Oliveira Sousa

ASAS DE DEUS

Asas de Deus

A Saga de um jovem e seu anjo da guarda

...Quando a súplica se torna um caminho a perscrutar.

2

Oliveira Sousa

DEDICAÇÃO

Dedico este livro a meu querido, estimado e amado irmão Paulo. Impressiono-me sempre como a presença dele traz ao meu espirito outra Presença. E como sempre que penso nele não posso deixar de pensar na nossa origem, também dedico, por conseguência, à minha família que foi quem me ensinou a buscar e amar a Presença terna e eterna de Deus. Paulo, irmão que amo, ânimo e coragem para deixar-se guiar pelo anjo de Deus em sua vida de consagrado ao Criador e Senhor de nossas vidas. Amém.

Asas de Deus INTRODUÇÃO

Falar de anjos na tradição popular é falar de seres que nos protegem ao longo de toda nossa existência desde o nascer até o morrer. Acredita-se que cada um de nós tem um anjo protetor. A palavra Anjo vem do grego ângelus e significa emissário, mensageiro de Deus ( Hb 1, 13-14). Alguns teólogos dizem que anjos é apenas uma ideia, ação de Deus; não é um ser. Outros, por sua vez, creem que realmente cada ser nasce com seu anjo e que um depende do outro para existir, ou seja, um ser humano não é pleno sem seu anjo. Anjos são presenças de Deus. Estão em toda parte da Criação divina. No céu, glorificam sem cessar o Criador de todas as coisas. São criados por Deus e na terra, guiam, protegem e curam os humanos que suplicam a intervenção de seu Criador e Senhor. Quando Deus permite, eles se deixam ver e se revelam à criatura que suplica para melhor guia-lo à graça pedida. 4

Oliveira Sousa O jovem Homero clama a Deus que se revele. Clamar, verbo de origem latina, clamare, quer dizer proferir em voz alta, gritar, implorar, pedir com insistência, mas também de cansaço diante de uma situação que não aguentamos mais viver. Homero quer ver Deus, face a face, sem os tratados teológicos ou culturais. Quer estar frente a frente com seu Criador. Um anjo da presença de Deus, um Arcanjo, Miguel, o guerreiro de Deus, é enviado para preparar o coração do jovem para este encontro. Tarefa nada fácil para o anjo que vai ajudar o jovem a compreender o sentido de sua própria existência.

A trama acontece no dia-a-dia de sua vida, onde Homero vai aprendendo com a ajuda do anjo a conviver com dimensões que lhe amedrontam como a morte, o sofrimento e a angústia. Aí Deus vai se revelando aos poucos, dentro de uma pedagogia própria que nos convida ao deserto para nos falar ao coração.

Asas de Deus Mortes, angústias, misérias e injustiças. Nesse emaranhado de acontecimentos que fazem parte do caminhar da natureza humana, o jovem não tem dificuldade em entender esse Deus que vai desvelando a sua Face entrelaçada à história de Homero. Entretanto, Homero ainda vive sob o jugo de uma imagem de Deus caricaturada. Mas o Criador não se desanima com sua criatura desiludida; deseja profundamente ve-lo conforme o anseio do jovem. Por isso, o Arcanjo Miguel, que goza da graça de viver face a face com Deus, é escolhido para não deixar que ele se perca nesta busca de sua Face.

Asas de Deus, um livro onde a morte é necessária e a vida imprescindível para que Deus se revele. Para aqueles que se aventuram nestas páginas, sintam-se guiados por um anjo de Deus e que encontrem o que buscam suas almas sedentas do Totalmente Outro, o Amado de nossas Almas, Deus. Oliveira Sousa 6

Oliveira Sousa 1 capitulo DEUS, COMO ÉS? Deus, quem és? Mostra-te sem os enganos, sem as máscaras, políticas eclesiásticas, doutrinas, dogmas, alienações da sociedade, enfim, sem a fé incrustada por corações egoístas na alma de milhões de fiéis. Qual é tua face, Senhor? O grito de súplica ecoava de um pequeno quarto no fundo de uma casa de classe média. O jovem, ajoelhado, rezava à lua que nada lhe dizia, mas fazia companhia. A janela entreaberta escondia a intimidade de seu inquilino. O olhar do jovem era de cansaço espiritual e desilusão mediante uma fé milenar em que o rosto de Deus ia se desfigurando mais e mais. O grito de súplica vinha de um pequeno coração que ansiava conhecer o rosto verdadeiro do seu Criador. Jovem de classe média e muito religioso, Homero gostava de ouvir música, passear em praças, além de ter como hobby, escrever e ler gibis. Nunca faltava revistas em sua mochila. Em plena aula na faculdade foi advertido certa vez, pois sorriu de uma história de Chico Bento que estava lendo. O professor discutia questões de tecidos linfáticos. Cursava Medicina. Porém, todos os professores o admiravam por sua inteligência. Se na classe

Asas de Deus demonstrava dispersão, no silêncio de seu quarto, a concentração o tomava por completo. Lúcia é que odiava seu amor pelos estudos, pois sempre ficava em segunda opção. Lúcia era sua namorada. Na semana de prova, Homero dizia que não podia sair com ela, pois tinha que fazer amor com os linfócitos. Sua segunda paixão era a fé. Amava as discussões filosóficas Razão e Fé, Fé e Ciência. Tinha outra paixão especial, o café. E por fim, amava Lúcia. Na noite seguinte à súplica que lançou ao céu, desconfiado da janela entreaberta e desesperançoso de que fosse interesse de Deus mostrar-se, fechou a janela sem despedir-se da lua. Telefonou para Lúcia, marcando um encontro na praça do Corcovado. Às seis da tarde já estava lá à espera de sua amada. Lúcia chegou logo depois. Havia na praça um clima diferente do usual. Seres divinos que não podiam ser vistos estavam por toda a parte e alguns se posicionavam de modo particular junto aos dois jovens enamorados. A lua enfeitava belamente o céu. Porém, uma tragédia aguardava o casal. Um adolescente aproximou-se dos dois e puxou um revólver anunciando o assalto. Estava retirando os pertences dos dois, quando outro adolescente gritou dizendo que aquela área pertencia a ele. O outro saiu correndo e houve disparos. Um deles acertou Lúcia que caiu em prantos. E outro tiro derrubou o adolescente. A ambulância foi chamada. Homero tentava manter 8

Oliveira Sousa Lúcia acordada. Na ambulância, o ódio contra o adolescente ao lado, pois os dois foram socorridos ao mesmo tempo, era enorme. Tinha vontade de matá-lo ali mesmo antes que recebesse o devido socorro no hospital. Porém, seus pensamentos foram surpreendidos pela intervenção do adolescente agonizante. Aii...- falava com dificuldades - sei que você está com vontade de me matar aqui, mas não vai ser preciso. Um anjo me grita do céu. Tem pressa em me receber...- e encarando Homero perdão, irmão, por sua namorada. Se ela morrer, vou pedir ao anjo que a leve também para o céu e... Cale-se, seu marginal, você não tem o direito de se dirigir à minha pessoa, nem tocar no nome de minha namorada. Você é imbecil, egoísta, que merece morrer mesmo. - Enquanto isso, virou-se para Lúcia que agonizava. Ela foi atingida nas costelas e perdia muito sangue. Sua respiração ficava cada vez mais sôfrega. Homero, não me deixe morrer! Não quero morrer! Quero viver....Homero aperte minha mão! - gemia Lúcia. Homero deixou cair as lágrimas de desespero e medo de perder Lúcia. Abraçou-a com força. Eu não vou deixar você morrer, meu amor, estou aqui viu?!! O menino deu novo dirigiu-se a Homero.

Asas de Deus Eu... não mereço! - Mas o anjo insiste em me levar para o céu, lugar dos eleitos. Ele está aqui e olha com compaixão para você e toca no ferimento de sua namorada. Você está com alucinações! Deixe de idiotices, marginal! gritou Homero. Tchau, irmão! Perdão! Deus se mostrará pleno a você...é a promessa do anjo que me põem nos braços. Imediatamente, o adolescente parou de respirar e Lúcia recobrava a pulsação normal do coração. Homero permaneceu alguns instantes pensando nas últimas palavras do garoto: “ Deus se mostrará pleno a você...”. Não queria acreditar que tivesse relação com sua súplica.

