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Trecho do ivro

Quanto mais clara for a representação das i magi nações, t anto mai s est as se t ornam sé--

a melhantes às idéias sensíveis, de modo que

• muitas vezes equivalem a urna sensação,ligei~'

• ramente mais fraca, Mas é po~tico repre'sentar

as imaginações çoni a maior clareza possível; . . ''' '' t "i . • "Iqgo, é um procedimento poéticotorná-Ia's:ex- ",;:\!ifr§[Jia.CD~ntesemelhantes às sensações,

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Coleção ESTÉTICA UNIVERSAL

Coordenador:

.Ioão Ricardo Moderno

1. ESTÉTICA - A lógica da arte e do poema - A G. Baumgarten

2. OBRAS ESTÉTICAS - Fisosofia da imaginação criadora -

Charles Baudelaire

3. ESTÉTICA - Teoria da Formatividade - Luigi Pereyson

Dados Internacionais

de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Baumgarten, Alexander Gottlieb, 1714-1762. Estética / Alexandre Gottlieb Baumgarten ; tradução de Mirian Sutter Medeiros. -- Petrópolis, RJ: Vozes, 1993 .

"Coletânea d e textos extraídos da edição de J o hann Christian Kleyb de 1750."

ISBN 85-326-1013-7

1. Estética 2. Filosofia 3 . Po e sia 4 . Psicol o gia L Título

••

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93-1744

CDD-lll . 85

Índices para catálogo sistemático:

1. Estética: Filosofia 111.85

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Alexander Gottlieb Baurngarten

"

ESTETICA

A lógica da arte e do poema

C o l et â nea d e t ext os ex t r a íd o s da e di ç ã o d e Johann Christian Kleyb de 1750

Trad ução d e Míriam Sutter Med e iro s

Petrópolis

1993

© Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luís, 100 25689-900 Petr6polis, RJ Brasil Título do original em Latim: AESTHETICA

Copidesque:

Orlando dos Reis

Diagramação:

Daniel Sant'Anna

e

Rosane Guedes

ISBN 85-326-1013-7 (edição brasileira)

Este livro foi composto e impresso nas oficinas gráficas da Editora Vozes Ltda., em agosto de 1993.

SUMÁRIO

111111111111111111111111111111111111111111111

05689/94

APRESENTAÇÃO, 7

PARTE I Meditações filosóficas sobre alguns tópicos referentes à essência do poema, 9

PARTE II

Metafísica, 55

Prolegôrnenos, 55

Capítulo I: Psicologia empírica, 57 Seção 1: A existência da alma, 57 Seção II: A faculdade do conhecimento inferior, 61 Seção nr. A sensibilidade, 65 Seção IV: A imaginação, 72 Seção V: A perspicácia, 77 Seção VI: A memória, 79 Seção VII: A faculdade de inventar, 82

Seção VIII: a faculdade de prever, 84 Seção IX: ° julgamento, 87

Seção X: A faculdade de pressentir, 89

Seção XI: A faculdade de designar, 91

PARTE III A Estética, 95 Prolegôrnenos, 95 Parte I: Estética teórica, 99 Capítulo 1: Heurística, 99 Seção 1: A beleza do conhecimento,

99

•••

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Seção II: A Estética natural, 103

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I

Seção lII: O exercício estético, 109 Seção IV: A doutrina estética, 114 Secão XXVII: A verdade estética, 120

Seção : XXVIII: A falsidade estética, 131

Seção XXIX: A verossimilhança est é tica, 148

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APRESENTAÇÃO

Se Kant na Crítica d a Fa c uldade de Julgar nega-se a discutir

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as idéias estéticas

de Alexand e r

(1714-

omite seu nome, Hegel em sua Estética

f i l osÓ f i c a e o s it u a : " H o u ve

Gottli e b Baumgarten

1762), e propositalmente

a d o t a o t e rm o

um t e mpo em que

a

última fase da filosofia w olfi a na que esta c o ncepção, ou antes, esta

categoria

insignificante

dessa época que remonta o nascimento do termo estética. Foi

Baumgarten

a esta teoria

outros povos o ignoram. Os franceses dizem th é orie des arts ou des

belles-lettres; os ingleses a cl a ssificam na crític a (critic). Os prin- cípios críticos de Henry Home ( Lord Kaimes ) gozaram de um

dizer a

grande prestígio na época da publicação

nascimento

d o cri ad o r

d e e st é ti c a

só se trat av a d a s s ensações a g rad á v e is e de seu

Foi particularmente

durante

discussõ e s, se prest a r

m a s o conteúdo

a d e sen v olvimentos.

era

É

e desenvolvim e nto.

a i n úm e ra s para

deu lugar dem a is

quem deu o nome de estética à ciência das sensações,

do belo. Para

nós a lemães

este termo é familiar;

da obra. Para

verdade, o termo estética n ã o é exat a mente o adequado. Foram propostas ainda as denominações "teoria das belas ciências", "das

belas-artes", mas elas com ra z ão não foram mantidas. Empregou-

se

em geral e sim do belo como criação da arte. Portanto, manteremos

o termo Estética não porqu e

porque esse termo recebeu dire i to de cid a d a nia

corrente, o que já é um séri o ar g um e nto em favor de sua manu-

tenção" (1835, Introduç ã o).

não do belo

igualmente

o termo "calística " , porém aqui trata-se

o nome no s importe

pouco, mas

na linguagem

O clássico ESTÉTICA ,

p e la pri m e ir a

ve z a ce ssí vel

ao l e itor

brasileiro,

é compo s to d a s su as M e d i t aç õ es s o bre o p oe ma, tese de

7

doutorado

onde no último parágrafo

ele cria a estética (epistemé

aisthetiké), de momentos da Metafísica e do essencial da Estética

propriam e nte dita . Sua edição repr e senta um do s mais import a n-

tes, sofisticados e dignos lançamentos últimos anos.

editoriais

do Brasil

nos

8

PARTE I

Meditações filosóficas sobre alguns tópicos referentes à essência do poema

Desde o início da adolescência, o gênero da literatura

não só

nos agradou, a ambos', de modo extraordinário, como também nunca o desprezamos, seguindo assim o conselho de homens

extremamente sábios aos quais era conveniente obedecer; já na-

quele tempo decidimos experim e ntar

quaisquer que fossem, época em que comecei

vado por aquele que foi o guia de extrema habilidade dos meus

primeiros anos de estudos,

alma se inunde

digníssimo vice-reitor do próspero liceu de Berlim - não passei um dia sequer sem me aplicar à poesia . A medida que avançava pouco a pouco em anos, embora tivesse sido forçado, desde o tempo da escola, a voltar cada vez mais meus pensamentos para assun- tos mais austeros, e a vida acadêmica no final parecesse exigir

outros trabalhos e outras preocupações , dediquei-me não obstante à literatura, que me era necessária; assim, nunca pude me obrigar

realmente

recomendável, tanto por sua pura beleza, quanto por sua evidente

utilidade. Entrementes,

que me fosse conferido o encargo de ensinar a poética,juntamente

com a assim chamada filosofia racional , à juventude

formar para as universidades . O que haveria de mais

que devia se

publicamente

nossas forças ,

desde a

no campo literário. Efetivamente,

a formar-me nas humanidades - incenti-

que não posso nomear sem que a minha

alta gratidão:

refiro-me a Christgau,

da mais

a renunciar

à poesia, que considerava

inteiramente

pela vontade divina, que venero, ocorreu

propício

neste momento,

quando a primeira ocasião

exceto pôr em prática

da filosofia,

se oferecia? Por outro lado, o que havia

os preceitos

1. O autor ref e re-s e a s i me s m o e a o se u i r m ã o, N a th a nae l 1763, s e u comp a nhe i ro d e prime i r os es tud os .

B a u m ga r t en , f a l ec ido em

9

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de mais indigno ou de mais difícil p a ra um filósofo, que asseverar

os escritos dos

m e stre s ? Eu precisa v a m e pr e p ar a r

lo , que conhecia apenas historicamente e por experiência, por imitação cega ou pelo menos por suspeita e pela expectativa de casos semelhantes. Enquanto m e encontrava nestes embaraços,

minha situação mudou novamente, na luz da Fridericiana.

em palavras alheias e relatar, com voz estentórica,

pa r a r e fl e tir a re s p e ito

daqui-

e me vi, num fechar de olhos,

Tenho violenta aversão por aqu e les que entreg a m

ao público

pensamentos

te, desonram mais que dignificam a primorosa atividade

cálamos no círculo literário.

ter cumprido mais cedo o dever que exigem de mim as santíssimas

ainda imaturos e m a l ponderados, e que, infelizmen-

dos

Isto e xplica, não o nego, o fato de não

leis da Universidade.

