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Aspectos Clínicos de Cuidado e Acompanhamento Terapêutico (AT) de Urgência em ações de Redução de Danos (RD) em festas e festivais de música eletrônica.

DUPLAT, I.C; ANDRADE, M. M; MACRAE, E; MALHEIRO, L. e VARGENS, M.

ANDRADE , M. M; MACRAE , E; MALHEIRO , L. e VARGENS , M. Tenda BaLaNcE,

Tenda BaLaNcE, UP8 (2007-2008) Arquivo BaLaNcE

VARGENS , M. Tenda BaLaNcE, UP8 (2007-2008) Arquivo BaLaNcE Stand BaLaNcE na Festa Enigma Scarreef, Litoral

Stand BaLaNcE na Festa Enigma Scarreef, Litoral Norte da Bahia. Setembro, 2006 Arquivo BaLanCe

2 0 0 6 A r q u i v o B a L a n

Relax Zone Stand BaLaNce, Aurora 3 (Sooonmoon, SSA/BA). Arquivo BaLaNce.

Uma das ações realizadas no projeto global realizado pelo Coletivo de Redução de Danos em festas e festivais de música eletrônica compreende a prestação de cuidados clínicos e o Acompanhamento Terapêutico de usuários que estejam em situação de risco físico e psíquico em função do uso de substâncias psicoativas.

Sabe-se que tais substâncias (a exemplo do LSD-25; do ecstasy, quando MDMA, mescalina) podem produzir estados alterados de consciência e por vezes uma bad trip (experiência psicodélica difícil e angustiante) (Hoffman, 2008; Holland, 2001; Melechi, 1997; Saunders, 1997; Grinpspoon & Bakalar, 1979, Lapassade, 1987) potencializados pela experiência auditiva e corporal com a música psytrance (Jilek, 1989; Rouget, 1985).

A falta de informação do usuário sobre a potência da substância adquirida (em forma de gota; selos; micro pontos; estrelas, quando mescalina) e sobre sua composição (Hidalgo, 2007); assim como o desconhecimento por parte do usuário iniciante de algum transtorno mental existente e desconhecido; acentuam o risco de quadros psíquicos agudos e graves.

mental existente e desconhecido; acentuam o risco de quadros psíquicos agudos e graves. Fotos: Carol Paternostro
mental existente e desconhecido; acentuam o risco de quadros psíquicos agudos e graves. Fotos: Carol Paternostro
mental existente e desconhecido; acentuam o risco de quadros psíquicos agudos e graves. Fotos: Carol Paternostro

Fotos: Carol Paternostro

- Dissociação da personalidade e experiência do ego - Psicose episódica aguda exógena. - Quadros

- Dissociação da personalidade e

experiência do ego

- Psicose episódica aguda exógena.

- Quadros paranóides.

- Comportamentos que colocam em risco a

vida do usuário e de outrem (se jogar em

rio, no mar, dirigir sob efeito de

SPAs/Drogas, agressão física motivada por

percepção alterada da realidade).

- Possível comportamento agressivo em

função da abordagem.

- Quadros de ansiedade aguda.

- Estados depressivos episódicos.

Abordagem inicial:

- Rede afetiva, salva-vidas, seguranças e público em geral.

- Mobilização (atendimento in locu) da

equipe do posto de saúde ou BaLaNcE. - Avaliação médica; encaminhamento (medicação ‘antipsicotica’, AT e outros); temas recorrentes; experiência/sensação de estar morto e experiências místicas.

Relax Zone BaLaNcE:

- Espaço protegido – calmo e confortável que favoreça continência. - Projeção de filmes, documentários, e informações sobre redução de danos para uso de LSD-25, “ecstasy” (MDMA) e álcool; - Distribuição de insumos (preservativos e cards de RD);

- Atendimento; cuidados clínicos associados ao posto de saúde e Acompanhamento Terapêutico (AT).

e cards de RD); - Atendimento; cuidados clínicos associados ao posto de saúde e Acompanhamento Terapêutico
e cards de RD); - Atendimento; cuidados clínicos associados ao posto de saúde e Acompanhamento Terapêutico
AT realizados pelo BaLaNcE em festas e festivais de música eletrônica: - Ocorre no stand

AT realizados pelo BaLaNcE em festas e festivais de música eletrônica:

- Ocorre no stand do BaLaNcE, posto de saúde, ou

qualquer parte do território da festa ou festival (praça de alimentação, acampamentos, etc.)

Susana e Silva (1985) apontam essa função como a

primeira e fundamental no exercício do acompanhamento terapêutico: o at funciona como um ‘agasalho humano’, acompanhando o paciente em sua ansiedade, sua angustia, seus temores, sua desesperança, inclusive naqueles momentos de

maior

-

(Barreto, K.D) (pg. 72).

Os princípios do AT, continência e holding, norteiam um modo de abordagem do Coletivo BaLaNcE de RD aos usuários de substâncias psicoativas que passam por experiências psicodélicas difíceis de lidar psiquicamente; essa abordagem foi desenvolvida também a partir de elementos etnográficos e de observação no projeto piloto desenvolvido no Festival TranceFormation de Carnaval (2006) junto ao posto de saúde e através do acesso ao saber prático(Grund, J-P, 1993) e ao controle exercido pelos pares em situações de bad trip (viagem ruim decorrente do efeito do LSD- 25 ou outras substancias).

