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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS CENTRO DE ESTUDOS E APERFEIÇOAMENTO FUNCIONAL

ISSN: 1809-8487

DE JURE

Número 10

REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS

Janeiro/Junho de 2008

CIRCULAÇÃO NACIONAL

De Jure - Revista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais / Ministério Público do Estado de Minas Gerais.

n. 10 (jan./jun. 2008). Belo Horizonte: Ministério Público do Estado de Minas Gerais, 2008.

v.

Semestral.

ISSN: 1809-8487 Continuação de : Revista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais. O novo título mantém a seqüência numérica do título anterior. 1. Direito – Periódicos. I. Minas Gerais. Ministério Público.

CDU. 34

CDD. 342

MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS CENTRO DE ESTUDOS E APERFEIÇOAMENTO FUNCIONAL

ISSN: 1809-8487

DE JURE

Número 10

REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS

Janeiro/Junho de 2008

SEMESTRAL

De Jure

Belo Horizonte

n. 10

jan./jun. 2008

DE JURE - Número 10

REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS

PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA Procurador de Justiça Jarbas Soares Júnior

DIRETOR DO CENTRO DE ESTUDOS E APERFEIÇOAMENTO FUNCIONAL Promotor de Justiça Gregório Assagra de Almeida

ASSESSORA DO CENTRO DE ESTUDOS E APERFEIÇOAMENTO FUNCIONAL Promotora de Célia Beatriz Gomes Santos

SUPERINTENDÊNCIA DE FORMAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO Fernando Soares Miranda

DIRETORIA DE PRODUÇÃO EDITORIAL Alessandra de Souza Santos

CONSELHO EDITORIAL

CONSELHEIROS

Procurador de Justiça João Cancio de Mello Junior Promotor de Justiça Adilson de Oliveira Nascimento Promotor de Justiça Carlos Alberto da Silveira Isoldi Filho Promotor de Justiça Cleverson Raymundo Sbarzi Guedes Promotor de Justiça Lélio Braga Calhau Promotor de Justiça Marcelo Cunha de Araújo Promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda Promotor de Justiça Renato Franco de Almeida

CONSELHEIROS

CONVIDADOS

Prof. Michael Seigel (University of Florida, USA) Prof. Joaquín Herrera Flores (Universidad Pablo de Olavide, Espanha) Prof. Eduardo Ferrer Mac-Gregor (Universidad Nacional Autônoma de México, México) Prof. Antônio Gidi (Houston University, USA) Prof. Nelson Nery Junior (USP) Profª. Miracy Barbosa de Sousa Gustin (UFMG) Prof. Rosemiro Pereira Leal (PUC/MG) Prof. Nilo Batista (UERJ) Prof. Juarez Estevam Xavier Tavares (Sub-Procurador-Geral da República, UERJ) Prof. Aziz Tuffi Saliba (Fundação Universidade de Itaúna) Profª. Maria Garcia (PUC/SP) Promotor de Justiça Robson Renault Godinho (Estado do Rio de Janeiro) Promotor de Justiça Emerson Garcia (Estado do Rio de Janeiro)

EDITORAÇÃO

Alessandra de Souza Santos Fernando Soares Miranda Luciano José Alvarenga

REVISÃO

Alessandra de Souza Santos Dalvanôra Noronha Silva Daniela Paula Alves Pena Beatriz Garcia Pinto Coelho (estágio supervisionado)

CAPA

Alex Lanza (FOTO DA CAPA) Bernardo José Gomes Silveira (ARTE)

Foto capa: escultura barroca em pedra-sabão representando a Justiça, cuja autoria é atribuída ao português Antônio José da Silva Guimarães e datada como anterior a 1840. Faz parte da obra que representa as quatro virtudes cardeais – Prudência, Justiça, Temperança e Fortaleza – que se encontram na antiga Câmara e Cadeia de Vila Rica, atual Museu da Inconfidência de Ouro Preto.

A responsabilidade dos trabalhos publicados é exclusivamente de seus autores.

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Av. Álvares Cabral, 1740, 1º andar, Santo Agostinho, Belo Horizonte, MG, cep. 30.170-001

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dejure@mp.mg.gov.br

DE JURE - REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS

Sumário

Prefácio

12

APreSeNtAção

13

Seção i – ASSuNtoS GerAiS

14

1.

DoutriNA iNterNAcioNAL

14

1.1

La ilusión del acuerdo absoluto: la riqueza humana como criterio de valor - JOAQUÍN HERRERA FLORES

14

2.

DoutriNA NAcioNAL

41

2.1 O direito na perspectiva dos autores da sociologia clássica:

Durkheim, Weber e Marx - DIVA BRAGA; LUCIANO BRAGA LEMOS; RODRIGO BRAGA LEMOS;

 

RAFAELA PAOLIELLO SOSSAI E LEMOS

41

2.2 Princípio da separação dos poderes: os órgãos jurisdicionais e a concreção dos direitos sociais - EMERSON GARCIA

50

2.3 Hermenêutica do Tribunal de Nuremberg - ANDRÉ GONÇALVES GODINHO FRÓES

89

2.4 Aspectos sobre a intencionalidade do direito a partir de uma aproximação às regras dos jogos de linguagem de Wittgenstein - ISAAC SABBÁ GUIMARÃES

109

2.5 Aprovação e obrigatoriedade por tratados, no direito internacional e no direito brasileiro: um resumo - ALEXANDRE SCIGLIANO VALERIO

137

3.

PALeStrA

157

3.1

Vinte Anos da Constituição sob a Ótica do Neoconstitucionalismo - LUÍS ROBERTO BARROSO

157

4.

DiáLoGo muLtiDiSciPLiNAr

172

DE JURE - REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS

4.1 Implicações jurídicas da globalização econômica - CARLOS ALBERTO DA SILVEIRA ISOLDI FILHO 172

4.2 A volta do discurso dos suplícios em um País ávido por vingança:

os casos João Hélio e Isabella Nardoni – MARCELO CUNHA DE ARAÚJO

190

4.3 Atos de fala, atos indiretos e a arte de dizer não dizendo - IVONE RIBEIRO SILVA 202

Seção ii - Direito PeNAL e ProceSSuAL PeNAL

212

SubSeção i - Direito PeNAL

212

1.

ArtiGoS

212

1.1

Ainda e sempre o nexo causal - HÉLVIO SIMÕES VIDAL

212

2. JuriSPruDÊNciA 240

3. comeNtárioS À JuriSPruDÊNciA

241

3.1

Comentários a acórdão do Superior Tribunal de Justiça: da receptação qualificada - ADRIANO DE PÁDUA NAKASHIMA

241

SubSeção ii – Direito ProceSSuAL PeNAL

247

1.

ArtiGoS

247

1.1 A delação premiada - PEDRO HENRIQUE CARNEIRO DA FONSECA

247

1.2 Brevíssimas considerações sobre a possibilidade de cumulação da remissão pré-processual com medida socioeducativa - LEONARDO BARRETO MOREIRA ALVES

267

2. JuriSPruDÊNciA

281

3. comeNtárioS À JuriSPruDÊNciA

282

3.1

Questões pontuais sobre Execução Penal - ÉRIKA DE LAET GOULART MATOSINHO

282

DE JURE - REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS

4.tÉcNicAS

287

4.1

Apelação criminal -

JOSÉ FERNANDO MARREIROS SARABANDO

287

Seção iii – Direito ciViL e ProceSSuAL ciViL

292

SubSeção i – Direito ciViL

292

1.

ArtiGoS

292

1.1 Família homoafetiva - MARIA BERENICE DIAS 292

1.2 O Ministério Público nas ações de separação e divórcio - LEONARDO BARRETO MOREIRA ALVES

315

2. JuriSPruDÊNciA

330

3. comeNtárioS À JuriSPruDÊNciA

331

3.1

Função socioecológica do imóvel rural: um estudo sobre a inconsistência da dicotomia entre as exigências de averbação e conservação da reserva florestal legal e o direito de propriedade - LUCIANO JOSÉ ALVARENGA

331

SubSeção ii – Direito ProceSSuAL ciViL

338

1.

ArtiGoS

338

1.1

As tendências atuais na circulação internacional de sentenças e o Brasil - MARCELA HARUMI TAKAHASHI PEREIRA

338

2. JuriSPruDÊNciA

368

3. comeNtárioS À JuriSPruDÊNciA

369

3.1

Direito fundamental à filiação e a negatória de paternidade - SANDRA MARIA DA SILVA

369

4.tÉcNicAS

380

DE JURE - REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS

4.1

Ação de busca e apreensão - MARCOS PEREIRA ANJO COUTINHO

380

Seção iV – Direito coLetiVo e ProceSSuAL coLetiVo

386

SubSeção i – Direito coLetiVo

386

1.

ArtiGoS

386

1.1

A contratação de profissionais para o Programa Saúde da Família - NIDIANE MORAES SILVANO DE ANDRADE

386

2. JuriSPruDÊNciA

404

3. comeNtárioS À JuriSPruDÊNciA

405

3.1

Ensaio sobre a efetividade do instituto da compensação ecológica - LILIAN FERNANDES MALLOY DINIZ

405

SubSeção ii – Direito ProceSSuAL coLetiVo

420

1.

ArtiGoS

420

1.1

A sistematização legal das categorias de Direito Coletivo - ADIRSON ANTÔNIO GLÓRIO DE RAMOS; TÚLIO TEIXEIRA CAMPOS

420

2. JuriSPruDÊNciA

434

3. comeNtárioS À JuriSPruDÊNciA

436

3.1

Comentários à jurisprudência de natureza processual coletiva, oriunda do e. TJ/MG - MARCUS PAULO QUEIROZ MACÊDO

436

4.tÉcNicAS

448

4.1

Registro do nascimento de Tiradentes - ADALBERTO DE PAULA CHRISTO LEITE

448

Seção V – Direito PÚbLico

464

SubSeção i – Direito PÚbLico coNStitucioNAL

464

DE JURE - REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS

1.

ArtiGoS

464

1.1

A necessidade de alteração do quorum exigido para formalização do projeto popular de lei - MARCELO DUMONT PIRES

464

2. JuriSPruDÊNciA

473

3. comeNtárioS À JuriSPruDÊNciA

475

3.1

O desvirtuamento do dever de dar publicidade de atos administrativos, configurando situações de improbidade e desperdício de recursos financeiros do Estado - PETERSON BARBOSA DE OLIVEIRA

475

4.tÉcNicAS

480

4.1

Recurso Extraordinário - ELAINE MARTINS PARISE; RENATO FRANCO DE ALMEIDA

480

SubSeção ii – Direito iNStitucioNAL

505

1.

ArtiGoS

505

1.1

Os crimes de colarinho branco e as teorias da pena - CHRISTIANO LEONARDO GONZAGA GOMES

505

2. JuriSPruDÊNciA

522

3. comeNtárioS À JuriSPruDÊNciA

524

3.1

Vedação Apriorística de Liberdade Provisória no Sistema Jurídico Brasileiro: uma Breve Análise do Tema na Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal - LUCAS DANILO VAZ COSTA JÚNIOR; SAMUEL ALVARENGA GONÇALVES

524

4.tÉcNicAS

533

4.1

Apelação Criminal - JOSÉ FERNANDO MARREIROS SARABANDO

533

DE JURE - REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS

SubSeção iii – Direito PÚbLico ADmiNiStrAtiVo

542

1.

ArtiGoS

542

1.1

Duração dos contratos administrativos de execução continuada - FABRÍCIO SIMÃO DA CUNHA ARAÚJO

542

2. JuriSPruDÊNciA

552

3. comeNtárioS À JuriSPruDÊNciA

553

3.1

A efetividade do processo de execução por quantia certa contra a Fazenda Pública e o dever do Presidente do Tribunal em expedir ordens de pagamento de precatórios – análise crítica da súmula 311 do STJ - MAÍRA CARVALHO LUZ

553

4.tÉcNicAS

561

4.1

Parecer do Ministério Público - ALCEU JOSÉ TORRES MARQUES; MARCO PAULO CARDOSO STARLING

561

Seção Vi – iNformAçõeS VAriADAS

572

1.

Normas de Publicação da Revista Jurídica De Jure

572

DE JURE - REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS

Prefácio

É com imensa satisfação que atingimos o número 10 da nossa Revista De Jure – Revista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais. É com grande orgulho que afirmo que nossa responsabilidade aumenta a cada número editado, pois a Revista De Jure tem-se tornado uma publicação esperada pela comunidade jurídica, dada a sua concepção inovadora e pluralista! Aumenta proporcionalmente também a dedicação de todos aqueles que com ela trabalham.

A Revista De Jure é, certamente, importante ferramenta de divulgação dos ideais de estabelecimento de justiça e de defesa do corpo social. O Ministério Público de hoje não é somente aquele da práxis jurídica combativa e incansável dos membros dos Ministérios Públicos estaduais, do Ministério Público federal e dos Ministérios Públicos Militar e do Trabalho. Cada vez mais, os membros do Ministério Público têm levado seus “bons combates” para o campo científico do Direito, com teses, monografias, dissertações, artigos científicos e livros, conscientes da necessidade do constante aprimoramento da Ciência Jurídica. De fato, a permanente reflexão crítica sobre os direitos e garantias tutelados pela instituição é uma condição imposta pelo ritmo acelerado em que se processam alterações na sociedade e no próprio Direito.

Que a Revista De Jure possa, de fato, servir como relevante instrumento de aperfeiçoamento funcional dos membros do Ministério Público e que, com ela, possamos tornar os direitos e interesses tutelados pelo Parquet cada vez mais efetivos!

GREGÓRIO ASSAGRA DE ALMEIDA Diretor do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional do Ministério Público Promotor de Justiça

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APreSeNtAção

“Navegar é preciso”, escreveu Fernando Pessoa. Que as navegações sejam necessárias, para interligarem povos e culturas, ninguém ousa negar. Mas há ainda outro sentido

a ciência

da navegação é saber preciso”. Os barcos se fazem com ciência. O conhecimento científico, com efeito, ajuda-nos a navegar no mar da vida. Os instrumentos científicos têm evoluído rapidamente. Dia a dia, lemos nos jornais notícias sobre novos avanços tecnológicos nas áreas de telecomunicações, na

nas palavras do poeta. Como escreveu Rubem Alves, sábio mineiro, “[

]

informática, nas engenharias, na física, na genética, no direito e em muitos outros ramos do saber. Nesse sentido, a navegação tem se tornado cada vez mais precisa;

] nossa

civilização é como uma galera que navega pelos mares. Nos porões estão os remadores. Remam com precisão cada vez maior. A cada novo dia recebem remos novos, mais perfeitos. O ritmo das remadas se acelera. Sabem tudo sobre a ciência do remar.

A galera navega cada vez mais rápido. Mas, perguntados sobre o porto de destino,

respondem os remadores: ‘O porto não nos importa. O que importa é a velocidade com que navegamos’”.

A ciência torna nossas viagens precisas e velozes, é verdade. Não é ela, todavia,

que lhes dá sentido e significado. Os barcos se fazem com ciência, mas os rumos da navegação se fazem com objetivos. E os objetivos do Ministério Público brasileiro

encontram-se fixados na Constituição da República (1988): defesa da ordem jurídica,

do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.

Com muita alegria, a Procuradoria-Geral de Justiça, por intermédio do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional, publica mais um número da revista De Jure,

periódico que tem aliado precisão técnico-científica – por seus artigos, comentários

à jurisprudência, peças processuais, etc. – ao sentido constitucional de atuação do

Parquet. Que mais esta edição da De Jure possa contribuir, pois, para o aprimoramento funcional dos membros e servidores do Ministério Público e, por conseguinte, para a realização dos nobres objetivos da Instituição!

e o barco, viajado cada vez mais rápido

Na metáfora de Wright Mills: “[

Jarbas Soares Júnior Procurador-Geral de Justiça

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Seção i – ASSuNtoS GerAiS

1. DoutriNA iNterNAcioNAL

1.1 LA iLuSiÓN DeL AcuerDo AbSoLuto: LA riQueZA HumANA como criterio De VALor

JOAQUÍN HERRERA FLORES Coordenador do curso de Mestrado e Doutorado da Universidad Pablo de Olavide, Espanha

reSumo 1 : O texto parte de reflexões do autor fundadas em selecionados estudos literários, de ciências políticas, e sociológicos, em que a natureza humana é

apresentada sob suas próprias contradições e reflexos no espaço social. As pulsões humanas, berço biológico de nossa essência, de natureza contraditória, refletem no ambiente coletivo para causar o que Freud chamou de mau-estar da civilização

e justificar tanto os horrores como as virtudes que compõem a sociedade humana.

Essa essência individual passa por um processo de desenvolvimento e transformação, irradiando o coletivo existente e se dá através do processo de criação da cultura – cuja base está na religião, na mitologia e na filosofia. Os ideais universais – igualdade e dignidade são exemplos– são objetos de lutas, justificando em seu nome massacres e mártires. Os direitos humanos compõem esses valores. Todavia, são utilizados de maneira distorcida pelo poder político/econômico exatamente para dar-lhe sustentação

cultural. Com uma visão própria dos direitos, apropriam-se os detentores do poder de bens e valores aos quais atribuem a força da verdade para impor tais valores como os únicos e possíveis para as sociedades. Compõem uma gama de atributos que

formam a ideologia que se faz global, manifestada pela força do liberalismo ocidental que não permite qualquer outra compreensão senão aquelas que compõem seu viés valorativo, relegando à marginalidade todas as formas de cultura e pensamento que não falam segundo seu idioma econômico, político e cultural. Os direitos dos homens quedam-se maniatados pelo capital, assim como a razão científica vive para fazer-lhe préstimos. Fazem parte da concretude, daquilo que se pode materializar em razão da ideologia predominante, enquanto outras formas de pensar, por não fazerem coro com

a ideologia dominante, ficam apenas no campo da subjetividade, o mesmo da arte, da

poesia, da filosofia. Perguntas são feitas acerca das possibilidades da superação da unicidade da compreensão dos direitos e valores humanos. O que mais se aproxima

1 Nota do aluno Jacson Rafael Campomizzi: O capítulo apresentado por Joaquin Herrera Flores é de excepcional qualidade humanística e creio que esta percepção deve ser de todas as pessoas que possuam alguma capacidade de acreditar em melhorias das condições sociais dos povos. O escrito não comporta um resumo, que certamente compromete o conteúdo. Interpretações ou críticas igualmente, longe o aluno de atingir conhecimentos para tal. Mas como se trata de método de estudo, vamos intentá-lo.

