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Contos de Maupassant: O Cego e Outros

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GUY DE MAUPASSANT

O CEGO
E OUTROS CONTOS
ATROZES
Tradução de Paulo Soriano et alii

2017
TRIUMVIRATUS
[Link]
Sumário
SOBRE A COLETÂNEA
SOBRE A ÁGUA
O HORLA
PIERRÔ
O BÊBADO
UMA VENDETTA
O BANDIDO CORSO
O LOBO
NO MAR
A MORTA
O CEGO
CRÉDITOS
TÍTULOS E COLEÇÕES
SOBRE A COLETÂNEA
Henri René Albert Guy de Maupassant (Tourville-sur-Arques, 5 de
agosto de 1850 - Passy, 6 de julho de 1893) cultivou variados gêneros literários,
mas foi no conto que o seu imenso talento reconheceu a forma inata de
expressão. Era ele essencialmente contista. Ao lado de escritores como Allan
Pöe, Tchekhov e O. Henry, elevou o gênero a dimensões merecidamente
extraordinárias.
Como contista, Maupassant explorou vários temas e assuntos. E
enveredou, com maestria, no ambiente fantástico e terrível. Às vezes, o
excêntrico, o insólito e o sobrenatural imperam (Sobre a Água, O Horla, A
Morta); noutras, prevalece o horror que deriva das mais sombrias imperfeições
morais do gênero humano, como a avareza (Pierrô, No Mar), a ira (O Lobo, O
Bêbado), o rancor (O Bandido Corso, Uma Vendetta) e a crueldade pura e
simples (O Cego), com suas atrozes consequências.
SOBRE A ÁGUA
No verão passado, aluguei uma casa de campo à margem do Sena, a
algumas léguas de Paris, na qual ia dormir todas as noites. Depois de alguns
dias, travei relações com um vizinho, homem de 30 a 40 anos, o tipo mais
curioso que já conhecera. Era um velho remador, sujeito fanático, que não saía
da água. Deve ter nascido numa canoa e com certeza há de morrer com os remos
nas mãos.
Numa noite em que passeávamos à beira d’água, pedi-lhe que me
contasse uma história de sua vida náutica. Imediatamente, o meu amigo animou-
se, transfigurou-se, tornando-se eloquente, quase poético. Ele trazia no coração
uma grande, uma aguda e irresistível paixão pelo rio.
—Ah — disse-me ele —, quantas coisas eu sei a respeito deste rio que
corre junto a nós! Quem mora na cidade não sabe o que é o rio. Ouça, porém, um
pescador que pronuncia esta palavra. Para ele, é uma coisa misteriosa, profunda,
o lugar das miragens e das fantasmagorias, onde se veem, à noite, coisas que não
existem; onde se ouvem rumores ignotos, ou se treme sem saber por quê, como
quando se atravessa um cemitério. E, de fato, é o mais terrível cemitério, onde
não existem túmulos.
Na sombra, quando não há lua, o rio não tem limites. O marinheiro não
experimenta no mar a mesma sensação que o pescador no rio. O mar é grande, é
leal: grita, uiva. O rio é silencioso e pérfido. Não tem vagas. Corre sempre sem
rumor, e o eterno movimento da água que flui me apavora mais que as ondas do
oceano.
Certos sonhadores pretendem que o mar esconda em seu seio grande
cidades azuladas, onde os afogados turbilhonam entre grandes peixes, em meio a
estranhas florestas e grutas de cristal. As profundezas do rio são escuras.
Entretanto, ele é belo quando esplende ao sol e docemente murmura entre as
margens cobertas de sussurrantes caniços.
Um poeta[1], falando do oceano, disse:

Oh, ondas, quantas lúgubres histórias conheceis!


Ondas profundas, temidas pelas mães ajoelhadas,
Aquilo que lhes contais quando sobem as marés
É o que faz desesperadas as vozes
Que tendes à noite, quando chegais até nós.

Pois bem, eu creio que as histórias sussurradas pelos frágeis caniços


devem ser mais sinistras do que os lúgubres dramas narrados pelo urro das
ondas. Mas, como o senhor me pede alguma de minhas recordações, vou contar-
lhe um estranho caso que me sucedeu há cerca de dez anos.
Por esse tempo, eu morava, como ainda hoje moro, na casa da senhora
Lafon, e um dos meus melhores colegas, Louis Bernet, que depois renunciou ao
esporte para entrar no Conselho do Estado, morava na aldeia de C., duas léguas
abaixo. Jantávamos juntos todas as noites, um dia na casa dele, outro dia na
minha.
Certa noite, em que eu voltava só, e muito cansado, remando com grande
esforço, parei um pouco, fazendo a canoa encalhar. O tempo estava magnífico.
Havia lua, o rio cintilava, o ar estava calmo e doce.
Aquela tranquilidade me tentou. Veio-me a vontade de fumar meu
cachimbo. Lancei âncora.
A canoa ainda desceu um pouco, esticando a corrente, e parou.
Acomodei-me como pude. Não se ouvia nada, nada. Só de vez em quando me
parecia ouvir um barulhinho quase imperceptível da água contra o barranco, e
então os maciços de verdura assumiam para mim formas surpreendentes,
agitadas.
O rio estava perfeitamente tranquilo, mas eu me sentia comovido pelo
extraordinário silêncio que me circundava. Todas as vozes noturnas dos
pantanais haviam se calado pelas margens. De repente, à minha esquerda, uma rã
coaxou. Estremeci. Como o barulho não se repetiu, pus-me a fumar. Conquanto
eu estivesse acostumado a fumar, nessa noite o fumo me fez mal ao estômago.
Comecei a cantarolar. A minha voz aborreceu-me. Estirei-me, então, no fundo da
canoa, contemplando o céu. Por algum tempo, permaneci calmo. Logo, porém,
certos movimentos da barca me perturbaram. Parecia-me que ele oscilava de um
modo extraordinário, até tocar ora uma e ora outra margem. Depois, eu tive a
impressão de que um ser, ou uma força invisível, me arrastava para o fundo da
água. Sentia-me apavorado como em meio a uma tempestade. Ouvia rumores
vindos de todos os lados. De repente, ergui-me. A água brilhava. Tudo se achava
calmo.
Compreendi o meu estado de nervos, e decidi ir-me embora. Puxei a
corrente. A canoa moveu-se, e depois senti uma resistência. Puxei com mais
força e a âncora não cedeu: tinha-se enroscado em alguma coisa no fundo da
água e eu não podia erguê-la. Tornei a puxar, mas inutilmente. Então, com os
remos, empurrei a canoa rio acima para mudar a posição da âncora. Em vão.
Irritei-me e sacudi furiosamente a corrente. Nada se moveu. Sentei-me,
desencorajado, e pus-me a refletir sobre a minha situação. Arrebentar a corrente
era impossível. Arrancá-la da borda da canoa, também, porque estava segura
num toro de madeira da grossura do meu braço. Entretanto, como o tempo
continuava belíssimo, tinha a esperança de que por ali passaria algum pescador, a
quem chamaria em socorro. Esperei, pois, acalmando-me um pouco, e desta vez
pude fumar. Trazia comigo uma garrafa de rum. Bebi dois ou três cálices, e a
minha situação me fez rir. Fazia muito calor, de modo que não seria
desagradável, na pior das hipóteses, passar a noite ao relento.
De repente, qualquer coisa bateu na quilha da canoa. Dei um salto e um
suor frio gelou-me da cabeça aos pés. Com certeza, tinha sido algum pedaço de
pau que dera de encontro ao fundo da embarcação. Mas fora o bastante para me
lançar de novo numa estranha agitação nervosa. Agarrei a corrente e fiz um
esforço desesperado para arrancar a âncora. Mas a âncora resistia sempre. Tornei
a sentar-me, exausto.
No entanto, o rio fora se cobrindo aos poucos de uma névoa branca muito
densa que tocava na água, de modo que, erguendo-me, não pude ver o rio, nem a
canoa, nem os meus pés. Eu distinguia apenas o cimo dos caniçais e, ao longe,
palidamente iluminada pelo luar, a planície manchada de negro pelas árvores que
se erguiam para o céu. Eu me achava como que sepultado, até a cintura, naquela
névoa de estranha alvura. Vinham-me ideias fantásticas. Parecia-me que alguém
que eu não reconhecia tentava subir para a barca, e que o rio, oculto pela névoa
opaca, estava cheio de seres bizarros que nadavam em torno de mim.
Experimentei um horrível desassossego e, com as têmporas opressas, o coração a
bater-me violentamente, fora de mim, pensei em salvar-me a nado. Esta ideia,
porém, me arrepiou. Vi-me perdido, joguete do acaso em meio da bruma,
debatendo-me entre perigos que não podia evitar, gritando de medo, sem ver
terra, sem encontrar o barco, e puxado pelos pés para o fundo da água sombria.
De fato, como me ere preciso subir a correnteza pelo menos uns
quinhentos metros para encontrar um ponto sem ervas e juncos onde pudesse
firmar o pé, havia para mim nove probabilidades sobre dez de perder-me na
névoa e afogar-me, por melhor nadador que eu fosse.
Esforcei-me por ver se raciocinava. Sentia uma firme vontade de não ter
medo, mas havia em mim alguma coisa mais que a vontade, e essa alguma coisa
tinha medo. Perguntava a mim mesmo o que é que podia temer: o meu eu
corajoso encontrava o meu eu covarde, e nunca aprendi tão bem como nessa
noite a luta dos dois seres que vivem em nós, um que quer e o outro que resiste,
e cada um dos quais ora vence, ora é vencido.
Aquele pavor brutal e inexplicável aumentava sempre e tornava-se terror.
Fiquei imóvel, com os olhos esbugalhados e ouvindo à espreita, esperando.
Esperando o quê? Não sei, não sabia, mas creio que era qualquer coisa de
terrível. Creio que se um peixe saltasse fora d’água, como acontece tantas vezes,
eu cairia semimorto.
Todavia, graças a um violento esforço, acabei por dominar ao menos em
parte a minha perturbação. Tomei de novo a garrafa de rum, sorvendo-o a
grandes goles. Acudiu-me, então, uma ideia. Comecei a gritar com toda força,
voltando-me para os quatro pontos cardeais. Quando não tinha mais fôlego,
escutei. Um cão ladrava ao longe.
Bebi mais um pouco e deitei-me, estirado, no fundo da canoa. Fiquei
assim talvez uma hora, talvez duas, sem dormir, com os olhos abertos, sentindo
fantasmas em volta. Não tinha coragem de levantar-me, apesar de o desejar
ardentemente: deixava de um minuto para o outro. E dizia com os meus botões:
“Vamos, de pé!” e, ao mesmo tempo, tinha medo de fazer o menor movimento.
Finalmente, ergui-me, com infinitas precauções, como se a minha vida
dependesse do mínimo barulho que eu fizesse. E alonguei o olhar por sobre as
margens.
A névoa, que duas horas antes flutuava sobre a água, tinha-se pouco a
pouco adensado nas margens. Ao longo delas, a neblina formava uma colina
contínua, de seis ou sete metros de altura, banhando de luar a sua alvura de neve.
Entre as duas montanhas brancas estava o rio. Sobre a minha cabeça, lá no alto,
brilhava a lua cheia num céu de turquesa esbranquiçada.
Todos os habitantes da água tinham despertado. As rãs coaxavam furiosas
e, de momento em momento, eu ouvia a nota breve, monótona e triste que a voz
metálica dos sapos lançava às estrelas. Coisa estranha: passara-me o medo.
Cercava-me uma paisagem tão extraordinária que nada podia me parecer
estranho.
Quanto tampo durou isso, não o sei, porque acabei por adormecer.
Quando reabri os olhos, o céu estava cheio de nuvens e a lua, velada. A água
murmurava lugubremente, ventava, fazia frio e a escuridão era profunda.
Bebi o último gole de rum que me restava, depois fiquei escutando a
tremer o farfalhar da folhagem e o rumor sinistro do rio. Não enxergava o barco.
Aproximei as mãos dos olhos: não as enxergava também.
Pouco a pouco, porém, a treva diminuía. De repente, pareceu-me sentir
uma sombra passar por cima do meu corpo. Dei um grito. Uma voz respondeu-
me. Era um pescador. Chamei-o. Ele se aproximou. Contei-lhe o que me
acontecera. Então, ele trouxe o barco para junto do meu e puxamos juntos a
corrente. A âncora não se moveu. A madrugada estava escura, cinzenta, chuvosa,
glacial, anunciando um desses dias que trazem tristezas e dores. Lobriguei outro
pescador. Chamamo-lo, e ele veio unir aos nossos os seus esforços. Então, pouco
a pouco, a âncora cedeu. Subiu, mas docemente, e carregada de um peso
considerável. Finalmente, surgiu um fardo negro. Passamo-lo para a barca.
Era o cadáver de uma velha mulher com uma grande pedra no pescoço.
O HORLA
(Versão de 1886)

