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A EXPERIÊNCIA DA FAZENDA SÂO LUIZ COM PLANTIOS AGROFLORESTAIS MECANIZADOS – relato de experiência

Rodrigo Junqueira Barbosa de Campos *1 , Denise Bittencourt Amador *2 ,

Vandeir Antônio de Azevedo *3 1 Fazenda São Luiz - rodrigo@fazendasaoluiz.com, 2 Mutirão Agroflorestal -

denise@fazendasaoluiz.com,

3

Fazenda São Luiz - contato@fazendasaoluiz.com

RESUMO Os plantios agroflorestais mecanizados vêm sendo experimentados na Fazenda São Luiz, São Joaquim da Barra, SP, desde 1999 proporcionando uma série de observações e aprendizados. Os plantios mecanizados são realizados com a plantadeira de grãos e um coquetel de sementes chamado de muvuca, incluindo sementes arbóreas e anuais em grande densidade e diversidade. O objetivo é a eficiência do plantio de grandes áreas com agrofloresta sucessional tornando o custo mais baixo para ser então mais difundido. Os resultados observados até o momento revelam boas perspectivas para estes tipos de plantio com taxas animadoras de germinação das sementes e instalação das plântulas. É necessário o desenvolvimento de mais trabalhos científicos e sistematização das atividades realizadas para melhor respaldar esta tecnologia. Este trabalho visa compartilhar com o público nossas experiências com esta técnica e apresentar um pouco as práticas realizadas. A Fazenda São Luiz constitui-se um núcleo de experimentação, difusão e formação em agrofloresta com experiências diversas junto a um trabalho educativo chamado Projeto Arte na Terra.

Palavras chave: agrofloresta sucessional; sementes florestais; plantio mecanizado; semeadura direta.

INTRODUÇÃO

A Fazenda São Luiz localiza-se entre os municípios de São Joaquim da Barra e Morro Agudo, região

nordeste do Estado de São Paulo, área de transição entre Cerrado e Mata Atlântica. A região apresenta um cenário muito degradado do ponto de vista ambiental com monoculturas agrícolas, sendo a cultura da cana de açúcar a predominante na região. Desde 1997 a Fazenda São Luiz vem desenvolvendo experiências com agrofloresta, o que representa um contraponto ao pensamento e prática agrícola da região. Os sistemas agroflorestais (SAFs) representam uma alternativa muito

promissora para contribuir com o processo de recuperação sócio-ambiental da região, despontando como uma metodologia restauradora, podendo ser um meio de viabilizar a conservação e promoção da biodiversidade através da possibilidade de produção integrada à restauração ecológica, inclusive nas áreas de reserva legal.

A agrofloresta e o sistema de policultivos, além de promoverem a produção de uma maior diversidade

de produtos, se apresentam como uma opção de agricultura muito própria para a produção de alimentos nos trópicos, ao incorporarem as árvores e a biodiversidade, estratégias naturais de nossos ecossistemas. As árvores exercem uma função primordial para os ecossistemas tropicais por favorecerem a conservação dos solos, das águas, a manutenção do clima em nível micro e macro e a estabilidade do regime de chuvas. Os plantios mecanizados tornaram-se um foco de estudos da Fazenda São Luiz pela tentativa de criar um modelo que fosse passível de utilização na complexa estratégia de implementação de um sistema agroflorestal sucessional e que, ao mesmo tempo, contivesse uma resposta à necessidade de uma produção em maior escala. Os plantios diretos mecanizados viabilizam que grandes áreas sejam plantadas com maior eficiência do trabalho e dos recursos, e mostram-se assim, interessantes para a restauração de áreas de grandes dimensões. É uma tecnologia ainda em construção e muitos passos e experiências ainda devem ser desenvolvidos. O plantio agroflorestal mecanizado vem sendo desenvolvido na Fazenda São Luiz, desde 1999, buscando utilizar as ferramentas tradicionais da região, - o trator e a plantadeira - a partir da visão local de preparo do solo. A iniciativa partiu da Fazenda São Luiz junto ao grupo Mutirão agroflorestal 1 e reflete a busca pelo desenvolvimento tecnológico em agrofloresta e a necessidade de viabilizar a ampliação de áreas com agrofloresta sucessional biodiversificada.

1 Movimento de pessoas que trabalha na construção do conhecimento em agrofloresta de forma coletiva. Atualmente uma ONG, oriunda deste movimento atua em processos de formação e difusão em agrofloresta no Brasil e tem sede na Fazenda São Luiz.

O HISTÓRICO DA AGROFLORESTA NA FAZENDA SÃO LUIZ

A Fazenda São Luiz conduz áreas experimentais com sistemas agroflorestais desde 1997, quando foi

implantada a primeira experiência para a recuperação de uma mata ciliar. Entendemos por agrofloresta os agroecossistemas diversificados que buscam imitar a dinâmica da sucessão ecológica

natural com árvores e culturas agrícolas desenvolvendo-se juntas, em alta densidade e diversidade, formando um ecossistema produtivo e multiestratificado. Os sistemas agroflorestais (SAFs) sucessionais baseiam-se nas teorias criadas pelo agricultor-pesquisador Ernst Götsch, que há mais

de 20 anos vem recuperando o solo e a vegetação nativa de uma propriedade rural localizada no Sul

do estado da Bahia. As áreas instaladas na Fazenda São Luiz visam, além da produção, a restauração ambiental e, sobretudo, o desenvolvimento tecnológico desta prática. Existem áreas com manejo mais intensivo e maior diversidade de produtos-chave para a comercialização, e áreas com

menor intensidade de manejo e diversidade. Hoje já se somam 10 hectares implantados com desenhos e manejos distintos.

O plantio mecanizado foi realizado pela primeira vez em 1999 com a experiência do plantio de um

corredor de 6 metros de largura e 760 m de comprimento, exercendo a função de quebra vento com espécies arbóreas e promovendo a ligação entre dois fragmentos florestais. Com outra finalidade e configuração foi implantada em 2004 uma área de 0,5 ha formando a bordadura de um fragmento florestal onde iniciamos a usar a muvuca (mistura de sementes diversas homogeneizadas por um substrato). No mesmo ano, foi realizado o plantio mecanizado de uma área formando aléias diversificadas e adensadas e colocando, entre-faixas, cultivos anuais orgânicos, em um total de 0,9 ha. Em 2005 e 2006 foram plantadas faixas em meio à cultura da cana-de-açúcar com o objetivo de

promover biodiversidade na área agrícola, trazendo maior equilíbrio biológico, além dos efeitos de quebra vento, corredor de fauna, conservação dos solos e infiltração de água, e também diversificação econômica. Nos anos de 2007 e 2008 foi também implantado em plantio direto mecanizado um corredor ecológico unindo dois fragmentos florestais com 50 m de largura e 2 km. de comprimento.

METODOLOGIA DOS PLANTIOS MECANIZADOS

O solo é previamente preparado através de gradagens, a primeira com finalidade de picagem e

incorporação da matéria orgânica na camada superficial do solo e uniformização do terreno, e a segunda feita um dia antes da semeadura para eliminação dos torrões e nivelamento do solo.

Nenhum tipo de herbicida, pesticida ou fertilizante químico foi utilizado nos plantios.

O plantio mecanizado inicia-se com a distribuição das sementes florestais na plantadeira junto com os

grãos (soja e milho são os usualmente utilizados na região) para que juntas cresçam formando um organismo, um sistema. As sementes são organizadas pelo tamanho e função que irão exercer dentro do organismo. O conceito de função aqui utilizado está baseado na teoria do agricultor suíço Ernst Götsch a partir de suas observações e práticas. Os pesos e formatos das sementes também são considerados na hora de colocá-los no disco de plantio junto com os grãos agrícolas. Isso possibilita regular a quantidade de sementes por metro e a profundidade de plantio. Como há duas, três ou quatro sementes por tambor, por disco, a quantidade de sementes de cada espécie por metro é calculada em função de sua proporção na mistura, considerando

os fatores citados acima (forma, peso e tamanho) e a taxa de germinação de cada uma.

A mistura de sementes que chamamos de muvuca é misturada a um substrato com terra, areia e

serragem, para chegarmos a um volume uniforme e compatível com o maquinário. A quantidade de sementes de cada espécie é determinada em função da sua taxa de germinação e a quantidade de indivíduos adultos que desejamos ter na área. Estas sementes são colocadas no distribuidor de adubo, portanto calculamos o volume de mistura que é distribuído por cada engrenagem. Desenvolvemos a relação de número de sementes por volume, para diminuir a margem de erro. Outro procedimento importante é uniformizar bem a mistura para evitar ao máximo que uma semente caia mais do que a outra. As sementes menores também são agrupadas à parte, formando uma mistura única, a “muvuquinha”. Na muvuca entram também, por exemplo, o feijão e o milho para que possam exercer a função de pioneiros da primeira fase, criando condições para a germinação das

sementes das árvores do futuro, além de outras plantas de ciclos mais curtos do que as árvores como

o caruru, alfavacão, feijão de porco, fedegoso, margaridão, jurubeba e feijão guandu, por exemplo. Desta forma queremos plantar um sistema vivo, completo em todos os momentos da sucessão.

