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GRUPO DE TRABALHO 3 MÍDIA E POLÍTICA. VISIBILIDADE MIDIÁTICA DE POLÍTICAS PÚBLICAS BRASILEIRAS PARA MULHERES:
GRUPO DE TRABALHO 3
MÍDIA E POLÍTICA.
VISIBILIDADE MIDIÁTICA DE POLÍTICAS
PÚBLICAS BRASILEIRAS PARA MULHERES:
UMA ANÁLISE COMPARATIVA DOS JORNAIS
GAZETA DO POVO E FOLHA DE SÃO PAULO
Ana Paula Hedler
Emerson Urizzi Cervi

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VISIBILIDADE MIDIÁTICA DE POLÍTICAS PÚBLICAS BRASILEIRAS PARA

MULHERES:

UMA ANÁLISE COMPARATIVA DOS JORNAIS GAZETA DO POVO E FOLHA DE SÃO

PAULO

Ana Paula Hedler 1

Emerson Urizzi Cervi 2

Resumo:

O paper parte da importância dos meios de comunicação nas democracias modernas para discutir o poder da mídia de agendar os temas que são discutidos pelo público na sociedade ou de silenciar outros assuntos relevantes. O enfoque é a visibilidade que a mídia dá às políticas públicas de gênero no Brasil. Para tanto são estudados os jornais Gazeta do Povo e Folha de São Paulo. O período pesquisado é de 2004 até 2008, visto que em 2004 o governo federal criou o I Plano Nacional de Políticas para Mulheres no Brasil. A metodologia utilizada é a análise de conteúdo quantitativa e qualitativa, conhecida como uma “técnica hìbrida” por reunir dados quantitativos com a interpretação qualitativa (BAUER, 2002). É importante estudar os meios de comunicação e o que eles transmitem para as sociedades atuais, pois nas democracias modernas o cidadão tem direito de se expressar livremente e de receber informações (DAHL, 2005). Além disso, é necessário que o público tenha condições de receber informações de uma imprensa livre, pois através dos meios de comunicação grande parte da população se mantém informada e sabe-se que os meios de comunicação têm o poder de pautar os temas que serão discutidos na sociedade. Para a pesquisa são utilizadas as teorias do agenda-setting (MCCOMBS; SHAW, 1997) e a espiral do silêncio elaborada por Noëlle-Neumann (1995). A hipótese da pesquisa é que as políticas públicas para mulher têm mais visibilidade em períodos eleitorais do que em períodos não-eleitorais, porém se comparadas com as demais políticas públicas sua visibilidade é baixa.

Palavras-chave: políticas públicas, mulher, jornalismo.

Introdução

O presente trabalho trata sobre a visibilidade que os meios de comunicação de massa dão

aos diversos temas a partir do momento em que falam sobre eles. Desde a década de 70, quando

McCombs e Shaw (1997) realizaram pesquisas empíricas acerca do poder da mídia, ficou

comprovado que os meios de comunicação têm o poder de agendar os temas sobre os quais as

pessoas vão pensar, mesmo que essa não seja a intenção inicial dos jornalistas. Isso acontece porque

é a partir da mídia que grande parte da população se mantém informada.

1 Ana Paula Hedler é graduada em jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e mestranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

2 Emerson Urizzi Cervi é jornalista, doutor em Ciência Política, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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Porém, ao mesmo tempo em que os jornalistas falam sobre alguns assuntos de relevância e de interesse público, outros deixam de ser tratados e acabam silenciados na esfera pública. A partir deste ponto de vista a socióloga alemã Noelle-Neumann (1995) elaborou a teoria da espiral do silêncio. Para ela, a mídia tem grande poder na formação da opinião pública. Pois, ao amedrontar os indivíduos e leva-los a imaginar que podem ficar isolados ao exporem uma opinião que parece ser a da minoria acaba criando uma corrente, onde somente aqueles que têm coragem para expressar suas opiniões têm visibilidade nos meios de comunicação. Ao mesmo tempo em que analisamos quais temas têm visibilidade na mídia é importante atentar para a forma com que esses assuntos estão sendo tratados, por isso para essa pesquisa se utiliza a teoria do enquadramento tratada por Mauro Porto. Segundo ele, existem quatro tipos de enquadramento que são: episódico, temático, personalista e a corrida de cavalos que aqui é chamada de estatística. A temática é a aquela que interpreta os dados, trabalha a notícia com profundidade e por isso é a mais importante para a pesquisa. A episódica restringe-se a relatar acontecimentos recentes sem enfoque característico. É uma reportagem mais descritiva orientada por acontecimentos que geram reações do público. A personalista é a reportagem que trabalha com a descrição do ator da matéria. Ela fala sobre os hobbies, gostos, habilidades, virtudes e dramas humanos. Já a corrida de cavalos mostra o avanço ou retrocesso da campanha eleitoral. Com a ajuda do estudo de Porto (2001) este trabalho analisa os enquadramentos das reportagens coletadas. A partir das três teorias citadas acima a pesquisa estuda qual é a visibilidade das políticas públicas para mulher em dois jornais brasileiros. Tanto a Gazeta do Povo quanto a Folha de São Paulo têm circulação diária e são considerados jornais de relevância social. Pois, o primeiro é o mais vendido no Estado do Paraná e o segundo é considerado o jornal com maior tiragem do Brasil. Para melhor entendimento do trabalho, este artigo está dividido em partes. A primeira é uma breve introdução sobre a pesquisa, a segunda mostra as teorias estudadas, a terceira aborda mais profundamente o tema políticas públicas, em seguida está colocada a metodologia utiliza e os resultados parciais de 2005 na Gazeta do Povo e terminando o artigo estão as considerações finais.