O doutor Marrande, o mais ilustre e o mais eminente dos alienistas, tinha


convidado três de seus colegas e quatro sábios, que se ocupavam com as ciências
naturais, para passarem uma hora em sua companhia, na casa de saúde de que ele
era o diretor, onde pretendia mostrar-lhes um de seus doentes.
Logo que os amigos chegaram, disselhes:
— Vou mostrar-lhes o caso mais bizarro e mais inquietador que já
encontrei. E nada lhes direi do meu cliente. Ele mesmo falará.
E o doutor tocou a campainha. Um criado fez entrar um homem. Este era
muito magro, de uma magreza cadavérica, como são magros certos doidos
devorados por um pensamento, porque o pensamento doentio consome a carne
do corpo mais que a febre e a tuberculose.
Depois de cumprimentar os presentes e sentar-se, ele disse:
— Meus senhores, eu sei por que estão aqui reunidos, e estou pronto a
contar-lhes a minha história, satisfazendo ao pedido de meu amigo Marrande.
Durante muito tempo ele considerou-me louco. Hoje duvida. Daqui a
algum tempo, todos os senhores saberão que eu tenho o espírito tão são, tão
lúcido, tão sagaz quanto o dos senhores, infelizmente para mim, para os
senhores, e para a humanidade inteira.
Mas eu quero começar pelos fatos em si, pelos fatos em toda a sua
simplicidade.
Tenho quarenta e dois anos. Não sou casado e a minha fortuna é suficiente
para uma vida de certo luxo. Eu morava em um imóvel de minha propriedade, às
margens do Sena, em Biessard, perto de Rouen. Gosto de caçar e de pescar. Ora,
por trás da minha casa, acima dos grandes rochedos que a dominam, tinha eu
uma das mais belas florestas da França, a de Roumare, e, em frente, um dos mais
belos rios do mundo.
A minha casa é espaçosa, pintada de branco por fora, bonita, antiga, no
meio de um grande jardim plantado de árvores magníficas, e que vai ter à
floresta, subindo pelos enormes rochedos de que lhes falei há pouco.
O meu pessoal compõe-se — ou antes compunha-se — de um cocheiro,
um jardineiro, um criado de quarto, uma cozinheira e uma roupeira, que era uma
espécie de governanta. Toda essa gente morava comigo de dez a dezesseis anos,
conhecia-me, conhecia a minha casa, a região, tudo o que fazia lugar em minha
vida. Eram bons e tranquilos servidores. Isto tem o seu valor para o que vou
dizer.
Acrescento que o Sena, que passa ao longo do meu jardim, é navegável
até Rouen, como sem dúvida os senhores sabem, e que todos os dias eu via
passar grandes navios, quer a vela, quer a vapor, procedentes de todos os cantos
do mundo.
Pelo outono passado fez um ano que, de repente, senti um mal-estar
estranho e inexplicável. A princípio, foi uma espécie de inquietação nervosa que
me fazia velar noites inteiras, uma superexcitação tal que o menor ruído me fazia
estremecer. Fiquei sujeito a cóleras repentinas inexplicáveis. Chamei um médico,
que me receitou brometo de potássio e duchas.
Tomei as duchas de manhã e à noite; pus-me a tomar o brometo. Em
breve, com efeito, voltei a dormir, mas o meu sonho era mais terrível que a
insônia. Mal me deitava, fechava os olhos e ficava aniquilado.
É verdade. Eu caía no nada, em um nada absoluto, em uma morte de todo
ser, de que era arrancado bruscamente, horrivelmente, pela terrível sensação de
um peso a esmagar-me o peito, e de uma boca sobre a minha, a sugar-me a vida
pelos meus lábios. Oh, que sobressaltos! Não conheço coisa mais aterradora!
Imaginem um homem que dorme e que está sendo assassinado, e acorda
com uma faca na garganta; que agoniza coberto de sangue, que não pode mais
respirar, e vai morrer e não compreende nada — e aí têm o que isso é.
Eu emagreci de um modo inquietador, contínuo; e, de repente, percebi que
o meu cocheiro, que era muito gordo, começava a emagrecer como eu!
Por fim, perguntei-lhe:
— O que tens tu, Jean? Tu estás doente?
— Eu creio que apanhei a mesma doença que o patrão. São as noites que
passo em claro.
Pensei, portanto, que havia na casa uma influência febril devido à
vizinhança do rio, e estava pronto para me afastar por dois ou três meses, apesar
de estarmos em plena estação de caça, quando um pequeno fato muito
excêntrico, observado por acaso, levou-me a fazer uma tal série de descobertas
inverossímeis, fantásticas, aterradoras, que me induziram à decisão de ficar.
Tendo sede uma noite, bebi meio copo d’água, e notei que a garrafa, posta
sobre a cômoda, defronte da minha cama, estava cheia até a rolha de cristal.
Durante a noite, tive um despertar terrível como o de que lhes falei.
Acendi a vela, cheio de medonha angústia, e, como quis beber outra vez, vi, com
espanto, que a garrafa estava vazia. Eu não queria acreditar no que via. Ou
alguém tinha entrado no meu quarto, ou então eu era sonâmbulo.
Na noite seguinte, resolvi fazer a mesma experiência. Fechei a porta à
chave, para ter certeza de que ninguém poderia entrar no meu quarto. Adormeci
e acordei como sempre. Tinham bebido toda a água que vira duas horas antes.
Quem tinha bebido essa água? Eu, sem dúvida, e, no entanto, julgava ter a
certeza, a certeza absoluta, de que não tinha feito um movimento durante o meu
sono profundo e doloroso.
Então recorri a artifícios para convencer-me de que eu não praticava esses
atos inconscientes. Pus à noite, ao lado da garrafa d’água, uma outra de
Bordeaux velho, uma xícara de leite (de que tenho horror) e bolos de chocolate
(de que gosto muito).
O vinho e os bolos ficaram intactos. O leite e a água desapareceram.
Então, todos os dias, mudei as bebidas e os alimentos. Nunca tocaram nas coisas
sólidas, compactas, e, quanto aos líquidos, só beberam leite fresco e
principalmente água.
Mas a dúvida pungente ficava-me na alma. Não seria eu que me levantava
inconsciente, e que bebia mesmo as coisas de detestava, porque os meus
sentidos, entorpecidos pelo sono de sonâmbulo, podiam ser modificados, ter
perdido a suas repugnâncias ordinárias e adquirido gostos diferentes?
Servi-me, então, de um artifício novo contra mim mesmo. Envolvi todos
os objetos em que teria infalivelmente que tocar com tiras de musselina branca e
os cobri com uma toalha fina.
Depois, no momento de me deitar, sujei as mãos, os lábios e os bigodes
com raspadura de lápis.
Quando acordei, todos os objetos estavam perfeitamente limpos, apesar de
terem sido tocados, porque a toalha já não estava como eu a tinha deixado, e,
além disso, tinham bebido a água e o leite.
Ora, a minha porta, fechada com uma chave de segurança, e as janelas,
fechadas a cadeado, não podiam ter deixado entrar ninguém.
Então fiz a mim mesmo esta pergunta: quem andava ali, todas as noites,
perto de mim?
Bem vejo, senhores, que estou a contar-lhes isto depressa demais.
Os senhores sorriem, a sua opinião está feita: “é um louco”.
Eu lhes deveria descrever, minudentemente, esta emoção de um homem
que, fechado em seu quarto, com o espírito são, vê, através do vidro de uma
garrafa, um pouco de água que desapareceu enquanto ele dormia.
Eu deveria ter-lhes feito compreender esta tortura, que se repetia todas as
noites e todas as manhãs, e aquele despertar mais assustador ainda.
Mas eu continuo.
De repente, o fenômeno cessou.
Não tocavam mais em coisa alguma no meu quarto. Estava acabado. E eu
andava melhor. Voltava-me a alegria, quando eu soube que um dos meus
vizinhos, o sr. Legite, achava-se exatamente no estado em que eu me encontrava.
Acreditei de novo numa influência febril no lugar.
O meu cocheiro havia saído de casa, um mês antes, muito doente.
O inverno havia passado, começava a primavera.
Ora, numa bela manhã, eu passeava junto do meu canteiro de roseiras
quando vi, distintamente, pertinho de mim, a haste de uma das nossas rosas mais
bonitas quebrar-se como se uma mão invisível a colhesse. Depois a flor seguiu a
curva que descrevia um braço, levando-a para uma boca, e ficou suspensa no ar
transparente, sozinha, imóvel, aterradora, a três passos dos meus olhos.
Possuído por um temor ensandecido, atirei-me a ela, para agarrá-la.
Não achei coisa alguma.
Tinha desaparecido.
Então senti uma cólera furiosa contra mim mesmo.
Um homem ajuizado e sério não pode ter tais alucinações.
Mas, seria realmente uma alucinação?
Procurei a haste. Achei-a logo no arbusto, recém-quebrada, entre outras
duas rosas que tinham ficado no ramo; porque eram três e eu as tinha visto
perfeitamente.
Então, voltei para casa com o espírito perturbadíssimo. Senhores, ouçam-
me, eu estou calmo. Eu não acreditava no sobrenatural e hoje mesmo ainda não
acredito. Mas, a partir desse momento, fiquei certo, como de que há dia e noite,
que existia perto de mim um ente invisível que me tinha perseguido, que depois
me tinha abandonado, e nessa ocasião retornava.
Pouco tempo depois, tive a prova disso.
Primeiro, entre os meus criados, havia diariamente discussões furiosas por
mil causas aparentemente fúteis, mas, desde então, significativas para mim.
Um copo — um belo copo de Veneza — quebrou-se sozinho, no aparador
da sala de jantar, em pleno dia.
O criado de quarto acusou a cozinheira, esta a roupeira e esta não sei
quem.
Portas que ficavam fechadas à noite estavam abertas de manhã.
Roubavam leite, todas as noites, na copa. Ah!
Quem era? De que natureza? Uma curiosidade nervosa — mistura de
cólera e terror — mantinha-me dia e noite em um estado de agitação extrema.
Mas a casa tornou-se outra vez calma; eu pensava de novo que tinham
sido sonhos, quando se deu o fato seguinte.
Foi no dia 20 de julho, às oito horas da noite. Fazia muito calor. Eu tinha
deixado a janela escancarada, o lampião aceso em cima da mesa, iluminando um
volume de Musset[2], aberto nas Noites de Maio, e tinha-me estendido em uma
grande poltrona, onde adormeci.
Ora, depois de dormir cerca de quarenta minutos, abri os olhos, sem me
mexer, despertado por não sei que emoção confusa e extravagante. A princípio,
nada vi. Depois, de repente, pareceu-me que as páginas do livro viravam-se
sozinhas. Nem um sopro de ar entrava pela janela. Fiquei surpreso. Esperei.
Depois de cerca de quarenta minutos, eu vi — vi, sim, meus senhores —, vi com
os meus olhos, levantar-se uma página e cair contra a precedente, como se um
dedo a folheasse. A minha cadeira estava vazia, mas eu compreendi que lá estava
ele! De um pulo, atravessei o quarto para apanhá-lo, para tocar-lhe, para
apoderar-me dele se fosse possível... Mas a minha cadeira, antes que eu lá
chegasse, caiu de costas, como se alguém fugisse diante de mim. O lampião
também caiu, e apagou-se, com o vidro quebrado. E a janela — bruscamente
empurrada, como se um malfeitor, ao escapar, tivesse-lhe deitado a mão — foi
ter no batente... Ah!
Atirei-me à campainha e chamei. Quando o criado apareceu, eu lhe disse:
— Derrubei e quebrei tudo. Traga-me luz.
Não dormi mais nessa noite. E, no entanto, eu podia ter sido ainda vítima
de uma ilusão. Quando a gente acorda, os sentidos estão um tanto perturbados.
Não teria sido eu que tinha atirado ao chão a cadeira e o lampião, precipitando-
me como um louco?
Não, não havia sido eu. Eu sabia disto a ponto de não duvidar por um
segundo sequer. E, no entanto, queria crer nisto.
Esperem. O ente! Como eu o chamarei? O Invisível. Não, isto não basta.
Eu o batizei de o Horla. Por que? Não sei. O Horla já quase não me deixava. Eu
tinha dia e noite a sensação, a certeza, da presença desse vizinho implacável, e a
certeza também de que ele me sugava a vida, hora a hora, minuto a minuto.
A impossibilidade de vê-lo me exasperava, e eu acendi todos os lampiões
do meu aposento, como se pudesse descobri-lo com muita luminosidade.
Por fim, eu o vi.
Os senhores não acreditam em mim. Mas eu o vi!
Eu estava sentado diante de um livro qualquer, não a ler, mas a espiar,
com todos os meus órgãos superexcitados, à espera daquele que eu sentia estar
perto de mim. Com certeza, lá estava ele. Mas onde? O que fazia? Como
alcançá-lo?
Defronte de mim estava a minha cama, uma antiga cama de carvalho, com
colunas. À direita, a lareira.
À esquerda, a porta, que eu fechara cuidadosamente.
Atrás de mim, um grande armário de porta de espelho, de que eu me
servia todos os dias quando fazia a barba, quando me vestia, onde costumava
mirar-me dos pés à cabeça toda vez que passava diante dele.
Eu estava, pois, a fingir que lia para enganá-lo, porque ele também me
espreitava e, de repente, senti, tive certeza que ele lia por cima de meu ombro,
que estava ali, a roçar-me na orelha.
Levantei-me, voltando tão depressa que quase caí. Pois bem... estava tudo
claro como o meio-dia... e eu não me via no espelho! O espelho estava vazio,
claro, cheio de luz.
A minha imagem não estava nele... e eu estava defronte...
Via o vidro límpido, de cima a baixo! E olhava para isso com os olhos de
um doido, e não me atrevia a caminhar, sentindo bem que ele estava entre nós —
ele —, e que iria me escapar outra vez, mas que seu corpo imperceptível tinha
absorvido o meu reflexo.
Como tive medo! E depois, de repente, comecei a ver-me em uma névoa
ao fundo do espelho, como através de uma toalha d’água. E parecia-me que essa
água escorria da esquerda para a direita, lentamente, tornando-se mais definida a
minha imagem de segundo em segundo.
Era como o acabar de um eclipse.
O que me escondia não parecia ter contornos claramente delineados, mas
uma espécie de transparência opaca, que ia clareando pouco a pouco.
Por fim, eu pude distinguir-me completamente, assim como todos os dias
em que me contemplo ao espelho.
Eu o tinha visto. Ficou-me, desde então, o terror, que ainda me arrepia.
No dia seguinte, vim para cá, onde pedi que me deixassem ficar.
E agora, meus senhores, eu vou concluir.
O doutor Marrande, depois de ter duvidado muito tempo, decidiu-se a
fazer, sozinho, uma viagem ao lugar em que eu morava.
Três vizinhos meus estão hoje afetados do mesmo mal.
É verdade?
(O médico respondeu:
—É verdade!)
O doutor aconselhou-lhes que deixassem água e leite todas as noites no
quarto, para ver se esses líquidos desapareciam. Eles obedeceram. Os líquidos
desapareceram, como em minha casa?
(O médico respondeu com uma gravidade solene:
— Desapareceram.)
— Portanto, senhores, um Ente, um Ente novo, que sem dúvida se
multiplicará em breve, assim como nós nos multiplicamos, acaba de aparecer
sobre a terra.
Ah, os senhores sorriem? Por quê? Porque esse Ente conserva-se
invisível. Mas os nossos órgãos, senhores, são órgãos tão elementares que
apenas podem distinguir o indispensável à nossa existência. O que é pequeno
demais, escapa-lhes; o que é muito grande, escapa-lhes; o que está muito longe,
escapa-lhes também. Eles desconhecem as miríades de pequenos animais que
vivem em uma gota d’água. Não conhecem os habitantes, as plantas e o solo das
estrelas vizinhas. Não chegam a ver sequer o transparente. Ponham diante deles
um espelho sem estanho, perfeito, e eles não o distinguirão e irão nos lançar para
cima da lâmina como um pássaro preso em casa, que quebra a cabeça de
encontro às vidraças. Portanto, eles não veem o ar quente de que nos
alimentamos, não veem o vento, que é a maior força da natureza, que derruba os
homens, abate edifícios, arranca árvores pela raiz, levanta o mar em montanhas
d’água, que derroca as de granito. Que há de admirável em que não vejam um
corpo novo, ao qual falta talvez somente a propriedade de deter os raios
luminosos?
Os senhores veem a eletricidade? E, no entanto, ela existe!
Este ente, que eu denominei de Horla, existe, também.
Quem é ele? Senhores, é aquele que a Terra espera, depois do homem!
Aquele que vem destronar-nos, dominar-nos, escravizar-nos e alimentar-se,
talvez, de nós, como nós nos alimentamos dos bois e dos javalis.
Há séculos que é pressentido, receado, anunciado!
O medo do invisível sempre perseguiu os nossos pais. E ele chegou.
Todas as lendas das fadas, dos gnomos, dos vagabundos do ar,
impalpáveis e maléficos, era dele que elas falavam. Dele, já pressentido pelo
homem inquieto e trêmulo.
E tudo o que os senhores fazem há alguns anos, o que os senhores
chamam hipnotismo, sugestão, magnetismo, é ele que os senhores anunciam, que
os senhores profetizam.
Eu digo que ele chegou. Vagueia inquieto ele também, como os primeiros
homens, sem conhecer ainda a sua força e o seu poder, mas que cedo
conhecerá... bem cedo.
E aqui está, senhores, para acabar, o fragmento de um jornal que me caiu
nas mãos e que vem do Rio de Janeiro. Eu leio: “Uma espécie de epidemia de
loucura parece alastrar-se há algum tempo na província de São Paulo. Os
habitantes de diversas aldeias têm fugido, abandonando as suas terras e casas, e
dizendo-se perseguidos e devorados por vampiros invisíveis, que se alimentam
da respiração deles durante o sono, e que só bebem água e às vezes leite.”
Acrescento: dias antes do primeiro ataque do mal de que estive para
