Antônio Carlos Peixoto

PORTO BELO
Santa Catarina (1600 – 1700)
VOLUME II – ABANDONO

Rio de Janeiro – 2010

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Porto Belo – Santa Catarina (1600 – 1700) Copyright (c) – Antônio Carlos Peixoto, 2010 Volume II - Abandono Todos os direitos autorais reservados ao autor Proibida a reprodução não autorizada Peixoto, Antônio Carlos PORTO BELO – Santa Catarina (1600 – 1700) Volume II – Abandono I. História – Brasil I. Título PORTO BELO – Santa Catarina (1600 – 1700) I. Subtítulo - Abandono ISBN: ................................ 1a. Edição – Rio de Janeiro - 2010 Fundação Biblioteca Nacional Reg. ...............................

Edição: Jacyra Sant’Ana Revisão: Marco Antônio Corrêa Arte: Vladimir Calado Impressão: .................... Rio de Janeiro - RJ – 2010

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Dedico esta obra à minha filha Aratani

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Sofremos demasiado pelo pouco que nos falta e alegramo-nos pouco pelo muito que temos. (William Shakespeare)

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Apresentação
O que leva um advogado que atua no mercado de imóveis, sobrecarregado de trabalho, encontrar tempo para pesquisa e publicação de livros sobre a história da sua terra? Antônio Carlos Peixoto, Tonho para os amigos, encontrou espaço dentro de si para viver a realidade e o sonho. O dedicado pai de família, amoroso avô de Alícia, convive muito bem com o entusiasmado pesquisador e escritor. Ele é capaz de percorrer sebos em busca de obras raras sobre os primórdios de Santa Catarina e pagar por elas valores elevados. Com o maior prazer. Neste seu segundo livro, Tonho fala do período de abandono, em que a Coroa Portuguesa só se interessava pelos territórios ricos em jazidas de ouro ou próprios para a agricultura. A Enseada das Garoupas ficou intacta, com sua beleza estonteante. Nós, que hoje desfrutamos a calmaria dos verões em Porto Belo, louvamos aquele abandono interesseiro dos portugueses, que acabou preservando este pedacinho de terra e mar. Não é à toa que Porto Belo entrou para a rota dos transatlânticos e costuma receber milhares de turistas de todo o mundo nas altas temporadas. Conforme o relato do homem do mar Daniel Gonçalves, em 1683, reproduzido na obra de Antônio Carlos, “a enseada que chamam de Garoupas é muito grande e tem boca a leste e de largura duas léguas, limpa e toda ela navegável ... a entrada é limpa e muito funda, sem risco nenhum de ventos...” Com determinação e entusiasmo, o autor nos presenteia com mais este trabalho, a caminho de sua obra completa, os cinco volumes. Quem se importa com a história de seus antepassados tem muito mais chance de compreender a existência humana e garantir a felicidade no Planeta. Nícia Cherem Ribas (Jornalista, autora dos livros Histórias da Casa da Vó, Mais Histórias da Casa da Vó, Delícias da Casa da Vó e Entra, a Casa é Tua – Histórias da Casa de Tijucas e da Família Gallotti.)

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Prefácio
Depois de mais de uma década, finalmente consegui levar adiante a árdua, mas prazerosa ideia da publicação do meu primeiro livro. Finalmente consegui, mesmo tendo de superar algumas dificuldades, encontrar pessoas capacitadas para a edição, para a impressão etc. E quando a gente acha que está tudo pronto, depara-se com a burocracia estatal, como sempre morosa e protelatória. A princípio, a obra seria de apenas um só volume, que contaria a história de cinco séculos de Santa Catarina, principalmente da região onde nasci, Porto Belo e Tijucas, iniciando-se em 1500, com o descobrimento, e terminando no ano de 2000. Mas, seguindo conselho editorial, resolvi dividi-lo em cinco volumes, cada um com cem anos de história. Espero chegar ao final deste projeto, pois outros tenho a terminar, e poder reunir os cinco volumes, depois de publicados e revisados, em um único livro, este, sim, com objetivo comercial. O volume I desta obra, em circulação, trata do período entre o descobrimento, 1500/1600. Período farto na passagem de navegadores portugueses rumo à região do Rio da Prata. Neste segundo volume, uma nova etapa é abordada, que acredito ser uma das mais difíceis por se tratar do século denominado por muitos como o século do abandono, ou seja, o século XVII, quando Portugal deu as costas para o novo continente. Neste período, reinam absolutos, de norte a sul, jesuítas e bandeirantes, buscando a mão de obra do índio carijó para o estado de São Paulo e para o uso nas guerras contra os tupinambás. Na verdade, nesse período temos praticamente a consolidação da fundação das principais cidades de Santa Catarina, quando ocorre estrategicamente a fundação dos três núcleos catarinenses: Laguna, ao sul; Florianópolis (Desterro), ao centro; e São Francisco do Sul, ao norte do estado.

O autor

CAPÍTULO I 6

A GEOGRAFIA DO LITORAL CATARINENSE

1.1 – A geografia do litoral catarinense. 1.2 – Ilha de Santa Catarina 1.3 – Os carijós 1.4 – A transformação dos carijós 1.5 – As canoas indígenas

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1.1 – A GEOGRAFIA DO LITORAL CATARINENSE O povoamento do território catarinense está intimamente ligado, nos seus primórdios, aos interesses de navegadores portugueses e espanhóis, que tiveram o litoral de Santa Catarina como ponto de apoio para atingir, principalmente, a região do Rio da Prata. Mas a sua topografia foi fator determinante para a ocupação, levando os primeiros núcleos a fixarem-se próximo ao litoral. Santa Catarina é, sem dúvida, dentre todos os estados da federação, o que tem a maior diversidade geográfica e humana, surpreendente para um território de apenas 95,4 mil km², mas nosso estudo prende-se exclusivamente à região do litoral catarinense, com uma extensão de 561,4 km². No litoral, formado pela planície costeira, encontramos pontas, cabos, ilhas, praias, lagoas e portos, bem como várias enseadas. Ainda próximo ao litoral está localizada uma pequena parcela do chamado Planalto Atlântico. Na faixa do litoral a vegetação é variada, formada por mangues, restingas, praias, dunas e Mata Atlântica. Em alguns trechos observa-se pontas, que são porções de terra que avançam para o mar. As principais pontas são: do Gi (Laguna), de Imbituba (Imbituba), do Ouvidor (Garopaba), Armação (Governador Celso Ramos), das Bombas (Bombinhas), Taquara (Balneário Camboriú), das Cabeçudas (Itajaí), das Estrelas (Penha) e dos Morretes (São Francisco do Sul). Estas pontas foram fundamentais nos traçados dos primeiros caminhos trilhados pelos indígenas de Santa Catarina e, posteriormente, na construção das atuais rodovias. a) Litoral Norte: caracteriza-o a extensa planície, interpolada por formações cristalinas, com predominância arenosa. Estende-se desde a barra do Rio São Francisco até a barra do Itapocu. Remanescente do relevo cristalino, destaca-se na paisagem e condiciona a função portuária da cidade de São Francisco. O predomínio das formações sedimentares neste trecho do litoral de grande conteúdo silicioso é fator negativo da qualidade do solo agrícola. Formações florestais aí existentes permitiram, todavia, acumulação de detritos orgânicos que atenuam a pobreza do solo. b) Litoral Central: vai desde a barra do Itapocu até a altura da extremidade sul da Ilha de Santa Catarina. A morfologia se caracteriza pela maior movimentação, isto é, as formações cristalinas esbarram mais frequentemente no mar, guardando as cristas; entretanto, sua direção é mais ou menos oblíqua. Daí o resultado de uma frente mais contínua. Em consequência, muitas enseadas e baías de forma elíptica tornam-se numerosas e apresentam fundos lodosos ou de mangues. Alguns rios importantes deságuam no litoral central, formando planícies de sedimentação também marítimas: Itajaí e Tijucas. A Ilha de Santa Catarina é um conjunto de esporões que o processo de sedimentação, ainda no quaternário, culminou por unir, prevendo ainda em seu 8

interior duas lagoas. A mais ampla é a da Conceição, que é uma das principais atrações turísticas. A do Peru, pouco extensa, já dessalinizada, é hoje campo experimental de piscicultura; já a da Conceição é área ativa de pesca. c) Litoral Sul: marca o predomínio das baixadas. O processo de retificação por efeito da sedimentação eólio-marinha, combinado com a deposição de detritos de rios importantes, como o Tubarão e o Araranguá, está bem avançado e por isso se apresenta bastante retilíneo, sobretudo a partir da cidade de Laguna. Entre os acidentes mais importantes, está a planície em forma de delta do Rio Tubarão, em parte ocupada para fins agrícolas e de criação. A cidade de Laguna está construída na extremidade interior da “ria” que constitui a lagoa mais ampla do estado, estreitada mediante a formação ao Norte, a que se denomina de Imaruí. A cidade se ergue tanto nas porções baixas quanto no sapé de formações cristalinas, sendo que o centro comercial e portuário se localiza na parte baixa. As numerosas praias do litoral meridional lhe dão grande beleza panorâmica, nas proximidades de Araranguá, onde o mar aberto e as elevadas dunas esbarram nas formações sedimentares antigas que se apresentam como paredões abruptos, de níveis modestos. Outra caracterização de traços morfológicos no litoral Sul reside no grande número de sambaquis e cacheiros, atestando, os primeiros, a presença de antigas populações indígenas, e os segundos evidenciam a dinâmica da sedimentação marinha da região, em função das variações do nível do mar. 1.2 – ILHA DE SANTA CATARINA A Ilha de Santa Catarina, situada entre as latitudes 27,22º’ e 27º50’, tem uma área de aproximadamente 424,4 km². Está separada do Continente pelas baías Norte e Sul, cujas profundidades máximas variam em torno de 11m. A primeira tem seu canal de entrada entre o maciço costeiro da Armação da Piedade na parte continental e o Morro do Forte insular, e a segunda entre a ponta dos Naufragados e o Tombolo do Papagaio. Neste último canal de acesso, excepcionalmente encontram-se profundidades de até 30m, as maiores verificadas na região. As duas baías são separadas por um estreito de cerca de 500 m de largura – no qual também a profundidade pode chegar a 28m. Esta configuração geográfica da Ilha de Santa Catarina – sendo uma extensão dos grandes traços geológicos continentais – permite classificá-la como uma ilha continental. Seu relevo é caracterizado pela associação de duas unidades geológicas maiores: as elevações dos maciços rochosos, que compõem o embasamento cristalino, e as áreas planas de sedimentação, delineando, respectivamente, as denominadas servas litorâneas e planícies costeiras, unidades geomorfológicas que caracterizam a paisagem da Ilha.

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As serras litorâneas em geral apresentam aspecto de cista, devido à sua posição alongada e ao acentuado declive das encostas. A ilha é atravessada em toda a sua extensão por uma dorsal central orientada NNE e SSW, cujos divisores de água separam pequenas bacias fluviais e planícies costeiras. Essa dorsal ramifica-se lateralmente em esporões, que se prolongam submersos ou emergem na forma de ilhas. Podemos distinguir dois espaços desta dorsal no território ilhéu. Um setor centro norte, mais extenso na área central e diminuindo em direção ao norte, com uma altitude máxima de 493m no Morro da Costa da Lagoa. O outro, no sul, separado do setor central por uma planície, atingindo 540m no Morro do Ribeirão. Seus topos são angulosos ou côncavos e as encostas apresentam declividades acentuadas, chegando a mais de 45º, delicadamente drenadas através dos vales em forma de V, geralmente encaixados e pouco profundos. As vertentes são irregulares e definem vários patamares em diversos níveis. A espessura reduzida do manto de alteração sobre estes relevos leva alguns pontos à exposição de blocos e matações (pedras soltas, muito grandes e arredondadas), como, por exemplo, no Morro da Cruz, provocada pela remoção de matérias finas pelos processos erosivos. De norte a sul, esta dorsal separa os ambientes das planícies costeiras voltadas para leste daqueles orientados para o norte ou para as baías a oeste. As planícies costeiras são formadas pela decomposição de sedimentos marinhos e fluviomarinhos, representando os terrenos mais recentes na escala geológica. A formação destas planícies está associada às oscilações do nível do mar durante período quaternário, resultantes principalmente da alternância de períodos glaciais e interglaciais que alteram o volume das águas oceânicas. Na Ilha de Santa Catarina distinguem-se três ambientes de planícies costeiras, de acordo com o nível de energia ambiental a que estão sujeitos: o setor leste, submetido à atuação das ondas e ventos de alta energia, provenientes do quadrante sul; o setor oeste, compreendendo as águas protegidas das baías Norte e Sul; e o litoral norte, de nível energético intermediário, que é atingido pelos ventos e ondulações oriundas do quadrante norte e protegido dos ventos do sul pelas elevações da dorsal central. Setor Oeste: As águas protegidas das baías Norte e Sul, associadas às pequenas profundidades e ao acúmulo de finos sedimentos transportados pelos rios, proporcionaram a formação de manguezais, que se situam no baixo curso dos sistemas submetidos à influência das marés e diretamente relacionados à magnitude dos sistemas fluviais à montante. Por ordem decrescente de área, destacam-se os três principais manguezais: do Rio Ratones, Itacorubi e Saco Grande, todos na Baía Norte. Outro traço morfológico do litoral neste setor é a ocorrência de pequenos arcos praiais junto às reentrâncias dos maciços rochosos, tais como as praias de Caieira

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e da Tapera, na Baía Sul, e as praias de Cacupé, Santo Agostinho de Lisboa e do Sambaqui, na Baía Norte. Linhas de costões mais ou menos abruptos caracterizam a morfologia dos locais nos quais as elevações rochosas estão em contato direto com as águas das duas baías. Setor Norte: Dois arcos praiais, ancorados e individualizados por elevações rochosas, delineiam o litoral da ilha: a leste, com 4,5 km, as areias de CanavieirasCachoeira do Bom Jesus, delimitadas pelo extremo norte da dorsal central e pela Ponta dos Morretes; a oeste, Praia do Jurerê, com 3,5 km, entre as pontas dos Morretes e do Forte. Estas praias são rodeadas de planícies constituídas pela sucessão de cristas praiais e seus cavados, que dão à paisagem um aspecto ondulado. A formação destas planícies está associada, principalmente, ao rebaixamento progressivo do nível do mar a partir de 5.100 anos, época em que se encontra em torno de 3,5 m acima da sua altura atual. Esta baixa no nível marinho afastou as águas de antigos depósitos de areias, causando o desenvolvimento destas planícies de progradação. Observa-se ainda, neste setor, a presença de duas flechas arenosas formadas pelo transporte de sedimentos costeiros e pela atuação de correntes de deriva litorâneas, no sentido geral N-S e NE-SW. São depósitos recentes, ainda deste século. A mais antiga flecha é o pontal da Daniela, situado junto à entrada da Baía Norte. A outra, que se formou nos últimos anos, é o Pontal de Ponta das Canas, que isola do mar um dos poucos corpos lagunares encontrados no setor norte. Setor Leste: No litoral da Ilha de Santa Catarina, os maciços rochosos e as áreas de sedimentação quaternária configuram uma alternância de costões e praias de várias formas e extensões. Três tipos de praias podem ser distinguidos: a) praias em forma de espiral ou parábolas, como as dos Ingleses (3 km) e da Armação (4 km); b) praias de bolso, como a Brava, a do Santinho, a da Galheta, a Moe e a Matadeiro (1 km); c) praias alongadas, tais como Barra da Lagoa-Moçambique e Joaquina-Campeche (10 km), estas praias encontram-se ancoradas a um cordão arenoso denominado externo, cujas altitudes são de 4 a 6 m acima do nível do mar, isolando do mar terraços planos e alongados que representam antigas lagunas ressecadas com o rebaixamento da altura do oceano. Têm cotas em torno de 1,0 e 1,5 m, constituindo-se em depósitos de características pantanosas, com a formação de turfas. A oeste, estes remotos corpos lagunares estão em contato com um segundo cordão, desta vez interno, elevando-se de 6 a 10 m acima do nível do oceano. Ele isola do mar os dois maiores corpos d’água da Ilha: a Lagoa da Conceição, no centro-norte, e a Lagoa do Peri, no sul, ambas confinadas a oeste pelas encostas do dorsal central. 11

A Lagoa da Conceição, com 17,6 km², e profundidade máxima de 8,7 m, tem a sua comunicação com o mar assegurada pelo canal da Barra da Lagoa, que permite trocas entre a laguna e o oceano. Com uma área menor (5,2 km²), a Lagoa do Peri já não recebe contribuição de águas marinhas, em virtude de suas cotas em relação ao nível médio do mar, constituindo-se desta forma no maior reservatório insular de água doce. Finalmente, três grandes planos arenosos horizontalizados completam este quadro geral das unidades geoambientais da Ilha. O primeiro, situado ao norte, entre as encostas da dorsal centro-norte, a Praia de Canavieiras, Cachoeira de Bom Jesus e o Manguezal do Rio Ratones; outro plano, localizado na área que secciona a dorsal central em direção ao sul; e o terceiro na extremidade sul da Ilha, situado à retaguarda da Praia do Pântano do Sul, delimitando no norte, leste e oeste pelas elevações do compartimento sul da dorsal central. Essas áreas planas estão aproximadamente 2,5 m acima da altura média das águas oceânicas e correspondem às antigas extensões lagunares ou de mar raso, que foram ressecadas a partir de uma primeira, durante fase de rebaixamento, após seu nível alto de 51 séculos atrás. 1.3 – OS CARIJÓS O primeiro contato de que se tem notícia dos carijós catarinenses com os europeus se deu em 1.504, quando o veleiro L’Espoir, capitaneado pelo francês Binot Paulmier de Gonneville, de 120 toneladas, abasteceu-se, sem nenhuma economia, o que foi feito pelos burgueses para bem aprovisionar o dito navio, segundo o inventário de mostra, excetuando-se os artigos de artilharia. Quanto às mercadorias, o navio foi carregado de: “Trezentas peças de tecidos diversos; Machados, enxadas, foices, relhas, segadeiras, num total de quatro milheiros; Dois mil pentes, de várias espécies; Cinquenta dúzias de espelhinhos; Seis quintais de miçangas de vidro; Oito de quinquilharias de Ruão; Vinte grosas de facas e canivetes; Um fardo de alfinetes e agulhas; Vinte peças de droguete; Trinta de fustão; Quatro de tecido tingido escarlate; Oito outras de diversas estampas; Uma de veludo com figuras; Algumas outras douradas; E moedas de prata que, segundo souberam, valiam na Índia tanto quanto ouro. Além disso, foi o dito navio abastecido de biscoito, grão e farinha para cerca de dois anos, devido ao número de pessoas da tripulação, ervilhas, favas, 12

toucinho, carne de cabra e peixes salgados e secos, sidras e outras bebidas, sem contar a provisão de água, para um ano ou mais. Foi também abastecido de muitos alimentos frescos antes da partida, e a arca do cirurgião do navio foi aviada com numerosos medicamentos de primeira necessidade e com os instrumentos e utensílios de sua arte.” Durante a permanência em São Francisco do Sul, os europeus conversavam cordialmente com as gentes dali, depois que elas foram cativadas pelos cristãos por meio das festas e pequenos presentes que esses lhes davam. Os índios eram gente simples, que não pediam mais do que levar uma vida alegre, sem muito trabalho; viviam da caça e da pesca e do que a terra lhes dava de per si, além de alguns legumes e raízes que plantavam. Eles são descritos assim pelos europeus: “Andavam meio nus, os jovens e a maioria dos homens usando mantos, ora de fibras trançadas, ora de couro, ora de plumas, como aqueles que usam em seus países os egípcios e os boêmios, exceto que são mais curtos, com uma espécie de avental amarrado sobre as ancas, indo até os joelhos, nos homens, e nas mulheres até o meio das pernas; pois homens e mulheres se vestem da mesma maneira, sendo que a vestimenta da mulher é mais longa. As fêmeas usavam colares e pulseiras de osso e de conchas; não os homens, que usam, em vez disso, arco e flecha tendo por virotão um osso devidamente acerado, e um chuço de madeira muito duro, queimado e afiado no alto, o que constitui toda a sua armadura. E vão as mulheres e as meninas com a cabeça descoberta, tendo os cabelos gentilmente trançados com cordéis de ervas tingidas de cores vivas e brilhantes. Quanto aos homens, usam longos cabelos soltos, com um círculo de plumas altas, de cores vivas e bem dispostas. E as habitações dos índios formam aldeias de trinta, quarenta, cinquenta ou oitenta cabanas, feitas à maneira de galpões com estacas unidas umas às outras, ligadas por ervas e folhas, com as quais os ditos habitantes são igualmente cobertos; e têm por chaminé um buraco, para fazer sair a fumaça. As portas são bastões corretamente ligados; e eles as fecham com chaves de madeira, quase como as que se usam, nos campos da Normandia, nos estábulos. E seus leitos são esteiras macias cheias de folhas ou penas, suas cobertas são esteiras, peles de animais ou plumagens; e seus utensílios domésticos são de madeira, mesmo as panelas, mas estas são revestidas de uma espécie de argila da espessura de um dedo, o que impede que o fogo as queime. Também dizem ter notado que o dito país está dividido em cantões, cada um com seu rei; e embora os ditos reis não sejam mais bem alojados e vestidos do que os outros, são muito reverenciados por seus súditos; e nenhum é tão atrevido que ouse desobedecer-lhes, já que eles têm poder de vida e de morte sobre seus vassalos. Disso alguns do navio viram um exemplo digno de memória, a saber, o de um rapaz de 18 a vinte anos que, num momento de exaltação, deu uma bofetada em sua mãe; tendo isso chegado ao conhecimento do chefe, embora a mãe não se tenha queixado, este mandou buscar o rapaz e ordenou que o 13

jogassem no rio, com uma pedra no pescoço, depois de chamar, por aviso público, os jovens da aldeia e das aldeias vizinhas; e ninguém conseguiu obter remissão, nem mesmo a mãe que, de joelhos, veio implorar perdão para seu filho. O dito rei era aquele em cuja terra permaneceu o navio; seu nome era Arosca. Seu país tinha a extensão de um dia, e era povoado de cerca de uma dúzia de aldeias, cada uma das quais tinha seu capitão particular, e todos obedeciam ao dito Arosca. Arosca tinha, ao que parece, uns sessenta anos, e era viúvo; tinha seis filhos machos de trinta até 15 anos; e vinham, ele e os filhos, frequentemente ao navio. Homem de postura grave, estatura média, gordinho, de olhar bondoso; em paz com os reis vizinhos, mas ele e estes guerreavam com outros povos das terras interiores, contra os quais investiu duas vezes, durante a estada do navio, levando de quinhentos a seiscentos homens cada vez. E da última vez, seu retorno foi motivo de grande alegria para todo o seu povo, porque ele tinha alcançado grande vitória; suas ditas guerras não eram mais do que excursões de poucos dias contra o inimigo. E ele bem que gostaria que alguns do navio o acompanhassem com suas armas de fogo e artilharia, para atemorizar e desbaratar seus ditos inimigos; mas disso a gente se escusou. Também dizem que não notaram nenhum sinal particular que distinguisse o dito rei dos outros reis do dito país, dos quais cinco vieram ver o navio, afora que os ditos reis usam na cabeça plumagens de uma única cor; e seus vassalos, pelo menos os principais, usam em seus círculos de penas algumas da cor de seu chefe, que era o verde na de Arosca, seu hospedeiro. Também dizem que se os cristãos fossem anjos descidos do céu não seriam mais estimados por esses pobres índios, que estavam todos assombrados com a grandeza do navio, com a artilharia, os espelhos e outras coisas que eles aí viam e, sobretudo, com o fato de que, por um recado escrito que se enviasse de bordo aos tripulantes que estavam nas aldeias, se lhes fizesse saber o que se queria; eles não conseguiam explicar como o papel podia falar. Também por isso os cristãos eram por eles temidos, e pelo amor de algumas pequenas liberalidades que lhes faziam, pentes, facas, machados, espelhos, miçangas e outras bugigangas, tão amadas que por elas se deixariam esquartejar, e lhes traziam abundância de carne e peixes, frutas e víveres, e tudo o que eles viam ser agradável aos cristãos, como peles, plumagens e raízes para tingir; em troca do que lhes eram dadas quinquilharias e outras coisas de baixo preço, de modo que se reuniu cerca de cem quintais das ditas mercadorias, que na França teriam alcançado bom preço. Dizem também que, desejando deixar, no dito país, marcas de que ali haviam chegado cristãos, foi feita uma grande cruz de madeira, alta de 35 pés ou mais, bem pintada; a qual foi plantada num outeiro com vista para o mar, em bela e devota cerimônia, tambor e trombeta soando, em dia bem escolhido, a saber, o dia de Páscoa de 1504. E foi a dita cruz carregada pelo capitão e pelos principais do navio, todos descalços; e ajudavam-nos o dito chefe Arosca e seus filhos e outros 14

índios notáveis, que para tanto foram convidados de honra; e eles se mostravam alegres. Seguia a tripulação armada, cantando a ladainha, e um grande povo de índios de todas as idades, aos quais há muito fazíamos festa, quietos e muito atentos ao mistério. Plantada a dita cruz, foram dados vários tiros de escopeta e artilharia, e oferecidos festim e presentes honestos ao chefe Arosca e principais índios; e quanto à população, não houve ninguém a quem não se fizesse algum dom de bugigangas baratas, mas por eles prezadas, tudo para que o fato lhes ficasse na memória; dando-lhes a entender, por sinais e de outras formas, o melhor possível, que eles deviam conservar e honrar a dita cruz.” Outro contato que deixou profundas marcas na nação carijó do litoral catarinense, desta vez na ilha de Santa Catarina, foi a de Sebastião Caboto, em 1526, passagem vastamente documentada através de Enrique Montes, de 30 de setembro de 1527, e por Luiz Ramirez, em carta de 10 de julho de 1528. Precedido de um introito sobre os objetos que recebera para negociar com os referidos índios, principia Henrique Montes a expor os negócios que chegou a realizar, deles prestando contas. De mais de cinquenta negócios, citaremos alguns: “Relação do gasto que eu, Enrique Montes, fiz por mandado do Sr. Capitão General na Ilha de Santa Catarina desde 10 do mês de novembro de 1526 até 3 de fevereiro de 1527.” E fala também de compra de abóboras. Ao mesmo produto se referirão de futuro também os missionários jesuítas. As casas construídas ficaram para os mesmos índios, depois que o pessoal de Caboto se retirou. De como isto se exercia, ilustra com grandes detalhes um documento. Detalhes aparentemente sem significação abrem luz sobre as atividades agrícolas e o comércio dos índios, que trabalhavam, inclusive, para os brancos, que os contratavam para transporte de materiais nas construções de casas e barcos: “Primeiramente comprei 273 veados, que custaram 273 cunhas e 273 anzóis médios. Mais comprei 298 galinhas, que custaram 70 cunhas e mais 40 facas e 30 anzóis medianos. Mais comprei 2 antas, que custaram 2 cunhas grandes e 4 pares de tesouras. Mais comprei 80 patos, que custaram 20 cunhas e 6 anzóis. Mais comprei 52 calabaças de mel cru, que custaram 40 cunhas e 12 de tesouras e 52 anzóis, com as quais houve depois de feita de 4 barris e meio nos quais havia pouco ou mais ou menos 14 arrobas. Mais dei por 5 cargas de milho, 5 cunhas e 5 anzóis. Mais dei por 20 cargas de carvão, 4 cunhas e 2 espelhos e 10 anzóis. Mais dei por uma canoa para serviço da dita armada, uma cunha e uma faca. Mais dei por fazer por os arsenais em que se fez a galera, a 16 índios principais que a faziam, 16 facas, porque a fizeram de madeira. Mais dei por 300 artigos de palha com que a fizeram, 300 anzóis médios. 15

Mais dei por fazer uma Igreja, duas facas. Mais dei por 5 calabaças de manteiga, 5 cunhas e 6 anzóis. Mais dei por 300 cargas de raízes de mandioca para fazer pão e para vinho para os índios que trabalhavam em serrar a madeira para a dita galera, 76 cristalinas por 38 cargas. Mais dei a Castilho que ia fazer carvão para a frágua, 30 anzóis. Mais dei por 3 arrobas de mel. Mais às mulheres que faziam vinho aos índios por vez 20 pentes. Mais por palmitos para salada, para comer na mesa de sua mercê, 50 anzóis. Mais por 40 cestos de inhame, assim para todos os doentes como para a mesa de sua mercê, 19 facas e 20 pentes e 1 espelho. Mais 200 mãos de milho para se fazer o vinho misturado com a mandioca e também para dar às galinhas e patos, que se gastavam com os doentes, 5 maços de matamugo e 11 espelhos. Mais para fazer a casa dos carpinteiros, 2 facas e 15 anzóis. Pela casa da ferraria, 3 facas e 20 anzóis pela palha. Dei isto para fazer a casa onde estava a dispensa de sua mercê, 3 facas e 16 pontas. Dei para fazer uma casa para a pólvora, 8 anzóis. Dei a Martinho Viscainho por certas aves, as quais estão assentadas em poder de Ponce, 30 anzóis, que jurou havia gasto. Dei mais por mandado de sua mercê a 4 índios que trouxeram à Talavera, grumete, 4 facas e 4 anzóis. Mais a Durango, que foi por patos e galinhas e outras coisas a terra Dararega, que terá 40 léguas da Ilha de Santa Catalina, para gasto seu e do que trouxe, 300 anzóis médios e 16 pontas e 100 anzóis de alfinetes bonitos. Custou mais duzentos e tantos pedaços de cera negra, que era para misturar com o pez, 150 anzóis. Mais gastei em outros gastos miúdos com os índios, assim em acarrear a dita madeira como em outras obras que neste dito tempo se ofereceram em serviço da dita armada, 412 anzóis bonitos de alfinete e 28 anzóis médios.” (Arquivo das Índias, 41-1-1/12) Havia aldeias indígenas na Ilha de Santa Catarina. Também as havia pelo lado fronteiro do continente, onde hoje se situa o Estreito, sendo este conhecido sob a denominação de Acutia, conforme informação de Hans Staden, quando ali esteve em 1549. Pelo lado da Ilha encontraram-se algumas aldeias. Onde Sebastião Caboto aportou, diz a carta de Ramirez, houvera cinco ou seis casas de índios, depois que chegaram afluíram mais índios, os quais fizeram mais outras. Os documentos ora dizem casa, ora aldeia, para um ajuntamento de índios, portanto, se juntavam em grupo dentro de uma só construção mais ou menos alongada. Algumas são denominadas pelo nome: Ribarcô (= roça brilhante), Tiguá (= o poço), Aboça-peça-ú (= Porto do rio dos patos), Trinoga (= a casa do morro), Temeubre.

