PEDRO MIGUEL SALVADO

PONTES A ESTE
CIRCULAR NA RAIZ, PASSAR FRONTEIRAS

Elementos para a história da cooperação transfronteiriça do Museu de Francisco Tavares Proença Júnior
CASTELO BRANCO MMXI

* Este folheto é parte integrante do Boletim anual da Sociedade dos Amigos do Museu de Francisco Tavares Proença Júnior.

TÍTULO: PONTES A ESTE: CIRCULAR NA RAIZ, PASSAR FRONTEIRAS Elementos para a história da cooperação transfronteiriça do Museu de Francisco Tavares Proença Júnior (Castelo Branco) AUTOR: Pedro Miguel Salvado EDIÇÃO: Sociedade dos Amigos do Museu de Francisco Tavares Proença Júnior. Castelo Branco DESIGN: Hugo Landeiro Domingues IMPRESSÃO: Grafisete, Lda ISBN:  978-989-96109-1-0

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PONTES A ESTE
CIRCULAR NA RAIZ, PASSAR FRONTEIRAS

APRESENTAÇÃO
Este encarte que juntamos ao nosso Boletim anual tem a especial função de explicitar melhor o sentido passado e futuro da visita, e em especial o seu percurso cultural, que fizemos a Cáceres, a qual intitulámos: Patrimónios a Este. As Pontes e as margens. É um texto reflexivo da autoria do nosso associado Pedro Salvado, que nos permite conhecer e reflectir sobre este património territorial que podemos e devemos valorizar enquanto entidade preocupada com o conhecimento e sua divulgação. Pensamos que será um bom contributo para o início do IV Mouseion, que curiosamente irá reunir em Alcântara.
Maria Celeste Capelo (Vice-Presidente da SAM)

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PONTES A ESTE:
CIRCULAR NA RAIZ, PASSAR FRONTEIRAS
(Castelo Branco) Elementos para a história da cooperação transfronteiriça do Museu de Francisco Tavares Proença Júnior

(…), tenía un museo el más extraordinario que había en el mundo, porque no tenía figuras de personas que efectivamente hubiesen sido ni entonces lo fuesen, sino unas tablas preparadas para pintarse en ellas los personajes ilustres que estaban por venir, especialmente los que habían de ser en los venideros siglos (…)
Miguel de Cervantes, Los trabajos de Persiles y Sigismunda,

Não foi indiferente a escolha do título “Patrimónios a Este: As pontes e as margens” como mote a partir do qual se estruturou a visita que, anualmente, organiza a Sociedade dos Amigos do Museu de Francisco Tavares Proença Júnior. O enunciado, expressando um rumo definido, aponta uma rota que atravessa os horizontes culturais e paisagísticos dos campos do sul da Beira e da desnudada Raia ou Arraia das terras das Idanhas em múltiplos cenários que se ampliam para leste da ancestral fronteira. A inserção dos vocábulos ponte e margens no título da proposta de visitação pretendeu reforçar o profundo valor metafórico e simbólico dos mesmos e, principalmente, o seu enraizamento, material e imaterial, a uma determinada imagem circulante e, em construção continuada, destes territórios periféricos. Com a ponte e as margens avivou-se o pensamento de Georg Simmel quando escreveu: “A noção de separação seria desprovida de sentido se nós não tivéssemos começado a religá-las (como as margens do rio), nos nossos pensamentos finalizados, nas nossas necessidades, na nossa imaginação.” Com efeito, unir e separar constituem dois movimentos de um mesmo processo que expressam mais do que uma dicoto5