morrer, lembro-me perfeitamente de ter visto passar uma grande galera
brasileira, com sua bandeira posta ao vento... Eu lhes disse que a minha casa fica
à margem d’água... toda branca. Sem dúvida, ele estava escondido nesse navio.
Nada mais tenho a acrescentar, meus senhores.
O doutor Marrande levantou-se e murmurou:
— Nem eu. Não sei se esse homem é louco, ou se somos ambos... ou se...
se o Ente que nos há de suceder realmente chegou...
PIERRÔ
Madame Lefèvre era uma senhora do campo, uma destas semicampesinas
que usam fitas e chapéus de folhos, destas pessoas que falam com pretensões,
tomam ares grandiosos em público, e ocultam uma alma pretensiosamente brutal
sob aparências cômicas e variadas, da mesma maneira que encobrem mãos
grossas e vermelhas com luvas de seda crua.
Tinha por criada uma camponesa simplória chamada Rose.
As duas mulheres habitavam uma casinha de persianas verdes ao longo da
estrada, na Normandia, no centro do país de Came.
Como possuíam um jardinzinho estreito, defronte da casa, cultivavam ali
alguns legumes e hortaliças.
Ora, certa noite surrupiaram-lhe uma dúzia de cebolas. Rose, assim que
deu pelo furto, correu a prevenir a senhora, que desceu ao jardim em saia curta.
Foi uma desolação e um terror. Tinham furtado, furtado Madame Lefèvre!
Já se vê que havia larápios pela redondeza e poderia ser que voltassem.
E as duas mulheres, assustadas, contemplavam os vestígios dos passos,
tagarelavam, supunham várias coisas.
—Olhe, passaram por aqui. Puseram os pés no muro. Saltaram para o
alegrete.
E o futuro aterrorizava-as. Como era possível dormirem agora
sossegadas?!
O boato do roubo espalhou-se. Os vizinhos vieram verificar, discutiram
também. E as duas mulheres explicavam a cada recém-chegado as suas
observações e as suas ideias.
Um fazendeiro, que morava ao lado, deu este conselho:
—A senhora deveria ter um cão.
Isso era verdade. Deveriam ter um cão, ainda que apenas para dar o alerta.
Não era preciso nenhum canzarrão. Valha-me Deus! O que haviam de fazer com
um canzarrão? O sustento as arruinaria! Mas um cãozinho —na Normandia diz-
se cãezinho —que latisse.
Logo todos foram embora e Madame Levrève discutiu muito tempo essa
ideia do cão. Depois de refletir, fazia mil objeções, aterrorizada pela imagem de
uma tigela cheia de comida. Porque era ela desta raça parcimoniosa de damas
campesinas que trazem sempre miúdos na algibeira para darem esmolas
ostensivamente aos pobres das estradas e, na igreja, no peditório de domingo.
Rose, que gostava de animais, deu suas razões e defendeu-as
astuciosamente. Por consequência, decidiu-se que teriam um cão. Um cão
pequeno.
Começaram à procura dele, mas acharam apenas grandes devoradores de
sopa que eram de arrepiar. O tendeiro de Rolleville tinha um, pequenino. Mas
exigia por ele dois francos para pagar as despesas da criação. Madame Lefrève
declarou que estava disposta a sustentar um cãezinho, mas que não queria
comprá-lo.
Ora, o padeiro, que estava ciente dos acontecimentos, trouxe, numa
manhã, em sua carroça, um animalzinho estranho, todo amarelo, quase sem
patas, com um corpo de crocodilo, um focinho de raposa e uma cauda de
trombeta, um verdadeiro penacho, tão grande quanto ele. Um freguês queria
desfazer-se do animal. Madame Lefrève achou lindo aquele cãozinho imundo
que não lhe custava dinheiro. Rose beijou-o e perguntou como se chamava.
O padeiro respondeu:
—Pierrô.
Instalaram-no num velho caixote de sabão, ofereceram-lhe água primeiro.
Bebeu. Em seguida, apresentaram-lhe um bocado de pão. Comeu. Madame
Lefèvre, inquieta, teve uma ideia:
—Quando já estiver acostumado à casa, vamos soltá-lo. Ele há de
encontrar comida, farejando aí pelas terras.
Soltaram-no, efetivamente, o que não impediu que ele andasse
esfomeado. Quanto a latir, fazia-o apenas para reclamar a sua ração. Mas, neste
caso, ladrava com verdadeiro furor.
Todo mundo podia entrar no jardim. Pierrô recebia todos os recém-
chegados com festas e afagos, e ficava absolutamente mudo.
Madame Lefrève, apesar disso, acostumara-se ao animal. Chegava até a
gostar dele, e dar-lhe com a mão, de vez em quando, bocadinhos de pão
ensopados no molho de seu guisado.
Mas nunca se lembrara do imposto e quando lhe pediram oito francos —
oito francos, santo Deus! –, por aquele enguiço que nem mesmo ladrava, esteve
quase a desmaiar de surpresa.
Resolveram, imediatamente, desembaraçar-se de Pierrô. Os habitantes dos
arredores o recusaram. Então, à falta de outro meio, decidiu-se que fariam
“piquer du mas”
“Piquer du mas” é “comer marga”. Quando alguém quer ver-se livre de
um cão, obriga-o a “piquer du mas”.
No meio de uma vasta planície, avista-se uma espécie de cabana, ou antes
um pequeno telhado de colmo assentado no chão. É a entrada da margueira. Um
grande poço desce direto vinte metros debaixo da terra e vai dar numa série de
galerias de minas.
Desce-se a essa pedreira uma vez por ano, na época em que se margam as
terras. O resto do tempo serve de cemitério aos cães condenados. E, muitas
vezes, quando se passa junto do edifício, ouvem-se uivos lastimosos, queixumes
suplicantes, latidos furiosos ou desesperados.
Os cães de caça e o gado fogem, espavoridos, das proximidades dessa
cova assustadora. E quando alguém se curva por cima da abertura, sente um
cheiro abominável da podridão.
Ali, no meio da sombra, desenrolam-se dramas horríveis.
Quando um animal agoniza, no fundo, há dez ou doze dias, alimentando-
se com os restos de seus predecessores, outro animal maior, decerto mais
vigoroso, é lançado no poço repentinamente. Estão ambos sós, esfaimados, de
olhos luzentes. Observam-se mutuamente, seguem-se, hesitam, indecisos. Mas a
fome os excita: atacam-se, lutam durante muito tempo, desesperados. E o mais
forte come o mais fraco, devora-o vivo.
Logo que resolveram levar Pierrô a “piquer du mas”, tratou-se de procurar
o executor. O zelador de estradas pediu dez soldos pelo trabalho. Madame
Lefrève achou isto um exagero. O garoto vizinho contentava-se com cinco
soldos. Ainda era muito. E, como Rose observara que era melhor levarem-no
elas mesmas, porque assim não seria o cão maltratado pelo caminho, e nem
prevenido da sorte que o esperava, resolveram ir ambas, ao anoitecer.
Nesta tarde, ofereceram ao cãozinho uma bela sopa, com dois dedos de
manteiga. Ele devorou até a última gora e, quando estava agitando a cauda de
contentamento, Rose o pegou e o embrulhou no avental.
Caminhavam rapidamente, como ladras, através da planície. Não tardou
que avistassem a margueira e se aproximassem dela. Madame Levrève
debruçou-se para ouvir se algum animal gemia. Não! Não havia nenhum! Pierrô
ficaria só. Então Rose, que chorava, beijou-o e, sem seguida, deitou-o pela
abertura. E curvaram-se ambas, de ouvido à escuta.
Primeiro ouviram um ruído surdo. Em seguida, o grito agudo, dilacerante,
horrível, de um animal ferido. Depois, uma série de gritinhos dolorosos. Em
sequência, chamadas desesperadas, súplicas de cão, que erguia a cabeça para
abertura do fosso.
Como ele gemia agora!
As duas mulheres sentiram-se possuídas de remorso, de pavor, de um
medo louco e inexplicável. E fugiram correndo. E, como Rose ia mais depressa,
Madame Lefèvre gritava:
—Espera aí, Rose! Espera aí!
Nessa noite, tiveram pesadelos horríveis.
Madame Lefrève sonhou que ia sentar-se à mesa para tomar a sopa, mas,
quando destampava a terrina, Pierrô estava lá dentro. Saltava e mordia-a no
nariz.
Acordou e pareceu-lhe que ainda o ouvia ganir. Pôs-se à escuta: enganou-
se.
Tornou a adormecer e viu-se em uma grande estrada, uma estrada
interminável, por onde ela caminhava. De repente, no meio do chão, avistou um
cesto de junco —um grande cesto caseiro —abandonado. E aquele cesto a
assustava.
Contudo, acabou por ouvi-lo, e Pierrô, que estava dentro, agachado,
agarrava-lhe a mão e não a largava. E ela fugia, aflita, levando o cão pendurado
no braço, com os dentes cerrados.
De madrugada, levantou-se quase louca e correu à margueira.
O cão gania. Gania ainda e ganira a noite toda. Madame Lefrève começou
a soluçar e chamou-o com mil palavras carinhosas. Ele respondeu com toda as
ternas inflexões da sua voz de cão.
Ela, então, quis tornar a vê-lo, prometendo a si mesma fazê-lo feliz até a
morte.
Foi à casa do homem encarregado da extração da marga e contou-lhe o
acontecido. O homem ouvia sem dizer palavra. Quando ela acabou, o homem lhe
disse:
—A senhora quer o seu cãozinho? São quatro francos.
Madame Lefrève teve um sobressalto. A dor desapareceu-lhe
imediatamente.
—Quatro francos? Era o que me faltava! Quatro francos!
—A senhora julga —respondeu o homem —que eu vou buscar as minhas
cordas, minhas manivelas, arranjar tudo, ir lá embaixo com o rapaz, e ser
mordido, ainda por cima, pelo raio do cão, só para lhe dar gosto? Que não o
lançasse lá!
Ela foi-se embora, indignada.
—Quatro francos!
Assim que chegou a casa, chamou Rose e contou-lhe as pretensões do
homem. Rose, sempre resignada, repetia:
—Quatro francos! É muito dinheiro, minha senhora.
Depois acrescentou:
—E se a gente levasse de comer ao pobre cãozinho, para ele não morrer
assim?
Madame Lefrève aprovou, muito contente. E puseram-se ambas a
caminho, com um grande pedaço de pão com manteiga.
Cortaram aos bocadinhos e deitava-os, um após outro, falando sempre
com Pierrô. E logo que engolia um bocado, gania para reclamar o seguinte.
Voltaram à noite, no dia seguinte, e todos os dias. Mas já não faziam
senão uma jornada em cada um.
Ora, certa manhã, no momento em que deixaram cair o primeiro bocado,
ouviram, de repente, um latido formidável dentro do poço. Eram dois cães!
Tinham arrojado lá um outro cão, um enorme canzarrão.
Rose gritou:
—Pierrô!
E Pierrô ganiu, ganiu. Começaram a deitar-lhe a comida. Mas, a cada
bocado que caía, distinguiam perfeitamente uma algazarra terrível, depois os
gritos lastimosos de Pierrô, mordido pelo companheiro, que, sendo mais forte,
comia tudo.
Era em vão que elas explicavam:
—É para ti, Pierrô!
Pierrô não apanhava nada, era evidente.
As duas mulheres olhavam uma para outra, interditas.
Madame Levrève declarou, em tom azedo:
—Mas eu não posso sustentar todos os cães que atirarem aqui. Temos de
renunciar a isto.
E, sufocada com a ideias de todos esses cães vivendo à sua custa, foi-se
embora, levando até o resto de pão, que foi comendo pelo caminho.
Rose seguiu-a, enxugando os olhos com o canto do avental azul.
O BÊBADO
O vento norte rugia em tempestade, arrastando no firmamento enormes
nuvens de inverno, negras e pesadas, lançando à terra, em sua passagem,
torrentes furiosas.
O mar — bravio — zunia, sacudindo a costa, lançado à praia enormes,
lentas e espumosas vagas, que se desfaziam com estampidos semelhantes aos de
artilharia. As vagas vinham muito suavemente, umas após outras, da altura de
montanhas, espalhando no ar, ao contato das rajadas, a espuma branca de suas
cristas, como se fossem monstros a suar.
O furacão abismava-se ao pequeno vale de Yport, sibilava e gemia,
arrancando as telhas, quebrando os alpendres, derrubando as chaminés, lançando
nas ruas tais rajadas de vento que só se podia marchar segurando-se às paredes.
Com tal ímpeto do vento, as crianças seriam levadas como folhas e atiradas por
cima das casas.
Tinham atado os barcos de pesca até dentro da terra, com medo do mar
que invadiria a praia com a enchente. Alguns marinheiros, amparando-se por trás
do ventre bojudo das embarcações deitadas de flanco, olhavam para aquela
cólera do céu e do mar.
Depois, afastavam-se pouco a pouco, pois a noite caía em tempestade,
envolvendo com uma sombra espessa o oceano enraivecido e produzindo o
estrepitar dos elementos em fúria.
Só dois homens ficaram, de mãos nas algibeiras, os costados roliços sob a
borrasca, a cabeça enterrada no barrete de lã até os olhos. Eram dois corpulentos
pescadores normandos, de barba hirsuta e pele crestada pelas rajadas salgadas do
mar largo, os olhos azuis picados por um grão preto ao centro, os olhos
penetrantes de marinheiros que veem até o fim do horizonte como uma ave de
praia.
Um deles dizia ao seu companheiro:
— Vamos embora, Jérémie. Vamos passar um pouco de tempo no dominó.
Sou eu quem paga.
O outro hesitava, tentado pelo jogo e pela aguardente, pois sabia muito
bem que iria embriagar-se se entrasse na taverna de Paumelle. Hesitava ao
pensar em que tinha a mulher sozinha em seu casebre. Perguntou:
— Parece que fizeste a aposta de embriagar-me todas as noites. Se és tu
quem paga sempre, não me dirás que lucras com isso?
E ria com todo o gosto à ideia de toda aquela aguardente bebida à custa do
outro. Ria com um riso contente de normando que se sente bem.
Mathurin, o seu camarada, continuava a puxá-lo pelo braço.
— Vamos, apressa-te, Jérémie. Não se pode entrar em casa, em uma noite
destas, sem levar a barriga quente. Parece que tens medo de que tua mulher te dê
pancada...
Jérémie resmungou:
— É que outro dia não encontrei a porta. Quase que foi necessário
pescarem-me na valeta, em frente à minha casa.
E sorria ainda àquela lembrança de ébrio, enquanto se dirigia lentamente
para a taverna de Paumelle, cujos vidros iluminados brilhavam. Ia puxado por
Mathurin e impelido pelo vento, incapaz de resistir às duas forças.
A sala, baixa, achava-se àquela hora cheia de marujos, de fumaça e de
gritos. Todos aqueles homens, vestidos de lã, com os cotovelos apoiados sobre as
mesas, vociferavam para se fazerem ouvir. Quanto mais bebedores entravam,
mais era preciso berrar para dominar o ruído das vozes e do bater dos dominós
nas mesas de mármore, o que aumentava ainda mais o inferneiro. Jérémie e
Mathurin foram sentar-se num conto e começaram a jogar uma partida. Os
cálices desapareciam uns após outros pelas suas goelas. Depois jogaram mais
partidas e beberam mais cálices. Mathurin continuava e despejar, piscando o
olho para o taverneiro — um homem gordo, vermelho como uma brasa e que ria
com ar de velhaco —, como se estivesse representando uma longa farsa. Jérémie
ia ingerindo o álcool, balançava a cabeça, soltava gargalhadas que mais pareciam
rugidos, a olhar para o seu compadre com o ar mais estúpido e contente. Todos
os fregueses saíam. E, a cada vez que cada um deles abria a porta da rua, uma
rajada de vento entrava na taverna, fazendo redemoinhar a pesada fumaça dos
cachimbos, balançando os candeeiros nas extremidades de seus ganchos e
fazendo vacilar as suas chamas. Ouvia-se, de repente, o choque profundo de uma
vaga que se desfazia e o bramir da borrasca. Jérémie, com a camisa entreaberta
no peito, tomava posições de bêbado, de perna estendida, um braço pendente,
segurando com a outra mão as pedras do dominó. Por fim, ficaram a sós com o
taverneiro, que se aproximara, cheio de interesse.
— E então, Jérémie, como vai então esse interior? Já te refrescaste à força
de te regares?
Jérémie balbuciou:
—Uma vez que ela ainda corre, é porque ainda está seco cá por dentro.
O dono da taverna olhava para Mathurin com ar malicioso:
— E teu irmão, Mathurin, onde estará ele a esta hora?
O marinheiro teve um riso mudo:
— Está bem aquecido, não te preocupes...
E ambos olharam para Jérémie, que pousava triunfalmente o duplo seis,
anunciando:
— Eis o trunfo.
Ao acabar a partida, o taverneiro declarou:
— Sabem que mais, meus rapazes? Vou ao calor dos meus lençóis. Deixo-
lhes um candeeiro e mais uma garrafa. Fica-lhes bastante com que se entreterem.
Tu, Mathurin, fecharás depois a porta por fora e meterás a chave por debaixo
dela, como fizeste na noite passada.
Mathurin apressou-se a responder:
— Está entendido, podes ir descansado.
Paumelle apertou a mão dos seus dois fregueses retardatários e subiu
lentamente a escada de pau. Durante alguns minutos, os seus pesados passos
ressoaram na pequena casa. Depois, um estalido revelou que ele acabava de
meter-se no leito. Os dois homens continuaram a jogar. De tempos a tempos, um
ímpeto mais raivoso do furacão sacudia a porta, fazendo tremer as paredes. Os
dois bebedores levantavam a cabeça, como a ver se alguém ia entrar. Depois
Mathurin, empunhando a garrafa, enchia o copo de Jérémie. De repente, o
relógio, pendurado por cima do balcão, deu meia-noite. O seu timbre rouquenho
lembrava um choque de caçarolas. As pancadas vibravam por muito tempo, com
uma ressonância de ferragem. Mathurin ergueu-se repentinamente, como um
marinheiro que tivesse terminado o seu período de vigília.
— Vamo-nos embora, Jérémie; é preciso desandar.
O outro pôs-se em movimento com mais custo. Aprumou-se, apoiando-se
à mesa. Depois, ganhou a porta, que abriu, enquanto o seu companheiro apagava
o candeeiro. Quando se acharam na rua, Mathurin, depois de fechar a porta,
disse:
— Agora, boa noite, até amanhã.
E desapareceu na escuridão.

