FÍSICA PARA FILÓSOFOS (em preparo

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ERNESTO VON RÜCKERT

FÍSICA PARA FILÓSOFOS

CLUBE DE AUTORES VIÇOSA, MINAS GERAIS 2011
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Copyright © 2011 – Ernesto von Rückert

Ficha Catalográfica R279f 2011 Rückert, Ernesto von, 1949 – Física para Filósofos / Ernesto von Rückert – São Paulo: Clube de Autores, 2011. iv, 86p.; 21 cm ISBN (em preparo)

1. Física. 2. Filosofia. I. Título
CDD 869 CDU 86

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SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 7 Noção de Filosofia .......................................................................................... 7 A busca da Sabedoria ................................................................................... 11 Intercessão com a Ciência ............................................................................ 14 Consolidação da Cultura ............................................................................... 17 Cultivo da Inteligência .................................................................................. 22 Necessidade da Física ................................................................................... 23 ONTOLOGIA FÍSICA ........................................................................................... 27 Conceituação da Física ................................................................................. 27 Objeto da Física ............................................................................................ 28 Método da Física .......................................................................................... 31 Divisão da Física ........................................................................................... 35 Concepção Adotada ..................................................................................... 37 ESPAÇO E TEMPO ............................................................................................. 40 O tempo e a poesia da ciência ...................................................................... 40 Espaço e tempo ............................................................................................ 40 A gênese do espaço e do tempo................................................................... 41 Física, Geometria e Álgebra .......................................................................... 42 As dimensões do espaço .............................................................................. 44 Afinidade ...................................................................................................... 46 Metricidade .................................................................................................. 48 v

Espaços curvos e torcidos ............................................................................. 50 O sentido do fluxo do tempo ........................................................................ 50 A quantização do tempo............................................................................... 51 A medida do tempo ...................................................................................... 51 A relatividade do tempo ............................................................................... 53 Tempo físico e tempo psicológico ................................................................ 53 Tempo, música e literatura ........................................................................... 54 MOVIMENTO CLÁSSICO .................................................................................... 56 LEIS DE CONSERVAÇÃO .................................................................................... 56 FENÔMENOS TÉRMICOS ................................................................................... 56 ELETROMAGNETISMO CLÁSSICO ...................................................................... 56 ONDAS, SOM E LUZ .......................................................................................... 56 RELATIVIDADE RESTRITA .................................................................................. 56 COMPORTAMENTO QUÂNTICO........................................................................ 56 PARTÍCULAS ELEMENTARES ............................................................................. 56 GRAVITAÇÃO E COSMOLOGIA .......................................................................... 56 UNIFICAÇÃO DAS INTERAÇÕES ......................................................................... 56

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INTRODUÇÃO
Noção de Filosofia
A Filosofia é erroneamente considerada por muitos como uma ciência humana. Ela não é uma ciência mas uma metaciência. Abarca tudo o que pode ser cogitado pelo intelecto, seja ou não conhecimento científico. Em se tratando de ciência, abrange todas: exatas, biológicas, geológicas, humanas, sociais e o que mais seja, além de se dedicar à consideração de toda e qualquer atividade, cognitiva ou não, como o trabalho e os relacionamentos. Cuida também das linguagens, dentre elas a matemática, dos valores, do sentir, do agir e do fazer, como no caso das artes, a par do pensar e do falar. O filósofo, logo, tem que ser possuidor do mais vasto e eclético cabedal de saberes, não tão superficial assim, além de, é claro, dominar com maestria seu "metier" filosófico propriamente dito. Assim ele não é, absolutamente, um profissional da área humanística, mas de todas as áreas. Filosofia é um complexo que engloba uma atitude, uma atividade, um corpo de conhecimentos e uma arte. É a atitude de ser sempre questionador, é a atividade de refletir sobre a realidade, é o conhecimento que esta atitude e esta atividade produzem e a arte de proceder a este afã e bem usar seu resultado. O conhecimento filosófico não é vulgar nem científico porque vai além, uma vez que é crítico. A Filosofia não prescinde da ciência, mas a supera, pois, inclusive, discute sua própria validade e traça as diretrizes de como fazê-la. Filosofar, mais do que citar filósofos, cujo estudo, sem dúvida, é de alta relevância, é assimilar tudo o 7

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que disseram para formular as próprias considerações e formar a visão pessoal de mundo, que, a todo o momento, vai sendo reconstruída. Filosofar é debruçar-se sobre a realidade em todos os seus aspectos (lógico, matemático, geométrico, físico, astronômico, cosmológico, geológico, químico, biológico, psíquico, social, econômico, ético, político, cultural, artístico, linguístico, científico, tecnológico, metafísico, espiritual e qual outro seja); assimilar seu conteúdo, refletir sobre ele, informar-se o máximo possível sobre o que já disseram filósofos, cientistas, literatos, a humanidade enfim, e daí tirar suas próprias conclusões, contestando o que se considerar incorreto; formular conceitos que descrevam de forma adequada a realidade assimilada, delimitando sua esfera de aplicabilidade; fazer levantamentos e experimentos no que for pertinente e possível, para verificar as relações existentes entre aquilo que os conceitos representam nas várias categorias existentes; formular hipóteses que proponham explicações para as relações obtidas; deduzir consequências a partir dessas hipóteses; testar a validade e veracidade das conclusões achadas, reformulando as hipóteses, caso as conclusões não se adequem à realidade e articular argumentos que defendam o resultado concluído e sejam capazes de se opor às explicações alternativas existentes e verificadas errôneas. Procurar as palavras mais adequadas, analisar sua semântica, suas limitações de aplicabilidade e expressar as conclusões em um linguajar acessível não apenas ao especialista, mas à pessoa comum, com certo grau de cultura. Antes de qualquer afirmação, porém, é preciso dizer em que sentido cada palavra está sendo empregada, pois grande parte das discussões filosóficas é puramente semântica. Esta é a metodologia científica que proponho seja também aplicada à Filo8

sofia, para que esta deixe o patamar de uma esfera de conhecimentos baseada em pontos de vista pessoais e se coloque como um corpo objetivo do saber, independente de escolas de pensamento. O capítulo XXX deste livro será dedicado a esta proposta de abordagem metodológica do fazer filosófico. Nisso tudo, é mister ter desenvolvido os conhecimentos, habilidades e competências filosóficas que o estudo formal propicia. Mas é preciso ir além do costume de se fazer apenas o estudo crítico da produção filosófica de algum autor ou escola e ter a ousadia de propor sua contribuição pessoal, ou mesmo, quem sabe, criar uma escola. O ideal é que a Filosofia dispa-se de qualquer rótulo, escola ou adjetivação, isto é, que se apresente em toda beleza de sua nudez, pois assim é que poderá ser admirada na sua verdade e esplendor. Deleuze está certo, em parte. Filosofar não é apenas construir conceitos. Certamente que isto é um dos mais importantes aspectos da Filosofia, mas não é o mais importante. Os conceitos são arbitrários. Um conceito é uma atribuição de significado a um significante, limitando-o de forma a se saber a que se aplica e a que não se aplica. Isto é necessário para se fazer uma imagem representativa da realidade, em todos os seus aspectos, para que se possa discorrer sobre ela com o uso da linguagem, que é a única maneira racional de se poder fazer compreender o modo como se apreende esta mesma realidade. Mas o fundamental é investigar as relações que aquilo que esses conceitos significam guarda com todo o resto, no mundo real objetivo. O cerne da Filosofia é justamente refletir e especular sobre essas relações e propor modelos mentais que as representem em termos dos conceitos formulados. Mas é preciso se proceder a uma verificação fatual ou a uma comprovação lógica, que, em última instância se 9

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baseia em evidências fatuais, que valide as hipóteses formuladas na realidade objetiva do mundo. Não me refiro apenas ao mundo natural, mas também ao mundo das abstrações, das normas, dos valores. Quando Kant postula a existência de juízos sintéticos a priori, é preciso entender o que ele quer dizer com “juízo”, “sintético” e “a priori”, para compreender o significado disto. Mas não só. É preciso investigar se, de fato, existe tal tipo de coisa. Isto é construir a Filosofia, que precisa adotar critérios científicos de validação de suas proposições. Assim ela se libertará da existência de escolas de pensamento e se tornará uma disciplina que descreve as razões primeiras e necessárias de tudo o que existe, qualquer que seja a ordem considerada. Nisto se inclui lógica, ética, estética, epistemologia, política e, inclusive, metafísica, que não é nada famigerada, até mesmo em seu capítulo principal, a ontologia. Ao filosofar, o importante não é citar quem disse isto ou aquilo, mas debater o que é dito, não importa por quem. Ler muito textos de vários filósofos, concentrando-se no conteúdo. Então fazer uma apreciação das diferentes abordagens e explicações de dado fato e tirar a conclusão pessoal, procurando refutá-la para ver se é suficientemente bem estabelecida. Depois, buscar argumentos que a possam defender. Neste processo, certamente que se usa bastante a intuição, mas é preciso munir-se de argumentos lógicos. O que não é importante é saber se a conclusão segue tal ou qual corrente de pensamento. A Filosofia precisa se despir de adjetivos e procurar chegar a um consenso, como o fazem muitas ciências, inclusive quanto às definições dos termos empregados. Por isto, antes de se iniciar qualquer discussão, os debatedores precisam fazer um acordo sobre o que estão entendendo por cada palavra. Se não houver consenso, que sempre se 10

mencione em que acepção o termo está sendo usado.