mia, uma geografia de temporalidades e de espaços tecidos por unidades e fragmentos, por laços e nós, interruptamente feitos e desfeitos pelas sociedades. As várias pontes que atravessamos, desde o monumento oitocentista do rio Ponsul, na Moinheca, começado a ser edificado em 1872 e terminado em 1875 segundo dá conta uma inscrição de bronze, que se sobrepôs a outro de maior antiguidade, até à ponte romana de Segura que vence o Erges e estabelece a linha invisível entre as duas soberanias ibéricas ou a extraordinária milenar ponte de Alcântara, altar do Tejo, já na raia espanhola, concretizam sentidas materialidades. O caminho que as une deve ser lido e entendido como um desafio e como uma interrogação continuada que nos ajude a apreender as realidades que organizam as quietudes ou as mutações da paisagem contemporânea. É um percurso que ultrapassa e une, entre outras, fronteiras aquáticas e geológicas, limites de línguas, de sons e de cheiros, traçando uma carta de espiritualidade e de significação particular que envolve os lugares - os topoi - da fronteira do Este. É mapeamento mental que se começa a descortinar quando se contempla o vasto horizonte que se avista do monte do castelo templário da cidade alva e que a visita pretendeu abarcar, perscrutando a sua memória e a sua actualidade, um denso património dos sentidos e dos sentires transfronteiriços que urge reiluminar e compreender. O périplo proporcionou, igualmente, o contacto com realidades museológicas ao nível da arte contemporânea, unidades que situando-se numa margem económica e social face ao centro nacional, assumem e desenvolvem na periferia, com a arte e pela arte, uma notável centralidade cultural. Com efeito, os territórios que são bordejados pela fronteira política passaram de uma condição histórica em que o desespero e a negação dominavam os quotidianos, para áreas que desafiam a imaginação e afirmam as possibilidades das diferenças. No caso da Beira e das vizinhas Extremadura e Castela e Leão, há já alguns anos, que uma dilatada rede de actores, onde se incluem instituições variadas como universidades, politécnicos e, principalmente, associações de desenvolvimento, empreende e pretende a implantação de um novo paradigma “refuncionalizado” para estas zonas periféricas e económica e socialmente deprimidas. Despontam, ensaiam-se e promovem-se múltiplas acções, num misto de excitação e de desânimo, que encerram como objectivo primordial o surgir de outro dinamismo social e cultural em paisagens que são muitas vezes ainda lidas, em anacronias identitárias, como frias, cinzentas, desertificadas e silenciosas. A preservação, o desenvolvimento, a transmissão e a reprodução das especificidades identitárias associadas a estes territórios estruturados pela fronteira política,
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pretendendo-se o surgimento de uma leitura integrada de espaços, de tempos e principalmente de esperanças na construção de um futuro comum para a grande periferia das duas grandes nações da velha Ibéria, deverão também fazer parte dos propósitos de acção das entidades museológicas aqui situadas. Ora, ao contrário do que recentemente de uma maneira precipitada se escreveu e se concluiu, desconsiderando vários factos, as relações transfronteiriças desenvolvidas pelo Museu de Francisco Tavares Proença Júnior ao longo da sua História centenária assumiram uma relevância singular e pioneira. De motivações e com intenções evidentemente distintas, em todas as direcções que se sucederam na instituição identificam-se experiências que podem ser qualificadas de “relação transfronteiriça”. Começando pelo seu fundador: Francisco Tavares Proença Júnior (n. 1883- m.1916) promoveu ao longo da sua vida científica, infelizmente tão curta, a internacionalização dos saberes arqueológicos; das relações que desenvolveu com os centros da arqueologia espanhola de inícios do século XX revele-mos, entre outras componentes, as visitas que efectuou a várias realidades patrimoniais do país vizinho e as recepções da produção bibliográfica científica aí surgida; numa das visitas feita ao Museu Arqueológico de Madrid descortinaria um paralelo do fantástico menir insculturado pré-histórico por si encontrado, em 1903, no monte de S. Martinho, estação arqueológica situada nos arredores de Castelo Branco. António Elias Garcia, director do Museu entre 1930 e 1959, desdobrou-se durante a sua gestão em aturados estudos e permutas com os grandes especialistas peninsulares da numismática da Hispânia visigótica, fornecendo um sentido europeu à colecção museal. Por sua vez, Fernando de Almeida, responsável pelo Museu de 1963 a 1973, traçou, com Garcia y Bellido, um programa de pesquisa ibérico que provocou um incontornável impacto historiográfico luso-espanhol; para ele a ponte de Alcântara e a cidade de Cáceres, por exemplo, eram pólos de um território fronteiriço que se completavam na promoção e estudo de uma geo-história comum entre a Beira Baixa e a Extremadura. Mas, a fronteira e as suas representações estiveram totalmente ausentes nos diversos discursos museográficos que se sucederam no Museu de Castelo Branco. Até mesmo as questões relativas às origens e difusões dos denominados Bordados de Castelo Branco ignoram as geografias de contacto e os “mundos do outro” que não se restringem ao distrito e que percorrem, entre outros horizontes, Valverde del Fresno, aldeia da raiana Serra da Gata, Alcântara, Toledo, passando por La Alberca até ao norte da Europa e às longínquas terras e mares da China e da Índia num complexo alfabeto simbólico comum que continua silenciado.
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A invisibilidade fronteiriça ou transfronteiriça tem sido colmatada com a aparecimento, em dados momentos, de uma rede, mais ou menos informal, de permutas científicas e de contactos que discorrem e se estabelecem incluindo e a partir das e com as realidades do outro. Contudo, foi na direcção de António Salvado, entre 1973 até 1989, que as ligações e acções de cooperação entre o Museu de Francisco Tavares Proença Júnior e a Espanha foram incentivadas e assumidas como um dos eixos de reorientação programática da instituição. Após um longo período de letargia e de indefinição funcional e locativa, o Museu havia reaberto ao público, em 1971, em novas instalações mas cujas actividades ou verdadeiros desempenhos culturais eram, incompreensivelmente, inexistentes. António Salvado sabia que: “É nas pequenas cidades do interior, ilhas fechadas feitas de distância, é ao museu que se pedirá uma larga contribuição no sentido de tornar os membros da comunidade menos isolados, é ao museu que competirá levar, enfim, os outros a acreditarem que a cultura deverá viver-se como uma necessidade”1, palavras datadas de 1977 que não perderam pertinente actualidade. Ora, foi neste desígnio que a aproximação aos cenários transfronteiriços naturalmente se estabeleceu, vincando-se o Museu de Castelo Branco como um centro museológico que via na sua posição de proximidade face à fronteira uma mais valia no desenhar das suas dinâmicas e projectos. “Nuestro propósito es muy simple. Contribuir a que comencemos a vernos de caras, a encarar problemas comunes, a tender nuevos puentes, a elevar velos fronterizos”2, foram premonitórias palavras de Eduardo Barrenochea e de Antonio Pintado então tidas em consideração. Corajosamente, na Primavera de 1972, estes jornalistas espanhóis tinham desocultado as funestas periferias da grande península, fazendo emergir a verdadeira triste realidade do limite político dos dois estados, apelidando-o de “fronteira do subdesenvolvimento”. Regionalmente, os primeiros anos da década de oitenta foram tempos de grande excitação interior, de descobertas e de sonhos envolvidos por essas novas esperanças que as palavras democracia e liberdade transmitiam. A busca de um ancoramento definitivo da Ibéria à Europa revelava os horizontes e as vontades: estávamos longe da parábola de José Saramago da Jangada de Pedra. Repensava-se a utopia ibérica mas sempre com os olhos postos no além Pirenéus. A fronteira, qual cicatriz da História, era uma realidade que

