O CANTO DA SEREIA

Bianca nº309 Copyright: Victoria Glenn Título original: "Mermaid" Publicado originalmente em 1985 Digitalização/ Revisão: m_nolasco73

Ele passou cinco anos em busca de um louco sonho perdido! Contra capa: Diana poderia mesmo acreditar no amor de um playboy milionário? O luar iluminava o corpo de Diana, que, feliz, deixava-se levar pelas ondas suaves do lago. De repente, porém, um ruído a assustou: um barco se aproximava, e de dentro dele um homem tentava alcançá-la. Mas tudo que conseguiu foi cair na água, ei teria ficado ali para sempre se ela não o tivesse salvo para depois sumir no meio da noite, na mata... Cinco anos depois, o homem voltou ao lago, em busca da sereia que não conseguira esquecer. E Diana quis fugir de novo. Que futuro teria ao lado do playboy Charles Winfield?

CAPÍTULO I
As notícias a respeito de Charles Winfield espalharam-se pela vila de Silverwood Lake em questão de horas. E isso era perfeitamente natural, pois Miriam MacPhee, funcionária do correio, contava a novidade para quem quisesse ouvir: - O fechamento do negócio aconteceu esta manhã. Eu estava lá na hora em que ele assinou os papéis. - Ouvi dizer que pagou quase o dobro do valor da propriedade - comentou William Sutherland, dono de uma loja de antiguidades, a William's Roadside Antiques. Miriam voltou-se para Diana com um sorriso malicioso, enquanto lhe entregava um pacote de cartas. - Não é uma notícia fabulosa, especialmente para as moças solteiras? - Por favor, Miriam! - Imagine ter um milionário simpático e solteiro justamente aqui, em nossa pequena cidade! Já estou prevendo algumas atividades interessantes!

Miriam costumava considerar-se a casamenteira da vila nos últimos trinta anos. Diana dirigiu-lhe um sorriso forçado e, saindo do correio, ganhou a rua. Ao virar a esquina de Main Street, foi cumprimentada por três homens idosos que, sentados em cadeiras de madeira, aproveitavam o sol de setembro. Aquele trio fazia parte da paisagem da rua há anos, diferindo apenas nas rugas, que aumentavam a cada ano. - Alô, garota! - gritou um deles. - Como vai, tio Jim? O homem sorriu. Sempre o haviam chamado de "tio", embora ele não tivesse parentes vivos. - Aposto como você já ouviu a novidade! - disse Arthur, um homem de cabelos brancos, muito elegante em sua velha jaqueta xadrez. - Que novidade? - perguntou Diana, com ar de inocente. Os três homens riram. - Parece que há um bom partido para você, agora. Dizem que ele vale mais do que duzentos milhões de dólares, lady Di! Ela suspirou, aborrecida. Quando isso iria terminar? - Mas é melhor que você ande depressa ou será vencida por Sara Lee Hutchins ou Helga Schuyler. Lembre-se do ditado: “Deus ajuda quem cedo madruga!" - disse tio Jim. O trio ria no prazer da conspiração. Diana sorriu sem vontade, porque fazia parte de sua educação não desrespeitar os mais velhos. Embora tivesse vinte e um anos, era ainda tratada como adolescente. Afinal, conheciam-na desde que nascera. Além disso, pelo costume dos moradores da vila, as pessoas não eram consideradas adultas até que fossem casadas e tivessem pelo menos três filhos. - Estamos todos torcendo por você. Mal posso esperar para comemorar o seu casamento, lady Di! - observou Arthur. Os outros concordaram com gestos de cabeça e sorrisos que deixavam transparecer a sinceridade de suas intenções. Diana finalmente conseguiu escapar e chegou a seu carro. Virou a chave na ignição e dirigiu vagarosamente ao longo de uma série de pequenas lojas, na área chamada zombeteiramente de "centro comercial". Tinha que acenar para quase todas as pessoas por quem passava. Parou num posto de gasolina para abastecer o carro e logo pensou que Miles, o frentista, iria se referir à notícia. - Aposto como você está toda excitada por causa do novo vizinho, não é? Meu conselho é que vá até lá hoje mesmo para pedir uma xícara de açúcar emprestada, se é que entende o que quero dizer! - Você poderia verificar a calibragem dos pneus, por favor? Acho que estão um pouco baixos. Enquanto Miles trabalhava no carro, Diana balançou a cabeça, resignada. Estava tão certa de que algo assim nunca iria acontecer! Há quinze anos os proprietários de Grey House recusavam-se terminantemente a vendê-la. Agora, numa ação inesperada, a grande casa de campo em estilo vitoriano às margens do lago era propriedade de Winfield Enterprises Incorporated. Pertencia àquele homem! Quem saberia o que ele tinha em mente? Ela o havia conhecido numa ocasião, e não tinha sido um encontro no sentido normal da palavra. Devido às estranhas circunstâncias que cercaram o acontecimento, apenas uma pessoa na vila tinha ciência das coisas que ocorreram naquela noite, há cinco anos. Sua apresentação ao sr. Charles Winfield, certamente, não fora adequada. Ela contava dezesseis anos na época e a experiência havia sido, por assim dizer, desastrosa. - Acho bom completar o óleo - disse Miles. - Está certo. Há cinco anos, o mundo parecia bom e seguro. Tudo o que ela conhecia estava confinado ao perímetro urbano de Silverwood Lake. Devido à ausência de qualquer grande cidade numa área de muitos quilômetros, a pequena vila permanecera relativamente isolada de influências externas. Hospedava, principalmente, homens de negócio em passagem e viajantes a caminho de outro destino. Havia pouco fluxo turístico, apesar da bela paisagem de pinheiros, porque o lago era privativo. O acesso a ele era restrito aos habitantes da cidade ou aos que possuíssem propriedades no local. O pequeno hotel nunca ficava lotado, exceto em julho e agosto, quando pais vinham às montanhas do Estado de Nova York para visitar as crianças nos dois acampamentos de férias. Era nessa estação quente que o lago limpo, quase cristalino, e os bosques que o cercavam enchiam-se do movimento e da algazarra dos jovens em suas atividades ao ar livre. Mas, no

fim de agosto, os pequenos campistas barulhentos voltavam a suas casas nas cidades e, uma vez mais, o lago pertencia aos moradores locais. E havia sido numa noite enluarada de setembro, há cinco anos, que Diana encontrara um intruso em seu paraíso quase perfeito. No fim das férias de verão, como de hábito, os acampamentos ficaram desertos. As poucas casas de veraneio em frente ao lago foram fechadas, exceto Grey House. Localizava-se nadas extremidades do lago e ninguém prestava muita atenção a ela ou a seus moradores. Isso porque estava quase sempre vazia, exceto nas férias, quando era alugada a veranistas. Houve uma época em que conhecera intensa atividade, quando a família Grey, que a construíra, ainda morava lá. Mas a tragédia acontecera há aproximadamente vinte anos. A única filha do rico casal Grey saíra sozinha para nadar no lago e morrera afogada. Era apenas uma adolescente e seus pais ficaram arrasados. Fecharam a alegre casa e voltaram para Albany, capital do Estado, incapazes de suportar a simples visão do local. Algumas pessoas achavam estranho que o casal, apesar disso, se recusasse a vender a propriedade; mas outras achavam bastante compreensível. A filha deles havia sido feliz lá e talvez achassem, num sentimento um tanto sinistro, que ela ainda se encontrava na casa. De qualquer modo, os verdadeiros motivos dos Grey nunca foram revelados. A partir da época da mudança, a mansão começou a ser alugada por breves períodos, a preços bastante elevados. Os locatários eram, geralmente, esportistas ricos que escolhiam aquele local ao acaso para férias ou festas de fim de semana. Foi numa dessas festas que Charles Winfield surgiu em Silverwood Lake. A mãe de Diana, viúva há vários anos, necessitava passar uma semana em Monticello, cuidando de uma irmã mais velha. Deixara a filha sozinha na confortável casa à margem do lago, após obter dela uma longa lista de promessas: não deveria em hipótese alguma permitir a entrada de rapazes na residência, não vestiria os terríveis jeans na escola e sob nenhuma circunstância pensaria em nadar sozinha, principalmente à noite. Bem, regras existem para serem desrespeitadas... Foi o que Diana decidiu dois dias depois, na beira do lago, ao sentir a areia fria e úmida sob os pés, enquanto já retirava as roupas. Havia sido criada de maneira tão rígida que esta era a reação natural a ser esperada de uma adolescente que, repentinamente, via-se sozinha. O primeiro gosto da liberdade era muito tentador para Diana, que sempre se ressentia de ser conhecida por seus colegas de escola como uma garotinha comportada. E aquela era sua grande chance de fazer algo proibido. Saber que seu pequeno ato de desafio nunca seria descoberto fez do acontecimento algo excessivamente atraente. Iria não apenas nadar sozinha à noite, mas sem roupa. Seria seu pequeno segredo. Ela chegou a hesitar por um momento antes de tirar a calcinha e o sutiã de algodão branco, pois, mesmo aos dezesseis anos, seu corpo já era bem desenvolvido. Deixou de lado as fivelas prateadas que lhe prendiam os longos cabelos castanhos e andou sem constrangimento até a beira da água. Estremeceu quando as ondas frias começaram a bater-lhe nos pés, mas seu corpo não tardou a acostumar-se àquela temperatura. Caminhou até sentir a água em seus joelhos. Então parou e, colocando as mãos nos quadris, suspirou de satisfação. Naquela noite, o lago era seu mundinho particular, sua piscina privativa. A hora era tardia e todos os moradores das proximidades dormiam há muito. Os únicos ruídos que ouvia, além das corujas, vinham de Grey House, abafados pela distância. Mal, podia avistar as luzes nas janelas, embora pudesse distinguir o som de risadas e de um piano. Lembrou-se, vagamente, de ter ouvido dizer que a casa estava sendo usada por um jovem homem de negócios bem-sucedido, para uma festa de despedida de solteiro. Diana entreabriu os lábios num sorriso de prazer. Estariam, provavelmente, vendo filmes pornográficos, bebendo em excesso ou qualquer outra coisa que homens ricos e sofisticados costumavam fazer nessas festas. Não tinha importância. Estavam muito distantes para vê-la e todos permaneciam dentro da casa. Tentou esquecer o barulho. Enquanto entrava mais profundamente na água, sentia o solo mudar para uma consistência mais pastosa. Nadou até o centro do lago e sentiu como era gostoso flutuar serenamente, cercada pela tranqüilidade da noite. O brilho da lua cheia ajudava a tornar o clima ainda mais íntimo e místico. Diana ria em voz alta do prazer que aquilo lhe dava. Por causa do barulho que fazia na água, não percebeu um barco aproximando-se, nem notou a expressão de assombro na face do homem que remava.

- Ora, o que temos aqui? Uma sereia? - perguntou uma voz profunda. Espantada, ela olhou para a direção do som e só então viu um homem com cerca de trinta anos, com a camisa desabotoada e a gravata frouxa no pescoço. Era bonito, mas havia algo duro em seu rosto. Seu modo de falar indicava que tinha bebido bastante. Apertava os olhos para vê-la melhor. Seguiu-a com o barco até chegar a seu lado. - Sim, é uma sereia! Diana entrou em pânico. Esperava que, na penumbra, ele não pudesse ver que estava completamente nua. A lua cheia, porém, frustrou seus planos e ela mergulhou, para que a água a cobrisse até o queixo. - Uma sereia sem roupas! Para onde está indo, peixinho? Volte aqui ou vou precisar pegála! O tom de voz começava a assustá-la. Tentou nadar, mas a embarcação era mais rápida. Só faltava essa! Ser caçada por um bêbado num barco a remo, que acreditava que ela fosse uma sereia! Estava suficientemente perto para tocá-la, e Diana sentia-se apavorada. -Volte aqui, sereia! Ah! Peguei! - disse ele, inclinando-se para levantá-la nos braços. Num último esforço, Diana deslocou-se o bastante para fugir das mãos que a prendiam. Ele riu e ficou em pé no pequeno barco, sem firmeza, sem perceber como balançava. - Criaturinha arisca! Ainda vou alcançá-la. Inclinou-se e esticou os braços outra vez. - Linda sereiazinha... Por que foge de mim? Diana perguntou-se por que não ouvira sua mãe. No final, ela sempre estava certa. Por que fora tão inacreditavelmente ingênua e descuidada a ponto de nadar nua e sozinha daquela maneira? Havia um tubarão no lago, naquela noite... De um metro e oitenta de altura, devorador de mulheres. E ela era uma péssima nadadora. Não seria capaz de fugir. - Só mais um pouco e logo alcanço - falou o desconhecido, triunfante. Diana nunca se sentira tão amedrontada na vida. O tom de confiança daquela voz lhe trazia à lembrança a dos caçadores, quando já haviam mirado a presa e estavam prestes a atirar. Batia os pés na água com desespero, tentando escapar. Não chegou a ver o homem embriagado cambaleando na borda do barco, nem a ouvir seu grito, quando a pequena embarcação inclinou-se até virar completamente. O que ouviu foi o grande barulho da queda na água e uma tosse de quem estava tentando expulsar da boca grandes quantidades de água. Diana olhou para trás e viu o homem lutando para manter-se na tona. Seu primeiro sentimento foi de alívio. "Gostaria que se afogasse", pensou, enquanto nadava para mais longe. A voz dele, porém, logo lhe chegou aos ouvidos: - Sereia! Esqueci de dizer que não sei nadar! Ele tinha que estar mentindo! Só poderia ser um truque, e ela não cairia na armadilha. Mas após um segundo parou, com os ouvidos em alerta. O estranho falava coisas sem sentido, arfando. Foi quando o viu afundar pela primeira vez e percebeu que o maluco não estava brincando. Nadou rapidamente até ele e alcançou-o no momento em que afundava de novo. Segurouo pela gola do paletó e começou a puxá-lo. Era um homem forte e as roupas molhadas aumentavam-lhe o peso, tornando a tarefa de salvá-lo terrivelmente difícil. Diana levantou-lhe a cabeça sobre a superfície do lago, já que ele parecia inconsciente. Ela própria engolia água, lutando para chegar à parte mais rasa. Pareciam horas, mas na verdade foram poucos minutos até seu pé tocar, finalmente, o chão barrento da margem. Cansada, ofegante, ela deitou-o na areia fria. O homem tinha os olhos fechados e a água escorria de sua boca. Rapidamente, Diana sentou-se sobre o estômago dele para tentar fazê-lo respirar. Conseguiu o intento segundos depois. O estranho abriu os olhos devagar, tentando focalizá-la com a vista embaçada. - Sereia... - Você estará bem agora - disse Diana, afastando-lhe os cabelos escuros do rosto. Apenas agora notava que seus olhos tinham um estranho brilho prateado, talvez por causa do reflexo da lua. O rosto era duro, mas os olhos a encaravam com uma inacreditável ternura. - Sereia, você é tão bonita! E seu toque é tão suave! A realidade a atingiu como um raio. Suas atitudes para acalmá-lo haviam sido meramente instintivas. Tocava-o da maneira como faria para confortar uma criança chorando ou um animal perdido. Agora se dava conta de que ele era um homem adulto, passava da meia-noite num lago deserto e ela estava completamente nua! Levantou-se rapidamente e correu para longe, ocultando-se no escuro.

Pegando a lanterna que ficava pendurada num prego sobre a porta. sempre bem-sucedidos. por favor. não a deixarei ir embora. A pequena companhia. que ele fundara há apenas dez anos na Califórnia. minha querida? Ela contou-lhe rapidamente sobre o homem que jazia inconsciente no lago. o braço caiu amortecido. direi que andou imaginando coisas. os olhos começaram a virar e ele caiu inconsciente sobre a areia. Diana. eu não estava vestida. Apenas uma coisa: é melhor que este sujeito não faça perguntas. ainda arrumando a camisa dentro da calça.. Quando chegaram ao local. Mas. . . Mas.Pete. em questão de momentos. Isto é. voltou totalmente vestido.Linda sereia. Charles Winfield era um milionário que havia construído sua fortuna com computadores. . mesmo depois de sua mãe ter dito. É Charles Winfield. Sua foto está nos jornais e. a camiseta e calçou os tênis. . Pete abaixou-se e segurou o homem sob os braços. Diana! Vagarosamente.Aonde você vai? O estranho levantou-se com uma energia inesperada e moveu-se pela areia. aliviada. justamente no momento em que seus dedos se aproximavam da pele de Diana. Duvido que ele se lembre de qualquer coisa que tenha acontecido nas duas últimas horas. O que faria agora? Não poderia deixá-lo ali a noite inteira. E se os jornais descobrissem o incidente no lago? Não era muito difícil de acontecer e ela não poderia suportar a publicidade: “Adolescente nua salva playboy de afogamento!” Como sobreviveria ao escândalo? . com um estranho sorriso nos lábios. Um verdadeiro playboy! Diana sentiu um peso no coração. pulando vivamente em volta das pernas de Diana. a calcinha e o sutiã e colocouos no bolso. Dizia-se que o homem tinha sorte e talento acima do normal.Pegue as pernas. que lhe tapava o corpo da cintura para baixo.Foi uma atitude infantil.Não se preocupe. .Eu sei. não mergulhe novamente. . Logo estava profundamente adormecido.Posso imaginar o que aconteceu. Ele percorreu-a com o olhar e estendeu a mão para tocá-la.Vai contar? . Ela suspirou. começou a latir. Este era um nome bem conhecido pelos habitantes locais. se lembrar.. era agora uma das mais importantes na indústria da informática. . Quer acordar todo mundo? . Numa situação daquelas.Fique quieto. seguiu-a através do bosque. bebeu demais e resolveu passear de barco. ouvi quando o chamaram uma ou duas vezes. O velho tirou as roupas molhadas do corpo inerte. Correu ao longo do bosque até o quintal de Pete Turner. Sabe quem ele é? . cobriu-o com vários cobertores quentes e acomodou-o sobre o sofá. você não sabe mas. Pete desapareceu dentro da casa e. com aquelas roupas molhadas! Num instante tomou a decisão. onde o cachorro míope. impaciente. vestiu o jeans. Ele estava naquela festa. com alguns colegas.. havia apenas uma pessoa com a qual poderia contar. Agora que a encontrei. Você estava nadando no lago. praticamente tão velho quanto o dono. que liam vorazmente as revistas que tratavam de personalidades da alta sociedade. Diana escondeu-se atrás de uma rocha. Voltou depressa ao lugar onde tinha deixado suas roupas. Vi quando ele chegou à vila esta tarde.Mas você não compreende! . você está acordado? Luzes acenderam-se dentro da pequena casa enquanto Hans continuava a latir. querida.Diana chegou à porta e bateu levemente. .Diana? Está tudo bem.E deveria saber? ..Pete. em direção a ela. . Logo a porta se abriu e um homem com olhos sonolentos a encarou.Bem. a sua. A Winfield Enterprises Incorporated expandira-se em vários outros ramos de negócios. Hans.Você não vai contar a ela.Por que contaria? Você aprendeu a lição. sem que o homem acordasse. Não se precisa contar. .. Mas o que o fazia especialmente interessante para a população feminina de Silverwood Lake eram seus famosos casos com várias modelos famosas e belas atrizes de cinema e televisão. Enrolou as meias.. Sossegue. . além disso... não é? . voltaram à casa. sempre amplamente divulgados..