Porém agora, para que seja cumprido

este

dever, escolhi um assunto que na verdade é considerado

pouco

profundo e alheio ao discernim e nt o

pareceu suficientemente

forças, e que, no que se refere à dignidad e

suficientemente

adequado para exercitar

cam a procurar a s r a z õe s de to d a s a s coi s a s.

do s filósofos,

mas que me

importante ,

fac e à fraqueza das minhas

do assunto, me pareceu os esp í ritos que se dedi-

do c o nceito

único de poema (que há muito m e e s tá grav a do na a lm a), prov a r

numerosas afirmações su s tentad a s

comprovadas uma só vez: des e jo, pois, mostr a r c lar a m e nte que a

filosofia

consideradas muito afastadas uma da outra, constituem um casal

cuja união é totalmente

car-me-ei a desenvolver a noção de . poema e dos termos a ele

associados; em seguida, do § 13 ao § 65, esforçar-me - ei porformar

poéticos. Depois disto. i do § 65

que o

mesmo é comum a todos os poemas; por último , do § 77 ao § 107,

proponho-me a considerar

cuidado. Pareceu-me oportuno, após hav e r e v idenciado a fecundi-

De fato, desejo demonstrar

qu e é po s sív e l, a partir

cem v e z es , m a s que mal foram

do ' poema , freqüentemente

Desta forma, até o § 11, dedi-

e a ciência

da compo s ição

amigável.

alguma imagem dos pensamentos

à o § 76, desvendo

o l!1.~~()-ªolúcido do poema, à medida

os termos poéticos e a avaliá-Ios

com

dade da minha definição, compará-Ia

com algumas

outras,

e,

finalmente, acrescentar

três palavras

sobre a po é tica geral.

A natureza

do projeto não permitiu

mai s , nem a limitação

do

pensador permitiu

aplicação hão de me conceder p e ns a mentos

melhor;

tal v ez no futuro,

DEUS, o tempo,

a

mais importantes

e

mais maduros.

1 0

§1

Quando enunciamos a palavra DISCURSO (oratio), entende-

mos uma seqüência associadas.

de palavras

que designam representações

Poderíamos

citar só esta definição como testemunho,

caso

de termos claros. O que

é o discurso compreendem-no claramente os que ainda não pagam

ingresso ao banho; mas se não expomos a significação distinta dos

termos que usamos, a mente indecisa

qUê3.1a noção ou

momento em que a ouve . O teólogo recomenda a "ora tio" junto com

a meditação e em caso de tentação; mas nessas circunstâncias

palavra contém aspectos que se introduziram erroneamente na definição. O lógico da escola, seguindo o seu Aristóteles, denomina "oratio" o discurso, compreendido como um enunciado, "aquele

têm uma significação"; e,

no

acusassem de inúteis todas as definições

hesita e realmente não sabe

à urria palavra

a

sentido que deve atribuir

cujas partes, tomadas separadamente,

corroendo o fígado , pergunta-se

se o silogismo constitui

uma só

"ora tio" ou várias. O retórico proclama claramente que

se deve

distinguir cuidadosamente

não parecer que confundimos a guerra com um exercício d'armas.

Aqueles que seguem o uso comum da linguagem poderiam talvez descobrir que "ora tio" é o que chamamos todos os dias de discurso em sentido amplo; e se alguém preferir nomeá-Ia sermão (sermo- nem), não empreenderemos contra isso nenhuma batalha, que resultaria sem triunfos. Mas basta pensar no que Horácio nomeia

"sermões" e veremos que é melhor

a "ora tio" da declamação,

de forma a

nos abstermos deste termo.

§2

A partir do discurso devem ser conhecidas as representações

associadas (§ 1).

a

maior provém da definição do significante ou do signo, que omiti-

mos, por ser sua formulação ontológica suficientemente conheci-

da. Pedimos, com efeito, que nos seja permitido defini-Ias, e expor, s e m demons t rá-Ia s , certas filósofos mais rigorosos consideram demonstradas

que os

e definidas. De

fato, as citações são impossíveis por hipótese; as demonstrações, por um lado, deveriam ser tiradas de outra fonte e por outro não poderiam estar associadas ao nos s o assunto, sem " transição ~ um outro gênero". Cícero e screve: "Este, entretanto, é um costume dos

A proposição

menor é o axioma

que constitui

a definição;

empregar, sem

noções ,

1 1

matemáticos, não dos filósofos. Efetivamente,

tras querem demonstrar

se o

mesmo é pertinente ao assunto de que tratam; mas explicam o

que ainda nunca foi abordado. Os filósofos, qualquer que seja o assunto de que tratam, reúnem tudo o que a ele se refere, mesmo

se isto já foi discutido em outro lugar" (CIC. Tusc.,

grande honra, na verdade, que não são geômetras!

do (definido) aquilo que já foi demonstrado

quando os geôme-

alguma coisa, consideram lícito e prova-

anteriormente,

V, 18). Que

e que significativo

triunfo para sábios

§3

As REPRESENTAÇÕES

obtidas através

da parte inferior

da

faculdade cognitiva são SENSITIVAS. O desejo é chamado sensitivo enquanto provém de uma repre-

sentação confusa do bem; mas a representação confusa, assim como a representação obscura, é obtida através da parte inferior da faculdade de conhecer; então, a denominação "sensitiva" tam- bém poderá ser aplicada às próprias representações, para, deste

modo, serem distinguidas

tas, segundo todos os graus possíveis.

das represent a ções

int e l e ctuais distin-

§ 4 '

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Suponha-se

que um DISCURSO que se compõe de represen-

tações sensíveis seja sensitivo.

Como nenhum filósofo alcança tamanha profundidade

que lhe

permita contemplar

deter no nível do conhecimento

nenhum

se encontre uma só idéia sensível ao longo do seu encadeamento.

Por conseqüência,

mento distinto pode encontrar quaisquer representações

todas as coisas com o intelecto

puro, sem se confuso; do mesmo modo, quase

que não

discurso chega a ser tão científico e intelectual

aquele

que se dedica antes de tudo ao conheci-

distintas

num discurso sensitivo; este último, no entanto, permanece

sen-

sitivo, assim

como

o discurso científico permanece

abstrato

e

intelectual.

§5

As representações

sensíveis associadas devem ser conhecidas

a partir do discurso sensitivo

( § 2,4).

12

§6

Os diversos elementos

do discurso sensível

são: 1) as repre-

sentações sensíveis; 2) a sua associação; 3) as palavras,

isto é, os

sons articulados, resultantes

das letras,

que são

os signos

das

representações sensíveis (§ 4, 1).

 
 

§7

O

DISCURSO SENSÍVEL PERFEITO

é aquele

cujos elemen-

tos contribuem para o conhecimento das representações

V).

§8

sensíveis

Quanto

mais um discurso

sensível

que tanto mais perfeito ele será (§

admitir

elementos

suscitem representações

sen s íveis,

4,7).

 

§9

 

O

discurso sensível perfe i to é o POEMA; o conjunto das regras

às quais o poema deve se submeter

é a POÉTICA;

a ciência

da

poética é a POÉTICA FILOSÓFICA;

a aptidão para el a borar

um

poema é a arte da POESIA; POETA.

aquele que possui esta aptidão

é um

Se desejamos recorrer às definições nominais ,

como dizem os

escolásticos, dispomos de obras muito ricas, que basta consultar,

publicadas

pelas editoras

Scaliger, Voss e por muitas

outras. Nos

absteremos,

todavia,

com prazer, desta tarefa, observando

sim-

plesmente

o que segue.

Nônio Marcelo,

Aftônio e Donato,

de

acordo

com Lucílio, parecem achar que

a única diferença

entre

poema

e poesia é aquela

do grande e do pequeno,

considerando

o

poema como uma parte ou uma seção da poesia, a qual, por sua vez, seria um poema mais longo. Desta forma, entre a poesia e o

poema haveria

Ilíada e o "Catálogo

alegando o uso da língua,

em cujas mãos está o arbítrio, (ROR. Ep. ad Pis . , 73)

a mesma diferença

a

que há, em Hornero , entre

dos navios gregos". A estes já se opôs Voss,

o direito e as normas do falar.

