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Conto com vírgulas

João José Ferreira

E eu modéstia à parte bem vestido só que sem sapatos, a descer rumo à Baixa atento a

tentar não espetar gente alguma nos pés, a fugir na medida do possível de alguém para

quem não há almoços grátis e eu farto de os papar (a eles) e ele a avençar terem-no feito

não por mim mas por

si e talvez sim, talvez seja para

se serem que são bondosos e

precisem por isso de ofertar e à conta dos filhos da puta que se recusam receber com medo

do que terão de pagar sobrei só eu para os ajudar, mas a papar que deixar comida estragar é

feio

eu que à conta da distância curta entre a minha casa e a Baixa ando sempre muito, sempre

a descer o que subi e o contrário também verdade o que me leva a perguntar se o faria se

não fora por alguma papa

os meus amigos que gostam de mim por se sentirem bem, tudo muito linear, sem análise,

só descer para a Baixa para subir à volta (muito parecido o ó com v, só que com mais

curva), mas quando até a água vai para o céu para voltar à terra, e a Terra também sempre

de volta ao início, parece que tem de ser

mesmo estes avanços todos, sociais, voltamos a morrer e são os que nascem que têm de

recomeçar

este indivíduo por exemplo teve azar, nasceu mais atrás

quem se enfia num buraco não se pode admirar de não haver luz

não eu hoje não posso entrar nisto, nem me apetece eu

já corro há muito tempo este disparate, já desde o início e mantém-se a velocidade,

despistei o outro com vontade o que me deixa sempre muito expressivo o andar, talvez

venha bem vestido demais para esta falta de sapatos

eu, que costumo ter um percurso bastante linear, o do 28, hoje só para baralhar talvez vá à

volta pelo Príncipe Real

seis jardineiros a verem outros dois trabalhar, deve ser à vez o salário

(mas está até bonito o jardim)

há quem desvalorize os outros para poder sair e enfrentar

eu não enfrento, sento-me em frente a conversar

os velhos, tão curvados, devem ver muito dinheiro pelo chão, vou perguntar se ainda o

conseguem apanhar

esta coisa do tempo, tão curto, até difícil de definir, deixa tudo tão à mão, tão a jeito de se

decidir

devo estar doente, doente ou vivo, não consigo deixar de escrever, até contos

e

o tempo que está tão bom para a época, o que não vos diz nada porque eu gosto do calor

e

do frio, gosto de sentir por entre o conforto

isto do Príncipe Real é uma delícia, um café e dois quiosques cheios de estudantes da vida e

o jardim de estátuas de gente que o povo não esquece

é, nunca mais se abate sobre nós esta crise, o povo preparado, miserável, com saco-cama à

porta, cinco séculos de aviso

tudo à procura do pé-de-meia, tudo a querer pisar o seu próprio chão, uma casa para pôr à

testa a dizer coitado, não me atire essa bomba, é tudo o que tenho, fico sem nada

tenho tido tanta sorte, sempre, tanta quanto os outros, eu que só peço braços e pernas,

emoção quanto baste para poder decidir e a memória lassa que permita perdoar-me,

Desculpe, era um cafezinho e uma macieirazita, mas muito mal servidinha que isto não é

para perder o sentido (tudo isto ficcionado, é outro o meu bagaço)

vão agora acusar o álcool disto, mas é tão fácil ser torrencial, é deixar vir tudo à mente e

fazer força

sempre se aprendeu qualquer coisa hoje, devemos aproveitar o desperdício para reciclar

aposto esta narrativa breve e ficcional em como as pessoas ainda vão dizer Que grande

gruista aquele, a mover coisas tão pesadas, tão pequenas lá de cima e eu a rir como a banda

do Titanic

porque é que eu consigo ler as pessoas, passado e futuro, nos sapatos

um dia destes engano-me porque isto dos sapatos é também a história do possível

rica esplanada com a música no ar e uma bancada onde os jornais dizem que as equipas vão

jogar para ganhar

se as coisas que são para dizer dissessem, mas a superfície não escolhe o que traz dentro

que azar, não tenho faro para isto, devia ter-me sentado do outro lado onde se sentaram

aquelas miúdas bonitas

uma história sem futuro, tão longe que nem tem princípio

olha o Vítor a telefonar outra vez para dizer que não há nada para dizer, este miúdo vai

longe, dez a quinze páginas, como eu neste conto

olha o Bob Dylan

(será que dizer mal ou dizer bem é a escolha fundamental da vida

talvez não, mas não andará longe)

