Webjornalismo Cidadão e Democracia: o caso blog do VQ

Thereza Gerhard1
“Você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem” (Como nossos pais – Belchior)

Resumo Webjornalismo cidadão é a prática jornalística desenvolvida na internet em que qualquer cidadão pode produzir conteúdo informativo. É uma forma democrática de produção e acesso à informação em que há a oportunidade de fugir das pautas da grande mídia e ainda valorizar grupos que são negligenciados pela imprensa hegemônica. Com esta prática obtêm-se mais uma opção de informação com outros pontos de vista e abordagens. Este artigo faz uma reflexão sobre se o Jornalismo Cidadão é realmente democrático e se há credibilidade nas notícias e analisa as motivações que levam um cidadão a escrever notícias do ponto de vista dos colaboradores do site estudado: o blog do Jornal Valença em Questão: blog do VQ. Palavras-chave: Webjornalismo Cidadão. Blog. Democracia. Valença em Questão. Abstract Citizen Webjournalism is a journalism usage that is developed on the internet, in which any citizen can produce informative content. It is a democratic way of information production and access in which is the opportunity to escape from the great media schedules and still valorize groups that are ignored by the hegemonic press. With this practice there are a further option of information with other points of view and approaches. This article makes a reflexion on whether the Citizen Journalism is truly democratic and if it has credibility in it's news and analyzes the motivations that move a citizen to write news in the point of view from the collaborators of the studied website: the Valença em Questão journal's blog: the Blog do VQ. Key Words: Citizen Webjournalism. Blog. Democracy. Valença em Questão. Resumen Webperiodismo ciudadano es la práctica desarrollada en la Internet en el que cualquier ciudadano puede producir contenido informativo. Es una forma democrática de la producción y el acceso a la información que existe es una oportunidad para escapar de los pentagramas de los medios de comunicación y también valorizar grupos que son ignorados por la prensa hegemónica. Con esta práctica, hay una nueva opción de información con otros puntos de vista y enfoques. Este artículo es una reflexión sobre si el periodismo ciudadano es verdaderamente democrático y si hay credibilidad en las noticias y se examinan las motivaciones que llevan a un ciudadano a escribir noticias desde el punto de vista de los trabajadores estudió el sitio: el blog de el periódico Valença em Questão: blog do VQ.
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Acadêmica em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário de Barra Mansa (UBM). E-mail: therezacristinag@gmail.com

Democracia.Palabras clave: Webperiodismo Ciudadano. Valença em Questão. . Blog.

descobrir a motivação para produzir conteúdo informativo e. Depois. então. os movimentos populares e culturais são divulgados e reconhecidos pelas matérias publicadas pelos integrantes do grupo do VQ (como são conhecidos os colaboradores do jornal e do blog). Analisam-se. (idem) . discutir a credibilidade das notícias. do interior do estado do Rio de Janeiro) há indícios de que haja democracia. as novas tecnologias e a motivação de ser uma alternativa aos meios de comunicação de massa hegemônicos fazem com que um número cada vez maior de pessoas comece a produzir conteúdo. são feitas as considerações finais. Os objetivos específicos do estudo se focaram no blog do VQ e na participação de seus colaboradores: traçar o perfil desses integrantes. Logo após. Há um capítulo posterior intitulado ‘Democracia’ em que há uma reflexão sobre o tema. No caso do blog estudado (Blog do jornal “Valença em Questão”. O artigo está organizado da seguinte forma. revisão e edição das matérias. 2 Open source – fonte ou código aberto. open source2 ou grassroots journalism3. visto que há liberdade de expressão e as minorias. colaborativo. discute-se o papel que pode desempenhar um blog. TADDEI. Logo após. p. ainda.19) 3 Jornalismo grassroots – Refere-se à participação na produção e publicação de conteúdo na web das camadas periféricas da população. usado para definir o jornalismo feito em sites wiki. em que qualquer internauta pode alterar o conteúdo de uma página. Quem se apropria desses meios para informar é chamado de cidadão-repórter ou cidadão-jornalista e faz parte de uma prática que pode ser chamada de jornalismo cidadão. do ponto de vista narrativo. Concluindo. participativo. mostrar como é feita a apuração.Introdução A internet. discute-se se o jornalismo cidadão pode ser denominado jornalismo. apresenta-se o estudo de caso: o Blog do VQ. Primeiro explica-se algumas denominações do jornalismo desenvolvido por cidadãos. os temas dos objetivos específicos da pesquisa de acordo com o blog estudado. identificar os tipos de notícias veiculadas. O objetivo principal deste estudo é descobrir se esta atividade é realmente democrática. (FOSCHINI.