O agendamento da mídia e o silêncio de fatos

Como se sabe, a partir de vários estudos de diferentes escolas, os meios de comunicação de massa têm o poder de falar sobre alguns temas e calar sobre outros. Para essa pesquisa são utilizadas as teorias do agenda-setting elaborada por McCombs, durante a década de 70; assim como os trabalhos de Mauro Porto (2001) sobre o enquadramento temático; e a teoria da espiral do silêncio trazida por Noelle-Neumann (1995). Também são levados em consideração os trabalhos realizados por Habermas (2003) sobre a esfera pública e sua degradação por causa dos meios de

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comunicação e os estudos organizados por Tuchman (1970) sobre a visibilidade da mulher na mídia norte-americana. A idéia de que a mídia tem o poder de pautar temas nos quais a população irá discutir existe desde a década de 40, mas seu destaque maior foi a partir da década de 1970, sendo um dos autores mais influentes McCombs. A influência dos meios de comunicação é admitida a partir do ponto de vista que a mídia desempenha um papel importante na construção da realidade. Isso porque em longo prazo, os meios de comunicação ajudam a estruturar a imagem da realidade social, organizam os elementos dessa mesma imagem e formam novas opiniões e crenças. (Wolf, 2006). O agenda-setting é um conceito que ocupa um lugar de destaque nos estudos dos efeitos cumulativos (centrados no processo de significação). Mas, essa hipótese não defende a idéia que os media pretendem persuadir, mas que eles descrevem a realidade exterior apresentando uma lista daquilo que é preciso discutir ou formar uma opinião. Para Cohen “se é certo que a imprensa pode na maior parte das vezes não conseguir dizer às pessoas como pensar tem, no entanto, uma capacidade espantosa para dizer aos seus próprios leitores sobre quais temas devem pensar qualquer coisa” (WOLF, 2006, p.145). Wolf também esclarece que o agendamento midiático leva em consideração o impacto direto, mas não imediato, da maneira como as notícias são colocadas segundo a ordem dos temas no dia, a sua presença ou não no noticiário e a hierarquia de importância e prioridade segundo a qual os elementos estão dispostos. Para exemplificar esse ponto o autor Amaral (1978) diz que no jornalismo impresso cada local na página tem sua relevância e dependendo dos critérios jornalísticos que o jornal segue, as diferentes matérias ocupam diferentes espaços. Cada jornal tem um modelo específico de diagramação da página, por isso é necessário prestar atenção na posição que a matéria ocupa nos impressos. Assim, como também acontece com os outros meios de comunicação como a televisão que, por exemplo, segue a regra de colocar como última notícia do telejornalismo algo leve que tranqüilize os receptores. Outro fato importante é a observação dos critérios de noticiabilidade e os valores notícia que guiam o trabalho dos jornalistas. O primeiro está extremamente relacionado aos processos de rotinização e estandardização das práticas produtivas dos jornalistas. (WOLF, 2006). São eles que ajudam os editores e pauteiros a selecionarem dentre os diversos acontecimentos do dia aquilo que será notícia. Tudo aquilo que não se encaixa nos critérios de noticiabilidade não é notícia. Para Wolf

a noticiabilidade corresponde ao conjunto de critérios, operações e

instrumentos com os quais os órgãos de informação enfrentam a tarefa de escolher, quotidianamente, dentre um número imprevisível e indefinido de fatos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notìcias”. (WOLF, 2006, p. 190).