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1.4 – A TRANSFORMAÇÃO DOS CARIJÓS Os índios carijós passaram subitamente para um mundo tecnológico que revolucionou muitos dos seus hábitos da idade da pedra. Para isto contribuiu a convivência pacífica desde o início com a população flutuante espanhola, como também o comércio com os navegadores em trânsito mais ou menos regular. A moeda adotada fora a troca de anzóis, facas, cunhas, espelhos, etc. por mantimentos e serviços. Além dos animais de caça, os índios negociavam mel, milho, mandioca, inhame, palmito, vinho. Os índios carijós conheceram, com o branco europeu, tecnologia, produtos, plantas, mas, ao final do século XVII, veremos que o preço pago foi muito alto, com a quase total aniquilação desta grande nação guarani, devido a doenças, ao preamento, escravidão, principalmente pelos bandeirantes paulistas. Antes os índios carijós pescavam com anzóis feitos de ossos e dentes de animais ou com redes feitas de fibras vegetais. Em contato com os colonizadores europeus, passaram a utilizar anzóis metálicos. Devido ao clima frio, os índios do sul do Brasil eram os únicos que não andavam nus o ano todo. Homens vestiam-se pendurando nas costas pelegos, do tamanho de um cobertor pequeno, feitos de couro de veados ou de ratões do banhado. Na falta de barro, as ocas dos carijós catarinenses eram feitas de juçara (espécie de palmito) a pique, cobertas com folhas de coqueiros e palmeiras. Em média comportavam de 30 a 40 pessoas, sendo que algumas chegavam a abrigar até duzentas pessoas ou mais. As de Laguna seriam consideravelmente menores e teriam só nove ou dez moradores. De certo, os colonizadores europeus adaptaram conhecimentos indígenas, em condições bem diferentes de Portugal e da Espanha, onde eram pastores. Transformaram-se em lavradores, artesãos e pescadores. Aprenderam com os índios as técnicas necessárias à sobrevivência no espaço que passaram a habitar. Abandonaram o cultivo de cereais como o trigo e o centeio a que estavam acostumados, para adotar a mandioca, o milho e o peixe na brasa em sua alimentação. O linho continuou sendo usado, mas passaram a tecer com o algodão, a fibra nativa disponível. Isso ocorreu também com a horticultura, a cestaria e a olaria. Na obra Por Mares Grossos e Areias Finas, de Ruy Ruben Ruschel, encontramos o relato da viagem do Pe. Jerônimo Rodrigues, ocorrida entre 27 de março de 1605, iniciando em Mongagá, no estado de São Paulo e terminando em 15 de agosto de 1605, em Laguna, Santa Catarina, quando descreve os carijós como antropófagos, displicentes, preguiçosos, sujos e incestuosos. Passados quase um século do primeiro contato com o homem europeu, na visão do missionário é degradante a situação do índio catarinense, ficando clara a transformação ocorrida neste período, em contraste com os cronistas anteriores.

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Mas não podemos esquecer que, neste período, os carijós sofreram a quase total dizimação, passando do primeiro contato amável do francês Binot Paulmier de Gonneville (1504), às brutalidades de Sebastiao Caboto (1526) até as atrocidades de Juan Ortiz de Zárate (1573), sendo que os carijós já estavam rarefeitos nesta época, a grande maioria tinha deixado a ilha de Santa Catarina e descido para a região de Laguna. 1.5 – AS CANOAS INDÍGENAS Com quantos paus se faz uma canoa? Geralmente com um só, e em geral da árvore do Garapuvu y gyapiruvu (Schizolobium parahyba), árvore símbolo do litoral catarinense, utilizada na construção de canoas. Os carijós usavam duas espécies de canoas. Uma, era construída de um pau só, inteiriço (monóxilo), que cavavam a frio quando a madeira era mole ou por meio de fogo no caso contrário; e chamavam a este tipo ingará, de y-gára (a que flutua). As grandes canoas deste sistema chamavam igara-oçu ou igara-tê (canoa de vulto ou verdadeira), que comportavam muitas vezes, de 40 a 60 pessoas. As pequenas eram conhecidas por igara-mirim. Na construção destas embarcações empregavam geralmente as seguintes madeiras (ibira): garapuvu, tamuri, ou tambui (caxeta), guaruva, figueira branca, cedro etc. Ao pau de canoa chamavam ubiragára. A outra canoa era construída de casca de certas árvores escoradas por dentro, tendo os extremos ligados com cipó. As canoas deste tipo eram menores e mais fracas. Chamavam-nas oba, de oba-yá (casca aberta) ou piroga (esfolada). Denominavam as maiores embarcações deste tipo ubá-uçú ou bacuçú. Conta-nos Hans Staden: “No país há uma espécie de árvore que se chama Yga Ivera (igá ibira, pau de canoa), cuja casca (pyrêra) eles desprendem de cima até em baixo, fazendo uma armação especial ao redor da árvore para tirá-la inteira. Depois, tomam a casca e levam da serra até o mar, aquecem no fogo, dobram-na para diante e por de trás e lhe amarram dois paus atravessados no centro para que não achate, e fazem assim uma canoa, na qual cabem 30 pessoas, para ir à guerra. A casca tem a grossura de um dedo polegar, certamente 4 pés de largura e 40 pés de comprimento; algumas mais longas e outras mais curtas. Nelas remam depressa e navegam tão longe quanto querem. Quando o mar está bravo, puxam as canoas para a terra até o tempo ficar bom. Vão mais de duas milhas (a milha alemã tem 7.408 metros) mar a fora; mas ao longo da terra navegam muito longe”. Conta Thevet1 que estas embarcações feitas de casca tinham 5 a 6 braças de comprido e 3 pés de largura, comportando de 40 a 50 homens e mulheres, empregando-se estas em esgotarem a água que entrava. No dia da extração da casca da árvore, os que executavam da raiz até a copa abstinham-se de tomar

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qualquer alimento ou bebida com receio de lhes sobrevir alguma desgraça no mar. E quando este se encrespava, lançavam às ondas uma pena de perdiz ou outra dádiva para aplacá-lo. Viajavam costeando a terra. Remavam de pé com um remo chato dos dois lados o qual o seguram pelo meio. Guerreiam nelas. “E quando o pede o perigo – diz o P. Simão de Vasconcelos –, com o mesmo remo se escudam, porque era o seu remar em pé, e tinham os remos, uns como escudete, com que aparavam as flechas dos contrários. Andam também à vela, segundo a conjunção o pede”. Tanto as igáras, como as obas e pirogas eram usadas na pesca, no transporte de mercancias e na guerra. As destinadas a este último propósito, em que ia o chefe tuchaua, traziam como distintivo um chocalho maracá à proa e, por isso, eram denominadas igatim (canoa de bico) ou maracá-tim. Ao canoeiro chamavam ybá yara; as canoas ronceiras chamavam ã-uatá; quando a embarcação se prendia, diziam y-recê; a canoa solta, obá yera; para dizer que estava algo na canoa, diziam igára-pupé. À proa da embarcação chamavam tim; ao remo, apécuitá; ao leme ou remo de pá, yacumá; ao remador, yacumahua; à boça ou amarração da canoa, yga-ra-téa; para fundeá-la empregavam uma pedra pesada ligada a um cabo ou cipó póitá (poita) ou itaguaçu (pedra grande). Não sabemos se antes da descoberta eles conheciam o uso da vela; em todo o caso, ficou ela conhecida pelo nome de igare-tinga (o branco da canoa) ou cûtinga (língua branca). Ao mastro chamavam içá e cûting-yba ao pano da vela. No ponto onde encalhavam as embarcações denominavam igara-paba. À grande quantidade de canoas diziam igara-tuba ou obá-tuba. Os carijós empunhavam o remo com rara maestria e o manejavam com cadência. Remavam, em geral, de pé. O naufrágio diziam Murú ou Mururú; enquanto remavam, em geral cantavam suas cantigas (nheengareçava). Faziam também uma espécie de regata (Mo nheenga), que por muito tempo existiu entre nós com o nome de Morenga. Desde o descobrimento com Pedro Álvares Cabral, passando pelo navegador francês Binot Paulmier de Gonneville (1504), Sebastião Caboto em 1526, é farto os registros sobre a abordagem dos indígenas às embarcações dos navegantes, chegando em grande número a bordo de canoas feitas de troncos escavados.
1André de Thevet (1516 em Angoulême - 23 de novembro de 1590 em Paris) foi um sacerdote francês franciscano, explorador, cosmógrafo e escritor que viajou ao Brasil no século XVI. “He described the country, its aboriginal inhabitants and the historical episodes involved in the France Antarctique , a French settlement in Rio de Janeiro , in his book Singularities of France Antarctique.” Ele descreveu o país, seus habitantes aborígenes e os episódios históricos envolvidos na França Antártica, uma colônia francesa no Rio de Janeiro, em seu livro Singularidades da França Antártica.

O alemão Hans Staden esteve duas vezes no Brasil na primeira metade do século XVI. Na segunda, foi aprisionado pelos indígenas em Bertioga, com os 19

quais conviveu durante meses até ser resgatado por um navio francês. Ao retornar à sua terra, escreveu um livro contando suas experiências, publicado em 1557, que é um dos documentos mais preciosos sobre os anos iniciais do Brasil colonial. “Existe lá, naquela terra, uma espécie de árvore, que chamam igá-ibira. Tiramlhe a casca, de alto a baixo, numa só peça e para isso levantam em volta da árvore uma estrutura especial, a fim de sacá-la inteira. Depois trazem essa casca das montanhas ao mar. Aquecem-na ao fogo e recurvam-na para cima, diante e atrás, amarrando-lhe antes, ao meio, transversalmente, madeira, para que não se distenda. Assim fabricam botes nos quais podem ir trinta dos seus para a guerra. As cascas têm a grossura dum polegar, mais ou menos quatro pés de largura e quarenta de comprimento, algumas mais longas, outras menos. Remam rápido com estes barcos e neles viajam tão distante quanto lhes apraz. Quando o mar está tormentoso, puxam as embarcações para a praia, até que se torne manso de novo. Não remam mais que duas milhas mar afora, mas ao longo da costa viajam longe.” A canoa junto com a jangada e a balsa foram as primeiras embarcações utilizadas pelo homem, constituindo-se em autêntica proeza e representando um dos grandes saltos qualitativos da história do homem: a invenção da navegação, isto é, atravessar uma superfície líquida sem molhar-se. Este avanço, provavelmente, foi obtido de duas maneiras: unindo com cipós e ataduras vários pedaços de árvores (balsa) ou escavando um tronco (canoa). Existiram canoas em todos os continentes, utilizadas por praticamente todos os povos primitivos litorâneos. Dependendo do avanço tecnológico da humanidade, das árvores disponíveis e das necessidades humanas, diferentes tipos de canoas foram sendo criados em todo o mundo. Inicialmente, escavavam-se troncos grossos com o auxílio de fogo e pedras, em um penoso processo que trazia como recompensa sólidas embarcações. Onde a natureza proporcionava a ocorrência de grandes árvores dotadas de grossas cascas, o homem aprendeu, através do calor, a desprender a camada externa do caule, de modo a construir canoas como quem dobra uma folha de papel. Descobertos os metais, tornou-se muito mais fácil a escavação de toras de madeira, mas logo a evolução permitiu que o homem aperfeiçoasse suas ferramentas e trabalhasse a madeira de modo a obter peças com seções esbeltas, de uma maneira que teria sido impossível com fogo ou rochas. Surgiram as ripas, as tábuas e com elas o desmembramento dos barcos em estruturas autônomas cobertas com tabuado, couros e produtos diversos: estavam criados os barcos propriamente ditos. O Almirante Antônio Alves Câmara, o primeiro estudioso a interessar-se pelo fabuloso patrimônio naval dos rios, lagoas e mares do Brasil, na publicação ainda não superada de 1888 – Ensaio sobre as Construções Navaes Indígenas do Brasil –, afirma que “a origem desta palavra é americana, das caraíbas”.

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Depois de confirmar que a denominação foi citada por Colombo e os primeiros viajantes da América, refere-se ao vocabulário português latino do padre Rafael Bluteau, publicado em 1712, que descreve: “Canoa – Embarcação de que usam os gentios da América para a guerra, de que mais se aproveitam os moradores para o serviço, pela pouca água que demandam e pela facilidade com que navegam (...). Cada qual se forma de um só pau comprido e boleado, a que tirada a face de cima, arrancam todo o âmago, e fica a moda de lançadeira de tear, e capaz de vinte ou trinta remeiros”. Poucos anos depois da expedição de Cristóvão Colombo, Pero Vaz de Caminha, o insigne cronista da frota comandada por Pedro Álvares Cabral, oficialmente os primeiros europeus a chegarem ao Brasil, em seu pormenorizado relato do gentio (os portugueses não tinham dúvidas quanto à verdadeira posição do oriente e só muito mais tarde chamaram de índios aos nativos que encontraram vivendo no Brasil) não deixa de citar as embarcações que chamou de almadias: ”... as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves atadas entre si. E ali se metiam quatro ou cinco...”. O padre Leonardo Nunes, jesuíta chegado ao Brasil com Tomé de Souza e Manoel da Nóbrega, relata que: ”... dez ou doze léguas junto do porto de S. Vicente, um sábado em amanhecendo, viemos a vista de umas canoas de índios, que são uma certa maneira de barcos em que se navega (...) e dizendo isto nos começaram a cercar ao redor, porque eram sete e cada uma tinha trinta ou quarenta remeiros, às quais correm tanto que não há navio por ligeiro que seja que se tenha com elas...”. Frei Vicente do Salvador, frade franciscano que foi o autor da primeira “História do Brasil”, editada ainda no século XVII, afirma: “Mas os índios naturais da terra as embarcações de que usam são canoas de um pau só, que lavram a forro e ferro; e há paus tão grandes que ficam depois de cavadas com dez palmos de bocas de bordo a bordo, e tão compridas que remam a vinte remos por banda”. Sobre a guerra entre portugueses e tamoios, no sul do Brasil, afirma o cronista que: “Haviam os tamoios ajuntado ao número ordinário de suas canoas outras novas que chegavam a cento e oitenta...”. Já conhecidas, portanto, dos indígenas, utilizadas no litoral, na Amazônia, no Pantanal e nos rios do interior brasileiro, as canoas receberam, com a chegada dos portugueses (vindos da Europa e do Oriente) e logo depois dos escravos africanos, novas influências, detalhes e desenhos. Segundo todos os depoimentos, as canoas indígenas anteriores ao Descobrimento locomoviam-se a remos, inexistindo o uso ou o conhecimento da vela em toda a América. A introdução de mastros e velas foi a primeira adaptação importante nas canoas brasileiras, trazendo como consequência lemes e bolinas, seguindo-se logo várias adequações, surgindo assim a enorme variedade deste tipo de embarcação ainda encontrada em todo o Brasil. De uma maneira geral, pode-se afirmar que as canoas do interior do país guardaram mais as suas origens indígenas no formato dos cascos, nos remos, na 21

ausência de velas e na falta de pinturas vivas. No litoral, de onde os índios foram quase que totalmente desalojados ainda no século XVI, prevaleceram modelos africanos, europeus ou asiáticos. No litoral, do sul para o norte, existem diversas variedades: as canoas bordadas e as de borda lisa, com variantes gaúchas/sulcatarinenses, norte-catarinenses/paranaenses e paulistas/cariocas, as canoas baianas, as canoas cearenses (desde há muito confeccionadas com cavernas e tabuado) e as maranhenses (inclusive as montarias). Na região centralizada por Santa Catarina, existem alguns tipos das belas canoas bordadas, assim chamadas porque, nas bordas dos troncos escavados, adicionam-se, com grande maestria, tabuões que ampliam a borda livre e aumentam a força e velocidade dos remos. Estas canoas são pintadas com cores vivas e inserem-se entre as embarcações plasticamente mais expressivas do mundo. Com algumas variações, existem até no Rio de Janeiro. Aparentemente toscas, as canoas são na verdade barcos dos mais antigos do mundo e que sobreviveram milênios em função de sua adaptabilidade e facilidade construtiva. No Brasil, representam a síntese de modelos de origem indígena ou de outros continentes, adequados às necessidades de cada uma das baías, enseadas, praias, ilhas, estuários e cursos de água deste país continental. Pertence ao documentário geral relativo a Sebastião Caboto parte de uma longa missiva com a data de 10 de julho de 1528, que descreve a Ilha de Santa Catarina e os acontecimentos que nela então se sucediam, escrita por um dos seus marujos, o espanhol Luiz Ramirez. Foi esta carta enviada a seu pai, tudo depois de haver saído a armada da Ilha de Santa Catarina e já se encontrar dois anos em San Salvador, em Rio La Plata. Representa a carta de Luiz Ramirez para a Ilha de Santa Catarina algo similar à de Pero Vaz de Caminha, de 1500, com referência ao Brasil. Era Luiz Ramirez pessoa bem informada e que viajara com o próprio Sebastião Caboto, na Capitânia, que houvera naufragado na Baía Sul da Ilha de Santa Catarina. O texto está guardado na biblioteca do Escorial, proximidades de Madri, Espanha. No Brasil, a carta foi publicada pela primeira vez na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Tomo XV, 1852, p. 14-41). Para esta Enciclopédia fizemos, todavia, a presente tradução, restrita à parte referente à Ilha. Acrescemos uma numeração com vistas a facilitar citações. A carta, depois de narrar o aportamento em Pernambuco e referir-se às bondades dos moradores e aos indígenas daquelas costas nordestinas, descreve ainda longamente o curso ao longo da costa, na qual se perdeu um batel, episódio que motivou o aportamento na Ilha de Santa Catarina, para finalmente abordar os acontecimentos aqui acorridos. 1. “As naus desfizeram-se de alguns objetos inúteis para dar-lhes alívio. A nau capitania perdeu o batel que trazia na popa. A tormenta, da maneira como tenho dito, e muito pior, nos durou toda a noite até domingo. Amanheceu o dia com muito e bom sol como se não houvesse passado nada, e assim andamos até que sexta-feira seguinte, dezenove do dito 22

mês (de outubro), chegamos a surgir em uma Ilha através de uma grande montanha, porque parecera ao Capitão General ser aparelhada de madeira para fazer batel para a nau capitânia, porque, como digo, na tormenta passada havia perdido o seu. 2. E estando nisto, vimos vir uma canoa de índios, a qual veio à nau capitania, por sinais nos deu a entender que havia ali cristãos. O que ainda não acabado de entender, o senhor Capitão General lhes deu a estes índios algum resgate, os quais foram muito contentes. Estes índios, segundo parece, foram por terra adentro e deram novas de nossa vinda. De maneira que, outro dia de manhã, vimos vir outra canoa de índios e um cristão dentro dela.” No transcorrer desse século (1500/1600) veremos a importância das canoas indígenas, como elemento fundamental na descida dos jesuítas paulistas, com destino às missões pelo litoral catarinense.

CAPÍTULO II

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OS PRIMEIROS CAMINHOS

2.1 – Os primeiros caminhos 2.2 – Rumo ao Norte 2.3 – Caminhos do Peabiru

2.1 – OS PRIMEIROS CAMINHOS

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A princípio há de se pensar que o índio catarinense, em sua maioria da grande nação Guarani, dividido em diversas etnias, era nômade, mas este conceito vai se transformando, a partir do descobrimento, com o contato com o homem europeu. Os carijós, em se tratando de litoral, estavam fixados entre as cidades de São Vicente, no litoral do Estado de São Paulo, passando pelo Paraná, indo até a extremidade do Brasil, na região da Lagoa dos Patos, no atual estado do Rio Grande do Sul. Os carijós fixados no litoral catarinense pouco se movimentavam. Os primeiros passos dados no interior das matas foram para buscar alimentos, principalmente a caça. No inicio eram somente algumas picadas abertas na mata, que, com o uso repetitivo e com o tempo, foram se transformando em caminhos, e num futuro mais distante em estradas. As andanças e caminhos percorridos pelos nossos índios catarinenses tiveram as primeiras trilhas abertas no século passado (15001600), partindo de Florianópolis, e foram direcionadas para o sul de Laguna, na tentativa frustrada de colonização ou para fugir das atrocidades de portugueses e espanhóis. Somente a partir da chegada dos primeiros colonizadores, principalmente Sebastião Caboto e Cabeza de Vaca, os carijós catarinenses começaram a ser utilizados para abrir trilhas, carregar mantimentos e também como guias das expedições, na tentativa de se chegar à região do Prata através do planalto catarinense, especialmente nas expedições feitas por terra, no sentido sudestenoroeste, de Aleixo Garcia, em 1523, e de Cristoval de Saavedra, em 1551, quando ambos saíram por terra das proximidades da Ilha de Santa Catarina em direção ao Paraguai, e ainda da expedição de Hernando de Salazar e Afonso Bellido, em 1552, que saíram da cidade de Laguna. Também nas expedições que saíram do Paraguai e que fizeram o caminho inverso, sentido noroeste-sudeste, dos freis Bernardo de Armenta, Alonso Lebron e Afonso Vellido, em 1544-1545, em direção à Ilha de Santa Catarina, bem como a Laguna ou Mbiaçá. Alguns outros desbravadores da Coroa espanhola fizeram o caminho inverso noroestesudeste em direção à Ilha de Santa Catarina e à cidade de Laguna. Nestas expedições, de Aleixo Garcia, de Cristóval de Saavedra, dos freis Bernardo de Armenta, Alonso Lebron, Afonso Vellido e também de Hernando de Salazar, não se tem notícias de que os mesmos se utilizavam de embarcações partindo da Ilha de Santa Catarina e da cidade de Laguna para se chegar diretamente à foz do rio Itapocu e vice-versa Concordo com a opinião do Padre Tarcísio Marchiori, que, em seu livro Terra dos Carijós, afirma que “em muitos casos o caminho era percorrido por terra pelos índios, desde a Ilha de Santa Catarina, passando pela orla marítima e atravessando apenas alguns acidentes geográficos, que possivelmente impediriam o trânsito por alguma praia, entre a saída da Ilha de Santa Catarina e o Norte do Estado. Teríamos alguns pontos que impediriam que o trajeto fosse feito totalmente pelo litoral, Morro dos Ganchos (Governador Celso Ramos), Morro dos Bobos (Porto Belo), das Bombas (Bombinhas), Taquara (Balneário de Camboriú), 25

das Cabeçudas (Itajaí), das Estrelas (Penha) e dos Morretes (São Francisco do Sul)”. Esta afirmação também se baseia nos dados coletados das expedições dos desbravadores espanhóis no século XVI, com citações de acidentes geográficos que coincidem com este itinerário dentro do vale do rio Itapocu. Um exemplo seria uma citação na expedição de Cabeza de Vaca, em 1541, onde parte desta expedição se utilizou de algumas canoas, e que os mesmos chegaram num porto que seria as confluências dos atuais rios Humboldt e Novo, em Corupá. A expedição de Hernando de Trejo, Mencia Calderon e outros, em 1554, é citada no livro de Ruy Diaz de Gusmán, chamado popularmente de La Argentina Manuscrita, de 1612, onde também se referem que esta expedição subiu o rio Itapocu e, após contratempos e mortes causadas pela fome e doenças, chegaram a um porto de onde desembarcaram e deixaram as canoas para seguirem serra acima. Esta confluência seria a mais aceita porque até naquele ponto é possível navegar com pequenas embarcações. Nada impede que as confluências dos rios Jaraguá e Itapocu, e um pouco mais abaixo pelo rio Itapocu-mirim (Itapocuzinho) com o Itapocu poderiam ser também local de algum porto de canoas utilizadas por indígenas e pelos desbravadores da Coroa espanhola no século XVI. Porém, não se tem comprovações historiográficas e arqueológicas a respeito. Tese defendida principalmente pelo pesquisador e historiador catarinense, Lucas Alexandre Boiteux, em seu livro Santa Catarina no século XVI (Anais do primeiro congresso catarinense de História, em 1950), na qual deu o nome de Campo dos Aníris, que situava próximo da região da bacia hidrográfica do rio Preto (afluente do rio Negro), referente ao primeiro chefe da povoação indígena da nação guarani e vassala da Coroa espanhola, que foi descrito na expedição de Cabeza de Vaca, em 1541, como Aníriri. Também na expedição de Hernando de Trejo e Maria de Sanabria, eles citam o chefe da povoação indígena vassala da Coroa espanhola ao subirem a serra descrevendo com o nome de Gapúa ou Guapúa. Não se sabe se seria exatamente a mesma povoação indígena com chefes distintos em épocas diferentes. Este assunto é tratado até os dias atuais com profunda polêmica e total falta de consenso historiográfico sobre os primeiros caminhos abertos no território catarinense, principalmente relacionados ao ramal catarinense do Peabiru. A coerência dos primeiros caminhos aponta para a proximidade com o litoral, falando da continuação terrestre do ramal do Peabiru saindo próximo da foz do rio Itapocu até a Ilha de Santa Catarina e até mesmo a cidade de Laguna ou Mbiaçá (uma espécie de marapé ou parapé, que significa “caminho do mar”, utilizado pelos tupis a partir do litoral paulista). Deduz-se que alguns pontos da atual BR101 (trecho norte da rodovia) poderiam ter sido trechos antigos do Peabiru na costa catarinense. Box

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Os registros cartográficos holandeses, além de estarem anos à frente dos de origem ibérica, traziam também muitas referências quanto às tribos indígenas que habitavam as regiões demonstradas. As primeiras menções em mapas da Holanda aos índios Patos, além dos relatos dos primeiros navegadores portugueses que passaram pela atual Florianópolis no início do século XVII (inicialmente chamada de Porto dos Patos) e pelos bandeirantes paulistas, foram feitas por Jodocus Hondius, em 1622, que destacou o “R. Patus Plaia” e as “Seis Ilheas”. Em compensação, o geógrafo não mostrou o contorno da ilha que hoje é a capital do Estado de Santa Catarina, representada em seu atlas por uma península – apenas em 1631 Henricus Hondius vai revelar o formato da Ilha de Santa Catarina. Mesmo assim Jodocus Hondius não levou isso em conta em seu novo Atlas de 1633. Willem Blaeu reproduziu também a ilha, em 1635, seguido pelos cartógrafos holandeses Jan Jansson, em 1650, Frederik de Wit, em 1670, Petrus Berius, em 1675, Carel Allard, em 1680, Robert Mordern e, novamente, De Wit, em 1688, e Nikolaus Visscher, em 1698.

2.2 – RUMO AO NORTE A Ilha de Santa Catarina sempre foi, desde o início, o principal ponto de convergência dos carijós catarinenses. Ali se deu o maior ajuntamento; dali partiram para diversos pontos da América do Sul, mas primeiro precisavam transpor o mar que separava a ilha do Continente. A travessia do Estreito (0 KM) A travessia entre a Ilha de Santa Catarina é feita na região do estreito, assim chamado por ser o ponto de menor distância entre o Continente e a parte insular da ilha, com cerca de 400 metros. Estava evidentemente no interesse dos índios como o ponto mais fácil de passagem, local onde mais tarde foi construída a ponte Hercílio Luz (1924). Neste trecho, o mar é extremamente calmo, entre as baías norte e sul pode-se fazer a travessia até mesmo com pequenas embarcações, como as canoas indígenas. São José (1 KM) Com uma área total de 114,7 km, localizado na latitude 27º, 36º, 55º S, altitude ao nível do mar, tem como limite a leste as águas da baía sul da ilha de Santa Catarina, a oeste São Pedro de Alcântara e Antõnio Carlos, a norte Biguaçu e Florianópolis, e a sul Palhoça (Rio Imarui). As terras elevadas existentes na região fazem parte do conjunto geomorfológico conhecido por Serra do Tabuleiro, cuja maior expressão no 27

município de São José é o Morro da Pedra Branca, de 450 m de altura. Com superfícies planas, permite percorrer uma extensa planície costeira, sendo que o solo em toda a região de baixada é de argila arenosa. Avista-se a Ilha das Noivas, atravessa-se o Rio Buchele, passa-se por Barreiros, Serraria, depois vem o Rio Serraria, que faz a divisa com Biguaçu. Biguaçu1 (16 km) Área total de 326 km², localizado na latitude 27º, 49º, 27º S, altitude 0,2 m acima do nível do mar. Divisa a oeste com os municípios de Antônio Carlos e São João Batista, a leste com o Oceano Atlântico (baía Norte da Ilha de Santa Catarina) e também com o município de Governador Celso Ramos. Divisa ao norte com Tijucas e Canelinha e ao sul com Antônio Carlos e São José. Está localizada entre as serras do leste catarinense (vertentes do Atlântico) e o mar (baía Norte da Ilha de Santa Catarina). Suas serras cobertas de mata atlântica são: da Queimada, Timbé, Cabo Frio, do Itinga, da Dona ou Boa Vista ou Major, da Guiomar, das Congonhas, ponto mais alto do município com 900 m. Seu território é cortado pelo Rio Biguaçu, que nasce na serra do Pai João, município de Antonio Carlos, e sua extensão é de 46.800 m, sendo o maior do município. Outro rio importante que corta a região de Biguaçu é o Rio Inferninho, que nasce na Serra da Dona e desemboca no Oceano Atlântico. Há ainda os rios Serraria, que nasce na Serra de Santa Filomena, com 21.750 m, em parte encachoeirado; o rio Três Riachos, que nasce na serra da Guiomar; e o Cachoeiras, na Graciosa. Temos ainda os rios Felicio, divisor distrital de Sorocaba do Sul e Guaporanga e o do Camarão, que nasce na Estiva e desemboca no Oceano Atlântico. Prossegue-se à beira-mar até a região da Tijuquinhas, em seguida chega-se à divisa do município de Governador Celso Ramos.

