Você está na página 1de 143

WESLEY

E

SEUSÉCULO

Um estudo de Forças Espirituais

Pelo

Rev. W. H. Fitchett,

B. A. L. L. D.

Diretor do Colégio das Senhoras Metodistas, Hawtthorn, Melborne Presidente da Igreja Metodista da Austrália. Autor de “Como a Inglaterra salvou a Europa”

-----------

Vertido em português por Eduardo E. Joiner

-----------

Volume I

1916

Tipografia de Carlos Echenique Porto Alegre

Essa edição eletrônica e com linguagem atualizada é uma publicação do site da Igreja Metodista de Vila Isabel, Rio de Janeiro, Brasil. www.metodistavilaisabel.org.br

OBS: As palavras e expressões entre parênteses e grafadas em vermelho são um acréscimo dessa edição visando facilitar a leitura de um livro publicado em 1916 e que usa palavras e expressões muito pouco conhecidas nesse início de Século XX.

Prefácio

O Lugar de Wesley na História

Se João Wesley, o exigente, narigudo e queixudo homenzinho, que, aos 9 de março de 1791, foi levado à sepultura por seis pobres, deixando nada senão uma boa biblioteca, uma bem gasta sobrepeliz (veste branca usada pelos clérigos sobre a batina), uma reputação muito vilipendiada, e a Igreja Metodista voltasse ao mundo agora, enquanto muitos estão a derramar-lhe à cabeça tanta tinta de admiração, talvez seria mais surpreendido do que qualquer outro homem sobre o planeta. Pois se Wesley alcançou a fama foi sem cortejá-la. Seeley diz que a Inglaterra conquistou e povoou a metade do mundo num acesso de sonambulismo. E se Wesley ed ificou uma das maiores entre as Igrejas hodiernas, e deu um novo ponto de partida para a história religiosa nos tempos modernos, fê-lo sem premeditação.

Durante mais de uma geração depois de sua morte os historiadores ou ignoravam ou não se importavam com João Wesley. Era tido por um fanático, visível à humanidade por um momento, sobre uma onda de fanatismo, para desaparecer na escuridão sem deixar quem o chorasse nem o lembrasse.

A literatura recusou tomá-lo a sério, negando-lhe direito a lugar qualquer entre os afamados de todo o tempo. Mas afinal Wesley chegou ao reino de sua fama. Os maiores elogios, que são lhe tributados hoje, não vêm do íntimo da Igreja que ele fundou, mas dos de fora. Leslie Stephen o descreve como o principal capitão-mor entre os homens de seu século. Macaulay ridiculariza os escritores de livros intitulados “História da Inglaterra” que não descobrem, entre os eventos determinantes dessa história, o nascimento do Metodismo. Ele afirma que Wesley “possuía uma capacidade regente em nada inferior àquela de Richelieu" . Matheos Arnold tributa-lhe louvor, ainda mais nobre, quando o chama de “um gênio de piedade”. Southey, que escreveu a vida de Wesley, sem entender, mesmo superficialmente, o seu segredo, assevera que, “foi a inteligência mais influente do século passado; o homem que terá conseguido os maiores resultados, séculos e talvez milênios no futuro, caso a presente raça de homens subsistir por tanto tempo”. Buckle o intitula, “o primeiro entre os estadistas eclesiásticos”.

Leckey diz, que a humilde reunião, na rua Aldersgate, onde João Wesley se converteu, “constitui uma época na hist ória inglesa” acrescentando, que a revolução religiosa começada na Inglaterra pela pregação dos Wesley, “é de maior importância histórica do que todas as conquistas gloriosas, por terra e mar ganhas, sob o governo de Pitt". Ele afirma que Wesley foi uma das principais forças que salvaram a Inglaterra de uma revolução, tal como a que visitou a França. O Sr. Agostinho Birrell diz que, “nenhum outro fez uma obra tão vital para a Inglaterra; nem se pode tirá-lo da vida nacional”.

Em suma, a Inglaterra se acha tão intimamente relacionada com Wesley quanto com Shakespeare. E como as forças que nascem da religião são mais poderosas do que qualquer coisa conhecida na literatura, é conclusão lógica que, na determinação da história da raça que fala a língua inglesa, Wesley é de maior importância do que Shakespeare.

Que houve, pois, no próprio Wesley, ou no seu trabalho, para justificar tão grandiosos elogios por parte de autoridades tão diversas? Em certo sentido, o menor monumento a Wesley, é a Igreja que, ele edificou; entretanto, a escala e majestade dessa Igreja não são facilmente explicadas, nem tão pouco a rica e crescente energia pujante em sua vida. Quando Wesley morreu em 1791, as suas “Sociedades” na Grã-bretanha contavam 76.000 membros e 300 pregadores. Hoje, o Metodismo na Grã-bretanha, no Canadá, nos Estados Unidos e na Austrália, tem 49.000 ministros em seus púlpitos, e cerca de 30.000.000 de pessoas em seus auditórios. Tem construído 88.000 igrejas; e todos os domingos ensina a mais de 8.000.000 de crianças em suas Escolas Dominicais.

Os ramos do Metodismo são, em certo sentido, mais pujantes do que o tronco original. No Canadá, em uma população inferior a 6.000.000, quase 1.000000 são Metodistas. Na Austrália uma pessoa em cada nove pertence à Igreja de Wesley. Em alguns pontos, pelo menos, é a mais pujante forma do Protestantismo no mundo. A Igreja Metodista nos Estados Unidos levantou 4.000.000 de libras esterlinas em comemoração do seu centenário - nunca houve na história do Cristianismo outra soma tão grande levantada em um só esforço por qualquer Igreja.

O tempo é um crítico áspero; dissolvendo, qual um forte ácido, todos os embustes. Mas a Igreja que Wesley fundou faz mais do que

sobreviver a esta prova. Um século depois da morte de Wesley ela está bem perto de cem vezes de que era quando ele a deixou.

Entretanto, repetimos que o verdadeiro monumento de Wesley não é a· Igreja que tem o seu nome. É a Inglaterra do século XX! Mais ainda, é o temperamento do mundo inteiro de hoje; os novos ideais na política, o novo espírito na religião, o novo padrão na filantropia. Quem quer entender o trabalho de Wesley deve comparar o espírito moral do século XVIII com o do século XX; pois, um dos mais poderosos fatores pessoais na produção desta maravilhosa mudança se acha no próprio Wesley.

De algum modo, o século XVIII é o mais vilipendiado período na história inglesa. É a “Cinderela” dos séculos. Ninguém tem por ele uma palavra de louvor. Thomas Carlyle descreve-o em uma frase pungente:

“Alma extinta; barriga bem viva”. Entretanto não se pode condensar um século no estreito limite de um epigrama, e ainda menos num que foi escrito com fel. O século XVIII sofre porque colocamo-lo numa falsa perspectiva. Comparamo-lo com os séculos seguintes, e não com os seus precedentes. Os seus traços são deveras sombrios quando encarados entre a revolução inglesa do século XVII que destruiu os Stuarts, e a revolução francesa do século XIV que expulsou os Bourbons. Mas não sejamos injustos, nem sequer, com um século! O século XVIII é para a Inglaterra, um fio de nomes ilustres e de feitos estupendos. Achou a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda, reinos separados e deixou-os unidos. Se bem que nos tirou os Estados Unidos. Mas em compensação, deu-nos o Canadá, as Índias e a Austrália. Se ele deu a Inglaterra doze anos do malfadado governo de Lord North, também, contribuiu com os vinte anos do esplendoroso governo de Guilherme Pitt. Se esse século testemunhou o fuzilamento de um almirante inglês, no tombadilho de seu navio, pelo crime de covardia, e uma frota inglesa revoltada em Nore, também, presenciou as vitórias marítimas de Rodney, na batalha dos Santos; de Lord Howe, ao 1° de Junho; e de Nelson, no Nilo. Foi ganha a batalha de Blenheim no ano seguinte (1704) ao do nascimento de João Wesley (17/6/1703), e a do Nilo no ano que ele morreu (2/3/1791) . O século que correu entre tais acontecimentos não podia ser inglório. Foi indubitavelmente um século de crescimento social e político. A Inglaterra de George lII e de Pitt foi muito superior à da Rainha Anna e de Walpole.

O verdadeiro escândalo de Inglaterra no século XVIII , a lepra que lhe envenenou o sangue, a mancha negra sobre o escudo luminoso de sua história, estava na decadência geral da religião que reinava nos

seus primeiros cinqüenta anos. A fé da Inglaterra estava moribunda. Os seus horizontes espirituais escureciam com as trevas de uma meia - noite polar, e estavam frios como as geleiras árticas.

Só por um esforço da imaginação histórica se pode recordar a condição de Inglaterra em 1703. Quando Wesley nasceu ainda existiam homens que viram, na presidência do tribunal, o juiz Jeffreys; e como testemunha, o Tito Oates; e sete bispos no cepo. Montesquieu, que estudou na Inglaterra desse século XVIII, através de seus olhos penetrantes (críticos) de francês, diz laconicamente: "Religião, tal coisa não existe na Inglaterra". Sabemos que isto não foi a pura verdade, pois a existência do presbitério de Epworth o desmente; e sem dúvida houve muitos outros lares ingleses semelhantes àquele em que Suzana Wesley era mãe. Mas as palavras do astuto francês continham uma terrível aparência da verdade. Nunca antes, nem depois, esteve o Cristianismo tão vizinho à morte.

Quem não se lembra das sentenças que o Bispo Butler, um espírito tão melancólico, sutil e poderoso, prefixou à sua "Analogia”. Ele escreveu: "De certo modo já se toma por estabelecido que o Cristianismo não somente é assunto indigno de investigação, mas que

agora, afinal tem-se provado fictício

presente como se isto fosse admitido, e como se nada restasse se fazer senão expô-lo como alvo principal de riso e mofa". Entre Montesquieu e Butler, o grande francês e o ainda maior inglês, que grande procissão de testemunhas poderiam ser citadas em prova da decadência da fé no

começo do século XVIII! E morta a fé, que resta mais?

Os homens o tratam no século

Aqueles que desejam ver a moralidade desse período, a acharão refletida na arte de Hogarth, na política de Walpole, nos escritos da Sra. Aphra Benn e de Smolett, e nos divertimentos do Clube dos Loucos. Ela acha-se registrada na podridão da literatura da época, na crueldade das leis, e no desespero de sua religião. O Cristianismo não chegou a perecer, mas chegou bem perto a sua agonia mortal nesse século . O historiador Green assevera que havia uma revolta aberta contra a religião e as Igrejas nos dois extremos da sociedade inglesa. “A classe pobre foi ignorante e brutal, num grau que agora seria difícil imaginar- se. A classe abastada, que chegou a uma descrença quase total na religião, acrescentava um viver tão imoral que, felizmente, é hoje quase inconcebível.”

Então veio um grande avivamento! O movimento mais maravilhoso na história do século XVIII, cujo maior benefício para o

povo que fala a língua inglesa não foi nada no domínio da política, nem da literatura, nem da ciência; não foi o desenvolvi mento da classe média, que deslocou o centro do poder político; nem foi o grande despertamento industrial, que multiplicou dez vezes a riqueza da nação; mas está no renascimento de sua religião! E disto Wesley foi, há um tempo, o símbolo e a causa.

Este avivamento traduziu para a vida inglesa, e em termos muito mais felizes, a reforma que Lutero efetuou na Alemanha. A reforma de Wycliffe não teve raiz; a reforma no tempo de Henrique VIII foi pior: foi política e destituída da moral. O verdadeiro despertamento da vida religiosa do povo que fala a língua inglesa aconteceu com Wesley. Afirmar-se que foi Wesley que reformou a consciência de Inglaterra é verdade, mas não é tudo, pois ele a recriou! Estava morta - duplamente morta; e por seus lábios Deus soprou nela outra vez o fôlego vital.

Sente-se hoje o pulso de João Wesley e m cada fase da religiosidade inglesa. O fogo dele arde nas múltiplas formas da nossa filantropia. Citamos o historiador Green mais uma vez: "Os Metodistas constituíram o menor resultado do avivamento metodista. A sua influência sobre a Igreja acabou com a letargia do clero. Mas o seu resultado mais benéfico está no esforço constante, que desde então até hoje, nunca cessou, para diminuir o crime, a ignorância, o sofrimento

físico, a degradação social das classes profligas (abatidas, destruídas) e

O grande avivamento reformou as nossas cadeias, aboliu o

tráfico de escravos, tornou mais clemente o nosso código penal, e deu o

primeiro impulso à instrução (educação) popular”.

pobres

Mas qual foi o segredo de João Wesley? Qual o estranho encanto que empregou para efetuar tamanho milagre? Criar-se uma nova Igreja é um grande feito, mas reformar uma Igreja já velha e amortecida é, talvez, tarefa ainda mais difícil.

Como foi que Wesley conseguiu as duas coisas? A resposta acha-se na história narrada nestas páginas. Mas compreendamos desde já que seria fútil buscarmos a explicação num mero dote de um gênio pessoal. Os elogios que se tecem a Wesley são, muitas vezes, desmedidos. Não foi ele, como quer o Buckle, “o primeiro entre estadistas eclesiásticos” – um Leão X de batina. Não possuía como julgou Southey, "a mais robusta inteligência do seu século”. Tem algo de verdade a crítica de Coleridge quando diz, que Wesley tinha uma inteligência lógica, mas não filosófica. Nada teve do gênio sonhador de Bunyan; não se comparava, na extensão e na largura de seus

pensamentos, com o autor da "Analogia". Se descermos a nomes e tempos mais recentes, não teve a profunda e sutil inteligência de Newman. O segredo de sua obra não se acha no bem designado e magnífico mecanismo eclesiástico com que dotou a sua Igreja. As instituições características do Metodismo não originaram o grande avivamento; são apenas os resultados. Wesley não inventou qualquer doutrina nova; nem tão pouco aumentou a soma de conhecimentos cristãos por qualquer verdade nova. Ele mesmo disse: “Eu somente ensino a simples e velha religião da Igreja Anglicana”. Ou como disse em outro lugar, “Verdades que constituíam simplesmente os ensinos gerais e fundamentais do cristianismo”. E isto foi a pura verdade. Wesley não redescobriu o cristianismo; não o perturbou com uma nova heresia, nem dotou-o de uma nova doutrina; nem tão pouco colocou as doutrinas velhas em nova perspectiva.

O fracasso da religião do século XVIII estava nisto: tinha deixado

de ser uma vida, nem tocava na vida. Fora exausta (esvaziada) de seus elementos dinâmicos - a visão de Cristo Redentor, a mensagem de um perdão presente e pessoal. Estava congelada numa teologia; achava-se cristalizada num sistema filosófico; tinha se tornado em simples adjunta política. Ninguém a prezava, nem a estimava, nem procurava desfrutá- la como sendo um livramento espiritual; livramento este, ao alcance dos próprios dedos; livramento realizável na consciência individual. A religião, traduzida nos termos da experiência vital do homem, subsistindo como uma energia divina na alma, era coisa esquecida. Uma lâmpada elétrica separada da corrente elétrica é somente uma série de voltas de delicados fios sombrios e mortos. E o próprio Cristianismo, na Inglaterra, ao começo do século XVIII, foi essa série de voltas de fios amortecidos. Mas Wesley fez derramar a corrente mística da vitalidade divina sobre a calcinada alma da nação, convertendo a escuridão em chamas.

O segredo de Wesley, portanto, não se achava no seu gênio de

estadista, nem na sua habilidade em organizar, nem na sua capacidade intelectual. O seu “segredo” desde o princípio até o fim, pertence ao domínio espiritual. A energia que vibrava no seu olhar, que emanava de sua presença, que fazia de sua vida uma chama, e de sua voz um encanto, fica, em última análise, na categoria de forças espirituais. Mas tudo isto demonstra quão elevado era o plano em que Wesley trabalhava, e quão grandes eram as forças que representava.

George Dawson, em seus “Discursos Biográficos”, diz: “Nunca penso em Wesley sem associá-lo com os quatro homens que tiveram o

mesmo nome de batismo, e dos quais a Inglaterra se orgulha, a saber:

João Wycliffe, o reformador antes da Reforma Protestante de 1516; João Milton, a maior alma que a Inglaterra jamais conheceu; João Bunyan, o autor de “O Peregrino”, o melhor livro – excetuada a Bíblia – que o mundo jamais apreciou; e João Locke, que dedicou uma esclarecida inteligência, uma educação esmerada e uma consciência pura em colocar, sobre as bases da filosofia, aquilo que antes se considerara um simples sentimento. Então veio João Wesley, e creio que, considerado em tudo, é digno de andar na companhia desses quatro”. Mas Dawson não atinou que, não obstante Wesley não possuir o gênio de Milton, nem a imaginação luminosa de Bunyan, nem a inteligência sutil de Locke, contudo, exerceu uma influência muito mais profunda sobre a história inglesa do que os outros três juntos.

Há homens que vivem na história por terem incorporado em si mesmos as idéias regentes do seu tempo, fazendo-as vitoriosas. Há outros, de poderes mais elevados, que não são refletores apenas, mas criadores dos impulsos que regem o mundo em que habitam. Eles amoldam o século sem serem por este amoldados. Napoleão Bonaparte pertencia ao primeiro tipo: não criou a revolução, mas tornou-se o herdeiro e a expressão dela. Cezar, Imperador Romano, foi da outra ordem superior: não somente achou um novo canal para as correntes da história romana, mas mudou a direção dessas correntes; pela força de seu gênio ele dotou a história e a ordem política de Roma com uma nova fisionomia.

João Wesley também, julgado pela escala e permanência de sua obra, pertence ao tipo superior. Não foi simplesmente o intérprete do seu século, o figurão acidental de uma revolução espiritual que teria se posto em movimento independente dele, o centro humano, em cujo redor ter-se-iam cristalizados os impulsos que lentamente fermentavam em milhares de outros. Não foi a reflexão do seu século, mas o ajustou a um novo molde; fê-lo vibrante com a energia de uma nova vida. Est ava, na realidade, em oposição ao temperamento essencial do seu século; entretanto, fê-lo conformar (tomar a forma, experimentar) a seu próprio (um temperamento e uma espiritualidade marcados pela vitalidade e santidade da Graça de Deus) . Ele foi o expoente de influências que mudaram a história religiosa de Inglaterra.

Em suma, Wesley foi grande; grande no simples escopo e escala de inteligência; maior do que a sua geração imaginava, ou do que a sua própria Igreja ainda reconhece. Ninguém é capaz de estudar a vida e a obra de Wesley sem receber uma mais profunda compreensão da

escala do homem em comparação com as outras figuras notáveis da história. Mas a obra que efetuou foi muito maior do que o próprio Wesley; e maior, porque teve o seu segredo no domínio (poder, força) espiritual (na graça e poder de Deus).

É justamente isso que torna a sua história em uma inspiração para todos os tempos. Os supremos dotes de inteligência não são transferíveis. O gênio criador de Shakespeare, a imaginação penetrante de Dante, a habilidade de Darwin em combinar mil fatos aparentemente desligados numa generalizarão triunfante, a capacidade de Wellington em adivinhar “que havia do outro lado do morro" - eram dotes originais da natureza. Eram dons, não aquisições. Mas as grandes forças e graças do domínio espiritual não dependem da liberalidade nem da negação da natureza. O seu segredo não está escondido nas convulsões da massa encefálica; antes depende de condições e está, portanto, ao alcance de quem quiser.

Repetimos: o segredo de Wesley está justamente aqui. Grande como foi a sua obra, contudo, a sua explicação é fácil e simples. E o reconhecimento deste fato, logo no começo, é o que torna a história da vida de Wesley digna de ser escrita e lida.

Sim! Através o que se costuma chamar a magreza do século XVIII estende-se uma áurea corrente de nomes poderosos. O Marlborough - que venceu a Blenheim no ano que Wesley nasceu – encabeça a lista; o homem que sob a máscara de um semblante sereno escondia os mais terríveis dotes militares conhecidos a história inglesa. O Nelson e o Wellington acham-se perto do fim desse século. Entre as figuras ainda visíveis à história são os dois Pitts - pai altivo e filho ainda mais; o Wolf, com o nariz apontando para as nuvens, nos deram a América; o Clive, cuja testa franzida ganhou-nos a Índia; e o Canning, que chamou à existência o novo mundo para restaurar o equilíbrio do velho. O papel do século em literatura foi esplêndido; corre desde Swift e Addison, Johnson e Goldsmith, Pope e Gibbon, até Byron e Burns, até Coleridgo e Wordsworth. Isaac Newton é o seu representante na ciência; Burke e Pitt no estado; Wilberforce na filantropia. Entretanto, naquela multidão de grandes, o expoente da força que influiu mais profundamente na história inglesa foi o narigudo e ruivo semblante de João Wesley, de olhar penetrante, queixo dominante e cachos cumpridos.

Alguns querem que Newman, nascido dez anos depois da morte de Wesley (, tenha exercido uma tão profunda influência sobre a vida religiosa do seu país como ele (Wesley). É perdoável para um

protestante convicto, a opinião de que a influência de Newman foi má, e não boa. Mas, à parte disso, deve-se lembrar que, dos seus noventa anos, Newman lançou os primeiros quarenta e cinco na balança a favor da Igreja Anglicana e os últimos quarenta e cinco a favor da Igreja Romana. Nem a Anglicana nem a Romana podem chamá-lo seu, na totalidade; pois passou a primeira metade de sua vida em protestar contra a Romana, e a segunda metade em protestar contra a Anglicana. George Washington é o único nome nos anais do século dezoito que rivaliza com o de Wesley em sua influência sobre a nossa raça, e Wes- ley representa a energia mais perdurável.

Tudo isto se pode dar (tributar) a Wesley, não porque o seu gênio sobrepujasse os homens do seu século, mas, porque lidava com forças mais elevadas do que eles. Aquele que desperta as grandes energias de religião, toca na força motriz da vida humana; uma força mais profunda do que a política, mais elevada do que a literatura, e mais larga do que a ciência. Wesley trabalhou num domínio abanado pelas brisas da eternidade.

PARTE I

O Feitio do Homem

CAPÍTULO I

Forças ancestrais

João Wesley veio de notáveis antecedentes: os seus antepassados por três gerações eram nobres de nascimento, doutos à força de estudos, clérigos por escolha, e mártires, em certo sentido, à dureza da sorte. Pertenciam a um século duro: época de despejos e proscrições em que a intolerância cristalizava-se em leis do parlamento e ostentava-se por religião. Daniel Defoe, por três vezes, foi exposto publicamente no tronco, no mesmo ano em que João Wesley nasceu pelo simples fato de ter escrito a incomparável peça de ironia, intitulada:

“Um meio Breve e Fácil de acabar com os Dissidentes”.

Uma grande tempestade de crueldade legalizada desabou sobre os Wesleys daquela época. Bartolomeu Wesley, bisavô de João, teve de despejar (desocupar) a boa casa paroquial de Dorsetshire em antecipação da expulsão geral provocada pela “Lei de Uniformidade” em 1662 (que colocou os cargos da Igreja Oficial e do Estado nas mãos dos anglicanos e proibiu as reuniões dos puritanos. Por causa do Ato de Uniformidade, em 1662, que exigia total aceitação do Livro de Orações anglicano, nada menos que dois mil ministros presbiterianos, independentes e batistas foram obrigados a deixar suas igrejas e os puritanos se tornaram uma parte da tradição não -conformista da Inglaterra). O filho de Bartolomeu de nome João, ainda mais letrado do que o pai, mas de fibra menos rígida, foi encarcerado em 1661, um pouco antes da expulsão do pai, por não usar o “Livro de Oração Comum”. Foi arremessado (expulso) da paróquia de Blandford em 1662, e depois vivia oprimido e perturbado sob as leis cruéis desse período. Era natural de Weymouth, mas não lhe foi permitido residir ali; e uma boa mulher, por dar-lhe pousada, foi multada em vinte libras pela “ofensa”. “Muitas vezes perturbado, diversas vezes, preso, quatro vezes encarcerado”, é o tom melancólico de seu paciente diário. Sob a infame "Lei das Cinco Milhas” ele foi tocado de lugar em lugar, até a sua morte, quando ainda comparativamente jovem, vitimado pelo espírito cruel dessa época.

Samuel Wesley, neto de Bartolomeu e pai de João Wesley, possuía todas as virtudes essenciais de seus antecedentes – a mesma paixão pelo estudo, a mesma coragem, a mesma independência de

espírito, mas era de um temperamento mais rígido do que o seu pai João. Esse espírito independente tomou um curso um tanto surpreendente; pois o filho e neto de ministros vitimados do despejo, decidiu que a Igreja (a Anglicana, a igreja oficial do estado inglês), que lhes despejou, tinha razão, e uniu-se ao seu ministério, contrariando assim duas gerações de parentes ludibriados! Esteve nesse tempo numa escola dissidente, rapaz que apenas alcançara sua maioridade; mas o caráter da dissidência que o rodeava bem podia escandalizar a um jovem sério e generoso. Encontrou ali simplesmente uma espécie de amargurada política, absolutamente despida de idéias e forças religiosas. Assim, Samuel Wesley renunciou a ela, e seguiu a pé para Oxford, com exatos quarenta e cinco shillings no bolso, onde se matriculou no colégio de Exeter como “estudante pobre”.

Foi nesse tempo, mais ou menos, que uma menina de treze anos, Suzana,filha de um famoso ministro dissidente de Londres, estava pondo na balança de seus juízos a seu pai e a teologia dele, decidindo tanto contra o pai como contra as suas opiniões!

O moço destemido que caminhara para Oxford no rigor do inverno, com tão pouco dinheiro no bolso, mas com tão nobre propósito no coração, e a menina notável que estudara a teo logia quando ainda se vestia de criança, não se conheciam ainda; mas foram destinados a se casarem. Existiam entre eles certas afinidades bem notáveis, e quando se encontrassem e casassem, seria razoável esperar que seus filhos possuíssem qualidades descomunais.

Todos os auxílios que Samuel Wesley recebia da família enquanto cursava a universidade importava em apenas cinco shillings; entretanto saiu no fim com o seu pergaminho e com dez libras e quinze shillings no bolso! Talvez nunca houvesse um estudante que desse menos ou que recebesse mais de Oxford do que Samuel Wesley. Nas universidades escocesas gerações de estudantes rígidos têm cultivado muita literatura com muito pouco mingau de aveia, mas bem se pode desafiar as universidades ao norte do Tweed que apresentem um exemplo de uma formatura nutrida de tão pouco dinheiro, ou de dieta tão minguada como no caso de Samuel Wesley.

Ele serviu de cura (vigário) em Londres por um ano, depois foi capelão de um navio na marinha real durante outro ano e depois ganhou a posição de capelão de um regimento, em virtude de um poema que escrevera sobre a batalha de Blenheim (uma famosa batalha da Guerra da Sucessão Espanhola, em 13 de agosto de 1704,

que ocorreu próxima à vila de Blenheim na Bavária, atual Alemanha, onde as tropas anglo-austríacas, lideradas pelo líder militar britânico, John Churchill, primeiro duque de Marlborough e o general austríaco Eugene de Savoy, venceram os franceses e os bávaros), posição que mais tarde perdeu, segundo diz alguém, por ter publicado um discurso contra os Dissidentes . Foi-lhe dado a paróquia de Epworth, que foi depois, aumentada com a de Wrocte.

Samuel, o pai de João Wesley, mesmo depois de passado tanto tempo, desperta uma admiração meio humorística, meio exasperadora. Era homenzinho irascível, com olhar irriquieto, de sentimentos nobres, ativo de pensamento, de grande constância e coragem, mas algo de desajeitado e irresponsável na sua natureza. Quis - contra a natureza - fazer-se poeta; e sobre os seus versos, Alexander Pope (considerado o maior poeta inglês do século XVIII), embora seu amigo, acha tempo no “Dunciad” (escrito satírico cujo nome vem de "dunce", pateta, bobo, tolo) para destilar uma gota de fel. O seu filho João Wesley, que conhecia de vista a má poesia do pai, tendo a lealdade filial lutando com o seu juízo literário, diz de sua obra “Vida de Cristo” em verso: “Os clichês são bons; as anotações regulares; os versos assim, assim”. Elogio de uma temperatura mais gelada, dificilmente se pode imaginar. A obra prima de Samuel Wesley foi um comentário sobre o Livro de Jó, empreendimento este que ter ia proporcionado mais uma oportunidade, para o exercício de paciência àquele mui aflito personagem bíblico (Jó) caso fosse obrigado a lê-lo. “Pobre de Jó”, disse o bispo Warburton, “foi sempre a sua sorte ser perseguido por seus amigos”.

Suzana, a ativa mulher de Samuel Wesley, que amava o seu desajeitado e irascível marido com uma dedicação que maridos em geral bem podem invejar, admite que, entre os incultos paroquianos de Epworth, os talentos de seu esposo estavam enterrados; acrescentando com a habilidade de esposa leal, que ele está “obrigado a um modo de viver para o qual não se acha tão bem qualificado quanto eu desejaria.” Mas isto foi simplesmente a suave crítica da esposa. O marido desajeitado se ocupava em martelar versos laboriosos no seu gabinete, ou montava a cavalo, demandando as convocações onde debatia com os párocos vizinhos, deixando à inteligente esposa o cuidado da paróquia, o cultivo das terras e o governo de seu tão numeroso grupo de filhinhos.

Suzana Wesley seria mulher notável em qualquer século ou país. Era filha do Dr. Anesley, um ministro que havia sofrido ejeção (que fora expulso da casa paroquial onde morava e da igreja onde era vigário por

ser dissidente denro da igreja anglicana) homem douto e de boa família, cuja filha possuía natural inclinação para o estudo. Suzana sabia grego, latim e francês antes de ter vinte anos de idade, e achava-se saturada de teologia. Em suas reflexões, aceitou primeiro o socinianismo (doutrina baseada na teologia de Fausto Socino, falecido na Polônia, em 1604, que era antitrinitária, rejeitava o batismo e a ceia do Senhor como meios de graça e o pecado original e afirmava que Jesus de Nazaré era apenas um homem), para depois tornar a rejeitá-lo. Ela teve um gosto geral pelas questões difíceis, que nos dias suaves de hoje são pouco apreciadas.

Suzana lia os padres primitivos (os Pais da Igreja) e lutava com as sutilezas da metafísica enquanto uma menina de hoje estaria jogando

tênis, ou estudando sonatas. Com treze anos, apenas, ela revistou toda

a matéria em discussão entre os dissidentes e a Igreja, opinando contra

a posição mantida por seu pai e pai tão nobre. Uma menina de tão pouca idade, que estudava a teologia e se julgava capaz de decidir em tal assunto, e que de fato decidiu de um modo tal, e na face de tais autoridades, seria hoje tomada por um portento alarmante. Entretanto Suzana Annesley foi uma linda e espirituosa menina - cuja irmã foi pintada por Lely como uma das mais belas do seu tempo – inteligente, mas modesta, com jeito para negócios práticos. É certo que nem foi descuidada nem melancólica, sendo provavelmente a mais notável mulher de Inglaterra nos dias em que viveu.

Aos dezenove anos casou-se com Samuel Wesley, e durante os

vinte e um anos seguintes deu à luz dezenove filhos. Ela própria

ocupava o vigésimo quinto lugar entre os filhos de seu pai. O século

XVIII foi um século de pequenos vencimentos (salários) e grandes

famílias!

Suzana foi esposa ideal, incomparavelmente superior a seu marido em gênio e jeito, entretanto ingenuamente cega a este fato. Ela bem podia ter discutido a filosofa com a Hypathia (filha do filósofo Téon e nascida em 370 depois de Cristo, era matemática, filósofa e foi a última cientista a trabalhar na biblioteca de Alexandria, antes que fosse destruída), discorrido em latim e grego com a Lady Jane Grey (considerada uma das mulheres mais cultas da sua época, 1537-1554, que subiu ao trono inglês por desejo do Rei Eduardo VI e que foi retirada do trono 9 dias depois por Maria I, filha legítima do rei, e condenada e executada por traição). No entanto com o seu marido desajeitado e impetuoso mostrou -se tão paciente, se bem que, nem

sempre tão submissa como Griselda (personagem da poesia de Lord Alfred Tennyson).

Tanto Samuel quanto Suzana possuía m vontade própria, e ambos costumavam pensar por si mesmos. Ela escrevia depois ao filho João, “É uma infelicidade, quase peculiar à nossa família, que eu e teu pai raramente pensamos do mesmo modo”. Mas é certo que quando discordavam, quase sempre Suzana tinha razão. Entretanto ela manteve para com o seu marido a mais admirável obediência. O pugnaz (briguento) homenzinho mui propriamente despendia muitos de seus versos trabalhosos com a esposa. Eram versos de pé quebrado; e a prosa da vida conjugal é geralmente mais dura do que a sua poesia.

Um dia fatal o pároco de Epworth descobriu que a mulher tinha opinião própria sobre a política, não o acompanhava no responso das orações pelo rei. “Suzana”, disse ele majestosamente, “se havemos de ter dois reis, tenhamos duas camas”; e o homenzinho absolutista, irresponsável e imperioso montou o cavalo e foi embora, deixando à mulher o cuidado da família e da paróquia. Segundo Southoy – mas isto é duvidoso - ela não teve mais notícias dele até falecer o rei Guilherme III, um ano depois, quando teve a condescendência de voltar outra vez para o seio de sua família.

O corajoso casal começou a vida conjugal com uma freguesia (pessoas que freqüentavam a paróquia) que rendia trinta libras por ano; os filhos vinham depressa - como já dissemos, dezenove filhos em vinte e um anos. De modo que a pobreza – sempre assombrada com o espectro (fantasma, assombro) de dívidas, e às vezes tremente (que treme, que balança) à beira da dura necessidade - foi um elemento sempre presente na vida da família.

Muitos anos depois, numa carta dirigida a seu bispo, Samuel Wesley deu-lhe o interessante informe que recebera somente 50 libras por ano durante seis ou sete anos consecutivos, e “ao menos um filho por ano”. O parocozinho de Epworth foi muito dado aos problemas de aritmética familiar para a edificação de seu diocesano. Numa carta ao Arcebispo, comunicando-lhe o nascimento de filhos gêmeos, diz:

“A noite passada a minha mulher me apresentou com uns poucos filhos. Até agora só há dois, menino e menina, e julgo que são todos presentemente. Já tivéramos quatro em dois anos e um

Quarta·feira de manhã eu e a minha

esposa reunimos os nossos haveres, que importavam em seis shillings, para comprar carvão”.

dia, três dos quais vivem

Pode·se perdoar o espírito de ansiedade num pai que, com somente seis shillings no bolso, tem de providenciar pela chegada de gêmeos. Mas o chefe da família Wesley deixava este dever familiar, como quase tudo mais, à sua mulher. Era ela quem carregava o fardo dos cuidados caseiros, enquanto seu marido assistia às convocações ou ia para a prisão por dívidas no espírito de vero filósofo. Ele escreveu ao arcebispo de York, logo que as portas do Castelo de Lincoln fecharam-no dentro: “Agora posso descansar, pois já cheguei ao abrigo onde, há muito, eu esperava parar” Incidentalmente, acrescentou:

“Quando aqui cheguei, os meus haveres só importavam em pouco mais de dez shillings, e a minha mulher em casa não tinha tanto.” Evidentemente este notável marido não reconhecia que a mulher deixada com um grupo de filhinhos, e menos de dez shillings tinha mais razão de incomodar-se do que ele. Ela ao menos, não podia assentar- se para escrever filosoficamente: “Agora posso descansar”. Ele acrescentou: “Ela logo me mandou os seus anéis, porque nada mais possuía com que pudesse me socorrer; mas eu lhos devolvi”.

Somente uma vez se ouviu queixumes desta mulher corajosa. Enquanto seu marido ainda jazia preso em virtude de dívidas, o Arcebispo de York perguntou-lhe: “Dizei-me madame Wesley, de fato jamais sentiste falta de pão?”.

“Meu senhor”, respondeu ela, “para dizer a verdade, nunca me faltou o pão; mas tenho tido tanto trabalho para arranjá-lo antes de comer, e para pagá-lo depois, que muitas vezes ele é me muito amargo; e julgo que se ter pão em tais condições aproxima bem ao grau de miséria em que não se tem nenhum”.

Mais tarde ela escreveu acerca do “inconcebível desespero” que freqüentemente sofriam nesses tempos tristes; e uma das filhas, Emília, fala em tom mais agudo da ‘intolerável necessidade” que a família padecia, e da “dura precisão de coisas indispensáveis“ que não raras vezes lhes acometia.

É indubitável que Samuel Wesley dirigia mui mal os seus negócios financeiros. Praticamente entendeu toda a triste filosofia de dívidas. Ele escreve: “Sempre me pedem dinheiro antes de eu tê-lo ganho, e tenho de comprar tudo nas piores condições”. Mas faltava-lhe o bom senso no manejo do dinheiro. Mui delgada era a parede que separava a sua casa da mais urgente necessidade; entretanto este incomparável marido e pai podia gastar não menos de 150 libras em

assistir por três vezes a Convocação! Mas não obstante isto era mui sensível a qualquer censura de seu jeito e cuidado como chefe de família; e, ao cunhado que lhe repreendeu asperamente sobre o assunto, citando as Escrituras em abono da tese pouco confortável que, “quem deixa de prover pela própria casa é pior do que o infiel”. Ele ofereceu a seguinte exposição de seus negócios. O algarismo tem uma confusão característica e deliciosa, e bem podem levar um bom contador ao desespero; contudo mostram que, se o impaciente homenzinho nunca soube viver dentro dos limites de seus vencimentos, ao menos conseguiu existir com muito pouco. Nota -se que tudo está escrito na terceira pessoa:

 

Libra

Shilling Pence

Imprimis,

quando

primeiro

foi

a

Oxford,

tinha

em

2,50

dinheiro

Viveu

ali

até

formar-se

bacharel,

sem

qualquer

0,50

preferência ou auxilio, senão uma coroa

 

Pela benção de Deus sobre o seu próprio empenho trouxe a Londres

101,50

Chegado a Londres, recebeu ordem; de diácono e um curato, recebendo por um ano

28,00

Neste ano pela pensão, ordenação e hábito ficou endividado, 30 L que depois pagou.

30,00

Então foi ao mar, onde teve por um ano 70 libras que recebeu dois anos depois.

70,00

Então tomou um curato com 30 libras por ano, durante dois anos, e por esforço próprio, em escrever etc. ganhou mais 60 libras por ano.

120,00

Jamais houve uma peça de aritmética mais complicada? Entretanto através dos algarismos confusos transparece o espírito corajoso!

uma

desnecessária, mas franca confissão de sua falta de tino em negócios comerciais:

“Não duvido que uma das razões porque me acho tão embaraçado seja a minha falta de entendimento em negócios deste mundo, e a minha aversão a demandas, circunstância demasiadamente bem conhecida a meu povo. Tive somente cinqüenta libras por ano durante seis ou sete anos consecutivos, começando a vida sem nada, e ao menos um filho por ano, e a mulher doente pela metade do tempo”.

Em

carta

a

seu

arcebispo,

Samuel

Wesley

faz

Deve-se acrescentar a todos os mais males de Samuel Wesley as rixas que tinha com os vizinhos, nascidas pela maior parte de questões políticas, que entre a plebe inculta tomaram um caráter bastante áspero. Judiaram do seu gado, destruíram-lhe a roça, impugnaram-lhe o caráter, e tentaram incendiar a sua moradia. Cobravam-se as décimas com muita irregularidade, e às vezes, à força. Mas o homenzinho rígido possuía, ao menos, a virtude da coragem. Ele disse: “Até aqui somente conseguiram ferir-me, e creio que não podem matar-me”. A relação do sacerdote com os paroquianos era bem curiosa e seriamente perturbada.

Suzana Wesley era mãe notável, e a maneira pela qual governava os seus filhos bem pode provocar o desespero de todas as mães e a inveja de todos os pais até o fim dos tempos. Esta corajosa, sábia e bem criada mulher, com cérebro de teólogo atrás de olhos meigos, e com gosto pelo estudo no seu sangue, possuía elevados ideais por seus filhos: haviam de ser bem criados, doutos e cristãos. A sua maternidade obedecia a um plan o inexorável; e nunca houve quem desempenhasse os múltiplos deveres de mãe com método tão insistente ou com propósito tão inteligente. Toda a vida familiar corria como por um horário: até o sono das crianças foi -lhes ministrado por medida. Todo o filho, ao chegar a certa idade, tinha de aprender o alfabeto dentro de determinado tempo. Esta mãe compreendia que a vontade é a raiz do caráter e, que este é por ela determinado. A família Wesley foi ricamente dotada em matéria de vontade, assim o primeiro passo n a educação de cada filho visava a redução desta força ao governo. Era regra fixa e imperativa que criança alguma recebesse qualquer coisa pela qual chorasse, e o efeito moral sobre o espírito da criança, ao descobrir que o único modo infalível, de não cons eguir o objeto desejado, seria em chorar por ele, devia ter sido admirável.