Obrigada! . Abriu a porta e. olhando a foto colorida que ela e sua mãe haviam tirado quando terminara o segundo grau.. A velha enfermeira que ajudava o dr. Agora vá! Saia daqui! .Linette. Quando sua mãe morrera. Era o padrinho. na segunda-feira de manhã. Dinheiro nunca significara nada para ele.Claro que sim.disse ele.repetiu Miles. Observou. o que é esse volume saindo de seu bolso? Envergonhada. o mesmo que fizera seu . o fogão pedia uma limpeza e há um ano ninguém olhava debaixo dos móveis. . Existia algumas pequenas indústrias nas vizinhanças. Nos últimos anos até fizera um esforço.Eu disse que são dez dólares pela gasolina. vestida em seda azul. pegou as sacolas de compras e saiu do carro. Quem poderia culpá-los? Não havia muito a fazer por ali.Mas. Mas Pete não estava interessado nisso.Desculpe. principalmente quando estava longe de casa. por gratidão. Pete depois lhe contou que Charles Winfield estava muito confuso ao acordar. Ainda se lembrava de ver Miriam MacPhee com a máquina fotográfica nas mãos. . aceitara a versão do velho para os acontecimentos da noite anterior e até mesmo lhe oferecera uma boa recompensa. quantos homens desejariam ardentemente trabalhar numa fábrica de bonecas? Diana estava em casa desde maio e trabalhava numa clínica. desculpe.. que o portão de entrada necessitava de uma pintura nova antes do inverno.Esqueça isso. Diana voltou para casa.Aqui está. mas agora não parecia ver muitos motivos para estar alegre... Não se cansava de admirar a beleza natural do lugar. . impaciente. Diana empurrou o pacote de roupas íntimas para escondê-lo. . . O velho sorriu. há quatro anos. Quem veste roupa de banho para nadar escondido à meia-noite? Além disso. e era-lhe difícil manter a velha casa em boas condições. bêbado. empurrando-a. Teria que pedir a escada emprestada a Pete. O milionário nunca mais cruzara a vida de Diana. ela pensou.disse Diana. mamãe . Não saiu até a hora de ir para a escola. A maioria de seus amigos havia casado e estavam construindo suas próprias famílias. entende? Você não foi nadar esta noite.Ouça. Entregou algumas notas ao jovem frentista e esperou pelo troco. eu gostaria muito. na escola. . havia apenas participado de uma festa de despedida de solteiro. . Que dia feliz tinha sido aquele! Usava um vestido branco e abraçava sua orgulhosa mãe. há dois anos. entrou e fechou a porta.Oh. Além disso. Diana! . Morava numa república de estudantes. querida. E não se esqueça do meu conselho sobre a xícara de açúcar! CAPÍTULO II Diana saiu da estrada do lago para entrar no caminho que levava à sua casa. O chão precisava ser encerado. tente sorrir.. Foi tudo um sonho. . Afinal. criticamente. de volta ao presente. Parou diante da casa branca de dois andares. Sentia-se mais solitária do que nunca. Eu saí para um passeio com Hans pelo lago e vi este rapaz na margem. Não viu um rapaz cair no barco e não o levou até a areia. Pete. Outros simplesmente mudaram-se de Silverwood Lake. Certo? . Volte para a cama. gritando: . Isso era algo que nunca havia sido fácil para Diana. buscando melhores oportunidades. Aquela era a profissão com que sempre sonhara. Felizmente.. Myers.disse ela. bem-humorado. para a porta. está bem? "Tente sorrir"'. Quando acordou.Nada de "mas".Por quê? Nada aconteceu.. quando o grupo de amigos que havia dado a festa já estava longe da vila. Para não falar na pilha de pratos sujos sobre a pia. suspirou. como ela soube mais tarde por uma revista de variedades. tire o cabelo dos olhos! Diana. Carreguei-o até aqui e fim de história. um pouco distante. mas não proporcionavam muitos empregos. na manhã seguinte. colocando os pacotes sobre a mesa da cozinha. . a menos que a pessoa quisesse trabalhar nas fazendas de leite da família ou num dos muitos pomares de macieiras da região. com seus altos pinheiros. Diana cursava a faculdade de enfermagem. pareceu mesmo acreditar que tudo fora um sonho. E o incidente foi desaparecendo de sua memória.

aspecto comum. Que.parto. com seus longos cabelos loiros. como se o lugar fosse seu há anos. Ela acariciou-lhe o pêlo. Mas como poderia lutar contra um homem tão poderoso? Lembrava-se da figura fascinante de cinco anos atrás. O papel de parede florido tinha sido pregado por seu pai quando ela contava apenas seis anos. Helga não passasse de mais um rosto bonito entre o de tantas mulheres fabulosas que já haviam partilhado a cama do milionário. tivera um total de sete encontros desde o segundo grau. tudo bem. Trazia. mesmo após quatro anos numa movimentada faculdade na cidade. agora. Naquela tarde. Enquanto andava pela margem do lago. Mas. que tal pegar alguém para me ajudar com essa escada? . Charles Winfield provavelmente se impressionaria com a beleza da jovem. pulava em torno dela a cada parada. Muitos rapazes dessa idade deixavam a vila em busca de melhores perspectivas de vida. a inquietação transformou-se rapidamente num aperto no coração. perdeu o equilíbrio e escorregou. cabelos castanhos claros de comprimento médio.Se você quer brincar de apanhar coisas. uma autoridade. mesmo empalidecidas pelo tempo. que desde aquela manhã as perspectivas de Helga começavam a brilhar. não estava em casa. não pôde evitar dirigir o olhar à distante mansão vitoriana. uma calça jeans e saiu para pegar a escada com Pete antes que escurecesse. o que tinha ela a ver com o que Charles Winfield faria? Contanto que não começasse a promover orgias em Grey House. afinal? Diana Mueller. mas gostaria que o amigo estivesse lá para ajudá-la a carregar a escada. de que nunca pôde se esquecer. Na verdade. Sabia que era bem-vinda e que poderia pegar o que necessitasse. que havia seguido Diana. Diana tirou as roupas e foi até o espelho examinar seu corpo. Provavelmente. Tudo nela era mediano. Quem era ela. nada verdadeiramente excepcional. começou a ficar estranhamente inquieta. Hans recebeu-a com a alegria de sempre. Helga jamais teria esses problemas. Estatura média. Agora já começava a soltar as bordas. sentia-se com mais idade do que realmente tinha. . um graveto na boca. O simples pensamento de um novo encontro a amedrontava. ela subiu a escada até o quarto que havia sido seu desde a infância. Havia muito carinho em cada rosa na parede. após todo aquele tempo. seria embaraçoso vê-lo. mas Diana nunca mudaria aquele aposento. acabara de se aposentar e ela logo entrou na rotina de trabalho que sua antecessora deixara. Ou então. Olhou em volta e não viu o velho carro de Pete. continuava virgem. Diana pensava. Respirou fundo e pegou a escada novamente.murmurou ela. De fato. Um vistoso barco a motor evidenciava a presença de um morador na casa. Diana vestiu uma camiseta velha. Como qualquer outro homem. quando após cinco anos voltou a ouvir o nome de Charles Winfield. Myers fosse uma ótima pessoa. apesar de considerada razoavelmente bonita. Tinha irmãos grandes e fortes para fazer isso.Precisa de ajuda? . Imaginava como deveria intimidar as pessoas quando sóbrio. Logo teriam o grande e poderoso Charles Winfield ocupando as águas calmas. afetuosamente. mas o cheiro de Diana lhe era muito familiar. Hans. Seria intolerável se algo viesse a alterar a vida pacífica e simples do lago. Após três meses. Era um dos mistérios da vila o fato de a linda jovem ainda ser solteira. que. De qualquer modo. nem todas poderiam ser como Helga Schuyler. Andou mais alguns metros antes que um ramo de árvore a atingisse em cheio no rosto. com certo cinismo. Desanimada. mesmo assim. . Já estava quase cego. olhos de cor comum. Todas as bonecas que ganhara enfileiravam-se nas prateleiras do armário embutido.disse ela. Ele representava a sofisticação do mundo social e isso a intimidava. Abriu a grande porta da garagem e encontrou o que queria. com irritação: . Como poderia evitar encontrá-lo? Ele se lembraria dela? Provavelmente não. Embora gostasse de sua função e o dr. Enquanto puxava a escada desajeitadamente pelo caminho de volta. Bem.Droga! Isso vai ser mais difícil do que pensei! . Não permitiria que aquele estranho perturbasse o sossego da pequena vila. tirando a areia da roupa. na ocasião ela era uma adolescente apavorada. Nunca precisaria pintar a casa. embora sendo uma sensação em Silverwood Lake. mas algo naquele homem transmitia um dinamismo. com a qual já estava tão habituada. havia pouca escolha para moças solteiras por volta dos vinte anos. em direção à cabana de seu vizinho. e cinco deles no primeiro ano de faculdade.

Diana ficou irritada. Estou apenas dando um passeio em torno do lago. jovem. está um pouco maltratada.Não. eu não deveria ficar surpreso com isso.Para ser franco.. Ela olhou-o através dos cabelos. nunca. . finamente bordadas..Diana olhou. . apenas a ajudei com essa escada e. .E eu. . Vamos. Quem ele achava que era? Mas. .Está tudo certo ..Não acho que seja de sua conta. .disse ele. . Que tal me indicar a direção? . para a direção de onde vinha aquela voz profunda.Estou bem. Mas. mesmo que se lembrasse do que ocorrera há anos atrás. que lhe caíam pelo rosto. deixe-me ajudá-la. Ele a seguiu e parou em frente ao portão dos fundos. Olhou para o lenço que ainda tinha nas mãos e num dos cantos viu as iniciais dele. Aquela voz só podia ser de. Virou-se rapidamente e sumiu no escuro da noite. atônita. . Como se chama ? . . . sentindo o toque suave. sr. que era de uma marca bastante cara. Acho que somos vizinhos.. . sr.Esqueça o que falei. Esta cidade é muito pequena e as notícias devem correr por aqui. levando a escada aos ombros com um movimento ágil. . por coincidência. Diana percebeu que ele jamais poderia reconhecê-la. Charles encostou a escada na parede e limpou as mãos no jeans. Voltou a oferecer-lhe o lenço de algodão.Como sabe meu sobrenome? Bem. com sua aparente gentileza. não é? . Ele aproximou-se. Não vim até aqui para ser insultado. Certamente era por isso que tinha uma vida social tão "agitada" e "ativa"! Sabia mesmo como "ganhar" amigos! Entrou em casa e sentou-se no sofá da sala.Você cortou o rosto . Respondeu de maneira tão brusca que o homem a olhou com curiosidade.Não sejamos ridículos.Por que veio para Silverwood Lake.Você não me parece tão bem . Olhou a casa e os altos pinheiros que a rodeavam.Acertou em cheio.falou Diana. Evitou-lhe o olhar e inclinou-se rapidamente para pegar a escada.disse. que ela aceitou dessa vez. . Tinha um ar de quem confiava estar sempre com uma ótima aparência.Para que veio então? O que havia de errado com ela? Nunca fora tão rude em sua vida! . vestindo jeans e camisa.Ora. Winfield.Muito obrigada.Acho que sua família nunca pensou em vender a propriedade. Winfield? Ele encarou-a com irritação. . Que ousadia. na verdade.Pode deixar isso em qualquer lugar. E muito obrigada.Quem você pensa que é para vir chegando e comprando tudo por aqui? É inacreditável! Seguiu-se um longo e incômodo silêncio. Era um homem alto e magro.disse ele. mãos fortes seguraram-lhe o braço e aliviaram-na do peso que carregava. Alguma coisa em suas faces bronzeadas e duras era perturbadoramente familiar.. Ele pareceu espantado com a franqueza da resposta. . Charles Winfield! No mesmo instante. sentia-se mais zangada pelo seu próprio comportamento grosseiro. .Estou tentando ser um bom vizinho.Maltratada? . . .falou ela. com um brilho prateado no olhar. . . encontravamse no mesmo local onde Pete a ajudara a carregá-lo. me mostre o caminho . Charles. . Aquele homem a havia desarmado no início. a daquele homem! Diana surpreendeu-se tanto que a habitual timidez desapareceu por completo. afastando as mechas castanhas para avaliar o ferimento.Diana. Ambos estavam muito diferentes.Não é necessário. tirando um lenço do bolso para lhe oferecer.Mas eu daria um bom preço por ela.Por aqui . .Ouça..

Diana desejou ardentemente que nada ou ninguém viesse a destruir tamanha beleza. Talvez estivesse ficando sentimental. tentara adquirir sua propriedade. quase colidiu com um enorme caminhão de mudanças. os amigos costumavam brincar com seu modo de vestir-se. Mas. tinha de admitir que aquele encontro a incomodara muito. para ser honesta. E se o propósito fosse outro? Diana sempre temera que o progresso chegasse.. Lembrou-se de que precisava pintar a velha casa e. As árvores já se tingiam dos tons amarelos e alaranjados do outono e refletiam-se nas águas brilhantes.. o homem real estivera à sua frente. E isso em qualquer circunstância. Era fácil saber para onde ia. e ela vira um lado do milionário que poucas pessoas conheciam. CAPÍTULO III O sábado amanheceu radiante. Lembrava que. e seu novo vizinho a perturbava muito. Tornara-se. se não tinha nada que o ligasse à vila? Pelo que sabia. levando a tranqüilidade do lago para sempre. sem a influência do álcool para deixá-lo mais desinibido. Os pinheiros conservavam-se altos e verdes como sempre. Ela própria considerava a residência muito bonita e o cenário espetacular. manobrou e foi para o centro da vila. . Por que Charles teria comprado aquela casa? Era um multimilionário e poderia viver onde desejasse. aborrecida.disse. examinou criticamente a própria aparência. O velho Pete sempre ajudara. enterrou a cabeça no travesseiro. Diana acordou com o sol de setembro inundando o quarto de luz. não havia um homem na casa desde a morte de seu pai. Nunca se sentira à vontade entre os homens. O orgulho mandava que fizesse tudo sozinha. com o passar dos anos. sentia falta de um marido. há dez anos. porque esse não era um traje muito adequado para uma enfermeira. . na faculdade. sem arrumar outras desculpas. Seus pensamentos voltaram-se para Grey House e seu novo proprietário. Não precisaria sair pela casa falando com cachorros.Ele falara com sinceridade sobre ser um bom vizinho e. E na certa não teria razões sentimentais para ter voltado. Por que tinha que inventar tarefas tão ingratas para um fim de semana? Nessas horas. que nunca variava: camisetas e jeans. Pisou com força no acelerador. Ao menos tinha pele bonita e olhos amendoados. mas sabia que existiam vários outros lugares tão lindos como aquele no Estado de Nova York. devido à velha timidez. aquele homem charmoso a havia chamado de "linda sereia. irônica.. fotografias e travesseiros." Ele a desejara sem que Diana tivesse falado uma só palavra. Pelo menos teria alguém com quem conversar e dividir os afazeres domésticos. talvez porque ela pensasse nunca tornar a vê-lo. Por que queria mais terras? Se sua intenção era apenas ter um local para as férias. mas sempre que fazia tarefas consideradas masculinas pensava em como seria ter um marido para fazê-las. Se assim era.. O lago estava magnífico naquela manhã. mesmo sem ser chamado. uma memória nebulosa e romântica. Então dera-se conta de que aquela figura poética e apaixonada que a perseguira durante anos não existia mais. de repente. Parou em frente ao espelho para prender os cabelos sedosos com duas fivelas e. mas agora ela não queria incomodá-lo mais. Após engolir um pedaço de pão e um pouco de leite gelado. claro. Por que ele escolhera um recanto tão isolado. Via-o em suas fantasias como uma pessoa muito autoritária. Rindo de si mesma.. uma vez que ele não era de forma alguma conhecido como uma pessoa dada a essas emoções. por que não conseguia esquecê-lo? Ao chegar à estrada do lago. Diana vestiu sua camiseta mais velha e um macacão desbotado. pegou os grandes óculos de sol e dirigiu-se para o carro. que estivesse trabalhando. Diana entrou no carro e bateu a porta.Elegante como sempre! . Suspirando. Charles havia estado lá apenas uma vez. mas estranhamente terna. desanimada. A menos. Agora. Teria que começar o trabalho de pintura naquele dia. Afinal. com um céu límpido e claro. espreguiçou-se e saiu da cama. naquele fim de semana desastroso. Não deveria ter falado com Charles daquela maneira rude.. observando a imagem refletida. Detestava essas divagações. Afinal. Grey House era mais que suficiente. A paisagem inteira parecia uma pintura impressionista.

ofendida. Pete havia tomado o lugar da falecida Linette Mueller.Não há muito para contar. Agora. mas apenas que poderia preferir moças de cabelos castanhos.interveio Pete.Como? . O Baile da Colheita era uma tradição em Silverwood Lake há duzentos anos. .Eu não disse que não gostaria. querida.William. Num certo sentido. Nos últimos dois anos. tio Jim. . querida.disse a sra.Aleluia! . A mulher olhou-o. Um costume especialmente desenhado pelo melhor costureiro da cidade de Nova York não faria tanta sensação quanto um vestido que se pudesse dizer ter pertencido à bisavó. . A proprietária da loja tirou do bolso uma calculadora para fazer as contas. Diana poderia sentir o aroma das tortas de maçã e dos doces de abóbora arrumados de modo tentador sobre as mesas. Seu território cobria toda a vizinhança do lago. . .Fascinante! Conte mais detalhes. enquanto a observava entrando na mercearia. onde funcionava também a pequena agência do correio. finalmente! .Lady Di! Então você vai finalmente pintar a velha casa? . Talvez um dia. Diana! Espero que se lembre de me reservar uma dança! .Alguns homens preferem morenas às loiras.Não carreguei sozinha. que Deus a tenha.observou Katrina Schuyler. Ele não me reconheceu. vou precisar de cerca de sete galões de tinta branca . Diana sentia pena da bela Helga.E por que ele não gostaria de Helga? . . não se esqueça do desconto de dez por cento . Estou certa de que ele é perfeito para minha Helga . Miriam. sob o olhar apreensivo da jovem.Eu sei. ficaria contente ao ver a filha fazendo esse trabalho. finalmente. Ele insistiu em colocar as latas em seu próprio carro e começaram a transportá-las para o bagageiro.comentou Miriam. . .Não se esqueça de pegar os convites para o baile . . Ela gostava tanto daquela casa! .pediu Diana. ainda pensando no baile. . .A Main Street ficava relativamente cheia de gente aos sábados pela manhã.Ei.Linette. O carro de Pete estava parado em frente à mercearia de Miriam. Costumava sair com sua mãe para distribuir pessoalmente os convites. . não fosse aquela torção no dedo que a impediu de vencer a competição de habilidades. na faculdade. . o Baile da Colheita será daqui a três semanas! . com rendas e outros adereços. ela retomaria a tarefa.Não achei que ele faria isso. Katrina . ao sul.Charles Winfield me ajudou. Schuyler.Sim. para ajudá-las a carregar as latas. . e o dos Schuyler incluía a região das fazendas.Oh. pois esse era o dia em que todos saíam para um bate-papo ou uma cerveja com os amigos. Diana.objetou a mãe ofendida. Pete seguiu Diana e Miriam à prateleira das tintas. Sei que teria ganho o concurso para Miss Estado de Nova York. . A mãe nunca a deixava em paz. O que a está incomodando? .Você está insinuando que eu iria enganar uma freguesa? . e não havia outra ocasião que se aguardasse com tanta ansiedade. As mulheres aprontavam seus vestidos com muita antecedência e a maioria das pessoas usava trajes de época. Todos os fregueses assíduos estavam lá e cumprimentaram-na com cordialidade.Quero ouvir tudo sobre seu novo vizinho. O dinheiro andava parco nos últimos tempos. Ele sacudiu a cabeça calva.Nem em um milhão de anos! Todos sabiam que não havia nada que o velho Pete mais gostasse de fazer do que amolar Miriam. . Que situação vergonhosa! Toda a vila sabia que sua casa precisava de uma pintura. Se fechasse os olhos. a pedisse em casamento. piscando para Diana.Diana. Ia quase todo para as prestações do carro e para o empréstimo que ela havia feito para cursar a faculdade. não! Este é um evento histórico! Ouviram todos? Diana decidiu. hoje é o dia. . .Absurdo! Helga parece uma deusa! E não estou dizendo isso apenas porque é minha filha.Ei. ontem. mas gosto de confirmar meus pares com antecipação. .gritou o velho Jim. sorrindo. .Miriam. felizmente. você não deveria ter carregado sozinha aquela escada. Diana assentiu com um gesto de cabeça.disse Miriam.advertiu Pete. já que Diana estava fora.

Nossa conversa não foi muito amigável. Winfield. . . enquanto trabalhava com o rolo de tinta na frente da casa. ora! .Isso foi há cinco anos! Pete. Caso se levantasse cedo no domingo.Então.Você não aparenta a idade que tem. otimista como era. Isto certamente aumenta o valor da propriedade. Diana cruzou os braços e caminhou em direção a ele até a água atingir-lhe as coxas. Para uma enfermeira.Porque as coisas estão muito paradas por aqui e talvez. .. com um suspiro de frustração. Winfield.Vinte e um. que estivera ancorado em Grey House e agora se aproximava dela. principalmente aquele homem.Por que ficaria feliz com uma coisa dessas? . Além do mais.Creio que todos precisam de um local que sirva de refúgio. dezoito? . mas imaginou que isso seria impossível.É óbvio que andou pintando a casa. atraente como nunca em seus óculos escuros. Tivemos uma conversa bastante agradável naquela distante manhã. Colocou tudo num grande balde e caminhou em direção ao lago.. Winfield! . . . Charles Winfield não é má pessoa. É um lar! O meu lar! . a última coisa que queria era alguém. sr. Diana enrolou as pernas do macacão. sentindo pena dela.Como? .De maneira alguma. entrou no lago e lavou o rolo de pintura até uma névoa branca tingir as águas frias.Que tipo de vida é essa para uma jovem? Deve sentir-se terrivelmente solitária! Diana pensou captar uma nota de simpatia naquela voz..perguntou ele. Não sou tão criança como você parece pensar. agora. Apenas enxaguaria o rolo e a si própria. Estou preocupada. . Fez um intervalo para beber um pouco de água. .Fico feliz em ouvir isso. O sol se punha no horizonte quando ela resolveu dar por encerrada a tarefa do dia. Pete. Agora.perguntou Diana. espantada. sr. . olhando para o macacão e o rolo de pintura.Então você mora sozinha? . vou ficar muito bravo! .Eles estão mortos. Falou a seus pais sobre a minha oferta? .Isso não lhe interessa. comecem a ter um pouco de vida. Valorizamos muito a privacidade aqui. Vejo que está seguindo o meu conselho . . você acha que ele comprou a casa para passar férias? Eu gostaria de acreditar nisso! Pete sorriu. Um barulho que se tornava cada vez mais forte a fez olhar na direção do barco a motor. Estava mais embaraçada por seu aspecto do que irritada pela aparição inesperada. poderia terminar a pintura da casa. Mais tarde.disse ele.Não é nada disso. enquanto acabava de colocar as latas no carro.Se me chamar de sr. tinha hábitos alimentares bem ruins. A casa é minha! A dureza do rosto de Charles pareceu suavizar-se levemente. nada mau. Não está em jogo no mercado imobiliário. Havia tinta em seus cabelos.Não estou interessada no valor dela. Diana pensava que só o velho Pete. . poderia ver um lado bom no que estava acontecendo. . teria que lavar os pincéis e o rolo para que não estivessem duros e inutilizados pela manhã. . Winfield mais uma vez. no rosto e nos braços.Beijem-se e façam as pazes. Ela o encarou. Então se deu conta de que estava poluindo as águas e. Nunca admitiria que sentia solidão de vez em quando. mas acertaria tudo com um belo jantar. e trabalhasse até o anoitecer. sr.Quantos anos você tem? Dezessete. Diga-me. Poderia passar sem a amolação de preparar um sanduíche. tirando os óculos para vêIa melhor sob o sol fraco do fim da tarde. levou o balde de volta para a margem. por que acha que ele comprou Grey House? . Afastou-se um pouco para avaliar o resultado de quatro horas de trabalho. . ainda mais com as unhas cheias de tinta como estava.Querida. sorrindo. . . e Charles encontrou o dele. tirou os sapatos e as meias. como todos na vila.Sim. quando ele acordou em meu sofá.E o que faz numa típica noite de sábado? Ou isso é uma indicação? .disse Charles. em Silverwood Lake! . Ele tentou comprar minha propriedade.