10

Oliveira Sousa 2 capitulo CONVALESCENÇA DE LÚCIA Homero dividia-se entre a faculdade e o hospital. Lúcia aspirava cuidados. Nesta semana completam seis meses de namoro. Se estivesse recuperada iriam ao Café Betelho, um bar café, para comemorar mais um mês juntos como sempre faziam desde o primeiro mês. Lúcia, era uma jovem de muita fé e coragem. Havia nela um brilho de vida que encantava as pessoas ao seu redor. Dava grande apoio a Homero nos momentos críticos da vida dele. Dizia que ela era seu sexto sentido. Sentado ao seu lado, lembrava dos bons momentos que viveram. Seu olhar embebia-se de amor quando se encontrava com os dela. E não resistia sempre que ela pedia que escrevesse poesias curtas para ela degustar. Amor, diz letras escaneadas em tua alma poética! - pedia Lúcia com tanto dengo que era impossível a Homero negar-lhe, ainda mais nessa situação. Você venceu. Mas para cada tema ganho um beijo triplo. Tudo bem. Que tema propõe? O milagre de Deus lá na ambulância. Esse assunto inquietou a alma de Homero. Tentou

Asas de Deus esquecer aquele episódio por muito tempo, pois tinha pesadelos. Não queria crer que houvesse alguma ligação entre sua súplica a Deus e o caso da ambulância. Ah, amor, diga outro tema. Não! Comecemos por este. - insistiu Lúcia. Tudo bem! “ Tua mão, ó anjo de luz, acolhe o coração palpitante de seres agonizantes e restabelece a alma que se despedia do corpo, cúmplice e amante. Dar-te-ei, como sinal de gratidão, o meu coração ornado de diamante. Tua mão, ó anjo de luz, meu olhar reluz novamente.” ah, amor. Obrigada! Amei. Você me mata assim. Você que me mata. Fico aqui louco buscando palavras à altura de sua alma. - ela riu. Perdão! - sugeriu o próximo tema. Está perdoada! Não! Estou dizendo o próximo tema: perdão! “ Cicatrizes, marcas meretricias, faz o espirito constituir milicia. O corpo demarcado em trincheiras, nuvens traiçoeiras. O olhar ferido, ódio estourado nas pupilas. Perdão! Perdão, bem longe, essas letras gritam desesperadas sua salvação. Porém, suplicam em vão. Já não há o que una o vagão. Não há perdão!” 12

Oliveira Sousa seu olhar rugia. Nossa, amor. Será ainda pelo adolescente que seu coração esperneia? Saiba que foi ele quem pediu ao anjo que estava ao lado dele que tocasse minhas dores. Mas tenho certeza que quando conhecer a face verdadeira de Deus, outros serão teus versos. Homero a contemplou longamente com inspeção. Ele nunca tinha contado a ela de sua prece a Deus. Entretanto, ela falava como se soubesse pormenorizadamente assim como sucedeu com o garoto da ambulância. Nesse momento, uma enfermeira interveio em seus pensamentos. Senhor, temos que realizar alguns exames. Pedimos sua colaboração para que saia agora. Ela ficará bem, não se preocupe. Homero apertou a mão de Lúcia e retirou-se. Ficou no corredor um tempo ainda. Olhava quantos enfermos estavam alí à mercê de atendimento. Ouviu gritos no fim do corredor onde estava um senhor com um tiro nas costelas. Dirigiu-se para lá. Estava morto e seu ente querido chorava sobre o corpo, resmungando contra Deus, o assassino e o mundo. A moça virouse para ele e sacudiu seu braço: O meu avô foi levado por um anjo, senhor. Mande ele trazer meu avô de voltar, manda, manda! Se ele trouxer, Deus se mostrará pleno a você! Vamos, senhor, peça ao anjo para traze-lo

Asas de Deus de volta, manda! Homero puxou violentamente seu braço. Só podia ser um pesadelo. Lembrou novamente de sua prece. Foi por conhecer um mundo corrompido e o comércio com slogans contendo o nome de Deus que o impulsionou a rezar daquela forma tão suplicante. Era uma apunhalada ao coração de crente em Deus. Não pensava continuar sua existência mantendo essa imagem de Deus. Sem dúvida, que era um bom marketing de Deus e muito rentável para qualquer franquia que usasse essa marca. Olhou de perto o rosto do idoso e dizia para si mesmo que era mais um que morria com imagens falsas de um Deus que pensou ser o elixir para suas dores e angústias. Claro que Homero tinha muitos conhecimentos teológicos, mas a vivência destruía tudo que sabia de Deus. Era preciso que Deus atendesse sua súplica para poder voltar a crer em Deus como experimentaram os padres do deserto. Pela terceira vez, a mesma mensagem que lhe levava à prece. Encostado na parede do hospital ficava imaginando tudo isso. A irmã de Lúcia apareceu na entrado do corredor; estava por lá para passar a noite com ela. Conversou um pouco com ela, tentando disfarçar sua perplexidade e foi para casa. Passou no Café Betelho e tomou um cafezinho, enquanto pensava nas palavras de Lúcia, “Mas quando conhecer a face verdadeira de Deus, outros serão teus versos”. 14

Oliveira Sousa 3 capitulo MORTE DE LÚCIA O telefone tocou. Era a irmã de Lúcia. Foi correndo para o hospital. Lúcia estava mal. Tinha tido duas convulsões. Homero sentou ao seu lado. Ela sorriu para ele. Seria seu último sorriso. Homero, nada é por acaso. Tudo tem um propósito. E não ter morrido dentro da ambulância foi para que ainda servisse de sinal para alguém. Olhe para mim. - Homero a contemplou – estou cheia de dores, mas por dentro só há felicidade. Veja, aqui bem pertinho de você, o anjo veio me buscar. Não! Não deixe que ele a ponha nos braços. Aconteceu da mesma forma com o garoto e com o idoso. Diga para que se vá! É preciso que me leve. Veja, ele me estende a mão. Homero, meu amor, nascem flores onde dormem os corpos. Imprima olhos de primavera à visão desértica! Brotam flores onde dormem os corpos! Tchau, amor de minha vida. Deus se mostrará pleno a você...é a promessa do anjo que me põem nos braços. imediatamente declinou a cabeça. Nãooooooo!!! Traga-a de volta! Traga Lúcia de volta seu demônio vestido de anjo, traga de volta, traga de volta, traga.... Homero perdeu-se em seu desespero e esmoreceu caído em

Asas de Deus lágrimas sobre o corpo de Lúcia. No mesmo instante entraram os parentes de Lúcia. Perdera Lúcia para sempre. A mãe de Lúcia estava completamente desconsolada. Todos estavam com o coração trespassado pela dor. Lúcia tinha apenas 19 anos. As enfermeiras levaram todos para outra sala. Foi preciso sedar a mãe de Lúcia tamanha desolação. Um adolescente que também estava com a mãe internada no mesmo hospital aproximou-se de Homero que tinha preferido ficar sozinho. Eu conversei muito com a mulher que morreu. Deve ser sua mulher, né? Minha mãe está na mesma sala em que ela estava. Ela ajudou minha mãe a crer na recuperação. Minha mãe disse que à noite a mulher emprestava o anjo dela que ela chamava de Rafael para ficar no berço de sua cama. E mamãe afirmava que o anjo, antes de retornar para a cama de da mulher que morreu, tocava em suas dores todas as noites. Agora está melhor, graças a Deus. O médico disse que foi milagre. O anjo, segundo me contou mamãe, guarda uma mensagem que veio trazer. Por isso estava no hospital. O senhor acredita que de verdade mamãe via anjos? Não sei garoto. - disse Homero contemplando o menino que tinha as feições do adolescente que o roubou. Ontem eu sonhei que um anjo queria leva-la com ele. Aí eu 16

Oliveira Sousa puxava ela pela mão, mas ela pedia que eu deixasse leva-la e que só assim a promessa do anjo se cumpriria: Deus se mostrará pleno a você. Mas eu acordei e disse alto que eu queria ver minha mãe e não ver a Deus. Será que pequei? Não, garoto, você não pecou. Só está protegendo o que você ama! - abraçou-o longamente sentindo compaixão do garoto. O que não podia entender era como as pessoas partilhavam a mesma coisa quando eram desconhecidas umas das outras e, em especial, desconhecidas dele. Deus, com certeza, estava querendo mostrar-lhe um caminho. Tudo isto tinha um propósito. Sabia que não era culpa de Deus os acontecimentos, mas que o Criador estava aproveitando para guia-lo à resposta que pediu na prece. Tentava juntar os fatos. O roubo, a morte do garoto, a morte da namorada, a morte do idoso e as palavras do menino. O bendito anjo ali no seu caminho. A morte queria dizer algo de Deus! Será?! Dessa forma mergulhava nos acontecimentos. Foi para casa e chorou a morte de Lúcia. Logo cedo seria o velório e logo depois o enterro. Foi ao computador ver as fotos que tinham juntos e remexeu nas cartas que Lúcia escreveu para ele, inclusive o bilhete em que ela marcava um encontro lá na mesma praça onde tudo aconteceu. Uma pequena brisa entrava no quarto pela janela entreaberta. Deixou-se cair na cama, cansado e

Asas de Deus desolado. Sentado no alpendre da janela estava o anjo que o acompanhava desde a noite da prece. Durante a noite, Homero teve pesadelos. Gritava para as pessoas no hospital que não deixassem que o anjo os colocassem nos braços. Acordou espantado. Levantou-se e foi à cozinha. Preparou uma xícara de café e retornou para o quarto. Olhava a lua que foi testemunha de sua prece. Tomava seu café. O anjo continuava sentado ao lado. O Arcanjo Miguel tinha vontade de tocar seu coração para acalmar sua dor, mas ainda não podia. Homero precisava fazer um processo, pois, afinal, para isto estava ali.