peças audiovisuais e imagens produzidas por qualquer interagente e distribuídas no ciberespaço são jornalismo cidadão. grassroots journalism e jornalismo open source (isto é. A seleção e a diferenciação dos dois termos utilizados no artigo foram feitas intuitivamente. bem como ao papel do jornalista. (PRIMO. O Jornalismo Cidadão é relevante também porque mexe com questões diretas relativas ao jornalismo e ao futuro desta profissão. jornalismo participativo. como o estudo de caso é o jornalismo praticado na internet. p. 2006) Outro nome dado a esta “prática em que qualquer cidadão pode se tornar repórter” (LINDERMANN. Já jornalismo . à obrigatoriedade do diploma e à liberdade de comunicação e de informação que deveriam ser direitos de qualquer cidadão. De doze integrantes do grupo do VQ. 86) é jornalismo colaborativo. foca-se a discussão no chamado webjornalismo ou jornalismo online. E. A denominação jornalismo colaborativo dá idéia de uma participação estreita. FONSECA. apenas seis responderam às perguntas. Neste artigo optou-se por utilizar duas das formas vigentes (jornalismo cidadão e participativo) e manteve-se a designação usada por cada autor. A relevância do assunto se dá pela sua contemporaneidade e pela falta de debates sobre o tema no curso de graduação em Jornalismo do Centro Universitário de Barra Mansa. excluindo-se os termos em inglês e “jornalismo colaborativo”. reportagens. visto que não há nenhuma pesquisa científica sobre o webjornalismo cidadão. 2007.A metodologia utilizada para o desenvolvimento da pesquisa de campo foi a pesquisa quantitativa e qualitativa com o emprego de questionário misto e entrevistas sobre o blog e o tema tratado. Webjornalismo cidadão: significações Os termos correntes para designar as notícias. uma simples sugestão que pode ou não ser seguida ou a uma contribuição temporária ou sem maiores vínculos. de fonte aberta). TRÄSEL. Os questionários foram enviados por e-mail.

há editores. mas muitas vezes carregadas da mesma intensidade de paixões. cheios de genuína paixão. No outro extremo. corrige e publica as notícias. já que não deixam que pontos de vista ou interesses muito divergentes aos seus permeiem suas páginas na web. É. críticas. denúncias e experiências? Os blogs atuais estão cheios de individualismo. revolucionários. linhas mercadológicas e editoriais. Amadores capazes. religiosos. é verdade. mesmo abrindo espaço de interação para seus leitores. os produtores de conteúdo não têm liberdade total de emissão de opiniões. podem acabar não se modificando. fotografias ou vídeos. O que é mais apaixonado ou apaixonante do que a expressão individual de opiniões. . seleciona.participativo remete a uma participação real. designa mais claramente a idéia de cidadania. Opta-se por usá-la nos casos de sites que possuem uma seção para que os leitores possam enviar textos. Jornalismo cidadão. por outro lado. mas também lutam por causas. hoje são pessoas comuns. portanto. será a intitulação do jornalismo desenvolvido no website pesquisado: o blog do Jornal “Valença em Questão”. até então receptores das mensagens. produzem efetivamente conteúdo informativo. Grandes escritores. Esta. pois os cidadãos. Ressaltase que há participação. o termo utilizado no artigo nos casos independentes. a profissão começou a ser desenvolvida por amadores e pode ser que esteja seguindo para o mesmo caminho agora no século XXI. informam. poetas. Os intelectuais e escritores que começaram a escrever a história do jornalismo opinativo com vontade de ser livre. nem autonomia na publicação do material. denunciam. então. onde o intermediário não é uma grande empresa jornalística. blogs e participação cívica Considerando que no começo do jornalismo não existiam faculdades nem cursos de formação para a atividade. Portanto. Porém. o mass media. Amadorismo. bem como outros mecanismos para filtrar o conteúdo enviado pelos cidadãos-repórteres. de que um cidadão comum realmente produz.