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Já o valor-notícia ou news values é um elemento da noticiabilidade. Ele ajuda o repórter a selecionar os fatos que se transformarão em notícia de acordo com critérios de relevância. Também auxiliam os jornalistas a realçar acontecimentos ou omitir outros. Assim é o valor notícia que diz se um fato será trazido ao noticiário com grande ou pequeno destaque. Ele faz parte do corpus de conhecimento dos jornalistas, explicam e guiam os procedimentos operativos redacionais. Além de serem considerados como regras práticas que guiam os jornalistas, são também qualidades dos acontecimentos ou de sua construção. Quanto mais um fato exibe essas qualidades mais chances ele terá de ser retrato pelos meios de comunicação. (WOLF, 2006, p. 196). Com a teoria do agendamento midiático mudam-se os paradigmas, porque as pesquisas começam a dar uma cobertura global do fato e não se prendem mais a casos singulares. (WOLF, 2006). Começa-se a utilizar metodologias mais integradas e complexas, não só a aplicação de questionários e entrevistas ao público, além de observação do processo pelo qual o indivíduo transforma sua representação da realidade. Para Sousa (1999) com a teoria do agendamento houve uma ruptura dos paradigmas funcionalistas, pois estes não aceitavam que a comunicação social atuava diretamente sobre a sociedade e as pessoas. McCombs, em seu artigo “Building Consensus”, acredita que a realização do consenso entre os membros de um público é o ponto chave da teoria. Pois uma das contribuições mais importantes para a construção da comunidade é a ajuda que a mìdia dá para a criação do mesmo. Para ele, “o foco está na construção de comunidade através dos meios de comunicação, numa simples palavra, consenso, que é como indivíduos numa comunidade juntam-se para definir seus interesses públicos” 3 . (McCOMBS, 1997, p.433). O autor faz um levantamento de algumas das pesquisas realizadas utilizando o agendamento midiático e afirma que há uma evidência saudável sobre a influência dos news media nos temas da agenda pública. Segundo McCombs e Shaw (1972) pode-se perceber que os assuntos considerados mais importantes para os eleitores atingiram 97% dos assuntos que estavam na cobertura da mídia durante a eleição presidencial de 1968, nos Estados Unidos. (WOLF, 2006). Mas, da mesma maneira como os meios de comunicação podem agendar os temas, eles podem dizer às pessoas como elas devem pensar sobre algo. Por isso, Porto (2001) elabora as quatro formas de enquadramento temático. Segundo essa teoria, o enquadramento é um conceito utilizado para definir os princípios de seleção, ênfase e apresentação dos noticiários. (PORTO, 2001). Pois, os meios de comunicação ao produzirem discursos dão interpretações aos mesmos e influenciam no modo como os indivíduos interpretam os fatos. Além disso, “na cobertura de assuntos públicos,

3 The focus is on the building of community though mass communication, in a single word, consensus, that is, with how individuals in a community come together to define their public interest”. (McCombs, 1997, p. 433).

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enquadramentos permitem os jornalistas e, em grande medida, suas audiências, organizar e interpretar temas e eventos polìticos de forma especìfica”. (PORTO, 2001, p.12). Complementando essa idéia Liedtke (2007, p.16) afirma que “o enquadramento fornece mapas cognitivos que permitem a interpretação da realidade” e, desse modo, não basta verificar apenas a aparição ou não

dos fatos, mas também como eles estão sendo transmitidos pelos meios de comunicação. Com isso, torna-se possível observar se há intenção ou direcionamento das notícias para uma determinada opinião. O método foi proposto primeiramente por Erwing Goffman (1974) no artigo Framing Analysis. A partir dele, Alessandra Aldé (2004) realizou uma pesquisa sobre essa teoria e chegou à conclusão que aqueles que são propostos pelos meios de comunicação também são incorporados nos discursos dos indivíduos no que se refere ao tema política, o que os torna fundamentais para as explicações de suas opiniões e atitudes. (LIEDTKE, 2007). Para Liedtke, “grupos privilegiados freqüentemente conseguem enquadrar as alternativas de forma a sustentar suas próprias posições e construir o consenso ativo entre grupos subalternos. Assim, a construção de uma posição política hegemônica depende da forma como os media enquadram as alternativas polìticas”. (LIEDTKE, 2007, p. 17). Além de observar quais temas têm mais visibilidade na esfera pública e como eles são tratados pelos jornalistas é preciso verificar se temas de grande relevância social estão sendo silenciados. Importa que os temas ganhem espaço na esfera pública porque ela é o espaço de debate e da argumentação racional, onde o poder e o dinheiro pouco influenciam. (HABERMAS, 2003). Ela é “um reino da liberdade e da continuidade” (HABERMAS, 2003, p.16). É o espaço no qual os interesses, vontades e pretensões, que dizem respeito a uma coletividade, são colocados em discussão e onde pessoas privadas se utilizam da lógica da argumentação para discutirem reunidas num público. Ela ainda pode ser entendida como a reunião de pessoas que “reivindicam esta esfera pública regulamentada pela autoridade, mas diretamente contra a própria autoridade, a fim de discutir com ela as leis gerais de troca na esfera fundamentalmente privada, mas publicamente relevante” (HABERMAS, 2003, p. 42). Essa esfera é a arena viva e dinâmica da nação em que o processo de construção, desconstrução e reconstrução discursiva e simbólica são permanentes. E a construção de esferas públicas modernas se dá conforme exista a constituição dos Estados nacionais e de comunidades políticas autônomas. (COSTA; AVRITZER, 2004). A esfera pública é definida como um sistema intermediário, cuja função política consiste na absorção e no processamento de determinados temas

e opiniões, bem como na transmissão das opiniões públicas [

(COSTA, 1995, p.55). Ela é um

mercado de opiniões. Para Costa, a opinião pública não assume imediatamente a forma de decisões políticas, mas antes se verifica a formulação pública e os posicionamentos sobre certos temas e é só depois de assimilada que ela pode se transformar em uma decisão concreta. Já para Hansen (2007,

]”.