13

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disso quando Voss admite "" que o próprio Cícero b empre- -

a sua. o servaçao que cita parecem

a

"poesia"

para designar

poemas,

g erde a importânci a , P di ar o contrário:

le n . : c

De fato~ as passa~ens

quando

C í cero, no livro V, das Tusculanas

é porque

lui

d

o o

e imitar tu o, inc um

l14

) atribui

a Homero não a poesia, mas a pintura,

de um cego a arte

d

d '

cap o ira na , pessoa

d

a m está ao a lcance

que

do s olhos; mas não são os

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efeitos desta arte, -

drni

e

pOSSUl . nes t a

P

elo menos não só eles , que e stimu . am a sua a mrraçao - o qu

para provar

que o termo

"

poesia . "

uma significação insólita. O outro texto não se encor:tra

ou eria necessário,

~assa~m

no

livro VI - como consta nas duas edições de Voss - mas no .lIvro

IV

das Tusculanas

(cap. 71); nele Cícero

afirma

que a poesia de

Anacreonte

podemos substituir a qu~ o te , rmo "poesia"

que

e~clusivamente ~ can~a;, Cícero, o ~err:n0 poesia

mantém o seu sentido próprio, o mesmo que lhe atr ihuírnos? Salvo

s o bre esta

qu est ã o .

engano nosso , não é difícil de se chegar a uma con c lusão

se refere, na sua totalidade , ao amor. Mas será que

pelo ter~o "~oen::a", no

singular? Ou não estana

C í cero alegando que a msprraçao

anima toda a obra de Anacreonte aspira

os perigos do

amor, de modo que, para

Os div e rsos elem e ntos

I § 10

d ~ " poema

são: 1 ) as repr e s e ntações

sensíveis; 2) a sua associação;

3) as palavras

que as designam

IX, VI).

 

§11

Diremos que é POÉTICO tudo que pode contribuir de alguma maneira à perfeição do poema.

§ 12

As repres e ntações

sensív e is são elementos

do p~ema ( § , 10.);

sen s rveis obscuras e

logo, são po é ticas 11, 7 ) . Ma s como a s representaçoes

podem ser obscuras ou claras 3), a s representações

as representações claras são poéticas.

.

Uma mesma coisa pode sem dúvid a motivar representações

,

das quais uma prim e ira

úl t imo, uma t e rceir a , distinta ;

taçõ e s

seria obscura; uma segunda ,

d e v e e xpr es s a r ,

clara ; e por

mas qu a ndo f a l a mos d e r e presen-

r e f eri mo-n os

à qu e la s

qu e um d is c u rso

14

.~ :

representações que o locutor pretende comunicar. Pergunta-se,

portanto, quais são as mir em seu poema.

representações

que o poeta pretende expri-

§ 13

As representações

obscuras não contêm tantas representações

de marcas distintivas quantas

representado e distingui-Io dos outros; por outro lado, as repre- sentações claras contêm-nas (por definição); logo, os elementos

que permitem a comunicação das representações sensíveis são mais numerosos quando as mesmas são claras que quando são

obscuras. Um poema, portanto. j cujasrepresentações

é mais perfeif óq ü ê ã q úê lecujas representações são obscuras; e

possibilitem

reconhecer o objeto

são claras,

. as representaçõesclaras

são mais poéticas (§ 11) que as obscuras .

Assim refuta-se o engano daqueles que crêem falar tanto mais

poeticamente

complicado. Mas não concordamos de modo algum com aqueles

que ousam negar os melhores os seus olhos b a ços só p e nsam

noite profunda nos poemas dos mesmos. Tomamos como exemplo

os versos 45 e 46 da IV Sátira Se, cauteloso, fustigares

tado em vão os ouvidos ao povo.

quanto mais o seu palavreado

se torna

obscuro e

poetas, pela simples

di s tin g uir

razão de que

e uma

trev as es cura s

de Pérsio:

os a giotas do Puteal,l

t e rás empres-

Estes versos serão acusados levianamente

de extrema obscu-

de Nero; mas aquele que terá

ridade por quem ignora a história

feito a relação, a não ser que ignore o latim, compreenderá

significado e terá a experiência de representações

o

bastante claras.

§14

As representações distintas, completas, adequadas, e profun-

das, em todos os graus , não são sensíveis ; (§ 11) .

A verdade desta proposição tornar-se-é

ciarmos a posteriori, como por exemplo, se dermos a algum filó-

logo, não são poéticas

evidente, se a viven-

sofo, não totalmente

ignorante

em poesia, os seguintes

versos

repletos de representações distintas:

 

Aqueles que demonstram

que

os outros estão errados

os refu-

tam./Então

ninguém refutará se não demonstrarlo

erro dos ou-

tros; aquele

que de v e demon s trar

que um

erro

existeldeve

1 5

dominar a lógica; logo, aquele que refut a/ s e m s er um lógico, não

refuta conforme as regras

O no s so filó s ofo maIo s toler a rá, e mb o ra a m é trica d e cada um deles seja perfeita. No entanto, tal v ez não saiba por que motivo estes versos, que não pecam nem pela sua forma nem p e lo seu conteúdo, lhe parec e m rejeitáveis. Aliás, t e mos . aqui a principal razão pela qual se considera quase impos sív el afilosofia e a poesia permanecerem no mesmonível: de fato, a primeira procura com extrema obstinação a distinção dos conceitos, enquanto a segunda não se preocupa com a mesma, que se situa além da esfera poética. Supondo porém que um indivíduo muito competente em ambas as partes da faculdade de conhe c er e que saiba usar cada uma no devido tempo, de tal modo que se dedique a afinar uma sem prejudicar a outra; este indivíduo p e rc e ber á que Leibniz, Aristó- teles e outros tantos, que uniram a toga dos filósofos aos louros do poeta, eram prod í gios e não miragens.

(segundo o verso 1).

§ 15

As r e pre se nt a ções claras são p oét i ca s 1 3) ; por ou t ro l a do, a s representações claras podem s e r distintas ou confusas; mas já sabemos que as representações distint as n ã o s ã o po é ticas ( § 14); logo, as representaç õ es confu s as são p oé tic a s,

§ 16

um número maior de

coisas que outras representações B, C, D, etc . , mas se apesar disso

as representações

A é MAIS CLARA que as outras sob o PONTO DE VISTA EXTEN- SIVO. Tivemos que acrescentar esta restrição para distinguir estes graus extensivos da clareza daqueles outros graus muito conhe- cidos que, p e la distinção das marcas da p e rcepção , levam à pro- fundeza do conhecimento e acarretam uma representação mais clara que a outra, sob o ponto de vista intensivo.

que ela contém forem todas confusas, nesse caso

Se uma representação A representar

§17

Existem mais representações s en s í v ei s nas representações que são muito cl a ras sob o ponto d e vist a extensivo que naqu e las

16

qu e são meno s cl a r as ( § 16 ) e, portanto, nel a s e x ist e m mai s el e mentos que contribuem p a ra a perfeição do poema 7 ). Por

conseguinte, a s r e pre se n ta çõ es muito cl a ras

s ob o p o nto d e

vist a

exten s ivo são extr e mamente poética s ( § 11 ) .

'

§ 1 8

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Qu a nto m ai s d e t e rmi n ad as as coi s a s , t a nto mai s el e m e nto s contêm as suas r e pr ese nt a çõ e s; p o rém , quanto mais ric a é um a r e pre se nt a ção co n fu sa, m a is cl a r a é s o b o pont o d e v i s t a exte n s i v o ( § 16 ); conseqüent e m e nt e , t a nto mai s poética ( § 17). Logo, é po é tico que as coisas a ser e m re pr e sentad a s e m um poema s e jam det e rminada s o m ais p ossív el ( § 11 ).

§ 19

Os indivídu o s s ã o se re s a bsolut a m e nt e det e rmin a dos ' log o a s representações singul a re s s ão tot a lm e nt e po ét ic a s 18)',

est ã o tão l o ng e d e

pod e r a pr e ciar a b e le za d o po e ma qu e p r ef e re m " e mpin a r o n a riz " ( HOR. Sat. I , 6, 5 ) , qu a ndo H o m e r o , no ca n to II d a Ilí a da ,

e num e r a "os c h e f es, o s sobe r a n o s e o s c om anda n tes d o s n av i o s, b e m c o mo o s pr ó p r i o s navi os , s e m e xc e ç ã o de nenhum " ou ain da quando de sc reve n o c a nto VII t od os aquel es que o usav ~ m s e o po ;

a H e itor ou , enfim , qu a nd o p a s s a e m r e se n h a n o " Hi n o a Ap o Io " o s inúmero s lugare s sag rados e m que r e in ava es t e deu s. Acont e c e

'

O s nos s os p o e tas menor es (os Q ué r i l os )

o m e smo na Eneid a d e V e rgílio, b a st a nd o , p a ra

corr e r o fim do livro VII e os li v ro s s eg ui nte s, Al é m d es t es exe m- plos , p o demos a cr es centar o c a t á lo g o d os cães qu e estraç a lh a m o seu dono n a s Met a morfoses de Ovídio e nin g u é m, a m e u ver,

poderá jul g ar que e st es versos , qu e n os s e riam muit o difícei s d e

im i tar, pud e ssem t e r s ur g ido c o n t r a o d ese jo o u co n t r a a vo n ta de

dos seu s autores,

verific á -I o, per-

§ 20

As d e t e rmin a ç ões e s p e c í fic a s q ue s e ju nt am

a o gê n e r o c on s t i-

tu e m ~ es p é cie ; e a s d ete rminaçõ es g e n é ri c as junt a d as a o gê n e ro supenor constituem o g ên e ro inferior; log o , a s repres e nt aç õ es do gênero inf e rior e da es p éc i e sã o mai s p o é ti cas que a qu e la s do gê n e ro o u d o g ê ner o sup e rior 1 8) .

r

17

A fim de não parecer que procuramos ansiosamen_te e demo- adamente uma prova a posteriori de nossas ass~rçoesH va~?s ~ecorrer à primeira ode do poeta de Vênus, quer dl~e;,," ora~lO.