A busca da Sabedoria
A Filosofia, contudo, é muito mais do que um empreendimento destinado a compreender o mundo: É uma proposta de vida, uma mestra que exerce uma função, muitas vezes assumida pelas religiões, mas muito mais bem executada pela Filosofia, que é a de propiciar um modo de apreender a realidade e de fazer face a ela de forma a conduzir a vida com proveito, sentindo-se assim realizado e pacificado consigo mesmo. De manter a mente sempre aberta, inquiridora e questionadora, sem servilismo de qualquer natureza a qualquer ideologia, credo ou facção, comprometido apenas em descobrir e fazer prevalecer a verdade, não importa a quem ou a que possa incomodar. De pautar toda ação por esse compromisso, em benefício da maximização da felicidade para o maior número de seres, quiçá em detrimento do proveito pessoal. Enfim, de levar a vida de forma virtuosa, por seus sentimentos, pensamentos, comportamentos, opiniões, atitudes, posições e obras, jamais sendo omisso, pois sempre se tem a ver com tudo aquilo de que se toma conhecimento. Isto é o sentido primário da Filosofia, isto é, a busca da sabedoria. Considero que intelectual não seja apenas uma pessoa que domine vastos conhecimentos. Um médico, um engenheiro, um empresário podem dominar vastos conhecimentos sem serem intelectuais. O intelectual é aquele que tem conhecimentos mais teóricos e consegue correlacionar o saber de sua área específica com as demais áreas do conhecimento humano. O passo seguinte é ser um erudito, isto é, que domina seu campo de saber em profundidade e abrangência superlativas. Erudição consiste, justamente, em se entender tão ampla e profundamente 11

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de um assunto que se é capaz de argumentar, articular o pensamento, persuadir, expor uma ideia, desenvolver um raciocínio, sempre com grande embasamento e traduzi-lo de uma maneira inteligível para públicos de diferentes níveis e áreas de conhecimento. Um polímata é um erudito em variados campos de conhecimento. Já o filósofo se caracteriza principalmente por ser uma pessoa que reflete e questiona. Normalmente ele deve ter conhecimento de filosofia e história da filosofia, e, portanto, ser um intelectual, mas não necessariamente. Alguém pode ser um filósofo sem que seja intelectual e nem todo intelectual será um filósofo. Uma característica do filósofo é seu amor e sua busca pelo saber e, mais que o saber, pela sabedoria. Erudição e sabedoria são, certamente, conceitos bem distintos, como já está mais que provado. Existem dois conceitos de filósofo. Um amplo e um restrito. Segundo o amplo, filósofo é todo aquele que se debruça sobre a realidade para refletir, questionando e buscando respostas, mesmo que não as ache. Assim, não se requer nenhum tipo formal de estudo para ser-se filósofo, na concepção ampla. Na concepção restrita, um filósofo é um profissional, com diploma universitário, mestrado e doutorado na área, detentor de um amplo e profundo conhecimento de tudo o que trata a filosofia e do que disseram os grandes filósofos, aliado à habilidade de, ele próprio, fazer uso das ferramentas de raciocínio para construir sua visão da realidade, com a devida competência retórica e pedagógica para expô-la didática e convincentemente ao público. Em sua origem, a filosofia era a busca da sabedoria, mais que do saber. O filósofo é o amante da sabedoria. E sabedoria é como bem conduzir a vida, em harmonia com o outro e a natureza. De tal modo que se propicie a própria felicidade e a do outro. 12

Ser filósofo é, pois, saber como viver. Filosofar é, principalmente, refletir sobre a vida e o Universo, procurando encontrar o sentido, a razão, o propósito de tudo o que existe. Nisso se aplica a inteligência, com grande proveito. Mas o que se vê, inclusive nos cursos de Filosofia, é uma busca de erudição vazia, um acúmulo de informações sobre tudo o que disseram os filósofos, mas, nem sempre, de modo a usar todo esse conhecimento na construção da vida. Filósofo é aquele que filosofa e não o que sabe tudo o que os filósofos disseram. Parece que os cursos de Filosofia optaram por não formar filósofos, mas apenas “entendidos em Filosofia”. É preciso romper com isto e ter a coragem de possuir e expressar suas próprias ideias, de contestar os filósofos por si mesmo e abrir a mente para todas as possibilidades. Isto é sabedoria, desde que seja acompanhada do testemunho da própria vida. Chego agora ao sentido original da Filosofia, que é a busca da sabedoria. Sábio é aquele que usa o conhecimento que tem, que pode ser muito ou pouco, sua inteligência, sensibilidade e vontade, de modo proveitoso e adequado, isto é, de forma a acarretar a maximização da felicidade do maior número de pessoas e, em tudo, ser justo, equitativo e respeitoso do direito alheio, inclusive dos seres irracionais e inanimados. Principalmente, é quem age sempre colocando a bondade como primeira prioridade. Sim, porque ser bom é mais valioso do que ser justo e honesto, pois o justo e o honesto podem ser frios e calculistas, mas o bom é sempre justo e honesto, e, portanto, sábio. Se o sábio for também erudito então temos a pessoa humana com as melhores qualidades que se pode encontrar, pois ela será também modesta e virtuosa em todos os outros aspectos. É o ideal do filósofo da Grécia antiga ou do “santo” dos primeiros cristãos. Isso não significa que seja casmurro. Certamente o verdadeiro sábio é alegre 13

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e jovial.

Intercessão com a Ciência
Uma das questões mais delicadas no empreendimento de filosofar refere-se à intercessão que ele possui com a construção da ciência. A ciência é um corpo de conhecimentos a respeito da realidade natural, social ou cultural, obtido de forma controlada e garantida e sistematizado em uma linguagem adrede configurada. Para efeito de melhor compreensão, a ciência é compartimentalizada em ciências particulares, em função de seu objeto de estudo, ficando claro que há inúmeras intercessões entre elas. A simples existência desta divisão já provoca problemas na conceituação usada por cada uma para descrever seu objeto de estudo, que podem demandar infindáveis discussões, uma vez que correntes distintas costumam não transigir em seu ponto de vista. Isto não se refere apenas a conceitos, mas à própria caracterização ontológica do objeto de estudo, sem falar nas abordagens metodológicas. Na antiguidade greco-romana, as ciências constituíam parte do corpo da Filosofia, fato que perdurou até início da Idade Moderna, quando as ciências particulares começaram a se tornar independentes e, no século XIX, firmaram-se de direito próprio, o que também permitiu à Filosofia definir seus contornos. Passaram a serem considerados temas filosóficos aqueles que não pudessem ser abordados cientificamente por um método experimental, mesmo considerando que a experimentação ou a observação fosse apenas o modo de se verificar a validade ou não de hipóteses formuladas na forma de modelos teóricos explicativos dos fatos, naturais ou não. Nas concepções mais recentes da metodologia científica, não se faz menção sobre os procedimentos para 14

que sejam formuladas as hipóteses a serem testadas. Se o assunto não puder ser submetido a tal tipo de abordagem, trata-se de um conhecimento empírico ou filosófico. O conhecimento empírico é extraído da observação cotidiana, sem que se busque explicação, o que não significa que não possua extrema utilidade, especialmente na vida prática. Já o filosófico procura razões, propósitos e relações, a se estabelecer para e entre os elementos envolvidos de diversas categorias, que também se busca delimitar e conceituar. Mas esta busca se dá de uma forma diferente da científica. Não é pelo teste experimental de hipóteses e sim pela análise, reflexão, raciocínio e síntese, que levem a formular juízos sobre a realidade em seus aspectos filosóficos. Esses procedimentos são fortemente influenciados pela concepção de mundo particular do filósofo e pelo esquema pessoal que ele elabora para modelar mentalmente a realidade. Tal característica leva à formulação sistemas de juízos distintos sobre um mesmo tema, o que provoca a existência de “Escolas de Pensamento” que propõem explicações diferentes para as mesmas ocorrências. Há grandes dificuldades em se decidir por qual explicação, de fato, reflete a verdade, pois não há critérios suprafilosóficos para dirimir os antagonismos. Neste ponto a Filosofia se distancia das ciências, pois estas buscam um consenso e ele é achado pela verificação experimental das consequências testáveis que cada tipo de explicação científica pode fornecer. São considerados temas filosóficos os que concernem à categorização dos elementos da realidade e o estudo de suas estruturas e relações, que é a Metafísica; ao estudo das ocorrências mentais, que é a Psicologia Filosófica; ao estudo do processo da busca do conhecimento e de sua validação, que é a Epistemologia; à metodologia do raciocínio e da argumentação, que é a Ló15

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gica; ao estudo dos valores aplicáveis às ações humanas, que é a Ética; ao estudo dos valores aplicáveis ao fazer humano, que é a Estética e ao estudo da organização da sociedade, que é a Filosofia Política. Aliás, é pela capacidade de permitir sua validação, submetendo-se a testes que procurem invalidá-la, que uma hipótese explicativa é considerada científica, critério denominado falseamento. As explicações filosóficas, não sendo falseáveis, assemelham-se às mitológicas e religiosas, com a diferença que estas não são provenientes de nenhum processo de reflexão e raciocínio, sendo, inclusive, refratárias a qualquer tipo de contestação, dentro do arcabouço de sua validade. As filosóficas sempre são passíveis de revisão e, aliás, é isto que tem provocado a linha histórica de evolução do pensamento filosófico, uma vez que cada escola e os filósofos que as fundam ou seguem, contesta as explicações até então disponíveis e propõe a sua, que considera definitiva. Todavia parte da comunidade filosófica continua seguindo outras explicações, não havendo o fenômeno do “corte epistemológico” que há na ciência, pelo qual, cada nova explicação derruba a anterior, que deixa de ser válida, pelo menos de forma ampla, podendo ainda ser aplicada a casos particulares. Algumas ciências também exibem tal fenômeno e, por isto, ainda não se situam no estatuto de credibilidade da Física, da Química, da Biologia, da Geologia ou da Astronomia, por exemplo, como é o que acontece com a Psicologia, a Sociologia, a Economia e algumas outras. Além do conhecimento mitológico, religioso, empírico, científico e filosófico, tem-se o conhecimento técnico, que, com base em conhecimentos científicos e, mesmo, empíricos, constrói um corpo de saberes práticos, todavia fundamentados e sempre re16

vistos, que permitem atuar sobre a realidade de forma a modificá-la de modo utilitário, como é o caso da Medicina, das Engenharias, da Agronomia e outros assemelhados. Para completude é importante mencionar a existência de pseudociências, que, apresentando um aspecto científico, todavia não são falseáveis, como é o caso da Astrologia, Homeopatia, Parapsicologia, Numerologia, Criacionismo e, para muitos, a própria Psicanálise, além de outras. A maioria delas oferece explicações patentemente errôneas, mas, muitas vezes, podem propor abordagens verificadas válidas na prática, em certos casos, mesmo sem poderem ser falseadas, como a Acupuntura, a Psicanálise e a Homeopatia. É preciso, contudo, não confundir as pseudociências com as protociências, que são sistemas de conhecimento em fase de passagem para um estágio científico, em que suas proposições hipotéticas estão em fase de verificação para se tornarem teorias universais, não se furtando ao falseamento e nem pretendendo se estabelecer como um corpo acabado de conhecimentos inatacáveis, que é característico das pseudociências. Tal é o caso da Meteorologia, da Neurociência, da Psicologia, da Pedagogia, da Sociologia e da Economia.

