AS MODAS COREOGRÁFICAS In Estudos sobre o Cante Alentejano, de Padre António Marvão, INSTITUTO NACIONAL PARA O APROVEITAMENTO DOS TEMPOS

LIVRES DOS TRABALHADORES, 1977
http://www.joraga.net/gruposcorais/pags/07dancas03_PMarvao.htm

Página 184 AS MODAS COREOGRÁFICAS «Depois de fazer uma análise das modas publicadas na primeira parte do "Cancioneiro Alentejano", nos seus mais variados e interessantes aspectos, vamos agora à segunda parte, que nos apresenta as modas coreográficas, não muitas, embora também as haja em profusão. O alentejano não cantava só no campo, nas romarias, nas ruas, nas vendas, nos largos e na Igreja, o seu lindo e nostálgico cantochão: também se divertia empregando o mesmo tipo de

cante, embora mais alegre e próprio para se dançar. «Consultando a segunda parte do referido Cancioneiro encontramos apenas oito modas que se dançavam fora e dentro de casa. Formavam-se os pares, rapazes e raparigas, voltados uns para os outros e em compasso de três tempos - ternário - marcavam o ritmo do primeiro tempo fazendo estalar as pontas dos dedos polegar e médio enquanto dançavam para a direita e para a esquerda, sempre em frente um do outro, e se deslocavam em volta fazendo uma roda. Um dos versos dizia assim: São saias, meu bem, são saias, São saias que andam na moda. Segura-te bem não caias Que elas têm pouca roda. «Eu penso que este tipo de verso e de dança devia ter sido introduzido no Baixo-Alentejo que confina com o Alto-Alentejo onde é muito vulgar encontrar danças desta natureza numa zona que irá de Mourão a Reguengos, Portel e Viana do Alentejo. Vem depois a dança Pediste-me uma laranja ( ): Pediste-me uma laranja Meu pai não tem laranjal Ai se queres um limão doce, Vai à porta do quintal. Vai à porta do quintal Que lá 'stá o limoeiro Ai não há para armar cantigas Como é um rapaz solteiro! A esta dança pode introduzir-se o ritmo de As saias. Era assim dançada. Vem a seguir a O tim tim: Ó tim tim, olaré, tim tim Ó téu téu, olaré, téu, téu Quatro borlas tenho eu, Nas abas do meu chapéu Padres Nossos das mulheres

Não levam almas ao céu. «Era uma dança de pares, já agarrados, em ritmo binário, batendo em "ostinato" com os pés, os três meios tempos do compasso. «‘Cantem... bailem... moças’ era própria do Carnaval, a que se chamava entrudo, pessoa disfarçada, mal vestida.. Era dançada como a anterior. Cantem, bailem, moças Que isto é entrudo Lá vem a Quaresma, Que se acaba tudo. O Sarapateado( ) era dança que se usava muito em Santo Aleixo da Restauração e tirou o nome do ritmo feito pelos pés dos dançarinos que era muito rápido e batido. O verso era assim: Ó que brinca o moxo ( ) Ó que dança o coxo, Venha cá, meu cravo roxo, Ó que brinca aqui, O que dança ali, Dança amor que eu já danc'i. Vem depois a Moda Pulada, dançada como as duas primeiras. Também não tinha verso próprio. Das que não estão no Cancioneiro citaremos o Gira, vai-te que era uma dança de cadeia, aos pares. Quando se diz "Vai-te, vai-te que te não quero", a moça passa ao moço da frente, mudando todos os pares. O verso dizia assim: Eu cuidava com o tempo Minha pena acabaria. Agora vai em aumento A toda a hora do dia. Gira, vai-te, que te não quero Que venhas ao meu jardim Vai-te, vai-te que te não quero,

Eu quero-te só a ti. Havia ainda as danças do "Tope" e do "Marcadinho", de que não temos as letras, muito dançadas em Peroguarda. E a dança do "Maquineu", de que também não temos letra nem música. Há, ou havia, perto de Amareleja o poço do Maquineu e penso que era ali que se cantava e dançava aquela dança, quando as moças iam buscar água ao referido poço. Estas algumas das modas de que os alentejanos se serviam para cantar e dançar, principalmente no Entrudo e nos "mastros" de S. João e de S. Pedro, quando havia algum casamento ou chegavam as "sortes". A par do solene e majestoso cantochão festivo e domingueiro, que ajudava no trabalho ou se dirigia à namorada, lá estava o outro, já sem a gravidade do primeiro, alegre e divertido, porque tristezas não pagam dívidas - o outro lado da vida.

SÃO SAIAS

São saias, meu bem, são saias São saias que andam na moda Segura-te, meu bem, não caias Que elas têm pouca roda.

AS SAIAS

São saias, amor, são saias Segura-te, amor, na roda, não caias São saias, amor, da moda egura-te, amor, não caias na roda. TIM TIM

Ó tim tim, olaré, tim tim Ó téu, téu, olaré, téu, téu. Quatro borlas tenho eu, Nas abas do meu chapéu. Padre Nossos das mulheres Não levam almas ao Céu. Não levam almas ao Céu Ó tim tim, olaré, tim tim Ó tim tim, olaré, tim tim Ó téu, téu, olaré, téu, téu. CANTEM E BAILEM, MOÇAS

CANTEM E BAILEM, MOÇAS, Que isto é o entrudo. Lá vem a Quaresma, Que se acaba tudo. Que se acaba tudo CANTEM E BAILEM, MOÇAS, CANTEM E BAILEM, MOÇAS Que isto é o entrudo.

TRUC TRUC DO MONTINHO

Pus-m'a Contei Pus-m'a Contei Com São Com São

contar as estrelas, duzentas e doze. contar as estrelas, duzentas e doze.

as duas do teu rosto duzentas e catorze. as duas do teu rosto duzentas e catorze. Moda Pulada

Os olhos requerem olhos, Ai, Os olhos requerem olhos. E os corações, corações Ai, os meus requerem os teus Em certas ocasiões. GIRA, VAI-TE

Eu cuidava com o tempo Minha pena acabaria Agora vai em aumento A toda a hora do dia... Cira, vai-te que te não quero Que venhas ao meu jardim Vai-te, vai-te que te não quero Eu quero-te só a ti.

AS MODAS COREOGRÁFICAS In Estudos sobre o Cante Alentejano, de Padre António Marvão, INSTITUTO NACIONAL PARA O APROVEITAMENTO DOS TEMPOS LIVRES DOS TRABALHADORES, 1977
http://www.joraga.net/gruposcorais/pags/07dancas03_PMarvao.htm

www.joraga.net Corroios, 22 de Janeiro de 2012 para scribd