as pessoas tão próximas, porquê tanto medo de estender a mão, era esta a prisão que eu

fechava, era a parte do cérebro que nos guarda de nós próprios

não não quero mais isto, quero mais, mas não mo permite o formato que se quer pequeno

e

pouco e parco como o governo dos Estados Unidos

e

se quiser mais que trabalhe, que é o que é capaz de vir a ter de ser, não conheço melhor

maneira de me libertar dos outros do que o fazer o que eles querem, às vezes dou por mim

em terras bem distante, mas errar é correr à aventura e eu tenho visto muito disto

tenho de parar na mercearia e comprar vinho ao pacote, tenho um amigo na rua que já lhe

custa levantar e gosto de me sentar com ele a bebericar o possível na nossa falta de copo

Desculpe, o vinho de pacote , Lá atrás , Obrigado

só há de garrafa

Um euro e vinte, mas está marcado um , É a garrafa, é cinco estrelas , Então deixe estar,

deixe estar

eu, que ando aqui a subir e a descer como todos os outros sem saber porquê a não ser

quando é bom e não me deixo disto

ainda que às vezes me sente na rua com o meu amigo a ver passar as pessoas e o vinho, e

tente perceber se é mais inteligente andar com os outros ou ver os outros andar, volto

sempre ao que não vale a pena entrar por não ser este o local da arte

ao que é capaz de ser oferecem-se dificuldades e eu não sei o que poderá vir aí a título de

paga, eu fugia como o dos almoços grátis, mas ficava pela vida com fome pelo que enceto,

mas agora isto, contos, é isto que querem, então tomem este passeio à Baixa, com vírgulas

“Às vezes penso que o problema sou eu, mas depois olho em volta”

eu até gosto desta gente das artes por se lhas verem bem à volta e não diluídas em, vá lá,

vida

bem concentradas ui pessoas, tenho de me comportar que é coisa igual em intensidade e

direcção ao defecar, só no sentido é contrária a força

que bonito anda o dia com os seus andares distintos, uns impulsivos, outros nervosos,

outros com todo o vagar do mundo, outros ainda à procura de por onde ir

que bonito anda o dia, tão diverso aos pés de tanta gente, é fácil descobrirmo-nos nos

outros, vermo-nos de fora, ver se estamos coerentes com o que se passa dentro e escolher

se é assim que queremos e senão

senão muda-se

senão volta-se atrás e anda-se outra vez tudo de andar novo

eu por mim estou farto de nervosismo, vou devagar a olhar como quem tem o tempo do

mundo, o que até pode nem ser bem assim, mas não vou por aí, é outro este meu caminho,

é para baixo

engraçado, quando menos se diz mais os outros entendem, quando menos se escreve mais

os leitores criam, mais se entendem nas entrelinhas, nos entreolhares, mais fica para lugar

de interpretação, de significação, o que talvez seja o fim deste processo a que chamamos

vida

isso e a morte

epá, é mais difícil do que pensei esta descida, é escorregadia a calçada, são poucos os

degraus de apoio

é verdade, quanto mais inclinado o caminho mais difícil descer, mais mesmo que subir, é

como desistir do que se quer, por isso tentamos sempre subir pela vida, tem-se mais apoio

por isso não consigo deixar de voltar tantas vezes para trás, de olhar para trás, mas isto é

para descer, este conto, até à Baixa

mas porquê descer até à Baixa-com-tanta-diversidade-de-caminhos quando depois é preciso

subir

qual é o ganho, qual é a papa

vim como vou a tudo o resto, por ser preciso, por ter necessidade de experimentar, de

explorar caminhos novos, talvez mais curtos, talvez mais rápidos, talvez mais bonitos para

mais alto, é por isso que quebro o conforto, a estabilidade, por isso temos pernas e querer

andar, por isso crescemos, é para conseguirmos ver de mais longe o que queremos bem

perto

é porque queremos mais e melhor que melhoramos e vamos conseguindo sobreviver

mas o que estou eu a fazer, isto não é para isto

não me consigo fazer crer que o silêncio é não falar, tenho de me agarrar cá fora, fazer

barulho para disfarçar

o gajo dos almoços grátis outras vez, é pequena a cidade

está bem o tempo é dinheiro e eu tão liso, tão teso, tão falido, tão sem tempo para ti senão