Consolidação da Cultura
A compartimentalização dos conhecimentos levou as pessoas a se especializarem exageradamente, a um nível tão alto que engenheiros e médicos, por exemplo, se desculpam por não saber História e Geografia ou por escreverem mal, porque esta não é sua área, da mesma forma que advogados consideram que não precisam conhecer Química ou Biologia, pois não mexem com isto. Não estou falando de conhecimentos num nível profissional, mas no nível que é exigido no vestibular para os cursos de qual17

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quer área de conhecimento. Isto é absurdo! O conhecimento universal no nível do Ensino Médio tem que ser obrigatório para quem quer que tenha um nível superior, não importa a área. O Ensino Médio peca até por ser insuficientemente abrangente, pois muita cultura geral não é abordada, como literatura internacional, música, artes plásticas, cinema. Não se aprende retórica e dialética, teatro e canto, pintura e escultura, tocar instrumentos musicais, como não se aprende noções de Geologia, Astronomia, Meteorologia. A Filosofia e a Sociologia agora fazem parte do currículo, mas, e a Psicologia? Outra falha é a de não serem passadas habilidades e técnicas de extrema utilidade, como dirigir automóveis, noções de eletrotécnica, mecânica, hidráulica, construção civil, marcenaria, eletrônica, culinária, corte e costura, digitação, informática com certo aprofundamento e, principalmente, inglês e outra língua, num nível de proficiência impecável. Tudo isto são assuntos que podem muito bem dar conta de se ver entre o sexto ano do Ensino Fundamental e a terceira série do Ensino Médio, desde que toda escola o seja em tempo integral, como deve ser, e que se abandone a fixação pela obtenção de notas e por saber só o que cai no vestibular. A consequência é a formação de pessoas com graves déficits culturais, que atuam em várias áreas sem uma noção ampla e razoável do mundo em que se encontram inseridas. Mesmo quem se considera uma pessoa culta pode padecer desse tipo de problema. Costuma-se entender por cultura (não na acepção antropológica) um cabedal de erudição linguística, literária, poética, histórica, filosófica, psicológica, sociológica, econômica, política, administrativa, empresarial, jurídica, religiosa, musical, teatral, cinematográfica, artística ou de outras áreas das ditas “humani18

dades”. A pessoa culta, ou intelectual é considerada ser alguém versado, fluente, articulado e capaz de bem argumentar sobre esses temas em qualquer discussão. Todavia não lhe é exigido e nem lhe é imputado como demérito, na qualidade de intelectual, não entender de ciências como Matemática, Estatística, Física, Química, Cosmologia, Astronomia, Geologia, Meteorologia, Geografia, Biologia, Genética, Evolução, Medicina, Neurociências, Agronomia, Zootecnia, Mecânica, Eletrônica, Engenharias e tecnologias em geral. Esta é uma terrível inversão de valores, que leva a sociedade a ter uma visão incompleta e, até mesmo, distorcida, da realidade do mundo em que se encontra inserida. Pelo menos no nível do Ensino Médio, é preciso que advogados, negociantes e todos que lidam com as humanidades tenham sólidos conhecimentos de ciências exatas e biológicas, que médicos, dentistas e quem mexa com ciências biológicas o tenham em exatas e humanidades da mesma forma que engenheiros, físicos e técnicos da área de ciências exatas transitem facilmente nas humanas e biológica. Repetindo, no nível do Ensino Médio, que é simplesmente o básico para todo mundo. Sem mencionar que a fluência retórica, dialética e textual precisa ser um domínio comum a todo cidadão. Não sendo assim, como poderá alguém emitir uma opinião embasada sobre qualquer tema candente que envolva conhecimento fora de sua área específica? Como saber se o desvio do Rio São Francisco é bom ou mal? E o uso de células tronco embrionárias? E a responsabilidade humana pelo aquecimento global? Quem não entenda o básico desses assuntos ficará à mercê das opiniões de especialistas ou oportunistas, que defendem, muitas vezes eristicamente, sua posições numa babel desconcertante de 19

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possibilidades. O fato de não ser da sua área não é desculpa para não entender análise sintática, logaritmos, progressões geométricas, termodinâmica, eletrônica, bioquímica, genética, oriente médio, “El niño”, mais valia, silogismo ou o que for. E quanto ao Inglês, não se pode admitir que alguém que possua nível superior, pelo menos, não seja capaz de ler sem problemas um texto em Inglês, senão não vai conseguir fazer nenhuma busca relevante de conteúdo pela internet. Para isso é que o ingresso nas universidades pede um exame geral do todos os conteúdos. Aliás, é o que bastaria, sendo inteiramente dispensável uma avaliação por área de estudo. O ingresso ao Nível Superior precisa apenas avaliar a saída do Nível Básico. Mas não pode se ater à exigência mínima de apenas 30%. Este mínimo teria que chegar, pelo menos, a 60%, sendo ideal uns 80% para capacitar alguém a fazer curso superior. A Educação Básica, por sua vez, tanto no Nível Fundamental quanto no Médio, nas escolas públicas e privadas, precisa cumprir a sua parte e colocar na praça uma meninada com aproveitamento mínimo de 80% em todos os conteúdos, aferido de forma inteligente e honesta. Como fazer isto? Esquecendo o que cai nos vestibulares e praticando um processo de ensinoaprendizagem voltado para o que verdadeiramente seja necessário para a vida. Fazer o menino e a menina pegarem gosto pelo conhecimento de forma que eles queiram, de fato, aprender conteúdos e habilidades, para formar competências fortemente vinculadas às necessidades da vida, expurgando os conteúdos inúteis e fazendo da atividade discente uma coisa lúdica, excitante, tão prazerosa como um videogame ou tão gostosa quanto namorar. 20

Para despertar o interesse dos alunos, em primeiro lugar o professor tem que dominar a fundo e de modo abrangente sua matéria. Depois, além de boa apresentação, tem que ter o dom da oratória, da dialética (argumentação), excelente dicção e um "mise-en-scène" em que sua aula seja uma representação teatral. E, o mais importante: tem que ser superentusiasta e vibrador com o assunto e com a atividade educacional. Tem que por a turma para participar ativamente e não passivamente, Levantar discussões polêmicas. Esquecer o que cai no vestibular. Isto não é importante: passa no vestibular quem sabe a matéria. Estimular os alunos a estudar coisas extras, que não caem na prova. Não “mastigar” tudo. Não passar “dicas” e “macetes”. Por os alunos para deduzir fórmulas por conta própria. Levá-los a descobrir as, coisas, os fatos e as leis por si mesmos. Transformá-los em detetives e cientistas. Ser amigo deles, mas não um "amiguinho" de bebedeiras. Ser um exemplo de pessoa que eles admirem e queiram imitar. Ser um farol para a vida deles, um pai ou uma mãe. E abordar especialmente os mais arredios, dando-lhes responsabilidades e incumbências. Assim se conseguirá formar uma geração de jovens instruídos, hábeis, cultos, competentes, lúcidos e conscientes, capazes de conduzir as rédeas da humanidade nos próximos tempos. No caso da formação do filósofo, o curso se foca quase exclusivamente no conteúdo humanista da Filosofia. Eis um imperdoável equívoco! Por tudo o que foi dito até agora, não resta dúvida de que o trabalho filosófico requer uma extensa cultura geral e um razoável conhecimento científico. Isto é inevitável. O filósofo é o mais generalista dos profissionais acadêmicos. É quem “entende de tudo” e não há como escapar de assim o ser. É preciso que ele tenha uma curiosidade insaciável por tudo que 21

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represente conhecimento, não só em sua área específica. Tem que conhecer todas as artes e todas as ciências. É o intelectual por excelência, o pensador, o crítico de tudo o que existe, o contestador, o criador de propostas inusitadas e radicais, o portabandeira do progresso cultural e do crescimento da consciência da humanidade. E, sem dúvida, tem que ser o exemplo de pessoa de vida virtuosa, a candeia a ser colocada no alto do velador, para espargir a luz esclarecedora do conhecimento, que espanca as trevas da ignorância e leva à realização plena da pessoa. O filósofo é um sacerdote sem religião, a serviço da verdade.

Cultivo da Inteligência
Acima de tudo a atividade filosófica precisa primar pelo cultivo da inteligência. Tinha-se a noção de que inteligência fosse um dado genético inato, que a pessoa levasse inalterado por toda a vida. Atualmente sabe-se que não. A genética fornece apenas as condições mais ou menos favoráveis ao desenvolvimento da inteligência, mas é o exercício das faculdades mentais que leva a seu aprimoramento. E isto pode ser feito em qualquer estágio da vida, apesar de ser mais eficiente e eficaz logo na primeira infância. Não é o número de neurônios no cérebro que determina a inteligência, mas o número de suas conexões. Tanto estas quanto os próprios neurônios podem ser gerados em qualquer momento, desde que o cérebro seja convenientemente estimulado por sensações correlacionadas e por desafios motores, cognitivos, emocionais e de toda ordem, envolvendo a interação da pessoa com o ambiente físico e social em que se insere. Considerando que a inteligência venha a ser a capacidade mental de raciocinar, planejar, resolver problemas, abstrair e compreender ideias e linguagens e aprender, pode-se ver que ela 22

envolve diversos fatores, como uma aguda percepção, ótima memória, intuição elevada, emotividade, sensibilidade, imaginação criativa, raciocínio, coordenação e capacidade de expressão verbal, escrita e corporal. Todos estes fatores são passíveis de aperfeiçoamento por meio de treinamento e exercícios adrede preparados. É importante também saber que a inteligência se manifesta em múltiplos aspectos, como a linguística, a lógicamatemática, a musical, a espacial, a motora, a interpessoal, a intrapessoal, a naturalista e a existencial, sem se esquecer de mencionar o fator global, pelo qual se verifica que grande parte das pessoas que exibem inteligência privilegiada em um de seus aspectos, também o exibe nos demais. Uma inteligência desenvolvida é uma característica vantajosa para a vida, por desenvolver a autoestima e a desinibição, levar a uma postura atraente e cativante, propiciar uma visão aguçada do mundo, facilitar a solução de problemas, fazer um questionamento do mundo, aprimorar o senso ético, aumentar a criatividade, a tolerância, conduzir a uma atitude benfeitora e levar ao reconhecimento e ao sucesso, acarretando o aumento genérico da felicidade pessoal.