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p.25) “a esfera pública é entendida como o lugar simbólico da elaboração e legitimação das normas coletivas e da formação da opinião pública e também sofre as pressões impostas por essa realidade”. Na obra “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (2003), Habermas acreditava que com o advento dos meios de comunicação a esfera pública estaria se degradando, pois via os receptores de informação como agentes passivos. Com as críticas recebidas sobre o trabalho, o estudioso reelabora seu estudo e cria a teoria da ação comunicativa e passa a adotar a idéia que o pensamento crítico surgiria na medida em que os locutores e ouvintes fossem capazes de questionar as proposições de fatos externos da Ciência e das normas externadas por outros sujeitos. Assim, “Habermas encontra na comunicação distorcida a maneira pela qual as representações sociais são institucionalizadas” (HANSEN, 2007, p.41). Por isso a teoria da ação exerce um duplo papel:

primeiro age como análise dos processos de comunicação envolvidos nas relações cotidianas e em segundo é um “instrumento de reflexão sobre as possibilidades de realização dos ideais comunicacionais dos regimes democráticos”. (HANSEN, 2007, p. 42). Sendo assim, é preciso que temas de interesse público e de relevância social ganhem espaço nessa esfera da argumentação. Porém, muitas vezes a mídia silencia assuntos, mas continua informando outros em seu lugar. A partir disto Noelle-Neumann (1995) elabora a espiral do silêncio. Para ela, as convenções sociais, os costumes e as normas juntamente com as questões polìticas estão entre as situações e as “proposições de significação” que são capazes de multiplicar as opiniões e posturas públicas. Assim, existem indivìduos dos grupos de opinião “minoritária” que são capazes de expor seus pontos de vista e enfrentar o isolamento. Porém, a maioria da população consegue manter sua opinião, apoiando-se em um círculo seletivo e elegendo os meios que se dispõem 4 (NOËLLE-NEUMANN, 1995, p.4). A estudiosa ainda acredita que para não se encontrar sozinho diante das opiniões colocadas a pessoa pode renunciar ao próprio modo de pensar e a sua opinião sobre algo. Pois, esta atitude é comum no convívio em sociedade. Para Noëlle-Neumann, o medo que as pessoas têm de estarem sozinhas com seus pontos de vista está no fato de que a pessoa pensa que pode estar errada sobre o assunto. Assim, acaba ficando na dúvida e prefere não se expor. É nesse ponto que a socióloga acredita que se forma a opinião pública. Segundo Sousa (2002) essa teoria ajudou a reforçar a idéia dos efeitos fortes e diretos que a comunicação social tem em relação à sociedade e aos indivíduos. Pois reforça a influência que a mídia tem nas sociedades contemporâneas ao comprovar com pesquisas que eles influenciam o modo de falar sobre certos acontecimentos em público. Sobre essa influência dos meios de comunicação e seu poder de falar ou silenciar assuntos, Tuchman organiza um estudo para saber qual era a visibilidade que a mídia transmitia das mulheres

4 “En su mayorìa, podrán seguir manteniendo sus puntos de vista apoyándose en un círculo selectivo y eligiendo los medios de los que se dispone”. (Noëlle-Neumann, 1995, p.4).

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norte-americanas na década de 1970, nos Estados Unidos. Para ela, os meios de comunicação de massa transmitiam os valores dominantes, principalmente os relacionados aos estereótipos dos papéis que cada sexo deve ocupar na sociedade mesmo sendo a representação do papel dos sexos um tópico de grande importância social, política e econômica. (TUCHMAN, 1978). Outra pesquisadora americana Jessie Bernard (1973) fez um levantamento sobre as pesquisas feitas pelas gerações anteriores sobre a mulher e política. A opinião das mulheres sobre a política não era levada em consideração, sendo que na maioria das vezes era silenciada. Alguns pesquisadores chegaram a afirmar que o comportamento das eleitoras era o mesmo de suas referências masculinas, como pai e marido, sendo que para afirmar isso os pesquisadores nem ao menos consultaram a opinião dessas mulheres. (TUCHMAN, 1978). Tuchman chega ao extremo de afirmar que parece que naquela época ninguém se importava com os efeitos que os meios de comunicação de massa traziam para a geração e manutenção dos estereótipos de cada sexo. O que para ela poderia ser explicado, pelo fato de que antes do movimento das mulheres fatos como este descrito na pesquisa de Bernard eram dados como “naturais” e “concebidos”. (TUCHMAN, 1978). É com a ajuda das teorias do agendamento midiático, do enquadramento temático e da espiral do silêncio e os trabalhos de Habermas (2003) e Tuchman (1978) que a pesquisa estuda a visibilidade das políticas públicas para mulher nos meios de comunicação de massa. Para melhor entendimento o tópico a seguir explica o que se entende por políticas públicas sociais e de gênero.