1Biguaçu, nome de origem indígena. Existe pelo menos três versões para seu significado, a mais aceita é a que significa “Biguá Grande”. Biguá é um pássaro aquático ainda hoje encontrado no rio Biguaçu.

Governador Celso Ramos (30 KM) A região conhecida como Ganchos, com 93 km², faz divisa a oeste com Biguaçu, com Tijucas e o Oceano Atlântico, ao norte; ao sul e a leste com o Oceano Atlântico; latitude 27º 18' 53", com altitude de 35 m acima do nível do mar. Surge o primeiro obstáculo no caminho à beira-mar, a Serra da Piedade (Armação), coberta pela Mata Atlântica tropical, com seu cume tendo 620 m de altura. Neste ponto o caminho segue paralelo ao Rio Jordão até o Canto dos 28

Ganchos, tendo os morros Vira Saias e dos Ganchos, à direita, no município de Gov. Celso Ramos (Ganchos); do lado esquerdo da planície as serras de São Miguel e Queimada, numa extensa planície de sedimentação marítima que vai até a foz do Rio Tijucas. Tijucas2 (55 Km) Localiza-se a uma latitude 27º 14' 29", com altitude média de 2 m acima do nível do mar e uma área de 278,9 km². Limita-se ao sul com Biguaçu e Governador Celso Ramos, a leste com o Oceano Atlântico, a oeste com Canelinha e São João Batista, ao norte com Porto Belo, Itapema e Camboriú. O caminho aí era pela estrada do Timbé, pois surge novo obstáculo à caminhada, que não é mais a topografia, e, sim, a hidrografia, ou seja, o grande rio Tijucas3, com mais de 150 m de uma margem à outra. Tinha que se seguir margeando o Rio, transpondo tiriricas e muita lama, até onde o rio ficasse mais estreito, para que se pudesse fazer a travessia a nado, utilizando-se troncos de árvores para colocar os pertences e também ajudar na travessia, quando não se podia contar com a ajuda de outros indígenas que viviam nas margens do rio. Geralmente esta travessia ocorria na região de Nova Descoberta, onde hoje é a travessia da rodovia SC-411. Do outro lado do rio, caminha-se pelas suas margens, em linha reta, por uma extensa planície, até o atual bairro da Praça; daí segue-se em direção ao hoje bairro de Santa Luzia, onde se depara com o Rio Santa Luzia (Bobos). Não há dificuldades na travessia pela sua largura, entre 8 e 15 m, já feita agora sobre enormes troncos de árvores (pinguelas).
2 Com o passar dos tempos, foi observado na foz do Rio Tijucas e nos arredores uma lama escura, que na língua dos indígenas quer dizer “Tiyuco”. 3O rio Tijucas (Tiyuco na língua dos índios) nasce na serra da Boa Vista numa altitude próxima dos 1.000 m, no município de Rancho Queimado. Passa entre a sede do município e o distrito de Taquaras, segue a oeste de Angelina e, próximo à pequena localidade de Garcia, recebe as águas do rio Engano, vindo do oeste. Passa também ao oeste das cidades de Major Gercino e São João Batista, onde recebe as águas do rio do Braço e a partir de onde passa a correr paralelo à rodovia SC-411, seguindo, então, por Canelinha e, finalmente, banhando a cidade de Tijucas, onde cruza com a rodovia BR- 101, na qual há duas grandes pontes. Poucos quilômetros após, deságua no Oceano Atlântico, a cerca de 50 km ao norte de Florianópolis

Porto Belo (56 KM)

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A Enseada das Garoupas localiza-se a 27º 9º, 28, com 95 km e com uma altitude média de 1m acima do nível do mar. Seus limites são: ao norte, com os municípios de Itapema e Camboriú e Oceano Atlântico; ao oeste, com o município de Tijucas; ao sul, com os municípios de Tijucas e Bombinhas e o Oceano Atlântico; ao leste com o município de Bombinhas. O relevo do município é muito acidentado, com colinas e morros. Sua costa é bastante recortada, dando lugar às praias e enseadas, como a baía de Porto Belo, a enseada da Encantada e da Caixa d’Aço, as praias de Perequê, de Porto Belo, das Vieiras, do Araçá, do Estaleiro, do Canguá, do Fagundes, do Araújo e da Ilha do João Cunha. Os rios mais importantes são o Perequê e o Perequezinho, que fazem divisa com o município de Itapema. O Rio dos Bobos (Santa Luzia) faz divisa com Tijucas, e na sede do município estão os rios Rebelo e da Vina, ambos de menor porte. Nesta caminhada em direção ao norte, em uma extensa planície desde o rio Tijucas, agora segue-se pela estrada geral de Santa Luzia, com o morro dos Bobos à direita, chega-se ao rio Perequê, de igual largura ao dos Bobos, anteriormente transpassado. Itapema4 (60 KM) Localiza-se à latitude 27°, 05’, 25’’ S, com altitude de 2 m acima do nível do mar. Seus limites são: ao norte, com Balneário de Camboriú; ao sul, com Porto Belo; a leste, com o Oceano Atlântico; e, a oeste, com Balneário de Camboriú. O solo predominante no município de Itapema é argilo-arenoso, próximo ao litoral, enquanto nas terras elevadas o solo é pedregoso. O município faz parte do conjunto geomorfológico denominado regionalmente Serra do Tabuleiro/Itajaí e Planície Costeira. Em nível microrregional, a serra recebe o nome de Tijucas e ainda de Areal ou Maçados, do Cantagalo e do Encano. O ponto mais elevado do conjunto em terras de Itapema é de 365 m e fica na Serra do Cantagalo, onde se destacam as diversas cachoeiras, como: Cachoeira do Sertão, localizada no Sertão do Trombudo, a cerca de 8 km do centro, possui águas claras e límpidas, que abastecem os municípios de Itapema (Meia Praia), Porto Belo, Bombas e Bombinhas. Possui um riacho com pedras, sem muita profundidade e é cercada de árvores exóticas e Mata Atlântica; Cachoeira do São Paulinho, situada na bacia do Bairro São Paulinho, a aproximadamente 3 km do centro, na Mata Atlântica; Cachoeira do Sertãozinho, uma das menores, fica no Bairro do Sertãozinho, a cerca de um quilômetro; Cachoeira do Bairro Ilhota, distante 12 km do centro, fica no Bairro Ilhota e é área de preservação ambiental.
4 Itapema significa: ITA, pedra, e PEMA, monte, na língua Tupy Guarani.

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Seu litoral mede 16 km de extensão e é composto de cinco praias de características distintas: a Meia Praia, a maior de todas; Praia do Costão (ou Canto da Praia), tem o clima tranquilo de uma vila de pescadores, paisagem típica açoriana, que deu origem à colonização de Itapema; Praia do Cabeço, ou Grossa, cercada pelo verde exuberante das encostas, é uma praia selvagem; Praia de Ilhota, com águas cristalinas e fortes correntes, o local fica distante cerca de cinco quilômetros do centro de Itapema, na direção Norte; e Praia do Centro, a praia que banha o centro de Itapema, que também tem mar calmo e cristalino. A região da baía de Porto Belo, onde se localiza Itapema, apresenta uma excelente rede hidrográfica, destancando-se o Rio Perequê, o mais importante do município, tanto em volume de água como em extensão. Nasce no Morro da Miséria, no conjunto geomorfológico da Serra do Tijucas. Tem-se também o Rio Areal (Paulino) e o Rio Itapema, resultado de diversas cachoeiras nascidas nas serras dos Macacos e Encano, e ainda o Rio Itapema, que é o resultado de inúmeras cachoeiras nascidas nas serras dos Maçados e Encano, que se juntam para formar inicialmente dois pequenos rios, o Areal e o Fabrício.

Camboriú5 (82 KM) O significado do nome Camboriú é de origem tupi-guarani e, assim sendo, a grafia deveria ser Camburiú. Os indígenas inspiraram-se no relevo da Pedra Branca, morro que lembra um seio de mulher e que é visível de diversos pontos do município. Este morro hoje pertence ao Balneário Camboriú. De acordo com Patrianova, em seu Pequeno Livro, Cambu significa mamar e Ryry, que é igual a Ruru e que é igual a Riu, significa recipiente de mamar, ou seja, seio. Camboriú é corruptela de Camburiru, como era conhecido o lugar, depois mudado pelos caiçaras para Camboriú. Existem no Brasil vários lugares com o nome de Cambu ou Camburiú e em todos se observam relevos geográficos em forma de mama. Sua área total é de 211,6 km², localizado na latitude 27°, 01’, 31’’ S, com altitude de 8 m acima do nível do mar.
5De origem indígena tupi, há várias denominações, como: Camboriasu, em 1779; Cambariguassu, em 1797; Camborigu-assu, em 1816, até chegar a uma referência de Henrique Boiteux como Camborihu; que significa Rio de muito robalo ou criadouro de robalo, peixe muito comum nesta região. Camboriú é uma palavra de origem tupi formada pela aglutinação de uma palavra “Cambori” e do sufixo “u”. Cambori significa robalo e o sufixo u neste caso seria criadouro, comedouro, habitat. Então, se considerada esta hipótese, Camboriú significa “onde há robalo” ou “criadouro de robalo”.

A rede hidrográfica é constituída pelo Rio Camboriú. Formam ainda a rede os afluentes do Rio dos Macacos, o Rio Canoas, Rio Pequeno, Rio do Cedro, Rio 31

Peroba e Rio Canhanduba, todos desembocando no Rio Camboriú e este no mar, em Balneário Camboriú. O Rio Camboriú tem uma extensão de 40 km, da nascente a foz, e corta o município de oeste a leste. O volume de água é regular e tem pouca correnteza, deslizando por entre ribanceiras, em geral elevadas. O relevo é de superfícies onduladas e montanhosas, serras cristalinas de embasamento cristalino, formação escudo cristalino, sendo parte do complexo litorâneo de Santa Catarina. O solo é de textura argilosa e média/argilosa, em muitos casos com cascalho ou cascalhenta. Balneário Camboriú (83 KM) Sua área total é de 46,4 km, localizado na latitude 26° 59‘ 26’’ S, altitude de 2 m acima do nível do mar. Superfícies planas e onduladas com formação do complexo litorâneo. Seus limites são: ao norte com Itajaí, ao sul com Itapema, a leste com o Oceano Atlântico e a oeste com o município de Camboriú. Todo o município é banhado a leste pelo Oceano Atlântico. O rio Camboriú, com seus 40 km de extensão e com sua nascente no município vizinho (Camboriú), corta a cidade de oeste a leste em 2,5 km. Ao norte, na divisa com Itajaí, está o rio Ariribá, com sua nascente na Serra do Ariribá, desaguando no Oceano Atlântico e na Praia dos Amores. A leste do rio Camboriú está o rio Peroba. O município é caracterizado por morros em suas divisas, pontos extremos ao sul, o Morro do Boi, e ao norte o Morro do Careca. Entre eles estende-se mais de 6 Km de praias: Central, Laranjeiras, Taquarinhas, Taquaras, do Pinho, Estaleiro, Estaleirinho, Buraco, Canto e dos Amores. Para se chegar a Itajaí eram abertas picadas, através das praias do Buraco, Brava e Cabeçudas. Itajaí6 (98 KM) Território ocupado pelos carijós e, posteriormente, pelos índios botocudos ou caigangues, do grupo tapuia (hoje conhecidos por Xokleng). Com uma área total de 304 km², localizado na latitude 26° 54‘ 06’’ S, predomina a faixa altimétrica de 0 a 200 m. No noroeste de Ilhota, no sul de Camboriú e em Itapema a altimetria atinge os 400 m.
6 O nome ITAJAÍ é de origem indígena e significa: ITA = pedra, JAÓ = pássaro, ave, ou seja, pássaro de pedra.

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Seu relevo é caracterizado por duas regiões, a primeira de topografia acidentada, formada por estrutura cristalina do período algonquiano, litologicamente formada por quartzitos, filitos e mármores. Esta região situa-se na parte sul do município, onde se destacam a serra de Camboriú, na divisa Itajaí/Camboriú, e a serra do Brilhante, também divisa Itajaí/Brusque. Dentro da área do município, na faixa compreendida entre a divisa de Itajaí/Camboriú, até atingir o Rio Itajaí-Mirim, aparece uma série de elevações que recebem as denominações de Morro do Gavião, Morro da Canhanduba, Morro de Cabeçudas. Na faixa compreendida entre o Rio Itajaí-Mirim e a divisa com o município de Ilhota, aparecem duas elevações denominadas Morro da Onça e Morro da Espinheira. A segunda região da planície é constituída de sedimentos recentes, do período quaternário, litologicamente formado de cascalhos pleistocênicos encontrados nas partes baixas e colinas marginais, e por sedimentos flúviomarinhos a nordeste do município. As restingas são parcialmente cobertas por aluviões do Rio Itajaí-Mirim, cujas margens são, por isso, ligeiramente elevadas. As planícies costeiras, que evidenciam ações e processos marinhos e eólicos, ocorrem no litoral de Piçarras e Navegantes e nos vales dos rios Itajaí-Açu e ItajaíMirim. As planícies fluviais salientam-se no médio vale do Rio Itajaí-Mirim, no baixo vale do Rio Luís Alves e no vale do Rio Camboriú. As serras do leste catarinense, com baixa altimetria, aparecem na ponta de Penha e no restante da microrregião. Toda a costa apresenta pontas, promontórios, praias, enseadas e ilhas. A vegetação nesta região, em toda sua extensão, é pouco densa, constituída principalmente de arbustos e restingas. No interior do município se verificam as maiores concentrações, sobretudo nas serras e encostas, dando assim uma pequena amostra da vegetação litorânea. Podemos destacar as duas áreas de distribuição vegetal: a planície quaternária, onde as árvores variam de 10 a 15 m de altura, destacando-se a figueira de folha miúda, a cupiúva, canela amarela e, nas regiões mais úmidas, o ipê amarelo; nas serras e encostas variam entre 25 m e 30 m, sobressaindo-se a canela preta, a peroba, a cupiúva e a canela amarela. A geologia é composta de uma cobertura sedimentar quaternária, aparece no litoral e no vale do Rio Itajaí. O embasamento cristalino, predominantemente os xistos, os filitos, os calcários e os quartzitos, surge no vale do Rio Camboriú; as áreas de cobertura vulcano-sedimentar da era paleozóica se encontram no norte de Ilhota. Ainda no embasamento cristalino, os granulitos aparecem no norte da microrregião; os gnaisses e migmáticos e os granitos salientam-se no sul da microrregião – geralmente em altos topográficos –, em Itapema e Porto Belo. O solo da região de Itajaí é composto dos vales dos rios Itajaí-Açu, Itajaí-Mirim e Luís Alves e possuem solos glei húmico e glei pouco húmico (solos de elevado teor de matéria orgânica, em ambiente com excesso de umidade, usados para o plantio de arroz irrigado, 33

hortaliças e cana-de-açúcar). Itajaí subaproveita sua capacidade minerária. O município tem registro de 44 km² de áreas de mineração, o que representa 14,47% da área do município nas mãos de empresas mineradoras. Com relação ao solo urbano, de uso predominantemente residencial, pode-se destacar as seguintes áreas: área de ocupação antiga, limitada pelo rio Itajaí-Mirim; encosta do Saco da Fazenda e eixo rodoviário Navegantes – Luís Alves; Balneário de Cabeçudas e Balneário de Praia Brava – uma área de ocupação recente situada ao longo da margem esquerda do Rio Itajaí-Mirim, ao norte do canal oeste. O Rio Itajaí-Açu7 é o rio mais importante do Vale do Itajaí. Forma-se no município de Rio do Sul, pela confluência dos rios Itajaí do Sul e Itajaí do Oeste. Seus maiores tributários, pela margem esquerda, são: o Rio Hercílio (na divisa de Lontras e Ibirama), o Rio Benedito (em Indaial) e o Rio Luís Alves (em Ilhota). Pouco antes da foz do Oceano Atlântico – mais precisamente 8 km – o Rio ItajaíAçu recebe as águas do principal tributário pela margem direita: o Rio Itajaí-Mirim. Passa, a partir daí, a chamar-se Rio Itajaí. Este rio, depois do Rio Tijucas, era o principal obstáculo para se chegar à foz do Rio Itapocu, com uma profundidade média de 12 m, e largura média entre 100/150 m, no trecho entre Blumenau e Ihota, e nos próximos 20 km a desembocadura varia entre 150 e 300 m, somente em alguns pontos localizados, devido à presença de afloramentos naturais. A travessia do Rio Itajaí se dava geralmente na sua foz, ou barra, onde havia aldeias carijós nas duas margens, facilitando assim o uso de canoas para este fim.
7 O nome ITAJAÍ-AÇÚ é de origem indígena e foi adotado pelos índios que ocuparam a praia de Cabeçudas em Itajaí, estando ligado à formação de pedra conhecida atualmente como Bico do Papagaio. Na sua forma original, assemelhava-se a cabeça de uma ave, o Jaó. Por este motivo a palavra Itajaí-Açú significa: ITA = pedra, JAÓ = o pássaro, a ave, YAÇÚ = rio grande do Jaó de Pedra, ou seja, rio grande do pássaro de pedra.

Navegantes (111 KM) Após cruzar o Rio Itajaí-açu, encontramos o município de Navegantes, com uma área de 111 km², localizada na latitude 26°, 53’, 56’’ S, altitude de 12 m acima do nível do mar. O trajeto é feito totalmente pelo litoral sem qualquer interrupção, passando-se pelo Ribeirão das Pedras e São Domingos, e chega-se ao Rio Gravatá, divisa com o município de Penha.

Penha8 (121 KM) 34

Sua área é de 59 km², localizado na latitude 26°, 46’, 20’’ S, altitude 20 m acima do nível do mar. A serra da armação do Itapocoroy, nome derivado do guarani Itapocorá, que tem como significado “parecido com um muro de pedra”, é, para alguns, o berço dos índios carijós. Surge após longo trecho de praia, último acidente geográfico à beira-mar, no trajeto entre a Ilha de Santa Catarina e a entrada do rio Itapocu. Balneário Piçarras9 (118 KM) Área total de 85,4 km, está localizada na latitude 26° 25’ 50” S, altitude de 18 m acima do nível do mar. O relevo é constituído de planície litorânea com montanhas esparsas, altitude média de 30 m. Piçarras está praticamente integrada à enseada de Itapocoroy, separada apenas pelo morro do Cambri. A serra (Armação) de Itapocoroia, segundo algumas teses sobre o itinerário do caminho do Peabiru, desde a ilha de Santa Catarina e Laguna, seria uma suposta continuação, por onde seguiria o caminho indígena por terra até a ilha de Santa Catarina e Laguna. Esta pequena serra seria o último acidente geográfico por onde o caminho indígena litorâneo transpassaria antes de se chegar à foz ou próximo da foz do rio Itapocu, localizada ao norte no município de Barra Velha. Barra Velha10 (120 KM) Sua área total é de 278 km, localizado na latitude 26° 37’56” S, altitude de 35 m acima do nível do mar. Com planícies rasteiras e diversidade de solos e vegetação, faz parte do complexo litorâneo de Santa Catarina. Seus limites são: ao sul Piçarras, com a serra (armação) Itapocoroia, e ao norte a atual desembocadura do rio Itapocu, na Lagoa do Norte, ou da Cruz. Serve de limite territorial das cidades de Barra Velha e Barra do Sul. Ao leste, o Oceano Atlântico, ao oeste com Luiz Alves e São João do Itaperiu. Com planícies rasteiras e diversidade de solos e vegetação, sua hidrografia é constituída do rio Itapocu (principal bacia) e pequenos mananciais, como os rios Itajuba, do Peixe, Novo e Luis Alves. A captação de água vem do Ribeirão do Machado (afluente do Rio Itapocu). A vegetação predominante é mata Atlântica (ombrofila densa). (Esta caminhada de 120/150 km, com início na Ilha de Santa Catarina e terminando na foz do Rio Itapocu, em Barra Velha, levava, em média, de sete a dez dias.)

8 O nome Penha é em homenagem a Nossa Senhora da Penha.

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9 O nome Piçarras tem origem em piçarra, rochas de argila abundantes no subsolo do município. 10 A origem do nome Barra Velha está ligada à mudança da saída do rio Itapocu no oceano Atlântico. De acordo com os historiadores, tudo começou em 1504, quando o navegador Binot de Godville observou que havia uma barra que recebia águas de dois rios que desembocavam junto às pedras de um costão. Assim se formou uma barra de boa profundidade. Com o tempo a ação dos ventos na areia foi assoreando até fechar completamente. Isto causou uma inundação na região que provocou a abertura de uma nova barra, atualmente chamada de Boca da Barra. E foi assim que a região passou a ser conhecida como Barra Velha

2.3 – CAMINHOS DO PEABIRU Com certeza o rio Itapocu, que já foi chamado neste mapa de rio del Ancon, tem mostrado sua importância como referência por sua imponência em todo o vale do Rio Itapocu. Os desbravadores da Coroa espanhola não deixaram de marcar este acidente geográfico ao passar pelo rio Itapocu em direção aos altiplanos e, consequentemente, ao Paraguai. O Padre Tarcísio Marchiori, em seu livro Terra dos Carijós, se baseando numa das cartas do frei Bernardo de Armenta, afirma que o frei teria descoberto ouro próximo da serra do Jaraguá, ao retornar de Assunção no Paraguai, em 1544/1545. Com base nestes registros e outros, como os de Hans Staden e Cabeza de Vaca, surgiram diversas teorias sobre o provável caminho do Peabiru em território catarinense: 1) O itinerário mais aceitável do ramal do Peabiru em Santa Catarina, num consenso histórico, geográfico e arqueológico, é o que se baseia na hidrografia do Rio Itapocu. Ele tem início desde a sua foz, no município de Barra Velha, até as confluências dos rios Humboldt e Novo, em Corupá, de onde o caminho, a partir deste ponto, começava exclusivamente por terra, a subir a serra até os Campos dos Aníris (ou “dilatadas llanuras de Ytatuá”, descritas por Cabeza de Vaca), entre São Bento do Sul (bairro Lençol) e Rio Negrinho (região entre Rio do Salto ao Rio Preto), se estendendo paralelamente este caminho próximo das margens do Rio Negro até a cidade de Mafra (SC) com Rio Negro (PR), de onde se tem estudo de que o caminho subia em direção à cidade de Lapa (PR) até chegar ao tronco principal paranaense na cidade de Castro.” Outra prova material a favor deste itinerário seriam os vestígios de caminhos indígenas antigos no trajeto de serra entre Corupá e São Bento do Sul, que possuem características semelhantes aos vestígios do Peabiru encontrados no Estado do Paraná. Quem defende esta teoria seria o pesquisador Igor Schmyz, que acredita que existiu uma tribo, provavelmente da nação Guarani, na região dos altiplanos do território que compreende hoje Joinville e Campo Alegre, no século XVI, chamada “Itaguaçu” ou “Pedra Grande”, fazendo uma alusão a este itinerário por ficar

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próximo de uma formação rochosa chamada “Castelo dos Bugres”, de onde se têm algumas presunções e lendas de que foi um dia um local sagrado para esta povoação indígena. Outro pesquisador, cuja teoria o Itapocuzinho poderia ser a continuação do itinerário do Peabiru pelo vale do Rio Itapocu, é Reinhard Maack, em seu esboço sobre o itinerário feito pelos desbravadores da esquadra de Sanábria. O mesmo ilustra em um croqui, feito juntamente com Karl Fouquet, no livro chamado Hans Stadens Wahrhaftige Historia, mostrando que do rio Itapocuzinho seria mais fácil para se chegar a Abapany e Tindiquera, ou ao vale do Rio Tibagi, no Paraná, nos dias de hoje, onde se encontra com o tronco principal do Peabiru. O pesquisador Cyro Ehlke também tem sua teoria a respeito deste possível itinerário pelo rio Itapocuzinho, pois acreditava que o “dito campo” seria em Campo Alegre. 2) Outra tese hipotética é de que haveria uma interligação dos dois caminhos indígenas usados com pretensões e épocas diferentes, pois tudo indica possa ter existido como uma interligação entre o ramal do Peabiru, no vale do rio Itapocu, com o caminho de Três Barras ou “Caminho Velho”, mais ou menos na altura do afluente do rio Itapocu, um pouco acima de sua desembocadura, próximo das margens do afluente chamado de rio Piraí, ou Piranga, como era conhecido antigamente, passando mais ou menos na região oeste da cidade de Joinville, aos pés da serra do mar (também próximo da formação rochosa dos altiplanos, chamada de “Castelo do Bugres”), seguindo mais ou menos pela mesma direção paralelamente à BR-101 até a cidade de Garuva, onde hipoteticamente se interligaria com o caminho de Três Barras e dos Ambrósios. O pesquisador Luiz Galdino, em seu livro Peabiru – Os Incas no Brasil, em um de seus croquis mostra esta possibilidade. Para outros, esta teoria seria apenas a “única possibilidade” de o rio Itapocu ter alguma “participação histórica” como ponto de referência do itinerário do Peabiru em Santa Catarina, quando o trecho não era percorrido por mar até a foz do rio Itapocu, pois estes mesmos defensores desta tese não aceitam a possibilidade de o rio Itapocu ter sido historiograficamente o ramal do Peabiru em Santa Catarina, dando ênfase apenas à suposta historiografia não comprovada para o caminho de Três Barras ou “Caminho Velho” em relação aos desbravadores da Coroa espanhola no século XVI, e tendo como ponto de chegada por este caminho pelo mar, não a foz do rio Itapocu, e, sim,mais ao norte, na baía do Palmital, em Garuva, ou na península do Saí, entre Itapoá e São Francisco do Sul. 3) Alguns pesquisadores fazem conjecturas de que o ramal do Peabiru do vale do rio Itapocu continuava a partir das margens de um dos afluentes do rio principal chamado rio Itapocuzinho ou Itapocu-Mirim, percorrendo o pequeno vale do Itapocuzinho, subindo os contrafortes da Serra do Mar, mais ou menos onde se localiza a continuação do afluente principal do rio Itapocuzinho, chamado de rio Manso, chegando nos primeiros altiplanos chamados naquela região de Campos 37

de São Miguel, e, dali, hipoteticamente falando, o caminho tende a ir em direção oeste ao Campo dos Aníris em São Bento do Sul e rio Negrinho. Dai este caminho seguiria tradicionalmente passando por Mafra (SC) e Rio Negro (PR). 4) Há ainda uma tese aceitável que é a possibilidade de ter existido uma segunda subida pela serra, também a partir das confluências dos rios Humboldt e Novo, em Corupá, pois, geograficamente, por ali se consegue chegar aos altiplanos também por um caminho de subida de serra menos íngreme, margeando, neste caso, através do rio Novo até os contrafortes da serra, contornando por baixo ao pé da serra do Guarajuva, pois nessa serra é inviável um caminho. Apesar de existir uma descrição histórica relatando a presença de índios no final do século XIX, se encontrando novamente com o itinerário mais aceitável no lugar conhecido como “rio Mandioca”, já em território altiplano de São Bento do Sul (SC). Mas o que sugere um desvio do itinerário a partir das confluências na cidade de Corupá seria alguns mapas do século XVII mostrando uma acentuação considerável da nascente do rio Itapocu à esquerda. Aos pés da serra este seria o único rio e confluência que se encaixaria numa analogia à interpretação e leitura dos mapas consultados. Nos mapas da segunda metade do século XVII, o rio Itapocu já aparece com dois braços de rio perto de suas nascentes. 5) Duas outras possibilidades desta interpretação referentes aos mapas consultados seriam de que o desvio poderia ser uma alusão ao outro afluente do rio Novo chamado de Ribeirão Correas, de onde também poderia se chegar com mais dificuldade aos contrafortes da serra e, consecutivamente, ao Campo dos Aníris, em Rio Negrinho. A outra possibilidade é de esta interpretação ser referida às confluências dos rios Itapocu com o Jaraguá, porém não se tem notícias e comprovações historiográficas de que por este afluente poderia ter existido um caminho, muito menos esta direção estaria fora do padrão de navegação sudestenoroeste e noroeste-sudeste. E, ainda, geograficamente falando, o lugar mais acessível de entrar serra acima nesta direção seria pelo vale do rio Jaraguazinho, de onde também poderia se chegar ao Campo dos Aníris, em Rio Negrinho, pela região altiplana do rio Preto, no mesmo limite territorial desta cidade. O adelantado Cabeza de Vaca, em 1541, quando ele e sua expedição chegaram ao dito “Campo”, se referiu ao local como sendo as “dilatadas llanuras de Ytatuá (Tatuá) pobladas de índios guaranis”. Segundo uma das traduções desta palavra indígena, o possível significado de ytatuá ou Tatuá seria aproximadamente esta: “faixa de terras planas povoadas por índios, aonde desaguam grandes quedas d’água”. Provavelmente, por ele e o resto da expedição terem visto as grandes quedas d’água nos arredores da serra.

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Joinville11 No início da imigração européia, na metade do século XIX, na antiga colônia Dona Francisca (atualmente a cidade de Joinville), já existia um caminho indígena antigo denominado Jurapé ou Jurapê, que ia no sentido leste-oeste, a partir da beira do rio Cachoeira/Lagoa do Saguaçu, e começava antigamente na MathiasStrasse (rua Matias), onde atualmente fica a rua Nove de Março, bem no centro da cidade, em direção ao bairro Vila Nova. Porém, este caminho aparentemente não tinha correlação alguma com o Caminho do Peabiru, mas não deixa de ser um caminho indígena, e apenas interligava os pontos da região próxima da baía da Babitonga (centro de Joinville) com a região da bacia hidrográfica do rio Piraí até os contrafortes da serra (onde possui o acidente geográfico com o mesmo nome chamado pico Jurapê ou Jurapé), além do outro acidente geográfico de formação rochosa chamado “Castelo dos Bugres”.
11A Colônia Dona Francisca foi fundada onde hoje se localiza a cidade, pois a Princesa Dona Francisca, filha de Dom Pedro I, recebeu estas terras como dote do seu casamento (1º de maio de 1843) com D. François Ferdinand Philippe (Francisco Fernando Philippe Luiz Maria de Orleans), o Príncipe de Joinville, na França, que posteriormente originou o nome da cidade.