Eram apenas conjeturas absurdas. . . Tão másculo e saudável. Diana tirou o rolo do lago e começou a agitá-lo. dissera ele. Agora ele estava novamente em Silverwood Lake e Diana dava-se conta de que se enganara ao pensar que conseguira enterrá-lo para sempre no passado.. . Era decididamente atraente. Se tem a sorte de encontrar um emprego de que goste. enquanto Charles a olhava com curiosidade. . se estava à procura de amor. para que a água saísse. Só nos vimos ontem. não o encontraria naquele lugar isolado. Diana esperou até que o barco se distanciasse e voltou à margem. assim como o de Helga ou o de Sara.. sentado no barco com os cabelos escuros esvoaçando e a camisa justa marcando-lhe os braços fortes e bronzeados. o pescoço. Ficaram alguns momentos em silêncio. Afastou a idéia da cabeça.Eu fui rude.... antes do banho. Mais tarde.Você tem mesmo vinte e um anos? .Engano seu. ficaria cada vez mais sozinha ali. as costas.. Como estava certo! Diana abriu as torneiras e entrou no chuveiro. acenou para ela e foi embora.. não gostou quando Charles a confundiu com uma adolescente. mas acho que já nos encontramos. Aos vinte e um anos. Pensava que seu problema. Sempre havia sonhado encontrar o amor sem precisar busca-Lo. . Não precisava ser tão grosseira.A maioria das mulheres consideraria o que eu disse um elogio. Pensar que aquele homem estava de volta era atordoante! CAPÍTULO IV . Por alguma estranha razão. Tirou as roupas. Charles. incrédula. quem disse que uma mulher precisa casar? Diana suspirou. ainda era virgem e inexperiente. . Deixou a ducha forte cair sobre os cabelos.. Começava a perceber claramente que. mas havia sido criada de maneira muito rígida e. Ela era jovem e tinha todo o tempo do mundo..sugeriu ela. não irá querer sair de lá..Sei que isso pode parecer loucura. mirou-se no espelho e admitiu que de maria-chiquinha e macacão largo não parecia exatamente uma pessoa adulta. não você. ela saiu do chuveiro e enrolou-se numa toalha felpuda. pensativo. senhor. mesmo a alguma distância. seu nome lembrava a lendária deusa olímpica caçadora que. achava-se uma provinciana Cinderela. . No fundo.Diana encarou-o. . não tivera muitas oportunidades de sair com rapazes. não era incomum em cidades muito pequenas. o lugar onde nasceu e foi criada. Ele pareceu intrigado.Como pode ver. coisa rara nas mulheres modernas. embora a idéia não lhe agradasse. além disso.. a água é clara como cristal. com seu arco e sua flecha.dizendo isso. Cedo ou tarde teria que se aventurar pelo mundo. .Por que não dizemos que ambos fomos rudes e esquecemos isso? . Ela amava Silverwood Lake e não queria deixar a vila. ligou o motor novamente.Vou experimentá-lo qualquer hora. Uma mulher ama seu lar. Que horror! Aborrecida.Agora você está sendo rude de novo. há cinco anos. Seu corpo era esbelto. Ele concordou com um gesto de cabeça e. com um sorriso. naquela casa. Senão. Além disso. à espera do príncipe encantado.. Será que ele possuía mesmo senso de humor? Seus lábios tremeram levemente. mas gostaria de ter alguém para compartilhar as coisas que apreciava. elegante e bem-feito. E ninguém conseguira tomar-lhe o lugar.. Por que não ser honesta consigo mesma? Desde aquela noite no lago. Diana pôde notarlhe o brilho nos olhos. A respeito do que aconteceu ontem. havia permanecido fiel a um voto de castidade.A propósito. comparava todo homem que conhecia a Charles Winfield.. Diana sabia que estava perdendo tempo e prazer. este lago serve para nadar? . "Você deve sentir-se solitária.". as fivelas e examinou-se criticamente. . Charles observava-lhe os movimentos. mas apenas por um minuto. antes que fique muito frio.Foi minha culpa.

. No momento em que vacinava a última criança. . você vai deixar a enfermeira aplicar esta vacina ou eu lhe dou uma palmada! gritou a mãe.Você é a enfermeira? .. . Faz muito tempo. Ele podia ouvir a pequena criança chorando na cabine de vacinação e a voz suave e confortadora que procurava acalmá-la.Primeiro é preciso limpar essa ferida. Diana sentia dores no corpo por ter passado sábado e domingo pintando a casa. . não pôde ver um homem alto e elegante entrar.Como? Charles não conseguia tirar os olhos do rosto daquela moça. . que se repetia com freqüência e se tornara constante nos últimos dias. Tudo não passava de imaginação.Dói apenas um segundo. Aquela tonalidade pareceu atingir um ponto distante de sua memória. Soava vagamente familiar. . Ocupada como estava.Ele também tomou vacina? . Havia algo ali que o prendia de maneira incontrolável. a situação já seria bastante difícil.perguntou Bobby. O elogio fora totalmente inesperado. . Não poderia ser algo de sua infância. Há alguns anos tinha um sonho fantástico. estendeu o braço para que ela visse melhor.Não sei. sr.reclamou o menino de cinco anos.Pode apostar que sim! Diana olhou no espelho da pequena cabine. De imediato. A manga da camisa estava enrolada.Bobby. Queria uma vacina contra tétano.disse Diana.Claro que sim! Ele vem aqui uma vez por ano. confuso. . não podia controlar o movimento na sala de espera e. em voz baixa.perguntou.falou Diana. . Pronto! Num instante ela aplicou a vacina e o garoto reconheceu que não fora tão ruim. da sala de espera. . . notou o corte no braço de Charles e isso salvou-a de uma situação um tanto embaraçosa. afinal. só pensava em poder descansar um pouco. com os olhos brilhando.É apenas um arranhão. Charles já ouvira aquelas palavras. . Numa manhã qualquer. Charles Winfield repreendeu-se por ser tão sentimental. debatendo-se. O calor daquele contato transmitiu-lhe uma sensação nada profissional. Myers havia sido chamado para atender a uma emergência e a deixara sozinha na clínica. Em primeiro lugar. Usava um vestido branco justo. Ele a olhava. mas aquele dia em particular estava reservado para a vacinação contra sarampo e a pequena sala de espera encheu-se de crianças. Era neste sonho que ouvia aquela voz. . Não.Vai doer! . Parecia-lhe uma recordação bem mais recente e ele sabia de onde vinha. como um sonho mal lembrado. sr. .. meias brancas e tinha os cabelos presos num rabo-de-cavalo. .Não precisa ficar tão espantado. Diana tocou a pele firme e bronzeada. deixando ver um grande corte que ia do cotovelo até o pulso. Quase mecanicamente. assim.Você estará bem agora . Winfield? . sabia? Ela enrubesceu ao ouvir essas palavras. Você está muito bonita. enquanto esperavam a vez.Quantas vezes tenho que lhe dizer para me chamar de Charles? . Tinha de admitir que sua aparência não era nem um pouco atraente. ditas pela mesma voz. o dr.O que aconteceu? .Foi vacinado recentemente? . chorando copiosamente no colo de suas mães. Qual seria a ligação? Por que parecia sempre faltar uma peça para completar o jogo? Diana saiu da cabine com a criança e surpreendeu-se ao ver Charles ali. ela encontrou um sério problema: tentar convencer o pequeno Bobby Wyler de que aquilo só levaria um minuto. Winfield. Nesse momento.Só é necessária a vacina. . .Fui tão valente quanto o Batman? . Até o Batman sabe disso . na cabine. Ele ainda a olhava com uma expressão estranha. examinando o ferimento. Além disso.Charles.Eu não quero! .Perguntei quando foi a última vez em que foi vacinado contra tétano. não era imaginação.Segunda-feira foi o pior dia da semana.Quando obteve o seu diploma de enfermagem.

Myers. na cidade. Diana olhou para o dinheiro com uma mistura de embaraço e desprezo. . . Charles.Se eu tivesse consultado meu médico. quando um paciente como eu pode pagar pelo serviço. Ele a observava sem dizer nada. deve fazê-lo. por favor. Havia um tom de intimidade na voz daquele homem que a perturbava. .Tem um cheiro delicioso. que ainda esperava condições financeiras para ser construída. você tem o toque mais delicado que o de qualquer outra enfermeira que já conheci. mais exatamente para comprar novos equipamentos. Que tal me dar um pirulito agora. por que ela fazia tanta confusão apenas por causa de um ato de generosidade? Gostaria de agradecer a Charles Winfield.Obrigado. Felizmente. de uma maneira que ela já havia visto.Enrole a outra manga da camisa. E havia a enfermaria infantil. os lucros do Baile da Colheita daquele ano seriam destinados ao dr. nem mesmo um telefone ainda havia sido instalado em Grey House. apesar da expressão altiva. deixando de lado todos os negócios? Segundo Miriam. Afinal. devo pagar pelo serviço. Charles. Obrigado por isso.Já lhe disse que são apenas sete dólares . . Como alguém poderia perceber ali algum cheiro que não fosse o do álcool ? Sentiu um aperto no coração. Diana. O que teria havido entre eles naquele momento? Sem dúvida. com uma seringa na mão. Na certa era porque.Como se cortou? .Você escolhe.Que perfume está usando ? . . espantada.Tudo bem.disse ela. . A clínica realmente precisava de dinheiro. Charles virou-se e saiu. . O rosto duro daquele homem pareceu suavizar-se. mas acho que. teria pago muito mais.pediu ela. Esqueça que tentei ser gentil.perguntou ela. sentia-se mais segura. Diana.Foi uma bobagem. tirando uma nota de cinqüenta dólares.Que sabor? .. senhor. Charles puxou a carteira e..Você não pode levar um negócio adiante se não cobra os clientes. tentando evitar os olhos de Charles. Charles. Ele obedeceu e observou-a em silêncio. caminhando em direção ao balcão. Sem mais uma palavra. e uma aura de mistério o envolvia.Ouça. protegida por seu uniforme. . É tão orgulhosa a ponto de dizer que a clínica não tem onde usar um dinheiro extra? . Diana olhava-o. apenas tentei tratá-lo como qualquer outro paciente. . . Sente-se em cima daquela mesa. Diana.falou Diana. mas. colocou-a sobre o balcão. . quando estava na clínica. Pode se levantar. Seu olhar desceu pelo rosto de Diana e pousou-lhe nos lábios. seus olhos eram muito expressivos.Esqueça. . empurrando o dinheiro em direção a Diana. .disse ele. enfermeira Diana.Não estou acostumado a discutir sobre assuntos tão triviais . mas uma ponta de orgulho a impedia de fazê-lo. Tinha que resolver logo aquela situação.. Ela espantou-se com a pergunta. sem poder esconder a irritação. Ela sentia-se estranhamente tímida. por favor .É mesmo? Pois você pareceu pensar que eu precisava da sua.Eu acredito. como faz com as crianças? . alguma coisa acontecera. como paciente. a clínica precisava disso. já que não contava com muito auxílio financeiro. Algo nele ia contra a fama de prepotente que carregava. Quanto lhe devo? .Não precisamos de sua caridade! . Reparou que. Espantava-se por ver-se tão calma. .perguntou Charles.Escute. Com tudo isso.Está pronto.Oh. Isso facilitará o meu trabalho. Por que se isolava naquela vila.Não estou usando perfume. esqueça isso.Claro que tem. .Estou dizendo apenas que. . Esbarrei num pedaço de arame que se soltou da cerca. E os curativos que fez no corte? . .São sete dólares pela vacina . Só agora reparava como eram bonitos. Ela pegou a nota de cinqüenta dólares e guardou-a na caixa de metal.Acho que esqueceu algo. . Diana terminou de limpar o corte e fez um curativo. Cento e cinqüenta dólares. ..Está querendo me ensinar a fazer meu trabalho? . .. após a aplicação da vacina.

. Turner escrito a mão na elegante caligrafia de Mary Gumbler. . desses freqüentados apenas por sofisticados milionários. Johann queria mudar daqui desde que Gretchen ficou doente.Ele não insistiu? .disse Diana. por um rapaz que morrera na França durante a I Guerra Mundial. Diana sentiu um aperto na garganta.Prefiro o peru. . Ele cochilava. Demorou um pouco para conseguir falar novamente.. Nem quero saber qual o prêmio da rifa. O que isso lhe importava.Logo vi.Que quer dizer com isso? .resmungou ele. Charles Winfield não parecia ser o tipo que gostava de bailes interioranos. Berger também. não podia esquecer que ele a achara bonita. O som de Pete roncando trouxe-a de volta ao presente e ela começou a ler o cartão em voz alta: . o mais próximo que já estivera de acontecimentos no campo teria sido em algum clube privativo. Era pouco provável que comparecesse. e Hans o acompanhava. havia se esquecido totalmente de distribuí-los. . Sem dúvida. mesmo vestida da maneira como estava. quando as mulheres usavam rendas e fitas e os homens sabiam como cortejá-las. Supunha que aqueles momentos estivessem para sempre gravados na memória da velha senhora. O sol brilhava sobre o lago e uma brisa agradável soprava quando ela saiu ao longo do bosque em direção à casa de Pete. . o sr.Alguém está querendo tirar esta pequena propriedade de mim.Continue! Termine de me convidar! . Fingindo dormir novamente! . Bem. mordendo os lábios. Ela parou.É melhor não continuar. Johann e Gretchen Reiss e. Não havia motivo para pensar tanto naquele homem e em suas atividades.É um televisor portátil. . O segundo prêmio é um peru para o Natal . Talvez pertencesse a tempos mais românticos. Com certeza. eu disse ao sr. Mary tinha quase noventa anos e era uma personagem tradicional na pequena vila. ele não dera nenhuma indicação de querer integrar-se à sociedade local. provavelmente. temos o prazer de convidá-lo a comparecer à nossa festa anual. Havia boatos de que ela se apaixonara apenas uma vez na vida. este ano.Mas eles nasceram aqui! . . Embora faltassem ainda três semanas para a festa. Dirigiu-se rapidamente para casa e trocou o uniforme por jeans e camiseta.disse ela. Acha que seria adequado um clima mais quente. Sabia que os homens costumavam fazer esse tipo de elogio sem que houvesse nele nada de especial. devia preferir boates e coquetéis.Diana lembrou-se dos ingressos para o baile.Que tipo de oferta? . O novo morador da vila estava em sua lista.Você vai saber quando lhes entregar os convites. era uma cortesia entregar os convites com antecedência. Será que Pete estava ouvindo? . De resto. Belga e sua mãe já haviam terminado a parte que lhes competia. no local e horário de costume. final de expediente por aquele dia. sentado num banquinho entre as árvores. . Turner. dançando no baile com seu namorado. querida. em nome do comitê organizador do Baile da Colheita. . Pelo que havia lido sobre ele nas revistas. Seria ilusão pensar que Charles Winfield se interessara por ela. Que idéia absurda! Olhou para o relógio de pulso. Diana tentava reconstituir a imagem de Mary quando jovem.Eles venderam? . afinal? Mesmo assim. deitado a seus pés. Às vezes pensava se não havia nascido muito tarde.Não.Sr. Eram três horas. não devia dar tanta atenção a esse fato. no último sábado do mês de setembro.Não. Sei que teve melhor sorte com outros vizinhos. irritada. a eterna presidente do comitê organiza dor do Baile da Colheita. Sabe que recebi uma oferta muito boa hoje? . Winfield que não estava interessado. Diana sorriu e puxou o cartão que tinha o nome do sr.Eu não estou surpreso. Na preocupação de pintar a casa.Preciso perguntar quem é? . entregandolhe o convite. É claro. E quer me pagar um bom dinheiro.. e ainda lhe restava tempo para distribuir grande parte dos convites.

pertenciam à família há várias gerações. . relutante. Charles encarou-a por um instante. Winfield quer pagar por esta propriedade. acho que agora já têm dinheiro suficiente para comprar aquele bar em Greenfield.. seria possível dizer que não havia ninguém em casa. Pete.. Quando chegou à casa dos Berger. sem saber o que pensar. Tinha os pés descalços e os olhos mostravam que estivera dormindo. . Quanto aos Berger. e o cenário era o mesmo na casa de Johann Reiss. tocou novamente. Havia várias caixas no centro do aposento. O velho homem sorriu e levantou-se. mais jovens. Quando já guardava o convite de Charles Winfield. Após vários minutos. consideravam seriamente as ofertas recebidas. A última pessoa que esperava ver batendo à sua porta era a encantadora Diana Mueller. .. vizinha.disse ele. até nos estabelecermos em Greenfield.Querida. Ela era forçada a admitir ser aquela mansão uma das mais belas que já vira. Diana aproximou-se da porta da mansão e parou para observar o gramado viçoso. a porta foi aberta e ele apareceu.Claro que tenho. Nas duas vezes em que a encontrara. .Tem certeza de que não o incomodo? .É verdade! . Se ao menos soubesse o que aquele homem tinha em mente! Olhou para o sol poente e constatou que ainda havia tempo para mais uma entrega.Não tem problema. com os móveis cobertos por lençóis. mas tinha uma sensação inquietante. sentiu-se aliviada. Muitos pensavam em arrumar melhores empregos em outras cidades e alguns. Estava sem camisa. Havia algo nela que o intrigava e ele não sabia o quê. Entre. Talvez ele seja louco! . na maioria dos casos. Mas claro que isso era impossível. Uma brisa leve soprava e tudo estava tão tranqüilo que. Nunca estivera naquela casa. Foi até melhor. .exclamou Fred. você não pode culpar as pessoas por quererem melhorar de vida.Desculpe por tê-lo acordado . É que tudo está acontecendo tão depressa! Charles Winfield caiu sobre nós como um raio! Diana saiu de lá apreensiva.disse ela. Ela não poderia culpar seus vizinhos. Alguns estavam firmemente decididos a não vender suas propriedades que. justamente aquela que estava adiando. dos quais apenas três ficavam em frente ao lago. sem obter resposta. baixando a cabeça. . Tinha uma estranha sensação de perda e uma leve idéia de traição. Falou até que nos ajudaria a encontrar um bom local para morar! Ele não é fantástico? Diana concordou com um gesto de cabeça. O ambiente era um tanto sombrio. espantou-se com o ar de excitamento que toda a família mostrava.Aquele maravilhoso sr. . mostrando o peito musculoso e bronzeado. . como se estivesse num barco que começasse a afundar e toda a tripulação e passageiros o abandonassem. Os Berger estavam mesmo de mudança. De certa maneira. Diana tocou a campainha. .Os invernos estão muito frios para Gretchen e nós adoramos a Flórida . Outros. estavam cansados do isolamento de Silverwood Lake.Não estou gostando da história. a pintura descascada revelava que era necessário um pouco mais de atenção. olhando-a com surpresa. Grey House situava-se em meio a trinta acres de terra.Eu sei. querida.completou a esposa. Você não acreditaria no preço que o sr. Winfield nos ofereceu quase duzentos mil dólares por esta casa tão descuidada e nos disse que poderíamos ficar morando aqui pelo tempo que achássemos necessário..Oh. Com um sentimento de apreensão. vira-a como uma garotinha esperta. . observando-o passar a mão pelos cabelos desarrumados. Porém. todas com a etiqueta da Winfield Enterprises Incorporated. O rosto de Lola era um retrato de felicidade. Petersburg e faz tempo que o convida para morar lá. embora um pouco insolente.Diana! O que está fazendo aqui? Ela ficou envergonhada. Você sabe que sempre sonharam com isso. . se não fosse pelo Mercedes azul parado em frente. é como um sonho que se torna realidade! . Diana entrou.. Talvez aquela estranha sensação de já a ter visto. .Nossos problemas terminaram.O irmão de Johann tem uma casa em St. porém. Todos os vizinhos comentavam as últimas atitudes de Charles Winfield. Diana continuou seu roteiro pelo lago.

Voltarei num minuto. Houve um breve instante de silêncio e Diana o olhou. em nome do comitê organizador do Baile da Colheita. não? ..O comitê organizador está convidando! Agora é um morador da vila e está incluído nos eventos locais. não? Como ousa me acusar de esnobe. revelava-se uma bela jovem. mas pensei que. temos o prazer de convidá-lo a comparecer à nossa festa anual. . Tirou o cartão do envelope e leu em voz alta: . ia esquecendo: são cinco dólares como doação.. mas com um encanto muito especial. diga-se de passagem. percebeu que não era apenas uma menina. . de quem não escondia certa antipatia. . Uma visita social. Naquele vestido justo. Pegou uma camisa branca e a vestiu. Charles lembrou-se da maneira como ela enrubescera. tratava-se de algum assunto de negócios. no local e horário de costume. Como certas pessoas não sabem ser.Está me convidando para um baile? . . não é? . Diana não se daria a esse trabalho. inexplicavelmente. .Fique à vontade..Ei. a hipótese era bastante remota. É o costume. Provavelmente. Vou lhe pagar o suficiente para que leve uma vida excelente na cidade. . vizinha? Posso lhe assegurar de que não se arrependerá pela decisão. se comparecer. Você é uma pessoa encantadora.. Qual seria a última vez em que havia visto uma mulher corar? Voltou à sala e encontrou Diana na mesma posição em que a havia deixado. Tinha um envelope sob o braço e sua expressão mostrava um leve sinal de nervosismo. Aquela pequena vila não era lugar para uma jovem como ela. principalmente com ele.Esqueça a rifa.Veio para falar sobre a minha oferta. Charles baixou a cabeça e sua boca aproximou-se da dela. Nada espetacular como as mulheres com quem estava habituado a sair. invejar os rapazes que ela iria conhecer em sua nova vida na cidade.Ah. conforme a tradição da nossa comunidade. . . satisfeito. espere! Que menina brava! Não precisa ser tão sensível! . mas conseguiu manter a calma.Eu deveria saber que não estava interessado. Quase soltou uma gargalhada ao ver-lhe a expressão surpresa. quando a vira pela terceira vez. Imaginava o que Diana Mueller podia querer. não fosse rir das nossas tradições. Teria mudado de idéia quanto à venda de sua velha casa? Charles sorriu.Está? Eu diria que parece mais é divertido. Ele segurou-a com mais firmeza e puxou-a para perto. ele a puxou para si e colou os lábios nos dela. no último sábado do mês de setembro. fazendo-o. Se ao menos pudesse entender a sensação que tinha ao vê-la! . Alguém já lhe disse isso? Com um movimento rápido. que podem ser pagos a mim ou na entrada do salão. a dele! Diana fervia por dentro. porém.Na clínica. Pelo que conhecia dela.. Dirigiu-se rapidamente ao quarto contíguo. onde se via uma mala aberta sobre a cadeira. . . Sentiu. com os cabelos presos na nuca. Diana pôde sentir-lhe o calor do corpo. Diana dirigiu a ele os grandes olhos castanhos. contando até dez.O que lhe dá essa idéia? Nunca estive num baile como esse. Respirou fundo e dirigiu-lhe um sorriso gentil. Silverwood Lake pode não ter a sofisticação de Manhattan ou San Francisco. Voltou as costas para o milionário e dirigiu-se para a porta. .O que o faz ter tanta certeza disso? . de cortesia? Impossível.Você é geniosa.. Que presunção. Charles Winfield. mocinha? Diana engoliu em seco.Não estou sendo tão sensível! Você é que é um esnobe. que um braço a segurava fortemente pelo ombro e teve que parar. cortesia da Loja Van Peer.Estou deixando você nervosa? .O que mais a traria à minha humilde residência. mas garanto que o povo daqui é bastante educado.Sr.Acho que devo dizer que estou emocionado.Ah. tem mais uma coisa: o comitê do Baile da Colheita anuncia os prêmios da rifa.Claro que não! Sabia que estamos oferecendo um belíssimo prêmio na rifa deste ano? Uma televisão portátil colorida. Diana. na clínica. ao menos. sendo que todo o lucro irá para a clínica e. . Iria acabar com aquela prepotência em um segundo. Enquanto calçava os sapatos.