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da compreensão dos fenômenos humanos é a obra de arte. Por isso a grande obra de arte pode fornecer os processos de superação do universalismo de qualquer razão. Quatro grandes obras foram eleitas pelo Prof. Herrera Flores (Russeau, La Nouvelle Heloise, Dostoiesvski, Los Hermanos Karamazov, Musil, El Hombre sin atributos e Berg, Wozzeck) em meio a outras grandes, para dar sustentação, respectivamente, à impossibilidade de um acordo universal em torno de uma determinada verdade; ao interlúdio, ou a busca de um ‘paraíso perdido’, a demonstração das ilusões e mentiras que cercam e determinam a vida de todos; ao acordo possível, no qual demonstra a força realizadora que é possível de ser extraída do caldo cultural humano (a riqueza humana), ou o encontro de reflexões, em meio ao caos, que possam levar à vida, à ação e à luta pela dignidade. Três tarefas são igualmente eleitas, pelas quais se nota o esforço na direção das transformações libertadoras: I) a - Ocupar espaços no alegal (espaço fora do legal ou do ilegal), tradicionalmente esquecidos pelo liberalismo político; b - gestar transformações culturais críticas; c - potencializar o protagonismo popular da cidadania. II) a – retomar os espaços ontológicos de potencial modificativo, ou seja, retomar a memória das razões primárias de rebeldia ou dizer à sociedade que só ela tem o poder transformador; b – fazer visualizar o potencial sociológico, ou dizer da multiplicidade de opções de formas de vida a contrapor a hegemonia cultural liberal; c – emergir o potencial ético que permite a invenção de hipóteses e novas formas de relação social, a fim de se evitar que somente as elites decidam sobre o presente e o futuro das pessoas. III) Recuperar a consciência dos limites humanos como primeiro passo para poder pensar a possibilidade e a necessidade de mudança. Ou seja, conhecer os limites é a única forma de superá-los. A idéia principal poderia estar concentrada na seguinte afirmação: “A democracia deve consistir em um processo de construção de um ‘espaço público para apoderar-se 2 ’, d’onde possam ocorrer uma variedade de tipos de experiências e d’onde prime a mutabilidade e as possibilidades de mudança e transformação”. Crítica: A análise do universo cultural humano é perfeita. A crítica ao universalismo cultural reducionista é corajosa e necessária. Há propostas em direção à conquista de espaços de dignidade. O processo (práxis), por sua própria dificuldade, pode ser resumido na tomada pessoal e institucional de uma postura amplamente crítica. Para reflexão: A conscientização dos marginais rebeldes do Rio e São Paulo (Brasil) para que a rebeldia, depois de filtrada, produza efetivamente novos espaços sociais. O direito tem por função interpor barreiras a determinadas pulsões humanas que impedem a dignidade. O que se chama por ‘imputação’ de necessidades básicas humanas, palavra colocada ao lado da ‘satisfação’ de necessidades? Tento responder:

As necessidades humanas transformam-se dependendo da cultura que as elege.

Que yo sepa, nadie está usando los elementos del aire que dan dirección y movimiento a nuestras vidas. Sólo los

2 Empoderamento, no original espanhol.

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asesinos parecen extraer de la vida, en grado satisfactorio lo que le aportan. La época exige violencia, pero sólo estamos obteniendo explosiones abortivas. Las revoluciones quedan sesgadas en flor, o bien triunfan demasiado deprisa. La pasión se consume rápidamente. Los hombres recurren a las ideas comme d´habitude. No se propone nada que pueda durar más de veinticuatro horas. Estamos viviendo un millón de vidas en el espacio de una generación. Obtenemos más del estudio de la entomología, o de la vida en las profundidades marinas, o de la actividad celular. (Henry Miller, Trópico de Cáncer, 1986,

18-19)

La imposibilidad de realizar la bondad sobre la tierra, no es sino la imposibilidad con que tropieza un pobre loco para realizarla. Todas las puertas quedan abiertas. (Luis Martín Santos, Tiempo de silencio, 1983, 76).

Como se habían vuelto criminales, inventaron la justicia y redactaron códigos para encerrarla en ellos. (F. M. Dostoyevski, Sueño de un hombre ridículo, O. C., III, 1240).

En su juventud, Marx escribió: “toda la historia es la historia de la preparación y desarrollo del ser humano como objeto de la conciencia material y de la necesidad del ser humano como ser humano”. Los derechos humanos han constituido la formulación más general de esa necesidad. Han sido vistos como la exigencia normativa más abstracta y universal de la exigencia humana por encontrarse a sí misma en la lucha histórica por la dignidad. Sin embargo, esa generalidad y esa pretensión de registrar las características básicas de la humanidad han conducido en muchas ocasiones a idealizaciones y fundamentaciones trascendentes de los mismos. La más abstracta es la que afirma que los seres humanos tienen derechos por el mismo hecho de haber nacido; derechos que les pertenecen más allá de su propia inserción en contextos particulares. Derechos, pues, que están situados en el vacío de una naturaleza humana desvinculada de las situaciones, los espacios y la cultura donde desarrollamos nuestra lucha por una vida digna de ser vivida. Al presentarse como postulados generalizables a toda la humanidad, los derechos humanos han sido el campo de batalla donde los intereses de poder se han enfrentado unos a otros para lograr institucionalizar “universalmente” sus puntos de vista sobre los medios y los fines a conseguir. Por ello, toda clase social en ascenso formula sus pretensiones en nombre de la humanidad; toda ideología hegemónica pretende justificar los intereses que le subyacen bajo la forma de lo universal; y toda cultura dominante exige la aceptación general de “sus” presupuestos básicos.

Acudir al concepto de lo que es común a lo humano constituye una tendencia histórica

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de largo alcance por la que múltiples pueblos y distintas formaciones sociales han

intentado formalizar sus pretensiones más genéricas. Es posible ir rastreándola en multitud de documentos, inscripciones y monumentos de índole religiosa, filosófica

o mitológica. Este hecho nos va mostrando cómo “lo humano” se va construyendo

como un proceso de liberación de cadenas biológicas o naturales que nos atan a los instintos. De ahí el “malestar” profundo de toda estructura cultural ya denunciado por Freud. Pero, paralelamente, también nos muestra que toda justificación ideológica con pretensiones de universalidad pretende relacionarnos con realidades trascendentes a nuestra finitud e insignificancia 3 .

Bajo esa apelación se han cometido los mayores horrores 4 y se han construido los ideales más hermosos 5 . Se ha justificado la conquista, dominación y genocidio de

pueblos enteros, y, al mismo tiempo, se ha luchado por la igualdad de todos los seres humanos o se han erigido monumentos a la tolerancia, tanto en Occidente como en

el resto de culturas que conviven en este mundo. Por poner un ejemplo: ¿De qué se

defendían los hombres y mujeres a punto de ser fusilados por los soldados franceses

y pintados por Goya? Atacando ideales universalistas de la Ilustración francesa, los

“rebeldes” se dejaban matar por ideales, asimismo, universalistas de la tradición antiilustrada española 6 . Al mismo tiempo, los soldados del ejército de la libertad los asesinaban en nombre de los ideales más universales surgidos de la Revolución ilustrada. Siendo dos particularismos, se llegaba a la violencia en tanto que se presentaban como ideales universales que todos debían aceptar. Lo humano abstracto contra lo humano abstracto; triunfo y miseria de ideales enfrentados a realidades sociales o formaciones culturales asimismo preñadas de afanes universalistas. El siglo de las luces de Carpentier 7 ; Los versos satánicos de Rushdie 8 ; Las cruzadas vistas por

3 Véase los enormes esfuerzos para integrar en el corpus normativo de los derechos a los “derechos económicos, sociales y culturales”, los cuales serían la verdadera plataforma para evitar cualquier tipo de fundamentación trascendental que vaya más allá de nuestros cuerpos y necesidades: http://www.aaj.org.br/ STNprot2005-esp.htm; (28 de mayo de 2007).

4 Obsérvese la magnitud del trabajo esclavo (o en términos de la OIT, trabajo forzoso) en el mundo actual en: http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/specials/newsid_4537000/4537169.stm; (28 de mayo de 2007).

5 Consúltese el fascinante trabajo de búsqueda de convergencias sociales y planteamiento de alternativas propuestos por el Foro Mundial de las Alternativas: http://www.forumdesalternatives.org/; (28 de mayo de 2007).

6 http://www.xtec.es/~fchorda/goya/dosincc.htm; (28 de mayo de 2007).

7 Véase una interpretación de la novela de Carpentier desde la problemática de su país natal: http://www. habanaradio.cu/modules/mysections/singlefile.php?lid=1801; (28 de mayo de 2007).

8 http://www.monografias.com/trabajos7/versa/versa.shtml; (28 de mayo de 2007).

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los árabes de Maaluf 9 ; las “instantáneas” de Salgado 10 ; y tantas otras obras inmortales, nos recuerdan que las referencias a lo humano universal es un tema recurrente a lo largo de la historia y que ha justificado tanto el mayor horror como la más profunda de las bellezas. La referencia a lo humano universal es tan dúctil, ambigua y polivalente que la podemos hallar tanto en la selva lacandona como en los despachos del Banco Mundial.

Lo que interesa resaltar aquí es cómo los derechos humanos han servido para “ajustar”

la realidad en función de intereses generales de poder de la clase social, la ideología

y la cultura dominantes. Y cómo bajo esa pretensión de definir “lo humano” se ha ido consolidando la necesidad ideológica de abstraer los derechos de las realidades concretas. La “racionalidad” no era más que lo que se ajustaba a esa formulación abstracta, ideológica y pragmáticamente separada de los contextos. Al ser la visión

occidental-liberal de los derechos la que se presenta globalmente como la universal, cualquier desviación de la misma es vista como una violación sangrante de esa ética

y esa justicia universales. Esta visión se presenta, pues, como la ideología global de

los derechos humanos: no como una perspectiva parcial de los mismos que deba ser contrastada con otras formas culturales no hegemónicas. Al final el universalismo del Banco Mundial triunfa sobre el de los zapatistas.

Un particular: -la cultura occidental— vence y se autonombra lo universal, relegando

las otras culturas al campo de la barbarie o de la inmadurez. O todas las culturas y formas de vida aprenden a hablar según el idioma universal de la concepción occidental de los derechos (el universalismo a priori), o tendrán dificultades para ver garantizadas sus propias opciones, sean de índole económica, política o cultural (el empobrecimiento y

la marginación). La fuerza de las armas o de las cuotas de mercado impone un criterio

que determina si una cultura cumple o no con los requisitos de adecuación al orden

hegemónico. Todas estas constataciones nos llevan a las siguientes preguntas: ¿existe algún criterio que nos permita apelar a lo humano sin caer en esas abstracciones ideológicas? ¿Ese camino del ser humano al ser humano dependerá sólo de la fuerza

y del poder hegemónicos, o los débiles, los excluidos o los olvidados por ese orden

dominante tienen algo que proponer? afirmar que toda construcción universalista se compone de ficciones sin más objetividad que la que le otorga la hegemonía cultural ¿impide buscar un criterio que nos permita juzgar si tal o cual teoría o práctica social suponen un progreso o un retroceso axiológico?

En nuestra búsqueda partimos de la siguiente hipótesis: la existencia de un criterio de

9 Véase un resumen del libro de Maalouf en: http://www.hislibris.com/?p=131 (consultada el 2 de octubre de 2007) y algunos comentarios en: http://www.ciao.es/Las_cruzadas_vistas_por_los_arabes_Amin_

Maalouf

10 http://www.patriagrande.net/brasil/sebastiao.salgado/; (28 de mayo de 2007).

142386;

(28 de mayo de 2007).

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enjuiciamiento lo suficientemente amplio como para permitirnos afirmar o negar la generalidad de un derecho, de una teoría o de una práctica social; y lo suficientemente concreto que repudie cualquier trascendencia que se sitúe más allá de lo que somos y en dónde estamos.

Para esta tarea vamos a acudir al arte 11 . La obra artística es un ejemplo de que hacen falta dos libertades para construir un conocimiento adecuado de la realidad. La razón científica sólo reconoce una libertad: la del grupo de especialistas que manejan los instrumentos cognitivos y materiales necesarios para acercarse al resultado de la investigación. En el arte siempre hay que contar con dos libertades: la del autor y la del receptor, y ambos no pueden separarse del contexto general sobre el que se sitúa la obra.

La razón científica se presenta como objetiva, racional y universal, siempre potencialmente aplicable a cualquier contexto y cualquier forma cultural, relegando al arte a lo subjetivo, lo emocional/pasional y lo particular, es decir, a lo no generalizable más allá del trasfondo cultural sobre el que se ha realizado. La imagen de lo científico es la flecha; mientras que la de lo artístico es la espiral, ascendente y descendente, vertical y horizontal, como la escalera de caracol que conducía al escritorio donde se inventó la forma ensayística por parte de Montaigne 12 , o como los dibujos “imposibles” de Escher 13 . La razón científica busca un punto final, la verdad, el resultado. El arte, como defendió Freud en su artículo “Análisis terminable e interminable” (1937) 14 , se somete a la continua y fluida interpretación siempre renovada; es comprensión de las relaciones, de los procesos.

¿Existe una sola verdad, o como afirma críticamehte Joseph Raz 15 , un conjunto de “valores verdaderos” a los cuales sólo podremos llegar por un único camino? ¿Ayudaría esto en algo a Lord Jim de Conrad, como arquetipo de aquellos que huyen de sí mismos y de su responsabilidad? ¿Qué es la verdad, o cuáles son los valores verdaderos de aquellos campesinos dibujados por Scorza en Redoble por Rancas? ¿la de los teóricos modernizadores de la globalización que se van apoderando de todo lo que encuentran en su camino creando escasez y pobreza, o la narración de

11 http://www.criticarte.com/Page/file/art2005/RedefinirPoliticoArte.html; (28 de mayo de 2007).

12 Véanse algunos momentos de los “ensayos” de Montaigne en: http://www.enfocarte.com/1.12/filosofia. html (consultada el 2 de octubre de 2007).

13 http://aixa.ugr.es/escher/table.html; (28 de mayo de 2007).

14 Puede descargarse libremente el texto de Freud en: http://www.planetalibro.com.ar/ebooks/eam/ebook_ view.php?ebooks_books_id=17 (consultada el 2 de octubre de 2007.

15 Sobre el autor, puede consultarse: http://josephnraz.googlepages.com/recentpublications2 (consultada el 2 de octubre de 2007. Sobre su análisis de los valores puede leerse su obra The Practice of Value, Oxford University Press, 2003.

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un “cerco” que los va ahogando y encerrando cada vez más en su incomprensión de lo que ocurre? ¿No es posible tender un puente entre el saber racional del filósofo occidental y el mundo espiritual del monje budista? Un libro como el Quijote, escrito en la interacción externa de tres culturas: la judía, la árabe y la cristiana, y en el centro de la lucha interna entre dos visiones del mundo: la aristocrática decadente y la burguesa ascendente, ¿no le es posible hablarnos desde y para diferentes perspectivas culturales al mismo nivel que una teoría científica exitosa?

Nuestra pretensión es huir de todo universalismo a priori. Hay que dudar de todo. Hay que cuestionarlo todo. Incluida la pretendidamente universal razón científica. De ahí, que el gran arte tenga como base dudar hasta de sí mismo. La ciencia analiza, rompe lo real para conocer las partes. El arte realiza, nos relaciona con nosotros mismos y con el mundo siempre en función de la presencia real del otro y de lo otro. La ciencia establece una “autoridad”, un meta-nivel que potencia la aparición de mediadores, de “representantes” de la verdad. El arte permite el múltiple comentario, la dúctil y plural interpretación, la variedad de lecturas y recepciones.

La verdad científica pretende afirmar cuatro principios: el de “independencia” con respecto a la existencia humana (sólo podemos actuar para “encontrarla”); el de “correspondencia” con la realidad; el de “bivalencia”, cada enunciado es verdadero o falso; y el de “singularidad”, ya que sólo hay una completa y verdadera descripción de la realidad.

Mientras que los del arte, si seguimos al maestro Steiner, son el de inmediatez, el de compromiso personal y el de responsabilidad. La ciencia avanza eliminando lo que considera errores. Por el contrario, el arte actúa como memoria de lo humano; el arte funciona como Cinoc, aquel personaje de la novela de George Perec La vida instrucciones de uso. El oficio de Cinoc consistió durante años en “matar palabras” fuera de uso, en cerrar las puertas que siempre nos ofrecen las palabras a la hora de penetrar en realidades que no conocemos. Sin embargo, Cinoc al final de la obra comprendió la locura de su oficio y dedicó su vida a recopilar los términos asesinados en un gran diccionario de palabras, que aun olvidadas, seguían hablándole como ser humano.

El camino que nosotros elegimos es la búsqueda de un criterio de valor que nos permita distinguir entre procesos. La dificultad de encontrar tal criterio, pero, asimismo, la única posibilidad que tenemos hoy en día para encontrar uno que pueda generalizarse a todas y a todos es el de la obra de arte. Partamos del análisis de cuatro grandes obras de arte que en su complejidad y ductilidad interpretativas niegan esos cuatro principios de toda racionalidad cientifista y nos ponen ante las huellas de lo humano concreto. Estas cuatro grandes obras negarán “ab initio” la existencia de un criterio generalizable en las luchas por la dignidad, pero vistas a distancia permitirán una lectura a contrario que nos pondrá en marcha hacia la posibilidad del mismo. Desarrollemos paso a paso nuestra argumentación.

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1. La imposibilidad del acuerdo

En la cultura moderna y contemporánea podemos encontrar múltiples ejemplos en los que se ha expuesto la falta de ese criterio de valor. Reduzcamos el número a cuatro pilares de nuestra concepción del mundo, tales como J. J. Rosseau, F. M. Dostoievski, R. Musil y A. Berg, con sus respectivas obras La Nouvelle Heloise, Los Hermanos Karamazov, El Hombre sin atributos, y la versión operística de Wozzeck de G. Buchner. Todas y cada una de estas obras comparten un elemento: la tragedia del hombre contemporáneo enfrentado a un mundo que se le opone fieramente y frente al que la impotencia, la inacción, el aislamiento, la locura y, quizá, la ironía, constituyen las únicas armas “reales” de las que se puede disponer.

Estos cuatro momentos artísticos, ejemplos claros de cómo la obra de arte no puede ser entendida fuera o aislada del proceso cultural, filosófico y científico de su momento, apuestan, cada una a su manera, por cuatro “imposibilidades”, hijas predilectas de la que podemos llamar la Gran Improbabilidad de la existencia de valores fijos y universales.

La Nueva Eloísa nos presenta la imposibilidad de la pequeña comunidad rural libre de conflictos 16 ; el capítulo El Gran Inquisidor, de la obra culmen de Dostoievski 17 , nos pone ante la imposibilidad de la comunidad religiosa fiel a los principios humanitarios del cristianismo originario; El Hombre sin atributos nos muestra la imposibilidad de la comunidad burguesa 18 ; y el Wozzeck de Alban Berg 19 , pone en evidencia la imposibilidad

del individuo golpeado por los frentes irracionales del poder, la ciencia y los sentimientos. ¿Cómo encontrar una verdad, aunque sólo sea una, en este mundo de imposibilidades? “La auténtica verdad que une a dos personas no se puede expresar. En cuanto nos ponemos a hablar las puertas se cierran; la palabra sólo sirve en las comunidades irreales, se habla ”

20 . Así Musil; y con él os otros autores mencionados y todo

aquel insatisfecho ante la realidad que le viene dada.

en las horas en que no se vive

16 http://www.chez.com/bacfrancais/nouvelleheloise.html (consultada el 3 de octubre de 2007).

17 http://es.geocities.com/biblio_e_dosto/leer/inquisidor.html (consultada el 3 de octubre de 2007).

18 Comentarios interesantes en:

http://www.ucm.es/BUCM/revistas/fll/02122952/articulos DICE0404110109A.PDF (consultada el 3 de octubre de 2007).

19 http://www.epdlp.com/compclasico.php?id=956 (consultada el 2 de octubre de 2007).

20 Las referencias textuales son las siguientes: R. Musil, El hombre sin atributos (trad. del alemán por J. M. Sáenz), Seix Barral, 4 tomos, 4ª ed., Barcelona, 1983. Para el texto citado vid. Tomo II, p. 105. Para el Gran Inquisidor, se han utilizado las Obras Completas de F. M. Dostoyevski: Los hermanos Karamazov, trad. y edición a cargo de Rafael Cansinos Assens, Tomo III, pp. 204-218. Por lo que respecta a La Nouvelle Heloise, la edición manejada ha sido la de las Obras Completas de J. J. Rousseau, Bibliothéque de la Pléiade, Tomo II, pp. 5-748.

