os populistas, radicais, demagogos, sonhadores, fisiológicos
tiveram oportunidade de externar suas idéias, seus interesses, e
de contribuir para o caos que resultou no anteprojeto. Houve
quem legislasse sobre campeonato de futebol. Houve quem
escrevesse que saúde e felicidade do cidadão são da
responsabilidade do Estado. Quem ficasse resfriado ou se sentisse
infeliz teria direito de acionar o Estado. Fernando Henrique
Cardoso chamava o relator Bernardo Cabral de "mamãe", porque
ele é que teria de parir o "Bebê de Rosemary", o filho do demônio.
O consultor-geral da República, Saulo Ramos, me contou que
chamara seus constitucionalistas para examinarem o anteprojeto
de Constituição e que eles responderam: "Esse trabalho não é
para nós. E para o Chico Anysio e o Jô Soares, que têm matéria-
prima para vários programas''. Mas Jobim achava que, passada a
catarse, começaria um período mais calmo, de correção dos rumos
e dos erros. E foi o que aconteceu.
O relator Bernardo Cabral me fez uma confidencia: "Se eu
fosse desonesto, já estaria multimilionário". E se referiu aos
lobbies e tráficos de influência que tem evitado. "A melhor forma
de manter algum dispositivo é me pressionar para tirar. Aí, eu fico
moralmente obrigado a manter. Por isso, vai ficar a restrição à
propaganda de cigarro, bebidas alcoólicas, agrotóxicos,
medicamentos e terapias." E ficou. Está no artigo 220, parágrafo
4.
Enquanto isso, o lobby da Polícia Federal agia para evitar
que pressões de contrabandistas e narcotraficantes tirassem dela
a jurisdição sobre drogas e fronteira. Como se vê, todos os
interesses foram representados na Constituinte.
Mas, na reforma agrária, o lobby dos traficantes conseguiu
evitar que as terras plantadas com maconha ou epadu (de onde se
extrai a cocaína) pudessem ser desapropriadas.
Na abertura do período especial de sessões noturnas, em
agosto, o senador Afonso Arinos fez um veemente discurso pelo
parlamentarismo, um apelo patético para a eliminação do
presidencialismo. Logo depois de divulgar o discurso na TV, eu li,
no ar, o parecer do relator sobre a emenda parlamentarista de
Raul Pula, em 3 de outubro de 1949: "O presidencialismo é o
sistema de governo que melhor corresponde às tradições e às
condições do Brasil. O parlamentarismo é incompatível com o
federalismo''. O relator era Afonso Arinos.
O parlamentarismo estava tão forte que o relator acolheu as
idéias parlamentaristas e o anteprojeto saiu parlamentarista, e
acabou por manter na Constituição um perfil parlamentarista de
distribuição de poderes.
No governo, as coisas continuavam malparadas, naquele
final de agosto. Mas também tinha episódios pitorescos. Eu
assistia, no gabinete do ministro Abreu Sodré, a uma audiência a
uma delegação japonesa. O ministro não precisava falar, mas,
empolgado pela presença da TV, resolveu fazer um discurso sobre
a paz mundial:
''Ninguém melhor do que os senhores sabe o quanto é fácil
começar uma guerra e como é difícil terminá-la".
Os japoneses esboçaram um sorriso duplamente amarelo.
A dois anos e meio da morte de Tancredo, Sarney ainda
pagava pedágio ao PMDB. O líder do PFL na Câmara, deputado
José Lourenço, me contava um episódio ocorrido com o deputado
baiano Leur Lomanto. Ele precisava nomear dois encarregados do
Funrural, que seriam importantes na sua região. Encaminhou o
pedido ao presidente do PFL, senador Marco Maciel, que o
entregou ao presidente Sarney. Sarney mandou o pedido ao
ministro da Previdência, Rafael de Almeida Magalhães. Mas nada
acontecia. A orientação de Ulysses era de que todos os pedidos
transitassem pelos governadores. Assim, anularia os ministros
pefelistas, já que o PMDB tinha quase todos os governos
estaduais. Leur Lomanto pediu a interferência do líder José
Lourenço, que foi a Sarney. Sarney insistiu com Rafael de Almeida
Magalhães, e nada aconteceu. Então alguém aconselhou a Leur
Lomanto:'' Por que você não vai a Ulysses?'' Leur seguiu o
conselho e, dois dias depois, as duas nomeações para o Funrural
estavam despachadas pelo ministro da Previdência. Ulysses
chamou Leur para dar o resultado e pediu:
"Não conte a ninguém. O pessoal do PMDB não vai gostar
que eu esteja atendendo o PFL''.
Naquela época, falava-se em "bordaberryzação'' de Sarney
— uma tutela das Forças Armadas. Fui conversar com o ex-chefe
do Gabinete Civil, senador Marco Maciel. Ele me disse que não é o
que parece. O problema é que os políticos estavam abandonando o
presidente e os únicos que lhe garantiam apoio e sustentação
eram os ministros militares. Não se tratava de tutela mas de
suporte constitucional.
Governo esvaziado, ainda restava o Programa do Leite.
Lourdes, minha empregada, chega de manhãzinha contando que,
no Santo Antônio do Descoberto — 70 quilômetros ao sul de
Brasília —, havia batido boca com o "homem do leite".
— Ele estava fazendo discurso para dizer como o governo é
bonzinho, dando leite pro povo. E aí eu disse que o governo tava
fazendo caridade com dinheiro alheio — contou-me ela. — Aí ele
me disse que era dinheiro do governo, e eu disse que não, que o
governo não inventa dinheiro, que era dinheiro dos impostos. Ele
me disse que eu não pagava imposto e eu disse que sim, tá tudo
embutido no preço do que a gente compra, e o pior de tudo que tá
na inflação, porque o dinheiro que o governo fabrica diminui o
valor do dinheiro que a gente tem.
— Mas de onde é que você tirou isso, Lourdes? —
perguntei.
— Do senhor, quando o senhor fala no telefone.
Em outubro, os governadores do PMDB se reuniram, no
Rio, para apoiara tese dos cinco anos para José Sarney — no
momento em que a Constituinte discutia se seriam quatro ou
cinco. O único que não assinou o apoio foi o governador de
Alagoas, Fernando Collor, que fez uma nota em separado,
defendendo a redução do mandato de Sarney para quatro anos.
Naquela época, o governador de Alagoas já estava em choque com
o Planalto — o que lhe rendia excelentes dividendos junto aos
jornalistas, que viam nele o governador de um pequeno Estado
desafiando o todo-poderoso palácio do Planalto.
No final do mês, mais uma mudança ministerial. Rafael de
Almeida Magalhães deixava a Previdência e em seu lugar Ulysses
punha Renato Archer. Para o lugar de Archer no Ministério da
Ciência e Tecnologia, Ulysses punha o líder do PMDB, deputado
Luís Henrique. Deny Schwartz saía do Ministério da Habitação e
Urbanismo e Sarney finalmente conseguia botar seu amigo
deputado Prisco Vianna — que foi um dos esteios da campanha do
presidencialismo com cinco anos. Para compensar o Paraná, com
a perda de Schwartz, Sarney pôs o deputado Borges da Silveira na
Saúde, em lugar do baiano Roberto Santos. No Ministério da
Educação, o PFL continua o rodízio: sai o senador Jorge
Bornhausen e entra o senador Hugo Napoleão.
Naquela época, reuni denúncias para divulgar, pela
televisão, a cobrança de comissões para liberar verbas federais
para Estados e municípios. Vários prefeitos me contaram que
tinham que deixar em Brasília parte do que vinham buscar. No
Ministério da Saúde, alguém cobrava 20 por cento — era a
comissão mais alta. O ministro Borges da Silveira me ligou, no dia
seguinte, dizendo que abrira inquérito, e que toda a liberação de
verbas teria outra tramitação, para evitar as comissões. O próprio
presidente Sarney me ligou para dizer que, na Comissão de
Financiamento da Produção, o SNI descobrira que se cobrava 17
por cento. Fiquei sabendo que a liberação de 3,8 bilhões para o
Rio Grande do Sul acabara de render 266 milhões de cruzados. A
Secretaria do Planejamento tinha as comissões mais baratas: 7
por cento.
Nem mesmo quem pagava poderia denunciar. Um prefeito
que denunciou nunca mais teve recursos do Ministério da
Educação — e não conseguiu comprovar a denúncia. As verbas
eram liberadas via bancos e o prefeito já recebia o líquido, sem
saber onde ficara a comissão. Era uma quadrilha. Tuma me disse
que, se fosse chamado a investigar aquilo, descobriria fácil,
porque para liberar verbas são necessárias assinaturas. A
imprensa atirou no que viu e não acertou. Passou a acusar
escritórios de despachantes de verbas federais em Brasília.
Aqueles escritórios eram meros prestadores de serviços, que
cobravam taxas justas pelo que faziam. Quem ficava com as
comissões não eram os despachantes.
Depois da denúncia, as comissões subiram para 25, 35 por
cento. Como qualquer produto no mercado, se o risco subiu,
subiram as comissões. Naqueles dias, um prefeito chegou a me
dizer que tivera de desembolsar 10 por cento antecipados! Era a
garantia de que a comissão seria paga, quando o recurso fosse
liberado. Se não fosse possível deduzir da verba federal, a
comissão já estava paga. A quadrilha existia dentro e fora do
governo. Um prefeito me contou que havia pago a comissão a um
gerente de banco. Nenhum integrante da quadrilha das comissões
foi preso. Mas apareceu um bode expiatório: o ministro Aníbal
Teixeira.
O Brasil estava no fundo do poço. Os jovens estavam
deixando o país. Não apenas jovens, mas jovens paulistas. A
estatística dos pedidos de visto de permanência era de vinte por
dia para a Alemanha Federal, sessenta por dia para o Canadá,
doze por dia para Portugal, o dobro do normal para os Estados
Unidos. Para a Itália, trinta pedidos diários de naturalização de
descendentes; em Belém, quinze pedidos de visto de permanência
diários para a Guiana Francesa, para ganhar um mínimo de 640
dólares — contra 50 dólares no Brasil.
Em Apucarana, um capitão desequilibrado toma a
Prefeitura e no dia seguinte um colega dele me liga para dizer
quanto ganha: 13 mil cruzados. Um limpador de latrina de mina
de carvão na Suazilândia estava ganhando o equivalente a 28 mil
cruzados, com casa, comida e roupa lavada; era o que ganhava,
na prisão, a brasileira Lamia Hassan, presa em Israel.
Era o auge do clientelismo, o físiologismo, o nepotismo, a
retórica, a mentira, a imoralidade. Eu não conseguia dormir
direito. Olhava para meus filhos e me sentia culpado por tê-los
posto no mundo neste país. Pensava em ir embora também. Mas
escrevi um artigo na Manchete, A ESPERANÇA DE NOSSOS
NETOS, tentando racionalizar a esperança no meio do desespero.
Recebi uma carta de uma brasileira de dezessete anos, Kyria
Finardi, de Denver, Colorado:

Desde que estou aqui, aprendi muito sobre o governo


americano e entendo por que ele funciona. Mesmo com um mau
presidente, o sistema é composto de gente que basicamente anda
na linha. Quando um político pisa na bola, o povo abre a boca e não
fica por isso mesmo. O que estou tentando expressar é o meu
profundo pesar pela situação que se agrava a cada dia em nosso
país, que tem o potencial de ser e fazer muito mais do que isso.
Nossos políticos esqueceram que governar um país ê um trabalho
sério. Eu sei que me importar com isso não será suficiente para
mudar, mas tenho fé que os jovens de nosso país acordem e
arregacem as mangas para fazer do nosso país um objeto de
orgulho e não de humilhação.

Esse era o ponto: estávamos humilhados.


No dia 15 de julho, eu havia feito uma conferência na
Escola Superior de Guerra. Lá, pedi licença ao público para fazer
uma comparação hipotética, que a alguns poderia desagradar.
Brasil e Japão têm a mesma quantidade de gente.
Suponhamos uma troca: que 130 milhões de japoneses fossem
transferidos para o continente brasileiro e que 130 milhões de
brasileiros fossem transferidos para o arquipélago japonês.
Depois, esperaríamos dez anos.
A platéia já começava a rir, antes de eu concluir. Depois de
dez anos, não vamos imaginar o que aconteceria com o
arquipélago japonês, pobre em matérias-primas naturais. Mas ao
final de dez anos o continente brasileiro seria, sem dúvida, a
primeira potência mundial, longe dos Estados Unidos.
A lição que eu tirava da hipótese é que depende de nós. Só
depende da população que habita o território. E que é um desafio
para nós e uma vergonha para nós se não conseguirmos
transformar este território num lugar em que todos vivam bem.
Encontro-me com meu amigo Jorge Gerdau Johanpeter e
ele me fala muito em 90 mil acionistas. São os seus patrões, os
proprietários das ações das empresas que administra. Muito
diferente de dirigentes de algumas estatais, que não podem ir à
falência porque a lei não permite. Administram mal, provocam um
grande rombo e vão embora. O povo paga. Os que sustentam as
estatais deficitárias não têm assembléia geral para destituí-los e
julgá-los. O povo paga. E paga o mais pobre, porque o que tem
dinheiro se protege no overnight. Por trás da imoralidade explícita
dos costumes nacionais, havia, ainda, a imoralidade implícita.
Mas isso ninguém discutia. O Brasil inteiro gastava rios de
tinta e toneladas de papel para discutir se Sarney deveria ter
quatro ou cinco anos.
Estimulado pela discussão do mandato, formou-se o
"Centrão", que acabou fazendo na Constituinte uma revolução
contra a minoria. A Constituição seria aprovada pela ausência se
não fosse o Centrão. Do modo como estava redigido o regimento
interno, tudo o que já estava no anteprojeto seria aprovado se não
fosse expressamente derrubado por metade mais um dos
constituintes. O Centrão conseguiu inverter o regimento: tudo o
que estava no anteprojeto só seria aprovado se fosse
expressamente aprovado por metade mais um.
A rebeldia do Centrão mudou o regimento em 3 de
dezembro e Mário Covas desliga-se da direção do PMDB. E
começam a se aglutinar os "tucanos", saindo do PMDB como o
PFL saiu do PDS. O PMDB em tudo seguia o destino do PDS. Só
que o PDS-Arena nunca conseguira ter, nos governos militares,
tanto poder como tinha agora o PMDB no governo Sarney. E, no
entanto, era "oposição".
No dia 7 de dezembro, converso com o embaixador do Chile,
Raul Schmidt, sobre o seqüestro de um coronel chileno, raptado
em Santiago e solto em São Paulo. Ele imaginava que no mínimo
vinte pessoas estariam envolvidas na operação, além de no
mínimo quatro pessoas para trazê-lo, via rodoviária. Essas
pessoas teriam que fazer vigilância nos turnos de sono. Para ficar
oito dias em São Paulo, teria que haver uma estrutura bem
montada. Trazê-lo para São Paulo significaria que São Paulo era o
ponto mais seguro para guardá-lo e soltá-lo, o que significaria
uma equipe de chilenos, brasileiros e outros sul-americanos.
Teriam que ter uma boa conexão até para entrar no Brasil.
As autoridades brasileiras não conseguiram ir adiante nas
investigações, embora com todas essas evidências, porque
estavam a zero. Por pressões da Comissão de Justiça e Paz, da
Arquidiocese de São Paulo, haviam deixado de registrar os
movimentos dos exilados sul-americanos. No meu programa de
rádio de 8 de dezembro, eu disse que talvez tivéssemos que
esperar outras ações do grupo, para poder sair do zero.
Talvez sentindo um pouco de responsabilidade é que dom
Paulo Evaristo Arns se ofereceu para mediar a liberação do
empresário Abílio Diniz, no dia 17 de dezembro de dois anos
depois.
No dia 18 de dezembro de 1987, o ministro Bresser Pereira
deixa o ministério e Sarney ainda leva mais de duas semanas para
fazer o seu primeiro ministro da Fazenda. Afinal, 1988 era o ano
de eleger prefeitos, e para o PMDB era chegada a hora de afastar-
se do governo. Da ilha de Curupu, Sarney ligou para Maílson:
"Vai ser você, mas ainda tenho que remover algumas
resistências' '.
No dia da posse de Maílson, o dr. Ulysses me disse:
"Ora, qual é a surpresa? O ministro da Fazenda é de inteira
responsabilidade do presidente da República''.
Maílson ficou até o final, tendo cumprido o mais longo
período de um ministro da Fazenda no governo Sarney.
Resolvido o problema da Fazenda, Sarney dedicou-se à
defesa de seu mandato, enquanto punha o ministro Aníbal
Teixeira em processo de fritura: reuniu à noite, no Alvorada, oito
ministros e mais políticos do PMDB e PFL, para examinar
listagens de computador com os nomes dos 559 constituintes.
Quem tinha compromisso de votar pelos cinco anos ganhava
prioridade no atendimento dos pleitos junto ao governo. O
ministro Jáder Barbalho estava na reunião e me contou que,
definido o mandato de cinco anos, Sarney lançaria uma estratégia
vigorosa de combate à inflação, para os anos 1988/89-
Os jornalistas acompanhavam as reuniões de janeiro, no
Alvorada, do lado de fora do fosso. Quando chegou o ministro
Aureliano, um grupo de turistas aplaudiu. Os jornalistas, em
revide, aplaudiram depois a entrada, no Alvorada, de um
caminhão de lixo. Os turistas ficaram sem entender.
No dia 19 de janeiro, almocei com o ministro João Alves.
Ele me disse que a direção do PMDB, no fundo, não quer quatro
anos de mandato para Sarney. Prefere cinco. Porque não quer
eleição presidencial em 1988. O dr. Ulysses só estimula o pessoal
dos quatro anos para irritar Sarney e fazer teatro perante a
opinião pública. O PMDB sabe que está dividido, desgastado e não
tem candidato. E que vai perder de Brizola. Sabe que eleição
presidencial junto com municipal não prejudica Brizola, como se
propala. Porque em cada município o PMDB tem mais de um
candidato a prefeito. O que for preterido fica com Brizola. O
PMDB, sem o "entulho autoritário da sublegenda", sabe que não
consegue unidade nos municípios. E como sabe que a tese dos
quatro anos não passa, pelo menos posa como se quisesse.
No dia 28 de janeiro, no programa Plenário eu e Malu
Guimarães conseguíamos botar frente a frente Ronaldo Caiado e
Lula. Depois da gravação do debate, os dois foram conversar à
sombra de uma árvore e eu assisti a este diálogo: Lula:
— Eu não agüento mais os meus radicais. São um saco de
loucos!
Caiado:
— Eu também não agüento os meus. Vamos fazer um
trato: você segura os seus que eu seguro os meus.
Na verdade, não conseguiram segurar. Os de Lula
brincavam de ''Juventude Hitlerista'', querendo a pele dos
constituintes que votassem contra seus princípios. E os de Caiado
queriam a minha pele, meses depois, por eu ter dito que a anistia
dos débitos do cruzado seria paga pelo povo.
Eu já estava na Globo e tentava gravar uma fala diante do
Congresso, quando o pessoal da UDR me cercou.
— Daqui você não sai se não disser que fomos tapeados
pelo cruzado e que a Constituinte tem que anistiar os nossos
débitos.
— Eu não vou dizer isso e o que vocês estão fazendo é um
seqüestro.
Um deles, muito nervoso e quase chorando, agarrou-me
pelo braço e me acusou de perseguir a agricultura e a UDR.
— Essa linguagem eu não respondo — e fiquei ali, cercado,
até que eles desistiram.
No dia seguinte, encontrei Caiado no Salão Verde da
Câmara:
— Ontem, seus radicais me seqüestraram ali na frente do
Congresso.
— Ah, é? — respondeu Caiado, sem se importar. Naquele
mês de janeiro de 1988 também botamos frente
a frente o presidente da CUT, Jair Meneguelli, e o
presidente da Federação das Associações Comerciais do Rio
Grande do Sul, Rogério César Valente. O empresário partiu como
uma fera para cima de Meneguelli, citando números para provar
que Meneguelli não representava a maioria dos trabalhadores
brasileiros. E listou líderes sindicais mais representativos, justo os
que Meneguelli detesta. Depois, responsabilizou a CUT por
retrocessos na Constituinte. Nervoso, Meneguelli não conseguiu
articular o raciocínio.
Terminado o programa, o assessor de Meneguelli,
Pachalsky, repreendeu-o:
— Foi péssimo; ele triturou você. Amanhã, teremos que
soltar uma nota, ou vai ficar ruim para nós.
— Ele foi de baixo nível. Eu deveria ter saído no tapa —
justificou-se Meneguelli.
Mudança de canal