II

Jérémie deu três passos, depois oscilou, estendeu os braços, encontrou


uma parede que o susteve de pé e tornou a pôr-se em marcha, cambaleando. Por
momentos, uma rajada, acompanhada de chuva, penetrando pela estreita rua,
atirava-o para frente, obrigando-o a correr alguns passos. Depois, quando a
violência do vento passava, o bêbado estacava de pronto, perdido o impulso, e
continuava a vacilar nas suas pernas caprichosas de beberrão. Ia por instinto para
casa, como os pássaros vão para o ninho. Reconheceu, enfim, a sua porta e pôs-
se a tatear para descobrir a fechadura e introduzir a chave. Mas não atinava com
o buraco e praguejava a meia voz. Pôs-se, então, o bater com violência,
chamando ao mesmo tempo a mulher, para que viesse abrir:
— Mélina! Ó Mélina!
De súbito, porém, como apoiava o seu corpo contra o batente para não
cair, este cedeu, a porta abriu-se e Jérémie, perdendo o equilíbrio, caiu
pesadamente dentro de casa. Nesse momento, sentiu que qualquer coisa pesada
lhe passava por cima e desaparecia na escuridão. Jérémie não se mexeu, cheio de
medo, como louco, com o pavor de homem que tivesse visto o diabo, e a cuja
cabeça viessem todas as coisas misteriosas das trevas. Esteve muito tempo sem
fazer o menor movimento. Mas, como viu que nada se movia, veio-lhe um pouco
de lucidez, esta lucidez perturbada dos ébrios. Sentou-se muito vagarosamente.
Esperou ainda bastante tempo. Desentorpecendo afinal, bradou para dentro:
— Mélina!
A mulher não respondeu.
Uma dúvida então, de repente, lhe atravessou o cérebro obscurecido. Uma
dúvida indecisa, uma vaga suspeita. Continuava inerte, sentado no chão, na
escuridão, procurando reunir ideias, agarrando-se a reflexões incompletas e
vacilantes como os seus pés...
Bradou de novo:
— Olha cá, ó Mélina: que era aquilo? Dize-me, dize-me o que era aquilo.
Não te faço mal...
Esperou. Nenhuma voz se ergueu no silêncio. Agora raciocinava alto:
— Não faz mal, estou bêbado! Estou bêbado! Foi ele quem me pôs neste
estado. Foi ele, para que eu não desse com a casa. Estou bêbado...
E continuava:
— Que era aquilo, ó Melina? Ou me dizes, ou me desgraço!
Depois de ter tornado a escutar, recomeçava, com uma lógica lenta e
obstinada de ébrio:
— Sim, foi ele quem me reteve na taverna daquele malandro do
Paumelle! E nas outras noites foi a mesma coisa, para que eu não entrasse em
casa... Ele é cúmplice... Canalha!
Lentamente, equilibrou-se nos joelhos. Ganhava-o uma cólera surda, que
se misturava à fermentação das bebidas. E repetia:
— Irás ou não, Mélina, me dizer o que foi aquilo? Se não me disseres, eu
te arrebento. Olha que eu te estou avisando!
Achava-se agora já de pé, tremendo numa cólera fulminante, como se o
álcool que tinha no corpo se lhe tivesse inflamado nas veias. Deu um passo,
tropeçou numa cadeira, agarrou-a, caminhou para a frente, encontrou o leito,
apalpou-o e sentiu nele o corpo quente da mulher. Então, sufocado de raiva,
bramiu:
— Ah! Estás aqui, infame? Estavas sempre aqui e não me respondias?
E, levantando a cadeira, que sustinha no seu punho robusto de marinheiro,
atirou-a, com exasperada fúria, para a frente. Um grito saiu da cama, um grito
louco, angustioso. Então, ele pôs-se a bater como um malhador numa granja.
Dentro em pouco, nada se mexia ali... A cadeira voara em pedaços, mas restava-
lhe ainda um de seus pés, e ele continuava a bater, a bater, já arquejante. De
repente, parou para perguntar:
— Não me dirás quem era que a uma hora destas...
Mélina não respondeu. Então, abatido de fadiga, embrutecido com a
violência, tornou a sentar-se no chão, estendeu-se e dormiu...
Ao romper da manhã, um seu vizinho, vendo a porta aberta, entrou. Viu
Jérémie roncando no chão, onde jaziam dispersos os pedaços de cadeira, e, no
seu leito, uma pasta enorme, uma massa informe de carne e de sangue...
UMA VENDETTA
A viúva de Paolo Saverini morava só com o seu filho numa casinha pobre,
à beira das muralhas de Bonifacio. A cidade, construída numa saliência da
montanha, suspensa em parte sobre o mar, olha por cima o estreito eriçado de
escolhos da costa mais baixa da Sardenha. A seus pés, do outro lado,
contornando-a quase inteiramente, um recorte de rocha escarpada, que se
assemelha a um gigantesco corredor, serve-lhe de porto. Este corredor conduz
até as primeiras casas, depois de um longo circuito entre duas muralhas abruptas,
os pequenos barcos dos pescadores italianos ou sardos e, de quinze em quinze
dias, o velho pacífico vapor que faz o serviço de Ajaccio.
Sobre a montanha branca, o montão de casas põe uma mancha ainda mais
branca.
Essas casas têm o ar de ninho de aves selvagens, agarradas àquelas
rochas, dominando aquelas passagens onde os navios nunca se aventuram.