1. António Salvado, Museu e Comunidade. Sep. de Estudos de Castelo Branco, Nova Série, nº3, 1978. 2. Antonio Pintado e Eduardo Barrenechea, La raya de Portugal: la frontera del subdesarrollo, Cuadernos para el Diálogo, Madrid, 1972. Há tradução portuguesa: A raia de Portugal: A fronteira do subdesenvolvimento, Porto, Afrontamento, 1974.

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ainda separava. De linha controlada e temida, a fronteira passou a ser enunciada com o prefixo trans, antecedido da palavra cooperação. E aquilo que hoje se encontra tão banalizado – a cooperação transfronteiriça – era, para muitos, entendido como uma nova invasão, de pouco interesse, algo que provocava muitas desconfianças... O papel então desempenhado pelo Museu de Francisco Tavares Proença Júnior constituiu um exemplo (a merecer análise aprofundada) de como é que uma instituição aparentemente à margem dos processos de planeamento do desenvolvimento regional, conseguiu afirmar a cultura e o Museu como uma parte insubstituível nas práticas dos quotidianos e nos futuros das comunidades. O território que então começava a debater a sua designação e fronteiras internas, que variava entre Beira Baixa, Distrito de Castelo Branco ou Beira Interior, foi percorido, pensado e projectado como um todo, numa busca de endogeneidades caracterizadoras de uma almejada identidade regional. Foi um programa transversal a todas as disciplinas da arqueologia à botânica, da etnologia à história da arte que contou com o interesse e com a prestimosa dedicação de um admirável conjunto de colaboradores que, com o seu entusiasmo dinâmico e generoso, particularizou uma determinada época da museologia regional portuguesa. Foram muitos os amigos do Museu. Relembremos aqui, entre outros, os nomes dos reverendos cónegos Anacleto Martins, à escala local, e António Nogueira Gonçalves que, com Pedro Dias trouxeram as realidades patrimoniais da região das diversas coordenadas artísticas para a história da arte portuguesa; do arquitecto Mário Varela Gomes, autor do inovador projecto museológico e de reabilitação de Idanha-a-Velha) e do desenho da sala da arte rupestre do Vale do Tejo do Museu; de José Manuel Garcia, Vasco Mantas e José d’ Encarnação, que relançaram o estudo e a descodificação da epigrafia romana da região numa perspectiva ibérica; do Grupo para o Estudo do Paleolítico Português – GEPP nas pessoas de Luís Raposo e António Carlos Silva, responsáveis pela primeira trasladação na Península de estruturas de habitat paleolíticas para um espaço museológico; de António Martinho Baptista, analista do complexo de arte do Vale do Tejo, e, principalmente, de Henrique Coutinho Gouveia, indutor da importância das reflexões teóricas nas práticas museográficas que aspiravam conjugar comunidade e memória com território.

