INTRODUÇÃO

O Apocalipse sempre despertou grande interesse em todas as épocas. Até não cristãos se mostram curiosos em relação a ele. Infelizmente, muitas interpretações são tão fantasiosas que o ridicularizam, quando não servem para desmoralizar os cristãos. Ele se torna uma espécie de “horóscopo bíblico” ou um jogo de runas, para se descobrir o futuro. Constantemente “descobrem-se” chaves de interpretação, códigos, segredos milenares e outras questões que fazem do “descobridor” o possuidor de segredos que Deus escondeu de todo mundo e só revelou a ele. Até mesmo alguns estudos bíblicos se tornam fantasiosos. O cenário evangélico está repleto de pessoas redescobrindo a Bíblia ou reinventando Jesus e o cristianismo. Algumas interpretações são deploráveis. Interpreta-se a águia voando pelos céus como se fossem os EUA, os gafanhotos são helicópteros. Como João nunca tinha visto um helicóptero, esta foi a melhor maneira de escrever, etc. Esta atitude se torna até uma falta de respeito para com a Bíblia. Um dos bons critérios de interpretação bíblica é a sobriedade, que nunca matou alguém. O exotismo leva ao ridículo. A sobriedade mostra bom senso e permite equilíbrio. Não podemos interpretar o Apocalipse à luz de nossa perspectiva contemporânea. Só se entende um livro à luz de sua época e contexto. Esta é a pergunta inicial: “Quando e para quem o livro foi escrito?”. Não há nenhum “código da Bíblia” ou segredos ocultos que um especialista bem treinado ou escolhido por Deus revele aos homens. Deus é claro é fala claro. O Apocalipse foi escrito em tempo de crise, para ajudar os cristãos da época. De 81 a 96, parecia que o reino de Deus estava sendo destruído, no reinado de Domiciano. Foi um momento de terror: a Igreja estava sendo destruída. Este é o pano de fundo do livro. Há perseguição em seu enredo, mas cânticos e louvor o permeiam. A mensagem principal é o triunfo de Cristo. Assim, em linhas gerais, veremos o significado do livro para os contemporâneos de João (destinatários primeiros do livro) e então seu significado para nós (destinatários segundos, pois o livro não foi escrito diretamente para o século 21 e sim, para o século primeiro).

1. O CENTRO DO LIVRO – O livro tem um centro, em seu enredo. É uma luta entre dois oponentes: um se chama O Cordeiro (Cristo) e o outro é Besta (o Império Romano). O Cordeiro tem consigo uma Mulher (o povo de Deus) e a Santa Cidade (Jerusalém). A Besta tem consigo um Dragão e um Falso Cordeiro. O livro narra a luta da Igreja diante do Império Romano. 3. MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO – Precisamos estabelecer um método de interpretação coerente, desde o início. Infelizmente, o Apocalipse tornou-se sinônimo de desgraças a acontecer no futuro. Mas que futuro? Futuro de quem? Não é, necessariamente, o futuro por vir para nós. Bem pode ser um futuro para nós já acontecido, o futuro para os destinatários da época. Porque não haveria muito sentido em João escrever para cristãos que estavam sendo perseguidos, presos e mortos por sua fé e lhes dizer: “Fiquem firmes, vejam só o que vai acontecer a dois mil e poucos anos”. O que o livro dizia naquele momento? Qual é o método de interpretação que mantém o valor do livro para a época em que foi produzido e para as demais? Há várias escolas de interpretação, mas alistamos aqui as cinco principais: futurista, continuidade-histórica, filosofia da história, preterista e formação histórica. 3.1. O MÉTODO FUTURISTA – Nesta linha de interpretação, o livro narra os acontecimentos do fim do mundo, numa época incerta, numa linguagem oculta. De 1 a 3, mensagens são alusivas à época de João. Do capítulo 4 até ao fim, o livro trata das coisas que acontecerão no futuro, quando Cristo retornar. Nesta linha, tudo acontecerá em sete

