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16 Novembro 2008 - 23h25

Entrevista

“Se o Governo suspendesse a avaliação seria uma vergonha”
Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da Educação, não conhece uma única escola em que a avaliação de professores esteja suspensa. “Uma vergonha” é como classifica uma eventual decisão do Governo que levasse à suspensão do processo. Correio da Manhã/Rádio Clube – Em três anos e meio de governação esta foi a pior semana que passou? - Não sei dizer. Não me recordo se foi a pior semana.
Sérgio Lemos

ARF – Os alunos estiveram nas ruas, em manifestações selvagens, convocadas por SMS, contra o regime de faltas, não querem exames, os professores não querem ser avaliados ou estão a contestar a este modelo. Ninguém quer nada na Educação? Está tudo contra na Educação? Será sito assim? - Não podemos dizer que é tudo. Penso que há sempre em todas as matérias, em todos os sectores, diferentes pontos de vista, diferentes posições e opiniões até. Todos somos livres de exprimir esses nossos pontos de vista, essas nossas opiniões, das mais diversas formas. Eu tenho que lhe confessar que o que vi em relação aos alunos não gostei. Ninguém gosta de ver. Há muitas outras formas que felizmente a vida democrática nos trouxe. ARF – Também acha que são grupos radicais que estão a manipular os estudantes? - Eu acho que há uma tentativa de envolvimento da questão dos alunos, misturar essa questão com outras questões. Acho que há uma tentativa de envolvimento que me desagrada e que me preocupa. ARF - Uma aluna explicou que estava numa aula, o professor criticou o regime de faltas e eles decidiram fazer um cartaz e manifestar-se. Isto é normal acontecer num País democrático? - Não, não é normal. O que caracteriza a democracia é justamente um quadro de regras muito claro, com a possibilidade de participação e mudança das regras nas situações próprias. E, portanto, não acho normal, também não gosto do que vejo. Mas eu vi com atenção o que os alunos têm vindo a reclamar. E há um aspecto ao qual eu sou bastante sensível. ARF – Qual? - Quando um aluno me refere que na sua escola as faltas por doença são tratadas em termos dos efeitos da mesma forma que as faltas por outra razão qualquer isso não está correcto. Não é esse o espírito do Estatuto do Aluno. N. D. – Foi deturpado o espírito? - Repare. Não é esse o espírito. O Estatuto do Aluno é uma lei que tem de ter tradução nos regulamentos internos das escolas. Eu mandei já fazer o levantamento dos regulamentos internos das escolas, já tínhamos aliás sido alertados pela CONFAP, e mandámos fazer uma verificação de todos os regulamentos internos para ver em que casos é que há um desvio tal daquilo que é o espírito da lei. E, portanto, estou eu própria disponível para analisar essa situação. Estou, aliás, a analisar a situação porque isso não é aceitável. Isso foge completamente ao espírito da lei, tem de ser corrigida. ARF – Falando da avaliação dos professores. Eles querem ser mesmo avaliados? Ou toda esta contestação à lei, à burocracia é apenas um pretexto? - Acho que há muitos professores que querem ser avaliados. E tenho sublinhado que há milhares de professores que ao longo destes meses, desde Janeiro, nas nossas escolas a trabalhar para desenvolver as metodologias e os instrumentos de avaliação que são necessários. Eu diria que não se pode generalizar. Há milhares de professores que já foram avaliados o ano passado, muitos milhares

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que têm em curso a sua avaliação já este ano e portanto, concordando ou não com o modelo, concordando ou não com a legislação, o que é facto é que há milhares de professores a avaliar, milhares de professores a ser avaliados, que já o foram o ano passado. Acho que não podemos generalizar, embora esteja criado um clima em que se dá a ideia de que está tudo parado e que as escolas não estão a trabalhar. ARF – A FENPROF fala em 124 escolas em que a avaliação está suspensa. - Sim, mas a semana passada a mesma FENPROF referia 500 a 600. Não sei, são números. Nós não temos indicação no Ministério da Educação. A indicação que temos é que todas as escolas estão inscritas na plataforma, estão a trabalhar, definiram os objectivos e essas são as indicações válidas para nós. Não temos nenhuma informação de conselhos executivos dizendo que não estão a fazer, pelo contrário, as informações que temos são as de que estão a fazer. N. D. – E o que é que vai acontecer aos professores que não forem avaliados porque a