3. Ole Strardggard foi outro nome da museologia nórdica que influenciará a prática museológica regional então em construção. Ole Strardggard, “A importância dos Museus”, in Estudos de Castelo Branco, nova série, nº5, 1979, p. 17-20, apontava: “O objectivo do museu local é o de ajudar os habitantes (hoje e amanhã, residentes ou visitantes) no conhecimento progressivo das condições e possibilidades no espaço e no tempo.” A tradução do texto foi de António Salvado.

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Nesta última coordenada, o programa contou com dois excepcionais, atentos e activos coadjutores: Hugues de Varine que como presidente do Instituto Franco-Português promoveu várias sessões de trabalho no distrito e o saudoso António Paulouro, construtor e activador de renovadas identidades regionais, digníssimo director do Jornal do Fundão. Um periódico de referencia nacional que haveria de preparar com o apoio do Museu Francisco Tavares Proença Júnior, o painel “Raia traço de união”, incluído nesse grande fórum sobre o pensar do futuro, as II Jornadas da Beira Interior, que decorreram em Monfortinho entre 10 e 12 de Outubro de 1986: os museus da e na fronteira luso-espanhola foram aí muito falados. Hugues de Varine complementou e aprofundou aquilo que a convivência com Per-Uno Ägren, museólogo sueco que anos antes havia percorrido a Beira e a serra da Estrela, tinha, em conjunto, idealizado para uma desejada mutação do panorama museológico nacional periférico3. A paisagem regional estava em mutação acelerada e a sua ancestral ruralidade desestruturava-se. A desertificação do território avançava causada pelos fluxos emigratórios que marcaram os viveres da interioridade. É e foi neste pano de fundo que as perspectivas projectivas e analíticas de Hugues de Varine4, imbuídas pelas enunciações teóricas da Nova Museologia, irão atravessar, de uma maneira muito determinada, as práticas do projecto museal albicastrense. Um propósito que elevava a teoria, com a prática e com a utopia5 e que se aproximava muito da ideia do museu-comunitário, pluri-nucleado e territorializado, que mais do que públicos queria sim implicar na sua acção as populações. Cedo se percebeu que essa reidentificação teria, obrigatoriamente, de conter e de abarcar a fronteira, não apenas aqui entendida como algo que delimita, mas sim como aquilo que ela revela e significa. Afinal, uma fronteira é sempre metáfora e conceito. Assistimos então ao entendimento da fronteira como um campo de pesquisa, dando-se importância à sua história e aos seus processos de memória, evidenciando-se o gradual contacto entre as populações dos dois lados da raia. É-me muito grato relembrar esses tempos em que foram lançadas as sementes de toda uma prática de colaboração transfronteiriça hoje entendida como comum. Entre várias actividades que a imprensa portuguesa e espanhola registaram, re-

4. “Hugues de Varine apresenta o Instituto Franco-português” in Jornal do Fundão de 13 de Janeiro de 1984, p.7; “Hugues de Varine em Castelo Branco. Instituto Franco-Português não vai ser supermercado da cultura” in Jornal do Fundão de 20 de Janeiro de 1984, pp. 12-13; Joaquim Duarte, “ Museus e Património Cultural Regional. Definidas as linhas de cooperação entre o IPPC, Instituto Franco-Português e Poder Local e Regional” in Jornal do Fundão de 13 de Janeiro de 1984, pp.12-13. 5. Aurora León, El museo. Teoría, praxis y utopia, Madrid, Ediciones Cátedra, 1978.

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levemos a exposição Arte Rupestre na Meseta Espanhola (Províncias de Zamora, Ávila, Salamanca e Cáceres)6, em cujo catálogo traduzimos o primeiro capítulo da obra do catedrático de pré-história e arqueologia da Universidade de Salamanca Francisco Jordá Cerdá História del Arte Hispânico, estudo e acção que internacionalizaram definitivamente a representação do menir de S. Martinho. A Francisco Jordá Cerdá devemos a estruturação de um singular ciclo de conferências sobre arte pré-histórica que teve lugar durante um ano no Museu de Castelo Branco e a criação de um programa de escavações dirigidas por si, por Julián Bécares e por Clara Vaz Pinto no povoado de S. Martinho7, conjunturas que possibilitaram tantos e tão diversificados momentos de reflexão e sonho sobre o papel do Museu de Castelo Branco no porvir da cooperação transfronteiriça na Beira interior. Lugar de destaque assumiu a realização (com a colaboração da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova já nas mãos de Joaquim Morão que então começava a definir uma visão estratégica e política para as questões transfronteiriças8) da mesa redonda Os museus da raia luso-espanhola - Lugar mais de destino que de passagem. O pequeno cartaz anunciador da iniciativa é elucidativo da mensagem que se desejava transmitir: a linha separadora entre as duas nações foi propositadamente riscada com traços que queriam esboçar, mais de que uma anulação do limite politico, a premência do surgimento de outros eixos de circulação cultural capazes de romper os destinos evocados no título. Na silhueta cartográfica da Península apenas se indicaram dois pontos: Lisboa e Madrid as despóticas capitais. E foi com o mesmo empenho que, entre os dias 22 e 25 de Abril de 1983, responsáveis de instituições museais dos dois lados da fronteira se juntaram à mesma mesa, contrariando aquela visão centralista de locus desertus cultural das periferias