As crianças foram ensinadas a falar cortesmente; a chorar suavemente, quando realmente houvess e necessidade do choro – e às vezes esta excelentíssima mãe dava a seus filhos abunda nte razão de chorarem.

A Sra. Wesley levou os seus princípios metódicos e o seu

horário para o domínio da religião. Começou logo:

crianças souberam distinguir o Domingo dos outros dias, e logo foram ensinadas a ficar quietas durante o culto doméstico, e a pedir a bênção logo em seguida, isto elas costumavam fazer por acenos,

“Bem cedo as

antes de poderem se ajoelhar ou falar ”. As células de cada cérebro infantil foram bem carregadas com passagens das Escrituras, hinos, orações, etc. A oração foi tecida na própria fábrica da vida diária; as lições diárias de cada filho foram colocadas numa moldura de hinos. Mais adiante havia horas especiais designadas a cada membro da família, quando a mãe falava particularmente com o filho para o qual a hora fora marcada. É provável que aquelas rigorosas introspecções, aquela seriedade de análise pessoal, habituais na vida de Wesley nos anos depois, tivessem a sua origem nessas entrevistas que nas quintas- feiras a Senhora Wesley tivera com o “Joãozinho”.

O sr. Birrell acusa a Sra. Suzana Wesley de dureza, dizendo: “Ela

foi uma mãe rígida, áspera, e quase insensível”. Sr. Lecky diz que o lar de Epworth “não era feliz”. Dificilmente haveria crítica mais injusta. É certo que a vida não fora indulgente para com a Sra. Wesley; o próprio

século não era indulgente. Um traço da mãe espartana estava no seu sangue, e não foi sem causa; pois um espaço mui estreito separava a família de Wesley, em Epworth, da verdadeira miséria. Cada manhã, ao acordar, devia ter sido a preocupação de Suzana Wesley, como prover pão para saciar a fome de sua numerosa família. Condição esta que não era mui favorável ao folguedo e riso; mas ninguém pode estudar os documentos desse lar sem ver que a sua atmosfera era de amor. Amor que, é verdade, era de um temperamento heróico, sem elemento algum de ociosa ternura, e sem qualquer traço enervante de indulgência; mas ainda amor de uma qualidade imorredoura. O próprio João Wesley foi um homem mui pouco sentimental; entretanto no seu afeto pela mãe se vê rasgos de ternura e fervor que são admiráveis. Ele lhe escreve manifestando o desejo de morrer primeiro, para não ter o desgosto de sobreviver-lhe!

É possível combater certos métodos da Sra. Wesley; e existe um

lado trágico na história da família: de seus dezenove filhos, quase a metade morreu na infância; e de suas sete filhas espirituosas, cinco foram infelizes nos casamentos. Mas grandes riscos pairam sobre todas as famílias humanas.

A única acusação que se pode estabelecer contra Suzana Wes!ey

é que ela não teve elemento algum de humor. Os nomes que deram para as filhas provam concludentemente a completa ausência de qualquer senso do ridículo, tanto no pároco de Epworth, como na sua mulher. Uma filha foi cruelmente carimbada, Mehetabel; outra Jedidah!

As cogitações teológicas de Suzana Wesley, quando ainda criança, mostram a falta de humor. Uma menina de treze anos que pudesse

julgar-se suficiente (autônoma) para resolver “toda a matéria em discussão entre os Dissidentes e a Igreja oficial” devia ter sido estranha ao riso e possuída da seriedade de uma coruja. Mas o humor desempenha funções mui salutares: é o sal da inteligência, conservando-a saborosa; habilita o seu possuidor em distinguir os tamanhos relativos de coisas, dando um jeito especial e um toque delicado aos poderes intelectuais. À Senhora Wesley visivelmente faltava qualquer dote especial desta preciosa graça.

CAPÍTULO II

A Família Wesley

A família Wesley, como já vimos, era composta de naturezas fortes; regidas fortemente e para fins nobres. Um grupo de meninos e meninas inteligentes, veementes e argüidores, que viviam segundo um código limpo e reto, se bem com trato mui simples; disciplinados a se portarem com gentileza e vera cortesia; tendo por ideal o saber, por atmosfera o dever, e por lei o temor de Deus. A religião era, como deve ser em toda a família, a força motriz; uma força com a pressão constante e prevalecente de uma atmosfera. É mui certo como as páginas subseqüentes hão de mostrar, que não era a mais inteligente forma de religião. Entretanto, preencheu o seu papel eterno em enobrecer as vidas que tocava.

Pode-se afirmar, com confiança, que nesse período particular do século XVIII, o presbitério de Epworth abrigava mais inteligência do que existia sob qualquer outro teto na Inglaterra. O velho Wesley deveras parecia - se bem que somente na sua ingenuidade e falta de prática, com o Doutor Primrose do livro “O Vigário de Wakefield” (escrito por Oliver Goldsmith por volta de 1761. É um romance sentimental que exibe a crença de uma inata bondade nos seres humanos) e pode-se acrescentar que, o viver com ele devia ter sido muito menos agradável do que com o insosso, se bem que bondoso herói de Goldsmith. Mas possuía uma inteligência ativa, uma vontade enérgica, e bastante coragem para suprir um batalhão. Era sem dúvida, de um temperamento peremptório, e a sua vontade imperiosa por natureza, foi reforçada por uma luta perpétua com circunstâncias adversas, até tornar-se quase incapaz de flexibilidade alguma. Na família foi um déspota, mas tal disposição era a moda desse período. Suzana Wesley, quando escrevia às pessoas amigas, costumava falar no seu arbitrário marido, como “meu amo”, embora, como é freqüentemente o caso na vida de cônjuges, o imperioso marido tivesse muito menos autoridade do que ele mesmo imaginara.

O escritor Sir Thomas Artur Quiller-Couch no seu livro “Hetty descreve o pai da família Wesley de um modo que não passa

de uma simples caricatura. Samuel Wesley, como ele o pinta, c om olhos

Wesley”

fogosos, separados por nariz cumprido e obstinado, é uma espécie de Quilp em sobrepeliz (veste branca usada pelos clérigos sobre a batina) do século XVIII. É o tirano e mau gênio na vida de seus filhos e o alvo do bem fundado ódio deles. Até a sábia e gentil Suzana Wesley é pintada como sabendo amoldar as vidas de seus notáveis filhos, mas como manifestando singular incapacidade em dirigir as filhas. Uma cena em Hetty Wesley representa a Mariquinhas, a mais tímida e acanhada das filhas, como encarando a seu terrível pai, e a xingá-lo por parágrafos inteiros. Ela informa o pai, em sentenças que cheiram do Dr. Johnson: “O vosso gênio faz da vida uma tortura. Derrotado em outra parte, tendes vos embriagado de poder em casa, até crerdes que as nossas almas são vossas”; e termina, apontando-o e gritando: “Ei-lo, que homenzinho ridículo!”.

A cena é falsa tanto na realidade como na forma. Não há nessa passagem eco algum do trato familiar desse século, e ainda menos da fala no presbitério de Epworth. Samuel Wesley não era demasiado sábio como pai, mas bem poucos tem havido, que maiores sacrifícios tenham feito a bem dos filhos, ou que mais intimamente se tenham identificado com a sua felicidade. E onde se acharia outra esposa ou mãe nesse século que seria comparável com a Suzana Wesley? É uma das mulheres afamadas entre as de todos os tempos. Dos três filhos, um havia de amoldar em novo tipo a vida religiosa da raça a qual pertencia; outro havia de ser o maior autor de hinos na literatura inglesa; enquanto o mais velho do grupo, Samuel Filho, possuiria uma força de vontade e um vigor intelectual iguais aos de seus irmãos famosos, e ainda lhes sobrepujaria em vivacidade de espírito. Infelizmente, no caso dele, nunca o calor chegou a derreter a geada que congelava a teologia da Igreja alta (Anglicana) na qual ele se achava preso.

Era de se esperar que as meninas do presbitério (as filhas de Samuel e Suzana Wesley) tivessem uma vida menos cheia e variada do que seus irmãos. Os filhos foram logo para as atividades e agitações de uma grande escola pública; para a culta atmosfera da Universidade, e, ainda mais tarde para o grande palco do mundo. E mui naturalmente a imaginação, tanto do pai como da mãe, acompanharia os filhos nesses novos campos com o mais vivo interesse. As figuras, pois, tomariam nova escala sobre a tela; porque para as filhas só restaria a monotonia da vida caseira: da vida num presbitério rural, situado, como foi o de Epworth, em terras úmidas, e isto nos meados do século XVIII. A monotonia devia ter sido grande, e a própria natureza não lhe era propícia. A vida corria mui vagarosamente e encerrava tarefas tediosas. As meninas tinham um pai preocupado e uma mãe sobrecarregada,

casa mal mobiliada e recursos mui inadequados. Poucos eram os pretendentes ao casamento; era sonhar ociosamente o pensar em vestidos novos, e árduos trabalhos eram inevitáveis. As filhas não possuíam - e nem era de esperar que possuíssem - a sábia filosofia da mãe. Emília, a mais velha e, a menos contente das filhas, fala freqüente e asperamente da escandalosa falta dos meios de subsistência.

As terras alagadiças e monótonas, salpicadas com fileiras de salgueiros e sabugueiros, e sulcadas de canais para escoarem as águas superabundantes - canais que no inverno pareciam meras fitas de gelo - isto tudo contribuía para a formação de uma paisagem tristonha, que no inverno, foi castigada por ventos suestes. Aqui e acolá, na distância, erguia-se a torre de uma ou outra igreja que, qual ponta de lança feria o horizonte. Ou um agrupamento de tetos baixos formava uma vila, ou uma solitária vivenda de campo dava um aspecto ainda mais acentuado para a solidão da cena. Os incultos moradores dessas terras alagadiças não apreciavam aos que, tais quais os Wesley, não fossem da sua classe. Cinqüenta anos antes, essa raça obstinada havia sustentado uma mal disfarçada guerra civil contra o engenheiro holandês, Cornélio Vermuyden, que o rei Guilherme III trouxe de Holanda para drenar essas terras alagadas. Rompiam-lhe os diques, judiavam de seus operários, queimavam-lhe as cearas. E mantinham algo do mesmo espírito com os Wesleys: eles apunhalavam as vacas do pároco, aleijavam-lhe as ovelhas, rompiam os diques de noite para alagarem-lhe os campos. Judiavam dele por causa de suas dívidas, e tentavam, e não sem êxito, queimar-lhe o presbitério (a casa pastoral), para depois acusá-lo, a ele mesmo, de tê-lo incendiado!

Os amigos instavam que ele saísse de Epworth, mas ninguém, em cujas veias corresse o sangue de um Wesley, se sujeitaria a ser tocado (expulso, fugido) para qualquer lugar. Samuel Wesley escreveu a seu bispo: "Seria um ato de covardia se eu deixasse o meu posto na face do fogo cerrado com que o inimigo me alveja” . Estava escrevendo da prisão onde fora encerrado por dívidas. Pode-se admitir com franqueza que tais condições não eram muito consoantes com a felicidade doméstica. Acarretavam muitas solicitudes e grandes limitações para os horizontes sociais da família em Epworth.

Pode-se acrescentar que a história da família no presbitério de Epworth foi assombrada por não poucas tragédias, e todas estas se agrupavam em redor das inteligentes e jeitosas filhas da família. Há males piores do que a necessidade, dissabores mais cruéis do que a pobreza, coisas mais difíceis de agüentar do que a dor ou a morte.

Pouca mãe tem experimentado dores mais profundas do que as que caiam sobre Suzana Wesley. O único grito de dor, audível em toda a sua correspondência, acha-se num trecho de uma carta dirigida a seu irmão Annesley:

“Raramente me acho com saúde; o sr. meu esposo continua no declínio; a minha querida Emília que me confortaria grandemente na minha presente necessidade, está obrigada a ir a seu serviço em Lincoln, onde é professora num internato; a minha segunda filha Sukey, uma bela mulher e digna de melhor sorte, quando, de vossas últimas cartas pouco caridosas, entendeu que estavam frustradas todas as suas esperanças em vós, ela deu-se impensadamente a um homem (se é lícito chamar homem àquele que é pouco inferior aos anjos apóstatas em iniqüidade), o qual não somente constitui a desgraça dela, mas é o constante pesar da família também. Oh, sr! Oh, irmão! Feliz, três vezes feliz sois vós, e feliz a minha irmã, que enterrastes vossos filhos ainda na infância: seguros da tentação, seguros da culpa, seguros da pobreza e da vergonha, ou da perda de amigos! Estão seguros além do alcance da dor ou da miséria; tendo partido daqui, nada pode incomodá-los jamais. Crede-me sr. quando vos digo, que é melhor chorar dez filhos mortos do que um vivo; e tenho enterrado a muitos”.

A referência vaga e amarga que encontramos aqui, é a respeito de sua filha Hetty (apelido de Mehetabel), a mais espirituosa, vivaz, ativa e infeliz desse grupo de lindas moças sob o teto do presbitério de Epworth. Hetty possuía raros dotes intelectuais, e é narrado que aos oito anos lia o novo testamento em Grego. Uma menina fascinante e brilhante, com algo de brincalhona, possuindo uma vontade independente e imperiosa; no entanto, nesse tempo, não havia moça sob qualquer teto inglês que tivesse um espírito mais terno, uma

inteligência mais viva, nem sorte mais infeliz. Foi ela a única f ilha que envergonhou a família (o problema da vergonha é que namorou um advogado, mas Samuel, o pai, não aprovou o namoro, pois considerava

o candidato a namorado um advogado sem princípios. Numa viagem a

Londres, ela acabou se entregando a ele e, na volta, teve uma grande

briga com o pai, que teve o apoio de todas as outras irmãs. Foi obrigada

a casar-se, para reparar a sua honra, com quem se dispôs a aceitá-la naquelas condições).

Quando o seu desvio ficou conhecido, seu pai teve um aceso de terrível e inexorável raiva. Por muito tempo não consentiu em ver a sua

filha; se não fosse a paciência da mãe, talvez tivesse sido expulsa do abrigo do teto familiar. A própria Hetty, anos depois quando o seu pai tinha ficado parcialmente reconciliado, escreveu:

“Eu teria sacrificado pelo menos um dos meus olhos pela liberdade de ter-me lançado aos vossos pés antes de me casar; mas desde que já passou, e dificuldades matrimoniais são geralmente irremediáveis, espero que haveis de ter a condescendência de fazer-vos do meu parecer, ao ponto de reconhecer que, desde que, em certas coisas, tenho mais felicidade do que mereço, e melhor dizer bem pouco de coisas que não são remediáveis“.

A única contenda que João Wesley teve com o pai resultou de um

sermão que eIe pregou sobre ”A caridade que se deve usar para com os ímpios,” que o pai interpretou como sendo uma censura a ele em

defesa de Hetty.

Num acesso de tristeza - uma condição de espírito entre a contrição e o desespero - Hetty jurou que se casaria com qualquer pessoa que os pais quisessem, e o comprimento desta penitência imposta a si mesma foi exigido com rigor. Um funileiro chamado Wright ofereceu-se para casar com Hetty quando a ira do pai ainda ardia, e Samuel fez o casamento. Talvez nunca houve um casamento mais infeliz. Wright, em caráter, educação, hábitos e temperamento, foi exatamente o oposto de sua mulher. Foi o casamento de uma moça jeitosa, educada e espirituosa, com um tolo beberrão e dissoluto. Foi esposa negligenciada, filha exilada, mãe infeliz, pois os seus filhos morreram quase ao nascerem.

A sua vida de casada, semeada de toda a espécie de desgostos,

acabrunhou o espírito da infeliz Hetty, e ela procurou com sentida

solicitude a graça de perdão do seu pai ofendido.

“Honrado sr.”, escreveu ela, “ainda que me abandoastes, e sei que um propósito uma vez por vós tomado não é facilmente abandonado, eu tenho de dizer-vos que alguma comunicação do vosso perdão não somente é me necessária, mas tornaria mais feliz o casamento, no qual visto que vós o determinastes, deveis ainda sentir um não pequeno interesse. A minha criança, com cujo fraco apoio, eu contara para fazer a vida mais suportável, tanto para mim como para o meu marido, já morreu. E se Deus ainda me der e tirar outra, nunca me posso escapar do pensamento que a intercessão do pai poderia ter prevalecido em

aplacar aquela ira de Deus que então tomarei manifesta.”

como sendo

“Perdoai-me, sr., se eu vos tomar por participante na felicidade (ou na infelicidade) que o mundo geralmente considera como sendo pela graça de Deus, a sorte de dois! Mas como plantastes a minha felicidade matrimonial, assim não podeis correr da minha petição quando vos peço que a regueis com um pouco de boa vontade. Meus irmãos hão de relatar-vos o que têm visto da minha maneira de viver e das minhas lutas diárias para redimir o passado. Mas tenho chegado ao ponto onde eu sinto que o teu perdão é para mim uma necessidade. Rogo-vos, pois que não mo negueis.“

Samuel Wesley, entretanto, ouviu sem se convencer. Não achou qualquer nota de sinceridade nas cartas de sua infeliz filha. Ele a aconselhou que, quando escrevesse outra vez, se ela desejasse convencê-lo, “se mostrasse menos espirituosa e desse mais evidência de contrição”. Ele pergunta: “Que dano vos causou o casamento? Sei unicamente que vos deu o vosso bom nome”. É certo que uma mãe não teria respondido deste modo a uma tal carta como a que a pobre Hetty escrevera. Mas Samuel Wesley, mais do que os homens em geral, possuía a incapacidade de entender as sensibilidades femininas.

Mas se a pobreza, o abandono e a solidão lhe esmagaram o orgulho da uma vez espirituosa Hetty, ao mesmo tempo lhe purificaram o caráter: Ela escreveu a seu irmão João em 1743:

“Ainda que eu esteja privada de todos os auxílios e serviços humanos, não estou desamparada; embora eu não tenha nenhum amigo espiritual, nem tivesse jamais, a não ser, talvez, uma ou duas vezes por ano, quando tenho visto furtivamente um dos meus irmãos ou outra pessoa religiosa; entretanto (embora não o mereça) posso ainda buscar a Deus, e não me satisfaço com causa alguma senão Aquele em cuja presença afirmo esta verdade. Não ouso desejar a saúde, somente a paciência, resignação, e um espírito são. Tenho sido fraca por tanto tempo que não sei até quando durará a minha provação, mas tenho uma firme convicção e uma bendita esperança (embora não a plena certeza) que no país para onde eu vou, não cantarei sozinha ”Aleluia“ e “Santo, santo, santo!” como tenho feito aqui. “

A

última

referência

que

Wesley

faz

de

sua

irmã

Hetty

é

indizivelmente, se bem que inconscientemente, tocante:

“Aos 5 de março de 1750. Fiz oração ao lado da minha irmã Wright, uma alma graciosa, tenra e tremente; uma cana quebrada que o Senhor não esmagará. Tive com ela comunhão deliciosa na capela enquanto eu lhe explicava as palavras maravilhosas:

Nunca mais se porá o teu sol, nem a tua luz minguará, e os dias do teu luto se virão a acabar-se”.

Sobre este fundo recordemos a figura da menina espirituosa e culta, a luz e o orgulho do presbitério, antes de ser manchada pela vergonha e quebrada pela crueldade humana; e assim se torna visível um dos mais tocantes cap ítulos na família Wesley.

Outra filha, Martha, teve sorte quase tão cruel como a de Hetty, se bem que no caso dela, não havia qualquer culpa pessoal para lhe aumentar a amargura. Martha casou-se com um companheiro escolar de João Wesley chamado Wesley Hall, clérigo de boa família, mas homem cujo caráter possuía imprevistas funduras de vileza. Adão Clarke faz um resumo de sua história: “Ele foi cura na Igreja Anglicana, depois se tornou moraviano, quietista, deista (senão ateu) e poligamista. Ele defendeu a poligamia pelo ensino e exemplificou na prática”.

Hall inicialmente enamorou-se de Kezia Wesley e anunciou que fora lhe revelado que tinha de casar com ela. O seu afeto e as suas revelações, entretanto, eram de caráter mui transferíveis. E logo lançou um olhar sobre Martha, e relatou que, recebera outra revelação e tinha de casar com ela. A pobre Kezia morreu de desgosto; e sobre Martha caiu a sorte ainda mais triste de casar com Hall. Hall teve uma capacidade para o engano, e para atos de crueldade que era sugestiva de possessão diabólica.

Martha, quando menina, foi a mais alegre de todos no grupo de Epworth. “Ficareis menos risonhos algum dia”, disse a sábia mãe, contemplando os filhos risonhos com olhos proféticos. Martha lhe perguntou: “Eu também ficarei menos risonha mamãe?” A mãe lhe respondeu, sorrindo: “Não”. Ela julgava que nada seria capaz de acabrunhar o espírito alegre daquela menina! Entretanto a mais alegre das meninas passou pelo escuro mar de sofrimentos.

Martha desenvolveu uma paciência heróica, e mais notável do que a da personagem Griselda na poesia de Lord Alfred Tennyson; encobriu as faltas do seu vil marido, servindo-lhe de enfermeira para as

amásias (amantes, concubinas) dele. Recebeu em braços piedosos (de braços abertos) os filhos ilegítimos desse esposo ingrato, e manifestou para com ele uma fidelidade heróica. E anos depois quando seu marido inútil morreu, umas das últimas palavras que ele proferiu foram: “Tenho judiado de um anjo, um anjo que nunca me repreendeu”.

Entretanto, a mansidão heróica dessa mulher não significava qualquer falta de coragem ou de força. Conservou a inteligência disciplinada, as feições serenas, no meio de todas as vicissitudes, e pelo simples encanto de suas qualidades mentais (intelectuais), tornou- se uma das mais íntimas e apreciadas companheiras do Dr. Samuel Johnson (que é, de todos os escritores ingleses dos séculos XVII a XIX, um dos mais citados autores mencionados naquela época, só perdendo para William Shakespeare). Ela dizia: “O mal não foi me estranho, mas não foi permitido ao mal me fazer dano”. Se bem que a sua vida fosse uma tragédia, comtudo, a sua morte foi assinalada por uma grande paz. Um pouco antes de render o seu espírito, a sua sobrinha lhe perguntou se sentia dor? Ela respondeu: "Não, mas tenho uma nova sensação. Tenho a plena certeza que por tanto tempo tenho pedido. Jubilai-vos” e assim morreu. Seria difícil achar nos anais (nos registros, na história) de mulheres outro exemplo de espírito tão grandemente experimentado, e ainda tão serenamente heróico como o de Martha Wesley.

Uma outra das moças Wesley também fez naufrágio de sua felicidade por casamento desastrado. Suzana, a filha, teve a infelicidade de escolher um marido de caráter tão atroz, que ela foi obrigada a deixá-lo. O casamento para os da família Wesley, era uma experiência, curiosamente perigosa. No entanto, todas essas tragédias estavam ainda, nesse tempo, no vago, distante e desconhecido futuro.

CAPÍTULO III

Contos do Lar

Certos acontecimentos, na meninice de Wesley, deviam ter afetado profundamente a sua religião. Um foi o histórico incêndio, que destruiu o presbitério (a casa pastoral onde morava) em 1709, quando Wesley ainda não contava seis anos feitos. O edifício era velho e seco, construído de ripas e argamassa, com madeiras antiga s. Cerca da meia noite, de 24 de agosto de 1709, foi descoberto o fogo, cujas chamas já corriam pelo madeiramento do velho presbitério, como se fosse palha. Todos da família Wesley conseguiram sair da construção em chamas, mas João, no alarme e pressa da família, foi esquecido.

O pequeno, acordando, achou o seu quarto tão cheio de luz, que

pensava ser o raiar do dia. Ergueu a cabeça e olhou através as cortinas, viu um vermelho rabisco de fogo correr pelo forro! Ele pulou da cama, e

correu em direção da porta que, já se achava envolta numa terrível cortina do de rubras chamas. Trepou numa caixa, que estava abaixo da janela, e olhou para fora. Era noite escura, mas a luz, que emanava da casa incendiada, caia sobre as faces da agitada multidão. O forte vento nordeste que soprava, através a porta aberta, havia feito da escadaria um túnel de fogo, e o pai viu que seria morte certa, para quem tentasse subi-la. Samuel Wesley caiu de joelhos no corredor, e clamou a Deus em favor de seu filho, que parecia encerrado numa prisão de fogo.

A própria Suzana Wesley, que se achava doente, atravessou o

fogo para a rua, com as mãos e faces queimadas; e quando virou, e olhou em direção da casa, viu o rosto do filhinho na janela do pavimento superior. João ainda se achava na casa em chamas!

Não havia escada, a sua fuga parecia impossível. O menino ouvia atrás de si as ruidosas chamas, e via as faces pálidas da multidão, que o contemplava, sobre o fundo da noite escura que a envolvia.

Alguém, de mais iniciativa do que os outros correu até chegar embaixo da janela e, pediu que um outro lhe subisse aos ombros, assim alcançando o menino, tirando-o pela janela no mesmo instante que o teto da casa caia com grande ruído. O pai, quando lhe trouxeram o filho,

disse:

“Vizinhos, ajoelhemos e demos graças a Deus! Ele me deu todos os oito filhos. Que a casa vá, sou bastante rico!”.

Nenhuma criança de seis anos jamais se esqueceria de um incidente tal. Parece que impressionou profundamente a imaginação do menino. No decorrer dos anos, o incidente tornou-se luminoso, com significados novos e portentosos. Tornou-se uma parábola de sua própria história espiritual. Ele fora livrado de chamas, mais terríveis do que as que consumiram o presbitério de Epworth. Portanto, não foi ele, uma tocha tirada do fogo para um fim especial? Sim, o acontecimento se tornou em pintura mística da condição do mundo inteiro, e do papel que João Wesley havia de desempenhar nele.

A sua teologia traduziu-se nos termos daquele acontecimento

noturno. A casa incendiada simbolizava o mundo perdido. Toda a alma humana, no pensamento de Wesley, era semelhante àquele menino rodeado pelo fogo, pelas chamas do pecado e por aquela ira divina e eterna que o pecado incendeia, apertando-o de todos os lados. Ele, que à meia noite daquele dia 24 de agosto de 1709 fora arrancado da casa em chamas, devia arrancar os homens das chamas de um incêndio, ainda mais terrível. A memória daquele perigo deu cor à imaginação de Wesley, até o dia de sua morte.

A história do incêndio é narrada pelo pai Samuel, pela mãe

Suzana e pelo próprio João, quando cita suas recordações juvenis. Das três narrações, a mais cheia e vivaz é a do pai Samuel Wesley, embora, curiosamente, tenha sido geralmente passado por alto. Lendo-a, sente- se algo da confusã o, do calor e do terror do incêndio, quase dois séculos depois do ocorrido. Ele diz:

“Um pouco depois das onze horas da noite ouvi o grito de fogo!”, na rua mais próxima do lugar onde eu me deitara. Se eu estivesse no meu próprio quarto, como de costume, todos teríamos perecido. Pulei da cama e vesti-me de colete e de trajes noturnos e olhei pela janela. Vi a reflexão (a claridade) das chamas, mas não sabia onde estavam. Calcei uma meia, e com as calças nas mãos, corri para o quarto da minha mulher. Tentei forçar a porta, que estava trancada do lado de dentro, mas não podia. As duas filhas mais velhas estavam com ela; estas se levantaram e correram as escadarias para despertar o resto da família. Então vi que era a minha própria casa que estava toda tomada de chamas e nada senão uma porta entre o fogo e a escada “.

“Voltei à mulher que já havia se levantado e aberto a porta. Mandei·lhe que saísse já. Tínhamos um pouco de prata e ouro cerca de 20 libras esterlinas. Ela teria permanecido para procurá- las, mas eu a empurrei para fora. Eu subi a escada, achei os filhos, desci e abri a porta da rua. O capim do teto estava caindo no fogo, o vento nordeste tocava as chamas sobre mim; duas vezes tentei subir a escada, mas fui obrigado a ceder. Corri à porta, que dava para o jardim, e abri-a; sendo o fogo ai mais manso. Mandei que as crianças me seguissem, mas achavam-se somente duas comigo e a criada trazia no colo um outro, o Carlos, que ainda não anda. Corri com eles ao meu gabinete no jardim, fora do alcance das chamas: coloquei o menor no colo da outra, e vendo que a minha esposa não havia me seguido, voltei apressadamente para buscá-la, mas não a achei.”

“Voltei em seguida para os filhos que deixei no jardim para ajudá-los a transpor o muro. Estando do lado de fora, ouvi um dos meus pobres cordeirinhos de cerca de seis anos, ainda deixado no segundo andar, clamar tristemente: “Acode-me!”. Corri outra vez para subir a escadaria, mas esta agora se achava tomada pelas chamas. Tentei transpô -las pela segunda vez. Defendendo a cabeça com as calças que levava nas mãos, mas a corrente de fogo me tocou para baixo. Julguei haver cumprido o meu dever. Com o clamor do meu filho ainda aos ouvidos, saí da casa para o jardim, onde se achava a parte da família que eu havia salvo . Fiz que todos se ajoelhassem, para pedirem que Deus recebesse a alma do pequeno João .”

“Corri, de uma a outra parte, indagando a respeito da esposa e dos filhos. Encontrei-me com o principal homem do lugar, oficial de justiça, o qual não ia em direção da minha casa, para ajudar-me, mas em direção oposta. Eu lhe peguei na mão, e lhe disse: “Seja feita a vontade de Deus! ”. Ele respondeu: “Nunca hás de deixar de tuas artes? Incendiou a tua casa uma vez antes; não conseguiste bastante então, e já o fizeste outra vez?” Foi muito pouco conforto. Eu lhe disse:

“Deus te perdoe”. Mas um pouco depois fui mais confortado, ouvindo que a minha mulher fora salva, então caí de joelhos e dei graças a Deus.”

pensavam, não me tendo visto, nem qualquer dos nossos oito filhos, por um quarto de hora. E durante este tempo foram

todos os quartos da casa , e tudo mais, reduzidos à cinza; pois

o fogo era muito mais forte do que o de um forno e o violento

vento o açoitou contra a casa. E la me contou depois como encapara. Quando fui abrir a porta dos fundos , ela tentara atravessar o fogo, até a porta da frente, mas duas vezes fora derrubada no chão. Ela julgava que ai morreria, mas tendo pedido que Cristo lhe ajudasse , achou-se com novas forças, levantou-se sozinha, atravessou dois ou três metros de chamas, estando o fogo no chão até os joelhos. Ela vestia somente um delgado vestido, tendo sobre o braço um paletó, e calçava sapatos. Com o paletó ela envolvia o peito, e chegou ao quintal em segurança, sem receber aux ílio de uma alma sequer. Ela não ergueu os olhos nem falou até a minha chegada. Somente quando lhe trouxeram o último filho, ela mandou que o deitassem na ca ma. Este foi o menino que eu ouvira clamar em meio das chamas , mas Deus o salvou quase por milagre. Ele só foi esquecido pelos criados, na perturbação. Ele correu para a janela que abria para o quintal, subiu numa cadeira e pediu socorro. Umas poucas pesso as haviam se ajuntado, e entre elas um homem que me quer bem, este ajudou um outro a subir à janela.O menino, vendo o homem entrar pela janela, assustou-se, e quis fugir para o quarto

da mãe; mas, não podendo abrir a porta, voltou outra vez à janela.

O homem havia caído da janela, e a cama e tudo mais no quarto

do menino achavam-se em chamas. Ergueram o homem pela segunda vez, e pequeno e assustado João pulou em seus braços

e foi salvo. Eu não podia acreditar antes de beijá-lo duas ou três vezes.”

No dia seguinte, passeando pelo jardim e contemplando as ruínas da casa, Samuel achou meia página de sua Bíblia poliglota, onde estas palavras eram ainda legíveis: “Vai; vende tudo que tens; e toma a tua cruz, e segue-me.”

É de se admirar que uma tal experiência ficasse indelevelmente registrada na imaginação de João Wesley? Wesley, na sua meninice devia ter observado, com olhos graves e admiráveis, um outro incidente na casa de Epworth. Estando o pai ausente numa convocação, a senhora Wesley começou a celebrar reuniões religiosas na cozinha do

“Fui ter com ela. Ainda vivia, se bem que apenas falava.

presbitério.

Ela

começou

essas

reuniões

para

os

seus

próprios

Ela julgava que eu havia perecido, e os outros também assim

empregados

domésticos

e

filhos.

Então

os

vizinhos

solicitaram

permissão de virem, até que trinta ou quarenta se ajuntavam aos domingos à noite. O fogoso e exclusivista eclesiástico, seu marido, ouviu as novas. Um “conventículo” estava em pleno vigor sob o próprio teto do seu presbitério, com uma mulher orando publicamente, e talvez exortando; e essa mulher a sua esposa! Aqui havia coisa para acender o fogo de ira austera na consciência sacerdotal! As cartas da Senhora Wesley, em resposta a seu marido imperioso, eram modelos de bom senso e bondade, e a sua lógica foi demasiada forte para o homenzinho irascível. “Parecia esquisito”, disse o marido, “que ela celebrasse o culto”. A sua esposa responde:

“Admito, e é assim com quase tudo mais de sério, ou, que de qualquer modo possa promover a glória de Deus e a salvação de almas, se for feito fora do púlpito.”

“Também por ser mulher, na opinião do marido, tornava pouco desejável que ela dirigisse o culto. ” A Senhora Wesley responde:”Visto que sou mulher, assim também sou mãe de família numero sa; e embora a responsabilidade superior, pelas almas que ela contém paire sobre vós como cabeça da família e como seu ministro, na vossa ausência, entretanto, não posso me esquivar de considerar, cada alma que deixais sob os meus cuidados, como sendo um talento entregue a mim pelo grande Senhor de todas as famílias do céu e da terra. Se eu for infiel a Ele ou a vós, como posso respon der quando Ele me exigir contas da minha administração? ”

O Senhor Wesley pergunta: “Por que ela não pedia que qualquer

outro lesse um sermão?” Ela responde: “Infelizmente não considerais que povo é este. Julgo que ninguém entre eles seria capaz de ler um sermão, sem soletrá-lo, em grande parte. E como isto serviria de edificação para os outros?”

Quanto à alegação de que era um “conventículo”, um concorrente da Igreja, a senhora Wesley assegura a seu marido, “que estas pequenas reuniões têm trazido mais gente à Igreja, do que qualquer outra coisa em tão curto espaço de tempo. Antes não tivemos mais de vinte ou vinte e cinco, no culto à noite, mas agora temos entre duzentos e trezentos”.

A modéstia da senhora Wesley é encantadora: “Nunca ouso

de presumir positivamente em esperar que Deus se sirva de mim como instrumento para o bem. O mais que eu ouso pensar é: Pode ser! Quem sabe? A Deus tudo é possível. Entregar -me-ei a Ele.

Como diz Herbert: ‘Visto que Deus freqüentemente faz, por coisas humildes serviços honrados, eu me lanço a teus pés; a í permanecerei, e quando o meu Mestre procurar alguma coisa vil em que possa manifestar a sua pe rícia, então, será a minha vez’.”

Com muita dignidade a senhora Wesley fecha a sua carta: “Enfim, se houverdes por bem dissolver esta assembléia, não me peçais que eu o faça, pois isto não satisfará a minha consciência. Mas dá-me a vossa ordem terminante, em termos tão expressos e inequívocos que me absolverão da culpa e do castigo, por ter eu desprezado esta oportunidade de fazer o bem, quando eu e vós comparecermos ante o augusto e tremendo tribunal do Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Esta sentença foi demais para o pequeno pároco, e as reuniões continuaram até o seu retorno de Londres.

Mas é fácil de imaginar-se que este incidente impressionaria profundamente a João Wesley, que então contava apenas nove anos. O perfil de sua mãe, diante desse grupo de plebeus, o rosto meigo, grave e nobre, em tão notável contraste com todos os outros na reunião. O exemplo de um zelo sério e intenso, os problemas - os mesmos que ele próprio teria de resolver mais tarde, em campo mais vasto. Que seria de mais importância, a forma decorosa ou o fato espiritual? Seria um mal fazer o bem, sendo o método pouco regular? As almas humanas existem em benefício de formas eclesiásticas, ou existem essas formas em benefício dessas almas? As reuniões dirigidas por Suzana e a controvérsia que isso suscitou, repetimos, devia ter impressionado profundamente a Wesley. E o corajoso zelo e a louvável persistência da sua mãe deviam tê-lo ajudado a determinar todo o sistema de sua própria vida, nos anos vindouros.

Neste meio tempo, veio à família em Epworth, uma das mais inexplicáveis experiências que jamais visitou o circulo familiar de um pároco - as artes daquele “poltergeista” (ruidoso espírito ou diabo) que as meninas da família apelidaram de “Velho Jeffrey”, nome de um célebre juiz iníquo. Quem não conhece a história do “Velho Jeffrey” tem perdido uma das narrações mais bem atestadas e mais curiosas de assombração que há na literatura.

Durante quase seis meses - desde dezembro de 1761 até abril de 1717 – o presbitério ficou tomado de ruídos misteriosos e estranhos. Batia-se nas portas e nas paredes, havia socos embaixo do assoalho, ruído como de queda de louças, o repenicar de correntes de ferro, o

retinir de moedas ao caírem, o barulho de passos misteriosos. As manifestações resistiam a todas as explicações mais prosaicas, e por fim, foram atribuídas por consentimento comum, a qualquer espírito inquieto. Tornaram-se tão familiares que ninguém se incomodava mais, e as meninas espirituosas do presbitério rotulavam a fada invisível, se bem que muito audível, de “Velho Jeffrey”.

A narração é feita em cartas, com detalhes minuciosos, sucessivamente por todos os membros da família; e todos esses contos foram colecionados pelo próprio João Wesley - que se achava na Escola de Charterhouse quando o “Velho Jeffrey” estava em atividade - e fê-los publicar na Arminian Magazine. Há um elemento humorístico, nos variados tons, em que é relatado o conto maravilhoso. Samuel o narra no estilo direto de um homem, cuja crença na assombração manifestamente gera, não o medo, mas, somente a raiva, e um desejo de encontrar o perturbador, mais de perto, e até surrá-lo. A Suzana conta a história, segundo seu modo prático, e com a simplicidade de um Defoe (jornalista e escritor autor do romance Robinson Crusoé). As espirituosas moças relatam a história com traços de humor e imaginação juvenis. Um clérigo vizinho, que fora chamado para ajudar em silenciar o espírito, acrescenta a sua voz sonora ao coro. A evidência, se fosse dada em tribunal, no julgamento de um assassino, seria suficiente para conseguir a sentença máxima.

Certos atos do espírito eram de caráter surpreendente. A Senhora Wesley, de mãos dadas com o marido, à meia noite, descendo ao quarto donde procediam os ruídos, relata que “parecia-me como se alguém tivesse derramado um grande vaso de moedas na minha cintura, para correrem retinindo, pela camisola de dormir, até os pés”. Mais de uma vez o pároco indignado (Samuel) sentia-se empurrado por uma força invisível. Notava-se nas primeiras manifestações que as crianças adormecidas, e que estavam inconscientes do ruído, tremiam de agitação e temor, mesmo no sono. O sr. Wesley, com solicitude paternal, perguntou ao espírito porque estava a perturbar os inocentes filhos, desafiando-o a um encontro consigo no seu gabinete de estudos, se tivesse algo para dizer-lhe. Ele saiu majestosamente em direção do gabinete, para encontrar-se com o espírito, e achou a porta segurada contra ele.

As meninas logo descobriam que, o ‘Velho Jeffrey“ se indignava quando lhe faziam referências pessoais, atribuindo as suas artes a ratos, etc.; pois ele dava então murros no assoalho e na parede com grande veemência”. O “Velho Jeffrey“ fora espírito com bem definidas

opiniões de política, e dava pancadas no assoalho e na parede quando

o sr. Wesley fazia preces pelo rei. Mas o sentimento leal do pároco não podia ser sufocado por um simples espírito jacobino, e ele repetia a oração pelo rei George I, em tom ainda mais ousado. Samuel Wesley aqui apresentou esta sisuda observação: ”Se eu mesmo fosse rei, antes

desejaria ter o diabo por inimigo do que amigo”. O sr. Wesley perseguiu

o ruído em quase todos os quartos da casa, o seguiu até o jardim;

tentou travar uma conversa com o espírito, valendo-se dos serviços de um grande cachorro para contê-lo, mas, quando o espírito começou a discorrer, o cachorro ignobilmente (covardemente, vergonhosamente) refugiou-se debaixo da cama, tomado de grande terror. Uma vez ele fez um preparo elaborado para fuzilá-lo, mas foi detido por um colega que vigiava consigo, lembrando -lhe que o chumbo não havia de ferir o espírito. Era espírito pontual, e geralmente começava com as suas artes um pouco antes das dez horas da noite . As meninas por fim vieram a tomar isto como intimação que já “era hora de dormirem “.

