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ATIVIDADE FINANCEIRA E MOEDA: ANÁLISE DA

EXPERIÊNCIA DO CONJUNTO PALMEIRAS EM FORTALEZA-CE

RESUMO

O CONSELHO MONETÁRIO NACIONAL (CMN) REGULA O ACESSO E FISCALIZA AS ATIVIDADES DAS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS QUE PARTICIPAM DO SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL (SFN). ESSE CONTROLE DO SFN É ESSENCIAL, POIS O SISTEMA FINANCEIRO É SUSCETÍVEL A CRISES DE CONFIANÇA E SAQUES EM MASSA, E AINDA INSTRUMENTALIZA POLÍTICAS MONETÁRIAS COM O INTUITO DE CONTROLAR ÍNDICES INFLACIONÁRIOS. UM DOS MECANISMOS DE CONTROLE INFLACIONÁRIO É A EMISSÃO DE PAPEL MOEDA, SENDO QUE, DE ACORDO COM A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988, A INCUMBÊNCIA DE EMITIR, CONTROLAR E REGULAMENTAR

A MOEDA OFICIAL É EXCLUSIVA DA UNIÃO. NO ENTANTO, VÊM

CRESCENDO EXPERIÊNCIAS DE ECONOMIA SOLIDÁRIA, NA QUAL SE ENCONTRAM REDES DE PRODUÇÃO E CONSUMO, ALÉM DE MEIOS ALTERNATIVOS DE PAGAMENTO. O OBJETIVO DESTE ARTIGO É ANALISAR A EXPERIÊNCIA NO BAIRRO CONJUNTO PALMEIRAS, NA CIDADE DE FORTALEZA, CEARÁ, SUA ESTRUTURA, SEUS PROJETOS,

E ESPECIALMENTE A EMISSÃO DA MOEDA SOCIAL DO BAIRRO

(PALMA, P$), BEM COMO UM PROJETO DE MICROCRÉDITO E FINANCIAMENTO PARA OS MORADORES LOCAIS, VERIFICANDO SE HÁ

POSSIBILIDADES DE INTEGRAR TAIS PRÁTICAS AO SFN, UMA VEZ QUE, ATÉ ENTÃO, SÃO ATIVIDADES QUE DEVERIAM SER EXERCIDAS PRIVATIVAMENTE POR INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS.

PALAVRAS-CHAVE

SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL, ECONOMIA SOLIDÁRIA, MOEDA, MEIOS DE PAGAMENTO, CONJUNTO PALMEIRAS

Uinie Caminha e Monique Figueiredo

FINANCIAL ACTIVITY AND CURRENCY: ANALISYS OF THE EXPERIENCE OF “CONJUNTO PALMEIRAS” IN FORTALEZA-CE

A

B S T R A C T

The NaTioNal MoNeTary CouNCil (CMN) regulaTes aNd CoNTrols The aCTiviTies of fiNaNCial iNsTiTuTioNs whiCh parTiCipaTe iN NaTioNal fiNaNCial sysTeM (sfN).suCh CoNTrol is CriTiCal siNCe The fiNaNCial sysTeM if suCepTible To CoNfiNdeNCe Crisis aNd Massive wiThdrawls, aNd yeT eNgages MoNeTary poliCies aiMiNg aT CoNTroliNg iNflaTioN raTes.oNe of The iNsTruMeNTs To CoNTrol iNflaTioN is The issuaNCe of CurreNCy siNCe, aCCordiNg To federal CoNTiTuiTioN of 1988, The iNCuMbeCy of issuiNg, CoNTrolliNg aNd regulaTioN The offiCal CurreNCy if exClusive of The uNioN.however, several experieNCes of solidary eCoNoMyiN whiCh produCTioN aNd CoNsuMpTioN NeTworks are fouNd, iN addiTioN To alTerNaTive MeaNs of payMeNT.The sCope of This arTiCle is To aNalyse The experieNCe of “CoNjuNTo palMeirasiN forTaleza,Ceará, iTs sTruCTure, iTs projeCTs aNd speCially The issuaNCe of The soCial CurreNCy of The Neighborhood (palMa,p$), as well as a MiCroCrediT aNd fuNdiNg projeCT for loCal resideNTs, verifyiNg if suCh experieNCe CoMplies wiTh The sfN rules siNCe suCh aCTiviTies are oNly allowed To fiNaNCial iNsTiTuTioNs.

K

E Y W O R D S

NaTioNal fiNaNCial sysTeM,“solidary eCoNoMy”, CurreNCy,MeaNs of payMeNT,“CoNjuNTo palMeiras

*

INTRODUÇÃO

OConselhoMonetárioNacional(CMN)regulaoacessodeinstituições,denatureza pública ou privada,ao Sistema Financeiro Nacional (SFN),bem como fiscaliza e

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legislasobresuasatividades,submetendo-asàsfinalidadesprevistaspeloart.192da

ConstituiçãoFederal,qualseja:“promoverodesenvolvimentoequilibradodopaíse

serviraosinteressesdacoletividade,garantindoofuncionamentodosistemaeprin-

cipalmenteaimplementaçãodaspolíticaseconômicaemonetáriadopaís”.

ComafundaçãodoBancodoBrasil,em1808,iniciou-seahistóriadadisciplina

monetárianopaís.AmotivaçãopreponderanteparaacriaçãodoBancodoBrasilfoi o Estado necessitar de um ente que financiasse,através da emissão de moeda,a máquinapública.OiníciodosistemabancárionoBrasilfoimarcadopelaausênciade delimitaçõesentreasatribuiçõesefunçõesdoBancodoBrasil,emissordamoedade cursoforçado,eoTesouro.Consequentemente,aspolíticasmonetáriasaplicadasnão

preveniramosconsideráveisíndicesdeinflação,desvalorizaçãodamoedaedesorga-

nizaramosistemamonetário.

Essequadrodeeconomiainstávelfora,todavia,encontradonãosónoImpério,

mas também na República.A desordem orçamentária e a desregrada emissão de

moedadesequilibraramaeconomia,apontodeserimprescritívelaurgenteinstitui-

çãodeumaautoridademonetária,compoderesexclusivosparaorientar,controlare

regularizar a circulação da moeda. Diversas iniciativas precederam a criação do

BancoCentral,em1964.Porém,afaltadeautonomiaeindependênciadosórgãos

aosquaisseatribuíaafunçãodeguardiãodamoedafezcomqueoobjetivodeesta-

bilizarosistemafinanceirofosseadiado.

Daí surgiu o Banco Central do Brasil, em 1964, pela Lei 4.595 de 31 de

dezembro,aqualreformulouoSistemaFinanceiroNacional.Atualmente,contem-

plaaConstituiçãoFederal,emseuartigo164, caput,queaprerrogativadeemissão

demoeda,pertencenteàUnião,éexercidapeloBancoCentraldoBrasilemcará-

terdeexclusividade.

Todavia,noBrasil(tambémemoutrospaíses)tem-sefortalecidoachamada

economiasolidáriaousocioeconomiasolidária,queéumaformaparaleladepro-

duzir, comercializar e ofertar crédito em desenvolvimento. Não pretende o presenteartigodebruçarsobreessaeconomiaditasolidária,emsi,masapossível presença,nessetipodeeconomia,daemissãoecirculaçãodeumamoedalocal,

chamadadesocial.

ComoobjetodeestudofoiescolhidooConjuntoPalmeiras,bairroperiférico

situadonacidadedeFortaleza,Ceará,ondeháaemissãoecirculaçãodeumamoeda

socialdenominadadepalma(P$).

Sabe-sequeoSistemaFinanceiroNacional,atualmente,cumprefunçõesquevão

alémdotradicionalbinômiocaptaçãoderecursos–ofertadecrédito.Comefeito,

asinstituiçõesqueocompõeprestamserviços,podendoserconsideradosindispen-

sáveisaoexercíciodeumasériedeatividadesligadasadireitosbásicosdecidadania.

Aexclusãodosistemabancáriopodecomprometerobem-estareintegraçãodesses

indivíduoscomasociedade.

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Algunsmecanismosvêmsendocriadoscomoobjetivodeofereceraumaparce-

ladapopulaçãoserviçosfinanceiros,sejampormeiosoficiais–comoacriaçãodo

BancoPopularedosCorrespondentesBancários–,ounãooficiais–iniciativasdaspró-

priascomunidadesquepossuemdificuldadesemobteracessoaoSistemaFinanceiro

oficial.Destaca-se,dentreelas,aexperiênciadoConjuntoPalmeiras.Lá,poriniciati-

vadaAssociaçãodeMoradoresdoConjuntoPalmeiras(Amoconp),foifundado,em

1998,ochamadoBancoPalmas.Nãosetratadeumainstituiçãofinanceiranoestrito

sentidodapalavra,masdeumaentidadeconstituídacomafinalidadedeimpulsionara economia local através do método de fomento (Movimento Monetário Mosaico, MoMoMo),promoverainclusãosocial,obem-estareofereceralternativasparaos problemassocioeconômicos. Paraviabilizaressainiciativaforamcriadaslinhasdefinanciamentoeconcessão

decréditoparaosmoradoresdobairro,como,porexemplo,o“Palmacard”,umcar-

tãodecréditolocal.Alémdisso,outramedidaadotadafoiacriaçãodamoedasocial

palma(P$),comusolocal,indexadaelastreadapeloreal(R$).

Diantedessasconsiderações,buscou-sedesenvolverumapesquisapararespon-

der aos seguintes questionamentos: há guarida no nosso ordenamento jurídico, notadamentenotextoconstitucionalenalegislaçãoinfraconstitucional,quetorne legalapráticadeemissãodemoedasolidária?Estariadeacordocomoconceitode moedasolidáriaaexperiênciavivenciadanoConjuntoPalmeiras?Aexperiênciade emissãodamoedapalmafereoSistemaFinanceiroNacional? Nesteartigo,tem-secomoobjetivogeralanalisarofatoconcretosoboaspecto dalegislaçãovigente,questionandoacompatibilidadedaexperiênciaeoSistema FinanceiroNacionale,comoobjetivosespecíficos:analisarosurgimentodamoeda;

analisaroSistemaFinanceiroNacional,suahistória,composiçãoeestrutura;obser-

varacompatibilidadedamoedasocialcomospreceitosconstitucionaisrelativosao SistemaFinanceiroNacional. Quantoaosaspectosmetodológicosusadosfoirealizadoatravésdeumestudo descritivo-analítico, desenvolvido através de análise bibliográfica aprofundada, baseadaemtrabalhospublicadossobaformadelivros,revistas,artigos,dissertações, teses, publicações especializadas, imprensa escrita e dados oficiais publicados na internetqueabordassemdiretaouindiretamenteotemaemanálise,edeforma específicaemrelaçãoaoSistemaFinanceiroNacional,bemcomosobreeconomia solidária.Alémdisso,fizemosumapesquisadecampoatravésdecoletadedados, observaçãodiretanobancolocal,entrevistaestruturadacomosfuncionáriose,por fim,aplicaçãodequestionáriosdeformapresencialamoradoresdobairro. Noquetangeàtipologiadapesquisa,estaé,segundoautilizaçãodosresultados, pura,visto ter sido realizada apenas com o intuito de ampliar os conhecimentos.