Charles pegou os bilhetes que ela lhe entregava e jogou-os sobre uma cadeira.Não posso dizer... . . Charles deslizou as mãos até a fina cintura e apertou-a ainda mais. ao menos inconscientemente. sempre que tinha vontade de beijar alguém. Mas não havia maneira de Charles lembrar-se daquilo! Ou havia? . mudou rapidamente de assunto: .. Ele pegou a carteira e tirou vinte dólares. Diga. Diana.Estou certa de que você tentava apenas ser um "bom vizinho". Charles aproximouse dela ao dizer essas palavras e acariciou-lhe o rosto. Seus lábios ainda tremiam. ela pareceu acordar para a realidade e soltou-se dos braços poderosos com um grito de protesto.. .Tenho a impressão de que você não está sendo honesta.Diana corou ao responder. Você deve estar esperando que eu me desculpe pelo. . gostoso. está ficando tarde. sem acreditar no que acontecia. Diana ficou imóvel.. Por outro lado. Diana? .O quê? A expressão do olhar daquele homem era exatamente a mesma de cinco anos atrás.A voz soou irônica. .Não. eu simplesmente não pude resistir. Afinal. Provavelmente.Também estou confusa a respeito de uma coisa: por que está comprando todas as propriedades em frente ao lago? A pergunta. comportamento grosseiro.Isto é pelo convite e por números da rifa. Nunca na vida havia sido beijada daquela maneira. vamos dizer.É. .Aqui está. nenhum dos dois disse palavra. .. a fitara.. deitado na areia fria. Ela evitava o olhar de Charles.Sabe. . mudou o clima da conversa. ele o fazia.. Um beijo daquele homem era a última coisa que esperava quando chegara a Grey House.Porque é. .Não vim aqui para isso ... então temos o Baile da Colheita por cinco dólares e também a rifa.É uma coisa mais fácil de falar do que de fazer. .Estou assustando você? Não queria que ficasse com medo de mim..Há algo em você que me confunde.Obrigado. . .Ainda tenho alguns convites para entregar. Bem. Diana.Quem é você. . eu não sei. Diana? . Por um momento. Tenho que ir..Por que não? .Criança adorável! Bem. acho que não. . quando ele.Já lhe pedi para esquecer o incidente. . Diana tremeu ao sentir o toque macio. descobri que este é o remédio mais eficaz quando uma mulher começa a ficar brava comigo. certamente. . sempre havia imaginado como seria o abraço do príncipe que habitava seus sonhos nos últimos cinco anos. Nesse momento. obrigada. estou. Já era quase noite.Por um segundo. certo? Quanto é? .Eu. .Ouça. Charles apertou os lábios e pensou um pouco antes de responder: . não fora à toa que ganhara a fama de playboy. Será que ele a reconhecera? Assustada. Mas aos poucos uma intensa sensação de prazer a dominou e a fez corresponder.Por que tanta pressa? . Mas agora fora real. Ela não acordara antes do beijo. por que estamos sempre nos provocando? . .disse...Não.. Não tinha intenção de continuar a tarefa naquele dia. .Um dólar por número. com medo.. sobre o que aconteceu agora.Esqueça isso.Quer café. Quinze excelentes oportunidades para tentar a sorte. ainda perturbada. Diana sentiu-se estremecer. . pessoal.Mas é a verdade! Neste envelope há pelo menos mais vinte cartões! . não é? . .Bem. .

Ela caminhou até a margem do lago e molhou os dedos dos pés. Eram duas horas.Ah. segurando-lhe o queixo. E espero que possamos conservá-la desse modo. procurou o maiô azul que comprara na faculdade e que tinha o emblema da escola em cores já esmaecidas. Com um movimento delicado... .. Nem lhe ocorreu a idéia de que alguém poderia estar observando. Era uma agradável noite de setembro e a brisa soprava.Acho que está certa. rindo. com seus mistérios.Estou começando. Dizendo isso. O lago brilhava sob o céu repleto de estrelas e as águas pareciam atraí-la. Afinal. mergulhando o corpo todo por um instante. fazendo esvoaçar os longos cabelos castanhos.Fez uma pausa antes de acrescentar: .O senhor não precisa explicar as suas atitudes para mim. No entanto. do comitê. Nunca reagira a um beijo daquela maneira e o fato de Charles ser tão atraente. . . . Sentindo-se relaxada.. Winfield.Deixe-me contar sobre a taxa de criminalidade em Silverwood Lake.disse ele. mas. por favor. mas era quase impossível.Gostaria que confiasse em mim. . mas aquilo não poderia repetir-se. Com certeza. Já estou indo. Charles. para Diana fora uma experiência inesquecível. . havia o motivo que o trouxera àquele lugar. Mas não devia explicações a ninguém.E não precisa.Obrigada pelo apoio ao Baile da Colheita. e ele era um homem de trinta e cinco. Foi então que viu uma silhueta escura. Diana. Nós. Não o comentara com ninguém. Entrou na água vagarosamente. Não conseguiria mesmo dormir. É que há certos assuntos que não gosto de discutir com ninguém. eu não quis ser rude. O chefe de polícia acabou prendendo um rato que invadia uma casa por não resistir ao cheiro do bacon e das batatas fritas. Ele tentou segui-la.É quase isso.Eu também gostaria.É mesmo? Pensei que fosse assunto profissional. Como era bom! Ficou flutuando na superfície. Houvera algo mais. Diana . então é isso! Você tem medo de que alguém como eu mude sua cidade. tão viril.E o que mais eu poderia pensar sobre alguém que chega aqui e vai comprando tudo? . . É claro que gostara muito de fazê-lo. ela começou a voltar para a margem. nos dias atuais.Sr. Saiu da cama e dirigiu-se à janela. Não podia parar de pensar no que acontecera na casa de Charles Winfield. ela correu pela grama e sumiu entre as árvores. Pela primeira vez em cinco anos Diana atendeu àquele chamado. Devia estar acostumado a fazer isso com qualquer mulher que se aproximasse. .Escute. Ela tentou adivinhar o que a expressão daquele homem dizia. Talvez em épocas passadas um beijo significasse um carinho especial. fascinante. aquele era um assunto estritamente pessoal. embora sua ausência houvesse perturbado seu meio profissional. aquilo a havia perturbado. Afinal. eu cresci aqui.Espere um pouco. Ficou na varanda por um longo tempo. não era suficiente para explicar a agitação em que a deixara. No entanto. contra o luar. Ela enterrou o rosto no travesseiro e suspirou.. suave. mágico. .Acha que pode voltar para casa sem problemas? Já está escuro. . sem noção do tempo. . Vestiu-o com gestos lentos e desceu a escada. O caso mais sensacional foi a descoberta de um roubo há três anos. não é? . Devagar. mas percebeu que já era tarde. . Além disso. pensativo.. . ele a beijara por impulso.Não gostaria de falar mais sobre isso. Por que teria perdido o controle daquela maneira? Nunca pretendera beijá-la. somos apenas vizinhos. a pensar que esta vila saiu de um livro de contos de fadas! -disse ele. ela não passava de uma menina de vinte e um anos. Aquele era seu reino encantado e ninguém poderia tirá-la dali. Já era muito tarde e não havia nenhuma luz nas casas próximas. aguardamos a sua presença. confuso. não queria dizer nada. . . E logo não importaria mais: o lago seria totalmente dele! CAPÍTULO V Diana não conseguia adormecer naquela noite. atirou-se para a frente. O luar iluminava o relógio sobre a cômoda. Ela dirigiu-se à porta e Charles a seguiu de perto..Mas é seguro andar sozinha a esta hora? .

Diana sentia-se enfeitiçar. .Não! . Rodeou com os braços o pescoço do homem que habitava seus sonhos há cinco longos anos.Por favor! Não poderia deixá-lo continuar tocando-a de maneira tão íntima.Então não foi um sonho. Lutou para desvencilharse daquele corpo forte. mas Diana começou a sentir-se inquieta. Agora o sonho acabou. . não tenho a menor idéia do que está falando! . Ele deslizou as mãos até os quadris redondos e apertou Diana de encontro ao corpo. Seus olhos acinzentados percorriam-lhe cada palmo da face e do corpo. Nenhum dos dois se moveu por um tempo que pareceu eterno. Continuava. profundo. sereia? Que nos últimos cinco anos você me deixou acreditar que tudo fora um sonho maravilhoso. Charles a ignorou e desceu a boca até um dos mamilos rosados. Não podia entregar-se a um homem só porque ele vivia em suas fantasias! . sereia. .Não me toque assim! Diana tentou fugir mas ele já lhe segurava a cintura. sereiazinha? Porque hoje não estou bêbado. primeiro os lábios.Quero agora. Era outro Charles Winfield e isso apavorou Diana mais ainda. Contra sua própria vontade. .Deixe-me ir! . mesmo se quisesse. as orelhas. é seu vizinho. não? . Ele a puxou com força e procurou-lhe a boca. eu deveria ter ligado as coisas antes.. sereia.Como pude não perceber? Deveria saber no momento em que a vi! Sem parar de acariciá-la.disse ele. Charles andou em sua direção. Aconteceu mesmo. Não desta vez..Sabe. a testa. começando nos lábios de Diana. não precisa negar mais. . Ele levantou a cabeça e a encarou.Você é tão delicada. imóvel. sereia? Era você naquela noite .disse ele. descendo pelo pescoço e parando no profundo decote do maiô.. Quer ser mais claro? . A boca carnuda moveu-se vagarosamente pela pele úmida do pescoço. Seus olhos brilhavam.. Você é real e posso tocá-la. Diana. prendendo-a entre as pernas.. . Sempre imaginei que sua pele fosse assim.. Olhava para Diana com surpresa e incredulidade. protestando. rendeu-se à magia daquele instante maravilhoso. com os olhos escurecidos de paixão.Oh. onde havia mais que desejo: havia paixão. sereia. e lhe deve solidariedade por isso. O velho Pete Turner.Não estou compreendendo. sr. Com a diferença de que dessa vez estava sóbrio.Eu te quero! . que disse ter-me salvado. O que aconteceu com aquelas fivelas que você usava? . os ombros. O beijo foi uma mistura de raiva e desespero. Diana começou a sentir-se em pânico.Eu. . ele a deitou na areia e colocou-se em cima dela. Ela estava perdida naquele abraço.Por favor o quê? . tremendo. Winfield. .Charles Winfield estava parado.Tão bela! Sabia que era assim! O prazer do toque era infinito.Ora. enquanto os lábios continuavam a beijá-la.. . Não era o homem de negócios que falava. enfeitiçada por aqueles lábios. bloqueando a passagem. quase num sussurro. Beijava-a com intensa paixão. Charles baixou-lhe as alças do maiô até expor os seios. não era. na areia.Você não compreende! . Sua calça roçava as coxas nuas de Diana.Por favor! .Pare. minha linda sereia . e seu amigo..... depois as faces. .Sabe o que eu compreendo.Não.Era você o tempo todo. entre os seios. Era o mesmo romântico de cinco anos atrás. algo forte. nem o playboy. Charles! . porém.Quero tocá-la. Sei que não é alucinação. Com um movimento seguro.Sabe por que não pode negar. . por favor.. É você a minha ninfa! Foi você quem me tirou da água naquela noite. Quero acariciar estes belos cabelos molhados... Seus dedos percorreram uma linha imaginária. . Ela não poderia correr. .

Ele a havia seduzido com o calor de suas mãos fortes. . . parado entre as árvores e as pedras.. Charles levantou-se e a seguiu. cada trilha. com beijos apaixonados. Notava que a voz grave adquirira um tom de irritação.Ouça. mas naquela época de inocência nunca poderia imaginar que viria a usar a pedra. era ainda mais perigoso porque não estava sob o efeito do álcool. por favor. sereiazinha ? – Enquanto falava. Esse gesto suave causou-lhe mais pânico ainda. Moveu instintivamente as mãos para cobrir os. Tinha medo mas. mas ela continuava imóvel. Ela não respondeu. porque era mais possessivo do que qualquer outra atitude que ele tivera. Falava da mesma maneira sedutora que usara na ocasião. na verdade.Diana? Ele a olhou.Espere! Para onde vai? Seus olhos cinzentos percorriam os arredores. . ele ainda não a tinha visto. cada moita.. seios nus. Como fugir daquele homem? De repente. Os passos ressoavam sobre a coberta verde do chão. Charles! .. . Ela se escondera atrás de uma grande rocha. como Diana. para evitar-lhe o olhar..Não se esconda de mim. Como naquela noite. Diana! Não estou com vontade de brincar esta noite! Se ficar escondida mais tempo. pode pegar um resfriado! Diana não mexia um músculo. Dessa vez encontrava-se bem acordado e tinha o controle de seus atos. Havia se entregado tão facilmente àquele charme sedutor.Posso senti-Ia tremer sob minhas mãos. mas nem isso a tranqüilizou. . Não iria desmaiar na areia. denunciando intensa frustração. Pela primeira vez tivera consciência do medo contido naquelas palavras. Ela percebeu que Charles tinha a intenção de fazer amor ali mesmo. O que a salvara fora o medo do desconhecido e a inexperiência. prateados pelo brilho da lua. e quase conseguira subjugá-la. . . Charles afrouxou o abraço e Diana aproveitou a oportunidade para sair de debaixo dele. embora estivesse bem perto.. Ele era tão fascinante. no lago. . . anos depois. ..Já passei da idade de brincar de esconde-esconde! Estou perdendo a paciência! Você está brincando comigo? .Por favor. ainda.Não faça isso.Eu a deixei envergonhada. Diana escondia-se atrás de uma rocha e Charles a caçava. num jogo bem mais adulto e perigoso. Mas não havia nascido em Silverwood Lake. Agora. espremida contra a rocha protetora. tentando controlar o desejo.. soluçando.. Sei que você me quer. Não deveria deixar que Charles a tocasse novamente. Correu pela areia e sumiu no bosque. Não sabia até que ponto poderia resistir. Homem algum a havia visto seminua antes. com o coração batendo descompassadamente. Diana? Ela tentava controlar a respiração acelerada. Os passos pararam subitamente. Charles esperava em vão por uma resposta. . Diana pôde perceber que. deixe-me olhar para você.Está dizendo que não quer? Diana assentiu com um gesto de cabeça e virou o rosto. Quando criança. responda! Ele repetiu o chamado várias vezes. . temia mais a si própria.Não faça isso! . surpreso.Onde está você. há cinco anos. Não sabia o que dizer. contudo. Havia uma assombrosa familiaridade no que estava acontecendo. e isso contava muito. Charles afastou as mechas de cabelo castanho que caíam sobre atesta de Diana. um ramo quebrou-se atrás de onde ela se encontrava e logo a voz de Charles se fez ouvir novamente. Agiu tão rapidamente que não lhe deu tempo de puxá-la de volta. Charles respirou fundo. Prometo que não vou tocá-la. não conhecia cada árvore.Com súbita ternura. tão dominador. Diana! Quero falar com você! Por que está fugindo? O barulho de passos tornou-se mais próximo. Diana desejava ardentemente que ele desistisse e fosse embora.ela repetiu. costumava brincar de esconde-esconde nesse mesmo lugar.pediu. Não confiava nele. mas não se movia. Diana sentiu emoção naquelas palavras.Diana.Não! Não olhe para mim! . . Mas.

.disse Charles. Voltou ao carro e dirigiu-se à clínica. Diana arrumou no pacote o recipiente com chá e o bolinho de coco que comia todos os dias. Quem lhe contou foi Frank Ramsey. como para arrancar até mesmo a memória do que ocorrera. dono da lanchonete. Com certeza. Aí. que havia sido publicado em Nova York. já que o dr. Subiu no helicóptero com os outros e foram todos embora. Eu vou embora . Myers continuava fora. no entanto. Charles Winfield? O que quer de nós? De mim? CAPÍTULO VI Diana foi acordada às seis e meia da manhã por um helicóptero voando baixo. O que o fez mudar de idéia? Pete inclinou-se sobre o balcão e jogou um jornal em direção a ela. O fato de ele ter viajado a fazia sentir-se bem mais sossegada. vagarosamente. Ela ainda podia sentir os lábios quentes sobre sua pele... Mais tarde soube que o aparelho pertencia à Winfield Enterprises Incorporated.. Seria outra manhã agitada. achava até bom ter tanto trabalho. Winfield me contratou para cuidar do jardim e eu estava justamente tirando o cortador de grama do caminhão quando aquele helicóptero chegou não sei de onde. Miriam comprava esse jornal no verão para os turistas. desceram uns homens vestidos com terno e gravata que foram bater à porta.Foi logo ao nascer do sol. Ele lhe dissera frases apaixonadas. um dos moradores do lago que jurara não ceder às ofertas do milionário para vender sua casa. tentando pensar com clareza. já se afastando do local. Ela procurou a página indicada. Charles Winfield. Por uns poucos momentos Diana soube como era sentir-se bela e desejada. despedindo-se.Por que você voltou. para discutir a súbita aquisição de propriedades no lago por Charles Winfield. Como você sabe.Diana mordeu o lábio para não gritar de raiva. Esfregava a pele com força. . . .Página sete.Já era mesmo hora de tratar desse assunto! Mas isso não parecia preocupá-lo antes. . Diana esperou mais dez minutos antes de levantar a cabeça. entrou na casa e trouxe uma maleta. achara-a bonita. Fechou os olhos com força. perplexa. Correu para o quarto e tirou o maiô.Você vai ver. jogando-o na banheira. pernas. Então. talvez não tanto quanto devia. O sr. que sabiam como dar prazer a uma mulher. pois assim não teria muito tempo para pensar em Charles. Isso nunca lhe acontecera! . Apagou a luz do banheiro e enfiou-se na cama. pairou sobre Grey House por uns minutos e desceu com um grande barulho no gramado em frente à casa. mas era Charles o sedutor. o sr. Ela. Era um periódico semanal dedicado ao mundo dos negócios. voltou para casa e trancou a porta. . Leia! O título dizia: "Revelado projeto de expansão da Winfield Enterprises Incorporated". costas. Pagou a compra e acenou para Frank. nunca pensara que uma mulher poderia rejeitá-lo.. tocara-a com mãos experientes.Faça como quiser.Charles. O texto citava fontes confiáveis relacionadas aos planos secretos de construir um novo centro de operações. mas tudo que conseguiu foi deixar o corpo vermelho. seios. Charles a abraçara. Depois. Era ele quem estava perdendo a paciência e ela quem estava brincado? Que piada! Não fora ele quem acabara de tentar seduzi-Ia? Não fora ele quem sussurrara palavras de paixão em seu ouvido e a atirara na areia? Ela havia resistido. Pegou uma toalha para remover a areia dos braços. Winfield saiu gritando com eles palavras que não ouvi nem na Marinha! Os homens falavam como se estivessem pedindo alguma coisa e ele só balançava a cabeça..O que devo procurar? . a fizera tremer em seus braços. Um artigo sobre uma grande transação de terras em uma vila isolada no Estado de Nova York. Diana estava acabando de comer seu lanche quando Pete Turner chegou à clínica e contou-lhe que havia pedido uma reunião de emergência à Câmara Municipal. Mais que isso.. o chefe do conselho de administração e presidente da . Parecia muito bravo.