São Francisco do Sul Antigamente, o itinerário do caminho de Três Barras ou “Caminho Velho” era utilizado, historiograficamente, pelos jesuítas da Companhia de Jesus, vindos da região do Guairá, e por vicentistas da capitania de São Paulo, no século XVII, além de tropeiros que passavam por este caminho trazendo gado dos altiplanos para a região litorânea catarinense, no século XVIII, em direção a São Francisco do Sul e para as demais vilas menores do litoral de Santa Catarina, que havia naqueles tempos. Este caminho provavelmente começava no pontal do Saí (lugar mais próximo para se chegar e sair da antiga vila de São Francisco Xavier do Sul), seguindo pelos banhados e manguezais, entre a serra que separa o Saí e o mar, e também na divisa do Paraná, passando provavelmente próximo das desembocaduras da foz de três riachos que deságuam na baía do Palmital, chamados neste ponto de Três Barras (daí veio o nome do caminho), tendo como ponto de referência uma das margens de um destes rios, chamado rio de Três Barras, chegando até os 39

contrafortes da serra, conhecidos como serra do Quiriri, antigamente conhecidos também pelos nomes de Icrín, Iquerím, Iqueririm, Iquiri (nome dado por causa de um pequeno riacho que corta aquela serra). Há ainda outros nomes parecidos, passando pelo trecho conhecido como “saboneteira”, onde o calçamento é de pedras maciças e que foi comprovado recentemente pelo pesquisador Gleison Vieira, em seu livro “Porto Barrancos/Berço de Garuva”, conforme documento encontrado no Arquivo Histórico no Rio de Janeiro, dando a ordem da construção do trecho da escadaria de pedras, pelo governador da província de Santa Catarina, João Coutinho, em 1852. Alguns anos atrás, o caminho de Itupava também tinha sido calçado com pedras, a mando da província daquele estado. Deste trecho em diante também existia um caminho secundário, paralelo ao que se é usado como padrão hoje, passando pela “pedra dos Jesuítas” (supostamente atribuído aos mesmos) e rochedo conhecido popularmente como Pedra do Guardião, chegando ao cume chamado de Monte Crista, seguindo próximo pelo divisor de águas desta serra, passando pela pedra conhecida como “cabeça de Dinossauro”, até atingir os Campos do Quiriri e também ao Campo dos Ambrósios e percorrendo o caminho com o mesmo nome em sentido norte-noroeste em direção à grande Curitiba (PR). O pesquisador joinvillense, Olavo Raul Quandt, tenta defender de forma hipotética e irredutível que o “único caminho do Peabiru em Santa Catarina” era feito por este itinerário desde os tempos imemoriáveis. Garuva 12 Por esse lugar passava um caminho antigo indígena conhecido como Três Barras (ou Caminho Velho) por causa da desembocadura de três riachos num mesmo ponto na baía do Palmital, em Garuva. Temos ali os acidentes geográficos chamados popularmente de Saboneteira, Pedra do Guardião e Monte Crista. São estes três que mais se destacam, mas somente o cume do Monte Crista pode ser visto aos pés da serra do Quiriri até o mar, na altura de Itapoá, e também da baía do Palmital, em Garuva. Com 432 km² e 6 m acima do nível do mar, Garuva faz fronteira ao norte com o estado do Paraná, ao sul com a cidade de Joinville e São Francisco do Sul, ao leste com Itapoá e ao oeste com Campo Alegre. Corupá13 O trecho da subida da serra leva também à localidade do rio Mandioca, entre Corupá e São Bento do Sul. O relevo desta pequena serra favorece a subida sem maiores dificuldades. A linha que percorre paralelamente ao itinerário principal entre Corupá e São Bento do Sul, porém ainda aos pés da serra do mar, se baseia nas descrições de um caminho indígena que existiu segundo os primeiro moradores de origem europeia e brasileira, nas margens do rio Vermelho até os

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contrafortes da serra, em São Bento do Sul, numa confluência de seu afluente, chamado rio dos Bugres, até chegar às localidades de Rio Vermelho (próximo das margens do rio Banhados), passando pela localidade de Serra Alta e próximo das margens do rio Banhados, onde este rio percorre dentro do Campo dos Aníris até a cidade de Rio Negrinho. Segundo a história local, os índios xoklengs, da etnia ou nação Jê, utilizavam este trecho preexistente para subir e descer a serra no vale do rio Itapocu. As duas estradas que existem naquele lugar supostamente seriam uma extensão de um caminho indígena, tanto a estrada dos Bugres, ou Buger Strasse, e também com uma bifurcação desta estrada chamada de Carvoeiro. Confluência do rio Natal (à direita) com o rio Vermelho (à esquerda), se originando ali o nome do rio “Humboldt,” nas divisas territoriais de Corupá e São Bento do Sul. Segundo esta tese, o caminho continuava margeando os rios Humboldt e Vermelho até os contrafortes da serra que envolve este rio. Rio dos Bugres, em São Bento do Sul (não confundam o nome deste rio com os outros dois que existem com esta mesma denominação nas cidades de Campo Alegre e Rio Negrinho), seria este afluente do rio Vermelho, uma das ligações do caminho indígena com o altiplano. Encontrados vestígios do antigo caminho indígena localizado no bairro Bomplandt na cidade de Corupá. O mesmo começa a subir os contrafortes da serra num divisor de águas. Salto da Bruaca em Corupá – Avista-se esta grande queda d’água desde alguns pontos da cidade de Jaraguá do Sul. Provavelmente foi esta uma das referências que o “adelantado” teve como visão da região e que mais tarde foi descrito na linguagem indígena de Ytatuá (Tatuá), ou seja, “rio por onde deságua grandes quedas d’água”, após ter chegado com sua expedição nos altiplanos. Salto 14 da RPPN – Emílio F. Battistella (conhecido popularmente como “Rota das Cachoeiras”). O adelantado Cabeza de Vaca, caso o mesmo tenha também se referido a visão desta outra grande queda d’água em seu comentário ao se chegar no dito “campo”, tudo indica que ele e a expedição tenham tomado como rota de subida da serra um dos afluentes do rio Novo, e não pela teoria da linha verde, no trecho da subida da serra pelo bairro do Bomplandt em Corupá, em direção a localidade do rio Mandioca, nos limites intermunicipais de Corupá e São Bento do Sul.
12 Garuva provém de uma árvore de cor amarelada, outrora abundante na região. 13 Corupá é um nome de origem indígena e significa paradeiro de seixos (lugar de muitas pedras).

São Bento do Sul 41

Interligação do vestígio encontrado no bairro Bomplandt em Corupá, mas este vestígio, que fica já nos altiplanos, se encontra próximo da bifurcação da BR-280 com a estrada que leva ao bairro de Serra Alta e também com o final da estrada do Carvoeiro, em São Bento do Sul. Dali já se avista parte do dito “Campo do Aníris”. Vestígio do caminho encontrado no bairro de Serra Alta (paralelo a BR280), em São Bento do Sul. Tem uma correlação direta com o vestígio encontrado no bairro Bomplandt em Corupá, segundo estudos arqueológicos e geológicos do solo. Jaraguá do Sul14 Com 539,2 km², 29,7 m acima do nível do mar e cercada pela cadeia da Serra do Mar, a cidade está protegida por morros de vegetação nativa preservada. Localizado à margem direita do rio Jaraguá, o Morro Boa Vista possui três picos: o Morro das Antenas, ou começo da Serra do Jaraguá, entre o atual limite territorial das cidades de Jaraguá do Sul e Guaramirim, com 896 m de altura; o Morro do Meio, com 824 m; e o pico Jaraguá, o cume mais alto com 926 m. O Pico Jaraguá, parte mais alta do Morro Boa Vista, recebeu esse nome dos primeiros bandeirantes paulistas, no sul do Brasil, pela semelhança com outra montanha de mesmo nome na capital paulista. De difícil acesso, é alcançado a partir do bairro Águas Claras. Um mapa do século XVI aponta este acidente geográfico, que se avista desde a cidade litorânea de Barra Velha e também parte do Canal do Linguado. Tudo indica que este acidente tenha sido desenhado como referência cartográfica ao rio Itapocu e que tenha sido um ótimo ponto de referência para os desbravadores da Coroa espanhola ao entrarem ou saírem do vale do rio Itapocu. Jaraguá do Sul faz limite com Campo Alegre e São Bento do Sul, ao norte; com Blumenau, Massaranduba, Pomerode e rio dos Cedros, ao sul; com Guaramirim, Joinville e Schroeder, ao leste; e com Corupá, ao oeste. Serra do Boi, na localidade de Santa Luzia, em Jaraguá do Sul – atrás deste vale se encontra o cume mais alto do vale do rio Itapocu, chamado Morro da Palha, com seus 1.176 m de altitude. A partir deste ponto, sobem os contrafortes da serra tomando como referências os rios Itapocuzinho e Manso.
14 O topônimo Jaraguá é de origem tupi-guarani e significa “Senhor do Vale”. É como os índios chamavam o Morro da Boa Vista, um dos mais imponentes na cidade

Campo Alegre15 42

Onde se situa o Campo de São Miguel e o Campo do Quiriri. Sem maiores estudos, os mesmos registram, historicamente, que a expedição de Cabeza de Vaca teria passado pelas terras do município de qualquer maneira. Há uma especulação de que o caminho poderia partir de um afluente do rio Humboldt, em Corupá, chamado de Ano Bom, e dali seguiria pelo pequeno vale, subindo os contrafortes da serra e chegando aos altiplanos, entre Campo de São Miguel e Campo dos Aníris, em São Bento do Sul (passando pela região do rio Banhados), porém não se tem comprovações historiográficas e arqueológicas a respeito. Tem 506 km² e fica a 870 m acima do nível do mar. Limites: São Bento do Sul, Garuva, Joinville e Jaraguá do Sul. No Estado do Paraná os municípios limítrofes são Tijucas do Sul, Agudos do Sul e Piên. Acidente geográfico conhecido popularmente como “Castelo dos Bugres”. Fica a 1.010 m acima do nível do mar e seria um local sagrado na rota do Peabiru, segundo as teses de alguns pesquisadores, sendo que este acidente geográfico fica próximo das teorias do caminho do Peabiru pelo Rio Itapocuzinho. Rio Negrinho 16 A região que compreende os Campos de São Bento do Sul e Rio Negrinho entre os bairros Serra Alta e Lençol, em São Bento do Sul, era conhecida e indicada nas descrições históricas e também nos mapas dos séculos XVI e XVII como sendo o dito “campo ou campo abierto”, por onde se encontrava a primeira povoação descrita por Cabeza de Vaca sobre o comando do chefe indígena Anníriri. Tem 908 km² e localizada a 792 m acima do nível do mar. Limites: ao norte rio Negro, ao sul Doutor Pedrinho, a leste Mafra e ao oeste São Bento do Sul, Corupa e rio dos Cedros.

Estado do Paraná A entrada no estado do Paraná se daria na região do Campo dos Ambrósios, no município de Tijucas do Sul (PR), sendo a primeira ligação entre o Planalto de Curitiba (PR) e São Francisco do Sul (SC).

15A cidade foi nomeada em alemão de Froeliches Feld, que traduzido significa “Campo Alegre”, nome recebido devido ás belas paisagens naturais que existiam. 16Seu nome homenageia ao Rio que passa pelo Centro da Cidade.

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CRONOLOGIA DAS LEIS RELACIONADAS AOS ÍNDIOS NO SÉCULO XVII

31/12/1601 Lei abole a escravidão indígena. 30/07/1609 D. Felipe II – expede alvará que liberte os nativos brasileiros, os indícios e Alvará que indefere novamente à enxurrada de petições oriunda do colonato pela escravização do índio, sob a permanente alegação da falta de mão de obra. "...Para se atalharem os grandes excessos que poderá haver se o cativeiro em algum caso se permitir..." E mantém a confiança nos jesuítas, "pelo largo conhecimento que têm..." 10/09/1611 Lei - Art. 2º - "Todavia era reputado legitimo o cativeiro não só dos aprisionados em guerra justa..." Madri restabelece a legalidade do cativeiro do índio. 08/06/1625 Alvará: SM volta a proibir a escravização do índio. O colonato sublevou-se como nunca. A Câmara "fez suspender a vigência, até que as Cortes mandaram o Gov. Francisco Coelho de Carvalho. Os Jesuítas queixavam-se. A Holanda havia dado a si o direito de celebrar acordos com o indígena. No sul as atrocidades eram piores e sem leis. 20-10-1621 Alvará da Coroa portuguesa proíbe negro, mulato ou índio de exercer a profissão de ourives no país. 18/09/1628 Decreto: O Rei manda punir os culpados, tantas eram as notícias de maus tratos, perseguição e morte do indígena. Os colonos se rebelaram. Difícil era se estabelecer sob qual regime, de qual Lei, regia o convívio de índios e colonos. A priori a Lei de 1611 era a mais evocada. Acuados os Padres apelam, ao mesmo tempo, diretamente, a Madri e ao Sumo Pontífice. A Madri foi feito emissário o Pe. Rui de Montoya; a Roma o prelado Francisco Dias Tano. 13/06/1640 I Carta de S. Paulo, expulsão dos Jesuítas do território paulista. 22/06/1640 I Carta do Rio de Janeiro. Os padres assinam acordo com o Estado Colonial Brasileiro declarando não se intrometerem nas administrações particulares do indígena, somente nas aldeias sob suas responsabilidades. 01/12/1640 Fim da União Ibérica. 03/10/1643 Alvará e Carta Régia restituem os Jesuítas a São Paulo, até deliberação posterior. (Portugal não estava mais anexada à Espanha). 21/10/1652 Carta Régia – 1653 Pe. Antonio Vieira chega ao Maranhão 44

17/10/1653 09/04/1655 23/06/1655

com Carta Régia de 21/10/1652, com poderes para tratar a seu juízo das questões do índio. Provisão, a trôpega Corte Portuguesa não só restabelece todos os casos possíveis de escravidão, como cria outros. Lei, por interferência de Pe. Vieira Sua Alteza ameniza os rigores contra o índio. (Pela provisão de 1653, mantinha os quatro casos antigos, a exemplo da guerra justa.). Bahia, CR confirma Assento local de 6-4-1643 que delibera fazer guerra aos índios, sob comando de Gaspar Rodrigues. O lado avaro atinge a Pe. Vieira. Em carta desta data ele faz entrega de "240 prisioneiros que conforme as leis de S.M., foram julgados por escravos e entregues aos soldados, por terem impedido a pregação do evangelho..." Lei de SM proibiu aos padres da Cia. e a todos os outros, toda e qualquer jurisdição temporal sobre os indígenas. SM reafirma a Lei de 1663 e aduzia mais duas proibições: a) proibia aos padres tomar parte na repartição dos índios prisioneiros; b)dando ao Juiz mais velho aquela antiga atribuição, conforme lei local, (isto é, lei da colônia) Lei de abril de 1680, restabelece algum benefício da Lei de 30-06-1609. Grande inovação, determina "seja distribuída terra aos índios" Abolição da Escravidão dos Índios. CR trazidas pelos padres, em face da chamada "Rebelião dos Padres". Os padres voltam vitoriosos de Lisboa. Esta dava aos padres poderes, para sempre, além da direção espiritual, também o governo temporal e político dos índios. (Ledo engano) Atônito com tantas rebeliões dos colonos, SM D. Pedro II (o rei), edita o Alvará do Perdão. Ação que se torna recorrente daí por diante. (Perdão aos colonos que se rebelam contra as Leis da Coroa, na questões indígenas). O Caos se estabelece. Diz Pe. Vieira em cartas de 20-5-1653 e 4-041654 - "A título de resgates, não havia senão extorsão e impiedade, a Majestade era nomeada, mas não obedecida" Carta-régia proíbe que escravas usem vestidos de seda ou objetos de luxo. CR, cada uma, verdadeiro apelo ao cumprimento das normas legais. Em vão!!! Quase todos os moradores se achavam incursos nelas por cativarem índios contra as normas régias. D. Pedro II socorre-se do Alvará do Perdão,

11/02/1660

112/09/1963 09/04/1967

Abril/1680 01/04/1680 21/12/1686

06/02/169

20/02/1696 20/11/1699

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26/02/1696

isenta os incursos. Cria a figura da multa para quitação daquelas penalidades Carta-régia autorizando "em a Capitania de S. Paulo a criação de novas administrações particulares de índios".... observadas as leis.

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CAPÍTULO III
OS JESUÍTAS

3.1 – O abandono 3. 2 – A Companhia de Jesus 3.3 – Os jesuítas 3.4 – Cronologia das missões

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3.1 – O ABANDONO A Ilha de Santa Catarina foi esquecida pelas coroas espanhola e portuguesa, quando, em determinado momento, começam a cessar os planos de ocupação da ilha pelos espanhóis, e passam a descer ao longo da costa os jesuítas portugueses, substituindo aos franciscanos, e os bandeirantes tendem a levá-los para as suas empresas. A ação principia antes de 1600, cresce depois e se divide em fases. Tudo foi facilitado quando da união das duas coroas, no período de 1581 a 1640. Mais especificamente sobre o índio, importa anotar que, também para a história do nativo catarinense, acontece um novo tempo. Não mais tratado pelo missionário franciscano espanhol, passou à órbita do missionário jesuíta português. Antes o índio comerciava com as expedições em trânsito, agora passa a ser desejado pelo bandeirante que o induz ao trabalho em seus empreendimentos. O ordenamento didático dos acontecimentos dessa fase nova do Sul admite uma divisão material e cronológica, colocando em destaque neste capítulo a ação dos missionários. A ação missionária no Sul não chegou a ser significativa, e ocorreu numa sucessão de episódios, sem muita ligação entre si. 3.2 – A COMPANHIA DE JESUS No contexto da Dinastia Filipina, o incontestável sucesso das companhias monopolistas privadas neerlandesas no domínio do comércio com o Oriente, a partir do início do século XVII, causou alarme nas nações ibéricas, levando-as à busca de novas fórmulas para financiar as suas atividades comerciais. O caminho natural era o de reproduzir o modelo dessas companhias, e projetos foram esboçados em 1619 e 1624, tendo mesmo um regimento sido aprovado em 1628. Esta primeira tentativa de criação de uma Companhia na península foi defendida por Duarte Gomes Solis, mas não logrou êxito pela ausência de capitais privados. Com a Restauração da Independência de Portugal, o padre António Vieira, já em 1643, propõs a criação de duas companhias, uma para o Estado Português da Índia e outra para o Estado do Brasil, nos moldes da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. O capital de ambas proviria dos cristãos-novos de Lisboa e de judeus sefarditas norte-europeus. As ideias do religioso e diplomata iam além, propugnando manter o comércio com as colônias a salvo dos confiscos do Santo Ofício, o que, no conjunto, teve como consequência precipitá-lo nas malhas do Santo Ofício. A ocupação da ilha de Itaparica pelos neerlandeses, em fevereiro de 1647, bloqueando Salvador, capital do Estado do Brasil, notícia que alcançou Lisboa em maio do mesmo ano, teve como consequência imediata o envio de uma Armada 48

de socorro ao Brasil, e o sucesso no seu apresto, a formação da Companhia Geral do Comércio do Brasil. A formação da Companhia – O padre Antônio Vieira compreendia que da preservação do comércio com o Brasil dependia a boa capacidade financeira e, numa visão de longo prazo, a independência de todo o Reino. À época, as perdas de embarcações e de carga então verificadas na Carreira do Brasil, devido à guerra de corso, eram insuportáveis. Vieira argumentava que, sendo imperativo organizar-se um sistema de comboio naval, e uma vez que não existiam no Reino meios navais capazes de desempenhar essa missão a contento, era necessário assegurar capital em montante suficiente para remunerar, adquirir e/ou fretar esses meios. Acrescentava que esse objetivo só seria alcançado pela criação de uma Companhia fundada no capital privado e, à época, no Reino os únicos capitais disponíveis de imediato eram os dos cristãosnovos. Desse modo, para que estes se sentissem seguros para investir na Companhia, Vieira sustentava ser necessário isentá-los do confisco dos bens e dos capitais. Essa proposta levantou de imediato grande celeuma na Corte e na Igreja. Entretanto, a presteza com que se procedera ao levantamento da Armada de Socorro ao Brasil, bem como a realidade de que o Estado não possuía os recursos necessários para o apresto de uma Armada capaz de comboiar as frotas do Brasil, eliminou quaisquer dúvidas que João IV de Portugal pudesse alimentar acerca do financiamento da Companhia por cristãos-novos. A criação da Companhia foi adiada por seis meses, uma vez que Duarte da Silva e alguns candidatos a diretores da Companhia estavam envolvidos na preparação da Armada de António Teles da Silva e Salvador Correia de Sá e Benevides para a reconquista de Angola. Os obstáculos de natureza teológica levantados pelo Santo Ofício também pesaram para o atraso. Para esse fim, a 6 de fevereiro de 1649 o soberano fez vir ao Paço o bispo inquisidor-geral, D. Francisco de Castro, e lhe comunicou os termos da criação da Companhia. Entre estes incluía-se um alvará em que se concedia a isenção do fisco à Companhia, contra o qual o inquisidor apresentou os seus mais veementes protestos. O soberano assegurou ao bispo que a situação só tinha progredido daquele modo uma vez que o grave estado do Reino assim o exigia, e que a fundação da Companhia naqueles termos era a sua única salvação. Quatro dias depois era publicado o Estatuto da Companhia, contendo um preâmbulo e 52 artigos, a maior parte prescrições estatutárias e regulamentares internas, umas de natureza legislativa e outras de caráter contratual entre o Estado e a nova Sociedade, a primeira de natureza anônima que se conhece no país. Obrigações e privilégios – A área de atuação da Companhia estendia-se da capitania do Rio Grande até a de São Vicente, inclusive os territórios àquela altura

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militarmente ocupados pela sua rival, a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. O seu capital social seria integralizado por investidores de qualquer classe ou nacionalidade, que poderiam participar da Companhia através de uma subscrição mínima de 20 cruzados. A sua gestão ficaria a cargo de uma Junta ou Conselho de Diretores, composta por nove elementos eleitos por três anos. Este corpo diretivo seria autônomo e independente de qualquer poder judicial, estando igualmente fora da alçada do Santo Ofício. As instalações necessárias ao provimento das suas Armadas eram cedidas pela Coroa, nomeadamente as casas que haviam sido do marquês de Castelo Rodrigo ao Corpo Santo em Lisboa, onde se instalou a sua administração. Como contrapartida principal pelo monopólio que lhe era assegurado, a Companhia deveria armar uma frota anual de 36 navios de guerra, cada um deles armando um mínimo de 20 a 30 canhões. Para esse fim, a Companhia poderia construir navios nos estaleiros de Lisboa, Porto, Pederneira, Aveiro e Alcácer do Sal, em Portugal, e nos das capitanias da Bahia, Rio de Janeiro, São Vicente e do Maranhão. Para o mesmo fim, estava autorizada a fretar navios estrangeiros, ao abrigo de uma licença real. Os oficiais navais da Companhia que serviriam nesses navios seriam nomeados pelos diretores, com comissões de serviço trienais, sendo também autorizado o recrutamento de soldados ou marinheiros estrangeiros. As forças armadas e navais da Companhia gozavam do mesmo estatuto que as da Coroa, tendo como privilégios formais o direito de usar as armas reais e a esfera armilar do rei D. Manuel. Permitia-se ainda à Companhia o tocar caixa, constrangendo os súditos ao serviço de mar e guerra nas suas armadas, do mesmo modo como o Estado recrutava as suas forças militares. Era assegurado à Companhia o privilégio do monopólio do fornecimento, à colônia, do vinho, dos cereais, do azeite e do bacalhau, a preços a serem fixados por ela própria (estanco), além de todas as exportações de madeiras tropicais, sobre as quais deveria pagar um imposto em Lisboa. Outros privilégios assegurados à Companhia – A cessão, pela Coroa, de seis navios de guerra, a serem pagos a prazo pela Companhia; a isenção de parte dos impostos sobre os vinhos a serem consumidos a bordo dos seus navios, nas mesmas condições dos que se destinavam às armadas reais; o direito de manter as presas que fizesse; e a proibição da comercialização, no Brasil, de aguardente da terra – cachaça e vinho de mel – para evitar a concorrência com os vinhos reinóis, cuja distribuição era monopolista. A Companhia poderia ainda cobrar uma taxa por caixa ou fardo de açúcar, tabaco, couros e algodão que saísse do Brasil, além dos fretes nas embarcações de escolta que, embora se constituindo em navios de guerra, nem por isso deixavam de transportar mercadorias.

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Em que pese a extensão dos privilégios assegurados à Companhia, foram subscritos apenas 1.255 000 cruzados, quantia aquém do que se esperava e seria necessária para a sua plena operação. Além disso, alguns investidores, obtida a isenção do fisco, deixaram de integralizar as suas contribuições, o que levou o soberano a emitir um novo alvará, em 27 de setembro de 1650, determinando a realização dos pagamentos em atraso. Críticas à Companhia – A criação da Companhia e a amplitude dos privilégios que lhe foram concedidos levantaram veementes críticas e questionamentos à época. Entre elas as mais frequentes eram de natureza religiosa, formuladas pelo Clero, dado que os seus principais acionistas eram cristãos-novos e o capital judaico, o que poderia atrair a ira e o castigo de Deus. Complementarmente, alegava-se que a isenção do fisco infringia os canônes da igreja, excedia os poderes reais e fora mesmo condenada pelo Sumo Pontífice. A insatisfação provinha também dos proprietários de navios de pequena tonelagem, especialmente os das ilhas atlânticas, doravante afastados de um lucrativo comércio, impedidos que ficavam de comerciar os produtos estancados pela Companhia. Em seu favor, argumentavam a incapacidade da Companhia em prover o Brasil de gêneros de primeira necessidade, nomeadamente os quatro estancados, não apenas porque as frotas eram muito espaçadas no tempo, mas porque os seus navios partiam de Lisboa, ou apenas em lastro, ou com quantidades insuficientes até para suprir as necessidades mais imediatas. Essas queixas foram mesmo subscritas por alguns nobres influentes, e até por oficiais navais da própria Companhia. O último questionamento era de natureza jurídica, tendo tido lugar na primeira metade da década de 1650, quando se afirmou que o contrato com a Companhia era nulo, de vez que ela jamais cumprira integralmente com a sua obrigação de fornecer os 36 navios de guerra pactuados. 3.3 – OS JESUÍTAS Os documentos dos jesuítas do século XVI mostram preocupações apenas ocasionais com o Sul. Para os jesuítas, o novo tempo, depois de 1600, se desenvolveu em duas fases. Até 1640 os jesuítas atuam sobre o índio com ação missionária direta; depois atuam mais em lugares povoados. A partir de 1640, ainda que aumente a movimentação bandeirante no Sul, ela já não tende para o aliciamento do índio para São Paulo, mas para as primeiras iniciativas de povoamento. Ocorre, então, o retorno de parte da população indígena. Como as ordens religiosas eram antigas, em geral – por isso, chamadas Ordens Isentas –, atuou a Companhia de Jesus com bastante independência em relação à hierarquia episcopal local. Tem em Roma seu comando central, sob a chefia de um Geral da Companhia. Dali vem também a importância do arquivo central da

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Ordem, mesmo para detalhes como as missões entre os carijós de Santa Catarina. O trabalho de integração indígena foi realizado de maneira diferente pelo missionário jesuíta, mais do que pelo bandeirante. Pretendia o missionário a transformação do índio como grupo social e étnico. Não o conseguiu. De outra parte, o bandeirante transformou, de maneira mais realista, o índio em trabalhador de engenho e peão das fazendas de criação, como em parceiro de caminhada pelos sertões, inclusive na condução de tropas. Logrou êxito, em parte, este intento, pois através dele o integrou na comunidade brasileira, inclusive miscigenando-se com ele. Não obstante o método, em muitos particulares, injusto, mas atenuado pelas disposições dos ouvidores, ele funcionou. Era aceito como uma opção por parte do índio, que admitia a oportunidade de trabalhar para viver. Já desde um século uma parte deles se habituara a um modo de viver que já não era o da idade da pedra. Com referência à atuação missionária e bandeirante sobre o índio catarinense, ela se fez, depois de 1600, especialmente na região de Laguna para o Sul. Os índios da região litorânea da Ilha de Santa Catarina já haviam sido transformados ou levados no século anterior. Deste modo, muito pouco há a relatar com referência à Ilha de Santa Catarina no curso do século das missões jesuíticas e das bandeiras. No século passado, havia uma presença mais numerosa de índios na Ilha de Santa Catarina e em suas adjacências, mas, devido aos aportamentos, principalmente depois da passagem de Zárate, muitos rumaram em direção ao sul do estado, na região de Biaça (Laguna). Ocorre, então, um fenômeno novo. Fica sendo a Ilha de Santa Catarina o entreposto para os missionários e bandeirantes, que, entre o Rio de Janeiro, para os missionários, ou de São Vicente, para os bandeirantes, e a distante Laguna, precisam de um ponto intermediário, quando em busca dos índios carijós. Continua esta Ilha sendo ponto muito bem conhecido de todos, aparecendo seu nome com frequência nas crônicas de 1581 a 1640, tempo que durou a união das coroas e que foi notório pelas missões, ou pelo apresamento de índios no Sul. As missões pregadas aos índios carijós de Santa Catarina não tiveram, como já adiantamos, por centro a Ilha de Santa Catarina e nem o continente fronteiriço. A rara atuação dos missionários na costa sul fê-los concentrar-se em direção em que o indígena ainda se apresentava mais frequente, que era a região de Laguna, de onde penetravam o sertão dos Patos. Entretanto, ao operarem com pequenas embarcações, transitavam, obrigatoriamente, pela Ilha de Santa Catarina, descrevendo-a inclusive.