João Wesley narra que, um leve bater na cabeceira da cama

geralmente começava, entre as nove e às dez horas da noite; então costumavam dizer umas às outras : ”Já vem o Velho Jeffrey; são

Jeffrey “, foi o mais

gentil e cavalheiresco poltergeista (fantasma) conhecido da literatura. Quando ele se achava “de serviço” levantava a tramela das portas para as moças passarem. A sra. Wesley, segundo seu modo literal, pediu que o visitante invisível não lhe perturbasse, entre as cinco e seis horas, sendo esta, sua hora tranqüila; e que suspendesse todo o ruído em quanto ela estivesse na sua devoção;

horas de dormir “. Pode se afirmar que o ”Velho

e o “Velho Jeffrey” o mais cavalheiro d os espíritos, acedeu a seus desejos, suspendendo com as ruidosas manifestações durante esses períodos.

torna ram-se

especialmente ruidosas uma noite . O sr. Wesley para lá se dirigi u e, em vão, esconjurou a o espírito para que falasse. Então disse: “Estes espíritos amam as trevas. Apaga a vela e talvez fale ”. A sua filha, Anna, apagou a vela, e o pároco repetiu a sua adjuração

(esconjuração) nas trevas; mas houve apenas pancadas em resposta. Com isto ele disse : “Anna, dois cristãos são demais fortes para o diabo; desce a escada. Pode ser que quando eu estiver sozinho ele terá a coragem de falar”. Tendo a filha saído, ele disse:

“Se tu és o espírito do meu filho Samuel, peço -te que dês três pancadas e mais nenhuma”. Imediatamente tudo ficou em silêncio e não houve mais pancadas nessa noite.

As

manifestações

em

certo

aposento

As proezas deste esquisito “poltergeista” no presbitério de

Epworth têm paralel os em muitas histórias semelhantes: quais são as possíveis explicações delas? A senhora Wesley, segundo seu estilo direto e prático, julgou o “Velho Jeffrey” pelo padrão da utilidade e condenou-o: “Se estas aparições”, disse ela, “nos advertissem do perigo, nos fizessem mais sábios ou melhores, haveria algo para recomendá-las; mas aparições que para nada servem senão para espantar a gente, quase a ponto de se perder a razão, parecem de todo censuráveis”. Espírito muito tolo foi o “Velho Jeffrey”, na opinião da Senhora Wesley!

Samuel Taylor Coleridge (poeta e ensaísta inglês) descobre na família “uma irascível e censurável predeterminação” pela crença na aparição, teoria essa que é totalmente contrária aos fatos. Ele diz que “as manifestações eram puramente subjetivas, da natureza de uma doença nervosa contagiosa” - explicação que, não obstante o respeito que temos pelo grande nome de quem a oferece, não obsta que a taxemos de pueril. “O Velho Jeffrey” era demais para a filosofa do S.T. Coleridge.

Há muitas explicações do “Velho Jeffre”. O Doutor Salmon acusa

a Hetty Wesle y de ter iludido a família, produzindo todos os ruídos, mas o sr. André Lang, autoridade sobre aparições e suas manifestações, escreve um longo artigo em defesa de Hetty, na Cotemporary, decidindo que ela não podia ter invadido o quarto do criado, calçada de botas, e

assustando tanto o grande cachorro que ele uivasse de medo. Joseph

Priestley (renomado teólogo e estudioso inglês do século XVIII) oferece

a teoria de falcatruas por parte dos criados e vizinhos. Isaac Taylor

(escritor, filósofo e historiador que viveu entre 1787 – 1865) resolve o” Velho Jeffrey “em espírito palhaceiro e macaqueador. O Sr. Wesley

havia pregado por alguns Domingos contra os feiticeiros da vizinhança, que os ignorantes plebeus consultavam como sendo magos; e o Sr. André Lang pensa que as artes do “Velho Jeffrey “constituíram a desforra que os feiticeiros lhe tomavam.

Samuel Wesley Filho, o filho mais velho dos Wesley, oferece o juízo mais sensato sobre a história, arranjando-o, inconscientemente, em forma epigramática, dizendo: “ A troça (multidão), julgo eu, acharia muitas interpretações, mas a sabedoria, nenhuma”. O leitor moderno, advinhamos, tomará a parte da “sabedoria”.

O “Velho

Jeffrey”

pertence

àquela

classe

de

fenômenos

esquisitos, que burlam qualquer explicação, mas a história indubitavelmente influiu grandemente na imaginação de João Wesley. Servindo -nos da frase do sr. André Lang, podemos dizer que, “ela construiu no seu espírito uma estrada real para o sobrenatural”. Deu-lhe a predisposição, não para crer em todas as histórias de aparições, mas, para esperá -las: para escutá-las com

viva atenção; para registrá -las e tratá-las com o devido respeito. Ele registra um cento de hist órias de aparições em seu “Diário”, e

mental de vi vo

interesse, e um espírito aberto a respeito de qualquer explicação.

sempre mantém para com elas a mesma atitude

Pode-se acrescenta r que, segundo uma tradição, o “Velho Jeffrey “ tornou a visitar outra vez a sua querência familiar quas e um século depois e um inquilino, de menos coragem do que aque la possuída pela família Wesley, foi acossado do presbitério de Epworth pelos ruídos estranhos, persistentes e de tudo inexplicáveis.

CAPÍTULO IV

Preparo Pessoal

Na sombria e bem disciplinada vida da família, no presbitério de Epworth, João Wesley crescia como menino grave, sossegado e paciente, com cabeça meditativa e modos pensativos, e hábito invencível de exigir uma razão de tudo que fosse mandado fazer. O pároco Samuel disse a Suzana, sua mulher: “Acho, querida, que o nosso Joãozinho não comeria o seu jantar se não achasse uma razão por fazê-lo”.

O menino teve um traço do silêncio e da perseverança de um estóico, mesmo com essa tenra idade. Em 1712, ele, com mais quatro irmãos, teve a varíola, a peste comum e terrível dessa época. A sua mãe escreve:

“Joãozinho suportou a moléstia com a coragem de homem, deveras, como cristão; se bem que parecia se zangar com as pústulas, quando estavam doloridas, a julgarmos pela maneira carrancuda em que as contemplava, pois nada dizia”.

A seriedade do seu temperamento e, o que se pode chamar, de docilidade religiosa eram tão notáveis que, quando ainda não contava oito anos completos, o seu pai - sempre disposto a fazer tudo às pressas – o admitiu à Ceia do Senhor. A sua mãe, com a bela presciência que o amor materno dá, viu no seu segundo filho homem os indícios de um grande, mas desconhecido, futuro, e escreveu no seu diário, sob a data de 17 de Maio 1717, à tarde:

“Que oferecerei ao Senhor por todas as suas misericórdias? Eu desejaria te oferecer a mim mesma e tudo que tu me deste; e dedicaria – oh! dá-me a graça de fazê-lo ao teu serviço o resto da minha vida.”

“E com a alma deste filho (João) para o qual tu tens tão misericordiosamente providenciado, pretendo ser mais cuidadosa do que tenho sido até aqui a fim de poder incutir na sua inteligência os princípios da virtude e da verdadeira religião. Senhor, dá-me a graça de fazê-lo com sinceridade e prudência.”

Em 1714 seu pai conseguiu-lhe, do Duque de Buckingham, um

não completara onze

anos, do abrigo do lar - e lar monumental - e de uma atmosfera carregada de oração qual a fragrância de incenso ardente, João Wesley passou -se para as porfias e o tumulto de uma grande escola

lugar na Charterho use, e assim quando ainda

pública. A mudança de atmosfera e do meio foi grande.

A Chaterhouse de então, era escola com grandes tradições, e

com sofrível padrão de estudos; mas era indisciplinada, para não dizer desordeira, em grau que é hoje difícil de imaginar. O sistema

odioso do “fag” (da exploração dos alunos maiores e mais velhos sobre os mais novos) prevalecia numa forma áspera . Realmente a escola era um pedacinho da sociedade humana, exaurida em certos aspectos de todos os elementos civilizadores, e governada pela moral de selvagens. Os rapa zes maiores e mais fortes, sistematicamente roubavam a carne das refeições dos menores; e durante a maior parte dos seis anos que Wesley freqüentava aquela escola, ele diariamente sofria este ignóbil roubo, e praticamente alimentava -se somente de pão.

Um menino disciplinado nas necessidades do presbitério de Epworth, entretanto, facilmente sobreviveria às refeições desfalcadas de Charterhouse. O pai aconselhou -o que corresse três vezes ao redor do jardim da Charterhouse to da a manhã; e o filho obedecia à advertência com a fidelidade literal que lhe era característica. Todas as manhãs, se via um pequeno vulto, magro e juvenil, a correr ligeiramente três vezes ao redor do jardim da Charterhouse. O cabelo de Wesley na meninice era castanho; mas ficou mais escuro com o correr dos anos; e cabelo tão lindo, encimando um rosto delgado, com olhos sérios, mas vivos, deviam ter constituído feições notáveis. Frugalidade de comida, e exercícios constantes no ar fresco da manhã contribuíram em dotar-lhe de um admirável vigor físico que o habilitava, aos oitenta anos, a andar dez quilômetros para o lugar de pregação, e a declarar que o único sintoma de velhice que sentia era, “não poder andar nem correr tão ligeiramente como antes.

É certo que era estudante ideal – ligeiro, incansável, metódico,

frugal com o seu tempo e de espírito sóbrio. O filho de Suzana Wesley, saído havia pouco do contacto da sua vida diligente, e com o sopro de seu espírito ainda sobre ele, dificilmente seria outra coisa. E seis anos do viver atarefado, se bem que, contendo algo de duro e cruel, na

famosa escola, forneceu a Wesley as bases amplas para todos os seus estudos posteriores. A vida numa grande escola pública é algo mais do

que a instrução literária. Não h á nada de moleza e de enervante na sua atmosfera; antes, desenvolve a coragem; a perseverança e a iniciativa; dá resistência a todas as fibras do caráter; é um longo e forte tônico. Wesley trouxe para a Charterhouse um corpo resistente; mas de lá saiu também com certa resistência de caráter; um admirável haver para um jovem de 17 anos que começa o curso numa grande Universidade, e Universidade qual era a de Oxford nos princípios do século XVIII .

O irmão maior, Samuel, era nesse tempo lente (professor) na escola de Westminster, onde o mais novo dos três, Carlos, era estudante; e João Wesley estudava o hebraico com o seu irmão maior; pois os Wesley possuíram em grau admirável o hábito de ajudarem-se mutuamente. Samuel escreve ao pai; “Joãozinho está comigo; é rapaz corajoso, aprendendo o hebraico com a presteza possível”.

Nesta época a boa fortuna fez uma visita aprazível à família de Epworth. Carlos Wesley estava em Westminster, estudante vivaz, com mais do que a inclinação normal de um estudante pelas brigas, quando um cavalheiro irlandês, Garrett Wesley, rico e sem filhos, escreveu ao presbitério de Epworth, perguntando se havia na família um filho com o nome de Carlos. Se houvesse ele desejava adotá-lo por herdeiro.

Existia entre as duas famílias algum parentesco, cujo grau ignoramos. Parece que Garrett Wesley, por algum tempo, ajudou a custear os estudos do seu pretendido herdeiro, e finalmente queria levá- lo para a Irlanda e fazer-lhe às vezes de pai. O sr. Samuel Wesley deixou ao rapaz a decisão do negócio, o qual recusou a proposta. Garrett Wesley escolheu por herdeiro outro parente (Richard Colley), o qual, assumindo o nome de Wesley, foi elevado à nobreza como Barão de Mornington, e tornou-se avô do duque de Wellington. Até o ano de 1800 o mais famoso entre os soldados ingleses figurava sob o nome de “Arthur Wesley”; depois desse ano o nome foi mudado em Wellesley.

Parece, portanto, que o homem de Deus e reformador que mudou todo o curso da história religiosa da Inglaterra mediante forças espirituais, e o grande soldado que contribuiu para a sua história secular com vitórias tão esplêndidas, saíram do mesmo tronco ancestral. E entre Wesley e Wellington existem indubitavelmente curiosos pontos de semelhança. Os dois eram pequenos de corpo, mas de fibra resistente, com uma capacidade quase milagrosa para árduos trabalhos, e com coragem que, se possuída da frieza do gelo, ainda teve a dureza do aço. As “ordens” de Wellington e o “diário” de Wesley possuem muitas características em comum – um certo ar pessoal, e desprezo de

ornamentações, uma predileção pelas palavras curtas e pensamentos claros. Se forem estudados os retratos, notar -se-ão também certos traços de semelhança. Cada qual tem nariz comprido e obstinado, queixo resoluto, os olhos firmes e penetrantes de um líder de homens. Ma s as feições do grande pregador são suavizadas e acalmadas pelo evangelho de amor que pregou por tanto tempo. O caráter do famoso soldado foi fundido e temperado no forno vermelho de Badaj ós e São Sebastião, de Busaco e Waterloo. E os sinais das chamas per duram no seu semblante, mesmo na velhice.

Em 1720 João Wesley começou a vida em Oxford, entrando no Christ Church, como estudante comum com benef ício da Charterhouse na importância de quarenta libras esterlinas por ano. Oxford em 1720, pode-se dizer de antemão, era lugar pouco recomendável para um rapaz inteligente que tomava a vida a serio , e

que - não obstante ser inconsciente disso - havia de ser o agente de Deus no maior movimento na hist ória religiosa da Inglaterra. A Oxford de então foi bastante remo ta da Oxford que Matheos Arnold descreveu nas memoráveis palavras: “Imbuída de sentimento, estendendo os seus jardins ao luar, e, segredando de suas torres os últimos encantos da idade m édia”. Não havia romance algum ao redor da Oxford, sobre a qual o jove m João Wesley lançou olhares perplexos, nem existia ali qualquer atmosfera de sentimentalismo. No século que tem o “entusiasmo”, como sendo o mais mortífero entre todos os pecados, as universidades forçosamente mais sofreriam . Justamente como no corpo, em que é deficiente a circulação do sangue, as extremidades são as partes mais afetadas.

E Oxford nos começos do século XVIII, foi, talvez, o lugar menos

poético em todo o país sombrio que era a Inglaterra.

Não havia “entusiasmos” nem pelos jogos atléticos. Oxford era

a moradia da insinceridade e preguiça, e dos vícios gerados por tais

qualidades. Um tipo de sua insinceridade foi especialmente mau: estava

organizada, possuía patrimônio, era respeitada, revestida de autoridade

e até iludia-se a si mesma a ponto de julgar-se virtuosa. Existia toda a

fórmula de uma grande instituição para o ensino cristão; mas os fatos desmentiam a fórmula. O Gibbon cruelmente embalsamou, qual mosca morta no âmbar imperecível de sua retórica, a seu próprio tutor que, sempre “se lembrava de receber o seu salário, mas esquecia-se de cumprir o seu dever”. E este homem era o tipo da própria Universidade. Os lentes (professores) recebiam os honorários por aulas que nunca deram; os estudantes compravam dispensas de preleções que não foram nunca proferidas, e juravam obediência a leis que nunca leram.

Oxford, quando Wesley pisava-lhe as ruas, foi, para os estudantes em geral, a instrução na má arte de subscreverem artigos que eles ridicularizavam; e de fingirem assistência em aulas que não. existiam. Quem quiser sondar as profundezas em que ela se havia mergulhado, leia o terrível sermão que o próprio Wesley pregou, do púlpito de Santa Maria, no dia de São Bartolomeu em 1744. Aquele discurso foi, de fato, uma acusação flamejante da Universidade, pregado com infinita coragem do púlpito da própria Universidade, para um auditório composto de professores, lentes, diretores e estudantes. Não é de admirar que esse sermão fosse o último que Wesley foi permitido proferir do histórico púlpito de Santa Maria!

No entanto, não se deve incluir a Universidade inteira numa só generalização. Havia alguns estudantes bons e um elemento sobrevivente da vida salutar na própria Oxford de 1720-1744; mas ninguém seria capaz de compreender a evolução do Metodis mo, em sua forma primitiva em Oxford, sem saber algo primeiro da atmosfera moral e intelectual da grande Universidade.

Wesley teve uma carreira estudiosa e útil, senão brilhante em Oxford. Não ficou enervado com a atmosfera da Universidade; e, talvez, por alguma lei sutil de reação, fizesse mais intensa a sua aplicação. Bacharelou -se em 1724 e foi eleito lente de Lincoln em 1725. Um ano depois foi nomeado professor de grego e presidente das classes. Recebeu o grau de Mestre em 1727.

Com vinte e dois anos, portanto, Wesley era lente do mais adiantado, se bem que quase o menor colégio de Oxford. O seu irmão Samuel tinha uma boa posição na escola de Westminster, onde granjeava poderosos amigos. Carlos, o irmão menor, de dezoito anos apenas, tinha um benefício em Christ Church. Os “filhos do presbitério de Epworth” manifestamente prometiam fazer melhor no mundo do que o fogoso e “imprático” pai.

Oxford imprimiu sobre João Wesley o seu selo indelével. Era

homem universitário, com os méritos e as faltas desse tipo, até o dia de sua morte. Possuía faculdades mentais que trabalhavam com a exatidão de uma máquina. Era um perito na lógica, e costumava resolver tudo - até a própria experiência religiosa - em termos lógicos. Tinha modos de cautelosa confiança, brilhava na polêmica e nela

as

achava

características que lhe deram fama no decorrer dos anos. Era claro,

certo

prazer.

O

seu

estilo

Iiterário

manifestava

ríspido, direto, e notável pelo rígido desprezo de adorno e de toda a pirotécnica verbal. Wesley prezava palavras curtas, engastadas em curtas sentenças. A sua brevidade, de fato – o seu hábito de tomar o caminho mais direto em definição, e de vestir os seus pensamentos com o menor número possível de sílabas – dava muitas vezes o efeito

do

inconscientemente.

sem tencionar fazê-lo, e até

humor.

Falava

em

epigramas

O jovem lente de Lincoln planejava grandes coisas para o seu futuro. A frase um tanto pomposa “Já me despedi da folga” pertence a este período de sua vida. Mais tarde foi traduzida em fato sóbrio e humilde, mas mesmo nesse tempo ele considerava a sua formatura não como sendo o fim, mas o começo de sua vida de estudante. Fez a distribuição de suas horas segundo um plano característico, tantas aos clássicos, tantas ao hebraico e arábico, tantas à lógica e moral. Os sábados foram dados à retórica e poesia; porque Wesley já fazia excursões proveitosas para as encantadoras regiões da versificação. A sua sisuda mãe lhe escreveu: “Faze da poesia a tua diversão; mas não o teu trabalho”.

Uma carta do seu colega de Universidade, Roberto Kirkham, nos deixa ver através da cena algo da vida do Wesley secular, o elegante e ativo argumentador, o jovem lente de Lincoln; e descreve com o gosto de estudante um jantar de cabeça de bezerro e toucinho enfumaçado, com o melhor repolho da cidade. O grupo de banqueteadores ”abriu um barril de cidra admirável”. E como tempero para a “cabeça de bezerro e toucinho enfumaçado com o melhor repolho da cidade”, Wesley é informado, que eles falavam do vosso caráter de mérito descomunal, do vosso vulto pequeno e elegante, e da vossa conversa agradável e proveitosa. Continuando ele diz: ”Tendes ocupado freqüentemente os pensamentos da M. B., fato que tenho curiosamente observado, quando a sós com ela, nos íntimos sorrisos e suspiros, e nas expressões abruptas a vosso respeito”. M.B. “era Miss Betty Kirkham, irmã do escritor cuja carta mostra que o vulto pequeno e elegante do jovem lente de Lincoln já era a admiração de olhos femininos”.

Neste período Wesley tomava um interesse aprazível na sua aparência pessoal. Discutia seriamente com seu irmão Samuel se devia ter o cabelo comprido ou curto. “Quanto às minhas feições”, dizia ele, “tê-lo cortado, sem dúvida melhoraria a minha fisionomia, por deixar-me mais corado; e talvez me ajudaria a ter uma aparência mais gentil”. Mas João Wesley, à semelhança da mulher de João Gilpin, possuía espírito frugal, e decidiu que as melhoras em sua aparência não compensariam

o gasto de duas ou três libras por ano com o barbeiro.

É fato que as dívidas perseguiram a João Wesley até o tempo da sua eleição como lente. O seu pai escreveu “ao meu Caro Lente eleito de Lincoln”, lhe enviando doze libras, e dizendo: “Já fiz mais do que pude para vós. Não tenho cinco libras para custear a família até depois da cei fa. Qual será a minha sorte, só Deus sabe”. Samuel tinha diante de seus olhos uma visão bem clara de outra visita ao castelo de Lincoln na condição de preso por causa das dívidas. Entretanto, escreve:

“Sed passi graviora. Esteja eu onde estiver, o meu João zinho é lente de Lincoln”.

Mas uma onda de sentimentos mais profundos começava inundar os canais da vida de João Wesley, de tal modo que Miss Betty Kirkham e seus suspiros, e o barbeiro e sua tesoura foram logo submergidos e para sempre perdidos da vista humana.

PARTE II

O Desenvolvimento do santo

CAPÍTULO V

A Piedade Juvenil

A religião constitui o fato supremo na vida de João Wesley, a única coisa que a torna de interesse histórico e imortal. No grande

domínio da religião ele encontrou as forças que lhe habilitavam a gravar

o seu nome tão profund amente na história humana. Ao serviço da

religião ele fez o trabalho que tornou famoso o seu nome para sempre.

À parte do grande avivamento no qual era o principal ator, sem dúvida,

teria desempenhado papel saliente no século em que viveu. Um cérebro tão claro e ativo, um corpo tão resistente, uma figura tão graciosa, uma tão surpreendente capacidade para o trabalho, teria lhe dado êxito em qualquer domínio ou sob quaisquer condições.

Se tivesse continuado como elegante eclesiástico da Igreja Alta, com uma religião puramente mecânica, poderia ter-se vestido das mangas de cambraia de um bispo, e o seu nome, talvez, hoje se acharia gravado em letras evanescentes (que se esvaem, que desaparecem) numa tumba de qualquer catedral inglesa. Mas em tal caso, o seu único titulo à recordação humana, seria uma dúzia de áridos volumes sobre a teologia polemista.

Wesley mudou as próprias correntes da história inglesa; deu um novo desenvolvimento ao Protestantismo inglês, e assim fez-se visível para todo o sempre e soube fazer isto por ter-se assenhoreado do segredo central e essencial da religião, fazendo da sua vida o canal pelo qual as grandes forças pertencentes àa religião achassem via de comunicação com a vida de seus conterrâneos. E é a história religiosa de João Wesley que ainda afeta o mundo.

Até aqui temos nos ocupado somente dos elementos puramente humanos e seculares na sua educação, para que a sua história espiritual se ja dada como narração separada, e assim seja contemplada numa perspectiva contínua.

Em certo sentido a história espiritual de João Wesley é curiosamente moderna, e o próprio Wesley, como religioso, é homem moderníssimo. Na sua biografia acham-se refletidas e reproduzidas todas as escolas religiosas da vida moderna. A ciência relata que nos

graus do desenvolvimento pré-natal, a criança ensaia de novo, elo por elo, toda a corrente, fisiológica da existência. Assim os graus de experiência religiosa, pelos quais João Wesley passou, cobrem toda a extensão dos sentimentos e emoções religiosos, que comovem a vida dos homens no dia de hoje.

Temos o que se pode chamar a religião da meninice - a única religião que alguns conhecem coisa puramente imitativa, impressa sobre a vida à força da disciplina exterior, o resultado da educação doméstica, mas, sem qualquer raiz vital e espiritual. Temos a religião do ritualista – High Churchman – reduzida ao mecanismo de regras exteriores e mantida por disciplina externa; a do legalista, com todos, os elementos salvadores da religião, gelados, deixando com vida unicamente a moral; a do asceta, que tenta salvar a sua alma pelo castigo do corpo – humoristicamente taxada por alguém como “a salvação por inanição”; a do místico, que perde de vista a terra firme e os deveres comuns e deixa-se flutuar à toa em alguma região vaga de cerração espiritual.

Todos estes tipos existiam em Wesley. Ele experimentava todas as interpretações da religião; as experimentava sinceramente; provava - as com uma inteireza heróica; e gastou treze anos no processo - e no fim achou-se um falido espiritual.

Afinal aprendeu o segredo profundo e eterno da religião como a libertação presente e pessoal; uma emancipação verificada na consciência íntima e trazendo à alma redimida a relação de filiação com Deus; a religião com o seu segredo do poder sobre o pecado; o seu grande dom de uma moralidade incendiada pelo amor. E com essa descoberta suprema, a sua vida transfigurou-se. As experiências religiosas de Wesley são, assim, a história de uma alma; mas muito mais do que isso; são a reprodução da história das grandes escolas religiosas dentro dos limites de uma só vida sincera. Todas as sucessivas fases da experiência religiosa de Wesley existem hoje; existem contemporaneamente como separados tipos da religião.

No desenvolvimento espiritual de Wesley também se podem ver todas essas transformações de experiência com uma clareza cristalina, podem ser traçados com uma certeza inequívoca. A sua alma em todas as suas fases estava engastada em cristal; e o seu hábito de rígido exame próprio, a franqueza tanto de suas cartas como de seu Diário imortal, a bela simplicidade de seu estilo, habilitam-nos seguir, sem esforço, todas as fases de sua evolução religiosa. Ele tinha durante toda

a vida a franqueza de Rousseau sem possuir o seu astuto egoísmo; e movia num plano tão elevado que parece pertencer a uma ordem espiritual deferente da do Savoyard. Temos também os juízos do

próprio Wesley, revisados por ele mesmo, a largos intervalos de tempo

e de progresso espiritual. Assim coloca a sua juventude na luz

fulgurante, e a julga pelo fervor de sua conversão. Afinal de novo julga a ambos pela sabia e sóbria reflexão da sua velhice. Assim temos o Wesley, digamos de 1728, julgado pelo Wesley de 1738; e esses, por suas vezes, re-julgados pelo Wesley de 1788.Se for possível estudar uma alma humana em detalhe, e sob o microscópio, então se pode predicá-lo da alma de João Wesley.

Certos elementos, daquilo que se pode chamar “a religião da meninice”, estão na superfície e são facilmente descritos e avaliados. A criança adquire prontamente uma crosta (casca, escama, camada espessa) de hábitos exteriores, impressos por regra; um sistema completo de crenças indiscriminadas – crenças desprovidas de provas – sem qualquer relação com a razão e aceitas em virtude da autoridade. Esta piedade dócil e imitadora é tão exterior à alma quanto é a peIe ao corpo; mas, como a peIe, tem muitas qualidades serviçais.

Wesley possuía todos esses elementos da religião juvenil em grau bem elevado. O caráter da mãe, a disciplina materna insistente e

ordeira que rodeava as vidas de seus filhos qual atmosfera, e com algo

da pressão perpétua e irresistível da atmosfera, era bem calculada para

produzir o invólucro de hábito que constitui em grande parte a religião da criança. A teologia que em criança aprendeu era naturalmente do tipo de ritualista. Por exemplo, foi ensinado que seus pecados foram lavados pelo batismo, e anos depois eIe seriamente escreve “que só quando eu chegara à idade de dez anos, eu havia, pelo pecado pessoal, me desfeito daquela lavagem do Espírito Santo que eIe me dera no batismo”. Também foi ensinado que ele não se salvaria se não cumprisse todos os mandamentos de Deus; uma interpretação d o Evangelho de Cristo que lhe custou, mais tarde, anos de sofrimento. O resultado de tal disciplina e doutrina, sobre uma natureza predisposta à séria meditação, era produzir uma piedade juvenil de uma seriedade normal e quase aflitiva. Mas isto tão comple tamente satisfez os ideais sacerdotais do seu pai que, como já vimos, quando o menino contava apenas oito anos, fê-lo ajoelhar à mesa da ceia do Senhor.

Era século de crianças maravilhosas! É narrado seriamente

que o pai de Suzana Wesley, o Dr. Annesley, “quando tinha cerca

de cinco ou seis anos, começou o hábito, que depois continuava, de

ler vinte capítulos na Bíblia todos os dias” . O fenômeno de uma criança, que ainda não conta seis anos, seriamente formando, nas células do seu cérebro infantil, o plano de ler vinte capítulos da Bíblia todos os dias – e a execução desse hábito durante uma longa vida – seria no dia de hoje considerado como um prodígio. De Hetty Wesley, irmã de João, narra-se que aos “oito anos ela lia o Novo Testamento em Grego ”. Existem crianças tão fenomenais no dia de hoje?

Talvez a piedade forçada e infantil de Wesley fê-lo, no decorrer dos anos, demais crédulo acerca de santos infantis; ao menos, isto nos ajuda em explicar a sua experiência melancólica de Kingswood, quando tentou, em larga escala, transfigurar meninos de sete, oito e dez anos em santos maduros.

Mas alguns dos elementos mais preciosos e graciosos da piedade juvenil são conspicuamente ausentes da infância de João Wesley. Felizmente a Igreja moderna tem descoberto na religião infantil algumas das mais belas e apreciáveis graças; uma confiança inabalável que sobrepuja a metafísica dos grandes teólogos; um fácil e feliz amor a Deus, que seria irreverente, se não fosse a sua simplicidade; um regozijo na religião, tão espontâneo e prazenteiro como o trinar dos passarinhos; uma simplicidade em oração que faz a mãe, ao ouvi-la, sorrir-se e ao mesmo tempo chorar. Wordsworth diz: “O céu nos rodeia na nossa infância”; e ao redor de uma criancinha respirando a atmosfera de um lar cristão, está o céu de um simples e cordial amor a Deus, e de uma fé nele, isenta de qualquer sombra de dúvida. Cristo está bem perto do coração da criança. Ainda hoje, como nos tempos idos, ele coloca o pequenino no meio da sua, Igreja e nos avisa a todos que nessa direção está o céu!

João Wesley não possuía esses elementos graciosos, alegres e confiantes da religião infantil. Teriam sido para ele um anacronismo. Não pertencia a seu século nem ao tipo de teologia ensinada sob o teto do presbitério de Epworth. Não formava elemento algum na disciplina exatamente medida – disciplina que contava as horas e os deveres como o farmacêutico conta as gotas de uma tintura – que foi a melhor coisa que a própria sra. Suzana Wesley, nesse tempo, conhecia. Nunca criança alguma sobrepuja a religião da própria mãe; e se em certo sentido foi o mérito, era também o defeito, na piedade de Suzana Wesley, a ser construída sob o sistema de horário de uma viação férrea, e com algo de seu esforço mecânico; era esta a escola em que ela mesma se nutrira. Escrevendo em 1709 a seu filho maior, Samuel, que

estava então em Westminster, ela diz:

“Vou dizer-te a regra que eu costumava observar quando ainda me achava na casa do meu pai e tinha tão pouca, senão menos, liberdade do que tu tens agora. Eu deixava tanto tempo para o recreio quanto gastara em devoção particular. Não que eu sempre gastasse tanto, mas eu me permitia ir até aí, mas não além. Assim em tudo mais; designes certo tempo para o sono, para o comer, para a vida social, etc.”

Uma menina que orava pelo relógio, e que media essas orações, permitindo-se, então, exatamente tanto tempo para o recreio quanto gastara em oração e não mais, certamente compreendeu a seriedade da religião; mas que sabia ela da sua graciosa liberdade? E foi este o característico geral da piedade de Suzana Wesley. Era de fibra heróica e não podemos senão apreciar, quase com rasgos de admiração, os métodos de sua religião; e sua seriedade e energia de rotina. Por exemplo, esta mãe de dezenove filhos - que tinha de lhes servir de professora e quase de provedora de pão, bem como de mãe , entretanto , todos os dias, resolutamente passava uma hora de manhã e outra de tarde em oração e meditação. E geralmente furtava ainda mais uma hora ao meio dia para a med itação particular, e tinha o hábito de escrever, em tais tempos, os seus pensamentos sobre os grandes assuntos. Muitos dos quais ainda se conservam, marcados, “Manhã”, “Meio -dia”, e “Noite”; e eles possuem uma certa elevação de tom, uma separação dos eleme ntos seculares que os torna não menos que admiráveis. Parecem ser abanados pelas brisas de outros mundos. Eis um exemplo :

“Noite. - Se o estimar e o ter para Ti a maior reverência; se constante e sinceramente reconhecer-Te, como o único e supremo bem desejável, é amar-Te, então eu Te amo. Se comparativamente desprezar e contar de pouco valor tudo que o mundo contém, e considera de grande, lindo ou bom; se sincera e constantemente desejar-Te, o Teu favor, a Tua aceitação, a Ti mesmo, mais do que qualquer ou todas as coisas que criaste, é amar-Te, então eu Te amo ”

“Se o me regozijar na Tua glória e majestade essenciais; se me sentir o coração dilatado e confortado com cada percepção da Tua grandeza, ao lembrar-me que Tu és Deus; que tudo está sujeito a Teu poder; que não há ninguém superior nem igual a Ti, é amar-Te, então eu Te amo.”

É esta uma notável peça de meditação religiosa, e digna da Madama Guyon. Realmente existem muitos pontos de semelhança entre a mística francesa e esta inglesa pr ática e nobre. Mas se a Madama Guyon tivesse sido mãe de dezenove filhos e tivesse de sustentá -los com os minguados recursos do presbitério de Epworth, é duvidoso que as suas “reflexões” tivessem a atitude serena das sentenças que citamos.

Carlos Wesley, em 1742, escreveu o epitáfio de sua mãe. “True daughter of affliction she, Inured to pain and misery ; Mourned a long night of griefs and fears. A legal night of seventy Years .

Ou, “Ela, vera filha de aflição, acostumada à dor e à pobreza; chorava uma longa noite de tristezas e temores, uma noite legal de setenta anos”.

Mas não se pode descrever como “noite legal” essa experiência em que estrelavam pensamentos como os que citamos. Entretanto, o extrato que damos, mostra os defeitos na teologia de sua escritora. Reflete exatamente os métodos espirituais do seu filho durante os anos fatigosos que precediam a sua conversão. Ela possui as graças essenciais do caráter cristão, mas sem qualquer nota de exultante confiança ou de qualquer certeza de sua aceitação perante Deus. Os métodos da lógica na sua vida espiritual tomam o lugar do “testemunho” do Espírito Santo. Ela tem de certificar, tanto a Deus, como a si mesma que ela o ama, pelo auxílio dos silogismos (dedução a partir de premissas). Na linguagem da teologia técnica, ela confundia a justificação com a santificação; e isto não foi um simples erro da metafísica. Ela cria, e ensinava a seus filhos a crerem, que a consciência da nossa aceitação por parte de Deus vinha, não no começo da vida cristã, mas no fim. Não era tanto o motivo para a obediência, mas constituía o galardão por uma obediência que existia independentemente dela.

Se a senhora Suzana Wesley tivesse aplicado a sua teologia à parábola do Filho Pródigo teria escrito inteiramente de novo aquela pérola das parábolas. Teria descrito o pai como protelando o beijo, o anel, o melhor vestido - todos os penhores da filiação restaurada - até

que o pobre desgraçado, já de volta; entrasse na cozinha da casa paterna, servisse de criado, e comprasse, com o dinheiro assim ganho, uma boa fatiota para si mesmo! Já em idade avançada ela disse que, sempre considerara a consciência da graça perdoadora de Deus, como sendo uma experiência rara de grandes santos, impossível aos cristãos em geral. Era impossível à senhora Suzana Wesley ensinar o que ela mesma não sabia, e isto explica os elementos faltos na piedade infantil de seu grande filho João.

A religião infantil de Wesley não sobreviveu aos duros golpes da vida na Charterhouse e em Oxford. Desvaneceu-se inevitavelmente com os tenros anos que lhe davam existência. O próprio Wesley diz:

“Sendo removidas as restrições externas, tornei-me muito mais descuidado do que antes no cumprimento dos deveres exteriores, e me fiz continuamente réu de pecados exteriores, que eu bem conhecia por tais, embora não fossem escandalosos aos olhos do mundo”. Wesley escreve estas palavras em 1738, logo depois da sua conversão; e então, julgando a sua vida anterior pelo padrão das emoções e dos recém-nascidos ideais daquela grande experiência, naturalmente a pintava bastante escura. Ele diz: “Eu ainda lia as Escrituras e fazia as minhas orações de manhã e de noite”. Então com traço característico daquilo que se pode chamar de ex post facto – análise de si próprio – ele acrescenta: “Aquilo pelo qual eu então esperava ser salvo era: 1) o não ser tão ruim como outra gente, 2) ainda conservar um respeito pela religião, e 3) ler a Bíblia, assistir na Igreja e fazer as minhas orações”. É evidente que este sistema de religião achava -se singularmente inadequado. E embora não se diga que Wesley, em qualquer época, fosse culpado de conduta viciada, entretanto, deslizou-se em maneiras frívolas. A sua consciência perdeu tanto na sua vigilância como na sua autoridade. E quando Wesley alcanç ara os seus vinte e dois anos de idade – e realmente, por anos antes disso – a religião puramente imitativa da sua infância, mesmo para a sua própria consciência , havia se tornado em fracasso.

CAPÍTULO VI

Em busca de uma Teologia

Nos começos de 1725, Wesley, tendo completado com êxito o seu curso universitário, tinha de escolher uma carreira. A sua posição de lente abria-lhe a porta para uma das três profissões doutas, o direito, a medicina ou a Igreja. Wesley possuía, em grau supremo, alguns dotes, pelo menos, que constituem o grande advogado; e também tinha uma forte inclinação natural, como os sucessivos anos demonstraram, em direção da medicina. De fato, lidava com medicamentos durante toda a sua vida. Contudo a Igreja foi para ele inevitável. As forças hereditárias, a pressão de sua educação, e certas qualidades de temperamento natural o levaram nesta direção. Havia também colações colegiais e colações ao dispor da Charterhouse que tornavam agradável a perspectiva. O seu pai havia lhe feito pressão neste sentido; e logo no começo do ano Wesley escreveu a Epworth dizendo-se disposto tomar ordens sacras.

A escolha foi para ele de importância suprema, pois definitivamente lançou a sua vida nas correntes da religião. Carlos Wesley, traçando as forças que lhe determinaram o espírito na mesma direção, diz: ”A diligência me levou a pensar seriamente”. A seriedade, com que se aplicava aos estudos, despertou, como se fosse por vibrações aparentadas, porém mais profundas todas as faculdades mais nobres da sua alma. E como no caso de seu irmão João, a sua decisão de tomar ordens sacras fê -lo contemplar a religião com novas vistas. Mais tarde Wesley ensinou à sua Igreja que a conversão era o primeiro requisito essencial ao cargo ministerial; mas no caso dele mesmo essa ordem foi invertida. Ele decidiu tomar ordens sacras, e então resolveu “a pensar seriamente” para descobrir qual o preparo espiritual que possuísse para a vocação que encolhera.

É curioso ler a exposição que o seu pai faz dos motivos que devem atuar o candidato para o grande cargo do ministério cristão. Ele escreve:

“É da minha opinião que, se não houvesse mal algum no propósito de galgar esta posição, mesmo como os filhos de Eli, a fim de comerem um pedaço de pão, ainda assim, o desejo e o propósito de seguir uma vida mais estrita, e a crença que se deve

fazer isto, seria razão ainda melhor. E isto, no entanto, deve-se começar antes ou são dez para um que enganar-nos-emos depois”.

Isto nos parece uma descrição curiosamente inadequada do

nec essário para um tão grande

equipamento

espiritual

empreendimento.

Suzana Wesley toca numa nota mais elevada:

“Querido Joãozinho, a mudança no vosso espírito tem me ocasionado muitas cogitações. Eu, que sempre me inclino ao otimismo, espero que isto seja o resultado da operação do Espírito Santo de Deus, que, por tirar-vos o gosto pelos prazeres sensuais, quer-vos preparar e predis por-vos o espírito para uma consagração mais séria e constante às coisas de uma natureza mais sublime e espiritual. Se for assim, faríeis bem em nutrir tais sentimentos; e agora, pois, com toda a sinceridade resolvais a fazer da religião o principal empreendimento da vossa vida. Agora, que falo nisto, me recordo da carta que escrevestes ao vosso pai em relação ao vosso propósito de tomar ordens. Fiquei mui contente e gostei desse propósito. Aprovo a disp osição do vosso espírito e acho que quanto mais cedo for diácono, tanto melhor, porque pode ser que vos seja um incentivo para uma maior aplicação ao estudo da teologia prática, que eu humildemente considero como a melhor matéria de estudo para os candidatos a ordens”.

A Senhora Wesley, segundo seu costume, propõe que o seu filho imediatamente proceda a uma interrogação de si mesmo, “para que saibais se tendes uma esperança racional de salvação ”; isto é, se estais num estado de arrependimento e fé ou não. Se estiverdes”, diz ela, ”a vossa satisfação em sabê-lo será uma abundante recompensa de vossos esforços. Se não estais, tereis uma ocasião mais razoável para lágrimas do que se pode encontrar numa tragédia”.