para um adeus com a mão

olha o Pessoa, dantes ninguém o queria, agora enquanto estátua todos à volta

chegar ao meio de um grupo e dizer que o problema disto é isto, ui, tudo a conversar, a

divagar, alguns até a inventar, tão mexido o rebuliço, tão divertido para me pôr a um canto

a observar, atento sem deixar o lume baixar

de quem eu gostava mesmo era daquele tipo que passeava de noite pelo Bairro de archote e

espada, turbante e óculos escuros, todo de preto, cheguei a falar com ele, muito

extrospectivo

ó, não digas

que chato, nunca mais aqui venho às segundas, está sempre fechado

e agora

eu que vim ver se via e fechado

nunca mais aqui venho fechado

e agora

talvez mais abaixo se encontre, mas depois maior a subida, raios a casa estar tão perto, não

ter vindo de metro, achar mais sentido andar ao sol e ao vento, à noite à chuva

sei que não me posso queixar da falta de sapatos, mas ainda nem metade do que é meio,

que se lixe, desço mais um pouco e depois volto no eléctrico por fora agarrado à porta

é arriscado, no fundo, ser criança, mas é como mais se avança

não nada, só gentes e estrada

para variar o que eu vim ver não veio e o que chegou não chega

aquela mulher que traz qualquer coisa no estar, nunca mais a vejo mas não consigo desistir

e esta bem bonita

não olha, deve ter namorado, já não me excita

é preciso ter princípios, já tenho idade para ter juízo, sou até moço de luta, mas gosto de

voltar inteiro

apaga-se o prato do dia do quadro, já é tarde

eu

até gosto de simplicidade mas pode haver nisto algum engano

o

complexo é construído do mais simples, para conseguir a simplicidade é preciso

desconstruir por isso a realidade que vejo fabricada, andar a enumerá-la, é o mais complexo

que há, o mais distante pelo que esta coisa de andar a contá-la, falta-lhe aperto

(por falar em aperto, deu-me agora a vontade de fazer chichi, será que isto também tem

lugar num conto)

é, acho que vou para casa

ainda bem que isto é coisa de princípio meio e fim, mesmo que volte ao início

(é que me faz confusão ir à casa de banho fora de casa)

cá vem o 28, pessoas saem, deixo fechar a porta

ainda por cima esta semana há jackpot, mas eu aposto sempre o mesmo para poder sonhar

não sei se foi depois de pensar em aperto que me deu a vontade de urinar ou se me lembrei

do aperto por me ter dado a vontade de urinar

a olharem, as pessoas, sim sempre o olhar (isto sem profundidade, sem análise, sem

espessura), talvez salte do eléctrico, corra, talvez dance, que raio de dor este passeio, é

preciso que volte, mas inteiro

um sorriso ali, um beijo, estou já a subir pelo caminho certo

para me deitar na relva vou mais tarde ao Jardim da Estrela (isto porque os juízes são locais

e percebem o enredo)

carteiristas, três lá dentro, dos que só assaltam estrangeiros, mas vão-se enganando

e eu sem poder entrar para avisar

que se lixe, pago o bilhete e vou lá para dentro gritar PICKPOCKETS PICKPOCKETS e

as pessoas a olhar, as mãos nas carteiras, os ladrões a andarem lá para o fundo para a porta

a chamarem-me PANELEIRO várias vezes

os olhares das mulheres, os sorrisos dos putos das escolas, tudo corrido por dentro, tudo

elemental, linear, quente

o barulho das obras, os apitos do trânsito por cima a distrair, a dispersar

estou farto de andar, nunca mais chego ao início para amanhã recomeçar

deve ser preciso contar mais coisas, uma passadeira, dois semáforos, muita gente para cima

para baixo, alguns olhares perdidos talvez por causa do sol, o mesmo que alumia, mas que

quando vai baixo cega

passou-me a vontade de fazer chichi

olha o Sr. bonacheirão do Dom Bacalhau, é um optimista, é dos que enquanto não fecha o

negócio vai sempre bem

(é preciso contar as palavras não é, tanto tempo, por exemplo

“Teu gesto que arrepanha e se extasia, o teu gesto completo, lua fria

negros os juncais”

hein

ou então

subindo, e em baixo

“Não escutes quando das vozes de perto não se desprende o olhar, não escutes o que

agarra sem ser para libertar”)

está tudo misturado, mas estou contente, é difícil andar atento e ausente

primeiro o café, depois a relva

agora sim que já vejo é aquela cor de frente.

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