O vento, sem repouso, fustiga a costa nua, por ele roída, vestida apenas de
erva, e abisma-se no estreito que invade as margens. Os pedaços de uma escuma
pálida, agarrados às pontas negras das inúmeras rochas que por toda parte furam
as vagas, têm a aparência de farrapos de pano flutuando e palpitando à superfície
da água.
A casa da viúva Saverini, grudada na borda da falésia, abria as suas três
janelas para aquele horizonte selvagem e desolado.
Ela vivia ali, só, com o seu filho Antoine e a sua cadela Semelhante, um
animal grande e magro, de compridos pelos selvagens, da raça dos cães de
guardadores de rebanhos. Semelhante servia também para caçar.
Uma noite, depois de uma briga, Antoine foi morto à traição, com uma
navalhada, por Nicolas Ravolati, que nesta mesma noite se safou para a
Sardenha.
Quando a velha mãe recebeu o corpo de seu filho, que uns transeuntes lhe
trouxeram, não chorou, mas ficou muito tempo imóvel, a olhá-lo. Depois,
estendendo a sua mão rugosa sobre o cadáver, prometeu vingá-lo.
Não permitiu que ninguém a acompanhasse e fechou-se com o corpo,
ficando imóvel junto a ele com a cadela, que uivava de um modo contínuo, em
pé, próxima ao leito, a cabeça estendida para o seu dono e a cauda apertada entre
as pernas. Ela não se mexia mais que a mãe do morto. A mulher, inclinada para o
corpo, o olhar fixo, chorava grossas lágrimas mudas, contemplando-o. O rapaz,
prostrado de costas, vestido com a sua roupa grosseira de pano esburacado e
rasgado no peito, parecia dormir. Mas tinha sangue por todos os lados: na camisa
arrancada pelos primeiros socorros, no colete, na calça, nas faces, nas mãos.
Pastas de sangue haviam-se coalhado na barba e nos cabelos.
A velha mãe pôs-se a falar-lhe. Ao ruído daquela voz, a cadela emudeceu.
— Deixa, deixa, serás vingado, meu filho, meu menino. Dorme, dorme,
que serás vingado, entendes? É a tua mãe quem te promete. Ela nunca faltou à
sua palavra, a tua mãe, tu bens sabes disto.
E lentamente a viúva de Saverini debruçou-se para o seu filho, colando os
lábios frios naqueles lábios mortos.
Então, Semelhante pôs-se a gemer. Soltava uma grande queixa monótona,
lancinante, horrível.
E ali ficaram ambos, a mulher e o animal, até amanhecer.
Antoine Saverini foi enterrado no dia seguinte, e daí a pouco ninguém
mais falou dele em Bonifacio.
Ela não tinha nem irmãos nem parentes próximos. Nenhum homem havia
para prosseguir na vingança. Só a mãe pensava nela, só a velha. Do outro lado
do estreito ela via, de manhã à noite, um ponto branco sobre a costa. Era uma
pequena aldeia sarda, Longosardo, onde se refugiavam os bandidos corsos
perseguidos muito de perto.
São eles quase que exclusivamente quem povoa aquela aldeia, defronte
das costas de sua pátria, esperando ali o momento de poderem voltar, de
regressar ao mato da Córsega, o maqui, como lá se chama. É lá naquela aldeia —
ela sabe disto — que se refugia Nicolas Ravolati.
Completamente só, ao longo do dia, sentada à sua janela, a velha olha
para as distâncias, pensando na vendetta. Como ela a levaria a cabo, sem auxílio
de ninguém, enferma, tão perto da morte? Mas prometera, jurara sobre o cadáver
do filho. Não podia esquecer, não podia esperar. O que faria? Não dormia
durante a noite, não tinha descanso, nem paz. Procurava obstinadamente um
meio. A cadela, a seus pés, dormia e, por vezes, levantando a cabeça, uivava para
longe. Desde que seu dono deixara de estar ali, o animal uivava muitas vezes
assim, como se ele o chamasse, como se sua alma de irracional, inconsolável,
houvesse também guardado a recordação que não se apaga.
Ora, uma noite, como Semelhante se pusesse a gemer, a mãe, de repente,
teve uma ideia. Uma ideia selvagem, vingativa e feroz. Meditou sobre ela até de
manhã. Depois, levantando-se logo à aproximação do dia, dirigiu-se à igreja.
Rezou, prostrada no lajedo, abatida diante de Deus, suplicando-lhe que a
ajudasse, que lhe conservasse a vida, que desse ao seu pobre corpo a força que
lhe faltava para vingar o filho.
Depois voltou a casa. Tinha no pátio um velho barril sem tampa que
recolhia a água das goteiras. Tombou-o, despejou-o, sujeitando-o ao solo por
meio de pedras e estacas. Depois pendeu Semelhante naquele nicho e entrou em
casa.
Marchava, agora, sem descanso, pelo quarto, o olhar continuamente fixo
na costa da Sardenha. Lá, ao longe, estava o assassino.
A cadela uivou todo o dia e toda a noite. A velha, de manhã, levou-lhe
água numa panela. E nada mais. Nem sopa, nem pão.
Passou-se ainda um dia. Semelhante, extenuada, deixou-se dormir. Tinha
os olhos luzentes, o pelo eriçado, e puxava alucinadamente pela corrente que a
amarrava.
A velha continuou a não lhe dar nada de comer. O animal tornou-se
furioso e latia em voz rouca. Passou-se ainda a noite.
Então, ao despontar o dia, a mãe Saverini foi à casa de um seu vizinho
pedir dois molhos de palha. Lançou mão de um terno velho, que outrora servira a
seu marido, e forrou-o com a palha, de forma a imitar um corpo humano.
Tendo fincado um pau no solo, diante do nicho de Semelhante, amarrou a
ele aquele manequim, que assim parecia estar de pé.
Depois, compôs a cabeça por meio de uma trouxa de roupa velha.
A cadela, surpreendida, olhava para aquele homem de palha, e calava-se,
embora devorada pela fome.
Então, a velha foi comprar ao salsicheiro um grande pedaço de chouriço
preto. Voltando a casa, acendeu fogueira no pátio, perto do nicho, e assou o
chouriço. Semelhante, desesperada, espumava, de olhos fixos na grelha cuja
fumaça lhe entrava no ventre.
Depois, a mãe fez daquele grelhado fumegante uma gravata para o
homem de palha. Atou-o detidamente em volta do pescoço, como se quisesse
enterrá-lo dentro dele. Feito isto, soltou a cadela.
Com um salto formidável, o animal atingiu o manequim na garganta, e,
com as patas sobre os seus ombros, pôs-se a estraçalhá-lo. Caía com um pedaço
das goelas de sua presa e depois atirava-se de novo, enterrando os dentes nos
cordéis, arrancando algumas parcelas de comida, tornando a cair para voltar a
atirar-se encarniçadamente. Arrancava grandes pedaços do rosto do manequim,
fazendo em destroços todo o pescoço.
A velha, imóvel e calada, olhava de olho inflamado. Depois voltou a
prender o animal, impondo-lhe um jejum de mais dois dias, e recomeçou aquele
estranho exercício.
Durante três meses, habituou a cadela àquele gênero de luta, àquela
refeição conquistada às dentadas. Por fim, já não a prendia; lançava-a com um
gesto sobre o manequim.
Ensinara-a a dilacerar, a devorar, por fim, mesmo que não houvesse
comida alguma nas goelas do homem. E em seguida, como recompensa, dava-
lhe o chouriço assado na grelha.
Assim que via o homem de palha, Semelhante estremecia, depois voltava
os olhos para a dona, que gritava “vai!” numa voz sibilante, enristando o dedo.
Quando lhe pareceu que era tempo, a mãe Saverini foi confessar-se e
comungou, num domingo de manhã, com um furor extático. Depois, vestiu-se
com terno de homem, tomando a aparência de um velho mendigo esfarrapado.
Contratou um pescador sardo para conduzi-la, acompanhada de sua cadela, ao
outro lado do estreito.
Levava no seu alforje um grande pedaço de chouriço preto. Semelhante
jejuava há dois dias. A velha fazia-a cheirar a todo momento aquela comida
olorosa, excitando o animal.
Entraram em Longosardo. A corsa caminhava coxeando. Dirigiu-se à casa
de um padeiro e perguntou onde morava Nicolas Ravolati. Este retomara o seu
antigo ofício, o de marceneiro. Trabalhava só, como que escondido, no seu
estabelecimento. A velha passou pela porta e chamou:
— Ei! Nicolas!
Ele voltou-se. Então, soltando a cadela, a velha gritou:
— Vai! Corre! Devora, devora!
O animal, desesperado, atirou-se, ferrando os dentes na garganta do
homem. Este estendeu os braços, estreitou o animal, e rolou por terra. Durante
alguns segundos contorceu-se, batendo os pés no chão. Depois, ficou imóvel,
enquanto que Semelhante lhe buscava o pescoço, arrancando-o aos pedaços.
Dois vizinhos, que se achavam sentados às suas portas, recordam-se
perfeitamente de terem visto sair da aldeia um velho mendigo com um cão
negro, magríssimo, e que comia, ao mesmo tempo em que ia andando, alguma
coisa negra que o seu dono lhe dava.
A velha, à noite, estava de volta em sua casa. E nessa noite dormiu
perfeitamente.
O BANDIDO CORSO
O caminho subia suavemente no início da floresta de Aitône. Os pinheiros
desmedidos alargavam sobre nossas cabeças uma abóbada gemedora, emitiam
uma espécie de queixume contínuo e triste, enquanto que, à direita e à esquerda,
seus troncos finos e retos formavam uma espécie de exército de tubos de órgão
de onde parecia sair essa música monótona do vento nos cimos.
No final três horas de caminhada, a multidão destes longos fustes
emaranhados rareou. De espaço em espaço, um pinheiro — guarda-sol
gigantesco, separado dos outros, aberto como uma sombrinha enorme —
ostentava sua cúpula de um verde escuro. Depois, subitamente, alcançamos a
fronteira da floresta, uns cem metros abaixo do desfiladeiro que conduz ao vale
selvagem do Niolo.
Sabre os dois cumes abruptos, que dominam essa passagem, algumas
velhas árvores disformes parecem ter subido penosamente, como exploradores
que partiram diante da multidão aglomerada atrás. Ao voltarmos, avistamos toda
a floresta estendida abaixo de nós, semelhante a uma enorme concha verde, cujas
bordas, que pareciam tocar o céu, eram feitas de rochedos nus, estreitando-se de
todos os lados.
Pusemo-nos a caminho outra vez, e, dez minutos depois, atingimos o
desfiladeiro.
Avistei, então, uma surpreendente região. Do outro lado de uma outra
floresta, estendia-se um vale, mas um vale como eu nunca tinha visto, uma
solidão de pedra, dez léguas de comprimento, encravada entre montanhas de
dois mil metros de altura e sem um campo, sem uma árvore visível. É o Niolo, a
pátria da liberdade corsa, a cidadela inacessível de onde nunca os invasores
puderam expulsar os montanheses.
Meu companheiro me disse:
— É também aí onde estão refugiados todos os nossos bandidos.
Breve nos achamos no fundo dessa furna selvagem e de inimaginável
beleza.
Nem um mato, nem uma planta: granito, só granito. A perder de vista
diante de nós, um deserto de granito faiscante, aquecido como forno por um
furioso sol que parece propositadamente suspenso acima dessa garganta de
pedra. Quando se levantam os olhos para essas cristas, para-se estupefato. Elas
parecem vermelhas e recortadas como guirlandas de coral, pois todos os cumes
são de pórfiro. E o céu acima parece roxo, lilás, descolorido pela vizinhança
dessas estranhas montanhas. Mais abaixo o granito é cinzento cintilante, e sob
nossos pés ele parece fragmentado: andamos sobre pó brilhante. À nossa direita,
num longo e tortuoso trilho, uma torrente tumultuosa ronca e flui. E cambaleia-
se sob esse calor, nessa luz, nesse vale ardente, árido, selvagem, cortado por esse
curso de água turbulenta que parece ter pressa em fugir, impotente para fecundar
essas rochas, perdida nessa fornalha que a sorve avidamente sem nunca ser
penetrada e refrescada.
Mas, subitamente, apareceu à nossa direita uma pequena cruz de pau
cravada num pequeno monte de pedras. Um homem havia sido morto ali, e eu
disse ao meu companheiro:
— Fale-me, pois, de seus bandidos.
Ele respondeu:
— Conheci o mais célebre, o mais terrível: Saint-Lucie. Vou contar-te sua
história.
Seu pai tinha sido assassinado numa briga, por um jovem da mesma
localidade, diziam. E Saint-Lucie ficou sozinho com sua irmã. Era um rapaz
fraco e tímido, pequeno, sempre doente, sem energia alguma. Não declarou
vingança ao assassino de seu pai. Todos seus parentes vieram ter com ele,
suplicaram-lhe que se vingasse; ele ficava surdo às suas ameaças e às suas
súplicas.
Então, seguindo o velho costume corso, sua irmã, indignada, tirou-lhe a
roupa preta, a fim de que ele não usasse luto por um morto que não foi vingado.
Ele ficou insensível a esse ultraje e, em vez de pegar a espingarda, ainda
carregada, de seu pai, enclausurou-se, não saiu mais, não ousando enfrentar os
olhares desdenhosos dos rapazes do lugar.
Passaram-se meses. Ele parecia haver esquecido o crime e vivia com a
irmã nos fundos de sua casa.
Ora, um dia, aquele que suspeitavam ser o assassino casou-se. Saint-Lucie
não pareceu impressionado com essa notícia. Mas eis que, para provocá-lo, sem
dúvida, o noivo, a caminho da igreja, passou diante da casa dos dois órfãos.
O irmão e a irmã, na sua janela, comiam docinhos quando o jovem
avistou o cortejo nupcial que desfilava diante de sua residência.
De repente, ele pôs-se a tremer, levantou-se sem dizer uma palavra,
persignou-se, tomou a espingarda que estava pendurada sobre a lareira e saiu.
Quando, mais tarde, ele falava a respeito disso, dizia:
—Não sei o que tive: foi como um calor no meu sangue. Senti bem que
era necessário; que, apesar de tudo, eu não poderia resistir, e fui esconder a
espingarda no maqui da estrada de Corte.
Uma hora mais tarde, ele voltava com as mãos vazias, com seu ar
habitual, triste e cansado. Sua irmã julgou que ele já não pensava em nada. Mas,
ao cair da noite, ele desapareceu.
Seu inimigo devia, nessa mesma noite, voltar a pé a Corte com seus dois
padrinhos de casamento.
Eles seguiam o caminho cantando, quando Saint-Lucie surgiu diante deles
e, olhando de frente o assassino, gritou:
—Chegou a hora!
Em seguida, à queima-roupa, varou-lhe o peito.
Um dos rapazes fugiu. O outro olhava o moço, repetindo:
—Que fizeste, Saint-Lucie?
Depois ele tentou correr em direção a Corte para trazer socorro, mas
Saint-Lucie lhe gritou:
—Se deres um passo, quebro-te a perna.
O outro, sabendo-o até então tímido, disse-lhe:
—Tu não ousarias!
E seguiu. Mas logo caiu com a coxa atingida por uma bala.
E Saint-Lucie, aproximando-se dele, disse:
—Vou examinar teu ferimento. Se não for grave, deixar-te-ei aí; se for
mortal, liquidar-te-ei.
Observou a ferida, julgou-a mortal, tornou a carregar lentamente a sua
arma, convidou o ferido a fazer uma oração e, em seguida, estraçalhou-lhe o
crânio.
No dia seguinte, ele foi para a montanha.
E sabe o que fez depois, este Saint-Lucie?
Toda a sua família foi presa pelos soldados de polícia. Seu tio, o cura, que
se tornou suspeito de o haver incitado à vingança, foi preso e acusado pelos
parentes do morto. Mas ele fugiu, pegou também uma arma e foi ao encontro de
seu sobrinho no maqui.
Então, Saint-Lucie matou, um por um, os acusadores de seu tio, e lhes
arrancou os olhos para ensinar aos outros a nunca afirmar o que eles não vissem
com seus próprios olhos.
Ele matou todos os parentes, todos os aliados da família inimiga.
Massacrou quatorze gendarmes, incendiou as casas de seus adversários e foi, até
sua morte, o mais terrível dos bandidos de que há memória.

O sol desaparecia atrás do Monte Cinto e a grande sombra da montanha


de granito se estendia sobre o granito de vale. Apressávamos o passo para
atingir, antes da noite, a pequena aldeia de Albertase, espécie de monte de rochas
soldadas aos flancos de pedra do desfiladeiro selvagem. E eu disse, pensando no
bandido:
—Que terrível costume o de vossa vendetta.
Meu companheiro respondeu com resignação:
— Que queres? Cumprimos o nosso dever!
O LOBO
Eis o que nos narrou o velho Marquês d’Arville, ao fim de um jantar em
Saint-Hubert, na casa do Barão de Ravels.
Havíamos caçado um cervo durante o dia. O marquês era o único hóspede
que não havia participado da caçada, porquanto jamais o fazia.
Durante toda a longa refeição, somente se falara do abate de amimais. Até
mesmo as mulheres se interessavam pelas histórias sangrentas e muitas vezes
inverossímeis. E os narradores gesticulavam, reproduzindo os ataques e
combates dos homens contra os animais. Levantavam os braços e narravam os
fatos com vozes trovejantes.
O Sr. d’Arville falava bem, com alguma poesia enfática, repleta de
efeitos. Deveria ter repetido muitas vezes a mesma história, pois a contava
fluentemente, sem qualquer hesitação nas palavras habilmente escolhidas para
representar as imagens.
— Senhores, eu nunca cacei. Nem meu pai, o meu avô ou o meu bisavô.
Este último era filho de um homem que caçou mais que todos vocês juntos. Ele
morreu em 1764. Eu lhes direi como foi.
Seu nome era Jean, era casado, pai dessa criança que era o meu bisavô, e
morava com o seu irmão mais novo, François d’Arville, em nosso castelo na
floresta de Lorraine.
Françoise D’Arville permanecera solteiro por amor à caça.
Eles caçavam o ano inteiro, sem descanso, sem interrupção, sem cansaço.
Amavam apenas isso, nada sabiam além da caça, só dela falavam e somente para
ela eles viviam.
Tinham no coração essa terrível e inexorável paixão, que os consumia,
invadia-os completamente, não deixando espaço para mais nada.
Haviam proibido que os perturbassem durante a caça, fosse qual fosse o
motivo. Meu bisavô nasceu quando o pai perseguia uma raposa, e Jean d’Arville
não interrompeu a sua corrida, praguejando:
— Diabos! Este patife bem poderia ter esperado pelo toque de vitória
depois de acuado o animal!
O seu irmão François exibia-se ainda mais empolgado que ele. Assim que
se levantava, ia ver os cães, depois os cavalos e, em seguida, atirava nas aves
que voavam ao redor do castelo até o instante em que deveria partir para caçar
um animal de porte.
Eram chamados na região de Sr. Marquês e Sr. Caçula, porquanto os
nobres daquela época não eram como os de nossos dias, que pretendem
estabelecer os títulos nobiliárquicos em hierarquia descendente; mas o filho de
marquês não é conde, e nem o filho de um visconde é barão, da mesma forma
que o filho de um general não é coronel por nascimento. Mas a vaidade
mesquinha de nossos tempos tira proveito desse arranjo.
Mas volto aos meus antepassados.
Ao que consta, eram eles extremamente altos, ossudos, cabeludos,
violentos e vigorosos. O caçula, ainda mais alto que o irmão, tinha uma voz tão
poderosa que, segundo uma lenda da qual ele se orgulhava, todas as folhas da
floresta se agitavam quando ele gritava.
E quando montavam nas selas para irem à caça, deveria ser um soberbo
espetáculo contemplar esses dois gigantes cavalgando em seus grandes cavalos.
Ora, em meados do inverno desse ano de 1764, o frio era excessivo e os
lobos tornaram-se ferozes.
Eles atacavam os camponeses retardatários, rondavam à noite em torno
das casas, uivavam ao pôr e ao nascer do sol e deixavam os estábulos
despovoados.
E logo circulou um rumor. Falava-se de um colossal lobo de pelo cinza,
quase branco, que havia comido duas crianças, devorado o braço de uma mulher,
estrangulado todos os cães de guarda da região e que penetrava nos campos
cercados para farejar sob as portas. Todos os moradores disseram ter sentido o
seu hálito, que fazia tremer as chamas das velas. E logo o pânico grassou toda a
província. Ninguém mais ousava sair de casa depois do crepúsculo. As trevas
pareciam povoadas da imagem da besta.
Os irmãos d’Arville resolveram encontrar e matar o animal, e convidaram
os senhores da região para uma grande caçada.
Foi em vão. Por mais que percorressem as florestas e esmiuçassem as
matas, nunca o encontravam. Mataram outros, mas não aquele lobo. E toda as
noites, após a caçada, o animal, como que por vingança, atacava algum viajante
ou devorava algumas reses, e sempre em locais bens distantes daquele em que o
haviam procurado.
Por fim, numa noite, ele entrou no celeiro de porcos do castelo de Arville
e comeu os dois mais cevados.
Os dois irmãos ficaram inflamados de ódio, considerando esse ataque
como uma bravata do monstro, um insulto direto, um desafio. Eles reuniram
todos os seus sabujos, fortes e habituados a perseguir feras formidáveis, e
encetaram a caçada com o coração repleto de cólera.
Desde o amanhecer à hora em que o sol carmesim se pôs atrás das árvores
nuas, eles percorreram os bosques, sem nada encontrar.
Os dois, enfim, furiosos e desolados, regressaram, aos passos de seus
cavalos, por uma vereda orlada de silvas, admirados de sua ciência ter sido
burlada pelo lobo, e tomados por uma espécie de temor misterioso.
O mais velho disse:
—Esse animal não é comum. Parece que ele pensa como um homem.
O mais jovem respondeu:
— Talvez devêssemos mandar benzer uma bala pelo nosso primo bispo ou
rogar a um padre que pronuncie as palavras adequadas.
Então, ficaram em silêncio.
Jean continuou:
— Olhe para o sol. Veja como está vermelho. O grande lobo irá causar
algum infortúnio esta noite.
Ele mal tinha acabado de falar quando o seu cavalo empinou e o de
Françoise começou a escoicear. Uma grande touceira forrada de folhas mortas
abriu-se à frente deles e um colossal animal, todo cinza, surgiu e fugiu através da
floresta.
Ambos soltaram uma espécie de grunhido de alegria e, inclinando-se
sobre o pescoço de seus pesados cavalos, lançaram-nos para frente com um
impulso de todo o corpo, impondo-lhes um tal ritmo acelerado — excitando-os,
incitando-os, enlouquecendo-os com a voz, os gestos e as esporas — que os
fortes cavaleiros pareciam conduzir os pesados animais com as coxas, como se
estivessem voando.
Iam, portanto, a toda velocidade, atravessando a mata, cortando as
ravinas, galgando as encostas, descendo as gargantas e tocando a trompa com os
plenos pulmões para atrair suas gentes e seus cães. E, de repente, nesta corrida
frenética, o meu antepassado bateu com a cabeça num enorme galho que lhe
rachou o crânio. E caiu morto no chão, enquanto o seu cavalo fugia em pânico,
desaparecendo na escuridão que envolvia a floresta.
O mais jovem dos Arville parou prestamente, saltou ao chão, tomou o
irmão nos braços e viu que o cérebro fluía da ferida, juntamente com o sangue.
Então se sentou ao lado do corpo, repousou a cabeça vermelha e
desfigurada sobre os joelhos e esperou, contemplando a face imóvel do irmão
mais velho. Paulatinamente, o temor o invadia, um medo singular, que jamais
sentira antes: o medo da escuridão, o medo da solidão, o medo da floresta
desolada e também o medo do fantástico lobo que acabara de matar seu irmão
por pura vingança.
As trevas adensavam, o agudo frio fazia ranger as árvores. Françoise se
levantou, tremendo, incapaz de permanecer ali por mais tempo, sentindo-se
quase a desmaiar. Nada mais se ouvia, nem a voz dos cães, nem o som das
trompas. Tudo estava silencioso no horizonte invisível. E esse tépido silêncio da
noite fria tinha algo de assustador e estranho.
Então tomou em suas mãos enormes o corpanzil de Jean e colocou-o na
sela para levá-lo ao castelo. Depois, pôs-se lentamente a caminho, com a mente
perturbada, como se estivesse embriagado, perseguido por imagens terríveis e
surpreendentes.
De repente, no caminho que a noite começava a invadir, passou um
grande vulto. Era a fera. Um choque de pavor sacudiu o caçador. Algo frio,
como uma gota d’água, deslizou ao longo de seus rins e ele, como um monge
atormentado pelo diabo, fez um grande sinal da cruz, perturbado pelo repentino
retorno do vagamundo assustador. Mas seus olhos caíram sobre o corpo sem
vida deitado à sua frente e, de súbito, passando abruptamente do medo à cólera,
estremeceu, dominado por uma ira descontrolada.
Esporeou, então, o cavalo e arremeteu contra o lobo.
Ele o perseguiu pelas matas, ravinas e bosques, atravessando a floresta
que já não reconhecia, os olhos fixos na mancha branca que fugia na noite a
descer sobre a terra.
Seu cavalo parecia também animado por uma força e um ardor
desconhecidos. Avante, ele galopava de pescoço esticado, batendo nas árvores e
nas rochas, com a cabeça e os pés do morto atravessado na sela. As silvas
arranhavam-lhe os pelos. A testa, chocando-se com os troncos enormes,
borrifava o sangue nos galhos. As esporas extraíam pedaços de casca das
árvores.
E, de repente, o animal e o cavaleiro saíram da floresta a toda carreira,
mergulhando num pequeno vale, no momento em que a lua surgia sobre os
morros. Era um vale pedregoso, fechado por enormes rochas, sem saída possível.
E o lobo, encurralado, virou-se para ele.
Então Françoise emitiu um brado de alegria, que os ecos repetiram como
o estrondo de um trovão. Ele saltou do cavalo com a faca na mão.
A fera, eriçada, de costado arqueado, aguardava-o. Seus olhos reluziam
como duas estrelas. Mas, antes de lançar-se ao combate, o forte caçador,
tomando o irmão, sentou-o numa rocha e, firmando nas pedras a cabeça que não
era senão uma mancha de sangue, gritou-lhe aos ouvidos, como se falasse com
um surdo:
— Jean, olhe! Veja isto!
Em seguida, ele se lançou contra a fera. Sentia-se suficientemente forte
para derrubar uma montanha e esmigalhar pedras com as mãos. A fera tentou
mordê-lo, buscando cravar os dentes em seu ventre. Mas ele a tinha agarrado
pelo pescoço, mesmo sem o emprego de armas, e a estrangulava lentamente,
ouvindo cessar a respiração na garganta e as batidas do coração. Ele ria, num
desfrute desvairado, aumentando cada vez mais a pressão sufocante, gritando
num delírio de alegria:
— Olhe, Jean! Olhe!
Toda resistência do animal cessou. O corpo do lobo tornou-se flácido.
Estava morto.
Então Françoise tomou-o nos braços, carregou-o e o depôs aos pés do
morto, a repetir, com a voz emocionada:
— Olhe, olhe, olhe, meu pequeno Jean! Ei-lo aqui!
Então colocou sobre a sela os cadáveres, um sobre o outro, e retomou o
caminho.
E retornou ao castelo, rindo e chorando, como Gargântua no nascimento
de Pantagruel[3], dando gritos de triunfo e pulando de alegria ao narrar a morte do
animal, e gemendo e arrancando as barbas, ao narrar a do irmão.
E muitas vezes, mais tarde, quando se lembrava desse dia, proclamava,
com lágrimas nos olhos:
— Se pelo menos Jean tivesse me visto a estrangular o outro, tenho
certeza que teria morrido feliz.
A viúva de meu antepassado incutiu no seu filho órfão o horror pela caça,
que se transmitiu de pai para filho, até chegar a mim.
O Marquês d’Arville se calou. Alguém perguntou:
— Essa história é uma lenda, não?
O narrador respondeu:
— Eu lhes juro que é de todo verdadeira.
Então disse uma mulher, com uma vozinha suave:
— Dá no mesmo: é bom ter semelhantes paixões.
NO MAR
Há pouco tempo, liam-se nos jornais as seguintes linhas:

“Boulogne-sur-Mer, 22 de janeiro ―Escrevem-nos:


Uma desgraça horrível acaba de consternar a nossa população
marítima, tão perseguida pelo infortúnio há dois anos. O barco de
pesca comandado pelo mestre Javel, ao entrar no porto, foi
arremessado para Oeste, indo despedaçar-se nos rochedos do quebra-
mar do molhe.
Apesar dos esforços do salva-vidas e dos cabos arremessados por
meio do canhão de amarra, pereceram quatro homens e o grumete.
O mau tempo continua. Receiam-se novos acidentes.”

Quem é este Mestre Jarvel? Será o irmão do amputado?


Será o pobre homem arrebatado pelas ondas e morto, provavelmente, sob
os destroços de seu barco despedaçado, aquele que, suponho, assistiu, faz agora
dezoito anos, a outro drama, terrível e simples como sempre são estes dramas
formidáveis do mar?
O mais velho dos irmãos Javel era, neste tempo, dono de uma traineira.
A traineira é o barco de pesca por excelência. Sólida a ponto de arrostar
com qualquer tempo, com o casco arredondado, constantemente balouçado pelas
ondas como uma rolha de cortiça, sempre à flor da água, sempre açoitado pelos
ventos ásperos e salinos da Mancha, revolve o mar, infatigável, com a vela a
todo pano, arrastando ao lado uma grande rede que varre o fundo do oceano, que
desprende e agarra todos os peixes adormecidos nas rochas, os peixes chatos
colados à areia, os caranguejos pesados de patas reviradas, as lagostas de barbas
finas e agudas.
Quando a brisa refresca e as ondas são pequenas, começa-se a pescar. A
rede está pregada a uma haste de madeira guarnecida de ferro, a qual desce por
meio de dois cabos que escorregam sob dois rolos colocados nas duas
extremidades da embarcação. Esta, impelida pelo vento e pela corrente, puxa
consigo aquele aparelho que devasta o fundo do mar.
Javel leva a bordo o irmão mais novo, quatro homens e um grumete. Saíra
de Bolonha com um belo tempo claro para lançar a rede.
Ora, não tardou que se erguesse uma grande ventania, sobrevindo uma
borrasca que obrigou a traineira a fugir. Alcançou as costas da Inglaterra. Mas o
mar furioso açoitava os rochedos, atirava-se à terra, tornava impossível a entrada
nos portos. O barquinho fez-se ao largo e voltou para as costas da França. A
tempestade tornava os molhes inabordáveis, envolvendo em espuma, em barulho
e em perigo todas as proximidades dos refúgios.
A traineira tornou a partir, correndo por cima das ondas, balouçada,
agitada, escorrendo água, vergastada pelos rolos de espuma, mas valente, apesar
de tudo, acostumada àquele que às vezes a conservava cinco ou seis dias errante
entre os dois países vizinhos, sem conseguir aportar em nenhum.
Finalmente, a tempestade abrandou quando estavam em alto mar e, não
obstante as ondas serem ainda mais fortes, o mestre mandou deitar a rede.
O grande aparelho de pesca foi, portanto, lançado por cima da borda e
dois homens na proa e dois na popa começaram a deixar cair por cima dos rolos
as amarras que os seguravam. De repente, tocou no fundo. Mas, a uma onda
maior, fazendo inclinar o barco, o mais novo dos Javel, que estava na proa e
comandava a descida da rede, vacilou e o braço ficou-lhe preso entre a corda,
que o abalo fizera alargar um instante, e o rolo de madeira por onde ela
escorregava. Fez um esforço desesperado, tentando levantar a amarra com a
outra mão. A rede, porém, já arrastava e o cabo retesado não cedeu.
O homem, crispado de dor, gritou.
Todos acudiram. O irmão largou a cana do leme. Atiraram-se à corda,
diligenciando soltar o membro que ela triturava. Foi debalde.
― Devemos cortá-la ― disse um marujo.
E tirou do bolso uma grande faca que, em dois golpes, podia salvar a vida
do Javel caçula.
Mas cortar era perder a rede, que valia muito dinheiro: mil e quinhentos
francos. E a corda pertencia ao irmão mais velho, que se empenhava em salvar a
sua propriedade.
― Não cortes, não cortes, espera! ― gritou ele com o coração torturado.
― Espera!
E correu para o leme, pondo a barra toda abaixo.
O barco mal obedeceu, paralisado por aquela rede que lhe imobilizava o
impulso, e arrastado, além disso, pela força do vento e da corrente.
O Javel mais novo deixara-se cair de joelhos, com os dentes cerrados, o
olhar desvairado. Nada dizia. O irmão voltou, temendo sempre a faca de algum
marinheiro.
― Espera, não cortes. Vamos lançar âncora.
Lançou-se a âncora, largando-se a corrente toda. Em seguida, o mestre
Javel virou-se para o cabrestante a fim de alargar as amarras.
Estas, ao final, cederam, e saltou-se o braço inerte, dentro da manga de lã
ensanguentada.
O Javel caçula parecia idiota. Despiram-lhe a camisa e viram uma coisa
horrível, uma massa de carne de onde o sangue esguichava em ondas como se
fosse lançado por uma bomba. Ele, então, olhou para o braço e murmurou:
― Pronto.
A hemorragia formava um lago na tolda do barco. Um marujo gritou:
― Vai esvair-se. É preciso atar a veia.
Pegaram um cordel, um grosso cordel escuro e untado em alcatrão e,
enlaçando o membro, por cima da ferida, apertaram com toda força. Os jatos de
sangue diminuíram pouco a pouco. Acabaram por cessar completamente.
O Javel caçula ergueu-se. O braço pendia-lhe ao longo do corpo. Ele
segurou-o com a outra mão, levantou-o, virou-o, sacudiu-o. Tudo estava partido.
Os ossos, esmigalhados. Apenas os músculos seguravam aquele pedaço de seu
corpo. Ele contemplava-o com o olhar triste, refletindo. Depois, sentou-se em
cima de uma vela dobrada, e os camaradas aconselharam-no a que molhasse
constantemente a ferida para evitar o mal negro[4].
Puseram um balde ao seu lado e ele, de minuto em minuto, enchia um
copo e banhava a ferida hedionda, deixando correr sobre ela um fio d’água clara.
―Ficarias melhor lá embaixo ― disse-lhe o irmão.
Ele desceu, mas, passada uma hora, retornou. Não se sentia bem sozinho.
Além disso, preferia o ar livre. Tornou a sentar-se na vela e continuou a lavar o
braço.
A pesca era proveitosa. Ao lado dele jaziam grandes peixes de ventre
branco, agitados por convulsões mortais. Javel contemplava-os sem deixar de
regar as carnes esmigalhadas.
Quando iam chegar a Bolonha, levantou-se outro tufão. E o barquinho
recomeçou a sua carreira louca, saltando e voltando-se para todos os lados,
sacudindo o pobre ferido.
Anoiteceu. O tempo esteve bravio até o amanhecer. Ao nascer do sol,
avistou-se novamente a Inglaterra. Mas, como o mar estava mais suave, partiram
para a França, bordejando.
À tarde, o Javel mais novo chamou os camaradas e mostrou-lhes sinais
negros, uma feia aparência de podridão na parte do membro que pendia.
Os marujos olhavam, dando cada um a sua opinião. Viraram o membro.
Cheiraram-no.
Disse o irmão:
― O melhor, agora, é jogar isto ao mar.
Mas o mais novo zangou-se:
― Ah, isso é que não! Não quero! É o meu braço e, a meu ver, ele me
pertence!
Pegou o braço e o segurou entre as pernas.
― Nem por isso deixará de apodrecer ―respondeu o mais velho.
Então o ferido teve uma ideia. Para conservar o peixe, quando o traziam
muito tempo no mar, empilhavam-no em barricas de sal.
― Não é possível metê-lo na salmoura? ―perguntou ele.
― Sim, é possível ―declararam os outros.
Despejaram uma das barricas, já cheia com a pesca dos dias antecedentes;
e puseram o braço mesmo no fundo. Deitaram-lhe sal por cima e tornaram a
colocar os peixes, um por um.
Um dos marujos soltou o seguinte gracejo:
― O diacho é se a gente o vende no mercado.
Todos riram, exceto os irmãos.
O vento continuava. Bordejou-se ainda à vista de Bolonha até o dia
seguinte. O ferido continuava a deitar água na ferida, sem cessar.
― É provável que seja o negro ―dizia um.
― É preciso deitar água salgada ― declarava outro.
Foram buscar água salgada e entornaram-na por cima da chaga. O ferido
ficou lívido, rangeu os dentes, torceu-se um pouco, mas não gritou.
Depois, quando o ardor abrandou mais, disse ao irmão:
― Dá cá a faca.
O irmão estendeu a faca.
― Segura-me o braço no ar, bem esticado, e não largues.
Fizeram-lhe o que pedia.
Ele, então, começou a cortar. Cortava devagar, com reflexão, separando os
últimos tendões com aquela lâmina aguda como a de uma navalha afiada. Pouco
depois, restava-lhe apenas um coto. Saltou um suspiro profundo e declarou:
― Foi preciso. Eu estava numa situação terrível.
Parecia aliviado e respirava com força. Começou outra vez a regar o
pedaço de membro que lhe restava.
A noite foi péssima e não puderam chegar à terra.
Quando rompeu o dia, o jovem Javel pegou o braço amputado e o
examinou atentamente. A putrefação fazia-se evidente. Os camaradas foram
também examiná-lo e o passavam de mão em mão. Apalpavam-no. De vez em
quando, o jovem Javel levantava-se e passeava pelo barco de um lado para o
outro.
O irmão, que segurava a barra do leme, seguia-o com a vista, abanando a
cabeça.
Acabaram por entra no porto.
O médico examinou a ferida e declarou-a em bom caminho. Fez um
curativo completo e ordenou ao ferido que descansasse. Javel, porém, não quis
deitar-se sem pegar novamente o braço e voltou ao porto a fim de descobrir a
barrica, que marcara com uma cruz.
Despejaram-na diante dele e entregaram-lhe o membro, bem conservado
na salmoura, enrugado, refrescado. Javel o embrulhou numa toalha que levara
para esse fim e voltou para casa.
A mulher e os filhos examinaram demoradamente aquele pedaço do pai,
apalpando os dedos, tirando as pedrinhas de sal metidas nas unhas. Depois
mandaram chamar o marceneiro, que tomou as medidas de um caixãozinho.
No dia seguinte, a tripulação completa da traineira acompanhou o enterro
do braço decepado. Os dois irmãos, um ao lado do outro, guiavam o cortejo. O
sacristão da paróquia levava o cadáver debaixo do braço.
O Javel mais novo deixou de navegar. Obteve um humilde emprego no
porto e quando, mais tarde, falava naquele acidente a alguém, dizia-lhe
confidencialmente, em voz baixa:
― Se o meu irmão tivesse deixado cortar a rede, eu ainda teria o meu
braço, com toda certeza. Mas ele só enxergava os seus pertences.
A MORTA
Eu a amei perdidamente! E por que amamos? É mesmo estranho ver no
mundo somente um ser, ter no espírito um pensamento único, no coração um
desejo, na boca um só nome: um nome que se eleva incessantemente, que sobe,
como a água de uma fonte, do íntimo da alma à flor dos lábios, e que se
pronuncia, que se repete, que se murmura continuamente, por toda parte, como
uma prece elegíaca.
Não contarei nossa história. O amor tem só uma, a mesma de sempre.
Encontrei-a na vida e amei-a. Eis tudo. E durante um ano vivi de sua carícia, no
aconchego de seus braços, embalado por sua voz, iluminado por seu olhar,
aprisionado, envolvido, ligado a tudo que emanava de seu ser, mas de tal
maneira que não sabia quando era tarde ou aurora, que ignorava se era morto ou
vivo, sobre a terra ou fora da terra...
E ela morreu!
Como? Não sei mais!
Ela saiu numa noite chuvosa e retornou encharcada; e, no outro dia,
tossiu. Tossiu por uma semana, de cama.
O que aconteceu? Não sei mais.
Os médicos chegavam, receitavam, partiam... Vinham remédios e uma
mulher os ministrava. Suas mãos ardiam. A sua fronte estava úmida e quente.
Tinha um olhar brilhante e triste. Eu falava com ela, ela me respondia. O que
dissemos um ao outro? Não sei mais! Esqueci tudo, tudo!
E ela morreu... Lembro-me ainda de seus suspiros, tão fracos, os últimos.
A enfermeira murmurou apenas — “Ah!”. E eu compreendi, compreendi tudo!
Não soube de mais nada. Nada! Ouvi um padre dizer: “sua amante”.
Parecia que a insultava. Pois já que ela morrera, ninguém mais tinha o direito de
saber disto. Eu o mandei embora. Veio um outro, muito bom, muito meigo.
Eu chorei quando ele me falou sobre ela.
Consultaram-me a respeito de mil coisas relativas ao enterro. Não sei
mais de nada. Entretanto, recordo-me tão bem do caixão, do ruído das
marteladas, de quando a encerraram lá dentro!...
E ela foi enterrada! Enterrada! Ela, numa cova! Vieram poucas pessoas,
alguns amigos. Fugi. Saí a caminhar muito tempo pelas ruas. Depois voltei para
casa. No outro dia, viajei.
Retornei hoje a Paris.
Quando revi o meu quarto — o nosso quarto, o nosso leito, os nossos
móveis, toda essa casa onde ficara, tudo o que resta de uma vida após a morte —
apoderou-se de mim uma mágoa tão intensa que tive necessidade de escancarar
as janelas e precipitar-me na rua. Não podia viver no meio dessas coisas, dessas
paredes que a encarceraram, e que deviam conservar ainda, em suas fissuras
imperceptíveis, átomos dela, da sua carne, do seu hálito. Pus o chapéu para sair.
De repente, ao transpor a porta, passei pelo grande espelho do vestíbulo, que ela
mandara instalar ali para se ver todos os dias, de alto a baixo, para ver se estava
bem vestida, correta e elegante, das botinas ao arranjo dos cabelos.
E me detive diante desse espelho que tanta vez a tinha refletido. Tantas
vezes que ainda devia guardar a sua imagem. Imóvel, trêmulo, fixei os olhos no
vidro liso, profundo, vazio, que encerrara ela toda, que a possuíra tanto como eu,
como o meu olhar apaixonado... Parecia que esse vidro nunca fora frio! Quanta
saudade!
Saudade! Espelho doloroso e ardente, espelho vivo e horrível que me faz
sofrer tantas torturas! Felizes dos homens cujo coração, como num espelho em
que reflexos deslizam e se apagam, esquece tudo o que conteve, tudo o que se
passou diante dele, tudo o que se contemplou em sua aflição e no amor!
Saí torturado e, alheado de mim mesmo, sem desejar, sem o saber, pus-me
a caminho do cemitério. Achei o seu muito singelo túmulo, na simplicidade de
uma cruz de mármore com algumas palavras:

“Amou, foi amada e morreu”.

Ela estava ali, ali embaixo, putrefeita. Que horror! Eu chorava, soluçava,
à luz de um sol de tarde.
E assim fiquei muito tempo, muito tempo. Depois olhei em torno: uns
farrapos de noite enlutavam o espaço. Então, um desejo bizarro, louco, um
desejo de amante, desvairado, tomou-me avidamente. Quis passar a noite junto
dela, a noite última, a chorar em seu túmulo.
Mas me veriam. Iriam me expulsar. Que fazer? Ergui-me e comecei a
errar pela cidade morta dos desaparecidos.
E eu andava, andava... Como é pequena esta cidade, comparada à outra, à
outra onde vivemos. Todavia, como os mortos são mais numerosos do que os
vivos! Precisamos de altas construções, ruas enormes, tanto lugar para as quatro
gerações que, ao mesmo tempo, enxergam a luz do sol, bebem água da fonte, o
vinho das vinhas e comem o trigo dos campos.
E para todas as gerações dos mortos, para toda a escala da humanidade
vinda até nós — quase nada —, um pedaço de chão... quase nada! A terra se
apodera deles, o esquecimento apaga lembranças dos seus rostos. Adeus.
Ao fim do cemitério habitado vi, de repente, o cemitério em abandono,
onde os defuntos, ressequidos de velhos, acabam por se confundir com o solo,
onde as próprias cruzes apodrecem e onde serão amanhã enterrados os que
vierem por último. Viceja de rosas silvestres, de ciprestes vigorosos e negros, um
jardim triste e magnífico, nutrido de carne humana.
Estava só, inteiramente só. Apoiei-me a uma árvore verde. Escondi-me
entre as suas ramagens pesadas e sombrias e esperei, agarrado ao tronco, como
um náufrago sobre destroços.

Quando baixou a noite escura, muito escura, deixei meu refúgio e


comecei a caminhar mansamente, a passos lentos e surdos, sobre essa terra cheia
de mortos.
Andei a esmo muito tempo, muito tempo. Não a encontrava. De braços
estendidos, olhos escancarados, tateando as catacumbas com as mãos, com os
joelhos, com o peito, errava sem a encontrar. Tocava, apalpava, como um cego à
procura de um caminho, apalpava lajes, cruzes, grades de ferro, coroas de vidro,
coroas de flores mutiladas. Tateava nomes, com meus dedos, correndo-os sobre
as letras. Que noite! Que noite!
Nem uma réstia de luar! Que noite! Tive medo, um pavor alucinante,
nesses caminhos estreitos, entre as fileiras de túmulos! Túmulos! Túmulos,
sempre túmulos! À minha volta, além, mais além, por toda a parte, túmulos!
Sentei-me sobre uma sepultura. Não podia mais andar, porque meus
joelhos vergavam de exaustos. Ouvia o meu coração bater. Ouvia outro ruído,
também. O que era? Um ruído confuso, inexplicável. Vinha esse ruído no meu
cérebro alucinado, da noite impenetrável, ou da terra misteriosa, adubada de
cadáveres humanos? Olhei ao redor.
Quanto tempo fiquei assim? Não sei. Estava paralisado pelo terror,
desvairado de espanto, quase a desfalecer, quase a morrer.
De súbito, tive a impressão de que a laje da tumba em que eu me sentara
se movia. Movia-se como se alguém a levantasse. De um salto, precipitei-me
sobre o túmulo próximo e vi, sim, eu vi a pedra erguer-se lentamente e surgir um
esqueleto nu, que a empurrava com os ombros. Via muito bem, via tudo, não
obstante a escuridão da hora. Pude ler sobre a cruz:

“Aqui repousa Jacques Olivant, morto aos cinquenta anos. Amou os seus, foi
bom e honesto e morreu na paz do Senhor”.

Agora o morto lia também as coisas gravadas na lápide tumular. Tomou


depois uma pedra pontiaguda e pôs-se a raspar com cuidado o epitáfio. Apagou-
o lentamente, cravando a órbita vazia no lugar em que estava escrito. E com a
ponta do osso que fora o seu indicador, escreveu em letras luminosas, com estas
linhas que as crianças riscam na parede com um pirilampo vivo:

“Aqui repousa Jacques Olivant, morto aos cinquenta anos. Abreviou com
crueldade os dias de seu pai, de quem desejava herdar, maltratou a esposa,
atormentou seus filhos, traiu seus vizinhos, roubou quanto pôde e morreu
miserável”.

Terminando, o morto ficou a contemplar a sua obra. E eu vi, voltando-me,


que todos os túmulos se abriam, que todos os cadáveres os deixavam, que todos
apagavam as lisonjas, escritas pelos parentes na pedra funerária, para
restabelecer a verdade.
E vi que todos tinham sido carrascos do próximo, odiosos, hipócritas,
mentirosos, caluniadores, invejosos, e que haviam roubado, traído, praticado os
atos mais vergonhosos, mais abomináveis, todos estes bons pais, estes maridos
fiéis, estes filhos dedicados, estas donzelas castas, estes comerciantes probos,
estes homens e estas mulheres irrepreensivelmente honestos.
Escreviam todos ao mesmo tempo, no pórtico de sua morada eterna, a
cruel, a terrível, a santa verdade que os vivos sobre a terra ignoravam ou fingiam
ignorar.
Lembrei-me de que ela devia também riscar a sua legenda.
Já sem medo algum, correndo por entre as covas abertas, por entre os
cadáveres, precipitei-me para onde com certeza a encontraria.
E sobre a cruz de mármore, onde antes se lera: “Amou, foi amada e
morreu”, vi agora:

“Saindo um dia para trair o seu amante, adoeceu sob a chuva e morreu”.

Parece que, ao raiar do dia, levaram-me inanimado da beira do túmulo.


O CEGO
Que alegria é esta, que nos vem do primeiro sol? Por que será que esta luz
que cai sobre a terra nos enche de felicidade, de alegria pela vida?
O céu está todo azul, o campo todo verde, as casas todas brancas. E os
nossos olhos encantados bebem as cores vivas que se tornam a alegria de nossa
alma.
E temos a vontade de dançar, de correr, de cantar... uma ligeireza feliz do
pensamento, uma espécie de ternura larga... e tem-se até a vontade de beijar o
sol.
Os cegos às portas, impassíveis na sua eterna escuridão, ficam calmos
como sempre no meio desta alegria nova, e sem compreender, acalmam a todo o
instante o seu cão que quer pular.
Quando voltam, no fim do dia, pelo braço de um irmãozinho, ou de uma
irmãzinha, se a criança diz: “Que lindo esteve hoje!”, o cego responde: “Eu bem
notei que o tempo devia estar lindo. Loulou não queria ficar quieto.”
Conheci um destes homens, cuja vida foi um longo martírio.
Era um camponês, filho de um agricultor normando. Enquanto os pais
viveram, sempre cuidavam dele. Ele não sofria, senão por causa de sua horrível
enfermidade.
Mas assim que os velhos partiram, a existência atroz começou.
Recolhido por uma irmã, toda gente na quinta o tratava como um
vagabundo, que comia o pão dos outros.
Em cada refeição, censuravam-lhe e notavam o que comia. Chamavam-no
de vadio, patife. E apesar de seu cunhado ter tomado conta de sua parte na
herança, davam-lhe sempre de má vontade a sopa, apenas o alimento necessário
para não morrer de fome.
Ele tinha o rosto muito pálido e permanecia impassível sob a injúria, tão
concentrado que não sabiam se realmente a sentia.
Nunca, no entanto, tinha conhecido um caminho. Sua mãe, tendo-o
sempre tratado um pouco brutalmente, não o estimava muito. Nos campos, os
desocupados são prejudiciais e os camponeses fazem de boa vontade como com
as galinhas, que matam as doentes que estão juntas.
Logo que tomava a sua sopa, ia sentar-se diante da porta no estio, contra a
chaminé no inverno, e não se mexia mais até à noite.
Não fazia um gesto, um movimento. Só as pálpebras batiam, e, com uma
espécie de sofrimento nervoso, caíam as neves sobre as manchas brancas de seus
olhos abertos.
Teria um espírito? Um pensamento? Uma consciência justa do que era a
sua vida? Ninguém lhe perguntava isto.
Durante anos, as coisas foram assim.
Mas a sua incapacidade de fazer alguma coisa e sua imobilidade acabaram
por exasperar os parentes. Tornou-se alvo de todo escárnio, uma espécie de
palhaço mártir, uma pureza entregue à ferocidade e à alegria dos brutos que o
rodeavam.
Imaginem todas as farsas cruéis que a sua enfermidade podia inspirar.
E para se pagarem do que ele comia, fizeram das suas refeições
divertimento para os vizinhos e suplício para o impotente.
Os camponeses das casas próximas vinham gozar este divertimento. E
chamavam-se de porta em porta, de maneira que a cozinha da granja enchia-se
todos os dias.
Ora pousavam sobre a mesa, diante do seu prato, onde começava a tomar
o caldo, algum gato ou cachorro.
O animal, com seu instinto, sentia a enfermidade do homem e, bem
devagar, aproximava-se, comia sem barulho, lambendo com delicadeza. E
quando o barulho da língua do animal chamava a atenção do pobre cego, o
animal afastava-se prudentemente, a fim de evitar a pancada que com a colher
ele lhe dava ao acaso.
Então era uma alegria geral, risos, empurrões de espectadores apertados
junto das paredes. E ele, sem dizer nada, punha-se a comer com a mão direita,
enquanto com a esquerda estendida, protegia e defendia o seu prato.
Outras vezes, faziam-no mastigar rolhas, madeira, folhas, ou mesmo
substâncias pouco limpas, que ele não podia reconhecer.
Depois, cansaram-se até das caçoadas, e o cunhado furioso de alimentá-lo
sempre, batia-lhe, esbofeteava-o sem cessar, rindo dos esforços inúteis do outro
para aparar os golpes ou restituí-los.
Foi então um novo divertimento: a brincadeira da bofetada.
E o moço das charruas, os vadios, os criados, mandavam-lhe as mãos pelo
rosto por qualquer coisa, o que o fazia bater as pálpebras num movimento
precipitado.
Não sabia onde esconder-se e vivia, sem cessar, com os braços estendidos
para evitar que se chegassem.
Enfim, obrigaram-no a mendigar.
Postavam-no nos caminhos em dias de feira, e assim que ouvia passos ou
barulho de rodas, estendia o chapéu, balbuciando: —Por caridade, uma esmola!
Mas os camponeses não são pródigos e, durante semanas inteiras, não
arranjava um centavo.
Houve então contra ele um ódio desencadeado, sem piedade. Eis como ele
morreu.
Num inverno, a terra cobriu-se de neve e nevava horrivelmente.
Então o cunhado, numa manhã, conduziu-o muito longe em uma grande
estrada para o fazer pedir esmola.
Deixou-o lá todo o dia, e quando à noite regressou, ele afirmara, diante de
todos, que não o tinha achado.
Depois disse:
—Ora, não vale a pena ocuparem-se com ele. Alguém o levou porque
tinha frio. Não está perdido. Amanhã aparece para comer a sua sopa.
No dia seguinte, o cego não apareceu.
Depois de longas horas de espera, arrepiado de frio, sentindo-se morrer, o
cego pôs-se a caminho.
Não podendo conhecê-lo, coberto que estava por aquela camada de
espuma gelada, ele tinha errado ao acaso, caindo nos buracos, levantando-se,
sempre sem falar, procurando uma casa.
Mas a paralisia da neve tinha-o invadido aos poucos, e as pernas fracas
não o podiam levar mais. Sentara-se no meio da planície.
E não se levantou.
Os brancos flocos de neve que caíam cobriram-no cada vez mais.
Seu corpo endurecido desapareceu sob o incessante acúmulo da multidão
infinita: e nada mais indicava o lugar onde o cadáver estava estirado.
Seus parentes fingiram procurá-lo durante oito dias. Até choraram.
O inverno foi medonho e a neve custou a derreter.
Ora, num domingo, indo para a missa, os agricultores notaram um grande
voo de corvos, que volteavam sem cessar por cima da estrada. Depois, desciam
como uma chuva negra, em quantidade, no mesmo lugar, partindo, voltando
sempre.
Na semana seguinte, ainda estavam lá os pássaros sombrios. O céu tinha
uma nuvem, como se as aves estivessem se reunido de todos os cantos do
horizonte. E deixavam-se cair com grandes gritos na neve imaculada, que
manchavam fantasticamente e esburacavam com obstinação.
Um garoto foi ver o que faziam e descobriu o corpo do cego, já meio
devorado, despedaçado.
Seus olhos pálidos tinham desaparecido, picados por longos bicos
vorazes.
Eu não posso mais sentir a grande alegria dos dias de sol sem uma triste
recordação e um pensamento melancólico para o pobre tão deserdado na vida,
cuja morte honrosa foi um alívio para todos que o conheciam.
CRÉDITOS
O CEGO E OUTROS CONTOS DE TERROR
Guy de Maupassant (1850 – 1893).
Texto original de domínio público (Lei nº 9.610/1998, art. 43).
Série Mestres da Literatura de Terror, Horror e Fantasia vol. 21.
Imagem da capa: Paulo Soriano.
Tradução do conto O Lobo: Paulo Soriano.
Tradução dos demais contos de autores desconhecidos dos séculos XIX e XX, publicados originalmente nos
seguintes periódicos: "Pirralho”, 21 de dezembro de 1912; “Diário da Tarde”, Curitiba/PR, entre 31 de
janeiro e 3 de fevereiro de 1905; "Almanaque Correio da Manhã", Rio de Janeiro, 1947; "A Leitura",
Lisboa, tomo VIII, 1895; "O Careta", março de 1912; Fon-Fon, setembro de 1948; A Leitura, Lisboa, tomo
I, 1894; "A Pacotilha", São Luís/MA, 29 de dezembro de 2009 e Fon-Fon, abril de 1915. Traduções de
domínio público (Lei nº 9.610/1998, art. 45, I). Atualização ortográfica e adaptação textual: Paulo Soriano.
© da adaptação textual, introdução e notas: Paulo Soriano.
© da tradução do conto O Lobo: Paulo Soriano.