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3.4 – CRONOLOGIA DAS MISSÕES Ao entrar o século XVII as missões no Centro e Norte do país estavam a pleno vapor, enquanto no Sul continuavam difíceis. Os padres jesuítas não haviam conseguido, até então, nenhuma missão propriamente dita. A primeira missão jesuítica da qual se tem informação foi a dos padres Lobato e Jerônimo Rodrigues, de novo ao Sul além da Ilha de Santa Catarina. Outro fator que influiu no contexto geral foi o de que em 1581 desaparecia o reino português absorvido pela Espanha, assim permanecendo até 1640. Se este fator viera para dar fim às rivalidades entre portugueses e espanhóis no Sul, diminuiu, de outra parte, o interesse estratégico da costa catarinense, onde não havia plano claro para sua colonização. Convergiram as atenções políticas para o Nordeste brasileiro, invadido agora pelos holandeses, e para o Maranhão, ameaçado pelos emissários da França. E, se havia alguns que ainda pensavam em projetos de colonização, estes se voltaram para o interior. As guerras, no Norte e Nordeste, e as bandeiras, no centro do país, desviaram de tal maneira as atenções do Sul que este foi receber seus primeiros povoadores só depois de 1640, quando o reino português conseguia a sua independência, e o Sul reaparecia em seu valor estratégico. Já ponderara o Provincial dos jesuítas, quando da devolução já requerida de índios ao porto de Laguna: “Como não há entre eles povoação de portugueses, não é seguro aí fazermos morada.” Mas o Geral, que de Roma supervisionava todos os trabalhos missionários, mesmo da Índia, ordena com firmeza ao Provincial brasileiro a marcha para o Sul, não obstante as dificuldades destacadas. Retornava-se ao projeto dos padres Nóbrega e Nunes de 1549. Começam aí as primeiras missões da Companhia de Jesus na costa catarinense, não obstante a intermitência com que foram realizadas. Em resumo, incluindo as pregações de missionários franciscanos espanhóis, este é o quadro cronológico geral das missões em Santa Catarina, ao tempo das grandes descobertas marítimas. A bem equipada de 1605 a 1607 - Tendo o Pe. João Lobato1 como superior, e o Pe. Jerônimo Rodrigues2 como auxiliar e cronista, saiu a missão por mar, embarcada em Santos, em 27 de março de 1605. Mas aconteceram percalços diversos antes do embarque, do que já se ocupa o cronista, depois de um introito solene sobre o sentido geral do acontecimento. Aliás, o cronista se ocupa desde os detalhes da viagem até os costumes e vida social dos índios. Principia o relato pondo em evidência o caráter novo do empreendimento: A missão dos carijós, já desde o tempo do Pe. Nóbrega e do Pe. Luiz da Grã, foi muito desejada, e por vezes tentada, “assim pelo Pe. Nóbrega como pelos nossos irmãos João de Sousa e Pedro Corrêa, que, indo-lhes pregar o Evangelho, 53

foram mortos por eles”, cujo espírito, que acompanha a narrativa de Jerônimo Rodrigues, a respeito do índio carijó, é pessimista e, às vezes, jocoso. Agradável de se ler e capaz de despertar curiosidade. Descreve o índio como efetivamente era e não como depois o romântico o faria ser, sem que fosse. Quando de volta ao Brasil, o Pe. Provincial Fernão Cardim foi surpreendido por uma carta de Bastião Pedroso, Ouvidor e irmão de Pedro Vaz, capitão S. Vicente, em que lhe pedia padres para virem com eles a pousar. Ressalve-se, todavia, que, a esta altura, a organização indígena encontrava-se sob liderança tribal desmantelada, já em decadência fatal. O documento de Jerônimo Rodrigues (da missão de 1605-1607) – como as cartas de frei Bernardo de Armenta antes, e os relatos do Pe. Inácio Sequeira depois – representa um dos mais preciosos recursos para a antiga antropologia cultural catarinense. Na crônica de 1606 vem indicada uma das razões por que os jesuítas de novo atuavam no Sul: “Em Piratininga há um gentio que chamam carijós e saem para a banda do Rio da Prata. É muita gente, e se esses não estiveram por meio facilmente teríamos comunicação com os nossos padres castelhanos que estão junto ao Piquiri. Estes índios me disseram que estes anos atrás mandaram seus embaixadores a Piratininga, que se queriam vir para aquela paragem. Se os nossos com eles tivessem entrada seria grande coisa, e por ventura uma das maiores missões que se tem feito.” Tendo este pedido “por princípio e boa ocasião”, tomou aos padres João Lobato e Jerônimo Rodrigues, indo com eles a Santos entender-se com o Ouvidor de São Vicente. Bastião Pedroso falta com a palavra, “porque me disseram – relata o Pe. Jerônimo Rodrigues – haverem-lhe dito se levais padres convosco não haveis de fazer nada”. Não obstante, o Pe. Provincial decidiu a empresa, enviando os missionários primeiramente de Santos para Cananeia, onde deviam servir ao povo durante a Páscoa, e de onde depois talvez obtivessem navio com o capitão daquele porto, para daí continuarem viagem até Laguna dos Carijós. Saíram, pois, os missionários de Santos, dia 27 de março de 1605, marchando ao longo da costa, primeiramente com destino ao serviço religioso em Cananeia. Faziam-se acompanhar de sete índios cristãos da aldeia de São Barnabé, Rio, e de outros três carijós, e outro, com sua mulher, num total de 14 pessoas, “não levando mais que um sírio3 de farinha e o ornamento da Igreja”. Pe. Jerônimo Rodrigues, o cronista, usava óculos, e se lembrou de dizer que a certa altura eles caíram, “quebrando-se, e que assim estou cego sem eles”. Em Cananeia realizaram o cerimonial da Páscoa, mas não encontraram embarcação que os levasse para o Sul. Arranjando um “pau de ibiracuí, fizeram em uma semana uma canoa de 5 palmos de boca e de 50 e tantos de comprido”. Embarcaram também quatro índios tupiniquins. Com este meio de transporte lograram atingir a distante baía de Paranaguá, onde encontraram uma urca4 de flamengos encalhada na areia. Os ocupantes da 54

urca estavam para disparar suas armas de fogo por sobre eles, quando descobrem que eram padres. Alegraram-se muito, demonstrando “serem cristãos”. Prosseguindo, chegaram a São Francisco, já na costa de Santa Catarina, onde encontraram uma canoa de carijós. Conseguiram identificar que parte daqueles índios pertencera ao número dos que haviam sido restituídos à sua terra, anos atrás (1596), pelos padres Custódio Pires e Agostinho Matos. Retomando a navegação, chegaram os missionários jesuítas à Embitiba (Imbituba), chamada também porto Dom Rodrigo, no dia 11 de agosto, onde desembarcaram. Deram muitas graças ao Senhor, levantando logo uma cruz, pois haviam viajado quase dois meses em meio a perigos constantes, que na “relação” vêm detalhadamente referidos. O Pe. João Lobato, superior da missão, envia recado a umas quatro ou cinco aldeias. Ao cabo de três dias, vieram ter com os padres 16 ou 17 pessoas, “com seus pelejos, e elas com suas tipoias5”, pois era inverno. As atividades dos padres missionários resumem-se nos seguintes fatos principais e sucessivos: a) Visita às aldeias em torno da Laguna num período de mês e meio, agosto e setembro de 1605. Construção de igreja na quarta aldeia. Plantio de mandioca e milho. Primeiras missas. b) Excursão ao Rio Araranguá, dia 4 de outubro de 1605. c) Encontro com o índio Tubarão pouco ao Sul. d) Volta ao porto de Imbituba. e) Desfecho da missão.
1 Pe. JOÃO LOBATO, superior da missão de 1605 - 1607 em Santa Catarina, nascido em Lisboa, tinha entrado na Companhia de Jesus em 1563 com 17 anos de idade, na Bahia; foi um dos maiores sertanistas do Brasil, e tido santo ainda em vida. Faleceu no Rio de Janeiro, a 22 de janeiro de 1629, lá onde ministrara a última fase catequética ao seu grupo de carijós catarinenses. 2 Pe. JERÔNIMO RODRIGUES (1551-1631) é o cronista da missão de 1605 a 1607 no sul de Santa Catarina. Jerônimo Rodrigues é português, natural de Cucanha, diocese de Lamego. Entrando para a Companhia de Jesus, em 1572, veio para o Brasil. Faleceu octogenário, em 1631, em Reritiba. 3 Sírio: era um saco para transportar farinha de mandioca. Esta, aliás, era também produzida pelos índios carijós em Santa Catarina, ainda que de maneira muito primitiva. 4 Urca: embarcação a vela com dois mastros, larga e de fundo chato 5Tipóia: rede pequena indígena usada para dormir ou para carregar os filhos pequenos nas costas.

Em Laguna, o desinteresse dos índios Saindo de Imbituba, desceram os missionários até a entrada de uma lagoa, hoje chamada de Laguna, e ali estabeleceram a sede da missão. Na entrada da 55

Lagoa encontraram uma primeira aldeia, a qual visitaram. Constituía-se de uma só casa com três famílias. Deixaram ali a embarcação, tomando duas canoas dos índios para irem às outras aldeias. A quarta aldeia era a maior, duas casas com nove ou 10 moradores, alguns já cristãos, mas apenas de batismo, sem a prática da nova religião. A partir de Laguna os missionários enviaram mensageiros a Araranguá. Enquanto esperavam, puseram-se a construir uma igreja e, ao lado, uma roça de milho e mandioca. Neste trabalho, os padres eram auxiliados pelos índios que os haviam acompanhado desde Santos. As primeiras missas foram rezadas a 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, entrando, pois, em funcionamento a missão. Entretanto, um mês depois, dias 21 e 22 de setembro, uma forte geada queimou o milharal que estava junto às casas. A missão ia mal, quer pelo desinteresse dos índios, quer porque estes, ao que parece, tinham mais interesse em relacionar-se com os bandeirantes. Por isso, todo o relatório é pessimista.

Em busca do índio Tubarão Após mês e meio de missão, decidem os missionários fazer uma excursão ao Rio Ararungaba(Araranguá). Não tendo recebido resposta por intermédio dos mensageiros, resolveram, então, ir pessoalmente, pois lhes parecia que a maior concentração indígena ocorria mais ao Sul. Não se sabe se frei Bernardo de Armenta, ou outro missionário franciscano, havia penetrado a costa sul de Laguna. A penetração dos padres João Lobato e Jerônimo Rodrigues é a primeira de que se tem notícia por parte de missionários. Entretanto, o caminho já era conhecido pelos espanhóis vindos de Buenos Aires, e se fazia ao longo da praia patagônica, linear, quase sem acidentes. Os carijós desta região não possuíam, nesse tempo, organização política definida. Guiavam-se por indivíduos que mais se impunham pela audácia e prestígio no comércio com os brancos. Eram vários – diz o cronista da missão –, destacando-se sobre todos um certo Tubarão, o qual já estivera em São Paulo. “Ao índio Tubarão, os missionários o encontraram nas planícies arenosas entre os rios Araranguá e Mampituba, às margens das lagoas que ali há.” Diz a crônica que foi a 5 ou 6 léguas ao sul de Araranguá, depois de atravessarem uma lagoa. É possível, então, que os missionários tenham seguido pela praia, que era o caminho natural do Sul, depois atingido o continente e atravessado ou a lagoa de Caverá ou, mais provavelmente, a lagoa de Sombrio. Do outro lado desta última lagoa encontram-se a desembocadura do Rio Laje e umas furnas capazes de oferecer proteção. Diz ainda a crônica que havia índios nos areais do mesmo rio Araranguá e que o índio Tubarão procedia então do rio Mampituba.

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Ainda sobre o encontro com o índio Tubarão, relata com minúcias Pe. Jerônimo Rodrigues, em linguagem pessimista e algo unilateral: “Chegados a Ararungaba, que (é) rio, onde os brancos vão fazer seus resgates, e onde estavam os principais índios, com que havíamos de falar, ao sol e ao vento, em um areal, falou o padre com eles, declarando-lhes ao que vínhamos. Todos mostraram folgarem com nossa vinda, porque todos esperavam havermos de dar roupas, contas e ferramentas; e assim tão desenvergonhadamente pediam o quanto viam, como se de foro lhes fora devido. Neste caminho, um dos honrados índios que cá vimos, nosso companheiro nesta viagem, pediu ao padre os sapatos para levá-los calçados, e que fosse o padre descalço. Uma índia me pediu com muita instância a minha roupeta para vesti-la. E dizendo-lhes que não tinha outra, me respondeu que me mandasse vir outra em lugar daquela. Este índio, o afamado Tubarão, o qual não é principal, nem tem gente, mas tem grande fama entre estes por ser feiticeiro e ter três ou quatro irmãos, todos feiticeiros, e todos eles são grandíssimos tiranos e de quem os brancos fazem muito caso, porque estes lhes enchem os navios de peças, como adiante direi. Chegamos, pois, onde este índio estava, que era junto a uma lagoa, onde com grande perigo passávamos em um tejupar, onde estavam três ou quatro redes armadas. E ele, como raposo, vestido em uma marlota azul, pele de algum pobre índio, coberto com uma manta listrada e com um chapéu na cabeça, com grande gravidade, sem fazer caso algum de nós começou logo a falar com um índio, que conosco ia, mui devagar. E depois falou outro pedaço com outro, convidando-o a seu modo, com certa beberagem, que imagino ser o sumo de betele da índia, conforme as virtudes que dizem ter. E nós, como Joanianes, ouvindo-lhes suas patranhas. Depois acudiu com seu ereiupe ao padre e a mim. O padre que já estava enfadado, e com razão, e quase se quisera erguer da rede, e o fizera se não fora outra gente, em breve lhe disse ao que éramos vindos. E se quisessem ser filhos de Deus, e terem igreja, e padres em suas terras, que se havia de juntar, e deixar suas vendas, e suas matanças, por ser ofensa a Deus; e que os tapuias podiam vender em troco de cousas. Neste momento, veio-lhe vontade de urinar. E assim o fez na mesma rede, em que estava assentado, junto ao padre, muito de seu vagar, não deixando por isso sua prática, e de beber, de quando em quando, de sua beberagem, que uma de suas mulheres lhe estava dando. Mas tão pouco saber não é de espantar em gente que nenhum parece que tem. E assim muitas vezes me lembra um dito do Padre Paiva, que Nosso Senhor tem, que, ainda que o dissesse zombando, parece quadrar em alguma maneira a estes (o Pe. Manoel de Paiva, um dos fundadores de São Paulo e seu primeiro Superior – nota de Serafim Leite). E pode passar por estremes. O qual dizia que

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havia alguma (gente) que Deus Nosso Senhor fizera; outra que mandara fazer; e outra que deixara recado, que se fizesse... Querendo-nos despedir, disse ele ao padre que folgava com nossa vinda, que faria primeiro duas guerras, e depois se ajuntaria conosco, em um lugar que ele nomeou, que era junto da Laguna dos Patos. E perguntando-lhe o padre se era seu filho um menino que ali estava, respondeu-lhe: sim para vós outros o acoitardes. Isto é dito de escravos de brancos, que para cá fogem. E eles tinham alguns em seu poder, sem os querer dar, dizendo serem seus escravos. Isto é o que passamos com o senhor Tubarão, do qual diz o padre, que nunca no Brasil vi índio tão soberbo, nem que tanto o mostrasse, com não ser principal. E Cristóvão de Aguiar confessa que ele o fez principal e o assentara naquela cadeira, e que agora tem de ser estimado dos brancos, mas por ele ser um grande ladrão de índios para brancos. Seria véspera, sem termos comido alguma cousa, nem termos que, nem haver índio, nem índia que nos desse um punhado de farinha, não faltando ela ali. E com batatas fizemos a festa, que, por contas ou pentes, as deram. E pedindo o padre umas pequenas de pevides para plantarmos na nossa capixaba, algumas índias trouxeram algumas, cuidado por elas lhes havia o padre de dar algumas contas. E algumas, vendo que o padre as não pagava, tornaramnas a levar, porque é gente que nada há de dar sem troco, ainda que seja uma vez de água. E a uns moços dos nossos deu uma índia um pequeno de não sei o quê, como mingau, e logo lhe pediu um fio de contas em paga. E assim, ao outro dia, nós partimos, sem a gente de duas casas, que ali estavam, que eram parentes e uma delas irmã verdadeira de Lázaro, que conosco vieram do Rio, nos darem para o caminho que pudéssemos jantar, salvo uma índia que nos deu um pouco de farinha, a qual o padre pagou. E assim nos tornamos outra vez para a Laguna ...” (Novas cartas jesuíticas, p. 221-225). A volta de Araranguá deu-se ainda em 1605. A fome tornara-se grande, a ponto de os índios tupiniquins já se haverem ido de retorno à Cananeia. Os demais também os reenvia o padre Superior, partindo aos 14 de dezembro do porto de Dom Rodrigo ou Imbituba. E os missionários ficaram “sós neste desterro por amor de Deus. Mais alguns meses, e algum milho novo pudera servir de alimentação. O sol de verão passou a sorrir. A catequese dos índios era de manhã. A dispersão dos mesmos e a dificuldade em reuni-los constituíam um óbice real. A indolência não permitia que se reunissem e vinham à doutrina se queriam”. Na aldeia da igreja e da casa dos missionários foram levantadas cinco casas apenas. Mesmo assim, era coisa inédita. Os padres convidavam também os índios para o trabalho, mas com resultados quase nulos. As informações etnográficas da crônica jesuítica da missão entre os carijós dizem que aquela “gente em geral era suja, preguiçosa, incestuosa. Mas tinha a grande virtude da mansidão e da docilidade”. 58

“Os carijós bebem, mas não se embriagam. As mulheres não bebem, que é a melhor coisa que cá vimos” – dizem os missionários. “Também não roubavam os objetos, mas eram ladrões de pessoas, que vendiam aos de São Vicente.” Comentavam os mesmos carijós a respeito dos paulistas: “Porque lhes vendemos nossos parentes, dizem que somos bons”. Relatam os padres que, nos dois anos de sua missão, não vieram visitá-los os índios arachãs, pelo temor de serem vendidos. Quando aportava em Laguna algum navio, para lá os índios, como Tubarão, levavam os menos protegidos, moças, moços, órfãos, velhos e parentes importunos. Uns iam amarrados, outros iludidos. A missão não consegue evoluir, por não haver morada próxima de portugueses, aonde pedir socorro. Esta já fora uma observação feita por Nóbrega e Anchieta e repetida pelos padres de Membitiba. Vão os padres da missão para uma solução extrema, resolvendo levar temporariamente os 150 índios e índias, que haviam reunido com muito trabalho, naqueles dois anos, para uma aldeia do Rio de Janeiro, onde continuaria a instrução. O plano chegou a ser realizado na sua primeira etapa. Todavia, na viagem de retorno, ainda no mesmo ano de 1607, ventos contrários os obrigou a um aportamento em Santos, quando o capitão do porto instigou aos moradores a que não deixassem sair os carijós do navio refugiado. Por meio da força e do embuste os distribuiu entre eles. Estes carijós vieram assim a engrossar o povoamento de São Paulo.

A missão de 1609 Não demora muito e é realizada a segunda missão dos jesuítas ao Sul, que não foi mais do que uma viagem de penetração, mas cujos resultados deram experiência para futuras missões. Missão ocasional dos jesuítas Afonso Gago e João Almeida penetraram em Laguna, na direção dos sertões. Os dois missionários teriam desembarcado no porto de Laguna, atravessaram a Serra Geral e atingiram os sertões do Rio Grande, onde tomaram contato com os índios abacuís, da zona do atual rio Ibicuí. Um novo motivo incentiva então os empreendimentos missionários jesuíticos. É que do outro lado dos sertões ignorados prosperava a frente missionária do Paraguai, cuja linha de frente ia desde Guaíra ao território das missões, junto do médio curso do rio Uruguai (hoje oeste do Rio Grande do Sul). Era então o rio Piquiri, considerado o divisor dos territórios das duas coroas, agora, aliás, unidas, ainda que administrativamente separadas. Compreendendo as vantagens de uma ligação das duas frentes missionárias, empenhou-se o Pe. Manuel Lima, o Visitador (1607-1609), em fundar missões no

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Sul, para atingir o mencionado rio Piquiri, ainda que não se soubesse a que altura ficava, para quem viesse da outra banda. Consta no relatório do Visitador: “Em Piratininga há um gentio que chamam carijós e saem para a banda do rio da Prata. É muita gente e se esses não estiveram por meio, facilmente teríamos comunicação com os nossos padres castelhanos, que estão junto ao Piquiri. Estes índios me disseram que estes anos atrás mandaram seus embaixadores a Piratininga, que se queriam vir para aquela paragem. Se os nossos com eles tivessem entrada seria grande cousa, e por ventura uma das missões que se tem feito.” (Citado por Serafim Leite, Hist. Da Companhia de Jesus, VI, 463). Nasceu da referida intenção de contato das duas frentes missionárias uma série de partidas para o Sul, desembarcando em geral sempre na costa catarinense, sobretudo em Laguna, último porto de entrada segura. Daí a penetração interior atingia às vezes os sertões do interior do Rio Grande do Sul. Desinteligências fortuitas ocorridas entre os selvagens impediram a missão dos padres, que, desistindo da penetração no interior, retornaram prometendo, porém, voltar. A excursão vem narrada numa crônica de que é provável autor o Pe. Antônio Almeida e que vem inserida no ano de 1609 (foi publicada por Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, vol. I, p. 475-476). A missão de 1617 a 1619 A crônica de 1617-1619, de autoria de Pe. João Almeida, refere-se a vários curativos feitos pelos padres aos índios, “curando a alguns de postemas perigosos, sangrando a outros. Adoecendo também o Superior, Pe. João Fernandes, esteve à morte”. O principal da aldeia de Embituba, “em cuja casa estamos, vendo que não melhorava o dito padre, consultou a alguns dos seus, arreceando que morresse em casa, que tinha por agouro, que o botassem fora. Assim o mandou pedir ao dito padre, porém livrou-o Deus desse trabalho com a saúde que lhe deu”. (da Crônica) A segunda missão jesuítica fora dos padres João e João de Almeida. Estes tomam passagem no navio de um certo Antônio de Vasconcelos, que os fez desembarcar na Ilha de Santa Catarina. Dali passaram ao continente pregando também aos índios ao longo da costa, seguindo sempre, até alcançarem Laguna, finalmente se encontrando com o índio Tubarão que já é figura das missões de 1605 a 1607. A promessa de retornar aos carijós foi cumprida em 1617, quando os padres João Fernandes Gato e o mesmo João Almeida retomaram o antigo objetivo de comunicar-se com os jesuítas castelhanos via Rio Piquiri. Desta vez ocorreu também o empenho do governador do Rio de Janeiro. Expediu ordens a todos os magistrados dos lugares, por onde passassem os dois missionários, mandando que lhes dessem auxílio e mantimentos por conta da 60

Real Fazenda. Contudo, esforços também foram despendidos para entravar a empresa. Com dificuldade conseguiram os missionários passagem no navio de um certo Antônio de Vasconcelos, que os fez desembarcar na Ilha de Santa Catarina. Daí passaram ao continente, pregando aos indígenas vizinhos da ilha, até chegarem à Lagoa de Laguna, onde também instruíram os selvagens em todo o seu circuito. Encontraram aí, conforme a crônica do Pe. Almeida, “o grande Tubarão, que é como o principal e rei de todos eles”. Para lhes proporcionar “inteira notícia da fé”, ficaram pregando “por muito espaço”. A princípio, os índios mostravam-se muito arredios. Souberam, então, os padres que os vicentinos haviam mandado à frente uma canoa levando recados a Tubarão e a outros principais, aconselhando-os que “se acautelassem contra aqueles dois batinas, por serem homens maus, e fugissem deles”. Isto causou impressão nos carijós, mas depois abrandaram. Missionados os arredores de Laguna, desceram também os padres a Araranguá. Mampituba (hoje divisa dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul) foi a residência mais importante no decorrer da missão de 1617. Aí teriam permanecido os dois missionários jesuítas por mais de seis meses. Não sem atividade, comunicando-se também com os arachãs do Rio Tramandaí, e com o Anjo, do sertão do Rio Grande. Os padres pensaram transportar com eles três ou quatro mil dos muitos milhares de índios que se haviam posto sob a sua influência. Neste sentido, pediram farinha e embarcações de alto bordo a Salvador Corrêa de Sá. Alguns moradores de São Vicente e Cananéia embargaram o pedido, (Cfr. Serafim Leite, História da Companhia de Jesus, vol. I, p. 478), porque reservavam a si o direito de presa sobre os carijós. Os índios retirados pelos jesuítas aos Sertões dos Patos e levados para o Rio de Janeiro auxiliavam aquela cidade, e não a São Paulo, cujos habitantes se julgavam os donos legítimos de todo o Sul de sua capitania. Em vista do embargo, despediram-se os padres, em princípio de 1619, deixando os índios abandonados a si mesmos. Com eles enviaram seis embaixadores, instando ao provincial que lhes mandasse padres. A missão de 1622 a 1628 A missão de 1622 a 1628 não teve uma crônica própria, tendo-se conhecimento da mesma através de uma narração do Pe. Antônio Vieira. O superior era Pe. Antônio de Araújo, autor de um catecismo na língua brasileira. Ainda que Pe. Antônio tivesse feito três viagens para Santa Catarina, o Pe. Araújo o superou, contudo, pelo número de anos, que permaneceu aqui, ao todo seis. Foi a terceira missão regular dos jesuítas e a mais longa dos missionários da ordem, iniciada pelos padres Antônio de Araújo e João de Almeida. Este último, que já descia pela terceira vez ao Sul, foi substituído em agosto de 1625 pelo Padre Pedro Mota. Em 1628 encerra com pessimismo a missão. No retorno, ao 61

levarem os missionários numerosos índios, tem encontro com dois patachos de bandeirantes na Ilha de Santa Catarina, conforme já referimos, conseguindo, contudo, seguir à frente. Em fins de 1622, os jesuítas se animaram a fazer uma nova e grande tentativa missionária no Sul, desta vez com a convicção formada de levar a efeito uma residência entre os carijós, se não tão longe no sertão, ao menos em Laguna, onde parecia mais fácil a subsistência e a comunicação com suas outras residências. Neste sentido foram nomeados o Pe. Antônio de Araújo e o já conhecido Pe. João de Almeida. A nomeação parecia bem feita, pois o Pe. Araújo acabava de ilustrar o seu nome com a publicação do Catecismo na Língua Brasílica. Haveria de ser agora por seis anos superior da casa, sendo, portanto, o missionário jesuíta que mais tempo passou em território catarinense. O Pe. João de Almeida descia ao Sul pela terceira vez, mas o seu gênio não se dava com o padre Superior, tendo pedido para retirar-se. Por isto, a 11 de agosto de 1624, dois anos depois de iniciada a grande missão, vem o Pe. Pedro Mota substituí-lo, acompanhado do irmão Pero Rodrigues, que retornaria com o demissionário. A missão decorreu mais promissora do que aquelas efetuadas até este tempo. Não possui crônica como as demais – o que é uma pena. Conhecem-se as atividades dos seus primeiros quatro anos através de uma narração de Pe. Antônio Vieira, exarada em 30 de setembro de 1626. Infelizmente não demarca explicitamente o local da casa de residência. Afirmando distar “30 ou 40 léguas” das principais povoações, deve ter-se referido, portanto, a Mampituba. Depois de 1624 retornaram para Laguna, onde ergueram uma igreja e nova residência. Uns 200 índios foram aí convertidos e batizados, “tal afeição tomaram, depois de serem batizados, às coisas divinas, que, morando muitos deles léguas distantes da Igreja, continuaram com muito fervor a ouvir missa todos os dias santos, e ainda em tempo de grandes frios e chuvas, não obstante a declaração que se lhes faz de ficarem totalmente desobrigados”. (P. Vieira, cit. por Serafim Leite, vol. I, p. 481) Passado algum tempo, voltaram-se os missionários para o extremo Sul, penetrando os sertões do Rio Grande do Sul, empenhados na fundação de uma grande aldeia cristã, em meados de 1626, quando Pe. Antônio Vieira escrevia essas notícias. O ambiente, tornado desfavorável, pela infiltração dos portugueses, obrigou os padres a retornarem à igreja de Laguna. Sobre as dificuldades da missão 1622-1628, conseguiram os dois missionários fazer contato com o reitor do Colégio do Rio de Janeiro, Pe. Francisco Carneiro, informando-o da situação. Este, disposto a auxiliar os colegas de Laguna, muniuse junto do provincial de poderes suficientes para resolver todos os problemas, de manter a residência, ou suprimi-la. Organizando uma forte comitiva, composta de alguns índios da aldeia de São Barnabé, tomou o caminho de São Paulo; ali, o Pe.

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Manoel Pacheco e o irmão Francisco Morais, este iniciava sua carreira de grande sertanista, agregaram mais outros índios, Os missionários de Laguna, avisados da vinda do reitor do Colégio do Rio de Janeiro e acompanhantes, saíram a esperá-los na barra do porto com cinco canoas cheias de índios, recebendo-os no dia 5 de abril de 1628, com demonstrações de festa e de alegria. Examinada cuidadosamente a situação pelo Pe. Carneiro, que se pôs também em contato direto ou indireto com todos os principais dos carijós, inclusive com o Anjo do Sertão do Rio Grande, achou que os índios estariam em melhores condições, e a salvo dos portugueses, se fossem transportados para as aldeias do Rio de Janeiro. Para reunir os índios, os padres levaram muitos dias percorrendo o sertão. Acometidos de febre maligna, faleceram alguns membros da comitiva e o Pe. Pedro da Mota. Trata-se do segundo missionário a falecer em solo catarinense. Morreu terça-feira, 30 de maio, após 12 dias de doença e receber os sacramentos. Foi enterrado no mesmo dia na capela da igreja, de frente do altar, em um caixão de cedro. No dia seguinte celebraram os padres os ofícios litúrgicos do ato. Partiram os missionários com 405 índios, parte por terra, parte por mar, enfrentando não só as contrariedades das selvas e das ondas, como também de traficantes portugueses. Como se pode depreender do fenômeno do deslocamento dos indígenas, quer por obra dos bandeirantes quer dos missionários, o povoamento de São Paulo e Rio de Janeiro recebeu notável contingente indígena catarinense. Box PORTO BELO No dia 24 de julho de 1628, os padres catequistas Antônio de Araújo e Irmão Francisco de Moraes com mais 220 índios iniciaram uma caminhada por terra partindo da Enseada das Garoupas (Porto Belo) em direção a São Paulo e Rio de Janeiro. Outra parte da expedição jesuítica seguiu por mar com o padre catequista Manoel Pacheco e o Reitor Francisco Carneiro, com mais 185 índios. Estes últimos chegaram a Cananeia 4 dias depois de terem saído de Porto Belo, segundo o historiador Oswaldo Rodrigues.