É sem dúvida um bom conselho; mas aqui, outra vez, encontramos a mesma inversão da verdadeira ordem espiritual. O ofício espiritual vem primeiro, e depois o prepar o! O seu filho não deve tomar ordens porque já tem o necessário preparo em teologia pr ática; mas precisa ordenar -se afim de que estude essa teologia.

Entretanto, Wesley, tendo decidido quanto a sua carreira, dedicou-se com o denodo característico em preparar-se para ela. A sua própria narração diz:

“Quando tive cerca de vinte e dois anos o meu pai insistiu comigo que eu entrasse em ordens sacras. Comecei a mudar toda a forma da minha conversação e a tentar sinceramente a entrar numa vida nova”.

Sendo estudioso, dado a livros acostumado a se aproximar a tudo do lado Iiterário, dedicou-se a literatura devocional. E três escritores largamente separados, quanto ao tempo, uns dos outros, e mui diferentes em gênio e atmosfera – Thomaz A. Kempis, Jeremias Taylor e Guilherme Law – impressionaram-no profundamente. Grande, sutil, e de largo alcance é o poder de um bom livro! Em certo sentido, como ensinou Milton, é uma força imortal. A mão que o escreveu e o cérebro no qual foi concebido voltam ao pó; mas o livro ainda vive e canta, instrui ou adverte as sucessivas gerações de leitores novos.

O livro A imitação de Cristo, de Thomaz A. Kempis tem sido impresso em mais línguas, tem achado mais leitores e talvez tem exercido uma influ ência sobre maior número de almas, do que

qualquer outro livro fora da Bíblia. Quem o escreveu não se sabe ao certo, mas o monge que na sua cela distante, soube destilar nas

sentenças da

de elevado e animador que havia em todos os velhos místicos”, foi o primeiro que, atrav és do espaço de três séculos, despertou um

sentimento profundamente religioso no coração de Wesley. Ao passo que lia esse livro imortal, ele nos diz:

Imitação , segundo as palavras do Deão Milman, “tudo

“Eu comecei a ver que a verdadeira religião tem a sua raiz no coração, e que a lei de Deus aplica-se a todos os nossos pensamentos bem como a todas as no ssas palavras e

ações

retiro religioso. Eu tomava a comunhão uma vez todas as semanas; vigiava contra todo o pecado, quer por palavra quer por ação. De modo que, agora, fazendo tanto e levando uma vida tão boa, eu não duvidava que era bom cristão”.

Eu destaquei uma ou duas horas por dia para um

tão

profundamente como Thomaz A. Kempis. Entretanto não podia haver contraste maior entre duas inteligências: Wesley, com a sua lógica, clara como o gelo e quase tão fr ia, e com o seu desprezo da

retórica; e Jeremias Taylor, ”o pregador da boca áurea”, com a sua mais que trópica profusão de eloqüência. Jeremias Taylor tem sido

Jeremias

Taylor

impressionou

a

Wesley

quase

chamado “O Shakespeare da teologia”. De Quincey nos conta que

começou

primeira sentença – “Jeremias Taylor, o mais eloqüente e o mais

sutil dos filósofos cristãos, era filho de barbeiro e genro do rei” . Mas

o próprio De Quincey, um dos mestres supremos do estilo da

literatura inglesa, nunca se c ansa em cantar o louvor da prosa de

Jeremias Taylor. Ele o classifica junto com o autor do “Enterro da Urna”

e com o Jean Paul Richter, como sendo o mais rico, o mais

deslumbrante e o mais cativante retórico. E talvez o homem que, durante o tumulto e as lutas da Guerra Civil, escreveu “As Regras de uma Vida Santa”, tivesse a voz mais melodiosa na literatura cristã. E ainda se ouve sua voz sobressaindo às lutas partidárias e ao ruído das batalhas entre as quais o Jeremias Taylor se movia.

uma biografia do grande t eólogo, mas nunca foi além da

A sua erudição, o seu fervor espiritual, o seu gênio meigo, por algum tempo, cativavam o espírito de Wesley. Entretanto, Jeremias Taylor devia ter exercido em certo sentido, uma influência perniciosa sobre Wesley. Coleridge afirma que o autor do “Santo Viver e da Morte Santa” era, “de coração meio sociniano” (que aceita a doutrina baseada na teologia de Fausto Socino, falecido na Polônia, em 1604, que era antitrinitária, rejeitava o batismo e a ceia do Senhor como meios de graça e o pecado original e afirmava que Jesus de Nazaré era apenas um homem); e certo é que a cruz de Cristo não aparece, senão mui indistintamente, através da áurea neblina da retórica Tayloriana. Era protegido do Arcebispo Laud, e o seu alto eclesiasticismo, que, a semelhança do eclesiasticismo (afeição excessiva e/ou culto a formas, métodos e práticas eclesiásticas, a instituição igreja) mais moderno da mesma atitude, é dificilmente distinguido do papismo. Coleridge , queixa-se de que Taylor, “nunca falava com o menor sintoma de afeto ou respeito por Lutero, ao passo que chamam de santos todos os pseudo-monges e frades até as mais recentes canonizações dos modernos”. Jeremias Taylor nada contribuiu para a clarificação da teologia de Wesley; antes serviu para dar-lhe um acrescido sabor de sacerdotalismo (clericalismo, teocracia).

Mas Wesley não confiava em seus mestres, nem em si mesmo. Ele os interrogava, com a mesma diligência incansável, em que sindicava de sua própria condição espiritual. Portanto, o seu bom senso levou-o a rejeitar o elemento ascético do livro A Imitação de Cristo, onde Kempis combate a alegria inocente, e exagera o valor espiritual da tristeza. Wesley diz à sua mãe: “Não posso entender que Deus, ao enviar-nos para este mundo, irrevogavelmente decretasse que aqui estejamos sempre tristes ”. O seu pai, entretanto, concordava com

Kempis, e dizia que: “a mortificação era ainda, para o cristão um dever indispensável”. Contudo, os traços heróicos da Imitação eram elevados demais para o bom parocozinho (Samuel), e com um rasgo de sensatez descomunal, ele recomenda a João que consulte a mãe, dizendo: “ela terá tempo para peneirar o assunto até o farelo.”

A Senhora Wesley discute com notável sensatez toda a moral do prazer:

“Se quereis julgar da legitimidade ou da ilegitimidade de qualquer prazer, segui esta regra: Tudo que vos enfraquece a razão, debilita-vos a sensibilidade da consciência, obscurece- vos a percepção de Deus, ou vos diminui o gosto pelas coisas espirituais - mesmo que seja inocente em si mesmo - é para vós um pecado”.

Os mais sábios casuístas talvez achariam dificuldade em formular melhor interpretação do dever humano!

Wesley, com notável presteza observou o que havia de salutar em seus novos mestres. Do livro A Imitação de Cristo ele aprendeu algo da altitude e do escopo da vida espiritual. Depois de tê-lo lido, ele diz: “Vi que, mesmo dando toda a minha vida a Deus, supondo que isto me fosse possível, nada me aproveitaria, sem eu dar-lhe o meu coração, sim, todo o meu coração”. Jeremias Taylor ensinou-lhe a grande verdade, na qual ele medita com ênfase tão terna e comovente, da necessidade de um propósito absolutamente puro e simples. Wesley diz:

“Instantaneamente resolvi dedicar toda a minha vida a Deus - todos os meus pensamentos, palavras e ações - sendo convencido de que não existe meio termo, mas que todas as particularidades da minha vida - não algumas somente – têm de ser um sacrifício a Deus. Ou a mim mesmo, isto é ao diabo”.

Mas ele discorda, com a sensatez inevitável, do exagero de Jeremias Taylor quanto a virtude da humildade. Seria, deveras, uma forma da piedade o julgarmo-nos piores do que a outros quaisquer? “É tudo”, diz Wesley, “questão determinável pelos fatos. Por exemplo, alguém, estando na presença de um livre-pensador, não pode deixar se conhecer como sendo o melhor dos dois”.

Nesse tempo, entretanto, Wesley se achava mais empenhado em tornar clara a sua teologia do que em determinar a sua própria condição espiritual. Discute uma multidão de questões difíceis de teologia, com o

seu pai e a sua mãe e é difícil crer se, que nesse tempo houvesse qualquer outra correspondência na Inglaterra que rivalizasse, em sensatez e seriedade, com as cartas que se trocavam entre João Wesley, em Oxford, e a família no presbitério de Epworth. A sua mãe era, talvez, a mais adestrada em teologia do grupo, posto que a sua teologia nem sempre fosse do tipo evangélico.

João Wesley discute com a mãe a intrigada questão da predestinação. Ela lhe diz: “Essa doutrina, como mantida pelos calvinistas rígidos, é horripilante, e deve ser odiada; porque diretamente acusa ao Deus Altíssimo como sendo o autor do pecado”. Ela assevera que “Deus tem uma eleição, mas é baseada na sua presciência, e de modo algum derroga na livre graça de Deus, nem prejudica a liberdade do homem”. Anos depois, Wesley publicou as cartas da sua mãe na Arminian Magazine, e sem dúvida, elas lhe ajudavam em formar a sua teologia, e a da Igreja que eIe fundou.

Mãe e filho ainda debatiam assuntos tais como a verdadeira natureza da fé, do arrependimento, da Trindade; as cláusulas condenatórias no credo de Atanásio; o castigo futuro, a doutrina de plena certeza, etc., etc. Sobre o assunto da plena certeza Wesley, nesse tempo, teve idéias mais acertadas do que a mãe. Ela diz: “A certeza absoluta que Deus nos tem perdoado, nunca podemos ter até que formos ao céu”. Wesley respondeu: “Estou persuadido que possamos agora saber, se estamos na graça de salvação, visto ser expressamente prometido nas Santas Escrituras em recompensa dos nossos esforços sinceros”. Mas aqui ele vacila e perde - como perdeu durante os treze anos seguintes - a grande verdade da atestação pelo Espírito Santo, na alma crente, ao perdão dos pecados. Diz ele:

“Certamente somos capazes de julgar da nossa própria sinceridade;” e a estimação que a alma humana é capaz de fazer da sua própria sinceridade é, aparentemente, o único alicerce sobre o qual se pode construir a alegre certeza do perdão de pecados!

Wesley foi ordenado diácono aos 19 de Setembro de 1725. Pregou o seu primeiro sermão em South Leigh, vila pequena na vizinhança de Whitney. Mais tarde, passou o verão de 1726 em Epworth, pregando com o pai e seguindo os seus estudos.

Esta visita devia ter sido mui apreciada pelos pais. João Wesley teve sobre si as glórias de sua então recente eleição a posição de lente; para ele a vida começara fulgurantemente; era de caráter imaculado, e estava no limiar do mais sagrado cargo dado aos homens exercerem. O

seu pai lhe escrevera, havia poucos meses, ao perceber nas cartas do filho uma nova nota de seriedade: “Se és o que escreves, eu e tu seremos felizes”. E agora o pai podia julgar que o filho era o que escrevera.

À lareira do presbitério, toda a noite, Wesley sentava-se com os pais, palestrando com eles sobre grandes temas. Ele anota no seu Diário a lista dos tópicos que essas palestras versavam: Como aumentar nossa fé, a esperança, o amor a Deus ; a prudência, a simplicidade, a sinceridade, etc. Para uma mãe, com o espírito nobre e sério de Suzana Wesley, aquelas palestras à lareira com o seu douto e brilhante filho, que lhe viera da atmosfera da Universidade, e que manifestamente se achava ao limiar de uma grande carreira, deviam ter constituído um prazer indizível.

Mas Wesley, nesse tempo, era, no sentido claro e escriturístico do termo, cristão? Que ele responda por si mesmo. Em 1744 ele fez uma exposição das grandes verdades evangélicas que lhe mudaram a vida, e por cuja pregação, estava afetando as vidas de multidões. Então ele passou revista no tempo que acabamos de descrever:

“Passaram muitos anos, diz ele, depois de ter-me ordenado ao diaconato antes de convencer-me das grandes verdades que acima citamos; e durante todo esse tempo eu era completamente ignorante tanto da natureza como da condição da Justificação. Às vezes eu a confundia com a santificação, particularmente quando eu estive na Geórgia. Outras vezes eu tinha alguma noção confusa acerca do perdão de pecados; mas eu então tomava por verdade que a ocasião deste perdão devia ser ou na hora da morte ou no dia de juízo. Eu era igualmente ignorante da natureza da fé salvadora, julgando que significava unicamente um firme assentimento a todas as proposições contidas no Antigo e no Novo Testamento”.

Certamente foi um grau de ignorância teológica bastante notável numa inteligência tão clara e que havia sido tão bem educada. Mas a teologia do presbitério de Epworth, não obstante seu encanto e seriedade, era mui defeituosa. E se bem que os homens são julgados, não por sua teologia, mas por suas vidas, entretanto, qualquer erro grave na interpretação da verdade divina tem de afetar profu ndamente a vida.

Quanto a Wesley, uma incessante inteireza assinalava a cada

passo a sua têmpera religiosa. Não queria incerteza alguma, nem ilusões suaves e fáceis. A religião como dom de Deus e como experiência humana era algo definido. Ele o possuía ou não o possuía; não era admissível qualquer meio termo. E com um sábio - se bem que inconsciente - instinto ele sujeitou a sua teologia à prova final. Lançou-a no alambique da experiência. Provou-a pelo toque vital: o seu poder em determinar e formar a vida. Gastou os dezenove anos seguintes neste processo; experimentando o seu credo com uma coragem infinita e com uma sinceridade transparente, e freqüentemente com sofrimentos e trabalhos, pelo áspero ácido da vida, até finalmente alcançar aquela concepção de Cristo e de seu Evangelho que elevou o seu espírito às regiões resplandecentes do gozo e poder.

É indubitável que, nessa época, Guilherme Law exercia uma influência mais profunda sobre Wesley do que o próprio Thomaz A. Kempis ou Jeremias Taylor. A Chamada Séria é um dos grandes livros da literatura cristã. Dr. Johnson disse a Boswell que ele havia, com pouco escrúpulo, falado contra a religião até ler essa obra de Law. Ele disse:

“Peguei no livro, esperando achá-lo insípido, como são em geral tais livros; mas Law era demais para mim; aquele livro me fez pensar sinceramente”. Wesley, na tarde da vida, e depois de ter renunciado o próprio Law como guia religioso, ainda declarou que “não havia na língua inglesa qualquer obra que sobrepujasse A Chamada Séria quer na beleza de expressão quer na justiça e profundidade de seus pensamentos”.

Law existe vagamente na idéia popular como um místico; e é verdade que, como diz o Southey, “o homem que abalara tantas inteligências finalmente sacrificou a dele às divagações e rapsódias de Jacob Behmen”. Mas se o Guilherme Law findou-se no misticismo, os seus primeiros anos não estavam envoltos nessa malfadada cerração (nevoeiro espeço, escuridão, trevas).

Não havia qualquer indício do misticismo nas aparências de Law, um homem corpulento, de rosto cheio, com as faces coradas, de passo

pesado e de corpo sólido. Não há nada, tão pouco, da nebulosidade mística em suas primeiras obras. Seria difícil igualar a lógica de Law, na rigidez de fibra, na presteza e penetração com que descobre as falácias no argumento do adversário. Os seus livros, para o gosto moderno, perdem muito do seu encanto pelo hábito do autor em personificar todos –

“Paternus ”, “Modestus,” etc. Entretanto poucos escritores usam tão

os

seus

vícios

e

virtudes,

rotulando-os

com

nomes

latinizados

facilmente de inglês tão ressonante e expressivo como Guilherme Law. As suas sentenças picantes freqüentemente contêm um tempero de sátira digna de Swift.

Law, durante algum tempo, era o diretor espiritual da família do pai de Gibbon, o famoso historiador, e a este serviu de tutor. Existe um elemento humorístico nessa associação - a combinação do místico, que contemplava tudo no mundo material como sendo uma parábola do universo espiritual, e o cético árido, que tratou o mundo espiritual como irrelevante, ou como se não existisse. Entretanto, a manifesta sinceridade e consagração de Law ganharam a admiração do próprio Gibbon. Diz ele: “Law, achando, nem que seja, uma só faísca de piedade em qualquer espírito, logo a soprará em chamas”.

O efeito produzido pelo grande e poderoso escritor sobre Wesley é por este descrito assim:

“Tendo encontrado nesse tempo A Perfeição Cristã e A Chamada Séria, do sr. Law, não obstante ter-me escandalizado com muitos trechos de ambas; entretanto, por elas, eu me convenci mais do que nunca do grande comprimento, largura e profundidade da lei de Deus. A luz me veio à alma tão poderosamente que tudo parecia em nova perspectiva. Clamei a Deus que me ajudasse; resolvi como nunca antes, a não protelar o tempo de obedecer-lhe. E, por meus constantes empenhos para guardar a lei interior e exteriormente até onde me dessem as forças, eu me persuadia que seria aceito por Ele, e que eu estava então mesmo na graça da salvação”.

CAPÍTULO VII

Uma nota mais Ressonante

É possível agora estimar aproximadamente a influência que os livros A Imitação de Cristo, de Thomaz A. Kempis, e A Chamada Séria, do sr. Guilherme Law, exerceram sobre Wesley. Deram-lhe uma visão transfiguradora do majestoso escopo e altitude da religião; quão grandes eram os direitos de Deus e quão vastos os deveres do homem. Mas se lhe despertaram as grandes aspirações não lhe ensinaram a arte de realizá-las. Não enfatizaram a graça de Deus, mas os deveres do homem. Se, pois, lhe despertaram a consciência, deixaram-lhe impotente. O grande segredo triunfante do Cristianismo: o perdão divino pela graça mediante a fé, e a obediência pelas forças que afluem à alma em virtude desse perdão, não lhe foram revelados. Em uma palavra, eles erraram a ordem eterna e imutável que Deus tem estabelecido para a vida espiritual. Nessa ordem, o perdão vem primeiro, pois é a Porta Formosa do templo de uma vida santa. Ou, para variar a metáfora, é o canal pelo qual correm, para a alma perdoada, todas as grandes forças do amor e gratidão que não somente tornam possível a obediência, mas a fazem inevitável e exultante.

É verdade que em todos estes grandes livros se encontram frases esparsas que são tão evangélicas como qualquer coisa que se encon tra nos hinos mais triunfantes de Carlos Wesley, ou nos mais emocionantes apelos de George Whitefield. Por exemplo, Law disse a Wesley:

“Quereis uma religião filosófica, mas tal coisa não existe. A religião é a coisa mais simples deste mundo. É simplesmente nós amarmos a Deus, porque ele nos amou primeiro. Onde se pode achar palavras que vão mais diretamente ao coração do Cristianismo! São João podia tê-las escrito; e São Paulo tê-las-ia subscrito”.

Mas toda a ênfase efetiva dos escritos de Law está sobre ponto diverso. E a força dos três grandes livros que tão poderosamente influíram sobre Wesley neste ponto de seu desenvolvimento espiritual, está em salientar, repetimos, não tanto a graça divina como a obrigação humana. Eles vestiam a grande moral do Cristianismo com uma autoridade mais imperiosa à consciência de Wesley, mas deixavam de ensinar-lhe a mensagem especial desse Cristianismo, a relação da alma

pessoal com o Salvador pessoal. Assim o deixou falido daquela energia espiritual diretamente proveniente do Espírito Santo, o qual é o único que traz a alta moral do Novo Testamento ao domínio da possibilidade humana.

João Wesley voltou a Oxford em setembro de 1726 e recebeu o grau de Mestre em Artes em 1727. Em agosto do mesmo ano tornou -se cura (pastor ajudante) de seu pai em Epworth e Wroote, até 22 de Novembro de 1729, quando foi chamado novamente a Oxford. Wesley assim teve mais de dois anos de trabalho paroquial como cura de seu pai. Possuía, o que seria quase universalmente considerado, dotes proeminentes para o êxito em tal trabalho. Era douto, cavalheiro, com uma educação esmerada, um corpo incansável, uma facilidade incomparável em discurso cristalino, um zelo intenso, e uma concepção do dever religioso quase austera em sua aplicação. Isto quer dizer que possuía todas as qualificações humanas necessárias ao êxito ministerial, em grau tão elevado como em qualquer época de sua vida. Entretanto falhou, falhou por completo, e era consciente do seu fracasso - falhou justamente como mais tarde falhou na Geórgia! Não aprendera ainda a primeira letra do alfabeto de êxito. Não atraia multidão alguma; não alarmava a consciência de quem quer que fosse, não influía na vida de ninguém. A sua própria apreciação do seu trabalho nesse tempo é:

“Preguei muito, mas vi pouco fruto do meu trabalho. Nem podia ser de outra forma, pois eu nem deitava as bases do arrependimento nem da fé no Evangelho, julgando que aqueles a quem eu pregava fossem todos crentes, e que muitos deles não necessitassem do arrependimento”.

O completo fracasso de Wesley nesta época de sua vida é tão

notável quanto é o seu êxito mais tarde. Durante este período a nota séria, para não dizer ascética, tornava-se mais dominante em sua

experiência. Quando veio residir no Colégio Lincoln, ele escreveu:

“Entretanto agora, num novo mundo, resolvi que não teria conhecido algum por acaso, mas unicamente por escolha, e que eu havia de escolher somente aos que eu tivesse razões para crer que me ajudariam na minha viagem para o céu”. Outra vez escreveu: ”Eu preferiria, ao menos por algum tempo, uma reclusão tal que me afastasse de todo o mundo para a posição na qual agora estou ”. O impulso que faz o monge estava se fazendo sen tir no sangue frio de Wesley!

A direção de uma escola em Yorkshire, que foi lhe oferecida

nesse tempo, tinha a vantagem de um bom salário, mas havia também

aquilo que, para o espírito de Wesley nessa época, tinha ainda o encanto maior de ser quase inacessível. Ele possuía geralmente uma imaginação notavelmente sã; mas agora estava doentia, e o que Wesley chamava ”a descrição medonha” dada às terras ao redor da escola, e a dificuldade de se chegar ali, o fascinavam. Afinal a escola foi dada a outro, e a sua mãe, com o bom senso que lhe era característico escreveu congratulando-se com ele por tê-la perdido. Ela diz: “Aquela maneira de vida não teria dado com o teu gênio, e espero que Deus tenha um trabalho melhor para ti”.

Em novembro de 1729 Wesley foi de novo chamado a Oxford. Estavam fazendo um esforço para restaurar a disciplina na

Universidade. Como uma medida, decidiu-se que os lentes mais novos, que foram escolhidos moderadores, pessoalmente desempenhassem

as funções de seus cargos. Na Oxford de então os debates públicos

figuravam entre as mais importastes funções da Universidade. No

Colégio Lincoln esses debates se realizavam diariamente, e era dever

do moderador presidi-los. Wesley foi chamado outra vez para este fim, e

dedicou-se, com a costumada energia, ao seu trabalho. Achava nisto uma disciplina intelectual de não pouco valor para si mesmo; aumentava-lhe a facilidade em falar, a sua prontidão em debate, a ligeireza em descobrir as falácias num argumento qualquer. Ajudavam a dar-lhe as qualidades formidáveis de polemista que lhe serviram tão bem em anos futuros e mais tempestuoso s.

Wesley permaneceu em Oxford desde 22 de Novembro de 1729

até a sua partida para Geórgia aos 6 de Outubro de 1735. Aqueles seis anos eram, para Wesley, anos de lutas sem atingir o alvo; de grandes aspirações e de grandes derrotas espirituais. Ele estava vivendo, como disse alguém, no capítulo sete da Epistola aos Romanos, não tendo ainda alcançado o capítulo oito! E nesses seis anos trabalhosos - anos em que Wesley praticava as austeridades de um asceta, e ardia no zelo

de um fanático – e tudo sob as bases da teologia de um ritualista sem

iluminação – nasceu o Metodismo! Porque nunca se deve esquecer que

o Metodismo partilha e reflete todas as fases espirituais do seu

fundador. Começou na época de sua teologia ritualista de seus esforços para achar a sal vação mediante as obras, para agir segundo a moral cristã sem possuir a energia de forças cristãs, para produzir os frutos da vida cristã enquanto a raiz ainda não existia.

Quando Wesley voltou a Oxford naquele 1729 ele julgava que a religião fosse uma dedicação incansável a atos de piedade, um zelo intenso no cumprimento dos deveres exterioras, uma forma de piedade

para ser nutrida pelo uso incessante de todos os meios de graça exteriores. E ele achou em existência já uma pequena sociedade que exatamente refletia esta concepção da religião, e supria o mecanismo para o seu exercício.

Carlos Wesley, que então estudava em Christ Church, havia resistido aos primeiros esforços do seu irmão em querer lhe impor o selo de sua própria piedade triste e mecânica. Ele perguntou: “Queres que eu me faça santo de repente?”. Mas enquanto João Wesley trabalhava na freguesia estéril de Wroote, Carlos se dedicava com nova seriedade a seus estudos, e ele diz que “a diligência me levou a penar seriamente”. Um dos resultados desta inclinação nova e mais séria era a sua assistência ao Sacramento da Ceia do Senhor todas as semanas. E na moral de então, toda a temperatura religiosa se graduava pela freqüência com que se participava da Ceia do Senhor. Participar dela uma vez por semana constituía a piedade - ou a esquisitice - segundo o ponto de vista do crítico.

A personalidade de Carlos Wesley sempre possuía um encanto singular. O seu irmão mais varonil dominava os homens; Carlos Wesley lhes atraia qual o imã ao aço. Um grupinho de companheiros de estudos o cercavam; e se cristalizavam numa espécie de clube, tentavam viver em obediência à regra, e se reuniam com freqüência para se ajudarem mutuamente. Este grupinho de almas ordeiras logo chamou a si a atenção do público. Cumpriram todos os deveres com seriedade: a lei de Deus, o governo da Igreja, os estatutos da Universidade – todos deviam ser guardados, e guardados com exata precisão. Tais coisas eram deveras novidades! O espírito vivaz da Universidade logo achou rótulo para esse grupo de raridades. Eram chamados “O Clube dos Piedosos”, “Traças da Bíblia”, “Sacramentarianos”. Mas a maneira ordeira de suas vidas por fim determinou o seu título. Eram “Metodistas”! Assim nasce o grande termo histórico, embora o jovem espirituoso que o inventou - ou que o redescobriu - não sonhasse que estivesse a formular o nome de uma grande Igreja preste a nascer.

O grupo original de Metodistas era uma constelação de bons nomes: Roberto Kirkham, Guilherme Morgan, Jayme Harvey, o autor das então famosas, mas agora, felizmente, esquecidas “Meditações entre as Tumbas”; George Whitefield, o maior pregador que o púlpito inglês jamais conheceu; CarIos Kinchin, da vida santa. Do pequeno grupo, três eram tutores nos colégios, os outros eram mestres em artes, ou então estudantes.

João Wesley, voltando a Oxford naquele 1729, achou existente esta sociedade, que já havia adquirido o respeito de alguns e o ridículo (zombaria) de muitos. Logo João Wesley se associou ao clube e se tornou o seu espírito diretor. A sua posição na Universidade, a sua vontade enérgica, a sua facilidade de palavra, o seu gênio natural em influir nos outros constituíam -no o espírito diretor do pequeno Clube. O seu pai Samuel lhe escreveu: ”Ouço dizer que o meu filho, João, é pai do Clube Santo; se for verdade, então estou certo que sou o avô”.

João Wesley imprimiu à vida do pequeno clube uma seriedade ainda mais profunda. Deu·lhe a disciplina uma nova austeridade, e uma ordem mais acentuada, uma nova ousadia a seu zelo. A pequena companhia reunia-se todas as noites para passar em revista os feitos durante o dia, e para planejar o trabalho do dia seguinte. Visitavam aos doentes, auxiliavam aos pobres, ensinavam às crianças nas escolas, visitavam aos presos nas penitenciárias e nas cadeias.

O grupinho de almas sérias cresceu até contar quinze. Os seus membros jejuavam às quartas e às sextas-feiras, sujeitavam-se a elaborado exame próprio. Multiplicavam e tornavam ainda mais rígidas as regras que determinavam os trabalhos de cada hora e o emprego de todas as faculdades. O conselho dado a seu filho pela senhora Suzana Wesley contribuiu em determinar a fisionomia da pequena sociedade. Ela escreveu: “Tanto tempo para o sono, as refeições, as visitas, etc Freqüentemente te faças a pergunta: Porque faço isto ou aquilo? Por este meio chegarás ao grau de firmeza e constância digno de uma criatura racional e de um bom cristão”.

O Novo Clube naturalmente ocasionou bastante ridículo: logo provocou uma oposição que se tornou violenta! Eis uma história interessante contada por Benson em sua Vida de Wesley:

“Um cavalheiro eminentemente douto e bem estimado pela piedade, disse ao sobrinho que se unira à pequena companhia, que se ousasse assistir por mais tempo à comunhão semanal o expulsaria de casa. Este argumento não surtiu efeito, pois o jovem comungou na semana seguinte. O tio agora se tornou mais violento, e pegando-lhe ao pescoço, sacudiu ao sobrinho para convencê-lo, mais eficazmente, que o participar do sacramento semanalmente estivesse baseado em erro; mas também este argumento parecia ao jovem não ser bem fundado e continuava comungar semanalmente. Este homem eminente e tão bem estimado pela piedade agora mudou de tática. Por maneiras suaves e agradáveis abrandou as resoluções do jovem,

conseguindo que não continuasse tão estritamente religioso, e desde então começou a se ausentar da comunhão por cinco domingos em cada seis. Um aluno do curso adiantado, consultando com o doutor (o tio), conseguiu que os outros jovens prometessem que somente comungariam três vezes ao ano”.

Que devia ter sido o clima religioso da grande Universidade

quando os seus dirigentes se preparavam deste modo, e por tais

métodos,

Wesley respondeu aos ataques dirigidos à pequena sociedade por preparar, em estilo socrático, uma série de perguntas, das quais as seguintes são exemplo:

para combaterem

a piedade entre

os seus

estudantes?

“Se não havemos de ficar tanto mais felizes no futuro quanto mais praticarmos o bem aqui? Se não podemos procurar a fazer bem entre os jov ens da Universidade; especialmente se não devemos procurar a convencê-los da necessidade de serem cristãos, e de serem estudiosos? Se não podemos tentar a convencê-los da necessidade de método e diligência, a fim de adquirirem tanto a instrução como a virtude? Se não podemos tentar confirmar e aumentar-lhes a diligência por comungarem quantas vezes puderem? Não podemos nos esforçar em fazer bem aos famintos, aos nus, aos doentes? Se soubermos de qualquer família necessitada, não podemos lhes dar um pouco de dinheiro, roupa ou remédios, segundo a exigência do caso? Se puderem ler, não seria lícito dar-lhes uma Bíblia, um Livro de Oração comum? Não podemos indagar de vez em quando da maneira em que tenham empregado tais livros, explicando-lhes aquilo que não compreendam e salientando o que entendam? Não devemos dar o que pudermos para que os filhos sejam vestidos e lhes seja ensinada a leitura? Não podemos fazer bem aos presos? Não podemos dar emprestado um pouco de dinheiro àqueles que, tendo um ofício procuram para si a ferramenta e o material necessários a seu trabalho?”

Naturalmente existe um traço da ironia socrática nestas interrogações! Ninguém poderia combater as ações aqui descritas sem

declarar a guerra à própria religião; e esta lista de perguntas incômodas

a irrespondíveis, indubitavelmente silenciou por um momento, os

zombadores. Mas se a diligência dos Metodistas na beneficência prática aumentava, assim também se tornava mais intenso o gênio ascético – para não dizer fradesco – de sua religião pessoal. João Wesley, nesse tempo, inventou para si e seus companheiros um sistema de exame próprio que Southey declara, com algo de razão, bem podia ser apenso (acréscimo, junto, anexo) aos exercícios espirituais de Ignácio Loyola. Eis uns exemplos:

“Tenho sido simples e consciencioso em tudo que fiz?“ E sob esta pergunta principal acha-se uma chusma (grande quantidade) de ensaios microscópicos para determinar a “sinceridade” com que a alma devia se provar. “Tenho orado com fervor?” Então segue uma lista das vezes que se devia orar todos os dias, e uma série de experiências para determinar o exato grau de fervor de cada oração – experiência irresistivelmente sugestiva de um termômetro espiritual, graduado para registrar a altura do mercúrio.

Wesley adotou o costume que sua mãe lhe sugeriu, perguntando- se: “Tenho eu, em oração particular, parado freqüentemente para notar

o meu fervor de devoção?” Isto quer dizer que a alma ansiosa devia ter

os olhos dirigidos, um para Aquele a quem se oferecia à prece e o outro

fito vigilantemente sobre si mesmo para observar o seu próprio comportamento. O ideal de cada membro do Clube Santo nessa época era, manifestamente, conservar a própria alma sob o microscópio, e vigiar-lhe cada movimento com uma solicitude incansável.

As experiências práticas, pelas quais cada membro devia se provar, eram de uma espécie mais sã; mas o tom era bastante elevado:

“1. Tenho aproveitado toda a oportunidade provável para fazer o bem; e para obstar, remover ou minorar o mal?

2. Tenho contado algo como demais precioso para ser empregado

no serviço do próximo?

3. Tenho gastado pelo menos uma hora por dia em falar com um

ou outro?

4. Ao falar com estranhos tenho explicado o que a religião não é –

não negativa, não externa – e então o que ela é – a recuperação da imagem de Deus – procurando que descubram onde estacionaram, e o

que produziu este estacionamento? 5. Tenho persuadido a todos quantos eu tenho podido para

assistirem às orações públicas, aos sermões e aos sacramentos, e para

obedecerem às leis gerais da Igreja Universal, da Igreja Anglicana, do Estado, da Universidade, e seus respectivos colégios?

6. Depois de cada visita tenho perguntado àqueIe que me

acompanhava, se eu dissera algo de mal?

7. Quando alguém tem pedido conselhos tenho lhe dirigido e

exortado o quanto possível?

8. Tenho me regozijado com o meu próximo na virtude ou no

prazer; chorado com ele na dor, e chorado por ele no pecado?

9. A boa vontade tem sido e parece ser, minhas ações para com os outros?”

a fonte de todas as

Não se pode negar que aqui há elevada nota cristã do tipo da vida alvejada, embora as perguntas representem propósitos mais do que posses. E as lindas virtudes da caridade, meiguice, devoção e diligência não tiveram raiz alguma. São deveras os frutos genuínos da religião; mas tiveram por raiz uma teologia defeituosa e incompleta. Deixavam a alma sem qualquer certeza de aceitação, e a consciência sem qualquer atmosfera de paz.

Quanto ao próprio Wesley, laborava na rotina das boas obras com

a diligência que só se pode descrever como uma paixão, e com a

austeridade quase digna de um faquir indiano. Ele já formara o hábito de se levantar sempre às quatro horas de madrugada, costume que continuava até quase o dia de sua morte. Descobriu que quando recebia trinta libras por ano era possível viver de vinte e oito, e então dava as duas libras restantes; e quando gozava do confortável benefício da sua posição de lente ainda vivia de vinte e oito libras e dava o resto de seus vencimentos aos pobres. Jejuava com a diligência e a severidade heróicas, que, por fim, minou·lhe a saúde. Impunha-se uma taciturnidade (característica de quem fala pouco, silencioso, calado) férrea.

O seu irmão Carlos recorda incidentalmente: “não posso desculpar o meu irmão em não dizer nada de Epworth quando agora mesmo volta de lá. A taciturnidade em respeito a coisas familiares é a sua enfermidade. Foi muito que ele me contava quando me disse que todos aí estavam bons, pois anteriormente não era tão comunicativo”.

Que contraste é este com o Wesley expansivo dos anos posteriores, com a sua língua jovial e face radiante; o Wesley de quem

o Dr. Johnson – que tanto pregava a conversa – dizia, “eu poderia

conversar com ele o dia inteiro e a noite inteira também”; o Wesley, no

qual, o Alexandre Knox – que o conhecia como bem poucos – achava “uma habitual alegria de coração”, manifestada tanto nas feições como na fala, descrevendo-o o como sendo “o mais perfeito exemplo da felicidade moral que jamais conheci; descobrindo nas feições, fala e temperamento de Wesley” mais para ensinar-me o que é o céu na

terra

que em tudo que tenho visto, ouvido ou lido fora do “Volume

Sagrado”. A diferença entre os dois Wesley – o Wesley asceta e o Wesley evangelista – é a que se nota numa paisagem sobre a qual paira a noite e aquela sobre a qual nasce o sol. Knox descreve a Wesley como se tornou depois que descobrira o grande segredo da vida

cristã. Nesta época de ascetismo em Oxford João Wesley estava ainda estava procurando o grande segredo, e procurando-o em direção errada.

do

O zelo de Wesley neste tempo tremia à beira de um fanatismo exaltado. Ele escreveu: “Sou tentado a deixar de me dedicar a qualquer ensino senão àquele que tende à prática”. Seriamente cogitava da formação de uma sociedade para a observação ainda mais estrita dos dias santos, do sábado como uma festividade cristã, de todos os dias de

jejum da Igreja antiga, etc. Tornou-se para ele coisa de consciência que

o vinho na Santa Ceia fosse misturado com água; pois diz Wesley:

“Éramos, no sentido mais absoluto, ritualistas – High Churchmen”. Escrevendo ao pai, diz: “Ninguém está na graça da salvação enquanto não seja desprezado por todo o mundo”; e Wesley nessa época estava se qualificando diligentemente para ser assim desprezado, e achava um prazer mórbido no processo!

Existe também um traço de misticismo claramente visível no espírito de Wesley neste tempo, e parece estar em conflito irreconciliável com o rígido ritualismo de sua vida exterior. O místico e o ritualista que combinação estranha! Representam a união de elementos discordantes em uma só vida. O misticismo e o ritualismo não são meias-verdades; são contradições. O ritualismo põe a ênfase suprema nos atos externos; e o misticismo nega a existência do mundo externo,

e habita a região dos sonhos.

Wesley se desfez do misticismo primeiro; surpreendido, como devia ter ficado, pelo conflito fundamental que este mantém com a religião prática. Escreveu a seu irmão Samuel uma análise notavelmente clara das características do misticismo:

“Acho que onde quase fiz naufrágio da fé era nos escritos dos místicos; termo este que tomo como abrangendo a todos, e a estes somente, que desprezam quaisquer dos meios de graça.

Tenho preparado um breve esboço de suas doutrinas e peço a vossa apreciação dele”.

“Homens inteiramente despidos de livre-vontade, de amor e de atividade próprias, entram já numa condição passiva, e gozam de uma contemplação tal que não somente os faz independentes da fé, mas da vista também, – de modo que se acham inteiramente livres de representações, pensamentos e discursos, não se perturbando mais com os pecados da enfermidade, nem por distrações voluntárias. Já renunciaram à própria razão e entendimento por completo, de outra sorte não podiam ser guiados pela luz divina. Não buscam qualquer conhecimento claro e definido de coisa alguma; mas somente um conhecimento obscuro e geral, que é muito melhor.”

“Tendo assim alcançado o fim, devem cessar os meios. A esperança está absorvida pelo amor. A vista, ou algo mais que a vista, tem tomado o lugar da fé. Todas as virtudes eles possuem na essência, e, portanto não necessitam praticá-las diretamente. Desprezam a devoção sensível de qualquer oração; como sendo um grande empecilho à perfeição. Não necessitam ler as Escrituras, pois são apenas a carta daquele com quem eles falam face a face. Nem precisam da Ceia do Senhor, pois nunca cessam de lembrar-se de Cristo numa maneira ainda mais aceitável“.

Uma tal interpretação de religião avizinha perigosamente a sua negação! Wesley discordava do misticismo sobre outro ponto também. Era lógico bom demais para não enxergar que, em última análise, o misticismo constitui a forma mais sutil de justiça própria; e toda a sorte de justiça própria constitui uma rejeição fundamental de Cristo e de sua redenção.

“Se a justiça vem mediante a lei”, ou por qualquer espécie de esforço humano – então, segundo a tremenda frase de São Paulo – “morreu Cristo sem necessidade”. Não somente se torna desnecessária

a sua cruz, mas uma intrusão. E não pode haver coisa mais linda do que

a lógica clara e penetrante com que Wesley persegue o misticismo até descobrir na sua última raiz uma forma de justiça própria.

Escrevendo da Geórgia, no continente americano, a seu irmão ele criticara os ensinos místicos de Law; o qual lhe ensinara que as obras exteriores não eram nada quando a sós, e acrescenta:

“Ele recomendou para suprir a falta, orações mentais e exercícios semelhantes, como sendo o meio mais eficaz em purificar a alma e uni-la a Cristo”.

“Mas estas coisas”, diz Wesley com a perspicácia que lhe era característica, “eram tão realmente as minhas obras como são o visitar aos doentes ou o vestir os nus; e a união com Deus que se quer alcançar deste modo seria tão realmente a minha própria justiça como seria qualquer outra que eu praticasse sob outro nome”.