Edições TRIUMVIRATUS, MMXVII.


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O objetivo das Edições Triumviratus é levar ao leitor de língua portuguesa obras de clássicos da literatura, sobretudo fantástica,
escritas por grandes mestres da Literatura Universal. Muitos de nossos livros eletrônicos contêm obras raras de grandes autores. As
traduções são originais e exclusivas ou de domínio público.
A Série Clássicos do Horror apresenta, a cada edição, uma antologia de contos de consagrados autores do gênero, abrangendo
determinado tema terrífico.
TÍTULOS E COLEÇÕES
SÉRIE MESTRES DA LITERATURA DE TERROR, HORROR E FANTASIA
1. A AVENTURA DO ESTUDANTE ALEMÃO — Washington Irving.
2. CONFISSÃO ENCONTRADA NUMA PRISÃO NA ÉPOCA DE CARLOS II — Charles Dickens.
3. EL VERDUGO — Honoré de Balzac.
4. O INIMIGO seguido de UMA NOITE TERRÍVEL — Anton Tchekhov.
5. A CABEÇA DECEPADA E OUTROS CONTOS DE TERROR — Alexandre Dumas.
A cabeça decepada, A persistência da vida após a guilhotina, O bracelete de cabelos cadavéricos.
6. O COLAR DE DIAMANTES E OUTROS CONTOS CRUÉIS — Guy de Maupassant.
O colar de diamantes, O horrível, A mão misteriosa.
7. OS FANTASMAS DE BÉJAR (Novela) — Alexandre Dumas.
8. O MONSTRO DE JERUSALÉM — José Freire Monterroio Mascarenhas.
9. OS GATOS DE ULTHAR E OUTROS CONTOS DE TERROR — H. P. Lovecraft.
Os gatos de Ulthar, O clérigo maldito, O terrível ancião.
10. AVENTURA INCOMPREENSÍVEL seguido de A APARIÇÃO — Marquês de Sade.
11. CONTOS DE FANTASMAS E DEMÔNIOS — Daniel Deföe.
O fantasma acusador, O espectro e o salteador de Estradas, O diabo e o relojoeiro.
12. CONTOS TERRÍVEIS — Ambrose Bierce.
Óleo de cão, O habitante de Carcosa. Uma prisão, Presente a um enforcamento, O funeral de John
Mortonson.
13. O FUNIL DE COURO seguido de COMO TUDO ACONTECEU— Conan Doyle.
14. O VÉU NEGRO — Charles Dickens.
15. CONTOS DE TERROR JAPONÊS — Koizume Yakumo.
O Devorador de Cadáver, O Segredo da Morta, A Ameaça do Supliciado, A Aparição.
16. CONTOS ABSURDOS — Franz Kafka.
O Ente Híbrido, O Abutre, O Silêncio das Sereias, O Brasão da Cidade.
17. A VERDADE SOBRE O CASO DO SENHOR VALDEMAR — Edgar Allan Poe.
18. A LENDA DA IRMÃ BÉATRIX — Charles Nodier.
19. LENORE —Gotffried August Bürger.
20. A NOIVA DE CORINTO —Johann W. Goethe.

SÉRIE CLÁSSICOS DO HORROR

1. CONTOS DE TERROR ANIMAL — H. P. Lovecraft, Victor Hugo, Horacio Quiroga e Guy de


Maupassant.
Os gatos de Ulthar (H. P. Lovecraft), A torre das ratazanas (Victor Hugo), O mel silvestre (Horacio
Quiroga), Uma vendeta (Guy de Maupassant).
2. CONTOS DE TERROR ANIMAL VOL. II — Edgar Allan Pöe, Guy de Maupassant, Horacio Quiroga e
Ambrose Bierce.
O gato preto (Edgar Allan Pöe), O lobo (Guy de Maupassant), À deriva (Horacio Quiroga), O travesseiro de
penas (Horácio Quiroga), A alucinação de Staley Fleming (Ambrose Bierce).
3. CONTOS DE TERROR TUMULAR — Guy de Maupassant, Ambrose Bierce, Marcel Schwob e Emília
Pardo Bazán.
A morta (Guy de Maupassant), O habitante de Carcosa (Ambrose Bierce), A Tumba (Guy de Maupassant),
Lilith (Marcel Schwob), A ressuscitada (Emilia Pardo Bazán).
4. CONTOS CRUÉIS DE TERROR — Edgar Allan Pöe, W. W. Jacobs e Horacio Quiroga.
O Coração delator (Edgar Allan Pöe), A mão do macaco (W. W. Jacobs), A galinha degolada (Horacio
Quiroga).
5. HISTÓRIAS DE TERROR DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA — Plínio o Jovem, Petrônio e Plutarco A
casa mal-assombrada (Plínio o Jovem), O lobisomem (Petrônio), As vampiras (Petrônio), A matrona de
Éfeso (Petrônio), O fantasma de Dámon (Plutarco), O espírito de Cleonice (Petrônio).
6. CONTOS DE TERROR, CADAFALSO E GUILHOTINA — Alexandre Dumas, Honoré de Balzac,
Washington Irving, Villiers de L’Isle Adam, Emilia Pardo Bazán e Françoise Guizot.
A aventura do estudante Alemão (Washington Irving), A persistência da vida após a guilhotina (Alexandre
Dumas), O segredo do patíbulo (Villiers de L’Isle Adam), Idílio (Emília Pardo Bazán), El Verdugo (Honoré
de Balzac), A execução de Carlos I da Inglaterra (Françoise Guizot).
7. HISTÓRIAS DE TERROR DA IDADE MÉDIA — Giovanni Boccaccio, Juan Manuel de Castela, Frei
Hermenegildo de Tancos e autores anônimos árabes.
O vaso macabro (Giovanni Boccaccio), A história de Sidi Noman e Simbad e o Velho do Mar (anônimos
árabes), O mago e o deão e O amigo do Demônio (Juan Manuel de Castela), O Cavaleiro e o pacto com o
Diabo (Frei Hermenegildo de Tancos).
[Link] DE TERROR MARÍTIMO — Guy de Maupassant, Horacio Quiroga, Gabriele d’Annunzio.
No Mar, O Martírio de Gialluca, Os Navios Suicidantes.
9. LOBOS, HOMENS-LOBOS E LOBISOMENS — Robert E. Howard, Hector Hugh Munro (Saki), Paul
L. Jacobs.
Na Floresta de VIillefère, Gabriel-Ernest, Os lobos de Gernogratz, A Mão do Lobisomem.
10. CONTOS DE TEROR: PACTOS DEMONÍACOS — E. T. A. Hoffmann, Heinrich Zschokke, Juan
Manuel de Castela, Marquês de Sade.
O Abade Duncanus (Heinrich Zschokke), Aventura Incompreensível (Marquês de Sade), O Amigo do
Demônio (Juan Manuel de Castela), O Diabo em Berlim (E. T. A. Hoffmann).
11. CONTOS INSÓLITOS — Franz Kafka, Edgar Allan Pöe, Rubén Darío, Saki, Erckmann-Chartrian,
Mesía de la Cerda.
A tatuagem (Saki), D.Q. (Rubén Darío), Meu Ilustre Amigo Selsam (Erckmann-Chartrian), As Pernas de
Mármore (Mesía de la Cerda), O Ente Híbrido (Franz Kafka), Silêncio — Uma Fábula (Edgar Allan Pöe).
12. CONTOS DE FANTASMAS E OUTRAS APARIÇÕES — Anatole France, Prosper Mérimée,
Alexandre Puskin, Charles Nordier.
A Missa das Sombras (Anatole France), O Agente Funerário (Alexander Pushkin), A Visão de Carlos XI
(Prosper Mérimée), A Freira Ensanguentada (Charles Nodier).
13. CONTOS DE FANTASMAS E OUTRAS APARIÇÕES — VOL II — Charlotte Brontë, Thomas Hardy,
HeinrichVon Leist, Alexandre Dumas, Rubén Darío.
O Relato de um Homem Supersticioso (Thomas Hardy), Napoleão e o Espectro (Charlotte Brontë), A
Mendiga de Locarno (Heinrich von Kleist), Os Estranhos Visitantes (Alexandre Dumas), A Larva (Rubén
Darío).
14. CONTOS DE TERROR: MEDO — Guy de Maupassant, Horacio Quiroga, Amado Nervo, Del Valle-
Incán.
O Medo (Guy de Maupassant), O Galpão (Horacio Quiroga), Medo da Morte (Amado Nervo), O Medo (Del
Valle-Incán).
15 CONTOS DE DESESPERO, LOUCURA E MORTE — Horacio Quiroga, Leopoldo Lugones, Charles
Dickens, Daniel Deföe, Edgar Allan Pöe, Humberto de Campos, João do Rio.
O Filho (Horacio Quiroga), O Homem Morto (Leopoldo Lugones), O Fantasma Acusador (Daniel Deföe),
Confissão Encontrada numa Prisão na Época de Carlos II (Charles Dickens), O Coração Delator (Edgar
Allan Pöe”), Morfina (Humberto de Campos), Uma História de Gente Alegre (João do Rio).
16. CONTOS DE TERROR ANIMAL VOL. III —Guy de Maupassant, Horacio Quiroga, Franz Kafka,
Mary Anne Hoare.
Pierrô (Guy de Maupassant), Uma Luta Aérea (Mary Anne Hoare), O Caçador de Ratos, O Lobisomem
(Horacio Quiroga), O Abutre (Franz Kafka).
17. HISTÓRIAS DE DRAGÕES E OUTROS MONSTROS FABULOSOS — Franz Kafka, Alexandre
Dumas, Hesíodo, Jacopo de Varazze, Pero de Magalhães Gândavo, Padre Manuel Bernardes, José
Monterroio.
O Silêncio das Sereias (Franz Kafka), O Rochedo do Dragão (Alexandre Dumas), Tifonomaquia (Hesíodo),
A Lenda de São Jorge e o Dragão (Jacopo de Varazze), O Monstro Marinho (Pero de Magalhães Gândavo),
O Dragão de Rodes (Padre Manuel Bernardes), O Monstro de Jerusalém (José Monterroio).
18. HISTÓRIAS FANTÁSTICAS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA - Platão, Flégon de Trales, Filóstrato
de Atenas, Apolônio de Afrodísias.
A Amante Defunta (Flégon de Trales), O Julgamento das Almas (Platão), A Noiva de Corinto (Filóstrato de
Atenas), Histórias Assombrosas (Apolônio de Afrodísias).

SÉRIE MESTRES DA LITERATURA UNIVERSAL


1. GABRIEL LAMBERT (Romance) — Alexandre Dumas.
2. O DISCO DA MORTE E OUTROS CONTOS BREVES — Mark Twain.
3. A CASA MISTERIOSA — Charles Dickens, com a colaboração de Wilkie Collins e Elizabeth Gaskell.
4. CONTOS LICENCIOSOS DO DECAMERÃO — Giovanni Boccaccio.

SÉRIE MESTRES DA LITERATURA FANTÁSTICA 1. A FEITICEIRA — Ana de Castro Osório.


2. A MULHER VAMPIRO — E. T. A. Hoffmann.
3. O ELIXIR DA LONGA VIDA — Honoré de Balzac.
4. A METAMORFOSE — Franz Kafka.

OUTROS TÍTULOS
1. O CEMITÉRIO DE REGGOR E OUTROS CONTOS DE TERROR — Paulo Soriano.
2. CONTOS FANTÁSTICOS GALEGOS — Adela Figueroa, Ángeles Pacho, Ângelo Brea, José Manuel
Barbosa, José Manuel Nunes Vilar.
[Link] VAMPIROS ESTÃO SOLTOS —Paulo Valença.

[1]
Victor Hugo (1802 – 1885). Os versos citados por Maupassant sãos os últimos do poema Oceano Nox,
publicado em 1840.
[2]
Alfred de Musset (1810 — 1857), poeta, dramaturgo e novelista romântico francês.
[3]
Personagens de Rebelais no romance Les horribles et épouvantables faits et prouesses du très renommé
Pantagruel Roi des Dipsodes, fils du Grand Géant Gargantua ("Os horríveis e apavorantes feitos e proezas
do mui renomado Pantagruel, rei dos dipsodos, filho do grande gigante Gargântua"). A mãe de Pentagruel,
filho de Gargântua, faleceu ao dar à luz ao filho.

[4]
Ou seja, carbúnculo: afecção gangrenosa, que provoca lesões purulentas, produzida pela inoculação de
princípios pútridos de origem bacteriana.

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