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As missões de 1635 e 1637 Em 1631, Martin de Sá pedia ao Provincial Jesuíta, Pe. Antônio de Mattos, mais uma missão no Sul. Deram-se alguns passos neste sentido, sendo nomeados para a empresa os padres João Mendonça e Francisco Morais. A projetada missão não foi efetuada. Opinou o historiador Pe. Serafim Leite que “talvez por se precipitarem os sucessos de Pernambuco, onde vamos encontrar depois estes padres a prestar serviços na guerra contra os invasores do Brasil”. Em 1635, tornou-se a organizar uma expedição missionária, integrada pelos padres Inácio Sequeira, pacificador dos Goitacazes, e o mesmo Francisco Morais, já experimentado na língua dos carijós. Padre Inácio Sequeira é, então, o mais literário dentre os missionários que atuam em Santa Catarina, pela extensão de sua crônica da missão de 1635 e pelo primor do conteúdo histórico, antropológico e étnico. Era o Pe. Sequeira o pacificador dos Goitacazes e, se agora ia para o Sul, com o Pe. Francisco Morais, que lá estivera anteriormente, era porque se faziam grandes planos. Partiram do Rio de Janeiro a 7 de junho de 1635, em patacho próprio, acompanhados de alguns índios carijós, já cristãos, daqueles trazidos ultimamente pelo Pe. Francisco Carneiro, entre os quais Matias de Albuquerque, o famoso Aberaba, “grande principal no sangue e maior na cristandade e bondade natural”. O Pe. Francisco de Moraes, sendo “por extremo respeitado dos carijós”, vai àquela Missão, por ordem do Provincial Domingos Coelho, levando consigo o Pe. Francisco Banha. Levavam 200 indígenas e foram impedidos pelos habitantes da Capitania de São Vicente de irem para o Rio de Janeiro. Na Ilha de Santa Catarina, Pe. Sequeira brindou-nos com uma descrição literária, a que assim se refere depois de uma tempestade: “Livres já pelo favor divino destes perigos, fomos dar fundo na desejada Ilha de Santa Catarina, onde a gloriosa Virgem reside só no nome, mais deserta que em Sinai, porém mui piedosa para as embarcações que ali recebe e agasalha, como se fora seio esta sua enseada, que ali tem”. A propósito comenta Serafim Leite: “Natural de Resende, afeito sertanista e pacificador dos Goitacazes, é, não só por isso, mas também por esta bela narrativa, digno da geração de Vieira a que pertence”. (História da Companhia de Jesus, vol. VI, p. 511) Informando sobre uma tentativa de povoamento bandeirante, no ano anterior, que serviria como entreposto de aprisionamento aos índios, Inácio Sequeira fornece importante documento sobre os primeiros sinais de fixação do paulista em terra catarinense, o que se dará efetivamente na década imediata. “Fora, entretanto, o povoado incipiente invadido à noite por um tigre, fazendo em pedaços o capitão. Agora encontravam apenas as plantações, que foram úteis aos missionários... Finalmente, penetraram o continente, em Laguna. Ali estavam

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também ancorados 15 navios bandeirantes, cuja tripulação igualmente entrara a fazer caça do índio.” O Pe. Sequeira acha que estes índios excedem a todos os mais pelo interesse, chegando “a tanto extremo na venda de si mesmos que por uma carapuça resgatou um português cinco carijós, vendidos de seus mesmos naturais. E outro português comprou três carijós por uma assoalha de um pandeiro”. Termina ironicamente: “Que emprego fizera se o pandeiro lhe tangera encordoado com todas as suas peças? Sem dúvida trouxera uma aldeia inteira”. A chegada do patacho dos jesuítas sobressaltou os portugueses, porque temiam que todos os carijós fossem acompanhar os padres, ficando vazias as suas embarcações. Opinavam alguns que logo se pusesse fogo ao navio importuno, outros que se o lançasse barra fora, outros que deixassem nele se acolher os carijós, para no fim assaltá-los e reparti-los entre si. Já ia a notícia destes conluios abalando o ânimo dos tripulantes do patacho, quando ocorreu aos padres engenhosa solução: “Vendo nós que os índios que levávamos conosco se iam acobardando com semelhantes ameaças, foi-nos forçado entrar também em uma aparente valentia, porque resolutamente lhes dissemos que se desenganassem, porque se o nosso navio ardesse, que todos os seus haviam de ser queimados e os havíamos de abrasar, e quem se atrevesse a cativar os carijós, que conosco quisessem ir para a igreja a receber a fé de Cristo, primeiro nos haviam de fazer a nós em postas que os cativassem a eles”. Estas palavras foram ditas em tal conjunção, com tanta eficácia que, a alguns deles que as ouviram, “lhes pareceu que as labaredas lhes brotavam pelos olhos, já lhes acendiam fogo nos costados dos navios, e tudo crera, porque os tinham ligados uns aos outros e metidos em tão grandes estacas, porque a grandíssima força do Sudoeste os não tomasse dos lados, porque a todos fizeram dar à costa, e aplicando fogo ao primeiro, era força que todos ardessem”. Os portugueses ficaram tão intimidados com as ameaças, que logo se recolheram aos navios, e de noite faziam seus postos, “mas, mudando o posto para não ter eles desvelados, vamos surgir mais acima espaço de duas léguas na boca de um rio doce”. Em vista da impossibilidade de estabelecer uma aldeia sob as vistas dos vicentinos, foram os índios, que se acolheram aos missionários, alguns conduzidos para o Rio de Janeiro outros para São Paulo. Os carijós catarinenses subsistiram como população brasileira. Os de São Paulo retornariam, em parte, através do povoamento do expansionismo bandeirante. E assim aconteceu que a atuação bandeirante, apesar de menos simpática, foi geopoliticamente mais frutuosa para Santa Catarina que a dos missionários. Ainda quanto aos longos escritos do Pe. Inácio Sequeira, é verdadeiramente digno de nota tudo quanto escreveu sobre as regiões dos carijós. Veio a ser o historiador mais meticuloso de um dos episódios pelo qual se despovoava a costa catarinense. Aliando ao seu documento os atestados das crônicas anteriores, 65

ofereceu à posteridade uma descrição valiosa da vida e costumes dos índios desta costa, de tal maneira que o escritor moderno e os estudiosos em geral têm ali um arsenal para suas ficções catarinenses e explicações antropológicas. Ocorreu, porém, uma ação à distância dos jesuítas sobre os carijós. Cartas jesuíticas dão conta de alguns fatos ocorridos por volta deste tempo, sem, todavia, precisar os locais de onde vinham os carijós. Eram a mesma gente, desde o Sul de São Paulo ao Sul de Santa Catarina. Uma vez que os padres não tornavam às aldeias dos carijós, não deixaram estes de contatá-los em São Vicente ou mesmo no interior, em Piratininga. Tudo era, aliás, facilitado por causa dos índios trazidos para São Paulo. Esta circunstância certamente não deixou de ser oportunidade de contato dos de São Paulo com os que ficavam na região da qual procediam. Novamente, em 1637, o Pe. Francisco de Moraes, sendo “por extremo respeitado dos carijós”, vai àquela missão, por ordem do Provincial Domingos Coelho, levando consigo o Pe. Francisco Banha. Trouxeram 200 indígenas e foram impedidos pelos habitantes da Capitania de São Vicente de irem para o Rio de Janeiro. Missão de 1640 Expulsão da Capitania de São Vicente – No ano de 1640, como consta na resposta ao Libelo infamatório, tratando o Pe. Pedro de Moura, Visitador Geral da Província do Brasil, de enviar padres aos carijós, escreveu o capitão-mor de Santos não reiterasse o seu intento. “Caso deixasse partir os padres, aprestaria gente e embarcações para se opor. Porque não houvesse alguma desgraça, avisava de antemão.” (Serafim Leite, História da Companhia de Jesus, vol 1, p. 588) Os recursos dos jesuítas à Metrópole e à Santa Sé de nada valeram. Pelo contrário, as publicações das ordens régias e da bula em favor da liberdade dos índios resultaram em sua expulsão dos colégios de São Paulo, Santos e de toda a capitania de São Vicente. Estes acontecimentos suspenderam automaticamente qualquer possibilidade da catequese no Sul. A volta dos jesuítas – A medida tomada contra os missionários fora encabeçada pela corrente simpatizante da Espanha, e como seu prestígio fosse decrescendo mais e mais, pois Portugal acabara de efetivar sua independência, em 1640, terminou a outra corrente por restituir em 1653 a oportunidade do retorno à capitania. A primeira Armada – A primeira Armada da Companhia, com regimento passado a 14 de outubro de 1649, saiu do porto de Lisboa a 4 de novembro, rumo ao Rio de Janeiro, via Salvador, sob o comando do capitão-general João Rodrigues de Vasconcelos e Sousa, 2º conde de Castelo Melhor, nomeado para o cargo pela Companhia, tendo como imediato o Almirante Pedro Jacques de Magalhães. O conde de Castelo Melhor vinha substituir o conde de Vila Pouca de 66

Aguiar na direção do Estado do Brasil. A Armada era composta por 18 galeões que escoltavam 48 mercantes, 32 dos quais bem artilhados. No contexto da Dinastia Filipina, o incontestável sucesso das companhias monopolistas privadas neerlandesas no domínio do comércio com o Oriente, a partir do início do século XVII, causou alarme nas nações ibéricas, levando-as à busca de novas fórmulas para financiar as suas atividades comerciais. O caminho natural era o de reproduzir o modelo dessas companhias e projetos. Foram esboçados em 1619 e 1624, tendo mesmo um Regimento sido aprovado em 1628. Esta primeira tentativa de criação de uma Companhia na península foi defendida por Duarte Gomes Solis, mas não logrou êxito pela ausência de capitais privados. Com a Restauração da Independência de Portugal, o Pe. António Vieira, já em 1643, propõs a criação de duas companhias, uma para o Estado Português da Índia e outra para o Estado do Brasil, nos moldes da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. O capital de ambas proviria dos cristãos-novos de Lisboa e de judeus sefarditas norte-europeus. As ideias do religioso e diplomata iam além, propugnando manter o comércio com as colônias a salvo dos confiscos do Santo Ofício, o que, no conjunto, teve como consequência precipitá-lo nas malhas do Santo Ofício. A ocupação da ilha de Itaparica pelos neerlandeses, em fevereiro de 1647, bloqueando Salvador, capital do Estado do Brasil, notícia que alcançou Lisboa em maio do mesmo ano, teve como consequência imediata o envio de uma Armada de socorro ao Brasil, e o sucesso no seu apresto, a formação da Companhia Geral do Comércio do Brasil. Restituídos, embora, em 1653 aos seus lugares em São Vicente e São Paulo, resolveram, porém, dedicar-se no Sul apenas aos colégios e aos povoados dos brancos, deixando abandonados, até certo ponto, os carijós, a fim de evitar males maiores. Por isso, depois deste fato, os jesuítas descerão ao território catarinense apenas em visita às populações portuguesas, que começaram a se estabelecer por este tempo em São Francisco, Ilha de Santa Catarina e Laguna. Documentos vários informam sobre a presença episódica dos jesuítas no Sul. Efetivamente, em missões ambulantes, os jesuítas visitaram frequentemente os núcleos de povoamento. Missão de 1646 Finalmente, em 2 de julho de 1646, o Pe. Francisco de Moraes escreve ao Padre Geral da Companhia, lembrando as suas três Missões a Patos, e dizendo que o Capitão António Amaro Leitão ia povoar aquela terra e tinha promessa do Geral de levar dois padres da Companhia, e ele também se oferecia. Além do Pe. Moraes, ainda pretendia ir o Pe. João de Almeida, ao que se contrapunha o padre Provincial, dizendo que, “pelas atuais condições da Capitania de São Paulo e São Vicente, não era realizável”. 67

Missão de 1698 Por fim, a decisão do Conselho Ultramarino, em reunião em 29 de novembro de 1698, ordena “se mandarem dois missionários da mesma Companhia de Jesus para o Colégio de Santos, para dali fazerem as missões até o Rio de São Francisco e Ilha de Santa Catarina”. Também há registro de viagens dos jesuítas, padres Francisco Morais e Banha, ao sertão de Patos, sem que se tenha detalhes sobre elas. Finalmente, venceu o realismo do plano bandeirante sobre os índios carijós de Santa Catarina, e novas missões jesuíticas não mais haveria entre eles. HOMENAGEM Este capítulo é uma homenagem ao Padre Serafim Leite, autor da História da Companhia de Jesus no Brasil. Por 18 anos, entre 1932 e 1950, o padre Serafim Leite (1890-1969) escreveu sua História da Companhia de Jesus no Brasil. Nascido em Portugal, o historiador veio para o Brasil ainda rapaz, aos 15 anos, onde entrou para a Companhia. Por indicação do provincial, envolveu-se na escrita da história. Em dez volumes, mais de 5 mil páginas, desfia-se a crônica da presença dos jesuítas no Brasil, desde a chegada de Manuel da Nóbrega, nas naus que trouxeram o primeiro governador-geral, Tomé de Souza, em 1549, até o ano de 1759, data da expulsão definitiva da ordem das colônias portuguesas na América. Apesar de fundamentada em rigorosa pesquisa documental e em impressionante erudição, muito tem se alertado para as limitações resultantes na obra em razão do engajamento evidente de seu autor. A História da Companhia de Jesus no Brasil foi escrita tendo por base quase que apenas os documentos da própria ordem religiosa, o que lhe limita o alcance interpretativo. Mais ainda, em razão da posição de seu autor, mantém um formidável e confesso sentido apologético. Ao longo dos dez volumes, Serafim Leite aborda a história da Companhia nas suas mais diversas dimensões, sempre para louvar e escusar seus colegas jesuítas. Os tomos I e II nos contam o estabelecimento da ordem e sua obra no século XVI. Do tomo III ao VI, relata a catequese, a atividade nos aldeamentos, as realizações intelectuais dos missionários durante os séculos XVII e XVIII. O recorte é espacial, sendo cada capitania tratada em capítulos específicos. O tomo VII trata de alguns aspectos mais gerais dos governos da província e do magistério nestes dois séculos. Por fim, os tomos VIII e IX trazem, em “suplemento biobibliográfico”, um levantamento minucioso dos escritores jesuítas do Brasil, com informações sobre suas vidas e indicações exaustivas de seus textos, impressos ou não. O último tomo traz os

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índices e sumários, exaustivos e muito eficientes. Como se vê, é obra de uma vida. A História de Serafim Leite é um esforço ímpar de erudição, uma fonte de informações, algumas delas ainda exclusivas aos membros da ordem que puderam ter acesso aos documentos de forma integral. Não obstante seu tom apologético, muito há nessas imensas páginas que nos permite melhor compreender a sociedade, a cultura, a vida, enfim, o Brasil nos tempos da colonização.

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CAPÍTULO IV
OS BANDEIRANTES

4.1 – Entradas e bandeiras 4.2 – Os bandeirantes em território catarinense 4.3 – As bandeiras povoadoras 4. 4 – Bandeiras em trânsito

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4.1 – ENTRADAS E BANDEIRAS A longa história das bandeiras em Santa Catarina é obscura e de parca documentação. Desta fase bandeirante mais bem documentada é a catequese dos índios carijós pelos jesuítas. Apesar da pouca presença destes e mesmo do pouco sucesso, eles deixaram relatórios e cartas, geralmente guardados no arquivo da Companhia de Jesus, em Roma, e que servem também para informar sobre o pano de fundo da ação das bandeiras no Sul. Foram muitas as proezas dos homens que traçaram as origens do que seria depois o Estado de Santa Catarina. Embora alguns aspectos da valentia bandeirante sejam de valor discutível, o saldo final daquelas proezas foi positivo, desde que tudo seja avaliado no contexto sociopolítico da época. A vontade incessante de explorar o território brasileiro, em busca de pedras e metais preciosos, a preocupação do colonizador português em consolidar seu domínio e a vontade de arrebanhar mão de obra indígena para trabalhar nas lavouras resultaram em incursões pelo interior do país, feitas muitas vezes por milhares de homens, em viagens que duravam meses e até anos. Os documentos dos séculos XVI e XVII chamam estes exploradores de armadores. Entradas e bandeiras foram os nomes dados às expedições dos colonizadores que resultaram na posse e conquista definitiva do Brasil. Sendo que a palavra bandeira só aparece nos documentos do século XVIII. Para designar toda e qualquer espécie de expedição era comum empregar-se: entrada, jornada, viagem, companhia, descobrimento e, mais raramente, frota. Bandeira é nome paulista e, por isso mesmo, bandeirante tornou-se sinônimo do homem paulista, adquirindo uma conotação heroica, ao juntar no mesmo vocábulo o arrojo e a tenacidade com que se empenharam na conquista do território, na descoberta do ouro e no povoamento de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. As Entradas, em geral de cunho oficial, antecederam as Bandeiras, de iniciativa de particulares. Tanto naquelas quanto nestas, era evidente a preocupação do europeu em escravizar o índio, e não foi pequeno o morticínio nas verdadeiras caçadas humanas que então ocorreram, como observa o historiador João Ribeiro. As Bandeiras, fenômeno tipicamente paulista que data do início do século XVII, não extinguiram as Entradas e também não foram iniciativa exclusiva dos mamelucos – filhos de portugueses com índias – do planalto de São Paulo. Elas marcam o início de uma consciência nativista e antiportuguesa. O nome Bandeira, como se fez conhecer a expedição da armada da Capitania de São Vicente (depois São Paulo), da segunda metade do século XVI, deriva de band, que no antigo germânico e ainda hoje no alemão e inglês significa faixa, ou lista larga, seja como aquelas de tecido com que se enfeitam os cabelos, seja ainda como as listas de papel, em que se pode escrever. Do mesmo termo derivou a palavra bando, no nosso idioma; pode significar pregão público e também facção, quadrilha, multidão. Nesta última acepção é mais frequente e pode derivar para o lado pejorativo como em bando de ladrões e bandidos. 71

Quando, nos velhos tempos portugueses e do Brasil-colônia, inclusive na Ilha de Santa Catarina, uma autoridade escrevia suas ordens em um “bando” e mandava fosse lido em todas as principais ruas e praças, era o público advertido pelo rufar dos tambores. Este tipo de grupo, a anunciar o “bando”, passou a denominar-se também pelo mesmo nome de “bando”, por conotação. Finalmente, bandeira, como pano hasteado, deriva também da palavra germânica band, em vista de sua configuração de faixa larga e alongada. A bandeira conduz o grupo. E assim bando e bandeira se combinam. O sentido de bandeira, como facção, surgiu na Itália, dali se transportando para a Espanha e Portugal. No Brasil, veio designar, sobretudo, as “entradas”, que desde a descoberta foram tentadas para conhecer o interior. Ficaram, por último, para indicar especialmente as entradas nos termos que se deram em São Paulo, com vistas a capturar os índios e procurar minas de ouro, prata e pedras preciosas, porque as populações que as organizaram não estavam ainda preparadas para a atividade produtiva de transformação. O bandeirante manteve sempre as suas características, vivendo em condições extremamente difíceis. Seu equipamento quase se reduzia ao gibão de armas, couraça de couro cru, acolchoado de algodão para amortecer as flechadas dos índios, também chamada de “escupil”, além de arcabuzes e mosquetes. Levavam machados, enxós, foices, facões e os importantes instrumentos de mineração e apetrechos de pesca. Usavam perneiras de pele de veado ou capivara e andavam quase sempre descalços; quando montados, ostentavam nos pés nus grandes esporas. Entretanto, os chefes usavam botas e chapéus de aba larga que ajudaram, ao longo dos tempos, a firmar uma imagem de guerreiro forte e destemido. Os bandeirantes geralmente não levavam provisões, mesmo nas viagens longas. Apenas cabaças de sal, pratos de estanho, cuias, guampas, bruacas e as indispensáveis redes de dormir. Quando lhes faltavam os peixes dos rios, a caça, as frutas silvestres das matas, o mel, o pinhão e o palmito das roças indígenas, alimentavam-se de carne de cobra, lagartos e sapos ou rãs. Se a água faltava, tentavam encontrá-la nas plantas, mascavam folhas, roíam raízes e, em casos extremos, bebiam o sangue de animais. Esses homens estavam tão identificados com a terra “inóspita e grande” que um documento da época assim os define: “Paulistas embrenhados são mais destros que os mesmos bichos.” Quando estavam em viagem, só restava aos bandeirantes dois caminhos: seguir as águas de um rio ou abrir trilhas na selva. Adentrar no sertão exigia, antes de tudo, muita coragem e capacidade de improvisação. O combate na selva era sempre rude e sangrento. O grande número de árvores e arbustos tornava impraticável a luta à distância. As escopetas e os arcabuzes valiam num primeiro momento, mas não havia tempo para recarregá-los. Muitos aprenderam o manejo do arco e flecha que, nesses momentos, se tornavam muito mais eficientes. Em meio à luta, era preciso também ter destreza com o punhal e às vezes valer-se das próprias mãos, no 72

corpo a corpo inevitável. As condições eram tão rudes que os homens muitas vezes definhavam entre uma viagem e outra. Em 1623, partiram tantas bandeiras que São Paulo tornou-se quase que uma povoação só de mulheres e velhos. Nesse ano, penetraram no sertão, entre outros, Henrique da Cunha Gago e Fernão Dias Leme (tio de Fernão Dias Pais), além de Sebastião e Manuel Preto, que voltavam, mais uma vez, a caçar índios. No ano seguinte, os bandeirantes protestavam, indignados, contra uma provisão do governador, que destinava à Coroa a quinta parte dos indígenas capturados. A captura havia-se tornado uma atividade econômica de vulto. Devia, portanto, pagar impostos, da mesma forma que a pesca da baleia e o comércio de paubrasil. As expedições tinham a finalidade principal de aprisionamento dos indígenas e de prospecção de riquezas, apresentavam formas de organização bastante diferentes. As primeiras, estruturadas militarmente por D. Francisco de Souza e, mais tarde, pelos mestres-de-campo Manuel Preto e Antônio Raposo Tavares, reuniam milhares de índios, liderados por algumas centenas de mamelucos (mestiços) e portugueses. Dividiam-se em companhias com estados-maiores, vanguardas e flanqueadores. O armamento básico era o arco e flecha, mas contavam também com armas de fogo. As bandeiras de prospecção eram bem menores: algumas dezenas de sertanistas que se esgueiravam pelas matas, procurando passar despercebidos pelas tribos guerreiras. Seu armamento era leve, para defesa contra eventuais ataques indígenas e de animais. Entre os pontos comuns aos dois tipos de expedição estavam a ausência de animais de carga e o fato de evitarem vias fluviais. As regiões a serem percorridas eram pedregosas ou cobertas pela mata, mais facilmente cruzadas por homens que estavam em marcha. Quanto aos rios, era junto a eles que estava localizada a maioria das tribos. O percurso por via fluvial teria anulado qualquer efeito de surpresa, essencial para o êxito, para captura de indígenas ou mesmo de negros fugitivos. Os integrantes destas expedições tinham o seu objetivo claro, que era adentrar no território para além da linha imaginária do Tratado de Tordesilhas, garantindo ainda a expansão do território para Portugal, sendo que os recursos utilizados para as incursões que duravam meses e até mesmo anos. Enquanto as entradas eram financiadas pelos cofres públicos e com o apoio total do governo em nome do rei de Portugal, as bandeiras eram iniciativas de bravos particulares que, com recursos próprios, adentravam pelos sertões brasileiros. O apresamento dos índios, objetivo geral desses bandos armados, foi praticado com regularidade no sertão paulista, desde as primeiras entradas de Brás Cubas e Luís Martins em 1560. Os índios resistiam com valentia e até ferocidade. Calcula-se que, até 1641, 300 mil índios tenham sidos escravizados, quando o aprisionamento declinou e deu lugar a expedições cada vez maiores em busca de ouro, prata e pedras preciosas.

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O padre Anchieta se refere aos tupiniquins com assombro, chamando-os de “brava e carniceira nação, cujas queixadas ainda estão cheias de carne dos portugueses”. Mas os colonizadores, aproveitando-se das rivalidades entre as principais tribos, usaram a tática de jogá-las umas contra as outras. A caça ao índio foi implacável. Os que não se submetiam, eram exterminados se não fugissem. Os bandeirantes paulistas atacavam seguidamente as missões religiosas jesuítas, uma vez que o índio catequizado, vivendo nessas aldeias, era presa fácil. Em 1580, o capitão-mor Jerônimo Leitão trouxe de Guaíra, a maior dessas missões, um grande contingente de índios escravizados, ao qual se seguiram outros. Todas ou quase todas essas aldeias foram destruídas, a começar pela de Guaíra, em 1629, numa expedição que teve entre seus chefes Antônio Raposo Tavares. Segundo o historiador Paulo Prado, essa foi, sem dúvida, “a página negra da história das Bandeiras”. 4.2 - OS BANDEIRANTES EM TERRITÓRIO CATARINENSE Quando os portugueses venceram o obstáculo da serra do Mar, em 1554, São Paulo de Piratininga tornou-se o ponto de irradiação dos caminhos de penetração, ao longo dos rios Tietê e Paraíba, tanto para oeste como para o norte. As primeiras Bandeiras foram organizadas pelo governador-geral da capitania de São Vicente, D. Francisco de Sousa, e distinguem-se das entradas, não só por seu cunho oficial, mas, principalmente, por suas finalidades, mais pacíficas do que guerreiras. Exemplos disso foram as bandeiras de André de Leão, em 1601, e Nicolau Barreto, em 1602. A maioria dos bandeirantes e mesmo de seus chefes era constituída por brasileiros, de sangue europeu ou misturado ao do indígena. Reuniam os filhos varões (acima de 14 anos), parentes, amigos, mateiros, apaniguados e índios escravos para a grande aventura do sertão. Durante o século XVII os paulistas percorreram o sertão goiano e mato-grossense. Em 1676, Bartolomeu Bueno da Silva entrou, pela primeira vez, em terras de Goiás. É inegável a importância dos bandeirantes nas origens do Estado de Santa Catarina, mas a história das bandeiras é obscura, não havendo muita documentação sobre o assunto. Com enorme dificuldade e com longas distâncias a percorrer, os bandeirantes foram extraordinários em suas façanhas para chegar ao seu destino, às terras catarinenses, onde mais tarde seria este fantástico Estado de Santa Catarina. Ao contrário dos descobridores, que na maioria das vezes arribavam na costa catarinense, por infortúnio ou como escala para a região do rio da Prata, escala esta que servia para se refazer da longa travessia do Atlântico e se abastecer de provisões de água e comida ou até mesmo para deixar algum degredado, sendo que alguns ficavam dias ou meses e logo partiam, outros ficaram por alguns anos. Os bandeirantes geralmente tinham planos predefinidos, como o caminho a ser percorrido e os objetivos a serem atingidos. 74

Antes de 1600, as bandeiras exerceram ação limitada sem maiores consequências, agindo no interior de São Paulo e na costa catarinense. Seguem os empreendimentos de grande projeção histórica. É o período áureo das Bandeiras, quando se definiram pelas três direções geográficas, que sucessivamente tomaram: rumo sudoeste (para Guaíra, sobre Sete Quedas do rio Paraná); rumo sul (para a região de Tapes, ou das Missões, do centro oeste do Rio Grande do Sul); rumo Brasil central (Mato Grosso e Goiás). São, então, as três fases do período áureo. Conforme veremos, neste grande século das Bandeiras, foi só na fase da direção sul – a segunda – que a Ilha de Santa Catarina passou a figurar no interesse crescente dos paulistas, como de Manuel Preto e outros. As primeiras Bandeiras povoadoras do sul do Brasil ocorreram em 1628, quando eram conquistadas as missões jesuíticas espanholas de Guaíra. Passa a haver algumas alterações na fisionomia geral das Bandeiras que atuam no Oeste e no Sul. Acontece no mesmo ano um episódio típico na Ilha de Santa Catarina, o qual mostra como até então se capturavam os índios pelos bandeirantes e como os jesuítas os carreavam para as suas missões do Rio de Janeiro. Informações importantes também são encontradas nos escritos póstumos de Pedro Taques de Almeida Leme, autor de Nobiliarquia paulistana e genealógica (publicado pela Revista do Instituto Histórico Brasileiro, em 1872, com reedições em 1940, em 1955). Nestes escritos se encontram notícias várias sobre os bandeirantes que transitaram pelo território catarinense, ou mesmo que se tiveram estabelecido nele, como Francisco Dias Velho. Os inventários representam mais uma fonte preciosa de informação sobre as posses dos bandeirantes, inclusive de escravos e índios. A publicação destes documentos facilitou a pesquisa. O livro Inventários, XIV apresenta, por exemplo, o de Dias Velho (Pai). Transformação em Bandeiras povoadoras Importa considerar que, em suas idas e vindas para obter índios, os bandeirantes foram sendo induzidos para estabelecer propriedades em regiões remotas. Aconteceu assim que as primeiras Bandeiras, caracterizadamente apresadoras, passaram depois a ser Bandeiras povoadoras. Buscando uma data para distinguir entre as Bandeiras apresadoras e as povoadoras, o ano de 1628 parece haver sido o final do tempo das Bandeiras meramente apresadoras; foi o ano da destruição de Guaíra e ainda o ano do episódio jesuítico-bandeirante da Ilha de Santa Catarina. Continuarão a existir as Bandeiras apresadoras, mas ao mesmo tempo surge a nova modalidade, a povoadora.