(PRIMO. informar e atender às necessidades dos leitores. p. SMANIOTTO. A questão fundamental desta democracia seria “dar a uma coletividade o meio de proferir um discurso plural. As pessoas que não observam nos meios de comunicação tradicionais os pontos de vista e as opiniões que procuram ou mesmo meios de interagirem. 64).O jornalista e professor Alex Primo condena a conceituação dos blogs como meros diários íntimos ou apenas páginas pessoais (o que excluiria as produções grupais). o ciberespaço poderia tornar-se o lugar de uma nova forma de democracia direta em grande escala. Dan Gillmor. Gillmor defende que o jornalismo cidadão não só é válido como pode mostrar a nós jornalistas novas maneiras de pensar. que não têm formação acadêmica na área do jornalismo ou mesmo da comunicação. 2006). ter utilidade pública. defenderem pontos de vista. O jornalismo tradicional está cada dia mais abalado pela efervescência da internet e das novas tecnologias que possibilitam a produção de conteúdo informativo por pessoas comuns. Entretanto. O jornalista e pensador sobre os novos meios de comunicação. Democracia Segundo Lévy (1999. professores e coordenadores de cursos de Jornalismo. colaborarem e co-produzirem conteúdo encontram na internet o meio perfeito para emitirem suas opiniões. p. (2005. escrever. Muito além de meras páginas online com texto e conteúdo pessoal que só interessa ao próprio autor e seus conhecidos. comentarem. O fato dessas pessoas não possuírem diploma na área assusta alguns profissionais. os blogs podem informar a sociedade. é uma atividade irrefreável e que tem possibilidade de contribuir para a prática profissional. publicarem o que não vêem na mídia tradicional e denunciarem o que descobrem de errado na sociedade e na imprensa. sem passar por representantes” . fazer a diferença em meio ao jornalismo profissional. 144). afirma que os blogs podem ser atos de participação cívica.

.(idem. p. 65-66). Para Castro. Castro explica que uma mídia cidadã efetiva fortalece a sociedade por oferecer novas formas de comunicação e discursos diferentes dos ditados pela mídia tradicional. E há ainda o interesse financeiro das empresas que podem usar essas notícias como calhau. Já nos sites informativos que disponibilizam uma área para o jornalismo participativo. p. 67) Nos blogs em geral a informação e a forma de interação com outros leitores é construída em tempo real e sem intermediários. (ibidem. a fala do coletivo deveria estar ligada à sua respiração. de se verem. que esta é uma forma real de democracia. de se reconhecerem como querem ser reconhecidos. há editores que corrigem e selecionam o que entrará ou não na publicação. Afinal. “As mídias cidadãs podem ajudar a resgatar no imaginário social a idéia do ‘nós’. é jornalismo? A idéia de uma comunicação democrática e do diálogo com diferentes grupos que não são ouvidos e retratados pela mídia tradicional é percebida no Jornalismo Cidadão. Ainda de acordo com o autor. Ainda em depoimento por e-mail. Quando esses grupos se tornam autônomos e produzem sua própria forma de comunicação. uma mídia cidadã articulada por uma coletividade que afirme mensagens e práticas com base nas vivências desses grupos em contraste a estereótipos e sensos comuns a ela relacionados. da reflexão social”. da dimensão humana mais profunda. É possível afirmar. Porém. então. por e-mail). (Vitor Monteiro de Castro. “para ser completamente livre. como mais um “produto” informativo sem que para isso tenha que contratar e remunerar mais um jornalista. é preciso pensar em uma comunicação que preze pela cidadania. a comunicação se revela emancipadora para esse coletivo – uma oportunidade para o exercício da cidadania – e transformadora para a sociedade como um todo. existe uma linha editorial que fixa uma barreira e muitas vezes não deixa os leitores expressarem suas opiniões nas notícias que publicam. deveria brotar incessantemente e inventar-se em tempo real”.