Políticas Públicas de Gênero e o período eleitoral

Para Kinzo (2008), processo eleitoral e as políticas públicas são termos indissociáveis, porque supõem que os candidatos participam da elaboração, da aprovação e implementação delas por garantir o apoio dos eleitores no dia das eleições. Deve-se pensar o processo eleitoral e as políticas públicas sociais através do conceito de „accountability‟ que significa “a relação de prestação de contas entre representantes e representados, nas eleições, de forma razoável e em todos os nìveis de poder”. (KINZO, 2008, p. 124). Ela também acredita que o que conta é o resultado da gestão de quatro anos, mesmo que durante a campanha eleitoral sejam apresentadas apenas propostas de políticas sociais genéricas que pouco sirva para diferenciar um candidato de outro qualquer. As políticas públicas envolvem mais do que a decisão ou um conjunto de decisões políticas acerca do destino dos recursos públicos. Para Porto (2008) elas envolvem diversas ações que necessitam de decisões por parte daqueles que as planejam, englobam diversas instituições e programas de natureza contínua e estratégica de determinada área seja ela econômica, de segurança pública, de meio ambiente, saúde, educação ou de gênero. Além disso, as políticas públicas vêm

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para garantir os diferentes direitos de cidadãos e cidadãs segundo o estabelecimento do ordenamento político de cada país. Assim, Canela afirma que as áreas nas quais o Estado deve assumir responsabilidades, isto é, “aquilo que deve sair do âmbito privado para o público, foram sendo historicamente construídas e estão fortemente relacionadas com capacidades, bens, serviços e características que passaram, paulatinamente, a serem vistas como direitos de homens e mulheres”. (CANELA, 2008, p. 18). Para Sonia Fleury (2003) as políticas públicas sociais tornam possível a alternação de poder na sociedade. Elas transformam privilégios de alguns em direitos comuns. Além de ajudar no desenvolvimento da democracia, pois modificam as “estruturas administrativas patrimoniais e clientelistas em mecanismos eficientes de gestão pública, e sociedades fragmentadas em novas formas de organização, integração e desenvolvimento do capital social, fortalecendo a governabilidade local”. (FLEURY, 2003, p.91). Para essa pesquisadora, o desenvolvimento de políticas públicas envolve muitos desafios, porque elas exigem que dirigentes locais se envolvam, que combatam à exclusão, que ajudem a redefinir as relações entre as esferas governamentais, do Estado e da sociedade. As políticas públicas também precisam de planejamento participativo e do aumento da base técnica e da valorização dos servidores públicos. (FLEURY, 2003). Elas contribuem para o desenvolvimento da cidadania. Pois, remetem à questão da integração social, que é entendida como “o reconhecimento de novos problemas que surgem na arena política a partir da transformação de necessidades em demandas, processo que só pode ser realizado concomitantemente à própria construção dos novos sujeitos polìticos”. (FLEURY, 2003, p.92). Ela lembra, ainda, que muitas vezes em que pensamos em políticas públicas sociais enfatizamos suas finalidades, mas não percebemos que muitas delas não são executadas. Isso se explica pelo fato que muitas vezes essas políticas são tratadas de maneira parcial. Para Fleury, o conceito de políticas públicas sociais é complexo e envolve diversas áreas como: uma dimensão valorativa que está fundada no consenso social que responde às normas orientadoras da tomada de decisão; em segundo envolve uma dimensão estrutural que recorta a realidade de acordo com setores baseados na lógica disciplinar e nas práticas e estruturas administrativas; o cumprimento de funções vinculadas aos processos de legitimação e acumulação que reproduzem a estrutura social; os processos político-institucional e organizacional relativos à tomada de decisões, ao escalonamento de prioridades, ao desenho de estratégias e à alocação dos recursos e meios necessários para o cumprimento das metas; envolve também um processo histórico de constituição de atores políticos e sua dinâmica relacional nas disputas de poder; e a geração de normas na maioria das vezes legais que delineiam os critérios de redistribuição, de inclusão e de exclusão em cada sociedade. (FLEURY, 2003).