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“La palabra sólo sirve en las comunidades irreales”. Frase esta que resume las

inquietudes proyectadas en las otras obras, y que encuentra un apoyo sólido en la “Quinta Ensoñación del Paseante Solitario” 21 , y en el silencio pesado y terrible del Cristo dostoyevskiano. En las obras mencionadas hay un intento común por buscar la verdad fuera de la sociedad, y el resultado es trágico; suicidio de Julie, condena

a la hoguera del mismo Cristo, la duda hiriente de Ulrich, y el asesinato y muerte

de Wozzeck. En La Nueva Eloísa, el canto al amor y el desprecio a los prejuicios y

a los celos, conduce a sus protagonistas a postular la “soñada” unidad de belleza y

bien, pero no en los libros, no en la razón, sino en el ámbito del corazón, es decir, en la naturaleza bien ordenada, carente de modelos a imitar. El amor aparece como contrapolo de la razón y el deber, la sabiduría del prejuicio, la persona de la sociedad, ya que:

L´homme est un être trop noble pour devoir servir simplement d´instrumentà d´autres (sic), et l´on ne doit point l´employerà ce qui leur convient sans consulter aussi ce que lui convientà lui même; car les hommes ne sont pas faits pour les places, mais les places son faites pour eux, et pour distribuer convenablement les choses il ne faut pas tant chercher dans leur partage l´emploi auquel chaque homme est le plus propre, que celui qui est le plus propre àchaque homme, pour le rendre bon et heureux autant qu´il est possible. 22

12. La verdadera vida humana, para la cual el hombre ha nacido, y a la que no se da

por perdida hasta el día de la muerte, es la vida de bonheur descrita por Rousseau en

la “Comunidad de Clarens”. Comunidad en la que el bienestar coincide con el mínimo

vital; en la que la superación de la miseria se debe a la caridad y a la piedad; una comunidad de hombres y mujeres felices que huyen de la opresión de la colectividad

y de lo impersonal o desordenado. Ese “mundo feliz” es un mundo donde:

un petit nombre des gens doux et paisibles, unis par des besoins mutuels et par una rèciproque bienveuillance y concourt par diversà soins une fin commune; chacun trouvant dans son état tout ce qu´il faut pour en tre content et ne point desirer d´en être sortir, on s´y attache comme y devant rester toute la vie, et la seule ambition qu´on garde est celle d´en bien remplir les devoir. 23

21 Un comentario genérico sobre algunos textos de Rousseau (en especial sobre “Las ensoñaciones…” puede encontrarse en: http://fs-morente.filos.ucm.es/publicaciones/nexo/n2/Quindos.pdf (consultada el 3 de octubre de 2007).

22 J. J. Rousseau, Julie ou La Nouvelle Heloise, op. cit., “Premiére Partie”, L. XII, y el “Preface Dialoguée.”

23 Ibid. op. cot. “Cinquieme Partie”, L. II, p. 536 del texto citado (el subrayado es nuestro).

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La Nueva Eloísa constituye un elogio de lo inmediato y de lo no excesivo, que hallará posteriormente un defensor sólido en Feuerbach. Inmediatez como base de una felicidad frágil que se rompe al menor conflicto entre necesidades individuales y que muestra al final la imposibilidad de una sociedad, por pequeña que sea, regida por la “voluntad de todos”.

En el Gran Inquisidor, Ivan Karamazov se dirige a su atónito hermano Alioscha, desplegándole una tesis opuesta, en principio, a la de los personajes de la obra rousseauniana. En este terrible, y a la vez, clarividente capítulo, se afirma que para

conseguir la felicidad, los seres humanos tienen que renunciar a la rebeldía -es decir, a la libertad- y entregarla a quien la administre “Nunca en absoluto -le grita el Gran Inquisidor al Cristo encarcelado en la Sevilla del siglo XVI- hubo para el hombre y para la sociedad humana nada más intolerable que la libertad” 24 . La libertad sólo es apropiada para los elegidos, para un pequeño grupo de seguidores puros y fieles a las enseñanzas del maestro; pero en absoluto puede ser esto proyectable a la masa:

esa gente está más convencida que nunca de que es enteramente libre, y sin

“[

embargo, ellos mismos nos han traído su libertad y sumisamente la han puesto a nuestros pies”. En vez de enarbolar la libertad, dales pan y tendrán a quien adorar; si no satisfaces sus necesidades básicas, buscarán a otro para uncirse su yugo. La tranquilidad de la conciencia arrastra a la humanidad, y ello no se consigue mediante la libertad, mediante el argumento de la libertad, sino eliminando la libre elección, el conocimiento “personal” del bien y del mal. Dales pan, argumenta el Inquisidor,

el hombre busca no tanto a Dios

pero también hay que darles milagros, porque “[

como al milagro”; y, asimismo, hazlos depender de algún misterio en virtud del cual tengan que sentirse culpables a ciegas, aún a hurtadillas de su conciencia; y termina por imponerles la autoridad construyéndoles el imperio terrenal.

]

]

Sólo a través de estos elementos, unidos a la necesidad de Poder, es como se tranquilizarán las conciencias y se podrá reunirlos a todos en un común hormiguero

porque el ansia de la unión universal es el tercero y último de los tormentos del hombre. Siempre la Humanidad en su conjunto afanose por estructurarse de un modo universal

] [

unos a otros, como con tu libertad, en todas partes, ¡Oh! Nosotros los convenceremos de que sólo serán libres cuando deleguen en nosotros su libertad y se nos sometan. Sobradamente estimarán ellos lo que significa someterse para siempre. Y en tanto los hombres no lo comprendan, habrán de ser desdichados. Los más penosos secretos de conciencia. todo, todo nos lo traerán, y nosotros les absolveremos de todo, y ellos creerán en nuestra absolución con alegría, porque los librará de la gran preocupación, las terribles torturas actuales de la decisión personal y libre. Y todos serán dichosos.

Con nosotros todos serán felices y dejarán de ser rebeldes; no se exterminarán

24 F. M. Dostoyevski, El Gran Inquisidor, op. cit., p. 208.

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los embaucaremos con el galardón celestial y eterno. 25

La imputación-satisfacción de necesidades básicas, la creencia en lo irracional y en la fe en la igualdad y unidad absoluta -ecuménica- de la humanidad, constituyen las tres tendencias que conforman el índice de felicidad del ser humano. Tendencias que no pueden ser llevadas a efecto a través de la libertad o de la libre elección personal. De esta libertad surge el caos y la guerra. La felicidad y la dicha no serán resultado sino de la renuncia a la libertad en favor de la adoración, de la creencia en el misterio y los milagros, y de la entrega a una autoridad absoluta que invada hasta los rincones más recónditos del alma humana. El Gran Inquisidor nos muestra la imposibilidad de la comunidad ecuménica basada en la reivindicación optimista de la libertad individual. Si La Nueva Eloísa conducía a la tragedia individual, el Gran Inquisidor, concluye con la tiranía y la opresión colectiva.

En sus Tagebücher, Robert Musil se preguntaba: ¿cómo situarse para entendérselas con un mundo que no tiene firme alguno? No lo sé, y de eso se trata 26 . El problema quedaba planteado; la solución ni siquiera se entreveía; pero el “de eso se trata” parecía abrir un camino de salida a la consiguiente frustración. El Hombre sin atributos es como esas iglesias góticas que perduran siglos y a las que los añadidos no les afectan sino que las enriquecen. La falta de atributos del hombre contemporáneo se hace tópico a partir de la obra del vienés. Los últimos días de kakania, son el paralelo escéptico y casi claudicante de aquellos “Últimos Días de la Humanidad” del gigante solitario Karl Kraus, inmortalizado por Elías Canetti en el tomo II de su autobiografía, sutilmente titulada La Antorcha al oído. Las aventuras y desventuras de Ulrich en medio de un mundo por “asaltar”, son los ejemplos más estremecedores de la pérdida de sentido de una burguesía añorante de las maneras de una aristocracia decadente que, a su vez, miraba envidiosa la opulencia de banqueros e industriales, y de una burguesía y una aristocracia recelosas del polvorín de miseria y marginación desde el que se levantaban sus mansiones y palacios.

El tiempo corría. Gente que no vivió en aquella época no querrá creerlo, pero también entonces corría el tiempo. No se sabía hacia donde. No se podría tampoco distinguir entre lo que cabalgaba hacia arriba y hacia abajo, entre lo que avanzaba y lo que retrocedía. Se puede hacer lo que se quiera -se dijo a sí mismo el hombre sin atributos-; nada tiene que ver el amasijo de fuerzas con lo específico de la acción. 27

25 Ibid. op. cit., pp. 213-214.

26 Texto citado por György Lukács, Estética 1. La peculiaridad de lo estético (trad. de Manuel Sacristán), Grijalbo, Barcelona, 1982, volumen 2 “Problemas de la mimesis”, p. 476.

27 R. Musil, El hombre sin atributos, op. Cit., 1, 2.

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La ausencia de “firme” provocaba la situación de vacío y de mareo que sufría Ulrich al darse cuenta de la falta de criterios sólidos para poder vivir, o lo que es lo mismo, en términos del “hombre sin atributos”, de actuar en la comunidad de su época;

lo que mantiene la vida estriba en el hecho de que la

humanidad haya logrado sustituir el aquello por lo que merece la pena vivir, con la otra frase; vivir para; en otras palabras reemplazando su estado ideal por el de su idealismo. Es un vivir ante algo; en vez de vivir se ‘aspira’, y, desde entonces su esencia reside tanto en empujar con todas sus fuerzas hacia la ejecución, cuanto en estar eximido también de dar alcance a aquello. Vivir para algo, es el sustituto verdadero del vivir ‘en’. 28

] [

Todo es una máscara, hasta los decorados de interiores muestran lo inespecífico de la época. Todo es un engaño, “la verdad no es, claro está, ningún cristal que se puede meter en el bolsillo, sino un líquido ilimitado en el que uno cae” 29 . Y cuando uno se siente rodeado por la humedad de ese líquido, el único sentimiento albergable es el de repulsa; el de una repulsa negativa, sin alguna posibilidad de agarradero, como no sean nuestros propios cabellos. “Bien mirado -dirá el hombre sin atributos-, quedan

sólo los problemas lógicos de interpretación” 30 . La política, la industria, los salones, la policía secreta, el amor fraternal y nada platónico, los sentimientos, el placer estético,

, de Musil, no son sino compartimentos estancos en los que el ser humano deambula sin posibilidad alguna de comunicación con un mundo sin base firme, pues todos los valores en que descansaba la comunidad ancestral austro-húngara han perdido su vigencia y van siendo sustituidos, ficticiamente, por ideales cabelleresco-burgueses periclitados y ridículos. Las figuras que se pasean y argumentan en la obra de Musil no tienen más proyección que la que le ofrecen los espejos relucientes del “Biedemayer” decadente de los grandes salones. No existen bases, no hay pilares ni criterios sólidos donde apoyarse; lo único que queda es aprender del barón de Münchausen y curarse del mareo a base de cerrar los ojos; “así uno llega por multitud de caminos contiguos a la afirmación de que los hombres no son buenos, hermosos y auténticos, sino que prefieren serlo; y uno barrunta cómo, tras el convincente pretexto de que el ideal es inalcanzable por naturaleza, encubren la grave cuestión de por qué esto es así.” 31

estos y otros momentos de la gran obra

las costumbres amaneradas, la falsedad

28 Ibid. Vid. Los “bocetos desarrollados sobre proyectos de lo años veinte y nuevos bocetos de 1930- 1931/1933-1934” en El hombre sin atributos, ed. Cit. Tomo IV, pp. 500-501.

29 Ibid. Op. Cit., II, 110.

30 Ibid. Op. Cit., I, 46.

31 Ibid. Op. Cit., IV, 501.

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Es posible notar cómo en Musil aún cabe añorar la falta de por qué; del mismo modo, en Rousseau vemos como cayendo la tragedia sobre los protagonistas, los valores siguen incólumes esperando la llegada del Mesías: “la voluntad general”; en Dostoyevski, Cristo logra escapar a las garras del dogmatismo, con lo que parece que la libertad aún puede realizarse. Sin embargo, Wozzeck, el desdichado Wozzeck, torturado por la ciencia y vapuleado por el poder en un cuartel donde se reflejan la miseria y la locura del mundo, no le queda más que la alucinación y la visión de la sangre, cuando le arrebatan lo único que le hacía sentirse hombre: ¿el honor? El resultado de la ópera es de un nihilismo aplastante, como lo muestra la escena V del acto III, en la que un grupo de niños juega inocentemente al margen de la tragedia y entre los que se halla el hijo de Marie y Wozzeck, del que cabe decir es la imagen más destacada de la indiferencia ante la miseria y abandono del mundo absurdo que le espera amenazante. La falta de todo orden, de todo criterio sólido, necesitaba una forma precisa para ser expresada. Ni las cartas de Rousseau, ni el monólogo kamarazoviano, ni la incertidumbre narrativa de Musil pudieron mostrar en toda su crudeza la pérdida total de sentido del mundo circundante. Berg logra ponernos delante de descalabro de la manera más sutil que cabría esperar; siendo cada escena un movimiento autónomo y cada acto una forma cíclica igualmente independiente -representación magistral del individuo encerrado en su particularidad y enfrentado a juegos lingüísticos cerrados en sí mismos-, el oyente no sufre esta superposición de elementos aislados, sino más bien, sufre la tragedia en su conjunto; tragedia que no es otra que la del hombre moderno, la del “pobre hombre explotado y atormentado por todo el mundo.” 32

En estas obras artísticas –como en muchas otras: en Rayuela de Cortázar o Bajo el volcán de Lowry- se nos expresa la gratuidad de una existencia sin proyecto alternativo. Son obras que reflejan un mundo sin esperanza, dada la distancia que se da entre lo que el ser humano exige y necesita y un orden social, económico y cultural que no deja otra vía de salida que la competitividad o el aislamiento. Son obras que a pesar de su distancia espacio/temporal pueden entenderse unidas ya que comparten un mismo contexto ideológico. Son hitos de un mythos, de una misma matriz cultural, que nos explica las razones de su crítica radical al orden existente. En este sentido Rousseau se halla más cerca de Musil, o Dostoyevski de Berg, que de algunos de sus contemporáneos. Lo importante en este momento es afirmar que con la obra artística nos abrimos más al otro y a lo otro que con la formulación científica; ésta estará más atenta al éxito frente al competidor, enmascarando objetividades bajo la nebulosa de lo empírico, que a la apertura a la pluralidad y ductilidad de sentidos. A través de la obra de arte podemos captar el choque entre universalismos, sin enfrascarnos en

32 Carta de Alban Berg a Anton Webern de 19 de agosto de 1918, citada por O. Neighbour, P. Griffiths y G. Perle, La segunda escuela vienesa, Colección New Grove, publicada en castellano por Muchnik edit., trad de P. Sorozábal Serrano, Barcelona, 1986, p. 152.

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disputas academicistas. Aceptamos más la presencia real del otro y de lo otro, aún cuando el sentido explícito del texto sea el nihilismo. Esto nos abre la puerta a aquello que Levinas llamó la “infinitud”, es decir a la inacabable potencialidad de relaciones entre los seres humanos. Y esto ocurre con las obras que hemos elegido: la negación de un sentido absoluto, nos abre la puerta a la presencia de una multipolicidad de interpretaciones y lecturas.

En el terreno de la filosofía, este silencio y esta desesperación que aparecen como negación de un criterio absoluto de valor se interpretan de un modo trágico e irresoluble. Es el caso de L. Feuerbach, S. Kierkegaard y L. Wittgenstein. Estos pensadores intuyeron genialmente el fracaso axiológico de la sociedad burguesa, e instalaron sus argumentos en uno u otro momento de la crisis. Sin embargo, no es arriesgado afirmar que el pensamiento de estas tres personalidades de la cultura contemporánea es un pensamiento fetichista, desde el momento en que elimina la riqueza de relaciones que contiene todo fenómeno susceptible de ser analizado. Para Feuerbach, el único modo de resolver la crisis es a través de la relación Yo-Tú ; Kierkegaard, coloca el “existir”, el estar fuera con los otros, en el estadio estético, siendo los otros dos estadios restantes -el ético y el religioso- un viaje sin retorno hacia lo singular o, a lo más, hacia pequeñas islas desesperadas dentro del océano de la sociedad burguesa; Wittgenstein, a pesar del valor de sus afirmaciones para la filosofía y la ciencia social actual, estableció un dualismo absoluto entre la forma lógica y el contenido del mundo, obviando con ello toda comprensión histórica de los juegos lingüísticos, al permanecer en la constatación de su existencia múltiple, dispersa e incomunicable.

Todos los análisis, por lo demás profundos y esclarecedores, de la filosofía contemporánea acerca de la multidimensionalidad del poder de manipulación -Foucault- , de la entronización del consumo como “fetiche” de la sociedad moderna -Baudrillard-, y de la irreductible tendencia del sistema cultural y político a ocultar la diferencia ontológica, la polarización ineludible de lo real -Deleuze, Derrida-, constituyen un espejo límpido de la realidad que nos rodea, pero, como todo espejo, sólo muestra una cara del objeto que refleja. Estas tendencias de pensamiento pueden considerarse deudoras de una sola de las facetas de la esfinge nietzscheana: la crítica a la civilización y al orden moral capitalista; pero, asimismo, obvian que el propósito básico del autor de Humano, demasiado humano, consistía precisamente en la transvaloración, en la tendencia a conseguir formular una nueva jerarquía de valores basada en la vida y el poder de trascendencia del orden moral instituido. Si queremos atrapar el espíritu de la crítica radical nietzscheana no podemos quedarnos en la mera constatación de la microfísica del poder; es preciso, pues, sobreponerse al minimalismo descriptivo y asumir un compromiso teórico para comprender las relaciones entre los fenómenos y postular alternativas, si no de sociedades futuras e hipotéticas, si cuando menos, de formas de acción.

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Paul Ricoeur afirmaba que toda utopía no es más que la apertura de lo posible, y

de ahí la necesidad de la misma para impulsar a la acción. Las antiutopías, a veces

sueños irrealizables, que hemos comentado, conducen a la inacción, a la desesperanza,

a la visión mística de los últimos días de una humanidad perdida en un bosque de

imposibilidades y silencio. Parece que tras la lectura de estos filósofos y literatos, el telón bajará definitivamente, y el lector -público marchará ensimismado a recluirse frente a su particular telescreen. Sin embargo, y como decíamos más arriba, el arte duda hasta de sí mismo y nos permite múltiples interpretaciones dado su oposición

a los principios de independencia, correspondencia, bivalencia y singularidad

que predominan en el argumento cientifista. De este modo, estas obras pueden ser interpretadas a contrario para poder ofrecer alternativas a su negativismo. Detrás de La Nueva Eloísa, aparecen el amor y la amistad como base de la “comunidad”; detrás del Gran Inquisidor, la aspiración de “libertad”; detrás del Hombre sin atributos, la

“acción”. Y, tras Wozzeck, tras el grito desgarrador del individuo perdido en la maraña

de

desatinos y crueldades, no sólo queda el silencio, o, tal vez, la desesperación sino

el

compromiso con algún proyecto colectivo, de cambio, de “rebelión”.

Galileo renace de nuevo y pronuncia sin cansancio su eppur si muove. Ante la fetichización de lo real puede reaccionarse con la resignación descriptiva, contenta con ofrecer una de las caras de lo real: la dificultad de las relaciones; o, por el contrario, con una actitud combativa, hija predilecta del énfasis y la pasión nietzscheanas, desde la que desvelar y clarificar las relaciones dadas entre los fenómenos a través de la existencia fáctica de luchas que muestran la exigencia de la dignidad y desde la praxis humana, individual o grupal, insatisfecha, por naturaleza, ante lo que le viene dado

de antemano. Las heridas de la posibilidad siempre permanecen, y deben permanecer,

abiertas.