avaliação é suspensa, é autosuspensa pelas próprias escolas? - Vamos lá ver. Não há nenhuma escola que tenha o direito de suspender a avaliação. A avaliação é um dever, mas também é um direito. Todos os professores têm direito à sua avaliação. É preciso entender isto. E quem pode garantir o cumprimento deste dever e o acesso a este direito é o director da escola, presidente do conselho executivo. Tem o dever de o fazer. N. D. – Mas se ele a suspender? - Não há nenhum caso de suspensão. E se houver um caso de suspensão o Ministério da Educação tem que intervir. Porque têm de ser dadas as garantias a todos os professores de que a sua avaliação será cumprida. N. D. – O Ministério chama a si o processo, a tal centralização? - Não é nenhuma centralização, porque a escola continuará no sítio onde está e há regras que estão estabelecidas quando cai uma direcção de uma escola. Toda a gente as conhece. São coisas que acontecem muitas vezes ao longo do ano. Não se dá é notícia disso, porque isso não é notícia. Mas não nenhum caso de um presidente de um conselho executivo que se recuse a fazer a avaliação. O que temos são moções, abaixoassinados apresentados pelas escolas ou por grupos de professores dizendo que votaram. Bom. Mas votaram, exprimiram a sua opinião. Nós somos todos livres de exprimir a nossa opinião. Isso não significa nada em termos da avaliação. A avaliação está a decorrer como vinha a decorrer até ao momento em que se desenvolveu este conflito. E, portanto, a avaliação tem de se desenvolver em todas as escolas. ARF – Como é que explica que os professores tenham vindo para a rua duas vezes, uma com 100 mil, outra com 120 mil? Não são muitos contra si? Só pela burocracia da avaliação. - Também os professores são muitos. Não tem no País outra instituição empregadora com a dimensão do Ministério da Educação. Portanto acho que isso é natural. N. D. – Está disposta a reduzir a burocracia nos casos em que isso esteja a acontecer? - Eu estou disponível para apoiar, para fazer. Para desistir, não. Encontrar pretextos para não fazer nós encontramos em todos os processos. Sempre. Encontramos sempre desculpas para não fazer. Há sempre qualquer coisa que nos incomoda, o melhor é desistir. E isso não acho que seja a atitude correcta. A atitude correcta é perante as dificuldades ver o que podemos fazer para as ultrapassar. ARF – Neste momento há uma ruptura total com o movimento sindical? - Não da nossa parte. ARF – Mas há de facto uma ruptura. Não é da parte do Ministério mas dos sindicatos, que dizem que já não vale a pena falar consigo. - Os sindicatos colocaram na agenda a necessidade de suspender, de não fazer. Para substituir por outro modelo. E isto tem sido muito dito como se a história dos modelos de avaliação fosse uma espécie de pronto-a-vestir. Não quero este casaco, agora vou lá buscar outro. Mas isto não é assim. Este modelo de avaliação demorou dois anos a construir, a negociar com os sindicatos, são processos demorados, ser desenhado. E portanto não é possível agora dizer abandonamos este porque há aí outro disponível. Não há. O único disponível era o modelo antigo, que também não queremos. E portanto o que temos é de fazer o esforço de fazer e depois corrigir. N. D. – Só aceita propostas de forem para aperfeiçoar este modelo? - Aperfeiçoar. ARF – Alguém lhe apresentou outro modelo de avaliação? - Não. N. D. – Os sindicatos dizem que lhe apresentaram. - Não. O que os sindicatos apresentaram está na página da FENPROF e pode ser consultado. Apresentaram no dia 14 de Abril. Mas repare. A 14

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de Abril tinha passado muito tempo porque nós começámos a trabalhar no modelo de avaliação em 2006. No dia 14 de Abril apresentaram uma proposta daquilo que pode vir a ser um modelo de avaliação. O que é absolutamente inaceitável. Porque aquilo que prevê é que os professores se avaliem uns aos outros, uma confusão que nem percebo a que princípios é que aquilo, aquela proposta obedece. É uma coisa feita à pressa, para poderem dizer que apresentaram qualquer coisa. Porque de facto nestes dois anos não houve propostas concretas. N. D. – Este modelo vai ser avaliado? - Com certeza. Repare. Vamos ter a OCDE a avaliar o modelo, temos o conselho científico a avaliar o modelo, temos a comissão paritária, onde participam os sindicatos, temos um sistema de informação que nos permite conhecer em pormenor o que foi feito pelas escolas. É muito fácil no final, ouvindo também as escolas e os professores, mudar. E isto pode ser feito