A literariedade -_jonathan_culler ² Document Transcript 1. 1 A literariedade Jonathan Culler.

Que é literatura? Esta pergunta, que parece impor-se como a pergunta base dos estudos literários e como objeto primordial da teoria literária, pode ser compreendida de diferentes maneiras: em primeiro lugar, como uma pergunta sobre a natureza geral da literatura. Que tipo de objeto ou de atividade é a literatura? Para que serve? Por que estudála? Qual o seu lugar na diversidade das atividades humanas? Compreendida desta maneira, se trataria de uma pergunta não de definição, mas de caracterização, e isto porque interessaria a todos os que se ocupam da literatura e queriam saber porque se dedicar a esta atividade e não a outra. Mas o que é literatura? Também pode significar o que distingue literatura das outras coisas: o que é que a distingue dos outros textos, das outras representações? O que a distingue dos outros produtos do ser humano ou das outras práticas? Perguntar-se qual é ou quais são as qualidades distintivas da literatura é colocar a pergunta da literariedade: qual é ou quais são os critérios que fazem de algo literatura? Apesar do caráter aparentemente central desta pergunta acerca dos estudos literários, temos de confessar que não se chegou a uma definição central de literariedade. Northrop Frye, em seu livro Anatomia da Crítica, tem razão quando declara que ³não dispomos de verdadeiros critérios para distinguir uma estrutura verbal literária de uma que não é´ (1966,13). Há várias razões para isso. Se refletirmos um momento, nos damos conta de que há dificuldades de princípio assim como dificuldades empíricas. Existe uma imensa variedade de obras literárias e um romance determinado, por exemplo, Em busca do tempo perdido ou Jane Eyre, pode parecer-se mais com uma autobiografia do que com um soneto, ainda que uma poesia lírica de Burns, de Heine ou de Verlaine se pareça mais com uma canção do que uma obra de teatro de Sófocles. Assim, um primeiro problema consistiria em saber se existem propriedades interessantes que estão presentes em todas as obras que denominamos literárias e que as distinguem dos objetos não literários aos quais se parecem. Mas esta pergunta se torna mais difícil em uma perspectiva histórica, por pouco que seja. Segundo um célebre perito em poesia, ³a fronteira que separa a obra poética da que não é poética é mais instável que a fronteira dos territórios administrativos da China´ (JAKOBSON, 1973, 114).Podemos pensar em alguns poemas modernos que em outras épocas não seriam considerados como literatura. Ostalk poems do poeta norte-americano David Antin, por exemplo, manifestam um discurso que não pode ser mais comum, sem rimas nem ritmos, sem figuras especiais, e que possui todas as vacilações e repetições da fala cotidiana. Quando do auge do nouveau roman francês, muitos críticos e leitores achavam que essas construções sem personagens a sem as intrigas tradicionais tampouco podiam ser consideradas literatura. Esses textos não poderiam levar o nome de ³romance´ no século XIX. Nessas condições, poderíamos chegar à conclusão de que a literatura não é nada coisa além do que aquilo que uma determinada sociedade trata como literatura: quer dizer, um conjunto de textos que os árbitros da cultura ±professores, escritores, críticos, acadêmicos ± reconhecem que pertence à literatura. Esta conclusão não é muito satisfatória, mas nos servimos de outras categorias da mesma natureza mediante as quais os critérios de definição e delimitação dos objetos culturais nos remetem às opiniões mutáveis de um grupo, grande ou pequeno. Neste sentido, a literatura seria uma categoria como a das más ervas (Ellis, 1974). As ervas más são um simplesmente umtipo de plantas que uma sociedade não trata cultivar, mas sim de eliminar quando brotam em um lugar em quedeve florescer outra coisa.

é necessário proporcionar previamente algumas indicações históricas. e portanto da literariedade. sociológicas e talvez psicológicas. noinício do século XX. os que. Se a literatura fosse uma categoria desse tipo.De forma que não haveria qualidades de forma ou de fundo que as más ervaspossuiriam. as respostas às perguntas sobre a literariedade não se formulam desta maneira. De la littérature considerée dans ses reports avec lesinstitutions sociales (1800) [Sobre a literatura considerada em relação às instituições sociais]. a literariedade não seria objeto de análise de um teórico. mas unicamente objeto de uma investigação histórica que pretenderia tornar explícitos os critérios utilizados por diferentes grupos que se interessam pela literatura. não porque se quisesse distinguir o que é literário do que não é. Foi. a literatura e termos análogos em outras línguas européias significavam de uma maneira global ³os escritos´ eaté o ³saber livresco´. mediante a separação do ³peculiar´ da literatura.11). Haja vista que nem uma nem outra implicam uma resposta historizante. pois. a palavra toma um sentido precocemente moderno que designa a produção literária contemporânea. Nas Briefe die neueste literatur betreffend [Cartas sobre a nova literatura] de Liessinga. Antes de fins do século XIX. o estudo da literatura não era uma atividade realizada de maneira independente: estudavam-se os poetas antigos ao mesmo tempo em que se estudavam os filósofos e os oradores ± os escritores de todo tipo ± e os escritos que chamamos literários formavam parte de um todo cultural mais vasto. com a fundação dos estudos especificamente literários que o problema do caráter distintivo da literatura se implantou. não porque queiram explicitar critérios que tenham regido as inclusões e exclusões de outras culturas ou momentos históricos. mas porque se queriapromover. É sobretudo o livro de Mme