2. interludio

En el meridiano del tiempo no hay injusticia: sólo hay la poesía del movimiento que crea la ilusión de la verdad y del drama lo monstruoso no es que los hombres hayan creado rosas de ese

Por

una razón u otra, el hombre busca el milagro y para lograrlo es

capaz de abrirse paso entre la sangre. Es capaz de corromperse con ideas, de reducirse a una sombra, si por un sólo segundo de su vida puede cerrar los ojos ante la horrible fealdad de la realidad. Todo se soporta -ignominia, humillación, pobreza, crimen, guerra, ennui15 gracias al convencimiento de que de la noche a la mañana algo ocurrirá, un milagro, que vuelva la

estercolero, sino que, por la razón que sea, deseen rosas

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vida tolerable. 33

Lo curioso de la evolución de la humanidad, tal y como se desprende de los productos culturales que la adornan y enriquecen, es que a pesar de todo, a pesar de todos los desatinos y crueldades que se cometen, seguimos deseando rosas, las r osas que nos hacen creer que existe la posibilidad del milagro. De un modo o de otro avanzamos en busca del nombre de la rosa; y para ello corrompemos el horror de la realidad a base de ideas y sombras. Construimos y creamos sin cesar esperando el milagro que vuelva

la vida tolerable.

Si para ello hay que soñar, hagámoslo. Parafraseando a Pessoa podemos decir que

estamos cansados de haber soñado, pero no cansados de soñar 34 . Todos sabemos que

“son los sueños

sueños no los sueña la razón

sino el deseo; no la cabeza, sino el corazón, y, no obstante, ¡qué cosas tan complicadas sobrepasa a veces mi razón en el sueño! 35 . El hombre ridículo dostoyevskiano decide

suicidarse; cuando ya nada le queda en el alma, ni siquiera la piedad por los humillados

y ofendidos, decide quitarse la vida; pero ese suicidio no se plantea por la falta de

sentido de la vida, sino precisamente por todo lo contrario: vivimos en un mundo con exceso de sentido; nuestro lema es el “todo vale”, todo tiene su justificación. Sin embargo, tal y como ocurre en el estado de naturaleza hobbesiano, en el que el derecho natural a todo se convierte en el derecho natural a nada, el exceso de sentido en el que vivimos, provoca la apariencia de una falta total de criterios que nos permitan vivir avanzando y ser felices. Pero sumerjámonos por un momento en el sueño de nuestro

hombre ridículo en el mismo umbral de su suicidio.

con una artística elaboración, ciertos pormenores

una cosa sumamente rara. En ellos percibimos con claridad pavorosa,

los

Nuestro “hombre” se duerme justo antes de poner en práctica su definitiva decisión. En su sueño se ve arrastrado por un ser sobrenatural que lo saca de la tumba en la que ha sido enterrado tras el pistoletazo que ha acabado con su vida. El ser lo abandona en una estrella perdida en una galaxia lejana, que resulta ser una copia exacta de la Tierra. En esta copia los hombres y mujeres son “felices”, no conocen el dolor, la envidia, hablan la misma lengua que todos sus semejantes, incluso pueden comunicarse con los animales y los árboles. El hombre de nuestra historia llega a amarlos, pero siempre echando de menos la naturaleza violenta y dolorosa del planeta abandonado

33 Henry Miller, Trópico de Cáncer, (trad. De Carlos Manzano), Plaza y Janés, Barcelona, 1986, p. 110.

34 Fernando Pessoa, Libro del desasosiego de Bernardo Soares (trad. Del portugués, organización, introducción y notas de Ángel Crespo), Seix Barral, Barcelona, 1987, parágrafo 125, p. 117; concretamente el texto de Pessoa dice lo siguiente: “He soñado mucho. Estoy cansado de haber soñado, pero no cansado de soñar. De soñar nadie se cansa, porque soñar es olvidar, y olvidar no pesa y es un sueño sin sueños en el que estamos despiertos. En sueños lo he conseguido todo”.

35 F. M. Dostoyevski, Sueño de un hombre ridículo en Diario de un escritor (1861-1881), Obras Completas, edic. cit. Tomo III, p. 1234.

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por propia voluntad. Poco a poco les va introduciendo el sabor agrio del conflicto, el aroma fresco de la voluptuosidad, la hermosura de la mentira. Al final esos seres felices, acaban por odiarse mutuamente, por crear grupos enemistados unos con otros, en definitiva, los va convirtiendo en seres humanos. Nuestro hombre siente pánico cuando ve reproducirse en aquellos seres, todo lo malo y repugnante de la naturaleza humana. Pero también es consciente de que ellos ya no pueden vivir sin mentir, sin la voluptuosidad, sin la propiedad. Los introduce en el conocimiento del mal, y ni siquiera su ofrecimiento de que lo crucifiquen al haberlo inducido a tales “males” los hace renunciar a la belleza de ser seres humanos completos.

Dostoyevski en este relato, además de mostrar de un modo original la evolución de la humanidad, nos advierte de que todos los males que padecemos tienen un único origen:

nuestro deseo de conocer. Para Dostoyevski hay algo contra lo que luchar: la idea de que “el conocimiento de la vida está por encima de la vida… el conocimiento de la felicidad, está por encima de la dicha”. Para vivir, para conseguir la felicidad que el hombre ridículo observa en aquella copia de la Tierra, hay que huir del conocimiento. El conocimiento es ciencia, y la ciencia tiende siempre a la disgregación, para supuestamente llegar a conocer mejor lo que nos rodea. La ciencia, para Dotoyevski, es el peor de los males en tanto que por su sola existencia surge la creencia de que todos los problemas pueden resolverse, entre ellos el de la búsqueda constante de la verdad. Cuando la ciencia cree haber hallado la verdad, aquí comienza el horror. Esa verdad divide la humanidad, por lo menos en dos bandos: los omniscientes y los no omniscientes. Como los primeros son los únicos que conocen la verdad, no tienen otra solución que dominar o eliminar a los que no están en ella…

La ciencia, el pretendido conocimiento absoluto de la verdad, separa a los que creen haber llegado a ella, de aquellos que no han probado sus mieles. De aquí procede, siguiendo el relato dostoyevskiano, la violencia, la crueldad y, podemos añadir, la exclusión. De estos sentimientos se derivan la envidia, la voluptuosidad y la voluntad de apropiación constante. Y de estos, pasamos al “goce” de la vergüenza, el gusto por el dolor, y la hermosura de la mentira. Aquellos seres felices se ciegan sobre todo por lo último, por el poder seductor de la mentira, y de ahí van surgiendo las grandes ideas que van ocultando la maldad que está en la base de su corrupción. Todas esas ideas no son más que el producto de la tendencia humana, después de la caída del Paraíso, a construir ficciones, engaños necesarios que nos permiten seguir existiendo. ¡Qué mayor ficción que las declaraciones de derechos humanos, dirigidas a un mundo habitado por seres humanos atomizados y particularizados! ¡Qué mayor mentira que la religión, que nos hace creer en la vuelta al paraíso perdido! En lo que la religión falla es en ese repetir la posibilidad del paraíso: los hombres recuerdan su estado de felicidad, conocen el estado de suprema dicha, pero también comprenden su imposibilidad, y lo que es más cruel, no lo desean, no quieren recuperar lo perdido, pues el edificio de

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mentiras que han construido es tan hermoso que ya no pueden vivir sin él. Preferimos

la rosa con sus espinas a la pasividad y al desconocimiento. Preferimos la violencia

al aburrimiento. Preferimos la mentira a no conocer más que lo que nos entra por

los sentidos. La humanidad ha elegido el camino más tortuoso hacia la felicidad:

precisamente el camino que nunca conducirá a la felicidad total. Todo esto no quiere ser una posición nihilista. El sentido de traer aquí a colación el texto dostoyevsiano, obedece precisamente a lo contrario. La humanidad se sustenta en mentiras, pero en mentiras hermosas, en mentiras de las cuales no podemos prescindir. Constituyen

nuestra esencia. Nuestras mentiras: la literatura, la música, la ciencia, la filosofía, la religión, hasta el lenguaje y el deseo, es decir, todas las formas de objetivación donde

se van consolidando los productos de nuestra de nuestra falsedad y autoengaño, son el

mundo que recibimos, que heredamos, que reproducimos y que rellenamos de nuevas mentiras, y sobre todo, de nuevas interpretaciones de mentiras antiguas. Este es el mundo que amamos y en el que nos sentimos a gusto. Toda vuelta al paraíso además de imposible es indeseable. En definitiva, preferimos amar, aunque ello comporte siempre sufrimiento, a no saber que amamos.

Si esto es así, si nos sentimos a gusto en el abismo de mentiras y ficciones en las que se sustenta la humanidad ¿hay que adaptarse a la falta de dirección denunciada por Miller en 1934? ¿Hay que llamar loco a todo aquel que lucha contra la imposibilidad de avanzar hacia el ser humano, tal y como postulaba Martín Santos en 1961? ¿Hay, por último, que odiar la humanidad por haber redactado las declaraciones de derechos, en el sentido que Dostoyevski dio a sus palabras en 1877?…

3. el acuerdo posible

El problema que subyace a todo lo anterior, es el tema básico de toda filosofía humanista, o sea, la resolución de la alienación, el ofrecer alternativas a la separación contemporánea, sin signos de cambio de marcha, establecida entre el individuo y la especie. Acudamos a otra gran obra de arte, de la cual somos deudores muchos de los que creemos que la única forma de entender nuestra cultura es contraponerla a los latidos de otros corazones y de otros modos de enfocar la vida. Nos referimos a Gran Serton: Veredas del brasileiro Guimaraes Rosa. En esta “divina tragedia”. la lucha entre el ser humano y la presencia siniestra del mal, el desgarro del ser, el abismo entre el individuo y la especie humana y la violencia transfigurada por una naturaleza enfurecida que hunde voluntades en las quebradas y llanuras “infernales” del sertao -espacio universal de pérdida de sentidos-, alcanzan su máxima expresión. Estamos ante un relato de violencia, venganzas, crímenes y luchas situado en medio del horror y de la presencia “absoluta” del mal, personalizado en un diablo antropomorfizado

y ubicuo. En ese real corazón de tinieblas late una historia de amor de las más

emocionantes y reveladoras de la historia de la literatura universal. Y, al lado de la

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pasión, surge como fuente clara la exigencia humana por excelencia: la necesidad y la posibilidad de caminar hacia uno mismo y hacia los otros. “Cierro. Ya ve usted. Lo he

Lo

que existe es el hombre humano. Travesía”. Palabras finales de Riobaldo al que hemos acompañado en ese viaje iniciático de lo humano a lo humano en busca de un criterio que nos salve del silencio y de la desesperación.

contado todo idea ha confirmado que el Diablo no existe Diablo no hay!

mi

¡El

Guimaraes Rosa nos pone delante la posibilidad de un criterio que nos haga pasar por encima de las “imposibilidades” y del “silencio”, y posibilitarnos la formulación de la utopía y de la conformación de la praxis a ella dirigida. Una utopía no es un sueño; este último no tiene un aquí y un ahora que trascender, más bien, lo que hace es huir de todo aquí y de todo ahora, sin pasar más allá de lo que niega. La utopía nos abre el camino de lo posible, de la comunicación, de la acción, aunque por las mismas circunstancias reales no tenga otra forma de expresión que la metáfora y, como ya sabemos, de la ficción. Ya vimos cómo la apelación a los derechos de la humanidad es ambivalente. Por un lado, ha estado vinculada al vaivén de los intereses de los que tienen la hegemonía social y cultural. Pero, por otro, esa apelación a los derechos humanos surge también de la voz de los dominados, aunque en muchas ocasiones haya sido expresada con el recelo propio de culturas “apisonadas” por el afán –la “idea” diría Joseph Conrad- de colonialismo e imperialismo occidentales.

Nuestra búsqueda consiste en hallar un criterio que formule la exigencia humana expresada a contrario en las obras de arte aquí mencionadas. Un criterio que exprese la necesidad humana de caminar hacia lo propiamente humano: es decir, la vida, la acción y la lucha por la dignidad. Pensar los derechos únicamente desde una de sus caras, es dejarlos en manos del más fuerte. Sacar a relucir la otra cara, el otro rostro de los derechos, supone dar voz a los excluidos, a los oprimidos, a los dominados.

Como decía Feuerbach e inmortalizó Marx, “arte, religión, filosofía o ciencia, son sólo manifestaciones o plasmaciones de la autentica esencia humana. Hombre, o más completamente hombre auténtico sólo lo es quien tiene sentido estético o artístico, religioso o ético y filosófico o científico, hombre como tal sólo lo es quien no excluye de sí nada esencialmente humano36 . Partiendo de esa concepción íntegra del ser humano, el criterio que nos va a servir para una apelación no colonialista ni imperialista de lo humano universal es el de riqueza humana. Este criterio se despliega del siguiente modo: a) el desarrollo de las capacidades, y b) la construcción de condiciones que permitan la real apropiación y despliegue de dichas capacidades por parte de individuos, grupos, culturas y cualquier forma de vida que conviva en

36 L. Feuerbach, Principios de la filosofía del futuro, en Kleinere Schriften, 2. Ed., p. 337; texto citado por A. Heller, “Ludwig Feuerbach Redivivo” en Crítica de la Ilustración. Las antinomias morales de la razón, (trad. De G. Muñoz y J. I. López Soria), Península, Barcelona, 1984, p. 109, n. 18.

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nuestro mundo.

Volvamos al cuadro en el que Goya representa la violencia que supusieron Los fusilamientos del 2 de mayo en el Madrid de 1808: ¿cuál de los dos particularismos elevados a universales potenciarán el desarrollo de las capacidades humanas y la construcción de condiciones para su apropiación y despliegue? ¿Estaba justificado el heroísmo por una apelación a los derechos humanos, o procedía de un nacionalismo irredento? ¿Qué idea universal aplica Conrad en su El corazón de las tinieblas? ¿no era el universalis mo de un modo de dominación salvaje y destructor de todo lo que se le oponía en su marcha furiosa hacia la obtención de la máxima cantidad de beneficio? La mirada feminista del mundo que Virginia Wolf expone en Una habitación propia, o que Ibsen coloca en los labios de Nora (personaje principal de Casa de muñecas) ¿no nos interpelan desde otra opción, desde voces diferentes en aras de la consecución de ese criterio de riqueza humana? Los condenados de la tierra de F. Fanon, es un texto que habla más de derechos humanos que la miríada de reflexiones académicas sobre el papel de tal o cual decisión judicial a un nivel nacional o internacional.

Este criterio, además de servirnos de fiel de la balanza a la hora de sopesar en términos de derechos humanos las diferentes posiciones culturales, políticas y sociales, también nos sirve para rehuir cualquier tendencia al relativismo cultural radical: todos los puntos de vista son igualmente válidos. Partiendo de la base de que no se pueden valorar globalmente las culturas –al estilo de la cantinela liberal sobre la existencia de “valores verdaderos”— sino aspectos parciales de todas ellas, el criterio de riqueza humana nos va a permitir comparar y “enjuiciar” cuestiones de choque o conflicto: el tema de la mujer en la cultura occidental y en la ideología de los talibanes; el consumismo visto desde la cultura islámica o europea; la protección y el respeto a la naturaleza en

occidente o en los pueblos indígenas de la amazonía

el criterio de riqueza

humana nos permite establecer las bases de discusión y diálogo entre culturas. La realidad de los derechos humanos en nuestro mundo plural y diversificado cultural e ideológicamente debe ser enjuiciada en función de ese criterio de valor. Asimismo, con este criterio podremos jerarquizar, no los derechos mismos ya que todos tienen la misma importancia, sino la prioridad de su satisfacción, y enfocar de un modo más justo el conjunto de políticas sociales, económicas o culturales relacionadas con ellos.

Utilizar

En vez de universalizar una concepción de los derechos, o mantener que todas las visiones y prácticas son igualmente válidas, utilizar el criterio de riqueza humana nos advierte que los derechos no son algo previo a la construcción de condiciones sociales, económicas, políticas y culturales que propicien el desarrollo de las capacidades humanas y su apropiación y despliegue en los contextos donde se sitúen. La relación entre los derechos humanos y ese conjunto de condiciones es estrecha.

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Por ello, desde la riqueza humana se rechaza cualquier universalismo a priori que imponga criterios como si fueran el patrón oro de la idea de humanidad. El único universalismo que podemos defender desde esta posición es un universalismo a posteriori, un universalismo de llegada en el que todas las culturas puedan ofrecer

sus opciones y discutirlas en un plano, no de mera simetría, sino de igualdad. Desde esta opción la única definición que puede defenderse es la que ve a los derechos como el sistema de objetos (valores, normas, instituciones) y de acciones (prácticas sociales, institucionales o no) que abran y consoliden espacios de lucha por la dignidad humana. Desde esta definición podremos ver los derechos humanos como

la formulación más general de esa necesidad por encontrarnos a nosotros mismos en

esa lucha por adquirir conciencia de lo que somos y de dónde estamos. Los derechos deben ser vistos, y puestos en práctica, como el producto de luchas culturales, sociales, económicas y políticas por “ajustar” la realidad en función de los intereses más generales y difusos de una formación social, es decir, los esfuerzos por buscar lo que hace que la vida sea digna de ser vivida. Sin imposiciones. Sin dogmas. Los derechos humanos constituyen una realidad de tres caras: son la consecuencia y la posibilidad de actuar individual y colectivamente por ver reconocidas y puestas en práctica las diferentes y plurales visiones que tengamos de nuestras capacidades y necesidades

(esfera política de los derechos), con el objetivo de “ajustar” (esfera axiológica de los derechos) el mundo a lo que en cada momento y en cada lugar se entienda por dignidad humana (esfera teleológica de los derechos). La mayor violación hacia los derechos humanos consistirá en prohibir o impedir, del modo que sea, que individuos, grupos

o culturas puedan expresar y luchar por su dignidad. Con la aplicación y puesta en

práctica intercultural de este criterio el Gran Inquisidor no encontraría motivos para degradar la humanidad a masa informe y consumista, y tanto Ulrich como Wozzeck hallarán un sentido por el que dirigir sus vidas.

Estamos, pues, ante un criterio formal que hay que rellenar de contenido en el proceso de construcción de condiciones sociales, económicas, políticas y culturales que nos permitan luchar contra los procesos que nos impiden acceder igualitariamente a los bienes materiales e inmateriales. Debemos armarnos, pues, con conceptos y formas de praxis que tiendan a conquistar la mayor cantidad posible de “espacios sociales” de democracia; espacios donde los grupos y los individuos encuentren posibilidades de formación y de toma de conciencia necesarias para combatir la totalidad de un sistema caracterizado por la reificación, el formalismo y la fragmentación. Espacios donde comencemos a distinguir y a clarificar las relaciones que se dan entre la libertad y la igualdad, entre las desigualdades y las múltiples y refinadas formas de explotación social que impiden el despliegue de las dos facetas que componen el criterio de “riqueza humana”.

Por supuesto, no basta con la democracia formalizada en los Parlamentos. Como

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decía hace casi un siglo Rosa Luxemburgo, no hay democracia cuando el esclavo

asalariado se sienta al lado del capitalista, el proletario agrícola al lado del Junker para debatir sus problemas vitales de forma parlamentaria, pues ambos ejercerían sus aparentes derechos en un estado de igualdad engañosa. Quedarnos en las formas sin rellenarlas del contenido concreto que pondría en funcionamiento el criterio de riqueza humana, supone, pues incitar a los excluidos sistemáticamente de los procesos decisorios –a todos esos que según Jacques Rancière nunca han formado parte de las instituciones, a esos que son la “parte que nunca ha tenido la oportunidad de formar parte” de los ámbitos donde se regulan las relaciones sociales— a no contentarse con

el (reconocimiento público de su condición y la cuota de participación electoral que le

toque), sino a ir ocupando espacios institucionales y políticos con el objetivo de poder otorgarle a esas instituciones un contenido y una forma totalmente nuevas.