RESULTADOS E REFLEXÃO Dentre as principais vantagens desta tecnologia destacamos o rendimento do trabalho em comparação ao plantio por mudas, principalmente considerando-se o trabalho de transporte das mudas, abertura dos berços e plantio. A alta densidade do plantio promove um rápido recobrimento

do solo, o que é muito importante para os solos tropicais, com plantas de diversos ciclos de vida contribuindo para a formação do organismo. Desta forma, pode ser feito um plantio diversificado e adensado de forma prática e eficiente. Foi constatada uma germinação mais rápida de algumas das sementes colocadas em plantio direto no campo, em comparação com as mesmas plantadas no viveiro em saquinhos. O Faveiro (Dimorphandra mollins Benth) e o Barbatimão (Stryphnodendron barbatimam Mart.), por exemplo, apresentaram germinação a partir de 15 dias no campo contra a germinação com mais de 3 meses no viveiro. As observações dos trabalhos também avaliam que as sementes plantadas diretamente no solo geram plântulas mais vigorosas e resistem melhor às condições ambientais do campo do que as mudas oriundas de viveiros. O agricultor responsável pelas sementes e pelo viveiro, Vandeir Azevedo, declarou aos pesquisadores que a qualidade do plantio direto mecanizado é superior ao tradicional.

A partir do trabalho e com o avanço das experiências, que ano a ano incorporavam mais áreas, foram

repensadas e revistas algumas técnicas fundamentais para o sucesso dos plantios como: 1) o número de sementes por espécie, ou seja, a quantidade de sementes de cada espécie para compor a

muvuca que é relacionada ao número esperado de indivíduos por espécie por linha; 2) a profundidade do plantio, que a princípio era mais profundo e havia uma dificuldade de regulagem da máquina, e com isso, diversas sementes ficavam muito enterradas dificultando sua germinação; 3) o tamanho das sementes que foram testadas para uso na plantadeira para haver uma homogeneidade

e não entupir a saída das sementes; 4) a proporção dos elementos do substrato que no início era

composto principalmente de terra peneirada, mas com a observação que se grudava muito à semente, foi reavaliada e mudada, acrescentando mais areia; 5) a engrenagem da máquina e a velocidade do trator foram experimentadas e revistas até se encontrar o mais adequado ao plantio. Além de benefícios ecológicos, existem também os econômicos, já que é possível conciliar em uma mesma área e ao mesmo tempo, a recuperação ambiental e a produção agrícola para a

comercialização, gerando renda que pode abater os custos com a recuperação. Um destaque feito por Hoffman (2005) é a grande diferença de tempo despendido com a implantação, de 30 dias por hectare no sistema manual, e de três horas no sistema mecanizado. Esta diferença significativa pode ser importante para o agricultor que deseje aproveitar o início do período das chuvas.

A agrofloresta representa uma tecnologia muito própria ao ambiente tropical, valorizando sua

biodiversidade e desfrutando de todos os serviços ambientais que as árvores propiciam. A agrofloresta é a tradução da sustentabilidade ao promover produção conjugada com conservação,

gerando trabalho e relação humana com a terra e com a natureza. Os plantios mecanizados representam uma tecnologia inovadora por simplificar e otimizar a eficiência do trabalho de implantação de sistemas agroflorestais, o que pode promover maior adesão à agrofloresta e o plantio

de áreas de maiores extensões.

ESTUDO DE CASO DE UMA FAIXA AGROFLORESTAL MECANIZADA – ALVOS DE DOIS TRABALHOS CIENTÍFICOS REALIZADOS NA FAZENDA Os plantios mecanizados da Fazenda São Luiz foram alvos de dois trabalhos de conclusão de graduação e de pós-graduação e são citados ao final deste trabalho. No caso estudado, no plantio de uma faixa de 6 m de largura por 600 m de comprimento, foi utilizada para o plantio uma plantadeira

de soja de 6 linhas, com espaçamento de 0,5 m entre linhas, totalizando 12 linhas, com profundidade

do compartimento de adubo de 1 cm e o compartimento da semente com 2 cm. Em cada um dos “carrinhos” da plantadeira foi colocada uma mistura do substrato com as sementes. Foram utilizados 70 litros do substrato composto da seguinte forma: 40 litros de terra peneirada, 20 litros de areia grossa e 10 litros de pó de serragem. Ao substrato foi adicionado o coquetel de sementes das espécies escolhidas. Esta mistura do substrato com a muvuca e as sementes agrícolas foi então distribuída uniformemente pelos sulcos. As sementes utilizadas nos plantios foram coletadas, beneficiadas e armazenadas pelos próprios funcionários da fazenda durante os anos de 2005 e 2006. As matrizes fornecedoras estão localizadas em áreas de vegetação remanescente, algumas dentro da propriedade, outras em propriedades rurais próximas. As sementes não sofreram qualquer tipo de tratamento para a quebra de dormência. Em um levantamento realizado na área em maio de 2007, ou seja, quatro meses após o plantio, Ducatti Júnior (2007) encontrou 29 das 51 espécies semeadas. Em 2008, 19 meses após o plantio,

foi feita uma nova avaliação da germinação das sementes por Oliveira (2008) e foram encontradas

50% das espécies instaladas aproximadamente, sendo que 11 das 29 espécies que haviam sido

encontradas no primeiro levantamento não foram encontradas no segundo, enquanto 8 das 26 espécies encontradas no segundo levantamento não estavam presentes no primeiro.