Staël. As próprias dificuldades de definição e de delimitação inspiram e fazem que seja y 2. como discurso fictício ou imitação dos atos da linguagem cotidiana. que marca o estabelecimento do sentido moderno. Não há nenhuma essência de ³má erva´ ou nenhum critério pertinente de delimitação. Aquele que se interessasse por esta categoria. foram os formalistas russos. Embora coincidam em alguns pontos. Para explicar o que é literariedade. Por outro lado. Por um lado. apontaram a literariedade (literaturnost) e formularam algumas das grandes linhas do debate sobre esse problema. Obras que denominamos literárias foram criadas há vinte e cinco séculos. pode se estabelecer. Mas foi somente com a instituição da crítica literária e o estudo profissional da literatura que a pergunta sobre a especificidade da literatura. a literariedade se define em termos de uma relação com uma realidade suposta. postulava . métodos de análises que permitiriam fazer avançar a compreensão deste objeto e deixar de lado os métodos impróprios que não levavam em consideração a natureza deste objeto. Os críticos literários e os historiadores da literatura. mas porque se perguntam quais são so aspectos mais importantes da literatura porque querem determinar o que é estudar um texto como parte integrante da literatura. mas a idéia moderna de literatura data de apenas dois séculos.publicadas a partir de 1759. ao que aponta é para determinadas propriedades da linguagem. o que teria de fazer não seria buscar a natureza botânica das ervas más. mas a literariedade. sem por isso chegar a estar jamais seguro de encontrar um critério geral. não porque queira saber que discursos querem excluir ou incluir na literatura. Mas em geral. Até o séculoXIX. inicialmente. as definições de literariedade não são importantes como critérios para identificar aquilo que põe em evidência que há literatura [em um texto]. estas duas respostas devem ser analisadas separadamente e detalhadamente. nem sequer para uma época determinada. reflexão esta que é perseguida pelos teóricos. 2mais interessante a reflexão sobre a natureza da literatura. teríamos de compreender o contexto que promoveu a pergunta sobre a natureza da literatura. mas levar acabo investigações históricas. grupo de jovens lingüistas e ³poeticistas´ de Moscou e Leningrado. Temos que considerarque a pergunta se colocou. Assim. é dizer o que faz de uma determinada obra literária´(1921. Roman Jakobson colocava o problema da seguinte maneira: ³O objeto da ciência literária não é a literatura. o que é esta qualidade suscetível de definir o ³literário´. mas como instrumentos de orientação teórica e metodológica que trazem à luz os aspectos fundamentais da literatura e que finalmente orientam os estudos literários. sobre as diferentes espécies de plantas que estão catalogadas com ervas más por grupos ou sociedades diferentes. Em suma.

a questão da literariedade serve para a atrair a atenção para as estruturas que seriam essenciais nas obras literárias e. fazem perceptível e linguagem em outros meios. e se considera que expressam que se trata de um discurso bem construído em que cada detalhe deve ser levado a sério. Depois. 2) a dependência do texto as relações. foregrounding) (1977. parecem-lhe tão estranhas . amas doré d¶ombres et d¶abandons. Além disso. Até oromance realista serve-se de imagens novas para mostrar: ³os tetos de palha. o relato é narrado por um cavalo e é por meio dele que os objetos tornam-se singulares graças a esta percepção inusitada e à tematização da linguagem e da interpretação: o narrador observa. mas que se encontram também na prosa. construção ³escalonada´) produzem efeitos herméticos. / teu repouso terrível está carregado de tuas dádivas. utilizavam a vida pessoal do autor. broadyoval.3. Estudar um texto como texto literário em vez de valer-se dele como documento biográfico e histórico. de Tolstoi.uma linguagem figurativa que exige esforço de interpretação serve também para significar a literariedade. a rima. que produz a percepção dos signos enquanto tal. The onesomeness easalltonely. a linguagem literária (obraz) que pretende criar uma nova percepção colocando o objeto em uma perspectiva insólita. Ton repos redoutable est chargé de tels dons« (³La Dormeuse´) [Dormente cúmulo dourado e sombras e abandonos. muitas vezes se toma como o elemento mais comum. de modo que o leitor não receba o texto como um simples meio transparente de comunicar uma mensagem. em vez de vislumbrar uma ciência literária. 32). 3 No que se refere ao primeiro ponto. a eleição de estruturas não gramaticais ou aberrantes no plano semântico ± são formas de ³pôr em evidência´ que se utiliza. as combinações insólitas de palavras.. O desvio ou aberração lingüística ± a criação de neologismos. 1972. um dos fundadores da escola de Praga que se situa na continuidade do formalismo russo. sobretudo. por exemplo. archunsitslike. and a Mookse he would walking go. o formalista russo Shklovski declara que ³a língua poética difere da língua prosaica (cotidiana) pelo caráter perceptível [oshchutimost] de sal construção´ (Eichenbaum. Com efeito. todo tipo de estribilhos e de estruturas fechadas.Há várias maneias de tornar perceptível a linguagem de. Madame Bovary). para o analista. As estruturas do relato(paralelismos. a pergunta principal é a da aplicação. 3. a psicologia. Esta literariedade possui três características fundamentais: 1) os procedimentos do foregrounding (evidentes.4). repetições e detalhes. 