Ele lhe havia dito que suas razões eram puramente pessoais. no íntimo. . – Podia jurar que ele queria se livrar de toda aquela confusão da cidade grande. .Winfield Enterprises Incorporated. Quando comprou Grey House e começou a adquirir os terrenos vizinhos. Charles Winfield exibe sua habilidade em vencer todos os competidores na corrida frenética pelo crescimento industrial. Era óbvio que falavam línguas diferentes. como conseguiremos impedi-lo de fazer o que quiser com ela? . que a olhava com ar malicioso. Diana sentia-se quase aliviada por ele não estar por perto no momento da reunião. os ânimos se esquentaram e a confusão começou. Diana se repreendeu.Está pensando em alguém em especial? . O projeto de Silverwood Lake. talvez para um homem de negócios como Charles Winfield. William Sutherland. talvez tenhamos que conviver com chaminés de fumaça e resíduos químicos. Pete. e tudo por culpa de Charles Winfield! .Em vez disso. Qualquer pessoa podia falar e ser ouvida. Você acha que podemos mesmo impedi-lo de concretizar seus planos? Ele é como um grande gato. Afinal. . não podia evitar um certo desapontamento. se quisesse. ela não ficou muito surpresa com a notícia. pouco à vontade. provavelmente andava ocupado em negociações trabalhistas numa de suas instalações na Califórnia.Claro! De um certo modo.Vê agora por que foi necessário convocar a reunião especial? . promete agitar o mundo dos negócios. planos para uma expansão industrial fossem assuntos pessoais. tivesse a esperança de que os planos de Charles para as propriedades que estava adquirindo fossem mais dignos. . se pudermos fazê-lo parar. O artigo citava declarações do sr. porém. A esse ponto. Nunca havia visto aquelas pessoas tão irritadas..dizia Pete. Todos tinham uma opinião sobre o assunto. Diana devolveu o jornal a Pete. e nós apenas uns ratinhos. embora ainda envolto em segredo. . Ouvi dizer que está se tornando uma voz muito influente na política local. Por outro lado. pensei que o pior que poderia acontecer seria ele construir um refúgio para milionários.Eu não estava mesmo preocupado . negava categoricamente qualquer plano de construção de um complexo industrial na vila de Silverwood Lake.. se a propriedade lhe pertence. Outros preocupavam-se por ver tantas terras nas mãos de um único proprietário. Bem. Ela é bem ativa. o membro mais velho da Câmara Municipal. No entanto. chamando os rumores de "infundados" e "irresponsáveis". o jovem industrial admitia ter adquirido várias propriedades na área... Winfield. Talvez. de acordo com o noticiário do rádio. teve que bater o martelo na mesa várias vezes para que a ordem fosse restabelecida.. Diana. Havia outros que declaravam veementemente ter o direito legítimo de vender suas propriedades e ninguém os iria impedir. era aberta e qualquer morador poderia assisti-la. Por que chegara a duvidar do fato de ele ser um mero manipulador de pessoas? Por que questionara seus motivos? Deveria ter ao menos aprendido alguma coisa da experiência por que passara na noite anterior.A Câmara Municipal pode colocar alguns impedimentos. Charles Winfield estava acostumado a ter o que queria.Na mais jovem representante do povo na Câmara Municipal: Diana Mueller. Charles Winfield ainda não havia retornado à vila e.Não. junto com os outros membros. podemos tentar! A reunião estava marcada para as oito horas da noite seguinte. se seus membros agirem depressa. Frank Ramsey levantou-se e disse em tom irritado que não queria ver Silverwood Lake transformada num pesadelo industrial. embora se recusasse a revelar a razão dessas aquisições.Mas. Afinal. A notícia terminava com palavras inquietantes: "Mais uma vez.Elogios não vão ajudar. Agora. . parecia que Silverwood Lake estava se dividindo em duas facções diferentes.. sentada à frente. aquela era uma vila sossegada. . Era a democracia em ação. mexia-se na cadeira. Mulheres ou terras. Que novos planos o famoso Charles Winfield terá em mente?" . Na hora marcada. onde a vida transcorria sem agitações. a cidade em peso lotava as dependências da Câmara Municipal.Bem.

mas não há razão para parar de sorrir. Se tiver sorte de encontrar algo. foi anunciado que a situação teria que ser esclarecida. .O quê? .perguntou ela. lentamente: . Sara Lee Hutchins. Temos muito trabalho a fazer.Tudo de que precisa é paciência e um grupo de voluntários para ajudá-la. excitada. Muito engraçado .Helga está certa.disse Sara. No dia seguinte. William riscou um fósforo e acendeu o cachimbo. . .Vou citar a mais séria e urgente crise pela qual passamos atualmente: por que nós três não arranjamos namorado? . Não querem salvar o lago? .Isso já está parecendo uma festa. você é sempre tão séria! . Diana ficou encarregada de dirigir um comitê para pesquisar o assunto. Ao abrir a porta.Então você precisa achá-lo! . esquecido em algum arquivo empoeirado.Poderia repetir isso na minha língua. Daquele jeito.Morda a língua! Conte-nos sobre Charles Winfield. você terá que verificar a pilha de velhos registros no arquivo e descobrir se há qualquer decreto obscuro de zoneamento ou acordos locais que possam. Quando a Câmara Municipal suspendeu a sessão. duvidava que ele pudesse ter grandes emoções. quando chegou em casa carregando um pacote de mercearia. sem poder conter uma risada. Se não. ouviu uma voz calma pronunciar.Bem.perguntou Diana.indagou Helga.Quer dizer que se houver qualquer estatuto antigo. As restrições de zoneamento atuais não se aplicam às terras do lago. . Pete Turner lembrou os presentes. nunca jogam nada fora. .Ele riu com vontade e tirou uma longa baforada do cachimbo. esperançosa. .Claro que sim. que não estava muito acostumada à burocracia parlamentar. . por favor? .disse Sara. . no momento parece não haver leis que possam impedir o sr. para ser sincera. não somos? Se acharmos alguma coisa. William Sutherland guardou os óculos com armação de ouro no bolso e voltou-se para Diana.Não vendam! .Vejam só quem fala! Você não tem porque não quer.E por onde devo começar? .falou Helga. William! Não sou advogada! . especificamente.observou Sara.. outro dia.disse Diana. . . Ouvi dizer que foi à clinica.Engraçado. Diana. muitos dos quais conhecera desde criança.. . obstruir o desenvolvimento da região fronteira ao lago. .disse Diana. Diana exasperou-se. Pensa que não vi o modo como Miles a olha? . Diana. há questões muito mais sérias em jogo além do bem-estar de Silverwood Lake .É uma bela atitude. que o lago era uma das poucas belezas naturais do Estado praticamente livre de poluição.Mas isto é sério! . essa é a vida! . Ele é tão bonito quanto nos retratos? . ótimo.Quando chegou sua vez de falar. Mas até que o trabalho foi divertido. o trabalho não andaria. Olhe só a capa! Marilyn Monroe! . aqui! Vocês acreditariam que este velho cartão contém toda a programação de teatro de 1933 em Nova York? . eram quase sete e meia. . Diana! Sabia que é contra a lei possuir mais de um peixinho dourado? . enquanto ela se entregava às tarefas.Puxa.disse William. Somos voluntárias.Minha querida. Diana e vários voluntários passaram quatro horas sobre os velhos registros. com ar paciente.Olhe. Você devia tornar as coisas mais leves.Se Charles Winfield quiser continuar comprando nossas terras. divertiam-se.Ele vai ao Baile da Colheita? . . . não é? E. Winfield de fazer o que quiser com suas terras.Mas. . Era como na escola: todas conversavam. por exemplo.gritou Helga. .Oh. sacudindo uma folha de papel. puxando outra caixa. levantou o rosto sardento com um sorriso. No fim do dia. Nada parecia perturbar o vendedor de antiguidades. quase atirando uma velha revista sobre ela. às vezes. Não encontraram nada que pudesse aplicar-se à situação.Cite uma. poderemos lançar mão de uma coisa. . comece a se preocupar com o advogado dele.. ..Deixe-me ver isso! É de 1955. Sara.

você me pedia amor . não acreditei muito na história de Pete sobre ter-me encontrado na beira do lago. Que absurdo descobrir isso no meio de uma briga! . não sabia? . Charles Winfield? Você ainda não viu nada! . controlando-se para não atirar um prato na cabeça dele.O que acontece com as desta cidade? Ninguém fecha as portas? Assim podem entrar estranhos. As longas pernas estavam estica das sobre a mesinha de centro e um cigarro pendia de sua boca.. Diana percebeu.Sabia que eu iria vê-la.Estava esperando por você.Isso é ridículo. Era real e. Diana evitou-lhe o olhar.Por que foi nadar à luz da lua? . .continuou a voz.Às duas da manhã? Deve estar brincando! .Você está mesmo brava ou é só fingimento? . soltar-se. . Estou esperando.Você é um homem presunçoso. pegou o pacote das mãos de Diana e levou-o para a cozinha. .Após aquela noite. Quando a vi pela primeira vez. Diana. Por que ele não a deixava em paz? Diana não podia suportar a intensidade das emoções que aquela presença perturbadora lhe causava.Estou? Foi o que quis que eu pensasse durante todos esses anos. naquela noite? . .Mas eu quero falar sobre isso. Não lhe pedi nada.Por que seria diferente? Só uso o primeiro nome quando me dirijo a amigos. ignorando a presença do invasor. Ele cruzou os braços e a fitou com intensidade. Quero saber por quê.Já lhe disse que não pretendo discutir esse assunto. Sentia que o olhar quente de Charles acompanhava cada um de seus movimentos.Como ousa entrar na casa de uma pessoa quando ela não está? Charles tirou as pernas de sobre a mesa e levantou-se. Winfield? .O que está fazendo aqui? .Espere! O que está fazendo em minha casa? . .O quê? Ela quase tropeçou no abajur quando seus olhos perceberam um fio de fumaça de cigarro subindo da poltrona à sua frente. na água.perguntou ela.. . . . . Não vou deixá-la até que o façamos.exclamou Diana. voltou a me chamar de "sr. . . Tive uma mulher vibrante e apaixonada em meus braços naquela noite e. horrorizada. em vão.reafirmou ele.É assim que recebe alguém que não vê há três dias? Sem esperar resposta. Winfield! . Winfield . Usava terno cinza. Mas não havia como explicar sua presença. . sr. arrogante e. seguindo-o. que apesar de tudo estava se apaixonando. Winfield"! Ela deu de ombros. Quando o viu parado tão perto dela na pequena cozinha. batendo a porta do armário. pensei que estivesse mesmo enlouquecendo. ela se tornou fria comigo. de repente. Depois.Já lhe disse: esperando por você . Andou vagarosamente até o balcão de fórmica e. Ou talvez estivesse apaixonada desde a primeira vez em que o vira. Por que fugiu de mim? .Concordo. .O que quer de mim. Ela tentou. . . furiosa..Pediu sim.Foi você quem começou.Não é problema seu! . ..Não quero falar sobre aquela noite. Cada vez que me fitava com esses seus grandes olhos castanhos.Você queria que eu a visse daquele modo.Brava.disse Charles. não era. . pensei que a palavra amigos nos seria mais do que adequada. . Diana dirigiu-se à poltrona e encarou o intruso. em tom cínico. num gesto de indiferença.Mas vamos discuti-lo. aproximando-se e segurando-a pelo pulso. Se nos negócios ele era um grande adversário. começou a esvaziar o pacote de compras.Ah. . ao mesmo tempo. que combinava com o brilho de seus olhos. E você não é meu amigo. há cinco anos.Está louco! . sr. . Por que fugiu de mim.disse Diana.. sr. apagando o cigarro num pequeno cinzeiro de cristal.Pode continuar. em amor era ainda mais difícil enfrentá-lo.

Então. Poderia ele ser o playboy Charles Winfield? Era o mesmo arrogante que. beijando-a com uma violência que ela nunca conhecera. Ver um homem tão seguro falar daquela maneira tocou-lhe o coração...O que aconteceu? . sr.Charles! .Ainda pergunta? . Charles afastou-se um pouco.Ele levantou o queixo de Diana e beijou-a. permanecia presa entre os braços fortes. segurança? .Por favor.Por favor. com deliberada indiferença.Não pare! Por favor! Vagarosamente.. Tentava abrir-lhe os lábios. princesa. Aproximou-se de novo e começou a acariciar-lhe o rosto bonito. não é? . sair. protetores e musculosos..disse ele. diga alguma coisa! Qualquer coisa! Apenas me dê alguma resposta! .Por favor! . com inesperada delicadeza... se cedesse uma única vez. percebia que. jamais poderia resistir a ele. Era a primeira vez que tomava a iniciativa . não eu! Ela sentiu-se corar à lembrança do prazer que tivera com aquele homem. os espessos cabelos escuros. fechando os olhos.. soltando-a. com espanto. Charles sacudiu a cabeça. que ele não resistiu. intrigado. "Não posso deixá-lo agir desse modo!" No entanto. hesitante.Nunca provei nada como o sabor dos seus lábios. deslizando os dedos pelo pescoço macio até alcançar os ombros. Apertou-lhe a boca com força e depois deslizou os lábios pelo pescoço. ..Seu. incrédulo.O que tem aquela noite? Não seja tão presunçoso! . seu arrogante! . querida..Por que insiste em dizer não? Por que não aceita o que seu corpo tanto anseia? Sinto como ele vibra ao meu toque. E agora que podia sentir-lhe a respiração quente no rosto.O que foi. mas mantinha o controle e continuava passiva. .disse Charles. Estar perto dele era como reagir a uma droga poderosa. ela inclinou a cabeça de Charles até fazer os lábios tocarem os seus.Parece ter dezesseis agora! Por que não me deixou terminar o que havíamos começado? .A voz soou tão meiga. mostrava confiança. Ela continuou impassível até vê-lo afastar-se. . Diana sentia-se em meio a uma rede da qual não podia. "Devo lutar!". tão delicada.pediu ele. nem queria.Está corando novamente. . Diana? . Sabe que isso me excita? . Ele olhou-a com uma expressão dura e então a abraçou de novo.Não! . E não fazia o menor esforço para sair deles. voltando a beijá-la enquanto a apertava cada vez mais. para induzir um contato mais íntimo. . Num impulso colocou uma mão no rosto de traços marcantes e pôde sentir os músculos tremendo sob os dedos.Foi por isso que deixou que eu pensasse que tudo não havia passado de uma ilusão? . sereiazinha? Ela levantou a mão. pensava ela. apenas minutos antes. .Assim. . para cobrir o rosto.Já acabou? . . . ela puxou-lhe a cabeça para junto da sua e acariciou. me toque! Com mãos inexperientes.. .disse isso com um tom de incerteza tão inesperado que ela o encarou..Pela última vez: foi você quem começou..Machista! . querida.Por favor. Eu tenho mesmo o poder de lhe causar isso. quase sussurrando. Sentia-se ao mesmo tempo embaraçada e excitada. me deixe em paz. . .Pois demonstrou querer muito mais que isso! . . ...Não adianta elogiar. forçando-a a retribuir. Diana não podia acreditar.. instintivamente.. . Foram feitos para mim .Não entendo! Aquela noite. Diana! Não está falando a sério..Continue gritando como um gatinho zangado. Charles aumentou a intensidade dos beijos.Se você já terminou de brincar de homem das cavernas. em desespero. O rápido contato foi eletrizante.Por favor! Eu tinha apenas dezesseis anos! . vou começar a fazer o jantar. Diana sentia o coração disparar.Você salvou a minha vida e eu queria agradecer. .disse ela. Winfield.disse Charles.

incerta.Charles. não é? . . E a beijou outra vez. vagarosamente. Diana não opôs qualquer resistência. .Claro que importa! . Ela corou intensamente ao apontar a direção no fundo do corredor. Charles. tão desejada. Nunca em sua vida sentira-se tão bonita.. sentindo arrepios pelo corpo. Charles gemeu e carregou-a nos braços. embora sem segurança. Horas e horas. . roçou os lábios no queixo dele. Com passos lentos. pressionando-os ternamente. para a expressão estranha que se formou de repente no rosto bonito. Faça como quiser! Com um atordoante senso de liberdade.disse ele. Seria isso errado? Seria frívolo dar-se tão intimamente a um homem? Ou desejar que ele continuasse tocando-a e despertando mil sensações novas? De repente. O mundo.. E não demorou a relaxar nos braços dele..Você gosta quando faço isso. . A única coisa que importava era Charles. Diana procurou conter o nervosismo e envolveu-lhe o pescoço com os braços.. por favor. Quero você inteirinha! Diana tremeu ao ouvir essas palavras.Fui um idiota naquela noite. com um tremor na voz.Devia estar fora de mim para não ter percebido isso! Não me admira tê-la assustado tanto naquela noite! . tenso. .Isso... deixou de existir. com seus eternos problemas. . para sensações totalmente novas. .. . Quero ir devagar com você.Mostre-me seu quarto. .. com ternura e fitando o quarto. Por alguma estranha razão. Parou ali. expondo a pele alva e delicada. segurando-a nos braços. imediatamente. .Charles? . até mesmo tantos anos de solidão.Isso importa? . coberta por uma delicada colcha cor-de-rosa.. colocou-a no chão.. Era bom poder senti-lo. valia ter-se guardado para aquele homem e agora gemer de prazer ao sentir as carícias que lábios e mãos incansáveis faziam. . sereia. ele atingiu o pequeno dormitório e hesitou antes de atravessar a porta e aproximar-se da estreita cama. . Todas as suas fantasias românticas estavam se tornando realidade.de acariciar um homem. Então.Está fazendo tudo certo.Charles! Ele passava a mão pelos cabelos despenteados.Você é virgem. Charles continuou beijando-a. . Ela continuou percorrendo-lhe o rosto com os lábios. Ela enterrou a cabeça no peito largo e pôde ouvir-lhe o coração acelerado batendo sob a camisa fina.Meu Deus! Você é apenas uma criança! . O coração de Diana disparou quando ela o viu parar no topo dos degraus e procurar por um interruptor de luz. mas de forma diferente.Continue.Quer que a beije aí? Diana concordou com um gesto de cabeça.Mas.ela repetiu. . suave.. querida? Esta noite quero provar cada pedaço desse seu corpo gostoso. macio.. eu não sei como. Ela sentia ondas de prazer percorrendo todo o seu corpo e descobriu-se despertando para a vida. Como estava feliz por ter esperado até aquele instante! Valia tudo. fazer isso. embora se sentisse um pouco chocada. meu amor. enquanto com as mãos abria os dois botões superiores do vestido branco. correspondendo à doce carícia. Não devia tê-la apressado.Pequena Diana! Venha mais para perto! As mãos hábeis desceram até os quadris e puxaram-nos possessivamente. olhando. . Diana não conseguiu resistir mais: seus lábios se abriram. cruzou a sala e subiu a escada. sereiazinha. Sem uma palavra. O movimento fez com que seus seios tocassem o peito largo e o corpo dele ficou. eu. Diana voltou seus lábios para os de Charles. Então os lábios quentes percorreram a trilha que levaria à fenda entre os seios. Beijou-lhe levemente os cantos da boca e.Quero beijar a sua alma. saborear sua pele com crescente confiança.

Raramente ia para as margens do lago e ele. Ele deixara muito evidente que a desejava. mas sentia que Charles Winfield.Charles! Por que não me ama também? .Nada.. aparentemente.O que acha que sou? Algum tipo de monstro? Devia ter-me dito antes! . Vinte e um anos e não fez absolutamente nada! Charles andou em direção à porta. Diana conversava animadamente com vários freqüentadores quando Charles entrou para pegar sua correspondência. Como poderia falar de seus sentimentos agora? Era óbvio que ele não queria mais nada. . vagamente. balançando a cabeça. solícita pronta a espalhar as novidades para toda a vila.. Diana ouviu os passos descendo a escada e.Ia dizer-lhe que estava tudo bem.Não percebe o que quase aconteceu? . . CAPÍTULO VII Felizmente. com lágrimas escorrendo pelo rosto amargurado. . Charles hesitou por um instante. se é que existiam. a ser perseguido e ganho. e faria dela uma mulher. inclinando a cabeça num cumprimento. Ela o amava. Um playboy não muda de um dia para outro. Nada em suas experiências passadas a havia preparado para um homem que poderia arder de paixão num momento e. Ele parecia mesmo bravo.respondeu ele. não? . Seria infinitamente terno e paciente enquanto lhe ensinava os muitos prazeres do amor. em voz baixa. . . saindo do quarto. de repente. tornar-se frio. também a evitava..Ninguém em Silverwood Lake recebe tantas cartas como o senhor.Se duas pessoas. mas via com uma clareza alarmante que não sabia nada a respeito dos sentimentos dele. como se estivesse decidindo se deveria ou não falar mais alguma coisa.Alô! Como vai? . Só então notou a presença de Diana.Bem. Mas logo resolveu a questão e saiu da loja. Ele a fitou e viu dor em seus olhos puros.disse. percebeu a enormidade daquela confissão. estava certa. tudo ficaria diferente. -É uma bela manhã. . Ela nem se importava por todos os presentes estarem observando atentamente o diálogo. desviando o olhar. .Como está. obrigada.Mas. seu desejo. Houve um longo e doloroso silêncio. Certa manha. sr. um momento depois. que nada importava porque se apaixonara por ele.Alô. isso não deveria fazer diferença se.Diana calou-se. . . Havia uma grande possibilidade de que não fossem muito profundos. O que eu fiz? .respondeu Diana. repentinamente. . . não faça com que isso fique pior do que já é . na janela do correio da loja de Miriam MacPhee..perguntou ela. a porta batendo com força. Diana ficou atônita.disse. poderia não ser capaz de amar. A única coisa que passava por sua cabeça era o absurdo daquela situação. que não havia problemas. Tratara-a tão friamente! Um homem que realmente se importasse com sua felicidade respeitaria seus sentimentos.Acha que eu poderia tocá-la agora? ..Se o quê? . Charles pegou o envelope destinado a ele e virou-se para sair. Nas poucas ocasiões em que se encontraram na vila. Após conseguir o que queria..Por favor.Como andam as coisas na clínica? . E ali estava ele. Diana quase não viu Charles nas duas semanas seguintes. Quase dissera: "Se duas pessoas se amam!" Mas. Winfield? . a conversa fora forçada e embaraçosa. . Era como um objeto.Isso significa que você não me quer mais? . .murmurou. embora ardente e mesmo romântico. indiferente e distante. Charles.Você nunca me deu chance. Não fez nada. . Diana era ingênua em relação a homens. . Nenhuma vez ouviu o barulho do barco a motor.Se duas pessoas o quê? . .Este é o problema.Não compreendo.perguntou Miriam.

É claro que não! . Que tal às oito horas? . . . Ouviu um longo suspiro do outro lado da linha e não obteve resposta à sua provocação. .Passo em sua casa para pegá-la.Sim.Disse que era assunto de negócios. Winfield? .Sim. quero informar que esta é uma chamada de negócios. Ela surpreendeu-se ao atender e ouvir a voz do milionário: . respirando fundo para conter o nervosismo. Diana pensou. .. pensou ela com um sorriso amargo. Myers. sarcástico.É claro que esta noite está fora de questão. . . não perca o ânimo.Diana desejou que ninguém percebesse a dor que sentia.Nunca mais desligue desse jeito! "Já é tempo de alguém dar uma lição nesse homem". e isso ela tinha de sobra. começara a sentir-se confinada naquele lugar e se perguntava se haveria futuro para ela na vila.Um simples "sim" ou "não" é suficiente.Não é necessário! . Não.disse ela. sabia. Onde quer me encontrar? .Não sei o que você tem a ver com isso! Suas mãos tremiam ao desligar o aparelho com força. Ainda não encontramos nada. À tarde. . Diana cuidava de seus afazeres quando o telefone tocou. nos “outros planos" que ele mencionara. com o tom mais suave que pôde dar à voz.Mas agora era muito tarde para desfazer a mentira.perguntou ele. Um minuto depois o telefone tocou novamente e Diana ouviu a voz zangada que se dirigia a ela: .Tem algum encontro? .. . e esta é uma clínica. Provavelmente.Antes que desligue novamente. Por que tivera a infelicidade de se apaixonar por um homem que não podia corresponder a esse sentimento? Quanto ainda demoraria para superar a angústia e esquecê-lo? Se aquilo fosse uma doença. sr. Seus pensamentos foram interrompidos pela voz de William Sutherland.Amanhã está bem .Certo. Nas últimas duas semanas. . que seria um erro ceder a Charles. não era possível. mas não vai ser possível. extremamente formal e seco. Diana. .A voz soou incrédula. .Amanhã à noite está bem para você? Ou tem algum compromisso? . Nunca tivera nenhum encontro naquela pequena vila. .perguntou ele.Gostaria de saber se você está livre para jantar comigo hoje.E então. Winfield. sr.É claro. na clínica. Desde o incidente com Charles.Bem.Sinto muito. Por que ele ligara? Que direito tinha de se intrometer em sua vida depois de ter deixado evidente não querer mais nada com ela? Tinha de admitir que aquele telefonema inesperado alegrara seu coração mas. como vai a comissão de investigação da Câmara Municipal? .Quero combinar um horário para nos encontrarmos e discutir as ações da comissão da Câmara Municipal. Você já disse que tem outros planos. por outro lado.Ótimo.O quê?! . Diana? .respondeu Diana. .Ainda está aí. Continue procurando. . enquanto batia o fone uma vez mais. Ela já não sabia mais o quanto se importava com a salvação do lago.O que quer dizer? .Ainda está aí. O negócio se refere à minha propriedade. pela maneira como respondeu: . . o único remédio seria o tempo. Podia estar arrasada.. mas não iria permitir que lhe falassem daquele modo.Devagar. embaraçada. Mas a dor do amor era algo que não conhecera até aquele momento. o encantamento começara a se desfazer. . Só posso pensar que necessita de cuidados médicos . Quando seria conveniente para você? . instintivamente.Você está doente? . Ele poderia magoá-la muito. Ouviu a campainha pela terceira vez. A irritação de Charles revelou-se. Devia ser imaginação. Charles parecia estar com ciúme..Eu não. . . ela ao menos poderia consultar o dr.