A partir do levantamento dos gastos despendidos durante o primeiro ano de implantação de uma

faixa com sistema agroflorestal sucessional, o custo total calculado foi de R$ 4.224,17/ha, sendo

95,26% do total com mão de obra. Deste total, a maior parte (36,16%) foi gasta com o manejo da área em capina seletiva, desbaste do feijão guandu e, posteriormente, a poda de seus galhos, seguido de 29,51% com gastos para a colheita dos produtos agrícolas e 23,43% correspondendo aos custos com a coleta e beneficiamento das sementes. O valor ainda é menor do que o valor para o plantio tradicional de mudas, que é de R$ 6.444,00/ha (Oliveira, 2008).

CONCLUSÕES E LIÇÕES APRENDIDAS Reuniu-se um grande conhecimento, ao longo dos anos, acerca das sementes das diversas espécies em relação ao seu comportamento para o plantio mecanizado, referente ao tempo de germinação, tamanho para a plantadeira e adaptação ao plantio por máquina. O cálculo do volume da muvuca de acordo com o tamanho da área e a proporção de sementes entre as espécies foram, e ainda são, grandes aprendizados durante as experiências desenvolvidas. Dentre os desafios encontrados podemos citar a observação de predação de algumas plântulas no campo, a necessidade de um grande volume de sementes, o que requer uma estrutura de trabalho de coleta e beneficiamento de sementes, e a importância de testes de germinação para apoiar o cálculo da distribuição do número de sementes por espécie na muvuca, para haver uma melhor previsão dos resultados e expectativa da germinação. Um risco desta técnica é com relação ao soterramento das sementes, pois dependendo da época do ano, pode haver chuvas fortes e movimentação de terra, o que nos levou a experimentar o plantio direto na palha. Dentre os desafios também devemos citar a necessidade de diminuir o número de sementes usado para reduzir ainda mais o custo do plantio. Ainda há muitos gargalos na tecnologia agroflorestal como o custo com mão de obra e a sua capacitação, o desenvolvimento de máquinas e equipamentos para plantios, podas e capinas seletivas, a coleta e o levantamento de informações acerca das sementes e o trabalho de comercialização dos diversos produtos que compõem os sistemas. Apesar deles e para superá-los, empenhamo-nos em desenvolver tecnologias que acreditamos que contribuam para o aperfeiçoamento do modelo. Avaliamos que há uma necessidade de avaliação e aprofundamento nesta tecnologia para seu avanço e maior adoção. Dentre as pesquisas necessárias destacamos a avaliação da germinação e instalação das plântulas e seu acompanhamento para conferir a viabilidade e sucesso do plantio; a avaliação econômica comparando-se a plantios convencionais com mudas; a avaliação da necessidade da quebra de dormência das sementes; o desenvolvimento de máquinas/implementos voltados para o plantio de sementes de diferentes tamanhos e pesos, voltados para a biodiversidade brasileira e para os sistemas de policultura. São desafios que vemos, a cada dia, atraírem um número crescente de pesquisadores, estudantes e profissionais interessados em contribuir para um novo modelo que proporcione alternativas social/econômica/ambientalmente adequadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Ducatti J.V.C. Avaliação da germinação de árvores nativas para a recuperação de ecossistemas através do plantio mecanizado de sementes na Fazenda São Luiz, município de São Joaquim da Barra – SP. Piracicaba: Universidade de São Paulo. Dissertação de especialização em Gestão Ambiental. 2007. Götsch, E. Renascer da agricultura. Rio de Janeiro: AS –PTA. 1995. Hoffmann, M.R. Sistema Agroflorestal Sucessional – Implantação mecanizada. Um estudo de caso. Brasília: Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Universidade de Brasília. Dissertação de Graduação, 2005. Oliveira, F.N.C. O Uso de Sistemas Agroflorestais Sucessionais Mecanizados para a Recuperação de Áreas Degradadas. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos. Dissertação de graduação. 2008. Para mais informações, veja no site www.fazendasaoluiz.com e www.agrofloresta.net Agradecimentos: Ao Veimar, Felipe e outros estagiários da Fazenda São Luiz que contribuíram para os levantamentos em campo e a Lena, que ajudou com uma revisão propositiva.