tranquilamente porquê? Porque esta avaliação neste ciclo não trará nenhum prejuízo para professor nenhum. Só discrimina positivamente. Todos os professores que tenham uma eventual nota negativa vêem suspensos os efeitos negativos. Podem repetir. Isto significa que só discrimina positivamente, Ora um modelo de avaliação que só discrimina positivamente, que garante a progressão a todos, outra coisa que não existe. Portanto, garantias aos professores não é possível dar mais porque isto já são garantias muito superiores às que se deram, por exemplo, na administração pública. E é isto também que me tranquiliza. É esta percepção que tenho de que estou a fazer o meu melhor também pelos professores. Apesar daquilo que se divulga, de que se está a fazer muito mal aos professores. Eu não tenho essa percepção. ARF - A situação da avaliação dos professores é bastante complexa. Na Madeira o presidente do Governo Regional classificou todos os professores com Bom através de uma portaria. Nos Açores também não se aplica a avaliação. Acha esta situação aceitável? – Há outras diferenças entre as Regiões e o Continente. Há um espaço grande de autonomia em matéria de regiões que deve ser respeitada. Questões podem vir a colocar-se no futuro quando, para efeitos de recrutamento e colocação de professores, ficarem em pé de desigualdade. ARF – Em pé de desigualdade? - Em pé de desigualdade em relação aos modelos de avaliação. Mas isso é uma questão que temos de ver. ARF – Mas como é que classifica politicamente esta decisão do doutor Alberto João Jardim de dar Bom a todos os professores. Isso não é um retrocesso? - Eu considero ofensivo. ARF – Mas ofensivo para quem? - Ofensivo para os professores. É. Considero ofensivo. Porque os professores têm direito à sua avaliação. Eu considero a avaliação não apenas um dever como um direito, como já disse. Acho que os professores não têm nenhuma razão para não serem avaliados por um método que seja transparente e rigoroso e que reconheça as competências que efectivamente têm. Não me parece que fazê-lo por portaria seja o método adequado. N.D. – Uma das coisas que está escrita no programa do Governo é que a avaliação devia ser acompanhada de medidas que aumentassem a motivação e autoestima dos professores. Não está a ter o efeito contrário? - Talvez. Não sei dizer. N. D. – Não estão a faltar as tais medidas? Que medidas podem ser essas? Não só os professores o dizem como já há alunos a dizerem que sentem que os professores não estão motivados. - Nós fizemos um conjunto de mudanças muito drásticas, muito pesadas até. Penso que a mais penalizadora é a que tem que ver com a alteração das condições de reforma e pré-reforma até, associada ao facto de termos regulamentado a componente não lectiva faz com que os professores estejam muito mais tempo nas escolas. E quando digo isto é muitas vezes interpretado como sendo um ataque aos professores. Que antes não trabalhavam e agora trabalham. Mas não é. O quadro de regras fazia com que os professores no início de carreira tivessem uma sobrededicação à escola, andavam, como se via muitas vezes aí nas reportagens, de terra para terra, eram exigidos muitos sacrifícios, sendo a compensação no final da carreira poder haver um certo afastamento. Isto era a organização da carreira. Não tem nada que ver com qualidades pessoais dos professores. Não tem nada que ver com isso. Ou com a avaliação se trabalhavam ou não. Nós alterámos essas regras. Dissemos que é necessário que os funcionários públicos todos se aposentem mais tarde e no caso dos professores é necessário que as horas de componente não lectiva, de desgaste da profissão sobretudo, revertam para trabalhos de estabelecimento, para acompanhamento dos alunos para podermos recuperar os resultados escolares. E isto alterou a vida das pessoas. Esta é que é a questão. É que alterou a vida das pessoas. Que tinham expectativas de reorganização da vida a partir da aposentação. Que tinham as suas vidas organizadas em função de um quadro de regras que muda. E isto evidentemente eu consigo perceber que as pessoas fiquem desmotivadas e que estejam cansadas, sobretudo nestas faixas etárias em que as pessoas têm uma carreira já muito longa. ARF – Os alunos hoje estão melhor servidos? Os alunos hoje têm melhores professores, têm melhor escola? - Eu acho que seguramente têm mais tempo de trabalho, seguramente mais tempo de trabalho na escola, têm, foi possível com estas medidas estabelecer em cada escola o regime de substituição de aulas. ARF – Outro assunto muito contestado.