18

Oliveira Sousa 4 capitulo O CEMITÉRIO Ainda de madrugada dirigiu-se para o velório. Muitos parentes vieram de longe, além de muitos vizinhos, amigos e conhecidos da faculdade. Homero demorou um pouco próximo ao caixão e foi para o quarto onde a mãe de Lúcia estava completamente desconsolada. Durante toda a manhã um enorme número de pessoas passaram pelo velório. Às 13:00h saíam para o cemitério. Uma comoção geral acompanhou o enterro. Sob uma árvore o anjo observava tudo. Homero se distanciou um pouco para esconder as lágrimas que não paravam de cair. Queria ficar só. Sentou em uma lápide circundada de cerâmica. Percebeu que mais distante uma pequena garota e mais os dois coveiros enterrava sua mãe. Eles terminaram o serviço, se benzeram e caminharam para outro defunto que esperava sua vez do outro lado. Até depois de mortos os pobres enfrentam filas para despedir-se por completo do mundo, refletia Homero. Foram conversando sobre os ossos do ofício. A menina ficou soluçando reclamando a alguém a perda da progenitora. Homero decidiu se aproximar. A dor dela certamente devia ser maior que a sua. Porque Deus a levou? Eu preciso dela, Ele sabe que eu

Asas de Deus necessito! Homero pôs a mão em seu ombro em sinal de pêsames. Sentindo sua presença e confiança, ela continuou seu desabafo. - Será essa a face de Deus?! Dá e depois tira sem nos consultar?! Acaso, somos marionetes em suas mãos?! Minha mãe sofreu vários dias no hospital; nos últimos dias estava tendo alucinações. Falava de um anjo que a consolava e cuidava. Antes de morrer disse que o anjo a punha nos braços. Eu não vou conseguir viver sem minha mãe. Deus assim o quis; então, eu também decido ir para junto dela. - a menina de seus 13 anos mais ou menos falava com desesperança. - Não é fácil reconhecer a face de Deus em momentos tão difíceis como este que você vive e que eu também vivo, ou seja, a perda de alguém que amamos e que, por sua vez, necessitamos que esteja perto de nós. Porém, os anjos talvez são os que nos guiam a reencontrar a face amorosa de Deus e a compreender a partida destes seres amados por nós. Pode ser que sua mãe tinha razão quando falou do anjo. Creio que estava mais preocupada com você que ficava neste mundo do que com ela que partia nos braços do anjo. Não se atordoe o coração; aguarde seu tempo e o anjo também a levará para bem pertinho dela. Não queira ir pulando para o céu, pois nada alcançará; e depois, vejo que não tem costas 20

Oliveira Sousa largas para suportar duas asas. - Homero arrancou um sorriso de seu rosto abatido. - Obrigada por suas palavras. Você tem razão! Preciso acreditar nas palavras de minha mãe. Ela sempre me ensinou a rezar ao anjo da guarda. Era como se ele fosse meu grande amigo e fiel guardiã. Aprendi até a falar meus segredos para ele quando eu era criança. Quando mamãe apagava a luz eu me virava na cama e dizia que ainda bem que ele estava ali para me fazer companhia e proteger. Na verdade, até sinto, depois de sua partilha, que não nós estamos mais a sós; nossos anjos da guarda estão aqui com a gente. - realmente os arcanjos Rafael e Miguel velavam ao longe os dois. - Você quer tomar um cafezinho com tapioca? - Homero convidou a menina. - Quero! - a menina tinha fome. - Então, vamos! A presença de Homero restaurou a paz no coração da menina. Depois, Homero a apresentou a umas freiras que a acolheram em sua residência.

Asas de Deus 5 capitulo MANICÔMIO Um amigo convidou-o para visitar o que estava num manicômio internado. Pela primeira vez entrava num recinto com pessoas assim. Queria ficar na portaria, mas seu amigo insistiu que fosse com ele. Entraram no pátio. Os enfermos mentais andavam de um lado para o outro cada um com suas manias e crises. Araújo, seu amigo, apresentou Homero a seu irmão, Jeremias. Homero fez algumas perguntas e os deixou conversar a sós. Ficou observando aquele lugar tão sem sentido; tão sem razão para se continuar a chamar de raça humana. Lembrou-se da tese filosófica de que o humano se caracteriza essencialmente pela capacidade de pensar. Aqueles seres não tinham mais essa capacidade. Seria misericórdia e compaixão por eles como fazemos aos animais irracionais, ou ainda por respeito por resguardarem a forma humana em seus corpos? Lá distante, no outro lado do pátio, o anjo cuidava de um enfermo que foi correndo em direção a Homero que se posicionou em forma de defesa. O homem, estatura grande, gordo e barbudo parou em frente dele contemplando-o. Homero seguiu na retaguarda. O homem, então, apontou o dedo para ele e disse: 22

Oliveira Sousa - Seus olhos contemplam o que sua alma nega. Seu corpo reage ao que seu espírito tem medo. Longe eu lhe vi e como um bom soldado vim atender-lhe, meu capitão. Homero lançou-lhe um olhar de desprezo, mas continuou a prestar atenção ao sua conversa lunática. - Tenho um recado lá da torre de comando para o senhor, capitão! - Ah, é?! E quem é que manda esse recado, subordinado? Homero entrou no papo do louco. - Senhor, permissão para falar!? - o homem empolgou-se. - Toda! - Homero estava se divertindo com aquela situação. - Senhor, um anjo é quem me mandou trazer este recado! O rosto de Homero logo mudou de feição. O que antes levava como simples ironia, agora tornou-se um insulto da parte de Deus. Usar um louco para enviar recados é, no mínimo, absurdo. Nunca pensou isso de Deus, um manipulador barato. - Então, encarregado, o que o anjo disse! - Ele me disse para você continuar seguindo-o. - Como ele me pede isso se não me sinto seguindo-o? - Não sei, senhor. Só me encarrego de dizer o que ouvi. - Ah, é mesmo. Você não tem razão! - É verdade, senhor. Por isso, dizem que não sou gente.

Asas de Deus Mas um dia eu fui gente como o senhor. E se um dia o senhor deixar de ser gente, pode ter certeza que vou acolhe-lo aqui como gente. - Obrigado. - O senhor sabia que o anjo que me mandou aqui não faz distinção de nós dois?! Você e eu temos o mesmo valor para ele. Homero permaneceu em silêncio. Olhava à sua volta. Por um momento, parecia que via anjos ali próximos aos loucos. Anjos revestidos de tanto carinho e cuidado; uma atenção especial voltada aos loucos. Depois, sumiu novamente a visão. Não era fácil compreender o que o anjo por meio daquele homem lhe expressava. Pela primeira vez percebeu que acolhia como realidade as aparições do anjo. Estaria ficando louco?! Ao menos, se se comprovasse sua loucura, já teria acolhimento e um amigo no manicômio, assim pensava com ironia. Foi despertado de suas reflexões pelo grito de Araújo que lhe chamava para irem. Foram saindo e voltou seu olhar para o manicômio e viu novamente os anjos junto dos enfermos mentais. - Preciso de um cafezinho, pois ando vendo coisas demais! - disse Homero balançando a cabeça. - Então, passemos em casa primeiro e depois você vai para sua casa. 24

Oliveira Sousa -Ótimo, pois já estava com saudades do café de D. Maria. Quando chegou à casa de Araújo, a mãe de Araújo convidou para tomar um cafezinho. Não teve como negar tanta delicadeza. Conversaram sobre assuntos diversos, desde arte à música, passando pela economia e desembocando na política. Depois, D. Maria convidou Homero para ver o cachorrinho dela que estava doente. Ainda estava longe do canil e Homero perguntou quem estava lá, mas D. Maria disse que ninguém. Homero pensou ter visto alguém de junto ao canil. Acariciou o cachorro, desejou saúde para ele e voltaram. Depois olhou de novo para trás e viu a imagem de um anjo ajoelhado com a mão para dentro do canil. O anjo o olhou com ar misterioso. O cachorro começou a latir forte o que fez D. Maria voltar para ver o que estava acontecendo com ele. Aproximou-se e viu que o ferimento e os sintomas da enfermidade tinham abandonado o cachorro. Gritou por Araújo e a noticia correu de que tinha sido o carinho de Homero que salvou o cachorro.

Asas de Deus 6 capitulo CRIANÇA MULHER Homero saiu com o carro para visitar um amigo num interior próximo, Caldeirão, uns 50 kilômetros de distância de sua cidade. Tinha saído às 17:00 logo depois da faculdade. No caminho, parou para abastecer e tomar um cafezinho num posto de gasolina. Abasteceu e encostou o carro próximo a um caminhão que provavelmente estava lá para pernoitar como fazem muitos outros caminhoneiros que levam carga a outros estados. - Um café, por favor! - acenou ao atendente da lanchonete. - Um menorzinho, senhor? - contestou o rapaz. - Não! Quero um grande, seu zé mané! - a forma como Homero se dirigiu ao rapaz não o deixou muito feliz em atendê-lo. - Mas só temos menorzinhos. - disse secamente. - Então, me dê cinco menorzinhos; melhor, oito menorzinhos e um para viagem. - Certo senhor, um momento! - o atendente se sentiu humilhado e ridicularizado pela atitude de Homero. E como resposta trouxe tal qual como pediu Homero, os oito menorzinhos e um embalado para viagem. - São dois reais e cinquentas centavos. Dinheiro ou cartão?! 26

Oliveira Sousa - o rapaz disse com ironia. Agora estava com a alma lavada. Tantos caminheiros passam por ali e um forasteiro num carrinho querer tirar sua moral. Só mesmo na cabeça do gringo, pensava o atendente. Homero saiu resmungando, mas levou todos os cafezinhos para degustar no carro. Baixou o vidro e esperou tomar os cafezinhos na bandeja que foi oferecida pelo rapaz insolente, como xingava em sua mente. De repente, no seu vidro, do outro lado, apareceu uma criança olhando-o. Pensou logo que fosse um anjo. Estava tão ensimesmado com essas aparições repentinas que pensava logo ser algo do além. Olhou de novo e a menina tinha sumido. Voltou o olhar para tomar mais um cafezinho, era o quarto, a criança apareceu de supetão em sua frente. Homero levou um susto que derramou os cafezinhos em sua roupa. Sorte que não estavam quentes. - Desculpe, senhor, não foi minha intenção. Posso limpar e fazer um abatimento. - a menina falou aproximando a mão da virilha de Homero. - Ops, não minha filha, deixa que eu limpo. O que você quer? - Vamos brincar de amar? É dez reais, mas eu faço por cinco para compensar meu desastre com sua roupa...