1927. a assonância e a aliteração criam o efeito de um objeto muito estruturado como nos versos de Valéry: Dormeuse. de primeiro plano) da própria linguagem.. concentrar sua atenção no uso de algumas estratégias verbais. nem por sua afetividade. Os formalistas tinham ³como afirmação fundamental que o objeto da ciência literária deve ser o estudo das particularidades específicas dos objetos literários que os distinguem de outra narrativa´ (Eichenbaun.. a linguagem poética não se define por sua beleza. No plano do significante. 25). Em outro plano a perspectiva realista eleita é o elemento que vai atualizar o efeito de desfamiliarização. as repetições de categorias sintáticas que criam paralelismo. a da justificação do procedimento. regulares e irregulares. O problema essencial consiste em encontrar particularidades específicas das obras literárias que sejam suficientemente genéricas (gerais) para manifestarse na prosa assim como na poesia. em contrapartida. Em Jolstemer. e 3) a perspectiva da integração composicional dos elementos e dos materiais utilizados em um texto. mas que surja envolvido pela materialidade do significante eoutros aspectos da estrutura verbal. O fim e o resultado desta forma de evidenciação é o que os formalistas russos chamam de desfamiliarização [estranhamento] (ostraniere) ou desautomatização da linguagem. nem por seu caráter metafórico.. como no início de Finnegans Wake: ³Eins within a space and a wearrywide space it was wohned a Mookse. ou ainda como declaração filosófica é.] Os ritmos. quando se referem a ele. como gorros enterrados até osolhos. Portanto. nem por sua singularlidade. nem por seu ornamento. que as palavras ³meu cavalo´. não seriam essenciais em outras obras.´1. mas pela sua manifestação (aktualisace. o mais expandido da literariedade.´ (Fleubert. na poesia. Parao checo Mukarovský.y [Jakobson]. ³Se os estudos literários querem se converter em uma ciência ± declara Jakobson ± têm que reconhecer o procedimento (priem) como o seu personagem´ único. Isto se pode obter mediante o recurso a diferentes classes de paralelismos e de repetições. a filosofia. convenções e seus vínculos com outros textos da tradição literária.

y como ³minha terra´. No ônibus escutam-se brincadeiras baseadas nas mesmas figuras nas quais a poesia mais sutil. 1o volume. tentando. na sua solidez e pureza de conceito.Joyce. na sua escrita. não está submetido a quaisquer fins utilitários. (2001) Panorama do Finnegans Wake. entre os quaisse encontram Nathalie Sarraute e Alain RobbeGrillet. Augusto de. contemplamos mais de perto a noção a função poética da linguagem como o tom da linguagem por sua própria conta. e os boatos freqüentementeestão compostos de acordo com as leis que regem a composição das narrativas curtas. em inglês e outras línguas. nos expomos a um importante obstáculo quando tratamos de limitar o efeito de literariedadede um texto à presença de um repertório de procedimentos lingüísticos. (1999) Finnegans Wake/Finnicius Revém. em textos não literários. Finnicius Revém. mas possui o que Kant em sua Crítica da razão denomina a ³finalidade sem fim´ (Zweckmässigkeit ohne Zweck). aproximaram-se deste tipo de romance escritores como Nuno Bragança e Artur Portela Filho. pois.T) 4.. é o último romance de James Joyce. em parte. reunidos em Pour um Nouveau Roman (1963). tais como os de personagem e os do princípio de causalidade.históricos e práticos.contêm muitos dos fundamentos teóricos desta tendência. indireto e complementar.T)2 Nouveau roman: Forma experimentalista.Esta liberdade é que põe em jogo algumas idéias mestras da literariedade: a idéia. Livre das delimitações do discurso cotidiano.. 4foi reconhecido por sua crítica aos modelos romanescos tradicionais. ISBN85-85851-97-X. por exemplo. pois. No plano lingüístico. Mas há uma ressalva a fazer em relação à literatura como desfamiliarização. Dizer ³quarenta velas´ em vez de³quarenta navios´ é uma figura literária convencional. ISBN 85-273-0207-5. pode constituir-se como estrutura autônoma ligada ao exercício da imaginação do autor e do leitor. Em Portugal. e Le Planetarium (1959). ³meu ar´ e ³minha água´. Assim. Os ensaios deste último escritor. o nouveau roman 21 Finnegans Wake. (N. no qual todos os sentidos de uma palavra (sobretudo as conotações) podem entrar em jogo. a literatura destaca-se não só por figuras ou combinações insólitas. em utilizar fórmulas que perderam sua força inovadora: ³the azure vault of heaven´ [³a abóbada azul do firmamento´] percebe-se de imediato como literário porque o emprego do adjetivo ativa no leitor a idéia da literatura enquanto enunciação elegante e perifrástica de sentimentos elevados. Campos. De modos vários. Que quer dizer isto? Esta definição retoma em parte a noção tradicional de que o objeto estético tem umvalor em si. que seria o sentido mais importante. As obras Le Voyeur (1955). que consiste. pela subversão dos processos tradicionais da narrativa. ou. Não obstante. na tradução brasileira. da mesma forma que a poesia tem tratado muitas vezes de romper as associações que considera ³normais´. Cada língua possui algumas palavras e convenções que pertencem a uma linguagem arcaica e elevada e que indicam que têm a ver com a literatura. também designado por anti-romance». como Michel Butor. ou a de um discurso portador de um sentido oculto. a obra literária situa-se de outra maneira (como veremos mais adiante) e pode produzir ambigüidade. 353). de fato. Assim. Pôr em evidência os signos lingüísticos e os meios de representação pode fazer da literatura uma crítica dos modelos semióticos mediante o costume que temos de fazer o mundo inteligível. o enredo e a subjectividade inerente ao trabalho do autor. de Sarraute.     . pela linguagem falada no cotidiano. mediante os quais interpretamos o mundo quase sem saber..