Avaliação das bandeiras 75

A captura de índios, embora por métodos de eticidade discutível, apresentou saldo positivo. Não se tratava de uma caça com cordas e paus, e sim de uma ação de aliciamento, em que o índio era induzido a crer numa futura melhoria de vida. No ir e vir, os mesmos índios tinham algum conhecimento do que se lhes oferecia. Na avaliação também se deve levar em conta que as reações dos indígenas eram variadas, sendo que o carijó catarinense fora mais facilmente assimilado que índios de outros grupos e regiões. As crônicas dos jesuítas são negativistas com referência aos predadores de índios, porque só os viam por este lado. Importa ao historiador complementar as narrativas com uma compreensão geopolítica mais profunda dos episódios transmitidos pelas narrações. Assim o fazendo, o historiador fará reconhecer no bandeirante um homem também com ímpetos patrióticos, um aventureiro que, sob outros aspectos, foi também herói da criação da nacionalidade. Ele mesmo, o bandeirante, muita vez era um miscigenado, e por isso mesmo compreendia o selvagem, e este acreditava nele, deixando-se liderar. Ser apenas um índio errante era ser um selvagem desempregado; acompanhar a um bandeirante era ter comida certa. Sob este prisma englobante, não há como deixar de admirar Francisco Dias Velho, um miscigenado, que mandou seus capatazes, com numerosos índios e mamelucos, estabelecer empresas agrícolas em diferentes localidades de São Paulo, e finalmente aquela de 1673 na Ilha de Santa Catarina, para a qual iria ele mesmo em 1675. Ainda sob este horizonte ético e político não será com menos admiração que apreciará aquela história, muito vaga, de que teria ido até o território das missões teocráticas dos jesuítas espanhóis nos sertões remotos do Rio Grande do Sul. De outra parte, ainda que os missionários jesuítas fossem defensores dos índios, compraram também eles escravos negros e os puseram a trabalhar em fazendas e currais, cujos rendimentos eram usados para manter seus colégios, bem como tomaram proveitos indiretos dos mesmos índios em suas aldeias de regime teocrático. O que acontecia eram duas maneiras de integrar os indígenas. O missionário procurou a transformação direta do mesmo, como grupo social e étnico, satisfazendo-se com a aceitação da parte dele em se tornar cristão e seguidor de uma lei moral puritana. Em parte o missionário conseguiu estes objetivos, particularmente em algumas regiões do Rio de Janeiro, para onde inclusive levou índios carijós. Mas, em Santa Catarina, os índios carijós não se mostraram muito entusiasmados com os missionários, como revelam as crônicas das poucas missões realizadas. A ação dos bandeirantes, aliciando os índios para suas fazendas e para outros empreendimentos era, todavia, mais realista. Foi efetivamente uma ação consistente, que durou. Mas não resta dúvida que a ação jesuítica foi catalisadora, e estimulou mesmo as autoridades a zelarem pelos direitos humanos dos índios.

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Os jesuítas insistem que se façam valer as leis de proteção aos índios civilizados, que então havia em torno do povoado iniciante da Ilha de Santa Catarina.

4.3 – AS BANDEIRAS POVOADORAS Na aventura bravia dos bandeirantes se acham as razões remotas do povoamento da costa catarinense e depois também do planalto. Importa considerar que, em suas idas e vindas para obter índios, os bandeirantes foram ao mesmo tempo sendo induzidos para estabelecer propriedades em regiões remotas. Aconteceu assim que as primeiras bandeiras, caracterizadamente apresadoras, passaram depois a ser bandeiras povoadoras. Nicolau Barreto (1602) Sua descendência é descrita por Silva Leme no volume VII de sua Genealogia paulistana. Era irmão de outros sertanistas, como Roque Barreto e Francisco Barreto. Casara com Lucrécia Moreira, filha do capitão-mor Jorge Moreira. Autorizada e com provisão de D. Francisco de Sousa, essa Bandeira, composta de 300 brancos e mamelucos e corpo indígena, sob a capa de descobrir ouro e prata, desceu o Rio Tietê e se internou na região do baixo Rio Paraná onde apresou cerca de três mil índios cristianizados, gastando dois anos nisso. Dela faziam parte Afonso Sardinha “o Moço”, Simão Borges Cerqueira e outros sertanistas de nome, como Jorge de Barros Fajardo. Nesta Bandeira já se encontrava também Manuel Preto. Os protestos dos espanhóis não se deixaram sentir, em vista da profunda passagem além da linha de Tordesilhas e para regiões já sob o controle deles. Tal expedição originou muitas devassas e incriminou muitos sertanistas, 65 dos quais tiveram que se foragir para não serem presos. Pedro Vaz de Barros (1611) Pedro Vaz de Barros, nascido no Algarve e seu irmão Antônio Pedroso de Barros foram pessoas de qualificada nobreza e vieram ao Brasil providos – Antônio em capitão-mor da capitania de São Vicente e São Paulo, e o irmão Pedro Vaz de Barros em ouvidor da mesma capitania, com cláusula que, falecendo Antônio Pedroso, fosse capitão-mor governador e também ouvidor o irmão Pedro Vaz, e, falecendo este, acumulasse Antônio Pedroso os dois cargos, como se vê da carta patente passada em Lisboa em 1605, pela qual tomou posse Antônio Pedroso na Câmara de São Vicente em 1607, que está registrada no arquivo da Câmara de São Paulo. Com autorização de D. Luís de Sousa, seguiu à região do Guaíra, assaltando no final do ano a redução jesuítica de Paranambaré, ou Paranambu, e apresando 500 índios. Trazia os índios para São Paulo quando foi atacado pelo militar 77

espanhol D. Antonio de Añasco, que lhe retomou a presa. Retornou à região do Guaíra em 1623. No retorno, casou com Luzia Leme, filha de Fernando Dias Pais e de Lucrécia Leme, estabelecendo-se com fazenda em Pinheiros, além de possuir o sítio de Itacoatiara e grande número de escravos índios. Mas serão notáveis as grandes expedições dos irmãos Preto (Sebastião e Manuel) e de Raposo Tavares, que conquistaram as aldeias da região de Guaíra e a seguir investiram na direção sul, para onde os jesuítas recuavam estrategicamente. Manuel Preto (1628) A costa permitia planejar novas fundações de povoados distantes, de que o mar seria o caminho fácil de comunicação. No sentido de povoar em 15 de julho de 1629, Manuel Preto obteve do conde de Monsanto a provisão de governador das ilhas de Santana e Santa Catarina. Manuel Preto, uma das figuras mais ativas do bandeirantismo, que já acompanhara a Bandeira de Nicolau Barreto, em 1602, chefia Entradas em 1606 e 1619. Por um intervalo se dedicou à pesquisa de ouro em todo o São Paulo; adquiriu então o título de mestre de campo. Chefiou Manuel Preto importantes investidas sobre Guaíra em 1623 e 1624, que ainda não seriam as finais contra aquela federação teocrática de aldeamentos jesuíticos. Com o prestígio alcançado, Manuel Preto se elegeu vereador de São Paulo. Foi, contudo, impedido de assumir o posto, porque o indômito conquistador dos sertões era acusado de violências nas incursões, pelas quais foi processado em 1626. Em 1628, conduziu Manuel Preto, via Rio Tietê, a caravana em trânsito do governador do Paraguai. Ainda nesse ano está na chefia da poderosa Bandeira de 4 mil homens, da qual 800 são brancos e os demais índios, com o que arrasa praticamente todas as reduções de Guaíra. Na oportunidade tinha Raposo Tavares como seu imediato. Em decorrência do sucesso sobre a teocracia de Guaíra, estava definido na região sudoeste o alcance máximo dos limites do Brasil. Talvez haja sido em território catarinense que o famoso cabo de tropa perdeu a vida graças ao “muy buenos frechasos que le dieron los índios”, como escrevia em julho de 1630 o padre Simão Mazzeta ao Procurador da Província de Portugal. E comentava: “Plega al Sefior no haya poblado el Infierno!” (A. Taunay, História Geral das Bandeiras, 8, p. 350; Também em Santa Catarina colonial, p. ll, 12, 17). Há alguns relacionamentos entre a família Preto e a de Dias Velho. No inventário de Dias Velho (Pai), morto também no sertão, em 1645, aparece um cidadão de nome Francisco Preto, como partidor e avaliador (Ver Inventários, 14, p. 377, ed. 1921).

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O episódio jesuítico-bandeirante em 1628 na Ilha de Santa Catarina
Haviam os padres jesuítas encerrado uma missão, a mais longa que mantiveram no Sul, de 1622 a 1628. Findas as condições de mantê-la e suspensas as atividades, levavam consigo 405 índios concordes em acompanhá-los para o Rio de Janeiro. E, assim, num inverno de julho de 1628, vinham uns em barcas e outros em canoas, com os padres, enquanto os restantes acompanhavam por terra, por não caberem. O padre Francisco Carneiro relata, em 14 de julho, que se aventurara a solicitar deles, os bandeirantes, uma embarcação. Mas, não a conseguindo, continuou viagem como antes, tomando por etapa seguinte alcançar a enseada das Garoupas (hoje Porto Belo). O texto é emotivo: “Enquanto também estivemos nesta Ilha, chegaram a ela dois patachos, afora outro que encontramos em outro porto, em que se dizia iriam até 50 compradores de carijós com seus resgates costumeiros. Alguns deles com quem falamos, no semblante com que nos viam e carrancas, que nos faziam, mostravam não sentirem menos verem vir conosco os índios que trazíamos, do que se das mãos, depois de comprados, lhos tiráramos. Assim montaram pouco para com eles, as admoestações que lhes fiz sobre o muito que encontraria o serviço de Deus, e Sua Majestade, se com os índios, que deixávamos abalados para a Igreja com palavra de em breve os irmos buscar, tratassem sobre seus resgates e os inquietassem por essa via, quando de todo os não tirassem de seus intentos; porque, depois de se apartarem de nós, se foram ter com o Itapari, e o que com ele passaram não sei, mas ele me mandou dizer, depois disso, como já disse, apressasse quanto pudesse a ida dos padres, por respeito dos brancos, que já lá começavam a os inquietar. E nunca, mais desejei estar livre para me poder lá ficar este ano, a fim de conservar os índios nos propósitos em que os deixamos, e frustrar por essa via os intentos de tais contratadores, já que não bastam leis divinas nem humanas a impedirem estas injustiças, nem há justiça que veja e atalhe tão públicos e ordinários roubos da liberdade, em que na realidade me parece a emenda é impossível, por ser prática comum entre os culpados nelas, que só os padres da Companhia somos os que os julgamos por tais, sendo todos os mais de parecer contrário, e por ventura compreendidos pela maior parte nos resgates. Esta boa-vontade me pagaram eles, ainda antes de a alcançarem, com me não quererem fretar, como puderam e instantemente lhes pedi, um dos barcos até a Cananeia para nele passar parte da gente, assim por abreviar o caminho como por atalhar o trabalho dos de terra, por onde era e foi forçoso caminharem os que me não couberam nas barcas e canoas. Partidos.” (Documento do arquivo dos jesuítas de Roma, divulgado por Serafim Leite, em História da Companhia de Jesus no Brasil, VI, p. 485-486, RJ, 1945).

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Depois dos episódios de 1628 (Guaíra e Ilha de Santa Catarina), os acontecimentos bandeirantes assumem outra fisionomia no Sul. A presença bandeirante se tornou mais frequente. Quando os jesuítas espanhóis, derrocados em Guaíra (1628), se deslocaram para o Sul, estabelecendo os aldeamentos em Tapes, na região central do Rio Grande do Sul, este procedimento também moveu o interesse bandeirante para aquelas regiões meridionais interioranas, antes por eles só visitadas na fímbria do Atlântico. Indo agora os bandeirantes muito além da costa catarinense, esta ficou convertida em entreposto, que assim se valorizou, despertando o interesse de sua ocupação. A costa permitia planejar novas fundações de povoados distantes, de que o mar seria o caminho fácil de comunicação. Em 1629, Manuel Preto, um dos mais operosos bandeirantes, criou um projeto no Sul, exatamente na Ilha de Santa Catarina, onde concentraria a massa humana indígena, que, de outra forma, se destinaria a São Paulo. O saldo final das Bandeiras foi positivo, mas alguns aspectos da forma como foram construídos os primeiros núcleos habitacionais talvez tenham sido discutíveis, principalmente quanto ao irreparável dano causado à comunidade indígena.

4.4 – BANDEIRAS EM TRÂNSITO As bandeiras em trânsito com destino à região do Guaíra talvez tenham levado do Sul mais de 10 mil índios. Não os mataram, nem os aprisionaram como feras perigosas. O que efetivamente fizeram foi subordiná-los a uma situação, cujo rendimento, em última instância, foi para a comunidade em geral, inclusive destes mesmos índios. Luiz Dias Leme – 1635: A bandeira de Luiz Dias Leme, nascido em Santos, fabricante de pequenas embarcações, veio costa abaixo com uma grande bandeira, tendo por intermediário Fernando Camargo. Chegou, via marítima pela costa catarinense, a Tapes, penetrando o sertão do Rio Grande do Sul, para retornar pelo fim do ano, levando para São Paulo numerosos índios, tendo por intermediário Fernando Camargo. Antônio Raposo Tavares (O Velho) – 1636: Nascido em São Miguel do Pinheiro, Concelho de Mértola e distrito de Beja, Portugal, filho de cristãos novos. Chegou ao Brasil em 1618 com o pai, Fernão Vieira Tavares, designado capitão-mor governador da Capitania de São Vicente, em 1622. Era assim preposto do conde de Monsanto, donatário da Capitania de São Vicente. A mãe era Francisca Pinheiro da Costa Bravo. Antônio Raposo, aliás, nunca perderia contato com os interesses da Coroa. 80

Morto o pai (1622), transferiu-se para o planalto de Piratininga, fixando-se na vila de São Paulo, onde logo se entusiasmou em participar das expedições destinadas a aprisionar índios. De São Paulo partiu sua primeira bandeira, da qual era chefe nominal Manuel Preto, com um efetivo de 100 paulistas e 2 mil índios auxiliares, seis anos mais tarde (1628). Esta expedição, dividida em quatro companhias, rumou para o Guaíra e diz-se que ela iniciou o processo de expulsão dos jesuítas espanhóis, ampliando as fronteiras do Brasil e assegurando a posse dos territórios dos atuais estados do Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. À frente de 900 brancos e mamelucos e dois mil índios, uma verdadeira cidade em marcha. Francisco Bueno – 1637: nascido por volta de 1585, em São Paulo, serviu os honrosos cargos da República neste estado e foi grande sertanista. Em 1628 seguiu para a região do Guaíra na bandeira de Antônio Raposo Tavares. Morreu em 1638 às margens do rio Paraguai, pois seu inventário foi aberto em julho desse ano. Filho de Bartolomeu Bueno (Sevilha (1555) São Paulo (1629), dito “o Sevilhano”, tronco dessa família, chegado a São Paulo, em 1581, em companhia de seu pai, Francisco Ramirez de Pórros, na armada de D. Diego Flores de Valdez, na qualidade de carpinteiro da ribeira, pago a 30 ducados. Exerceu em São Paulo cargos de juiz de ofício de carpinteiro, em 1587; aferidor, em 1588; almotacel, 1591, e vereador em 1616. Casou em São Paulo em 1590 com Maria Pires, nascida em 1564, filha de Salvador Pires e de Mécia Fernandes (mameluca conhecida como Mécia Uçu). O pai voltou para Castela em 1599. Do casal descendem os Buenos, de São Paulo, que se espalharam por todo o Brasil. Em abril de 1637, com uma centena de brancos e enorme séquito de índios, chefiou uma bandeira de Piratininga para o sertão do Tape, no atual Rio Grande do Sul, atingindo o rio Taquari. Após atacar reduções dos jesuítas em Santa Teresa, a noroeste desse rio, investiu contra a missão de São Carlos de Caapi e contra a missão de Apóstolos de Caazapaguaçu, destruindo-as. Faleceu num desses combates e seu irmão e imediato, Jerônimo Bueno, tomou conta da tropa com outro sertanista de renome, André Fernandes. Box Depois do insucesso dos primeiros bandeirantes povoadores da Ilha de Santa Catarina, esta continuará abandonada e erma, por mais algum tempo, servindo apenas de abrigo aos barcos e “bandeiras” em trânsito. Inácio Sequeira a descreve neste abandono sensacional, revivendo a imagem mística da Santa de quem tomara o nome: “Jaz a Ilha no meio de braço de mar, que a divide da terra firme, tão estreita, unindo-se a terra tanto uma à outra que parece que ambas estão 81

arrependidas de se dividirem algum tempo, e agora desejam sumamente de se abraçarem outra vez e darem as mãos, mas impede-lhe a grande corrente que ali levam as águas, furtando-lhe as areias e os mais materiais, que ambas acarretam, para se unirem; contudo ainda estão tão vizinhas, que quase, quando passam, vão as embarcações batendo com as antenas pela penedia e arvoredo, que de uma e outra parte se derrama sobre as águas” (em Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, VI, p. 465).

Pascoal Leite Pais – 1639: Foi bandeirante paulista, irmão de Fernão Dias Paes Leme, o famoso “caçador de esmeraldas”. Silva Leme descreve sua família no volume II de sua Genealogia Paulistana. Em 1639, os paulistas que comandavam desde 1637, integrantes de uma bandeira que conquistara os índios das reduções do rio Ibicuí, São Cosme e São Damião, São José, São Tomé, São Miguel e Nativide foram derrotados pelo Padre Diogo de Alfaro e seus índios, na região de Caasapaguaçu, perto da redução de Conceição, sobre o rio Uruguai. Morreram na refrega o jesuíta e 18 paulistas aprisionados entre os quais Pascoal. Haviam sido enviados pelo governador do Paraguai, D. Pedro de Lugo, ao Buenos Aires, que mais tarde os libertará. Manuel Pires – 1640: Integrou em 1628 a bandeira de seu genro Antônio Raposo Tavares ao Guaíra. Na volta a São Paulo, perpetrou violências no Colégio dos Jesuítas e promoveu outras arruaças que implantaram o terror na vila. Logo depois do assalto ao colégio dos padres jesuítas em Barueri, partiu em 1641 para o sertão, destruindo a obra dos padres inacianos, sendo um dos chefes da grande bandeira destroçada em Mbororé. Sua bandeira foi rechaçada nas margens do Rio Mbororé ou “Das onze voltas”. Tinha como ajudante Jerônimo Pedroso de Barros. Investiu as reduções do Tape pelo Norte, atacando as missões localizadas entre os rios Paraná e Uruguai. Os padres, porém, armaram seus índios com escopetas, e até pequenos canhões, e mantiveram permanentemente atalaias nas aldeias. A grande expedição paulista se aproximou da redução de Nossa Senhora da Assunção, vinda das cabeceiras do Rio Uruguai, atacando-a. Foram oito dias de combate e afinal a bandeira paulista foi desbaratada às margens do Mbororé. Os jesuítas fizeram grande alarde da vitória e denunciaram “as correntes de oito metros de comprido nas quais se prendiam dez gargalheiras, sendo os índios, presos pelo pescoço, levados a São Paulo”. Os paulistas, depois dessa derrota, passariam quase 10 anos sem mais atacar – pelo menos até a quaresma de 1651. Manuel Pires era casado com Maria Bicudo. Teve fazendas em Cutia e Parnaíba onde trabalhavam mais de cem escravos índios. Faleceu em 1659.

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Domingos Barbosa Calheiros – 1651: Filho de Domingos Barbosa e de Maria Rodrigues. Casou com Maria Maciel, sendo cunhado, portanto, de Estêvão Ribeiro Baião Parente. Silva Leme estuda sua família no volume VIII, página 241, de sua Genealogia paulistana. Foi grande sertanista desde 1646; derrotado em 1651, ainda em 1658, sexagenário, comandou leva à Bahia. Na quaresma de 1651, aproveitando-se de se encontrar Portugal em guerra com Espanha, os paulistas planejaram atacar os missionários simultaneamente por quatro pontos referentes aos rios Paraná e Uruguai – tendo mesmo havido a louca ideia de uma vaga marcha até Buenos Aires. Vão ameaçar a cidade espanhola de Corrientes, na mesopotâmia dos rios Paraná e Uruguai, atacando reduções. Fato é que, em maio de 1651, os jesuítas mantinham-se prevenidos, pois os paulistas continuavam a atacar no Itatim. Partiu um verdadeiro exército, da Redução de Nossa Senhora do Mbororé, para tomar a ofensiva, capitaneados pelo índio D. Inácio Abiarú, que alcançou a tropa paulista nos Pinhais de Santa Teresa e lhes impôs uma derrota memorável. Era chefe dos paulistas Domingos Barbosa Calheiros, sendo seu imediato Brás Rodrigues de Arzão, “tomando os paraguaios sua munição de guerra e de boca e ainda um pendão com a efígie de Santo Antônio”. Diz o livro Ensaios paulistanos, Editora Anhambi, São Paulo, 1958, página 634, que “em 1651, assinalava-se na mesopotâmia argentina a Bandeira de Domingos Barbosa Calheiros, que esteve às portas de Corrientes, causando aos espanhóis o maior receio por constar que visava atacar Buenos Aires, tentativa aliás malograda e sobre a qual há obscura documentação”. Os paulistas desistiram, mas o Tape já estava devastado como o Guaíra e os territórios reconhecidos pelos espanhóis como pertencentes a Portugal. Os jesuítas que abandonaram o Guaíra tinham ido fundar reduções novas no baixo Mato Grosso, as de Xerez, Tarém, Mboimboi, Terecañi, Maracaju, Caaguaçu, Guarambaré, Atira, Nossa Senhora Fé... a chamada província do Itatim, que tinha por capital Vila Real do Espírito Santo, fundada em território paraguaio após a destruição do Guaíra. BOX

Povoamento
Acautelando-se os bandeirantes com as resistências no Sul – sem abandonar esta conquista –, saem ao novo esforço, à conquista do Brasil central, onde se desenvolverá a terceira fase do período áureo do bandeirantismo, com excelentes resultados em Mato Grosso e Goiás. Enquanto as Bandeiras se desenvolviam no Brasil central, criaram-se as condições de povoamento pacífico na costa catarinense. É quando as Bandeiras já não se ocupam em predar índios, mas simplesmente em povoar, gerando riquezas e procurando minas de ouro. Inverte-se a movimentação dos índios, porque estes são trazidos para o povoamento. Com referência aos mesmos bandeirantes, já são muitos deles homens miscigenados.

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CAPÍTULO V
O POVOAMENTO

5.1 – Povoamento das Capitanias 5.2 – São Francisco do Sul 5.3 – Bandeira de Francisco Dias Velho 5.4 – Florianópolis 5.5 – Laguna

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5.1 – POVOAMENTO DAS CAPITANIAS A partir de 1530, o território entre o Maranhão e Santa Catarina foi dividido em 12 faixas lineares, limitadas a leste pelo Atlântico e a oeste pela linha convencional das Tordesilhas. A Ilha de Santa Catarina foi então incluída na Capitania de Santo Amaro e Terras de Sant’Ana, numa extensão de território que ia desde Cananeia até Laguna, e foi doada a Pero Lopes de Souza, por volta de 1534, quando se iniciou um pequeno povoamento. Isto possibilitou o início da ocupação oficial da costa catarinense, através da fundação de diversas vilas, entre elas Nossa Senhora do Rio São Francisco, Nossa Senhora do Desterro e Santo Antônio dos Anjos da Laguna. Desmembrada de São Paulo, a nova capitania – cuja capital é o povoado de Nossa Senhora do Desterro, fundado pelo bandeirante paulista Francisco Dias Velho, em 1673 – nasce com o objetivo de ser uma base de apoio aos enfrentamentos militares com os espanhóis. Esses viam Sacramento como uma ameaça ao monopólio sobre a boca do rio do Prata, que funcionava como uma porta de extrema importância para mais da metade de suas colônias da América do Sul. 5.2 – SÃO FRANCISCO DO SUL Descoberta em 1504 por franceses, mais especificamente pela Expedição de Binot Paulmier de Gonneville, São Francisco do Sul vive completo abandono até 1552, quando parte do grupo da expedição de Juan de Salazar de Espinoza, que rumava em um batel com destino à Capitania de São Vicente, é forçado a ali permanecer por quase um ano. Neste grupo se encontrava a Sra. Mencia Calderõn de Sanabria, suas filhas e demais mulheres da expedição, havendo registro também da figura de Hans Staden. Novo período de isolamento e abandono, e somente em 3 de dezembro de 1641 ocorre a efetiva fundação da Villa de Nossa Senhora da Graça do Rio São Francisco, quando Gabriel de Lara, sertanista paulista natural de Santana do Parnaíba, filho do espanhol Diogo de Lara e da paulista Antônia de Oliveira, filha de Antonio de Oliveira Gago chega àquela região. Gabriel de Lara, desde adolescente percorrera os sertões na Bandeira de Antônio Pedroso de Alvarenga ao Paraupava, em 1616, e foi casado com Brígida Gonçalves. Acompanhado de portugueses e vicentistas, chega com objetivo definido de efetivar a fundação. Tinha em seu histórico a famosa Bandeira que, em 1640, ergueu na costa de Paranaguá um posto avançado contra a invasão de estrangeiros, fundando arraial na ilha da Cotinga, para também poder se defender dos índios carijós. Nas margens do rio Itiberê ergueu o pelourinho e fundou a vila de Paranaguá, em 1648. Em 1656, Lara foi nomeado capitão-mor governador da nova Capitania de Paranaguá, tomou posse em 15 de maio de 1660. Morreu em 1682. Manteve 85

Gabriel de Lara uma política de boa vizinhança com os índios carijós, o que permitiu que se viesse a conhecer melhor as minas de ouro. Delas deu Gabriel de Lara conhecimento ao governador das Minas da Repartição do Sul. Em 1646 fez uma viagem a São Paulo, onde registrou o metal na Casa da Moeda local, de acordo com a lei. A Ilha de São Francisco, em decorrência do progresso de Paranaguá, não demorou a ser alcançada por povoadores estáveis, ainda que simples posseiros. Seguramente já houvesse moradores brancos antes da concessão das sesmarias, dentre as quais a primeira de que se tem conhecimento foi em 1642. Considere-se também que as sesmarias eram usualmente requeridas depois de alguma experiência de ocupação por parte dos seus requerentes. O simples fato da presença, já em longo passado, de índios carijós em contato com os navios que aportavam, permitia a penetração fácil de moradores mestiços e mesmo brancos. A cabotagem foi praticada pelos bandeirantes em busca de índios no Sul, e assim também missionários jesuítas têm transitado por São Francisco, embora com destino ao extremo Sul. Certos manuscritos registram alguns dos primeiros moradores de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco do Sul, cuja povoação deu princípio Ângelo Francisco Francisquin, genovês, que ali foi com sua mulher, e filhos, ainda fez assento, deixando uma grande descendência, e quem seguiram João de Ariolla, José de Castilho, e Sebastião Álvares Marinho, portugueses europeus, que também entraram com mulheres e filhos, e outros a que foram convocando. Podese acreditar que foi por causa da existência de uma população flutuante anterior que os sesmeiros tenham conseguido tão rapidamente estabelecer o vasto município de São Francisco. Mas foi a partir de uma concessão de sesmaria – com petição em 29 de novembro de 1642, a Antônio Fernandes – que as notícias sobre São Francisco se tornaram mais claras quanto à cronologia. Com base neste contexto se pode mesmo considerar aquele ano como o de sua fundação formal. Em 1658, Manoel Lourenço de Andrade, acompanhado por casais portugueses e paulistas, chegou a São Francisco, com plenos poderes, concedidos pelo marquês de Cascaes, para povoar a terra, repartindo-a entre a sua comitiva e os que fossem chegando. Já em 1660 obteve autonomia municipal, quando foi elevada à categoria de vila e o povoamento se impulsionou. Manoel Lourenço de Andrade era capitão-mor. Era o capitão-mor uma autoridade militar sobre a população civil, e que logo também se estabeleceria em Laguna e na Ilha de Santa Catarina. Encontravam-se por sua vez os capitãesmores subordinados, nessa época, à Praça de Santos. As datas das primeiras sesmarias concedidas em São Francisco foram apuradas por Azevedo Marques em São Paulo. Teve este a oportunidade de ver os papéis das concessões e um testamento que diz: “Entretanto, é certo que no

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livro 10 de sesmarias, existente no cartório da Tesouraria da Fazenda de S. Paulo, deparamos com o pedido de concessão feita a Antônio Fernandes, a 29 de novembro (L. Boiteux diz setembro) de 1642, de uma sesmaria para ir povoar a vila que se vai fundar em São Francisco do Sul, onde já tinha capela de Nossa Senhora da Graça”. Além desta sesmaria, deparam-se no mesmo livro com outras concessões, inclusive ao capitão Lourenço de Andrade, aos que alegavam o desejo de ir povoar a paragem de São Francisco do Sul. Com referência a Manuel Lourenço de Andrade, português que foi capitão-mor da Vila, deixou um testamento exarado em 19 de outubro de 1663, também transcrito por Azevedo Marques. Nele declara sua posição de principal povoador: “Assim declaro que, quando Nosso Senhor seja servido levar-me desta vida presente, meu corpo seja enterrado na igreja de Nossa Senhora da Graça desta vila, e como sou seu principal povoador, seja na capela da dita igreja, defronte da imagem da dita Senhora” (Cartório 1-0 de Órfãos, de São Paulo, testamento de Manuel Lourenço de Andrade, citado por A. Marques, Apontamentos, II, 119). Era o capitão Manuel Lourenço de Andrade português, natural de Lamego. Ao vir para São Francisco recebeu amplos poderes de capitão-mor e poderes de conceder sesmarias. Acompanhado de várias famílias, seu empreendimento teve aspecto de bandeira colonizadora. Feito seu testamento em 1663, veio a falecer já em 1665. Já então se estava no 5º ano do município. O que acontecia em São Francisco – por onde certamente transitava Francisco Dias Velho e fazia negócios de sal, como consta –, mais ou menos se repetira na Ilha de Santa Catarina. Quando fez seu requerimento de sesmaria, já existira a igreja de Nossa Senhora do Desterro, como uma réplica da que vira em outra Ilha, onde era igreja de Nossa Senhora das Graças. O que se induz se confirma também documentalmente. Notabilizou-se o capitão-mor Domingos Francisque, o Cabecinha, dado como autocrático. Um incidente no final do século XVIII gerou versões curiosas. Havendo perdido um filho, o capitão-mor quis que fosse enterrado na igreja, alegando, entre outros méritos, haver auxiliado a construção da mesma. Como o vigário, um franciscano, se opusesse, foi este colocado, a mando do Cabecinha, numa canoa sem remos, com algum peixe e farinha, barra a fora. Salvou-se o frade, desembarcando em uma outra ilha. A tradição diz ter o padre lançado a maldição sobre a família do capitão da vila, acrescentando que a vila não progrediria até que nela se restabelecessem os padres franciscanos. Em 1658 é que se inicia, efetivamente, o povoamento de São Francisco, quando para lá se transfere com sua família, criadagem e escravos, e grande número de associados, entre os quais seu genro, Luiz Rodrigues Cavalinho, possuidor de grande fortuna. Entretanto, tal data é contestada, porquanto há

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elementos que asseveram ter, em 1642, sido entalhada a casa do capitão-mor e, em 1646, estruturada a paróquia e nomeado seu primeiro vigário. Sabe-se, por outro lado, que Manoel Lourenço de Andrade empreendeu tal fundação por ter recebido procuração, neste sentido, do marquês de Cascaes, herdeiro de Pero Lopes de Souza. A primeira fundação teve lugar na barra do rio Paranagué-mirim, mas, logo, conhecendo a impropriedade do lugar, mudou o estabelecimento para junto do rio Parati, no lugar denominado Olaria, onde encontrou inconvenientes, passando-se, então, para a barra do Norte, entre as pontas da Cruz e do Itacorubi, de onde se transferiu, finalmente, para o local onde está a cidade. Falecendo em 1665, com testamento, em que pede seja enterrado na capela da igreja de Nossa Senhora da Graça, foi substituído no governo e concessão de terras por Gabriel de Lara, capitão-mor. BOX

João Dias de Arzão (à cata do ouro)
A ocupação das terras do Itajaí pelo homem branco se daria pela iniciativa particular de João Dias de Arzão, companheiro do fundador de São Francisco do Sul, em 1658. João Dias de Arzão era paulista e sua família procurava minas de ouro e outros metais preciosos pelo interior do Brasil. Naquele ano, ele requereu e obteve uma sesmaria, que vem a ser um lote colonial, às margens do rio Itajaí-Açu, em frente à foz do rio Itajaí-Mirim e ali construiu moradia. Não tinha ele, porém, intenção de fundar uma povoação, nem empreendeu meios para tal. Seu interesse maior era a cata de ouro, no que, afinal, não teve sucesso. 5.3 – BANDEIRA DE FRANCISCO DIAS VELHO Na constelação dos bandeirantes surge o nome do fundador da povoação de Desterro, como rebento igualmente destemido, porém evoluído dentro de novas circunstâncias que se iam estabelecendo. Seu pai, também de nome Francisco Dias Velho, levava o filho nas correrias pelo sertão. Francisco Dias (pai) foi um notável varejador dos sertões. Talvez conhecesse melhor os sertões de Santa Catarina do que seu próprio filho, o qual depois viria a impulsionar a povoação de Desterro. Nas Entradas que fez no sertão, o jovem Francisco Dias Velho o teria acompanhado até os 23 anos. Pedro Taques é o informante: “Francisco Dias se fez opulento de arcos, cujos índios conquistou com armas no sertão, e gostando desta guerra tornou para a mesma conquista, e no Sertão dos Patos e Rio de São Francisco para Sul até o Rio Grande de São Pedro” (Nobiliarquia, p. 85).