Por que escreve "antepassados" em vez de "ancestraIs ;" pó~ol~~~ ." em vez de "pista de jogos"; "palma" em lugar de premlO,

plclo líbios" por "terras férteis"; "condição de Atalo" por grande-

d e, Myrtos" " por

de lcaro em vez

so os lu

.""

za" "navio cíprio" por "navio de cornercio , : mar

,,'

igoso" "o Africo em luta contra as d ondas " .

mar pen

de "

e

u :

con t ra,

r d

h

I

I

,

d b

fra"

porque

o vento'" , "velho Mássico" em vez e vm o e ?a sa

"

Marsos" em vez de "assaSSIno , e c

.

t ? N -

ao seria

? P

rererimos ne

i"

.

,

Ja~atl dosdo poema está na substituição de conceitos demaswda-

.'

a VIr u e

mente amplos por conceitos mais restntos.

cionar li própria organização

de tdl modo que representa a ambição, a avidez e a volúpia

m men-

que foi dada ao todo da od,e, ?roJeta~a

a~r~;es

em lugar

de casos particulares em que esses defeitos.costu_mam ser níti 0;'

o

D

~ sta forma ocorrendo toda uma amphficaçao,

e.

I obt'l'do de muitos casos semelhantes, representa-se um

~ umversai,

e outro caso (cf. versos 26, 27, 33, 34 ).

.

~ Tibulo, no livro III, para enunciar os p.erfumes, que~de~enam ser espargidos sobre os seus restos mortais, postula tres tipos de

r.

~ ,

aromas:

.

. Que lá sejam espargidos os ricos perfumes que nos enVIam a

PancaiaJ

e os da Arábia

e os da Assíria 19)/e que se

vertidas em minha memória (TIB. m, 2,

às lágrimas

t ~~:turem

23 sq.)

"h'

Vergílio, para expressar a noção,"nunca farei IStO,

valer do célebre estilo poético da perífrase:

a

d

e se

,

Primeiramente

. e na primeira Bucólica, enumera até maI~ especlficament.e

ocorrem todos os fatos, cuja possibilidade eu

negava! e ocorrem contra as leis da natureza; .

cert~s fatos fisicamente impossíveis, mas perfeItamente conheci-

t

dos ao menos pelos camponeses:

Antes no éter pastarão os rápidos cervos, etc. (VERG., Buc., I,

d poética, quan o o.s

t 59).

t Desta mesma fonte flui a distribuição

e em espécies . E conhecido ~ trech~ em ~ue

Vergílio trata dos troianos que falharam na Líbia (En:l~a, livro

1). O mesmo ocorre em Catulo que, ao representar silenos nascidos em Nisa, escreve:

a

poetas, que devem cantar numerosos objeto~, costumam reparti-

Ias em categorias

os sátiros e os

J. : : . ; :

.

.: :••". • •;; < - . '; " . ,.' .; . o J' O ·

18

_--

~.~ ~ -~~

,

-

' - ~ - . , '" : ' -

"

de folhagem"

(CATUL. 64, 256). E nos versos seguintes detalha oito espécies destas persona- gens, ocupadas em atividades diferentes.

"Uma parte deles agita os tirsos recobertos

§ 21

O EXEMPLO é a representação de um objeto mais determi- nado, produzida para esclarecer a representação de um objeto menos determinado. Visto que esta definição ainda não foi mencionada noutra parte, queremos agora demonstrar que a mesma convém perfei- tamente ao uso da língua. Para este fim, recorremos aos matemá- ticos, que afirmam o seguinte: quantidades iguais somadas a outras quantidades iguais produzem somas iguais ou, em outras palavras: se A = Z; B = Y; então, A + B = Z + Y. Se agora substituirmos o número indeterminado A pelo número determi-

nado 4; Z por 2 + 2; B por 6, e Y por 3 + 3, e se afirmarmos que 4 + 6 = 2 + 2 + 3 + 3; nesse caso, todos dirão que demos um exemplo

do nosso axioma, sobretudo se tivermos como objetivo tornar mais

clara a significação das letras usadas como signos. Suponhamos agora um filósofo que se proponha demonstrar a necessidade de excluir de uma definição as expressões impróprias. Então, se chegasse a definir a febre, segundo os termos de Campanella, como "uma guerra empreendida contra a doença pela força pode- rosa do espírito", ou como "uma excepcional agitação espontânea

do espírito que morre por combater a causa irritante da doença", pensaremos que ele deu um exemplo de definição imprópria, uma vez que tais definições são compreendidas mais profundamente.

E de fato terá proposto, em vez de uma definição genérica, um

caso individual e, em vez do conceito geral de expressão impró- pria, terá representado a guerra, a agitação do espírito, o seu

ardor, etc., etc.; portanto, terá proposto conceitos que contêm mais determinações que o simples conceito de "termo impróprio", e que, por conseguinte, só servem para expor e esclarecer esse conceito. Verificaremos a fecundidade da nossa definição, tentando resol- ver o problema como o faz um arquiteto ao dar um exemplo a outros; ou ainda, meditando as importantes asserções de Spener,

quando afirma (Cons. teol. lato parto I, C . Il, art. 1): "Pela

e segurança de suas demonstrações, a matemática oferece a todas

as outras ciências um exemplo que as mesmas devem imitar o mais possível" (cf. § 107 ) .

certeza

19

 

§2 2

O

s exem pl os r e pres e nt a d os

d e mane ir a

c o nfu sa são r e presen-

tações

mais claras

sob o ponto de vista extensivo

que aquelas

que

servem para esclarecer

21) e, port a nto,

são mais poéticas

18).

D e ntre os exemplos, os melhores ( § 19 ) .

aqu e le s

qu e são s ingular es

são se m dúv i da

Isto percebeu

o f a mo so L e i b ni z

n o seu not áv el

liv ro , em que se

coloca como defensor

principal da Poesia deve ser o en s inamento

virtude através

um exemplo de exemplo, estamos, quase como Tântalo , em pre- sença de uma tal abundância dos m esm os qu e não sab e mos qual

nas

é o melh o r . Consideremos

suas Tristias a s e guinte r e presen tação

da causa de Deu s , qua n d o

afirma: " O obj eti v o

da prud ê ncia

e da

de exemplos" (Teodic é ia II, 148). Se procuramos

o d esafortun a d o

O v ídio, que propõe pouco d e terminada:

,- - - -- -

-

.-

-

- - : : .- - - - - - - - - --- - = - - - - -- -

vezes, quando

um d e u s nos opr i me,

outro

deus nos

Muitas ajuda ( Trist.,

I, 2, 4); e assi m

qu e seus l á bi o s ,

umedecidos

pela

á

gua salgada

das lágrim a s

e do ma r,

deixa ram

e s capar

esta s

palavras , r e pentin a ment e

irromp e

dos mesmos

uma onda consi-

d

e r á vel d e ex empl os,

qu e oc upa m

s e i s ve r sos:

Vulc a n o está con t ra Tr ó i a; Ap o I o d e f e nd e-a,

§ 23

e

tc. ( Tris t .,

I, 2, 5 ) .

Um c o nceito A, cuja represen taçã o,

junta ndo-se

à quela

das

de um c o nceito B, acomp anha

este conceito,

marcas di s tintivas está associado

a e st e con ce ito .

Nom e i a -se

COMPLEXO

o CON-

CEITO

ao qual

se associa

um o u tr o conc e it o;

o opo s t o

dele é o

conceito

conceito

, c o mple x o r e pre sent a

SIMPLES

ao qual não se ass oci a

n e nhum

conc e ito. Um

s im""" :

ma is coisas q u e um c o nc e ito

j )Ies ;-lo g o, o s ' conc ei tos compl ex o s

e c o nfu sos s ã omai s

claros sob o

ponto

d e vista

ex tensivo

que aqu e l es

que são simple s

16) e,

portanto, mais

po é ticos

que o s simpl e s

17 ) _

 

§

24

As REPRESENTAÇÕES

d as m ud a n ç a s

atu ais

d a qu e le

que se

 

( §25

Uma vez que o s a f e t o s

são g rau s

pa rt ic ul a rm e nt e

r e l ev ant es

do "p~zer e do desprazer,

as suas

s e nsações

r e alizam-se

num

sujeito qu e se r~pres e nta,

de m a neira

confusa, alguma coi s a

como

se~d .o boa ou ma. O s a f e tos , portanto, de te rmina m

p o é ticas ( § 24); l og o, é um pro ce d i m e n to

(

repr es ent a çõ e s

poé t i c o pro v oc a r os afet o s

§ 11 ).

