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ANDERSON SOUZA DAURA

PRINCÍ PIOS HIERÁRQUICOS

NA POLÍ CIA FEDERAL

Baseado no Trabalho de Conclus ã o de Curso

na

Academia

Nacional

de

Pol í cia

como

exig ê ncia parcial para a obten çã o do tí tulo

de Especialista em Gestã o de Pol íticas de

Seguran ç a Pú blica.

Sã o Paulo

2009

Dedica­se

o

presente

trabalho

às

futuras

gera çõ es

de

policiais

federais.

Estes

ingressar ã o

em

uma

institui çã o

mais

avan ç ada e firmemente consolidada. Serã o a

permanente esperan ç a de um ó rgã o coeso,

eficiente, profissional, mas principalmente,

sedento por justi ç a.

Agradecimentos

 

humildes

ao

Doutor

Geraldo

Jos é

de

Ara ú jo,

Delegado

de

Polí cia

Federal

de

Classe

Especial

e

Secret ário de Seguran ç a Pú blica no Estado

do Par á que nos proporcionou, sem esfor ç os,

aprender a enxergar sob o prisma de um

íntegro Administrador p ú blico­policial. Seu

profissionalismo, retratado por sua lealdade,

coer ê ncia e farta sabedoria, nos inspirou a

labutar

na

pesquisa

do

presente

trabalho

acad ê mico­policial

visando

o

engrandecimento da Pol ícia Federal.

RESUMO

O objeto do presente estudo é demonstrar a import â ncia jurí dico­administrativa do respeito aos

princí pios e regras de ordenaçã o hier árquica na Pol í cia Federal. Demonstrar­se­ á o porqu ê da

fixa çã o desta regra basilar no seio da Administra çã o Pú blica de modo geral e, particularmente,

no Departamento de Polí cia Federal, tra ç ando as conseq üê ncias advindas da exist ê ncia desta

regra b á sica. Desta forma, ap ós breve explica çã o conceitual sobre o que é a hierarquia, far­se­ á

men çã o singela da origem da hierarquia na hist ória da civiliza çã o para, em seq üê ncia, aferir a

import â ncia e magnitude destas fixaçõ es conceituais em organismos ou entes n ã o perenes,

ficando claro que tal princí pio visa, acima de tudo, a proteçã o do órg ã o, do ente ou do Estado,

tendo papel, inclusive, de seguranç a para execu çã o de atos pelos subordinados.També m, sob o

ponto de vista pragmá tico, mas sem olvidar as discuss ões te ó ricas e diretrizes mais ou menos

amplas das conseq üê ncias da aplicabilidade de tal regra b á sica, de forma geral se apontam as

varia ções da intensidade e forma de obedi ê ncia de acordo com a natureza da atividade exercida.

Mais adiante, é realizado um breve hist órico do Departamento de Polí cia Federal, tra ç ando suas

atribui çõ es remotas e atuais, mencionando­se normas constitucionais, legais e regulamentares.

Neste contexto, indica­se onde a hierarquia se faz presente nos diplomas legais citando­se

nuances das atividades de Pol í cia Judici á ria da Uni ã o e outras, legal ou constitucionalmente,

afetas a este órg ã o policial repressivo e, por vezes, fiscalizat ó rio de â mbito nacional. Em

seguida, ingressando­se no cerne do assunto, buscou­se tra ç ar um quadro hier árquico geral para

o Departamento de Pol ícia Federal para, entã o, demonstrar, em casos prá ticos e corriqueiros, a

afronta a tal preceito norteador e suas poss í veis conseq üê ncias. Por fim, em conclus ã o,

demonstra­se

a

necessidade

da

escorreita

atuaçã o

administrativo­policial

na

nomea çã o,

indicaçã o ou escolha de servidores para as atividades policiais federais, sempre se observando a

hierarquia, de forma a manter r ígidos par â metros ordenat ó rios a fim de trazer a mais ampla

coes ã o e disciplina a sua atividade que, por vezes, ultrapassa nossos limites territoriais.

Palavras­chave: Hierarquia. Pol ícia Federal. Administra çã o Pú blica. Servidores. Princ í pios.

ABSTRACT

The objective of this study is to demonstrate the legal and administrative importance of

respecting the principles and rules of administrative hierarchy within the Federal Police

Department. The reason for this fundamental rule within the Public Administration will be

demonstrated in general and, specifically, within the Federal Police Department, describing the

consequences due to the existence of this basic rule. Hence, after a brief conceptual explanation

of what a hierarchy is, the origin of hierarchies in the history of civilization will be mentioned in

order to then assess the importance and magnitude of these concepts in non­continuous bodies

or entities. The purpose of this principal is clearly to protect the agency, or the entity, or the

State, and it's role includes regulating the actions of subordinates. Also, from the pragmatic

point of view, but taking into consideration theoretical discussions and broad guidelines

regarding the consequences of the applicability of this basic rule, in general, there are variations

in the intensity and form of obedience depending on the nature of the activity performed.

Further on, a brief history of the Federal Police Department is presented, outlining its past and

current functions, mentioning constitutional, legal and regulatory norms. In this context, the

locations in which the hierarchy is mentioned in law are indicated, with a description of the

nuances of the activities of the Federal Judicial Police and other activities, both legal and

constitutional, under the command of this repressive police body and, sometimes, supervisory

body at the national level. Next, reaching the heart of the issue, a general hierarchy chart for the

Federal Police Department was outlined in order to then demonstrate, in practical and common

cases, affronts to the guiding principles and their possible consequences. Lastly, in conclusion,

the need for proper administrative police action in the nomination, election or choice of

employees for federal police activities is demonstrated, keeping the hierarchy always in mind,

maintaining rigid rank parameters in order to bring the widest cohesion and discipline to its

activities which, sometimes, extend beyond our borders.

Keywords: Hierarchy. Federal Police. Public Administration. Employees. Principles.

SUM ÁRIO

INTRODUÇÃO

A hierarquia, veremos neste trabalho, acima de qualquer outra preocupa çã o, é, na

realidade, uma necessidade da Administra çã o. Polí ticas e programas de atua çã o estatal ou

governamental podem se ver arruinados pela aus ê ncia de uma cadeia de comando eficiente em

que a ordem emanada da autoridade superior competente alcance a outra ponta: a execu çã o

correta pelos subordinados, nos moldes previamente tra çados e delineados.

Com base em uma vis ã o mais ampla de todo um conjunto de fatos e conjecturas que

na base n ã o s ã o de fá cil percep çã o, a manifestaçã o da vontade do superior hier á rquico deve

atingir sua finalidade como “pr é ­visto” de forma a atender planos e metas antecipadamente

tra ç ados

e,

ainda,

isentar

de

eventuais

responsabilidades

os

cumprimento de ordem n ã o manifestamente ilegal.

subordinados

quando

do

Assim, veremos que o respeito às normas hier á rquicas é uma via de m ã o dupla, pois

assegura o correto e linear cumprimento das emana çõ es superiores, ademais de trazer um

aspecto positivo para o subordinado­executor em sua atividade, assegurando­o de eventuais

responsabilidades que decorram do m érito do ato atacado ou da forma tra çada expressamente

para se cumprir, via de regra. Fixa responsabilidades e limita atuações, de forma a se considerar

um grande instrumento de ordena çã o e coes ã o administrativo.

Sendo assim, torna­se primordial seu respeito em uma institui çã o armada, Pol í cia

Federal, pois al ém de possuir clara previsã o na Lei 4.878/65, a qual disp õ e sobre o regime

jur í dico peculiar dos policiais da Uni ã o, praticamente da noite para o dia assumiu tarefas que o

agigantaram em sua import â ncia no contexto nacional (social, econ ô mico e pol í tico), e que se

v ê verdadeiramente convocado pela sociedade a exercer in úmeras atividades e misteres que

antes eram reservados a outros ó rg ã os ou nã o eram solucionados a contento.

Nesse prisma, vê­se uma tendê ncia para “federalizar” a seguran ç a pú blica, como

recentemente, com a cria çã o de “Guarda Nacional” , subordinada à Secretaria Nacional de

Seguran ç a Pú blica 1 , e sua atuaçã o em Estados da Federa çã o; controle de armas pelo SINARM 2 ;

regulamentaçã o dos crimes de repercuss ã o interestadual ou internacional que exigem repress ã o

uniforme 3 para fins de atua çã o leg ítima da Pol ícia Federal; atuaçã o ininterrupta da Polí cia

Federal na investiga çã o de crimes que tamb é m afetam ó rg ã os, entes e autoridades estaduais e

municipais; aumento de tarefas decorrentes de conjunturas adversas externas decorrentes do

crime organizado, tr áfico internacional, mas, principalmente, do terrorismo; incremento da

atua çã o pedag ó gica e de forma çã o policiais atrav é s de cursos, palestras, instruçõ es e simpó sios

para outros organismos de seguran ç a p ú blica etc.

Tudo isso acarreta um expressivo aumento de investimentos que, diga­se de passagem,

tem efetivamente ocorrido, se bem que, sob a ó tica de nosso trabalho, seria mais relevante

aumentar o quantitativo de pessoal policial bem como administrativo, tais como agentes,

escriv ã es, papiloscopistas, peritos e delegados, todos de carreiras policiais, e aqueles de

carreiras de apoio, tais como servidores administrativos, motoristas, psic ó logos, mé dicos,

administradores, contabilistas etc.

Uma Polí cia Federal do futuro, suficiente para atender aos reclamos da sociedade, do

Governo

Federal

e,

ainda,

colaborar

com

outras

instituiçõ es

de

seguran ç a

nacionais

e

internacionais, presente em todo o territ ório brasileiro, de dimens ões sabidamente continentais,

ademais de cumpridora de suas tarefas de rotina, necessitar á , sem sombra de d ú vidas, de um

grande efetivo, expressivamente maior que o atual.

Assim, o controle e a ordem para a atuaçã o coesa de seus servidores ter á por base

primordial o respeito aos princ í pios hier á rquicos, dos quais, nesta obra, demonstramos a

1 De constitucionalidade duvidosa em face da ausê ncia de sua previs ão no Cap í tulo da Seguran ça P ública (art. 144 da Lei Maior).

2 Sistema Nacional de Armas – SINARM previsto na estrutura da Polí cia Federal, inicialmente pela Lei 9.437/98, mas incrementado pela Lei 10.826/2003 (estatuto do desarmamento) que conferiu exclusividade para o registro de armas de civis, autoriza çã o para aquisiçõ es e transferê ncias e procedimentos para obten çã o de porte de arma de fogo, alé m de outras incumb ências.

3 Vide Lei 10.446/2002.

import â ncia como meio para garantirmos o patamar atual de credibilidade conferido à Pol ícia

Federal, e elev á­lo, num futuro promissor.

1 HIERARQUIA

A atividade pú blica que se denomina administrativa é por deveras complexa e exige a

labuta de vasto nú mero de funcion á rios, distribuí dos pelo territ ório do Estado e, at é mesmo, no

exterior, constituindo os servi ç os pú blicos.

De tal sorte, pressupõ e­se que esta fun çã o tenha uma organizaçã o ou estrutura, que é a

pr ó pria Administra çã o se a depararmos em seu aspecto subjetivo, como sendo o complexo ou a

aglutina çã o

de

órg ã os

que

executam

esta

atividade.

Logo,

deve­se

reconhecer

que

a

Administraçã o Pública é , primordialmente, organiza çã o, e que ela nã o pode realizar­se, de

forma ordenada, sem tal caracter í stica.

Mas como organizar­se? Como buscar coes ã o e ordem para se atingir as finalidades

p ú blicas? Nã o resta d ú vida e demonstraremos: a Administra çã o atua sob a inspira çã o do

princ í pio hier á rquico. Muito mais presente no Poder Executivo que nos demais, dada a pr ó pria

natureza desses ó rg ã os, pois diferem em seus princí pios de organiza çã o.

Na fun çã o legislativa, o pressuposto inspirador e estrutural é aquele da igualdade ou

paridade dos ó rg ã os componentes (vereadores, deputados estaduais, deputados federais e

senadores); noutra, a judici á ria, vige a independê ncia dos órg ã os que a compõ em (juí zes,

desembargadores e ministros). Entretanto, nas atividades burocr á ticas e administrativas desses

mesmos

Poderes

també m

haver á

organizaçã o e ordem.

este

escalonamento

funcional

hier árquico

visando

sua

Logo, a organizaçã o hier á rquica adv ém da necessidade da divis ã o de tarefas visando

tornar, em termos pr áticos, poss í veis e execut á veis os fins a que se destina a Administraçã o 4 . A

divis ã o do trabalho deve representar uma ú nica vontade, como uma ú nica é a entidade, cujos

objetivos pú blicos devem se realizar.

4 Quando usamos o termo Administra ção com a letra inicial maiú scula estamos nos referindo a Administra ção P ública.

Estas atividades e tarefas, as quais sã o, primordialmente, a satisfa çã o de necessidades

pragm áticas

do

cotidiano

coletivo,

requerem

entidades

sujeitas

a

uma

dire çã o

ú nica

e

subordinadas na inten çã o e na conduta, prevalecendo o que denominamos organiza çã o

hier á rquica.

1.1 O que é hierarquia?

Hierarquia ou jerarquia é palavra de origem grega composta: hier ó s (sagrado)

acrescido de arch é (ordem, autoridade), donde se deduz seu significado mais remoto como

sendo “ordem sagrada”.

Atualmente, expressa a “ordem e subordina çã o dos poderes eclesi á sticos, civis e

militares” ou mesmo a “gradua çã o da autoridade, correspondente às v árias categorias de

funcion ários p ú blicos” (FERREIRA, 1999, p. 1045), ou ainda, “a ordena çã o de elementos em

ordem de import â ncia” (sic) ou “a graduaçã o das diferentes categorias de funcion ários ou

membros de uma organiza çã o, institui çã o ou Igreja” (WIKIPÉDIA, 2008).

Por sua vez, em termos jur í dicos, Celso Ant ô nio Bandeira de Mello a define como

sendo:

O ví nculo de autoridade que une ó rg ã os e agentes, atrav é s de escal õ es

sucessivos, numa rela çã o de autoridade, de superior a inferior, de

hierarca a subalterno. Os poderes do hierarca conferem­lhe, de forma

cont í nua e permanente: a) poder de comando; b) poder de fiscaliza çã o;

c) poder de revis ã o; d) poder de punir; (

). (1999, p.97­8).

Jos é Afonso da Silva, na mesma seara desta Ci ê ncia Social Aplicada, mas de forma

mais singela, a define como "o vinculo de subordina çã o escalonada e graduada de inferior a

superior" (2000, p.738).

É, assim, a hierarquia:

Um princ í pio de organizaçã o adequado a certas formas de atividade,

que

requerem,

para

seu

melhor

desempenho,

dire çã o

unificada,

coordena çã o e subordina çã o. Da í o dizer­se que ela indica um sistema

de ordena çã o, de que é uma esp é cie de tecido conectivo, atrav é s do

qual a açã o do subordinado se apresenta como se fora a do pr ó prio

ente, pelos seus órg ã os de dire çã o. (BARROS Jr, 1960, p. 13, grifo

nosso)

Em â mbito legal logramos encontrar a defini çã o de hierarquia no Estatuto dos

Militares, Lei 6.880, de 9 de dezembro de 1980 5 , onde em seu artigo 14, par á grafo 1º, assim

dispõ e:

A hierarquia militar é a ordena çã o da autoridade, em ní veis diferentes,

dentro da estrutura das For ç as Armadas. A ordena çã o se faz por

postos ou gradua çõ es; dentro de um mesmo posto ou graduaçã o se faz

pela antig ü idade no posto ou na gradua çã o. O respeito à hierarquia é

consubstanciado no esp í rito de acatamento à seq üê ncia de autoridade.

A hierarquia, no â mbito do Departamento de Polí cia Federal, encontra previs ã o na Lei

4.878, de 3 de dezembro de 1965, que dispõ e sobre o regime peculiar dos funcioná rios policiais

civis da Uni ã o e do Distrito Federal. Esculpe o seu art. 4º, em sua reda çã o original, que a

funçã o policial, pelas suas características e finalidades, fundamenta­se na hierarquia e na

disciplina. Por é m, em 1967, o Decreto­Lei nº 247 deu nova redaçã o a tal artigo fixando que a

funçã o policial, fundada na hierarquia e na disciplina, é incompat í vel com qualquer outra

atividade, o que pareceu mais uma preocupa çã o com a n ã o acumula çã o de cargos do que uma

mudan ç a de conceitos.

5 Em que pese tal definição estar contida em um instrumento normativo que se aplica única e exclusivamente aos militares, serve como parâ metro seguro à s atividades policiais.

A Lei 4.878/65 nã o definiu o que seria hierarquia, conforme fez o Estatuto dos

Militares. A defini çã o de hierarquia, no â mbito do Departamento de Polí cia Federal, apenas

possui previs ã o em Instru çã o Normativa de número 004/2006 – DG/DPF que nã o trata direta e

exclusivamente do assunto pois:

Regula as atividades de ensino e aprendizagem; os cursos organizados

por outras institui çõ es; os direitos, deveres e proibi çõ es relativos aos

alunos; as obriga çõ es dos residentes; a bolsa de estudos; as atividades

escolares; o desligamento; a classifica çã o; os diplomas, certificados e

certid õ es; o encerramento das atividades de ensino; a hierarquia

policial e a disciplina, entre outras (grifo nosso).

Como se percebe o tema da hierarquia n ã o é atualmente a preocupa çã o central da

Administra çã o do ó rg ã o. Foi tratado em um conjunto de outros assuntos, que, salvo exce ções,

s ó

encontram

eco

nas

atividades

da

Academia

Nacional

de

Pol ícia,

como

instrumento

pedag ó gico a ser utilizado, nas suas imposi çõ es e especialmente dirigido a alunos, do que

efetivamente direcionado a todos os policiais federais. Inclusive, em uma leitura menos atenta,

resta d ú vida se tal Instru çã o Normativa se aplica a todos policiais federais ou somente em

rela çã o à s atividades da Academia Nacional de Pol í cia. Isso em razã o de, em seu artigo 1º,

mencionar que a referida I.N. destina­se a “disciplinar as atividades de ensino da ANP” (sic),

ficando patente ter ocorrido um equí voco na elaboraçã o de tal normativa interna. Mesmo assim,

vale expor o que reza o art. 122 da I.N. 004/2006 – DG/DPF: “a ordena çã o da autoridade em

ní veis diferenciados, dentro da estrutura da Pol ícia Federal, far­se­ á por categorias e classes

funcionais, salvo os casos de cargos comissionados ou fun çõ es gratificadas”.

“Zelar pelo bom nome da Pol í cia Federal e de cada um de seus membros, obedecendo

e fazendo obedecer aos preceitos da hierarquia, da disciplina e da é tica do policial federal”

(grifo nosso). Este é o 10º (d é cimo) valor ou princí pio do policial federal. Como se percebe, a

hierarquia e a disciplina foram tratadas, mais uma vez, de forma secund ária e tí mida pela

Dire çã o­Geral do Departamento de Polí cia Federal. Somente encontrou guarida no último item

dos “princ í pios e valores dos policiais” e vindo “contrabalanceada” com os “preceitos éticos”, o

que nos faz pensar se sua observâ ncia, dessa forma, ficaria em um segundo plano e que poderia

ser questionada em face de valores éticos, subjetivos, pelos servidores policiais federais.

A nosso ver, o que deveria ser uma das primeiras preocupa ções de um órg ã o que

almeja

efetivo

crescimento

ordenado

e

que,

efetivamente,

luta

contra

a

criminalidade

organizada, encontra­se quase imperceptí vel e, praticamente, sem for ç a cogente.

1.1.1 Hierarquia e Disciplina.

É muito comum verificar­se, ao vislumbrar o tema hierarquia, que tal conceito segue

atrelado à disciplina. Inclusive, na maioria das vezes, os assuntos sã o estudados em conjunto ou

tratados como se ocupassem um ú nico campo de id é ias ou um ú nico conceito. Por é m,

analisando­se de forma mais aprofundada, percebe­se nuances que os diferenciam e, apesar de

estarem intimamente relacionados, hierarquia e disciplina merecem, para fins acad ê micos, um

estudo apartado visando ao aprofundamento no tema.

Em primeiro lugar, a hierarquia configura um princ í pio de disciplina que permeia

toda a estrutura administrativa. Contudo, também significa a pr ó pria relaçã o que, nesse sistema,

entrela ç a os órg ã os que compõ e a institui çã o. Neste mesmo sentido j á se expressou Jos é Afonso

da Silva:

Nã o se confundem, como se vê hierarquia e disciplina, mas sã o termos

correlatos,

no

sentido

de

que

a

disciplina

pressup õe

rela çã o

hier árquica. Somente se é obrigado a obedecer, juridicamente falando,

a

quem

tem

o

poder

hierá rquico.

Onde

h á

hierarquia,

com

superposi çã o

de

vontades,

há ,

correlativamente,

uma

rela çã o

de

sujeiçã o objetiva, que se traduz na disciplina, isto é, no rigoroso

acatamento

pelos

elementos

dos

graus

inferiores

da

pirâ mide

hier árquica, as ordens, normativas ou individuais, emanadas dos

órg ã os

superiores.

A

disciplina

é,

assim,

um

corol á rio

de

toda

organizaçã o hier árquica. (2000, p.738).

Desta forma, este trabalho se voltar á apenas a aspectos mais ligados à hierarquia nas

atividades do Departamento de Polí cia Federal, que deve ser entendida em sua razã o e como

influenciadora direta na disciplina interna.

1.2 Origem da hierarquia

A hierarquia, da forma como a conhecemos atualmente e voltada para as finalidades

que já abordamos, como modo de organiza çã o da Administra çã o, possui origem militar. Como

se sabe, o primeiro ex é rcito no ocidente que se organizou hierarquicamente e dominou por

longos anos o mundo ocidental civilizado, o Ex é rcito Romano, foi o primeiro a conter regras

rí gidas de hierarquia e disciplina, resultando em uma “má quina de guerra” insuper á vel naqueles

tempos.

J á no Oriente n ã o foi diferente. O primeiro imperador Chin ês, Ying Jien, do ano 246

ao ano 207 antes de Cristo, unificou a China e passou a denominar­se Chin Shi Huang Di, que

traduzindo livremente para o nosso vern á culo significa “o primeiro Deus de Chin”. Para tanto,

contava com um ex é rcito extremamente hierarquizado e disciplinado, motivo de seu sucesso,

que se deu muito antes daquele de que temos mais notí cias, o Exército Romano, e somando uma

quantidade extremamente maior de soldados disciplinados que foram imortalizados junto ao seu

tú mulo e hoje s ã o conhecidos como os soldados de Terracota.

Assim, percebeu­se uma verdadeira utilidade pr á tica e de sobrevivê ncia nestes

princí pios

que dã o verdadeira coes ã o e efic ácia a qualquer

atividade que necessite de

administra çã o ou gest ã o, o que, ent ã o, foi seguido, por todas as demais for ças armadas em todo

o mundo.

A hierarquia, tamb é m, pode­se dizer, possui origem religiosa, mesmo por que o

Estado n ã o laico sempre foi uma realidade. Religi ã o e Estado, na maior parte da hist ória da

civilizaçã o, foram o retrato da configuraçã o organizacional dos povos e o temor a um ser

supremo ou inating í vel foi (e é em alguns pa í ses ainda) um instrumento de dominaçã o e

subservi ê ncia, mesmo porque haveria de existir um obst á culo, um distanciamento ou uma

superposi çã o entre as divindades e os fi éis cr é dulos. Basta­nos frisar que os reis eram

legitimados em seu poder pela Igreja Cat ó lica e que a cis ã o destes conceitos (hier á rquicos ou de

autoridade religiosa) gerou guerras e a cria çã o de novas religi õ es (novas autoridades) que

tamb ém deram escoro a novas sociedades ou pa í ses, como, por exemplo, os Estados Unidos da

Am érica e a religi ã o protestante.

A hierarquia da igreja cat ó lica, conforme os ensinamentos de Frank Viola em sua obra

Pagan Christianity 6 citado por Nuno Barreto (2008, p. 01), que em ordem decrescente inicia­se

no Bispo, seguindo para os Presbí teros, Diá conos e terminando com os fié is, foi prevista no

sé culo IV pelo Imperador Constantino e refletiu a organiza çã o estatal de Roma. No sé culo

seguinte foi criado um degrau hierá rquico superior a todos os demais bispos que se denominou

Papa, o que somente se tornou definitivo, até os dias atuais, no sé culo VI.

Soriano Neto, em seu artigo sobre Disciplina e Hierarquia (s/d, p. 01), nos ensina:

É consabido, desde sempre, o fato de que todas as civiliza çõ es

preservaram dois tipos de institui çõ es: as religiosas e as militares.

Estas, ao longo da hist ória, subsistiram com base nos princ í pios da

disciplina, da hierarquia, da autoridade e da ordem e na exist ê ncia de

um cerimonial pr ó prio (

).

6 “Cristianismo Pagã o” (tradu çã o livre). Livro polê mico, pois com base em pesquisas buscou demonstrar a origem de diversas prá ticas cató licas nos atos pagã os.

Desta forma, resta­nos concluir que a hierarquia em sua origem mais remota e

simples, decorre da pr ó pria origem estrutural do Estado, sendo sempre organizacional e

disciplinadora, com escalonamentos e voltada para atingir finalidades especí ficas ditadas pela

autoridade. Assim, nã o h á autoridade sem haver hierarquia ou, para melhor entendimento: sem

hierarquia n ã o existe autoridade.

1.3 Funcionalidade geral da hierarquia

A Constituiçã o Federal de 1988 n ã o trouxe a preocupa çã o em estipular, da mesma

forma como fez com as For ç as Armadas 7 ou Pol ícias Militares e Corpos de Bombeiros

Militares 8 , que todos os ó rg ã os pú blicos devem observar princ í pios da disciplina e da hierarquia.

Preocupou­se apenas, o legislador constitucional, em elencar aqueles princí pios da legalidade,

moralidade, impessoalidade, efici ê ncia e publicidade como inerentes à Administra çã o Pú blica 9 .

Contudo, como j á foi salientado, é imprescind í vel a qualquer organiza çã o ou entidade

a observ â ncia da hierarquia e disciplina para seu correto funcionamento. Aquela, a hierarquia,

se faz primordial para fixar fun çõ es, atribuir e organizar, enquanto esta é fundamental para o

desenvolvimento regular das atividades.

Assim, em todas as institui çõ es p ú blicas, independentemente do grau

de complexidade, existe uma ordenaçã o hier á rquica de funçõ es e a

necessidade de observ â ncia fiel das funçõ es por cada servidor para

concretiza çã o dos fins que se destinam. (LOUREIRO, 2008, p.1).

A essê ncia da hierarquia, dizia Tito Prates da Fonseca citado por Barros Jr., “firma­se

no pressuposto de que as qualidades necess árias para uma boa e eficiente manifesta çã o de

7 Vide art. 142 da Lei Maior. Vide artigo nº 42 da Constituição Federal de 1988, com reda ção dada pela Emenda Constitucional nº 18, de 1998.

8

9 Vide art. 37 da Lei Maior.

vontade s ã o mais apuradas no superior (

)”

(1960, p. 23). Contudo, igualmente, assenta­se na

idé ia que aquele (superior) pode impor a este um determinado comportamento.

Logo, mais ainda, esta fixaçã o clara e inconfund í vel dos princí pios hier árquicos e

disciplinares como pilares de sustentaçã o das For ças Armadas se deve ao fato de as atividades a

que est ã o sujeitos os militares exigirem completa e inequí voca obedi ê ncia. Suas atividades e os

meios que empregam colocam­nos em situa çõ es cotidianamente extremas, visando, em termos

finais, à defesa da P á tria, à garantia dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciá rio e, por

iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem 10 .

Assim, em razã o das pr ó prias caracter ísticas do servi ç o prestado, que em ú ltima

aná lise pode até mesmo ser exigido com o sacrif ício da pr ó pria vida, nã o há como se questionar

que estas For ç as devem, para se sustentar e manter uma dire çã o linear, exigir uma especial

disciplina e uma r í gida hierarquia.

Esta preocupa çã o é alvo de incompreens ã o da sociedade civil de forma geral,

inclusive

pessoas

com

alto

ní vel

intelectual,

conforme

ficou

demonstrado

em

palestra

ministrada pelo Coronel do Ex é rcito Jorge Ricardo Áureo Ferreira, ent ã o Chefe da Assessoria

Militar do Comando do Ex é rcito em Brasí lia, em 09 de agosto de 2007, quando se reportou a

uma plat éia de ju í zes federais rec ém empossados:

A hierarquia e a disciplina s ã o os dois pilares das For ç as Armadas, esta

institui çã o

muito

peculiar

dentro

da

organiza çã o

social

brasileira,

porque é norteada por servid õ es e princ í pios intangí veis, que às vezes

n ã o sã o bem compreendidos. (Idem, 2008, p.1).

E asseverou o oficial superior, sem d ú vidas, preocupado com o destino das a çõ es

judiciais decorrentes de atos disciplinares: “Se houver incompreensã o sobre o significado de

hierarquia e disciplina, o Ex é rcito deixar á de ser Ex é rcito e vira milí cia”.

10 As fun ções das Forç as Armadas no Brasil encontram­se previstas na Constituição Federal de 1988, art. 142.

Neste diapas ã o de preocupa çã o, resta evidente que uma instituiçã o fortemente armada

deve conter em seus regulamentos, sé rios e r ígidos par âmetros assecurat órios da ordem interna e

da coes ã o no acatamento e cumprimento de ordens superiores. Por tal motivo, ficam sujeitos os

militares a uma lei penal e processual pr ó pria, aliada a uma Justi ça Especial – a Justiç a Militar

da Uni ã o, que nada mais, nada menos, representa uma For ça dentro da For ça.

Do mesmo modo, na esfera estadual, as Polí cias Militares e Corpos de Bombeiros

Militares se mostram sujeitos aos mesmos rigores daqueles da caserna federal. Ou seja, se

submetem a uma disciplina e a uma hierarquia extremamente rigorosos, em face das situa çõ es

extremas que se colocam 11 e, mais uma vez, se vê em sujeitos a julgamentos por crimes militares

em Justi ç a Especializada 12 que, na realidade, visa à manuten çã o interna da ordem, atrav é s da

hierarquia e da disciplina, como se tal Justiç a atuasse atravé s de um prolongamento quantitativo

da atua çã o administrativa disciplinar.

Dessa forma, n ã o resta d ú vida que a hierarquia tem o condã o de ser um instrumento

eficaz e eficiente para manuten çã o da ordem interna de órg ã os pú blicos de maneira geral e para

aqueles especiais, servindo para promover a unicidade de vontades, fixar responsabilidades e

ordenar atua çõ es. É mecanismo imprescind í vel para se evitar a baderna, o descontrole ou a

anarquia generalizada.

11 Situa ções extremas de atua ção e treinamentos do Batalhã o de Opera çõ es Especiais da Polí cia Militar Fluminense – BOPE/PM/RJ ­ foram retratados no filme nacional, de 2007, Tropa de Elite, sob dire ção de José Padilha, ilustrativo do que se postula aqui, em que pese relativamente estereotipado. 12 Vide art. 122 da Constituiçã o Federal de 1988.

2 DA POLÍ CIA FEDERAL

A Pol í cia Federal vem prevista na Constitui çã o Federal de 1988. Inserida no Tí tulo V

(da Defesa do Estado e das Institui çõ es Democr á ticas) Cap ítulo III (da Seguran ç a Pú blica),

juntamente com as polí cias civis, pol í cias e corpos de bombeiros militares e policias rodovi á ria

e ferrovi á ria federais, há tamb é m uma ressalva em rela çã o à cria çã o das Guardas Municipais.

Mais especificamente no artigo 144 da Lei Maior assim se disp õ e:

A seguran ç a p ú blica, dever do Estado, direito e responsabilidade de

todos,

é

exercida

para

a

preserva çã o

da

ordem

p ú blica

e

da

incolumidade das pessoas e do patrim ô nio, atrav é s dos seguintes

órg ã os, pol ícia federal, polí cia rodovi á ria federal, polí cia ferroviá ria

federal, policias civis dos Estados e do Distrito Federal, pol ícias

militares e corpo de bombeiros militares. (grifo nosso).

2.1 Competê ncia

Logo depois, no par á grafo 1º, do artigo 144 da CF/88, há previsã o sobre a destina çã o

da Pol í cia Federal regrando­se, previamente, tratar­se de ó rg ã o instituí do por lei de forma

permanente 13 , organizado e mantido pela Uni ã o 14 , estruturado em carreira, destinado a: a)

investigar infra çõ es penais em desfavor da ordem pol í tica e social ou em detrimento de bens,

serviç os e interesses da Uni ã o ou de suas entidades aut árquicas e empresas p ú blicas, assim

como outras infra ções cuja atividade tenha repercuss ã o internacional ou interestadual e deva

haver repressã o uniforme, conforme se dispuser em lei 15 ; b) prevenir e reprimir o trá fico ilí cito

13 Significa que não poderá ser dissolvido ou eliminado da estrutura do Estado. Entendemos que faltou a preocupação da previsão de sua regularidade (órgão permanente e regular), nos mesmos moldes previstos para as Forç as Armadas no art. 142 da Lei Maior, o que possibilitaria a continuidade de ingresso, renovação e manutenção de efetivos. 14 Acr éscimo feito pela Emenda Constitucional n.º 19/98. Dispositivo original: “A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente, estruturado em carreira, destina­se a:”.

15 Lei n.º 10.446, de 08 de maio de 2002: Dispõe sobre as infrações penais de repercussão interestadual ou internacional que exigem repressão uniforme, para os fins do disposto no inciso I do parágrafo 1º do artigo 144 da Constituição.

de subst â ncias

entorpecentes;

o

contrabando e o

descaminho,

sem

preju í zo da atuaçã o

fazend ária e de demais ó rg ã os pú blicos nas respectivas á reas de atua çã o; c) atuar nas fun çõ es de

pol í cia marí tima, aeroportuá ria e de fronteiras e, por fim; d) exercer, com exclusividade, as

fun çõ es de pol í cia judici á ria da Uni ã o.

Em rela çã o à pol í cia rodovi ária e à ferrovi á ria federal, fixaram­nas, na forma da lei 16 ,

para o patrulhamento ostensivo das rodovias federais e ferrovias federais, respectivamente,

conforme disciplinam os par á grafos 2º e 3º do artigo 144 do Diploma Maior. Já à s policias civis

dos Estados, dirigidas por delegados de pol í cia de carreira, cabem as fun çõ es de polí cia

judici á ria e a apura çã o de infraçõ es penais, com exce çã o das infra çõ es penais militares. Por fim,

às pol ícias militares, restam o policiamento ostensivo e a preserva çã o da ordem p ú blica. Os

Corpos de Bombeiros Militares, vinculados à s Polí cias Militares, possuem, al ém de outras

atribui çõ es definidas em lei, a atividade de execuçã o de defesa civil. Cabe frisar que estes dois

últimos ó rgã os, Pol í cia e Corpos de Bombeiros Militares, funcionam como for ç as auxiliares e

reservas do Ex é rcito tamb é m em face de previs ã o constitucional.