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Uma parte das chamadas política públicas sociais são as políticas públicas de gênero. Pois, as políticas que antes se restringiam às áreas de tributação, à defesa, à diplomacia e à segurança interna hoje se expandiram. Mas, essas questões sobre as necessidades das mulheres têm pouco mais de duas décadas de existência e ganham espaço efetivo no jogo político estatal muito recentemente. (CANELA, 2008). Outras políticas como a econômica, por exemplo, têm mais destaque, pois fazem parte da Constituição a muito mais tempo do que as políticas de gênero. Machado (1999) explica que desde o final da década de 70 especialistas e estudiosos da área de planejamento para o desenvolvimento urbano começaram a propor a incorporação das questões de gênero na implantação de políticas públicas. O que representa a evolução do conceito de desenvolvimento e do papel dos atores sociais nele inseridos. Isso levando em consideração que a lógica que permeia essa proposição é que mulheres e homens desempenham papéis diferentes na sociedade e por isso têm diferentes necessidades. Mas, foi somente em 1985 que o Brasil criou o Conselho Nacional de Direitos da Mulher. (MONTEIRO e LEAL, 1998). Isso em conseqüência da retomada do movimento feminista durante a ditadura militar. O movimento reivindicava melhores condições de trabalho, igualdade sexual e a redemocratização do país. A partir disto, tiveram início os debates sobre sexualidade, direitos reprodutivos, políticas públicas de gênero e direito civis. Sendo que uma década depois o tema central do feminismo no Brasil foi a violência contra a mulher. Com o desenvolvimento dos debates e questionamentos sobre os direitos da mulher, em 1988, a Constituição Federal do Brasil institui que as mulheres são consideradas iguais aos homens perante a lei. O que significa um avanço muito recente (Barsted; Hermann, 2001). Para Avelar (2001) este fato pode ser explicado por causa do lento processo de mudanças políticas ocorridas no Brasil, principalmente no que se refere aos direitos de cidadania. Em 1993, durante a Conferência Mundial dos Direitos Humanos, que aconteceu em Viena, a ONU institui os direitos das mulheres como sendo direitos humanos conferindo à mulher o direito à vida, à não ser submetida a torturas, nem a tratamento cruel, desumano ou degradante, à condições de igualdade das normas humanitárias em tempo de conflitos armados, à liberdade, à segurança, à proteção igual da Lei, à igualdade na família, ao nível mais elevado de saúde física e mental, à condição de emprego justo e favorável. Além de estabelecer como dever do Estado o zelo pela não violência à mulher, aos maus tratos na família, ao estupro, aos abusos sexuais e outros tipos de violência, além de garantir proteção e apoio às vítimas. (MONTEIRO e LEAL, 1998). Desse modo, os direitos destinados às mulheres são garantidos e instituídos por órgãos internacionais e também refletem em ações contra a discriminação feminina no Brasil. No Brasil, em 2004 foi criado o I Plano Nacional de Políticas para as mulheres (PPNPM). Essa iniciativa do governo federal brasileiro vem com o intuito de auxiliar os governantes no

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planejamento, elaboração e implantação de políticas públicas que atendam às necessidades específicas do gênero feminino. O PPNPM foi organizado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres como resultado da mobilização de grupo feminista. As mulheres participaram de Conferências municipais e estaduais, nas quais discutiram suas necessidades e apresentaram propostas para sanar tais problemas. Já em 2008, o governo federal reestrutura o plano e cria seis novas diretrizes, formando assim o II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres. Nesse plano está claro que “O PNPM expressa a vontade polìtica do governo federal em reverter o padrão de desigualdade entre homens e mulheres em nosso paìs”. (Secretaria Especial de Polìticas para as Mulheres, 2008, p. 7). Entre as diretrizes que guiam o segundo PNPM estão: a implantação de políticas que auxiliem a autonomia econômica e a igualdade no mundo do trabalho com a inclusão social; a estruturação de uma educação inclusiva, não sexista, não racista, não-homofóbica e não- lesbofóbica; que amparem a mulher na área da saúde, nos direitos sexuais e nos direitos reprodutivos; no enfrentamento de todas as formas de violência contra as mulheres; que aumentem a participação das mulheres nos espaços de poder e decisão; que ajudem no desenvolvimento sustentável no meio rural, na cidade e na floresta, com a garantia de justiça ambiental, soberania e segurança alimentar; no direito à terra, moradia digna e infra-estrutura social nos meios rural e urbano considerando as comunidades tradicionais; na área da cultura, comunicação e mídia igualitárias, democráticas e não discriminatórias; no enfrentamento do racismo, sexismo e lesbofobia, no enfrentamento das desigualdades geracionais que atingem as mulheres com especial atenção às jovens e idosas; e por último na gestão e monitoramento do plano. (Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2008). Essa nova preocupação do governo em atentar para as necessidades de gênero mostra que existem mudanças no comportamento social e na relação entre os sexos. A estudiosa Knoll (2006) afirma que “as representações de gênero são culturalmente constituìdas, historicamente firmadas e reproduzidas nas práticas sociais cotidianas”. Sendo assim, ficam claramente demarcadas nos diversos meios de comunicação, pois é através da mídia que pessoas e temas tornam-se visíveis, já que ela tem grande força na formação de opinião pública (ERBOLATO, 2001). Levando todos os pontos explicados anteriormente, esse trabalho apresenta resultados parciais da coleta de dados realizada até o momento. No próximo item explica-se a metodologia utilizada e os resultados da coleta feita na Gazeta do Povo durante a cobertura de agosto, setembro e outubro de 2005.