Depois veio o Carnaval. Assisti em casa, envergonhado


pelas baixarias, a transmissão da emissora em que eu trabalhava.
Um dia depois da quarta-feira de Cinzas, eu e minha mulher
fomos jantar no palácio da Alvorada. Sarney oferecia o jantar ao
presidente do Grupo Matra (aeroespacial) e Hachette (editora),
Jean-Luc Lagardère. Enquanto minha mulher conversava com o
homenageado, Sarney, dona Marly e o ministro Antônio Carlos
Magalhães me diziam que a transmissão do Carnaval pela
Manchete fora uma pouca-vergonha e que a emissora seria punida
pela imoralidade. Respondi que isso seria um consolo para mim,
porque eu me sentia envergonhado.
No dia seguinte, minha mulher e eu ouvimos as mesmas
queixas numa recepção na embaixada da França. No domingo,
levei minha filha a um aniversário de criança e ouvi tudo de novo,
como se fosse o responsável. Quando voltei para casa, no final da
tarde de domingo, o telefone chamou. Era o diretor-geral da TV,
com um recado de Oscar Bloch. Os jornais já estavam dando que
a Manchete seria punida. E um violento temporal se abatera sobre
o Rio, provocando desabamentos. A proposta era que eu falasse
com o presidente, explicando que a Manchete faria uma
campanha pelos desabrigados. Mas não deveria ser punida.
"Isto é nojento, trocar flagelado por não-punição. Eu não
vou fazer. E diga para o Oscar que, em nome dele, eu prometi ao
presidente, em Bogotá, que a TV jamais iria mostrar as baixarias
que mostrou. Foi assim que ganhamos a concessão."
Na segunda-feira, Oscar Bloch veio a Brasília para me dizer:
— Mas você prometeu para o Figueiredo. Para o Sarney,
você não prometeu nada.
— Essa é a nossa diferença. Eu prometi para o presidente
da República. Não interessa o nome dele.
Naquele mesmo dia conversei com a Cora Rónai, do Jornal
do Brasil, e repeti que estava envergonhado com a transmissão do
Carnaval. No dia seguinte, saiu uma nota no Zózimo, dizendo isso,
com chamada na primeira página. Adolpho Bloch me ligou e
perguntou se era verdade o que estava na nota. Respondi que sim.
A noite, dois minutos antes de entrar minha participação ao vivo,
ele deu ordem de não me botar no ar. Alguém o convencera de que
eu poderia dizer alguma coisa ao vivo. Com certeza alguém que
vira o filme Network — eu jamais faria uma besteira dessas. Fui
jantar com o embaixador da Comunidade Européia. No dia
seguinte, pela manhã, o portão da Casa da Manchete estava
fechado para mim. "Seo" João, o vigia, tomou-me as mãos,
chorando:
"Foi o 'seo' Adolpho que deu ordens pro senhor não entrar.
O senhor me desculpe".
Voltei, e fui cumprir um compromisso de almoço com o
deputado João Cunha, no Florentino. João Cunha foi o primeiro a
saber que eu estava impedido de entrar na Manchete, depois de
minha mulher. Por incrível que pareça, o deputado, que fora
enquadrado na Lei de Segurança Nacional por ofensas ao
presidente Figueiredo, me dizia que estava com saudades do
governo Figueiredo. E afirmava que, comparando, os jornais eram
mais livres para publicar críticas ao governo no tempo de
Figueiredo.
A noite fui a um jantar em homenagem ao jornalista
Toninho Drummond e comecei a conversar com o Grupo Silvio
Santos. No dia seguinte, o Alberico Souza Cruz, da Globo, veio à
minha casa. Eu estava começando uma nova fase de minha vida
profissional.
Primeiro, levei minha família para um descanso na praia do
Forte, ao norte de Salvador. Eu não tirava férias desde julho de
1984. Levei comigo o livro dos quinze anos de história do Jornal
Nacional e o manual de reportagem do JN, que li e anotei. Dia 5 de
abril fiz minha estréia no Jornal Nacional.
QUARTA PARTE

NA TV GLOBO
___________________________

Março de 1988 a maio de 1990


A queda dos mitos

Quando as pessoas me perguntavam se um dia eu iria


trabalhar na Globo, eu respondia que nunca a Globo aceitaria o
meu estilo. Eu também acreditava em alguns mitos, inclusive no
da pasteurização. A única recomendação que Alberico e Armando
Nogueira me fizeram foi: "Seja você. Nós o contratamos para ser
você mesmo. Não há restrições de estilo".
Outro mito que cai é o da censura interna. Fora da Globo,
eu tinha certeza de que havia. Agora eu esperava que alguém me
mostrasse o "index" das pessoas e assuntos proibidos, mas
descubro que isso não existe. Mas tem uma coisa pesadíssima
sobre mim: 60 milhões de pessoas assistindo. Não são mais os 2
milhões da Manchete. São 60 milhões. E passo a trabalhar em
função desses 60 milhões. Essa é a grande responsabilidade de
medir cada palavra. Desrespeitar 60 milhões com alguma
informação que não seja 100 por cento verdadeira é um pecado
irreparável. A gente leva dez anos para ganhar credibilidade e pode
perdê-la em alguns segundos. E não existe meia verdade. Porque o
outro lado da meia-verdade é a meia-mentira, como mostra a
matemática. Viro escravo da pressão de respeitar 60 milhões.
No dia 7 de abril tomo café da manhã com o governador de
Minas, Newton Cardoso. Ele nem sabia do tal jantar que me serviu
de armadilha.
E goza o governador do Rio, que, na véspera, jantando no
Alvorada, repetiu um prato maranhense:
"Foi penitência... O pior vai ser com o Alfonsín, que não
está acostumado... Vamos ter os resultados hoje, na fazenda do
Sodré, que ele vai visitar..."
Começamos a falar em política e ele ironiza o governador de
Alagoas:
"É o Jerônimo, o Herói do Sertão, na luta contra os
marajás. E só jogo pra torcida".
Depois, dá uma receita a quem for o sucessor de Sarney:
' 'Ficar trancado no palácio nos dois primeiros anos do
mandato, porque vai ser preciso baixar o pau. Depois, pode sair,
para colher os aplausos dos resultados. E só com medidas duras
que vai dar para governar o país".
No dia seguinte, os senadores Mário Covas, Fernando
Henrique, José Richa e outros noventa peemedebistas entregam
ao dr. Ulysses o manifesto do bloco independente do partido. E o
embrião do PSDB. O senador Richa me diz que Covas é o
candidato do grupo à Presidência da República. O dr. Ulysses,
magoado, me diz que é vítima de uma injustiça:
''E eu que, sob os protestos de minha família, sempre
convivi mais com o partido..."
Naquele dia, Delfim Netto antevê que a Constituição vai
ficar parlamentarista, com apenas o presidente presidencialista —
e com os poderes todos no Congresso:
' 'A vingança da realidade é o Congresso ter que assumir o
ônus de decidir atos de governo, e pagar por toda a sua
irresponsabilidade na Constituinte".
Sarney, aliviado pelas brigas internas do PMDB, me diz,
num jantar para o jornalista Deusdedith Aquino, que sempre teve
o governo, mas nunca o poder. "Agora que tenho o poder eu vou
governar.'' Naquela ocasião, elogiou os militares: ' 'Foram os
únicos que não me deram trabalho, que sempre se mantiveram na
Constituição, que sempre garantiram o governo e as instituições''.
E fez queixas ao PMDB: "O partido, por ser o maior, tinha
responsabilidades, mas só contribuiu para criar problemas no
governo, na Constituinte e no país".
Em Brasília, começava um movimento dentro do PFL para
fazer Jânio Quadros candidato à Presidência da República. Para
Augusto Marzagão, o vice ideal viria do PDS: Jarbas Passarinho.
Estariam juntos o PFL, o PTB, o PDS e o PDC.
No dia 21 de abril, data que o dr. Ulysses havia prometido
para promulgar a nova Constituição, Amaral Netto justifica: ' 'Ele
não disse de que ano..." O Congresso homenageia Tancredo e vejo
um único ministro do governo: Paulo Brossard.
Em maio, Sarney se reúne com vinte governadores no
Alvorada. Ausentes Waldir Pires e Fernando Collor. Na saída, pego
carona com o governador do Mato Grosso do Sul, Marcelo
Miranda, e ele me conta que quem mais defendeu Sarney foi
Miguel Arraes.