.

.

§2 6

O mesmo pode ser dem.on s trado

da se guinte maneir a :

quando

nos . repres e nt~mos

m a is a r e sp e ito dela do qu e s e não a r e pre se ntarmo s c o mo se

afirmou; l og o , a s r e pr es enta ç õ es

bo as ou m á s, t ê m m a i s clare za

se ?~o fo ssem prop o st as d es t e mod o (§ 1 6) e, p o rt a nto , sã o mais

fusa: nos par ece m

uma CO I s a com o bo a o u m á, n os repr ese ntamos

d as co i sas qu e, de m a n e ira

ex ten s iv a

con- do qu e

po é ticas

( § 17 ) . Ora, t a is repr ese ntaç õe s

g eram

procedimento

poético

provocar

os afetos 11).

a f e tos· l og o é um '

,

 

§ 2 7

,~ ~ eE~ _ ~ç ~ ~s _m ~i~ _ !o _r ~e . ~ ~?o

 

m ais

c la !as;, por ta n to ,

m ai s

poetIca_s qu e a quel as

qu e s ã o m e n os c l a r as

e fr a c as ( § 17 ). Ora, as

sen sa çoes que acomp a nham um a feto mai s intens o são m a i s fortes

9 ue aquelas q.ue acomp a nham um afeto m e nos int e nso (§ 25 ) ; logo,

afet o s muito

com o confu s a como c o m mais

segue : a s c o is as que n os

s e ndo o que h á de pior ou d e me lh o r

clare z a exte nsiva

ou menos m á s (§ 16 ) ; são, p o i s , repr ese ntad a s de m o do mais

po é tico

~endo o que há de pior

mte nsos .

car af e tos menos mten so s . '

e um proc e dI ~ _ e . 12~ ~ _ s ~!? am e nt e

J~ ~~~ rE s l a m e sm a

po é tic o prov o car

ro posTça o - p o a e repr e s e ntam os

p

sei c f e mo nstr a d ã de man e ira

são r e pre se n ta das

qu e s e fo ss em r e pr esent adas

c o mo menos boas

(§ 17 ). Mas a repres e nt a ção

confusa d e uma coisa como

ou de melh o r par a n ó s pro vo ca af e t o s muito

~ ~ J os int e nsos - .

qu e provo- .-

Logo, é I? a is p oé tic o p ro vo c a r

~

~ - -

k ~ :

'""

-

-

.

r

e prese nta

alguma coisa s ã o a s SENSAÇÕES;

e las s ão sensíveis

§28

(

§ 3), e, portanto ,

poéticas

(§ 3) .

20

.,. > . ~ .'

As imagin a ções

(phantas~ - ~ ta)

(§ 3 ) ; portanto,

são p oét i ca s

( § 1 2)_

:

.'

•. ' , .

2 1

são r e present a ções

s e n s íveis

--.

••

-

-

-

•• ••

••

•• •• ••

•• ••

••

til

••

••

til

til

•• ••

••

•• ••

•• ••

•• ••

••

•• ••

••

••

t

t

1

,

,

:

Denominamos ções dos sentidos;

filósofos, do significado

nem do uso da língua, atreveria, efetivamente,

imaginações

as reproduções

das representa-

_de acordo

e se com isso nos afastamos,

vago d est a palavra ,

nem das regras

a negar

com os

nao ~~s afastamos

~uem

se

~a gr~ma~lca:

que as imaginaçoes sao o que

imaginamos?

De fato, no próprio dicionário

de ~uda, a facu!dade

de imaginar

é descrita

como "aquela

que extrai ~as sens~çoes

as

formas dos objetos sentidos ão então as imaginações,

~s imagens (das representações)

e as reproduz

em SI mesma

. O_que

a não ser as repetições (as reproduções) ,

dos. objetos

dos ~en~idos, , que

foram extraídos

da sensação ( comojá o indica o conceito

extra í dos

das sensações")?

§ 29

=

••

ia

,I

I

As imaginações

sãomenoscl a ras

sensação;

logo, são menos poéticas

que as idéias advind _ a~d~ 17).

Quando, porém, os afetos provocados dete~min.am

que está repleto

idé~as ad-

que

n~o~tas (~ 8,9l; p O l~ta nto,

vindas das sensações,

aquele

o poema que gera afetos e mais perfeito

de im a ginações

~

•• •• "

,.

é mais poético gerar

afetos do que produzir

imagmaçoes

diferen-

tes .

 

Não basta

que os poemas

sej a m

lindos

.! Tamb é m

dev~m

conduzir o espírito

do ouvinte aond e queiram

(HOR. Ep . ad . PIS.,

99-100).

Eis uma qualidade

e as poetisas

absolut a mente muito facilmente semelhantes

permite distinguir

corvos

notável,

"os poetas

que , por um lado ,

seme~~an~es. a

(P

é rsio.

Sát., 13), e, por outro, os Homeros.

a gralhas-do-campo De fato, quase sempre

aquel~s

= que "prometeram retalhos de púrpura 14-16) .

••

••

.-

_ -v-.",--.-.-.,.-

Horácio, portanto ,

imaginações;

segundo

para destacar

contudo,

o poeta,

. descrevem

grandes coisas juntam

que brilhem

ao seu poema um ou d?IS

Ep. ad PIS.,

de longe" (HOR.

são essas

com prudência,

não condena completamente

devemos

ver quais

às coisas q~e, e que ele cita

o r~curso

(irnag . 4)/

devem ser usadas

o seu propósito:

o bosque sagrado e o altar de Diana (imaginações

o Reno (imag. 3), ou ainda

o arco-íris

1 e 2).! Ou então

quando

não há nem lugar nem espaço para tanto

(IDEM,

16-19).

Poderíamos

agora, visto que o poeta segue o princípio

do nosso

§ 22, a título de exemplos, desenvolver

uma noção mais universal

2 2

, .••• : •.•

'

. 2 . #*;

k;t · ;

,

')j

a partir das especificaçpes e das representações

das, mas não encontraríamos

mais determina-

nenhum outro ponto de convergên-

cia a não ser o conceito

crédito a Horácio, "o artista

a maciez

maneira adequada

d e im a gina çã o .

D es t e

modo , se d e rmos

que saiba modelar unhas e reproduzir

( ou qu e saiba

representar

de

no seu poema ) ,

dos cabelos

no bronze"

certas imaginações

mas

que malogre

no conjunto

da obra

! a ser

como ele,

preferiria

torto / olhos n eg ros

ou c a belos

pretos

(IDEM,

viver com nari z 32, sq. ) .

§ 30

A representação

este,

da imaginação

parcial

total, que, portanto,

de um objeto faz res- constitui um conceito

que se fosse

surgir a sua imaginação

complexo;

se for confuso,

será

mais po é tico

 

simples

(§ 23). Logo, é quando

ocorre uma imaginação

parcial,

é

.

um procedimento

po é tico representar

a imaginação

total,

que

possui uma clareza extensiva

maior 17).

§ 31

Uma vez que aquilo,

qu e coexiste,

em r e laç ã o

tempo, com uma imaginaç ã o

p

a rcial, p e rt e nc e

ao e s p a ço mesma

a uma

e ao

imaginação

total, é um procedimento

po é tico

representar

simul-

taneamente

a imaginação

parcial e as imaginações

claras

(sob o

ponto de vista extensivo )

daquilo que coe x iste com a mesma

(§ 30).

Nas obras dos poetas freqüentemente

encontramos

d e scrições

do tempo. Citamos,

noite (Vergílio, Eneida,

lica 1 ) . Na obra d e S ê neca,

como e x emplo,

Vergílio e sua descrição

IV

) ; da tarde

da

IV); do dia ( Buc ó lica

(Bucó-

p

o demos ler uma descrição

conjunta

das quatro

estações

(Hip . ,

1lI) e ainda,

na obra de Vergílio,

a

descrição da primavera

( Geórgicas,

11 , 319-345 ) ,

da

aurora ,

do

inverno,

do outono,

etc. Outros

exemplos,

podem fornec ê -los

os

rascunhos

de qualquer

poeta sem talento. D e ve-se, todavia,

ter o

)

,

cuidado de observar

o escólio do § 29 no tocante

às descrições.

§ 32

Podemos demonstrar mente uma imaginação

espaço

que é poético representar

e o que coexiste

simultanea-

com ela sob o aspecto

do

e do tempo

como segue: é poético r e presentar

as coisas

2 3

_

.'

>

,

? ; . 74SWJUlç W4Z XS.

. 0 9 '

segundo sua máxima determinação (§ 17); ora, as determinações de lugar e de tempo são numéricas ou, pelo menos, específicas, pois concedem às coisas uma determinação muito grande. Logo, é um procedimento poético representar todas as coisas (determi- nando-as) e inclusive determinar as imaginações, indicando aqui- lo que coexiste com as mesmas no espaço e no tempo.