Em outro lugar, Wesley diz:

“Todos os mais inimigos do Cristianismo são como nada; os místicos são os mais perigosos; pois lhe dão punhaladas nas partes vitais, e os adeptos mais sérios do Cristianismo são justamente os mais suscetíveis de caírem por esses golpes”.

CAPÍTULO VIII

A Religião que Fracassou

O constrangimento de uma religião tal qual a que Wesley agora queria seguir era demais para a natureza humana. Nem mesmo o corpo resistente de Wesley, com os nervos de arame e tecidos de ferro, poderia deixar de ceder. E mesmo que sobrevivesse aos jejuns, ao rigor dos trabalhos e ao minguado tempo para o sono, que ele se impunha; não é de admirar que a sua saúde fosse minada, quando a tudo isso se acrescentava um espírito inquieto, uma consciência religiosa vexada e perturbada por uma infinidade de dúvidas. Parece até que, nessa época, mau trato do corpo constituía parte da religião de Wesley.

Numa carta humorística que Samuel Wesley escreveu em versos a seu irmão Carlos em 20 de Abril de 1732, ele pergunta:

“Does John seem bent beyond his strelngth to go; To his frail carcass literally a foe:

Lavish of health, as if ill haste to die, And shorten time t'ensure eternity “?

Ou,

“João parece resolvido ir além das suas forças; literalmente fazer-se inimigo do próprio corpo:

Pródigo de saúde como que querendo morrer, e encurtar o tempo para segurar-se da eternidade?”

A mãe Suzana, com solicitude que lhe era natural, temia que João tivesse a consumpção (definhamento progressivo e lento do organismo humano produzido por doença. Ato ou efeito de consumir-se); já tivera séria hemorragia dos pulmões, e por algum tempo se achava em tratamento médico.

Outro membro do pequeno grupo, Guilherme Morgan, morreu neste tempo e isto trouxe sobre o Clube Santo as suspeitas de havê-lo morto pelas suas austeridades. O pai de Morgan lhe escrevera quinze dias antes da sua morte, queixando-se:

“Causa-me

sensível

perturbação

em

ouvir

que

estais

visitando a vila de Holt, congregando as crianças e lhes ensinando as orações e o catecismo e lhes dando um shil ling ao partirdes. Resolvi pedir conselhos de um clérigo sábio, piedoso e douto; e este me disse que havia conhecido os piores resultados seguire m um zelo tão cego, e me fez ver claramente que estais errando por completo da verdadeira piedade e religião. Ele acha que sois ainda jovem, e que o vosso juízo não está ainda amadurecido. E que com

mas seguir-se-á dai que me convenha a mim? Se vós vos

regozijais sempre por terdes posto em fuga a vossos inimigos, como posso eu ter o mesmo gozo quando os meus inimigos me assaltam sempre? Sois contente que já passastes da morte para

a vida. Muito bem! Mas trema aquele que não sabe se ele vai

viver ou se vai morrer. Se tal é a minha condição ou não, quem saberia melhor do que eu mesmo?”

o

tempo vereis o erro do vosso procedimento, e pensareis como ele,

e

que então andareis como convém e em segurança sem tentardes

Numa carta à sua mãe Wesley faz uma resenha das vantagens

sobrepujar a todos os bons bispos, clérigos e outros homens

que ele goza, e pergunta:

piedosos do século presente e passados”.

Na curiosa moral daquele século, “um clérigo sábio, piedoso e douto”, manifestame nte julgava que um moço, culpado de ter ensinado as criancinhas a orarem, estava pecando contra a religião! Quando Morgan morreu , Wesley foi abertamente acusado de ter contribuído à sua morte. Isto fê-lo escrever uma longa e bela carta ao pai de Morgan, so b a data de 18 de outubro de 1732, dando relação do Clube Santo e de seus métodos. A carta, que forma a página inicial do famoso Diário, é uma história da pequena sociedade até essa data, e também uma defesa, e está assinalada

dos documentos memoráveis na

por qualidades que a fazem um literatura cristã.

As qualidades que faltavam n a vida religiosa de Wesley nesse tempo são mui evidentes. Faltava nele o elemento de gozo. A religião deve preencher na paisagem espiritual a função da luz do sol, mas no céu esp iritual de Wesley não brilhava qualquer luz divina, quer de certeza, quer de esperança. Ele imaginava que poderia destilar, de exercícios religiosos meramente mecânicos, o precioso licor do gozo espiritual; mas achou-se desesperado e, nas próprias palavras dele, “estúpido, cansado e sem emoção no uso das ordenanças mais solenes”. Também o temor, qual ave de mau agouro, lhe assombrava o espírito: temia que não seria aceito perante Deus; temia que perderia a pouca graça que já possuía; temia viver e também temia morrer. Ele declara que não ousava tomar a si mesmo a liberdade que outros gozavam. O seu irmão Samuel cujas cartas são sempre temperadas com o sal do bom senso lhe prevenia contra as austeridades que praticara e contra o rigor alarmante com que Wesley se interrogava a si mesmo. Mas Wesley se defendia com o pleito – no qual, inconscientemente mostrou um sentimento que ele não possui a força do seu irmão e não ousa tomar o risco:

“Admito (diz ele) que o riso muito vos convenha a vós;

“Que farei para tornar efetivas todas estas bênçãos?

Devo deixar de vez a procura de toda a instrução que não tende à pratica? Em outros tempos eu desejava distinguir-me em línguas

e na filosofia, mas isto já passou”. Então clama: “Qual será o

caminho mais direto para a paz que eu suspiro? Não está em fazer-me humilde? Mas suscita-se a pergunta: Como posso fazer isto? Simplesmente admitir a necessidade disso não é o fazer-me humilde”.

Então este brilhante, jeitoso e letrado lente de Lincoln, com o corpo debilitado pelos jejuns, o espírito preso de saudades insaciáveis volve para a mãe com o gesto de uma criança cansada. Nos dias simples, passados havia muitos, no presbitério de Epworth, a sua mãe costumava designar uma hora a cada quinta -feira para palestrar com o Joãozinho . Wesley escreve:

. “Em muitas coisas já intercedestes por mim e prevalecestes. Quem sabe se, nisto também, não tenhais êxito? Se puderdes dar-me somente aquela pequena parte da noite de quinta-feira, que outrora, me destes de outra maneira, não duvido que agora me seríeis tão útil em corrigir-me o coração como fostes então em formar o meu juízo. Quando vejo quão velozmente a vida corre e quão vagarosamente vem as melhoras, convenço-me de que nunca se tem demasiado medo de morrer antes de se ter aprendido a viver”.

O Cônego Overton, que di ligentemente procura abotoar a

João Wesley, por todas as fases de sua vida, numa batina ritualista, insiste que Wesley nesse tempo era santo sem sabê -lo. É verdade que o próprio Wesley, que devia ter se conhecido melhor do que qualquer outro quanto à sua condição espiritual declarou depois, que nesse tempo ele estava completamente destituído da verdadeira religião; mas o Cônego Overton heroicamente insiste em defender a João Wesley contra João Wesley. Ele conta a história da diligência

de Wesley em todas as ordenanças da Igreja, do seu zelo em atos

de beneficência cristã, de suas elevadas aspirações pelas virtudes cristãs, e pergunta: Se isto não é ser bom cristão, então que é? Ele diz:

“Se o João Wesley não era verdadeiro cristão (quando estava na Geórgia); então Deus ajude os milhões que professam e se chamam cristãos”.

o segredo da vitória Cristã. “É, diz ele, um assentimento inabalável a

tudo que Deus tem revelado nas Escrituras; e especialmente àquelas verdades importantes, a saber, que Jesus Cristo veio a este mundo para salvar aos pecadores; levou ele próprio os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro; ele é a propiciação pelos nossos pecados; e não

somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”. E ai Wesley parou, mas em 1765, quando reeditou o sermão, ele acrescentou, com um significante, Nota bene, a seguinte anotação:

Mas quem pode estudar as experiências religiosas de Wesley nesse tempo e afirmar que representam os sentimentos espirituais que a religião visa criar e que realmente cria no coração crente ? Wesley, nesse tempo, vivia unicamente naquilo que se pode

 

“É igualmente a revelação de Cristo em nossos corações a evidência divina ou a convicção do seu amor; seu amor livre e imerecido para mim, pecador; a confiança inabalável na sua misericórdia perdoadora efetuada em nós

chamar a teoria servil da religião. Não aprendera ainda o significado

pelo Espírito Santo; confiança esta que habilita a todo o

da

declaração: “De modo que não és mais escravo, porém filho”.

Entretanto Wesley ocasionalmente mostrava com clareza que, intelectualmente, possuía as doutrinas evangélicas. Em 1º de Janeiro de

e

três sermões que, com as Notas de Wesley sobre o Novo

crente verdadeiro em testemunhar: ”eu sei que o meu Redentor vive“; que tenho para com o Pai um Advogado, e Jesus Cristo é meu Senhor, e é a propiciação pelos meus pecados. Sei que ele me ama, e deu-se a si mesmo por mim;

1733, por exemplo, pregou em Santa Maria, Oxford, um sermão notável

e

ele me reconciliou com Deus, e tenho a redenção mediante

sobre “A circuncisão do Coração”; e como exposição dos ofícios do

o

seu sangue, a saber, o perdão dos pecados”.

Espírito Santo na alma humana não pode ser ultrapassada, quer na força quer na clareza doutrinária; ainda ocupa lugar entre os cinqüenta

Por fim Wesley havia endireitado os seus pronomes! Estas palavras são vibrantes com a nota essencial do Cristianismo; o acento

Testamento, constituem o padrão teológico da Igreja Metodista em todo o mundo. Eis a definição do estado espiritual que aqui descreve:

pessoal, a cadência triunfante! Aqui o propósito mais central e divino da redenção de Cristo tornou-se realidade na experiência humana. A fé

 

“A circuncisão do coração é aquela disposição habitual da alma que, nas Sagradas Letras, se chama

não é simplesmente o assentimento intelectual a certas proposições teológicas ou históricas; é antes a alegre confiança da alma pessoal

santificação, que significa claramente, ser purificado do pecado, de toda a imundícia da carne e do espírito; e, por conseguinte, ser revestido de todas aquelas virtudes que estavam também em Cristo Jesus, sendo renovado na imaginação de sua mente a ponto de ser perfeito como o é o nosso Pai Celeste”.

num Salvador pessoal. Mas é esta justamente a nota que faltava no sermão de 1733, e faltava também na própria experiência de Wesley até aquela data. É mui instrutivo notar aquele pequeno mosaico, no qual está traçada a alegre experiência de Wesley em 1765 – experiência esta que já havia durado mais de um quarto de século posto como testemunha no meio das sentenças áridas do sermão de 1733.

Seria difícil, em tão poucas palavras, fazer uma apresentação mais enfática da doutrina de “perfeição”, que é o característico – e aos olhos de muitos, o escândalo – do ministério posterior de Wesley. O próprio Wesley diz em 1765: “Este sermão continha tudo que eu agora ensino em referência à salvação de todo o pecado, e de amar a Deus de todo o coração”. Entretanto o sermão pertence ao período não iluminado de sua teologia; quando o próprio Wesley se achava aflito por constantes dúvidas quanto à sua própria condição espiritual!

No sermão de 1733 ele prossegue com a definição da fé que é

Outra ilustração das curiosas oscilações teológicas de Wesley nesse período – a maneira em que, ao passo que apanhava intelectualmente a verdade evangélica, falhava por completo em torná -

la uma realidade na experiência – acha-se no contraste entre o primeiro

livrinho que jamais publicou, um livro de orações publicado em 1733, e

a segunda obra original que veio à luz uns dezoito meses depois, o sermão sobre “Os Trabalhos e o Descanso dos Bons”.

visão,

As orações mostram um verdadeiro fervor evangélico; pela

no

clareza, simplicidade

e beleza,

são

incomparáveis.

Mas

sermão de 1735 Wesley é outra vez o ritualista, pendendo de novo para

o domínio da teologia sacerdotal. A perfeita santidade, ele declara, “não se acha na terra. Certos restos da nossa enfermidade sempre serão sentidos”. E então pergunta: “Quem nos livrará do corpo desta morte?"

A sua resposta curiosamente anti-evangélica é: “a morte destruirá de

vez todo o corpo de pecado”.

A morte, em suma, é o Cristo da alma, e o único libertador que a alma jamais conhecerá. É evidente que Wesley nesse tempo não possuía a visão clara e nítida da verdade cristã, verificada pela própria experiência. Oscilava, qual o pêndulo, entre concepções contraditórias.

Uma ilustração esquisita dessas oscilações acha-se numa correspondência, um tanto absurda, que Wesley mantinha nesse tempo com uma mulher que no correr dos anos atingiu a fama social e literária

– Maria Granville, depois Madama Pendarvis. Era mais velha que

Wesley por três anos, viúva jovem e fascinante, sobrinha do Lorde Lansdowne, rica, espirituosa e bonita. Eles encontraram-se em casa dos Kirkhams, e o jovem lente do colégio de Lincoln e a jovem viúva brilhante e catita (elegante) encetaram uma correspondência ; Wesley, sob o nome de “Cyro”, e Maria Granville, sob o de “Aspásia”.

Durante meses “Cyro” e “Aspásia” trocavam cartas nas quais corre uma curiosa mistura de teologia e de sentimentos pessoais que se aproximam de um namoro. Cyro diz: “Contai-me, Aspásia, se será mal que o meu íntimo coração arda ao lembrar-me das muitas provas de estima que já me mostrastes”. Então exorta a Aspásia a orar por ele, e discute com ela certos problemas teológicos. Aspásia escreve: “Ó Cyro! Fazeis uma tão linda defesa! E como estais adornados com a beleza da santidade”. Mais tarde Aspásia queixa -se que “o Cyro já me apagara da memória”.

com

sentimentos mui humanos nesta correspondência, e Cyro estava em iminente perigo de fundir o teólogo no namorado. Deveras ele às vezes passava os limites, e a própria viúva – embora tarde demais, e somente

quando Wesley passara para outro domínio de sentimento – estava visivelmente bem disposta a difundir um calor mui humano em suas cartas.

Existe

uma

curiosa

mistura

de

discussão

doutri nária

Aqui transparece algo dos modos de Wesley em relacionar-se com o belo sexo, pois, nota-se que esta correspondência com a Aspásia floresceu do tronco de uma correspondência anterior – com Miss Betty

Kirkham, Correspondência, na qual pulsava um mui definido amor humano. Betty Kirkham era irmã de seu amigo de colégio; e é quase certo que Wesley a amava a seu modo temperado, e que teria se casado com ela. Mas algum contratempo – talvez a autoridade paterna de um ou de outro lado – intervinha, e Betty Kirkham casou-se com outro, morrendo pouco tempo depois.

Foi na casa dos Kirkham que Wesley encontrou a madame Pendarvis. Quando Wesley correspondia com Betty Kirkham lhe apelidara de Varanese; e as suas primeiras cartas à Aspásia estão cheias de referências “À minha Varanese” e “À minha querida Varanese”. Entretanto, Wesley vigiava cientificamente a suas próprias emoções, como namorado; e dizia a Aspásia:

“Não posso deixar de notar com prazer a grande semelhança que existe entre as emoções que sinto agora em escrever a Aspásia e as que freqüentemente me trasbordavam o coração quando comecei a relacionar-me com a nossa querida Varanese.”

É mais uma prova que Wesley não possuía o pleno senso de humor. Seria de se esperar que uma moça sentisse qualquer interesse na circunstância do seu correspondente achar-se possuído exatamente das mesmas emoções que antes sentira em outro namoro já perdido? Durante toda a vida, Wesley n unca se aproxima tanto ao absurdo como quando se acha enamorado ou está no começo de um namoro. Talvez nunca sentisse o amor no sentido geral da humanidade. Mas foi criado numa família singularmente rica em influências femininas. Conhecia, como bem poucos poderiam ter conhecido, quão viva e espirituosa é a inteligência da mulher, e quão terno é o seu afeto, e quão clara é a sua penetração espiritual. E durante a sua vida toda ele procurava com avidez as amizades de mulheres puras e jeitosas.

CAPÍTULO IX

Oxford perde o seu encanto

Uma prova expressiva do caráter claustral (enclausurado, fechado numa redoma) e concentrado da piedade de Wesley, nesta época, acha-se na sua recusa de assumir o lugar de seu pai em Epworth. O pai era já bem idoso, e de saúde precária; podia morrer a qualquer hora. Quem seria o seu sucessor? Da resposta desta pergunta dependia, praticamente, o futuro da família de Epworth. O benefício era de valor; o pároco havia gasto uma parte considerável de seus vencimentos em melhorar o presbitério. Se João pudesse assegurar-se da sucessão, então a mãe e as irmãs teriam casa pelo tempo que precisassem. O beneficio estava à mercê da Coroa, e insistiram com João Wesley que desse os passos necessários para assegurar-se da nomeação.

Ele, hesitando, duvidando e debatendo, finalmente recusou terminantemente, justificando-se com o pai por uma carta de estupendo comprimento, cujo tamanho quase daria um panfleto. Uma decisão que

necessitasse de tamanha defesa devia ter sido duvidosa. As razões que Wesley dava pela recusa, quando analisadas, são todas de uma natureza pessoal, senão egoísta. Ele declara que a primeira consideração é o modo da vida que conduzi a mais para o meu próprio melhoramento! Ele necessita de convivência diária com os seus amigos, e diz, “não conheço outro lugar abaixo do céu, fora de Oxford, onde posso ter sempre perto de mim uma meia dúzia de pessoas, do meu

Ter-se um tal

número de amigos tais, constantemente, a velarem por minha alma” é uma benção que, em suma, Wesley não pode tomar a resolução de deixar. Em Oxford ele sempre goza da exclusão. “Eu não somente tenho tantos, mas também, tão poucos companheiros quantos desejo”. Está livre de cuidado; goza de toda a sorte de oportunidades espirituais - a oração pública duas vezes por dia, o sacramento da Ceia do Senhor semanalmente, etc. “Outros façam o que puderem”, diz Wesley, “mas eu não sou capaz de conservar-me firme, por um mês sequer, contra a intemperança no dormir, comer e beber, contra a irregularidade no estudo, contra a moleza e as indulgências supérfluas, a não ser” – em suma, que tenha os auxílios para a vida cristã que se encontram unicamente em Oxford. Ele diz que “meios cristãos” o matariam. Eles

próprio pensar, empenhadas nos mesmos estudos

insensivelmente minam todas as minhas resoluções e me furtam o pouco fervor que tenho. Nunca volto de uma estadia entre esses santos do mundo sem sentir-me extenuado, desfalecido e exausto de todas as minhas forças”. A não ser que e le se abrigue sob as asas de uma fé mais robusta do que a sua. João Wesley protesta que há de morrer; de modo que não se aventura afastar-se de Oxford.

Suscita-se mui naturalmente a questão de fazer bem a outros, mas Wesley laconicamente diz a seu pai, “a questão não é se eu posso fazer mais em benefício dos outros aqui ou ali, mas onde posso fazer melhor para mim mesmo; sendo claro que, onde eu mesmo puder ser mais santo, será onde poderei melhor promover a santidade em outros”. Mas este lugar é somente Oxford. Fora lhe dito que em Oxford “era desprezado” e que, pelo menos, indo a Epworth, encontraria uma atmosfera de respeito. Mas Wesley estava naquela condição de enfermidade espiritual em que a perseguição constitui uma espécie de petisco. Ele responde, “o Cristão será desprezado em qualquer lugar e até que seja assim desprezado ninguém está em estado de salvação”.

Tudo isto mostra

que

não

que a piedade

o

ar

de Wesley

não

era

do tipo

bem

claustral,

acondicionada em algodão, nutrida às colheradas, e feita respira r de

uma atmosfera m edicada, morreria

suportaria

livre.

Se

fosse

forçosamente.

O pai já se achava demais doente para lutar contra um filho de tão ingênua e, ao mesmo tempo, tão astuta lógica. Ele diz ao filho Samuel : “Já tenho feito o possível, com a minha cabeça e corpo desfalecen tes, para satisfazer os escrúpulos do dever e da consciência que o teu irmão levanta contra a minha proposta”, e pede a Samuel que lhe ajude.

Samuel, agora entra na correspondência, e pergunta ao irmão, com admirável espírito, se todos os seus trabalhos h aviam dado nisto: Que houvesse uma necessidade mais absoluta para o seu próprio bem estar na vida cristã do que pela salvação de todos os párocos da Inglaterra! Tentou alistar a consciência de Wesley ao lado de sua ida a Epworth. Ele perguntou:

“Não foste ordenado? Não prometeste deliberada e abertamente que havias de instruir, ensinar, admoestar e exortar a todos que estivessem a seu cargo? Então equivocaste por uma reservarão mental tão vil que resolvesses em teu coração que nunca terias cargo? Não é o colégio, não é a universidade, mas é a ordem das Igrejas na qual foste

chamado.”

Em suma, Samuel diz a João Wesley que este tomou ordens, não para servir de tutor num colégio, mas para apascentar almas. E Samuel Wesley afirma:

“A ordem da Igreja te prende, e quanto mais te esforçares em contrário tanto mais seguro ficarás. Se existe o que chamamos verdade, eu insisto que, quando a oportunidade te ofereça, tens de cumprir aquela promessa, ou arrepender -te de a teres feito”.

Mas João era lógico demais e alerta para ser preso pelo argumento do irmão. Um presbítero que recusasse todo o cuidado de almas, sem dúvida, seria infiel; mas seria ele um perjuro por rejeitar a primeira paróquia que lhe fosse oferecida? Entretanto, a sua consciência lhe incomodava, e ele diz:

“Confesso que não sou juiz insuspeito do voto que fiz ao ordenar-me; portanto, pelo correio, logo em seguida ao que me trouxe a tua carta, submeti a questão ao juízo do sumo sacerdote de Deus em cuja presença contraí este compromisso, fazendo-lhe a seguinte pergunta: Eu prometera, no meu voto de ordenação, empreender a direção de uma paróquia ou não?”.

O apelo ao bispo em tais termos deixa transparecer a consciência legal de Wesley. Ele cumpriria a letra do seu compromisso; mas precisava ter a interpretação na letra, e por autoridade oficial!

O bispo respondeu:

"Não; contanto que, como clérigo, puderes melhor servir a Deus e a sua Igreja na tua presente posição ou em outra”.

Wesley assim escapou do redil lógico (de ser encurralado, das redes, das argumentações) de seu irmão Samuel; entretanto, dez meses depois, com estranha inconsistência, ele partiu de Oxford para Geórgia, assim fazendo aquilo que declara ser-lhe-ia impossível, em atenção cuidadosa da sua saúde espiritual, embora interesses sagrados

– o conforto de um velho pai, o futuro de sua mãe e de suas irmãs dependessem disso. A lógica de seu irmão Samuel, no decorrer do

tempo, tornou-se forte demais para a consciência legalista de Wesley. E realmente há certa evidência que Wesley, depois da morte do pai, pediu

o benefício; mas Sir Roberto Walpole não o favorecia e o pedido fracassou.

Ninguém pode ler as cartas que se trocavam entre João Wesley e seu pai velho e moribundo – com seu franco irmão Samuel fazendo coro – sem ver quão completamente centralizada em sua própria pessoa e quão destituída de fibra robusta era a piedade de Wesley nesse tempo. Estava tão ocupado em pensar da sua própria alma que não podia dar pensamento algum a qualquer outro. E da sua própria alma ele pensava de uma maneira que, há um tempo, era tão mórbida e medrosa, que claro é ainda não aprendera as primeiras letras do grande alfabeto do Cristianismo.

O pai de Wesley faleceu aos 25 de abril de 1735, e não havia nada em toda a história de sua vida tão lindo como a maneira em que a deixou. Os anos lhe suavizaram. O tempo lhe refrescara o fervor do seu sangue. A doença lhe dera uma nova perspectiva à teologia, e uma nova ternura ao espírito. Ao passo que se aproximava das fronteiras misteriosas da eternidade, a sua piedade se aprofundava; estava batizado com novas influencias.

João e Carlos Wesley estiveram com ele no fim, e numa carta sob a data de 30 de abril de 1735, Carlos descreve para o seu irmão Samuel a maneira em que o pai morrera. Algo da visão estranha que vem aos olhos dos moribundos foi concedido ao velho . Diz Carlos:

“Freqüentemente eIe punha-me a mão na cabeça, dizendo: Sê firme! A religião cristã certamente há de reviver neste reino. Tu o verás, mas eu não”. A João ele disse: "O testemunho íntimo, meu filho, o testemunho íntimo é a mais forte evidência do Cristianismo”.

Este testemunho íntimo viera tarde ao velho, mas viera. Para o filho era então uma experiência desconhecida. As próprias palavras eram ininteligíveis; pertenciam a uma língua desconhecida. João diz, quando depois contava a história, “eu não as entendia nesse tempo”. Entretanto, o que consolava tão grandemente a alma do pai moribundo, foi a mesma força que, mais tarde havia de transfigurar a vida do filho e, por ele, mudar a história religiosa da Inglaterra.

Quando chegou o fim, João, se inclinando sobre o pai perguntou-

lhe, se estava perto do céu. Carlos diz: “Ele respondeu distintamente, e com o ar da maior esperança e triunfo que se pode expressar por sons:

Sim, estou”.

Logo depois da oração em que o meu irmão o

recomendava a Deus, ele falou outra vez: “Já fizestes tudo”. Foram estas as últimas palavras”.

O sr. Samuel Wesley, o pai, deixou a família muito mal amparada.

Alugara uns campos e o gado que neles havia foi confiscado no dia do seu enterro, por um proprietário duro, para satisfazer os atrasos no aluguel. Carlos ainda não se formara; os honorários de João mal davam para provê-lo com as suas necessidades; e o peso do sustento da Sra. Suzana Wesley e de suas filhas solteiras caiu sobre o filho Samuel. O pai concluíra, antes de morrer, a sua magnum opus – um comentário sobre o Livro de Jó – e Wesley foi a Londres para oferecer um exemplar à Rainha.

Enquanto Wesley esteve em Londres, o Dr. Burton, do colégio de Corpus Christi, um dos diretores da nova colônia na Geórgia, apresentou-o ao general Oglethorpe, o fundador da colônia. Os diretores estavam, nessa época, à procura de um clérigo que pudesse pregar aos colonos e, também, aos índios na vizinhança, e Wesley parecia-lhes ser justamente o homem para o lugar. Era douto, um pregador de zelo conhecido e intenso, e com uma paixão pelos trabalhos religiosos que, para pessoas menos zelosas, parecia fanatismo. Seria de se supor que a lógica que obstara (que servira de obstáculo, que impedira) a João Wesley de deixar Oxford para ir a Epworth por causa dos “riscos em mudar-se de clima espiritual”, teria ainda mais força no presente caso. Mas Wesley inconscientemente se mudara de pensamento. A sua consciência se colocara ao lado dos argumentos do seu irmão Samuel.

Também grupos de universitários são, por natureza, temporários. Os membros têm de espalhar -se entre as suas respectivas carreiras; e foi isto o que aconteceu em Oxford. Morgan morreu, Gambold e Ingham estavam prestes a tomar curatos (assumirem o cargo de curas, ou seja, um pároc de aldeia ou vilarejo). O George Whitefield, que ainda não fora ordenado, estava começando trabalho evangelístico no condado de Gloucester. Broughton era capelão na Torre. A bela camaradagem do Clube Santo em Oxford, à semelhança dos Cavalheiros da Mesa Redonda do Rei Arthur, estava em dissolução. E Wesley, vendo os laços a romperem, um por um, voluntariamente atendeu a esta nova chamada rumo à Geórgia.

É claro também que, o próprio Wesley, se não se cansara com o Clube Santo e seus métodos, havia visivelmente perdido a fé nestas coisas. O seu programa de orações mecânicas, suas obras de piedade, suas austeridades físicas, eram simplesmente um sempre caminhar espiritual, roda à roda , sem nunca chegar a nenhures (a lugar algum). Wesley já fizera este giro durante seis anos, e sabia o que acontecia. No fim desses anos de

desenganos, cansaços e diligentes esforços, sentia que a religião possuía um segredo que ainda ele não alcançara por suas pesquisas, uma força que ainda não possuíra, um gozo que ainda não experimentara. Como seria possível traduzir a vida espiritual por termos mecânicos sem que perecesse na transição?

Ao princípio, Wesley recusou o oferecimento da missão à Geórgia, mas com um acento que convidava uma repetição (uma recusa sem convicção). Ele declarou que não podia deixar a mãe, sendo indispensável ao seu sustento e conforto. Perguntaram-lhe, se iria, caso a mãe consentisse? Wesley julgava que seria impossível, mas permitiu que a consultassem. Se ele esperava que ela recusasse, era estranha e equivocada interpretação da t êmpera elevada e corajosa do espírito de sua mãe. A destemida senhora respondeu: “Se eu tivesse vinte filhos, teria muito gosto que todos fossem assim empregados, embora eu nunca mais tornasse a vê-los”.

Entretanto, Wesley não tomou o consentimento da mãe como sendo final. Consultou -se com muitas pessoas , desde Guilherme Law e seu irmão Samuel até o poeta João Byron. Todos concordavam que fosse. Samuel, sem dúvida, desejava que os ares do novo mundo e a rígida disciplina de uma vida diferente tirassem do caráter do irmão certos elementos mórbido s.

Aos 18 de setembro de 1735, Wesley consentiu e m ir. Tinha já trinta e dois an os de idade ; possuía a melhor erudição do s eu tempo; havia praticado em Oxford as austeridades de um asceta, e se mostrara possuidor do gênio natural para a liderança.

Os diretores da colônia inglesa na Geórgia se julgavam felizes em achar um homem como este. Entretanto, muitos, entre os amigos de Wesley, estavam desapontados. A sua nomeação para Geórgia

lhes parecia um negro eclipse que caia sobre u ma carreira brilhante.

Wesley, para justificar -se, explicou os seus

notável, com a data de 10 de outubro, que é digna de citar -se em grande parte:

“Meu principal motivo é a salvação da minha própria alma. Espero aprender o verdadeiro sentido do Evangelho de Cristo por pregá-lo aos pagãos. Eles não têm comentários que desdizem o texto; nem filosofa vã para corrompê -lo, nem expositores ambiciosos, sensuais, avarentos e luxuosos, para

suavizarem

as verdades desagradáveis . Não têm partidos, nem

interesses para servir, e são, portanto, idôneos para receberem o

motivos numa carta

Evangelho em sua simplicidade. São como criancinhas – humildes, de fácil direção e que querem cumprir a vontade de Deus”.

“Espero que uma fé reta me abra o caminho para uma prática reta, especialmente quando forem removidas, pela maior parte, as tentações que aqui me acometem com tanta facilidade. Não será pouca coisa o poder-se, sem receio de ofender, viver de água e dos frutos da terra. A choupana do índio não oferece qualquer alimentação à curiosidade, nem dilatação aos desejos pelas grandezas, novidades e belezas. A pompa e as vaidades do mundo têm lugar algum nos sertões da América.”

“ Tenho

sido um triste pecador desde a meninice, ainda

acho-me carregado de desejos vãos e perigosos; mas estou certo

que, se eu mesmo conseguir a conversão, Deus há de empregar- me tanto em fortalecer a meus irmãos como em pregar o seu Nome entre os gentios.”

“Não posso esperar alcançar aqui o grau de santidade que

me seja

Ainda terei o necessário para o comer e vestir; e se alguém deseja mais do que isso, saiba que a maior bênção a ele possível seria o achar-se privado de todas as ocasiões de dar expansão a esses desejos que, se não forem logo extirpados, afogar-lhe-ão a alma na perdição eterna“.

de

possível ali. Não perco nada que eu desejo conservar.

(Obras

Wesley, vol. VII, pág. 35)”.

A carta explica exatamente o aspecto que a missão de Geórgia apresentava a Wesley, e quais motivos que o determinavam a empreendê -la. Por que ia pregar o Evangelho aos índios americanos? Ele nos diz: "Meu principal motivo é a salvação da minha própria alma”. A sua própria alma é ainda a sua principal preocupação ; avulta-se tão grandemente à sua imaginação desesperada que eclipsa (oculta, esconde) todo o resto da raça humana! É cônscio de não ter ainda aprendido o verdadeiro segredo do Evangelho de Cristo, e nisto ele estava de juízo perfeito. Ele deseja descobri-lo para si mesmo, entretanto, pelo processo de ensiná-lo aos pagãos do outro lado do mundo!

Em suma, temos aqui um missionário, que nem credo possui, mas, que o busca numa longa viagem! Não espera tanto comunicá-lo

aos colonos e índios aos quais vai pregar e ensinar quanto espera extraí-lo deles!

A nota de cansaço com Oxford e com todos os processos espirituais do Clube Santo, se faz ouvir pela carta toda. O seu aposento quieto no quadrângulo do Colégio de Lincoln, sob a sombra da famosa trepadeira de Lincoln, com, um grupinho de rostos estudiosos e pálidos, ao redor de sua mesa, a estudarem seus Novos Testamentos em Grego – ele está solícito em deixar tudo isso em troca das planícies americanas açoitadas pelos ventos e da companhia de índios seminus! Oprime-o a Capela Colegial com o órgão sonoro, o murmurinho de orações incessantes e auditório douto e ordeiro. Aquilo que não achara na atmosfera da antiga Universidade ele espera encontrar nos rudes colonos da terra nova, ou – com ainda mais esperança – nos incultos selvagens que vagam pelas suas florestas.

Ele descreveu tão radiantemente a estes aprazíveis selvagens, que uma senhora, em admiração, exclamou com a força da lógica feminina, “Pois, sr. Wesley, se já são tudo isto, que mais poderão lucrar com o Cristianismo?”

Mas talvez a flor da verdadeira fé cristã que recusara crescer na atmosfera carregada de Oxford, poderia florescer no solo áspero de Geórgia. Wesley faria a revisão do seu credo segundo a suposta consciência incorrupta (a consciência inocente, não corrompida pelo pecado da civilização, de extrema bondade) de seus ouvintes índios. Ele diz: “Não posso esperar alcançar aqui o grau de santidade que me será possível ali”. E somente dez meses antes ele declarara que o único lugar na terra em que poderia esperar de conservar a mais fraca pulsação de uma vida religiosa no seu sangue era Oxford. A mudança para o clima espiritual de Epworth havia de matar a sua vida religiosa. E agora, tão pouco tempo passado, foge de Oxford, como sendo o melhor meio de salvar a sua alma!

Desde então, o Metodismo tem enviado mil missionários a terras, pagãs, mas nenhum outro com tão estranho sortimento de motivos como os que levavam o seu fundador para a missão na Geórgia. Mas se houver necessidade de mais prova de fracasso do credo religioso em que Wesley vivera até aí – a teologia ritualista, um ritualismo pesado e vagaroso – ela se achará na explicação de seus motivos feita pelo próprio Wesley.

CAPITULO X

Um Missionário Esquisito

A missão de Wesley na América, como já, bem pode ser descrita como a peregrinação em busca de religião. E esta peregrinação fracassou! Ele embarcou para Geórgia aos 13 de outubro de 1735, e aportou de volta em Deal no dia 1º de fevereiro de 1738, tendo gastado quase dois anos e meio na experiência e no fim achava-se mais profundamente insatisfeito consigo mesmo do que no princ ípio. Pode-se medir o progresso espiritual desses vinte e oito meses trabalh osos e aflitivos por dois trechos significantes e datados.

Aos 10 de outubro de 1735, antes de embarcar para a Geórgia, ele escreveu em palavras já citadas, o que esperava na América:

“Meu principal motivo é a salvação da minha própria alma. Espero aprender o verdadeiro sentido do Evangelho de Cristo por pregá-lo aos pagãos”. E “não posso esperar alcançar o grau da santidade aqui que me será possível ali”.

No seu diário, quando em viagem de volta da América, na terça- feira, 24 de janeiro de 1738, ele faz um resumo do que ganhara sob os céus americanos:

“Fui à América para converter os índios; mas, ai!, quem me converterá a mim? Passam de dois anos e quatro meses que deixei a minha pátria nativa afim ensinar aos índios da Geórgia a natureza do Cristianismo; mas, eu mesmo, que tenho aprendido? Isto, que eu menos suspeitava: que, eu mesmo, indo à América para converter a outros, nunca fora convertido a Deus“.

É verdade que quando, muitos anos depois, Wesley reimprimiu essas sentenças em seu Diário, ele acrescentou a nota significativa, “Não tenho certeza disso” mas, pelo menos, as palavras exprimem fielmente o seu juízo acerca de si mesmo quando de novo se achou na Inglaterra. Ele fora à América na esperança de achar ali aquilo que a Oxford e o Clube Santo deixaram de dar-lhe – uma experiência religiosa bem definida. Ele volta mais amarga e pungentemente descontente consigo mesmo do que nunca. E a narração desses meses numa terra longínqua, e sob céus estranhos, não é o capítulo menos instrutivo na história espiritual de Wesley.

A pequena companhia de missionários era composta de João Wesley e seu irmão Carlos – que exercia o cargo de secretário do General Oglethorpe, o governador da colônia – Benjamin Ingbam e Carlos Delamotte, ambos membros do Clube Santo. Dois mais, Wesley Hall e Salmon iam unir-se ao grupo; mas Hall que era cunhado de Wesley, quase no momento do embarque, recebeu a notícia de sua nomeação para um benefício, e prontamente fez desembarcar a sua bagagem. Ele não era da fazenda (do mesmo material) de que se fazem santos e mártires! Salmon foi interceptado por seus amigos e obstado (impedido) de seguir, quase a força.

A viagem durou desde 14 de outubro de 1735 até 5 de fevereiro de 1736, fato que mostra a lentidão da navegação desse tempo. Com a viagem começa o Diário imortal de Wesley, peça de literatura que em outros tempos foi muito negligenciada, mas que agora é louvada quase em demasia. Pelos interesses e qualidades variadas e pelos incidentes imperecíveis, merece, sem dúvida, ser classificado com o “Boswell” (referência a James Boswell, advogado e biógrafo escocês e um dos maiores diaristas do Século XVIII). E realmente, o Diário leva a vantagem, sobre o “Johnson” de “Boswell”, no fato de tratar-se de um vulto maior do que, mesmo, o famoso lexicógrafo, e o seu herói é também o escritor. Entretanto o Diário não é um livro de tagarelices; mas é uma autobiografia. Aqui temos Wesley, não como visto de fora, mas como Wesley contemplava a si mesmo. Em uma palavra, o Diário nos habilita a contemplar os homens, os livros e os acontecimentos pelos olhos de João Wesley, e a apreciar o mesmo Wesley interpretado – e às vezes mal interpretado – pela própria consciência.

Se a viagem era vagarosa, pelo menos Wesley e seus companheiros não tiveram folga; começaram por confeccionar e subscrever um contrato entre si; documento este que traz a data de 3 de novembro, e que reza:

“Em nome de Deus, Amém! Nós, abaixo-assinados, plenamente convencidos da impossibilidade de promovermos a obra de Deus entre os pagãos sem que haja a mais completa união entre nós mesmos ou, que tal união possa subsistir sem que cada qual ceda o seu juízo individual ao da maioria, concordamos, Deus nos ajudando:

primeiro, que nenhum de nós empreenderá qualquer coisa importante sem primeiro propô-la aos outros três; segundo, que

quando os nossos pareceres discordem, qualquer um cederá o seu juízo singular à determinação dos outros; terceiro, no caso de haver empate, depois de pedirmos a direção de Deus, o negócio será decidido pela sorte”. Assinam: João Wesley, Carlos Wesley, Benjamim Ingham e Carlos Delamotte.

Aqui vemos o instinto que Wesley teve pela ordem e comunhão, dando sinal de si. Os missionários não haviam de ser unidades separadas, mas uma companhia disciplinada. Nas últimas palavras daquele contrato temos a prática do sorteio – que corre com intermitências por todos os anos posteriores na vida de Wesley – erguido em lei e feito o padrão supremo de decisão em negócios de difícil solução.

A viagem era tida, pela pequena companhia de missionários, como oportunidade para uma provação heróica de si mesmos. Apresentou-lhes a grata ocasião de despir -se de certos hábitos arraigados. Reduziram o número de suas refeições e limitaram a sua dieta a arroz e biscoitos. Wesley, devido a um acidente teve de dormir uma noite no assoalho sem cama, e dai descobriu o fato aprazível que a cama era supérflua; dai em diante podia ser dispensada. O asceta, para não dizer “o monge”, estava aparecendo mais uma vez na vida de Wesley! Ele agiu sob a teoria que a alma fosse uma fortaleza sitiada, e que cada faculdade física fosse uma avenida aberta ao inimigo. Um apetite subjugado à fome, ou suprimido por qualquer outra forma, seria mais um traidor enforcado!