6. J(osé). S(antolaya)., “Salamanca y su Arte Rupestre en el Museo Tavares Proença Junior de Castelo Branco. Valiosa colaboracion del Departamento de Arqueologia de la Universidad de Salamanca” in El Adelanto de 9 de Noviembre de 19 82, p.3. As fotografias e textos dos painéis expositivos foram da autoria dos Professores Javier Fortea, Julián Bécares Pérez e de Maria Carmen Sevillano San José, sob orientação científica do Professor Doutor Francisco Jordá . A iniciativa teve, na sua logística, o apoio empenhado e fraternal da arqueóloga extremenha Cleofé Rivero de la Higuera e de Julián Bécares, arqueólogos que percorreriam e reconheceriam algumas realidades arqueológicas da Beira Baixa, nomeadamente associadas à arte pré-histórica e ao megalitismo, ao sistema de povoamento antigo, por exemplo, das antas da Granja de S. Pedro em Alcafozes (Idanha-a-Nova), de Monsanto da Beira e do povoado de S. Martinho (Castelo Branco). 7. Joaquim Duarte, “No monte de S. Martinho arqueólogos portugueses e espanhóis à procura da história perdida» in Jornal do Fundão de 26 de Agosto de 1983, pp. 12-13 e 18. “Ora diga lá - Julián Bécares in Jornal do Fundão de 12 de Julho de 1983, p. 2. Este arqueólogo, professor na Universidade de Salamanca, lamentava que, nessa data, “em Portugal não há uma fronteira aberta 24 horas por dia”. 8. Para além dos discursos de intenção e do patrocínio do almoço nas Termas de Monfortinho que então ainda não era zona de passagem transnacional, releve-se, nesta linha da cooperação e do desenvolvimento cultural, o incontornável papel desempenhado pelo Dr. Domingos dos Santos Rijo, à data vereador da cultura da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova. A necessidade da existência de um centro de estudos fronteiriços que conjugasse memória com futuro aflorou aqui pela primeira vez…