Necessidade da Física
Mais do que todas as ciências é a Física que possui a maior intercessão com a Filosofia. A razão é que a Física é a ciência fundamental da natureza e a natureza é a base de tudo o que existe. Não existiria sociedade nem cultura se não houvesse pessoas que delas participassem. E pessoas são entidades naturais, cuja existência, constituição, estrutura e funcionamento são fatos físicos, desde que se entenda que a Biologia seja um capítulo da Física. Mas não é só isto. De fato, grande parte dos temas 23

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considerados filosóficos, ao longo da história da ciência, foram, pouco a pouco, passando a objetos de estudo da Física. Tal se deu com os modelos cosmológicos, com as noções de matéria, movimento, espaço, tempo, bem como sutilezas como o princípio da causalidade e o determinismo, a noção de simultaneidade, os conceitos de nada, vazio, vácuo, infinito, eternidade e muito mais. A própria estrutura das explicações é fortemente influenciada pela Física. A opção por explicações holísticas ou reducionistas não é uma questão de opinião, mas, em primeiro lugar, de um perfeito entendimento do que se está entendendo por cada uma delas e, depois, por uma tomada de decisão com base em dados observacionais. Aliás, esta é uma das questões cruciais que a Física levou à Filosofia: a possibilidade de aplicar os métodos de falseabilidade às explicações filosóficas e se poder tirar uma conclusão independente de opiniões. Todos esses assuntos serão discutidos neste livro, a começar pelo estabelecimento de uma “Ontologia Física”, em que se categorizarão os fatos físicos e se definirão e conceituarão de forma clara todas as entidades, atributos e ocorrências de natureza física que possa haver. Apreciar-se-á a metodologia científica usada pela Física. Então se fará uma discussão dos modelamentos da realidade que as teorias físicas propuseram, como a Mecânica Clássica, a Termodinâmica Clássica, o Eletromagnetismo Clássico, que inclui a Ótica Clássica, a Física Estatística Clássica e a Teoria Clássica de Campos, especialmente a Dinâmica dos Fluidos. As Teorias Relativísticas, Restrita e Generalizada serão apresentadas, bem como a Mecânica Quântica, a Física Estatística Quântica, a Física da Matéria Condensada, a Física Nuclear e as Teorias Quânticas de Campo, que descrevem os modelos de 24

Partículas Elementares, incluindo as teorias das Supercordas, Branas, a Teoria M e do “Loop” Gravitacional. A abordagem será essencialmente conceitual, mas se fará a introdução das principais equações. Um apêndice matemático possibilitará seu entendimento. Especial destaque será dado às interpretações físicas e às implicações filosóficas de todos os modelos teóricos. Capítulos finais serão dedicados especialmente à Cosmologia e à Biologia, como ciência física. A obra será encerrada com uma proposta de metodologia filosófica análoga à científica. Uma extensa bibliografia, inclusive com links da internet, permitirá ao leitor aprofundar-se nos temas em que tiver maior interesse. Este livro não é uma tese de doutoramento nem uma obra estritamente acadêmica, assim não se verá notas de rodapé a cada inserção de alguma ideia de outro pensador. Tudo que está sendo dito é produto do que eu mesmo absorvi pela leitura da bibliografia citada, refleti, interpretei e exarei no meu modo de ver, acrescido de minha contribuição pessoal. Quando faço qualquer afirmativa, isto deve ser sempre entendido como tendo antes a observação “Considero que...” Assim ele é, de certa forma, uma obra de opinião, apesar de procurar, sempre, expressar aquela que passou pelo crivo da mais exigente bateria de testes, que é sempre a que adoto, até que novas evidências me obriguem a mudar. Grande parte do seu conteúdo já foi publicada nos últimos cinco anos nos blogs que possuo na Internet e nos fóruns de discussão de que participo, citados na bibliografia. Quero agradecer a todos que debateram comigo nos tópicos, sem citar especialmente ninguém, pois foram muitos, uma vez que suas ponderações me fizeram refletir ou para reforçar meu ponto de vista com melhores argumentos, ou para mudá-lo, convencido que fui de meu erro. Agradeço especialmente à minha 25

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família e a minha esposa Fátima, pela subtração de nosso tempo de convivência em troca de horas e horas de leituras, estudos, consultas e participações em debates pela internet. Dentre meus interlocutores da internet, quero mencionar, especialmente, fulano, beltrano e cicrano, a quem tributo minha gratidão pelo estímulo, pelas correções, pelas dúvidas levantadas e pelas sugestões.

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ONTOLOGIA FÍSICA
Conceituação da Física
A Física é a ciência fundamental da natureza. Mas o que é a natureza? Para começar é preciso conceituar realidade como o conjunto de tudo o que existe, isto é, que está presente no mundo. A primeira realidade que se percebe é a realidade mental ou subjetiva, que cada sujeito tem presente em sua mente. São as imagens visuais, auditivas, táteis, olfativas, gustativas, térmicas, enfim, geradas pelos sentidos, que formam ideias que, por meio da linguagem, tornam-se conceitos. Muitos dos elementos desta realidade são compartilhados por vários sujeitos que, comunicandose entre si, podem concluir que eles existem no mundo exterior a suas mentes. Tais elementos pertencem à realidade objetiva. São os objetos, as coisas, as pessoas, os seres enfim, além dos valores. Dentre os elementos da realidade objetiva há os que se enquadram na categoria de se comunicarem diretamente à mente pelos sentidos. Tais são os que pertencem à realidade natural, ou à natureza, objeto de estudo da Física. Elementos cujo conteúdo não seja diretamente assimilado pelos sentidos, mas requeiram interpretação mental para serem percebidos, pertencem a outras categorias de realidades, como culturais, espirituais, deontológicas, matemáticas ou outras, mesmo que sejam objetivos. Certamente que, para se começar a construir a Física, antes de tudo é preciso admitir, como crença não comprovada, mas extremamente plausível, face ao testemunho cruzado de diversos sujeitos, que existem outras mentes além da do próprio sujeito pensante, bem como um mundo exterior a essas mentes. 27

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Como ciência, a Física busca descrever e explicar a natureza, isto é, propor modelos mentais, construídos por meio de signos linguísticos, matemáticos e geométricos, que propiciem uma decodificação dos elementos da realidade natural em si mesma em elementos do conjunto de signos da teoria, que são os conceitos e seus atributos, e buscar as relações correspondentes, partilhadas pelos elementos do modelo entre si, com aqueles elementos da realidade natural que eles representam.

Objeto da Física
Denomina-se mundo ao conjunto de todos os elementos de todas as categorias de realidades, enquanto o conjunto apenas de tudo que seja natural é o Universo Físico, ou, simplesmente, Universo. A existência do Universo requer a existência de espaço e tempo, pois tudo de natural que possa existir há que estar ocupando algum lugar e permanecendo por certo tempo, mesmo que mudando de lugar. Espaço é justamente o conjunto dos lugares, isto é, das possibilidades de preenchimento e localização, ou seja de se estar e caber alguma coisa. E tempo é a noção que advém das mudanças nas configurações ou no estado, isto é, na disposição espacial do que quer que exista na natureza ou em seu conjunto de atributos. Tais noções serão estendidas em capítulo próximo. Desde já, contudo, é preciso saber que ao espaço e ao tempo são atribuídas grandezas capazes de medi-los e que a determinação do valor dessas grandezas exige o estabelecimento de um referencial, isto é, de um sistema bem definido, em relação ao qual serão tomadas as ditas medidas. Isto é, um momento a ser considerado o instante zero, e uma origem, a partir da qual serão feitas as medidas de espaço. 28

O Universo tem um conteúdo substancial, isto é, daquilo que ele seja composto. Uma importante conclusão a que se pode chegar a partir da observação e das interpretações teóricas atualmente disponíveis sobre o assunto, é de que a substância única de que é feito o Universo é o campo. Campo não é feito de nada mais primitivo. É dele que tudo é feito. Os demais constituintes, que são a matéria e a radiação, nada mais são do que concentrações quantizadas de algum tipo de campo. No capítulo sobre cosmologia será abordado como o campo se tornou matéria e radiação. Pode-se conceber campo como uma espécie de influência que pervade o espaço. Todo o Universo é preenchido por campo ou suas quantizações, matéria e radiação. Não existe espaço vazio no Universo e nem fora dele, isto é, o conteúdo do Universo preenche todo o espaço existente. O que pode haver é o vácuo, isto é, espaço não preenchido por matéria, mas sempre preenchido por campo ou radiação. Denomina-se sistema a qualquer subconjunto ou parte bem caracterizada do Universo, isto é, de modo que sempre se saiba o que pertence ou não pertence ao sistema. O próprio Universo é um sistema, o sistema global. Qualquer sistema natural possui vários atributos, que lhe permitem caracterizar. Dentre os principais estão a localização, o tempo de existência, o volume, a massa, a densidade, a distribuição de suas partes, a energia, a temperatura, a pressão, o momento linear, o momento angular, a carga elétrica, o momento magnético, os números quânticos e vários outros. Tais atributos, normalmente, são associados a grandezas mensuráveis, normalmente com a mesma denominação. Nos próximos capítulos serão esmiuçados os significados de cada uma delas. O conceito filosófico de ser, em Física, aplica-se, justamente, aos sistemas. Denomina-se configuração de um sis29