a proposta era fazer um trabalho prático como monografia. Para o jornalista. o modelo americano adotado até então é mais uma forma de ocultar que de informar. o jornalismo está sendo cada vez mais apropriado pelos grupos sociais e pelas redes de colaboração e as narrativas criadas por estas pessoas imprimem mais sentimento ao que é relatado. (2005. Vitor Monteiro de Castro. deve-se preservar o que o sistema atual tem de melhor e estimular o emergente jornalismo de publicação pessoal “o do futuro”. Estudo de caso: Blog do Jornal “Valença em Questão” Primeiro surgiu o jornal “Valença em Questão”. em abril de 2005. (1999. pirâmide invertida. Já na primeira edição. em Valença. Mesmo que essa narrativa não exista teoricamente. Para Gomes. Quando seu editor. único . de fazer um jornal onde ele morava. Surgiu a idéia. Detalhe: a tiragem do Jornal “Valença em Questão” é maior que o “Jornal Local”. Nilo Sérgio Gomes. 67). A publicação possui oito páginas sem editorias fixas. mestre e pesquisador. um grupo de pessoas começou a se aproximar do “Valença em Questão”. Será que para ser considerada jornalismo teria que estar enquadrada em modelos pré-fixados e engessados de lead. p. 80) . p. ainda era estudante de Comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Para Gillmor. O jornalismo cidadão poderia criar novas formas de escrever e se expressar a partir das vivências. então. sublead. A primeira edição contava com uma tiragem de 500 exemplares e hoje são dois mil com perspectiva de crescer para três mil. carente de publicações informativas. De acordo com o jornalista Dan Gillmor.alguns críticos se perguntam se esta prática deveria ser chamada de jornalismo. 19). principalmente desvinculadas de interesses políticos. Lévy também defende que os enunciados do ciberespaço não precisam se inscrever em formas fixadas de antemão. p. profissões e áreas do conhecimento desses cidadãos-jornalistas. no interior do estado do Rio de Janeiro. “as velhas regras de elaboração das notícias já não são as únicas com que temos de nos conformar” (2005.

Para acabar com essa lacuna e pela “facilidade para se criar e gerir um blog. dar voz à população pobre e outros grupos que são negligenciados pela mídia – e também começaram a colaborar. debater o desenvolvimento sustentável da cidade. a propensão ao diálogo e a repercussão que pode atingir” e por ser “um meio de baixo custo.blogdovq. pelo menos. Há 30 pontos de distribuição na cidade e pessoas que ajudam financeiramente o jornal o recebem em casa. Para quem tem acesso à internet e solicita. Ninguém escreve todo o dia para o blog. num grupo do Yahoo de livre acesso.jornal oficial da cidade de Valença com apenas mil exemplares. é disponibilizado no blog. A distribuição. todos são voluntários e quase todos contribuem financeiramente para a impressão do jornal.blogspot. Colaboradores O grupo foi formado inicialmente por universitários que moravam em Valença e iam juntos de van para universidades do Rio de Janeiro e debatiam sobre a política de Valença. a sua versatilidade. O blog do VQ recebe ainda colaborações de . “perdia” alguns fatos do dia-a-dia. A meta é publicar. para deixar espaço para os outros. o jornal é enviado via e-mail e. <http://www. Outras pessoas foram se identificando com o objetivo do jornal – resgatar a história de Valença. O blog A publicação impressa é de periodicidade mensal e. Hoje há doze integrantes no grupo que colaboram regularmente. ainda. foi criado o blog do VQ. uma notícia por dia.com> em setembro de 2007. Muito mais que apenas a versão online do jornal. o blog é um meio mais aberto e complementa o impresso. por este motivo. no entanto se limita ao município. não atingindo os seis distritos de Valença. com tecnologia de rápida e simples apropriação”. interessantes de serem noticiados.

essa formação não está sendo bem feita e ações neste sentido estão paradas. é um espaço bem mais aberto. mas. Esses textos passam pelo crivo editorial de algum colaborador. que enviam. mas o grupo espera retomá-las. Para publicarem notícias. a idéia é formar novas pessoas interessadas na política do jornal que possam no futuro levar a bandeira adiante. O jornal e o blog fazem parte de um todo bem maior.com e não há qualquer filtro. via email. A idéia do blog é que ele siga a mesma linha editorial do jornal. Voz e liberdade de expressão A proposta do jornal “Valença em Questão” foi. Político apartidário A linha editorial do jornal procura dar visibilidade a grupos que não tem voz na cidade e região.terceiros. procurar dar espaço e visibilidade a ações e grupos que tradicionalmente não têm essa notoriedade. formação dos grêmios das escolas e trabalhos de comunicação em ocupações rurais e urbanas. os colaboradores tem acesso à postagem através do Blogger. Notícias veiculadas em outras mídias também são publicadas no blog. Capacitação Os colaboradores do blog do VQ não fazem nenhum tipo de capacitação nem são orientados da maneira como devem escrever para o blog. como pela maior liberdade de conteúdo e dos colaboradores. com a devida indicação da fonte. formado por esse grupo que . Algumas das ações realizadas em Valença para formar outros cidadãos-jornalistas foram oficinas de jornalismo em escolas públicas. porque não há necessidade de edição dos textos ou exclusão por falta de espaço. Castro garante que as notícias que não são publicadas no jornal por estarem fora dos padrões de formatação de texto entram no blog. tanto pela maior possibilidade de espaço. textos que gostariam de ver no blog. de acordo com Castro. Por falta de tempo e estrutura. Porém. desde o início.