´ (1960. mas também pela linguagem ³elevada´. apresentar o mundo como uma coisa emsi mesma».tornaram-se exemplos bem aceites pela crítica desta tendência literária. Tradução de Donaldo Schüler. Haroldo de. pois todos esses elementos e procedimentos podem ser encontrados em outra parte. São Paulo: Editora Perspectiva. Porto Alegre: Ateliê Editorial. James.buscando uma multiplicidade de significados. publicado em 1939. e um dos grandes marcos da literatura experimental por ser escrito em uma linguagem composta pela fusão de outras palavras. (N. Não se deve compreender tal coisa como uma autonomia. O próprio Jakobson reconhece que as aliterações e outros procedimentos eufônicos3 são utilizados..Referências Campos. de Robbe-Grillet. Claude Ollier e MargueriteDuras foram também associados ao nouveau roman. de um discurso polivalente. Outros escritores. mesmo quando a paródia ou destruição desta mesma linguagem seja também discurso literário. característica da produção literária de romancistas franceses da década de 1950. os escritores do nouveau roman procuraram eliminar as personagens.

portanto. na forma de minha mensagem se pode ignorar uma assonância. que não se trate de uma brincadeira. a mensagem seja emitida com seriedade por mim e vá destinada a ele pessoalmente. a evidência da linguagem em um texto literário é uma maneira de desprendê-lo de outros contextos (do momento e as circunstâncias práticas do enunciado). e que a hora e o lugar do encontra estejam fixado sem referência a um contexto geográfico e temporal em que nos situamos. a obra se refere a seus próprios meios. uma visão dos valores que sustentam o modo de vida que se evoca. visto que há repetições e aberrações também em outros textos. Em um poema. quer dizer. À medida que a literatura. por oposição. Como indicamos. 115). como também são as relações com outros convites emitidos por mim e poroutras pessoas antes desta. Em um primeiro nível está a integração das estruturas ou das relações que. nem de um exemplo gramatical. isto nos ajuda a ver o papel das estruturas lingüísticas e retóricas que tratamos anteriormente em nossa análise da literariedade como evidência da linguagem. às afirmações de Jakobson para quem os estudos literários farão do procedimento seu personagem único: qualquer discussão que se centra na literariedade não considerará o procedimento como um meio de expressar uma mensagem qualquer. Voltamos agora. o caminho que regressa sobre si mesmo´ (1919. Shklovski fala da literatura como do ³caminho no qual o pé sente a pedra. 5. Então temos de nos perguntar: o que faz aqui este encadeamento? Em que se converte o soneto? Em que consistem as combinações de imagens e quais são os seus efeitos? Em vez de tratar um elemento formal ± a forma do soneto. Constatamos que o foregrounding[primeiro plano] apenas pode chegar a ser um critério suficiente do literário. do poeta inglês Ben Johnson. 118). em outros discursos não têm função alguma. antes de tudo. 5como um meio para expressar a visão de um amante. o que se produz é todo o contrário: aqui. do que se desprende. . pode-se contemplar este conteúdo como o meio de explorar ou de fazer avançar ou desviar o soneto.qualquer paralelismo coloca a questão das relações semânticas entre seus componentes. As obras estão determinadas por estruturas convencionais ± por exemplo. Toda obra literária se cria em referência e em oposição a um modelo específico que fornecem outras obras da tradição. a forma da obra está determinada pelas formas literárias preexistentes. Quando marco um encontro. ou seja. o contexto como o contexto específico da literatura. uma aliteração ou um paralelismo. Shkolovski demonstra que ³a convencionalidade mora no miolo de toda obra. Em um determinado nível. o que é essencial é que. o contexto no qual se insere a mensagem é o contexto de um gênero literário. que tende a isolar o texto dos contextos práticos e históricos da sua produção. Em contrapartida. por exemplo ±3 eufônicos: que produzem sons harmoniosos (N. de manhã. mas como o protagonista. e tem-se que explicar as obras de acordo com esta única perspectiva. Este aspecto da literariedade. melhor dizendo. escrever é inscrever-se na tradição literária. Precisamente porque o texto literário não é um discurso que comunique informações práticas. mas porque está vinculado a uma situação de comunicação peculiar. um certo lirismo do cotidiano. que a mensagem não esteja destinada a nada mais. o que mais importa é a estrutura das imagens e dos ritmos no texto. o estabelecimento de uma interdependência funcional e unificadora de acordo com as normas da tradição do contexto literário ± o que caracteriza a literatura. o texto nos conta uma aventura puramente literária (formal). o sujeito do discurso literário. o modo de integração destas estruturas ± é dizer. em um poema como ³Convidando um amigo para jantar´. é um comentário ou uma reflexão sobre a literatura.Neste contexto. São os três níveis ou os tipos de integração que devemos contemplar. no tom e no movimento do poema. na qual reina a convenção da importância dos detalhes e das estruturas lingüísticas.T). Ali onde . às seis datarde. redefine. A obra na está dirigida a um fim. É. em um café. A forma da frase e as palavras específicas de que me sirvo são menos importantes. significa em vários níveis de análise. mas isto não quer dizer que careça de determinações. Na realidade. posto que as situações estão livres de suas relações cotidianas e se determinam segundo as leis de uma trama artística dada!´(1911.y mas como uma relação específica com outros elementos constituintes da situação lingüística. Se agendo uma entrevista com um amigo. em seus vínculos com outros discursos literários. de fazer do ato de linguagem que o texto pretendo cumprir (como o convite) um procedimento literário e situá-lo em um contexto de textos e de procedimentos literários. os procedimentos para estabelecer a intriga.