,,~

ii I'

'I

'I
II

II

fI

§ 33

ou de

da

mesma espécie ou do mesmo gênero. Se representarmos essas

últimas

conceito que surge se torna, por um lado, complexo e confuso; logo, torna-se um conceito mais poético (§ 23); por outro lado, a espécie ou o gênero são mais determinados; portanto, a sua representação torna-se mais poética (§ 20, 19).

A representação

de uma imaginação

de certa espécie

certo gênero provoca o ressurgimento

ao mesmo

de outras imaginações

ou a sua espécie,

tempo que o seu gênero

o

§ 34

represen- o gênero dos

quais depende (juntamente com outras imaginações), vamos obter uma clareza extensiva maior do que se não o fizermos (§ 16); logo,

é um procedimento

tar de modo confuso e, ao mesmo tempo, a espécie ou

Se representarmos

a imaginação que pretendemos

poético !"~presentar o_g~e_r-º_,e_il_~~Jlécie_c!os

quais depende, juntamente comouTras';-ãimaginação a intenção de representar (§ 17).

_que tenho

§ 35

Se representarmos

simultaneamente

uma determinada ima-

ginação e aquilo que pertence ao mesmo gênero

-, a

representação torna-se mais poética que se procedermos de modo diferente (§ 33). Mas é poético representar o gênero e a espécie ao mesmo tempo que a representação que pretendemos representar 34). Logo, é um procedimento extremamente poético represen- tar simultaneamente a imaginação que queremos representar e as imaginações do mesmo gênero ou da mesma espécie.

- com o fim de representar o gênero

e à mesma espécie

e a espécie eles próprios

24

§ 36

As coisas que dependem de um mesmo conceito de categoria superior são SEMELHANTES (similia); portanto, coisas seme- lhantes pertencem a uma mesma espécie ou a um mesmo gênero. Logo, ~_um procedimento extremamente poético representar si-

multaneamente

a imaginação que queremos representar

e aquilo

5111elhe é semelhante (§ 35).

Isso também permite compreender claramente por que razão

aqueles, que formam sob sua autoridade de mestre os proferidores

de. oráculos, exigem tanto que estes recorram às analogias. Um exemplo tirado de Vergílio torna evidente que é muito fácil, sem dúvida, encontrar semelhanças: trata-se da entrada de Dido no

templo de Juno. O poeta, nessa passagem, descreve uma mulher

que, pela extraordinária

numerosa escolta; o conjunto dessas características constitui um tipo específico, no qual também se inclui a deusa DiaIla. Diana,

então, é considerada como uma semelhança! De fato uma seme- lhança não é um exemplo, mesmo quando se trata de uma pessoa (§ 17).

beleza dos seus adereços, supera

a sua

§ 37

As representações poéticas 38).

Encontramo-nas

segundo o critério de que tipo de árbitros da boa poesia? Efetiva-

dos sonhos são imaginações;

logo, são

nas obras de Vergílio, Ovfdio e Tibulo, mas

mente, não as devemos rejeitar completamente, embora tenha- mos motivos para zangar-nos contra os visionários, sujeitos de tal modo "ao delírio e à.ira de Diana" (HOR. Ep. ad Pis., 454), que

não sabem propor outra coisa que as interpretações

o número de vezes que

do lume de não sei que microcosmo.

dos sonhos ou

Caio desposou Caia, ou então, a extinção

§ 38

Quanto

mais clara for a representação das imaginações, tanto

mais estas

se tornam semelhantes

às idéias

sensíveis, de modo

que muitas

vezes equivalem a uma sensação ligeiramente

mais

fraca. Mas é poético representar as imaginações com a maior clareza possível (§ 17); logo, é um procedimento poético torná-Ias extremamente semelhantes às sensações.

25

§ 39

e este

procedimento é um p:ocedimento po~~ic?(§ 24)',A repres~ntação pictórica deve ser muito semelhante a idéia s,ensIv~l do objeto que

mesma tarefa cabe a poesia (§ 38). Logo,

queremos pintar; e esta

É próprio da pintura representar

o que é composto;

t um poema e uma pintura são semelhantes

(§ 30).

t

ít

íI

ít

ít

t

t

I

it

Uma poesia é como uma pintura (HOR. Ep. ad Pis., 361).

I

Neste ponto, uma certa necessidade hermenêutica imp?e, àquele, que saiba aquilatar a conseqüência, entender por "poesia" "poema", e por "pintura" não a arte de pintar, mas sim o s~u produto. Apesar disso, não há motivo para duvidar do conceito

autêntico de poesia, que definimos e estabelecemos corretamente no § 9. Com efeito, em relação à confusão miscelânea de palavras quase sinônimas, Horácio e outros poetas.

(HOR. Ep. ad

Sempre ousaram legitimamente Pis., 10).

o que queriam

§ 40

portanto, sua tarefa não inclui representar toda a situação, nen:

representar o movimento; em compensação esta tarefa cabe a poesia: efetivamente, quando representamos uma si.tua.ção e a s~a evolução, a representação do assunto torna-se mais rica - mais clara sob o ponto de vista extensivo - que quando não represen- tamos a situação e a evolução da mesma (§ 16). Logo, nas imagens poéticas há mais elementos contribuindo para a unidade das mesmas que nas imagens pictóricas. Conseqüentemente, um poe- ma é mais perfeito que uma pintura.

A pintura representa

as imaginações somente na superfície;

it

ít

íf

t

••

~""'''''''''.T

§ 41

Embora as imaginações

expressas pelas palavras

e pelo dis-

curso sejam mais claras que aquelas que se apresentam à visão, não é por isto, todavia, que afirmamos a primazia do poema sobre a pintura. De fato, a clareza intensiva, que dá ao conhecimento

simbólico, efetuado pelas palavras, uma primazia sobre o conhe-

cimento intuitivo, não contribui de modo nenhum à clareza exten- siva; ora esta última é a única clareza poética (§ 17, 14).

Quanto ao resto, é comprovadamente experiência e conforme o § 29, que

verdade,

segundo a

-r-: ••

26

Aquilo que chega aos ouvidos estimula menos o espírito / que

aquilo que se apresenta aos olhos, que são fiéis) E aquilo que o

próprio espectador testemunha

(HOR. Ep, ad Pis., 180-182).

§42

o r~I).hecimento.cQnflls_Qde:uma memória sensível; logo, enquanto também é poética (§ 12).

representação

deve-se à

sensitiva

3), a memória

.

_'0'0 Numa representação,

§ 43

a ADMIRAÇÃO (admiratio) é a intuição

de um grande número de elementos, que muitas séries de nossas percepções não contêm.

Concordamos com Descartes, que define a admiração como "uma surpresa súbita da alma, que leva a mesma a considerar

cuidadosamente os objetos que lhe parecem raros e extraordiná-

rios" (Tratado das paixões, art.

definição à nossa linha demonstrativa, suprimindo os elementos que nos pareceram supérfluos. Alguns consideram um erro, salvo

em caso da ignorância, julgar que a raridade seja suficiente para tornar uma coisa admirável. Certamente não recomeçaremos a discussão que intentaram contra Descartes; mas ressaltamos que

o termo "extraordinário" subentende alguma

inconcebível. Em todo caso, tentamos indicar com clareza a dupla origem da admiração.

70); mas desejamos adaptar esta

coisa relativamente

§ 44

Já que o conhecimento intuitivo pode ser confuso, ele também

pode estar fundamentado

sentação das coisas admiráveis é poética (§ 13).

na admiração (§ 43); portanto, a repre-

§ 45

Costumamos concentrar nossa atenção no que contém alguma coisa admirável. A representação confusa daquilo em que presta- mos atenção tem mais clareza extensiva do que a representação daquilo em que não prestamos atenção 16). Logo, as represen-

27

taçõ e s que cont ê m coi s as admir á v eis las que não as cont ê m. P or i s so Ho rá ci o e scr e v e :

são mais p o éticas que aque-

Fazei silêncio. Sacerdot e das mu s a s , /Celebro cantos que nun-

ca ouviram! Moças e cri a nças

(Odes, III, 1, 2 - 4 ) .