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Em pleno sertão veio a morrer em princípios de 1645, ou antes. Fez-se, então, o testamento em 29 de maio, o qual nos serve como ponto de partida para conhecimento da vida de seu filho e povoador da Ilha de Santa Catarina. O inventário informa sobre sua morte, sua mulher, seus filhos e respectiva idade, finalmente sobre os bens, então havidos, os quais se constituem de sítios com casas, terrenos na Vila de São Paulo, além de escravos. Francisco Dias Velho já não era órfão, em vista de sua idade de 23 anos. Na parte informativa, que precede ao arrolamento dos bens, encontramos: “Auto de inventário que mandou fazer o Juiz dos Órfãos Dom Simão Toledo por morte e falecimento de Francisco Dias que morreu no sertão. Ano do nascimento N. S. Jesus Cristo de 1645 nesta Vila de São Paulo, Capitania de São Vicente, partes do Brasil, aos vinte e nove de maio da era acima declarada e no termo dela donde foi o Juiz dos Órfãos, Dom Simão de Toledo, comigo escrivão e mais oficiais à paragem chamada Manaquim ao sítio e fazenda que ficou do dito Francisco Dias onde o dito Juiz achou Custódia Gonçalves e lhe deu o juramento dos santos Evangelhos sob cargo do que lhe encarregou que bem e verdadeiramente desse o inventário todos os bens móveis e de raiz, dinheiro, ouro e prata encomendados e seus procedidos escravos de Angola e gente forra do gentio da terra e que declarasse se o defunto seu marido fizera testamento ou algum codicilo que declarou a dita viúva que o dito seu marido não fizera testamento nem codicilo e que os filhos que lhe ficaram eram os abaixo nomeados e que fiz este auto em que por ela assinou Geraldo da Silva e o dito Juiz Luiz de Andrada escrivão dos Órfãos o escrevi – Dom Simão de Toledo Piza – Geraldo da Silva” (Inventários, XIV, p. 371). Custódia Gonçalves, por quem assina Geraldo da Silva, não sabe escrever. Esta circunstância terá contribuído para que não soubesse arrolar os filhos herdeiros senão pela idade mais ou menos de cada um. Ao lazer de futuro seu testamento, em 1679 (acostado no Inventário de 1681, ano em que morreu), aquele Testamento também será feito por outrem, contra o qual manifestará Francisco Dias Velho (então na Ilha de Santa Catarina) a circunstância de haver sido ele mesmo esquecido. “Título dos filhos: Pedro Dias, de idade de 24 para 25 anos. Francisco Dias, de 23 anos pouco mais ou menos. Manuel Dias, de idade de 18 anos pouco mais ou menos. Ignácio Dias, de idade de 16 anos pouco mais ou menos. José Dias, de idade de l0 anos pouco mais ou menos. Helena Dias, casada com Francisco de Siqueira. Ana Dias, viúva mulher que ficou de Antônio Rebelo. Antônia, de idade de 14 anos pouco mais ou menos. Maria, de idade de 12 anos pouco mais ou menos” (Inventários, XIV, p. 372). Exceto Pedro Dias, o mais velho, os demais reaparecem denominados no testamento e no inventário, respectivamente de 1679 e 1681, de Custódia 89

Gonçalves. Esta declara ali expressamente que teve quatro filhos homens. Ou Pedro era apenas filho de Francisco Dias, com outra mulher (o que é mais provável). Pedro não é citado por haver morrido na juventude e sem descendentes. Quanto aos demais homens, sabemos que Francisco e José foram os que se estabeleceram na Ilha de Santa Catarina. Manuel Dias, capitão, permanecerá em São Paulo. O mesmo acontece com as irmãs. No grupo familiar se destacará Maria, casada com o capitão Pedro Jácome Vieira, com estes permanecerá a mãe viúva, Custódia Gonçalves, que se tornará longeva. Sabe-se que, no ato do inventário, os órfãos não estavam presentes (o que se deve entender pelo menos com referência aos de maioridade): “E logo no mesmo dia, mês e ano acima e atrás escrito e declarado, o dito juiz houve por entregues todos os bens móveis e de raiz, gado e peças do gentio da terra assim e da maneira neste inventário escritos à viúva Custódia Gonçalves para que tudo tivesse em seu poder e administrasse até serem as partes herdeiras presentes às partilhas que se não fazem pela ausência de ditos órfãos” (Inventários, XIV, p. 373). “São avaliadores Francisco Preto e Manuel Cunha” (Inventários, XIV, p. 373). Aqui há uma referência à família Preto, que tem nomes célebres na história bandeirante. Helena Dias, casada com Francisco Pires de Siqueira (Inventários, XIV, p. 376), é um contato com a família Pires, na qual também casará Francisco Dias Velho. Este é “citado” para a partilha, em l0 de setembro de 1645. Dias Velho (pai) tinha, como arrola o testamento, bens móveis, além de casas, sítios e gado, índios e escravos, que proporcionaram aos descendentes possibilidades de novos desenvolvimentos. Francisco Dias Velho (filho), jovem inteligente, se destacará como político – o que não era raro entre os bravios bandeirantes – na vila de São Paulo, casando com uma jovem da família de maior fortuna da capitania, a dos Pires (cf. n. 52). A viúva Custódia Gonçalves manterá alguns sítios de menor valia. Com eles beneficiará, sobretudo, ao genro, Pedro Jácome, casado com Maria, a mais nova, que a mantém em seus cuidados, como revelam o Testamento (1679) e o Inventário (1681) (cf. n. 83). Em torno dos sucessos do sertão e das riquezas acumuladas nas fazendas, dividem-se algumas importantes famílias de São Paulo, assunto do qual não se encontrará alheio Francisco Dias Velho, pela circunstância de entrar para a família dos Pires, adversária dos Camargos. Antônio de Barros (+1652) in extremis, ditou testamento, de que foi “escrivinhador” Francisco Dias Velho (filho), de onde se infere que “não foi vitimado pelo bacamarte numa emboscada, como diz a tradição, e, sim, morreu com tempo de fazer seu testamento, em consequência de ferimentos recebidos numa revolta de índios, na sua fazenda, na paragem denominada Apotebu” (Silva Leme, Genealogia, 3,444). Possuía 5.000 índios, na fazenda (Inventários e Testamentos, vol. xx, p. 5).

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Um documento espanhol do tempo da fundação da Colônia de Sacramento (Uruguai), em que participou Dias Velho, nos fala, dentre muitos outros bandeirantes de sua espécie, de um Francisco Diaz Bello, com 80 índios. Em 14 de fevereiro de 1668 dois sertanistas vão ao auxílio de uma bandeira extraviada, no sertão, tendo, para tanto, alcançado licença do capitão-mor Agostinho de Figueiredo e do juiz ordinário, Francisco Dias Velho (cf. A. Taunay, História Geral das Bandeiras 1, p. 144 ss.). Eis, pois, o clima no qual vive Francisco Dias Velho e de dentro do qual sairá para estabelecer negócios na Ilha de Santa Catarina; primeiramente, em caráter transitório e experimental; depois em definitivo. Haverá, todavia, uma evolução social e política na mente destes filhos de grandes sertanistas. Os ouvidores passarão a legislar a situação dos índios domesticados. Esta evolução social se faz acompanhar de novo sentido político que as bandeiras adquiriram, a começar da Independência retomada por Portugal em 1640. Desde então o bandeirante já não é só um apresador de índios. Também cogita na oposição ao espanhol confinante e na consolidação das fronteiras do País através do povoamento, em que se engajam também mais firmemente as autoridades de São Paulo. 5.4 – FLORIANÓPOLIS Florianópolis é uma fundação bandeirante, porque resultou de uma Bandeira povoadora de Francisco Dias Velho, valoroso sertanista, e do acréscimo de novos povoa-dores, que, por muitas décadas, desceram ao longo da costa marítima, tendo como origem remota a Capitania de São Vicente (denominada São Paulo, desde 1710). Assim são tipicamente bandeirantes, Laguna, São Francisco, Lages. Como um todo, o Estado de Santa Catarina é bandeirante. Já no início do século XVI, embarcações que demandavam a Bacia do Prata aportavam na Ilha de Santa Catarina para abastecer-se de água e víveres. Sendo que os primeiros colonizadores a se instalarem em Florianópolis foram desertores de algumas expedições marítimas. O capitão-mor Francisco Dias Velho, tendo acompanhado seu pai na Entrada que fez ao sertão dos gentios dos Patos, ficou-lhe herdando a disciplina e valor para conquistar gentios bravos do sertão da costa sul. No ano de 1673 mandou ao mesmo sertão seu filho José Pires Monteiro, com cento e tantos homens de sua administração, “com o intento de fazer povoação onde melhor sítio descobrisse; e com efeito descobriu as excelentes terras na Ilha de Santa Catarina, o dito José Pires Monteiro, e logo nelas fez plantas”. Em 1675, “foi em pessoa o capitão Francisco Dias Velho com novos gastos, para se conseguir a dita povoação, onde esteve três anos”. Entre 1675 e 1678 edificou uma capela, no mesmo local onde hoje se ergue a catedral de Florianópolis. Dias Velho retornou definitivamente no ano de 1679, “em que todo o referido expôs no requerimento que então fez na vila de Santos ao governador da 91

capitania, pedindo-lhe de sesmaria duas léguas de terra em quadro no distrito da ilha de Santa Catarina, onde já tinha igreja de Nossa Senhora do Desterro, correndo costa brava, e mais meia légua de terras de uma lagoa, onde já tinha fazenda de culturas, e mais duas léguas de terra defronte do estreito ou terra firme onde também já tinha feito uma feitoria com uma légua de sertão e outra de testada nas cabeceiras onde chamam Cabeça de Bogio; e duas léguas em quadro começando do rio Araçativa. Tudo se lhe concedeu por sesmaria em atenção ao grande serviço que fazia à sua majestade com a nova povoação e fundação das terras de Santa Catarina”. (Registro no cartório da provedoria da fazenda real de São Paulo.) O bandeirante, natural de São Vicente, onde nasceu em 1622, filho de Francisco Dias e Custódia Gonçalves, casou em São Paulo com Maria Pires Fernandes, filha do capitão Salvador Pires de Medeiros e de Inês Monteiro, “dita a Matrona, com quem teve 12 filhos. Descendia de uma índia tapuia e sua bisavó foi casada com um padre, de nome Pero, que a abandonou”. É descrito por alguns historiadores como um impiedoso caçador de índios, mas o traço mais palpável de sua personalidade era a coragem de desbravador em uma terra cobiçada por piratas de várias nacionalidades. O fundador já trazia informações sobre a existência de um pequeno comércio realizado no local onde seria instalada a cidade e sobre o espírito pacífico dos indígenas. Vieram sua esposa, três filhas, dois filhos, outra família agregada, dois padres da Companhia de Jesus e mais 500 índios domesticados. A fundação efetiva da Póvoa de Nossa Senhora do Desterro ocorreu por iniciativa do bandeirante paulista Francisco Dias Velho, por volta de 1651. Em 1675, Dias Velho ergueu uma cruz e, em 1678, deu início à construção da capela de Nossa Senhora do Desterro. A igreja primitiva definiu o centro do povoado e marcou o nascimento da Vila de Nossa Senhora do Desterro, podendo ser considerada o berço de Florianópolis. Aos poucos foi se processando uma ocupação litorânea, lenta e espontânea, por meio da concessão de sesmarias, que se fixaram com seus estabelecimentos agrícolas e pastoris. Nesta ilha fez o capitão-mor povoador muitos serviços à Real Coroa, impedindo aos castelhanos não se estabelecerem nas terras da costa do sul. Conquistou os índios que infeccionavam o sertão. Porém, a determinação de Dias Velho em proteger sua terra foi determinante para o seu fim trágico. Ele é brutalmente assassinado em 1692, no interior da Igreja Matriz que ajudou a edificar, tendo certo que três de suas filhas foram violentadas na sua presença. A pedido de clemência dos jesuítas, elas não tiveram o mesmo fim do pai.

Quanto aos seus executores, existem duas versões: 1ª) “Dentro da mesma ilha, em 1687, entrou um patacho inglês de arribada, cujo capitão era Thomaz Frins e pirata; o capitão-mor Francisco Dias Velho foi a bordo, prendeu este capitão e os demais ingleses, e baldeou para a terra por 92

inventário todo o cabedal que lhe achou, e os remeteu presos, a sua custa, à vila de Santos, onde se achava então de correição o dr. ouvidor-geral da repartição do sul, Tomé de Almeida e Oliveira. Procedeu este ministro a ato de perguntas com o capitão inglês por intermédio do intérprete Lourenço Pereira Veneziano, com a presença do procurador da Coroa, Diogo Ayres de Aguirre, a 26 de fevereiro de 1688. Constou, pela confissão do dito capitão inglês, que da Inglaterra tinha saído em uma frota de navios pequenos para Panamá de Porto Belo com 900 homens, e andaram feito piratas em terras da Coroa de Castela, sendo seu general Samolay, ao qual perdera de vista no porto de Callao de Lima, e não descobrira mais, nem a outros navios da sua conduta de seis meses a que o procurara; que na barra da ponta em altura de 5 graus tivera encontro com castelhanos que lhe mataram muitos homens, por cujo destroço os ingleses em vingança da rota lhes deram vários assaltos de pilhagem, até que em um assalto no lugar de Porto Santo ficaram destruídos os ingleses em altura de 9 graus da costa do Sul, ficando só ele capitão com 7 homens em seu navio, com falta de água, para cujo remédio e concerto de sua embarcação destroçada tinha tomado o porto de Santa Catarina, onde fora preso pelo capitão-mor Francisco Dias Velho, o qual lhe havia mandado inventariar toda a fazenda que se achava em dito navio, que constava do mesmo inventário que havia remetido com ele capitão e seus companheiros. Este grande cabedal ficou à Real Fazenda, devido ao zelo do capitão-mor Francisco Dias Velho, cujo prêmio foi a morte que lhe deram os hereges, quando, em 1692, voltaram sobre a mesma ilha, armados de força de gente, e lhe tiraram a vida dentro do próprio templo, como temos referido. Na mesma Ilha de Santa Catarina prendeu um navio corsário que tinha roubado e saqueado a vila da Ilha Grande de Angra dos Reis, de cujo assalto tinham recolhido grosso cabedal, assim dos moradores como dos templos, tendo dantes feito estes piratas várias presas em embarcações da costa com grande cabedal, o que tudo assim melhor consta no cartório da provedoria de Fazenda Real de São Paulo, livro de registro n.º 4, tit. 1686, pág. 10.” 2ª)” Um navio pirata vindo do Peru e comandado por Robert Lewis atracou em Canavieiras, com um carregamento de prata em seus porões. Em pouco tempo, Dias Velho conseguiu expulsar os corsários, ficando com o carregamento do navio. Mas, um ano mais tarde, o comandante pirata concretizou sua vingança. Lewis retornou, saltando naquela ilha para a roubarem, recuperando a carga de prata, como fizeram, pondo fogo a tudo, se passaram para a igreja matriz que a Dias Velho a sua custa tinha feito construir de pedra e cal, e armar com altar maior e colaterais e imagens para executarem o sacrílego atentado contra as sagradas imagens, e violentarem as filhas do capitão-mor, que, com a resolução católica e brioso ânimo, quis defender com a espada e broquel, até perder a vida dentro do mesmo sagrado templo, como mártir, pela fé de Jesus Cristo, em 1692. Quando chegaram os reforços do continente já era tarde, a tragédia já havia consumado. Chamado ao interior, onde andava faiscando, o irmão do fundador, José Dias Velho, pouco depois a família do bandeirante e todos os 93

acompanhantes retornaram a São Paulo, não sem antes concluírem a construção da capela, ficando em abandono Nossa Senhora do Desterro. Para Laguna, transferiu-se um filho do fundador, José Pires Monteiro, sendo o único descendente do bandeirante que ficou em solo catarinense.” 5.5 – LAGUNA Os campos seminaturais em torno de Laguna ao longo da orla marítima despertaram cedo a atenção dos moradores que vinham descendo paulatinamente em direção Sul. O requerimento de Francisco Dias Velho, que em 1678 pede títulos legais para uma sesmaria a começar do Rio Araçatuba, que fica na região ao norte da Lagoa de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, é algo de muito significativo para entender e apreciar o processo de ocupação que ali se estava sendo feito. Dias Velho já havia percorrido todo o sul com Dias Velho (pai), falecido na década de 1640. O relacionamento com a região de Laguna por parte de Francisco Dias Velho explica também por que de futuro se transportará para ali seu filho José Pires Monteiro. Este relacionamento com a região de Laguna e sua ida para lá revela inclusive a posição de José Pires Monteiro como cofundador de duas cidades. Não fora, pois, a atuação de Domingos Brito Peixoto em Laguna, desde 1676, um procedimento isolado. Não teria o abastado cidadão vicentino se abalado à tão remota região, sem que sobre a mesma houvesse já alguma experiência e informação. Também se conhece que o infatigável Francisco Dias Velho tramitou juntamente com Domingos Brito Peixoto para o Rio Grande do Sul em busca de prata. Sabe-se ainda que o primeiro gado veio de Curitiba para a Ilha de Santa Catarina, de onde seguiu para Araçatuba. Em 1688, Domingos de Brito Peixoto declara ter currais em Laguna, já será desta procedência. Igualmente se sabe ainda pelo inventário de Dias Velho, falecido em 1687, que tinha a receber uma dívida de Domingos Brito Peixoto, o que permite até induzir que tivesse negócios em Laguna. Dali decorre mais uma vez uma contribuição de Francisco Dias Velho e família para a fundação de Laguna cerca de 100 quilômetros ao Sul da Ilha de Santa Catarina. Tem-se de admitir inversamente a importância de Laguna para o desenvolvimento do povoado da Ilha de Santa Catarina, depois que esta sofrera o atentado dos piratas, trucidando o seu fundador em 1687. Os lagunenses tiveram na Ilha de Santa Catarina o entreposto obrigatório em seus contatos comerciais com São Francisco, Paranaguá, São Vicente, Santos, Rio de Janeiro. As constantes visitas destes lagunenses, além dos navios internacionais, representavam um apoio considerável; impulso, quando tudo o mais passara a ser adverso. Era possível que já em São Paulo se conhecessem Francisco Dias Velho e Domingos Brito Peixoto. A favor deste se expedira, em 19 de outubro de 1671, uma carta patente de posto de capitão de uma das duas companhias de Infantaria 94

de Ordenança da Vila de São Paulo. Esta nomeação confere com o período mais atuante de Dias Velho em São Paulo; vindo em 1675 para a Ilha de Santa Catarina, está de novo em São Paulo e Santos em 1678 e 1679. Quando da estada de Dias Velho, em 1675, na Ilha de Santa Catarina – e nela permanecendo o ano seguinte –, poderia ter acontecido o encontro dos dois, pois fora neste ano seguinte, 1676, que Domingos Brito Peixoto transitava com sua bandeira para Laguna. É possível, então, ter ocorrido um encontro de ambos no continente fronteiriço à Ilha de Santa Catarina. Decorreu a fundação de Laguna de uma sucessão de várias ações. É a ação de 1676 usualmente interpretada como preparatória, na qual Domingos Brito Peixoto vem duas vezes à Laguna, para depois retornar, sabendo-se que em 1682 está em Santos. Diferentemente, a ação de 1684 é avaliada como efetivamente fundadora de Laguna. As demais ações exercidas posteriormente pelo seu filho Sebastião Brito Peixoto são consideradas confirmadoras da fundação de Laguna, e ao mesmo tempo participantes do processo de conquista do Rio Grande do Sul. Ocorreram duas ações preparatórias da fundação de Laguna. A primeira se constitui da iniciativa de Domingos Brito Peixoto, de que não se tem citação de data, deve-se por isso mesmo tomá-la como imediatamente anterior ao ano de 1676. A esta ação preparatória ainda pertence um início de benfeitorias, em 1676; esse ano é citado tempos depois pelo filho Francisco Brito Peixoto e por Basílio de Magalhães. Houve, portanto, duas ações preparatórias bem distintas. Tudo certamente teria ficado também sob a ação predatória de índios circulando na região. Com referência à vinda executiva, ou segunda vinda, no ano de 1676, a qual então se deu principal importância, não pode aquele ano ser eliminado como data da fundação somente pelo fato de se supor não tido inteiro sucesso, em vista das perdas ou prejuízos, que obrigaram a novas iniciativas. Não tendo havido desistência do propósito, ele forma um todo só, em toda a sucessividade dos seus atos, da mencionada ação preparatória. Foi logo de início tumultuada pelos ventos, que levaram os barcos em direção inversa, para o Espírito Santo, onde houve mesmo naufrágios. Preparou-se então novamente o pessoal – 10 brancos e 50 escravos – que vinha por terra, enquanto um barco de mantimentos e instrumentos seguia por mar, sendo que a viagem durou 4 meses. Pode estar incluído no cálculo o desvio inicial para o Espírito Santo. Na referida segunda vinda, em 1676, o trânsito pela Ilha de Santa Catarina deve ter ocorrido compulsoriamente, e não sem despertar a atenção, em vista do grande número de pessoas. A presença de Francisco Dias Velho na Ilha deve ter dado ainda oportunidade de encontro com o fundador de Laguna, Domingos Brito Peixoto – na primeira ou na segunda viagem, ou em ambas. Documentalmente, a informação sobre a ação preparatória da fundação de Laguna ficou acidentalmente fixada, porque a ela se referiu, ainda que difusamente, Francisco Brito Peixoto, em carta de súplica de 6 de fevereiro de 1714, ao rei de Portugal, D. João V, ao qual, então, três décadas após, pedia 95

favores, tomando em seu apoio dos passados méritos de seu pai Domingos Brito Peixoto: “No ano 1676 saíram da vila de Santos, donde eram moradores, levando consigo 50 escravos seus, que serviam e benfeitoravam as suas fazendas, e todo o mantimento necessário à dita gente, e mais os 10 homens brancos de sua companhia. E também outras tantas armas, provimento bastante de pólvora e chumbo, além de ferramentas condizentes ao rompimento dos matos e feitorias de embarcações, o que os obrigava a muito grande despesa. Zarpara para o Sul numa fragata, que para este feito mandara fazer Domingos de Brito na mesma Vila, carregando-a de mantimentos e mais ferramentas necessárias. Dando-lhes ordem fossem dar fundo de fronte da paragem chamada Lagoa dos Patos, e que ali estivessem até ... seu pai chegasse para lhes apontarem a paragem que iam desembarcar, que o dito seu pai já tinha sabido por ter antes ido examinar o dito sítio, e depois que gastaram quatro meses no caminho com romper os matos e buscar as passagens foi... dar no sítio da Lagoa dos Patos... e nesta viagem lhe morreram 25 escravos” (em Documentos interessantes, 49, 128). Considera-se o ano de 1684 como o da instalação do povoado, portanto, de sua fundação. Confluem aqui as opiniões dos historiadores, por exemplo, a de Azevedo Marques, o qual não se refere às ações anteriores. Mas é profuso para o que segue, sempre se referindo ao fundador Domingos Brito Peixoto: “Possuidor de considerável fortuna, de ânimo forte como todos os seus conterrâneos, aceitou logo convite que lhe fora feito por carta régia de 1682, para explorar os sertões do Sul da Capitania” (A. Marques I, 124). Tem prosseguimento a narrativa de Azevedo Marques pela qual Domingos Brito Peixoto em uma primeira tentativa marítima teria fracassado. Numa segunda, partiu por terra e parte por mar, teria chegado em 1684 em Laguna, ano que Azevedo Marques considera de fundação. Para se fixar a fundação em 1684, ao mesmo tempo que admitindo os primeiros trabalhos preparatórios de 1676, importa em substabelecer que naquele ano, 1684, deve ter acontecido algo mais, como a vinda de mais povoadores. O informe de fundação de Laguna em 1684 parece apoiar-se num documento de 1709, que, todavia, não exclui expressamente atividades anteriores àquele ano. A Câmara da Vila de São Vicente passara um atestado em que se leem estes tópicos: “Nós... Certificamos que o Capitão Domingos de Brito Peixoto... e seus filhos... se foram com suas famílias e escravos e negros do gentio da terra a descobrirem umas alagoas que chamam dos Patos, por uma breve notícia que delas tiveram, e com efeito as acharam... Outrossim, pelo ardor e dificultoso da navegação por esta costa do mar, perdeu três embarcações chamadas sumacas, desde o ano de 1684... “ (assinado em 26 de setembro de 1709). Confirma-se o sucesso da fundação de Laguna em documento de 1688, portanto, de 4 anos após. Através de uma informação do ouvidor-geral do Rio de Janeiro, datada de 26 de maio de 1688, diz que em Santos “ouvira do próprio 96

Domingos de Brito que ia povoar a Laguna, para fazer alguns descobrimentos de prata. Já ali havia porto, alguns currais, e casais que levara para a dita povoação”. Parece claro que o empreendimento de Domingos Brito Peixoto é estruturado administrativamente, e que, portanto, não depende de sua constante presença direta, mas de apenas sua ação senhorial. Efetivamente, a certa altura do desenvolvimento da empreitada de Laguna, retornou Domingos Brito Peixoto a Santos com toda a sua família. Estas informações, além de revelarem aspectos humanos peculiares às frentes pioneiras, devem proceder, independentemente do mérito, de fontes do partido contrário ao dos Peixoto. O mesmo teria acontecido com a informação negativa referente a Dias Velho. Confirma também o sucesso imediato de Laguna a notícia de que, em 1696, se construía sua primeira capela. Já no novo século um jesuíta de Paranaguá visitou Laguna referindo-se à capela e à família dos Peixoto, então ainda em Laguna. Não obstante os primeiros anos de Laguna passarem como tranquilos, povoado sem maiores acontecimentos, ocupava-se praticamente apenas da economia predatória. O povoado da Ilha de Santa Catarina e Laguna eram apenas “duas pescarias” – na linguagem do capitão-mor da Ilha de Santa Catarina. Deste tempo ocorrem algumas notícias sobre os vigários das freguesias, que então se instalavam. Estivera Domingos Brito Peixoto casado com Ana Guerra, da qual tivera três filhos: Francisco de Brito, Sebastião de Brito Guerra e Maria de Brito, que foi esposa de Diogo do Pinto do Rego, o qual chegou a governador de São Vicente. Com referência ao segundo filho, morreu como tenente em função exercida no sertão. Ficou consequentemente o mais velho, Francisco de Brito, na sucessão dos interesses da família em Laguna, ainda que toda família tenha voltado a São Vicente nos primeiros anos do novo século. A morte de Dias Velho, ocorrida entre 1679 e 1680, provocou certa recessão no povoado e no extenso território, de precária delimitação. Foi paulatinamente ocupado por novos moradores. Por volta de 1700, alguns povoadores viriam de São Francisco do Sul, Paranaguá, Cananeia, Santos e São Vicente, o que não chegou a arrancar o povoado da estagnação.

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