Também em outras coisas o navio, que levava esses missionários estranhos, ficou convertido, em espécie de mosteiro flutuante. Cada hora do dia era dada a seu trabalho determinado. Levantavam -se às quatro da madrugada, e cumpriam uma sucessão de tarefas ordenadas – meditações e exercícios espirituais que não deixavam um momento de folga perigosa, até às dez horas da noite quando iam dormir.

Um incidente na viagem· serviu de uma áspera provação para a condição espiritual de Wesley. Entre os passageiros havia um pequeno grupo de cristãos moravianos (crentes da Moravia, na Alemanha) desterrados, que pela simplicidade e seriedade de sua piedade, muito interessavam a Wesley. Um temporal caiu sobre o navio, uma noite, justamente na hora que esses ingênuos alemães começavam o seu culto religioso. W esley descreve o que segue:

“No meio do salmo com que começaram os seus serviços, o mar arrebentou em ondas sobre o navio, rompendo a vela

principal, cobrindo o navio e derramando água nos diferentes compartimentos, como se os abismos nos quisessem engolir. Deu-se uma gritaria medonha entre os ingleses; mas os alemães (moravianos) continuaram a cantar calmamente. Logo perguntei a um deles: ”Não sentiste medo”? Respondeu-me: ”Não, graças a Deus”. Eu prossegui: ”Mas as vossas mulheres e crianças não tinham medo“? Ele respondeu suavemente: “Não; as nossas mulheres e crianças não têm medo de morrer”. Deste grupo virei- me para os seus vizinhos trementes e agitados, fazendo-Ihes ver a diferença, na hora da provação, entre aqueles que temem a Deus e aqueles que não o temem“.

Wesley então sentia que não conseguira o segredo desse estranho desprezo da morte. Ele disse então, e por muitos dias depois, “eu tenho o pecado do temor (medo)”. Ele sabia que a morte é o toque para a religião, justamente como é o ácido para o ouro. É a prova – a mais valiosa de todas. E sob o toque deste ácido terrível do temor, a religião que Wesley possuía nesse tempo lhe falhou.

Não quer dizer que ele recuava do mero sopro da gélida morte; pois em tal caso possuíra menos coragem do que o sargento de recrutas pode achar no mercado, ao preço de poucos tostões por dia. Mas existem elementos misteriosos na morte, que a fazem símbolo do triunfo do pecado, o ato culminante do reinado escuro do pecado. A alma humana é vagamente consciente que no mal moral existem forças estranhas e trevosas – profundezas imensuráveis, relações com Deus e com seu universo que são desconhecidas – e a morte traz a alma face à face com estes elementos últimos e extremos do mal. Assim acontece que o pecado e a morte, se bem que parentes mui chegados, aborrecem-se um ao outro grandemente. E como a religião de Wesley nesta época não podia livrá -lo do temor da morte, ele julgou mui justamente que não achara ainda o completo livramento do pecado, o mais triste progenitor da morte.

Logo que Wesley chegou em terra, achou face à face com o repto (desafio) daquilo que, para ele, era um tipo de piedade inteiramente novo. Ele avidamente procurou o chefe da pequena comunidade Moraviana, Augusto Spangenberg e, com a bela humildade que caracterizava um aspecto de sua natureza, pediu -lhe conselhos – segundo diz Wesley – “a respeito da minha própria conduta”. O sincero pastor dos Moravianos lhe fez certas perguntas:

“EIe disse: “Meu irmão, tenho de fazer-te uma ou duas perguntas:

Tens o testemunho em ti mesmo? O Espírito de Deus testemunha com

o teu espírito que és filho de Deus? “ Disse Wesley: “Fiquei surpreendido e não soube responder”. Ele notou isto e perguntou: “Conheces a Jesus Cristo?” Eu fiz uma pausa e disse: “Sei que eIe é o Salvador do mundo”. EIe respondeu: “É verdade, mas sabes que ele te salvou a ti?” Eu respondi: ”Eu quero crer que eIe morreu para salvar·me”. EIe somente acrescentou: “Conhece-te a ti mesmo?” Eu disse:“Sim”. Mas receio que eram palavras vãs.”

Wesley seria o último homem no mundo que havia de escandalizar-se com perguntas tão francas e sinceras; entretanto é claro que o repto (desafio) do corajoso Moraviano lhe inquietou bastante. Pareceu ouvir nesta circunst ância o eco das palavras do pai moribundo – “o testemunho íntimo, meu filho, o testemunho íntimo” - dos lábios de um homem de outra nação e de diferente escola teológica, que o encontrara ao por seus pés no solo do novo mundo.

Entretanto Wesley sentiu-se muito atraído aos Moravianos. Viveu com eles por algum tempo e viu os seus hábitos diariamente. Era a mais bela forma de piedade que eIe ainda testemunhara – uma repetição da devoção e diligência ordeiras do presbitério de Epworth, mas saturadas de uma corrente de alegria que a família em Epworth nunca conhecera.

Wesley também esteve presente num culto Moraviano, celebrado para eleger e ordenar um bispo, e eIe descreve como a grave simplicidade fê-lo esquecer-se dos dezessete séculos idos e imaginar- se em uma dessas assembléias em que não existiam formas e ritual, mas onde Paulo, o fabricante de tendas, ou Pedro, o pescador, presidia.

É curioso de se notar que, não obstante, a piedade simples dos Moravianos ter movido Wesley à admiração, e a fé moraviana ter -lhe despertado a inveja, entretanto tudo isto em nada diminuiu o fogo do seu zelo sacerdotal. O próprio centro de sua religião estava, sem dúvida, se mudando inconscientemente; mas a crosta exterior do ritualista (high-churchman) – os hábitos exteriores da sua vida – era quase mais rígida e austera do que nunca.

Era campo bem estranho aquele em que Wesley agora trabalhava. A colônia na Geórgia representava, talvez, a mais generosa experiência em colonização conhecida na história. O seu fundador foi o general Oglethorpe – douto, soldado, político, cavalheiro, filantropo, e entre tudo mais, pois a mãe era irlandesa, um irlandês generoso, fogoso

e irresponsável. Havia sido estudante em Oxford, soldado no exército

inglês, havia pelejado no continente sob o comando do Príncipe Eugênio, e no Parlamento Britânico havia antecipado o filantropo Howard. A condição dos encarcerados por dívidas nas prisões inglesas, moveu-lhe o coração piedoso. Conseguiu a nomeação de uma comissão do parlamento para relatar sobre a condição das grandes prisões inglesas de Fleet e Marshalsea; e como resultado incidental, surgiu o plano para colonizar a Carolina do Sul. A colônia foi confiada a diretores; Oglethorpe foi nomeado governador; grandes somas de dinheiro foram levantadas para dar começo à colônia; e um códi go de leis foi adotado, que, se em todos os detalhes não se via a sabedoria perfeita, pelo menos representavam ideais mui nobres.

Uma cláusula proibiu a escravidão como sendo não somente contrário ao Evangelho, mas às leis fundamentais da Inglaterra também.

Teria sido um bem para os Estados Unidos da América e para a história de toda a raça que fala a língua inglesa, se os regulamentos de Oglethorpe para o ajuste deste ponto tivessem sido adotados universalmente. A proibição da escravidão custou aos Estados Unidos, mais tarde, depois da independência das colônias americanas, a mais terrível guerra civil que a história conhece. O mais difícil problema social

e político que a grande República transatlântica tinha de resolver nunca teria existido se o precedente da Geórgia fosse seguido.

Mas a nova colônia não somente representava uma grande experiência social: também oferecia um abrigo aos falidos sociais de toda a espécie – insolventes ingleses, jacobinos escoceses, moravianos desterrados, os náufragos do comércio e da política, as vitimas da perseguição religiosa. A colônia, desta forma, tornou-se num ajuntamento das individualidades humanas sem nexo, representando tipos raciais, políticos e sociais de uma espécie mui variada. E mais ainda, estava plantada no solo e respirava os ares do Novo Mundo, onde se esqueciam das convenções antigas, e a nova liberdade começava a fermentar no próprio sangue. Era campo ideal para experiências sociais e religiosas. E, como contribuição para a paz da nova colônia, Wesley intentava estabelecer pela disciplina sacerdotal, a mais estrita interpretação da rubrica! Ele queria imprimir os costumes - ou o que julgava ser os costumes do primeiro século Cristão numa comunidade que vivia no século XVIII!

Isto prova quão completamente o ritualista e o sacerdote eram dominantes no Wesley desta época; trabalhava somente em plano que se pode chamar eclesiástico. Assim instituiu um culto de madrugada e

outro antes de meio dia para todos os dias. Dividiu o serviço da manhã, separando a ladainha; celebrava semanalmente a Santa Ceia, mas recusava de administrá-la a todos que não tivessem batismo episcopal. Ele avivou o batismo por imersão, o que cria ser a pratica apostólica. Rebatizava filhos de dissidentes, e recusou admitir à Ceia do Senhor o pastor dos Salzburguezes, porque – não obstante ter sido batizado – não fora feito segundo as mais rígidas formas canônicas. Quase vinte nos depois, recontando este incidente ele escreveu: “O exclusivismo ritualista pode ir além disso? E desde então quão redondamente tenho sido fustigado com a minha própria vara!”

O processo organizado contra Wesley, pelo gra nde Júri de Savannah em 1737 contém dez artigos, e a um destes, Wesley, com todos sinais de verdadeiro pesar, confessou-se culpado. O seu crime consistia em ter batizado a criança de um negociante entre os índios com somente dois padrinhos! “Isto”, clama o consciencioso ritualista, “eu confesso, foi uma leviandade; eu devia, a todo o transe, ter recusado a batizá-la até que houvesse um terceiro”. Falou aí o verdadeiro ritualista, que não obstante crer que resultados espirituais e eternos dependem de formas mecânicas, no entanto, os sacrificará para manter as formas! Segundo a teoria de Wesley o destino eterno da criança dependia do seu batismo; ainda, mesmo com este terrível risco, Wesley cria que devia ter recusado a batizá-la, na falta de um terceiro padrinho!

Mas se o padrão de Wesley era severo para outros, não era menos heróico para si mesmo. Ardia nele qual uma chama, o zelo pelos mais altos ideais de conduta e serviço. Não recuava diante de quaisquer austeridades de abnegação própria; visitava seus paroquianos de casa em casa por curso, tirando para este fim as horas entre o meio dia e as três da tarde, quando todo o trabalho era suspenso por causa do calor. Vivia com a pobreza e simplicidade de um ermitão.

Em uma das escolas dirigida por ele e Delamotte, alguns dos alunos mais pobres iam descalços, e os meninos que estavam mais bem vestidos lhes olhavam com desdém. Para livrá-los desse orgulho, o próprio Wesley foi por algum tempo descalço. Vivia praticamente de pão seco, e intercalava esta dieta rudimentar com jejuns constantes.

Na Geórgia reaparece o impulso social no Wesley. Um instinto sábio e verdadeiro lhe advertia que uma religião solitária pereceria, e, como em Oxford, ele reorganizava o seu rebanho em pequenas sociedades que se reuniam uma ou mais vezes por semana, afim de

exortarem-se mutuamente.

Mas o ministério de Wesley em Savannah falhou exatamente como falhara em Wroote, e com ainda mais efeito dramático. Era destituído do verdadeiro poder espiritual; deixava de fazer os homens melhores e fomentava desinteligências (divergência, desacordo, inimizade). “Como é que não há nem amor, nem mansidão, nem verdadeira religião entre o povo; mas em vez disso, orações meramente formais?” – perguntou o Olglethorpe, atordoado pelas dissensões eclesiásticas que enchiam os ares de todo o lado.

Nas palavras de Southey, Wesley, em vez de dar leite a seu rebanho estava lhes “fazendo engolir o remédio de uma disciplina intolerante” e a natureza humana revoltava contra a amarga dose.

Um paroquiano irado – como Wesley fielmente anota no seu diário – disse·lhe: “Não gosto de nada que fazeis. Os vossos sermões são todos sátiras dirigidas a certas pessoas; portanto, não hei de ouvir- vos mais, e todo o povo é do meu parecer”. Os seus ouvintes, continuou o franco crítico, estavam mistificados e não podiam determinar se Wesley era Protestante ou Romanista. “Nunca antes ouviram de uma tal religião. Não sabem o que pensar. E ainda mais o vosso comportamento particular; todas as desinteligências (divergência, desacordo, inimizade) que tem havido desde a vossa chegada têm sido por vossa causa. De modo que podeis pregar o tempo que quiserdes, mas ninguém vos ouvirá”.

Se em Savannah os paroquianos estavam em desavenças com o João Wesley, em Frederica, tanto o governador como o povo estavam zangados com Carlos Wesley. O Carlos era tão austero como o irmão e possuía, talvez, menos jeito. Dentro de um mês os seus paroquianos estavam em plena rebelião tentando arruiná-lo com o governador acusando-o de um propósito de destruir a colônia. O infeliz governador descobriu que os seus capelães eram centros que originavam temporais humanos. Ele perguntou a Carlos Wesley em tom amargo: ”Que diria um incrédulo se visse as desordens que provocastes?”.

Oglethorpe era homem de temperamento impetuoso e de língua solta; os seus inferiores naturalmente exageravam estas qualidades, e o sobrepujava nos passos que tomavam contra o infeliz capelão. A Carlos Wesley foi praticamente negado as coisas geralmente consideradas necessárias à existência. Dos bens públicos proviam camas para todos na colônia, mas negavam-na ao pároco demasiado zeloso, o qual,

enquanto padecia de uma febre lenta, tinha de dormir no chão: “Graças

a Deus”, disse o pobre Carlos Wesley, “ainda não é ofensa capital o

dar-me um bocado de pão!” Mas ele cria que a sua vida esteve mais de uma vez em perigo.

Um pouco mais tarde Oglethorpe saia ao encontro dos espanhóis

que vinham contra a nova colônia. As condições eram desesperadoras,

e ele não esperava mais voltar com vida; portanto despediu -se do seu secretário-capelão de um modo bastante agitado.

Ele disse, “Vou morrer, não me vereis jamais”.

O seu secretário respondeu: “Se falo convosco pela última vez, ouçais ao que em breve sabereis ser a verdade ao entrardes na

existência separada

mui amarga; vim aqui para sacrificá-la. Tendes sido enganado; eu protesto a minha inocência dos crimes de que me acusam, e julgo-me agora com a liberdade de dizer-vos aquilo que pensara de nunca mencionar”.

Tenho renunciado o mundo. A vida é para mim

Seguiu-se uma explicação; Oglethorpe, um dos mais generosos, se bem que um dos mais impulsivos dos homens, lançou-se ao pescoço do capelão e o beijou, e deste modo se despediram. Enquanto os botes se afastavam da praia, Carlos Wesley clamou: “Deus é convosco; ide. Christo ducet auspíce Christo”.

Quando Oglethorpe voltou são e salvo de sua expedição, Carlos lhe disse que muito desejara vê-lo de novo, a fim de fazer-lhe outras explicações, acrescentando: “Mas, pensei que se morrêsseis teríeis sabido tudo num momento”.

Carlos Wesley com o seu colega, Ingham, voltaram à Inglaterra em Julho de 1736, mas João Wesley continuava no seu posto em Savannah.

É de estranhar que o temperamento ritualista de João Wesley

ficasse tão pouco modificado pela admiração que ele sentia pelo ensino Moraviano e pelo tipo de piedade que produzia. Os Moravianos de Savannah lhe ensinavam exatamente o que Pedro Bohler lhe ensinou mais tarde em Londres, mas o ensino nesse tempo lhe deixou a alma no mesmo de antes. A explicação do próprio Wesley é: “Eu não os entendia; eu era demais douto e demais sábio, de modo que me parecia loucura; e eu continuei a pregar, a seguir e a confiar naquela justiça pela qual nenhuma carne se justifica”.

A verdade é que se o próprio Pedro Bohler tivesse encontrado a

Wesley em Savannah, ter-lhe-ia ensinado em vão. O rígido sacramentariano e ritualista tinha de ser fustigado, pela áspera

disciplina do fracasso, para fazê-lo sair da mais sutil e mortífera forma

do orgulho, o orgulho que imagina o segredo da salvação como estando

no círculo dos esforços puramente humanos. Mais tarde Wesley descreve a Pedro Bohler como “um que Deus preparou para mim”. Mas Deus, nas experiências trabalhosas e humilhantes de Geórgia, estava preparando a Wesley para Pedro Bohler.

Um namoro, tão mal dirigido e tão estéril foram todas as excursões que Wesley fazia ao domínio do sentimentalismo, trouxe a

sua estadia em Geórgia a um fim repentino e inglório. Wesley, de sua meninice, tanto pelo temperamento como educação, era mui susceptível

– se bem que de nenhuma maneira ignóbil – a influências femininas No

presbitério de Epworth, as influências femininas – desde a serena, sábia

Oglethorpe respondeu: “Não sei que os espíritos desencarnados

Oglethorpe podia ficar furioso com os seus capelães, mas ainda

e

inteligente mãe até o círculo de irmãs espirituosas – eram supremas.

se interess am pelos nossos pequenos negócios. Se o fazem, é como os

E

Wesley, em todas as épocas, de sua vida, procurava – o que

homens contemplam as tolices de sua meninice, ou eu a minha recente raiva”.

constituía a alegria de seus anos tenros – a camaradagem de mulheres inteligentes. Mas em relação ao belo sexo, parecia sofrer uma curiosa paralisia da sua perspicácia natural e dirigia os namoros com menos jeito do que qualquer outro grande homem conhecido na história.

os amava; e muitos anos depois, quando já encanecido (envelhecido) ele apresentava uma figura veneranda (venerável) – a mais bela figura, diz Anna More, que ela jamais viu e que em tudo “perfeitamente realizava o seu ideal do Nestor” – é narrado que ele inesperadamente, encontrando-se com João Wesley, correu a seu encontro e o beijou com

O principal juiz de Savannah, sr. Causton, era homem de antecedentes duvidosos e de gênio violento. A sua sobrinha Miss Hopkey, uma moça jeitosa e atrativa, enamorou-se de Wesley – ou pelo menos desejava que o pequeno, elegante e espirituoso lente do Colégio

a simplicidade e afeto de uma criança.

de Lincoln se enamorasse dela, e é claro que ela tentava, por todas as

artes inocentes conhecidas ao belo sexo, apressar o fim desejado.

Ela se tornou austeramente religiosa à moda de Wesley; assistia

a seus serviços com a diligência piedosa; vestia-se em conformidade

com o seu gosto austero; cuidou dele durante uma doença; aceitou o seu conselho sobre o assunto interessante daquilo que ela devia cear

(jantar), e da hora em que eIa devia dormir.

Wesley tomava tudo isso, com uma simplicidade única, como sinal de um caráter angélico. Ele estava visível e francamente – se bem que pedantescamente (pretenciosamente, vaidosamente) – enamorado dela. Nos começos de dezembro eIe anota no seu Diário: “Aconselhei a Dona Sophia que ceasse (jantasse) mais cedo e não tão perto da hora de dormir. EIa acedeu (aceitou), e desta pequena circunstância depende uma infinidade de conseqüências! Não somente o seu próprio conforto por toda a vida, mas talvez a minha felicidade também”.

O seu colega Delamotte, que não contemplava a Miss Hopkey como rodeada de qualquer nimbo (esplendor, auréola) sentimental, e que não fora a Oxford debalde (inutilmente), bruscamente advertiu a Wesley e perguntou-lhe se ele tencionava se casar com ela. Wesley, que neste período de sua vida era um eclesiástico de sangue frio, mesmo quando de namoro , descobriu que não era fácil responder a esta pergunta tão incomodamente direta. Resolveu então submeter à questão, se devia ou não casar com Miss Hopkey, ao Bispo Moraviano

– passo este que para a inteligência feminina, pelo menos, prova que

não sentia o mínimo amor pela moça. O caso finalmente foi submetido à decisão dos presbíteros da Igreja Moraviana – juizes esquisitos no tribunal de afeições! Eles consideraram o caso seriamente, e Wesley foi chamado para ouvir a sua sentença.

Nitschmann perguntou-lhe “Conformar-vos·eis à nossa decisão?”. Depois de certa hesitação, Wesley respondeu, “Sim”. “Então”, disse o Moraviano, “Nós vos aconselhamos que não prossigais com o negócio”. Wesley respondeu, “Seja feita a vontade de Deus”.

Ainda se debate com bastante vigor se Wesley realmente propusera casamento a Miss Hopkey. Moore, o seu biografo, afirma que Wesley lhe dissera que “nunca lhe fizera proposta de casamento”. Por outro lado, a própria moça, no processo contra Wesley no fim da sua estadia em Savannah, depôs sob juramento que “o sr. Wesley muitas vezes lhe propusera casamento, cujas propostas ela rejeitara”. Mas ninguém, lendo toda a história, deixará de ver que a ofensa real de Wesley era a de não ter feito proposta a Miss Hopkey, ou pelo menos,

de não tê-la feito com suficiente clareza.

Aquela espirituosa moça soube que o seu namorado submetia os seus afetos à direção dos venerandos presbíteros Moravianos e, cismando que a decisão ser-lhe-ia contraria, prontamente se deu a um outro pretendente. Aos 4 de março os Presbíteros Moravianos deram a sua decisão; aos 8 de março, Wesley tristemente registra no seu Diário:

“D. Sophia tratou casamento com o Senhor Williamson, homem que não é notável pela elegância, nem pela nobreza, nem pela vivacidade, nem por conhecimentos, nem pelo o bom senso, e menos de tudo pela religião E no sábado 12 de março, quatro dias depois, casaram! Era pelo menos uma moça expe diente (de inciativa)!”

Wesley achou na lição do domingo 13 de março as seguintes palavras: “Filho do homem, eis que tirarei de ti o desejo dos teus olhos de um golpe”; e acrescentou: ”senti-me traspassado como por espada”. Quinze anos depois ele havia de escrever o mesmo versículo outra vez no seu diário como nota de uma derrota ainda mais amarga de suas afeições.

Wesley, nesse tempo mais do que em anos posteriores, tinha por hábito registrar com uma quase incrível diligência, todos os atos de sua vida e todas as fases de seus sentimentos. Os seus Diários georgianos, que ai existem, exemplificam o zelo incansável com que traduziu a si mesmo em termos escritos. No Diário não somente existe uma página para cada dia, mas um espaço separado para cada hora do dia. Ele contava e registrava o emprego do seu tempo com a fidelidade do cuidadoso negociante em anotar o emprego do seu capital. Num incidente, tal como o caso com Miss Hopkey, que o moveu tão profundamente, naturalmente seria registrado com cuidado especial. Isto faz cr íveI uma outra versão, cuja autenticidade é algo duvidoso, que existe, aparentemente na letra do próprio Wesley. Segundo esta narrativa, Miss Hopkey tinha apenas dezoito anos; as suas afeições haviam sido solicitadas por um sujeito indign o, seus tutores tinham proibido toda a comunicação entre os dois. A moça estava muito sentida, e pediram a Wesley, como ministro, que lhe desse uma atenção especial. Isto resultou em certa intimidade entre eles, e logo Wesley descobriu que não somente estimava em alto grau a Miss Hopkey, mas que tinha por ela um grande afeto, o qual ele se persuadia de ser o que se sente por uma irmã. Ele, entretanto, estava convicto que a vida de celibato seria melhor para todos, e quanto a ele mesmo era quase imperativa; e ela com a fácil resolução de uma moça sentida, também afirmara

que sempre viveria solteira. Aproximava -se a crise do namoro

quando fizeram uma viagem de bote desde Frederica até Savannah.

esposa, hei de exigir uma satisfação legal; mas não hei de molestar - me acerca de mais ninguém”.

A

solicitude de Wesley nesse tempo é evidente, mas ainda segundo

 

o

modo pedantesco (arrogante), ele experimenta as suas emoções

Nos tempos, quando a Ceia do Senhor constituía, na frase de

Wesley foi preso, mas ficou solto sob fiança para comparecer na

por trechos dos antigos padres gregos. Se realmente propôs o casamento a Miss Hopkey é questão que a narrativa não determina. Ele conta de como, estando com ela, ladeando o fogo do acampamento, perguntou, se ela tinha tratado casamento com a pessoa por quem se supunha que ela sentisse saudades. Ela respondeu : “Tenho tratado com ele ou com ninguém”, e logo se desfez em pranto. “ D. Sophia”, disse Wesley, “eu me estimaria feliz se pudesse passar a m inha vida contigo”. Estas palavras repentinas, ele acrescenta, “foram proferidas sem desígnio”; e a moça respondeu com mais l ágrimas, mas o ingênuo lente do Colégio de Lincoln persuadia -se que, embora ele deixasse do seu propósito de viver solteiro, ainda Miss Hopkey ficaria heroicamente firme no seu propósito de viver celibatária. Esta crença silenciou a Wesley; entretanto, recordando o incidente eIe diz: “Escapei por pouco. Admiro -me, mesmo agora, que eu não dissesse, “D.Sophia queres casar comigo? ”. É claro, pois, que ele não cria haver jamais proferi do as palavras decisivas.

Cowper, “a chave de emprego p úblico” para os homens e a marca de respeitabilidade social para as mulheres, o ser repelido da Ceia do Senhor era prejuízo sério”. Aos 7 de agosto – cinco meses depois do casamento – Wesley recusou deixar que a srª. Williamson participasse da Ceia do Senhor. Logo no dia seguinte foi lavrad a uma ordem para a apreensão de “João Wesley , clérigo, para responder às queixas de Guilherme Williamson pela difamação de sua mulher, e por ter recusado administrar-lhe, sem causa, o sacramento da Ceia do Senhor na congregação pública sem causa”. O marido ofendido avaliou os seus prejuízos em mil libras.

próxima futura sessão do tribunal. Pediram-lhe que desse por escrito as razões por ter recusado à srª. Williamson a ceia do Senhor. Ele escreveu à srª. Williamson: “Se chegardes à mesa do Senhor no domingo, eu vos advertirei, como tenho feito mais de uma vez, daquilo que fizestes de mal, e quando declarardes abertamente terdes vos arrependido sinceramente, eu vos administrarei os mistérios de Deus”.

 

Depois de miss Hopkey

tornar-se em Sra. William son era

natural que Wesley a contemplasse com outras e novas vistas, e aquela moça espirituosa, talvez não se sentisse, por mais te mpo, obrigada a consultar a respeito de seu vestuário ou de sua conduta, com seu antigo, se bem que demasiado vagaroso, namorado. Isto foi para Wesley somente outra surpresa dolorosa. Seriamente registra no seu Diário: “Deus me mostrou ainda mais da magnitude do meu livramento por abrir-me mais uma cena nova e inesperada na dissimulação de D. Sophia”. Mais tarde Wesley achou necessário falar-lhe "de certas coisas na sua conduta que ele julgava repreensíveis”, e ficou muito admirado – o pobre! – que D. Sophia lhe rebatesse as repreensões com grande veemência. O marido ascendeu -se com a ira da esposa e a proibiu de falar mais com Wesley ou de assistir a seus serviços (cultos e demais ministrações religiosas) . Mas parece que a noiva teimosa lhe desobedeceu. Wes ley agora cogitava negar a Senhora Williamson lugar na Ceia do Senhor, e perguntou ao sr. Causton, o juiz: “S r., que pensareis se eu julgar ser um dever do meu cargo a repelir (excluir) pessoa de vossa família da Santa Comunhão?”.

Mas a srª. Williamson não quis formalmente “notificar o pároco do seu propósito de se apresentar à comunhão”. Antes dela fazer isto, Wesley não admoestaria daquilo que fizera de mal; e desta forma ficou desconhecida, até hoje, a triste natureza da ofensa da srª Williamson.

Entretanto, um grande júri de 44 homens – a quinta parte de todos os homens de maior idade na cidade – considerou o caso. Havia doze acusações contra Wesley, começando com a “de ter ele invertido a ordem e o método da ladainha”, e concluindo com a “de ter feito pesquisas e ter se intrometido em negócios particulares de famílias”. A maioria do grande júri julgou procedente dez das acusações; enquanto a minoria absolveu a Wesley e declarou que as acusações eram “uma trama do sr. Causton, a fim de desprestigiar o caráter do sr. Wesley”. Wesley, quando chamado à defesa, tomou a posição que nove das dez acusações eram de natureza eclesiástica, sobre as quais o tribunal não tinha jurisdição alguma. A outra, que tratava dele ter falado e escrito à srª Williamson, era de caráter secular e ele pediu que fosse o caso julgado já pelo tribunal.

 

O sr. Causton respondeu : “Se repelirdes a mim ou a minha

Os seus inimigos, entretanto, não tinham pressa alguma em ver o caso terminado; desejavam empregar as acusações como instrumento

para fazer Wesley sair da colônia. O capelão militar de Frederica foi nomeado para dirigir os serviços religiosos em Savannah, e assim Wesley foi praticamente destituído do seu cargo.

As semanas se deslizaram vagarosamente. Como Wesley descobriu que não podia conseguir o seu julgamento nem desempenhar o cargo de capelão, resolveu partir para a Inglaterra. Afixou um papel numa praça pública, em que declarava: “João Wesley pretende em breve voltar para a Inglaterra”, etc. Notificaram -lhe que não devia deixar a colônia até que respondesse às acusações contra ele. Wesley respondeu que já assistira a sete sessões do tribunal para este fim, mas que lhe fora negado este privilégio. Ele recusou assinar qualquer compromisso de comparecer perante o tribunal. Uma ordem foi baixada, exigindo que toda a gente leal obstasse (impedisse) a sua saída da colônia. Era, realmente, um preso à vontade. É claro que os inimigos de Wesley só desejavam fazê -lo sair da colônia e, ao mesmo tempo, dar a sua partida a aparência de uma fuga da justiça.

Wesley dirigiu as orações vespertinas do dia e então, diz ele:

“Como a maré favoreceu, sacudi dos pés o pó de Geórgia, depois de ter pregado o Evangelho ali não como eu devia, mas como eu podia, por um ano e quase nove meses”. Em uma viagem trabalhosa, acontecida em parte por bote, e em parte a pé, Wesley e seus três companheiros foram para Charlestown, e dez dias depois, aos 22 de dezembro, ele partiu para a Inglaterra. Fechou-se um capítulo bastante atribulado da sua vida.

CAPÍTULO XI

Chegando ao Ponto Desejado

Wesley voltou da América para Londres visivelmente derrotado. O seu ministério na Geórgia falhara; o seu caráter fora desprestigiado; o seu futuro parecia obscuro. Wesley não era exatamente um foragido da justiça, mas o próprio rebanho em Savannah empregara a lei para afugentá-lo de suas plagas (terras, região). Chegaria à Inglaterra grandemente desacreditado; e nas meditações durante os dias longos e monótonos da sua viagem de volta, Wesley via tudo isto mui claramente. A sua carreira estava prejudicada, senão arruinada. Mas Wesley seria o último homem no mundo a incomodar-se por causa de qualquer prejuízo à sua reputação ou bolsa ou carreira secular. A tragédia da sentença, ele o sentia, achava-se no fato que ele era um fracasso espiritual. A sua religião, apaixonadamente zelosa, intensamente heróica e disposta a todo o sacrifício, não lhe dava nem a paz no próprio coração, nem o poder de alcançar os corações de outros.

Eis a amarga análise de sua própria condição neste momento:

“Terça-feira, 24 de Janeiro de 1738. – Tenho uma bela religião de verão. Falo bem; sim, eu mesmo creio, enquanto não existe perigo. Mas no momento que a morte me encara, o meu espírito se vê atribulado. Não posso dizer que o morrer é ganho. Tenho um pecado de temor (medo, pavor) que depois de ter estendido a última teia eu venha a morrer na praia! Penso sinceramente que se o Evangelho é verdade, então sou salvo; pois eu não somente dou todos os meus bens para alimentar os pobres; não somente dou o meu corpo para ser queimado, afogado ou qualquer coisa mais que Deus me proporcionar; mas eu sigo a caridade (não como devo, mas como posso), se porventura eu conseguir atingi-la. Agora creio que o Evangelho é verdade. Mostro a minha fé pelas obras, a ponto de arri scar tudo sobre ela. Isto eu repetiria até mil vezes, se ainda pudesse escolher. Quem me vê, descobre que eu quero ser cristão. Por isso os meus caminhos não são como os de outros homens. Portanto, tenho sido e ainda estou contente em ser um vitupério (vergonha, infâmia) e um provérbio de mofa (zombaria). Mas

num temporal, eu penso, e que será se o Evangelho não for Verdade?!”

É esta uma narração amarga; salienta a sombra em que Wesley então vivia.

Wesley também se sentiu só, nesta triste viagem; Delamo tte ficou na América; Carlos Wesley e Ingham já se achavam na Inglaterra. Wesley não teve outra camaradagem senão os seus próprios pensamentos amargos; e a sua profunda depressão se vê refletida em cada linha do seu Diário. Ele se descreve como sendo “triste e mui pesaroso, embora não possa dar disso qualquer razão”. Nota em si um “temor e pesar que quase de continuo lhe acabrunham”. Vê-se a mais pungente (lancinante, comovente, dolorosa) dor nas sentenças que ele escreve no seu Diário: “Fui à América para converter os índios; mas, ai! Quem me converterá a mim?” Ele prossegue deliberadamente em fazer um inventário de si mesmo, e o faz com uma severidade que é pouco menos que cruel. É necessário citá-lo em cheio, com as notas em parênteses e em grifo, que o próprio Wesley acrescentou anos depois, e que representam a sua mais amadurecida opinião de si mesmo:

“Diário de 29 de Setembro de 1736. – Passa de dois anos e quase quatro meses que deixei a minha pátria nativa, a fim de ensinar aos índios da Geórgia a natureza do Cristianismo; mas, eu mesmo, que tenho aprendido? Isto (que eu menos suspeitava), que eu mesmo, indo à América para converter a outros, nunca fora convertido a Deus (não tenho certeza disso). Não estou louco por falar assim; mas profiro palavra s de verdade e de perfeito juízo; que porventura alguns dos que ainda dormem despertem -se, e vejam que se encontram como eu me acho.“

“São doutos em filosofia? Também eu era. Em línguas modernas e antigas? Também eu. São versados na teologia? Eu também a tenho estudado por muitos anos. Podem falar fluentemente de coisas espirituais? Eu também fazia o mesmo. São abundantes em esmolas? Eis que dei todos os meus bens para alimentar os pobres. Dão o seu trabalho bem como os seus bens? Eu tenho trabalhado mais do que todos eles. São prontos a sofrer pelos irmãos? Eu deixei amigos, reputação, conforto, pátria. Tenho tomado a própria vida na mão, peregrinando em terras entranhas; dei o meu corpo para ser

devorado pelo abismo, queimado pelo calor, consumido pelo cansaço e fadiga, ou qualquer outra coisa que Deus queira me mandar. Mas tudo isto (seja mais seja menos, não me importa) pode fazer-me aceitável a Deus? Tudo que eu jamais soube ou que possa saber, dizer, dar, fazer ou sofrer pode justificar - me à sua vista ? Ou o uso constante de todos os meios de graça (que, entretanto, é direito, justo e do nosso estrito dever)? Ou que nada saiba contra mim mesmo; no tocante à justiça moral, eu seja exteriormente inculpável? Ou, para ser mais explícito, a posse de uma convicção racional de todas as virtudes do Cristianismo? Tudo isto me dá o direito ao caráter santo, celeste e divino de um Cristão? De modo nenhum. Se são verdadeiros os oráculos de Deus; se ainda vamos ”à Lei e ao Testemunho”, tudo isto, sendo enobrecido pel a fé em Cristo (eu tinha então mesmo a fé de servo, mas não a de filho) , é santo, justo e bom. Mas na ausência da fé é, como a escoria e o refugo, só digno do fogo que nunca se apagará.”

sou

”destituído da glória de Deus”, que todo o meu coração é corrupto e abominável e, por conseguinte, o é a minha vida inteira; visto que “a árvore má não pode dar bons frutos ”: que alienado, como me acho da vida de Deus, sou filho da ira” (creio que não); herdeiro do infer no; que as minhas próprias obras, os meus próprios sofrimentos e a minha própria justiça são tão inadequados para reconciliar -me com o meu Deus ofendido, tão inadequados para fazer qualquer propiciação pelos menores dos meus pecados – que são mais número sos do que os cabelos da minha cabeça – que os mais preciosos entre eles necessitam de uma propiciação para si mesmos, de “

nos

“Isto,

então,

aprendi

confins

da

terra ,

que

outra forma, nunca poderão subsistir no justo juízo de Deus

“Se alguém disser que eu tenho fé, (pois muitas coisas tais tenho ouvido de muitos conselheiros miseráveis), eu respondo, também os demônios o têem – uma espécie de fé; mas ainda são “estranhos às alianças da promessa”, também os Apóstolos em Caná da Galiléia, onde Jesus “manifestou a sua glória”, em certo sentido, “creram nele”; mas não tiveram “a fé que vence o mundo”. A fé que eu quero é (a fé do filho) um pleno descanso e confiança em Deus, que, pelos méritos de Cristo, meus pecados são perdoados, eu mesmo sou reconciliado a graça de Deus.”

Isto, mesmo depois da inserção das notas qualificativas de uma data posterior, constitui uma terrível descrição de si mesmo. Mais tarde podemos indagar se a sentença que Wesley passou sobre si mesmo, nesse espírito de depressão, fora inteiramente acurada; mas neste meio tempo, o seu espírito mesmo é digno de nota. O seu orgulho já se fora. A consciência de seu fracasso e de sua derrota é completa. Ele sabe que o Cristianismo contem algo não atingido ainda. O seu espírito sente a completa humilhação de si mesmo:

Todas as minhas obras, toda a minha justiça, as minhas orações carecem de uma propiciação em si mesmas; de modo que a minha boca está fechada. Não tenho atenuação alguma que eu possa oferecer. Deus é Santo; eu sou impuro. Deus é um fogo consumidor; eu sou de todo pecador, digno de ser consumido”.

O Wesley que embarcou para Geórgia em 1735 e o Wesley que voltou de lá para a Inglaterra em 1738 são assim homens inteiramente diferentes. Wesley havia posto a sua teologia à prova ; à prova da vida prática e ela falhara. Não conseguira a conversão dos índios; aprendera unicamente que ele mesmo não fora convertido. Deve haver alguma falta fatal no seu credo ou em seus métodos. O segredo essencial do Cristianismo – o seu dom de paz para a consciência, e de poder sobre os homens – lhe escapara. Porque havia feito fracasso? Que seria aquilo que convertera uma coragem tão singular, uma devoção tão nobre, um tão esplendido altruísmo em um mero fracasso? Aquele que descobrir o segredo do fracasso de Wesley terá chegado ao próprio coração do Cristianismo.

Esta nova convicção tinha, indubitavelmente, certas vantagens. Pelo menos, a teologia de Wesley já deixava de oscilações. Como vimos, ele já abandonara o misticismo; já enxergara a sua natureza mortífera. O seu ritualismo, também, falhara. Hav ia somente gerado porfias. O seu próprio legalismo austero havia deixado a alma sem alimentação. Este asceta descobrira que um corpo castigado não assegura a paz da alma. E deste ponto a consciência e a inteligência de Wesley oscilaram definitivamente para a interpretação evangélica do Cristianismo.

grande

desenvolvimento espiritual. Wesley se preparava para o toque de outro mestre, e para a entrada de uma nova experiência em sua vida.

Tudo

isso

foi,

visivelmente,

uma

fase

num

Quando Wesley aportou em Londres, o navio que ia levar George

Whitefield para a América estava ancorado pronto pra zarpar. Wesley havia antecipado a inspiração da camaradagem de Whitefield; e sentia uma relutância em mandar um homem tão bom para o trabalho ingrato que ele mesmo abandonara em Savannah. Ele prontamente enviou uma nota a Whitefield que já estava a bordo do navio, na qual dizia:

“Quando vi que Deus me fazia entrar pelo mesmo vento com que estáveis saindo, pedi conselhos a Deus. E tendes aqui a resposta”.

Envolvido na nota havia um pedacinho de papel com os dizeres:

“Que volte a Londres“. Wesley tinha resolvido a questão da ida ou da

permanência de Whitefield pelo sorteio, e o resultado fora para ele não

ir à América. Mas Whitefield possuía um sorteio próprio, e logo lembrou-

se da história do profeta – no Livro dos Reis – que voltou ao pedido de outro profeta e, em conseqüência, foi devorado pelo leão; esta

lembrança fê-lo decidir em continuar a sua viagem; e Wesley na época mais critica da sua vida foi deixado sem o seu grande camarada.

Whitefield a este momento estava na manhã (começo) de sua maravilhosa popularidade na Inglaterra. Era pouco mais do que rapaz, entretanto multidões ficavam encantadas com a m úsica de sua palavra.

E o contraste entre Wesley que se arrastava de volta à Inglaterra como homem derrotado e de espírito quebrantado, e o Whitefield que partia no mesmo instante rodeado do nimbo (esplendor, auréola) de uma popularidade brilhante, é quase dramático.

