Revista Brasileira de Educação

Número especial Juventude e contemporaneidade Angelina Teixeira Peralva Marilia Pontes Sposito
organizadoras

Mai/Jun/Jul/Ago 1997 Nº 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 Nº 6 ISSN 1413-2478

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Editorial Juventude, tempo e movimentos sociais Alberto Melucci O jovem como modelo cultural Angelina Teixeira Peralva Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil Helena Wendel Abramo Estudos sobre juventude em educação Marilia Pontes Sposito Jovens urbanos pobres: anotações sobre escolaridade e emprego Jerusa Vieira Gomes Escola noturna e jovens Maria Ornélia da Silveira Marques O trabalho, busca de sentido Guy Bajoit, Abraham Franssen O jovem no mercado de trabalho Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins O trabalho como escolha e oportunidade Antonio Chiesi, Alberto Martinelli Juventude temporera: relações sociais no campo chileno depois do dilúvio Gonzalo Falabella

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De estudantes a cidadãos: redes de jovens e participação política Ann Mische Jovens dos anos noventa: à procura de uma política sem “rótulos” Anne Müxel Transgressão, desvio e droga Carlo Buzzi As gangues e a imprensa: a produção de um mito nacional Martín Sánchez-Jankowski Juventude(s) e periferia(s) urbanas Eloisa Guimarães

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Short cuts: histórias de jovens, futebol e condutas de risco Luis Henrique de Toledo
Espaço Aberto Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor: entrevista com François Dubet Angelina Teixeira Peralva, Marilia Pontes Sposito Resenhas Notas de Leitura Resumos/Abstracts Normas para Colaborações Assinaturas

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Editorial

Depois de um período de latência, os estudos sobre juventude reemergem lentamente no cenário acadêmico brasileiro. Com este número, a Revista Brasileira de Educação pretende contribuir para a aceleração dessa tendência. Ela nos parece capital, não somente para a compreensão dos problemas específicos de um grupo etário particular — aquele que as definições institucionais em uso situam na faixa dos 15 aos 24 anos —, mas também para a elucidação de alguns dos mais importantes problemas da atualidade. Em um breve lapso de tempo, mudanças cruciais se impuseram a nós. A rapidez com que se processaram tornou nossa sociedade opaca. A tal ponto, que experimentamos hoje uma aguda consciência do novo, e da obsolescência de uma parte pelo menos das categorias através das quais várias gerações de cientistas sociais e educadores pensaram o mundo. O trabalho, a escola, os valores, a política

constituem elementos centrais dessas transformações, que afetam os jovens, mais do que outras categorias da população, simplesmente porque se trata de uma história que está nascendo com eles. São mudanças gerais, que se observam simultaneamente em diversos lugares, embora cada sociedade as construa sob uma forma própria e de acordo com tradições particulares. E posto que se trata de abrir um debate, onde o jovem apareça a um só tempo como objeto de análise, beneficiário de iniciativas da sociedade civil ou de políticas públicas, conforme trata artigo de Helena Abramo, e revelador de tendências emergentes, pareceu-nos importante trazer a público, além de reflexões sobre o caso brasileiro, outras, capazes de apontar o estado da discussão nos demais países. Ora, o paralelismo em cada um dos campos examinados não deixa de surpreender. Historicamente, a escola se construiu contra o trabalho

infantil e juvenil. Hoje, em um momento reconhecidamente marcado pelo prolongamento geral da esperança da vida escolar, o trabalho paradoxalmente já não se apresenta para o jovem apenas como constrangimento do qual cabe liberá-lo, mas como exigência de autonomia individual. Vários artigos — os de Jerusa Vieira, Heloísa Martins, Ornélia Marques, ou de Chiesi e Martinelli — tratam aqui deste tema. Mas vale talvez destacar que as chances de inserção no mercado de trabalho — e, portanto, de construção dessa autonomia — são diversificadas em decorrência de características da economia e do peso do desemprego, dramático como é o caso da Bélgica, analisado por Guy Bajoit e Abraham Franssem, que dispõe de proteção social, mas onde a sombra do Estado obscurece em parte as chances do indivíduo inventar seu próprio futuro. O caráter aleatório, indeterminado e imprevisível,

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que define um modelo emergente de relação com o trabalho, parece definir também uma nova relação com a política. Enquanto os instrumentos clássicos de uma política representativa (partidos e sindicatos) se debilitam, a política é, não obstante, reinventada, conforme sugerem, a partir de experiências diversas, Alberto Melucci, Gonzalo Fallabela, Anne Müxel e Ann Mische. Em um mundo onde a violência se juveniza, não poderíamos deixar de abordar também esse tema. A partir de survey realizado na Itália em 1992, Carlo Buzzi sugere os

limites das condutas transgressivas da juventude. Martín Sánchez-Jankowski aponta, mais além da realidade material das gangues americana, o papel da imprensa na reconstrução pública desse fenômeno. Eloisa Guimarães e Luis Henrique de Toledo abordam, através das galeras cariocas e da violência no futebol, casos que têm despertado a atenção dos brasileiros. Encerra este número, que se pretende apenas um começo, entrevista com François Dubet. Sociólogo travestido de professor de um colégio público da periferia de

Bordeaux, ele quis saber o que é, na prática, ensinar para adolescentes pobres em uma escola pública de massas. Em todos os casos, não se trata aqui de concluir nada. Os temas aqui abordados são questões em aberto, tratadas sob óticas teóricas e pontos de vista diversos. Nossa intenção foi resgatar a relevância dessa área de estudos e contribuir para uma discussão que nos parece importante e que apenas está começando. Angelina Teixeira Peralva Marilia Pontes Sposito

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Juventude, tempo e movimentos sociais
Alberto Melucci
Universidade degli Studi di Milano

Tradução de Angelina Teixeira Peralva Publicado em: Revista Young. Estocolmo: v. 4, nº 2, 1996, p. 3-14.

As atuais tendências emergentes no âmbito da cultura e da ação juvenil têm que ser entendidas a partir de uma perspectiva macro-sociológica e, simultaneamente, através da consideração de experiências individuais na vida diária. Neste ensaio, tentarei integrar esses dois níveis de análise e proporei que: 1) conflitos e movimentos sociais em sociedades complexas mudam do plano material para o plano simbólico; 2) a experiência do tempo é um problema central, um dilema central; 3) pessoas jovens, e particularmente adolescentes, são atores-chaves do ponto de vista da questão do tempo em sociedades complexas. Da ação efetiva ao desafio simbólico Vivemos em uma sociedade que concebe a si mesma como construída pela ação humana. Em sistemas contemporâneos, a produção material é transformada em produção de signos e de relações sociais. Uma codificação socialmente produzida intervém

na definição do eu, afetando as estruturas biológica e motivacional da ação humana. Ao mesmo tempo, existe uma crescente possibilidade, para os atores sociais, de controlarem as condições de formação e as orientações de suas ações. A experiência é cada vez mais construída por meio de investimentos cognitivos, culturais e materiais. Tais processos, de caráter sistêmico, são diretamente vinculados às transformações, pela produção de recursos que tornam possível a sistemas de informação de alta densidade manterem-se e modificarem-se. A tarefa não é somente da ordem da dominação da natureza e da transformação de matériaprima em mercadoria, mas sim do desenvolvimento da capacidade reflexiva do eu de produzir informação, comunicação, sociabilidade, com um aumento progressivo na intervenção do sistema na sua própria ação e na maneira de percebê-la e representá-la. Podemos mesmo falar de produção da reprodução. Tome-se o exemplo dos processos de socialização: o que foi considerado no passado como transmissão básica de regras e valores da sociedade é

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graças a uma regulação capilar de suas capacidades de ação. nas suas pré-condições e raízes. A ação coletiva de tipo antagonista é uma forma. as quais têm que ser confiáveis e capazes de auto-regulação. Elas afetam as instituições políticas. eles são cada vez mais temporários e sua ação serve de indicador. O que eu quero dizer é que sociedade não é a tradução monolítica de um poder dominante e de regras culturais na vida das pessoas. tempo é uma das categorias básicas através da qual nós construímos nossa experiên- 6 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Nos sistemas comtemporâneos os signos tornaram-se intercambiáveis: o poder apoiase de forma crecente nos códigos que regulam o fluxo de informação. das raízes biológicas. Sem o desenvolvimento das capacidades formais de aprender e agir (aprendendo a aprender). a produção de significados está marcada pela necessidade de controle e regulação sistêmica. a respeito de seus problemas cruciais. a qual. Os indivíduos percebem uma extensão do potencial de ação orientada e significativa de que dispõem. pela sua própria existência. a desafios face aos códigos dominantes que dão forma à experiência humana? Mais apropriado seria falar de redes conflituosas que são formas de produção cultural. Os objetivos instrumentais típicos de ação política não desaparecem. Do ponto de vista do planejamento demográfico e da biogenética o que era considerado reprodução de aspectos naturais de um sistema tornou-se um campo de intervenção social. do comportamento para a pré-condição da ação. Mais uma vez os atores através dos conflitos colocam na ordem do dia a questão dos fins e do significado. que se desloca do conteúdo para o código. A ciência desenvolve a capacidade auto reflexiva de modificação da “natureza interna”. com seus próprios modelos de organização e expressão. porque modernizam a cultura e a organização dessas instituições. criatividade. seja como for. como se fosse uma mensagem enviada à sociedade. transmite uma mensagem para o resto da sociedade. Mas ao mesmo tempo levantam questões obscurecidas pela lógica dominante da eficiência. A maneira pela qual os conflitos se expressam não é. Experiência de tempo Em uma sociedade que está quase que inteiramente construída por nossos investimentos culturais simbólicos. mas também se dão conta de que tal possibilidade lhes escapa. mas tornam-se pontuais. ela lembra um campo interdependente constituído por conflitos e continuamente preenchido por significados culturais opostos.Alberto Melucci agora visto como possibilidade de redefinição e invenção das capacidades “formais” de aprendizado. habilidades cognitivas. Eu chamo essas formas de ação desafios simbólicos. de qualquer forma. e em certa medida. Desafios manifestam-se através de uma reversão de códigos culturais. Isto revela os dois lados da mudança na nossa sociedade. existe um aumento da capacidade social de ação e de intervenção na ação enquanto tal. que afeta suas raízes motivacionais e suas formas de comunicação. ao mesmo tempo sujeitas às maiores pressões por conformidade. e influenciam a seleção de novas elites. Mas pode-se continuar a falar de “movimentos” quando a ação se refere a significados. uma diferenciação pronunciada demanda maior integração e intensificação do controle. e por outro. tendo então basicamente um “caráter formal”. substituíveis. Ao mesmo tempo. Trata-se de uma lógica de meios: requer aplicação e operacionalização de decisões tomadas em nível de aparelhos anônimos e impessoais. a da ação ‘efetiva’. Os sistemas complexos nos quais vivemos constituem redes de informação de alta densidade e têm que contar com um certo grau de autonomia de seus elementos. Por um lado. indivíduos e grupos não poderiam funcionar como terminais de redes de informação. Os atores nesses conflitos são aqueles grupos sociais mais diretamente expostos aos processos que indiquei. Os conflitos se desenvolvem naquelas áreas do sistema mais diretamente expostas aos maiores investimentos simbólicos e informacionais. cognitivas e motivacionais da ação humana.

em uma íntima relação com o tempo. Tempo é uma medida de quantidade: nos ritmos diários de trabalho como nos balancetes anuais das empresas. Há tempos muito difíceis de medir — tempos diluídos e tempos extremamente concentrados. Drogas ocupam um lugar importante em sociedades tradicionais. Existe então uma unidade e uma orientação linear do tempo. e entre os vários níveis dos tempos sociais. adquire sentido em relação ao ponto final: todas as passagens intermediárias são medidas em relação com o final do tempo. a máquina estabelece uma continuidade entre tempo individual e tempo social. mas certamente em uma sociedade rural ou mesmo na sociedade industrial do século XIX. emoções) e tempos exteriores marcados por ritmos diferentes e regulado pelas múltiplas esferas de pertencimento de cada indivíduo. O tempo da máquina é um produto artificial que tem a objetividade de uma coisa. Não há separação entre a droga ritual dos índios americanos e seu papel na vida social e na vida interior dos indivíduos. Isto também significa separações. riqueza das nações ou a salvação da humanidade (um tempo linear que se move em direção a um fim é a última herança dessacralizada de um tempo cristão). A juventude que se situa. A primeira é a máquina. É também uma medida universal que permite comparação e troca de desempenhos e recompensas. podemos perceber nossa distância com respeito a esse modelo porque a diferenciação das nossas experiências do tempo está aumentando. Nas nossas sociedades. Os tempos que nós experimentamos são muito diferentes uns dos outros e às vezes parecem até opostos. Em sistemas mais altamente diferenciados. a descontinuidade tornou-se uma experiência comum. O tempo que a sociedade moderna conhece é medido por máquinas: relógios são máquinas por excelência. interpretando e traduzindo para o resto da sociedade um dos seus dilemas conflituais básicos. propaganda) introduzem na nossa vida diária. marcado somente pelos ciclos do dia e noite. interrupções mais definidas que no passado — muito mais perceptíveis do que em estruturas sociais relativamente homogêneas — entre os diferentes tempos em que nós vivemos. ligado à percepção e experiência dos atores humanos).Juventude. A segunda característica da experiência moderna de tempo é uma orientação finalista: tempo tem direção e o seu significado só se torna inteligível a partir de um ponto final. uma certa proximidade entre experiências subjetivas e tempos sociais. Tais mudanças refletem tendências amplas no sentido de uma extensão artificial das dimensões subjetivas do tempo por meio de estímulos particulares ou de situações construídas. no qual o tempo era considerado em termos de duas referências fundamentais. Essa “fratura” ritual permitida. tempo e movimentos sociais cia. em qualquer cálculo pautado na racionalidade instrumental. o extremo exemplo das drogas representa um sinal dramáti- Revista Brasileira de Educação 7 . Existe particularmente uma clara separação entre tempos interiores (tempos que cada indivíduo vive sua experiência interna. Hoje. gráficos. é parte de uma ordem sagrada e contribui para a reafirmação de um equilíbrio entre a vida social e o espaço assegurado ao indivíduo no grupo. afeições. nascimento e morte) e não mais “subjetivo”(isto é. o tempo se torna uma questão-chave nos conflitos sociais e na mudança social. essa dilatação do tempo subjetivo induzida pela droga. através do dinheiro e do mercado. no entanto. revolução. A máquina cria uma nova dimensão do tempo: não mais “natural” (isto é. a ênfase com que a sociedade industrial tratou a história. Na situação presente. A presença dessas diferentes experiências temporais não é novidade. Aliás. Viemos de um modelo de sociedade. o que o indivíduo experimenta. A própria idéia de um curso da história. biológica e culturalmente. representa um ator crucial. Pense na multiplicidade de tempos que imagens (televisão. o fim da história. existiu uma certa integração. o capitalismo industrial. e o que ocorre nele. as estações. deriva de um modelo de tempo que pressupõe uma orientação para um fim: progresso. mas nos limites de uma ordem que lhes atribui uma função específica. Uma experiência comum de dilatação forçada do tempo interno é produzida por drogas.

Cavalli. 1979. Além disso. Offer.. 1987. Hopkins. Pesquisas psicológicas e psico-sociológicas têm tido uma atenção toda especial durante os últimos anos para com a perspectiva temporal do adolescente (Tromsdorff et al. tanto em um nível coletivo. é o grupo social mais diretamente exposto a estes dilemas. Eles são sinais de uma tensão não resolvida entre os múltiplos tempos da experiência cotidiana. um campo cultural e conflitivo no qual está em jogo o próprio significado da experiência tem- poral. inaugura a juventude e constitui sua fase inicial. 1980. 1996a. um tempo múltiplo e descontínuo indubitavelmente revela seu caráter ‘construído’ de produto cultural. A juventude. onde a comida perde qualquer referência a ciclos sazonais. 1991). 1979. Esta elementar observação é suficiente para ilustrar o entrelaçamento de planos temporais e a importância da dimensão do tempo nesta fase da vida (Levinson. eventos por excelência do tempo natural estão perdendo sua natureza de necessidade biológica. Schave. Montagnar. Não há dúvida que. embora em uma escala menos dramática. ou melhor. Adolescência e tempo Adolescência é a idade na vida em que se começa a enfrentar o tempo como uma dimensão significativa e contraditória da identidade. tornando-se produtos de intervenção médica e social.Alberto Melucci co. A maneira como a experiência do tempo é vivenciada vai depender de fatores cognitivos. dentro da unidade de uma biografia individual e de um “sujeito” da ação dotado de identidade (Melucci. construindo um complexo de pontos de referência para suas ações. a dificuldade em reduzir tempos diferentes para a homogeneidade de uma medida geral. quanto. um aumento de oportunidades artificialmente construídas para viver e experimentar emoções livres dos limites do tempo social: desde o turismo exótico ou experiências de “liberação” do corpo até os paraísos totalitários das seitas neomísticas. Aumenta. 1981 e 1988. 1978. Ricolfi & Sciolla. A fábrica industrial já cancelou o ciclo natural de dia e noite. em primeiro lugar. o que faz do presente uma medida inestimável do significado da experiência de cada um de nós. um tempo de muitas histórias relativamente independentes. emocionais e motivacionais os quais governam o modo como o indivíduo organiza o seu “es- 8 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . 1989). A ambivalência desses fenômenos deve ser sublinhada. 1983. Nuttin. Até o nascimento ou a morte. 1985.. Fabbrini & Melucci. é durante a adolescência que essa relação se torna consciente e assume conotações emocionais. Coleman. Csikzentmihalyi. Por último. 1983. o grupo que os torna visíveis para a sociedade como um todo. por causa de suas condições culturais e biológicas. se a experiência do envelhecimento está sempre relacionada com o tempo. Uma análise em termos de perspectiva temporal considera o tempo como um horizonte no qual o indivíduo ordena suas escolhas e comportamento. Como medir o tempo? Quando será encontrado o significado ‘certo’ para o tempo individual e coletivo? Como podemos preservar nosso passado e preparar o nosso futuro em sociedades complexas? Tais questões sem respostas são alguns dos dilemas básicos com os quais se confronta a vida humana em sociedades complexas. um tempo diferenciado é cada vez mais um tempo sem uma história. 1987. 1980 e 1990. na qual a infância é deixada para trás e os primeiros passos são dados em direção à fase adulta. 1988. Anatrlla. Mas existe também uma acentuação da necessidade de integrar essas diferenças. Mas existe também. Então é também um tempo sem um final definitivo. que nos oferecem um sol tropical ou neve durante todo o ano. Agora todos os outros tempos da natureza estão perdendo sua consistência. Ricci Bitti et al. 1988 e 1991). A diferenciação do tempo produz alguns problemas novos. A definição de tempo torna-se uma questão social. A experiência das estações se dissolve nas mesas de nossas salas de jantar. 1985. A adolescência. acima de tudo. Palmonari. ou em nossas férias. Savin Williams. o mais significativo e ambíguo sintoma de diferença entre tempo externo e tempo interno.

presente ou futuro). a qual era determinada pelo nascimento e se tornava previsível pela história da família e o contexto social. parecem ter se deslocado bem além dos limites biológicos para tornarem-se conotações culturais de amplo significado que os indivíduos assumem como parte de sua personalidade em muitos estágios da vida (Mitterauer. e os projetos de vida passaram mais do que nunca a depender da escolha autônoma do indivíduo. Estilos de roupas. saturação de presença. amplia o limite do imaginário e incorpora ao horizonte simbólico regiões inteiras de experiência que foram previamente determinadas por fatores biológicos. Complexidade e diferenciação parecem abrir o campo do possível a tal ponto que a capacidade individual para empreender ações não se mostra à altura das potencialidades da situação. físicos ou materiais. o grau de investimento emocional em várias situações — tudo se torna meio de organizar a própria biografia e definir a própria identidade. abertura para mudança todos os atributos tradicionais da adolescência como fase de transição. por outro lado. resistência contra qualquer determinação externa dos projetos de vida e desejo de uma certa variabilidade e reversibilidade de escolha. abertura ou fechamento com respeito ao passado. Nesse sentido. Na opinião que prevalece nos dias de hoje. guerra. 1991). Ziehe. possibilidades amplas. cada qual caracterizada por formas específicas de relacionamento. mas raramente envolvia a posição de cada um na vida.Juventude. participação em grupos. satisfação ou frustração. A organização de eventos e sua seqüência. A adolescência é a idade em que a orientação para o futuro prevalece e o futuro é percebido como apresentando um maior número de possibilidades. gêneros musicais. linguagem e regras. colapso econômico). a relação entre eventos externos e internos. transitoriedade. que nossa cultura engendra. contínua ou fragmentada). Nas sociedades do passado. a variedade de cenários nos quais as escolhas podem ser situadas. Esse excesso de possibilidades. ou a direção que cada pessoa atribui para a sua própria experiência do tempo (ex. ou o grau de extensão assumido pelo horizonte temporal para cada indivíduo (ex. Nesse sentido. espaço e cultura. a adolescência parece estender-se acima das definições em termos de idade e começa a coincidir com a suspensão de um compromisso estável. de fato. A pesquisa indica várias tendências. Uma perspectiva temporal aberta corresponde a uma forte orientação para a auto-realização. acima de tudo. Na sociedade contemporânea. preferência por uma orientação direcionada para uma ou outras fases temporais). a tendência aponta no sentido de uma redução dos limites da memória e de se considerar o passado como um fator limitativo. a experiência é cada vez menos uma realidade transmitida e cada vez mais uma realidade construída com representações e relacionamentos: menos algo para se “ter” e mais algo para se “fazer”. 1986. porque a biografia dos dia de hoje tornou-se menos previsível. A perspectiva temporal do adolescente tornouse um tema interessante de pesquisa. mobilidade. tempo e movimentos sociais tar na terra”. a juventude não é mais somente uma condição biológica mas uma definição cultural. a relativa incerteza da idade é multiplicada por outros tipos de incerteza que derivam simplesmente dessa ampliação de perspectivas: a disponibilidade de possibilidades sociais. atitudes relacionadas com várias fases temporais podem ser levadas em consideração (ex. com um tipo de aproximação nômade em relação ao tempo. Em comparação com o passado. Para o adolescente moderno. funcionam como linguagens temporárias e provisórias com as quais o indivíduo se identifica e manda sinais de reconhecimento para outros. a incerteza quanto ao futuro podia ser o resultado de eventos aleatórios e incontroláveis (epidemia. perspectiva ampla ou limitada. A vida social é hoje dividida em múltiplas zonas de experiência. Incerteza. ser jovem parece significar plenitude como o oposto de vazio. Tais resultados de pesquisas sugeririam que a perspectiva temporal do adolescente constitui um ponto de observação favorável para o estudo da maneira pela qual nossa cultura está organizando a experiência do tempo. O adolescente percebe os efeitos dessa ampliação de possibilidades da maneira mais direta atra- Revista Brasileira de Educação 9 . Nesse sentido.

mas tampouco será portador de outro sentido. Presenças como a capacidade de atribuir sentido às próprias ações e de povoar o horizonte temporal com conexões entre tempos e planos de experiências diferentes. como reconhecimento daquilo que fomos e do que podemos nos tornar. devido à uma memória pobre. na sua dureza. a substituição de constructos simbólicos pelo conteúdo material da experiência (tudo pode ser imaginado). a percepção do que está faltando — sentido de perda — criam raízes para que se presencie como algo possível a aceitação do presente e o planejamento do futuro: como responsabilidade para consigo mesmo e para com outros. mas também como limitação. são frágeis e pouco sólidas. Meredith. é uma maneira de salvaguardar a continuidade e a duração. Lawton. com pouca esperança para o futuro como todos os produtos do desencanto. A quantidade de informação que eles mandam e recebem está crescendo em um ritmo sem precedentes. O que acontece com a experiência? Ultrapassada e invadida pelo apelo simbólico da possibilidade. Mas esta des-linearização do tempo revela a singularidade da experiência individual. O tempo individual e cada momento dentro dele não se repete nunca. o ambiente educacional ou de trabalho. uma maneira de evitar que o tempo seja destruído em uma seqüência fragmentada de pontos. Copley. Noonan. isto é. o tempo perde sua finalidade linear e a catástrofe (nuclear. o significado do presente não se encontra no passado. nós nos deparamos com o vazio. Os meios de comunicação. 1975. 1976. Consciência do limite. a abundância de possibilidades e mensagens oferecidas aos adolescentes contribuem todos para debilitar os pontos de referência sobre os quais a identidade era tradicionalmente construída.1986. Nesse sentido. a repetição e a perda do senso de realidade. 1985. Sem atingir-se o limite não pode haver experiência ou comunicação. Continuidade através da mudança Está agora claro que a maneira pela qual os adolescentes constróem sua experiência é mais e mais fragmentada. uma soma de momentos sem tempo. ela ameaça se perder em um presente ilimitado. as novas patologias dos adolescentes. mas o teste de realidade. a pluralidade das participações. Para os adolescentes de hoje a experiência de tempo como possibilidade. Na experiência dos adolescentes de hoje. Os novos sofrimentos. sem raízes. outra finalidade senão aquela que os indivíduos e grupos são capazes de produzir para si mesmos. Não somente ele não retorna em um ciclo repetitivo sem fim. tudo pode ser tentado). uma espera sem fim por Godot. estão relacionadas com o risco de uma dissolução da perspectiva temporal (Laufer. A experiência se dissolve no imaginário. 10 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . como dimensões que compõem o estar-na-terra. nem em um destino final da história. não pode haver ação dotada de significado ou possibilidade de manter uma relação com outros. Selvini Palazzoli. lazer e tempo de consumo geram mensagens para os indivíduos que por sua vez são chamados a recebê-las e a respondê-las com outras mensagens. O passo da mudança. a necessidade de testar limites tornou-se uma condição de sobrevivência do sentido. a reversibilidade de escolhas e decisões (tudo se pode mudar). O tempo pode se tornar um invólucro vazio. relações interpessoais. 1984. ecológica) torna-se uma possibilidade. produz frustração.1989). o cansaço produzido pelo esforço para ultrapassá-lo. A possibilidade de definir uma biografia contínua torna-se cada vez mais incerta. Entrar e sair dessas diferentes formas de participação é mais rápido e mais freqüente do que antes e a quantidade de tempo que os adolescentes investem em cada uma delas é reduzida.Alberto Melucci vés de uma expansão dos campos cognitivo e emocional (tudo pode ser conhecido. Um tempo de possibilidades excessivas torna-se possibilidade sem tempo. tédio e perda de motivação. sem a consciência da perda da existência do outro. Adolescentes pertencem a uma pluralidade de redes e de grupos. simplesmente um mero fantasma da duração. uma chance fantasma. Exatamente ali onde a abundância. a plenitude e capacidade de realização parecem reinar.

Deve ao invés disto ser baseado na capacidade interior de “mudar a forma” de redefinir-se a si mesmo repetidas vezes no presente. Herbert. 1981. Tornar o poder visível é a mais importante tarefa na ordem dos conflitos em nossa sociedade. grupo ou cultura definidos. o tempo como definição pontual da identidade indivídual e coletiva. Somente assim um ciclo de abertura e fechamento pode ser estabelecido. Eles devem ser capazes de abrir e fechar seus canais de comunicação com o mundo exterior para manter vivos seus relacionamentos. Revertendo a definição adulta do tempo. o questionamento sobre limites torna-se um problema fundamental para os adolescentes de hoje. sem serem engolidos por uma vasta quantidade de signos. Tais passagens marcam a evolução dinâmica. revertendo decisões e escolhas. Isso também significa acalentar o presente como experiência única. Desafiando a definição dominante do tempo. Eles revelam o poder escondido atrás da neutralidade técnica da regulação temporal da sociedade. que não pode ser reproduzida. a juventude contemporânea tem que encontrar novos caminhos para vivenciar a experiência fundamental dos limites. como a cadeia de possibilidades torna-se muito ampla comparada com oportunidades atuais de ação e experiência. as metamorfoses da vida pessoal. tempo e movimentos sociais Nomadismo e metamorfose parecem constitutir respostas para essa necessidade de continuidade através da mudança. Eles vivem para todos como receptores sensíveis e perceptivos da cultura contemporânea. 1996b). 1985. A unidade e continuidade da experiência individual não pode ser encontradas em uma identificação fixa com um modelo. os adolescentes sentem que a identidade deve ser enraizada no presente. Considerando o declínio dos ritos de passagem que outrora marcavam os limites entre infância e vida adulta (Van Gennep. através de uma oscilação permanente entre os dois níveis de experiência. os adolescentes simbolicamente contestam as variáveis dominantes de organização do tempo na sociedade. Aprendendo como empreender estas passagens — um problema de escolha.Juventude. Desafiando a definição dominante de tempo Para lidar com tantas flutuações e metamorfoses. Essas exigências alteram os limites entre dentro e fora e apontam para a necessidade de uma maior consciência de si mesmo e responsabilidade para um contato mais estreito com a experiência íntima de cada um. Ação comunicativa O antagonismo dos movimentos juvenis é eminentemente comunicativo do ponto de vista de sua natureza (Melucci. o tempo como uma flecha linear ou como campo de experiência reversível e multidirecional. Nos últimos trinta anos a juventude tem sido um dos atores centrais Revista Brasileira de Educação 11 . A definição e o reconhecimento de limites pessoais e externos é a chave para se mover em qualquer direção: através da comunicação com o exterior e conformidade com as regras do tempo social ou através de uma voz interna que fala com cada pessoa em sua linguagem secreta. incerteza e risco — os adolescentes reativam no resto da sociedade a memória da experiência humana dos limites e da liberdade. 1987) eles próprios expostos a uma pressão crescente da mudança. E fazendo isto. Ainda mais. e no interior da qual cada um se realiza. para abraçar um campo amplo de experiências que não pode ser confinado dentro dos rígidos limites de um pensamento racional. Kett. os dilemas do tempo em uma sociedade complexa: o tempo como medida de mudança para nossas sociedades que necessitam prever e controlar seu desenvolvimento. 1989. Novamente. 1977) e sendo exposto a um novo relacionamento com os adultos (McCormack. eles apelam à sociedade adulta para a sua responsabilidade: a de reconhecer o tempo como uma construção social e de tornar visível o poder social exercido sobre o tempo. os adolescentes anunciam para o resto da sociedade que outras dimensões da experiência humana são possíveis. eles precisam de novas capacidades para contatos imediatos e intuitivos com a realidade.

Movimentos são meios que se expressam através de ações.Alberto Melucci em diferentes ondas de mobilização coletiva: refiro-me a formas de ação inteiramente compostas de jovens. Começando pelo movimento estudantil dos anos 60 é possível traçar a participação juvenil em movimentos sociais através das formas ‘sub-culturais’ de ação coletiva nos anos 70 como os punks. Ela pode se combinar com as duas formas acima (movimentos contemporâneos de juventude fazem grande uso das formas de representação como o teatro. do poder arbitrário que os códigos dominantes sempre pressupõem. a ação coletiva particularmente aquela que envolve os jovens oferece outros códigos simbólicos ao resto da sociedade — códigos que subvertem a lógica dos códigos dominantes. da violência. assim como à participação de pessoas jovens em mobilizações que também envolveram outras categorias sociais. muda as regras da comunicação. elas dividem características comuns que indicam um padrão emergente de movimentos sociais em sociedades complexas. os resultados da ação e a experiência indivídual de novos códigos tendem a coincidir. formas de relaciona- 12 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Pelo que fazem e a maneira como fazem. França e Alemanha ou o movimento da anti-máfia na Itália. Não é que eles não falem palavras. que existe sempre outra saída para o dilema. os movimentos funcionam para o resto da sociedade como um tipo específico de veículo. porque a ação. os movimentos anunciam que outros caminhos estão abertos. A batalha pela mudança já está encarnada na vida e estrutura do grupo. posto que. É possível identificar três modelos de ação comunicativa: a) Profecia: portadora da mensagem de que o possível já é real na experiência direta dos que o proclamam. pós-modernas. E. Profetas sempre falam em nome de terceiros. finalmente. oculta os interesses específicos de um núcleo de poder arbitrário e opressor. através de ondas curtas mas intensas de mobilização de estudantes secundaristas dos anos 80 e começo dos 90 (na França. Nesses sistemas cada vez mais baseados em informação. Novas redes Movimentos juvenis tomam a forma de uma rede de diferentes grupos. por exemplo) e. Mas sua função enquanto intermediários entre os dilemas do sistema e a vida diária das pessoas manifestase principalmente no que fazem: sua mensagem principal está no fato de existirem e agirem. c) Representação: aqui a mensagem toma a forma de uma reprodução simbólica que separa os códigos de seus conteúdos os quais habitualmente os mascaram. mesmo se apresentam diferenças históricas e geográficas com o passar das décadas. Nesse sentido. o vídeo. Nestes três casos. Eles são um laboratório no qual novos modelos culturais. nos movimentos contemporâneos. como os movimentos juvenis se batem para subverter os códigos. os centros sociais juvenis em diferentes países europeus. que eles não usem slogans ou mandem mensagens. fragmentados. dispersos. Espanha e Itália. em lugar de produzir resultados calculáveis. Todas estas formas de ação envolvem pessoas jovens como atores centrais. A profecia é um exemplo notável da contradição a que me referi. também. A ação dos movimentos como símbolo e como comunicação faz implodir a distinção entre o significado instrumental e expressivo da ação. cuja função principal é revelar o que um sistema não expressa por si mesmo: o âmago do silêncio. a mídia). através das mobilizações cívicas nos anos 90 como o anti-racismo no norte da Europa. mas não podem deixar de apresentar-se a si mesmos como modelo da mensagem que proclamam. os movimentos de ocupação de imóveis. que as necessidades dos indivíduos ou grupos não podem ser reduzidas à definição dada pelo poder. Isto também significa afirmar que a solução para o problema relativo à estrutura do poder não é a única possível e mais do que isso. eles difundem culturas e estilos de vida que penetram no mercado ou são institucionalizados. através do papel central da juventude nas mobilizações pacifistas e ambientais dos anos 80. imersos na vida diária. b) Paradoxo: aqui a autoridade do código dominante revela-se através do seu exagero ou da sua inversão.

Tais formas de ação exercem efeitos sobre instituições. Em sistemas onde os signos tornam-se intercambiáveis o poder reside nos códigos. as formas empíricas de mobilização contêm. os atores vivem as exigências contraditórias do sistema como fonte de conflitos. anarquistas. Em um ambiente que favorece a “pobreza” de recursos internos (desemprego. porque os meios através dos quais se criam e distribuem na sociedade possibilidades de identificação estão continuamente mudando e operando em campos variados. tempo e movimentos sociais mento. a tentativa de controlar uma parte das organizações políticas e de transformar grupos juvenis em agências para políticas juvenis e uma orientação conflituosa. Tratase de uma mudança morfológica que nos força a redefinir as categorias analíticas de atores coletivos. formando as novas elites. A natureza precária da juventude coloca para a sociedade a questão do tempo. Se os conflitos se expressam em termos de recursos simbólicos. os atores considerados não podem ser estáveis. A ação coletiva antagonista é uma “forma” que. Sua voz é ouvida com dificuldade porque fala pelo particular. Objetivos com cer- teza existem. não é a da ação “efetiva”. para dispor de um tempo que não se pode medir somente em termos de objetivos instrumentais. A hipótese de conflitos sistêmicos antagônicos pode se manter se preservamos a idéia de um campo sistêmico ou de um espaço no qual os atores podem variar. mas eles são esporádicos e até certo ponto substituíveis. os jovens perguntam para onde estamos indo e por quê. pela sua própria existência. Segundo. desintegração social. tornando provisórias decisões profissionais e existenciais. Revela-se pelo modelo da condição juvenil um apelo mais geral: o direito de fazer retroceder o relógio da vida. numerosas dimensões. etc) a expressiva marginalidade da contra-cultura. mas porque assumem culturalmente a característica juvenil através da mudança e da transitoriedade. como vimos. Estas redes emergem somente de modo esporádico em resposta a problemas específicos. Primeiramente. pela maneira como se estrutura.Juventude. da doença mental. A juventude deixa de ser uma condição biológica e se torna uma definição simbólica. Evapora-se na pura exibição de signos (variedade de tribos metropolitanas) produz a profissionalização pelo mercado de recursos culturais inovadores e. não o fazem durante a vida inteira e não estão permanentemente enraizados em uma categoria social única. Enquanto nós aplicamos e executamos o que um poder anônimo decretou. O desafio vem através da inversão de códigos culturais e é por isso eminentemente “formal“. A maneira pela qual o conflito se manifesta. Mas através de certos aspectos da ação a juventude sinaliza um problema relacionado não somente com as suas próprias condições de vida mas também com os meios de produção e distribuição de recursos de significado. no entanto. imigração) este último componente não pode ser bem sucedido na combinação com outros e o “movimento” juvenil se divide. modernizando seu pensamento e organização. contra sistemas de regulação que penetram na área da “natureza interna”. às vezes revolucionários. nos ordenadores dos fluxos de informação. do desabrigo. declina na marginalidade das drogas. exigindo o direito de definirem a si mesmos contra aos critérios de identificação impostos de fora. Os movimentos de jovens dividem-se entre o radicalismo político e a violência de alguns grupos extremistas (às vezes grupos de direita. de forma ainda mais trágica. As pessoas não são jovens apenas pela idade. Mas ao mesmo tempo. O campo é definido pelos problemas e diferentes os atores que o ocupam expõem para toda a sociedade questões relacionadas com o sistema na sua totalidade e não só com um grupo ou uma categoria social. Se compararmos agora informações relativas a grupos de jovens em diferentes países europeus e as diferentes ondas de mobilização mencionadas acima não é difícil encontrar elementos deste sistema de ação. pontos de vista alternativos são testados e colocados em prática. que toma a forma de um desafio cultural aos códigos dominantes. Quando a demo- Revista Brasileira de Educação 13 . Evidentemente. envia sua mensagem. Os jovens se mobilizam para retomar o controle sobre suas próprias ações. suscitam questões para as quais não há espaço.

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Ele aprendia as coisas que era necessário saber. do mesmo modo como o caráter inespecífico da relação entre adultos e crianças na Idade Média (quase que reduzida à sua dimensão biológica. como objetos de uma ação educativa. e inseparável do lento processo de constituição da modernidade. não são fenômeno puramente natural. conforme relembram François Dubet e Danilo Martuccelli (1996) ao comparar o ideal educativo da III República na França a uma paidéia funcionalista. “A transmissão de valores e saberes. e pode-se dizer que. A criança se afastava rapidamente de seus pais. O trabalho de Philippe Ariès (1960) constitui provavelmente o marco mais importante no sentido dessa tomada de consciência. portanto.) asseguradas pela família.O jovem como modelo cultural Angelina Peralva Faculdade de Educação. ou seja naquilo que ela teve de intrinsecamente educativo.. 6) o tipo particular de vínculo que liga adultos e crianças nas eras moderna e pré-moderna. função da especificidade biológica da fragilidade infantil) se opõe ao caráter voluntário da ação socializadora característica da modernidade.” A noção de aprendizado. ajudando os adultos a fazê-las. ele distingue também (Ariès. durante séculos. prefácio. já estivessem presentes na antigüidade clássica. A perspectiva de Ariès não é evolucionista. sublinhada no texto original que acabo de citar. Ele sabe e afirma que a especificidade da juventude foi reconhecida em outros tempos Revista Brasileira de Educação 15 . Pouco importa que a consciência da especificidade da infância e da juventude. e de forma mais geral a socialização da criança não eram (. datado. Ao afirmar o caráter tardio da emergência do sentimento de infância e sua natureza eminentemente moderna. nem controladas por ela. a educação foi assegurada pelo aprendizado graças à coexistência da criança ou do jovem e dos adultos. do ponto de vista do que ela implicou em termos de ação voluntária sobre os costumes e os comportamentos. a qual inspirou toda uma série de trabalhos capitais sobre a ordem moderna.. embora ancoradas no desenvolvimento bio-psíquico dos indivíduos. 1973. École des Hautes Études en Sciences Sociales Da cristalização histórica das idades da vida Nós sabemos hoje que as idades da vida. mas social e histórico. Universidade de São Paulo Centre d’Analyse et d’Intervention Sociologiques. opõe-se à de socialização.

da aristocracia e da burguesia em direção às classes populares. Nesse sentido. como nos mostram todos esses autores. de cima para baixo. Sabemos o quanto. Norbert Elias (1973. indissociavelmente. que a racionalidade moderna se torna também imperativo universal. Também a consciência da infância e da puberdade são inseparáveis da consciência da sexualidade infantil e juvenil (sexualidades desviantes) e da constituição de um dispositivo científico — dispositivo de saber — que pretende produzir efeitos de ordenamento sobre os costumes e os comportamentos (1976). Também para Foucault educação e ordem são faces complementares do dispositivo intrínseco à racionalidade moderna. mais do que nunca. revela também a particularidade do vínculo social através do qual a juventude aparece como configuração própria da experiência moderna. Ela emerge. porque se vincula também. se esta se expressa durante muito tempo apenas através de transformações imprecisas e fragmentárias no plano da mentalidade das elites. primeiro. situam-se no âmago dos processos sociais constitutivos de um aparelho de poder renovado. tem por objeto a educação dos jovens. que a escola condensa (1975). anteriores à era medieval. a civilização dos costumes é um elemento crucial constitutivo de uma ordem moderna pacificada. aos processos históricos de construção da democracia. a mistura e a indiferenciação dos grupos etários. de forma voluntária e sistemática. As técnicas disciplinares. com uma mais nítida separação entre o espaço familiar e o mundo exterior. escapando à iniciativa aleatória e intermitente da sociedade civil (Furet et Ozouf. publicado pela primeira vez em 1530. do mesmo modo como o aprendizado supunha. precede essa representação propriamente social e é discutida por Ariès (1973) no primeiro tópico do capítulo dedicado à análise da emergência do sentimento de infância. como parte de uma cosmogonia. múltiplas dimensões da proteção do indivíduo. é também porque esse problema durante muito tempo escapa à esfera da ação do Estado. para Elias. Mas ao opor esses dois momentos da história ocidental. ao contrário. justamente intitulado “as idades da vida”. entre elas e sobretudo a educação. transformações essenciais no âmbito da família e em primeiro lugar da família burguesa. Escolarização e sentimento familiar se desenvolvem Uma representação natural das idades da vida. diz Ariès (1973). É a partir do momento em que o Estado toma a si. do ponto de vista da particularidade de suas atitudes com respeito à infância e à juventude. podem ser relidos à luz dessa perspectiva aberta por ele. e uma redefinição do lugar da criança no interior da família. é quando a escola se torna. que supõe a separação entre seres adultos e seres em formação. a cristalização social das idades da vida se especifica como elemento da consciência moderna1 . que de certo modo qualifica o lugar que ela virá posteriormente a ocupar na sociedade adulta. Se a difusão é lenta e progressiva. 1 16 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . publicado pela primeira vez em 1939. o período áureo da experiência moderna é sem dúvida a era industrial. se as camadas populares durante muito tempo escapam às injunções da racionalidade moderna. como seu nome indica. alguns anteriores. e cujo autor é Erasmo de Rotterdam: tratado que. Em seu estudo sobre a civilização dos costumes. Os processos através dos quais ocorre a cristalização social das idades da vida são múltiplos e convergentes. Interessa menos aqui retraçar as diferentes etapas dessa história (que é parte integrante do saber contemporâneo sobre a ordem moderna) que relembrar que a difusão desses novos mecanismos de ordenamento do mundo ocorre. 1977). A criança se torna objeto de atenção particular e alvo de um projeto educativo individualizado. Textos básicos do pensamento contemporâneo.Angelina Peralva e em outras sociedades. 70) remete a um período situado entre 1525 e 1550 o aparecimento do termo “civilidade” em sua acepção moderna e atribui sua difusão ao imenso sucesso de público encontrado por um pequeno tratado. com a escolarização. instituição definitivamente obrigatória e universal. Supõem. 78. no século XIX. Nesse momento. outros posteriores a Ariès. De civilitate morum puerilium.

Desse ponto de vista também. a experiência das sociedades industriais no século XIX introduz elementos novos que aceleram essas transformações históricas. mas sobretudo redefinem o processo social de cristalização das idades. Desde então a regulamentação e a limitação do trabalho das crianças transformam-se em objetivo comum do discurso higienista das elites (Perrot. são freqüentemente apresentados na literatura patronal como ‘indóceis. tornando-as objeto de uma ação socializadora sistemática por parte do Estado. mentirosos. ela tende a subtrair segmentos progressivamente mais amplos da população infantil às injunções do trabalho. “Na maior parte dos outros ofícios (a tipografia por exemplo). mais essa assertiva é verdadeira. Quanto mais importante é a presença do Estado na esfera educativa. Mais do que isso. 1993). da mesma forma que no passado. ao passo que seus antecessores eram ‘exatos. ao longo do tempo. as formas de inserção da criança no mundo do trabalho se degradam. 1977) e do movimento operário nascente. Esses aprendizes de um gênero novo. Em segundo lugar. ela termina por se tornar. 255). O aprendizado. as modalidades tradicionais de aprendizado se restringem e o aprendizado de modo geral se decompõe. Primeiro. forma geral de iniciação ao trabalho que selava precocemente o fim da infância e marcava a entrada na vida adulta. Na França. a criança só efetua as tarefas subalternas que um aprendiz outrora teria considerado indignas dele: é chamada burrinho de carga. era praticado. e sobretudo a partir do segundo pós-guerra. por outro. que passa cada vez mais a depender do Estado enquanto mediador dos dispositivos que lhe asseguram a reprodução social. o verdadeiro “suporte” da família contemporânea (Singly. o aprendizado se faz sem contrato e na prática. Destacando sua presença maciça na manufatura e na indústria. que altera de maneira importante a organização familiar e os modos de vida no seio das camadas populares. Revista Brasileira de Educação 17 . durante o Segundo Império. mas uma categoria administrativa — vale dizer jurídica e institucional. diz Ariès (1973. 21-22) observa que. em Paris. Marie-France Morel (1977.O jovem como modelo cultural como dimensões complementares e contraditórias da experiência individual: por um lado. Nesse sentido. enviar a criança ao colégio traduz a atenção particular de que ela passa a ser objeto no seio da família. ainda que abrigando fortes diferenças sociais no seu interior (Touraine. sem tradição de ofício. 1993). contribuindo com sua lógica própria para a modulação social das idades da vida. indiscretos. ao fim do século XIX. consolida o processo de escolarização das crianças das classes populares. a 12 horas o dos adolescentes entre 12 e 16 anos. cuidadosos e habilidosos em seu ofício’. essa separação necessária é contraditória com o sentimento de família nascente e com a nova importância assumida pelos vínculos afetivos na estruturação das relações familiares. Marie-France Morel explica isso como o resultado da miséria das famílias populares urbanas. redimensionando-as. Mas é a Terceira República que. a cristalização social das idades supõe uma progressiva exclusão da criança do mundo do trabalho. institucionalizando as diferentes fases da vida por efeito da ação do Estado.” Por outro lado. As crianças percebem uma remuneração — coisa que os pais apreciam — mas não recebem uma verdadeira formação profissional. Um desses elementos é a generalização do trabalho assalariado na manufatura e na indústria nascente. grosseiros e algumas vezes insolentes’. só os ofícios de maior prestígio e melhor remunerados continuam a praticá-lo. assíduos. em todas as camadas da população. À medida que a escolarização se difunde. que rapidamente tornou indispensável a contribuição do magro salário infantil (um terço a um quarto do salário adulto). o que é o caso na experiência francesa. a lei obriga os patrões a oferecerem educação a seus jovens trabalhadores. A escolarização avança contra o trabalho. retardando a entrada na idade adulta. a lei de 1841 limita a oito horas o trabalho das crianças entre 8 e 12 anos. Ao mesmo tempo. a definição da infância e da juventude enquanto fases particulares da vida torna-se não apenas uma construção cultural.

de forma a evitar que ele seja devastado e destruído pela onda de recémchegados que o invade a cada nova geração. Já no prefácio de Between Past and Future. sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social. pelas gerações adultas. Se as formas do desvio variam. as três. conforme Matza (1961:106). ela toma partido e formula sua inquietação: “O testamento. através da afirmação conquistadora da renovação enquanto valor) e o fundamento normativo da ordem moderna. ao contrário. sem destruir. o radicalismo estudantil e a tradição delinqüente incidissem sobre campos diferentes da prática social.) A especificidade portanto da educação no mundo moderno é que ela é e deve ser intrinsecamente conservadora. eles assumem a responsabilidade pela vida e pelo desenvolvimento da criança. é claro.” (Grifo meu. ainda que de maneiras diversas. Sem testamento ou.. que transmite e conserva.Angelina Peralva Fases da vida e ordem moderna Uma vez dotadas de especificidade própria. tradução minha a partir da edição francesa. atribui um passado ao futuro. 41) dirá da educação que ela é “a ação exercida. por exemplo. intrínseca à modernidade. Ele rejeita os sentimentos burgueses de método e rotina. Tal hierarquia constróise sobre a base de uma tensão. Assim. mas tão somente o devir eterno do mundo e dentro dele o ciclo biológico dos seres vivos. que indica onde se encontram os tesouros e qual é seu valor — tudo indica que nenhuma continuidade no tempo pode ser definida e conseqüentemente não é possível existir. em sua análise das tradições ocultas da juventude. umas em relação às outras. tinham forte apelo entre a juventude e eram “especificamente antiburguesas”. Como Hannah Arendt. que resiste à ação socializadora. Em um certo sentido. definindo o lugar no mundo de cada idade da vida. a primazia do passado enquanto elemento de significação do futuro. Ao educá-los. Concepção que está na origem de uma noção mágica da sociologia. isto é à ordem social já constituída. os elementos de transformação e modernização inerentes à vida moderna. na verdade o primeiro ensaio da coletânea. mas também pela continuidade do mundo. Mas o mundo também tem necessidade de proteção. “O delinqüente. essa responsabilidade pelo desenvolvimento da criança vai contra o mundo: a criança precisa ser particularmente protegida e cuidada para evitar que o mundo possa destruí-la. os pais não somente deram a vida a seus filhos. nem passado nem futuro. domesticar. que afirma. particular- 18 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . orientação para o futuro. entre uma orientação definida pela lógica da modernização (portanto. que diz ao herdeiro aquilo que será legitimamente seu. as fases da vida não se tornam apenas autônomas. Hannah Arendt dedicou alguns dos seus mais belos ensaios à análise desse dilema. sem tradição — que escolhe e nomeia.” (1972. 238-239): “com a concepção e o nascimento. em função de níveis distintos de estratificação social e cultural. que se desvia em relação a um certo padrão normativo. embora talvez de forma mais radical e mais dura.) O velho se impõe sobre o novo.d. mas ele os viola. para elucidar a metáfora. Cabe ao passado. humanamente falando. eles ao mesmo tempo os introduziram em um mundo. embora a tradição boêmia. 14) Essa perspectiva define diretamente para ela o sentido do labor educativo. conforme propôs David Matza (1961). Permanecem interdependentes e mesmo hierarquizadas. ainda que não sempre em suas modalidades extremas. parte considerável da sociologia da juventude constituir-se-á então como uma sociologia do desvio: jovem é aquilo ou aquele que se integra mal. é inerente à experiência juvenil. o desvio enquanto tal. senão da própria sociologia. não denuncia os dispositvos da propriedade burguesa. Essas duas responsabilidades não coincidem de modo algum e podem mesmo entrar em conflito. de socialização. explicitado nesta passagem extraordinária de A crise da educação(1972. o passado informa o futuro e essa definição cultural da ordem moderna define também as relações entre adultos e jovens. Durkheim (s.” (Grifado no original. Não por acaso. que inspirará toda uma linhagem de sociólogos — e muito especialmente os sociólogos da juventude — a noção.

constituem a outra face dessa moeda. simultaneamente. Aliás. Tampouco os recortes classistas fogem a essa oposição estrutural de tipo intergeracional. Em artigo anterior. Já não se trata aí do jovem cujo desvio é necessário prevenir ou mesmo punir. se o jovem não constitui uma categoria exclusiva dos desviantes.” (Matza. embora o in- teracionismo tenha renovado profundamente as formas de perceber o desvio. uma ordem moral e normativa e o desvio. ela perde nesse contexto sua dimensão juvenil estrito senso. 1961. encarnando tudo aquilo que. que representa o mais importante exemplo do radicalismo moderno. num contexto definido em termos de interações. A ordem social é. o sentimento de insegurança a ele freqüentemente associado no imaginário adulto. Gérard Mauger (1991) dirá. sobretudo norte-americano. A atitude boêmia com relação aos dispositivos da propriedade burguesa é tipicamente de indiferença. se interroga sobre as técnicas empregadas pelos jovens para neutralizar o inevitável sentimento de culpabilidade que experimentariam ao transgredir valores convencionais. E.. podese dizer mesmo central. para quem os atores institucionais comportam-se de maneira muito mais flexível e laxista quando se trata de punir o desvio em jovens originários de classes médias ou abastadas do que quando se trata de jovens oriundos das classes populares. (. 106) Embora a contribuição do funcionalismo. de passagem. e particularmente o esgotamento da ordem industrial inviabilizaram (Dubet. juntamente com Gresham Sykes (1957). que o sentimento de insegurança inspirado pelos jovens não pode ser reduzido a um efeito mecânico do crescimento da delinqüência juvenil. fato excepcional e objeto a ser explicado — mas também fato inscrito no interior de uma relação intergeracional. o temor suscitado pelo jovem. seja de importância inegável. também muito conhecido. nessa perspectiva. mas cada uma seguiu uma linha de ataque algo diferente. Nessa perspectiva. 1987). de tipo profissional e com capacidade de integração do jovem nas práticas criminosas.O jovem como modelo cultural mente quando eles se manifestam no interior do sistema escolar. ele não rompe com a estrutura básica do raciocínio funcionalista. o próprio David Matza. é difícil também não reconhecer o aspecto quase caricatural de uma sociologia para a qual valores e arcabouço normativo da ordem social constituem. Vale dizer. definida em termos de interação. o foco primário do ataque radical foi o sistema capitalista de dominação política e econômica e o papel imperialista alegadamente desempenhado por tais sistemas nos assuntos internacionais... (. O ator goffmaniano é extremamente convencional e para Becker (1985) as próprias normas são produzidas por empresários da moral. Solomon Kobrin (1951) registra. para a compreensão das práticas desviantes da juventude. vemos que cada tradição subterrânea foi hostil à ordem burguesa. porque lança raízes mais amplamente no conjunto de representações sociais que cada sociedade e cada época constróem sobre a sua própria juventude. mas daquele que ameaça o adulto indefeso. quer se trate dos prolongamentos dessa temática tal como se manifesta na discussão sobre as subculturas Revista Brasileira de Educação 19 . Assim. Quer se trate de uma dominação de classe travestida através de categorias administrativas e da ação do Estado.)Particularmente nas variedades do marxismo revolucionário. definida pela oposição entre norma e desvio. constitui com certeza uma categoria importante. Embora a delinqüência do jovem esteja presente.) Nesse sentido. nas representações sociais do desvio.. em sua vida. sobretudo deslocando uma problemática até então definida em termos motivacionais para uma outra. mas o a priori. como quer Chamboredon (1971). este já não consegue controlar. não categorias de análise. quer se trate de uma socialização de classe que as transformações históricas da sociedade. que a delinqüência propriamente juvenil inexiste em áreas fortemente controladas por uma criminalidade adulta estável. que os temas da ordem e da normatividade estão longe de ser um problema exclusivo do funcionalismo. observação importante. através de um número considerável de estudos empíricos. a partir do qual a análise será desenvolvida. embora horrorizada com a dimensão mercantil comumente associada a esses dispositivos.

São duas faces do mesmo problema: é o engajamento político dos jovens que revela o fosso entre as gerações. no bojo de um movimento operário nascente. ou por mudança excessivamente rápida. no bojo da aceleração das transformações contemporâneas e hoje só se mantém na ótica da crise ou de uma reação conservadora. impossibilita hoje paradoxalmente a emergência de uma consciência geracional. 1979. cristalizou-se em torno da idéia de geração. a aceleração. dessas transformações que constituiu um fosso entre as gerações e deu-lhes a brusca consciência de suas identidades geracionais. Quer o passado imprima ao futuro o seu significado. Foi. Como para Hannah Arendt (mas também como para Tocqueville que Hannah Arendt evoca). (Mead. e à juventude dessa forma de luta. alimentadas por enteléquias comple- 20 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Nos termos em que foi originalmente formulada por Mannheim (1990). A ruptura com uma problemática fortemente dominada pelos temas da ordem e do desvio. 66-67). já não há também possibilidade de cristalização de identidades geracionais diferenciadas. na sua observância. já havia sido considerada por Mannheim (1990. de Margaret Mead (1979). ela havia significado uma valorização do novo na área da sociologia do conhecimento. de resto. como seus pais e os senhores de outrora. no centro da análise empreendida por Marialice Foracchi (1964) sobre o papel do estudante na transformação da sociedade brasileira. para Mead (1979). tinha como subtítulo a Study of the Generation Gap. o passado não mais iluminando o futuro. um único elemento comum: o fato de ser uma expressão política juvenil. dizia ele. “a prova contrária de que a aceleração da dinâmica social é a causa da entrada em atividade da potencialidade de criação de novos impulsos de geração. diz Mead.Angelina Peralva juvenis. que para Mead constituíram o fosso entre as gerações. o binômio ordem social/socialização permanece inteiro enquanto categoria interpretativa central. invocando sua própria juventude para compreender a juventude atual. alterando as relações entre elas. justamente. A juventude não é apenas vigiada e desviante: sua marginalidade inova e transforma (Perrot. Culture and Commitment. enquanto tal. É o que parece estar ocorrendo agora: o prosseguimento em ritmo acelerado das mesmas transformações históricas. na ruptura com relação a ela. eles podem proceder por introspecção. ou por mudança excessivamente lenta. Esse engajamento público maciço a que se assiste então nos mais diferentes países tem. ou na sua transformação. É preciso. Significativamente a juventude da greve historiada por Michelle Perrot (1984) refere-se ao mesmo tempo ao caráter violento das greves protagonizadas por jovens no século XIX. Tal questão. 1986). e do lugar dos grupos etários e de suas responsabilidades respectivas na preservação dessa ordem. reconhecer que os fundamentos da sociologia da juventude estão originalmente ligados a uma representação da ordem social. “Temos”. pelos mesmos motivos. a consciência “caminha nas trevas”: “enquanto os adultos pensarem que. eles estarão perdidos”. A noção de geração estará. no fato de que comunidades profundamente estáveis ou que se transformam pelo menos muito lentamente — como o mundo camponês — não conhecem o fenômeno das unidades de geração que se destacam. quer o futuro se imponha ao passado como perspectiva de renovação. sempre subculturas de classe. Se a tensão se dissolve. Renasce nos anos 60. Des-ordem na representação social do ciclo da vida Essa estrutura de oposições significativas que deu abrigo a uma sociologia da juventude desaparece ou se dissolve. 93) A consciência da identidade geracional deriva portanto de uma tensão entre duas ordens de significados expressos por gerações diferentes e é tanto mais forte quanto mais forte a própria tensão. em meio aos debates sobre o engajamento político da juventude. não obstante.

“O modelo tradicional de saída definitiva da atividade. contribuindo para a multiplicação e a diversificação das modalidades possíveis de saída precoce do mercado de trabalho. também a passagem direta à aposentadoria tornou-se minoritária: entre 1980 e 1984. Os jovens entram mais tardiamente no mercado de trabalho. As transformações nas relações de trabalho e o prolongamento da escolarização são provavelmente as mais importantes. a distribuição do trabalho ao longo do ciclo da vida sofreu mudanças significativas nos últimos vinte anos. Ali. a cristalização geracional se dissolve pela dissolução da oposição entre o passado e o futuro. enquanto os adultos saem mais cedo. a idade adulta trabalha e a velhice tem direito ao repouso.” Em 1988. cedendo lugar a um tempo funcionalmente diferenciado. que faixas etárias diferentes se seguem.5% dos ativos passavam diretamente da atividade à aposentadoria: 35% vinham do sistema de pré-aposentadoria e 20% do seguro desemprego.) Portanto. graças a uma observação mais atenta.” (Grifo meu. maiores são as chances de que situações de geração determinadas reajam às mudanças com sua própria ‘enteléquia’ a partir de sua nova situação de geração.. As aposentadorias contribuíram portanto para a cronologização do percurso etário. O tempo linear aparentemente se esgota.O jovem como modelo cultural tamente novas. por outras vias que não a da aposentadoria. contemporâneos. somente 26. porque as novas gerações crescem em meio a transformações contínuas de gradação invisível. a acentuar o peso dos critérios cronológicos entre as referências que marcam os limites e balizam as transições entre uma idade e outra do ciclo da vida. podemos talvez perceber. mas sem conseguir alcançar a formação de novas enteléquias de geração e princípios estruturadores correspondentes. Importantes mudanças sociais e culturais incidem sobre as representações relativas à especificidade das fases do ciclo vital.” Partindo da constatação da queda brutal dos índices de atividade na faixa de 55 a 64 anos na maioria dos países desenvolvidos. A incidência da transformação das relações de trabalho sobre a representação social do ciclo da vida é naturalmente mais visível ali onde a ação sistemática do Estado mais fortemente contribuiu para institucionalizá-las. Na Alemanha. os próprios critérios de atribuições de pensões por invalidez foram modificados para fazer face às novas injunções de funcionalidade do trabalhador assalariado em relação ao mercado de trabalho. e coexistem em sua maneira de reagir. exatamente em um momento em que o ciclo biológico também se alterou. doravante marcado essencialmen- Revista Brasileira de Educação 21 . exatamente escalonadas.. com exceção da Suécia e do Japão. conforme sugerem alguns autores. inclusive Alberto Melucci em artigo publicado neste número. pelo prolongamento da esperança de vida. Isso acarretou ao mesmo tempo um envelhecimento demográfico e um envelhecimento médio da força de trabalho. a Alemanha. Essas alterações não são inócuas. Por outro lado. Nós. “O desenvolvimento dos sistemas de aposentadoria ajudou. na França. 177): “Estamos assistindo a um remanejamento profundo da transição da atividade para a aposentadoria. que parece anunciar uma desinstitucionalização do modelo do ciclo de vida ternário. tornou-se mesmo claramente minoritário para três países: a França. Guillemard (1995. O futuro se torna presente e absorve o passado. elas incidem diretamente sobre a representação social do ciclo da vida.) Assim. os Países Baixos. quanto mais o ritmo da dinâmica sócio-intelectual se acelera. Este último ordena o percurso etário em três tempos sucessivos com funções bem distintas: a juventude se forma. que implicava simultaneamente um ingresso no sistema de aposentadoria. Além disso. um ritmo excessivamente rápido pode conduzir a um recobrimento dos germes das enteléquias das gerações uns pelos outros. juntamente com outras políticas sociais (a educação entre outras). 179) constata que isso acarretou uma modificação na arquitetura dos dispositivos institucionais que regulam a saída definitiva da atividade econômica. alterando-as profundamente. o que é o caso na experiência das social-democracias européias. (. metade dos que se aposentavam vinham de um regime de pensão por invalidez. conforme observa Anne- Marie Guillemard (1995.

Hoje. entrou em estado de obsolescência. se recorrermos às categorias de Mead (1979). particularmente no que se refere às responsabilidades respectivas e à lógica das reciprocidades entre os diferentes grupos etários. “Não se pode (. os modos de acesso à maturidade que se encontram modificados. Passa-se de referências cronológicas a referências funcionais para balizar os limites entre uma idade e outra. ao mesmo tempo. a descronologização do percurso etário induz um ordenamento impreciso.” (Guillemard. constitui apenas um dos indicadores das transformações mais gerais do mundo contemporâneo.) tratar essas transformações da adolescência como um simples alongamento (modelo do postergamento ou do sursis). no sentido de um aprendizado comum rea- “Assim. “O tempo imediato.) prevalece. sob a influência da reestruturação da proteção social. ligada às transformações demográficas gerais. nem como uma simples redefinição do perído. Vários indícios apontam para um modo de ordenamento cultural que seria hoje. mas também cultural. carro ou moto. sabe-se que qualquer critério de idade para o exercício.” Não se trata de fenômeno puramente social. o ciclo de vida ternário sofre.” Essa definição institucional do percurso etário tinha como corolário a sua normatização e a sua forte previsibilidade.. para a des-organização do modelo terná- rio do ciclo da vida. (Chamboredon. ao voto. co-fundador da ordem moderna.” (Guillemard.. Embora nossa consciência dessas transformações seja ainda extremamente recente. 189-192) A tendência generalizada a um prolongamento da escolaridade também estaria contribuindo para uma desconexão dos atributos da maturidade e. Esse dispositivo legislativo introduz o princípio de um direito ao trabalho e ao prolongamento da atividade ao qual não pode ser oposto nenhum critério etário.. São a estrutura e a composição dos atributos sociais da juventude. conforme foi dito.2 Por outro lado. 1995. Estaríamos evoluindo de um ‘tempo administrado’ para uma ‘recusa do tempo’. Entre as camadas populares a separação entre sexualidade precoce e reprodução. marcada por um recuo do critério da idade cronológica e a prevalência de critérios funcionais. após 40 anos. Somente esses últimos critérios autorizam doravante legitimamente o empregador americano a despedir ou a aposentar.Angelina Peralva te pelas idades cronológicas — a idade obrigatória da escolaridade e a idade mínima fixada pelo fim da escolaridade que delimita a infância e a adolescência. isso não ocorre de maneira homogênea em todas as camadas da população. no quadro da emenda à lei contra a discriminação no emprego. vista sob o prisma do reordenamento funcional das prestações oferecidas pelo Estado no campo da proteção social. uma forma de organização social diferente do percurso etário.. 1995. ao exercício da sexualidade adulta. 20) Mas. conseqüentemente. mais cofigurativo. no caso dos Estados Unidos. 18. etc. a idade fixada para o direito à aposentadoria integral assinalando a entrada na velhice. fundados nas capacidades e desempenhos do trabalhador. Mas essa alteração não é puramene corretiva. à detenção de um meio de locomoção independente. Esboça. Mutação biológica do ciclo da vida: o jovem como modelo cultural A desorganização do modelo ternário do ciclo da vida. nem sempre se faz de modo adequado. 189) 2 22 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . 1995. O desemprego do jovem e a carência de autonomia financeira obrigam muitos a permanecerem durante muito tempo sob o mesmo teto que os pais. Etc. 17. já parece claro que o modelo educativo da socialização. à moradia independente. por critérios de funcionalidade. duas transformações importantes: uma descronologização do ciclo de vida e sua des-estandardização. onde a proteção social se orienta cada vez mais. instantâneo (. portanto. O significado simbólico de certos atributos se altera e certas idades diminuem — a idade do acesso ao relógio. aleatório e não controlável. da atividade profissional foi abolido desde 1986. que já não encontra mais um freio eficiente na definição moral da honra feminina. Isso é particularmente visível no que se refere à atividade econômica. ela tende a tornar-se padrão. onde invalidez e desemprego desempenharam um papel restrito.

” Mais do que isso. La crise de la culture. cujas conseqüências permanecem ainda obscuras para nós (Morin. BECKER. Caxambu. ARENDT. A importância dos meios de comunicação de massa como veículo de integração cultural e o crescimento do consumo de massa contribuem para essa juvenização. Referências bibliográficas ABRAMO. DEBERT. ou préfigurativo como foi o modelo fundado nas utopias de que foi portadora a geração dos anos sessenta. A l’école: sociologie de l’expérience scolaire. O novo significado dos estudos sobre juventude emerge ao que parece desse conjunto de transformações. gêneros e cenas numa representação da sociedade enquanto espetáculo (Abramo. (1985). DURKHEIM. Minas Gerais. Enquanto o adulto vive ainda sob o impacto de um modelo de sociedade que se decompõe. Paris: Fayard. La délinquance juvénile. Philippe. 7. essai de construction d’objet.. Revista Brasileira de Educação 23 . Paris: Plon.” Acrescenta no entanto que seria ilusório pensar que essas mudanças são acompanhadas de uma atitude mais tolerante em relação às idades.) oferecem (.. DUBET.d). Jean-Claude. XII. __________. 12 e 13) observa. ELIAS. Guita Debert (1996. de promessa de futuro que era. “A característica marcante desse processo é a valorização da juventude que é associada a valores e a estilos de vida e não propriamente a um grupo etário específico. XX Encontro Anual da ANPOCS. Guita Grin. (1987). do que pós-figurativo. (1973). La civilisation des moeurs. Revue française de Sociologie. (GT: Cultura e Política).) um quadro mais positivo do envelhecimento. em modelo cultural do presente. p. (1972). como o foi o modelo da modernidade ocidental. Mas não se trata apenas de aceleração da mudança social. que passa a ser concebido como uma experiência heterogênea em que a doença física e o declínio mental. O estudante e a transformação da sociedade brasileira. 1994). (1996). São Paulo. Trata-se também de uma verdadeira mutação biológica do ciclo da vida. __________. (1973). cujas categorias de inteligibilidade ele ajuda a construir. (1996). O envelhecimento postergado transforma o jovem. que já dobrou em menos de um século e cujo processo de alongamento tende a continuar. que “as novas imagens do envelhecimento e as formas contemporâneas de gestão da velhice no contexto brasileiro (. Interrogar essas categorias permite não somente uma melhor compreensão do universo de referências de um grupo etário particular. sofre também uma alteração profunda. 1970). Paris: Seuil. Emile. são redefinidos como condições gerais que afetam as pessoas em qualquer fase.. São Paulo: Melhoramentos. São Paulo: Scritta. 335-377. Educação e sociologia. Outsiders: etudes de sociologie de la déviance. considerados fenômenos normais nesse estágio da vida. pontuada em seus extremos pelo nascimento e pela morte. La Galère: jeunes en survie. Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. A invenção da Terceira Idade e a rearticulação de formas de consumo e demandas políticas. pautado na transmissão da experiência passada como elemento de ordenação e domesticação do futuro. “a promessa da eterna juventude é um mecanismo fundamental de constituição de mercados de consumo”. 22 a 26 de outubro de 199. FFLCH/USP. Howard S. ARIÈS. Helena Wendel. nessa perspectiva. o jovem já vive em um mundo radicalmente novo. Norbert. (1971). Desse ponto de vista. Paris: Gallimard. introduzida a partir de uma elevação importante da esperança de vida. L’Enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime. MARTUCCELLI. (1994).. O tema das subculturas juvenis ancoradas em experiências de classes tende a ser relativizado e cede em parte lugar ao dos estilos. Paris: Métailié CHAMBOREDON. a definição das fases da vida. L’Enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime.O jovem como modelo cultural lizado pelos diferentes grupos etários face às injunções de um mundo que lhes aparece como fundamentalmente novo. mas também da nova sociedade transformada pela mutação. Marialice Mencarini. ed. (1960). (s. Danilo. Paris: Seuil. Tese (Doutorado). Hannah. (1964). Paris: Calmann-Lévy FORACCHI. François.

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ou ainda os sistemas jurídicos e penais. passando pelas rádios. moda. os jovens voltam a ser tema de investigação e reflexão. revistas etc. é necessá- Revista Brasileira de Educação 25 . Com relação às políticas públicas. no noticiário. no caso de adolescentes em situação “anormal” ou de risco). formas de sociabilidade e atuação. esporte. programas só de rock ou de rap nas rádios e canais de televisão. em matérias analíticas e editoriais. exploração sexual. lazer. Só recentemente tem ganhado certo volume o número de estudos voltados para a consideração dos próprios jovens e suas experiências. De forma geral. moda e aconselhamento etc. poucas delas enfocando o modo como os próprios jovens vivem e elaboram essas situações. principalmente através de dissertações de mestrado e teses de doutorado — no entanto. ou mesmo as estruturas sociais que conformam situações “problemáticas” para os jovens.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil Helena Wendel Abramo Departamento de Sociologia. da televisão à grande imprensa. governamentais e não governamentais. como violência. assim como por parte de atores políticos e de instituições. suas percepções. ou a família. Quando os jovens são assunto dos cadernos destinados aos “adultos”. Entre os meios de comunicação de massa. ou as medidas para dirimir ou combater tais problemas. assistimos a uma avalanche de produtos especialmente dirigidos ao público adolescente e juvenil (os cadernos teen nos grandes jornais. depois de anos de quase total ausência. tanto por parte da “opinião pública” (notadamente os meios de comunicação de massa) como da academia. programas de auditório na televisão. crime. pode-se notar uma divisão nestes dois diferentes modos de tematização dos jovens nos meios de comunicação. drogadição. No caso dos produtos diretamente dirigidos a esse público. os temas mais comuns são aqueles relacionados aos “problemas sociais”. revistas de comportamento. e a grosso modo. estilo de vida e estilo de aparecimento.). Na academia. os temas normalmente são cultura e comportamento: música. mas também ao crescimento de noticiário a respeito de jovens. a maior parte da reflexão é ainda destinada a discutir os sistemas e instituições presentes nas vidas dos jovens (notadamente as instituições escolares. Universidade de São Paulo Ação Educativa Tem crescido a atenção dirigida aos jovens nos últimos anos no Brasil. que prestam serviços sociais.

termo muito empregado para designar adolescentes que vivem fora das unidades familiares (os “meninos de rua”). de modo geral. ou aqueles envolvidos com o consumo ou o tráfico de drogas. vinculada ao gabinete do Ministério da Educação. e há dois programas do Comunidade Solidária destinados a jovens: o Universidade Solidária e um concurso de estímulo e financiamento a programas de capacitação profissional de jovens. principalmente estimulado por organismos como a CEPAL. Há alguns projetos preocupados com a questão da formação integral do adolescente. ganha significação a partir dos anos 80. atividades de esporte e “arte”) e programas de capacitação profissional e encaminhamento para o mercado de trabalho (que. uma Assessoria Especial para Assuntos de Juventude. envolvendo programas de formação profissional e de oferecimento de serviços especiais de saúde. nunca existiu uma tradição de políticas especificamente destinadas aos jovens. Há mais tempo e em número bem maior que as ações governamentais. instituições de assistência etc. que em parte considerável desses programas. neste artigo. de encontros para realização de diagnósticos e discussão de políticas. diferentemente de outros países. ONU e o governo da Espanha. adolescentes submetidos à exploração sexual. 1 ções beneficientes. ou seja. cultura e lazer.). não logram promover qualquer tipo de qualificação para o trabalho). pode-se dizer que a maior parte desses programas está centrado na busca de enfrentamento dos “problemas sociais” que afetam a juventude (cuja causa ou culpa se localiza na família. para além da educação formal1. a preocupação de responsáveis pela formulação de políticas governamentais com os jovens: algumas prefeituras e governos estaduais têm ensaiado a formulação de políticas específicas para esse segmento da população. para salvá-los e reintegrá-los à ordem social. no Brasil. na sociedade ou no próprio jovem. no Brasil. no fundo. pode-se verificar que a maior parte dos programas desenvolvidos por estas instituições dividem-se em dois grandes blocos. Na Europa e Estados Unidos a formulação de políticas para jovens e a designação de instituições governamentais responsáveis por sua implementação têm se desenvolvido ao longo do século. pela seu “afastamento das ruas” ou pela ocupação de “suas mãos ociosas”. dependendo do caso e da interpretação). porém. A maior parte desses projetos destina-se a prestar atendimento para adolescentes em situação de “desvantagem social” (adolescentes carentes é o termo mais usado. Somente recente e lentamente pode-se observar. oficinas ocupacionais. esse fenômeno. Numa primeira visão panorâmica. explicita ou implicitamente. apesar das boas intenções neles contidos. não passam de oficinas ocupacionais. tem crescido projetos e programas destinados a jovens por parte de instituições e agências de trabalho social (ongs. em atos de delinqüência etc. passou ao largo desse movimento. tomando os jovens eles próprios como problemas sobre os quais é necessário intervir. com intercâmbio de informações e experiências. estamos nos referindo ao momento posterior à infância. É necessário notar. visando adolescentes de família com baixa renda ou de “comunidades pobres”) ou de “risco”. O Brasil. no entanto. gerada por uma sensação 26 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . pela primeira vez. gerando algumas iniciativas de cooperação regional e Ibero-americana. A grosso modo.Helena Wendel Abramo rio notar que. Toda essa atividade. promoção de capacitação técnica. o que se busca. enfoque que vem ganhando corpo mais recentemente. mas. é uma contenção do risco real ou potencial desses garotos. como alvo diferenciado do das crianças. no entanto. nota-se também uma movimentação no plano federal para focar a questão: foi criada. muitas vezes. associa- Quando falamos de juventude. nos países de língua espanhola da América Latina. na qual se inclui a sua formação para a “cidadania”. no Brasil. que envolve a adolescência e a juventude propriamente dita. todos eles visando dirimir ou pelo menos diminuir as dificuldades de integração social desses adolescentes em desvantagem: programas de ressocialização (através de educação não-formal.

embora não possamos dizer consistente. conceituação. aqueles projetos que se baseiam na idéia de protagonismo juvenil (ou seja. Por exemplo. a suspeita de alienação ou de radicalidade pequeno-burguesa inconseqüente. foram largamente desqualificadas por serem “espontaneistas”. bandeiras e formas de atuação. mais do que em tratar e incorporar temas levantados pelos próprios jovens. suas questões e modos de experimentar e interpretar essas situações “problemáticas”. por parte desses agentes sociais.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil de urgência frente a situações de desamparo e desregramento. Além disso. o que reflete. com mais dimensão de “festa” do que de “efetiva” politização. de suas características. a partir dos anos 80. que se começa a produzir no Brasil. em contraste com a elaboração de informação. Num outro plano. muito menos dos jovens. erigindo aquelas formas de atuação antes suspeitas a modelos ideais de atuação. eles continuem apenas desfocadamente visíveis. durante todo o período dito “de modernização” do país (dos anos 30 aos 70). “espetaculares”. frente aos quais todas as outras manifestações juvenis aparecem como desqualificadas para a política. trata-se mais de uma preocupação com a ausência dos jovens nos espaços e canais de participação política do que com questões políticas relativas a eles. e lamentar. como resultado da acentuação do individualismo e do pragmatismo que se afirmam como tendências sociais crescentes. tem permanecido. num registro muito imediatista e desarticulado. em primeiro plano. alguns movimentos sociais). mas a grande maioria dos projetos se limita ao enquadramento anterior. salvo raras exceções (entre elas Revista Brasileira de Educação 27 . Essa preocupação vem acompanhada de um diagnóstico que identifica nos jovens um desinteresse pela política e de um modo mais geral pelas questões sociais. a respeito do público alvo. 2 juvenis nas esferas políticas (ao contrário do que outrora foram as entidades estudantis e as juventudes partidárias). por exemplo. É curioso notar que. A maior parte dos atores políticos queixa-se da distância que os jovens têm demonstrado para com as suas proposições. sindicatos e centrais sindicais. na maior parte dos casos. No entanto. apesar da juventude estudantil ter tido. em 1992. em conseqüência de toda a movimentação em torno da defesa das crianças. pedagogias e metodologias específicas para lidar com a infância. o enfraquecimento desses atores estudantis levou a fazer notar. houve sempre certa ressalva com relação à eficácia de suas ações: para os setores conservadores. tornando-os “pré-políticos” ou quase que inevitavelmente “a-políticos”. Mesmo sua participação nas movimentações de rua pelo impeachment de Collor. apesar de terem crescido o número de ações e programas destinados a adolescentes e jovens. obscurecidos por uma sensação de que esta falta de instrumentos e “jeito” se deve ao fato de que a “adolescência é mesmo uma fase difícil” de se lidar. uma preocupação com a renovação de quadros no interior dessas organizações. que buscam desenvolver atividades centradas na noção de que os jovens são colaboradores e partícipes nos processos educativos que com eles se desenvolvem)2 . É quase como se. destacada presença em prol dos processos de democratização e combate às estruturas conservadoras. para alguns setores da esquerda. a suspeita de baderna e de radicalismo transgressor. como à baixa adesão de jovens aos organismos e movimentos políticos. o desaparecimento da juventude da cena política. No entanto. a preocupação de diferentes atores políticos com a juventude (partidos políticos. Essa ausência diz respeito tanto à inexistência ou fraqueza de atores A maior parte dos programas que lidam com essa perspectiva têm se desenvolvido nas áreas da saúde (principalmente sexualidade e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis) e da cultura. É necessário assinalar que há exceções. os grupos juvenis que atuam na esfera do comportamento e da cultura não têm sido considerados como possíveis interlocutores pelos atores políticos. quase não se encontram subsídios mínimos para um tratamento singularizados dos adolescentes. com pouca capacidade de gerar uma compreensão mais ampla e aprofundada. tem sido constante. Por outro lado.

o foco central do debate concentra-se na denúncia dos direitos negados (a partir da ótica dos adultos). *** Uma análise mais detalhada dessas recentes interpretações e ações destinadas aos jovens ainda está para ser feita3. ou quase nunca. culturais. todo debate. além de simplesmente sofrê-los ou ignorá-los. uma questão. pode ser levantada: parece estar presente. seja por levantarem questões não consideradas pertinentes para as agendas políticas em pauta. Nesse sentido. não resultando na tentativa de realizar um entendimento mais aprofundado deste setor. de gênero ou geracionais) têm conseguido se transformar em alteridades políticas5 . ao modo como a juventude tem sido tematizada na 3 Isto faz parte do projeto que busco desenvolver como tese de doutorado. uma dificuldade de ir além da sua consideração como “problema social” e de incorporá-los como capazes de formular questões significativas. no Depto. a manutenção de uma desqualificação generalizada da atuação pública dos jovens e um temor relativo à inserção dos jovens nos processos de construção e consolidação da democracia. Essa dificuldade está ligada a fatores específicos relativos à formulação de direitos sociais na sociedade brasileira (por exemplo. Os partidos. Isso pode ser percebido pela discussão que se faz atualmente a respeito da questão da “cidada- nia”. das drogas. invenção e negociação de direitos. em sua capacidade de representação e mobilização. regra geral. das doenças sexualmente transmissíveis. mas sem conseguir apostar. uma grande dificuldade de considerar efetivamente os jovens como sujeitos. às entidades estudantis. de contribuir para a solução dos problemas sociais.Helena Wendel Abramo assume destaque o movimento negro). da violência. de propor ações relevantes. assim. assim como a questão da participação só aparece pela constatação da ausência. Ou seja. salvo raras exceções. seminário ou publicação relacionando esses dois termos (juventude e cidadania) traz os temas da prostituição. tal como este termo tem assumido papel de destaque na conjuntura brasileira: relativamente à questão dos direitos e da participação de diferentes sujeitos sociais. de sustentar uma relação dialógica com outros atores. toda vez que se relaciona a questão da juventude à da cidadania. na maior parte da abordagem relativa aos jovens. de uma maneira mais geral. seja pelos atores políticos seja pelas instituições que formulam ações para jovens. então. colam-se então. tal dificuldade está ligada. os desvios) que são enfocados. No entanto. 1996. e nunca — ou quase nunca — como sujeitos capazes de participar dos processos de definição. desde já. Telles. 28 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Contudo. 1994. exclusivamente e de um modo sufocante. Resta. de Sociologia da FFLCH da USP. não sai desse plano da preocupação. principalmente os de esquerda. da gravidez precoce. paralelamente a essa dimensão. mesmo por que. Pode-se dizer que a preocupação dos atores políticos. 4 5 Sales. mesmo quando é essa a intenção. não há espaço comum de enunciação entre grupos juvenis e atores políticos. As questões elencadas são sempre aquelas que constituem os jovens como problemas (para si próprios e para a sociedade) e nunca. de um modo amplo e difundido. seja por se apresentarem como muito difusos e com baixo grau de formalização. tanto no plano da sua tematização como das ações a eles dirigidas. ao mesmo tempo. os jovens só estão relacionados ao tema da cidadania enquanto privação e mote de denúncia. Mas. nem na formulação de ações a eles dirigidas. assim como ao modo como se processam a constituição de espaços de conflito e negociação política na sociedade brasileira. são os “problemas” (as privações. questões enunciadas por eles. como a idéia de dádiva e favor sobrepuja a de direito)4 e ao modo como as diferenças sociais (sejam étnicas.

trazendo conseqüências para ele próprio e para a manutenção da coesão social. e genericamente difundida como noção social. assim. pode-se dizer que a “juventude” tem estado presente. e. são as falhas nesse desenvolvimento e ajuste que se constituem em temas de preocupação social. É. Por isso mesmo é um momento crucial para a continuidade social: é nesse momento que a integração do indivíduo se efetiva ou não. integrando-se à sociedade e podendo desempenhar os papéis para os quais se tornou apto através da interiorização dos seus valores. seja porque um grupo ou movimento juvenil propõem ou produz transformações na ordem social ou ainda porque uma geração ameace romper com a transmissão da herança cultural. livre. vista como categoria geracional que substitui a atual. A concepção de juventude corrente na sociologia. É nesse sentido também que na maior parte das vezes a problematização social da juventude é acompanhada do desencadeamento de uma espécie de “pânico moral” que condensa os medos e angústias relativos ao questionamento da ordem social como conjunto coeso de normas sociais. É nesse sentido que a ênfase da sociologia funcionalista e quase que de toda sociologia preocupada com o tema da juventude recai sobre o processo de socialização vivido pelos jovens e sobre as possíveis disfunções nele encontradas. Nesse sentido. 6 Revista Brasileira de Educação 29 . aparece como retrato projetivo da sociedade. da infância para a maturidade. através da aquisição de elementos apropriados da “cultura” e da assunção de papéis adultos. É essa a questão que me interessa desenvolver neste artigo. de um modo ainda apenas sugestivo e sob a forma de anotação de idéias: a tematização da juventude pelo “senso comum”. o momento crucial no qual o indivíduo se prepara para se constituir plenamente como sujeito social. Cohen e retomada por Hall & Jefferson. em que os indivíduos processam a sua integração e se tornam membros da socieda- de. os medos assim como as esperanças. numa perspectiva mais abrangente.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil sociedade ocidental contemporânea. retrabalhadas e difundidas pelos meios de comunicação. Não é por acaso que a problematização é quase sempre então uma problematização moral: o foco real de preocupação é com a coesão moral da sociedade e com a integridade moral do indivíduo — do jovem como futuro membro da sociedade. condensa as angústias. *** De um modo geral. como uma categoria propícia para simbolizar os dilemas da contemporaneidade. 1978 e por Bessant. agentes culturais e trabalhadores sociais. A tematização da juventude pela ótica do “problema social” é histórica e já foi assinalada por muitos autores: a juventude só se torna objeto de atenção enquanto representa uma ameaça de ruptura com a continuidade social: ameaça para si própria ou para a sociedade. 1993/94. por atores políticos. normas e comportamentos. disfunção ou anomia no processo de integração social. apoiada em representações construídas pelo pensamento acadêmico. que corresponde a um momento específico e dramático de socialização. como tema de risco para a própria continuidade social. é profundamente baseada no conceito pelo qual a sociologia funcionalista a constituiu como categoria de análise: como um momento de transição no ciclo de vida. A juventude. integrado e funcional a ela. Seja porque o indivíduo jovem se desvia do seu caminho em direção à integração social — por problemas localizados no próprio indivíduo ou nas instituições encarregadas de sua socialização ou ainda por anomalia do próprio sistema social —. Como a juventude é pensada como um processo de desenvolvimento social e pessoal de capacidades e ajuste aos papéis adultos. É nesse sentido que a juventude só está presente para o pensamento e a para a ação social como “problema”: como objeto de falha. tanto na opinião pública como no pensamento acadêmico.6 *** Essa idéia de “pânico moral” foi desenvolvida por A. em relação às tendências sociais percebidas no presente e aos rumos que essas tendências imprimem para a conformação social futura.

quando os atos de “delinqüência juvenil” extravasam os limites dos setores “socialmente anômalos” (os marginalizados. inerentemente pertubadora. integrando-se de forma sadia e normal à sociedade. o problema volta a ficar circunscrito. e na busca de soluções através da prescrição de uma série de medidas educativas e de controle para assegurar a contenção dessa delinqüência. A juventude apareceu então como a categoria portadora da possibilidade de transformação profunda: e para a maior parte da sociedade. podemos retomar o modo como a juventude veio sendo tematizada durante a segunda metade desse século para verificar como acabou sendo sempre depositária de um certo medo7. cultural e moral. Ver. se bem conduzidos. contra a tecnocracia e todas as formas de dominação. Parsons. da circunscrição do significado das culturas juvenis como espaços de socialização diferenciados e da funcionalidade desse comportamento momentaneamente desviante como parte do processo de integração à sociedade adulta. resultando no conhecido processo de “demonização” do rock’n’roll. mas com a qual é difícil estabelecer uma relação de troca. O consolo se produz a partir da conclusão de que a maior parte dos jovens. 7 8 A esse respeito. ver Bessant. o movimento hippie. como um momento em si patológico. nos planos político. os imigrantes nas grandes metrópoles. Nos anos 60 e parte dos anos 70. para uma integração normal e sadia à sociedade. tanto no enfoque da anomia como no da inovação e ajuste. o problema apareceu como sendo o de toda uma geração de jovens ameaçando a ordem social. portanto. o problema social da juventude era a predisposição generalizada para a transgressão e a delinqüência. 1993/94. 1976. A sociologia funcionalista norte-americana produziu intensamente estudos e debates a respeito das ações coletivas da juventude. O medo aqui era duplo: por um lado.Helena Wendel Abramo De um modo ligeiro e quase caricatural. De certa forma. quase que inerente à condição juvenil. de intercâmbio. esse pânico cede lugar a um entendimento da “normalidade” do desconforto e agitação adolescentes. depois de alguns percalços. num arco amplo de interpretações. até como fonte de inovação e revigoramento sociais 9. condensava o pânico da revolução. à delimitação dos grupos ou setores juvenis estruturalmente anômalos. demandando cuidados e atenção concentrados de adultos para “pastorear” os jovens para um lugar seguro. assim. a juventude aparece ela mesma como uma categoria social potencialmente delinquente. o da reversão do “sistema”. categoria social frente à qual se pode (ou deve) tomar atitudes de contenção. acaba. A interpretação baseada na explicação da “fase inerentemente difícil” leva a localizar o problema na adolescência enquanto tal. Flitner. por sua própria condição etária. de diálogo. e na formação de culturas juvenis como antagônicas à sociedade adulta. 1942. intervenção ou salvação. Em algumas interpretações. as “classes perigosas” — como foram objeto de atenção na passagem do século por criminologistas como Pestalozzi 8) e se tornam comuns entre jovens de setores operários integrados e de classe média. gerando angústias quanto ao próprio modelo de integração existente na sociedade. as proposições da contracultura. entre outros. Nos anos 50. por uma atitude de crítica à ordem estabelecida e pelo desencadear de atos concretos em busca de transformação — movimentos estudantis e de oposição aos regimes autoritários. é nesse momento que assume uma dimensão social a noção que vinha sendo cunhada desde o fim do século passado a respeito da adolescência como uma fase da vida turbulenta e difícil. Nos anos 50. O problema passa a ser o fato de que jovens que teriam “condições objetivas” de ajuste ao mundo adulto manifestam dificuldades nesse sentido. para os quais se destinam medidas específicas de controle e “ressocialização”. movimentos pacifistas. 9 30 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . 1968. Eisenstadt. por ex. Mais tarde.. corporificadas na figura dos “rebeldes sem causa”.

envolvidas em diversos tipos de ações individuais e coletivas. na relação com a propriedade e o consumo. exatamente pelo engajamento de jovens de classe média. mesmo para esse setores. por fixar assim um modelo ideal de juventude: transformando a rebeldia. No Brasil. uma vez que nega seu papel como fonte de mudança. 1972. tanto pelo comportamento (o uso de drogas. depois da reelaboração feita sobre os anos 60. que a imagem dessa juventude dos anos 60 foi reelaborada e assimilada de uma forma positiva. pelo contrário. Por outro lado. apática. a inovação e a utopia como características essenciais dessa categoria etária. com formas familiares e de sobrevivência alternativas etc) — não mais como uma fase passageira de dificuldades. os jovens condenavam a si próprios a jamais conseguirem se integrar ao funcionamento normal da sociedade. o medo era o de que as ações juvenis atrapalhassem a possibilidade efetiva de transformação. criativa. Vale a pena lembrar que tal medo gerou. o modo de se vestir etc) como por suas idéias e ações políticas. o conservadorismo moral. a juventude aparece aqui como depositária de um certo medo relativo ao “fim da História”. os jovens apareciam mais como uma fonte de energia utópica do que propriamente alguém capaz de levar a cabo efetivamente tal transformação. 1972. é particularmente neste momento que a questão da juventude ganha maior visibilidade. a maior Ver. esses movimentos juvenis condensaram o oposto. No entanto. entre outros autores. desse modo. Roszak.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil por outro. por sua própria recusa (os jovens que entraram na clandestinidade. 10 11 Ver Abramo. a falta de idealismo e de compromisso político são vistos como problemas para a possibilidade de mudar ou mesmo de corrigir as tendências negativas do sistema. o medo de que. Revista Brasileira de Educação 31 . mas também pelos movimentos culturais que questionavam os padrões de comportamento — sexuais. Foracchi. mas como uma recusa permanente de se adaptar. morais. é a presença de inúmeras figuras juvenis nas ruas. nesse caso. consumista. passava a ser atributo da juventude como categoria social.11 É em contraste com essa imagem que a juventude dos anos 80 vai aparecer como patológica porque oposta à da geração dos anos 60: individualista. 1968. que foram viver em comunidades à parte. generosa. de se “enquadrar”. Nos anos 90 a visibilidade social dos jovens muda um pouco em relação aos anos 80: já não são mais a apatia e desmobilização que chamam a atenção. e muitos setores políticos de oposição à ordem (como os partidos comunistas e organizações sindicais tradicionais) interpretavam tais manifestações juvenis como ações pequeno-burguesas inconseqüentes quando não ameaçadoras de um processo mais sério e eficaz de negociações para transformações graduais. O problema relativo à juventude passa então a ser a sua incapacidade de resistir ou oferecer alternativas às tendências inscritas no sistema social: o individualismo. respostas violentas de defesa dessa ordem: os jovens foram perseguidos pelos aparelhos repressivos. 1994. o idealismo. conservadora e indiferente aos assuntos públicos. aqui. Tematizada por aqueles que fizeram parte da geração dos anos 60 e 70. através de mobilizações de entidades estudantis e do engajamento nos partidos de esquerda. os jovens que se recusaram a assumir um emprego formal. Marcuse. não conseguindo mudar o sistema. quando tais movimentos juvenis já haviam entrado num refluxo. Essa reelaboração positiva acabou. para alguns setores descontentes com o sistema (como para pessoas de esquerda e promotores da “contra-cultura”). por um lado. Uma geração que recusase a assumir o papel de inovação cultural que agora. do ensino secundário e universitário. 1970. a esperança de transformação10. Foi somente depois. por outro lado. que ousou sonhar e se comprometer com a mudança social. o pragmatismo. Ianni. generalizando a ótica da minoria que neles depositava diferentes tipos de esperança: a imagem dos jovens dos anos 60 plasmou-se como a de uma geração idealista. na luta contra o regime autoritário. No entanto.

*** Uma indicação desse modo de tematizar os jovens. principalmente no interior dos meios de comunicação.Helena Wendel Abramo parte dessas ações continua sendo relacionada aos traços do individualismo. entrando para uma organização de esquerda clandestina. Fruto de uma situação anômala. tratando de fatos. é o de levantar elementos para pensar no modo como os personagens juvenis são enfocados nos dois filmes. De certa forma há uma retomada de elementos característicos dos anos 50. de parâmetros de equidade. sob certo ângulo. e que desejam uma transformação social. particularmente no Brasil. documentado e relatado em livro por um dos integrantes da ação. à violência. de uma cultura que estimula o hedonismo e leva a um extremo individualismo. sem pretender que essa leitura seja a única possível. os jovens se tornam depositários desse medo. assim. destacaremos. 13 12 32 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . violência. Para isso. O livro. épocas e questões muito diferentes. e ouvidos e entendidos. seqüestram o embaixador americano para forçar o governo brasileiro a soltar e deixar sair do país presos políticos (fato real ocorrido em 1969. para além dos medos e esperanças dos outros. semi-invisíveis. O pânico. os jovens aparecem como vítimas e promotores de uma “dissolução do social”. como encarnação de todos os dilemas e dificuldades com que a sociedade ela mesma tem se enfrentado. de superação das injustiças. Permanecem. para observar como. se estrutura em torno da própria possibilidade de uma coesão social qualquer. envolvimento com a criminalidade e comportamentos anti-sociais). no plano do ima- ginário. Apenas me interessa iluminá-la como uma indicação de uma percepção presente na opinião pública e que funciona como pano de fundo para toda a tematização da juventude no Brasil. Ou seja. na concentração da atenção nos problemas de comportamento que levam a situações de desvio no processo de integração social dos adolescentes (drogas. ou a respeito da propriedade das abordagens dos fatos tratados pelos filmes (ou mesmo de entrar na polêmica relativa à “correção” histórica e política que se produziu em torno do filme “O que é isso companheiro”). os atos de puro vandalismo). de construção de projetos que transcendam o mero pragmatismo. tal como ela aparece referida em produtos culturais. pode ser percebida a partir da observação de dois filmes brasileiros recentes: O que é isso companheiro e Como nascem os anjos12. em ambos. lançado em 1997. o surf ferroviário. mesmo para aqueles que os defendem. eles nunca podem ser vistos. as galeras. de formulação de ideais. Codecri. Sem nenhuma intenção de fazer considerações de ordem estética. E nessa formulação. a não ser o fato de que os protagonistas da ação. o interesse. no qual o roteiro do filme foi baseado)13. pela Ed. como sujeitos que apresentam suas próprias questões. escrito por Fernando Gabeira. as gangues. na verdade. de transformação utópica. Como vítimas ou como promotores da cisão e da dissolução social. de revigoração das instituições políticas. o que os faz aparecer. aqui. exagerando certos traços a partir do qual eles podem ser vistos. talvez super-dimensionando. tem o mesmo título do filme e foi editado em 1979. eles se apoiam em algumas das problematizações apontadas ao longo desse artigo. No filme “O que é isso companheiro” os personagens protagonistas da ação central são jovens de classe média que. como a encarnação das impossibilidade de construção de parâmetros éticos. no final dos anos 60. alguns traços presentes nos filmes. da falências das instituições de socialização. aqui. os arrastões. O que é isso companheiro? é um filme de Bruno Barreto. da profunda cisão entre integrados e excluídos. apesar da sempre crescente visibilidade que a juventude tem alcançado na nossa sociedade. de diálogo democrático. como encarnação de impossibilidades. À primeira vista esses dois filmes nada têm em comum. da fragmentação e agora mais do que nunca. Como nascem os anjos é de Murilo Salles e foi exibido em 1996. ao desregramento e desvio (os meninos de rua. são personagens juvenis. dessa angústia.

se envolvem na guerrilha. o mata. que acaba arrastando junto seu amigo. vivendo na clandestinidade. tanto mudanças políticas como comportamentais e de valores: estudantes do ensino secundário e universitário. tribos. embora o sentido dos seqüestros seja completamente diferente. O interesse de fazer uma reflexão conjunta desses dois filmes. jovens em “situação de risco” (risco para si próprios e para a ordem social). que se envolvem. e é namorada de um rapaz pertencente à quadrilha da favela onde moram. gangues. mas também genericamente na construção social a respeito da juventude no Brasil. séries de seqüestros foram motivo de pânico e de violentas respostas policiais. Revista Brasileira de Educação 33 . Figuras paradigmáticas em cada conjuntura histórica. após um incidente com um dos chefes da quadrilha. Nos dois casos escolhidos para serem retratados nos filmes. matando e morrendo muito cedo. e nas duas diferentes conjunturas históricas. atira no rapaz que. hippies. A partir daí o drama se desenvolve em torno das tentativas dos meninos saírem da casa. parecer um pouco forçada. principalmente. sendo presos. idealistas e comprometidos com as causas sociais e políticas da sociedade. acompanhado pela menina. logo depois fica desacordado. e são as crianças que têm de passar a dirigir a situação. E também nos dois casos. trata-se de figuras emblemáticas para o período enfocado: jovens politizados nos anos 60. são de fato. E o seqüestro é um ato que provoca o pior dos horrores: é crime hediondo. os jovens estudantes politizados. roubam um carro e vão para num bairro rico. que não tem esse tipo de inserção. fazendo ações armadas. “tropicalistas” etc. São. revidando. tenta fugir para se estabelecer em outro lugar. moradores de uma favela do Rio de Janeiro. encarnam a face mais dramática da juventude do período: nos anos 60. embora uma comparação possa. é enfatizar como há um ângulo comum pelo qual essas duas figuras opostas de nossa juventude são vistas. decide entrar na casa e exigir que o executivo providencie curativo para o ferimento e meios para a fuga sem chamar atenção da polícia. sem serem presos pela polícia. figuras juvenis totalmente diferentes. e. na fuga. e jovens envolvidos em movimentos culturais e contraculturais. na outra. diametralmente opostas nas equações que se montam a respeito da exclusão e da cidadania e na formulação das esperanças e das angústias neles depositadas: numa ponta. num seqüestro de um alto executivo de uma multinacional americana. Um menino que tenta se manter distante do universo do crime (pertencente a um núcleo familiar estável e freqüentando a escola regular) e sua maior amiga. envolvidos nas suas entidades e manifestações públicas. onde pedem para usar o banheiro de uma mansão. torturados.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil No filme Como nascem os anjos os personagens principais do drama são duas crianças a caminho da adolescência (com cerca de 12 anos). a juventude em evidência eram os jovens de classe média. O rapaz. jovens pobres envolvidos com a criminalidade nos anos 90. Esse rapaz. galeras. e mantendo os moradores da casa como reféns. divididos entre o hedonismo e a violência: meninos de rua. empenhados em propostas de mudança. exilados e muitas vezes mortos. Nos anos 90 as figuras juvenis mais em evidência são os jovens pobres que aparecem nas ruas. a face mais dramática dessa juventude genericamente vista como em busca de mudança. a partir do endurecimento do regime e do fechamento dos canais de participação democrática. são uma das imagens mais dramáticas e ameaçadoras dos nossos tempos. mas nos dois casos. Os jovens que. suspeitando de assalto. O motorista do dono da casa. É curioso notar que alguns elementos de enredo se repetem nos dois filmes: no centro da ação de ambos está o seqüestro de norte-americanos. por motivos e com sentidos completamente distintos. jovens carentes e envolvidos com o mundo da criminalidade. a ação desencadeada pelos jovens é uma ação “criminosa” (embora uma seja um crime “político” e a outra um crime “comum”). dos quais aqueles envolvidos no tráfico. jovens infratores. divididos entre a busca por uma inserção “normal” na sociedade (através do estudo) e o mundo do tráfico e da criminalidade. meio sem querer. em muitos aspectos. como se vê. muito ferido.

ou incapazes de se tornarem sujeitos no sentido pleno da palavra. por exemplo. mas que acabam engulidos por essa lógica que lhes escapa (quando não manipulados por adultos com lógicas externas a eles). É nesse ponto que me parece que reside uma idéia comum aos dois filmes. os jovens que assumem essa posição. ou seja. se vê lograda — o final do filme acentua o isolamento dos jovens. que já não têm uma postura ou não se identificam como jovens) que impelem os personagens juvenis às situações mais críticas. a vão isolando e encerrando cada vez mais o sentido das suas ações. Parodiando frase tristemente famosa. ações de alta intensidade e de profundos efeitos. os jovens acabam aparecendo como vítimas da lógica da esquerda armada. em suma. também existe a figura de adultos (ou de pessoas mais velhas que os personagens centrais. embora tenha. Uma vez nesse espaço. Em ambos. e que se relaciona com a postura geral pela qual normalmente a questão da juventude é tratada na nossa sociedade. de tal forma que é quase inacreditável que jovens tão jovens pudessem tê-la levado a cabo. Nesse esquema.Helena Wendel Abramo desencadeando a violenta resposta de aparatos policiais. a questão dos jovens. há a figura do velho militante de esquerda e o outro militante. no plano mais imediato. No filme O que é isso companheiro?. mesmo jovens adultos com mais idade ou mais experiência. os jovens são vítimas da lógica política instaurada na ditadura: o fechamento dos espaços institucionalizados de participação. em certa medida. no plano mais profundo a sua iniciativa. quanto ao fim último que eles pretendem. Sujeitos incompletos. da desigualda- 34 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . No caso do filme “O que é isso companheiro”. No filme Como nascem os anjos. nunca autores reais de suas ações. do inimigo. e é para salvá-lo que eles pioram cada vez mais a situação. sempre heterônomos. nesse sentido. No caso do filme “Como nascem os anjos” é o rapaz envolvido no tráfico que joga as crianças na situação dramática. isolada e tendente a ter de provocar ações cada vez mais extremas que. o endurecimento da repressão a qualquer forma de organização e manifestação e de todo canal legal de proposição de mudança. por sua vez. joga os jovens insatisfeitos com o estado de coisas nos partidos clandestinos que propunham a luta armada. Nos dois casos. são retratados como jovens idealistas. o sentimento de estarem perdidos e de toda sua atuação ter sido. no Brasil. os jovens são vítimas da lógica econômica-social. sido um “sucesso”. Dessa maneira. à queima roupa. forçando-os. parece ser sempre um caso de polícia. em última instância. jovem ainda mas com uma postura totalmente rígida e já sem nenhuma identificação com a jovialidade (que todos os outros integrantes do grupo inicial conservam). que é a dos jovens como vítimas das lógicas do sistema e. está presente a idéia de que eles são como que impelidos a essa ação. alguns são mortos e outros vão para o exílio por força de outra operação da esquerda armada (outro seqüestro de embaixador). que “vêm de São Paulo” para dirigir a operação do seqüestro. pela lógica do sistema e pela lógica de instituições ou de atores que operam à margem ou contra o sistema. e seu idealismo acaba aparecendo quase como um desvario. há uma mesma idéia subjacente. sem sentido. no filme. sua decepção. manipulados pelo destino. e que buscam imprimir uma “racionalidade política” (ou de guerra) à ação quase romântica e fantástica proposta pelos jovens. Nunca por sua própria lógica. esta acaba ficando. Protagonistas de uma ação de alto impacto e intensidade. sua ação é quase uma ação inconseqüente. torturados. um sacrifício inútil: acabam sendo todos presos. a negar critérios afetivos como os de amizade (ao indicar a lista dos militantes presos que deveriam ser trocados pelo embaixador) e a encarar “com naturalidade” — ou como imperativo lógico — a necessidade de execução. que visava a denúncia do regime de exceção e a adesão popular à exigência da transformação das regras políticas instauradas pelo endurecimento da ditadura. desejosos de mudança. Embora os jovens sejam os protagonistas das ações que montam o drama. pois eles conseguem efetivamente a troca dos presos políticos pelo embaixador. que parece encerrada numa armadilha.

Assim. dos anos 90. ações que se voltam contra os próprios sujeitos que as executam. é o fato de que. nos livrar de uma postura de desqualificação da sua atuação como sujeitos. Mesmo que não estejam envolvidos em acontecimentos “delinqüentes”. em guerra contra a sociedade institucionalizada. Os jovens tornam-se. ao fim e ao cabo. isso se acentua com os sujeitos juvenis de agora. fruto de armadilhas do destino. inconseqüentes do ponto de vista da racionalidade dos próprios sujeitos. nem a importância de discuti-las. trata-se de ações inconseqüentes quanto a seus fins. o que se busca desenvolver neste artigo é a observação de que a acentuação da atenção nas dimensões de vitimização e heteronomia frente às lógicas do sistema. contra a sociedade. acaba por manter invisível. as crianças se vêem compelidas a assumir o lado da marginalidade. quando o esforço do menino e da família se faz no sentido de construir um outro caminho. sem ao menos entender como chegaram àquilo. novamente. por que não há outras referências (no caso da menina). Mesmo se vistos com “simpatia”. da exclusão. são ações desvairadas. os jovens moradores da favela são vítimas dessas duas lógicas conflitantes e complementares. Mas dificilmente como sujeitos capazes de qualquer tipo de ação propositiva. a sociedade age como se assim fosse. se comportam de forma desregrada e amoral. e com conseqüências terríveis e desastrosas para si próprios e para os outros. assim. assim. ao mesmo tempo. *** O que me interessou ressaltar nesse breve elenco de anotações. levando os jovens a reagirem com respostas que os acabam conduzindo a o que se imagina a respeito deles. por outro — e dessa maneira ajudando a compor a impressão geral de que a juventude hoje está confinada a proceder através de comportamentos de desregramento social. meio por acaso mas quase como destino inelutável. objeto da nossa compaixão e de esforços para denunciar a lógica que os constrói como vítimas e de ações para salvá-los dessa situação. não previam. Vítimas do processo de exclusão profunda que marca nossa sociedade e. ou melhor dizendo. fonte de medo e perplexidade. ou melhor. e da violência. outras menos). do mundo peculiar que se monta nos morros cariocas. a lógica do tráfico. e impensável. promovendo o aprofundamento da fratura e do esgarçamento social que os vitima. e. acabam por. Na conjuntura atual. mesmo que conflituo- Revista Brasileira de Educação 35 . qualquer tipo de positividade das figuras juvenis. como os militantes de esquerda dos anos 60. de que quase não têm consciência. É uma lógica inescusável.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil de. Se os jovens que mais se aproximaram de uma atuação política reconhecida. por um lado. É importante ressaltar que não se pretende aqui negar a existência dessas dimensões apontadas nos filmes. e ao mesmo tempo. muitas vezes não conseguimos enxergá-los e entendê-los propriamente. Ações que significam risco para os jovens e risco para sociedade. Nos dois casos. No meio desses dois fogos. Ações. é muito presente e forte a imagem dos jovens que assustam e ameaçam a integridade social. mais ou menos inocentes (umas mais. todas acabam envolvidas na execução de atos que não queriam. como conseqüência. das vontades das próprias crianças. as chances de vivenciar experiências que os desviam desse caminho são enormes. Compelidas por que o tráfico e a marginalidade impõem padrões culturais e de valores que conformam a vida na favela. serem desqualificados como incapazes de uma ação com eficácia real. assim. ou mesmo. do aprofundamento das tendências do individualismo e do hedonismo. Contudo. da lógica doentia instaurada nessa sociedade tão profundamente dividida. Podem tornar-se. como idealistas ou inocentes e como vítimas dos defeitos do sistema social. atuando num plano comportamental e cultural sempre vizinho aos planos do hedonismo. ao privilegiar o foco de nossa atenção sobre os jovens como emblemas dos problemas sociais. crianças. junto com o medo. como um mundo à parte onde impera uma outra lógica. quase inevitáveis. como interlocutores para decifrar conjuntamente. Suas ações.

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principalmente. Marco Antonio Edreira.Estudos sobre juventude em educação Marilia Pontes Sposito Faculdade de Educação. retirados dos resumos das dissertações e teses defendidas na área de Educação. o trabalho “aparentemente inocente. pois a primeira questão que se apresenta é a da própria definição da categoria juventude. Poderíamos concluir que. com o apoio da FAPESP e CNPq. decorrer da existência de trabalhos cujos resumos não foram enviados para a ANPEd ou CAPES. coloca um primeiro problema clássico: o da delimitação do domínio dos objetos” (1994. técnico. aparentemente. de 1980 a 19951. Os dados aqui apresentados caracterizam-se pelo seu caráter ainda inicial. Ao Setor de Documentação de Ação Educativa o meu particular agradecimento pelo suporte técnico competente. Para Mauger. Paula Gonçalves. Thereza Pozzi e Irene Miashiro pela sistematização dos dados. resultando. 1 O projeto de pesquisa denomina-se “Juventude e Esco- larização: uma análise da produção de conhecimento” e está sendo desenvolvido em conjunto com Sérgio Haddad (Ação Educativa e PUC/SP). Agradeço aos bolsistas Janaina Vargas. Eventuais falhas do levantamento da produção ainda estão sendo corrigidas mediante revisão e acesso a outras fontes. pois em fase posterior a análise dos trabalhos será realizada a partir da leitura do texto completo.6). de pesquisadores e de trabalhos em curso. De um lado. de constituição e de apresentação de uma bibliografia. também. provavelmente. Inicialmente. Buscando oferecer um quadro amplo do estado das investigações sobre os jovens na França. p. os pesquisadores interessados em estudar e realizar balanços sobre essa temática estariam frente a uma situação paradoxal de difícil resolução. Universidade de São Paulo Este artigo apresenta resultados preliminares de investigação que examina a produção de conhecimento sobre o tema juventude. sobre o próprio tema eleito para investigação e sua eventual presença nos estudos que constituem o campo da pesquisa educacional. Algumas lacunas podem. apontando questões advindas do exame de dissertações e teses defendidas nos Programas de Pós-Graduação em Educação. no acréscimo de trabalhos a serem considerados no âmbito da temática. esse pesquisador evidencia as dificuldades presentes nesse intento. qualquer investigação em torno da produção de co- Revista Brasileira de Educação 37 . torna-se necessário considerar que os problemas da análise da produção de conhecimento sobre jovens ou juventude recobrem um elenco significativo de questões que incidem. de recenseamento de unidades de pesquisa.

como pressuposto. 140). para outros a temá- tica estaria subsumida no interior de outras dimensões da vida social. Sendo assim. quase transformando-a em categoria econômica (Pais. tornando-se mais ou menos permeá- As formulações de Mannheim constituem contribuições fundamentais sobre o tema da juventude a partir da idéia de transição (MANNHEIM. 1990).Marilia Pontes Sposito nhecimento exigiria. Pais (1990). a partir da década de 70 os “problemas” de emprego e de entrada na vida ativa tomaram progressivamente a dianteira nos estudos sobre a juventude. histórica e socialmente. se nos anos 60. Embora ocorra um reconhecimento tácito na maior parte das análises em torno da condição de transitoriedade como elemento importante para a definição do jovem — transição da heteronomia da criança para a autonomia do adulto — o modo como se dá essa passagem. como afirma Mauger. Jankowski (1992). É preciso reconhecer que. ao menos. Uma das formas de aproximação. Pais (1990) também alerta para as diferenças existentes entre a definição da juventude enquanto problema social e a definição da juventude enquanto problema para análise sociológica. 2 No artigo “De quoi parle-t-on quand on parle du ‘problème de la jeunesse’?”. do objeto de estudo de modo a orientar os critérios de seleção. sua duração e características têm variado nos processos concretos e nas formas de abordagem dos estudos que tradicionalmente se dedicam ao tema2. Assim. pois seria quase impossível recorrer a um uso da categoria jovem que se imporia de modo igual a todos os pesquisadores. sobretudo aqueles derivados das diferentes situações de classe (p. se para ordenar fosse preciso recorrer a critérios comumente utilizados e se. como hipótese. é problemática a adoção desse mínimo já estabelecido. como em decorrência da escalada de violência juvenil que atingiu o país. ainda que provisória. 1968 e 1982). Bourdieu (1986) examina as ambigüidades presentes nessa expressão. reside em reconhecer que a própria definição da categoria juventude encerra um problema sociológico passível de investigação. ao realizar balanço sobre estudos de gangues nos EUA — tema que participa do foco de interesses da sociologia norte-americana desde o início dos anos 20 com a Escola de Chicago — verifica que houve um arrefecimento desses estudos nos anos 60. dois grandes blocos que indicam a construção social do campo de estudos: o primeiro compreenderia os trabalhos que consideram a juventude como um conjunto social derivado de uma determinada fase de vida. Assim. que na pesquisa em Educação. com ênfase nos aspectos geracionais. realiza um esforço de sistematização. definida a partir de universos mais amplos e diversificados. estaríamos diante de um impasse de difícil resolução. No início da década de 80. tendo em vista a exequibilidade do empreendimento investigativo. 3 38 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . ao examinar um conjunto expressivo de autores que se dedicaram à investigação sobre juventude. de fato. De outra parte. na medida em que os critérios que a constituem enquanto sujeitos são históricos e culturais. ênfases temáticas e categorias de análise não se despem das influências das conjunturas históricas e dos processos sociais em que se movem. Nesse momento a atenção dos pesquisadores voltava-se para os movimentos de contracultura e para as manifestações estudantis que atingiam a sociedade norte-americana. a juventude tem sido encarada como fase de vida marcada por uma certa instabilidade associada a determinados “problemas sociais”. a juventude era um “problema” na medida em que podia ser definida como protagonista de uma crise de valores e de um conflito de gerações essencialmente situado sobre o terreno dos comportamentos éticos e culturais. não só em virtude do decréscimo da visibilidade das manifestações anteriores. a eleição de uma definição. configurando. para formular essa categorização inicial as dificuldades não são desprezíveis. Poderíamos considerar. as pesquisas sobre gangues ocupam novamente o interesse dos estudiosos. mas o modo de apreensão de tais problemas também muda3. os estudos sobre tais sujeitos também sofrem essas influências ao elegerem suas âncoras teóricas e respectivas formas de aproximação do objeto. Do mesmo modo.

seguindo as orientações de trabalhos na área demográfica. a condição de coexistirem no tempo. inclusive. ao concluir sua escolaridade. revelador de uma nova fase — a pósadolescência — que estaria configurando um período de latência ou de moratória social pois o jovem. Mas. É preciso considerar os estritos limites em que essa delimitação opera e seu caráter preliminar. pois nesse campo pode ocorrer a convivência. Os trabalhos de Madeira (1986. caracterizado pela adoção de matrizes disciplinares que. suas relações com os processos históricos que permitem a visibilidade desse segmento na sociedade brasileira nos últimos anos. As idéias de Oliveira foram citadas por Maria Arminda Arruda (1995) em seu artigo sobre Florestan Fernandes e a Escola Paulista de Sociologia. pois há enorme diferenças de tratamento dos dados inclusive sob o ponto de vista sócio-demográfico. Por essas razões cabe realizar. 1985 e Müxel. “à diferença das Ciências Naturais. 6 5 Revista Brasileira de Educação 39 . sobretudo aqueles desenvolvidos por Felicia Madeira6 . pois compreende uma primeira delimitação como ponto de partida. o exame de estudos que realizaram aproximações indiretas sobre a temática. 1989) a partir dos anos 80 têm se constituído em uma importante referência sobre o tema no Brasil. Para Felicia Madeira. que os registram em sucessão — num processo contínuo de substituição — na Antropologia social os vemos em plena simultaneidade.. da leitura do estudo de Arruda (p. sem que o novo paradigma elimine o anterior pela via das ‘revoluções científicas’. os estudos tendem a alongar os limites superiores da faixa etária pela incorporação da população com a idade de 29 anos (Bauby e Gerber. muitas vezes em um mesmo país ou em uma mesma instituição de várias matrizes. Esse alongamento tem sido tratado como um desafio para a investigação. Mas. mantendo-se todos e cada um ativos e relativamente eficientes” (p. a análise de como um determinado campo de estudos também vem construindo teórica e conceitualmente o tema da juventude enquanto objeto de investigação. essa ampla faixa por ela estudada compreende de 15 a 19 anos os adolescentes e de 20 a 24 os jovens propriamente ditos. De qualquer modo. Por essas razões Oliveira considera que no âmbito da Antropologia Social — por extensão creio ser pertinente sua análise para o campo da Educação — matriz disciplinar e paradigma não seriam considerados sinônimos. Sob o ângulo restrito das estatísticas. Minha apropriação do trabalho de Roberto Cardoso de Oliveira decorre. no âmbito da exame da produção de conhecimento. útil para fins descritivos.123). assim. em alguns países europeus. segundo Oliveira (1988). 1994). na medida em que certas características de autonomia e inserção em atividades no mundo do trabalho — típicas do momento definido como de transição da situação de dependência da criança para a autonomia completa do adulto — tornam-se o horizonte imediato para grande parcela dos setores empobrecidos. 15)4 . A fixação de alguns critérios relativos à faixa etária constituiu um procedimento inicial e útil para a seleção dos trabalhos. 4 mesmo neste caso — a delimitação da faixa etária — foi preciso considerar as condições sociais em que se opera o desenvolvimento dos ciclos de vida em sociedades como a brasileira5. 1996). Integramos no conjunto amplo denominado juventude os segmentos etários que vão de 15 a 24 anos. 1988. pode ser enganador se ele sugere a determinação natural dessas etapas e o caráter universal.19). a tendência maior é a de antecipação do início da vida juvenil para antes dos 15 anos. Mas outro elemento a ser considerado é a dinâmica do próprio campo de conhecimento.Estudos sobre juventude em educação veis a essas situações. Assim. seus modos de aproximação do fenômeno em questão. Mas. para o conjunto da sociedade brasileira. a adoção desse escopo não isenta o pesquisador da necessidade de utilização de critérios classificatórios explícitos. se possível. seus recortes principais e. homogêneo e estável de seu conteúdo (1985. Discorda assim de Kuhn (1975). mas essa exigência deve contemplar a idéia de um certo grau de flexibilidade para possibilitar. Parte importante do seu modo de construção se desvela nessa interação. a delimitação da faixa etária para levantamento das dissertações e teses não De acordo com Chamboredon o conceito de ciclo de vida. não consegue se inserir nas atividades profissionais do mercado de trabalho formal (Chamboredon. “articulariam de modo sistemático um conjunto de paradigmas.

à noção de juventude8. quanto aos recortes disciplinares selecionados. sobretudo nas sociedades urbanizadas. O segundo caso — a la- tência — seria ilustrado pela situação de posse de habilitação profissional oferecida pelo sistema escolar sem o imediato ingresso no mercado de trabalho. e a latência. pela entrada na vida profissional e pela formação de um casal. militares. meninos e meninas de rua (essa última categoria foi contemplada pela seleção de estudos que incorporaram os adolescentes ou a população de 14 a 17 anos). Considerando as relações presentes nos modos de reprodução das diversas classes sociais. Um primeiro lote de trabalhos foi reunido a partir do uso direto da expressão jovem no corpo da investigação. 1985. As transformações observadas nos sistemas escolares ao longo do século. temáticas diversas. no entanto. assim. Chamboredon (1985) propõe. cada descritor. a multiplicidade e a desconexão das diferentes etapas de entrada na vida adulta.Marilia Pontes Sposito implica em mera atribuição burocrática. o modelo burguês delineava-se pela idéia do “diletantismo” que possibilitava adiar o momento e as etapas definitivas de entrada na vida adulta sem renunciar. a incorporação de pesquisas de faixas etárias um pouco anteriores ou superiores ao universo 15-24 anos. delimitadas pela partida da família de origem. Segundo este autor. utilizaram-se de descritores como atleta. O primeiro caso — a descristalização — oferece como exemplo o exercício das atividades adultas da sexualidade já na puberdade. tanto a descristalização. a entrada na vida adulta significa ultrapassar três etapas importantes. os segmentos operários eram caracterizados. dissociado das funções reprodutivas e familiares. carentes. expressão de processos históricos peculiares que resultaram. possibilitando. menores. embora a centralidade da investigação se restrinja aos estudos ancorados nas disciplinas compreendidas pelas Ciências Sociais (Sociolo- A essas situações poderiam ser acrescentados os temas relativos ao gênero e às etnias. ainda que indiretamente. no início do século. significando dissociação no exercício de algumas funções adultas. As questões acima enunciadas são. não obstante considerarem a população em questão no âmbito da faixa etária. Para Galland. seriam elementos importantes para o estudo dos jovens nos dias atuais. Em oposição. Além do critério etário e dos cuidados teórico-metodológicos de sua adoção. Finalmente. mas deve sofrer cuidadoso critério de definição da pertinência ou não do estudo em questão. 21). 8 9 7 Esse uso é também reconhecido por Mauger (1994) Sob a categoria outros foram reunidos os trabalhos que. a conhecer certas formas de independência. assim. visivelmente. pela instantaneidade da passagem da infância à vida adulta e pela concordância necessária dessas três etapas. em alguns casos. Em decorrência. A seleção dos trabalhos foi feita. situação típica de países como a França (Chamboredon. 40 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . que definiram um alongamento da permanência no interior da escola para novos segmentos sociais e as condições diferenciais de acesso ao mundo do trabalho — sem significar a formação de uma nova unidade conjugal ou o abandono da casa paterna — exigiram novas modalidades de compreensão para essa passagem. a partir dos principais descritores utilizados pelos autores para definir sua aproximação ao universo estudado. na superação do “modelo de instalação” na passagem para a vida adulta (Galland. 1991). etc. foi preciso recorrer a outros procedimentos que permitiram incorporar os usos associados. O quarto uso diz respeito à categoria aluno ou estudante e o quinto pela combinação trabalhador-estudante ou aluno-trabalhador9. torna-se também um desafio conceber a multiplicidade e a desconexão das diferentes etapas dessa passagem para a vida adulta incorporando as situações peculiares da vida urbana e rural7. podendo envolver. tanto centrais como periféricas. que separa a posse de alguns atributos do seu imediato exercício. nos últimos anos. O segundo critério foi a seleção dos trabalhos que explicitamente utilizaram-se da categoria adolescentes e o terceiro pela adoção da categoria adolescentes em situações de exclusão como os assistidos.

6 8. conteúdos e novas metodologias de ensino.7 5.2 20.2 7.1 3. Esse índice comparativo sofre pequenas alterações no período.5 3.7 10. No entanto. Tabela 1 Produção acadêmica discente em juventude 1980-1995 Ano 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 Total Dissertações 9 13 8 0 19 16 9 12 8 18 16 13 12 12 7 45 217 % 4 6.4 3.7 20. 11 Revista Brasileira de Educação 41 .7 26 11.7 5 3. os dados globais da produção não integram esse ano porque o CD-ROM. compreendendo 651 Teses e 5441 dissertações.2 100 Total 9 13 9 0 19 18 9 12 9 25 19 14 18 13 7 51 244 Total % 3.2 3. sintetizada pelos resumos publicados nos Cadernos da ANPEd. 1985 (7.5 3.2 4 5. oferece informações a partir do ano de 1981. pois cerca de metade da produção está concentrada nos anos 90. Por essas razões é ainda prematura qualquer inferência sobre um maior interesse sobre esse campo de investigações no interior da área da Educação. Sobre a presença dos temas psicológicos na pesquisa em educação consultar Warde (1993). atingindo limites superiores em 1981 (8. Embora esse incremento seja significativo é preciso considerar que nesse mesmo período se observa.7 18.Estudos sobre juventude em educação gia. até o momento foi levantado um total de 217 dissertações e 27 teses (Tabelas 1 e 2).7 7.4%).2 7.8 7. Não constam também do levantamento as dissertações e teses que examinaram populações portadoras de algum tipo de deficiência.5 3. Desse conjunto.7 7.9%) e em 1995 (6. correspondendo a 4% da produ- ção em Educação11.5 5.4%). um crescimento expressivo no número total de teses e dissertações defendidas.7 100 Teses 0 0 1 0 0 2 0 0 1 7 3 1 5 1 0 6 27 % 3. de forma dominante. é preciso reconhecer que no interior da temática “Estudos sobre Juventude” há um sensível crescimento nos últimos anos. Embora tenha sido possível levantar os resumos de trabalhos do ano de 1980. perfazendo um total de 6092 trabalhos.7 7. seguida pela Antropologia e Política) não foi possível desconsiderar as ênfases derivadas da Psicologia no balanço da produção discente. que reuniu as informações contidas em todos os cadernos. mediante listagens oferecidas pela ANPED.7 22.2 2. em decorrência da tradição na pesquisa educacional que sempre contemplou espaços importantes para estudos examinados à luz dos temas dessa disciplina10.8 5. De posse desses critérios iniciais foi preciso percorrer a vasta produção do período (19801995).5 3. também.8 100 10 Não foram classificados os estudos que trataram de componentes específicos do processo de ensino e aprendizagem — os de natureza estritamente pedagógica — que visavam a uma percepção de questões relacionadas ao modo como ocorre a absorção de conceitos.6 8.2 6.5 5.4 5.4 3.8 7.

2 9 2.4 2 100 42 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .2 5 6.1 1994 612 86 698 7 1. ** O ano de 1980 não está computado no total de porcentagens.3 244 4 * As porcentagens se referem ao total da produção da área de educação catalogadas no CD-Rom da ANPEd.3 19 4.3 25.9 1986 211 16 227 9 4.4 0.4 1989 383 58 451 18 4.1 0 7 1 1995 693 103 796 45 6.2 8.4 61.Marilia Pontes Sposito Tabela 2 Participação da produção acadêmica em juventude sobre o total nacional 1981-1995 Série Produção acadêmica discente nacional Produção acadêmica discente em juventude Ano Dissertações Teses Total Nac.1 13 2.7 14 3 1992 537 87 624 12 2.9 18 2.6 2.4 1982 161 4 165 8 5 1 25 9 5.2 0.4 1.2 1 1.3 1 3.4 1988 340 31 371 8 2.4 1983 227 11 238 0 0 0 1984 319 17 336 19 6 0 19 5.8 51 6. Tabela 3 Distribuição geográfica da produção acadêmica discente por Ufs e regiões Região/Estado Centro-Oeste Distrito Federal Goiás Mato Grosso Mato Grosso do Sul Nordeste Bahia Ceará Paraíba Piauí Rio Grande do Norte Sudeste Espítito Santo Minas Gerais Rio de Janeiro São Paulo Sul Paraná Rio Grande do Sul Santa Catarina sem identificação Total Dissertações 8 3 1 1 3 21 7 6 6 1 1 129 4 7 53 65 54 8 45 1 5 217 Teses 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 20 0 0 2 18 7 0 7 0 0 27 Total 8 3 1 1 3 21 7 6 6 1 1 149 4 7 55 83 61 8 52 1 5 244 % Total 3.2 21.1 18 7.6 34.4 Total 5441 651 6092 217 4 27 4. Dissertações % Teses % Total Total % 1980** 9 0 9 1981 150 4 154 13 8 0 13 8.2 0 9 4 1987 244 26 270 12 5 0 12 4.3 1.8 2 9. uma vez que o CD-Rom da ANPEd não fornece os dados deste ano.1 1991 404 47 461 13 3.8 22.4 0.2 1.1 3.2 1 1.7 1985 205 22 227 16 7.5 0.9 1993 526 88 614 12 2.8 2.5 7 12 25 5.8 3 7.5 1990 419 41 460 16 3.4 2.4 2.4 0.4 6 5.

Tabela 4 Distribuição da produção acadêmica discente por entidades mantenedorasa Instituição Dissertações Teses Total PUC/SP 25 9 34 UFRGS 25 6 31 PUC/RS 20 1 21 UNICAMP 17 2 19 PUC/RJ 13 2 15 UFRJ 14 0 14 USP 7 6 13 UFSCar 10 1 11 UFF 10 0 10 IESAE 10 0 10 UFPR 8 0 8 UFBA 7 0 7 UERJ 6 0 6 UFCE 6 0 6 UFMG 6 0 6 UFPB 6 0 6 UFES 4 0 4 PUCCAMP 3 0 3 UFMS 3 0 3 UnB 3 0 3 UNIMEP 3 0 3 UFGO 1 0 1 UFMT 1 0 1 UFPI 1 0 1 UFRN 1 0 1 UFSC 1 0 1 UFU 1 0 1 sem identificação 5 0 5 Total 217 27 239 a Faltam os dados sobre as entidades mantenedoras relativos a cinco dissertações do ano de 1980 % Total 14.3% dos trabalhos defendidos nesse período.7% e a região sul por 19.4 4.4 2.1%. No período de 1982/1991 a região Sudeste ficou responsável por 67. reunida em duas instituições (PUC/RS e UFRGS) (Tabela 4). aliada à sua longevidade.9 6.3 1.2 1.4 2 100 A concentração dos Programas de Pós-Graduação na Região Sudeste e Sul.4 0. como demonstra o estudo de Warde.7 7. No entanto verifica-se a presença marcante do estado do Rio Grande do Sul.8 2.4 0.2 1.2 5. com 21.1 12. 12 Revista Brasileira de Educação 43 . à primeira vista. explica. seguida da região sul com 25.4 0.4 0.5% da produção nacional nos estudos sobre juventude.3% e 22.9% da produção nacio- nal (34. a maior incidência de trabalhos defendidos.2 0. respectivamente) (Tabela 3)12 .8 8.4 1.4 2.4 0.Estudos sobre juventude em educação A distribuição geográfica da produção sobre o tema revela que a região Sudeste reuniu 61.1 4.6 1. as proporções do conjunto da área.5 4.8 5.2 2.1 3.6%. praticamente.4 2. pois os dados coletados seguem. Os estados de São Paulo e Rio de Janeiro concentram 56.5% do total da produção discente.

sobretudo. As relações entre trabalho e educação no âmbito da faixa etária ocuparam 17. Desse conjunto (144).% sobre o total dos descritores).4 2 0.6 15. significaram 44. Em termos de grau de ensino.2 100 Tabela 6 Distribuição da produção acadêmica discente por temas pesquisados Tema Dissertações Teses Total Escola 41 1 42 Trabalho e Educação 36 6 42 Cursos noturnos 29 3 32 Ensino superior 22 8 30 Aspectos psicossociais 27 1 28 Representações 21 4 25 Participação política 11 1 12 Projetos de atendimento 8 2 10 Meios de comunicação 6 0 6 Grupos juvenis 4 1 5 Violência 2 0 2 Outros* 10 0 10 Total 217 27 244 * Inclui prática de esporte. Os temas relativos aos aspectos psicossociais dos sujeitos investigados. tais como valores. principalmente. em sua grande parte caracterizados por abordagens mais próximas das orientações da Psicologia. 38 estudos se referiram diretamente à categoria estudantetrabalhador (15. educação militar. O restante criou formas de aproximação do sujeito a partir de outras categorias tendo como foco de investigação. compreendendo 59. compreende 16. às definições do sujeito a partir de sua condição de aluno ou estudante. julgamento moral. sendo desenvolvidos por estudos que utilizaram sobretudo o termo adolescente como descritor.1 100 44 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . educação ambiental. compreendendo a escola (primeiro e segundo graus). buscando traçar seu perfil13.3 11. O tema constitui um dos elementos importantes para descrever e caracterizar essa produção.5%).9 4.8 % dos assuntos tratados nas dissertações e teses (Tabela 6). capacidade crítica e representações integram 21.2 13.6.5 10.2%). ao estudo do destino ocupacional e expectativas profissionais dos alunos. adolescentes em situação de exclusão (9%) (Tabela 5).8 4.5 15.1% dos trabalhos. Nesse último bloco.2% das dissertações e teses distribuídas em âmbitos diversos. caracterizado Tabela 5 Distribuição da produção acadêmica discente por descritores Descritores Estudante Estudante-trabalhador Adolescente Jovem Adolescente excluído Outros Total Dissertações 95 34 32 28 20 8 217 Teses 11 4 5 5 2 0 27 Total 106 38 37 33 22 3 44 % Total 43.1 12. Considerando-se apenas o tema principal é possível perceber que as relações dos jovens com as formas institucionais do processo educativo.3% dos temas e o conjunto restante de assuntos investigados. os cursos noturnos e ensino superior.3 13. a escolaridade de primeiro e segundo graus recobre a maioria desses interesses temáticos e a pesquisa sobre ensino superior dedicou-se.7% da produção. jovens (13.1 2. os adolescentes (15.3 17. prostituição infanto-juvenil % Total 17.5 9 3.2 4.Marilia Pontes Sposito Os descritores utilizados pelos autores referemse.

Se considerarmos a seqüência temporal tanto na utilização dos descritores como nas preferências temáticas alguns indícios importantes de mudança de ênfase podem ser verificados (Tabelas de 7 a 10).6% 9% 3.4% 12. citaríamos estudos que trataram de carreiras.5% 13. A categoria outros.5 Adolescente 2 3 1 3 6 2 1 4 1 3 2 1 8 37 15.8% 42.4% 21.Estudos sobre juventude em educação pela sua baixa freqüência. grupos musicais) que foram objeto de investigação de apenas 5 trabalhos (2%) ou violência (0. educação militar.5% 15.2% 43. reunindo estudos muito díspares quanto ao tema. concentram-se alguns temas mais próximos dos estudos clássicos da Sociologia da Juventude. Dentre eles estão presentes as investigações desenvolvidas em torno do movimento estudantil e da participação política compreendendo 12 trabalhos (4. etc.4% 36.5% 9% 3.5% 15.3% 100% Total 13.6 Adolescente excluído 1 1 3 1 1 4 2 1 1 7 22 9 Outros 1 1 1 1 1 3 8 3.5 Estudante 1 1 2 1 1 1 5 5 3 5 6 5 2 38 15. galeras. As aná- lises sobre grupos juvenis (gangues. Temas como projetos e instituições destinadas aos adolescentes em situação de risco.1% dos trabalhos selecionados e. como o perfil do estudante de enfermagem. Tabela 7 Distribuição (ano a ano) da produção acadêmica discente por descritores Descritores Ano 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 Total Total % Jovem 1 3 2 2 3 1 3 3 1 3 1 10 33 13.2 Total 9 13 9 19 18 9 12 9 25 19 14 17 13 7 51 244 100 Tabela 8 Distribuição (a cada 5 anos) da produção acadêmica discente por descritor Descritores Jovens Adolescente Estudante Estudante trabalhador Adolescente excluído Outros Total 80-84 2% 18% 62% 4% 12% 2% 100% 85-89 15% 17.7% 5.5% 5. prostituição infanto-juvenil e prática de esportes. Revista Brasileira de Educação 45 .2% 100% 13 Como exemplo.4%).9% do total da produção sobre juventude). as pesquisas envolvendo jovens e mídia (2.8%) constituem os últimos grupos em termos de freqüência. envolvendo propostas alternativas estão presentes em 4.5% 100% 90-95 17. em menor número. inclui educação ambiental.2 Estudante trabalhador 6 7 4 14 6 4 7 4 10 9 3 8 3 21 106 43.

7% 3.7% 3.4% 2% 0. verifica-se o aumento da freqüência para o descritor jovem.9% 1.7% 19% 10.8% 4% 100% 46 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .4% na fase mais recente).4%) (Tabelas 7 e 8).3% 1.4% 8.8% 19.9% 16.2% 6.Marilia Pontes Sposito Quanto ao uso de descritores pode ser observado o decréscimo gradativo da utilização do termo adolescente (de 18% no período 80-84 para 12. Tabela 9 Distribuição (ano a ano) da produção acadêmica discente por temas pesquisados Ano 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 Total Tema Escola 3 4 1 2 3 1 3 1 5 4 1 2 1 11 42 Educação e Trabalho 1 2 1 5 2 2 1 5 4 5 5 2 7 42 Cursos Noturnos 3 1 1 1 6 2 6 1 4 5 30 Ensino Superior 1 6 1 2 2 1 6 4 1 2 3 3 32 Aspectos Psicossociais 5 4 3 3 2 1 1 1 1 2 1 5 28 Representações 1 2 4 1 2 5 1 1 3 5 25 Grupos juvenis 1 1 3 5 Projetos de Atendimento 1 2 1 1 1 3 10 Participação política 1 2 1 1 2 1 4 12 Violência 1 1 2 Meios de Comunicação 1 1 1 1 1 1 6 Outros 4 1 1 1 3 10 Total 9 13 9 19 18 9 12 9 25 19 14 17 13 7 51 244 Tabela 10 Distribuição (a cada 5 anos) da produção acadêmica discente por temas pesquisados Descritores Escola Trabalho e educação Ensino Superior Cursos Noturnos Aspectos psicossociais Representações Participação política Projetos de atendimento Meios de comunicação Grupos juvenis Violência Outros Total 80-84 20% 18% 14% 30% 6% 8% 4% 100% 85-89 17.2% 100% 90-95 15.9% 3.5% — aliado a uma significativa alteração no modo de sua abordagem.9% 7. praticamente inexistente no início dos anos 80 (2%).3% 1.3% 2.2% 4.3% 17.8% 13.1% 12.3% 8.7% 1.5% 6.3% 13.3% 11.7% 2.7% 3.7% 16.5% 10.5% 8. A este dado pode se acrescentar um decréscimo nas categorias relativas à condição escolar — de 66% no primeiro período para 57. al- cançando proporção maior já nos primeiros cinco anos da década de 90 (17.2% 5.3% 100% Total 17.

nos anos 80. parece decorrer da entrada na Pós-Graduação. o tema na área educacional não sofreu tratamento acadêmico suficiente de modo a oferecer uma contribuição crítica para a formulação de políticas públicas. As temáticas emergentes dos anos 90 compreendem o exame dos agrupamentos e as formas de violência no horizonte da sociabilidade juvenil. As ênfases temáticas (Tabelas 9 e 10). Mas a investigação realizada por Warde aponta. 57). Esses dados indicam. O modo de aproximação do sujeito expresso no uso dessas categorias oferece alguns elementos importantes para a reflexão. de acordo com as análises responsáveis pela avaliação acadêmica da área (Gatti. Não se trata de diversidade. por formação e atuação.Estudos sobre juventude em educação O descritor estudante atingia 62% dos trabalhos e passa. progressos ou regressões no campo de estudos. a “dispersão e a variação temática continuam a ser características predominantes sobre a unidade e a continuidade. b) pulverização dos campos temáticos e c) descontinuidade no trato dos assuntos” (Warde. para 36. ao Tanto o decréscimo da presença da vertente psicológica como o incremento de uma possível abordagem ancorada nas Ciências Sociais não indicam. 1983 e Warde. planejamento. envolvendo um movimento contrário de aumento da categoria jovem. marcada pela dispersão e variação temática. em si mesmos. no último período. a preferência por temas pedagógicos. Por outro lado.6% nos anos 90) 14. também oferecem elementos para reiterar certas observações já verificadas na análise dos descritores. traço positivo a ser conquistado e preservado. ainda. também. compreendendo gama variável de aspectos tais como metodologias. de acordo com Warde. ampliando os estudos sobre jovens. A sensível diminuição da freqüência de assuntos em torno dos aspectos psicossociais da faixa etária parece indicar um decréscimo da presença de matrizes disciplinares da Psicologia na análise dos sujeitos (de 36% para 15. A ênfase nas pesquisas de natureza estritamente pedagógica. mais próxima da tradição sociológica. sobretudo. apresentando um índice rápido de crescimento na época (1982-1991) principalmente os trabalhos sobre o ensino de disciplinas ou áreas de estudo. após o exame desses dados ainda preliminares. Algumas considerações para a análise Várias interrogações se impõem ao investigador. cursos noturnos tenderam o ocupar espaços mais relevantes. diminuindo as investigações em torno da escola sem o recurso a essas adjetivações. didáticas.4%. ao passo que estudante-trabalhador de 4% no período 80-84 atinge 21. De um lado parece que a ênfase em categorias consagradas da Psicologia — adolescente — tende a diminuir. técnicas de ensino. Chama a atenção a presença de estudos no início dos anos 80 sobre adolescentes em situação de exclusão e uma pequena recuperação de sua freqüência nos anos 90.5% nos anos 90. 1993. 1993). anteriormente restritos à participação política (sobretudo no movimento estudantil). mas de: a) fragmentação dos temas numa multiplicidade de subtemas ou assuntos. resultantes do levantamento empreendido sobre a produção discente na Pós-Graduação em Educação de 80 a 95. Os assuntos relativos a educação e trabalho e. entre outros (Warde. pequeno grau de permeabilidade da academia à problemática desses segmentos. A análise mais detida dessas inflexões só poderá ser empreendida mediante avaliação em profundidade dos trabalhos. ao longo desses 15 anos. 14 Revista Brasileira de Educação 47 . de um número não desprezível de professores e técnicos de ensino ligados. 69). A pequena participação do que amplamente poderíamos designar como Estudos sobre Juventude em Educação decorre das características da própria produção. o advento e disseminação da categoria estudante-trabalhador revelam a busca de mecanismos de aproximação da realidade escolar capazes de integrar outros aspectos das relações sociais — o trabalho — em que parte significativa de seus sujeitos está mergulhada. Intensamente debatido na segunda metade dos anos 80 e consagrado em nova ordenação institucional em 1990 com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Assim. 1993.

ainda que em caráter incipiente. Seria então observada. A dissertação foi posteriormente publicada sob o título Ensino noturno realidade e ilusão (Carvalho. utilizou-se do tema escola e dos descritores que examinam a condição de aluno ou estudante. Tal fato parece auxiliar. também. a inexistência de relativa porosidade capaz de absorver dimensões da sociabilidade do educando que afetariam os patamares em que se dá a sua experiência escolar. 1987 e 1991. 1984). A compreensão da vida escolar estaria. revelando forte interesse no processo de aprendizagem mas com escassa ênfase no conhecimento do aluno. 69). 15 48 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . tentando apreender as especificidades da escola noturna. para a investigação de aspectos pedagógicos. Se essa suposição é correta. mediante a constituição de uma área. nesse universo da pro- dução discente. interesses e formas de sociabilidade. enquanto sujeito ao qual se destina a atividade educativa da escola.Marilia Pontes Sposito ensino de primeiro e segundo graus e. de estudos de natureza sociológica sobre jovens no interior da pesquisa em Educação? Ou. em menor quantidade. Um ponto importante de inflexão nesse universo de dissertações e teses se verifica na adoção da categoria estudante-trabalhador no âmbito das investigações que também procuraram entender a escola noturna e as relações entre educação e trabalho 15. conforme já apresentado. Dubet e Martuccelli. uma vez que além da sua escassa capacidade de transmissão de conhecimentos e valores considerados legítimos pela sociedade. estaria ocorrendo no seu interior a emergência de formas de sociabilidade juvenil não contempladas nas investigações (Dubet. na explicação do isolamento da área em relação às demais ciências humanas. interessados em compreender a escola. trata do estudante que trabalha. particularmente na faixa etária que recobre os segmentos juvenis? Seriam apenas os temas psicológicos o campo privilegiado de interlocução com outras áreas de investigação social? Se considerarmos que a maioria dos pesquisadores. cit. ao ensino superior. cujos dados preliminares foram aqui apresentados. exigindo novos aportes da pesquisa. poderíamos admitir a hipótese de que no interior dos estudos sobre a Educação estaria sendo contemplada. embora não utilize a expressão estudante-trabalhador. uma forma de aproximação inspirada nas disciplinas compreendidas pelas Ciências Sociais para a análise do sujeito ao qual se destina o processo educativo. percebe-se a sua fraca participação no conjunto da produção da área nos últimos quinze anos. Essas questões iniciais já permitem uma indagação importante. Ao que tudo indica.. assim. ainda que incipiente. sobretudo. a categoria aluno não possibilitaria uma aproximação mais global de suas práticas escolares. para grande parte da população escolar. nas teses e dissertações reunidas estaria ocorrendo esse diálogo apontado por Warde. poderíamos supor. ainda. esses pesquisadores voltaram-se. reduzindo as expectativas. Mas. como forma de aproximação do sujeito. e propondo a questão de forma mais modesta. que este seria. Nesse campo de estudos levantados pelo conjunto de dissertações e teses. 1996). Ao que tudo indica estaria ocorrendo um padrão de esgotamento das análises sobre a escola no Brasil que privilegiariam apenas a experiência pedagógica e os mecanismos presentes na distribui- O primeiro trabalho localizado data de 1981. As pesquisas estariam privilegiando no desvelamento do sujeito apenas a sua condição mais visível de aluno. um aspecto reiterador das características gerais da produção discente na área. op. as investigações mais recentes recorrem a novas abordagens. Ou seja. estabelecendo apenas em alguns temas e por parte de alguns pesquisadores “um diálogo diferençado com outras áreas de investigação social” (Warde. incluindo aquelas que dizem respeito às formas associativas e de expressão cultural dos segmentos juvenis na medida em que se acentua a crise da escola e sua capacidade de intervenção socializadora sobre a população em idade escolar. em nosso caso adolescentes ou jovens. Por essas razões a pesquisa voltou-se para o exame dessas formas híbridas que caracterizariam a experiência educativa da maioria da população de origem trabalhadora ou excluída da sociedade brasileira. ao contrário.

17 Revista Brasileira de Educação 49 . articulada ao campo dos estudos sociológicos sobre a educação. Essa sociabilidade. 1973). “A escola numa área metropolitana” (1967) e o artigo “Rendimentos e deficiências do ensino primário brasileiro”. Por outro lado. seria preciso reconhecer que uma certa abertura da pesquisa em Educação às disciplinas constitutivas das Ciências Sociais (em especial a Sociologia) estaria fortalecida se esse campo do conhecimento tivesse reservado em seus domínios uma atenção aos fenômenos educativos e aos estudos sobre juventude. que reduziria as situações particulares ao que estaria estabelecido e interpretado “a priori” em seus aspectos mais genéricos. estabelecendo as articulações gerais entre o funcionamento da sociedade e a educação. professores. Tratava-se de criticar a “ilusão pedagógica” de Durkheim (Durkheim. que tentava ao mesmo tempo afastar-se do caráter especulativo da primeira tendência e do imediatismo presente na segunda orientação. a Sociologia da Educação. Cândido assinalava a inevitável tensão existente entre as gerações. entretanto. como sua forma de sociabilidade interna que nasce na dinâmica do próprio grupo. Assim. ao realizar um balanço das tendências predominantes no pensamento sociológico sobre a Educação. Sugeria. expressos nas ordenações advindas do Poder Público. Cândido não se detém nesses aspectos e também aponta não só fecundos caminhos para uma nascente Sociologia da Educação. O caminho proposto procurava dar conta do universo de relações que compunham sua estrutura e funcionamento. Em suas reflexões pioneiras. alunos e suas famílias. finalmente. e. publicada sob a forma de livro em 1966. também. que considerava a escola como grupo social instituído. João Baptista Borges Pereira (1976) também em sua dissertação de mestrado. sem transformar a explicação dada na chave mestra. mas contempla o espaço possível para uma abordagem sociológica sobre juventude. Antônio Cândido identificava três grandes orientações: uma primeira — filosófica-sociológica — qualificada por suas preocupações em definir o caráter social do processo educativo. eixo central mas não exclusivo do processo educativo na sociedade moderna (Cândido. não foi o caminho seguido. a analise sociológica das 16 situações pedagógicas desenvolvidas no âmbito da escola. publicado no livro Estudos sobre o Brasil contemporâneo (1971). A tese de doutorado de Guimarães (1995). no artigo “A estrutura da escola” Cândido (1973 a) desenvolve um excelente roteiro de investigação para a análise da unidade escolar. a segunda vertente — pedagógico-sociológica — buscava os elementos teóricos que pudessem ser traduzidos na possibilidade do bom funcionamento da escola. sua dissertação de mestrado. ilustram a adoção dessas vertentes inspiradas em Cândido. Os trabalhos de Luiz Pereira.Estudos sobre juventude em educação ção do conhecimento escolar sem levar em conta outras dimensões e práticas sociais em que está mergulhado o sujeito16 . tornava-se preciso investigar não só os mecanismos que traduzem a ação deliberada dos grupos instituidores. Propunha Cândido que a Sociologia da Educação voltasse sua atenção para os aspectos sociais do processo educacional. Em 1955. como na sala de aula17. em decorrência das orientações e — tomo a liberdade de acrescentar — do padrão de interações de seus agentes: corpo administrativo. se utiliza das formulações de Cândido. Utilizando-se da significação heurística atribuída por Znanieck (1973). O início dos estudos sociológicos sobre educação no Brasil indicava um caminho promissor e fecundo para o desenvolvimento de pesquisas sobre a escola que merece ser retomado. mas se transformava em componente da Pedagogia e da Administração Escolar. dizia Cândido. Ao levantar elementos importantes para a análise das situações pedagógicas da escola e do processo educativo. poderia ser investigada tanto nas formas espontâneas de agrupamento e nos mecanismos produzidos para a sua sustentação. Este. que privilegiou no estudo da escola pública da cidade do Rio de Janeiro as suas relações com as galeras de jovens e o narcotráfico traduz essas tentativas de novos aportes. um ramo em vias de constituição.

a pesquisadora voltou sua atenção para os jovens. Universidade e sociedade e Educação Popular. com raras exceções. pois só recentemente o tema da juventude tem aparecido no debate público e político. Weber reitera o relativo desinteresse dos sociólogos pela educação apoiando-se em levantamento realizado por Clarice Baeta Neves em 1991. Na busca da compreensão da educação brasileira. impasses e as alternativas gestadas no esforço desenvolvido pelos jovens estudantes universitários para se afirmarem como sujeitos dos conflitos e das lutas sociais dos anos 60 (Foracchi. Mauger (1994) ainda aponta em seu balanço que a Sociologia da Juventude. é necessário ajudá-la a ser ou a desaparecer? Para nós essa indagação se apresenta de forma mais aguda. reunindo artigos de periódicos. recoberto pelos processos de exclusão social que atingem crianças e adolescentes nas denominadas “situações de risco”. Seus trabalhos revelam as tentativas. a seguinte questão. levantados mediante consulta aos acervos de centros situados em São Paulo (Celaju. esse autor. muito menos. compreendendo a educação de adultos e os movimentos sociais pela escola pública. Analisou uma categoria construída historicamente na dinâmica dos embates entre as classes. mas que não se esgotava no âmbito dessa relação. sobre jovens. esgotando o eixo Rio-São Paulo. A Sobre as relações entre os sociólogos e a Educação consultar os artigos de Luiz Antonio Cunha. Não se configura nem uma sólida tradição investigativa no campo iniciado por Foracchi e. não só na Sociologia como na Antropologia e na Ciência Política. 18 A pesquisa em andamento pretende realizar balanço de dissertações e teses sobre juventude no campo das Ciências Sociais. Assim. se as Ciências Sociais no Brasil não desenvolveram nos últimos 25 anos. Propunha. Não obstante o maior desenvolvimento dos estudos sobre juventude na França. final dos ano 80. até os nossos dias. A evolução das Ciências Sociais no Brasil compreendeu o abandono da educação que se tornou objeto quase inexistente para os sociólogos18 e o escasso desenvolvimento do tema da juventude. a disseminação de equipes constituídas em torno do tema. Um balanço realizado por Silke Weber sobre a produção recente no país da pesquisa que estabeleceu as relações entre educação e sociedade. dentre os 13 existentes no país na área de Sociologia. dos dilemas nascidos no interior de uma sociedade dependente. a pesquisa em Educação. elencou as seguintes linhas de estudo: Estado e educação. 1982). abriu perspectivas no campo dos estudos sobre crianças e adolescentes em situação de exclusão.Marilia Pontes Sposito 1975) que examinou o tema da educação sem estabelecer os conflitos entre os adultos e os imaturos (jovens e crianças) que condicionariam o próprio processo de instrução. 19 50 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . quando se debruçou sobre os sujeitos do processo educativo não encontrou nessa área do conhecimento possibilidades de fértil interlocução. O trabalho importante de balanço da literatura realizado por Alvim e Valladares (1988). livros e teses. que desenvolviam pesquisas em temas explicitamente ligados à educação (Weber. “Bibliografia sobre la juventud brasilera” que apresenta títulos. Há uma publicação. reúne estudos importantes mas não oferece um quadro sistemático da produção devido a um volume significativo de trabalhos que não foram considerados e à ausência de periodização e classificação das fontes na forma como a bibliografia foi apresentada. as dissertações e teses foram desenvolvidas por pesquisadores isolados ou por raros grupos de pesquisa19. um campo sólido nos estudos sobre juventude. Os estudos de Marialice Foracchi constituem. revestido de forte audiência política e de intenso teor profético ainda padecia de fraca legitimidade científica e pouca consistência teórica no início dos anos 90. oferecendo subsídios para a análise do desenvolvimento dos estudos sociológicos sobre juventude. 1987). A publicação de Cardoso e Sampaio (1995) em torno da produção na área. 1972. o exemplo melhor sucedido de tratamento do tema. As dissertações e teses defendidas na própria USP são esparsas. Quando a preocupação se fez presente. 1965. enquanto domínio de pesquisa sociológica nesse país. após a morte prematura de Marialice Foracchi. que havia localizado apenas 4 programas. 1992). A ampla faixa que completa 18 anos só se constitui interesse pelos índices de violência associados a esse segmento. em 1987. (1992 e 1994).

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em re- lação às quais cabe a dúvida radical. temas como o tratado neste texto implicam riscos ainda maiores. as principais dessas certezas talvez sejam: é crescente a demanda por educação nas camadas populares. abandona a escola. Revista Brasileira de Educação 53 . Nas ciências sociais “as rupturas epistemológicas são muitas vezes rupturas sociais.. com efeito. uma conversão do olhar(. A ruptura é. Afinal. o que explica. que passa despercebida porque é perfeitamente natural.49) Porém. sempre. o que indica o valor a ela atribuído nesse nível de classe. A força do pré-construído está em que.38-9). Praticar a dúvida radical em sociologia é por-se um pouco fora da lei. uma mudança de toda a visão do mundo social. No Brasil. a tentativa de rediscutir qualquer uma delas constitui. os elevados índices de repetência. p. escolaridade e oportunidades de emprego nas últimas décadas.” (1989. achando-se inscrito ao mesmo tempo nas coisas e nos cérebros. É ainda ele quem diz: “Tratando-se de pensar o mundo social. a grande maioria das crian- ças que ingressam nas escolas de primeiro grau apresenta dificuldades de aprendizagem e de ajustamento. nunca se corre o risco de exagerar a dificuldade ou as ameaças. a despeito do cuidado de seus respectivos autores no sentido de evitar totalizações. com as crenças fundamentais do corpo de profissionais. as oportunidades de emprego dependem do nível de escolaridade alcançado. (ibidem. um empreendimento de alto risco1. uma metanoia.). com o corpo de certezas partilhadas que fundamenta a communis doctorum opinio. Em conseqüência. por vezes.Jovens urbanos pobres Anotações sobre escolaridade e emprego Jerusa Vieira Gomes Faculdade de Educação. Universidade de São Paulo Muito se tem escrito sobre a relação entre pobreza. de fracasso e de evasão-expulsão escolar. uma revolução mental. rupturas com as crenças fundamentais de um grupo e. por esse motivo. E isso não é possível sem uma verdadeira conversão. p. as novas tecnologias e a globalização da economia tendem a impor exigências mais elevadas de escolaridade quer para o ingresso quer para a permanência no empre- 1 Bourdieu usa a expressão certezas partilhadas. ele se apresenta com as aparências da evidência. Algumas das idéias de maior impacto foram disseminadas e apropriadas como certezas. em grande parte. a falácia da neutralidade científica já foi suficientemente desmistificada em nosso tempo. a luta pela estrita sobrevivência é responsável pelo trabalho precoce de amplo contingente infanto-juvenil que..

nessa medida. especialmente: Gomes (1990. de oposição entre as esferas (zonas) formal e informal da vida quotidiana. Por certo essas idéias são verdadeiras. explica a indisciplina e a evasão escolar entre esses jovens em termos de respos- O fato de o sistema escolar brasileiro reproduzir as desigualdades sociais e os altos índices de reprovação e de evasão no 1º Grau foi reconhecido. a vida escolar de cada sujeito depende. aprofundar o conhecimento sobre os aspectos sociais e familiares envolvidos nesse processo. os índices de desemprego e de exclusão social tendem. mais especificamente. em entrevista à imprensa.. este artigo assume o desafio de recolocar duas questões: Em que medida a escola é verdadeiramente valorizada pelo jovem pobre e por seu grupo doméstico? Qual a perspectiva de valorização do critério escolaridade no caso dos empregos acessíveis ao jovem urbano pobre? Respondê-las talvez nos ajude a desvendar uma outra face do processo de evasão/expulsão. Pobreza e escolaridade: breve (re)leitura de alguns escritos Paul Willis (1977). em decorrência das novas condições de trabalho. ainda. Em vista disso. também. doravante. nela. As proposições acima assumidas fundamentam-se em dados da literatura. 16-0297. Patto. 1993 e 1994). 1990) expliquem a produção/reprodução pelas instituições escolares. Ou seja: a história de escolarização de uma família particular ilumina a história singular de seus filhos. 2 A importância da socialização familiar e. e os níveis de evasão escolar e repetência são muito elevados. prevê-se que as desigualdades escolares repercutam cada vez mais nas oportunidades de emprego disponíveis ao trabalhador e. o que se reflete na escolarização das novas gerações4. e que se relaciona à história familiar de socialização. aponta-nos as dificuldades de escolarização de crianças e de jovens urbanos da classe operária. em todos os níveis da hierarquia ocupacional. Ele tece sua explicação em termos culturalistas. (. (cf. de sua história singular de socialização no seu grupo doméstico de origem3. conforme veremos a seguir. o grupo informal é a unidade básica de uma cultura e.Jerusa Vieira Gomes go. a justificativa para retomar duas questões tão antigas assenta-se na suposição de que. ao jovem trabalhador pobre2 . No caso brasileiro. Ou. à história familiar de escolarização. prioritariamente. cabe. No caso de famílias populares a escolarização é uma experiência recente. da mediação foi por mim analisada em textos anteriores. Para ele. a sua fonte de resistência.(. a afetar. a escolaridade parece constituir um critério ainda secundário quando estão em jogo os emprego acessíveis ao jovem nesse nível de classe. afirmou: “O número de alunos que concluem o primeiro grau é apenas a metade dos que ingressam. Não bastasse isso — e por mais paradoxal que esta afirmação possa soar em tempos de modernização da produção —. pelo atual Ministro da Educação que. À medida que o jovem se dá conta disso é-lhe mais difícil reconhecer a importância do saber escolar. em especial. E. um dos autores mais influentes sobre o pensamento construído nesse campo. ainda. implícita ou explicitamente. além dos diversos fatores já sobejamente analisados pela literatura. Sem dúvida. É o que parece ocorrer em relação àquelas que dizem respeito à evasão/expulsão escolar e ao elevado valor atribuído pelos jovens pobres à educação escolar. 4 3 54 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .12). no início do corrente ano letivo.) O sistema reproduz a injustiça social. àquelas que. e em resultados de pesquisas de campo desenvolvidas com jovens pobres na região metropolitana de São Paulo. embora os estudos realizados e/ ou orientados por Maria Helena Souza Patto (ex. reconhecem na escolaridade o critério mais relevante a ser requerido para o ingresso e a permanência no emprego. Vejase.. Jornal do Brasil.. as populações menos escolarizadas. No sentido de contribuir para o esclarecimento delas. Assim. ainda insuficientemente estudada. os pais vão se interessar pelo ensino.) Na medida em que os os filhos da classe média entrem na escola pública. mas nem são conclusivas nem estão livres de interpretações equivocadas.. internacional e nacional. p.

Em suma.) mas também porque mede apenas um aspecto daquilo que podemos descrever mais acuradamente como a mobilidade estudantil informal. discute a influência parental sobre a escolarização dos filhos e. A despeito das inúmeras críticas que lhe foram e ainda são dirigidas. op. os indivíduos ou as famílias têm uma estimativa diferente de custos. esse fenômeno de resistência tem-se revelado persistente nos mais diversos países. embora fosse extensa a literatura sobre a relação entre herança cultural e desigualdades sociais. “A oposição à escola manifesta-se principalmente na luta para conquistar espaço físico e simbólico da instituição e suas regras e para derrotar aquele que é percebido como o principal propósito dela: fazer você ‘trabalhar. quando chama a nossa atenção para a influência dos valores e das atitudes que os pais manifestam em relação à escola sobre os valores e as atitudes dos filhos. dizia: Estes diferentes resultados sugerem que o nível de aspiração escolar do filho depende da imagem social que a família tem dela mesma. riscos e benefícios antecipados que estão associados a uma decisão” (cf. uma referência obrigatória. E é isso que o sujeito individual pesa em cada Revista Brasileira de Educação 55 . A mais importante delas.. consiste nesse reconhecimento de uma certa resistência à escolarização. Mas. Boudon já aconselhava-nos que. Mesmo considerando discutível a interpretação em termos de cultura (e contra-cultura) de classe. 99). penso. o que Willis acaba pondo em jogo. 101). tão em voga naqueles tempos. pelo menos até que eles ampliem o círculo de relações sociais e escapem à influência parental direta.. ou seja. Willis vai ainda mais longe quando: refere-se à organização social da escola.. na análise de Boudon. já seria suficiente para o bom êxito dos empreendimentos individuais. 26-27) 5 E é em função dessa história familiar que o autor explica a decisão a ser tomada pelo sujeito e sua família no sentido de dar ou não continuidade ao projeto individual de escolarização. da rejeição à escola. quando tantos acadêmicos talvez ainda acreditassem que o desejo de saber. ibidem 305). 1979. Boudon também chamava a atenção para os “fatores ligados à estrutura familiar.) O faltar às aulas dá apenas uma medida imprecisa — até mesmo sem sentido —. implícito nos movimentos pró-escolarização. seu trabalho constitui um marco. revendo os principais estudos até então divulgados sobre as desigualdades sociais. Boudon. duas proposições essenciais (segundo ele estabelecidas pelos trabalhos de Girard e colaboradores na França) deveriam ser retidas: “a primeira é que a herança cultural joga um papel importante na geração das desigualdades sociais diante do ensino..” (Willis. Segundo ele. 1979.. é a necessidade de estudos comparativos sobre a educação familiar e a educação escolar. deve interessar-nos o fato dele reconhecer que o nível escolar é um dos “mecanismos essenciais de determinação do status de destinação” (Boudon. todo sistema de ensino contém momentos críticos nos quais o aluno se depara com a necessidade de decidir sobre continuar ou não sua vida escolar. 117). e contém pistas para outras pesquisas.” E.. A partir de sua posição. mas igualmente da história da família e da história escolar dos membros da família nuclear (Boudon. não somente do status sócio-profissional do pai. sobretudo.’ (.(. além da importância atribuída à história familiar — em termos de relação estreita entre nível escolar e status social de origem —. Isso acontece não apenas por causa da prática de passar na sala para registrar a presença antes de sair (. Porém.. Esta imagem é o produto complexo. a segunda que esta influência é particularmente sensível na juventude” (Boudon. E permanecer ou não “depende de um processo de decisão cujos parâmetros são funções da posição social ou posição de classe.cit.) Eles constróem virtualmente seu próprio dia a partir daquilo que lhes é oferecido pela escola. da escola5. Alguns anos antes. 1977. Além disso. a partir de dados fornecidos pela literatura internacional.Jovens urbanos pobres ta (oposição) do grupo informal às demandas da zona formal. tendo em vista o propósito deste artigo.

dadas as peculiaridades do país. Porém. na melhor das hipóteses. Em conseqüência. E a escola perde valor para os mais novos à medida que eles vão se dando conta do fraco impacto da escolaridade na vida da geração anterior 6. Mas. A pergunta que se nos apresenta é: o que têm em comum esses jovens urbanos pobres que os leva a atribuir tão frágil valor à escolaridade? O que há de comum entre eles. em termos de contra-cultura escolar. exemplo quase extremo desses conflitos. etc (Esteves. Em contrapartida. melhores empregos? A antecipação desses riscos e benefícios é. ou melhor. historicamente. conforme vimos anteriormente. Esta suposição implica outra: para esses jovens a escola (e o saber por ela promovido) tem pouco ou nenhum valor em si.) A medida desse (des)investimento é indiretamente dada pelo facto e pelo grau de exclusão ou admissão de situações de vida que concorrem com a escolarização na utilização de recursos tão escassos e tão importantes como o tempo. Dito de outro jeito. a grande distinção entre uns e outros reside no Ao comentar os dados por ele obtidos em pesquisa sobre a relação família. o dinheiro. escola e trabalho. pois. em geral. À medida que essa apropriação é recente e. a grande maioria é de pobres e possui uma história sócio-cultural mais ou menos assemelhada. ser colocado nos seguintes termos: o valor que as pessoas atribuem à educação escolar é propocional à familiaridade delas com as coisas que dizem respeito à escola. nesse nível de classe. e com uma história familiar de escolarização mais antiga. o valor a ela atribuído depende de suas possíveis conseqüências para a vida adulta de cada um deles. Se assumirmos também dois dos conceitos centrais de Bourdieu — de capital cultural e de aprendizagem por familiarização insensível —. o quanto um grau escolar mais elevado é capaz de garantir. 6 Sobre a escolarização de crianças e de jovens em regiões semi-rurais de Portugal. 8 7 56 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . ainda hoje. A expressão mesmo nível de classe baseia-se na suposição de que. dentre os estudos já divulgados veja-se: Araújo e Stöer (1993). neste trabalho os níveis de pobreza não são levados em conta. Teixeira (1993). Estudos sobre bairros populares reconhecem a existência. então. é possível supor que. este já é um valor incorporado ao capital cultural herdado. diz Esteves: “a escolarização já não tem o mesmo impacto motivacional nos diversos grupos sociais. por que a escola parece destituída de um valor em si? A resposta a esta pergunta talvez também explique de maneira mais satisfatória a chamada resistência encontrada por Willis e por ele interpretada. (. Ou seja. Na verdade. facilitada pela história de vida dos companheiros ou dos vizinhos mais velhos. nesse nível de classe. neles. o jovem contemporâneo. foi bastante incompleta e precária. descobriremos (em diversos países. de populações pertencentes a diversos níveis de classe. que funciona como aspecto distintivo de seus grupos informais quando comparados a grupos informais de jovens urbanos pertencentes a outros níveis de classe? Seguindo a pista de Boudon. incompleta a manifestação dela só pode ser frágil8. penso: a ori- gem rural e uma história familiar de analfabetismo ainda recente. p. a energia psíquica. para os jovens oriundos de outros níveis de classe.Jerusa Vieira Gomes momento decisivo: permanecer na escola é garantia de melhores condições de vida e de trabalho no futuro? Ou seja. habitante dos cortiços e das periferias metropolitanas é. além da pobreza. a vida escolar dos avós e dos pais do jovem metropolitano pobre. o nosso problema pode.. a maior parte sequer chegou a concluir o primeiro grau7. No caso das populações pobres essa familiaridade — a partir da experiência direta e/ou vicária — é. recente. com jovens do Norte de Portugal. é recente e ainda está em curso o processo de incorporação da escola e do valor atribuído à escolaridade ao capital cultural familiar a ser herdado pelas novas gerações. embora em graus variados) um aspecto distintivo dos mais relevantes. 53-54). Vieira (1992). e reconstruindo a história dessas populações. Esteves (1995). não sendo por isso de estranhar — bem pelo contrário — que assuma formas muito desiguais o investimento que nela se faz. filho e neto de semi-alfabetizados ou de analfabetos.. do ponto de vista da estrutura de classes. de diversos níveis de pobreza. 1995.

a análise de trajetórias individuais a partir da condição familiar haveria certamente de revelar a influência. Os jovens que conseguiram permanecer na escola. Em outras palavras. quase sempre. Sposito (1993) e Fonseca (1994). além da renda. Em todos esses momentos em que a vida lhes impõe uma escolha. A pergunta inevitável é: por que só nos casos de grupos em “situação econômica mais favorável” as atitudes famíliares. ora de capital cultural. ou o emprego e a escola. Eis. De outra parte. ou a maternidade e a escola. op. dentre os quais as necessidades ou aspirações da população. Gouveia é. os de Gouveia (1981). na comunidade científica brasileira. 1993). À guisa de exemplo. De acordo com a literatura. Nesses casos. especialmente no que concerne às escolhas dos jovens de ambos os sexos em momentos decisivos da existência de cada um deles. entre escola e trabalho. 113). lidam com a relação pobreza-escolaridade no Brasil retomemos. tendo em vista os propósitos e os limites deste artigo. Teixeira. quais características da família de origem podem estar relacionadas ao nível de escolaridade alcançado pelo sujeito individual. desde os primeiros anos de vida. ou não. 1981. ela também sugere que a questão talvez não se resolva “inteiramente com a oferta de vagas ou incentivos governamentais e nem mesmo com a alteração das condições materiais que. dentre outros. Ao referir-se à persistência do fenômeno em diversos países. Dentre os estudos que. E considera a possibilidade de influência de outros fatores sobre a extensão da escolaridade. consolidado através de duas ou mais gerações (Gouveia. em seu criterioso trabalho sobre movimentos populares e a luta por educação em São Paulo nos anos 80. No caso do jovem o conflito é. no interior dos grupos domésticos de origem. consolidadas através de gerações sucessivas. levanta a possibilidade de que em grupos economicamente mais favorecidos outros fatores podem ser relevantes. influenciariam a extensão da escolaridade dos mais novos? Com base na breve (re)leitura levada a cabo até agora. As críticas e a recusa da escola contêm também A esse respeito. A idéia de uma apropriação ainda incompleta do valor atribuído à escolaridade ajuda. na família. ela faz referência explícita ao que denominou “a recusa da escola”. direta ou indiretamente. 9 percepções diferenciadas da prática escolar. uma das pioneiras no estudo da relação entre desigualdades educacionais e origem social. cit.Jovens urbanos pobres grau em que esse valor foi aprendido. Ou seja. sem dúvida. 114).1981. ora de atitudes altamente favoráveis a uma escolaridade mais prolongada. Em contrapartida. restringem ou dificultam a freqüência à escola e o prosseguimento da escolaridade” (Gouveia. é lícito supor uma estreita relação entre atitudes familiares e duração da escolaridade. relacionadas inclusive com o valor simbólico que um diploma superior possa ter para a família. concluir o Revista Brasileira de Educação 57 . No que concerne a Sposito. a esclarecer aspectos ainda obscuros da relação família-escolaridade. o grau de influência deriva da localização de um grupo familiar particular em uma escala de variação que abrange desde as atitudes mais favoráveis já consolidadas até às mais desfavoráveis. uma das preciosas pistas de trabalho legadas por Gouveia: a necessidade de investigar. consideremos: é notória a irregularidade da freqüência às aulas entre as populações pobres. a preterida costuma ser a escola 9 . veja-se os trabalhos de: Gouveia. refere-se aos dados obtidos por Schmidt e Miranda (1977) na região metropolitana de Belo Horizonte. nas demais camadas a experiência escolar é vivida com toda a força de sua inevitabilidade tão logo ela tenha início. a jovem vê-se testada em três momentos decisivos quando deve escolher entre a vida doméstica e a escolar. ou favoráveis pouco consolidadas ou até mesmo as desfavoráveis. os quais são indicativos do efeito positivo da elevação da renda familiar sobre a escolaridade. Nesse sentido. pois. as atitudes familiares influenciam a extensão da escolaridade individual sejam elas: favoráveis consolidadas.

em decorrência do modelo de pesquisa de campo adotado. ex. descrédito e recusa sejam experiências singulares. prepara a criança para a vida. determinam a educação dos filhos. mais do que qualquer outra. Na verdade. que têm suas rotinas cotidianas ordenadas por outras prioridades. teria reconhecido que: “No fundo. finalmente. quanto mais longo é o percurso escolar. inclusive.Jerusa Vieira Gomes primeiro ou o segundo grau.. ela aprofunda a análise dessa relação e nos oferece uma contribuição significativa sobretudo ao reconhecer que: à conquista da escola. Boudon e Bourdieu). essa pesquisa lida. seguem-se. neste contexto. na linha anteriormente apontada por Gouveia. a autora conclui: “Para entender o lugar da escola no sistema de valores dos grupos populares no Brasil urbano. inevitavelmente. verificável. o desencanto. embora corroborem a suposição assumida neste artigo. op. 155). Portanto. exprimem suas insatisfações ante a educação a que têm acesso. 1987 e 1996) Porém. se preferirem) do valor atribuído à escolaridade. lembremo-nos: cada sujeito compartilha sua experiência com familiares. 27) E a população pobre. vizinhos. supostamente. a educadora Zaia Brandão. Quanto a Fonseca (1994). Vejamos algumas de suas principais afirmações: a educação formal faz aparentemente pouca diferença na vida das pessoas. É exatamente isto que venho fazendo há mais de uma década: estudos sobre a socialização de jovens e a trajetória deles da família à escola e ao trabalho.(cf. A diferença. de descrédito diante do conjunto de expectativas que produziram a vontade de acesso à instrução (Sposito. progressivamente. após árduos e intensos movimentos protagonizados pelos habitantes de um bairro. embora desencanto. ao comentar sobre a qualidade de ensino no Rio. a escola é muito menos importante do que nós imaginamos. o descrédito e. ajudam a esclarecer o tema proposto neste artigo. tendo em vista a preparação deles para a vida adulta. Gomes. também os sentimentos e as representações a elas associados são. há consenso quanto à necessidade de saber ler e escrever e de que cabe à escola promover essas aprendizagens. Algumas de minhas descobertas. 381). disseminados no meio social de pertencimento. 10 ser buscada na força da apropriação (ou inculcação. contudo. penso. com o objetivo específico de apreender as prioridades por eles estabelecidas e que. Willis. Porém. cedo se apercebe disso. ocorre um processo de ‘desfetichização’ do saber escolar. com os valores predominantes nas populações estudadas. No que tange à vida escolar. a escola não ocupa um lugar central nas preocupações das pessoas. em camadas abastadas da sociedade brasileira atual10 . maior a crítica. Pressupondo que a hierarquia de prioridades deriva da escala de valores de quem a estabelece. por uma série de motivos. Não faltará quem nos aponte a generalidade desse fenômeno.” (Jornal do Brasil. dotando-a de conhecimentos úteis e integrando-as às redes sociais adequadas” (Fonseca. inscrevem-se os meus próprios trabalhos (p. tendem a ser compartilhados por contingentes populacionais cada vez mais amplos e significativos. especialmente daqueles em cuja tradição. Sposito também estabelece a estreita relação entre atendimento às expectativas familiares e a extensão da vida escolar. 58 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . p. Manifesta-se uma forma de desencanto. parentes e até mesmo com companheiros de trabalho. a recusa à escola (recusa que pode ser meramente temporária ou definitiva). cit.16/02/97. elas só podem ser melhor compreendidas à luz de alguns dos mais relevantes estudos anteriores. A partir desses e de outros resultados. quanto mais existe a possibilidade de frequentar a escola. os dados obtidos por Fonseca são aparentemente desconcertantes. Nesse sentido. a vida escolar não é uma experiência “familiar” para todos eles. de certo modo. quer se trate de indivíduos ou de grupos ou de instituições. também pode De acordo com notícia veiculada em jornal carioca. é necessário refletir sobre o processo amplo de socialização que. 1992. além de defender as escolas próximas às casas. amigos. Assim. a sua é uma pesquisa antropológica realizada com moradores de um bairro popular de Porto Alegre. Mas. nas diversas camadas sociais.

ao mesmo tempo em que confirma as suposições iniciais assumidas neste texto. de que maneira o jovem conseguia empregar-se sem sequer concluir o primeiro grau? Para responder a essas e outras perguntas realizei (de 1988 a 1992) uma segunda pesquisa: um estudo longitudinal das trajetórias de adolescentes e de jovens (participantes da pesquisa anterior) da família à escola e ao trabalho. o trabalho parecia ser mais atraente e mais convincente do que a escola. um avô chegou mesmo a dizer-me. Quando Revista Brasileira de Educação 59 . Ou seja. Aliás.Jovens urbanos pobres O retorno aos autores revela. esses jovens são filhos e netos de semi-alfabetizados e de analfabetos. com muita naturalidade: “a escola não tem importância mesmo. Ao contrário. parece generalizada a discrepância entre a fala que idealiza a escola e a vida escolar da maioria deles. Por certo há exceções. eram: por que esses jovens deixavam a escola? A precariedade das escolas e o trabalho docente inadequado eram explicações suficientes para as atitudes escolares de crianças e de jovens? Em que medida a história familiar de escolaridade ajudava a explicá-las também? Se as oportunidades de traba- lho dependem do nível de escolaridade alcançado — crê-se que as novas tecnologias imponham exigências mais elevadas de escolarização —. então. junto com a família. em suas falas. Senão. todos os entrevistados — avós. quanto à expectativa de escolarização enquanto os mais velhos deles fazem referência à oitava série. aritmética e alguns conhecimentos gerais. acabou ingressando em um dos cursos de Ciências Humanas (USP). é comum a história de repetências sucessivas. Nela. com base na reconstrução das histórias de vida (Gomes. finalmente. participante da pesquisa longitudinal: cultivou desde criança o gosto pelo estudo. sobretudo. A cada dia evidenciava-se uma discrepância maior entre discurso e vida. 1996). valorização e expectativas razoavelmente elevadas no que diz respeito à escolaridade. até. só serve para ensinar a viver com os outros. vejamos: com raras exceções. aponta-nos outras descobertas ainda mais desconcertantes e instigantes do que as anteriores. vimos. para esses. de fato. mas raras. quase todos os discursos contém o reconhecimento do valor da escolaridade prolongada mas. a grande maioria daqueles que freqüentavam a escola apresentava fraco empenho em sua vida escolar particular. repõe a família e a socialização no cerne da análise da relação entre pobreza e escolaridade. Para complementála. E. interesse. aproximadamente. e pareciam buscar no trabalho um substitutivo dela. É o caso de uma jovem. em contrapartida. de maneira a obter dados sobre a história escolar e ocupacional deles e de seus respectivos grupos domésticos (Gomes. escola. mães. também foram colhidas informações sobre as experiências escolares dos sujeitos e de seus familiares. em contrapartida. a partir de então começa a perder importância. No curso do tempo dei-me conta de um dado assaz intrigante e instigante: portadores de uma tradição rural e de analfabetismo recente. a antiguidade de muitas questões e de tentativas de interpretações delas com as quais nos debatemos até hoje. o centro da vida infantil. mas essas informações não constituíam o objetivo primordial. Em suma. crianças e jovens — manifestavam. foi aplicado um questionário aos alunos matriculados em uma escola pública das redondezas (27 alunos de uma mesma turma). a idade de 11 a 12 anos a escola constitui. com obstinação enfrentou os sucessivos obstáculos impostos pela pobreza e. premidos por qualquer necessidade material mais imediata. há quem assuma sem constrangimento visível o fato de não gostar de estudar. a grande maioria limita a importância da escola a ensinar leitura. os mais novos mencionam o segundo grau.” As perguntas que se me colocavam. Transição família. sobretudo à medida que alguns deles entravam e saíam da escola sem que estivessem. escrita. trabalho Minha primeira pesquisa sobre socialização consistiu em um estudo geracional (três gerações consecutivas) acerca da ação socializadora familiar. O conjunto dos dados. 1987). alguns jovens manifestavam acentuada intolerância à rotina escolar.

E justifica: a informática não preocupa. Ao final. só por vontade de saber. Nesse sentido. Ela precisa saber fazer conta. E quase todas elas já são informatizadas e adotam modernos padrões de gerenciamento e de produção. De fato. quero estudar. por seu turno. no mesmo setor que o outro mais estudado. nem mesmo essa jovem — uma exceção entre seus companheiros e em seu meio — considera necessária a escolarização prolongada para todos. os primeiros empregos são conseguidos em empresas.Jerusa Vieira Gomes ainda cursava a oitava série já relacionava escolaconhecimento: Se você encarar a escola como uma coisa de obrigação aquilo fica chato. revelam uma apreensão vaga e elementar da importância da escola. Dessa aparente contradição deriva a terceira pesquisa. Ou a jovens com uma qualificação educacional mínima. a vontade de trabalhar naquela empresa. entre eles. limpo. comerciais ou fabris. Bastaria o primeiro grau. é exemplar a fala de um dos jovens informantes: “a gente vê cara que só tem terceira série de hoje e trabalha na mesma fábrica. ter boa aparência (ser digno. a escolaridade está longe de constituir um critério relevante de recrutamento. da escrita e da aritmética. tem dificuldade em qualquer trabalho” (moça. Mas. E esclarece: “não precisa ir até a oitava série. quem a justifique relacionando essas aprendizagens às exigências do mercado de trabalho: “se você não sabe ler. por exemplo. seu relacionamento com outras pessoas. uma pessoa atirada. gostar de trabalhar. quero ir ao máximo que eu puder. Eu sei que quero. bem antes. Porém. sobretudo no setor de produção. os critérios são: “ser não-fumante. de pequeno ou de médio porte localizadas na região. Até mesmo nas respostas mais consistentes. querer trabalhar. No meu caso é porque eu quero saber. precisa ter cursinho? Não. não sei justificar porquê. antes mesmo de concluir o primeiro grau. No futuro vai mudar a escolaridade? Na minha opinião isso é uma pré-seleção de preguiçoso. que esclarece enfaticamente: Antes da escolaridade. Dado no mínimo intrigante em tempos de modernização empresarial e de globalização da economia. Há. 1996) É uma fábrica moderna. claras e objetivas também acabam restringindo essa importância ao ensino e à aprendizagem da leitura. todavia. rapazes e moças entre 14 e 21 anos. Esta é a qualificação exigida e que deve funcionar como critério de seleção.” Aliás as biografias dos jovens participantes da pesquisa atestam a veracidade dessa assertiva: a grande maioria realiza a transição para o trabalho entre 12 e 14 anos de idade.” Nessa mesma época. razoavelmente informatizada. o resto ela vai aprender aqui dentro. tendo em mente que vai aprender uma coisa importante para você. (Gomes. após 60 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Quanto às perspectivas futuras. Conhecimento é bom para as pessoas. flexível. O Gerente de Produção (engenheiro). A escola serve para outras coisas também. fabricante de componentes microeletrônicos. é a boa vontade. Gostar da empresa. ser dinâmico. 16 anos). sem ser eliminatório. De acordo com a encarregada de selecionar os candidatos a emprego. revela-se reticente e evasivo. quero aprender. essa mesma engenheira (formada em escola de renome) é cética em relação à maior exigência de escolaridade. precisa conhecer matemática e precisa saber escrever. rápido. é a consciência de ser suficiente e bastante um domínio apenas elementar dessas habilidades para o sujeito conquistar e garantir o emprego. e. alunos da escola pública. honrado). É visível a existência de uma massa de empregos acessíveis a jovens pouco esco- larizados. Todos os bons que eu conheço aprenderam sozinhos. de firma que não tem diretrizes. Generalizada mesmo. Você tem que ir à escola pensando que você vai aprender uma coisa legal. com o objetivo de identificar os critérios de seleção e de recrutamento utilizados em uma dessas fábricas — uma metalúrgica de médio porte.” Esse testemuho é confirmado pela Gerente de Qualidade (engenheira). talvez o primeiro grau. ter boa coordenação motora e habilidade manual.

(1989). (1994). sobretudo. Nos custos são avaliadas as possíveis perdas de laços afetivos significativos. conseqüências insuficientes na vida adulta de cada um deles. Porto: Afrontamento. e Noronha. La Documentation Française: Paris.V. FE-UNICAMP. b) Kawamura. Schooling for inequality? Ordinary kids in school and the labour markert. A sua tarefa primordial. Jerusa V. dos vizinhos e dos parentes em geral. Idéias. Ben (org). Sérgio (org). é desproporcional.” Por certo podemos estar diante de um caso isolado. Campinas.. a escolaridade é percebida como tendo pouco impacto. Revista Brasileira de Educação 61 . A maior escolaridade traz. La Documentation Française. Referências bibliográficas ARAÚJO. Qual as vantagens desse tipo de análise? A principal delas. work & equality. também. (61):144-155. In: MICELI. Todavia. 1990. O. tal determinação se realiza em coerência com a história familiar e do grupo de pertencimento. 11 __________. E tudo indica que esse esforço é percebido e sentido pouco compensador porque os custos envolvem. É possível supor que esse nível reflita o os novos patamares econômicos e sociais alcançados pela família singular. 1993. O poder simbólico. (1993). C. E não eram fabriquetas de fundo de quintal11. London:Hodder and Stoughton.. São Paulo. em si mesma. Paris (44):67-80. Pierre. In: COSIN. Mas. São Paulo: Perspectiva. Brasília: INEP. Psicologia-USP. Ou seja. L’inégalité des chances. Qualificação do trabalho face às novas tecnologias: parâmetros culturais. a despeito das atuais exigências associadas ao mundo do trabalho. Stephen. Vittório. Socialização: um problema de mediação?. (1989). (16):84-92. inicialmente. de outra parte. École et formation professionelle en Italie. Preparando-se para a vida: reflexões sobre escola e adolescência em grupos populares. em cada geração (oitava série ou segundo grau). (1987). Lisboa: Difel BROWN. FONSECA. School. __________. (1995). Essa percepção talvez ajude a esclarecer o estabelecimento prévio do grau escolar a ser atingido. Para tanto os esforços dela precisam ser redobrados. A economia das trocas simbólicas. Paris: Armand Colin. Phillip. (1993). (44):67-80. ESTEVES. será importante para viver melhor. Ora. Genealogias nas escolas: a capacidade de nos surpreender. Porto: Afrontamento.). não generalizável.Jovens urbanos pobres salientar a importância atribuída à educação escolar em sua família de origem. as histórias dos jovens participantes das pesquisas corroboram todas essas afirmações: nenhuma empresa exigiu deles um certo grau de escolaridade por ocasião da seleção. se é frágil a atribuição de valor ao saber escolar em si e se. escola. (1990). École et formation professionnelle en Italie. STÖER. 1993 (mimeo). L. Em Aberto. A excelência e os valores do sistema de ensino francês. Se não for para ingressar e/ou se manter no emprego. Jovens e idosos: família. aspectos subjetivos. Este é o desafio posto. (1):57-65. (1979). Cláudia. veja-se: a) Capecchi. Socialização: um estudo com famílias de migrantes em bairro periférico de São Paulo. Helena. Antonio J. a ameaça de afastamento dos grupos de pertencimento: da família. (mimeo).M. haverá de ser a de convencer as novas gerações de estudantes de que o saber escolar é importante para a vida pessoal e social. de fato o esforço a ser dispendido na condição de aluno é sentido como demasiado. (1987). (1993). que é mais ameaçadora à medida que são apoios da identidade. (coord. BOUDON. Tese (Doutorado em Psicologia). GOMES. CAPECCHI. é a de obrigar-nos a enfrentar as dificuldades inerentes à história cultural e social familiar. São Paulo: IPUSP. não lhes parece compensador. trabalho. Raymond. __________. Sobre as exigências de escolaridade em empresas. penso. Relações família e escola: continuidades e descontinuidades no processo educativo. Reconhecer a força da resistência derivada de uma história recente de analfabetismo familiar é condição sine qua non para que a escola atue no sentido de vencer tais resistências. São Paulo: FDE. dos amigos. BOURDIEU. diz: “Claro que a escolarização maior será importante. São Paulo: IPUSP.

São Paulo. A ilusão fecunda: a luta por educação nos movimentos populares. Queiroz. escola e diversidade cultural: a cultura como prática social. (multigrafado) VIEIRA.. (1994). (91):54-61. Hampshire: Growe.Jerusa Vieira Gomes __________. Qualificação do trabalho face às novas tecnologias: parâmetros culturais. KAWAMURA. TEIXEIRA. Cadernos de Pesquisa. WILLIS. (1993). (1993).. Maria Helena S. Universidade de São Paulo. 62 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . __________. do Porto. Lili. escola.). FE-UNICAMP. (1977). (multigrafado) GOUVEIA. (1993). Campinas. (1996). São Paulo: Fundação Carlos Chagas. São Paulo: Hucitec. G. Maria de Fátima A. (1981). Marília Pontes. A Produção do fracasso escolar. (1990). São Paulo: Loyola. São Paulo: Faculdade de Educação. Aparecida Joly. Entre a escola e o lar. Olinda M. Tese (Livre-docência). Porto: FPCE/Univ. How working class get working class jobs. (coord. SPOSITO. (1992). NORONHA. Democratização do ensino e oportunidades de emprego. (multigrafado) PATTO. Lisboa: Escher. Família. Ricardo. Socialização Primária: tarefa familiar?. trabalho: construindo desigualdades e identidades subalternas. Educação. Paul.

Há regiões administrativas do interior do Estado em que este percentual chega a ser de 78% nas 8ª séries. Se. pois é nessa escola de terceiro ou quarto turno que se encontra a maioria dos jovens estudantes que tentam conciliar a necessidade de sobrevivência e os estudos. seu papel é formar cidadãos conscientes. a educação é concebida como a possibilidade do país sair da crise em que se encontra e como estratégia de desenvolvimento. Todos os que se debruçam sobre essas questões concordam que houve um considerável aumento da oferta de matrículas e que esse aumento da oferta não foi acompanhado pela melhoria da qualidade da escola. nos leva para uma compreensão do papel da escola noturna. No âmbito dessa segunda concepção se coloca o conceito liberal de qualidade de ensino. participativos. Será essa presença significativa da escola noturna uma forma de democratização do ensino? Seus destinatários são todos trabalhadores? Partimos do princípio de que não é somente a situação de trabalhadores que esteja provocando a ida dos jovens para a escola noturna. produtividade. a escola noturna representa mais de 80% da matrícula do segundo grau. mais de 50% da matrícula de 5ª a 8ª séries do 1º grau está concentrada no período noturno. os indicadores de qualidade estão submetidos a critérios de competitividade. mais do que Revista Brasileira de Educação 63 . Em Salvador. Em alguns estados do Nordeste. etc. As divergências surgem quanto aos indicadores de qualidade. necessariamente. Universidade Federal da Bahia Este artigo faz parte de reflexões desenvolvidas na tese de doutoramento defendida pela autora na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). comprometidos com um novo modelo de sociedade. os maiores percentuais estão nas escolas localizadas nas periferias da cidade. A qualidade da escola noturna A discussão sobre a democratização e a qualidade da escola brasileira tem gerado calorosos debates. Nesta perspectiva. Segundo dados de matrícula de 1993 para todo o Estado da Bahia. Essa discussão sobre a democratização e a qualidade da educação brasileira. fornecidos por técnicos da Secretaria de Educação do Estado. quanto da qualidade dos seus cursos. controle. tanto no âmbito da oferta de vagas. para outros.Escola noturna e jovens Maria Ornélia da Silveira Marques Faculdade de Educação. Talvez. em dezembro de 1995. o que implica uma compreensão do papel da educação no processo de desenvolvimento do país. para alguns.

esperanças e sonhos podemos estar contribuindo para que estes jovens sejam portadores de uma nova utopia. para explicar a presença dos jovens na escola noturna. Acreditamos. uma ocupação mais digna. também. em particular para a escola noturna. Citando Simmel. retorna à escola? O que representa essa escola noturna para os jovens? Assim. o conceito de sociabilidade e/ou sociabilização é aquele referendado por Gilberto Velho no livro Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração (1986). sistemática e objetiva da sua prática e das representações dos seus principais atores: os professores e alunos. o aligeiramento ou a banalização das finalidades básicas do ensino de 1º grau. Discutir. já deveriam estar concluindo a 8a série. ou seja a sociabilidade tem um fim em si mesma. A sociabilidade é entendida como valorização da amizade. É possivel que na luta cotidiana desses pequenos atores. a exclusão através de repetências e o abandono da escola seja um fator determinante dessa busca pela escola noturna. Por outro lado. na conciliação entre escola e trabalho possa ser gestada uma nova identidade coletiva. embora importantes. na busca do poder da escola como forma de sobrevivência. Qualquer diretriz democratizadora da escola pública deve resgatar a discussão político-pedagógica da qualidade do ensino noturno na direção de um novo projeto para este curso que não signifique. das festas. em tese. dos encontros e dos diálogos. pois. que a maioria dos alunos já passou pelo processo de repetência (72%) e 41% já abandonou a escola. que à essa escola se reservava uma outra função social. Do total de alunos da 5a série somente 26% tem idade entre 14-15 anos. também. construimos nosso referencial teórico em autores que centram seus estudos da sociedade em paradigmas mais amplos. o saber para a sobrevivência. 1 64 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . a exemplo do que vem ocorrendo em alguns programas de educação básica para jovens e adultos. construtora de um novo projeto pedagógico para a escola brasileira. mas também um espaço de sociabilidade e de troca de experiências que ultrapassam as dimensões do processo instrucional. na luta por um espaço de sociabilização1. quando. à cultura sistematizada. pois. das conversas. ampliando a rede sem grandes investimentos. O presente estudo pretendeu. Pudemos verificar. mesmo após várias repetências e abandono.Temos clareza que as respostas às questões que envolvem dimensões relativas à qualidade do ensino não se esgotam no plano pedagógico.Maria Ornélia da Silveira Marques a situação de trabalho. lugar por excelência onde os jovens trabalhadores buscam não só a qualificação para o trabalho. despidos de um caráter mais instrumental. Estávamos convictas. a abertura dos cursos noturnos tem sido um dos artifícios utilizados pelos sistemas estaduais de ensino para responder às pressões sociais. a democratização e a qualidade do ensino básico exige um olhar especial para a escola noturna. o autor fala de sociabilidade como uma forma lúdica da associação e sua principal característica é não estar presa a necessidades e interesses específicos. em estudo feito em uma escola noturna de um bairro da periferia de Salvador. Nossas dúvidas eram muitas. que ao tentarmos decifrar suas angústias. A tentativa de fazer uma nova leitura dessa realidade foi se constituindo como nosso problema. Como compreender esse aluno? A partir de que categorias de análises? Onde buscar um referencial teórico que contemplasse outras dimensões do aluno na sua dupla condição de jovem e trabalhador? Qual seria a função dessa escola noturna? O que os jovens esperam dessa escola? Quais as suas necessidades? Onde se estruturam essas necessidades? Por que o jovem. limitando a influên- Neste estudo. Um modelo próprio para os cursos noturnos só será construido a partir de uma avaliação mais densa. contribuir para o conhecimento da realidade da escola notur- na de 1º grau (5ª a 8ª séries) a partir de um de seus atores — o aluno. das reuniões. Tínhamos a certeza de que as análises pautadas na centralidade do trabalho já não eram suficientes. pois uma discussão meramente técnica do problema qualitativo escamoteia seus aspectos políticos na medida em que não se analisa a qualidade do ensino no âmbito das questões relativas aos grupos sociais que estão tendo acesso ou não à atividade pedagógica.

trata-se de compreender as diversas formas de socialização e sociabilidade dos jovens filhos da classe trabalhadora. Suas análises tentam recuperar a perspectiva do ator. Nas sociedades modernas. o retorno ao estudo de alguns clássicos da sociologia da juventude foi muito importante. seja pela premência das necessidades de sobrevivência da família. na sua maioria. portanto. Porém. o mundo do trabalho não é mais uma referência central para os jovens trabalhadores. Portanto. como um dos espaços prováveis da sociabilidade do jovem trabalhador. a educação escolar do jovem tem um papel muito importante pois ela atua como o “tempo da espera”. Identificam novos sujeitos. com o lazer. penetram na esfera do cotidiano. portanto. Esse referencial permitiu-nos estruturar o nosso trabalho tendo como objetivo traçar o perfil do aluno do ensino de 1º grau regular noturno da escola pública e analisar como esse aluno representa a escola. dos processos que levam à produção e reprodução da sociedade. por jovens entre 14 e 24 anos nos mostrou a necessidade de se construir um conceito de juventude como categoria social. seu ponto de vista. Para Eisenstadt (1976). estes jovens estão construindo nos seus interstícios situações propiciadoras de afirmação de suas identidades. com a família. seja como busca de autonomia e consumo. O conceito de juventude gerado pelo modelo urbano industrial de desenvolvimento se baseia numa transformação das relações existentes entre a família e o trabalho no que se refere ao processo de socialização (Sandoval. Assim fomos buscar em Ianni (1968). também. ele admite algo de universal comum a toda sociedade quando se trata de delimitar faixas de idade que correspondam ao ciclo vital do homem. A juventude como categoria social A constatação de que a escola noturna é frequentada. será analisada e compreendida. Apesar da precoce inserção do jovem no mercado de trabalho. possível de gestar novas identidades coletivas. o jovem é identificado com o estudante. 1986).Escola noturna e jovens cia da classe social e a centralidade do trabalho nas determinações da sociedade. sua identidade. Assim. Essa transformação se dá quando o processo de sociabilização do jovem passa a ser de responsabilidade da educação e esta é concebida como meio de formar mão-de-obra qualificada para o modelo de vida urbana. o tempo de preparação do jovem para a sua saída da infância para Revista Brasileira de Educação 65 . Isso ocorre em sociedades que são orientadas por critérios universalistas. Ampliam. o mundo da escola é o mundo de grupos etários bem definidos. Segundo o autor. o primeiro estágio de transição da vida familiar para uma sociedade regulada por princípios universalistas. Mannhein (1982) e Foracchi (1982) elementos para a compreensão da juventude e do estudante como categorias sociais. A escola seria. Esta. Entender a juventude como um conceito cultural e histórico levou-nos a contextualizar a sua visibilidade como categoria social na sociedade brasileira e procurar compreender os diversos processos de construção da sua identidade. de “subir na vida”. a juventude aparece como uma categoria social de forma e momentos diferentes de acordo com as formas de socialização de cada sociedade. por sua vez. o sistema escolar surge porque a família e as relações de parentesco não são mais capazes de assegurar uma transmissão contínua e fácil dos conhecimentos e das disposições dos papéis. que moram nos bairros periféricos das grandes cidades brasileiras e que estudam em escola noturna. Buscam construir uma nova teoria do social. Nesse momento. Nesse momento. Ao buscarem a escola como forma de “melhorar de vida”. mesmo que cada sociedade defina e atribua significados diferentes a essas faixas de idade ou etapas do crescimento. afastando-se dos paradigmas clássicos da sociologia marxista da luta de classes. distintos dos critérios que regem relações familiares. Sua condição de jovens exigiu uma aproximação com outros estudos que tratam das suas relações com a cultura. para as ocupações que requerem um certo grau de escolaridade. com o trabalho. as possibilidades de explicação das formas de organização da ação e de mobilização nas sociedades contemporâneas. com o consumo.

Melucci vê no estudo da juventude a possibilidade de compreensão do agir coletivo das sociedades contemporâneas. segundo ele. Segundo Otávio Ianni: a história do capitalismo tem sido a história do advento político da juventude. 1972) centram suas análises no comportamento político da juventude tendo como certo sua capacidade de desenvolver uma postura crítica e transformadora da sociedade. 1968. Também. Ianni retoma também as análises feitas por Mannheim (1982) quando este afirma que o problema da adolescência em nossa sociedade está no conflito entre o desejo de autonomia do jovem e a insistência paterna em manter a dependência. pois seu comportamen- 66 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . via prolongamento do tempo da escola. a família não era o núcleo básico da socialização. p. nas sociedades industriais modernas o tema da juventude se transforma como um dos problemas da modernidade. Assim. Contestando a tese de Mannheim. com a comunidade mais ampla e. contestadores. em seguida. pois esta era feita no espaço coletivo. no período medieval não havia separação entre o mundo infantil e o mundo do adulto. a fase de transição entre a infância e o mundo do adulto vai adquirindo visibilidade. Nesse momento. perde o convívio com a família.Maria Ornélia da Silveira Marques a idade adulta. Nesta sociedade. que se rebelavam contra a ordem estabelecida. O interesse sociológico pelo estudo da juventude estaria no fato mesmo de os jovens se constituírem como atores de conflito. Ianni afirma que ela não explica o comportamento do jovem em sociedades urbanas industriais. Segundo ele. 1994). Ariès (1978) afirma que a juventude como uma fase socialmente distinta foi-se constituindo no desenvolvimento da sociedade ocidental através da progressiva instituição de um espaço separado de preparação para a vida adulta. Para instaurar-se ou durante o seu desenvolvimento o capitalismo transforma de forma tão drástica as condições de vida de grupos humanos. tem como objetivo deixar o jovem fora do mercado de trabalho. passando a retrair-se na vida privada e delegando à escola o papel de socializar suas crianças. os estudiosos da sociologia da juventude brasileira (Ianni. a criança perde dois espaços importantes para a sua socialização até aquele momento. A grande maioria da juventude brasileira não era visível. em particular entre as gerações. através da música. 159). A transformação da família. que a juventude se torna rapidamente um elemento decisivo dos movimentos sociais (1968. de modos de vida e até mesmo com o “niilismo” (Abramo. da arte. Foracchi. A condição juvenil era identificada com os jovens universitários filhos das classes médias. Na América Latina. não havia a separação entre o universo familiar e o universo social mais amplo. constituindose na adolescência e juventude. com a extensão da escola. Ao analisar o comportamento radical (de direita ou de esquerda) do jovem. Ambos conviviam no mesmo espaço. Entre as décadas de 60-70. Sua presença inicial como categoria social vai surgir na Europa através de movimentos de jovens delinqüentes. Ianni discorda das explicações da emergência dos conflitos da juventude como uma crise específica de uma idade social das pessoas. o que gera a crise é a própria natureza do sistema social criado com a sociedade industrial: “O inconformismo juvenil é um produto possível do modo pelo qual a pessoa globaliza a situação social”. excêntricos. Porém. é somente a partir de meados do século XX que a juventude passa a se constituir como um problema para a sociedade. pois. Segundo Melucci (1991). do tempo de preparo para a vida adulta. “atenuando” a crise do desemprego no país. a partir do século XVII. perde o convívio com o adulto. altera suas relações de sociabilidade. Os estudos sobre esta juventude ou tratavam da sua marginalidade ou das suas relações com o trabalho/desemprego. François Dubet (1991) analisa essa situação na sociedade francesa e conclui que o prolongamento da juventude operária francesa. a juventude torna-se visível somente a partir da década de 60 com a crise do modelo econômico excludente que atinge a maioria dos jovens filhos de trabalhadores.

1994). sem nenhum interesse pelas questões públicas ou coletivas (Abramo. porém com outra conotação. na escola. vivendo no seu cotidiano diversos papéis. Se queremos pensar a identidade dos jovens frente aos outros com os quais eles se relacionam. ao analisar os movimentos estudantis da década de 60. a grande importância atribuída pelos adultos aos jovens na sua capacidade de preservar e renovar. daí o seu comportamento radical. No seio da família apenas se inicia o processo de “estranhamento” do jovem com os valores da sociedade. etc. O que muda é o sistema de relações ao qual nos referimos e a respeito do qual temos nosso reconhecimento. Para Foracchi. Foracchi (1972). uma identidade social. no espaço da rua. a juventude representa a categoria social sobre a qual se manifestam de forma mais visível as crises do sistema. conclui que estes se afirmam como um “poder jovem. com os quais se confrontam. no trabalho. no momento em que se afirma como produto histórico. ele é histórico. socialmente determinado. Até meados da década de 80. a exemplo de Eisenstadt. que por definição é múltipla e facetada. de idéias e normas que pautam o código de leitura através do qual ele interpreta a sua visão de mundo. na escola. É a partir desses referenciais que o indivíduo organiza a sua percepção da realidade. a noção de juventude se impõe como categoria histórica e social. Em graus diversos de complexidade. no trabalho. se confrontam na família. mas é no grupo mais amplo dos amigos e da escola que ele vai perceber as contradições do sistema sóciocultural e econômico desigual das sociedades capitalistas. no pedaço. potência nova que. Portanto. tanto no plano psíquico como no plano social. se aceitam ou não as identificações que lhes são atribuídas pelos adultos. a práxis de um mundo que apenas se esboça”. instituições e ideais coerentes com o “status quo” (Ianni. seguindo os sistemas de valores. o autor explica que outros mecanismos operam nas relações entre as gerações. a maioria dessas interpretações tem como ponto de referência a comparação com os movimentos juvenis dos anos 60. desconhecendo sua força. se estabelecem campos de negociação com os outros atores. Esses novos processos de socialização dos jovens moradores dos bairros periféricos das grandes cidades brasileiras exigem a busca de novos referenciais. recria na imaginação e na utopia. isto é. de novas interpretações. Rede de significados frente à qual os jovens estão dizendo quem são eles. Instaura-se assim a relação de negatividade com o presente. podemos pertencer a várias identidades: a identidade pessoal. Ela é um conjunto de relações e de representações. A busca de uma identidade jovem Toda identidade é um conjunto de representações que a sociedade e os indivíduos têm sobre aquilo que dá unidade a uma experiência humana. temos que pensar qual é a rede de significados que a vida social constrói no plano simbólico da cultura e que é movida pela própria dinâmica da sociedade. segundo os conjuntos de valores. entre esses. Sem negar a importância atribuída à família.Escola noturna e jovens to radical está estreitamente vinculado às condições materiais da existência. estabelecendo relações pautadas por diversas lógicas. toda identidade é socialmente construída no plano simbólico da cultura. se transformam ou manipulam as representações que os outros fazem de si. são construídas de forma diferente segundo os diversos tipos de sociedade. o jovem tem uma identidade na família. Essas representações. evidentemente. A capacidade de se reconhecer e de se fazer reconhecido nestas diversas situações consiste no que Melucci (1992) chama de afirmação da identidade. como movimento de juventude. estão construindo suas identidades individual e coletiva. Segundo a autora. segundo o lugar social que o indivíduo ocupa na sociedade. em relação aos quais os movimentos espetaculares da década de 80 apareciam como significativos de uma juventude carente de idealismo e de empenho transformador. 1968). No quadro desta complexidade da sociedade moderna tentamos compreender como os alunos da escola noturna de 1º grau. Nessas Revista Brasileira de Educação 67 . Assim. a identidade de pertencer a uma família.

mas. ora da positividade das relações de trabalho na educação do trabalhador. estimulado pela indústria cultural. no mundo da droga e da criminalidade. Hoje. as questões da juventude alcançam outras dimensões. Os estudos que tratam da relação entre educação e trabalho. seus modos espetaculares de existir através da música. os jovens são considerados como incapazes de formular propostas de transformação social. tratam da relação entre educação e trabalho nas sociedades capitalistas. permanecendo no seu individualismo e pragmatismo. econômicas e políticas de uma dada sociedade. ou dos problemas gerais que a estrutura educacional do país coloca em termos de qualificação e aproveitamento escolar. baseados em estudos de Bourdieu. da escola. dança. os diversos processos de sua socialização nos espaços da cidade. as análises sobre a escolarização dos jovens filhos da classe trabalhadora refletem uma estreita relação entre o trabalho e a escola como forma de “educar” o futuro trabalhador. na sua maioria. ao denunciarem o caráter reprodutor da escola brasileira romperam com a tradição liberal segundo a qual a ação educativa era concebida como possibilidade transformadora capaz de romper as desigualdades sociais. algumas vezes. em particular os filhos da classe trabalhadora. Nesse panorama. Passeron. de afirmação da identidade do jovem. o agravamento da crise social. 1994). São os chamados teóricos da reprodução que. Seus eixos norteadores tratam ora da negatividade. a maioria dos estudos dedicados aos jovens tem voltado a atenção para as relações entre trabalho e educação. muito identificados como os novos consumidores da indústria cultural. Os estudos realizados a partir desse momento. como espaço de práticas sociais libertadoras. Procuram dirigir suas análises para o reconhecimento de que os jovens. colabora para que esses jovens entrem precocemente no mundo do trabalho e. O trabalho — uma categoria necessária A compreensão da presença dos jovens na escola noturna nos coloca a necessidade de perceber como estes jovens vêem o trabalho e de como este pode constituir-se como afirmação de suas identidades. Falar das questões juvenis é ampliar as análises para além das relações com o trabalho e a escola. no Brasil. Nessas análises. indicam que esses jovens paradoxalmente buscam a integração. como um espaço de socialização. vestuário. do trabalho. na maioria das 68 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . mesmo que essa integração se faça pela inserção no mundo do consumo. os jovens são identificados como trabalhadores e a escola como instituição a serviço do capital. Althusser. ressalvadas algumas especificidades. com a retração ou diminuição do poder de mobilização dos movimentos populares. Todos esses espaços por onde o jovem vai construindo e/ou afirmando a sua identidade são importantes como potencialidades de gestar novas identidades coletivas. símbolos. Cada vez mais a juventude se apresenta como uma problemática cultural e política. Nesses estudos. no bojo das discussões sobre o caráter reprodutor da escola. impõe a busca de outros referenciais para a compreensão das novas ações coletivas que se gestam em meio à crise dos modelos da modernidade. da rua. também. tendo em comum o trabalho como categoria central na explicação dessas relações. Establet. são atores sociais portadores de novas identidades coletivas (Sposito. a escola não é mais vista somente como o espaço onde se reproduz a força de trabalho. Essas análises tiveram entre seus méritos o de romper com as ilusões do liberalismo e do economicismo educativo representadas pela teoria do capital humano. Entretanto. da produção de imagens. etc. Assim. entre outros. subordinado à ótica das questões maiores referentes às formas de exploração e de reprodução da força de trabalho. Na década de 70. O apelo ao consumo. o tratamento da juventude é. geralmente. Os estudiosos estão mais preocupados em perceber as formas de um agir coletivo entre os jovens. têm como eixo estruturador o caráter reprodutor da escola nas relações entre capital e trabalho.Maria Ornélia da Silveira Marques análises. Suas novas formas de ação. Suas análises.

o essencial da existência dos atores se desenrola para além do mundo do trabalho. Somente 25% dos jovens que trabalham têm registro em carteira e estão engajados no setor de Revista Brasileira de Educação 69 . política e cultural dos indivíduos ainda são determinadas. Porém hoje. A crise da sociedade do trabalho Nos anos noventa. nos questionamos sobre quais seriam os campos de possibilidade do trabalho para a socialização dos jovens e em que medida as análises sobre a relação entre educação e trabalho não estariam sendo pautadas em uma relação de um trabalhador abstrato com as máquinas e tecnologias de última geração. na elaboração do moderno pensamento social — de Marx a Durkheim — a categoria trabalho é fundamental porque. Diante de todas essas observações. o discurso das relações entre capital e trabalho na educação se reveste de uma nova roupagem.Escola noturna e jovens vezes. na educação escolar e na formação da mãode-obra. em síntese. No momento. poderíamos dizer. do avanço científico e tecnológico e seus impactos na força de trabalho. inclusive para manter os estudos? Perda da centralidade do trabalho Toda essa reflexão retoma a discussão sobre a centralidade do trabalho como categoria de análise do social. significa escapar da pobreza? É possível falar hoje da centralidade do trabalho para a análise do social diante de tantos desempregados? O que dizer sobre o trabalho para jovens que não se sentem trabalhadores que estudam mas estudantes que trabalham. Esses questionamentos perpassam as discussões presentes sobre a função da educação diante do rápido processo de desenvolvimento da sociedade. com exceção de um pequeno segmento de mão-deobra mais qualificada e mais valorizada e. da crise do fordismo e do pós-fordismo. O que dizer dos milhares de jovens desempregados e subempregados engajados na força de trabalho do mercado de trabalho informal? O que essas análises teriam para lhes dizer quando estes afirmam que querem estudar para conseguir um emprego melhor que. pretende transferir para a escola os mesmos critérios de qualidade utilizados nas empresas. consequentemente. A tradição clássica concebia a sociedade moderna e sua dinâmica como uma sociedade de trabalho. dos novos problemas tecnológicos e organizacionais que configuram o novo contexto do processo de terceirização nas sociedades modernas. com o desenvolvimento. então. embora importante. novos estudos começam a questionar as reflexões que têm o trabalho como categoria central na análise da sociedade. em linhas gerais. Estes autores. Perseguindo o raciocínio do autor. que a racionalidade que foi capaz de compreender a dinâmica do mundo moderno já não basta para apreender a dinâmica da sociedade contemporânea. numa primeira aproximação com a questão. problematizam questões tais como o fenômeno da globalização da economia. Segundo Offe (1989). pela precariedade nos vínculos que estabelecem com o trabalho? Em nossa pesquisa. por sua posição no sistema produtivo”. geralmente. as análises em torno da crise da sociedade do trabalho e a sua tradução no discurso pedagógico através da relação trabalho e educação estão sendo pautadas por discussões calorosas sobre a “qualidade total da escola” que. aspirações. O que dizer da sociedade brasileira em que. em parte. o mundo do trabalho era o universo inclusivo onde se inseriam os atores sociais. não captam os desejos. torna-se inoperante para explicar o nosso tempo. expectativas. Os autores que falam da “crise da sociedade do trabalho” negam que este esteja perdendo centralidade na explicação da sociedade e continuam afirmando que as “chances de participação social. uma ampla maioria de trabalhadores tem uma trajetória de trabalho regida pela insegurança. pela instabilidade. Mais uma vez. se não combinada com a dialética de outras relações sociais. com maior garantia de emprego. A dialética do trabalho. a subjetividade e as formas de socialização e sociabilidade no e pelo trabalho. encontramos um pequeno número de jovens que têm um emprego regular e com direitos trabalhistas assegurados.

eventualmente. A frequência à escola faz parte desse projeto entre os trabalhadores. Concordamos com Lapeyronnie. Apesar de os jovens apresentarem um maior índice de escolaridade que seus pais. O espaço da fábrica não constitui apenas relações conflituosas de trabalho versus produção. mesmo porque estamos diante de uma situação nada promissora na qual o desemprego já é uma experiência normal da população brasileira. o que de certa forma lhes protegeria mais do desemprego. ao analisar as relações dos jovens na sociedade contemporânea fala da necessidade da busca legítima do individualismo. No seu espaço. 1992. me produzir para ir trabalhar (aluna da 6ª série). inclusive com um redimensionamento dos parcos orçamentos domésticos e a inserção precoce de alguns filhos no mercado de trabalho. pelo desejo de mudar a vida. das reuniões. revela necessidades diversas. quando diz que a vida social não é mais estruturada em torno da produção. As idéias de uma relação necessária entre o progresso social e a valorização do trabalho desapareceram (Dubet e Lapeyronnie. na construção de sua identidade.Maria Ornélia da Silveira Marques serviços. Neste sentido concordamos com Gilberto Velho que. Em relação à inserção dos jovens no mercado de trabalho. um emprego para poder satisfazer paixões pessoais. Segundo o autor. Já consegui um para trabalhar em casa de família. quero ter colegas. me arrumar. Permitiu-nos também perceber formas de socialização que extrapolam as determinações de classe e estão vinculadas a uma rede de relações significativas para a constituição de suas identidades. nos seus interstícios. São relações pautadas pelo cansaço. da realização pessoal e da dignidade. etc. despidos de um caráter mais instrumental. resgatando a dimensão pessoal da existência. ao privilegiar a subjetividade e a sociabilidade nas relações sociais. Também Lapeyronnie. como um projeto de família em melhorar de vida o que significa encontrar possibilidades de fugir da pobreza. integrados. daí o grande esforço que as famílias fazem para manter seus filhos na escola. esses espaços de sociabilidade permitem a construção de identidades sociais num contínuo processo de interação entre seus atores. Outros 62% estão trabalhando no mercado informal. esta é uma realidade em suas vidas. mas eu quero ver gente. outras referências. uma rede de relações significativas vai sendo construída. Procura-se. pela solidariedade. o trabalho não significa apenas a garantia da sobrevivência do núcleo familiar e a capacidade de consumo. E os jovens como pensam o trabalho? O trabalho para os jovens funciona quase como um rito de passagem do mundo infantil para o mundo adulto. como forma de garantir a constituição de sujeitos plenos. Ao deixar o espaço do bairro onde mora para ir trabalhar em outros locais. mas principalmente. a construção da identidade individual não passa mais pelo trabalho. E é nesse sentido que compreendemos a fala da jovem que anseia encontrar um emprego: Há mais de um ano que estou desempregada e não agüento mais ficar parada em casa. Para os jovens pesquisados. é preciso rever o poder do trabalho na determinação das relações sociais mais amplas. Apesar de reconhecermos que os jovens transfiguram suas necessidades em virtudes. partimos do princípio de que é muito limitado tentar compreender as causas dessa inser- 70 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Segundo ele. em particular na socialização do jovem. de coleguismo. A fala desses jovens revela uma outra razão. sugere o retorno e a valorização da amizade. sem nenhuma garantia. pelo conflito no interior de um mesmo espaço. não pode- mos desconhecer que o trabalho é um campo de possibilidades de estruturação de suas identidades. Portanto. de solidariedade. vai muito além da razão prática ou da lógica mercantil do mundo capitalista. o jovem amplia suas possibilidades de sociabilidade através de laços de amizade. Nosso contato com os jovens da escola noturna permitiu-nos buscar outras abordagens para essas relações. dos encontros. 22).

Essa relação contraditória entre ser menor dependente e ser trabalhador termina por influenciar as formas de socialização dos jovens tanto na família como na escola. Trabalhar. principalmente àquelas transmitidas pelos meios de comunicação. de comprar. possibilita a frequência à escola. só pode significar liberdade (Madeira.. é ter autonomia em fazer uso do seu dinheiro. 1986). Alguns estudos brasileiros. Daí eu disse pra ele que eu sou dona da minha vida. não deixa de significar a afirmação de sua identidade. Suas falas deixam bem clara essa situação: (. estabelecem com esse uma relação contraditória. a maioria respondeu porque era pobre e precisava ajudar a família. Não consideramos que a necessidade de trabalho seja unicamente uma realidade imposta pelas condições de pobreza das famílias.) Um dia meu pai quis me bater porque eu estava namorando um colega e estava chegando tarde em casa todo dia.. Essa integração no mercado pela via do consumo nem sempre é valorizada pelos pais. receber algum salário para quem tem uma autonomia relativa. que já posso comer e beber sem depender dele. ao mesmo tempo em que os coloca numa situação de explorados. Quando questionamos os jovens sobre os motivos de sua inserção no mundo do trabalho. Na minha casa a conta da luz fica por minha conta (aluna da 7ª série). 1994). outros motivos ficaram evidentes como: ter mais liberdade. quando aprofundamos a discussão nas entrevistas individuais e em grupo. garantir os estudos. Entre esses jovens. na tentativa de ter acesso a bens de consumo e a padrões de comportamento que definem as marcas dos jovens nas grandes cidades. Para eles. ter dinheiro para comprar roupas e gastar no fim de semana. de consumir os bens culturais que os identifiquem como jovens. Revista Brasileira de Educação 71 . na maioria das vezes. Segundo Zaluar (1992). (Sarti. Madeira (1986) e Spindell (1985) falam com muita procedência do significado de liberdade contido na decisão de trabalhar por parte dos jovens. Nossas análises nos levam a concluir que o trabalho do jovem aluno da escola notuna faz parte do cotidiano das famílias pobres de toda a sociedade brasileira. nos centros urbanos: o som. muitas vezes incompatíveis com a economia doméstica e a sua hierarquia de consumo. freqüentemente. a roupa etc. Ao mesmo tempo em que vêem na sua ocupação presente um momento de aprendizagem para um trabalho futuro. entre eles os de Gouveia (1982). mas está procurando aumentar seu grau de autonomia. o tênis. o conflito dos jovens com seus pais. Porém. falam com orgulho da autonomia que têm em relação à família. na afirmação da sua identidade. faz parte das obrigações familiares e. não podemos compreender as relações que os jovens estabelecem com o trabalho sem reconhecer a importância da sua condição juvenil que se expressa. principalmente com as mães. o trabalho. etc. mas que essa necessidade se constrói no próprio processo de socialização do jovem. na necessidade de ostentar marcas visíveis de pertencer à categoria jovem. Ao contrário do discurso moralizante de seus pais sobre a necessidade do trabalho para transformá-los em pessoas responsáveis. ou abrir a possibilidade de conquistar um espaço de liberdade (Madeira. Trabalho e família: uma relação delicada Esses jovens. Enfim.Escola noturna e jovens ção precoce no mundo do trabalho somente através da sua situação de marginalidade e pobreza. eles vêem no trabalho seu caráter de provedor. principalmente com as mães. possibilita a afirmação de sua identidade. educados pelas famílias na ética do trabalho. Trabalhar. aparece como resultado dos novos padrões de consumo que lançam os jovens no mercado do vestuário e das atividades de lazer variadas. mesmo sendo parte de sua obrigação de filho. ter uma carteira de trabalho. ser livre significa ter liberdade para tomar decisões sobre a própria vida. marcados pela ética do trabalho árduo em seu processo de socialização. 1986).

Ao mesmo tempo em que reconhece a condição de trabalhador do aluno. entre as análises feitas podemos identificar duas orientações. Essa ausência de diálogo impossibilita ao aluno a sistematização do conhecimento construído e/ou assimilado no cotidiano do trabalho. filhos de trabalhadores. Porém. 1989). Ressaltam. Entre a casa e a escola sobra muito pouco tempo para a rua. os cursos noturnos são justificados sob o argumento de viabilizar o ensino escolar aos jovens e adultos que.Maria Ornélia da Silveira Marques A escola como espaço de sociabilidade A educação dos jovens trabalhadores. os jovens atribuem à escola uma outra função que se tornou bem evidente durante a nossa pesquisa — a função sociabilizadora. Em muitos casos. Afastar os filhos do perigo da rua significa para as famílias pobres uma crença no poder da escola em fazer de seus fillhos não apenas futuros trabalhadores mas “gente honesta”. instalações físicas e recursos humanos da escola pública. da ausência de um projeto pedagógico que atenda a sua dupla condição de jovem e de trabalhador e seu retorno à escola através dos cursos noturnos. no nosso caso. para o ócio. 1991). Porém. propomos analisar a escola noturna a partir da ótica de seus atores. O trabalho é visto pela sua negatividade e não pelas possibilidades como princípio educativo e como espaço de sociabilidade. por serem inseridos no mercado de trabalho de forma precoce. Nessas análises. entendida como um conjunto de relações significativas. que leve em conta a realidade dos alunos. ressaltando a ausência de um diálogo entre o trabalho e o conteúdo real da aprendizagem. a escola pode constituir-se num espaço diferente. as afirmações de que o aluno da escola noturna a procura por motivo de trabalho nem sempre revelam a realidade. conteúdos. não tem merecido muita atenção dos estudiosos (Sposito. Sem desconhecer os problemas estruturais da sociedade brasileira e que se refletem na escola. Trata o aluno trabalhador de forma genérica. porém sem necessidades e interesses específicos. A necessidade de ajudar a família.Porém. Os estudos nessa linha de interpretação trazem a realidade de trabalho dos alunos para a escola. relação professor/ aluno. Negam as soluções técnico-pedagógicas propostas pelas análises anteriores e propõem que o estudo da escola noturna seja feito de forma mais abrangente. o caráter do currículo oculto como forma de disciplinar o tra- balhador. A rua deixou de ser uma das referências tradicionais da socialização do jovem e passou a ser o “espaço do perigo”. percebendo na sua prática possibilidades de sociabilização e de construção da identidade de seus atores. pertencente às camadas mais pobres da população e. Entre o cansaço do trabalho e os 72 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .Por outro lado. alunos jovens. excluído da possibilidade de frequentar a escola na idade correta. A primeira centra-se na estrutura escolar. (Caporalini. Há um medo generalizado entre as famílias pobres sobre os perigos da rua e uma alternativa viável para minimizar esse medo é manter o jovem sempre ocupado. enfatizando sua organização interna como forma de seletividade: horários. suas análises tratam do trabalho como algo negativo para o processo de escolarização do jovem. A experiência da escola: discutindo com alguns autores As análises mais frequentes sobre o processo de escolarização dos jovens. o trabalho vem como conseqüência da freqüência à escola noturna. sublinhando. Para esses jovens. o caráter de reprodução do sistema escolar. evidenciam que a necessidade de trabalhar os força a abandonar a escola ou impede o seu acesso. As análises mais recentes destacam a escola noturna na sua especificidade no atendimento ao aluno trabalhador. também. como tal. além de outros fatores. aliada à pressão do consumo. as estatísticas têm demonstrado que uma parcela cada vez maior de adolescentes tem acesso à escola de 1º e 2º graus exatamente porque está exercendo uma atividade remunerada. sua exclusão da escola em função de várias repetências. desta forma. impulsiona os jovens a procurar trabalho. não tiveram acesso à escola em idade regular.

é uma forma efetiva de lutar por uma nova sociedade (Guimarães. aliadas a outras instabilidades no meio da família. a escola pela sua desorganização interna e pela falta constante dos professores tornase um ‘pedaço’ bastante frequentado pelos jovens. eles preferem a escola. o encontro com os amigos. mesmo sabendo que não haveria aula? Aos poucos. Aqui na escola a gente conversa com os professores. o que pode contribuir na formação da sua identidade. tornando a escola um dos espaços possíveis para uma vinculação mais duradoura com os amigos. educada na ética do trabalho árduo. a escola passa a ter uma importância como espaço do encontro e encontro com pessoas com as quais mantêm uma relação diferente do que na família e no trabalho. Magnani (1984) afirma que: Curiosamente. A rua para alguns e a escola para todos é o lugar privilegiado para estabelecerem relações sociais mais amplas.) Esses momentos de reconstrução cotidiana se dão nas situações mais diversas. com a família. onde há lugar para o namoro. lavando. Esses espaços são recriados nos interstícios da organização escolar. buscar outros objetivos para a escola. com os colegas. da escola Essas falas levantam questões pouco abordadas nas análises sobre a escolaridade dos alunos trabalhadores. mesmo com a ausência de seus professores. que o modo como os jovens reconstróem o próprio cotidiano da escola aliviando o tempo de trabalho. assumindo formas tão surpreendentes. nas ausências dos professores: Eu fico o dia todo tomando conta de meus irmãos. fomos nos aproximando desses jovens e descobrimos que a escola era o ponto de encontro para a ida do grupo aos bailes de pagode do bairro e de outros bairros vizinhos. Ficávamos impressionadas com a presença dos jovens nos corredores da escola na 6ª feira à noite... Eu já disse pra minha mãe que quando eu acabar a 8ª série eu vou arranjar um emprego. 61). os dados empíricos. Por que esses jovens vinham para a escola. a brincadeira. eu estou até namorando um colega da sala (aluna da 7ª série). esses jovens transformam o ambiente da escola em espaços agradáveis..) metamorfosear o ambiente de trabalho e a própria escola em espaços agradáveis onde há lugar para a brincadeira.Escola noturna e jovens problemas com a família. 1992). a escola e o trabalho. de descontração. dificultam a criação de laços mais perenes entre os jovens. Acreditamos que uma das saídas possíveis para que a escola se transforme num espaço de sociabilidade entre os jovens. Por outro lado. A aproximação com uma literatura pertinente permitiu-nos uma compreensão de que o tempo livre das imposições normativas do trabalho. arrumando meus irmãos prá ir prá escola que fico doida que chegue de noite prá eu vir pra escola e ficar com minhas amigas. que têm um cotidiano tomado por responsabilidades. Daí os constantes conflitos com a família que. A maioria dos alunos fala da presença marcante da escola enquanto espaço de novas relações. entre uma aula e outra. mesmo que sua freqüência se restrinja. Revista Brasileira de Educação 73 . arranja alguma paquera. vê no ócio dos jovens o perigo da rua. também. nos processos de migração de um bairro a outro. Acreditamos. Para esses. Também Guimarães. as entrevistas e contatos com esses jovens permitiramnos perceber o quanto é importante para eles os momentos de lazer.. quanto gratificantes (1992. em estudo sobre a escola noturna observou que os alunos são capazes de: (. muitas vezes. o encontro com o amigo confidente (. aos espaços dos corredores e do pátio. seja justamente essa capacidade de subverter o convencional. Cultura e lazer como afirmação da identidade do jovem Se no início da pesquisa pensávamos que os jovens da escola noturna construiam suas identidades pessoal e coletiva nas suas relações com a família. Marcados por um cotidiano denso de relações conflituosas com o trabalho. repensando a escola para além da simples transmissão do conhecimento. cozinhando. as relações transitórias e instáveis diante do trabalho.

cria-se uma zona de conflito entre estes e seus pais. pois são formas diferentes de hierarquizar as necessidades. permite-nos concluir que. a música também é um referencial forte entre o grupo. cria um estilo de vida jovem. divertimento e estudo são faces de uma mesma moeda que só pode ser comprada com o seu trabalho precoce. filho. Aproveitar da vida como ela é. ampliam a sociabilidade. Nas respostas ao questionário.Maria Ornélia da Silveira Marques e da família. em suas análises sobre a cultura popular e a sociedade de massas. a análise dos dados empíricos sobre o lazer dos jovens sujeitos da pesquisa. para muitos jovens. uma das características marcantes da sociedade contemporânea é o seu caráter de massificação advindo do processo de urbanização e desenvolvimento das grandes cidades. O divertimento e a recreação são explicados pelos sociólogos do trabalho como uma ruptura com o trabalho. da indústria cultural. Neste sentido. dos meios de transporte e comunicação. no seu cotidiano. concluímos que a juventude nas classes populares é vivida como um tempo de liberdade. Trabalho para esses jovens é coisa de futuro. garantir a individualidade dos sujeitos. Na relação entre a ética do trabalho e a ética do lazer que impõe um estilo de vida entre os jovens. trabalhador. Comprar um aparelho de som. o que sobra entre a escola e o trabalho. O caráter transitório de sua condição juvenil permite o estranhamento das agruras do trabalho e da pobreza. é uma maneira efetiva de tomar parte em uma luta pela busca de uma nova sociedade. na maioria das vezes. Em síntese. como nos dizia uma aluna. ao mesmo tempo. tornar-se portadores de uma nova utopia. o que o leva a considerar-se um estudante que está aprendendo a ser trabalhador. foi a porta de entrada no mercado de consumo. colega. do jogo (Zaluar. É na complexidade dessas relações entre família. A indústria cultural coloca à disposição do jovem uma série de bens de consumo que. 1994). o que gera o conflito. não lhe dá o status de trabalhador. dos avanços tecnológicos que alteraram os padrões de sociabilidade e interação entre os sujeitos. Segundo o autor. Para alguns estudiosos esta função pode ser um recurso à vida imaginária. esses jovens recriam. que estabelecem redes de relações sociais significativas. Aliada ao pagode. Poderão. apesar de ocorrer em situações contraditórias. retoma a discussão sobre as possibilidades do consumo ampliar. inviabiliza qualquer projeto pedagógico que procure responder às suas necessidades. com a quebra da rotina. Também Gilberto Velho. É nessa multiplicidade de papéis de aluno. escola. do “gozar a vida”. Entre a dureza do trabalho e a disciplina da escola. as redes de relações sociais e. com a monotonia. dentro da perspectiva de uma cultura de massa. pode ser o tempo dos jovens recriarem a liberdade em direção a seus próprios interesses. principalmente dos rapazes. amigo. Nossa pesquisa demonstrou o quanto a escola está distante desses jovens. apesar das influências dos meios de comunicação social. assim. Concordamos com Alberto Melucci quando 74 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . daí a busca do teatro. há o espaço da brincadeira. Queremos crer que o modo como eles reconstroem o próprio cotidiano. só depois de estudar e com carteira assinada. que eles tentam construir suas identidades. nos limites do bairro e de suas condições materiais. Ver no aluno da escola noturna somente o jovem que trabalha sem considerar suas características e papéis assumidos. do cinema. de viver com intensidade todo o tempo livre. A ida ao pagode nos fins de semana faz parte do lazer da maioria do grupo. consumo e lazer que eles constroem a sua subjetividade. através do lazer. da disciplina. aliviando o tempo de trabalho e repensando a escola para além da simples transmissão do conhecimento. a música e a dança têm uma influência muito grande na conformação de suas identidades. trabalho. Este estilo de vida cria necessidades de lazer. Trabalho que. nas conversas informais e nas entrevistas pudemos depreender que o aparelho de som ocupa um lugar privilegiado nas suas casas. formas de lazer que garantem a sua identidade jovem. de consumo que se incompatibilizam com as necessidades imediatas de suas famílias. Para o aluno da escola noturna. Enfim.

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a classe de origem. e à emergência de novas orientações com relação ao trabalho. Além disso. > enfim. no modelo tradicional de trabalho. a ética do rendimento que está no cerne desse modelo contém várias idéias: > o trabalho deve contribuir para um projeto coletivo: deve ser socialmente útil para a coletividade (donde a ociosidade é sempre mais ou menos vergonhosa).O trabalho. quête de sens.VIII: Le travail. Catholique de Louvain. As expectativas e as atitudes com relação ao trabalho. o sacrifício que é preciso fazer a fim de preparar-se para o trabalho e em seguida para executá-lo e então como uma conseqüência. ao emprego e ao desemprego são uma dimensão privilegiada para apreender a crise e a mutação das referências culturais entre os jovens. a retribuição legítima. Examinando os “modos de gestão de si”. caracterizado o modelo central de trabalho da sociedade industrial. > a contribuição e a retribuição devem se equivaler: a tal contribuição deve corresponder uma “justa” retribuição. Univ. o esforço. Examinamos também quais são as representações e as atitudes dos jovens com relação ao 76 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . O modelo cultural da sociedade industrial se caracteriza pela centralidade da ética do trabalho. pudemos constatar que para numerosos jovens. > a contribuição é medida pelo esforço que é preciso dispender a fim de se preparar para o trabalho e para realizá-lo. o trabalhador participa do mundo do trabalho por intermédio de instâncias coletivas: o sindicato. de trabalhadores. inicialmente. a comunidade. Sua participação não é exclusivamente individual: ele não está só face ao seu empregador. busca de sentido Guy Bajoit Abraham Franssen Universidade Católica de Louvain Tradução de Denice Barbara Catani Publicado em: Les Jeunes dans la compétition et la mutation culturalle. > a retribuição é sempre postergada: há. a experiência ou inexperiência do mercado de trabalho constitui um momento decisivo da sua redefinição identitária. Cap. Aliás. Rapport de recherche au Fonds de la Recherche Fondamentale Collective. faz parte de um grupo. mais ou menos estruturado. o mercado de trabalho é o campo em que se exercem mais diretamente as coerções materiais e simbólicas da competição. Nossas interrogações remetem às formas de desagregação do modelo cultural do trabalho.

O trabalho.. Mas. ele é minha segunda pele. Depois de duas reprovações no primário. Diante do chefete que o provoca. Hervé começa a escola profissional técnica de tipografia. É para a prática da moto que Hervé reporta então seus sonhos de evasão e suas necessidades de relações sociais. entrei em pânico. olha que belos carros eles têm. tanto mais que na época ele era “meio hippie”. (Nota de revisão. é verdade que enquanto jovem você realmente carrega um rótulo”. a comunicação. aliás. eu cha- Revista Brasileira de Educação 77 .500 francos. você vê o tempo passar. “Quando você está desempregado.. “Estava cheio. conhecer gente nova. um belo ofício. Insiste bastante sobre as limitações de dinheiro. mas ela é também um fator de sociabilidade importante. ganho a vida durante esse tempo e depois procurarei outra coisa”.. Blusões negros. A gente é quase como as tartaruga nas estradas. noites inteiras eu não conseguia dormir. Hervé reage referindo-se aos seus direitos: “Se você continuar tentando me botar prá fora. Hervé Ele é oriundo de uma família numerosa. queria era viajar. ao que parece. uma semana.. Seus pais... abandonadas pelos alemães ao fim da II Guerra Mundial.. vou ficar dois anos. escolheu a marinha para realizar um sonho: “Eu só via realmente uma coisa. Eles têm uma gráfica há não sei quantos anos. eu via os barcos à vela partir pelos oceanos”. que moram aqui nos fundos. não sei por que. A interrupção dos estudos é motivada pela vontade de adquirir independência financeira. Meus pais diziam. antes. A moto é um prazer solitário (“é a única coisa que me faz sair de mim mesmo”): ela é sua companhia. olha aquilo. “A coisa do desempregado é terrível. Trata-se de minas militares submersas.. Depois de pagar o que deve aos seus pais. Se ele se engajou no exército por dinheiro. dragar minas no mar belga. mas não ficar a bordo de um pequeno barco com a missão de dragar. de realizar seus sonhos de adolescência. mas tartarugas que se movem rápido. o couro negro. em seguida é orientado para a joalheria — o que lhe agrada muito. é duro. conheceu um período de desemprego de mais de um ano.. Olha o senhor e a senhora Fulano de Tal. olha isso. vamos apresentar Hervé. e era assim o tempo todo.” Nessa época. você aprende a contar os minutos”. de maneira mais expressiva. cuja história ilustra esse conjunto de questões. caracterizado por uma forte preocupação com o status. olha que bela oficina. a única fonte de ganhos ocasionais de que dispunha era a venda de bijouterias de sua confecção. busca de sentido desemprego. mas tudo bem. destrói seu sonho. isso foi o mais difícil. A experiência cotidiana nas forças armadas. a maior parte do tempo confinado a tarefas subalternas. ele obtém um contrato temporário de seis meses para um mutirão de desobstrução de sítios históricos. Meu objetivo é a viagem. é uma boa. é quase uma carapaça como se diz. ele lhe fala e ela o compreende. Viveu essa experiência com um forte sentimento de degradação social e pessoal. Dessa experiência ele guarda sobretudo a lembrança das más relações de trabalho. de muito futuro.. interrompe seus estudos aos dezoito anos para fazer o serviço militar. minha moto me permite viajar. O tempo do desemprego foi um tempo socialmente inútil: “O dia de um desempregado leva cinco minutos”. nos mercados. Contudo. e me comunicar com outras pessoas. “Não é isso que eu queria fazer. especialmente pelos clubes de motociclistas que ele freqüenta. lhe prometiam um futuro que realizaria seu projeto de promoção social. Quando visto meu casaco de couro. As pessoas têm medo de nós..) 1 “Por interferência de amigos”. mas também. restam-lhe-talvez “1000 francos por mês para sair um pouco do mofo onde se está metido”.. os barcos. operários.”1 . Em seguida a essa experiência. A dificuldade de concretizar suas expectativas de auto-realização explica a justificativa puramente instrumental que ele oferece para o prolongamento do seu contrato. “quando fui rebaixado para 8.

o conteúdo desses contatos sendo menos importante do que a própria comunicação. o que se chegou a fazer foi um mini-festival com os “hard-rockers” que foi muito bom.... não é mesmo. desencadeando efeitos de ruptura. aí eu teria uma loja. Caro senhor. Hervé se afirma resistente a toda autoridade. Bom. de ter acesso a um novo universo cultural e relacional suscetível de lhe proporcionar novos pontos de referência: “eu me sinto crescer com esse trabalho cultural. A precariedade constitui seu universo de referência... realizar-se é: “eles têm uma casinha. e isso vai ser o quê. Embora encontre nessa cultura da comunicação e da convivialidade um substitutivo para a identidade profissional não realizada pelos canais tradicionais. num futuro previsível. mas dentro de três anos terei de recomeçar. um carrinho e. talvez. seu emprego como um verdadeiro trabalho. o senhor tem 25 anos. Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 Essa inserção profissional lhe dá ocasião de se abrir. mas isso vai acontecer um dia. Nesse pequeno meio da criação. o trabalho é antes de mais nada valorizado pelos contatos sociais que favorece. eu me esforço muito. Depois ele será contratado para um cargo de serviços gerais no quadro dos programas de reinserção para desempregados. de fragmentação ou de desarticulação que impedem a formação de uma relação estável com o trabalho. como aquele que lhe traria status e estabilidade. Teria sido Van. como podem ser dois dias. que seria operário também. Eu não cheguei aí. é um eixo central de suas orientações no trabalho.. Se eu tivesse podido ser joalheiro. Se seu emprego tem muito pouco de conteúdo próprio.. porque não é um cara como os meus patrões de antes. você encontra pessoas”) e o caráter expressivo das atividades que o constituem. recomeçar? Vai ser. Segue-se um breve período de desemprego. pelo menos quando exercida de uma forma arbitrária ou absurda. eu evoluo. entretanto. não suportando mais o tédio e o vazio de seus dias. Seria meu próprio patrão e faria uma associação cooperativa. acredito..” Enquanto isso. Não dá nem para dizer que é meu patrão. No plano profissional. Acho normal beneficiar outros operários como eu. É outra coisa. que podemos fazer pelo senhor? Não dá para contratá-lo. seu horizonte inelutável é o desemprego e uma nova busca para encontrar um emprego. no entanto.. eles chegaram a um ponto onde eu gostaria de chegar.Guy Bajoit. faria só um modelo de jóia por pessoa. Hervé trabalhará voluntariamente um dia por semana numa associação cultural. que lhe assegure um status social condizente com suas expectativas iniciais e uma auto-realização através de uma atividade criativa.. Como na canção de Renaud em que se escuta: “ele tinha vontade de arrebentar o crânio do chefete que não sabia suportá-lo”. dois anos de desemprego ou dois meses. Hervé aspira de modo impreciso e flutuante a um trabalho. de qualquer forma. as pessoas 78 . sobretudo. um emprego interrompido três dias depois de ele haver sido contratado.. eu gostaria de ter feito dessa loja ou desse atelier. sentimos muito. do gênero Van Cleef e Arpels... Hervé. A comunicação.. ele valoriza muito. Para ele. Hervé não considera. que a gente encontra aqui têm outra mentalidade”. Agora estou bem porque tenho um trabalho. o novo tipo de relações que experimenta (“é jóia. até um pouco demais. isto é. Desde que estou aqui. e apenas um ano de experiência. De maneira geral.? Nos últimos meses de desemprego. eu poder ter o que quero. é muito agradável trabalhar com ele. por causa de um acidente de moto (que serve de pretexto para seu empregador não recontratá-lo) e um novo período de desemprego com duração de quinze meses com prestações do seguro-desemprego que vão sendo reduzidas progressivamente. É um cara muito legal. ao mesmo tempo cooperativo e independente (“ser meu próprio patrão”).. Abraham Franssen mo a inspeção do trabalho”. já que faço a criação.. Além do ganho financeiro e da ocupação. filhos. acredito nisso. Bom. para que a gente faça alguma coisa que valha a pena. um atelier de criação.

você embarca p’ro hospital. desde o início. mesmo tendo-se tornado mais ou menos difícil de praticar. face à sociedade fechada e desorganizada. “de se sentir bem” e “de estar num bom ambiente”. como alcoólatra ou então como.. encarregado numa pequena empresa metalúrgica da região de Liège. entre sonhos malogrados e projetos indefinidos: “No momento estou aqui. busca de sentido Eu acredito que as pessoas teriam mais vontade de vir comprar comigo do que com qualquer outro. A crise do modelo tradicional do trabalho O modelo tradicional de trabalho é ainda bem presente e desejável para muitos jovens.. apesar de seu caráter penoso. Essa situação de moratória é acentuada pela dependência financeira que o obriga. A bebida faz com que — bom. aos vinte e cinco anos.. por vezes essencial. fragmentada e precária.O trabalho. Além disso. Ao lado do salário. O trabalho tem uma dimensão instrumental (ganhar a vida) mas. no momento da entrevista. são fontes de desestruturação profunda e de ameaças de anomia. Ele é o exemplo banal de um jovem cuja socialização de trabalho foi. Os dois anos no exército.. Suas condições atuais de existência tornam hipotética a realização de seus projetos e Hervé tende a refugiar-se numa situação de moratória. No fim das contas. O modelo de trabalho ao qual ele se refere é bastante impraticável. Entretanto. trata-se “gostar do trabalho”. por trás da aparente homogeneidade das expectativas — um trabalho de que se gosta num ambiente positivo. Ele evoca assim o horizonte negativo de uma desorientação pessoal. os trinta meses de desemprego e os empregos precários que ele conheceu não lhe permitiram investir em tarefas de conteúdo importante. seria legal de fazer. torneiro-fresador numa empresa metalúrgica próxima de Bertrix. os indivíduos ficam reduzidos à impotência existencial e vivem uma ameaça de desagregação psíquica. Se você não acha trabalho nos próximos seis meses.. para todos os jovens que entrevistamos. são os nervos que sofrem e eu não sei se é a maioria dos desempregados que são assim. mas as significações são diversas. exercer uma atividade produtiva com caráter social assegurando uma independência financeira — permanece. uma obrigação social e um dever moral. e os jovens. o trabalho é ao mesmo tempo uma necessidade vital. a bebida começa a chegar.. Ao todo.. se ele fosse joalheiro. depois de um ano. a precariedade de sua inserção profissional é a constante em sua trajetória no mercado de trabalho. uma expectativa básica. que ele teme. Aliás. impedindo a realização das expectativas ligadas ao projeto familiar inicial. As afirmações de Hervé são assim constantemente divididas entre uma aspiração à normalidade e à conformidade social (“se eu conseguisse entrar na pequena burguesia”) e uma busca de evasão e de encontros (“Meu objetivo é a viagem e a comunicação”). compraria um barco. Essa fragmentação e essa heterogeneidade. um ano e meio de desemprego. Para Patrick. que assegure ganho e reconhecimento social — as experiências vividas e as significações atribuídas ao trabalho são múltiplas. como para Bernard. a continuar morando na casa dos pais. que é um critério importante que justifica as mudanças de empresa. cuja contrapartida é o status social que ele confere e a satisfação pessoal que proporciona. Para Hervé. vamos ver”. As palavras são as mesmas (trabalho-emprego-desemprego). você O trabalho na vida Contra as apreciações lapidares (“os jovens perderam o sentido do valor do trabalho”) é preciso sublinhar que o trabalho continua sendo uma fonte importante de normatividade e uma experiência central de socialização. daqui a três anos. ele comporta também uma forte dimensão expressiva (realizar-se social e pessoalmente). louco. Longe de constituir uma etapa inicial. Trabalhar — quer dizer.” chega a um ponto sem volta.. sempre importante. fazia seis anos que Hervé havia saído da escola. Revista Brasileira de Educação 79 . porque muitos jovens.

com sua rotina e seus incidentes. na página “jovens que procuram emprego” do jornal Le Soir. (“o domingo é sagrado”). no qual uma vez por semana uns trinta jovens dispõe de 12 centímetros quadrados para atrair a atenção de um empregador.”. seu ritmo. como Bernard — que detalha longamente o funcionamento de sua máquina: “uma máquina suíça de 39 que trabalha com micron” — são reveladores de uma cultura do ofício. Sua identidade orgulhosa está ligada ao conteúdo técnico do trabalho (trabalhar com uma máquina de tipo digital). eu seria desentupidor de privadas. O tempo do trabalho vem primeiro. o tédio. a experiência do desemprego e da instabilidade.. com seus códigos. e o trabalho. o sentimento de inutilidade. Laura. pode ser igualmente encontrada. à “importância de seu papel”. e de sua carreira operária são claramente balizados. no começo procurei no meu ramo. tal como geralmente foi vivida por seus pais. o que eu precisava era de uma entrada mensal de dinheiro. o desânimo. 3 80 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . “Eu pedi para ser varredor de rua.. sem nada para fazer: “eu procurei muito. Além disso. e que ocupa um lugar central nas suas existências.. os dias em que se está só. distinguindo claramente tempo de trabalho e de lazer. à sua dificuldade. Solange. É verdade que eu era casado. Ver Molitor. para muitos jovens.) prevalece sobre a transação mercantil.Guy Bajoit. rapport de recherche.. cujo pai é chofer caminhoneiro... suas relações. num contexto fortemente marcado pela crise do empego indusrial.. Pierre acabou sendo engajado no Governo belga: “Eu tive de me fazer de criança nessa hora. Nem um nem outro reclamam por efetuar horas suplementares em função das exigências da produção. e às competências mobilizadas. Se esse modelo tradicional é ainda bastante desejável. mas depois. o prolongamento da escolaridade obrigatória até os dezoito anos e o esgotamento das fontes tradicionais de empregos operários. O “garantismo” Ao fim de um longo período de desemprego sem estar registrado no organismo competente. departement de Sociologie UCL. até mesmo à sua sujeira. Mas isso não deu porque era preciso ser bilíngüe”. “Se me dissessem para ser desentupidor de privadas. respondi aos anúncios. 1987. ela está pouco ligando. A valorização está igualmente ligada ao nível de responsabilidade exercida. Pierre. Patrick. o confinamento em tarefas pouco qualificadas. a consciência das exigências dos contratos e a ausência de perspectivas profissionais destruíram a maior parte de suas referências ao modelo tradicional do trabalho. 2 Hoje.. muito trabalho. impedindo a socialização precoce no mundo do trabalho. se lixa. sua impraticabilidade relativa o leva a entrar em crise. como para Hervé. Obrigado. este aparece como uma referência longínqua. e A. Abraham Franssen Uma grande parte do discurso é espontaneamente voltado para a descrição do processo de trabalho no qual estão engajados. tem contribuído para manter muitos jovens num espaço relativamente indeterminado. As etapas e os mecanismos de sua entrada no mundo do trabalho. qual- Esse parágrafo apóia-se bastante numa pesquisa anterior levada a efeito sobre as orientações de trabalho dos jovens e apoiando-se na análise aprofundada de uma dúzia de entrevistas com jovens em situação precária no mercado de trabalho. está disposto a encarar qualquer trabalho: A pessoa que vai bater ponto (no organismo de registro dos desempregados) acaba tomando gosto nisso.. escrevi. de Ronge Jeune et identité au travail. Hervé) foram realizadas em 1985 e 1986. eu tive quase que chorar para conseguir o lugar. Ameaçado e obrigado a recuar. que significou.. É preciso observar que algumas das entrevistas evocadas aqui (Pierre. Ao fim de seus estudos de auxiliar de enfermagem Solange experimentou um longo período de desemprego. de quando em quando. eu tinha necessidade absoluta de dinheiro”3 . M. É o tempo do trabalho que determina o ritmo de vida. isso não é para mim”. na qual o registro afetivo (“Tenho necessidade de um trabalho. 2 Essa atitude de implorar emprego. e o da recuperação é secundário. para ela. que meu filho havia acabado de nascer.

. A organização do trabalho é então sentida como heterônoma. estava fazendo um estágio de espera”. Pode-se. “legais”. há aqui a ausência de uma cultura do trabalho estável e constituída. a gente discute. Ela tende a ser reduzida ao organograma que lhe assinala um lugar. Nesse sentido. de ser útil. Luc. Contrariamente a Bernard ou a Patrick. administrações) ao arbítrio das quais eles sentem-se particularmente expostos. substituída seja por um sentimento de isolamento e de impotência.. uma ocupação do tempo. a dimensão expressiva do trabalho desaparece: o sentimento de participar de um processo de produção global. o GB é.A prova: eu fui uma vez surpreendido fumando nos banheiros. Didier e tantos outros agarram-se aos farrapos da norma- Revista Brasileira de Educação 81 . “para mim. Para esses jovens cuja experiência da precariedade origina-se freqüentemente numa socialização familiar que oferece recursos frágeis ou inadequados e é confirmada pelo veredito do sistema escolar. a fragilidade de suas redes sociais. um status social. temporário. como relações interpessoais. “obtive meu certificado 4”) mais do que em termos de ofícios.. Pierre. “naquele momento. O percurso no mercado de trabalho é descrito mais em termos administrativos (“fiz um estágio para desempregados. eles são boa gente. a gente está entre amigos. como diria. me disse: ‘bom. A cultura do trabalho. (Pierre) A ausência de mediação pelo trabalho e. tenho medo de ficar desempregada de novo”.). seja por uma identificação total à empresa: “No GB. o tema da retribuição prevalece sobre o da contribuição. “O GB é uma família”. reforçam o sentimento de vulnerabilidade social com relação às diferentes instituições (Ofício para os desempregados. como auxiliar de enfermagem num lar para pessoas idosas. mas sempre desejada. as dificuldades prolongadas de inserção no mercado de trabalho impedem a estabilização no modelo de trabalho ao qual aspiram e se traduz por uma desestruturação de suas referências identitárias. de se realizar pessoalmente. na falta de um status real e de uma função. vendo minhas possibilidades de trabalho. de conteúdos. teve a sorte de encontrar um primeiro emprego. capaz de proporcionar uma identidade digna e positiva ao trabalho. mas de tarefas a realizar (“arrumo as prateleiras”) ou de uma definição institucional (“Trabalho como estagiário”) ou ainda. na medida que elas constituem seu elo com o sistema social. com Michel Molitor. Solange. babá e tudo”. fui chamado pelo gerente. é isso mesmo. o que é proibido pelo regulamento. Hervé.O trabalho.. fre- qüentemente. ligadas às categorias do afetivo (“simpáticos”. falar da figura do “garantismo” para caracterizar a degradação das referências de trabalho que se observa entre os jovens confrontados com o fracasso relativo de seu projeto de integração. discutimos e ele. Por fim. através de empregos pouco qualificados no setor dos serviços ou no quadro de sub-status do setor não-mercantil. As expectativas com relação ao trabalho são reduzidas à sua dimensão instrumental: uma fonte de ganhos. torna-se uma referência distante. vamos deixar passar’”. permanece indefinida e marginal (“sou pau mandado”). Nessas condições. A ocupação não é percebida em termos de ofício.” (Pierre) A dimensão coletiva e conflitual das relações de trabalho desaparece aqui completamente. as preocupações econômicas (“um trabalho a qualquer preço”) ou de status (“não estou contente de ter um emprego provisório remunerado pelo Estado”) prevalecem sobre as características próprias do trabalho. mas como estritamente hierárquicas e burocráticas (vazias de conteúdo) ou.”. se diverte. as relações de trabalho não são mais vividas como relações de produção. busca de sentido quer coisa. para esses jovens em situação precária... inversamente.. um lugar público.. Para esses jovens cuja inserção se efetua. A dimensão expressiva do trabalho como locus da realização de si é progressivamente abandonada em favor unicamente da lógica do emprego. sindicatos.. as categorias administrativas ou afetivas substituem as categorias sociais e profissionais. como empregada doméstica. substituindo outra pessoa: “Eu gosto de trabalhar. cheguei até a pedir numa usina de fabricação de plástico. Stéphane.. de maneira geral.

Essas aspirações. da experiência de trabalho. decorrentes de políticas de emprego destinadas aos jovens. Novas Aspirações ao Trabalho Na ética tradicional. nem dela distanciarem-se. No caso de Hervé. podemos nos interrogar com relação aos efeitos. por força da necessidade de uma aventura sempre recomeçada. face a uma sociedade da qual eles se sentem marginalizados e à qual se agarram. Com relação à experiência de Hervé. mas sem esperanças realistas de encontrar uma saída. ainda amplamente elaboradas com base nas normas do modelo tradicional de trabalho. Verifica-se. É através de sua parti- 82 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . com Michel Molitor. O transitório Ao mesmo tempo. Por exemplo. provisoriamente. fortemente marcada pela lógica da precariedade. transformam-se em atitude de auto-preservação. onde se insiste em fazê-los adquirir uma qualificação de base (construção civil) — são também os mais conscientes das imposições do mercado de trabalho e sem ilusões sobre suas próprias possibilidades de exercer um trabalho interessante. a “apatia” é apenas a distância que os salva. particularmente em torno da temática da comunicação e da auto-realização expressiva. entre desestruturação psíquica e o distanciamento lúcido. se poderia qualificar de “socialização do transitório”. decididamente. é possível formular a hipótese de que esses empregos de substituição não permitem uma integração real no mundo do trabalho. em termos de socialização. de uma lógica de crise no sentido de que a impraticabilidade das normas adquiridas é vivida dolorosamente e dá lugar a diversas estratégias de compensação e de racionalização.Guy Bajoit. onde eles têm a oportunidade de experimentar outros tipos de relações de trabalho. na medida em que não podem se realizar no âmbito do mercado de trabalho. por freqüentarem a diversos meios. Trata-se. Às ofertas tradicionais de formação.. manifestando em contrapartida mais interesse por atividades com forte dimensão expressiva (“teatro”). sem realmente questioná-la. como no de muitos outros jovens. por certo. sem contar com recursos culturais e sociais que lhes permitiriam viver diferentemente sua situação.). eles se retraem sobre as referências de que dispõem. esses jovens respondem freqüentemente com indiferença. É a lógica do gato escaldado e da nostalgia que melhor caracterizam a atitude desses jovens no mercado de trabalho e.. nas conversas de Hervé ele evoca o grupo dos “irredutíveis” com o qual se vêem “confrontadas” as instituições de reinserção profissional que se habituaram a distinguir. os jovens “aptos à formação para o trabalho” e os jovens que é preciso antes “ressocializar”. De uma maneira mais global. sem alternativa positiva. O exemplo de Hervé esclarece a lógica interna dos jovens que galeram no mercado de trabalho. Abraham Franssen lidade do trabalho. Esses jovens — maciçamente encontrados nas diferentes iniciativas públicas e privadas de formação através do trabalho (escolas de aprendizado. nessa zona brumosa que separa as exigências do mercado de trabalho dos seus recursos e das suas aspirações. o trabalho é considerado como um dever moral e social. mas induzem uma socialização que. de maneira mais geral. resistem à socialização pelo trabalho (e tanto mais na medida em que esta se efetua sob a forma de estágios mal remunerados no quadro de pequenas e médias empresas marcadas pelo autoritarismo das relações de trabalho). a própria heterogeneidade de sua experiência propicia uma socialização inédita e a aquisição de novas referências e orientações com relação ao trabalho. Experimentando a precariedade. nesse caso. Para aqueles que. que se mantêm bem ou mal. essa modificação das orientações com relação ao trabalho está ligada à experiência de empregos “alternativos” do setor não mercantil no quadro de sub-status (diversos mecanismos institucionais especialmente criados pelo governo para atendê-los. ao mesmo tempo. uma desestruturação das referências tradicionais de trabalho tornadas completamente impraticáveis e a manifestação de orientações novas. no seu público. formação em alternância).

o choque da entrada no “mundo do trabalho” foi tanto mais violento quanto sua Revista Brasileira de Educação 83 . eu já conheço. o trabalho é referido ao indivíduo. mas diferentemente. No começo para guardar o lugar. Eu prefiro achar alguma coisa melhor. pela participação que assegurava ao projeto coletivo da sociedade industrial. no final do ano. Essa coisa de poeira. negativamente. embora não exclusivo. aquela de que a gente gosta. O valor do trabalho tende a não ser mais sacralizado. a ser submetido às aspirações e à crítica do indivíduo. mas mantendo um distanciamento com relação a isso. você tem que trabalhar. Silvana também já viveu. Era meio que trabalho em cadeia. Muitos jovens manifestam assim sua rejeição a uma carreira operária normal tal como a que foi vivida por seus pais. Nesse sentido. Assim.. Vê-los todos os dias. A recusa do trabalho-alienação De maneira defensiva. a gente vê”). Eu não teria conseguido continuar ali. vamos todos ao restaurante e você tem a impressão de que é o carrossel encantado. De qualquer forma. não tem ilusões quanto às exigências do mercado musical e não imagina que vai poder viver disso. permanecendo entretanto como um elemento e um locus essencial. A melhor profissão é.O trabalho. Eu trabalhava numa usina química. o trabalho continua sendo importante. 22 anos. eu não quero. Para mim. Em outras palavras. Tinha muito barulho. não se trata tanto de uma rejeição do trabalho. Enquanto antes ele era importante em si. mas autoreferido. organizada em sua região no quadro de uma AID (ação integrada de desenvolvimento) destinada aos jovens “excluídos”. Acabamos de ver que para um certo número de jovens. que eu esteja seguro de gostar mais. mas para mim não dava. Rompi meu contrato. sua resposta é inequívoca: “Não. essa aspiração exprime-se por uma rejeição ao trabalho assalariado na fábrica e por uma recusa do trabalho-alienação. Christian. E com isso os outros operários aproveitam.” Esta experiência de sujeição à máquina e à agressividade nas relações de trabalho. O que muda não é tanto a importância do trabalho. Não. paralelamente. O ambiente não me agradava. hoje é o trabalho que tende a estar subordinado à realização pessoal. Ao mesmo tempo.. mas sim da reivindicação de um trabalho que tenha sentido para o próprio indivíduo e/ou que lhe deixe tempo para uma vida própria. não dava.. Enquanto no modelo tradicional a realização pessoal estava subordinada ao trabalho. Não é mais o indivíduo que é referido ao trabalho. E quando lhe perguntam se está interessado numa formação em trabalho com madeira. Embora faça rock com um grupo de colegas.. eu não suporto. na medida que pode contribuir para o seu projeto singular. Christian encontra-se agora desempregado há seis meses (“com o desemprego eu posso aproveitar melhor a vida”). tanto no plano da satisfação pessoal quanto do status social. Havia relações entre os operários. situação que ele sabe que é provisória sem que por isso seus projetos estejam claramente definidos (“Eu não sei.. Essa reivindicação se exprime muito nitidamente na vontade de “não se deixar consumir pelo trabalho” e de realizar um trabalho que tenha sentido. Para ela. sabe que não voltará à fábrica. a gente vê. no qual o indivíduo possa realizar-se. (posto que representa uma grande parte da nossa vida) (Jean Pierre). esta referência tornou-se longínqua e impraticável e que esta degradação é vivida sob a forma da crise. antes de tudo. agora ele se torna importante para o próprio indivíduo. a crise de praticabilidade e de legitimidade das normas tradicionais de trabalho dá também ocasião a uma mutação estrutural das orientações com relação ao trabalho. mas sim a relação com ele.. sou alérgico a isso. isto é. é importante ter sucesso no plano profissional. a poeira. É o tempo todo a mesma coisa. interrompeu a escola aos dezoito para ir trabalhar. Não esquecer que o resto também tem importância e que o fundamental é estar bem na própria pele. Eles vêem que você é o otário. e depois. busca de sentido cipação no processo de produção que o indivíduo pode pretender a uma auto-realização.

foi primeiro preciso que eu tivesse uma experiência ruim para adquirir vontade e caráter.. o trabalho determinava uma condição operária vivida como uma razão social. com relação à qual não havia outra escolha 84 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . três meses que comecei a refletir e disse a mim mesma que não queria mais voltar a trabalhar numa fábrica. antes de se perderem como sujeitos: Faz mais ou menos 6 meses que estou desempregada. me senti em férias e foi depois de dois. vou me tornar ruim. você não pode parar a máquina.. fuga através do sonho. Eu emagreci cinco quilos. Quanto a mim. os desempregados não são necessariamente pessoas que não prestam para nada. Porque nas fábricas. senão submeter-se. atelier de escrita). no começo eu fiquei. eles tentam se acomodar: “Eu não queria dizer aos meus pais que estava infeliz nessa fábrica” (Silvana) “É verdade. Por isso. Eu penso que os desempregados não devem se deixar abater.. o trabalho ideal é o de mãe de família. A máquina gira todo o tempo. A dimensão alienante do trabalho assalariado. é rápido demais. As antigas se aproveitavam das mais jovens..” Da fábrica onde Silvana trabalhou três anos. porque não conseguia comer em vinte minutos.Não obstante. feliz. interiorizando as coerções. greve tartaruga.. Ali. Toda a literatura sociológica sobre a condição operária. Silvana ou Isabelle (que trabalha como secretária): não terminar como eles... mas desta vez um trabalho que me agrade (agência de viagem) porque gosto de estar em contato com as pessoas.. ressaltaram abundantemente essa escravização da pessoa à máquina e as micro-estratégias individuais ou coletivas acionadas para escapar a isso (psicossomatização.. oito horas. a briga é essa: os banheiros.permanecer humana. mesmo se eles não têm os meios financeiros como os outros. vou fazer como todo mundo” (Isabelle)..) Para mim. Mas o fato de ter trabalhado como um cão me ajudou a pensar.. Mas acabam desistindo..).. confrontada com a vulgaridade e com as rivalidades de suas colegas mais velhas: Numa fábrica. não a tinha preparado de maneira alguma para isso: “Quando você está na escola.. Eu não voltarei jamais a uma fábrica (Gabriella. a primeira experiência de trabalho — às vezes depois de muitos anos — longe de conduzir a uma confirmação do modelo de trabalho (como no exemplo de Patrick que “está recomeçando tudo de novo”) conduz a uma rejeição total ou parcial. Eles também têm sua vida.. vou ficar como elas. Então eu não comia nada. sem conteúdo próprio. o dia inteiro. Cinco minutos. ou pessoas à parte. porque passei cinco anos de minha vida numa fábrica abominável onde o patrão era o patrão e a operária um instrumento de trabalho. no universo protegido da família e no quadro convivial da escola. você é protegida. você só pode ir (ao banheiro) duas vezes.. quando me registrei no Ofício do desemprego.Guy Bajoit. isso eu não quero. rotinizados. você pode meter os dedos na máquina. Não. 23 anos. ela guarda uma experiência heterônoma. freqüentemente. porque. Para esses jovens... você tem a impressão que é mimada. cuidar das pessoas. sujeita ao ritmo da máquina. o sentimento de monotonia e de vazio que o acompanha não são novos. mas por enquanto estou vivendo muito bem e espero poder achar um trabalho. É precisamente essa perspectiva que é rejeitada de forma explícita por Christian. te deixam o tempo todo no mesmo lugar. Fiquei tão horrorizada com esse cara que me arrependi realmente de ter parado de estudar. Abraham Franssen socialização anterior..criar os filhos. eles têm razão. admito. Passado o primeiro choque de entrada no mundo do trabalho. é verdade que eu não gasto mais tanto como antes. Só agora me dou conta disso. É depressa demais... fazer o trabalho mais duro e o mais chato. Com isso você fica sonolenta e isso é mau porque. ainda que se duvide.. é preciso sempre andar rápido.. (. e em particular as pesquisas junto às operárias.. Desempregada há quinze dias (“eu mereci”) Silvana não voltará a trabalhar na fábrica para não perder a sua humanidade: Se eu trabalhar toda a minha vida num lugar assim.. apesar de seu caráter penoso. escravizados e aviltados pelo ritmo de trabalho e suas relações convencionais.

eu me definiria principalmente pelo que faço paralelamente” (Isabelle). Freqüentemente a decepção os espera na entrada do “mundo do trabalho”: “Na realidade. de início. seria milionário. a minimização às vezes desdenhosa da implicação de si no trabalho (“um trabalho. Não é o meu caso. para justificar uma auto-redefinição. assim.000 francos belgas por mês durante dois anos. ou a partir de uma atividade pessoal para outros. Raramente são coisas que eu gosto (Ana).P. 4 horas bastam.”. Esta lógica é particularmente presente entre os jovens que seguiram estudos do tipo artístico ou literário e que experimentam sua frágil rentabilidade no mercado de trabalho. ele tende a ser minimizado. atitudes e representações.” A consciência e a gestão desse descompasso dá lugar a diferentes estratégias. você imagina muita coisa com relação ao trabalho. o trabalho é como um negócio.. Quando é um trabalho de que você não gosta muito. Uma maioria de jovens vão. Tudo se passa como se a experiência de trabalho de numerosos jovens fosse caracterizada por uma distância importante. mas era só para ter direito ao de- Revista Brasileira de Educação 85 . Numa pesquisa realizada com jovens de camadas populares. mais satisfeitos com suas características extrínsecas (ganhos... O trabalho então é apenas um “bico”. J. lamentar a falta de interesse qualitativo de seu trabalho. O trabalho no quadro de um emprego não é considerado como o único modo de autorealização. Inclusive para Mike e Antoine. é só isso. reduzido à sua função instrumental (pelo dinheiro) enquanto toda a dimensão da autorealização é reportada à esfera privada e à sociabilidade escolhida. Eu não sou diretor de empresa. Daniel Ruquoy e Jean-Pierre Hiernaux mostraram bem a defasagem entre a importância atribuída a priori ao trabalho e a satisfação advinda da experiência concreta com o mesmo. “Isso depende do trabalho. “temporário”. Bruxelles.. sentida e expressa. Quanto a Ana. Ruquoy. De bom grado eu trabalharia.. eu procuro emprego com contrato indeterminado.. enquanto o verdadeiro trabalho é a atividade autônoma. que permitem ao indivíduo existir como sujeito dissociando-se de sua situação.. o “trabalhinho”. O trabalho é. Se eu fosse chefe de empresa.O trabalho. Vie Ouvrière. A figura mais clássica dessa gestão da insatisfação é a do trabalho desinvestido. um pouco o que me cai nas mãos. estimando-se. Na medida em que não seja realizador. então não vejo como poderia. É na medida que não encontram um trabalho que corresponda a suas aspirações profundas e no qual eles possam investir... na esfera familiar para alguns. 4 Hiernaux. mas. Para mim. de maneira mais ou menos aberta e declarada. precisa bem o alcance de seu investimento no trabalho: Travail Ras-le-bol? Jouissance? Ed. entre suas aspirações e a realidade (conteúdo e ambiente) do seu trabalho. Se eu tivesse um trabalho de que gostasse muito. no máximo. me envolvo um mínimo. que ao fim de um contrato de aprendizagem de 6. E vejo família como realização. ou mesmo de sua condição profissional. talvez fosse desse jeito. Essa recusa de um trabalho que impõe suas limitações ao conjunto da existência (“o trabalho que absorve vida inteira”) é expressa.. o “contrato”. acabou de ser contratado como reparador de caixas registradoras.. Bem.. não me incomodaria de trabalhar dez horas por dia. recepcionista de uma agência de viagens. como eu já caí na armadilha. “há um certo desencantamento”.. status. busca de sentido O trabalho desinvestido e o trabalho sonhado. ao contrário. pela maior parte dos jovens.. “Eu não me definiria pelo trabalho. Mathieu.. Só para ganhar a vida.. 1986. aparentemente os mais alérgicos ao trabalho.)4. qualquer que seja seu nível sócio-profissional: “Não quero uma vida em que você se sacrifica pela empresa” (Joy). D.. que alguns adotam uma atitude estritamente minimalista e instrumental com relação ao emprego.

só trabalhou em secretariado. o emprego ideal seria trabalhar em postes de eletricidade. estudei fotografia. No modelo tradicional de trabalho. gostaria de escrever ou então “ir para o Terceiro Mundo”. por isso. A imprecisão e a grandeza do projeto puramente virtual permitem a evasão. Muitos jovens reivindicam assim o caráter temporário da sua ocupação atual: “eu vou sair logo”. Trata-se de ter “um bom lugar” que permita efetuar toda uma carreira — os papéis profissionais são papéis para toda a vida.. Joy — atualmente desempregada e que. um trabalho perigoso e ao ar livre. Jovens com maiores recursos inquietam-se às vezes de se verem confinados em um lugar “confortável” (estabilidade. “não vou envelhecer lá dentro”. nem assumir com orgulho sua própria situação: ao contrário.. Se ainda se encontra entre os jovens esta aspiração a uma segurança na existência. mas pouco interesse intrínseco) que não se teria mais coragem de deixar. Eu me sentiria útil à beça e faria uma coisa que gosto (Antoine). bom salário. Ana. sem chateação. tudo o que é um pouco público. Mas é evidente que é preciso viver de coisas que não somente sejam sonhos. forçoso é constatar que há menos empregos estáveis e que a norma do emprego em tempo integral e para toda a vida tende a aparecer como um contra-modelo.. Eu quero fazer alguma coisa interessante. e daí. “uma pura exploração” ou “pequenos serviços ingratos” — tenta lançar as bases que a aproximariam de seu sonho: Meu grande sonho e minha grande ambição seria trabalhar um pouco mais na área do espetáculo ou do canto. isso seria minha base. no teatro. qualquer coisa mais — como dizer —. “um trabalho tranqüilo. Daí se eu pudesse achar outra coisa. eles depreciam seu “trabalho de paus mandados” para dele melhor se distanciarem. O que não impe- 86 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Assistente social.Guy Bajoit. que sofre no balcão de uma agência de viagens. onde eu me envolvesse mais. desde que parou de estudar com dezessete anos. (“É uma questão de lucidez”). O receio da monotonia supera o desejo de segurança e de retorno financeiro (“o dinheiro. com a possibilidade de “reconversão” sob o império da necessidade..”) aparece como a contrapartida das aspirações não concretizadas de autorealização “num trabalho que não seja mais um trabalho”.. isso é um treco que eu bem que gostaria de fazer (Mike).. A norma é a do emprego em tempo integral e para toda a vida. isso é a minha grande ambição. gostaria de viajar “organizar viagens para as pessoas e tudo isso” ou então fazer fotografia. ou pelo menos cultural. Tempo de trabalho e tempo de vida Essa aspiração à autorealização e essa relação dessacralizada com o trabalho se traduzem também em uma outra relação com o tempo. mas também com No horizonte. o trabalho é um dado indiscutível que determina o ritmo da existência. numa coisa artística. por assim dizer. e gostaria muito de me fixar na fotografia. de de ter os pés no chão e uma consciência lúcida das obrigações. Abraham Franssen semprego. amarrado há muitos anos entre uma situação de desemprego e um status indeterminado. faço questão de deixar claro”. lá no alto. quer se trate do tempo cotidiano ou da divisão das etapas da vida. a gente precisa. mas o termo mesmo de “reconversão”sugere a amplitude da reorientação que isso significa. Os jovens executivos tendem a afirmar seu desprendimento e sua capacidade de ruptura não somente com relação ao emprego. eu gostaria muito de ter uma formação como vitrinista. Isabelle que “fica lendo atrás de sua máquina de escrever enquanto o chefe não está lá”.. subsiste freqüentemente o sonho de um trabalho que propiciasse a auto-realização pela realização de um projeto próprio. A estabilidade do emprego é uma dimensão importante e é o modelo progressivo e cumulativo da carreira que constitui a norma (sancionada por uma medalha depois de 25 anos de fidelidade). E para Didier. mas é para gastar”).. A maior parte dos jovens não procura enfeitar.

Eu me vejo muito mal num escritório sempre com o mesmo patrão. sem referência a um coletivo (a um “nós”). Quanto às instâncias de mediação e defesa dos interesses coletivos dos trabalhadores. a partir daí. de que o tempo todo não seja consagrado à recuperação da “força de trabalho”. às quais eles tendem a aplicar as exigências da comunicação. (“parar”.. Trata-se. a relação social empregador-empregado diluindo-se. nas expectativas de comunicação e de convivialidade nas relações de trabalho. Para a maior parte dos jovens... “fazer qualquer outra coisa”). não há problemas.. enfim. julgadas pouco legítimas e inoperantes para responder às situações particulares dos jovens. um número reduzido de jovens chegam a conciliar. às vezes. A maioria dos jovens não viveram as condições de constituição de uma identidade coletiva a partir do trabalho. Positivamente os jovens são sensíveis à qualidade das relações de trabalho. O trabalho: uma experiência individual Esta vontade de considerar o trabalho a partir das categorias da experiência manifesta-se. Numerosos jovens falam assim do trabalho manifestando um sentimento de isolamento como se fossem os únicos a conservar uma distância crítica. O trabalho.O trabalho.. em meio a colegas rotinizados. com freqüência. eu ficava no sofá e dormia. “Eu rompi com esse sistema que assegurava vantagens demais para o patrão”. O trabalho-paixão Como antípodas do trabalho alimentar.. de jovens com grandes recur- Revista Brasileira de Educação 87 . Você fica meio abatida porque você acha que é horrível. E. a ser estritamente instrumentalizado ou rejeitado em proveito de um protesto individual que se traduz mais diretamente pela desimplicação e a saída expressiva do que pela reivindicação e a negociação. termina o trabalho às duas horas. entre os quatro.” (Ana). Depois você não tem mais vontade de fazer nada no começo. a individualização das trajetórias profissionais e a precariedade dos diferentes empregos ocupados fazem da experiência do trabalho uma experiência vivida individualmente. nos primeiros meses. você faz o quê? Você descansa no sofá porque você não agüenta mais. da autenticidade. O mau ambiente e o caráter hierárquico e competitivo das relações de trabalho são freqüentemente evocados como o primeiro fator de desgaste e de rejeição ao trabalho assalariado. O recurso ao sindicato tende.. “jóia” ou da personalidade simpática do empregador. Você vive só p’ra isso (Christian). às vezes até 7. Quanto ao tempo cotidiano. na verdade. e energia também. Mesmo que isso não venha a ser feito. que te imobiliza e é enfadonha (Joy). e sem envolvimento. da reciprocidade das relações pessoais. no final da semana eu estou realmente a nocaute. depois me desabafo e vou-me embora. sempre com as mesmas ordens o dia todo. não há problemas. Essa importação de categorias do afetivo pode ser ambígüa. que é constrangedora. é principalmente no nível da hierarquia enfim porque eles se acreditam talvez um pouco superiores pelo fato de serem secretárias ou contadores. Freqüentemente. no começo. por vezes. toma espaço demais. Bom. É isso que me dá muito medo no trabalho. tendem a te rebaixar um pouco (Ana). é de fato a rotina que para mim vai um pouco de encontro à vida. elas são.completamente exausta. Eu acho que isso toma um tempo enorme. “eu acumulo toda a minha raiva. horrível mesmo o que você faz (Silvana). liquidada (Isabelle). 8 horas. a motivação pelo salário é aqui secundária com relação ao desejo de ter tempo para a própria vida. a confundir sua atividade profissional e seu projeto de auto-realização. Quando você pára. chega em casa são duas e meia. isto é. busca de sentido relação à carreira. que desgasta. eu diria que entre os colegas aqui embaixo na agência. atrás da relação interpessoal “legal”. com freqüência.

Guy Bajoit. e escrever. isso é claro. A intensidade do investimento liga-se também à vontade de vencer no jogo da competição plenamente assumida. O registro de Sophie é o da administração de empresas. de status e simbólica não são o mais importante: elas não são buscadas enquanto tais. de início. As gratificações material. depois de dois anos. com o qual eu me divirta todos os dias. se os projetos me interessam. estar sob stress dez horas por dia. O grau de satisfação é ele próprio ligado ao fato de poder envolver-se totalmente. Meu salário. Deixemos. então devo refletir e ver como reconstruir alguma coisa. Melhor do que outros. E que para mim é importante ter o reconhecimento dos outros. às vezes ambígua.. incessantemente. Eu tenho necessidade de um trabalho no qual possa me envolver. em nome de uma busca do sujeito e de uma vontade de auto-realização. de fato” (Martial). que incluem um forte componente tecnológico (informática) e/ou artístico (música. ela “recruta” seus “colaboradores”em função do seu “potencial”. E ter todos os elementos nas mãos. Sophie resume as características desse modelo. Os critérios de medida. que ela defina suas funções numa agência de comunicação para cuja fundação ela contribuiu: Eu tenho uma função de coordenação que me permite. Sophie integra totalmente a lei 88 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Abraham Franssen sos sociais. A retribuição do esforço não é postergada. que é um papel de RP quando nos convidam nas conferências da imprensa. bancar a jornalista quando tenho vontade. fazer alguma coisa de que se gosta. minha função. mas imediata pela auto-realização para a qual ela contribui. desenho. Esse modelo do trabalho como paixão encontra-se entre os jovens executivos e entre as profissões criativas. ao mesmo tempo. de estabilidade. que permite bancar a mulher de marketing quando tenho vontade e organizar as campanhas de promoção. que me permite ter o luxo universitário de pensar e elaborar projetos. das normas tradicionais da ética do esforço. O critério fundamental do êxito é a satisfação que se experimenta. eu os mereço. para uma viagem para jornalistas. evoluir. Assiste-se assim a um reinvestimento e a uma relegitimação. engenharia de som): “eu desejo que meu trabalho seja um hobby. de separação entre tempo de trabalho e tempo de lazer apagamse aqui em proveito total de um modelo hiper-profissional.. e sim consideradas como a contrapartida normal do investimento. justamente esse aspecto total: gestão de uma equipe e criação de um produto. de equilíbrio entre a prestação e a retribuição. E eu me dei conta de que o que me interessava era justamente. Penso que meu trabalho não evolui mais na medida que sou obrigada a refazer a mesma coisa que já foi feita. colocar-se em questão. Porque no dia em que levanto dizendo: ‘merda.. econômicos. Na imagem desse jovem executivo que indica em pós-scriptum de seu curriculum vitae: “Uma paixão: O trabalho é uma paixão se é envolvente”. “performance”. mesmo que eles não se concretizem nunca.. sem concessão ao diletantismo. culturais. inclusive ela mesma. com novos desafios. cujo percurso é caracterizado pelo controle de suas escolhas. Isso não me incomoda. não tenho vontade de ir trabalhar’. de sua propensão a integrar-se numa equipe”e como há um turn-over importante (o tempo de se fazer um nome no mundo da publicidade). “ser hiperrentável”. Além disso. “Todo mundo na casa sabe que está permanentemente sobre um assento ejetável”. ter um papel de diretor de projetos e obter subsídios junto à CEE para um caderno complementar. com termos como “investimento”. É um critério que deve se aplicar permanentemente. é preciso que sejam “pessoas que aprendam rápido”. importa ser confrontado. “competição”. trata-se de ver outras pessoas. fazer o tempo todo coisas excitantes e apaixonantes escapar à rotina.

ou para Yves.) E. Encontrase aqui uma forte vontade estratégica em proveito de um projeto-paixão clara e precocemente definido: “era realmente aquilo que me interessava. único. como engenheiro. ou Stéphanie. para Pascal... a finalidade visada e a significação atribuída ao trabalho são outras. trabalhando muito.. Eric. Para Bill. Esta atitude estratégica a serviço de um projeto de auto-realização supõe uma forte confiança em si mesmo. arranjos em estúdios. Uma segunda figura do modelo de trabalhopaixão encontra-se nas conversas dos jovens artistas. Se esses não cedem nada aos primeiros quanto à intensidade e ao volume horário de seu investimento pessoal. cairam antes. mas a sua auto-realização através dele. Isso é uma vocação: eles não são chamados de fora.. Todos os outros cairam. só se paga pessoas que sejam hiper-rentáveis: Chega um momento em que se tem que tomar a devida atitude com uma série de colegas e isso é realmente duro.. O êxito de sua empresa confunde-se com o seu êxito pessoal do qual eles são a encarnação e a expressão. Sobretudo. estão mais próximos da ética protestante de trabalho do que de um projeto “pour le fun”. confundindo trabalho e lazer e envolvendo-se muito intensamente. Aos 22 anos. o engenheiro de som. busca de sentido da empresa. A norma é “estar sob stress dez horas por dia” e aqueles que não sabem acompanhar não há lugar para eles. que é vivido como singular. o desenhista. sem problema”. “em sua natureza”.. mas “para terminar isso deu certo. não se incomodando de se deixar explorar um pouquinho desde que isso lhe permitisse encontrar pessoas interessantes. Não se cria uma estrutura para agradar às pessoas com quem se trabalha. pessoal. Mesmo quando eles vinculam seu projeto a um papel. E é verdade que eu estou consciente de que estou sentada em um assento ejetável. encorajado por um ambiente familiar em que “todo mundo se interessava pela música” foi “ten- tado a inserir-se nesse meio. “eu tinha começado bem afiado o trabalho lá dentro”. A importância do envolvimento é vivida como forma de sacrifício. há a combinação. A sociedade é apreendida como um mercado que oferece recursos a serem mobilizados e que impõe obstáculos a serem ultrapassados. que acabou de abrir um snack. Para os jovens que rejeitam resolutamente a perspectiva de um trabalho alimentar.O trabalho. Os jovens independentes Esta figura do “trabalho-paixão” deve distinguir-se das orientações para o trabalho dos jovens independentes. sobram apenas três... No momento. “me comprometi bem antes de largar os estudos”. mais do que como forma de prazer ou de alegria. o trabalho é. apreendido como lugar de realização e de expressão de uma essência pessoal — “qualquer coisa que está neles”. É preciso dizer que desde a idade de 15 anos. a grande limpeza. antes de tudo.” Sua família teria preferido que fizesse estudos mais clássicos. da performance. de um projeto de auto-realização e de um modelo competitivo. músicas de filmes publicitários. Assim.. apoiandose sobre uma facilidade natural de classe ou sobre a convicção de um “fogo sagrado” interior. da concorrência. E pretendem também ser os únicos juízes de seu êxito ou fracasso. Não é mais um papel socialmente reconhecido como útil: eles não pretendem seguir caminhos batidos e balizados por outros. É. o fotógrafo. não é sua concretização enquanto tal o que eles buscam. ao terminar seus estudos de engenheiro de som no IAD.. E eles consagram todo o seu tempo a ele. Da equipe do início. é impos- Revista Brasileira de Educação 89 . eu gostaria de ir fundo”. Digo que é preciso um mínimo de sacrifícios durante alguns anos e depois. desapareceram. em proporções variáveis. O trabalho encontra seu sentido a serviço desse projeto. mas de dentro. procuraram outro rumo (. quando se está em condições econômicas tão difíceis. que ao fim de uma aprendizagem em marcenaria de luxo lançou-se na restauração de móveis antigos. Yves já tinha muitas realizações profissionais a seu favor: jingles para a televisão. A partir do momento em que viram que não tinham a responsabilidade que deles se esperava.

trata-se mesmo de um prazer postergado: “temos a riqueza de nossas obrigações” Vence-se graças ao trabalho. isto é. traumatizante para a maior parte dos jovens que encontramos. é certamente uma experiência muito negativa.. Isto é realmente o mínimo para viver. (Dominique). inclusive para os jovens que se definem mais diretamente por um projeto de auto-realização. D. O desemprego total caracterizado pela humilhação. As diferentes lógicas assim distinguidas podem nos ajudar a dar conta das experiências vividas pelos jovens de nossa amostra desde que sejam entendidas como simultâneas. sendo feliz com o que se realiza. sem atividade de substituição e com o sentimento de sua própria inutilidade. O desemprego invertido indica uma vivência do desemprego totalmente desdramatizada. que não é geralmente citada nas motivações principais do emprego. O desemprego postergado é o desemprego vivido na forma de “como se”. O período do desemprego é considerado como transitório e apreendido sob o ângulo dos recursos (tempo-dinheiro) assim colocados à disposição pela busca de um projeto pessoal. 5 90 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . poderoso. Apesar de tudo é preciso não ceder. O status do de- Schnapper. e eu estou desempregado e não faço nada dos meus dias”. com a força de vontade. isto é. Dominique Schnapper 5 distingue três tipos de experiências de desemprego. Se as expectativas e as aspirações com relação ao trabalho são. já antigo. Não ter emprego é ser excluído. o desemprego é quase sempre vivido negativamente e isso. Os jovens desempregados não se reconhecem na imagem que a sociedade cria deles. designa a experiência do desemprego vivida como um tempo vazio. anomie” in La crise dans touts ses états: ouvrage collectif.Guy Bajoit. quando se prolonga. valorizada pelo tempo libe- rado para atividades pessoais que desemprego permite. e não se desesperar (Eric). A situação de desemprego não é verdadeiramente apreendida como tal. porém mais como um período ativo de busca de emprego e de formação profissional. torna-se aqui a primeira. partindo do nada (“eu tinha 600 francos na minha conta”). CIACO. A preocupação financeira. superando todas as limitações. O desemprego As representações e as vivências do desemprego são o oposto do trabalho. 1984. Um emprego satisfatório. além de alguns meses. Nesse sentido. ser forte. Difícil nessa situação é. Num artigo. que assegure um ganho e se possível que permita “fazer um trabalho que se gosta”. a intensidade negativa da experiência de desemprego entre os jovens. A insatisfação expressa com relação ao emprego e ao trabalho não implica de modo algum uma valorização positiva da situação de desemprego. principalmente o sentimento de desvalorização social que daí provém. isso faz do desemprego uma experiência comum — a situação de desemprego. ele é considerado como um período de moratória. A maioria vive o desemprego sob a forma de culpabilidade ou da vergonha: “é duro com relação aos outros da família que trabalham. impressiona ao contrário. Louvain-La-Neuve. Abraham Franssen sível economizar porque o que se pega é realmente o que sobra no fim do mês. o emprego continua sendo o lugar privilegiado da participação social. O desemprego: o tédio e a desvalorização Apesar da banalização objetiva do fato — mais de 25% dos menores de vinte e cinco anos estão desempregados: e se levarmos em conta o fluxo contínuo dos que entram e dos que saem. num bom ambiente é sentido pela maior parte dos jovens desempregados como a condição necessária da participação social. o tédio e a dessocialização. que permite tomar fôlego ou autoriza uma redefinição de projetos. desfeito. sobre a vivência do desemprego. Na melhor das hipóteses. e um elemento essencial de sua identidade. Para eles. frustradas.. chômage. Longe disso. “Crise Economique. com freqüência.

Meu problema é que me sinto diminuído. aceitar esse status. É o caso de Dominique: O desemprego.. Também me refugio no sono. Acho que eu valho mais que isso. Meus deslocamentos diários se limitam ao ofício do desempre- O sentimento de desvalorização social. me visitar e tenho dificuldade em vencê-lo (Texto de Florence. Psicologicamente. no momento. mesmo com meu companheiro. E de toda forma não há. Tenho um pouco de vergonha” (Solange). Depois de um tempinho. vou estar atrapalhando alguém. o tédio ocupa a maior parte dos dias. Inclusive para os jovens que escolheram voluntariamente a situação de desemprego ou que o aproveitam para realizar um projeto pessoal. Fico com raiva.000 francos e uma pessoa que ganha 10. mas são pessoas como as outras. O desemprego é sempre visto como uma armadilha. O desemprego moratório e o projeto de auto-realização6 Ao lado dos jovens que vivem o desemprego como uma verdadeira doença. Eu me deixo viver sem reagir. Entretanto sei que é covardia.. go. nada de interessante nisso (Bill). esteticista). às vezes eu me repreendo. desempregado: de qualquer forma isso acaba sendo insuportável. de mulher que não faz nada. a vivência de desestruturação do tempo.. o mal estar ligado ao caráter provisório da situação são. que está tenso com relação ao seu futuro profissional fica apreensivo com o prolongamento de sua situação. Passado o primeiro mês. tenho realmente uma imagem negativa do desemprego e acho que isso não vai comigo mesmo. que não sabe fazer mais nada. uma pessoa que ganha 50. vou perturbar minha mãe e meu pai. Me vejo acabar mal. eu tenho um pouco de medo de ficar desempregado. Ou então destruo minha saúde.000.. Mas também isso tranqüiliza. os traços comuns e generalizados da experiência do desemprego. Jacques. E é o caso. “engasgado”. Não tenho mais conversa com meu pessoal que já está restrito.000 francos vale 10.. o tédio e o sentimento de desestruturação do tempo são freqüentemente evocados para caracterizar a experiência do desemprego. O tempo me parece longo. Outras características do desemprego total estão presentes nas conversas dos jovens desempregados. que não tem vontade de fazer. freqüentemente. minha saúde não vai tão bem (Luc). eu penso (risos). com o risco para a pessoa de se instalar aí confortavelmente e o próprio Bill. um certo número dentre eles vão manifestar com relação a ele um ponto Le Movel.. foram precisos meses e meses e somente agora começo a. quanto mais eu durmo. porque a gente tem alguma coisa no fim do mês. me esforço para não me afundar e depois é o tédio de novo.. Para mim.O trabalho. Não era nada do que eu tinha vontade de fazer. tanto a leitura quanto a limpeza da casa. Quando estou sem trabalho. menos eu penso. Não chego a me interessar pelo que quer que seja. busca de sentido sempregado está. o tempo no desemprego é uma variável fugaz cujo controle requer uma auto-disciplina forte: “É por isso. 5 Revista Brasileira de Educação 91 . além da diversidade de situações. Para me colocar. com freqüência. de verdade. afetando sempre a identidade social e às vezes a identidade pessoal. foi terrível. Le chômage des jeunes: des vécus très differents. Ter o rótulo de desempregada. eu nem sonhava com uma coisa semelhante. porque não sei se teria a disciplina para fazer tudo que tenho vontade”. o aborrecimento vem. os dias não passam. a tendência é me deprimir. 22 anos. isso me deixa doente.000 francos vale 50.. para mim. O desemprego também é horrível porque a gente se sente muito isolado. Às vezes tenho a impressão de que todas as pessoas que encontro sabem que estou nesse lugar horrível. foi um horror. Às vezes tenho a impressão de não ter nada para comunicar. o inferno da minha vida. Dizem que os desempregados não servem para nada. foi muito difícil aceitar estar desempregado.

para quem o desemprego é..). Os auxílios de desemprego permitem destinar um momento para tomar fôlego ou para buscar uma atividade considerada como um verdadeiro trabalho. ele tende a viver esta experiência sob a forma da negação. isto é. à qual é preciso conformar-se: escrever um bom curriculum. no entanto. no respeito às normas tradicionais. alguns jovens querem essencialmente experimentar o desemprego como um período de expectativa. um prolongamento da moratória da adolescência. nem do ponto de vista financeiro. aquele que não tem vontade de trabalhar. (“não incomodar em casa”. de fazer outra coisa que não trabalhar.. a fim de redigi-la com a clareza em relação aos problemas que ela poderia ter. tanto melhor (Julie).. antes de tudo. apesar de tudo. cuja duração está ligada à coerção financeira. O desemprego postergado O “desemprego postergado” é aquele que encontramos principalmente entre os jovens executivos de nossa amostra. “a informática é apesar de tudo. “manter-se construtivo”: buscar emprego sistematicamente. O desemprego vai bem alguns meses. compreendido como forma de redefinição de projetos pessoais.) e ao preço de uma auto-disciplina incessantemente ameaçada de relaxamento. esses jovens que se definem freqüentemente a partir de uma sensibilidade artística.) Observei que alguns empregadores respondiam. transformá-lo numa experiência positiva). fazer fotografia. fazer cursos complementares. academia. Como os jovens que vivem um desempregodoença. de modo geral aqueles que dispõe de diploma negociável no mercado de trabalho. com saída indeterminada (“a gente vê”). Desempregado há seis meses. eu levo uma vida da qual aproveito cada instante. Jacques. Abraham Franssen de vista mais desenvolto e banalizado em relação a ele (sem. O tempo de desemprego é vivido como o do exercício de um ofício em tempo integral. isto é. Tanto melhor. Não é uma situação sustentável a longo prazo. exprimem um ideal profissional que assegura tal projeto de auto-realização. casado há cinco meses. Se o sistema é feito assim. Trata de fazer como se não houvesse nada. Entre a vivência do desemprego-doença e aquela do desemprego-projeto pessoal. 23 anos.. necessitando da aquisição de competências ad-hoc.. Agora eu me dou uma chance no desemprego (Bill). que se beneficiam de ajuda econômica familiar.. Dizem que eu deveria aprender por mim mesmo a ver as cartas que dão resultado e as cartas de candidatura que não dão resultado (.. Perseguindo um objetivo de estabilidade.. fazendo do tempo do desemprego um tempo ativo. o daquele que procura. na medida em que a situação é um pouco delicada. estou meio na expectativa de uma boa idéia (Joy). 92 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .Guy Bajoit. outros não respondiam nunca. consertar coisas em casa). Essa atividade torna-se objeto de uma verdadeira cultura profissional. quando você tem necessidade de se situar.. Há momentos em que a gente tem necessidade de uma vida mais calma para se encontrar um pouco (Isabelle). O critério de validade da atitude é aqui a adequação à forma esperada pelos empregadores. mas diferentemente dos primeiros. como uma vocação pessoal (escrever. dar boas respostas na entrevista. que pode ter dinheiro assim. então passei a ficar atento aos termos da minha carta... não reconhecida pela sociedade mercantil. ele considera o trabalho como um elemento estruturante de sua existência: “um lugar que seja estável e que me traga ao menos alguma coisa”. terminou uma graduação em informática como analista programador. manifestam geralmente uma capacidade de concretizar seu projeto. Vou me dar um ano tranqüilo no desemprego (Antoine). sindicato. apresentar-se bem. “ocupar ativamente seus dias”. Trata-se geralmente de jovens com maiores recursos escolares e culturais.. instrumentalizando suas relações com diversas instituições sociais (ONEM. uma paixão.

é verdade. Mas por outro lado. digamos. dimensão instrumental e dimensão expressiva. Essa organização reivindica 80% de colocações bem sucedidas. Optou por estudar filosofia (“a rever. Se eu tiver que continuar. o mais cedo possível. quanto para outros executivos desempregados que nós encontramos.. Suécia. o superinvestimento de alguns no trabalho coincide com a desimplicação de outros.. Com o prolongamento da situação. felizes que resplandecem e de outro. depois. uma divisão do Fórum de Arlon — que organiza sessões intensivas de busca de emprego. Digamos que eu me fixe como objetivo que espero trabalhar daqui.. no fim não trabalhar torna a gente embrutecido. ao preço.. tanto para Jacques. de uma seleção prévia de candidatos. De um lado. ainda durante um ano ou dois. quando antes constituía a condição. que lhe permite viver como ator o seu próprio desemprego.O trabalho. Mas. não sei. por outro lado. retomou o curso de guitarra que havia abandonado por causa dos estudos. Ao cursar a universidade conforme as expectativas da sua mãe. encontrei um livrinho que se chama: como achar um emprego e ser contratado?O subtítulo é: você sabe se vender? Explicam como se apresentar bem e propõe respostas para questões que funcionam como armadilhas. participação social e realização pessoal. Não há de um lado. restaura móveis velhos e ocupa-se de seu companheiro que lhe diz que ela deve aproveitar enquanto pode e que a situação financeira deles não é crítica. faço montanhas de coisas. quando tiver que fazer minhas oito horas de trabalho. respostas.. Trata-se de uma experiência multidimensional e que evolui ao longo do tempo. Jacques dirigiu-se igualmente ao CRAE .. sou um pouco diferente. Bom. Sobre a mesa de carvalho do apartamento. as entrevistas dos jovens ilustram a dissociação dessas diferentes dimensões. aprendo muitas coisas que me agradam.. O trabalho não corresponde mais necessariamente ao emprego: para um certo número de jovens. Queria aprender a fazer pão. o elo entre a contribuição e a retribuição se atenua numa atitude garan- Revista Brasileira de Educação 93 . desempregados O que concluir? A diversidade das experiências dos jovens no trabalho e no desemprego revelam a fragmentação das diferentes dimensões do modelo tradicional do trabalho.. eficaz e dinâmico. é verdade que faço uma porção de coisas. oito horas por dia durante três semanas”.Clube de Busca Ativa de Emprego. Aprendo a bordar.. e com grande pesar para Jacques que não foi selecionado! É curioso esse fetichismo do curriculum ou da entrevista para contratação. O CRAE já fez muito sucesso na França e em outros lugares: Canadá. se ainda vou me divertir amassando o pão. o trabalho é sentido como um obstáculo à realização pessoal. se você olhar bem. Cecília é “um pouco à parte”. Na prática. a não fazer nada. O essencial é negar ao máximo a situação de desemprego na ótica do “como se” e desenvolver uma atitude positiva e internalizante. Uma experiência multidimensional É preciso insistir na simultaneidade das diferentes lógicas presentes na experiência concreta do desemprego. ela cumpriu seu contrato até o fim. acho que vou ficar como um verdadeiro leão na jaula (Jacques). se esboroa.. Áustria. constata que a agrada estar desempregada.. via um “método ativo. Enquanto no passado articulavam-se trabalho e emprego. ela se realiza: ela própria faz o pão. acaba de ser instalado um computador e os arquivos: cartas expedidas. busca de sentido Agora. (“uma bobagem”). eu deveria estudado marketing”) ela está frustrada de não rentabilizar o diploma e queria trabalhar. No entanto. esse sistema de defesa progressivamente. desempregados doentes que se deprimem... Esse modo de gestão da situação de desemprego só é sustentável a médio prazo.. estou angustiada e descontente com os empregadores que nem sempre são muito honestos e o mercado de trabalho que é uma verdadeira porcaria.

no que se refere a afirmação de uma cultura do trabalho e do ofício que se tornaram bastante inviáveis. Ed. Com respeito a essas diferentes dimensões. As identidades coletivas e a cultura do ofício dão lugar a uma sensibilidade à comunicação e ao caráter convivial. a diversidade e a fragmentação das experiências de trabalho e de desemprego dos jovens ocupam os cenários desenvolvidos por André Gorz7 quando se inquieta com a cisão crescente entre uma minoria fortemente qualificada. empregos cujos próprios titulares não sabem se devem qualificar de “trabalho” ou designá-los em termos administrativos: TCT. A maior parte dos jovens experimentam um fosso entre suas aspirações e a realidade concreta do mercado de trabalho. o acesso a um salário. o mundo do trabalho organizado a partir do processo de produção cede lugar a múltiplos serviços. e o desemprego-moratória ou projeto pessoal de outros. ela continua muito problemática e negativa a médio prazo. especialmente. que dispõe de empregos com altos ganhos e nos quais se realiza e uma maioria confinada a tarefas subalternas. Pode-se resumi-las. o mercado de trabalho é freqüentemente o lugar da decepção e do desencantamento. Abraham Franssen tista. 7 94 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Em suma. longos Gorz. A gestão dessa defasagem dá lugar a diversas estratégias de minimização do envolvimento no trabalho e de reinvestimento na esfera privada. O tempo de trabalho. o trabalho não é mais considerado como o único modo de auto-realização de si. Através das formas degradadas do antigo modelo e as atitudes de distanciamento com relação aos conteúdos e ao ambiente tradicional do trabalho assalariado manifestam-se. Esta modificação de orientações com relação ao trabalho pode estar ligada à experiência da instabilidade. através de uma modificação da relação com o tempo e com o ambiente de trabalho que se pode apreender essa exigência. tende a ser oposto e subordinado ao tempo de vida “para si”. Para os jovens de meio popular. isto é. quer dizer se investe em nome da auto-realização pessoal. Galilée. e que permanece preso ao trabalho até nos engarrafamentos. ele tende a entrar em concorrência com outras experiências que lhe impõem seus próprios critérios. a sobrevivência econômica. Paris. após o espaço pro- tegido da escolaridade. estágio. falando de uma orientação de fundo com relação ao trabalho que tende a ser apreendido a partir das exigências de auto-realização. O uso do tempo é um bom indicador dessa distância. distinguindo o desemprego vivido sob a forma do tédio e da desestruturação de alguns. Estas já não se definem pelo fato do indivíduo conformar-se às exigências de um trabalho até dele adquirir ethos e a cultura. Quanto à experiência do desemprego. substituição.. À exceção dos jovens que dispõem de meios para concretizar um projeto de auto-realização no campo profissional. Esta ruptura da normalidade esperada das trajetórias profissionais é vivida sob a forma de crise por um certo número de jovens. apesar de sua banalização objetiva. interpessoal das relações de trabalho.. As preocupações com o emprego.Guy Bajoit. Se o emprego continua sendo uma dimensão central da identidade e a base da normalidade social. em proveito do trabalho “autônomo”. e Enzo para quem os dias decorrem. quando não se está envolvido. 1988. é preciso entretanto sublinhar a simultaneidade dessas lógicas e a permanência do sentimento de desvalorização social que acompanha sempre o “rótulo de desempregado”. Entre Robert que afirma que seu tempo é precioso. a maioria não encontra mais num emprego assalariado um modo satisfatório de auto-realização. André Métamorphoses du Travail: quête du sens. Se se pode opor duas maneiras distintas de viver e de se representar o desemprego. uma série de atitudes novas com relação ao trabalho. trazem sobretudo outra consideração. É. particularmente. e sim está no trabalho de levar em conta as aspirações individuais. também ora sob a forma de recusa (“eu não voltarei jamais à fábrica”) ora sob a da alternativa.

Os jovens das classes médias tem. Globalmente os jovens do meio popular continuam mais ligados às normas tradicionais do trabalho e sua vivência do desemprego se aproxima da figura do desemprego total. Revista Brasileira de Educação 95 . busca de sentido como uma jornada sem trabalho.O trabalho. com freqüência. é preciso considerar que as diferentes experiências e representações do trabalho e do desemprego aparecem como socialmente diferenciadas. há a distância que separa aqueles que têm recursos para participar do jogo da competição e aqueles que são obrigados a suportar a mutação do mercado de trabalho. mais recursos para redefinir seu projeto existencial e marginalizam o lugar do trabalho assalariado em proveito de um projeto de auto-realização. Enfim.

como por exemplo. tais como a família. Isto tudo leva Offe a concluir pela “implosão da categoria trabalho”(p. etc. 17). hoje. Ou seja. o comportamento divergente. sindicatos. pois as pessoas estão encontrando cada vez menos empregos permanentes. Creio que aqui está o ponto central da crise que permeia o pensamento sociológico em nossa época. ou não se constituísse mais como a referência a partir da qual homens e mulheres pudessem construir a sua identidade. 18). 1982). O que parece se colocar hoje como questão central é a abolição do trabalho (Gorz. no interior das ciências sociais. que rompe com a primazia da categoria trabalho na “determinação da consciência e da ações sociais” (1989. os temas são buscados em áreas à margem da esfera do trabalho. 1989). Mesmo na pesquisa social aplicada. os papéis do sexo. Universidade de São Paulo As discussões a respeito do destino do trabalho no limiar do século 21 têm favorecido a elaboração da imagem de uma sociedade onde o trabalho não teria mais lugar. a religião. hoje. partidos e intelectuais. das teses. acentuam a falta de perspectivas e possibilida- 96 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . uma posição conservadora”(p. representa. Privadas da utopia que inspirou trabalhadores. as conferências e as publicações atuais nas ciências sociais. a saúde. impregnadas de pessimismo e negatividade. vemos o surgimento do que ele chama de “novo subjetivismo sociológico” na análise da sociedade e do espaço vital. a respeito das temáticas de pesquisa. Outras variáveis são apontadas como mais significativas do que aquelas relacionadas com o trabalho.O jovem no mercado de trabalho Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins Departamento de Sociologia. 19) e que a sustentação de “modelos de sociedade e critérios de racionalidade centrados no trabalho ‘assalariado’. aponta-se a limitação dos modelos de sociedade “centradas no trabalho”. estão trabalhando menos horas. Diante da diminuição do tempo de trabalho disponível e do comprometimento das concepções éticas do trabalho (Offe. todas essas análises. de tal forma que até mesmo as experiências feitas no trabalho e o potencial de conflitos daí resultantes receberiam interpretações elaboradas fora do ambiente do trabalho. tem sentido falar em sociedade do trabalho? Pode-se pensar ainda na existência do proletariado ou de uma classe trabalhadora? Tomando em consideração a observação de Offe.

em média. vemos que a procura de trabalho. que projetos podem ser elaborados diante das transformações que ocorrem no mundo do trabalho. irracionalidades e grandes estoques devem ser evitados. sejam as ilhas ou células de fabricação. que alteraram não só o modo de trabalhar.5% em 1995. houve um aumento no faturamento de 74%. com a introdução de novas tecnologias.4% em 1989. Tomando em consideração o relatório elaborado pela subseção do DIEESE em Osasco. cai para 24. Diminue-se. Considerando somente esta última região. realiza mais de uma tarefa. operando mais de uma máquina. não consegue absorver o número de desempregados. mas. enquanto verificou-se uma redução no emprego de 5%.7% e de São Paulo. em 1995. O que se tem argumentado é que a abertura de emprego no setor terciário da economia. Nestes tempos de economia globalizada. de 97% na produtividade. Informações referentes às montadoras de carros no Brasil revelam que no período de 1991 a 1995 houve um crescimento da produção de 70% e de 78% na produtividade. em algumas regiões metropolitanas. cerca de quatro meses no caso do desemprego Revista Brasileira de Educação 97 . que são usados para explicar o que está acontecendo. Fala-se hoje em um processo de produção enxuto. nas relações existentes no local de trabalho? Uma das principais consequências do chamado regime da acumulação flexível (Harvey. sejam os chamados semi-autônomos (quase inexistentes no Brasil).6% em 1995 (DIEESE. A nova realidade imposta pela reestruturação produtiva é marcada pela introdução de novos termos. 1996a). De fato. ausência de garantias ou benefícios sociais e por condições inferiores quanto à segurança e instalações — e o aumento das taxas de desemprego. de 12. é polivalente. a distribuição dos ocupados no setor industrial. mas provocaram mudanças nas qualificações dos trabalhadores. 1996). que era de 32.4% em 1989 para 43. vemos que só nos treze municípios abrangidos pela base territorial do Sindicato dos Metalúrgicos. Dados referentes ao desemprego em 1995. 1988). diante de todas essas mudanças. No setor de autopeças. 1997). o trabalhador tem. a distribuição de ocupados era de 15. mostram que a taxa de desemprego foi. com 15. onde os desperdícios de material e mão-de-obra. levava.4% em 1995. obtem-se cada vez mais bens e serviços. com um núcleo cada vez mais reduzido de trabalhadores qualificados. apesar da exigência cada vez menor de mão-de-obra.9%. mas esperase que ele participe das decisões. fornecendo idéias para melhorar a produção. a ocupação passou de 37. com a prevalência de formas precárias de trabalho — caracterizadas por redução de salários. segundo os diferentes tipos de desemprego. mas trabalha em grupos ou equipes. aumentando para 17. no mesmo período. o que se tem observado é a constituição de um padrão segmentado do mercado de trabalho. o trabalhador agora não é mais especializado. de um lado. assim.3% em 1989. o trabalhador não fica mais fixo a um posto de trabalho na linha de produção. Em contrapartida. em tempo integral. entretanto. o trabalhador não é mais visto como mero executor das determinações vindas da gerência. O setor da economia que tem sido mais atingido é o industrial. com os novos processos e organização do trabalho. de outro. com acentuada redução no contingente de trabalhadores. 1992) diz respeito ao mercado de trabalho. e uma diminuição de 12% no emprego (DIEESE. destruídas as suas antigas habilidades. observase um crescimento significativo nos setores do Comércio e de Serviços: no primeiro.2% (DIEESE. nas condições de trabalho. O que esses dados demonstram é o crescimento econômico acompanhado pela redução dos postos de trabalho e que. enfrenta a necessidade de reconstruir habilidades e se requalificar para o trabalho nessas novas condições (Abramo.O jovem no mercado de trabalho des de pensar a construção do futuro. referidos como parceiros envolvidos nos interesses comuns de aumento de produtividade e da qualidade do produto. sendo que as maiores se verificaram nas regiões metropolitanas do Distrito Federal. em Serviços. com 13. a distância entre os gerentes e os trabalhadores. ou seja. com emprego permanente.

) tem companheiros que vão no domingo lá. um conversava com o outro. e hoje. submete-se à pressão pela realização de horas-extras. pensasse em lutar por quarenta horas. Na discussão do emprego/desemprego quero. pela ausência de vínculos empregatícios e pela insegurança. enquanto o dos assalariados sem carteira de trabalho assinada cresceu 72. dizendo que se nós não vendermos aqui.3% ao ano). além de trabalhar no sábado. pensasse no salário. pela superexploração do trabalho.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins aberto.7% (6. que trabalha das sete (da manhã) às dez da noite. a parcela da população com 10 anos e mais de idade que está ocupada ou desempregada na região da Grande São Paulo. tá uma coisa assim que não tem aquela coisa que tinha antes de companheirismo. Assim. realizada mensalmente pelo Dieese/Seade. o que eu sinto é que o companheiro não conversa com o outro.. 98 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . o emprego assalariado com carteira assinada diminuiu em 8. em média.. são atingidos pela “insegurança do trabalho”(Mattoso.1% (2.2%. estariam protegidos pelo contrato de trabalho. Aonde você vai.5% (DIEESE. caracterizado pela recessão que se estendeu até 1993 e pela abertura da economia brasileira. destacar alguns aspectos que considero importantes para o objetivo deste texto. a ameaça da perda do emprego.2% ao ano). praticamente o dobro do número de empregos. O depoimento de um metalúrgico trabalhando em uma montadora da região do ABC revela a pressão a que estão submetidos: Hoje os trabalhadores se matam de trabalhar. ainda que rapidamente.5% (2. ao ano). enquanto a PEA cresceu 24. nessa situação. tem que produzir com eficiência’.4%. ou seja.) a empresa joga tudo na cabeça do companheiro: ‘tem que dar qualidade. o trabalho autônomo aumentou 57.5% (0.0% (4. o peão chega a pedir. Dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego. o emprego de trabalhadores assalariados com carteira de trabalho aumentou 3. na hora extra. desgasta-se no esforço de “vestir a camisa”da empresa e de “mostrar serviço”. O que esse e outros depoimentos revelam é que mesmo o trabalhador que está empregado é induzido à demissão “voluntária”. para o período de março de 1986 a março de 1995. a precariedade das formas de trabalho. eles conversavam com o outro na fábrica. enfrenta o medo do “facão”. ou por conta própria. cinco meses no desemprego total e de seis a sete meses no desemprego oculto (DIEESE. o relativo ao sem carteira assinada aumentou 54. Hoje. o dado mais significativo diz respeito à composição da ocupação: enquanto o emprego assalariado cresceu 11. ao ano). se não vender aqui. As informações referem-se à População Economicamente Ativa (PEA). se caracteriza pela precariedade.. Quando eu estava na A1 até 86. ao ano). o trabalho autônomo. e o emprego autônomo cresceu 40. você vê quadro da empresa com palavras jogando a responsabilidade para o trabalhador. Isso o faz aceitar o salário e as condições de trabalho que lhe são oferecidos. só pensa realmente na produção. é chamado para ir no domingo. a ocupação aumentou 22. fazer com que eu pensasse não só na produção. Assim. não. 1994). vemos que é nele que ocorrem as principais alterações: neste curto período de cinco anos. pelo temor de desemprego. em média. a Fiat ganha no mercado. Entretanto.5% em média. Nós temos companheiro lá. eles tinham mais companheirismo. Em grande parte..1% ao ano). vai dá desemprego (.3% (1. por exemplo. mesmo os trabalhadores que. para aquele período.1%. tão implantando um tal de Q1. hoje a empresa tá tão avançada que ela nem obriga.3%. Ela (empresa) conseguiu pôr na cabeça da peãozada que ‘olha você só tem que produzir’. trocar idéias. Para completar esse quadro da perda de qualidade do emprego. evidenciam como o trabalho assalariado foi desvalorizado. faz com que o cara se bitole.2%. o que salienta ainda mais o quadro de insegurança existente. cito os dados referentes ao registro em carteira: no mesmo período. pensasse em organizar. para aprender o que é o Q1 (. aparentemente. PMC quadrado. Mas o crescimento do desemprego foi maior: 42. pela acentuação das desigualdades. Se considerarmos apenas o período que vai de março de 1990 a março de 1995. 1995). 1996).

que acentuam as dificuldades de inserção e de permanência no mercado de trabalho para amplas parcelas de trabalhadores. Mesmo nos países de cultura não-latina. No setor de serviços. quanto no conteúdo do trabalho. entre as mulheres foi de 13. a porcentagem dos assalariados que trabalharam além da jornada é de 23. Afinal. ou seja.8% trabalharam além da jornada legal. Na Espanha. 42. entre as mulheres ela chegou a 30. e que parecem configurar um novo tipo de trabalho e de trabalhador.9% em 1995 (DIEESE. Assim. tomarei como referência uma parcela significativa dessa população — os jo- vens1 —. a jornada média semanal é reduzida de 43 horas em 1985. o aumento do número de horas trabalhadas. tanto para obter rendimentos maiores. Nesses dois países. de outro. o desemprego entre as mu- Não pretendo. em 1994. a jornada legal começa a ser reduzida.4% trabalharam mais do que a jornada legal em 1985. enquanto a taxa de desemprego para todas as pessoas foi de 12.6% e para os jovens 23. 1-53) e o de Pais (1990). nas exigências de qualificação ou requalificação profissional. Todas essas informações parecem-me fundamentais para a reflexão que proponho neste texto a respeito dos jovens trabalhadores. para toda a população ativa. Defrontamo-nos. se já provocam situações difíceis para os trabalhadores adultos. Remeto para dois textos que considero importantes para o balanço bibliográfico a respeito do uso sociológico desse conceito: o de Helena Abramo (1994. no sentido de verificar como ela tem sido atingida pelas transformações que ocorrem na estrutura produtiva e que afetam o trabalho.5%.0% na Suécia. onde o mercado de trabalho é mais favorável às mulheres.3%. as velhas armas para restabelecer a obediência e a disciplina na empresa (Gorz. que em 1985.8% para todas as pessoas. uma década depois. ao meu ver. na indústria. especialmente das pp. uma das reivindicações mais constantes do movimento sindical foi a da redução da jornada de trabalho. sendo que a denominação de adolescentes abrangeria aqueles que têm entre 15 e 19 anos e a de jovem os de 20 a 24 anos (Madeira. até onde se estende a juventude? Quando o jovem deixa de ser jovem? 1 Revista Brasileira de Educação 99 . de um lado. 9. portanto. atingindo. para 43 horas em 1995. no setor do comércio passa de uma jornada média semanal de 50 horas em 1985.1% dos empregados fizeram horas extras. na natureza das atividades. expresso em horas extras.O jovem no mercado de trabalho Reaparecem. sob novas formas. No comércio. a redução dos postos de trabalho com um aumento significativo da produtividade e do faturamento das empresas. e em 1995. enquanto a taxa de desemprego atingiu 23. a partir de 1985. Efetivamente. a taxa foi de 12.5% dos trabalhadores fizeram horas extras.6% e entre os jovens de 31. 55. para os três setores observa-se a mesma tendência: a redução da jornada legal de trabalho é acompanhada pelo aumento do trabalho. portanto. para 41 horas em 1995. Na França. também. como a Inglaterra e a Suécia. a taxa de desemprego é maior entre os jovens. Para os objetivos deste trabalho. mostra que a taxa de desemprego é sempre maior entre as mulheres e os jovens. esclareço que entendo por jovem aqueles que estão compreendidos na faixa etária que se estende dos 15 aos 25 anos.1%. Na Itália. Desde meados da década de 80.0%. e. Uma análise do perfil do desemprego em alguns países da Europa.8% em 1985 e de 35. Entretanto. indicam que. sendo que no setor industrial ela passa de uma jornada média semanal de 46 horas em 1985. 13. para as mulheres. Diante das questões que se colocam hoje para o mundo do trabalho. 1996). enquanto 22.4%. verifica-se. no caso dos jovens elas ganham certa dramaticidade. 1996b). O problema maior na definição do jovem concentra-se. dados referentes à região metropolitana de São Paulo.9% e entre os jovens a 38.5% e 8. 41. quanto para atender às exigências da empresa. em serviços. para 46 horas em 1995. nos estreitos limites deste artigo. com a taxa de desemprego para toda a população atingindo. na Inglaterra. Segundo a OIT. no limite superior da faixa. discutir mais amplamente a noção de juventude. o corte seria aos 24 anos. As mudanças introduzidas tanto na organização do processo de trabalho. 1982). em 1994. com um movimento contraditório que nos mostra.

em tempo parcial. Deve-se. poderia ser considerado pelo jovem como “uma maneira de viver livre. inclusive os modos de vida. ou seja. Y. aprendizagem. que afetam o perfil setorial do emprego. enquanto a taxa de desemprego entre os homens era de 10. 15. argumentos que apontam. 1996). com a circulação por diversas situações seja de trabalho (formação. quanto por uma preferência pelo trabalho “intermitente”. as taxas de desemprego entre adolescentes e jovens saltavam para 21. entre eles. Quanto aos jovens. seja de emprego (desemprego. Dessa maneira. entre as mulheres era de 15. ou seja. que os orientaria para o trabalho nos setores periféricos. Em 1995.1%”. de um lado. a significativa mobilidade ocupacional dos jovens. a precarização do trabalho juvenil seria acompanhada pela periferização dos jovens em torno do mercado de trabalho secundário. 5).Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins lheres se situava em 7. alteram o funcionamento do mercado do trabalho e modificam. dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego do DIEESE/SEADE mostram que. a um afastamento ou recusa do trabalho. etc.4% e 16. mas sim que “a transformação de atitudes.7%. se reapropriando dos ritmos de inserção social e profissional” (p. que aparece para muitos como uma demonstração da falta de empenho do jovem. antes de buscarem estabilidade e assumirem maiores responsabilidades. Uma citação de Tartakowsky. Vários autores tem discutido as dificuldades do acesso dos jovens ao trabalho e ao emprego. de outro. a taxa de desemprego entre adolescentes (de 15 a 19 anos) atingiu 25.2%. temporário. 5).8% e entre as mulheres. especialmente com a introdução de novas tecnologias. a experiência de trabalho e de vida do jovem. o que conhece uma vida marcada pelo signo ‘menos’: ele ganha menos.6%.2%. Para ele. acentuando que isso parece depender das recentes modificações nas estruturas produtivas. “enquanto o nível de desemprego total variava em torno de 13. distinguir entre o trabalho temporário inserido ou como parte de um “plano de carreira” e o que aparece como a única possibilidade de sobrevivência para os jovens menos qualificados. Assim. Em 1995.5% e a de jovens (de 20 a 24 anos) chegava a 14. resume essa discussão apontando os fatores que exprimiriam essa dificuldade de inserção dos jovens no mercado de trabalho e fortalecem a insatisfação. a taxa foi de 14. No caso do Brasil a situação não é diferente. não tem nenhuma garantia sobre a duração do emprego que ocupa e sua eventual recondução” (p. o trabalho temporário ou “intermitente”. inatividade. São essas condições de trabalho que levam Clot a falar em “marginalização objetiva” do jovem. transformam as atividades profissionais. as condições desvantajosas que enfrentam quando inseridos no trabalho. especialmente da juventude operária. emprego). para Clot. 5/6). então. Clot. com a imagem de seus pais. para Clot.5%. respectivamente. com as perspectivas do futuro profissional: a diminuição das oportunidades de empregos para os jovens. principalmente em decorrência da introdução de novas tecnologias. com as exigências de maior qualificação e experiência. de suas condições insatisfatórias de trabalho. no segundo (DIEESE. em 1985. as práticas novas de inserção constituem muito mais respostas a uma situação nova e não o efeito de uma alergia cultural”(p. respectivamente” (Madeira. precário. entre os homens era de 11. isso não pode ser reduzido a uma simples mudança de “valores” na juventude.). 1996). Já com relação ao desemprego juvenil. as menores oportunidades de trabalho para os jovens com pouca ou nenhuma qualificação e.3% (DIEESE.1%. feita por aquele autor. Assim. tanto em consequência da sua fraca especialização/qualificação. “enquanto o nível de emprego oscilava entre 12. em 1985. ele tem menos direitos. Essa discussão sobre a precarização do trabalho do jovem tem em outro autor. para aqueles “que não encontram aí senão um meio temporário de esca- 100 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . parece-me bastante significativa: “Pode-se considerar que um jovem em cada dois na França é o que se convencionou chamar de trabalhador precário.9% no primeiro país. fazem com que os jovens elaborem negativamente a sua identidade com o emprego e o trabalho.4% e 6. 1996).7%. e de 16. Pais (1991).

Daí as atitudes de resignação ou indiferança em relação às escolhas profissionais. Assim.. o interregno vivido pelos jovens entre a escola e o emprego resulta das dificuldades de adaptação ao modo de vida adulto. na verdade. quer dizer. Para Clot. então. à consideração dos jovens como um conjunto homogêneo e propõe a tese das reações diferenciadas dos jovens em relação ao trabalho. Os jovens desenvolveriam. Isto nada mais é do que uma avaliação realística de suas chances no mercado de trabalho. 6). s/d) chama de “realismo do desespero”. observar mais detalhadamente as condições objetivas de inserção do jovem no emprego. pela redução do convívio com os amigos. Este dirigente refere-se. a realidade das empre- Revista Brasileira de Educação 101 . vamos dizer. Na entrevista realizada com um dos diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. da inserção profissional. que também foi recusada por Clot. Pais (1991). quinze anos atrás. apoiandose em um trabalho de Vincent Merie.O jovem no mercado de trabalho par aos ritmos de uma temporalidade imposta por um ‘destino’ de classe” (p. também. uma recusa da ética tradicional do trabalho. mas detenho-me. Entram para serem mão-de-obra mais barata. 4). que significa um prolongamento da juventude.) Hoje. massa de trabalho. marcado pela disciplina do trabalho. quer dizer. mão-de-obra com um potencial energético muito mais forte do que pessoas com um pouco mais de idade”. então. pelo menos. constituindo o que M. como a de outro dirigente. uma alergia ao trabalho. afirmando que não se pode atribuir a “um fenôme- no de geração. que não é possível tratar de juventude sem acentuar a diversidade que essa categoria encobre. As empresas não estão fazendo uma qualificação. ele poder se profissionalizar (. evidenciam. recusando a possibilidade de uma realização pessoal e profissional através dele. temos o relato de como o jovem está entrando hoje na produção: Antes. às condições desfavoráveis de inserção no emprego. A explicação desse interregno tem sido dada ou pela tese da “inadequação da escola ao mercado de trabalho”. Mas. exatamente.. Pialoux (Clot. o recorte privilegiado é o de classe. proporcionalmente. rigidez de horários. 960). tanto a sua entrevista. diminuiu a quantidade de trabalhadores jovens. Para Pais. os jovens não constituiriam sua identidade a partir do trabalho. apesar de reduzidos nas empresas. Tanto Clot como Pais procuram mostrar. pensando especificamente como as transformações no processo de trabalho afetam a juventude operária. seja pela ampliação do tempo na escola. acentuando a tendência à subutilização de uma mão-de-obra de pouca ou nenhuma qualificação.) Hoje. entram para. seja pela permanência na casa dos pais. chama a atenção para o fato de que cada vez mais amplas camadas da população juvenil passam por um período relativamente longo de indeterminação antes de ingressarem na vida adulta ou. etc. a grande maioria. É o que denomina de “interregno entre a escola e o emprego” (p. no seu primeiro emprego. a tese da alergia ao trabalho resulta de teorias preocupadas com a análise das atitudes e representações que os jovens têm sobre o trabalho e o emprego. a maior parte dos jovens trabalhadores está entrando nas empresas como ajudantes de produção. O autor refuta as duas. ao emprego e ao desemprego. pretende destacar em sua crítica à tese da alergia ao trabalho. Pais também se opõe à generalização. como auxiliares. ele entrava na empresa. dando uma oportunidade de qualificação desses trabalhadores. o que não pode ser imputável senão às transformações nas condições de escolarização e de funcionamento do mercado de trabalho” (p. em seu depoimento. iniciando pelos cursos do Senai (. Convém. para essas teorias. que exprime. existem menos trabalhadores dentro das empresas. que implica em uma desvalorização do trabalho. com suas críticas. não estão tendo a oportunidade de no começo de seu trabalho. por ora... É exatamente esse sentido de desencantamento com o mundo do trabalho que Clot. a especificidade da relação subalterna que os jovens das classes trabalhadoras estabelecem com o mundo do trabalho. serem. há dez. na discussão da segunda. Ou seja. ou pela da “alergia do jovem ao trabalho”.

especialmente ao tratar da Ford. quase mil trabalhadores com menos de 30 anos e com escolaridade entre o 2º grau e nível superior. que eles saiam fora. criativo. também tem na produção. tinha em mente aqueles entre 15 e 18 anos de idade. é apontada. Mas há. 140). os que estão situado na faixa etária acima dos vinte anos. da transferência para empresas contratadas. ao mostrar o aumento dos trabalhadores jovens na empresa: . a falta de competitividade. na faixa de 22/21 anos. reorganizando o trabalho e mudando as formas de gestão empresarial. na manutenção e estão todos na produção. se precisar de ferramenteiro.. jogando dominó”(p. o desemprego é consequência do encerramento das atividades ou da redução drástica dos postos de trabalho. participativo e que não está ligado à organização sindical” (p. buscando enfrentar a concorrência. 102 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . ou seja. 171). é favorável aos primeiros (Pais. entre os trabalhadores de mais idade e os jovens. ou seja. oposição entre os jovens e os não jovens e a competição que. a administração gosta do perfil jovem. na grande maioria das empresas. não tem na manutenção. De um lado. os dois depoimentos apontam a segmentação do mercado de trabalho. nem sempre. em 1994. Tem mais de 100 garotos hoje na produção porque não tem vaga na ferramentaria. por exemplo. A maioria desses jovens não tem tradição de mobilização operária. estão em seu primeiro emprego. não participam de assembléias e quando há paralisações.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins sas metalúrgicas brasileiras. São trabalhadores com menos de 25 anos. não quer velho lá dentro. essa situação decorre do aumento da terceirização. é convidado. é muita gente nova que tá na fábrica hoje.) (o trabalhador antigo da empresa) está sendo convidado.. até 27. De qualquer maneira. 23. Nestas. deixe a companhia’ (. Então. quer dizer. 1991). não tem nada. modernizam-se. Em outra entrevista. estão hoje trabalhando na linha de produção. Nelas. não vão admitir mais. temos um núcleo de empresas que. No caso da Volkswagen. é mudar. de parte ou de setores Na verdade. chamados de “debutantes”. também. para trabalharem na linha de montagem.. é a relação de competição e de fiscalização existente. se precisar de alguém na manutenção. o que se observa é o baixo investimento. ao contrário de tomar parte das discussões ficam. tem na produção. ‘por favor. não adianta. que não só pode explicar a inserção do jovem no mercado de trabalho 2 como. depois de 28 anos de companhia. o emprego e o desemprego decorrem dessas modificações. aponta a relação com os trabalhadores jovens como um problema enfrentado pelos representantes das comissões de fábrica.. por um lado. É o que nos diz o relato do operário de uma montadora do ABC: A molecada do Senai. principalmente. tem tudo ali dentro. um outro aspecto que nessas entrevistas foi destacado: mesmo os jovens portadores de alguma qualificação. que era para estarem na ferramentaria. Geralmente. lá tem mais de 100 garotos que se formaram no Senai. como vimos. introduzindo inovações tecnológicas.. porque ela quer acabar com todos os velhos.) bastante molecada (. Pessoal velho de 28/30 anos (na empresa) é para sair da companhia. tem bastante jovens mesmo (. em duas empresas automobilísticas.. é humilhante... especialmente na linha de montagem onde se produz o Gol 1000. Um outro aspecto que é salientado no decorrer do texto. há uma informação que parece contradizer o depoimento anterior. a pouca eficiência da estrutura produtiva e a escassa experiência e tradição empresarial. a existência de trabalhadores jovens. o primeiro informante quando se referia aos jovens. por isso “se apegam mais à empresa e recebem uma atenção especial. a deixar a companhia. ainda. muitos realizando atividades aquém de sua capacidade e com dificuldades de ascensão profissional. muito menos memória do movimento de lutas e reivindicações da classe trabalhadora.) é uma humilhação. também. ela vai mudar. Mas. Ela mostra que a 2 Ford “contratou. ou com um grau maior de escolaridade. realizada com operário empregado em uma montadora da região do ABC. enquanto o segundo. impõe a A pesquisa realizada por Marta Luedemann (1996). Se.

Todos enfatizam a formação profissional obtida previamente ou a necessidade de ampliação dos conhecimentos para. dois meses na funilaria. Mas esse conhecimento geral de tudo não significa. Gorz (1995). mais “educados”. também. trabalhando na linha de produção da Mercedes Benz. Com esse termo. para garantir o seu lugar na linha de montagem”. Fez cursos colegial. Hoje trabalha das 7 às 17 horas produzindo imãs. por outro. César. 3 com seis jovens. de 20 anos. limpinho”. instrumento e “caminha para ser torneiro mecânico”. que precisa adquirir ou ampliar os seus conhecimentos para manter-se no mesmo lugar. pretende estudar “inglês. que podem circular de uma empresa a outra sem problemas. de computação. está no terceiro ano do curso de engenharia mecânica e considera difícil ocupar um lugar de engenheiro. contabilidade. então.. haveria uma mobilidade potencial desses trabalhadores. acreditando que. João Américo. salários mais altos. ainda que menos qualificados. cursa química industrial. aponta que. esta também pode substituí-lo muito mais facilmente. possa sair da linha de produção. interpretação de desenho. Assim. a presença de jovens nas empresas. Parece-nos inteiramente apropriada a denominação dada pelo autor do artigo a esse novo tipo de trabalhador — “o peão ilustrado”. adquirindo uma mobilidade impensada há alguns anos antes. ficam dois meses na usinagem. Esse operário tem. alemão e engenharia ou computação. Mesmo reconhecendo que além de uma formação comum. É o pessoal que vai conhecer toda a fábrica e. Provavelmente. esta. dois deles. mas já fez cursos de programação. hoje as pessoas podem muito facilmente ter acesso a certas habilidades ou competências. de 16 anos. Esses garotos não ficam numa área só. Aliás. Gorz não quer dizer que o trabalho seja desqualificado ou monótono. não sendo um prisioneiro de “sua” empresa. por parte dos jovens. só que hoje eles não têm nenhuma perspectiva. entretanto. a “molecada” a que o operário se refere está sendo preparada para trabalhar em vários setores da fábrica. que trabalham ou trabalharam nas mesmas empresas que hoje os empregam. Daniel. Como vemos. são ferramenteiros (. administração e datilografia. prendese a essa banalização das competências apontada por Gorz. discutindo a polivalência do operário nas indústrias de processo contínuo. destinando-se ao trabalho em escritório. calibrador na Volkswagen. ao contrário. uma “autonomia existencial” maior. dois meses na estamparia. É isso que torna banalizado o saber profissional. por outro lado. também são mecânicos da manutenção. Entretanto. de 18 anos. Mas. trabalhando em grandes indústrias da região metropolitana de São Paulo. a interiorização das condições objetivas do mundo do trabalho. esses relatos revelam. mas sim que há uma acessibilidade muito grande da qualificação. É o processo de banalização das competências que torna o saber ou as capacidades profissionais fácil e rapidamente substituíveis. Assim. tranquilo. Já Fernando. nunca pensou em trabalhar em indústria. devido ao número de candidatos.) Quando eles foram para a produção há um ano atrás. montador na linha de produção da Siemens. manter o seu emprego na linha de produção. o mais significativo nessa reportagem é o fato que todos esses jovens são filhos e. em contrapartida. com idade variando de 16 a 23 anos. é justamente esse “passado familiar” Revista Brasileira de Educação 103 . pelo menos. Márcio. Um trabalhador. de 19 anos. faz escola técnica e cursos extracurriculares. ou seja.O jovem no mercado de trabalho da produção. trabalhando no setor de câmbio da Volks. operador de máquinas também na Siemens. é também uma exigência da implantação da polivalência 3 ou da multifunção no processo de trabalho. afinal. que definem as diretrizes de seus projetos profissionais. na medida em que suas operações possuem qualificações comuns e formação de base também comum. essa molecada ficou entusiasmada porque iriam para o grau 5 (na hierarquia salarial). entretanto. com isso. Pensava em trabalhar em “um lugar sossegado. não exige muito tempo de treinamento. foram todos empolgados. “e só imãs”. portadores de nível maior de escolaridade. ao mesmo tempo que impõem limites aos seus sonhos e esperanças. dois meses na pintura.. esse pessoal além de conhecer a fábrica na produção. esse operário deve ter uma formação específica de acordo com a indústria. netos de operários. Essas colocações são reiteradas em entrevistas realizadas pelo jornalista Alceu Castilho (1997). de 18 anos.

962). essa relação instrumental com o trabalho tem sido explicada como decorrência da mudança nos valores e nos modos de regulação social que afetam a maneira pela qual o jovem é socializado e preparado para entrar no mundo do trabalho. buscando escapar da tendência de apenas ver a juventude como um conjunto homogêneo. referentes a 1993. muitos são filhos de chefe. pela idade em que começaram a trabalhar. pois “filhos e irmãos de funcionários têm prioridade na hora de fazer os cursos do SENAI”. vemos que 48. dados da PNAD. com relação ao emprego e ao trabalho. Concluindo essas considerações sobre a inserção do jovem no emprego. 1991. com um ano lá. mais de uma reação pode ser apontada: “enquanto entre alguns jovens se encontra uma mais disseminada ideologia de realização individualista. volto ao depoimento do operário da montadora do ABC. quando um trabalhador sai da empresa ou se aposenta. mostram que 86. Resta agora. o que ganha é só para gastar mesmo. Nas análises sociológicas da juventude. o emprego aparece como uma fonte de satisfação meramente instrumental. não vai se preocupar com mais nada. especialmente nas montadoras. a falta de companheirismo e o afastamento das questões que afetam o conjunto dos trabalhadores.1% da população empregada começou a trabalhar antes dos dezoito anos. muitas vezes. caso haja vaga. Olhando apenas a faixa etária de 10 a 14 anos. do emprego e do desemprego. ele pode. em um momento em que deveriam estar na escola. como insiste Pais. dois anos. E. ou mesmo na hora da contratação. 1993). discutir como. o trabalho ainda se afirma como um valor cultural e simbólico. reproduz a visão generalizada na sociedade a respeito dos jovens trabalhadores. o individualismo exacerbado e a valorização dos modos privados de consumo. As exigências de autonomia individual. para outros jovens. a obtenção de emprego fortemente associada ao empenhamento. Portanto. a centralidade do trabalho na vida de homens e mulheres. outros o pai já tem uns vinte e três anos na empresa. 1996). moleque que entrou.. jovens e adultos. parecendo cada vez menos irrelevante a ética do trabalho” (Pais.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins que garantiu a eles a entrada em uma grande empresa. Mas. é preciso considerar a existência de reações diferenciadas dos jovens diante do trabalho. indicar um filho para ficar em seu lugar. de perspectivas e de aspirações (Pais. Considerando a distribuição dos ocupados.6% dos trabalhadores iniciaram a sua trajetória de trabalho nessa fase de sua vida (DIEESE. na sociedade contemporânea. “orgulhosamente”. Essa molecada não está preocupada com o sindicato.) então essa molecada está preocupada em trocar de carro. Trata-se de uma imagem da juventude marcada pela negatividade. Algumas questões decorrem da análise feita até aqui: como se formam e são transmitidos os valores referentes ao trabalho? Como as diferentes representações sobre o trabalho são elaboradas? Iniciei esta exposição. o consumismo. Essa molecada nova que entrou. preparando-se. de um operário com vinte anos de trabalho na empresa. como nos lembra o operário da montadora entrevistado. apontando as dificuldades para a inserção e a permanência no mercado de trabalho. Cara que quer fazer hora extra para trocar de carro. para reintroduzir a questão de como os jovens trabalhadores interpretam a sua relação com o emprego e o trabalho. Pais destaca as diferenças existentes entre os jovens. para o Brasil. Essa entrevista. que ressalta o individualismo. exatamente. concepções e idéias diferenciadas. constituiriam os elementos sociais básicos que orientam os jovens na elaboração das representações do empre- go e do trabalho. a diversidade de origens sociais. O que impele essas crianças e adolescentes para o trabalho. já tem um carro zero. colocando em dúvida a possibilidade de se considerar. tem sua casa (. contudo. perplexo e sentindo-se impotente diante das mudanças introduzidas no trabalho dentro da empresa. para uma profissão? 104 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .. Assim. ao esforço e à realização pessoal e profissional. e só na escola. que os conduzem a trajetórias profissionais específicas. aparecendo. de interesses. na sociedade brasileira. e porque. a passividade.

todavia. Revista Brasileira de Educação 105 . A imposição do trabalho assalariado seria. conexões viciosas. neste aspecto. 1983). 1993. afirmando-se. Além do mais. igualmente. Porque pertencentes a famílias de baixa renda. adquire esse caráter imperioso. tendo que. Aparecida J. o que a levou a discutir. Dados da PNAD mostram que.Gouveia já comprovara que 95% dos chefes de família trabalhavam em atividades manuais e. como consenso nas pesquisas sobre o trabalho de crianças e adolescentes de 10 a 17 anos. muitas vezes. o trabalho antecipa a escola ou se dá concomitantemente a ela”(p. a relação entre a escola e o trabalho. Madeira. com crianças e adolescentes de 9 a 17 anos. Mas. por exemplo. então. Essas colocações não são suficientes. moram com a família em casas relativamente cômodas. pois “são crianças que estudam. decorrente do “aguilhão da fome” (Machado da Silva. a pesquisa constatou que em torno da metade delas tem pais trabalhando. em virtude dos baixos salários recebidos por seus pais6. O objetivo da pesquisa era estudar o chamado fenômeno do “fracasso escolar” entre crianças pertencentes a famílias de baixa renda. como apontam Ferretti e Madeira (1992). considerando o caso do município de São Paulo. em grandes cidades do país” (DIEESE. Este é um tema que.Uma das conclusões da pesquisa é que o motivo imediato da entrada dessas crianças no mercado de trabalho é a necessidade de complementação da renda familiar. que seria a evidente pobreza que empurra para o trabalho os filhos dessas famílias.419 crianças de sete a catorze anos. assim. Assim. com 1. permite avançar nessa discussão. Outros motivos parecem orientar a inserção precoce da população no mercado de trabalho. necessariamente. 1990). repousa na correlação estabelecida entre pobreza e trabalho4. tratavam-se de famílias estruturadas. Em pesquisa realizada em 1981. abandonar a escola. nos anos de 1995 e 1996. De uma maneira geral. dos 58 milhões de crianças e de adolescentes de 0 a 17 anos. Assim.3 salários mínimos. também. praticamente. tem sido discutido pelos analistas no sentido de apontar a importância da escola na formação das novas gerações para o trabalho. revela alguns dados surpreendentes. 1997a. 10). em sua maioria. Pesquisa realizada por Dauster (1992). que o trabalho precoce não decorre. Escola e Trabalho — convicções virtuosas. têm hábitos urbanos. que desenvolve uma reflexão crítica das interpretações correntes sobre o tema. nos artigos de Gou- veia (1983) e Madeira (1993). mais de 50% vivem em famílias com rendimento de até meio salário mínimo per capita. compostas de pai. cerca da metade eram trabalhadores não qualificados. e que 55. a pesquisa realizada pelo DIEESE em seis capitais brasileiras. em ocupações tipicamente urbanas5. Mas. então. os dados não justificam o Remeto.O jovem no mercado de trabalho A explicação mais frequente nos estudos sociológicos sobre essa questão. Poderíamos concluir. para explicar porque o trabalho infanto-juvenil. mais amplamente. esses mesmos estudos mostram que outros motivos interferem. na decisão de trabalhar. procurando entender o que leva as crianças das camadas populares a buscarem a escola — crianças que se auto representam como 6 Essa conclusão aparece. da desagregação familiar ou do fato dessas crianças e adolescentes provirem de uma família incompleta (Gouveia.5% das famílias ganhavam de menos de meio salário mínimo até três salários mínimos. Mesmo com sua pequena remuneração. criança e adolescente são inseridos precocemente no mercado de trabalho. 5 4 trabalho dessas crianças. na área metropolitana de São Paulo. Pobreza. Dauster. crianças e adolescentes contribuem para o aumento da renda familiar. nos anos de 1994 e 1995. mãe e filhos. constituindo-se em uma ocorrência habitual em famílias com as mais diversas origens e condições sociais. Contrariando a afirmação de que as crianças trabalham no lugar dos pais. com crianças a partir de 7 anos e com jovens que cursam a escola pública em uma favela do Rio de Janeiro. que contribui tão pouco com a renda familiar e implica em tantos sacrifícios para essa geração. Confirma-se. vemos que a média do rendimento familiar médio era de 4. O que esses dois autores propõem é pensar que “para a grande maioria da população. 83). destes. para o texto de Felícia R.

há ainda. um outro significado do trabalho que Dauster observa em sua pesquisa: o sentido de decisão e de afirmação. ao risco da marginalidade. mas. persistirem no seu trabalho de carregadores de pesadas sacolas de compras que lhes rende cerca de R$ 30. que vê o trabalho pelo seu aspecto de formador das novas gerações. portanto. as crianças demonstram uma atitude de resistência. enfim. as constantes solicitações de passagem para a deliquência e. quanto do incentivo dos pais para o trabalho. Os jovens querem trabalhar para se sentirem importantes dentro de sua família. é representado como obrigatório. Diante da escassez de pesquisas sobre os jovens. Contudo. 64). em sua reportagem. Aqui. Dauster retoma as colocações de autores como Alvim e Valladares. Zaluar (1985) aponta o limite tênue que separa o trabalhador da marginalidade. os costumes e atitudes que se expressam nos “usos simbólicos da escola e do trabalho” (p. aos poucos. o que não presta. portanto. especialmente. A inserção dos jovens no mercado de trabalho é o que lhes permite. as crianças e jovens se dispõem a “ajudar” sua família. 62). ao contrário. trabalhando em retribuição aos pais que lhes dão mo- radia e comida. seja no desfrute do lazer. como parte da socialização das novas gerações. do banditismo. essas crianças e adolescentes submetem-se à imposição de uma norma que. o trabalho. é de explicar a inserção no trabalho não apenas a partir das condições econômicas em que essas crianças vivem. deve complementá-la” (p. o trabalho infantil. a condição de trabalhador é inerente à condição de pobre. da transmissão. mas se constitui. como anteparo aos perigos vividos “na rua”. no cotidiano de vida dessas famílias. 35). a respeito da importância do trabalho enquanto um valor cultural e econômico. 7 106 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . fundamentais na construção de uma identidade jovem8 . Essa pressão do consumo é destacada. também. segundo as orientações dos pais. afastando seus filhos das más companhias. lembro aqui apenas a sua colocação de que “a juventude é vista como período em que se pode gozar a vida e tentar um futuro melhor” (p. Em um sistema de troca nas relações familiares. Uchôa (1994). constitui-se como dever e obrigação das gerações mais jovens das camadas populares. também. entendida como natural e legítima. com o seu dinheiro. Uma de suas hipóteses. em média. a valorização da escola. que a autora explica como resultado tanto de uma escola afastada dos interesses das crianças. que não se opõe necessariamente à escola mas. mas.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins pobre. a análise dessa autora se afirma como leitura obrigatória para todos que pretendem discutir as questões relacionadas com a juventude. trabalhadora e estudante — mostra que o ingresso delas nas classes de alfabetização revelam grande interesse e expectativa. Entre os moradores da favela pesquisada. aparece como regra. pela família. por parte de suas famílias e delas. no Rio de Janeiro. “viver a condição juvenil” (p. Dauster mostra que o trabalho de crianças e jovens não é visto apenas como imposição de uma necessidade decorrente das condições econômicas da família. a partir dos sete anos. em sua pesquisa. a atração que esta exerce sobre os jovens. Analisando os depoimentos. Mas. da ideologia do trabalho. 8 Uma dimensão importante do cotidiano dos jovens é o lazer e. Nesse sentido. 33). R$ 100. Dessa maneira. seja no sentido da aquisição de bens de consumo. Mas. do tóxico. moradores do morro do Borel. nesse sentido. o estudo de Helena Abramo (1994) é uma contribuição importante. quando um “soldado do pó” empregado pelos traficantes tira. expressando. mas a valorização do trabalho é resultado de fatores culturais. a questão do trabalho infantil é tratada pela autora como “uma forma cultural que coletivamente se impõe às crianças das camadas populares” (p.00 por semana. na visão dos pais. por se constituir em uma prática cotidiana coletiva e também como natural. recuperar as orientações e os valores. 33). o relógio — que lhes permitam o acesso a uma “gramática do gosto” (p. para poderem comprar. o mundo com os seus perigos7. ou seja. ou seja. mostra como é difícil. certos objetos — como o tênis e as roupas de marca. por parte das camadas populares.00 por semana. considerando-a como “uma estratégia do sistema de socialização das camadas populares. para crianças e jovens. Constrangidas pela necessidade. Assim. a autora procurou. desde cedo. 33).

que a indústria. sem dúvida.7% para 16. expressa muito bem essa visão. que passou de 8. O “novo” profissional depende. Confirma-se. 1992). de que os jovens de 18 a 25 anos reproduzem. Os dois economistas concluem a sua pesquisa afirmando que “a batalha da produtividade só será ganha se os trabalhadores elevarem seu nível de educação” (Campos. como nos outros setores da economia. como destaca Gouveia. o trabalho se afirma como a “necessidade transformada em virtude”. analisando dados etários. nos dois anos indicados.6% para 12. 84). destacando que são pouco frequentes. para 5% em 1995. A participação dos ocupados com até a quarta série declinou de 35% para 27. do Instituto de Pesquisa Apresento uma pequena variação da definição elaborada pelos trabalhadores da periferia de São Paulo pesquisados por Cintia Sarti (1994). porque trabalhador” (p. inclusive na que venho realizando entre os jovens trabalhadores metalúrgicos em Osasco. Mas. tivessem deixado de ser estudante. as manifestações de amargura ou revolta pelo fato de precisarem trabalhar. destacam como a década de 90 inicia-se com os governos de diferentes países reintroduzindo a importância da educação para o desenvolvimento econômico.2%. de um grau de escolaridade maior. 1996). ou pelo menos formular uma hipótese de pesquisa. O estudo dos dois economistas. provavelmente. Na indústria hoje. Os autores manifestam a sua perplexidade diante do fato de que. de renda e de qualificação dos ocupados da Grande São Paulo. compartilhada. construindo a sua identidade no trabalho a partir da noção de “honesto e digno” porque um trabalhador9. por pesquisadores e empresários e que é imposta como uma necessidade aos trabalhadores. em vários outros textos como um dos mais fortes motivos que impulsionam os jovens para o trabalho (Ferretti e Madeira. vem propiciando o aparecimento (e o desaparecimento) das qualificações ou especializações exigidas dos trabalhadores. entre os seus entrevistados. 9 em Economia Aplicada (IPEA). em 1988. contem informações significativas a respeito dessa questão. em sua versão economicista”(p. parecia preferir os jovens que tinham completado um ciclo de estudo e que. Dessa maneira. as alterações no processo de trabalho e as novas técnicas organizacionais introduzidas nas empresas. certamente. Como já apontamos. Especificamente com relação ao grau de instrução desses trabalhadores. Aliás isso não é tão novo assim nas empresas. portanto.1%. A quase totalidade deles expressa um sentimento de auto-realização e de orgulho. Pode-se concluir. 66). O último aspecto que destaco nestas reflexões sobre o jovem trabalhador. aliado ao sentido da afirmação. Ao contrário. assim como a dos que tinham o primeiro grau incompleto: de 18% para 15. apesar da crítica elaborada durante os anos 80. a presença de engenheiros na linha de produção. elementos dessa ética do trabalho. A pesquisa realizada pelos economistas Edgard Luiz Alves e Fábio Veras. em seus projetos de vida. a inserção profissional será daqueles com o grau de instrução maior. A novidade com respeito a essa colocação é que. Chaia (1987) já apontava em seu artigo. houve um acréscimo da parcela daqueles com curso universitário completo. portanto. caindo de 6. diz respeito à relação entre a educação e o trabalho. de 11. as empresas esperam que seus empregados sejam sempre capazes de aquisição de novos conhecimentos e requalificações.3% e dos com o segundo grau completo. com base nos levantamentos do DIEESE/SEADE entre 1988 e 1995. citado acima. em artigo no qual realizam uma importante revisão bibliográfica das relações entre trabalho e escola. “a década de 90 inaugura-se com forte revigoramento das antigas esperanças no poder transformador da educação via impacto no processo de trabalho. Revista Brasileira de Educação 107 . hoje. portanto. portanto. aliás. por exemplo.8%. Não se deve estranhar. portanto. Ferretti e Madeira (1992). que se identificavam como “pobre honrado.O jovem no mercado de trabalho também. a tendência que tem sido apontada em várias pesquisas.3%. lembro a observação de Gouveia (1983). a pesquisa aponta a redução do número de analfabetos.

O menor no mercado de trabalho. (1992). Anuário dos Trabalhadores. mimeo. 75-86. nem o quê o trabalho significa para eles e. Paulo. (1997a). 1:1. O trabalho tolerado de crianças de até catorze anos. 6-20. na medida em que “o novo paradigma dos processos de produção está apoiado na formação mais pluralista da força de trabalho. 55-62. os que situam entre os 18 e os 25 anos. muito menos. MADEIRA. São Paulo: Fundação Seade. São Paulo. Paulo.. 108 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . DIEESE. 4:14. (1988). que o pesquisador deve enfrentar. Tania. Emprego perde qualidade em São Paulo. Subseção do Dieese. Lua Nova. nº 82. Metamorfosis del trabajo. agora. DIEESE. São Paulo. Celso J. É preciso reduzir a jornada de trabalho. destacar as questões fundamentais para discutir a relação do jovem com o trabalho. Jeunesse. Zap!. Boletim do Dieese. o que se acredita hoje que seja demanda do mercado é algo próximo do que os educadores reivindicam há muito tempo” (p. Yves. ou seja. (1997). Boletim do Dieese. Cadernos de Pesquisa. (1992). Referências bibliográficas ABRAMO. José Roberto.. do nível de renda. nº 44. société — voies et enjeux d’une mutation. nesta exposição.. agosto.. “Educação/Trabalho: reinventando o passado?”. 14:170. a participação. ABRAMO. (1996b). “Fim da linha”. CASTILHO. Cadernos de Pesquisa. DIEESE. Na realidade. André. DIEESE. G4 e G5. Miguel W. tomei como referência dados estatísticos que nos dizem a porcentagem dos que trabalham. Paulo. Madrid: Editorial Sistema. A categoria em números. Pelo menos. (1995). sobretudo a matemática. Laís W. Boletim do Dieese. Alceu L. abril/jun. da ideologia dos anos 60. a solidariedade. caderno de O Estado de S. mais próximo de um adestramento específico. Isto.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins A reestruturação produtiva e as novas formas de gestão e organização do trabalho. (1996). 4 de agosto. Uma infância de curta duração: trabalho e escola. pode representar uma desvantagem inicial mas. abril/jun. (1995). travail. Reconversão industrial e resposta sindical na América Latina. 85). maio. 31-36. Portanto. (s/d). portanto. A visão dos trabalhadores sobre globalização e setor automotivo. baseando-me em um conjunto de textos e de entrevistas com trabalhadores. 6-11. (1997). etc. Cadernos de Pesquisa. São Paulo. Cenas Juvenis — punks e darks no espetáculo urbano. S... dos desempregados. do grau de instrução. 3-5. todos ativistas sindicais. “O trabalho do menor: necessidade transformada em virtude”. CAMPOS. FERRETTI. São Paulo. 8 de maio. O Estado de S. São Paulo. Diferente. setembro. Rio de Janeiro: Forense Universitária. (mimeo). (1987). Sindicato deo Metalúrgicos de Osasco e região. 16:193. set.. como se situam diante das condições de trabalho e as exigências que se colocam hoje para o exercício de suas atividades profissionais. CHAIA. quase não existem pesquisas que tenham como ponto central da análise o trabalhador situado nesse período do ciclo vital. Adeus ao proletariado: para além do socialismo. Como a maioria dos autores citados. colocam para os educadores. Boletim do Dieese. em sua maior capacitação para apreensão de linguagens. __________. como acentuam Ferretti e Madeira no artigo referido. De certa forma. por um lado. DAUSTER. nº 80. São Paulo. uma reflexão de adultos sobre o jovem. abril. (1996). São Paulo. DIEESE. (1994). 15:186.. que encaminhou a escola para um modelo profissionalizante stricto sensu. G1. Helena W. 93-99. O que se deve incrementar. (1982). constitui-se em um desafio. GOUVEIA. (1983). Felícia R. portanto. 12-16. B4. (1996a). não na faixa etária que escolhi como ponto de partida para a minha pesquisa. Aparecida J. São Paulo em Perspectiva. DIEESE. 7:347. mas que não informam em que condições esses jovens trabalham. 15:186. São Paulo. é a criatividade.. por outro. 9-16 CLOT. Procurei. GORZ. Trabalhador pouco instruído perde espaço. São Paulo: Scritta/Anpocs. novos desafios.

A (des) organização do trabalho no Brasil urbano. novos modos de vida. 10 de abril. Trabalho e Sociedade: problemas estruturais e perpectivas para o futuro da “sociedade do trabalho”.. conexões viciosas. jan. Revista Brasileira de Educação 109 .4-5. Luis A. (multigrafado) UCHÔA. Alba. São Paulo: Fundação Seade. 13-41. (1985). __________. Análise Social. Trabalho sob fogo cruzado. 13-21. (1992).O jovem no mercado de trabalho HARVEY. Departamento de Antropologia. MATTOSO. Felícia R. (1994). (1989). OFFE. Menino do Rio. (1996). (1990). 1º de março. São Paulo em Perspectiva./mar.as organizações populares e o significado da pobreza. José Machado. Emprego juvenil e mudança social: velhas teses./dez. (1991). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Trabalho de Graduação Individual apresentado ao Departamento de Geografia da FFLCH/USP. Paulo. São Paulo: Fundação Seade. 5:217. (1994). PAIS. As novas formas de organização do trabalho na indústria automobilística brasileira: o caso da Ford e da Volkswagen. 70-83. Carl.. LUEDEMANN. Lisboa. (1994). 26. 7:1. MADEIRA. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda. Zap!. escola e trabalho: convicções virtuosas. Paulo: Loyola. O Estado de S. A máquina e a revolta:. (1996). Cintia.. 1. 945-987. São Paulo em Perspectiva. David. Pobreza./mar.. Marco. Desemprego: quantos são os jovens. jul. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Jorge. ZALUAR. Trabalho como categoria sociológica fundamental?. Tese (Doutorado em Antropologia). São Paulo: Fundação Seade. São Paulo: Brasiliense. 26:114. S. caderno de O Estado de S. Paulo. SARTI. (1993). A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres na periferia de São Paulo. 8:1. jan. (1993). 4:3/4.. A2. Marta da S. São Paulo em Perspectiva.. (mimeo) MACHADO DA SILVA. Culturas Juvenis. Universidade de São Paulo. __________.

vale a pena destacar algumas tendências claramente perceptíveis. desenvolvem-se processos de reprodução econômica e social. acentuam-se os mecanismos de socialização dos jovens para os papéis da vida adulta. tendência esta. Bologna: Il Mulino. introduzindo também alguns elementos de novidade. Giovani anni 90. Em contextos culturais muito diferentes entre si.O trabalho como escolha e oportunidade Antonio Chiesi Alberto Martinelli IARDI Tradução de Nilson Moulin Publicado em: CAVALLI.). Premissa As atitudes em relação ao trabalho constituíram sempre um dos temas de maior interesse nos estudos sociológicos e psicológicos sobre a condição juvenil por razões facilmente compreensíveis. de fato. a meta de se tornar adulto. A propósito da crescente afinidade das atitudes dos jovens italianos com os seus coetâneos europeus. Os jovens tendem a deixar a família mais tarde e igualmente adiam a idade do casamento e do nascimento dos filhos. em particular. mais acentuada na Itália que em outros países por causa das atitudes de proteção mais acentuadas por parte de muitos pais e da menor tendência dos jovens a afastar-se da família por razões de estudo e trabalho e para estabelecer uniões con- 110 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . produziram alguns resultados relevantes: em primeiro lugar. isto é. mesmo conservando algumas especificidades significativas. mostraram como a condição e as atitudes dos jovens italianos relativas ao trabalho. A pesquisa IARD de 1992 confirma e esclarece tais resultados. Em segundo lugar. Alessandro e LILLO. confirmaram alguns lugares-comuns difundidos na opinião pública. A primeira tendência é o prolongamento da idade juvenil e o significado novo do próprio conceito de juventude: ser jovem é cada vez menos um processo direcionado para uma finalidade. o estereótipo da re- cusa do trabalho dos jovens dos anos 70 e do estereótipo da competição individualista e do conformismo dos jovens da década sucessiva. o trabalho é um dos âmbitos mais importantes em que se desenvolvem as relações entre gerações. As pesquisas IARD sobre a condição juvenil na Itália. efetuadas em 1983 e 1987. começar a trabalhar e assumir as responsabilidades da idade adulta e é cada vez mais uma condição social que pode durar vários anos. II. Cap. Antonio (orgs. têm se uniformizado às de seus coetâneos de outros países desenvolvidos do ocidente. 1993.

Contudo. dos homens) entre os inativos e entre os que ainda estão à procura do primeiro trabalho. que se desenvolveram nos anos posteriores. A atitude da maior parte dos jovens em relação à escolha do trabalho não parece caber na execução de um projeto final de afirmação individual e de um planejamento rigoroso da própria carreira. como nos outros países desenvolvidos. como acontece difusamente nos países da Europa do Norte e na França. não no sentido de uma crise de mecanismos de socialização para o trabalho. Os jovens da geração de 68 introduziram valores e atitudes antiautoritárias nas relações de trabalho. no caso de trabalhos pouco gratificantes. A tendência para uma incerteza crescente acerca das próprias opções laborais pode por sua vez ser atribuída a dois tipos de causas. que só se concretiza sob a forma de trabalho precário e ocasional. a pesquisa IARD de 92 permite aprofundar e interpretar melhor a demanda crescente de autonomia e de valorização das próprias capacidades. porém. A esse respeito. Tais resultados permitem superar o estereótipo do “yuppismo” dos anos 80. obviamente. O trabalho permanece um aspecto central da vida dos indivíduos. Em segundo lugar. os pais carecem muitas vezes de uma percepção clara das inclinações e das capacidades efetivas dos filhos e das informações adequadas sobre a evolução do mundo do trabalho. observa-se uma redução das diferenças entre homens e mulheres em relação ao diploma escolar e à presença nos vários tipos de emprego. As desigualdades associadas a tais fatores acham-se bem visíveis na pesquisa de 1992. trata-se de reduzir as quan- tidades e os tempos. também no caso do gênero parecem atenuar-se. o conhecimento escasso e a experiência ainda reduzida que boa parte dos jovens tem do trabalho nos anos de escola: o trabalho é uma realidade bastante remota e pouco visível para muitos estudantes. procura-se introduzir mais elementos de liberdade e autonomia. Em primeiro lugar. nos casos de trabalhos que permitam realizar as próprias capacidades. tanto uma atitude de incerteza no momento da escolha do primeiro trabalho quanto uma atitude pragmática e negociadora e um compromisso realista entre opções e oportunidades. Com efeito. os meios de comunicação de massa transmitem mensagens centradas no tempo livre e no consumo em vez de abordar a produção. quando não oferecem uma imagem do trabalho enquanto fonte de ansiedade.O trabalho como escolha e oportunidade jugais de fato. Nem “hippies” nem “yuppies” A análise dos estereótipos mostra que a atitude de recusa do trabalho parece interessar a minorias reduzidas. que comportou um defasamento progressivo entre oferta e demanda no mercado de trabalho. determinada pelo aumento do nível de instrução. Os programas escolares não prevêem formas alternativas de instruçãotrabalho. tal incerteza não deve ser supervalorizada. tratam da gratificação imediata das necessidades. preocupação e cansaço mais que de satisfação. um crescente desemprego intelectual (sobretudo nas áreas em que não se verificou um desenvolvimento dos papéis técnicos e profissionais. Enfim. mas no sentido de uma atitude mais racional diante da experiência laboral. pelo status sócio-econômico da família e pelo lugar de origem e de residência. a ponto de satisfazer a demanda de trabalho qualificado dos jovens escolarizados) e uma recusa dos trabalhos com pouco prestígio social que são deixados aos imigrantes. A segunda tendência é o crescimento das expectativas. aos quais ninguém quer sacrificar a própria vida afetiva. mas parece mostrar. pois para muitos ela esconde uma atitude de experimentação e de prova que conduz a adiar a escolha definitiva após ter explorado as próprias capacidades pessoais e as demandas do mercado por meio de diver- Revista Brasileira de Educação 111 . a condição laboral e as atitudes perante o trabalho dos jovens são influenciadas pelo gênero. negligenciando a necessidade de aprendizagens longas e complexas e sobre as obrigações derivadas de um contrato de trabalho. relacionados com a conversão industrial e com a expansão da economia terciária. continuam muito fortes as desigualdades de gênero (a favor. ao contrário. De qualquer modo.

que mostram pretender avaliar racionalmente os prós e os contras da alternativa. mas também entre os filhos de funcionários. surgem como os traços mais marcantes dos jovens entrevistados. aos quais correspondem atitudes desencantadas e racionais na pesquisa do trabalho. já presente desde a primeira pesquisa IARD de 83. isto é. no seu conjunto. temporário ou precário. Neste sentido. em detrimento do trabalho dependente. para os quais prevalece. ao passo que só é nitidamente mais baixa entre os desempregados. capaz de mediar expectativas e oportunidades. a abrir um negócio por conta própria. Grande parte dos jovens. não temem a flexibilidade da relação de trabalho. é claro. perde posição na hierarquia das coisas importantes da vida. Autonomia. no desenvolvimento dos contratos de formação e trabalho). era mais positiva que antes. é ao contexto sócio-econômico precedente à crise do início da década de 90 que temos de referir-nos para interpretar as atitudes dos jovens. Por exemplo.Antonio Chiesi. Se examinarmos a relação entre as estratégias dos atores e as condições do contexto. capaz de favorecer a realização pessoal. As estratégias de oferta de trabalho por parte dos jovens se beneficiam com esta conjuntura favorável. tendentes a encontrar uma mediação praticável entre expectativas e oportunidades do mercado. 1 112 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . a partir do ano seguinte da acentuação. Embora as perspectivas do mercado de trabalho tenham piorado rapidamente. uma atitude de experimentação e uma abordagem realista quanto à escolha do trabalho. adotadas a partir de meados da última década. Além disso. Portanto. por exemplo. que não tem precedentes na última década e são influenciadas também pelas políticas de flexibilização da oferta. a serem os únicos responsáveis pelo próprio trabalho. das incertezas crescentes de muitas empresas sobre o futuro e da conseqüente redução dos investimentos. observa-se um progressivo redimensionamento das expectativas sobre o traba- As edições anteriores da pesquisa já sublinharam a preferência dos jovens pelo trabalho autônomo.5% em 1992) e um aumento daqueles que responden “depende”. é significativa a propensão ao trabalho autônomo. O início da década de 90 coincide com o ápice de um período em que o mercado do trabalho atingiu a plena ocupação nas regiões do norte e também no sul se presencia uma diminuição do desemprego. a percepção dos jovens acerca do próprio futuro ocupacional. Alberto Martinelli sas experiências de trabalho ocasional.4% em 1983 para 27. É preciso destacar também o fato de que a preferência pelo trabalho por conta própria é alta não só entre os filhos de trabalhadores autônomos. cotejando as atitudes dos estudantes e dos jovens que trabalham. mas o último levantamento mostra uma queda ulterior contra o trabalho dependente (de 32. em favor da amizade e do amor. confimando assim uma tendência datada de uma década. pri- vilegiam a dimensão criativa do trabalho. provocado pela deterioração das condições econômicas gerais. com o objetivo de poder potencializar as próprias capacidades. o trabalho sempre é considerado importante no projeto pessoal de vida. tendo exorcizado a preocupação pelo posto de trabalho. parece muito interessada nos conteúdos e nas modalidades de trabalho e manifestam uma forte exigência de autonomia. flexibilidade e crescimento profissional A exigência de autonomia. mas justamente por ser percebido como mais seguro em relação ao passado. chegando a encará-la favoravelmente. na época em que foi feita a pesquisa (março de 92). A relação de trabalho dependente parece sempre ser cada vez menos um modelo apreciado. buscam oportunidades de aprendizagem e crescimento profissional. que modificaram sobretudo os comportamentos dos jovens em busca do primeiro emprego (basta pensar. com as costumeiras exceções parciais de algumas áreas do Mezzogiorno (região centro-sul). surge claramente a adoção de comportamentos muito realistas. um porto seguro e protegido para o qual dirigir-se1. a preocupação de encontrar trabalho de qualquer jeito.

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lho autônomo, expressão do fato de que as transformações do sistema produtivo (desenvolvimento dos papéis profissionais e de condições laborais com alto grau de autonomia) caminham mais lentamente do que seria exigível pelas expectativas dos jovens. Todavia isso não deve induzir a subestimar tais expectativas de autonomia, auto-realização e retomada de responsabilidade da maior parte dos jovens. Ao contrário, tanto as grandes empresas quanto a administração pública deviam adotar formas de organização do trabalho com características bem definidas de delegação de responsabilidades e de funções, de avaliação dos resultados, de autonomia na definição das modalidades e dos tempos da prestação laboral. Indicações análogas emergem do exame das modalidades de pesquisa do trabalho, que parecem adaptar-se realisticamente à situação específica do mercado nas diferentes áreas do país. Os jovens meridionais investem com mais freqüência na inscrição nos escritórios de alocação de mão-de-obra e nos concursos públicos, estratégias complementares numa situação de carência de postos no setor privado. Os jovens do norte e do centro confiam mais freqüentemente nos pedidos encaminhados a empresas e nas respostas a classificados que oferecem emprego. Além disso, os resultados da pesquisa desmentem a imagem de que os jovens do sul sejam obrigados, mais que os do norte, a recorrer ao apoio de pessoas influentes para obter trabalho. A persistência da defasagem entre norte e sul também se manifesta pelas diferenças no modo de trabalhar e de encontrar emprego dos jovens. Mas as dificuldades do mundo do trabalho juvenil no sul não são mais uma condição homogênea e difundida e só produzem degradação quando intervêm fatores de precipitação bem identificados pela pesquisa, como baixo nível de estudos, a origem social camponesa e a condição feminina. Esclarecidas as tendências gerais, vejamos agora analiticamente os principais aspectos da condição laboral dos jovens e de suas atitudes em relação ao trabalho.

Os jovens em condição de (quase) pleno emprego Antes de mais nada, podemos nos perguntar que peso tem a conjuntura econômica sobre as estratégias de atraso da transição para a idade adulta. Com efeito, se é verdade que nos últimos 25 anos, e não só na Itália, os jovens tendem a adiar cada uma das cinco passagens essenciais a tal transição (conclusão dos estudos, novo endereço residencial, união de casal, trabalho e paternidade-maternidade), também é plausível supor que pelo menos duas dessas passagens sejam muito influenciadas pela conjuntura econômica. A nova residência pode representar, de fato, uma opção realizável só se o mercado de casas for favorável às modestas disponibilidades econômicas de um jovem. Inclusive a entrada no mundo do trabalho pode depender, em última instância, das condições da oferta de vagas. O ano de 1992 mostra condições de emprego muito favoráveis aos jovens. Apesar disso, a percentagem dos que têm uma experiência de trabalho não ocasional desce para 37,9%, em relação aos 43% de 5 anos antes. Portanto, os dados sugerem que a melhoria das condições de mercado não consegue alterar uma tendência cultural muito profunda. A cota dos jovens em busca do primeiro emprego, categoria histórica da condição juvenil nos últimos 30 anos, reduziu-se a menos de um terço (passando de 11% em 1987 para 3,7% em 1992). Trata-se de uma queda deveras relevante, difícil de encontrar nas estatísticas oficiais de outros países desenvolvidos. Por outro lado, tal dado tem conexão com as dinâmicas ocupacionais reais de 1992, consideradas pelo CENSIS (1992) substancialmente positivas até o outono, e com os resultados do levantamento trimestral ISTAT (1992) sobre as forças de trabalho do segundo trimestre de 1992, que mostram uma leve piora do desemprego a partir de julho. Existem muitas probabilidades de relação direta entre a diminuição do desemprego juvenil na década de 80 e a aplicação das políticas de flexibilização das relações de trabalho buscada nos úl-

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timos anos também na Itália. Basta pensar que os trabalhadores inseridos com contratos de formação e trabalho, que entram exatamente nas faixas etárias incluídas em nossa pesquisa, dobraram depois da metade dos anos 80, até superar meio milhão2. Inclusive os contratos de tempo parcial, que não abarcam apenas os jovens, superam 200.000 em 1991. Os dados obtidos em nossa pesquisa não mostram apenas uma redução drástica dos jovens que esperam o primeiro emprego. Também os desempregados, isto é, aqueles que estão à procura de um novo trabalho, tendo perdido o anterior, diminuíram, embora em proporção menor (passando de 5,3% para 4,9%). Do total de entrevistados abaixo de 25 anos, 41% hoje trabalham em diversos setores e segundo modalidades muito diferenciadas. Os jovens que desenvolvem uma atividade compõem, de fato, uma categoria heterogênea, pois somente a metade trabalha com um contrato em tempo integral, isto é, segundo a modalidade de trabalho standard3. Os autônomos representam 15,4% ao passo que 14,5% têm uma relação de trabalho atípica (part-time, trabalho por tempo limitado, trabalho precário). A esse grupo deve ser somado um conjunto de 22,2%, representado por estudantes-trabalhadores. Dentre os estudantes que atualmente não trabalham (46,8%, em aumento sensível comparado aos 39,1% da pesquisa de 1987), 4,4% já trabalharam de modo não ocasional, 4,9% aceitam com freqüência trabalhos ocasionais remunerados. De qualquer modo, 28,2% tiveram pelo menos uma experiência de trabalho ocasional. Basicamente, pode dizer-se que a percentagem daqueles que, durante a vida, tiveram alguma ex-

Por causa das modificações normativas concernentes a este tipo de contrato de trabalho, os jovens inseridos se reduzem a 286.000 indivíduos em 1991 (cf. Ministério do Trabalho, 1992). Trata-se especificamente de 54,2% sobre um total de 661 indivíduos empregados, isto é, apenas 20,9% do conjunto da amostragem.
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periência de trabalho sobe de 60% em 1983 para 66,4% em 1992. Assim, trata-se de um crescimento não negligenciável, que diz respeito essencialmente à ampliação da faixa de emprego marginal. Conforme trataremos de demonstrar recorrendo aos dados sobre a subjetividade do trabalho, a difusão dos papéis marginais corresponde em parte a uma estratégia precisa e depende portanto da combinação de escolhas conscientes e de novas condições estruturais. A atração que o mundo do trabalho exerceu sobre os jovens é testemunhada, de resto, também pela redução dos inativos e dos estudantes que, mesmo não se declarando estudantes-trabalhadores, admitem trabalhar ocasionalmente no momento da entrevista. Este último grupo chega a dobrar no período considerado, passando de 4,3% para 8,5% do conjunto da amostragem. Assim, é verdade que os jovens adiam a entrada definitiva ou “oficial” no mundo do trabalho, permanecendo mais tempo na condição de estudantes, mas experimentam seu sabor com algumas experiências “oficiosas”, de um modo igualmente generalizado (tabela 1). A atração pelo mercado de trabalho, contudo, não travou o crescimento progressivo a longo prazo do título de estudo, que continua a representar uma credencial importante para ter acesso ao mercado dos empregos. De fato, os que só possuem o curso primário enfrentam uma taxa de desemprego muito mais alta do que aqueles que têm algum diploma (12,7% contra 5,7%) e sobretudo uma percentagem mais alta de desempregados sem estímulo que já não procuram trabalho (22,5% contra 1,5%) (tabela 2). A tabela 3 mostra além disso de modo evidente a permanência das diferenças tradicionais entre regiões ricas e pobres. No sul, o desemprego é mais alto, é mais elevada a proporção de jovens em busca do primeiro trabalho e também continua alta a percentagem dos inativos, isto é, jovens desempregados que, tendo sido desencorajados, sequer procuram o primeiro trabalho. A situação do mercado de trabalho parece mais favorável na região nordeste que na noroeste. Nas 3 Venezas e na Emília Romana, o grupo de 341 entrevistados só abrange

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Tabela 1 Condição profissional por sexo (%)
1987 Condição Trabalhador-estudante/Trabalhador Estudante Em busca do primeiro emprego Desempregado Inativo M 43,5 40,1 7,8 5,5 3,1 100,0 N=2.000 F 30,6 38,1 14,3 5,1 11,9 100,0 M 43,9 45,1 2,3 5,1 3,6 100,0 N=1.718 1992 F 38,3 48,5 4,2 4,7 4,2 100,0

Tabela 2 Condição profissional por nível de estudo (%)
Elementar* 50,1 8,8 3,9 12,7 24,5 100,0 Média Inferior** 47,5 39,3 2,6 5,5 5,4 100,0 Média Superior*** 54,6 30,9 5,2 5,7 3,5 100,0

Trabalhador-estudante/Trabalhador Estudante Em busca do primeiro emprego Desempregado Inativo

N=2.500 * corresponde a primeira etapa do ensino fundamental (1ª a 4ª aérie) ** corresponde a segunda etapa do ensino fundamental (5ª a 8ª série) *** corresponde ao ensino médio (1º a 3º colegial)

Tabela 3 Condição profissional por zona geográfica de residência (%)
Trabalhador-estudante/Trabalhador Estudante Em busca do primeiro emprego Desempregado Inativo N=2.500 NO 59,4 32,9 1,3 2,8 3,6 100,0 NE 61,4 32,7 0,5 2,5 2,9 100,0 Centro 46,9 41,8 3,6 4,5 3,2 100,0 Sul 43,1 33,0 6,5 9,5 7,9 100,0

2 (dois) jovens em busca do primeiro emprego. Assim, pode afirmar-se que, no início da década de 90, nessas regiões, o problema não diz respeito aos jovens, mas sim às empresas, que correm o risco de não encontrar trabalhadores em caso de necessidade. Os homens tendem a entrar mais precocemente que as mulheres no mercado de trabalho, pois entre os empregados, 31,5% dos homens apresentam uma ancianidade laboral superior a 4 anos,

contra 23,3% das mulheres. Entre os trabalhadores-estudantes, os homens têm acesso a um trabalho estável com maior freqüência que as mulheres, ao passo que elas vivem mais freqüentemente experiências de trabalho ocasional. Tal situação é fruto da persistente maior dificuldade relativa do componente feminino para encontrar trabalho e é comprovada também pelo fato de que, para obter um posto, as jovens estrevistadas devem possuir um

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título de estudo em média superior ao dos homens. Com efeito, entre os desempregados, as mulheres com diploma representam 45,2% contra 32,7% dos homens. Também as jovens com instrução posterior à escola obrigatória ou diploma superior são relativamente mais numerosas que os homens (9,1% contra 6,4%). Portanto, não surpreende que as taxas de desemprego feminino sejam sensivelmente superiores às dos homens4. A pesquisa mostra o duplo aspecto do desemprego, o quantitativo e o qualitativo. A taxa abrangente representa de fato um indicador de gravidade genérica, concentrada sobretudo entre os jovens do sul, com baixo título de estudo e baixa extração social. A incidência dos que estão em busca do primeiro trabalho nos diz também alguma coisa sobre a qualidade do desemprego: quanto mais baixo é o valor, numa situação de desemprego elevado, mais grave o próprio desemprego, pois envolve jovens que viveram a experiência da perda de um trabalho. É sobretudo o caso daqueles que não terminaram a escola obrigatória, sujeitos a um sistema de expulsão precoce do processo produtivo por causa da falta de capacidade profissional ou até de uma inadequada socialização para o trabalho. Onde, ao contrário, o peso relativo dos jovens em busca do primeiro trabalho é baixo, no interior de uma situação de baixos níveis de desocupação abrangente, pode-se sustentar que a desocupação causada por perda do posto corresponde a uma situação de mobilidade do trabalho absolutamente fisiológica. É esse o caso das regiões do nordeste. Enfim, pode surgir o caso de que níveis de desemprego superiores à média sejam representados sobretudo por jovens em busca do primeiro trabalho. É este o caso das altas qualificações, dos diplomados e sobretudos dos que têm curso superior, entre os quais persistem fenômenos de desemprego intelectual devido às dificuldades para obter um emprego adequado ao nível de instrução formal conseguido.
As taxas de desemprego são calculadas segundo a definição do ISTAT: relação entre os que procuram trabalho e o total da mão-de-obra ativa.
4

Porém, as estatísticas sobre as taxas de desemprego ocultam um aspecto ulterior, circunscrito mas grave, constituído por aqueles jovens que desejariam um trabalho, mas sendo desencorajados, não o procuram mais. Entre os filhos de camponeses, por exemplo, a percentagem de desestimulados é de 12,7% do total dos entrevistados, enquanto entre os filhos da burguesia (empresários, dirigentes, profissionais liberais) e entre os filhos de funcionários, tal percentagem desce para 3,2%. As estratégias para busca de trabalho São bem conhecidas as carências institucionais do nosso país no campo da orientação profissional, da integração entre escola e trabalho e da inserção dos jovens no mundo do trabalho. A Itália não possui, de fato, um sistema de orientação e formação para os jovens, capilar e eficiente como o francês e sequer estruturas formativas similares às alemãs, que se baseiam na integração estreita entre escola e empresa e prevêem períodos de permanência dos estudantes nas empresas. Apesar dessas carências estruturais, os dados disponíveis mostram um grau notável de espírito de iniciativa dos jovens italianos. A propensão para o trabalho autônomo e a alta percentagem de entrevistados que viveram experiências de trabalho precoces desde o período estudantil induzem a considerar que os jovens estejam em condições, não obstante tudo, de desenvolver estratégias muito realistas e “competentes” na busca de um trabalho qualitativamente satisfatório. Um primeiro aspecto de tais estratégias consiste na definição dos limites geográficos dentro dos quais movimentar-se para oferecer as próprias capacidades (tabela 4). A disponibilidade em mudar para encontrar trabalho ou melhorar as condições é muito elevada porque abrange mais da metade dos interrogados e também envolve a maioria dos entrevistados, tanto homens (61%) quanto mulheres (53%). Um título de estudo elevado torna mais disponíveis para a mudança, pois os mais instruídos aspiram a postos de trabalho com maior remuneração e o mer-

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Tabela 4 Para encontrar trabalho ou melhorá-lo, estaria disposto a mudar de município? (%)
Não Sim Depende N=2.500 NO 29,8 52,8 17,3 100,0 NE 35,3 51,6 13,1 100,0 Centro 27,3 56,8 15,9 100,0 Sul 27,6 61,3 11,1 100,0 Total 29,3 56,9 13,8 100,0

cado de trabalho com altas qualificações normalmente é mais vasto que o de mão-de-obra genérica. De fato, enquanto entre os que têm só a 4ª série, pouco mais de um terço (37%) está disposta a transferir-se por motivo de trabalho, tal proporção atinge quase dois terços (64%) entre os que concluíram o 2º grau e os que têm diploma universitário. A disponibilidade para mudar para o norte engloba 64% dos jovens do sul dispostos a transferir-se, enquanto a disponibilidade de ir para o sul só envolve 34% dos residentes no nordeste, ou seja, aqueles para quem é mais fácil encontrar trabalho na própria zona de residência. Recentes pesquisas comparadas internacionais reafirmaram a preferência dos trabalhadores italianos em geral para as relações de trabalho autônomo5 . Tal preferência também é bastante visível em nossa amostragem de jovens e diz respeito, obviamente, mais aos homens que às mulheres, além de ser ligada à disponibilidade de chances, como a origem social ou o nível de segurança do atual posto de trabalho. Em particular, enquanto a área geográfica de residência não parece influenciar a preferência pelo tipo de relação de trabalho, os jovens pertencentes a famílias burguesas e de trabalhadores autônomos são relativamente menos propensos ao trabalho dependente, que é ao contrário mais apreciado pelos desempregados e pelos jovens que atualmente possuem relações de trabalho não standard (part-time, trabalho temporário, contrato de formação e trabalho, trabalho negro etc.) (tabela 5).

Num contexto em que os jovens se acham de fato privados de uma tutela e de uma orientação institutcional para a entrada no mercado de trabalho (menos de 9% se dirige a centros de orientação), as modalidades de busca deste último mostram a predominância de estratégias individuais e familiares: o posto de trabalho é procurado envolvendo a retícula das solidariedades primárias e as ligações fortes do vínculo de amizade e de parentesco (tabela 6). É verdade que a inscrição nas agências de emprego abrange quase a mesma percentagem daqueles que confiam em amigos e parentes e é a modalidade de pesquisa do trabalho mais difundida (quase três quartos dos entrevistados), mas quem se inscreve nas agências de emprego é também mais pessimista quanto à possibilidade de encontrar efetivamente um posto e, conforme mostram muitas pesquisas, o faz por razões que muitas vezes não têm diretamente a ver com os objetivos ocupacionais6 . Os dados mostram ainda estratégias adaptativas ao mercado de trabalho. Enquanto no norte existe um recurso mais freqüente à relação direta com as empresas (demandas, respostas a classificados, inserções), estimulado pelas condições mais favoráveis para a oferta de trabalho juvenil, no sul e no centro, na falta de alternativas, as pessoas se inscrevem sem ilusões nas agências de emprego e participam de concursos públicos com atitude cética.

A comparação de 11 amostragens referentes a igual número de países industrializados mostra um nível mais alto de preferência absoluta pelo trabalho autônomo na Itália (cf. Eurisko, 1993).

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Os limites do papel desempenhado pelas agências de emprego no mercado de trabalho são bem conhecidos. A inscrição nas listas de emprego depende de vários fatores, alguns externos (prioridade de acesso a algumas prestações assistenciais), outros só indiretamente relacionados à procura do trabalho (obter pontos em classificações para a admissão mediante concurso).

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Antonio Chiesi.2 43.0 56.0 52. obviamente. Diante dos 33% que concluíram o 2º grau e dos universitários que procuram um trabalho melhor.1%) dos empregados procura um trabalho melhor.500 NO 68.7 53.8 23.8 65.3 13.5 8. entre ocupação e desemprego. um quadro em que a separação entre condição de emprego e condição inativa.2 37.7 51.0 46.1 58.2 72.5 30.0 61. Desenha-se.7 20.6 69. evidentemente não se contentando com o primeiro emprego que encon- traram.4 4.5 Tabela 6 Modalidade de procura de trabalho (%) Influência de amigos e parentes Cadastro em agências de emprego Participação em concursos públicos Pedidos em empresas Resposta a classificado Apresentação em escolas.9 52.0 40.6 52. quase um terço (31.2 26.2 6.3 24.7 7.8 6.4 28. além das condições e das características do trabalho que desenvolve.9 48.4 9. Esta proporção constitui.0 12.3 8.3 8.8 61.9 17.6 38. coloca-se uma proporção significa- 118 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .0 33.6 Total 59. um dado médio e varia notavelmente conforme os recursos efetivos de que o jovem já inserido pode dispor.0 Sul 59.8 17.0 43.3 33.1 32. Alberto Martinelli Tabela 5 Grau de preferência dos jovens pelo trabalho por conta própria (%) No conjunto: homens mulheres Posição empregatícia: contrato estável contrato atípico trabalhador autônomo desempregado estudante Posição social paterna: burguesia funcionário trabalhador autônomo operário camponês Título de estudo: elementar média inferior média superior ou universitário 58. não é mais delineada nitidamente como antes.0 Centro 56.1 45.6 44.9 6.6 33.0 Os jovens que já entraram no mundo do trabalho em diversos níveis continuam a buscar estratégias para melhoria da própria condição.0 76. Com freqüência os estudantes trabalham. empresas Proteção de pessoas influentes Cadastro em centros de orientação Colocar anuncio em jornais N=2. sujeitos a contrato de trabalho indeterminado.4 57.7 33.7 24.0 29.0 43.0 NE 52.3 28. colocam-se os 46% que têm menos de 3 meses de ancianidade e portanto demonstram aceitar o posto com a idéia de mudar na primeira oportunidade e 54% daqueles que de algum modo obtiveram um posto de trabalho de baixa qualificação. De fato.0 16.8 25.1 64. junto aos empregados em tempo integral.0 26. basicamente.

sem nos permitir captar a extrema variedade das condições efetivas de trabalho. embora o nível médio de instrução delas seja. não está em condições de explicar as diferenças dos níveis de retribuição. Em suma. Vamos concentrar-nos agora na análise das condições de trabalho. as respostas sobre rendas tendem. relativas à entrada no mercado de trabalho: quem tem dificuldades para encontrar um posto provavelmente terá de contentar-se com um medíocre.6%) menos que os homens. em que o trabalho é descritível como um continuum da atividade eventual ao posto de trabalho seguro e esse continuum pode ser percorrido mudando o posto de trabalho com freqüência. ligadas ao título de estudo: quem tem diploma universitário ganha em média 50% a mais do que aqueles que só têm a 4ª série. Todavia. mas também a dar uma imagem menos desigual em relação à realidade efetiva. embora mantendo níveis consideráveis. As condições de trabalho Nos parágrafos anteriores nos ocupamos das estratégias no mercado de trabalho. mensurada a partir da posição paterna. a diferença foi reduzida a um quarto (-24. Aqueles que entram no mundo do trabalho concebem o primeiro posto simplesmente como uma ocasião temporária. da análise das diferenças na duração do período laboral que descreve não apenas a relação óbvia segundo a qual quanto mais se trabalha mais se ganha. mas que só 3. até 29 horas semanais. que podem. contudo. Tal diferença percentual demonstra a aspiração dos jovens ao tempo integral e reforça a hipótese de que o tempo parcial enquanto condição estável seja considerado apenas como uma solução de retrocesso. numa situação mais móvel e flexível que no passado. A desigualdade das condições de trabalho emerge. dos funcionários do terciário urbano avançado de uma grande cidade do norte. dividir os professores precários do sul dos operários das regiões com industrialização difusa do centro da Itália. de modo mais abrangente e qualitativo. capaz de nos dar somente uma imagem sumária e um juízo sintético do entrevistado. por exemplo. O tema é tão complexo que pouco se adapta a ser estudado de “fora”. à espera de encontrar melhores condições. a defasagem entre o norte e o sul foi reduzida. é interessante notar que essa faixa de trabalhadores representa 17.7%). Todavia. como se a condição juvenil garantisse a todos pelo menos as mesmas condições de partida. mediante um questionário. As diferenças nos valores médios das remunerações salariais reiteram em parte as desigualdades. tendo por base a experiência amadurecida e a aquisição de capacidades profissionais on the job. quando o posto era fixo por definição. De qualquer modo. a pesquisa permite analisar ao menos dois parâmetros fundamentais da prestação laboral: a retribuição e o horário de trabalho. a origem social. as diferenças reaparecem entre os sexos e entre as diversas regiões do país. não só a serem subestimadas.7% do total. como se deduz da tabela 7. Sabemos que em pesquisas deste tipo. mas evidencia também como na faixa do part-time7. As mulheres ganham em média um quinto (22. Entre o que ganha o filho do camponês e as entradas do filho do profssional ou do dirigente não há diferenças estatisticamente significativas.O trabalho como escolha e oportunidade tiva de trabalhadores em condições atípicas. conforme demonstrado pelo cálculo do desvio pa- 7 Aliás. do ponto de vista de contrato de trabalho e de horário.1% declara explicitamente trabalhar em regime de part-time. superior ao dos homens. Apesar disso. emersas nas tabelas precedentes. a ser alcançado de uma vez para sempre. com um leve agravamento das diferenças com respeito ao levantamento de 1983. existe uma enorme disparidade das retribuições para o mesmo horário de trabalho. As maiores diferenças salariais permanecem. Revista Brasileira de Educação 119 . em média. os jovens dos anos 90 aprenderam a servir-se do mercado do trabalho para explorar uma realidade ocupacional muito mais variada do que no passado. Da pesquisa de 1983 resultava que um jovem trabalhador no sul ganhava cerca de um terço (35%) menos que seus coetâneos do resto do país. Em 1992.

Acima das 45 horas semanais.01). os dados confirmam que o horário de trabalho curto é também um indicador de subemprego feminino: muitas mulheres preferem trabalhar com horário reduzido por causa de seus compromissos familiares. representativas do elevamento rápido da curva dos valores médios e da baixa da curva do desvio padrão. encontramos uma percentagem de solteiras quase igual à dos homens e que entre as casadas a percentagem se reduz em quase um terço.8%) trabalha mais de 50 horas. A diferenciação por estado civil de homens e mulheres mostra também que quase a metade das casadas (47. Para horários de aproximadamente 40 horas semanais correspondem remunerações bem mais altas. que os jovens almejam. Alberto Martinelli Tabela 7 Remuneração média por categorias relevantes em milhares Média Geral: homens mulheres Áreas de Residência: Noroeste Nordeste Centro Sul Posição Paterna*: burguesia funcionário autônomo operário camponês Nível de estudo: elementar médio inferior médio superior universitário * Diferenças estatisticamente não significativas (sig=>. mas os valores dos desvios padrão recomeçam a se elevar. ao redor das 40 horas semanais. O horário de trabalho efetivo depende antes de mais nada do gênero do entrevistado. Se é verdade. ao passo que mais de um quarto dos homens casados (26. A explicação corrente de tais diferenças remete para o estado civil das mulheres: as casadas são menos disponíveis para horários de trabalho longos por causa dos compromissos domésticos. Trata-se. A essa altura. pois as mulheres tendem a ter horários de trabalho semanais mais curtos e nas faixas acima das 45 horas semanais sua proporção é muito inferior à dos homens (18% delas contra 36% deles).Antonio Chiesi. de fato. as retribuições já não aumentam no mesmo ritmo.4. 1223 1361 1053 1378 1296 1300 1003 1208 1263 1235 1194 1264 970 1175 1256 1444 drão. de fato. Isso indica que horários de trabalho particularmente penosos implicam maiores desigualdades econômicas e assinalam a presença de marginalidade e desvalorização. é interessante analisar as características sociais dos jovens que se colocam principalmente nas áreas extremas do gráfico 2. que na faixa de horário standard. Os dados à disposição exigem contudo uma explicação um pouco mais complexa. como veremos8. mas outras não logram obter um horário maior. 8 120 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .1%) concentra o próprio horário entre 20 e 39 horas semanais. Basicamente. que encontramos no mercado de trabalho central. abaixo das 20 horas a proporção de solteiras equivale à das casadas e é quase o triplo dos homens. da faixa de trabalho tutelado.

onde a feminilização das tarefas mais intelectualizadas supera a dos funcionários executivos.9 40.O trabalho como escolha e oportunidade Tabela 8 Ocupação e respectivas taxas de feminilização Empresário.0 60. Nesta ótica. pois a proporção dos jovens com horário de trabalho longo (superior a 45 horas) é em média mais alta que em outras regiões.0 51.6 Os jovens do sul não apenas trabalham menos horas em média.7 23. mas também muito longo. De fato. à medida que se passa para as faixas de idade mais avançadas.4 73. mas o horário standard de 40 horas semanais abrange a percentagem mais baixa. mas a tabela 8 mostra também que a segregação contra mulheres jovens concerne também outras dimensões. tanto na reafirmação da centralidade do trabalho ou na sua negação pós-materialista. no sentido de tornar progressivamente mais homogêneos os regimes ao redor do horário standard em tempo integral. Tendem portanto a persistir os estereótipos que vêem a profissão de magistério como uma ocupação predominantemente feminina e o trabalho autônomo como predominantemente masculino. pode estar na base da persistente segregação de gênero em muitas ocupações. Neste dilema. é portanto um indicador de marginalidade temporária para quem entrou há pouco no mercado de trabalho.1 25. com uma única exceção significativa no trabalho de funcionários. as tendências de então) das jovens gerações foi condicionado pela contraposição entre valores materialistas e pós-materialistas. Revista Brasileira de Educação 121 .9 85.8% deles trabalhou mais de 45 horas na última semana contra 23% dos contratados. O nosso ponto de vista é mais circunscrito. Em resumo. trabalhador a domicílio Ajudante Outros Total % F no Total 26. pode afirmar-se que as gerações jovens não constituem exceção à tradicional regra geral que reza existirem ocupações mais ou menos “adequadas” conforme o gênero. O fato de que certas condições de trabalho impliquem horários mais ou menos longos e que certas ocupações imponham um regime semanal específico. o ponto de partida da análise é constituído pela distribuição das respostas relativas ao nível de satisfação no trabalho.5 27.0 37.4 40. proprietário agrícola Cargo de Dirigente Professor Funcionário com tarefas mais intelectualizadas Funcionário executivo Operário qualificado Artesão Comerciante Aprendiz. A idade também influi no horário de trabalho. como o nível de qualificação do trabalho manual e o nível de responsabilidade do trabalho intelectual (empresários e profissionais).5 43. a imagem do trabalho e seus significados foram assumidos como um indicador confiável da cultura juvenil em geral. A subjetividade do trabalho O debate dos anos 70 sobre as novas tendências culturais (isto é. Queremos analisar as atitudes e a imagem do trabalho em si mesmas. profissional liberal. Um horário muito curto. Os jovens que realizam um trabalho autônomo têm horários de trabalho semanais muito mais longos que os colegas sob regime contratual. não enquanto indicadores de um sistema cultural mais vasto. 43. quanto na sua concepção instrumental ou realizadora.

levada a cabo. o trabalho é colocado no terceiro lugar em ordem de importância.0 NE 1.0 31. a avaliação é muito influenciada pelo nível de instrução: os menos instruídos estão bem mais insatisfeitos.2 100. O trabalho conta mais que o tempo livre. prevalecem os juízos matizados. Ver a propósito o capítulo terceiro e. De fato diminuíram os entusiastas (os muito satisfeitos baixaram de 28.374.0 0.8 22.Antonio Chiesi. o grau de satisfação no trabalho expresso pelos jovens não se afasta substancialmente daquele dos colegas mais velhos. que o compromisso social.000 dos não satisfeitos) e com a origem social do entrevistado. tendo por base uma interpretação conjuntural ou uma estrutural. os menos satisfeitos estão também mais propensos a transferir-se para melhorar sua condição.3 0.2 100.5 14.2 49. no interior da tipologia dos valores apresentada.0 Total 6. Conforme discutido em outra parte do livro10. o grau de satisfação declarada não aumentou. a tabela 3. De fato. enquanto a posse do diploma universitário aumenta igualmente o nível de satisfação (tabela 9). Se comparado com pesquisas análogas de amostragens representativas de toda a população 9. podem ser feitas duas previsões para o futuro. Mesmo permanecendo nuançada.1. ao passo que são confirmadas as relações entre nível de satisfação e área geográfica. em nossa opinião. É interessante notar que.0 54.1 9. deveria ter um caráter conjuntural. A interpretação conjuntural sugere que a piora das condições ocupacionais juvenis deveria au- 9 Cf. em condições de mercado de trabalho decididamente melhores do que aquelas que caracterizaram as edições anteriores da pesquisa.0 31. religioso e político.3%).4 21.8 23.000 de liras contra 936.7 1. Assim. em particular.0 100. Alberto Martinelli Tabela 9 Satisfação no trabalho (15-29 anos) Nenhuma Pouca Não sabe Suficiente Muita N=1. que o estudo e a cultura.7 100.5 13.2%).0 Na pesquisa de 1992. Demonstrando coerência com o modelo de racionalidade estratégica.1 1. A medida correta do nível de satisfação no trabalho deve por isso ser cotejada com outras grandezas de valor.6 100.0 Centro 7.9 53. A satisfação com o trabalho também se relaciona positivamente com o ganho mensal (os muito satisfeitos ganham em média 1.9 59. depois da família e das amizades/ amor. atribuível à obtenção do pleno emprego e. Ceri (1988) e Chiesi (1990). envolvendo a imagem e a identidade pessoal.0 Sul 10.7% em 1983 para 25. Em particular.6% para 21.5 17.7 50. mas também os insatisfeitos (passaram de 26. o valor atribuído ao trabalho perde a segunda posição e é superado pelo concernente aos afetos (amizade e amor). Este fenômeno é bem conhecido e está ligado ao fato de que o juízo sobre o próprio trabalho equivale em parte também a um julgamento sobre si mesmos.7 7. A perda da importância do trabalho em relação a outros objetivos é. porém tornou-se mais moderado e ponderado. conforme foi dito. as perguntas que visam simplesmen- te a medir o nível absoluto de satisfação no trabalho pecam por escassa variação e tendem em geral a deslocar a distribuição das respostas sobre valores correspondentes a outros níveis de satisfação declarada. em conseqüência.257 NO 6.3 5. 10 122 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . em relação às pesquisas anteriores.

8%) e os profissionais (76%). Porém. Mais em geral. mas tampouco passa a ser neutralizado ou circunscrito. A tabela 11 exemplifica esta atitude através da análise das respostas à alternativa entre duração do horário de trabalho e remuneração. por cau- Revista Brasileira de Educação 123 . Cavalli e de Lillo.1%). como os jovens à procura do primeiro emprego (72%) e os trabalhadores ocasionais (79. os modelos de resposta não devem induzir a pensar que o trabalho seja mais importante só para aqueles que visam obtê-lo ou conseguir um outro melhor. colocada mais alto Ver em especial a interpretação dos dados proposta na edição anterior do relatório (cf. como os empresários (73. mas adquire uma dimensão mais apreciada na aspiração qualitativa. os que concluíram o segundo grau. para reduzir os efeitos negativos de sua ausência. e uma concepção realizadora. O trabalho passa a ser cada vez menos uma necessidade cansativa. que de fato trabalham menos. os resultados da pesquisa colocam em evidência que não nos encontramos perante o declínio da importância do trabalho. 11 na escala da evolução das necessidades. Também os jovens do sul atribuem uma importância relativa maior ao trabalho em relação aos jovens do norte (65. que assume sua valência instrumental. Também os que desenvolvem atividades gratificantes e realizadoras. consideram o trabalho muito importante. A análise das hierarquias de valores feita por categorias relevantes de entrevistados não parece contudo dar muito crédito a este tipo de interpretação. pela qualidade das relações com os companheiros de trabalho e com os superiores e pelo horário e aumenta o interesse pela dimensão realizadora. por isso os jovens. Tal propensão se reduz com a idade. a importância atribuída ao trabalho cresce com o aumento do título de estudo. Já tinha sido levantado11 que as opiniões dos jovens se dividem entre uma concepção tradicional do trabalho. e considera portanto o rendimento como o aspecto mais importante. para os que têm diploma de 2º grau e universitário tal propensão se reduz sensivelmente. a ser conquistada. mas assistimos à transformação de sua concepção. o trabalho perde uma posição significativa na competição com outros valores existenciais. como a possibilidade de melhorar a própria posição e sobretudo a possibilidade de aprender coisas novas e exprimir as próprias capacidades (primeiro lugar entre os que concluíram o segundo grau. Também a idade influi sobre a alternativa entre horário e salário. reforçaria ao contrário as interpretações pós-materialistas da cultura juvenil.O trabalho como escolha e oportunidade mentar a importância relativa do trabalho com relação a outros aspectos da vida. A maior parte dos entrevistados gostaria de trabalhar mais e ganhar mais. Em resumo. terceiro para os jovens só com quarta série). O título de estudo influi muito na imagem do trabalho. para reduzir os efeitos negativos de sua presença. Percentuais de entrevistados acima da média geral que consideram o trabalho “muito importante” estão presentes entre aqueles que não atingiram ainda uma posição satisfatória. conforme demonstrado pela inversão na classificação das duas concepções (tabela 10).1% contra 57. prefeririam trabalhar mais para ganhar melhor.1%). A aspiração dos jovens é de chegar logo a uma integração completa no mundo do trabalho. o crescimento dos níveis de instrução e a evolução das condições de trabalho juvenil conduziram ao predomínio da concepção realizadora sobre a instrumental. O interesse pelo aspecto reditício do trabalho aumenta quando se considera o sul e entre os jovens de extração social mais modesta. Com o aumento da titulação cai o interesse pelo rendimento (os jovens que têm apenas a 4ª série colocam a remuneração em primeiro lugar. provavelmente por causa de sua maior escassez relativa. em terceiro lugar). Em suma. 1988). porém. que se baseia sobre a perda progressiva da importância do trabalho a longo prazo. A hipótese estrutural. a hierarquia dos aspectos mais importantes do trabalho sofre uma mudança ainda mais significativa em relação às precedentes edições da pesquisa. embora permaneça majoritária. Com os anos 90. uma vez obtido. De fato.

Antonio Chiesi.7%) aderiu a atividades das respectivas associações de categoria.2%). Em geral. 19. os ideais de realização e autonomia deixam espaço também para atitudes moderadamente oportunistas (basta pensar. O trabalho é des-ideologizado. A situação é particularmente grave na Itália.5% daqueles que estão empregados há mais de 4 anos.0 Médio Inf. tempo de transporte etc.3 17.6 100.6 72. Accornero (1992).2% dos empregados sob regime contratual participou nos últimos 12 meses de atividades sindicais. o rendimento 3. Numa lista de 15 organizações. que mostra o nível de sindicalização italiana de 2.) 5. como fica evidente pelo fato de que somente 8.4 52.1 58. ao passo que os países em que os jovens são mais sindicalizados atingem apenas 10% como na Alemanha e na Inglaterra.0 Total 24. ao passo que um percentual maior de autônomos (11. pode afirmar-se que a racionalidade ativa com que os jovens enfrentam sua relação com o trabalho parece emergir de um capítulo sobre o individualismo metodológico de um manual qualquer de sociologia.8%) e da França (2.7 100.1 100. que 65% dos entrevistados condena o absenteísmo no trabalho como inadmissível. comparando as taxas de sindicalização abrangentes. A possibilidade de melhorar (rendimento e tipo de trabalho) 4. com os chefes 7.0 Universitário 28. em que a taxa de sindicalização do conjunto aparece mais baixa em absoluto. contra 49.7 63. Estas dados estão sincronizados com o que emerge do Eurobarômetro de 1990. a sindicalização juvenil é relativamente muito baixa.2 17. Boas relações com os companheiros de trabalho 6. é preciso explicar o relativo distanciamento maior dos jovens do sindicato em nosso país. Boas relações com os superiores. grupos associações e iniciativas coletivas.1% semelhante ao da Espanha (1. As condições de trabalho (ambiente.0 sa da obtenção progressiva de uma posição de trabalho estável e em tempo integral.0 Médio Sup. Portanto. 29. o sindicato aparece exatamente no último lugar no interesse dos entrevistados. ao redor de 15%. estimáveis ao redor da média européia de 40% na segunda metade da década de 80. depois dos clubes desportivos. foi verificado de forma confiável12 12 Cf.3 56. mas apenas 50% se declara alheio ao fenômeno) e também os interesses são buscados numa lógica predominantemente individual.6 100.6 15. Possibilidades de aprender coisas novas e exprimir as próprias capacidades 2. 124 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . pois. por exemplo. 65% dos jovens que trabalham há menos de dois anos gostariam de trabalhar mais. Assim. Alberto Martinelli Tabela 10 Gradação dos aspectos mais importantes no trabalho 1. No panorama europeu de declínio da participação sindical. O salário.0 100.0 18. os jovens representam o componente mais crítico. dedicado aos jovens dos países da União Européia. A possibilidade de viajar muito 8. O horário de trabalho Tabela 11 Gostaria de fazer menos horas ganhando menos ou ganhar mais fazendo maior número de horas? Menos horas Mais horas Não sabe N=1257 Elementar 13.7 13. dos escoteiros e das associações turísticas. similar à de países como França e Espanha. De fato.

Por exemplo. tal concepção tende a ser substituída pelo trabalho enquanto oportunidade de realização14. CAVALLI. ISTAT. Collana Ricerche. Diante da pergunta sobre o grau de confiança concedido a 13 diferentes instituições e figuras sociais. A. (1988). A. Referências bibliográficas ACCORNERO. Angeli. EURISKO. Gli attegiamento verso il lavoro. (1993). bem mais que coletivas. A.O trabalho como escolha e oportunidade que os sindicatos na Itália permaneceram estranhos ao segundo milagre econômico da década de 80. (1988). (1990). Mas é também verdade que. resultados significativos e amplo consenso das bases. 26 Rapporto sulla situazione sociale del Paese. A. La parabola del sindacato. não causa surpresa que os jovens de nossa amostragem associem. no passado. Bolonha: Il Mulino. (1992). MINISTERO DEL LAVORO. por causa de uma incapacidade generalizada de renovar os conselhos de delegados. (1992). Os sindicatos se colocaram tradicionalmente objetivos concretos de tutela do salário. Giovani anni 80. Impresa e lavoro in trasformazione. (org. 59. Social Trends. CERI. Rapporto 1990/91. a imagem do sindicalista àquela. ao passo que entre os jovens que buscam sobretudo ocasiões para aprender a exprimir as próprias capacidades. Milão: F. (1992).). no grau de confiança concedido. 12. Assim. os quais ficaram por muito tempo como expressão dos segmentos anciãos da força de trabalho. 27. Bolonha: Il Mulino. (1992). a taxa de sindicalização dos trabalhadores dependentes que consideram mais importante o salário e as condições de trabalho supera 10%. a taxa de sindicalização cai abaixo de 5%. e DE LILLO. Roma: Istituto Poligrafico dello Stato. pois as taxas de sindicalização aumentam significativamente entre aqueles que partilham uma concepção instrumental do trabalho. Bolonha: Il Mulino. o sindicalista ocupa apenas o décimo lugar. a representação sindical de base permaneceu muito tempo impermeável à troca da força de trabalho. Bollettino Mensile di Statistica. 14 13 Revista Brasileira de Educação 125 . Igualmente nas grandes fábricas. da classe política e dos membros do governo 13. Sobre tal objetivo os sindicatos ainda não souberam oferecer nada aos tra- balhadores. O sindicato de fato defendeu sempre o emprego das grandes empresas. Secondo rapporto IARD sulla condizione giovanile in Italia. inclusive porque estes têm sido procurados de forma eficaz recorrendo a estratégias individuais. P. M. CHIESI. International Social Survey Program. I lavoratori dipendenti lombardi. Lavoro e politiche dell’ocupazione in Italia.. o que permitiu aos jovens entrar no mercado de trabalho. onde a contratação de jovens foi marginal nos últimos 10 anos e viu o desenvolvimento da pequena empresa dispersa e do terciário como uma vitória das tendências desreguladoras e neo-conservadoras do capital. Rilevazione delle forze di lavoro. A pesquisa mostra que os jovens não são insensíveis a tudo isso. Strategie di mercato e azione collettiva. CENSIS. do funcionário estatal.. bastante deteriorada. conforme foi dito. IRES/PAPERS.. de redução do horário e de melhoria das condições de trabalho e nestes campos obtiveram.

USA.000”. particularmente das mulheres. em conseqüência. No campo chileno a profunda reestruturação que resultou da contra-reforma agrária e o fomento das exportações horti-frutícolas e florestais têm correspondência com a profundidade da mudança social vivida pelo setor agrário. em Ver. (1994). diferentemente de outros países onde este processo é recente e basicamente econômico. A realidade brasileira. Universidade de Maryland. tem no “bóia-fria” o seu equivalente. Segundo Semestre. trabalho apresentado no Seminário “Social Change in Latin America. por sua idade e circunstâncias de trabalho e vida.Juventude temporera Relações sociais no campo chileno depois do dilúvio Gonzalo Falabella Corporação Mancomunal Tradução de João Carlos B. em Revista de Economia y Trabajo.) 2 1 moderno que surgiu no campo chileno e o caráter da reestruturação da economia. Nº 2. “Temporeros y Campesinos en América Latina. e o jovem rural moderno que dali surge. 8 e 9 de abril.T. Alves de Lima Este trabalho se organiza em torno de três hipóteses que se relacionam: a) o caráter das transformações vividas no Chile. Temporero: trabalhador rural que encontra serviço só em algumas épocas do ano e trabalha sem vínculo empregatício formal. mais maleáveis e permeáveis a esta profunda flexibilização de sua existência. Cabe assinalar que no Chile a reestruturação que teve início há mais de 20 anos. 3 126 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . “Reestructuración y respuesta sindical: la experiencia en Santa María. deles surgem1 . madre de la fruta chilena”. (1993). b) o tipo de ação estatal e social que se desenvolvem em vista das características deste novo personagem. é uma das características principais destes jovens. Podán reorganizarse? Cómo?”. College Park. e c) o perfil particular destes trabalhadores e a organização e movimento social que. que exige enorme flexibilidade nas relações de trabalho e que. (N. justamente. G. particularmente no setor agro-exportador. a Sociedade e a Cultura em seu conjunto. Jovens Temporeros2 e a Reestruturação Econômica A hipótese central desta seção sustenta que há uma correspondência entre os jovens deste mundo O marco mais amplo dentro do qual se desenvolve este trabalho se encontra em Gonzalo Falabella. Towards the year 2.3 Os jovens são. está concluída e abarcou também o Estado. Falabella.

tendo o trabalhador de em seguida deslocar-se para outro trabalho. De Praderas a Parronales. ainda que a demanda de trabalho não ultrapas- 7 Tratero: temporero do setor produtor de beterraba. Isto se dando ao longo de uma temporada que dura de 4 a 6 meses cada ano. muitas vezes em outra região. Um bom indicador da profundidade da flexibilização ocorrida é o fato de os contratos de trabalho temporários no setor frutícola serem de uma a três semanas. mais ou menos. deslocada pela distância de suas famílias. Em relação à profundidade da reestruturação. pré-cordilheranas e costeiras.) Rodríguez. Santiago do Chile. G. que lhes permitiu negociar individualmente suas condições de contratação8. povoados ou bairros de origem. Inclusive o trabalho mais intensivo não se dava na época de colheita. o grupo de trabalho vai mudando de contratistas.) Falabella. 9 Torrantes: denominação dada aos trabalhadores agrí8 Packing: na cadeia de produção da fruta. “Trabalho Temporal y Desorganización Social”. G. em Proposiciones. em que se trabalha intensamente por 15. No tipo de produção em questão. Contratistas: são arregimentadores de trabalhadores temporários para as propriedades de produção agrícola. (1970). 10 Revista Brasileira de Educação 127 . Nº 32:1. por tipo de fruta e. em Revista Mexicana de Sociología. Venegas (1990).) Falabella. já que ela se dava exclusivamente através de contratistas 6. a mais extremada era a do setor florestal. amontoados em “coletivos” dentro das propriedades. Santiago do Chile. ao menos em parte e enquanto durava o contrato — às vezes por até um ano — reconstituir sua vida social. Un chorro al año. El impacto social de la expansión frutícola. GEA/Universidad de Humanismo Cristiano.. Una gota al dia. período anterior ao golpe militar que derrubou o governo Allende. por empreitada. 20. D. “Desarrollo del capitalismo y formación de clase: el torrante en la huella”. (N. No setor produtor de beterraba esta situação era mais estável devido ao caráter anual do cultivo. pelo contrário. (N. S.T. esta grande maleabilidade. no inverno. A vida social chega assim a sua mínima expressão. 25 anos. Em 1985-1987 realizei um estudo nos três setores onde o trabalho temporário se implantou em toda sua profundidade: o florestal. migrantes de outras zonas. Estes intermediários das relações trabalhistas eram eles mesmos temporeros. em distintas propriedades. o produtor de beterraba (principal setor do mercado interno) e o frutícola5. Nº 18. como fizeram anos atrás os “torrantes”9.T. homens sós. Também neste setor se constatava a desestruturação da vida social — embora não no nível encontrado no setor florestal — isto por que aos “trateros”7. têm seu equivalente na realidade do campo do Brasil na figura do “gato”.. e S. (1992). nos Vales do Norte e Centro do país — com exceção dos extremos de Curicó e Copiapó10 —. como ocorreu no passado. mas durante a roçagem. não se permitia residir na propriedade com suas famílias. GEA/Uneversidad de Humanismo Cristiano. e Venegas.T. Todavia. no verão. (1990).Juventude temporera particular das relações trabalhistas trazidas pela economia exportadora.Isto lhes possibilitava. à desarticulação da vida social e exigência de flexibilidade do trabalhador. não impede que a relação de trabalho com o produtor ou packing 4 dure muitas vezes vários anos. muitas vezes. (N. (N. Surgiu assim um mercado de trabalho local baseado nestes migrantes.T. de região e de empresa a cada três meses. No setor frutícola. colheita — ou seja a derrubada ou roçagem — e construção de aceiros — a limpeza dos limites do bosque durante o outono). Havia migrantes das zonas mapuche. surgiram mercados locais de trabalho estruturados com a população local. temendo o patrão que surgisse uma organização sindical ali.) 6 5 4 colas temporários até 1973. já que as tarefas básicas no setor florestal duram três meses. O resultado é que nem sequer existe um mesmo coletivo que con- tinue trabalhando com um mesmo contratista ou com uma mesma empresa de um lugar para outro. é a seção de acondicionamento e empacotamento das frutas após a colheita. Nem sequer existia ali uma relação direta entre as empresas e os trabalhadores. cada uma (plantações de inverno.

como é o caso de Copiapó. São até 3 meses de trabalho noturno — além dos 3 meses que dura a poda— durante 10. paralelamente. só com a presença de um capataz. durante a temporada. 11 128 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . não podendo o casal temporero encontrar-se nem sequer em casa: ela chegava às duas horas da manhã e ele se levantava às seis. uma proximidade entre o lugar de trabalho e o de residência. neste setor a desestruturação social era bem menor. Surgiu ali uma cultura feminina bastante consolidada. dormem seus familiares. Em conseqüência. Nos packings de noite trabalham quase somente mulheres. Informe de investigação não publicado. Nos outros 6 meses era preciso migrar para os vales onde não existiam estes mercados locais. diferentemente dos setores florestal e da beterraba. provavelmente Díaz. relatados por espantados dirigentes camponeses nacionais em visita à região! As mulheres são maioria na fruticultura (52% —e 62% em Aconcágua—) e dominaram sem contrapartida a vida do packing e dos povoados temporeros durante as noites nos últimos 10 a 15 anos. Também. dormem o padre. não somente dos jovens mas também das mulheres. Por serem mais abertos à reestruturação. o tipo de trabalho exigia uma flexibilização bastante profunda também. que cumprem o papel fundamental na produção. Chile. “espaços de liberdade” em seus packings e povoados. Em Copiapó os temporeros migrantes. mais acentuado que o do homem. Em conseqüência. porque as mulheres manipulam a fruta em sua etapa mais vulnerável. Houve casos de violações de homens jovens em espaços sociais onde as mulheres são maioria. (1991). como ocorre no caso da uva. de um total de cinco. A resultados similares chegou a análise do “focus group” de mulheres temporeras em um estudo feito pela Corporação Mancomunal para a Fundação Ford: “Desarrollo con la gente. Esta cultura da liberdade no trabalho e no bairro. aqui existiam povoados rurais ou cidades relativamente importantes ao redor dos vales frutícolas. o capital sempre busca os setores mais débeis e/ou mais flexíveis. janeiro de 1995. devido às tensões decorrentes de terem abandonado os filhos para poderem trabalhar. ademais. permeia suas vidas dando um perfil peculiar a estas jovens mulheres assalariadas da produção da fruta. obtêm maiores salários que os homens. quatro dirigentes são mulheres. Investigação participativa acerca das trabalhadoras temporeras da fruta. depois de sete anos de vida sindical. E. sem o patrão. Fala-se de protagonismo. paralelamente. o prefeito e o policial. A reestruturação feita sobre os ombros dos jovens e mulheres não é impedimento para que exista. São horas em que dorme o patrão. já desorganizada durante o verão quando o trabalho do homem se realizava durante o dia e o da mulher durante a tarde e a noite. um grau de satisfação curiosamente bastante alto no trabalho11. 12. e o packing. con la naturaleza en el Valle de Aconcágua (sus provincias “temporeras” de San Felipe y Los Andes). Foi surgindo ali uma cultura e perspectiva trabalhista feminina. Em geral os grupos vão se repetindo ano após ano e com eles o fluxo de cumplicidades entre estas mulheres. pois realizam um trabalho mais especializado e manejam a fruta quando já está cortada e deve ser embalada no mesmo dia. 15 anos. devem organizar sua sobrevivência como melhor puderem. Sem dúvida. em contraste com estes dois últimos setores. como os jovens e as mulheres. e a fruta cortada e deixada ao sol é poder de negociação em suas mãos! Por isso mesmo. elas têm um controle decisivo sobre o processo produtivo. existindo. porque a labuta era muito intensa e durava até 6 meses. O Canelo de Nos.Gonzalo Falabella sasse os seis meses. Mas há efeitos inesperados. de Aconcágua e de outras regiões próximas a Santiago. Isso permite compreender sua peculiar cultura e espírito rebelde. que vão desde o Huasco ao Cachapoal. Suas demandas como assalariadas e um sentido de dignidade de setor de ponta (por trazerem as divisas ao país e não serem remuneradas de forma equivalente —”produzimos em dólares e ganhamos em pesos”—) se mesclou durante anos com suas reivindicações de gênero e de mães. para imporlhes o peso e o custo da transformação em marcha. Em Santa Maria. o povoado e o bairro lhes pertencem. destas “mães da noite” que trabalham durante as horas da liberdade. o que desorganizava novamente a vida social. As mulheres jovens desenvolvem durante seu trabalho noturno.

O resultado foi uma reestruturação muito profunda da vida social. diferentemente de tantos outros setores produtivos. Isso se realizou através da Escola de Inverno. O objetivo foi abrir um espaço para a reorganização social de sujeitos muito individualizados. com uma cultura individualizada. pois o sistema de relações entre trabalhadores e empresários é muito precário. Ou seja. após 3 meses do estabelecimento da Casa. no florestal. através de programas que iam ao coração de suas necessidades. Nasceu de uma greve muito dura e vitoriosa no packing de uma das grandes exportadoras. como o cuidado de crianças e informação sobre leis trabalhistas para suas mães trabalhadoras. na Comuna de Santa Maria em Aconcágua. são de três meses. 80% de seus dirigentes serem mulheres. No estudo já nomeado 12. o papel catalisador do programa de cuidado de crianças criado pela Casa do Temporero. já que não há nenhuma outra possibilidade de que se “encontrem” as pessoas durante o verão senão através destes programas. que ofereceu estes e outros cursos de caráter técnico. porque vocês (os homens) não se atreveram.T.. a 80 km de Santiago e Valparaiso. e o papel facilitador de um Estado que contrata assessoria dessa instituição e expande o programa a sete vales frutículas articulando empresários e temporeros. Isto ajuda a explicar a incorporação massiva desta população assalariada durante a temporada e o fato dela ser submetida a condições de trabalho extremas e desregulamentadas. A Casa do Temporero. surgiu um sindicato de grande influência. em particular aquele da jovem mulher temporera. A segunda hipótese estabelece a adequação que existe entre a flexibilização das relações de trabalho.”). por acordos e por tipo e variedade de fruta. Estes contratos curtos são absurdos. O Sindicato nasceu com um grande índice de sindicalizados. Quando se trabalha 12 ou 14 horas durante 6 dias da semana não cabe ministrar cursos sobre a historia social ou política do Chile. Esta flexibilização extrema pode ser simbolizada. Entre o fim do populismo e o Estado Liberal: relações catalisadoras. Oito anos atrás o autor que escreve este artigo criou esta organização não governamental (ONG). da incerteza e da desorganização social”. porque os trabalhadores tendem a se repetir ano após ano nos mesmos packings e propriedades. efeito da ação transformadora do regime militar em reação às políticas de um governo marxista. As mulheres sentem o sindicato como algo próprio (“nós o formamos. da mesma forma que é absurdo o trabalho por empreitada em um produto onde a qualidade é decisiva. e foi alcançado só na medida em que se combinaram estratégias que cobriram demandas individuais e sociais. que trouxe extrema desregulamentação a estes trabalhadores. superando assim práticas de indiferença liberal. pela duração dos contratos de trabalho: no setor da beterraba são por “acordos” e praticamente ao dia. Revista Brasileira de Educação 129 . tanto como de populismo assistencialista e clientelista. e no setor da fruta. como já observamos. e festas durante a colheita. este tipo de jovem trabalhador —permeável às mudanças econômicas e trabalhistas. a situação se caracterizou como “a institucionalização da desconfiança. Por exemplo. facilitadoras. as contratações são no máximo por três semanas. que também têm contratos de três meses..Juventude temporera (e quem sabe justamente). por mim presidido. baseado em vínculos efêmeros.) se da institucionalização da desconfiança. a necessidade de flexibilizar suas relações e um espírito juvenil permeável à mudança. Com efeito. como já fizemos nas páginas anteriores. (N. A experiência da Casa do Temporero definiuse como “um lugar de encontro” deste mundo do trabalho juvenil disperso. com o objetivo de responder ao processo de flexibilização. a ponto de hoje. de liberdade e autonomia— e o tipo de resposta que requer por parte das instituições que trabalham com ele. porque existem estes espaços peculiares de liberdade. Fala- 12 Ver nota 5. existe uma adequação entre o tipo de demanda de trabalho. incluindo até os contratistas.

Neste mundo emergente o individual precede ao social. Democracia social en um sindicato de temporeros e temporeras”. não há mais o que conversar. as mulheres jovens param às 2 da tarde e a fruta cortada pela manhã fica exposta ao sol. na organização social e na relação do Estado com elas. através de outra lei. menos ainda trabalho fora da temporada. Anteriormente tudo era social e a pessoa se dissolvia na massa perdendo seu perfil particular. e os temporeros seguem sem previdência social. as crianças estão bem. a resposta foi: “eu não vou me humilhar frente a esse sujo. como dizem elas. a dos anos sessenta. durante todo o ano. nem moradia adequada. com contribuições iguais para cada um e a exigência de contribuição do terceiro quando as outras duas partes tenham levantado os recursos. no qual o desemprego chegou a mais de 30%. respeitarem-se a si mesmas. um sistema de serviços com financiamento provavelmente tripartite (por exemplo. e depois a organização: dois projetos. houve uma “Arca de Noé” da qual saíram alguns animaizinhos que começaram novamente a repovoar a terra. porque. embora exista formalmente. 7-11 de julio de 1991. empresários e trabalhadores). depois da atomização e desorganização social que se seguiu “Organizarse y sobrevivir en Santa María. em suas palavras. novas formas que dêem expressão ao eu individual e seu ser social. como está dito na Sagrada Escritura13. Este sistema de desproteção se institucionalizou durante os duros anos da ditadura. “se estou bem. não terá sentido. no ano seguinte. Desta maneira o sindicato não tem sentido. Realizamos um segundo diagnóstico depois de uma primeira experiência de três anos e descobrimos que. Depois. Trabalho apresentado no 47º Congreso Mundial de Americanistas. esta nova mulher jovem assalariada. em particular a deste jovem. como Casa e como Sindicato. para melhorar as condições de vida e trabalho. saúde. Estas variadas necessidades até hoje não enfrentadas tornam necessário estabelecer. surgida da radical reestruturação flexibilizadora do trabalho na fruticultura de exportação. o direito à negociação coletiva dos temporeros antes da temporada. duas experiências. Primeiro está o “eu”. Nova Orleans. Assim. a delas. sem comida. após o grande dilúvio. A cada minuto que passa os salários sobem 1% e trabalhadoras e empresários chegam a um acordo em não mais do que 20 minutos. O primeiro tema que surgiu nestes espaços femininos foi a reafirmação do pessoal: o “eu”. A ser publicado em inglês sob o título “Conspiracy spaces and union democracy in Santa María”. os profissionais e “professores sindicais” que trabalhavam no projeto. transporte adequado. apoiados pelos programas de mulheres da Casa do Temporero. e a dos noventa. representada por nós. a família está bem”. a casa está bem. e núcleo central do sindicato não foram reincorporadas ao trabalho. O sindicato existe para negociar. Surgiu assim a necessidade de institucionalizar no projeto profissional.Gonzalo Falabella chegando a representar 35% da força de trabalho temporera do município. Jonathan Fox. duas classes sociais (trabalhadoras e profissionais) que se encontravam e negociavam os termos de sua colaboração. que envolva municípios — para o que seria necessário postular um fundo nacional para este fim —. a qualidade da fruta segue baixa. porque elas aceitavam esta repressão e não defendiam a organização. em qualquer packing do Vale me dão trabalho”. A nossa lógica foi defender a organização. Mas. USA. o coletivo se desmonta. 13 130 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . enquanto que nos outros municípios do país a sindicalização temporera não chegava a 1%. Do contrário continuarão as práticas atuais em que a ação coletiva trabalhadora terá só uma existência pontual e efêmera: por volta do 1 de fevereiro. assim como sua participação nos mercados internacionais. pois sem este direito a organização sindical. que é o pico da temporada frutícola em Aconcágua. Quando nós indagamos. as jovens mulheres dirigentes dessa greve. ed. MIT. Outro exemplo desta nova cultura emergente se deu quando se formaram os grupos de mulheres jovens no interior do Sindicato. como Casa do Temporero. O relato reflete o diálogo de duas culturas. Mas também colocamos.

Para isso concluiu-se recentemente um estudo para a Fundação Ford acerca da crise econômica do Vale de Aconcágua (o primeiro a reconverter-se. pediram que formássemos essas bolsas para que os temporeros não se comprometessem com Ver Venegas. Desde 1993 o Serviço Nacional de Capacitação e Emprego (SENCE). sobre os atores sociais e governos locais com que se conta para se fazer frente a esta crise. também recebem formação em negociação coletiva na seção de leis trabalhistas. acossados pelo surgimento dos contratistas que os estavam despojando de sua mão-de-obra local e cativa. inclusive. centrado agora na queda do emprego de temporada e no desemprego de pós-temporada. recolhendo a experiência desenvolvida em Santa Maria. como nos demais vales frutícolas. Isso não ocorre na fruticultura de Copiapó. produzidas em outros vales. com melhor tecnologia e fácil acesso ao crédito (muitas vezes pelas próprias exportadoras de maior envergadura — que ao todo não são mais de cinco). os temporeros chegarão. Maipo. podendo desenvolver. No curso de alvenaria. quando se saturam os mercados. formas coletivas de contratação. y Emilio Klein (eds. por exemplo). Santiago do Chile. Ainda mais que os parreirais concluíram seus 15 anos de vida útil. ainda que o individual tenha primado sempre como eixo da vida social. 14 aqueles. FLACSO/PREALC. Foi iniciado um novo ciclo no trabalho profissional com os temporeros. surgiu novamente a vida social. com novas lealdades. Un esfuerzo mancomunado de apoyo a los temporeros. à fruticultura da uva de exportação). reapareceu a vida social entre essas mulheres dos packings e a população trabalhadora da noite. dois programas nacionais (cuidado de crianças e capacitação na baixa temporada). assim como o desemprego de inverno (com os cursos de alvenaria. em muito melhores condições para vender sua força de trabalho. Sylvia (1992). para mercados mais competitivos. novas cumplicidades. Isso permitiu começar a enfrentar deficiências de capacitação próprias à fruticultura (com o curso sobre manejo integral de frutas. as Corporações de Desenvolvimento. Esta foi uma forma de responder aos empresários que. camponeses produtores para exportação.) Los pobres del campo. surgiram variedades de uva muito mais competitivas. incluindo nove sedes. Assim. e Ministerio de Agricultura-Chile (1995). há mais de 15 anos. Cachapoal). “Programas de apoyo a temporeros y temporeras en Chile” en Gómez. Quando se atravessa o túnel de Chacabuco. Mas onde existiam estes povoados e novos mercados de trabalho locais. O estudo —baseado em uma de suas partes em “focus groups” de produtores. criou uma linha especial de capacitação para trabalhadores temporeros durante a baixa estação nos três vales (Aconcágua. onde se reproduziu a experiência da Casa do Temporero. duas leis nacionais (direitos básicos e corresponsabilidade dos produtores e contratistas) e a negociação coletiva em discussão atualmente no Congresso. A partir dos egressos do curso de alvenaria propusemos a criação de uma bolsa de trabalho. e os caminhos de saída para ela. Santiago do Chile. temporeros/as e trabalhadores permanentes— conclui que a saída para a crise é multisetorial. e requer Revista Brasileira de Educação 131 . o que traz dificuldades quando cai o preço da uva. gestão de microempresas). nem na zona da beterraba. após 10. aparece o Vale como um só parreiral. ademais. empresários não frutícolas. através da capacitação. novas solidariedades. seja para a temporada de Copiapó ou localmente.Juventude temporera à des-reforma agrária. 12 e 15 anos. Proyecto centro de servicios para trabajadores de temporada agrícola. nestes três vales. nem na zona florestal. S. com o apoio do Governo da Noruega e o Ministério de Agricultura14. secagem de frutas. e em seus povoados e bairros de periferia começou a reemergir uma nova vida social e a refazer-se uma nova convivência. sem que se tenha pago as inversões iniciais —o que os deixa sem acesso ao crédito— sem renovar os pomares. hotelaria. O programa Casa do Temporero foi concluído depois de institucionalizar um trabalho de duas Confederações e três ONGs. pois não existem ali mercados de trabalho locais institucionalizados em torno aos povoados temporeros. por exemplo.

como demostraram os trabalhadores bancários constituindo seu próprio sistema privado de aposentadoria. Em particular o projeto atual — da Corporação Mancomunal. Em primeiro lugar. finalmen- 132 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . e que conte. como Corporações de Desenvolvimento. justamente. A base de sustentação de um tal projeto de desenvolvimento é assim uma nova institucionalidade. Ademais. as pessoas têm que se juntar para. com um Estado com poucos recursos. política e cultural. obviamente. experimentação e formas negociadas de acesso aos mercados. os Sindicatos e os órgãos descentralizados do Estado. este tipo de situação que descrevemos convida a uma ação estatal facilitadora. informação. Nenhum deles é apropriado ao caráter do temporero e à imensidão de suas necessidades de todo tipo. nem exigências que sobre eles pesassem. No século passado. como as Mancomunales do norte no século passado que nasceram recolhendo a cota mortuária de seus filiados para não deixar insepultos seus companheiros trabalhadores do salitre. formas acertadas de relações entre as empresas locais com as Universidades. não serve. o mutualismo é muito importante em certas áreas. cabe recordar que. deve-se resgatar o mutualismo. inclusive como a saúde e previdência social. que se correspondem com o novo tipo de ator individual e social que nasce desta reestruturação econômica e flexibilização do trabalho tão profundas. a AFP. o mutualismo se expandiu fortemente no Chile porque. para isso. um Estado que se faz responsável. ou seja. Tão pouco serve o Estado liberal. um Governo aberto e um Estado menor. em terceiro lugar. extensão. Segundo. invadindo toda a vida econômica. a estratégia social deve combinar várias formas. mais descentralizado. Deve-se negociar com o Estado. por outro lado. é possível e perfeitamente necessário desenvolver. quase nenhuma obrigação social. e sendo assim é necessário aliar-se com os diversos setores que estejam dispostos a apoiá-los a partir do Estado ou em sua relação com ele. para estes fins. Ali começa a ação solidária: na própria casa. a ação social era basicamente reivindicativa e centrada na mera redistribuição. social. sem perspectivas de que a lei de negociação coletiva seja aprovada. porque se ninguém toma para si as responsabilidades. e com acesso ao crédito. ante sua total desproteção. abrindo espaços para que a própria sociedade civil opere a transformação social. São importantes. havia uma economia internacionalizada e um Estado liberal que pouco se importava com a sorte das pessoas. treinamento.Gonzalo Falabella um desenvolvimento diversificado com criação de emprego para o ano todo. Tem sentido. Hoje em dia. a ONG herdeira da Casa do Temporero — se propõe formar. uma vez que ação populista o Estado toma para si o encargo do que só ele pode realizar e também do que outros podem fazer. antes. Conclui-se esta seção estabelecendo que existe um novo tipo de ação estatal e estilo de ação social das Corporações de Desenvolvimento sem fins lucrativos. não populista. menor e mais indiferente. agências de capacitação e emprego. este tipo de Estado não tem sentido. com um sistema de apoio profissional comum a eles. se fazerem responsáveis pelas suas necessidades básicas. Sob as condições descritas. no qual cada um se arranja como melhor pode e não é problema de ninguém o que sucede ao vizinho. de pessoas muito individualizadas. que os temporeros. negociações sociais amplas com empresários e outros órgãos do Estado como no projeto proposto de serviços municipais tripartites para temporeros. do ponto de vista legal. Hoje em dia. com empresários que não têm. em quarto lugar. as Corporações de Desenvolvimento. e empresários sem nenhuma responsabilidade. como ocorreu no projeto apoiado pelos Noruegueses. muito mais cooptável pelas organizações sociais. possam estabelecer sistemas de alianças com outros atores afins. que acompanha. elas mesmas. banco de dados para o Vale e comprometer as universidades em trabalhos de extensão na região. fundos de garantia. Sobre a base destas alianças com organizações e entidades estatais afins será mais possível para os temporeros estabelecerem. que inclua municípios com maior capacidade de gestão própria. Primeiro. Estabelecidas estas amplas relações.

Antinuclear Movement. 1979). pré-diluvianos. nos quais ocorria uma dissolução do indivíduo no coletivo. Compreender este fenômeno é fundamental para entender o caráter da ação social destes jovens trabalhadores sob as atuais condições. sem diluir-se no grupo. com o movimento social. os direitos e o controle social dos membros em seu interior. Jo Freeman. como ocorre. baseadas em contradições de interesses legítimos e legitimados em seu mutualismo. que apóia um processo deste tipo. 15 Revista Brasileira de Educação 133 . mais interessante. movimentos de cidadãos nos quais persiste o indivíduo para além do fato de que se atue pontualmente de forma coletiva. ao menos enquanto dure o movimento. Juventude temporera e movimento social. Esta articulação permite relações frutíferas com um Estado facilitador. No tipo de movimento como o aqui apresentado. sem inibir sua capacidade de ação coletiva. Poderia-se definir a relação como de “negociação” de cada membro no interior da organização ou movimento. Finalmente. que se faz responsável pela sorte de seus cidadãos. com mais possibilidades. respectivamente). estratégias reivindicativas de luta social. depois “nós”. (Cambridge: Cambridge University Press. a relação entre o individual e o social é mais fértil. que a organização dura tanto como o movimento. tem correspondência com um certo estilo de relação estatal e de Corporações de Desenvolvimento (caracterizados como facilitador e catalisador. não mais de 20 a 40 minutos. Ver por exemplo.Juventude temporera te. de mulheres. que resulta da reestruturação econômica e que produz um jovem mais personalizado e cidadão (com maior noção de direitos e dignidade). sem as quais não haverá participação dos temporeros nos frutos do desenvolvimento que eles trouxeram ao país. claramente o ordenamento é primeiro o “eu”. por sua vez. como no caso do projeto em andamento de desenvolvimento diversificado com criação de emprego para enfrentar a crise atual do Vale de Aconcágua. sua ação social se define como catalisadora de um desenvolvimento econômico distinto. alianças e negociações amplas. e se liga também com uma Corporação de Desenvolvimento dinâmica. de jovens15 do que com os movimentos sociais populistas latino-americanos. enquanto o caráter deste último muitas vezes se resumia a de uma mera massa social manipulável. como os movimentos contra a guerra do Vietnã. no caso descrito. Este tipo de movimento e natureza da relação com seus membros e o caráter deles se parecem muito mais com os movimentos culturais surgidos nos Estados Unidos e Europa a partir dos anos sessenta e setenta. Trata-se. Essa hipótese estabelece que a flexibilização das relações trabalhistas. Social Movements of the 60’s and 70’s (Nueva York: Longman. de uma concepção moderna de participação: “a luta pelos termos da incorporação”. só se esboçará a terceira hipótese que guiou a exposição. O ponto a sublinhar é. em uma greve de mulheres em um packing. E no caso que descrevemos. são sincrônicas. com um tipo peculiar de resposta coletiva por parte dos temporeros. e as condições de cooperação. Do ponto de vista de uma Corporação de Desenvolvimento sem fins lucrativos. por exemplo. com as pessoas e com uma organização social que respeita o espaço. e que. ecologistas. mediante sua adesão mais ou menos consciente à ação coletiva. catalisadora de um desenvolvimento com a organização. os movimentos antinucleares. O movimento social que surge caracteriza-se pelo fato de cada indivíduo manter seu próprio perfil. são bastante menores. 1983) e Alain Touraine. na qual os membros da organização mantêm um nível de controle do movimento durante seu desenvolvimento. precisamente. São movimentos de indivíduos personalizados.

presidente da União Nacional dos Estudantes na época. essa declaração de Lindberg Farias. 1 134 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . e como se distingue da identidade estudantil dos anos 60? Dada a heterogenidade e dispersão das várias “juventudes” dos anos 90. quanto em relação aos grupos e movimentos que contribuem Entrevista com Lindberg Farias no caderno Folhateen. para sua convergência no movimento pelo impeachment e. Cinco anos depois das manifestações juvenis que animaram o país e ajudaram a derrotar um presidente. usando a “grife” dos caras pintadas para vender roupas. quanto as reformulações político-culturais que influiram na participação dos jovens brasileiros nas últimas três décadas. De que consiste essa nova “consciência de cidadania”? De onde surge a nova identidade “cívica” entre os jovens. Fernando Rossetti Ferreira. ainda que provisoriamente. Carlos Antonio Costa Ribeiro. Eles despertaram e começaram a descobrir o que é lutar verdadeiramente pela cidadania.De estudantes a cidadãos Redes de jovens e participação política Ann Mische Universidade de Columbia Este artigo faz parte de tese de doutorado defendida na New School for Social Research e envolveu dois anos de pesquisa de campo com várias organizações políticas e sociais de jovens brasileiros nos anos 90. analisando tanto as mudanças nas relações sociais. tanto em relação à consciência e aos projetos pessoais. ao mesmo tempo. Neste ensaio. Comecemos com as palavras de um dos jovens que se destacou na época: “O movimento estudantil hoje é outro (…) mudou pelos próprios estudantes. Além do heroísmo. e Harrison White. desde as celebrações eufóricas do “renascimento” da resistência estudantil de três décadas atrás. quais as contradições e tensões sociais que também se manifestaram? Finalmente. 28/6/93. quais são os fatores que contribuiram. até as manipulações cínicas dos meios de propaganda. Até hoje há poucas tentativas sérias de analisar as origens e os impactos desses eventos em termos da especificidade histórica dessa corte de jovens. levanta uma série de perguntas críticas para a análise da participação política da juventude. cursinhos. Maria da Gloria Gohn. Agradeço os comentários de Helena Abramo. esses eventos ainda inspiram surpresa e mistificação. Mustafa Emirbayer. É uma geração que tem consciência de cidadania”1. procuro examinar as manifestações de 1992 numa perspectiva histórica. Salvador Sandoval. Charles Tilly. A convergência dramática dos “caras pintadas” nas ruas das principais cidades brasileiras em agosto de 1992 tem gerado interpretações contraditórias. e computadores. quais são as perspectivas levantadas para a futura participação dos jovens.

educadores. Vivem para resolver seus projetos pessoais. quanto as relações emergentes entre os grupos organizados. pode abrir novos caminhos na compreensão de como a cultura política é reformulada através da ambiguidade conflituosa das interações sociais. O movimento culminou em um grande ato no dia 25 de agosto. Essa ótica deve visar tanto os mundos interativos dos jovens. Uma pesquisa na Folha de São Paulo. Nos dias e meses depois das manifestações. uma pesquisa da agência de publicidade McCann Erickson declarou que. que queriam mudar o mundo. O movimento estudantil foi brutalmente esmagado em 1968 com a prisão. A batalha das interpretações Quando milhares de jovens brasileiros — a maior parte de classe média — saíram às ruas para protestar contra a corrupção no governo do presidente Fernando Collor de Melo.”3 Devido à percepção predominante de apatia e individualismo juvenil. indicou que embora a maioria dos jovens aprovassem ideais como “liberdade” e “participação”. 30/5/91. e o caráter interativo e processual de toda experiência social. muitos duvidaram se as instituições democráticas brasileiras constituiriam os melhores meios para realizar esses fins. Foram seguidas por uma onda de manifestações em várias cidades brasileiras. representantes do governo. as primeiras manifestações em 11 de Agosto (o Dia dos Estudantes) mobilizaram 10. movimentos sociais e organizações estudantis — batalharam para dar interpretações públicas dos eventos imprevistos. e os pontos de convergência ou distanciamento entre os dois. incluindo atos de 20.000 em São Paulo. “em contraste com seus pais. Na consideração da “cidadania juvenil”. diversos atores — a mídia. precisamos de instrumentos adequados à complexidade da dinâmica social que leva à formação de novas identidades e projetos de ação.2 Reportagens na grande imprensa retratavam o ceticismo e disinteresse político da Segundo estimativas policiais.De estudantes a cidadãos de diversas maneiras à sociedade organizada do país? Para aprofundar a análise dessas questões. 3 Revista Brasileira de Educação 135 . aponto para uma reformulação teórica da noção de identidade coletiva — e sua relação com a estrutura ou a posição social — questionando as visões estáticas e pré-deterministas que geralmente acompanham tais conceitos. alguns meses antes das eleições de 1989. A nostalgia dessa época influiu tanto na confluência dos eventos como nas interpretações posthoc. a próxima geração está mais interessada em melhorar a própria vida… Os jovens de hoje não se interessam por qualquer tipo de manifestação social. nascida durante a ditadura e criada entre as expectativas crescentes e disilusões sucessivas da lenta e conservadora transição à democracia. Em 1991. e outras cidades. que mobilizou mais de 200. morte ou exílio da maior parte das lideranças. o inesperado entusiasmo político dos jovens em 1992 gerou amplo comentário e debate. perseguição. só a metade dos jovens esperados tirou o título de eleitor. Jornal da Tarde. Salvador. que começou com a campanha pela reforma universitária e se radicalizou ao longo de vários anos de confronto com a ditadura militar. Sugiro aqui que a análise sistemática de “redes” interpessoais e organizacionais. Surgiram comparações nostálgicas com a oposição estudantil dos anos 60. muitas das quais entraram em grupos clandestinos de resistência armada durante os anos 70. partidos políticos.000 a 40. focalizando a “multivalência” de discursos e ações. Brasília.000 pessoas em São Paulo. eles pegaram a maioria dos brasileiros (incluindo os próprios jovens) de surpresa.000 no Rio de Janeiro. Quando a constituição de 1988 estendeu o voto para jovens de 16 anos. 2 “geração shopping center”. não foi por coincidência que as manifestações A pesquisa de McCann Erikson sobre os jovens brasileiros faz parte de um perfil maior da juventude na America Latina. Precisamos de uma nova ótica teórica capaz de englobar a multiplicidade de relações e significações sociais.

Apesar da evocação da mémoria de 68. socialistas ou liberais. Ratazanas da política procuram aproveitar de manifestantes ingênuos… Nos 60. outra diferença notável em relação aos anos 60 foi a subordinação dos discursos tradicionais da esquerda à linguagem mais expansiva e universalizante de “cidadania. a FIESP está presente. a participação entusiasmada dos jovens nas passeatas pelo impeachment — organizados pelas entidades estudantis. que cativou a audiência jovem com seus personagens simpáticos e sua visão romântica do movimento de 68. há fortes diferenças entre os dois episódios de mobilização juvenil. não fique aí parado” (…) Saldo do dia: estudantes mortos. Profissionais do ramo distribuem banderinhas de partidos de oposição. 19/9/92). Não há compromissos ideológicos vinculados aos padrões marxistas. o “Globo Repórter” dedica uma hora. enquanto as bandeiras da moralidade pública e da “ética na política” ganharam força na imprensa.Ann Mische anti-Collor aconteceram no final da mini-série da Rede Globo Anos Rebeldes. e se o presidente da cadeia de lojas 7-Eleven ou a diretoria da Nike visitarem o Brasil. e divulgados pela grande imprensa — não pode ser chamada de “independente” ou “espontânea”. a visita do banqueiro Rockefeller gerou protestos: criticavam a presença no país do representante de imperialismo. o que fica evidente no ceticismo deste comentário jornalístico: Nos anos 60. sejam contratados por políticos em campanhas. para nova “onda teen”. de ambulâncias a bombeiros. presidente do histórico Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: Retoma. representativo dos interesses dos estudantes. as palavras de ordem viram jingles. os jovens estavam participando — pelo menos em teoria — não como radicais ou conservadores. policiais feridos e quebra-quebra nas ruas. Hoje. pois eles receberam amplas formas de apoio oficial e não-oficial. nas organizações civis e nos partidos de oposição. a repressão ajuda a interromper o trânsito. Mas há democracia. que não arredam o pé da frente do palanque. Há um aparato que garante a segurança dos manifestantes. Nesse clima. a liderança sobe nos palanques montados pela prefeitura e pelo governo do Estado. Nesse sentido. Esse redirecionamento no sentido do discurso universalizante de cidadania é evidente na declaração de Marco Aurélio Chagas Martonelli. Enquanto as mobilizações anteriores foram conduzidas num campo político polarizado entre o Estado militar e a oposição estudantil. (Marcelo Rubens Paiva. membros de grupos políticos. o ME seu papel político. Embora não seja verdade que os compromissos marxistas estivessem completamente ausentes das manifestações pelo impeachment. conseguindo manter a unidade provisória na medida em que deixou de lado as questões mais conflituosas sobre o futuro social e econômico do país. e certamente serviu como inspiração nas semanas exaltadas de agosto de 1992. reencontrando caminhos para a concretização da cidadania no 136 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . tentando resgatar a “democracia-emformação” da herança de corrupção e impunidade pública. o governo ficou mais e mais isolado. assim. para chamar atenção e buscar adesão do povo: “Você é explorado. Depois da revelação de uma extensa rede de patrocínio coordenada pelo assessor Paulo César Farias. Folha de São Paulo. Isso tocou numa grande reserva de frustração pública com o clientelismo e a corrupção crônica do sistema político. mas como “cidadãos-emformação”. periga serem convidados a subir no palanque.” O discurso do Movimento pela Ética na Política focalizou a defesa das instituições democráticas (as ditas “regras do jogo”). as passeatas eram na hora do “rush”. os rostos estão pintados. mas não mostrava imagens (…) Nos anos 90. apoiados pelos partidos e entidades civis. e. Um tom oficial entra em choque com a espotaneidade juvenil. em horário nobre. à noite. os caras pintadas foram atores privilegiados em uma ampla mobilizaçao da sociedade civil e política contra o governo Collor. Suspeita-se que alguns manifestantes. o Reporter Esso falava do clima de guerra civil no centro da cidade. À noite. ou até como “estudantes”.

A juventude reage com indignação e exige punição. (Folha de São Paulo. nas ruas. O impeachment do presidente é ponto de honra para qualquer cidadão. (Veja. a quase totalidade dos estudantes que tomaram a Paulista não pertence a nenhum partido e jamais participou de uma reunião política na vida. será o verdadeiro divisor de águas da História brasileira. as lideranças das entidades estudantis. O povo indignado deveria fazer uma tomada do Planalto. então presidente da UNE e militante do PC do B. eles foram os primeiros a ir às ruas defender o impeachment. e da política neo-liberal do governo Collor: Revista Brasileira de Educação 137 . de cuja probidade eu duvido. o movimento estudantil pode se reorganizar e assumir seu papel político institucional. embora se esforçando para parecer apartidárias e representativas de amplos setores da juventude. como na seguinte reportagem da Veja: Na verdade. não como privilégio. porém com implicações divergentes. 24/8/92) Na mesma linha. o coronel Dias também procurou subdimensionar o potencial político do movimento. viram na nova cidadania dos jovens o renascimento de uma consciência crítica mais ampla. Por exemplo. como foi a tomada da Bastilha. e a possível revitalização da atividade estudantil organizada. na qual dois mil estudantes foram presos). Nas palavras de Lindberg Farias. Eles marcharam. já não têm força para organizar o que quer que seja. É uma juventude politizada.) que simplesmente não aceitam que seu país seja assaltado impunemente por corruptos. por- Em contraste marcante com o minimalismo político e a indignação puramente “ética” dos comentários conservadores. jogando um papel importante nas mobilizações a favor do impeachment. e continuarão marchando. Assim. o coronel Erasmo Dias. A CPI do PC desvendou para a juventude um quadro cruel: o estado de decomposição moral de nossas elites e os sinais de desagregação social que nosso país enfrenta. (Estado de São Paulo.De estudantes a cidadãos país. deputado federal pelo PT em 1992 e presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo em 1968. celebraram a emergência de uma nova politização entre os jovens que indicava seu maior desejo de participação política. (Folha de São Paulo. A politização dessa juventude se dá no processo. 15/8/92) Porém. querendo participar. Por outro lado. focalizando a falta de experiência política e a indignação espontânea dos jovens. declarou seu forte apoio ao movimento de 1992: A sociedade precisa unir-se para dar um basta à atividade criminosa no governo federal. 31/8/92). contrariando a interpretação de que as manifestações juvenis foram ligadas ou coordenadas por grupos organizados da esquerda: Esses grupos. a multivalência do conceito o sujeita a interpretações múltiplas e as vezes contraditórias. a grande impresa enfatizou o caráter apartidário do movimento. Essa é uma bandeira extremamente política. 9/9/92) Mas apesar do universalismo da noção de cidadania. Numa linha parecida. (Folha de São Paulo. deputado estadual pelo PDS e ex-secretário de segurança pública (que comandou uma violenta invasão da PUCSP em 1977. independente de qualquer ideologia. atores diversos — desde militantes e intelectuais da esquerda até políticos conservadores e comandantes militares — puderam fazer afirmações entusiasmadas sobre a “nova cidadania” dos jovens. as entidades estudantis — lideradas por jovens militantes de partidos da esquerda — tentaram ligar a participação de estudantes “como cidadãos” a uma crítica mais ampla da injustiça social. políticos e intelectuais da oposição. muitos deles lideranças estudantis no passado. Aí é que vai aprender a resgatar os valores democráticos. mas como pressuposto básico para a democracia. apóia o impeachment e pode ser o estopim da mobilização contra Collor (…) Em sintonia com a juventude. 15/8/92. Instituir-se a ética na política. da crise econômica. Segundo José Dirceu.

” (Melucci. desemprego. junto com a experiência prévia em outros grupos organizados. que influiram no recrutamento para a Comuna de Paris em 1871. alguns pesquisadores de movimentos sociais estão incorporando o trabalho recente da análise de redes (“network analysis”) que enfatiza o caráter relacional — em vez de puramente categórico ou atribucional — de identidades. o plano de desmantelamento do estado público (…) Continua a rebeldia característica de juventude. O problema principal é como reconciliar as pressuposições estáticas. A formação de identidade: redes e projetos Um dos problemas com as tentativas de explicar a participação política de jovens é a utilização de modelos estáticos e deterministas de influência social. de “cidadão” nos anos 90.Ann Mische Descontração. Roger Gould (1991. tudo se faz para manter o plano “neo-liberal”. 1994). das instituições. Por exemplo. uma análise dessas mudanças requer uma reformulação teórica do vínculo entre as relações sociais e a dinâmica cultural da formação de identidades e projetos. tanto de bairro como de grupos organizados. (Panfleto de UNE/UBES. quanto na organização social e política da sociedade brasileira. Entre o espontaneísmo dos conservadores e a exaltação dos grupos organizados. precisamos de outros instrumentos de análise mais flexíveis. indicativa de mudanças estruturais e culturais. o povo e a juventude no maior sufoco. 1995) demonstra que foram os laços múltiplos. De cara pintada a juventude demonstrou estar disposta a construir um país diferente. a compreensão dessa “nova cidadania” apresenta um desafio para a pesquisa e a análise. impunidade. A capacidade de nos revoltarmos frente à injustiça. categóricas e substancialistas da palavra com uma visão dinâmica. Um comentário de Alberto Melucci. Se existiu manipulação (de vários lados). baseadas em redes sociais (Wellman e Berkowitz 1988. é necessário analisar as transformações nas redes interpessoais e organizacionais nas quais os jovens se encontram. são os fatores mais importantes que influem no compromisso político dos jovens. e a multiplicidade das experiências e interações sociais. capazes de compreender o dinamismo. teórico dos “novos movimentos sociais”. de cada um (…) É fome.. Com interpretações tão contraditórias sobre a participação dos jovens nas manifestações de 92. No país de abundância. Sem subestimar os efeitos reais de normas e de classes sociais. que explica o comportamento dos jovens como a internalização de normas pré-concebidas. Porém. a contingência. Tais modelos têm várias versões. irreverência e rebeldia tomaram conta das ruas. e como as estruturas diferenciadas dessas redes influenciam na articulação de projetos pessoais e sociais. que reduzem a ação e os interesses do jovem à sua posição nas relações de produção. Da mesma forma. desde a teoria funcionalista de socialização. da moral dos bons costumes. como poderemos medir as verdadeiras dimensões desse momento de participação juvenil? Não queremos tampouco cair no ceticismo de atribuir o fenômeno dos caras pintadas somente à manipulação pela mídia ou pelos partidos políticos. e que ameaça a própria existência do país. 1988) demonstra que os laços prévios entre estudantes recrutados para o movimento de direitos civis nos anos 1960.. até as análises mais estrei- tas de classes sociais. recessão. complexa e contraditória. A noção de “identidade” em si já coloca uma série de dificuldades teóricas. 1994). e por isso pouco adequada para a análise processual que estou defendendo. livre desta quadrilha que assaltou o Palácio do Planalto (…) Uma crise que vai além da falta de ética. Emirbayer e Goodwin. Gould introduz o conceito útil de “identidade parti- 138 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . aponta para as tensões inerentes ao conceito: “A palavra ‘identidade’ é inseparável da idéia de permanência. processual e interativa. tanto nas vidas e perspectivas dos jovens. 8/92). Doug McAdam (1986. também houve uma experiência orgânica importante. White 1992. arrocho. Para entender as mudanças históricas que levaram os jovens da identidade participativa forte de “estudante” nos anos 60 à nova identidade. Na tentativa de achar uma saída parcial para esse dilema.

Nesse sentido. Essas experiências também têm um impacto na emergência de novos “estilos geracionais”. baseada na comunidade urbana. eles estabelecem compromissos (ainda provisórios) com laços sociais e significados coletivos. havia uma mudança da identidade participativa baseada em classe social na Revolução de 1848. como por grupos de idade. Também implica que em qualquer momento. Para resgatar esse aspecto. familia — dão visibilidade social às dimensões específicas de ex- periências que são relevantes naquele círculo. objeto dos “apelos” dos mobilizadores. não reconhecidas. as forças de formação estão apenas vindo a ser.” Esse conceito abarca a dimensão intersubjetiva de redes sociais: cada rede representa um repertório mais ou menos delimitado de reconhecimentos coletivos. Identidade como reconhecimento O primeiro passo nessa nova conceituação é a potencialização de identidade. como Mannheim demonstra: “Na juventude. que dão sentido e direção aos laços sociais. Embora esses trabalhos representem avanços significativos na compreensão do caráter múltiplo e interativo de identidades. dando direção às ações além de definição aos grupos. às vezes. Mannheim enfatiza que não é apenas a posição social que determina a emergência de uma identidade geracional distinta. 13. mas também são as experiências e orientações coletivas dentro de um dado contexto concreto que criam o potencial para formas diferenciadas de reconhecimento. de trabalho. na França. dentro do que Pizzorno (1986) chama de “círculos de reconhecimento. como classe. não é apenas o atributo ou a posição social que determina a identidade. a participação no movimento e as mudanças históricas da época. Por isso não conseguem focalizar o processo fluido e contingente da formação de identidades na interação dinâmica entre o “ciclo de vida” da pessoa. é preciso analisar como elas interagem com o ciclo de vida da pessoa. ou nacionalidade. 296). efetivas e relativamente “fixas” apenas quando reconhecidas publicamente por outros. e por isso relativamente invisíveis nas superfícies de interações públicas. Como Erikson (1968) e outros mostram. Revista Brasileira de Educação 139 . raça. que terão um impacto crítico nas suas opções ao longo da vida. para uma outra identidade na Comuna de 1871. procurando reconhecimento no meio de diversos “círculos” (ou redes): família.” Isso é facilitado pela participação em “grupos concretos. por exemplo. gênero. Identidade como experimentação Para entender a dinâmica temporal de identidades como influência na ação coletiva. Ele demonstra que tais identidades podem ser reformuladas a partir de uma reestruturação das redes de trabalho e comunidade. grifos no original). escola.De estudantes a cidadãos cipativa”. a juventude é um período sensível na formação de identidades. colegas. Ainda sofrem de uma visão substancialista e determinista. é necessário um conceito de identidade como focalizador de projetos. Durante esse período de experimentação. em que a vida é nova. atividade política. vendo identidade como algo pré-existente nas relações sociais. e atitudes básicas no processo de desenvolvimento podem se aproveitar das forças moldantes de novas situações” (Mannheim 1952. esses atributos são simplesmente identidades possíveis. bairro. Na realidade. pois é necessário que as experiências comuns estejam sujeitas à reflexão consciente dentro de situações históricas de “desestabilização dinâmica. muitas dimensões de relações — junto com laços ou identidades possíveis — são desarticuladas. Embora a “estratificação da experiência” esteja condicionada tanto por classe social. em que as pessoas experimentam várias expressões públicas. entre a multiplicidade de conexões que poderiam ser feitas. referente à “identidade social que um indivíduo assume em uma dada instância de protesto social” (Gould 1995. atividades de lazer e. que se tornam visíveis. Redes diferentes — por exemplo. eles oferecem apenas uma solução parcial à problemática desse conceito. trabalho. escola. O que normalmente entendemos com essa palavra são as qualidades agregadas de categorias sociais.

No início da década. Não é apenas a pergunta “quem sou eu?” que os jovens procuram responder enquanto experimentam expressões de identidade. culturais e políticos mais diversos. que levam os jovens a experimentar diferentes futuros possíves. segundo os projetos emergentes dos atores. de 1960 a 1968. Embora a porcentagem dos 140 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . esse mundo estava no meio de uma reconfiguração importante. Meu argumento básico é que o período anterior. é caracterizado pela dispersão crescente das redes juvenis. Em contraste. devido ao influxo da classe média no ensino superior do país. Mudanças estruturais e culturais: 1960-1990 Como será que esse conceito mais dinâmico e interativo de identidade pode nos ajudar na com- preensão da participação dos jovens brasileiros em episódios diferenciados de ação coletiva? Utilizaremos essas formulações na análise das diferenças históricas entre o movimento estudantil dos anos 60 e os caras pintadas dos anos 90. qualificada pela noção mais abrangente de “cidadão”. os jovem também têm algum espaço de escolha.” Concentração de identidade: os anos 60 Para acompanhar essa transformação. mas resultou da estrutura específica de suas redes sociais. na tentativa de entender como os jovens foram levados da identidade participativa de “estudante” no movimento anterior a uma outra identidade participativa. Daí a necessidade de uma identidade mais abrangente (e ambígua). mas também “por onde vou?” Embora as carreiras e trajetórias abertas aos jovens estejam estruturadas pelas posições de classe e pelas instituições sociais e políticas. mas acontecem em contextos sociais. 1994). com mais ou menos receptividade às identidades e projetos pré-concebidos que são oferecidos pela sociedade. evidente no universalismo formal de “cidadão. usados pelos atores para dar direção e forma à ação futura. Experiências dentro de vários locais sociais criam as oportunidades e barreiras. 307). Isso não se deve a uma lógica intrínseca ou “destino histórico” de estudantes como categoria social. é necessário prestar atenção à estrutura do mundo juvenil universitário nos anos 60. as determinições de quem pertence ou não a uma dada categoria ou grupo. invenção de caminhos e direções de vida. oferecendo possibilidades para a fusão de projetos pessoais e coletivos que atravessam círculos e redes sociais. Muitas vezes as soluções encontradas implicam em uma fusão de múltiplos “projetos-em-formação”. a categoria de “estudante” não tem a multivalência necessária para servir como um prisma para a diversidade de projetos-em-formação dos jovens nos anos 90. Dá-se pouca atenção ao papel de identidades como mecanismos de orientação. esperanças e frustrações. dentro de uma dinâmica radicalizante de oposição política. serviu como um nexo para a concentração de identidade. quer dizer. em 1992. nos anos 80 e 90. mais importante ainda. manobra e. cristalizados numa dada identidade social. Identidades não são apenas categorias sociais que em si dão estrutura e sentido às redes sociais. às vezes. mas são mobilizadas de forma seletiva. o período posterior de reestruturação democrática. A identidade forte de “estudante” se tornou um prisma para múltiplas dimensões dos projetos emergentes dos jovens da classe média universitária. englobando um campo maior de possíveis (e às vezes contraditórios) projetos pessoais e coletivos. pelos quais eles tentam resolver conflitos e criar novas oportunidades de ação (Emirbayer e Mische. Por isso.Ann Mische onde a estimulação mútua numa unidade próxima e vital inflama os participantes e os ajuda a desenvolver atitudes integradas adequadas aos requisitos de suas posições comuns” (p. nas universidades. Identidade como orientação Outra limitação do conceito de identidades é uma tendência a focalizar seu aspecto delineador. Assim as identidades funcionam mais como prismas do que como fronteiras. concentradas principalmente na família e. Os anos formativos dos jovens não são limitados à familia e às universidades.

que. o jovem está. Até 1971. Essa rica interatividade nas universidades cruzou. A direção do ME estava saindo de uma po- Revista Brasileira de Educação 141 . o aumento da demanda pelo ensino superior entre a “nova classe média”. 4 Enquanto os jovens passavam do círculo restrito da família para as redes mais complexas da universidade. reconhecendo os contornos de uma condição alienada. Naquele momento. a grande maioria instituições públicas (Cunha. esse setor se achava em plena expansão. cultural e política do país.387. durante a tumultuada década de 60.253 estudantes matriculados em 1945.4 Dentro desse quadro. 1987. tal como se formula no plano da experiência familiar. a identidade estudantil se investia com novas e autônomas significações. “o atendimento da demanda de ensino universitário por parte do Estado populista”. municipais e estaduais) e criava grandes centros universitários. mesmo quando não consubstanciada no movimento estudantil. político e cultural. 1983. 35). esse número aumentou para 561. por um lado. como futuro profissional. muitos estudantes se juntaram às discussões e manifestações pela reforma universitária no início da década. (Foracchi. Marialice Foracchi descobriu uma alta incidência de estudantes da primeira geração universitária. Cunha (1983). passando pelo projeto de constituição de uma cultura nacional popular do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE. 1977. para garantir acesso ao novo setor burocrático das empresas privadas e estatais. que começavam a ter um papel importante na vida intelectual. que não foram equipadas para atender ao influxo dramático de jovens de classe média. e a formação de “projetos de carreira” que melhor expressam seus desejos de autonomia e participação dentro do contexto do desenvolvimento nacional do país: Transformando-se em estudante e procurando dar sentido renovador ao seu projeto de carreira. com uma nova configuração nas redes organizacionais dos militantes estudantis. 85). começando no final dos anos 50.386 em 1964. que removeu as barreiras ao ensino superior enquanto aumentava o número de vagas nas universidades públicas e gratuitas (Martins. pelos festivais de música universitária e pela tropicália: são culturas e estilos de vida identificados aos meios universitários. que para muitos foi o ponto de partida para uma postura crítica e um engajamento maior.De estudantes a cidadãos jovens no ensino superior continuasse minúscula em relação ao conjunto juvenil do país. 65% da matrículas eram em universidades. Desiludindo-se com as condições inadequadas do ensino nas universidades. Foracchi demonstra como a ambigüidade da categoria de “estudante” serve como veículo tanto do projeto familiar de ascensão social.). incluindo. o que significa um crescimento linear anual de 12. podemos traçar a crescente importância da categoria de “estudante” nas suas passagens por diversas redes interpessoais e organizacionais. e lutando para ultrapassá-la com os recursos de engajamento de que se dispõe como estudante. constituindo uma concentração intensa de círculos de reconhecimento por parte dos estudantes: “Quase toda a vida cultural e comportamental juvenil. é constituída e se expressa no espaço universitário: das discussões existencialistas à bossa nova. quanto do questiona- mento pelo jovem das expectativas familiares. ao mesmo tempo. 299) No meio da década de 60. 1993). naquele momento. Segundo a análise de Luís A. essa expansão se deve a uma confluência de fatores. e por outro lado. vividos por universitários” (Abramo 1992. Num estudo revelador sobre os estudantes da Universidade de São Paulo em 1962. ou seja. 1983). as universidades serviram como os principais centros de intercâmbio intelectual. 94. para 142. muitas vezes de familias de ascendência imigrante. juntava os estabelecimentos isolados de ensino (particulares. um crescimento de mais de 500% ao longo da década dos 60 (Durham.5% (Cunha. Esse aumento de vagas se deu por meio da “federalização” do sistema universitário. aumentando de 27.

Para resumir. engajados em projetos revolucionários de transformação social. é mais fácil convencer um estudante de que ele deve ser contra a ditadura. Depois do golpe de 1964. O reconhecimento e aprendizado social dos estudantes. na década anterior. 1987). quanto a identidade empolgante dos estudantes como “sujeitos da história”.Ann Mische larização.5 Embora a sede da UNE no Rio de Janeiro tenha sido invadida e incendiada. 2). e sensíveis aos reclamos de um meio que muito bem conheciam. o ME sobreviveu inicialmente depois do golpe militar devido à posição ambígua dos estudantes da classe média. e os grupos vanguardistas da esquerda. se viu de novo uma convergência de lutas específicas do meio estudantil — como a crítica ao projeto MEC-USAID e a retomada das bandeiras da reforma universitária — com as lutas políticas mais gerais. as organizações católicas canalizaram a insatisfação da juventude da classe média. 2). do que era antes convencê-lo que ele deveria ser contra o capitalismo” (Foracchi 1982. ao mesmo tempo que expandiam o apoio entre as bases estudantis. O início dos anos 60 foi marcado pela ascendência da juventude católica. Como uma liderança estudantil comentou. ocasionados pelas manifestações de massa e os conflitos com a polícia. hegemonizados pelo Partido Comunista. na Ação Popular (Souza. ajudando a superar a distância entre essas bases e os grupos vanguardistas: “Melhor do que elas. 1994). Segundo João Roberto Martins Filho. Essas viagens foram dinamizadas pelas apresentações culturais do recém formado Centro Popular de Cultura (CPC da UNE). Durante os primeiros anos da ditadura. diferente do movimento sindical e camponês. as universidades foram os únicos espaços que restaram de oposição visível e organizada. o movimento continuou a crescer durante os anos subsequentes. e as entidades estudantis autônomas banidas (substituídas pelos “diretórios” atrelados ao Estado). 1984). quando as lideranças se radicalizaram e sairam daquela entidade. embora a derrota da greve resultasse no delocamento do interesse da militância das lutas “específicas” universitárias para a busca de alianças “políticas” com setores operários e camponeses (Martins. a liberalização cultural e a alta seriedade político-moral que caracterizou o movimento juvenil internacional que estava explodindo em várias partes do mundo. vividos principalmente pelos jovens universitários. através da dinâmica do confronto com o Estado militar. o movimento estudantil (e a categoria de “estudante”) ganhou uma nova forma de reconhecimento. embora logo em seguida ficaram disiludidos com a perda da democracia (Martins. a participação maciça dos estudantes na greve de 1962 “cristalizou um momento da convergência entre a ‘vanguarda’ estudantil e a massa universitária” (Martins 1994. “hoje. entre os grupos udenistas/liberais. Além disso. os contextos interpessoais. que aumentaram a receptividade dos jovens aos mensagens políticas. A “atualização” dessa identidade (para usar Alguns comentaristas argumentam que. e à ascendência. contra a ditatura e a interferência norte-americana no desenvolvimento do país. formando o dito “grupão”. de setores “liberais” à liderança estudantil em vários estados. Ao lado da radicalização crescente dos setores militantes. 1987. 1994. 63). Lima e Arantes. carregaram a identidade de “estudante” com significados múltiplos capazes de ligar uma variedade de projetos-em-formação. o clima foi permeado pela utopia social. ideológicos e políticos dos anos 60. onde os diretores da UNE viajavam aos estados para discutir as reformas e mobilizar a “greve do 1/3” pela democratização interna das universidades. nos anos 196466. que controlavam a UNE de 195055. souberam levantar a bandeira da “Reforma da Universidade” (Martins 1994. 5 142 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . organizada primeiro na JUC e depois. Essas lideranças conseguiram se compor com diversos grupos da esquerda marxista. aguçaram tanto a crítica do Estado militar (e seus laços com o imperialismo capitalista). Nos anos que dirigiu a UNE. esse grupo ajudou a intensificar o intercâmbio político e cultural nas universidades por meio da UNE-volante. onde no começo simpatizaram com o golpe.

o meio universitário viveu seu próprio processo de diversificação. o número de matrículas no ensino superior cresceu de 561.. das 918 instituições de ensino superior. formadas nas escolas públicas e particulares. os jovens brasileiros enfrentam uma outra configuração.) estenderam a identidade jovem para uma parcela maior da sociedade” — entre as quais se destacam o rejuvenescimento (e monetarização) do mercado de trabalho. nos lugares de trabalho.565. o enfraquecimento da noção de cultura alternativa como modo de contraposição ao sistema. altamente ligadas ao consumo e aos “estilos” culturais. e a difusão do sistema crediário. estendendo seu alcance além dos setores médios e abrangendo outras significações. a penetracão dos meios de comunicação de massa. 8). e a emergência de uma intensa vivência.1986). 1993. De 1971 para 1991. no início da década. nos clubes noturnos. facilitando o acesso ao consumo para jovens das classes populares (Madeira. 1994). 10). ou geração dos estudantes. através de redes densas e concentradas. A diversificação da experiência da juventude. em vez de universidades centralizadas6. exemplificado no demantelamento da Faculdade de Filosofia da USP na Rua Maria Antonia. Ao mesmo tempo. 1993). 6 Revista Brasileira de Educação 143 . a identidade juvenil se desloca para fora das universidades. é confirmada por estudos recentes sobre os jovens brasileiros durante a “modernização conservadora” dos anos 80: Descortina-se uma nova configuração do universo juvenil: a crise do espaço universitário como significativo para a elaboração das referências culturais. Uma mudança crítica é que as universidades — e o movimento estudantil — já não se constituem como os centros da vida cultural e política juvenil.De estudantes a cidadãos o termo de Mannheim) e sua capacidade de cristalizar um “estilo geracional” emergente não eram “inerentes” à posição de familia.056.. localizando-se com maior frequência em faculdades isoladas. O excedente de demanda pelo ensino superior que começou a se manifestar no final dos anos 60 foi absorvido em grande parte pelo setor privado. as décadas intermediárias dos 70 e 80 visavam “uma série de modificações que (. que dificultam a organização política. por parte dos jovens das camadas populares. de seus contextos relacionais e culturais. relativamente restrita e delimitada. nos “shopping centers”. As universidades públicas também foram decentralizadas. mas dependia dos processos de aprendizagem social que ocorriam em vários “círculos de reconhecimento”. no campo de lazer ligado à indústria cultural. bastante diferenciada. 1993. que nos anos 60 foi sede de uma intensa interatividade político e cultural. ocasionando a radicalização de uma identidade que fôra. (Abramo. nos bairros e ruas. cultura e sociabilidade (Abra- A proporção de estudantes matriculados nas instituições particulares subiu de 44.397 para 1. embora houvesse uma estagnação do crescimento durante os anos 80 (Durham. e em outras espaços de lazer. 82) mo. Dispersão de identidade: os anos 90 Três décadas depois do desmantelamento brutal do movimento estudantil dos anos 60. Com a crise da esquerda. Em contraste com os anos 60. classe. e sua substituição pelas faculdades fragmentadas e isoladoras da Cidade Universitária. “Ser jovem” não é mais equivalente a “ser estudante”.30% em 1991 (Durham. dos quais 582 eram particulares (Durham. 1995). no início dos anos 90 a porcentagem de instituições privadas establizou-se em torno de 75% do total (Sampaio. Sposito. os jovens agora passam seus anos formativos em redes mais dispersas. especialmente com a extensão da “cultura jovem” para jovens trabalhadores e das periferias.05% em 1961 para 61. o aumento das oportunidades de estudo. 1994. o fim da ditadura como fator unificador e a abertura de espaços alternativos para participação política. 1992. 749 eram estabelecimentos isolados. 1993. Costa. Segundo Felícia Madeira. o movimento estudantil perde seu monopólio na mobilização juvenil. Em 1990.

tanto para os militantes juvenis como para as juventudes mais amplas. partidos. Essa diversificação das redes de estudo. Os jovens testemunharam as crises e escândalos recorrentes do retorno ao governo civil. criando novos conflictos e oportunidades vindo da superposição de diferentes projetos e estilos de intervenção. uma característica que atravessa atributos como gênero e classe social. influindo tanto nas relações entre os grupos. as condições de trabalho e as redes de sociabilidade também se diversificaram. Mais recentemente. Desses alunos. Esses vestígios foram especialmente visíveis para os estudantes na resistência de muitas direções escolares aos grêmios estudantis e na repressão às greves dos professores no final dos anos 80.4% nas universidades particulares (Sampaio. 1996b). Porém. s. desde os movimentos dos negros e homossexuais. Aponta. vimos como as redes interativas dos jovens — junto com os contextos culturais-ideológicos para a formação de identidades — se diversificaram durante os anos 90.d. Ruth Cardoso e Helena Sampaio anotam que mais da metade dos alunos pesquisados trabalham. por outro lado.d. enquanto nas escolas isoladas privadas esse número diminui para 12%. de diversas classes sociais. o movimento estudantil tem se engajado num processo conflituoso de reconstrução. e formando quadros importantes de lideranças comunitárias e par- É interessante notar que a preferência de sociabilidade varia de acordo com o grau de centralidade ou isolamento das escolas: nas universidades públicas. para a falta de espaços centralizadores ou de identidades públicas unificadoras. Numa pesquisa recente sobre universitários em São Paulo e Campinas. Esses fatores confluiram para sustentar uma ambivalência forte sobre a política. movimentos populares. Nesse período. Para muitos jovens. outros grupos juvenis estão emergindo.). Ao mesmo tempo. trabalho. junto com uma recessão econômica que sufocou as aspirações de muitos jovens. sindicais e anti-discriminatórios. Porém. incluindo partidos políticos. também se vê uma complexificação marcante das formas de participação social e política. até as associações de área e as empresas juniores. a perplexidade diante desse quadro foi intensificada pelas incertezas e frustrações da década anterior de transição democrática.)7 . s. chegando a 5. e sociabilidade expõe os jovens a influências e pressões diversas. distanciada da população jovem mais ampla. junto com as contradições de verem os discursos e formalismos democráticos (incluindo uma nova constituição) ao lado dos vestígios de autoritarismo. embora varie significamente por curso universitário (Cardoso e Sampaio. 7 tidárias. como nas dificuldades de atrair mais jovens para a participação política organizada (Mische. embora ficasse politicamente marginalizado durante a maior parte dos anos 80. 20% saem com pessoas das escolas. viviam a ansiedade da inflação crônica. localizadas nos cursos universitários. Jovens com algum interesse político agora podem escolher entre muitas formas alternativas de militância. no início dos anos 90 a PJ também se encontra em uma “crise” de reavaliação. Muitas vezes as redes dos movimentos. a Pastoral de Juventude da Igreja Católica começou a se destacar. A partir dessa breve análise. embora essas redes continuem a ser densas e entrelaçadas. essa ambivalência não significa necessariamente que os jovens fossem acríticos ou apáticos. capazes de transformar suas críticas so- 144 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Essas tensões permeiam o campo político-juvenil nos anos 90. exigindo um certo jogo de coordenação e segmentação entre os diversos envolvimentos. focalizando os anseios e esperanças das camadas populares. No meio dos grupos organizados. 1994). um ceticismo sobre a possibilidade de mudanças institucionais e uma tendência à paralisia política. e outras organizações se cruzam. 48% se socializam com mais frequência com pessoas fora da escola. e apenas 12% dão preferência aos amigos do meio escolar (Sampaio. Desde seu reaparecimento nas manifestações pela democratização no final dos anos 70. organizações nãogovernamentais e associações profissionais.Ann Mische Entre os estudantes dessas faculdades. embora 26% saiam com pessoas dentro e fora da escola.

na verdade. que eles vêem como distantes de suas preocupações e aspirações. que virou herói popular em decorrência das manifestações.De estudantes a cidadãos ciais — muitas vezes agudas — em ação coletiva. a simpatia. como aconteceu em agosto de de 1992. ou em outros movimentos e organizações. As pessoas que servem como pontes efetivas são aquelas que podem evocar sua multiplicidade de laços (e identidades) para serem “vistas” em uma variedade de contextos sociais. posicionados no cruzamento de vários contextos sociais. que controlara a direção da UNE desde a reconstrução da entidade em 1979 (com exceção dos anos 1987-1991. e assim viabilizar oportunidades para conexão e ação conjuntas de diversas pessoas ou grupos. quanto os laços mais amplos com outros setores juvenis. Durante as manifestações pelo impeachment. alguns interlocutores novos entraram em cena que foram capazes de renovar tanto os vínculos fortes dentro do ME e da esquerda. experimentais e. ainda não explica por que a categoria de “cidadão” surgiu como alternativa efetiva. no caso de jovens que são simultaneamente lideranças no movimento estudantil. porém. tais interlocutores podem também colher benefícios próprios dessas ar- ticulações. Lindberg também foi militante do PC do B. precisamos examinar como a articulação de identidades e projetos atravessa redes distintas. embora as vantagens possam tomar a forma não-material de liderança ou status dentro das várias redes conectadas através deles. essas conexões não implicam necessariamente em uma correspondência de objetivos entre todos os setores ligados. as redes de liderança são extremamente interligadas. No contexto brasileiro. Para entender essa dinâmica no contexto da diversificação das redes juvenis nos anos 90. Contribui para a desilusão de muitos jovens com a política estudantil organizada e as entidades históricas do ME. pois só funcionam porque atores desligados reconhecem dimensões diferentes de si mesmos na identidade multivalente da “pessoa-ponte”. devido à falta de resonância com as identidades mais dispersas dos jovens brasileiros. uma ponte importante se constróoi por meio do fenômeno da “militância múltipla”. embora possibilitem alianças provisórias e conjunturais. com identidades múltiplas. nos partidos políticos. que assim serve como um “prisma” para projetos diversos. Como qualquer intermediário. pois aparece quase como uma necessidade estrutural dentro da complexa organização da sociedade civil e política dos anos 90. tanto interpessoais como organizacionais. quando foi dirigida majori- Revista Brasileira de Educação 145 . é importante reconhecer que o caráter denso e entrelaçado dessas redes — onde os militantes falam muito entre si e pouco para quem está fora — tem tido consequências negativas para o movimento. Mas o potencial que poderia ser mobilizado para protesto social ainda estava presente. às vezes. Nem explica a dinâmica de articulação dessa identidade no meio de uma convergência política inesperada e multifacetada. contraditórias. Facções do movimento estudantil são intimamente ligadas à participação em partidos e tendências de esquerda — um fator que não quero denunciar como falha-base. as ligações formadas são sempre ambíguas. Por isso. precisamos voltar à ideia dos círculos de reconhecimento: as identidades se tornam visíveis apenas quando reconhecidas por outros dentro de locais específicos de interação. Aqui é essencial o papel de interlocutores sociais. Um exemplo marcante aparece na pessoa de Lindberg Farias. como fazem muitos outros críticos. Para entender esse processo. Com efeito. onde o engajamento nas “lutas institucionais” faz parte das estratégias e repertórios dos movimentos sociais. Apesar das afirmações da “autonomia” dos movimentos e protestos contra a “partidarização” das entidades. nos grupos da igreja. Convergência e interlocução Embora essa análise das configurações juvenis explicasse a ressonância reduzida da identidade estudantil nos anos 90. Porém. a indignação e o entusiasmo dos jovens poderiam ser tocados de forma inesperada. Ao mesmo tempo. os laços fortes e identidades restritas dos militantes têm reforçado uma tendência ao auto-isolamento do ME.

pediam o impeachment do presidente. como nas inúmeras entrevistas. essa corrente tentava focalizar as novas aspirações e frustrações dos setores médios estudantis. enfatizando a convergência de diversos setores de jovens: Eram 20 mil jovens. se Lindberg. Nas passeatas. e as experiências dispersas da geração “shopping center. e até os ex-representantes do Estado militar. A própria eleição de Lindberg como presidente da UNE se deve a uma mudança explícita de estratégia dentro do ME. ele abraçou seu papel de pessoaponte. Como já vimos. eles também foram usados por atores e forças distintas — e muitas vezes alheias — a seus próprios projetos políticos. que estaria mais voltada para cultura. Estudantes pesquisadores. embora enfatizassem a visão espontaneista e puramente ética da cidadania. aparecendo nas manifestações (e na mídia) como figura simpática e inteligente na qual os jovens de classe média poderiam reconhecer suas próprias experiências e aspirações. O papel da imprensa foi especialmente importante aqui. Nas outras alas da militância. surgiu uma discussão paralela sobre as novas preocupações dos jovens. é importante lembrar que Lindberg não agiu sozinho. como porta-voz emergente do movimento. Assim ele conseguiu se projetar para fora das redes militantes. represento os interesses dos estudantes brasileiros e tenho posições mais amplas” (Folha de São Paulo. Devido à sua tenacidade na disputa pelo controle das entidades estudantis. Por outro lado. nem em relação a sua própria corrente política. Todos. Diversos os rostos. articulador suprapartidário das lideranças estudantis e mobilizador-relâmpago da logística e infraestrutura das passeatas. em 1992. essa corrente conseguiu colocar Lindberg numa posição. concorreram para oferecer seus elogios aos jovens manifestantes. declarando que “como presidente da UNE.” Embora filho de ativistas políticos. Enquanto tais discussões levaram muitos militantes petistas a desvalorizar o engajamento no ME. não necessariamente concentradas nas universidades. Desde os que usavam camisas de Che Guevara até os frequentadores de shopping centers. forjando uma aliança provisória entre os comunistas e os social-democratas em nome do projeto mais amplo da defesa da cidadania. a juventude do PC do B começara a destacar uma “nova mentalidade” entre os jovens. revoltados. Já vimos como a grande imprensa. o PC do B manteve seu investimento na potencialidade estudantil. (Folha de São Paulo. junto com a UNE e os partidos políticos souberam aproveitar e canalizar a conjuntura emergente. os políticos diversos. incluindo alguns setores do PT. De tal maneira. e nas expressões culturais das periferias. que sediou o ato que fechou a primeira passeata. e com a ajuda da militância partidária. com um vocabulário jovem que ajudou a quebrar a estereotipia do militante chato e barbudo. Por exemplo. Lindberg foi a figura ideal para construir a ponte entre o movimento estudantil tradicional. ele projetou uma imagem bonita e charmosa. 15/8/92) Para não supervalorizar o papel do indivíduo. Lindberg cresceu como liderança dentro de seu papel múltiplo. junto a metaleiros e skatistas. Por causa de suas múltiplas identidades públicas. À frente da entidade histórica dos estudantes. nem em relação às outras forças ativas no movimento pelo impeachment. porém mais dispersas nos movimentos sociais e sindicais. Lindberg conscientemente subordinou sua orientação socialista. Foi a passeata do grito indignado de uma juventude que acredita na mudança no Brasil. esporte. nas escolas secundárias e nas faculdades públicas e particulares. que o permitiu desfrutar de uma explosão política que nem ele nem o partido previam.Ann Mische tariamente pelo PT). um “socialista convicto” e uma militante comunista de muitos anos. os projetos da esquerda. que estava sendo articulada nas várias forças políticas desde o final dos anos 80. Especialmente notável foi uma colaboração entre as direções da UNE e do Centro Acadêmico XI de Agosto. ecologia e outras formas mais leves e alegres de participação social (embora essa mentalidade ainda pudesse levá-los a uma crítica mais aprofundada das barreiras impostas aos jovens pelo sistema capitalista). pois 146 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . bolsistas do CNPq. 31/8/92).

é importante analisar as Revista Brasileira de Educação 147 . em redes dispersas e desorganizadas. que abro brevemente aqui como indicativas para o estudo mais amplo que estou elaborando sobre movimentos juvenis brasileiros nos anos 90. desde seu reaparecimento nos movimentos populares e sindicais no final dos anos 70. O descaso dessa mesma mídia com os projetos maiores do ME se evidenciou no ano seguinte. A mídia também operou no sentido de possibilitar que milhares de jovens. passando por sua expansão com os movimentos anti-ditatoriais e anti-dis- criminatórios (dos negros. os jovens abraçam essa identidade com conviccão e energia. etc. reforçando um processo de reavaliação interna que os militantes ainda estão tentando desenrolar. Porém. especialmente nos meses imediatamente após o impeachment. Como as redes organizacionais juvenis estão se reconfigurando. soubessem com antecedência do percurso das manifestações. 1996a). homosexuais. mulheres. nos bairros. tenham bastante ambivalência e disputa ideológica sobre o alcance e os limites do conceito. a resposta é muito mais complexa do que se imagina. como o discurso cívico também serve para estabelecer parâmetros éticos de comunicação interna entre os próprios grupos organizados. que serve. Além disso. O ME se ocupou em canalizar o influxo de energia e reconhecimento social que ganhou com o impeachment. e se evidenciam na falta de uniformidade na adoção da identidade cívica: em alguns contextos. e talvez mais criticamente. em decorrência das manifestações de 1992? Embora os caras pintadas aparentemente tivessem se ausentado do cenário nacional logo após o impeachment. como vimos acima. embora em outros. De que maneira a nova identidade de “cidadão” está funcionando como ponte-articuladora dos movimentos juvenis? Como vimos acima. quando foi lançado um ataque feroz contra o “sectarismo” e a “visão antiquada” que a imprensa visava nas entidades estudantis. e 2) da estrutura dos grupos organizados. se empolgando na tarefa de formar grêmios estudantis e revitalizar os centros acadêmicos e DCEs. Reconfigurações emergentes O ponto de partida da análise desenvolvida aqui é a necessidade de reexaminar a participação juvenil a partir da intersecção de duas óticas diferentes: 1) da estrutura relacional e cultural dos mundos juvenis num dado momento histórico. às vezes de maneira ambígua e contraditória. e ver como influem na formação de novas identidades e práticas políticas. que aumentou mil vezes o poder “prísmico” de sua posição multivalente. povos indígenas. devido às interpretações tão diversificadas do sentido e prática de “cidadania” (Mische. nos locais de trabalho e de sociabilidade. e assim pudessem se juntar a partir de mil focos informais nas escolas. dois aspectos do universalismo do conceito de “cidadania” merecem mais atenção: como essa linguagem está sendo mobilizada para articular conexões com setores mais amplos da juventude.De estudantes a cidadãos Lindberg deve sua extraordinária projeção social em grande parte à sua “adoção” como menino-dosolhos da imprensa. procuro localizar os pontos de conexão e de distanciamento entre essas óticas.). coloca-se uma questão ideológica de fundo: nesse cruzamento. A trajetória do discurso cívico no Brasil. os dados sobre a quantidade de novas entidades são bastante incertos. até sua recente apropriação pelos setores consumidores e empresariais. Contra os perigos gêmeos do espontaneismo e iluminismo. e a comprensão do papel que elas exercem nas diversas cidades e regiões do país requer um levantamento sistemático. as manifestações juvenis tiveram um forte impacto nas redes organizadas. Assim. como “ponte articuladora” na fusão de projetos pessoais e coletivos. quais projetos substantivos estão ganhando campo em relação à futura direção política e econômica do país? As divergências nesse ponto aparecem no meio dos grupos organizados. Restam três linhas de indagação. Embora o número de entidades estudantis tenha claramente aumentado. dada a heterogeneidade e complexidade do campo político-juvenil nos anos 90. revela sua capacidade de veicular projetos divergentes dentro da linguagem universalista de direitos e responsibilidades.

de ligar as preocupações e aspirações pessoais com visões mais amplas da sociedade e seus problemas. seria difícil delinear as vá- rias manifestações assumidas por essa nova “consciência de cidadania. como os movimentos sindicais. entre setores mais amplos da juventude? Essa pergunta é mais difícil para se responder. simbolizado pela entidade histórica da UNE. amplamente divulgado e celebrado nos meios de comunicação de massa. Porém. e outros setores que se organizam fora do meio escolar ou universitário. em relação à luta mais abrangente contra o racismo. não poderia passar sem deixar alguma marca nessa coorte de jovens brasileiros. Não se pode dizer que as passeatas “causaram” o impeachment do presidente Collor. Embora mais alguns se juntaram aos movimentos organizados. a maioria dos caras pintadas voltaram para suas redes dispersas nas escolas. as empresas juniores. A marginalização da questão racial na política estudantil foi salientada por universitários negros no Congresso da UNE de 1993 sob a bandeira: “A juventude negra não tem cara pintada. apesar do presidente da UNE eleito em 1996 ser negro e usar este fato como bandeira da entidade. elas ajudaram a provocar um momento dramático de diálogo social. é o movimento estudantil que aparece como movimento “específico”. Depois das passeatas. incluindo o movimento negro. Porém. pois as auto-reflexões da esquerda já estavam acon- Como fui lembrada enfaticamente por jovens universitários engajados no movimento negro. não apenas em relação às correntes políticas tradicionais. é importante indagar sobre a existência de novas maneiras de articular projetos pessoais e coletivos. trabalhos e shopping centers. 8 148 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . A pressuposição básica aqui é que um evento público de tais proporções como o impeachment. embora difusa. cujos parâmetros precisam ser melhor compreendidos. além de tentativas recentes de aproximação. mas também visando a relação do ME “geral”. embora as tendências ao corporativismo e/ou ao recuo político desses setores também precisem ser analisadas. apontam para algumas possibilidades nesse sentido. A necessidade de tal análise está colocada pelo carácter majoritariamente branco e de classe média dos caras pintadas e das lideranças estudantis. Esse processo certamente não começou com Lindberg. religiosos e comunitários. com os outros movimentos e organizações mais “específicos” (do ponto de vista do ME). 8 os movimentos de área (ligados aos cursos universitários). porém mostrando outras formas. Existem sinais do advento de uma consciência “cívica”. especialmente do ponto de vista de uma pesquisa que focaliza os grupos organizados. Meu argumento é que a interlocução social de atores como Lindberg Farias funcionou em direções diversas: ajudou a dar identidade e orientação aos jovens nos atos pelo impeachment. e a grande dispersão de identidades e projetos-em-formação. no qual os discursos e repertórios da cultura cívica podiam ser reformulados.” Para não incorrermos no retrato individualista e desinteressado da juventude. dada a diversificação das redes e setores juvenis. tanto para os jovens como para a cultura política democrática no Brasil. embora certamente contribuiram nessa direção. Conclusão As influências a médio e longo prazo das manifestações de 1992. esses ainda constituem um grupo pequeno. do ponto de vista deste. Os sinais recentes de maior interesse estudantil pelas organizações específicas de curso. ainda estão para ser vistas.” As relações muitas vezes conflituosas entre esses setores. além da emergência de várias formas contestadoras de expressão cultural. ao mesmo tempo que contribuiu para a rearticulação dos discursos e projetos dos setores organizados (da esquerda e talvez da direita também). talvez sem a grande escala utópica das décadas passadas.Ann Mische reconfigurações das relações entre os diversos grupos organizados. mais prágmaticas e delimitadas. na tentativa de cativar o engajamento de uma coorte de jovens muito diferenciada daquela de três décadas atrás. apontam para uma reformulacão (ainda em progresso) dessas relações.

Luiz A. Centro de Educação e Ciências Sociais: Universidade Federal de São Carlos. (1993). 58. New York: Oxford University Press. (1995). (1994). 23. Eunice Ribeiro. (1983). Revista Brasileira de Ciências Sociais. Erik. 1871. Mustafa. 1986. COSTA. Insurgent identities: Class. GOULD. P. MARTINS FILHO. 92. MADEIRA. (1993). American Sociological Review. (1982). Ronald. Se ele foi usado por diversas forças políticas. Doug. a inflexão de múltiplos projetos-emformação no universalismo ambíguo de cidadania serviu para criar pontes — pelo menos momentaneamente — entre as redes densas dos militantes e as redes juvenis mais dispersas. CUNHA. São Paulo: Alfa-Omega. 10. Nesse processo. A participação dos excluídos. EMIRBAYER. W. Estudantes universitários e o trabalho. What is Agency?. (1992). GOODWIN. criou-se a possibilidade de uma refocalização de discursos políticos no sentido mais abrangente de cidadania. Márcia Regina. __________. Ruth. (1994). Community. American Journal of Sociology. Revista Brasileira de Educação 149 . Os “Carecas do Subúrbio”. Os estudantes e a política no Brasil (1962-1992). São Paulo: Fundação Carlos Chagas. (Paper presented at the Conference of the American Sociological Association) ERIKSON. (1992). (1987). Rio de Janeiro: Francisco Alves. Helena Wendel. MISCHE. Structural Holes: The Social Structure of Competition. Cenas Juvenis: punks e darks no espectáculo urbano. Norton. __________. a alta visibilidade de Lindberg. Assim. como parte de um dialogo interno — às vezes doloroso — decorrente das mudanças no Leste Europeu. A universidade crítica. Campinas. (1977). (1988).De estudantes a cidadãos tecendo havia algum tempo. Marialice. Cambridge: Harvard University Press. McADAM. EMIRBAYER. Referências bibliográficas ABRAMO. FORACCHI. Cadernos de Pesquisa. O sistema federal de ensino superior: problemas e alternativas. __________. Mustafa. MANNHEIM.. Roger. SP: Papirus. Los Angeles. __________. João Roberto. Movimento Estudantil e Ditatadura Militar: 1964-1968. Porém. (1994).” American Journal of Sociology. and agency. Aldo. Multiple networks and mobilization in the Paris Commune. criou um círculo multivalente de reconhecimento. DURHAM. Jovens e as mudanças estruturais na década de 70: questionando pressupostos e surgerindo pistas. O estudante e a transformação da sociedade brasileira. LIMA. Felícia. SAMPAIO. Ann. e a incorporação desse discurso aos estilos emergentes de participação. “Recruitment to High Risk Activism: the Case of Freedom Summer. quanto para as interpretações subsequentes dessa ação no debate público. CARDOSO. Dissertação (Mestrado em Sociologia). The problem of generations. (1968). Haroldo. culture. 26. São Paulo: Scritta/ANPOCS. New York: Oxford University Press. A manutenção dessas pontes — e suas significações substantivas para o futuro do país — ficam como desafios no complexo mundo juvenil do final do século. 99:6. Keckemeti). São Paulo: Companhia Editora Nacional. August 5-9 1994. Departamento de Sociologia. (1994). Karl. Network analysis. (1994). __________. Helena. Revista Brasileira de Ciências Sociais. (1952) [1928]. (1986). Chicago: University of Chicago Press. and Insurrection in Paris from 1848 to the Commune. contribuindo tanto para a mobilização da ação coletiva. Teoria e Pesquisa. Freedom Summer. Universidade de São Paulo. especialmente entre jovens recebendo suas primeiras experiências formativas na esfera pública. (1984). 56. New York: W. História da ação popular: da Juc ao PCdoB. In: Essays on the Sociology of Knowledge (trans. Rio de Janeiro: Vozes. Identity: Youth and Crisis. (1991). ARANTES. Jeff. São Paulo: Hucitec. ele também se aproveitou de uma dinâmica que lançou aprendizados sociais em vários sentidos. BURT. dentro do clima intensificado de indignação e debate público. um prisma forte no qual os projetos políticos no processo de reformulação poderiam alcançar setores mais amplos da sociedade. Grupos juvenis dos anos 80 em São Paulo: um estilo de atuação social.

__________.). (eds. PIZZORNO. Barry. UK: Cambridge University Press.). SPOSITO. (1996b).. (1986). Some other kind of otherness: a critique of rational choice theories. In: TILLY. (1994).D. Cambridge: Cambridge University Press. (1996a). Social Movements and Culture. Sociabilidade dos jovens universitários. Notre Dame: University of Notre Dame Press. MISCHE. O’DONNELL.. Petrópolis: Vozes. O marketing do ensino superior no Brasil. (s. WHITE. Harrison. (eds. Klandermans. Revista de Sociologia da Universidade de São Paulo. B. 5:1-2. __________. (1992). Marília Pontes.).Ann Mische MELUCCI. (1995). 150 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . SAMPAIO. A sociabilidade juvenil e a rua: novos conflitos e ação coletiva na cidade. Helena. Alberto. Charles (ed). G. S. McPHERSON. 31. A JUC: os estudantes católicos e a política. (1994). democracy. Luis Alberto Gomez de. (eds. A. Redes de Jovens. identity and social history. Ann. In: FOXLEY. Minneapolis: University of Minnesota Press. M. and the art of trespassing. (Texto para discussão). Texto preparado para ANPOCS. Johnston. Alessandro. The process of collective identity. WELLMAN. Tempo Social. In:. (1984). Teoria e Debate. Identity and control. Cambridge. Citizenship. Projecting democracy: the formation of citizenship across youth networks in Brazil. Development. (1988). Social structure:a network approach. BERKOWITZ.d). H.. Princeton: Princeton University Press. SOUZA.

a partir dos próprios pressupostos que fundamentam sua identidade e sua especificidade — entre outras coisas. e finalmente de uma juventude “realista”e “pragmática” que dominou em seguida até os dias de hoje. um após outro. As constatações sobre a “crise da representação política”. antecipação do futuro. Pascal (org. Não são novos (G. 1994. a inocência da mocidade. os poderes institucionais. eles frisam. 1992). o diagnóstico do relacionamento dos jovens com a política suscita de uma forma muito particular o interesse e a curiosidade. mas têm indubitavelmente. em primeira linha. as condições da aceitabilidade ou da rejeição do sistema político vigente. 1990. o retrato de uma geração em revolta. Os jovens. a juventude cristalizaria. hoje em dia. Pois. que não tinham há vinte anos atrás. à dificuldade. a exigência das suas expectativas e de suas aspirações. um episódio marcado pelo recuo e a frieza antes do ressurgimento de uma geração “moral” na época do movimento colegial-estudante de 1986. J. e solicita com abundância os discursos sábios assim como os discursos comuns. Missika. Reflexo e espelho e ao mesmo tempo. a força de suas motivações. O estado de saúde de um sistema político e de uma organização social depende disso. Vedel. todas as categorias de população. faz uns trinta anos que os diagnósticos são mais ou menos otimistas. nos anos sessenta.Jovens dos anos noventa À procura de uma política sem “rótulos” Anne Müxel Centre d’Étude de la Vie Politique Française (CNRS-FNSP) Tradução de Ines Rosa Bueno Publicado em: PERRINEAU. os traços de uma política de aparência distorcida. engajada e politizada. de transmitir para as novas gerações. esta interrogação levaria à necessidade e. 1991).-L. depois “apática” e “despolitizada”no decorrer dos anos setenta até os finais dos anos oitenta. 1926). sobre a demanda crescente de uma “nova política”. sobre a base da crise econômica. reais e simbólicos. sofreriam mais marcadamente. assim como sobre a decomposição do sistema e a necessidade de sua “recomposição” são abundantes (Cevipof. L’Engagement Politique: déclin ou mutation? Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques. Em relação aos jovens. as mesmas constatações tocam o conjunto da sociedade. mais ou menos pessimistas de acordo com os momentos. todas as idades. Em todos os tempos e em todos os lugares.). um relevo e uma acuidade. ao mesmo tempo. ou ainda a necessidade de se tomar parte e se colocar na sociedade —. Fundamentalmente. Percheron. como um tipo de “espelho agigantador” (A. Em- Revista Brasileira de Educação 151 . que instauram e legitimam o político.

” 2 1 152 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Até hoje. assim como o dia suplementar de férias dado pelo presidente aos alunos.2 O período de observação fixado pelo protocolo da pesquisa quantitativa é relativamente longo (entre 18 e 25 anos. visando estabelecer as condições de sua inserção social e de sua experiência existencial do tempo de juventude. Nesta correria. pelo menos diferentes. A maioria tendo nascido em 1968. não só entre os jovens em questão. os prazeres e os medos que se lhe sucederam. senão novas. à profunda mudança política que representa a chegada da esquerda ao poder. De lá para cá. a diversidade de suas trajetórias sociais e familiares. para cobrir uma diversidade de classes sociais. estas paisagens políticas. atravessaram. no início de sua adolescência. Os 31 jovens do painel com quem foram realizadas as entrevistas aprofundadas que representam o lado qualitativo desta pesquisa foram escolhidos em função de um certo número de critérios pertinentes. medir sua durabilidade assim como sua estabilidae no tempo. A entrevista tinha duas partes: uma primeira parte que solicitava uma história de vida. março 1992 e março 1993. O painel constituido contem hoje 11200 jovens de 23-24 anos. mas também de critérios políticos tais como os seus niveis de interesse pela política. Müxel. da qualidade dos laços entre os cidadãos e a política assim como dos interesses dominantes que estão em jogo na sociedade. o tipo de orientação e de filiação partidária. quando da efervescência revolucionária que tocava a geração de seus pais. são objeto de muitas estórias e anedotas e fornecem uma primeira estruturação ao quadro de sua socialização política. só conheceram a esquerda no poder. Tal é o contexto em que cresceram estes jovens de 23-24 anos de idade. a oportunidade de seu primeiro voto é dada quando da eleição presidencial de maio de 1988. da política? Será que os hábitos e os comportamentos até então vigentes são substituidos por exigências e práticas próprias da geração ascendente dos cidadãos de hoje? No quadro de uma pesquisa longitudinal que vimos realizando há cinco anos sobre as condições da entrada na política de uma mesmo coorte de jovens (A. estas representações sucessivas são indicadores. Os jovens de quem falaremos. em relação à nossa problemática de análise: critérios sociológicos.Anne Müxel bora seja preciso tomar cuidado com generalizações e clichés que são a receita das manchetes de jornais nesta área. Segundo as famílias. a partir de fragmentos de histórias de vida. etapa inaugural de sua entrada “oficial” na política. cinco levas de pesquisa foram realizadas: novembro-dezembro 1986. por volta de sete anos). A sua entrada no cenário político. relatando. 1990. assalariados. Elas revelam as condições de sua socialização política assim como os métodos de estruturação de sua identidade política nos tempos de juventude. assiste. como pudemos observá-lo. coletamos umas trinta entrevistas aprofundadas. não sem reticência e ambigüidade. maio 1988. a maoria deles vivendo em região parisiense. uma segunda parte centrada nas atitudes e comportamentos diante da política. a metade deles assalariada e o resto estudantes. de certa forma. isto para apanhar as formas de passagem do estado de cidadão de direito ao estado de cidadão ativo. é para a maioria deles. A amostra se divide em metade de estudantes e de assalariados em empregos mais ou menos estáveis. de nível de estudos e de situação em relação ao emprego. inesperada: é a greve no colégio em novembro-dezembro 1986 e a experiência de uma comunidade de interesses intermediada pela primeira vez. março 1989. Ele permite seguir a evolução das primeiras escolhas. é a lembrança mais frequentemente mobilizada na memória política. a partir de uma instrução não direcionada e muito ampla: “Gostaria que falássemos do que a política representa para você. A aparição progressiva. ainda estudantes ou na véspera de sua entrada na vida ativa. morando na região parisiense. tecnologicamente mágica — como se costuma dizer — do rosto de Mitterrand nas telas de televisão. ou seja. Será que as percepções das características do sistema político atual estão acompanhadas de representações. pela política e. 1992)1. exceto no período de co-habitação do qual guardam basicamente uma lembrança de uma potencialidade de renovação política que não vingou.

a das promessas não cumpridas pela esquerda e do “desencanto” duramente sentido que se sucedeu. elas sintam um certo desdém” ou “prometer coisas sabendo que não se poderá cumprí-las.Jovens dos anos noventa A política “desmascarada” rejeição. A crise da representação política se impõe pelo seu caráter evidente. Ela define uma argumentação principal a partir de três tipos de denúncias: Primeiro. A própria classe política é responsável por essa situação. A política é “mal explicada. os escândalos políticos e financeiros que agitaram o país nestes últimos anos exacerbaram. condenam qualquer perspectiva de autenticidade política. eu me sinto ‘pequenininha. diz um outro. Por isto mesmo. A constatação é unânime. Além disso. pelos jovens sejam eles diplomados ou não. de direita. os desvios dos homens e das instituições são denunciados com a mesma força de convicção. A política “domínio das pessoas sem escrúpulos”. A rejeição da política. Como disse um dos nossos entrevistados: “Há mais respeito em uma luta de boxe do que na política!” Finalmente. é inútil” ou ainda “Quer seja um governo ou outro. das alianças e dos oportunismos. não entendo bem o que eles dizem. como se pode ver diariamente. cultivada pela mediatização dos shows políticos. voltam como leitmotivs nos discursos. As maracutaias financeiras. Os discursos se alimentam de uma mesma briga e têm como alvo um certo número de reivindicações que questionam a natureza das relações entre o cidadão de base com o mundo político. A ruptura é denunciada em vários níveis. não inspira um sentimento de aprovação. Como se esta retórica do desencanto servisse para alimentar a suspeita de mentira da qual a política é tão frequentemente acusada e para manter um relacionamento desiludido e distanciado para com esta: “As pessoas foram ludibriadas. além das ambições pessoais e os arrivismos de todos os tipos dos políticos. — as brigas politiqueiras despojam a política de seus conteúdos e de seus projetos. por causa dos privilégios de que dispõem. A homogeneidade dos argumentos é impressionante. antes de qualquer outra perspectiva.’” Este sentimento de uma competência política falimentar é Revista Brasileira de Educação 153 . Este é percebido como um mundo “paralelo”que suscita cada vez mais incompreensão e em relação ao qual eles têm cada vez mais dificuldade de se identificar e se situar. é vivamente expressa. disse um. é normal que hoje. ligada às próprias orientações políticas do partido socialista. não vem apenas dos simpatizantes da esquerda. o jovens têm o sentimento de dispor de poucas chaves para compreender a atual situação política. cada vez mais complicados para se compreender e decodificar. levando à falência. distância e perda de credibilidade A evocação da palavra “política” suscita. de nem poder compreender e apreendê-los. Em relação à política. mal relatada e portanto mal-compreendida”. mas manifesta também nos discursos dos jovens que se colocam à direita ou se situam fora de quaisquer amarras partidárias. A sofisticação dos debates e das clivagens políticas. a perda de confiança dos cidadãos para com estes representantes e contribuiram fortemente para uma impressão de nojo. tanto pelos estudantes como pelos assalariados. imagens negativas. esta se encontra re- duzida ao jogo das divisões internas. ou ainda esta: “Não entendo bem o que eles querem. Uma ruptura entre dois mundos: “Temos a impressão que o mundo político é um mundo que não é o mundo em que vivemos”. a própria idéia de eficácia ou de projeto políticos. “Eles governam para eles mesmos sem pensar nas consequências que esta situação pode provocar”. Esta queixa. dos “fantoches” e do dinheiro. Os políticos não são suficientemente próximos dos “problemas concretos das pessoas” e são suspeitos. de esquerda ou sem orientação política definida. muito particularmente. A perda de credibilidade das personalidades assim como das instituições é um elemento recorrente do conjunto dos discursos. mantém uma impressão de confusão. Esta perda generalizada de credibilidade estabelece um tipo de ruptura nos laços que podem unir os jovens ao mundo político. A política está posta à prova dos fatos. disse uma estudante. nada mudou”.

A lista dos remédios está feita. as leis da finança internacional relativizam de fato a autonomia do político e seus meios de ação. estando a realidade na vida econômica. Mas o que é indubitavelmente novo em relação a tempos idos é encontrá-los partilhados de forma tão consensual pelas classes de idade mais novas. os adultos de amanhã. se manter a par e não há nada particularmente motivador para fazê-lo. A política. o pessimismo rigoroso sobre a eficácia e a legitimidade da política atual difere singularmente das expectativas fortes e ambiciosas que se expressam para com ela. Um estudante. O dia a dia das pessoas se tece fora das políticas e. É sem dúvida. a construção européia. eu acho genial que todo o mundo se mobilize. fechada em suas próprias lógicas. Lá se percebe notadamente a confirmação de certas predições sobre a evolução da participação política. com eventuais acentos de protesto. no trabalho das pessoas mesmas. nos matamos dando um duro. não é forçosamente novo. “São só faladores. “as idéias. e em uma interpretação tão unívoca. a política é irreal em relação a tudo isto. como uma torre de marfim superprotegida. 3 Os trabalhos de Annick Percheron (1989. 154 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . A política seria um “disfarce”. se eles desconstróem. declara ter se distanciado da política depois de um curso de comunicação que apresenta as técnicas de fabricação dos discursos dos políticos. a constatação não é anódina. de domínio sobre a realidade política assim como sobre as decisões dos governantes.. eles pensam demais em suas viagens. Acrescente-se a isto a impostura denunciada por alguns de uma política cada vez mais “pré-fabricada” obedecendo à lógica do marketing e da quota de popularidade nas pesquisas de opinião. os argumentos aqui usados serviram de retórica para outros tipos de discurso a certas corporações profissionais conhecidas pelas suas visões reivindicatórias. Em outros tempos. O conjunto deste discurso de negação da política. 1991) mos- traram um crescimento dos conhecimentos políticos ds crianças e dos jovens nesses vinte últimos anos. os artesãos e os pequenos comerciantes (Mayer. por outro lado. A primazia da economia.Anne Müxel amplamente difundido. e mais geralmente.” (jovem substituto. eles estão muito longe. Mas isso vem dos governantes. dificilmente suspeita de irrealismo. entretanto. Nós. Quando a gente vê os teletons na tevê. Desiludida e cínica antes da idade. Da parte dos novos eleitores. em uma seção comercial de um IUT (Institut Universitaire de Technologie). expert em contabilidade) o que se coloca na frente para esconder o dinheiro”. esta política “distante” e excludente desemboca no sentimento de uma impotência. sobre a emer- Último tipo de constatação para fechar este dignóstico: não é menos em termos políticos do que em termos econômicos que se jogam os verdadeiros interesses da sociedade. uma elite que entra na política. É preciso fazer um esforço para seguir. Finalmente. a política vive para si mesma.. em suas quotas de popularidade. o que irão eles reconstruir no lugar? Em busca de um “novo” repertório político Quando esta mesma pergunta lhes é dirigida. mais o reflexo da complexificação dos interesses políticos do que uma diminuição do conhecimento político em si3 . Esta geração crítica da política e. 1986) ou ainda para movimentos políticos tradicionalmente anarquizantes ou contestatórios. em outras instâncias. tecnológico. a mundialização dos problemas. será que encontramos sugestões e até mesmo referentes sobre o que deveria ser a política? Dito de outra maneira. de uma ausência de controle. não sem algum surto de idealismo nas expectativas da política. como percebida e julgada hoje em dia não evoca imagens positivas e poucas apreciações nuançadas. será que a visão da política dos jovens deve permanecer nesse patamar? Em contraponto a um questionamento tão radical e tão desesperado. não desistiu de sua panóplia de ilusões. Sem esquecer o trabalho científico. como por exemplo.

Barnes. a necessidade de uma moralização da política se impõe: a necessidade de transparência. o indivíduo na coletividade (H. notadamente por via da instrução cívica ou mesmo das aulas de moral na escola. É preciso que reflitam sobre os problemas da sociedade. é preciso “convergir antes que divergir. Inglehart. os projetos devem se abrigar novamente a política. Podemos chegar a muito mais coisas com a educação. se unir antes que se diferenciar”. um reforço da democracia direta é muito vivamente reclamado. É exatamente o que penso da política: per- Revista Brasileira de Educação 155 . vai permitir e fazer progredir seu objetivo. canções. A educação é muitas vezes invocada. e implicando. 1990). instaurando uma reapropriação pelo consumidor da base das suas mensagens. para que funcione. uma melhor difusão da informação fazem. Kaase et al. no que se cria. tantas expressões da vontade dos jovens de depurar a política para se reconciliar com ela e voltar a lhe devolver a sua credibilidade e legitimidade. As idéias são “desideologizadas” em nome da eficácia e da competência políticas. “mais amor”. o que confirma a necessidade de aproximação entre o mundo político e a população. como os avalistas e substitutos na transmissão de um certo número de marcas e de referências a serviço. Para aplicá-lo. e assim mesmo constituiria um tipo de “esqueleto” moral da sociedade.).. citadas em exemplos do passado. a cultura. Os rótulos são rejeitados não somente em nome da sua obsolescência. Agora. Reconhece-se neles valores pós-materialistas.”A idéia de uma política “interativa” está emitida. além de levar em conta aquelas que ele pode emitir em retorno: “Outro dia. do político. deveria criar um ambiente para tirar idéias de tudo quanto é lugar para poder fazer avançar. Tal poderia ser a palavra de ordem de uma nova ética política.. levados em conta nas decisões: “Eu sou a favor das pessoas tomarem conta delas mesmas. as idéias. M. é preciso que as pessoas tenham respeito (. “e mais profundidade”. Mas não se trata mais das idéias políticas de antigamente. e até mesmo uma “objetividade” nos dossiês tratados. mas também porque são fatores que alimentam as brigas e impasses e dos quais os jovens querem livrar o sistema político. mesmo indiretamente. Outros recursos podem ser usados para alimentar e substituir a atividade política. 1977.Jovens dos anos noventa gência de novas formas de cidadania e sobre a diversificação dos modos de ação da política. parte das novas expectativas em relação ao político. por novos interesses. assim como da propaganda que deve encontrar novas lógicas de comunicação. um pouco como uma empresa que tem um patrão e que vai se cercando de colaboradores e de empregados que. Séguela dizia que o futuro da propaganda era a propaganda interativa. dando-lhe substância. Finalmente. uma “glasnost” que seria aplicada a nosso país. levantando o desafio de “pensar nas pessoas e na economia ao mesmo tempo. Como disse um deles.” Uma melhor comunicação entre as pessoas. às vésperas de se tornar professor em um colégio: A política. sustentadas pelas clivagens ideológicas tradicionais e por amarras partidárias que delas decorriam. cada um na sua individualidade e seu trabalho. A caricatura desta nova ordem política está contida nas seguintes palavras: A política. Eu vejo a política um pouco assim. R. a emergência de se encontrar uma “dignidade” no debate político. Previamente. Os cidadãos devem ser consultados.” O “programa” é ambicioso. Há pessoas que respondem muito mais nos seus escritos. atingir sua meta. a arte e a cultura: “Os políticos não podem responder a todas as expectativas. 1979. estabelecendo um laço muito direto com novos imperativos morais. também. A política seria a interface destes dois tipos de exigência. A política é muitas vezes bloqueada por contingências materiais da economia. por exemplo. É preciso apelar mais para a competência e para a boa vontade do que para a ideologia política. de “dar uma impressão de verdade”. Vem em seguida a necessidade de uma reconciliação entre os imperativos econômicos e os imperativos comandados por aquilo que poderiamos definir como “um humanismo de bom senso”. feitos.

. tantas palavras de ordem que. (Tradução do revisor) 5 4 Na escala esquerda-direita em sete pontos. 1992). 531). 6). um aumento bastante importante do número de pessoas para quem a distinção entre esquerda e direita não fazia mais tanto sentido. contamos as classificações seguintes no seio de nossa amostra: dois jovens se colocam na posição 2. É bom observar que as casas nos extremos nunca são ocupadas. por detrás de seu idealismo aparente.. Barnes (1979) que. os dominantes e os dominados. explica um jovem adido comercial. Mas se as identificações à esquerda ou à direi- Citaremos Max Kaase e Samuel H. a se colocar entre a esquerda e a direita. de seus atores. cujos referentes nesta área não podem ser tão estruturados quanto os das gerações anteriores? Só tendo conhecido a esquerda no poder. em 1981. Todos os jovens que interrogamos exceto um adotam uma classificação na escala esquerda-direita6. três entre as posições 4 e 5. 6 156 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . no respeito às diferenças das culturas e das individualidades. Michelat. 1990). O nível de exigência que transparece neste “repertório” das expectativas em relação à política está alto. só 33% aqueles que compartilhavam da mesma opinião. reapropriado e habitado por uma diversidade de tendências e de interesses. (Tradução do revisor) Ronald Inglehart (1990) prevê uma mudança dos modos de participação política: “um declínio da mobilização política dirigida pelas elites e um crescimento de grupos orientados por questões contestatórias”(p. ou até mesmo em função de comunidades de interesses individuais 5. partindo da esquerda para a direita. põe em causa a dimensão elitista da política. Resta saber entre a maioria dos que se posicionam. em 1981. a proporção só era de 20% (R. Cayrol. quais referências poderão eles mobilizar? A contribuição das entrevistas qualitativas permite levar um pouco mais adiante esta reflexão e revela constatações onde se misturam confusão e paradoxos. coesão antes que coerção. unidade e respeito das diferenças. mesmo entre os mais novos. em nível local ou em escala planetária. há dez anos. perto de um terço da população (30%) se recusa hoje. cinco na posição 5 e três na posição 6. Ele mobiliza referentes “de alto nível” e lança mão dos imperativos que anunciam talvez as condições de emergência de uma “nova moral política”: dignidade e transparência. assim como dos seus modos de ação 4. Esta evolução acontece no sentido de uma menor legibilidade das clivagens entre a esquerda e a direita e de um recuo do sentimento de pertencimento. eminentemente “democrático”. certas categorias sociais. dois entre as posições 2 e 3. fazem a seguinte observação: “No futuro. Supõe uma intensificação da participação. cada vez mais orientada por ações pontuais e objetivadas. Um espaço político concebido como “grandes orelhas” onde se expressariam ao mesmo tempo que seriam canalizadas todas as tendências da sociedade. além de se tratar de uma esquerda cujas distinções próprias foram se confundindo. A nebulosa esquerda-direita: formas vazias de filiação As pesquisas de opinão revelavam. as posições sociais das elites vão se tornar cada vez menos permanentes. Resumindo. de acordo com os interesses específicos de certos grupos. sete na casa central. Em 1991. hierárquicas e abrangentes (.Anne Müxel mitir a volta de uma opinião vai fazer evoluir as coisas”. Tomadas de decisão se tornarão mais difíceis em razão da participação ampliada dos cidadãos” (p. cinco na posição 3. o sentido e o significado de seu posicionamento. a política serviria o sonho de uma comunicação verdadeira entre todos e entre todas. 55% dos franceses estimavam que a distinção esquerda-direita está ultrapassada para julgar as tomadas de posição política. Os trabalhos de Guy Michelat mostram que a existência de uma coerência e de uma correspondência entre as posições no eixo esquerdadireita e as dimensões do universo sóciopolítico permanecem globalmente verificadas (G. Será isto válido. Esta visão de um espaço político ampliado. comunicação e reforço da democracia.) crescentemene variáveis e pluralistas. na conclusão de sua obra. redefinem as condições de restauração entre os jovens cidadãos e a política.

mais “conciliante”. ela é instrumentalizada em um duplo discurso relativamente ambíguo e contraditório. a receita. única referência forte em relação à qual eles podem se situar e existe uma posição real a tomar7. as únicas verdadeiras balizas que delimitam o campo político. tocantes aos indivíduos e suas condições de vida. com uma “barragem”entre os dois. mas de uma maneira formal ou virtual do que real. espantosamente pobres sobre este assunto. no quadro de uma pesquisa similar. Há uns vinte anos atrás. Aliás. Entretanto.” Este sentimento de diluição das referências é compartilhado. enquanto que os interesses políticos da esquerda são mais percebidos como. teriamos aparentemente encontrado discursos mais estruturados ideologicamente. a confusão reina. dispensam comentários: “Sou comunista com referências capitalistas”. A interpretação que se dá do apagar Reportar-se à contribuição de Nonna Mayer: “A mobilização anti-Front National”. mas extremos dos quais eles têm a impressão que são as únicas posições políticas a partir das quais se estrutura o debate político atual. e seus pertencimentos fragilizados. é também suspeita de impostura: “ser de esquerda e viver em bairros bonitos. que muitas vezes designam para eles. elas parecem funcionar como formas vazias de filiação. da base ao cume da pirâmide política! Se a esquerda e a direita são muitas das vezes colocadas no mesmo pé de igualdade. Geralmente as representações da esquerda não vão além da lembrança destes poucos princípios. no conjunto. são os “extremos”. o que resume muito bem um deles (“sou de direita porque sou contra a esquerda”). o limiar de “perigo” político e uma exposição da democracia ao perigo. Neste marasmo geral. não adianta. não sei se isso é possível”. mas certamente de alguns. não é mais reivindicada. mas um papel muito eficaz na construção da identidade política dos jovens de hoje em dia. a direita é associada ao “liberalismo”. A Frente Nacional (Front National). o “tomar partido” das pessoas comuns e a defesa dos pobres. A observação seguinte é exemplar: “Muita coisa está acontecendo. nem mesmo compreeender realmente as razões de sua escolha. infra. com a sua credibilidade recíproca posta em perigo. esta visão embaçada e turva das clivagens ideológicas não aparece mais marcadamente naqueles que não confessam nenhuma filiação particular (os que se colocam na posição central da escala. 7 Revista Brasileira de Educação 157 . por exemplo) do que entre os jovens cuja orientação é mais determinada. desempenha nisto um papel de repelente. Por enquanto até eles estão perdidos. facilmente identificáveis e identificadas pelos jovens. os dis- cursos permanecem. As palavras desta jovem simpatizante comunista. mas sem poder ir muito longe em sua argumentação. Extremos contra os quais é preciso se garantir e se proteger. disse um deles. quer se esteja reconhecidamente filiado à esquerda ou à direita. Concebida como mais “indulgente”. prioritariamente. para reconhecer o que os diferencia. a situação está muito instável. em absoluto. Além destes extremos. apenas algumas referências mínimas continuam sendo usadas para delimitar a esquerda e a direita. 1992). é claro. Hoje em dia. A distinção entre a esquerda e a direita. os discursos que elas suscitam só encontram poucas referências sólidas na própria realidade da relação de forças políticas. a instauração de mais igualdade. ao “capitalismo” — a palavra ainda é usada —. conosco então. em contrapartida. Apesar das diferenças apontadas graças à insistência muito particular do entrevistador. a mais engajada da nossa amostra. uma aceitação mais popular.Jovens dos anos noventa ta sempre acontecem (A. a ausência total deste tipo de discurso é reveladora da mudança que ocorreu. Sem dúvida. Os discursos políticos não são. embora sempre suscite a idéia de dois campos opostos. Müxel. não entre todos. Para a primeira são reservados o campo da ação social. Os interesses políticos da direita dizem respeito sobretudo ao país e a situação econômica. por exemplo. Por seu lado. à ordem e à performance econômica. exceto alguns raros indivíduos mais engajados que evocam com fé a “missão social” que cabe a eles. e coletado pedaços inteiros de retórica doutrinária ou profissões de fé políticas.

Balladur mostrou que ele podia ser social sendo de direita. a gente vai à direita. ao mesmo tempo. A vontade geral de consenso revela uma evolução profunda da cultura política no sentido. Como o disse um deles. um engajamento quase militante. a direita e o centro. a rejeição do conflito. Eles sentem falta de um tipo de idade mítica ultrapassada em que as referências existiam e onde lhes parecia forçosamente mais fácil se determinar e decodificar as lógicas políticas: Mesmo que eu não tenha vivido e que tenha. e isto. Reportar-se aos trabalhos da escola de Palo Alto. A ilustração que propõe um jovem estudante das Belas-Artes. eloqüente: 158 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . que possa fazer avançar. ao mesmo tempo. dirigido por Paul Watzlawick e John Weakland (1977). é deste ponto de vista. com o risco de perder a própria essência da política. é bom. Eu não digo que isto é algo desejável. uma maior legibilidade de seus conteúdos e de suas referências e a anulação da dependência destes últimos em relação às grandes clivagens políticas tradicionais. 1990). a gente vê como a política se define: a gente vai à esquerda.Anne Müxel das marcas ideológicas esquerda-direita revela um tipo de duplo constrangimento em que seu raciocínio está envolvido — à maneira do sistema “double bind” descrito pelos interacionistas sistêmicos americanos8 —. eu acredito que em termos históricos. por todos os lados. havia realmente mais disparidades. a não ser por uma total redistribuição das cartas políticas. Se. uma verdadeira via de reconstrução do político.” As clivagens políticas se estabelecem doravante menos no conflito entre as classes ou os grupos sociais. Um duplo constrangimento difícil de se reconciliar. De um lado. o desejo do consenso se impôs por meio das próprias circunstâncias da conjuntura política. As expectativas em relação à política pedem portanto. sem filiação política definida. segundo eles. O desejo de autonomia individual vem se interpor entre a demanda de controle e de planejamento do Estado e a economia de mercado. ele designa também hoje em dia. e isto quaisquer que sejam as filiações políticas (R. São todos homens que fazem alguma coisa e eu os julgo mais pelos seus atos do que pelas filiações políticas. apresentados na obra. portanto. dificuldade para falar a respeito. Chevènement mostra que o patriotismo pode ser de esquerda. por detrás das suas palavras. Hoje em dia. Inglehart. de uma homogeneização de suas expectativas e de uma diversificação de seus interesses. na ala mais à esquerda da movimentação socialista. eleitor do PS ou dos comunistas renovadores e que reivindica porém. arbitrados até então pelos partidos tradicionais de direita e de esquerda. Ainda existem diferenças entre a esquerda e a direita. se subentende uma demanda por clarificação dos interesses reais da política. Tomar o que há de bom à esquerda e à direita. Ou ainda: Não vejo a política como uma separação: a esquerda. tornam possível a crença nesta evolução. colocando o indivíduo diante da impossibilidade de responder a duas injunções contraditórias. Um jovem estudante de direito. Chegaremos lá. que acaba de conseguir um diploma comercial: “É preciso estar no centro das idéias. e fazer um conjunto que seja o mais homogêneo possível. a primazia da eficácia e da competênca objetiva sobre as querelas ideológicas. fiadora da liberdade. a gente vira e depois vê no que é que dá! Por outro lado. declara assim: Não se pode mais cair na facilidade de pensar que as coisas caridosas são o apanágio da esquerda e que o patriotismo intransigente é o apanágio da direita. Se isto pode se nivelar. em um primeiro momento. 8 Novos valores fundamentam outras clivagens a respeito das quais as palavras de ordem tradicionais não funcionam mais.

mesmo no caso destas trajetórias e votos. isto é. se revelam vários itinerários. Deste calendário eleitoral retraçado passo a passo.” Até os que se declaram abstencionistas ou desistiram da política demostram muitas vezes um sentimento de trair um direito e também um dever. Nós temos este direito mas ao invés de aproveitá-lo. fico danado quando sei que alguém vai ser eleito com 70% dos votos”.Jovens dos anos noventa Se eu jogar na raspadinha e ganhar 1 milhão. se eu trabalhar e o meu patrão se esquecer de me pagar 1000F. O primeiro. O primeiro voto é muitas vezes investido de um entusiasmo e de um sentimento de poder: “Era excitante se encontrar no meio dos adultos. O período é. entretanto. as outras eleições são dificilmente citadas e precisam da intervenção do entrevistador para que sejam lembrados os interesses e o contexto da época. mesmo que a esquerda e a direita estejam bem diferenciadas. mais ou menos constantes. duvidar de sua capacidade para fixar amarras fiéis e duradouras a partir de uma concepção dessas. mas também os votos bran- Revista Brasileira de Educação 159 . Neste caso. e sobretudo o livre arbítrio permanecem as condições de expressão das escolhas políticas. a eventualidade de uma mudança de campo se torna possível. mais de um terço dos jovens se destacam por um comportamento relativamente constante no seio de uma constelação política determinada. as eleições legislativas de junho de1988. eu vou votar para a política que vai recuperar estes 1000F. o que significa o voto dos recém chegados na política? A partir de que dados. e finalmente as eleições regionais e cantonais de março de 1992. Müxel. o referendo para a Nova-Caledônia de outubro de 1988. A consideração que eles dão ao direito de voto se reveste de uma dimensão simbó- Eleição presidencial de maio 1988. elas só raramente revestem um caráter definitivo. podemos. Entre eles. que representa o primeiro voto da maioria dos jovens interrogados. e cobre seis eleições9 . Esta falha de memória destoa da importância que a maioria dos jovens dá ao direito de votar: “Mas mesmo que precise votar em branco. A abertura. sempre votarei. Tem países onde se briga para conseguir o voto. as eleições municipais de março de 1989. constitui a referência mais confiável. como é que são. Eles permitem entender um certo número de configurações reveladoras do relacionamento dos jovens com a política. é considerado como uma passagem significativa para a entrada na vida de adulto (A. arbitradas as escolhas eleitorais? Neste contexto. desde a reeleição de François Mitterand em 1988. as eleições européias de junho de 1989. Por outro lado. nós não estamos nem aí. os jovens se determinam para decidir as suas escolhas? Trajetórias de voto: “moderato cantabile” A memória eleitoral parece espantosamente fraca. 9 lica particular: o fato de votar. Mesmo que as escolhas não se confirmem sempre com muita convicção. não obstante. nem sempre fáceis de serem decifrados e interpretados. Francamente. até entre os jovens cujas orientações ideológicas são mais definidas. de expressar a legitimidade de suas escolhas. cuja sucessão das escolhas expressa uma certa determinação assim como uma relativa estabilidade. resulta de um tipo de “participação negativa”. Ele junta os abstencionistas. de que influências. Quando as filiações são reconhecidas. as poucas flutuações observadas permanecem moderadas e se explicam sobretudo pelas condições da oferta política ou pela tentação de uma hora para outra pelo voto ecologista. Entretanto. e de sua evolução nos últimos quatro anos. Nesta nebulosa esquerda-direita. mais ou menos um quarto dos jovens entrevistados. cinco anos. eu vou votar para uma política que conserve meu milhão: a direita. A gente se sente integrado na sociedade. Se a eleição presidencial de maio 1988. curto. então. a fluidez da adesão. Dois outros tipos de trajeto são particularmente significativos da sensibilidade eleitoral atual. A gente se sente inserido com as pessoas que votam pelo mesmo candidato. 1990).

A inconstância do voto resulta muitas vezes da desilusão e do desencanto em relação à esquerda. De acordo com as etapas da enquete. Votei na Simone Veil. “De canseira. não me sinto. Assim. Eles são mais ou menos sistemáticos e são mobilizados de forma intermitente com outros votos: “Eu voto na direita ou em branco”. envolvida” declara uma jovem secretária que votou em Mitterrand no primeiro turno da eleição presidencial de 1988 e depois não votou mais. não é por causa disso que vou questionar todo o trabalho que ele fez. este entrevistado que votou muito mais vezes na esquerda. eu não me sinto envolvida. (. era nela. às qualidades pessoais de um candidato acima das orientações ideológicas ou partidárias habitualmente expressas pelo indivíduo. afirma um jovem adido comercial. E muito menos votará na direita como ele faz questão de frisar.e Simone Veil nas eleições européias pelas suas qualidades pessoais e políticas: Quando votamos. Um outro que trabalha com informática e votou muitas vezes no PS reconhece. para lhe dar voz. a mobilidade observada aparenta mais uma flutuação ligada à atração de certas políticas na movimentação do centro (entre outros. me absteria. o socialismo. deu seu voto a Jacques Toubon: “Embora tenha afinidades com a esquerda. os mais afastados. há uma outra família de abstencionistas que parece se impor mais ainda.. O segundo tipo de trajetória revela uma fra- Ou este outro que costuma votar no PS. contabilizamos um número muito importante de “hesitantes” (36%) que se caraterizam por um flutuamento de suas posições devido à escolha intermitente na casa central. não acredito em Beltrano. Lá. nas municipais. mas que. Raymond Barre. estes hesitantes se colocam alterna- 160 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . se eu tivesse que votar. mas eu acredito em alguma coisa”. A menos que eu volte decididamente a ler as notícias e isto me interessar. mais ou menos sistematizadas e racionalizadas. Prioridade talvez dada. gilidade das identitificações partidárias. a famosa “barragem” esquerda-direita na adesão aos candidatos. mas “sem tomar posição”. um jovem em três ultrapassa no momento de seus votos. Ela é em geral acompanhada de identificações partidárias senão pouco afirmadas. Os votos em branco participam de uma mesma lógica. Em compensação. nada se mexe. Eles resolvem os seus problemas entre eles mesmos. É uma boa mulher daquelas que a gente não vê muito na política. Mesmo que eles administrem o país onde moro. Eles respondem a uma preocupação de se expressar. Mas já que não é o caso. Esta mobilidade se apresenta de duas maneiras que não têm exatamente o mesmo alcance político. Na amostra. “Eu voto na esquerda ou em branco” são observações que sempre voltam na descrição dos itinerários. de fato. Ela traduz uma verdadeira impossibilidade de saber onde se situar e como se sentir novamente envolvido. eles parecem mais investidos de sentido por seus usuários. sempre o mesmo contexto. mas também votou nos ecologistas.Anne Müxel cos e as desfiliações progressivas ao sabor do interesse eleitoral. Primeiro caso de destaque. uma verdadeira instabilidade das escolhas e uma mobilidade dos votos. sobre a mobilidade das posições na escala esquerda-direita em sete pontos ao longo dos ciclos de pesquisa. Mas. ou Simone Veil.) do que uma verdadeira instabilidade. não era bem no partido dela. feita com a coorte que seguimos há cinco anos. “O voto em branco é a minha maneira de dizer: não acredito em Sicrano. Os abstencionistas constantes são raros e são. de maneira alguma..) E depois. e a uma vontade de exercer uma pressão política. Nela se expressa uma desfiliação recente e progressiva da política.. hoje. mas pelo menos relativamente flexíveis. é para expressar alguma coisa. Há medidas que ela tomou que eu gosto. a rosa.. me sentiria burro de ir votar estupidamente nos socialistas. em um momento ou em outro. ter desistido: Eu tinha escolhido o Mitterrand porque estava um pouco exaltado. Porém. Michel Noir. só encontramos um número muito restrito de passagens entre a esquerda e a direita (4%).” Na análise quantitativa.

assim como o fraco número. são também as idéias em que acreditamos. como no passado. em nome da moralização. este tipo de comportamento eleitoral fica fortemente submetido à influência tanto da conjuntura como da oferta política. “para agitá-la”. Assim. esta jovem secretária que votou FN. FN nas européias e ecologista nas municipais. a partir das circunstâncias e dos interesses da vida pessoal. quando ela surge nos discursos. Mitterrand no segundo turno. embora o espectro do extremismo de direita ou do racismo seja assim mesmo rejeitado. consciência planetária. Ela tem a ver com voto “estratégico” ou “racional”(P. por um lado. decepcionados com a esquerda. ou em quem o sentimento em relação à política é particularmente desabusado. discutindo com um raciocínio puramente individualista e oportunista as vantagens respectivas da esquerda ou da direita de acordo com um milhão que ele pode ganhar na loto ou um litígio qualquer com seu patrão. Além disso. e no discurso de alguns outros. amedrontá-los” (subentendido o resto da classe política). “passaram” à direita. é significativa da perda de substância e de conteúdo das identificações que acontecem à esquerda e à direita. Nos jovens cujas orientações políticas são pouco fixadas. A maneira como o voto Le Pen pode ser utilizado e argumentado é. e “estratégia dos pequenos passos” Apesar do mal-estar do marasmo político e da instalação de uma morosidade ambiente quanto às esperanças de mudança na sociedade. das determinações sociológicas do eleitor. A tentação do voto Le Pen. e até mesmo do perigo. Lancelot. O falar-franco de Jean Marie Le Pen. isto pode representar uma atração. a arbitragem dos votos se faz. Cinco jovens declaram ter votado pelo menos uma vez em Le Pen. sua vontade de tratar os reais problemas podem ser considerados por um bom número deles (cinco ou seis) como qualidades.Jovens dos anos noventa damente no centro e em uma posição de esquerda ou de direita. Se ele funciona para muitos como referência-repelente. enuncia um tipo de exor- cização do sentimento de mal-estar que se sente tanto para com a política quanto para com a sociedade em seu conjunto. ele pode também suscitar a atração da travessia do proibido. não é algo que se faz levianamente. geralmente próximos da direita. sem por isso ultrapassar a barreira que separa os dois campos. Ele pode ser instrumentalizado como uma ferramenta de contestação. representada pela posição central (Müxel. é bem ilustrativo como exemplo. F. e que todavia. toda a latitude do jogo eleitoral pode se afundar nelas. a idéia de identificação e de laços partidários. significativa.1992). deste ponto de vista.” Tanto um como outro destes exemplos nos levam à dimensão protestatória do voto que também explica este tipo de comportamento eleitoral. 1988) que já não depende estreitamente. e da busca por eficácia tão reclamadas hoje em dia. sua “coragem” para dizer o que os outros não querem dizer. apesar da difusão da ideologia da renúncia e do “egoismo da fatalidade”. e questiona na sua própria lógica. A decalagem aparente que pode ser observada entre. Neste caso de destaque. em nível da coorte. tais como nós descrevemô-las anteriormente. que parecem afetar Revista Brasileira de Educação 161 . O outro tipo de mobilidade aparece menos freqüentemente mas se mostra mais radical. das variáveis ditas “pesadas”. a relativa mobilidade das trajetórias de votos. da transparência. em primeiro lugar. a eventualidade de fazê-lo um dia não é totalmente excluída. por outro lado. a permanência das classificações na escala esquerda-direita. para fazer mudar as referências e os interesses da política. não é só um nome que se coloca de um envelope. declara: “É duro ir votar. para “amedrontar. no primeiro turno da eleição presidencial de 1988. Habert. ou entre jovens que. — a expressão foi encontrada por um dos nossos entrevistados —. O engajamento político. O caso do jovem estudante citado anteriormente. das travessias de barreira mostrada pela posição central entre os dois campos e. Formas vazias de filiação. A. Certas trajetórias aparecem espantosamente movimentadas.

mas também. 1992. O caráter definitivo do militantismo tradicional amedronta. da noção de partido. “anarquistas” ou “utopistas”. um laço mais estreito com os atores envolvidos e. a posibilidade de uma maior eficácia. Mas no fundo. Na noção de partido. Não a ação política que seria levada no quadro institucional dos partidos. este tipo de engajamento apela para valores morais e se concebe como uma cadeia de solidariedade de um espaço de intervenção que pode ir da “soleira da sua porta” até os confins do outro lado do mundo. São benévolos que pedem a outras pessoas para serem benévolas para consolar outras pessoas que sofrem. o que que significa. Não se trata de “mudar o mundo”. O engajamento político. portanto a própria negação da idéia de engajamento. do assujeitamento. A recusa das etiquetas. cujos defeitos na vida política atual. Mas nada deixa transparecer nas suas palavras um recuo do terreno de ação política. “Engajar-se em uma associação. mas de tão somente “melhorar as coisas”. dos restaurantes para namorados à instalação de bombas de água no Sahel. uma ampliação de um engajamento “artesanal”. como ele é concebido hoje em dia. atacar por meios “concretos” os “verdadeiros” problemas. tamanha a complexidade e a amplitude dos problemas que parecem de difícil resolução. um avanço por “passinhos”. moral e eficácia. Além disso. há pouco lugar nisso para o recuo “individualista”. se “desligar” de uma obrigação de consciência. muito menos se desengajar. Além disso. Se eu ajudo. Eles desenvolvem uma outra visão da mudança social. sempre ativo. p.” O discurso cheio de imagens deste desenhista-projetista. a também em nome de uma moralização da política. mas uma ação política com “P” maiúsculo. 227). Não existe mais esta noção de associação. ao mesmo tempo mais modesta e mais realista. existe a da entidade econômica. o medo da “arregimentação”. procurando desenvolver as suas idéias e tomar o poder”. é revelador desta redefinição e desta atomização dos modos de ação: 162 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . portanto. o modelo de associação supõe um controle mais direto sobre a realidade dos problemas. É certo que com bemóis e nuances. são profissionais. que haja algo positivo e que sirva. e talvez de um dever de solidariedade que correspondem bastante bem à definição que Gilles Lipovetsky dá para “cidadania planetária”. e a que inspira o realismo e a renúncia. natureza e proveito”(G. Nem pensar ser “revoltados”. é mais objetivo. Ela define uma concepção depurada. e de toda restrição à liberdade de pen- sar ou de agir. os discursos dos jovens sobre o engajamento político revela uma vontade de implicação e um grau de consciência espantosos. este tipo de adesão não poderia escapar da luta pelo poder. Sendo benévolos.Anne Müxel todo o mundo. das brigas internas e externas do jogo partidário. mais concreto. Descrito desta forma. A ação no quadro dos partidos políticos é maculada com a dupla suspeita de uma ausência de autenticidade e do risco de impostura. nem que seja através da obrigação de consciência. gostaria que isso se visse. segundo os meios e as vontades de cada um. fazem rejeitar o engajamento de tipo partidário. como dizem. “Nos partidos políticos. Esta idéia de “associação” é a principal peça da sua aceitação dos modos de ação e de intervenção dos cidadãos de hoje. esclarece um deles. sobre o papel dos sindicatos. Esta última enunciar-se-ia de um tipo de “ética de síntese que reconcilia ecologia e economia. eles denunciam. qualidade e crescimento. Eles não acreditam na possibilidade de grandes mudanças e medem os limites de eficácia das ações que eles poderiam realizar à sua altura. Lipovetsky. e imaginam a generalização e a multiplicação de pequenas ações. Seria no fundo “mais um engajamento para si mesmo do que para os outros”. os do dia a dia e também os que dizem respeito à sociedade em escala planetária. se constrói a partir de um discurso de dupla voz: a de um idealismo. e sobretudo invocando uma concepção do engajamento que já não tem mais muito a ver com os usos militantes do passado. O engajamento deve se fazer “fora das cores políticas”. não existe mais o lado “showbizz”do sistema político que faz se avance seu personagem para introduzir suas idéias.

A grade dos temas mobilizadores recenseados nos discursos faz aparecer a dimensão protestatória subjacente a estes modos de ação. Um ponto comum a todas elas.” (Tradução do revisor). iria à luta “para que o campo não morra. em torno de três quartos dos entrevistados a um momento ou outro da entrevista. a expressão de valores pós-materialistas que redefinem a ação política: “Eles estarão obviamente entre os primeiros a traduzir a insatisfação política em uma ação política corretiva. a guerra. Este outro ainda queria combater para a programação dos filmes em VO. tipos de missões sociais no cotidiano. Que as coisas andem mais rápido. aliás lembrado muitas vezes. nas redes públicas de televisão e nos cinemas do interior. Que não haja filtro.” Ou deste outro. que afetam a vida cotidiana dos franceses. O sindicato das pessoas que têm algumas coisas em comum. apoiando-se em uma implicação pessoal do indivíduo. as considerações de Samuel H. seja por excesso de individualismo (“A mim. se precisasse montar uma lista. É preciso também lembrar da ajuda aos doentes aidéticos. Idealismo e utilitarismo se misturam para definir formas de engajamento mais “fraternais”. para que o mundo rural continue a existir”. a dos Lembraremos mais uma vez aqui. O racismo. sim. Um micro-sindicato em uma micro-sociedade. sempre o mesmo: a ausência de marca política. no seu conhecimento ou na sua experiência imediata do problema. das ações a realizar na periferia. que não sejam muito grandes. mais centradas. rua de Lyon. à escuta das pessoas. resoluto a “entrar na guerrilha”. Mas não quero que estejam CGT ou FO por detrás dele. e cada vez mais administrados pela iniciativa autônoma dos indivíduos10.Jovens dos anos noventa Fazer um sindicato dentro das empresas. a par dos problemas. 10 Revista Brasileira de Educação 163 . no aumento destes modos de ação. Médicos-Sem-Fronteiras. seja de explorado pelo patrão. dos mais graves aos anódinos. As causas pelas quais os jovens se declaram interessados e eventualmente prontos para se mobilizarem dizem respeito tanto aos interesses planetários quanto aos interesses da vida cotidiana. outros tipos de intervenção são imagina- dos. só um quarto dos jovens entrevistados descarta a perspectiva de qualquer engajamento. Um outro poderia fazer parte de uma associação de bairro para “ajudar as pessoas” e “lutar contra a solidão”. Embora os jovens que se situam politicamente na movimentação da esquerda manifestem uma vontade de engajamento mais marcada que nos outros. poderia se engajar em uma “associação da estrada”. Paralelamente a este registro clássico de mobilização. Os exemplos de ação a realizar abundam e seriam. No final das contas. As grandes causas clássicas de tipo humanitário ou ecologista ocupam um espaço amplo. A respeito das guerras étnicas.000 pessoas. no trabalho. profundamente ligada à sua cidade de Aveyron. Encontramos aí a necessidade de democracia direta mencionado anteriormente. eu entro nesta na hora. o que me preocupa é a minha vida. cada vez menos substituidos pela mediação das instituições políticas tais como os partidos. dos direitos das mulheres. sem esquecer a luta contra o racismo. Anistia International ou os apelos do comandante Cousteau são algumas das iniciativas às quais os jovens poderiam imaginar se juntar um dia. para “lutar contra as mortes”. apaixonado por carros. O sindicato dos locatários da 64. Uma jovem estudante de matemática. os sindicatos ou até mesmo a representação parlamentar. fazer uma cadeia e fazer de tal modo que os dois campos que lutam parem. de acordo com o modelo mítico da Resistência Francesa durante a segunda guerra mundial. hoje. Quero que seja o sindicato dos Seres Humanos. Um deles. A Cruz Vermelha. que desencadeariam as motivações de seu engajamento. Barnes e de Max Kaase que vêem. o mesmo porém que avaliava a sua escolha política em função de seus interesses próprios. a subida dos nacionalismos podem suscitar impulsos espontâneos particularmente determinados. tão diversos quanto os problemas o são. caso Le Pen chegue ao poder. declara: “Se conseguirmos encontrar 20. seja de ganhador na loto. um deles.

Foi a oportunidade para uma experimentação di- reta da política. — os textos atuais das canções de variedades são. em certos casos. se limitando às paisagens familiares das contingências existenciais do dia 164 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . O conjunto destes discursos sobre engajamento revela portanto grande disponibilidade potencial dos jovens. de uma forma mais acessível. manifestada nas palavras dos nossos entrevistados. mais ou menos contestatória. mas que não são acompanhadas de nenhuma estruturação militante ou ideológica profunda e persistente. a sua disponibilade parece todavia prolongar se além somente de seus discursos. mas sem implicar em uma obrigação de devotamento ou de dever. dada a conjuntura atual. mais atomizadas. A realidade dos engajamentos efetivos que podem deles resultar não é sem dúvida tão otimista. Os seus comportamentos testemunham de uma capacidade de mobilização não desprezível. em uma ação política. precisamos constatar a diversidade de ações realizadas por cada um. Os jovens situados à esquerda aparecem mais motivados e mais ativos do que os outros. dos meus pais. Anistia International. Além deste evento maior. Manifestações. sem por em causa o próprio indivíduo. mas também um medo do combate”. defendendo sobretudo interesses categoriais. não quero saber como vai o mundo e nem para onde ele vai”). em movimentos tais como SOSRacismo. não se envolveram na ação coletiva. eloquentes e portadores de novos valores —. do engajamento de tipo esquerda. “Tenho vontade de me engajar. ela é menos fácil de localizar. as ações às quais eles participaram dizem mais respeito frequentemente a luta contra o apartheid e contra o racismo do que no resto da amostra. mesmo em crise. o conjunto das paisagens e dos interesses em escala planetária está envolvido. Mas a experiência permanece inteira e marca data no percurso da sua socialização política. Por este fato mesmo. ou mesmo Luta Operária. Esta deixa mais ou menos traços nos seus discursos e os interesses do movimento são decodificados e muitas vezes despojados de parte do entusiasmo e da ilusão que os animava na época. animada dos valores morais fundamentais que são o altruismo e a tolerância. Raros são aqueles que. A mobilização política dos outros jovens que se situam à direita ou são indeterminados nas suas escolhas políticas. abaixo-assinados. até. e muito restritos. seja porque eles não se sentem nem prontos nem suficientemente seguros de si para concretizar e assumir a responsabilidade do engajamento. Será que se encontraria. participação em concertos. quer se trate da sua própria geografia ou de suas orientações estratégicas. perdurariam? Revelador da necessidade suplementar no campo político. Será que grandes princípios e pequenos passos podem traçar o caminho de engajamentos reais? Se todos não estão dispostos a partir para a Somália. afirma. Uma vontade de fazer alguma coisa. A relação dos jovens hoje. Sinal de que os traços da herança. Os jovens são. nem sem ter incidência direta sobre o curso da vida cotidiana. passagens mais ou menos duradouras. sob este ponto de vista. muito pelo contrário. Seus territórios podem ser ao mesmo tempo muito vastos. os primeiros a reconhecê-lo. a expressão da ideologia do engajamento que parece se difundir bastante amplamente. com o engajamento. um deles. em mais ou menos grande escala. aliás. mais ou menos. Diversas experimentações da ação política que testemunham um engajamento relativamente consequente. mas que estaria circunscrita nesta nova ética moral “indolor”da qual fala Gilles Lipovetsky (1992)? Esta supõe ao mesmo tempo uma forte tomada de consciência dos problemas. O movimento colegial e estudantil de 1986 mobilizou mais da metade dos jovens entrevistados. uma certa frieza. como muitos outros. Mas há também uma certa inércia. a um dado momento. se implicaram ou participaram de uma forma ou de outra. capaz de redefinir os interesses de uma “nova esquerda”? De qualquer forma. Todos. parece mais aleatória e obedece a motivações mais individualizadas. a aderir a um movimento ou uma associação que tornaria realidade o seu engajamento. organiza-se em um espaço de duas dimensões. nem mesmo.Anne Müxel meus amigos.

pode questionar as arbitragens clássicas do jogo eleitoral. Ela se encontra.Jovens dos anos noventa a dia. Os eleitores “contestadores” da nossa amostra têm posições mais frágeis ou mais dificilmente adquiridas que os outros. seria uma “pós-política”. de não ter dado conta da trama existencial que. de acordo com o meio. define a relação com o político de cada um dos jovens entrevistados. por um lado. sem dúvida. com o risco de não sobrar senão a intencionalidade de um discurso e à necessidade de reintroduzir um modelo de ação concreta. Estes interesses próprios às suas condições de “entrada na vida”adulta. Como encontrar novos substitutos para definir as condições de emergência de uma “nova” política que. com os níveis de estudos e de qualificação. Terceira constatação. sofrendo uma evolução comparável à da moral. sentimonos desconfortáveis e. e nas suas próprias expectativas. os discursos dos jovens se inscrevem em uma relação ao mesmo tempo heterônoma e autônoma em relação ao político. a sua concepção do engajamento define uma “nova” ética de responsabilidade que pode se revelar futuramente eficiente e mobilizadora. reforçada pelo fato que os discursos foram recolhidos no interior de uma mesma classe de idade. cujos conteú- dos nós tentamos explicitar. por outro. primeiro inventário —. a própria homogeneidade dos discursos é reveladora. estes jovens não compartilham necessariamente a mesma comunidade de experiências. sinal de que a espera de uma renovação é unanimemente compartilhada. enfim. Sinal de que o mal-estar é geral. no presente caso. da modernidade ou do materialismo aos quais foram atribuídos os mesmo prefixos? Revista Brasileira de Educação 165 . sinal de que o estado das reivindicações é o mesmo. às expectativas são também desenvolvidas. já está realizada. ligados à etapa em que se situa este trabalho — primeira exploração. regido pelo imperativo da eficácia. A existência deste “novo” repertório é um segundo ensinamento. as contradições que levantamos em várias ocasiões na sua interpretação da política. uma restauração do valor de engajamento. ou entre o idealismo e a eficácia pragmática. uma recusa dos rótulos e uma forte demanda de reconciliação dos interesses partidários. ou ainda entre a consciência planetária e a estratégia dos pequenos passos. Os referentes se misturam e se recompõem em lógicas que nem sempre são fáceis de identificar pelos próprios atores. entre a demanda conjunta de esclarecimento dos interesses. as respostas. a recomposição do político. Assim como é anunciado. Em primeiro lugar. Estas diferenças não transparecem no nível das representações e nem das expectativas que eles demostram em relação à política hoje. Todavia. que só aconteceria através da anulação relativa das determinações sociais. apesar da homogeneidade observada. tipo de bandeira bicolor do engajamento político. Define diferentes momentos de implicação respondendo ao mesmo tempo à lembrança dos grandes princípios idealistas da moral. Entretanto. e a recusa das clivagens. Sem dúvida. Deste ponto de vista. de diferenciação das referências. não têm as mesmas implicações. Nisto. estas diferenças se encontram ainda nas urnas. as constatações esboçadas neste texto respondem a certas interrogações que animam os debates atuais sobre o estado das relações entre os jovens cidadãos e a política. Mesmo com “pequenos passos”. ele permite uma reabilitação da política a partir dos imperativos seguintes: uma exigência de moralização de todas as instâncias envolvidas. até porque eles sofrem as consequências de uma ruptura relativa na transmissão da cultura política entre as gerações. em nome de uma lógica da eficácia e de um maior controle sobre a realidade concreta dos problemas a serem tratados. Concluindo esta leitura exploratória. — são o produto de uma situação de transição entre dois mundos políticos. na sua maneira de entender. tal como transparece nos discursos dos jovens. a difusão do “novo”repertório político. Se a crise da representação política parece inegavelmente presente. Mas. um deslocamento dos interesses e uma rejeição dos conflitos. — por exemplo.

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desvio e droga Carlo Buzzi IARD Tradução de Nilson Moulin Publicado em: CAVALLI. c) se lhes seria possível colocá-lo em prática. VII. que comporta mudanças nos costumes e na moral. Isso provocou. 1 Revista Brasileira de Educação 167 . Para cada um deles foi pedido: a) se o consideravam socialmente criticado. em analogia com as pesquisas anteriores do IARD. outros dois foram inseridos no questionário pela primeira vez. que surgiram sempre mais numerosas no contexto nacional. faz também com que a validade dos afastamentos das normas codificadas mude e se transforme com o passar do tempo. as tendências de crise. Alessandro e LILLO. uma lista de 18 comportamentos1. como veremos difusamente mais adiante. o consideravam admissível. sem dúvida enfraqueceram o sentido da legitimidade. Giovani anni 90. Bologna: Il Mulino. Em tempos mais recentes. Todavia os modos e as formas com que se manifestava a transgressividade entre as novas gerações pareciam bastante estáveis durante a década de 80. A respeito desta problemática. Antonio (orgs). Cap. mas foi nos últimos anos que o distanciamento entre gerações parece ter aumentado. 1993. manifestas ou latentes. de 1983 e 1987. Dos dezoitos comportamentos utilizados na terceira pesquisa do IARD. um relaxamento dos princípios éticos na população juvenil e talvez não só nela. dando a entender que o inconformismo perante os valores e as normas dominantes podia ser considerado um aspecto fisiológico da condição juvenil. É óbvio que o processo de evolução social.Transgressão. catorze já estavam presentes também nas duas primeiras. É sob esta luz que provavelmente deva ser lido o aumento da propensão transgressiva registrada no início dos anos 90. b) se. em sua avaliação pessoal. Nas pesquisas anteriores do IARD. tal fenômeno se confirmou pontualmente: em muitos campos de vivência social. Premissa A população juvenil sempre se caracterizou por uma propensão transgressiva maior em relação às normas morais e legais da sociedade. no questionário aos jovens entrevistados foi proposta. em dois comportamentos só foi possível sua confontação na primeira pesquisa. a orientação ética dos jovens mostrava uma certa distância de tudo aquilo que era partilhado e considerado legítimo pelo mundo adulto.

Carlo Buzzi

As respostas à primeira pergunta exprimem a percepção dos jovens sobre o juízo dado pela sociedade; aquelas da segunda pergunta exprimem a avaliação de admissibilidade dos próprios jovens; as da terceira exprimem, embora de modo indireto, a tendência dos jovens para assumir comportamentos considerados potencial ou explicitamente transgressivos. A percepção das normas sociais A análise comparada do trend evolutivo dos modos com que os jovens percebem as normas sociais mostra alguns afastamentos de certa importância. No conjunto, permanece a convicção de que os comportamentos propostos, em geral, sejam mais criticados que tolerados pela sociedade, mas a intensidade de tais convicções tende a diminuir sensivelmente em alguns âmbitos ético-normativos específicos.

É o caso, por exemplo, da área das relações sexuais e conjugais. Os jovens dos anos 90 identificam maior permissividade social para as relações pré-matrimoniais, para a convivência e para o divórcio; o primeiro comportamento, em especial, encontra uma significativa maioria dos jovens (três quintos) disposto a considerá-lo hoje aceito socialmente, fenômeno novo, pois nas pesquisas anteriores aqueles que não o consideravam criticado não ia além da metade dos entrevistados. Estes resultados mostram como os jovens estão captando algumas transformações em curso no país. O enfraquecimento progressivo das normas e dos vínculos sociais ligados à esfera da sexualidade, que parece cada vez mais pertencer ao livre arbítrio do indivíduo singular e cada vez menos objeto de controle social, é um fenômeno que o confronto entre as três revelações do IARD permite pôr em evidência. Todavia, neste contexto, duas são as

Tabela 1 Variações no tempo da percepção das normas sociais. Percentagem dos que consideram criticados pela sociedade os diversos comportamentos, segundo o ano do levantamento (idade: 15-24 anos)
1983 Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 79,5 77,6 91,8 74,3 65,0 52,4 88,2 63,8 82,4 78,6 90,1 95,2 84,2 72,1 – 66,6 – – 1987 74,6 72,8 91,9 72,3 66,0 50,0 91,6 61,7 82,1 78,5 91,1 96,1 – 75,4 – 70,4 – 90,1 1992 64,6 67,1 90,2 70,8 62,1 40,9 91,5 57,2 81,8 77,5 88,7 97,5 83,4 78,8 30,3 67,2 90,7 88,8

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exceções, aliás bastante significativas: a homossexualidade, que ainda mantém todas as características do tabu social e as relações extra-conjugais, comportamentos que pressupõem a não sinceridade nas relações internas da família. Em ambos os casos, o estigma social é percebido pela grande maioria dos jovens. Um segundo âmbito no qual é possível notar a atenuação da constrição das regras sociais é constituído pelos comportamentos ligados às relações econômicas. Assim os entrevistados parecem um pouco mais propensos a considerar tolerável viajar num transporte público sem pagar a passagem ou faltar ao trabalho sem motivo válido ou enganar o fisco. Também neste caso os jovens parecem receber da sociedade algumas práticas comportamentais que desvalorizaram pesadamente o sentido do dever cívico por parte do cidadão. Ao contrário, continua substancialmente estável no tempo o modo de entender a moral social no que concerne ao uso de substâncias psicotrópicas, ao recurso à violência e à esfera da tutela da vida humana. Neste último campo, encontramos o único comportamento que denota um incremento notável de intolerância captada: abortar, aos olhos dos jovens, parece cada vez mais uma opção socialmente criticada (tabela 1). As normas individuais Deslocando a análise da moral social para a pessoal, o quadro abrangente muda sensivelmente. Baseando-nos nas declarações de aceitação relativas aos comportamentos propostos, os dados da última pesquisa do IARD, conforme o das pesquisas anteriores, mostram uma forte propensão juvenil a se considerar pessoalmente mais tolerantes do que a sociedade em que vivem. Mas é um fenômeno que se manifesta em termos de intensidade permissiva mais que de qualidade, no sentido de que os comportamentos com maior punição social, bem como os mais aceitos, encontram também um confronto no mesmo sentido por parte da moral juvenil.

A aceitação máxima é atribuída aos comportamentos da esfera sexual; o trend está em alta e, no início da década de 90, os jovens que não consideram aceitáveis no plano ético as relações prématrimoniais ou o divórcio ou então morar juntos, constituem uma minoria. Emerge, em tal contexto, também uma tolerância maior em relação ao homossexualismo. Da mesma forma, os comportamentos ligados à área econômica mostram uma tendência a uma avaliação cada vez menos rígida. Transparece implicitamente um certo relaxamento da moral relacionada com os deveres cívicos. Assim, muitos são os comportamentos pelos quais se concretiza entre os jovens um menor rigor em relação ao passado. Todavia existem 3 exceções relevantes: convém notar como, tanto as relações extra-conjugais quanto o aborto e os comportamentos violentos aparecem com redução progressiva no que concerne à aceitação (tabela 2). O quadro geral que emerge revela um cruzamento heterogêneo de fatores que interagem e tornam complexa a relação entre moral comum e moral juvenil. Para entender melhor sua lógica é útil o confronto entre normas sociais e códigos morais pessoais. A transgressão das normas submetidas à regulação dos comportamentos privados encontra os jovens altamente tolerantes, muito mais do que eles percebem que a sociedade o seja. Sob tal ótica a liberdade sexual, a convivência, o divórcio, são avaliados como opções praticadas por indivíduos conscientes, plenamente legitimados para realizá-las. Ao contrário, o que não se tolera é quando a transgressão viola os direitos do outro. É o caso dos comportamentos violentos, em relação aos quais a recusa dos jovens é maior do que aquela que se difunde na sociedade. Neste contexto, também encontra espaço crescente o rechaço à infidelidade conjugal e ao aborto, embora os jovens permaneçam em relação a ambos muito mais permissivos do que consideram ser o mundo dos adultos. São as normas instituídas para a convivência social que vão encontrar jovens e sociedade numa

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Tabela 2 Variação no tempo das regras de conduta individuais. Percentagem daqueles que consideram admissíveis os diversos comportamentos por ano de levantamento (idade: 15-24 anos)
1983 Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 26,3 28,6 10,9 24,9 73,8 79,9 36,7 76,2 53,0 49,8 26,9 8,8 21,8 57,6 – 35,7 – – 1987 25,5 32,2 9,3 28,7 74,1 79,8 30,9 79,0 49,3 49,6 20,8 6,7 – 51,8 – 33,7 – 6,2 1992 35,1 38,5 9,3 28,3 78,6 84,9 40,8 77,9 48,0 49,2 27,6 7,7 18,6 47,5 55,7 31,6 7,0 3,6

sintonia singular. Só o furto é estigmatizado amplamente: as demais transgressões, incluindo a evasão fiscal, cada vez mais parecem fazer parte daquela área de admissibilidade que associa setores consideráveis das velhas e novas gerações. A propensão a transgredir As tendências transgressivas dos jovens foram analisadas com a pergunta sobre a possibilidade de pôr em prática os vários comportamentos propostos. Como as modalidades de resposta eram “sim”, “não”, “não sei”, interpretamos as afirmações positivas como tendências evidentes para a violação normativa, as negativas como introjeção plena e aceitação da norma e o “não sei” como instabilidade do código moral. Em outras palavras, a incerteza pode significar que, mesmo tendo consciência

de praticar um ato sujeito a reprovação social, a situação contingente poderia induzir à transgressão. Por isso juntamos os “sim” com os “não sei”, considerando-os como expressão de uma potencial propensão transgressiva. Aqui os dados mostram maior estabilidade no tempo com relação aos outros dois planos de análise. Os comportamentos que denotam um aumento significativo da possiblidade de transgredir as normas sociais são apenas três: viajar num meio público sem pagar (de 83 a 92 o afastamento é de 8% a mais), faltar ao trabalho com desculpa de doença (+ 7%), ter relações sexuais sem ser casados (+ 5%) (tabela 4). No conjunto, tudo o que se afirmou anteriormente sobre os critérios de aceitação “teórica” é reiterado também com referência à possibilidade prática de transgredir. Tudo o que concerne à es-

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Tabela 3 Coerência entre normas sociais e individuais. Percentagem dos que consideram os comportamentos criticados e não admissíveis segundo o sexo e a idade
M F M F M F M F 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 anos anos anos anos anos anos anos anos Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 37,6 48,1 75,2 59,4 20,5 9,2 66,4 11,2 44,4 40,1 68,6 89,3 69,3 45,8 16,2 40,7 86,0 85,5 43,5 37,3 82,8 58,9 12,1 16,4 52,4 21,9 55,4 46,1 68,8 88,8 68,4 44,2 16,7 47,2 84,1 82,8 46,9 50,8 84,6 55,9 21,4 9,0 63,2 16,9 45,5 42,6 66,8 89,4 71,6 49,8 15,3 52,8 85,8 88,2 46,6 42,9 85,9 60,1 14,3 15,0 49,6 18,1 52,0 50,8 69,2 91,5 74,7 41,6 16,3 54,7 86,2 84,7 44,3 54,0 79,8 48,5 16,7 4,7 58,0 15,8 32,2 37,4 55,1 88,4 72,6 41,4 17,5 53,5 87,8 88,4 50,7 44,9 87,1 52,2 13,5 11,0 45,8 17,4 47,3 43,8 69,3 92,3 69,2 40,9 18,1 54,9 84,6 86,3 50,9 58,8 84,0 50,5 14,4 4,0 53,1 10,8 34,2 33,2 60,3 90,1 67,3 36,0 13,5 56,7 89,1 86,9 59,0 57,3 87,3 54,8 15,2 13,7 48,3 20,2 48,9 46,2 67,2 91,2 67,8 41,5 18,9 59,9 86,5 87,6 Tot.

48,2 50,3 83,6 54,3 15,8 9,8 53,9 16,3 43,9 41,9 65,0 90,2 69,9 42,0 16,6 53,4 86,5 86,5

fera privada do indivíduo está amplamente aberto a escolhas que não colocam sérios dilemas morais, a tal ponto que teríamos dificuldades, por exemplo, para definir as relações pré-matrimoniais como violação de uma norma social (apenas 1 jovem sobre 6 exclui categoricamente a eventualidade, assim como só 1 sobre 4 garante que nunca se divorciará e 1 sobre 3 que não vai conviver sem ser casado). Desrespeitar as normas que regulam a vida dos indivíduos na esfera pública, que vimos ser considerado admissível por uma minoria significativa de jovens, parece envolver na prática uma cota bem mais ampla, em alguns casos superior à metade dos entrevistados. Isso remete ao problema da coerência entre códigos éticos e comportamentos de fato.

O confronto entre os dois níveis mostra como apenas poucas transgressões encontram os jovens unanimemente coerentes ao recusá-las no plano moral e no de uma hipotética realização concreta. São aqueles comportamentos que poderíamos definir explicitamente “desviantes”. Por ordem: os atos de vandalismo, o consumo de drogas pesadas, a violência desportiva, o roubo. Todo o restante parece mais controverso. Em geral, a coerência aumenta com a idade e as moças são mais coerentes que os rapazes, conforme a pesquisa de 87 já havia evidenciado. Entre os subgrupos da amostragem separados por sexo e por idade, destaca-se o dos adolescentes masculinos (15-17 anos); neles a presença de tensões quanto aos comportamentos que implicam

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Tabela 4 Variações no tempo das atitudes de “não exclusão” da possibilidade de transgredir as normas sociais. Percentagem daqueles que consideram possíveis os diversos comportamentos, o que não exclui a possibilidade de praticá-los, por ano de levantamento (idade: 15-24 anos)
1983 Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 53,9 49,1 14,9 42,5 72,3 79,6 10,8 64,6 56,1 51,0 18,4 5,7 13,9 42,9 – 44,6 – – 1987 54,6 50,5 12,8 40,4 70,1 79,6 5,2 64,9 49,6 49,3 14,6 3,8 – 42,0 – 43,7 – 10,1 1992 62,1 55,9 12,7 37,8 72,8 84,3 4,4 65,8 49,8 48,7 19,1 3,3 10,7 40,4 48,2 40,1 11,6 7,7

vandalismo e violência é notoriamente mais forte (tabela 5). No conjunto, muitos jovens parecem possuidores de instâncias morais e de propensão à ação que se diferenciam, em diversos níveis, daquelas que são as expectativas captadas do mundo adulto. Portanto, estabelecemos o objetivo de identificar, na ampla variedade de atitudes juvenis, uma tipologia que reagrupasse os entrevistados ao redor de modalidades homogêneas de orientação geral em relação ao comportamento transgressivo. Por meio de uma série de cluster analysis a solução mais simples e convincente pôs em evidência 4 grupos de jovens que refletem igual número de modos típicos de relacionar-se com a eventualidade de incorrer em comportamentos socialmente reprováveis (figura 1).

Figura 1 Tipologia da propensão à transgressão

Desviantes 8% Oportunistas 17,8% Integrados 36,6%

Permissivos 37,6%

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8 11.1 96.9 91.7 45.4 79.2 22.7 22.3 27.8 14.3 87. A primeira concerne à liberalidade quase unânime em relação aos comportamentos sexuais (com exceção do homossexualis- Revista Brasileira de Educação 173 .6 15.5 Tot.2 92. encontramos neste grupo 17.7 16.0 54. exceto alguns relativos à esfera das relações sexuais. é representado por jovens caracterizados por um sentido modesto dos deveres civis.1 88. Percentagens dos que consideram não admissíveis nem praticáveis os diversos comportamentos segundo o sexo e a idade M F M F M F M F 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 anos anos anos anos anos anos anos anos Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 19.5 57.9 30.7 43. que denominamos oportunistas.9 88.4 73.0 60. do mesmo modo também neste âmbito as percentagens de propensão para transgredir se mantêm de maneira considerável abaixo da média geral.0 58.8 14.4 42.4 14.0 74.1 15.6 43.4 5.7 91.7 25.0 51. Um segundo grupo.0 54.8 19.4 48.6 25.8 31. dos permissivos.8 14. que poderíamos definir como o dos integrados.4 92. O perfil ético que daí emerge pode ser relacionado com estilos de vida permissivos que provavelmente caracterizam as tendências evolutivas da cultura juvenil moderna.8 56.6% da amostragem.6 74. Duas parecem ser as características que mais chamam a atenção.9 55.3 90.3 63.6 46.3 67.5 69. O terceiro tipo.2 50.5 87.7 80.7 35.0 84.7 92. desvio e droga Tabela 5 Coerência entre normas individuais e comportamento.8% da amostragem.3 80.0 45.3 42.5 30.3 27.3 56.2 44.1 42.8 46.7 74. quanto ao restante as atitudes que emergem são iden- tificáveis com as do grupo precedente.1 62.9 90.0 65.2 48. poderíamos considerar tais jovens como integrados oportunistas.6 34.9 73.5 44.9 90.4 30.0 13.2 86.1 94.0 15.1 45. que vimos serem hoje amplamente difundidos.0 79.7 87.2 53.2 36.7 62.4 28.7 15.6 81.4 38.2 66. cujos códigos morais coincidem com os da ética comum até que o interesse coletivo exige certos custos ao indivíduo.8 85.0 69.5 48.9 42.3 58.4 5.0 10.7 77.4 27.9 43.0 19. As tendências transgressivas se direcionam todas para a área das relações econômicas (exceto o furto).3 13.5 92.3 32. O tipo se caracteriza por um baixo índice de propensão em todos os possíveis “desvios”.0 85.9 26.8 41.0 54.9 61.6 76.9 73.7 89.3 44.1 53.3 75.2 57.5 71.6 12.0 66.4 19. 37.6 86.3 11.2 43.4 42.2 No primeiro grupo.3 33.7 44.4 74.0 91.9 70. surge como portador de instâncias mais articuladas.0 3.5 42.7 33.1 11.4 91. Pensando bem.0 64.9 77.1 10.1 46. é possível reconhecer 36.3 90.9 59.4 59.6 54.5 20.1 63.9 31.7 23.3 25.2 47.4 62.0 56. No conjunto.4 93.4 86.Transgressão.9 48.3 37.6 36.8 87.9 30.2 42.6 94.5 20.3 49.4 49.4 92.

4 47.4 61.9 1.8 37.5 1.0 49.0 17. Minoritário (8.7 5.4 4. ao roubo em lojas e à droga.4 85.5 1.9 3.6 71.9 35.9 42.8 21.2 71. Isso torna mais fácil avaliar seu significado real.1 6. neste terceiro grupo.3 83.2 86.0 76.3 9. A segunda característica parece relacionada à cultura da addiction: embriagarse ou o uso de drogas leves atingem níveis de propensão bem superiores à média da amostragem. Neste contexto. Ao contrário.4 67. que é composto por 37.0 98.6 86.0 7.8 78.1 49.8 19.5 5.7 14. Sublinhando que o sexo tem uma influência relevante.4 53.9 81. a ponto de dois terços não excluírem a possibilidade de se envolverem com elas.0 10. Entre esses jovens.7 49. demonstra por esta área níveis de transgressão inferiores. elas parecem mais inerentes ao âmbito sexual.4 39. Na tabela 6 é apresentado o perfil típico dos quatro grupos em relação aos 18 comportamentos transgressivos utilizados.9 11.0 1.8 88.8 49.8 66.9 0.9 5.6 2.1 18.2 29.6 89.3 17.Carlo Buzzi Tabela 6 Tipologia da propensão à transgressão (15-29 anos) Tipologia Integrados Oportunistas Permissivos Desviantes Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 20. a ponto de podermos definir o grupo como sob grande risco de desvio.0 0. a propensão à transgressão é particularmente difundida e indiferenciada.9 41.9 20.7 52.8 94.8 93.5 6.2 3.5 10.8 71. pode ser incluído também o modo diferente de considerar o aborto.6% dos entrevistados.4 21.4 85.9 93.3 10.2 76. embora consistentes.9 96.2 62.2 27. pois entre os tipos “integrados” e “oportunistas” prevalece a presença feminina e nos ou- 174 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .5 83.2 mo). mesmo para aqueles relativos a comportamentos violentos.1 77.8 63.2 33.2 38. àqueles típicos do segundo grupo. Todos os itens propostos apresentam altos índices. Os tipos registrados se distribuem de modo diferente em relação às condições sociodemográficas.7 47. o grupo dos permissivos.8 5.2 38.3 33.5 33. que reunimos sob a definição de desviantes. se nos primeiros dois grupos as práticas abortivas eram fortemente estigmatizadas por serem ligadas à esfera da defesa da vida humana. mesmo não podendo ser definido completamente fiel quanto às normas que regulam as relações econômicas e civis.8 62.7 2.6 40.7 86.4 18.1 3.5 48.1 Total 57.5 6.1 22.7 30.2 61.0% dos entrevistados) mas nem por isso de menor importância é o quarto grupo.4 4.

Transgressão. Os jovens do centro e do sul do país encontram-se associados por sua presença marcante no grupo dos “oportunistas”.2 8.4 100. O confronto entre estes dois juízos demonstra como os jovens são muito mais permissivos do que eles julgam ser a sociedade ao avaliar os comportamentos ligados ao consumo de estupefacientes.5 100. maior rigor para as “pesadas”.7 42. Ou melhor. Por fim.6 100. mais teórica que real.00 100.3 21. tendência que se afirma como majoritária nas outras três realidades italianas (tabela 7). a percentagem de jovens que considera que o uso de drogas não seja criticado de modo especial pela sociedade é muito restrita: 11.0 4. as opiniões se diferenciam de modo consistente em relação à substância psicotrópica considerada: grande tolerância para as drogas comumente chamadas de “leves”. são as determinações geográficas que assinalam a persistência também no interior do universo juvenil de culturas diferentes.0 9.7 16.0 27. por outro lado.6 17.3 8.3% no primeiro caso e 2. por um lado. se o juízo se desloca para o nível pessoal.7 28.2 26.0 21.9 7.7 6.2 44.7 6.5% no segundo.4 14.0 Integrados Oportunistas Permissivos Desviantes Superior 25.0 34.0 100.0 100.4 100. a atitude tolerante assume dimensões mais relevantes: 28.7 8.6% para a maconha e 7.0 Região Nordeste Centro/Ilhas 33.0 100.7 7.0 100.0 tros dois a masculina.00 Segmento Social de Origem Funcionários Autônomos Operários 34. a reduzir-se quantitativamente.2 16. adquire interesse especial a composição dos grupos segundo a idade.5 42. mas ao contrário não é tão difusa a crítica pessoal a tal consumo. de maior consciência dos adolescentes quanto à coisa pública e. “fumar maconha ocasionalmente” e “usar drogas pesadas (heroína)”.0 25-29 45.5 44. Os “integrados” atingem a densidade máxima nas regiões meridionais e a mínima nas centrais.6 6.3 100.2 32.5 14.6 19.6 28.9 20.0 Sul 42.3 10.0 Idade 18-20 21-24 34.6 100. A avaliação e a propensão ao uso de drogas A percepção social e a imagem pessoal do uso de drogas Que o consumo de drogas seja considerado comportamento socialmente reprovado é uma convicção amplamente difundida entre os jovens. para exprimir a aceitação ou a recusa do uso de drogas.8 14. destinadas. Contudo. uma propensão acentuada para comportamentos notoriamente desviantes pode ser lida como o resultado de identidades ainda em construção que vêem na transgressão. É muito provável que haja uma incidência.5 33.3 100. a relevância de tais inclinações.8 44.6 46.7 41.2 38. num certo sentido.0 10.7 17.1 31.4 100.8 37.8 10.6 41. Referindo-nos a duas situações distintas. Dois jovens em cada Revista Brasileira de Educação 175 . com o aumento da idade.7 40. Porém.5 12.0 100.0 15-17 28.8 37.0 Noroeste 35.6 29.0 100.1 20.5 11. Sob este aspecto a maior incidência de jovens adolescentes nos tipos “oportunistas” e “desviantes” redimensiona.5% para a heroína. uma modalidade de auto-afirmação.5 5. desvio e droga Tabela 7 Tipologia da propensão à transgressão por algumas condições sociodemográficas (%) Tipologia Integrados Oportunistas Permissivos Desviantes Sexo Total Masculino Feminino 36.6 43. a região meridional se distingue por uma tendência menor à permissividade.6 17.

000) Regiões >250 50-250 20-50 <10 Noroeste Nordeste Centro Sul Ilhas 26. A propensão ao uso é de fato notavelmente mais acentuada entre os homens.0 3.7 2.3 3.8 8.7 15.8 14.1 14.8 4. A idade não parece ter uma grande influência na determinação desta atitude.6 1. Este aspecto foi indagado. Um primeiro indicador importante é o conhecimento de pessoas que usam drogas. Mas é dos dados relativos à experiência pessoal que emerge como uma grande parte dos jovens é expos- 176 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .2 16. com uma pergunta específica: “Teria acontecido de o entrevistado haver fumado maconha ocasionalmente” ou então “usar uma droga pesada como a heroína”? Os dados parecem bastante significativos: quase um jovem sobre 5 não exclui a experiência do consumo de drogas leves ao passo que quase 1 em cada grupo de 30 não exclui o consumo de drogas pesadas.9 3.3 21. Encontramo-nos portanto diante de um fenômeno quantitativamente de grande relevância: mesmo com as devidas cautelas.3 13. entre os segmentos sociais médio-superiores e aumenta com a idade.3 2. Tal posição é mais difusa entre os homens.0 Maconha Heroínas Maconha Heroínas grupo de 7 declaram assim o uso de drogas “leves” perfeitamente compatível com os próprios códigos morais. entre os segmentos superiores. mais de um jovem em cada dupla conhece.6 19.2 4. A propensão ao uso de drogas Considerar pessoalmente admissível o consumo de substâncias psicotrópicas ilegais exprime uma avaliação genérica sobre um problema social mas não implica necessariamente um envolvimento pessoal.0 19. No conjunto. O contato com o mundo da droga A incidência real que o fenômeno droga pode ter como fato social e cultural entre os jovens deve contudo ser necessariamente medida em termos de “contatos” com o mundo da droga. os mais expostos pareceriam aqueles grupos sociais marcados por características que poderíamos definir como privilegiadas (tabela 8).9 5. nem que seja superficialmente.8 15.2 3. à diferença do sexo. embora de modo indireto.7 18. é de fato possível estimar ao redor de 2 milhões e meio os jovens que.Carlo Buzzi Tabela 8 A propensão ao uso de drogas (percentagem daqueles que NÃO excluem que poderia acontecer com eles) Tipologia Maconha Heroínas Sexo Idade Masculino Feminino 15-17 18-20 21-24 25-29 21. os jovens que não condenam o uso de drogas leves supera 40%) e naquelas com desenvolvimento econômico mais alto (nas regiões centro-setentrionais do país a percentagem de jovens permissivos gira ao redor de 34-37% contra o índice bem mais modesto de 19% das regiões meridionais).2 12.5 Segmento Social de Origem Superior Funcionários Autônomos Operários Camponeses 26.0 3.5 Total 18. nas áreas metropolitanas e nas regiões do centro e do norte do país.4 2.0 17.9 19.9 2.3 2.7 Amplitude comum (x 1.2 1. da classe social e das variantes regionais. Também as variáveis territoriais exercem uma influência significativa: a tolerância de fato atinge o máximo nas áreas metropolitanas (nos centros com mais de 250 000 habitantes. Estas últimas indicações demonstram que a cultura da droga não está diretamente relacionada com fenômenos de marginalidade e de subdesenvolvimento.2 1. consumidores habituais.1 3.1 17. não se consideram completamente estranhos à cultura da droga.3 2.0 20.1 18. embora abstratamente.8 3. ao contrário.9 2.1 2.

2% viram alguém usar tais drogas. profissionais liberais. contudo se deve considerar que. As variáveis que mostram as correlações mais significativas são o sexo. quando tocam esferas privadas muito delicadas. Entre os segmentos sociais.2% falaram com consumidores. A experiência de contato com o mundo. Estamos ainda num nível superficial de contato onde o caráter ocasional ou involuntário do fato poderia também ter tido o seu peso.4% sentiu pelo menos uma vez o desejo ou a curiosidade de experimentar heroína ou cocaína e uma percentagem quase idêntica (3%) não exclui que isso poderia acontecer. 9. 20. não conseguem quantificar de modo confiável um determinado fenômeno. mas todos os indicadores mais significativos utilizados alcançaram e superaram o nível.1% receberam propostas para experimentá-la. Um “trend” em alta O cotejo entre os levantamentos da primeira e da segunda pesquisas nacionais do IARD sobre a condição juvenil tinha evidenciado quanto o fenômeno “vizinhança com o mundo da droga” estava diminuindo. 23. uma vez mais.4%. é menos freqüente mas em termos relativos decididamente relevante: 26. No âmbito das pesquisas extensivas usando questionários.8% foi convidado a experimentá-las. seriam consistentes por si mesmos (tabela 9). De que modo a proximidade com o mundo da droga influi na propensão ao consumo? Eis uma questão destinada a não produzir respostas satisfatórias. bem como cerca de 30% viu jovens que tinham consumido há pouco (ou talvez estavam consumindo) tais tipos de drogas. a extração social. Aqui é oportuno estabelecer. da heroína ou da cocaína. dirigentes). Em relação às revelações precedentes surge o dado Revista Brasileira de Educação 177 . o dado quantitativo esteja subdimensionado: a delicadeza do tema faz com que muitas reticências sejam previsíveis. como na realidade são. Falar com alguém que consumiu haxixe ou maconha faz parte da experiência de quase 40% dos jovens entrevistados. mesmo que não fossem. as perguntas diretas. de 1983-84. 3. 3.5% declara ter sentido o desejo ou a curiosidade de provar haxixe ou maconha. uma distinção entre drogas “leves” e drogas “pesadas” pois o fenômeno se articula diversamente. Trata-se de dados que.6% dos jovens entrevistados viu ou tocou maconha. Se deslocamos a atenção para as drogas pesadas. Na terceira pesquisa. De qualquer modo a relevância dos dados mostra como a experiência de ocasiões de proximidade com o mundo da droga não é coisa de pequenas franjas de marginais mas sim de uma considerável minoria de jovens. É diferente se avaliamos o contato físico com a substância ou a oportunidade concreta de consumo: 20. bem mais preocupante. Com o aumento da idade. Tais contatos constituem por si mesmos uma “fotografia” da extensão do fenômeno. 3. a tendência não apenas se inverteu. Igualmente a pesquisa oferece alguns elementos de reflexão. viu ou tocou uma dessas substâncias. dado emblemático. subdimensionados. o fenômeno encontra sua maior concentração nos centros com mais de 50 000 habitantes e em particular nas grandes cidades do norte e do centro da Itália.Transgressão. Além disso. a idade. e já vimos no parágrafo anterior que 18% não exclui que isso poderia acontecer. cota que se eleva a 44% se considerarmos só os homens. a maior contribuição é dada pelos jovens provenientes de famílias de classe elevada (filhos de empresários. atingindo seus níveis máximos na faixa de 2124 anos: basta pensar que um quarto dos jovens deste grupo declara ter tido experiências de conta- to direto com a substância. a amplitude do município de residência e a região de origem. aumentam também as ocasiões de risco. desvio e droga ta à droga de modo direto. com toda probabilidade. já alto. Analisemos brevemente os dados: a convicção de que o consumo de substâncias psicotrópicas ilegais seja condenado pela maioria das pessoas mostra um trend divergente conforme o tipo de droga. Dentre os entrevistados. Se tomarmos como exemplo o indicador que mais aparece associado à contigüidade com o fenômeno — ver ou tocar qualquer tipo de droga — os homens denotam uma percentagem de “exposição” dupla em relação às mulheres.

ou melhor.9 19.9 21. as declarações de aceitação do uso de estupefaciantes como a maconha registram um aumento em toda a linha.6 56.9 23.6 7.6 34.9 22.1 3.4 Tabela 10 Variações no tempo da percepção das normas sociais (percentagem dos que consideram NÃO criticáveis pela sociedade os comportamentos ligados ao consumo de drogas) Maconha Heroína 1983 9.6 3.8 70.3 37. Portanto.6 18.7 Tabela 12 Variação no tempo da propensão ao uso de drogas (percentagem dos que NÃO excluem que poderia acontecer com eles) Maconha Heroína 1983 18.3 de que os jovens de hoje.5 1987 8. ao menos nas opiniões e nas crenças dos jovens.8 52.4 5.6 56.5 1992 11.0 43.7 1987 14.8 6.5 39.0 22. o fenômeno é interessante pois transparece. tenham em seu conjunto a imagem de uma sociedade mais decidida a combater as drogas pesadas.5 Tabela 11 Variação no tempo da avaliação pessoal sobre o uso de drogas (percentagem dos que consideram admissíveis comportamentos ligados ao consumo de drogas) Maconha Heroína 1983 26.9 8. embora em alta comparando-se com 1987.3 46. é diferente no que concerne à heroína que.4 20. talvez por causa das recentes e reiteradas campanhas sociais visando combater sobretudo o uso da heroína. a não negação decidida de que a experiência de provar drogas possa ocorrer.7 1992 27. mostra igualmente maior abertura às drogas leves que contrasta com um juízo mais severo em relação às pesadas.3 32.6 4.1 54. uma tendência a distinguir e diferenciar os 178 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . porém mais tolerante quanto às leves (tabela 10). ainda não atingiu os níveis de 1983 (tabela 11).8 1987 20.Carlo Buzzi Tabela 9 Contatos com o mundo das drogas (qualquer tipo) por segmento social de origem (%) No conjunto Aconteceu com você: Falar com alguém que tenha usado drogas ao menos uma vez Conhecer pessoas que usam droga regularmente Ver alguém que havia acabado de consumir droga Receber convites para provar (ou comprar) qualquer tipo de droga Ver ou provar qualquer tipo de droga Superior Segmento social de origem Funcionários Autônomos Operários Camponeses 56.9 51.7 63. Deslocando a análise para as regras de conduta individual.7 29.7 53.2 2.4 43.8 1992 19.4 26. A propensão explícita ao consumo de drogas.5 18.4 34.5 54.0 26.9 54.7 3.

é nas atitudes e nos comportamentos quanto ao uso de substâncias psicotrópicas que estão se difundindo novos modelos culturais.5 1992 56. Revista Brasileira de Educação 179 .Transgressão. os favoráveis à legalização sobem para 43. estes últimos atingem cerca de um terço dos jovens. certamente.1 nr 10.8 32. é sem dúvida muito preocupante (tabela 13).1 20. no específico. Conhecer jovens que delas se utilizam faz parte da experiência de mais da metade dos entrevistados. O caráter de “desvio” ligado à proximidade com o mundo da droga é posto em discussão tanto de um ponto de vista quantitativo (percentagens muito elevadas de jovens são envolvidos nele com intensidade variável) quanto qualitativo (o “perfil” social do jovem envolvido parece amplamente indiferenciado). desvio e droga Tabela 13 Variação no tempo dos indicadores de contato com o mundo das drogas (%) 1983 Aconteceu com você: Falar com alguém que tenha usado drogas ao menos uma vez Conhecer pessoas que utilizam droga regularmente Ver alguém que havia acabado de consumir alguma droga Receber convites para provar (ou comprar) qualquer tipo de droga Ver or provar qualquer tipo de droga Sentir desejo (oucuriosidade) de provar alguma droga 54.9 22. no conjunto. Numerosos sinais indicam quanto o problema social da droga deva ser explicado em termos culturais.4 7. As características sócioidentitárias dos jovens que se declaram favoráveis à descriminação do consumo de drogas não são especialmente nítidas. para se tornar uma experiência “normal” de grandes grupos de jovens. a projeção no presente como produto natural de uma lábil projeção futura. dizia respeito só a um terço deles.9 43. O uso — ocasional — de drogas se torna assim completamente desligado de condições de desvantagem e de marginalidade.7 21. como também a confissão de ter vontade (ou só a curiosidade) de experimentá-la. Conclusões O quadro geral resultante confirma assim algumas tendências que foram se consolidando na última década. Portanto.3 44. os moradores das grandes cidades. aí incluindo os de caráter transgressivo.7 efeitos das substâncias estupefacientes (tabela 12). a tendência a antever canais de dupla moralidade conforme os âmbitos de experiências vividas contingentemente. Se. os jovens parecem portadores de uma moral que se distancia progressivamente dos valores tradicionais. Os contrários superam de modo bem nítido os favoráveis.8 1987 46.3%. os mais velhos. embora se destaquem os homens. quando em 1987. entre os que tiveram contato com uma substância estupefaciente.8 4.8 39. tal opinião resulta mais freqüente entre os que constatamos serem os mais próximos a comportamentos contíguos à cultura da droga. mensurado em sua evolução quantitativa.6 10.7 24. Já vimos como tais resultados se aplicam sobretudo às drogas leves mas a consistência do fenômeno.8 39. não parece existir nenhum critério previsível que induza relações significativas entre predisposição para o consumo e características sócio-econômicas dos entrevistados. A última questão relacionada às drogas estava centrada nas opiniões dos jovens quanto a uma eventual legalização futura do uso dos estupefacientes.6 54. Os dados objetivos de exposição à droga estão em franco aumento. Obviamente. o contato físico com uma substância estupefaciente mais que dobrou. a proximidade com a droga se propõe de fato como um fenômeno indiferenciado aberto à experiência de qualquer jovem. um papel não irrelevante é representado por alguns elementos que caracterizam o universo juvenil: a percepção da reversibilidade dos percursos existenciais. por exemplo. contudo.

As gangues e a imprensa
A produção de um mito nacional

Martín Sánchez-Jankowski
Universidade de Berkeley

Tradução de Ines Rosa Bueno Publicado em: Actes de la Recherche en Sciences Sociales. Paris: nº 101-102, março 1994, p. 101-117.

Le crime tient sans trêve le devant de la scène, mais le criminel n’y figure que furtivement, pour y être aussitôt remplacé. Albert Camus, La Chute, 1956

Foi no iníco do século 20 que as gangues apareceram no cenário urbano americano. Desde então, elas foram continuamente estigmatizadas como um “problema social” maior. O que sempre chamou a atenção da opinião pública, são as suas atividades que podemos qualificar como delituosas ou ilegais, que fazem nascer o medo e atentam contra os bens ou ameaçam as pessoas. O Estado, então, sempre empenhou meios consideráveis e cada vez maiores, para tentar erradicar o fenômeno. Entretanto, apesar destes esforços impressionantes e ininterruptos, as gangues não só persistiram mas não pararam de se expandir, particularmente nas duas últimas décadas. Como explicar este paradoxo? Por quê o empenho de tantos esforços na luta contra as gangues não produziu os resultados esperados? Esta interrogação é que esteve na origem das minhas

pesquisas sobre o fenômeno das gangues na América urbana contemporânea1. Dez anos de investigações avançadas sobre o assunto me levaram à conclusão de que a resposta para esta interrogação reside no fato de as gangues serem organizações, um dado que a maior parte dos estudos anteriores tinha desprezado. Enquanto resposta coletiva a uma situação econômica de grande penúria e de isolamento, estas organizações elaboraram estratégias racionais de sobrevivência que se aplicam tanto aos meios de aumentar seus efetivos e fazer florescer seus haveres financeiros quanto ao estabelecimento de relações com seu ambiente, quer se trate de organizações rivais, da polícia, do sistema político e da mídia. Estas relações formam um sistema de intercâmbios multiforme que se revela, em última instância, como sustentáculo da existência das gangues. O artigo a seguir se inscre-

1 Cf. M. Sánchez-Jankowski, Islands in the Street: Gangs

in the American Society, Berkeley e Los Angeles, University of California Press, 1991, obra em que este artigo se apóia.

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As gangues e a imprensa

ve nesse quadro conceitual e se propõe a analisar a contribuição que a mídia traz para a persistência do fenômeno das gangues urbanas americanas. A mídia se vê, ora observadora neutra das gangues, ora sua adversária, quando na realidade ela contribui em parte para a sua sobrevivência. De fato, de todas as instituições que podem exercer uma influência sobre o fenômeno, poucas ocupam uma posição tão estratégica2. Convém notar logo de início, que não são “especialistas” sobre gangues mas jornalistas das mídias ditas de “massa” que são autoridades na matéria. De modo que são a principal fonte de informação não somente do “cidadão médio”, como também dos pretensos “especialistas” responsáveis pela elaboração e realização das medidas de luta contra as gangues. Fiquei admirado ao longo das minhas investigações, quando constatei o quanto aqueles que se consideram como “experts” retiram os seus conhecimentos do fenômeno pelo menos, tanto das reportagens emitidas pelas mídias quanto dos trabalhos de pesquisa. Isto, para dizer que é indispensável elucidar o modus vivendi que se estabelece entre a mídia e as gangues se pretendemos entender a perenidade dessas últimas. A maioria das pessoas — inclusive, experts — está convencida de que a cobertura pela mídia dá conta da realidade das gangues, quando ela na verdade introduz distorsões tão profundas quanto sistemáticas. Estas distorsões têm a ver com as exigências estruturais a partir das quais a mídia funciona, assim como a ignorância, a incompetência e as ambições profissionais dos jornalistas. As análises que seguem se apóiam em três tipos de dados: observações diretas efetuadas quando membros das gangues de New York, Boston e Los Angeles, cujas atividades eu compartilhei, foram entrevistados pela imprensa ou pela televisão; uma série de entrevis-

tas com jornalistas cobrindo a atualidade urbana; finalmente roteiros de programas de rádio e de televisão dedicados as gangues, assim como as gravações em vídeo de telejornais, de documentários, debates, docu-dramas, novelas como Hill Street Blues e filmes (Colors, The Warriors, Fort ApacheThe Bronx) em que as gangues desempenham um papel central. A reportagem de atualidade ou o procedimento “informativo” Os jornais e revistas da atualidade não têm como objetivo apenas difundir notícias: eles devem também realizar lucros. Os redatores-chefes da imprensa e os produtores dos telejornais e de rádio devem coletar e selecionar informações mas devem sobretudo interessar os leitores, ouvintes ou telespectadores pela apresentação que eles fazem. No quadro competitivo, uma reportagem sobre as gangues se inscreve na rúbrica de “jornalismo de rotina3” que trata de acontecimentos do dia a dia e este tratamento afeta obviamente a imagem pública das gangues. Uma tal imagem não pode ser uma representação detalhada e nuançada da realidade, em razão das exigências de programação e de tempo, além do quê uma reportagem responde a um imperativo econômico preciso: suscitar no público um interesse que o leve a comprar tal jornal ou a assistir ao noticiário numa determinada rede de rádio ou de televisão ao invés das outras. As gangues só são notícia quando estão implicadas em um acontecimento particularmente sensacional. Pela sua própria natureza, os jornais e as informações de televisão não podem tratar a “notícia” de forma exaustiva (diga o que disser o New York Times,cujo lema é — “All the news that’s to print”: Todas as notícias que merecem ser impres-

Vigil e Hagedorn abordam as mídias mas sem analisar suas relações com as gangues. Ambos se contentam em sublinhar a imagem negativa que elas veiculam destas últimas. Ver Hagedorn, People and Folks,.23-24, 156; e Vigil, Barrio Gangs, P. 40, 124.

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Todd Gitlin usa a expressão “jornalismo de rotina”em The Whole World is Watching: Mass Media and Unmaking of the New Left,Berkeley, University of California Press, 1980. P.4.

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sas). Para merecer algumas colunas na rubrica das notícias populares ou alguns minutos no jornal da noite, uma gangue deve cometer um ato fora do comum: para ser mais claro, é preciso que tenha se tornado culpada de ações violentas ou criminosas. E quanto mais violento o crime cometido, mais chances ele tem de ser escalado no noticiário do dia. Deste modo, os telejornais e as rádios assim como os jornais de informações estão a toda hora em busca de acontecimentos “captadores de interesse” para agarrar e tornar fiel seu público. As violências e os crimes que implicam gangues são, neste aspecto, assuntos cobiçados. De fato, eles estimulam a curiosidade do público e poupam aos jornalistas inúmeras dificuldades técnicas com que costumam se deparar. Por exemplo, os repórteres têm o hábito de apresentar os principais acontecimentos do dia como fatos comprovados. Entretanto, na maioria dos incidentes ligados a gangues, esta pressuposicão é errada. Nas três cidades estudadas (Los Angeles, New York e Boston), um grande número de notícias populares violentas é regularmente apresentado como “crimes envolvendo gangues” (gang-related crime), quando na maioria dos casos, o que é apresentado ao público como “verdade” dos acontecimentos, não tem absolutamente nenhum fundamento. Quando experts (em geral policiais) são interrogados para comentar o incidente em questão, eles sempre o fazem com termos cautelosos, usando expressões como “achamos que este crime tem a ver com gangues”. Neste caso, o setor de informação pode atribuir o ocorrido que, ele tem a certeza, será do agrado do público, a ação de uma gangue sem ter de identificar nominalmente a pessoa ou grupo presumidamente responsável pelo crime. Um caso de gangues é, por natureza, um produto midiático ideal: cativa o público sem realmente pôr em jogo a responsabilidade do jornalista. O repórter de uma rede de televisão de New York explica: “Fazer uma matéria sobre as gangues, é a panacéia para um jornalista e para a sua rede de informação. (...) Em primeiro lugar, já que só se cobrem as histórias de gangues quando há crime ou violência, é mais fácil determinar quem é o culpado: pode se

acusar um grupo, e não uma pessoa em particular. É mais fácil identificar um grupo do que tentar remontar até um indivíduo: e isto permite que todo o mundo tenha folga! (...) Todo o mundo ganha tempo e a reportagem é valida assim mesmo. Em uma palavra, a rede consegue um ótimo “furo” sem muito trabalho. Além do mais, a vantagem, quando dizem que o culpado é uma gangue, é que ninguém precisa se fazer perguntas: porque ao acusar um indivíduo particular, corre se o risco de prejudicar as suas chances de ter um processo justo.” É assim que muitos crimes são abusivamente estigmatizados como “envolvendo gangues”. Em muitos casos precisos que eu estudei, o erro era porque o jornalista ignorava a existência de outros tipos de crimes coletivos, como os cometidos pelas crews, estas equipes de três a cinco pessoas que se associam apenas para o tempo de um assalto. Da mesma forma, quando um jovem comete um crime a título individual, independentemente da gangue à qual se alega que ele faz parte, é incorreto e abusivo falar em “crime de gangue”. E quando este tipo de erro ocorre, os jornalistas e os órgãos de informação não correm o risco de ser criticados, já que o público desconhece que o crime relatado foi cometido por um grupo que não tem, nem a estrutura nem o modo de funcionamento específico da gangue. Aquilo que um jornalista de um diário de New York reconhece: “Era uma série de assaltos durante os quais muitas pessoas levaram tiros. Quando cheguei no lugar para fazer a cobertura dos acontecimentos, fiz a minha investigação e descobri que os ladrões eram pelo menos seis. Então, fiz a minha matéria dizendo que as vítimas tinham sido agredidas e roubadas por uma “gangue”. Mas de fato, pouco depois, compreendi que os ladrões não tinham nada a ver com uma gangue: eles formavam. o que, na periferia, se chama uma “equipe” (crews). Em outras circunstâncias, ficaria muito aborrecido de ter cometido tamanho erro na minha matéria. Mas lá não, já que ninguém não está nem aí. Você acha que o público quer saber se estes caras formavam uma gangue no sentido estrito da palavra? Claro que não! O que importa para eles é que alguém

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foi assaltado e roubado por um bando de vagabundos e foi o que eu escrevi... Aliás, meus patrões se lixam para o meu erro, já que, de qualquer forma, esta história agradou aos leitores; além disso, eles sempre têm a desculpa de poder dizer que tudo isto tinha um pouco a ver com uma gangue.” Na verdade, os contatos diretos entre os jornalistas que produzem a “notícia” e os membros de gangues são extremamente limitados. De uma maneira geral, estes não interrogam os jovens das gangues no momento de cada acontecimento, simplesmente porque não têm tempo material para isto. Eles têm prazos para cumprir, que os impedem de localizar o ou aos membros da gangue incriminada e estabelecer com eles o clima de confiança indispensável a uma boa cooperação4. Aliás, a maioria dos jornalistas considera este procedimento como inútil e supérfluo. E, de fato, o número de encontros entre um jornalista e as gangues com que trabalha varia entre nenhum, no caso dos apresentadores de programas de televisão e alguns no máximo, o caso dos repórteres da imprensa. É por esta razão que os jornalistas se contentam com as informações sobre as gangues vindas da polícia, como o admite um jornalista que trabalha em um diário de New York: “De fato, quase nunca encontrei as gangues das quais eu falo nas minhas reportagens, nunca precisei realmente disso, já que se tratava sempre de casos de homicídio. Os comentários da polícia eram, portanto, amplamente suficientes. Você entende, eu não escrevia matérias de fundo: não é o que o redator-chefe queria de mim. Tudo o que eles queriam de mim era que eu escrevesse uma matéria sobre um acontecimento interessante e que o produza a tempo.” A reportagem de fundo ou o método “explicativo” Dada a extrema raridade dos contatos entre as gangues e os jornalistas que trabalham para as emis-

soras e a imprensa diária, não é de admirar que as notícias não ofereçam praticamente nenhum dado de fundo sobre o fenômeno, quando não fornecem delas dados inexatos e enganadores. As reportagens sobre os casos de gangues têm, não obstante, uma função muito útil para a mídia como um meio cômodo de atrair a atenção e cativar o público5. Os produtores de programas de televisão sabem que para segurar o público é preciso produzir jornais variados e movimentados6. Da mesma maneira, os diretores de diários e de revistas procuram atrair leitores com manchetes, capas e títulos chamativos7. Mas os produtores e diretores de jornais são também conscientes dos limites do procedimento puramente “informativo”. Eles se esforçam, portanto, para capitalizar em cima do desejo de explicações complementares despertado no público pelas informações factuais, para oferecer artigos ditos de “fundo”, reportagens longa metragem e documentários que alegam tratar de forma mais profunda os acontecimentos relatados de maneira muito sucinta no noticiário do dia. O objeto declarado deste segundo procedimento, que eu chamarei “explicativo”, é uma compreensão em profundidade da natureza das gangues. Em matéria de televisão, a grande referência é o documentário realizado nos anos 50 por Edward R. Murrow para a CBS, intitulado Who Killed Michael Farmer? É muito citado nas universidades como paradigma do gênero e todos os jornalistas que, desde então, fizeram filmes sobre gangues se inspiraram nele. Neste trabalho, Murrow trata de um incidente violento que fez muito barulho na época, a morte de um jovem deficiente nas mãos de uma gangue do Bronx na cidade de New York, cujas causas ele tenta trazer à luz do dia

É claro que as gangues não são o único tema que serve para “prender” leitores, ouvintes ou telespectadores ao noticiário.
6 Ver Herbert J. Gans, Deciding What’s News: A Study

5

4 Ver Gitlin, The Whole World is Watching, p.35, sobre

of CBS Evening News, NBC Nightly News, Newsweek and Time, New York Random house, 1980,p.218.
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a importância dos prazos na simplificação das reportagens.

Ibid., p. 219.

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para esclarecer o grande público a respeito do fenômeno mais geral das gangues na América8. A comparação entre o documentário de Murrow e dos recentes programas como Our Children: The Next Generation de Dan Medina, 48 hours: on gang street de Dan Rather (o famoso apresentador do jornal da noite da CBS nos EUA), ou Not my kid de Tyne Daly, produzido em 1989, revela que todos usam as mesmas técnicas de apresentação inovadas por Murrow9. Após ter lembrado os detalhes de uma notícia popular que fez derramar muita tinta nas manchetes, cada um traz informações sobre o contexto e as circunstâncias ambientes, para produzir uma análise de maior alcance sobre as gangues. No caso de Murrow, a notícia inicial é um incidente isolado, o homicídio de Michael Farmer; no de Dan Medina e de Dan Rather, são duas séries de crimes provocadas por confrontos coletivos entre muitas gangues de Los Angeles. Cada um destes eventos teve a cobertura de jornais da noite antes de se tornar o suporte de uma investigação mais completa que procura acima de tudo cativar e comover o público. O documentário de Murrow é inegavelmente um filme que enche os olhos: a lembrança das circunstâncias que levaram à morte trágica de Michael é entrecortada pela narrativa da história pessoal de seus agressores assim como pelas reações dos pais do jovem deficiente num tom que alterna

Embora Murrow e Yablonsky (na sua obra The Violent Gang) usem o mesmo incidente para analisar o fenômeno das gangues, eles chegam a conclusões diametralmente opostas. É possível pensar que é porque um deles é um sociólogo de profissão (Yablonsky) e o outro um jornalista persistente (Murrow) e que Yablonsky tem por esta razão mais chances de estar certo, por causa da sua formação. Não é nada disto: minhas pesquisas sobre este caso me levam a crer que as conclusões de Murrow estão mais próximas da realidade das gangues e do encadeamento dos eventos que conduziram efetivamente à morte de Michael Farmer No meio de uma gama de documentários dedicados a gangues, escolhi centrar nestes três programas por serem típicos do método “explicativo” com destino ao grande público.
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emoção e suspense. Mas, embora com perfeito domínio no plano da forma, o famoso documentário sofre, no fundo, enormes lacunas. As informações fornecidas esclarecem alguns dos fatores que podem ter influído os autores do crime mas que não dizem quase nada sobre a gangue em si, a não ser que Michael foi a vítima inocente de uma luta intestina entre seus membros. Nada é dito, notadamente, sobre o modo de organização e os comportamentos específicos de uma gangue urbana. E à pergunta inicial, “quem matou Michael Farmer?”, Murrow se contenta em responder in fine que foi a sociedade a responsável na medida em que permanece cega e insensível perante as condições socio-econômicas opressivas que levam os jovens dos bairros pobres a formar grupos suscetíveis de agredir pessoas. Uma resposta destas só faz reforçar a idéa comum de que as gangues são hordas de predadores, lobos ou hienas, famintos e violentos. O espectador, a quem ninguém propõe nenhuma análise séria da gangue enquanto tal, não pode, portanto, captar a relação entre a gangue como organização e a criminalidade juvenil. Os programas de Rather e Medina diferem do de Murrow na maneira de se articular em torno de assassinatos em série atribuídos a várias gangues de Los Angeles. Como o filme de Murrow, eles relatam a vida dos membros das gangues incriminadas e suas atividades e utilizam, para manter o interesse e o ritmo do programa, cenas comoventes contando a vida das vítimas. Entretanto, há trinta anos de distância, eles parecem notavelmente próximos da reportagem de Murrow e só fornecem mesmo breves comentários e lugares comuns sobre a vida das gangues. Isto se explica pelos imperativos técnicos, profissionais e comerciais que guiam a escolha e a apresentação dos “casos” considerados dignos de serem documentados pela mídia. As exigências do trabalho de jornalista Exigências inerentes ao processo de produção jornalística explicam em parte as semelhanças que se observam entre os diferentes programas de tele-

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os jornalistas precisam se perguntar se ele traz alguma novidade: se falharem neste ítem.As gangues e a imprensa visão dedicados às gangues. eles mesmos trazem uma resposta afirmativa a pergunta que todo jornalista de profissão deve se fazer nos EUA: será que a minha reportagem vai interessar a sociedade toda? — enquanto que o conteúdo de seus documentários. Em cada um dos documentários citados. muitas vezes forçadas. eles só dão um espaço extremamente reduzido aos comentários pessoais dos protagonistas entrevistados já que é muito sabido que este tipo de comentários “quebra” o ritmo do programa. e passam muito rapidamente de um aspecto da vida das gangues para outro. os jornalistas apelam para dois tipos de registros. p. Todas as reportagens sobre as gangues redobram esforços para gerar a emoção nos telespectadores mostrando-lhes pessoas que são elas mesmas absolutamente transtornadas. É por esta razão que todas as reportagens sobre as gangues são variações. É por esta razão que as reportagens sempre contêm cenas de violência entre as gangues cuja finalidade não é tão somente a de descrever o dia a dia nos bairros pobres e operários quanto a de fornecer “ação”. A segunda regra que condiciona a produção de tais documentários é o “imperativo do inédito”. Para criar “ação”. A terceira pergunta que um jornalista deve se fazer é a de saber se uma reportagem contem bastante “ação”’. portanto. preciso ou selecionar um assunto totalmente novo. este ingrediente indispensável à produção de uma “boa” reportagem. alargar o alcance da reportagem no país inteiro. Estas contingências foram analisadas detalhadamente por Herbert Gans10. No jargão jornalístico. no documentário de televisão. Outro método visando a produção deste efeito de generalização é a exploração emocional da dor das vítimas da criminalidade das gangues e de sua família. pelo contrário. para que o interesse do telespectador não relaxe nunca. Assim. não estabelece rigorosa- 10 Ibid. justamente a cidade em que se situa a reportagem. emoção. 146 -181. Esta exigência é particularmente evidente nos programas citados acima. como a tristeza e a cólera que a morte ocasiona. Rather e Medina. E é a idéia de violência que permite aqui. isto é. mente nenhuma relação entre o que acontece em Los Angeles e no resto do país. eu me limitarei aqui a desenvolver as que se aplicam especificamente aos documentários de Murrow. O documentário é feito para permitir que os espectadores entendam a violência que assola o seu próprio bairro através dos exemplos. extremos de New York e de Los Angeles. É. desprovidos de todos os dados comparativos. “ação” significa na verdade. Antes mesmo de começar o seu trabalho. Por exemplo. Nenhuma das reportagens sobre as gangues faz a comparação entre diferentes cidades dos EUA mas todas usam diversos procedimentos para lhes dar um alcance nacional. se ele é sucetível de interessar o país inteiro ou. A primeira das contingências que pesam sobre o trabalho dos jornalistas é o que os próprios chamam de “importância do caso” (story suitability). O que permite que Dan Rather e Tyne Daly concluam ambos seu programa (48 hours e Not my kid) com a idéia de que “não é um problema que concerne apenas aos habitantes de Los Angeles: é um problema que concerne a todos nós”.. A primeira receita usada em todos os programas de televisão consiste na exploração do tema da violência. ou encontrar uma nova luz para um tema que já foi tratado. Assim. sobre um mesmo tema. Our Children: The Next Revista Brasileira de Educação 185 . o da violência e o das emoções. tendo como resultado que nenhum destes aspectos é suficientemente desenvolvido para permitir o menor esclarecimento sobre o fenômeno. A quarta regra tem a ver com o “ritmo”. aliás. Um dos credos dos profissionais da notícia é que o ritmo de um programa deve ser controlado. os seus superiores lhes chamarão logo a atenção sobre este ponto. o jornalista insiste no fato de que a violência das gangues é onipresente em todas as grandes cidades dos USA e prossegue afirmando que “em nenhum lugar. esta violência só está presente em X”. se só merece a atenção em um perímetro local e regional.

A conseqüência mais evidente disto é que o jornalista trabalha muito pouco tempo no mesmo assunto. O conteúdo das reportagens sobre as gangues é também submetido a exigências mais diretamente técnicas. É. por um esforço visando apresentar aspectos muito diversificados da vida das gangues. na verdade. se você quer realmente simplificar. ele conclui dizendo que uma das causas da perenidade da violência juvenil é que as famílias não assumem suas responsabilidades.. chamado Nimble. a ponto de.. se referindo à excitação da ação violenta como catalizador das gangues. embora o status social. eles mostra pais que não têm nada a dizer sobre o fato dos filhos fazerem parte de uma gangue. o que você quer dizer é que é um problema de território. a análises extremamente pobres e sucintas que cabem.” Seguem curtíssimas cenas violentas de apenas alguns segundos. após o quê ele acrescenta: “A violência é um excitante e é também o maior sustentáculo das gangues da região de Los Angeles”. oferecendo ao mesmo tempo diferentes perspectivas sobre cada uma delas. ela só leva. É também muito comum um jornalista que dialoga com os membros de uma gangue obrigá-los a transformar suas palavras para simplificálas. Os jornalistas consideram que seu trabalho deve poder ser entendido por todo o público embora seus comentários se reduzam ao estritamente necessário. respondeu que muitos fatores explicavam este conflito e começa a enumerálos. sem dar a menor explicação a respeito desta diferença. Mas ele ainda não havia terminado o terceiro quando o jornalista o cortou: “Na verdade. que mostre diversidade mas também igualdade na escolha das matérias e na expressão das orientações políticas. ilustram bem este dilema da atividade dos repórteres: “Estava fazendo uma matéria de fundo sobre as gangues e havia realmente todos os elementos para que a reportagem fosse um arraso. e deontologicamente defensável.Martín Sánchez-Jankowski Generation. tirar todo o significado de sua palavras. portanto. o dinheiro e as mulheres. É o caso de um jornalista entrevistando um membro de gangue de New York sobre as razões que levavam a sua gangue a se enfrentar com outra.-se!” A sexta exigência que pesa no trabalho jornalístico recomenda uma reportagem “equilibrada”. o público corre o risco de não aprender grande coisa com as suas reportagens. difícil e até mesmo impossível para ele juntar as informações de base. no começo do documentário de televisão Our Children: New Generation.. E neste passo. Pouco depois. como fim de programa. O que se traduz nos programas dedi- cados às gangues. não tem mais jeito de eles entenderem agora! Mas se é o que ele quer. em uma única frase. falando simplesmente.. p... Dan Medina diz notadamente: “A violência na rua se tornou um esporte para alguns. entre as quais a mais tirânica é sem dúvida a dos prazos a serem cumpridos pelos jornalistas.. E. Por exemplo. então sim.” Mas quando o repórter se foi. Os comentários deste jornalista..” O jornalista o interrompeu então. o que restringe drasticamente seu conhecimento sobre as gangues. sem a menor explicação nem prova. Medina afirma que entre as vítimas das gangues aparecem as suas famílias e ele prossegue anunciando que “são famílias que se mobilizaram contra a violência”. O rapaz. ele sugere três outros fatores que levariam os jovens a se juntar a gangues. às vezes. f. Mas eu 186 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . o jovem declarou: “Suponho que ele quer que as pessoas entendam. a saber o status social. mas. suponho que é isto. há seis anos em Boston.” E Nimble assentiu: “É. para equilibrar as coisas. Mostrando ao mesmo tempo pais que se levantam contra as gangues e outros que parecem não preocupados. abandona-se para o público a tarefa de dar um jeito de reconciliar estes comportamentos de aparência contraditória. É por esta razão que esta exigência só faz reforçar a incompreensão geral que reina em torno do fenômeno das gangues. Porém.” No que Nimble respondeu: “Bem. isto é. é o que você quer dizer. Quinta exigência: a “clareza” da reportagem. se você quiser. o dinheiro e as mulheres se encontrem amalgamados na idéia de violência. outra vez: “Mas. mas é mais complicado do que isto. Se esta intenção parece a priori louvável. às vezes. é muito óbvio que enquanto o jornalista não tem domínio suficiente de certos aspectos fundamentais da questão.

Gostaria de pelo menos ter podido ficar com eles. A terceira dificuldade técnica tem a ver com a formação dos jornalistas. 11 Estas decisões são elas mesmas fortemente determinadas pelo que a profissão tem costume de considerar como uma boa reportagem (clara. Para dar o troco. de fato. etc. Ou. problema que os jornalistas compartilham com os sociólogos. dos quais os dois principais são que estas observações sejam falsas ou sem pertinência no contexto em que são trazidas. o que cria um sério problema de qualidade do nível das informações fornecidas no programa. os jornalistas confiam no que já foi dito antes deles sobre o assunto11. mas o meu diretor tinha prazos para cumprir e portanto eu tive de ceder também. obriga os jornalistas a fazerem uma escolha entre os diferentes aspectos do assunto que eles vão tratar e a decidir sobre o tempo a dedicar a cada um deles12. Estava frustrado. Mas este problema não parece. incomodar os jornalistas: eles produzem apesar de tudo suas reportagens compensando a sua própria carência de informações diretas tomando emprestado os comentários de outras análises. aliás.). pois um encontro se obtém bastante facilmente. ainda. Isto é o que costuma acontecer quando o jornalista não consegue convidar o especialista desejado para o seu programa e se vê obrigado a substituí-lo. Aí vem notadamente o problema de como saber usar os comentários dos especialistas.As gangues e a imprensa precisava passar muito tempo com os jovens. eles muitas vezes pedem para pretensos especialistas comentarem os aspectos do assunto a respeito dos quais eles mesmos se sentem os mais incompetentes. O verdadeiro problema é ganhar a confiança dos seus membros para ser autorizado a observar diretamente o conjunto das atividades da gangue e a recolher as confidências dos jovens implicados. A maioria dos jornalistas é. Os jornalistas sempre podem sonhar em não ter nenhum limite neste caso. comedida. Esta dificuldade não consiste tão somente em entrar em contato com eles. geralmente dos sociólogos e dos criminologistas. como estes repórter que eu pude ver perguntar a especia- Usar observações feitas por outrem não acontece sem riscos. os sentimentos e as aspirações — de seus membros. Salvo exceção. Mas isto não impede de reconhecer que deixei de escrever o artigo que eu poderia ter redigido. pergunta-se aos especialistas sobre um assunto fora das suas competências. mas a realidade profissional é completamente diferente. o que faz com que os estereótipos os mais comuns sobre as gangues não parem de se reproduzir e se reforçar. de maneira algum. equilibrada. Quase todos aqueles que fazem reportagens de fundo sobre as gangues am- bicionam produzir um diagnóstico de caráter sociológico. Mas nenhum deles tem a formação requerida nem as ferramentas necessárias para este tipo de abordagem. Infelizmente. Para preencher as lacunas de suas reportagens. Mais uma vez. consciente disto e reconhece até um certo embaraço. por uma pessoa menos competente porém mais disponível. pois sabia que precisaria de mais tempo mas não fiquei com bronca do meu chefe porque eu sei que ele mesmo estava preso na engrenagem. mas que o especialista mesmo não observou. os jornalistas não são aceitos no seio das gangues e não têm portanto acesso à sua vida externa e muito menos à vida interna — as idéias. de improviso. 12 Revista Brasileira de Educação 187 .” Uma outra exigência tem a ver com a dificuldade de acesso aos membros das gangues. A quarta dificuldade técnica é a da extensão imposta ao programa ou ao artigo. o resultado é que a análise dos pretensos especialistas repousa menos sobre dados atuais do que sobre imagens repetidas. o jornalista pressiona o especialista a responder muito brevemente a suas perguntas e com termos diferentes dos que ele gostaria de usar. Isto. acontece que pedem aos especialistas para discutirem um aspecto da vida das gangues que foi relatado ao jornalista ou que ele viu. Muitas vezes. ou que ele estudou há tanto tempo que suas observações são completamente obsoletas. E estas exigências de duração e de extensão afetam diretamente tanto a profundeza quanto a qualidade da reportagem.

eu posso provar a mim mesmo que ainda estou por dentro. prestígio e poder. explica também o interesse de tais reportagens: “Você me pergunta por quê eu quero fazer esta reportagem sobre as gangues? Na verdade. Um jovem jornalista tem uma tremenda necessidade de uma ou de duas boas reportagens destas para lançar a sua carreira. a não ser aos seus 188 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . afirmou sem constrangimento: “É claro que quero fazer uma reportagem sobre as gangues. de espaço e de formação ditam. no seu próprio jornal ou rede de televisão ou rádio. e isto. na maioria dos casos. As gangues representam portanto para os jornalistas um assunto — ou. até.Martín Sánchez-Jankowski listas: “E o senhor. e que me faça conseguir outros programas. eles seriam capazes de dar uma visão nova das gangues. a sua “linha” (your take) sobre a violência das gangues. um produto — de destaque que pode. É realmente o tipo de matéria ideal para um jovem jornalista como eu. Um jornalista. seguro após vários anos de reflexão sobre o assunto. Os jornalistas estão convencidos de que uma boa reportagem sobre as gangues pode realçar o seu prestígio no seio da profissão e. Nos casos em que o jornalista deixa o especialista se expressar à vontade. no momento da entrevista. para uma boa parte. Mostrou-se que as gangues são invariavelmente associadas aos temas do crime. se prepara para se lançar numa explicação bastante longa mas é imediatamente interrompido pelo jornalista que exige uma resposta precipitada. as exigências de tempo. Seriamente. E se eu conseguisse dar uma visão nova das gangues ou de um outro assunto tão explosivo quanto esse. Estes clichés que a mídia contribuiu para criar. é um ótimo assunto para se trabalhar porque continua havendo violência e crimes nos casos de gangues e é exatamente com isto que o público sonha. Escolhendo um assunto que sempre costuma ser a notícia destes últimos tempos.) O que eu espero de uma boa reportagem é que me faça ganhar o respeito de meus colegas. se eu me encarrego de uma reportagem difícil sobre um assunto importante que interessa para todo o mundo. eu ganharia ainda mais respeito e prestígio na profissão. sua intervenção será pura e simplesmente reduzida ou suprimida na hora da montagem. limitando-se a adotar um ângulo novo para apresentá-los. por conseguinte.. os seus projetos não tinham nada de muito novo.” Todos os jornalistas que eu encontrei. tornou-se um dos meios mais concorridos para fazer carreira na mídia. são aqueles mesmos sucetíveis de atrair um grande público. um jornalista explicar a um expert que sua teoria devia ser falha. eu sei que vou conservar a estima profissional que eu adquiri em todos estes anos aos olhos de meus colegas.. (.” Um outro jornalista em New York há muitos anos. As gangues são um problema muito grave nas cidades americanas e sempre foi assim porque os grupos representam uma ameaça para o americano médio. Muito francamente. e também espero que me permita ganhar muito dinheiro. além do mais. Resumindo. já que não conseguia expressála em poucas palavras. do sexo e da violência e que são envoltas por uma atmosfera sulfúrica que mistura sinistro e mistério. para ser mais preciso. o conteúdo das reportagens sobre as gangues e as explicações que dão para justificar a sua multiplicação. pois se eu conseguisse fazer uma reportagem sobre as gangues. assim como os que eu interroguei durante as entrevistas formais e com quem tive a oportunidade de discutir quando vinham entrevistar as gangues com as quais eu andava. Explorar estes clichés. não me desagradaria. Vi. qual é?”. O especialista. Eles esperam firmemente conseguir graças às gangues um cargo mais importante com responsabilidades ampliadas assim como um salário mais generoso. se revelar particularmente eficaz para ganhar dinheiro. há pouco tempo. Porém. estavam convencidos de que ao acumularem as informações necessárias. tenho certeza que teria muito a ganhar. Interesses profissionais e pressões comerciais Ambições profissionais e pressões comerciais são o último elemento que explica a perceptível similitude dos programas dedicados às gangues. em Los Angeles. não é muito complicado no meu caso.

É porém. geralmente. o fenômeno das gangues é o próprio tipo de assunto que estimula o interesse dos telespectadores. Alguns até confessaram que outros que haviam trabalhado sobre o tema tinham avisado que sua abordagem não era original. eles só têm pouco tempo para dedicar ás pesquisas necessárias a cada tema. Porém. é ativamente encorajada pelo animador. se apresentando como análises aprofundadas do assunto.As gangues e a imprensa próprios olhos. a quem [Nota do tradutor] Estes programas diários. que aplaude. mas. As declarações deste jornalista ilustram bem esta atitude: “Dois colegas me disseram que a minha matéria sobre as gangues já tinha sido feita. usando termos e imagens estereotipados e alarmistas. e The Oprah Winfrey Show se apresentam — e se vendem — como programas que. na verdade. apita e ovaciona os debatedores. É por esta razão que elas privilegiam todos os assuntos considerados como os mais “chamativos” junto ao público da tarde. cita diversas estimativas da amplitude do fenômeno pelos experts e salienta a extrema gravidade da situação. raro que permitam uma melhor compreensão do fenômeno. Um talk-show destes é sempre aberto com uma apresentação do assunto pelo animador que dá o tom do programa. Em suma. E este tipo de reportagem reforça uma imagem das gangues que deve menos à realidade do que aos mitos que as envolvem. assim como as tomadas de posição definitivas e irreconciliáveis. as reportagens de fundo difundidas sobre as gangues pelas revistas. não acredito que seja exatamente a mesma coisa. Phil Donahue. Isto é devido ao fato deles nem procurarem compreender o que são realmente as gangues. Passei muito tempo nesta reportagem e acho que vou poder convencer o redatorchefe de que é algo inédito”. reforçar o mais comum ponto de vista sobre as gangues com todas as suas falhas. A participação ativa e barulhenta da platéia. ao vivo. além dos debates que alegam promover sobre diferentes “problemas da sociedade” vistos através das situações individuais. escondemse objetivos essencialmente profissionais e comerciais. ao discutir comigo. sexualidade e imoralidade) junta. 13 Revista Brasileira de Educação 189 . sobretudo quando é tratado com um sensacionalismo desmedido. cinco assuntos por semana). destacando as atitudes e as emoções dos participantes13. que emprestam o seu patrônimo ao programa) que conduz uma discussão personalizada de alto teor emocional em volta de um tema selecionado pelo seu impacto midiático (os temas giram invariavelmente em torno de dinheiro. uma frase de introdução basta para dramatizar o problema. animados por um apresentador-astro (como Geraldo Rivera. representantes de associações envolvidas e diversos experts (geralmente psicólogos e profissões paramédicas. eles não davam a mínima para estas advertências e continuavam falando como se tivessem efetivamente uma concepção revolucionária do problema para vender ao seu diretor ou produtor. Como estes programas apresentam um assunto diferente a cada dia (ou seja. Sob a cobertura da investigação “explicativa”. O apresentador lembra algum incidente violento notório que implique uma ou mais gangues. jornais ou pela televisão só se aproveitam do interesse criado pelo noticiário para faturar. no palco pessoas que viveram tal situação extrema para ilustrar o tema do dia. O que os jornalistas consideram ou teimam em considerar como uma apresentação “inovadora” só faz. particularmente entre as pessoas que não residem nos bairros pobres assolados pelas gangues. e Ophrah Winfrey. francamente. Ele diz o número de vítimas inocentes desta manifestações de violência. devidamente certficados por seus diplomas) que supõem sugerir alguma terapia individual como solução do dilema discutido. amor. Os talk-shows de grande audiência na parte da tarde como Geraldo. Mas em compensação. Estas emissões são retiradas das programações sempre que elas deixam de ter uma alta taxa de audiência. têm como grande ambição a de revelar “o aspecto humano” de cada história. No caso das gangues. The Phil Donahue Show. As gangues como assunto de diversão Os debates de televisão e os filmes marcam uma etapa suplementar — e uma escalada — na exploração midiática do interese do grande público pelas gangues. eles juntam no palco “experts” ou pretensos experts na matéria.

Definitivamente. Law. 15 Acontece que este segundo método funciona tão bem que o apresentador se vê transbordado e paga por isto. um bate-boca violento estourou em Geraldo durante um programa. ele limita as intervenções de cada um a algumas frases que ele utiliza como ponto de partida daquilo que é ou vai realmente ser o coração e a razão de ser do programa: as interações múltiplas e rápidas entre o animador. Eles representam tudo aquilo que a sociedade execra profundamente e sobretudo tudo aquilo que ameaça os seus valores mais sagrados. O objetivo é criar um debate conflituoso entre todos os participantes (sem dúvida porque se considera que é o único meio de interessar os telespectadores). que colocou face a face defensores da supremacia branca e militantes afro-americanos. Fundamentalmente. Cada um destes filmes apresenta os membros das gangues como jovens pobres. Durante as emissões dedicadas às gangues. e os telespectadores. e que não têm nem competência nem vontade de crescer na escala social ou de se tornar cidadãos produtivos17. são “perdedores”. nada sobre o fenômeno das gangues. 17 16 190 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Em Warriors e Colors os princípos que guiam a conduta dos mem- Falar em pretensos experts não significa que as pessoas solicitadas careçam de competência. os espectadores se empolgarão também. Outros filmes recentes como Fort Apache-The Bronx fazem semelhante pintura das gangues. apesar deste quadro temporal muito preciso. mas sobretudo. O papel do apresentador face aos convidados é ressaltar as diferenças e acentuar as oposições entre os pontos de vista expostos. Obviamente. e entreter a animação do programa incentivando ininterruptamente as trocas (bate-papo) entre os convidados. os convidados. nos programas que estudei. chovem as perguntas de senso comum tais como: Por quê eles são tão violentos? Como fazer para tirá-los desta? etc. Entre a pletora de filmes sobre as gangues. O apresentador manipula seus convidados para que o debate seja o mais ágil possível. por assim dizer. The Warriors das dos anos 70 e Colors dos anos 80. L. É verdade que o procedimento e o objetivo destes programas não é buscar a compreensão. finalmente entre os convidados e o público. metidos e sedutores apesar de tudo.A. entre o público presente e os telespectadores. sua competência não tem nada a ver com o assunto em pauta. o objetivo divertimento é bem atingido mas ao preço de uma acentuação dos clichés sobre o problema das gangues. mesmo que a estratégia posta em prática permita efetivamente obter debates animados. 14 Podemos incluir aqui os telefilmes e as passagens de seriados que integram históras de gangues. não se aprende. os produtores do programa estimam que se eles conseguem “esquentar o públi- co” do estúdio. Mas muitas vezes. a esta questões em meia hora de programa (sem contar as propagandas que interrompem os debates a cada seis ou oito minutos). Entretanto. é obviamente impossível dar respostas um pouco complexas e completas que sejam. em que os grupos quebraram o nariz de Geraldo Rivera. Até porque os muitos convidados têm todos conhecimentos e opiniões muito dispersos sobre o assunto. Porém. mas utilizar as gangues como suporte para vender o espetáculo das trocas (bate-papo) entre os partcipantes. Cagney and Lacey e The Mod Square contêm todos episódios em que as gangues são destaque. As telenovelas Hill Street Blues. O cinema também usa este assunto para fins recreativos e comerciais16. perdedores com costumes primários e com comportamento violento. Cada um destes filmes descreve uma gangue de uma época diferente: West Side Story nos fala das gangues dos anos 50. os mais memoráveis são sem dúvida West Side Story. o público do estúdio. oriundos da classe operária. Porém. eles são notavelmente similares na sua maneira de apresentar as gangues e o seu meio ambiente. Até os primeiros filmes sobre os Bouwery Boys os apresentam como coitados. O apresentador assume portanto o papel do provocador para criar a polêmica entre os diferentes grupos de participantes15. Assim. The Warriors e Colors.Martín Sánchez-Jankowski se pede comentários sobre o que for dito ao longo do programa pelos convidados ou pelo público14.

que a encontrará depois nos braços de um dos membros da gangue. Chegamos finalmente à definição que Hollywood dá do ambiente social das gangues. todas as mulheres de cor são imorais e irresponsáveis. O sacrifíco de Tony leva os Jets e os Sharks à humanidade. sejam eles brancos ou portoriquenhos (como mostra a célebre cena do assassinato seguido pela dor de Maria). que a sua moralidade aparente não passa de uma máscara de hipocrisia. a mais disciplina.As gangues e a imprensa bros das gangues representam verdadeiros anátemas lançados contra a sociedade 18. os parentes dos jovens delinquentes aparecem com traços particularmente sombrios. ele só trata incidentalmente das gangues. mas a maneira como elas os traem é particularmente repreensível aos olhos da moral dominante. A enfermeira portoriquenha se revela ser uma viciada em heroína e a garçonete mexicana. mas fazê-lo com o único negro da gangue é realmente a traição suprema. Mas descobre-se logo durante o filme que estas duas mulheres não são nada “boas”. nos dois filmes. Basta comparar as personagens femininas de cor e policiais brancos em Colors e em Fort Apache-The Bronx. têm todas costumes suspeitos. uma mexicana que vende sanduíches. que precisam de um mínimo de cenas de amor e de sexo para serem vendidos. Da mesma forma. 19 Fort Apache The Bronx é um filme sobre o bairro “ghetificado” do South Bronx de New York. Assim. seu inimigo pessoal mas também e sobretudo o único negro desta gangue mexicana! O simbolismo racial é particularmente revelador em relação a isto: fazer amor com um delinquente mexicano já seria bastante imoral. ou ainda são alcoólatras ou drogadas. Nos dois casos. mas que ninguém sabe Revista Brasileira de Educação 191 . uma mulher fácil que corre pelas ruas com a sua gangue latina. ignoram ou negligenciam suas responsabilidades face a seus filhos no descaminho. é uma enfermeira portoriquenha e. cada filme contém várias cenas que procuram demonstrar que “esta gente” é incapaz de fazer reinar a ordem. sem dúvida. que todos eles aspiram. 18 mes. por exemplo. de longe. E claro. Esta representação é muito mais chocante porque a maioria destes filmes se concentra sobre gangues de “não brancos”. amantes ou simples conhecidas. em Colors. Colors está centrado sobre as atividades presumidas das gangues de Los Angeles assim como o seu meio ambiente. a garçonete mexicana termina com Sean Penn. Estes filmes. A morte de Tony é tratada no flme à maneira da paixão do Cristo. Os pais. em Colors — se apaixona pela mulher “diferente das outras”. Em todos estes filmes. Elas estão dispostas a cometer o adultério e até a se prostituir. enquanto Maria chora este sacrifíco como a Virgem Santa. em bairros “não brancos”. sejam elas namoradas. As mulheres que têm qualquer tipo de relações com membros de gangues. Nestes dois fil- É também a mensagem de West Side Story. a única mulher “não branca” apresentada como diferente das outras é justamente aquela que parece ter escapado da influência corruptora da sua comunidade. Elas não só são apresentadas como desleais para com seus namorados brancos. as personagens mais negativas. quando levam juntos seu corpo para a terra. Em compensação. o marido de Madonna. o policial branco — Paul Newman em Fort Apache e Sean Penn. um filme mais antigo que descreve a vida de uma comunidade particularmente pobre19. embora de maneira mais sútil: as forças do “bem” se manifestam através de Maria e Tony enquanto que o “mal” é encarnado por todos aqueles que pertencem a uma gangue. as comunidades a que pertencem as gangues aparecem como completamente desorganizadas e completamente incontroláveis e os indivíduos que as compõem incapazes de tomar conta delas mesmas. apresentam as intrigas amorosas dos membros de gangues de uma maneira ao mesmo tempo sexista e racista que em nada corresponde à situação específica das gangues. Em Fort Apache. as duas se mostram profundamente incapazes de agarrar esta oportunidade: a jovem portoriquenha se recusa a parar com a heroína e acabará morrendo de overdose. Seu tema central é a criminalidade neste enclave pobre de New York e as tribulações dos policiais que lá trabalham. Mas são as companheiras dos membros de gangues que são. Quando lhes é oferecida a possibilidade de sair de seus guetos e escapar da corrupção que as assola.

parece que os jovens demônios fabricados peça por peça. em ruptura com o resto da sociedade21. op. esta comunidade afundaria no maior caos. talvez sem querer. A mensagem mandada ao público é que. 4-6. Ver Youth at Large. The Movie. Hollywood representa uma situação urbana contemporânea através de uma visão colonialista das mais tradicionais: sem a polícia (exército colonial). 10 e 21. ao assinalarem que o filme trai o livro. nem senso moral. Social Order of the Slum. Assim o faz Gerald Suttles. Em West Side Story. Dito de outra forma./ ICRY organization). ver M. não têm nada de humano. mas o palanque desmorona durante a assembléia e a reunião afunda no caos. já que os moradores mais bem intencionados destes bairros (países pobres) não têm as competências necessárias para controlar as gangues (facções e tribos) e impedí-las de guerrear entre si. Aliás. para se acreditar na idéia de que os pobres teriam uma moral radicalmente diferente da que está em curso no resto da sociedade. Sobre a tendência que grande parte dos americanos tem de se empolgar com os demônios políticos e sociais que aterrorizam a sociedade. à exclusão das gangues de origem européia (italina ou irlandesa. nem alguma destas molas que associamos com os objetivos da existência. os jovens que escreveram na revista defendem Sol Yurick. Sánchez-Jankowski. Em Colors. Este simbolismo colonial é tanto mais evidente e chocante quanto os recentes filmes são dedicados às gangues das comunidades de cor. p. The Warriors foi criticado até por gangues que protestaram escrevendo para a revista trimestrial Youth at Large (revista publicada em Los Angeles pela Inner City Rountable of Youth. sem a polícia (enquanto instituição cuja autoridade vem de fora da comunidade e cujo pessoal é igualmente composto de indivíduos que. os produtores e os diretores de Warriors. nem sentimento.cit. nem família. p. na ausência de informações e análises rigorosas sobre o assunto. [. o autor do romance que inspirou o filme. Sobre a noção de “individualismo desafiante” que estrutura a visão do mundo dos jovens das gangues. Para responder às críticas que lhes foram feitas a este respeito.] É por esta razão que não gostamos de Warriors. os moradores do bairro se juntam e colaboram com a polícia para elaborar um dispositivo de defesa contra as gangues. nem consciência. sobretudo. Fort Apache-The Bronx e Colors retorquiram obviamente que seus filmes não tinham a pretensão de ser documentários mas apenas filmes de ação procurando o divertimento23. gangues “não brancas” e das suas mulheres fez agentes do mal por excelência. Mas são também conscien- Cada um dos quatro filmes citados contém cenas deste tipo. nem ambições. 24 23 192 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . ler a notável obra de Michael Rogin. 223-224. 22 Este filme suscitou muitas reações críticas. há um gentil vendedor que gostaria muito de ajudar mas que é reduzido à impotência pela violência das gangues. por exemplo). no 2. Inc. em sua grande maioria não é de lá). se tornam o prisma principal através do qual as pessoas constróem a sua própria compreensão da realidade social das gangues. A sua observação se conclui com estas palavras: “No filme.. Assim. Hollywood fez gangues e. 21 Notemos que muitas obras acadêmicas de alto reconhe- 20 cimento científico contribuem.. nem amigos. Elas estão dispostas a informar desde que seja de acordo com suas condições. São eles os elementos diabólicos da sociedade: verdadeiros “inimigos do interior” que ameaçam os próprios fundamentos da moral nacional 22. Como as gangues usam a mídia As gangues não se impressionam nada com a mídia e a perspectiva de ser o objeto de um artigo ou de uma entrevista não os entusiasma a ponto de liberar sem reserva as informações que os jornalistas procuram obter delas. Islands in the Street. A idéia definitivamente veiculada é a de que as gangues e seus próximos (ou seja o conjunto da população “não branca”) constituem e vivem em um universo profundamente imoral. exatamente como os jovens de ICRY. Hollywood criou um verdadeiro mundo imaginário com seus personagens míticos.. O único meio de restabelecer a ordem é então fazer com que a polícia intervenha. Ronald Reagan. já que Warriors somos nós (itálicos no original). Acontece que tais imagens se instalam no espírito do público e. As gangues são de fato desconfiadas dos jornalistas — como o quer o seu “individualismo desafiante” acentuado24. dezembro de 1979. p. 23-28. estas comunidades pobres (países colonizados) viveriam numa desordem contínua.Martín Sánchez-Jankowski como instaurá-la20.

portanto. Mas nem todos são capazes de organizar e aplicar estratégias tão elaboradas quanto as descritas anteriormente. todo mundo fica contente por que eles não entendem nada. mas a gente não queria falar com eles. Muitas vezes. New York e Boston entenderam o interesse que elas podem ter em serem cobertas pela mídia. Coal. tem um monte de jornalistas que já tinha tentado fazer reportagens sobre a comunidade e sobre nós.” Entramos nesta e rolou mais vezes. mas só que são as nossas informações. As gangues são portanto “vendedoras” mas controlam estreitamente os fluxos de informação tanto em volume como em seu teor. pertence a uma gangue negra de New York City: “Era uma jornalista que queria fazer uma reportagem sobre nós. A razão deste comportamento. era chamativa. falamos sobre o que íamos fazer com ela. Dava para ver que ela precisava tremendamente fazê-la.As gangues e a imprensa tes do fato de que toda informação que lhes diz respeito é muito procurada e. E depois finalmente a gente pensou: “As suas reportagens.A gente só procura fazer funcionar os nossos negócios. fixamos o que a gente ia passar para ela: sabe como é. que é membro de uma gangue irlandesa de Boston. Como se a carreira dela dependesse disso! Ela nos mandou um monte de mensagens pelo intermédio de M. dizem as gangues. mas não tudo o que eles querem. isto interessa as pessoas. E depois. 18 anos. estar no noticiário pode ser muito útil para nós. Eles não entendiam bulhufas. sabe. eles precisam fazer boas matérias e depois. Os comentários. a sua reportagem se encaixava bem. e também para a organização.. Assim. pertencente a uma gangue de New York confessa: “Muitos jornalistas queriam entrar em contato conosco.. eles ficam embasbacados. estava toda contente mas. os jornalistas! Ela. mas a gente não dava mais entrevista para ninguém. 20 anos. quem ia falar com ela. A gente dá para eles um pouquinho.” Jammer. Eles diziam que não queriam a cara deles na televisão porque os policiais Revista Brasileira de Educação 193 . durante a reunião da gangue. as gangues que encontram dificuldades para manipular a mídia explicam isto pelo fato de alguns membros se recusarem a qualquer contato com os jornalistas. Tudo isto é só armação. o que a gente ia dizer para ela. E depois respondemos o que quisemos. de qualquer forma. 19 anos. antes de ir embora. Então.. então melhor dizer para eles o que a gente quer que eles digam. coisas assim. Decidimos que a gente podia aproveitar para fazer um pouco de propaganda e. para muitos de nós. Mas. De fato. portanto. eles as farão de qualquer forma. Bird.Ela veio e interrogou os caras que a gente escalou. Era sempre preciso que eles voltem. é membro de uma gangue de Los Angeles. Ele acrescenta a este respeito: “Os jornalistas. estas desculpas só servem para esconder a inaptidão destas gangues para controlar suas relações com a mídia já que a sua organização e a sua estrutura estão definhando. mas se funciona. Então. só para lhes dar água na boca. Eles obtêm o que nós queremos que eles obtenham e nada mais. Sabe. um rapaz de 17 anos. tem valor.G.” Todas as gangues que eu estudei em Los Angeles. conta: “Claro. o lado suspeito de uma cidade. então eu acho que eles também não estavam nem aí. para saber mais e a gente só dizia o que queria. mas a gente só os enrolava. Eles faziam todo tipo de perguntas: se a gente fazia tráfico de armas para a IRA. Ela nem entendeu o que estava acontecendo. já que muitos brothers (membros da gangue) não queriam que o fizéssemos. a gente dá as informações aos jornalistas. é que estes indivíduos temem ser identificados pelas autoridades e presos ou ainda porque não querem cooperar com a mídia que sempre os apresenta de forma negativa. de três jovens membros de gangues ilustram esta consciência que elas têm da utilização estratégica que podem fazer da mídia. a seguir. é bom dizê-lo. A gente é ótima para este tipo de besteiras. falamos dois-três negócios que podiam interessá-la para que ela volte ou fale para outro jornalista e para que eles voltem”. (um animador social do bairro). as gangues são um ótimo cavalo de batalha.. Todas as gangues que estudei entenderam muito bem que a mídia está sempre disposta a fazer reportagens a seu respeito desde que tenham algo de novo a lhe propor. a gente a fez babar um pouco.

é que eles não queriam que o cara que é presidente agora aproveite da propaganda. por que lhes parece tão importante adotar uma estratégia coletiva nas suas relações com a mídia? Para responder à primeira destas perguntas. a gente diz coisas que o resto do mundo escuta e para eles. eles conseguiram nos impedir de fazer os nossos negócios com os jornalistas. Me parecia até bobo entrar no exército para aprender alguma coisa e depois fazer uma carreira.. pois o programa terá despertado um interesse para esta gangue entre os novatos. de qualquer forma. se um pessoal de televisão faz uma reportagem sobre nós e a gente se mostra cooperativo. É o poder das palavras. isto ajuda a recrutar mais membros. Bateram na tecla certa!” Segunda vantagem procurada pelas gangues nas suas relações com os jornalistas: uma passagem pela mídia serve para incrementar os negócios. É assim que a coisa acontece. se as gangues não recebem dinheiro.. A gente só ficava lá sentado e brigando um com outro. então eu disse para mim mesmo: “Eh! talvez eles tenham coisas interessantes para mim. poderia ter participado de outro grupo. sabe.. porque eles tinham um outro cara em mente para substituí-lo.” Um outro membro de uma gangue de Los Angeles. de fato. mas muitos chegados dos outros kikas (ramificações da gangue) queriam opinar na escolha daqueles que iam ser escalados para as entrevistas. Na verdade era tudo papo furado já que eles nem precisavam estar lá no momento das entrevistas. Outras gangues fazem muito bem isso.. mas não teria escolhido este se não tivesse ouvido o que falavam no programa. é assim.Martín Sánchez-Jankowski poderiam reconhecer e prendê-los. é legal. Uma gangue que se beneficiou de uma “plataforma midiática” poderá sempre começar uma outra ramificação em um outro bairro da cidade. mas que não seria sempre assim e que a gente ia perder uma p.Finalmente não pudemos tirar nada da mídia porque não conseguimos decidir entre nós o que fazer. nunca entraria neste grupo em particular. assim a gente faz passar as mensagens úteis. oportunidade para fazer a nossa propaganda. O que leva a fazer muitas perguntas: primeiro. Bem. como quando a gente vê na tevê a propaganda do exército. (. o que é muito útil 194 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . quando dizem: “para alguns.. Estes brothers eram realmente bad (no jargão deles: bons. Mas têm caras que acreditam nestas besteiras.” Ao longo de mais de dez anos de pesquisas de campo. Tomemos como exemplo o testemunho de um membro de uma gangue de Los Angeles (21anos): “Sabe. já que você estava lá. Um jovem de 18 anos que faz parte de uma gangue de New York acrescenta: “Estava vendo o noticiário na tevê quando de repente falaram das gangues.. parece até mesmo bobo. Sabe.. é parecido com o nosso papo: têm caras que entendem e que vêem possibilidades para eles. dá razões mais próximas: “Tinha um pessoal entre nós que queria aceitar a oferta dos jornalistas de nos levar para a mídia. Elas esperam de uma reportagem que as descreva como sendo mestres de um território bem definido e dispostas a usar a força.. duros) e tinham algo a dizer. é óbvio que as gangues tiram muitas vantagens de uma passagem no noticiário. nunca vi gangue nenhuma receber dinheiro da mídia como contrapartida da sua cooperação nem nunca vi um único jornalista propor um negócio desta natureza. ser um recruta é o início de uma carreira” ou besteiras deste tipo. Mas a gente está se lixando para o motivo pois. sabe. eles (os jornalistas) vão nos fazer perguntas e nós vamos responder dizendo coisas que dão a impressão aos caras da vizinhança de que o que fazemos é o máximo. estes aí”. a verdadeira razão.) Todos aqueles que estavam a favor das entrevistas disseram que as gangues estavam realmente na moda naquele momento. esta mensagem não me interessava. A mim.. Isto quer dizer que nós temos possibilidades para eles.. mas não adiantou nada. Mas para os caras da vizinhança isto quer dizer outra coisa.. se preciso. você sabe. o que é que ganham cooperando? Segundo.) Por exemplo. fortes. Então decidi ir lá ver com meus próprios olhos e me juntei à gangue. (. O que importa é saber como cooperar com eles. com 20 anos.. (. Quer saber de uma coisa.) Não. Um verdadeiro bordel e não havia chefe com bastante autoridade para acabar com aquilo.

E. Assim. Em todas as gangues estudadas. não quero aborrecimentos com ninguém.” Finalmente. Mesmo que nem sempre consigam. porque eu sei que ele dirá por tudo quanto é lugar para não me procurarem!” (17 anos. produzido por Dan Rather. para assegurar melhor a segurança pessoal na rua25: “Quando dei a entrevista para este jornalista. Acontece realmente que alguns traficantes encontram por meio da imprensa ou da televisão o nome de grupos que poderiam lhes ser útil na produção ou na distribuição de suas mercadorias. Para as próprias gangues a mídia é também o meio de fazer chegar às outras gangues (ou a outros adversários eventuais) advertências contra possíveis invasões de território. No documentário Our Children: The Next Generation. é tipico: “Eu vi um programa na tevê sobre uma gangue do bairro. desta forma. traficantes de objetos roubados entraram em contato com determinada gangue para expandir o seu mercado ou para terceirizar algumas de suas atividades após ter notado durante uma reportagem que esta gangue controlava o bairro. Ouvi o que eles diziam. saca. Em um caso destes. É por esta razão que cada vez que uma gangue é objeto de uma reportagem. porque. explica: “Durante anos os jornalistas vieram nos fazer perguntas e tocar os negócios deles e a gente não lucrava nada com isto. Para maximizar o seu proveito midiático. ainda. alguns membros adotam um comportamento mais assustador ainda do que os outros durante as entrevistas na esperança de fazer reputação e de ganhar mais respeito e mais prestígio no seio da própria gangue ou. E depois que eu os contrato não tenho mais problemas. a gente tenta ser realmente durão.As gangues e a imprensa para elas. Uma manobra destas permite aos traficantes evitar ou reduzir os gastos gerados pela organização e a formação de um novo grupo para uma atividade particular. Então eu procuro parecer o mais alucinado possível quando topo com algum jornalista. Então. ‘tudo bem’! Você vê. 9 das 37 gangues que eu estudei elaboraram uma estratégia coletiva destinada a influenciar o conteúdo das reportagens. e depois a polícia falou dos crimes que esta gangue havia cometido. Man. os membros são persuadidos a se sairem bem. membro de uma gangue de Los Angeles). a gente consegue fazer passar a mensagem para todos aqueles que gostariam de vir tentar um golpe no nosso bairro: se os pegarmos. seremos sem piedade. que a sua entrevista lhes trará no mínimo esta vantagem. trocadilho sobre o fato de que eles têm armas calibre 357. 25 Revista Brasileira de Educação 195 . elas sempre têm mais sucesso do que as que não têm estratégia deste tipo. 21 anos. 16 deles (ou seja 30%) me disseram ter sido influenciados (ou intimidados) por reportagens da mídia sobre as gangues. Se as pessoas acreditarem que você é louco ninguém vem te encher o saco. um jovem a quem foi perguntado por quê ele pensa que a sua gangue e ele mesmo não serão atacados por outras gangues responde: “Temos 357 razões para não nos deixar chatear”. claro que eu falei para eles que. E quando vieram me propor a proteção. No programa de domingo à noite da CBS. não estou neste país há muito tempo. chefe de gangue em Los Angeles. Disse coisas muito puxadas. um membro de uma gangue de Chicago dá um tiro em seu próprio pé para provar a sua virilidade.” A mídia pode também oferecer uma outra forma de propaganda às gangues ao lhes servir “páginas amarelas” da economia ilegal. dei uma de doidão. elas têm mais chances de fazer o negócio se já tiverem saído na televisão. Dos 53 pequenos comerciantes que eu entrevistei após terem aceito a proteção de uma gangue. Eis por exemplo o testemunho de um jovem membro de uma gangue irlandesa de New York (18 anos): “Quando a gente dá entrevista a um jornalista. quando entram em contato com novos clientes para propor-lhes a sua proteção. notadamente para as suas atividades de trambique. então. mas o que eu havia planejado. 60 minutes. seus membros se esmeram em dar de si uma imagem particularmente impressionante. tive um pouco de medo. a gente faz os caras superdelirantes. porque eu queria ter uma aparência completamente pirada. O testemunho de um proprietário de uma pequena mercearia de New York. eles sabem que serão massacrados.

E elas reforçaram juntas o mito popular das gangues na cultura americana. por outro lado. como ofertas de recrutamento e para dizer às pessoas onde era o nosso território. a gangue controla estreitamente o que é dito e o que o jornalista é autorizado a ver. Mas. estes poderão então vender a sua reportagem a seus diretores que. Gangue e mídia instauraram. Mas assim que tivermos resolvido tudo isto. estamos com problemas de organização. a gente ganhava uma propaganda gratuita em horários de grande audiência! Por enquanto. porque de qualquer maneira. as gangues desejam que esta última continue a falar delas. uma relação que permite a cada uma manter o seu estatuto no seu mundo social respectivo e na sociedade. a influência deliberada que as próprias gangues exercem sobre estas reportagens para tirar proveito delas. As gangues. e depois às vezes. para passar a certeza de que elas não enganaram o jornalista mas que foi este último que não soube relatar as suas palavras. Mas foi só quando começamos a refletir realmente no que a gente queria passar e tivemos um plano do que íamos dizer e fazer com os jornalistas que conseguimos obter o que a gente queria. é verdade. as gangues possuem um grande trunfo sobre os jornalistas pelo fato da cultura das ruas se transformar continuamente. algumas táticas que procuram estimular ou entreter o interesse da mídia. mas guardando muito mais. porque todo jornalista acredita que ele é que vai fazer a melhor repotagem sobre as gangues. é claro. assim como as exigências técnicas que pesam sobre eles. por esta razão. chefe de gangue de New York de 18 anos. Assim. a gente se arranja para que haja sempre um outro jornalista que venha nos ver. 196 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . às vezes. quando a gente diz que a última reportagem sobre nós contém monte de erros. é a sua notável uniformidade. mas eles disseram que não. sempre têm novidades para oferecer aos jornalistas.. elas podem iscar outros jornalistas ou outros canais interessados em voltar para refazer uma reportagem mais exata. elas não põem em causa o conjunto da reportagem já que isto significaria que elas mesmas mentiram para o jornalista. a venderão para um patrocinador e o grande público. portanto. portanto.. A primeira consiste em criticar o que outros jornalistas disseram sobre elas alegando que suas proposições são inexatas. Assim. Só podemos dizer o suficiente para manter o interesse deles.. E entretanto. Assim as gangues conservam todo o seu mistério e poderão de novo responsabilizar o repórter pela inexatidão. a gente se saia melhor que estes filhos da p. Elas elaboraram. mudava a reportagem e nos enrolava. voltaremos a pensar nisso.Martín Sánchez-Jankowski Então decidimos ver se tinha jeito de tirar uma grana deles. o que mais choca na maneira como esta última tratou e trata o fenômeno. dava certo. no fim da análise. sabe. Então decidimos fazer passar mensagens úteis.” De um ponto de vista de marketing. a gente não tinha do que se queixar quando as coisas não davam sempre certo. na maioria dos casos. O testemunho de Sonic.” Em vista das múltiplas vantagens que a mídia pode lhes trazer. os interesses profissionais e os interesses comerciais dos diversos agentes do mundo da mídia. assim mesmo. as gangues são o objeto de uma intensa atenção por parte da mídia. (outras gangues) que só diziam o que lhes passava pela cabeça e que não tinham nenhum plano. por sua vez. o jornalista. a gangue promete lhe dizer “toda a verdade” para aguçar o seu interesse. Mas. Mas não posso dizer que tenha funcionado todas as vezes porque. ou não sei mais quem. Na maioria dos casos todavia. Elas só mantêm que a reportagem é só parcialmente condizente com a verdade. uma com a outra. escondendo o jogo. Ao fazer isto. Cada vez que um novo jornalista se apresenta. Dois fatores se combinam para produzir os invariantes observados na forma e no conteúdo das reportagens sobre as gangues: de um lado. então não é possível pensar numa estratégia midiática porque temos problemas mais urgentes. Algumas observações para concluir Hoje como ontem. E depois. ilustra bem esta situação: “A gente não pode dizer tudo para eles (os jornalistas).

a imagem da jovem de cor de “vida fácil” agarrando nas suas redes homens brancos e íntegros tem uma longa história no imaginário social americano. Em terceiro lugar. nem seus membros menos capazes de instaurar por elas mesmas uma disciplina de vida individual e coletiva. crime e violência. seja nas novelas. constituem um mito inesgotável. Primeiro. O que não signfca que a oposição entre o bem e o mal não figure na mesa dos valores americanos. tanto uma como outra se aproveitam de uma relação que não contribui em nada. que bem e mal são dissociados das noções de legalidade e de ilegalidade. o desperado e o tira-gangster. A mídia oferece uma imagem seletiva e sistematicamente deformada da atividade das gangues. É por esta razão que os jornalistas só tomam emprestado do saber dos “especialistas das gangues” as informações que se inscrevem no quadro dos temas que interessam ao grande público. muito pelo contrário. mas antes. a violência não é um elemento tão fundamental da vida das gangues como a mídia dá a crer. 1550-1812. produzido muitas gangues.As gangues e a imprensa Porém. promoção. e esta mesma imagem que reforça continuamente o lugar e o estatuto das gangues na cultura e na sociedade urbanas americanas. O estudo aprofundado das relações entre gangues e mídia prova que as gangues são uma “produção” social em que os jornalistas desempenham um papel não desprezível e encontram amplamente o seu interesse. lhes provê dinheiro seguro. Baltimore. ver Winthro D. Mas se é verdade que muitos membros de gangues se envolvem em incidentes graves. Embora a mídia apresente as gangues como malfazejas e destruidoras. os bairros brancos têm também. quem as possui está Sobre este tema da mulher de cor que seduz um homem branco. prestígio e poder no seio do mundo midiático por causa do gosto que o grande público tem por este tipo de reportagem. que estimula e sustenta o interesse do público. O único critério determinante na matéria é a exibição das qualidades enumeradas acima. é preciso salientar que este mito é portador de uma imgem muito negativa com as conotações maléficas e perigosas. as gangues não são um fenômeno que concerne exclusivamente comunidades negra e latina. se a imagem fabricada pela mídia diaboliza as gangues. Finalmente. Jordan. Depois. Embora a sua presença seja mais marcada nos bairros pobres de gente de cor. as comunidades pobres não são mais “desorganizadas” que as outras no plano social. droga. White over Black: American Attitudes towards the Negro. uma independência feroz. Penguin Books. e sempre. Paradoxalmente. Este artigo faz menção de gangues irlandesas. e que são conformes à imagem que eles mesmos têm das gangues. a capacidade de lutar e ganhar) e uma temeridade a toda prova. uma força física fora do comum (ou seja. ancorada nos medos individuais e coletivos. esta imagem é muito mais eloqüente a respeito das fantasias se- xuais e raciais dos brancos do que sobre a realidade das gangues26. como o sugere a imagem difundida pela mídia. isto é. mas existem também gangues brancas ítalo-americanas e apalachianas. Como no caso das primeiríssimas gangues americanas que foram os bandidos do Far West. para eliminar o tipo de delinquência que elas encarnam. as gangues são invariavelmente apresentadas como uma ameaça física para o cidadão médio respeitador da lei e também como perigo para a moral e os valores da sociedade toda. Relatar casos de gangues. De fato. 26 Revista Brasileira de Educação 197 . seja em forma de documentário. ela insiste incessantemente sobre a violência das gangues e sobre a agressividade dos seus membros. sexo. no grau mais elevado. Estes modelos de violênca viril ocupam um lugar de honra no panteão folclórico americano pois possuem. As gangues tais como aparecem na mídia. É esta imagem. que se nutre de estereótipos culturais e de distorções comuns da realidade social. também é mérito dela o fascínio ligado a estes outros personagens da cultura americana que são o cowboy. o mito popular que eles contribuem para produzir e perpetuar é apenas uma imagem deformada e longínqua da realidade. p.150-151. as qualidades que a cultura nacional venera: um individualismo resoluto. 1969.

mais incômodo ainda para o conjunto da sociedade. reconhecer as gangues pelo que elas são levaria os dirigentes do país a procurar para o pretenso “problema das gangues” uma solução econômica em vez de se embrenhar em políticas penais que só fazem agravá-lo. Finalmente. a imagem deformada e romanesca que a mídia lhes propõe à própria realidade prosaica das gangues. Mostrar as gangues como elas são equivaleria a tirar todo o charme associado aos personagens violentos da mitologia nacional. portanto. Os americanos preferem. demasiadamente. Mas os membros das gangues têm as mesmas aspirações e são animados pelo mesmo desejo de sucesso material e social que todos os americanos. Esta realidade é sem dúvida muito. difícil de aceitar pelo público americano. Isto suporia igualmente fazer com que o país tome consciência da estratificação rígida da sociedade e da pobreza persistente em que estas organizações encontram a sua fonte. seu comportamento coletivo não difere de jeito nenhum do de outras organizações de caráter mercantil. e neste plano pelo menos. o que os tornaria menos divertidos e abaixaria o seu valor midiático. 198 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . quem está desprovido delas é definitivamente relegado para o lado do mal.Martín Sánchez-Jankowski do lado do bem.

cada um com suas próprias características. cruzando-se em alguns aspectos e diferenciando-se em outros. em processo de expansão. a casa. com relativa organização interna. assumindo grande vulto nos anos 80 — a partir de sua segunda metade —. em sua multiplicidade. que se estruturam em torno de suas áreas de residência — o bairro. São movimentos distintos. grupos formados nos subúrbios cariocas — embora não fiquem restritos a essas áreas —. mas também aquelas áreas que. e das formas de ocupação do espaço. É na tensão entre esses elementos. e entre eles e os contextos em que vivem os jovens. que se estrutura e se define nesse século. seus modos de ser singulares. ainda. em função da geografia da cidade. tece-se nos diferentes espaços sociais dos quais os jovens participam — a rua. no Rio de Janeiro. assim como as áreas de lazer — e nas redes de relações que aí são estabelecidas.Juventude(s) e periferia(s) urbanas Eloisa Guimarães Universidade Federal do Rio de Janeiro Instituto de Estudos da Cultura e Educação Continuada Como em outros estados brasileiros. que podem ser buscadas as linhas de formação e de constituição dos subgrupos juvenis. com referência às populações pobres que habitam favelas construídas em morros encravados em bairros centrais. São elementos que se combinam de diferentes maneiras produzindo estilos e modos de ser singulares e distintos entre os vários universos juvenis. com seus diferentes símbolos e estilos. grupos de jovens da periferia1 da cidade. Desenvol- Uso o termo “periferia” para designar áreas da periferia geográfica da cidade. O principal ponto desse cruzamento pode ser localizado no gosto pela música e pelos bailes funk. a escola. as galeras. a questão das agremiações juvenis. a rua — e das quais incorporam os nomes. motivações e modos de representação distintos pode ser pensada como uma das marcas da atualidade. o morro ou favela ou. com a constituição de uma cultura jovem. De fato. Relacionam-se ao mundo funk sem que os dois universos se confundam. fundamentalmente. poderiam ser denominadas de “periferia social”. onde se constitui uma cultura voltada para os diferentes modos de utilização do tempo livre. A expressão galeras designa. Esse artigo tem como propósito analisar uma dessas agremiações. e nos anos 90. Essa marca. as agremiações juvenis (res)surgem no Rio de Janeiro no final da década de 70. 1 Revista Brasileira de Educação 199 .

nos clubes. freqüentadores de academias rivais. galeras associadas às quadrilhas de traficantes e outras que buscam delas se distanciar. inicialmente. a partir dos contextos sócio-culturais em que estão inseridos e de suas motivações e condições de vida. pelo menos. a referência para essa segmentação é a mesma. os conflitos já podiam ser sentidos entre aqueles jovens (brigas entre turmas rivais. entre outros. da classe média. A extrema heterogeneidade referida se revela inter e intra grupos juvenis e está fortemente presente entre as galeras. novos. suas identidades: são as divisões por áreas de moradia que podem estar representadas pelo bairro. Ventura (1995) nota que Eles inauguraram um modelo de agressividade. Processo de segmentação semelhante. inclusive — embora seja raro — galeras chefiadas por mulheres. seguida de assassinato. entre as quais já estavam desenvolvidas algumas das principais características das atuais galeras: a constituição por bairros (ou ruas) e a rivalidade exacerbada entre turmas de bairros (ou ruas) diferentes lembram. então. grupos fortemente fragmentados e intensamente segregados. Contudo. nas quais as galeras de periferia buscam inspiração. era nesse nível que ela se colocava como objeto de percepção e de registro. ou. característica que se manifesta. entretanto — jovens de áreas periféricas e de baixo poder aquisitivo —. sabe-se que é um movimento largamente disseminado. naquela época. Por outro lado. os padrões de organização hoje adotados pelas galeras não são. sejam elas de classe média ou de periferia: sua intensa fagmentação e forte heterogeneidade. também. no interior das agremiações pertencentes às camadas médias e daquelas de periferia. vêm-se registrando. menos ainda. As galeras são. nas ruas. a existência de galeras de classe média. Embora se estruturem tendo como referência princípios comuns. entre as populações de melhor poder aquisitivo ou entre as de menor renda. ao mesmo tempo. entretanto. Refiro-me. de início. intensa rivalidade entre si — de onde os conflitos e os embates públicos pelos quais se tornaram conhecidas. pelo morro ou favela em que se vive. embora operado a partir de outros critérios. imprimindo suas características. mas as de classe média. Há. galeras masculinas. É necessário destacar dois princípios que fazem parte da constituição dos movimentos juvenis atuais e que estão fortemente presentes entre as galeras (e entre os funk). ao mesmo tempo. nas saídas das escolas). pelo critério geográfico em torno do qual os diferentes grupos se configuram e a partir do qual se constróem. Referindo-se à curra da jovem Aída Curi. o espaço de socialização por excelência dos jovens do sexo masculino e representasse muito menos perigo. A expressão galeras se torna familiar sobretudo a partir da década de 90. às turmas de jovens de classe média existentes no Rio nas décadas de 50 e 60. à juventude das periferias. Elaborados e reelaborados por cada subgrupo. que não encontrava equivalente na 200 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . e está representada. Ou. a qual as galeras cariocas buscam ainda desenvolver. destacar que há galeras “guerreiras” e galeras pacíficas e pacifistas. de forma crescente. objeto de percepção e de registro entre as camadas médias. Entre esses vale. hoje. e que têm uma tradição organizativa que remonta ao início do século. esses grupos se diferenciam em relação a vários aspectos. pelas ruas de residência. Não há unidade. Tais grupos são herdeiros de certas tradições organizativas desenvolvidas por outras agremiações juvenis. Entre as últimas. cruel e gratuita. que representa. A violência que atingia o núcleo metropolitano parecia vir. nas áreas centrais da metrópole ou na periferia. uma dimensão geográfica e outra social. inicialmente. ainda.Eloisa Guimarães vem. às “gangs” de rua norte-americanas. galeras femininas e galeras mistas. Não se conhece o número dessas galeras. a partir de então. homogeneidade. entre esses grupos como não há em seu interior. A questão da delinquência juvenil já era. recentemente. com base nesse parâmetro de organização. não só as galeras dos subúrbios. Embora a rua fosse. por um lado. ainda. Em ambas. pode ser verificado entre diferentes grupos urbanos: as torcidas organizadas.

ná época. pois. nesse século. muitas vezes. graças em boa parte à concorrência da mídia. 2 Revista Brasileira de Educação 201 . não podem a elas ser reduzidos. ainda. e amplamente divulgados pela mídia. sendo comumente denominadas de galeras funk. ao funk e ao funkeiros. mesmo tendo várias conexões com as galeras. às quadrilhas de traficantes de drogas. como Segundo estimativas feitas em 1994 os bailes funk que se realizavam a cada final de semana em vários clubes da cidade. O termo galeras será utilizado. em discursos e ações públicas e no discurso cotidiano das populações. em consequência. por sua expressividade numérica. em grande medida ocupados por quadrilhas ligadas ao tráfico de drogas. em grande medida. contribuiu ainda para que as galeras e funkeiros passassem a aparecer sempre relacionados à temática da violência e. Essa geração do asfalto. de construção e reconstrução de sua prórpria história e da utilização dos recursos hoje disponíveis. histórias e modos de organização similares. Embora muito relacionados. a ampla difusão dada. mais de um milhão e meio de jovens. Contudo. É bom mencionar que parte da confusão gerada em torno desta questão resulta do fato de que as galeras são funk. americanos. pela própria natureza de seus movimentos: o funk é um fenômeno musical de massa. antecipou uma vertente moderna da violência urbana. como cheguei a afirmar em trabalho anterior (cf. É desse último segmento que trata esse artigo. A idéia do “arrastão”. uma idéia que vem se tornando dominante é a de que os famosos “arrastões” não passaram de conflitos entre galeras rivais. e a juventude dos morros e da periferia da cidade. Guimarães. em exigências de intensificação de processos repressivos. na imensa capacidade que têm. Galeras (e) Funk A grande clivagem entre os jovens cariocas. Grupos de jovens — ingleses. de um lado. anterior às várias possibilidades de fragmentação que teria sido possível enumerar acima. identificada às galeras. extrapolando necessariamente o contingente que se organiza em galeras. entretanto. a partir de então. A originalidade dos grupos atuais está. que tendem a se reproduzir nos espaços públicos. galeras e funkeiros se distinguem. levando a um processo de estigmatização crescente desse segmento juvenil — a quem foi debitada a conta pelos “arrastões”. Os bailes funk e. ou seja. A violência da cidade passou a ser. a partir desse momento. São em número muito restrito os estudos que buscam analisar de forma sistemática os fenômenos funk(eiros) e galeras no Rio de Janeiro. Enquanto estilo musical e pela frequência2 aos bailes funk é hoje o fenômeno mais generalizado entre os jovens da periferia. condição que se generaliza aos frequentadores dos bailes. para designar tais grupos da periferia. mas habitados pelas populações pobres e. lugar onde aparecem. Para isso. ao mesmo tempo que ambos têm sido por ela responsabilizados. é bom registrar. desenvolvem. das galeras residentes nas periferia ou em morros localizados em áreas centrais. a eles imprimindo a imagem de bailes violentos (esse aspecto será tratado no último item desse artigo). se faz entre a geração do asfalto. 1995). às notícias de crimes ligados aos bailes funk. resultando em projetos e. de forma sistemática e recorrente. foi incluída uma outra cate- goria de jovens — os funkeiros — que. fortemente centrado na diversão. Nesse mesmo processo estigmatizante.Juventude(s) e periferia(s) urbanas violência praticada pelos malandros de morro de então. de modo particular. franceses. As galeras ganharam grande visibilidade a partir de 1992 com os “arrastões” ocorridos nas praias da Zona Sul. juntamente com as galeras. alemães e outros —. contribuiu. que se diverte com brincadeiras como atear fogo em mendigos. de criar e recriar tal herança em torno das atuais condições sociais e das novas práticas culturais — centradas no lazer e nas novas culturas musicais —. a população que os frequenta passaram a ser maciçamente criminalizados. já congregavam. do outro.

1990. aceitos e incorporadas à vida urbana. de uma imagem maciça e homogeneizadora. que buscam tematizar a questão dos movimentos juvenis em sua conexão com os movimentos urbanos relacionados à violência. “Funks voltam aos bailes e às brigas” (O Dia. seu caráter de festa e de diversão. Essa questão foi profusamente tratada pela imprensa televisiva e pela imprensa escrita entre 1992 e 1993. o break graffiti. portanto. estão os estudos empíricos de base acadêmica sobre o tema. Embora no corpo das matérias essa identidade por vezes se dilua. 20/06/95). pouco voltado para os subgrupos galeras e funkeiros. ao negar a idéia da música e bailes funk como essencialmente violentos. como já fizera em trabalhos anteriores. Em estudos mais sistemáticos. entre outros. estudioso do fenômeno funk desde os anos 80. o funk. enquanto as referências à violência. o rap. Em uma dessas análises Ventura (1995). 9). Sobre as diferenças entre a cultura hip-hop e sua apropriação pelos grupos brasileiros (cariocas e paulistas) ver Vianna. a quem se deve uma competente etnografia sobre esses bailes. 3 202 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . caracterizados pela recusa a prática culturais desenvolvidas e/ou adotadas pelas populações do subúrbio. b-boy) bastante comum nos guetos negros norteamericanos e que vêm sendo apropriada de modo geral pela camada menos favorecida da população que habita basicamente as periferias das grandes cidades brasileiras” (Herschmann. posteriormente. aí incluídos o funk. as manchetes jornalísticas. contudo. no entanto. Em Vianna (1996). ainda. inicialmente discriminadas e condenados foram. O problema da discriminação do funk (e dos bailes) se relacionaria. o samba e a capoeira. com menor ênfase até os dias atuais. Por isso. no contexto do mun- do funk são sempre pontuadas pela menção às galeras (Ventura. se encontra a distinção mais enfática.Eloisa Guimarães a(s) maior(es) manifestação(ões) de massa entre jovens da periferia. as galeras funk. Em menor número. que têm maior impacto sobre a opnião pública. mantendo-se. tráfico e “arrastões” como elementos articuladores de um mesmo e único fenômeno: a violência. Assim. que identifica o movimento musical (funk). esse aspecto também nem sempre é claramente estabelecido. a outros processos que existiram na história da cidade. 1994-95: nota 2 à pagina 90). galeras. Pode-se encontrar. através de diferentes mediações. Por parte da imprensa há um movimento de geração. de forma clara. estabelecer diferenças entre eles. 15/02/93). então. em seus próprios termos) e suas relações com a cultura da violência que toma corpo nos últimos anos no meio urbano. na opinião pública. as práticas culturais e os estilos musicais que mobilizam parcela expressiva dos jovens atuais. segundo o Vianna. 23/02/92). Assim. Herschmann introduz uma outra perspectiva que não está presente nas colocações anteriores e que possivelmente representa o ponto de interseção entre os diferentes universos juvenis atualmente presentes na cena urbana. “DJ’: traficantes pagam bailes ‘funk’” (O Globo. As referências para o autor são. 26/10/92). das diferenças) entre galeras e mundo funk na cidade. apresenta-se como problemática a questão da relação (e. em trabalho jornalístico desenvolvido a partir da convivência com populações de áreas periféricas. “Arrastão: o mais novo pesadelo carioca nasce nos bailes ‘funk’” (O Globo. O autor define a cultura hip-hop como “conjunto de manifestações culturais (abrange o rap. insistem em chamadas como: “Funk carioca mistura música e violência” (O Estado de São Paulo. diferentes inflexões em sua narrativa onde transparecem certas distinções: quando suas análises se relacionam ao funk a associação é com o fenômeno musical e com as festas (os bailes). aborda o aspecto da violência relacionada a esses grupos — que se manifesta sobretudo nos bailes — sem. Outro estudo que tem importância para a questão levantada é o de Herschmann (1994-95). Reafirma. cap. 1995. que aborda o problema do ponto de vista da cultura hip-hop3 (ou culturas das ruas.

os “alemães”. em que condições ele se atualiza (ou não) e em relação a que segmentos juvenis. 64). As brigas5 aparecem. ao mesmo tempo que as interdita aos de fora. As rixas entre as galeras representam algo mais... então. Todas têm um código particular que inclui não só uma linguagem própria e diferenciada. 1995. A cultura guerreira das galeras Não há como negar a existência de forte potencial de conflito no interior de alguns desses grupos — as galeras incluem-se entre eles. Muitas se estruturam apenas para brigar.. Sua interpretação é a de que tais práticas instituem-se como reação a uma sociedade tradicionalmente autoritária e excludente e como forma de se contrapor a representações e modelos. Essas duas dimensões são faces de um mesmo processo. uma área de atuação e de controle por seus membros. entre eles o que é objeto desse artigo. definindo. A constituição e a auto-representação das gale- ras em torno e a partir de um território determinado acionam certos processos de pertencimento e de exclusão característicos. Entre os depoimentos ouvidos em uma pesquisa empírica realizada eram frequentes depoimentos do tipo: “é briga. em certo sentido. que parece contituir a marca por excelência desse tipo de organização juvenil. É essa a origem da extrema rivalidade que se observa entre as diferentes galeras e motivo dos embates permanentes entre elas. ao mesmo tempo. como estratégias distintas de intervenção no social4 o autor adverte que: (. a quem cabe defendê-lo e no interior do qual elaboram seu estilo e suas regras de funcionamento definindo. Assim. galera! Galera é assim: cada morro. que preconizavam a harmonia entre raças e classes sociais. briga de galera. uma forma de organização e de pertencimento ao grupo. enfatizando a existência de diferentes segmentos juvenis. à cultura hip-hop um tom segregador. A questão consiste em buscar compreender seu significado.. regras e comportamentos exigidos do que a elas se vinculam e por elas circulam.Juventude(s) e periferia(s) urbanas O autor aborda a questão da violência buscando tematizá-la e explicá-la no contexto das práticas culturais referidas. fortemente marcada pela divisão espacial (e social) da cidade com uma cultura marcadamente guerreira.) (Herschmann. inclusive aqueles que resultam em morte. Outras brigam apenas quando provocadas. galera do Morro X” (Guimarães. (. Apesar dessa caracterização generalizante. 5 Revista Brasileira de Educação 203 . em certo sentido. caracterizando como inimigo o outro. simplesmente como resultado do encontro entre alguns desses grupos. a hegemonia das áreas onde se encontram. Ao contrário. esses grupos tentam também imprimir. na concretização de uma harmonia social. gangue de cada morro. também. 93). de certa eficácia no passado. tem surgido entre as galeras Sobre essa questão dos modos de intervenção dos grupos juvenis no social ver Abramo (1994) 4 É esse o termo utilizado por pessoas relacionadas às galeras para traduzir os conflitos e os confrontos físicos entre eles. fronteiras demarcatórias com outros grupos. A demarcação territorial é.) numa sociedade ainda muito marcada pelo autoritarismo e pela exclusão social. e como reação ao caráter excludente e autoritário da sociedade que pode ser entendida a mobilização de diferentes segmentos juvenis. são a resposta de um segmento social que já não acredita mais na conciliação. A segmentação do espaço em áreas delimitadas e controladas define normas. ocupando lugar central em sua existência e na lógica de sua organização. o discurso e o comportamento funk/rap. o morro X. Definem-se por oposição umas às outras disputando. 1994-95. É no esgotamento dessas representações e modelos. sistematicamente. A configuração das galeras do cruzamento da vida e de uma história forjada nas ruas. mas regras sociais de relacionamento e de hierarquia que não podem ser violadas. assim prática fundamental de estruturação das galeras.

entretanto. que analisam grupos formados em países. Não constituem-se ainda. da elaboração de seus padrões de virilidade.Eloisa Guimarães cariocas aquelas que se recusam às brigas. Assim. contudo. ao mesmo tempo que aumenta seu potencial para as lutas. alheios 204 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . não se pode dizer que essa distinção tenha desaparecido completamente. os modos e estilos de vida masculinos e femininos. por imposição do tráfico. resultam. muitas vezes. sobretudo os norte-americanos e os ingleses. Durante longos períodos a escola se encontrava permanentemente cercada por grupos externos. essa questão relaciona-se ao próprio modo de ser da sociedade. por excelência. No Rio de Janeiro o processo de estruturação de tais grupos é ainda emergente com relativa. espaços de sociabilidade e circuito da violência Uma das frases mais ouvidas quando se trata do assunto galeras é a de que “quando duas galeras rivais se encontram. embora as galeras cariocas busquem inpirar-se nas “gangs”de rua norte-americanas. em um segmento dominante. são muitas vezes proibidos. uma vez que a consciência de pertencimento a ela tende a cerscer com os combates. De fato.. sobretudo entre jovens. em escala expressiva.. segundo a análise de Da Matta sobre o significado da “casa” e da “rua” como categorias sociológicas fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira. mas também — e é sob esse aspecto que as considerações desse autor interessam aqui — como lugar da luta (. em parte. onde seus modos de ação. cada um com sua lógica particular. gratuitas. a ocorrência de briga entre as galeras é parte da própria constituição desses grupos (às vezes. 13-70). a ocorrência dos embates pode ter várias interpretações. No caso brasileiro. trata-se de mera dramatização da briga) assim como representa uma forma de desenvolver e colocar em ação seus próprios projetos. destacam a importância das lutas e dos combates como princípio fundamental para aprópria contituição e estruturação das “gangs” de rua. o embate é certo”. a existência de “gangs” de rua. parte do universo masculino e lugar. pautando-se por comportamentos pacifistas e buscando desenvolver ações de pacificação dos outros grupos. levar em consideração que. ocorrendo como parte dos rituais das galeras. no Brasil. Relacionando-se dinamicamente. ainda. De modo mais específico. sem ter a pretensão de dar conta da explicação de todas elas no espaço desse artigo. 1991. Autores. organização interna. essas duas categorias expressariam formas de organização do mundo social brasileiro: o mundo da rua como espaço do legal e do jurídico — universo. Galeras. sobretudo entre as camadas populares. esses conflitos estão relacionados aos padrões de sociabilidade que vêm se desenvolvendo no meio urbano. das disputas e dos deslocamentos de grupos nos quais hoje se organiza parcela dos jovens para resolver suas pendências fora dos espaços residenciais. A rua. característica que ganha maior relevo entre os meios pobres da sociedade. Essa foi uma das interpretações dadas aos modos de ação e de estarem presentes das galeras em uma escola (de subúrbio) pesquisada entre 1991-1992. marcadamente masculino —. As demonstrações de coragem e de força física ainda representam modos tradicionais de afirmação desses grupos. Embora venham sendo relativizados os espaços. espaço fundamental para a constituição e existência das galeras é. estão longe de atingir o nível de organização e estruturação daquelas. tradicionalmente. Tentarei destacar algumas mais comuns e frequentes.) e do perigo (cf. É necessário. mais ainda precária. Resultam. As brigas aparentam ser. de movimentos dos mesmos jovens que buscam novas formas de se relacionarem — e de se afirmarem — com as populações e as instituições. É também instrumento de elaboração da identidade do grupo. é registrada em algumas áreas dos Estados Unidos desde os anos 20. Em qualquer das hipóteses consideradas. Da Matta. A consciência de pertencimento e a lealdade ao grupo seriam incrementados através dos combates travados. Como deve ter ficado claro no intem anterior.

Essas regras variam de galera para galera. tentativas de invasão eram. após longos períodos em que a ação se dava apenas de forma dramtizada. Manoel divide os bailes em três categoria. de fato. algumas das pessoas buscadas podem ser encontradas. A questão dos bailes. Operavam de forma a demonstrarem aos quadros escolares a possibilidade de invasão iminente. uma vez iniciado. 8 Revista Brasileira de Educação 205 .). um último elemento que seria interessante lembrar tem relação com o mundo do tráfico e suas articulações com parcela dos grupos que se organizam como galeras. não fica sem conclusão. Na primeira. Finalmente. Sua abordagem pode ter como ponto de partida o enfoque que consta no trabalho de Ventura (1995). os embates podem estar relacionados a ações ordenadas e/ou coordenadas pelas quadrilhas de traficantes. através das quais esses grupos criavam e mantinham um clima permanente de confronto com a instituição. os bailes. Uma segunda interpretação diz respeito à briga como movimento de cobrança e de punição de membros das próprias galeras. quando são acionados para buscar e punir pessoas (jovens ou não) que estejam devendo7 às quadrilhas. um dos pontos incluídos nos múltiplos deslocamentos desses grupos para fazer cumprir seus projetos e forjar sua própria tradição enquanto grupo. O confronto entre galeras. dos Matérias de jornais vêm. de invasão do espaço escolar —. Nos bailes do segundo tipo. uma vez estabelecidas. desenvolveram certas formas de pensar a participação das galeras nos bailes. devem ser rigorosamente cumpridas. A ação das galeras ocorria sob a forma de ações dramatizadas. de que falaremos adiante). mostrando e enfatizando a adesão de grupos de classe média aos bailes funk.Juventude(s) e periferia(s) urbanas à vida escolar. Essa é outra circunstância explicativa de cercos às escolas pelas galeras. tentadas 6. elaborado a partir das posições de dois especialistas que. A situação aqui tratada indica. 1995. sofrerá deslocamentos. aí incluindo a dimensão da violência. quando a instituição se apresenta como lugar em que. 1997. recorrentemente. Entretanto. Representa. segundo os termos desses grupos. O termo dever é amplamente utilizado entre populações que vivem no interior ou nas proximidades de áreas ocupadas pelo tráfico de drogas. ou ter o indicar grupos ou pessoas que tenham violado as regras estabelecidas. podem derivar da presunção de certos grupos de partilharem. uma das circunstâncias de assédio das escolas por esses grupos — e. por estarem a eles ligados. Sua violação provoca a intervenção do grupo. seguramente. a quem certas galeras servem como sistema de apoio. maior diversão dos jovens da periferia da cidade e. Pode ter um significado literal. Algumas vezes. espaço privilegiado de aglutinação dessa juventude8. as galeras inimigas vão Para uma descrição mais completa ver Guimarães. muitas das vezes. que tenham ferido alguma das regras internamente estabelecidas. é elucidativa de alguns dos processos descritos acima. indicativo de que alguém deve dinheiro às quadrilhas por ter apanhado a droga em consignação ou para uso próprio não tendo liquidado a dívida. quando o objetivo dos grupos pode ser — e o é muitas vezes — o de concluir a briga começada em bailes e interrompida pelos seguranças. do mesmo “poder” dos traficantes. ou ainda. 1 e 2 e Guimarães. caps.. 7 6 para provocar brigas esporádicas. nesses casos. Em certos casos. por consequência. Processos semelhantes podem ser vistos em outras situações (uma delas. Se interrompido. que são violentamente reprimidas pelos seguranças. Essa é uma das situações em que grupos de jovens podem ser utilizados pelo tráfico. até que seja satisfatoriamente resolvido. Um terceiro motivo desencadeador dos conflitos aponta para o desdobramento de brigas anteriores. não acontece nenhum tipo de violência (. dando origem a punições rigorosas que podem chegar à morte. também. a partir da vivência dos bailes da frequência mais ou menos sistemáticas a alguns deles. A categoria mais interessante é a terceira..

1994.. pedras. compulsoriamente. barreiras não só físicas — evitando os lugares freqüentados por “bandidinhos” e pelas galeras —. Aí qualquer esbarrão ou uma pisada no pé pode gerar o início de uma briga (sobre as danças desenvolvidas nos bailes funk. O segundo diz respeito ao fato de que as galeras. a explicação de que o problema da briga diz respeito aos bailes nos salões. mas simbólicas. uma violência grupal. relacionados à heterogeneidade dos grupos juvenis. o que constituiria o segundo daqueles fatores. segundo diferentes depoimentos ouvidos. cap. Três fatores foram por eles destacados. na descrição do baile realizado para celebração da paz entre Vigário Geral9 e Parada de Lucas. regra geral. ainda quando os grupos são acionados para assumir a defesa de um de seus membros. de acordo com os alunos entrevistados. 121). naquela área. Há um terceiro fator relacionado à inserção social e às espectativas de parte dos escolares ouvidos. Do ponto de vista dos alunos entrevistados. estão vinculadas ao tráfico de drogas. em pesquisa de campo realizada na Zona Oeste. a área de moradia com as quadrilhas de traficantes. Há alguns fatores importantes que contribuem para elucidar esse maior rigor na posição dos escolares.Eloisa Guimarães bailes que Manoel chama de embate. Exemplo de uma dessas situações pode ser encontrado em Ventura. sendo também a situação em que elas ocorrem com maior violência. correntes. ele não se apresentaria. as galeras vão aos bailes apenas para brigar. a gente num vamos poder parar.) Os dois acreditam. as mais temidas pelos jovens funkeiros entrevistados. um confronto ritualizado de galeras. a frase: “se tiver briga.. fora das áreas controladas pelo tráfico. De acordo com seus depoimentos. em conversa com outro. A música e o modo de dançar (os trenzinhos e os momentos de maior pique dos bailes. divide. quando todos pulam a um só tempo) são apontados com muita frequência como um desses fatores. Esse último grupo referido. nos bailes realizados nas quadras ou em outros espaços. o que o autor denomina uma “brincadeira infernal”: os trenzinhos. A fala do traficante se referia à ameaça de briga entre duas galeras. Um deles. Segundo os entrevistados. onde e quando fosse possível. O risco de que a situação se resvalasse para o tumulto foi percebido por várias pessoas. as brigas nos bailes assumem diferentes formas e ocorrem por motivos distintos. apresentavam uma versão mais dura das brigas nos bailes. (. de funkeiros. sem dúvida. referente à área em que a pesquisa se desenvolveu. um esbarrão em algum elemento da outra galera e os gritos de guerra são os sinais para o início dos conflitos: “é briga. A briga entre elas ocorre. Ouvi com alguma frequência. No interior destas áreas. porque tem que provocar outra galera”. Tu segura o teu pessoal que eu seguro o meu” (Ventura. 221). no momento em que algumas galeras começam a dançar. Algumas delas já descem os morros armadas de paus. é o responsável pelo maior número de brigas. que a violência que aí ocorre pode ser regulamentada (Ventura. Estudantes ouvidos em 1992. 1995. fossem mais radicais ao enfatizar as diferenças. por esse motivo. exige um processo de recrutamento mais intenso — e mais ativo — entre jovens. 4). briga de galera. processo que. O autor declara ter ouvido de um dos chefes do tráfico presentes. e já estão trabalhando para isso. por isso mesmo. O estarem frente a frente. por isso. em sua maior parte. quando os 9 Vigário Geral e Parada de Lucas são dois bairros tradicionalmente rivais no Rio de Janeiro. Funkeiros e não-funkeiros têm consciência de que não podem “armar confusão” no pedaço. Eram. Pode-se supor que. Impedidos de levá-los para dentro dos clubes pelos seguranças que procedem a rigorosas revistas na entrada. esses instrumentos permanecem escondidos fora e são recuperados na saída. 1988. a violência que aparece nos bailes é. ver Vianna. fortemente marcada pela presença do tráfico de drogas mas ainda em processo de ocupação e que. pelo simples encontro entre galeras rivais. buscava distanciar-se e criar. 206 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .

Namorar faz parte de suas vidas. provocadas nos bailes que. então.s. Se não são resolvidas nesse espaço. Elas “pensam que podem tudo” ou elas “gostam de arrumar confusão” são as frases empregadas pelos estudantes ao se referirem a essas grarotas e às confusões por elas Revista Brasileira de Educação 207 . na medida que é comum. Cenas Juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. Afinal. Tolouse. Actes du Colloque Grandes Metropóles d’Afrique et d’Amérique Latine. n. drogas e criminalidade. Rio de Janeiro: PUC-Rio. e a maioria tem namorada que é abandonada nos bailes em favor das brigas. juventude e violência urbana: o fenômeno funk e rap. são esses jovens. para não perder nem um segundo na briga”. que deêm conta da atual situação da juventude nos centros urbanos. a educadores e professores em geral. ela tem poder”. nº 2. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. do passado e do presente. 1. Roberto. os “bandidinhos”. mais do que os escolares idealizados por mirabolantes propostas curriculares. hoje. Referências bibliográficas ABRAMO. Luis Fernando D. ao mesmo tempo. mesmo. não se procuram motivos para explicar a origem do conflito.. Nesses casos. alguns nem ligam pras namoradas. em outras. Nova Yorque não é aqui: funk e rap na cultura carioca. até na hora da música lenta eles tão querendo saber só de brigar. nº 281. da mesma forma que o desejo de aventura. os alunos de nossas escolas. dependendo da adesão dos bandidos. a briga pode ou não ocorrer. ficam namorando um pouquinho e já voltam. como foi mencionado acima. permitam caracterizações mais abrangentes. v. __________. ano 17. de um esbarrão ou acontecer de modo totalmente gratuito. a atuação dos seguranças ou a fuga dos grupos que se encontram em desvantagem.. (1995). nacionais e internacionais: são parte da estrutura e da história desses segmentos. as brigas se transferem para outros espaços: é então que chegam às escolas. Esta parece ser uma responsabilidade que diz respeito. quando são freqüentes os couros. Como esclarecem os frequentadores do funk. independente das regras do “pedaço”. (1995). para a saída do baile. São Paulo: Scritta. Esses processos merecem estudos mais aprofundados que. Esse processo é desenvolvido por vários grupos de jovens. quando reconhecem em quem é provocado um elemento de sua própria área ou alguma amiga de infância que. até que sejam interrompidas pelos seguranças que expulsam os envolvidos. têm como objetivo envolver o namorado em sua defesa. Galeras e Narcotráfico. Em situações como essas. em grande parte. ponto de encontro certo de alguns dos envolvidos. Como explica uma das “funkeiras” entrevistadas: “até a hora da música lenta. eles buscam proteger. mostrando que “por ser namorada de bandido. Eloisa. A Casa e a Rua. A briga representa a forma de curtir dos grupos e para isso vão aos bailes. um terceiro fator desencadeador de briga nos bailes deve ser localizado no comportamento de certas garotas — namoradas de membros das galeras ou de jovens pertencentes ao mundo do tráfico. Helena Wendel. numérica ou instrumental. Escolas. (1991). mesmo nos momentos em que são tocadas músicas lentas. De acordo com os depoimentos. HERSCHMANN. Apesar de não serem permitidas nos clubes..Juventude(s) e periferia(s) urbanas conflitos se radicalizam. Tese(Doutorado em Educação). 1991. In: Comunicação e Política: mídia. GUIMARÃES. Legalité et Citoyenne dans le Bresil Urbain contemporain: observation anthropologique d’une experiénce d’aide légale et d’éducation civique. os tiros e as mortes. também aí. e voltam correndo para ir brigar de novo. elementos que são apresentados por vários autores como inerentes à adolescência e à juventude. em muitos casos eles contribuem para evitar as confusões. É também valorizado como fonte de emoção e excitação. (1995). DA MATTA. Finalmente. não. e vão dar um beijo na namorada.. (1994). Música. Micael M. seus desdobramentos transferem-se. resultam em brigas. as brigas começam lá dentro. (1991). muitas vezes. ela pode tudo. In: Tempo e Presença. Essas provocações podem derivar de um olhar que se dê na direção delas. DUARTE.

Culturas Juvenis. 208 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . VENTURA. VIANNA.. M. n. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. The gang: a study of 1.Eloisa Guimarães KATZ. 151-160. Editora FGV. PAIS. Reciprocidade e Desigualdade: uma perspectiva antropológica. New York: Basic Books. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda. 1996 THRASHER. 10-24. Editora FGV.. In: Estudos Históricos. (1990). Zuenir. Machado. Seductions of crime: moral and sensual attractions in doing evil. vol. p. __________. 6.313 gangs in Chicago. M. Violência. Cidadania e Violência. p. In: VELHO. Frederic M. Cidade Partida. London: University of Chicago Press VELHO. G. (1996) O funk como membro da violência carioca. (1994). Rio de Janeiro.. (1996). (1988). (1996). Publishers. 3.. Cidadania e Violência. ALVITO. p. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Inc.. In: VELHO. Jack. ALVITO. J. Gilberto. Funk e cultura popular carioca. São Paulo: Companhia das Letras. G. (1996). Hermano. Chicago. 178187.

prazer e violência.. Universidade de São Paulo Em O Visconde Partido ao Meio. materializada. num golpe certeiro. ainda que temporária.Short cuts Histórias de jovens. cindida por uma bala de canhão nas porções esquerda e direita de seu corpo.. indica uma específica modalidade de transgressão e violência verificadas entre setores juvenis da população. acirramento das conviccões em justas religiosas. um dos personagens assim descreve o fenômeno da juventude: (. A propósito. A desfiguração corpórea e psíquica do aludido Visconde se deveu a uma encarniçada guerra.) Meu tio [o próprio Visconde] se achava na primeira juventude: a idade em que os sentimentos se misturam todos num ímpeto confuso. das metades esquerda e direita da personagem. compa- * O termo conduta de risco. Ao enfrentar o inimigo e no calor do combate físico. também macabra e desumana. anteriormente alocados num mesmo corpo cristão. ocorreu o esgarçamento e dilaceração do corpo do protagonista da história. nas palavras do autor. um dilema do próprio homem contemporâneo. decimento e intolerância. utilizado por Peralva (1996). romance escrito por Italo Calvino. entre cristãos e turcos.. Assim. que passam a gozar de uma autonomia. amor e ódio. vitimado pelos desígnios da determinação. fragmentado e alienado em suas experiências sociais. O Visconde Partido Ao Meio).. como será mencionado mais adiante. paixão e fé. descritas pelo autor. Polaridade levada ao extremo num desencontro fatal entre o bem e o mal. vagando a esmo pelas pradarias e campos. a idade em que cada experiência nova. esta fantástica história narrada por Calvino evoca. de modo surreal. bem como à socióloga Angelina Peralva pelas críticas e sugestões. ainda não separados em bem e mal. num provável século XVII. aproveito a oportunidade para agradecer ao antropólogo Piero de Camargo Leirner pela leitura que fez da primeira versão deste artigo. irrompem o bem e o mal. imposta pelas circunstâncias de ruptura social provo- Revista Brasileira de Educação 209 . é toda trepidante e efervescente de amor e vida (. na errância das duas metades da personagem do Visconde.) (Italo Calvino. futebol e condutas de risco* Luiz Henrique de Toledo Núcleo de Antropologia Urbana.

iniciativa que buscava normatizar. grupos e até sociedades em comunidades morais nos rituais competitivos. nas quais a lógica separa de antemão os envolvidos (iniciados e não-iniciados) para. Podemos constatar tal fato desde o ano de 1943 quando o jornal A Gazeta Esportiva e a Rádio Gazeta promoveram o campeonato das torcidas uniformizadas. inversamente.. É curioso observar de que modo estas torcidas estavam alinhadas ao arranjo institucional do futebol da época. concretude a peculiares sociabilidades. desde que apartadas. Coletividades contrastivas de jovens torcedores de futebol existem no Brasil desde os anos 40. alicerçadas por uma heráldica futebolística. expressas nas cores. é reduzida para a assimétrica equação do ganhar-perder. “(. por exemplo) para. integravam estes agrupamentos sobretudo jovens de classe média. De outro modo. que repartem e polarizam indivíduos. até aquela data Palestra Itália). e outras dicotomias correlatas. na cidade de São Paulo exatamente a partir de 1942. uma diferenciação entre perdedores e ganhadores. talento ou circunstâncias outras. 1996. ao invés de marcada pela simetria dar-receber-retribuir.Liuz Henrique de Toledo cada pela referida guerra. os jogos e as competições partem de uma situação de igualdade (o 0x0. ainda que de modo breve. como constataremos mais adiante ao enfocar dois casos específicos. acabam por instaurar o caos na cultura. a inveja e a insegurança. cujos protagonistas sem títulos nobiliários. cada qual corporificada em uma das metades do infeliz rompante. viu-se privado na sua percepção e representação das coisas. contudo. Igualmente arrebatados por convicções e paixões dilaceradoras. Violados e privados da sua relação dialética. transgressões e violências ganhavam uma dimensão significativa enquanto um 210 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . distúrbios. cujas atividades torcedoras somavam-se aos interesses e aspirações dos diretores das referidas associações esportivas. que levam alguns a vencer e outros a perder” (LÉVI-STRAUSS apud TOLEDO. 133). Situação revertida somente com a união das metades corpóreas ao final do romance.) LéviStrauss [na obra O Pensamento Selvagem] também atentou para o elemento irruptivo e passional dos jogos competitivos (rituais disjuntivos). esgarçado em duas metades tão irreais quanto irreconciliáveis.. em instilar a desordem. desde então. agora mais locais e verídicas. Cisões que nos últimos tempos têm se revelado irreconciliáveis e intolerantes pelos campos e estádios. Tais alegorias bem poderiam aludir a outras tantas narrativas. ou em realidades mais trágicas. Diverso do mosaico de subgrupos que compõem as torcidas organizadas atuais. Segundo ele. característica de uma série de instituições das sociedades ditas primitivas. encontram-se próximos ao dilema existencial do efebo Visconde que. num momento posterior. jovens anônimos das camadas populares da cidade de São Paulo. partido ao meio. O bem e o mal. atributos inerentes à lógica 1 Poderíamos conceber as competições esportivas. estes jovens irão conferir. símbolos e marcas distintivas de times e respectivas torcidas de futebol. ao final. ocupam-se. a conduta torcedora já que. em virtude da igualdade das regras entre os participantes. sobretudo. chega-se a uma assimetria imposta pelas contingências do acaso. na sua maioria sócios dos próprios clubes. apartando milhares de adolescentes nas representações bons e maus. quando foram fundadas algumas das denominadas torcidas uniformizadas dos clubes mais populares (Sport Club Corinthians Paulista. como um extenso sistema de rituais de trocas complexas (materiais e simbólicas) cuja reciprocidade. as condições socio-históricas que gestaram tais condutas coletivas e as práticas sociais dos agrupamentos juvenis em torno do futebol profissional. a repugnância. e o futebol em específico. na sua visão de mundo. promover a união ou junção em uma só categoria ou classe (todos iniciados). a desconfiança. promoverem uma cisão. diferentemente do que ocorre nos rituais das sociedades pré-industriais e nas sociedades ditas primitivas. 1 engendrada pelas manifestações esportivas. de relatarmos os acontecimentos dramáticos protagonizados por alguns desses jovens torcedores verifiquemos. Antes. De uma simetria pré-ordenada. entre vítimas e algozes. portanto uma reciprocidade que denominaria aqui de aberta. São Paulo Futebol Clube e a então recém nomeada Sociedade Esportiva Palmeiras. agora em estado puro. por onde passam. porém.

por motivo do jogo São Paulo versus Palmeiras. aliás. como atesta a matéria intitulada O policiamento de amanhã no Pacaembu (A Gazeta Esportiva. exercem alguma atividade remunerada. que estava há aproximadamente 15 anos a frente do Sport Club Corinthians Paulista. regular e até mesmo manter a ordem na assistência. esporadicamente. Aliás. muitas vezes em confronto aberto com os dirigentes destes. É relevante correlacionar o surgimento dessas instituições torcedoras num contexto mais amplo de valorização das instituições populares num período em que os direitos políticos e a cidadania estavam cerceados pelo regime militar. coresponsáveis pela invenção do já então denominado esporte-rei. citado. é preciso salientar. muito mais complexas do ponto de vista etário. Este modelo de assistência instituído por estas Os anos 40 são marcados por um redimensionamento significativo do futebol profissional com a inauguração do estádio do Pacaembu. geracional e da segmentação 5 Discutia-se.Short cuts problema sério no futebol2. grande propagador dos esportes a serviço de um ideário de nação baseado na saúde social. muitos atribuíam e creditavam às torcidas uniformizadas um certo papel dirigente. no plano internacional. Em parte autônomas das vidas institucionais dos clubes6 . Apenas para lembrar. capaz de integrar. como acontece ainda com parte das torcidas na atualidade. Para maiores detalhes sobre os desdobramentos sociais e simbólicos destas organizações no que diz respeito às formas de sociabilidade gestadas consultar Torcidas Organizadas de Futebol. pela segunda grande guerra e o nazifascismo. estas torcidas caracterizam-se por serem instituições sem fins lucrativos. podem ser tipificados como sendo predominantemente do sexo masculino. a Gaviões da Fiel5. de fato. alicerçadas e difundidas em palavras como juventude. De modo geral. à propósito. que originalmente surgiram num contexto de efervescência política. pelo estado centralizador getulista. etc). 6 Revista Brasileira de Educação 211 . 16 de setembro de 1944). oriundos das classes populares e possuindo idades variando entre 15 e 18 anos. No âmbito nacional. na ocasião. estudantes que. já que em outros estados o atrelamento aos clubes ainda é verificado como um modelo preponderante. sobretudo na cidade de São Paulo. nitidamente mais popular e contendora. ganhou significativo espaço e apelo torcedor. Possuem sedes e organizam-se em função de várias atividades em torno do futebol (festas. Os Gaviões são a primeira e atualmente a maior torcida organizada existente no Brasil. estas torcidas rapidamente se popularizaram e hoje dominam o cenário das organizações torcedoras. este perfil típico-ideal não seja. nos espetáculos esportivos. tais como os meios de comunicação e a crônica esportiva4. 4 3 2 torcidas uniformizadas perdurou até os anos 70 quando outra modalidade de participação. as autodenominadas Torcidas organizadas de futebol. nação e ordem 3. Estas torcidas nasceram inspiradas e bastante delineadas pelas fortes motivações de época. Salve! Cronistas e locutores esportivos. como foi o caso da primeira agremiação torcedora. Tal fato alavancou a participação popular nestes eventos esportivos. É neste período que os jornais esportivos começam a noticiar esquemas de segurança e de prevenção de como evitar brigas entre os assistentes. De modo genérico. como pode ser notado. sábado. embora. não mais uniformizados mas organizados. excursões. estas primeiras organizações torcedoras evocam tais aspirações nacionalistas. que passa a congregar milhares de torcedores nas partidas (por volta de 60 mil torcedores nos jogos que estavam envolvidos os times mais populares). organizadas burocraticamente por estatutos e cargos eletivos. de elite torcedora. cujos papéis consistiam tão somente em propagar o futebol oficial dos clubes. este torcedores. Fatos que atestavam a plena anuência deste modelo de participação de torcedores no arranjo institucional do futebol profissional da época. o que gerou uma maior preocupação por parte das autoridades em conter e regular a conduta torcedora. este período é marcado. dos dirigentes e demais artífices dos espetáculos esportivos. aquele que caracterize e prepondere entre os subgrupos dirigentes destas organizações. Em 3 de maio de 1943 o jornal A Gazeta Esportiva traz em sua matéria A Torcida Líder em Ação duas fotos da torcida uniformizada corinthiana empunhando faixas de exaltação à pátria e aos jornalistas beneméritos dos esportes: Para uma Pátria grande e raça forte. raça. a legitimidade do então presidente corintiano Wadih Helu. De algum modo.

uma torcida corintiana. vêm colocando em cheque. penso que algumas ainda o fazem. De lá para cá adensaram-se as estatísticas sobre delitos torcedores. A construção da pessoa do jovem torcedor organizado. mesmo entre aqueles jovens que não participam ativamente ou cotidianamente destas organizações. a saber. no caso.) para abrir espaços significativos de vivência e para elaborar e expressar as inquietações relativas à sua condição (. que extravazam os limites do universo do futebol. Esta radicalização da conduta predominantemente juvenil. historicamente marcado por um gerenciamento autoritário e elitista desde o seu surgimento enquanto mani- festação popular e simbolicamente relevante de nossa identidade. também em um nível internacional. como se sabe. 1996). sendo observadas. 212 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .)” (Abramo. porém o que ela enfatiza. e assumo os riscos de imprecisão ao elaborar um mau resumo. um ciclo mais ou menos recorrente de acontecimentos fatais. a crise dos papéis desempenhados pelas instituições populares ou vicinais (Zaluar. garantiam uma dada inserção e supriam uma carência institucional regular entre as populações desasistidas pelos poderes constituídos11. acarretando uma sucessão de tragédias em torno do futebol. o universo do samba. bem como o forte papel agregador que estas torcidas organizadas suscitam. Todavia.. a Gaviões da Fiel. Por exemplo. 1994. Cléo. no domínio público. Não obstante. aliás. a participação dessas organizações torcedoras como co-atores do ritual do futebol profissional.. inúmeras torcidas participam ativamente dos festejos carnavalescos como blocos e escolas de samba. Trabalho aqui. Zaluar (1996) e Peralva (1996. em 1995. com outras implicações históricas e culturais. o futebol como um bem de consumo e entretenimento “(. são as consequências devas11 10 9 7 Dada a complexidade e variedade de grupos que parti- cipam destas torcidas pode-se constatar também projetos diversificados de participação na esfera pública. basicamente. ao que tudo indica não consiste num fenômeno circunscrito somente às manifestações esportivas de massa no Brasil. 8 Consultar o livro Torcidas Organizadas de Futebol.. recuo e desinvestimento nestas tradicionais instituições que.Liuz Henrique de Toledo em termos de estratificação social 7. Cronologias da violência no futebol podem ser datadas a partir de 1988 com a morte de um torcedor e dirigente da Mancha Verde palmeirense. num período recente de nossa história. sobretudo. caracteriza uma demanda predominantemente juvenil. Zaluar analisa o desinvestimento popular em algumas instituições (religiões afro-brasileiras.. este papel institucional de garantir aos torcedores um certo espaço de exercício e participação coletiva nas franjas do futebol organizado profissionalmente. Impossível reconstituir toda a linha argumentativa da autora. as torcidas cumpriam e. em parte. Momento caracterizado pela fragmentação. aqui. requer um investimento simbólico rico e plural em experimentações que. com duas autoras que atualmente vem elaborando instigantes análises sobre as novas modalidades transgressoras de inserção juvenil na esfera pública. A vivência e a fruição de uma partida de futebol transcendem seus limites convencionais de tempo e espaço para muitos destes aficcionados. associações de bairro e etc) associando-o a um complexo processo (relacionado à globalização) de fragmentação local de determinados grupos e práticas culturais. é inegável a presença marcante e destacada destes setores juvenis e populares em torno do futebol. 1996b). abordando outros contextos de manifestação dessa experiência geracional. como demonstro alhures8. já ganhou um campeonato oficial do carnaval na cidade de São Paulo. Como enfatiza Helena Abramo. modalidades variadas de transgressão juvenil vem sendo analisadas por alguns autores10 que as vinculam a um contexto mais amplo e que dizem respeito. citado. num certo sentido. os jovens utilizam-se do tempo e dos elementos de consumo disponíveis. naquilo que concerne ao âmbito nacional. Contudo. inaugurado por volta do final da década de 809 . Além do mais. 79). ou de milhares de outros que sancionam esta modalidade de participação coletiva no futebol ou em outras práticas esportivas.

por exemplo. algumas das explicações mais correntes sobre a violência urbana. constituem-se. a intensificação. fragmentos de histórias de vida sistematizados a partir de uma pesquisa documental realizada na imprensa escrita alicerçada ainda por uma pesquisa de campo12 sobre as práticas sociais dos agrupamentos torcedores na cidade. editorial. muitos destes mesmos jovens torcedores das arquibancadas. torcedores diretamente envolvidos em casos de violência física. 26/10/94).. explicações tais como a fome.. bárbaros. socialmente pernicio- sos mas que. a desesperança fruto desta conjuntura.) a selvageria ligada ao futebol tem um componente social. Indivíduos tidos por parte significativa da mídia e da opinião pública como delinquentes. quanto pelo desinvestimento aludido acima. na ocasião em que desenvolvi a pesquisa de mestrado no departamento de Antropologia Social na USP e que resultou no livro já citado em notas anteriores... outros por terem sido vitimados nas contendas. inclusive com a privação da própria vida. como veremos. ainda que de modo sumário. a partir do final dos anos 80. seja no discurso da mídia ou até mesmo no discurso científico. por estarem entre aqueles que responderam (e estão respondendo). todavia de grande apelo sociológico. Contextualizar estes dramas individuais nos quais se envolveram estes jovens consiste em retomar. são coisa e representação.. moral e judicialmente. entre 1990 a 1993. 53). as torcidas organizadas. Revista Brasileira de Educação 213 . sobretudo em se tratando de contendas torcedoras. preenchiam suas vidas adolescentes com o futebol. Como exemplos cita o avanço de certas manifestações religiosas intolerantes que reordenam e segregam indivíduos e famílias. ainda. e veementemente combatidas nos meios de comunicação e crônica esportiva. Outros. diverso do samba que congregava gerações e grupos mais extensos. mesmo que de maneira transitória. sobre determinadas modalidades e expressões da violência observadas entre agrupamentos juvenis ou com a participação dos mesmos.)” (Zaluar. tal como pode ser verificado na lógica do funk. seja no que se refere às contendas ou as transgressões observadas entre jovens torcedores em torno destes padrões coletivos de conduta.. Campo crivado de armadilhas conceituais de pouco vigor analítico. 13 12 tadoras que tais mudanças acarretam em vários domínios como. Paulo. bruscamente interrompidas pelas participações trágicas decorrentes do envolvimento em brigas e confrontos generalizados. circunstância em que abandonam as hostes e a monomania pelo futebol em função de outras atividades. como milhares de outros. ou a popularização de novas práticas de expressão e entretenimento jovem (igualmente excludentes) que também possuem uma natureza contendora e fragmentária. Observaremos que nem sempre a violência pode ser contextualizada por estas variáveis tão objetivas.) tornar o econômico o fator determinante ou a pobreza a explicação de fatos que. No entanto. ao menos nos campeonatos locais e jogos realizados no estado de São Paulo.. É a partir desses últimos. aludindo que “(. da presença jovem no tráfico de drogas. sempre foi a maneira mais pobre de explicar qualquer um deles (. como todos os outros fatos sociais.. que desenvolvo a presente análise. manchetes. pelos delitos e transgressões cometidos. alimentadas por uma ampla demonização midiática de certas práticas religiosa mais tradicionais.)” (Folha de S. que alimentam convicções e paixões irrefreadas entre torcedores. Uns pelo cessar ou arrefecimento da paixão. alimentado tanto por um novo reordenamento econômico.Short cuts Atualmente proibidas. por opção ou compulsoriamente. a pobreza. Muitas das explicações veiculadas na mídia possuem um forte componente determinista. numa referência expressiva. coisa e ideal ao mesmo tempo. O material etnográfico que sustenta toda a argumentação que segue provém de depoimentos. 1996. esta mesma conjuntura gestada por estas atuais torcidas. também afastam. econômico ou sociológico. que o desemprego e a falta de perspectiva levam muitos jovens a extravasarem frustrações de forma violenta (. estão afastadas formalmente dos estádios. seja no que se refere às modalidades de sociabilidade e comportamento (verbal. a crise econômica13. A antropóloga Alba Zaluar também critica esta postura confortável de determinadas análises ao “(. Sendo assim. ou até mesmo aquelas que apelam para a infalibilidade da violência como carac- Convivi com torcedores por um período de três anos. ou melhor. estético) por elas estimulados.

em maio de 1997 houve uma outra morte de um torcedor e uma generalizada manifestação violenta de torcedores na partida entre os times do Guarani Futebol Clube e do Sport Club Corinthians Paulista. Maria Lúcia Montes sintetiza esta argumentação da seguinte maneira: “(. não leva em conta o caráter ontológico e até mesmo atemporal da violência como constitutiva de qualquer ordenamento social15. 15 14 214 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . apesar de alguns torcedores serem presos. autoritárias) e impessoais (da ordem da igualdade entre indivíduos) na constituição da sociedade brasileira. sensibilizam ou conscientizam pouco. todavia. através da violência organizada.. repito. enfim.Liuz Henrique de Toledo terística de um país de etnia indecisa.) tentar explicar as formas atuais de manifestação da violência entre nós. inclusive no desenvolvimento das modalidades esportivas. organizados ou comuns. apelando para o hibridismo de uma cultura brasileira que apresenta esses valores hierárquicos expressos paradigmaticamente na relação senhor-escravo que se reconstitui sempre é eternizar uma forma cultural. é seguir à risca a lógica identitária contrastiva e é também negar a história que põe o institucional e o cultural em eterna transformação (. portanto. Apesar do arrefecimento das lutas abertas entre torcedores.. como será mencionado. não garante a exclusão do uso da violência física como linguagem entre os jovens torcedores.. tendem a adensar o debate cotidiano acerca do comportamento transgressor e dos conflitos urbanos de um modo geral. como adverte Alba Zaluar. porém com forte caráter persuasivo e prazeroso. O fato se deveu a venda de uma carga excessiva de ingressos. de modo mais ou menos velado. muitas vezes ser preso ou detido em contendas torcedoras só vem adensar biografias já repletas de atitudes socialmente reprováveis. É preciso enfatizar.. o que na prática sustenta e tende a se justificar na perpetuação da repressão e exclusão dos socialmente perigosos e desajustados do arranjo institucional do futebol profissional. Outro dado a ser levado em conta é que as punições às atitudes delinquentes. que permanecem. julgados e sentenciados. momentaneamente. Basta observar que o contingente policial nos estádios continua a ser expressivo14. coronelistas. como se ela fosse um fenômeno à parte das sociedades. No entanto. na cidade de Campinas. irrupção caótica da natureza em meio à cultura. prisões e processos judiciais.) nenhum sistema normativo se sustenta sem a sanção que obriga a respeitá-lo. Naquilo que diz respeito às sanções mais severas impostas às modalidades de transgressão observadas entre torcedores. a violência constitui. sequer a Federação Paulista de Futebol assumiram a responsabilidade pelos incidentes. “(. Nem a polícia. que na prática não só os agrupamentos torcedores estão participando dos jogos. denunciando a convivência contraditória em nossa formação histórica entre formas hierárquicas (patriarcais. Aliás. como o nível de animosidade e intolerância continua disse- minado entre uma parcela imensa de torcedores.)” (Zaluar. No entanto. o que revela outra faceta da violência. através da qual ele se impõem e se conserva ao longo do tempo.. muito embora se observe. a frequente exorcização da violência. inibidas apenas pela forte e agora intensificada intolerância policial. ou seja. geralmente tais atitudes violentas são qualificadas como fenômenos exógenos ao futebol.. 49). circunscritas somente às organizações torcedoras (torcidas organizadas). características muito peculiares e simbolicamente valorizadas entre parcelas expressivas dos segmentos juvenis. Longe de ser uma excrescência indesejada na vida social. latentes nos estádios. a expiação destes torcedores perante a opinião pública. simbólica ou concreta. Mais ainda. feita muitas vezes de maneira precipitada. O que só confirma o distanciamento entre estes sistemas punitivos legais e as representações de justiça. uma diminuição das contendas desde a proibição das manifestações dos agrupamentos torcedores no estado de São Paulo. ordem e legalidade presentes entre determinados agrupamentos sociais. no avesso da norma e da ordem que instaura. 1996. o que impossibilitou milhares a de torcedores ocuparem as dependências do estádio Brinco de Ouro. Inúmeras vezes os discursos sobre a violência podem vir imbuídos de um excessivo essencialismo que busca uma explicação para a violência no dilema brasileiro.

“(. ao manifestar-se. final de um campeonato de juniores entre São Paulo Futebol Clube e Sociedade Esportiva Palmeiras.) o processo de constituição das configurações esportivas esteve sempre imbricado ao processo de civilização (parlamentarização da vida pública)16.Short cuts Uma outra dimensão crucial para se compreender a eclosão das manifestações transgressoras em estádios de futebol reside na própria constituição do campo esportivo. Neste sentido. Para uma verificação do processo de constituição do campo esportivo em interdependência com outras esferas sociais consultar Norbert Elias. sobretudo entre aqueles que militam no futebol profissional. na criação das mediações institucionais reguladoras por um lado e auto-controle individual na resolução dos conflitos. através da qual uma sociedade nos fala do seu modo de organização. parece impossível abordar quaisquer fenômenos esportivos. em grande medida. e do lugar que nela ocupa a vida humana. torneio tradicional que acontece todos os meses de janeiro e que antecede as temporadas do futebol profissional (campeonatos estaduais e competições nacionais). A conduta torcedora.. por parte dos poderes públicos. como transgressão e ruptura da ordem. Desta maneira. ocultando do horizonte das análises os processos conflitivos. dos valores que reputa fundamentais. jogos e divertimentos]. utilizado por Elias. constitui também ela uma linguagem. A justiça desportiva constitui outro foco de controvérsias na gestão da equanimidade no cumprimento das regras e manutenção de ordem desportiva (. 16 discussões a respeito das regras esportivas e a necessidade em conter a violência entre jogadores. taça São Paulo de futebol juvenil. O condicionamento coletivo e individual às regras impessoais e universais formam o apanágio das sociedades ocidentais burguesas. lugar da emergência de identidades e antagonismos coletivos por excelência. a natureza e o sobrenatural. de modo decisivo. como princípios ordenadores da vida associada (. No entanto. o fenômeno esportivo esteve vinculado. ao resenhar um conjunto de textos de Norbert Elias sobre a temática do futebol. Até hoje observamos acirradas seu fundamento oculto que. o futebol concorreu para disciplinar o nível de violência da esfera pública das sociedades pré-industriais. O gordo do ABC.1997.)” (Montes. da sua concepção sobre o mundo.. utiliza-se do neologismo esportificação para adequar a evolução do referido esporte ao processo de longa duração denominado pela expressão processo de civilização. tanto quanto a norma. à época com 20 anos. manifesta também o embasamento último em que esta se assenta. transgressores e violentos que eclodem de tais manifestações sociais. aspecto raramente levado em conta nas análises que circunscrevem e esgotam a compreensão do fenômeno da violência nos limites do comportamento torcedor. região da zona norte da cidade de São Paulo. faz parte desta lógica inerente ao processo de esportificação17. a violência. O advento dos esportes contribuiu para o desenvolvimento desse processo e. uma política de repressão. por outro [em qualquer instância da vida social: seja no âmbito da política ou no âmbito dos costumes. ao arremessar uma bomba de fabricação caseira na torcida corintiana por ocasião da partida entre São Paulo Futebol Clube e Sport Club Corinthians Paulista.. o são-paulino Reinaldo Marin.. citado..)” (Toledo. à época com 13 anos. 17 Revista Brasileira de Educação 215 . desde sua gênese. Único indivíduo responsabilizado e que está até hoje (1997) preso. às coletividades organizadas de torcedores: um que ficou vulgarmente conhecido como a guerra do Pacaembu e outro como o caso do gordo do ABC. ou seja. dessa forma. palmeirense. cronologicamente anterior àquele. office-boy de uma ótica em Perus. sobretudo o futebol.. no ano de 1995. foi um entre dezenas de outros torcedores que se engalfinharam na guerra do Pacaembu. Adalberto dos Santos. Segundo este autor. como forma ou resultado da sua transgressão. acusado de ser o responsá- José Sérgio Leite Lopes. 225). 1996. foi acusado de ter vitimado o adolescente Rodrigo de Gásperi. Estas considerações feitas acima podem ser adensadas com as descrições de dois fatos amplamente divulgados pela mídia que estimularam. à domesticação mais geral dos conflitos deflagrados nas sociedades. 113-114).

a Torcida Tricolor Independente que acompanha o São Paulo Futebol Clube. semifinal da taça São Paulo realizada no estádio do Nacional. Filho de um pequeno empresário de Santo André. As próprias circunstâncias em que foi preso o ajudaram. são-paulino. espanto. Num determinado momento do gol do São Paulo Futebol Clube. de 8 de fevereiro de 1992. estas bombas caseiras consistem em bolinhas de gude confinadas misturadas a pólvora. Passados alguns dias uma caravana da Torcida Tricolor Independente é detida na serra do mar.. disse (.. na sua libertação20. no dia 14 de março. o ano de 1992. ânimos acirrados como de costume. atingiu o outro aglomerado torcedor. Uma bomba de fabricação casei- ra18 foi encontrada. insultos disparados por ambas as partes e uma proximidade perigosa entre as torcidas rivais. como era conhecido na torcida a qual estava associado.)” (Folha de S.. Américo Brasiliense. foram conduzidos ao 1o distrito policial de São Bernardo. Bomba sem endereço determinado. ocasião em que os são-paulinos iriam acompanhar o time num outro jogo. Porém a tese da armação pela polícia também não ficou comprovada. trabalhava com o pai como vendedor havia três anos e cursava o primeiro ano do segundo grau na escola estadual Dr. Houve até a alegação de sobrevivência política do então secretário de segurança pública Pedro de Campos em tentar resolver rapidamente o caso. sequer qualquer atributo que os individualizassem.. Um gol. Rotina que se alterou bruscamente a partir do dia 23 de janeiro de 1992. Havia uma superlotação no estádio. imposta pelas reduzidas dimensões do estádio. desta vez contra o Santos Futebol Clube. 14/03/92). *** Reinaldo Rocha Marin tinha na ocasião do acontecido. Do interrogatório com os adolescentes se chegou ao gordo do ABC como o provável culpado pelo arremesso da bomba dias atrás. Paulo.. a explosão posterior. ao contrário de Reinaldo Marin (o gordo). Pouco antes de ser libertado. alegria. que o levava aos estádios desde criança. no campo do Nacional. Paulo (num dia em que haveria um jogo entre São Paulo e Palmeiras) alegando que jamais iria a um estádio novamente: “(. além da explosão de alegria incontida do lado da torcida são-paulina. segundo as simulações feitas pela reconstituição pericial. proprietário de uma malharia. 43 deles menores de idade. A paixão pelo futebol herdou do pai. não fazia parte de qualquer torcida organizada. Adalberto. Quero mesmo é sair da Em tempo. na Vila Belmiro. e 99 torcedores. uma bomba de fabricação caseira é arremessada a esmo em meio aos corintianos ainda aturdidos pelo tento adversário. Pela posição em que se encontrava no estádio e a provável distância que o separava de Rogério (45 metros) seria impossível a ele arremessar um artefato de 250 gramas a tal distância. clube da segunda divisão da capital paulistana.Liuz Henrique de Toledo vel pela morte de Márcio Gasparim da Silva.) eles me disseram para arrumar as poltronas. mudou seu depoimento em 13 de março alegando ter sido pressionado pela PM no momento de apreensão da bomba no ônibus: “(. na cidade de Santos. que trabalhava como balconista. trouxe uma matéria em que a reconstituição do caso num teste simulado não confirmava ser Reinaldo o autor do arremesso da bomba. o gordo.) Logo de início é bom dizer que nem quero saber com quem o São Paulo vai jogar ou deixar de jogar. 20 anos de idade. Situação em que mal se podia identificar os contendores.. Clóvis Manoel Gouveia. Torcedores juram: foi armação foi uma das manchetes do Jornal da Tarde do dia 29/01/92 trazendo alguns relatos dos torcedores envolvidos na ocasião. dor. Só vi a bomba na mão do policial. apesar das controvérsias até hoje não explicadas pois alguns torcedores alegaram que a própria polícia militar havia plantado19 a bomba no ônibus. a não ser pelo contraste das cores dos opositores. indignação compuseram o cenário que vitimou o corintiano Rogério de Gásperi. A Folha de S. fiquei com a cabeça abaixada durante a revista. 20 19 18 216 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . 45 dias depois. 16 anos. rodovia Anchieta. Paulo. Reinaldo concedeu uma entrevista à Folha de S. A única testemunha de acusação.

misturando-se aos palmeirenses. por lesões generalizadas. Paulo. As imagens de um jovem combalido. à deriva sobre suas pernas. Eu não quero ficar falando sobre os times porque pode ser ruim pra minha imagem. este também revestia-se de pouca importância se comparado às pelejas acirradas que marcam e instilam animosidades na cidade. e não posso fugir das brincadeiras dos colegas de cela. entre os grandes times profissionais. Continuo tricolor. Se não fosse pelos fatídicos acontecimentos ambos os jogos aqui em questão ficariam confinados às estatísticas esportivas. Porque foi por causa dela que vim penar nesse inferno. mas nunca mais pretendo passar na porta de estádios de futebol. 110).. O revide veio logo em seguida com os são-paulinos pulando e derrubando alambrados. situados ao lado e ao fundo de um dos gols e. Pista interessante porém insuficiente para compreender todo o desencadeamento do acontecido. suspensão das atividades e extinção da Torcida Organizada Mancha Verde.) Hoje sei que há coisa muito mais importante no mundo do que futebol. percorrendo com dificuldades pela lateral do gramado. A partida era uma final de campeonato de juniores21 entre São Paulo Futebol Clube e Sociedade Esportiva Palmeiras e. demonstrava. policiais. que se agrupavam numa parte da arquibancada. desmaiado. ao vivo pela TV. jogadores assustados. desde as primeiras décadas deste século. como eu. Paus e pedras foram desferidos entre os torcedores. predominantemente os organizados. Forte pressão da imprensa. O saldo foi ainda pior com a ocorrência de uma morte. fato que colaborou para o acirramento dos ânimos. na ocasião. ou gol de ouro. Mas como até aqui dentro a rivalidade contra o Palmeiras é grande. Raro encontrar alguém que não as tenha visto. tem um monte de gente que já cumpriu pena mas não saiu porque ficou esquecido pela justiça.. Aqui na cadeia. Findo o jogo. munidos de muito entulho deixado atrás do gol em virtude de uma reforma no setor comumente conhecido como tobogã (arquibancada atrás do gol).)” (depoimento de Reinaldo Marin à Folha de S. retrocessos. 23 A categoria de juniores faz parte dos departamentos amadores dos clubes profissionais. proibição de venda de bebidas alcoólicas. 1997. É uma das etapas para se chegar ao futebol profissional. indiciamento de Adalberto por homicídio doloso. É triste.. o tamanho da agressividade coletiva que se instaurava naquele momento. Difícil descrever as imagens. Não quero que fiquem pensando que estou querendo aparecer ou ser candidato a alguma coisa no futuro (. de um adolescente. sem dar chances de recuperação ao adversário. por morte súbita22. E alguns. Quando a bola tiver rolando no Morumbi vou pra algum canto do pátio da cadeia pra não ouvir o radinho dos palmeirenses. espero apenas que não haja violência. dos Santos (Toledo. o ministério público do Estado designando um promotor de justiça zões do desfecho funesto desta partida. travaram uma sequência de investidas.. Durante todo o segundo semestre e os anos de 1996 e 1997 pode-se verificar os desdobramentos do fato23. profissionais da imprensa que cobriam o evento entre outros. por fim projetado contra o alambrado. alegando que a interrupção brusca pelo gol fatal. Houve. atribuída ao já referido adolescente Adalberto B. Não desejo nem ao pior inimigo (. que não são culpados e aguardam julgamento há anos. Márcio Gasparim da Silva. como no jogo anterior onde Reinaldo Marin protagonizou o ocorrido. Morte súbita. Entre outros o afastamento dos grupos organizados dos estádios. quem atribuísse a esta regra as ra22 21 Revista Brasileira de Educação 217 . por exemplo. 08/03/92) Passemos à guerra do Pacaembu.Short cuts cadeia. gera uma maior tensão entre os aficcionados. consiste no término do jogo imediatamente após um dos contendores fazer um gol. avanços e recuos uns contra os outros. abundantemente veiculadas nas TVs e estampadas nos jornais. torcedores palmei- renses invadiram o gramado para comemorar o 1x0 e apupar os torcedores adversários. suspensão das atividades da sãopaulina Torcida Independente. proibição dos cantos de guerra nos estádios. segundo os primeiros laudos médicos. nem ver pela TV ou ouvir no rádio. bem como de levar aos estádios paulistas bandeiras e instrumentos percussivos.

por exemplo. Paulo. 16/01/97). Quais semelhanças guardam estes dois acontecimentos e tantos outros ocorridos com adolescentes ou jovens torcedores de futebol? Em que medida é possível verificar um padrão de conduta mais objetivo e causal nestas contendas? Tomando como exemplo grande parte das mortes entre torcedores. computou 23 indiciados. Vínculo no sentido de uma ação recíproca mediada por uma história previamente compartilhada entre os contendores. Até janeiro deste ano (1997) o laudo ainda não havia sido divulgado pelo IML.Liuz Henrique de Toledo para acompanhar o caso. O advogado de defesa Laertes Torrens consegue. como no caso do gordo do ABC. 9). com as participações juvenis nos bandos rivais do crime organizado. O advogado de defesa iria solicitar em juízo tal documento no intuito de comprovar sua hipótese de que não foi o golpe desferido por Adalberto que matou o são paulino Márcio Gasparim (Folha de S. constata-se que um número reduzidíssimo delas aconteceu em função de vendetas ou vinganças na disputa por algum bem. o adiamento do julgamento que estava marcado para 14 de abril deste mesmo ano. abertura de inquérito policial. catalizaram-se as violências parciais (institucionais. Não cabe aqui reconstituir toda esta sequência de eventos. é raro estas atitudes violentas ocuparem o tempo da esfera cotidiana. o que não foi permitido pelo referido juiz a pedido da promotoria que alegou que o legista não havia “acompanhado as investigações e por isso. e outras relativas à condução da cirurgia e dos laudos médicos. em geral torcedores não se confrontam para além dos limites dos dias de jogos). Dezenas destes confrontos aleatórios envolveram indivíduos sem quaisquer vínculos uns com os outros. convergindo-as para uma única pessoa. 10/04/97). 24 Em fevereiro de 1997 o juiz Sérgio Rui da Fonseca denuncia-o por homicídio triplamente qualificado. Era necessário. propôs que o renomado legista Fortunato Badan Palhares depusesse como testemunha de defesa. por exemplo a presença de uma grande reforma no estádio. A precipitação dos fatos culminou na prisão preventiva de Adalberto sob a alegação de clamor popular. o que implicava numa evidente ausência de condições em sediar qualquer partida. Os advogados de defesa de Adalberto pediram a exumação do corpo de Márcio e uma perícia para indicar que o golpe desferido pelo réu não foi aquele que vitimou o referido adolescente. motivado por crueldade. 1996. o único indivíduo efetivamente culpabilizado pela morte de Gasparim foi Adalberto. acusado de homicídio doloso. Apesar de uma série de irregularidades evidenciadas na ocasião. aliás rica do ponto de vista de uma investigação mais detida na medida em que veio à baila uma série de contradições no andamento do inquérito em função de possíveis irregularidades nos prontuários médicos do torcedor vitimado. cuja modalidade de violência 25 Grifo do autor. Um balanço feito pela promotoria da capital em novembro de 1996. sobretudo). ainda alegando incongruências nos laudos periciais. que extravazasse os limites temporais dos jogos futebolísticos (em São Paulo.. seis meses após o pedido. Se tal fato ocorresse certamente a cronologia da delinquência em torno do futebol seria alimentada por casos ainda mais contundentes como ocorre. Adalberto. não poderia ir a plenário” (O Estado de São Paulo.. como se pudessem evitar que a “(. passados quinze meses. no tráfico de drogas e disputas por pontos e bocas de fumo. denunciados por crime de rixa e um preso. 218 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Tal como na lógica sacrificial... desse modo. material ou simbólico. Ainda que as imagens claramente mostrem a sua participação no acontecido há indícios de que o golpe considerado fatal por ele desferido não tenha sido o causador da morte de Gasparim. um rápido procedimento para indiciar e apresentar ao público os responsáveis. impossibilidade de defesa da vítima e futilidade25 (briga entre torcedores). ou seja.)” (Rifiotis.) violência se espalhasse por toda a sociedade (. A defesa. ao menos. Suspeita-se que houve um erro (na leitura da chapa e na abertura do crânio) na cirurgia feita no adolescente vitimado 24.

. Entre os jovens torcedores de futebol das classes populares. foi vacilão. contudo não destituídos de apreensão. entretanto. paradoxalmente. como comumente dizem os torcedores. 1996. Apavorar revela um êxtase e prazer na atitude furtiva. deixa transparecer. 16/04/96). Ed. pequenas transgressões em estabelecimentos comerciais. A despeito do débil esforço por parte de alguns segmentos dirigentes das organizações torcedoras (torcidas organizadas) em conterem as transgressões e em que pesem todo o aparato quase bélico (bombas caseiras. 1996.. parece por demais linear tributar exclusivamente a uma ação organizada.. esta modalidade de violência é constatada de modo mais reincidente a partir dos anos 80? Não querendo negligenciar o caráter coletivo de tais investidas. por parte do agressor. Moderna. uma certa representação de desapego da sua própria integridade física. Adalberto e... e o texto da mesma autora citado no presente artigo. classes sociais. no linguajar evocativo de afirmação e bravura entre os grupos.) bota aí que a pior coisa da vida é viver sob as influências dos outros. que tais atitudes são opções que vão além da imediata solidariedade coletiva. também vêm estudando a inserção juvenil no tráfico de drogas. todavia. tais como Peralva (1996).Short cuts conflagrada possui. Revista Brasileira de Educação 219 . por Gasparim e Rodrigo de Gáspari. um acontecimento limite que.)” (Martins. sociologicamente.) superpõem e se anulam no decorrer de um único dia (.. outros elementos definidores26. evidenciando. como pude constatar várias vezes observando circunstâncias semelhantes as relatadas neste artigo. principalmente. representações de masculinidade posta à prova nestas coletividades. motivadas obviamente por uma centralidade e catalização das animosidades por parte dos agrupamentos torcedores. recuos e medos. audacioso e socialmente perigoso (um roubo da bandeira adversária. Isso leva os garotos a agir [sic] no embalo. de modo preponderante. o uso do termo apavorar para denotar algum feito espetacular. tais manifestações revelam... no contexto destes grupos específicos. gerações. 27 José de Souza Martins adverte para o uso inadequa- 26 tuações similares às relatadas: “(. paus) e simbólico que sustentam a atribuída intolerância destas torcidas (os gritos de guerra. ainda.A. mas.. compõem o universo de possibilidades de ação diante de situações tais como no caso do gordo ou da guerra do Pacaembu. entretanto se “(. etc). é muito usual. que foi o que me levou a encarar uma situação dessas (.. Da Revolta ao Crime S.)” (depoimento de Adalberto ao Jornal da Tarde. e aqui inclui-se os próprios aliados de uma mesma torcida.) Eu nunca fui de organizada (. Parece que há um forte elemento desagregador de identidades neste comportamento manifesto e um forte apelo individualizador na busca de prazer e emoção em tais atitudes. valorizando uma dada identidade coletiva desses agrupamentos. Outros autores.. O indivíduo agredido. afirmando que os jovens vivem de embalos. A exposição aos perigos (e aos prazeres) partilhados na forma da contenda futebolística entre torcedores mobiliza dezenas de jovens em situações similares cujos desfechos potencialmente poderiam ser tão trágicos como aqueles vivenciados por Marin. brigas) até uma atitude mais deliberadamente agressiva.. A própria fala de Adalberto ao enfatizar um caráter coletivo das investidas.) não se pode viver sob o incentivo dos outros para praticar uma briga (. O relato de Adalberto em certa medida corrobora com esta análise ao negar uma identidade27 substantiva que se quer atribuir às torcidas em si- Para uma interessante análise sobre o envolvimento de jovens no tráfico de drogas consultar Alba Zaluar. 38). ao mesmo do do termo identidade no estudo de pequenos grupos ur- banos. demonstrando não somente um desprezo pela existência do outro. afirmando que se tais identidades existem. Por quê. ainda que de modo variável. que a mobilização de alguns elementos profundamente desagregadores. a ocorrência destas situações de conflito. pedras. preso ou até mesmo morto simplesmente se fudeu. São Paulo. que parecem animar determinadas condutas individualizadoras.

agregamse os de uma mutação cultural... A violência do jovem. Apavorar. que debilita a antiga preeminência exercida sobre ele pelo adulto: a desregulação não é apenas social. em certa medida podem ser informadas pela categoria precedente (conduta de risco) só que não exatamente para tipificar tais atos beligerantes. mas tão somente no objeto. correlacionado aos processos sociais de fragmentação e desinvestimento nas instituições populares mencionados por Zaluar. mas também inter-geracional.. citando outros autores tais como Edgar Morin. lembrando que a violação aqui não se caracteriza por ser auto-referida como nas condutas de risco típicas29. mas. 1996b. o surf ferroviário. como o enfrentamento ou a aniquilação física do desafeto. como nas sociedades ocidentais. ao superdimensionar a noção de indivíduo. entretanto. 28 efeito perverso engendrado nas próprias sociedades modernas. No caso da presença do outro (dos adversários) nas transgressões protagonizadas por torcedores de futebol. Vale ressaltar. As condutas torcedoras. que parecem evidenciar também uma manipulação angustiada da morte. citados em parágrafos anteriores. individualizadas.. Dessa maneira. ademais.) liquidação de antigas formas de regulação das relações humanas (. ainda que efêmera e socialmente reprovável.) já não funciona suficientemente como matriz protetora. Momento em que alguém se destaca do anonimato da torcida e conquista uma certa visibilidade. a acentuação da angústia da morte consiste num fenômeno generalizado das sociedades onde o processo de individuação foi intenso. ao contrário.) engajamento voluntário dos sujeitos em um risco de morte é o mecanismo ao qual recorrem para enfrentar a angústia diante de um mundo desprovido de proteção (. abandonando o indivíduo face à angústia da morte. traduz-se em temor e angústia na realização do próprio ato. E segue a autora: “(. 29 220 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . s/n).Liuz Henrique de Toledo tempo.. s/n). por fim. ao que parece. antes. cuja inexistência do outro como objetivo de consumação da transgressão concretiza uma situação limite de negação do ato de realizar-se no ou pelo outro. muitas vezes acabam abortando experiências mais coletivas de socialização devido a um processo de “(. parece mais diretamente pautada pelo engajamento em condutas de risco...)” (Peralva. a sociedade “(.. politicamente igualitárias que. o que ocorre é que o contendor ou oponente em potencial parece também não consistir no objetivo da ação... aos efeitos da desregulação social.. mesmo que pautada numa sociabilidade negativa. envolvendo significados plurais” (Peralva. espécie de anteparo que simplesmente veicula ao mesmo tempo uma negação do coletivo e uma auto-afirmação.. Essa dupla desregulação parece torná-lo em muitos casos mais sensível ao engajamento à violência como forma de gestão da angústia da morte (.)” (Peralva.. No caso do jovem. ou seja.. o que permeia as atitudes que envolvem condutas de risco é a angústia da morte28 revelada pela e na ação transgressora. como expressão mais radical de condutas de risco.. Segundo ainda esta autora. o apelo à ordem se manisfesta sobretudo através da violência policial e extra-policial contra o jovem (.) No contexto de um Estado de direito frágil e incapaz de assegurar os requisitos básicos de uma ordem legal [como é o caso brasileiro]. s/n). 1996b.)” (Peralva. que tais condutas são caracterizadas por se constituírem em atitudes autoreferidas. 1996b. Segundo Peralva (1996b). Alguns outros fenômenos vêm sendo conceituados na literatura especializada sobre sociabilidade e delinquência entre os segmentos juvenis pela expressão comportamento de risco. consiste numa ação em que embora motivada pelo comportamento coletivo instituído pelos grupos torcedores é profundamente desagregadora. s/n). Quanto mais individualizada for a transgressão maior o prazer suscitado na atitude de apavorar terceiros. particularmente os casos extremos aqui expostos.). para inseri-los neste movimento mais amplo de desregulação e recuo institucional descrito acima.. O engajamento dos torcedores em circunstâncias semelhan- A autora vem estudando. cujo “(. 1996b.

Short cuts tes às descritas acima em grande parte é voluntário (e solitário). Marcos. Multigrafado. In: MAGNANI. exclusivamente. (1996b). __________. (1995). Marcos. MONTES. PERALVA. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. __________. e me parece pouco razoável explicá-las como sendo. Neste momento as análises igualmente instrumentais perdem em muito seu valor heurístico. Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. In: VELHO.). Juvenização da violência e angústia da morte. __________. Guerra do Pacaembu foi uma verdadeira demonização. José Sérgio Leite. Rio de Janeiro: UFRJ/FGV. Cenas Juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. parece não mais estimular e mobilizar os jovens sócios que buscam. (1996). O Visconde Partido ao Meio. A globalização do crime e os limites da explicação local. São Paulo: Hucitec. dos grupos de torcedores desordeiros. demandas conscientemente organizadas por coletividades torcedoras. 30 O que se constatou a partir da Revista Brasileira de Educação 221 . São Paulo: Companhia das Letras. v. LOPES. 1. (1996). uma via mais segura (dada até mesmo pelo próprio anonimato da multidão) de aparição espetacular no domínio público. In: VELHO. Identidades e conflitos em campo: a guerra do Pacaembu. (1996b). ou seja. José de Souza. Estamos diante. A peleja da vida cotidiana em nosso imaginário onírico. out. L. (1996). Violência. (Document provisoire). (1996). fragilizadas que estão num contexto de repressão e despolitização de seus quadros. Na metrópole: textos de Antropologia Urbana. São Paulo: Edusp. sobretudo entre os segmentos jovens. Maria Lúcia. Cidadania e violência. __________. José de Souza (org. Paris: Centre d’Analyse et d’Intervention Sociologiques. TORRES. Rio de Janeiro: UFRJ/ FGV. errantes viscondes habitantes dos grandes centros urbanos. Esporte. ALVITO. do terreno propriamente instrumental do uso da violência. Gilberto. senão de esgotamento. para ingressar num âmbito mais subjetivo (e porque não dizer movediço) de sua dimensão. Cidadania e violência. n. (1996). A cidade das torcidas: representações do espaço urbano entre os torcedores e torcidas de futebol na cidade de São Paulo. tão valorizado em determinados momentos por inúmeros daqueles organizados. Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências. out. n. cultura popular e organizações comunitárias. nem sancionado nem coibido pelas coletividades torcedoras. Note pour une analyse comparative de la violence juvénile en France et au Brésil. Angelina. Revista da USP. J. TOLEDO. 32. Norbert. 20. um sequestro. CALVINO. MANA: estudos de Antropologia Social.. nessas mesmas formas de organização. C. São Paulo. MARTINS. qualquer ação terrorista ou mesmo uma ação policial mais ostensiva ante algum delito por exemplo). Campinas: Autores Associados. portanto. Em busca da excitação. São Paulo: Scritta/ANPOCS. Da revolta ao crime. Helena. (Des)figurações: a vida cotidiana no imaginário onírico da metrópole. Lisboa: Difel. Alba. (1996b). O apelo a um projeto de torcida. Luiz Henrique de. aquele que atribui uma dada racionalidade à ação30 (a violência como um meio consciente para se atingir um determinado fim. 1. como se estes pudessem ser comparados a outros agrupamentos que se utilizam das ações transgressoras e violentas como um meio para atingir objetivos pré-determinados. indicam um processo. (1994). emoção e conflito social. ALVITO. de fenômenos intrigantes e que ainda não foram suficientemente esclarecidos nas análises. Fapesp. set. In: MARTINS. ANPOCS. Torcidas Organizadas de Futebol. Saímos. Italo. (1995). ZALUAR. Referências bibliográficas ABRAMO. no senso comum. ELIAS. Gilberto. O que pode acarretar em efeitos até mais perversos de atomização e desregulação ainda maior de tais condutas intolerantes nos estádios. como um roubo. (1960). (1997). Caxambu. As ações transgressoras entre torcedores relatadas aqui. ao menos de impasses e crises na formação de identidades coletivas. então. São Paulo: Moderna.

a queda de nível dos alunos. François Dubet é pesquisador do Centre d’Analyse et d’Intervention Sociologiques (CNRS . diretamente como professor. professor titular e chefe do departamento de sociologia da Universidade de Bordeaux II e membro senior do Institute Universitaire de France. coletivos ou individuais. 1966. François Dubet quis vivenciar. Paris: Seuil. E eu me perguntava se não era um tipo de encenação um pouco dramática do seu trabalho. com professores. É autor de mais de uma dezena de livros. 1994 (Edição portuguesa: Lisboa. você escolheu lecionar por um ano em um colégio? Eu quis ensinar durante um ano por duas razões um pouco diferentes. Por quê. Instituto Piaget. A primeira é que nos meus encontros. entre os quais: La galère: jeunes en survie. 1987.Espaço Aberto Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor Entrevista com François Dubet Entrevista concedida à Angelina Teixeira Peralva Marilia Pontes Sposito Universidade de São Paulo Tradução de Ines Rosa Bueno Em entrevista concedida à Revista Brasileira de Educação em setembro de 1996. a impossibilidade de trabalhar. França. durante breve estada no Brasil. 1997) e A l’école. o sociólogo François Dubet reflete sobre a sua experiência de um ano como professor de história e geografia em um colégio da periferia de Bordeaux. Paris: Seuil. Conhecido por suas pesquisas sobre a juventude marginalizada na França. Eles insistiam muito sobre as dificuldades da profissão. 1991. Les lycéens. eu tinha a impressão de que eles davam descrições exageradamente difíceis da relação pedagógica. enquanto pesquisador. Sociologie de l’experience. os dilemas da escola francesa contemporânea.École des Hautes Études en Sciences Sociales). (com Danilo Martucelli) Paris: Seuil. etc. 222 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Paris: Fayard.

bastante difícil em que o nível dos alunos é baixo e dei aulas durante um ano. os alunos me testaram. a rir (. não acredito que se possa fazer pesquisa se colocando no lugar dos atores. outros não terão lápis. pelo menos no nível escolar em que eu trabalhava. isto é. Podemos dizer muitas coisas sobre esta experiência. É extremamente cansativo dar a aula já que é necessário a toda hora dar tarefas. de ser um “intelectual”. de chefe de departamento. Ensinei história e geografia já que são disciplinas que me interessavam e que não requeriam uma formação específica como o inglês ou as matemáticas. 2º ginasial (que começa após os cinco anos de escola elementar). finalmente. muita simpatia (. são cinco minutos de bagunça porque eles vão deixar cair suas pastas. Contudo. um menino que estava no fundo da sala.) Um aluno. o levantei e o trouxe para frente. Assumi uma classe de cinquième. mas de resistência ao professor. sonhando com outra coisa e não fazer barulho. eles falam. Começaram então a conversar. não sabia como contar histórias e fazer com que os alunos escrevessem ao mesmo tempo. Se você não os ocupa com alguma coisa. Tive muitas dificuldades. Aprendi que para uma aula que dura uma hora. Devo dizer que esta experiência não era nada central para mim já que não era o coração do meu trabalho de pesquisa. para começar. eu fiz este trabalho em boas condições pois fui muito bem acolhido pela grande maioria dos professores que ficaram bastante sensibilizados pelo fato de eu ir dar aulas e tive real- mente muito apoio.Não são alunos capazes de fingir que estão ouvindo. Durante duas semanas.. Foi um pouco por desafio que eu quis dar aulas para ver do que se tratava.... alguns terão esquecido seus cadernos.Espaço Aberto A segunda razão é que. Entretanto. não de hostilidade. ameaçar. falar (. depois de dez minutos. Ele gritava: “Ele vai quebrar meu ombro!” Bom. e que é fundamental. Os alunos não estão “naturalmente” dispostos a fazer o papel de aluno. Por exemplo. com crianças de 13/14 anos. a situação escolar é definida pelos alunos como uma situação. durante uma intervenção sociológica com um grupo de professores. A minha segunda surpresa: é preciso ocupar constantemente os alunos. nunca imaginei seriamente escrever um livro sobre a minha experiência de professor. corresponde ao que os professores dizem nas suas entrevistas.. quando a gente fala “peguem os seus cadernos”. Se eu contasse a história de Roland e de Revista Brasileira de Educação 223 .80 m e pesasse 75 kilos. o resto do tempo serve para “botar ordem”. me esforcei para ser um professor razoável. Ou se eu fosse uma jovem professora de 22 anos. Isto significa que eles não escutam e nem trabalham espontâneamente. houve um contato (. ver a mim mesmo dando aula. encontrei duas professoras com uma resistência muito grande ao tipo de análise que eu propunha.) fiquei muito contente que o menino tivesse 13 anos. fazia tanto barulho que eu pedi para ele vir se sentar na frente. ao lado de minhas atividades de acadêmico. Uma delas escreveu uma carta em que me criticava particularmente por não ter lecionado. da volta às aulas em setembro até o mês de junho. Lá. não é preciso esconder que o fato de ser um homem no meio de mulheres pode também ajudar. Ele se recusou.. em um colégio popular. embora tivesse me esforçado para manter um diário de umas cinquenta páginas no qual redigi minhas impressões. na primeira aula. Fui buscá-lo. Dito de outra forma. pois se tivesse pego uma classe de troisième (3º ginasial) e que o menino tivesse 1. A minha primeira surpresa. só se aproveitam uns vinte minutos. Logo. Portanto.) Por exemplo. não sei como teria reagido. Mas após duas semanas.. me dei conta de que a “observação participante” era um absurdo. eles queriam saber o que eu valia. de ter uma imagem abstrata dos problemas.) Aliás. eu acho que é um sentimentalismo sociológico que não é sério ou que supõe muitas outras qualidades diferentes das minhas. Era um clima bastante agradável. para dar orientações. Elas deixaram o grupo. eles se aborrecem ou fazem outra coisa.. estava completamente envolvido com o meu papel e eu não era de maneira algum um sociológo. tentei ficar observando. eu estaria com problemas. quatro horas por semana. seduzir.

Isto quer dizer que alguns professores tinham medo antes de entrar na sala. os alunos me escutavam como se eu contasse um conto de fadas e não escreviam nada. ou outros que nunca vinham. Como acaba se construindo uma relação com os alunos? Sem me dar muito conta disso. muito disciplinar e muito rígido. fiz um “golpe de estado” na sala. é preciso reconstruir a relação: com este tipo de alunos. que passavam pelo corredor. não conseguiam. ela nunca se torna rotina. a relação escolar é a priori desregulada. Porém lá. E eu também. Cada vez. tendo sido assistente muito jovem ainda. como fazer com que ouçam.. e ele terá duas horas de castigo. cada vez. cada vez. Não havia agressões. é preciso recompensar (. Realmente. eu não controlava nada e os meus colegas apreciaram talvez que eu tivesse tido problemas. É uma experiência 224 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . não havia insultos mas era obviamente uma provação. obviamente.. Fizeram uma festa quando eu fui embora. não era bagunça. no canto da mesa. é de fato o que a gente realmente experimenta. eles perguntavam se era para escrever com caneta azul.. que eu me lembro de suas notas. eles sabiam que nem tudo era permitido. muito penosa. que davam boas aulas.) No fim do ano... Mesmo que a gente visse colegas chorando. Mas numa sala de professores.. os alunos eram sensíveis ao fato de eu me interessar por eles como pessoas. como fazer com que não façam barulho? Esta é a dificuldade. eu escrevo a seus pais. é preciso reinteressá-los. Depois de dois meses.) É extremamente difícil e eu tive uma grande agitação na sala. Você disse que fez um “golpe de estado”. Aliás. foi o clima de receio para com os alunos na sala dos professores. facilitou a minha vida e tenho a impressão de que esta “crise”deu aos alunos um sentimento de segurança. havia muitos deles que eram muito fortes. O que mais me chamou a atenção. Pode ser mais duro para um professor iniciante. todo o mundo parece ser um bom professor. é preciso ameaçar. de suas histórias (. Quando olho para os meus colegas. e o primeiro que falar. Depois. eles gostavam muito de mim. isto significa que eu falo com eles.Espaço Aberto Carlos Magno. E então um dia. É preciso reter desta história extremamente banal que o fato de ser sociológo pode permitir explicar o que acontece. nunca se fala disso. achei que a descrição que os professores entrevistados faziam na pesquisa era bastante correta. não é por narcisismo. como fazê-los trabalhar. eles me suportavam. já que alguns me ofereceram um livro: Comment enseigner sans stress? (como ensinar sem estresse?) Talvez eu pudesse dizer que sentia dificuldades porque meu status social me permitia dizê-lo sem ter o sentimento de vergonha. eu estava um pouco desesperado: eu não conseguia nunca dar a aula. Com os alunos. já que eles sabiam que havia regras. de sedução. as relações se tornaram bastante boas com os alunos e bastante afetuosas. cada vez. falei disso com os meus colegas. Disse a meus colegas que eles bagunçavam e eu estava tão mais surpreso com a bagunça porque. eu puni. que durou mais ou menos dois meses. Me deram presentes. Se eu falo de charme. Não era um colégio violento. Durante estas dificuldades. nunca tive a menor sombra de um problema desta natureza. Cada vez que se entra na sala. de cara. No final das contas. E durante uma semana foi o terror. E quando escreviam. não é a violencia. Disse aos alunos: de hoje em diante não quero mais ouvir ninguém falar. é preciso lembrar as regras do jogo. De fato. Era uma relação muito complicada já que era ao mesmo tempo afetivo. não entendiam nada do que eu dizia. mas não de antecipar melhor que a maioria das pessoas. digamos que eu tive o sentimento que começava a aprender pouco a pouco a dar aulas. É cansativa. não quero mais agitação. vermelha ou sublinhar (. Eu disse: vocês vão colocar as suas cadernetas de correspondência. era agitação. não quero mais ouvir ninguém rir.) A gente tem o sentimento de que os alunos não querem jogar o jogo e é muito difícil porque significa subtemer à prova suas personalidades. a caderneta em que se colocam as punições. Havia outros que visivelmente. Enfim.

O programa é de uma ambição considerável e não se pode realizá-lo materialmente. mas permitiu fixar uma ordem bastante estúpida a partir da qual a gente pode tentar controlar uma relação pouco regulada. Eu vivi muito dificilmente este ano. individualmente. Mas eles sabiam que todos os meses. É feito para um aluno cujo pai e cuja mãe são pelo menos professores de filosofia e de história. sedução pessoal. no Natal queria parar. eles não entram completamente no jogo. Nenhum efeito. Isto significa que a gente não consegue observar e dar aula ao mesmo tempo. não faziam nada. Eles permanecem nos seus problemas de adolescência. aliás. não há cronologia. estabelecer relações com os professores. eles podem encontrar um professor interessante. mas nada do que pe- Revista Brasileira de Educação 225 . tendo de certa forma o sentimento de que vamos deixar um pouco de lado os bons alunos. Eis um pouco do que eu observei e devo dizer que isto correspondia exatamente ao que diziam os professores nas entrevistas individuais ou coletivas. “entraram em greve”. É completamente desesperador: no início eu os puni e no fim não os punia mais. mas antes alunos fracos em geral. Outra coisa que me chamou a atenção. tê-los-ia punido todos os dias. que eu desconhecia completamente. um aluno médio que não existe. O que este “golpe de estado” mudou fundamentalmente? Para mim foi muito negativo porque a gente se sente reduzido a expedientes. O que é que você achou dos programas escolares? É uma das coisas mais espantosas. Por isto. agressivos. eu teria recomeçado. não se trate de alunos malvados. eles não querem tê-las.Espaço Aberto muito positiva quando funciona. Eles podem encontrar um professor simpático. Foi preciso mobilizar muitos registros. É um trabalho que se recomeça a cada dia embora. mas de qualquer forma. no colégio. a gente fica contente. depois de dois meses. coletivamente. Fiz reinar o terror durante algumas semanas e depois relaxei. de amor. quando não funciona. A gente dá aula e só faz isso. são alunos que. que nunca havia usado na minha vida universitária. mesmo se os alunos queiram. daí a metade do programa e contei a história. eu achava que podia seduzí-los intelectualmente. repito. É realmente uma situação em que a gente tem grandes dificuldades para conquistar os alunos. de amizade e o professor fica sempre um pouco frustrado porque. No fundo eu estava persuadido. O programa é também uma grande abstração. não é uma história que conta histórias. Tiravam zero em todas as provas. eram muito gentis mas tinham decidido que não trabalhariam. hostil aos professores. até em história e em geografia. talvez se tenha experiência suficiente para ver as coisas e fazê-las ao mesmo tempo mas. Mas é uma história fracamente controlada. fiz como todos os meus colegas. De fato. me comportei como um iniciante. Por exemplo. e que vamos deixar de lado os maus alunos. Estamos lidando com alunos extraordinariamente diferentes em termos de performances escolares. O programa é feito para um aluno que não existe. Somos obrigados a dar aula a um aluno teórico. Podemos fazer outras observações muito banais sobre a heterogeneidade das classes. É feito para uma turma que trabalha incessantemente. é preciso trabalhar na transformação dos adolescentes em alunos quando eles não têm vontade de se tornar alunos. O “golpe de estado” é um fracasso pedagógico e moral. Os alunos são adolescentes completamente tomados pelos seus problemas de adolescentes e a comunidade dos alunos é “por natureza” hostil ao mundo dos adultos. como professor universitário. já não adiantava. ameaças. Digamos mais simplesmente que é feito para um aluno extremamente inteligente. Depois de alguns anos. Eles não exageram. é uma história de sociólogos. porque existem. racistas. disciplina. alunos que nada fizeram. que a gente podia jogar com a sedução intelectual. neste ano. Falando bem e sabendo mais coisas do que eles. a gente se desespera.

quer dizer. não se pede apenas que ele mude de técnica. Mas eles sabem que isto nem sempre é verdadeiro. Os conselhos de classe são cansativos porque na verdade. que ordena os valores. Procura-se então outros meios. o problema é múltiplo. Assistir ao filme levou quatro horas porque era preciso explicar as palavras: a palavra inquisição. Porém. quando eu estava em cinquième (segundo ginasial). a gente vê muito bem o tipo de sabedoria professoral. os alunos parecem sensíveis ao fato de que a gente quer vê-los bem sucedidos. por estarmos numa sociedade democrática. magoados. Uma pedagogia não é uma pura ferramenta na medida em que não há corte entre a pedagogia e a personalidade. os alunos são muito sensíveis a este tipo de adequação da personalidade do professor e de seu estilo pedagógico. a gente sempre lhes explica que se eles não obtiverem bons resultados é porque não trabalham bastante. a situação escolar não tem nenhum sentido. Mas a gente vê também professores que se obrigam a aplicar métodos que não são os seus e não dá certo. Só se diz para eles: se você trabalhar mais. A primeira tem a ver com a extrema brutalidade da seleção. porque isto não interessa para eles (. que eles são iguais. mas é muito demorado.. Até porque as pessoas acham que os alunos que cumpriram este programa adquiriram completamente os dos anos anteriores. Ao mesmo tempo. Entretanto.) Eu diria que este sentimento de absurdo da situação pedagógica é reforçado pelo fato dos programas se dirigirem para alunos abstratos. Eu os levei para ver um filme sobre a Idade Média na televisão: O Nome da Rosa. E é portanto vivida como uma pura violência.. como a maioria dos meus colegas. pede-se para que ele próprio mude. isso nem sempre é verdadeiro. a gente decide o destino dos alunos em alguns minutos. enquanto que. apesar de tudo.” A gente vê professores que adotam métodos tradicionais que funcionam muito bem e outros que têm métodos ativos que funcionam. É o preço de um sistema que é ao mesmo tempo democrático. E aliás. muitos professores o fazem muito bem. não uma violência simbólica de classe como diz Bourdieu. E. É por eles terem dificuldades de outra ordem. Isto significa que eles fingem dar aula para alunos que fingem ouvir. sentem-se humilhados. Assim. mas uma violência individual pedagógica. com a mesma idade deles.Espaço Aberto diram que eu fizesse. um tipo de ficção no julgamento escolar que faz com que nunca se permita aos alunos suas própria explicações ou que tomem realmente em mãos as suas próprias dificuldades. um sistema em que todo mundo é igual e meritocrático. a palavra ordem religiosa (. por seus amigos. Gostaria de apontar duas outras dificuldades. Mas para muitos alunos. de relacional. será preciso concebê-la como uma evolução geral da escola ou antes como um problema de métodos pedagógicos? Não sou pedagogo mas não acredito. muitos alunos são extremamente infelizes na escola. programas muitos simples. que não é um absurdo. há. Mas muitos jogam a toalha. Esta desregulação da relação pedagógica. A pedagogia é uma técnica da operacionalização da personalidade. Quando se pede a um professor para mudar o seu método.) Nunca se lhes dá realmente os meios de compreender o que lhes acontece. e na realidade. Isto faz com que o trabalho do professor seja muito cansativo com o tempo e entretanto.. eles têm obviamente performances desiguais. quando os professores dizem: “Existem métodos que me servem e métodos que não me servem. Eu tenho a imagem de uma relação bastante dura que é compensada por toda a sua vida juvenil. De certa forma. A gente experimenta um descompasso entre os programas e os alunos. a gente considera que todos os alunos têm o mesmo valor. terá melhores resultados.. em uma pedagogia milagrosa. A segunda coisa é a manutenção de uma ficção sobre os alunos. por suas brincadeiras. Temos então interesse em deixar uma multiplicidade de métodos possíveis. então. tinha programas infantis. isto é. Para o colégio. É obviamente preciso que a situação escolar tenha sentido para os alunos o que não é exatamente o caso 226 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . no fundo. alunos que não existem.

ele tem sobretudo a ver com a situação do mercado de trabalho. tanto faz para a elite da burguesia. os alunos têm o dever de entregar os trabalhos na data prevista. A gente poderia imaginar desenvolver aprendizados que pareçam mais úteis. mas é preciso que eles as aprendam. mas é preciso que os professores tenham o dever de entregar as correções na data prevista. É claro que este problema não se limita somente á escola. Seria preciso rever os programas e as ambições de um modo que os alunos não sejam colocados de entrada em situações de fracasso. as dificuldades do sistema se tornam os problemas psicológicos e pessoais dos indivíduos. Mas o que os professores pedem muitas vezes. há um regulamento interior nos colégios. Então. Então. eu acho que eles devem aprender menos coisas. Não se pode manter programas feitos para uma pequena elite da burguesia. na medida em que as contradições do sistema não são administradas e explicitadas politicamente. muito menos difícil do que ela é. Portanto. Mas. Por exemplo. aquilo que se chama “retomada nas mãos” é a definição do poder mas não a definição do direito. mas também obrigações para os professores. aplicadas e recíprocas. Quando você fala de democracia escolar. que dirigiu durante muito tempo o ensino superior na França. creio que a situação escolar se esvazia de todo seu sentido nos meios populares já que os alunos não acreditam mais que os diplomas vão lhes permitir abandonar sua origem social. A palavra democracia quer dizer que as regras de vida em grupo são regras definidas. obviamente. Seria necessário refundar um trabalho educativo sobre o aprendizado de um tipo de democracia escolar. Por exemplo. É preciso portanto rever a oferta escolar. ou seja. será que você pode falar com mais precisão sobre estas idéias? Qual é o lugar de produção destas regras na medida em que você fala de enfraquecimento. Finalmente. Porém. em torná-los amigos. as pessoas as vivem como problemas individuais. os alunos são definidos por lacunas. isto não é muito grave. tenho convicção disto. Porém. isto é. dizia: é preciso que os alunos de colégio aprendam poucas coisas mas que aprendam coisas difíceis e que as saibam. Mas acredito que este quadro deva ser criado de um modo democrático. ao invés disso. Hoje em dia. é isso que me parece importante. eu acho que há coisas a serem feitas no colégio.Espaço Aberto nos estabelecimentos populares já que os alunos que lá estão não são mais os antigos bons alunos oriundos das boas famílias para quem a escola é uma coisa normal. Precisamos ter tempo para ter certeza que eles as conheçam pois o que os faz progredir é ter superado a dificuldade. de cidadania escolar. no caso do colégio. é que esse quadro normativo deveria envolver tanto alunos como professores. seria preciso ver. a partir de uma definição dos direitos e dos deveres. Porém.. Revista Brasileira de Educação 227 . pelo menos coisas que deveriam permitir tornar a relação pedagógica muito menos tensa. Para falar mais simplesmente. Claude Allègre. de desaparecimento das instituições? No colégio. hoje em dia na França. ensina-se cada vez mais coisas sem nunca ter o tempo de verificar se são assimiladas. muitos alunos têm a impressão que a escola não serve para nada. o lugar da adolescência pois hoje em dia o colégio é definido por um tipo de guerra fria entre os adolescentes e a escola. ou seja. a escola não pode mais esperar que o sentido da situação escolar venha de fora. ela perderá um pouco de tempo no colégio. das famílias cujo julgamento os professores fazem aliás muitas vezes. Haveria em termos de educação para a cidadania. verdadeiros contratos de vida comum entre os professores e os alunos mas que suporiam obrigações para estes alunos. é preciso recriar um quadro normativo. na realidade. Depois.. os alunos têm o dever de não xingar os professo- res: a recíproca também tem de existir. que o mundo do colégio seja um mundo em que haja uma cidadania escolar.). me parece que deveria ter regras de vida em grupo partilhadas. que se aplica vagamente (. Não acredito de jeito nenhum que a pedagogia consistiria em reconciliar os alunos e os professores. E isto por uma razão extremamente simples. coisas fundamentais a serem feitas.

cada professor. O quadro normativo cria. contra o dispositivo de ajuda nos deveres. Além disso. que têm a capacidade de criar civilização. Atualmente. é a rua que entra no colégio. é preciso tocar no conjunto do sistema. tanto em termos de performance quanto de problemas de conduta. sou hostil a esses dispositivos novos. pouco importa. é preciso que os professores aprendam a falar com as famílias como elas são e não como elas deveriam ser. O problema na França é que para mudar um pequeno aspecto do funcionamento. ao mesmo tempo. um certo número de mudanças. agir. Há colégios que puderam criar sistemas. criamos múltiplos dispositivos novos. ao mesmo tempo. Trata-se de criar as condições para dar aulas normalmente o que supõe. O que os alunos não aprenderam durante sete horas de matemática. acaba explodindo ou. Será que precisamos adotar o modelo inglês ou americano? Aí eu tomaria mais cuidado. que certos colégios que deveriam conviver com a violência não a conhecem. Não. criemos uma escola democrática. é extremamente autônomo. quando os professores são nomeados pelo computador. como temos o sentimento de não poder mudar as regras. eu o digo claramente. Mas mudar o modo de nomeação dos professores é uma revolução nacional. violência real. são quase sempre respostas à violência sofrida por alunos. da disciplina e da democracia.. Na França. é preciso que o colégio aceite que haja uma vida adolescente na escola e que não a considere como desvio. a escola é uma construção histórica longa fortemente associada à cultura de uma sociedade.). a maioria dos casos de violência contra professores. é que há colégios que o fazem. A gente vê muito bem. É a tradição centralizadora. quando não há disciplina.. por exemplo. efetivamente. você sabe isto tanto quanto eu. ser cooptados por seu estabelecimento para que haja uma coordenação pedagógi- ca. e outros. é preciso que os alunos façam outras coisas que não seja assistir às aulas no colégio. escolarizando mais alunos ainda que não aprendem durante a aula. quando existe. violência simbólica. para que as famílias não tenham medo de ir ao colégio. são violentos. e a prova que isto é possivel. Quando se trata de ordem e liberdade. de modos de funcionamento que não são em si consideráveis mas que pedem mudanças de hábitos. um sistema disciplinar rígido. que já teve grandes virtudes. Muitas vezes. Sou contra a idéia de que vamos resolver os problemas escolares. mas eles devem fazê-lo num quadro normativo. será possível? Até um certo ponto. criemos uma escola justa. seria necessário que os professores sejam cooptados pelas equipes. É preciso dar um quadro a esta vida adolescente. importa dar aos alunos os meios de criar este quadro. Já que equipes coerentes precisam ser construidas. Por exemplo. Coloca-se pessoas cuja profissão é falar com as famílias. violência (. de programas. com regras que os eduquem. a priori protegidos. não o aprenderão em dez horas. quando eles não escolheram ir para lá? A formação de um quadro educativo supõe que se mude profundamente um certo número de regras de funcionamento. Sabemos muito bem que os professores precisariam escolher o seu estabelecimento. uma vez na sala. Dito de outra forma. por exemplo. É preciso oferecer um quadro. Os alunos estão diante de relações estilhaçadas a partir das quais tentam se virar. e outros não. e um modo de expressão possível dos alunos. Quando se compara o sistema escolar francês. mas eles não sob um quadro normativo. 228 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Mas isto sugere algumas mudanças na gestão do sistema. não é uma tecnologia que se pode importar. Porém.Espaço Aberto é um quadro disciplinar que os proteja sem obrigálos a cooperar. no conjunto o sistema escolar francês funciona melhor. Sou totalmente hostil ao sistema dos mediadores. Não se trata de dizer: criemos uma escola ideal. Como criar uma vida em comum em um colégio. Sou. Como é que se pode levar em conta a sociabilidade dos alunos? Será que é preciso se inspirar nos modelos inglês ou americano? Mais convivência. então. Quando é só disciplina. as diferenças entre os estabelecimentos são muito importantes. a violência escolar não é só produto da violência social.

simultâneamente. qualquer aluno que brigar. É claro. e o aluno tem a sensação de que seu problema será levado em conta. Mas não acredito que ela deva ser socializadora da maneira como muitos entendem na França hoje em dia: conservadora. Qual é a consequência deste mecanismo? É que depois de algum tempo. Porém. requer por exemplo que os professores sejam recompensados. quem xingar um professor será expulso. o aluno que xinga o professor é punido. insisto. Mas as diretrizes que dizem: é preciso se comportar desta maneira com os alunos. se a gente quiser a autonomia dos estabelecimentos. requer regras. Como produzir esta mudança? O que o ministério pode fazer? Eu acho que esta mudança supõe menos diretrizes ministeriais do que mudanças do modo de orgranização. e são tão ótimas que não têm efeitos reais. eu repito. pois não faria sentido se os adultos fizerem o que eles proibem que as crianças façam.. volta dos princípios (. que insultar professor (. Mas isto não impede que ele seja expulso. o colégio das Minguettes era um colégio violento. supõe que os sindicatos não defendam sistematicamente todo colega (. os professores entendem que seu interesse é se engajar menos. Um professor faz o que quer na sua sala. e ao mesmo tempo. O que você pensa sobre elas? Os IUFM são uma mudança considerável porque na França. É preciso ter ao mesmo tempo autoridade e liberdade. que este poder seja controlado. Chegou um diretor que disse: Bom vamos fazer duas coisas simultâneamente.. Quando é nomeado por um computador.. ele seja punido. muito mais aberto. é preciso muito cuidado. inclusive quando não funciona. supõe que os di- retores tenham poder. volta da disciplina. vamos estabelecer uma disciplina mecânica. portanto sem negociação. que dedica muito tempo para fazer teatro.. Por exemplo. Será que a escola deveria ser socializadora? Sim. catastrófico. Por exemplo. faço o trabalho. são ineficazes. eu venho.. Nos anos 80. É portanto necessário encontrar modos de organização que farão com que o trabalho seja coordenado. quem roubar será expulso. o professor diz. O debate não é entre permissividade e autoridade. Houve nos últimos anos grandes mudanças na formação dos professores. “estúpida”: quem brigar será expulso. quer dizer que não recebe mais quando ele trabalha mais ou melhor. no momento.). Mas. Ela o é. não digo que é preciso punir os professores. o sistema era o seguinte: formavase pedagogicamente os mestres da escola elementar e não se formava os professores de colégio. é obviamente preciso que os professores sejam cooptados num estabelecimento. São mudanças que não parecem importantes mas que são consideráveis.Espaço Aberto Não acho que a escola deva se tornar um clube de vida juvenil. está extremamente rígida e precisaria ser agilizado. volta da moral. ele ganha mais à medida que fica velho. Primeiro. Segundo. Os pro- Revista Brasileira de Educação 229 . é preciso reconhecer isto e pagá-lo..) Eu acho que ela deve ser socializadora de um modo muito mais democrático. um professor tem uma carreira “biológica”. o resto não é problema meu.) sabemos que ele apresenta alguma dificuldade e ele terá a possibilidade de falar a respeito com os adultos. isto é dos estabelecimentos capazes de ter políticas. Diretrizes. mas ele pode dizer porque ele xingou o professor. em termos de performances globais. Mas é verdade que o sistema escolar francês. Os alunos se deram conta de que nem tudo era possível e portanto a taxa de violência baixou sendo que eles podiam também ser ouvidos e ajudados. Os alunos pedem para que haja um pouco de reciprocidade. Isto não requer diretrizes. eu acho que isto é um falso debate. os ministérios as promulgam diariamente. Este tipo de atitude supõe mudanças consideráveis no sistema. mas que o professor que dedica muito tempo organizando uma viagem para a Inglaterra. eles querem aceitar um certo número de coisas já que eles não têm escolha mas é preciso que a regra seja justa e envolva a todos. mas ela o é de fato.

. Há um grande êxito na França. com as crianças é diferente. Você tem uma imagem muito interessante. selecionados por concursos. O que significa que eles não sabem ler o suficiente para entender o problema. Esta formação deveria ser mais ágil.. Ao longo dos anos. posso dar uma aula de matemática. É aliás. São estas razões que me fazem pensar que é preciso “primarizar” o colégio. posso dar uma aula de história (. é preciso sublinhar a grande qualidade da escola maternal que muito bem administrou a idéia de uma socialização infantil e de um pré-aprendizado escolar. É preciso continuar uma pedagogia da repetição enquanto que o colégio retomou o modelo do colégio “burguês” da pedagogia de acumulação. a formação é muito mais centrada sobre os princípios pedagógicos. porque pouco a pouco os mestres da escola elementar aprenderam a falar tanto para alunos como para crianças. a gente se dá conta de que a grande causa de fraqueza em matemática é que as crianças não entendem o problema. seria necessário um pouco de psicologia dos adolescentes. a lógica seletiva é muito menos forte na escola primária. E quando se fazem testes sobre as performances em matemática. sobre uma ideologia pedagógica. posso dar uma aula de francês. ou seja estágios. os mestres de escola são claramente melhor formados por uma razão muito simples. É preciso preparar as pessoas para todas as dificuldades. Agora todos seguem uma formação pedagógica nos IUFM. desenvolveu-se uma sensibilidade para a infância. Não se confia crianças de dois anos a guardas.) Porém. a partir daí faz-se o programa do segundo. um pouco mais de sociologia. Deveria haver cursos sobre a violência porque a gente deveria aprender a responder a isto como se aprende a ensinar as matemáticas: é um absurdo. acho que é preciso uma formação prática. Não se tem certeza se os IUFM funcionam sempre bem. sobretudo são lacunas que se acumulam. Você pode nos dizer se há questões cruciais no quadro da formação? Ao lado da didática. 230 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . A profissão de docente é uma prática. Enquanto é possível se comportar de forma relativamente brutal em relação aos adolescentes. ele é adquirido. orientados por pessoas que tenham experiência. eu acho. peloos exames de fim de ano. pela performance. A presença dos pais é muito mais forte também. ela requer um aprendizado de práticas. Quanto ao resto.apesar de tudo. Diz-se que o aprendizado dos alunos de colégio tem a ver com seu apêgo aos professores.) Mas o ensino na França é muito normativo porque existe uma convicção muito forte entre os professores: há uma solução pedagógica para todos os problemas. Eu sei ler e escrever. mas o princípio de uma formação dos professores é um bom princípio. muito mais longa e muito menos ideológica. se fizer um pequeno esforço... Na verdade.). Durante muito tempo os mestres franceses só falaram com alunos.. a partie daí faz-se o do terceiro (... ele é adquirido. é que ensinar a ler para crianças é uma profissão particular. Da mesma forma. Em primeiro lugar. que os professores sejam guiados. E último lugar. confia-se elas a gente qualificada. para a psicologia. já que de qualquer forma todo o mundo tem acesso a ele. de mestres de estágio. A terceira coisa que joga a favor da escola primária tem a ver com o romantismo da infância.. tão qualificada quanto qualquer outro professor. da escola primária que parece ter evoluido no bom sentido. Ensina-se um programa do primeiro ginásio. mas sou intelectualmente ca- paz de fazê-lo.Espaço Aberto fessores do secundário eram apenas definidos pelo nível de conhecimento. que apoiem (.) Não digo que seria uma boa aula. de experiências. de ajuda nos momentos de dificuldades (. as pessoas são menos obcecada pelo nível. por pessoas que ajudem. Se aprende coisas e ainda se permanece na infância. Sendo que se me largarem amanhã em uma classe do último ano do colégio. relativamente harmoniosa. portanto aproveita-se o tempo. sou incapaz de ensinar crianças a ler. a única escola em que se requer os mesmosdiplomas para ensinar para crianças de dois anos e para crianças de quinze anos.

A segunda razão é que esta observação é confirmada pelos alunos cujas notas variam sensivelmente em função dos professores. o efeito professor é considerável. os alunos de colégio não estão em condições de distinguir o interesse pela disciplina do interesse por aquele que ensina a disciplina. A ideologia do professor também não tem nenhum efeito. tipos de recrutamento e de formação. nas atitudes particulares. Quando os alunos dizem “depende do professor”. Ou seja são os que partem do nível em que os alunos estão e não aqueles que não param de medir a diferença entre o aluno ideal e o aluno de sua sala. É preciso uma forte maturidade intelectual para distinguir o interesse pela disciplina do interesse por quem a ensina. Obviamente. fez um estudo sobre o efeito professor. os antigos não mais que os novos. Ele testa alunos no começo do ano. A primeira é que. entram também orientações culturais gerais. este tipo de medida confirma sua impressão. os testa no fim do ano e mede o aumento de suas performances. Os mais eficientes são também os professores que vêem os alunos como eles são e não como eles deveriam ser. e há professores que não ensinam nada a nenhum aluno. Há velhos professores totalmente ineficientes e pessoas que começam eficientes logo na primeira semana. O método pedagógico escolhido não faz a diferença.Espaço Aberto Acho que é verdade por três razões. Mas evidentemente. Revista Brasileira de Educação 231 . O único elemento que parece desempenhar um papel é o efeito pigmaleão. Um dos colegas de Bordeaux. Isto significa que há professores que ensinam muitas coisas a muitos alunos. Os homens não são mais eficientes que as mulheres. Não são apenas problemas psicológicos. A terceira razão é mais científica. psicologicamente. O problema é que não se sabe o que determina o efeito professor. aqueles que têm confiança nos alunos. isto é os professores mais eficientes são em geral aqueles que acreditam que os alunos podem progredir. há professores que ensinam muitas coisas a alguns alunos. A docimologia confirma este julgamento. interesses sociais. Georges Felouzis. e isto na mesma disciplina.

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No primeiro. É importante explicar o conceito central do trabalho: galère. realiza pequenos trabalhos para sobreviver. o autor interpreta os principais desafios da sociedade industrial. com baixo nível de escolarização. (reedição francesa por Éditions du Seuil em 1993) Através da análise da experiência cotidiana de jovens de periferias de grandes cidades francesas. em francês ao significado de galera como infortúnio. o que deu origem também. passa seu dia em longos períodos de ócio nas ruas ou cafés. um tipo antigo de embarcação movida a vela e a remo (normalmente por escravos.Resenhas DUBET. preferindo descrever o seu protagonista (ou “personagem sociológico”). O cotidiano desse jovem é expressão de uma experiência coletiva e os indivíduos que correspondem a esta descrição certamente se reconhecem na experiência da galère. onde realizou estudo sobre movimento operário. onde a droga e a delinqüência não estão ausentes. a palavra deu origem ao verbo galèrer. Paris: Fayard. François. Assim. possivelmente filho de pai operário e/ou imigrante. reproduzimos dois trechos do livro. O autor é professor da Universidade de Bordeaux II e pesquisador do Centre d’analyse et d’intervention sociologique (CADIS). urbano e não tradicional. a fugacidade das relações e a forte presença da subjetividade. o autor procura indicar os contornos do fenômeno social galère. em condições precárias. 503 p. No segundo trecho. trabalho forçado. vive em um conjunto habitacional de periferia. sua crise e suas mutações. colegiais. A partir da análise das condutas de jovens pobres das grandes cidades. viver de forma incerta. políticas sociais urbanas e políticas destinadas aos jovens e sobre diversos tipos de movimentos sociais. sem que se possa determinar um modelo rígido de causalidade. O termo galère tem o mesmo significado que galera em português. sem vínculos sociais estáveis. François Dubet faz a leitura do fim de um mundo popular e do esgotamento de um tipo de sociedade organizada em torno da classe operária e dos movimentos sociais onde ela era protagonista. condenação à pena de remar neste tipo de embarcação). La galère: jeunes en survie. Vários destes temas reaparecem neste livro onde. nos Revista Brasileira de Educação 233 . lutas estudantis. indica como tipo de jovem da galère um rapaz de vinte anos. 1987. a galère é definida como “a expressão. as experiências fragmentadas. freqüentemente desempregado. O autor não a define de imediato. a partir da experiência de vida dos atores jovens no contexto conturbado das periferias urbanas. em conjuntos habitacionais e periferia. sem qualificação. isto é. indicando que ela “resulta de uma série de fatores convergentes. A galère não se desenvolve onde os jovens estão ainda inseridos em redes tradicionais de solidariedade e onde a referência ao movimento operário é ainda forte” (p.58). provavelmente não tendo claro o rumo e sem suficiente visão de horizonte para ter projetos. significando estar à deriva. Para deixar mais claro o conceito. Na gíria francesa. onde freqüentemente se reúnem estes fatores. são analisados o desenvolvimento do individualismo. Tais mutações deram origem a um sistema social com contornos não muito bem definidos. mas onde nem trabalho nem família são o centro da socialização e onde há crescente exclusão e forte crise dos movimentos coletivos. Um jovem tem tanto mais possibilidades de se encontrar na galère se ele vive no meio popular.

na periferia operária de Liège). músicos. 234 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . do fim do movimento operário e da perda da centralidade do trabalho e da família como fatores de socialização. Champigny e Clichy) e uma cidade belga (Seraing. ajudavam a atribuir significado à dominação e à subalternidade de sua condição social. possibilitando estabelecer contraponto e comparações. para a importância do Estado (através das políticas sociais) e os meios de comunicação de massa na socialização dos jovens da galère. enfim. no meio jovem. educadores. vivência do conflito. ainda. do bloqueio e da transformação de certas formas de participação e de mobilidade” (p. enfim é o mundo da classe trabalhadora que a sociologia classicamente interpretou em termos de consciência de classe. foram realizadas reuniões em que estes se encontravam com interlocutores de diversos tipos (pais. para Dubet movimento operário e galère são momentos de um mesmo processo social. ao analisar os resultados de um extenso trabalho de investigação. com fortes ligação à família e ao trabalho. que dialoga com diversas tradições teóricas e apresenta detalhada discussão metodológica. ainda que quisessem (e esse não é o caso). de um princípio de unidade face à diversidade da sociedade. O repertório de socialização e de ação destes inclui mais apatia. do esgotamento de um ator histórico — o movimento operário — e. o vazio da socialização e a crise da escola republicana. O autor compara o contexto de socialização e de instituições a que estão relacionados os jovens nesses diferentes contextos: “apesar de estarem em um universo onde estão presentes os serviços sociais. os serviços sociais. consagrada ao quadro analítico e conceitual. o autor analisa o fim do mundo da classe operária organizada. jamais poderiam seguir a mesma trajetória de trabalho e de participação que seus pais. violência. O estudo aponta. Contudo. Na primeira parte da obra. os estágios e os clubes de jovens aparecem como um segundo conjunto de socialização. policiais. trabalhadores sociais. da ruptura de um modo de integração popular tradicional.Resenhas jovens das classes populares. participação e sistema de ação. políticos. Foram desenvolvidas atividades com grupos em 4 cidades francesas (Orly. nesse contexto. O método. consistiu na formação de diversos grupos formados por jovens. identidade operária e identidade comunitária. A partir do material coletado. os jovens de Seraing falam o tempo todo da família. Em seguida. Mas o jovens de que fala Dubet encontraram um mundo completamente diferente. etc). animadores culturais. são interpretados os resultados da pesquisa realizada com base na metodologia de intervenção sociológica. Ao contrário. Sartrouville. Assim a escola. aplicado a este caso. Em tais reuniões. La galère: jeunes en survie é um trabalho sociológico completo. da decomposição do sistema de ação da sociedade industrial. a família” (p. música. Além de reuniões de discussão entre os jovens. sindicalistas. sobretudo na França. já que Seraing é a imagem de um meio operário organizado e integrado. sendo que a segunda é a expressão. que se havia desenvolvido no período entre as duas guerras mundiais. Para os jovens dos bairros onde a realidade operária sofreu forte transformação. na malha mais frouxa da periferia (nas demais cidades estudadas). entrou em crise profunda e tornou-se incapaz de preencher os objetivos igualitários que ela professa. cada grupo sob a coordenação de dois pesquisadores. concentrados nos bairros dos centros industriais onde a realidade do trabalho fabril e a presença ativa do partido comunista (por isso eram chamadas banlieues rouges). um símbolo do laço político. O fundamento da proposta metodológica é desenvolver uma sociologia que vai da ação ao sistema. distinto do primeiro. O estudo estabelece uma oposição entre as quatro primeiras e a última. e se distancia de elementos de integração. Suas formas de construção de identidade. não têm mais uma imagem positiva nem do trabalho nem da luta operária. os laços sociais (regulação e solidariedade) destruídos. Uma parte significativa dos jovens da galère é formado por descendentes de gerações de operários militantes dos anos 1950-60. a escola foi. desenvolvida pelo grupo coordenado por Alain Touraine no CADIS. os jovens que “galeram” falam sempre das instituições. o objetivo era reforçar a capacidade de expressão dos atores e produzir material que permitisse interpretar os sentidos da ação atribuídos por eles. O grupo formado nesta última cidade funcionou de certa forma como um “grupo de controle” em relação aos demais. droga. Eles vivem de forma acentuada um vazio de socialização. 371).167). onde. a socialização não passa mais essencialmente pelo mundo do trabalho. Por sua vez. Nada parece mais distante do movimento operário e das lutas sociais organizadas do que as experiências dos jovens de periferias urbanas. a fratura do mundo industrializado. expressão social e de reação à dominação e à exclusão tampouco poderiam ser as mesmas.

à educação e à imigração. uma ação de classe perigosa. Elas representam três lógicas ou orientações de ação. Essa parte da juventude representa uma ameaça difusa à juventude trabalhadora e à sociedade em seu conjunto. A galère não é vista como mera conduta anômica ou estigma. ela não é puro espaço de dependência e de ausência de ação social. realizada em 1983. A experiência cotidiana mobiliza redes frágeis (em lugar de turmas). ausência de futuro e de esperança. organizada ou um movimento social latente? Na galère os jovens estão em situação de exclusão e desorganização. se pergunta qual seria a capacidade de ação dos atores da galère. A expressão “classes perigosas”. da estigmatização e do racismo. Diante desse quadro. O que os caracteriza é a recusa do mundo industrial e operário. da falta de integração e de formas de expressão do conflito. da exclusão e da ausência de movimento social. Sua ação decorre da falta de regulação. tal como as interpretações sociológicas da marginalidade. O que não existe é um princípio único e organizado. notadamente a Escola de Chicago nos anos 30. se refere às desordens na família e no meio social. a sociologia dos movimentos sociais. Bandos e turmas desapareceram quando os bairros se tornam heterogêneos e quando uma cultura de massa invadiu o mundo popular. Dubet identifica três pólos em tornos dos quais estão as dimensões de ação da galère: desorganização social. ao desemprego. falta de sentido para esta dominação. a galère hoje. Na galère a ação é desorganizada. que são muito frágeis. A galère é. a sociologia dos movimentos sociais define a sociedade como sistema de integração e de conflito. E revela um sentimento generalizado de dominação. Como abordagem teórica. A experiência da galère não repousa sobre nenhum princípio estável. o apelo à dignidade e à liberdade e o refúgio em ilhas de resistência individuais (atividades expressivas. antes do que uma conduta marginal de jovens pouco ou mal integrados. niilismo. A raiva aparece de forma difusa. sobre a delinqüência juvenil. se refere ao lumpenproletariado na formação da sociedade industrial. Seria possível apoiar-se sobre o quadro teórico da análise dos movimentos sociais para estudar um objeto tão distante dele como a galère (caracterizada pela hetertonomia)? Seria possível observar a transformação da galère em ação autônoma. delinqüência. excluídos e enraivecidos porque a dominação a que estão submetidos não lhes faz sentido. No segundo. da falta de aceso ao consumo. droga. ruptura e fragmentação. No primeiro caso ela é desorganização afetiva e identitária. criada por Louis Chevalier. Nesse contexto é possível existir ação coletiva? Seria possível estudar as condutas marginais dos jovens. Há condutas de excesso e de dependência. em especial a Marcha pela igualdade e contra o racismo. do estar fora da escola. propõe. Nela não há a definição de um adversário social. Há ação fragmentada e dispersa em distintas lógicas. Dubet analisa ainda o movimento de jovens e sua luta contra o racismo na França dos anos 80. como estratégias de ação. A desorganização é interior e exterior ao indivíduo. esboços de conflitos ou reivindicações culturais larvais? esta é a pergunta central do estudo. sobretudo música e dança). Por outro lado. Existe heterogeneidade.Resenhas Dubet analisa a galère como resultante das transformações ligadas ao fim do mundo industrial e portanto da anomia. A exclusão (não marginalidade) se manifesta através do desemprego. mas não há realmente formação de uma subcultura marginal. da anomia e da exclusão e também da ausência de movimentos sociais e consciência de classe. da procura de trabalho. marginalizados e dependentes para serem considerados como sujeitos de um novo movimento social. contudo a experiência da galère procede da crise e decomposição de um sistema de ação. Porém. Tal como as classes perigosas ao longo do século XIX. ócio e música. em lugar da sociologia das condutas marginais dos jovens. sem alvo determinado. exclusão e raiva. manifesta por todos os lados por atores pouco integrados. Ela se manifesta também na frustração gerada por uma forte integração cultural que acompanha a exclusão social e econômica. Depois da Revista Brasileira de Educação 235 . O que motiva sua ação é cultural e é nesse âmbito que manifestam sua vontade de autodeterminação. delinqüência e trabalhos no setor informal. a reflexão teórica sobre os movimentos sociais sempre se apoiou sobre movimentos “positivos” com a elaboração de um projeto social e a busca de autonomia. a experiência atual da galère reúne problemas relacionados ao urbanismo. violência. ela é provocada pelo sentimento de exclusão e de impotência frente à desorganização. nem de um conflito específico. sem direção. uma massa social disforme temida pelos cidadãos e pelas instituições. revelando relações sociais diluídas freqüentemente marcadas pela heteronomia. sobre a qual o poder realizou uma ampla empresa de controle e socialização.

na maior parte dos casos.Resenhas grande mobilização nacional. não fica claro o que o autor espera das diferentes instâncias de socialização em relação aos jovens da galère que buscam inserção e sentido. partindo de seu interior. Paris. os grupos de pesquisa foram constituídos. seus professores e pais. por sociólogos. Seuil. 1994). Paris. os atores devem encontrar nela dimensões positivas. buscando ultrapassar a mera constatação. François Dubet utiliza mais uma vez. após uma trajetória de quase vinte anos (sua primeira publicação — “Lutte etudiante”. as equipes desenvolviam um estudo em profundidade de cada tipo de atores. tais como os animadores culturais que atuam nesses espaços urbanos. incluindo. levando os atores não somente a testemunhar sua experiência. mediante um trabalho de grupo. a escola. descrevendo e objetivando compreender a experiência que cada aluno tinha em sua escola. em sua carreira de pesquisa. em co-autoria — data de 1978). Para que seja possível encontrar saídas da galère. Delimitando seu campo de análise. Em um segundo momento. por meio da qual puderam. Nesse sentido. como a parte principal da pesquisa. Ao final do trabalho. A pesquisa desenvolveu-se em dois momentos. François.Corporación de Investigación Economica para America Latina DUBET. Seuil. fica ainda o mal estar diante da ausência de projetos e de saídas para o problema da exclusão social. segundo os autores. Para o leitor. mas sim os problemas da autonomia e da personalidade. aos quais vieram associar-se professores-pesquisadores em Psicologia e em Ciências da Educação. 347). espaços de resistência e de autonomia. A l’école: sociologie de l’expérience scolaire. pelos autores. grupo criado por Alain Touraine. os autores a revisitam. Danilo. Os nove grupos de estudantes e cinco de adultos (incluindo grupos de 236 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .” (p. estudantes que elaboravam suas teses em Sociologia. aparecem com força os aliados externos. É importante ressaltar que “À l’école” como seu subtítulo indica — “Sociologia da experiência escolar”. Cristina Almeida Cunha Filgueiras CIEPLAN . pontos de apoio de uma ação organizada e de um projeto. O que é certo é que não é o trabalho o que alavanca a mobilização. porque estão constantemente desafiados por um apelo de identidade ao enfrentar o racismo e ao vivenciar a dualidade do sentimento de não pertencimento e da vontade de integração. 362 p. à segunda fase do ensino fundamental (“les collégiens”) ao ensino médio (“les lycéens”). o método da “intervenção sociológica”. momento esse considerado. 1996. Primeiramente. MARTUCCELLI. ou seja. Esses jovens imigrantes conseguem definirse melhor ao confrontar-se ou aliarse a outros atores. Durante quase três anos. observar e entrevistar alunos cuja idade escolar corresponde às séries iniciais do ensino fundamental (“les écoliers”). debruçaram-se sobre os dados coletados. publica. a busca de maior capacidade de expressão cultural. ocorreu a volta à periferia e o fortalecimento de uma vida associativa. visando extrair as dimensões e os mecanismos da experiência social. mas também a produzirem uma análise de seus problemas. François Dubet. para se formar. além de alguns meio-períodos de trabalho. pesquisadores na École des Hautes Études em Ciências Sociais. professor de Sociologia na Universidade de Bordeaux II. Ambos. Na visão do autor são os jovens imigrantes que têm maiores capacidades de transformar as lógicas da galère. procedia-se à coleta dos documentos e à realização de entrevistas semidiretivas junto aos sujeitos da pesquisa. A pesquisa “A fim de melhor analisar os processos educativos. significa um amadurecimento das idéias apresentadas por Dubet em obra anterior — “Sociologia da Experiência” (Paris. em Psicologia e em Ciências da Educação. com Danilo Martuccelli (pesquisador no CNRS) os resultados de uma pesquisa de campo. da experiência que os alunos (crianças. uma vez escolhidos os estabelecimentos. quatorze grupos reuniram-se duas vezes por semana. como também psicólogos escolares e um orientador educacional. Como membro do CADIS (Centro de Análise e de Intervenção Sociológica). além dos profissionais já mencionados. juntamente com sua equipe. uma imagem de cada situação. A integração intelectual das equipes de pesquisa foi assegurada por grupos de reflexão. que se reuniam periodicamente. adolescentes e jovens) vivenciam por intermédio das relações com os adultos.

5. Na quarta parte — “No liceu” —. 2. novas regras. o instrumentalismo Revista Brasileira de Educação 237 . no liceu (que corresponde ao nosso ensino médio) eles atingem uma racionalidade definida pelas utilidades escolares. na qual estes ‘fabricam’ relações. A escola elementar. as escolhas e estratégias. as diferenças de gênero (rapazes e moças). incluindo as expectativas. para fazer emergir a especificidade dos trajetos e das sensibilidades pessoais. A terceira parte — “No Colégio” — é estruturada em quatro capítulos: o primeira aborda a experiência colegial. construída pelo interesse próprio por certas disciplinas. nós gostaríamos de saber que tipos de ator social e de sujeito se formam durante longas horas e numerosos anos passados na escola. 11). os autores apresentam dois capítulos refletindo. 3. além dos grupos de intervenção: anotações de entrevistas individuais junto aos alunos e aos adultos. Escola e Educação. “É necessário apreender a experiência por meio de um grupo. de pais e um de especialistas da infância e da juventude) foram compostos visando diversificar os contextos sociais. entendendo que a escola não se reduz à sala de aula. incluindo membros dos meios populares e das classes médias. além de uma Introdução. Enfim. Os pesquisadores propõem análises sociológicas do trabalho do grupo e pedem aos atores que reajam. Ainda na Introdução. mostrando como a Educação não pode mais ser pensada como uma prática institucional. às séries da segunda etapa do ensino fundamental) — eles entram na afirmação de uma subjetividade que introduz uma certa tensão com a escola. É nesse capítulo que os autores explicitam a definição de “experiência escolar”. de interiorização das expectativas dos adultos. reconhecendo-se nas análises apresentadas ou mesmo recusando-as. 14 e 15). (pp. Os dois seguintes descrevem a experiência colegial em contextos sociais contrastantes — um colégio de periferia. estratégias e significados. 17 e 18). Dubet e Martuccelli afirmam: “A principal originalidade desse método refere-se à construção de um debate entre os pesquisadores e os atores”. A obra O livro está dividido em cinco partes: 1. Educação e Sociologia. No colégio.Resenhas professores. algumas vezes. suas estratégias. (p. (. bem como as tensões e os sentimentos vivenciados no interior da escola. A primeira parte. os alunos da escola elementar são dominados por um princípio de integração. e a experiência social dos professores. no primeiro. um dos conceitos-chave de sua obra: “Experiência escolar será definida como a maneira pela qual os atores. apresentando alguns detalhes dos grupos de intervenção e indicando os componentes e os pesquisadores responsáveis por cada grupo. é composta de um capítulo que aborda as mudanças da escola atual em relação à escola republicana. popular e um “bom colégio” de classes médias. tanto em sua forma como em sua natureza (novos valores.” (pp. O último capítulo aborda a experiência dos professores. um Posfácio e um anexo intitulado Pesquisa.. e de observações realizadas no decorrer da formação dos grupos. através da “intervenção sociológica”. os autores preocupam-se em detectar como os alunos constroem sua experiência. combinam diversas lógicas da ação que estruturam o mundo escolar”. os autores apresentam o problema central do livro: “Perguntando sobre o que a escola fabrica. ela sustenta uns e enfraquece outros. suas emoções a partir daquilo que os unia e produziam suas reflexões que foram objeto de uma discussão posterior com os pesquisadores. Conclusão. Na Introdução. em que os autores apresentam os fenômenos detectados e as respectivas análises sobre o mundo dos alunos. 62). Depois. Cada grupo de intervenção foi composto por uma média de dez pessoas que descreviam. A sintonia entre teoria e método manifesta-se na medida em que. na França. no colégio — (que corresponde. A segunda parte — “Na escola elementar” — é composta por três capítulos. Cabe ressaltar a presença de um outro material de pesquisa. as estratégias escolares.. individuais ou coletivos. Educação e escola. sobre a vida juvenil. que ela é um dos espaços essenciais da vida infantil e juvenil”. por meio dos quais eles se constituem a si mesmos. apesar dela e contra ela”. uns se formam na escola. a “experiência social” passa a ser desvendada. pela relação face a face da entrevista individual. as relações entre os pais e a escola. evitando o fechamento do testemunho sobre si mesmo. ela produz também diferenças subjetivas consideráveis.) A escola não é somente desigual. outros fora. e uma possibilidade de “vocação”. Preocupados com as mudanças pelas quais passam a escola. (1996. contavam. que ela é feita também de mil relações entre professores e alunos. novos objetivos). No liceu. provocado. expunham suas escolhas. no sistema escolar brasileiro. (p. 4. 15). os autores referem-se ao processo de formação dos atores: “Inicialmente.

18). encontramos reflexões sobre alguns dos fenômenos detectados. segundo os autores. Partindo da análise da experiência escolar dos atores e de sua subjetividade. 303). as possíveis respostas às indagações que nortearam a pesquisa. as tensões da experiência. Em seguida. 337). capaz de tornar o funcionamento mais aceitável e mais harmonioso para os alunos e professores”. a Sociologia da Educação — afirmam os autores — diversificou-se e freqüentemente faz de si a “especialista” dos problemas da escola. Giovanetti Universidade Federal de Minas Gerais 238 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .. os desafios que as transformações sociais propõem. 330). eles buscam apresentar os resultados. associando as mutações da escola às de suas análises. que abrem portas a futuras pesquisas com desdobramentos temáticos. a subjetivação. Repassando as análises desenvolvidas em torno das três experiências escolares — na escola elementar. consolidando-se uma cultura adolescente. são ainda o coração da Sociologia da Educação atual. a alienação e a resistência à ordem escolar.) para compreender o que a escola fabrica. A análise da experiência escolar de um grupo de crianças. com o declínio dos contra-modelos revolucionários. a ordenação de um raciocínio. mas. tarefa que os autores se propuseram realizar em seu último capítulo. estratégias.. O último capítulo volta-se para a reflexão de fenômenos próprios desses três períodos. (p. em que “a diversificação da experiência acentua-se e dá lugar a uma diferenciação crescente dos indivíduos”. Dubet e Martuccelli apresentam uma conclusão e um posfácio. um período marcado por uma série de críticas. em seguida. observou-se uma fase de distância extrema. Dubet e Martuccelli fazem um apelo à audácia dos educadores. ou seja. o “momento fundador” da escola republicana. segundo os autores. não basta estudar os programas. Buscando tornar claras quais seriam as grandes linhas que deveriam conduzir a uma mutação do sistema escolar. no colégio. 320 e 321). pelo que foi possível abordar. (p. os papéis e os métodos de trabalho. Enfim. significações por meio das quais eles se constituem em si mesmos”. C. Já no liceu. e cuja teoria da reprodução pode aparecer como uma síntese durante os anos setenta. bem como para psicólogos e sociólogos envolvidos com a escola e preocupados com o tema da adolescência e de juventude. “Este livro gostaria de ser ao mesmo tempo científico e “engajado”. o que reforça a idéia de que “(. portanto. que. (p. Mas não se pode consagrar tantos esforços. como eles “fabricam” relações. uma mutação do sistema escolar. A última parte do livro. O abandono das ilusões da paideia funcionalista e o distanciamento dos encantamentos da postura crítica traduzem-se na proliferação de estudos visando testar a democracia real da escola” (pp.. Finalizando o livro. Se na escola elementar se observou uma continuidade entre a objetividade das regras e a subjetividade dos alunos. adolescentes e jovens trouxe elementos férteis. não se fechando em uma nostalgia paralisante. a sociologia da experiência escolar é concebida também como uma sociologia da escola e. no sentido de buscarem responder. Ele gostaria de dizer sobre a experiência dos atores da escola e descrever os mecanismos os mais sutis. ter encontrado tantos alunos e professores. conformando uma integração. é necessário também detectar a maneira como os alunos constroem sua experiência. apresentam alguns princípios de ação possíveis. 14). Encerrando a obra.. Maria Amélia G. “Um tipo de atenuação operase. dentre outros temas. tem por objeto. com a emergência de um sentimento de crise profunda da escola. constatou-se uma redução das tensões. Na primeira. Dentro dessa perspectiva. oposta ou paralela à cultura escolar (p. a sociologia da experiência destaca mecanismos objetivos que nos informam sobre o sistema escolar. “Educação e Sociologia”. ao se debruçarem sobre a escola na França. esperamos haver comunicado a importância desse livro para profissionais da Educação. no colégio e no liceu — diferentes fenômenos são apontados. seu funcionamento e suas relações com seu meio ambiente. e pretendendo penetrar na “caixa preta” da escola. destacando a importância de “. nos limites deste texto. partindo da análise do “sistema”. afirmam os autores (p. o inverso do ocorrido na escola elementar. 346). (p. (p. não a descrição precisa do campo da Sociologia da Educação. Três grandes períodos são destacados pelos autores: no interior da Sociologia da Educação. os autores apresentam seu posfácio. 328). No posfácio. os autores.Resenhas escolar. No segundo capítulo. mediante uma política educacional. ter conhecido tanto as alegrias e os sofrimentos e evitar todo julgamento”. torna-se necessário indagar sobre o lugar dessa perspectiva no interior da Sociologia da Educação. sim. referente a um pensamento social que se poderia qualificar de “paideia funcionalista”.

oficiais da força policial. além da observação participante. Houve. portoriquenhos. caso ele quisesse entender sociologicamente as comunidades de baixa renda. também. Essas observações encaminharam-no para o desenvolvimento do projeto de pesquisa que o levou a interagir com esses grupos num extenso período de tempo. 1991. políticos. O livro de Jankowski oferece uma visão clara sobre gangues e sua situação no interior de uma sociedade urbana como a dos Estados Unidos. Estas gangues entraram para a mitologia dos forada-lei. o jovem das classes desfavorecidas. suas famílias e comunidades. econômico e moral. XX trouxe uma nova configuração socioeconômica com a chegada de milhões de trabalhadores imigrantes. Ao fazê-lo pode perceber que entre a juventude pesquisada havia uma grande quantidade envolvida em gangues em todos os grupos étnicos. Dessa forma seria possível entender o que havia em comum e o que era particular a cada gangue. por mais de cem anos. dominicanos. desmistificando a imagem que se faz das gangues. líderes de comunidades. Dentre as etnias representadas estavam irlandeses. Martín Jankowsky empregou dez anos e cinco meses neste projeto de pesquisa e inicia o prefácio dizendo que o termo “gang” no Webster’s New American Dictionary tem como um de seus significados o termo “journey”. Naquela época ele quis comparar os resultados com amostras de porto- riquenhos em Nova York e Boston. Sua pesquisa é dinâmica. Através dele pode-se repensar o sujeito da pesquisa. lhe confere Revista Brasileira de Educação 239 . O estudo originou-se de uma pesquisa feita pelo autor sobre a atitude política dos jovens mexicanos na década de 70. O autor conviveu com esses jovens. como se organiza. Islands in the Street: Gangs and American Urban Society. As dificuldades que surgiram com o enorme contingente que chegava ao país.Resenhas SÁNCHEZ-JANKOWSKI. Martín. posteriormente agravadas pela Grande Depressão Econômica. bancos. O tempo gasto com cada gangue variava de acordo com os eventos que cada uma delas vivenciava. Eram considerados forasda-lei e um problema social. desde o século dezenove havia certos grupos no oeste sem lei que atuavam roubando diligências. O número de membros da gangue também variava: as menores tinham cerca de trinta e quatro membros sendo que as maiores contavam com mais de mil. Os registros foram feitos tanto por escrito como por gravações. uma reflexão sobre os padrões de ação de cada grupo. Historicamente o termo gangue sempre teve uma conotação negativa. mexicanos. bem como a análise dos depoimentos pessoais dos envolvidos. E compara o período de tempo que usou para a pesquisa como uma longa jornada pelas comunidades urbanas às quais os grupos estudados pertenciam. jornada. representantes da mídia e pessoas que mantinham algum tipo de negócio com membros de gangues. a colaboração de pessoas que mantinham contato com gangues em níveis variados tais como familiares. Nos Estados Unidos. seria necessário entender porque o fenômeno das gangues persistia nos Estados Unidos. Essa flexibilidade. participando de suas reuniões e envolvendo-se em atividades e até em brigas. Ocorreu-lhe então que. durante e depois de cada evento. mas o séc. sendo que treze estavam situadas em Los Angeles. foi necessário usar tais recursos para maior veracidade na coleta de dados. Berkeley: University of California Press. Obviamente. jamaicanos e centro-americanos. como se relacionam com as comunidades onde vivem. Os métodos usados envolveram. cuja importância ou relevância eram avaliadas no momento imediatamente após serem vividos. Islands in the Street traz uma profunda análise sociológica e interpretativa dos motivos que levam os jovens a entrar nas gangues e porque são por elas aceitos. minas e ‘saloons’. burocráticos do governo. aliada ao embasamento teórico que Jonkowski aplicou ao seu trabalho. apresentando seus elementos como seres humanos e não criaturas dignas de pena ou que causam medo. Apenas ficou acertado que ele não se envolveria com drogas e procedimentos ilegais. vinte na área de Nova York e quatro eram de Boston. A amostra estudada consistia em 37 gangues. Uma das estratégia importantes era obter a opinião e o ‘feeling’ dos membros que participavam de uma ação antes. Sua pesquisa procura analisar a gangue como uma organização e o fenômeno da gangue em geral. com a força policial e com os meios de comunicação. afro-americanos. partindo da vivência dentro das próprias organizações e um trabalho de campo paciente. quando o crime organizado instalouse e os grupos que o compunham eram chamados gangues. Para isso Jankowski acreditou ser necessário conduzir um estudo comparativo. detalhado e cientificamente embasado. No entanto aqueles agrupamentos de adultos diferiam dos grupos compostos por jovens estudados por Jankowski.

especialmente dos grupos irlandeses e mexicanos. O capítulo 6. que encerra a primeira parte. em parte pelo enfoque dado pela mídia — é assunto do capítulo 5. O capítulo 7 explora quais as maneiras em que a política e as agências governamentais afetam o modo como as gangues operam. os quais ela denomina modelo verticalhierárquico. que. Finalmente examina porque gangues como um fenômeno têm sido capazes de persistir ao longo do tempo na sociedade urbana americana. se há algum. Os cinco capítulos da parta I enfocam a dinâmica interna da gangue no seu ambiente local. Jankowski vai da dinâmica interna das gangues seu meio às suas relações com o mundo fora da comunidade. O capítulo 3 levanta a questão que tem intrigado os pesquisadores e o público em geral: o que acontece numa gangue? Apontando para este tema produz uma descrição da dinâmica interna das gangues. o modelo influencional. oferecendo uma breve definição do fenômeno. 240 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . legítimos membros da comunidade que devem ser defendidos dos abusos dos policiais e do ataque da mídia? Ou elas simplesmente não pensam nada a respeito das gangues? Na parte II. Uma atenção particular é devotada à análise de como as gangues e a mídia se relacionam e avalia os efeitos desta última sobre as formas como as gangues venham a conduzi seus negócios. contrariamente às suas expectativas. No primeiro capítulo inicia apresentando uma teria sobre gangues. porque certas gangues persistem e sobrevivem enquanto outras declinam o morrem. ou tem exagerado sobre o assunto todo. tanto como se organizam. Trata-se de uma análise da sociologia da violência das gangues. modelo horizontalcomissional e por último. um enfoque que busca determinar a natureza e as causas da violência. A introdução do livro relata como se travou todo o contato e seu desenvolvimento. Algumas observações feitas por Jankowski são particularmente importantes. Havia respeito e entendimento mútuo. As tradições étnicas são consideradas na medida que influenciam comportamentos muito particulares de cada uma das etnias. fator benéfico para tal interação. as pessoas entrevistadas que interagiam noutros níveis com as gangues também se mostraram acessíveis. examina a relação entre as gangues e as suas comunidades locais. Também imprimiu a elas um caráter interativo que fez com que os próprios membros das gangues o considerassem um igual e esquecessem estar tratando com um acadêmico. Os capítulos seguintes apresentam dados de como os elementos avançados na teoria se aplicam à vida diária. Cada um deles é estudado de forma a determinar qual é mais eficiente na manutenção do grupo. A análise então se volta para uma das questões que causa maior perplexidade diante da sociedade americana: por que o sistema de justiça criminal não tem tido capacidade de erradicar gangues ou controlá-las? O capítulo 8 prova a interação entre as gangues e o sistema de justiça criminal de forma a entender seu impacto nas operações das gangues. quanto e quais fatores influenciam as organizações a se comportar de determinadas maneiras. sua organização e atividades. o autor tenta esclarecer os dilemas e dificuldades que estas apresentam à sociedade. O capítulo 9 lida com o contínuo debate sobre se a mídia tem ajudado a informar o público sobre a natureza das gangues e o problema social ligado a elas. O conteúdo estudado desenvolve-se ao longo de oito capítulos. A conclusão faz algumas colocações finais sobre as gangues em si e sua natureza dentro da sociedade americana. que a comunidade representa na forma em que a gangue opera. A violência da gangue — tópico que tem ocupado a atenção pública.Resenhas um enfoque abrangente não encontrado em pesquisas anteriores. O capítulo 2 começa a investigação. suas funções. A questão central remete-se ao papel. e como os indivíduos e a organização como um todo compactua com isso. numa linguagem leve que não esquece o rigor científico. teorizando sobre quais fatores afetam o comportamento das gangues enquanto organizações. explicando quais as variáveis consideradas. Ele relata. Ao fazê-lo. As comunidades vêem as gangues como tão perigosas e destrutivas que deveriam ser erradicadas? Elas vêem os participantes como indivíduos incompreendidos. endereçando a questão mais fundamental: quem entra para uma gangue e por que? Há uma atenção particular dirigida ao modo como o indivíduo decide ingressar na gangue e como esta o recruta. Jankowski acabou sendo aceito como o pesquisador que estava com eles e isso era um fato normal. também. Pode-se ressaltar os diferentes tipos de organização dentro da gangue. O capítulo 4 identifica como a organização se mantém e examina tanto o tipo de atividade econômica em que os membros da gangue se envolvem quanto os fatores a influenciar o sucesso ou o fracasso dessa atividade.

Mais ainda. Isso é alcançado através da análise de documentação jurídica. Revista Brasileira de Educação 241 . “A época contemporânea” (segundo volume. Relações. resultou em um capítulo da coleção. estudando práticas sociais que envolviam os personagens nesta faixa etária que delimitamos como juvenil. 1996. acompanhar o esforço dos historiadores para delimitar a condição do grupo de jovens cobertos pelo corpo documental. foi a de descartar as “imagens fortes” que em nossa sociedade conotam o termo “juventude”. a condição verificada não pode ser estendida a todo o grupo e para longos períodos. no mesmo espaço. São Paulo: Companhia das Letras. que podem ser marcadas por solidariedade e/ou conflito. Tradução de Cláudio Marcondes. jornais e filmes chamam para as gangues traz vantagens e desvantagens. Giovanni. Paulo Neves. representações ou imagens que as sociedades ou os próprios jovens construíram sobre si. também. Afinal. SCHMITT. ou. Para o leitor. Os estudos têm ainda em comum a preocupação de buscar modos de pensar. na maioria dos casos. JeanClaude (Orgs. É impossível não notar que o social se sobrepõe ao biológico. Cada estudo. Declaração dos Direitos do Homem. ou. essas. Lendo os estudos podemos nos deparar com circunstâncias de vida dos jovens muito familiares e outras absolutamente diversas daquelas que conhecemos. Em outras palavras. refletir sobre tais circunstâncias pode revelar-se um um exercício agradável e útil de desmonte de certos preconceitos. já que. 2 v. Os estudos descrevem as complexas relações sociais concretas que o grupo neste estágio do processo pode manter com a comunidade ou sociedade mais ampla. com o passar do tempo. em diferentes épocas.Resenhas Finalmente. a juventude pode ser entendida como um conjunto de problemas que se colocam para um indivíduo entre uma primeira fase de separação e a fase final de agregação do processo de socialização. essa organização da obra não deve nos levar a vê-la como mera coletânea de textos autônomos sobre um mesmo tema. Podemos. A preocupação. não da juventude. Universidade de São Paulo LEVI. por fim. Essa colocação. “História dos Jovens” não é uma obra de caráter macro-histórico. entre outras. evitaria síntese uniformizadora e até redutiva do problema. 382 páginas). Rosely Aparecida Romanelli Mestranda . O título escolhido para a coleção já sugere o desafio lançado a cada participante da coleção: escrever uma história dos jovens. Por isso. Cada colaborador desenvolveu uma periodização interna e específica para a compreensão do jovem na sociedade e tempo referente ao seu tema de estudo. ainda. a condição dos jovens que pertencem a sexo ou classe social diversas podem variar profundamente dentro de uma mesma sociedade e período determinados. 8 capítulos. os organizadores incentivaram a apresentação de modelos interpretativos múltiplos. examina a questão da mídia e sua relação com as gangues. 1793 “História dos jovens” é uma coleção composta a partir da colaboração de diversos historiadores europeus do campo da história social. O primeiro objetivo de cada estudo foi o de desvendar a construção social e simbólica que diferentes sociedades. Para os organizadores da obra. História dos Jovens. Nilson Moulin. o que segundo eles. Maria Lúcia Machado. neste caso. 9 capítulos. Uma geração não pode sujeitar às próprias leis as gerações futuras Artigo 28. faz do estudo de Martín Sánchez-Jankowski uma obra indispensável àqueles que se dedicam à pesquisa nesta área. Pode. A atenção que a TV. apesar dos subtítulos: “Da antigüidade à Era moderna” (primeiro volume. No entanto. 372 páginas) e. a condição do jovem que está no campo não é a mesma daquele que está na cidade.). É possível encontrar ao longo da leitura dos dois volumes certa unidade de procedimentos de trabalho privilegiados pelos pesquisadores e uma tentativa mais ou menos constante responder à questões que serão apresentadas a seguir. onde aqueles que não são brancos e pertencem a população de baixa-renda carregam automaticamente o estigma da imoralidade e da corrupção de costumes. quase todos os capítulos se iniciaram por uma definição do termo específica para o período estudado.Faculdade de Educação. tecerem dando corpo a idéia de juventude. sugerir outras categorias ou enfoques para a pensarmos a temática da juventude nos nossos dias. Os estudos mostram que as idades que delimitam o fim e o início da juventude variam com espaço e às vezes. Mas é particularmente prejudicial a visão estereotipada trazida especialmente por programas sensacionalistas e filmes preconceituosos.

a preocupação das sociedades era claramente o de preparar e garantir adesão dos jovens aos valores e padrões políticos e sociais vigentes. potencialmente livres das dominação dos padrões da história da sua época. foi sendo configurada e construídas desde a época arcaica até o período clássico. No prefácio. movimentos políticos autoritários. têm insistentemente sugerido a idéia de “crise”. também. 13). Sujeitos que. com a nossa sociedade como um todo.Resenhas Lendo a coleção de uma maneira não autorizada. percebi que pode ser datada a questão tão atual da continuidade/descontinuidade entre as gerações. a natureza. uma geração com padrões de pensamento e comportamento revolucionários. Quando comparada às inúmeras e diferentes “crises” que são relatadas ao longo dos dois volumes da “História dos Jovens”. Foi também neste contexto que os jovens passaram a estruturar um vocabulário. Nem sempre as “crises” têm o caráter apocalíptico que pretendem os seus divulgadores. elas quase sempre podem ser entendidas como desordens vinculadas e compreendidas pelos adultos. mostra o relato. apesar das constantes medidas repressivas. É muito recente na história ocidental a instituição de uma “subcultura” própria de uma geração. mesmo entre aqueles que viam a rebeldia como um traço inerente à juventude. nos Estados Unidos que. em que as idades são sempre identificadas com mais precisão. com “elementos de desagregação associados a períodos de mudanças. Essa paidéia. até o exército e o sistema jurídico” (p. A atual constância de notícias trágicas envolvendo jovens imprensa brasileira e mundial. Ou seja. Os jovens das camadas privilegiadas na Idade Moderna européia ora tinham seus destinos conduzidos pela manutenção das linhagens e patrimônio da família. temos a impressão de que podemos olhar nossos problemas com mais tranqüilidade. É também bastante ritualizada a vida do jovem das camadas privilegiadas durante a Idade Média. a constituição do companheirismo (solidariedade com os indivíduos da mesma faixa etária) e as relações rituais entre adultos e jovens (pederastia-philia). instituições e práticas rituais que formavam o futuro cidadão. Foi só a partir dos anos 50. Essa regularidade tende a se inverter ao acompanharmos a descrição das relações estabelecidas pelos jovens e adultos ao longo do segundo volume. através do belo e penoso caminho até tornar-se um cavaleiro. Ao longo dos capítulos referentes a Grécia clássica até Reforma protestante. Guia de leitura Volume 1 Alain Schanapp defende em seu capítulo “A imagem dos jovens na cidade grega” que a continuidade (ou reprodução) da sociedade grega esteve fundada na paidéia. tão freqüentes a partir de 1550 nas comunas e cidades. para compreensão do enígma da juventude em nossa sociedade. o serviço militar. um sistema de tradições. expresso particularmente na Convenção de 1792 na França. bastante arraigada ao projeto de liberdade e igualdade até os nossos dias. o jovem vinculava-se a defesa e manutenção das instituições. como agentes da história. A juventude inspirava medo e desconfiança. como daqueles que por decisão paterna foram conduzidos aos conventos. numa época corrompida. Quando são descritas as “vagabundagens juvenis noturnas”. organização praticada originalmente em Creta foi mantida ao longo da história das cidades-estado. foi. a verdade. Os jovens começam a ser representados a partir das rebeliões liberais juvenis do século XIX como sujeitos naturais. O capítulo “O mundo romano” assinado por Augusto 242 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . os elementos de conflito e as resistências inseridos nos processos de integração e reprodução social”(p. como mostrarão os três últimos estudos que compõe o segundo volume. como fizeram os historiadores nestes estudos. 12. Esse é o caso tanto daqueles que tiveram seus casamentos arranjados. pretendeu criar através da escola. O projeto jacobino. Como sugerem os organizadores da coleção. os organizadores afirmaram que os Estados modernos “progressivamente sugeriram formas orgânicas de socialização e controle: desde a escola. da caça. como mostrou o capítulo assinado por Luisa Passerini. conhecemos grupos de jovens apartados do mundo dos adultos. A afirmação que serviu de epígrafe para essa resenha não seria concebível um século antes na Europa. práticas rituais que asseguraram modelos de bem viver e do estilo necessário para viver civilmente. vol. estava associada a fraqueza de espírito e a desordem. gosto estético e musical específicos. apresentados no primeiro volume. Mas. talvez tenhamos que nos deparar. Essa crença. a idéia força do fascismo e do nazismo. poderiam fazer reascender o desejo. 1). No mundo clássico a vida do jovem era marcada por um conjunto de práticas rituais e formativos asseguravam assimilação dos modelos necessários para a perpetuação da vida civil. O autor mostra que a idéia de agrupamento por classe etária. O autor relata o funcionamento e o significado da prática da ginástica.

e poucas vezes. portanto. poetas e sobretudo. O capítulo seguinte. o estudo das atas das reuniões dos conselhos de governo deixa transparecer o medo e a ameaça que este grupo representava para a elite governante. na França e na Itália. também denunciam o perígo da juventude. A cor verde. “Uma flor do mal: os jovens na Itália medieval (séculos XIII-XV)” assinado por Elisabeth Crouset-Pavan apresenta o conflituoso processo de integração/ marginalização do jovem do sexo masculino das elites nas cidadesestado italianas. que se estendia até os 45/ 50 anos. A autora discutiu ainda. na defesa e participação política nas cidades. geralmente associada à licenciosidade. leis e práticas defendidas pelos rabinos. relatados neste estudo. antes dos 40 anos “o jovem” estava sujeito à fragilidade do corpo e da alma. deveriam ser controlados e governados. desordem. parece ter sido tratado como um conflito geracional. Desde então. Deve-se ressaltar que esse jovem. não só chefe da família. Christiane Machello-Nizia apresentará a construção de valores e representações que marcaram profundamente o jovem palaciano da Idade Média européia: aventura. Depois de apresentar documentos que indicam a concepção que a época moderna construiu sobre os jovens. os jovens nas raras vezes que foram representados. Através da literatura européia do século XI ao XVI. As “vagabundagens noturnas” parecem ser fruto da resistência de uma nova moral que tentava se impor. São inúmeros e graves os conflitos e tentativas de administrá-los. ocupam as margens ou o segundo plano da representação. como tendeu a ampliar o tempo de duração obrigatória. Elliott Horowitiz nos apresentará “Os diversos mundos da juventude judaica na Europa: 13001800”. Norbert Schindler em “Os tutores da desordem: rituais da cultura juvenil nos primórdios da era moderna” analisa decretos comunais contra os tumultos noturnos praticados por jovens do sexo masculino. Nele se confirma a posição marginal do jovem no conjunto das representações do mundo medieval. Apesar dos inúmeros rituais instituídos com o objetivo de induzir os jovens a partir dos 18 anos. O autor.Resenhas Fraschetti nos mostra a difícil trajetória de jovem da nobreza romana até o ingresso definitivo na vida autônoma. A partir da segunda metade do século XVI. elegância de maneiras e de coração. lealdade contratual. e. onde eram encerrados jovens sem nenhuma escolha pessoal ou vocação. Nas miniaturas (imagens inserida nos livros) produzidas na Europa do século XIV e XV. a esperança e sorte. generosidade. como chefe do negócio da família. através da descrição de rituais e instituições tipicamente romana procura nos apresentar o conteúdo simbólico que a juventude tinha para os romanos. estava vinculado a defesa das instituções e a sobrevivência do próprio grupo social dominante. que ao longo dos séculos estudados tendeu a estender sua compulsoriedade para além dos filhos das famílias mais abastardas. doença. As cifras não são muito diferentes para as mulheres. que no plano simbólico era a busca exemplar da morte. esse fenômeno atinge mais de um terço dos homens em idade adulta.Defendiam que. Essa aprendizagem deveria durar até os 28/ 30 anos quando. O autor vai tentando acompanhar nos debates das autoridades comunais o “consenso tácito” que se estabelecia entre os jovens e adultos nestes rituais de confronto. mas como “aprendizes”. será a último estudo a tratar desse período. em “Jovens nobres na Era do absolutismo: autoritarismo paterno e liberdade” discutiu o resultado das políticas familiares que instaurou um mundo repleto de conventos. mostra a autora. “Cavalaria e Cortesia” descreve ainda o processo de adouber (ordenação do cavaleiro) e as íntimas ligações do bacharel (aspirante de cavaleiro) com o seu senhor. A partir dos 15/16 anos os jovens abandonavam em meio a uma cerimonial doméstico os emblemas da infância e adotavam a “toga viril”. também. Renata Ago. Os grandes pregadores do período. Seu estudo se desenvolveu através do estudo de textos de filósofos. Trata ainda das jovens de famílias pobres que se empregavam como domésticas e dos processos de casamento. terminaria a adolescência e se iniciaria a juventude. que tornam-se muitíssimo freqüentes a partir de 1550. inconstância. Podemos acompanhar o processo de implantação da educação para os jovens das comunidades judaicas. período da Reforma. Na Inglaterra. “Os emblemas da juventude: os atributos e representações dos jovens na imagem medieval” escrito por Michel Pastoureau. chamado a participar da vida política e social da cidade. podiam acompanhar os negócios públicos e jurídicos. A autora defenderá que a busca do jovem por um destino heróico. possível esteticamente bela. aparece era também a cor mais utilizada na representação da juventude. vivia quase sempre uma total dependência em relação ao pai. segundo os legisladores romanos. no final do século XVII e início do XVIII. mais da metade dos homens em idade adulta não se casa. Revista Brasileira de Educação 243 .

Essa ambigüidade parecer ser a própria hipótese do autor. por isso. e. o que cobre os anos 60 para cá. A autora relata uma série de formas de resistência à convocação: casamentos foram antecipados. reconstruindo ritualmente a memória da aldeia e da nação. ao longo do século XIX. refeições em comuns. capítulo assinado por Michelle Perrot. por uma concepção mais duradoura no imaginário coletivo de virilidade e masculinidade.. quando elas eram bastante comum em todas as aldeias e cidades européias. como indica o título. A carteira de registro de trabalho obrigatória para todos os menores. bailes. tradição que remonta ao Antigo Regime. depois de idas e vindas. farças juvenis que varavam a madrugada. Isso representou um “envelhecimento” das fileiras dos soldados que podiam começar a servir. poderá ser explicada por uma simples oposição autoritário/ liberal. e até. A autora mostra as transformações que a própria delimitação da faixa etária sofreu no período. por “Ser jovem na aldeia” como “construir-se jovem na aldeia. que descreve por um lado o processo de instalação da prestação de serviço militar obrigatório na Europa a partir do século XVIII. era comum o ingresso no exército a partir dos 15. namoros. o apache e a grisette. por fim. Em três dias de festa ocorriam missas. “A experiência militar”. A partir de 1798 na França. Sintetiza a autora: entre 1618 a 1763 a França combateu durante 73 anos. a Áustria. pela superação dos regionalismos e integração na nacionalidade. Daniel Fabre descreverá a festa-ritual tradicional que ocorria em uma aldeia camponesa na Montanha Negra languedociana. Lembrar esse contexto basta para justificar a importância do tema. Mas a sua questão é a de operar dentro de uma análise regressiva. Para concretizar essas representações. o documento exigido dos pais para o ingresso da criança no mundo do trabalho e o casamento. Para esses jovens a experiência militar representou uma aprendizagem que podia passar pela alfabetização. até o início do século XIX. os 18 anos como marco da maioridade. rito que acontecia entre os 28/25 anos para os homens. Volume 2 “Imagens da juventude na era moderna” assinado por Giovani Romano é um capítulo curto que trata dos pintores e pinturas que retratam os jovens no período indicado no título. A autora discute ainda a complexa relação família-fábrica e jovem. procurar o sentido constitutivo da própria juventude contido neste tipo de festa-ritual. a mulher participava normalmente da vida dos acampamento militares. 92 anos. autobiografias de operários. para uma situação de família patriarcal transmissora de 244 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . doenças foram simuladas e até mutilações foram preferidas à prestação compulsória do serviço militar. temia-se a vagabundagem. e. não só a dispensa militar e o flagelo da pobreza e do trabalho precoce sobre a saúde dos filhos dos operários. já que no século anterior. instituiu. a libertinagem e seu espírito contestador e. a autora lembra que. idas ao cemitério ligando a vida dos vivos e dos mortos. E se a maioria dos soldados eram do sexo masculino. “A juventude operária: da oficina à fábrica”.Resenhas a concepção pedagógica renascentista que atribuiu aos pais a responsabilidade última pela felicidade e escolhas dos filhos. Além de nos proporcionar um relato muito agradável e divertido. a autora trata das três imagens emblemáticas produzidas sobre os jovens operários na França do século XIX: o aprendiz. mais. como ele o fez. é longo e denso. E. A instituição do ensino obrigatório e gratuito na França. a Espanha 82. “A guerra tem traços juvenis” é a frase de abertura do capítulo escrito por Sabrina Loriga. O atestado de primeira comunhão foi. a Inglaterra apenas 45. Muitos dos jovens convocados precisavam deixar um vínculo de trabalho familiar ou mesmo em uma oficina. o marco para o ingresso na vida adulta. que nem sempre como ela tentará mostrar. sobre uma certa pedagogia que se escondia sob a forma desses rituais. A autora trabalhou principalmente sobre dois tipos de fontes primárias: os relatórios das juntas médicas que atestam. Mostra um conjunto de tramas que vão libertando o jovem da opressiva condição de filho-operário de uma oficina-família. Em relação ao jovem operário. 16 anos. as Províncias Unidas 62 anos. Ou seja. do outro lado o capítulo tenta dar conta de apresentar. em 1882. defendia-se a necessidade de salvar a juventude. Seguiram-se a essas guerras profissionais outro século de guerras revolucionárias. Seus dados decorrem da observação ou da memória dos antigos moradores da região. O tradutor avisa-nos numa nota de rodapé que o título do original francês tanto pode ser traduzido. por muito tempo. a convocação prendia o jovem dos 20 aos 26 anos para o serviço de defesa da nação. o autor coloca-nos questões muito interessantes sobre os conflitos e solidariedades que se estabeleciam tradicionalmente entre as gerações. levou a substituição do atestado religioso pelo diploma escolar. 26/24 anos para as mulheres operárias.

na França. pedagogos e. imbuídos dos ética e do heroísmo dos tempos revolucionários. criando imagens fortes. Trata ainda do drama daqueles que. ele só pode ser considerado totalmente implantado. Essa exaltação do jovem concreto se transforma numa exaltação do Dulce considerado. Extremamente erudito é mais ainda. O principal mérito do artigo é o de traçar uma cronologia que delimitará qualitativamente a função social e política da instituição escolar na França. uma geração com padrões de pensamento e comportamento revolucionários. que passava em média onze horas em posição sentada em uma postura que teoricamente era silenciosa. através do mesmo recurso. O projeto jacobino. O autor descreveu através dos testemunhos da época. expresso particularmente na Convenção de 1792. O autor terminou o artigo se reportando aos ecos destas concepções entre os populistas russos e na trajetória intelectual de Lenin. No século XIX. partilhavam do velho espírito não revolucionário. a ideologia fascista vai enveredando para uma apologia daqueles que têm idéias jovens. e pela consolidação de uma visão subjetivista e voluntarista de fazer política que a historiografia socialista e acadêmica francesa. defende o autor. menino fardado que enfrentou um soldado austríaco. pelas memórias que políticos e romancistas registraram em suas obras. A situação das jovens também aparece neste estudo. tão aspirada pelos jovens. símbolo dos símbolos. Mas o autor mostra que se em 1848 a juventude francesa demostrava uma profunda indiferença à participação política. Pouco a pouco. que concorda com Ariès. Quase sempre o jovem era um interno que lamentava o afastamento da família. Para entender a vida de um estudante nos colégios e liceus no século XIX. Vale a pena acompanhar esse penoso processo de implantação.Resenhas um conhecimento profissional. produzidos sob a observação e vigilância dos severos mestres um documento confiável? Para escrever “Os jovens na escola: alunos de colégios e liceus na França e na Europa (fim so século XVIII ao fim do XIX)” JeanClaude Caron estudou documentos deixados por mestres. saudáveis esportistas. De fato. por imagens mais respeitáveis e tranqüilas. até. esse projeto demorou para se realizar. é preciso reconstituir. Mostra que essa arte dirigida por ideais políticos foi impondo símbolos que indicavam um estilo de vida fascista. para a legislação trabalhista e enfim. “Jovens rebeldes e revolucionários: 1789-1917” escrito por Sérgio Luzzanatto é um capítulo arrebatador. “a juventude deixou de existir. mas tão cheia de conseqüências sociais e culturais. o mais jovem de todos os jovens. sobreviveram à revolução e acabaram amargurados acusando aqueles que sendo cronologicamente jovens. Descreve ainda os conflitos criados por um projeto que depositava nos jovens toda a esperança mas que permitia a plena participação política somente aqueles que ultrapassassem os quarenta anos. Um exemplo tratado é o balilla. o modo de vida de conceber a vida. para a condição feminina nas fábricas e/ ou oficinas-ateliês mantidas por damas de caridade e religiosas. Como estudar a experiência dos jovens nos colégios e liceus se raramente esses nos deixaram fontes escritas? Ou podemos considerar seus trabalhos escolares. a debilidade no preparo dos professores e dos conteúdos ministrados. Analisa ainda as ilustrações dos inúmeros periódicos que veiculavam idéias fascistas. e a sua derrota como lembrará o estudo deixará um entulho mental que Revista Brasileira de Educação 245 . modelo de família rural imposto a todo conjunto da sociedade. na segunda metade do século XX. as péssimas condições dos prédios. rotina violenta que impunham. Para o autor. nas longas e constantes descrições de conflitos entre alunos e seus professores e administradores escolares. divulgou ao analisar a Revolução Francesa. lendo esse estudo. Há um destaque especial para a questão da aprendizagem profissional. provocativo. e. A autora analisa a força simbólica de imagens como “Mamma Itália” e de seus filhos jovens. pretendeu criar através da escola. mostra o autor. a generalização da individuação do assalariado. Laura Malvano em “O mito da juventude transmitido pela imagem: o fascismo italiano” analisou a vasta documentação iconográfica encontradas nas bienais dirigidas pelo Sindicato Fascista das Belas Artes. Ela substituiu o “look” juvenil inconformista composto por caveiras com punhal entre os dentes dos primeiros anos. O autor passará pela criação do “estilo bohemien” que marcará a juventude no período da Comuna. e quase sempre exilados revolucionários. a juventude de outro países europeus continuava sacrificando suas vidas pelos projetos dos velhos. Indica a insistência da ideologia fascista na representação do povo como um jovem viril e na enfática propaganda de famílias numerosas. diretores. mas hipertrofiou o imaginário” Defende ainda que o jacobinismo criou a própria concepção de geração ao confiar o sucesso da Revolução aos jovens e à sólida formação cívica e nacional que lhes seria incutida através da escola leiga e gratuita. A experiência dos jovem pode ser captada sobretudo.

sociólogos e até jornalistas que deram corpo a atual concepção de adolescência. slogans. Corresponder a vontade do Fürer. porque ser jovem. O Estado assumiu esse papel de maneira direta através do controle do Partido sobre as HJ. cantos. o jovem como o restaurador de uma sociedade desordenada e sem rumo.Resenhas pesará sobre as gerações cronologicamente jovens após a derrota do fascismo. não foram devidamente explicitadas nesta apresentação. de acordo com a ideologia nazista era sobretudo um comportamento. Os poucos jovens que resistiram abertamente e que no período preferiram o jazz ou o swing. teve o jovem e seus problemas como tema e esse mesmo grupo como público consumidor. A leitura do capítulo vale pela excelente síntese que a autora faz da condição juvenil em cada um desses dois períodos e contextos abordados. pertencer a juventude na Alemanha nazista poderia implicar em fazer a saudação hitlerista de 50 a 150 vezes num só dia. (não por acaso. generoso. trajes. Seguindo as próprias pistas oferecidas por esse debate. O estudo apresenta as características específicas que revestiam as BDM. De acordo com o depoimento de Erika Mann. característico de todo genuíno “faci”. e as vestimentas inglesas. A autora analisou também a produção cinematográfica do período que representou de alguma forma a propaganda destes ideais. jovens). alimentando-se do problema da reintegração ex-combatentes com o fim da Primeira Guerra. unidades da juventude hitlerista. também foram alvo de perseguição do Estado que se quis jovem. O estudo sobre os jovens norte-americanos no anos 50 foi organizado em três frentes. Dois debates sobre os jovens na Itália fascista e so Estados Unidos da década de 50” assinado por Luisa Passerini. etc. frente a forte opressão que esses sentiam em relação a família e escola. Produção que apresentará. metáfora da mudança social.Faculdade de Educação. algo bastante similar ao que foi defendido pelo fascismo italiano em anos anteriores. parece que a atração que elas exerciam vinha justamente do fato de propiciar uma certa liberdade para o jovem. arrojado. obedecer implicava na autoprodução de gestos. Para possuir ou manter uma alma jovem era preciso corresponder aos desejos do Fürer. Neste ítem a autora tratou ainda das diferença que marcavam os jovens do sexo masculino e feminino nestes agrupamentos. Dirce Spedo Rodrigues Mestranda . Um povo inteiro foi infantilizado pelo Estado. mas do espírito jovem: inquieto. citado por Eric Michaud. acho que as semelhanças. transformará o problema político e social em problema geracional. Universidade de São Paulo 246 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . tentará mostrar as semelhanças ideológicas que poderemos encontrar em dois contexto tão diferentes. Mas tese do artigo “Soldados de uma idéia: os jovens do Terceiro Reich” ultrapassa os limites da apresentação da condição da população que compreendemos como jovem. uma estética que diferencia o jovem do adulto. A autora defenderá que o fascismo. e. O estudo insiste no difícil exercício praticado por cada alemão que. nos anos 50. Por fim. associações similares para as jovens. A partir de 1935 a passagem pela HJ tornou-se requisito necessário para o ingresso nas universidades e em certas profissões liberais. neste contexto. O projeto nazista. A parte das relações com pais e professores esses jovens criaram uma sub-cultura onde tornaram-se referentes de si próprios. a autora descreveu a experiência do jovem americano no período. se existem de fato. o fascismo não mais defendeu o jovem biológico. A partir de 1932 integrar uma HJ implicava para o participante pequenos privilégios. que retirou toda a responsabilidade dos indivíduos sobre as suas vidas e exigiu. belicoso. O leitor não encontrará um trabalho comparativo propriamente dito. colocou em segundo plano a família e a escola como meios de formação para os jovens. Aproximadamente 40% da juventude alemã esteve alheia a imposição de ingresso nas HJ. A partir dos 10 anos o jovem alemão era convocado a tornar-se um soldado do Reich. “A juventude. Era preciso lutar para acabar com “o que havia de judeu dentro de cada um”. no lugar dela. Após sua consolidação. A high school criou espaços de convivência que cobriram o dia a dia do jovem de uma maneira totalmente apartada do mundo adulto. obediência cega. a autora apresentou uma interessante análise da produção cinematográfica que. A autora apresenta a constituição da idéia e do campo de estudos que tenta revelar o que era o adolescente (teenager) e seus problemas. Isso só foi possível a partir da generalização e prolongamento da vida escolar. aderiu ao Fürer. Ela sintetiza os estudos mais significativos desenvolvidos por psicólogos. São nestes filmes que se institui pela primeira vez na história.

o trabalho não tem como objeto grupos determinados ou mesmo indivíduos na sua especificidade. a emoção coletiva que flui. que manifesta-se numa postura crítica radical à sociedade industrial. numa expressão típica da complexidade crescente do mundo urbano. Em seguida a autora faz uma caracterização da sociedade contemporânea. Guerrreiro constrói um show hipotético. no caso a efervescência cultural dos anos 60. propõe-se a compreender o fenômeno do rock e resgatar o universo cultural dos rockers no Brasil. sentimentos e emoções. Inicialmente é discutida a relação do rock com a problemática da cultura. O trabalho de Guerreiro. Para isso desenvolve três tipos de abordagens: > etnográfica. um ritual moderno que conjuga fragmentos de movimentos arcaicos com a alta tecnologia. O objeto de análise é o evento coletivo enquanto um ritual. tornou-se um fenômeno cultural. Legião Urbana e Titãs) que. focalizando-a na sua dimensão cultural. A vida cotidiana das “tribos” é caracterizada pela estética — o sentir em comum. as relações existentes. > sócio-antropológica. o rock e sua expansão mundial é situado no contexto dos movimentos juvenis da década de 60. como a chegada ou a saída. de alguma forma. a emoção Revista Brasileira de Educação 247 . Mas diferente de grande parte dos estudos existentes nesta área. Para a descrição etnográfica. de alguma forma vinculadas à música. Busca mostrar que o show é manifestação de um neotribalismo contemporâneo. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA. os gestos. originalmente uma dissertação de mestrado apresentada ao programa de Antropologia Social da USP. o grupo é movido pelo desejo de estar junto num presente vivido coletivamente. É toda uma abordagem que ressalta a emergência de culturas juvenis visíveis numa multiplicidade de estilos de vida. acompanhando as transformações do homem e da sociedade. reunindo aqueles que pensam e sentem de maneira coincidente. numa espécie de sexo grupal. utilizando o marco teórico de Michel Maffesoli. a experiência tátil dos corpos se roçando. pela ética — o laço coletivo e pelo costume — o resíduo que fundamenta o estar junto. entre outros critérios. É esta a noção que vai orientar a análise dos rockers. É uma forma de compreender a música como uma dimensão presente na história cultural da humanidade. pela cultura de massas. definidos como “contracultura”. Mais do que um estilo musical. Retratos de uma Tribo Urbana: rock brasileiro. o desejo presente nos olhares e encontros casuais. Para ele. Neste novo caldo de cultura. O campo da arte é o espaço privilegiado de representação do novo ideário. Uma nova concepção de música. buscando ai um retrato momentâneo do comportamento e visão de mundo de uma parcela significativa da juventude. na melodia e nas letras. escolhendo 3 bandas (Paralamas do Sucesso. a efervescência manifesta na comunhão emocional entre público e artista. como as “olas” ou o acender de isqueiros. Não há um projeto definido. “Retratos de uma tribo urbana” é um livro que trata do rock brasileiro. fazendo dos seus participantes membros da “tribo” urbana rocker. O primeiro capítulo é uma etnografia do show de rock. cada um deles com significados e emoções próprias. no seu tempo. o universo de valores na sociedade atual constitui uma nova “episteme”: a da pós-modernidade. > histórica. Tematiza o rock e seus shows. a relação do indivíduo com seu mundo. uma socialidade baseada na empatia. as relações sociais seriam caracterizadas por um “neotribalismo”. os rituais coletivos. sua música e seus shows. sua história. expressando. é reelaborado como o principal veículo da revolta e rebeldia da juventude. com um mercado próprio e uma consciência etária. aos padrões de comportamento e valores vigentes.Resenhas GUERREIRO. discutindo o lugar do rock no campo da música popular brasileira a partir dos anos 60. entre eles a criação. Este movimento é fruto de um conjunto de fatores sócio-culturais. expressão da geração “transviada” dos anos 50. abarcariam o universo de estilos de rock no Brasil. É nesse contexto que o rock’n’roll. a agregação das pessoas em grupos e sua localização pelo espaço. seus valores e comportamentos. Goli. descrevendo o show enquanto espaço de ritualização do rock. Dai a categoria “tribo”: uma forma de agregação social determinado por ambiências. fazendo uma análise interpretativa das canções e buscando compor o perfil sócio-cultural dos rockers no Brasil.1994. Os diferentes momentos do show. Se inscreve numa tendência que tem caracterizado os estudos sobre a juventude nos últimos anos. Nesse sentido. onde um olhar panorâmico capta os movimentos dos corpos. de uma subcultura juvenil. de estilo de execução e de letras das canções selou um vínculo identitário que expandiu para todo o mundo.

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partilhada do cantar e dançar juntos. São aspectos que fazem do show um espetáculo, “a forma como a cultura de massas se apresenta”. Neste sentido, tem uma dimensão de negócio capitalista, de investimento num mercado juvenil que é cada vez mais uma fonte de lucros, numa configuração produzida pelos meios de comunicação de massa. A autora apenas pontua essa dimensão, o que deixa em suspenso a questão polêmica, e necessária, sobre o peso e o significado da indústria cultural na produção de comportamentos e valores da cultura juvenil. Guerreiro torna evidente que este mesmo espetáculo tem uma dimensão de ritual, agregando pessoas, permitindo a experiência de sentir e experimentar em comum, fazendo parte de uma massa humana que se reconhece na mesma música, que acompanha os mesmos gestos no mesmo ritmo, e, principalmente, na idolatria ao ídolo comum, visto como objeto de fascinação e envolto em aura, como um mito moderno. É uma catarse de emoções, com um vitalismo que conjuga efeverscência e paixão, numa intensificação do desejo, reforçada pelo roçar dos corpos. O show também traz à tona o imaginário dos ideais comunitários presentes no rock, numa atualização dos seus valores fundantes. Em síntese, ao apresentar o show como espaço ritual, a autora indica que o rock é mais do que simplesmente a música, é uma maneira de ser, ligado a um estilo de vida, onde “os rituais dão forma às suas ideologias, valores e posturas”. A sua existência, conclui, “nos levam a crer que os novos agrupamentos humanos ainda encontram paralelo com movimentos arcaicos que a mente humana insiste em preservar. E talvez nem a mais sofisticada tecnologia que o homem possa alcançar conseguirá aniquilá-los”.(48)

Ao descrever e analisar os diferentes momentos do show, a autora chama a atenção para a complexidade, no plano real e simbólico, de um evento tão presente no cotidiano da vida dos jovens. Entre outros aspectos, coloca-nos diante da controvérsia a respeito da efetividade ou não da tendência de desencantamento do mundo presente na sociedade moderna e o conseqüente processo de desritualização, numa atomização individual no consumo de símbolos. Na sua especificidade, aponta que os jovens, através ou apesar da indústria cultural, vêm produzindo espaços e tempos coletivos onde recriam e atualizam significados, onde experienciam processos rituais. Resta saber se é significativo o suficiente a ponto de substituir ou complementar outros espaços e tempos coletivos de referência de valores. Porém, o capítulo apresenta alguns problemas, relacionados ao uso da categoria “tribo”. Um deles é a ambigüidade existente na utilização do termo, ora como uma metáfora, ora como uma categoria. Na pg. 11 afirma ser uma categoria nativa; na pg. 21 afirma que a noção irá ser usada de uma forma mais descritiva do que como teoria explicativa da formação da sociedade e na pag. 49, ao definir o rocker, o faz apenas enquanto consumidor da música rock. Nestas situações utiliza o termo como metáfora, dando a entender um agrupamento de iguais, que se reconhecem na adesão ao rock, unidos numa “cerimônia” ritual. Mas ao mesmo tempo, na pag. 41, utiliza a noção como uma categoria, mas sem evidenciar as características que a constituem, na perspectiva de Maffesoli. A questão, como nos lembra Magnani (1992), não é a utilização do termo em si, que pode

ser tanto uma metáfora quanto uma categoria, mas sim a sua precisão, de tal forma a descrever com maior clareza o fenômeno que se quer estudar, não tomando como dado exatamente aquilo que é preciso explicar. E é o que acontece em relação aos rockers. O leitor não sai totalmente convencido se estes constituem-se realmente como uma “tribo”, e, aqui, tanto no sentido metafórico quanto categorial. Guerreiro afirma que o show é o único momento onde se pode falar da existência concreta da tribo rocker, mais tarde define o rocker como consumidor de rock. Se assim é, não há uma vida cotidiana, não há um envolvimento orgânico de uns com os outros, não há a construção de uma ética. E fica mesmo a questão: será que os participantes dos shows se reconhecem, possuem um sentimento de pertença como rockers? Qual o grau de adesão do jovem ao rocker como estilo de vida? Se o rock foi analisado como expressão de um estilo de vida, será que em nenhum outro momento aqueles jovens não se agregam em torno da música? As festas, por exemplo, não poderiam ser um desses momentos? Uma outra questão é saber como os jovens elaboram individualmente essa experiência, como contribui ou não como elemento de identidade, além da auto-definição como rocker. Em outras palavras, será que ser rocker não significa algo mais além do estilo musical e seu imaginário? Pode ser que estas questões estejam além dos objetivos e da opção metodológica da autora, que não se propõe a conhecer especificamente uma tribo rocker nem o peso que tem na vida dos jovens que dela participam. Mas a falta dos sujeitos na pesquisa e os sentidos que estes jovens atribuem àquela experiência

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social ali descrita pode ser responsável por estas lacunas. No capítulo seguinte é desenvolvida uma análise interpretativa das canções, buscando traçar um perfil sócio-cultural dos rockers. Guerreiro tem como pressuposto de que é possível alcançar o imaginário dos rockers através das representações que os produtores das canções de rock elaboram para seus consumidores. Dessa forma analisa 105 discos e 1100 canções de 22 cantores e grupos de rock, utilizando a proposta de análise de conteúdos de Laurence Bardin. A própria autora ressalta, porém, “que é uma, dentre múltiplas leituras que poderiam ser empreendidas a partir de um material tão rico”(104), principalmente porque a canção é uma mensagem ambígua, que contém uma pluralidade de significações. Além do mais, são mensagens de comunicação oral, em que o significado depende muito da performance do cantor e do contexto de ocorrência. Não podemos esquecer também que cada receptor pode atribuir um sentido próprio a uma canção, sendo arriscado qualquer generalização. Assim é problemático poder afirmar que a interpretação possa expressar o perfil de um grupo social tão heterogêneo. Ao mesmo tempo, considerando seus limites, não deixa de ser um novo veio de análise para aqueles que se interessam na relação entre grupo social e música. A autora identifica nas canções uma grande variedade temática, terminando por agrupá-las em quatro grandes temas: identidade, amor e sexo, cotidiano e política. No seu conjunto é possível, de forma genérica, captar possíveis elementos constituintes do imaginário juvenil. O tema do cotidiano expressa o tempo e o ritmo da metrópole, com

todas as suas contradições, correspondendo à perplexidade que a vida urbana tem gerado, onde uma nova forma de ser e relacionar têm interferido na própria produção dos sujeitos sociais. O tema do amor e sexo é o que apresenta o número maior de canções, sendo uma grande inspiração que até então não deu mostras de cansaço. O amor aparece como a força criadora e transformadora do mundo, capaz de fazer coincidir o desejo e o destino. O outro tema é a política, que aparece principalmente a partir de 1985, quando ocorre uma “politização” do rock na esteira da campanha das Diretas-já. As denúncias, a descrença nos poderes instituídos, a impotência diante da realidade são aspectos de um diagnóstico possível do envolvimento da juventude com os problemas nacionais Um último tema é o da identidade. Chama a atenção a sua recorrência, o que demonstra a sua centralidade para a juventude contemporânea. As músicas parecem expressar que não há mais uma identidade, e sim uma diversidade delas, fragmentadas, fruto da heterogeneidade de grupos e valores, da realidade cotidiana descrita anteriormente. Os conflitos existenciais estão presentes diante da incerteza e insegurança da vida, da busca de sentido. As instituições que eram referência de valores, tais como a família e a religião são deslegitimadas como instâncias de orientação. Nessa ebulição, a busca das próprias verdades aparece como uma saída, junto com a afirmação do desejo de liberdade individual. O grupo aparece como um espaço para adquirir parâmetros de comportamento necessários para a construção da auto identidade. Em suma as músicas expressam um conflito fundamental onde, de um

lado, tenta-se a afirmação do ser, do ego, da liberdade individual. Por outro lado, quando o ego volta-se para dentro de si mesmo, mergulha numa absoluta falta de sentido, num vazio existencial que torna amarga a auto definição. A interpretação realizada coincide com análises que procuram dar conta de uma nova subjetividade que vem surgindo, fruto das possibilidades e limites abertas pelo aprofundamento da modernidade, onde, pontua Melucci (1996), a identidade não é mais considerada como uma essência mas sim uma construção cotidiana, caracterizada pela ambigüidade entre o auto reconhecimento e o heteroreconhecimento. Através das músicas, os jovens parecem se colocar como os arautos de um novo tempo. O terceiro e último capítulo é uma leitura da história da música popular brasileira desde os anos 60, onde é recuperada a presença do rock no cenário cultural, e estabelecida as relações entre a MPB e o contexto sócio-político brasileiro. A autora pontua os momentos mais significativos dessa história, começando pela bossa nova, chegando até o momento da expansão do rock na década de 80. Até este período, o estilo era reduzido ao circuito alternativo. A partir de 1982 aconteceu uma conjunção de fatores, entre eles, a emergência de uma nova geração urbana que até então não se reconhecia na produção musical existente. A descoberta deste filão juvenil levou a indústria fonográfica a investir em novos grupos musicais. Foi uma resposta industrializada às exigências reais da época, um dado significativo que relativiza o poder da indústria cultural em criar estilos. Foi neste contexto que o rock explodiu como um estilo musical nacional, conseguindo articular os

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códigos da “urbes” e representar um estilo de vida paradigmático da juventude urbana. A partir dai tornou-se “uma forma de expressão cultural que corresponde à sua própria maneira de ser e de estar no mundo”, transformando-se no estilo dominante ao longo da década. É importante observar como a história recuperada por Guerreiro nos remete à algumas características da história cultural brasileira que merecem ser ressaltadas. Uma delas é a relação da música com o contexto sócio-político. As canções de protesto são um exemplo, mas é o festival da canção de 1968 que é paradigmático na evidência da relação íntima entre a política e a expressão cultural, quando a juventude do período consegue expressar toda a sua revolta e indignação nas arquibancadas do Maracanãzinho e nas letras das músicas, numa forma lúdica de driblar a censura existente no período. Outro aspecto que chama a atenção é a dimensão de ruptura e continuidade existente na história da música. A relação entre a rebeldia e o rock é um exemplo, estando presente desde os anos 50, mas sempre com uma nova feição, “uma nova/velha bandeira”: é a delinqüência juvenil e o rock’n’roll; é a contracultura e o hippismo e o rock dos anos 60; é o punk com seu som pesado, “sujo” e agressivo nos anos 70. E o rock no Brasil, a partir de meados dos anos 80, depois de uma fase “adolescente”, que recupera a rebeldia através da crítica sócio-política, se tornando o grito de guerra nas passeatas do período. A música “Inútil”, do grupo “Ultraje a Rigor” por exemplo, se tornou o emblema do movimento dos “caras pintadas”. Um último aspecto a ressaltar é a perspectiva de processo detectada na cultura nacional, na direção de um amadurecimento e

uma abertura às trocas culturais. Somos devedores do movimento tropicalista pela experiência revolucionária de uma fusão de nossa herança cultural com o que havia de mais moderno, numa reelaboração (ou numa antropofagia, como afirmavam os próprios tropicalistas) que ampliou as possibilidades de produção cultural para muito além da tendência nacionalista, presente no debate sobre o que era ou não genuinamente nacional ou mesmo entre o erudito e o popular. Atualmente o rock não detém mais a hegemonia no cenário cultural, havendo até prognósticos do seu desaparecimento. De qualquer forma ele continua vivo na influência aos diversos ritmos musicais que coexistem atualmente, cada qual expressando estilos de vida diversos. É a manifestação da heterogeneidade cultural presente no mundo contemporâneo, que tem na tensão entre o particular e o universal, o local e o global um dos maiores desafios. De qualquer forma, a música continua influenciando/sendo influenciada pelos jovens, que parecem sentir através dela alguma coisa que não conseguem explicar nem exprimir: uma possibilidade de reencontrar o sentido. Podemos dizer assim que os jovens podem ser reconhecidos como a difícil invenção de maneiras de viver em um mundo novo, em que certamente nossa palavra parece não mais os guiar. Diante do estranhamento a que são sujeitos pela sociedade, que tende a imputar-lhes estereótipos, taxá-los de alienados ou outras alcunhas, devemos lembrar que esse mundo onde os jovens estão se construindo e sendo construídos é o mundo possível que nossa geração construiu e vem deixando como legado. Se há algum desvio, a responsabilidade é de todos.

Finalizando, podemos dizer que o trabalho de Guerreiro não é linear, onde o texto sugere mais do que desvela, toca em questões que ficam sem respostas, mas ao mesmo tempo apresenta reflexões e insights que instigam. Vem reforçar a importância da dimensão artística, e nela, a centralidade da música e suas expressões, como uma forma privilegiada de conhecer a juventude como ator social. Neste sentido o livro é uma contribuição significativa, principalmente se levarmos em conta a escassa bibliografia existente com esse enfoque. Mesmo não tendo a juventude como objeto da pesquisa, muito menos a educação como uma preocupação presente, é um trabalho que deve interessar aos educadores na medida em que problematiza, que traz elementos para melhor conhecer esse setor social tão polêmico quanto pouco estudado. Bibliografia citada MAGNANI, José Guilherme Cantor. Tribos urbanas: metáfora ou categoria? In: Cadernos de Campo, Ano II, nº 2. São Paulo: USP, 1992. MELUCCI, Alberto. Il Gioco dell’io. Milão: Saggi/Feltrinelli, 1996, 3º ed. Juarez Tarcísio Dayrell Universidade Federal de Minas Gerais

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FRABONNI, Franco; GENOVESI, Giovanni; MAGRI, Primo; VERTECCHI, Benedetto (Orgs.). Giovani oggi tra realtà e utopia. Milano: Franco Angeli, 1994.

Esse livro resultou de uma pesquisa coletiva interuniversitária realizada no decênio compreendido entre 1982 e 1992 por professores das universidades de Bolonha, Ferrara, Modena e Parma tendo por título Espaço jovens: pesquisa sobre centros de agregação juvenis. A investigação toma como objeto de estudo a condição juvenil privilegiando a agregação juvenil enquanto comportamento sócioexistencial e a oralidade juvenil como código de comunicação. A publicação dos resultados da pesquisa envolveu a contribuição de doze autores abordando oito temas distintos distribuídos em dois grandes blocos temáticos: Parte I Fazer-se homens. As grandes etapas do crescimento; Parte II - Flashes sobre as problemáticas juvenis. A primeira parte compreende quatro temas. O primeiro, denominado O léxico dos jovens. Reflexões sobre os dados de uma pesquisa, se subdivide, por sua vez, em quatro tópicos: Linguagem como

jogo, de Giovanni Genovesi; Língua comum, língua padrão, língua literária, de Alessandra Briganti; O léxico dos jovens: uma leitura em chave educativa, de Benedetto Vertecchi; e Dicionário do léxico juvenil, organizado por Maria Fibbi, Giovanni Genovesi e Lorenza Raponi. O segundo tema, de autoria de Franco Frabboni, tem por título Desorientados inquietos descompromissados. Viagem ao Continente-jovens: em direção a um ponto final de nome participaçãoprotagonismo. Aqui o autor, lançando mão da metáfora da linha de ônibus, tece considerações sobre o processo através do qual os jovens chegam a superar suas inseguranças, intimismos e rebeldias por um caminho onde destaca a importância da adminstração pública local e do associativismo. Propugna, então, pela articulaçãso desses dois elementos na formulação de uma política de juventude tendo por eixo dois modelos de agregação juvenil: os centros adolescentes e os centros juvenis, descrevendo as respectivas finalidades, sua estrutura e conteúdos. No terceiro tema, Os jovens e a nova política, Enzo Catarsi analisa as relações entre os jovens e a política no contexto da longa adolescência, destacando a

importância de um sistema formativo integrado no qual a escola desempenha papel central na educação política dos jovens. O quarto tema, Os jovens e sua imagem, foi construído por Primo Magri com base numa exploração razoavelmente detalhada dos dados obtidos através de enquetes realizadas com adoloscentes e jovens. A partir daí emerge a imagem que os jovens fazem de si mesmos destacando-se o perfil psicológico, a socialização (família, amizade e amor), a escola e a cultura, o tempo livre, trabalho e profissão. O uso do termo flash na segunda parte indica que se trata de abordagens sintéticas iluminando aspectos específicos da condição juvenil. Aqui também são destacados quatro temas: Paideia, philia e eros. Reflexões sobre o papel da amizade e do amor na formação dos jovens, de Anita Gramigna; Jovens portadores de deficiência em busca do tempo livre, deMaura Gelati; Grupos juvenis espontâneos e associativismo juvenil organizado, de Liliana Dozza; e As trocas juvenis internacionais, de Massimo Baldacci. Como destacam os organizadores na Apresentação do livro, a pesquisa espaço jovens se propunha a atingir um tríplice alvo investigativo, todos eles em

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perspectiva eminentemente pedagógica. O primeiro alvo, de caráter hermenêutico, se traduziu numa contribuição ao esclarecimento do controvertido tema da identidade e condição juvenis no contexto atual de uma sociedade complexa e em transição. O segundo alvo, de caráter argumentativo, envolveu uma contribuição no sentido tanto de se decifrar como de se formular políticas culturais voltadas à participação ativa dos jovens na organização dos próprios espaços sociais e existenciais. O terceiro alvo, de cunho especificamente investigativo, se refere à contribuição trazida pelos autores, através de cuidadosa pesquisa de campo, à “leitura (quantitativa e qualitativa) da atual produção oral dos jovens em situação de agregação e de tempo livre” (p. 8). Dermeval Saviani Universidade Estadual de Campinas

Giovani: Aspetti e problemi educativi della condizione giovanile oggi. Ricerche Pedagogiche, n. 116-117, luglio-dicembre 1995.

Trata-se de um número duplo, de caráter monográfico, da Revista Ricerche Pedagogiche, versando sobre a problemática juvenil. O volume reúne, em suas 174 páginas, vinte artigos resultantes da contribuição de dezoito autores oriundos de nove diferentes universidades italianas (Bari, Bergamo, Bologna, Chieti, Ferrara, Firenze, Padova, Parma e Pisa). O primeirro artigo, de autoria

do diretor da Revista, Giovanni Genovesi, versa sobre a necessidade de clareza do próprio conceito de jovem. Os demais artigos abordam, todos eles, a questão da juventude em relação com os temas da família (Enzo Catarsi), da política (Franco Cambi), escola e trabalho (Primo Magri), universidade (Luciana Bellatalla: os jovens e a universidade; e Saverio Santamaita: os jovens graduados), a profissão (Angelo Luppi), os jornais (Anita Gramigna), o associacionismo (Franco Frabboni), a educação profissional e os centros de agregação (Maura Gelati), a sexualidade (Giovanni Genovesi), a linguagem (Antonio Santoni Rugiu), a literatura (Mario Valeri), poesia (Marco Riguetti), música (Alessandra Avanzini), os meios de comunicação de massa (Luciano Galliani), cinema e teatro (Daniele Seragnoli), esporte (Piergiovanni Genovesi), violência (Lino Rossi) e tóxico-dependência (Giovanni Genovesi). De um modo geral, os artigos se fazem acompanhar de abundantes referências bibliográficas, o que se constitui num recurso da maior utilidade para os leitores interessados em pesquisar o tema ou aprofundar o conhecimento das questões a ele relacionadas. A simples relação dos títulos, como indicado acima, já permite constatar o leque amplo de situações referidas à questão dos jovens abrangido por essa publicação. Registre-se, ainda, o empenho de cada autor em abordar de forma sintética mas consistente os respectivos temas. Em se tratando de um assunto em si mesmo de natureza educacional — de vez que os jovens são parte integrante, ao mesmo tempo como sujeto e objeto, do processo educativo — e considerando o enfoque

predominantemente pedagógico adotado pelos autores, resulta inegável a relevância desse número duplo da Revista Ricerche Pedagogiche para os pesquisadores da educação e para os educadores de maneira geral. Dermeval Saviani Universidade Estadual de Campinas

GUIMARÃES, Eloisa. Escolas, Galeras e Narcotráfico. Rio de Janeiro: Departamento de Educação, PUC-Rio, 1995 (Tese de Doutorado).

A tese de Eloisa Guimarães tem por objetivo analisar a inserção da escola pública nos diferentes processos sociais que vêm se desenvolvendo recentemente no Brasil e, principalmente, no Rio de Janeiro. Os processo estudados são exteriores à escola. São eles: o narcotráfico, as galeras e os movimentos juvenis. Destacam-se, neste último aspecto, os movimentos de jovens que se constituem a partir de ritmos musicais, predominantemente “funk” e “house”. Apesar de exteriores à escola, estes movimentos, e aqui está uma das grandes contribuições desta pesquisa, exercem sobre a escola uma interferência a tal ponto, que a transforma, seja em sua organização, seja na sua capacidade de cumprir com suas funções mais gerais que lhe são atribuídas socialmente. As análises de Eloisa Guimarães são o resultado de pesquisa etnográfica realizada em duas escolas municipais cariocas, sendo a primeira localizada na área central da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, na proximidade dos

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por conseguinte ampliar o lucro imediato. assistência hospitalar. a partir da década passada tem sofrido significativa expansão em várias cidades do mundo. onde as relações têm por objetivo expandir os negócios do tráfico e. que àquele apresentado por Dubet. a expansão e a sobrevivência do narcotráfico no Rio de Janeiro. o narcotráfico mantém duas formas distintas de ação: por um lado. Apesar de não ser Revista Brasileira de Educação 253 . Existem galeras que mantém relação com o narcotráfico inclusive funcionando como formação de mão-de-obra para este. baseados na força das armas e interferindo nos mais diferentes níveis de vida da população. medicamentos. é vista pelos membros das galeras em seu sentido tradicional. A noção de território é bastante complexa e ultrapassa sua definição geográfica. segundo Guimarães. A violência é. Com a população. As galeras Aqui se apresenta mais um dos méritos da pesquisa realizada por Eloisa Guimarães: a sociabilização do jovem no Rio de Janeiro pelas galeras. entre outros. Apesar de não ter sido explorada pela autora em toda complexidade que apresenta. é que não é essa base de sua constituição. diferenciando-a do narcotráfico. O conceito de galera. Em termos comparativos se aproxima muito mais do conceito de gangues norte-americanas. sendo o ensino diurno o universo da pesquisa. para proteção de seus membros. O poder das armas de fogo é a garantia do cumprimento de acordos firmados com e entre os traficantes. diferente do narcotráfico. deveriam ser supridos pelo Estado. porém tacitamente acordadas entre os grupos e. segundo a autora. a violência é utilizada ainda pelas galeras. A radicalidade nas estruturas da vida da população é o que garante. Algumas ações das galeras inclusive. assim definido. as galeras têm na organização de seu próprio movimento o foco central de suas ações. O autoritarismo e a violência das ações do narcotráfico não se restringem apenas a seus membros. Além da manutenção e expansão dos territórios. Porém. originadas por contínuas “brigas” pelo seu domínio. que as fronteiras nem sempre são visíveis. alimentação. realizada entre 91 e 92. nos anos de 89 e 90. podemos encontrar similares nas torcidas organizadas de futebol3 . além de um estilo próprio de vestimentas e indumentárias. zona oeste. para defesa da honra que.Notas de Leitura morros. A outra escola pesquisada localiza-se em Jacarepaguá. atrapalham o tráfico. Desarte. tidos ou conhecidos como “donos do morro” já que se articulam e atuam nas áreas dominadas pelo tráfico. mas afetam a toda a população que habita nas áreas por eles ocupadas. o principal elemento estruturador das galeras. a recente história dos movimentos juvenis em termos mundiais e a organização do crime existente nesses locais. pois se organizam no território dominado pelo narcotráfico. A autora nos mostra sensíveis diferenças existentes entre os dois movimentos. “Funkeiros” e “Houseanos” Os “funkeiros” são grupos de jovens que se constituem a partir do gênero musical “Funk”. Eloisa Guimarães nos aponta três fatores que se inter-relacionam para a constituição das galeras: a segregação social imposta aos grupos de onde elas se originam. na verdade. Caracterizando os movimentos Narcotráfico Nos diz a autora que o narcotráfico. a briga entre galeras pode atrair a presença da polícia e afastar os consumidores de drogas. construção de quadra de esportes. por outro lado. O que ressalta Guimarães. principalmente de Los Angeles1 . No Rio de Janeiro a presença e o poder desses grupos se fazem sentir não só pela ousadia e violência de suas ações. Outras apenas se dispõem a cumprir certas determinações dos “donos dos morro”. É comum a sociedade estigmatizar os membros das galeras como bandidos e traficantes. podemos da tese extrair seu sentido como sendo um espaço para elaboração simbólica e construção da identidade desses jovens. permanecendo em tensão constante. masculinidade e virilidade. No caso brasileiro e restringindo-se à questão da sociabilidade. Por exemplo. é realmente uma nova contribuição aos estudos da sociabilidade juvenil no Brasil. São muito voláteis. instituem sistemas próprios de poder. são instauradas regras e formas de comportamentos próprias daquele grupo. portanto. onde foi pesquisado o universo do período noturno. tais como a proteção contra outros bandidos. dentro de seus limites. sobre as galeras francesas2 . para impor respeito às regras. ligada à brutalidade. mas também pelo seu alto poder de organização e hierarquia interna. oferecem “serviços” que. Na organização do movimento o território ocupar lugar de destaque. além de estarem associados às estruturas mais amplas do crime organizado. sem sombra de dúvida. demandando ações de seus chefes.

Outras formas de lazer são apontadas: perambular pelas ruas com os amigos. segundo Guimarães: ampliar o espaço controlado pelo tráfico e como forma de exercitar os “princípios e fazer valer os projetos organizativos das galeras” (p. segundo ela. ouvir música. Não constróem uma experiência escolar. neste caso “house”. condições de vida e violência destas populações. esses movimentos estão presentes na escola levando-a a alterar suas formas de organização e. pois.Notas de Leitura uma regra. traficantes. Nos jovens pesquisados pela autora. funkeiros. Os “houseanos” são também grupos de jovens articulados em torno da música. emprestado de Silva e Milito. Durante a semana. suas motivações. a escola encontra-se em semelhante posição que as populações que residem nas áreas comandadas pelo narcotráfico: ora subjugada. uma agenciadora de experiências que estão muito além das desejadas e atribuídas pela sociedade. presentes “na” escola. A escola perde. são indicativos da definição do “modo de ser” desses jovens.132). apresentamse ora como protetor. O baile é o acontecimento mais esperado e desejado pelos jovens. como nos demais. Com relação ao narcotráfico. Ao longo de mais de trinta páginas. 79). aguardando ansiosamente o dia em que poderão frequentá-lo. assistir televisão. A escola apresenta-se como um dos espaços sociais do universo estudado. devemos retornar àquele que é o objeto da pesquisa realizada por Eloisa Guimarães. tal conceito permite compreender os comportamentos e distanciamentos que se apresentam nas ruas do Rio de Janeiro. a autora nos mostra que no topo da hierarquia. A Escola Feita essa caracterização dos movimentos. E. distante das demais. A autora nos mostra. o “baile” apresenta-se como principal meio de diversão. aliadas às formas de se vestir e os sistemas de deslocamentos em grupos aliados” (p. ressalta a autora. o baile principalmente. Segundo a autora. o que é mais grave. jogos de rua. assim definido por Bourdieu5 . que a dança e a música. normalmente. a escola significa a ampliação da área física para suas atividades e dos grupos sociais sob seu controle. nos segmentos das classes médias em relação à população mais empobrecida. a autora relata de modo extremamente envolvente o “cerco” e a invasão da escola pelas galeras. a violência. está o baile. A escola torna-se então. as galeras e o narcotráfico estendem sobre ela suas redes de controle. Para melhor investigar a relação existente entre funkeiros e houseanos. por aqueles que já o freqüentam ou. O cerco sobre a escola tem duas motivações. a partir de onde elas são desencadeadas. Apesar de habitarem as mesmas áreas dos funkeiros. procuram deles distinguirem-se. antes são sociabilizados no que a autora chamou de subcultura escolar. ora protegida. A diferença é em relação à escola as ações do narcotráfico são infinitamente mais discretas. as origens das brigas não são o resultados da ação direta dos traficantes. houseanos. Estes meios de diversão são hierarquizados pelos jovens e. Para a escola. Passa a não mais existir enquanto uma Instituição (no sentido sociológico do termo). segundo conclusão da autora. 6). É nesse ambiente no qual as escolas pesquisadas estão mergulhadas negociando sua existência ou sobrevivência com o tráfico ou isolando-se da comunidade que. a figura dos “donos do morro”. os jovens são sociabilizados a partir de processos e valores exteriores à escola. Nesse sentido. a partir da relação que os jovens mantém com o baile. mas como uma organização tentando sobreviver. padrões de comportamentos e. impedindo-a de concretizar suas funções mais gerais atribuídas pela sociedade.40). lugares. a fim de estabelecer fronteiras no que diz respeito aos movimentos. conversar com os amigos. bandidinhos. Contudo. são jovens das galeras. Para os traficantes. de transmissão da educação letrada e na inculcação no sujeito das categorias e dos esquemas perceptivos que tornam possível o consenso cultural (p. seu papel. Não são jovens “da” escola. a autora nos apresenta o conceito “Cultura da Evitação”4 . os funkeiros são membros das galeras. Eis o que a autora nos apresenta como sendo o grande desafio das escolas de contextos semelhantes aos aqui descritos: “encontrar formas de relacionamento e de convivência com os diferentes universos contidos em seu interior e 254 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . antes passam pela “intermediação de outras esferas sociais das formas de organização dos jovens membros das galeras” (p. por aqueles que ainda não possuem idade. os padrões mais gerais que norteiam a organização da instituição escolar são rompidos. principalmente. no que diz respeito às vestimentas. além de apresentar os encaminhamentos efetuados pela direção da escola. ora mediador de grupos em conflito ou sintetizando as duas funções.

A Economia das trocas simbólicas. aspirações. jovens que se inserem no mercado de trabalho não só por uma questão de pobreza material. Cláudia. 3 TOLEDO. A autora parte do princípio que a função da escola — formar o cidadão através da socialização dos conhecimentos e habilidades básicas que possibilitem a decodificação das informações e valores transmitidos ao educando no seu cotidiano. seja apontando um caráter positivo ou negativo na sua grande maioria tiveram como objeto um trabalhador abstrato.. Esses jovens que se inserem no primeiro momento no mercado de trabalho informal estão sempre oscilando entre o trabalho e a escola.). não levando em consideração o que há de mais específico no trabalhador. 1992. aspirações e como está sendo construída sua identidade desses múltiplos espaços. D. São Paulo: Editores Associados/ANPOCs. criam um novo espaço de convivência. sem abrir mãos de suas funções mais fundamentais” (p. ampliam os horizontes de conhecimento. MILITO. 3) Os jovens procuram a escola como forma de “melhorar a vida” e a mesma propicia situações de afirmação de identidade. o lazer. A escolha do período noturno na maioria das vezes se dá antes mesmo de se ter um trabalho e as causas principais são a repetência e o abandono da escola diurna. O conteúdo das aulas é desprezado. 1995. Vozes do meio. La galère. 13). São Paulo: Perspectiva: 1982b Manoel Rodrigues Portugues Mestrando . partindo de uma compreensão ampla (das diversas formas de construção da identidade) e não mais comparando-os aos movimentos juvenis da década de 60. a família.. 2) O mundo do trabalho não é mais uma referência central para analisar esses jovens-trabalhadores. ou seja. expectativas. Tese (Doutorado) — Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Torcidas organizadas de futebol. Os jovens na escola noturna: uma nova presença. S. pois. possibilidades de fazer novas amizades. Maria Ornélia da Silveira. Reprodução cultural e reprodução social.Faculdade de Educação. São Paulo. o trabalho. 1992. podem consumir os bens culturais que os identificam enquanto jovens. 5 BOURDIEU. talvez porque esses estejam distantes da realidade cotidiana do educando. 6. mantém com o primeiro uma relação de relativa responsabilidade e autonomia.). Os dados mostram que a grande maioria dos estudantes do período noturno pesquisado está na faixa de 14 a 24 anos. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. B. (mimeo) 2 DUBET. conseguem transformá-la em “locus” de sociabilidade. seus desejos. procurou traçar um perfil do aluno-trabalhador (de quinta à oitava série) de uma escola pública de 1º e 2º graus de três turnos de ensino da periferia de Salvador. Partindo sempre de grandes categorias sociais. suas formas de socialização e sociabilidade no e pelo trabalho. Notas 1 JANKOWSKI. por meio da compreensão da relação desse aluno com a escola. Hélio R. etc. Paris: Seuil. A autora argumenta que as analises que colocaram o trabalho como referência central da análise da sociedade. Porém. lazer. Pierre. Sérgio (org. Além do mais há uma grande parcela de jovens desempregados ou subempregados no mercado informal de trabalho o que dificulta uma analise desses jovens a partir do trabalho formal. F. Luiz Henrique de. Os jovens subvertem a ordem da escola. a cultura. Para tanto. 1996 4 SILVA. No decorrer do texto vão sendo confirmadas as seguintes hipóteses: 1) A escola pública hoje não é mais freqüentada — como se pensava até então — por adultostrabalhadores e sim por jovens trabalhadores. etc. suas relações com a escola e com a sociedade mais ampla (família. Les quarties d’exil. habilitá-los para a participação ativa Revista Brasileira de Educação 255 . mas também porque pelo trabalho passam a ser respeitados e a ter autonomia em relação ao adulto. Relatório de Pesquisa. In: MICELLI. tem como norte o trabalho formal para o qual a escola será um trampolim. cap. sua expectativa. LAPEYRONNIE. Universidade de São Paulo MARQUES. A tese de doutorado de Maria Ornélia Marques procura entender as novas formas de socialização e sociabilidade dos jovens das classes trabalhadoras moradoras da periferia das grandes cidades brasileiras e estudantes da escola noturna.Notas de Leitura que se manifestam no meio circundante. Les gangs aux États-Unis Bilan des recherches. saúde. onde criam uma rede significativa de contatos e aprendizado (de grande peso na formação de sua identidade) e ainda essa escola representa a possibilidade de credenciá-lo (via “diploma”) para um trabalho melhor no futuro — uma vez que o mercado de trabalho tem exigido cada vez mais um alto grau de escolarização.

mas também os socializantes. 1994) Para estudar os vários grupos de jovens a autora fez um recorte contendo grupos localizados em espaços circunscritos. foram levantados processos combinados de socialização e dessocialização. então. seu poder de subverter a ordem escolar. À primeira vista. conteúdos programáticos. solidariedade. Para entendê-la. O problema da pesquisa foi. Com este trabalho.Departamento de Sociologia. Universidade de São Paulo NAKANO. a União Popular e a Comissão da Terra. é como se eles pudessem ter uma relação nula com os funcionários. não está marcado unicamente pelo mundo da violência e pela ação do movimento de urbanização da favela. pensar quais as possibilidades dos jovens desenvolverem ações e se constituírem coletivamente como sujeitos. In: Foracchi. Peter e Brigite. nascida no local entre fins da década de 70. canalizando a energia do jovem. É um processo recíproco. a autora procura pensar o processo de socialização de jovens. visto que a “socialização não é um processo unilateral. a autora considera importante começar por entender sua infância.um estudo dos jovens do Jardim Oratório. o local é caracterizado por dois mundo bem delineados: os atores da urbanização da favela. Uma vez não cumprindo a sua função a escola acaba sendo apropriada pelos alunos que fazem com que ela cumpra o papel de espaço relativamente barato de sociabilidade. de criar novas experiências independentes das instituições. Jovens: vida associativa e subjetividade . amizades. visto que afeta não afeta o indivíduo socializado.” (Abramo. Um primeiro dado instigante está exatamente no fato dos jovens não se engajarem com afinco no primeiro e na existência de razões que levam alguns poucos a buscarem o segundo. Marialice e Martins. A escola recebeu novos usuários com as velhas estruturas. Trata-se do Jovem Oratório. integrando vários jovens.Notas de Leitura e crítica na vida social e política não está sendo cumprida. (Dissertação de Mestrado). professores. em um ambiente que pode ser considerado difícil dadas as precárias condições de infra-estrutura e situações permanentes de violência. início da de 80. ou seja. ou seja.” (Berger.11) por parte desses jovens. já que pareceu-nos ser uma hipótese inicial da autora a possibilidade de “ruptura e recuperação do sentido social através de uma práxis inovadora “(p. A autora estudou a primeira geração de jovens do Jardim Oratório. mediados e tutelados por instituições como a Igreja Católica ou a família.. Maria Socorro G. mas sempre entre eles. enfim com tudo que diz respeito a instituição escolar.. Para entender como se dão tais processos. Tais formas associativas vão além dos limites da família e da casa. quer apareçam como confirmação. quer como sua negação e antítese. Nesse sentido. 1977). como os rapazes do futebol ou da escola de samba. processo esse que se dá exatamente no contato com esse mundo adultos. com as regras escolares. composto por três associações de moradores — a Sociedade Amigos de Bairro (SAB). foi necessário enveredar pelas diferentes formas associativas que esses jovens se mostraram capazes de produzir: ao se unirem em grupos. a maior favela de Mauá. 1995. Partindo da idéia de que a juventude é sensível à crise social — exatamente por não estar inserida no mundo adulto — crescer nas condições de vida proporcionadas pelo Jardim Oratório sem dúvida não é algo simples. para a exibição e representação do local em que vivem. questionando assim os fundamentos sociais da compreensão adulta de mundo. todas com protagonistas diferentes e perspectivas distintas e o mundo da violência. Torquato Mestranda . envolvendo jovens e algumas instituições.. no entanto. pois a chamada democratização da educação ocorrida a partir da década de 70 acabou por expandir uma caricatura da escola. eles compartilham valores. “A experiências posteriores [desses jovens] são sobrepostas às impressões básicas. não se adequou à expansão. Por fim o texto termina apontando a necessidade de escola encontrar novas funções. formando outros estratos. aprendizado. região da Grande São Paulo. Diferente formas associativas bem particulares coexistem naquele local. Os educandos criam uma rede de ligações. 256 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . ou vinda para lá ainda criança. O cotidiano do Jardim Oratório. verificando-se entre os próprios jovens e entre instituições interferências recíprocas. 1972). e tendem a receber seu significado do primeiro. José de S. Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. criou formas de atendimento que não deram conta de atender com qualidade os novos usuários. é com os adultos que os jovens aprendem a ser adultos (Foracchi. grupos montados a partir de objetivos específicos como aprender tricô ou tocar violão e grupos voltados para “fora”. Marilena.

um último cuidado especial com relação à religião e à leitura corrente de ver a ação da Igreja Católica como apenas “tentativa de manipulação da população pobre” (p. na medida que o recorte da análise é eminentemente classista. é preciso também que ela se faça representativa. Tal fato. Pedro Augusto Hercks Menin Doutorando . Amizade e solidariedade são elementos centrais realizando diferentes formas associativas pelo ser e não pelo ter. Finalmente. que viam o lobo como mal. 84). 1992). Ao realizar um trabalho a respeito dos processos de socialização com o jovem e não do jovem — como porta-voz das demandas que suspostamente fariam parte do mundo dessas pessoas (Bourdieu. somado a naturalização de ser favelado. A juventude na sociedade moderna. Toda a riqueza de sua pesquisa partiu dessa condição. vestirse bem. A máquina e a revolta. jul/set. Naucresson: CRIV. 1996. eram boas). Os jovens se agrupam para realizar o que desejam. Outra colaboração importante do trabalho de Nakano diz respeito à própria socialização desses jovens e à mediação do mundo adulto. Pierre. como “nãolobo”. na fala deles. In: Les jeunes e les autres: contributions desenvolvimento sciences d l’homme à la question desenvolvimento jeunes. Alba. O mesmo cuidado deve ser tomado com relação às questões culturais.Notas de Leitura A autora chama a atenção sobre a disposição que têm esses grupos para o lazer. para muito além de leituras que “deixam de abordar o que isto significa para aqueles que realizam a atividade. 1972. Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. François. De quoi parle-ton quand on parle du ‘probleme de la jeunesse’?. O distanciamento em relação à escola. São Paulo: Fundação SEDA: 2(3).. pois esse raciocínio tende a remeter para a reflexão apenas em torno de questões externas ao Jardim Oratório. 1986. Assim o jovem acaba oscilando entre um individualismo expressivo — da ordem do ser — e um individualismo de mercado — marcado pela autodefinição e pela negação: a de nãofavelado (mais ou menos como as ovelhas da fábula contada por Nietzsche. a autora reconheceu que é o contato com adultos que se aprende a ser adulto. no entanto. C. Les quarties déxil. que os atores percebam suas experiências individuais através dos jogos coletivos’” (Dubet. São Paulo: Brasiliense. Dissertação (Mestrado em Educação) — Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. dificultando a compreensão de mundos que lá se constróem. 1977. José de S. MARTINS..) [Tais espaços dizem] respeito também a “um campo onde o jovem pode expressar suas aspirações e desejos e projetar um outro modo de vida” (Abramo. 1994. Universidade de São Paulo TEDRUS. Rio de Janeiro: LTC. Jovens: trabalho nas ruas e experiências de sociabilidade. mobilizando maior e mais comprometido grupo de pessoas. São Paulo: Pioneira. e que logo. Paris: Seil. se tomadas simplesmente como “um reflexo do modo de produção”. 1994). 1992. 1988. José G. LAPEYRONNIE. desconsiderando as múltiplas possibilidades que tais atividades podem propiciar. FORACCHI. Se por um lado. com roupas da moda. São Paulo: Scritta. __________. vista como estigmatizadora e descomprometida com os alunos atesta essa máxima. São Paulo. “Essas questões apontam para a necessidade de uma reflexão sobre a vida democrática pois indicam que ‘para que (ela) se desenvolva. Helena W. (. In: Revista São Paulo em perspectiva. Referências bibliográficas ABRAMO. O ouvir o outro. parecer ser o grande diferencial para o enriquecimento de ações sociais mais profundas. faz com que eles se pareçam como qualquer pessoa não-favelada. 1985. A dimensão do “ter”. Isso explica o não interesse dos jovens pelo movimento de urbanização. não é preciso unicamente que seja aberta. possui importância nesse local: o consumo acaba sendo um agente negador da condição de favelado. A não incorporação da subjetividade é explicativa desse processo. MAGNANI. DUBET. buscar entender suas necessidades. ZALUAR.Faculdade de Educação. Marialice M. Jovens: trabalho nas ruas e experiências de sociabilidade é o título de dissertação de mestrado. elas. Sociologia e Sociedade. acaba por limitar a noção de direitos — que o “movimento produziu e não foi capaz de ampliar”. na medida em