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- Sim, foi muito contestado na altura. Também foi uma medida que foi lançada apostando na iniciativa das escolas e que hoje, no início houve muita confusão porque umas escolas fizeram de uma maneira e outras de outra, e hoje ninguém fala disso. Porquê? Porque os professores encontraram um método de o fazer de uma forma confortável. Servindo todos. Os alunos têm o acompanhamento que é necessário e os professores podem, tendo um médico, um acompanhamento de um filho, qualquer coisa, qualquer motivo que justifique a sua ausência não precisam de ser penalizados por causa disso. E, portanto, eu acho que muitas vezes é preciso encontrar soluções deste tipo. Soluções que permitam resolver o problema de uma forma que seja confortável. O que penso é que os alunos hoje têm mais tempo de trabalho na escola e que os resultados mostram isso. Nós temos mais alunos, temos o mesmo numero de professores basicamente. Temos mais alunos, temos melhores resultados também, temos mais tempo de trabalho e mais actividades. Sobretudo na área da matemática e do português. ARF – Melhores resultados? A oposição e os sindicatos dizem que os melhores resultados também são uma forma de o Ministério ter resolvido alguma estatística, com provas mais fáceis, nomeadamente a matemática, para que apareçam notas melhores e resultados mais positivos. - Não é o Governo que faz os exames nem que faz essas avaliações. Não é o Governo, nem tem sequer nenhuma possibilidade de interferir nessa área. Se perguntar a qualquer ministro da Educação, a qualquer secretário de Estado dir-lhe-á quais são as condições que um membro do Governo tem para interferir nessa matéria. Nenhuma. Nenhumas condições. E, portanto, são feitos por equipas técnicas, por professores, grupos de professores. Nós podemos repensar e melhoramos muito as condições em que os exames são feitos. Procuramos dar condições a essas equipas para fazerem testes de aferição, para controlarem a qualidade. E tivemos, pela primeira vez em muitos anos, exames sem nenhum erro científico, pelo menos. Progressivamente as coisas vão melhorando. E pode discutir-se muito isso, mas aquilo que é facto é que nós tivemos melhoria de resultados em todos os anos de escolaridade, com ou sem exame, e em todos os níveis de ensino. E de uma forma consistente. E, aliás, isto já assim é há muitos anos. Não é de agora. Nós não podemos, ao mesmo tempo que temos uma política educativa que procura cumprir aquilo que são recomendações de organizações internacionais, como a OCDE...Há muitos anos que a OCDE recomenda ao País que crie cursos profissionais, há muitos anos que recomenda ao País que encerre as escolas do insucesso, há muitos anos que recomenda ao País que dê uma atenção particular ao ensino da matemática. E depois, no momento em que o País faz, lança essas medidas e começa a ter resultados, os mesmos críticos, que sempre invocavam a OCDE, por exemplo, para apontar como o País estava mal na matemática, se esqueçam que aquilo que se está a fazer é justamente a seguir as recomendações da mesma. E, portanto, é um bocadinho o dilema em que estamos e um discurso muito inimigo do progresso, na minha opinião. Inimigo até da acção e da possibilidade que temos de acreditar. ARF – É o discurso da oposição de uma maneira geral. O PSD neste momento recebe os professores nos dias de manifestações. Como é que a senhora ministra, que está a olhar para isto tudo, vê esta atitude do PSD, que é o maior partido da oposição e que é alternativa normal de Governo? - Sinceramente acho um pouco irresponsável. ARF – Porquê? - Aliás isso foi para mim surpreendente no dia da última manifestação, de dia 8 de Novembro. Quando com toda a clareza, para não chamar outra coisa, o dirigente sindical da FENPROF dizia “não, fizemos agora porque é ano de eleições e o Governo não resistirá a ceder”. Está tudo dito. N. D. - Vai contrariá-lo? - Eu não quis dizer com isto que todos os professores foram manipulados. Nada disso. Os professores têm razões que eu compreendo para a sua insatisfação e para manifestar essa insatisfação. Não é nada disso. O que eu quero dizer é que do ponto de vista das instituições do sistema político-partidário, os sindicatos, os partidos políticos