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tema ao modo como ele se estabelece, isto é, como suas partes se dispõem espacialmente umas em relação às outras e em relação ao resto do Universo, em cada momento, e estado do sistema ao modo como sua configuração se comporta com relação às tendências de variação com o tempo. O estado compreende a configuração, que é estática, bem como suas derivadas ou taxas de variação temporais de toda ordem. A configuração são as posições e o estado, as posições, velocidades e acelerações. São os atributos de um sistema, revelados pelas grandezas que os medem, que permitem estabelecer sua configuração e seu estado. A superfície imaginária que limita o que pertence ou não ao sistema é a sua fronteira, que pode ser fixa ou móvel, aberta ou fechada, isolada ou não. Exemplos de sistemas físicos são o campo magnético de uma estrela, uma galáxia, um átomo, uma nuvem, a atmosfera terrestre, um exemplar de animal, a luz solar, este livro e muitos outros. Uma empresa, entidade, estado ou idioma também são sistemas, mas não físicos. Neste livro, salvo menção explicita em contrário, todos os sistemas serão físicos. Os diferentes sistemas possíveis no Universo, normalmente estão em constante alteração de seu estado, em razão das interações (ações recíprocas) entre suas partes internas (subsistemas), bem como das interações com o resto do Universo, não pertencente a eles (ambiente ou vizinhança). As alterações de estado dos sistemas é o que, filosoficamente, se denomina movimento. Em Física, o termo movimento se restringe a mudanças de localização. As interações também possuem atributos, como intensidade, duração, quantidade, orientação e outros, aos quais também se associam grandezas mensuráveis. 30

Método da Física
Um dos principais objetivos da Física é estabelecer de que modo as interações promovem as alterações de estado dos sistemas. Para tal há que se desenvolver um modo de se descrever as interações, bem como as alterações dos sistemas. Pode-se dizer que, de um modo genérico, toda a Física se resume ao estudo do movimento (no sentido amplo) e das interações. É preciso deixar claro que não apenas se pretende descrever como isto ocorre, mas também, porque ocorre do modo que se dá. Alguns cientistas consideram que este último aspecto está fora do escopo da Física, mas eu considero que não. Até onde for possível a Física precisa buscar as razões da ocorrência de seus fenômenos. Se isto não for possível, que se deixe em aberto como sem explicação, mas que não se proponham explicações gratuitas, com base em meras opiniões. As proposições que dizem como as interações promovem as alterações de estado são as denominadas Leis Físicas. Um evento ou acontecimento é uma alteração que se dê com algum sistema. Tais alterações requerem que o sistema preencha certas condições, que são estados que permitem a ocorrência do evento. Certos eventos não podem ocorrem com o sistema em alguns estados e o podem em outros. Além disso, muitos eventos requerem a existência de interações que determinem sua ocorrência. Tais interações, que também são eventos, só que envolvendo, pelo menos, dois sistemas, são, então, denominadas causas, do evento em tela, que fica denominado efeito ou consequência da dita causa. Um evento que não possua causa é denominado fortuito, ou incausado. Ao contrário do que se pensa, não é necessário que todo evento seja efeito de alguma causa. 31

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Este equívoco provém de que, na escala de tempos e dimensões diretamente acessíveis aos sentidos humanos, a quase totalidade dos eventos possui uma causa identificável. Daí, por indução, conclui-se que todo evento seja um efeito. Uma conclusão induzida, contudo, não é garantida, bastando um contraexemplo para derrubá-la. No mundo subatômico, a todo o momento, estão ocorrendo eventos fortuitos, como o decaimento radioativo e a emissão de fótons por átomos excitados. Logo, não é verdade que todo evento seja um efeito. Dois aspectos essenciais de um sistema, que, inclusive, são, propriamente, elementos constitutivos da natureza, ao lado do espaço, tempo, matéria, campo e radiação, são sua estrutura e sua dinâmica. A estrutura de um sistema é o modo como suas partes se ligam espacialmente, umas em relação às outras, levando em conta a constituição de cada parte. A diferença entre os conceitos de estrutura e configuração é que esta representa uma situação efêmera, enquanto a primeira representa uma organização com perenidade suficiente para caracterizar a entidade que o sistema venha a ser. Isto é, uma dada estrutura pode apresentar-se sob diferentes configurações, sem descaracterizar-se. A estrutura tem características topológicas, enquanto a configuração é geométrica. Isto é, a estrutura se reporta ao posicionamento relativo das partes, não importando as distâncias e orientações, enquanto a configuração ao posicionamento absoluto. A dinâmica de um sistema é o modo como seu estado evolui no tempo e no espaço. A dinâmica está relacionada com as interações que o sistema experimenta com o ambiente ou vizinhança (resto do Universo), bem como suas partes (subsistemas) umas com as outras. A dinâmica depende das leis físicas que descrevem o comportamento das interações e, nas teorias, é des32

crita, normalmente, por um sistema de equações diferenciais, cuja solução descreve a evolução do sistema no tempo. Alguns tipos especiais de sistemas são os corpos, sistemas constituídos de matéria e as partículas. Macroscopicamente falando, as partículas são corpos de dimensões reduzidas em relação ao tamanho da trajetória de seu movimento. Microscopicamente as partículas são as unidades de quantizações de campos, denominadas elementares, e neste caso, não precisam ser materiais. Tratam-se dos quarks, dos léptons e dos bósons, entidades que serão descritas mais tarde neste livro. Mesmo sem se ter, ainda, abordado a Física das Partículas Elementares, torna-se necessário, neste momento, fazer uma digressão sobre o conceito de matéria. Matéria é um conglomerado de certo tipo de partículas elementares, denominadas férmions. A característica importante dos férmions, que fazem com que constituam a matéria, é a sua perenidade. Férmions não são criados nem destruídos (exceto na interação com a antimatéria, que não será considerada, por enquanto). Há dois tipos principais de férmions: quarks e léptons. A reunião de certos quarks forma os prótons e, de outros, os nêutrons. Prótons e nêutrons se unem para formar os núcleos atômicos. Os léptons são os elétrons, que formam a envoltória dos átomos. Átomos se unem a outros para formar a matéria. Características essenciais, mas não exclusivas, da matéria são extensão e massa. A matéria forma os corpos. Sistemas não materiais são a radiação e os campos, que não são perenes, podendo ser formados e destruídos à vontade. Para modelar a realidade natural, a Física apela para a linguagem de Matemática. As Leis Físicas são relações matemáticas expressas em termos das grandezas que descrevem os atributos dos sistemas e das interações. Normalmente uma lei é re33

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presentada por uma equação em que um dos membros descreve a interação e o outro as alterações que ela provoca no sistema em que age. A obtenção das leis se dá por um processo indutivo a partir de experimentos e observações, representados quantitativamente por grandezas operacionalmente definidas de modo a se poderem obter resultados numéricos na avaliação dos atributos dos sistemas e das interações. Cada fenômeno, isto é, categoria de ocorrências do mesmo tipo que se dá, pode ser descrito por uma lei. As leis físicas não têm o caráter de uma determinação a ser cumprida, mas sim de uma súmula descritiva dos resultados experimentalmente verificados. Consequências matematicamente deduzidas das leis, pelo uso das definições operacionais das grandezas, são denominadas teoremas. Uma grandeza é dita operacionalmente definida quando se tem uma prescrição de como obtê-la a partir de procedimentos práticos, conjugado com cálculos teóricos. A respeito de um conjunto de fenômenos envolvendo o mesmo tipo de sistemas e interações, é desejável apresentar um esquema explicativo consolidado, que se denomina uma teoria. Para se formular uma teoria, procura-se obter um princípio amplo, a partir do qual as leis empíricas poderiam ser deduzidas. Normalmente são formuladas hipóteses, das quais se tiram conclusões. Estas conclusões relacionam grandezas que podem ser medidas em experimentos e, com isto, confirmar ou não a hipótese. Hipóteses que resistem vencedoras de todos os testes de validação, enquanto assim permanecem, constituem as teorias, isto é, os corpos de explicações e descrições aceitas pela ciência como os modelos verdadeiros de descrição da realidade, em termos dos conceitos formulados. Na linguagem vulgar existe uma confusão entre os concei34

tos de teoria e hipótese, muitas vezes usando-se o primeiro em lugar do segundo. A proposição de hipóteses é o aspecto mais criativo da ciência. Não existe metodologia para tal. É algo intuitivo que o cientista elabora com base em todos os dados que colhe a respeito do fenômeno, devidamente expressos em tabelas e gráficos, quando for o caso, e, principalmente, em seu conhecimento e vivência científica. É uma lástima que os cursos de mestrado e doutorado não dediquem uma disciplina prática específica para o treinamento da habilidade de formular hipóteses. Uma vez formulada uma hipótese, o método científico consiste em projetar experimentos ou observações que procurem invalidá-la, o que se chama falseamento. Se ela resistir às tentativas de falseá-la, passa a ser adotada como lei, até que algum fato novo venha a contrariá-la. Então ela tem que ser reformulada e a nova proposta submetida a novo falseamento. Mas, normalmente, a lei anterior permanece como um caso especial da nova, nas circunstâncias em que ela se verifica.

Divisão da Física
Em Física existem várias teorias, cada uma possuindo certos pressupostos de validade, como: Mecânica Clássica, Hidrodinâmica Clássica, Mecânica dos Meios Contínuos, Termodinâmica Clássica, Eletromagnetismo Clássico, Ótica Clássica, Mecânica Estatística Clássica, Relatividade Restrita, 35

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Relatividade Geral, Mecânica Quântica não Relativística, Mecânica Quântica Relativística, Mecânica Estatística Quântica, Teoria Clássica de Campos, Teoria Quântica de Campos, Gravitação Quântica, Teoria das Supercordas. Ao longo deste livro serão abordadas, de modo conceitual e resumido, cada uma dessas teorias. Muitas ferramentas matemáticas são usadas na construção das teorias físicas e, realmente, a Física é o principal fator de desenvolvimento da Matemática. Dentre os tópicos matemáticos usados na Física, convém mencionar: Álgebra, Geometria e Trigonometria, Cálculo Diferencial e Integral, Variáveis Complexas, Álgebra Linear, Cálculo Vetorial e Tensorial, Cálculo Variacional, Geometria Diferencial, Geometria Riemanniana, Equações Diferenciais Parciais, Equações Integrais, Formas Diferencias e Números Quatérnions, Teoria de Grupos, Sistemas Dinâmicos, Topologia, Variedades Diferenciáveis, Teorias de Medidas, 36

Cálculo Estocástico. Os aspectos matemáticos das teorias físicas não serão abordados neste livro, exceto num nível bem introdutório, havendo um apêndice matemático para esclarecer dúvidas. Em resumo, a Física estuda o movimento ou alterações que se dão com os sistemas e as interações entre eles. Tais sistemas possuem uma estrutura composta de matéria, radiação ou campos e uma dinâmica que os faz evoluir no espaço e no tempo. Tais ocorrências são categorizadas em várias classes de fenômenos cuja descrição é feita pelas leis físicas. Um corpo consistente e verificado de leis físicas concernentes a uma mesma categoria de fenômenos constitui uma teoria física, que é um modelamento mental descritivo da realidade, em termos de uma linguagem matemática e textual.