Segundoaabordagem,équalitativa,comaapreciaçãodarealidadenoqueconcerneao

temanoordenamentojurídicopátrio.Quantoaosobjetivos,apesquisaédescritiva,já

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quebuscadescrever,explicar,classificareesclareceroproblemaapresentado;eexplo-

ratória,umavezqueprocuraaprimorarideias,buscandomaioresinformaçõessobrea

temáticaemfoco.

Parafinsdidáticos,opresenteartigodivide-seemquatroseções,distribuídasna

daseguinteforma:

Aprimeiraseçãoabordaosurgimentodamoedacomomeiodetrocas,suaevolu-

ção,característicaseimportância.Nasegundaseção,apresentamosumaanálisedo

SistemaFinanceiroNacional(SFN)–estecomofrutodeumaevoluçãohistórica,na

qualtem,comoprincipalator,aeleiçãodeumúnicoinstrumentoefetivoparaastro-

cas,amoeda–edemonstramosacomposiçãodoSFN,seusbenefíciosepossíveisações

contraaordemeconômica.

Aterceiraseçãoédedicadaexclusivamenteàeconomiasolidária,suascaracterís-

ticasepráticasnoBrasilenomundo,bemcomoaexploraçãodoconceitodemoeda social,suaslimitaçõesepráticas. Naúltimaseção,trataremosdocasoconcreto(objetodeanálise),suaadequação aoquesedenominadeeconomiasolidáriaemoedasocial,e,consequentemente,a compatibilidadeaoSistemaFinanceiroNacional. Ao final,expomos as derradeiras considerações de nosso estudo,refletindo sobreaimportânciadeumaregulaçãosobreotemaemanáliseeafiscalizaçãopelo BancoCentral.

1 MOEDA

Diversascorrentesteóricassepropõemajustificarseosurgimentodamoeda 1 resul- toudeumprocessoespontâneoouporcriaçãodoEstado. Esse debate teórico demonstra a importância do papel da moeda na evoluída sociedade,poissendoelaoinstrumentobasilardomercado,daglobalizaçãoedo avançotecnológico,nãoseriapossívelimaginaravidaeconômicadasociedadesema suaexistência. Porisso,constantementedeveráserexplorado(ereafirmado)oseuconceitoe

importância,umavezquenovoscomportamentoseconômicossurgemenemsem-

preestãoemconformidadecomarealidadejurídicaexistente.

1.1 ORIGEM E CONCEITO

Emumretrospectohistórico,observa-sequeohomemprimitivobuscavasaciarsuas necessidades imediatamente, inexistindo a preocupação de acumular os bens ou mesmoatribuiraelesvaloresdeterminados. Comoagrupamentodeindivíduos,ouseja,comoiníciodavidaemsociedade,

surgeanecessidadedealocarbens.Comefeito,nosprimórdiosdasociedade,aalo-

caçãodebensocorrianaturalmente,sejaporquejáerapercebidaaescassezdosbens

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naturais,ouporquetrocarosexcedenteseramaispráticodoquepartirparaabusca doqueestavafaltando. Essa simples permuta satisfazia, de forma direta, uma necessidade imediata. Nessefatosocial,contudo,existiaumobstáculo:adificuldadedecoincidirobem abundantedeumcomaescassezdooutro. Emumapequenasociedade,essadificuldadeeraprovavelmentesuperada,mas comocrescimentoenaturalevoluçãodasrelaçõesatravésdocontatocomoutras sociedades,asoluçãoparaviabilizarocâmbioseriaaaceitaçãodedeterminadobem,

oqual,nomomento,nãonecessitava,masoqual,posteriormente,poderiasertro-

cadofacilmenteporserobjetodecomumapreciação.

Comisso,umbemestimado/útilpordeterminadasociedadeeraeleitocomo

dinamizador das permutas,mas ele variava no tempo e entre os grandes grupos sociais,dependendodoquecadaculturaapreciavacomobemútil. Outropontohádeserobservadonessadinâmicasocial.Paraatingiraefetivação

dastrocas,osmembrosnãodesejavamapenasaautossatisfação(oexclusivointeres-

se pessoal), eles buscavam, também, satisfazer a necessidade do outro a fim de

possibilitarapermuta. Comomedirovalordosbens? Nãoexistiaapadronizaçãodosvalores,mas

comoobemSalerafacilmentenegociado,arelaçãoseperfazia.Diantedessecon-

texto socioeconômico, surge, então, a moeda, que poderia ser qualquer objeto

estimadopordeterminadogruposocial,eporissoeraescolhidoparaintegrarnas/ asrelações, 2 nasquaisseencontrapresenteaurgênciadesatisfaçãoprópriaealheia, comounidademonetária. A moeda é um ativo padronizado como meio liberatório,é um“mecanismo

‘ideal’quepreconizaapadronizaçãodospagamentosemtermosdeumadadaunida-

de”(Castro,2005).“Ideal”porquelheéabstraídaqualquerrelaçãocomomaterial

físicoqueacompõe,podendoserexpressaporqualquermeio/bem,oqualserá padronizadordepagamentosenãodetrocas. Háduasteoriasdistintassobreoquevemasermoedaesuascaracterísticas:a metalistaeanominalista.Oconceitometalista, 3 conhecidotambémcomobulionis-

mo,atribuiqueoíndicederiquezaoupoderdeumanaçãobaseia-senaquantidade demetaispreciosospossuidos. 4 Comaevoluçãodosistemafinanceiro,aequivalênciaentreamoedacirculante comometalourodesfez-seaparentementeporcompleto,semosistemamonetário

deixardefuncionar.Atualmente,osistemamonetárionãoestáintrinsecamenteliga-

docomasuareservadeouro,portanto,percebe-sequeateoriametalistateveseu sentidoerespaldoapenasnopassado. Emcontraposição,encontra-seateorianominalista 5 quedisseminaaideiaquea moedanãoémercadorianemmesmotememsiumvalormaterial.Seria,então,a moedaaceitapeloseuvalornominal(simbólico)nasrelaçõesdetroca;nessecontexto,

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omaterialdamoedanãoconstituivaloreconômico,naverdade,éumacriaçãodo

Estado(instrumentofinanceiro)dotadadepoderliberatório.

Diversosramosdodireitotratamdovalornominaldamoeda.ParaoDireito

Civil,EmpresarialeparaaEconomia,ovalornominal“éovalorqueopoderestatal

competente atribui à moeda nacional e que é inscrito em cada peça monetária” (Camargo, 2002). Já Latécio Jansen (2000) entende, com base no Direito

Monetário,queessaexpressãorefere-se“aoprincípiosegundooqualamoedanacio-

nal (isto é, o valor nominal) é o fundamento de validade de todas as normas monetáriasnoordenamentojurídicoconsiderado”. Discussõesàparte,oimportanteéenfatizarqueparaateorianominalista,o valordamoedanãoestácorrelacionadoaovalordomaterialqueaconstitui.Logo,

segundoessateoriaometalouro,engrandecidopelosmetalistas,nãopossuiocon-

dãodeembasartodoosistemamonetário;osnominalistasadmitemoabandonodo

ourocomoparâmetronafixaçãodovalordodinheiro.

Paraumdadoobjetoserdenominadodemoeda,torna-seirrefutávelobservarse

talelementoéaceitopordeterminadacoletividadeesedesempenhaasfunçõesde

instrumentodetroca,meiodepagamento,reservadevaloredenominaçãocomum

devalores;nãosendocogentequetalelementosejaummetalprecioso.

1.2 MOEDA X DINHEIRO

Emqualquerrelaçãoexisteanecessidadedesalvaguardas,asgarantiasentreaspar-

tes.Sehoje,emumasociedademaisevoluídaeinstitucionalizada,aindaexisteessa

preocupaçãocomasgarantiasnasrelações,bemmaisforteeranoiníciodasrela-

çõeseconômicas.

Comefeito,aescolhadeumaunidademonetáriatrouxeadevidadinâmicapara

asrelaçõeseconômicasnasociedade.Todavia,paraumainteraçãocomercialmaior,a

moedadeveriaseraceitanãoapenasporumdeterminadogrupo,masportodaa

sociedadedeforma erga omnes.Paraisso,deveriaseramoedainstituídapornormas, pois,assim,seriaaúnicanasociedadeeapreciadadeformaabsoluta.

Adinâmicaeconômicadasociedadeevoluiuapontodeaunidademonetáriapre-

cisarseralgoimpostopelopodernormativo.Surgeentãoodinheiro,comofrutode

uma necessidade social, com reconhecimento político e juridicamente instituído (normas).

Pode-sededuziradiferençaentreamoeda(gênero)eodinheiro(espécie):apri-

meiracomoqualquerbemeleitoparaviabilizaraspermutas,eesseúltimocomoo

bemeleitoeinstituídocomforçanormativaporaquelequetemopodervinculante

deelegeramoedaoficial.

SendoodinheiroamoedaoficialporaçãodoEstadoSoberano,eledesmontana

obrigatoriedadedaaceitaçãoportodos.Essacaracterísticademeiodepagamento

compulsórioédenominadadecursolegaldamoeda.

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Amoedaoficialtemoutracaracterística,ochamadocursoforçado,queéoregi-

memonetáriodainconversibilidadedopapel-moeda;ocursoforçadofazprevalecer

aexpressãonominaldoinstrumentomonetário,impedindo,assim,aconversãoem

seulastro.

Valeexplanarosquestionamentossobreaorigemdodinheiro:sefoinatural/

espontâneoouinstituídoporcriaçãoestatal.

Sobreaprimeirahipótese,Mengerafirmaqueosurgimentododinheiroresultou

deumprocessonaturaledespretensiosonasociedade.OEstadoentrouemcenaapós

osurgimentodasmoedascunhadas,comogarantidordapurezaedopesodaspedras

utilizadasparaocunhodasmoedas,bemcomoparacoibiraspossíveisfalsificações:

Aorigemdodinheiro(quedevedistinguir-sedasmoedascunhadas)é,como temosvisto,detodonaturale,porconseguinte,sóemraroscasospode-se atribuirainfluênciaslegislativas.Odinheironãoéumainvençãoestatalnem produtodeumatolegislador.( )Ofatodequeumasdeterminadas mercadoriasalcancemacategoriadedinheirosurgeespontaneamentedas relaçõeseconômicasexistentes,semquesejamprecisasmedidasestatais.