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nacionais. O programa das questões abordadas foi extenso. A comunicação social assistiu, relatou e apoiou a experiência9; e, é de elementar justiça relembrar o importante e notável papel então desenvolvido por José Santolaya, grande amigo de Portugal e da Beira10, no desenhar de acções transfronteiriças futuras. A propósito dessa experiência José Manuel Hidalgo, ao tempo director do Museu Quinõnes de León, Castrelos, de Vigo, escreveria: “Uno de los temas principales que se estudiaron en esta reunión conjunta luso-hispana, fue la defensa del patrimonio cultural y artístico que habría que realizar, según los casos, los respectivos Museos. La problemática se planteo en la esfera de competencias de los museos nacionales, provinciales o municipales. La legislación en ambos países se muestra ambigua para determinar estas competencias y es de esperar que se regule de forma más satisfactoria. También se planteo los problemas que se pueden derivar de los Museos Municipales o Locales cuando la Corporación Municipal (Cámara Municipal, en Portugal) no atiende debidamente a los mismos y pueden correr el peligro de abandono o desaparición. Una de las soluciones para paliar el problema podría estar en la confección de reglamentos vinculantes para el funcionamiento correcto de dichos Museos. Un capítulo muy interesante dentro de esta primera mesa-redonda de Museos fronterizos españoles-portugueses fue el relativo a las experiencias levadas acabo en cada uno de los museos participantes en dicha reunión museística. Así se fueron exponiendo las actividades realizadas en cada centro, en las que destacaron las encaminadas a una mayor comprensión del Museo para los visitantes al mismo: confección de catálogos didácticos; comics y puzles para niños, etc. En el terreno del museo como centro de investigación, se destaco el papel de los Museos con secciones de Arqueología, a la hora de emprender excavaciones en su zona en las que participarían personas vinculadas a ella. (…) Como conclusiones se apuntó la colaboración de los Museos participantes en actividades futuras. Se tomo como ejemplo la exposición de Arte Esquemático realizada por la Universidad de Salamanca y que fue exhibida en el Museo portugués de Castelo Branco”.
9. “Os museus da raia luso-espanhola num encontro inédito” in Jornal do Fundão de 29 de Abril de 1983 e José Manuel Hidalgo Cuñarro “Coloquio sobre Museos Fronterizos españoles portugueses” in Suplemento Dominical de Faro Vigo de 29 de Mayo de 1983, p. 36. Estiveram presentes representantes dos museus de Viseu, Guarda, Covilhã, Évora, Miranda do Douro, Mação, Zamora, Salamanca, Badajoz, Cáceres e Mérida e dos parques nacionais da Peneda-Gerês e da Serra da Estrela e alguns quadros e colaboradores do Museu de Castelo Branco. As sessões de trabalho decorreram em Castelo Branco, no Museu de Francisco Tavares Proença Júnior, e em Idanha-a-Velha. Nesta aldeia salientem-se as intervenções do saudoso D. José Maria Alvarez Sáenz de Beruaga e de D. José Maria Alvarez Martinez, do Museu Nacional de Arte Romana de Mérida , que salientaram todas as relações estabelecidas, desde as últimas décadas do século I a. C. até ao século VIII, entre a pequena capital da civitas Igaeditanorum e Emerita Augusta, realidades e vínculos culturais que estes dois investigadores consideravam que deveriam ter tradução museográfico no território raiano luso-espanhol. 10. José Santolaya, “Museus e Parques da raia luso-espanhola vão reunir em Salamanca” in Jornal do Fundão de 1 de Julho de 1983, p.15.

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Quando, há alguns anos, a Dr.ª Ana Mercedes Stoffel Fernandes, então dinâmica delegada da Associação Portuguesa de Museologia da região centro, se aproximou da realidade da museologia beiroa centralizada em Castelo Branco e ao ser cotejada com este passado de cooperação, desenvolveu de imediato, com uma pequena equipa (na qual tive o prazer de fazer parte desde a primeira hora11), a possibilidade da criação de novos cenários e campos que avivassem uma desejada e renovada prática museológica transfronteiriça. Creio que o I Mouseion - Encontro transfronteiriço de museologia que teve lugar nos entre 1 e 5 Maio de 2002, significou o relançar desse ideário que havia sido começado a traçar décadas antes pelo Museu de Castelo Branco12. Decerto que a antiga fronteira já denota muito pouco: contudo a perificidade que circunda as desertificadas terras do Este continuará a significar algo. Hoje parte-se e chega-se a um ponto: já não se sente o passar de uma fronteira. Tudo mudou desde essa surpreendente e tão esperançosa década de oitenta. No entanto, creio que a vontade da fixação de um fluxo museológico transfronteiriço continua imparável. Uma corrente que distinguindo linha de fronteira e área fronteiriça, assuma o sentido desta geografia em que a fronteira-linha e a fronteira-zona constituem uma “dialética intrínseca à cultura de fronteira”. Uma cultura de fronteira deste modo estabelecida pelo antropólogo extremenho Luis Uriarte: “La cultura de frontera en el Area Rayana se caracteriza por una fluida permeabilidad sociocultural que vertebra y estructura una fuerte interdependencia simétrica entre las poblaciones ubicadas a uno y otro lado de La Raya y a lo largo y ancho del Area Rayana”, acrecentando que “la cultura de frontera requiere relaciones de complementariedad e interdependencia transnacionales. (…) En la cultura de frontera los Rayanos necesitan ser dos (naciones) para realmente ser uno (área cultural). (…) Y es precisamente para mantener y reforzar esa articulación complementaria que necesitan tener fronteras claramente demarcadas para poder transgredirlas o respectarlas según requiran el contexto y las estrategias en un momento dado.”13

11. Da comissão organizadora deste Encontro, que reunia na Câmara e no Museu Municipal de Portalegre, fizeram parte, para além da sua coordenadora geral Ana Mercedes Stoffel, Carlos Abafa, Sónia Alves e José Miguel Santolaya, este último foi o responsável pela maior parte dos contactos internacionais desenvolvidos. O programa de cada localidade incluída no percurso da iniciativa foi, respectivamente, da responsabilidade de João Mendes Rosa (Fundão), de Elisa Pinheiro (Covilhã), de Manuel Santonja (Salamanca), de Carlos Piñel (Zamora), de Maria Jesús Herreros de Tejada (Plasencia) e de Juan Valadés (Cáceres). 12. Leonor Veloso, “Museus precisam de se modernizar”, in Jornal do Fundão de 10 de Maio de 2002, p.40, Nuno Francisco, “ Encontro transfronteiriço de Museologia. Hugues de Varine homenageado pela Câmara Municipal do Fundão”,in Jornal do Fundão de 10 de Maio de 2002 . Realce-se o texto de Fernando Paulouro,”Para Hugues de Varine” in Jornal do Fundão de 18 de Maio de 2002, p. 3 que historificam as ligações de trabalho deste museólogo com a Beira interior.