Acho que encontramos o que procurávamos. .Disse que vou passar em sua casa amanhã às oito horas! . com curiosidade. Diana passou mais tempo que o habitual no escritório de registros.Mas o que é isso? . Embora às vezes se sentisse sozinha. . . Diana estava distraída.Este pedaço de papel vai salvar o nosso lago! . vocês conservassem isso em segredo por algum tempo.perguntou Helga. veja esta foto das novas estrelas de cinema de 1951. ao menos. com decote alto? . abraçando as duas amigas.falou Charles. Daquela vez.Por que não desiste de tentar encontrar esse maldito registro antigo que sequer sabemos se existe.. querida? . mas ele a ferira tão profundamente que ela queria dar-lhe o troco.Você é professora de estudos sociais. não é? Diana corou. Mas o que posso fazer? Minha mãe não me deixa esquecer quanto dinheiro gastou nele! De qualquer modo. Como professoras. ambas tinham horários praticamente iguais aos de Diana. .Bondade sua. Será que Charles Winfield vai aparecer no baile? .Façam-me um favor. em nome dessa amizade antiga. “Mas o que está acontecendo. Sabe o que é um acordo restritivo? . Ela não ouvia a frívola conversa. para testemunhar o olhar daquele homem quando percebesse que o dinheiro nem sempre pode comprar tudo.Então você quer contar a ele pessoalmente. . "Principalmente uma. Diana não conseguiu mais concentrar-se no trabalho. . vocês duas.Um desses trajes delicados. ela não fora capaz de pensar direito. Nunca o usei. . Após essa conversa. Sara. conte sobre o seu vestido.É da década de 20. Diana? . Desejava ser a portadora das notícias.O que haverá aqui? .disse Diana. Francamente. .. enquanto se refrescava com um lenço de papel umedecido em frente ao espelho. estou ficando cansada de usar a mesma roupa todos os anos.Não acredito! .Está brincando! Então ele realmente existe? . . Nunca vi tantas loiras com sobrancelhas negras! Diana a ignorou.. .perguntou Helga. Helga e Sara continuavam a ajudá-la. que ela analisou atentamente.Sim. . Diana pensou. alguém está com fome? .indagou Sara.Você acha que ele sabe dançar polca.O que você vai vestir no Baile da Colheita.perguntou Sara.O que você achou? . .perguntou Sara.Por quê? . . . num tom de voz que não aceitava recusas. além de bonita. Desde que Charles Winfield retornara a Silverwood Lake. Após o trabalho.. atônita. .quis saber Helga.Parece fabuloso. Não podia esperar até ver a expressão do rosto arrogante de Charles ao descobrir a existência daquele precioso documento. Não havia as violentas incursões nas águas obscuras da paixão. quando seu coração ainda estava adormecido. para um documento amarelado. E aposto que algumas pessoas vão ficar muito surpresas. com cuidado. Helga. Parece que a tia de minha mãe gostava de andar na moda. Antes. Diana? .respondeu ela.perguntou Helga. zangada. ao menos seu mundo era seguro e calmo. Diana nunca fora vingativa. Olhava. um dos lados do envelope. enquanto observava um envelope fechado.. . a vida era simples e sem problemas.Ele foi d minha tia-avó. remexendo as velhas caixas empoeiradas. aproximando-se. Havia vários papéis dentro. Pela primeira vez pensou em como Charles reagiria àquela beleza loira e sentiu uma pontada de ciúme.Mas é um vestido lindo! Você fica tão bonita nele.Um vestido . abrindo. ele não iria ter o que queria. era esperta. Mudou rapidamente de assunto: .Você vai usar o vestido de festa do concurso de Miss Estado de Nova York outra vez. afinal?". Belga? .Ei.Não entendi. bocejando. Diana..". perguntava-se ela. tentando descobrir o conteúdo do envelope. . Não falem a ninguém a respeito desse documento até as oito horas de amanhã à noite.. Aqui está. .continuou Sara. no banheiro da clínica.Porque nós nos conhecemos desde crianças e eu gostaria que.Se quer mesmo algo interessante. Sim! Conseguimos! .Acho que vou ter que usar aquele de chiffon azul o resto da vida! . . O que foi? .

havia uma questão de orgulho envolvida. Charles permanecia imóvel. Charles Winfield. .Como? Charles apertou os olhos. caindo em ondas suaves sobre os ombros.E o que veio fazer aqui àquela hora? . O valioso documento estava perfeitamente seguro. . Isso era importante para que ela pudesse manter a autoconfiança e. com expressão sombria e desconfiada.Boa noite para você também! Charles respirou fundo.Seu carro não estava estacionado em frente à casa quando passei por aqui.Claro que é! . . Diana perdeu a noção do tempo e à meianoite estacionou o carro em frente a sua casa. Diana! Ela deu de ombros. cada vez mais nervosa com o jeito dele. . por favor? Diana pegou o casaco e colocou-o sobre os ombros. Diana voltou mais cedo para casa.Com quem você saiu ontem? Ela voltou-se para ele. Tinha de admitir que gostaria que.Espere até descobrir. Não jantavam juntas desde os tempos de escola e divertiram-se bastante. tenso. Emoções conflitantes dominaram o coração de Diana. Decidiu deixar os cabelos soltos. tomou um bom banho e vestiu-se com muito cuidado.Por que não esquecemos isso? Se quer mesmo sair comigo. mas usara-o poucas vezes. Seus olhos fitavam-na duramente. sem intenção de se mover. na noite passada? Era a última coisa que Diana esperava ouvir. sem os velhos jeans e as eternas camisetas. zangada. resolveu encará-lo e dizer de maneira sarcástica: .exclamou ele.Combinaram ir até a lanchonete comer hamburgers com cerveja. . Era justo. Podemos ir agora. Embora soubesse que não se tratava de um encontro. uma jaqueta marrom de couro macio e calça bege. . Já passava muito das onze horas. com detalhes contrastantes em branco no decote e nas mangas e comprimento até os joelhos.E desde quando isso é da sua conta? . O tecido macio delineava perfeitamente suas curvas. Entrou relutante e ficou em silêncio. com força. daquela vez. . queria que sua aparência fosse a melhor possível. trancado no escritório de registros. Já estou ficando cansada dessa conversa. Charles tocou a campainha exatamente às oito horas.Essa não é a questão. . Diana começou a sentir o coração batendo mais forte. Charles Winfield! Não preciso prestar contas de meus atos a você. Sentia-se muito bem ao subir a escada em direção a seu quarto.Ah! Que interessante! E qual é a questão? Diana fez um movimento para pegar o casaco e ele segurou-lhe o braço. Charles acendeu um cigarro.Aonde você foi. um dos seus favoritos. é melhor deixarmos tudo como está.Responda à minha pergunta. Eu vou lhe contar tudo! .Não posso entender por que isso lhe interessa. observando cada detalhe da aparência de Diana. Após colocar sobre a cama metade do conteúdo de seu guarda-roupa. . Ela. mas de um compromisso profissional.Quem é ele? . . Diana decidiu-se. dia marcado para o jantar com Charles. Talvez não tivesse escutado bem. Vestia. Charles a visse como uma mulher atraente. . naquela noite. CAPÍTULO VIII Na sexta-feira.Ouça o que eu lhe digo: não lhe devo explicações. fixando-a com ar inquiridor. . . . finalmente.disse.Não vamos a lugar algum até que você me conte o que fez na noite passada! Ela soltou o braço.Já lhe disse que não é da sua conta! . Era um desses trajes caros que apenas ele poderia usar com aquele ar de displicência sofisticada. vitoriosa. além do mais. Helga está certa. por um vestido vermelho de tricô. . tarde da noite. com indiferença. Tinha-o desde o tempo de faculdade.Perguntei onde você esteve na noite passada.

Não é necessário. . Diana não pensou em contar até dez para evitar a explosão. Já não podia mais suportar aquilo. impossível agüentar tamanha arrogância. meu amor. Você imagina o que uma coisa dessas significaria para mim? Como eu teria me odiado! E. em desalento. . Eu me importo com a sua felicidade. Diana fitou-o. Winfield! . E me agradeça por isso. com ar cínico. Não posso suportar a idéia de fazê-la chorar. como você me odiaria por terlhe tirado a inocência! Mesmo contra a vontade. limpou uma lágrima que corria pela face. Eu não teria sido suficientemente carinhoso. Era demais. . Diana não podia acreditar em seus ouvidos. Furiosa.. Na verdade. Sua voz era estranhamente triste: .Não pôde esperar. não é? Teve que ir correndo para os braços de outro homem! Será que ele pensava mesmo isso? Como se ela pudesse permitir que qualquer outro homem a tocasse após conhecer o intenso prazer dos beijos de Charles! E agora ali estava ele. caminhou para perto dela e segurou-lhe o queixo. com a expressão ainda sombria.O que importa para você? Ele balançou a cabeça.Meu Deus! O que fiz com você.Você está fazendo muitas suposições. Ele segurou-lhe o pulso com força. Houve um longo silêncio. Não conseguiu evitar as palavras de dor e frustração que lhe saíram da boca: .Vocês fizeram amor? A voz era cortante como uma lâmina. não me conteria. Diana.Acha que eu poderia viver em paz comigo mesmo. Charles deixou a mão cair ao lado do corpo. . Nunca quis feri-la.Você já me ouviu admitir que.. . Eu fugi. Mais alguns minutos e seria tarde demais.E por quê? A voz de Charles soou distante e tensa: . Diana fitou os olhos cinzentos que deixavam transparecer toda a dor do mundo. . eu nunca afirmei que era virgem. Não chore.Você não pode saber de nada se foge das coisas..Acredite. Dessa vez. . .Acha que devo agradecer por isso? . pior ainda. você me odiaria.É o mínimo que você me deve.Não..Por quem você me toma? Nunca havia visto o olhar de Charles tão duro. Sei que a machucaria.. acusando-a de algo que não fizera.Como pode dizer isso? Não foi suficiente vir até aqui e perturbar a minha vida? Não foi o bastante dizer que me queria e depois me rejeitar? Agora você entra aqui como um louco. Ele apagou o cigarro que se consumia entre seus dedos.Como você ousa esperar qualquer explicação de mim? .Sim.O que você está dizendo? . amargurada. Diana sentiu o corpo todo tremer. inutilmente. pequena Diana. Quando Diana finalmente levantou a cabeça.Não lhe devo nada. sereia? Nunca pretendi causar-lhe dor. sr. .. Nada me faria parar..O quê?! . Ele a soltou e afastou-se. querendo saber o que faço e me acusando sem motivos! As lágrimas rolavam pelas faces pálidas. percebeu que a expressão de Charles estava extremamente sombria. . Nunca! Charles acariciou-lhe os cabelos.Ele tocou em você? Diana não conseguiu esconder a surpresa. confusa. . sereia. princesa. Não importa mais.. soltar-se. está me ouvindo? Nada! . eu não poderia odiá-lo. Ele soltava baforadas de fumaça. que nunca. . ..Porque essa situação não se repetirá. Ela desviou o olhar.Não sei se devo acreditar em você.Não seja ingênua! Não vê que é só olhar para você para saber a verdade? Ela tentou. Com um gesto terno. . sabendo ter estado com uma menina virgem? . . .Foi exatamente o que aconteceu.

Você está certo. o que a fez tremer involuntariamente. Não vejo razão para que não nos comportemos como adultos. Embora de um jeito estranho. Charles.. sorrindo. Acomodou-se. Ouviu a própria voz. mas não disse mais uma palavra. Diana. Mas a comida aqui é ótima.O que você quer? Ela não tinha muita fome. . . dizer: . Negócios! Tudo sempre voltava para esse assunto. Por alguma razão. Para seu espanto. Diana o seguiu até o luxuoso carro prateado que brilhava à luz do luar. Olhe para as minhas roupas. agir da forma como Charles agira.Algo leve. para que ela passasse.É melhor assim. Temos que entrar em algum tipo de acordo sobre a comissão da Câmara Municipal. Os contratempos em sua casa haviam-lhe tirado todo o apetite. . para jantar e conversar. Você gostaria disso. na cadeira. Estava um pouco surpresa por Charles pretender levá-la para jantar. .Não sabia que viríamos para um lugar tão fino. o ambiente era muito elegante. prefiro comer mais na hora do almoço.Claro. . . garanto. Se ele podia ficar sem ela. Ela achava-se-:muito envolta nos próprios pensamentos para iniciar uma conversa. Lentamente. os beijos. “Acabou. Charles observou-a com curiosidade. Um maitre com luvas brancas os conduziu a uma mesa. seus beijos? .Como quiser.Eu sei.. Após vários minutos de silêncio. mesmo antes de começar. Charles resolveu falar: .Você não parece à vontade.Se você não está mesmo à vontade. Ela deu de ombros.. Tinha que esquecer as palavras de paixão. Embora o local fosse rústico. não sentir seu abraço.É bom que se sinta assim. É o que quero conversar com você hoje. Amigos! Como poderia suportar estar tão perto e não poder tocá-lo.Compreendo. imaginara que ele só queria conversar brevemente sobre o comitê e apenas isso." Como Charles podia julgar-se no direito de decidir aquilo sozinho? Acreditaria mesmo que era o melhor a ser feito? Será que ele era tão sensato e ela tão inacreditavelmente ingênua? O mais triste era que Charles parecia mesmo acreditar que fazia a coisa certa. com profunda tristeza. podemos ir a outro lugar..Pensei em encontrar um local sossegado. ganharam a estrada que margeava o lago. Ele sorriu. Ela olhou em volta para os outros freqüentadores. Foi o que me colocou na posição em que estou hoje. acho que este ambiente combina com você. Ele lhe dirigiu um olhar ríspido. mostrava-se um cavalheiro. por que Diana não conseguiria continuar a viver sozinha? Deveria.. Demoraram quarenta e cinco minutos para chegar a um pequeno restaurante na cidade vizinha de Fralinglitch. as carícias. . ele de repente esticou o braço e colocou suas mãos sobre as dela. Charles consultou o relógio de pulso. Torna as coisas bem mais fáceis. Esqueceria a louca onda de desejo que os havia envolvido. Pouco à vontade. Ele apertou as mãos de Diana. . então. pensava Diana. dali por diante. Charles encaminhou-se para a porta e a abriu. não é? Diana concordou. .. Não viu o jeito como o garçom me fitou quando entramos? Passei a vida toda sem me importar com o que as outras pessoas pensam a meu respeito.. sem jeito. o garçom chegou com o cardápio e Charles pegou-o. Além disso.. Na verdade. mas seus olhos continuavam tristes. “Acabou tudo. Diana sentiu-se um pouco mal vestida para uma noite de sexta-feira. . . mecanicamente.Mas não há razão para que não possamos continuar sendo amigos.".Não há razão para não mantermos nosso relacionamento de negócios. calma e controlada.. com indiferença. arrumada com toalha de linho e copos de cristal. Nesse momento. todos muito bem-arrumados. Muito bem. Ela forçou um sorriso. . Diana.

inclinou-se para a frente. subitamente.O que a faz pensar que eu tenha decidido montar um complexo industrial logo aqui? . A comida. Diana pensava no que dizer. Sabemos tudo sobre o complexo industrial que pretende construir aqui.Nós sabemos. Isso não é incomum para uma pessoa de sua idade? Diana tomou outro gole de vinho. . Diana não podia compreender por que ele parecia tão chocado. Mostrava-se tão à vontade no restaurante que.Então você foi eleita para o cargo. há muitos lugares neste mundo onde eu poderia construir meu império. Está tudo nos jornais de Nova York. certo? Houve uma pausa perturbadora. uma espécie de solidão. Charles.Devo lhe informar uma coisa agora. . ..Sim. finamente preparada. Charles baixou o olhar.Charles continuava a perscrutar o enorme cardápio.Não sabia que você era membro da Câmara Municipal.E então você supõe que eu faria algo tão insensível como destruir a paz dessa cidadezinha. incrédulo. O cigarro caiu dos lábios bem desenhados.Não sei. Por fim. Raramente bebia. . . Ele a encarou. .E você acredita em tudo que lê? O fato de essa notícia ter sido publicada num jornal faz com que ela seja verdadeira? . se pensa que pode levar isso adiante.Nunca ocorreu a você que posso ter outros planos para as terras? . após a morte de um dos membros. mas por alguma razão aquela noite era diferente: a bebida a ajudava a relaxar. Estava muito nervosa para ter consciência de qualquer coisa além do fato de que o homem que amava encontrava-se sentado à sua frente e o único assunto pelo qual se interessava era saber se a Câmara Municipal estava em posição de colocar qualquer obstáculo a seus planos de adquirir mais terras. parecia não ter sabor.O que mais motivaria um homem de negócios? . sim. Winfield. Embora Charles fosse uma excelente companhia e se comportasse de maneira extremamente polida. Então Charles esperava que ela acreditasse em tudo que dizia? Quem ele pensava que era? E por que a julgava tão ingênua? . tornou-se evidente para Diana. .Não.Sua confiança em mim é comovente! . coerente. acostumado a dar ordens..Em que devemos acreditar? Você vem à nossa cidade e começa a comprar cada palmo de terra. no lago? Você está louca? . Ela nem saboreou o coquetel de camarão e o filé chateaubriand que Charles pediu. Ou está querendo dizer que tudo o que lemos nos jornais é mentira? . a tensão entre eles era óbvia. Ele apagou o cigarro com força. . menos aquilo.. apoiando o queixo nas mãos. . Esperava tudo. nossas suposições são extremamente lógicas. . sr. certo? É isso que pensa de mim? Diana ficou confusa e surpresa com a reação dele. sereia.Que tipo de planos? .. a diferença entre ser uma pessoa comum e um homem rico e poderoso. Sentia um novo tipo de vazio..Houve uma eleição especial em maio. Charles Winfield: a Câmara Municipal nunca aprovará seus planos. Charles acendeu um cigarro e tragou profundamente. . .Frente aos fatos. Nada em você parece.De que planos você fala? . Você está sempre querendo supor o pior e não acreditaria em mim. . pagando bem mais que o valor de mercado.Não importa.. Diana mal percebeu quantos copos de vinho tomou. Por que teria que ser justamente aqui? .Não é segredo. Pensaria mesmo que o povo de Silverwood Lake era tão ingênuo a ponto de não descobrir seus planos? Charles balançou a cabeça. Mas você.Complexo industrial. confuso.Gostaria que eu escolhesse? Essa era uma coisa que ele sempre parecia fazer. num gesto que deixava transparecer irritação. é mentira! Diana ficou mais surpresa ainda.Ouça.

.A resposta ríspida assustou até mesmo a ela. sonolenta... e tentando se controlar ao máximo. há mais de cem anos. novamente. no entanto. despreocupado. sabe o que é um acordo? Digo. Talvez um dia eu lhe conte. mantinha a atenção na estrada.Do que estamos falando agora? Pensei que nossa discussão se relacionasse à Câmara Municipal e à comissão.Garanto que sim. mas não agora.Você estava dizendo algo sobre um acordo restritivo? Então ele pensava que tudo não passava de brincadeira? Louca da vida. Charles pousou. pelo menos aparentemente. Com exceção dos dois acampamentos infantis. .corrigiu ele.Devo assegurar que. Felizmente. agora.Encontramos um velho documento. . A maneira como aquele homem parecia capaz de ler sua mente era assustadora.Seriíssimo.Charles .É um prazer ouvir isso. Aquele homem tinha acabado com a paz da cidadezinha.E é isso mesmo.. você não acreditaria. Pode passar a informação aos membros da Câmara Municipal . relaxou e adormeceu.Tem certeza? Ou estamos discutindo algo totalmente diferente? Não estamos falando cada um de uma coisa? Diana tremeu. a terra foi passada em escritura para uma sucessão de proprietários.Sr. enquanto Diana se recostava. .Sr. Foi escrito pelo primeiro dono das propriedades. Diana então percebeu o quanto estava tonta. Num desses olhares ela virou a cabeça e concentrou a atenção na paisagem. embora o documento seja velho.. . qual seria a razão. ... Charles deu de ombros. . Podia ver Charles do outro lado da mesa.Não há o que entender. Charles havia colocado uma fita cassete onde gravara Debussy. fitando-a de vez em quando. ela não tinha como saber. vários advogados me informaram que é perfeitamente válido. Diana concentrou-se para se expressar corretamente: . .Como pode ficar satisfeito? Não compreende o que significa? Não poderá mais usar as terras. não pretendo fazer nada para violar qualquer acordo ou beleza natural de seu maravilhoso lago.Mas. Só foi acordar quando estavam em frente à sua casa.Já lhe disse: meus motivos são pessoais. A leve melodia orquestrada invadia o ambiente. .Se eu um dia lhe contasse meus verdadeiros motivos para querer as propriedades. . . .. o vinho já fazia efeito e a deixava descontraída a ponto de manter o controle. Diana.pediu ele. Charles inclinou-se para a frente. ontem à noite. .A última coisa que eu teria em você é confiança. no banco confortável.ao dizer isso.Isso é tudo? . Winfield. . . Nunca bebera tanto em toda sua vida. um acordo restritivo.Mas eu não entendo. Quanto tempo esse efeito ia durar. tentara embebedá-la e agora ela nem conseguia raciocinar direito! Charles esforçava-se para não soltar uma risada. com a condição de que fosse usada apenas para residências particulares. como se achasse estar diante da coisa mais divertida do mundo. Quanto a Charles.Continue . em questão de dias! Como se isso não bastasse. Só é preciso que acredite em mim. . Diana. que foram deixados de lado especialmente para este propósito. Charles. e com sua própria paz. .Será que posso confiar? . . .Está falando a sério? . . teria esclarecido esse pequeno equívoco há mais tempo. Seus lábios tremiam com o esforço. Diana ficou furiosa. .. Diana o olhava com espanto. Voltaram para casa em silêncio. Depois. as mãos quentes sobre as dela. sorrindo de orelha a orelha. Muito particulares para discutir com qualquer pessoa... Ele a silenciou colocando um dedo sobre seus lábios. Nem mencione esta palavra na minha frente. O único barulho vinha do equipamento de som do carro. Se eu soubesse que todos estavam tão ansiosos.