Concepção Adotada
Segundo a concepção advogada neste livro, denominada reducionismo, todos os fenômenos que se dão no mundo, em última instância, reduzem-se a fenômenos físicos, daí a Física ser a ciência Fundamental da natureza. Um fenômeno químico é um fenômeno físico que ocorre com os elétrons da camada de valência dos átomos. Um fenômeno biológico é um fenômeno químico que se dá com as organelas das células dos tecidos dos órgãos dos corpos dos seres vivos. Um fato psíquico, como a memória, o pensamento, as emoções, a consciência e qualquer outro, são ocorrências fisiológicas do sistema nervoso de um ser vivo. Um fato social é um fenômeno psicológico coletivo e assim por diante. Enfim, tudo é física, desde a queda de uma pedra a uma declaração de amor ou a uma reflexão filosófica ou, ainda, a uma eleição política. Por isto todo filósofo tem que saber Física. 37

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Há outra concepção, denominada holismo, pela qual cada nível mais elevado da realidade comporta fenômenos que não podem ser reduzidos aos do estrato imediatamente abaixo dele. Isto não procede. Para entender isto é preciso considerar que a realidade pode ser analisada e explicada segundo estratos de diferentes profundidades. O mais elevado é o de ordem prática direta, depois este pode ter suas justificativas, que por sua vez podem ser explicadas em termos mais profundos, que, por sua vez pode ser aprofundado até o nível das interações entre os constituintes primários do Universo. A questão é saber se cada descida de nível promove uma redução da explicação do nível mais alto em termos da do nível mais baixo, sem necessidade da inserção de fenômenos de outra ordem, inexistentes no nível inferior. Por exemplo, se a explicação da vida requer algo mais do que sua redução a reações químicas. Se sim, diz-se que a vida transcende aos fenômenos químicos, caso contrário, ela emerge dos fenômenos químicos, preenchidas certas condições. A transcendência significa uma ordem de fenômenos inteiramente distinta e não redutível a nível mais profundo de explicação. A emergência pode ser de dois tipos: uma ocorrência da mesma categoria inferior, sob certas condições, ou um epifenômeno, que é um fenômeno emergente, mas não da mesma categoria do nível inferior. Se a mente for um epifenômeno da fisiologia cerebral, ela surge a partir do funcionamento do cérebro, mas pertence a uma categoria à parte, com suas próprias regras. A decisão, em cada caso, requer uma análise da questão e, inclusive, uma verificação experimental para se testar qual hipótese se aplica. Não é suficiente, mas não se dispensa, uma reflexão filosófica. O problema começa com o que se entende por redução. Para muitos ela consiste apenas numa redução linear, 38

que considera um fenômeno complexo Z como simplesmente uma combinação linear das contribuições dos eventos mais simples X e Y, isto é a soma do produto deles por fatores fixos, do tipo Z = AX + BY, em que A e B são constantes. Assim considerando, muitas vezes, realmente, não se consegue reduzir a explicação de um fenômeno de nível mais elevado a termos de outros de nível mais baixo. Todavia a redução não é apenas isto. Ela significa que o fenômeno alto é uma função dos fenômenos baixos, isto é, só se dá se eles existirem e sempre que existirem. Mas pode incluir contribuições cruzadas, retroalimentações e termos de ordem superior, isto é: Z = AX + BY + CXY + DX² + EY² + ... + PZ + QZ² + ... Isso é um reducionismo não linear. Tal tipo de redução é capaz de, quase sempre, dar conta de explicar qualquer fenômeno em termos dos de ordem mais elementar. Isto é, o denominado holismo, pode ser compreendido dentro do reducionismo, desde que este seja entendido de forma não linear. Tal concepção permite aceitar a série anteriormente mencionada, colocando as ciências, a partir da mais profunda até a mais elevada, na seguinte ordem: Física, Química, Biologia, Psicologia, Sociologia, Economia etc. Certamente algumas se colocam em posição paralela, como a Política e a Economia, a História e a Sociologia. Não mencionei algumas ciências particulares, que podem ser consideradas capítulos das mais amplas, como Astronomia, Geologia e Meteorologia, capítulos da Física; Anatomia e Fisiologia, capítulos da Biologia e outros casos. A Matemática pode ser considerada uma espécie de linguagem lógica simbólica para manipular quantidades e figuras. Esta concepção, contudo, é objeto de controvérsias que não analisarei aqui.

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O tempo e a poesia da ciência
Richard Dawkins, em sua brilhante obra “Desvendando o arco-íris” comenta que o poeta inglês Keats havia dito que Newton tirara toda a poesia do arco-íris, ao decompô-lo em suas cores primárias pelo prisma. Em geral há um sentimento de que a ciência tira a poesia do mundo ao explicá-lo. Nada mais incorreto. Pelo contrário, e o livro de Dawkins exatamente se dedica a demonstrar isto, o entendimento mais profundo dos maravilhosos mecanismos da natureza é que nos enche de deslumbramento e, mesmo, de um sentimento de enlevo, ao nos percebermos partícipes desta exuberância que é o Cosmos. E, nisso tudo, estão o espaço e o tempo. Estamos inseridos neles, como tudo o mais. Há uma imbricação impossível de ser demolida entre tempo, espaço, campo, matéria, existência, vida e consciência e, em decorrência, tudo o que é produzido pelo pensar e fazer humanos, como a poesia e a música em especial, que são as artes cujo objeto se desenvolve no tempo e não no espaço. Assim, um entendimento dos fundamentos físicos do espaço e do tempo talvez possa fazer apreciar ainda mais a beleza de tudo o que a literatura já produziu sobre o tema.

Espaço e tempo
Em primeiro lugar é preciso entender que o espaço e o tempo não são elementos aprioristicamente estabelecidos sobre os quais se assenta o conteúdo substancial do Universo, que são os campos e suas concentrações, a matéria e a radiação. Se o Universo teve um começo, e pode ser que não, isto é, que sempre 40

tenha existido, então nesse começo também se deu o surgimento do tempo e do espaço com o seu conteúdo, isto é, tudo! Não há sentido em se questionar o que havia antes porque, simplesmente, não havia “antes”. Nem espaço nem tempo existiam. Não existe espaço sem conteúdo e nem tempo sem alterações. Espaço é uma capacidade de caber algo, isto é, o conjunto dos lugares possíveis para algo estar. Vácuo é um espaço sem matéria, preenchido só por campos ou radiação. Isto existe. Mas vazio, isto é, um espaço sem coisa alguma, não existe no Universo. O conceito físico de nada é o da ausência de tudo, inclusive de espaço e tempo. Antes de existir o Universo, não existia nada (nem “antes”). Note que isto não é a mesma coisa que dizer que existia “o nada”, pois “nada” não é uma entidade, mas apenas a palavra que designa a ausência de tudo. É preciso que fique claro que o conteúdo do Universo, fundamentalmente, são campos, um tipo de entidade cujas concentrações constituem as sub-partículas formadoras da matéria e da radiação e cujas alterações promovem as interações responsáveis por tudo o que ocorre, inclusive o pensamento. Os campos, a radiação e a matéria possuem atributos, como energia (ou massa, outra maneira de concebê-la nas concentrações materiais), carga, movimento, rotação, torção e outras. Na concepção fisicalista e reducionista, que advogo, não se faz necessária a interveniência de qualquer tipo de entidade extrínseca ao Universo físico para explicar seu surgimento, sua estrutura e sua evolução, incluindo a estrutura da mente e o psiquismo.

A gênese do espaço e do tempo
Se no Universo houvesse uma única partícula, todo o espaço seria apenas essa partícula. E ela seria necessariamente 41

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imóvel, pois movimento é uma mudança de posição relativa e não haveria outra coisa em relação à qual a posição da partícula pudesse mudar. Além disto, partícula, por definição, não possui estrutura, de modo que não pode se deformar nem girar. Então, nada se alteraria. Havendo uma segunda partícula, a situação se altera drasticamente. Elas podem se aproximar ou se afastar. Pode haver, pois, mudança na configuração e no estado do Universo, isto é, das duas partículas. Surgem aí o espaço e o tempo, pois podem existir localizações variadas para uma partícula em relação à outra e, havendo alteração, podem ser caracterizados momentos, como a propriedade que indica cada diferente situação. O fundamental disso tudo é que o espaço e o tempo não precedem o conteúdo do Universo, mas surgem com ele, em razão da dinâmica do seu estado. Uma descrição mais correta é feita, não em termos de partículas, mas de campos. Enquanto o campo do Universo todo for inteiramente homogêneo e imutável, o tempo não passa. Uma vez que ocorram alterações em sua densidade, podem-se caracterizar estados distintos, isto é, há mudança ou movimento, no sentido mais amplo do termo, e, logo, momentos, isto é, tempo. No Universo real, em verdade, desde sua formação, miríades de concentrações e rarefações se formaram, modificando-se, surgindo o espaço como a coleção de todos os lugares preenchidos pelo campo e o tempo, como a coleção dos diferentes momentos.

Física, Geometria e Álgebra
Neste momento é preciso distinguir os conceitos físico, geométrico e algébrico de espaço. O espaço físico não é uma abstração, mas sim uma realidade, um componente da natureza, do mesmo modo que o tempo. No entanto, no modelamento teórico 42

que a ciência faz do comportamento da natureza, é feita uma correspondência desse espaço e desse tempo com conjuntos geométricos e algébricos, de modo a que se possa proceder a manipulações matemáticas. Um espaço geométrico é um conjunto de pontos abstratos, cuja localização é dada por um vetor, ente geométrico constituído de um segmento de reta possuindo dimensão, origem e orientação. A uma dada localização do espaço físico é associado um ponto do espaço geométrico, de forma biunívoca, de modo que se possam estudar muitas propriedades do primeiro em termos das do segundo. Todavia é preciso cuidado, pois o espaço geométrico é uma abstração que pode possuir propriedades não verificadas no espaço físico. Assim, é preciso se proceder a uma verificação experimental de qual modelo de espaço geométrico corresponde ao espaço físico. Por exemplo, no espaço euclidiano, a soma dos ângulos internos de um triângulo vale “π” (pi = 3,141592654...) radianos (180º), mas, no espaço físico, medidas experimentais mostram que isto depende da região em que se está. Logo o modelo geométrico de um espaço euclidiano não se presta à descrição do espaço físico, exceto se se restringir a regiões especiais, no caso, não muito extensas e que não sejam sede de campos gravitacionais intensos. O espaço riemanniano, contudo, já descreve melhor o comportamento do espaço físico, o que será visto no capítulo XXX. Além disto, desde René Descartes, sabe-se que é possível associar-se a cada ponto de um espaço geométrico um conjunto ordenado de números que permitam localizá-lo a partir de certo ponto, certas linhas ou certas superfícies fixas de referência. Tais grupamentos de números associados ao ponto são suas coordenadas, especificadas por alguma regra algébrica, geralmente as43

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sociada às medidas das distâncias lineares ou angulares do ponto às referências. Ao conjunto ordenado das coordenadas de cada ponto dá-se o nome de ênupla, onde o “ene” é a quantidade de coordenadas requeridas. Pode-se ter só uma, uma dupla, uma tripla e assim por diante, dependendo da dimensão do espaço. Tal processo é denominado coordenatização do espaço. A vantagem é que, coordenatizando, pode-se fazer uso das propriedades aritméticas e algébricas dos números para se tirar várias inferências a respeito de pontos e figuras (conjuntos de pontos). Muitas propriedades de um espaço geométrico, na verdade, só são convenientemente expressas por meio de suas coordenatizações. Um fato notável é a aderência completa entre as duas concepções, de forma que, muitas vezes, faz-se confusão entre o espaço como entidade geométrica e sua representação algébrica, sendo a palavra “espaço” usada para designar um conjunto de ênuplas que goze de específicas propriedades algébricas. Esta aderência entre as propriedades algébricas e o comportamento físico do espaço é um dos argumentos para se considerar a Matemática como uma ciência e não apenas uma linguagem.

As dimensões do espaço
Sendo espaço o conjunto das possíveis localizações, é preciso entender como se especifica uma localização ou posição. O elemento da localização, na representação geométrica, é o ponto, entidade sem dimensão (tamanho) dotada apenas do atributo de posição. A posição de um ponto só pode ser especificada em relação a outros pontos, pois um ponto único no Universo está na única posição existente, que é todo o Universo, uma vez que não existe vazio no Universo e todo ele é preenchido por seu conteú44

do. Tal Universo não possuiria dimensão alguma. No caso de dois pontos, verifica-se que eles podem estar mais próximos ou afastados e define-se certo afastamento como a unidade de distância, sendo qualquer outro medido por quantas vezes esta unidade cabe dentro da distância, sendo a razão não necessariamente inteira. Como a única possibilidade de movimento é aproximar-se ou afastar-se e não há nada mais do que isto, este Universo é dito unidimensional. É preciso entender que, neste caso, uma vez que há uma infinidade de afastamentos possíveis, a cardinalidade deste espaço é infinita, mesmo que haja um valor máximo de afastamento admissível, caso em que o Universo é dito limitado. Se não houver um afastamento máximo admissível ele é ilimitado. Nem sempre o conjunto de todas as posições possíveis é passível de ser colocado ao longo de uma linha, que pode apenas ser percorrida para frente e para trás. Se houver a possibilidade de localizações laterais em relação à linha, já se delineia, pelo menos, uma superfície de possibilidades. Geometricamente uma superfície é um conjunto de pontos sem espessura, isto é, possuindo apenas liberdade de localização para frente, para trás e para os lados, mas não para cima ou para baixo. Um espaço sem esta terceira possibilidade é dito bidimensional, como a superfície da Terra. Algebricamente seus pontos podem ser especificados por pares ou duplas de coordenadas. Todavia nem sempre é possível se estabelecer uma correspondência biunívoca entre os pontos da superfície e as duplas de coordenadas, como se dá, por exemplo, com o sistema de latitudes e longitudes da superfície terrestre, no qual os polos possuem longitude indeterminada. Esta singularidade não é uma propriedade do ponto geométrico, mas apenas da coordenatização adotada. Tal situação é contor45

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nada com o conceito de variedades diferenciáveis, que, por seu aspecto eminentemente técnico, não será abordada. O espaço físico no qual estamos imersos, contudo, também exibe a possibilidade de localização de pontos acima e abaixo, além de avante, atrás e aos lados. Tem-se, pois, três graus de liberdade de posicionamento relativo a um ponto de referência. Diz-se que se trata de um espaço tridimensional, requerendo um terno de coordenadas algébricas para especificar um ponto. Podem-se imaginar hipotéticas situações em que se requeiram outras coordenadas para a especificação de um ponto, caso em que o espaço seria quadri, penta, hexa ou, em geral, enedimensional. Mas isto não ocorre na ordem das grandezas acessíveis à nossa percepção, mesmo auxiliada por aparelhos. Contudo, a Teoria das Supercordas concebe a possibilidade de um número maior de dimensões espaciais, o que se comentará no capítulo XXX.

Afinidade
O espaço físico tridimensional que habitamos pode corresponder a espaços geométricos de variáveis propriedades, das quais se destacam o paralelismo, a metricidade, o encurvamento e a torção. Tais propriedades são passíveis de interpretação algébrica. Mas é sempre preciso ter o cuidado de se verificar se uma propriedade apresentada pela descrição algébrica de fato é geométrica ou meramente uma característica da escolha do sistema de coordenadas. Da mesma forma, nem toda propriedade geométrica corresponde a uma propriedade do espaço físico real. Na presença de campos gravitacionais fracos o espaço físico corresponde geometricamente ao espaço dito euclidiano. Trata-se de um espaço geométrico em que se pode traçar uma e so46

mente uma reta paralela a uma reta dada por certo ponto externo a ela. O conceito de reta é o de uma linha, isto é, um conjunto contínuo unidimensional de pontos, ou seja, dispostos sequencialmente sem falhas, que se prolongue indefinidamente nos dois sentidos e cuja direção, apontada de qualquer ponto a qualquer outro, seja invariável. Duas retas são ditas paralelas se não se interceptarem e tiverem a mesma direção espacial. Dadas duas retas que se interceptem em um só ponto, o conjunto de todas as retas que possuam intercessão com ambas constitui um plano. Todo ponto de uma reta a divide em duas semirretas, cada uma contendo o ponto e toda a porção de reta existente em um dos lados do ponto. A união das duas semirretas de uma reta é a própria reta, enquanto a interseção é o ponto, que é chamado de origem da semirreta. Se o espaço físico não for globalmente euclidiano, pode-se imaginar, em cada ponto, a existência de um espaço geométrico euclidiano, dito tangente, consistindo no conjunto de todas as retas e planos que possam passar por aquele ponto. Um espaço admite paralelismo se, dados dois pontos distintos, for possível existirem retas paralelas passando por eles, de acordo com o espaço tangente a um ou a outro. Note-se que duas retas consideradas paralelas do ponto de vista do espaço tangente a um deles podem não o ser do ponto de vista do outro. Espaços que admitem a possibilidade da existência de paralelismo, haja ou não haja, são chamados Espaços Afins. Associado ao paralelismo estão as noções de orientação e de ângulo. No espaço euclidiano, dadas duas semirretas de mesma origem, o ângulo é a região do plano definido por essas semirretas, limitado por elas, incluindo-as. Duas semirretas de mesma origem definem dois ângulos no plano, se se considerar a região 47

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interna ou externa a elas. Se essas semirretas forem de uma mesma reta, os dois ângulos são iguais e ditos rasos. À abertura de um ângulo pode-se associar uma grandeza que é a sua medida. Para tal toma-se certo ângulo como unidade e verifica-se quantos dele podem ser colocados, lado a lado, com a mesma origem e bordas coincidentes. Esta é a medida, podendo-se estabelecer frações de ângulo como subunidades de medida. É comum usar a unidade grau, simbolizada por (°) definida de modo que o ângulo raso tenha 180 graus (180°). Seus submúltiplos são o minuto ('), sua sexagésima parte e o segundo (''), a sexagésima parte do minuto. Definido ângulo, pode-se definir direção como sendo a propriedade comum de todas as retas que formem o mesmo ângulo com alguma dada reta e sentido como uma das duas escolhas de semirretas de qualquer reta, dada uma origem. Uma orientação é o conjunto da direção e do sentido de uma semirreta. Essas noções geométricas podem ser apropriadamente algebrizadas de modo a se obter expressões matemáticas para a medida de ângulos e o estabelecimento de orientações, com o uso do conceito de vetor.

Metricidade
Além da orientação, pode-se estabelecer em um espaço geométrico a noção de distância entre dois pontos. Intuitivamente ela será a medida do afastamento desses pontos. Em um espaço euclidiano, um par de pontos define uma única reta que os possa conter. O trecho da reta compreendido entre esses pontos, incluindo os pontos, é chamado de segmento de reta. A todo segmento de reta pode ser associado um comprimento, que é uma medida do seu tamanho. Para tal toma-se um particular segmento 48

como unidade de comprimento e constrói-se o segmento a ser medido como a união de unidades de comprimento, de forma que o primeiro tenha extremidade coincidente com a do que se está medindo e os demais possuam a extremidade inicial coincidente com a final do anterior, dispostos na mesma direção, até que não se possa colocar mais nenhum. Conta-se o número de unidades. A parte faltante será preenchida com a subunidade de ordem imediantamente abaixo, que se conta também e esse procedimento é repetido com as subunidades de ordem cada vez menor. A medida será a soma de todas essas contagens. No Sistema Internacional de unidades é usado o metro e seus múltiplos e submúltiplos. Da mesma forma que com os ângulos é possível algebrizar a medida dos comprimentos e se obter expressões que as forneçam. No caso da medida de comprimentos de linhas que não sejam retas, o que se faz e escolher uma série de pontos ao longo da linha, medir o comprimento dos segmentos de reta entre esses pontos e somá-los. Quanto mais pontos forem escolhidos, mais precisa será a medida do comprimento da linha. A distância entre dois pontos fica então definida como o comprimento do segmento de reta que os tem por extremos, num espaço euclidiano. Todo espaço que admitir a possibilidade de se obter medidas de comprimentos de linhas dentro dele é chamado de Espaço Métrico. Os espaços métricos geralmente também são afins. Quando se coordenatiza um espaço geométrico para algebrizá-lo, encontra-se uma expressão para a distância entre dois pontos em função das coordenadas desses pontos. Se esses dois pontos são infinitesimalmente próximos, a expressão obtida é chamada de métrica daquele espaço naquele sistema de coordenadas. Por exemplo, para um espaço de duas dimensões (uma 49

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superfície), com um sistema de coordenadas “u” e “v”, a métrica é dada pela expressão: dl² = A(u,v)du² + 2C(u.v)dv² + B(u,v)dv² em que dl é a distância diferencial entre os pontos, A, B e C são funções das coordenadas u e v e “d” é o operador diferencial. Em outras palavras, dl = Δl = (l’ – l) quando essa diferença tende para zero, isto é, os pontos são infinitesimalmente próximos. A métrica é o ponto de partida para a obtenção de outros resultados importantes para o tratamento algébrico dos espaços, como as afinidades, que permitem a determinação do paralelismo, a curvatura e a torção intrínsecas do espaço, caso existam.

Espaços curvos e torcidos
Um espaço pode ser intrinsecamente não plano, isto é, ter curvatura ou torção, caso em que não são euclidianos. Mas podem ser afins e métricos, isto é, pode ser possível, neles, definir paralelismo e distância. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

O sentido do fluxo do tempo
Uma característica fundamental do tempo é que, sendo uma coleção de momentos (como o espaço é uma coleção de lugares), essa coleção é ordenada, isto é, dados dois momentos distintos, um deles é anterior e o outro posterior. Este ordenamento é estabelecido por uma propriedade chamada entropia. A entropia é definida pelo logaritmo da probabilidade do estado macroscópico. O estado macroscópico é descrito pelas variáveis globais que o caracterizam, enquanto o estado microscópico é definido pela coleção de todas as variáveis de cada partícula constitutiva. A um dado estado macroscópico pode corresponder um número extremamente grande de estados microscópicos. A razão do nú50

mero de estados microscópicos correspondentes a um dado estado macroscópico para o número total de estados microscópicos possíveis é a probabilidade daquele estado macroscópico. O logaritmo disto é a entropia. Pois bem, o tempo flui no sentido em que a entropia aumenta. A evolução do estado do Universo se dá do menos provável para o mais provável.

A quantização do tempo
Outra coisa interessante a considerar é se o fluxo do tempo é contínuo ou discreto (isto é, se dá-se por saltos). Imagine que, no Universo inteiro, cessassem todas as alterações, todo o movimento. O estado do Universo permaneceria inalterado. Elétrons não girariam em torno dos núcleos, a luz cessaria de se propagar, os astros interromperiam seus movimentos orbitais, objetos estacionariam a sua queda, corações não bateriam, os pensamentos ficariam suspensos. Então não haveria passagem do tempo. É como se fosse um filme cuja projeção se interrompesse. Assim que tudo voltasse a prosseguir, o fluxo do tempo seria restaurado e aquela interrupção não poderia ser detectada absolutamente por nada. Quem sabe isto já não ocorreu um sem número de vezes desde que você iniciou esta leitura. A quantização do tempo é, pois, uma coisa que, exista ou não, não faz diferença. A Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica supõem o tempo contínuo. Mas não uniforme e absoluto.

A medida do tempo
Se o tempo flui, é possível medi-lo, isto é, dizer o quanto de tempo se passou entre dois dados momentos (momento ou instante, no tempo, é como o ponto na reta, enquanto duração ou intervalo e como o comprimento do segmento de reta, que é o pedaço de reta existente entre dois pontos distintos, pertencentes a 51

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ela). Medir é comparar grandezas de mesma espécie, dizendo quanto uma contém da outra. Para medir intervalos de tempo há que se tomar um deles como termo de comparação, denominado “unidade de tempo”. Uma propriedade a ser exigida da unidade é a sua reprodutibilidade, isto é, deve-se poder sempre obtê-la novamente com a mesma grandeza. Para o tempo isto é um problema, pois é impossível, uma vez decorrido certo intervalo, voltar atrás para conferir se outro intervalo é igual a ele. Então é preciso considerar que o novo intervalo seja igual, por definição, sem conferir. Para isso são usados fenômenos ditos periódicos, isto é, que voltam sempre a se repetir. Por exemplo, os dias, o ano, as batidas do coração ou o balançar de um pêndulo. Se se vai medir um tempo em dias, tem-se que supor que todos os dias são iguais. Não há como medir a duração de hoje comparando-a com a de ontem, pois ontem não volta mais. Podem-se comparar os dias com as oscilações de certo pêndulo e ver se conferem, mas aí tem-se que supor que as oscilações sempre levam o mesmo tempo. Por comparações desse tipo, entre diversas possíveis unidades de tempo, viu-se que os dias não são todos iguais, que os anos também não são, que os pêndulos podem variar. Bem… até o momento, o que se supõe que seja mais regular e reprodutível é o período de oscilação da luz de uma cor exatamente bem definida. Usa-se a luz emitida pelo decaimento do átomo de césio (o isótopo 133), entre os dois níveis hiperfinos de seu estado fundamental. Como este é um tempo muito pequeno, fixou-se como unidade o segundo, que é um tempo 9.192.631.770 vezes maior. Daí se constrói o relógio atômico, a partir do qual os outros relógios são aferidos.

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A relatividade do tempo
Pode parecer que o tempo, assim definido, é algo que flui de modo homogêneo em todo o Universo, como supunha Newton. Mas não. Para cada um, o tempo flui com a velocidade “1″, isto é, 1 minuto por minuto, 1 hora por hora, 1 dia por dia. Mas, comparando os fluxos de um lugar com outro, pode não ser “1″. Assim, em outra galáxia, que tenha certa velocidade em relação à nossa, o tempo lá pode passar à razão de 50 minutos por hora em relação a nós, isto é, a cada hora nossa passam 50 minutos lá. Isto é a relatividade do tempo. É claro que estou falando de relógios que medem o tempo com a mesma unidade. Eles lá, para si mesmos, medem o fluxo normal de 60 minutos por hora. É o chamado “tempo próprio”. Isto foi descoberto por Einstein e já foi confirmado por experiências com o decaimento radioativo dos mésons “mü”, provenientes de raios cósmicos na alta atmosfera e outros experimentos. Existem fórmulas para calcular isto. A intensidade do campo gravitacional no local também altera a marcha dos relógios (e de tudo o mais, como o crescimento dos pelos da barba, por exemplo). Portanto, no Universo, o tempo é realmente algo determinado pelas condições locais da densidade de matéria e do seu movimento e não uma coisa que existe independentemente. Isso também ocorre com as distâncias. Em suma, o espaço e o tempo não são como um palco no qual os personagens representam a peça. Eles também são personagens da peça.

Tempo físico e tempo psicológico
Os seres vivos possuem um modo interno de perceber a passagem do tempo e desencadear vários comportamentos, como o ciclo sazonal das plantas e de animais, ou mesmo, os ciclos circadianos de sono e vigília, por exemplo. No caso dos seres 53

ESPAÇO E TEMPO

conscientes, como os animais superiores (ou dispositivos artificiais que venham a possuí-la) há outro fator que é a percepção mental interna da passagem do tempo. Essa percepção nem sempre é coincidente com a marcha física do tempo. Isto pode variar de pessoa para pessoa, em função da idade, do estado de espírito ou por ação de drogas. Em geral, à medida que se envelhece, cada ano é uma fração menor da existência, por isso parece um intervalo menor. Outro fator que faz o tempo parecer passar mais depressa é a monotonia. Quanto mais variada for a vivência cotidiana da pessoa mais parece que o tempo demora a passar. Atividades desagradáveis sempre parecem demorar mais que as agradáveis. Mas, tirando essas condições, é notável como a mente tem um cronômetro interno razoavelmente bem calibrado, o que pode ser observado pelo fato comum de pessoas que sempre precisam acordar a certa hora, em geral, despertam poucos minutos antes do despertador tocar e o desligam.

Tempo, música e literatura
Classificando-se as artes segundo os sentidos que impressionam, a literatura e a música unem-se na categoria das que são comunicadas pela audição, já que a escrita é uma mera representação simbólica de sons, como se fora uma gravação codificada da fala, que modernamente ocorre em mídias óticas e magnéticas. Por outro lado, elas podem também ser classificadas, conjuntamente, em artes cujo objeto se desenvolve no tempo, em oposição às artes plásticas, em que o objeto se desenvolve no espaço. A escrita ideográfica, em que os signos não representam fonemas, mas conceitos, também só pode ser interpretada na sequência temporal dos ideogramas, que não são contemplados simultaneamente, no seu todo, como numa pintura. Vê-se deste 54

modo, que, na própria sistematização que a estética faz das belas artes, música e literatura ocupam células vizinhas do esquema, estando, portanto, unidas por um ponto de vista estrutural. Em que pese a existência da poesia concreta, na qual a expressão artística do poema se manifesta, inclusive, pelo aspecto pictórico, normalmente a poesia é feita para ser declamada (ou cantada, se for a letra de uma música). Então é uma arte que se desenvolve no tempo. A apreensão mental do conteúdo da música e da poesia é feita pela parte do cérebro ligada à audição e sua memorização se dá de uma forma sequencial, isto é, ordenada no tempo e não numa totalidade simultânea, como ocorre com a memorização de uma gravura.

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ESPAÇO E TEMPO

MOVIMENTO CLÁSSICO LEIS DE CONSERVAÇÃO FENÔMENOS TÉRMICOS ELETROMAGNETISMO CLÁSSICO ONDAS, SOM E LUZ RELATIVIDADE RESTRITA COMPORTAMENTO QUÂNTICO PARTÍCULAS ELEMENTARES GRAVITAÇÃO E COSMOLOGIA UNIFICAÇÃO DAS INTERAÇÕES

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ciência humana metaciência

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