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JORNAL DE SINTRA SEXTA-FEIRA 27 DE JANEIRO DE 2012

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SOCIEDADE

Autarcas recusamreforma administrativa “a régua e esquadro”

Luís Galrão

administrativa “a régua e esquadro” Luís Galrão O presidente da edilidade sintrense, Fernando Seara no uso

O presidente da edilidade sintrense, Fernando Seara no uso da palavra

fotos: luís galrão

Filipe recorda a contestação que o processo já teve por parte

da Associação Nacional de Municípios e da Associação

Nacional de Freguesias.

Fernando Seara recorda compromisso com a troika

Da parte do executivo, o presidente da Câmara explica que

“estará sujeito às vinculações das Leis que forem aprovadas em Assembleia da República”. Ao PS, Fernando Seara diz já ter estado com a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) e que o “perturba que ninguém conheça nada do memorando assinado pelo Estado em 17 de Maio de 2011”.

O presidente fez mesmo questão de ler o ponto 3.44 do

documento, que prevê “reorganizar a estrutura da

administração local (…) e reduzir significativamente o número [de freguesias], alterações que deverão entrar em vigor no próximo ciclo eleitoral local”. “Podemos não estar de acordo, mas a reforma administrativa resultou de uma matéria negociada com a troika pelo seu Partido Socialista e portanto não venha falar no Governo PSD/CDS, que tem que cumprir

as responsabilidades do Estado”, rematou Seara em resposta a uma deputada do PS.

A primeira sessão da Assembleia Municipal destinada a debater a reforma administrativa do concelho terminou com uma única decisão por unanimidade. Na sessão extraordinária de dia 19, os autarcas concordaram com a moção da CDU que defende que as áreas metropolitanas passem a ser eleitas por voto directo.

C onsensuais foram também as ideias de que a reforma não pode ser feita a “régua e esquadro” e que é necessária mais discussão. No entanto, isso não impediu a rejeição das propostas do BE que reco-

mendavam consultas às populações e, eventual- mente, referendos nas freguesias afectadas. Quanto à eventual extinção de freguesias em Sintra, na

sequência da aplicação dos princípios do Documento Verde,

duplicação de estruturas administrativas, no caso das freguesias rurais há que ter em conta que em muitas loca- lidades as juntas de freguesia se constituem como único garante da presença do poder democrático e ligação das populações ao Estado”.

Os socialistas alertam que o documento verde pode resultar em “enormidades” como a eventual fusão das três

freguesias do Centro Histórico. “Se tal viesse a concretizar-

se – estamos em crer que não se prevalecer o bom senso –

ficaríamos com uma freguesia urbana com uma dimensão absurda, considerando a matriz, as características sócio- económicas e históricas destas freguesias”, afirma o socialista.

BE defende envolvimento das populações e CDU recusa extinções

O BE também concorda com a necessidade de uma reforma,

mas quer ver as propostas. “Há propostas ou a maioria vai a

reboque da troika e do Governo? O país precisa de uma reforma administrativa que descentralize e ataque o centralismo do Estado, que potencie ainda mais a democratização do poder local, que envolva as populações numa dinâmica de articulação da democracia representativa com a democracia participativa”, defende João Silva.

Já a CDU assume uma posição mais conservadora e mostra-

-se contra a fusão de freguesias. “Todas as freguesias do município de Sintra têm plena justificação e nada justifica que sejam aglomeradas”, diz Lino Paulo. Outro deputado comunista acrescenta que o processo é um “contra-senso” porque pretende corrigir “o poder local democrático, que está bem, e constitui um grande consenso na sociedade”. António

os

deputados municipais da Coligação Mais Sintra e do Bloco

de

Esquerda rejeitaram outra moção da CDU que defendia a

manutenção das 20 freguesias, posição apoiada apenas pelo PS. António Rodrigues, da Coligação Mais Sintra, defende que

“o debate é necessário porque o país não é o mesmo ao fim de

150 anos” e salienta “a coragem” do Governo. Os objectivos

da reforma, explica, passam pela “promoção da coesão ter-

ritorial e do desenvolvimento local, reforço das competências das freguesias, e melhoria dos serviços públicos de proxi- midade, sem esquecer a preservação da identidade histórica, cultural e social”. O social-democrata salienta que não se pretende “atender a interesses individuais e egoísticos, nem atender àqueles que não conseguem olhar para além do seu próprio umbigo”.

Socialistas recusam fusão das freguesias do Centro Histórico

Os socialistas concordam que a reforma é necessária, mas recusam “uma discussão que se fique pela mera aplicação de fórmulas matemáticas e pelas extinções ou fusões a qualquer custo, a régua e esquadro, e sem ter em conta a identidade

dos territórios”, explica António Luís Lopes, que lamenta a ausência de propostas da maioria.

O PS defende um tratamento diferenciado entre freguesias

urbanas e rurais. “Enquanto nas áreas urbanas é possível e desejável encontrar soluções de racionalidade, eliminando a

Presidentes de Junta saúdam mais meios e competências mas recusam extinções

Segundo a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE), os princípios da reforma administrativa proposta pelo Governo apontam para que em Sintra possam ser extintas por aglomeração as freguesias de Santa Maria e São Miguel, São Pedro e São Martinho, por um lado, e Pêro Pinheiro e Montelavar, por outro. Para o presidente da Junta de São Pedro de Penaferrim (Coligação Mais Sintra), “uma eventual agregação só poderá ser decidida posteriormente e em conjunto com as outras freguesias”. Fernando Cunha recusa, no entanto, “uma reforma de régua e esquadro que não tem em conta a vontade das populações” e avisa que a medida “resultaria num território equivalente aos concelhos da Amadora mais Odivelas, igual à área de Lisboa ou de Cascais e o dobro de Oeiras, juntando cerca de 30 mil habitantes”, uma dimensão que o grupo de trabalho criado pela assembleia de freguesia considera “ingovernável”. A ideia de aglomeração é igualmente afastada por Rui Pinto (Mais Sintra), presidente da Junta Mira Sintra. Apesar dos actuais critérios não o preverem, o autarca aproveitou para expressar que “a vontade popular é pela manutenção da

expressar que “a vontade popular é pela manutenção da freguesia de Mira Sintra, uma vez que

freguesia de Mira Sintra, uma vez que a divisão da antiga freguesia de Agualva-Cacém foi um caso de sucesso e trouxe mais qualidade de vida para as populações”. Já Manuel do Cabo (Mais Sintra), presidente da Junta de Algueirão-Mem Martins, prefere pensar que o que está em

causa “é o eventual reforço de atribuições, competências e meios para as autarquias locais”, e não a discussão sobre a extinção ou agregação de freguesias. Nessa medida, considera que o “momento é histórico” para a sua freguesia, que tem “escala territorial e populacional” e que quer “mais atribuições e mais competências porque os cidadãos exigem mais serviços”. O autarca avisa, no entanto, que a mudança “só faz sentido se forem também atribuídos os correspondentes meios financeiros, técnicos e humanos, num processo em que tem de haver negociação e cedência por parte do município”. Apesar de admitir “em tese” uma eventual fusão de freguesias, Fátima Campos, presidente da Junta de Monte Abraão, entende que a actual “reforma nasceu torta, porque não é corajosa e se socorre apenas da aritmética fácil”. A autarca entende que quaisquer poupanças com esta medida serão “pouco significativas” e questiona porque é que não está contemplada, por exemplo, a extinção de municípios com poucos habitantes. “Uma pequena câmara que sirva dois mil habitantes implica muito mais despesa do que uma junta de freguesia de 10 ou 15 mil habitantes”, afirma.