Wesley desembarcou em Deal na manhã de 1° de Fevereiro e logo dirigiu oração e pregou na casa onde se hospedava.Tudo mais poderia ter-se escurecido no seu céu espiritual, mas sempre resplandecia com grande clareza o ponto do dever. Fosse ou não fosse feliz a sua própria condição espiritual, ele precisava se esforçar em concertar a condição espiritual de outros. Vivia no espírito das palavras que mais tarde ele colocou no serviço de consagração que havia de ser lido anualmente em todas as igrejas que fundou: “Se eu morrer, hei de morrer à tua porta. Se eu tiver de me afundar, hei de afundar-me com o teu navio”.

Seguiu logo para Londres onde tinha de prestar, contas com os diretores da Colônia de Geórgia. Ali encontrou o seu irmão Carlos, que ficou mui surpreendido com a sua chegada. O seu conhecimento dos moravianos em Savannah naturalmente fê-lo procurar os moravianos em Londres, e, na terça-feira, 7 de fevereiro – “um dia mui digno de ser lembrado”, como diz no seu Diário – encontrou-se em casa de um

negociante holandês, com Pedro Bohler, homem este que havia de influir grandemente sua vida.

Bohler fora educado na Universidade de Jena, e unira-se aos moravianos quando ainda rapaz. Fora ordenado como missionário moraviano pelo Conde Zinzendorf, e estava de caminho para a Carolina, na América, quando Wesley o encontrou. Ele estava então fazendo discursos, por um intérprete, a auditórios pequenos em Londres, e uma estranha influência espiritual acompanhava as suas palavras.

Wesley e Bohler se reconheciam mutuamente, quase desde o

momento do seu primeiro encontro, como sendo espíritos aparentados.

O moraviano descreve a Wesley ao Conde Zinzendorf como sendo

“homem de bons princípios que sabia que não estava crendo

eficazmente no Salvador, e queria ser ensinado”. De Carlos Wesley ele diz: “ele está presentemente muito perturbado em espírito, mas não sabe como começar em fazer-se conhecido do Salvador. O nosso modo

de crer no Salvador parece tão fácil aos ingleses, que não se podem

conformar com ele. Se fosse um pouco mais difícil, com muito mais pressa achariam o caminho ”. “Eles se supõem já crentes”, disse o jeitoso e sincero Moraviano, “e se esforçam em provar a sua fé pelas suas obras, e assim se atormentam de tal modo que os seus corações ficam muito atribulados “.

Wesley acompanhou a Pedro Bohler até Oxford, e escutou avidamente os ensinos do seu novo amigo. Ele suspeitou vagamente que aqui, alfim (finalmente), estava o segredo, que por tanto tempo lhe escapara. Entretanto as palavras simples do moraviano soavam nos ouvidos de Wesley como os acentos de uma língua estranha. Diz ele:

“eu não entendi, e muito menos ainda quando me disse: “Mi frater, mi frater, exco quendo est isto tua philosophia ”. Que fizera à filosofia de Wesley que merecesse ser assim lançada fora!

Mas Wesley queria ser ensinado e aos 4 de março anota em seu Diário que passou um dia com Pedro Bohler, “por quem, nas mãos do grande Deus, eu fui, no domingo, 5, claramente convencido da incredulidade; da falta daquela fé pela qual somos salvos ”. Mais tarde, Wesley diz: “Bohler ainda mais me surpreendeu por suas descrições que fez dos frutos da fé, do amor, da santidade e da felicidade que ele afirmava serem seus assistentes”. Wesley francamente aceitava este ensino; a verdadeira fé tem de produzir estes frutos. Mas Wesley era sempre o lógico, e redargüia (argüia, questionava, interrogava) a si

mesmo: ”Como posso pregar a outros, quando eu mesmo não tenho fé?” O conselho de Bohler era direto e prático: “Pregai a fé até que a tenhas e, tendo-a, forçosamente haveis de pregar a fé”.

Coleridge sofisma (se engana, interpreta enganosamente) estas palavras, dizendo que isto importava dizer-se (que o que foi dito por Bohler a Wesley era o mesmo que): “Mintais com bastante freqüência e por bastante tempo e forçosamente e chegareis ponto de crê-lo”. Mas Coleridge não compreende nada do sentido do conselho de Bohler! Wesley não estava no humor de sofismar. “Logo no dia seguinte, segunda-feira, 6 de março”, diz ele “comecei a pregar esta nova doutrina, ainda que minha alma recuasse do trabalho. A primeira pessoa a quem eu oferecia a salvação unicamente pela fé foi um preso sentenciado à morte”, e Wesley confessa que achou a tarefa neste caso ainda mais difícil, porque “por muitos anos eu havia afirmado zelosamente a impossibilidade do arrependimento na hora da morte”. O sentenciado prontamente refutou as dúvidas de Wesley por aceitar a nova doutrina, e, na força divina que esta aceitação gerou, mostrou “um bem comportado contentamento e uma paz serena” quanto estava no próprio patíbulo.

Wesley ficou convencido que o ensino de Bohler, quanto à fé e os seus frutos era “escriturístico” (estava em consonância com o ensinado nas Escrituras Sagradas); sim, era a doutrina da Igreja Anglicana. Mas permaneceu ainda uma dúvida: "Como seria possível que o grande processo da passagem do homem, da morte para a vida, se efetuasse num momento?” Entretanto, Wesley por um exame, achou que quase todas as conversões registradas no Novo Testamento foram instantâneas. Mas bem podia ser que, o que fosse comum no primeiro século tivesse se tornado impossível no século XVIII. Mas “no domingo 22 de março”, Wesley anota, “fui tocado deste abrigo também, pela evidência concorrente de várias testemunhas vivas, que testemunharam que Deus havia assim operado nelas mesmas, dando-lhes, num momento, uma tal fé no sangue do seu Filho que foram transladadas das trevas para a luz, do pecado e temor para a santidade e a felicidade. “Aqui” diz ele, “findaram-se os meus debates. Eu só soube dizer: Senhor, ajuda a minha incredulidade!”

Durante todos esses dias de perturbações e pesquisas, de dúvidas e suspiros, o zelo de Wesley no trabalho prático nunca minguava; antes se tornava cada vez mais urgente. Fosse qual fosse a sua própria condição espiritual era necessário que ele advertisse a outros dos seus perigos e deveres. A todos – homem ou mulher, rico ou

pobre que ele encontrasse, mesmo que fosse só por um momento – eIe falava alguma palavra pelo Mestre. O viandante (viajante) no caminho, o peão que lhe segurava as rédeas do cavalo, a criada da casa, o hóspede que por acaso se achava à mesa – a cada um, por sua vez, ele dava alguma palavra breve, solene, e imprevista de conselho, e sempre com estranho efeito.

Numa casa de pasto (casa onde se come, restaurante, pousada), Wesley e seus companheiros foram servidos por uma moça jovial, que a princípio lhes escutava com a maior indiferença. Entretanto, quando iam se retirando, “eIa Ihes fitou os olhos, sem mover-se nem dizer uma palavra sequer: parecia tão admirada como se visse alguém ressurgir dentre os mortos”. E devia ter havido algo para suscitar a admiração e para surpreender, nestes reptos (desafios) repentinos e inesperados de Wesley. A sua aparência – o rosto delgado, claro e intenso, o olhar forte e penetrante, as vestes clericais, a testa do estudante, o modo de falar de um nobre – tudo isto dava um poder surpreendente ao apelo repentino e sem prefácio, que parecia romper da eternidade, e ter algo, da solenidade da eternidade.

Carlos Wesley já achara o livramento espiritual que buscara. Estava se recuperando de uma pleurisia (inflamação da pleura, a dupla membrana que envolve os pulmões); e quando a alegria do novo nascimento lhe trasbordou a alma, Wesley diz que “a sua força física, também, voltou desde essa hora”. Coleridge considera isso como sendo uma inversão de causa e efeito, julgando que simplesmente desapareceu a pleurisia, e que Carlos Wesley tomou as melhoras de saúde por uma mudança espiritual. No mal interpretado fermento dessa pleurisia desaparecida, Carlos Wesley, no pensar de Coleridge, viveu de alguma maneira até o fim de seus dias! Tão simplesmente um grande filósofo sabe explicar os fenômenos espirituais?

A conversão de Carlos Wesley foi assinalada por um incidente curioso. Ele se achava de cama, triste, doente e acabrunhado; tremendo à beira de uma fé que ainda não soube exercer. Uma mulher devota na casa, que ajudava em cuidar dele, sentia -se impulsionada a falar-lhe algumas palavras para confortá-lo. Mas ele, sendo ministro, e ela apenas uma criada; como poderia ela se aventurar um tal atrevimento?

Ela foi em particular ao Sr. Bray, em cuja casa Carlos Wesley se achava, e entre lágrimas lhe contou do impulso que com tanta energia a oprimia, e perguntou como eIa, uma criatura tão pobre, fraca e

pecaminosa, poderia empreender a direção de um ministro?

O Sr. Bray respondeu:

“Vai em nome do Senhor; dize as tuas

palavras. Cristo fará a sua obra”.

Ambos se ajoelharam e oraram junto; mas depois de separarem, a mulher ajoelhou-se sozinha e orou de novo. Então se dirigindo com passos tímidos até a porta do quarto em que Carlos Wesley jazia doente, ela disse suave, mas distintamente: “Em nome de Jesus, o Nazareno, levanta-te! Tu serás curado de todas as tuas enfermidades!”. Carlos Wesley, segundo a sua própria narração, estava conciliando o sono quando essas palavras, de lábios invisíveis, lhe feriram os ouvidos. “Elas me emocionaram”, diz ele, “até o coração, nunca ouvi palavras pronunciadas com semelhante gravidade. Suspirei, e disse comigo: ó que Cristo me falasse assim! Continuei deitado, pensativo e tremente”.

Ele indagou, e logo a pobre criada disse: “Fui eu que falei, pobre criatura pecaminosa que sou; mas as palavras são de Cristo. Ele me mandou dizê-las, e me constrangeu tão fortemente que não pude resistir”.

E essas palavras pronunciadas por uma mulher ignorante, sob esse impulso misterioso, trouxeram o livramento espiritual a Carlos Wesley!

Neste tempo Wesley começou a refletir quão mal os seus mestres haviam lhe servido. Ele se sentara aos pés de Thomas Kempis, de Jeremias Taylor e de Guilherme Law. Ele fora um dos estudantes mais dóceis; seguira-lhes o conselho, custasse que custasse, e lhe deixaram falido! Kempis e Taylor estavam além do seu alcance, mas Guilherme Law ainda vivia. Era realmente o mestre de milhares; e Wesley virou-se para ele com uma espécie de repto (desafio) severo despertado pela consciência dos anos perdidos; e pela memória dos sofrimentos inúteis. “Durante dois anos”, diz ele escrevendo a Law, “vivi segundo a sua teologia, e a ensinava a outros”. Para o próprio Wesley fora um jugo insuportável, e para aqueles a quem Wesley pregara havia sido um som ininteligível. Wesley, pela misericórdia de Deus, achara por fim um mestre, mais sábio, que lhe ensinara o verdadeiro segredo do Cristianismo: “Crê e serás salvo! Crê no Senhor Jesus com todo o teu corarão, e nada te será impossível; despe-te completamente de tuas próprias obras e justiça, e foge para Ele”.

Neste ensino Wesley via a promessa de satisfação para todas as suas precisões (carências, necessidades).

EIe agora se dirige a Law:

“Permita-me perguntar, como hás de responder ao nosso Senhor comum por nunca teres me advertido disso? Por que tão raramente eu te via falar no nome de Cristo; e nunca de um modo que predicasse coisa alguma de fé no seu sangue? Se disseres que me aconselhavas de outras coisas preparatórias para isto, que importaria tal proceder senão deitar alicerce sob o alicerce? Cristo não é o primeiro bem como o último? Se disseres, que me aconselhavas essas coisas porque sabias que eu já possuía a fé, então, deveras, não me conhecias em nada; não discernias o meu espírito em coisa alguma“.

Wesley prossegue:

“Rogo-te, sr. pela compaixão de Deus, que consideres profunda e imparcialmente se a verdadeira razão por não teres me instado a isso não seja justamente por nunca a teres possuído?”

Talvez nunca houvera antes um grande mestre tão bruscamente chamado a contas por seu próprio discípulo!

Law, respondendo a Wesley, fê-lo lembrar que tivera outros mestres, os quais, sob bases iguais ele poderia chamar a contas. Perguntou-lhe:

“Há cerca de dois anos não fizeste uma nova tradução de Thomas A. Kempis? Queres chamar a Kempis para dar contas e para responder a Deus por não ter te ensinado essa doutrina, como fizeste comigo?”

Mas Law prossegue, afirmando que havia ensinado a Wesley exatamente o que Bohler lhe ensinara. “Já tivestes muitas conversas comigo, e ouso dizer que nunca estiveste comigo por uma meia hora sequer sem eu me dilatasse nesta mesma doutrina da qual me fazes

calado e ignorante”. Law era polemista tão formidável como o próprio Wesley, e findou a carta com uma lançada severa:

“Se possuíres esta fé somente por poucas semanas, deixa- me advertir-te que não sejas demais pronto em crer que, por teres mudado de linguagem ou de expressões, mudastes também de

a fé viva e

justificadora como com qualquer outra coisa; e o coração que

fé.

A cabeça pode se divertir tão facilmente

com

supões ser lugar seguro, por ser a sede do amor próprio, é mais enganoso do que a cabeça”.

A aspereza repentina com que Wesley tratou a Law é de fácil compreensão; e ainda poderemos nos simpatizar com a defesa de Law. Law falhara por completo; os seus ensinos custaram a Wesley anos de sofrimentos inúteis; entretanto a culpa não estava int eiramente com o mestre. É verdade que nos livros de Law, e, sem dúvida nas suas conversas pessoais com Wesley, havia freqüentes e plenas exposições do plano evangélico de salvação. Mas a ênfase estava em outro ponto. Não havia perspectiva real na teologia de Law. E Wesley não se achava naquele humor amolecido, proveniente da consciência de um fracasso completo, no qual Bohler o achara, e que explica porque a doutrina de Bohler se provara tão instantaneamente efetiva. Em suma, o segredo do fracasso de Law como mestre achava-se em grande parte na condição espiritual do seu discípulo.

Mas Wesley estava no limiar de uma nova vida. A quarta·feira, 24 de maio de 1738, foi para eIe o grande dia de livramento, e ele o tem descrito em palavras que já se fizeram históricas. Por dias buscara a paz, como Bohler lhe ensinara; “(1) por renunciar absolutamente toda a dependência, quer total quer em parte, de minhas próprias obras ou justiça, nas quais eu havia confiado para a salvação, embora eu não conhecesse, desde a minha mocidade; (2) por acrescentar ao constante uso de todos os mais meios de graça a constante oração, que Deus me desse a fé justificadora ou salvadora; uma mais plena reclinação sobre o sangue de Cristo derramado por minha causa; uma confiança nele como sendo a minha justificação, santificação e redenção”. Mas ainda pairava sobre ele uma estranha indiferença, moleza e frieza, e um senso constante de fracasso. Mas a madrugada de uma grande e nova experiência aproximava-se.

Durante todas as horas do dia memorável de sua conversão é curioso notar-se, Wesley escutava solicitamente como se uma voz lhe chamasse desde o mundo eterno. Parecia ouvir por toda parte algum eco profético de uma mensagem que vinha. O próprio ar parecia cheio de premonições e vozes suaves. Quando abriu o Novo Testamento às cinco da manhã, eIe nos conta como os olhos caíram sobre as palavras:

“Ele tem nos comunicado as suas preciosas e grandes promessas, para que por elas, vos torneis participantes da natureza divina”. Um pouco antes de sair do seu quarto Wesley outra vez abriu o livro, e com a força de uma mensagem pessoal brilhou sobre ele desde a página sagrada à sentença: “Não estás longe do reino de Deus”. Estas vozes estranhas

pareciam segui-lo por toda à parte. No Salmo na Igreja de São Paulo ele ouvia traduzido na tempestuosa música o clamor do seu próprio coração, “Das profundezas a ti clamo, ó Senhor. Senhor, escuta a minha voz: sejam os teus ouvidos atentos à voz das minhas súplicas”. Então através do canto do bom coro, a trovoada do órgão, corria qual fio delgado, uma música ainda mais divina, uma mensagem pessoal, uma voz que lhe respondia suavemente: “Espere, Israel, no Senhor, porque no Senhor há misericórdia, e nele há abundante redenção. E ele remirá a Israel de todas as suas iniqüidades”. ”À noite”, diz ele, “eu fui, muito contra a vontade, à sociedade na Rua Aldersgate, onde alguém lia o prefacio de Lutero à Epístola aos Romanos”, e mais de dois séculos depois o grande alemão (Lutero) falou ao grande inglês.

O que seguiu deve ser contado nas próprias palavras de Wesley:

de um quarto para às nove horas da noite

(20:45h), enquanto ele (o texto de Lutero) descrevia a mudança que Deus efetuou no coração pela fé em Cristo; eu senti o meu coração estranhamente aquecido. Senti que realmente eu cria em Cristo, em Cristo só, pela salvação; e foi-me concedido a certeza que ele me tirava os meus pecados, sim, os meus, e me salvava da lei do pecado e da morte. Comecei a orar, até onde podia a favor daqueles que haviam me desprezado e perseguido, da maneira mais acentuada. Então dei o meu testemunho abertamente a todos que ali estiveram daquilo que eu agora sentia no coração pela primeira vez. Mas não passou muito tempo até que o inimigo sugerisse: “Isto não pode ser a fé; pois onde está o gozo?”. Então fui ensinado que a paz e a vitória sobre o pecado são essenciais à fé no Capitão da nossa salvação (Jesus); mas acerca dos transportes de gozo que geralmente se dão no começo, especialmente nos que tenham sido profundamente entristecidos, Deus às vezes os dá, às vezes os retém, segundo os conselhos de sua própria vontade”. (Diário de Wesley, 24 de Maio de 1739).

“Faltava cerca

As flutuações na alegria de Wesley nesses primeiros momentos de livramento realmente provam o parentesco de Wesley com os corações crentes em todos os séculos. Talvez a natureza humana não seja capaz de sustentar um gozo perpétuo e intenso. Mas Southey serve-se desta feição da experiência de Wesley para basear um argumento contra a sua genuinidade. “Aqui”, diz ele, “está uma contradição manifesta nos termos , uma certeza que não lhe deu certeza”.

Coleridge, como acontece com curiosa freqüência, discorda tanto de Southey como de Wesley:

“Esta certeza”, diz ele, “não era muito mais do que a forte pulsação ou latejo da sensibilidade, acompanhando a veemente volição (querer, desejo, ato pelo qual a vontade se determina a alguma coisa) de aquiescência (consentimento, assentimento, anuência), desejo ardente de achar verdade uma certa idéia, e a resolução concorrente em recebê-la por verdade. Que a mudança efetuou-se no meio de uma companhia de pessoas toda altamente excitadas me fortalece e confirma na explicação”.

É claro, pois que Coleridge inventa os seus fatos. Não havia excitação alguma na pequena companhia ond e somente uma voz se ouvia, lendo nada mais excitante do que uma pequena exposição traduzida do alemão. Mas ao passo que Coleridge desconfia de Wesley, também contradiz o Southey. Diz ele: “Certamente é fazer a palavra “certeza” absoluta demais quando se afirma a sua incompatibilidade com qualquer sugestão intrusa da memória ou do pensamento”. Há um rasgo de penetração real nestas palavras.

Carlos Wesley não estava presente na saleta da rua Aldersgate no momento supremo da vida do seu irmão. Ele se achava em casa doente e estava em oração. O primeiro impulso de João Wesley e dos que o rodeavam era levarem as boas novas ao irmão menor.

Carlos Wesley escreve: “Cerca das dez horas (22h) o meu irmão foi me trazido em triunfo por um grupo de amigos, e declarou: ”eu creio!”. Cantamos um hino com grande gozo e nos separamos com oração“.

Supõe-se que o hino que cantaram foi aquele que começa “:

“Where shall my wordering soul begin:

How shall I all to heaven aspire?

A sIave redeemed from death and sin,

A brand plucked from eternaI fire.

How shall I egual triumphs praise. Or sing my great Deliverer's praise.”

Ou,

“Onde começará a minha alma admirada:

Com aspirar ao céu inteiro? Um escravo remido da morte e do pecado,

Uma tocha tirada do fogo. Como posso elevar triunfos dignos, ou cantar os louvores do meu Libertador? “

Carlos Wesley acabara de escrever este lindo hino no fervor de sua própria conversão, e foi publicado alguns meses mais tarde. A sua música percorre toda a história do Metodismo; a experiência que ele reflete, é repetida onde há almas humanas que recebem a Cristo com uma fé inteligente.

É interessante notar as relações históricas da conversão de Wesley. As duas reformas – a de Alemanha e a da Inglaterra – tocam aqui. Realmente tocaram em época ainda mais remota. Quem deseja traçar o grande movimento espiritual que, sob Lutero transfigurou a Alemanha e criou o Protestantismo tem de ir além de Lutero até chegar a um outro presbitério de Líncolnshire – a Lutherworty, onde João Wycliffe traduziu a Bíblia para o Inglês, e tornou-se o centro do grande movimento espiritual que durante o século XIV alastrou-se pela Inglaterra. O reformador inglês Wycliffe influiu quase tão poderosamente na Alemanha como a sua terra nativa. O próprio João Huss não negou a dívida que tinha para com Wycliffe, e o Concílio de Constancia que queimou o corpo de João Huss (condenou-o a morrer queimado na fogueira como herege), ordenou que os ossos de Wycliffe fossem queimados também. O Inglês e o boêmio, ao juízo do Concilio, representavam forças gêmeas, e deviam ser castigados com a mesma pena.

Os irmãos moravianos vinham, pelas gerações turbulentas que se seguiram, por direta descendência espiritual de Huss . Lutero era seu herdeiro espiritual. E assim depois de passarem mais de trezentos anos, os ensinos de Wycliffe voltaram à Inglaterra através de Bohler. Falaram falaram a Wesley dos lábios de Lutero na pequena reunião da rua Aldersgate. Grandes dívidas são às vezes pagas abundantemente desta maneira.

CAPÍTULO XII

O que aconteceu no 24 de maio?

Pode-se perguntar agora : O que aconteceu na saleta à rua

Aldersgate na noite de 24 de maio de 1838? Algo aconteceu: algo de

memorável e perdurável. Mudou a

como por um sopro, da dúvida para a certeza . Transformou a fraqueza em poder. Sim, e ainda tem mais, mudou todo o curso da história!

vida de João Wesley, ergue ndo-a

Uma testemunha puramente secular, como Lecky declara que o movimento que teve por ponto de partida a reunião da saleta nessa noite é historicamente de maior importância do que todas as vitórias esplendorosas ganhas por terra e mar sob o Pitt. Na falta dessa reunião não haveria Igreja Metodista em qualquer país, e o protestantismo dos que falam a língua inglesa, se ainda sobrevivesse – ou se não achasse outro Wesley – estaria falido de forças espirituais.

Mas a ciência exige que um efeito tamanho tenha uma causa adequada; e as causas predicadas, embora trazendo a autoridade de nomes famosos , são inadequadas a ponto de provocarem o riso.

Coleridge, como já notamos, nada descobre na conversa de Carlos Wesley senão o seu restabelecimento da pleurisia (inflamação da pleura, a dupla membrana que envolve os pulmões). É representada como sendo uma baixa na temperatura do seu sangue (visto que ficou livre da feb re), e não a entrada de novas forças espirituais no seu caráter. Southey é semelhantemente disposto a resolver as experiências espirituais de João Wesley em termos físicos. Ele atribui as emoções daquela grande hora na n oite de 24 de maio à condição de seu pulso ou do seu estômago. Mas querer fazer do estomago de João Wesley, e não da sua alma, a cena (o local) de fenômenos tão maravilhosos, a fonte de onde irradiam forças tão extensivas, só pode ser considerado como um dos mais surpreendentes exemplos de humor inconsciente na história. As “explicações” de Coleridge e Southey nada explicam; simplesmente refletem uma relutância obstinada em admitir a existência e a validez de forças

espirituais

que

constituem

o

último

disfarce

da

incredulidade.

A

explicação

daquela

pequena

reunião

feita

pelo

próprio

Wesley

e

daquela hora tão precisamente fixa, é que eIe foi convertido. E ele provavelmente entendeu melhor o que aconteceu do que os seus críticos que ainda nem eram nascidos.

Muitos porém, alegam que João Wesley fora convertido muito antes daquela noite. “Se João Wesley não era cristão quando trabalhava na sua rotina espiritual em Oxford e em Geórgia”, clama o cônego Overton, então, “Deus ajude a todos os que se professam e se chamam cristãos!”. Sem dúvida as multidões unir-se-ão – e deveras, com um semblante de alarme em dar ênfase ao parecer do Cônego Overton. Lembremo-nos da grande experiência que veio a Wesley depois de ter lido o “Santo Viver”, do Bispo Taylor. Ele diz:

“Instantaneamente resolvi dedicar toda a minha vida a Deus – todos os meus pensamentos, palavras e ações – sendo convencido de que não existe meio termo, mas que todas as particularidades da minha vida – não algumas somente – têm de ser um sacrifício a Deus, ou a mim mesmo; isto é ao Diabo”.

Não foi este o verdadeiro ponto da conversão de Wesley?

O ensino de Jeremias Taylor certamente serviu de choque precipitante a todos os desejos e convicções da natureza espiritual de Wesley. Eles se cristalizavam com o toque, tornando-se inabalável propósito. Realmente naquele instante ele capitulou às grandes forças e aceitou os grandes deveres da religião. E o fez com uma inteireza e decisão que são raras na experiência humana. Ele diz:

“Instantaneamente resolvi!“. Para Wesley nunca havia qualquer possibilidade de meio termo, nem de convênio fácil. Embora a sua interpretação da verdade fosse tristemente errônea, a sua lealdade a ela era de fibra heróica. A religião para ele não era um calmante agradável, nem um prêmio que se paga para assegurar-se da vida eterna, nem a orla ornamental da vestes superiores de sua vida. Era antes o negócio principal da nossa existência. Havia também na religião de Wesley, em todas as suas fases, a nota essencial da paixão. E le seguiria a verdade, como a entendia, através de tudo, custasse que custasse.

Mas era isto a conversão? Não fê-lo filho na família de Deus? Aqui estava, sem dúvida, aquela raiz de toda a religião, a vontade submissa. Porque, em seguir este ritmo entre a alma humana e Deus, não veio, no caso de Wesley, aquela música eterna de paz, destruindo toda a discórdia, que é o seu produto? Se tivesse morrido então não teria sido salvo?

Quanto a isto, o próprio Wesley duvidava. Ele deu pareceres contraditórios. Diz ele: “Eu mesmo, indo à América para converte r a outros, nunca fora convertido a Deus”. Porém mais tarde com uma sábia dúvida ele escreve acerca da afirmação anterior: “Não tenho certeza disso”. Ele não tinha certeza de que não era realmente convertido antes de 24 de maio. Ainda mais tarde, e com uma penetração mais clara, ele se descreve esse tempo (antes de 24 de maio de 1738) como tendo “a fé de servo, mas não de filho”.

A verdade é que Wesley nesse tempo não entendia o cristianismo no qual ele se criara e do qual era mestre. Havia se sentado aos pés de muitos instrutores e lido muitos livros. Havia sido sacerdotalista (clericalista. ritualista), asceta, místico e legalista, todos, por curso – sim, e por conjunto? Entretanto por todas essas fases ele persistentemente errara na interpretação da verdadeira ordem do mundo espiritual. Ele cria que uma vida nova não era o fruto do perdão, mas a sua causa. Ensinava que as boas obras precediam o perdão e constituía o seu título; não o seguiam representando seu efeito. A cada fase de sua alma ele tinha errado o grande segredo do cristianismo, que está tão perto, e ao nível da inteligência de uma criança; o segredo de uma salvação pessoal, o dom gratuito do infinito amor de Deus em Cristo; a salvação que vem por Cristo mediante a fé; a salvação atestada pelo Espírito de Deus e verificada na consciência.

O próprio Wesley nos dá a prova de que até essa data ele havia errado em sua concepção da religião. Temos a sua cronologia espiritual traçada por seu próprio punho, numa série de juízos, todos datados e catalogados, constituindo um mapa de sua experiência religiosa (Diário 24 de maio de 1738). Ele dá tudo isso como espécie de prefácio para a sua narração daquilo que teve lugar na saleta na rua Aldersgate, e ele explica cada passo sucessivo daquilo que havia sido o alicerce de sua religião. Podemos citar estas apreciações, prefixando a cada fase, a época na vida de Wesley à qual pertencia:

A Criança – Fui cuidadosamente ensinado que não me salvaria senão por uma obediência universal; pelo cumprimento de todos os mandamentos de Deus; sendo diligentemente instruído no significado deles. E essas instruções no tocante a deveres e pecados exteriores, eu recebia de boa mente e meditava nelas freqüentemente. Mas tudo que me ensinaram concernente à obediência ou à santidade interior, eu não entendia nem de nada me lembrava. De modo que eu permanecia tão

ignorante do verdadeiro significado da lei como eu era do Evangelho de Cristo.”

O menino de Escola – Os cinco ou seis anos seguintes foram passados na escola, e sendo removidas as restrições exteriores, tornei-me muito mais descuidado do que antes Entretanto, eu ainda lia as Escrituras e fazia as minhas orações de manhã e de noite. As coisas pelas quais eu esperava ser salvo eram: 1) não ser tão ruim como outra ge nte, 2) ainda conservar o respeito pela religião, 3) ler a Bíblia, assistir na Igreja e fazer as minhas orações.”

O Estudante Universitário – Tendo me mudado para a

universidade onde fiquei durante cinco anos, continuei a fazer as

Não posso

dizer o que constituía a minha esperança pela salvação nesse tempo, quando eu constantemente pecava contra a pouca luz que ainda me restava, a não ser, que fosse nos acessos passageiros daquilo que muitos teólogos me ensinavam chamar de arrependimento.”

minhas orações tanto em público como em particular

Ordens Sacras – Comecei a mudar toda a forma da minha conversação, e a tentar sinceramente a entrar numa vida nova

Eu destaquei uma ou duas horas por dia para, um retiro religioso. Eu tomava a comunhão uma vez todas as semanas; vigiava

De modo

que agora, fazendo tanto e levando uma vida tão boa, eu não duvidava que era bom cristão”.

contra todo pecado, quer por palavra quer por ação

A Disciplina de Guilherme Law – Tendo encontrado nesse tempo “A Perfeição Cristã”, de Thomaz A. Kempis, e “A Chamada Séria” do Senhor Law, não obstante ter-me

escandalizado com muitos trechos de ambas; contudo, por elas eu me convenci, mais do que nunca do grande comprimento,

Clamei a Deus que me

ajudasse; resolvi, como nunca antes, a não protelar o tempo de lhe obedecer. E, por meus constantes empenhos para guardar a lei interior e exteriormente até onde me dessem as forças, eu me persuadia que seria aceito por Ele, e que eu estava então mesmo na graça da salvação”.

largura e profundidade da lei de Deus

O Clube Santo – Em 1730 eu comecei a visitar as prisões, ajudando os pobres e doentes e fazendo qualquer outro bem que

eu pudesse com a minha presença ou com a minha pequena

fortuna aos corpos e às almas de todos. Com este intuito eu me privei de todas as coisas supérfluas e de muitas que são

chamadas as coisas necessárias à vida

empregava, tanto em público como em particular, todos os meios de graça a cada oportunidade. Não omitia ocasião de fazer o bem. E por isso mesmo sofria muito. E tudo isto eu sabia ser nada a não ser que fosse dirigido para a santidade interior. Portanto, aquilo que eu almejava em tudo isso, era a imagem de Deus, por cumprir-lhe a vontade e não a minha. Entretanto, depois de continuar por alguns anos neste curso, julgando-me prestes a morrer, não pude achar que tudo isso me desse certeza alguma da minha aceitação por Deus. E nisto fiquei bastante surpreendido, não imaginando que durante todo esse tempo eu havia estado edificando sobre a areia, nem considerando que “ninguém pode pôr outro fundamento senão o que foi posto” por Deus “que é Jesus Cristo”.”

Eu cuidadosamente

O Místico – Logo depois um homem contemplativo me convenceu ainda mais do que antes que as obras exteriores não são nada, estando a sós e em diversas palestras me ensinou como eu devia prosseguir para alcançar a santidade ou a união da alma com Deus. Mas mesmo das suas instruções (se bem que eu as recebia então como se fossem as palavras de Deus) eu só posso dizer agora: 1) Que ele falava com tão pouco cuidado contra a confiança nas obras exteriores que me dissuadia de fazê- las de todo; 2) que me recomendava a oração mental e outros exercícios semelhantes como sendo os meios mais eficazes em purificar a alma e uni-la com Deus. Mas estas coisas eram, na realidade, tanto obras minhas como o visitar aos doentes ou o vestir aos nus. E a união com Deus que eu assim procurava, era tão realmente a minha própria justiça como qualquer outra que eu havia seguido sob outro nome.”

O Missionário – Deste modo refinado de confiar nas minhas próprias obras e justiça eu me arrastava pesarosamente, não achando nem conforto nem auxílio até a época da minha

partida da Inglaterra

estava agitando o ar. Sendo ignorante da justiça de Cristo, que, por uma viva fé nele, traz a salvação a “todo o que crê". Eu procurava estabelecer a minha própria justiça e deste modo

Antes eu havia servido

trabalhava no fogo todos os meus dias

ao pecado voluntariamente; agora eu o servia contra a vontade,

Todo o tempo que estive em Savannah eu

mas o servia. Eu caia e me levantava para tornar a cair outra vez. Durante toda essa luta entre a natureza e a graça, que agora havia durado mais de dez anos, eu tinha muitas e notáveis respostas às minhas orações, especialmente quando me achava

Mas

em dificuldades. Eu tinha muitos e sensíveis confortos ainda eu estava “debaixo da lei” e não “sob a graça”.”

A volta à Inglaterra – Com a minha volta à Inglaterra em Janeiro de 1738, estando em iminente perigo de morte e muito inquieto por causa disso, fiquei fortemente convencido que a causa dessa inquietação era a falta de fé, e que o me apossar de uma fé verdadeira e viva era a única coisa necessária para mim. Mas eu ainda não fixara a minha fé no objeto adequado; eu queria que fosse fé em Deus somente, e não a fé em Cristo ou mediante Cristo. Não sabia que eu me achava de todo destituído desta fé, mas julgava apenas que não possuía uma suficiência dela.”

Aquela longa análise de si mesmo é clara, explícita e final. Quanto a um conhecimento meramente intelectual, não é necessário dizer que Wesley era familiar com o verdadeiro sentido do cristianismo. A teologia do seu mestre moraviano estava e ainda está nos Trinta e Nove Artigos de Religião. Mas para João Wesley como para a sua geração, eles haviam se tornado num conjunto de sílabas pálidas, vazias de qualquer sentimento vital. E a sua experiência prova que um credo pode sobreviver como uma peça literária; pode ser cantado em hinos e tecido em orações e solenemente ensinado como uma teologia e ainda ser exausto (vazio) de vida real. As grandes frases podem ser destituídas de poder, quando não sejam mortas.

É um aviso para todo o tempo. A Igreja de Wesley retém hoje, e retém tenazmente as doutrinas que Wesley, até esta época, havia errado. Para nós são deveras acentuadas pela história que tem formado. A sua autenticidade é estabelecida pela literatura e hinologia que inspiraram. Elas têm passado tão completamente fora de toda a controvérsia, tornando-se tão comuns, que perigam (correm o perigo de) tornarem-se outra vez em fórmulas sem verificação.

Wesley declara que ele devia a sua conversão a Pedro Bohler. Qual foi, pois, exatamente esse ensino? Bohler inconscientemente fez a obra suprema de sua vida durante aqueles poucos dias em Londres e Oxford quando conversava com João Wesley. O humilde moraviano, sábio unicamente na ciência espiritual tocou em Wesley e então

esvaeceu (desapareceu, perdeu importância)! Mas ajudou a mudar a história religiosa de Inglaterra, se bem que nunca ele sonhara tal coisa.

A natureza de seu ensino é bastante clara. Em suma, ensinou a Wesley três coisas, coisas que estão no próprio alfabeto (no “ABC”) do cristianismo, mas que, de algum modo, os ensinos do piedoso lar Wesley, da grande Universidade de Oxford, da antiga Igreja, e de livros famosos não lhe fizeram ver. A saber: 1) que a salvação é unicamente em virtude da propiciação feita por Cristo e não por nossas próprias obras; 2) que a única condição para a salvação é a fé; 3) e que a salvação é atestada (testificada) à consciência espiritual pelo Espírito Santo. Estas verdades hoje são mui comuns; para Wesley , eram nessa época de sua vida, eram descobertas.

Necessariamente o erro de Wesley era fatal. É bem claro que por todas as fases de sua experiência até esta época o “eu” de Wesley, sob muitas formas, havia tomado o lugar de Cristo. Wesley sempre punha a ênfase em si mesmo, em seus próprios motivos, atos, sacrifícios, orações, aspirações, e não no seu Salvador. E ái da alma que assim mudar o seu centro de fé, achando por centro, não os ofícios e a grande e radiante personalidade do Cristo vivo, mas os fragmentos imperfeitos de seus próprios atos e méritos! Nem mesmo aquilo que o Espírito Santo efetua em nós pode, em qualquer época, tomar o lugar como razão da nossa confiança diante de Deus, o lugar daquilo que Cristo fez por nós.

Mas agora, como resultado dos ensinos de Pedro Bohler, uma visão verdadeira da obra e dos ofícios redentores de Jesus Cristo feriu a vista de Wesley. Até então ele havia tomado, sobre si mesmo uma parte desses ofícios – um erro comum a todos os séculos, repetido em miríades (quantidade indeterminada, porém muito grande) de vidas, e sempre mortífero. Nos anos posteriores o seu texto bíblico predileto foi “Cristo Jesus se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça e santificação, e redenção” (1 Coríntios 1:30). Mas nos tristes anos que precederam àquela memorável hora na rua Aldersgate, Wesley nunca concebera que Cristo Jesus havia se tornado, num sentido profundo e misterioso, justiça para a alma crente. Como Wesley mesmo diz:

“Eu, tinha fé, mais ainda não fixava a minha fé no objeto adequado; eu queria que fosse fé em Deus somente e não a fé em Cristo ou a fé mediante Cristo”.

Nem a própria misericórdia de Deus – se essa misericórdia nos fosse apresentada sob forma diversa daquela que se nos apresenta no

mistério de Cristo e de sua redenção – satisfaria a consciência humana. Wesley possuía, como bem poucos jamais a possuíram, a justa apreciação do pecado e de sua odiosidade: uma visão da lei divina – santa, augusta e imaculada – desonrada pelo pecado. E uma justa apreciação da discordância profunda e eterna que existe entre a consciência do pecado e a justiça imaculada de Deus, obstando (criando obstáculos para) que haja paz alguma. Ser apenas perdoado, poupado pela misericórdia divina não bastava para Wesley, como não basta para qualquer alma. Tem de haver uma reconciliação permanente e fundamental com a justiça. E bastaria andar por todas as veredas da eternidade poupado pela misericórdia de Deus, mas ainda condenado por sua justiça?

A alma humana necessita, na própria consciência, de um ponto

de contacto entre estas duas coisas opostas. E Wesley aprendeu de Bohler o grande segredo do Cristianismo – que em Cristo se acha aquele sublime ponto de contacto. O dom de Deus à alma crente não é simplesmente o perdão, mas a justificação. Cristo se torna para aquela alma “o Senhor, justiça nossa”. De modo que a visão que transfigurou a vida de Wesley era a dos ofícios completos e suficientes de Cristo na redenção – ofícios de graça que muito sobrepujam as nossas esperanças e são alem da nossa compreensão.

Mas Bohler também lhe ensinou o segredo da fé pessoal e salvadora. Wesley não teve fé antes do dia 24 de maio de 1738? Sim teve, e ele mesmo nos diz que qualidade de fé era essa. “Era”, diz ele, “uma sombra especulativa, flutuante e vaporosa que vive na cabeça e não no coração”. As homilias de sua própria Igreja poderiam, é verdade, ter ensinado a Wesley, melhor definição da fé do que esta! “É uma certa confiança e descanso que o homem tem em Deus”. Wesley possuía esta definição de fé com uma perfeita clareza intelectual; mas foi simplesmente uma mera abstração sem existência real.

O dr. Dale nos faz notar que esta definição é em si um paradoxo.

“Se a fé é a condição precedente à salvação, como pode ser a crença que já estamos salvos?” Ele tenta resolver o paradoxo por

perguntando: ”Não é verdade que Deus já nos deu – crentes e incrédulos semelhantemente – eterna redenção em Cristo?” A fé não produz um fato novo, mas somente aceita e traz para o domínio da consciência um fato que já existe independentemente dela.