o Sindicato dos Profissionais da Educação (SEPE). trabalharem em empresas ou instituições não é levado em conta para as discussões internas do grupo. A comunicação com . No blog não há anunciantes e no jornal há apenas três: pessoas muito próximas ao grupo e o SEPE. numa média de dez correspondências para cada edição. não tem ligação com nenhuma entidade ou instituição. de acordo com Castro. caxambu. O blog também não tem interesses financeiros ou mercadológicos que influenciem sua linha editorial. uma publicação política. A maior parte do dinheiro para a impressão vem dos próprios colaboradores e de leitores que se identificam. entre eles estão o Movimento dos Sem Terra (MST).existe há quatro anos e busca alternativas e melhorias especialmente para Valença. É. Castro assegura que estes anunciantes nunca tiveram influência na escolha das matérias. a publicação se diz apartidária. ajudam e motivam a continuidade da publicação. mas muitos utilizam o meio para comentar outros acontecimentos. Embora possua membros de alguns partidos políticos. o Movimento Hip Hop e grupos culturais da cidade. como PSOL e PCB. portanto. A maioria dos comentários é sobre as matérias publicadas. ainda. Se causar interesse. como os de jongo. Quando uma edição do jornal é distribuída na cidade. também há manifestações por meio de e-mails. Mesmo o fato de alguns membros participarem de movimentos e partidos e. A linha de combate do grupo é contra as injustiças e a favor de movimentos populares. Comentários e e-mails Os leitores interessados em discutir as questões levantadas pelo VQ e suscitar outros debates se comunicam por meio de e-mails e pelo sistema de comentários do blog. Cabe frisar que estes poucos anunciantes não conseguem sustentar o jornal. estes comentários podem virar notícia na página principal do blog. capoeira e teatro. divulgar eventos e denunciar fatos. O movimento “Valença em Questão”. de acordo com Castro.

o blog do VQ. Tipos de notícias No blog do “Valença em Questão” não há pautas. o jornalismo de cidadão é em grande parte o domínio daqueles que formam. Esse grupo é que produz efetivamente as notícias do jornal e do blog. na opinião de Tom Stites. 19) Dentro do grupo do VQ há um pouco dos dois lados sendo defendidos. estuda ou trabalha no Rio de Janeiro e se reúne nos finais de semana em Valença para discutir sobre o grupo que está junto há mais de quatro anos produzindo o jornal e. afetadas pela mudança e deixadas à margem do diálogo. mas aos finais de semana quando grande parte do grupo está em Valença são realizadas reuniões sobre o grupo. o jornal e o blog. Os outros são as pessoas que estão a ser postas de lado pela ‘Admirável Economia Nova’. mas há uma linha de ação do grupo que envolve além do blog e do jornal . Perfil dos cidadãos-repórteres Hoje. Muitos dos colaboradores estudam e/ou trabalham no Rio de Janeiro. não apenas se relacionar com Valença. A maior parte mora.os colaboradores também se dá via e-mail. O outro grupo que tem voz dentro do jornal e do blog são os movimentos sociais e culturais da cidade e pessoas da própria comunidade. Para nosso descrédito. mais recentemente. aquelas pessoas com educação suficiente para participar numa conversação à distância. Um segmento. muito reduzido da sociedade que tem acesso à universidade. mas levantar um debate que seja de interesse público. que dispõem de aptidões técnicas e que têm meios que lhes permitem dispor do tempo e equipamento necessários’. defendidos pelo grupo e também com liberdade para publicar o que pensam no blog por meio de comentários ou e-mails que podem ser divulgados no blog. de certo modo. segundo o editor Vitor Castro.000. ‘um segmento muito reduzido da sociedade. p.00. Os temas devem. com idade entre 18 e 35 anos. 2005. A decisão do que é ou não de interesse público depende de cada colaborador. São as pessoas comuns. (GILMOR. não lhes temos dado a devida atenção. metade com renda mensal acima de R$ 1.

como jornais. ações voltadas para cidadania em Valença: exibição de vídeos. mas os fatos regionais. entretenimento. Apenas um dos colaboradores disse entrevistar autoridades. Os colaboradores.impresso. Os assuntos mais discutidos são política e educação. normalmente. representantes de movimentos populares e culturais ou outra personalidade que represente a cidade de Valença e a região. Há também muitas matérias que surgem como comentários sobre notícias de outros veículos. realização de eventos culturais e de educação. Apenas um dos entrevistados . Os entrevistados. A maior parte das notícias é sobre acontecimentos locais. são pessoas comuns. economia e temas de utilidade pública e serviços também são muito divulgados. além de informar. parcerias com movimentos sociais em diversas ações. Meio ambiente e os eventos que ocorrem na cidade e região também fazem parte das notícias publicadas pelo blog. com a correção dos erros de gramática e concordância e lendo e reescrevendo os textos várias vezes. principalmente. Três respostas mostram que há entrevistas com especialistas para esclarecer os assuntos abordados. depoimentos e verificar se os fatos são verdadeiros. nacionais e internacionais são tratados no blog. Quatro pesquisam em fontes oficiais e também quatro pesquisam em veículos impressos. mas cada um faz um pouco do que os jornalistas profissionais adotam para conseguir dados. também escrevem textos opinativos e reflexivos na página da internet. Revisão A revisão dos textos se dá. Cultura. revistas e livros. Cinco dos entrevistados responderam que pesquisam na internet. Dois entrevistados admitiram utilizar a opinião pessoal. Apuração Os colaboradores do blog do VQ não seguem regras para a apuração das notícias.

Castro ressalta. Se há algum erro mais grave. Além disso. o grupo sempre discute com exemplos práticos para que erros não sejam cometidos ou não se repitam. usam-se os comentários para dialogar com o colaborador. As correções geralmente são realizadas pelo editor e jornalista Vitor Monteiro de Castro ou pelo engenheiro Carlos Alberto Fernandes Oliveira que são os únicos que têm acesso à postagem alheia. Se o erro fica muito tempo na página. se existirem “vítimas”. As correções ficam em destaque na página para que os leitores identifiquem o que foi modificado posteriormente à publicação da matéria. são feitas erratas e pedidos de desculpas para os envolvidos. Em caso de discordância de conteúdo. que a proposta é que nada seja alterado. Motivação Cada um tem seus motivos para ter começado a escrever notícias. algumas coletivas outras individuais. A maior parte (cinco entrevistados) começou a produzir notícias para emitir alguma opinião ou porque gosta de escrever. o erro é corrigido diretamente pelos editores e o colaborador é avisado. Quatro dos colaboradores iniciaram a vida de “repórter” para realizar algum tipo de denúncia e o mesmo número respondeu que gostaria de retratar a comunidade. evitando a alteração. apenas gramática e concordância. Apenas um dos . porém. O questionário utilizado na pesquisa identificou algumas dessas motivações.disse usar o corretor ortográfico do programa de edição de textos e outro colaborador disse pedir para que outras pessoas lessem e apontassem os erros cometidos. Edição Os colaboradores têm liberdade para publicarem o conteúdo que quiserem e pouca coisa é modificada. Divulgar eventos também é uma das motivações.