Asas de Deus - E meus cafezinhos, né! Porém, não quero! Quantos anos você? E cadê seus pais? - Tenho 9 anos, mas vou completar 10 próxima semana. Não sei quem são eles. Tem uma pessoa que cuida de mim, mas não liga que eu esteja na rua, pois eu sempre volto com dinheiro para eles. Vamos fazer? - Você é um anjo e quer me provar né? - pensou Homero em desmascarar o anjo. - Não, mas o senhor quer que me passe de anjinho para você? - disse, inocente a criança. Homero olhou de um lado e do outro para ver se via alguém. A criança se alegrou por que pensava que ele investigava se estava sendo observado por alguém do posto. - Se não quer aqui a gente podemos ir para outro lugar? -sugeriu a criança. - Creio que o arcanjo Miguel está de olho. Espero que não aconteça uma desgraça com você, pois cansei de ver pessoas dizerem que tem anjos perto delas querendo leva-las. - Não! Eu sou dona de mim mesma! Ninguém está de olho em nós. - sem entender nada, a criança ia respondendo à Homero. O anjo estava em pé em cima da carga do caminhão, mas Homero não podia ve-lo. 28

Oliveira Sousa - Qual seu nome menina? - inquiriu Homero. - Catariny com ipisolon. Vi num filme porno. É bunitu né? - E seu nome de verdade? - insistiu Homero. - Não sei, mas tenho um apelido; é Fofa! Eu gosto dele, porque é um nome doce. - Verdade, é um nome lindo, fofa! Veja Fofa, não posso fazer programa com você, pois é uma criança. E você deveria denunciar essas pessoas que supostamente cuidam de você, porque elas só estão fazendo é mal a você. Entre aqui e vamos à polícia denuncia-los e se não tiver como sobreviver eu arranjo moradia para você e cuido para que cresça de outro modo, mais sadio e próprio para sua idade, que é a escola. Que tal, você tem coragem? - Minha vida sempre foi um anonimato. O valor que tenho é ser desejo de animais que me devoram para que eu possa sobreviver. - Mas você pode ter valor sem esse modo mesquinho dos homens de lhe valorizar! - Homero continuava a persuadi-la para que fosse à polícia denunciar prostituição. - Nossa senhor, parece um sonho que me oferece. Eu não tenho nada a perder mesmo, vamos! - disse a criança. Quando a menina ia se preparando para entrar no carro, seu algoz que a usava para a

Asas de Deus dois policiais apareceram repentinamente e deram voz de prisão à Homero por corrupção de menores. De longe o denunciante observava, era o mesmo atendente que se sentiu ofendido por Homero. Enquanto ia sendo algemado, ele tentou explicar que estava justamente indo para a delegacia denunciar a exploração sexual daquela criança. Porém, nada conseguiu. Todo o percurso até a delegacia foi insultado pelos soldados. A criança ia em silêncio. Chegando na delegacia, a criança contou que ele estava tentando convence-la a fazer sexo com ele por cinco reais e ela disse que não, mas ele seguiu insistindo e ela para se livrar dele derramou o café em sua calça. - Você será uma linda boneca nas mãos de seus companheiros de cela, seu animal! - bracejaram os policiais. - Por favor, criança, fale a verdade, por favor, não deixe que cometam uma injustiça, por favor! - Homero se desesperou vendo a gravidade da situação. A criança permaneceu em silêncio. Aprendera bem com seu algoz a manipular situações a seu favor. O caso teve grande repercussão na sociedade. Araújo visitava sempre seu amigo e confiava que Homero tinha sido injustiçado. Buscou ajuda dos melhores advogados que conhecia para defender Homero. Porém, isso não impediu que Homero permanecesse um bom tempo 30

Oliveira Sousa recolhido na penitenciária. Recebeu uma condenação de cinco de anos de reclusão. Foi violentado várias vezes pelos presos com a conveniência dos agentes penitenciários. O anjo Miguel esteve ao lado dele dentro da cadeia e não permitia que perdesse a razão e se suicidasse. Homero não o via, somente uma vez foi lhe permitido ver, saber que tinha uma presença junto dele. Mesmo sem confiar muito, sempre se dirigia a ele ora para rezar, ora para descarregar sua raiva contra Deus e outras vezes, ainda, para suplicar justiça. Lembrou da história da menina contando de sua experiência com o anjo da guarda. Naquele mundo vivia a escória da humanidade como diziam os carcereiros. Algumas vezes Homero viu anjos por toda a parte naquele lugar. Entretanto, pensou realmente estar louco, pois anjos não visitam o inferno. Um dia quando sentiu muitas dores devido à violação sexual que sofrera, sentiu que anjo lhe cuidava. Ainda teve forças para perguntar o nome dele. - Quem é você? - Sou Rafael! - Porque não posso lhe ver? - No momento, é importante que saibas que estou aqui. O arcanjo Miguel está sempre aqui com você. - quero ve-lo!

Asas de Deus - No momento oportuno irá ve-lo! Homero não podia ver, mas sabia que em sua cela muitos anjos eram hóspedes. Nos dias de tomar sol, Homero fez muitos presos crerem que tinham um Anjo da Guarda. Um dia, um condenado por várias assassinatos, veio procura-lo para dizer que o Anjo da Guarda o impediu que cometesse suicídio em sua cela. Agradeceu a Homero e disse que quando saísse dedicar-se-ia a resgatar vidas. Homero disse a ele que não precisaria esperar. Ali mesmo poderia começar sua missão. Nesse ínterim, Araújo investigava a vida da criança. Com muita habilidade e astúcia, conseguiu convencer a criança a denunciar seu algoz, como quis Homero, e o caso foi reaberto depois de dois anos. O Tribunal inocentou Homero e condenou o verdadeiro culpado. Depois soube que o culpado havia se convertido na prisão por outro preso, outrora vingador de crianças violadas. A criança, logo que terminou o julgamento, quis ver Homero e conversar com ele. Ele ainda tentou fugir desse reencontro, mas a criança apareceu de repente, como da primeira vez. Ele ficou imóvel sem saber discernir que sentimentos lhe dominavam, se ódio ou compaixão. - Senhor, queria pedir perdão pelo meu erro... - Está perdoada. Pode ir. - Homero não conseguia ouvi-la. 32

Oliveira Sousa Descobriu que era ódio o que sentia. Mas ficou para ouvi-la. - Eu nunca soube o que era amor de verdade. Nunca ninguém rejeitou o meu corpo. Porém, nunca tinha sentido o carinho e cuidado verdadeiro de alguém por mim como depois percebi em você. Eu sempre fui violada e isso arrancou de mim qualquer sentido de injustiça ou justiça, bem ou mal. Mas agora, sei que foi injusta minha atitude com você. O anjo de Deus que está perto de você, foi esse aí que me fez pensar tudo e me salvou de muitas outras coisas. Ontem, sonhei com o anjo que me fez prometer transmitir a mensagem que me sussurrou ao ouvido. Na verdade, está aqui de novo ao meu lado e repete a mesma mensagem de ontem: Deus se mostrará pleno a você... - Por favor, não deixe que ele a leve. - Homero pressentiu o pior. Araújo viu aquela situação, mas pensou que Homero ainda estava perturbado com as violências que sofreu na prisão. - ...é a promessa do anjo que me põem nos braços. completou Fofa. Os guardas a levaram. Homero ficou surpreso que ela não morrera ali como aconteceu como as outras pessoas quando carregada nos braços pelo anjo. Na saída do Tribunal, Fofa foi atingida por um bala que levou sua vida no mesmo instante. A

Asas de Deus correria foi geral. O algoz havia sacado de um revólver que conseguiu tirar do policial que o conduzia e atirou em Fofa.