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E foram todas estas memórias e considerações que também conduziram a nossa visita. Uma visita que percorreu um itinerário cultural muito diferenciado vincado num caminho que condensa múltiplas realidades e tempos. Uma visita que quis decifrar e ler as fronteiras-pontes não como marcos físicos ou naturais, mas sim como estremas simbólicas, quais linhas móveis e transcendentes14. Uma viagem é sempre um desassombrar continuado. E, tal como queria Saramago, o fim de uma viagem é apenas a origem de outra. Este eixo cultural Castelo Branco e Cáceres poderá e deverá ser potencializado cabendo aos museus nele situados a tarefa de iluminar e de fazer circular todas as suas fontes e acções criativas, que conjuguem todas as temporalidades, em renovadas transformações e interrogações. Afinal um museu, como dizia Malraux, é sempre uma confrontação de metamorfoses15. Sinónimo de união ou divisão, intransigência, domínio e conflito, o termo fronteira intercepta e irradia sentidos muito polissémicos que se prestam a usos di13. Luis Uriarte. “Culturas de frontera y fronteras culturales: la Raya Hispano lusa y Peruana-ecuatoriana”, in Culturas, identidades e globalização. Actas das III Jornadas, Beja, 2005, pp. 76-77. e Luis M. Uriarte, La Codosera. Cultura de Fronteras y Fronteras Culturales en la Raya Luso-Extremeña, Mérida, Asamblea de Extremadura. 1994. 14. Por exemplo, na história da construção da paisagem fronteiriça da Beira Baixa, a ponte de Segura pela sua dupla função de limite e de passagem, constituiu o locus geográfico de convergência dos movimentos transnacionais que se desenvolveram nesta parcela da fronteira mais antiga do velho continente. A fronteira é aqui estabelecida pelo Erges, rio para os portugueses e ribeira para os espanhóis, como se ouve em Zarza la Mayor. O rio nasce a norte, na majestosa serra de Xalima, passando pelas povoações de Eljas e de Valverde del Fresno antes de se assumir como limite. Ao unificar as margens do rio separador das duas soberanias ibéricas, a ponte constitui um grande plano material da permeabilização de uma fronteira linear invisível e mental. Ainda que tenha sofrido variadíssimos restauros, principalmente ao nível do tabuleiro, o monumento ainda conserva a estrutura romana original, alargando-se em cinco arcos. O seu desenho arquitectónico filiou-se na ponte de Alcântara. É, portanto, uma construção dos primeiros anos do século II d. C.. A estrada que une estes dois monumentos era um ramal da grande via de la Plata que unia o norte com o sul peninsular e desenvolvia-se a partir de Norba Caesarina, a progressiva e monumental cidade de Cáceres, em direcção a Alcântara seguindo, e depois de atravessar a actual Beira, para Bracara Augusta. A ponte prolonga, no seu nome, a povoação que a domina: Segura. As estratégias de povoamento da Reconquista e a necessidade de um controlo mais efectivo da fronteira com Leão relacionam-se com a génese do povoado. Pelo seu carácter situacional de hiper-periferia face aos centros do poder e de convergência da rede de caminhos raianos, o sítio da ponte de Segura foi também um palco de todas as conflitualidades entre os dois reinos peninsulares. Durante 28 longos anos, entre 1640 e 1688, foi na periferia que se vão plasmar as conflitualidades dos centros políticos de Madrid e de Lisboa, iniciando-se a imagem de raia-fronteira carregada de cromias negras. Aí tiveram lugar, durante a Guerra da Restauração, vários episódios e será pela ponte de Segura que, no Inverno de 1807, passará, em direcção a Castelo Branco, grande parte do exército de Junot, aquando da 1ª Invasão Francesa. Vencida a fronteira, a povoação mais próxima é Piedras Albas. Os seus antigos postos da Guardia Civil e da Policia Nacional são agora casas arruinadas. Nos, outrora ocultos, pátios interiores pastam ovelhas. A presença do grandioso escudo franquista, na diluída fachada do velho posto em abandono completo, faz-nos recordar águias temidas. Mas são cegonhas que cruzam os céus e nos acompanham ao longo da estrada. Aqui e além furdões e longos muros de propriedades dão um toque humano à desnudada paisagem. Algumas cabeças de gado relembram a presença raiana dos grandes rebanhos transumantes que marcavam o ritmo sazonal dos viveres. Depois de uma estrada coleante, chega-se ao Tejo. Emerge do horizonte, a vila de Alcântara, sede da antiga ordem de S. Julião do Pereiro, grande baluarte militar que determinou a história fronteiriça entre Espanha e Portugal a partir do século XVII. Alcântara é a reconfirmação toponímica de uma ‘das maravilhas do mundo’ como referindo-se a esta terra e á sua ponte, sentiu o poeta e geógrafo muçulmano do século XII Idrisi. “Los potentes pilares de los ojos centrales, la espaciosidad de sus arcos, la magnitud de los sillares rústicos de granito empleados en su obra, la severa simplicidad de líneas, todo armoniza a maravilla con el imponente paisaje”, descreveu-a António Garcia y Bellido. Terá sido construída no ano 103 por C. Iulius Lacer a expensas de municípios da Lusitânia, como consta de uma inscrição colocada no arco da monumental ponte, entre os quais os igeditanos, cuja capital territorial era a Egitânia, a desertificada aldeia de Idanha-a-Velha. Em Alcântara voltamos a entrar em contacto com a espessura metafórica da ponte num autêntico altar ao Tejo: o rio da união. A partir daqui passamos num ritual de distâncias raianas, por terras de luz e de água, por castelos e igrejas, por casarios alvos, por nomes de pintores e de linguistas, unidos por uma toponímia misteriosa e apelante que une e irradia da paisagem percorrida. Nos ‘Barruecos’, em Malpartida, franqueamos limites que nos levam até geografias mais artísticas, densas e alegóricas e a fantásticos geo-labirintos. São as modelações do grande artista e mestre de todas as fronteiras e margens Wolf Vostell, para quem estar na margem significou, somente, ocupar um lugar de criatividade a partir do qual se construiu um outro sentido do e para o mundo.

