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A NECESSIDADE DO ARCABOUÇO TEÓRICO PARA A CONSTRUÇÃO DO DISCURSO SOBRE A IGUALDADE DE GÊNERO:

AS CONTRIBUIÇÕES DE JULIET MITCHELL

Karen Andrade Siqueira de Almeida 1

Orientadora: Mariana de Oliveira Amorim 2

RESUMO Juliet Mitchell é um expoente na construção teórica do discurso sobre a igualdade de gênero, suas contribuições nesse campo são temas de estudos nas áreas sociais e psicanalíticas. A autora aponta a debilidade da discussão clássica da desigualdade de gênero que não trata de sua substância específica, assim a libertação da mulher está inserida na formulação de leis

gerais,

que possibilitariam a igualdade de

gênero. Também, na psicanálise, vislumbra as explicações do que ocasiona a diferença sexual, principalmente através do estudo do inconsciente. Suas abordagens distintas contêm contribuições teóricas que, até hoje, inspiram o movimento feminista e os estudos relacionados à mulher. Marx, Engels e Bebel são alguns dos pensadores socialistas que inspiraram as teorias de Mitchell, seja nas referências feitas por ela ou nas críticas. Enquanto que no feminismo, o qual utiliza a psicanálise em seu embasamento científico, seu o discurso é seguido por Simone de Beauvoir que dispara a idéia “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Dessa forma, o debate deste artigo procura articular as contribuições citadas anteriormente com a noção de construção cultural, proposta pelo historiador contemporâneo Eric Hobsbawm, em contraponto com a naturalização destas; com a História das Mentalidades, a partir do conceito proposto pelo também historiador Lucien Febvre; e com a publicidade da Mídia que demonstra em certo grau, considerando as ressalvas, a mentalidade das diferenças de gênero.

Produção; Reprodução; Socialização; e Sexualidade —

como

acessória

socialismo.

Mitchell

apresenta

— como acessória socialismo. Mitchell apresenta quatro estruturas-chaves — ao Palavras-chave: Juliet

quatro

estruturas-chaves

—

ao

Palavras-chave: Juliet Mitchell; Revolução; Feminismo Socialista; Psicanálise; Estruturas- chave.

1 Graduanda em História (Licenciatura) – UNIRIO Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro E-mail: karen-monaghan@hotmail.com 2 Professora orientadora do artigo científico Coordenadora do curso de História – UNIRIO / Pólo Resende Centro E-mail: basica_vr@hotmail.com

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1. INTRODUÇÃO A luta pela libertação da mulher experimenta de opiniões divergentes, mesmo para os simpáticos a ela. Não é novidade que a cultura, a religião e a legislação vigente procuram moldar a mentalidade da sociedade de maneira que fique óbvia a inferioridade da mulher perante o homem. Repare que já na infância o gênero feminino é repreendido pelos pais por

repreensão que tende a se repetir na

adolescência na questão da sexualidade e mesmo posteriormente, na vida adulta, inferida pela própria sociedade, pois como todos sabem “as mulheres não possuem os mesmos direitos que os homens.” A constatação de tantos séculos da opressão do sexo feminino pelo masculino possibilita que observemos a construção ideológico-social cuidadosa para essa dominação presente no nosso dia a dia, nas nossas atividades diárias, tidas como naturais e supervalorizadas. Para termos um parâmetro de comparação histórica de construções ideológico-sociais é interessante recordar de uma construção ideológica mais recente, como no caso da noção de nação e de nacionalidade, pois “para os propósitos da análise, o nacionalismo vem antes das nações. As nações não formam os Estados e os nacionalismos, mas sim o oposto.” (HOBSBAWM 1990, p. 19 apud PIMENTA 2009, p. 74). Portanto, segundo o historiador Hobsbawn, as nações são construções político-ideológicas dos Estados e dos nacionalismos. Por mais recente que essa idéia de pertencer a uma nação seja, todos nascem sem questioná-la, pois parece que sempre foi assim e sempre deverá ser. Tal qual pensamos na subordinação da mulher a sociedade tipicamente masculina, pois o homem comanda o espaço público e a mulher torna-se um servidor particular do marido. (ENGELS 1884 apud MITCHELL 1967, p. 9-11). A naturalidade da desigualdade de gênero é algo tão naturalizado, tão intrínseco na sociedade ocidental, que provavelmente todo mundo conserva pelo menos alguns preconceitos incitados por toda a vida. É sempre um desafio desvelar os olhos do preconceito que possuímos e, talvez um dia, se abra os olhos para cada um deles, desconstruindo-os. Pelo tempo alarmante em que essa desigualdade prevaleceu e que se fortificou em suas bases e em suas instituições jurídicas, familiares e na esfera pública, percebe-se que os indivíduos instruídos nessa sociedade dos homens possuem dificuldades na compreensão do problema e na elaboração de teorias. Por mais que seja sabido que a sociedade está baseada em estruturas obsoletas, neste caso da igualdade de gênero, mais do que desagradável para os dominantes serem iguais com os oprimidos, em teoria parece difícil solucionar o problema da maneira ideal. Observa-se que por mais avanços que esta questão tenha conseguido obter, a

certos atos —

que por mais avanços que esta questão tenha conseguido obter, a certos atos — apenas pelo
que por mais avanços que esta questão tenha conseguido obter, a certos atos — apenas pelo

apenas pelo motivo de ser garota —

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desigualdade permanece em diversas instâncias. Nos salários, nos cargos, nos prestígios, nos estudos, nas leis, na dicotomia público/privado, no papel familiar e social e na sexualidade. Apenas no momento em que pudermos ver homem e mulher como iguais, que homens possam ter papéis domésticos “sem virar piada” e que mulheres possam trabalhar e ser livres sexualmente da mesma forma que os homens “sem que exista motivo para fazer piada”, enfim, só quando em harmonia com a mudança do “ver social”, a própria Constituição garantir a igualdade dos gêneros, pode-se acreditar que existe uma evolução histórica na Igualdade de Gênero. Esse parece o passo mais difícil de ser dado, como também o fundamental. Mas a pergunta é: Como dar esse passo? Esse é o ponto no qual a abordagem teórica de Juliet Mitchell trás a pluralidade do tema e um consenso. Busca apresentar o motivo da falha do movimento feminista e propõe uma solução teórica fundamentada inicialmente no socialismo e na especificidade do tema. Juliet Mitchell é professora psicanalista, estudiosa de gênero, chefe do Departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Cambridge e membro do Jesus College Cambridge. Ela é um membro titular da Sociedade Psicanalítica Internacional. (MONASH UNIVERSITY, 2004, tradução minha). Para compreender a pertinência de Juliet Mitchell ao tema proposto será proveitoso entender as motivações de seus estudos a respeito do gênero:

socialista e feminista inglesa, nascida na Nova Zelândia, ainda ativista, é

brilhante professora da Universidade de Cambridge (Inglaterra). A jornalista feminista Cecília Toledo, escrevendo na revista Marxismo Vivo, cita uma entrevista de Mitchell, durante a Marcha Mundial das Mulheres em Londres, no ano 2000, na qual esta declara aos jornalistas que se descobriu feminista quando percebeu “já na universidade, que o mundo era organizado ao redor das diferenças de gênero; que havia, por exemplo, uma mulher para cada doze homens em Oxford”. Sua atividade como professora de Psicanálise e de Estudos de Gênero na Universidade de Cambridge e sua intensa produção acadêmica com diversos livros e artigos publicados, nestas últimas quatro décadas sobre a condição feminina, tornam-na uma pensadora importante do feminismo socialista. Particularmente, o artigo reeditado neste número da Revista Gênero foi objeto de muitas reflexões do movimento feminista carioca nos anos 1970, no Centro da Mulher Brasileira. A leitura de “Mulheres: a revolução mais longa” naqueles anos sedimentou as idéias feministas, fazendo uma ponte entre a relação de classe e a condição de sexo. Foram horas de leituras e debates nos pequenos grupos de reflexão feministas sobre estas questões. Trazer este texto para a reflexão atual é reconhecer a sua importância na formação do pensamento de muitas feministas do Rio de Janeiro. (REVISTA GÊNERO 2006, p. 6-7)

] [

Na Universidade a esmagadora maioria são homens, Mitchell afirma que é um exemplo da organização mundial pelas diferenças de gênero. “Mulheres: a revolução mais

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longa. 3 ” trás um arcabouço teórico, o qual se propõe a começar a organizar e a problematizar

a situação das mulheres e o vislumbre da solução. Na reflexão atual sobre a questão e como o

próprio título já introduz, a revolução mais longa é a das mulheres. E isso não só na vertente feminista socialista, mas na própria raiz do socialismo, Marx e Engels percebem sua longitude. Neste artigo será proposto um embasamento teórico a partir do entrosamento de Mitchell com a teoria socialista, com a obra de Simone de Beauvoir e com as chamadas “estruturas-chaves”.

2. A CONTRIBUIÇÃO TEÓRICA DO SOCIALISMO PARA A LIBERDADE DA MULHER Se for necessário defender o direito a igualdade de gênero, do por que a mulher tem sim de ser igual e de seu poder civilizador, intelectual e diplomático, o qual falta tanto no mundo dos homens. Se há alguma dúvida da dimensão dos valores que a mulher pode acrescentar ao mundo e da diferença que poderá fazer como igual, os dados surpreendentes do texto Exclusão, cultura e violências em curso de Marlene de Fáveri provavelmente irá saná-

la:

As mulheres somam hoje 90% das lutas antimilitaristas, 80% das lutas ecológicas e 70% das lutas populares, informa Rose Marie Muraro, o que quer dizer que elas estão entrando na contramão da história, uma história de guerras, violências e desigualdades. Concordo com Juliet Mitchell de que o centro das preocupações das mulheres - e que deve ser também dos homens, nas relações todas - tenha fôlego e ações práticas no sentido de preservar a espécie, ou seja, numa busca de uma cultura de evitar que as crianças sejam vítimas da situação de violência e exclusão. Afinal, sem um cuidado de si enquanto sujeitos do direito, e um cuidado ainda mais apurado com as crianças e adolescentes, de nada adiantaria pensar num feminismo renovado. (2003, p. 422-423).

O que Fáveri observa e diz concordar com Mitchell é a existência de uma mulher ativista, cujas atitudes visam à preservação da humanidade, a qualidade de vida, a igualdade e

a não-violência. A própria guerra é causada por atitudes ambiciosas, violentas e de ódio, não condizentes com a humanidade idealizada por muitos. Enquanto forem concebidas as desigualdades serão concebidas as justificativas para conflitos e guerras. E isso mostra o quanto a sociedade ainda está baseada numa selvageria primitiva. Na defesa desta idéia estão dois famosos socialistas, o primeiro foi Fourier, considerado por Mitchell o “mais ardente e profuso advogado da libertação das mulheres e da

3 MITCHELL, Juliet. Mulheres: A Revolução Mais Longa. Revista Civilização Brasileira, ano III, n. 14, p. 5- 41, 1967.

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liberdade sexual entre os primeiros socialistas 4 ”, o qual escreveu em Théorie des Quatre Mouvements:

A mudança em uma época histórica sempre pode ser determinada pelo progresso das

mulheres no sentido da liberdade, porque na relação da mulher para o homem, do fraco para o forte, é mais evidente a vitória da natureza humana sobre a brutalidade.

O grau de emancipação das mulheres é a medida natural da emancipação geral.

(FOURIER 1841, p. 195 apud MITCHELL 1967, p. 7).

E a citação de caráter filosófico de Marx que aprova essa formulação em A Sagrada

Família:

A relação do homem para a mulher é a relação ‘mais natural’ de um ser humano

com respeito a outro. Indica, por esta razão, até onde o comportamento ‘natural’ do homem tornou-se humano, e até onde esta essência ‘humana’ tornou-se ‘natural’ para ele, até onde sua ‘natureza humana’ tornou-se a sua ‘natureza’. (MARX 1844 apud MITCHELL 1967, p. 8)

A relação da mulher para o homem é do fraco para o forte, isso significa para Charles

Fourier a luta da natureza humana sobre a brutalidade, e por isso pode-se medir a

emancipação geral a partir do grau de emancipação das mulheres. Karl Marx percebe essa mesma relação homem e mulher, quando o grau de respeito ao outro (como seu igual) é em si a natureza humana. Mitchell explica essa questão fundamental apontada por Marx, como o “progresso do humano sobre o animal, do cultural sobre o natural.” (MITCHELL 1967, p. 8)

O que pontuou Mitchell em 1967 foi o fato de que os maiores pensadores socialistas

do século dezenove reconhecem a necessidade da libertação das mulheres, entretanto essa preocupação vem perdendo forças, como elemento subsidiário no ideário socialista. (p. 6). No feminismo socialista e no radical é aonde esta vem ganhando espaço de movimento

revolucionário. A explicação do silêncio dentro do socialismo contemporâneo é dada por Mitchell, a qual utilizara fervorosamente a teoria socialista para buscar compreender a opressão e a proeminente libertação da mulher:

Mas pode-se dizer com alguma certeza que parte da explicação para o declínio no debate socialista sobre a questão repousa não somente nos processos históricos reais, mas na debilidade original existente na discussão tradicional da questão, nos clássicos. Pois embora os grandes estudos do século passado sublinhassem todos a

4 MITCHELL, Juliet. Mulheres: a revolução mais longa. Revista Civilização Brasileira, ano III, n. 14, p. 7,

1967.

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importância do problema, não o “resolveram” teoricamente. As limitações de sua abordagem jamais foram transcendidas posteriormente. (1967, p.7)

Esta debilidade existente na discussão tradicional, apontada por Mitchell, está diretamente associada à principal dificuldade teórica, a meu ver, que existe nos estudos sobre a igualdade de gênero. As abordagens teóricas, ainda hoje, não estão transcendendo ao ponto de conseguir modificar a mentalidade da maior parte da sociedade. Por melhores as abordagens teóricas e a aplicação efetiva na prática que tenha existido, ainda há uma extrema diferença no ser homem ou ser mulher. Seus papéis sociais ainda são diferenciados. Para esclarecimentos, ligue a TV e repare que a maioria dos comerciais é direcionada exclusivamente ao homem ou a mulher (Quando não à família ou a alguma faixa etária determinada). A abordagem publicitária elucida a desigualdade de gênero e etária. Mas limitando-se a primeira, observa-se que o papel de cada um destes opostos é o “natural”, é o que se espera deles em seu convívio em sociedade. O homem é a parte que vai beber com os amigos e encontrar sua felicidade no bar e a mulher é parcela que se preocupa com a estética e com a saúde dos filhos. Os poucos reflexos publicitários de inclusão de ambos os sexos parece mais ter motivação capitalista do que uma visão que inclui conscientemente a mulher. A problemática teórica para o avanço do movimento pela inclusão da mulher é muito bem abordada no artigo “Mulheres: a revolução mais longa”, na qual a autora aponta mais duas falhas na teoria clássica socialista para o avanço da questão. Novamente colocando em evidência os autores Fourier e Marx:

manteve a abstração da concepção de Fourier da posição das mulheres

como um índice do avanço social geral. Isto, na verdade, torna-a meramente um símbolo – concede ao problema uma importância universal, ao preço de privá-la de sua substância específica. Os símbolos aludem ou derivam de alguma coisa. Nos escritos do jovem Marx, a mulher se torna uma entidade antropológica, ou categoria ontológica, de tipo altamente abstrato. [ ] O que é contundente é que aqui o problema das mulheres submergiu em uma análise da família. As dificuldades desta abordagem podem ser vistas na nota algo apocalíptica dos comentários de Marx sobre o destino da família burguesa aqui e em outros pontos (por exemplo, no Manifesto Comunista). Havia pouca sustentação histórica para a idéia de que estava em efetiva dissolução e, sem dúvida, já não podia ser vista na classe trabalhadora. (MITCHELL 1967, p. 8-9)

Marx [

]

Para ela o agravamento da abordagem teórica socialista é a submersão do problema das mulheres numa análise familiar. Critica Marx para a pouca sustentação histórica utilizada pelo mesmo para afirmar a efetiva dissolução da família e a concessão do valor universal, a

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qual priva a opressão da mulher de sua substância específica. E essa é a inovação proposta pela autora, compreender o problema a partir de sua substância particular. A longitude da questão é apontada na obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado de Friedrich Engels, para o qual “coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher no casamento monogâmico, e a primeira opressão de classe, com a do sexo feminino pelo masculino. 5 ” (ENGELS 1962 apud MITCHELL 1967, p. 9). E, de acordo com ele, isso teria explicação na noção de herança:

A herança, que é a chave para o seu exame econômico, foi primeiro de linha materna, mas, com o aumento da riqueza, tornou-se de linha paterna. Este foi o maior retrocesso da mulher, considerado isoladamente. A fidelidade da mulher se

torna essencial e a monogamia é irrevogavelmente estabelecida. A esposa na família comunística, patriarcal, é um servidor público, com a monogamia ela se torna um servidor particular. Engels efetivamente reduz o problema da mulher à sua

capacidade de trabalho. [

Se a inabilidade para o trabalho é a causa de seu status

inferior, a habilidade para o trabalho trará sua libertação. (ENGELS 1962 apud MITCHELL 1967, p. 10).

]

A herança, segundo Engels, trouxe a necessidade da monogamia. A herança torna-se motivo para a coação da fidelidade da mulher, tornando-se irrevogavelmente um servidor

particular. Apesar de reduzir o problema ao trabalho, propondo a liberdade da mulher a sua liberdade para o trabalho, como servidor público, Mitchell utiliza a produção como uma das quatro estruturas que guiará sua abordagem teórica. Entretanto, segundo a própria, só a liberdade de trabalho não trará a igualdade da mulher. (MITCHELL 1967, p. 30). Ou seja, “A posição das mulheres, então, no trabalho de Marx e Engels, permanece dissociada de, ou

subsidiária a uma discussão da família, [

tom excessivamente econômico, ou entra no

domínio da especulação deslocada.” (MITCHELL 1967, p. 10). O teor econômico e familiar da discussão da liberação da mulher a priva de sua substância específica e não apresenta uma solução para uma mudança de mentalidades 6 na qual a mulher adquire a igualdade: “A primeira premissa para a emancipação das mulheres é a reintrodução de todo o sexo feminino

pede que a qualidade possuída pela família individual de ser a

na indústria pública

unidade econômica da sociedade seja abolida.” (ENGELS 1962, MITCHELL 1967, p. 10). Nessa questão, um pouco mais longe chega um discípulo de Engels, August Bebel apresentou uma visão da opressão da mulher além de subproduto da evolução da família e da

]

isto

5 ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884). In: MARX; ENGELS. Selected works. 1962. 6 FEBVRE, Lucien. O Problema do Ateísmo no Século XVI: a religião de Rabelais. (1942). Febvre é um precursor da História das Mentalidades.

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propriedade privada: “Desde o início dos tempos, a opressão foi o destino comum da mulher e do operário. A mulher foi o primeiro ser humano que provou o gosto da escravidão, tendo sido um escravo antes de existir a escravidão. 7 ” (BEBEL 1983 apud MITCHELL 1967, p.

10).

A inferioridade física foi reconhecida nos trabalhos de Marx e Engels, mas a partir dessa comparação, ele autentica que o elemento biológico “a maternidade” foi a condição que deixou a mulher como economicamente dependente do homem. (MITCHELL 1967, p. 10-

11).

Considerando os termos da análise socialista, Mitchell conclui que “A libertação das mulheres permanece como um ideal normativo, um acessório da teoria socialista, sem estar estruturalmente integrado nela.” (MITCHELL 1967, p. 10-11). Ou seja, o papel da formulação da teoria da libertação das mulheres cabe a ela e aos estudiosos interessados na substância específica do tema da igualdade de gênero.

3. O DIÁLOGO DAS PROPOSIÇÕES DE TEOR PSICANÁLICO DE SIMONE DE BEAUVOIR E JULIET MITCHELL

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. 8 (BEAUVOIR 1980, p. 9 apud ALMEIDA 1999, p. 145).

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” é a resposta à pergunta enfática de Freud sobre o que quer uma mulher? Beauvoir percebe a possibilidade de haver “igualdade na diferença” e também o contrário. (BEAUVOIR apud ALMEIDA 1999, p. 155-156). Existe uma clara influência teórica do existencialismo e da psicanálise freudiana em suas obras. Os pontos de vista da filósofa, escritora e feminista Simone de Beauvoir deixaram marcas incisivas no feminismo mundial, enquanto as teses de Juliet Mitchell foram incorporadas nos trabalhos das feministas da vertente marxista como os de Heleieth Saffioti. (MORAES 1996, p. 3).

7 BEBEL, August. Die Frau und der Sozialismus. 1983. In: ALMEIDA, Marlise Míriam de Matos. Simone de Beauvoir: uma luz em nosso caminho, Cadernos de Pagu Simone de Beauvoir & os Feminismos do Século XX, CORRÊA, Mariza (org.), Campinas: UNICAMP, v. 12, p. 145-156, dez. 1999. 8 BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, [1949] 1980, p.9. In: Simone de Beauvoir: uma luz em nosso caminho Marlise Míriam de Matos Almeida.

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Sobre a compreensão da dinâmica da construção das diferenças sexuais, a psicanálise passa a ter um papel primordial para diversas teóricas, como bem descreve Marlise de Almeida:

E autoras inglesas e americanas como Juliet Mitchell, Dorothy Dinnerstein e Nancy

Chodorow tentaram com muito afinco redescrever os processos da dinâmica social e cultural (especialmente através da adoção de teorias das relações de objeto da psicanálise) de construção das diferenças sexuais. (1999, p. 154).

A importância da psicanálise para a abordagem teórica da libertação da mulher é tão essencial, que a própria Juliet Mitchell defende a sua necessidade:

A própria Juliet Mitchell, no Woman’s estate, critica o movimento feminista norte-

americano por sua rejeição a Freud, dizendo que esta rejeição é de “ordem moral.” Ora, diz Juliet Mitchell, a psicanálise, ao explorar o inconsciente e os constructos da vida mental, trabalha num terreno no qual a forma fenomênica predominante é a família. E o estudo da mulher exige uma teoria que consiga explicar como a mulher

se torna mulher e o homem, homem. Entre o domínio biológico e o domínio social, a

família é uma fronteira que pertence ao campo da psicanálise e que dá origem à diferença sexual. Juliet Mitchell chega, assim, ao nó górdio da questão: a psicanálise, como ciência do inconsciente, fornece a chave teórica para a questão das diferenças sexuais. (MORAES 1996, p. 45-46).

Mitchell utiliza das teorias socialistas e psicanalíticas para desenvolver um arcabouço teórico variado sobre o tema da Igualdade de Gênero. Se na psicanálise, o estudo do inconsciente pode contribuir na compreensão das estruturas mentais e das motivações psicológicas para a diferenciação entre os sexos, é no feminismo socialista que Mitchell aponta as estruturas-chaves para a revolução social feminina.

4. AS ESTRUTURAS-CHAVES PARA A REVOLUÇÃO SOCIAL DA MULHER

PROPOSTAS POR MITCHELL

Assim, o Woman’s estate é, antes de mais nada, uma obra política escrita por uma militante de formação teórica marxista. Depois de agradecimentos ao movimento de libertação da mulher por tudo o que faria no futuro e ao que já estava fazendo no presente, Juliet Mitchell, no prefácio do Woman’s estate, fala da extensão atingida pelo movimento feminista no começo da década de 70, em quase todos os países democráticos liberais do mundo capitalista avançado. Apesar da radicalidade das proposições e da amplitude do movimento, nossa autora constata uma estranha benevolência por parte da mídia. Todos os movimentos que lhe antecederam tiveram de ser clandestinos, ao menos nos momentos cruciais. Ora, diz ela, “não parece justo que a mídia conceda tanta publicidade ao Movimento de Libertação da Mulher, isto

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é, justamente para um movimento que, ao menos em teoria e organização, é o mais revolucionário que jamais existiu. E que pode fazer em público as declarações mais revolucionárias sem que ninguém pareça se incomodar com isto.” Eis aí a razão do texto: um questionamento à sociedade que leva tão pouco a sério a mulher é fundamentalmente um questionamento acerca da natureza do próprio movimento. (MORAES 1996, p. 38-39).

Maria Lygia Moraes explicou a indignação de Mitchell de forma concisa e clara, pois ao questionar uma sociedade que não enxerga nos movimentos feministas uma ameaça a organização social vigente, como enxergaria em outros grupos, deixa perceptível o quanto o Movimento de Libertação da Mulher é subestimado. Entretanto, não há como se afirmar com absoluta certeza de que seja essa a causa maior, de que a maioria da sociedade desaprova e não credita possibilidades para a ascensão das mulheres para uma posição igualitária. Talvez a soma do comodismo da situação desigual com a legitimação de instituições obsoletas seja uma barreira bem maior e resistente a se transpor. A soma dessas causas poderia conviver em harmonia num ambiente em que uma maior parcela da sociedade (boa parte dessa parcela sendo composta por homens) seja intelectualmente a favor da igualdade de gênero, em contrapartida à empírica proposição, do descrédito do movimento feminista, defendida por Mitchell. E por esse motivo a publicidade da causa reacionária feminina seja simpática a mídia e a boa parte das pessoas, de modo geral. Mas qualquer certeza a esse respeito despenderia uma pesquisa cuidadosa em larga escala, de forma a se fazer conhecer a opinião ocidental do início do século XXI a esse respeito. Na sociedade ocidental não se pode negar as tensões proeminentes do ser mulher. O que não a impede, entretanto, de aspirar uma carreira além da família:

Ainda hoje, a vida das mulheres no mundo ocidental aponta para uma tensão permanente entre trabalho, casamento, procriação e socialização das crianças. Em torno de sua conjunção ou disjunção gira o destino feminino. Cada vez mais as mulheres incorporam a vida profissional como uma questão que lhes diz respeito, e cada vez menos o casamento é uma profissão. (MORAES 1996, p. 92)

Tais questões que impedem a revolução social feminina são propostas e organizadas por Mitchell em quatro estruturas-chaves. Ela atenta que como um movimento revolucionário é devido analisar o desenvolvimento desigual dessas estruturas que intencionam libertar a mulher objetivando atacar o elo mais fraco, ou seja, o mais desconexo deles. Ela divide as estruturas-chaves em: Produção; Reprodução; Socialização; e Sexualidade. Utilizando de exemplos históricos e empíricos em Mulheres: A Revolução Mais Longa, procura persuadir a compreensão da necessidade da transformação integrada de todas as quatro estruturas,

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considerando que a modificação exclusiva de uma pode ser anulada ao reforçar-se outra. (MITCHELL 1967, p. 30, 31). As três últimas estruturas citadas podem ser ligadas à concepção de família, privativa. E a primeira ligada à concepção de trabalho e de produção intelectual, que confere a participação no ambiente público. A teoria proposta por Mitchell diz respeito à problemática que conferiu, por séculos, à mulher a necessidade de escolher entre uma vida de escravidão dedicada a família ou uma vida independente dedicada ao trabalho e a erudição, como é explícito nos dizeres de Moraes:

] [

abdicaram da vida sexual (porque era igual à vida reprodutiva, vale dizer à família). Emily Dickson, uma das mais brilhantes poetisas do século passado, é um fulgurante exemplo. Outras, como Simone de Beauvoir, viveram relações sexo-afetivas, mas recusaram a domesticidade e a maternidade. (1996, p. 93)

Assim, muitas mulheres, desejosas de criação intelectual ou artísticas,

5. CONCLUSÃO Inúmeras são as justificativas para apontar Juliet Mitchell como um expoente na construção do discurso sobre a igualdade de gênero, ao eleger um autor que tenha dado

contribuições efetivas à análise da questão utilizando-se de mais de um ponto de vista teórico

e ainda situando a debilidade da discussão existente, a qual privava a questão de sua

substância específica: A libertação da mulher. Apesar da visível opressão de um sexo pelo outro, a questão descambava para uma universalização na abordagem dos pensadores socialistas que discutiam o tema. O que despertou a criação intelectual de Mitchell, que a partir deste interesse passou a buscar soluções teóricas que levassem a igualdade de gênero:

Dois anos antes da vinda de Juliet Mitchell a São Paulo, a New left review publicara

que considero, sem sombra de dúvida,

o mais importante texto teórico do feminismo marxista. Esse artigo e outros escritos sobre o mesmo tema foram publicados no Woman’s estate, em 197l [ Profundamente “engajada”, como se dizia nos idos dos sessenta, Juliet era uma típica intelectual da “nova” esquerda, para quem teoria e prática caminhavam juntas. (MORAES 1996, p. 38)

seu artigo Women: the longest revolution [

]

“Engajada” e ‘típica intelectual da “nova” esquerda’, como citou Morais, Mitchell

uniu a teoria a prática e apresentou as estruturas-chaves: Produção; Reprodução; Socialização;

e Sexualidade, uma proposta inovadora que, em conjunto, transformaria a sociedade na

igualdade de gênero. Em complemento a essa solução teórica da sociedade, ela estuda também uma solução teórica psicanalítica, pois o estudo da mulher exige uma teoria que dê conta de explicar como a mulher se torna mulher e o homem, homem. A família está no seio

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das relações entre o domínio biológico e o domínio social, e é no campo da psicanálise que existem explicações do que origina a diferença sexual, pelo estudo do inconsciente. Ou seja, é uma autora que busca embasamento teórico nas mais diversas disciplinas e por isso que, até hoje, suas contribuições inspiram o movimento feminista e os estudos relacionados a mulher. Não foi esquecido que a sua publicação mais abordada neste artigo datava de 1967, muitos avanços foram conquistados desde então, como uma maior participação da mulher na Universidade (ainda que inferior) e a distribuição de métodos contraceptivos pelo Estado. Nesses dois exemplos, seriam avanços isolados em parte das estruturas-chaves da produção e da reprodução. Ainda assim, a sexualidade por parte da mulher é reprimida e o papel principal da mulher continua inerente a família. Como Mitchell antecipara em sua teoria, com a mudança isolada das estruturas, bastaria o reforço das outras para manter o lugar social inferior da mulher. A abordagem utilizada por Mitchell em Mulheres: A Revolução Mais Longa estava inserida no seu contexto histórico na medida em que dialogou com o marxismo, num mundo

divido no qual as teorias científicas tomavam partido da ideologia capitalista ou socialista; E suas proposições ainda estão atuais na proporção em que a mulher ainda está presa as estruturas postuladas por ela. Muitos dos problemas de sua teoria social ainda estão presentes, portanto mesmo que tenha uma diferença de quase meio século para os dias de hoje, sua obra ainda está bem atual. O mundo mudou, algumas reivindicações foram conquistadas, todavia ainda somos

desiguais. Por esse motivo, gostaria de finalizar citando a constatação de Beauvior: ‘[

os

que tanto falam de “igualdade na diferença” mostrar-se-iam de má-fé em não admitir que possam existir diferenças na igualdade.’ (1980, p. 500. apud ALMEIDA 1999, p. 155).

]

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AGRADECIMENTOS

Os agradecimentos são direcionados as pessoas que direta ou indiretamente colaboraram para a realização deste artigo. Primeiramente para profissional que me orientou na confecção deste artigo, a professora Mariana Amorim, muito obrigado. Em segundo lugar, para uma amiga que me deu a Revista Civilização Brasileira, sem a qual eu não teria me interessado pelas proposições de Juliet Mitchell e organizado este artigo científico. Muito obrigada, Cristiane Nunes, nem sabe ainda da ajuda que me valeu essa revista.

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THE NEED OF THEORETICAL FRAMEWORK FOR THE CONSTRUCTION OF THE SPEECH ABOUT THE GENDER EQUALITY: THE CONTRIBUTIONS OF JULIET MITCHELL

Karen Andrade Siqueira de Almeida 9

Orientadora: Mariana de Oliveira Amorim 10

ABSTRACT Juliet Mitchell is an exponent in the theoretical construction of the speech about the gender equality, her contributions in this field are subjects of studies in the social areas and psychoanalytic. The author points out the weakness of the classical discussion of the gender inequality that does not discuss its specific substance, thus the liberation of the women is inserted in the formulation of general laws, as ancillary to the socialism. Mitchell presents

that would

allow the gender equality. Also, in psychoanalysis, see the explanations of what give rise to the sex difference, mainly over the study of the unconscious. Its distinct approaches contain theoretical contributions that, nowadays, inspire the feminist movement and studies related to the woman. Marx, Engels and Bebel are some of the socialist thinkers who had inspired the theories of Mitchell, be in the references made for it or in the critical ones. While in feminism, which uses the psychoanalysis in its scientific foundations, your discourse is followed by Simone de Beauvoir that fire the idea "No one is born woman: becomes woman". This way, the debate of this article tries to articulate the contributions cited above with the concept of cultural construction, proposed by contemporary historian Eric Hobsbawm, in contrast with the naturalization of these; with the History of Mentalities, from the concept proposed by also historian Lucien Febvre; and with the advertising of the Media that demonstrates by a certain degree, considering the caveats, the mentality of the gender differences.

four structures-keys —

of the gender differences. four structures-keys — Production; Reproduction; Socialization; and Sexuality —
of the gender differences. four structures-keys — Production; Reproduction; Socialization; and Sexuality —

Production; Reproduction; Socialization; and Sexuality —

Keywords: Juliet Mitchell; Revolution; Socialist Feminism; Psychoanalysis; Structures-keys.

9 Graduate student in History – UNIRIO Federal University of State of Rio de Janeiro E-mail: karen-monaghan@hotmail.com 10 Advisor teacher of the scientific article Coordinator tutor of the History School – UNIRIO / Resende Centre Location E-mail: basica_vr@hotmail.com

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