. Para isso. no caso do professor de sociologia.colaboradores disse almejar obter experiência em jornalismo. pode consertar possíveis erros. a participação da sociedade é importante e necessária. defende Gillmor. p. O importante. “A informação é algo que tem que circular e. (2005. por isso. Outra motivação foi educacional. por meio dos comentários de outros leitores. tem a possibilidade de dialogar com outros pontos de vista e descobrir dados novos sobre um fato. pondera que não dá para confiar em tudo o que é noticiado. Aliás. devese fazer mais: criar novos espaços de difusão. 18) Um dos colaboradores do blog do VQ. O colaborador de um site de jornalismo participativo de uma grande mídia ganha com a edição dos erros por jornalistas profissionais. Uma terceira colaboradora argumenta que a questão central não é se as notícias são confiáveis ou não. repensar as mídias que estão colocadas e a relação delas com os cidadãos é fundamental”. para ela. Ela não acredita que caiba avaliar se é “confiável” porque notícias não confiáveis circulam em qualquer lugar. exige-as – e tais fontes têm sido. é o papel que as notícias de cunho alternativo desenvolvem socialmente. os jornalistas sérios”. produção e reflexão. um engenheiro. na maioria dos casos. Já o colaborador de um site de jornalismo cidadão ganha mais com a liberdade de expressão e. afirma que há hoje a necessidade de se difundir notícias desvinculadas de interesses mercadológicos. “O público precisa de fontes credíveis. Mas ele argumenta que no blog “outras pessoas poderão auxiliar na verificação das informações”. um jornalista. Ele lembra que as matérias do blog são apuradas para averiguar que a informação não seja falsa. para ela. Credibilidade Fazer com que outros leitores acreditem na credibilidade das notícias produzidas por cidadãos-jornalistas ainda é um obstáculo. segundo ele. Outro colaborador. que não são divulgados pela mídia tradicional.

E. Não há também.Outro colaborador acredita que as notícias são confiáveis. pois parte do pressuposto de que “os interessados no blog estão saturados com as fontes hegemônicas de informação”. Os objetivos específicos deste estudo também foram apresentados como a forma de apuração. mesmo que seja pessoal. há a democracia na maneira como se expressam e pelos grupos culturais. buscando-se sempre aprender com certos exemplos para que erros não sejam cometidos. governo ou instituição que interfira nas matérias. Os gêneros de notícias publicadas são: política. mas segue a linha de que todo assunto. segundo ele. . só deve ser publicado se for de interesse coletivo. embora o perfil dos colaboradores seja de pessoas de um segmento restrito da sociedade que tem acesso à universidade. sociais e de minorias que reconhecem e valorizam. Nem os anunciantes intervêm no conteúdo das publicações. nenhum tipo de organização. Apenas um dos colaboradores que responderam ao questionário não soube dizer se as matérias produzidas por cidadãos são confiáveis ou não. o fato de gostarem de escrever. Ainda que a maior parte deste grupo trabalhe para empresas. Considerações finais De acordo com as características e as formas de funcionamento do blog pesquisado é possível concluir que o jornalismo cidadão é um meio democrático. O professor de Sociologia concorda que sejam confiáveis. realizar denúncias e retratar a comunidade. Além disso. A motivação destes cidadãos-jornalistas também foi identificada: emitir opinião. porque. a lógica do blog do VQ é estar em “oposição aos interesses opressores da mídia burguesa”. isso não interfere nas notícias veiculadas no blog nem no jornal. Cada integrante do grupo do VQ se expressa da maneira que acredita ser mais relevante. edição e revisão em que há liberdade para a forma narrativa e de conteúdo. educação e comentários sobre matérias de outras mídias.

se não há ideologias institucionais. conceitos. já que o mais importante é o direito à comunicação e de informar sem interferências nem manipulações devido a interesses políticos. quando se está livre da influência do poder econômico. No entanto. visto que ainda é um desafio fazer com que os leitores se baseiem nelas para tomar decisões. Essa liberdade é que está em questão. Concluiu-se que pode ser uma maneira simplista de questionamento. Afinal. a própria ideologia. atualmente é um conceito difícil de ser praticado. p. não se alimenta tais ilusões. A “mídia livre” como alguns a intitulam. 9). obviamente. por exemplo. . A diferença é que neste último. É na verdade um mito como afirma Clóvis Rossi (1998. como disse Dan Gillmor. Luta-se por uma objetividade que na verdade não existe nem no jornalismo profissional nem no jornalismo cidadão. sem que por isso se esqueçam de informar predominantemente sobre assuntos locais. pode-se estar a serviço do governo ou de partidos. Outra questão levantada foi se as notícias produzidas por cidadãos são confiáveis. preconceitos e opiniões. Nem os jornalistas. há. não se pode ser livre totalmente. no jornalismo “do futuro”. econômicos ou ideológicos das grandes mídias. Disso ninguém pode se dissociar realmente.há predominância de textos opinativos e reflexivos.

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