há aqui de facto um oportunismo político de teste ao Governo. Vamos ver. Porque não há muitos meses o PSD estava de acordo em que era absolutamente necessário fazer esta avaliação. Muda por razões eleitoralistas. O sindicato também achava que era possível ter um acordo com o Governo e muda por razões eleitoralistas. ARF – Há um exemplo que é referido pelos dirigentes sindicais e também pelos dirigentes da oposição. Quando na Saúde houve uma grande contestação à política do ex-ministro Correia de Campos acontece que foi remodelado, as coisas acalmaram. E na Educação estão a fazer um forcing grande, porque como é ano de eleições provavelmente a ministra pode ser remodelada e isto pára tudo. Pelo menos até ao próximo Governo. Também percebe esta lógica. Anda na política há muitos anos. - Percebo. ARF – Vai resistir desta vez? O ministro da Saúde não resistiu. A senhora ministra não sabe se vai resistir. - Nunca ninguém sabe. Quem sabe o dia de amanhã? Por mim a minha determinação é cumprir o programa do Governo. É esse o meu compromisso. Cumprir o programa do Governo. ARF- Mas há um dirigente do PS, o doutor António Costa, que esta semana referia-se a esta polémica na Educação e dizia que à conta disto o PS provavelmente perde a maioria absoluta. Ou seja, a culpada é a senhora, que é uma ministra independente. - Mas ouviu bem o que disse o ministro António Costa, o presidente da Câmara António Costa? Ouviu bem? ARF – Ouvi.

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- Ele disse: é provável que isto tenha um impacto eleitoral. Penso que foi nestes termos que ele se referiu. É provável que tenha um impacto eleitoral, eventualmente negativo para o PS. Mas a avaliação tem que continuar. Claríssimo. Penso que com isto todos concordamos. É provável que tenha um impacto eleitoral. ARF – Negativo. - Mas tem que se fazer. E essa é que é a questão. Os portugueses querem ou não? Qual era a situação, perante o País, se o Governo decidisse suspender ou não fazer a avaliação? Era uma vergonha. Isso não se coloca, não está em cima da mesa. Há custos eleitorais. Bom. Vamos ver. ARF – Se de facto acontecesse esse cenário que a senhora ministra está a pôr, que era o Governo decidir suspender a avaliação, bem, isso aí caía tudo na rua. Porque eu também queria que suspendessem os impostos, provavelmente. - Acho que as leis não são para submeter a referendo. As leis são para cumprir. Ninguém pergunta aos portugueses se querem pagar os impostos. ARF – Há outro dirigente do PS que diz que estava já farto, referindo-se a si, do quero, posso e mando da senhora ministra da Educação. Manuel Alegre referiu-se a si dessa maneira. - Mas eu já respondi. Já reagi. Não valorizo essas críticas porque elas são desajustadas. Elas, sim, revelam uma certa arrogância de quem tem superioridade democrática de esquerda. E eu não reconheço de facto. N. D. – Em termos partidários sente o apoio do PS? Do grupo parlamentar, dos militantes? - Sim. Sou muito grata ao PS por criar condições para que a ministra da Educação possa fazer o que estamos a fazer. Porque a avaliação que faço, quando olho para a história da Educação dos últimos anos, acho que muitos ministros tiveram bons programas, boa vontade, boa visão, eu não considero que tenha uma visão ou mais esclarecida ou muito diferente, o que eu considero que são diferentes são as condições políticas para concretizar. ARF – Refere-se também a ministros do PS que não tiveram as condições que a senhora ministra agora tem? - São muitos os ministros da Educação. ARF – Eu sei que são muitos. - Quando olha do 25 de Abril para cá percebe. ARF – Está quase a bater um recorde. - O recorde não tem importância. O que considero de facto é que tivemos condições políticas para fazer. Portanto, a responsabilidade também é maior. Eu tenho grande estima por todos os ministros da Educação, porque considero que são todos em geral, homens e mulheres, honestos, que dedicaram parte da sua vida à causa pública da Educação. Não é fácil. Hoje sei que não é fácil por experiência própria. E a avaliação que faço é genuinamente esta. Em muitos casos não era possível. O País foi obrigado a recuar. E pagou caro isso. E portanto temos as condições políticas. E desse ponto de vista é muito bom que o PS