Rosa Luxemburgo nos indujo a no aceptar acríticamente la concepción formalista, cabe decir, burguesa 37 , de la democracia como un valor universal basado en el consenso de la mayoría. La democracia se ha usado ideológicamente por parte de las clases dominantes para postular una exclusión sistemática de determinados intereses de la esfera pública, intereses que siendo esenciales para la vida: intereses productivos, distributivos, socializadores, han sido relegados al ámbito de las relaciones privadas, donde imperan las fuerzas del mercado, es decir, la coactividad impuesta por el que más tiene en detrimento del desfavorecido.

La democracia, como conjunción de participación en lo público y como proceso vital desde el que podemos otorgar contenidos a nuestro criterio formal de “riqueza humana”,

no puede coincidir ni con las tesis de un sólo partido, ni con los reglamentos restrictivos de una determinada forma institucional. La democracia debe consistir en un proceso de construcción de un “espacio público de empoderamiento”, donde puedan darse una variedad de tipos de experiencias y donde prime la mutabilidad y las posibilidades de cambio y transformación. Parafraseando a Spinoza y a Nietzsche, la democracia debe concebirse como un espacio de potencia y de multiplicidad 38 . Estas experiencias

y experimentos podrán encarnarse en partidos, sindicatos o consejos; pero lo que

debemos evitar siempre es que prime una forma rígida y unívocamente determinada en la cual la conciencia, es decir, la educación y la formación en las prácticas sociales, estén representadas de una vez por todas por quienes son irresponsables a la hora de aplicar los programas electorales a partir de los cuales son elegidos. La lucha por la

37 Sobre el concepto de democracia en Rosa Luxemburg, puede consultarse:http://www.fundanin.org/vera9. htm; (28 de mayo de 2007); sobre las famosas 11 Tesis sobre la política de J. Rancière: En este site pueden encontrarse las famosas 11 Tesis sobre la política de J. Rancière: http://aleph-arts.org/pens/11tesis.html (consultada el 3 de octubre de 2007).

38 A. Negri, La anomalía salvaje. Ensayo sobre poder y potencia en Baruch Spinoza, Anthropos, Barcelona, 1993. Cfr. también el impresionante trabajo de la filósofa brasileña Marilena Chauí, A Nervura do real. Imanéncia e liberdade em Espinosa, 2 vol., Companhia das Letras, Sao Paulo, 1999.

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dignidad es siempre movimiento, modificación, cambio, dinamismo, transformación constante de las formas organizativas e institucionales. De todo esto podemos deducir tres tareas básicas para construir una práctica de derechos humanos basada en el criterio de valor de riqueza humana.

1ª tarea.- Construir el espacio público desde una concepción participativa de la democracia. Es decir, poder llevar las contradicciones entre las formas productivas y las relaciones de producción al ámbito de la ciudadanía, espacio donde lo público y lo privado se confunden. Lo político nunca es un bien en sí mismo, sino un mecanismo fundamental en el que la ciudadanía puede poner en práctica sus virtudes cívicas y su conocimiento de la realidad. El liberalismo, con su afán por anteponer el derecho al bien en el marco de un ordenamiento globalmente neutro, nos ha robado la esfera de la política reduciéndola a su mínima expresión: la democracia representativa. Para este tipo de ideología, lo más valioso es la vida privada, dejando la participación en lo público en una mera gestión de la economía de mercado. La ciudadanía que surge de todo este entramado, es una ciudadanía inhibida, distorsionada y centrada únicamente en el espacio de lo estatal. Esto supone reflexionar seriamente sobre el pasado, el presente y el futuro de la democracia como proceso de construcción de ciudadanía 39 . No caben ya escatologías inversas que anhelan la vuelta de paraísos perdidos, ni escatologías perversas que nos presentan respuestas a preguntas aún ni siquiera formuladas. Como escribió nuestro poeta José Hierro, Cuando la vida se detiene, se escribe lo pasado o lo imposible. Cabe, eso sí, una reflexión sobre cómo a lo largo de la historia han sido canceladas las potencialidades de la democracia y, cómo no, sobre los posibles caminos que nos pueden ayudar a construir un tipo de ciudadanía que conciba lo político como una actividad compartida cuyo fundamento no son los derechos (que son medios para algo, y no fines en sí mismos), sino una actitud comprometida contra todas las formas de desigualdad e injusticia. Pensamos que ese camino puede construirse manteniendo una triple estrategia antisistémica: 1) ocupar espacios de lo alegal, tradicionalmente olvidados por el liberalismo político; 2) gestar transformaciones culturales críticas; y 3) potenciar el protagonismo popular de la ciudadanía. 40

2ª tarea.- Recuperar o apropiarnos del “centro de gravedad” de la acción política. Es preciso recordar en todo momento que el “alma” de El Capital residía, no tanto en el estudio científico de los procesos económicos, como en la denuncia de la pérdida del poder que los obreros sufrían en lo que se refiere a sus vidas concretas y a sus capacidades y

39 Ser ciudadano significa afrontar en todo momento decisiones políticas, y son políticas todas las decisiones que se refieren al mundo. Comprometerse con la suerte del mundo significa ser político; serlo consciente y consecentemente significa ser un ciudadano pleno”, P. B. Clarke, Ser ciudadano , Sequitur, Madrid, 1999, p. 170.

40 M. Harnecker, La izquierda en el umbral del siglo XXI. Haciendo posible lo imposible, op. Cit. Pp. 386-

387.

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facultades 41 31. Nos referimos a la potencia ciudadana, a la idea, que tanto pavor provocaba,

y sigue haciéndolo, en los autores liberales, de la democracia como “poder del pueblo”.

En esta recuperación del centro de la acción social tendríamos que plantearnos pensar y

discutir sobre tres potencialidades latentes de la humanidad:

A.- la potencia ontológica. Es decir, la historia como lugar, como espacio ontológico del ser en sociedad. O lo que es lo mismo, la lucha contra todas las posibles formas de olvido que han invisibilizado las experiencias de rebeldía y construcción de alternativas que se han dado a lo largo de la historia, los asaltos al cielo. Sin esta memoria, difícilmente podremos ilusionarnos a la hora de superar el “impasse” al que nos están conduciendo las tesis de los fines de la historia o los devaneos postmodernistas con el escepticismo y la inacción. No basta con decir que en el socialismo se tendrá acceso a ese conjunto de capacidades y facultades robadas. Marx fue un ejemplo de lucha por el “empoderamiento” de las masas. Esta “toma real del poder” es previa a la configuración de un orden social. El comunismo no es una meta lejana sometida a las dificultades dialécticas, sean éstas materialistas o puramente idealistas; el comunismo es el día a día tal y como E.P. Thompson nos recordó

a lo largo de toda su obra. 42

B.- la potencia sociológica: nos referimos a la pluralidad, a la multiplicidad real de opciones vitales y formas de vida. Esta siempre ha sido una bandera falsa del liberalismo político. No hay mayor uniformidad ni homogeneización de las relaciones sociales que cuando se insertan en la ficción de la libertad de compra y venta. El mercado se traga todas las diferencias, disgrega las culturas materiales que se oponen o se resisten a él y quebranta todo tipo de acción organizativa que no pueda ser consumida. La subsunción

del trabajo y de la vida cotidiana al capital es el objetivo del liberalismo tanto económico como político. Crear las bases de una real pluralidad de opciones es una tarea de la lucha anti-sistémica basada en el criterio/valor de riqueza humana. No basta con el “respeto”

o “tolerancia” liberales en relación con el hecho de las diferencias o con las políticas de

acción afirmativa, sino que tales luchas se sitúen en el centro de lo político con el objetivo de potenciar una crítica de la dominación y del etnocentrismo que subyacen bajo las premisas del liberalismo. La riqueza humana siempre ha sido el producto de una acción rebelde frente al enorme potencial de manipulación educativa y mediática del sistema de relaciones sociales capitalista. 43

41 K. Marx, El Capital. Crítica de la economía política. Fondo de Cultura Económica, México, 1978, Vol. 1, “La llamada acumulación originaria”, pp. 607 y ss.

42 Cabe citar como ejemplo el libro de E. P. Thompson La formación de la clase obrera en Inglaterra , 2 ol., Crítica, Barcelona, 1989. En Thompson está bebiendo la nueva generación de intelectuales comprometidos con una renovación del marxismo. Cfr. Ellen Meiksins Wood y John Bellamy Foster, In Defense of History (Marxism and the Postmodernist agenda), Monthly Review Press, N.Y., 1997.

43 Para la propuesta de un multiculturalismo crítico y fundado en las propuestas pedagógicas alternativas de Paulo Freire, vid. P. Mclaren, “Multiculturalism and the postmodern critique: towards a pedagogy of resistance and transformation” en H. Giroux y P. Mclaren (eds), Between Borders , Routledge, London, N.Y., 1994.

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C.- la potencia ética: la potencia de experimentar, de inventar hipótesis y formas nuevas de relación social. No está de más recordar la reacción de Rosa Luxemburg frente a los sucesos de 1914 en los que el proletariado se entregó al nacionalismo bélico. Frente

a una posición de resignación derrotista y a cualquier intento de fortalecer lo que ella denominaba “imposiciones exteriores” a la acción social, Rosa Luxemburgo se convenció,

y puede que ésta fuera la causa de su tragedia personal, que había que forzar la actitud ética para volver a hacer brotar los gérmenes de humanización que subyacen en la conciencia,

esté adormilada o no, de las masas. En ese sentido, escribe: “[

interior, madurez intelectual, seriedad moral, sentido de dignidad y de responsabilidad, todo un renacimiento interior del proletario. Con seres humanos prejuiciosos, livianos,

egoístas, irreflexivos e indiferentes no se puede realizar el socialismo” 44 . Ese proceso ético

y educativo, si no quiere caer en imposiciones ideológicas “desde arriba”, requiere una

concepción amplia y no fragmentada de la acción. De este modo superamos todo tipo de falacia naturalista, pues sólo desde la concepción que conecta el conocimiento de lo real (lo que es) con las propuestas alternativas de otra forma de relación social (lo que debe ser) evitaremos que sólo sean las elites las que decidan sobre nuestro presente y nuestro futuro. Desde dichas posturas elitistas es muy fácil sustentar que los seres humanos no tienen formación para participar y decidir en política. Según esta tesis, cada tipo de acción será definida por sus propias características, y nadie podrá pasar de lo que es su realidad (el “es”) a una crítica de la misma (el “deber ser”). Llegamos con ello al “gorila amaestrado” en consumir y en vivir su vida privada al margen de lo político.

es preciso autodominio

]

Frente a esto, hay que comenzar por imaginar, por crear condiciones mentales que nos permitan superar los obstáculos “naturales” que el liberalismo impone a la acción social. Imaginar y plantear valientemente un tipo de humanismo que surja de la experiencia de la pluralidad de voces que hoy conforman nuestras historias, y abandonar todo tipo de humanismo abstracto, se base o no en la pretendida universalidad de los derechos humanos, que se imponga desde alguna esfera trascendental a la experiencia. 45

44 Frölich, P., Rosa Luxemburgo. Vida y Obras, Editorial Fundamentos, Madrid, 1976, pp. 228 y ss. Fetsher, I., Der Marxismus, Piper, München, 1967, p. 648. Geras, N., A actualidade de Rosa Luxemburg, Ediçoes Antídoto, Lisboa, 1978, pp. 127 y ss. VV.AA., Rosa Luxemburg aujourd’hui, Presses Universitaires de Vincennes, Paris,

1986.

45 “Superar la separación significa empezar a recuperar lo político, en un ejercicio que exige reconstruir la política distanciándola de la concepción que la tiene por una actividad puntual referida al Estado. Significa, entre otras cosas, vincular la recuperación de lo político, con un proyecto más importante: recuperar el mundo. Este ejercicio va más allá de las concepciones limitadas de la acción, se refiere a sus contextos más amplios, unos contextos que sólo pueden entenderse remitiendo la recuperación de lo político a sus raíces pre-platónicas, a la poiesis…. La filosofía y la poesía son extrañas compañeras de cama, a veces incómodas y en ocasiones pendencieras, pero han de compartir el lecho si ha de surgir la política” en P.B. Clarke, Ser ciudadano, op. Cit. 9. 104. Pero para poder recuperar lo político hay que adoptar también una actitud de valentía que parta de los siguientes requisitos:

1- no tener ningún miedo a estar contra la corriente política dominante de nuestro tiempo; 2-no transigir en nuestras ideas, no aceptar ninguna dilución de nuestros principios; y 3- no aceptar como inmutable ninguna institución establecida; vid. Perry Anderson, “Más allá del neoliberalismo, lecciones para la izquierda” en P. Anderson, R. Blackburn, A. Borón, M. Löwy, P. Salama y G. Therborn, La trama del neoliberalismo. Mercado, crisis y exclusión social, (compiladores, E. Sader y P. Gentili), Oficina de publicaciones del CBC, Universidad de Buenos Aires,, 1997, pp. 147-148. Es importante destacar la fuerza que en este sentido está teniendo la llamada “jurisprudencia feminista” a la hora de superar el humanismo abstracto, sobre todo en relación con el concepto de igualdad. Para un análisis detallado, lúcido y crítico, ver Ana Rubio Castro, Feminismo y ciudadanía, Instituto Andaluz de la Mujer, Sevilla-Málaga, 1997, esp. Pp. 43 y ss. Asimismo, puede consultarse Iris Marion Young, Intersecting voices. Dilemmas of gender, political philosophy and policy, Princeton University Press, New Jersey, 1997, esp. Pp. 60 y ss.

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La 3ª tarea, reside en la recuperación de la conciencia del límite, de la frontera, del horizonte. Sabernos limitados, es decir, determinados por una historia, por unas posibilidades, por unos obstáculos es el primer paso para poder pensar la posibilidad

y

la necesidad del cambio. Es lo que Nietzsche propone al situarse más allá del bien

y

del mal, rompiendo con las falsas polaridades lógicas y morales de la razón liberal.

Recuperar el horizonte de una vida que no aspira como dice el autor de “Así hablaba Zaratustra” a la general felicidad de los verdes pastizales sobre la tierra”, sino a una felicidad en la que la vida es lo que tiene que superarse siempre a sí misma. Una vida en la que la felicidad coincida con la espontaneidad, la invasión de los espacios negados y la creatividad de nuevas interpretaciones, de nuevas direcciones y formas. En definitiva, hablamos de la necesidad de recuperar nuestra “voluntad de poder”. Como dijo Zaratustra, debemos amar la paz como medios para nuevas prácticas. Esta actitud es la única que impulsa a las mujeres y hombres a tener que rehacer una y otra vez su propio camino en la historia.

La riqueza humana, pues, sólo encuentra sus contenidos materiales en la profundización participativa y decisoria de la democracia, pues, ésta solamente se consolida con más democracia 46 . Percibirnos como agentes pasivos es el principal obstáculo para la formulación de una alternativa democrática basada en el criterio de riqueza humana, ya que desde éste lo que pretendemos es aumentar la cantidad de individuos y grupos con poder real, es decir, ontológicamente empoderados como para poder ejercer por sí mismos la búsqueda de su dignidad 47 .

Tal y como defendía el hombre ridículo, hasta las ideas más hermosas son ficciones, aunque ficciones necesarias. Apostemos por esas ficciones que potencien la riqueza humana entendida como desarrollo de capacidades y apropiación de las condiciones que permitan su plena satisfacción. No todo derecho o teoría sobre los derechos nos pone ante la exigencia y la necesidad de que los seres humanos desarrollen y se apropien de lo que les corresponde en su camino hacia la dignidad de sus vidas. Luchemos por

44 Y no al revés. Ésta ha sido la cantinela de los políticos europeos empeñados todos en situarse en el “espacio de centro” como estrategia para mantenerse durante años en el poder. Entre otros males, están dejando los márgenes, tan necesarios para la actividad política, a la extrema derecha racista y fascista que día a día conquista más parcelas de poder político y cultural. Vid. Ch. Mouffe El retorno de lo político. Comunidad, ciudadanía, pluralismo y democracia radical, Paidós, Barcelona, 1999.

45 J.M. Albarrán, “Algunas notas sobre la teoría de la democratización del ser social en Georg Lukács” en J.M. Aragués (coord.), Presencia de Lukács , op. Cit. P. 131. Vid. También, Tarso Genro, O futuro por armar. Democracia e socialismo na era globalitária, Voces, Petrópolis, 1999, esp., pp. 142 y ss. Una reflexión sobre la democracia entendida como un proceso necesitado de una nueva subjetividad constituyente ver, además de las obras ya citadas en estas notas, A. Negri, Fin de siglo, Paidós, Barcelona, 1992, y A. Negri y Félix Guattari, Las verdades nómadas, Iralka, San Sebastián, 1996. De Rosa Luxemburg, puede leerse en este sentido sus Cartas a Karl y Louisse Kautsky, Galba Edicions, Barcelona, 1970, y Huelga de masas, partido y sindicatos, Pasado y Presente, Córdoba, 1970.

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derechos y teorías que apelen a lo humano concreto que se despliega bajo el criterio de riqueza humana. Quizá enarbolando este criterio podamos generalizar aquel rótulo con el que los revolucionarios franceses señalaban sus fronteras: “aquí comienza el reino de la libertad”.

Por estas razones seguimos soñando. Por estos motivos seguimos deseando rosas.

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2. DoutriNA NAcioNAL

2.1 o Direito NA PerSPectiVA DoS AutoreS DA SocioLoGiA cLáSSicA: DurkHeim, Weber e mArx

DIVA BRAGA Procuradora de Justiça do Estado de Minas Gerais Especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil pelo UNESC

LUCIANO BRAGA LEMOS Professor do Curso de Direito da FINAC Mestre em Direito, Justiça e Cidadania pela UGF

RODRIGO BRAGA LEMOS Advogado e Consultor Jurídico Especialista em Direito Processual Civil pela FDV

RAFAELA PAOLIELLO SOSSAI E LEMOS Administradora de Empresas. Graduanda em Fisioterapia pela EMESCAM Especialista em Marketing Empresarial pela FCMV/CONSULTIME

reSumo: Trata do Direito na perspectiva dos principais autores da Sociologia clássica. Cuida, segundo Durkheim, das influências da sociedade sobre o Direito e sua formação, da solidariedade social, dos fatos sociais como o objeto da sociologia e suas características. Analisa, na concepção de Weber, o individualismo metodológico e os tipos de dominação na História. Expõe, conforme Marx, o Estado e o Direito como intermediários e o Direito como ideologia a serviço da exploração capitalista.

PALAVrAS-cHAVe: Direito; Sociologia; Durkheim; Weber; Marx.

AbStrAct: The present paper dealds with Law in the perspective of the main authors of the classic Sociology. One approaches, according to Durkheim, the influences of the society on Law and its formation, of the social solidarity, of the social facts as the object of the sociology and their characteristics. One analyzes, in the conception of Weber, the methodological individualism and the dominance types in History. One exposes, according to Marx, the State and the Law as mediators and Law as ideology at the service of the capitalist exploitation.

keY WorDS: Law; Sociology; Durkheim; Weber; Marx.

Sumário: 1. Introdução. 2. Émile Durkheim (1858-1917). 2.1. As influências

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da sociedade sobre o direito e sua formação. 2.2. Solidariedade social. 2.2.1. Solidariedade social mecânica. 2.2.2. Solidariedade social orgânica. 2.3. Os fatos sociais como o objeto da sociologia. 2.4. Características dos Fatos Sociais. 2.4.1. Coercitividade. 2.4.2. Exterioridade. 2.4.3. Generalidade. 3. Max Weber (1864- 1920). 3.1. Individualismo metodológico weberiano. 3.2. Tipos ideais de dominação na História. 3.2.1. Dominação tradicional. 3.2.2. Dominação carismática. 3.2.3. Dominação legal ou burocrática. 4. Karl Marx (1818-1883). 4.1. O Estado e o Direito

como intermediários da exploração capitalista. 4.2. O Direito como ideologia a serviço

da exploração capitalista. 5. Referências bibliográficas.