( )Deondesedepreendequeosbensquealcançaramessaespecial

categoriadedinheirotenhamvariadonosmesmospovosduranteépocas distintasetambémtenhamsidodiferentes,dentrodeumamesmaépoca, entrediferentespovos. 6

Knapp,porsuavez,defendiadeformacontráriaessacorrenteteórica.Demonstra

emsuaobrateroEstadoaptidãoparadeterminaroqueédinheiro,entretanto,nãoé

consideradodinheiroamoedaporeleemitida,masasqueporelesãoaceitas:

OquefazpartedosistemamonetáriodoEstadoeoquenãofaz?Não devemostomarnossadefiniçãomuitoestreita.Ocritérionãopoderiaser queamoedaéemitidapeloEstado,porqueissoexcluiriamodalidadesde moedaquesãodamaisaltaimportância:eumerefiroàsnotasbancárias:elas nãosãoemitidaspeloEstado,masfazempartedosistemamonetário.Nem podeamoedadecursolegalsertomadacomocritério,porqueemsistemas monetáriosháfrequentesmodalidadesdedinheiroquenãosãodecurso legal.( )Ficamosmaispertodosfatossetomamoscomonossocritérioque odinheirosejaaceitonospagamentosfeitosaosguichêsdoEstado.Então todososmeiospelosquaisumpagamentopodeserfeitoaoEstadofazem partedosistemamonetário.Nessabasenãoéaemissão,masaaceitação, comoachamamos,queédecisiva.Aaceitaçãoestataldelimitaosistema monetário.Pelaexpressão“aceitaçãoestatal”entenda-sesomenteaaceitação nosguichêsdepagamentodoEstadoondeoEstadoéorecebedor. 7

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KnappentendequeamoedadoEstado(dinheiro)éalmejadaportodos,elembra que,emumadisputajudicial,ocredorseráressarcidocomamoedaaceitapeloEstado. 8 Independentedeosurgimentododinheirotersidonaturalouespontâneo,outra dificuldadeprecisariasersuperadanasociedadeemdesenvolvimentomesmocoma instituiçãodamoedaoficial:asconsequênciasmaléficasgeradaspelapermissãode livrecunhagemdamoeda. Havia,atéentão,umadisponibilidadedamoedaoficialnomercado,umavez que,aonecessitá-la,oindivíduopoderialevarometalpara“batermoeda”,deigual modosucediacomosbancos,depositáriosderiquezaselivresautônomosemissores damoeda. Essapráticaculminouemumaeconomiainsegura,cujaabundânciaouescassez damoedaeraimpossíveldemensurarporexistirumaproduçãoincalculável.Logo transpareceramdivergênciasentrealiberdade“privada”dacriaçãomonetáriaea urgênciapelomonopólioestatalnaemissãododinheiro. Asexperiênciascomaemissãoprivadadamoedamostramaausênciadegarantias

eaextremainsegurançanossistemas,devidoaofatodeoEstadonãopossuirocon-

troleabsolutodaemissãoedacirculaçãodamoeda.Aproibiçãodaemissãoprivadaé

oresultadodaevoluçãosatisfatóriadodinheiro(moedaoficial)edaorganizaçãopolí-

tica,econômicaesocial.

2 SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL

Aabordagemteórico-conceitualdaseçãoanteriorsobreaspeçasfundamentaisdesse

trabalho(dinheiroemoeda)seformoucomopropósitodeadentrarnadefinição,

históriaeestruturadoSistemaFinanceiroNacional.

2.1 DA MOEDA AO SISTEMA FINANCEIRO

Aestruturafacilmentepercebidaearazãodeserdoquesedenomina“sistemafinan-

ceiro”desenvolveu-se(definindocompetências,ramificaçõesenormas)notranscorrer

dotempo.Contudo,oapeloaoseusurgimentopossuiumaligaçãointrínsecaàante-

riorcriaçãodoseusubstrato(moeda)eopapelqueesseúltimoassumiunasociedade.

ComobemafirmaRaphaelCastro(2005),emtemposremotos(anterioresàins-

tituiçãomonetária),afiguradosbancosjáerapercebida,logicamente,despossuída

daestruturaeinfinitosserviçosobservadosnaatualidade.

Inexistindoadiversidadedeformasdeatuaçãodosbancos,restava-lhes,portan-

to,exerceropapeldeguardião(localseguro)dosobjetosconsideradosvaliosospor

aquelesqueoptavamporsuapreservação.Comainstituiçãonormativadoinstrumen-

tooficialliberatório(odinheiro)houveumengrandecimentodopapeldosbancos.

Cabeelucidarqueasimplesexistênciadapresençaestruturaldosbancosousua

pluralidadenãocaracterizariaosistemafinanceiro.Opredicativo“financeiro”não

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cogitaaideiadadiversidadedebancos,masainterligaçãocomoinstitutododinhei-

ro:meiolegaleoficialparaaliberaçãodeobrigaçõespecuniárias(Castro,2005).

AintervençãodoEstadofoipertinenteparaodirecionamentoelimitaçãoda

moedaemcirculação.Nessemomento,verifica-seoiníciodoquehojechamamosde

SistemaFinanceiro,nãosendoesteapenasumconjuntodeinstituições,mas“agra-

dualintromissãonormativanainstrumentaçãopráticadosprocessoscirculatóriosda

produçãododinheiro”(Castro,2005).

Éexatamenteaorganizaçãoestruturaladicionadaàlegislação(regrasdojogo)o

queresultanosistemafinanceiro.Pode-seafirmarqueamoedaesuacirculação

tornaram-se assuntos próprios do Estado,geridos por meio de normas,as quais

determinamaformacomoosagentesdevemsecomportaremcadasegmentoeconô-

mico.OEstadoassumiu,indiscutivelmente,aposiçãodecondutordasregrasdojogo

econômico,apresentandocomoaliadosotempoealegislaçãoparaofortalecimento

dasinstituições.

Ainterferênciaregulatóriadoenteestatalnosetormonetáriopôdeseraprimo-

radanodecorrerdotempo,sendoeficazparaaordemeconômicabuscadapelas

sociedadesmodernas.

2.2 COMPOSIÇÃO DO SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL E ORDEM ECONÔMICA

AatuaçãodoEstadonoâmbitoeconômico-privadoprevistapelaConstituiçãode1988

éresultadodaevoluçãodoordenamentojurídicopátrio.Épossívelclassificaroatual

Estadodeneoliberal,umavezque,aopreocupar-secomfatoressociais,eleafasta-se

domodeloconstitucionalclássicoliberal,tornando-seummodelohíbridoaounir

valorespúblicoseprivados.

AnovaConstituiçãomesclapremissasdeEstadoLiberaledoIntervencionismo

Estatal,pois,aopassoqueasseguraalivreiniciativaeaconcorrência,regulaasações

domercado,ecriaapossibilidadedeoEstadoingressarnaeconomiaedefinirquem

poderá,também,atuarnossegmentoseconômicos.

ErosGrau(1998)acentuaqueoprincípiodalivreiniciativaseriaumdesdobra-

mentodaliberdade,queporsuavezédescritacomo“asensibilidadeeaacessibilidade

àsalternativasdecondutaederesultado”.

LuizAlbertoAraújoeNunesJúnior,referindo-seàlivreiniciativa,acrescentamque:

aplicadaàrealidadesocialquepretendeordenar,aregraindicaa liberdadedeiniciativaeconômicaemsentidoamplo.Emoutraspalavras, nãoselimitaàiniciativaprivada,masabrangetambémainiciativa

cooperativaouassociativa(artigos5º,XVIIeXVIII,e174,parágrafos3º

e4º),ainiciativaautogestionáriaeainiciativapública(artigos.173,177

e192,II). 9

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Oprincípiodalivreiniciativa,contudo,nãoéabsoluto,poisháprevisõesdelimi-

taçõesdoscritériosesituaçõesnasquaisnemtodospoderãoadentrarnasinfinitas

organizaçõeseconômicas.Previsõesnegativasnalegislaçãopriorizam,mesmonão

parecendoàprimeiravista,obem-estarsocial,aopermitirapenasaosconsiderados responsáveisequalificadosaexploraçãodealgunssegmentoseconômicos. Têm-se,porconseguinte,aslimitaçõespostasàatuaçãodopróprioEstadona

economia(artigos173e175daCF);aexistênciadomonopóliolegal(artigos176e

177daCF)edomonopólionatural;alémdoscasosquenecessitamdaautorização

estatalprévia,dentreeles,destaquem-seasinstituiçõesfinanceiraseassemelhadas. 10

Comefeito,oparágrafoúnicodoart.170daCFprevêarelativizaçãodoprin-

cípio da livre iniciativa: “é assegurado a todos o livre exercício de qualquer

atividadeeconômica,independentementedeautorizaçãodeórgãospúblicos,salvo

noscasosprevistosemlei.Damesmaforma,apresentam-seasconsideraçõesdo

oquemaisimportaconsiderar,detodasorte,éofatode

que,emsuaconcreçãoemregrasatinentesàliberdadedeiniciativaeconômica,o

princípio,historicamente,desdeoDecretod’Allarde,jamaisfoiconsignadoemter-

mosabsolutos”. 11

ACartaMaiorde1988separouaOrdemSocialdaOrdemEconômicaeaesta

agregouoSistemaFinanceiroNacional(SFN)(TítuloVII),estruturando-oafimde promoverodesenvolvimentoeoequilíbriodoPaís,prevendosuaregulaçãopor meiodeleiscomplementares. Hánoordenamentojurídicodiversasleisdispondodeformaespecíficasobreas

autorErosGrau:“

instituiçõesqueestruturamoSFN,sendoaLei4.595/64aquedispõemsobrea

constituiçãodoSistemaFinanceiro:

Art.1ºOSistemaFinanceiroNacional,estruturadoereguladopelapresenteLei,

seráconstituído:

I-doConselhoMonetárioNacional;

II-doBancoCentraldoBrasil;

III-doBancodoBrasilS.A;

IV-doBancoNacionaldoDesenvolvimentoEconômico;

V-dasdemaisinstituiçõesfinanceiraspúblicaseprivadas.

Pertinentesefaz,portanto,teceralgumasconsideraçõessobrecadaincisodo artigosupracitado. O Conselho Monetário Nacional (CMN), órgão colegiado no âmbito do MinistériodaFazenda,écomposto,atualmente,doMinistrodaFazenda,doMinistro doPlanejamentoeGestãoedoPresidentedoBancoCentraldoBrasil. Comofunçõesprecípuasencontram-seaorientaçãodaaplicaçãodosrecursosdas instituições financeiras (públicas ou privadas),propiciando condições favoráveis ao

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desenvolvimentoharmônicodaeconomianacional,bemcomoacoordenaçãodaspolí-

ticasmonetária,orçamentária,creditícia,fiscaledadívidapública(internaeexterna).

OBancoCentraldoBrasil(Bacen),autarquiafederalvinculadaaoMinistérioda

Fazenda,éresponsávelporconceder 12 autorizaçõesàsinstituiçõesfinanceirasafim dequepossamfuncionarnoPaís,instalaroutransferirsuassedesoudependências,

inclusiveparaoexterior,seremtransformadas,fundidas,incorporadasouencampa-

das, praticarem operações e terem prorrogados os prazos concedidos para

funcionamento,alteraremseusestatutosealienaremou,porqualqueroutraforma,

transferiremoseucontroleacionário.

DentreasalteraçõestrazidaspelaConstituiçãode1988,pode-sedestacarocará-

terinegociável,intransferívelesemônusdasautorizaçõesparaofuncionamentode

novasinstituições,eaobrigaçãodeelaspreencheremoscritériosparaserpossívela

permissãodefuncionarnopaísnaformadaleidosistemafinanceironacional,quais

sejam,osdiretoresdapessoajurídicadevemtercapacidadetécnica,reputaçãoiliba-

daecomprovarcapacidadeeconômicacompatívelcomoempreendimento.

Porsuavez,oBancodoBrasil(BB)éconstituídocomosociedadedeeconomia

mistavinculadaaoMinistériodaFazenda;atualmente,oBBfuncionacomoagente

financeirodoTesouroNacional,recebendotributosfederais,pagamentosesupri-

mentosdoorçamentodaUnião,deacordocomorientaçãorecebidadoMinistério daFazenda.Alémdessasatribuiçõeseleexecutaapolíticadepreçosmínimosde produtos agropecuários e financia atividades predeterminadas como prioritárias pelogoverno. O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), uma empresapúblicafederalvinculadaaoMinistériodaFazenda,temcomoprincipal objetivo financiar,em longo prazo,os empreendimentos que contribuam para o desenvolvimentodoPaís.