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ferenciados, por vezes opostos e de percepção contraditória. Sentimento contraditório tão bem revelado por Miguel Torga quando, em Setembro de 1941, em Monfortinho, não num museu mas diante de um limite então tão temido da paisagem, sentiu: “Olho daqui. Vejo, de facto, serras com restolhos de centeio e trigo, sobreiros com autêntica casca de cortiça, e um rebanho a caminhar, no meio do qual sai uma nuvem de poeira e de som. Mas é do lado de lá do ribeiro. E um inexplicável terror, uma imprecisa inquietação apoderam-se de mim. Sinto-me em relação a tudo aquilo como diante duma outra natureza. Uma natureza evidentemente de calhaus, de ervas, de sol, de gente, mas onde tudo diz D. Filipe, quando eu digo D. Sebastião”16.

15. Sobre este assunto vid. Santos Zunzunegui, Metamorfosis de la Mirada. Museo y semiótica, Frónesis Cátedra, Universitat de Valência, 2003. 16. Miguel Torga, Diário II, Coimbra, 1960, p. 12.

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Capa do catálogo da exposição Arte Rupestre da Meseta Espanhola (Províncias de Zamora, Ávila, Salamanca e Cáceres) apresentada no Museu de Francisco Tavares Proença Júnior entre Novembro e Dezembro de 1982.

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Mesa redonda “Estratégias de intercâmbio cultural transfronteriço” decorreu no dia 2 de Maio de 2002, em Castelo Branco, no Museu de Francisco Tavares Proença Júnior A sessão, coordenada por mim, contou com as participações da Drª Ana Margarida Ferreira, digníssima Directora do Museu de Francisco Tavares Proença Júnior, do Eng. Armindo Jacinto, da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, do Dr. Paulo Fernandes, vereador da Cultura da Câmara Municipal do Fundão, do professor Doutor Cláudio Torres, do Campo Arqueológico de Mértola, de D. Vasquez Mao e do meu velho amigo Doutor José Manuel Hidalgo, representantes da Xunta da Galiza.

Dois aspectos de uma sessão de trabalho da mesa Redonda “Os museus da raia lusoespanhola Lugar mais de destino que de passagem”, Castelo Branco, Biblioteca do Museu de Francisco Tavares Proença Júnior, 23 de Abril de 1983.

António Verríssimo

Leonor Veloso

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Cartaz da Mesa redonda “Os museus da raia luso-espanhola-Lugar mais de destino que de passagem” que teve lugar em Castelo Branco e em Idanha-a-Velha nos dias 22, 23 e 24 de Abril de 1983.

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