freqüentemente citado pelo NewCriticism. sobretudo na primavera.inclusive confrontá-los./ Too long«/ Gongola« [Primavera«/Muito tempo«/Gongola«] As convenções da literariedade incitam os leitores a conferir uma totalidade formal a este texto e a outorgar uma significação às ³ausências´ que se revelam nele. ³A linguagem da poesia éa linguagem do paradoxo´. um discurso que.de Ezra Pound. Em um terceiro nível de integração. Se tomamos ³Gongola´ como um nome próprio e se supomos uma relação entre Gongola e o que fala.358) ± procedimento constitutivo no momento para o autor. com os gêneros literários. sintática ou semântica) e para o leitor.implicitamente (por causa de sua situação de comunicação adiada). uma reflexão sobre as dificuldades da interpretação (De Man. Um exemplo célebre: o verso do poeta norte-americano Archibald Macleish. Mas é pouco freqüente encontrar um só motivo que encarne a literariedade deste modo. A integração em segundo nível é a da obra de arte completa: a convenção pela qual a obra literária há de ser um todo orgânico (Ingarden. 1973. Não é que sempre se encontra a unidade que se busca. 6maneira surpreendente em textos de aparência fragmentária que exigem um esforço especial do leitor. por exemplo. but be´ [³Um poema não deveria significar mas ser´]. Os formalistas russos falam da ³dominante´ que se apresenta em forma de um elemento ou de uma estrutura unificadora (às vezes uma figura. faz que se sinta até que ponto toda a redução a uma posição ou a uma visão monológica baseia-se em simplificações. contrapõe ser e significar e. a obra significa muito em relação ao contexto literário: em sua relaçãocom os procedimentos e convenções. que deve considerar em que medida uma espécie de equivalência se transforma em outra. Quando. de um outono relacionado com os violinos. 1979). consiste em três versos fragmentários: Spring. 1931) e a que. as lacunas do poema acabam funcionando como signos da ausência. Esse aspecto da literatura se põe em evidência de 6. que escolhe e reúne os elementos em virtude dequalquer similaridade (fonológica.. Mas é a presunção de unidade ± este segundo nível de integração ± que faz que surjam as dissonâncias e se produzam muitos efeitos literários deste gênero. com os códigos e modelos pelos quais a literatura permite aos leitores interpretar o mundo. 145). a idéia de uma relação entre a languidez da estação. através disso. transformá-los.y domina a ficçãopoética da linguagem. em conseqüência. da carência.] O resultado desta estruturação ± efeito propriamente literário ± consiste em fazer funcionar a capacidade da linguagem para produzir pensamento. por exemplo. e criar uma estrutura de conjunto.. o sabor da interpretação consista em buscar e demonstrar essa unidade.como o quiasmo) localizável em todos os níveis (Jakobson. conta algo interessante sobre sua própria atividade . se trata de definir a relação entre as dimensões constatativas e performativas do texto ± a relação entre o que ele diz e o que ele faz -. Em suma. 1972) ou pode se interpretado como uma alegoria da leitura. os soluços e talvez os ventos violentos que podem gemer como violinos. declara um ilustre representante do New Criticism4 norte-americano (Brooks. as repetiçõesde sons e de estruturas rítmicasProduzem aproximações nos níveis semântico e temático: Les sanglots longs Des violons De l¶automne Blessent mon caeur D¶une langueur Monotone [Os grandes soluços/ Dos violinos/ Do outono/ Ferem meu coração/ com uma languidez/ Monótona. O essencial é que se suponha esta unidade e engendre um esforçopara perceber como um momento ou um elemento do texto pode relacionar-se com outros. é uma das noções fundamentais da literariedade. o texto literário oferece sempre um comentário sobre uma leitura implícita (Iser. A possibilidade de ler um texto literário como uma reflexão sobre sua própria natureza e sobre a natureza da literatura. 1947. ³Papyrus´. ³a similaridade se converte no procedimento constitutivo da seqüência´ (Jakobson. faz da literatura um discurso auto-reflexivo. é freqüente tropeçar em dificuldades. mas a suposição da unidade faz que apareçamtensões e até contradições entre os elementos ou entre as estruturas em diferentes níveis. As comparações criam a idéia. significa: faz que se veja que a oposição entre ser e significação é mais complicada doque se supunha anteriormente.3): a literatura. Neste nível. de Verlaine. ³A poem should not mean. mediante o jogo das conotações e a apresentação irônica dos discursos (os discursos do cotidiano e os discursos da literatura anterior). Na ³Chanson d¶automne´. morfológica. 1960. A linguagem da poesia procura os meios para o questionamento de proposições simplistas. a primeira classe de integração é a produção de efeitos semânticos e temáticos mediante estruturas formais.