A crônica

No dia 29 de maio, estreou minha "crônica" no Fantástico.


Naquele domingo eu estava no hotel Portogalo, em Angra dos Reis,
fazendo uma palestra para a YPO — Organização dos Jovens
Presidentes de Empresas. Recordo-me de que falava da crise
generalizada no país, e mencionava que, se não nos corrigíssemos,
poderíamos ter um Kaos com "K" maiúsculo — tal como me
dissera o ministro do Supremo Tribunal, Oscar Dias Corrêa.
Quando eu disse aquilo, o presidente do BNDES, Márcio Fortes,
começou a gritar:
— Você não pode dizer isso! Isto é uma irresponsabilidade!
Aqui estão presentes os mais importantes empresários do presente
e do futuro e você quer desestimulá-los!
— Mas é a realidade. Eles me chamaram para isso. Você
quer que eu minta?
— Quero! Mentir verde-e-amarelo!
Se a crônica fosse ao vivo, a cena entraria.
A estréia da crônica havia demorado algumas semanas, até
que fossem acertados os cenários e os cronogramas de uso de
máquinas de edição, já que é feita uma edição bruta em Brasília e
uma finalização no Rio, onde se dispõe do equipamento para
alguns efeitos e sonoplastia.
Na Manchete eu tinha que garimpar dezenas de fitas para
fazer a crônica. Na Globo, uma editora me auxilia. Primeiro foi a
Malu Guimarães, agora é a Beth Athayde, que vê, durante a
semana, mais de duzentas fitas, fazendo uma pré-seleção de umas
cinqüenta. Dessas, eu escolho quinze ou vinte cenas mais
significativas e as componho numa estrutura interligada com os
fatos da semana. É o outro lado da notícia, pegando os atos
falhos, o inconsciente das pessoas, que é onde está a verdade,
como ensina Freud.
Durante esses anos de crônica, ela teve grandes astros,
como os ministros Paulo Brossard e Abreu Sodré. Brossard pelos
gestos teatrais, rebuscados. Certa vez, ele ficou seis semanas sem
aparecer. Encontrou-me num almoço para o presidente Mário
Soares, na embaixada de Portugal, e cobrou a seu modo:
''Eu não costumo ver a sua crônica, mas meus amigos têm
reclamado que eu não tenho aparecido ultimamente".
Abreu Sodré foi antológico quando disse, numa entrevista
que gravamos na África:
"Vou visitar primeiro a África Austral; depois, vou para a
África Meridional".
Eu entrava, completando: "...em seguida ele vai à África do
Norte e depois à África Setentrional".
A melhor cena ficou com o ministro Rafael de Almeida
Magalhães, em plena reunião ministerial, no palácio do Planalto.
Descobri que ele estava com a meia rasgada. Chamei o
cinegrafísta e mandei que fizesse a câmera bem aberta, mostrando
a reunião, depois identificava o ministro e acabava no furo da
meia. Na crônica, eu dizia:
"O rombo da Previdência é o calcanhar-de-aquiles do
ministro Rafael de Almeida Magalhães".
Soube depois que a mulher dele ficou furiosa com ele por
ter calçado a meia rasgada. Minha mulher diz que isso é culpa da
esposa.
Cenas inocentes já provocaram uma separação no
Congresso e uma fez a neta do ministro Leônidas Pires Gonçalves
ser gozada na escola: "Seu avô estava 'colando', na televisão".
Dois reagiram com o pior humor: o porta-voz Fernando
César Mesquita e o sindicalista Jair Meneguelli.
Meneguelli queixou-se meio misterioso. Começou dizendo
que não podia entrar em casa, de vergonha, e que era gozado no
sindicato. Eu não conseguia lembrar da cena que o vexara tanto e
ele me esclareceu: eu o mostrava virando a mão. Argumentei que,
se eu desmunhecasse quatrocentas vezes, não teria vergonha de
meus colegas. E perguntei se não conhecia um certo professor
Freud. Ele ficou mais irritado ainda.
O porta-voz Fernando César queixou-se de que eu vinha
fazendo "aquelas bobagens" e desafiou, diante da câmera:
''Quero ver se o Alexandre vai botar isso'', e começou a
cantar "Eu Sou da Mamãe".
Eu consegui uma orquestra para acompanhá-lo e o pus no
ar. Ele não gostou, mas se acalmou quando nos encontramos, na
visita de Sarney a Washington:
"Meu cantor favorito!", saudei-o. E ele não teve alternativa
senão acabar com o mau humor.
O deputado Aloysio Vasconcellos, ao contrário, ficou tão
feliz por ver-se ajeitando o topete que, ao me encontrar no Salão
Verde da Câmara, aplicou-me um sonoro beijo no rosto. A
deputada Beth Azize também fica satisfeita quando aparece:
"Eu saía à rua em Manaus e ninguém me reconhecia. Um
dia depois de sair na crônica, todo mundo me dizia: 'Eu vi você no
Alexandre, no Fantástico' ".
A deputada Moema São Thiago manda gravar as cenas em
que aparece, na segunda-feira, para sua coleção. E o presidente
Sarney me diz que não perde uma.
A crônica tem um limite que eu mesmo imponho: é o
respeito humano. Quando o dr. Ulysses ficou doente, em meados
de 1986, e andava falando demais, ele ficou fora da crônica até
ficar bom. Um dia, eu estava editando um deputado que falava
todo atrapalhado, e um colega passou por trás de mim e disse:
"E um homem de valor, está conseguindo vencer a
gagueira''.
Eu o tirei. E ele nunca entra cometendo erros de fala. O
presidente Sarney cometia tantos erros de linguagem que eu me
limitava aos mais evidentes. Poderia parecer perseguição ao
imortal da Academia de Letras. Gestos obscenos ou nojentos
também não entram. Pela reação do público, sei que minha
principal audiência é de crianças.
A melhor mímica foi do ex-governador do Mato Grosso, o
deputado Júlio Campos, que contava, mais com as mãos do que
com a boca, uma história a um colega no plenário, e foi filmado
das galerias. Parecia filme de cinema mudo. Pusemos a música de
uma pianola e legendas como nos velhos tempos, e ficou ótima.
Na votação das medidas provisórias, em abril de 1990, eu
estava sem tempo para ver fitas e a editora da crônica nem estava
em Brasília. Então, do mesmo lugar de onde acompanhava as
votações, fui dirigindo a câmera e fiz um programa inteiro só com
as imagens colhidas durante a noite de quarta-feira, 4 de abril. Aí,
foi só dar uma estrutura e editar, encerrando com um estupendo
"maestro italiano", o deputado Edivaldo Holanda, "regendo" uma
ópera.
Muitos me pedem para entrar na crônica. Eu respondo que
basta plantarem bananeira no plenário.