Quantoàsdemaisinstituiçõesfinanceirascabetranscreverosartigos17e18da

LeideReformaBancáriade1964:

Art.17.Consideram-seinstituiçõesfinanceiras,paraosefeitosdalegislaçãoem

vigor, as pessoas jurídicas públicas ou privadas, que tenham como atividade principalouacessóriaacoleta,intermediaçãoouaplicaçãoderecursosfinanceiros própriosoudeterceiros,emmoedanacionalouestrangeira,eacustódiadevalor depropriedadedeterceiros. Parágrafoúnico.Paraosefeitosdestaleiedalegislaçãoemvigor,equiparam-se àsinstituiçõesfinanceirasaspessoasfísicasqueexerçamqualquerdasatividades referidasnesteartigo,deformapermanenteoueventual.

Art.18.AsinstituiçõesfinanceirassomentepoderãofuncionarnoPaísmediante

préviaautorizaçãodoBancoCentraldaRepúblicadoBrasiloudecretodoPoder

Executivo,quandoforemestrangeiras.

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Ocontroleeaemissãodamoedaoficialnopaís,comojádito,sãoofíciosexclu-

sivosdoEstado/União,comoditadopelaCF/88emseuart.164epelosartigos8º,

9ºe10ºdalei4.595de31/12/1964.

ALei4.595/64atribuiaoBancoCentralaemissãodemoedasoficiais;oBacen,

contudo,ésubordinadoaocomandodoConselhoMonetárioNacionalquepermite

editaaquantidadedonumeráriopostoemcirculação.

NoBrasil,acunhagemouimpressãodamoedaoficialérealizada,exclusivamen-

te,pelaCasadaMoeda,nãosendo,ainda,omomentodaemissãoecirculação,posto

quesomentequandooBancoCentraldoBrasilentregaascédulasoumoedasmetá-

licasaobanco,perfaz-seaemissão/circulação.

Aexclusividadeparaaemissãodepapel-moedabemcomoalegitimidadeparaa

imposiçãodecursoforçadoemdeterminadoterritóriosãoaspectosdopoderpolí-

tico.Arazãodaatençãolegislativaepolíticadadaaomeiocirculantedeve-seaofato

dequeelesejaexpressãoderiquezae,emconsequência,depoder.

Comoodinheirorepresentapoder,serápoderoso,também,quempossaprodu-

zi-loeimporsuautilizaçãodentrodeumdadoespaço.Porisso,háapreocupaçãode

controlá-loedistribuí-loaopúblico,afimdeevitaraconcentraçãoderiquezapara

pequenaparceladasociedadeeatémesmoumdesequilíbrioeconômico.

Queosistemafinanceirosejaumaformadeintervençãoestatal,pormeiode

normaspermitequeasrelaçõesfinanceiras,queenvolvemcirculaçãodedinheiro,

tenhamsegurançajurídica.

Comprova-setalafirmação,bemcomoaamplitudedosistemafinanceiro,ofato

deodinheiroestarentrelaçadoàvidadaspessoas,sendoapenasosinteressadospela

ciênciaeconômicaaquestionareentendercomosedáasuaexistência,emissãoedis-

tribuição.A atenção mundial se volta a essas questões, quando surge um fato econômicoqueimpossibiliteadevidacirculaçãodamoedaapontodeinterferirnas transaçõeseconômicasbásicaseessenciaisdasociedade.

2.3 FUNÇÕES DO SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL

Instituiçõeseinstrumentosfinanceiros(meiodetransferênciaderecursosdosofer-

tadoresaostomadores)compõemumconjuntosistemáticoque,pormeiodasregras (normas),tornamumsistemafinanceiroeficienteaopermitiraliquidezdosativos nomercado. OSistemaFinanceiroNacionalpodeserdivididoemsubsistemas:onormativoeo operativo. 13 Oprimeiroexerceafunçãoderegularefiscalizartodoosistemamedian- teopodernormativodasautoridadesmonetárias;osegundoéconstituídodeatores domercadofinanceiro, 14 asinstituições. Aprincipalconsequência,daintermediaçãorealizadapelosagentesdosistema financeiroéocompartilhamentodosriscos,daliquidezedainformaçãoentreos

investidoresepoupadores(Hillbrecht1999)e,alémdisso,entreostomadoresde

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fundo,ouseja,aquelesquenãodetêmderecursossuficientesparaalcançaroconsu-

modesejado.

Logo,apossibilidadedeexpandirosportfóliosatravésdoSistemaFinanceiro

diversificaosinvestimentosdospoupadores,diluindoosriscosdonegócio.Em

vezdeinvestirtodasuareservaeconômicaemapenasemumdeterminadomer-

cado,opoupadorpoderáescolher,dentrevariadasopções,osmercadosmelhores

parainvestir.

Emdecorrênciadaampliaçãodolequedosinvestimentos,háumareduçãodo

risco,pois,casonãohajaretornoeminvestimentos,osbonsresultadosnosoutros

poderãocompensaraspossíveisperdas.

Amaiorliquidezdosistemaresultanamaiorfacilidadedequeumativofinancei-

rosejatrocado(negociado)poroutrosativos,bensouserviços.

Seguindoamesmalinha,ocompartilhamentodeinformaçãopersegueumpro-

blemaenfrentadonosmercados,denominadoassimetriadainformaçãoouinforma-

çãoassimétrica.

Nofinanciamentodireto(quandoopoupadoreotomadornegociamentresi)con-

cretiza-seuminvestimentoeficientesomenteseoinvestidorsoubercomosuarenda

seráempregadapelotomador,paraavaliarapossibilidadederetornodoempréstimo.

Aolhesernegadaainformaçãocorretapelotomador,oinvestidorpoderádecidirde

formaineficiente,realizandoumnegócioprejudicialparasieparaomercado,existin-

do,então,aassimetriadainformação.

Nocasodehaveroenvolvimentodeintermediáriosfinanceiros(financiamento

indireto),comonastransferênciasdefundos,obancocuidadeinternalizarecom-

partilharosriscosdeumpossívelnãoretornodocapital,pormeiode,porexemplo,

contratos,critériosexigidosaospossíveistomadores,juros,eoutros.

Portanto,épossívelafirmarquearegulamentaçãodosistemafinanceirovisadis-

ponibilizarinformaçõesessenciaisaosinvestidores,controlaraofertadamoeda,e permitiromelhorfuncionamentodoprópriosistemafinanceiro. Aregulaçãodosistemafinanceirotem,noaspectogeral,comofimúltimo,o equilíbrioeconômico,cujoobjetivoé impediraprobabilidadedecrisesfinanceiras.

Destaforma,estesistemapoderrealizassuaprincipalfunção,protegeraeconomia

esociedade.

2.4 CRIMES CONTRA A ORDEM ECONÔMICA

OEstadoDemocráticodeDireito,instituídopelaConstituiçãoFederalde1988,res-

guardaalgumasgarantias,comoaordemeconômica.Issoporque,nomundocapitalista

quebuscaincessantementeoacúmuloderiquezas,constatam-seaçõesnosentidode

alcançarmaisfacilmenteoquedefatoimportanaatualidade:odinheiro.

Agircontrárioaoprevistonoordenamentonormativo,ludibriandoasexigências

(precauções)estabelecidaspelasautoridadesmonetáriasafimdefacilmenteexercer

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ouobteropretendido,évoltar-secontraoSistemaFinanceiroNacional,oquecarac-

terizacrimeporafetarasociedadecomumpossíveldesequilíbrioeconômico.

2.5 BEM JURÍDICO

Odireitopenal,porsi,protegeosbensjurídicos(corpóreosouincorpóreos)das

relaçõessociais.É,defatodificultoso,ocontroleformalcomorespostaimediatanas

açõescriminosasnoâmbitoeconômico,poiselasestãoinseridasemumuniversode

possibilidades,sofisticaçãoeinteligência.

Umramoespecífico,denominadoDireitoPenalEconômico,tratadascondutas

lesivasàordemeconômicae,emconsequência,aoSistemaFinanceiroNacional.

Indaga-se:qualseriaobemjurídicotuteladopeloDireitoPenalEconômico?Se

oDireitoPenalClássicoindicaascondutas(fatos)proibidasesuasreferidassanções,

nãoexistindocrimesemleianteriorqueodefina,seguiriaamesmalinhaatutelado

DireitoPenalEconômico?

SegundoKnutAmelung,asociedadeécomoumsistemaglobaleodireitoumsub-

sistemaqueinteragecomosdemaissistemasparagarantirasuaexistência.Odireito

penalécentralparagarantirtalsobrevivênciaporquemantémseuequilíbriopormeio

dassanções.Destaforma,prossegueoautor,considera-se“delito”tudoaquiloque

impeçaoeficientefuncionamentodosistema,e“bem”jurídico,porsuavez,as“fun-

çõesnecessáriasparaaconservaçãodosistemasocial”. 15 ParaWinfredHassemer,oqueimportanaindividualizaçãodobemjurídicoé oseuvalorsubjetivoeseupapel“comasvariantesdoscontextossociaisnosquais eleaparece”. 16 ParaoDireitoPenalEconômicoatutelanãorecaisobreumfatopreviamente descritoouprevisto,masnaprópriaordemeconômicaeseuequilíbrio.Assimtudo aquiloquetentarproduzirlesõesnaordemdeveráser(repelido)alvodesanções. Acercadosdelitoseconômicos,oCódigoPenalBrasileirolimita-seapreveralguns artigos, 17 (aoinvésdeoDireitoPenalEconômicotersidoplenamenteexpostono atualcódigoelefoifragmentadoemleisespeciais). 18

Pimentel(1973)defineoDireitoPenalEconômicocomo“oconjuntodenormas

quetemporobjetosancionar,comaspenasquelhesãopróprias,ascondutasque,

noâmbitodasrelaçõeseconômicas,ofendamouponhamemperigobensouinteres-

sesjuridicamenterelevantes”. A Lei 7.492/86 tem como o bem jurídico tutelado, a proteção do Sistema

FinanceiroNacionalcontralesivascondutas,exemplificando22tipospenais,dentre

eles,divulgaçãodeinformaçãofalsa;gestãofraudulentaetemerária;apropriaçãoou

desviodebensmóveis;remuneraçãosobreoperaçãodecréditooudeseguro;insti-

tuiçãofinanceiranãoautorizadaqueefetuaroperaçãodecâmbionãoautorizadacom

ofimdepromoverevasãodedivisasdoPaís.

SeaOrdemEconômicaeFinanceiraabrigam-senaConstituiçãoedelasão

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indissociáveis, indubitavelmente, suas regras constitucionais e esparsas buscam umasociedadelivre,justaesolidária.

3 ECONOMIA SOLIDÁRIA

Umdosfocosdaciênciaeconômicaéresponderaquestionamentosadvindosdadifi-

culdadedealocarbensedistribuí-losentreosgrupossociaisdemaneiraeficiente.

Issoporqueumdosdesafiosnavidaemsociedadeédeterminaramelhorutilização

dosrecursosparaaproduçãodebenseserviçosessenciaisàvidadoindivíduo,que,

porsuavez,possuidesejosenecessidadesilimitadas.

Noliberalismo,oprópriomercadoregulaasquestõeseconômicas,decidindo

assuntossobreoquê,comoeparaquemdeveráserdestinadaaproduçãodosbens.

Contráriaaessarealidadedeeconomiademercado,háachamadaeconomiacentra-

lizada,naqualéoEstadoquecomandaedecideasprincipaisquestõeseconômicas.

Comefeito,associedades,emsuamaioria,nãoseguemrigidamentenenhumdos

doistiposdeorganizaçãoeconômica(demercadooucentralizada);oBrasil,por

exemplo,segueaeconomiademercado,entretanto,asuaautodeterminaçãoélimi-

tada e, nesse limite, encontra-se o Estado, executando o papel de regulador

normativosupervisoreprotetordaordemeconômica.

3.1 CONCEITO DE ECONOMIA SOLIDÁRIA

Aeconomiasolidária,adespeitodeternascidonointeriordocapitalismo,contra-

põe-seaosvaloresdaeconomiademercadoedaeconomiacentralizada.

Existe,naliteratura,certadificuldadeemconceituaraeconomiasolidária;alguns

autoresmesclamseuconceitocomodaautogestão,docooperativismo,daeconomia

informaloueconomiapopular,quesãopossíveismodosdeorganizaraeconomiasoli-

dária.ÉpossívelcitaradefiniçãodeeconomiasolidáriatrazidaporLuisRazetona

seguinteperspectiva:

Umaformulaçãoteóricadenívelcientíficoelaboradaapartireparadar contadeconjuntossignificativosdeexperiênciaseconômicas( )que compartilhamalgunstraçosconstitutivoseessenciaisdesolidariedade, mutualismo,cooperaçãoeautogestãocomunitária,quedefinemuma racionalidadeespecial,diferentedeoutrasracionalidadeseconômicas. 19

Emsuamaioria,osmovimentosinstituidoresdeeconomiasolidárianasceram soboimpulsodeumadinâmicasocioeconômica,frutodecriseeconômica, 20 ou seja,asexperiênciassolidáriassãoperseguidasporquemnãoencontranomercado

tradicionalmeiosdesuprirsuasnecessidades,etaisexperiênciastêmcomoprotago-

nistasosexcluídos.

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Algunsdefendemahipótesedenãohaverumaexclusãopropositalporpartedo

mercadoenemmesmodoEstado(anteàfalênciadesuaspolíticaspúblicas).Aexclu-

sãonestecasoseriaumaespéciedeautoexclusão.Os“excluídos”teriam,portanto,

umavisãonegativadasinstituiçõesfinanceiras,poracreditaremqueosserviçospor

elasprestadosnãocondizemcomsuaposiçãoeconômico-social.

But passive discrimination may be one explanation:when a financial institution caters to the middle class,it may exclude the poor.Some slum dwellers in Chennai told me they felt uncomfortable entering a bank;they were awed by the better educated and better-dressed bank clerk. 21

Dapassagemtranscritadepreende-seumsentimentodequeosistemabancário,

comseuscustos,nãoestariaaoalcancedaqueleslimitadosfinanceiramente.Considere

ofatodeosindivíduosdeclassebaixapreferiremtomarempréstimosdepessoasfísi-

cas,atémesmodeagiotas,semmensurarque,nessescasos,oscustostornam-semais

elevadosdoqueseoempréstimofossecontraídoemumainstituiçãofinanceira.

Diversassãoasformasutilizadascomofimdepraticaraeconomiasolidária.

Dentreelas,podemoscitar:asempresasautogestionárias,quesãogeridaspelospró-

priostrabalhadoresnomesmopatamardeigualdade;asfinançassolidárias,comoum novo mecanismo de aquisição de créditos (tais como cooperativismo de crédito, organizações de microcrédito e microfinanças,fundos solidários,moedas sociais,

bancosalternativos,sociedadesdegarantia);osclubesdetrocas,ondeaspessoas

fazemescamboseutilizamumamoedasocialválidaapenasnaquelelocal;asredesde

colaboraçãosolidária,dasquaisparticipamprodutoreseconsumidoresdispostosa

fomentarasuacomunidadeatravésdoconsumolocaleproduçãoresponsável.

3.2 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL E NO MUNDO

DificilmentesepoderáidentificarosurgimentodaeconomiasolidárianoBrasil,uma

vezquesuaprática,emdiversasocasiões,éequiparadaaterminologias,taiscomo,ter-

ceirosetor,economiasocial,economiainformal,economiapopularoucooperativismo.

Oportunoétentar,brevemente,relacionartaistermosaumacaracterísticapró-

priapossíveldediferenciação.Omaiscomuméconfundireconomiasolidáriacom

economiasocial;essaúltimaseriaadesignaçãodadajuridicamenteaalgumasorgani-

zações,taiscomo,cooperativas,mutualistas,fundaçõeseassociações.Quandoessas

expressõesdeeconomiasocialganhamforçapolíticadetransformaçãocomvisível

desenvolvimentoeconômico,surgeanoçãodeeconomiasolidária.Percebe-sequea

economiasolidáriaéumaformadesolidariedademaisatualizadae,porquenãodizer,

umaeconomiasocialregulada.

Identifica-seaeconomiapopular,porsuavez,emumprocessosocial,como,por

exemplo,asorganizaçõeseconômicaspopulares(OEP).Simplificando,emumdado

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local,espontaneamente,unem-seanecessidadeeashabilidadesexistentes,criando

umambienteeconômicocomasexperiênciaspopularesemque,muitasvezes,háo

apoiodoPoderPúblico.

Emumplanomaisrestrito,encontra-seaeconomiainformal,aqualédesenvol-

vidaemumabaseindividual,nãoarticuladacomasociedadelocal.Sãoatividades

econômicaspessoaisinformaisvisandoosustentofamiliar.

Porfim,oterceirosetor,herdeirodeumatradiçãoanglo-saxônica,mantémrela-

çãoestritacomapráticafilantrópica,semfinslucrativos(non-profit organizations). Ocertoéquenapráticatodasessasfigurasapresentamcaracterísticassemelhantes, alémdeestaràmargemdoEstadoedomercadoou,emalgunscasos,relacionarem-se

aestes.Dessaspráticasnãoseretiraoméritodeserem,também,umaformadealoca-

çãoderecursoedistribuiçãoderiqueza.

Tem-se,nogovernobrasileiro,todavia,vinculadaaoMinistériodoTrabalhoe

Emprego(MTE),aSecretariaNacionaldeEconomiaSolidária(Senaes),instituída

emjunhode2003,comsuascompetênciasestabelecidaspeloDecreton.5063,de8

demaiode2004;diantedisso,omovimentodenominadoeconomiasolidáriaécon-

siderado,ainda,umanovafacetaeconômica.

Encontra-se,emprocessodeaprovação,oProjetodeLein.93/2007,oqualvisa

acriaçãodeumConselhoNacionaldeFinançasPopulareseSolidárias(Conafis),que

será,casosejaaprovado,umaespéciedeConselhoMonetárioNacional(CMN)dos

BancosPopularesdeDesenvolvimentoSolidário(BPDS),controlandoeregulandoas

redesdeeconomiasolidáriaesuasações.

Seria,então,umsistemafinanceirotransversaldirecionadoaosegmentodefinan-

çaspopularesesolidárias,emoutraspalavras,oprojetodeleicomplementartem comopropósitoanãosubmissãoecontroleaoepeloSistemaFinanceiroNacional. Movimentostendentesadivulgar,regular,apoiareinstituirformasdeeconomia solidárianoBrasilenomundosãofacilmenteencontrados,pode-secitaroInstituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs), 22 a Rede Intercontinental de

Promoção da Economia Social e Solidária (Ripess), e a Rede Brasileira de SocioeconomiaSolidária(RBSES).Noâmbitomunicipalcriou-senaestruturada SecretariadeDesenvolvimentoEconômico(SDE)umacéluladeEconomiaSolidária

(Fortaleza,2009).

Emtodoterritórionacional,cercade1.250.000depessoassãobeneficiadaspor

iniciativassolidárias,eoCearáéosegundoEstadocommaiornúmerodeempreen-

dimentossolidáriosnoBrasil.Aquantidadedeenvolvidoschegaa82.101pessoas,

segundomapeamentorealizadopelaSuperintendênciaRegionaldoTrabalho(Bonfim

eCaminha,2007).

DeacordocomopensamentodePaulSinger(2002),SecretárioNacionalde

EconomiaSolidária,essemodeloeconômicoéumacriaçãodascontradiçõesdocapi-

talismo,“cujalógicaéopostaàdomododeproduçãodominante”.

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3.3 MOEDA SOLIDÁRIA

Sobreapolíticaadotadapelosistemamonetário,Strohalm(apudBurigo2001)afir-

ma que ela é baseada no artifício da carência crônica e epidêmica de dinheiro, visandoprotegeroseuvalordosriscos. Comefeito,aconcentraçãoderendaeares-

triçãodocréditoproporcionamaexpansãodeformasalternativasdeorganização

financeira,demodoque,emalgumaspráticasdeeconomiasolidária,foramcriadas

moedassociais.

Antesdeadentrarnadifícilconceituaçãoecitarascaracterísticasdamoedasocial

(ousolidária),éoportunoesclarecerqueelaseencontrainseridaemumamodalida-

de,eporquenãodizergrupo,denominadademoedaparalela,maisespecificamente noconceitodeparamoedaquepodeseridentificadacomoumaespécietransversal demoedaparalela. Asmoedasconsideradasparalelassãoaquelasquesubstituemamoedanacional em algum momento ou situação (até mesmo de forma generalizada,como,por exemplo,asmoedasestrangeiras),umavezquesãounidadesdecobrançaemeiosde pagamentodiferentesdasunidadesdecobrançaedosmeiosdepagamentonacionais

(Blanc,1998).AindadeacordocomBlanc,acategoriadasparamoedas 23 éutilizada àmargemdamoedanacional,portanto,aoinvésdeconcorrer,complementaessa última,poisseuusoélimitadodealgumaforma,comonoscasosdosclubesdetroca ondeautilizaçãoérestritaaosassociados.

Omaiorquestionamentosobreasreferidasmoedasparalelaséemquaiscondi-

ções serão emitidas, circularão e serão utilizadas, além da competência daquele (ente,pessoajurídica)queexercerátalcontrole.Independentementedequalsejaa

moedaparalela,estadependerá,dealgumaformaousobalgumaspecto,damoeda

nacionaledoEstado,noquetangeaoestabelecidopelalegislação,comotrataaafir-

maçãodeCarvalho(1992),oqueexpressaoaspectodesubordinaçãodamoeda

paralela à moeda nacional:“Os agentes podem criar substitutos perfeitos para a moedaapenasnaextensãoemqueaautoridademonetáriaestiverdeacordoem garantirasuaretaguarda”. Aosecriarumamoedalocalbusca-seadaptá-laàscircunstânciasenecessidades deumlugarespecífico,apontodeelaterfinalidadediversadopretendidopelo modelocapitalista,ouseja,essamoedateráumafunçãosocial.