1 introdução

A sociologia do direito é uma das disciplinas mais importantes para a formação

intelectual do jurista; é uma reflexão da sociologia sobre o direito que pode e deve ser feita também por juristas; é um pensamento dos sociólogos e juristas a respeito de um objeto específico que é o fenômeno jurídico na sociedade 1 . Conhecer melhor o direito não é meramente conhecer melhor as leis. Quando formos tratar de qualquer tema do direito, é preciso refletir a respeito desse tema tendo lastros na realidade social. É preciso ter um fundamento social para comprovar as realidades sociológicas.

Assim, para saber a repercussão social do novo Estatuto do Idoso, não basta a exegese (interpretação) de suas normas, é necessária uma reflexão a respeito da situação do idoso e do direito na sociedade contemporânea. Para refletirmos sociologicamente

a respeito de processo civil e cidadania, é preciso entender as razões dos princípios

processuais na sociedade; se quisermos dizer que a apelação em quinze dias atravanca

o bom andamento processual, é preciso dizer a razão pela qual atravanca, ou seja, ter constatações sociais concretas a esse respeito.

Asociologia do direito não é um conhecimento velho; pelo contrário, é um conhecimento

de no máximo um século e meio. Considerando Durkheim, Weber e Marx como os

pioneiros desse conhecimento, teremos um século e meio no máximo de sociologia.

Tudo que temos antes disso, incluindo até mesmo o tempo em que se formulou a idéia

do

contrato social e do direito natural moderno, pode ser chamado por pré-sociologia

do

direito, porque não se tratava de uma explicação da sociedade a partir dela mesma

e

sim a partir de Deus, de teorias abstratas ou do indivíduo isolado.

2

Émile Durkheim (1858-1917)

1 A sociologia do direito vê o fenômeno jurídico como fato social. A circunstância de ser o fenômeno jurídico um fato social é que justifica a própria existência da sociologia do direito. Encarando o Direito como fato social, a sociologia do direito concentra seu interesse naquilo que o Direito é, não naquilo que, hipoteticamente, devia ser. Nessa perspectiva, o Direito é visto como causa e conseqüência de outros fatos sociais. A sociologia do direito procura captar a realidade jurídica e projetá-la em relação a causas e princípios verificáveis.

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2.1 As influências da sociedade sobre o Direito e sua formação

Durkheim (1893) faz um estudo das influências da sociedade sobre o direito e sua formação.

2.2 Solidariedade social

Durkheim (1893) distingue inicialmente dois tipos de solidariedade 2 social, fundados na maior ou menor incidência da divisão social do trabalho: a solidariedade mecânica (por semelhança), a mais antiga e elementar; e a solidariedade orgânica (por dessemelhança), fundada num maior incremento da divisão do trabalho.

2.2.1 Solidariedade social mecânica

Solidariedade mecânica, para Durkheim, era aquela que predominava nas sociedades pré-capitalistas, em que os indivíduos se identificavam através da família, da religião, da tradição e dos costumes, permanecendo em geral independentes e autônomos em relação à divisão do trabalho social. A consciência coletiva 3 aqui exerce todo seu poder de coerção sobre os indivíduos.

2.2.2 Solidariedade social orgânica

Solidariedade orgânica é aquela típica das sociedades capitalistas, em que, através da acelerada divisão do trabalho social, os indivíduos se tornavam interdependentes. Essa interdependência garante a união (coesão) social, em lugar dos costumes, das tradições ou das relações sociais estreitas. Nas sociedades capitalistas, a consciência coletiva se afrouxa. Assim, ao mesmo tempo em que os indivíduos são mutuamente dependentes, cada qual se especializa numa atividade e tende a desenvolver maior autonomia pessoal 4 .

2 Solidariedade significa: sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses e às responsabilidades dum grupo social, duma nação, ou da própria humanidade; relação de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns, de maneira que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar o(s) outro(s); dependência recíproca.

3 A definição de consciência coletiva aparece pela primeira vez na obra Da Divisão do Trabalho Social:

trata-se do conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que forma um sistema determinado com vida própria. A consciência coletiva está espalhada por toda a

sociedade; é a forma moral vigente na sociedade; aparece como regras fortes e estabelecidas que delimitam

o valor atribuído aos atos individuais; define o que, numa sociedade, é considerado imoral, reprovável ou criminoso.

4 Uma vez que a solidariedade varia segundo o grau de modernidade da sociedade, a norma moral tende

a tornar-se norma jurídica, pois é preciso definir, numa sociedade moderna, regras de cooperação e troca de serviços entre os que participam do trabalho coletivo (preponderância progressiva da solidariedade orgânica).

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No setor jurídico, Durkheim descobre que, à medida que a solidariedade mecânica vai sendo, pelo influxo da divisão do trabalho, transformada em solidariedade cada vez mais orgânica, o direito vai abandonando o seu caráter repressivo (retributivo), dominantemente penal, para assumir predominantemente a sanção restitutiva, característica do direito civil e comercial 5 . Tal sucessão, prova-a Durkheim com base em rigorosa apuração estatística do número de dispositivos penais das legislações antigas e modernas, verificando a decrescente incidência deles com o progresso da civilização e o paralelo desenvolvimento da divisão do trabalho.

2.3. Os fatos sociais como o objeto da sociologia

Em uma de suas obras fundamentais, Durkheim (1895) formulou com clareza os tipos de acontecimentos sobre os quais o sociólogo deveria se debruçar: os fatos sociais 6 . Eles constituiriam o objeto da Sociologia.

2.4 características dos fatos Sociais

Três são as características que Durkheim distingue nos fatos sociais.

2.4.1 coercitividade

A primeira delas é a coerção social, ou seja, a força que os fatos exercem sobre os indivíduos, levando-os a conformarem-se às regras da sociedade em que vivem, independentemente de suas vontades e escolhas. Essa força se manifesta quando o indivíduo adota um determinado idioma, quando se submete a um determinado tipo de formação familiar ou quando está subordinado a determinado código de leis. O grau de coerção dos fatos sociais torna-se evidente pelas sanções a que o indivíduo está sujeito quando contra elas tenta se rebelar. As sanções podem ser legais ou espontâneas 7 . Legais

5 Eis aí o esquema de uma explicação funcional da sanção jurídica, tendo em vista o caráter dominante da sociedade, a fase que atravessa. Como a solidariedade mecânica, por ser fundada na simples semelhança dos indivíduos componentes é muito tênue e elementar, a sociedade não tem outro recurso senão punir penalmente, reprimir a conduta condenada por anti-social. Ao contrário, a solidariedade orgânica, fundada na harmonia dos interesses contrapostos dos seres sociais individualizados pelo exercício de funções diferenciadas, é uma solidariedade muito mais efetiva e abarcante, e pode prescindir, em grande parte, da preeminência da sanção meramente penal (repressiva), para dar o primeiro posto à sanção restitutiva, consistente em colocar as coisas nos mesmos termos anteriores à transgressão.

6 Os fatos sociais, para Durkheim, devem ser tratados como coisas, e sobre elas deve incidir uma análise objetiva; se apresentam como dados brutos, não qualificados previamente segundo alguma norma ou mesmo segundo algum juízo de valor. O fato jurídico já seria um fato trabalhado a partir de alguma perspectiva, como a normativa.

7 Espontâneas seriam as que aflorariam como decorrência de uma conduta não adaptada à estrutura do grupo ou da sociedade à qual o indivíduo pertence; assim, se um industrial utilizasse processo e técnicas ultrapassadas, teria a ruína como resultado inevitável.

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são as sanções prescritas pela sociedade, sob a forma de leis, nas quais se identificam a infração e a penalidade subseqüente 8 .

2.4.2. exterioridade

A segunda característica dos fatos sociais é que eles existem e atuam sobre os

indivíduos independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente, ou seja, eles são exteriores aos indivíduos. As regras sociais, os costumes, as leis, já existem antes do nascimento das pessoas, são a elas impostos por mecanismos de coerção social, como a educação. Portanto, os fatos sociais são ao mesmo tempo coercitivos e dotados de existência exterior às consciências individuais.

2.4.3 Generalidade

A terceira característica apontada por Durkheim é a generalidade. É social todo fato que é geral, que se repete em todos os indivíduos ou, pelo menos, na maioria deles. Desse modo, os fatos sociais manifestam sua natureza coletiva ou um estado comum

ao grupo, como as formas de habitação, de comunicação, os sentimentos e a moral.

3 max Weber (1864-1920)

3.1 individualismo metodológico weberiano

Para Weber, a sociologia baseia-se na ação dos indivíduos. O método weberiano parte do indivíduo para chegar à sociedade. A sociologia weberiana é feita por meio de compreensão. O dado estatístico – empírico – precisa ser reelaborado na compreensão

do

cientista social.

3.2

tipos ideais de dominação na História

Principalmente na sua grande obra Economia e Sociedade, Weber desenvolve suas

reflexões sociológicas sobre o Direito. Constata que há três tipos ideais de dominação

na História: a dominação tradicional; a carismática e a legal-burocrática.

3.2.1. Dominação tradicional

A dominação tradicional encontra-se principalmente nas sociedades primitivas,

na qual o conservadorismo é patente. No feudalismo, pai, filho e neto são sempre

8 Durkheim distinguiu as normas morais e as normas jurídicas, a partir da sanção. As normas jurídicas suporiam a sanção jurídica, que é aplicada por intermédio de órgão definido; as normas morais estão sujeitas à sanção moral, que é distribuída pelo corpo social inteiro, de modo indistinto, como a censura da opinião pública.

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senhores. A tradição é sagrada. Se foi assim no passado, será assim sempre. Tal modo de dominação é típica de economias pré-capitalistas. As velhas monarquias sustentam-se nesse diapasão. Assim, o tipo de dominação tradicional se dá em virtude de algo que existe há muito tempo. Questões da sociologia dos costumes e da moral são em geral desse tipo. Um de seus modelos correntes é a dominação patriarcal entre senhores e súditos. Como o conteúdo das ordens é regido pela tradição, considera-se impossível criar um novo direito. A sua característica marcante é a fidelidade.

3.2.2. Dominação carismática

A dominação carismática é a mais fulgurante e frágil, porque depende do carisma do

líder, da grande personalidade. Ditadores e líderes religiosos perfilam-se nesse tipo de dominação. O carisma se dá em virtude de devoção afetiva por dotes sobrenaturais, na forma de arrebatamento emotivo. Podem ser seus tipos puros: profetas, heróis, grandes demagogos. Há na dominação carismática, um nítido caráter comunitário. Quem manda é o líder, quem obedece é o apóstolo. Falta aqui um preceito racional de competência. Tal dominação baseia-se na crença. É fundamentalmente uma relação social que rompe com o cotidiano – o líder surge. Sua dominação não existia antes, mas agora há. Quando acaba o carisma e o domínio passa ao campo da tradição, torna-

se quotidiana.

3.2.3. Dominação legal ou burocrática

Já a dominação legal ou burocrática vai surgindo na Idade Moderna. No mundo moderno, toma vulto a institucionalização do Estado, e ela é a nossa forma típica de dominação até a atualidade. Segundo Weber, trata-se da dominação econômica capitalista. Sua teoria aqui também se assemelha em alguma medida à de Marx. Quem garante o capital é o Estado. O aparelho burocrático respalda a lógica econômica

mercantil e impessoal. A dominação legal é sempre em virtude de estatuto, de lei. O burocrata é um homem da forma. O estado funciona ao modo de empresa. A empresa

é uma formação burocrática. O funcionário do Estado não é autônomo, ele está

submetido a uma cadeia de regras. O Direito, essencialmente, da forma pela qual nós

o conhecemos, é um tipo de dominação burocrático-legal. O jurista se legitima pelas normas e leis.

Ao mesmo tempo, e mais importante, tais dominações são tidas por legítimas porque neutralizam suficientemente as indisposições individuais e sociais, de tal sorte que os explorados se reconhecem submetidos e agem a partir de tal condição dominada. Pode-se dizer que, em termos de sociologia do direito, Weber, com sua divisão dos três tipos puros de dominação legítima, constata que as sociedades modernas, capitalistas, estruturadas a partir do Estado, encontram no Direito o seu mais eficaz

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meio de dominação.

4 karl marx (1818-1883)

4.1 o estado e o Direito como intermediários da exploração capitalista

O Direito guarda uma posição muito especial no quadro da compreensão sociológica de Marx. Ao contrário de muitos pensadores que tomaram o direito de modo amplo, como se fosse uma manifestação eterna de todas as sociedades, enxergando Direito nas mais variadas manifestações econômicas, ideológicas, políticas e culturais da história, Marx é bem mais profundo no que diz respeito à relação do Direito com a sociedade. Segundo Marx, o Direito, tomado como um fenômeno específico, só se verifica nas sociedades capitalistas 9 . Essa afirmação se faz analisando a história. Em toda a evolução histórica da humanidade, houve diversos modos de produção, cada qual organizando, dominando e oprimindo a sociedade de certa forma específica. Ao olhar para essa longa história dos modos de produção, Marx verifica que somente na dominação de tipo capitalista houve instituições que pudessem ser denominadas de especificamente jurídicas. Claro está que, antes do capitalismo, outras sociedades chamavam a seus arranjos políticos de Direito, mas esse Direito do passado, assim chamado em sentido lato, não tem a mesma estrutura específica do Direito no capitalismo.

Nos modos de produção pré-capitalistas os tipos de dominação social são diretos. No escravagismo, o senhor domina diretamente os escravos, por meio da força bruta; no feudalismo, o senhor domina diretamente seus servos, por meio da propriedade imutável da terra. Mas o domínio capitalista é indireto. Quem procede à intermediação dessa dominação do capital é o Estado e o Direito. Seja na exploração do trabalho assalariado na produção, seja no lucro resultante do comércio, o capitalismo é o único modo de acumulação infinita de capitais. O capitalista pode ter o quanto for, independentemente da sua força física, porque ele se vale da garantia ao capital que advém do Estado e do Direito. O Direito é intermediário dessa exploração. O capitalismo, assim, associa-se sempre a uma forma jurídica, que é o seu meio de intermediação necessário.

No capitalismo, um burguês, ao tomar uma riqueza pagando-lhe um valor no mercado,

9 Segundo Marx, na produção social de sua existência, os homens contraem entre si relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a certo grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais. O conjunto das relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política, à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que lhes determina o ser, mas inversamente, o ser social é que lhes determina a consciência.

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estabeleceu um contrato, e essa é uma forma jurídica. O comércio capitalista se faz pelo contrato, portanto, por um instrumento de Direito. O capitalismo, assim, é necessariamente jurídico. Os modos de produção anteriores, não. A exploração de um homem por outro, de um trabalhador por um burguês, é intermediada por um contrato de trabalho. Por meio dele, o trabalhador juridicamente se submete ao burguês porque assinou um contrato de trabalho. O Estado é o garante dessa relação. No capitalismo, pode um burguês ter empreendimentos, lojas, bancos e indústrias nos mais variados lugares, porque o que garante sua propriedade privada e a obediência na exploração do trabalho alheio é o Estado, por meio de seus institutos jurídicos.

É por isso que, de maneira estrita, somente o capitalismo se estrutura em relações de Direito. Os modos de produção anteriores são estruturados na força bruta ou na propriedade exclusivista e tradicionalista da terra. O capitalismo é dinâmico porque seu lastro (base) é o próprio Estado e o seu Direito.

4.2. o Direito como ideologia a serviço da exploração capitalista

Existe uma função suplementar no Direito. Além de sua razão de ser estrutural, que é a de intermediar a exploração capitalista, há uma função suplementar, que é de caráter ideológico. Em termos ideológicos, o Direito dificulta a compreensão da real estrutura social, porque trata das coisas em termos idealistas. O Direito faz com que as injustiças apareçam formalmente desligadas da realidade. Quando o trabalhador vende sua força de trabalho ao capitalista, eles são dois desiguais. Mas o Direito os reputa como iguais, porque ambos são tidos como sujeitos de direito e ambos fizeram um acordo de vontades livremente. A função suplementar do Direito é servir de máscara ideológica ao capitalismo porque, na prática, trata formalmente como iguais os que são efetivamente desiguais.

Essa máscara ideológica faz com que o jurista nem saiba que o Direito está a serviço da exploração. Ele imagina, de fato, que todos são cidadãos, que todos são iguais porque seus votos valem o mesmo que os dos outros etc. O jurista não entende a mera aparência de formalidade que é o Direito. Por isso, para o marxismo 10 , para entender a sociedade é preciso quebrar o discurso ideológico do jurista e entender, historicamente, qual o papel estrutural do direito na sociedade capitalista. Assim sendo, no marxismo, o Direito não é tomado como um ente eterno, fora da história. Ele é parte específica da história, dos conflitos e da dominação do capitalismo, e a análise social do Direito

10 O marxismo é a doutrina dos teóricos do socialismo, os filósofos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), fundada no materialismo dialético, e que se desenvolveu através das teorias da luta de classes e da elaboração do relacionamento entre o capital e o trabalho, do que resultou a criação da teoria e da tática da revolução proletária.

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feita de maneira dialética 11 não pode perder de vista essa especificidade. O marxismo confirma-se, assim, como a grande teoria crítica para a sociologia do direito.

5. Referências bibliográficas

COSTA, Maria Cristina Castilho. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Moderna, 1987.

HERKENHOFF, João Baptista. Introdução ao estudo do direito: a partir de perguntas e respostas. Campinas: Julex, 1987.

MACHADO NETO, Antônio Luís. Sociologia jurídica. 6. ed. São Paulo: Saraiva,

1987.

MASCARO, Alysson Leandro. Lições de sociologia do direito. São Paulo: Quartier Latin, 2007.

ROSA, Felippe Augusto de Miranda. Sociologia do direito: o fenômeno jurídico como fato social. 11. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

SCURO NETO, Pedro. Sociologia geral e jurídica: manual dos cursos de direito. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2004.

11 A dialética, conforme Hegel, é a natureza verdadeira e única da razão e do ser que são identificados um ao outro e se definem segundo o processo racional que procede pela união incessante de contrários – tese e antítese – numa categoria superior, a síntese. Segundo Marx, é o processo de descrição exata do real.

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2.2 PriNcÍPio DA SePArAção DoS PoDereS: oS ÓrGãoS JuriSDicioNAiS e A coNcreção DoS DireitoS SociAiS 1

EMERSON GARCIA Promotor de Justiça do Estado do Rio de Janeiro Consultor Jurídico da Procuradoria Geral de Justiça Pós-Graduado em Ciências Políticas e Internacionais pela Universidade de Lisboa Mestre e Doutorando em Ciências Jurídico-Políticas pela mesma Universidade Professor convidado da Escola Superior do Ministério Público de São Paulo, da Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul, da Fundação Escola Superior do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios e da Escola Superior do Ministério Público da União

reSumo: Este texto, ao analisar o princípio da separação dos poderes, afasta-se da concepção teórica do liberalismo clássico, em seus dogmas sedimentados por Locke

e Montesquieu, e delimita o papel do Poder Judiciário na concreção dos direitos

sociais no contexto de uma sociedade alicerçada na ordem democrática e na dignidade humana. Apresenta como pressupostos: a distinção entre atos administrativos e atos de governo e a exigência positiva de acionar a atuação do Estado na salvaguarda dos direitos a partir dos contornos da realidade concreta

PALAVrAS-cHAVe: Estado. Separação dos poderes. Direitos sociais. Direitos subjetivos.

AbStrAct: When the present work deals with the fundamental doctrine of the separation of powers, it departs from the conception of the classic liberal principles

stablished by Locke and Montesquieu, preferring to delimit the function of the judiciary

in the concretion of the social rights, in a context of a society produced in a democratic

system and in a human dignity status. One presents the fololowing pressuppositions:

the distinction between the administrative action and the government action and the necessity of the State to function as a safeguard of the rights, considering the concrete reality.

keY WorDS: State; separation of Powers; Social rights; Subjective rights.