Dê-me apenas um beijo.. os ombros. Ela continuou. Com um movimento suave. Charles acariciava-lhe os seios até fazê-la gritar de prazer. Charles levou-a para o quarto.. E os lábios carnudos desceram sobre os dela com grande ternura.Sereiazinha! Você diz coisas tão doces! . Antes que ela pudesse protestar. com a falta de inibição que apenas a combinação do vinho com a extrema letargia pode produzir: . tão protegida. Diana tremeu quando ele lhe desabotoou o sutiã. Ela bocejou e fechou os olhos. aprovando. Gosto muito. deslizou as mangas vermelhas sobre os ombros. Carregoua até a porta da casa. .. .. . diga isso outra vez! Ele colou os lábios nos cabelos castanhos.Gosto de você? Oh.Acho que foi o vinho que lhe deu tanto sono. para eu levar para casa esta noite. começando a sentir o mundo rodar. tão certo. Ela murmurou o nome só para certificar-se de que ele realmente estava ali.Obrigada.. tão aquecida na força daqueles braços! Sentia o couro macio da jaqueta e o calor da pele dele em seu corpo. mas não ficou embaraçada.. .Ótimo. . .Oh. provando-lhe a doçura. mas muito mesmo! . Os lábios de Charles tocavam-lhe o pescoço.Não há de quê. a curvatura do peito. Diana continuava sonolenta. a cada passo. A boca então se apossou de um dos mamilos. Livrando uma das mãos. .Dorminhoca..E você beija bem. colocou-a na cama e tirou-lhe os sapatos.murmurou ele..Posso. .. de repente. Mexia-se ritmadamente sobre ela. . pressionando-a contra o colchão e correndo as mãos pelos quadris bem-feitos. sem ligar muito para as palavras de Charles. Podia sentir que ele a carregava escada acima e. .Charles. Estava tudo tão bem. . sereia. . feliz. .Diana! A voz clara e profunda de Charles tirou-a do sono. Envolveu-lhe o pescoço com os braços e ele gemeu. Ela podia sentir o calor daquele corpo contra sua pele macia. é bem mais que isso! Minha linda Diana! Charles inclinou-se sobre ela e a envolveu nos braços protetores.Minha linda Diana! Tão suave..Eu gosto de estar com você. Diana gemeu baixinho e correspondeu sem reservas. ela sentiu um roçar de lábios na testa. aconchegava-se ainda mais àquele peito forte e quente.. .É..É mesmo? .. pode me ouvir? . sabe? .. . surpreso. expondo os seios perfeitos. em toda sua vida.Isso significa que ainda gosta de mim? . A voz chegou muito perto de seu ouvido e. Nunca se sentira tão tranqüila. liberando os braços e a pele clara do peito. . . procurou o zíper nas costas do vestido e abriu-o.. Ela sentiu-se tão bem. sedosos. Você está bem? Ele abriu a porta e deu a volta no carro.Você não trancou a porta de novo. chegamos! Hora de levantar! Ela voltou a acomodar-se no banco.. O colchão balançou levemente quando ele foi sentar-se a seu lado.Diana.E precisava? Ela respirou fundo. hein? .Sereia.Sereia. Charles a pegou nos braços e tirou-a do carro..Tão linda! Com as mãos.Acho que vou precisar ajudá-la. querida. tão adorável! Estaria mesmo ele dizendo essas palavras carinhosas ou era tudo parte de um sonho maravilhoso? .

Além disso. Era isso que a paixão significava? Sabia agora qual o verdadeiro sofrimento . Como todos os anos. Seu coração disparou ao vê-lo. Mesmo a distância. Diana pôde ver que a moça tinha uma beleza estonteante. de dor. À tarde. Aqueles do tipo: "Ao usar este perfume.. envolvendo-o com um braço. Não havia mais ninguém para acompanhá-la e. nesse exato momento. Não vou deixar nada acontecer. embora tão velha e instintiva como o tempo. Aquele sábado foi particularmente agitado.. nunca lhe dera falsas esperanças. querida. era bom não ter que se preocupar em voltar para casa sozinha.O que estou fazendo?! Com um movimento rápido. rolou para longe dela e para fora da cama. Diana apoiou-se nos cotovelos e avistou o elegante barco de Charles. a loira inclinou-se sobre ele e cochichou algo em seu ouvido.Boa noite. embora ele a rejeitasse. Pensava no que Charles lhe havia dito no jantar. Diana viu Charles virar-se para ela e fazer um gesto afirmativo com a cabeça. Saiu do quarto e mergulhou na escuridão do corredor. A língua úmida continuava saboreando o bico do seio. Ela chegou até a duvidar de que havia ocorrido algo. Alguma coisa especial e rara. mas. Não sabia ao certo de que parte do corpo vinha aquela vibração. Podia lembrar-se da mãe no carro de Pete. que ambos podiam ou não decidir procurar e alimentar até o fim. com os cabelos escuros despenteados pelo vento. os acontecimentos da noite anterior pareciam sair de um sonho enevoado.Charles? . Suspirou e tentou não pensar no assunto. embora aguardasse ansiosamente pelo baile. CAPÍTULO IX Quando Diana acordou. Diana nunca se sentira assim. Os raios do sol do meio da tarde eram gostosamente quentes.Calma. desejando uma intimidade nova e misteriosa. possessivamente. Diana não poderia pensar em alguém melhor que ele. como sempre. causando uma profunda sensação de prazer. . Sentia uma emoção diferente quando seus olhares se cruzavam e. nunca desejara estar tão perto de alguém. mas a memória dos beijos apaixonados voltava à sua mente a cada momento. você também pode ser tão fascinante quanto eu!" A mulher riu e sua voz soou mais alto que o barulho do motor. de uma forma ou de outra acabava voltando. usando um reduzido biquíni preto. Mas. Então Diana sentiu que seu coração se estilhaçava. Diana sabia que existia algo entre eles. mas. Era o dia do evento mais importante da vila.Charles! O que é isso? . ela já estava profundamente adormecida. com jeans e camiseta. Gostaria que sua mãe ainda estivesse viva para lhe dar alguns conselhos. Pressionava os cabelos curtos dele contra o peito. cantando velhas canções a caminho do salão. Estava um pouco nervosa porque. mesmo com sua falta de experiência. notou outro passageiro: uma jovem loira e alta. a tranqüilidade da cena foi perturbada pelo barulho de um motor. Poucos momentos depois soou o barulho violento do motor do carro. vestida. o Baile da Colheita. Já era um costume antigo. vindo desde a morte de seu pai. se é que isso era recomendável? Ou seria o amor uma ocorrência mútua e instantânea? Ela pensava nessas questões estendida na areia. Pete viria para levá-la em seu carro. Então. Charles levantou a cabeça. fazia dois anos que não comparecia à festividade. Não! Queria acreditar! Mesmo quando a expulsara de seus braços.. Durma e esqueça o que aconteceu. Nunca havia prometido nada. Mas. A explosão resultou em fragmentos de desilusão. sereia. Parecia ter saído de um anúncio publicitário de revistas femininas. ela passou a achar doloroso participar de acontecimentos em que ambas se haviam divertido tanto. a essa altura. pela primeira vez nas duas últimas semanas. Que lhe diria acerca de Charles Winfield? Que fazia uma mulher quando estava apaixonada e o sentimento não era recíproco? Quanto se devia esperar. Com uma exclamação torturada. Diana saiu para andar nas margens do lago. . mas parecia irradiar-se em todas as direções. De repente. Seria verdade que nunca tivera a intenção de transformar aquelas terras verdejantes num cinzento e poluído complexo industrial? Ele jamais lhe mentira. mesmo que houvesse. Diana percebeu vagamente seus passos descendo a escada. de óculos de sol e camiseta esportiva. ele sempre fora honesto. Após a morte da mãe.

Desejava ardentemente que ele não pudesse vê-Ia. explodiu numa gargalhada. O vestido estava dentro de um baú deixado na casa de Celeste. Brilhava em centenas de tonalidades azuis e prateadas. Como pudera acreditar ser diferente? O que a fizera pensar que era importante para aquele homem? Estaria ainda tentando reviver o velho sonho. Agora tinha que encarar a realidade: não significava nada para Charles.O que há de tão engraçado? . Como muitos vestidos dos anos 20. Nunca em sua vida experimentara um momento de tamanha tristeza. Seria por isso que queria ver-se livre dela com tanta decisão? Poderia ser essa a razão de Charles ter ficado tão relutante em possuí-la. Calçou as delicadas sandálias de salto alto que haviam sido de sua mãe e observou-se criticamente no espelho. Aliás. . quase afastando a tristeza. porque era muito pequena para a mãe de Diana e também porque era muito sofisticada para que ela o usasse. agora. havia fugido atrás das luzes de Nova York numa época na qual esse tipo de comportamento era visto como bastante repreensível para moças do interior. o barco desapareceu de vista. aquecia-se diante de uma nova chama. garotinha comportada! Quando Pete. enfim. Seus seios delineavam-se claramente sob o tecido fino.Não! Isso não vai arruinar minha noite! . Em primeiro lugar. estando em companhia de outra mulher. Linette Mueller. Diana resolveu arrumar-se da melhor maneira possível. sua mãe. no Brooklyn. seria uma bela noite. uma pessoa muito livre e segura. era justo e revelava uma boa parte das pernas. ao saber que era virgem? Seria por que ele tinha consciência de não poder ligar-se a nada além de umas poucas noites de paixão? O barulho do motor tornou-se mais forte e Diana agradeceu aos céus por haver alguns arbustos ocultando-a. Não queria o amor. Pensou em todas as pessoas de que gostava em Silverwood Lake e em como seria maravilhoso vê-Ias juntas na grande festa. Miriam. em vão. Parecia outra pessoa.. Mary. Era difícil acreditar que um vestido de quase sessenta anos pudesse parecer tão novo e tivesse um efeito tão bonito. Prendeu os cabelos castanhos e os enfeitou com uma faixa prateada em torno da cabeça. Diana passou o resto do dia num estado de apatia que só a tristeza podia produzir. todo de seda. pois se sentiria humilhada se Charles notasse sua presença. Nunca vestira algo tão sexy em sua vida. Charles Winfield não queria nenhum envolvimento além do físico. e. Sentia um estranho entorpecimento no corpo inteiro. . com rendas e contas peroladas. O barulho diminuiu e. entrou e olhou para ela. Às seis horas. Agora. para o Baile da Colheita era perfeito! Era a mais elegante peça de vestuário que Diana já vira.. enviado a Linette. finalmente. tomou um longo banho. Esta. a roupa nunca mais fora usada por ninguém. a havia acariciado com tanta ternura e quase não conseguira conter o desejo. Era apenas outra diversão entre as muitas do playboy. tio Jim. Quantas dezenas de nomes poderia citar? Sim. . apesar da solidão. preparando-se para o baile. Mas. Como ele podia agir assim? Na noite anterior. Diana olhou seu reflexo no espelho. Não podia permitir que nada a estragasse.Bem. que também tentavam divertir-se. Seu destino a fizera envolver-se com um poderoso contrabandista de bebidas no Brooklyn. vestido com terno bege e chapéu. Não podia evitar as lágrimas nem os soluços convulsos que lhe agitavam o corpo. Casou-se com ele tempos depois e nunca mais voltou para casa. tinha os olhos abertos. Fora adolescente na década de 20. mais tarde. Iria maquiar-se e fazer tudo para ter uma ótima aparência. Tentava tirar da cabeça a imagem de Charles e da loira. nunca usara qualquer coisa mesmo remotamente sexy. Havia Pete. Em certa ocasião. O comprimento acima do joelho e o profundo decote nas costas davam-lhe um charme todo especial. Estava terrivelmente decepcionada. já é tempo de ser o assunto da cidade. quando tudo era proibição. Uma sensação agradável começou a dominar-lhe o coração. William. Ela vira apenas o que quisera ver. Lembrou-se de Sara e Helga. deslumbrada. ouvira alguém dizer: "Parecer bonita é a melhor vingança!" Talvez isso estivesse certo. menos de vinte e quatro horas depois. Diana cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. Como a velha tia morrera há apenas seis anos.disse. o famoso distrito da cidade de Nova York. nunca usara o vestido que lhe deixara sua tia Celeste. em voz alta. no qual uma sereia vinha das águas escuras para salvar um príncipe que se afogava? Tudo fora uma ilusão.do amor. Agora.

Por que Charles não a levara ao baile? . Pete abriu a porta para ela.Diana! Que pernas bonitas! . então ela se lembrou da outra mulher. . sentada ao lado de Helga e Sara.Que vestido! Viu quem está usando? Foi assim a noite toda. não havia dúvidas. Sentiu um nó no peito ao ver muitos dos presentes cumprimentarem Charles Winfield. muito elegante e sofisticado. havia realmente se superado. o mesmo há cinqüenta anos. . notou que uma pessoa conhecida entrava no salão. acariciando cada palmo do corpo feminino com um olhar fascinado. – Você devia mostrá-las sempre! Sara Lee Hutchins. . Sua aparência o surpreendera. dirigindo-se para o carro. dava um brilho inesperado ao local. Naturalmente.Oh..E riu. Viu-o também desviar o olhar e encará-la novamente. .É Diana? . Ele estava realmente encantado. Quero lhe apresentar minhas amigas. havia enormes abóboras iluminadas e pencas de milho. Havia três grupos musicais na festa. que estava por perto.Pertenceu à tia-avó dela! . O sangue começou a subir ao rosto de Diana. Valsou com Pete. querida! Absolutamente magnífica! .disse ela. Usava um terno azulclaro. ela levantou a cabeça lentamente. . A iluminação. Era o homem mais alto do local. . que homem! Estou apaixonada! .Veja! É Diana Mueller? .Ei! É ele? ..comentou Miles.Onde arrumou esse vestido? .Então por que está rindo? . mas porque era ela quem o usava. Charles a fitava com uma mistura de incredulidade e admiração. Muitas pessoas estavam realmente satisfeitas em vê-la tão atraente. tocando de tudo. . . Diana dançou todas as músicas. Aquele ano. Já era bem tarde quando.Quer ver algo novo? Olhe aquilo! . mas não era por isso que se destacava facilmente na multidão. feita por grande quantidade de lanternas em várias tonalidades. cutucando Diana. . .Diana! Ao som daquela voz profunda. era o centro de todos os eventos comunitários. embora ainda fosse cedo. entre tantos outros.Miles! Que elogio interessante! Você devia usá-lo mais vezes! .Você está perfeita.Estou rindo porque mal posso esperar para ver quantas pessoas você vai deslumbrar hoje! O salão onde ocorria o baile. desde valsas até rock.disse Sara. num gesto cavalheiresco. Olhava-a da cabeça aos pés. o efeito de centenas de balões e enfeites era sempre muito agradável.Sara antecipou-se. Embora parecesse mais um enorme celeiro do que um salão de baile.respondeu ela. As pessoas nunca a imaginaram de outra maneira que não a de menina recatada. Diana sentou-se. com um sorriso forçado. . embalou-se num foxtrote com Frank Ramsey e num bolero com tio Jim. Centenas de pessoas já enchiam o salão quando Diana e Pete chegaram. mas não escondia a satisfação de sentirse admirada pelo homem que amava. o comitê de decoração.perguntou Helga. ligeiramente intimidada pelo calor que os olhos cinzentos transmitiam. entre outros adornos.perguntou Diana.Nossa. os velhos conhecidos paravam para olhar. todos sabiam que Diana nunca se importaria muito em estar bem vestida. A orquestra demonstrava muita animação. num vestido em cetim púrpura. a loira daquela tarde. Além disso. Mas era naquela ocasião em especial que revelava toda sua beleza. Pete estava certo ao achar que a aparência de Diana causaria sensação. Não queria falar com ele. . Sara Lee Hutchins e Helga Schuyler .. desculpe a minha distração. ele vem para cá! . Diana teve de admitir que Charles estava mais bonito do que nunca.exclamou Sara. sem descanso. rígida. Por todo lugar que ela passava. Ela viu a expressão espantada do rosto dele quando anotou.Oh. Isso não ocorria por seu vestido ser mais ousado que os outros. outra tradição regional. comandado por Miriam MacPhee.Obrigada.Você está linda! . não deixou por menos.

No entanto. atrás dela. Quando a música terminou e William abaixou-a quase até o chão numa apoteose final. querida. William ficou visivelmente satisfeito. E pensava que Charles nunca esperaria que dançasse tão bem. .Bem.. Antes que Diana pudesse objetar. vestindo uma roupa maravilhosa que brilhava sob o foco de luz. Pensando nisso. conduziu-a com facilidade aos passos da música. Seria um elogio? Ela deveria agradecer? Confusa. Podia parecer estranho. não gostaria de dançar? Estão tocando a minha canção favorita . A razão pela qual William gostava de dançar com ela era por ser considerada uma notável dançarina na vila. já tinham em mãos o troféu. Era uma sensação deliciosa ser o centro das atenções em um salão lotado.Acho que esta é a nossa dança . olhou para Diana e falou.Enrubesceu de novo? Nunca conheci alguém tão encantadoramente tímida! As mãos fortes moveram-se pelas costas dela e tocaram a pele nua..Temos que conversar.. . ele envolveu-lhe a cintura com um dos braços e levou-a silenciosamente para o centro do salão. . Eles agradeceram e. em voz baixa: . justamente nesse momento.Vamos dançar um tango. não parecia despertar a menor atração em Charles. . nenhum tipo de insegurança a atormentava.. . simpático e elegante nos seus sessenta anos. tinha um porte raramente visto em pessoas com um terço de sua idade. William.Fique com ele . ela podia ver a figura alta de Charles observando. Mas. . como se não esperasse por aquilo. Diana deu-se conta de que nem ela conseguia mais mexer com as emoções daquele homem e seu coração se apertou. Diana cruzou os braços e observou os dois dançando. simpática e agradável. apesar da timidez. ao deixar a pista. Quanto a Charles. Contudo. Charles dirigiu um olhar para Diana e levou Helga para a pista de dança. Eles eram o quinto par inscrito. A orquestra começou a tocar uma música lenta e inúmeros casais começaram a encher a pista. os aplausos foram estrondosos. Eles haviam ganho vários concursos e Diana. sentindo os pêlos se eriçarem ao contato.. muito elegante num formal smoking preto. sabia que não havia motivo para ciúme. Havia uma expressão surpresa em seu rosto. É o nosso melhor número. . Não lhe vinham palavras à boca.".Este foi o tango mais sexy que já vi. sorrindo quando Helga segurou-a por mais tempo que o necessário. nossa amiga Helga não perde tempo. hein? Continua a mesma .disse Diana. surgiu William Sutherland. já que a amiga era muito bonita. Diana concordou. Desde criança. Apertando-a contra si. . Quando essa dor iria embora? A música terminou e os dois voltaram da pista de dança. em silêncio.disse ela. . enquanto aguardava sua vez. levara adiante a tradição da família. Helga estava encantada. Ela seguia os passos de William com perfeição. Ainda se importava com ele e sentia-se traída pela loira desconhecida. Quando ela e William começaram a dançar. sr. Não se sabe de onde.Eu fiz isso? . seus pais lhe ensinaram como era essencial para uma jovem desenvolver a dança como prática social. ouviu-se um rufar de bateria e uma série de toques de trombone. o barulho dos aplausos tornou evidente que todos já sabiam quem iria vencer. já que aqueIa dança e ritmo lhe eram familiares.É hora do concurso de dança. no barco. Diana simplesmente corou e baixou os olhos. “É incrível como pequenas coisas podem trazer felicidade a algumas pessoas.. Diana! Com um gesto decidido.Espero que não pense que estou sendo atirada. Enquanto seu parceiro a rodava e a inclinava aos acordes do tango.Já lhe disse como está linda esta noite? Ela apenas conseguiu concordar com um gesto de cabeça. sorrindo.comentou Sara. o homem pegou-lhe o braço e conduziu-a à pista. Winfield. Por alguma razão. vendo-o com Helga. pensou ela.disse Charles.Charles estendeu a mão formalmente para cada uma das mulheres. . mas.

por fim.Senhoras e senhores. Mas o que havia de surpreendente nisso? Mulheres de todas as idades o achavam irresistível. .Claro! Vamos lá! . aquele cheiro tão masculino que o distinguia de todos.. perderam o contato.Eu a embaracei? . Certamente.ele exclamou. Notou com um certo prazer que Sara.Não há ar condicionado aqui. também estava fascinada por aquele homem.surrou ele em seu ouvido. agradável e esperto. pare com isso! .Ora. Charles Winfield era. Sentou-se a um canto. . . Ainda assim.Como? . . Diana. Quanto demoraria para que ela se libertasse do feitiço? De repente. Apesar de ele ser um ótimo rapaz. Diana não sentia a menor atração por ele.. Charles seguiu-a para fora da pista. sempre foram amigos.Se você não dançar a próxima comigo. com cabelos loiros encaracolados. Não podia evitar. Bem. quando cresceram e ele foi estudar fora. seu ídolo da adolescência se transformara num homem que não lhe despertava a menor emoção. para colocar tudo em termos simples. talvez para suas duas amigas o amor. contudo.Foi o ar condicionado. A propósito. mas. observando o salão.. finalmente. . . Naquela época.Não devia sentir-se embaraçada. Fora capitão do time de futebol e dava-se bem em tudo que tentava fazer.Sim! A respiração morna dele arrepiava-lhe apele. dançava com Miles.Enviarei toda a sua correspondência para a China! Diana ficou aliviada por ter escapado.Por que nunca a convidei para sair? Diana sorriu. seria bom que ele tivesse um pouco de ciúme. Agora. mas foi abordado por Miriam. Quando crianças. Charles havia parado de dançar e os observava com uma expressão enfurecida.Charles! . . a verdade era que Diana se mostrava relutante em começar qualquer relação com outra pessoa. ela se permitiu levar pela felicidade daquele momento. divertida. peço a atenção de todos. Era a maneira de ele olhar. as conseqüências serão terríveis! . . Gostaria de ir ao cinema no próximo sábado? . Diana alegrou-se com essa reação. . querida. o irmão mais velho de Helga. Por alguns momentos. Diana sorriu e respondeu: .Eu não sei. Ela podia sentir os músculos das coxas de Charles junto às suas e ouvir a batida do coração através da fina seda da camisa. Diana finalmente relaxou. Ricky havia sido o rapaz mais popular do curso secundário. não hesitaria em aceitar. Helga estava envolvida nos braços de um jovem alto e loiro. o que vai fazer sábado à noite? . bronzeado e musculoso. Ele a segurava muito perto e a garota não parecia fazer qualquer objeção a isso. por favor! . Ricky era tudo que desejava. Os olhos de Diana dirigiram-se para Charles e Miriam. Ricky. o jeito de falar.Talvez porque não estivesse muito interessado. . chocada. Ricky era um rapaz atraente. Charles encostou o rosto nos cabelos de Diana.Você está usando alguma coisa sob este vestido? . rindo de alguma coisa que ele havia dito. E vinha dele aquele delicioso perfume. . Se tivesse quinze anos. Ela inclinava a cabeça para trás. minha pequena mentirosa! Puxou-a para mais perto.Como fui tolo! Mas sempre é tempo de corrigir erros. uma voz vagamente familiar interrompeu-lhe os pensamentos: . uma festa para os sentidos. Do outro lado do salão. Tudo em seu corpo é perfeito! Felizmente.A voz aguda de Mary Gumbler soou ao microfone. enquanto rodavam pelo salão. a música acabou e Diana pôde sair de perto dele.Você está linda! .Gostaria de dançar? Ela levantou a cabeça e viu os olhos azuis de Ricky Schuyler.É sério. tivesse aparecido e ela desejava-lhes boa sorte.respondeu Diana. Era a versão masculina da irmã: bonito.