1. Mas acima de tudo: há lições para nossa vida. colocou seu próprio nome (Ap. Mas seu messianismo não é vago como os outros. 3. Outra nem mesmo o considera como inspirado. 3. O livro mostra os princípios que formam a história. os escritos apocalípticos traziam uma palavra de esperança em uma linguagem enigmática. 3. a não ser lições de fé.2. 1Enoque. pelo menos até o capítulo 20. O MÉTODO DA FORMAÇÃO HISTÓRICA . O GÊNERO APOCALÍPTICO – Antes de entrarmos no conteúdo do livro. Dizia respeito àqueles cristãos e nada tem para nós. Os Testamentos dos Doze Patriarcas. Veremos a ação de Deus na história passada. 3. Uma o vê assim. o livro foi muito contestado quando da confecção do cânon do Novo Testamento. Aliás. Há duas correntes.C. vejamos alguma coisa sobre o gênero literário do Apocalipse. Floresceu numa época de tribulação para o povo de Deus. diferentemente dos outros apocalipses. Eis alguns deles: o Apocalipse de Baruque. Talvez devido ao sensacionalismo embutido na interpretação. Os capítulos 21 e 22 tratam do futuro por vir. Ele surgiu com Ezequiel e se firmou entre os anos 210 a.4. Summers.. Mas não foi a interpretação histórica da Igreja. o livro se cumpriu nos dias do Império Romano. Tudo é simbólico. O MÉTODO PRETERISTA – Neste sentido. Muitos "apocalipses" surgiram baseados. Diante do exílio.19 ajudam a entender esta posição. Os autores colocavam algum nome famoso e respeitado. A Assunção de Moisés. Visava reanimar os fiéis. É a linha mais popular. Toda a história foi expressa aqui por meio de símbolos. Discute as forças por trás dos eventos históricos. A Ascensão de Isaías. O livro de Jubileus. não é anônimo. Durante a dominação romana. e 200 d. E. Isto se vê até nos documentos do mar Morto.anos. perseguição e domínio estrangeiro. .Nada é histórico. 4. eles traziam a idéia de um libertador. O Pastor de Hermas. 2Esdras e 4Esdras.3 e 1.5. etc.1. principalmente.9-11). COMO ANDAREMOS – Na percepção de que o livro já se cumpriu.C. Uma espécie de folhetim. falando-lhes de uma futura intervenção divina para libertar o seu povo. a semana que falta em Daniel. Os textos de 1. 57 e 58. entre outros. Mistura o método da filosofia da história com o preterista. Salomão. O MÉTODO DA FILOSOFIA DA HISTÓRIA .O livro se cumpriu nos dias do Império Romano.4. Apocalipse de Pedro. daí o seu nome. que anuncia o estabelecimento do reino de Deus em triunfo sobre os reinos humanos. mais do que sensacionalismo. 48-49. presente ou futura. para darem mais peso à obra. o livro seria um prenúncio da história por meio de símbolos. Há situações que deixam princípios pelos quais devemos nos pautar. O MÉTODO DA CONTINUIDADE HISTÓRICA – Nesta linha. opressão. os manuscritos de Qumram. É Palavra de Deus e não Notícias Populares ou um programa do Ratinho. Exemplo: a Besta do capítulo 13 representa o mundo contra a Igreja. Ele identifica o Messias como sendo Jesus Cristo. Neste sentido. passada. Esta posição é mais recente. restituindo-lhe a glória do passado. Exemplo: Summers. mas traz princípios que são válidos hoje. Pode ser em qualquer época. João. Via de regra. em Daniel. este tipo de escrito se tornou comum e muito apreciado. Os Salmos de Salomão. pp. como Enoque.3. O Apocalipse de João é o único livro desse gênero no Novo Testamento que faz parte desta corrente literária. nos últimos anos. porém. o livro se torna cheio de segredo. um messias. 5. 2Enoque.