Pordiversosmotivos,grupossociaisoptampelacriaçãodeumamoedalocal,bus-

cando a sua adaptação às circunstâncias e necessidades do lugar. Com efeito, as políticasneoliberais,asociedadedemercadoeoaumentododesempregosãoalguns

dosmotivosqueimpulsionamosmovimentosparacriaçãodemoedassociais.Emúlti-

mainstância,osgruposdecidemcriaruma“moladeescape”aomodelocapitalista,

instituindoumaeconomiadiversaparaaumentarovolumeeacirculaçãodamoeda,

elevando,assim,opoderdecompraemlugares,que,viaderegra,estãoàmargemda

economia,enosquaisodinheiroéumainstituiçãoescassaecompoucacirculação.

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Algumasexperiênciascommoedaalternativativeramainteligênciadeaplicara

teoriadaoxidaçãodamoeda,pormeiodaqualasmoedaseramestimuladasacircu-

larsobpenadeperderoseuvalorcomopassardotempo,umavezquearedução doseuvaloreraprogramadaeissodesestimulavaseuacúmulo. AteoriadaoxidaçãofoidefendidafortementepeloeconomistaSilvioGesell

(apudBurigo,2001);esseautorconsideravaapoupançaummalparaaeconomiapor

desestimularacirculaçãomonetáriaegerarproblemascomoarecessãoeaconcen-

traçãoderenda.

AdotaremosadefiniçãodeSoaresaqualafirmaqueainclusãosocialdosecono-

micamentedespossuídosnãoéoúnicoobjetivodamoedasocial.Elatambémvisaa

estimularvaloressociais,evitandooacúmulodecapitais.

Amoedasocialéumaformademoedaparalelacriadaeadministradapelos seusprópriosusuários,logo,temsuaemissãonaesferaprivadadaeconomia. Elanãotemqualquervínculoobrigatóriocomamoedanacionalesua circulaçãoébaseadanaconfiançamútuadosusuários,participantesdeum grupocircunscritoporadesãovoluntária. 24

Qualquerdefiniçãosobreamoedasocialnãosedistanciadoaspectocontratual

(convenção)encontradonessaprática,entreosatoresenvolvidos,comointuitode

utilizaramoedaparaatingiroconsumodebenseserviços,impenetráveisnaquele

determinadolocal.

Comefeito,amoedasocialdeverácirculardentrodecertoslimites,ouseja,

entreumgrupolimitadodeusuários,comomeiodecirculaçãodebenseserviços,

paraocrescimentolocal,poisessaéumaatividadeeconômicaprovedoradebem-

estar,eseuvalor(lastro)seráestipuladopelaforçadotrabalhodosindivíduosque

compõemogrupo.

SegundoMarusaFreire(2007), 25 amoedasocialcumprirásuafunçãodecom- plementaramoedanacionalao“circularemcírculos”,ouseja,circularemcontornos territoriaislimitadoseemgruposdeterminados(closed loops).Elaafirma,também, quemuitossistemasdemoedassociaisfalhamnessesentido,levandoessapráticaao insucesso,apontodeprovocarefeitosmonetários,necessitandodaintervençãodo bancocentral.

Aincidênciadejurosouintençãodelucrosfereaessênciadasolidariedadepro-

postapelamoeda,umavezqueissoimpediriaodesenvolvimentodeumaeconomia solidáriacomlógicacapitalista.EspínolaSoriano 26 (2001)ratificaaimpossibilidade

dejuros:“aoafirmarmosqueaimposiçãodejurossobreocirculanteéumaposição

eminentementepolítica,comasmoedassociaiseastrocaselaédescartada”.

Essetipodemoedaestáàmargemdaemissãonacional,emoutraspalavras,é

umaemissãoprivada(descentralizada),nãohavendoqualquerretaguarda,incluindo

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aestatal,poisaconfiançaentreosparticipanteséoquemoveaeconomia.Édiferen-

te do que ocorre com a emissão de moedas paralelas emitidas pelas instituições

financeiras,pertencentesaoSistemaFinanceiroeamparadaspeloEstado.

Emtodasasanálisessobreaemissãoecirculaçãodemoedassociaisdepara-se

comoaspectolegaldaprática,quedesaguaemumimpasse,poisamaioriadospaí-

ses,inclusiveoBrasil,nãopossuiqualquerdisposiçãolegalproibindoessaprática

comunitáriacommeiodetrocapróprio.

NoBrasil,háleis,inclusiveaConstituiçãoFederalde1988,quedeterminamo

monopólio estatal da moeda corrente,a obrigatoriedade de aceitação da moeda

nacionalparaopagamentodedívidas,taxaseimpostos.Alémdisso,háleisquepre-

vêemcrimesporfalsificaçãodamoedanacional,osquaisjáforamanalisadosneste

artigo. Outropontoasermencionadoéaausênciadetributaçãosobreessaspráti- caseconômicas.

AlgumasdeclaraçõesdeMarusaFreire(2007)sobremoedassociaismerecem

crítica,pordeixaremtransparecerumafragilidadeinaceitáveldoBancoCentraldo

BrasilemfacedaexistênciademoedassociaisnoPaís.

AfirmaaProcuradoraque“oBancoCentraldoBrasilestádesenvolvendoumpro-

jetoparaestudareavaliarosprincipaisaspectosteóricosepráticosrelacionadoscom

asexperiênciasdemoedasocialnomundo”,maisadiantedeclaraque“ousodemoe-

dassociaisnãoéfenômenonovonospaísesdaEuropaetemsidotoleradopelosbancos

centraissoboargumentodequepromoveodesenvolvimentodaseconomiaslocais;

apesardeimplicarmaiorescustosemaioresriscosparaosdetentoresdamoedasocial”.

AfunçãodoBancoCentraldoBrasiléseroguardiãodamoedanacional,impe-

dindoqueoutrassurjam.Écertoque,comoosbancoscentraisdaEuropa,oBacen

tambémtoleraosurgimentodemoedasparalelasnãoreguladas.Essaposturainerte

vaideencontroaoqueumBancoCentraleficientedeveriaproporcionar:ofortale-

cimentodamoedanacional.

4 O CASO DO CONJUNTO PALMEIRAS

OConjuntoPalmeiras,umbairroperiféricodacidadedeFortaleza,Ceará,foiopri-

meiroaimplementarumnovoconceitodeeconomiademaneiraorganizada.Como

inícionosanos1970,quandomoradoresdeváriasregiõesdalocalidadeforamdesa-

lojadosemvirtudedeumplanodereordenamentourbano,buscou-se,paramoradia, umaregiãoafastada,aosuldeFortaleza.Atualmenteapopulaçãoestáestimadaem

cercade30milhabitantes.

Comoobjetivodearticularosmoradoresebuscarmelhoriasparaobairro,em 1981 foi criada aAssociação dosMoradoresdo Conjunto Palmeiras (Asmoconp).

Inicialmente,aprioridadenasreivindicaçõesdacomunidadebaseava-senainfraestru-

tura,visandomelhorarnascondiçõesdehabitação.Porém,mesmocomosavanços

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obtidos,umapesquisarealizadapelaAsmoconp,em1997,constatouquenoventapor

centodasfamíliastinhamrendafamiliarabaixodedoissaláriosmínimos,equecerca

deoitentaporcentodapopulaçãoeconomicamenteativa(PEA)encontrava-sedesem-

pregada(SilvaJúnior,2004).

4.1 CONSTITUIÇÃO DO BANCO PALMAS

Diantedetalsituação,eranecessáriobuscaralternativasparageraçãoderendano

ConjuntoPalmeiras.Assim,aAsmoconpinicioucomumprojetoem1998aoqualdeu

onomedeBancoPalmas.Paraisso,foidesumaimportânciaoinvestimentode2mil

reaisosquaisforamprovenientes,segundoosfuncionáriosdobanco,dacooperação técnicaalemãGTZ, 27 que,dentresuasatribuições,contribuifinanceiramenteafundo perdidoparaacriaçãodenovosinstrumentosfinanceiros. Inicialmente,acriaçãodesseprojetocomunitáriotinhacomoobjetivofomentar aeconomialocalatravésdemicrocréditoparaproduçãoeparaoconsumolocal,sem

consultascadastrais,comprovaçãoderendaououtrasrestriçõesimpostaspelasins-

tituiçõesconvencionais;umaeconomiabaseadasomentenaconfiançaenoconceito

doclienteperanteosdemaismoradores,umamedidadaprópriarededetrocasda

economiasolidária.Paratanto,criaram-seaslinhasdemicrocréditoparaincentivar

aproduçãoe,comafinalidadedeelevaroconsumolocal,aventava-seapossibilida-

dedeutilizaçãodeumcartãodecrédito(Palmacard).

Percebe-seque,nesseinício,aindanãotinhasidoinseridaafiguradamoedasocial;

dessaformaosempréstimosetodososserviçosdoBancoPalmasrealizavam-secoma

moedanacional(real).Diantedesseprojetodecunhoeconômico,aAsmoconpassu-

miu uma postura híbrida: ao mesmo tempo em que almejava ideais sociais e comunitários,elaprocediapormeiodeumalógicaessencialmentemercantil.

SilvaJunior(2004)salientaqueoBancoPalmaspassouanãopermitircertas

liberdadesaosmoradores,limitandooacessoàmoedaapenasàquelesquecumpris-

semoscritériosformuladospelaAsmoconp:ficarsóciodaentidadeeparticipardas

últimasreuniões:“NoBanco,osdesejosaserematendidossãoindividuais.Oacesso

àsaladoBancoPalmasépermitidoseforparatratardasolicitaçãodecrédito–não

nacondiçãodesócio-morador-cidadão,mascomoclientequepoderánãotersua

demandaatendida”.

Como dissemos, na economia solidária pode haver uma moeda chamada de

social.NoBancoPalmas,elarecebeuadenominaçãopalma,issoem2002.

Entretanto,aintroduçãodamoedapalmanobairrodeu-seatravésdaaplicação

doMétodoFomento,umdosmétodosdepromoçãodedesenvolvimentolocalinte-

gradoesustentáveldoMovimentoMonetárioMosaico(MoMoMo),querealizauma espéciede“clonagem”deumvalormonetárioemmoedadistinta. Segundo Silva Junior (2004), na implementação desse método no Conjunto

Palmeiras,queépioneironomundo,foiutilizadoovalordeR$51.302mil,um

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recursofinanceirodoadopelaOrganizaçãoIntereclesiásticaparaaCooperaçãoao Desenvolvimento(ICCO),visandoaconstruçãodeumprédioparaaAsmoconp.

Essaquantia,conversãoemmoedasocial,resultouem102.604unidadesmonetárias.

OsvaloresemReaisforamdestinadosàconcessãodecréditolocaleosvaloresem moedasocialdestinavam-seàrealizaçãodeumprojetocomunitário,ouseja,parao pagamentodamãodeobra 28 ecomprademateriaisnosestabelecimentoslocais.

Adinâmicaseriaaseguinte:osempréstimosconcedidosemreaisaosempreen-

dedores locais deveriam ser devolvidos em moeda local palma, recebida dos trabalhadores do projeto ao qual se destinou o capital inicial.Na realidade,essa

medidaeraparaimpulsionaracirculaçãodamoedasocial,umavezque“obrigava”os

trabalhadoreseempreendedoresareceberemessamoeda.Emfunçãoda“adesãofor-

çada” (cerca de quarenta empreendimentos locais inicialmente), foi possível a

aceitaçãodaslinhasdecréditosemmoedapalmaecustearpartedopagamentoda

equipedegestãodaAsmoconpcomamoedadobairro.

Comefeito,paraserpossívelocrescimentodaeconomialocal,comcirculação

monetáriaemaioracessoalinhasdecrédito,foinecessáriaaaquisiçãodemaisrecur-

sos. Segundo Otaciana Barros, supervisora dos caixas do Banco Palmas, para conseguirrecursospúblicos,asaídafoicriarumaOrganizaçãodeSociedadeCivilde

Interesse Público (OSCIP), denominada Instituto Palmas, uma vez que o Banco

PalmascomoprojetodaAsmoconpencontrariabarreirasparaaaquisiçãoderecur-

sosjuntoaoPoderPúblico.Conclui-sequeoInstitutoPalmascaptariarecursoseo BancoPalmasrealizariaosempréstimos. Nessesentido,hádoistiposdeempréstimosdoBancoPalmas,concedidosda seguinteforma:oempréstimoparaconsumoédestinadoamoradoresdePalmas,e

têmumlimitedeP$100,00(cempalmas),semcobrançadejuros;oempréstimo

para produçãoédestinadoaosempreendedorescadastrados,comumlimitedeR$

5.000,00. 29 Parateracessoaocrédito,énecessárioserassociadoouterparticipado

dasduasúltimasreuniões;exige-seopreenchimentodeumformulárionoqualcons-

tamosdadosdorequerente,ovaloreaquesedestinaocrédito.Comessesdados,

umfuncionáriodaAsmoconpverificaapossibilidadedaconcessão(Saddi,2004).

Essaspráticascomerciaisimplantadasnobairro,contudo,nãoforamsuficientes

para atender todos moradores e,para quebrar o que restava de desconfiança na

comunidade,foicriadoumcartãodecrédito,oPalmacard,comlimitede200,00

palmas,quetemseguintedinâmica:oconsumidorutilizaocartãoemsuascompras

emlocaispreviamentecadastradoseopagamentodasfaturasdoPalmacardéfeito

noBancoPalmas.

Háumataxadetrêsporcentocobradanessasrelaçõesdecompraevendaatra-

vésdoPalmacard.Otacianalembraqueessacobrançaéparaocasodenãopagamento

dasfaturas.MarianaAmori,assessoraadministrativadoBancoPalmas,revelouquea

taxadetrêsporcentoédescontadadovalormensaldasfaturasdoscomerciantes.

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SilvaJuniortambémasseguraqueessataxaécedidapeloscomerciantesaobanco emrelaçãoàscomprasrealizadaspormeiodoPalmacard,comotaxadeadministração. Jaqueline Dutra,gerente financeira do Banco Palmas,afirmou que a área de

abrangência da moeda palma já ultrapassa os limites territoriais do bairro,sendo amplamenteaceita,inclusive,embairrosvizinhos. Issoépossívelporqueoscomer- ciantesoferecemdescontosquandoopagamentoérealizadoempalmas.Notransporte

alternativo,porexemplo,apassagemcustaR$1,60ouP$1,50(umapalmaecinquen-

tacentavos).Éimportantelembrarqueovalordapalmaéindexadoaoreal,ouseja,

P$1(umapalma)éigualaR$1(umreal).Osdescontossãopossíveispelofatodenão

havernenhumatributaçãosobreasoperaçõesrealizadascompalma 30 edevidoàcoo-

peraçãodoscomerciantes.

4.2 O BANCO CENTRAL E A ASMOCONP

Emduasoportunidades,oBancoCentralrequereudaAsmoconpesclarecimentos sobreaspráticasfinanceirasláevidenciadaspeloBancoPalmas.Aprimeirafoiem

1998,quandooBancoCentralentendeuqueofatodoBancoPalmascaptar,naépoca

dafiscalização,recursosdosclientescomofundoremuneratório,eraumtipode poupança,umavezqueobanconãotemautorizaçãoparadesenvolveressaatividade pornãoserumainstituiçãofinanceira. (SilvaJunior,2004). Outra intervenção ocorreu em 2003, quando o Bacen acionou o Ministério PúblicoFederalparaqueoBancoPalmasprestasseesclarecimentosarespeitoda emissãodamoedasocial(aemissãodemoedasemautorizaçãoéumacrimecontraa União,poiscabeexclusivamenteàUniãoaprerrogativadeemitirmoedadecurso forçadonopaís,salvopréviaautorização). 31 Afiscalizaçãorestringiu-seaodepoimentodosdiretoresdobanconadelegacia civil,pois,depossedoparecerdaautoridadepolicialressaltandoocunhosocial,o MinistérioPúblicoentendeunãosercrimeautilizaçãodoMétodoFomento. Na época dessa investigação, em 2003, o Método Fomento ainda estava em curso.Portanto,difícileraacaracterizaçãodecrimecontraoSistemaFinanceiro,já que,segundoparecerdoBancoCentral,amoedanacionalpermaneciaemcirculação comomesmopoder.

4.3 ANÁLISE JURÍDICA

Dopontodevistajurídico,pode-sevislumbrarumaincompatibilidadeentreainiciati-

vadaAssociação,aofomentaraeconomialocalatravésdacriaçãodoBancoPalmas,do

Palmacard,edamoedasocial,eoordenamentojurídicobrasileiro.OchamadoBanco

Palma,narealidade,nãoéumainstituiçãofinanceira,nãointegraoSistemaFinanceiro

Nacional,enãopossuinenhumaautorizaçãojurídicaparafuncionarcomobanco.Aliás,

porserumprojetodaassociaçãodosmoradores(Asmoconp),nãoháqualquerforma-

lidadenoqueversaumpossívelregistroemcartóriooujuntacomercial,bemcomona

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ReceitaFederal,naSecretariadaFazendadoEstadodoCeará(Sefaz)enaSecretaria deFinançasdoMunicípio(Sefin). Seriainocênciaouinteligênciacriarumempreendimento,funcionandocomo banco,semqualquerregistrooufiscalização,emnomedocrescimentosocial? Independentementedaresposta,ofatoéquetalpráticanãoencontraabrigona legislação;emcontrapartida,aemissãodeumamoedasolidáriaporumdeterminado

grupodeindivíduosnãoestátipificadanaLei7.492de1986comocondutacriminosa.

Odireitopenaldispõesobrecondutassocialmenterelevantes.Issoquedizerque

aciêncianãoantecedeosacontecimentossociais,elesprecisamexistiremacularde

algumaformaavidaemsociedadeparaseremeleitoscomocomportamentosocial-

mente relevante. Como dissemos, o direito penal econômico protege a ordem

econômicaeseuequilíbrio.Apesardenãoexistirtipificaçãopenalsobreaemissão demoedasolidária,qualquercondutasocialquetenhaopotencialdeexerceropapel exclusivo do Estado de emissão de moedas,gerando males à ordem econômica, deverásofrersanções. Aautoridademonetária,alémdecontrolaraemissãodamoedaoficial,fiscaliza

apossívelcriaçãodemoedaspelosbancos,como,porexemplo,asmoedasescritu-

rais. Ocuidadocomaquantidadedemoedanomercadobuscaevitaroseuexcesso ouasuacarência.Casohajaumquadrodeexcessodemoeda(inflação),haveráuma

elevaçãonopoderaquisitivoe,emconsequência,comoosprodutosserãoinsuficien-

tesparaaquantidadedemoedaemcirculação,elesterãoseuspreçosaumentados;

casohajacarênciadamoeda,ospreçostendemadiminuirdepreço,poisaquantida-

dedeprodutosserásuperioraovolumedemoedasemcirculação.

OcontroledoEstadosobreamoedaedemaismeiosdepagamentoérealizada

atravésdepolíticamonetária.Sebemgerenciada,apolíticamonetáriapoderáalcan-

çar os seus objetivos:controle da inflação,equilíbrio da balança de pagamentos,

expansãoeconômicaeplenoemprego.

ApolíticamonetáriatemcomodesígniopromoveraestabilidadedoPaís,paraisso

éessencialquehajaocontrolemonetáriopormeiodosinstrumentosderedesconto

(empréstimodoBancoCentralaosbancoscomerciais,quandoestesapresentampro-

blemas de liquidez);operação de mercado aberto (open market,visando a liquidez monetária,oGovernocompraouvendetítulospúblicos);ereservascompulsórias (partedosrecursosdasinstituiçõesfinanceirasérepassadaaoBancoCentral).

ALei4.595/64,respaldadanoart.164daConstituiçãoFederalde1988,atribui

aoBancoCentralaemissãodemoedasoficiais.OBacenésubordinadoaocomando

doConselhoMonetárioNacionalqueirápermitireditaraquantidadedenumerário

emcirculação.

Odescumprimento,pelainiciativaprivada,daprevisãodeexclusividadedoBacen

naemissãodemoedapõeemriscoaeficáciadosinstrumentosdecontroledaecono-

miaempregadospeloEstado.

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QualqueriniciativadoEstadoparatentardiminuiromeiocirculante,eassim

forçarumaretraçãodoconsumo,seráineficientediantedasinúmerasexperiências

privadasdeemissãodasmoedassociais,asquaispoderãoinflaromercado.

Asmoedassociaisdeverãoserproduzidas,distribuídasecontroladaspelospró-

priosusuários,poiselasnãotêmvalorintrínseco,mas,sim,notrabalhodosusuários

comolastro.

AoanalisarocasodePalmas,vê-seumadescaracterização,vistoqueapalmatem

lastroemreal,sendoeladotadadevalorintrínseco,desclassificandocomomoeda

social,eatuandoemconcorrênciacomoreal,poisparacadapalmaemcirculaçãoé

necessárioquehajaumrealcorrespondentesobacustódiadoemissor.

Outrofatorquecomprovaaconcorrênciadapalmacomamoedaoficialéo

exemplodotransportealternativosetornarmaisbarato,umavezquenãohátribu-

tação,comodissemosanteriormente.Nalógicaeconômica,osmoradoresdobairro

sãotendenciososasetornaremusuáriospelaconveniênciaeconômicaenãopela

lógicasolidária.Comonãohácontrole,nãohátributaçãoe,porisso,amoedapalma

concorrecomamoedanacional.

AestruturacriadapelaAsmoconpexcedeoconceitodesimplesrededetrocas

da economia solidária.A moeda palma cumpre a função de unidade de medida, reservadevaloremeioliberatório.Dessaforma,oBancoPalmas,aoemitiressa

moeda,estácontrariandoapolíticamonetária,opoderexclusivodaUniãodeemi-

tir moeda,além de inflar o mercado,uma vez que cabe à autoridade monetária contrairouexpandirovolumedamoedanaeconomia.

Noart.17daLei4.595,de31dedezembrode1964,adefiniçãoecompetên-

ciasdasinstituiçõesfinanceirasé:

Consideram-seinstituiçõesfinanceiras,paraefeitosdalegislaçãoemvigor,as

pessoasjurídicaspúblicasouprivadas,quetenhamcomoatividadeprincipalou

acessóriaacoleta,intermediaçãoouaplicaçãoderecursosfinanceirospróprios

oudeterceiros,emmoedanacionalouestrangeira,eacustódiadevalorde

propriedadedeterceiros.

OBancoPalmas,naverdade,nãoéumainstituiçãofinanceira,poisnãoperten-

ceaoSistemaFinanceiroNacional,nasceudeumprojetodaAsmoconp,contudo,ele

funcionacomotal,mesmosempossuirautorizaçãoparafuncionarcomobanco.A

intençãodefuncionarcomoumainstituiçãofinanceira,semsubmeter-seaocontro-

leestatalelegislativo,comprova-senasseguintesafirmaçõesdoSr.JoaquimMelo,

coordenadordoBancoPalmas:

Vocêimaginaoqueéumbancoabertocomamídiafantásticaemcimaea

gentecompletamenteliso!Semnenhumcentavo!Eraumacoisa,erauma

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barrapesadamuitogrande:aincertezaseonegóciovaidarcertoeseo

pessoalvaipagar.

( )

Então,nósestávamosacostumadoscomosocial,comaslutassociais.Pra passardissoprum[sic]bancoéumacoisatotalmentediferente,porque vocêmudadosocialparaoeconômico. 32

Nem mesmo as instituições financeiras podem criar e emitir moedas sem

autorização,comoocorrenoBancoPalmas.Este,alémdefuncionarcomoinsti-

tuiçãofinanceira,interferenapolíticamonetária,assumindoopapeldopróprio

BancoCentral.

5 CONCLUSÃO

Osproblemasencontradosnapráticacommoedassociaispoderiamsersuperados

casohouvesseregulaçãoefiscalização.Comapropagaçãodessasexperiênciasmone-

tárias–comoocorreunoConjuntoPalmeiras,ondeamoedasocialcirculaese

reproduzsemqualquercontroleoulimite–teríamosinúmerospequenoscentros

autônomosemissoresdemoedasdistintasemseusvalores,formaseregras.

Opoderpúblicomantémumaposturaomissaemrelaçãoaessetipodeativida-

deeconômica,talvezporque,mesmocaracterizandoumilícitocivil,aemissãode

moedassociaiselevaopoderdecompradosusuários.

Nãosetemqualquergarantianoquetangeàeficáciadessaexperiênciacom

moedasocial.Emais,jásepassarammaisdecincoanosapósafiscalizaçãodoBanco

Central:talprática,originalmentedecunhosocial,podeestar,atualmente,funcio-

nandoapenasemfunçãodeobjetivoseconômicosesemautorização.

Nãosepodenegarqueasexperiênciasdeeconomiasolidária,inclusiveagerida

pelaAsmoconp,estãoinseridasnosistemacapitalistaneoliberal,e,portanto,dificil-

mente elas estariam protegidas dos valores capitalistas. Não são uma forma econômicaalternativaquefiqueasalvodestesistemaeconômico.

ComoafirmouMarusaFreire(2007),osistemademoedasocialdeveráobede-

cer um curso normal,qual seja:formar um círculo fechado.Dessa forma,caso

ultrapasseoslimitesdaquelegrupo,amoedasocialprovocaráefeitosmonetários.O que dizer em relação a alguns transportes públicos que aceitam a moeda palma? Comootrajetodotransportepúbliconãoselimitaaobairro,amoedasocialestá chegandoalugareseapessoasnãomensuradas.

Pode-seentenderqueháumdesacordoentreainiciativadaAsmoconpealegis-

lação constitucional vigente, podendo-se, inclusive, vislumbrar crime contra o

SistemaFinanceiroNacional,jáqueaprerrogativadeemitirmoedaédeexclusivi-

dadetotaldoBancoCentraldoBrasil.

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1 3 uiNieCaMiNhaeMoNiquefigueiredo : 1 2 5 Emoutraspalavras,oqueestáocorrendonoConjuntoPalmeirasusurpaumadas

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uiNieCaMiNhaeMoNiquefigueiredo : 1 2 5

Emoutraspalavras,oqueestáocorrendonoConjuntoPalmeirasusurpaumadas

prerrogativasatribuídas,porlei,doBancoCentraldoBrasil,qualsejaaemissãode

moedasprivadas,ditassolidárias.

Comoprovadisso,algumasafirmaçõesdoSr.JoaquimMelo,indicadasnocapí-

tulo anterior, deixam transparecer que o projeto pretende que o Banco Palmas funcionecomoumbancocomercialcom focomeramentemercantil. Nãosepodeolvidarataxadeadministraçãodetrêsporcento,descontadapelo

Banco Palmas do valor das compras realizadas pelos consumidores por meio do Palmacard.Semdúvida,issonãopoderiaocorreremumaeconomiasolidária,de cunhosocial,ondetodossãovoluntários. ÉnecessárioqueoPoderPúblicotenhaumaposiçãofrenteàemissãodemoedas sociais,sejapararegularouparaproibir,antesmesmodesetornarumasituação incontrolável,queporáemriscoaordemeconômica.

: ARTIGO APROVADO (20/12/2010) : RECEbIDO EM 04/05/2010

NOTAS

* Este artigo é resultado de uma pesquisa que teve apoio da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).

1 Otermomoedaderivadolatim moneta (lugarondesecunhavammoedasemRoma,noTemploJunoMoneta).

2 OconceitodemoedaquenorteounossapesquisaéoquenostrásRonaldHillbrecht:“Moedaétudoaquiloque

aspessoasaceitamcomopagamentoporbenseserviçosecomopagamentodedívidas”(1999,p.17).

3 TeoriaeconômicadaIdadeModerna.

4 AEspanhafoiumdospaísesfortementeinfluenciadospelometalismo.

5 Aexpressão“nominalismo”tornou-seconhecidapeloautorGeorgFriedrichKnapp(1842–1926)emsuaobra

StaatlicheTheorie des Geldes [Teoriaestataldamoeda]publicadaem1905,naAlemanha.

6 MengerapudSoares,2006,p.52,54.

7 KnappapudWray,2003,p.45.

8 Aoanalisaressasteoriasverifica-seumaimprecisãosobreoquevemaserdinheiroemoeda,demodoqueos

autoresutilizaram,emalgunsmomentos,asnomenclaturascomosefosseamesmacoisa.Oimportanteéesclarecerque

moedaéqualquerbemutilizadoparaviabilizarastrocas(comércio),aopassoquedinheiroéamoedainstituídapelo

Estadoporforçadelei.

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1 2 6 : ATIVIDADE FINANCEIRA E MOEDA: ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DO CONJUNTO PALMEIRAS EM FORTALEZA-CE

9 LuizAlbertoAraújoeNunesJúnior,1999,p.348.

1 0 Consideradas as caixas econômicas; bancos comerciais; bancos múltiplos; bancos de desenvolvimento; bancosdeinvestimento;sociedadesdecrédito,financiamentoeinvestimento;sociedadescorretorasdecâmbioede títulos e valores mobiliários; sociedades distribuidoras de títulos e valores mobiliários; sociedade de crédito imobiliário; sociedades de arrendamento mercantil; e cooperativas de crédito, todas dependerão de autorização

préviadoBancoCentraldoBrasil(InstruçãoNormativan.32/91doDNRCeLeis4.595/64,4.728/65e5.764/71).

1 1 ErosGrau,2005,p.205.

1 2 Encontra-sedispostonoart.10daLei4.595/64,aqualinstituiuoConselhoMonetárioNacional(CMN), ser competência do Banco Central autorizar o funcionamento das instituições financeiras. “Art. 10. Compete privativamenteaoBancoCentraldaRepúblicadoBrasil:X–Concederautorizaçãoàsinstituiçõesfinanceiras,afim dequepossam:a)FuncionarnoPaís”.

1 3 Segundoaclassificaçãoosatuantesdosubsistemanormativossão:ConselhoMonetárioNacional,BancoCentral doBrasil,ComissãodeValoresMonetários,BancodoBrasil,BancoNacionaldoDesenvolvimentoEconômico.Nocasodo subsistemaoperativo,esteécompostodebancosmúltiplos;bancoscomerciais;caixaseconômicas;bancosdeinvestimento; bancosecompanhiasdedesenvolvimento;financeiras;sociedadesdecréditosimobiliários;bolsasdevalores;sociedades corretoras;agentesautônomosdeinvestimentos;companhiasdeseguros; leasing; factoring econsórcios.

1 4 O mercado financeiro pode ser dividido em quatro grupos: Mercado Monetário, Mercado de Crédito,

MercadodeCapitaiseMercadoCambial(Hillbrecht,1999,p.22).

1 5 KnutAmelungapudLuisi,1998,p.104.

1 6 WinfredHassemerapudLuisi,1998,p.105.

1 7 Sãoosartigos172;175;177,bemcomoosartigos272,273,274e279.

1 8 Lei11.101/2005;Lei4.728/1965;Decreto-Lein.73;Lei4.595/1964;Lei1.521/1951;Lei4.729/1965,

revogadatacitamentepelalei8.137/1990;Lei4.591/1964;Lei7.492/1986;Lei8.078/1990;Lei9.279/1996;Lei

8.176/1991;Lei9.609/1998;Lei9.613/1998;Lei10.028/2000.

1 9 LuisRazeto,1993,p.40.

2 0 Lévesque,MaloeGirardapudLechat,2005.

2 1 Rajan,2006,v.43,n.1.

2 2 Organização sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento solidário, com sede no Rio de Janeiro e

fundadaem1986.

2 3 Apenasparamelhorcompreensão,valestransporte, tickets refeição,milhagensdecompanhiasaéreas,dentre outros,sãoexemplosdeparamoedas.

2 4 Soares,2006,p.135.

2 5 Coordenadora-geraldoCentrodeEstudosJurídicosdaProcuradoria-GeraldoBancoCentral.

2 6 Ruth Espínola Soriano é economista do Pacs,diretora do Instituto de Economistas do Rio de Janeiro e integraaatualcoordenaçãodaRededeTrocasdoRiodeJaneiro.

2 7 JeováTorres(2004)afirmaqueocapitalinicialparaaconstituiçãodoBancofoidoaçãodaONGCearahPeriferia.

2 8 Apenasvinteporcentodopagamentodostrabalhadoreseramfeitosemreal,orestanteerafeitoemmoedasocial.

Segundoalegislaçãotrabalhista,pelomenostrintaporcentodosaláriodeveserpagoemdinheiro(art.82daCLT).

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uiNieCaMiNhaeMoNiquefigueiredo : 1 2 7

2 9 EsseempréstimoérealizadocomumaparceriacomoBancoPopulareosjurosvariamdedoisaquatropor cento (essa informação foi obtida em entrevista com MarianaAmori, realizada no dia 17/09/2007, na sede da Asmoconp).

3 0 NãofaremosumaanálisedenaturezatributáriadasoperaçõesefetuadasemPalmas,poisissofogedoescopo desteartigo.

3 1 Nãofoipossívelteracessoaosdocumentosdafiscalização.

3 2 XXXXapudSilvaJunior,2004,p.50,71.

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1 2 8 : ATIVIDADE FINANCEIRA E MOEDA: ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DO CONJUNTO PALMEIRAS EM FORTALEZA-CE

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Av. Washington Soares, 1321 Edson Queiroz – 60811–905 Fortaleza – CE – Brasil

ucaminha@unifor.br

Uinie Caminha

DOUTORA EM DIREITO PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)

PROFESSORA ADJUNTA DA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA (UNIFOR) E DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ (UFC)

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Monique Figueiredo

GRADUADA EM DIREITO PELA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA

BOLSISTA DA FUNDAÇÃO CEARENSE DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO - FUNCAP

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