34

Oliveira Sousa 7 capitulo A GENEALOGIA DOS ANJOS Muitos anos se passaram desde que Homero foi libertado da prisão. Passou por uma terapia para recuperar-se da tragédia. Entretanto, o anjo sempre estava em sua casa, à noite. Certa vez, viu o vulto de um ser saindo pela janela e acreditou ser o anjo. E continuou a aparecer outras vezes em lugares públicos que Homero costumava frequentar, apesar de que nunca o via bem próximo. Homero disfarçava para evitar que fosse diagnosticado como louco. Tinha a convicção de que anjos eram seres enviados do céu para nos acompanhar durante nossa existência e que cada um tinha o seu. Em sua casa, Homero estava concentrado em sua busca pela história desses seres tão conhecidos da mitologia. Debruçouse sobre a Angelologia. Pegou a Bíblia que tinha em casa para ver as referências bíblicas que encontrasse sobre seu estudo dos anjos. Talvez fosse loucura mesmo de sua cabeça, mas ao menos, conheceria mais de anjos. Tinha a impressão de que um anjo observava-o em sua busca. Até brincou com essa possibilidade, pois levantou a xícara de café e ofereceu a ele que supostamente estava lá na cadeira de balanço. Leu sobre o significado do nome

Asas de Deus Anjo e depois viu uma referência ao livro de Daniel 5,6 sobre a forma física de um anjo: “ anjo vestido de linho, os seus lombos cingidos com ouro fino de Ufaz: seu corpo era como o berilo, e o seu rosto como um relâmpago, seus olhos como tochas de fogo, e os braços e os seus pés como o brilho de bronze polido, e a voz das suas palavras como a voz de uma multidão ". Ficou pensando na imagem do seu anjo. Meu Anjo, disse rindo do modo como se referiu ao ser. Demorou na expressão que encontrou sobre umas das denominações dadas aos anjos: “anjo da Presença de Deus”. Se é verdade que Deus estava tentando responder sua súplica, então este anjo que estava aparecendo devia ser um anjo especial na hierarquia angelical. O livro de Isaías fala de anjos com seis asas, os Arcanjos. Lembrou que o anjo junto ao canil aparentava ter mais de duas asas. Seria um Arcanjo? Tinha que tirar a prova. Segundo consta no seu estudo, teriam quatro anjos do rosto de Deus, Miguel, Gabriel, Uriel e Rafael. Quais destes estaria por aqui? A campainha tocou. Era um grupo de estudantes da faculdade convidando-o a fazer parte de um projeto voluntário na favela. Deixou que entrassem. Um de seus companheiros de classe, muito curioso, viu que Homero pesquisava sobre anjos. Homero, você está muito religioso! - disse com ironia. 36

Oliveira Sousa Ah, sim. É uma pesquisa que minha tia, que faz teologia, pediu para fazer para ela. - disse dissimulando. Que legal. Eu gosto muito de anjos. - Eliana disse curiosa, vasculhando as anotações de Homero. Por favor, gente, não baguncem minhas anotações. - pediu com certa chateação. Os anjos acompanham os mortos em suas partidas desta terra , sabia? Homero ficou interessado com a intervenção de Eliana. É mesmo? E o que você sabe mais de anjos? - Ele lembrou das perdas e da presença do anjo. Bem, existem muitos tipos de anjos. Há aqueles que curam com o toque, os que vigiam, abençoam, dão instruções, combatem por nós, tiram o medo, nos advertem, libertam e também os que nos acompanham todos os dias. É como bombril, mil e uma utilidades. - terminou com essa piada, mas foi infeliz, pois ninguém riu. Homero intuía que as várias vezes em que os anjos apareceram eram anjos com especificidades distintas, mas nunca parou para refletir sobre isso. Pediu para Eliana ir ver o café, enquanto ele anotava algumas coisas para não esquecer. Anotou as vezes em que o anjo apareceu e deixou uma nota de lado, “catalogar

Asas de Deus as aparições”. Logo se dirigiu aos presentes perguntando pelo projeto que traziam. O trabalho voluntário era um serviço que se prestaria às pessoas carentes da favela em parceria com a associação. Homero deu uma olhada no material e se dispôs a ajudar. O café chegou. Tomaram, conversaram, brincaram e fizeram planos para o final de semana. Quando todos se despediram, Homero voltou para seus escritos sobre os anjos. Fez a catalogação das aparições dos anjos desde a morte de Lúcia. Viu que o anjo que levou o menino, Lúcia e o avô da garota que conheceu eram anjos que acompanhavam os mortos. Aquele que curou a mulher no mesmo leito em que estava Lúcia devia ser um anjo que curava, o arcanjo Rafael, o mesmo da prisão. Recordou também do anjo lá no cemitério; este devia ser um anjo consolador. Não quis recordar a história e a tragédia com Fofa. De repente, seu aparelho de som começou a tocar sozinho. Espantouse. A música que soou era de Cidade Negra, Anjos. Ficou rindo sozinho. Um anjo que gosta de música e, ainda por cima, música que fale dele; que anjo convencido, pensava. Saiu rindo para a cozinha pegar um cafezinho e ouvir a música que por sinal era linda. “ onde estão os anjos? Onde os anjos? Os anjos estão aí!” dançava e cantava a música no meio da sala. Entrou em clima de êxtase e era como se dançasse com seu anjo. Não sabia Ele que 38

Oliveira Sousa bailava com o próprio Deus. Terminada a música, foi para o quarto e instintivamente ajoelhou-se e rezou a oração que aprendeu ainda criança: “santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador que a ti confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda e governa, amém.” benzeu-se e foi dormir. O anjo permaneceu no quarto até o amanhecer e se foi.

Asas de Deus

8 capitulo MÉDICO ALÉM-FRONTEIRAS

Já fazia algum tempo da perda de sua querida Lúcia, a prisão, a aparição do anjo e as conseguencias disso como bem já sabemos. Logo logo seria médico. A faculdade chegava ao fim. Araújo, seu companheiro de faculdade e melhor amigo, estava empolgado com a formatura que estava chegando e, ao mesmo tempo, animado no namoro com Carol. Homero tinha ganhado gosto pelo curso e, inclusive, tinha planos de retornar à África, onde foi fazer alguns trabalhos humanitários. Não sei se foi movido pela história do anjo, mas o fato é que esteve na África servindo aos mais desgraçados do mundo. Desde aqueles acontecimentos havia mudado muito. Até mesmo Araújo dizia que Homero mudou da água para vinho e uma vez disse à namorada que ele guardava como relíquia e bússola para sua vida umas palavras ditas por Homero certa vez a ele. “A maior beleza da vida, Araújo, é olhar o mundo e a si mesmo com olhos de carinho e compreensão.” Araújo vivia essas palavras com muita dedicação e, pode se dizer, que eram para ele uma consigna. Homero havia 40

Oliveira Sousa conhecido Araújo nos tempos em que participava de grupos de Igreja. Araújo sempre foi um confessor para ele. Eram cúmplices. A formatura foi linda. Araújo e Homero estavam hiper felizes. Depois de toda a festa, Araújo foi deixar a namorada e depois saiu com Homero para o Café Betelho que ainda estava aberto. O garçom, conhecido dos dois, parabenizou os novos médicos e disse, em tom de brincadeira, que agora poderia enfermar-se. Homero pediu um cafezinho, nunca perdia a mania, e Araújo começou com um suco de laranja. - E agora, irmão Araújo, que vai fazer de sua vida? Homero puxou conversa. - Rapaz, ainda não sei bem. Fui convidado para trabalhar no Hospital da Concórdia, no Pará. Porém, Carol tem planos de casar este ano. Assim, ficaria impedido de viajar para outro Estado. - Hum... é o amor, que mexe com minha cabeça me deixando assim. - Homero cantou a música de um cantor sertanejo. - É rapaz, o amor mexeu mesmo comigo. Culpa sua que me apresentou a ela. Aliás, foi nesse mesmo lugar que ao amor me rendi. Homero lembrou de Lúcia. Também foi ali que se conheceram e se apaixonaram. Para disfarçar as lágrimas, foi ao

Asas de Deus banheiro. Porém, Araújo sabia bem o motivo. Quando retornou, Araújo mudou de assunto. - E você, jovem médico além fronteiras, que vai fazer da vida? - Meu querido irmão, tenho alguns planos. - Posso saber que planos são esses? - Pode sim. Pretendo fazer especialização e retornar para a África. Em nenhum lugar do planeta me sinto mais necessário do que ali, ainda que lá eu seja um grãozinho quase inútil diante de tanta dor. - E a história do anjo que você tinha me contado tempos atrás? Por acaso, ele falou do segredo do Criador? - Araújo expressou com um misto de seriedade e ironia. - Pois é... - Homero demorou alguns instantes neste pensamento – depois que ele me conduziu à África não mais apareceu. - E como foi essa história mesmo Homero? - quis saber Araújo que nunca entendeu direito a história do anjo. - Irmão, esse bendito anjo – sorriu – entrou em minha vida quando eu a perdia. Foi na morte de Lúcia. Depois na morte de outras pessoas que eu sem pedir, também entraram em minha vida. Depois, no meu inferno lá na prisão, ele esteve presente. Demorei 42

Oliveira Sousa para perceber e entender o que significavam essas aparições. Um dia, entramos numa favela com um grupo de voluntários para realizar exames e outros procedimentos médicos. Algumas mães apareceram com crianças desnutridas e algumas desfiguradas. Elas me diziam em particular que um anjo as mandou me procurar. Nessa época, já aceitava a loucura de acreditar que um anjo tentava me dizer alguma coisa. Lembro que ainda tinham umas cinco crianças para atender e a equipe queria ir embora. Insisti para que terminássemos o atendimento por respeito a elas que esperaram muito, quase toda a tarde para serem atendidas. - E eles ficaram para atender? - quis saber Araújo. - Não. Mas eu fiquei! - Homero respondeu em alto tom Era como se o anjo tivesse pegado em minha mão e me impedido de ir com eles. Eu fui atendendo, enquanto as mães me enchiam de elogios. Então, uma criança gritou para a mãe dizendo que um anjo queria coloca-la nos braços. A mãe, a principio, acolheu aquelas palavras pensando ser alucinações devido à febre alta. Eu senti um calafrio. A história estava se repetindo. O anjo a estava levando. Quando a criança inclinou a cabeça, a mãe, em desespero, gritava, suplicava ao anjo maldito que trouxesse de volta seu filho. E ficou insultando o suposto anjo até desmaiar. Estava socorrendo a mãe, e de repente, todas as outras crianças começaram a reclamar

Asas de Deus dizendo, uma atrás da outra, que um anjo as colocavam nos braços. Estava anunciada a catástrofe. As mães amaldiçoaram a Deus pela desgraça acontecida ali. Muitas diziam que as crianças foram envenenadas. Sei que depois da confusão, nem sei como não me lincharam, eu fui para a casa de um senhor da favela. Pela primeira vez, eu vi o anjo debruçado sobre a janela da casinha que dava para ver quase todas as casas embaixo, sem que ele sumisse de minha vista. Quando entrei ele nem se virou, continuou lá na mesma posição. Não queria dizer ao senhor, mas pedi que fechasse a janela. Ele me disse que já tinha tentado fecha-la, porém, o vento abria com violência. Sei que nessa hora, o anjo olhou-me com um olhar dócil e firme. Eu me espantei. O senhor que me acolhia em sua casa percebeu e perguntou se eu tinha visto alma. - Credo, Homero, parece história de horror. Até eu me arrupiei aqui. - Araújo interrompeu, assombrado - Garçom, uma cerveja, por favor. Continue Homero! Araújo estava compenetrado na história de Homero. - Então, o senhor me ofereceu um cafezinho. O anjo vez ou outra retornava seu olhar para mim. Ele perguntou se eu estava com medo de algo, pois ficava só olhando para a janela. Respondi que era porque gostava da vista que se tinha ali da janela. Seu Tico, como era conhecido por lá, pediu licença para ir comprar pó de 44

Oliveira Sousa café, pois faltava na casa. Ficamos nós dois, eu e o anjo. Antes de sair, seu Tico perguntou se eu não me importava de ficar só por alguns momentos ao que respondi que não tinha problema. Depois que ele saiu, fui até a janela. De um lado o anjo e do outro lá estava eu buscando encontrar seu olhar perdido nas casas que ele observava. Depois de um instante de silêncio, enfim, sua voz ecoou em minha alma. Falou dos momentos em que esteve próximo a mim sem explicar-se e me disse que Deus se faz presença na vida daquelas crianças da mesma forma em que resplandece nas milhões de outras vidas na África. Chamou-me pelo nome, Homero, e disse que nos encontraríamos em breve lá na África. Nessa hora, a porta da casa se abriu e eu virei o rosto para ver quem era e quando voltei o olhar o anjo já não estava. Seu Tico preparou o cafezinho que foi regado por um bom papo sobre a realidade da favela. - Mas o anjo disse que vocês se veriam na África. Ele apareceu? Depois, quer dizer que a face de Deus são os mais miseráveis deste mundo? - quis saber Araújo. - Não, meu caro amigo, os miseráveis deste mundo não são a face de Deus! Os miseráveis deste mundo são as lágrimas de Deus. O anjo me deixou lá sozinho com as lágrimas do Criador. - Então, você deu viagem perdida, pois ficou sem

Asas de Deus encontrar a face de Deus que tanto pediu ao próprio, ou seja, o anjo lhe deu um bolo. - Não sei. Creio que ele quis que eu primeiro conhecesse profundamente suas lágrimas que hoje são também lágrimas minhas. - E agora, então, desistiu de continuar sua busca? - Parei um pouco. Eu fui a Roma buscar ajuda de um amigo que é especialista em angelologia. Conversamos muito. Ele me partilhou de suas crenças nos anjos. Porém, confessou-me insistindo que eu não gravasse ou espalhasse o que iria dizer. - E o que ele confessou? Vamos ver adivinho. Será que ele partilhou que o Papa não crer em anjos? - Homero riu. - Antes fosse, meu irmão. Ele me disse que em Roma os anjos não existem, pois os próprios embaixadores de Cristo se sentem como anjos de si mesmos. - Nossa Homero, que critica forte! Esse homem está pondo a cabeça na guilhotina caso fosse público isso que ele falou. - Pois é. Mas eu continuou crendo na força do profetismo que os anjos impulsionam em muitos humanos desejosos de um mundo mais justo e fraterno. As lágrimas de Deus me confortam e me lançam a crer nos anjos e a continuar deixando-me guiar por eles na busca da Face de Deus. 46

Oliveira Sousa - Que loucura Homero! Espero que tenha sorte e case com uma psiquiatra que entenda de psicóticos que veem anjos. - Engraçadinho! Deixe de bobagem e brindemos nossa vida e nossa amizade! - sugeriu Homero levantando o copo. - Brindemos ao meu padrinho de casamento! - Araújo quis surpreender. - Nossa! Obrigado pelo convite. - Não é um convite. É uma intimação. - Tudo bem. Apresentar-me-ei no tempo devido.

Asas de Deus

9 capitulo REAPARIÇÃO DO ANJO O noivado de Araújo foi algo simples. Ele mesmo desejou ser celebrado no Café Betelho. Homero e Rose, amiga de Araújo, eram os padrinhos. Homero seguia sua vida dividindo-se entre a especialização e a dedicação às lágrimas de Deus, como ele mesmo se referia ao falar do trabalho na favela. Sempre ia nas missas e nas pregações dos pastores evangélicos para conhecer suas convicções a respeito do Criador e de seu Filho, Jesus Cristo. Porém, sempre saía desolado, pois as lágrimas de Deus eram apenas falas demagógicas para manter o poder e cifras para aumentar suas rendas. Tinha desistido de sua súplica a Deus. Contentava-se em conhecer suas lágrimas. Nesses dias, preparava uma viagem a São Paulo para participar de um encontro de medicina. Estava empolgado com a viagem, pois era muito importante para sua carreira como médico. Passou na casa do compadre Araújo para pedir-lhe que o substituísse no trabalho voluntário da favela. Araújo aproveitou para pedir algumas sugestões acerca do casamento. Na volta, Homero passou no Café Betelho. O garçom, seu amigo, sabendo 48

Oliveira Sousa que pedia sempre a mesma coisa, dirigiu-se logo para a balcão. Trouxe-lhe um cafezinho. - Aqui está senhor Homero, seu cafezinho. - Obrigado Romão. Você sempre com sua intuição aguçada. - De nada, senhor. Aqui estamos para isso. Enquanto servia a Homero, o noticiário tratava da violência nas favelas. - É seu Homero, Deus criou o ser humano e o humano se auto-destruindo. Deus deve estar desolado com isso. Será que já não passou da hora do Juízo Final? - o garçom puxou conversa, já que o Café Betelho estava vazio nesse dia. - Pois é... Esse Deus que criou o humano, não sei onde estará. É algo tão complicado sabe?! A gente pensa que Ele está e de repente a sensação de que nunca esteve. Eu penso que Ele já arquivou esse processo do Juízo Final e nos deixou à mercê do caos. - Homero estava bem cansado e falou mais para se livrar do incomodo do garçom do que responder satisfatoriamente ao questionamento. O pobre do garçom ficou mais confuso do que mula tonta. Saiu pensando se os pecados dele tinham sido esquecidos já que o processo do Juízo Final fora arquivado por Deus. Homero

Asas de Deus continuou pensando sobre o assunto. Sabia que existia a imagem de Deus que pregavam as religiões. Entretanto, a face real do Criador não tinha esperanças de que ainda era possível conhecer. Ele conhecia suas lágrimas; estava de bom tamanho. Ah, sim, conhecia também o anjo de Deus. Então, levantou, pagou a conta e caminhou a sua casa, quando o celular toca. Era Carol desesperada dizendo que Araújo tivera um enfarto. Homero saiu apressado para lá. Quando chegou, Araújo já estava morto. Ao lado do corpo estava o anjo. Viu que não era Rafael e sim um anjo que acompanha os mortos. Tentou se segurar, mas a raiva o dominou: - Você não podia fazer isso! Era meu melhor amigo! Você não tinha o direito!- apontou o dedo para o anjo - Que Deus é esse que nos tira as pessoas que amamos? Porque não o tocou como fez com a mulher no hospital, cadê Rafael nessas horas? Porque não cuidou dele? Porque tinha que ser logo o anjo maldito que leva as almas, porquê? - Homero, acalme-se. Venha tomar um chá venha! - Carol viu seu escândalo e o retirou do quarto de Araújo. - Tudo bem. Perdão, mas é que é duro para mim aceitar isso! - Para todos nós está sendo difícil, Homero! - disse Carol – 50

Oliveira Sousa Araújo, antes de expirar me disse que tinha um anjo ao lado dele que o confortava e lhe dava segurança. Creio que estava começando a ter alucinações. Porém, seu rosto nõ era de tristeza. Havia um brilho em seu olhar que me impressionou. Continuou falando da presença do anjo e me disse que você gostaria de estar ali com ele e o anjo. Pediu um papel e escreveu algo para você. Logo depois disso, expirou. Tome! É seu! Homero pegou o bilhete e abriu: “ Deus se mostrará pleno a você...é a promessa do anjo que me põem nos braços. Teu irmão,Araújo que te ama”. Homero saiu para o quintal entre soluços e lágrimas. O anjo o aguardava sentado embaixo do pé de cajueiro. - Entendo sua dor! O Pai já o acolheu e creio que se você visse o quanto Araújo está irradiante em encontrar-se na presença de Deus, você choraria, mas de alegria e contentamento. - Não! Você não entende minha dor! Quem é você? Se é o anjo que acompanha os mortos, leve-me então. Porque fica brincando de levar quem eu mais amo? - Não sou eu quem determina o fim da existência neste planeta, nem qualquer outro anjo que acompanha os que aqui já concluíram sua permanência. Desde que aconteceu aquele fato com sua namorada, Lúcia, que tenho acompanhado junto com