Se

esclarecermos o p e nsam e nto

do autor a partir da s ua forma

alegórica, talvez encontremos

livro II, que inicia c o m os s e guint e s

o m es mo tema n a v igé s ima

ve rs o s:

ode do

Não serei arrebatado

frágil

(v. 1,2 ).

p o r uma p ena inu s it a da,

nem por uma

§ 4 8

Lo g o, s e for preciso r e pr e sentar

coi s as a dmiráveis

45), a

representação das m e sm a s há de conter c e rtos el e m e ntos que

provoquem um r e co n hecim e nto

um procedimento

conhecido e o desconh e cid o, n as própria s c oi sa s admiráv e is ( § 47).

confuso . Em outr as p a lavras, po é tico m e scl a r habilmente

é

o

extremam e nt e

§ 49

Visto que os mila g res são a tos sin g ul a re s ,

as s u a s r e presenta-

Algu é m pod e retruc a r

que es ta a firma çã o

n ã o diz r e sp e ito

ao

çõ

e s são extremamente

p o éticas ( § 19); no entanto,

como aconte-

conteúdo, m a s à forma do p o em a líri c o , a inda imp e rfeito

e ntre

os

c e m muito raram e nte no reino d a

n at ur e z a

- ou p e lo menos os

p o d e s e r; no entan t o,

apes a r disso, o cont e údo não e st á ex c lu í do d o pr o pósito. Admitindo

latinos,

antes

de Horácio.

De fat o as s im

percebemos raríssim as

é necessário que coisas conhecidas e f a cilmente reconhecíveis

sejam acrescentadas

v eze s - s ão coi s a s admir áv ei s

aos milagre s

( § 48) .

( § 43) ; logo,

que seja este o c a so, ainda a ssim é o caráter

em si qu e permite

(conforme

confessa a sua ambição

poe t a enun c iar

ouvidas"; não desej a mos,

admiráv e l da forma

a H o rácio

pro v ocar r e pr ese n ta çõ e s po é ticas

E visto que H o r ác io

glóri a, ele c o nsidera

e "qu e aind a

de s de o início glorioso um

nunca

fo r a m

m ai s n a da .

Que n e nhum d e u s int e r ve nh a,

a n ão se r que o enred o/ m e reça

n o § 9, prov é m

nosso par á grafo).

tal int e rventor

(ROR. Ep . ad Pis., 1 9 1, 192) .

pela

A partir da n oçã o de poem a, qu e ap r ese nt a m os

co i s as "inus i t a da s "

a

li be rdad e d e na rr a r mi l agres . I n ú me r os

m

e lhores poetas ates t am

e s ta liberdad e ,

tornar-se

uma l i c e n ça qu a nd o

se enco n t ra

exe m plos ge r a do s p e lo s

que, tod a vi a, e m um p oe m a

parec e cujo n ã o

p o i s , es t a b e l e c e r

 

§

4 6

úni c o o b j et i v o e ra i mi ta r

a n at u reza .

Com efe it o, a n a t u r e z a

 

po

s sui nada em comum c o m o s m i la g res .

Quando ocorr e a a dmir aç ão ,

há muita s

coi sa s que não provo-

cam um reconh e cim e nt o

provocam uma r e presen t aç ã o meno s po é tica 4 2 ).

c o nfu s o (§ 43 ) ; es ta s

c o isas , portanto,

§ 50

Também podemos formular a po s teriori qu e a admiração ce s sa

quando ocorre um reconhecim e nto confuso . Im ag in e m o s algu é m

admirando algum objeto, uma máquin a d e g u e rra

exemplo; mas uma outr a pesso a, par a imp e d i r que este alguém se admire, pergunt a -lh e se n ã o v iu as m es m a s m á quinas , ou até

máquinas ainda m a i s engenho sa s , e m B e rlim ou em Dr e sd e . Esta

r e cordação, se acont e cer , provocar á de qu a lqu e r maneira p e ns ã o da admiraç ã o.

engenhosa por

a sus-

As repres e ntaç õ e s

c o nfu s a s que sur ge m d a s i m a g ina ç ões

didas e composta s s ão im ag in ações;

l o g o , s ã o po é tic as .

divi -

§ 51 _

Os obj e tos destas repr e senta ç ões

sã o ou po ss ív e is

n o mundo

exi s tente ou impossí v ei s. Pod e m os d e nomin a r e s ta s últ i mas IN- VENÇÕES e a s prim e ir as , I NV ENÇÕES VERDADEIR A S.

§ 47

A repres e nt a çã o

da s c ois a s admir á veis

é p oéti ca

e m certos

aspectos

conflito e ntre as re g r as

(§ 45) , mas em outro s

n ão o é 46 ) : d o nde re s ulta

d a exceção .

e a n e c essi d a d e

o

§ 5 2

Os obj e tos das inv e nç õe s t a nto sã o impos s ívei s

n o único mun-

do e xi s t e n te , qu a nto impo s s í v e is

Di ga mos q ue estes úl t im o s ob j etos , a bso lut a m ente

em todos os m u n dos p ossí v e i s.

i mp ossív ei s,

28

29

 

,

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são UTÓPICOS; digamos que os primeiros são HETER~CÓSMI- COSo Por conseguinte, não existe nenhuma representaçao, confu- sa ou poética, dos objetos utópicos.

§ 53

as invenções verdadeiras

e heterocósmicas

são poéticas

50,52).

§ 54

As DESCRIÇÕES são enumerações dos elementos, quaisquer que sejam, do objeto da representação. Logo, se descrever;nos o objeto de uma representação confusa, representamos um numero maior dos seus elementos do qu~ se não a desc.re;ermos. Se a convertermos em uma DESCRIÇAO CONFUSA, 1. e, se forne~er-

mos representações confusas dos elementos incluídos no ob~eto

que queremos descrever, este vai adquirir mais clarez~ extensiva;

e isto quanto mais elementos representados de mar;tel~a confusa

contiver 16). As descrições confusas, portanto, prmcIpalmen~e quando representam um número muito grande de elementos, sao

[I extremamente poéticas 17).

[I

§ 55

As descrições confusas das idéias ~en~íveis, _das imaginações

das invenções verdadeiras poéticas (§ 54).

e

e heterocósmicas

sao extremamente

1i

I

t

•• ••

Ia

Doravante temos condição de suprimir uma dúvida que p.o~e- ria preocupar aquele que pensa da seguinte n:aneira: a descnçao,

por definição, equivale a distinguir, num objeto A, o~ ele~e.nto~

B, C e D e, portanto, equivale a representar porém isso se opõe ao conceito do poema

resulta

é necessário suprimir as descrições dos

sensiveis, sendo confusas

por hipót~s~ 3); portanto,

sentação sensível A pelas representaç~es B, C: D. ou, em outras

palavras, substitui várias representaço.es .sensIveIs. Deste modo, ainda que A se torne completamente distinto - o qu.e rararr;tente

ocorre -, o poema, ao conter uma descrição,

8).

poen;as: Mas a verdade e

diferente' B C etc. são representações

A de maneira distinta; (~f. § 9) e ao que dele

a tese absurda

qUE;

a única repre-

(cf § 14); logo, disso podemos deduzir

a descrição substitui

fica mais perfeito

30

§ 56

Nas invenções heterocósmicas

há numerosos elementos que

(como podemos presumir) os espíritos de muitos leitores ou ouvin-

das suas idéias sen-

síveis, nem naquela das imaginações não inventadas, nem

naquela das suas invenções verdadeiras; vamos supor, então, que

estes elementos são admiráveis

verdadeiras contiverem numerosos elementos suscetíveis de mo-

tes nunca encontraram

nem nas seqüências

(§ 43). Portanto, se as invenções

tivar um

reconhecimento confuso, nesse caso a mesclagem do

conhecido

e do desconhecido provoca

uma representação

extrema-

mente poética (§ 48).

 

Por este motivo Horácio escreve: "Esforçar-me-ei

em inventar

o meu poema

quando quer ensinar

a partir

do que se conhece"

(Ep. ad Pis., 240) e

a arte de inventar

e de fazer conhecer:

O que fica bem e o que não; aonde leva o acerto e aonde leva o

erro; as fontes dos recursos; o que sustenta ou forma o poeta (Idem,

308, 309); e prescreve

Aquiles em cena", o que significa, segundo o § 17, que retomem

as famosas personagens épicas das lendas. "Medéia, 10, Ino, Ixião, Orestes" são exemplos que provêm de um mesmo conceito geral:

que "sigam a tradição" e que "recoloquem

o

de personagens

teatrais,

as mais sofridas.

As palavras

que

Horácio emprega em seguida são explícitas:

 

É preferível colocar em cena a Ilíada/ que apresentar

coisas

desconhecidas

e inéditas

(Idem, 129, 130).

 

Sabemos que nesta passagem

o poeta

fala da comédia,

bem

como do banquete de Tieste; mas podemos interpretar esta regra

de forma universal, uma vez que a razão que a justifica é univer-

sal, como já o demonstramos. A Ilíada,

um exemplo de invenção heterocósmica muito conhecido. Horácio denomina audácia "a invenção de uma nova personagem" (Idem,

portanto, ainda constitui

126).

§ 57

As invenções em que muitos elementos se contradizem

são

utópicas e não heterocósmicas

nada se contradiz

53).

52), pois nas invenções poéticas

"Invente coisas que se adequem",

para que possam dizer a teu

respeito o mesmo que dizem a respeito de Homero:

31

:.

De tal modo mistura verd a d e e mentira !