As eleições

Depois que o mandato de Sarney foi decidido, em 2 de


junho, a Constituinte deslanchou. Até então, desde 1º. de fevereiro
do ano anterior, o tema básico da Constituição do Brasil, feita
para durar, era uma questão casuística: o tamanho do mandato
do atual governo. Um mês depois, os constituintes entravam no
segundo turno de trabalho, com o presidente Sarney prevenindo
que, com a divisão de poderes prevista, o país seria ingovernável, e
que, com as benesses prometidas, não haveria recursos para
pagá-las. O dr. Ulysses responde com um discurso duro e seus
três ministros deixam o ministério: Luiz Henrique, Renato Archer
e Celso Furtado. José Aparecido volta para a Cultura, deixando o
governo do Distrito Federal para o excelente Joaquim Roriz. O
governador Quércia finalmente faz Ralph de Biasi ministro, na
Ciência e Tecnologia, e Sarney põe Jáder Barbalho na Previdência.
Newton Cardoso faz Leopoldo Bessone ministro da Reforma
Agrária.
Em agosto, com a morte de José Hugo, o deputado Roberto
Cardoso Alves, o ''Robertão", vai para o Ministério da Indústria e
Comércio, e Sarney indica o Almir Pazzianotto para o Tribunal
Superior do Trabalho, e promove, três meses depois, no Ministério
do Trabalho, Dorothéa Werneck. Jáder, Robertão, Brossard, íris
Rezende, Prisco Vianna, Costa Couto, Ralph de Biasi, Carlos
Sant'Anna e Aloysio Alves eram os ministros do PMDB de Sarney.
No dia 29 de setembro, quinta feira, de manhãzinha,
embarquei de Brasília para São Paulo, a fim de participar, com
Joelmir Beting e Paulo Henrique Amorim, e o editor de política
Ronald de Carvalho, de um painel sobre a importância das
eleições municipais, na Direção Comercial da Globo. No aeroporto,
ao embarcar, não dei muita importância para o Boeing 737-300,
da VASP, que estava estacionado ao lado. Ele vinha de Porto Velho
e iria decolar para o Rio, via Belo Horizonte. Já em São Paulo, pelo
rádio do táxi, fiquei sabendo que o avião estava seqüestrado.
Dentro dele havia 97 passageiros, entre os quais o irmão do
ministro-chefe do Gabinete Civil, Ronaldo Costa Couto. O avião
desceu em Goiânia, o seqüestrador matou o co-piloto com um tiro
na nuca, e acabou preso, com um tiro na nádega, quando
procurava trocar de avião, indo para um Bandeirante. Mais de
cinqüenta tiros foram disparados e o comandante, que
acompanhava o seqüestrador, foi ferido na perna.
Volto a Brasília e, no dia seguinte, encontro um amigo
especializado em Israel em operação anti-seqüestro. Ele me diz
que foi uma loucura, o cúmulo da incompetência, darem
cinqüenta tiros e só acertarem um, na bunda do seqüestrador —
que acabou morrendo do ferimento.
"Em seqüestrador a gente só dispara um único tiro."
No sábado, fui almoçar com um coronel da FAB que
participara da operação da quinta-feira. Ele me conta que o
seqüestrador, em certo momento, quis jogar o Boeing sobre o
palácio do Planalto, enquanto um Mirage armado o seguia.
"Foi um sufoco saber quem assumiria a ordem de abater o
Boeing com 97 passageiros, caso ele emproasse para o palácio.''
O seqüestrador maranhense Raimundo Nonato Alves da
Conceição, 28 anos, mostrou que não andamos pior por pura boa
sorte.
A Constituição é promulgada em 5 de outubro. Trato de ler
e reler a nova bíblia do país. Ganho do Senado um exemplar de
bolso e passo a mostrá-lo no Jornal Nacional. Ter uma
Constituição, e segui-la, é sinal de civilização. Fora dela, é a lei da
selva, a lei do mais forte. E preciso reforçar o respeito à
Constituição. A hora de discutir e criticar passou. Agora, existe
uma Constituição, feita pelos representantes do povo, e acabou.
O país se encaminhava para as eleições municipais, as
primeiras na vigência da nova Constituição. Eu vinha comentando
e analisando as pesquisas do Ibope nas principais cidades do
Brasil. Vínhamos fazendo programas especiais. No dia 15 de
novembro, eu estava no Rio e já tínhamos uma antecipação do
resultado, feita pelo Ibope. Então, gravei um comentário usando
como fundo a avenida Rio Branco e a Candelária, o palácio
Tiradentes, a Cinelândia e a praia de Ipanema, dizendo que o
eleitor brasileiro, naquele dia, havia posto na urna mais do que
um voto, uma mensagem. Uma mensagem contra os velhos
hábitos da política, contra a corrupção, contra o desgoverno,
contra a crise econômica, contra os vícios dos políticos e dos
governantes. Uma mensagem em favor da renovação, da ordem,
da autoridade, da modernidade. E que quem soubesse ler aquela
mensagem estaria afinado com o eleitor, no retorno às urnas, um
ano depois.
Para mim, os resultados das eleições municipais foram um
aviso. Os políticos tradicionais e seus partidos não souberam ler.
Não perceberam que o povo vinha de muitas frustrações: diretas-
já, Tancredo, Nova República, Cruzado, Constituinte.
A Constituinte frustrara por culpa dos políticos que
correram atrás dos votos para se eleger constituintes, passando a
idéia de que uma Constituição é capaz de botar feijão com arroz
na mesa. Uma Constituição ordena o trabalho do país. Mas o que
põe feijão com arroz na mesa é só uma coisa: trabalho.
Estávamos no miolo de um triênio riquíssimo para a
História do Brasil: uma nova Constituição em 1988, a primeira
eleição presidencial direta em 29 anos, em 1989, e a renovação
dos governos dos Estados, assembléias legislativas, Câmara
Federal e um terço do Senado em 1990.

A eleição presidencial

A eleição presidencial seria a grande atração do triênio. A


primeira desde 3 de outubro de 1960, a primeira com dois turnos.
O segundo turno foi criado pelas esquerdas para contornar a
velha tese de Golbery, que sempre soube dividir as esquerdas para
ter maioria. Seria a primeira eleição presidencial realmente
honesta, porque vinda de um cadastramento geral de eleitores,
que eliminou milhares de fraudes. Um piloto maranhense, amigo
meu, contou-me que ainda é do tempo em que recolhia as urnas e
as trocava no avião, jogando os votos autênticos no rio.
Uma eleição com 82 milhões de eleitores! Eleição com
menores e com analfabetos. Segundo a Justiça Eleitoral, havia 56
milhões de eleitores analfabetos ou sem completar o primeiro
grau.
Não se imagine isso sinônimo de falta de discernimento
para votar. Um velho deputado do Nordeste, que foi constituinte
em 1946, me disse, em tom de queixa:
"Vocês estragaram tudo! Não adianta mais a gente ir para o
sertão, eles já sabem de tudo melhor do que a gente!"
O rádio e a televisão acabaram com o "curral", o voto de
cabresto. O eleitor, no cabo da enxada, fica ouvindo o seu radinho
de pilha; depois, à noite, vê tudo na televisão. E aí fica olhando as
estrelas, assuntando. Tem mais tempo que os que se dizem
intelectuais para achar sabedoria no discernimento de seu voto.
Às vezes ser analfabeto até o protege da mentira. E ele fica mais
bem informado que o pequeno intelectual.
A eleição presidencial de 1989 também seria uma eleição
sem ideologia e sem partidos. Seria uma eleição personalista, com
cada candidato valendo por si mesmo.
Mas, sobretudo, seria a primeira eleição presidencial no
Brasil a ser decidida no palanque eletrônico da TV e do rádio. Um
palanque mais confortável para o eleitor. Um palanque que todas
as noites seria levado ao quarto, à saía, à cozinha do eleitor. Seria,
então, também, uma eleição decidida na emoção da palavra do
candidato, na empatia do rosto do candidato diante do eleitor, do
olho no olho.
Quem soubesse de tudo isso, e tivesse nas mãos a tradução
da mensagem que o eleitor antecipou pelas urnas do ano anterior,
tinha nas mãos o caminho do sucesso.
O país estava sem lideranças e as elites, despreparadas. Os
dois maiores partidos ainda acreditavam em seus próprios
tamanhos e nas tradições da política brasileira. O PMDB com
diretórios em todos os municípios e o PFL com prefeitos em mais
de 1.500 municípios estavam convictos de que seriam os dois a
chegar no segundo turno. Para eles, os resultados das eleições
municipais eram conseqüência direta de um fato imediato: a
invasão da siderúrgica de Volta Redonda pelo Exército.
Uma semana depois da invasão da siderúrgica, eu almoçara
com o ministro do Exército, general Leônidas. Ele me disse que a
invasão foi uma decisão consciente, para dar um aviso: que ações
semelhantes, no país inteiro, teriam reação semelhante e com
igual severidade por parte do Exército. Disse-me que os generais
ficaram satisfeitos quando a ação foi decidida, porque achavam
que era hora de conter abusos contra o patrimônio da União. E
acrescentou:
"A tropa estava preparada. Ninguém atirou por despreparo.
Não eram meninos. Eram soldados de dezoito anos, tal como tem
o Exército soviético. Eles foram atacados com ácido sulfúrico,
coquetéis molotov e armas tiradas da guarda da siderúrgica. Se
acham que fizemos aquilo para dar vitória ao PT, eu respondo que
foi para fazer o PT se desgastar no poder".
No dia 3 de fevereiro de 1989 começa em Assunção, no
Paraguai, um golpe para derrubar o mais antigo ditador da
América Latina. No domingo, dia 5, Stroessner cai e Fidel Castro
assume o título. Ligo para o embaixador Paulo Tarso Flexa de
Lima, que respondia pelo Ministério das Relações Exteriores, e
descubro que o general está voando para o Brasil. O ex-ditador
passa por São Paulo e desce finalmente em Itumbiara, sul de
Goiás, na divisa com Minas.
Ele fica numa residência de Furnas, e a Globo me manda
para lá, de avião. No portão, um diplomata me avisa que o general
não dará entrevistas. Peço, então, que pelo menos ele venha ao
jardim. O general aceita, como forma de se ver livre da multidão
de repórteres que cerca a residência. O diplomata me faz um sinal
e trepo rápido num muro de mais de 2 metros, para tentar
entrevistá-lo. Uma senhora fica puxando meu pé:
"E o autógrafo da minha filha?"
Stroessner aparentava estar desligado. Gritei para ele em
espanhol e ele atendeu. Acabei arrancando duas ou três frases
decisivas. Uma delas era a de que permaneceria no Brasil.
Pus a fita embaixo do braço e corri para a pista. Quando
nos aproximamos de Brasília, o tempo estava péssimo. Dava para
ver o cumulus nimbus que ia envolvendo a cidade, e chegava a uns
500 metros do aeroporto.
"Desça direto naquele restinho ou nunca mais", palpitei.
Foi o que deu. A moto da Globo, que viera buscar a fita, não
pôde sair. O motor estava encharcado. Fui com meu carro, uma
velocidade cuidadosa, mas a tempo de editar Stroessner para o
Jornal Nacional. Foi, como todos os dias, uma emocionante — e
desgastante, tensa — correria de últimos minutos, últimos
segundos.
No dia seguinte, voltei à carga, pelo telefone, através do
filho de Stroessner, coronel Gustavo. Queria uma entrevista
exclusiva para o Globo Repórter da sexta-feira, com um trecho
para fazer a chamada no Jornal Nacional. Consegui. Só que, desta
vez, evitei o avião. Botei a família toda no carro e saí de
madrugada para Itumbiara, distante 500 quilômetros. De lá,
iríamos passar o fim de semana no deliciosíssimo rio Quente. A
entrevista seria gerada para o Rio de Janeiro através da nossa
afiliada em Uberlândia.
Conforme o combinado, uma camioneta de Furnas me
esperava no primeiro posto de gasolina antes da cidade. Deixei o
carro com minha mulher e embarquei, com a equipe da Globo que
já estava lá, na camioneta. Fomos todos deitados no chão, para
não sermos vistos pelos jornalistas que cercavam a casa.
Eu sou do tempo em que aplaudíamos e admirávamos o
colega que conseguisse um furo ou uma exclusiva. Hoje, a gente
precisa deitar-se no chão de um carro, para evitar uma revolução
contra o trabalho. O trabalho individual é desestimulado por uma
pressão corporativista: o trabalho coletivo protege os medíocres.
E as pessoas têm muita pressa. Não sabem que o cultivo de
fontes e a conquista da confiança demandam anos de trabalho
sem deslize.
Antes da entrevista, Stroessner se queixou do general
Andrés Rodríguez, que assumiu o governo e hoje é presidente
eleito:
''Ele ainda esteve na minha casa no Natal. Era parte da
minha família. Logo ele fazer uma coisa dessas!"
Stroessner e seu filho moram hoje no lago Sul, em Brasília.
Em abril, o PMDB desiste de ter Quércia como candidato.
Chegaram a até armar uma cilada para o dr. Ulysses. Na reunião
na casa do deputado Marcelo Cordeiro, o representante do grupo,
deputado Irajá Rodrigues, dirigiu-se ao presidente do partido:
— Dr. Ulysses, o senhor é o nosso condutor. Queremos que
o senhor conduza o nosso partido à vitória. Queremos dar ao
senhor a missão de percorrer o país, para encontrar o candidato
ideal, que nos vai levar à vitória. Aquele que o senhor escolher nós
lhe damos garantia de que será homologado pela convenção.
— Pois então não vamos perder tempo. Vai ser eu mesmo
— atalhou o dr. Ulysses.
No PFL, Aureliano conseguiu fazer adotar a idéia da
consulta interna. O partido fez a "primária" em maio, e Aureliano
foi o escolhido.
No dia 14 de maio eu estava em Maceió, em férias, no hotel
Jatiúca, quando ligou o governador Fernando Collor, convidando-
me para jantar. Desculpei-me dizendo que estava com as crianças
e que não tinha roupa para ir ao palácio. Na verdade, eu não
poderia aceitar o convite, porque estava cobrindo a campanha e
não poderia jantar com um candidato.
Eu só havia estado com ele antes na sexta-feira, 13 de
janeiro. Almoçamos no restaurante Gaf, em Brasília, na
companhia do deputado João Cunha e do jornalista Adriano
Lopes. Depois daquele almoço, só estive com ele depois das
eleições, no dia 20 de dezembro, quando fui à Casa da Dinda
gravar uma entrevista para o Globo Repórter.
Quando voltei das férias, ouvindo as pessoas dizerem que
Collor era o candidato da Globo, liguei para o Alberico, pedindo
orientação. Afinal, eu era o comentarista da rede nas eleições.
"Você tá louco, sô? É neutralidade absoluta. Nós não temos
candidato. Continue assim."
Essa foi a única instrução que recebi durante toda a
campanha.
Meses depois, descobri que lidava com mais um mito em
relação à Globo: o de ter promovido o candidato Fernando Collor.
Descobri, por acaso, em casa. Estava rodando canais na televisão,
na busca de um programa, quando entrou um programa de
entrevista, com a legenda: Gravado em fevereiro de 1988. Eram
cinco conhecidos jornalistas, entrevistando o governador de
Alagoas. E todos o incensando intensamente, elogiando,
formulando perguntas de modo que ele pudesse falar à vontade. Aí
me deu um estalo: fui para o arquivo de revistas e jornais e
descobri que, durante o ano inteiro de 1988, o herói dos
jornalistas era o governador do pequeno Estado que se insurgia
contra o governo federal. Era capa de revistas, fotos de primeira
página em jornal, tudo. Como eu via o Jornal Nacional todos os
dias, sabia que aquela badalação toda não havia saído no JN.
Tudo que a Globo fizera se limitava a um Globo Repórter sobre o
caçador de marajás.
Aí as coisas ficaram claras: quando os jornalistas
descobriram que o governador de Alagoas seria adversário de seu
candidato à Presidência da República, ficaram ferocíssimos por
terem promovido Collor e, num mecanismo de defesa que Freud
explica, transferiram a responsabilidade para a TV Globo.
Na verdade, o mérito foi de Collor. Ele soube ler a
mensagem das urnas de novembro de 1988. Já havia percebido
antes o que o povo queria. Por isso, tornou-se opositor de Sarney,
bateu no SNI, na corrupção, no clientelismo, na política antiga, no
paternalismo, no nepotismo, nas elites. Foi procurar o que o país
precisava, e trouxe a mensagem da modernidade, na economia
atualizada, aberta, livre, sem o governo para atrapalhar. Trouxe a
desestatização, a abertura para o mundo. E viu também que era
necessária a ordem, a autoridade, alguém com voz de comando,
depois de Sarney. Ê tinha que usar toda a força contra a inflação.
Resultado: em abril começou a subir nas pesquisas e foi primeiro
até o final.
Em maio, o senador Mário Covas tentou entrar na disputa
pregando, no Senado, um "choque de capitalismo". Era uma
guinada do líder, que na Constituinte era acusado de esquerdista,
em direção aos votos dos empresários e da classe média. Como
aval da guinada, trouxe como vice o ex-governador de
Pernambuco, Roberto Magalhães. Que iria durar só duas
semanas. O vice e a guinada.
No dia 30 de junho, eu esperava Diego Maradona no
aeroporto de Goiânia, quando encontrei o candidato Ronaldo
Caiado. Ele me disse que iria se eleger presidente. Perguntei o que
faria, com minoria no Congresso.
"Eu tenho experiência com aquela gente. Tratei deles na
Constituinte. Eu boto a UDR lá fora e eles aprovam tudo."
Eu vinha de novo analisando e comentando as pesquisas do
Ibope. Eu recebia os números pelo telefone, em Brasília, e ligava
para o Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, para esclarecer
dúvidas e ter explicações e pormenores da pesquisa. O Ibope
chegou ao final empatado com o eleitor, tanto no primeiro como no
segundo turno.
Nós tínhamos o programa Eleições 89 e depois o Palanque
Eletrônico, feito ao vivo, em São Paulo, com os dez principais
candidatos, nas duas primeiras semanas de setembro. O
programa mais tenso, para mim, foi com Brizola. Eu havia levado
até uma fita gravada, da entrevista que ele me deu ao chegar no
Brasil. Se ele partisse para uma discussão com a gente, eu iria
usar a fita. Mas ele se limitou, no final, a nos acusar de termos
candidato. Eu respondi que não tínhamos. Quando as câmeras
desligaram, ele me disse:
"Eu não poderia deixar de dizer isso, senão ia frustrar os
meus companheiros".
Eu ficava olhando os candidatos sem entender. Não
entendia como 22 pessoas queriam ser presidente da República.
Alguém que iria pegar, de saída, uma hiperinflação. E que, já de
início, iria entrar perdendo dois meses e meio de mandato.
Acontece que a Constituinte diz que o mandato é de cinco
anos, começando no dia 1º. de janeiro. Mas diz que o mandato de
Sarney vai até 15 de março. O presidente que começa em 15 de
março e termina no dia 1º. de janeiro fica com quatro anos, nove
meses e quinze dias de mandato.
Além disso, o partido de qualquer deles não chegava aos
286 votos para ter maioria no Congresso. Iria governar com
minoria, dependendo do Congresso. Porque, pela nova
Constituição, o presidente, que tem a responsabilidade de
governar, não tem os poderes; e o Congresso, que tem os poderes,
não tem a responsabilidade de governo. Mas não ficariam aí as
desditas do presidente. Terá que governar o primeiro ano de seu
mandato com o orçamento de Sarney, depauperado pela inflação,
e no segundo semestre este mesmo velho Congresso é que vai
fazer o seu orçamento plurianual de investimento, que vai
abranger o resto do seu mandato.
E exatamente no meio de seu mandato, vai ter uma nova
Constituinte. Porque a Constituição prevê uma revisão
constitucional em 1993, dando ao Congresso eleito em 1990
poderes de reformar a Constituição sem precisar da maioria de 60
por cento (a Constituição fala em 3/5, para complicar). No mesmo
ano, vai ter que enfrentar dois plebiscitos: um sobre o regime se
monárquico ou republicano, e outro sobre o sistema de governo,
se parlamentarista ou presidencialista.
Para querer tudo isso ganhando pouco e perdendo a
liberdade por cinco anos, só mesmo tendo muita vocação para ser
homem público.
Mesmo assim, a menos de um mês da eleição, apareceu
mais um pretendente. O PFL, desconfiando que ia muito mal a
candidatura de Aureliano, decidiu buscar Sílvio Santos. Eu só tive
certeza quando fui procurar o senador Edison Lobão. Fiquei
esperando por ele três horas em seu gabinete, enquanto me
informavam que ele já estava chegando do aeroporto, vindo de São
Paulo. Quando chegou, foi evasivo, dizendo que fora tratar da
filiação da emissora dele, no Maranhão, ao SBT. Na verdade,
estava tratando da filiação da candidatura de Sílvio Santos ao
PFL.
Foi então combinado um encontro entre Sílvio Santos e
Aureliano Chaves na casa do ministro do Interior, João Alves.
Sílvio estava reticente e saiu sem dar uma resposta definitiva, sob
o argumento de que tinha que conversar com sua mulher.
Aureliano mandaria uma carta, comunicando a renúncia ao
partido. No dia seguinte, eu soube da reunião quando procurava
mostrar, com a câmera, a distância que ficava entre o gabinete do
presidente do PFL, num dos últimos andares da torre do Senado,
e o palácio do Planalto. Desci correndo, já noite escura, e gravei no
estacionamento do Senado a informação de que Aureliano e Sílvio
Santos haviam se encontrado, para tratar da substituição do
candidato do PFL.
Aureliano estava em sua casa, em Belo Horizonte, e ficou
furioso com o vazamento, quando viu o Jornal Nacional. E voltou
atrás. Jornalistas o procuraram naquela noite e ele negou tudo. A
direção do PFL Aureliano alegou que não teria como explicar à sua
mãe que estava fugindo da luta. E continuou candidato,
praticamente abandonado pelo partido, sem ter recursos sequer
para mandar imprimir camisetas com seu nome, nem para
custear viagens pelo Brasil.
No PMB, o candidato à Presidência, Armando Correia, e
Múcio Atayde viram em Silvio a chance de projetar o partido, e
saíram atrás dele. Encontrei Armando Correia e Múcio Atayde
fechados numa suíte do hotel Nacional, planejando o lançamento
da candidatura Silvio Santos, tendo o senador Marcondes
Gadelha, do PFL, como vice.
Alguns viam o lançamento de Silvio Santos como uma
jogada de Golbery às avessas, para dividir a direita. Mas a
esquerda não estava tão segura disso. Sabia que a popularidade
de Silvio poderia tirar mais votos de Lula ou Brizola que de Collor.
Por via das dúvidas, o PRN foi à luta, através do advogado
Célio Silva, hoje consultor-geral da República. No Tribunal
Superior Eleitoral descobriu-se que Silvio não poderia ser
candidato, simplesmente porque a situação do registro do partido
estava irregular. O presidente do TSE, ministro Francisco Rezek,
me disse, na época, que o Tribunal reagiu como se na última hora
uma aventura viesse atrapalhar uma eleição tão importante, há
tanto esperada e tão bem preparada. Uma reunião, na véspera do
julgamento, antecipou o resultado: unânime negativa para o
registro.
A grande surpresa veio depois: as pesquisas de opinião
mostravam que Silvio Santos estava chegando tarde. Já não tinha
as intenções de votos que tivera no início do ano e ficava num
quinto para sexto lugar.
O que estava decidindo, mesmo, era o que os candidatos
diziam no palanque eletrônico do horário eleitoral na televisão.
O resultado do primeiro turno em 15 de novembro
confirmou a mensagem do eleitor de um ano antes. Os políticos
tradicionais ficavam para trás, com pequenas votações, e dois
jovens, duas novidades na política brasileira, iam para o segundo
turno: Lula e Collor.
Fui um dos mediadores dos dois debates entre os dois. O
primeiro foi no Rio, no domingo, 3 de dezembro, no estúdio da
Manchete. Notei que Collor estava preso e Lula solto. O debate
andava e Lula pediu-me emprestada a Constituição que sempre
levo no bolso. Olhei para a câmera, para ver se não me focava,
porque poderia parecer que eu estava favorecendo o candidato, e
estendi-lhe a Constituição. Ele a mostrou à câmera:
"Esta Constituição, que trago sempre comigo... etc. etc."
Quando o debate terminou, Lula me cumprimentou com
euforia, e senti que ele havia ganho. Depois do debate, ele
começou a crescer nas pesquisas.
O segundo debate foi em São Paulo, no estúdio da
Bandeirantes. Quando Collor chegou, um coro assobiava, pelos
alto-falantes do estúdio, o Lula-lá. Lula demorou a chegar. E
chegava nervoso. Parecia um lutador que chegava ao ringue tendo
recebido um soco no camarim. De Míriam.
Eu era o mediador do último bloco. Fiquei assistindo,
enquanto esperava a minha vez. Uma afirmação de Lula atingiu-
me no estômago:
"Vou acabar com o ensino particular".
Foi a maior agressão à liberdade que ouvi em toda a
campanha. Pensei em meus filhos e fiquei revoltado. Pela primeira
vez, na campanha, eu sentia alguma emoção contra um
candidato.
No intervalo antes do último bloco, cumprimentei Collor e
depois Lula. Lula tirou do bolso uma Constituição novinha:
— Aprendi com você. Vou usar sempre.
— É muito bom. Porque só a Constituição pode proteger
você, se ganhar, e só a Constituição pode nos proteger, se você
ganhar — respondi, com um sorriso. Lula estava tão nervoso que
acho que não percebeu o que eu havia dito. Ele não tirava os olhos
de umas pastas que Collor conduzia sobre a bancada, e que
nunca consultou.
Collor passou aquele derradeiro bloco batendo, atacando
como nos demais. E Lula permaneceu encurralado, se defendendo
mal, atrapalhado. E de olho nas pastas.
No último bloco do último debate antes da eleição, caberia a
Lula a boa sorte de dar a última palavra. E quando ele deu a
última palavra saiu aquele estranho ''caçador de maracujá'', que
ninguém entendeu. Era a pá de cal.
Observei os cumprimentos. Collor veio em minha direção
sorrindo, com os olhos brilhando. Na direção de Lula não veio
ninguém. Seus assessores pareciam tê-lo esquecido. Mas só tive
certeza do resultado do debate quando entrei no carro da Globo. O
motorista me contou que o assistira numa espécie de auditório,
onde estavam dezenas de jornalistas.
— O que eles acharam? — perguntei ao motorista.
— Eles acharam que foi empate.
Então Collor ganhara bem. Se eles haviam concedido o
empate, é porque Collor ganhara bem.
Notei isso na zona sul do Rio, no dia seguinte. Havia uma
mudança nas ruas. Naquele 15 de dezembro os coloridos saíam às
ruas sem medo das patrulhas que agrediam a paus e pedras os
carros com plásticos de Collor.
A tarde, fui gravar para o Jornal Nacional diante do palácio
do Catete. Ia falar sobre a República e as eleições que fortalecem a
democracia. Do outro lado da rua juntou-se um grupo, que
começou a gritar slogans, se dirigindo a mim. Estava difícil gravar
com aquela barulheira. O microfone de lapela, que uso, é muito
sensível. Um deles me gritou:
"Alexandre Garcia: vai preparando o teu passaporte!
Quando a gente ganhar, vamos te expulsar do país!"
Atravessei a rua. Seria covardia responder protegido pela
rua.
''Então vocês já me submeteram a um julgamento sumário
e vão me expulsar do país quando ganharem? Pois eu vim aqui
dizer para vocês que eu vou esperar. E quero que saibam que eu
sei que vocês são totalitários. Vocês odeiam a democracia!"
Voltei para a frente do palácio e pude gravar tranqüilo. De
longe, pelos gestos, percebi que o grupo estava discutindo entre si.
No sábado de manhã, fui correr na Vieira Souto e percebi
que o domínio absoluto das bandeiras vermelhas acabara. As
verde-amarelas passavam, desafiantes. Alguma coisa mudara.
À tarde, saí para a televisão. Quando meu táxi parou para
atravessar a avenida Jardim Botânico, um casal, de um carro ao
lado, gritou:
— Vê se não vai mentir: o Lula já está dois pontos na
frente.
— Não sei; é o que vou ver agora — respondi.
A Globo estava cercada. Os que mantinham o cerco
gritavam aquela história de dois pontos na frente. Eu liguei para o
Montenegro, no Ibope, mas ele ainda estava recebendo os
resultados dos Estados. Nem mesmo o Ibope sabia como estava.
Felizmente eu já conhecia o fenômeno, uma idiossincrasia da zona
sul do Rio. De repente, alguma coisa vira verdade e todos aceitam,
sem perguntar a origem.
Por fim, o Ibope tinha os resultados da derradeira pesquisa.
Collor estava um pouco na frente. Carlos Augusto me explicou que
Collor ganharia a eleição, porque os questionários da pesquisa
feitos depois do debate davam-lhe uma folgada vantagem. O
resultado final trazia uma diferença pequena porque a maior parte
dos eleitores havia sido pesquisada antes do debate. A tendência
do voto no dia seguinte seria, portanto, de uma vitória de Collor.
Mas eu tinha que analisar os números da pesquisa e, de comum
acordo com Montenegro, afirmei, ao Jornal Nacional daquela noite,
que havia um "empate técnico" entre os dois, que só seria decidido
na urna.
No domingo da eleição eu enfiei um chapéu de pano preto e
óculos escuros e fui ao correio, justificar minha ausência de
Brasília, tal como fizera no primeiro turno. Passou uma camioneta
com bandeiras vermelhas e o ator Paulo Betti, que estava na
carroceria com outras pessoas, me reconheceu:
"Alexandre Garcia! Cuidado com o que você vai dizer esta
noite! Nós estamos de olho em você! Olhe lá, hein!"
Naquela momento, eu fiquei com certeza de que jamais
faria isso com ele, ou com qualquer pessoa. E saí feliz com a
minha formação política.
Naquela noite, começou a apuração, que terminou com 35
milhões de votos para Collor e 31 milhões para Lula.
No dia seguinte, voltei para Brasília. O embaixador da
Áustria, meu amigo Nickolaus Horn, me diz:
"Que coisa estranha vocês, brasileiros, ficam perguntando
em quem o outro votou. No meu país o voto é tão secreto como a
conta bancária".
Expliquei a ele que estávamos nos lambuzando com o mel
que há tempo não comíamos.
Dois dias depois eu iria à Casa da Dinda, gravar uma
entrevista com o presidente recém-eleito. Tive uma surpresa ao
conversar com ele durante algum tempo. Desde o almoço de
janeiro até aquele 20 de dezembro, Fernando Collor dera um salto
de anos-luz no que eu ouvira e no que estava ouvindo. Cheguei à
conclusão de que Fernando Collor era um homem com um enorme
potencial. Fora bem-educado, mas precisava de alguns milhões de
votos para fazer vir à tona toda a sua potencialidade. Ele sabia
tudo e analisava tudo. E estava absolutamente atualizado com o
mundo. Fiquei impressionado.
Ao sair pelo portão da Casa da Dinda, carregando as fitas
que havíamos gravado, levei um susto quando uma repórter pôs-
se a contar, aos berros, as fitas que eu levava. Até hoje não sei se
era uma cobradora de pedágio de fitas, ou, talvez, uma cobradora
de imposto por fita gravada.
Na quinta à noite, dia 21, apresentei, no teatro Nacional, a
Orquestra Sinfônica de Brasília, no concerto de Natal do Banco do
Brasil. Na abertura, eu dizia que coincidiam datas felizes: o início
de uma nova década, o Natal e os resultados de uma eleição
democrática. A maioria do teatro explodiu em vaia quando eu falei
na eleição. Só então reparei que mais da metade da platéia estava
de camisa vermelha.
A vaia durou mais de cinco minutos. Foi uma beleza! Eu
ainda não sabia como reagiria à vaia. Soube, naquela noite. Pus
um sorriso na boca e fiquei esperando terminar. Quando
terminou, eu estava recarregado de energia e alegria.
No intervalo, um jovem subiu ao palco e me perguntou:
— Você é de esquerda ou de direita?
— Sou jovem o suficiente para não ter essas diferenças
antigas, e democrata o suficiente para não perguntar a ninguém
uma coisa dessas.
Uma vez perguntei ao meu amigo Flávio Gikovate, que é
médico psiquiatra, por que a crítica me dá tanto prazer. Ele acha
que sou dessas pessoas que não se sentem merecedoras do êxito.
Por isso, ficam felizes com a crítica e a vaia. Na verdade, quando
eu termino um trabalho difícil, como foi a transmissão das
votações das medidas do plano econômico, eu pergunto ' 'Como
foi?" e a pessoa me responde que foi bem, eu fico com vontade de
retrucar: ''Isso eu sei; eu quero saber o que foi mal''. Porque eu
quero corrigir, é claro.
No final do ano, o presidente eleito alugou um avião e foi
para as ilhas Seychelles. O deputado Amaral Netto me disse: "Eu
não viajo mais com ele. Ele gasta muito. Mas garanto que vai
querer mostrar que, quando é do dele, ele gasta. Quando viajar
por conta do erário, vai mostrar a diferença".
Na viagem seguinte, em avião comercial ao redor do mundo,
quem o acompanhou sabe que foi dureza. O embaixador da
França, Jean-Bernard Ouvrieu, me disse que acompanhou a visita
em Paris, e que o presidente eleito do Brasil impressionou
fortemente as autoridades francesas.
Collor conta que os franceses chegaram a perguntar o que
ele queria deles. E Collor:
"Acho que está havendo algum engano. Eu não vim pedir
nada. Porque quem vai resolver os nossos problemas somos nós''.
Ele contou isso na entrevista coletiva do dia 13 de fevereiro,
quando deu todas as pistas para o plano que viria no mês
seguinte:
"No dia 15 de março eu vou declarar guerra contra a
inflação, os sonegadores, os especuladores. Será um esforço de
guerra e vou me aliar ao povo que sofre, para que sejam os
operários da reconstrução, sem a matéria apodrecida dos que se
aproveitam para lucrar. A inflação não é mais um problema de
descontrole econômico, é um caso de polícia. A Polícia Federal
será convocada para levar a Justiça aos que ganham com pretexto
da inflação. Tem que prender ladrão remarcador. A partir de 15 de
março, a fatura não vai para os que vêm pagando até agora".
Quando alguém lhe perguntou o que fazer com o dinheiro,
ele respondeu que não é consultor financeiro.
Mas a frase mais importante da entrevista foi:
"Tudo aquilo que eu falei na campanha está mantido".
No dia 3 de março, conversei com o presidente eleito e falei
sobre a frase.
''Infelizmente é uma revolução nos hábitos políticos
brasileiros, porque o político tinha uma palavra na campanha e
outra do governo. Agora eu vou mostrar que tenho uma palavra
só. O Brasil está numa encruzilhada e eu não posso errar'', disse
ele.
Um dia depois da posse, 16 de março, ele mandou o
conjunto de medidas provisórias para o Congresso. As votações
que aprovaram e modificaram vinte medidas foram do dia 3 ao dia
12 de abril, já na madrugada de quinta-feira santa. No sábado, dia
7, a votação estava de tal modo confusa com a extinção de
estatais, autarquias, fundações e ministérios que, quando eu
encerrei a última transmissão e desci para o plenário, vinha
entrando um grupo de deputados, tendo à frente Afif Domingos:
"Nós saímos para ver o que você estava dizendo na Globo,
para entender o que aconteceu aqui dentro".
Na minha frente estavam os líderes do governo, deputado
Renan Calheiros e senador José Inácio Ferreira. Eu comentei:
— Finalmente as estatais agora poderão falir como as
demais mortais empresas privadas.
— Não — respondeu Renan. — Isso não passou.
— Passou, sim! — interrompeu o senador José Inácio. Não
havia passado. Por engano.
Na quinta-feira santa fui almoçar com o presidente, no
gabinete dele. Lá estavam os dois líderes, festejando as vitórias no
Congresso, o ministro da Justiça, o chefe do Gabinete Civil e
outros jornalistas. Falávamos sobre o futuro e eu disse ao
presidente Collor:
— O que conta a nosso favor, povo, é o fato de o senhor ter
quarenta anos. Quando deixar a Presidência, vai estar com 45.
Ainda vai ter uns quarenta anos pela frente, para ser vaiado ou
aplaudido;
— É isso mesmo — concordou o presidente, com os olhos
brilhando.
Mas, para contar a nosso favor, só se aprendermos a não
esquecer em quinze dias.
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