Como se percebe, o constituinte, seguindo as regras de fixa çã o de compet ê ncias 17 ,

enumerou de forma taxativa aquelas que s ã o atinentes a um dos ó rg ã os federais encarregados da

Seguran ç a Pú blica, objeto do presente, a Pol ícia Federal. Assim, pela simples leitura do Texto

Maior percebemos que estas atribui ções s ã o estrategicamente primordiais à pr ó pria manutençã o:

a) da integridade do Estado (repressã o à s infra ções contra ordem polí tica e social); b) da relaçã o

do Estado brasileiro com outros Estados ou com a comunidade internacional (repress ã o a crimes

de repercuss ã o internacional e a crimes previstos em tratados internacionais 18 cuja execuçã o ou

resultado ocorra sob a égide das leis processuais nacionais); c) da preserva çã o das fronteiras e

16 A Lei 9.654/98 regulamentou tal dispositivo somente em relação à Polícia Rodoviária Federal.

17 Sobre a fixa çã o de competê ncias em maté ria de Seguran ç a P ública: DAURA, Anderson Souza. Inqu é rito Policial: Compet ência e Nulidades. 2ª Ed. Curitiba: Juru á , 2007.

18 Esta compet ê ncia decorre da combina çã o das atividades de Polí cia Judiciá ria da Uniã o com exclusividade (art. 144, inc. IV, da Lei Maior), com aquelas compet ências previstas no art. 109, da CF/88 (competê ncia da Justiça Federal).

do tr á fego de pessoas e objetos nestes locais e; d) outros interesses da Uni ã o aqui n ã o

expressamente mencionados, mas n ã o menos importantes.

Para tanto, a Pol í cia Federal se reveste, por vezes como pol í cia preventiva (atua çã o

como pol í cia marí tima, aeroportuá ria e de fronteiras) atuando na restri çã o e fiscalizaçã o de

atividades e outras, na sua maioria, como pol í cia judici á ria (investigaçã o de crimes) que, via de

regra, v ã o a julgamento perante a Justi ç a Federal de 1º grau 19 .

Sendo assim, percebe­se a import â ncia e a responsabilidade que pesa sobre este órg ã o

policial o que já , aparentemente, ficou claro para nossos governantes os quais t êm impulsionado

suas atividades e atua çã o e que nos for ç a antever um crescimento ou agigantamento do órg ã o

com um conseq ü ente acr éscimo de efetivo, requerendo, desta forma, uma eficiente e eficaz

organizaçã o, preocupa çã o deste trabalho, e que, em nossa ó tica, ocorrer á com uma fixaçã o clara

e inequí voca da hierarquia interna do órg ã o, gerando, por conseq üê ncia, uma disciplina

diferenciada em rela çã o a outros ó rg ã os civis comuns mas necessá ria a uma entidade de

propor çõ es federais com incumbê ncias estrat é gicas e que administra parte do monopólio do uso

da for ç a 20 pelo Estado.

2.2 Breve hist ó rico da pol í cia federal

Saber a origem da Polí cia Federal pode nos auxiliar na compreensã o de fatos atuais

como a forma da divisã o dos seus trabalhos; sua estrutura e doutrina para execu çã o de suas

atribui çõ es e, por fim, at é mesmo, tra ç ar perspectivas futuras. Logo, sempre que se prop õ e a

analisar ou estudar um ó rg ã o ou institui çã o é salutar a busca de sua origem e sua hist ória.

19 Há casos em que as investiga çõ es legitimamente realizadas pela Polí cia Federal seguem para julgamento na Justiç a Estadual como, por exemplo, no tráfico nã o internacional de drogas ou em repressão a contraven çã o penal onde a União é v ítima. Tamb é m, em casos excepcionais, atua em auxí lio investigató rio perante ó rg ã os judiciá rios superiores (prerrogativa de foro de autoridades quando investigadas).

20 Parafraseando insigne autor da linha realista do Direito: O uso da forç a é monop ó lio das autoridades p úblicas. (ROSS, 2000)

A compreens ã o humana possui uma temporalidade intr í nseca. Ou seja,

n ã o existe possibilidade de compreens ã o que se d ê fora da Hist ó ria,

fora da influê ncia temporal. O compreender humano deita suas raí zes

no acontecer do tempo, no conjunto de experi ê ncias a ele transmitidas

historicamente, o que leva a historicidade de toda compreens ã o.

(PEREIRA, 2001, p. 28).

Nã o foi pac í fica a fixa çã o da origem da Polí cia Federal. A versã o oficial divulgada

pelo Departamento de Pol í cia Federal 21 afirma sua origem na polí cia do Distrito Federal da

antiga capital da Repú blica no Rio de Janeiro. Em març o de 1944, passa a denominar­se

Departamento Federal de Seguran ç a Pú blica ­ D.F.S.P. – em face da necessidade inicial da

existê ncia de um órg ã o federal que fosse confiada à missã o de desenvolver os servi ç os de

pol í cia marí tima, aeroportuá ria e de fronteiras, principalmente em raz ã o da 2ª grande guerra.

Mesmo sendo um ó rg ã o federal, o D.F.S.P., atuava apenas na circunscri çã o da capital

nacional

exercendo a seguran ç a p ú blica.

Fixava­se nacionalmente apenas

no tocante à s

atividades de pol í cia mar ítima, aeroportu á ria e de fronteiras por meio da Divis ã o de Intercâ mbio

e Coordena çã o à s atividades policiais estaduais. Houve uma ampliaçã o de suas tarefas para todo

territ ório brasileiro com o advento do Decreto­Lei 9.353/46 para atuar repressivamente em

rela çã o ao trá fico de subst â ncias entorpecentes e nos crimes contra a f é p ú blica, quando de

interesse

da

(Constitui çã o

fazenda

nacional.

Entretanto,

logo

dos

Estados

Unidos

do

Brasil)

em

seguida,

com

a

naquele

mesmo

ano,

nova

Constitui çã o

a

qual

ampliava

demasiadamente a autonomia dos Estados, a exist ê ncia de um órg ã o de seguran ç a com atua çã o

nacional passa a ser considerada como uma interfer ê ncia indevida na autonomia de tais entes

componentes.

O D.F.S.P. passa a ter sede em Brasília/DF somente em 1960, em face da mudanç a da

capital federal para aquela localidade, ficando com o ent ã o Estado da Guanabara a maior parte

de seu efetivo em raz ã o da nã o cessa çã o dos servi ç os de seguran ç a p ú blica que passam à

atribui çã o do governo do Estado. Logo, houve um grande aproveitamento de servidores da

Guarda Especial de Bras ília ­ GEB – criada pelo Estado de Goi ás atrav és da Lei 2.364/58.

J á em 1964, é poca de um estado de exce çã o, o regime militar, a Polí cia Federal, que

ainda se denominava Departamento Federal de Seguran ça Pú blica ­ D.F.S.P. ­ sofre uma

verdadeira reestrutura çã o onde se buscou como par âmetro estrutural e de atribui çõ es as polí cias

da Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Assim, entra em vigor a Lei n.º 4.483, de 16 de

novembro de 1964, trazendo estas modifica çõ es, embri ã o da estrutura e organizaçã o atuais,

sendo que esta data (16/11) foi, até pouco tempo atr ás, comemorada como aquela da cria çã o da

Polí cia Federal.

Em 1967 passa a ter atribui çõ es previstas na Lei Maior, art. 8º daquela Constitui çã o, e

com a promulga çã o do Decreto­Lei 200, de 25 de fevereiro de 1967, muda de nome passando a

se chamar Departamento de Polí cia Federal ­ D.P.F. – (art. 210) 22 .

Em 16 de junho de 2004, visando extirpar as diverg ê ncias relativas à data de cria çã o

da Polí cia Federal, foi constitu í do um Grupo de Trabalho, no âmbito do pr ó prio ó rgã o, atrav é s

da Portaria nº 598/2004 ­ DGP/DPF. Assim, ficou este Grupo encarregado da pesquisa e,

atrav és de relat ório conclusivo, da indicaçã o da data inicial da forma çã o da Pol í cia Federal.

Mediante an álise e votaçã o, nã o un â nime, diga­se de passagem, no Conselho Superior de

Polí cia, se modificou de 16 de novembro (dia da promulgaçã o da Lei 4.483/64) para 28 de

mar ç o de 1944, data da forma çã o do Departamento Federal de Seguran ç a Pú blica ­ D.F.S.P.

22 Entendemos equivocada esta denomina çã o nos dias atuais. A Constituição Federal de 1988 prevê a existê ncia da “Polí cia Federal” e nã o do “Departamento de Polí cia Federal”. Esta ú ltima denomina ção, s.m.j., denota uma subordina çã o em face da palavra “departamento” dando a entender tratar­se de departamento de algum outro ó rg ã o quando, na realidade nã o existe esta previs ão. Assim, poderia a Polí cia Federal ser diretamente subordinada à Presid ência da Rep ública. Primeiro em razã o da forma como se deu sua previs ão constitucional o que eleva a importâ ncia do órg ão ao n ível de estrutura de Estado e, segundo, em face do princípio da simetria constitucional, pois sendo a Polí cia Federal uma Polí cia Judiciá ria, por excelência, remete­se às regras já existentes na própria Lei Maior e que s ão cab í veis à s Polí cias Civis dos Estados, tamb é m Polí cias Judiciá rias, as quais, alé m de serem dirigidas por delegados de polí cia de carreira, subordinam­se, segundo a Constituição (§ 6º, art, 144), aos Chefes do Poderes Executivos respectivos.

Contudo, em que pese a determina çã o atual fixadora do marco inicial de cria çã o da

Polí cia Federal, n ã o há d ú vidas de que sua estrutura e organiza çã o atual decorre de normas e

diretrizes advindas do per í odo de regime militar. Sem tecer quaisquer coment á rios de aprova çã o

ou reprova çã o, o que fugiria do objetivo do presente, cabe frisar que a influê ncia militar, quase

que exclusivamente do Ex é rcito, sobre a estrutura e organiza çã o atual do ó rg ã o sã o ineg á veis.

Os militares, oficiais superiores e alguns oficiais­generais do Ex é rcito, dirigiram a Pol í cia

Federal por longa data. Foram Diretores­Gerais, Superintendentes Regionais, Diretores da

Academia Nacional de Polí cia etc. Inclusive, em 1994, já sob a é gide da Constituiçã o Cidadã ,

visando extirpar longa greve que se desencadeava na Pol í cia Federal, fora nomeado o Coronel

do Exé rcito, Wilson Brandi Rom ã o, para assumir o cargo de Diretor Geral do Departamento de

Polí cia Federal e Secretá rio Interino de Pol ícia Federal como uma espé cie de “interven çã o

militar” na Polí cia Federal.

Sendo assim, nã o nos resta d ú vida de que a organiza çã o, funcionamento, estrutura e

normatiza çã o que regem atualmente a Pol í cia Federal possuem grande influê ncia ou, at é mesmo

podemos dizer, uma base sustentadora de origem militar, mas que nem sempre é observada,

como veremos.

2.3 Organizaçã o bá sica da Pol í cia Federal

A circunscri çã o para atua çã o da Pol í cia Federal se fixa em todo territ ório brasileiro. É

órg ã o do Ministé rio da Justi ç a e sua estrutura permite planejamento, coordenaçã o e controle

pela Direçã o Geral, atrav é s de suas Diretorias, ó rg ã os t é cnicos e de apoio: Diretoria de Combate

ao Crime Organizado, Diretoria­Executiva, Diretoria de Intelig ê ncia Policial, Corregedoria­

Geral de Polí cia Federal, Diretoria de Gestã o de Pessoal, Diretoria Té cnico­Cient ífica e

Diretoria de Gest ã o e Log í stica Policial.

A

execu çã o

de

suas

atribui çõ es

se

realiza

atrav é s

das

27

(vinte

e

sete)

Superintend ê ncias Regionais que se sediam nas capitais dos Estados e no Distrito Federal,

contando, tamb ém, com in ú meras Delegacias presentes no territ ó rio nacional; 02 (duas) bases

fluviais; 02 (duas) bases terrestres e 12 (doze) postos avan ç ados fixados de acordo com

estrat é gias policiais previamente delineadas.

Essa organizaçã o estrutural facilita o interc âmbio com outros ó rg ã os do governo

federal e est á adredemente voltada para as miss õ es que a Constitui çã o Federal estabeleceu. Sem

olvidar a efici ê ncia, buscou permitir especializa çõ es no â mbito das Superintendê ncias estaduais

e do Distrito Federal visando à s investigaçõ es de crimes patrimoniais quando envolvam mais de

um Estado da Federa çã o, possuam reflexos internacionais ou causem prejuí zo à Uni ã o;

infraçõ es penais relativas ao meio ambiente e ao patrim ô nio hist órico; crimes financeiros;

delitos tributá rios e fraudes previdenci á rias; tr áfico de armas e de entorpecentes, contando,

ainda, com o apoio de órg ã os governamentais estrangeiros ou atrav és da Interpol 23 .

Assim, no âmbito da Superintendê ncia Regional da Polí cia Federal no Estado de Sã o

Paulo, exemplificativamente, há , subordinados diretamente ao Superintendente Regional, o

Setor de Inteligê ncia Policial; a Corregedoria Regional; a Se çã o de Log í stica Policial; o Setor de

Recursos Humanos; o Setor de Criminalí stica; o Setor de Tecnologia da Informaçã o; o Setor de

Comunica çã o Social e, ainda, agora na atividade fim, a Delegacia Regional Executiva e a

Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado. A esta ú ltima se subordinam a Delegacia

de Repress ã o a Entorpecentes; Delegacia de Repress ã o ao Trá fico de Armas; Delegacia de

Repress ã o a Crimes Financeiros; Delegacia de Repress ã o a Crimes contra o Patrim ô nio. Em

rela çã o à pen ú ltima ficam diretamente ligadas a Delegacia de Repress ã o a Crimes Fazendá rios;

Delegacia de Repressã o a Crimes Previdenci á rios; Delegacia de Repressã o a Crimes contra o

Meio Ambiente e Patrim ô nio Hist ó rico; Delegacia de Imigra çã o; Delegacia de Controle de

23 Organiza çã o intergovernamental com sede em Lyon na Fran ç a. Possui mais de 180 pa í ses em sua composiçã o. É reconhecida pela Organiza ção das Na çõ es Unidas – ONU. No Brasil, o Escrit ó rio Central Nacional é representado pela Coordena çã o­Geral de Polí cia Criminal Internacional do Departamento de Polí cia Federal/MJ, sediado em Bras í lia ­ DF.

Seguran ç a Privada;

Delegacia de Defesa Institucional,

todas

com

efetivos

relativamente

suficientes para atendimento das demandas requeridas.

Al é m das Delegacias acima mencionadas h á , ainda, aquelas ditas Descentralizadas que

se localizam em pontos estrat é gicos, sob o ponto de vista policial federal, no interior e litoral do

Estado, como tamb é m as duas Delegacias nos aer ó dromos internacionais de S ã o Paulo. Todos

estes

setores

constitucionais

e

Delegacias

s ã o

do

Departamento

respons á veis

pelo

de

Policia

Federal

exerc ício

das

atribui ções

em

âmbito

estadual.

Esse

legais

e

modelo

racionalizado se repete, com variaçõ es em quantitativos e de distribuiçã o dos servi ç os, nos

demais Estados da Federa çã o, de forma a atender todo territ ó rio nacional, mas ainda n ã o da

forma desejada, podendo ser ampliado visando uma maior efetividade de atua çã o.

3 A HIERARQUIA NA POLÍ CIA FEDERAL

Ap ó s detalharmos nos cap ítulos anteriores a defini çã o, import â ncia e funcionalidade

da hierarquia para as organiza çõ es p ú blicas, sua correla çã o com a disciplina e as caracter ísticas

das atividades da Pol ícia Federal com base em sua previs ã o constitucional e hist ó rico de sua

evolu çã o, nos restam algumas indaga çõ es: como se enquadraria, em termos hier árquicos, e,

conseq ü entemente, disciplinares, a atividade policial federal? Qual seria a formula çã o mais

adequada de disciplina e de hierarquia em um ó rg ã o que nã o é militar, mas també m nã o é, sob o

ponto de vista vulgar, “civil” ou comum?

Fica claro que seus servidores n ã o trazem consigo a liberdade de atua çã o e de inter­

relacionamento entre si de servidores p ú blicos comuns, que mesmo assim necessitariam da

hierarquia e disciplina já presentes nos órg ã os p ú blicos civis, mas tamb é m n ã o se mostram

precipuamente ligados à s situa çõ es de rotineiros confrontos armados e de movimenta çõ es de

tropas como em uma situaçã o beligerante, mesmo por que, muito de sua atividade est á ligada a

repress ã o, investiga çã o de crimes e descoberta de seus autores, o que necessita de certa margem

de atua çã o nã o regrada e mais criativa.

Entretanto, fugindo um pouco desse contexto, por vezes nã o raras, a atividade policial

federal muito se assemelha às atividades militares estaduais, como na efetiva çã o de opera çõ es

de grande vulto e que requerem um elevado quantitativo de pessoal disciplinado e cumpridor de

ordens ou nas miss õ es de prote çã o de dignitá rios onde a hierarquia e disciplina sã o primordiais

para o seu bom ê xito, sem se falar do cumprimento de ordens superiores, principalmente de

sigilo, em operaçõ es de inteligê ncia ou, ainda, em deslocamentos a é reos ou embarcados em que

a totalidade da tripulaçã o se encontra armada e em condi çõ es de pronto uso do armamento,

trazendo, sem d ú vidas, um risco evidente a todos os demais e at é mesmo a pr ó pria finalidade da

miss ã o.

Assim, qual é a previs ã o, vig ê ncia, crit érios de escalonamento e extens ã o dos

princí pios hier á rquicos no Departamento de Polí cia Federal? Trata­se de uma mera regra ou um

princí pio de atua çã o? A hierarquia é cotidiana e rotineiramente aplicada na gest ã o da Pol í cia

Federal? É o que buscamos elucidar com o presente trabalho.

3.1 Hierarquia no DPF: simples regra ou princí pio cogente?

Diz a norma que a hierarquia e sua conseqüente, a disciplina, previstas no art. 4º, da

Lei 4.878/65, s ã o fundamentos da fun çã o policial federal em que pese n ã o haver a seu respeito

uma mençã o constitucional como ocorrera com as pol í cias militares dos Estados e com as

Forç as Armadas.

Contudo, em se tratando de Lei que, como o pró prio nome diz, trata do “regime

peculiar” 24 (sic) de policiais, mostra­se especial em rela çã o a qualquer outro normativo, mesmo

que mais recente, poré m de car á ter geral.

Assim, em que pese haver a Lei 8.112/90, que trata do regime jur í dico ú nico dos

funcion ários p ú blicos civis da Uni ã o, ela se aplica, apenas, de forma supletiva aos preceitos e

regras diferenciados, estipulados nesta Lei espec ífica ou especial que é a 4.878/65, pois “a lei

nova, que estabele ç a disposiçõ es gerais ou especiais a par das existentes, n ã o revoga nem

modifica

a

lei

especialidade”.

anterior” 25 .

Trata­se

de

regra

geral

de

hermen ê utica

denominado

“da

J á a hermenê utica é a arte de interpretar e, em termos jur í dicos, a hermenê utica

jur í dica é a ciê ncia que elabora o estudo e a sistematiza çã o dos meios que tornam claros e

eficazes as interpreta çõ es das normas e do Direito.

24 O preâmbulo das leis também é lei (rubrica legi est lex). Vide: Lopes, Serpa. Curso de direito civil. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1998, V.I, p.132).

25 Vide o § 2º, do art. 2º, do Decreto­Lei nº. 4.657, de 4 de setembro de 1942 – Lei de Introdução ao C ódigo Civil.

Dessa forma, somente uma norma legal ordiná ria diretamente dirigida à atividade

policial federal e, assim, també m especial, poder á trazer modificaçõ es a esta regra básica ou, até

mesmo por que nã o dizer, principiol ó gica do respeito à hierarquia e disciplina na Polí cia

Federal.

Principiol ó gica, pois quando a norma prev ê que “a funçã o policial se fundamenta na

hierarquia e na disciplina” (grifo nosso), e sabendo­se, mais uma vez por regra b á sica de

interpreta çã o legal, que “a lei nã o cont é m frase ou palavra in útil, supé rflua ou sem efeito”, est á

a se tra ç ar um verdadeiro princ í pio de ordem policial­administrativa.

Tal princí pio deve nortear todas as atividades policiais (pois funcional), sejam elas

rotineiras, burocr áticas, operacionais, de intelig ê ncia ou disciplinares, sob pena de abalar um

dos pilares de sustenta çã o que permeiam n ã o s ó qualquer instituiçã o pú blica organizada, mas

que,

principalmente,

podem

ferir

sensivelmente

institui çõ es

armadas,

ou

institui çõ es

administradoras do monop ó lio do uso da for ç a pelo Estado, as quais, em fra çõ es de segundo,

atrav és de seus agentes p ú blicos, podem decidir, at é mesmo, pela interrup çã o violenta da vida

de um indiv í duo que infringiu a lei e se op õe a execu çã o de um ato legí timo 26 .

Ainda dentro das regras de hermen ê utica jur