13. 9. Bin Laden.6-7.27. tirar o véu.1.1. 12.1. A ocorrência de "parecer" . (2) testemunho (Ap 1.9. Trata da vitória final de Cristo e a implantação do seu Reino. tragamos isto à nossa mente: o que João desejava transmitir aos destinatários de seu livro? O que interessaria aos cristãos do primeiro século saber alguma coisa sobre Estados Unidos. (3) vir. ele não compara. Em outras ocasiões.6-7. Falamos do Apocalipse como algo oculto.3 e 11.4 e 22. O QUE É APOCALIPSE? .2. os termos "como". Era onde a perseguição estava sendo mais cruenta. Os destinatários são as sete igrejas da Ásia (em geral. O livro mostra que Deus tem um plano.5 e 16. Tudo terminará nas mãos dele. Mas é uma revelação. 12. o nome do livro é Revelation (Revelação). APOCALIPSE Fim Nova terra Novo céu A Nova Jerusalém não precisa do sol Derrota de Satanás Cristo Igreja (noiva) Fim do pecado Fim da maldição Acesso à árvore da vida. com todo joelho se dobrando diante dele.10.Esta palavra. de origem grega. pois 22. que termina com a vitória de Cristo. como se nota: GÊNESIS Início Criação da terra Criação do céu Criação do sol Vitória de Satanás Adão Eva Entrada do pecado Maldição Bloqueado caminho à árvore da vida. 8.14-15.8 e 22. 2. Como narrá-las? Ele tenta fazê-lo.11 e 17. Era para onde se enviavam os prisioneiros na época do imperador romano Domiciano (81 a 96).4 e 21.6. 15. 8. e não lhes dar um sentido atual.1.7). Presume-se que a data tenha sido o ano 95. . 20. a 56 km da costa da Ásia Menor (Turquia).4.19.21 é a bênção tradicional com que se encerravam os livros. 4. familiarizados com os símbolos. 6. Isto já fica claro em 1. 9. 19. As ocorrências de "como" . e 1. TEMA – O tema do livro é o conflito entre bem e o mal. GÊNESIS X APOCALIPSE – Há um nítido paralelo entre Gênesis e Apocalipse. "semelhante" e o verbo "parecer" são utilizados para dar uma idéia de suas visões.12-13. Por isto que devemos procurar o sentido dos símbolos naquela época. Assim. O SIMBOLISMO NO APOCALIPSE – A linguagem do Apocalipse é altamente simbólica. Há três palavras-chaves que servem de rumo do conteúdo: (1) vencer (Ap 2 e 3.9. Rússia e Japão? Mais uma coisa a se considerar: João viu realidades espirituais indescritíveis. Os cristãos. mas usa as figuras de forma direta. 4. o comunismo e o papa no livro.7. 4. significa "revelar. se caísse em suas mãos. através de comparações. Foi uma maneira de tornar seu conteúdo inacessível aos romanos ou outros perseguidores. DADOS GERAIS DO LIVRO – O autor se declara como sendo João (1. desvendar”.7. alusivo à vinda de Cristo (Ap 1.18.6.1. entenderiam sua mensagem. fundadas por Paulo). 7. As ocorrências de "semelhante" . 10. rochosa e estéril.11. O local de sua escrita foi Patmos. o Japão. 4. 9-11). Ver os Estados Unidos. Em inglês. 3. ilha vulcânica. O personagem central do livro é o Cordeiro. é uma violência ao texto. 2. O versículo-chave é 1. em comparações implícitas. mostrar. 7. 2.1.3. Esta é a última palavra revelada do livro.10. 17.19 tem sido visto como uma proposta de esquema do autor. 6.20).18 e 20). Mais uma vez.18.

tudo isso era do conhecimento das igrejas da Ásia Menor. não é com selo de correios. trombetas. Temos que ver o sentido do símbolo naquela época e não na nossa. os livros eram rolos de pergaminho. que escreviam mensagens e as espalhavam. como os documentos reais. Portanto. tinha a marca do anel do rei. Mar Insegurança. O selo. relâmpagos. O SIMBOLISMO DE FENÔMENOS E ELEMENTOS NATURAIS E SEUS SIGNIFICADOS ELEMENTO Ar SIGNIFICADO Vida OBSERVAÇÃO É nossa necessidade urgente mais Tempestade (raios. mas uma marca de segurança. Isto era feito para que não houvesse violação. cabelos. João não era um Boris Karloff nem um Stephen King. lacrada. para não ser aberto. Precisamos conhecer o significado de cada símbolo naquela época. peles de animais.1). Talvez tenhamos dificuldades nesta tarefa. cores. João ainda usa figuras como fenômenos naturais. Ele vê um livro selado com sete selos (5. além de um livro. vestes. . não poderia fazer outro igual para substituí-lo. mostrei que isto era para dizer que o livro não podia ser aberto por ninguém.Os símbolos usados no livro eram conhecidos pelos seus destinatários. Era a marca de segurança. Quando João vê um livro selado. Na época de João. CORES E SEUS SIGNIFICADOS COR Preto Vermelho (sangue) Vermelho (púrpura) Amarelo pálido (ou verde) Amarelo ouro Verde Branco SIGNIFICADO Luto. perigo. ou seja. em processo semelhante. letras gregas. relacionado a Cristo Roupa dos reis Os elementos do tabernáculo eram de ouro Cor da natureza vegetal. Perturbações na vida Causa medo trovões. animais. costumavam ter seu selo e o colocavam na sua correspondência. Mas a maior dificuldade será nos despirmos da mentalidade delirante de que o Apocalipse é um depósito de desgraças narradas e ocultas que vão acontecer. sofrimento Morte ou redenção Realeza Fome Santidade de Deus Esperança Pureza. que alimenta Trono. 12. num documento. Livros selados. relações humanas e até vultos históricos como Jezabel e Balaão. pedras preciosas. saraiva) Fogo Purificação ou destruição Precisamos ver o contexto Pedras preciosas Algumas vezes representamAlgo valioso pessoas. foi uma correspondência circular enviada às igrejas. Isto é um símbolo. etc. carros puxados por cavalos. 11. se alguém o quebrasse. algoO oposto da terra firme. justiça OBSERVAÇÃO Às vezes. O Apocalipse. sinistro. Uma espécie de “contos de terror religioso”. Em mensagem pregada no mês de janeiro de 2003. As pessoas importantes. Geralmente esta era selada.