Que o meio não

destoa do início, nem o fim, do m e io ( Idem , 151, 152) . Nã o se de v e pedir qu e a c r e di te m numa f áb ul a , q u a l qu e r que seja o seu conteúdo,! Nem f a lar de crianças que s a em vivas do ventre de uma Cuca saciada ( Id e m, 339, 340 ) . Abomino e me d e i x a d es cr é d u l o / Qualqu e r d es criç ã o d es t e tipo ( Idem , 188). O s anciãos tamb é m cond e nam o que nã o contri b ui p a r a ed i fi- car ( Idem, 341).

§ 58

Se, para a repres e ntaç ã o po é tica de quaisquer obj eto s filosófi- cos ou universais, o bom s e n s o exige que sejam o mais possível determinados 18), c e rc a dos de exemplos 22), descritos sob o aspecto do espaço e do tempo 32), e que enumerem o s o maior número possível de outros elementos 54); então, s e a e xperiên- cia não for suficiente, serão necessárias invenções verdadeiras; e s e a narração em si n ão f or s ufi c i e ntemente ric a, p r ova v e lm e nte ser ã o necessárias invenç õe s h e t e r o cósmicas ( § 54, 57 ). P o r conse- guinte, as invenções, t a nt o a s v e rd a deira s como as h e t e r o có s mi- c a s, em certas condi ç õ e s , sã o n ecessá ria s a o p oe m a . Qu a lqu e r pes s o a qu e f o lh e ou um pouco a s o b r a s d e r e t ór ica s a be, segundo nosso p a r ec er, d o d es acordo ex i s t e n te e ntr e os poetas e os retóricos, qu a nd o se trata de sab e r se a in ve nção faz parte ou não das característic as e ss enciais do po e ma . Por isso, para resolver esta dú v ida , d e c i dimos não a pr ov a r pl e n a mente nenhum dos dois partid os, propondo-nos ant e s d e t e rminar os casos definidos em qu e o poeta n ã o pode deix a r de inventar. A experi ê ncia , portanto, en s ina n ã o s ó que é pos s í ve l in ve ntar , mas tamb é m que muitas vez e s ac a b a sendo ine v it áve l inv e nt a r. De fato somos parcelas, por m e n o r es que sejam , d a c i d a d e d e D e us ,

e por is s o temos que cit a r em n os so s p o emas p a l av r a s d es tinadas

a exaltar a virtud e e a r e l i gião; e sta obrigaç ã o se m a nt é m a tra vé s de quase todas as vici s situd es d o s tempos ( vej a -se a dissertação "Sobre o modo de propag a r a religião pelos po e mas", a pres e ntada em Helmstadt, sob a proteç ã o d e Johannes Andr e a s Schmidt); ora os conceitos que indicam d e maneira perfeita ou imp e rfeita a verdadeira perfeição do g ê n e ro humano são conceitos univ e rsais; assim, acaba sendo muito fr e qü e nte os poetas terem qu e falar de

id é ia s universais e pouco d e t e rminadas. É por ist o qu e Horácio,

3 2

antes deles, já dizia: " O s esc ri t os s ocrátic o s t e suprir ã o de exem- plos" (Ep. ad Pi s ., 310) .

A pr im e ir a h ip ó t ese , po rt a n to , é p os s í v e l , m a s t a mb é m S8 ver á

a possibilidade da s egund a , o que se v erifica, p e nsando-se que o poeta escreve par a tod os o u p e l o m e n os para p essoas que desco-

nh e ce , das quai s n ão p o d e c onhece r a e x p e r iê n ci a . N e st e caso, se

im a ginar coisas que não inve n to u , m as qu e o l ei t o r ou o ou v inte nunca experimen to u , o pú b li c o ir á con s id e rar essas im a ginações c o mo invenções v erd a d ei r a s ( § 51 ) . De s ta f o rm a, a hi s t ó ria mais r e cente, à qual se r e l ac i o n a ge r a lmente um c o nh ec im e nto muito d e terminado, quas e s e mpr e c a u s a prejuí z o ao po e ta: com efeito, ela contém os p e ri gos d a li son ja e da zomb a ri a o u, p e l o menos,

mal permite, ou n e m m es mo p e rmite, qu e se e v ite a r e pro v ação. Ao contrário, a uma hi s t ó ri a anti g a nunc a se asso ci a um conheci-

mento suficientement e d e t e rminado para s a ti s f a z e r à s e xigências do estilo poético (como j á o d e monstramos); port a nto, o conteúdo das suas narrações n e ce ssi ta de uma determin ação m a ior. Ora e stas determinações, qu e d e v e m ser acrescentad a s ao po e ma, mas que a história omite, só p o d e m ser conhecida s s e conhecermos'

cl a r a mente todo s os r e qu i sitos n ec essário s pa r a qu e s e j a m v e rda-

d e iras; tal conhecim e nt o, p oré m , não faz p a rte d o d o mínio do e nt e ndimento finito . D este m odo, se mpr e adi vi nh amos e s tas de- t e rminações a p a rtir d e r azõ e s p o u c o n um e r osas e mu i to insufi- ci e ntes; neste cas o, a ve r a cid a d e d es ta s d e t e rmin ações t o rna-se muito imprová ve l ; o qu e s i g n i fi ca qu e provave l ment e n ão ex i s tem ou então que fa ze m p a r te d as i n ven çõ es h e t e r ocós mi cas.

§ 59

Perc e bemo s qu e as co i sa s pro váveis a contece m c o m mais fr e qü ê ncia que as c o i sas im p r ováv eis; l o g o, o p oe m a qu e in v enta fatos prováveis r e p resenta as coi sa s de m o d o m a is p oé tico que aqu e le que in v en t a f a t o s i m pr ováve i s 5 6) . Por maior qu e se j a o dom í nio das in ve n ções a c ei t áve is, est e seu território a c a d a di a m a i s s e r e du z, à m e did a que o domínio da sã razão se ampli a . M a l p o deríamos di z er qu a ntas vezes os mais sábios poetas do p assa do ( em oposição ao § 57 ) misturaram às suas obras invenç õe s ut ó picas, tal como o s d e u se s a dúlteros, etc. Começamos pouc o a pouco a rir disso, mas ago r a pr e cisamos, quando inventamos, evit a r não só as contradições e videntes, mas t a mbém a falta de r azões e xplic a tivas, assim c o mo a irracionali- d a d e dos efeitos, c omo o po e t a t a ntas veze s o d ec l ara :

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Se quiser que a platéia

até o ator pedir próprio a cada

espere, sentada,

pela queda do pano,!

"aplaudi"/ Cumpre observar o comportamento

época da v ida (HOR. Ep . ad . Pis . , 154-15~) .

Com efeito

um comportamento

sensato torna uma açao ou um

.,

discurso deter~ünados

que aconteça o contrário:

de uma maneira específica. Vamos supor

Os Romanos, sejam cavalheiros ou plebeus, rirão às gargalha-

das, C ) e mesmo que a representação agrade aos comp~a.d~res de

sem

prerrno (Idem. 113 e 249, 250) .

Podemos nos perguntar: por quê? Basta reler o parágrafo. Não

que não te~~a fundam~~tos afirmar ~ue

inquietação

grãos de bico torrados

e de ~oz~s,/ ne , m por isso o admItIrao

e lhe darão o primeiro

negamos propriamente

que sejam

introduzidos atos imprevisíveis no poema, mas simplesmente

perguntamos

mento inesperado tem um motivo qu e ,. todavia, não se conhe~la

antes. A representação

elementos admiráveis (§ 53); logo, poéticos (§ 54, 55). No entanto,

aconte~l-

"da colher à boca se perde a sopa

e não proibimos

no.s

o que vem a ser mais poético. Qualquer

de tal acontecIm e nto, portanto, contem

se no decurso da narração o motivo do f a to não vem à luz, o

Ia

t

conhecido mistura-se ao desconhe c i do , e a r e pr es en t aç ã o

tecimento inesperado torna-se mai s po é tica ( § 58 ) .

d o ac o n-

§ 60

A DIVINAÇÃO ( divinatio ) é a rep re s ~ ntaç ã o

do ~u.turo~ a s,:a

t designação com p a lavras é a PREDIÇAO; se a divinaç ã o nao provém do claro conhecimepto da rela~ão en.tre o futur~ ~ o que o determina temos o PRESSAGIO; a des i gnação do pressagio enun-

,

t

f

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" , ,,

•e•.

ciado em palavras é o VATICÍNIO .

§ 61

O futuro é o que será; pode, p o is, s e r absolutamente

determi- (§ 60 ) ,

nado. As representações

são singulares; logo, são sumamente poéticas

do futuro, qu e r dizer , as predições

(§ 19) .

§ 62

Se a relação

entre

o fato a prever

e o que o determina .

for

indicada de tal modo que se j a c lar a m en t e

ou pelo leitor, está d e mon s tr a d o

p e rcebida p e lo ouvmte