Sumário: 1. Delimitação do Plano de Estudo. 2. A Constituição como Elemento Polarizador da Separação dos Poderes. 3. Atos administrativos e Atos de Governo. 4. A Legitimidade do Poder Judiciário na Aferição das Omissões Administrativas.

1 Conforme original do autor.

DE JURE - REVISTA JURÍDICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS

5. O Regime Jurídico dos Direitos Sociais. 5.1. Direitos Subjetivos. 5.2. Mandados Constitucionais Endereçados ao Legislador. 5.3. Princípios Diretores. 6. A Sindicação Judicial dos Direitos Sociais à Luz do Paradigma Liberal: O Modelo Americano. 7. A Sindicação Judicial e a Efetividade dos Direitos Sociais à Luz do Modelo Social.

1. Delimitação do Plano de estudo

A separação dos poderes, a exemplo dos demais princípios estruturantes do Estado

de Direito, apresenta-se como mecanismo imprescindível à garantia do exercício moderado do poder e à conseqüente contenção do totalitarismo. 2 De modo semelhante às múltiplas vertentes que pode assumir, todas de indiscutível importância na organização do Estado, são igualmente múltiplas as classificações que pode receber.

É possível adotar um critério científico ou jurídico, que indica as características essenciais das funções atribuídas aos diversos órgãos; um critério técnico-organizativo, que trata da repartição das funções entre os distintos órgãos, buscando assegurar o melhor rendimento das instituições; ou mesmo um critério político, com o fim de garantir a satisfação dos interesses de determinada instância social. 3

A análise do princípio unicamente sob o prisma funcional não constituiria óbice a que

um mesmo órgão exercesse distintas funções, possibilidade não afastada por Locke, mas, como veremos, combatida por Montesquieu. É preferível, assim, conjugá-la com

o sentido orgânico, que busca sistematizar o exercício do poder por distintos órgãos.

Adotando-se uma perspectiva funcional, à função legislativa compete a formação do direito (rule making), enquanto que às funções executiva e judicial é atribuída a sua realização (law enforcement). No entanto, apesar de ser inegável a constatação de que tanto o Executivo como o Judiciário executam a lei, não nos parece correto falar em bipartição do poder. 4

2 Cf. Reinhold Zippelius, Teoria Geral do Estado (Allgemeine Staatslehre), trad. de Karin Praefke-Aires Coutinho, 3 a ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, p. 383. Por dizer respeito à forma de ação do Estado, o autor considera a separação dos poderes um princípio formal do Estado de Direito, enquanto as garantias dos direitos fundamentais seriam princípios materiais.

3 Cf. Franco Bassi, Il Principio della Separazione dei Poteri, in Rivista Trimestrale di Diritto Pubblico n o 1/17 (18), 1965.

Afirmava Berthélemy (Traité Élémentaire de Droit Administratif, 9 a ed., Paris: Rousseau, 1920, pp. 10-12) que o princípio da separação dos poderes não deveria ser entendido no sentido de que existem três poderes, isto porque fazer as leis e executá-las parecem, “em boa lógica”, dois termos entre os quais, ou ao lado dos quais, não há lugar a tomar. O ato de “interpretar a lei em caso de conflito” faz necessariamente parte do ato geral de “fazer executar a lei”, o que torna o Judiciário um ramo do Executivo. Kelsen (Teoria Geral do Direito e do Estado, trad. de Luís Carlos Borges, São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 365), do mesmo modo, observava que a usual tricotomia “é, no fundo, uma dicotomia, a distinção fundamental entre legis latio e legis executio”.

4

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O designativo poder, além de indicar o plexo de funções para cuja execução o órgão está

finalisticamente voltado, denota uma estrutura organizacional devidamente individualizada, autônoma e que não se encontra hierarquicamente subordinada às demais. Concentrar as funções executiva e judiciária sob a mesma epígrafe poderia comprometer a autonomia que acabamos de realçar, o que, por via reflexa, produziria efeitos sobre a própria independência dos juízes. Preservada a autonomia, o designativo é relegado a plano secundário. Nesse particular, vale lembrar a advertência de Barthélemy e Duez, 5 ao ressaltarem que o importante é resguardar a independência dos juízes, sendo irrelevante questionar se o Judiciário “é um poder ou simplesmente uma autoridade do Estado”, pois “ele é o que nós o fizermos, ele terá o nome que arbitrariamente nós lhe dermos”.

Além disso, não é de boa técnica preterir um conceito específico, que melhor designe

as peculiaridades e as funções de determinado órgão, por um conceito mais amplo,

terminando por enquadrá-lo juntamente com referenciais de análise que ostentem sensíveis diferenças. À função jurisdicional compete velar pela prevalência da norma de direito, atuando nos casos de ameaça ou efetiva violação ou quando a lei o determinar, ainda que não haja violacão. Sua intervenção final, ademais, observada a sistemática legal, será definitiva (final enforcing power), sendo essa a principal característica que a diferencia da outra função de realização da norma. 6 Negando- se essa constatação, não haveria porque falarmos, sequer, em funções executiva e legislativa, pois, no fundo, ambas se enquadram na noção mais ampla de exercício da soberania estatal.

No sentido orgânico, a separação dos poderes é analisada sob a perspectiva dos distintos órgãos que exercerão as funções estatais, sendo normalmente referidas as separações horizontal e vertical.

Fala-se em separação horizontal por estarem os diferentes órgãos em posição de igualdade, não sendo divisada qualquer hierarquia ou absorção, somente sendo possível uma relação de dependência entre eles nas hipóteses indicadas na ordem constitucional, o que tem por objetivo estabelecer condicionamentos recíprocos de modo a preservar o equilíbrio institucional e a obstar o surgimento do arbítrio. No sistema brasileiro, os órgãos recebem a denominação de Poder Legislativo, Poder

5 Traité Élémentaire de Droit Constitutionnel, Paris: Dalloz, 1926, p. 155.

6 Segundo Afonso Queiró (Lições de Direito Administrativo, vol. I, Coimbra: João Arantes, 1976, pp. 9/84), o ato jurisdicional não só pressupõe, mas é necessariamente direcionado à solução de uma “questão de direito” (violação do direito objetivo ou de um direito subjetivo), o que se realizará a partir da identificação da situação de fato. Caso seja buscado um resultado prático distinto da “paz jurídica” subjacente à solução da “questão de direito”, o ato será administrativo e não jurisdicional. Como anota Paulo Castro Rangel (Repensar o Poder Judicial, Fundamentos e Fragmentos, Porto: Publicações Universidade Católica, 2001, pp. 274 e ss.), indicando inúmeros precedentes, essa doutrina tem sido prestigiada pelo Tribunal Constitucional português.

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Executivo e Poder Judiciário, 7 o que, como veremos, prestigia a clássica divisão de Montesquieu, sendo esta a nomenclatura que utilizaremos no decorrer da exposição.

Ainda sob a ótica horizontal, também seria possível falar, ao menos teoricamente, em

separação “flexível” (v.g.: o modelo parlamentar europeu) e em separação “rígida” (v.g.:

o modelo presidencial americano), o que, respectivamente, corresponderia ou não à

capacidade de destruição recíproca do Legislativo e do Governo: com a dissolução da Assembléia ou a censura do Governo. 8 Esse modelo, evidentemente, apresenta inúmeras nuances quando transposto para a realidade, o que inviabiliza a formação de arquétipos rígidos a seu respeito. De qualquer modo, é inegável que o princípio da separação dos poderes apresentará contornos que variarão conforme os sistemas de organização do poder político: sistemas parlamentar, presidencial e a variante do semi-presidencialismo, que tenderá a se aproximar de um ou outro.

Na linha de evolução do sistema da separação dos poderes, a tradicional confrontação entre Executivo e Legislativo pouco a pouco se apaga e cede lugar às tensões infra- institucionais entre maioria e oposição. Com isto, o dualismo Executivo-Legislativo é

substituído por realidades estruturadas em “bloco de governo” e em “bloco de oposição”,

o que importa no deslocamento do foco de análise do plano institucional para o plano

partidário. 9 As inter-relações passam a ser regidas por interesses político-partidários, ensejando a inevitável cisão da unidade institucional e o conseqüente aparecimento de estruturas paralelas, quiçá contrapostas, que influem diretamente nas relações de poder.

Sob a ótica vertical, a separação dos poderes pode ser concebida em duas vertentes:

a) nas relações mantidas entre o Estado e os particulares, identificando o alcance do poder de regulação estatal e a esfera remanescente aos particulares; e b) na divisão de competências entre distintas unidades territoriais de poder, o que está associado à forma de Estado adotada (unitário ou federal), sendo múltiplas as vertentes que pode assumir.

7 Vide o art. 2 o da Constituição de 1988, que, além da divisão tripartite, fala em harmonia e independência entre os poderes, consagrando um sistema de colaboração, com mecanismos de controle recíproco. No mesmo sentido, o art. 20, II, n o 2, da Lei Fundamental alemã de 1949. A Constituição espanhola de 1978, nos arts. 117 a 127, prevê a tripartição, mas somente o Judiciário recebeu expressamente a qualificação

de poder. A Constituição francesa de 1958, diversamente, somente faz menção à autoridade judiciária, cabendo ao Presidente da República garantir-lhe a independência (arts. 64 a 66). A Constituição portuguesa, em seu art. 110, fala em órgãos de soberania (Presidente da República, Assembléia da República, Governo

e Tribunais), que devem observar a separação e a independência previstas na Constituição (art. 111). Não

obstante a literalidade do preceito, são inúmeros os mecanismos de colaboração (v.g.: a promulgação das

leis pelo Presidente da República – art. 134, b; a autorização da Assembléia da República como requisito

à declaração de guerra pelo Presidente – art. 161, m; a eleição, pela Assembléia, de juízes do Tribunal Constitucional – art. 163, i; etc.).

8 Cf. Luis Favoreau et alii, Droit Constitutionnel, 6ª ed., Paris: Éditions Dalloz, 2003, op. cit., p. 339.

9 Cf. Luis Favoreau et alii, Droit Constitutionnel …, op. cit., p. 338.

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A

separação de poderes entre o Estado e os particulares ou, melhor dizendo, a repartição

e

a conseqüente limitação das esferas de atuação, pressupõe o exercício do poder

de regulação do Estado, o que definirá a esfera e o respectivo alcance da atividade estatal, bem como a margem de liberdade deixada ao particular. Se o particular não exerce propriamente um “poder”, é inegável a sua aptidão para adotar determinados comportamentos passíveis de alterar a realidade fenomênica. Concebida essa esfera de atuação como um todo unitário, é possível que o Estado delimite, ante a natureza da atividade ou por mera opção política, uma área de atuação exclusiva, concorrente ou mesmo subsidiária. Essa esfera, como afirma Zippelius, 10 variará conforme se prestigie uma maior margem de regulação ou uma maior autonomia individual, o que, utilizando-se os princípios da proporcionalidade e da proibição de excesso, deve ser sopesado à luz dos direitos fundamentais. A exemplo das restrições à esfera individual, também as prestações do Estado, como afirma Zippelius, 11 devem ser reservadas às situações “em que a auto-regulação e a auto-sustentação, privada ou corporativa, não funcionam tão bem ou melhor”, o que indica a subsidiariedade dessa intervenção.

No Estado unitário, tanto pode ser divisada a concentração dos poderes numa unidade central abrangente de todo o território, como podem existir descentralizações. São espécies desse gênero: a) o Estado regional, em que a Constituição assegura uma real autonomia normativa às coletividades regionais (v.g.: Espanha e Itália), o que em muito o aproxima do Estado Federal; e b) o Estado descentralizado, no qual, em menor medida, são distribuídas determinadas competências a unidades territoriais menores. No Estado composto, ao revés, coexistem múltiplas esferas de poder.

No Estado federal - que pode ser perfeito (também denominado de funcional ou por associação) ou imperfeito (por dissociação), 12 conforme resulte da união de Estados soberanos (v.g.: o modelo americano) ou da divisão de um Estado unitário em parcelas menores, que continuam unidas ao todo mas que passam a exercer determinados poderes políticos (v.g.:

os modelos brasileiro, belga e austríaco) – os poderes são exercidos, consoante a disciplina traçada na Constituição, pela Federação e pelos Estados. Os poderes outorgados às unidades federadas tanto podem alcançar as distintas funções estatais (legislativa, executiva e judiciária) como restringir-se a algumas delas (v.g.: os Länder na Áustria 13 e os Municípios no Brasil, unidades federadas que somente possuem os Poderes Executivo e Legislativo).

10 Reinhold Zippelius, op. cit., pp. 402/403.

11 Op. cit., p. 403.

12 Luis Favoreau et alii (Droit Constitutionnel …, op. cit., p. 381) falam em Estado federal por associação ou por dissociação. Pablo Lucas Murillo de la Cueva [El Poder Judicial en el Estado Autonômico, in Teoria y Realidad Constitucional n o 5, p. 89 (100), 2000], por sua vez, o divide em integral (perfeito) e funcional (imperfeito), incluindo a Espanha, apesar da ausência de qualificação formal, na última categoria.

13 Cf. Jaume Vernet I Llobet, El sistema federal austríaco, Madrid: Marcial Pons, 1997, p. 116.

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E ainda, como ressalta Zippelius, 14 o estudo da separação e do equilíbrio entre os

poderes, longe de manter-se adstrito ao modelo de organização estatal, também avança em direção a múltiplos domínios, o que, a nível interno do Estado, importa na tentativa de manter o equilíbrio entre as forças sociais – em especial o poder das associações e dos meios de comunicação de massa – e, a nível internacional, na prevenção contra hegemonias. Mostra-se igualmente relevante, em especial no Continente Europeu, uma classificação que sistematize o exercício de competências derivadas da Constituição por instituições ou organizações internacionais. 15

O princípio da separação dos poderes, como se constata, tem dimensões amplas. Por

essa razão, delimitaremos o plano de estudo ao papel desempenhado pelo Judiciário na

concreção dos denominados direitos sociais, o que costuma ensejar discussões sobre a possível tensão com a separação dos poderes. As conhecidas dimensões ou gerações de direitos fundamentais podem ser reduzidas, quanto à postura a ser assumida pelo Estado, em duas categorias. A primeira assume uma feição negativa, limitando ou mesmo vedando a atuação do Estado numa esfera jurídica assegurada ao indivíduo. A segunda categoria, por sua vez, costuma refletir um aspecto positivo, exigindo a atuação do Estado para que os direitos possam transpor o plano ideológico-normativo

e alcançar a realidade.

Essa classificação, é importante observar, não pode ser exatamente superposta às diferentes gerações de direitos fundamentais, sendo plenamente factível a necessidade de um atuar positivo do Estado para a garantia das liberdades individuais (v.g.: na manutenção de estruturas jurisdicionais que façam cessar qualquer restrição ilícita à liberdade) ou mesmo uma abstenção para o regular exercício dos direitos sociais (v.g.:

na garantia do direito de greve). 16 No entanto, é indiscutível que a preservação das liberdades individuais exige um comportamento essencialmente negativo, enquanto

que, em relação aos direitos sociais, a preeminência é do atuar positivo. 17 É justamente

a essa última vertente que direcionaremos nossa analise.

Na perspectiva de estudo adotada, o Poder Judiciário é contextualizado numa forma de governo democrática, estruturada a partir das relações políticas mantidas entre governantes e governados, do que resulta um lineamento político-constitucional essencialmente distinto daquele que receberia em outros regimes (v.g.: num governo despótico).

14 Op. cit., p. 401.

15 Cf. Pablo Lucas Murillo de la Cueva, op. cit, pp. 91/92.

16 Cf. Walter Schmidt, I Diritti Fondamentali Sociali nella Repubblica Federale Tedesca, in Rivista Trimestrale di Diritto Pubblico n o 3/785 (802), 1981.

17 Cf. A. E. Dick Howard, La protection des droits sociaux en droit constitutionnel américain, in Revue Française de Science Politique vol. 40, n o 2, p. 173, 1990.

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A identificação dos limites e das potencialidades do Poder Judiciário na concreção dos

direitos sociais deve ser impregnada de uma visão prospectiva, distanciando-se dos dogmas sedimentados pelas clássicas teorias de Locke 18 e de Montesquieu, 19 desenvolvidas sob

a égide do liberalismo clássico, na medida do necessário à compreensão das relações

institucionais travadas num Estado Social. 20 À delimitação material da esfera de atuação judicial contribui a distinção entre atos administrativos e atos de governo e, sob o prisma da legitimação democrática, assume especial importância o papel desempenhado pela ordem constitucional. Além disso, o referencial desloca-se da potestate e alcança a pessoa, epicentro do Estado Social e Democrático de Direito, com o que se almeja demonstrar a necessidade de serem redimensionadas concepções sedimentadas em momento histórico diverso.

2. A constituição como elemento Polarizador da Separação dos Poderes

Adenominada constituição moderna, isto para utilizarmos a expressão de Gomes Canotilho, 21

é caracterizada como um documento escrito, que traça a ordenação sistêmica e racional da comunidade política, assegurando um conjunto de direitos fundamentais e estabelecendo diretrizes e limites ao exercício do poder político.

Face à sua estrita correlação com o poder político, a Constituição não pode ser vista e analisada como um corpo asséptico, distante e indiferente às estruturas ideológicas presentes na ordem social. O poder político reflete as ideologias existentes e a Constituição o limita e direciona, o que enseja uma interpenetração entre as diferentes ordens. Assim, é inevitável a influência dos influxos ideológicos na ordem constitucional, o que permitiria falar, segundo Howard, 22 em constituições socialistas, refletindo os princípios marxistas-leninistas; em

18 The Second Treatise of Government: Essay concerning the true original, extent and end of civil government, 3 a ed., Norwich: Basil Blackwell Oxford, 1976, §§ 143-148.

19 De L’Ésprit des Lois, obra publicada em 1748, Livro XI, Capítulo VI.

20 Tanto Locke como Montesquieu dispensaram uma importância secundária ao Poder Judiciário. Locke sequer concebeu um poder autônomo, integrando a função de julgar num espectro mais amplo: o de executar a lei. Quanto a Montesquieu, apesar de prestigiar a existência de um poder autônomo encarregado da função jurisdicional, apressava-se em realçar a necessidade de que o Poder Judiciário se mantivesse adstrito à “letra da lei”. As doutrinas de Locke e Montesquieu bem demonstram que o alicerce teórico da separação dos poderes, caso estudado na pureza de suas linhas estruturais, não mais se coaduna às profundas mutações de natureza inter e intra-orgânica que se operaram na estrutura política do poder. A começar pela própria produção normativa, que, numa fase pós-positivista, sofreu um profundo realinhamento com o reconhecimento do caráter normativo dos princípios jurídicos, o que, como veremos, em muito enfraqueceu a senhoria normativa do Poder Legislativo, pulverizando-a entre os demais poderes. Nesse particular, foram profundas as modificações operadas no Poder Judiciário. Se Locke sequer reconhecia a sua individualidade e Montesquieu o confinava à “letra da lei”, é difícil negar a superação desse quadro ao se constatar que, hodiernamente, cabe ao Judiciário, em última instância e em caráter definitivo, densificar o conteúdo dos princípios jurídicos e, à luz do caso concreto, submetê-los a operações de ponderação.

21 Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 7 a ed., Coimbra: Livraria Almedina, 2003, p. 52.

22 Op. cit., p. 190.

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constituições liberais, que realçam as teorias individualistas; e em constituições mistas, nas quais a interseção de direitos positivos e negativos é mais acentuada.