3. Em Hebreus 1 aprendemos que esse "Filho" é o Senhor Jesus. Outro exemplo é o dragão mencionado em 12. Assim. por exemplo. 7 taças. Perceberemos o objetivo e a mensagem central do autor. Em 20. Alguns povos utilizaram as próprias letras do alfabeto como algarismos. 7 candeeiros. vamos descobrir que ele é auto-explicativo em alguns pontos. plenitude Religião estabelecida. com algumas letras do alfabeto romano e também com o hebraico. 7 trombetas. Lendo até o versículo 9. Assim. 7 estrelas. 7 anjos. O dragão é o Diabo. "Rei dos reis" e "Senhor dos senhores". o autor menciona o "filho varão". ALGUNS PRINCÍPIOS PARA UM MELHOR ENTENDIMENTO . os adivinhos tentam ler o futuro das pessoas. Isso ocorreu. a não ser que os números representem algum valor moral ou espiritual. 7 espíritos. Lendo todo o livro.2. Além disso. Provação Sagrado Grande quantidade 24. A tradição judaica relaciona alguns números a determinados conceitos religiosos ou cósmicos: NÚMERO SIGNIFICADO 1 2 3 4 5 6 7 12 40 70 1000 Unidade Fortaleza. uma bênção ou uma maldição.A numerologia tem sido muito divulgada atualmente devido ao misticismo que nos envolve. O Apocalipse usa tal recurso de forma intensa. a explicação é repetida. Lendo um versículo aqui e outro lá de modo desordenado. teremos uma visão geral.13. como se vê em 1. Assim fazemos um rastreamento de várias expressões que nos possibilitam uma interpretação mais segura sobre o "filho varão" de Apocalipse 12. 14.Para entender um livro. Os números são considerados elementos de sorte e azar e. A comparação com 19. o evangelho de João diz que Cristo é o Verbo que se fez carne. também conhecido como . Em 12.13-16 nos faz compreender que aquele que "regerá as nações com vara de ferro" chama-se "Verbo de Deus". temos a resposta. O SIGNIFICADO DOS NÚMEROS . que "regerá as nações com vara de ferro". dando-lhes valor numérico. O fato de se obter um valor para um nome não nos diz nada. etc. um nome pode ser transformado em números e ter seu valor totalizado.20. 144 mil 666 SENTIDO REFORÇADO A Bíblia usa muito o simbolismo numérico. terminaremos com uma coleção de retalhos desconexos. O texto já nos mostrou quem é o "filho varão": o Senhor Jesus. O Salmo 2 chama de "Filho" aquele que "regerá as nações com vara de ferro". por meio deles. 7 selos.5. principalmente o número 7. Tal conclusão também utiliza o conhecimento geral que temos da Bíblia. precisamos lê-lo por completo. São 7 igrejas. confirmação Divindade Mundo físico Perfeição humana Homem. falha humana Perfeição.

."antiga serpente". próximo da morte. quando Jacó. A origem desta expressão se encontra em Gênesis 49. Jesus é chamado "Leão da Tribo de Judá" (5. sendo ele o definitivo sacrifício tantas vezes representado pelos cordeiros mortos durante as páscoas realizadas desde a saída de Israel do Egito (Êx. Esta é a principal regra de hermenêutica: a Bíblia interpreta a Bíblia. Que serpente é essa? A de Gênesis 3.12). abençoou cada um dos seus filhos. Jacó profetizou sobre a vinda do Messias (Gn 49. Há uma "linguagem bíblica" que muitas vezes permite que o texto de um livro seja interpretado por outro livro bíblico. Quem é o Cordeiro do capítulo 5? Não há nenhum mistério sobre tal figura. uma vez que João Batista apresentou Jesus como "o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (Jo 1. Ao falar de Judá.29).5).8-12).

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