mas rejeita também a análise literária a partir de contextos sociais ou culturais. Neste sentido. Mas.org/wiki/New_Criticism (N. que ³I like Ike´ (1960.Um dos conceitos mais conhecidos destes teóricos é o Close Reading.a psicanálise. se poderia na eleição do tema um comentário sobre o lirismo hoje.] Os diversos dados mudam de aspecto. a natureza da linguagem e dos fenômenos culturais exige essa alternância de perspectivas: só em relação a um conjunto de convenções. Temos que observar que em toda uma série de investigações teóricas atuais ± em campos tão diferentes como a antropologia. como se o carro tivesse vontade própria. está claro que a noção de literariedade é uma função das relações diferenciais do discurso literário e de outros discursos. Se se toma um fragmento de prosa periodística e se dispõe em uma página em forma de poema. é como uma série de marcas ou uma seqüência sonora estão dotadas de propriedades. essa alternância de perspectivas cria problemas para uma delimitação da literatura. 1955). Na realidade. 7 Hier sur la Nationale sept Une automobile Roulant à cent à l¶heure s¶est jeteé Sur un platane Ses quatre occupants ont été Tués. Estas duas perspectivas não são de modo algum idênticas.357). Estas interpretações literárias são o resultado de uma orientação crítica que contempla esse discurso como se fosse literatura. em um ou outro nível. a filosofia e a história . Mas para voltar às formas mais familiares que traduzem a prática mediante a qual os autores buscam renovar e fazer progredir a literatura. e nisto. esta éuma crítica da literatura ± da noção de literatura que ele herda-. mais que uma qualidade intrínseca. moreno/loiro. É como se cada procedimento e cada espécie dee strutura que poderiam parecer essencialmente literários. por exemplo. em conseqüência. nem tampouco se pode supor que estejam em contradição.wikipedia. Não obstante. Por uma parte. a literariedade é um tipo de reflexividade. e se escuta o ³esmagamento´ do plátano.y significativa. Os estudos de Sigmund Freud e de Jacques Lacan demonstraram.têm encontrado uma certa literariedade em fenômenos não literários.Jakobson mesmo cita como exemplo da função poética da linguagem um lema norte-americano da campanha presidencial de Eisenhower em 1954. sol/lua) da temática literária. como se fosse inevitável. mas que são uma função das novas convenções que se aplicam a ele:4 O New Criticism é um movimento inicial da teoria literária surgido nos anos 20 nos Estados Unidos. lógica que se parece com o jogo de oposições (macho/fêmea. até quando não se trata esse discurso como se fosse literatura. O estilo de reportagem e a escassez de detalhes podem inclusive indicar uma atitude de resignação. . Rompe com biografismo da crítica de então. na estrada nacional sete. cada vez que se identifica uma certa literariedade. o papel constitutivo no funcionamento da psique de uma lógica da significação mais diretamente observável na poesia. 1969. ³I Like Ike´ [Eu gosto do Ike]: há aqui uma repetição paronomástica muito acentuada na qual o sujeito do gosto e o objeto do gosto estão inteiramente envoltos pelo ato de gostar (Likecontém I e Ike). Jacques Derrida mostra a centralidade inquestionável da metáfora no discurso filosófico. Claude-Levi Strauss descreveu uma lógica do concreto que atua nos mitos e no totemismo. as investigações recentes indicam que há sempre aspectos do funcionamento do texto que escapam àreflexão ou à definição./Um automóvel/ A cem por hora lançou-se/Contra um plátano/Seus quatro ocupantes foram/Mortos. ³Ontem´ já não se relaciona somente com uma data. Por isso dizemos que se enquadra na Corrente Textualista dos estudos literários.Colhida em: http://pt.T) . essa perseguição do absoluto literário é de certa maneira o fracasso (Blanchot.terrestre/celeste. em um o outro nível. não extraordinário. em que a tragédia adquire esta forma banal. Precisamente porque isso é possível. leitura analítica e minuciosa do texto preconizada por Elliot. 150) [Ontem. mas com todos os ³ontens´ e. Ele propõe a separação do texto edo autor a fim de que o texto que seja objeto em si mesmo. 7. vemos surgir algumas qualidadesque estão no texto. inscrito até na língua. Em outro nível. ³Lançou-se´ adquire uma nova força. por outro lado. (Genette. Isto não quer dizer que se explique o texto inteiramente ou se domine plenamente: pelo contrário. se constata que estes tipos de organizações encontram-se em outros discursos. o tema profundo da literatura sempre é a impossibilidade da literatura. é necessário refletir sobre o que é literariedade. O atual debate sobre literariedade oscila entre uma definição das propriedades dos textos (da organização do texto) e uma definição das convenções e pressupostos com os quais se aborda o texto literário. conota um acontecimento freqüente.

Smith entende que ao escrever A Morte de Ivan Ilich Tolstoi ³faz crer que escreve uma biografia.crônicas. O teórico espanhol Martinez-Bonati vai mais longe que os signos chamados lingüísticos de uma obra na realidade são imitações fictícias.E jazigo não há que mais mortos possua. a obra literária é imitação de um ato de linguagem ³sério´. 8.Sou como um camarim onde há rosas fanadas. em um romance. vermes atrevidos Andam sempre a irritar meus mortos mais queridos. em vez de dizerem que a obras e refere a um mundo de ficção. 30).Eu sou um cemitério odiado pela lua. Mas estas observações não minimizam a importância dos esforços para definir as relações da literatura com a realidade. de descrever os personagens e de referir-se aos lugares é que é fictício. 8verso de ³Spleen´ de Baudelaire. mas na verdade fabrica Uma cômoda imensa atulhada de planos. João está ansioso por agradar] ± como fazem toda parábola e todo cenário hipotético. Por esta perspectiva. memórias. objetos e acontecimentos aos quais se referem. 1978. um fantástico porão. Enunciados que pertencem à lingüística e à filosofia põem em cena personagens fictícios ± Leroi actuel de la France est chauve. romances escrituras. a batalha de Waterloo. ³A ficcionalidade essencial das obras literárias não se há de descobrir na ausência de realidade dos personagens.y encontram-se também em outros discursos. situações e acontecimentos imaginários. dos signos propriamente lingüísticos (1981. Há romances que efetivamente ³nos levam a crer´ que são biografias ou coleções de cartas. o sentimento de ciúmes de um menino mimado etc. Como ato de linguagem. cartas de amor. dos atos de linguagem ³sérios´.Onde. 11).Onde os tristes pastéis de um Boucher . a busca da literariedade nos mostra até que ponto a literariedade pode iluminar outros fenômenos culturais e revelar mecanismos semióticos fundamentais. A mimese da literatura não consistiria tanto na imitação dos personagens e dos acontecimentos como na imitação dos discursos ³naturais´. posto que as obras literárias também põem em cena realidades históricas e psicológicas ± Napoleão. don Quixote e Hans Castorp não existam. 1978. a ficção se entende em relação com o ³discurso natural´ou não fictício o qual imita6.. Os romances seriam as instâncias fictícias de diversos tipos de livros . Podemos então dizer que a obra se refere mais a um mundo possível entre vários mundos possíveis do que a um mundo imaginário.Guarda menos segredos que o meu coração.Em meio a um turbilhão de modas já passadas. Mas esta concepção de literatura como ficção não é de todo exata. querem dizer que o ato de referência é em si fictício. um ³eu´ de um poema não designa tampouco um indivíduo empírico em um dado momento. biografias. representada por velhos lemas como a fórmula de Sir Philip Sydney segundo a qual ³o poeta não afirma nada e portanto não mente´. Onovelista ³faz crer que escreve uma biografia. que abarca os narradores e os leitores implícitos. põem a tônica em uma relação particular do discurso com a realidade: estas proposições referem-se a pessoas e acontecimentos imaginários mais que históricos. John is eager to please [O rei atual da França é calvo. é o ato de narrar os acontecimentos. etc. Não é [dizer] unicamente que Anna Karenina. mas na realidade do próprio ato de referência´ (Smith.É uma pirâmide. na qual o locutor é responsável pelas proposições que emite. queconta feitos etc. mas um sujeito criado no e pelo poema: ³J ai plus de souvenirs que si j avais mille ans´5. Esta constatação seria desesperante se o objetivo das investigações sobre a natureza da literatura consistisse unicamente em distinguir a literatura do que não é. e não verdadeiramente lingüísticas. alguns teóricos.Versos. pelas promessas que fez. A ficcionalidade não se limita a personagens. a obra literária é um acontecimento semântico: projeta um mundo imaginário. Assim. o primeiro5 SPLEEN Eu tenho mais recordações do que há em mil anos. A outra concepção da literariedade. diários. a ficcionalidade não é de modo algum a qualidade essencial que distingue um romance de uma biografia. não é uma proposição sobre o Charles Baudelaire que escreveu Flores de Mal. as condições de trabalho dos trabalhadores das minas. histórias e até coleções de cartas. Este caminho não consegue captar o critério distintivo da literatura haja vista que no discurso há outras instâncias da ficção. mas o que faz é fabricar uma´ (Smith. ou que põem em cena um personagem que simula contar sua vida.Neste sentido. O romance representa o ato de alguém que descreve.81).Com grossos cachos de cabelo entre as faturas. ma na maior parte dos casos o texto literários. mas à medida em que a finalidade consiste em identificar o que é importante na literatura. Para expor melhor as implicações desta ficcionalidade. como remorsos.