Em sociedades pluralistas, locus adequado ao pleno desenvolvimento da democracia, a

Constituição tende a refletir, consoante a aceitabilidade de cada qual, as convergências

e as divergências existentes entre as distintas forças políticas e sociais: daí se falar em Constituição compromissória, produto do “pacto” estabelecido entre referidas forças. 23

Além de presentes em sua formação, as diferentes ideologias sociais também se

refletirão na interpretação da Constituição, pois, tendo ela uma estrutura que congrega normas de natureza preceitual e principiológica, os valores sociais que corporificam

o conteúdo de seus princípios e direcionam a aplicação de suas regras lhe conferem

uma textura eminentemente aberta, 24 possibilitando uma contínua adequação às forças políticas e sociais.

Por ser inevitável a influência de inúmeras variantes ideológicas em sua formação

e interpretação, deve a Constituição, sem prejuízo de sua unidade sistêmica, ser

aplicada de modo a potencializar suas normas e a alcançar os distintos fins visados. Relegando a plano secundário as diferentes “individualidades” que compõem o figurino constitucional, correr-se-á o risco de prestigiar determinados valores em detrimento de outros dotados de igual legitimidade. Interpretar os direitos sociais à luz do pensamento liberal oitocentista poderá gerar iniqüidades somente comparáveis

à tentativa de preservação das liberdades individuais a partir da ideologia marxista- leninista.

Não se sustenta, é evidente, o isolamento das normas constitucionais em compartimentos estanques, destituídos de qualquer influência recíproca. Fosse assim, não se poderia falar em unidade ou mesmo em ordem constitucional. O que se afirma, em verdade, é que a interpretação da norma constitucional exige sejam devidamente sopesados os influxos ideológicos nela diretamente refletidos e, somente num segundo momento, deve ser a norma compatibilizada com os demais influxos recepcionados pela Constituição. Com isto, preserva-se a essência da Constituição compromissória, evitando que o pluralismo de forças termine por ser desvirtuado e anulado, bem como assegura-se a manutenção da harmonia entre elas, prestigiando as opções fundamentais do Constituinte e o princípio da unidade constitucional.

23 Cf. J. J. Gomes Canotilho, Direito Constitucional

24 Sobre a Constituição aberta, inclusive com ampla indicação bibliográfica, vide Carlos Roberto Siqueira de Castro, A Constituição Aberta e os Direitos Fundamentais, Rio de Janeiro: Editora Forense, 2003, pp.

15/130.

, op. cit., pp. 218/219.

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Especificamente em relação à preservação do interesse social, pode-se dizer, de forma simplista, que a interpretação de suas potencialidades deve ser devidamente compatibilizada com os influxos liberais igualmente prestigiados pela ordem constitucional. Ainda que à propriedade seja assegurada uma função social, não pode o seu titular, sem qualquer compensação, ser dela integralmente privado; sendo prevista a prisão unicamente como sanção, não como meio de coerção processual, não se pode restringir a liberdade de um indivíduo para compeli-lo à prática de determinado ato de interesse coletivo; etc.

A interpretação do princípio da separação dos poderes, como não poderia deixar de

ser, não configura exceção à proposição já enunciada. Se é certo que a preservação das liberdades individuais, em linhas gerais, pressupõe uma atitude abstencionista do Poder Público, o que direciona a atuação dos órgãos jurisdicionais a essa ótica de análise, não menos certo é que os direitos sociais normalmente pressupõem um atuar positivo, o que, em sendo necessário, exigirá uma atuação diferenciada dos referidos órgãos. O que se mostra inconcebível é transpor parâmetros de tutela e paradigmas de convivência institucional essencialmente voltados à preservação da liberdade para um campo em que se mostra essencial um facere estatal.

Cabe à ordem constitucional, a partir dos diferentes influxos ideológicos que, explícita ou implicitamente, nela se materializaram, atuar como elemento polarizador do princípio da separação dos poderes. A contemplação de um extenso rol de direitos econômicos, sociais e culturais ou mesmo a exigência de preservação da dignidade

da pessoa humana, o que pressupõe o fornecimento de um rol mínimo de prestações,

indica uma opção ideológica que deve ser prestigiada na interpretação dessas normas constitucionais, tendo influência direta em princípios reitores do sistema, como o da separação dos poderes.

A fórmula Estado Social e Democrático de Direito indica claramente a imperativa

observância de determinados padrões de conduta, quer sejam omissivos, quer sejam comissivos, daí se falar em Estado de Direito; a necessária participação popular no exercício do poder político, com a conseqüente aceitação das normas dela derivadas, o que justifica o designativo Estado Democrático; e, the last but not the least, a integração dos órgãos de poder com o objetivo de assegurar o progresso social e uma

existência digna, tendo em vista a consecução do bem-comum, 25 perspectiva que delineia os contornos do Estado Social.

A sindicação dos atos e das omissões da Administração assumirá uma perspectiva

diferente daquela formada por influência do liberalismo, cujo objetivo principal era

25 Nas palavras de Aristóteles (A Política, tradução de Roberto Leal Ferreira, São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 53), “não é apenas para viver juntos, mas sim para bem viver juntos que se fez o Estado

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obstar o avanço sobre esferas resguardadas ao indivíduo. Em se tratando de direitos

sociais, a Administração deve penetrar em determinadas áreas essenciais ao indivíduo

e realizar as prestações necessárias à sua concretização, o que exigirá uma ótica de análise distinta, essencialmente voltada à aferição das omissões administrativas. Essa constatação permite concluir que as inter-relações mantidas entre os Poderes Executivo e Judiciário não devem ser concebidas numa linearidade indiferente aos influxos ideológicos que exijam um facere ou um non facere estatal. Com isso, será

possível descortinar, na própria Constituição, a legitimidade do Poder Judiciário na aferição de comportamentos aparentemente envoltos no outrora inexpugnável manto

da discricionariedade administrativa.

3. Atos administrativos e Atos de Governo

Sustentando-se a possibilidade de sindicação das omissões da Administração na implementação dos direitos prestacionais, torna-se necessário delimitar, com a maior

exatidão possível, a esfera reservada ao exercício do poder político, seara caracterizada pela liberdade valorativa e, em regra, de reduzida sindicabilidade. Relegando esse imperativo a plano secundário ou não sendo ele executado a contento, será inevitável

o choque entre concepções que, não obstante derivadas do Direito, recebem seus

influxos de modo nitidamente variável: é essa a tensão que se manifesta entre órgãos jurisdicionais e órgãos políticos ao interpretarem a norma. Como lembra Guettier, 26 é justamente a singularidade dessa situação que explica uma atitude de reserva dos juízes ao definirem a extensão de seu controle sobre atos emanados de órgãos políticos.

Os atos políticos, na concepção aqui tratada, são atos de conteúdo não-normativo da função política, regidos pela Constituição e que só podem ser corretamente entendidos

na perspectiva do sistema de governo e das relações entre os seus respectivos órgãos. 27 São instrumentos pelos quais se explicam as funções de direção, de governo e de controle do Estado, do que são exemplos a declaração de guerra e a convocação do Parlamento. 28

A delimitação do controle a ser exercido pelos juízes pressupõe a compreensão

da dicotomia entre atos de governo e atos administrativos: os primeiros, como manifestação do poder político, sofreriam um controle restrito; os segundos, por derivarem de uma atividade essencialmente circunscrita aos contornos da legalidade, em regra, estariam sujeitos a um controle amplo – a exceção, por sua vez, derivaria

26 Le contrôle jurisdictionnel des actes du president de la République, in Les 40 ans de la V e République, Revue du Droit Public n o 5/6, p. 1719 (1721), 1998.

27 Cf. Jorge Miranda, Funções, Órgãos e Actos do Estado, apontamentos de lições, Lisboa, 1986, pp. 299 e ss

28 Cf. Rocco Galli, Corso di Diritto Amministrativo, Padova: CEDAM, 1991, p. 243.

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da margem de liberdade inerente à noção de poder discricionário, 29 o que enseja, igualmente, um controle restrito.

Os atos de governo, face à sua própria natureza, estarão sujeitos, em maior intensidade, a um controle de ordem política, a ser realizado pelo Parlamento (v.g.: com o mecanismo do impeachment), pelo povo (v.g.: por ocasião das eleições) ou mesmo por órgãos com competência nitidamente jurisdicional. Na França, as nomeações para cargos civis e militares do Estado - previstas no art. 13, n o 2, da Constituição como de competência do Presidente da República, com a aquiescência do Primeiro Ministro –, outrora puramente discricionárias, pois dotadas de um acentuado cunho político, têm sido objeto de controle pelo Conselho de Estado sob a ótica do “erreur manifeste d’appréciation”. Nesses casos, verifica-se a própria adequação das aptidões do indivíduo ao posto a ser ocupado ou à tarefa a ser cumprida. 30

Guettier, 31 após ressaltar o perigo de se deixar que atos fundados em “raison d’État” escapem a qualquer controle, lembra que a jurisprudência administrativa francesa tem evoluído no sentido de restringir, progressivamente, o domínio dos atos de governo. De qualquer modo, a impossibilidade de sindicação ainda é prestigiada no quadro das relações entre o Executivo e os demais poderes e nas relações internacionais. Consoante a jurisprudência do Conselho de Estado, à luz da Constituição francesa, são exemplos de atos insindicáveis: a nomeação do Primeiro Ministro (art. 8, al.

1 er ), a submissão de projetos de lei a referendo (art. 11), o decreto de dissolução da Assembléia Nacional (art. 12), as mensagens presidenciais ao Parlamento (art. 18), a

29 O poder discricionário reflete-se no exercício de uma atividade valorativa que culminará com a escolha, dentre dois ou mais comportamentos possíveis, daquele que se mostre mais consentâneo com o caso concreto e a satisfação do interesse público. Para tanto, deve a autoridade proceder à “ponderação comparativa dos vários interesses secundários (públicos, coletivos ou privados), em vista a um interesse primário”,

sendo esta a essência da discricionariedade (Cf. Massimo Severo Gianini, Diritto Amministrativo, vol. 2 o ,

3 a ed., Milano: D. A. Giufrrè Editore, 1993, p. 49). Como discricionariedade não guarda similitude com

arbitrariedade, a atividade administrativa deve adequar-se à noção de juridicidade, que integra as regras e os princípios regentes da atividade estatal, importando numa filtragem da esfera de liberdade assegurada ao agente, remanescendo uma área restrita não sujeita à sindicação judicial. Essa área restrita, tradicionalmente denominada de mérito administrativo, indica a oportunidade do ato (rectius: o juízo valorativo resultante da ponderação dos interesses envolvidos), não seguindo parâmetros estritamente jurídicos (v.g.: o objetivo de boa administração - Cf. Pietro Virga, Diritto Amministrativo, vol. 2, 5 a ed., Dott. A. Giuffrè Editore, 1999, p. 8, p. 11; Franco Bassi, Lezioni di Diritto Amministrativo, 7 a ed., Milano: Dott. A. Giuffrè Editore, 2003, p. 68; e Diana-Urania Galetta, Principio di proporzionalità e sindacato giurisdizionale nel diritto amministrativo, Milano: Giuffrè Editore, 1998, p. 149), o que justifica a sua inclusão numa esfera residual reservada à Administração.

30 Conselho de Estado, Association générale dês administrateurs civils et autres c/ Dupavillon, j. em 16/12/1988, Leb., p. 450, tendo sido reconhecida a adequação; e Bleton et autres c/ Sarazin, j. em 16/12/1988, Leb., p. 451, decisão que declarou a ausência do perfil de carreira (apud Christophe Guettier, Le contrôle jurisdictionnel…, p. 1744).

31 Le contrôle jurisdictionnel…, pp. 1722/1723.

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nomeação de três membros do Conselho Constitucional, assim como do Presidente, e

a provocação do Conselho (arts. 54, 56 e 61). 32

A

liberdade característica dos atos de governo, por estar inserida num sistema unitário

e

teleologicamente voltado à consecução do bem comum, recebe temperamentos

da ordem constitucional, que limita e condiciona o seu exercício. Nesse particular, merecem especial realce as normas consagradoras de direitos, liberdades e garantias, que surgem como parâmetros de controle do poder discricionário da Administração, com a conseqüente invalidade dos atos que deles destoem. 33 O espectro de liberdade, ademais, sofre sensíveis alterações, que variarão consoante o grau de densidade das normas de patamar superior nas quais se assente o ato. É inequívoco que uma norma constitucional meramente programática (v.g.: o Estado zelará pelo bem-estar das crianças) deixa uma ampla liberdade de conformação ao Legislativo e ao Executivo. Em razão inversa, nos parece igualmente inequívoco que a previsão constitucional de atuação prioritária em determinada área (v.g.: na proteção das crianças), acrescida de uma disciplina infraconstitucional definidora das medidas a serem adotadas (v.g.:

prestação do ensino), em muito reduz a margem de liberdade do Executivo.

Ainda que a Constituição e o legislador infraconstitucional, como é normal,

disponham sobre inúmeras outras atribuições correlatas do Executivo, sem definir

o momento em que cada uma delas deva ser implementada, não se mostra ampla e

irrestrita a sua liberdade de “opção política”. Com efeito, a ausência de um indicador temporal específico pode ser substituída, com vantagem, pela imposição de tratamento

prioritário à matéria, o que conferirá um caráter residual à referida liberdade, que somente ressurgirá, em relação às atribuições correlatas, após o atendimento daquela considerada prioritária. Inexistindo previsão como essa, os contornos da liberdade se tornarão mais fluidos, porém, não fluidos o suficiente a ponto de inviabilizar todo e qualquer controle.

Em qualquer Estado democrático, é o indivíduo que ocupa o epicentro da ordem jurídica, erigindo-se como razão de ser e fim último de toda e qualquer atividade estatal. Esse status, normalmente indicado com o imperativo respeito à dignidade da

32 Le contrôle jurisdictionnel…, pp. 1723/1724. Ainda segundo o autor, na ordem internacional são insindicáveis os atos do Executivo cuja natureza administrativa não possa ser reconhecida (as decisões tomadas pelo Presidente da República como “prince des Vallées d’Andorre” – Conselho de Estado, Société Le Nickel, j. em 1 o /12/1993, Leb., p. 1132) e os atos praticados na condução das relações diplomáticas da França (a criação de uma zona de segurança e a suspensão da navegação marítima no mar territorial de um atol da Polinésia – Conselho de Estado, Paris de Bollardière et autres, j. em 11/07/1975, Leb., p. 423; e a decisão de retomar uma série de ensaios nucleares interrompidos - Conselho de Estado, Association Greenpeace France, j. em 29/09/1995, Leb., p. 347).

33 Cf. Jorge Miranda, Manual de Direito Constitucional, Tomo IV, 3 a ed., Coimbra: Coimbra Editora, 2000,

p. 315; e J. J. Gomes Canotilho, Direito Constitucional

, op. cit., p. 446.

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pessoa humana ou com a previsão constitucional de um extenso rol de direitos, bem demonstra que qualquer ato político deve ser praticado de modo a não macular o seu conteúdo mínimo.

Ao sopesar os distintos atos materiais passíveis de serem praticados, deve o Executivo realizar a análise dos valores envolvidos e identificar aqueles que, à luz das circunstâncias fáticas e jurídicas, possuam maior peso. Tal operação, que redundará numa opção essencialmente política, em rigor, será insindicável. No entanto, demonstrando-se que valores essenciais à dignidade da pessoa humana foram preteridos por outros de peso nitidamente inferior, a opção se mostrará destoante da Constituição e, ipso iure, inválida (v.g.: não será legítima a opção pela contínua alteração das cores de uma escola em detrimento do pagamento dos professores ou da aquisição de alimentos para os alunos carentes). Não obstante a plasticidade dessa afirmação, é evidente a dificuldade encontrada na exata delimitação daquilo que se deve entender por dignidade da pessoa humana. Apesar disso, serão identificadas com relativa facilidade zonas de certeza positiva e zonas de certeza negativa, indicando, respectivamente, a observância ou a inobservância dos padrões de dignidade. A esfera de liberdade, assim, ficará restrita a uma zona intermédia, impregnada por intenso subjetivismo e insuscetível de controle judicial.

Ultrapassada a esfera de liberdade, não se poderá falar em indébita intromissão do Poder Judiciário em atividade desenvolvida por outro poder. Como observa Cristina Queiroz, 34 existem conflitos puramente políticos, insuscetíveis de conformação- subsunção normativa e, por outro, conflitos políticos em que apesar de tudo essa conformação é possível, pelo que se encontram sujeitos a um ‘direito judicial de controle’”. O princípio da separação dos poderes, como dissemos, é polarizado pela Constituição e pelos valores nela consagrados, possuindo a flexibilidade necessária para assegurar a preeminência da dignidade da pessoa humana.

4. A Legitimidade do Poder Judiciário na Aferição das Omissões Administrativas

Em um primeiro plano, deve-se ressaltar que a ratio do controle exercido pelo Poder Judiciário, longe de buscar a sedimentação de uma superioridade hierárquica no plano institucional ou a frívola ingerência em seara inerente ao Executivo, é a de velar para que o exercício do poder mantenha uma relação de adequação com a ordem jurídica, substrato legitimador de sua existência. Dessa forma, não se identificará um juízo censório ou punitivo à atividade desenvolvida por outro poder, mas, sim, uma relevante aplicação do sistema de “freios e contrapesos”, inerente ao regime democrático e cujo desiderato final é garantir o bem-estar da coletividade.

34 Os Actos Políticos no Estado de Direito - O Problema do Controle Jurídico do Poder, Coimbra: Livraria Almedina, 1990, p. 217.

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Esse controle, no entanto, provocará uma inevitável tensão entre dois valores indispensáveis ao correto funcionamento do sistema constitucional: o primeiro indica que o poder de decisão numa democracia deve pertencer aos eleitos - cuja responsabilidade pode ser perquirida - e, o segundo, a existência de um meio que permita a supremacia da Constituição mesmo quando maiorias ocasionais, refletidas no Executivo ou no Legislativo, se oponham a ela. 35 Uma forma de harmonizar os dois

aspectos dessa dialética é a contemplação dos direitos sociais na própria Constituição,

o que, retirando um irrestrito poder de decisão das maiorias democráticas, permite aos juízes decidir se tais direitos devem ser reconhecidos. 36

É importante observar que o equilíbrio propiciado pela separação dos poderes, de indiscutível importância na salvaguarda dos indivíduos face ao absolutismo dos governantes, também contém os excessos da própria democracia. O absolutismo ou mesmo o paulatino distanciamento das opções políticas fundamentais fixadas pelo Constituinte pode igualmente derivar das maiorias ocasionais, as quais, à mingua de mecanismos eficazes de controle, podem solapar as minorias e comprometer o próprio pluralismo democrático. Por tal razão, não se deve intitular uma decisão judicial de antidemocrática pelo simples fato de ser identificada uma dissonância quanto à postura assumida por aqueles que exercem a representatividade popular. Não se afirma, é certo, que a democracia seja algo estático, indiferente às contínuas mutações sociais. No entanto, ainda que a vontade popular esteja sujeita a contínuas alterações, o que resulta de sua permanente adequação aos influxos sociais, refletindo-se nos agentes que exercem a representatividade popular, ela deve manter-se adstrita aos contornos traçados na Constituição, elemento fundante de toda a organização política e que condiciona o próprio exercício do poder.

Não merece acolhida, inclusive, a tese de uma possível supremacia do Judiciário em relação aos demais poderes. As suas vocações de mantenedor da “paz institucional

e de garantidor da preeminência do sistema jurídico assumem especial importância

no Estado Social moderno, no qual aumenta a importância do Estado em relação ao

indivíduo, com a correlata dependência deste para com aquele, exigindo do Judiciário

o controle dessa relação. 37

35 Cf. Howard, op. cit., p. 188.

36 Cf. Howard, op. cit., p. 190. Acrescenta o autor que as questões éticas e sociais da vida moderna permitem concluir que o desrespeito a uma certa justiça social fará com que outros direitos, como o direito de voto, a liberdade de expressão e a liberdade de consciência, se tornem “cascas vazias