fui procurado por um novo morador de nossa cidade.Eu?! Ela não escondeu o espanto diante da mentira de Charles que.Gostaria de lhes contar algo muito importante. . para que eu o preenchesse com a soma necessária para. .Obrigado. Parecia uma criança que acabara de ser pega em flagrante em alguma travessura. Mas acho que todos já adivinharam sua identidade: sr..Já disse a ele que vou levá-la. Bem. continuou: . abraçando-a. satisfeita. . elegante num vestido de seda lilás. .Como ousa inventar uma história dessas? . Aquele ato de generosidade fora uma surpresa. sem se dar por vencido. mas muito importante.Não. Charles Winfield! O foco de luz passeou pela multidão e pousou no rosto viril.Sr. Algumas mulheres mais velhas até mesmo o beijavam. conduzindo-a à saída. Myers. os aplausos foram mais calorosos ainda. aproximou-se do microfone.Queria agradecer aqui a esse homem tão generoso. parou e observou as pessoas que o ouviam. incapaz de disfarçar o bem que esse pequeno gesto lhe fazia. Primeiro.Que mentirosa! Charles tirou seu casaco e colocou-o nos ombros dela.perguntou Ricky. porque Ricky sempre a levava para mais uma dança. onde a presidente do comitê do baile.A orquestra parou de tocar e todos os olhos voltaram-se para o palco. . batendo-lhe nas costas ou apertando-lhe a mão. Passei a noite toda imaginando o que ele esconde! . Ele me entregou este cheque em branco.Quer que a leve para casa? Talvez a gasolina acabe e tenhamos que ficar parados no carro. . amigos. juntamente com a arrecadação da rifa. eu não sabia que o senhor e Diana eram. que expressou interesse em ajudar a fazer com que a nova unidade infantil se torne realidade. à maravilhosa contribuição de vocês à rifa. Chegaram ao carro e ele abriu a porta. . Diana podia afirmar que Charles estava embaraçado pela atenção e pelos aplausos. hein? . como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.Tem certeza de que não a convencerei a ir embora comigo? De repente. . . colocou o braço em torno da cintura dela. a orquestra terminou seu último número. Graças. Diana começou a tremer sob o tecido fino do vestido.Sinto muito.Mas. Depois.O rapaz não conseguiu terminar a frase. enquanto andavam em direção ao estacionamento. talvez as intenções dele em Silverwood Lake não fossem tão más.Está com frio? . você esqueceu que Pete me pediu para acompanhá-la? . construir a enfermaria.. O médico teve que pedir silêncio de novo.Obrigada . deixando Diana sozinha com o playboy. . Winfield.Sabe por que está com tanto frio? Por não estar usando nada por baixo desse delicioso vestido. Diana me prometeu isso.Charles rebateu. mas eu a levarei para casa. .. mas não foi muito feliz. Que tal? . porque passou a ser abordado por todas as pessoas. e quanto a Pete? . Afastou-se.disse Diana. fique sossegada. confuso. Ricky ficou confuso. que preferiu ficar no anonimato.perguntou ele. agradecia aos moradores pelo apoio à festividade e apresentava o dr. Ouviram-se aplausos para o médico. Inúmeras pessoas dirigiam-se a ele. Charles tentou voltar para junto de Diana. quer dizer. O ar da noite tornara-se fresco e. Há algumas semanas. . .E por que você não reclamou na hora que contei essa história? .. cessado o barulho. Diana sorriu. uma voz grave os interrompeu: .ao dizer isso. . meu jovem.Querida. Ele levantou as mãos para silenciar a multidão e. . Neste ponto. que queriam agradecer-lhe pelo gesto. levantamos mais de três mil dólares para a clínica! Dessa vez.. que era muito popular na cidade. Um pouco mais tarde.Você não mudou nada. O que vou dizer será breve..

Em menos de dez minutos parava em frente à casa de Diana.Eu quero você! Vamos embora! Relutante.Só mais um instante. Repentinamente. Não se deixaria levar por um impulso. Segurou o queixo de Diana e começou a sussurrar palavras tão íntimas e sensuais que ela abriu a boca. em silêncio.Velho amigo.Você é minha e pretendo tê-la! Agora! Ela não podia permitir que aquilo continuasse.Não fuja de mim. dissera palavras apaixonadas e a abandonara quando perdera o controle da situação. aquela mulher que você tem encontrado! Ele ficou imóvel.De quem está falando? Diana desviou o olhar.disse ele. ... Depois. . juro que ficarei louco.Daquele garoto com tipo de esportista. . O calor. .Saia de perto de mim! Deixe-me em paz! Eu não te quero! .. Isso foi o bastante para fazê-la revoltarse. Então. nervosa. encarando-a com espanto. .. sereiazinha. Afinal. No dia anterior.Está envergonhada? Ela não pôde responder. mas logo a loira no barco voltou-lhe à mente e ela percebeu que aquele homem. .De quem está falando? .Como pude ser tão tolo aponto de querer afastá-la de mim? Eu te desejo como nunca desejei alguém! A paixão contida naquela voz abalou Diana. nervosos. Mas Charles não lhe deu tempo para pensar. sobre as nádegas. Mais um minuto e ele a carregaria escada acima para a cama. ajudando-a a descer. . Seus braços a envolveram. . corando e fazendo força para livrar-se dele. .. . Não importava o quanto seu coração e seu corpo o desejassem naquele instante. sabe disso? A mão forte pousou nas pernas de Diana.Veja o que faz comigo. O que não a deixou um só instante na festa. Seus dedos mexiam nos botões do casaco. Jamais agüentaria dividi-lo com todas as mulheres que o assediavam. do toque quase a fez desfalecer. tudo estaria perdido.. ele lhe comunicara sua intenção de permanecerem apenas amigos.Entraram no veículo. deu a volta no carro e abriu a porta para ela.. Conservando uma das mãos sobre a coxa de Diana. por uns momentos. possessiva.. Havia algo excitante e ao mesmo tempo perturbador na maneira como aquele homem a acariciava. .Não ouse deixar qualquer outro tocar em você. mas outra vez ela lembrou-se de que havia outras mulheres que ele desejava com o mesmo ardor. beijando-a com ternura enquanto as mãos procuravam a pele macia das costas nuas. Sem uma palavra. algo de momento.Não diga essas coisas! . . . é? Sei. para tentar esconder a dor..Pensei que você fosse me levar para casa! . querida! . . não suportaria ser abandonada mais uma vez. Segurou o rosto delicado entre as mãos.Venha aqui! Olhe para você! Está me deixando louco. Sabe como? Assim. Era melhor acabar com tudo antes que fosse tarde demais. . por favor! Diga-me. Charles puxou-a para o colo e o vestido deixou à mostra quase metade das belas coxas femininas.Sua boca tem um sabor único. parecia querer devorá-la com o olhar. bem acima dos joelhos.gritando. Charles permaneceu imóvel. com a outra mão. .disse. enquanto a mão firme percorria as costas e pousava. Agora. Charles beijou-lhe os lábios e. ela esforçou-se para soltar-se das mãos de Charles. Saiu em velocidade do estacionamento. a queria apenas por uns breves e inconseqüentes momentos. fitando-a com ansiedade. acariciou-lhe a nuca. foi com ele que saiu anteontem? . Deixe-me apenas segurá-la um pouco. chocada.Não sou como aquela. ele a deixou voltar ao assento e virou a chave na ignição. . Ouça uma coisa: se eu a vir com ele novamente. Diana baixou os olhos.. em sua casa. O comportamento de Charles a confundia. o homem que amava. E vou puni-la por isso. princesa! Diana sorriu e entregou-se à delícia do momento. O estacionamento estava totalmente escuro e não havia ninguém por perto.Está se referindo a Ricky Schuyler? É um velho amigo.

Diana não respondeu. também. Por isso. . considerando tudo que acontecera nas últimas semanas.Acho que explicações não importariam muito agora.. Isso a aborreceu tanto que. mas pôde ouvi-lo desviar e brecar com um ruído seco. CAPÍTULO X Diana passou a manhã no salão de baile. Ela obedeceu.Derrapei quando tentava desviar de você! Ela nunca vira Charles tão irritado.. pegou-a nos braços e colocou-a no banco traseiro de seu carro. porém. furiosa. que a amasse. começou a andar rapidamente pelo acostamento. Ela tremeu e apressou o passo. Diana repreendeu-se. É minha culpa isso ter acontecido bem na hora dessa chuva. que passasse a noite ali. após ajudar a encher duas dúzias de sacos plásticos de lixo. Havia começado a chover alguns minutos antes e agora os pingos caíam em grande quantidade. Só naquele momento percebeu que estava chorando. se é que isso será possível". Foi então que percebeu que ele.Vá embora! Charles virou-se. então. Essa não era uma tarefa exatamente agradável.O que queria que eu fizesse? Meu carro quebrou aqui perto. pare com isso! O que estava fazendo no meio da estrada a essa hora? .Você na certa não acreditaria em nada que eu lhe dissesse. . mas esperava-se que todos os membros do comitê colaborassem na retirada da decoração e na arrumação do local. O temporal foi se tornando tão intenso que Diana mal podia enxergar o caminho. . ajudando a limpar os restos da festa da noite anterior. Enrole-se nele antes que pegue uma pneumonia. . . nunca mais voltasse. .Há um cobertor aí. gostoso.Eu estava perto do lago! Vi você e sua namorada no barco! Charles não disse nada. esse silêncio significava mais do que mil palavras. molhando-a até os ossos. Tão aconchegante e tão gostoso que ela nem reparou que o motor começou a falhar e logo depois o carro parava. com a cabeça baixa. . Mas seus lábios não proferiram uma única palavra.Você está maluca? Quase se matou! Se eu não a tivesse visto a tempo. não volte nunca mais. Mas.. voltou para o carro. Analisava a aparência dela. "Por favor. e sua voz traiu uma amargura sem limites. Naturalmente. Deixe-me esquecê-lo. Abaixando a cabeça para evitar que os pingos lhe atingissem os olhos. Isso não a incomodava muito.Então não há mais nada para dizer. que nem me deixa ver onde piso? Ele não disse nada. ele soltou-a e deu uns passos para trás. A água escorria livremente por seu rosto. Foram feitos. não conseguiu ver o carro que se aproximava. não estava surpresa com isso. acho que não .gritou Diana. . Charles Winfield.Ora. falava baixinho para si mesma. Tive que andar. A chuva caía cada vez mais forte. Havia nela algo aconchegante. Uma olhada no medidor de gasolina permitiu-lhe saber qual era o problema.Você está encharcada! Sem esperar por uma resposta. É melhor eu ir. Ela saiu na chuva e suspirou ao pensar em quanto teria que caminhar até chegar em casa. Viu-o afastar-se e algo dentro dela gritava para que voltasse.. . . Para ela. Ela esperou que Charles chegasse ao carro e abrisse a porta. talvez. Uma porta bateu e logo duas mãos a seguraram pelos ombros. ....concordou Diana.É. a conversa girou em torno de um assunto: Charles Winfield e sua grande doação à clínica. muitos comentários a respeito de Diana. de seu vestido e do interesse do milionário por ela. não é mesmo? Podia-se perceber nos olhos dele uma tristeza indescritível. não é? Ela não conseguia nem mesmo levantar os olhos. Nunca havia sido tão descuidada a ponto de deixar o tanque vazio. Pôde ouvir o carro partindo e. Devagar. duas horas depois. sentiu algo molhado tocando-lhe os lábios. Diana gostava da chuva. como que para se convencer. Estava muito molhada e com muito frio para tentar qualquer objeção. .

Ainda estou com frio. Esqueceu-se até de onde estava. Não podia pegar o que me oferecia com tanta doçura. emocionada. mas ela protestou. Chame-me quando terminar.Vou beijá-la até que você peça clemência.Não! Eu posso fazer isso sozinha! . .Tem certeza? Ama de verdade? Colou os lábios nos dela e beijou-a com imensa paixão. colocando um tampão no escoadouro. . Grey House tinha uma aparência diferente da que Diana vira há três semanas. Mas ande depressa. com grande ternura. A única coisa que me aquece é você. Não houve necessidade de muitas ponderações.Amo você. os olhos. quando uma criatura saída de um maravilhoso conto de fadas me tirou das águas e entrou em minha vida! Charles beijou-lhe a testa.Eu não poderia fazer amor com você.Não quero um roupão. . sem fôlego.. Ele se levantou. Começou a tirar-lhe a camiseta. Colocou-a no chão por um momento. ainda segurando Diana. por mais que desejasse.confessou ela. . . Charles.Oh.Você o quê?! Repita isso! .Não. Diana! Minha querida sereiazinha! Os olhos acinzentados brilhavam de prazer. Apenas o observava. sentado numa cadeira de balanço ao lado da janela.. Charles levantou os olhos de uma revista que estava lendo.. Sua decisão estava tomada naquele exato momento.Está bem. ao encontrar um pente de tartaruga numa prateleira sobre a pia. querida. Eu te amo demais . Charles subiu silenciosamente a escada. Seria um crime me deixar levar pelo que eu tanto . Era ali mesmo que desejava estar. adornado com tapetes caríssimos e muitas plantas. Então a ergueu novamente nos braços e carregou-a para a entrada. e logo a levava para dentro da casa.. Por um momento. sem pudor.Charles! . Quanto a ela.Saiu e fechou a porta. e enrolou-se numa das grandes e macias toalhas brancas que pendiam de um suporte de bronze junto à porta. . Charles atravessou o quarto em apenas dois passos e segurou-a pelos ombros nus.Estamos mais perto de minha casa que da sua . até que elas caíssem naturalmente lisas e brilhantes..E a respeito das torturas que eu passei? Ele a abraçou com força. Após todas as torturas pelas quais me fez passar.Vou pegar um roupão.Aqueça-me. Charles.ela murmurou. para que ele não percebesse a vulnerabilidade que transmitiam.Após tudo que fiz.. vagarosamente. as faces. . percebeu que seria melhor sofrer a seu lado do que viver sem ele. esqueceu todos os seus problemas. . . . Respirando fundo. . Mas. .Não posso evitar. Avançou um passo. . Os móveis haviam sido descobertos e os caixotes tinham desaparecido. Enxugou os cabelos e. não disse uma palavra. Logo estava num banheiro espaçoso. . . num tom indiferente. você ainda me quer? . Ela saiu da banheira. abriu as torneiras.Vou livrar você dessas roupas molhadas e preparar-lhe um banho quente. quase aliviada por ter finalmente revelado seu segredo. Agora parecia um lar. desfrutando a sensação agradável. sereiazinha. .O quê?! O que você acabou de dizer? Diana desviou os olhos.Pois eu te amo desde aquela noite na praia. não se importou nem um pouco. abriu a porta devagar e entrou no quarto. . enquanto procurava a chave. .Sente-se melhor agora? Estranho. antes que fique doente. de felicidade.ela exclamou.Esperarei aqui fora. Tudo era extremamente simples.Eu não acredito! Você me ama mesmo? . depois por outra e então ela se viu num grande quarto. e continuou: . quando se lembrou. Então. mas só agora Diana notava os círculos escuros em torno dos olhos dele. . Parou o carro praticamente em frente à porta. Apesar das inúmeras dificuldades de seu relacionamento com Charles. Passou por uma porta. penteou as mechas com cuidado.continuou ele..Ele segurou o rosto de Diana entre as mãos. Charles inclinou-se sobre a banheira. . Diana afundou na água morna e fechou os olhos.

poderemos viver no lugar que você escolher. comprando-o..Não saia daí! Nem se mova! . Por favor. fiquei encantado. . mas não tinha idéia de como agir.Você comprou Grey House por causa. ele deixou que a toalha escorregasse pelo belo corpo feminino. Charles afagava os cabelos dela. Isso era muito importante para mim. . Charles? Nunca pensei. Quero que fique sentada aqui enquanto eu lhe conto algo. Sabia que me queria. Diana. ..disse ela.Ele sentouse na cama. minha sereiazinha. . ... Naquela noite maravilhosa na praia.Por sua causa. adequadas..desejava antes que você tivesse certeza de seus sentimentos.Eu acredito. . colocou-a no colo e apoiou-se na cabeceira. .Depois que nós o quê?! Os olhos de Charles brilharam de paixão. Percebia a incrível atração física entre nós.Criaturinha arisca! Você não pode estar pensando que eu a deixarei escapar após ter demorado tanto tempo para encontrá-la. na verdade. Foi por isso que comprei Grey House. . E se ele fosse falar sobre a outra mulher? Isso destruiria para sempre seus sonhos.Não. sentando-se rapidamente. Mesmo assim ela se convidou para vir para cá. apreensiva. O lago passou a representar para mim um sonho perdido.Vai brincar comigo agora? . Esses quinze últimos dias foram um inferno.Temos tempo de sobra. não pude acreditar em minha sorte.Em primeiro lugar. que queria fazê-la feliz. muito feliz.Fez uma longa pausa. E nunca mais consegui esquecer o que tinha acontecido. Então resolvi preservar o lago. Eu sabia que sereias não existiam. quando descobri que meu sonho era real.. minha sereiazinha. suas ilusões. e sempre terá. . Eu sabia que estava fazendo tudo errado. sorrindo.Bem. destruída por especuladores.Sabe por que a deixei tão abruptamente na noite passada? Diana desviou o olhar. Levei-a para passear de barco e tentei conversar com ela tão gentilmente quanto possível. Ela envolveu o pescoço forte com os braços e puxou-o para junto da pele nua. que você existia de verdade. . ela gemeu de paixão. Nós vamos! E.. na noite em que você me tirou da água. Quando atingiu os seios. querida. Coloquei-a de volta no helicóptero cerca de uma hora depois. meu amor.. . Continuou a passar a boca na pele morna da barriga.Você se importa mesmo comigo. . .. como que para escolher as palavras certas. .Eu disse.Você vai voltar para San Francisco? .Aonde você vai? . Várias coisas. Era ela a mulher com quem eu estava ontem.Sabe... Aquele foi o momento mais feliz da vida de Diana. Charles começou a beijar-lhe os cabelos e foi deslizando os lábios pelo corpo nu. Sônia não faz mais parte de minha vida. Não queria nada ou ninguém se intrometendo entre nós dois.ela perguntou.perguntou Diana. enquanto a chuva caía violentamente lá fora. Você é tão linda! . Eu te amo tanto. para me salvar a vida e me fazer conhecer o amor. . querido. confusa. provocando em Diana sensações que ela nunca havia imaginado. . . De repente. um dia. querida.Oh.. há algumas semanas.Calma. surpresa e fascinada. acho que devo falar a respeito de Sônia. . acredite em mim. Há cinco anos.. Diana arregalou os olhos. uma espécie de encantamento. Não deixaria você partir depois daquilo. pedindo um novo tipo de satisfação. . Não a queria por aqui. Há mais de um ano que nos separamos. não é? Vagarosamente. Eu não podia suportar a idéia de que essa mágica fosse. . naquela noite. não vou fazer mais nada. . Sempre alimentaria a lembrança de Charles abraçando-a e beijando-a com carinho na cama enorme.. ..Ê como desembrulhar um presente de aniversário. Ele não parou de mexer com os bicos rosados até fazêla se contorcer contra seu corpo forte. depois que nos casarmos. Existem alguns mal-entendidos que devem ser esclarecidos agora. . Diana.Há mais uma coisa a ser esclarecida: a razão pela qual tenho comprado todas as terras ao redor do lago. Mas tinha que lhe dar tempo para que compreendesse o que realmente sentia. Eu não me importo. ele se afastou e levantou-se. mas também sabia que alguém muito especial havia aparecido naquela noite mágica. Nunca estive apaixonado. Este lugar teve.

disse. entregando-lhe a caixa embrulhada em papel dourado. Estava feliz como nunca. Sentou-se na cama de novo. beijando-a com todo o amor que. Ela desembrulhou o papel e encontrou uma caixa aveludada.São lindos! Quer colocá-los para mim? Ele pegou os pentes e deslizou-os com cuidado pelas mechas castanhas. Pensei em você no momento em que os vi. .É verdade.. Charles! Diana levantou em suas mãos dois delicados e antigos pentes de prata.Oh.Abra.Você disse que tinha dois presentes. ajeitando-os. . após o baile.Será que ele a abandonaria de novo? Mesmo depois de todas as juras de amor? Mas Charles voltou em menos de um minuto. . FIM . mas não houve jeito.Eu os comprei há três semanas. Já vou lhe dar o segundo . com um elaborado trabalho de entalhe. com um pequeno pacote nas mãos. . . Ela sorriu. finalmente. Abriu a tampa. ansiosa. Eu ia lhe dar este presente na noite passada. . . quando tive que ir a San Francisco. Eram peças muito finas.. Charles moveu o corpo forte sobre o dela. podia expressar.Tenho dois presentes para você.

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