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Metodologia de Pesquisa e Resultados Parciais

A técnica utilizada para a coleta de dados é a Análise de Conteúdo (AC). O levantamento bibliográfico acerca do tema também norteará a pesquisa. AC mistura métodos quantitativos com métodos qualitativos de pesquisa e por isso é considerada uma técnica híbrida. (BAUER, 2002). Ela é muito útil em pesquisas de Comunicação porque auxilia na análise de freqüência com que situações, pessoas e lugares aparecem nos meios de comunicação de massa. Ela permite comparar aquilo que é publicado com dados de referência. Com isso, é possível estudar a imagem das mulheres, das crianças, e dos diversos segmentos sociais. (HERSCOVITZ, 2007, p.124). Para Babbie (2005) a análise de conteúdo é vantajosa porque fornece um exame sistemático de materiais que são geralmente avaliados de maneira impressionística. Como a AC segue um rigoroso sistema de amostragem e atribuições de escores, reduz-se a influência de “vieses” inadvertidos que podem se projetar no estudo realizado. Segundo Bardin (1977) esta técnica surgiu nos Estados Unidos e começou a ser utilizada nos estudos de comunicação com a Escola de Jornalismo de Columbia principalmente com dados quantitativos. O primeiro estudioso a utilizá-la foi Harold Lasswell, em 1915, quando fez em estudo sobre as propagandas do período de guerra intitulado “Propaganda Technique in the World War”. Com a ajuda da análise de conteúdo a pesquisa pretende estudar qualitativamente e quantitativamente a veiculação do tema políticas públicas para mulher nos meios de comunicação. Para isso serão estudados os meses de agosto, setembro e outubro dos anos de 2004 até 2008. Esses anos compreendem períodos eleitorais e não-eleitorais. Em 2004 e 2008 foram realizadas as eleições para prefeitos e vereadores, já em 2005 e 2007 são anos não-eleitorais, e em 2006 aconteceram eleições para governadores e presidente da república. São analisados quantas, quais e como são veiculadas as matérias que tratam de políticas públicas para mulher e que referem-se ao sexo feminino para verificar se existem diferenças no número de aparições e na forma de tratamento dessas notícias em períodos que compreendem as eleições e períodos não-eleitorais. Visto que o processo eleitoral e políticas públicas sociais quando em uma democracia representativa são considerados termos indissociáveis (KINZO, 2008). A pesquisa leva em conta aspectos como a contagem do espaço ocupado em cm² pelas matérias sobre mulher e políticas públicas para o gênero feminino, a utilização de ilustração, fotografia ou imagens, a localização na página, e o uso e a origem de fontes de informações, sendo que esses critérios são utilizados pelo grupo de pesquisa em Mídia e Política da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Até momento foram coletados os meses de agosto, setembro e outubro de 2005 do jornal Gazeta do Povo. Por isso, aqui são apresentados somente resultados parciais visto que a pesquisa

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tem previsão de término no segundo semestre de 2010. Com isso é possível perceber que as notícias nas quais mais aparecem o tema mulher estão relacionadas cultura e variedades e a violência e segurança. Pois, mais de 50% das matérias se referem às celebridades do mundo artístico, ao cinema, televisão e cultura. Em seguida, as mulheres mais aparecem em notícias que tratam sobre a violência e segurança. Isso porque este tema esteve presente em mais de 10% dos textos. O total de notícias analisadas é de 962 até o momento. Sendo que temas como campanha eleitoral, economia, política estadual, nacional e internacional e tecnologia e informática obtiveram menos de 1,5% de aparições na cobertura jornalística. Com relação ao tema específico foram elaborados mais de 50 tipos diferentes desta classificação. Entre os 69 temas específicos estão: a corrida eleitoral, a campanha para prefeito, o governo do Estado, o poder judiciário, a assembléia estadual, indústria, agricultura, educação, saúde, habitação, obras, energia, bairro, crime organizado, sistema penitenciário, violência doméstica com criança, espaços culturais, propostas de áreas de lazer, informática e as dez políticas públicas específicas para mulher divulgadas no II Plano Nacional de Políticas para as mulheres. Entrem os que mais aparecem durante a cobertura estão: artistas e estrelas mundo artístico com 40,9%; em segundo com 8,3% estão as notícias que se referem aos espaços culturais como bibliotecas, cinema e teatro; em seguida a segurança com 6,3%; em quarto a violência e o crime organizado com 6,2%. Os demais temas específicos quase não estiveram presentes na cobertura como, por exemplo, as políticas públicas de gênero para o enfrentamento das desigualdades geracionais que atingem as mulheres (especial às jovens e idosas) que só apareceu uma única vez durante o período de coleta de dados. Já no que se refere ao enquadramento mais utilizado pelos jornalistas quando trabalham na elaboração de reportagens. Foram coletadas até agora 233 reportagens. Elas têm destaque porque são notícias em profundidade. São consideradas as notícias mais trabalhadas pelos jornalistas porque procura-se fazer questionamento daquilo que se está reportando. Muitas vezes tem a interpretação dos dados e a pesquisa é essencial. Como dito na introdução do paper, foram selecionados quatro enquadramentos trabalhados por Porto (2001). Eles são: enquadramento temático, episódico, personalista e estatístico (usado por Porto como Corrida de Cavalos). Das 233 reportagens, 53 foram classificadas como temático e 181 como episódico. A primeira classificação (temático) é usada quando a matéria interpreta posições e propostas de um dado tema. Ao mesmo tempo, tenta contextualizar os assuntos colocados. Já a segunda restringe-se a relatar acontecimentos recentes, sem um enfoque característico. É uma reportagem mais descritiva orientada por acontecimentos que geram reações do público. Ela desconsidera os aspectos mais amplos e é um simples relato dos fatos.