Asas de Deus outros anjos seu itinerário humano. Você havia suplicado conhecer a face de Deus e eu fui enviado a você para leva-lo a conhecer o Santo, Santo, todo Santo! Todas estas tragédias não aconteceram simplesmente por minha presença junto a você, como pensa. Eles acontecem todos os dias. Faz parte da condição humana de vocês, seres capazes de escolher com liberdade, até mesmo de renunciar a seu Criador e Senhor. Entretanto, Homero, tenho a impressão de que você está pronto para conhecer e saborear a face de Deus, pois já tem intimidade suficiente com as lágrimas do Criador. Eu me chamo Miguel e continuamente bebo da Presença do Inteiramente Outro, O Santo, Santo, Santo! Aqui estou para ajuda-lo a compreender a existência humana e, conseguentemente, encontrarse frente a frente com a Face de Deus - Poxa, Arcanjo Miguel, fico até com vergonha pelos insultos que lhe dirigi. Perdão, irmão! - falou com reverência ao anjo, pois compreendeu que estava só descarregando sua dor no anjo. - Você repetiu as mesmas palavras do garoto que atirou em sua namorada antes de morrer. É um perdão sincero que pede. sentenciou o anjo. - Peraí...então vai me levar justamente quando começamos a nos entender? - brincou Homero. 52

Oliveira Sousa O rapaz que servia o cafezinho observava Homero de longe que parecia fazer uma prece, porque dava a impressão que conversava sozinho. Decidiu levar um cafezinho para ele. O anjo ficou contemplando o jeito dele tomar o café e disse que quando Homero chegasse no seio de Deus a alma dele teria sabor café pela forma como degustava o líquido. Homero riu tanto que quase se engasga com o café. - Homero! - disse o anjo ao seu coração. - Diga.... - Homero fez como se desejasse ouvir do anjo seu nome. - Miguel, o arcanjo de Deus! - o anjo respondeu solenemente. - Ok. Eu queria ouvir da sua boca seu nome, pois é doce aos ouvidos. - falando nisso, amei sua pesquisa sobre anjos. - Então não me enganei. Você realmente estava ali. Por acaso, estava na cadeira de balanço? - Sim, estava. Homero, preciso que agora você conclua o que sempre buscou, ou seja, encontrar-se face a face com Deus. Muitos dos que aqui ainda vivem já o viram e de sua face se alimentam cotidianamente aguardando subir definitivamente para contempla-lo como os anjos a todo momento, saboreando da

Asas de Deus grandeza de adorar face a face seu Criador e Senhor. - Tudo bem. Mas o que eu tenho que fazer? Ah, sim , tem um porém! Por favor, se tiver que presenciar mais perdas de entes queridos é melhor me dizer agora ou nada feito. - Certo. Dou-te minha palavra que nesse caminho não presenciará tais tragédias humanas. Se tiver que acontecer, creio que não vai suceder, direi com antecedência. - Ufa! Obrigado! Mas que seja com 48 horas de antecedência? - Tudo bem. Então, lembra-se de sua viagem a São Paulo na próxima semana? - Sim, lembro. Mas com a morte de meu amigo, não quero me ausentar por agora. - Pois é justamente isso. Vai precisar se ausentar. Quero que vá caminhando até lá, sem levar nada, somente confiando na bondade e na misericórdia divina. Cuide das lágrimas de Deus que encontrar no caminho. Chegando lá verás Deus, face a face. - Não levar nada, significa nada, nada? - Nada, nada! Só a confiança em teu Criador. - Caramba! Caminhar sozinho, que dureza! - Eu estarei sempre caminhando com você. - Sim, mas você não tem necessidades, não dorme, não 54

Oliveira Sousa come... - Então, quer que eu fique? - Não! Estava brincando! - Ok. Nos vemos na segunda às 8:00 em frente à Catedral junto aos mendigos que ficam na praça e que pedem esmola na saída; de lá sairemos. - Tudo bem. Que Deus nos acompanhe! - finalizou Homero. No decorrer da semana esteve dando apoio à família de Araújo ainda muito abalada com sua morte. Voltava para casa rindo das recordações que tinha do seu grande amigo. Carregava no peito esquerdo o bilhete que escrevera antes de morrer. O anjo Michael pela manhã era visto no hospital; pela tarde na praça junto aos mendigos e á noite demorava-se um pouco no quarto de Homero até à madrugada e voltava para junto de Deus.

Asas de Deus

10 capitulo PEREGRINANDO COM O ANJO Homero foi acordado às 06:00 com uma música de Rosa de Sharon, Anjos das Ruas. Sabia que o anjo estava ali. Enquanto fazia a higiene matinal escutava a letra da música. Foi para a cozinha preparar um café e a música sempre repetindo. Mesmo se não quisesse ela repetiria. Sentado ali na mesa foi degustando aquela sopa de semibreves, mínima, colcheias, fusas e semifusas. Teve uma idéia. Pegou o bilhetinho de Araújo e escreveu no verso a letra da música para recordar sempre na viagem:

Andando pelas ruas Eu vejo algo mais do que arranha-céus É a fome e a miséria Dos verdadeiros filhos de Deus Vejo almas presas chorando em meio a dor Dor de espírito clamando por amor Anjos das ruas Anjos que não podem voar 56

Oliveira Sousa Pra fugir do abandono E um futuro poder encontrar Anjos das ruas Anjos que não podem sonhar Pois a calçada é um berço Onde não sabem se vão acordar Às vezes se esquecem que são seres humanos Com um coração sedento pra amar Vendendo seus corpos por poucos trocados Sem medo da morte o relento é seu lar Choros, rangidos, almas pra salvar Vamos!? - chamou Miguel, que acompanharia Homero até São Paulo. Posso tomar uma última xícara de café? - falou quase suplicando ao anjo. Claro! Mas se apresse. Marcamos às 08:00, lembra?! Sim. Não se preocupe, vai ser rapidinho. Posso levar minha garrafinha com o restante do café? Não! Recorde-se do que falamos: Nada, nada! Você é marcação cerrada, heim? Sou. Vamos!

Asas de Deus Chegaram às 08:00 em ponto. O anjo o encaminhou para Severino, morador antigo da praça e que naquela manhã iria para a outra cidade vizinha. Homero sentou-se ao seu lado. Severino não ligou, porque ia embora mesmo. Severino puxou assunto para saber quem era o intruso. Você não tem cara de mendigo! Nem de órfão! Tá desempregado e quer ganhar dinheiro fácil aqui na Catedral é? Não senhor, longe de mim roubar o espaço de vocês. Então, o que você faz aqui? - o olhar do velho o inspecionou. Estou indo para São Paulo e vim descansar aqui junto de vocês, antes de partir. E cadê seus pertences? Não tenho. Só eu e minha roupa me acompanham. Homero respondeu olhando o anjo Miguel que estava na torre da Catedral, o lugar mais alto do lugar, como se estivesse vigilante. Vai de carona? - O velho estava cada vez mais interessado no intruso. Não. Vou a pé. - Homero respondia com frieza, pois sabia que logo logo o velho o convidaria. E não tem medo de ir sozinho nestas estradas perigosas? Um pouco, mas vou arriscar. 58

Oliveira Sousa Se quiser pode ir comigo até próximo de São Paulo. Depois da oração, estou indo. Certo. Creio que será interessante a companhia de alguém mais experiente. Irei acompanha-lo! Assim ficaram. Logo depois de terminada a oração, o senhor se dirigiu para seu lugarzinho e recebeu algumas moedas. Voltou para a praça, tomou sob os ombros sua sacola e seu manto e acenou para Homero que se aproximou. onde está sua sacola? - ainda insistiu. Não tenho! Nem um manto para cobrir-se? Não! Você é louco! Vamos! - Severino saiu com sua sacola nos ombros e a bengala. Antes de saírem, Severino deu duas moedas para Homero caso precisasse comprar pão. Andavam pela beirada da BR na contramão. Severino disse que era a primeira lição que não poderia esquecer. Na primeira noite, Homero dormiu na marquise de um prédio. Naquele dia não viu nem sinal do anjo Serafim. Acordou várias vezes durante a noite devido ao frio e o medo. Então, senhor Sem Nada, dormiu bem sua primeira noite? Até que não foi mal. Deu para pregar os olhos.

Asas de Deus Durante o dia se encontraram com outros mendigos. Uns estavam embriagados, outros drogados. Mas acolheram Homero no grupo sem nenhum impedimento. Cozinharam numa lata de tinta uma sopa com vísceras trazidas por outra moradora de rua. Homero quase vomita, mas engoliu aquelas peles insossas e escaldadas. À noitinha o anjo apareceu. Severino tinha encontrado uma construção abandonada e convidou Homero para dormirem lá naquela segunda noite. O anjo estava sentado sobre uma janela destruída. Homero se aproximou. Porquê vocês gostam de janelas? - puxou assunto. Depois, sempre foi uma curiosidade dele que não poderia passar a oportunidade. A janela tem um sentido de abrir-se ao mundo exterior o nosso mundo interior. Por isso amamos estar nelas. Ah! Interessante colocação. - pontuou Homero. Estou admirado de você. Até agora tem se comportado como um deles. Mas eu sou um deles. Anjo com seis asas é que não sou. Tenho a algo a lhe dizer. - o anjo nem moveu-se. Parece que anjos não entendem piadas. Diga. Aproveite que hoje estou sem sono. Lembra que eu lhe tinha prometido que não aconteceria 60

Oliveira Sousa tragédias ao longo de seu caminhar e caso acontecesse lhe contaria? Sim, eu lembro. Pois, então, fiel à minha palavra, direi a verdade do que vai acontecer daqui a dois dias ao Severino. O quê? Severino vai morrer? Sim. Vi o anjo à espera, pronto para acompanha-lo. Saiba que Severino está muito feliz por ter você ao lado dele. Ontem, no intimo dele agradeceu ao Criador por ter posto um anjo, você, na vida dele. Caramba! É tão difícil lidar com esse tipo de informação. Está certo que pedi que me contasse, mas agora me sinto perdido ao saber disso. O que eu faço? Nada. Continue vivendo os últimos momentos ao lado dele como se não soubesse de nada. Nessa noite, Homero não conseguiu dormi. Severino tinha acordado cedo, conseguiu pão e até queijo. Usou as últimas moedas para comprar dois cafezinhos de uns mendigos para agradar o amigo. Homero, venha! Quero lhe oferecer este café desta vez. Amanhã é sua vez de ir atrás. Ele não conseguiu esconder as lágrimas de Deus por

Asas de Deus aquele moribundo tão feliz, mas que amanhã já não estaria aqui para que degustava um café oferecido por Homero. Não chore Homero! Deve estar desejoso de chegar né? Fique tranqüilo, pois a gente está próximo. Mais dois dias e chego no meu destino e, então, você prossegue. - Severino imaginava que ele chorava por outros motivos. Tudo bem, Severino! Obrigado pela gentileza! Você é muito gentil! Engraçado, é a primeira que me chama pelo nome. - disse em tom de curiosidade e emoção. Brindemos com café à vida! - sugeriu Homero para esconder as lágrimas que insistem em descer. À vida! -Severino levantou seu copinho de café. Ao longo do dia, por onde andavam, Severino partilhou sua vida a Homero. Tomaram banhos juntos no riacho sujo e contaminado da cidadezinha. Homero estava totalmente desprovido de seu orgulho e egoísmo. O tempo todo perguntavase pela face de Deus que o anjo prometera que veria. Naquele dia se juntaram a um grupo de moradores de rua. Severino trouxera um papelão grosso e deu a Homero. Também mostrou a ele dez reais que ganhou de um senhor no semáforo. Homero ainda teve que se livrar de um homem que queria ter relações sexuais com ele 62

Oliveira Sousa aproveitando que todos dormiam. Foi dormir no outro lado. Pela manhã, levantou cedo. Queria surpreender a Severino. Conseguiu um pedaço de bolo. Quando voltava viu um anjo encostado no muro onde dormia Severino. Jogou o bolo no chão e correu em direção de Severino. Levantou o cobertor e viu que tinha sido esfaqueado, enquanto dormia, para ser roubado os dez reais que ganhou no semáforo. Homero ficou na cidadezinha até que fosse enterrado como pessoa e não como indigente. Nesses dias o anjo esteve o tempo todo com ele. Homero permaneceu com o manto ensanguentado de Severino. Pretendia no dia seguinte seguir viagem. Estava na praça atrás de um banheiro público que estava uma verdadeira fedentina. Viu que três jovens estavam chegando na praça. Seriam anjos disfarçados para cuidar dele, já que ainda estava abalado com a morte de seu amigo, Severino? Não queria estragar a surpresa do anjo Serafim. Esperou que eles viessem até ele. Os jovens buscavam um lugar para passar a noite. Já tinham ido à casa dos “embaixadores de Deus”, mas lá não tinha lugar para peregrinos suspeitos e, ainda por cima, maltrapilhos. Então, restou a praça. Um deles sugeriu que fossem dormir atrás dos banheiros, pois seria mais seguro. Houve resistência de um deles pelo mau odor que exalava, porém, no fim concordaram em ficar. Espantaram-se quando viram que lá já tinha um inquilino. Homero

Asas de Deus se fazia que dormia para ver a reação dos jovens que ele acreditava serem anjos cuidadores. Boa noite! Boa noite! Será que podemos nos acomodar aqui também? Somos peregrinos indo para São Paulo! - um dos jovens serviu de embaixador do grupo. Homero se fez que acordou com o barulho deles. Quem são vocês? Somos peregrinos indo pagar promessa em São Paulo! Somos de bem! Só queremos dormir esta noite aqui e amanhã partiremos. Tudo bem. Podem ficar. Tem aquele lugar ali, este aqui e lá do outro lado. Dá para os três se acomodarem. Obrigado senhor.... - um dos jovens esperava que dissesse seu nome. Homero Severino de Araújo. É meu nome completo. Legal. Você sabia que Homero foi um grande mártir que entregou sua vida pelos mais simples, que seu segundo nome, Severino significa austero e Araújo é alguém que vive de desafios, cheio de energia, entusiamo?! Não sabia! Mas me parece que ao menos meu nome herdou algo de positivo. Homero Severino não tinha dúvidas de que eram anjos. Só 64

Oliveira Sousa os anjos sabiam essas coisas de origens dos nomes e usavam em suas conversas. Esqueceu de oferecer alimento para eles, ainda que anjos não se alimentem; porém, era questão de educação. Por acaso, vocês já comeram algo? Infelizmente, não! Estamos com o estômago reclamando deste o café. Tomem aqui dois pães. Molhem na água que desce e mata a fome. Homero Severino pensou que eles negariam pelo fato de serem anjos. Mas, ao contrário, tomaram os pães e devoraram rapidinho. Homero pensou que não seriam bobos de não comer, pois assim se denunciariam. Deve ter sido um truque que usaram. Os jovens agradeceram e começaram a falar do Deus que foram encontrando no caminho durante o percurso que já fizeram. Homero, por sua vez, explicava a eles que ainda não era Deus que encontraram, senão as lágrimas de Deus e prosseguiu partilhando muitas outras vivências que lhe aconteceram. Os jovens estavam impressionados pelo encantamento das palavras que saíam de dentro de Homero. E queriam saber mais das vivências de Homero, o homem do fundo do banheiro, como se referia a ele de modo descontraído. Um deles cochichou ao ouvido do outro dizendo que Homero era um anjo que Deus pôs ali para instrui-los

Asas de Deus e cuidar. Até dos calos que tinham, Homero cuidou como se soubesse exatamente o que fazer. Terminada a partilha de sua vida, Homero mostrou-lhes o bilhete que trazia ao peito para confirmar a história que contou. Um dos jovens leu e disse: São belas mensagens. Está última é tão bela, magnifica. Como conseguiu escrever tão divinamente? Serão letras de anjo? Muito lindo estas três mensagens, senhor Severino. - o jovem falou letras de anjo como que jogando uma indireta sobre a origem de Severino. Você disse três? Sim. Três! A última você caprichou. Bela citação bíblica. Me dê isso aqui. - Tomou de supetão da mão do rapazinho. Leu e releu. Não acreditava. Como podia ser? Teria sido um dos rapazes? Não tinha como, pois estava o tempo todo com eles e o bilhete não saiu do peito. Só podia ter sido o anjo. Estava impressionado. Ali era a mensagem de Deus escrita para mim ao confirmar minha súplica, pensava Homero. Enviarei um Anjo adiante de ti Para te guardar no caminho E te fazer entrar no lugar que te preparei. 66

Oliveira Sousa (Ex 23,20) No dia seguinte, Homero acordou e não encontrou os jovens. Na cabeça de Homero, ainda suspeitava que aqueles jovens eram anjos. Levantou-se e foi para frente da Igreja que ficava na praça ver se recolhia algumas moedas para a viagem. Quando terminou o rito, os jovens saíram de lá. Cumprimentaram Homero e seguiram viagem. Homero levantou-se e foi com eles. Logo fizeram amizade. Caminhavam como se se conhecessem há muito tempo. Homero acreditava que eram anjos e os jovens, por sua vez, acreditavam também que Homero era um anjo enviado por Deus. Nesse dia, desde a madrugada, o anjo Serafim caminhava lado a lado com Homero. A fome que mais e mais pesava em seus estômagos diminuía o ritmo dos passos peregrinos. Chegaram na praça da Sé tão exaustos que se lançaram ao chão. Uma pessoa aproximou-se de Homero que se manteve em pé. Homero a contemplou e viu ser uma pessoa muito sofrida e necessitada. Um calafrio lhe subiu quando pressentiu o que a mulher ia fazer. A mulher, tomando do único pão que dispunha, estendeu a mão a Homero . Diante daquele gesto o coração de Homero apertou, pois sentiu que chegava ao fim sua peregrinação; uma multidão de anjos em espiral descia do céu e harmonicamente giravam ao seu

Asas de Deus redor; o anjo Serafim, rosto do Criador, com suas asas o cobriu; no seu intimo Deus lhe apareceu e sorriu tão convincente e puro que Homero não podia duvidar que ali Deus se mostrava e se fazia presente. Era de uma beleza extasiante. A face de Deus tal qual como o é desde a eternidade resplandecia e inundava as retinas de Homero. A face de Deus era o amor sem medidas, nem condições, o amor. Todos os que viram o corpo caído de Homero atingido por uma bala perdida no momento em que recebia o pão da moradora de rua ficavam extasiados com o olhar de contentamento e a face tão esplendida como se fosse a face de um anjo e, ainda, outros diziam que era a face de Deus. O próprio Miguel quebrou o protocolo da hierarquia angélica e levou nos braços a alma de Homero para a eternidade, junto de Deus.

FIM

68