Uma esfinge que o mundo ignora. se relaciona com condições específicas. Martinez-Bonati refere-se também a modos de discurso da ficção que não são a imitação de um ato cotidiano supostamente ³real´ (1981. Käte Hamburger (1968) distingue a literatura dos demais discursos pela capacidade que ela tem de apresentar um mundo.. 148).edição. Nesta classe. mas no fato de que seja ³contável´ [tellable] (1977.Quando. às vezes decidimos [coisas] muitos apressadamente que os detalhes e as digressões do relato que alguém nos faz não são pertinentes e que nosso interlocutor viola o princípio da cooperatividade. há boas razões para supor que a literatura não é uma imitação fictícia dos atos de linguagem não fictícios e ³sérios´.frente a estes relatos.ontem. Mas em literatura. mas da maneira que os elementos do relato se sucedem e se vinculam para formar um todo segundo os modelos do gênero literário.6 Observamos uma situação peculiar na qual os teóricos da literatura ou da literariedade como ficção definem a literatura como imitação de um discurso não fictício.O tédio.br/edterranova/baudelapoe76. os relatos literários se beneficiam dos mecanismos da seleção . em particular. ³Morgen war Weihnachten´ [Amanhã era natal]. aqui. e cujo áspero humor Canta apenas os raios do sol a se pôr. lá. anormais e digressivos. Longe de fabricar um escrito que pareça uma biografia. sob o rigor das brancas invernias.y desbotado Ainda aspiram o odor de um frasco destampado. descuidoso. naturalmente vemos o mundo segundo o seu ponto de vista. Mary Louise Pratt. contar uma história.Teríamos que acumular .Assume as proporções da própria eternidade.interessantes. O indício desta literariedade é um tipo de frase propriamente literária. crítica literária. mas um ato de linguagem específico como. Quando o relato literário parece que não obedece às regras da comunicação eficaz. qual é a relação entre estes atos De linguagem do relato literário e dos relatos não literários? Pergunta essencial para uma literatura vinculada à ficcionalidade. Ilich está escrito em terceira pessoa e.A dormir nos confins de um Saara brumoso.Esquecida no mapa. em geral. ³um princípio de cooperatividade hiperprotegida´ [hyper-protected cooperativa principle] e permitem ao leitor acreditar que podem resultar dele uma comunicação interessante. Assim. insiste na importância que teria contemplar as narrações literárias como membros de uma classe de ³textos narrativos de exibição´[narrative display texts] .Em nossas relações cotidianas. na qual os elementos dêiticos (manhã. 9.Fonte: http://geocities.Nada iguala o arrastar-se dos trôpegos dias. 9uma´.Tolstoi vale-se de procedimentos que seriam ilegítimos em uma biografia e que são próprios do romance. que se opõe à idéia de uma linguagem literária distinta.Doravante hás de ser.com. Mas quais são essas condições e. destinados a divertir. classe que abarcaria a todo relato de acontecimentos apresentados como insólitos. Por este caminho chegamos a uma conclusão que já foi abordada no princípio de outra forma: que o discurso literário para possuir condições de enunciação diferentes de outros atos lingüísticos. a partir do ponto de vista de um personagem que está representando em terceira pessoa. e seguimos o ponto devista do protagonista no momento de sua morte. por exemplo) mostram que temos de compreendê-los em relação ao discurso literário. pressupõe-se que nosso interlocutor se coloca em uma atitude decooperação e que sua resposta será pertinente com respeito à questão proposta (se me convidam ao cinema e eu respondo ³faz um bom dia´. A inteligibilidade da história não dependerá da uma causalidade científica. você) estão definidos em relação a uma subjetividade (do personagem) que está situado no passado ?? ma no presente da enunciação.htm em 16/3/2006. taciturno exílio da vontade. o princípio de cooperatividade nos autoriza a encontrar a pertinência dessa resposta). incluída a experiência anterior. este princípio está ³hiper-protegido´. ó pobre e humano escombro!Um granito açoitado por ondas de assombro. ensino ± que criam. Para compreender este princípio de cooperatividade. 104). Este é outro exemplo de um campo em que os discursos literários funcionam segundo estruturas e procedimentos que se manifestam maisexplicitamente na literatura. temos que notar que se pressupõe uma cooperação que sustenta e faz possível acomunicação comum: assim. no sentido de que pressupomos a pertinência e o valor dos momentos obscuros. é que está a serviço de uma comunicação diferente e indireta. e nos quais se consideraria que o destinatário reconhece que a pertinência do relato não está nas informações que este propõe.yahoo. e os analistas dos discursos não fictícios (o relato da Historia. por exemplo. embora ao contrário Tolstoi não simula nada.

Tradução: Manoel Francisco Guaranha. vemos que uma discussão sobre a ficcionalidade dos atos literários de linguagem nos levam aessas pressuposições da literariedade que nos fazem buscar e encontrar na obra uma organização complexa e intensa da linguagem. . Madrid: Siglo veintiuno editores: 1993.In ANGENOT. Em suma. Isto não quer dizer que tenhamos resolvido o problema da literariedade. complexo. Marc et alii. Portanto. não encontramos um critério distintivo o suficiente que possa definir. ³valerá a pena´ ouvi-lo ou lê-lo. 36-50. terá uma unidade e demais propriedades da literariedade das quais nos ocupamos anteriormente. o que distingue A Morte em Veneza do relato da morte de um homem mais velho que desejava um rapaz é sobretudo que temos boas razões para supor que o primeiro relato será mais rico. pp. Teoria Literaria.umaimensa soma de incompreensões e de frustrações frente a um texto para que podermos decidir que não hásolicitação de comunicação cooperativa. pois em literatura até a impertinência dos detalhes pode ser um componente significativo da arte. o que significa simplesmente que todas as buscas que procura isolar os elementos e as convenções determinantes para produzir literatura coincidem e propõem juntas meios importantes para os estudos literários.

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