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Os outros dois enquadramentos não foram utilizados. O estatístico é utilizado quando traz estatísticas dos candidatos em campanha ou de qualquer outro tema como o próprio nome sugere. Quando um candidato está na frente do outro ou retrocede nas pesquisas. O personalista dá ênfase aos atores envolvidos. Focaliza em dramas humanos, deixa em segundo plano os aspectos da política institucional e enfatiza os hobbies, habilidade, qualidades e defeitos dos indivíduos envolvidos. Com relação ao formato jornalístico mais utilizado estão a coluna social e as notas informativas. Para a coleta de dados são utilizadas 14 opções de formatos que são: reportagem com e sem foto, chamada de primeira página com e sem foto, charge, infográficos e ilustração, coluna assinada, artigo assinado, editorial, manchete com e sem fotografia, chamada-título, nota, foto- legenda, coluna do leitor. Até o momento o tema mulher esteve predominante em colunas assinadas com 35% das entradas. As notícias assim classificadas são aquelas nas quais o colunista é mais importante do que o assunto sobre o qual ele fala. Geralmente, em colunas assinadas estão as celebridades das novelas, teatro, cinema e a cobertura dos eventos que acontecem nas cidades como bodas de casamento, coquetéis de abertura de feiras e exposições e pessoas conhecidas na região. Em segundo lugar o formato mais usado foram as notas com 20% das entradas, que são breves anúncios ou notícias resumidas. Em terceiro lugar ficaram as reportagens com fotografia com mais de 18%. As reportagens são importantes porque permitem o aprofundamento dos temas e aqui são consideradas como um dos formatos mais importantes. As demais classificações variaram de 1% até 9%. O que representa um índice baixo.Sendo que não houve durante 2005 nenhuma manchete com foto e nenhum editorial que remetesse ao tema mulher e políticas públicas de gênero. Como a pesquisa ainda está em andamento estes dados apresentados são referências parciais do trabalho. Portanto, não é possível fazer uma generalização daquilo que é provável de se encontrar, até porque espera-se que haja diferença nos conteúdos tratados em anos eleitorais daqueles que não têm eleições.

Considerações Finais

Como se nota, os meios de comunicação de massa têm grande influência nas democracias modernas. Visto que eles auxiliam na divulgação de informações de forma instantânea e imediata para diversas partes do mundo. Percebe-se também que eles têm o poder de agendar temas sobre os quais as pessoas viram a debater na esfera pública. E ao mesmo tempo em que colocam alguns assuntos em discussão, acabam silenciando outros seja por causa dos critérios de noticiabilidade, valores-notícia ou a falta de tempo dos jornalistas para cobrir certos eventos.

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Como a maioria das pessoas se mantém informada através da mídia é importante atentar para aquilo que está sendo transmitido quando se fala da mulher e de políticas públicas específicas para esse gênero. Pois, como Tuchman lembra, os meios de comunicação de massa, durante a década de 70, nos Estados Unidos, seguiam mantendo os estereótipos existentes nas relações dos papéis que cada sexo exercia. Como nota-se com os resultados preliminares, as mulheres ainda aparecem com mais freqüência em notícias relacionadas às variedades e cultura, assim como têm grande visibilidade nas colunas sociais. Percebe-se também que matérias sobre violência e segurança também têm como protagonistas muitas vezes as mulheres. Já notícias que falam sobre seus direitos sociais e políticas públicas específicas são raras, senão inexistentes como aconteceu com a política de desenvolvimento sustentável no meio rural e na cidade com justiça, soberania e segurança específica para as mulheres. Ainda é cedo para fazermos previsões acerca dos possíveis resultados esperados, mas acredita-se que haja diferenças no tratamento e na quantidade de aparições de matérias que falem sobre as necessidades das mulheres e suas políticas públicas em anos eleitorais daqueles que não são. Pois, acredita-se que é interesse dos jornalistas exporem essas demandas a fim de criar um debate na esfera pública e também é empenho dos políticos a apresentação de propostas, pois os mesmos almejam angariar votos para se elegerem. Portanto, espera-se que a pesquisa receba críticas construtivas para melhor desenvolver o trabalho e que a mesma traga contribuições para a área da ciência política em relação às questões de gênero.

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