“Interessante observar como Sancho lidou com a tristeza profunda, ou melhor, com a melancolia que
“Interessante observar como Sancho lidou com a
tristeza profunda, ou melhor, com a melancolia
que tomava conta de Dom Quixote.” O êxito da
intervenção de Sancho deveu-se ao fato de
transformar as vivências de Dom Quixote, não
por meio de uma interpretação ”
“ mas apontando que não há maior disparate
que o desespero, e que um pouco de comida e
um bom sono já haveriam de causar melhoras ”
“São nestas situações, que nos damos conta da
importância dos escudeiros: seu amparo e apoio
para desfazer aquilo que não teve bom curso”
(DUARTE,K.B. 1998) (pgs. 70-71)
“A função de amparo e apoio exercida pelos escudeiros e muitas pessoas neste mundo a fora.
Abordaremos o amparo e o apoio tanto na dimensão da presença, de um estar junto, como na
dimensão de uma sustentação (apoio) fisicamente mesmo”
“ Quando falamos em presença, mais facilmente tendemos a pensar no estar junto fisicamente, mas
estar em contato com as angustias do outro, através de uma atitude empática
este pode vir acompanhado de uma presença afetiva. Esta, tem a ver com a capacidade de uma pessoa
(DUARTE,K.B. 1998)

Ainda hoje, em festas e festivais brasileiros, os profissionais que trabalham nos postos de saúde não são treinados para abordagem de quadros psíquicos agudos graves em conseqüência do uso de substancias psicoativas. Em nossas primeiras incursões assistimos abordagens agressivas com contenção mecânica que poderia ser evitada através de outras técnicas menos invasiva. O uso

de medicação psiquiátrica (antipsicótica, a exemplo do haldol decanoato associado a fenergam) tem sido uma prática recorrente nos casos mais graves de ansiedade que envolva risco para o sujeito e outros.

O AT tem sido realizado no próprio espaço do BaLaNcE em alguns casos que nos procuram.

Através de uma avaliação clinica decidimos se realizamos o acompanhamento e primeira abordagem em nosso espaço ou encaminhamos para avaliação médica no posto de saúde da festa ou festival. Após avaliação e possível administração de medicação prescrita pelo profissional médico o sujeito pode ficar sob os nossos cuidados junto com acompanhantes. Em casos agudos de dissociação, mesmo após a administração da medicação indicada pelo próprio Albert Hoffman como mais eficaz para cessar os efeitos do LSD-25, a normalização do quadro pode levar de meia hora a três horas em média; durante esse período algum redutor de danos do balance estará a disposição para realizar o acompanhamento terapêutico.

A circunscrição de um espaço no território no qual acontece a festa ou festival, associado ao

posto de saúde existente propicia condições de estabelecimento de “apoio” e “amparo” em situações psicodélicas difíceis (MAPS). Sendo que o AT por vezes ocorre fora do local de referencia, na praia, na praça de alimentação.

Nota-se um abismo numérico entre a quantidade de freqüentadores e usuários que buscam o posto de saúde ou o Balance que necessitem deste tipo de cuidados durante nossas ações. Apesar da ocorrência de alguns quadros dissociativos (psicoses exógenas temporárias) – em função do uso de LSD-25 e outras drogas lisérgicas ou de casos de abuso de álcool por vezes associado ao uso de outras substâncias psicoativas – sua pouca ocorrência sugere a predominância de usos controlados e o desenvolvimento de saberes e práticas de auto-cuidado e gestão de risco entre os usuários.

de usos controlados e o desenvolvimento de saberes e práticas de auto -cuidado e gestão de

Referências

BARRETO, K. D Ética e Acompanhamento Terapêutico: andanças com Dom Quixote e Sancho Pança. São Paulo: Unimarço Editora, 1998.

Grinpspoon, L & Bakalar, J. B. Psychedelic Drugs Reconsidered. New York: Basic Books,

1979.

Guimard, J. P & Guimard, J. P. Mandala – a experiência alucinógena. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1972.

GRUND, J-P. Drug Use as a social ritual – funcionaliy, simbolism and determinants os Self- Regulation. Roterdan: Instituut voor Verslavingsonderzoek (IVO), 1993.

Hidalgo, E. Análises em laboratório de muestras de LSD. In: Albert Hofmann Monografico. Espanha: Cañamo – a revista de La cultura Del cannabis & Ulises – revista de viajes interiores,

2007.

Holland, J. Ecstasy: the complete guide – a comprehensive look at the risks and benefits of MDMA. Rochester, Vermont: Park Street Press, 2001.

Hofmann,

A.

LSD

minha

criança

problema.

E-book

acessado em 9 de outubro de 2008.

JILEK, G. W therapeutic Use os Altered States of consciosness in Conteporary North Amrerican Indian Dance Ceremonials. In: Altered States of Consciousness and Mental Health – A Cross-Cultural Perspective (edited by Collen A. Ward), SAGE PUBLICATIONS, Newburrypark London Nwe Deli, 1989.

LAPASSADE, G. Les états modifié de conscience. Série NODULES, Presses Universitaires de France, 1987.

MAPS Working with Difficult Psychedelid Experience (video) http://www.maps.org/avarchive/ Acessado em 28 de julho de 2008.

Melechi, A. Psychedelia Britannica. London: Turnaround, 1997.

Rouget, G. Music and Trance: A Theory of the Relations Between Music and Possession. Chicago: The University of Chicago Press, 1985.

Saunders, N. Ecstasy e a Cultura Dance. São Paulo: Publisher Brasil, 1997.