esteja unido e que apoie a política de Educação. Tenho muitas manifestações de muito apoio, muito curiosas. N. D. – Isso quer dizer que se as condições políticas se mantivessem nas eleições do próximo ano aceitaria continuar no cargo? - Não depende de mim. Depende do senhor primeiro-ministro, do futuro primeiro-ministro. Nem faço cenários desses. Eu estou tão preocupada com o fazer agora... N. D. – Mas poderá demonstrar uma vontade ou não? - Não me preocupo com isso. Não me preocupo mesmo nada com o futuro. Eu tenho a minha carreira, tenho imensas saudades de dar aulas e, portanto, não estou nada, nada preocupada. Só estou preocupada em fazer agora e fazer bem o melhor possível. ARF – Nós todos assistimos, como jornalistas, no dia a dia, imaginamos também como será o dia a dia da senhora ministra, nunca lhe apeteceu, sinceramente, bater com a porta? - Estão-me sempre a perguntar isso. N.D. – Mas apetece-lhe ou não? - Vamos lá ver. Os ministros não são pessoas diferentes das outras. Têm talvez um pouco mais de responsabilidade. Porque tomam decisões que afectam a vida de muita gente. Mas no essencial são pessoas iguais às outras. E, portanto, é natural que tenham momentos de tristeza, de alegria, em que já tudo pesa e outros momentos de grande entusiasmo. Não considero que seja diferente este trabalho de outros trabalhos que já fiz que me entusiasmaram imenso e que também me pesaram.

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ARF – Alguns dos seus maiores críticos, dentro e fora do PS, são pessoas de esquerda ou partidos de esquerda. E os sindicatos que são normalmente ligados à esquerda ou a partidos políticos de esquerda. A senhora ministra é uma mulher de esquerda? Porque é tão atacada pela esquerda inteira, até a esquerda do PS, que é uma pergunta importante: considera-se uma mulher de esquerda? - Considero e acho que há a esquerda da retórica e a esquerda da acção. ARF – A esquerda da retórica é a que está neste momento a criticá-la? - Eu vejo discursos em defesa da escola pública e depois leio que são um conjunto de adjectivos, de ideias, nada de factos, que ignoram aquilo que se está a fazer em defesa da escola pública. Por exemplo, a escola pública é um tema que mobiliza muito a esquerda. ARF – Sim, sim. - Valorizar a escola pública. O que é que significa para esta esquerda que critica a escola a tempo inteiro, o alargamento da acção social escolar, refeições para todas as crianças do 1 º ciclo, transporte escolar, cursos profissionais em todas as escolas públicas, inglês para as crianças do 1 º ciclo, computadores individuais para os meninos do 1 º ciclo. O que é que isto significa? Nada. Nem uma palavra. E, portanto, eu acho que é uma esquerda que não apenas é a esquerda dos adjectivos, não sei exprimir de outra forma, como está capturada de uma visão que reduz a escola pública e a educação ao problema da condição dos professores. Estou a dizer-lhe com toda a sinceridade. ARF – Sim, em que os alunos são peça secundária do processo? - Eu considero porque não vejo uma palavra sobre aquilo que de facto são medidas laterais à questão da condição profissional dos professores que muito beneficiam os alunos e que são ignoradas. Não há uma palavra sobre essas medidas. E na minha opinião isso é que é o essencial da valorização da escola pública. É torna-la de qualidade, é fazer com que ela seja uma escola atractiva, de referência, igual aos melhores colégios, igual às melhores instituições de educação. Esse é o nosso esforço, é isso que temos de fazer pela escola pública. PERFIL Maria de Lurdes Reis Rodrigues nasceu em Lisboa no dia 19 de Março de 1956. Casada, licenciou-se em Sociologia no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa em 1984. Doutorou-se em Sociologia no mesmo Instituto em 1996 e fez provas de agregação no ISCTE em 2003. Presidente do conselho científico entre 2004 e 2005 da mesma escola, autora de várias obras científicas, foi escolhida por José Sócrates para ministra da Educação, cargo que ocupa desde Março de 2005, facto relevante numa pasta caracterizada por grande rotatividade desde a revolução de 25 de Abril de 1974.

António Ribeiro Ferreira, Correio da Manhã/ Nuno Domingues, Rádio Clube

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