Mas tal ensino facilmente entra no domínio do perigoso! Pode-se acrescentar que o paradoxo de fé está em outro ponto. Se for o dom de

Deus, como pode ser a condição de outros dons? Se a fé é o dom de Deus, a responsabilidade por sua não existência está com Deus! Como pode ser tido por culpado o homem em não possuir aquilo que só pode lhe vir como dom de Deus?

A verdade, até onde for possível expressá-la nos termos de língua

humana, é que a fé representa o concurso de duas vontades, a divina e

a humana. Ela é impossível sem a graça de Deus; de modo que a graça

é uma condição essencial e sempre presente para o seu exercício. Mas

a graça de Deus não produz a fé sem o consentimento da vontade humana. Wesley aprendeu, mas aprendeu tarde e vagarosamente, que

a fé não é meramente o esforço da alma desamparada em chegar a

algum ato ou sentimento de confiança. É a rendição da alma para a graça auxiliadora de Deus; e somente quando se realiza esta capitulação (rendição, entrega) é que a alma se acha elevada por

um

jubilosa.

impulso

divino

para

as

grandes

alturas

de

uma

confiança

Wesley também aprendeu de Bohler, que o perdã o recebido

de Cristo é atestado à alma perdoada pelo testemunho direto do

que traz consigo, como fruto imediato, a

paz divina. É também certo que esta doutrina estava engastada

(inserida, contemplada ) no credo de

uma perfeita clareza intelectual. “Se permanecermos em Cristo e Cristo em nós”, escrevera ele a sua mãe muitos anos antes disso, “forçoso é que sejamos cônscios disso. Se não pudermos ter certeza

de que estamos no estado de salvação, boa razão se ria todo o momento que passarmos, seja passado, não em regozijo, mas, em temor e tremor. Então, sem dúvida , nesta vida somos de todos os homens os mais miseráveis”.

Wesley, e ele a retinha com

Espírito Santo; de modo

Entretanto, inconscientemente, Wesley agira até aí sob a teoria que a única confiança que o homem pode ter acerca da sua própria condição espiritual , é aquela que ele recebe da contemplação de suas próprias boas obras, ou que ele extrai, pela força da lógica, de tais obras. Praticamente tinha a crença da mãe, que qualquer consciência divinamente dada da aceitação por parte Deus era uma experiência rara e limitada a grandes santos. Ele conta com grande simplicidade como Pedro Bohler, “ainda mais me surpreendeu por suas descrições dos frutos da fé, do amor, da santidade e da felicidade que afirmav a serem seus assistentes”.

Entretanto, se qualquer doutrina está sancionada largamente

pelas Escrituras e pelo assentimento da razão, é esta doutrina chamada tecnicamente a “segurança”. Negá -la é dizer que a nossa cons ciência espiritual não tem função alguma, ou que ela mente. Como resultado do perdão tem se efetuado a mais estupenda mudança na alma; a sua relação com Deus e seu universo é transfigurada. O pecador perdoado não é mais um enjeitado, mas um filho. Será possível persuadirmo-nos que esta maravilhosa mudança não seja de algum modo comunicada à nossa consciência? Será da vontade de Deus que o filho recebido de novo na sua família continue a crer, o que agora é mentira, que ele é ainda um enjeitado? Ainda que esteja sob os sorrisos de Deus ele deve continuar a pensar que ainda está sob o seu desagrado? Depois do desaparecimento da escura substância do pecado, será que Deus queira que a sombra permaneça; que a alma perdoada ainda carregue o peso do pecado que não está mais em conta contra ela, e sinta as manchas imaginárias de uma culpa que já foi apagada? Será crível (possível de se acreditar) que a única alma diante da qual Deus se coloca mascarado seja a alma perdoada? E que ele traga tal máscara para esconder-lhe o seu perdão?

Certamente tal idéia constitui um paradoxo de uma espécie incrível! “Creio na remissão dos pecados”. É um credo triunfante, mas quem se regozijaria num perdão tão furtivo (escondido) que nem a própria alma que o recebe não saiba se o recebeu ou não?

mais

surpreendente contradição. A alma antes do perdão crê, o que é verdade, que é condenada; mas depois do grande ato de perdão ela crê, o que é mentira, que é ainda condenada. E Deus se conserva no silêncio! Não envia qualquer sinal ou penhor de conforto. É do Seu agrado – o Deus da Verdade! – que o seu filho perdoado ainda permaneça na atmosfera da falsidade! É esta uma coisa incrível em escala transcendente! Está em flagrante contradição com a Palavra de Deus: “O Espírito mesmo dá testemunho com o nosso espíri to de que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16).

A

negação

do

testemunho

do

Espírito

acarreta

a

Este testemunho divino não pertence ao domínio de milagres. Não é independente, como mostra a experiência, de condições

humanas. Varia segundo o

enfraquecendo -se com o enfraquecimento da fé ou tornando -se mais claro segundo a inteireza da consagração.

estado do próprio coração hum ano;

É interessante notar as variações nos sentimentos do próprio Wesley, ainda depois que lhe veio a grande experiência. Na mesma

noite de 24 maio, depois de ter deixado a saleta na rua Aldersgate, ele diz: “Fui muito acometido por tentações, mas eu clamei e eIas fugiram”. Voltaram repetidas vezes, e dois dias depois e le se descreve “como estando pesaroso por causa das múltiplas tentações”. Ainda ma is tarde ele acha -se “com falta de gozo” , e atribui esta condição “à falta de oração oportuna”.

Na experiência de Wesley, em suma, como na experiência de todos os demais cristãos, há flutuações nos sentimentos espirituais. Mas a sua experiência tem agora uma nova feição. Ainda era necessário que lutasse diariamente com as forças do mal; mas diz ele: “Achei a diferença entre a minha condição agora e a de antes . Antes fui às vezes, se não freqüentemente, vencido; agora sou sempre o vencedor!” Aqui (depois da experiência no 24 de maio de 1738) estava a luta; mas aqui, também , estava a vitória.

PARTE III

O Avivamento da Nação

CAPÍTULO XIII

A Inglaterra no Século Dezoito

A nossa luz parece ser a tarde do mundo”: com estas palavras tristes e expressivas uma "Proposta para a Reforma Nacional de Costumes”, publicada em 1694 , descreve a condição moral de Inglaterra aos começos do século XVIII. Raiava um novo século, mas parecia como se nos céus espirituais da Inglaterra a própria luz do cristianismo estava sendo mudada, por alguma força estranha e malévola, em trevas. E era sobre uma paisagem moral desta espécie, escurecida com as sombras como as de algum temível e iminente eclipse espiritual , que João Wesley começou a sua obra. É impossível entender a escala e o poder dessa obra, sem um esforço preliminar para idear (ter uma idéia, uma noção) o campo em que foi feita.

Seria fácil multiplicarem-se as testemunhas, mostrando quão exaurida de religião vital, quão maculada (manchada) em toda a sorte de iniqüidade era a Inglaterra desse tempo. Os seus ideais eram grosseiros; os seus divertimentos eram brutais; a sua vida p ública era corrupta; os seus vícios não inspiravam vergonha alguma. É verdade que Walpole (Robert Walpole, 1º Conde de Orford, foi um dos chefes do partido Whig ou liberal e principal ministro – First Lord of the Treasury – do rei George II até 1742) não inventou a corrupção política, mas eIe a sistematizou, e a erigiu em esta ndarte, e fê-la desavergonhada! A crueldade se fermentava (excitava, estimulava) nos prazeres da multidão; e a podridão manchava os termos da conversa geral. Os juizes praguejavam desde o tribunal; o capelão imprecava (rogava pragas, amaldiçoava) os marinheiros para fazê-los mais atentos a seus sermões; o rei o praguejava incessantemente, e em voz alta. A duquesa de Marlborough, dizem, visitou um advogado sem deixar-lhe o seu nome. O secretário do advogado disse depois:

Não pude atinar quem seria; mas ela praguejava tão terrivelmente que devia ter sido senhora de qualidades”.

Leis ferozes ainda permaneciam nos códigos A própria justiça era cruel. Mesmo em 1735 homens foram esmagados por terem recusado a se confessarem réus de crime capital. A lei sob a qual mulheres eram

susceptíveis a serem açoitadas publicamente ou queimadas à estacas (em fogueiras), foi ab-rogada (revogada, suprimida, anulada) somente em 1794. O Temple Bar foi continuamente adornado com uma nova moldura de cabeças humanas. Era o século do tronco e de açoites públicos; de bebedices, e prisão por dívidas em cadeias bastante tristes (desumanas) para escurecerem com novas sombras o Inferno de Dante. A bebedice era hábito familiar que passava sem reparo até entre os próprios ministros de estado. O adultério era um passa-tempo, cuja vergonha recaia não na mulher infiel nem no seu amante, mas no marido traído.

Mas não é justo julgar qualquer século apenas por seus vícios. A impiedade humana enche de trevas, em ma ior ou menor grau, qualquer século. Quem deseja ver até que ponto a Inglaterra baixara no século XVIII tem que julgá-la, não pelos elementos piores, mas pelos melhores

– por sua religião, ou por aquilo que ela tomava por religião; e pelos mestres religiosos. Pois não pode haver prova mais cabal de uma religião do que a qualidade de mestres que ela produz.

Talvez não seja justo ir-se a um satírico em busca de um retrato;

e as pinturas que Thackeray faz dos clérigos do século XVIII são, sem dúvida, abertas à força de ácido. Mas não desmentem a vida; o seu poder está em serem elas verdadeiras. De George II, o pequeno,

iracundo e belicoso (agitado, beligerante, dado à guerra) monarca com

a moral e as maneiras de um Jonathan Wilde em púrpura, Thackeray

escreve em frases pungentes. E George II, tinha clérigos (a seu serviço)

que possuíam a mesma moral; e que até consentiam em tratar a suas repugnantes licenciosidades como se fossem virtudes.

O rei George II havia morrido, e William Thackeray (escritor britânico cuja obra foi marcada pela alternância entre textos puramente cômicos ou paródias com romances históricos sobre a sociedade britânica e americana) diz que “foi o pároco quem veio chorar junto a seu túmulo, em companhia de Walmoden – uma das muitas concubinas do falecido rei – e assentado aí, pretendia o céu para o pobre velho que ali dormia. Aqui estava quem (o rei morto) não possuía nem a dignidade, nem a instrução, nem a moralidade, nem espírito – que poluíra a grande sociedade por maus exemplos; que na juventude, na maturidade e na velhice era grosseiro, baixo e sensual. Mas o sr. Portens, depois Monsenhor Bispo Portens, diz que a terra não era digna dele, e que o seu único lugar era o céu! Bravo, sr. Portens! O clérigo que derramou essas lágrimas em memória de George II vestiu o linho de George IlI”.

Thackaray pinta o retrato em tamanho natural (descreve a realidade) de outros clérigos dessa época – o tipo de uma classe – o capelão e parasita de Selwyn, que descreveu o próprio caráter em suas cartas. E Thackeray coloca o retrato temível na perspectiva da história, quando:

"Todos os prazeres e jogos indecentes em que se deleitava foram exauridos, todas as faces pintadas em que olhara com sensualidade eram vermes e crânios (estavam mortas); todos os finos cavalheiros cujas fivelas de sapatos ele beijara jaziam na sepultura. Este digno senhor toma a si o cuidado para nos dizer que não acredita na sua religião, ainda, graças a Deus, não é tão velhaco como um advogado. Ele faz os recados, do sr. Selwyn, e quaisquer recados, orgulhando-se diz ele, em ser o provedor daquele senhor. Ele assiste com o Duque de Queensberry –”o Velho Q“ – e troca anedotas com aquele aristocrata. Ele volta para casa depois “de um dia trabalhoso, em fazer batizados”, como afirma, e escreve a seu protetor antes de assentar-se para jogar cartas e para cear perdizes. Ele se alegra no pensamento do bife e vinho – é um ruidoso e turbulento parasita, lambendo os sapatos do seu amo entre explosões de riso, fingindo muito gosto, pois o sabor do lustre é igual ao melhor Claret na adega do “Velho Q.”. Tem “Rabelais”, e “Horácio” as pontas dos dedos sujos. É indizivelmente baixo – curiosamente alegre; bondoso e de bom humor em particular – um bobo alegre de coração sensível, não um mexerico venenoso. Jessé diz que na sua capela em Long Acre “ele alcançou uma considerável popularidade pelo estilo agradável, varonil e eloqüente de seu discurso”.

A incredulidade teria sido endêmica, e a corrupção nos ares?” – Pergunta Thackeray ao contemplar pastores tão estranhos. Os maus hábitos de George II, diz ele, produziram os seus frutos nos primeiros anos de George III, e o resultado foi uma corte e sociedade tão corruptas como a Inglaterra jamais conheceu. O Thackeray era satírico, mas estas pinturas (suas crônicas e demais escritos) nada devem ao fel no seu tinteiro. A sátira, repetimos, está na sua veracidade.

Uma religião sempre tem a espécie de clero que merece; e considerado como classe, o clero do século XVIII era grosseiro e sem espiritualidade, porque representava uma fé vazia de toda a força espiritual. Se na Inglaterra dessa época procurarmos nas falências da moralidade exterior pelas causas espirituais, serão manifestas. Foi o século de um raso e ousado deismo (onde se acredita na existência de

Deus, mas não há necessidade de um relacionamento pessoal com ele; Deus é impessoal, uma “força” do universo); de um deismo exultante e militante auxiliado pelo humor e crítica, bem como defendido pela lógica. Havia cativado a literatura; dava as cores à imaginação popular; tingia o discurso vulgar; achava-se entronizado no lugar da fé cristã.

Mas o deísmo, qualquer que seja o seu tipo, é moralmente impotente; e o deismo do século XVIII nada era senão um traiçoeiro banco de areia no escuro do mar do ateísmo. Não nega a existência de Deus, mas o cancela como uma força na vida humana; quebrando a escada áurea da revelação entre os céus e a terra. Deixa a Bíblia desacreditada, o dever passa a ser uma conjectura, o céu uma aberração da imaginação desenfreada, e Deus como sombra vaga e dista nte. Por ele os homens eram deixados para subirem a um céu enevoado por alguma escada fraca de lógica humana. E naqueles dias tristes, enquanto havia uma cerração (nevoeiro) escura do deísmo fora das Igrejas, no interior delas, ainda havia outra cerração quase tão densa e má. O arianismo (uma heresia condenada em 325 d.C. pelo Concílio de Éfeso na qual Teodoro Ário e seus seguidores afirmavam que Cristo era uma criatura de natureza intermediária entre a divindade e a humanidade , não era Deus, mas

subordinad o a Deus como a primeira e a mais excelsa de suas criaturas ) aberto e confesso havia se apossado quase inteiramente das Igrejas dissidentes (da Igreja Anglicana oficial do Estado Inglês ). E um inconsciente arianismo prático reinava, não obstante os seus artigos doutrinários de Religião, na própria Igreja Anglicana. A consciência do pecado estava mui fraca e juntamente com isso,

mui fraca, também a doutrina d o Cristo Divino e

havia se tornado Redentor.

religiosa desse século mostra quão curiosa mente

pálida e ineficiente a noção de Deus havia se tornado entre aqueles que professavam ser seus ministros. Segundo Sir Leslie Stephen, Deus nesse tempo “era um ídolo composto da tradição e da metafísica congelada” (História do Pensamento Inglês, Volume II pág. 338). Tinha havido um Deus; e e le havia anteriormente tocado na vida humana. Mas isto se dera em tempos bem remotos, e em terras bem distantes. Já Deus havia se “emigrado” de seu próprio mundo. Ainda segundo Leslie Stephen, Deus tinha sido reduzido tal como a grotesca concepção do Bispo Warburton, em “um juiz sobrenatural do tribunal superior cujas sentenças foram executadas em um mundo desnatural; um monarca constitucional que, havendo assinado o contrato constitucional tinha se retirado da gerência ativa

A literatura

dos neg ócios do governo”. De Deus, como o Pai dos nossos espíritos, como atualmente vivendo em seu próprio universo e regendo nas vidas dos homens; de Deus, de quem se poderia ter dito na linguagem de Tennyson: “Está mais perto do que a respiração, mais próximo do que as mãos ou os pés”, não se acha indício algum na teologia do século XVIII. A superstição, segundo os seus teólogos, consistia na crença que Deus seria capaz de revelar-se nos negócios do mundo moderno. O fanatismo seria o imaginar que Deus se revelaria por qualquer toque, ou sopro, ou sentimento de influência à alma pessoal.

O deismo, repetimos, engrossado com as nevoadas árticas e gelado como o frio ártico, constituiu a teologia ativa desse século infeliz. Naquela teologia Cristo é reduzido a uma sombra. Serve ele de rótulo para um credo, mas preenche unicamente o papel de rótulo. O seu Evangelho não constitui qualquer “boa nova”, mas unicamente serve de bons conselhos. Não constitui uma salvação, mas é apenas uma filosofia. Um chinês decente que levasse a sério os ensinos de Confúcio poderia ter pregado nove décimos dos sermões desse período. Se o tal chinês escondesse o rabicho (os longos cabelos presos), mudasse de feições, disfarçando-se com uma batina e sobrepeliz (a roupa sacerdotal), e se tivesse aprendido umas poucas frases técnicas e falado dos Evangelhos como sendo verdadeiras histórias – se bem que um tanto remotas – poderia ter passado por um bom teólogo com apetite bem ortodoxo por um gordo benefício na Inglaterra desse tempo. Leckey diz com cruel franqueza:

“Fora de uma crença na doutrina da Trindade e de um reconhecimento geral da veracidade das narrativas evangélicas, os clérigos de então, pouco ensinavam que não poderia ter sido ensinado pelos discípulos de Sócrates ou pelos seguidores de Confúcio”.

Mas o Cristianismo não é um código de moral; nem é um capítulo de história antiga. (É fé em uma pessoa, na pessoa de Jesus!). É um agrupamento de verdades grandes e majestosas; verdades que sobrepujam o entendimento e que são envoltas em mistério; mas que têm de formar as nossas vidas. Desde o princípio até o fim é uma mensagem do amor redentor. O mistério de uma propiciação divina pelo sangue de Cristo, do acesso a Deus mediante os ofícios sacerdotais de Cristo, é a sua essência própria. O seu dom supremo é a vida de Deus restaurada na alma humana pela graça poderosa do Espírito Santo.

Mas

todas

estas

grandes

doutrinas,

que

não

são

tanto

pertencentes ao Cristianismo como seus constituintes, haviam de algum modo escapado, não meramente da fé humana, mas quase da memória

humana nesta época do Cristianismo, do povo que fala a língua inglesa.

A mensagem “de entrarmos no santo lugar pelo sangue de Jesus”

(Hebreus 10:9) não significava coisa alguma para homens que se criam privilegiados a entrarem em qualquer ocasião na presença de Deus com uns poucos cumprimentos delicados. Na religião desse tempo não havia lugar para lágrimas de arrependimento. Faltava a nota de paixão e o silêncio da reverência havia desaparecido. E tudo isso, porque a visão de Deus ia se apagando; a consciência (da maldição) do pecado – do significado do pecado, e da sua cura preparada por Deus – havia perecido.

Uma religião assim exaurida de suas propriedades sobrenaturais não possui poder algum sobre a consciência humana. Não pode transfigurar qualquer vida. Não inspira mártir algum, nem produz santos, nem envia missionários. Gera uma moralidade de t êmpera ignóbil (desprezível, nojenta). Tem mais a aparência de uma atmosfera exaurida de oxigênio do que qualquer outra coisa.

E a religião do século XVIII recebia o apreço que merecia. Os seus sacramentos “os símbolos da graça propiciatória” se tornaram nas palavras de Cowper, “em Chave de ofício, ou chave falsa para posição oficial” (ou seja, era obrigatória a prática religiosa para se ter emprego

público). Swift, em uma de suas cartas a Stella escreve: “Cedo fui visitar

o Secretário Bolingbrook, mas ele, havia ido a suas devoções para

receber o sacramento. Vários outros velhacos (enganadores, logrões, burladores, fraudulentos) tinham feito o mesmo. Não foi pela piedade, mas pelo emprego, segundo ato do Parlamento”. Uma religião tal, não podia inspirar um ministério santo nem heróico; e o certo é que havia pouco de santo e ainda menos de heróico na têmpera do clero anglicano nos dias dos primeiros reis George. O primeiro e grande dever da religião era se conservar tépida (morna, frouxa, fraca). Não devia haver nem entusiasmo, nem heroísmo. Deviam ser evitados todos

e quaisquer extremos. “Devemos cuidar que nunca nos sobressaiamos

mesmo no prosseguimento da virtude”. Foi o conselho de um dos pregadores dessa época. “Quer alvejemos o zelo, quer a moderação, cuidemos que não deixemos entrar o fogo num e nem a geada no outro”. Estas palavras, diz Miss Wedgwood, “ constituíam o moto (divisa, lema) da Igreja do século XVIII”. Os clérigos temiam muito mais ser considerados demasiados crentes, do que demasiados incrédulos.

O

Cristianismo

foi

diligentemente

diluído

por

seus

próprios

mestres (líderes), a ponto de se tornar insípido (sem sabor, sem efeito). O pecado contra o Espírito Santo é pelo Bispo Clarke diluído “em uma recusa de se ser convencido pela maior evidência da veracidade do Cristianismo”. O motivo pelo qual a religião apela à consciência era no fundo um apelo à covardia. O Bispo Sherlock resolve a religião em judicioso (sensato, prudente) jogo de azar. Diz ele substancialmente:

São dez para um que a religião é verdade. Se finalmente a religião for achada falsa, o cristão terá perdido unicamente a décima parte da importância da aposta. Se a religião for achada verdade, o pecador terá feito muito mal negócio”. A lógica é o único instrumento de uma religião tépida (morna, frouxa, fraca). E achamos todos os sermões e ensinos dos clérigos do século XVIII em termos da lógica, e possuem a frieza desta. Os mestres religiosos desse tempo, em suma, só tinham meias- crenças, e de meias-crenças não se pode extrair qualquer moralidade heróica (vida com santidade).

Leslie Stephen diz a respeito de Blair, o mais famoso pregador desse tempo , “que ele era simplesmente mascate (vendedor ambulante) de coisas de segunda mão que davam a impressão de que o homem real havia sumido sem deixar nada senão uma cabeleira e batina”. A idéia (concepção) que o Bispo Warburton teve da Igreja Cristã se vê numa de suas cartas. Diz ele: “A Igreja, à semelhança da arca de Noé, é digna de salvação não pelos animais imundos que quase a enchem e que fazem a maior parte do ruído e do clamor nela; mas pelo cantinho ocupado pelos racionais que se sentem acabrunhados mais com o mau cheiro dentro do que com a tempestade de fora”. Middleton, outro dignitário eclesiástico desse tempo, escreveu uma carta ao Lorde Hervey, ridicularizando os artigos que ele mesmo estava prestes a subscrever a fim de tomar conta (alcançar) de um benefício.

“Ainda que haja muitas coisas na Igreja ”, diz ele, “de que eu nada gosto, entretanto, ao passo que eu suporte o mal, terei prazer em provar um pouco do bem e assim receber alguma compensação pelo feio assentimento e consent imento que nenhum homem de bom senso pode aprovar. Lemos que certos entre os discípulos de Jesus o seguiam, não por causa de suas obras, mas por causa de seus pães. Para nós que não tivemos a felicidade de ver as obras pode se permitir que tenhamos alguma inclinação pelos pães. Vossa Senhoria conhece certo homem que, com idéia mui baixa do pão sagrado da Igreja, entretanto sente -se bem disposto a tomar boa porção do pão temporal. O meu apetite para um e outro é

igualmente moderado. Não pretendo me regalar no banquete dos eleitos, mas, com o pecador do Evangelho, quero apanh ar as migalhas que caem da mesa”.

Tal tipo de religião, servida por tais ministros, inevitavelmente havia de produzir vidas de pouco valor. A piedade era simplesmente a peIe de hábitos exteriores, uma forma de prudência que se entendia ao mundo espiritual. Se os sermões empoeirados desse século forem postos no alambique e for destilada a sua essência vê-se que subsistiam em exortações tais como:

“Não vos embriagueis, pois isto arruína a saúde; não mateis, pois haveis de ser enforcados Todo o homem deve ser feliz, e o modo de ser feliz é ser em tudo digno de respeito.”

A opinião que o Cristianismo era falso, mas ainda útil à sociedade, representava o credo prático das classes educadas. A nobre senhora Maria Wortley Montagu fala de um plano para tirar o “não” dos mandamentos e incorporá-lo (o tal “não”) no Credo. É uma faísca de sátira feminina, mas representa a teoria sobre a qual toda a multidão vivia.

O Bispo Butler tem pintado o espírito do seu tempo em cores escuras e imperecíveis. Ele diz: “A distinção deplorável do nosso século está no confesso escárnio pela religião, e no crescente desprezo dela”. Mas o próprio Butler com todos os seus elevados talentos fornece, na sua própria pessoa uma prova cabal da cegueira e da morte espiritual do seu tempo. Ele proibiu que os Wesley e Whitefield pregassem em sua diocese, embora, em todos os lados de sua catedral existisse a classe degradada e abandonada na Inglaterra – os mineiros de Kingswoo d, tão destituídos de todas as forças do Cristianismo como se fossem nativos no centro da África.

Que o melhor, o mais sábio, o mais poderoso e o mais plenamente convencido dos bispos desse tempo, tomasse tal atitude para com Wesley e sua obra mostra qual era a têmpera geral do clero de então. A consciência de Butler não se inquietou com este lapso no mero paganismo de uma classe inteira, ao alcance do som dos sinos de sua catedral, mas tornou -se piedosamente indignado com o espetáculo de uma suposta irregularidade eclesiástica! O entusiasmo em homens bons, a seus olhos, era espetáculo mais alarmante do que o vício em homens maus. Pode-se imaginar mais significante inversão de valores espirituais?

Não há feição mais característica do século XVIII do que o seu temor (medo, pavor) pelo entusiasmo. Entusiasmo era coisa maldita! Um clérigo bom estava mais solícito em desfazer-se de qualquer suspeita de entusiasmo, do que em livrar-se do escândalo de heresia. Era século de compromissos; de compromissos na política, na filosofia, na teologia; e compromissos são fatais ao entusiasmo. Forçosamente matarão o entusiasmo, ou serão mortos por eIe.

Lembremo-nos que duas grandes ondas de paixão havia recentemente inundado a Inglaterra – a onda do Puritanismo (um movimento religioso protestante de origem presbiteriana com índole conservadora e rigorista que rejeitava tanto a igreja católica quanto a igreja Anglicana, governada pelo rei inglês, e por isso mesmo perseguido e até martirizado pelos poderes ingleses) que tinha exigências que culminara na Guerra Civil (entre os partidários do rei Carlos I da Inglaterra e o Parlamento inglês, liderado por Oliver Cromwell. Começada em 1642, acaba com a condenação à morte de Carlos I em 1649); e o retrocesso do Puritanismo que achara o seu triunfo na restauração. Grandes debates, à força da espada e do mosquete, da prisão e do tronco, de atos do Parlamento e de sentenças de tribunais, haviam deixado o país exausto. O espírito de compromiss o dos Whigs (expressão de origem popular que se tornou termo corrente para designar o Partido Liberal no Reino Unido), que explica a revolução de 1688, havia capturado o domínio (se estabelecido também) religioso. Os homens ainda se sentiam doloridos com as feridas da luta. O espírito público achava-se no refluxo. Temia-se a paixão, odiava-se os fanáticos. Entusiasmo era palavra e atitudes suspeitas. A moderação era a coisa principal.

O entusiasmo tem ou deve ter o seu último reduto na religião, e nos mestres religiosos. Mas no século XVIII o clero constituía na nação a classe em que os fogos (chamas) do entusiasmo achavam-se mais perto da extinção; e isto como resultado de seus próprios atos. Nos limites de uma única geração eles haviam ensinado, primeir o, o direito divino dos reis, e zelosamente haviam perseguido a todos que dúvidassem dessa doutrina. Mas depois da chamada Revolução Gloriosa de 1688 (na qual o rei católico Jaime II da dinastia Stuart foi removido do trono da Inglaterra, Escócia e País de Gales, e substituído pelo seu genro,o nobre protestante holandês Guilherme, Príncipe de Orange e a esposa Maria II, filha do rei James II), eIes haviam engolido os seus princípios, jurando a fidelidade ao rei Guilherme, e tratando de tirar dos presbitérios e casas pastorais o pequeno resto de seus irmãos que recusaram renunciar aos seus princípios com a mesma alegre

facilidade! Princípio de espécie nobre e austera foi pelo momento desacreditado, deste temível modo, pelo exemplo do próprio clero.

Havia alguns pontos luminosos na escura paisagem inglessa desse século XVIII. Entre os gordos e ricos bispos faltos de espiritualidade, vemos os vultos quase santos de Butler e Berkley. O século que conta Guilherme Law entre os seus teólogos, e Watts e Doddridge. E entre os seus cantores, ainda possuía nas veias algo do fervor divino da religião. E deviam ter havido muitos presbitérios ingleses, além do de Epworth, nos quais ardia a chama preciosa da piedade familiar.

Entretanto, a vida espiritual de Inglaterra nesse momento estava indubitavelmente se esgotando com rapidez. A sua vida p ública corrupta; o seu clero desacreditado; a sua Igreja gelada; a sua teologia exaurida dos elementos cristãos. Tal era a Inglaterra do século XVIII! Necessitava-se de uma revolução espiritual para salvar um povo tal.

Os ventos de Pentecostes teriam de soprar novamente sobre o país moribundo; os fogos de um novo Pentecostes teriam de cair para ascender outra vez a chama da fé nas almas dos homens . E Wesley foi chamado, e educado por Deus, para fazer esta grande obra.

CAPÍTULO XIV

Começando a Obra

A conversão de João Wesley naquele 24 de maio de 1738 confundiu alguns de seus amigos e alarmou a outros. Mrs. Hutton, mãe de um de seus amigos, disse: “Se não fostes cristão desde que vos conheci, então fostes um grande hipócrita, pois nos fizestes crê-lo”.

Samuel Wesley recebeu as novas com uma espécie de ira confusa que é quase divertida. Ele achou que o irmão sofria de um ataque de “entusiasmo!” – uma moléstia muito mais mortífera do que qualquer outra conhecida à ciência medica. Ele escreve: “Cair no entusiasmo é ser perdido com testemunho. Eu almejava alegremente um encontro com o Joãozinho, mas agora tudo se acabou e tenho medo. De coração rogo a Deus que obste (impeça) o progresso desta

loucura

anterior ao mês próximo passado ele nunca fora Cristão”, diz o

eclesiástico. “O batismo não é nada?

ser apóstata (quem abandona a fé ou o estado religioso ou sacerdotal),

para que as suas palavras sejam a verdade”.

Não entendo o que Joãozinho quer dizer em afirmar que

Ou ele deve se desbatizar, ou

Mas João Wesley já mudara para outro clima espiritual. No seu clima espiritual o dia natalício do cristão tinha sido mudado do dia de seu batismo para o de sua conversão; “e nesta mudança”, diz miss Wedgwood, com profunda penetração, “cruzava a linha divisória entre dois grandes sistemas”. Entretanto Wesley seria o último que havia de perturbar-se com o alarme e a perplexidade de seus amigos. Aos 13 de junho – somente três semanas depois de sua conversão – ele se achava a caminho da Alemanha para visitar as povoações moravianas. Ele gostava de estudar a religião minuciosamente, e experimentá-la pelo supremo toque da vida. A experiência íntima da alma humana constituía para ele a lógica final. Na povoação moraviana de Rerrnhut eIe acharia a comunidade inteira vivendo segundo as grandes verdades que acabara de aprender, e ele se apressou em redargüir (aprender, replicar, avaliar) as experiências desses simples moravianos, e em estudar a ordem social que havia evoluído e a maneira de vida que levavam.

EIe passou três meses nesta sindicância e, voltando à Inglaterra,

aos 16 de setembro, em seu Diário nos dá uma descrição, meia divertida, meia tocante, das conversas que teve com vários grupos desse povo, e das perguntas solícitas mas simples com que redargüia as suas crenças e emoções. Pela língua áspera e gutural do povo alemão, ou filtradas por uma tradução latina, as experiências de um após outro desses moravianos devotos chegavam a Wesley e ele escutava pensativo e com olhos pacientes. Aqui estava a obra do Espírito Santo, traduzida em termos da vida humana e exposta diante dos olhos. Aqui estava a verificação do Evangelho de Cristo! Wesley escreveu a seu irmão Samuel:

“Estou com uma Igreja cuja conversação está no céu, na qual se acha a mente que havia em Cristo, e que anda, como ele andou. Oh! quão santa e sublime coisa é o cristianismo, e quão largamente separado daquilo – não sei o que é – que tem o nome, embora não purifica o coração, nem renova a vida”.

Wesley esteve com o Conde Zinzendorf, o chefe da comunidade moraviana, um homem que teve um gênio pela religião e era notável de muitas maneiras. Mas é curioso de se notar que Zinzendorf, cuja posição social estava muito mais próxima à de Wesley do que era a de Bohler, fez muito menos impressão em Wesley do que fez Bohler, o humilde missionário. Havia menos intervalo espiritual entre Bohler e Wesley do que entre Zinzendorf e Wesley. E Wesley não estava no humor que se importa com distinções sociais.

Wesley tomava parte nos cultos religiosos dos moravianos com o mais vivo interesse, e se sentava com a simplicidade de uma criança aos pés do presbítero plebeu, ou do pregador carpinteiro. Mas não foi lhe possível desfazer-se do obstinado bom senso inglês, e ele estudava com viva atenção todo o sistema de piedade ali produzido. Quando voltou à Inglaterra ele escreveu uma carta ao Conde Zinzendorf, agradecendo-lhe, e louvando o que havia visto; mas, acrescentou, que nutria a esperança de poder mais tarde dar a seus amigos moravianos “o fruto do meu amor por Ihes falar francamente acerca de umas poucas coisas que não pude aprovar, talvez por não entendê-las”.

Mais tarde são minuciosamente descritas essas “poucas coisas” que o bom senso de Wesley não aprovara. Contudo Wesley voltou de sua peregrinação aos moravianos com a fé fortalecida. As suas novas experiências espirituais não eram realmente novas. Pertenciam a uma corrente de experiências humanas que se estendia por todos os santos até os dias dos Apóstolos. Nestas experiências participaram centenas de homens e mulheres vivos, nos quais Wesley havia presenciado os

frutos da santidade antiga. Wesley trouxe de Herrnhut o conhecimento exultante de que estava em boa companhia.

Desde aquele momento mudou-se o caráter da obra de Wesley. Ele estava vivendo em novo clima espiritual. A religião para ele não estava mais em prova; já era uma realidade! Pertencia ao domínio das certezas. Ele possuía uma confiança exultante na sua proclamação, e a obra dele ganhava logo uma nova e estranha concentração de energia.

A história do seu trabalho na primeira semana é uma expressão notável de zelo. Chegou a Londres na noite de sábado, 16 de setembro, pregou quatro vezes no domingo. Reuniu-se com a pequena sociedade moraviana, que então contava trinta e dois membros, na segunda -feira. Na terça-feira visitou os condenados na prisão de Newgate e pregou à noite na rua Aldersgate. Todos os dias da semana ocupados com a pregação e a visitação particular. E po r fim Wesley achara a chave para o coração humano. O seu discurso sempre possuíra um estranho poder em perturbar a consciência, mas agora se vê uma nova qualidade na mensagem ; qualidade esta que para as consciências, que antes perturbara, a paz.

O seu Diário abunda em breves e, às vezes, aparentemente inconscientes notas de êxito, tanto em pregar nas grandes congregações como em seu trato com indivíduos. “Um que, havia muito, mofara de religião espiritual” mandou pedir que Wesley o visitasse. “Ele possuía todos os sinais”, diz Wesley, “de um desespero completo, tanto nas feições como nas ações. Disse que havia sido escravizado ao pecado por muitos anos, especialmente ao vício da embriaguez. Pedi que orássemos juntos. Em pouco tempo ele se levantou, as feições não eram tristes agora, e ele disse, “agora sei que

Deus me ama e que me perdoou os pecados, e que o pecado não terá mais domínio sobre mim”. E diz Wesley : “Foi lhe feito segundo a sua fé”. Ele anota em outro lugar: “Em S. Thomaz, achava-se uma moça maníaca, que gritava e se atormentava continuamente: eu senti um forte desejo de falar-lhe. No instante que comecei a falar-lhe, ela se acalmou, as lágrimas lhe corriam pelas faces por todo o tempo que eu lhe dizia:

Jesus, o Nazareno, pode e quer te livrar

”Na casa do sr. Fox eu

discursei como de costume, o grande poder de Deus estava conosco, e uma pessoa, que durante alguns anos havia sido desesperada, recebeu o testemunho de que era filha de Deus”. Notas semelhantes começam cintilar, quais estrelas no firmamento até aí nebuloso e tempestuoso, no Diário de Wesley.

”.

É claro que Wesley agora se achava de todo munido, no limiar do verdadeiro trabalho de sua vida – o despertamento religioso de seus conterrâneos. A sua educação espiritual, em certo sentido, é completa. Ele tem um verdadeiro evangelho para pregar; as boas novas da religião como sendo um livramento, não como sendo uma nova e intolerável escravidão. Ele pode proclamar este evangelho com um forte acento de certeza. Tem sido verificado na experiência própria e confirmado pelo testemunho de multidões. Ele possui toda a inteireza de antes, a mais completa sinceridade, desprezo de concessões, e um espírito que não se poupava do qualquer sacrifício; mas através de todas essas belas qualidades agora corre algo de novo – nota de vitória, o fogo de alegria. Aqui certamente está um instrumento ajustado às mãos de Deus para uma grande obra. Não é simplesmente que o espírito de Wesley oferece agora um meio transparente pelo qual a verdade brilhe para outros espíritos. É antes um canal pelo qual, grandes forças – as energias vivificantes do Espírito Santo – correm para outras vidas. Wesley, sob estas novas condições, é semelhante ao fio elétrico que vibra de uma energia sutil e estranha. Ele tem poder! Mais do que aquele inerente na língua eloqüente ou na lógica da inteligência; poder que emana da eternidade, e que pertence à ordem espiritual, e lhe dá uma maravilhosa influência sobre as almas dos que ouvem.

Mas se a pregação de Wesley produzia resultados mais diretos e visíveis do que antes, agora curiosamente provocava uma oposição ainda mais ativa do que nunca. A sua sinceridade perturbadora, a penetração de suas palavras como que aço afiado, haviam sido sempre demais severas para as congregações sono lentas daquele dia. Para eles a religião possuía somente os dons de um calmante; um processo tão inteiramente mecânico como as revoluções de uma roda de orações dos Tibetanos. Mas agora a energia perturbadora das palavras de Wesley para ouvintes que só ped iam que não lhes incomodassem foi grandemente aumentada e as igrejas, umas após outras, se fecharam pronta e quase que automaticamente contra ele, depois de ter pregado nelas. Antes de findar -se o ano de 1738 ele era um pouco melhor do que um desterrado e clesiástico.

Neste período o seu Diário abunda em notas como estas:

“Preguei duas vezes em S. João Clerkenwell, de modo

Preguei à noite

a congregações como nunca vi antes em S. Clemente, no Strand, como foi a primeira vez que preguei aqui, suponho que

que receio que não suportem por mais tempo

será a última

assistiu! Estou contente mesmo que eu não pregue mais aqui”.

Preguei em São Giles

O poder de Deus nos

Não paramos agora para analisarmos o segredo da oposição que Wesley provocava, nesse te mpo, entre o clero e os assistentes nas igrejas. Basta notar que nesse momento exato em que teve uma mensagem a proclamar com confiança exultante – mensagem por cujas sílabas vibrava uma misteriosa força espiritual – quase todas as igrejas de Londres fecha vam-lhe as portas com grande estrondo!

E as igrejas recusando ouvi-lo, Wesley virou-se às prisões e ali achou os seus mais atentos ouvintes, e o seu maior êxito entre os criminosos encarcerados. Criminosos que esperavam a forca deve - se lembrar, assentava m em multidões – testemunho da crueldade da lei nesses dias tristes – em todas as prisões inglesas. Carlos Wesley narra ter pregado a uma triste companhia de sentenciados, em número de cinqüenta e dois, e entre eles havia uma criança de dez anos. Rogers, o poeta, tão recente como 1780, relata ter visto uma carroça cheia de meninas vestidas de várias cores – o instinto feminino pelo adorno sobrevivendo até o fim – em caminho a Tyburn para serem executadas, depois das desordens de Gordon. O trabalho de Wesley entre estes entes que iam pressurosos (cheios de pressa ou de zelo) para a forca acha largo espaço no seu Diário. Aqui damos um exemplo típico entre muitos: