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JOÃO HENRIQUE DA SILVA1 UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS jhsilva1@yahoo.com.br ÁREA TEMÁTICA: DIREITOS HUMANOS

INDISCIPLINA E VIOLÊNCIA NA ESCOLA: OBSTÁCULOS À EFETIVAÇÃO DO DIREITO À EDUCAÇÃO
RESUMO: Os direitos humanos estão presentes na escola e, em especial, na forma de direito à educação. Este garante o acesso e a permanência de todos na escola. Contudo, os conflitos, como a indisciplina e a violência no espaço escolar, dificultam a garantia de tal direito. A resolução para estes problemas acaba, muitas vezes, violando o direito a uma educação com qualidade, bem como os demais direitos trabalhados no meio educativo. Por isso, é importante que os profissionais da educação tenham maturidade jurídica e pedagógica suficientes para efetivar o direito à educação com vista à formação de um cidadão. O fato é que os conflitos escolares necessitam da perspectiva jurídica para garantir a prática dos direitos humanos na instituição educativa. Palavras-chave: Direitos Humanos. Conflitos escolares. Regimento Interno.

INTRODUÇÃO O século XXI é palco de confluência de diversos aspectos que influenciam significativamente em várias instituições sociais, entre quais se destaca o direito e a escola. Ambas atuam na formação humana, lapidam um novo ser social por meio de suas regras, exigências, direcionamento e aconselhamento. A finalidade é ajudar a sociedade a se desenvolver em harmonia, igualdade, justiça e fraternidade. Quanto à questão jurídica, o Brasil tem procurado consolidar um Estado Social Democrático, capaz de garantir todos os direitos inerentes à condição humana, em vista de uma vida digna para cada cidadão. Assim, a Constituição Federal da República Federativa Brasileira, de 1988, apresenta os direitos fundamentais do cidadão como garantias indispensáveis, interdependentes e universais para a realização humana. Dentre os direitos,
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Bacharel em Filosofia pela Faculdade Católica de Pouso Alegre – MG (FACAPA). Licenciado em Filosofia pela Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES). E especialista em Direito Educacional pelo Centro Universitário Claretiano. Atualmente é aluno no Mestrado em Educação na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

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merece destaque o da educação, considerado como um direito social indispensável para a conquista do verdadeiro e pleno exercício da cidadania humana. Contudo, a desigualdade social, a ineficiência das políticas públicas educacionais, a crise da autoridade e o desconhecimento de dispositivos jurídicos provocam comportamentos inadequados no espaço escolar. Pelo fato de estar articulada com a instituição política, familiar e social, a instituição escolar vem enfrentando atualmente um obstáculo que precisa ser superado: a indisciplina e a violência escolar, ou ato infracional2. A formação estritamente pedagógica dos professores, sem uma visão jurídica da realidade, deixa muitos educadores e até mesmo a gestão escolar sem bases para agir e garantir o direito à educação. Muitas vezes, a escola procura superar tais obstáculos violando o direito à educação e, consequentemente, aos demais direitos. Isso contradiz o papel da escola, que é de minimizar as desigualdades sociais e dar condições para que os indivíduos possam ter uma melhor qualidade de vida. O problema é que o desconhecimento jurídico dos

educadores corrobora com a inefetividade do direito à educação, paralisando muitas atividades que poderiam ajudar no desenvolvimento da personalidade do indivíduo, na qualificação para o trabalho e no exercício para a cidadania. Tendo presente estes elementos, este artigo procurará refletir sobre a violação do direito à educação perpetrada no espaço escolar no momento de se resolver o problema da indisciplina e da violência. Também apresentará pistas jurídicas para a resolução desta problemática e para a consolidação do direito à educação no espaço escolar.

METODOLOGIA Antes de tudo, será analisado o papel do direito na pós-modernidade e o significado dos direitos humanos nesta nova fase da humanidade. Depois, será explanada a questão do direito à educação e o problema da indisciplina e da violência escolar, consideradas como um dos fatores da violação do direito à educação. Por fim, serão apresentadas algumas medidas jurídicas capazes de efetivar o direito à educação e consolidar os direitos humanos.

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Este artigo fundamenta-se, em grande parte, no texto “A Indisciplina e a Violência Escolar: uma perspectiva pedagógica e jurídica para a construção da cidadania” (2010), que o autor escreveu como exigência para a conclusão do curso de pós-graduação latu sensu em Direito Educacional.

p. ALMEIDA. (FERRAZ JÚNIOR. a inviolabilidade do direito à vida. Também consiste em 3 “Todos são iguais perante a lei. grifo meu). p. também é “um manto protetor de organização e de direção dos comportamentos sociais” (2004. à liberdade. apud FERRAZ JÚNIOR. 1971. ALMEIDA. 31). que se expressa como o “conjunto de normas pertinentes à organização do poder. a qual busca efetivar um Estado Democrático de Direito. 2. p. à igualdade. Ao estabelecer regras para organizar a sociedade. aos direitos da pessoa humana. 2009. por meio de seus inúmeros artigos. 2003. 80. Através do Direito. Também busca equalizar as relações sociais para realizar a justiça. pois nenhuma sociedade poderia subsistir sem um mínimo de ordem. 1988). de seus abusos e de sua obsolescência” (BITTAR. Para compreender esta questão. Seus princípios e objetivos almejam uma vida digna que só é possível alcançar através da prática dos direitos humanos.3 RESULTADOS E DISCUSSÃO A pós-modernidade é uma das causas das profundas transformações na vida social. 5). é preciso ter presente que o Direito é um modo de pensar e abordar as instituições humanas em termos ideais. porque “traz consigo uma mudança. senão radical. à forma de governo. o ordenamento jurídico brasileiro. o artigo 5°3. p. Mas como as práticas jurídicas não são efetivadas com justiça. o Direito protege o ser humano do poder arbitrário exercido à margem de toda regulamentação. . 2003. A mais importante do Brasil é a Constituição Federativa. o Direito corresponde “à exigência essencial e indeclinável de uma convivência ordenada. “está em curso um revisionismo das insuficiências da modernidade jurídica. 31-32). Na verdade. (ARNOLD. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País. p. p. p. Consiste na exigência de que as instituições sociais coloquem em prática certos princípios que não dependem da existência humana. à distribuição da competência. o Direito estabelece normas para guiar a conduta das pessoas e orientá-las para uma convivência pacífica. a sociedade pode se desenvolver e progridir. ao menos paulatina e parcial que se projeta sobre as práticas jurídicas” (BITTAR. 2008. ao exercício da autoridade. 642). ratifica a necessidade de dar o que é devido ao ser humano. 2009. 643). 47. sem distinção de qualquer natureza. Como ensina Miguel Reale. preservando-o de posturas totalitárias. A aplicação teórica do Direito acontece inicialmente através de leis escritas. A Constituição de 1988 estabelece diversos direitos humanos. Assim. de direção e solidariedade”. tanto individuais como sociais” (BONAVIDES. à segurança e à propriedade” (BRASIL. em especial.

2007. Para Haddad e Graciano. a moradia. Interessa a este estudo apenas os direitos sociais4. econômicos e culturais. (TEIXEIRA.4 direitos fundamentais. . a segurança. estes direitos estão sendo são desrespeitados tanto pelo Estado quanto pelos próprios indivíduos. por meio dos quais é possível solidificar uma vida digna para todos. Entretanto. pois protegem os direitos do ser humano (BITTAR. classificados em direitos civis. protegendo-a de lesões ou violações (POZZOBON. políticos. 2010). 37). indivisíveis e universais. o lazer. 184). a Constituição de 1988 traz um capítulo próprio de direitos sociais (Capítulo II do Título II) e um título sobre a Ordem Social (Título VIII). mas também da família e de todos os cidadãos (Art. em especial. este artigo garante todos os direitos consagrados na Constituição. 2009. Tais políticas têm como foco a redistribuição de bens numa sociedade. a proteção à maternidade e à infância. Ou seja. os direitos sociais devem ser inscritos na Ordem Social. p. 2001. Na verdade. a previdência social.. 205 da CF/88). na forma desta Constituição” (BRASIL.. 2010). Tais direitos estão intrinsecamente relacionados com os ideais revolucionários: a liberdade. São também direitos interdependentes. 100-101). no atual contexto sócio-políticoeconômico. No que tange ao direito à educação. este é um dever não apenas do Estado. p. a educação é entendida como um direito social e torna-se uma política pública fundamental para a vida humana. p. em busca da preservação da dignidade humana. De acordo com Eliana Teixeira (2001. p. Também “efetiva o princípio geral do reconhecimento de todos os seres humanos como pessoas e dá consequência jurídica a esse reconhecimento” (HERKENHOFF. Porém. o da educação. 131). ALMEIDA. tendo como meta a igualização de condições de vida assimétricas” (2006. 1988). (HORTA. a igualdade e a fraternidade. sociais.] direitos de créditos diante do Estado que demandam direcionamento dos governos para o cumprimento de necessidades sociais através do desenvolvimento de políticas públicas. os direitos sociais consistem em “[. cujo objetivo é a proteção dos direitos individuais e coletivos da pessoa humana. formado por diversas normas que têm aplicação imediata. O dispositivo constitucional que trata do direito à educação possui um caráter bifronte: garante o direito de exigir a prestação estatal e o dever da sociedade de contribuir com o desenvolvimento da educação. o trabalho. O não cumprimento não deixa de gerar um obstáculo à realização dos demais direitos. sendo estes regulamentados no artigo 6°. p. a saúde. São direitos protetivos. a assistência aos desamparados. 6º: “São direitos sociais a educação. 4 Disposto no art. 616). é um direito assegurado e que deve ser exigido. Constitucionalmente.

a educação se apresenta como instrumento integrador. 133). p.5 Com isso. exige um ensino universal. 2001. In BRZEZINSKI. Tendo presente estes elementos. De fato.. liberdade e fraternidade para que se estabeleça um ensino público. fundamentada nos valores universais. na falta de cumprimento da obrigação. Dada a sua importância para a vida da sociedade.. sobretudo a questão de educar para uma prática dos direitos humanos e da cidadania. 101). Enquanto direito público subjetivo6. porque é “do desenvolvimento da educação que todos os demais anseios da sociedade serão resolvidos. Neste caso. p. nessa circunstância. socializador e dignificador da vida humana. Inclusive. gratuito. fazer ou não fazer algo em benefício de um particular. Uma educação para todos. o respeito. 208. no mundo 5 Segundo Haddad e Graciano. o direito de exigir coativamente. sendo assim acionável e exigível (Art. O Estado. Por isso os direitos que foram violados devem ser assegurados. como um direito público. 2006. 2008. em especial. é mais do que urgente trabalhar para que os dispositivos constitucionais possam legitimar a educação como um direito social. sociais e civis que propiciam ao indivíduo sua inserção na vida social. (PEREIRA. Um investimento adequado reconhece que o direito à educação é uma garantia fundamental para que se realize uma condição de vida digna. universal e único e obrigatório. (SILVA. e a garantia de um Estado Democrático de Direito depende dos investimentos da educação” (TEIXEIRA. com a tarefa de contribuir com o seu desenvolvimento sustentável. a educação sempre ocupou um lugar de destaque nos estudos desenvolvidos ao longo dos séculos. 6 A educação básica. O titular. 205 da CF/88). na legitimação dos princípios de igualdade. ou seja. tem contra o devedor uma pretensão. a educação é o instrumento necessário para a concretização dos direitos políticos. a justiça. atos e de mudanças de mentalidades. o Estado assume uma postura intervencionista. que é “o pleno desenvolvimento da pessoa. a educação básica busca cumprir a sua finalidade. 52). TEIXEIRA. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Art. Sem ela. destinado à formação comum. a prestação devida. em juízo ou fora dele. 7 Desse modo. ou seja. (SILVA. . faz uma transposição da marginalidade para a materialidade da cidadania7. 52-53). de igualdade e de justiça para todo e qualquer ser humano. pode ser constrangido judicialmente a executar o que deve”. p. 150). a escola deve preocupar-se com as novas exigências que emergem na sociedade. 2001. 101). § 1º). o direito público subjetivo consiste no “[. Mas não deve se esquecer de trabalhar com a formação de hábitos.] poder público tem o dever de dar. p. p. VII. tais como: a solidariedade. 2006. já que a educação é a alma da democracia. um papel de prestador de serviços na área educacional (TEIXEIRA. p. Ela inclui. Busca dar suporte para que o indivíduo possa desenvolver suas potencialidades e assim humanizar-se. não é possível que a sociedade prospere e contribua com o desenvolvimento da humanidade. e o direito à educação torna-se um direito público subjetivo5. (2006. fundamentada no princípio republicano de igualdade de oportunidades educacionais. laico.

a indisciplina e a violência escolar são fatores que prejudicam a qualidade de ensino. Existem inúmeras fatores que contribuem para a violação da justiça nas suas mais diversas formas: a globalização. a violação mais acentuada decorre do modo como os problemas disciplinares são resolvidos no âmbito educacional. o que se entende por indisciplina e violência no âmbito jurídico e pedagógico? De acordo com Antunes. colocada em prática na instituição de ensino. tais como: propostas curriculares problemáticas e metodologias que subestimam a capacidade do aluno (assuntos pouco interessantes ou fáceis demais). Na tentativa de encontrar uma solução para estes problemas. o neoliberalismo. a Convenção Americana de Direitos Humanos e o Protocolo de San Salvador. no plano interno. Como se sabe.6 pós-moderno.. principalmente. pais.. muitas vezes. sem discriminação. a necessidade de reconhecer e garantir a vigência dos direitos dos seres humanos. nos conflitos dentro do espaço escolar. não é. e. 127) afirmam que o reconhecimento do direito à educação encontra-se presente nos principais documentos internacionais de proteção dos direitos humanos: o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. a Convenção sobre os Direitos da Criança. O desconhecimento jurídico impossibilita a realização dos princípios fundamentais do direito à educação. a má capacitação dos professores. a falta de investimento do poder público. na realidade. Existe ainda muita exclusão e marginalização daqueles que não têm oportunidade para estudar ou então daqueles que. excessiva centralização na figura do professor (visto como único detentor do . quando se percebe. cobrança excessiva da postura sentada. afinal. a indisciplina8 refere-se a um trabalho que não 8 O comportamento indisciplinado está “[. a Constituição Federal de 1988. responsável por garantir e dar possibilidade de equiparar os direitos para todos. gestão escolar e os próprios alunos acabam. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN). muitos professores. Mas. mais do que nunca. na verdade. p. diversas leis que prescrevem o direito à educação não são. inadequação da organização do espaço da sala de aula e do tempo para a realização das atividades. Com efeito. o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Plano Nacional da Educação (PNE). as famílias desestruturadas. a crise da sociedade etc. na escola não gozam de uma educação com qualidade. mesmo encontrando-se. Um dos grandes obstáculos para a efetivação deste direito encontra-se. observadas. Haddad e Graciano (2006. Sociais e Culturais. Porém. violando o direito à educação.] diretamente relacionado a uma série de aspectos associas à ineficiência da prática pedagógica desenvolvida. A justiça.

tem cabimento a respectiva sanção. consequentemente. no Brasil. das espécies crime ou delito e contravenção. psicológica. 100). pelo medo e pelo terror” (MICHAUD. c) ou ocorrida entre os próprios alunos ou entre professor e aluno. apud SCHILLING. 1996.. para efeito da respectiva pena. mas. (2002. por exemplo. constante uso de sanções e ameaças visando ao silêncio da classe. depredação ou agressão verbal aos professores. A estes. simbólica). mas. Abaixo daquela idade. os maiores de 18 anos. 2004. no sistema jurídico nacional. b) ou dentro da instituição. p. Já a violência precisa ser compreendida como um conceito multidimensional. quando incidirem em determinado preceito criminal ou contravencional. mas de uma entidade jurídica a encerrar a idéia de que o tratamento a ser deferido ao seu agente é próprio e específico. pouco diálogo etc. pouco incentivo à autonomia e às interações entre os alunos. na linguagem do legislador. De acordo com Napoleão X. por se tratar simplesmente de uma realidade diversa. a conduta do seu agente não configura uma ou outra daquelas modalidades de infração. Ela implica diversos atores e sujeitos. Juridicamente. p. grifo meu). só pode ser atribuída. 33-35). p. O desajuste existe.] é um ato de brutalidade.” (REGO. p. só pela circunstância de sua idade. A violência “[. (SCHILLING. 13. 2004. Trata-se de uma vitimização que atinge a todos sob diversas formas. p.7 permite aos professores oportunidades plenas para o desenvolvimento de seu processo de ajuda na construção do conhecimento do aluno. além de acontecer sob formas diferentes (violência física. às pessoas imputáveis. emocional. (In CURY. E ela pode se manifestar de três modos na escola: a) quando têm origem externa a escola. sevícia e abuso físico ou psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão e intimidação. 361. (CUBAS. preparação para o trabalho e exercício consciente da cidadania. p. dentro do ordenamento jurídico penal pátrio. simples ato infracional. Amarante: A infração penal. 1989. 2008. na acepção técnico-jurídica. em regra. p. não constitui como crime ou contravenção. não permite um consciente trabalho de estímulo às habilidades operatórias.. saber) e. ao desenvolvimento de uma aprendizagem significativa e vivências geradoras da formação de atitudes socialmente aceitas em seus alunos. não oferece condições para que os professores possam “acordar” em seus alunos sua potencialidade como elemento de autorealização. 9-10). a violência é caracterizada como ato infracional que consiste numa conduta prevista como crime ou contravenção penal. que são. . 27). como gênero. a conduta descrita como crime ou contravenção penal. 38). 2007. Não se cuida de uma ficção.

Mas. a lei não conceitua o que é um ato infracional grave. a ação do aluno que. repressivo e coercitivo” (PEREIRA. Ou seja. no contexto da proteção integral. Nos crimes de homicídio e lesão corporal. I)”. mas na vida educacional todo ato praticado por um aluno dentro das dependências de um estabelecimento de ensino será considerado como um ato de indisciplina. com detenção. In CURY. o que se pode entender por grave ameaça? Na verdade. Como o legislador fundamenta-se nos conceitos de crime e contravenção penal para definir o ato infracional (art. tendentes a interferir no seu processo de desenvolvimento objetivando melhor compreensão da realidade e efetiva integração social. respectivamente. não punitivas). Esta política de atendimento está amparada por dois princípios fundamentais: as crianças e adolescentes são prioridades absolutas nas políticas públicas e protegidas pela 9 “Então. imperícia ou negligência do agente. os crimes considerados graves são penas com reclusão. In CURY. (MARÇURA. estiver regulamentado de acordo com o Código Penal gera repercussão no campo penal. 12). 2008. Assim. os crimes leves e as contravenções penais. p. deve-se então buscar na lei penal o balizamento necessário para a conceituação de ato infracional grave. se não houver no ordenamento jurídico descrição de tal ato como um ilícito penal. p. 2004. prisão simples e/ou multa. Como é possível perceber. o ato infracional tratado até agora diz respeito à vida social. receba ela medidas sócio-educativas (portanto. 2010). exigindo a lei que o ato infracional tenha sido perpetrado mediante violência ou grave ameaça – circunstancia.” (MAIOR. art. p. Logo. 630) esclarece que o ato infracional cometido através de violência ou grave ameaça são os crimes de roubo e estupro. “não integrando os tipos penais como meio de execução. ao contrário dos programas de caráter assistencialista. 403). descritos. II). . p. 631). para o adolescente autor de ato infracional a proposta é de que. 2008. pois esta violência surge como conseqüência da imprudência. deve-se desconsiderar a modalidade culposa. como indivíduo. aliás. Esta repercussão no campo penal é realizada juridicamente pelo Estatuto da Criança e do Adolescente através de programas de sócio-educação9 voltados para aqueles adolescentes que estão em situação de conflito com a lei. mas utiliza esta expressão para justificar a imposição de medida de internação (art. deve-se compreender por grave o ato infracional a que a lei penal comina pena de reclusão. A finalidade é realizar uma “política de atendimento em torno da promoção e defesa dos direitos. para ela. 157 e 213 do Código Penal. p. 630). 122.8 Jurandir Marçura (In CURY. 122. 2008b. (SACERDOTE FILHO. segundo a legislação. justificadora da imposição de medida de internação (cf. (In CURY. nos arts. 103).

Volpi diz que o adolescente deve “tomar consciência de que existem formas mais eficientes de garantir suas necessidades básicas e de que a exigência dos seus direitos precisa acontecer de forma organizada e socialmente viável” (In CURY. uma vez que elas são penalmente inimputáveis. descrito pelos autores Schilling e Cubas. Ambos gozam dos mesmos direitos. caso o infrator tenha entre 12 e 18 anos. o que acarreta um tratamento através de sua própria família ou na comunidade. 2008. caso o infrator tenha menos de doze anos de idade. para os efeitos desta Lei. Quanto ao adolescente infrator. Esta prescrição está presente no Livro I. Até o momento. Quanto ao aspecto educacional. 20-21. em determinadas situações. presentes no artigo 112. 2º Considera-se criança. foram descritas as repercussões penais que podem ser geradas por meio de um ato infracional na sociedade. 363). . essa diferenciação entre criança e adolescente. Nos casos expressos em lei. Essa distinção da faixa etária está prevista no artigo 2°10 da ECA.9 doutrina de proteção integral. possui maturidade suficiente para formar sua opinião e decidir sobre certos assuntos que podem afetar a sua própria vida e destino. Parágrafo único. 2008). In CURY. e que podem implicar na privação da liberdade. caso o adolescente seja autor de um ato infracional cabem medidas sócio-educativas. Se ele se encontra em idade acima de 18. a criança infratora fica sujeita às medidas de proteção previstas no art. p. O tratamento de suas situações é distinto quando incorrem em atos de conta descritos como delitos ou contravenções pela lei penal. é garantido ao adolescente o devido processo legal detalhado no artigo 111. mas medidas de proteção previstas no artigo 101. 1990). 171 e seguintes. 2010). ao passo que às crianças não se aplicam tais medidas. no que concerne às fases dos mesmos. De acordo com Solari (p. ou quando ele realizasse uma 10 “Art. Isto ocorre porque o Estatuto considera que o adolescente. a restrição de direitos. É importante ter presente que um ato infracional deve ser resolvido pelo Conselho Tutelar. Assim. o ato infracional ocorreria quando o estudante depredasse os objetos e arquivos da escola. sem que ocorra a privação de liberdade. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade” (BRASIL. (SACERDOTE FILHO. Exemplificando a questão. ele pode ser submetido a um tratamento mais rigoroso. a pessoa até doze anos de idade incompletos. Por isso. ou então pela Justiça da Infância e da Juventude. observando-se nos demais o procedimento dos arts. é de fundamental importância para o Estatuto. Contudo. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. será analisada pela Justiça Comum. chamado de medidas sócio-educativa. são reconhecidos na sua condição especial de pessoas em desenvolvimento. 101. o ato infracional corresponde ao sentido da violência já mencionado acima.

verbais e psicológicas. “soco na cara”). advertência (assinar a um acordo de responsabilidade pelo ato cometido) ou exclusão (ignorar o aluno). (CUBAS. prejudicando o desenvolvimento da personalidade e a realização do bem-estar coletivo. uma vez que as medidas tomadas pela escola acabam por exclui-los de um processo que é inerente a sua condição humana. imposição. abrindo espaço para a agressão. apud CUBAS. verbal (palavrões. isola ou exclui os alunos. Infelizmente a escola não conhece meios e estratégias eficazes para melhorar as atitudes dos alunos.” (OLWEUS. uma vez que manipula relacionamentos. calúnia e difamação) e psicológica (torturar mentalmente. p. Na busca de soluções para os problemas da indisciplina ou violência escolar. Isto é. expulsão (pedir para se retirar da escola e mudar-se para outra). expresso através de agressões físicas. Mesmo quando a instituição escolar procura dialogar com os pais em busca de soluções comuns. os estudantes têm o direito à educação violado. p. em vez de um projeto voltado para a formação ética. coagir. quando se trata de ataques abertos à vítima. 2007.10 violência física (“chute”. ocorre várias vezes e por muito tempo. 2007. inferiorizar) aos seus colegas. atém-se a questões superficiais que não ajudam a resolver o problema. Ou entao indireto. acontece em relações interpessoais caracterizadas por um desequilíbrio de poder. dificultosas. o que pode ser feito? . Na ocorrência destes fatos. Todas estes mecanismos utilizados pela escola para resolver os problemas da violência e da indisciplina não têm produzido resultados satisfatórios. Ele pode ser definido de três modos: um comportamento agressivo ou uma ofensa intencional. ou professores e membros da gestão escolar. “tapa”. Então. O bullying pode ser direto. Atualmente. uma das formas de violência que mais tem chamado a atenção dos educadores diz respeito ao bullying. Com isso as relações sociais tornam-se pesadas. Chega até a pedir aos pais para que ajam com mais rigor em relação aos filhos. como no caso do bullying. as escolas geralmente punem os alunos das seguintes formas: suspensão (deixar de participar das aulas por mais de 5 ou 15 dias). 177). Qualquer dessas duas formas incita à violência. autoritarismo. mais sutil. 177-178). “um aluno é vítima de bullying quando está exposto constantemente e durante boa parte do tempo a ações negativas por parte de um aluno ou de um grupo de alunos. autoritarismo para defender as suas idéias. 1993.

disciplina. um órgão. Todavia. p. não pode proibir o aluno ao acesso à educação. e) transferência de turno. onde é registrado que o aluno que não cumprir as regras escolares deve seguir os seguintes procedimentos: primeiramente. (SACERDOTE FILHO. mas deve receber os conteúdos programáticos do professor dentro do espaço escolar. da liberdade. São normas que podem ser impostas ou consentidas. 2010). os fundamentos. E outras medidas podem ser tomadas com o agravamento da indisciplina. os direitos devem ser concretizados. Entretanto. PEREIRA. os objetivos descritos na carta política que visa à realização da igualdade. ao ser formado. Em último caso. Só que o estabelecimento de ensino nunca deve esquecer os princípios. 1207. as punições podem ser: a) advertência verbal. mas pedagógico. didático e disciplinar que regula o funcionamento deste estabelecimento de ensino. Por isso. 1975..069/90. 8. (ANDRADE. incumbe ao professor e ao diretor aplicar punições em casos menos graves (crimes previsto na legislação penal serão resolvidos ou pelo Conselho Tutelar ou pelo Juizado da Infância e da Juventude). de dirigir. PEREIRA.11 De acordo com Octacílio Sacerdote Filho (2010). Caso o aluno seja ridicularizado ou constrangido.” (FERREIRA. 2010). quando uma atitude estudantil corresponder ao ato de indisciplina. em segundo lugar. 2010). o responsável deverá ser punido de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (artigo 232). a suspensão representa o não comparecimento às aulas. fica evidente que a ordem pode ser bem estabelecida quando há um regimento. É um conjunto de normas e regras que organizam o funcionamento de uma instituição. d) transferência de turma. Daí a necessidade da instituição escolar se conscientizar sobre a importância do Regimento Interno. Diante disso. (SACERDOTE FILHO. E devido ao direito à educação previsto no artigo 205 da Carta Política e do artigo 53 da Lei n°. apud ANDRADE. . 2010). da fraternidade. ideais revolucionários de 1789 que devem se concretizar no espaço escolar.. uma regulamentação dos direitos e deveres. efeito ou modo de reger. 2010).]. não se pode esquecer que estes procedimentos não devem ter um caráter punitivo. pois ele inclui deveres que devem estar em conformidade com o 11 Regimento é o “ato. desde que não prejudique o trabalho do adolescente. o aluno deverá mudar de turno. (SACERDOTE FILHO. c) suspensão da freqüência das atividades normais da classe. deve estar de acordo com os princípios constitucionais e legislação geral. Sua elaboração na escola é um ato administrativo. b) advertência escrita com comunicação aos pais. pois mesmo em situações conflitantes. o Regimento. Normas impostas ou consentidas. regime [. para que se firme um pacto pelo qual todos possam trabalhar pela construção de um ambiente escolar sadio e adequado para o aluno aprender e se desenvolver enquanto ser humano. este deve estar previsto no Regimento interno da Escola11.

de modo que o aluno não perca os conteúdos ministrados ou mesmo provas aplicadas . incisos LIV e LV da Constituição Federal. é claro que as sanções disciplinares previstas no regimento não podem contrastar com o princípio fundamental e constitucional. o direito de acesso e permanência na escola. inciso LIII também da Constituição Federal). que trata da relação de penas. cuja imposição é vedada mesmo para adultos condenados pela prática de crimes. tal qual dela se espera. Além disso.069/90.3º. art. que assegura a todos os indivíduos o direito ao devido processo legal. por exemplo) que ficará encarregada de apreciação do caso e aplicação da medida disciplinar respectiva (em respeito à regra contida no art. de acordo com o art. grifos do autor) que a “razão pela qual não se admite a aplicação das sanções de suspensão pura e simples da freqüência à escola (uma eventual suspensão deve contemplar. ou que está em conflito com a lei..394/96 e. V e X.53. inciso I da Lei nº 8. a aplicação da sanção disciplinar ao aluno acusado da prática de ato de indisciplina.069) e o Código Civil e Código Penal. 2010). Também não poderá deixar de ser observada nenhuma das hipóteses do art.] previamente. sob pena de violação do contido no art. da Constituição Federal (dentre outros).5º incisos III. desde que sob a supervisão de educadores. mas com objetivo educativo. não poderá haver vexame ou constrangimento ao aluno. e em especial a crianças e adolescentes.232 da Lei nº 8. o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.” . Igualmente.069/90. não poderá ocorrer de forma sumária 12.12 ordenamento jurídico. (DIGIÁCOMO. quando um aluno descumprir o que a lei exige. inciso XLVII da Constituição Federal. ao contraditório e à 12 Preleciona Murillo Digiácomo (2010. Inclusive.5º. a realização de atividades paralelas. Assim. inciso I da Constituição Federal. obrigatoriamente. inciso I da Lei nº 9. e muito menos a expulsão ou a transferência compulsória do aluno. do artigo 206..5º. principalmente com a Constituição. sendo ainda necessária a indicação da instância escolar (direção da escola ou conselho escolar. bem como as sanções disciplinares a elas cominadas.5º. principalmente. O regimento escolar é importante porque expõe [. (DIGIÁCOMO. Não punir para oprimir. grifos do autor). quais as condutas que importam na prática de atos de indisciplina.no decorrer da duração da medida). 2010. sofrerá algumas punições. o violador em tese será o responsável pela prática do crime regulamentado no art. que em última análise representa um "atestado de incompetência" da escola enquanto instituição que se propõe a educar (e não apenas a ensinar) e a formar o cidadão. Se a vitima for criança ou adolescente. pois descumpre os direitos constitucionais de qualquer cidadão garantidos no art. mas para melhorar enquanto ser humano. nas próprias dependências da escola ou em outro local. que garante a todo cidadão.

o local. . notadamente se criança ou adolescente (para assistí-lo ou representá-lo perante a autoridade escolar). para que possa ser interposto eventual recurso às instâncias escolares superiores e mesmo reclamação ou similar junto à Secretaria de Educação.A família deve ser comunicada das providências tomadas pela escola. do contrário. 2010. independentemente da idade do indivíduo. deve ser comunicado ao Conselho Tutelar.5º. dependendo da natureza e extensão da infração praticada pela autoridade responsável pela conduta abusiva e arbitrária tratada.]. facultando-se ao acusado a assistência de advogado. Todo o procedimento disciplinar. Deve indicar também. Depois do aluno testemunhar todas essas formalidades e garantias constitucionais é que se poderá tratar da aplicação da sanção disciplinar.13 ampla defesa. apresentando os motivos que levaram a autoridade a entender comprovada a acusação e a rejeitar a tese de defesa apresentada pelo aluno e seu responsável. a partir daí.]” (PEREIRA. objetivando colocar a pessoa a salvo da arbitrariedade de autoridades investidas do poder de punir. (DIGIÁCOMO. 2010).. confronto direto com o acusador. será nula de pleno direito. dependendo da idade do adolescente.. Nesta circunstância.. No que concerne à indisciplina. endereço completo. (DIGIÁCOMO. em tese..ex vi do disposto no citado art. (DIGIÁCOMO. É importante ressaltar que a decisão que impõe a sanção disciplinar precisa ser devidamente fundamentada. quanto criminal. a hora.] deve ser formalmente cientificado13 de que sua conduta (que se impõe seja devidamente descrita). inciso X da Constituição Federal). com a obrigatória notificação de seus pais ou responsável. passível de revisão judicial e mesmo sujeitando os violadores de direitos fundamentais do aluno a sanções administrativas e judiciais. cuja imposição. ANDRADE. tanto na esfera cível (inclusive com indenização por dano moral eventualmente sofrido . deverá ser conduzido em sigilo. grifo meu).5º. o nome dos alunos ou professores agredidos ou ameaçados e. “O relato é feito em forma de ofício e deve constar qualificação completa da criança e/ou adolescente (nome.. que deve estar devidamente previsto no regimento escolar (também por imposição do art. caracteriza. ainda. [. inciso LIV da Constituição Federal).. ou a uma delegacia de polícia especializada ou ainda ao Promotor de Justiça da Infância e da Juventude. a sanção deve ter caráter 13 O relato sobre o ato infracional. indicar testemunhas [. como também. seja no que se refere ao encaminhamento as autoridades competentes da prática do ato infracional seja as providências também no âmbito da área administrativa escolar [. data de nascimento. deve ser a ele oportunizado exercício ao contraditório e à ampla defesa. determinado ato de indisciplina (com remissão à norma do regimento escolar que assim o estabelece). filiação. 2010) Acrescente-se a isso que a sanção disciplinar é de encargo da escola e deve estar instituída no Regimento Interno. 2010). depoimento pessoal perante a autoridade processante e arrolamento/oitiva de testemunhas do ocorrido.

ANDRADE. (DIGIÁCOMO.” .]. entretanto. o diretor da escola e o colegiado não possuem competência para aplicar medidas sócio-educativas ou medidas sócio-educativas ou medidas de proteção às crianças e adolescentes que cometem ato infracional. ANDRADE. p. 2010). com toda a comunidade escolar. [.. Possuem competência e autoridade para aplicar as punições os professores e o diretor do estabelecimento de ensino. [. mas também de cunho educativo/pedagógico. a mudança de turma e a mudança de turno. 2010). a retratação verbal ou escrita.]. por período determinado. o colegiado (Conselho Escolar ou Conselho Disciplinar). mudança de turno e mudança de turma.069). Dessa maneira.]. (PEREIRA. apud PEREIRA. retratação.. O aluno deve continuar freqüentando a escola e ser educado fora da sala de aula com trabalhos e orientações dadas pelo professor e pela direção. KUHLMANN. 2010). 7-8. deve ficar claro que [. (PEREIRA. 2010). A retratação verbal e escrita é um modo de corrigir sua conduta. As outras atitudes devem ocorrer em casos mais graves com objetivo de modificar a conduta do aluno.se: [. 14 Ensina Octacílio Sacerdote Filho (2010) que: “O professor. requer participação dos pais (ver art. dos professores e da direção escolar. 8. dos funcionários. nos casos menos gravosos e. inserindo-o num novo contexto. levando-os ao conhecimento do processo pedagógico da escola (pública ou particular) e a participação ativa na definição de suas propostas educacionais. Lei. 53. Portanto.. nos casos mais graves. incluem. obedecendo-se as normas prescritas no regimento interno. o regimento interno precisa respeitar os parâmetros legais e ser elaborado por meio de uma ampla discussão. 2010).. representando assim uma medida pedagógica. (PEREIRA. no que tange às penalidades aplicadas pelo Conselho Escolar ou pela comissão de disciplina (colegiado). uma vez que se trata de procedimentos adotados pela escola.. Dessa forma. Ou seja. debate. 2004.. (GRILO. Já com relação aos atos de indisciplina estes devem ser solucionados dentro do âmbito da própria entidade educacional. dos alunos.. para que se remodele na convivência com outras pessoas. A suspensão não pode gerar exclusão do aluno no espaço escolar. cabíveis para os casos mais graves e de multirreincidência. só podem ser aplicadas pelo Conselho Escolar14 e este adotando procedimento autorizado por lei. demonstrando a necessidade de se guiar por atitudes respeitáveis e dignas de se viver com os outros.] as medidas disciplinares de suspensão as atividades de classe. ANDRADE.14 essencialmente educativo. não afronta aos aspectos legais e não são apenas de caráter punitivo.. que serão aplicadas quando o aluno não cumprir os deveres previstos no regimento escolar. a suspensão da freqüência às atividades da classe. ANDRADE.

2010). em vista de uma formação da cidadania democrática. p. Um espaço que ajude na consolidação do exercício prático da cidadania. 101 apresenta as medidas de proteção cabíveis. o Conselho Tutelar e o Juizado da Infância e da Juventude. tornando-se responsáveis por implementar normas que ajudem na construção de uma escola democrática. fundamentando-se no Estatuto da Criança e do Adolescente. do qual poderá resultar aplicação de medida sócio-educativa. possui uma fortíssima carga pedagógica. 106. Caso o autor do ato infracional seja maior de doze anos e menor de dezoito (pessoa adolescente. 436). In CURY. Quanto aos direitos individuais diante de um ato infracional. capaz de efetivar todos os direitos e garantias inerentes à pessoa presentes na lei. a escola deve proceder da seguinte forma: “Havendo a prática de ato infracional por pessoa menor de doze anos (definida como criança no Estatuto da Criança e do Adolescente) o caso deve ser encaminhado ao Conselho Tutelar do Município e. 98 em quais razões podem-se aplicar as medidas de proteção. E o art. 2004. 15 Diante da violência escolar. In CURY. segundo o Estatuto) a questão há de ser encaminhada à Delegacia Especializada ou ao promotor de justiça. 348). p. KUHLMANN. p. Ademais. (ENGEL. Direitos que são assegurados quando as sanções são aplicadas e possuem um objetivo pedagógico no Regimento Interno. desencadeado-se procedimento para aplicação de medidas de proteção. Aliás. objetivando garantir os direitos fundamentais do aluno. 2010).15 Para que isso ocorra é necessário que os alunos sejam ouvidos e respeitados nas suas decisões. 54-55). 1996. ANDRADE. O art. Uma missão que se orienta pela realização do direito à educação. Isso corrobora para que. apud PEREIRA. 2006. O papel da escola. ao juizado da Infância e Juventude. (DIGIÁCOMO. (DIGIÁCOMO. articulando ações conjuntas com a família. p. na falta deste órgão. 2008. por isso. 2010). permitindo-se a instauração do procedimento destinado à apuração do ato infracional. já que a instituição de ensino tem a finalidade de formar e preparar a pessoa para o exercício da cidadania. é importante seguir as orientações dos arts. (CAVALCANTE. apud SILVA. existem outras atitudes necessárias a serem realizadas nos espaço escolar. 100 apresenta a importância do caráter pedagógico na aplicação da medida de proteção. Esta é uma missão constitucional que a escola deve ministrar. 2008. ao aplicar medidas justas na apuração e resolução dos problemas indisciplinares e infracionais. na realização dos procedimentos legais. 5. . o processo disciplinar. deve ser concebido como um espaço importante “onde se dá a transmissão cultural e a formação para a convivência social. quando o aluno realizar ato infracional grave15. O Estatuto estabelece no art. valores e hábitos” (HUMBERTO SILVA. os alunos se sintam envolvidos por uma teia pedagógica que os ajudará a evitar a repetição de condutas semelhantes e ensinando-lhes uma impagável lição de cidadania.” (GRILO. Ela se encarrega de transmitir culturas às novas gerações.

a cultura e demais direitos devem ser efetivados também na realização das medidas. Isto quer dizer que se faz mister edificar todo um trabalho social e educativo com vistas à promoção e defesa dos direitos humanos e de cidadania. Tendo uma intenção pedagógica ao aplicar as sanções disciplinares. da obrigação de reparar o dano (art. saúde. In CURY. 124. Aplicá-las é propiciar o desenvolvimento da conduta destes seres que merecem todo o cuidado e proteção. oferecer um caminho de dignidade. 121. 119). profissionalização. o lazer. 120). p. guia-se pelo art. p. além de prepará-lo como um indivíduo dotado de potencialidades que merecem ser realizadas e incentivadas. portanto. 342. Por fim. da liberdade assistida (art. Logo. 1990). E os arts. Também ajuda no exercício do inerente potencial dirigido à sociabilidade e cidadania (MAIOR. grifo meu). da internação (art. um desdobramento das potencialidades de autodeterminação e libertação do educando. visam à formação do individuo.. a educação.16 107.. para que contribua para o desenvolvimento da sua maturidade humana. Assim. 417). do regime de semi-liberdade (art. 112 que estabelecerá quais são as medidas sócio-educativas: a da advertência (art. cultura e lazer. atuando nas dimensões pedagógicas. a responsabilidade. a saúde. (VASCONCELOS In CURY. enquanto sujeito de um processo que se renova continuamente. consequentemente. através da escolarização. possibilitará que seus direitos sejam garantidos e . 2008. para que possam realizar-se enquanto sujeitos de direitos e. contribuirá com a emancipação do aluno. a liberdade. Dever-se-á buscar. 118. Portanto. 123. as medidas especiais de proteção e a medidas sócio-educativas [. Verificado e comprovada o ato infracional. 116).122.] devem-se apoiar em procedimentos metodológicos que se pautem por um caráter emancipador em todas as ações empreendidas. Tais medidas têm um caráter pedagógico. o regimento interno e a articulação com as instituições da sociedade devem ser guiados pelos objetivos de incentivar a autonomia. 2008. social e econômica em um mesmo processo. política. 125). São esses momentos inter-relacionados do processo educativo que lhe propiciarão condições básicas de suporte para atingir uma etapa de autonomia na condição da própria existência. 108 e 109. na existência de conflitos escolares. 117). 115). (BRASIL. o esporte. da prestação de serviços à comunidade (art. 110 e 111 tratam das garantias processuais. a justiça e a realização dos direitos no espaço escolar. O próprio nome da medida já reflete a essência e os motivos da sua aplicação: as medidas aplicadas ao autor do ato infracional devem ter por objetivo o desenvolvimento da sua sociabilidade e socialização.

isto é: 16 “A educação é a base da construção da cidadania. sem dúvida. Desse modo. p. Todavia. não trilham os caminhos do direito para afirmar a coerência interna do desejo de uma sociedade democrática. a instituição escolar é o espaço propício e oportuno para consolidar o exercício da cidadania. p. bem como de preparar para o exercício da cidadania. Principalmente. 204. dos docentes e da gestão escolar na realização e concretização do Regimento interno e na articulação com as instâncias jurídicas e sociais corroboram na garantia do direito à educação e na efetivação dos demais direitos humanos. 1°. o passaporte mais seguro da cidadania. a escola precisa pensar no modelo de sociedade que quer construir. p.] que todas as crianças e adolescentes brasileiros tenham uma escola pública gratuita. A cidadania se realiza e se gesta num espaço em que seus direitos são efetivados. In CURY. É pela realização de uma perspectiva jurídica que ofício educacional romperá com uma educação bancária e incumbirá de transformar o mundo. porque o próprio ECA e demais leis. capazes de assegurar a efetivação dos demais direitos humanos. “os professores ajudam a realização dos direitos porque educam a população e a educação é um instrumento fundamental para a população viver o direito. o conhecimento da legislação educacional. atributo da dignidade da pessoa humana. de boa qualidade. 2008. 48): “O acesso pleno à educação é. Por isso. p. enfatizando a importância da democratização da educação no processo de desenvolvimento de uma sociedade. Efetivar o direito à educação significa fundar bases sólidas. grifo nosso). como brota do próprio art. 2008. outorgam “[. p. Logo. principalmente. 28. a participação dos pais.. os problemas de indisciplina e de violência escolar geram empecilhos a uma educação com qualidade.. bem maior objeto de tutela pelos denominados direitos fundamentais. CONCLUSÕES O presente artigo procurou demonstrar o significado do Direito e dos Direitos Humanos na conjectura atual. Permite vencer duas barreiras do acesso aos direitos: a falta de conhecimento das leis e dos direitos e de como fazer vales estes direitos”. Ou como ensina Aquino (1996. 2006. Assegurando os seus direitos. da fatalidade enfim”. para além de uma sobrevivência mínima. grifos do autor). e que seja realmente aberta e democrática. à mercê do destino. In CURY. 56). o direito à educação. da comunidade. cidadã e justa. (SOUZA. capaz. estará cooperando para que forme cidadãos16. Segundo Nancy Cárdia (1995.17 concretizados. apud SILVA. dos discentes. III. da CF”. portanto. 210. de preparar o educando para o pleno e complexo exercício da cidadania” (VASCONCELOS. . uma vez que todos os envolvidos no processo educacional tomam atitudes abusivas.

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